232018COORDENAÇÃOFERNANDA ILHÉU e LEONOR JANEIROA Chinae a Revitalização das AntigasRotas da SedaNovo Vetordo ComércioMundial
232018A China e a Revitalização das Antigas Rotas da Seda Novo Vetor do Comércio Mundial COORDENAÇÃO FERNANDA ILHÉU e LEONOR JANEIRO
FICHA TÉCNICA: Editores: Instituto Internacional de Macau Associação Amigos da Nova Rota da Seda Título: A China e a Revitalização das Antigas Rotas da Seda – Novo Vetor do Comércio Mundial Coordenação: Fernanda Ilhéu e Leonor Janeiro Capa: Leonor Janeiro – Aguarela de uma peça escultórica de origem chinesa desenhada no local, dinastias Jin ou Yuan, séc XIII, em madeira policroma, da colecção do Museu do Oriente, em Lisboa Ilustrações: Aguarelas de Leonor Janeiro (Capítulos I, II, IV, V, VI, VII, VIII e IX) Design gráfico e paginação: Maisimagem II Colecção: Suma Oriental Tiragem: 500 exemplares Impressão: ACD Print Depósito Legal: 445848/18 ISBN: 978-989-54193-4-0 Lisboa, Setembro 2018 Nota: Os artigos publicados são da inteira responsabilidade dos respectivos autores, incluindo a opção pela adopção ou não, do Acordo Ortográfico em vigor.Apoio
A CHINA E A REVITALIZAÇÃO DAS ANTIGAS ROTAS DA SEDA – NOVO VETOR DO COMÉRCIO MUNDIALÍNDICE | PREFÁCIO | UM INQUÉRITO AO FUTURO| 5 António Martins da Cruz NOTA DE APRESENTAÇÃO | 11 Fernanda Ilhéu CAPÍTULO I O MUNDO A CAMINHO DA GLOBALIZAÇÃO | 15 Leonor Janeiro CAPITULO II A ROTA DA SEDA – EX ORIENTE LUX | 39 Celina Veiga de Oliveira CAPITULO III OS PERCURSOS DOS PRINCIPAIS PERSONAGENS CHINESES NA ANTIGA ROTA MARÍTIMA DA SEDA | 55 Zhu Li CAPITULO IV O TRATO LUSO-NIPÓNICO E A ROTA ORIENTAL DA SEDA | 71 Eduardo Kol de Carvalho CAPITULO V MÚSICA E INSTRUMENTOS MUSICAIS AO LONGO DA ROTA DA SEDA, NA CHINA | 85 Shao Xiao Ling / Enio de Souza CAPITULO VI A VIAGEM DAS ESPECIARIAS | 101 Graça Pacheco Jorge CAPITULO VII ROTAS DO COMÉRCIO – ENERGIA | 113 Luís Albergaria CAPITULO VIII A CHINA E A ÁSIA CENTRAL: NA ENCRUZILHADA DE UM GRANDE PROJETO | 123 Paulo Duarte CAPITULO IX A ÚLTIMA ROTA DA SEDA QUE A HISTÓRIA CONHECEU E A NOVA ROTA DA SEDA QUE A HISTÓRIA VAI CONHECER | 139 Fernanda Ilhéu BIOGRAFIAS DOS AUTORES | 155
5 PREFÁCIO UM INQUÉRITO AO FUTURO | 1. Cerca de oitenta anos antes dos portugueses alcançarem a China por mar, a dinastia Ming fechou o Império do Meio ao exterior. A última viagem do Almirante Zheng He, em 1433, significou o fim de um ciclo de expansão chinesa no Pacífico, no Índico e em África. Um ciclo que obedecia a objectivos estratégicos: políticos, militares e diplomáticos. E também económicos, comerciais como se dizia na altura. Viagens que poderiam ter sido o início de uma presença chinesa universal. Foram os mesmos impulsos que, no século seguinte, iriam mover Portugal. Desta vez num registo que abrangeu o mundo e completou a primeira geo-estratégia de globalização. Foram escolhas desfasadas no tempo e com geografias diferentes. Com motivações e objectivos certamente distintos. Mas são exemplos na história da humanidade de projecção de poder marítimo e de valores estratégicos nacionais em territórios não contíguos. Ainda que com consequências assimétricas. Ignorando na época este paralelismo, a expansão portuguesa sempre manifestou interesse pela China. Enviando embaixadas, estabelecendo entrepostos, motivando o comércio com o mundo e à escala regional. Com as vicissitudes que a história regista. Mas não deixa de ser curioso que essa expansão, iniciada em Ceuta em 1415, termine com a entrega da administração de Macau à China em Dezembro de 1999. Após negociações político-diplomáticas que são hoje um “case study”. De todos os europeus, os portugueses foram os primeiros a sair da Europa e os últimos a regressar.
6 2. Na actual percepção política ocidental, a China moderna nasce em 1949. Mao Zedong consolida a nova nação chinesa. Deng Xiaoping acrescenta o desenvolvimento económico e a abertura. Com Xi Jinping afirma-se o poder regional e as novas ambições estratégicas à escala planetária, a aceleração da economia e da globalização. O interesse nacional chinês ganha outro alcance geográfico. Esta projecção de “soft power” vai em paralelo com um estilo e uma estratégia diplomática com influências crescentes. O desenvolvimento pacífico da China, a não ingerência, a harmonia e a solução pacífica dos conflitos são eixos dessa política externa. Evitar confrontações é uma prática diplomática difícil para qualquer super-potência. Na China, com escassas excepções regionais, visa também garantir acesso a mercados, a matérias primas e energia. Com flexibilidade e abertura para o diálogo que sabe adaptar-se às tendências dos seus principais interlocutores. Como se pode ver todos os dias no Conselho de Segurança da ONU onde o uso do direito de veto é parcimonioso, mas não descuida a defesa dos seus interesses essenciais. Por vezes com uma firmeza que só surpreende quem desconhece a China eterna e a sua sabedoria milenar. Em política externa, a China não tem crises de identidade. 3. É nesta dualidade entre o registo histórico e a dinâmica de uma nova projecção da China que deve ser lido este livro. Alguns historiadores dizem que o século XIX foi inglês, o século XX americano e o século XXI será chinês. Certamente não será por acaso. Na “Arte da Guerra”, Sun Tzu dizia que “em terreno de convergência reforçam-se as alianças”. A liderança chinesa, ao lançar o “projecto do século”, as novas rotas da seda, a chamada BRI (Belt and Road Initiative), soube criar os terrenos da convergência e procurar as alianças que Sun Tzu dizia necessário reforçar. Em rotas marítimas e faixas ou corredores terrestres que projectem os interesses chineses na Ásia Central, no Índico, em África. E ainda no Médio Oriente e na Europa. Interesses económicos, mas certamente estratégicos, políticos e diplomáticos. E, se necessário, de defesa. Como antes da China fizeram outros “players” globais ao longo da história, a começar por Portugal. E como outros farão agora ou no futuro. Criando tensões
7regionais. E novos desafios para países terceiros, com implicações políticas e económicas. Mas também de segurança. Nas relações internacionais não há ângulos mortos e as grelhas de leitura e a realidade não são estáticas. 4. Por tudo isso, esta iniciativa chinesa causou alguma ansiedade noutros países. Poucos estudos se fizeram ainda sobre as consequências geo-estratégicas, políticas e económicas. Não apenas numa perspectiva ou visão ocidental. Mas sobre as suas potencialidades e benefícios para outros povos. Asiáticos, africanos e mesmo europeus. Esta nova agenda mundial chinesa não surge por acaso. É também resultado e consequência do sucesso económico interno nas últimas décadas. E dos investimentos chineses no exterior, no plano regional, mas principalmente à escala global. De que Portugal é aliás exemplo e beneficiário. Mas essa agenda decorre ainda de uma de construção diplomática objectiva e paciente. Que foi acumulando horizontes como co-laterais positivos para as novas rotas. Antes de lançar este projecto global, a China assegurou enquadramentos político-institucionais para resguardar a nova agenda. Entre outros, a Organização de Cooperação de Shanghai, o Banco Asiático de Investimento em Infraestruturas, o Banco do Desenvolvimento dos BRICS, o Fórum de Cooperação China-África, a União Económica Euro-Ásia, o Corredor Económico China-Paquistão, o Fórum para a Cooperação Económica e Comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa (Fórum Macau). Consolidou ao longo dos anos maior presença e visibilidade externa que contribuem agora para o sucesso das novas rotas. O contexto internacional instável tende aliás a ser favorável ao BRI chinês. As fracturas europeias, as dificuldades euro-atlânticas, as convulsões latino-americanas, as indefinições asiáticas e as assimetrias africanas acabam por ser factores de convergência na perspectiva da movimentação chinesa. A proposta de construção de novas infraestruturas centralizadas em Pequim tem ao que parece antecedentes históricos. Um recente estudo da Universidade de Copenhague, na Dinamarca, encontra na Europa um “notável padrão de persistência demonstrando que a densidade das estradas do Império romano coincide com a densidade das estradas de hoje e que a formação de instalações na época romana
8 coincide com a maior actividade económica em 2010” (Roman Roads to Prosperity; Carl-Johan Dulgand e outros). A China procuraria ainda encontrar outras vias e linhas de comunicação evitando a concentração no estreito de Malaca, por onde passariam 70% das exportações chinesas e 80% das importações de energia. “A contrario sensu” é um tributo a Afonso de Albuquerque. 5. Este “gateway to the globe”, (Economist, Briefing China’s Belt and Road Initiative) representa desafios geo-políticos e económicos para os beneficiários. Os interesses são mútuos. Além do plano humano, esta agenda aceite por outros países facilita os contactos entre Governos, a coordenação do “network” das infraestruturas e a complementaridade económica e financeira. Aliás, sem a solidez da banca chinesa actual e das reservas disponíveis seria impensável a dimensão desta iniciativa. Que são outras tantas garantias da continuidade deste projecto nas suas diferentes geografias, marítimas e terrestres. Ao criar novas zonas de influência, a China está a procurar também transformar o yuan em moeda de referência para transações internacionais. Exemplos de diplomacia económica chinesa em cerca de 80 países em todos os continentes. Com a vantagem dos processos da decisão linear em Pequim superarem a instabilidade própria dos sistemas noutros centros de decisão. A criatividade conjuntural a favor dos media, das redes sociais e dos ciclos políticos não parece exceder uma estratégia de longo prazo. A China não é uma cultura, é uma civilização. 6. Este livro analisa as relações externas da China e a sua história em diferentes ângulos. O que permitirá abrir outras visões do passado e perspectivas futuras. No que se refere a Portugal, dois elementos fundamentais a realçar. Por um lado, o papel central de Macau, ao longo dos séculos, na construção da relação luso-chinesa. Macau foi sempre um interface aceite e favorecido pelos dois poderes, apesar de humores políticos diferentes e às vezes desajustados na fita do tempo. Por outro lado, na fase mais recente, o sucesso do período de transição entre a Declaração Conjunta e a transferência da administração para a China. E as políticas do executivo de Macau a partir de 2000 para recentrar o território como vínculo nas relações entre os dois países.
9Por outro lado, a clara decisão da China em privilegiar Macau, desde 2003, como sede do Fórum para a Cooperação com os Países de Língua Portuguesa. Eu próprio fui sondado pelo Vice-Presidente da China em visita oficial a Portugal em 2002. E dei desde logo o acordo do Governo Português a esta iniciativa que favorecia todos os intervenientes. Como o tempo veio demonstrar. A nova iniciativa chinesa abrange com prioridade os países africanos. Como foi ressaltado no último FOCAC em Beijing. Entre estes, os Países de Língua Portuguesa membros da CPLP foram destacados. Justamente as relações com esses Países são um dos eixos fundamentais da política externa portuguesa. Portugal tem assim todo o interesse em acompanhar esta agenda geo-política chinesa, analisando riscos e oportunidades. E os grupos económicos e empresariais portugueses presentes na África de fala portuguesa podem beneficiar desta iniciativa. Se souberem criar parcerias com grupos locais e com intervenientes económicos e financeiros chineses. Esta movimentação chinesa pode ser vista como um impulso económico e social para os países africanos beneficiários. Ajudando-os a superar assimetrias internas, a fragmentação das relações económicas regionais e excessivas dependências de verticalização post-colonial. Por tudo isso, este livro é importante para entender o enquadramento histórico e estratégico das novas rotas chinesas e das respostas internacionais. No fundo, é um inquérito ao futuro. Com análises simples, lúcidas e bem documentadas. Do conhecimento dos autores, lucrará o leitor. Porque como escreveu Tito Lívio “a verdadeira sabedoria consiste em preferir ser útil do que brilhar”. António Martins da Cruz Embaixador Ex-Ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal
A CHINA E A REVITALIZAÇÃO DAS ANTIGAS ROTAS DA SEDA – NOVO VETOR DO COMÉRCIO MUNDIAL11 NOTA DE APRESENTAÇÃO | Esta publicação é uma coedição da Associação Amigos da Nova Rota da Seda e do Instituto Internacional da Macau. Os Amigos da Nova Rota da Seda (ANRS) são uma associação cívica, sem fins lucrativos, que promove em Portugal a iniciativa da China “Uma Faixa Uma Rota e a Nova Rota da Seda Marítima do Século XXI” e utiliza a metodologia de think tank para identificar áreas e projetos de cooperação entre Portugal e a China e, de ambos, com terceiros países, nomeadamente os de língua portuguesa, no contexto da iniciativa. O Instituto Internacional de Macau (IIM) é uma Instituição não-governa-mental fundada em Macau, que tem como missão a criação e divulgação de conhecimento sobre relevantes áreas, relacionadas com o papel e a identidade de Macau e a projeção do seu futuro na Ásia, cumprindo o seu legado histórico de ligação da China a Portugal, e ao mundo de língua portuguesa. O IIM é certamente a instituição que mais tem contribuído para divulgar esse legado histórico através das inúmeras conferências e seminários que organiza e dos ivros que publica. Este livro pretende despertar nos leitores o entusiasmo pelo conhecimento da Antiga Rota da Seda ou para ser mais precisa das Antigas Rotas da Seda, porque, de facto, estamos a falar de várias rotas interligadas através da Ásia com destino à Europa, que eram usadas para o comércio da seda entre o Oriente e o Ocidente. Estas rotas ligaram as grandes civilizações da antiguidade, dando um contributo determinante na evolução da vivência humana, do conhecimento e do relacionamento entre os povos. As rotas terrestres antecederam as marítimas em vários séculos, podemos referenciar o seu início na China cerca de 4000 a.C. e as
12 rotas marítimas são faladas a partir do século VII, com comerciantes árabes a chegar à Índia e a Cantão. No século XIV, Veneza era o centro do florescente comércio marítimo entre o Oriente e a Europa, mas a Rota Marítima dos portugueses iniciada no século XV entre Lisboa, a Índia, a China e o Japão, passando pelas costas de África, mostrou ser muito mais competitiva e tornou Lisboa no século XVI no maior entreposto comercial da época entre a Ásia e a Europa e numa cidade global no Renascimento. A importância do tema releva da sua atualidade, considerando que a China pretende na iniciativa Faixa e Rota revitalizar estas rotas, aprofundando e alargando o seu âmbito e em conjunto com os países que queiram aderir desenvolver novos vetores de comércio mundial e mais do que isso um novo modelo de globalização. Prevê-se que o impacto desta iniciativa seja imenso, mudando a relação entre os povos e o cenário geoeconómico e geopolítico. Nesta iniciativa as rotas serão tal como as da antiguidade, terrestres e marítimas, mas a rotas do século XXI serão também digitais, portanto mais rápidas, mais abrangentes e de maior conectividade, que é justamente uma das dimensões chave para o seu sucesso, em conjunto com o conhecimento, confiança e amizade entre os povos. Para os associados da ANRS a partilha de conhecimento e o reforço dos laços da amizade entre os povos português e chinês é muito importante para que Portugal venha a ter um papel de relevo na Rota Atlântica, por isso, muitas iniciativas da associação são desenvolvidas com esse objetivo. Este livro é um testemunho dessa partilha de conhecimento. Os redatores dos seus 9 capítulos são associados da ANRS, com áreas de formação e experiências profissionais diferentes, que voluntariosamente passaram ao papel o seu conhecimento e a sua reflexão sobre temas tão variados como o percurso histórico das antigas rotas e a suas influências na cultura, na religião, na música, na gastronomia, entre outras, mas também dissertaram sobre a iniciativa “Uma Faixa e Uma Rota e a Nova Rota da Seda do Século XXI” e sobre as expetativas do seu impacto global. A todos se devem palavras de agradecimento pelo seu empenho na pesquisa que realizaram em detrimento dos seus tempos de lazer e de felicitações pelos interessantes textos que produziram. Um especial agradecimento à Arquiteta Leonor Janeiro que dinamizou esta edição e que, para além da redação do primeiro Capítulo, realizou um trabalho de ilustração gráfica de todos os capítulos notável. Um reconhecido agradecimento ao Senhor Embaixador António Martins da Cruz por se ter disponibilizado para em primeira mão ler o livro e redigir o seu
A CHINA E A REVITALIZAÇÃO DAS ANTIGAS ROTAS DA SEDA – NOVO VETOR DO COMÉRCIO MUNDIAL13prefácio, de certa forma orientando o leitor para os aspetos que se afigurem mais importantes nos ensinamentos que as antigas rotas da seda nos deixaram e para as perspetivas que se podem abrir a países como Portugal, pelo fato de participarem na nova rota da seda. A sua análise decerto muito valorizará o livro e ajudará o leitor a compreendê-lo tendo em consideração a sua enorme experiência como embaixador e o grande conhecimento que tem da China, das orientações estratégicas da diplomacia portuguesa e dos países de língua portuguesa. As minhas últimas palavras de agradecimento vão para os Amigos Drs. Jorge Rangel e José Lobo do Amaral, presidente e vice-presidente do IIM, por todo o estímulo pessoal e institucional que desde o início têm dado aos trabalhos da ANRS e por terem aceitado realizar esta coedição com a ANRS. Fernanda Ilhéu Presidente da Associação Amigos da Nova Rota da Seda
14
A CHINA E A REVITALIZAÇÃO DAS ANTIGAS ROTAS DA SEDA – NOVO VETOR DO COMÉRCIO MUNDIAL15 CAPÍTULO I O MUNDO A CAMINHO DA GLOBALIZAÇÃO | Leonor Janeiro Percursos A história da civilização europeia tem incontornáveis ligações à história do Médio Oriente, da Ásia Central e do Extremo Oriente. A “Rota da Seda” significa doze séculos de relações entre povos da europa e da China. Essas relações eram estabelecidas através de redes de itinerários comerciais terrestres, que ligavam o Caravanas
16 extremo da Ásia ao Mediterrâneo, e que eram completadas por rotas marítimas mais ou menos extensas. A criação da Rota da Seda é atribuída aos persas, cuja expansão no século VII a. C. ia do Mediterrâneo aos Himalaias. Dario mandou construir estradas para os quatro cantos do império. Estas “Royal Roads” facilitavam a circulação de pessoas e bens. Assim, as Rotas da Seda eram rios de pessoas, costumes, religiões, línguas, que se falavam nos bazares da Ásia Central situados em oásis e dominados por diferentes grupos étnicos ao longo dos séculos. Estas cidades estavam estrategicamente implantadas ao longo das rotas comerciais de melhor acessibilidade. Os percursos eram alterados ou mesmo interrompidos por razões de invasões ou lutas mais circunscritas, mas, mesmo por essas razões, a diversidade dos povos foi um fator enriquecedor do tecido social que originou épocas de grande desenvolvimento científico e humanístico. A “civilização da seda” teve início na China cerca de 4000 a. C. mas os primeiros exploradores oficiais chineses só se aventuraram nos contactos com o Ocidente no século II a. C. durante a dinastia Han, quando esses governantes decidiram abrir as portas do seu comércio ao “novo mundo” para além da cordilheira do Pamir. Mas quando e como surgiu a designação “Rota da Seda”? Foi um termo da autoria do explorador alemão Baron Ferdinand von Richthofen que, em 1877, assim chamou aos percursos entre a China e a Europa. Relatos de missionários, comerciantes e simplesmente viajantes, transmitem-nos uma ideia bastante detalhada de como decorriam estes périplos e de como era o mundo em várias épocas. É disso exemplo os relatos de Marco Polo, Ibn Battuta, Ruy de Clavijo, para só citar alguns. As caravanas que se faziam às viagens eram constituídas por centenas de camelos, por vezes atingiam os mil camelos. Mas as mesmas caravanas não completavam todo o percurso, sendo substituídas por outras em determinadas cidades de passagem. Os mercadores, peregrinos e missionários contornavam o deserto do Taklamakan e o lago Lop Nor, para viajar entre as cidades chinesas mais a Oriente e Kashgar. A partir daí multiplicavam-se as rotas para ocidente, em direção ao Mediterrâneo e para sul em direção à Índia. Além dos percursos terrestres, o comércio também utilizava rotas marítimas, normalmente protagonizadas por árabes, chineses e europeus (Veneza, Génova e Pisa) até à descoberta do caminho marítimo para a Índia pelos portugueses.
Uma caravana percorria cerca de 25 km por dia e as distâncias de um lugar para outro eram medidas em dias de viagem. Uma mercadoria com origem na China podia levar um ano a chegar à Pérsia. Numa descrição simplificada, os percursos principais que ligavam a China ao Mediterrâneo tinham uma derivação quando se continuava para ocidente, chegados ao oásis de Dunhuang, ou para oriente, chegados a Kashgar, pois era conveniente contornar o deserto de Taklamakan pelo norte ou pelo sul. A partir de Kashgar e até ao Mediterrâneo, as rotas eram múltiplas, assim como os portos utilizados. Os percursos potenciavam a criação de cidades nos oásis onde a água abundava e as caravanas se abasteciam, como em Samarcanda. A ocidente a Rota da Seda proporcionou a criação, entre outras, de Palmira e Petra, que, nos primeiros séculos da nossa era, chegaram a desafiar Roma. Séneca foi um romano crítico das vestes de seda chinesa que as senhoras abastadas de Roma usavam, deixando transparecer as curvas do corpo. Cidades do Mediterrâneo desenvolveram-se devido à localização e à qualidade dos portos comerciais. São exemplos disso Constantinopla, Alexandria e Antioquia, para só referir alguns. A partir do século X, as cidades-estado de Veneza, Génova e Pisa tornaram-se poderosas devido às frotas marítimas e ao comércio dos produtos da Rota da A CHINA E A REVITALIZAÇÃO DAS ANTIGAS ROTAS DA SEDA – NOVO VETOR DO COMÉRCIO MUNDIAL17Baku
18 Seda. Eram as intermediárias na distribuição dos produtos para a Europa e para o Norte de África. Desde o século II a. C. até ao século X, os mercadores sogdianos dominaram o comércio das rotas da Ásia Central até à China. A sua capital, atual Samarcanda, foi conquistada por Alexandre, o Grande, da Mace-dónia, em 329 a. C., e a cultura hele-nística exerceu uma influência decisiva nos territórios dominados pelos per-cursos dos sogdianos, que falavam um idioma relacionado com o ara-maico. Os sogdianos, naturais de Sog-diana (atual Uzbequistão), sabiam ler e escrever desde pequenos, pois tor-nar-se-iam mercadores quando adul-tos. A partir do século X perderam o domínio das rotas comerciais para Arte de GhandaraOásis
A CHINA E A REVITALIZAÇÃO DAS ANTIGAS ROTAS DA SEDA – NOVO VETOR DO COMÉRCIO MUNDIAL19os uighurs, que foram então os principais comerciantes de grandes distâncias a leste dos territórios islâmicos. O mapeamento do mundo conhecido foi objeto de importantes progressos desde o século VIII, quando geómetras e astrónomos muçulmanos desenvolveram conhecimentos científicos que conduziram à expansão marítima europeia do século XV. Cientistas da Ásia Central produziram o astrolábio, que foi fundamental para a navegação árabe e posteriormente europeia. Viajantes como Ibn Jubayr, Marco Polo ou Ibn Battuta empreenderam aventuras marítimas, cujos relatos nos fascinam ainda hoje. Desde o século VIII que os barcos árabes atracavam em Cantão (Khanfu) e dominavam as relações comerciais com as costas indianas. Do século IX em diante temos notícia da vinda de barcos chineses de Khanfu, no delta do Rio das Pérolas, até ao porto de Siraf na costa iraniana do Golfo Pérsico. A descoberta, ao largo da ilha indonésia de Belitung, do espólio datado do século IX resultante do naufrágio de um junco chinês, constitui um importante Sogdiano
20 testemunho da antiguidade das relações comerciais entre árabes e chineses. A presença de barcos árabes, tipo dhow, em Cantão desde o século VIII, é comprovada por escritos da época. Entre 1371 e 1433, o Imperador chinês Yongle rompeu com a política isolacionista dos Ming e confiou a Zheng He o comando da frota da rota comercial até ao Mar Vermelho e à costa leste de África. Numa das, viagens Zheng He transportou uma girafa do Quénia para oferecer a Yongle. Garcia da Orta, botânico e mé-dico português que viveu e trabalhou na Índia (Século XVI), foi um dos primeiros europeus a relatar a extensão das navegações empreendidas por chineses aos mares do ocidente. Em 1497-1498, os portugueses estabeleceram a rota marítima Lisboa - Calecute, na Índia. Vasco da Gama foi o comandante desta viagem que percorreu as costas ocidental e oriental de África, até chegar ao continente indiano para procurar cristãos (reino do Preste João), converter os povos indígenas e comerciar especiarias. Nos séculos XVI e XVII, os portugueses estabeleceram-se no Golfo Pérsico, Índia e outras regiões da Ásia, chegando ao Japão provavelmente em 1543, e constituíram rotas comerciais regulares que rivalizavam com as antigas rotas terrestres que atravessavam a Ásia Central. No entanto, o camelo bacteriano (duas bossas), que foi o rei do transporte de carga ao longo das rotas terrestres durante milhares de anos, ainda continuou a ser utilizado no norte da China até meados do século XX. Cambaluc (Pequim) distava seis meses de viagem até Samarcanda (Uzbequistão), segundo relato do embaixador espanhol Ruy de Clavijo à corte de Tamerlão, nos finais do século XV. O Comércio Os mercadores da Rota da Seda deslocavam-se em caravanas que transportavam uma diversidade de produtos para além da seda. Faziam parte das mercadorias de luxo, pedras e metais preciosos, têxteis de lã e linho, plantas e árvores (vegetais, ervas aromáticas e frutos), animais, escravos, utensílios vários, tais como objetos de cerâmica entre outros. Zheng He
A CHINA E A REVITALIZAÇÃO DAS ANTIGAS ROTAS DA SEDA – NOVO VETOR DO COMÉRCIO MUNDIAL21Sob a dinastia Han (206-220 a. C.), a seda tornou-se um produto de grande luxo e uma moeda forte nas trocas comerciais ao longo da Rota da Seda. Pigmentos naturais de plantas e pedras, como o lápis lazuli (extraído do território do atual Afeganistão) chegavam aos portos do Mar Adriático em quantidades apreciáveis, proporcionando as colorações das tintas utilizadas pelos pintores renascentistas nos magníficos quadros e frescos dessa época de ouro da pintura europeia. As especiarias vindas da Índia e da Indonésia constituíam produtos essenciais na revolução da culinária, da medicina e da cosmética da época, chegando à europa, via Veneza, e à China. O papel, inventado na China (100 a. C.), começou a ser fabricado em Samarcanda e noutras cidades da Ásia Central, quando alguns fabricantes chineses foram capturados na Batalha de Talas (atual Taraz) em 751. Os europeus que importavam este produto só começaram a fabricá-lo no século XIII. Embarcação das antigas rotas marítimas
22 A cadeira chegou à China vinda do Ocidente e revolucionou os trajos, a arquitetura e o estilo de vida dos habitantes. Foi referenciada pela primeira vez na literatura chinesa no século II. Mercado na Ásia CentralCamelo bacteriano
A CHINA E A REVITALIZAÇÃO DAS ANTIGAS ROTAS DA SEDA – NOVO VETOR DO COMÉRCIO MUNDIAL23Relatos do século IX contam-nos que os mercadores de Samarcanda, por terra, e de Siraf, por mar, chegavam a Khãnfu para obter o almíscar proveniente dos veados que existiam junto ao Tibete e que era muito utilizado na perfumaria. Da mesma época, sabe-se que entre as importações da China, constavam o marfim, o incenso, o cobre, a tartaruga, a cânfora, o âmbar, e que os chineses possuíam um tipo de cerâmica muito delicada, que, quando exposta à luz, permitia ver o líquido dentro da chávena. Esta porcelana branca e azul usava o cobalto importado da Pérsia. Para além da cerâmica, os objectos de laca eram muito apreciados no ocidente. A troca de mercadorias era o método mais comum dos povos obterem os bens de que necessitavam. Os chineses trocavam, com as populações da Ásia Central, sedas, objetos de laca, instrumentos de metal e ornamentos de jade pelos famosos cavalos de Fergana. Em 138 a. C., Zhang Qian, a mando do imperador, fez duas viagens à Ásia Central até Fergana e à Bactria para estabelecer alianças comerciais, que não foram contudo bem-sucedidas. Após anos de conflito, os povos de Fergana enviaram 3000 cavalos para a China e os chineses adquiriram sementes de erva e sementes de uva para a sua alimentação. Sésamo, peras, cebolas, coentros e pepinos foram introduzidos na China durante a dinastia Han. Os chineses também importavam produtos de luxo muito apreciados, como pérolas, rubis e safiras do Ceilão, conchas e corais do Mediterrâneo, marfim e Cavalos divinos
24 diamantes da Índia, jade de Khotan, lápis lazuli do atual Afeganistão e animais raros de procedências variadas. Durante a dinastia Tang, pela Rota da Seda eram transportados em direção à China, iaques, ovelhas, carneiros e camelos, para servir de animais de carga e produzir lã e até alimento. A civilização da Ásia Central, antes da conquista árabe, já tinha conhecimento do comércio, como já vimos, mas também da construção e da condução dos assuntos de infraestruturação urbana, nomeadamente do aproveitamento dos recursos hídricos que permitiam a sobrevivência das cidades-oásis. Após a invasão árabe, estas competências evoluíram e a posição geográfica entre a Índia, China e Médio Oriente conferiu a estes povos um protagonismo na divulgação de novas ideias e o estabelecimento de fluxos comerciais em todas as direções que eram possíveis de percorrer por rotas terrestres. Antes de atingirem as costas do continente indiano, no final do século XV, os portugueses tiraram partido das especiarias dos territórios da costa ocidental de África, como, por exemplo, a pimenta. Com o desenvolvimento das “Carreiras da Índia”, o comércio das especiarias estendia-se também à canela, cravinho, gengibre, cardamomo e curcuma. Os portugueses introduziram o chili na Ásia, o que permitiu o fabrico do caril, e trouxeram para a Europa o chá, cuja planta era, há muito, cultivada na China. Garcia da Orta foi o iniciador da viagem das plantas entre a Índia, Brasil e África após ter estabelecido residência na Índia, na primeira metade do século XVI, como médico de altos dignatários da governação portuguesa. A sua famosa obra “Colóquio dos Simples e Drogas e Coisas Medicinais da Índia” foi editada em Goa, em 1563. Ideias Religiosas O Zoroastrismo é a mais antiga religião de revelação e uma das primeiras fés monoteístas. Com origem na Pérsia, os Zoroastras “inventaram” o conceito de Paraíso (pairidaiza na língua persa). No século III, os sassânidas adotaram o zoroastrismo que se espalhou pela Rota da Seda. O Paraíso era um jardim muralhado, com canais de água perpendiculares e árvores de fruto, um reflexo da ordem divina na terra. Na mitologia cristã, Adão e Eva foram expulsos do Paraíso. Tamerlão e a dinastia Mogol voltaram ao tema dos jardins, sendo memorável o jardim que Babur mandou construir em Kabul, hoje reconstruído. Desde a Idade do Bronze que os altares com o fogo sagrado eram uma realidade nas cidades e no centro da prática religiosa em toda a Ásia Central, que continuou mesmo com o aparecimento do Budismo e do Cristianismo.
A CHINA E A REVITALIZAÇÃO DAS ANTIGAS ROTAS DA SEDA – NOVO VETOR DO COMÉRCIO MUNDIAL25O fogo sagrado do templo Zoroastra de Yazd está vivo há um milhar de anos sem nunca se apagar.O zoroastrismo também inspirou os tecidos coloridos, pois os Zoroastras não se vestiam de preto. O padrão mais comum na decoração dos tecidos designa-se em persa por “boteh”. Tem visualmente a forma de um cipreste, com a ponta inclinada e provavelmente é originário de Yazd, cidade do sul do atual Irão. Este desenho espalhou-se através da Rota da Seda, pela Ásia Menor, Ásia Central, Cáucaso e Índia. O Maniqueísmo começou na Mesopotâmia com o profeta Mani, que nasceu em 216, e espalhou-se ao longo da Rota da Seda até à China. Mani fundiu as ideias do zoroastrismo e cristianismo com as doutrinas hindus da transmigração das almas. Os seus seguidores levaram a nova religião possivelmente até ao leste do Turquemenistão (Xinjiang) e aos Uyghurs. O Budismo nasceu com Sidharta Gautama (563-483 a. C.) no norte da Índia e foi durante quase um milénio a principal religião da Ásia Central. Muitos centros monásticos budistas foram-se estabelecendo ao longo das rotas comerciais. A conquista árabe tornou muçulmanos os povos do Médio Oriente e de parte da Ásia. A representação física de Buda tem origem na Índia, mas as obras-primas de arte sacra atingiram o ponto alto no reino de Gandhara, no ano 100, resultante da Xaile com padrão boteh
26 simbiose estética de artesãos gregos, descendentes das tropas de Alexandre, o Grande, e de artesãos naturais da Ásia Central. Os primeiros monges que imigraram da Índia para espalhar a palavra de Buda tiveram um papel importante na vida intelectual dos mosteiros criados ao longo da Rota da Seda. Os missionários divulgaram o budismo por toda a Ásia. Foi o que fizeram dois príncipes partas (An Shi-Kao, em 148 e An Hsuan, em 181) que se tornaram monges e foram para a China dar a conhecer a sua religião e angariar seguidores. Segundo a descrição de observadores árabes do século IX, os chineses não tinham tradição de aprendizagem religiosa, de facto a sua religião veio da Índia. Adoravam ídolos que os indianos introduziram no país, acreditavam na transmigração das almas e tinham escrituras budistas. Budismo
A CHINA E A REVITALIZAÇÃO DAS ANTIGAS ROTAS DA SEDA – NOVO VETOR DO COMÉRCIO MUNDIAL27Quando os mongóis controlaram a Rota da Seda, Kublai Khan tinha uma preferência pelo budismo, mas, apesar disso, muitos reinos mongóis converteram-se ao islamismo. O budismo atingiu o seu apogeu durante as dinastias Sui e Tang (581-907) e, nos finais do século VI espalhou-se para a Coreia e daí para o Japão. O declínio do budismo na China começou com a islamização da Ásia Central. No século V, os templos e stupas da China já estavam ao abandono. Os missionários cristãos tentaram a evangelização dos povos da Ásia, tanto pela rota terrestre, como pela rota marítima, desde o início da nossa era. Durante a Pax Mongólica, as dioceses voltaram a nascer no Oriente implementadas por monges franciscanos. Com a chegada dos portugueses à Índia, à China e ao Japão por via marítima, a evangelização dos povos teve um impulso significativo, graças ao esforço dos missionários que as rotas marítimas transportavam. As políticas dos dirigentes locais não permitiram um grande sucesso no propósito de uma cristianização dos povos. No fim da dinastia Ming partiram da Europa missionários jesuítas, muitos através de Macau para Pequim onde já havia uma comunidade católica. O objetivo também incluía a evangelização do Japão. O número de católicos aumentou durante a dinastia Qing (1636-1911). Por volta de 1724 temos notícia da existência de 300 igrejas católicas na China. Sun Yat-Sen (1866-1925), o primeiro presidente da China, foi também o mais proeminente cristão batizado na história do país. Família muçulmana
28 Conhecimento científico A idade de ouro de Bagdad (séculos VII-XI) constituiu a grande força intelectual impulsionadora entre a antiguidade clássica e o renascimento. Graças ao canal da Ásia Central, as grandes obras do pensamento indiano, persa e da Grécia clássica chegaram a Bagdad. Os estudiosos acorreram a essa cidade levando conhecimentos de astronomia, matemática e medicina. Pensa-se que a famosa “Casa da Sabedoria”, que durou cerca de dois séculos e acolheu cientistas, filósofos e tradutores, só foi possível ter divulgação graças à existência do papel utilizado como material corrente para a escrita. Os chineses já tinham descoberto um método para resolver equações lineares, mas foi Khwarazmi, natural da região de Khiva, que adotou o sistema decimal hindu e o seu conceito inovador, o zero, e quantidades negativas. Os mongóis destruíram as bibliotecas e os sistemas de irrigação, que alimentavam a agricultura das populações da Ásia Central, Pérsia e Médio Oriente. No entanto empregaram um grande número de sábios estrangeiros na sua corte, onde havia médicos indianos e foi confiado o plano de Pequim, a nova capital, a um arquiteto turco. O sistema postal da Ásia Central foi alargado durante a dinastia mongol. As estações postais organizavam o movimento do correio e dos tributos, ofereciam hospitalidade aos dignatários, serviam de estações de alerta em tempos de guerra e tinham caravanerais para os viajantes comuns. Uma mensagem enviada do imperador (khan) em Pequim por um mensageiro munido dum “paiza” (passaporte) podia chegar a Tabriz, a uma distância de 5000 milhas, em cerca de um mês. Os estudiosos errantes, que se deslocavam de cidade em cidade à procura de mecenas, juntavam-se frequentemente às caravanas comerciais. Poetas, astrólogos, músicos, matemáticos, médicos, astrónomos, arquitetos, entre outros, faziam parte deste grupo. Durante o governo do califa Mamun, e por um par de gerações, Bagdad foi o maior centro de atração destes cientistas e pensadores, onde havia independência face à religião islâmica. Khwarazmi, Farabi, Biruni, Ibn Sina, e Omar Khayyam (1048-1131), entre outros, foram dos maiores talentos da época de ouro da Ásia Central. Khwarazmi (780-850) apresentou o seu livro Álgebra em prosa sem um único número ou equação. Ibn Sina (980-1037), natural da região de Bukhara, antecipou e explicou o que cinco séculos mais tarde se chamou a ”perspetiva renascentista”, sendo por isso muito avançado em relação ao pensamento bizantino e europeu da época. Mas é mais conhecido pela sua obra Canon da Medicina, que constituiu as fundações da medicina ocidental. Foi Saghani (século X), nativo de Merv, que desenvolveu o astrolábio inventado por Fazari tão útil à navegação árabe.
A CHINA E A REVITALIZAÇÃO DAS ANTIGAS ROTAS DA SEDA – NOVO VETOR DO COMÉRCIO MUNDIAL29Ahmad ibn Majid, omanita, um grande navegador árabe formado nas tradições da navegação e astronomia descritas no Livro de coisas úteis sobre os principios e regras da navegação, foi provavelmente quem conduziu Vasco da Gama de Melinde, na costa oriental de África, até Calecute, na viagem que permitiu a descoberta do caminho marítimo para a Índia nos finais do século XV. O astrónomo da Ásia Central Ahmad al-Farghani (797-860), natural do atual Uzbequistão, escreveu um livro em árabe, Os Elementos, que teve um grande sucesso no Ocidente e foi amplamente lido, inclusive por Cristóvão Colombo. Este livro foi a fonte das referências à astronomia da Divina Comédia de Dante. O declínio da Ásia Central começou nos finais do século XIII e a sua pujança foi provavelmente superior ao século de Péricles e maior que as dinastias Ming e Qing na China. Dispondo de um jardim e um laboratório em Goa, Garcia da Orta com a famosa obra Colóquio dos Simples e Drogas e Coisas Medicinais da Índia, é considerado uma das pessoas de enorme relevância na época dos descobrimentos Cidade da Ásia Central
30 portugueses. O seu livro resulta de trinta anos de estudo e de observação das matérias e práticas medicinais indianas e dos conhecimentos que tinha adquirido no ocidente, na Península Ibérica. Cidades A Grande Ásia Central (Ásia Central + Irão + Oeste da China) foi o centro do mundo durante centenas de anos até à conquista mongol. Desde a invasão árabe, as cidades começaram a crescer e a sua expansão para fora das muralhas foi inevitável. As cidades tinham o bazar, caravanserais e banhos, beneficiando a atividade comercial. Os sistemas de irrigação traziam a água das montanhas próximas para a área urbana e campos agrícolas envolventes. Os grandes mercados eram localizados nas ruas principais. Os caravanserais encontravam-se às portas das cidades, localizados nas mais importantes rotas comerciais e constituíam abrigos seguros para as caravanas que viajavam durante muitos dias por zonas desérticas. Portugueses sitiados em Ormuz
A CHINA E A REVITALIZAÇÃO DAS ANTIGAS ROTAS DA SEDA – NOVO VETOR DO COMÉRCIO MUNDIAL31Estes edifícios eram estruturas enormes de planta quadrada, na maioria dos casos, e com um grande pátio ao meio. As paredes do perímetro exterior tinham grandes dimensões e um ou dois portais de entrada, sendo um monumental. As câmaras circundantes eram labirínticas, em dois níveis, e acomodavam centenas de viajantes, carga e animais. Apesar da rede de cidades ser considerável, os povos da Ásia Central eram em grande parte nómadas e viviam em tendas circulares. Os arquitetos persas (seljúcidas) inventaram a cúpula dupla, isto é, uma dentro de outra com estrutura mais leve, o que possibilitava a cobertura dos edifícios com uma área mais vasta, e contribuía para a simplificação do processo construtivo. Esta tecnologia espalhou-se até ao Mediterrâneo e influenciou certamente Filipo Brunelleschi, em 1436, no seu projeto de Santa Maria del Fiore, em Florença. Do grupo das estruturas religiosas faziam parte a mesquita, a madrassa (escola corânica) e os mausoléus de pessoas importantes. Nishapur, atualmente no Irão, no seu zénite nos séculos X e XI, cresceu de 200000 para 500000 habitantes. Isfahan
Bukara teve a maior biblioteca do mundo. Ibn Sina (Avicena), que viveu nesta cidade em finais do século X e início do século XI, descreveu o “armazém do conhecimento” onde os livros estavam catalogados por assunto e que continha autores cujos nomes não eram do conhecimento geral. Balkh, presentemente no Afeganistão, foi uma das grandes cidades da antiguidade. Os escritores romanos já descreviam Balkh como sendo fabulosamente rica. Posteriormente, os visitantes árabes, que conheciam cidades como Damasco, Antioquia ou Cairo, referiam-se a ela como a ”mãe das cidades”. A sua localização, a sul do rio Oxus (Amu Darya), na encruzilhada do Afeganistão para a Índia e Mediterrâneo e para a China, era privilegiada. A partir do século X, a madeira deu lugar à alvenaria de tijolo burro aplicado com argamassa que passou a ser parte das construções de grandes edifícios e respetivas cúpulas. Entre os séculos IX e XII foram criadas várias formas de ornamento arquitetónico, trabalho em tijolo burro, terracota esculpida e, a partir do século XII, apareceram os revestimentos de azulejos formando desenhos. Os minaretes das mesquitas e madrassas muito decorados impunham-se e, ainda hoje, são objeto de admiração nos skylines das cidades (Bukhara, Khiva e Samarcanda). Caravanserai 32
A CHINA E A REVITALIZAÇÃO DAS ANTIGAS ROTAS DA SEDA – NOVO VETOR DO COMÉRCIO MUNDIAL33Na primeira metade do século XV, o azul-escuro sobre branco na de-coração dos azulejos era de influência chinesa (período Timur). O arco chamado “gótico” foi utilizado nas estruturas de edifícios primitivos da era islâmica no Médio Oriente e no séc. VII na Arménia. Tais arcos aparecem em Guldara, perto de Kabul, e em outras regiões budistas da Ásia Central. Na europa apareceu pela primeira vez no século XI na Abadia de Saint Etienne, em Caen, na Norman-dia. Segundo a descrição árabe do século IX, a China tinha mais de 200 cidades grandes e entre elas a maior era Khãnfu (Cantão) com mais de vinte cidades pequenas no seu interior. Era um porto para navios. Na China, nessa época, uma cidade era só designada como tal se tinha jadams. O jadam era um instrumento musical soprado como um trompete, mas mais comprido precisando de duas mãos para o segurar. Era polido com laca chinesa. Cada cidade era murada e tinha quatro portas, e cada uma equipada com cinco jadams que eram tocados a horas certas do dia ou da noite. Cada cidade tinha dez tambores que eram tocados ao mesmo tempo que os jadams. Veneza entre dois mundos Desde o século XII que os navegadores venezianos controlavam as rotas comerciais do Mar Negro e do Mediterrâneo Oriental, sobretudo nos portos terminais da Rota da Seda, Alexandria, Istambul e Cairo. Eram destinos privilegiados dos venezianos onde chegavam as especiarias vindas da Índia. Mais tarde juntou-se ainda a linha de portos da África do Norte para fornecer ao Magreb os produtos do oriente. No século XIV, Veneza, a “Sereníssima”, possuía um imenso império marítimo. Deveu grande parte da sua supremacia à importação de produtos do oriente. Também alcunhada “o bazar da Europa”, fervilhava de cerâmicas, tapetes, tecidos, vidros, vestuário e muitos outros luxos orientais. Azulejos alicatados
34 Os principais parceiros de negócio eram os mamelucos, os otomanos e os safávidas, apesar de o Papa proibir comércio entre cristãos e muçulmanos. Durante as cruzadas, a República de Veneza atuava oportunisticamente mantendo boas relações com ambas as partes em conflito e era uma das etapas principais da rota dos peregrinos que se dirigiam à terra santa. O progresso na impressão de livros e gravuras era favorável à divulgação dos hábitos de vestuário, formas arquitetónicas e paisagens, reforçando os relatos resultantes dos contactos diretos entre os comerciantes da cidade-estado e os povos do oriente. Desde o fim da segunda metade do século XV que Veneza era o primeiro centro de impressão da Europa. O Corão foi pela primeira vez impresso em caracteres árabes em Veneza em 1537 ou 1538. Obras de grandes sábios muçulmanos foram trazidas e divulgadas sobretudo por eruditos bizantinos, que fugiram para Veneza após a conquista de Bizâncio pelos turcos, em 1453. É exemplo deste fenómeno o Canon de Ibn Sina (Avincena) que se tornou uma obra de referência para os estudantes de medicina. Ibn Sina nasceu numa aldeia próxima de Bukhara em 980. Viveu Khiva
A CHINA E A REVITALIZAÇÃO DAS ANTIGAS ROTAS DA SEDA – NOVO VETOR DO COMÉRCIO MUNDIAL35trinta e dois anos na Ásia Central e passou o resto dos seus dias errando de cidade em cidade na Pérsia. Descendia de uma família de Balkh e com a idade de 16 anos tratava os doentes em Bukhara sem necessitar de qualquer ajuda. Em 1405, Veneza anexou a República de Pádua, tendo a universidade nesta cidade sido refúgio para os estudos sobre as obras de ibn Sina. O orientalismo na pintura veneziana foi iniciado por Jacopo Bellini e tornou-se um género pictórico entre finais do século XV e princípios do século XVI. Os têxteis orientais são representados nos retratos da época dos dirigentes e até das figuras proeminentes do catolicismo. Os quadros incluem muitas vezes mercadores muçulmanos que se distinguem pelas vestes e turbantes. A precisão com que a arquitetura oriental compõe as cenas dos quadros faz pensar que os artistas estiveram em paragens a oriente, o que, na realidade, não parece ter acontecido. A arte do fabrico do vidro ganhou uma transparência e cor a partir do século VII, devido aos artesãos sírios e egípcios. Os venezianos começaram por importar as peças, mas, no inicio do século XVI, já as produziam com materiais importados por mar da Síria. Em 1291 a República de Veneza decide a implantação de oficinas de fabrico de vidro na ilha de Murano, reduzindo os riscos de incêndio na cidade. Arsenal de Veneza
36 Com a invasão da Ásia Menor por Timur em 1401, Veneza acolheu numerosos refugiados e artesãos e a produção de vidro inovou com objetos cada vez mais transparentes até à invenção do cristal em meados do século XV. Muitos mercadores de Veneza faziam-se às Rotas da Seda em busca de fortuna, comprando produtos de luxo no Oriente para os vender nos bazares da República. Estabeleceram núcleos de apoio nas cidades e portos de passagem na Ásia Menor para facilitar a conectividade e aprendiam árabe e persa para melhor negociar. Basílica de São Marcos
A CHINA E A REVITALIZAÇÃO DAS ANTIGAS ROTAS DA SEDA – NOVO VETOR DO COMÉRCIO MUNDIAL37Eram também intermediários na venda de produtos orientais, uma vez que os árabes raramente viajavam para a Europa. A diplomacia dos doges era muito bem conduzida e os presentes trocados com os altos dignatários árabes atingiam valores consideráveis. Como exemplo, em 1502, um enviado de Veneza ao Cairo recebeu do sultão para obsequiar o doge, entre outros, vinte peças de porcelana chinesa de vários tamanhos. Veneza é, ainda hoje, uma cidade “oriental”. Em cada rua ou praça existem memórias do Oriente conservadas durante séculos pelos seus habitantes, que provam que a cidade deve muito da sua imagem à Rota da Seda. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Abulafia, David (2012), A Human History of the mediterranean. Penguin Books Bozar Expo (2015), The Sultan´s World – The Ottoman Orient in the Renaissance Art, Beaux Arts - Bruxelles Byron, Robert (1981),The Road to Oxiana, Vinage Books Cliff, Nigel (2012), The Last Cruzade – The Epic Voyages of Vasco da Gama, Atlantic Books Drège, Jean-Pierre (1989), Marco Polo et la Route de la Soie, Decouvertes Gallimard Frankopan, Peter (2015), The Silk Road – A New History of the World, Bloomsbury 2015 Institut du Monde Arabe (2006-2007), Exposition Venise et l´Orient, www.imarabe.org Institut du Monde Arabe (2017), Connaissance des Arts – hors-sèrie, Aventuriers des Mers, IMA, www.imarabe.org Institut du Monde Arabe (2017), Exposition Aventuriers des Mers, IMA, www.imarabe.org Keay, John (2007), A Rota das Especiarias, Casa das Letras Kennedy, Hugh (2006), When Baghdad Ruled the Muslim World, Da Capo Press Madoun, M.A. (1996), The Silk Road and Palmyra-Bartering Cultures, Al Namir Makintosh-Smith, Tim (2002), The Travels of Ibn Battutah (translation), Picador Makintosh-Smith, Tim (2017), Accounts of China and India-Abu Zayd Al-Sirafi (translation), New York University Press Page, Martin (2012), A primeira Aldeia Global, Casa das Letras Qantara Magazine, (2001), Jardins Terrestres, Jardins Célestes, IMA, www.imarabe.org Qantara Magazine, (2010), Les Arabes de la Mer, IMA, www.imarabe.org Starr, S.Frederick (2013), Lost Enlightement, Princeton University Press Subrahmanyam, Sanjay (2013), L´Impire Portugais d´Asie 1500-1700, Editions Points Theroux, Paul (1989), Riding The Iron Roster, Penguin Books UNESCO (2000), History of Civilizations of Central Asia Vol. IV Part One and Two, UNESCO Publishing
A CHINA E A REVITALIZAÇÃO DAS ANTIGAS ROTAS DA SEDA – NOVO VETOR DO COMÉRCIO MUNDIAL39 CAPÍTULO II A ROTA DA SEDA – EX ORIENTE LUX | Celina Veiga de Oliveira Introdução Quem visita uma Medina – palavra que significa cidade antiga em língua árabe – do Magrebe africano, vê com os próprios olhos a efervescente realidade comercial que ali se pratica. Ao labirinto das ruelas, onde qualquer visitante menos atento se pode perder, junta-se a mescla de comerciantes, turistas, compradores, simples curiosos e uma incontável quantidade e variedade de produtos que se transaccionam diariamente nas inúmeras lojas daquela zona central das cidades marroquinas. Essa agitação mercantil resulta de antiquíssimos cruzamentos comerciais, que transportam, a partir do interior e do norte de África, do Médio Oriente e de várias zonas asiáticas, torrentes de produtos de toda a espécie, que se acrescentam aos fabricados localmente. É tal a profusão, muitas vezes concentrada em espaços exíguos – onde homens de várias idades mostram ao potencial cliente as “maravilhas” do que têm à venda –, que perturba a escolha de quem quer levar para casa uma recordação da sua viagem. Este cenário, real e bem próximo da Europa, na margem sul do Mediterrâneo, pode ajudar-nos a entender, pela diversidade e volume das mercadorias, a amplitude e a importância do impacto produzido pelo comércio efectuado através da Rota da Seda. Esse percurso, de enorme relevância histórica e civilizacional, que se estendeu por milhares de quilómetros por toda a Ásia, quer por terra, quer por mar, vindo a desaguar no Mediterrâneo – o mare nostrum dos romanos –, forneceu, durante séculos e séculos, ao Ocidente, o esplendor do mercado asiático, levando da Europa mercadores e viajantes desejosos de aventura e de dinheiro.
40 Como Surgiu a Seda A seda foi, sem dúvida, o produto mais icónico do longo, difícil e agreste caminho da Rota da Seda. Mesmo na própria China, a origem deste produto era um mistério. Segundo a tradição, a seda remonta a um passado tão distante como todos os elementos fundamentais da civilização chinesa,1 atribuindo a Lei-tsou, primeira concubina do lendário imperador chinês Houng-ti, a introdução do bicho da seda e a invenção das principais manipulações do seu fio, da tecelagem e do bordado. ________________ 1 Luce Boulnois, in A Rota da Seda, trad. Maria Luísa Machado. (Mem Martins: Publicações Europa-América, 1999), 21-27. Luce Boulnois (1931-2009), historiadora francesa, é uma das mais importantes investigadoras da Rota da Seda. O seu livro (La Route de La Soie, no original) é uma obra de referência para a compreensão deste tema. V. também Laurence Bergreen, Marco Polo, de Veneza a Xanadu, trad. de Ana Glória Lucas. (Cruz Quebrada: Casa das Letras, 2008). Este autor refere que a tradição atribui a origem da seda a Xi Ling-shi, concubina do mítico Imperador Amarelo, que teria governado a China em 3000 anos a. C. Mulher a fiar
A CHINA E A REVITALIZAÇÃO DAS ANTIGAS ROTAS DA SEDA – NOVO VETOR DO COMÉRCIO MUNDIAL41Diz-se que Lei-tsou teve a ideia de fabricar esse têxtil ao contemplar uma lagarta que fiava. O mérito da concubina foi ter descoberto como se devia tratar a lagarta (o bicho da seda) e o fio que tecia, para obter um produto de alta qualidade, o que lhe permitiu ultrapassar, em qualidade e valor, os outros têxteis orientais. Apesar de a concubina ser uma personalidade lendária, a seda é real. Escavações arqueológicas deram a conhecer fios, fitas e casulos, que datam de 3000 anos a. C., e uma pequena chávena de marfim, de 5000 anos a. C., contendo imagens dos fios de seda e dos instrumentos de fiação usados para o seu fabrico.2 O livro Marco Polo, de Veneza a Xanadu dá-nos conta de todo o processo do seu fabrico.3 O fio da borboleta bombyx mori – cega e sem capacidade de voar e alimentando-se de folhas de amoreira branca – era o escolhido, por ser composto de um filamento mais redondo e mais macio do que os produzidos por outras larvas. Em poucos dias, a borboleta punha perto de quinhentos ovos, com pouco mais de um grama cada um e, de seguida, morria. Com trinta gramas de ovos, produziam-se à volta de trinta mil bichos-da-seda, que devoravam cerca de uma tonelada de folhas de amoreira e, por sua vez, produziam cinco quilos e meio de seda natural. À medida que se ia aperfeiçoando a cultura da bombyx mori, os chineses aprenderam a manter os ovos a uma temperatura de 18 graus centígrados e a elevá-la 7 graus para obrigar as larvas a saírem do ovo. Só então começava o verdadeiro trabalho: alimentar o bicho-da-seda com folhas frescas da amoreira, colhidas à mão e finamente picadas, de meia em meia hora, vinte e quatro horas por dia, mantendo sempre uma temperatura estável. As larvas engordavam rapidamente, em tabuleiros dispostos em viveiros uns sobre os outros. O ruído daquelas criaturas a roer as folhas era comparado ao som da chuva a cair num telhado de bambu. Ao mesmo tempo que tinham de ser protegidas de sons fortes e de correntes de ar, estes bichos conseguiam multiplicar o seu peso milhares de vezes, evoluindo e mudando de cor progressivamente. Para fabricar os casulos que os protegiam, os bichos-da-seda segregavam uma substância gelatinosa, que endurecia em contacto com o ar. Durante três ou quatro dias, teciam um casulo à sua volta até terem o aspecto de bolas de pêlo do tamanho de um polegar. Estes casulos eram depois mergulhados em água a ferver para soltarem os filamentos de seda, que chegavam a atingir 800 metros de comprimentos, sendo, depois, enrolados numa bobina. O fabrico da seda era essencialmente um trabalho de mulheres. Na Primavera, a imperatriz reinante tinha, como um dos seus deveres oficiais, a inauguração da ________________ 2 In A Rota da Seda, 21-27. 3 In Marco Polo, de Veneza a Xanadu, 158-159.
42 época da seda. As mulheres, que controlavam esta indústria, seguiam-lhe o exemplo, fiando, tecendo, tingindo e bordando, tanto em casa, como em oficinas. A produção era muito trabalhosa e ocupava metade das províncias chinesas. A seda destinava-se a uso exclusivamente imperial, servindo apenas o imperador, os seus familiares mais próximos e os mais altos funcionários. Dentro do palácio, o imperador usava um fato de seda branca, enquanto no exterior vestia sempre um de cor amarela, que também era a cor usada pela esposa principal e pelo príncipe herdeiro. Com o tempo, porém, o interesse pela seda aumentou desmesuradamente, o que fez crescer a sua produção, com a consequente quebra do seu valor. O Che-King, ou Livro das Odes, uma antologia de poemas simples e realistas da vida do campo e da corte, compostos entre os séculos X e VII a. C, e cuja selecção é apontada como sendo de Confúcio, dá conta dessa desvalorização numa ode que afirma: Este homem é estúpido: leva nos braços tela para a trocar por seda.4 Na dinastia dos Han – dois séculos antes da nossa era (entre 206 e 220 a. C.) – a seda passou a ter um valor puro, como o ouro, a prata e o cobre, servindo de pagamento a funcionários, de recompensa por serviços excepcionais dos súbditos, de moeda de troca com os países estrangeiros e de pagamento de dívidas. Os camponeses pagavam impostos ao governo com a seda que produziam. Este tecido suplantou o ouro como medida-padrão, sendo o valor calculado em comprimentos de seda em vez de quilos de ouro. Acabou mesmo por se tornar uma forma de moeda dentro da China e um meio de pagamento de dívidas a nações estrangeiras, tornando-se uma parte muito importante da economia, do estilo de vida e da cultura do país, como atestam os cinco por cento de carateres que o mandarim, língua oficial, contém sobre este tema. Por isso, a técnica de criação da lagarta e do tratamento do casulo era rigorosamente secreta, sendo castigado com a pena de morte quem levasse ovos e casulos para fora das províncias chinesas. Este segredo, que circunscrevia o conhecimento do fabrico da seda à China, tornando-a rara e muito apreciada, justificava o apreço que por ela tinham as elites sociais daquele tempo. O monopólio chinês da sua produção foi entretanto quebrado por países rivais. Os coreanos, por volta de 200 a. C., começaram a dominar os rudimentos da sericultura, graças a emigrantes da China que introduziram neste país conhecimentos especializados. Meio milénio mais tarde, a sericultura tinha-se espalhado ao longo das diversas “rotas da seda” até à Índia, onde a sua confecção foi assimilada com o mesmo vigor. O percurso deste misterioso produto chegou a Roma, conquistando o entusiasmo e o fascínio das poderosas e ricas famílias romanas. ________________ 4 In A Rota da Seda, 21-27.
Plínio, o Velho, um escritor da Roma Antiga, dizia, a este propósito, o seguinte: Assim havia de atravessar a terra desde os seus confins para que as donas de Roma pudessem mostrar os seus encantos, envoltas em tecidos transparentes.5 Como Chegou a Seda aos Romanos Marcos Licínio Crasso, governador da Síria, um dos elementos do triunvirato constituído também por Júlio César e Pompeu, levou sete legiões romanas para a batalha de Carrae, perto do rio Eufrates, em 53 a. C. Mas foi derrotado pelos partos, famosos cavaleiros que viviam sempre a cavalo, absolutamente temíveis quando A CHINA E A REVITALIZAÇÃO DAS ANTIGAS ROTAS DA SEDA – NOVO VETOR DO COMÉRCIO MUNDIAL43________________ 5 In Macau – Uma História Cultural, António Aresta e Celina Veiga de Oliveira. (Mem Martins: Fundação Jorge Álvares e Editorial Inquérito, 2009), 15. Romana de Pompeia vestida de seda
44 pareciam fugir, porque atiravam flechas com rara destreza contra os inimigos que os perseguiam. As legiões romanas, cegas com o brilho dos estandartes que os partos desfraldaram por volta do meio-dia, na altura em que os raios do Sol incidem verticalmente, acabaram por ser derrotadas. E deste modo terminou tragicamente, com a morte de Crasso e do seu filho, esta aventura oriental.6 Certos autores consideram que foram esses estandartes as primeiras sedas que os romanos viram e que lhes provocou a sedução pela harmonia das cores e delicadeza da textura. Nada sabendo sobre a sua natureza, chamaram-lhe tecido sérico, de Seres, o povo misterioso que fabricava a seda e vivia muito para lá do mundo conhecido. O patriciado romano passou a usar a seda como símbolo de estatuto social, à semelhança do que os imperadores chineses haviam feito milhares de anos antes. O tempo veio permitir o uso deste tecido pelas classes mais baixas da sociedade romana. Os chineses mantiveram durante muitos séculos o segredo da sericultura avançada. No século VI da nossa era, porém, monges nestorianos apareceram, na corte do imperador Justiniano, com ovos de bicho-da-seda escondidos em bengalas ocas feitas de bambu. E assim a bombyx mori entrou no império bizantino, tornando a seda um produto mais comum e um importante motor de transacções comerciais. Os têxteis chineses, de melhor qualidade e mais luxuosos, continuaram a dominar os mercados da Ásia Central. A Pérsia, a Índia e o império bizantino rivalizavam entre si o predomínio da sericultura. Mas, ao longo da História, a seda constituiu uma permanente fonte de receita e um inestimável contributo para a unidade económica e civilizacional do Celeste Império. Viajantes Famosos O grande viajante e explorador berbere Ibn Battuta,7 do século XIV, considerado “o príncipe dos viajantes”8 por ter conhecido grande parte do mundo ________________ 6 A Rota da Seda, 15-18. 7 Ibn Battuta (1304-1377) nasceu em Tânger. Durante muitos anos da sua vida, visitou o Norte de África, a costa oriental deste continente, o Próximo Oriente, o Oriente e o Extremo Oriente, tendo chegado praticamente a todas as regiões. Devoto do islamismo, visitou Meca para várias vezes, aproveitando essas peregrinações para alargar os seus conhecimentos geográficos e civilizacionais. Viveu os últimos anos de vida em Granada, capital do reino nasrida, a dinastia muçulmana ibérica, e morreu em Marrocos. Deixou-nos, entre tantas outras, uma interessante descrição do sul da Rússia, a que chamou “Terra das Sombras”: Por estas terras só se pode viajar em trenós, puxados por cães enormes, uma vez que neste deserto de gelo os pés dos homens e os cascos dos cavalos não conseguem firmar-se e só os cães o podem cruzar porque têm unhas que se agarram no gelo. Os donos, à hora da refeição, dão de comer primeiro aos cães, pois, se não agirem assim, eles irritam-se, fogem e abandonam o dono à sua sorte. V. Ibn Battuta, A Través del Islam, Alianza Ed. Madrid, 1993, 429; https://pt.wikipedia.org/wiki/Ibn_Battuta. 8 Como o apelidou Elian Alabi Lucci, geógrafo brasileiro, professor e autor de livros didácticos.
A CHINA E A REVITALIZAÇÃO DAS ANTIGAS ROTAS DA SEDA – NOVO VETOR DO COMÉRCIO MUNDIAL45muçulmano do seu tempo e entrado na própria China, deixou deste país o seguinte testemunho: A China é a mais segura e a melhor de todas as regiões da Terra para aqueles que viajam. Pode percorrer-se o seu espaço durante nove meses sem nada recear, mesmo se por alguém carregado de tesouros. E isto porque em cada paragem há uma hospedaria protegida por um oficial que comanda um grupo de soldados. Esta visão da China refere-se ao período final da dinastia yuan, mongol, que permaneceu no poder até 1368, data em que o trono imperial regressou às mãos de chineses de etnia han, iniciando-se a dinastia Ming – palavra que significa “luz”, “claridade”, o que nos esclarece sobre o sentimento de superioridade que os han tinham em relação aos não autóctones, como era o caso dos mongóis. Com efeito, esta dinastia correspondeu a um novo renascimento da cultura han, depois do período de ocupação mongol, que sucedeu à queda da florescente dinastia Tang que a antecedera. Mas bastantes anos antes de Ibn Battuta, em pleno século XIII, o mundo asiático foi observado e descrito por outro estrangeiro, um famoso europeu, natural de Veneza, chamado Marco Polo (1254-1324). Este viajante viveu na corte de Kublai Khan, mongol, durante muitos anos e descreveu a sua experiência no célebre Livro das Maravilhas do Mundo.9 No entanto, este não foi o primeiro europeu a pisar território chinês. Entre 1270 e 1273, Jacob d’Ancona, um mercador judeu da cidade italiana de Ancona, pôde observar esse mundo oriental nos últimos anos da dinastia Song. Relatou o que viu no livro A Cidade da Luz, considerado objectivo e fiel, embora nunca tenha conseguido atingir a divulgação e a curiosidade do relato de Marco Polo.10 Mesmo para aqueles que desconhecem a História do Mundo, e particularmente a História da Ásia, serão poucos os que nunca ouviram falar da célebre “Rota da Seda”, que ligava a China ao mar Mediterrâneo desde a época do império romano. E, como o seu nome indica, a seda foi sempre o produto mais marcante dessa “estrada comercial”, devendo-se à China a descoberta da arte e da ciência da sericultura. O que deu protagonismo e excelência a este tecido foi o facto de os chineses terem conseguido preservar, durante milénios, o segredo da sua confecção. ________________ 9 Há vários títulos deste livro, consoante as edições: Livro das Maravilhas, Livro das Maravilhas do Mundo, Livro de Marco Polo, As Viagens de Marco Polo e Il Milione (O Milhão). 10 V. sobre este assunto, Jacob d’Ancona, A Cidade da Luz, 1.ª ed. portuguesa. (Lisboa: Editorial Bizâncio, 2000).
46 Mas adquirir a seda era uma aventura muito perigosa. Luce Boulnois, historiadora francesa que se especializou no estudo deste tema, diz-nos o seguinte: Partir para o país da seda era expor-se deliberadamente a todos os perigos. A quantos animais, bandidos sem indulgência, ou maus espíritos seria necessário escapar? Não se dizia que no deserto vozes e aparições, sereias terrestres, se divertiam a desviar os viajantes para os levar a perderem-se irremediavelmente nas areias? Quantas avalanches nas montanhas, quantas tribos sanguinárias espreitando em redor dos desfiladeiros, quantos miasmas em volta dos pântanos? E, contudo, esta rota infinita, que se estende para o Levante até ao país desse misterioso povo dos Seres, foi procurada, bateram-se para a defender, arriscaram tudo para lá fazer caminhar as suas mulas, os cavalos, os camelos, para chegarem antes de todos os outros. Quantas fortunas cessaram, na conservação deste elo ténue e perigoso? E para essas fortunas, quantos burgueses e aventureiros morreram, que nenhuma fé, ideia, ou fim desinteressado teriam sequer podido forçar a atravessar Roma a pé, mas que, pelo ouro e pelo lucro, arriscaram e perderam a vida?11 Viajar naquele tempo pela Rota da Seda representava, como ainda hoje, a dar crédito a relatos e reportagens de jornalistas, escritores e pesquisadores da História, muitos meses de condições penosas e arriscadas. Ao longo do percurso do continente asiático, a Rota da Seda terrestre dividia-se nas rotas do Norte e do Sul, porque havia importantes centros comerciais que se encontravam tanto a norte como a sul da China. A rota do Norte atravessava todo o leste europeu, a península da Crimeia, o mar Negro, o mar de Marmara, chegando aos Balcãs e, por fim, a Veneza. A do sul, percorria o Turquemenistão, a Mesopotâmia e a Anatólia. Aqui, dividia-se em rotas que chegavam a Antioquia (na Anatólia meridional, banhada pelo mar Mediterrâneo), ao Egipto e ao norte de África. A Rota da Seda marítima estendia-se pela China meridional até ao Ceilão, Índia, Egipto e Mediterrâneo. O Livro de Marco Polo O Livro das Maravilhas é um dos primeiros relatos de um europeu sobre terras do Oriente. Marco Polo era veneziano, como já referenciado, e pertencia a uma rica família de mercadores (um dos tios tinha uma feitoria na Crimeia). O pai, Nicolo, e ________________ 11 In Prólogo, O livro das Maravilhas do Mundo, de Marco Polo. Introdução, tradução e adaptação do texto, notas e orientação de leitura de Margarida Pestana e Maria Antónia Meira Soares. Lisboa Editora. Lisboa, 2010.
o tio, Maffeo, mantinham relações comerciais com alguns aliados da Ásia Menor. Em 1269, ao regressarem ambos a Veneza, depois de uma longa viagem até à Mongólia, onde conheceram o grande Kublai Khan, imperador mongol da China, os irmãos Polo encontraram Marco já crescido, com 15 anos de idade. Dois anos depois, os três iniciaram uma outra viagem, com a missão, que lhes fora incumbida pelo papa de Roma, Gregório X, de entregarem duas cartas ao Grão-Khan, Kublai Khan. Marco Polo chegou à China em 1275 e viveu vários anos na corte deste rei. Em 1291 dirigiu-se à Pérsia e em 1296 regressou a Veneza. Marco tinha então 41 anos, 24 dos quais passados na Ásia e, destes, 17 ao serviço de Kublai Khan. Mas a Itália vivia um período de intranquilidade política, estimulada pela animosidade comercial entre Veneza e Génova. Marco Polo, que participou nas contendas entre as duas cidades, foi preso. O Palácio de San Giorgio foi em tempos A CHINA E A REVITALIZAÇÃO DAS ANTIGAS ROTAS DA SEDA – NOVO VETOR DO COMÉRCIO MUNDIAL47Marco Polo na capa de uma edição do Livro das Maravilhas, em 1477, Nuremberga
48 a prisão onde Marco Polo esteve detido. No cativeiro ditou o Livro das Maravilhas do Mundo a um companheiro de prisão, Rusticiano de Pisa. Depois de libertado, graças também ao prestígio granjeado pelas descrições que fazia da viagem que fizera ao Oriente e que encantavam quem o ouvia, Marco Polo casou e retomou a vida de mercador. Morreu em 1324. No Prólogo, o livro começa por se dirigir ao mundo, aconselhando-o: A quantos de vós, incluindo imperadores, reis, duques, marqueses, condes, cavaleiros e burgueses desejem conhecer as diferentes raças humanas, reinos, domínios e regiões do Oriente, e ser, também, informados sobre as suas leis e costumes, se aconselha a leitura deste livro. Nele encontrareis muitas e grandes maravilhas e diversidades da Arménia, da Pérsia, da Turquia, da Tartária e da Índia e de muitas outras províncias da Média Ásia e de uma parte da Europa, quando se caminha ao encontro do vento Noroeste, de Leste ou do Norte. Marco Polo aporta a Ormuz – pormenor de uma iluminura do início de Quatrocentos, na edição do Livro das Maravilhas
A CHINA E A REVITALIZAÇÃO DAS ANTIGAS ROTAS DA SEDA – NOVO VETOR DO COMÉRCIO MUNDIAL49É assim que o nosso livro vos contará, clara e ordenadamente, as maravilhas como o Senhor Marco Polo, sábio e nobre cidadão de Veneza, as conta, porque ele próprio as viu.12 O relato das viagens, que começa no capítulo 19, informa sobre a travessia das regiões da Ásia e sobre as terras e gentes. Como mercador e viajante que era, Marco Polo media e anotava as longas distâncias que separavam os locais, identificando os centros comerciais, descrevendo as cidades, as riquezas naturais e as indústrias, e os valores atribuídos em cada local às diferentes mercadorias. Referiu a configuração geográfica, o clima, a fauna e flora, a história, a religião, os usos e costumes, os hábitos alimentares, o vestuário e os ritos dos vários povos que contactou. Em todos os locais encontrou “maravilhas” que o deslumbraram, mostrando abertura e admiração por tudo o que era diverso da sua cultura materna. Marco Polo viveu numa época em que os europeus tinham escasso conhecimento da Ásia. Sobre a China, algo se conhecia pelos relatos de comerciantes que tinham viajado para a Turquia ou para o Médio Oriente, ou por aquilo que era contado sobre Gengis Khan e as suas hordas mongóis. Mas Polo viveu dentro da China, viu com os seus olhos, ouviu com os seus ouvidos e interpretou o que viu e ouviu com a sua perspicácia, sensibilidade e inteligência crítica. ________________ 12 Livro das Maravilhas do Mundo, Introdução, tradução e adaptação do texto, notas e orientação de leitura de Margarida Pestana e Maria Antónia Meira Soares, Lisboa Editora, Lisboa, 2010. Palácio San Georgio, Génova, que foi em tempos prisão onde Marco Polo esteve detido e ditou as suas memórias a Rusticiano de Pisa
50 E por isso o Livro das Maravilhas do Mundo é considerado o mais importante registo de viagens de toda a História, mesmo que certas descrições resultem da imaginação do autor, para colmatar falhas ou esquecimentos da memória. Marco Polo e a Corte de Kublan Khan Marco Polo considerava Kublai Khan, o imperador mongol, cujo nome significava “rei dos reis”, um homem ilustre e poderoso, senhor de um império vastíssimo, que se estendia desde o litoral do Pacífico às costas do Mar Negro. Não era alto nem baixo, mas de estatura robusta, pele clara, por vezes rosada, olhos negros e nariz bem feito. Tinha quatro esposas legítimas, com título e honras de imperatrizes reais, que dispunham, cada uma, de cerca de 10.000 pessoas para o seu serviço. Vivia num magnífico palá-cio, de forma quadrangular e de mármore, cercado por um muro com mil metros de comprimentos. Em cada ângulo do muro havia um edifício com armas do Grão-Khan,13 com arcos, flechas, porta-flechas, selas, freios, cordas, ca-bos, tendas, tudo o que o exército necessitava para a guerra. O lado sul do muro tinha cinco portas, sendo maior a do meio, só aberta para a entrada ou saída do imperador. Este palácio era feito de bambu, com as pare-des dos salões e dos quartos re-vestidas a ouro e prata e decora-das com histórias de damas, cavalheiros, pássaros e outros ani-mais. O tecto estava coberto de ouro e de prata. O salão principal era um espaço onde 6000 pessoas se podiam albergar para uma refeição e o número de divisões era incomensurável. As telhas tinham várias cores: vermelhas, azuis, verdes e outras cores, envernizadas, o que Kublai Khan________________ 13 Kublai Khan.
A CHINA E A REVITALIZAÇÃO DAS ANTIGAS ROTAS DA SEDA – NOVO VETOR DO COMÉRCIO MUNDIAL51fazia o palácio luzir a grande distância. Na parte de trás do palácio havia grandes casas, quartos e salões, onde se encontram os bens privados do senhor, isto é, todo o seu tesouro, ouro, prata, pedras preciosas e pérolas e os seus copos de ouro e de prata; onde vivem as suas damas e as suas concubinas e onde ele atende convenientemente os seus assuntos quando assim o quer, e onde as outras pessoas não entram.14 A norte, mandou o Grão-Khan construir uma montanha com 150 metros de altura e mil de perí-metro, coberta de árvores de folha perene. Se tinha conhecimento de uma árvore rara, de grande porte, manifestava logo desejo de a adqui-rir, sendo o seu transporte feito por elefantes. Mais tarde, mandou cobrir essa montanha de lápis-lazuli, uma pedra de cor verde azulada, que lhe deu o nome de “Montanha Verde”. A capital, Kambalic ou Kam-balu, que significa “cidade do impe-rador”,15 fora transladada da mar-gem de um grande rio, na província de Cataio. O Grão Khan soubera pelos astrólogos que aquela localização era funesta para o seu império e, por esse motivo, mudou-a para a outra margem do rio. Kambalic tinha uma forma quadrangular, com um perímetro de cerca de vinte e quatro mil metros, muros altos e largos e doze portas, havendo sobre cada uma um edifício. De cada lado do muro, existiam três portas e mais de cinco edifícios. Em quatro destes edifícios viviam os guardas. As estradas eram direitas, bem traçadas. Na cidade havia vários palácios. No cimo de um desses palácios, um sino tocava todas as noites três vezes, impedindo que, após o último toque, alguém pudesse sair, a não ser em caso de extrema urgência. Cada porta era guardada por dez mil guerreiros. Fora da cidade havia bastantes arrabaldes, onde se hospedavam os viajantes e os comerciantes que ali afluíam constantemente com incontáveis mercadorias. Chabi, mulher de Kublai Khan________________ 14 In Marco Polo, De Veneza a Xanadu, 137. 15 Hoje Pequim.
52 Nesses subúrbios existiam muitos palácios, de grande beleza, embora nenhum como o palácio real. Nenhuma sepultura era permitida dentro da cidade. Os idólatras eram cremados à saída dos arrabaldes e os que não eram cremados recebiam sepultura no exterior. A Kambalic chegavam tantas e tão grandes mercadorias que superavam em volume de contratação a qualquer cidade do mundo inteiro: se levam ali pedras preciosas, pérolas, seda e especiarias raras, em abundância incalculável, desde a Índia, Mangi, Cathay e outras regiões infinitas. Como está bem situada, pode chegar-se a ela com facilidade, porque se encontra no centro de muitas províncias. Segundo o cálculo cuidadoso feito por comerciantes da terra, não há dia em todo o ano que não levem ali mercadores estrangeiros mais de mil carroças carregadas de seda, já que fazem nela infinitos trabalhos em ouro e seda.16 Eis, em resumo, uma imagem de uma ínfima parte do resplandecente mundo do grande Kublai Khan!17 A administração mongol, muito centralizada, era exercida por uma multidão de funcionários, que se apoiava num exército móvel e num conjunto de mensageiros que iam, de cidade em cidade, transmitir informações. De todos os lados e para todos os lados partiam estes mensageiros portadores de normas, leis, ordens e notícias. Esta concepção de poder permitiu que, durante algum tempo, embora curto, tivesse havido por todo o reino alguma tranquilidade, conhecida na história por “paz mongólica”.18 Esta paz, imposta, diminuiu o banditismo, muito frequente na Ásia pelas riquezas transportadas em caravanas, o que permitiu que as grandes rotas de comércio asiáticas da Antiguidade pudessem ser restauradas, e, de entre elas, a famosa Rota da Seda. Foi também a paz mongólica que abriu as portas do Extremo Oriente a muitos mercadores europeus e possibilitou o intercâmbio diplomático com o Ocidente, constituindo um dos mais importantes mecanismos que movimentou o renascimento comercial da Europa medieval. A este aspecto juntou-se a grande tolerância religiosa dos mongóis, uma realidade que possibilitou o envio de emissários do papa de Roma à corte mongol e a divulgação do cristianismo, embora as conversões nunca tivessem atingido grande expressão.19 O nestorianismo, nunca predominante no Império, pôde ________________ 16 In Marco Polo, De Veneza a Xanadu e Macau – Uma História Cultural, 17. 17 O Livro fala de grande parte do império de Kublai Khan, que Marco Polo conheceu directamente por ter desempenhado as funções de assessor fiscal do imperador. 18 In Macau – Uma História Cultural, 16. 19 Com a queda da dinastia yuan, os Ming restauraram a intolerância a religiões consideradas estrangeiras e, por isso, o cristianismo foi exterminado na China.
A CHINA E A REVITALIZAÇÃO DAS ANTIGAS ROTAS DA SEDA – NOVO VETOR DO COMÉRCIO MUNDIAL53sobreviver pela influência que importantes mulheres mongóis, devotas desta religião, exerceram junto de maridos ou filhos (a própria mãe de Kublai Khan era nestoriana). O confucionismo, mais uma filosofia do que uma religião, só foi praticado dentro dos limites da China. Mesmo assim, a sua influência sobre o império mongol foi relevante, na medida em que muitos governantes eram preparados em escolas confucionistas chinesas, especialmente na capital, como aconteceu com Kublai Khan. O budismo, cujo ideário cativou os mongóis, foi a religião de muitos imperadores. Fora da China, esta crença acabou por ser destruída após a conversão ao islamismo do último Khan persa. O islamismo disseminou-se por longínquas extensões do império mongol. Tamerlão, o sangrento líder turco-mongol (1336-1405) destruiu todos os cultos contrários ao islão, consolidando uma cortina de ferro muçulmana. Era seu objectivo conquistar e islamizar a China, mas a sua morte impossibilitou a concretização desse sonho fanático. A paz mongólica perdurou enquanto o império mongol esteve coeso, até à morte de Kublai Khan. As guerras que se seguiram e a intransigência de Tamerlão ressuscitaram o perigo das viagens pela Ásia. Os contactos com o Extremo Oriente só foram retomados no século XVI, com as Grandes Navegações. Portugal foi, então, o grande actor dessa aproximação entre o extremo ocidental da Europa e o extremo oriental do continente asiático. Nos nossos dias, falta cumprir a utopia de um recíproco olhar, promissor de entendimentos, e de uma aproximação entre estes dois mundos, geograficamente tão afastados um do outro. Para, assim, se dar expressão ao sonho de Wenceslau de Moraes de tornar possível, num futuro próximo ou longínquo, o “homem integral”, resultado dessa fusão de culturas, de economias e de conhecimentos. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Amaro, Ana Maria, O Mundo Chinês – Um Longo Diálogo Entre Culturas, Volume I. Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, Lisboa, 1998. Aresta, António e Oliveira, Celina Veiga de, Macau – Uma História Cultural. Fundação Jorge Álvares/Editorial Inquérito, Mem Martins, 2009. Bergreen, Laurence, Marco Polo, De Veneza a Xanadu. Casa das Letras, Cruz Quebrada, Outubro de 2008. Boulnois, Luce, A Rota da Seda (Título original – La Route de la Soie, trad. Maria Luísa Machado). Publicações Europa-América, Mem Martins, 1999. D’Ancona, Jacob, A Cidade da Luz. Editorial Bizâncio, Lisboa, Fev. de 2000 (1.ª ed. portuguesa) Polo, Marco, El Libro de Marco Polo – [novel]es. com, Edición PDF. Polo, Marco, Le Libre des Merveilles (2014). epub. Polo, Marco, O Livro das Maravilhas do Mundo, Introdução, tradução e adaptação do texto, notas e orientação de leitura de Margarida Pestana e Maria Antónia Meira Soares. Lisboa Editora, Lisboa, 2010.
A CHINA E A REVITALIZAÇÃO DAS ANTIGAS ROTAS DA SEDA – NOVO VETOR DO COMÉRCIO MUNDIAL55 CAPÍTULO III OS PERCURSOS DOS PRINCIPAIS PERSONAGENS CHINESES NA ANTIGA ROTA MARÍTIMA DA SEDA | Zhu Li Os contactos políticos entre a China e o Ocidente (na Antiguidade situavam-se a oeste da passagem de Yumen, na Ásia Central) iniciaram-se durante a dinastia Han Ocidental (202 a. C.-8 d. C.). A missão diplomática de Zhang Qian (140 a. C. -126 d. C.) ao Ocidente marca o início desses contactos. Durante a dinastia Han Ocidental (25-220), Gan Ying chegou a Tiaozhi (hoje no Golfo Pérsico). As relações comerciais entre a China e os países ocidentais estimularam o desenvolvimento das técnicas de navegação. Viagem diplomática de Zhang Qian ao Ocidente
56 Durante o período dos Três Reinos (220-280), navios chineses de mercadorias alcançaram a Índia e o Golfo Pérsico (dinastias Tang e Song). Durante a dinastia Song, o porto mais distante que os barcos atingiram foi Aden, no atual Yemen. Os mongóis da dinastia Yuan conquistaram toda a Ásia e parte da Europa, permitindo comunicações mais fáceis e frequentes entre o Ocidente e o Oriente. No início da dinastia Ming, a recuperação da economia e o rápido desenvolvimento da indústria naval, da exploração de sal, da metalurgia e da cerâmica, trouxeram grandes possibilidades de exportação para mercados além-mar. Em Março de 2002, Gavin Menzies publicou uma investigação sobre as navegações chinesas no Daily Telegraph. Posteriormente divulgou as suas conclusões num jornal britânico, com vários relatos académicos, em Londres e em cidades da China, como Nanjing, Kunming e Pequim. Em Outubro de 2002 publicou o livro 1421 - O ano em que a China descobriu o Mundo. Gavin Menzies nasceu em 1937 e participou na Segunda Guerra Mundial, tendo tido dezassete anos de experiência de navegação, tendo percorrido muitos lugares e revisitado rotas marítimas de Cristóvão Colombo e de Fernão de Magalhães. A contribuição chinesa para as descobertas de Colombo foi demonstrada por 14 anos de estudos de mapas de navegação e de material arqueológico. Gavin afirmou que não foi Colombo quem descobriu a América e que não foi Magalhães o primeiro navegador a realizar a viagem de circumnavegação. Zheng He (dinastia Ming) já tinha realizado esses feitos entre 1421 a 1423. Gavin concluiu que o novo continente fora descoberto 60 anos antes, que a viagem de circumnavegação fora realizada 100 anos antes e que Zheng He entrara no Oceano Índico noventa anos antes de Vasco da Gama. Menzies mencionou igualmente que Zheng He desenhara o mapa do mundo no século XV, o que pode ser considerado como a origem da cartografia moderna. Nesse artigo vamos seguir a pesquisa de Gavin Menzies para acompanhar as viagens de Zheng He ao Ocidente. Zheng He nasceu em 1371, de uma família muçulmana no Yunnan, no sudoeste da China. Em 1983, a narrativa genealógica de Zheng He foi encontrada em Pequim. O seu antepassado Suo Feier fora senhor de Puhuali, um antigo reino localizado a 600 quilómetros a sudoeste de Tashkent, actual capital do Uzbequistão. Em 1070, o rei Suo Feier invadiu o reino vizinho e dominou o império Song cujo imperador lhe conferiu um ducado. Os seus descendentes herdaram o ducado, conseguindo a confiança dos Song. Nos primórdios da dinastia Yuan, foram conferidas importantes funções governativas ao neto e ao bisneto do rei Suo Feier, que se tornaram respetivamente
A CHINA E A REVITALIZAÇÃO DAS ANTIGAS ROTAS DA SEDA – NOVO VETOR DO COMÉRCIO MUNDIAL57vice-ministro e primeiro governador de Yunnan, pelo que a família se estabeleceu aí, tornando-se antepassada da nacionalidade Hui. Quando Zheng He tinha 11 anos, teve início uma guerra pelo que ele se alistou no exército Ming. Deixou a sua cidade natal dois anos depois e viajou com o exército para Nanjing, na altura capital da China. Em 1390, devido à sua excelente prestação em várias batalhas, foi elevado à categoria de ajudante do rei Yan, que se tornou imperador dos Ming em 1402. Como um dos heróis da luta pelo poder imperial, Zheng He obteve um apelido por parte do imperador, facto que constituiu uma grande honra e indicava a confiança e a bondade do imperador, bem como a razão pela qual foi designado comandante das viagens. Entre a dinastia Qin (221 a. C.-207 a. C.), e a dinastia Han (202 a. C.-220 d. C.), a técnica chinesa de construção naval atingiu um nível considerável. Na dinastia Qin, Xufu chegou ao Japão com uma armada de 3000 pessoas. No início da dinastia Han já era possível construir navios com mais de 30 metros. Em 410, apareceram os navios com compartimento estanque, e só 800 anos depois essa tecnologia foi introduzida na Europa por Marco Polo. Representação de embarcação da Dinastia Song
Durante as dinastias Sui e Tang, a indústria naval chinesa sofreu um grande desenvolvimento: em 589, foram construídas embarcações de guerra com cinco níveis acima do deque com capacidade para 1000 soldados. Na dinastia Tang, e devido à guerra na Ásia Menor, a Rota da Seda foi bloqueada e as rotas marítimas tornaram-se mais importantes, garantindo o comércio internacional. Nas dinastias Song e Yuan o comércio era próspero e conduziu a um grande desenvolvimento da construção naval. De acordo com um documento da dinastia Song, os navios que viajavam para o Oceano Índico podiam transportar várias centenas de marinheiros e cereais para um ano de consumo. A tripulação podia criar porcos, galinhas e fazer licor. O famoso viajante árabe Ibn Battuta escreveu nos seus relatos de viagem que existiam três tipos de barcos na China (na dinastia Yuan), tendo os maiores seis velas e transportando 1000 pessoas, 600 marinheiros e 400 soldados e arqueiros. Cada navio era seguido por três mais pequenos, 1/2, 1/3 e 1/4 do tamanho do maior. O navio maior tinha trinta remos e os mais pequenos vinte. Os remos eram enormes com a mesma altura dos mastros e necessitavam de quinze marinheiros. Baseado na indústria naval bastante desenvolvida à época, Zheng He comandou a sua frota e implementou sete viagens com recurso à navegação 58 Ibn Battuta
astronómica, geo-navegação, instrumentos náuticos, conhecimento das monções, técnicas de navegação, análise e mapeação. Estes conhecimentos constituíram um importante contributo para as investigações e explorações futuras. Durante a dinastia Ming, e com base no mar do sul da China, o império traçou várias rotas para Oeste e Este, isto é, até ao Oceano Pacífico e ao Oceano Índico, incluindo o Estreito de Malaca. Antes de iniciar as viagens, Zheng He organizou várias investigações ao exterior. Em 1403 foi em missão diplomática ao Sião (hoje Tailândia) e, no regresso, avaliou a topografia e ajustou cartas náuticas anteriores. Depois das necessárias preparações, Zheng He empreeendeu a primeira viagem em 11 de Julho de 1405. De acordo com relatos, mais de 27 800 pessoas participaram nessa viagem. A frota era constituída por 200 embarcações das quais 63 se intitulavam “Navios do Tesouro” –, por 100 navios de guerra, e por cerca de 40 navios de transporte de água e mantimentos. As maiores embarcações tinham 140 metros de comprimento e 60 de largura. Os mais pequenos tinham 60 metros de comprido. O navio onde seguia Zheng He chamava-se Navio-Dragão, onde o piso superior era um palácio, o intermédio quartos de dormir e o inferior armazém de presentes e de tributos. Os navios de guerra e de carga eram muito importantes para dar segurança à viagem. De acordo com uma descrição da época, os navios de cereais tinham A CHINA E A REVITALIZAÇÃO DAS ANTIGAS ROTAS DA SEDA – NOVO VETOR DO COMÉRCIO MUNDIAL59Construção naval na Dinastia Ming
60 habitualmente 90 metros de comprimento e 40 de largura, transportando cerca de 1000 toneladas de comida. Podemos estimar aproximadamente a quantidade de alimentos necessários para estas viagens, tomando como exemplo a primeira que durou dois anos e três meses, entre Julho de 1405 e Setembro de 1407. Partindo do príncipio que cada pessoa necessitava de meio quilo de alimentos por dia, 27800 pessoas durante 820 dias consumiam cerca de 11398 toneladas de alimentos. Se cada navio de carga transportava 1000 toneladas, eram precisos 10 navios para acompanhar a expedição. Para a tripulação ter vegetais frescos, eram necessárias grandes quantidades de grãos de soja e de feijão, que constituíam o complemento de vitaminas e de proteínas. Assim ninguém tinha escorbuto durante as viagens. Havia ainda navios de especiarias para transporte de água potável, com reservatórios para um ano de consumo. Para esta enorme frota era necessário disciplina na navegação e Zheng He designou-a com o caráter chinês “ “. O Navio-Dragão comandava e navegava no meio da frota para conveniência de investigação e de comando. As fragatas ladeavam-no e as embarcações de guerra eram localizadas à direita e à esquerda para proteger os navios de transporte de mantimentos. A comunicação entre as tripulações era um assunto vital, sendo utilizados a luz e o som para esse fim. Durante o dia, a comunicação fazia-se mudando a cor das bandeiras e, de noite, era de acordo com o posicionamento das lanternas, um sistema muito bem-sucedido. Também não podemos ignorar o papel da navegação chinesa no domínio da tecnologia astronómica à época. A frota de Zheng He utilizou o mais completo e Frota do Tesouro
A CHINA E A REVITALIZAÇÃO DAS ANTIGAS ROTAS DA SEDA – NOVO VETOR DO COMÉRCIO MUNDIAL61avançado sistema de navegação do seu tempo. Utilizava as monções e a altura e a posição em relação às estrelas. Esta última requeria responsabilidade e competência. Os encarregados destas medições necessitavam de empreender observações antes do amanhecer e depois do anoitecer, usando um equipamento muito especial, chamado “Qianxing Ban” (placa de navegação astronómica). Este equipamento consistia em doze pranchas quadradas sobrepostas, cujo tamanho diminuía de baixo para cima. Compasso da Dinastia MingMedição náutica
A tripulação, baseada na utilização frequente deste instrumento, era bem-sucedida, o que pode ser comprovado pela observação de mapas antigos. Entre estes mapas estão quatro de-senhos de navegação astronó-micos que são os mais antigos e completos registos de nave-gação astronómica da História da China. Zheng He realizou as sete viagens entre Julho de 1405 e 1433. Todas as expedi-ções partiram do porto de Liujia (que servia Nanjing), esperando as monções. As viagens de Zheng He ao Oceano ocidental Primeira viagem Em Novembro de 1405, no início da monção, a frota partiu com destino a Luzon (hoje Filipinas). Após uma curta estadia, partiram com destino a Saltanah Sulu (hoje Sulu Arch) e Burni (hoje norte da ilha de Kalimantan, no Brunei). Em 1406 chegaram ao reino Champa (actual Vietname), onde ajudaram o exército Ming a lutar contra o invasor, trazendo paz a Champa. Depois de uma 62 Instrumento náutico Qianxing Ban
viagem de trinta dias chegaram a Java e de seguida a Palembang (hoje sul de Sumatra, na Indonésia). Em Palembang, a armada desafiou os ataques dos piratas e libertou o mar para o comércio internacional. De Palembang rumaram a norte e chegaram a Malaca. Zheng He ajudou à independência das tribos de Malaca. Seguidamente, aportaram a Sumatra, passaram o Mar de Bengal e chegaram ao Ceilão (hoje Sri Lanka). Daí, e ao longo da costa oeste do continente indiano, chegaram a Quilon, Koci (hoje Cochim), onde abundava a pimenta. O destino final foi Ku-Li (hoje Calecute), um grande reino no Oceano Índico. Ku Li era um centro de A CHINA E A REVITALIZAÇÃO DAS ANTIGAS ROTAS DA SEDA – NOVO VETOR DO COMÉRCIO MUNDIAL63Mapa náuticoRegisto astronómico
64 comércio entre o Oriente e o Ocidente. A chegada a Ku Li foi um marco da primeira viagem. No verão de 1407, quando a monção de sudoeste começou, a frota iniciou o seu regresso a casa. Em Agosto chegaram ao porto de Taicang, tendo sessenta Barcos do Tesouro aportado a Pequim, a 2 de Setembro no calendário lunar. O imperador ficou muito satisfeito com o feito desta primeira viagem e recebeu enviados dos países visitados. Segunda viagem Depois de vários meses para descanso e reorganização, Zheng He iniciou a segunda viagem em Setembro de 1407, visitando o Sião, Malaca, Burni, Sumatra, Ceilão, Koci, Quilon, Ku-Li e Kaval (hoje Cail, na Índia) e regressando no ano de 1409. Doou grandes quantidades de produtos de seda, incensários, vasos para flores, velas e lamparinas. Terceira viagem Em Setembro de 1409, Zheng He conduziu 48 navios e 20 000 tripulantes a uma terceira viagem ao Oceano Ocidental. A frota ancorou no porto de Taiping, na província de Changle, durante um curto período, e levantou ferro em Dezembro. Visitaram Champa, Java, Malaca, Sião, Sumatra e Ceilão. A frota foi depois dividida em duas. Uma parte, liderada por Zheng He, chegou a Quilon, Koci e Ku-Li; a outra parte, liderada pelo assistente de Zheng He, partiu para Kaval e Gambari (atualmente Comori, na Índia). De seguida, as duas equipas juntaram-se na costa ocidental da Índia. Percursos das Viagens de Zheng He
A CHINA E A REVITALIZAÇÃO DAS ANTIGAS ROTAS DA SEDA – NOVO VETOR DO COMÉRCIO MUNDIAL65Em Junho de 1411, a frota estava de volta a Nanjing, a capital do império. Quarta viagem Em Novembro de 1412, e novamente após dois anos de descanso e de reorganização, as viagens continuaram. Desta vez, o destino de Zheng He era Ormuz, no mar Árabico, pelo que necessitava de mais tempo para preparar navios e pessoal. Durante esta quarta viagem, para além dos países visitados anteriormente, Zheng He aportou a Pahang (na Malásia actual), Kota Bahru e Ormuz, e visitou reinos na península arábica e na costa oriental de África. Em Julho de 1415 regressou à China. Quinta viagem Em Dezembro de 1416, teve lugar nova viagem com a mesma rotina das anteriores. Uma das principais missões era o retorno dos enviados das várias origens aos seus países. Em 1419, a armada regressou a casa. Sexta viagem Em Janeiro de 1421, Zheng He partiu para a sexta viagem visitando dezasseis reinos, incluindo Ormuz, Aden, Dhofar, Zeila, Baraawe, Mogadiscio, Ku-Li, Koci, Kaval, Ceilão, Liushan, Lambri, Sumatra, Malaca, Aru, Gambari, e enviando os seus representantes para casa. A frota voltou à China em 1422. Sétima viagem Esta foi a última viagem de Zheng He ao Oceano ocidental. Em Junho de 1431, Zheng He e o seu homem de mão, Wang Jinghong, dirigiram uma frota de 160 navios e 27 567 pessoas, das quais 868 eram oficiais e 20 800 eram soldados. Visitou vinte reinos e locais, incluindo Ormuz, Ceilão, Ku-Li, Malaca, Koci, Baraawe, Mogadiscio, Lambri, Sumatra, Zeila, Liushan, Aru, Gambari, Aden, Dhofar, Djubo (hoje Juba na Somália Este), Kaval e Palembang. Infelizmente, no início de Abril de 1433, Zheng He morreu em Ku-Li, quando regressava à China, com 62 anos de idade, sendo enterrado em Nanjing. A armada regressou à capital em 22 de Julho de 1433. De acordo com os registos da História dos Ming, e da biografia de Zheng He, a frota visitou mais de trinta reinos. Segundo a investigação do Dr. Joseph Neddham, navios da dinastia Ming chegaram ao Cabo das Agulhas atingindo o Oceano Atlântico. O império chinês
66 tinha pelo menos 3800 navios, o que era a totalidade dos navios que a Europa possuía à altura. Zheng He foi considerado a 14.ª pessoa que mais contribuiu para o mundo pela revista americana Life, quando deu as boas-vindas ao milénio. Zheng He não só é lembrado pelos chineses como também pelos povos cujos países visitou. Na Indonésia há templos, fontes e cidades com o seu nome, bem como um porto na ilha de Java. Um grande número de templos foram construídos em sua memória na Indonésia, Malásia e Camboja. Em Mogadiscio e Brava há uma cidade com o seu nome. No Museu Nacional de Colombo, no Sri Lanka, há uma estela de pedra chamada Zheng He. A estela representa a cena em que ele está a entregar uma oferenda ao templo. Na Índia também há uma estela em sua memória e em Ku-Li foi construída uma estátua no local onde Zheng He colocou a estela de Ku-Li. Nas Filipinas há uma cidade com o seu nome. Em Melinde, no Quénia, porcelana chinesa está encastrada em dez pilares de pedra. Para além de Zheng He, deve venerar-se uma outra personagem misteriosa, Wang Jinghong. Ele acompanhou sempre Zheng He nas suas viagens, encarregado dos assuntos técnicos da organização dos navios. Em 1434 foi para Sumatra em missão diplomática, e tornou-se o único mensageiro que empreendeu oito viagens. No final da sua vida concentrou-se a escrever livros e a concluir as suas experiências de navegação. Os seus livros tiveram muita aceitação do público. As viagens de Zheng He promoveram a comunicação cultural entre o Oriente e o Ocidente. Por exemplo, a Monumento à memória de Zheng He na Indonésia e Malásia
A CHINA E A REVITALIZAÇÃO DAS ANTIGAS ROTAS DA SEDA – NOVO VETOR DO COMÉRCIO MUNDIAL67cultura do chá foi introduzida nos países visitados cujas po-pulações adquiriram o hábito de beber chá. Em simultâneo, nego-ciantes persas, viajantes ociden-tais e padres introduziram o chá chinês no Ocidente. Hoje, o chá, em Inglaterra, tem a mesma pronúncia que o acento do povo chinês de Fujian. Os países visitados por Zheng He, como a Tailândia, Malásia, Singapura, Sri Lanka, Índia e Quénia, são grandes consumidores de chá, a bebida mais popular. A frota também introduziu comida e frutos exóticos na China. Na ilha de Pate há um grupo étnico, chamado Famao resultante do cruzamento entre a tripulação chinesa, que ali ficou retida devido a um naufrágio, e a população africana. Olhando para a história do desenvolvimento da sociedade hu-mana, as pessoas com localizações remotas foram para o mar e para os oceanos e permitiram a globalização do mundo. Esta globalização teve início com Zheng He, que beneficiou do poder económico chinês e de uma tecnologia avançada para o seu tempo. Foi a primeira vez que os chi-neses foram para o mar, numa escala sem precedentes, o que contribuiu para a diplomacia da paz, glória da nação chinesa. Segundo reza a história, a Rota da Seda ligava o Oriente e o Ocidente. A comunicação e a interação entre as antigas civilizações assentavam na pas-sagem por terra entre a Ásia e a Europa. Monumento à memória de Zheng He na Indonésia e MalásiaMonumento à memória de Zheng He na Indonésia e Malásia
68 Durante a dinastia Han, a missão diplomática de Zhang Qian ao Ocidente iniciou uma nova era do transporte terrestre, enquanto as viagens de Zheng He foram o início do comércio marítimo. Monumento à memória de Zheng He na Indonésia e MalásiaPopulação de Famão
A CHINA E A REVITALIZAÇÃO DAS ANTIGAS ROTAS DA SEDA – NOVO VETOR DO COMÉRCIO MUNDIAL69Nos finais do século XV, os portugueses navegaram para o Oriente, tendo aportado em 1498 em Calecute (Ku-Li), onde Zheng He aportara em cada uma das suas viagens. Posteriormente, os portugueses percorreram a rota marítima de Zheng He até Malaca, onde o Oriente e o Ocidente se juntam. As viagens de Zheng He são um marco na História da Civilização Mundial, o culminar das antigas tradições e também o ponto de partida para uma nova era. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS : 2015 By Lü Chengshuo, The Great Feat: Zheng He’s voyages to the Ocean, The Commercial Press, 2015 : (1405-1433)· · 2017 By Chen Zhongping, Toward a multicultural Global History: Zheng He’s maritime voyages (1405-1433) and China’s relations with the Indian Ocean World, simplified Chinese Copyright by SDX Joint Publishing Company, 2017 F·-B· E· sheng :2013 By Bernard Huyghe & Edith Huyghe, Les Empires Du Mirage, Hommes, dieux et mythes sur la Route de la soie, simplified Chinese Copyright by China Tibetology Publishing House, 2013 · 2013 By Bill Porter, Silk Road, simplified Chinese Copyright by Sichuan Literature and Art Publishing House, 2013 2016 6 By Zhang Jianghe & Zhou Bin, A Comparative Analysis of the Geopolitics of the Ancient and Contemporary Silk Roads: Reflections on Zhang Qian’s Diplomatic Missions in the Western Regions and Zheng He’s Maritime Expeditions, Vol. 6, 2016, Southeast Asia Studies 2016 4 Percurso de Zhang Qian
70 By Meng Yin, the Monument to the Discoveries and the Picture Scrolls of Zheng He’s voyages, Vol. 4, 2016, Science and Culture Review “ ” 2015 1 By Wan Ming, Zheng He’s Seven Voyages to the Indian Ocean: The ”Lamuri Ocean” in Ma Huan’s Writing, Vol. 1, 2015, Southeast Asian Affairs 2007 5 By Jian Hong, The history and present status of overseas Chinese at Mozambique, Vol. 5, 2007, West Asia and Africa Créditos fotográficos: www.baidu.com
A CHINA E A REVITALIZAÇÃO DAS ANTIGAS ROTAS DA SEDA – NOVO VETOR DO COMÉRCIO MUNDIAL71 CAPÍTULO IV O TRATO LUSO-NIPÓNICO E A ROTA ORIENTAL DA SEDA | Eduardo Kol de Carvalho Inda outra muita terra se esconde, Até que venha o tempo mostrar-se. Mas não deixes no mar as Ilhas onde A Natureza quis mais afamar-se; Esta, meia escondida, que responde De longe à China, donde vem buscar-se, É Japão, onde nace a prata fina, Que ilustrada será co a Lei divina. Os Lusíadas, Luís de Camões, Canto X, est.131 Luís de Camões, em Os Lusíadas, ou os cartógrafos Fernão Vaz Dourado (1568) e Luís Teixeira (1595), através do topónimo “As Minas da Prata”, denunciam nas cartas do Japão a extracção do precioso metal que tendo começado em 1526 atingiu o seu pico no início do século XVII. À procura de uma alternativa marítima à velha rota da seda, a coroa portuguesa promoveu o reconhecimento dos oceanos através de viagens marítimas que se estenderam entre a descoberta do arquipélago da Madeira, por João Gonçalves Zarco, em 1418 e 1419, ou dos Açores, por Gonçalo Velho Cabral, em 1431, até à chegada de Vasco da Gama à Índia em 1498. Aberta a estrada marítima que punha a Europa em ligação directa com a Ásia, a fonte de todas as especiarias e riquezas exóticas, os portugueses desbravaram o Índico multiplicando as rotas regionais na procura de bens e matérias-primas que despachavam da Índia para Portugal, mas que transaccionavam também entre as
72 várias regiões. As rotas regionais que incluíam a Zambézia (marfim, ouro, ébano, escravos), costa Suaíli (marfim, âmbar), Golfo Pérsico (cavalos, pérolas e tâmaras), Golfo de Cambaia, Kanara e Malabar (arroz, pimenta), Ceilão (canela), Bengala (têxteis), Maldivas (fibra de coco, peixe seco), Macau (canhões), China (seda, porcelanas), Macassar e Sonda (sândalo, especiarias) estenderam-se a partir de 1543 ao Japão, o mercado fornecedor de prata. Inda outra muita terra se esconde, dizia Camões sobre o longínquo arquipélago nipónico, o fim da escala de uma viagem de muitos meses, senão anos. Em 1515, Tomé Pires na “Suma Oriental” alude pela primeira vez ao Jampon, o Cipango de Marco Polo, mas seria apenas em 1543 que, acidentalmente, os portugueses chegariam ao arquipélago. Até que venha o tempo mostrar-se, falava-nos Camões sobre a descoberta do arquipélago. Impelidos por um dos tufões que normalmente assolam as costas japonesas no fim do Verão, três aventureiros portugueses, António da Mota, Francisco Peixoto e Francisco Zeimoto, a bordo de um junco chinês, deram à costa da ilha de Tanegaxima, no cabo Cadoucura, segundo a crónica japonesa Teppo-ki, a 23 de Setembro de 1543. Encetado o primeiro contacto, que Fernão Mendes Pinto reclama para si, mas que os historiadores lhe negam, os portugueses passaram a demandar o arquipélago japonês logo no ano seguinte quando Jorge Álvares, agora sim, acompanhado por Mendes Pinto, vai a Cagoxima em 1544. Mas não deixes no mar as Ilhas onde A Natureza quis mais afamar-se; Desta viagem resulta, a pedido do mestre Francisco Xavier, a primeira descrição do Japão feita por um ocidental. A natureza do Japão surge logo aos olhos do cronista na sua exuberância, pela diversidade da flora, quando nos refere como... bem assombrada e graciosa, e de muitos pinhais e cedros e ameixieiras e cerejeiras e pessegueiros e loureiros e castanheiros e nogueiras e azinheiras, que dão muita bolota, e carvalhos e sobreiros e parreiras de uvas brancas..., pela riqueza, quando nos diz que... esta terra de Japão é toda aproveitada. Dá cada ano três novidades, desta maneira: em Novembro semeiam trigo, cevada, nabos e rábanos e outras ervas como acelgas, que comem; em Março semeiam painço, milho, mungo, grãos, feijões, patecas, pepinos, melões; Julho semeiam arroz, inhames, alhos, cebolas, ou ainda pela especificidade da orografia quando menciona que Esta terra de Japão é alta ao longo do mar,… treme algumas vezes, e é terra de muito enxofre. Há muitas ilhas de fogo... É terra esta de Japão muito ventosa e cheia de tormentas. Álvares detém-se, com particular atenção, na relação das fontes termais que os japoneses têm em tão grande apreço e sobre as quais assinala que Esta terra é de muitas ribeiras, fontes e poços... Há aí caldas, e são desta maneira: é uma ribeira grande, e onde nasce é tão fria que não
A CHINA E A REVITALIZAÇÃO DAS ANTIGAS ROTAS DA SEDA – NOVO VETOR DO COMÉRCIO MUNDIAL73se pode crer, e um pouco mais abaixo, que é onde está a água alta, é tão quente em tanta maneira como é fria... e achais água morna, onde os mais dos homens pobres e velhos fazem cavas onde se deitam e se lavam obra de duas horas pela manhã e à tarde... As características da arquitectura japonesa não escapam aos olhos do cronista e estão bem registadas nos relatos de Álvares, que nos diz: As casas desta terra de Japão são baixas por caso dos ventos, e são bem-feitas e de tabuado todas, e são cobertas com telhas de pau com muitos penedos em cima por caso do vento, e não são pregadas... Têm repartimento de câmaras e antecâmaras, e câmaras onde têm suas varelas (oratório), na qual não dorme ninguém; estes sobrados são todos acolchoados com colchões de palha mui limpos e mui bem-feitos, nos quais ninguém entra calçado. Não têm estas casas nenhuma maneira de fechadura nem cadeados. Os primeiros portugueses a pisarem solo japonês não só foram também os primeiros europeus que os japoneses tiveram oportunidade de conhecer como foram os protagonistas da introdução da espingarda no Japão, a primeira arma de fogo que, com a pólvora, foi logo reproduzida em larga escala. Logo, é uma força de expressão, porque os japoneses antes disso tiveram de descobrir o segredo do parafuso, um pequeno grande pormenor que permitia que o tiro não saísse pela culatra. Descoberto o segredo, Tanegaxima, terra de metalúrgicos, a par do porto de Sacai, depressa desenvolveram a produção da arma que iria permitir a unificação do Japão. Arcabuzeiros em Tanegashima
74 À chegada dos portugueses, o Japão era um território dilacerado por guerras entre senhores feudais, os daimios, que se entretinham em escaramuças com os vizinhos para ampliarem os seus territórios através de lutas em que o imperador não tinha qualquer poder ou autoridade. Na posse da espingarda, Oda Nobunaga, um desses senhores, iniciou a subjugação dos daimios a um poder central num trabalho continuado por Toytomi Hideyoshi e acabado por Tokugawa Ieyasu. Reunificado o Japão, Ieyasu não entregou o poder ao imperador, mas passou a governar o Japão em nome dele, sob o título de xogun. É durante o período destes três líderes que os portugueses e o comércio luso-nipónico vai nascer, crescer e extinguir-se. É Japão, onde nace a prata fina, Que ilustrada será co a Lei divina. A extracção das minas da prata no Japão teve início em 1526, mas é em 1542, um ano antes da chegada dos portugueses a Tanegaxima, que a produção em grande escala se inicia. A prata era um dos bens preciosos requisitados pelos portugueses para as trocas no Oriente e será o suporte do trato luso-nipónico. Procurada em todo o Oriente, mas sobretudo na China, a prata que vinha da Europa era insuficiente e depressa se esgotou. Por seu lado, devido à acção nefasta dos piratas japoneses, o governo Ming da China tinha fechado os seus portos ao comércio com os nipónicos, pelo que o papel dos portugueses como intermediários nessas trocas foi providencial. Guarda de arcabuzeiros de Edo
A CHINA E A REVITALIZAÇÃO DAS ANTIGAS ROTAS DA SEDA – NOVO VETOR DO COMÉRCIO MUNDIAL75O comércio entre a China e o Japão, promovido pelos portugueses, era assim alimentado essencialmente pela prata japonesa com uma pequena contribuição de metal oriundo da Índia que servia depois na China para comprar a seda tão procurada no mercado nipónico. Segundo o prof. Norio Kinshishi, por voltas de 1580, os portugueses exportavam anualmente nos seus navios cerca de 20 000 quilos de prata do Japão e, no apogeu da sua produção, a prata japonesa, representava um terço da produção mundial. A primeira fonte de abastecimento de prata no Japão foram as minas de Iwami, as ditas Minas da Prata das cartas dos cartógrafos portugueses, descobertas em 1526 a sul da ilha Honxu. Em 1542 são descobertas as minas de Ikuno, Hyogo, na parte central da mesma ilha de Honxu e em 1608 as minas de Innai, Akita, no norte da ilha de Honxu. A par de outras de menor importância, estas eram as principais fontes de abastecimento. As minas de Iwami, por terem sido as primeiras e por estarem próximas do porto de Nagasáqui, o porto de exportação, assumiram particular importância no trato luso-nipónico e, pelo papel que desempenharam na história do comércio entre o Japão e o mundo, mereceram a classificação de Património Mundial da Humanidade em 2007. As minas de Iwami, no território do rico senhor Ouchi Yochitaca de Iamaguxi, o mesmo que recebeu por duas vezes o padre mestre Francisco Xavier, estavam, como todas as outras na alçada do poder central, a Tenka, que o alienava a troco de um tributo. As minas eram administradas por um intendente que cobria quer a exploração mineira, quer o território e a população que assegurava a mineração. A casa que controlava a exploração mineira obtinha avultados proveitos não só do minério, mas também em impostos sobre as terras e monopólio do arroz que era consumido pela população. As minas atraíam a população de todo o território, mas eram escrupulosamente controladas na entrada de arroz, chumbo e tabaco, assim como da saída da prata. Regidas pelas Leis Fundamentais das Minas, as populações tinham fácil entrada, mas difícil saída. A capacidade de atracção das minas alargava-se a todo o território japonês, mas o trabalho e condições de vida eram duríssimas a tal ponto que a média de esperança de vida dos mineiros quedava-se nos trinta anos. No período entre 1596 e 1623 a prata japonesa exportada atingiu cerca de 183 750 quilos e aproximadamente 1/3, 156 250 quilos, era exportada em navios portugueses. Será em Malaca que o padre mestre Francisco Xavier, através de Jorge Álvares, tomaria conhecimento da descoberta das Ilhas Nipónicas, e foi a este que pediu um relato pormenorizado do território e das gentes, relato esse que é uma pedra preciosa das memórias luso-nipónicas. Encantado com as novidades e também com o exemplo dos dois japoneses que com Álvares viajaram, o padre mestre Francisco Xavier planeou
76 de imediato uma viagem ao arquipélago com o sonho de evangelizar aquelas gentes. A 15 de Agosto de 1549, seis anos após a chegada dos portugueses ao Japão, Francisco Xavier chega a Cagoxima na companhia dos dois japoneses, já entretanto baptizados e destros na língua portuguesa. Serão Bernardo e Paulo de Santa Fé (de seu nome de baptismo) os primeiros intérpretes de um percurso que só será interrompido em 1639 com a expulsão dos católicos e a proibição da religião cristã. Durante dois anos e até Novembro de 1551, o padre mestre Francisco Xavier percorre o Japão e prega a lei da Santa Madre Igreja. De Satsuma, a actual Cagoxima, vai a Hirado e depois Iamaguxi, Sacai, Quioto, Funai – Oita dos dias de hoje –, terminando finalmente em Tanegaxima. Francisco Xavier e os seus companheiros lançam as bases da religião católica, mas também do frutuoso intercâmbio cultural que começou na religião e na língua portuguesa e estendeu-se por áreas tão díspares como linguística, pintura, música, cartografia, medicina, teatro, assistência social, puericultura, gastronomia, doçaria, moda, usos e costumes. Entre 1543 e 1639, ou seja, em escassos noventa e seis anos de presença em terras nipónicas, os portugueses, através sobretudo da Companhia de Jesus e dos padres jesuítas, realizaram uma revolução na sociedade japonesa e na cultura nipónica. Catequização dos jesuítas
A CHINA E A REVITALIZAÇÃO DAS ANTIGAS ROTAS DA SEDA – NOVO VETOR DO COMÉRCIO MUNDIAL77Desse trabalho que envolveu toda a população japonesa, dos chefes militares aos humildes lavradores, passando pelos daimios, samurais e comerciantes, resultaram importantes conquistas civilizacionais, como a elaboração do primeiro dicionário da língua japonesa, neste caso português-japonês (1603), da primeira gramática (Arte da Língoa Japoa, de João Rodrigues, em 1604), ou tão só os primeiros livros impressos no Japão em português, latim ou japonês romanizado. Entre as maravilhas do intercâmbio cultural conta-se a fundação e desenvolvimento da escola de arte cristã que introduz novas técnicas e temáticas na pintura japonesa, com a divulgação do conceito de perspectiva e de claro-escuro, ou da música que apresenta aos japoneses os compositores ocidentais, como o português António Carneiro, ou instrumentos de música, como a viola da gamba, o violino, e o órgão, depois vulgarizados. Na doçaria e gastronomia, o pão-de-ló (castela), os fios de ovos e outras especialidades, o escabeche e os fritos (tempuras) e até o pão (pan) inovam a sociedade japonesa nos seus hábitos e tradições. Na tecnologia, a introdução das armas de fogo – a mais importante de todas as transferências tecnológicas – ou o relógio, o primeiro que os japoneses conheceram e que fará deles importantes fabricantes e apreciadores das máquinas de medir o tempo, são exemplos desse aperfeiçoamento cultural introduzido pelos portugueses e pelos padres jesuítas. Para outros ainda, os que procuravam, mais do que curas para a alma, curas para o corpo, a mais moderna ciência cirúrgica introduzida, em Funai, pelo padre médico Luís de Almeida, fazia milagres e tinha tal fama que atraía japoneses de todo o arquipélago. Foi também em Funai que Luís Almeida lançou as bases de uma leprosaria e as primeiras casas para acolhimento de crianças abandonadas, especialmente meninas, onde eram administrados cuidados estranhos aos hábitos nipónicos como o aleitamento. Fruto desta intensa actividade na área médico-cirúrgica, o hospital central de Oita, a antiga Funai, leva hoje o nome do padre Luís de Almeida. Apoiados na confiança que os missionários jesuítas, a quem a coroa portuguesa entregara a evangelização do Japão, conquistavam sobre a população, os mercadores portugueses passaram a rumar anualmente o arquipélago em empresas bem preparadas e controladas pela coroa. Deste comércio nasce o território de Macau em 1557, a base que os portugueses fundam na costa chinesa para apoiarem o trato. Inicialmente vieram portugueses ao Japão em juncos chineses, embarcações ligeiras de pequena tonelagem, e em várias empresas por ano e sem qualquer controlo, mas cedo a coroa chamou a si o monopólio de tão rendoso comércio, impondo uma carreira anual que era distribuída a um capitão-mor ou licitada, conforme ditava o momento e a tesouraria. Com a carreira anual, o trato passou a ser efectuado em naus, ou, como lhes chamavam os ingleses, carracas, que eram
78 navios que tinham entre 600 e 1600 toneladas. Assim, por nomeação ou licitação, o capitão-mor da nau do trato era em simultâneo, e enquanto durava o comércio com o Japão, o governador de Macau, a autoridade portuguesa sobre o território e sua população. A nomeação ou licitação eram muito apetecidas porque o capitão-mor tinha direito a transportar, e por isso comerciar, 10% da carga..., uma pequena fortuna. Também o porto de destino em terras nipónicas nem sempre foi o mesmo. Inicialmente e em resposta às solicitações dos daimios que requisitavam a presença da nau do trato, ou por interposta solicitação dos missionários jesuítas, o término da viagem procurou portos diversos na ilha de Quiuxu, até se estabelecer definitivamente em Nagasáqui, porto de abrigo de excepcionais condições que ficava no feudo do daimio Omura Sumitada e cujo território foi doado à Companhia de Jesus. Além de ser muito abrigado de intempéries e demais adversidades naturais, o porto de Nagasáqui permitia a entrada de navios de grande tonelagem. A fidelização de um porto de chegada permitia também a fidelização dos comerciantes japoneses, que vinham anualmente comerciar com os portugueses, para além de assegurar todos os necessários apoios à nau, tripulação e guarnição. A nau do trato saía de Macau em Junho ou Julho, depois de adquirida a seda nas feiras semestrais de Cantão que tinham lugar em Dezembro e Maio, e chegava a Nau do Trato
A CHINA E A REVITALIZAÇÃO DAS ANTIGAS ROTAS DA SEDA – NOVO VETOR DO COMÉRCIO MUNDIAL79Nagasáqui em finais de Julho ou princípios de Agosto após um mês de viagem. Terminado o trato, rumaria de novo a Macau em finais de Outubro ou princípios de Novembro. Para quem conhece os japoneses e a sua maneira de ser e trabalhar não se espanta que fossem os missionários os mediadores do comércio entre portugueses e japoneses, porque dominavam a língua, porque mereciam a sua confiança e porque viviam entre eles. Ainda hoje a confiança é um factor fundamental no trato com os japoneses. A coroa desde sempre se preocupou por assegurar a exclusividade da evangelização nas terras descobertas de África e Índia sobre as quais Breves e Bulas garantiram entre 1418 e 1690 o direito do Padroado. Neste vasto espaço do globo, a Companhia de Jesus, por determinante acção de Francisco Xavier, depressa garantiu o monopólio da missionação no arquipélago nipónico. Mesmo depois da unificação das coroas de Portugal e Espanha, os reis Filipes confirmavam esta exclusividade advertindo o Vice-Rei de impedir frades espanhóis de entrarem na área exclusiva dos missionários portugueses, disposições que não eram acatadas pelos mendicantes sediados em Manila. Da mesma forma que se garantia a exclusividade do Padroado e a evangelização do Japão aos jesuítas, também a coroa proibia que os missionários se envolvessem no trato, determinação aliás secundada por alguns superiores da Missão. O facto é que para além dos Grumete
80 missionários estarem fortemente envolvidos na negociação das preciosas cargas enviadas da China, estes mesmos aproveitavam esse envolvimento para tirarem partido do seu ascendente no trato participando também no comércio. Por mais avisos e determinações que a coroa ou o Geral da Companhia fizessem saber, a participação dos jesuítas no comércio era essencial, pois a Missão, mesmo com o apoio da coroa que lhe atribuía rendas de várias fontes, nunca pôde prescindir dos rendimentos relativos ao comércio da nau do trato. Em ocasiões houve que, para mitigar essa evidência, os padres da Companhia recebiam dos mercadores rendas relativas ao serviço prestado na negociação, que certamente era desejada pelos próprios japoneses, conhecendo nós o seu apego à confiança no negociante e a maneira calorosa como os daimios cristãos recebiam os padres. Para além dos bens transacionados, os jesuítas recebiam de Macau outras mercadorias necessárias para a Missão, como azeite de Portugal ou queijos alentejanos, de acordo com os registos. Do lado japonês era a seda chinesa a mercadoria ambicionada, fosse em peças e cortes já tecidos, fosse em rama, como consta nos preciosos biombos namban, imagens fidedignas das trocas e intercâmbio luso-nipónico. Para além da seda, os biombos namban dão-nos conta de um infindável número de artigos que a nau trazia do continente com destino ao mercado japonês entre arcas, talhas ou caixas que continham preciosos produtos, assim como animais raros, exóticos ou de excelência, entre pavões, papagaios, cães, camelos, tigres ou cavalos. Dos memorandos, entre a seda de vários tipos, recolhemos uma lista de produtos, aqueles que não estão à vista nos biombos e que eram por certo transportados nas caixas e talhas, como seja no caso da lista de 1600, ouro, almíscar, algodão, chumbo, mercúrio, pau da china, cerâmica, ruibardo (imagine-se), melaço, açúcar. Era a seda crua o grosso da mercadoria, que atingia entre 500 a 600 picules (1 picul = 62,5 quilos) que a um custo de 80 taéis por cada picul era transaccionado entre 140 a 150 taéis por unidade. A mesma nau embarcava entre as preciosas cargas 1700 a 2000 peças de seda tecida que alcançavam custos entre duas a três vezes o preço de compra. Além da seda, merece especial destaque o infidável números de peças de porcelana. No trato, as naus eram sujeitas a impostos para a coroa de 8,5% em Goa ou 7,5% em Malaca, acrescidos da taxa de 1000 ducados em Nagasáqui, primeiro, a favor da Companhia de Jesus, e, depois, do xogun, mas no seu conjunto esse mesmo trato era tido como dos mais rendosos em todo o hemisfério português. A unificação do Japão, a paz política e de certa forma social, imposta pelos novos chefes militares de Nobunaga a Hideyoshi, vão proporcionar o aparecimento de uma classe de mercadores estimulada pela riqueza fomentada pelo comércio
A CHINA E A REVITALIZAÇÃO DAS ANTIGAS ROTAS DA SEDA – NOVO VETOR DO COMÉRCIO MUNDIAL81internacional. Para além dos daimios, as classes guerreiras dos samurais e os ricos mercadores, ávidos de mercadorias do exterior, vão ser sensíveis ao consumo de bens de luxo ou exóticos dos quais as roupas de seda eram as mais cobiçadas. Pelas mãos dos mercadores, os japoneses mais abastados vão promover o aparecimento de uma infinidade de ofícios que respondem ao seu apurado gosto e requisitos que se reviam nos modelos namban. Requintados trajes onde não faltavam as capas portuguesas, delicadas peças de laca que também alimentavam o mercado internacional, porcelanas recriadas em Arita depois da sua introdução após a invasão da Coreia e acalentadas pelas peças chinesas antes trazidas pelos portugueses, pinturas renovadas em estilo e técnica depois da aprendizagem dos modelos ocidentais, ou mesmo novas formas de arte como a música ocidental ou o teatro. O trato luso-nipónico impôs uma moda, formou elites na música e na pintura, cativou o apurado gosto dos japoneses pela gastronomia e pela doçaria. A Renascença japonesa, materializada no mercado nacional, na prosperidade dos comerciantes e nas artes renovadas, proporcionada pelo comércio internacional e apreendida dos ocidentais mentores desse comércio, irá fomentar após o encerramento do Japão ao trato luso-nipónico em 1639, o refinamento das artes com a criação de nova poesia, haiku, teatro musicado, kabuki, gravuras, ukioé, cerimónia do chá, chanoyu, entre outras e todas fruto desse desenvolvimento cultural protagonizado por japoneses, mas promovido pelos namban. Os exóticos Nambans
82 Apesar da descoberta de outras minas um pouco por todo o país, apesar do apuramento e desenvolvimento da siderurgia introduzido da China através da Coreia nesse período, e que facilitava a exploração e escavação das galerias, apesar de por volta de 1590 os portugueses introduzirem no Japão uma nova técnica de separação da prata do cobre, a produção decaiu irreparavelmente nos últimos anos da presença portuguesa nos mercados japoneses. No fim do século XVI e início do século XVII, os chefes militares Hideyoshi e Ieyasu passaram da euforia de Nobunaga para uma retracção e posterior oposição à presença dos padres da Companhia e depois dos comerciantes que os acompanhavam, perseguição materializada nos éditos anti-cristãos de 1587 e 1614. O crescimento da população católica, mais submissa aos padres do que ao poder nipónico, e que fazia perigar a autoridade do xogun, a intriga e rivalidade dos recém-chegados poderes das nações anti-católicas, holandeses (1600) e ingleses (1613), que minavam a boa vontade dos japoneses para com os portugueses, as lutas internas entre os missionários das ordens mendicantes e os padres da Companhia de Jesus, constituíram factores determinantes para a definitiva expulsão dos portugueses em 1639. Não fossem esses factos políticos, certamente o trato luso-nipónico teria tomado outro rumo, porque as minas da prata japonesa não estavam esgotadas ainda, mas a sua produção decaía irremediavelmente. Prática do jogo de canas
A CHINA E A REVITALIZAÇÃO DAS ANTIGAS ROTAS DA SEDA – NOVO VETOR DO COMÉRCIO MUNDIAL83Apesar de, como se disse, o Japão ter chegado a produzir 1/3 da prata de todo o mundo, nas Minas da Prata, frente ao continente, mas de costas viradas para a China, a produção argentífera na “costa da sombra” caiu em franco declínio na década de 40 de Seiscentos e a produção da prata japonesa acabou por coincidir, grosso modo, com a presença dos mercadores portugueses. Da sua comercialização nasceu, pelas mãos portuguesas, um dos mais intensos e frutíferos intercâmbios comerciais e culturais que estenderam ao Extremo Oriente a “velha rota da seda”, agora reinventada nos métodos. Através do comércio, os japoneses assimilaram novas formas de vida, novos conhecimentos que lhes proporcionaram, depois de recriados, um desenvolvimento social e cultural assinalável, sobretudo nas primeiras décadas do xogunato. Só o duradouro isolamento motivou o declínio do regime que viria a ser substituído por um outro ciclo de desenvolvimento também assente no intercâmbio tecnológico e comercial, seja o caso evidentemente da Revolução Meiji, a partir de 1868, e da qual os portugueses, apoiados uma vez mais em Macau, foram um dos relevantes parceiros dos japoneses. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALDEN, Dauril (1996), The Making of an Enterprise, Stanford University Press, California. BOURDON, Léon (1993), La Compagnie de Jésus et le Japon – 1547-1570, Centre Culturel Portugais de la Fondation Gulbenkian, Paris. BOXER, Charles R. (1993), The Christian Century in Japan – 1549-1650, Carcanet Press Ltd, Manchester. CARVALHO, Eduardo Kol de (2006) Mártires do Japão, Editorial A. O., Braga. CARVALHO, Eduardo Kol de (2010), O Império da Imagem, Editorial Tágide, Lisboa. KINCHICHI, Norio (1994), Produção e Circulação da Prata no Japão durante o Século Cristão, in O Século Cristão do Japão, CNCDP, Lisboa.
A CHINA E A REVITALIZAÇÃO DAS ANTIGAS ROTAS DA SEDA – NOVO VETOR DO COMÉRCIO MUNDIAL85 CAPÍTULO V MÚSICA E INSTRUMENTOS MUSICAIS AO LONGO DA ROTA DA SEDA, NA CHINA | Shao Xiao Ling / Enio de Souza Na Rota da Seda, a convivência musical entre diferentes culturas marcou um registo relevante na história da humanidade que é testemunhado, ainda hoje, pela prática de instrumentos e géneros musicais de diferentes culturas dispersas, por onde este caminho atravessou. Sendo uma rota extensa, em área e em tempo, a Rota da Seda não deve ser vista com identidade única para revelar uma época ou uma linha geográfica específica. A descoberta do túmulo do marquês Zeng Hou Yi (c. 433 a. C.), em 1978, foi determinante, tendo-nos dado a conhecer um considerável conjunto instrumental antigo, datado do período dos Estados Combatentes (481-221 a. C.). É, também, de considerar o incremento havido na Rota da Seda durante o período Han Ocidental (206 a. C. – 9 d. C.), através da expedição do enviado imperial Zhang Qian e, consequentemente, a adoção pela China de vários géneros musicais, de dança e de espécies instrumentais, através do Planalto Central. De igual modo, o mesmo irá suceder durante a dinastia Jin (265-420), sendo alguns dos instrumentos adotados neste período representados em pinturas murais existentes nas grutas de Mogao, na província de Gansu e, também, em túmulos ancestrais de altos dignitários chineses. Durante o período Wei do Norte (386-534), o intercâmbio sociocultural com o exterior intensifica-se, permitindo, assim, a introdução de novas crenças relacionadas com a disseminação do budismo pelo norte da China antiga. A partir dos períodos Sui (581-618) e Tang (618-907) e dinastias subsequentes, é notório os contactos entre etnias fronteiriças com a Rota da Seda, o que permitirá um auspicioso e próspero incremento das relações Ásia e Europa nos setores da economia, da diplomacia e, implicitamente,
86 do setor cultural, com destaque para a introdução de novas espécies e géneros musicais, segundo a historiografia chinesa. Na atualidade, a Rota da Seda é uma realidade que tem proporcionado o intercâmbio cultural entre os povos através da arte sonora, eleita como a sua linguagem universal, quase sem preconceitos. A circulação de mercadorias e bens culturais é uma tradição milenar na civilização chinesa, prin-cipalmente se considerarmos, por um lado, o do-mínio exclusivo na tecnologia de produção da seda desde o período Yangshao (c. 5000 a. C. – 3.000 a. C.).20; a implementação e desenvolvimento da agri-cultura; o elaborado trabalho com o mitológico jade, desde o período neolítico; o desenvolvimento da tecnologia na produção de peças em bronze, ocorrida durante as dinastias Shang (c. 1600 – 1046 a. C.) e Zhou (1045 – 221 a. C.), entre outros. Por outro, a par desta gama de produtos exóticos, pro-duzidos e elaborados por culturas e reinos pré-di-násticos, há um elemento importante a considerar, relacionado com culturas nómadas, cujo animal de eleição era o cavalo21 e, como tecnologia de defesa e ataque, faziam uso do arco e da flecha22. Dizi________________ 20 In 1926, Tsinghua archeological team digged out a silkworm cocoon in half in Yangshao culture sites, which provided the sound evidence that China is the origin of silk, dating back to 4000 and 3000 BC. In 1958, the silk fabrics were found in Qingtai sites of Zhejiang and Henan provinces. This archeological discovery bridged the gap that there wasn’t silk in Central China in Neolithic Period, pushing the time of making and using silk in China 1000 years backward. Another discovery of silk ribbon and silk yarn and in Qiansanyang culture sites was in 2750 BC, 200 years earlier than the legend of Silk Goddess (Luozu as the wife of Yellow Emperor, also the Mother of Chinese nation, was regarded as Silk Goddess). Fu Mengzi In Wei Li (2017), “Construction of Humanistic Silk Road with Sharing Cultures and Intercommunicating Souls Based on Chinese Civilization Wisdom”, Journal of Research & Method in Education, Volume 7, Issue 2, pp. 1-5, consulta, 12.08.17, . 21 For thousands of years, it is the crystallization of the Chinese working people’s understanding of horse culture. During China’s Shang (16th Century – 11th Century B.C.) and Zhou (11th Century B.C.-256 B.C.) dynasties, riding horses and chariots was one of the six skills. During the Spring and Autumn period (770 B.C. – 476 B.C.), horse racing became very popular. Wa Chunfang (2014), Beautiful China, Beijing Review, consulta, 07.08.2017 . 22 Sometime around 600 bce, horseback riding had begun to spread on the Eurasian steppe, and by the 400s bce, nomads on the north border of the agricultural zone had learned to combine horsemanship with archery to become masters of the horse as a military machine. It is about this time, when these cavalries emerged, that our story of organized trade and communication along the steppe thoroughfares begins, for it was nomads on the Central Asian steppe who brought West and East together. Xinru Liu (2010), The Silk Road in world history, Oxford, University Press, p. 1.
A CHINA E A REVITALIZAÇÃO DAS ANTIGAS ROTAS DA SEDA – NOVO VETOR DO COMÉRCIO MUNDIAL87Assim, há que ter em conta dois fatores relevantes: o primeiro poderá estar relacionado com as técnicas de guerra e de invasão utilizadas pelos povos nómadas que serão adotados por reinos rivais, durante o período dos Estados Combatentes. A adoção, sobretudo, de técnicas de guerra terá contribuído para a unificação de algumas regiões da China dinástica. O segundo fator, também, por influência de tribos nómadas que, com práticas de invasões, por ataque, a territórios pertencentes a outras culturas, incluindo reinos da China23, irão contribuir para o extravio e disseminação de mercadorias raras e exóticas, acrescido de material cultural, por diversas regiões da Eurásia (Liu, 2010, p. 1), dando seguimento às diversas rotas internas já existentes e possibilitando, assim, a criação de novas rotas externas que, mais tarde, sobretudo a partir da dinastia Qin (221-206 a. C.), irão contribuir para um maior desenvolvimento dessas mesmas rotas, sendo a cidade de Xian um dos pontos centrais. Consequentemente, a par da difusão e circulação dessa gama de mercadorias exóticas, o intercâmbio cultural entre a Ásia – com especial destaque para a China – e diversos pontos ocidentais intensificou-se24, privilegiando a música, os instrumentos musicais e a dança. Assim, na Rota da Seda, a convivência musical entre as diferentes culturas marcou um registo relevante na história da humanidade que é testemunho, ainda hoje, da prática de géneros musicais, de dança e de espécies instrumentais de diferentes culturas e etnias. Assim, a partir de Changan (atual Xian), vários caminhos comerciais e culturais se desenvolveram, abrangendo as regiões de Gansu e Xinjiang, na China; da Ásia Central a Ásia Ocidental, chegando mesmo a algumas cidades do Mediterrâneo. Além disso, a Rota da Seda transita há mais de dois mil anos da história da China antiga, ou seja, antes mesmo da dinastia Qin, com acentuado incremento nas dinastias subsequentes. Relativamente à origem da Rota da Seda, o investigador Meicun Lin (2006) argumenta o seguinte: A rota da seda foi formada inicialmente nas Dinastias Qin e Han, e era uma via que através do comércio estimulava ________________ 23 In the fifth century bce, seven agricultural states in what is now eastern China were fighting each other for supremacy. In addition to fighting with each other, three northern states, the Qin, Zhao, and Yan, also had to cope with frequent incursions of nomadic cavalry. Nomads from the steppe raided villages and towns, looting millet and wheat, the major grains of north China, and silks, which were common in China but considered rare and precious among nomads on the western steppe. Xinru, ibid. p. 1. 24 Si la Route de la Soie a permis de nombreuses transactions diplomatiques ou commerciales, elle a aussi contribué à la diffusion des croyances et des idées. Elle a suscité des échanges et influences artistiques. Les marchands et pèlerins qui se rencontraient au gré des caravanes débattaient de leurs coutumes et religions et les transmettaient d’oasis en cités caravanières. À côté des marchands, missionnaires et pèlerins, bon nombre de voyageurs circulent en quête de savoirs [Cultura]. Haumont, Dominique, Linden, Carla Van (2009), La Route de la Soie. Un Voyage à travers la vie et la mort, Europalia, Catalogue, p. 20.
88 também o intercâmbio cultural. O seu percurso foi a partir do Rio Amarelo e Yangtze e passa pela Índia, Ásia Central e Ásia Ocidental, fazendo ligação, ainda, com a Norte da África e a Europa (p. 4).25 A Rota da Seda testemunhou mudanças histórico-culturais significativas em diversas etnias. Relativamente à cultura musical chinesa, a descoberta arqueológica do túmulo do marquês Hou Yi (c. 433 a. C.)26, na região de Zeng, em Suizhou, na província de Hubei, em maio de 1978, foi determinante e deu-nos a conhecer um considerável conjunto instrumental antigo, datado do período dos Estados Combatentes, ou seja, pré-dinastia Qin. Deste importantíssimo conjunto instrumental antigo – cerca de centena e meia – destacam-se dois carrilhões, dos quais um é constituído por 64 sinos em bronze, que produzem dois sons e, outro, constituído por 32 pedras sonoras. A par destes carrilhões, foram encontrados outros instrumentos, como flautas, cítaras, tambores, órgãos de boca, entre outros. Relativamente ao estudo do temperamento27 (afinação) dos sinos em bronze que integram este espólio arqueológico, verificaram-se diferentes organizações intervalares, relacionadas com a série harmónica pentatónica, a diatónica e, ainda, intervalos de três quartos de tons. Esta organização de temperamentos dos sinos é deveras significativa, uma vez que sugere a hipótese de cruzamentos musicais ocorridos entre a China antiga e regiões interligadas pela Rota da Seda. Assim, vários estilos musicais fundiram-se, como, por exemplo, a fusão do sistema musical antigo, makam, que foi disseminado em diversos espaços geográficos, nomeadamente a região de Xinjiang (Oeste da China); em alguns países árabes, como o Irão e o Iraque; na Turquia e no Azerbaijão (Song & Li, 2010, p. 5). Simultaneamente, este espólio arqueológico instrumental serviu, também, de base para que fossem identificadas espécies originais e, ainda, novas espécies instrumentais, adotadas a partir de culturas limítrofes, entre as dinastias Qin e Han. Zhou Jingbao, no seu livro Sichou Zhilu de Yinyue Wenhua (Cultura Musical na Rota da Seda)28, argumenta que até à dinastia Qin, mais de doze espécies de instrumentos chineses foram introduzidos na região de Xiyu29, dos quais se destacam o sheng, o huang, o qin, o se, o yu, o lun, o di, o gu e o zhong. Sabe-se, ________________ 25 Tradução livre dos autores. 26 Wang Hongxing (2007), Tomb of Marquis Yi of Zeng: Ritual-and-music Civilization in the Early Warring States Period, Beijing, Cultural Relics Press. 27 Termo utilizado na afinação (temperamento) de sinos, metalofones, pedras sonoras, etc. 28 Tradução livre dos autores. 29 Espaço geográfico compreendido entre a atual Região Autónoma de Xinjiang; regiões da Ásia Central e Ocidental e, ainda, regiões do Leste europeu.
A CHINA E A REVITALIZAÇÃO DAS ANTIGAS ROTAS DA SEDA – NOVO VETOR DO COMÉRCIO MUNDIAL89também, que o domínio de execução do sheng e do huang era já comum entre os povos desta região (Zhou, 1988, p. 36). Em contrapartida, diversos instrumentos musicais foram introduzidos na China antiga, em épocas distintas, como é o caso do shu konghou (harpa vertical de cordas beliscadas), proveniente do Egito, introduzida na China através da Pérsia, antes da dinastia Han; do santur (cordas percutidas) e do tongbo (per-cussão) de origem Assíria, e do rawap (cordas beliscadas), de origem Árabe. Todos estes ins-trumentos foram introduzidos na China através da Ásia Central, durante o período das dinastias Qin e Han (Song & Li, 2010, p. 5). Ainda no período que antecede a dinas-tia Qing, povoações que integravam a etnia Qiang, no noroeste da província de Sichuan e na parte oriental fronteiriça com o Tibete, fa-ziam uso dum tipo de flauta com três orifícios, produzida em osso ou madeira, denominada qiang di. Este tipo de flauta é referenciado nos poemas de Li Bai e de Wang Huanzhi que associam o instrumento às odes de batalha ou cenas de viagens, fora do planalto central da China antiga (Song & Li, 2010, p. 43). De considerar também é a dimensão que a Rota da Seda atinge durante período Han Ocidental, quando o imperador Wudi envia embaixadores a regiões limítrofes, como Tianzhu (atual Índia), Pérsia e outros pontos da Ásia Central, cujo principal objetivo era o de estabelecer intercâmbios económicos, culturais e artísticos. Paralelamente a este intercâmbio, a miscigenação, por casamento entre membros da corte Han com nobres de culturas nómadas da Ásia Central, nomeadamente os Wusun, os Yuezhi e os Xiongnu, irá contribuir para a difusão da cultura musical chinesa em regiões que extrapolavam o Planalto Central da China antiga, levando a que as populações das culturas Xiongnu, Yuezhi e Wusun adotassem géneros musicais de cerimoniais da etnia Han. Dos enviados imperiais, durante a dinastia Han, destaca-se o embaixador Zhang Qian, cuja importante missão diplomática desempenhada na Ásia Central muito contribuiu para a introdução e adoção pela China de variáveis géneros e instrumentos musicais e dança. Destes géneros musicais adotados destaca-se a Huqin
90 forma musical Mohedoule30 que irá, de certo modo, influenciar a produção musical militar. O Mohedoule é uma conjugação melódica diversificada, em forma de suíte, que apresenta ritmos, melodias e timbres diferentes, quando comparada com as formas musicais tradicionais da dinastia Han. Em paralelo com o Mohedoule, foram também adotadas algumas espécies de instrumentais de sopro, designadas por hujiao hengchui. Hujiao é a designação genérica dos instrumentos de sopro, adotados a partir do exterior, no período da China antiga e o hengchui poderá ser uma evolução da flauta qiang di que, em vez de três, passa a ter quatro orifícios e, mais tarde, sete ou mesmo de nove (Song & Li, 2010, p. 43). Outro instrumento musical introduzido na China, no período Han Ocidental, é o bili – espécie de flauta de bisel – designado também por jia guan ou guan. O corpo do instrumento é tubular, constituído em bambu ou madeira. Contém de sete a nove orifícios e a sua posição de execução é vertical. Iconograficamente, o instrumento é representado nos frescos budistas das grutas de Kumtura, na Região Autónoma de Xinjiang, comprovando, assim, a sua introdução na China durante a dinastia Han. Tornou-se um instrumento importante durante o período Tang e, mais tarde, na dinastia Song, o bili foi considerado um dos instrumentos principais, utilizado nas formas musicais Guchui Yue31 e Jiaofang32 Yue33 (Ibid., pp. 43-57). Alguns textos clássicos chineses relatam espécies instrumentais adotadas durante a dinastia Han Ocidental, como é o caso da enciclopédia Tong Dian, compilada durante a dinastia Tang e que narra a história institucional da China antiga. A obra contém um manancial de informações sobre a arte sonora, chegando ao pormenor de nos relatar o apreço que o imperador Lingdi, do período Han, tinha pelo shu konghou (espécie de harpa). O texto descreve que o corpo do instrumento era em formato curvo e alongado, contendo 22 cordas, sendo a sua execução em posição vertical, entre os braços. A par dos registos sobre o instrumento em fontes clássicas, é também de considerar a sua representação iconográfica nas pinturas murais das grutas de Mogao, situadas na província de Gansu, consideradas como ponto estratégico da Rota da Seda e, ainda, como um dos esplendores da arte budista, na qual o shu konghou é representado em forma arredondada, ________________ 30 Zhang Qian, ambassadeur de l’empereur Wu, envoyé vers l’Ouest, aurait rapporté des instruments à vent et des percussions ainsi qu’une Musique « barbare » dont le nom transcrit en chinois n’a aucun sens Mohedoule. Trebinjac, Sabine (2008), Le pouvoir en chantant: une musique d’Etat... impériale, Nanterre, Société d’ethnologie, p. 84. 31 A forma musical criada a partir da dinastia Han para os agrupamentos de percussão e sopro (Miao, Ji & Guo, 1984, p. 125). 32 The huge music bureau of the court, such as “Jiaofang”, was known to have in its employment thousands of musicians and dancers for daily performing duties. Yaokun Yang (2014), An Analytical Study on Performance Practices, Bloomington, Abbott Press, pp. 130-131. 33 Jiaofang Yue é um estilo popular de Yanyue, desenvolvido na corte da dinastia Song (Ibid., p. 193).
A CHINA E A REVITALIZAÇÃO DAS ANTIGAS ROTAS DA SEDA – NOVO VETOR DO COMÉRCIO MUNDIAL91possivelmente de origem assíria, e em formato angular, provavelmente originária da Asia Ocidental (Zhou, 1988). Em fontes clássicas da dinastia Han, nomeadamente no dicionário Shi Ming, de Liu Xi, do período Han Oriental, há diversos registos sobre o cordofone dedilhado, denominado pipa. Liu Xi explica que a designação do instrumento – pipa – segundo tradições chinesas, está associado ao próprio som reproduzido pelo instrumento: quando a corda é impelida, produz o som “pi”, quando retraída, produz o som “pa”. Também a pipa está documentada na ode de Fu Xuan, poeta da dinastia Jin, e ainda, no livro sobre os termos musicais antigos, de Wu Jing, do período Tang. Ambos os autores consideram que a execução da pipa poderá ser interpretada como um elo de ligação cultural e diplomático, consequência de casamentos entre membros da nobreza chinesa com elementos de outras culturas da Ásia Central, como, por exemplo, o casamento do imperador Wudi, da dinastia Han, com uma princesa nómada de Wusun, assim como o casamento de princesas Han com chefes tribais de culturas nómadas, como a Wusun e a Xiongnu. A denominação pipa foi, também, utilizada para outros instrumentos de cordas dedilhadas, do mesmo período sendo a pipa, possivelmente, a precursora de alguns dos instrumentos de cordas dedilhadas, na China, como, por exemplo, o ruan, o zhongruan, o liuqin, que poderão ser considerados como sendo da família de instrumentos de cordas, denominado ruan xian. Verifica-se, contudo, que ao longo dos tempos a sua forma e denominação sofreram alterações. Assim, a han pipa difere da pipa introduzida nos períodos que decorrem entre as dinastias Jin e Wei e as dinastias Sui e Tang. Relativamente à han pipa, o pescoço do instrumento é reto, a caixa acústica, circular, contendo doze trastes e quatro cordas, consoante informação do poeta Fu Xuan. Quanto à pipa, o pescoço do instrumento é voltado para trás, em curva de 180º e a cabeça contém decoração floral sugerindo um morcego estilizado. O seu corpo é em formato piriforme, prevalecendo, até a atualidade, com a mesma forma e denominação. Ainda em relação à pipa, segundo a obra Xin Tangshu ( , nova história da dinastia Tang), produzida durante o período Song, confirma que a Pipa
92 pipa foi introduzida na China, a partir da Ásia Central, entre as dinastias Qin e Han, sendo designada qin hanzi. Nos anais oficiais da história da dinastia Tang (Sui Shu, Yinyue Zhi, ), capítulos 13, 14 e 15, é relatado o uso corrente da pipa no género Yanyue das cortes de Sui e Tang (Wei, 621-636). De acordo com vários investigadores, a pipa não só era utilizada como instrumento principal na música praticada no império Guizi34, mas também dos povos da cultura Tianzhu35. Essas práticas musicais continham grande riqueza tímbrica, influenciada por melodias árabes e persas, tendo, também, sofrido forte influência do budismo que atinge a sua expansão, na China, a partir do século terceiro (Liu, 2007; Song & Li, 2010). É neste contexto que assistiremos à introdução de vários instrumentos musicais de percussão, relacionados com cerimoniais budistas, tais como, o dabo, o xing (pengling) e vários tipos de gongos (luo) e de címbalos (bo). O período dinástico Jin e Wei representa uma época de turbulência e de guerras e, consequentemente, dum acentuado movimento migratório, o que vem, de certo modo, contribuir para a confluência de diferentes culturas entre a China antiga e as regiões exteriores, na faixa da Rota da Seda. É neste contexto intercultural que o budismo se propaga com grande pujança. A introdução da música budista na China antiga terá ocorrido, provavelmente, durante o reinado do imperador Wudi, na dinastia Han Ocidental, quando o embaixador Zhang Qian estabelece os primeiros contactos com culturas nómadas das regiões periféricas do Oeste da China antiga. Em 121 a. C., o budismo já estava implantado nos povos da cultura Yuezhi36 e Guizi e, a partir destas regiões, a escrita e doutrina budistas foram introduzidos na China através do Planalto Central, conforme relata Wei Shou no seu texto histórico sobre a dinastia Wei do Norte, Weishu, , 554 d. C. (Ikeda, 2009; Song & Li, 2010). Nas dinastias Jin e Wei, do Norte e do Sul, o budismo prevaleceu nas regiões fronteiriças, tendo-se porém expandido rapidamente pelo corredor de Hexi, importante trecho da Rota da Seda. Durante este período, as cortes Jin e Wei, do Norte e do Sul, adotam e fomentam a crença no budismo levando a que o imperador Wu Liang do Sul, de nome próprio Xiao Yan (464-549), adotasse o budismo como religião oficial do seu reino (Zurcher, 2013; Song & Li, 2010). Com o florescimento do Budismo na China, a partir do século III, é bastante significativo o surgimento de templos, santuários e caves repletos de esculturas e pinturas murais relacionados com cenas budistas que, consequentemente, irão influenciar a criação artística local quer ao nível da sensibilidade, quer da estética ________________ 34 O império Guizi incluía as regiões atuais de Xinhe, de Shaya, de Kucha e de Baicheng. 35 Antiga Índia. 36 Mais tarde, houve ramificação de Yuezhi para o império Cuchana e o reino Kroraina.
A CHINA E A REVITALIZAÇÃO DAS ANTIGAS ROTAS DA SEDA – NOVO VETOR DO COMÉRCIO MUNDIAL93(Poceski, 2014; Warikoo, 2016). Exemplos dessa dimensão da difusão do budismo na China são as repre-sentações iconográficas budistas existentes em grutas das regiões de Kucha, Baicheng e Turfan, situa-das na província de Xinjiang, regiões estas que mantinham estreita ligação à Rota da Seda (Song & Li, 2010, p. 85). Deste modo, poder-se-á con-siderar de extrema importância o re-gisto de cerimoniais budistas nestas representações, nas quais abunda o esplendor da música budista, sobre-tudo no reino de Guizi (Guizi Yue), atual Kucha. Guizi foi um antigo reino, estrategicamente situado no noroeste da China, importante centro sociopolítico, económico e cultural que inte-grou a Rota da Seda e fomentou o diálogo entre a China antiga e o Ocidente. Foi, também, um dos mais significativos centros de difusão e interpretação do budismo, onde figuras de destaque, com estreita ligação ao budismo, como “os monges Kumarajiva, Fotudeng e Dharmaraksa, ali permaneceram” (Wang in Poceski, 2014, p. 428). Neste contexto, é deveras significativo o testemunho iconográfico contido nas pinturas murais das grutas de Kizil, com representação de cerimoniais budistas, nos quais a música, os instrumentos música e a dança – Tiangong Jiyue e Feitian37 – são uma constante. Importante será notar que nos instrumentos musicais contidos nos frescos de Kizil está patente a junção de instrumentos musicais originários do Planalto Central da China antiga, de Tianzhu, da Pérsia e da própria região de Guizi. Os registos nos anais históricos das dinastias Sui e Tang, designadamente o Suishu-Yinyue Zhi (581-618), o Tongdian (801), o Tang Liudian (722-739) e o Xin Tangshu (1043-1060 d.C.), relatam dezoito espécies de instrumentos musicais diferentes, utilizados em Guizi, dentre os quais se destacam: o sougu (pandeiro), o laba (trompete), a suona (charamela), o wu xian (alaúde), o di (flauta), o ruan xian (Han pipa), o pai xiao (flauta de Pan), o pengling (crótalos), o bo (címbalos) e o ________________ 37 Nos textos clássicos budistas, Tiangong Jiyue e Feitian referem-se aos músicos que habitavam o paraíso e adoravam Buda através de performances musicais, dança e oferenda de flores. Shu konghou
94 Shu Konghou (harpa), (Huo, 1989). Este intercâmbio cultural, ocorrido durante um dos períodos da Rota da Seda, através da música, de-monstra a circulação harmoniosa do conhecimento entre culturas distin-tas da Ásia e do Ocidente. Nas dinastias posteriores, no-meadamente no período de Sui e Tang, a devoção budista passa a ser incorporada no cerimonial de corte, segundo determinação imperial (Zurcher, 2013). Data também desse período a intensificação dos con-tactos entre diferentes etnias ligadas à Rota da Seda. Estes dois momentos da história dinástica chinesa são conside-rados como sendo de grande prosperidade quer nos setores da economia e da diplomacia, quer no setor cultural. Relativamente à importância da música de matriz budista desse período, refere-se que o imperador Yangdi, da dinastia Sui, ordenou ao músico Baiming Da – músico da região de Guizi – que criasse 28 tonalidades baseadas nos 7 tons utilizados por Su Dipo (natural da antiga região de Guizi). Mais tarde, no reinado do imperador Xuanzong, da dinastia Tang, também foi criado um estilo de música e dança budistas denominado Nishang Yuyi (Jie, 2010, p. 22), tendo, como base, a música indiana de origem brâmane. Essa criação musical é, também, uma combinação de ideais taoistas (Song & Li, 2010, p. 77). Para o mesmo período, Erik Zurcher, na sua investigação sobre budismo na China, refere, também, a existência de tradição religiosa e filosófica taoista em atividades budistas (Zurcher, 2013, p. 105). A par da música de corte – yayue – a música considerada folclórica – yanyue – foi também bastante desenvolvida no período Sui e Tang. Nessa altura, foram introduzidos na China diferentes estilos, formas, géneros, instrumentos musicais e danças provenientes de culturas limítrofes tendo, consequentemente, havido alguma miscigenação, adaptação ou mesmo transformação relativamente à música na China. Contudo, esta nova adoção musical passou a ser considerada como identitária da música chinesa, na sua amplitude, sobretudo na música folclórica, denominada yanyue. Esta forma musical passou, então, a integrar e animar festejos populares e banquetes de corte. De referir, também, alguns géneros musicais do período Han, adotados e recriados durante a dinastia Tang, como, Ruan
A CHINA E A REVITALIZAÇÃO DAS ANTIGAS ROTAS DA SEDA – NOVO VETOR DO COMÉRCIO MUNDIAL95por exemplo, o xianghe38 e o daqu39, que adquiriram formas próprias, numa espécie de revivalismo musical. Também o período Tang absorveu re-pertórios de música e dança de etnias estrangeiras no Oeste da China antiga, nomeada-mente da cultura Gaochang, na província de Xinjiang e, da cultura Guizi, permitindo, as-sim, a criação de suítes com diversos movimentos que inte-gravam música, dança e poesia. Muitos dos instrumentos utili-zados durante o período Tang, nomeadamente no género daqu – gu (tambores), tongbo (címbalo de cobre), fangxiang (um conjunto de metalofone), pengling (crótalos), zhazheng (cítara com arco), shu konghou, pipa, wuxian, di, xiao, bili, entre outros – (Song & Li, 2010, pp. 85-97), têm a sua representação iconográfica nos frescos das grutas da região de Dunhuang, província de Gansu, e são considerados como um verdadeiro manancial para o estudo e compreensão da música chinesa, do seu instrumental e, também, da dança durante o período Tang. Toda esta representação está imbuída do espírito budista e, simbolicamente, relaciona-se com cenas da vida celestial e com a vida terrena. De realçar, são os registos de partituras antigas, algumas com indicações sobre interpretação de espécies instrumentais antigas e indicações teóricas, contidos nos frescos das grutas da região Dunhuang, muitas delas relacionadas com o budismo (Zheng, 1989). Nas dinastias subsequentes à Rota da Seda, continua a ser fundamental para esse milenar intercâmbio musical. Assim, durante o período Song, novas formas musicais e espécies instrumentais foram adotadas e, por vezes, ________________ 38 Two related genres of Han dynasty (and post-Han) entertainment music cited in early Chinese sources are xianghe ge and qingshang yue. While our knowledge of these genres is limited and no music from this period survives, their general nature at least has been recorded, together with occasional references to instrumentation. Xianghe ge (‘harmonious song’) appears to have been a type of ‘art song’ in vogue among scholar officials and merchants in urbanized areas of North China. Thrasher, Alan Robert (2008), Sizhu Instrumental Music of South China: Ethos, Theory and Practice, Leiden, Brill, p. 59. 39 Daqu Suite Form ‘Suite’ types have a long history in China. Emerging in the Han dynasty and maturing in the Tang, a very influential multi sectional form known as daqu (wg: ta-ch’ü, ‘grand song’) became popular among entertainment ensembles of the imperial court. Scholars suggest that while daqu music was still being performed in the palaces of the early Song period, its imperial patronage declined and the tradition was subsequently absorbed by commoners outside of the courts (Thrasher, 2008, p. 136). Suona
96 transformadas, como, por exemplo, o Tang Daqu e o género e Yanyue que, acrescido da forma poética ci, possibilitou o surgimento de um género de ópera, peculiar na dinastia Song e que se celebrizou, ainda mais, durante o período Yuan (1271-1368).40 Ao longo da dinastia Yuan, as influências musicais das regiões de Guizi e de Gaochang são predominantes. Data também deste período um grande fluxo de adoção da música árabe e persa, consequência do movimento migratório entre a Ásia Central e Ocidental e a China. Este intercâmbio de culturas veio contribuir para o surgimento de um período florescente, sobretudo, para a ópera chinesa e na disseminação dos instrumentos musicais, com destaque para o huqin41, cordofone friccionado. Segundo os anais históricos da dinastia Yuan (Yuanshi-Yiyue Ji, 1369-1370), o protótipo do huqin é o huobusi42, instrumento de cordas friccionadas, braço ligeiramente curvado para trás e cabeça decorada, por vezes, em formato de dragão (Miao, Ji & Guo, 1984, p. 159). De acordo com esses autores, o yangqin, cordofone percutido, de origem árabe, com a denominação de santur, foi outro instrumento musical de considerável propagação nas regiões do Oeste e da Planície Central da China, durante as dinastias Yuan e Ming (1368-1644), onde adquire características próprias. Além destas duas espécies, outros instrumentos musicais provenientes da Ásia Ocidental foram introduzidos, sobretudo na etnia Uigur, província de Xinjiang, tais como, o naqqara e o daff, percussão; o tambur, o aijeke, o kalon, o dutar, cordofones e os instrumentos de sopro nay e o slynay (Song & Li, 2010, pp. 150-153). Na dinastia Ming, a Rota da Seda, desta feita, numa dimensão marítima, tem como um dos principais atores do império chinês, o almirante Zheng He. Entre 1405 e 1433, Zheng He realiza sete expedições por diversos pontos da Ásia, chegando ao Golfo Pérsico e à costa oriental da África. Em contrapartida, algumas décadas mais tarde (1498), e em sentido oposto, Vasco da Gama aporta em Calecute, na Índia. Pouco mais de uma década mais tarde (1513), Jorge Álvares aporta numa das ilhas da província de Guangdong, no sul da China. A partir do século XV, a Rota da Seda marítima, em ritmo acelerado, proporcionará uma intensificação do intercâmbio político, diplomático, mercantil ________________ 40 A dinastia Yuan (1271-1368) predominantemente composta por mongóis, foi o único império que, para além de ocupar todo o território por onde a Rota de Seda transitava, ocupou todos os territórios chineses e, conquistou uma vasta área da Ásia Central, da Ásia Ocidental e da Europa Oriental. 41 Of the instruments imported after the Tang dynasty, the one to become most widespread is the huqin, two-stringed bowed fiddle. This name, huqin (literally ‘barbarian qin’), was assigned by Chinese musicians because the instrument was associated with tribal peoples near the northwestern frontier. Subsequently, it became a generic term, identifying the entire family of Chinese bowed string instruments. Thrasher, Alan (2008), Sizhu Instrumental Music of South China, Leiden, Brill, Sinica Leidense, vol. 84, p. 66. 42 O huobusi é um cordofone de origem turca cujo nome em Chinês é traduzido foneticamente a partir do nome original, kupuz.
A CHINA E A REVITALIZAÇÃO DAS ANTIGAS ROTAS DA SEDA – NOVO VETOR DO COMÉRCIO MUNDIAL97e cultural entre a Ásia e o Ocidente. Na documentação portuguesa, produzida por mercadores, cronistas e membros das ordens religiosas, nomeadamente por jesuítas43, há um manancial de relatos sobre música e instrumentos musicais chineses e, ainda, sobre a introdução da arte sonora ocidental na China. A exemplificar, encontramos na Peregrinação, do mercador Fernão Mendes Pinto (1509-1583), a descrição da chegada dos portugueses ao porto de Shuangyu, em Ningbo, na província de Zhejiang, sendo mencionado um órgão na igreja local e uma guitarra tocada pelo bispo local, durante a liturgia. Ainda o relato de Wang Linheng (1557-1603), no terceiro volume da sua obra Yuejian Pian, sobre a existência de órgãos de tubos na China, com especial destaque para os órgãos das igrejas de Macau. Refere, também, a produção de órgãos de tubos, em Macau, sendo um instrumento encomendado especialmente para ser oferecido ao imperador Wanli, segundo Matteo Ricci (Tang, 2016, pp. 225-228). Outro instrumento ocidental, também peculiar na altura, é o clavicórdio. O imperador Kangxi chegou a ter lições de clavicórdio com Tomás Pereira (1645-1708), jesuíta português que viveu na corte imperial durante trinta e seis anos. No que respeita à dinastia Qing (1644-1911), quanto à música e a dança, para além da por si produzida, herda a produção artística chinesa assim como algumas das tradições musicais ocidentais, introduzidas no império, durante o período Ming. Tradições essas reforçadas, por um lado pela expansão do cristianismo, por outro, acrescidas pela chegada do protestantismo, a partir da primeira metade do século XIX. A sedimentação da Rota da Seda marítima, não foi empecilho para a coexistência da rota terrestre. Assim, com a ocupação manchu a partir da Planície Central da China, estabeleceu-se a dinastia Qing que irá, de certa forma, privilegiar o intercâmbio sociocultural com regiões da Ásia Central e Ocidental e disseminar, pelo império, a música e os instrumentos musicais de grupos étnicos como os Manchus, Mongóis, Uigures e, ainda, do Cazaquistão. Durante o período Qing, houve, também, a preocupação de revitalizar e difundir a herança cultural dos Hans (Song & Li, 2010, pp. 155-222). A finalizar, é importante sublinhar a importância, ainda hoje, da força deste fenómeno cultural milenar, denominado Rota da Seda e, bem assim, a sua influência nos mais diversificados setores da sociedade contemporânea. Assim, se o entendimento da Rota da Seda, no século XXI, fosse disseminado pela ________________ 43 Tomé Pires, na Suma Oriental (1515); Galiote Pereira, no Tratado da China (1552); Frei Gaspar da Cruz, no Tractado em que se cõtam muito por este[n]so au cousas da China (1569); na Peregrinação de Fernão Mendes Pinto (1614); Tomás Pereira Lülü Zuanyau (1713); Álvaro Semedo, Relatione della grande monarchia della Cina (1643), Carlos José Caldeira, Apontamentos d’uma Viagem de Lisboa à China e da China à Lisboa (1852), entre outros.
98 humanidade, haveríamos de assumir e consumir a mensagem do violoncelista norte-americano, nascido em França, e de origem chinesa, Yo-Yo Ma: At Silkroad, music is the language we choose to express the richness of cultural collaboration. In recent weeks, my colleagues in the Silk Road Ensemble have been sharing rhythms and melodies from Latin America, the Middle East, and North Africa with communities all over the country. At a concert in Santa Clara, California, for example, they concluded with an improvisation on a traditional Iraqi folk melody, playing on instruments from around the world – a celebration of the ways in which culture brings us together 44. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Agnew, N. (2004), Conservation of Ancient Sites on the Silk Road, Los Angeles, Ed. Getty Publications. Dourado, H. A. (2004), Dicionário de Termos e Expressões da Música, São Paulo, Editora 34. Hansen, V. (2012), The Silk Road: A New History, Oxford University Press. Haumont, D. et Linden, C. V. (2009), Les Route de la Soie, Société d’Histoire, Art, Généalogie et d’Échange, Combs-la-Ville, Château de la Fresnaye, catalogue. Huo, X. (1989), Guizi Shiku Bihua Zhong De Xiya Yueqi ( ), Xinjiang Yishu ( ), n. º 1. Ikeda, D. (2009), The flower of Chinese Buddihismo, Middleway Press. Jie J. (2011), Chinese Music, Cambridge University Press. John L. & Pengzhi Lü (2009), Early Chinese Religion: The Period of Division (220-589 Ad), Brill. Lin, M. (2006), Sichou Zhilu Kaogu Shiwu Jiang ( ), Beijing: Peking University Press. Liu, Y. (2007), Tangren Yinyue Shi Yanjiu ( ), Taibei: Xiuwei Press. Lourido, R.A, “Do Ocidente à China pelas Rotas da Seda”, Macau, in Administração n.º 73, vol. XIX, 2006-3.º, pp. 1073-1094. Miao T., Ji J. & Guo N. (1984), Zhongguo Yinyue Cidian ( ). Beijing: People’s Publishing House. Mustafayev, S., Espagne, M., Gorshenina, S., Rapin, C., Berdimuradov, A., Grenet F. (2013) Cultural transfers in Central Asia before, during and after the Silk Road, Paris, International Institute for Central Asian Studies. Poceski, M. (2014), The Wiley Blackwell Companion to East and Inner Asian Buddhism, John Wiley & Sons, Ltd. Song, B. & Li, Q. (2010), Sichou Zhilu Yinyue Yanjiu ( ), Wrumqi: Xinjiang People’s Publishing House. Tang, K. (2015), Setting Off from Macau: Essays on Jesuit History during the Ming and Qing Dynasties. Thrasher, A. R. (2000), Chinese musical instruments, New York, Oxford University Press. ________________ 44 Yo-Yo Ma, Silkroad Project, consulta, 12.08.2017, .
A CHINA E A REVITALIZAÇÃO DAS ANTIGAS ROTAS DA SEDA – NOVO VETOR DO COMÉRCIO MUNDIAL99Trebinjac, S. (2008), Le pouvoir en chantant: une musique d’Etat... impériale, Nanterre, Société d’ethnologie. Wang H. (2007), Tomb of Marquis Yi of Zeng: Ritual-and-music Civilization in the Early Warring States Period, Beijing, Cultural Relics Press. Warikoo, K. (2016), Xinjiang - China’s Northwest Frontier, Routledge. Xinru L. (2010), The Silk Road in world history, Oxford, University Press. Yaokun Y. (2014), An Analytical Study on Performance Practices, Bloomington, Abbott Press. Zheng, R. (1989), Tunhuang Pihua Yueji ( ), Tunhuang Yanjiu ( ), n.º 4. Zhou, J. (1988), Sichou Zhilu de Yinyue Wenhua ( ) Wrumqi: Xinjiang People’s Publishing House. Zürcher, Erik (2013), Buddhism in China: Collected Papers of Erik Zürcher, Brill. Sites Levin, T. (2002), Music and Musicians along the Silk Road, consulta, 06/07/17, . Nanji, A., Niyozov, S. (2002), The Silk Road: Crossroads and Encounters of Faiths, consulta, 16/07/17, . Sheng, B. (2000), Melodic Migration of the Silk Road, consulta, 06/07/17, . The Silkroad Foundation, consulta, 22/07/17, . Wei, Z. (621-636), Suishu Yinyue Zhi ( ), consulta, 10/10/17, http://ctext.org/wiki.pl?if=gb&res=386407&remap=gb.
A CHINA E A REVITALIZAÇÃO DAS ANTIGAS ROTAS DA SEDA – NOVO VETOR DO COMÉRCIO MUNDIAL101 CAPÍTULO VI A VIAGEM DAS ESPECIARIAS | Graça Pacheco Jorge A Alimentação: fator fundamental na diferenciação e evolução do ser humano Diz-me o que comes, dir-te-ei o que és. O carácter de uma raça pode ser deduzido simplesmente do seu método de assar a carne. Um lombo de vaca preparado em Portugal, em França ou Inglaterra, faz compreender melhor as diferenças intelectuais destes três povos do que o estudo das suas literaturas. (Eça de Queirós – “Notas Contemporâneas”) A alimentação é o ato básico mais primitivo de todo o ser vivo, desde o unicelular até aos de estrutura mais complicada. Processa-se pela ingestão de substâncias nutrientes, os alimentos, que são transformados depois de ingeridos, através de uma série de alterações bioquímicas, em matéria própria e fornecendo a energia necessária para as diversas funções do indivíduo. À medida que a complexidade do ser aumenta, a sua estrutura torna-se mais exigente, quer no que respeita à quantidade dos nutrientes, quer à sua qualidade e diversidade. Esse aumento de necessidades alimentares fez com que, na sua evolução, cada espécie tenha tido que encontrar permanentemente e diariamente as suas carências mínimas, e adaptar-se aos diversos habitats, às estações do ano, aos diversos climas, tendo de migrar em algumas alturas sempre à procura da sua mais básica necessidade. Essa procura vai-lhe ocupar a maior parte do seu tempo de vida, mas sem ela, esta última não seria possível. O ser humano, primata mais evoluído e adaptado do seu grupo, ganhou com essa evolução três características que lhe deram essa posição de vanguarda:
102 - É exclusivamente bípede, tem um cérebro muito maior do que os seus primos e consegue viver em praticamente todas as latitudes e longitudes do planeta Terra, por onde se foi espalhando sobretudo por razões alimentares não só quantitativas, mas por uma necessidade de um padrão diversificado. - A posição vertical, com apoio exclusivo nos membros inferiores que lhe servem de apoio e de instrumentos de locomoção, liberta-lhe os membros superiores e aumenta-lhe a estatura, facilitando-lhe a colheita e transporte dos alimentos. - O volume cerebral exigiu, e continua a fazê-lo, uma dieta muito rica em calorias pois o cérebro é o maior consumidor nutricional de todos os nossos órgãos. A alimentação é pois, não somente um fator básico na nossa existência como seres, mas também um fator determinante na nossa diferenciação em relação aos outros primatas que nos estão mais próximos. Alterar a consistência e o sabor dos alimentos: Culinária O Homem não deve comer arroz que tenha sido afetado por intempéries, peixe ou carne retardados. Não deve comer nada que esteja desnaturado na cor ou que cheire mal. Não deve comer qualquer alimento que esteja demasiado ou não suficientemente cozido, nem produtos que sejam produzidos fora da estação. Não deve comer coisas cortadas transversalmente ou iguarias não temperadas convenientemente. A carne que consome deve ser em quantidade tal que não sobreponha o seu hálito ao do arroz. Quanto ao vinho, não há limite prescrito, mas o comportamento de quem o consome, não deve tornar-se desordenado. (Confúcio-Analectos*) A cozinha nasceu com a descoberta do fogo. Com a cozedura os alimentos, sobretudo raízes e tubérculos com texturas densas e fibras duras, tornaram-se mais tenras e mastigáveis, exigindo muito menos força mandibular o que veio, dentro do processo de seleção natural que determina a evolução, influenciar a configuração dos nossos crânios, pois deixou de haver necessidade de músculos mastigadores tão potentes e respetivas superfícies ósseas de inserção. Comer é uma necessidade, Saber comer é uma arte… (Henry Rugeroni)* ________________ * Um dos proprietários do Hotel Aviz, onde Calouste Gulbenkian viveu os últimos treze anos da sua vida.
A CHINA E A REVITALIZAÇÃO DAS ANTIGAS ROTAS DA SEDA – NOVO VETOR DO COMÉRCIO MUNDIAL103A utilização do fogo fez com que entrassem na ementa uma série de novos alimentos não comestíveis no seu estado natural – a inteligência e a curiosidade humanas fizeram o resto, não só na descoberta de novas iguarias como também nas diversas maneiras de utilizar o fogo para as tornar mais fáceis de mastigar e engolir e também mais agradáveis ao gosto. Nasceu assim a Culinária – a Arte de preparar alimentos, que se foi desenvolvendo e requintando através dos séculos, ocupando atualmente um lugar importantíssimo nas diversas atividades relacionadas com a nossa sensibilidade e prazer, na nossa forma de nos relacionarmos e convivermos uns com os outros. Embora alguns alimentos possam ter uma preparação muito simples, quase sem qualquer intervenção de um fogão ou de um forno (as ostras, a maior parte das frutas, as saladas verdes, o “sushi, o “sashimi”, os bifes tártaros), na maioria dos casos, há que recorrer a, pelo menos, uma operação culinária. Em casos mais complicados e, normalmente, mais requintados, para o mesmo prato, há que recorrer a mais que uma, duas ou mesmo três operações diferentes. Para além dos cozidos (em água ou em caldo), os pratos podem ser: Fritos, por imersão em gordura, Grelhados, na chapa ou na brasa, Assados, no forno ou no tacho, Estufados. Guisados. Sendo estas as principais operações culinárias da cozinha tradicional portuguesa e europeia, no extremo oriente usam-se duas outras com grande frequência: Uma delas, de influência chinesa, o Chau (a palavra mais próxima em português será estrugir), que resulta provavelmente do ruído dos alimentos a serem fritos em lume muito forte). Outra operação culinária muito comum naquelas longitudes é o “banho-maria” ou cozedura a vapor. Para além destas diferentes operações culinárias desde cedo que se começaram a juntar aos alimentos, vegetais ou animais (primeiramente caçados e depois criados em pastagens resultantes da sedentarização progressiva das sociedades humanas), substâncias naturais que lhes realçava ou alterava o sabor. Ítalo Calvino no seu conto “Sob o Sol Jaguar” define a certa altura a cozinha como “a Arte de dar relevo aos sabores com outros sabores” e a seguir acrescenta “mas se a matéria-prima for insípida nenhum condimento pode realçar um sabor
104 que não existe” Este reparo fez-me pensar na sopa de pedra de Almeirim em que, obviamente, a pedra não é matéria-prima nem tempero – apenas um pretexto para dar um nome a uma sopa de cozido. Para além do sal, abundante nas regiões costeiras, que para além de abrir o paladar dos alimentos foi um dos mais antigos conservantes usados, de alguns frutos ácidos como os limões e as laranjas amargas e do mel das abelhas, o mesmo espírito criativo e curioso dos nossos ancestrais foi introduzindo outros produtos, folhas ou ervas secas variando de região para região, que conferem os imensos sabores da culinária. As Ervas aromáticas Eis o acepipe de estragão em flor; um outro, vermelho, coberto de alcaparras, cujo perfume delicia o olfato, como se o droguista o tivesse polvilhado de almíscar. (do livro Sabores das Mil e Uma Noites, de Jean-Bernard Naudin e Odile Godard) As civilizações europeias tiveram origem entre-os-rios Tigre e Eufrates e foram ao longos dos milénios desabrochando com as suas características diferentes na margem norte e na margem sul do mar Mediterrâneo até chegar ao Atlântico. É ao longo dessas margens que as diversas ervas, agora utilizadas na culinária europeia, que nasceram e foram colhidas e aproveitadas, integrando as diversas culturas que existem agora, descendentes dos vários estados, nações e impérios que as foram dominando. As mais comuns no nosso dia-a-dia são: Salsa nas suas variedades frisada (mais usada na Europa do centro e norte), e lisa. Beldroega, erva rasteira de folha tenra e carnuda, universalmente espalhada. Manjericão, oriunda da Ásia tropical trazida há mais de três mil anos das selvas para as hortas. Louro, do Mediterrâneo oriental, tão célebre pelas suas virtudes que coroava os melhores dos melhores na Grécia e em Roma. Alecrim ou Rosmaninho, usada em toda a Europa não só na culinária mas também como incenso. Coentro, do Mediterrâneo e Ásia ocidental indispensável nas cozinhas do sul da Europa e em toda a Ásia. Hortelã, do sul da Europa e do norte de África, com muitas variedades e utilizações, não só como tempero mas como bebida em infusões quentes ou frias.
A CHINA E A REVITALIZAÇÃO DAS ANTIGAS ROTAS DA SEDA – NOVO VETOR DO COMÉRCIO MUNDIAL105Alho, utilizado e indispensável em qualquer cozinha, foi uma das primeiras ervas cultivadas, e como tantas outras utilizado inicialmente em Medicina, que ainda hoje valoriza as suas propriedades anti hipertensoras e anti-colesterolémicas. No âmbito deste trabalho não podemos incluir as mais de duzentas ervas aromáticas que se usam por todo o mundo nos vários continentes e nas diversas culturas Mas, para além das ervas, começaram a ser utilizadas, com o mesmo fim de realçar e alterar os sabores dos alimentos, as especiarias. As Especiarias “Na nobre ilha também de Trapobana, Já pelo nome antigo tão famosa, Quanto agora soberba e soberana, Pela cortiça cálida, cheirosa;…” * (Luís de Camões – Os Lusíadas – Canto X – LI) * Canela de Ceilão - Cinnamomum zeylanicum“ … As árvores verás do cravo ardente,* Co’o sangue Português inda compradas; …” (Luís de Camões – Os Lusíadas – Canto X – CXXXII) * Cravinho da Índia - Syzygium aromaticum. Enquanto que nas ervas aromáticas, salvo algumas exceções, a parte útil das plantas para o uso gastronómico é apenas as folhas, no caso das especiarias podem-se usar os frutos, as sementes, as cascas e mesmo as raízes das plantas, que, frescas ou secas, são esmagadas e sabiamente misturadas entre si ou com outros ingredientes para serem incorporadas nas diversas receitas que universalmente as utilizam. Os romanos chamavam-lhe specie, palavra donde deriva mais diretamente o francês épice e o inglês spice, sendo curioso que no adjetivo qualificativo, em francês épicé quer dizer condimentado (com especiarias) ao passo que o inglês spicy significa picante. Algumas especiarias são oriundas da Europa mediterrânica e do norte de África como a mostarda e o açafrão. A mostarda é uma planta dos géneros Brassica e Sinapis, cujas sementes misturadas com água e vinagre dão um molho muito utilizado na culinária europeia, bem como, o óleo delas extraído. O açafrão, tirado dos pistilos das flores do crocus (Crocus sativus) é muito utilizado na Europa mediterrânica, vendido aos gramas, competindo com o preço do ouro. Quer a mostarda quer o açafrão são também historicamente ligadas à farmacologia.
106 Na China e na Índia, a cultura e o uso culinário e farmacológico das especiarias perdem-se na história das suas antigas civilizações sendo a variedade imensa, desde os tempos mais remotos. Alexandre Magno ocupou o Egipto em 332 a. C. e fundou a sua Alexandria de onde partiu para o Oriente, tendo chegado ao rio Indo (no atual Paquistão) e contactado com aquelas duas grandes civilizações, trazendo para Oeste o conhecimento das suas culturas e dos seus sabores, criando uma rota das especiarias que se sobrepunha às rotas da seda. O Egipto foi assim durante os séculos que se seguiram, o centro a que chegavam as especiarias extremo-orientais que de lá partiam para as cidades mais importantes da Europa romana e pós romana. Os mercadores de Veneza, que já as recebiam através de uma das rotas terrestres da seda que atravessavam o Oriente europeu e terminavam na cidade dos canais, foram a partir de certa altura os grandes compradores de especiarias e outros artigos orientais nos mercados do Cairo e de Alexandria, vendendo-os nas praças europeias a preços comparáveis aos metais e pedras preciosas e criaram um monopólio milionário que durou durante séculos, até Vasco da Gama ter chegado à Índia pelo mar, contornando a África. Principais Especiarias usadas universalmente ® Cravinho (Syzyium Aromaticum) - Proveniente das Ilhas das Especiarias (as Ilhas Molucas) e por via terrestre pela Rota da Especiarias, chegou a Alexandria no tempo dos Romanos. Aquelas ilhas, objetivo inicial da viagem de Fernão de Magalhães, foram conquistadas pelos portugueses e a partir de então, as especiarias passaram a chegar à Europa pela Rota Marítima. Em Portugal, o cravinho é fundamental no Arroz de Lingueirão. Noz-moscada (Myristica Fragrans) - Dá um fruto que revela duas especiarias distintas, a Noz-Moscada e o Macis (Myristica fragrans), membrana rendada que envolve o cerne que é a noz- moscada. Ambas faziam parte da Rota das Especiarias, que no século VI ia até Alexandria e levada para a Europa provavelmente pelos Cruzados. Gengibre (Zingeber officinale) - Rizoma de uma cana de pequenas dimensões, semelhante ao bambu, cultivada na China e na Índia. No Extremo Oriente é utilizado o gengibre fresco, sendo o seco mais utilizado na Europa e Médio Oriente, por ser esta a forma em que era transportado através da rota das caravanas. É usado desde o século IX em toda a Europa e plantado a partir do século XVI na África e na América para onde foi levado por espanhóis e portugueses.
A CHINA E A REVITALIZAÇÃO DAS ANTIGAS ROTAS DA SEDA – NOVO VETOR DO COMÉRCIO MUNDIAL107Curcuma (Curcuma longa) - Da família do gengibre, é muito usada na cozinha, na farmacologia e na tinturaria desde a antiguidade. Em Portugal é conhecida como “Açafrão das Índias”.® Cardamomo (Elettaria cardamomum) - Utilizado na Índia há mais de dois mil anos levado para a Europa pela rota das caravanas e de Constantinopla para a Escandinávia pelos Vikings, sendo aí, ainda hoje, muito popular.
108 Pimenta (Piper nigrum) - Forma com o sal o par de temperos mais universalmente usado, sendo o saleiro e o pimenteiro peças indispensáveis na grande maioria das mesas. A sua procura foi um dos grandes incentivos do comércio de especiarias, causador de guerras, pagador de tributos e moeda de troca. Continua a ser, em valor absoluto, a especiaria mais importante e hoje é cultivada em todas as regiões tropicais da Ásia, África, América e Oceania. Canela (Cinnamomum Zelanicum) - Oriunda do Sri Lanka, chamada Ceilão pelos Portugueses, a Taprobana a que se referia Luís de Camões. Trata-se do córtex de uma árvore da família do loureiro e entrou nos hábitos culinários um pouco por todo o Mundo e em Portugal tornou-se indispensável em duas famosas iguarias: o arroz doce e os pastéis de nata. Cominhos (Cuminum Cyminum) - Semente de pequena umbelícea herbácea, oriunda do vale do Nilo do Egipto e cultivada em praticamente todas as regiões quentes, sendo muito popular em inúmeras cozinhas regionais. A Viagem das Especiarias No livro Conquistadores, Roger Crowley (2016) pag. 67 cita um cronista anónimo, a bordo da São Rafael da esquadra de Vasco da Gama, para afirmar que: Em nome de Deus. Amem. Na era de MIIIILRVII [1497] mandou Ell Rey Dom Manuel o primeiro [deste nome] em Portugal, a descobrir quatro navios os quaees hiam em busca da especiaria … Alguns milénios antes de Cristo já alguns povos do Saara possuíam objetos e animais domésticos provenientes do Extremo Oriente; ao longo de caminhos por terra trilhados por caravanas, os carregamentos vinham do extremo da Ásia até ao norte de África, por aquilo a que se chama a Rota da Seda, por ser este o produto oriental mais apetecido e só produzido na China por só ali se cultivar o bicho-da-seda e se guardar o segredo de transformar os casulos no mais macio tecido. Esta rota ligava as grandes civilizações da antiguidade: o Egipto, a Mesopotâmia, a China, a Pérsia, a Índia e, através do Egipto, Roma e a Europa por esta colonizada. Com origens também na China e em muitas das terras de passagem da Rota da Seda, as especiarias seguiam nas mesmas caravanas, chegando aos mesmos mercados de destino. Tendo a sua origem nas regiões orientais e extremo-orientais, as especiarias viajaram através de rotas terrestres e, depois, de rotas marítimas, tendo tido importância fundamental no comércio e na vida de todas as civilizações. Foram para além disso o motivo de muitas navegações, descobertas e conquistas. No que respeita à Europa, foram os Portugueses a alterar a Rota das Especiarias, primeiro com a viagem de Vasco da Gama até à Índia, dobrando o Cabo
A CHINA E A REVITALIZAÇÃO DAS ANTIGAS ROTAS DA SEDA – NOVO VETOR DO COMÉRCIO MUNDIAL109da Boa Esperança, e, seguidamente, com Afonso de Albuquerque instalando-se em Malaca de onde Jorge Álvares partiu para a China. Com a chegada de Pedro Álvares Cabral ao Brasil iniciou-se a exploração da América do Sul, de onde começaram a chegar, por uma nova Rota Marítima, novos aromas que se tornaram progressivamente indispensáveis à culinária dos vários países europeus e nomeadamente da portuguesa. O comércio das especiarias viria a alterar-se completamente em 1497, com a viagem de Vasco da Gama, que inaugurou a rota marítima da Índia e o domínio português que se seguiu no controlo da navegação no Oceano Índico e mar da Arábia, e, posteriormente, com Afonso de Albuquerque que passou além da Taprobana (o atual Sri Lanka), chegando a Malaca onde se instalou e contactou com comerciantes que ali convergiam das regiões vizinhas e também da China. Em 1513 chegaram à China os primeiros portugueses, oriundos de Malaca e capitaneados por Jorge Álvares. Comandando uma armada que, seguindo a rota de Gama, se destinava à Índia, Pedro Álvares Cabral chegou ao Brasil em 1500, iniciando o conhecimento da América do Sul, nova fonte de especiarias inéditas e diferentes das conhecidas no mediterrâneo e na Ásia: as malaguetas (todas as pimentas do género Capsicum), a baunilha (vagem de uma orquídea do género Vanilla), a pimenta da Jamaica (Pimenta Dioica), e dali exportadas para todo o mundo onde foram plantadas e são utilizadas com a mesma incidência que as orientais. As malaguetas com as suas centenas de espécies, foram espalhadas por toda a parte e batizadas com os mais diferentes nomes: pimentinhas, piri-piri, gindungo, pimenta cayenne, paprika, colorau picante… todas elas capsicum, influenciando determinantemente culinárias europeias, africanas e asiáticas. A baunilha, especiaria doce, é também indispensável em todos os continentes na confeção de sobremesas e, sobretudo nos gelados. É a segunda especiaria mais cara a seguir ao açafrão, por a polinização das flores ter de ser feita manualmente. A pimenta da Jamaica é o Allspice dos ingleses, presente em imensos Patées, e na nossa culinária regional é a “alma” da Alcatra Açoriana ®. Vem ainda quase exclusivamente da sua região de origem. Algumas das rotas terrestres e marítimas, tal como alguns entrepostos comerciais, mantêm-se até aos dias de hoje, em que as especiarias se globalizaram e a maior parte delas se vende pronta a consumir nos supermercados de bairro. Em todo o Oriente e em alguns países europeus com grande imigração oriental, continuam a ser vendidas a granel nos mercados de especiarias, numa festa de cores e de cheiros.
110 As sementes, as cascas, as raízes, as folhas e as flores ou misturas de várias de elas, que foram durante séculos objeto de cobiça, de disputa, de batalhas e conquista, tingindo o mar de sangue ou enchendo-o dos seus sabores vindos dos porões dos navios que, na sua demanda, viajavam e naufragavam, fazem agora tranquilamente parte do quotidiano de grande parte da população do Mundo. Algumas receitas Alcatra de Peixe Açoreana Este prato, tradicional da Ilha Terceira, tem imensas variedades na sua confeção. A receita que se segue é a da autoria de Augusto Gomes, autor dos livros A Cozinha Tradicional da Ilha Terceira e O Peixe na Cozinha Açoriana. Confeciona-se em alguidar de barro. Ao preparar-se a alcatra de peixe deve-se revestir o fundo do alguidar com grossas rodelas de cebola e finas fatias de toucinho fumado, para que o peixe não pegue ao fundo. Seguidamente espalham-se grãos de pimenta (da Jamaica), cravinhos, manteiga, louro e sal a gosto. Depois, vão-se alternando camadas de peixe, camadas de rodelas de cebola, camadas de rodelas de tomates pelados, sendo a última de tomate, espalhando por cima grãos de pimenta (da Jamaica) e cravinho.
A CHINA E A REVITALIZAÇÃO DAS ANTIGAS ROTAS DA SEDA – NOVO VETOR DO COMÉRCIO MUNDIAL111Como o peixe coze rapidamente, convém quebrar a cebola com azeite, o qual deverá regar a última camada de tomates. Finalmente rega-se com vinho destemperado em água. Vai ao forno até alourar. Galinha à Portuguesa ou Galinha dos Portugueses Este prato macaense de raiz portuguesa é uma antecipação daquilo que atualmente se chama “cozinha de fusão”. Lava-se um frango que se corta em pedaços pequenos e se tempera com sal e pimenta preta. Mistura-se com farinha e deixa-se repousar dez minutos. Entretanto cortam-se as batatas aos cubos e salteiam-se em banha de porco. Derrete-se mais um bocado de banha, junta-se cebola grosseiramente picada até alourar e os pedaços de galinha. À parte dilui-se em vinagre duas colheres de chá de Curcuma (Açafrão das Índias) que se junta à galinha depois de alourada. Acrescentam-se as batatas fritas, rega-se com leite de coco e caldo de galinha suficiente para cozer tudo. Por fim coloca-se tudo num recipiente que possa ir ao forno, cobre-se com rodelas de limão e pedacinhos de manteiga e deixa-se tostar sem deixar secar. Almôndegas com Especiarias da Minha Casa Misturar carne de vaca e de porco, picadas uma só vez, com miolo de pão esfarelado, uma gema de ovo, sal, pimenta preta, noz-moscada e cominhos em pó. Formar com a mistura bolinhas que se passam por farinha de milho.
112 Preparar um refogado com alho e cebola picados, em banha de porco. Saltear as almôndegas, regar com caldo de galinha e deixar cozer. Serve-se com arroz branco. Caril de Peixe e Camarão à Maneira de Macau O Caril, que chegou a Macau através de Goa, é um prato confecionado com uma mistura de diversas especiarias, fundamentalmente cominhos, coentros e curcuma. Refoga-se em banha de porco, alho, gengibre e cebola picados. Junta-se duas colheres de chá de cada uma das especiarias acima mencionadas, diluídas em vinagre até formar uma pasta. Acrescenta-se o peixe e o camarão previamente fritos em banha e temperados com sal, pimenta preta e piripiri a gosto. Junta-se nabo cortado em palitos grossos, leite de coco, e caldo de galinha para cozer. Antes de servir, salpica-se com coentros frescos finamente picados. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Buescu, A. I. & David, F., (2011) A Mesa dos Reis de Portugal, Temas e Debates e Círculo de Leitores, Lisboa Crowley, Roger, (2016) Conquistadores, Editorial Presença, Lisboa Gomes, A., (2001) O Peixe na Cozinha Açoriana e Outras Coisas Mais, Ed. de Autor, Terceira, Açores Huyghe, E. et Bernard, F., (1995) Les Coureurs d’Épices, Ed. Jean Claude Lattés, Paris Jorge, G., P., (2015) A Cozinha de Macau de Casa do Meu Avô, Instituto Cultural de Macau, RAEM, China Lima Z., (2004) Cozinha Açoriana, Everest Editora, Rio de Mouro, Portugal Naudin, J. B., Godard, O. (1993), Saveurs des Mille et Une Nuits, Editions du Chêne-Hachette Livre, Paris Norman, J., (2004) Ervas Aromáticas e Especiarias, Editora Civilização, Porto Noronha da Costa, M., F., (1998) Cozinha Indo-Portuguesa, Assírio e Alvim, Lisboa Selecções do Reader’s Digest (1997) Receitas à Moda Antiga, Lisboa Silva Gracias, F., (2011) Cozinha de Goa, Goa Broadway Publishing House, Goa, Índia Trewby, M., (1989) Herbs & Spices, Salamander Books, Los Angeles Zweig, S., (1943) Fernão de Magalhães, Livraria Civilização, Lisboa
A CHINA E A REVITALIZAÇÃO DAS ANTIGAS ROTAS DA SEDA – NOVO VETOR DO COMÉRCIO MUNDIAL113 CAPÍTULO VII ROTAS DO COMÉRCIO – ENERGIA | Luís Albergaria Em 1859, no Estado da Pensilvânia, EUA, uma descoberta iria alterar a ordem económica e dar origem ao primeiro campo petrolífero com produção comercial. Segundo Ferrier (1960) em 1901, o britânico William D’Arcy negociou a primeira concessão do Médio Oriente com o Governo da Pérsia, inicialmente por seis anos para obter, explorar, desenvolver, refinar, vender, transportar e exportar petróleo, gás natural e asfalto em todo o Império Persa. Em 1908, os britânicos voltam a perfurar petróleo com êxito comercial em Maiden-i-Naftdun e Massid-eSuleiman, também na Pérsia. Em 1911 a Pérsia dá início à atividade exportadora de petróleo. A produção persa teve uma progressão vertiginosa: em 1913, era de 80 000 ton., em 1918, de 106 451 ton. e em 1921, de 2 212 800 ton., o que levou a que quase todas as petrolíferas mundiais se apercebessem da importância que este produto viria a ter e da necessidade estratégica do controlo dos sistemas de produção e distribuição, fossem eles marítimos (navios tanque) ou terrestres (oleodutos e parques de armazenagem). Em 1914-1915, a indústria ocidental e os transportes começaram um processo, embora gradual, mas muito rápido, de substituição das unidades a carvão por unidades de combustão de derivados do petróleo. As refinarias dos EUA e da Europa floresceram. O abastecimento deste produto tinha-se tornado estratégico, como o demonstrou a Primeira Guerra Mundial. Em 1927 dá-se uma nova aceleração deste processo quando se inicia a exploração de petróleo em Kirkuk, no norte do Iraque, um dos maiores campos de exploração de petróleo da época.
114 Na realidade, foi o ponto de arranque de toda uma nova e pujante indústria. No Médio Oriente (1930), o crescimento desta matéria-prima é de tal forma exponencial e de uma importância tão crucial para os países da zona que esta nunca mais seria a mesma. A título de exemplo: as receitas anuais da Arábia Saudita eram de $US 0,5 MM, antes da Segunda Guerra Mundial, de aproximadamente $US 50 MM, no início da década de 1950, e de $US 200 MM, no final dessa mesma década. Em 1934, com a entrega para exploração do oleoduto de Kirkuk (Iraque) e a ligação a Trípoli (Líbano), iniciou-se a exportação de petróleo diretamente dos portos do mar Mediterrâneo para as refinarias do mundo ocidental. O petróleo tinha-se tornado a “commodity” mais ativamente negociada em todo o mundo e de primordial importância como fonte de energia alternativa ao carvão, até então a energia mais eficiente. Conscientes da importância geoestratégica e da necessidade do controlo desta logística, os produtores acorreram a associar-se, para acederem à capacidade tecnológica e de escala para o desenvolvimento de infraestruturas, quer de produção, quer de logística, que lhes faltava e para terem uma força de negociação, normalmente não associada a estes países. Esta importância reforçou-se com a criação da OPEP, em 1960, e foi corroborada pelas nacionalizações de ativos petrolíferos, como aconteceu aos do Iraque, em 1972. Em 2014, as reservas mundiais estavam distribuídas da seguinte forma: 50,5%, no Médio Oriente; 9,1%, na Europa/Eurásia, enquanto a capacidade de exploração e de produção no Médio Oriente era de 32,3% e na Europa/Eurásia era de 19,8%. Exploração de petróleo
A CHINA E A REVITALIZAÇÃO DAS ANTIGAS ROTAS DA SEDA – NOVO VETOR DO COMÉRCIO MUNDIAL115Com o evoluir dos tempos, e com a entrada em força do Japão, na década de 50, e depois da China, mais atualmente, o centro de gravidade do consumo moveu-se claramente para o Oriente. Em 2014, a importância daqueles dois países representava já 17% do consumo mundial de petróleo, ultrapassando a Europa e quase igualando os EUA. Nesse ano, os EUA e a China foram os dois maiores importadores mundiais de petróleo, com origem no Médio Oriente. Neste cenário, a China, enquanto consumidor de energia, tem um papel relevante nas condicionantes das alterações geoestratégicas do petróleo mundiais, bem como das rotas do comércio, alterando-as como potência dominante. É certo que a China foi até 1993 auto-suficiente em termos de matérias-primas para as suas necessidades energéticas, o que se deveu ao facto de ser o país do mundo com as maiores reservas carboníferas, que atualmente cobrem aproximadamente metade das suas necessidades, dando-lhe uma vantagem muito competitiva em termos de segurança, acesso e custo. Mas o carvão é também uma fonte altamente poluente. Os grandes desenvolvimentos tecnológicos nos processos de queima, tanto sólida, como em leito fluído, não têm servido a não ser para atenuar as consequências da sua necessidade de queima desta matéria-prima. Para o seu crescimento, a China terá de contar com o carvão, mas irá aumentando a sua dependência dos derivados de petróleo e das energias mais Infraestruturas ferroviárias
116 amigas do ambiente, com a consequente exposição aos riscos de dependência de terceiros. Esta situação faz com que se posicione no xadrez dos abastecimentos petrolíferos por forma a garantir as suas necessidades de abastecimento. Para tal, tem que controlar as rotas logísticas e comerciais, tal como a rota da seda foi em seu tempo. As importações de petróleo, em 2015, tiveram, como principais origens, a Arábia Saudita (19%), Angola (14%), Iraque (8%), Irão (8%) e Venezuela (6%). Por outro lado, outras origens, como a Rússia (9%) e o Cazaquistão (4%), tornaram-se vitais pela sua situação geográfica e por eficiência de custo, passando a jogar um papel de grande relevância nas estreitas relações, tanto comerciais, como de investimento bilateral. Assim, projetos como gasodutos, barragens, centrais hidroelétricas, extensos campos de painéis solares e turbinas eólicas foram iniciados. Alguns destes projetos, para além de garantirem o fornecimento energético, abrem acesso a um recurso escasso na China e de importância vital no seu futuro, a água. A região protagoniza assim, uma mudança dos paradigmas até agora existentes. Senão vejamos: - A Arábia Saudita, historicamente o principal parceiro comercial dos EUA no Médio Oriente, viu em 2016 na China o destino mais importante das suas exportações. Tornou-se assim cada vez mais dependente dos asáticos. - Angola, onde o petróleo representa 90% das exportações, tem na China o seu maior cliente. - O Iraque tem vindo a aproximar-se da China através da PetroChina, empresa estatal chinesa que é, atualmente, a maior empresa em operação no país, estimando-se que deva canalizar aproximadamente 30% do petróleo para a China. A Rússia, além do gás que exporta para a China através de um gasoduto construído para o efeito, está interessada, tanto quanto a China, em constituir um polo económico capaz de enfrentar os EUA. Esta aproximação mútua irá explorar e abrir todas as sinergias dos dois mercados às empresas nacionais. Podemos pois verificar que as necessidades energéticas do principal país do Oriente, a China, estão a mudar todo o cenário mundial e a reformular a geopolítica regional, transladando o centro de comércio para Leste. No entanto, a instabilidade política e a violência notória destas zonas do globo afetam as tomadas de posição na região para os investimentos, de montantes milionários e com períodos de amortização de muito longo prazo. Só países com “músculo financeiro” os poderão levar a bom porto. Esta instabilidade está patente nos ataques de 2004 a unidades petrolíferas na Arábia Saudita.
A CHINA E A REVITALIZAÇÃO DAS ANTIGAS ROTAS DA SEDA – NOVO VETOR DO COMÉRCIO MUNDIAL117Não só a China, mas também os países em desenvolvimento da zona, como a Índia e os países do Sudoeste Asiático, muito dependentes de importações, têm diluído as suas fontes de abastecimento, diversificando-as e incentivando rotas alternativas, quer marítimas, quer terrestres, mais eficientes, mais curtas e mais controláveis. O seu desenvolvimento será, no entanto, muito alavancado nas suas reservas de carvão. As rotas marítimas e a necessidade de utilização de estreitos para encurtar percursos incrementam a exposição ao risco e, para os obviar, vemos projetarem-se e desenvolverem-se obras monumentais, como o projeto do istmo de Kra, na Tailândia, o corredor desde Kyaukpyu através da Birmânia até Kunming, no sul da China, todos com o objetivo comum de encurtar o tempo necessário de transporte em vários dias, evitando os riscos que o estreito de Malaca representa. Não esqueçamos que 1/3 do comércio mundial por ali se processa. Se a China, em 2000, representava 10% da procura energética mundialmente consumida, em 2010 representou 20%, e em 2015 de 23%. A tendência de crescimento manter-se-á e em 2035 prevê-se que represente 26% da procura global de energia. A sua matriz energética, em 2015, foi essencialmente baseada em carvão (64%), com o petróleo a representar 18%, o gás natural 6% e a energia nuclear 2%. As energias consideradas “amigas do ambiente” distribuíram-se com, a energia hídrica a representar 8% e as renováveis uns escassos 2%. Esta situação tem levado a China a realizar um esforço na contenção de poluentes (CO2 e NOX), estipulando o governo chinês, nas suas linhas estratégicas, como o “grande objetivo de futuro”. Em meados de 2000, o carvão representava 74% da energia utlizada, e como referi acima em 2015 baixou para 64%, tendo assim o crescimento da China sido essencialmente feito com base na componente menos poluente do seu “mix” de matérias-primas, ou seja, petróleo, gás natural, hidro produção e energias ditas renováveis. Um esforço meritório. Como corolário desta política consistente de há uns anos a esta parte, em 2015 as energias renováveis cresceram 21%, em relação ao ano anterior, passando a ter um peso global de 2% nas suas necessidades energéticas. A capacidade instalada de produção eólica acrescentou 19 Gigawatt (GW) à sua matriz num só ano. Tornou-se assim líder mundial deste mercado, passando a ser um centro de desenvolvimento e de investigação tecnológica da indústria eólica internacional, seja ela terrestre (onshore), ou em ambiente marítimo (offshore). Até 2005, a Alemanha liderava o ranking dos países em produção de energia, fonte eólica e solar. Em 2010, a China tornou-se o maior produtor de energia com base eólica. Em 2011, o total instalado nesse país ultrapassava os
118 62 GW. Comparado com os 44 GW instalados até 2010, foi um aumento de 41%. O objectivo para 2020 é de 200 GW. De igual forma, a produção de energia com base solar foi incrementada, em 2016, em 69,7% situação que colocou a China à frente da Alemanha e dos EUA, passando a liderar mundialmente este sector. O alcance destes objetivos tem sido extremamente positivo na luta contra as emissões, uma das bandeiras dos programas quinquenais do governo chinês. Em 2015, e corroborando esta determinação, as emissões de CO2 decresceram 0,1% em relação ao ano anterior, o que, como cifra, pode não parecer relevante, mas como tendência é muito significativa, já que o consumo do país cresceu 1,5%; portanto, realizado com base em energia “menos poluente”, foi este o primeiro declínio nas emissões desde 1998. A China, que padece de um subdesenvolvimento das zonas mais remotas do interior, está a viver a urbanização massiva de áreas rurais, com o consequente aumento de consumo de energia pelas populações e pelos industriais aí residentes (estima-se que uma zona urbana consuma cerca de 2,5 vezes a zona rural). Esta situação leva a que se verifiquem cortes de energia frequentes, com graves consequências no desenvolvimento local, uma vez que a rede não suporta a procura. Isto levará a que projetos de atualização desta extensa rede de distribuição sejam implementados. Assim, e no campo da eficiência energética, a China tem um longo caminho a percorrer para se equiparar quer à Europa, quer aos EUA. Considerando que, por cada unidade de PIB produzida na Europa, se consomem 13 Tep (Tep-toneladas equivalentes de petróleo), nos EUA 20 (Tep) e na China ainda se consomem 69 (Tep). Enquanto o maior consumidor de energia à escala global, o país tem pela frente uma tarefa difícil a de equilibrar as suas necessidades energéticas, controlando ao mesmo tempo as emissões poluentes, sejam elas CO2 ou NOX. Como principal responsável pela poluição a nível mundial, a China tem que cumprir esta missão. O seu crescimento será mais rápido do que a média mundial, prevendo-se que a produção de energia cresça 38%, enquanto o consumo será de 47% entre 2015 e 2035, mais rápido que o mundial, cuja média é de 29% e 31%, respetivamente. A China terá de procurar diversificar as origens e de compensar o seu “déficie” energético. O seu mix de energia continuará dominado pelo carvão, que, dos 64%, em 2015, passará para 42%, em 2035, prevê-se que o carvão atinja o seu pico de consumo, em 2020. Estima-se que o gás natural duplicará para 11% e o petróleo subirá dos 18%, em 2015, para 20%, em 2035.
A CHINA E A REVITALIZAÇÃO DAS ANTIGAS ROTAS DA SEDA – NOVO VETOR DO COMÉRCIO MUNDIAL119A procura do petróleo e do gás natural crescerá 61% e 186%, respetivamente. No entanto, a China permanecerá como o maior importador de energia até 2035. Em 2035, estima-se que, a nível mundial, represente 31% da geração nuclear, passando a ser o segundo maior produtor mundial de gás, com origem “shale”, logo depois dos EUA. A sua dependência do petróleo importado continuará a subir dos atuais 61% para 79%, em 2035, altura em que a China representará ¼ da energia consumida mundialmente. A dependência da importação de energia confere ao controlo dos abastecimentos um caráter crucial e sempre presente nos investimentos e na economia do país, que continuará a sua tendência ascendente. As mudanças que se esperam na matriz energética da China terão inegáveis reflexos na geoeconomia mundial. Mas para que esta evolução seja consistente e sustentável, tem vindo a provar-se essencial a planificação a longo prazo, o controlo do transporte, os investimentos na atualização da frota marítima e na sua capacidade logística, focados nos estaleiros navais e na automatização dos portos. Para isso são de grande vantagem os planos quinquenais. A sul, a China está envolvida em grandes projetos, como o do istmo de Kra, no Golf da Tailândia, que encurtará consideravelmente o transporte e os riscos do estreito de Malaca, por onde se processa um terço do comércio mundial marítimo e onde o congestionamento se faz sentir. Por ali passam mais de 50 000 navios por ano. Também no sudoeste asiático, lidera consórcios, como o do oleoduto que liga o mar de Adamam a Kunming, no sul da China, através da Tailândia e do Frota marítima
120 Laos, ou do projeto de Siitwe, na Birmânia, que também efetua a ligação a Kunming, na China. Também a norte, desenvolve esforços no Cazaquistão, Turquemenistão e Uzbequistão, com o objetivo de garantir importações dos países da ex-União Soviética, seus vizinhos. Em 2012, um gasoduto com 8 704 quilómetros entrou em funcionamento, entre Horgos, na fronteira chinesa com o Cazaquistão, e as cidades costeiras de Xangai, Cantão e Hong Kong. Este gasoduto ramifica-se em oito canais regionais e permitirá a chegada de gás natural, desde a Ásia Central até várias metrópoles regionais da China, terminando na zona de Shanghai. Foi um investimento rondando os 142 200 milhões de Yuan (17 256 milhões de euros) e abastecerá uma área habitada por cerca de 500 milhões de pessoas. Ainda mais a norte, a China não tem ignorado as potencialidades energéticas da Rússia. Tem em funcionamento o oleoduto de Irkutsk, na Sibéria, até Daqing, no norte do país. Mas em todo este contexto da geopolítica Internacional, a China não tem esquecido os recursos internos, as suas jazidas de gás do oeste chinês, que representam 22% das suas necessidades de gás, mas que têm uma grande desvantagem; estão a milhares de quilómetros dos pontos principais de consumo. Esta situação obriga à adequação e à construção de gasodutos Este/Oeste, assim como de terminais logísticos e de armazenagem. Istmo de Kra
A CHINA E A REVITALIZAÇÃO DAS ANTIGAS ROTAS DA SEDA – NOVO VETOR DO COMÉRCIO MUNDIAL121A China tem, assim, uma multiplicidade de projetos em carteira, quer no campo da produção de energia, quer na logistica e controlo de unidades hidroelétricas e refinarias. Os programas de financiamento e as joint ventures, que tem promovido com os seus vizinhos, visam o crescimento económico da região de uma forma sustentada. Aliás, a região do globo onde se insere, o Sudoeste asiático, verá, até 2035, o seu consumo crescer em 62% e a sua produção crescer apenas 15%, pelo que terão de compensar este déficie com um significativo aumento das suas importações. Tudo isto, independentemente do facto de o carvão continuar a ser a fonte de energia dominante. Assim sendo, o crescimento do setor de energia elétrica no país será uma realidade pois, em 2015, o consumo per capita situava-se em 4,05 Mwh, enquanto nos países de referência, como os EUA e a Alemanha, era de 12,8 Mwh e 7,04 Mwh, respetivamente. Mas este crescimento anunciado está sufocado pelo acesso a uma rede de conexão e de distribuição obsoleta e sem capacidade de resposta. Os investimentos no desenvolvimento destas redes de distribuição, adequando-as às necessidades reais do país, serão muito elevados e terão de ser realizados num curto espaço de tempo. No sector rodoviário, também o caminho a percorrer pela China é considerável. Enquanto consome 126 Kg/Hab, os principais países desenvolvidos – EUA, Alemanha, França e Austrália consomem 1 625 Kg/Hab, 622 Kg/Hab, Oleoduto de Irkutsk
122 625 Kg/Hab, 1 113 Kg/Hab de petróleo respetivamente – isto , caso se mantenha a predominante utilização de motores a combustão. Mas a história repete-se e este longo caminho será semelhante ao que a China, um País enorme, já teve de percorrer no século VI para abastecer uma vasta população e o centro político e administrativo do extenso Império, localizado em Chang an, capital das dinastias Zhou e Han. Tiveram então que abastecer-se de quantidades suficientes de comida e outros bens essenciais que não podiam ser produzidos localmente e como tal tinham de ser trazidas de locais distantes. Esta necessidade obrigou ao desenvolvimento de vias de comunicação capazes de as suprir. Para tal movimentação de pessoas e bens, foram estabelecidas rotas, nomeadamente a da seda, para intercâmbio com o estrangeiro. Hoje em dia, a movimentação de pessoas e bens, tal como o desenvolvimento de infraestruturas, é motorizada, “a energia”, seja ela de que tipo for, está presente em qualquer bem transacionável, implícito nas rotas comerciais a montante, na aquisição das matérias-primas, ou a juzante, nos produtos acabados. A energia é certamente uma necessidade intrínseca a todas as rotas comerciais, que vão desenvolvendo centros populacionais e com elas vão crescendo, numa simbiose interminável. Hoje e para o futuro, a energia será um fator essencial no desenvolvimento, como na época dos imperadores o foi a disponibilidade de força braçal e animal. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BBC (2017) China dá maior impulso à energia eólica já visto no mundo http://www.bbc.com/portuguese/noticias Bp Energy Outlook (2017) https://www.bp.com/content/dam/bp/pdf/energy-economics/energy-outlook-2017/bp-energy-outlook-2017.pdf BP Statistical Review of World Energy (2017) https://www.bp.com/content/dam/bp/en/corporate/pdf/energy-economics/statistical-review-2017/ bp-statistical-review-of-world-energy-2017-full-report.pdf Ferrier, R.WE. (1977) “A Brief History of BP” – The British Petroleum Company Ltd. http://www.bbc.com/portuguese/noticias International Energy Agency (2017) www.worldenergyoutlook.org IRENA (2017) REmap 2030 http://www.irena.org/publications/2014/Jun/REmap-2030-Full-Report Mundo – Energia (2017) http://www.deepask.com/ NBS – National Bureau of Statistics of China (2017) http://data.stats.gov.cn/english/ Smith, D. (2016) The making of the Middle East, The Penguin State of the Middle East Atlas, Penguin books Stephen G. H. (2008) Historia da China. Edições Tinta da China World Wind Energy Assoc. (wwea) (2017) http://www.wwindea.org/
A CHINA E A REVITALIZAÇÃO DAS ANTIGAS ROTAS DA SEDA – NOVO VETOR DO COMÉRCIO MUNDIAL123 CAPÍTULO VIII A CHINA E A ÁSIA CENTRAL: NA ENCRUZILHADA DE UM GRANDE PROJETO | Paulo Duarte Introdução No presente capítulo dar-se-á a conhecer a importância da Ásia Central no âmbito da Nova Rota da Seda chinesa, geralmente intitulada de Uma Faixa, Uma Rota, e que inclui uma componente terrestre e uma outra marítima. Contudo, é o eixo terrestre que será alvo de análise nas próximas páginas, na medida em que a dimensão marítima do projeto chinês, é, por si própria, merecedora de uma outra investigação e rigor que necessitariam de um outro capítulo. Assim, para não dispersar a atenção do leitor, focar-se-á a Ásia Central, região de trânsito entre Oriente e Ocidente. Não obstante o seu caráter remoto e as subtilezas da geografia – que privam os cinco Estados centro-asiáticos do acesso ao mar – nem por isso a região é menos interessante do que outros pontos do planeta. Pelo contrário. De um ponto de vista energético, ou económico em sentido lato (onde a energia está inserida, como também os recursos minerais e outros), e ainda geopolítico e geoestratégico, este espaço do espaço pós-soviético é promissor e estimulante para um qualquer curioso. Acrescente-se ainda os aspetos sociológicos e culturais. Desengane-se, portanto, quem se atreva a falar num povo, indivíduo ou cidadão centro-asiático, porque tal não existe. Este foi um de vários ensinamentos importantes que o contacto físico com a região proporcionou ao autor do presente capítulo. De facto, embora a nível da categorização mental seja, quiçá, mais apelativo ou fácil reduzir a realidade centro-asiática a uma só, tal não é de todo possível, pelo facto de não haver uma realidade, mas, ao invés, uma pluralidade, heterogeneidade e complexidade de vivências, emoções e fenómenos que requerem,
124 por conseguinte, uma hermenêutica, ou seja, uma compreensão de cada contexto e cultura. Feita esta salvaguarda, retome-se a essência geopolítica e geoeconómica que leva a China a interessar-se por estes Estados de trânsito, que resultam do colapso da União Soviética. Não é por acaso que Xi Jinping apresentou, em setembro de 2013, pela primeira vez, o conceito de Uma Faixa Uma Rota ao mundo, através de um discurso proferido no Cazaquistão (Xinhuanet, 2015). A escolha do maior país centro-asiático (em termos territoriais) e, acrescente-se, o mais estável na região, como marca histórica e simbólica na cronologia da Nova Rota da Seda chinesa, tem em si subjacente a importância que a Grande Periferia centro-asiática assume no quadro da política externa chinesa da atualidade. A prioridade da nova China de Xi Jinping é a da promoção de um regionalismo inclusivo e, depois, naturalmente, a continuidade da marcha rumo ao Ocidente. Sem uma periferia estável, a Faixa e Rota que a China preconiza estariam, irremediavelmente, condenadas ao fracasso. Dito isto, faz sentido dar a conhecer ao leitor o que pode a Ásia Central oferecer à China e ao mundo no âmbito daquele que será, se tudo correr bem, o maior corredor económico do planeta (fig. 1), suscetível de abranger 4.4 mil milhões de pessoas, ou seja, 63% da população mundial. Ásia Central: uma região estratégica A Ásia Central é uma área de geometria variável, podendo referir-se, simplesmente, à Transoxiana, ou, então, ao espaço cultural definido pelas civilizações turco-persas, que se estende desde Istambul até ao Xinjiang (Roy, 2000). A Ásia Central é delimitada pelo Mar Cáspio, Sibéria, Mongólia, Tibete e o Hindu Kush.45 Trata-se de uma região interior, rodeada por uma enorme massa de terra que cobre um vasto território de estepes, desertos e montanhas, ocupando um espaço superior ao da Europa Ocidental e cerca de metade da área dos Estados Unidos (Kandiyotti, 2008). Do ponto de vista geográfico, a Ásia Central inclui o Cazaquistão, o Quirguistão, o Tajiquistão, o Turquemenistão e o Uzbequistão (fig. 2), enquanto a Eurásia Central agrupa os referidos países mais os três Estados do sul do Cáucaso (Arménia, Azerbaijão e Geórgia). A Ásia Central é uma região que, em bom rigor, só começou a ser analisada, do ponto de vista geopolítico, em termos de pesquisa de campo, pelos estudiosos ocidentais, a partir de 1991, na sequência do colapso da União Soviética. O termo Ásia Central carateriza um vasto conjunto histórico, articulado em torno de várias subunidades, bem como uma amálgama de situações económicas, políticas, ________________ 45 O Hindu Kush é uma cordilheira no Afeganistão e no Paquistão Ocidental, com cerca de 1200 Km de extensão.
A CHINA E A REVITALIZAÇÃO DAS ANTIGAS ROTAS DA SEDA – NOVO VETOR DO COMÉRCIO MUNDIAL125culturais, de processos identitários e comunidades étnicas. O facto de constituir um importante ponto de encontro de interesses económicos, geopolíticos, religiosos e etnolinguísticos, faz da Ásia Central uma zona dotada de uma profundidade histórica extraordinária, no coração dos grandes desafios da atualidade mundial. Todas estas Repúblicas que integram a região comungam de um presente relativamente recente (cerca de duas décadas e meia de independência) enquanto Estados autónomos, pese embora tenham diferido quanto ao rumo das suas políticas, autoritarismo, desenvolvimento, e forma de lidar com os desafios resultantes do colapso da União Soviética. A Ásia Central é uma região mais estável do que o Afeganistão, o Irão e o Médio Oriente, em geral, embora uma grande parte das pes-soas demonstre desconhecimento face a esta região, que se situa entre algumas das potências políticas mais importantes. De entre as várias cara-terísticas comuns às Repúblicas cen-tro-asiáticas, é de salientar o facto de todas elas serem Estados ‘interio-res’. Aliás, não deixa de ser curioso Figura 2 – Mapa da Ásia Central Fonte: The University of Texas, 2016Figura 1 – Uma Faixa uma Rota Fonte: Adaptado de http://www.sirjournal.org/op-ed/2016/3/20/ngd5k90acafjinn80ah0u8gxq48mp3
126 notar que a Ásia Central é a região do mundo com mais Estados interiores (ou land-locked, se preferirmos), se se juntar aos cinco países da Ásia Central pós-soviética, a Mongólia e o Afeganistão. O Uzbequistão, por exemplo, é um país duplamente isolado, na medida em que é rodeado de Estados que são, eles próprios, isolados. O facto de as Repúblicas centro-asiáticas não beneficiarem de um acesso direto ao oceano, exerce uma influência importante no seu desenvolvimento económico, sendo, por conseguinte, um tema de grande interesse. Tal não significa que a Ásia Central seja um ‘beco sem saída’ no mundo globalizado. A região, que integra a Nova Rota da Seda chinesa, é um cruzamento de rotas mundiais, provenientes, essencialmente, de todos os cantos do planeta. Embora localizadas num mesmo espaço regional, as várias unidades, neste caso, os Estados que a compõem, estão longe de formar um todo homogéneo suscetível, à partida, de facilitar a compreensão dos processos e realidades políticas, económicas e culturais a um qualquer curioso pela região. Ao invés, elas tendem a confundir um espírito impreparado e ingénuo que possa querer vislumbrar realidades e mundividências semelhantes em Estados que seguiram caminhos diferentes, findo o fator agregador, isto é, a União Soviética. Por outro lado, e segundo esta ordem de ideias, sublinhe-se que qualquer consideração geral em matéria de política sobre a Ásia Central deve tomar em conta a natureza dos regimes no poder, bem como os interesses específicos de cada um deles. Se, por um lado, é demasiado evidente que o papel da liderança é importante, por outro, a relação pessoal entre cada um dos líderes não deixa, também ela, de ser fundamental. Num espaço onde nada está definido e tudo se joga, persiste uma certa nostalgia geral, mais ou menos evidente, no Homo Sovieticus (fruto de uma mesma cultura e dotado de uma personalidade singular) face aos tempos de ouro em que ele não tinha de se preocupar com nada, visto que o ‘sistema’ se encarregava de tudo. Contrariamente ao passado, os ‘emancipados’ centro-asiáticos (fig. 3) estão, hoje, entregues a si próprios, filhos da Ásia Central, uma sub-região desprovida de acesso ao oceano, mercê da ‘boa vontade’ da cooperação dos Estados vizinhos, entre os quais uma Rússia e uma China, para acederem ao resto do mundo. E é interessante notar como os próprios têm consciência da sua posição de dependência face a esta ‘boa vontade’ alheia, como atesta o desabafo de Meruert Makhmatova46 (2011), investigadora cazaque: “não somos atores principais, mas parte do jogo” (entrevista pessoal, Almaty, 2011). Contudo, uma parte importante, capaz, também ela, paradoxalmente, de frustrar as ambições das potências externas, em resultado do seu poder funcional. Em suma, as Repúblicas centro-asiáticas são, hoje, marcadas por diferentes tipos de transformações políticas, económicas e sociais, diferentes ritmos, ________________ 46 Diretora do Centro de Investigação em Políticas Públicas, em Almaty (Cazaquistão).
A CHINA E A REVITALIZAÇÃO DAS ANTIGAS ROTAS DA SEDA – NOVO VETOR DO COMÉRCIO MUNDIAL127diferentes conceções sobre o signifi-cado do devir histórico. Elas convergem na vontade de maximizar os benefícios decorrentes da competição entre as po- tências externas, mas demonstram muita incapacidade em cooperar com vista à resolução dos problemas regionais. Desde o colapso da URSS, que as Repúblicas centro-asiáticas têm sido minadas pela instabilidade. Com uma história baseada, em grande parte, na vida dos clãs, uma liderança inexperiente e relativamente recente, e um potencial incalculável de recursos energéticos, a Ásia Central tem experienciado proble-mas significativos de corrupção, de abuso de direitos humanos, conflito e agitação civil. Os regimes políticos estabelecidos nas Repúblicas centro-asiáticas são, todos eles, autoritários, ainda que os níveis de autoritarismo variem de acordo com os países em questão. Para sermos precisos, o Cazaquistão, o Quirguistão e o Tajiquistão são Estados semi-autoritários, enquanto o Uzbequistão e o Turquemenistão são dirigidos por regimes autoritários, se não mesmo ditatoriais (Warkotsch, 2008). A caraterística central e unificadora destes Estados consiste, na prática, no caráter patrimonial dos seus regimes. Na verdade, a principal dinâmica política (ainda que informal) é representada pela relação entre os Chefes de Estado e certos grupos de interesse, em vez de pelo Estado de Direito, ou pela relação entre o Governo e o seu povo. Por outras palavras, o poder do governo resulta do patrocínio de redes poderosas, magnatas do mundo dos negócios e grupos regionais. Por conseguinte, a manutenção do status quo na região é do interesse fundamental dos governos centro-asiáticos, uma vez que a transformação das estruturas político-sociais poderá, inevitavelmente, acarretar a perda de poder dos regimes atuais. Ora, a China não está, naturalmente, interessada numa espiral de instabilidade política e social na sua periferia. A Faixa e Rota – o Regionalismo de um Projeto Global Nenhum investidor ousa lançar-se num projeto de grande envergadura sem primeiro ‘arrumar a casa’. Que quer isto dizer no caso da Faixa e Rota chinesa? Os Figura 3 – Um habitante do Quirguistão Fonte: Autor, Quirguistão 2012
128 decisores políticos chineses estão conscientes da importância de garantir uma periferia estável, não só para evitar ventos de contaminação separatista ou terrorista, suscetíveis de agravar a instabilidade securitária do Xinjiang, como também para que as rotas terrestres que partem da China, atravessando a Ásia Central rumo ao Ocidente, produzam a eficácia desejada. Neste sentido, a política centro-asiática da China, visa, acima de tudo, estabelecer uma esfera de influência suficientemente robusta na Ásia Central – principalmente através da cooperação económica e política entre os Estados da região – com o objetivo de assegurar estabilidade aos seus projetos económicos e a coesão das diferentes etnias. Para concretizar tais metas, a China de Xi Jinping concebe a Nova Rota da Seda chinesa como o principal instrumento de estabilização da periferia e de desenvolvimento do Xinjiang. A China está ciente de que a globalização requer um esforço prévio de regionalização. A interiorização de que é preciso primeiro olhar para a periferia, para depois aspirar mais alto, resulta de uma observação – atenta, por parte da China – da História. De facto, como explica Yan Xuetong, “o curso inevitável das potências emergentes na história mundial foi tornar-se primeiro uma potência regional e depois uma potência mundial” (cit. por The Diplomat, 2015). Importa, contudo, esclarecer dois aspetos decorrentes desta observação. Em primeiro lugar, a China não é uma potência emergente, mas reemergente. A Faixa e Rota mais não é que um poderoso utensílio para a China nostálgica e pragmática da atualidade revisitar a História, ou seja, o seu passado glorioso de Império do Meio, que comercializava bens de vária ordem com a grande periferia mundial. Voltar a ser o centro de gravidade de um comércio promissor e pacífico faz, pois, parte dos planos de uma China que reivindica o seu projeto como sendo suscetível de criar uma comunidade de destino comum. Em segundo lugar, a China já é uma potência mundial. Não há dúvidas quanto a isso, quanto mais não seja porque tudo o que a China faz (ou não faz) acaba por se repercutir, direta ou indiretamente, à escala mundial. O que lhe falta é ser uma superpotência, categoria máxima e inigualável em todas as esferas do poder, que neste momento é atribuída exclusivamente aos Estados Unidos. Tal não quer dizer, contudo, que os chineses não lutem para reencontrar o caminho da tentação imperial, para voltarem a ser a grande nação que foram no passado. Esta amálgama de destino manifesto, de missão histórica, de nacionalismo, de prestígio e nostalgia de um passado glorioso poderá, um dia, fazer da China uma superpotência. Excetuando algum grande incidente, imprevisto ou um grave erro de estratégia por parte do Partido Comunista chinês, Pequim parece dispor de todas as vantagens em mão para o conseguir. De facto, as fraquezas de hoje serão, talvez, as forças de amanhã, sendo dificilmente concebível que um estado tão grande, territorial e demograficamente, não desempenhe um papel mais importante no futuro (Christophe, 2006). Mas esta possibilidade não deve ser encarada como um
A CHINA E A REVITALIZAÇÃO DAS ANTIGAS ROTAS DA SEDA – NOVO VETOR DO COMÉRCIO MUNDIAL129fenómeno anormal. Pelo contrário, ela inscreve-se na dinâmica natural do ‘nascimento e declínio das grandes potências’, onde ora um ou vários estados dominarão, ora declinarão. Além disso, o comportamento da China parece inspirar-se largamente nos preceitos de Lao Tseu: “Não nos coloquemos adiante, mas não fiquemos para trás”, ou “o maior conquistador é o que sabe vencer sem batalha” (cit. por Karaljija, 2006: 3). À parte este pequeno parêntesis, retomemos o pensamento de Yan Xuetong, para quem a ascensão da China ao estádio último do poder requer, como ensina a História, uma prévia consolidação da estratégia, interesses e relações com os países da periferia. Xi Jinping sabe-o bem, como atesta a escolha do Cazaquistão enquanto marca espácio-temporal simbólica no anúncio da Faixa e Rota chinesa ao mundo. O regionalismo é uma prioridade na política externa chinesa. Cite-se, a este respeito, um provérbio chinês que ilustra bem a tendência de evolução (para um maior dinamismo) da política chinesa face ao tratamento dos assuntos regionais: “mais vale um vizinho próximo que um primo afastado” (Tiezzi, 2015: para.8). De entre as principais linhas que pautam o regionalismo chinês, destaque-se a busca de uma confiança e benefícios mútuos; o desejo de a China ser um participante ativo, ao invés de um líder proativo; uma estratégia gradual; a promoção da identidade regional chinesa; a opção por um regionalismo aberto e inclusivo (que não exclui, portanto, a participação de outros); um regionalismo que visa trazer soluções, ser um antídoto face às próprias fragilidades domésticas chinesas (Ministry of Foreign Affairs of the People’s Republic of China, 2016a & 2016b). Com a chegada de Xi Jinping ao poder, o regionalismo chinês tem privilegiado numa nova arquitetura para a segurança regional, utilizando as organizações multilaterais para promover a Nova Rota da Seda chinesa, e a consequente criação de uma comunidade de destino comum. Esta última assenta na ideia de que o Sonho Chinês será alcançado apenas através da partilha dos frutos do desenvolvimento com os países da região. A Organização de Cooperação de Xangai, ela própria resultante de uma iniciativa institucional chinesa, constitui um bom exemplo da aposta de Xi Jinping numa diplomacia de vizinhança. Este fórum que permite a Pequim tratar os assuntos regionais com os Estados centro-asiáticos e a Rússia (fundamentalmente), é um mecanismo de grande importância não só na (re) definição da ordem regional, bem como no apoio à concretização económica, logística, militar, política e cultural dos objetivos a que se propõe a Faixa e Rota chinesa. Não deixa de ser interessante notar que num momento em que o flanco leste da China se encontra impregnado de um misto de rivalidades, tensões e riscos, em resultado dos litígios nos mares da China Meridional e Oriental, a Ásia Central proporciona, ao invés, uma margem de manobra maior. A Organização de Cooperação de Xangai reflete, a este respeito,
130 uma postura de liderança chinesa claramente mais assertiva do que no caso da ASEAN47. Contudo, os avanços da China na Ásia Central, no quadro da sua Faixa e Rota, apenas necessitam de acautelar a influência ainda dominante que a Rússia exerce na região, já que, ao fim ao cabo, este é o near abroad de Moscovo. Tida essa prudência, para não ferir a parceria sino-russa, a Faixa e Rota tem tudo para ser bem-sucedida nos países centro-asiáticos, enquanto corredores de ligação aos mercados ocidentais. Por que é a Ásia Central importante para a China? Quando se fala da Ásia Central, existe, por vezes, uma grande tentação em perceber a região como uma espécie de Novo Médio Oriente, que tenderá a colmatar as necessidades energéticas de uma China insaciável em matéria de consumo energético. Ora, se é verdade que a região é particularmente rica em petróleo, gás natural e minérios vários (como urânio, ouro, entre outros), é, contudo, utópico pensar-se que a Ásia Central poderá mitigar consideravelmente a dependência energética da China face, por exemplo, ao Médio Oriente, Angola ou Rússia. Em rigor, a Ásia Central contribui apenas em 1% na satisfação das necessidades energéticas chinesas. Não deixa de ser um facto que a China é um ator ativo na diversificação de parceiros energéticos e, inclusive, na construção de oleodutos e gasodutos, que atualmente lhe permite receber petróleo e gás natural de alguns dos países centro-asiáticos. A China veio, na prática, quebrar o longo monopólio soviético e, depois, russo, ao nível do controlo logístico de oleodutos e gasodutos na região, ao permitir aos países da região (fundamentalmente ao Cazaquistão e Turquemenistão) direcionar as suas exportações para leste, através da construção de novas infraestruturas, suscetíveis de contornar a logística até então dominada por Moscovo. Isto é naturalmente negativo para a Rússia, mas muito positivo para estes países que conseguem, de ora em diante, maximizar os seus interesses, fruto de um aumento de players que desde há uns anos estão envolvidos no chamado Novo Grande Jogo (energético) centro-asiático. Trata-se de uma analogia (nem sempre consensual) face ao antigo Grande Jogo que outrora opusera os impérios russo e britânico pelo controlo da região. Porém, é preciso sublinhar que a China é um ator relativamente tardio na Ásia Central. Por um lado, tal deve-se, em parte, ao facto de até 1993 (o ano de viragem na segurança energética chinesa), a China ter sido um claro exportador de petróleo, sendo que a partir de 1993 a sua produção doméstica não mais conseguiu acompanhar o consumo interno de petróleo. Foi então que as National Oil ________________ 47 Associação das Nações do Sudeste Asiático.
A CHINA E A REVITALIZAÇÃO DAS ANTIGAS ROTAS DA SEDA – NOVO VETOR DO COMÉRCIO MUNDIAL131Companies chinesas embarcaram numa massiva operação de aquisição de campos petrolíferos, equity oil, ou, por exemplo, joint ventures no estrangeiro. Contudo, por ser um ator tardio no mercado energético mundial, a China acabou por ficar com os campos petrolíferos mais remotos, ou seja, os que haviam sobrado após outros atores (de que são exemplo os Estados Unidos), terem adquirido o que de melhor havia na altura. Não obstante, a China procurou adaptar-se, recorrendo inclusive a promissores negócios com os chamados Estados-Pária, de que são exemplo, o Sudão ou a Líbia. O olhar para a periferia centro-asiática, como alternativa no leque de diversificação energética chinesa, deve ser, pois, interpretado nesta conjuntura de incentivo ao going abroad. Mas se a Ásia Central está longe de se substituir ao Médio Oriente como fonte de aprovisionamento energético, a região é, ainda assim, crucial para a concretização da Faixa e Rota, entre outros aspetos, por meio da construção do chamado Corredor Económico China – Paquistão (CECP), que visa ligar o Xinjiang ao porto paquistanês de Gwadar, no Índico (fig.4). Ora, em que é que este projeto poderá convir aos interesses da China? Com uma extensão de cerca de 2 mil quilómetros, o CECP é suscetível de oferecer uma rota e tempo de expedição consideravelmente mais curtos ao petróleo em trânsito desde o Médio Oriente até aos portos chineses (a rota atual é de 13 mil quilómetros, como atesta a fig. 5). Mas acresce ainda que o petróleo que chega por mar até Figura 4 – Corredor Económico China – Paquistão Fonte: Adaptado de www.offiziere.ch/?p=26318
132 Gwadar – para a partir daí ser expedido por oleoduto para Kashgar no Xinjiang – evita a tradicional rota de Malaca (e o respetivo dilema de Malaca48), que tanto preocupa a China. Desengane-se quem concebe a importância energética da Ásia Central para a China, como suscetível de se confinar apenas ao petróleo e gás natural. Na realidade, como o autor do presente capítulo constatou aquando da sua pesquisa doutoral na região, existem oportunidades promissoras inerentes à exploração dos recursos hídricos e à produção de eletricidade na região. Este assunto tem passado relativamente desapercebido pelos meios de comunicação e comentadores políticos, mas a verdade é que os dois países menos ricos em petróleo e gás na região – Quirguistão e Tajiquistão – possuem, contudo, algo de extrema importância não só para os outros Estados centro-asiáticos, como inclusive, para ________________ 48 A expressão Dilema de Malaca refere-se à excessiva dependência e vulnerabilidade da economia chinesa face ao Estreito de Malaca. Uma grande parte do petróleo consumido pela China é proveniente de África e da Ásia Ocidental, e cerca de 80% atravessa o Estreito de Malaca. Caso este venha a ser objeto de ameaça ou de controlo por parte de Estados hostis ou de atores não-Estatais, o comércio da China poderá ser interrompido. A crise energética daí resultante seria suscetível de paralisar a sua economia. Embora, até ao presente, a marinha mercante chinesa nunca tenha sido alvo de qualquer tentativa de bloqueio marítimo por parte de atores Estatais ou não-Estatais estrangeiros, na prática, o receio associado a Malaca é, ainda que mais psicológico que real, um aspeto determinante e omnipresente na política externa chinesa. Figura 5 – Rota convencional do petróleo (via Malaca) Fonte: Adaptado de Vandewalle, 2015
A CHINA E A REVITALIZAÇÃO DAS ANTIGAS ROTAS DA SEDA – NOVO VETOR DO COMÉRCIO MUNDIAL133a China: o ouro branco, ou seja, a água. Num contexto de tensões exacerbadas, ao nível regional, pelo controlo deste importante recurso, a China pode ainda assim, cooperar ativamente com as repúblicas centro-asiáticas, no sentido de mitigar tais tensões e rivalidades. Afinal de contas, a Faixa e Rota visa, entre outros aspetos, a aposta numa periferia estável, como atrás se explicou. Em concreto, Pequim pode ser um investidor importante nos recursos hídricos da região, mais propriamente na infraestrutura de irrigação centro-asiática, alvo de grave desperdício e má gestão. Por outro lado, a China pode prestar um contributo significativo na melhoria das práticas de cultivo e no intercâmbio de tecnologia agrícola, em cooperação com os países da região. Embora a China seja um ator relativamente tardio no mercado hidroelétrico da Ásia Central – os maiores projetos de centrais hidroelétricas já haviam sido lançados durante a era soviética, estando hoje nas mãos de empresas russas – Pequim tem cooperado, nos últimos anos, com países como o Cazaquistão, Quirguistão e Tajiquistão em termos de know-how e investimento na construção de novas linhas elétricas. Mas, ao contrário da tendência que carateriza a busca de hidrocarbonetos, o objetivo de Pequim aqui não é o de fazer chegar a eletricidade centro-asiática às grandes cidades do leste da China (já que as linhas elétricas teriam de se estender por pelo menos 6 000 quilómetros), mas sim compensar o défice de energia e falhas de eletricidade que se verificam no Xinjiang. Além do interesse em garantir o fornecimento de energia – constante e barato – ao Xinjiang, a China pondera vender o excedente de eletricidade (produzida no Tajiquistão e no Quirguistão) a países do chamado corredor sul, como o Afeganistão, Paquistão, Irão e Índia, motivada pelos consideráveis lucros que daí poderão eventualmente resultar. Com vista à concretização de tais objetivos, Pequim tem privilegiado a construção de centrais hidroelétricas, bem como a instalação e modernização de linhas de alta tensão49, capazes de permitir a distribuição de eletricidade quer para dentro, quer para fora da região. Uma outra razão, pela qual a Ásia Central é importante para a China, tem a ver com o facto de a Faixa e Rota chinesa ambicionar uma ligação ferroviária, de alta velocidade, suscetível de ligar a médio prazo, Londres a Pequim, em apenas 48h. Atualmente o transporte ferroviário China-Europa demora cerca de 10 dias, enquanto o transporte marítimo necessita de aproximadamente 45 dias, com atrasos, em alguns casos, significativos. Por outro lado, a opção ferroviária permite escoar com mais eficácia produtos que são sensíveis à humidade, perecíveis ou de elevado valor. A rota ferroviária Yiwu-Madrid (fig. 6), operacional desde finais de ________________ 49 Na maioria dos casos, com sérios problemas ou mesmo obsoletos, devido à falta de manutenção desde a era soviética.
134 2014, é neste momento a mais extensa do mundo, ultrapassando em comprimento, a linha do Transiberiano. Face ao congestionamento dos portos marítimos na China, e à necessidade de escoar com mais celeridade determinadas mercadorias, a Ásia Central surge, assim, como uma peça fundamental no campo da logística, como região de trânsito entre o Oriente e o Ocidente. Contudo, há ainda vários desafios que a China e os países centro-asiáticos necessitam, em conjunto, de superar, para que os carris possam oferecer uma via alternativa (mais) vantajosa face ao transporte marítimo, o qual é ainda responsável por mais de 95% do comércio entre a China e a Europa. Desafios esses que vão desde harmonizar as várias bitolas (ou seja, a distância entre os carris) ao longo do percurso ferroviário transasiático, combater a burocracia e a corrupção nas várias administrações ferroviárias, entre outros. Um outro motivo que explica a relevância da Ásia Central para Pequim, no âmbito da sua Faixa e Rota, consiste na extraordinária interdependência entre as economias da região e a da China. Na prática, a importação de produtos chineses, por parte dos países centro-asiáticos, levou à formação de um nicho económico para uma parte da população da região. O caso do Mercado de Dordoi (que o autor do presente capítulo teve ocasião de visitar no âmbito da sua pesquisa doutoral na Ásia Central) constitui, seguramente, um dos melhores (quiçá o melhor) exemplos a este respeito, devido à sua importância económica na Ásia Central, mais concretamente, no Quirguistão, onde gera um fluxo extraordinário de mercadorias e de capitais. O Mercado de Dordoi (nos arredores de Bishkek) não é, apenas, um grande centro de comércio e de emprego para o Quirguistão, como também, um dos maiores mercados de Figura 6 – O Transiberiano vs a Rota Yiwu-Madrid Fonte: www.independent.co.uk/news/world/europe/china-to-spain-cargo-train-successful-first-16156-mile-roundtrip-on-worlds-longest-railway-brings-10067895.html
A CHINA E A REVITALIZAÇÃO DAS ANTIGAS ROTAS DA SEDA – NOVO VETOR DO COMÉRCIO MUNDIAL135reexportação na Ásia Central, servindo de armazém aos produtos chineses, que se destinam a ser vendidos na Rússia, Cazaquistão e Uzbequistão. O período que se seguiu imediatamente ao colapso da União Soviética foi marcado por um enfraquecimento institucional, no âmbito do qual os serviços alfandegários foram consideravelmente afetados, pelo que passou a ser bastante fácil, sobretudo no caso do Quirguistão, importar diversos bens a partir de outros países. Neste contexto, era mais económico expedir mercadorias a partir da China para o Quirguistão, e depois conduzi-las, a partir daí, para o Uzbequistão, Cazaquistão e Rússia (Mogilevski50, entrevista pessoal, Bishkek, 2012). Tal dinâmica deu origem a um negócio gigantesco, levando mais e mais pessoas a envolver-se nele, como atesta bem o Mercado de Dordoi, que é, em bom rigor, o centro regional deste comércio e, simultaneamente, o maior mercado de matérias-primas e produtos básicos chineses em toda a Ásia Central e Rússia (fig. 7). Note-se que os bazares são um instrumento fundamental de soft power, ou seja, de poder de atração, de capacidade de seduzir. Muitos empresários centro-asiáticos admiram o desenvolvimento econó-mico chinês e preferem negociar com os chineses. Na prática, os bazares ali-mentam um grande grupo de pessoas, desde comerciantes e pessoal de ser-viço a agentes do Estado e criminosos, e, portanto, tais grupos de pessoas emergem como atores importantes, suscetíveis de moldar a política nacio-nal e externa de um Estado (Tokto-mushev, 2015). Os líderes centro-asiáticos pro-curam parceiros estrangeiros pragmá-ticos, e que sejam capazes de investir em grandes projetos. A China – que preenche tais caraterísticas – tem le-vado a cabo uma política de investi-mento, inaugurando e melhorando rodovias e ferrovias, redes elétricas e centrais hidroelétricas, explorando mi-nerais preciosos, e, naturalmente, de-________________ 50 Roman Mogilevski é um especialista em políticas públicas e assuntos regionais, de nacionalidade quirguize.Figura 7 – Comerciante quirguize Fonte: Autor, Quirguistão 2012
136 senvolvendo relações comerciais. O comércio entre a China e os cinco Estados centro-asiáticos passou de 1,8 mil milhões de dólares, em 2000, para 50 mil milhões em 2013, o que significa que a China ultrapassou a Rússia nos últimos anos, tornando-se o maior parceiro comercial da região (The World Bank, 2016). Além disso, o atual tumulto económico devido à crise do rublo contribuiu para realçar ainda mais o papel crucial da China enquanto estabilizador económico regional (Cooley, 2015). Considerações finais Como súmula do até aqui analisado, afigura-se legítimo concluir que a China e a Ásia Central se encontram ambas na encruzilhada de um Grande Projeto. A Ásia Central tem sido muitas vezes negligenciada por diversos comentadores políticos, embora a região ofereça oportunidades notáveis para a realização da Faixa e Rota chinesa, enquanto ponte entre o Oriente e o Ocidente. Além disso, este espaço do espaço pós-soviético é alvo de uma rica dinâmica humana, cultural, histórica, social, civilizacional e económica, que requer um olhar mais atento, pois, afinal, a Ásia Central, o heartland de Mackinder, tem tudo para uma (re) união com a História, não mais com mulas e camelos, mas com cabos de fibra ótica e linhas ferroviárias de alta velocidade, com profundos impactos para a geopolítica regional e global. É essencial superar-se primeiro os obstáculos burocráticos e a desconfiança entre os Estados envolvidos na revitalização dos corredores logísticos, para que o projeto chinês possa colher os frutos que ambiciona. A forma como a visão e as iniciativas dos diferentes atores face à Ásia Central evoluírem poderá ditar (ou não) a inversão das teorias convencionais que concebem a região como uma ilha remota. Mas a conclusão mais audaz deste capítulo aponta para o impacto não só para a Ásia Central, como para o mundo, que decorre do facto de que utilizando a Faixa e Rota como instrumento, a China quer voltar a aproximar a Europa do Heartland de Mackinder, enfraquecendo assim a longa supremacia transatlântica. A Faixa e Rota é a resposta de uma China pragmática e nostálgica à estabilidade interna e à desaceleração económica, proporcionando espaço para uma China que marcha rumo ao Ocidente, num contexto em que o seu flanco oriental se encontra mergulhado em tensão. Dado que não existe uma única Nova Rota da Seda, mas várias iniciativas de integração regional na Ásia Central – a Faixa e Rota da China, a New Silk Road dos Estados Unidos, a União Económica Eurasiática (projeto de integração regional da Rússia) – a Nova Rota da Seda é, por conseguinte, um conceito ambíguo que engloba diferentes visões acerca do regionalismo na Ásia Central, de acordo com os interesses de cada país. Entre os vários projetos coexistentes, não é descabido
A CHINA E A REVITALIZAÇÃO DAS ANTIGAS ROTAS DA SEDA – NOVO VETOR DO COMÉRCIO MUNDIAL137salientar a proposta da China como sendo, eventualmente, a mais promissora ao nível da integração regional. As razões são as seguintes. No caso da Rússia, a União Económica Eurasiática está a enveredar por um mesmo caminho perigoso que levou ao falhanço do seu antecessor, mais conhecido por Comunidade Económica Eurasiática (ou EurAsEC). A US New Silk Road, por sua vez, parece ter perdido o ímpeto inicial que a caraterizara, aquando do seu anúncio oficial, em 2011. Restam as iniciativas da União Europeia, cuja política externa fragmentada permanece refém do impulso de uma França ou Alemanha. Mas, no geral, a marcha da China rumo ao Ocidente pode ser complementar aos esforços de uma União Europeia que busca o caminho do Oriente. A Faixa e Rota chinesa tem muito a oferecer à Europa, e esta muito a ganhar ao reaproximar-se da Ásia Central, por meio de um reencontro com a História, com o Passado, através de uma fusão de sinergias com o projeto de conetividade chinês. Com efeito, a Faixa e Rota chinesa pretende fazer da União Europeia um parceiro importante, como atestam os investimentos chineses na Europa, a importância geoestratégica do Porto do Pireu, o interesse chinês em colaborar no Plano Juncker, as ligações ferroviárias China-Europa, ou o notável acolhimento que vários Estados europeus manifestaram por meio da adesão ao Banco Asiático de Investimento em Infraestruturas. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Christophe, H. (2006). La Chine pourrait-elle devenir la prochaine superpuissance? Analyse de l’évolution d’un pays en plein essor selon les différents critères théoriques de «puissance», Mons: Faculté de Sciences Sociales et Politiques. Cooley, A. (2015). “China’s Changing Role in Central Asia and Implications for US Policy: From Trading Partner to Collective Goods Provider”. Prepared Remarks for “Looking West: China and Central Asia”. U.S.-China Economic and Security Review Commission. March 18. Kandiyoti, R. (2008). “What price access to the open seas? The geopolitics of oil and gas transmission from the Trans-Caspian republics”. Central Asian Survey, vol. 27, n.º 1, pp. 75-93. Karaljija, N. (2006). Le Rôle de la Chine depuis 1949: Puissance Régionale ou Hégémon?, Louvain-la-Neuve: UCL. Makhmatova, M. (2011). Entrevista pessoal. Almaty. Ministry of Foreign Affairs of the People’s Republic of China (2016a). “One Belt One Road: A Community of Common Interest”. Address by H.E. Ambassador Yang Yanyi at the European Parliament. February 16. Ministry of Foreign Affairs of the People’s Republic of China (2016b). “Deepening Regional Cooperation for a Community of Shared Future”. Speech by H.E. Liu Zhenmin. Vice Foreign Minister of China. At the “Asian Regional Cooperation Roundtable”. Boao Forum for Asia Annual Conference 2016. March 25. Mogilevski, R. (2012). Entrevista pessoal, Bishkek. Roy, O. (2000). The new Central Asia. The creation of nations. New York: New York University Press.
138 The Diplomat (2015). “Is China’s Periphery Becoming the Core of Its International Relations?”. January 29, http://thediplomat.com/2015/01/is-chinas-periphery-becoming-the-core-of-its-international-relations/ The World Bank (2016). “The Impact of China on Europe and Central Asia”. ECA Economic Update April 2016, 120p. Tiezzi, S. (2015). “How China Seeks to Shape Its Neighborhood”. The Diplomat, April 10, http://thediplomat.com/2015/04/how-china-seeks-to-shape-its-neighborhood/ Toktomushev, K. (2015). “Central Asian Bazaars as A Soft Power of Beijing”. ChinaUsFocus, December 7. Warkotsch, A. (2008). “Normative Suasion and Political Change in Central Asia”. Caucasian Review on International Affairs, vol. 2, n.º 4, pp. 62-71. Xinhuanet (2015). Chronology of China’s Belt and Road Initiative, http://news.xinhuanet.com/english/2015-03/28/c_134105435.htm
A CHINA E A REVITALIZAÇÃO DAS ANTIGAS ROTAS DA SEDA – NOVO VETOR DO COMÉRCIO MUNDIAL139 CAPITULO IX A ÚLTIMA ROTA DA SEDA QUE A HISTÓRIA CONHECEU E A NOVA ROTA DA SEDA QUE A HISTÓRIA VAI CONHECER | Fernanda Ilhéu Portugal e a China foram e são protagonistas das mais transformacionais visões globais e interessantes odisseias ao cruzar caminhos e rotas ainda não explorados, ou pelo menos, pouco usuais num percurso de grande alcance histórico, que se tem uma componente de estratégia expansionista económica e política nacionais, tem também uma preocupação global e ecuménica, num processo de busca unitária de um mundo melhor, com mais valores e melhores condições de vida, independente do modelo ser cristão ou sem uma religião precisa. No caso de Portugal, introduziu um mundo novo à escala global, que ficou conhecido pelo movimento dos descobrimentos. A Rota da Seda Marítima dos Séculos XV e XVI iniciou-se em Lisboa e chegou à India, à China e ao Japão e no mundo nada ficou igual e tudo evoluiu, desde a relação de forças político- económicas, ao conhecimento cientifico em campos muito variáveis como a medicina e farmacopeia, a geografia, a geologia, a astronomia, às ciências da natureza e do reino animal, à musica e à arte em geral, à culinária e ao modo de viver. Conforme descreve Martin Page no livro a Primeira Aldeia Global, os portugueses levaram as tulipas, o tabaco e os diamantes para Holanda, o chá para Inglaterra, o caril para a Índia (chilli pepper do Brasil misturado com outras especiarias), a tempura e as espingardas para o Japão e os matemáticos portugueses foram assessores do Imperador da China. A Última Rota da Seda que a História Conheceu Durante quase um século, Portugal preparou e desenvolveu a Rota Marítima para a Índia. A primeira etapa desse projeto inicia-se com o Rei D. João I, com a
140 tomada de Ceuta em 1415. O rei queria reforçar a sua autoridade, recompensar os que o ajudaram e apoiaram na sua subida ao trono, ver resolvidos os problemas económicos, que afetavam o reino, como a falta de cereais e metais preciosos (prata e ouro), ter acesso a novos produtos como especiarias, açúcar, seda, plantas tintureiras e outros, procura de escravos, a força de trabalho mais barata na época, e queria ainda alcançar prestígio em relação aos outros reis da Europa; o clero via na expansão uma oportunidade para transmitir a fé cristã e combater os muçulmanos, a nobreza queria alargar os seus domínios a outras terras obtendo novos cargos e títulos, o povo pretendia melhorar as suas condições de vida tornando-se colonos ou marinheiros. Os burgueses (que faziam parte do grupo social do povo) tinham na época já poder financeiro, mas não social e queriam aumentar os seus lucros, praticando o comércio, aumentando em número os seus mercados e descobrindo novos produtos com que comerciar e, simultaneamente ter reconhecimento social. Eles sabiam que as especiarias, como a canela, o gengibre, a pimenta, o açafrão, o cravo atingiam no Ocidente valores muito elevados, devido às suas propriedades na farmacopeia e na culinária e à dificuldade na sua obtenção. As caravanas de mercadores experientes vindos do Oriente percorriam longos e arriscados percursos, sem chegada garantida até Veneza e Génova no Mediterrâneo, onde os seus comerciantes as distribuíam pelo resto Europa a preços muito elevados Em 1453 com a tomada da cidade de Constantinopla pelos Otomanos, estas trocas comerciais via Veneza e Génova ficaram reduzidas. Rotas comerciais da Seda e Especiarias bloqueadas pelo Império Otomano em 1453
A CHINA E A REVITALIZAÇÃO DAS ANTIGAS ROTAS DA SEDA – NOVO VETOR DO COMÉRCIO MUNDIAL141Portugal percebeu que tinha chegado a hora de dar um passo significativo na expansão do seu comércio e do Reino de Portugal, que já se transformara em Império, criando uma rota comercial marítima alternativa, propondo-se ligar diretamente as regiões produtoras de especiarias aos seus mercados na Europa, via Atlântico. Esta rota, embora tivesse os perigos do mar, era isenta de assaltos e iria proporcionar no futuro um grande rendimento e um grande poder a nível mundial a Portugal. Este projeto delineado por D. João II iniciou-se em 1487, com o envio de emissários que obtiveram informações que permitiram planear a viagem, garantindo a sua segurança marítima e terrestre nos locais de acostagem e a aceitação pelos monarcas desconhecidos que iriam ser contatados. A preparação foi longa e o empreendimento só foi realizado no reinado do seu sucessor, D. Manuel I, que manteve os planos traçados por D. João II e designou Vasco da Gama para comandar esta expedição, que começou em Lisboa a 8 de julho de 1497 e chegou à India a Kappakadavu, próxima de Calecute a 17 de Maio de 1498. Calecute era na época a mais importante cidade da Índia Ocidental e Vasco da Gama sabendo das suas riquezas em especiarias (era o centro do negócio da pimenta e rico em gengibre e canela), joias, algodão, açúcar, cereais, seda, tabaco, marfim e perfumes, manobrou os seus navios, apesar das difíceis condições de tempo para aportar nas suas margens. Sanjay Subrahmanyam (1997) na sua obra “The Career and Legend of Vasco da Gama”, refere que, ao chegar, os portugueses enviaram a terra um emissário, Rota da Expedição de Vasco da Gama
142 que ao desembarcar foi levado para um local onde dois mouros de Tunes sabiam falar castelhano e genovês e serviam de intérprete ao Zamorim, que negociava já há bastante tempo com mercadores da Arábia. Nos cumprimentos iniciais foi-lhe dito: - Que diabo vos trouxe? O que vieram cá fazer? Ao que ele respondeu: Nós viemos procurar cristãos e especiarias. E foi-lhe perguntado: Porquê que o Rei de Castela, o Rei de França e a Senhoria de Veneza não enviaram aqui os seus homens? E a resposta foi: Porque o Rei de Portugal não os deixou fazer isso. Ao que eles disseram que o Rei tinha feito bem e foi então bem recebido tendo voltado a bordo com um dos mouros que foi dar as boas vindas a Vasco da Gama e convidá-lo para um encontro com o Zamorim. Podemos ver como o projeto dos descobrimentos e do caminho marítimo para a Índia integrou sempre uma importante vertente religiosa, o que justificou o apoio e proteção da Santa Sé e desde a sua fundação em 1540, da Companhia de Jesus no empreendimento, mas foi notóriamente dominada pelo interesse comercial e pela estratégia nacional de construir um Império no além-mar, fazendo as alianças e os acordos internacionais e locais que se iam mostrando apropriadas. Da Índia se caminhou para a China e corria o ano de 1518 quando os portugueses pela primeira vez chegaram aos portos da China com uma Embaixada do Rei D. Manuel, estiveram em vários portos a negociar e fixaram-se em Sanchuão, que se pode considerar a primeira feitoria comercial de Portugal na China, onde São Francisco Xavier 2º Apóstolo das Índias, veio a falecer em 1552. Em 1555 esta feitoria mudou para Lampacau e em 1557 para Macau, que se desenvolveu muito devido ao comércio, de tal forma que, em 1585, quando D. Francisco de Mascarenhas era Vice-Rei da Índia lhe foi conferido o estatuto de Cidade do (Santo) Nome de Deus de Macau, tendo como brasão a Cruz de Cristo e sendo dotada dos mesmos privilégios que na época tinha a cidade de Évora. Depois da sua fundação Macau tomou o lugar de Malaca como base dos missionários jesuítas que demandavam o arquipélago nipónico. Foi também de Macau que os Jesuítas entraram na China. A cidade tinha um Governador e Capitão Geral, que era enviado da Índia para dirigir os assuntos militares, um Juiz da Coroa para administrar a justiça e um Bispo para os assuntos religiosos. Em Macau viveram no início 850 famílias portuguesas e muitos marinheiros, mercadores, alguns muito ricos, que faziam viagens de comércio na região, nomeadamente para o Japão, Manila, Solor, Macassar, e Cochinchina, de acordo com as descrições de António Bocarro, cronista chefe do Estado da Índia.
A CHINA E A REVITALIZAÇÃO DAS ANTIGAS ROTAS DA SEDA – NOVO VETOR DO COMÉRCIO MUNDIAL143A partir de 1557, com o estabelecimento de Macau, esta cidade passou a ser paragem obrigatória na rota da Nau do Trato, ou Nau da Prata, nomes pelo qual ficou conhecida a embarcação que fazia a ligação comercial entre a Índia e o Japão e que tinha como término habitual a cidade de Nagasáqui. Numa viagem rotineira, a Nau saía inicialmente de Malaca, mas posteriormente passou a sair de Goa em Abril ou Maio, carregada com tecidos de algodão, tecidos indianos, objetos de cristal e vidro, relógios da Flandres e vinhos portugueses. Por vezes seguiam também alguns objetos mais exóticos que eram depois oferecidos aos senhores japoneses. Esta foi talvez uma das mais importantes e rentáveis rotas de comércio que os portugueses estabeleceram no Extremo Oriente. Apesar dos riscos inerentes à viagem (naufrágios, pirataria) o comércio era muito rentável, pois devido ao corte de relações entre a China e o Japão os mercadores portugueses passaram a agir como únicos intermediários entre os dois países. O grosso da carga para o Japão era constituído por seda em rama, oriunda da China Central. A seda era obtida nas feiras semestrais de Cantão, realizadas em Dezembro/Janeiro e Maio/Junho, estando os contactos entre os mercadores previamente estabelecidos. Para além da seda faziam também parte da carga porcelanas, almíscar e ouro, no regresso do Japão a Nau vinha carregada de prata, mobiliário e biombos, peças lacadas e espadas. Em Macau era descarregada a prata, para negociar a seda do ano seguinte, e seguiam viagem, em direção a Goa, ouro, seda, porcelanas e outros produtos. Para além das mercadorias transacionadas a Nau do Trato servia também como meio de transporte de missionários, objetos de culto religiosos e correspondência, sobretudo no eixo Macau-Japão. As autoridades portuguesas perceberam a importância deste comércio e chamaram para si o controlo da rede mercantil, conseguindo avultados lucros e consolidando a sua presença no Extremo Oriente. Assim, a partir de 1550, foi criada uma viagem anual que passou a ser monopólio da Coroa. A importância deste comércio ficou registada nos biombos Namban, onde a Nau do Trato é uma das figuras centrais das composições criadas pelos pintores japoneses. Se até finais do século XVI a Nau do Trato constituiu uma carreira regular, com o início de seiscentos começaram a surgir dificuldades, devido à concorrência de outras potências estrangeiras, nomeadamente a Espanha e a Holanda, à intolerância religiosa dos japoneses, que publicaram um édito anticristão em 1587 e, após a subida ao poder da casa Tokugawa, as transações tornaram-se muito difíceis. A estreita ligação entre os comerciantes de Macau e os religiosos que atuavam no Japão não era bem acolhida pelo poder central nipónico e com a promulgação de um novo édito anticristão em 1614 também as relações comerciais sofreram as consequências desta política. Embora tivesse sido
144 decretada a expulsão de todos os missionários, os mercadores portugueses continuaram a prestar auxílio aos religiosos na clandestinidade. Assim, e após ter garantido a continuidade do tráfico através do Holandeses, em 1639 as autoridades nipónicas decidiram-se pelo corte de relações com os mercadores portugueses, pondo fim às viagens da Nau do Trato. Foram cerca de 95 anos de uma atividade comercial (Jorge Álvares demandou o Japão em 1544, um ano após a chegada dos primeiros portugueses à Ilha de Tanegaxima) muito importante para o Império português que também servia os interesses da China que precisava da prata japonesa. Lisboa evoluiu de um local de relativa insignificância para a cidade mais global da Europa Renascentista, no início do Século XVI a cidade era o centro de um império de comércio global que se estendia das Áfricas Ocidental e Oriental à Índia, ao Extremo e ao Brasil, que se alargou e aprofundou no século seguinte, uma janela aberta para o mundo, um mundo que dia a dia se alargava. Lisboa era uma dinâmica cidade portuária atlântica, excelente na construção naval, cartografia e instrumentos navais, a Meca para todos os que se interessavam por estudos náuticos e geográficos. As especiarias vinham diretamente para Lisboa e eram vendidas a preços que batiam todos os mercados (Sanceau, E. 2008; Jordan-Gwchwend, A. e Lowe, K.J.P.2015). A Nova Rota da Seda que a História Vai Conhecer No Século XXI é a China que lidera uma nova dinâmica de globalização, projetando uma Nova Rota da Seda, que, tal como a inicial, irá mudar o mundo, só que os trajetos serão em sentido inverso: enquanto os portugueses saíram de Lisboa e chegaram ao Sul da China, os chineses iniciaram a Nova Rota da Seda Marítima Viagem do Japão
A CHINA E A REVITALIZAÇÃO DAS ANTIGAS ROTAS DA SEDA – NOVO VETOR DO COMÉRCIO MUNDIAL145no Sul da China, indo depois para a Indochina, Sudeste Asiático, englobando países da ASEAN e depois atravessando o Oceano Indico, abraçando África a e passando por Lisboa no seu percurso atlântico para a Europa mais precisamente Duisburg. Mas esta iniciativa retoma também o percurso das velhas Rotas da Seda terrestres, mais antigas que a marítima. Uma primeira abordagem da iniciativa Uma Faixa Uma Rota foi feita durante a visita do Presidente Xi Jinping em Setembro 2013 a vários Países da Ásia Central, onde assinou acordos na área de energia no valor de US$60 mil milhões e aproveitou para mencionar pela primeira vez, no Cazaquistão, a visão estratégica de cooperar com outros países na construção dessas rotas terrestres. Presentemente podemos ver que elas se desenvolvem em seis corredores de desenvolvimento económico, nomeadamente China-Mongólia-Rússia; China-Paquistão; China- Bangladesh-Índia-Myanmar; China-Península da Indochina; Nova Ponte Terrestre Euroasiática; China-Ásia Central-Ásia Ocidental. Todas estas faixas convergem par a Europa, em Duisburg, e que, em conjunto com a referida rota marítima que proposta complementarmente no mês seguinte, em outubro, na visita do presidente chinês à Indonésia, integram a iniciativa chinesa Uma Faixa Uma que Rota. Mas a Rota Marítima é de grande importância neste projeto, visto que a economia da China está altamente dependente do Oceano – 90% do comércio externo é via marítima – e a China tem 19% do mercado global de transportes marítimos e 22% da contentorização. Esta iniciativa e a nova dimensão de globalização que pretende alcançar mudarão a geoeconomia existente e relações mundiais entre as nações. A forma e o local onde a iniciativa foi inicialmente lançada leva por vezes a uma explicação redutora para esta iniciativa, reduzindo-a a uma estratégia da China para integrar alguns países da Ásia numa hub de redes de distribuição terrestre de energia fornecida pelo Turquemenistão, Cazaquistão, Uzbequistão e Rússia. Sabe-se que um dos problemas da China é garantir as suas fontes de fornecimento de energia, quer de petróleo, quer de gaz natural (incluindo shale gaz), quer fontes de energia renovável, considerando que desde 2010 a China se tornou o maior consumidor mundial e desde 2014 o maior importador mundial de petróleo. Apesar dos esforços do governo chinês para desenvolver as suas fontes de abastecimento interno, em 2020 necessitará de importar 66% das suas necessidades de consumo, no entanto se aprofundarmos o desenrolar desta estratégia poderemos concluir que ela é bem mais abrangente e ambiciosa. Esta iniciativa tem mais pontos em comum com a iniciativa portuguesa que à primeira vista pode parecer. Ambas as iniciativas procuram resolver problemas económicos internos e globais, acreditando que o desenvolvimento e reforço do comércio à escala planetária os resolvem. As duas iniciativas resultam de uma visão de futuro em que todo o mundo vai estar envolvido e comprometido e foram
146 planeadas com sentido estratégico. O tempo de preparação foi muito importante na obtenção de conhecimento e meios financeiros e humanos para um empreendimento de tamanha envergadura. Em ambas as iniciativas foi fundamental a assinatura de tratados internacionais com outros países, que se tornaram aliados ou que se comprometeram a não obstruir a preparação, e o envolvimento de toda a população foi considerada muito importante. As justificações da Comissão Nacional de Reforma e Desenvolvimento (CNRD) do governo chinês para a criação da iniciativa Uma Faixa Uma Rota são as mudanças complexas e profundas que se verificam a nível mundial, o impacto da crise de 2008 continuar a fazer sentir-se, a recuperação lenta da economia mundial e um desenvolvimento global muito desigual, e muitos países estarem a encontrar Uma Rota (A nova Rota da Seda Marítima Século XXI)Uma Faixa (As Rotas Terrestres)
A CHINA E A REVITALIZAÇÃO DAS ANTIGAS ROTAS DA SEDA – NOVO VETOR DO COMÉRCIO MUNDIAL147dificuldade no seu desenvolvimento. No Fórum de Davos 2017 o Presidente Xi Jinping afirmou que “A economia global tem permanecido lenta há já algum tempo. O gap entre ricos e pobres e entre o Sul e o Norte está a aumentar” e identificou 3 causas falta de forças motrizes para o crescimento global, governação económica global inadequada e desenvolvimento global desigual. Assumiu também que o processo de globalização tem problemas e ameaças mas também tem aspetos muito bons, reconhecendo que “A China não só beneficiou da globalização económica mas também contribuiu para isso. O rápido desenvolvimento da China tem sido um motor sustentável e poderoso para a expansão e estabilidade económica global”. De facto de acordo com o Banco Mundial nos primeiros trinta e oito anos da Reforma Económica da China, 700 milhões de pessoas naquele país saíram da linha de pobreza absoluta. O economista chinês Justin Yifu Lin ex-vice Presidente do Banco Mundial refere no seu livro Demistifying the Chinese Economy (2011) que, em 1978, o rendimento per capita nominal na China era de US$210. Afirma igualmente que a mudança do destino da China começou em dezembro de 1978, quando o 3º Plenário da 11ª Sessão do Comité Central do Partido Comunista Chinês lançou a política de Reforma e Porta Aberta, para reformar a estrutura económica chinesa e se abrir ao exterior para alcançar mais comércio externo. Nesse período de desenvolvimento, o modelo da economia chinesa foi pragmaticamente orientado para a captação de Investimento Direto Estrangeiro (IDE) em indústria ligeira orientada para a exportação, para o desenvolvimento de infraestruturas e para a criação de condições politicas e legais para atrair as Cadeias de Valor Global (CsVG) das Empresas Transnacionais para a China (note-se que estas Cadeias são responsáveis por 75% do comércio global de bens e serviços e contribuem em média com 30% do PIB dos países em desenvolvimento). Essas politicas foram estruturantes em termos de mudar as infraestruturas físicas e legais da China, politicas chave determinantes como em 1978 e 1979 as 4 Modernizações (agricultura, indústria, defesa, ciência e tecnologia), a Criação das Zonas Económicas Especiais, a Agarra as Grandes deixa ir a Pequenas Empresas (privatização de pequenas e médias empresas) em 1990, o lançamento da Economia Socialista de Mercado em 1992, a Go West e a Go Global, em 2000, a primeira para levar o IDE para a zona ocidental da China e a segunda para transformar as consideradas empresas campeãs da China em empresas globais. Este processo teve um êxito enorme, sobretudo a partir de dezembro de 2001, quando a China aderiu à Organização Mundial do Comércio. Nessa altura, a China abriu-se ao Mundo e o Mundo também se abriu à China com as consequências que conhecemos. Em 2010 a China era já a 2ª Economia do Mundo, depois de ter ultrapassado o Japão. Em 2015 o rendimento per-capita chinês era de US$8278 em termos nominais e de US$14300 em termos de paridade do poder de
148 compra; portanto a China começou a ser considerada um país de rendimento médio, ao mesmo tempo que beneficiou a economia global do Sul devido à integração na China das CsVG das Empresas Transnacionais que colocaram a China no estádio final dos networks de produção da Ásia e o transformaram na fábrica do mundo, no maior mercado de aquisição de muitas matérias-primas, produtos semiacabados e energia dos países menos desenvolvidos na Ásia, África e América Latina. A sinergia do modelo chinês foi também altamente benéfica para o poder de compra de milhões de europeus e americanos das classes médias e baixas, que puderam passar a usufruir de mais conforto ao adquirirem produtos de baixo preço fabricados na China. Mas a política do Produto Interno Bruto primeiro, se teve resultados rápidos e proporcionou a ascensão da China a 2ª Economia Mundial com sinergias positivas na vida de milhões de pessoas que na China e em outras geografias do mundo melhoraram o seu nível de vida, também criou muitos problemas. Nomeadamente um crescimento cada vez mais insustentável em consumos energéticos, problemas ambientais, com cidades em que a poluição atinge níveis de toxidade que colocam a saúde em risco, a China tornou-se numa sociedade altamente dividida, com grandes disparidades na distribuição do rendimento entre as suas províncias, com um gap de distribuição de rendimentos enorme entre ricos e pobres e entre habitantes das zonas urbanas e das zonas rurais, com estas em declínio devido à forma como a industrialização e urbanização foram conseguidas, com grandes fluxos de milhões de migrantes socialmente não enquadrados, mas que decidiram deixar os locais onde eram nativos e as suas famílias na expetativa de melhorar o seu rendimento. Desde o 11º Plano Quinquenal (2006-2011) que o governo chinês tenta corrigir estes e outros desequilíbrios, como o excesso de capacidade instalada em muitos setores industriais, nomeadamente os ligados à construção, a liquidez massiva aplicada à economia especulativa, a bolha imobiliária e os créditos bancários mal parados. Um novo paradigma de desenvolvimento começou a ser construído com o focus já não no crescimento rápido do PIB, mas no crescimento do PIB per capita e em outras fontes de crescimento alternativos, começa neste Plano Quinquenal a esboçar-se um novo modelo de desenvolvimento dentro da visão de Hu Jintao de um “Desenvolvimento científico” e uma “Sociedade harmoniosa” com novas áreas prioritárias como redistribuição do rendimento, a poupança de energia e uma energia verde, o sistema de saúde pública e os sistemas de ambiente e educação. Esta mudança de paradigma tem sido um processo longo e defendido pelos sucessivos governos. Em Setembro 2015 no 9º Forum de Verão de Davos em Dalian o Primeiro-Ministro Li Keqiang referia que, “Sem transformação estrutural e melhorias não seremos capazes de sustentar o crescimento económico a longo
A CHINA E A REVITALIZAÇÃO DAS ANTIGAS ROTAS DA SEDA – NOVO VETOR DO COMÉRCIO MUNDIAL149prazo” (…) a “longo prazo o governo terá de enfrentar excesso capacidade de produção e aumento de créditos mal parados”. No 12º Plano Quinquenal fala-se na evolução da China da fábrica do mundo para a fábrica da China e da fábrica do mundo para o escritório do mundo e aponta-se como chaves, para a transformação económica o aumento do consumo interno, especialmente de serviços, a conservação da energia, a proteção do ambiente, um desenvolvimento regional mais equilibrado com maior ligação entre as províncias do centro e ocidente com ligações de caminho-de-ferro de alta velocidade, a diminuição do gap entre o mundo rural e o urbano e um crescimento futuro baseado na qualidade e na eficiência, o que coloca um imperativo na inovação tecnológica nos processos de gestão, governação e nos comportamentos. O 13º Plano Quinquenal (2016-2020) prossegue esta orientação e coloca como objetivo atingir o rendimento per capita em US$12000 em 2020 e maior urbanização por forma a aumentar o consumo. Mas este Plano vai introduzir um outro objetivo importante, que é a melhoria da indústria chinesa: pretende-se o desenvolvimento da Indústria 4.0 através da implementação dos Planos Made in China 2025 e Internet Plus. Porque, para evitar a “Armadilha do Rendimento Médio”, a China precisa de subir na cadeia de valor. Para conseguir obter estes objetivos a China reforça a sua política de going out. Já não interessa só captar IDE para integrar as CsVG na China, o jogo agora passa a ser liderar essas cadeias e integrá-las no mundo por forma a internalizar as vantagens de outros países nas empresas globais chinesas, cuja orientação é deixar de ser “só cópias… A China expandir-se-à através das suas próprias inovações e através de aquisições” (Neil Shen do Sequoia’s Capital, Economist 12/09/2015). Ao caminhar para este novo modelo de desenvolvimento, a China está a entrar no que se pode considerar a 2ª fase da sua globalização, uma fase mais proactiva em que o seu modo de entrada em outros mercados é para além de exportações ativas diretas o Investimento Direto Estrangeiro no Exterior (IDEE) sobretudo na forma de Fusões e Aquisições. De acordo com o documento orientador da iniciativa Uma Faixa Uma Rota, o Vision and Actions in Jointly Building Silk Road Economic Belt and 21st Century Maritime Silk Road, publicado em março 2015, pela Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma do Ministério do Comércio da República Popular da China “A iniciativa permitirá à China expandir mais e aprofundar a sua abertura fortalecer a cooperação mutuamente benéfica com países na Ásia, Europa e África e o resto do mundo”. A China propõe-se desenvolver CsVG lideradas por empresas chinesas e integrando empresas de África, Médio e Extremo Oriente como principais fornecedoras de recursos, empresas chinesas como principais produtores globais e a UE como a principal região do mundo de consumo
150 de produtos de alta qualidade. Na implementação desta iniciativa, que pressupõe o estreitamento da cooperação no investimento e no comércio, são objetivos prioritários, a remoção de barreiras a ambos nas relações entre países e regiões e a abertura de zonas livres de comércio. Angang Hu, Xing Wei, Yilong Yan (2012) afirmam no livro China 2030 que “quanto mais integrada estiver a economia chinesa mais ela atuará como um estabilizador global”. Por ser a 2ª Economia Mundial a China sente que tem Responsabilidades Globais e a Obrigação Moral de ativamente contribuir para um novo modelo conceitual de desenvolvimento global. No Fórum de Davos 2017, o Presidente Xi Jinping pela primeira vez desafia aos EUA a liderança do processo de globalização, afirmando “Se os EUA adotam uma via mais mercantilista, os Asiáticos e Europeus em geral terão de se combinar para preservar o comércio livre” (…) “Nós devemos permanecer comprometidos com o desenvolvimento do comércio livre global e investimento, e promover a liberalização do comércio e investimento”. A iniciativa Uma Faixa Uma Rota, a Nova Rota Marítima do Século XXI, tem forte componente economicista e pretende uma nova fase da globalização mundial mas sem deixar de estar também imbuída de uma carga filosófica confucionista de construção de um Mundo Harmonioso uma Sociedade Harmoniosa. O Professor He Huaihong do Departamento de Filosofia da Universidade de Pequim, que participou na Conferência “Diálogo Portugal China e a Nova Rota da Seda”, organizada em Lisboa em 2015 pelo Instituto Confúcio, dissertou de como conseguir consenso entre grupos étnicos e raciais diferentes, considerando que a China procura construir esta iniciativa com outros povos, aceitando as diferenças, e conseguindo um consenso político com conteúdo moral. Conforme as suas palavras esse consenso moral deverá ser um acordo nas atitudes fundamentais que integram as diferenças culturais e étnicas, deverá ser um consenso básico sobre como diferentes grupos étnicos e diferentes estados podem coexistir pacificamente. Aliás, no documento Vision and Actions in Jointly Building Silk Road Economic Belt and 21st Century Maritime Silk Road é referido que a iniciativa se rege pelo respeito pelos 5 princípios da Carta das Nações Unidas: respeito mútuo pelas soberanias e integridade territorial, não-agressão mútua, não interferência mútua, igualdade e benefício mútuos e coexistência pacífica. Os objetivos da iniciativa Uma Faixa Uma Rota – a Nova Rota da Seda Marítima do Século XXI são aprofundar a cooperação dos continentes asiático, europeu e africano com o resto do mundo. As prioridades de cooperação são a coordenação de políticas, melhoria da conetividade, aumento do comércio e investimento, integração financeira e aumento dos laços entre os povos. O presidente Ji Xinping no discurso que proferiu em outubro 2016, na visita que fez a Londres, referiu “Uma Nova Era requer um novo pensamento. A construção de
A CHINA E A REVITALIZAÇÃO DAS ANTIGAS ROTAS DA SEDA – NOVO VETOR DO COMÉRCIO MUNDIAL151Uma Faixa Uma Rota trará enormes oportunidades para o desenvolvimento conjunto da China e dos Países ao longo das rotas. Uma Faixa Uma Rota está em aberto”. A visão da iniciativa Uma Faixa Uma Rota é a constituição de networks de zonas livres de comércio, uma forma dos países interligarem as suas estratégias de desenvolvimento, complementando as suas vantagens competitivas. A China trabalhará com os países da rota em projetos de interesse bilateral e multilateral, numa ótica win win que promova a cooperação e o desenvolvimento comum. Cada país ou cada grupo de países poderá identificar projetos de desenvolvimento que sejam complementares da Nova Rota da Seda e apresentá-los às autoridades chinesas. Assim os países ao longo de Uma Faixa Uma Rota podem coordenar as suas estratégias e políticas de desenvolvimento. Devermos acrescentar que a China liga a iniciativa Uma Faixa Uma Rota com duas iniciativas complementares: a ‘Cooperação na Produção Internacional’ e ‘Cooperação em Mercados de Terceiros Países’. A ‘Cooperação na Produção Internacional’ pretende combinar a produção industrial da China com a procura global existente e a ‘Cooperação em Mercados de Terceiros Países’ pretende combinar a capacidade de produção da China com a tecnologia avançada e equipamentos de países desenvolvidos para, em conjunto, desenvolverem mercados nos países em desenvolvimento. Li Keqiang no Summer World Forum Davos 2015 referiu “Nós acreditamos que estas iniciativas podem ajudar a abrir mais o nosso país e a forjar uma cadeia industrial global mais equilibrada e inclusiva”. O Posicionamento da China é muito atrativo “Nos próximos 5 anos a China importará mais de US$10 triliões de bens, o investimento chinês no exterior excederá US$500 biliões, e mais de 500 milhões de visitas ao exterior serão feitas por turistas chineses” Xi Jinping (2015) A importância deste projeto justifica que o Presidente Xi Jinping esteja a estruturar a sua ação diplomática global nesta iniciativa e que esteja a desenvolver parcerias estratégicas com outros países (cerca de 47 países, a parceria com Portugal foi assinada em 2005 e confirmada em 2014 como parceria estratégica abrangente) e regiões, como a UE, a ASEAN e a UA. Nesse sentido, justificando também os avultados recursos consignados, a China criou: o Fundo da Nova Rota da Seda com $40 mil milhões para promover investimento privado ao longo de Uma Faixa e Uma Rota (estão anunciados mais $14,5 mil milhões); o Banco Asiático Investimento Infraestruturas, que foi constituído em 2015 por 57 países fundadores (conta atualmente com 64 países membros e 20 prospetivos), e destina-se a financiar a construção de infraestruturas na Ásia e teve com um capital inicial de US$50 mil milhões e um capital atual de US$95,5 mil milhões (76,8% do capital é de países
152 asiáticos, sendo que a China tem 31,02% do capital, a Índia 8,7% e a Rússia 6,8%, Portugal está entre os países da UE fundadores) e, o China Development Bank que declarou a intenção de investir US$900 mil milhões na iniciativa (Bert Hofman, Banco Mundial, 12/04/2015), e recentemente foi comunicada a intenção de investir mais US$36,5 mil milhões. Em 2015 a revista Economist de 12/09 escrevia “Mr Xi espera aumentar o valor do comércio com mais de 40 países para $2,5 triliões numa década, gastando aproximadamente $1 trilião do dinheiro do governo. SOEs e instituições financeiras estão a ser motivadas para investir no exterior em infraestruturas e construção”. Parecia manifestamente exagerado. No entanto esta iniciativa abrange já atualmente 4,8 biliões de pessoas, cerca de 63% da população mundial que vive em 70 países, ocupa 65% do território terrestre, gera uma riqueza de cerca de 62% do PIB mundial, e 30% da produção económica de origem marítima. Conclui-se que este projeto não tem apenas interesse para a China, mas ele vai ter um impacto enorme global ao tentar construir uma cadeia de valor acrescentado de elevado valor. A iniciativa Uma Faixa Uma Rota ou a Nova Rota da Seda, e as iniciativas complementares ‘Cooperação na Produção Internacional’ e a ‘Cooperação em Mercados de Terceiros Países’ vão muito para além de garantir a segurança energética chinesa e de os problemas internos da economia da China ela configura um novo modelo de desenvolvimento económico global, uma nova fase da globalização que mudará a geoeconomia e a geopolítica atuais, uma nova fase da globalização que a história irá conhecer. O governo chinês através dos seus representantes diplomáticos, tem por várias vezes referido que este projeto constitui uma importante oportunidade para Portugal ampliar a sua colaboração com China e outros países envolvidos no projeto da Nova Rota da Seda. De notar que a Parceria Estratégica Abrangente que temos com a China configura a mais elevada cooperação que a China pode estabelecer com um país estrangeiro, de acordo com a definição chinesa ”Parceria” significa que a cooperação deve ser em pé de igualdade, mutuamente benéfica e win-win, “Estratégica” porque de longo prazo e estável, “Abrangente”, significa que a cooperação deve ser global, de grande alcance e em múltiplas áreas. Abrange domínios económicos, científicos, tecnológicos, políticos e culturais, contém níveis tanto bilaterais como multilaterais e é conduzida tanto por governos como por grupos não-governamentais. Cabe-nos a nós portugueses retomar o espírito e atitude que os nossos antepassados tiveram nos séculos XV e XVI e integrarmo-nos nesta iniciativa, participando ativamente na construção na Nova Rota da Seda do século XXI com uma visão de longo prazo abrangente, aproveitando as sinergias chinesas e as mais-valias portuguesas.
A CHINA E A REVITALIZAÇÃO DAS ANTIGAS ROTAS DA SEDA – NOVO VETOR DO COMÉRCIO MUNDIAL153REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS | Angang, H. X, W. Yilong, Y. (2012) China 2030, Springer Bert H., World Bank (12/04/2015) http://blogs.worldbank.org/eastasiapacific/china-one-belt-one-road-initiative-what-we-know-thus-far Li, Keqiang (2015) 9th Edition World Economic Forum Davos. https://www.weforum.org/agenda/2015/01/chinese-premier-li-keqiangs-speech-at-davos-2015/ Lin, Y. J. (2011) Demystifying the Chinese Economy, Cambridge University Press Martin, P. (2008) A Primeira Aldeia Global (Como Portugal Mudou o Mundo), Casa das Letras, Lisboa, Portugal OCDE (2017) The Future of Global Value Chains https://www.oecd-ilibrary.org/science-and-technology/the-future-of-global-value-chains_d8da8760-en OCDE (2017), Skills Outllok https://www.oecd-ilibrary.org/education/oecd-skills-outlook-2017_ 9789264273351-en Sanceau, E. (2008) Afonso de Albuquerque o Sonho da Índia, Tenacitas, Coimbra, Portugal Sanjay, S. (1997) The Career and Legend of Vasco da Gama, University Press, Cambridge, UK Vision and Actions in Jointly Building Silk Road Economic Belt and 21st Century Maritime Silk Road. 2015. National Development and Reform Commission http://en.ndrc.gov.cn/newsrelease/201503/t20150330_669367.html WIR UNCTAD (2013)
A CHINA E A REVITALIZAÇÃO DAS ANTIGAS ROTAS DA SEDA – NOVO VETOR DO COMÉRCIO MUNDIAL155 BIOGRAFIAS DOS AUTORES | Celina Veiga de Oliveira Licenciatura em História pela Universidade de Coimbra. Em Macau, entre 1980 e 1999, foi Professora do Liceu Nacional Infante D. Henrique, da Escola do Magistério Primário e do Instituto Politécnico de Macau (História de Macau e História das Relações da China com o Ocidente). Investigadora da presença portuguesa no Oriente, tem vários ensaios e obras publicadas. Destas, destaca Camilo Pessanha – O Jurista e o Homem, Macau – Uma História Cultural e Carlos D’Assumpção – Um Homem de Valor. Autora da série televisiva Arquivos do Entendimento, sobre História de Macau (12 episódios). Assessora para a Cultura do Governador de Macau Vasco Rocha Vieira, Comendadora da Ordem de Santiago de Espada e Medalha de Mérito Cultural do Governo de Macau. Vice-presidente da Comissão Asiática da SGL. Eduardo Manuel de Morais Kol de Carvalho Natural de Lisboa é licenciado em Arquitectura pela Universidade de Lisboa (ESBAL) e tem desenvolvido uma actividade profissional variada incluindo a docência, a gestão cultural e a consultoria na área da arquitectura e do património em Portugal e na Ásia. Foi coordenador do GTL (Gabinete Técnico Local) de Figueiró dos Vinhos e desenvolveu projectos de urbanismo e arquitectura na empresa Consulmar e em outros gabinetes. Foi fundador do Jornal Arquitectos, da Ordem dos Arquitectos. Executou projectos de recuperação do património arquitectónico em Omã, Malásia e Tailândia. Conselheiro Cultural de Portugal no Japão durante doze anos, leccionou depois disso na Universidade de Estudos Estrangeiros de Quioto, outros três anos. Foi Delegado da Fundação Oriente na Índia durante cinco anos e actualmente é Presidente da Comissão Asiática da Sociedade de Geografia de Lisboa. Tem apresentado comunicações em inúmeras conferências quer em Portugal continental e Açores, quer no Japão, Índia e Vietname e tem diversas obras publicadas sobre património arquitectónico e cultural português.
156 Eduardo Kol de Carvalho foi distinguido com a comenda da Ordem do Mérito (1993), a comenda da Ordem do Infante (2004) e ainda o diploma de Mérito do Ministério dos Negócios Estrangeiros do Japão (2018). Enio de Souza Coordenador do Serviço Educativo do Museu do Centro Científico e Cultural de Macau (CCCM), em Lisboa, desde 1999. Candidato ao Doutoramento em Etnomusicologia na Universidade Nova de Lisboa, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas (Departamento de Ciências Musicais). Áreas de investigação: Música e instrumentos musicais chineses em Portugal, Macau e outros países da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP); políticas e infraestruturas culturais em Macau. Mestre em Estudos Asiáticos, Universidade Católica Portuguesa/Universidade de Lisboa (Consórcio de Estudos Asiáticos). Licenciatura em História, Universidade de Lisboa, Faculdade de Ciências Humanas; frequência do curso de piano (seis anos) no Conservatório Nacional de Lisboa; 5.º nível do curso livre de Língua e Cultura Chinesas (CCCM). Entre 1983 e 1999 desempenhou uma série de cargos em Macau nomeadamente como responsável do Departamento de Animação Cultural do Instituto Cultural de Macau (atual IC da RAEM). Integrou a comissão instaladora do Conservatório de Macau; participou na criação e organização da Orquestra de Câmara de Macau; da Orquestra Chinesa de Macau; do Festival Internacional de Música de Macau; do Festival de Artes de Macau e da Academia de Artes Visuais de Macau. É representante do CCCM no Committee for Education and Cultural Action (CECA/ICOM) e membro do International Council for Traditional Music (ICTM). Maria Fernanda Pargana Ilhéu Professora no ISEG/Universidade de Lisboa, Coordenadora do ChinaLogus – Business Knowledge & Relationship with China, e investigadora do CEsA. É licenciada em Economia pelo ISCEF/ISEG, pós-graduada em Marketing de Exportação pelo Cambridge Institute de Massachusetts, mestre em Gestão Estratégica pelo ISCTE, tem o Doutoramento Europeu em Administração de Empresas e Marketing, da Universidade de Sevilha. É Presidente da Associação Amigos da Nova Rota da Seda e membro da Assembleia Representativa da Ordem dos Economistas. Fez toda a sua carreira na área de negócios internacionais tendo vivido 18 anos em Macau, onde ocupou lugares de responsabilidade, quer no sector público quer no sector privado. Entre outras publicações é autora dos livros “Internacionalização das Empresas Portuguesas e a China” (2006), “Estratégia de Marketing Internacional” (2009) ambos da Almedina, e do Capítulo “Chinese Cultural Characteristics and Effective Business in China”, do livro “The China IT Handbook” (2008) Springer.
A CHINA E A REVITALIZAÇÃO DAS ANTIGAS ROTAS DA SEDA – NOVO VETOR DO COMÉRCIO MUNDIAL157Graça Pacheco Jorge (Macau 1942) Viveu em Macau, Moçambique, África do Sul e Portugal. Escreveu: “A Cozinha de Macau de Casa do Meu Avô” (ICM, 1992) “A Cozinha de Macau (Editorial Presença, 2003), “José Vicente Jorge – Macaense Ilustre” (Albergue SCM, Macau, 2011). “A Cozinha de Macau de Casa do Meu Avô” edição trilingue (IC. Macau 2014). Colaborou em vídeos e filmes sobre a cultura e gastronomia de Macau. Tem divulgado a culinária macaense em parceria com o Turismo de Macau e a Casa de Macau, em Lisboa, no Porto e várias outras cidades. É confreira de mérito da Confraria de Gastronomia de Macau. Orientou os chefes de cozinha: Justa Nobre, Luís Baena, Sá Pessoa e Vítor Sobral na “Fusion Week” semana gastronómica de Macau no Hotel Tivoli em Fevereiro de 2014. Foi palestrante no Festival Literário de Macau em 2015. Foi conferencista no Fórum Internacional de Gastronomia de Macau 2016. Organizou e coordenou a Semana de Cozinha de Macau no Hotel Trip Oriente em Lisboa. Organizou uma refeição subordinada ao tema “A Cozinha de Macau que Camilo Pessanha Conheceu” no âmbito das comemorações dos 150 anos do poeta. Leonor Janeiro Tem licenciatura em Arquitectura pela ESBAL e é autora de vários projectos de arquitectura e planeamento em Portugal, África, Médio Oriente e Ásia. Viveu em Macau nos anos oitenta tendo participado em vários projectos no território. É consultora externa da Comissão Europeia. Dedica-se à literatura de viagens e é autora de dois livros: Impressões da Siria e Cáucaso. É Urban Sketcher e está representada em várias publicações da especialidade. É directora coordenadora do grupo de Ligação entre Povos da associação Amigos da Nova Rota da Seda. Luis Miguel Soares de Albergaria Engenheiro Mecânico pelo Instituto Superior Técnico de Lisboa, com uma carreira totalmente realizada no setor Petrolífero Nacional e Internacional. Os anos 10 iniciais foram dedicados ao desenvolvimento de projetos assim com à construção de fábricas em Portugal e em Angola, especificamente no complexo de Estarreja e na CNP - Companhia Nacional de Petroquímica, atual Repsol Polímeros SA, em Sines. Tendo ocupado diversos postos de gestão e de alta direção, na BP Portuguesa, SA e na BPOI - BP Oil International, plc em Londres. Na Repsol, SA em Espanha esteve envolvido no processo de liberalização do mercado petrolífero local e na Repsol Portuguesa, SA teve posição de liderança no processo de compra dos ativos da Shell em Portugal. Os 40 anos de carreira profissional foram repartidos entre Portugal, Angola, Estados Unidos da América, Reino Unido e Espanha.
158 Paulo Duarte Doutor em Ciência Política pela Universidade Católica de Lovaina, pesquisador do Centro de Investigação em Ciência Política (Universidade do Minho); Membro do Observatório da China; Membro do CESA (Centro de Centro de Estudos sobre África, Ásia e América Latina), na Universidade de Lisboa; Editor executivo do Ela Journal (uma publicação IAPSS); Membro do think thank Amigos da Nova Rota da Seda; Autor de diversas publicações nacionais e internacionais com sistema de peer-review. Autor de Metamorfoses no Poder: rumo à hegemonia do dragão? com prefácio e apresentação de Marcelo Rebelo de Sousa. Autor de Pax Sinica, com apresentação de Guilherme d’Oliveira Martins. Autor de A Faixa e Rota chinesa: a convergência entre terra e mar, publicado pelo Instituto Internacional de Macau. De entre os seus temas de interesse estão a Nova Rota da Seda, a Ásia Central (onde efetuou pesquisa doutoral), a Ásia-Pacífico (Investigador-convidado pela National Chengchi University), entre outros. Shao Xiao Ling Professora auxiliar no Departamento de Comunicação e Arte da Universidade de Aveiro. A sua principal área de ensino centra-se em piano performance e música de câmara. É doutorada em Música pela Universidade de Aveiro (2011), Mestre em Piano Performance pelo Rotterdams Conservatorium (2001) e Licenciada em Ensino da Música pela Universidade de Aveiro (1998). Como concertista, tem apresentado recitais tanto solo como música de câmara e concertos com orquestras nos grandes auditórios e festivais portugueses e, também, em França, Itália e China. É detentora dos prémios nos Concursos de “Cidade de Covilhã”, “Solistas da Juventude Musical Portuguesa”, “Prémios Jovens Músicas da RDP” e “Juventude Musical Portuguesa”. Foi bolseira da Fundação Oriente com a qual continua a manter uma ligação próxima na promoção da cultura musical chinesa, em Portugal, e vice-versa. A partir da sua tese de doutoramento, que sequenciou investigação em estudos culturais da música erudita, interessou-se, especialmente, na interação entre a música ocidental e a música chinesa do Século XX e XXI, tendo publicado vários artigos em ata de conferência e em revista, tanto em Portugal como no Brasil. É frequentemente convidada para realizar concertos/palestras das músicas da China e de Portugal. Zhu Li PhD em Economia pela Universidade de Nankai. Trabalhou no Banco da China e, de 2011 a 2017, foi diretora do Instituto Confucius da Universidade de Lisboa, contribuindo para a introdução da língua e cultura chinesa junto dos portugueses e da língua e cultura portuguesa junto da comunidade chinesa. Actualmente é professora na Universidade de Estudos Internacionais de Tianjin, China.
Livros publicados no âmbito da colecção SUMA ORIENTAL 1 – Timor – da guerra do Pacífico à desanexação Fernando Lima 2 – Liou She Shun – Plenipotenciário do Império da China – Viagem ao Brasil em 1909 Carlos Francisco Moura 3 – Macau 1937-45 – Os anos da Guerra João F. O. Botas 4 – Filhos da Terra – A Comunidade Macaense, Ontem e Hoje Alexandra Sofia Rangel 5 – Chineses e Chá no Brasil no início do Século XIX Carlos Francisco Moura 6 – Portugal e Indonésia – História do Relacionamento Político e Diplomático (1509-1974) Coordenação - Jorge Santos Alves 7 – Brasileiros nos Extremos Orientais do Império (Séculos XVI a XIX) Carlos Francisco Moura 8 – Filhos da Terra – A Comunidade Macaense, Ontem e Hoje - Edição Chinesa Alexandra Sofia Rangel 9 – Figuras de Jade – Os Portugueses no Extremo Oriente António Aresta 10 – China na Grande Guerra – A Conquista da Nova Identidade Internacional Luís Cunha 11 – Mao, China y Los ‘Otros’ Beatriz Hernández 12 – Joaquim Guerra S.J. (1908-1993) Releitura universalizante dos Clássicos Chineses Antonio José Bezerra de Menezes Jr 13 – Macau Confidencial João Guedes 14 – O Oriente na Literatura Portuguesa – Antero de Quental e Manuel da Silva Mendes Carlos Miguel Botão Alves 15 – China’s Techno-Nationalism in the Global Era – Strategic Implications for Europe Luis Cunha 16 – Five Hundred Years of Macau Stuart Braga 17 – The Western Pioneers and their discovery of Macao J. M. Braga 18 – Da estada em Macau do Dr. Sun Yat Sen – interpretação do seu pensamento revolucionário Fok Kai Cheong 19 – Before the first Guangzhou uprising in 1895 – The Macau experience deciphering the revolutionary thoughts of Dr. Sun Yat Sen Fok Kai Cheong 20 – Instrumentos Musicais Chineses – Colecção do Museu do Centro Científico e Cultural de Macau/Lisboa Enio de Souza 21 – Para uma Literatura da Identidade Macaense – Autores/Actores Maria Barras Romana 22 – A Faixa e Rota chinesa: a convergência entre Terra e Mar Paulo Duarte
Esta publicação resulta duma parceria entre a Associação Nova Rota da Seda e o Instituto Internacional de Macau. É composta de nove capítulos da autoria de sócios da ANRS sob coordenação de Fernanda Ilhéu, autora do Capítulo IX, e Leonor Janeiro, que também é autora do Capítulo I e das aguarelas que compõem grande parte das ilustrações.O livro pretende fazer chegar ao grande público informação geral essencial para o entendimento do que foi a Rota da Seda e do que atualmente está a acontecer no mundo do comércio, a fim de redesenhar percursos com objetivos e meios de comunicação atuais.As ligações entre o Oriente e o Ocidente constituem o tema central destes nove capítulos, que abordam temas da maior pertinência para a compreensão das Rotas da Seda.ISBN 978-989-54193-4-09 7 8 9 8 9 5 4 1 9 3 4 0