• Para uma Literatura da Identidade MacaenseAutores/Actores212017MARIA BARRAS ROMANA
  • 212017MARIA BARRAS ROMANAPara uma Literatura daIdentidade MacaenseAutores/ActoresIrene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 1
  • FICHA TÉCNICA:Editor: Instituto Internacional de MacauTítulo: Para uma Literatura da Identidade Macaense – Autores/ActoresAutor: Maria Barras RomanaDesign gráfico e paginação: Maisimagem IIColecção: Suma OrientalTiragem: 500 exemplaresImpressão: ACD PrintISBN: 978-989-99457-7-7Depósito Legal: 431257/17Lisboa, Dezembro 2017ApoioIrene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 2
  • PARA UMA LITERATURA DA IDENTIDADE MACAENSE – AUTORES/ACTORESÍNDICE |AGRADECIMENTOS 7PREFÁCIO 9CAPÍTULO I – INTRODUÇÃO 131. Delimitação do tema 142. Constituição do Corpus 163. Objectivos 224. Metodologia de análise 23CAPITULO II – A LITERATURA E A SOCIEDADE 291. Em torno da Sociologia da Literatura 292. Os Géneros, a Ficção e a Realidade 433. Representação e Identidade 48CAPITULO III – MACAENSES: ENQUADRAMENTO HISTÓRICO, ETNO-CULTURAL E SOCIOLÓGICO 531. Ou Mun versus Macau – a Génese de uma Comunidade 552. As digressões Interétnica e Intercultural 613. Os Filhos da Terra – a Construção de uma Identidade 66CAPÍTULO IV – DA LITERATURA MACAENSE 731. Literatura macaense – que literatura? 772. A genologia do Corpus 793. A dimensão cronotópica das narrativas 814. A literatura como construto da identidade 885. A obra de Henrique de Senna Fernandes como ‘Etnema’ 90CAPÍTULO V - HENRIQUE DE SENNA FERNANDES: AUTOR /ACTOR 931. Influências estético-literárias 1012. A obra literária 1042.1.Os Romances 1122.1.1. Amor e Dedinhos de Pé: Personagens/instâncias de enunciação 1182.1.2. A Trança Feiticeira: Personagens/instâncias de enunciação 1272.1.3. Os Dores: Personagens/instâncias de enunciação 1322.2. O Espaço e o Tempo dos Romances 1362.3. Os Livros de Contos 1383. Os percursos da Obra 143– AsLinguagensdosRomances– NamVan /Mong-HáIrene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 22/06/18 12:57 Página 3
  • CAPITULO VI – O NÓS E O OUTRO: OS ACTORES COMO AUTORES 1471. Deolinda da Conceição: a imagem da mulher de Macau 1481.1. Um olhar no feminino sobre a mulher chinesa 1491.2. O livro de contos “Cheong-Sam – A Cabaia” Faces especulares da alteridade 1522. As Imagens da Interioridade 1572.1. A alma dos Macaenses através dos textos em Pátoà 1582.2. A memória em Maria do Céu Saraiva Jorge 1663. As Imagens da Exterioridade 1703.1. O Exotismo e a Diferença: Jaime do Inso – o Caminho do Oriente 1733.2. A recriação dos espaços e a pretensa visão interior em “Os Construtores do Império” de Rodrigo Leal de Carvalho 177CONCLUSÕES 183BIBLIOGRAFIA 189Irene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 4
  • À Constança e ao HeitorÀ memória do meu Avô António Pinto PereiraE do meu Pai Jorge Pinto Pereiraporque com eles partilhei vivências de outras Mátrias.Irene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 5
  • AGRADECIMENTOS |O nosso especial agradecimento ao Professor Doutor José Carlos Venânciopelo Saber que partilhou connosco e pelos novos campos do conhecimento que asua orientação nos proporcionou.À Professora Doutora Maria Johanna Schouten pelas orientações oportunase pelo interesse que nos suscitou para a vertente da identidade de género.Porque este trabalho não seria possível sem a sua Obra, o nosso reconhecimentosentido ao Dr. Henrique de Senna Fernandes e a certeza que permanecerá namemória de todos aqueles que estudam a identidade macaense.Porque, sem divulgação, a produção académica tende a fechar-se sobre siprópria, queremos agradecer de forma vincada ao Instituto Internacional de Macau,na pessoa do seu Presidente, Dr. Jorge Rangel, também ele uma figura incontornávelda vida cultural e intelectual de Macau, a publicação deste trabalho. Ao Dr. JoséLobo do Amaral o nosso agradecimento pelo incansável acompanhamento que deuao processo de publicação do livro.Irene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 22/06/18 12:57 Página 7
  • PARA UMA LITERATURA DA IDENTIDADE MACAENSE – AUTORES/ACTORES9PREFÁCIO |A identidade macaense espelhada na literaturaReconhecendo a relevância e a oportunidade deste trabalho académico, écom satisfação que o Instituto Internacional de Macau (IIM) integra no seu já vastoacervo editorial mais uma tese relacionada com a memória de Macau e com umacomunidade singular que é a sua expressão viva mais autêntica e, em significativamedida, a razão de ser do estatuto de autonomia que lhe foi assegurado por acordofirmado, em 1987, pelos dois Estados com direito de intervenção na definição doseu futuro – Portugal e a República Popular da China – e que se mantém em vigorquase duas décadas após a transferência do exercício da soberania, ocorridasolenemente em Dezembro de 1999. Esse estatuto, como é sabido, tem validadejuridicamente garantida até 2049, não obstante os passos seguros já preparados eque vão sendo dados no sentido da progressiva integração do território em espaçosvizinhos mais amplos.A autora, Maria da Conceição Correia Salvado Pinto Pereira Barras Romana,distinta e respeitada investigadora e professora do ensino superior, cuja permanênciade oito anos em Macau lhe despertou um interesse maior por temas relacionadoscom a presença portuguesa no Oriente, procurou perspectivar, neste bemconseguido estudo, a literatura produzida em Macau. Esta é constituída por obrasde autores – e foram muitos – que, não tendo nascido no território, sobre eleescreveram, “textualizando as suas vivências de estadias mais ou menosprolongadas”, e por contos, romances, relatos, crónicas e poemas, em português eem “patuá”, crioulo luso então generalizadamente falado entre nós e agora,infelizmente, em risco de extinção, que os “filhos da terra” nos foram legando,dando testemunho dos valores, da maneira de viver, das tradições e dos hábitosIrene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 9
  • 10enraizados na mátria que lhes serviu de berço e que, para eles, constituirá, ainda esempre, referência permanente e fonte inesgotável de inspiração.Licenciada em Ciências Sociais e em Português Científico, pós-graduada emLinguística Geral, mestre em Estudos Portugueses Interdisciplinares e doutora emSociologia, com especialização em Sociologia da Literatura, Maria da ConceiçãoBarras Romana é professora do Instituto Politécnico de Tomar, cujos ConselhosPedagógico e Técnico-Científico integra, além de ter dirigido os cursos de licenciaturaem Comunicação Social e em Vídeo e Cinema Documental. A sua dissertação demestrado, defendida na Universidade Aberta, foi sobre a “Relação da GrandeMonarquia da China”, bosquejo histórico do Celeste Império, de 1643, escrito pelomissionário jesuíta Álvaro Semedo, simultaneamente protagonista e narrador demuitas histórias sobre “um reino encantatório, longínquo e diferente”, que oOcidente começava então a descobrir.Para título da sua tese de doutoramento, que mereceu do júri a nota máximana Universidade da Beira Interior, a autora escolheu “Para uma Literatura daIdentidade Macaense, Autores/Actores”, que é também o título deste livro, sendoum muito importante estudo da “construção/manutenção da identidade culturaldos Macaenses tendo por corpus as suas obras”, sendo analisadas “as imagens desemelhança e de alteridade constantes nas narrativas romanescas ou em pequenoscontos, crónicas e poemas do autor/actor que presencia a construção, sendo tambémele o construtor/construído”.Ao longo de seis capítulos, que incluem uma introdução onde são explicadosos objectivos e a metodologia de análise adoptada, faz-se um enquadramentoconceptual em torno da Sociologia da Literatura, em que são caracterizados osgéneros, a ficção e a realidade, a representação e a identidade, sendo depoisrecordados a génese de uma comunidade e o longo processo da construção da suaidentidade, bem como o papel da literatura como contributo dessa identidade, comos actores sendo os próprios autores, o que é revelado através de imagens da suainterioridade e também da exterioridade.Henrique de Senna Fernandes e a sua obra ganham nesta tese um destaqueespecial, sendo identificadas as influências estético-literárias visíveis nos seus escritose referido o significado plasmado nos seus romances e contos. É dada também aDeolinda da Conceição e ao seu único livro (“Cheong-Sam – A Cabaia”), que é “umolhar no feminino sobre a mulher chinesa”, a necessária atenção. A alma macaenseatravés dos textos escritos no crioulo tradicional macaense, cujo mais conhecido econsequente cultor e divulgador foi José dos Santos Ferreira (Adé), é correctamenteinterpretada, sendo igualmente objecto de apreciação as obras de Maria do CéuSaraiva Jorge, Jaime do Inso e Rodrigo Leal de Carvalho.Irene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 10
  • PARA UMA LITERATURA DA IDENTIDADE MACAENSE – AUTORES/ACTORES11Na parte final, a autora conclui que “o sentimento de pertença à suacomunidade é a forma de afirmar a sua existência tornando-a reconhecida ereconhecível, sendo Macau o lugar que materializa essa pertença, embora existacomo representação mental em cada macaense, e como símbolo em cada ‘Casa deMacau’, pois, cada um pode ter o lugar imaginário onde cabe a sua comunidade,seja o Macau físico hodierno, seja o Macau que cristalizou num tempo da memória”.A incessante procura e a constante afirmação da diferença constituem condições desobrevivência que importa ter em conta, ao mesmo tempo que a valorização doselementos identitários reforça a coesão da comunidade, não obstante os conflitos eas diferenças que, longe de a afectarem, podem permitir o seu reforço. O contributoda literatura neste contexto, que a autora tão claramente enaltece, pode serconsiderado fundamental, para não dizer determinante. Este estudo suscitarácertamente novas aproximações e um saudável debate académico sobre temática,para nós, sensível, mas merecedora de continuada reflexão.Confrontada com imensos tufões, naturais ou políticos, ao longo da suahistória plurissecular, a comunidade viu-se obrigada, amiúde, a demandar portosmais seguros, próximos ou distantes, estabelecendo a sua diáspora em várioscontinentes, e soube adoptar, como referência incontornável, a imagem simbólicado bambu, assolado por muitas tempestades e que volta a apontar firmemente ashastes ao céu, continuando a crescer, viçoso, em tempos de bonança. Ali reside,provavelmente, o maior segredo da sua sobrevivência. Uma vasta e útil bibliografia completa o volume que veio enriquecer aprestigiada e muito procurada colecção “Suma Oriental”, que constitui motivo dejustificado orgulho para o IIM, entidade que mais livros publica em Macau, emresultado dos trabalhos realizados no seio dos seus núcleos e centros de estudos ouatravés de contribuições provenientes da sua rede cada vez mais alargada dequalificados colaboradores espalhados pelo mundo.Novas obras sobre a memória e o legado, bem como sobre o presente deMacau e o seu futuro anunciado, mas cujos caminhos e opções definitivos estãoainda dependentes de muitos factores que interessa, atenta e lucidamente, conhecere acompanhar, não deixarão de ser estimuladas e assumidas pela comissão editorialdo IIM, nos programas de edições para os próximos anos.Macau, Dezembro de 2017Jorge A. H. RangelPresidente do Instituto Internacional de MacauIrene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 11
  • PARA UMA LITERATURA DA IDENTIDADE MACAENSE – AUTORES/ACTORES13CAPÍTULO 1 – INTRODUÇÃO |Durante cerca de oito anos vivemos e convivemos com a comunidademacaense. No início da nossa estadia num território onde a mescla populacional eraimensa e onde, num primeiro relance do olhar, nos parecia maioritariamente chinesade acordo com a observação, descuidada, das características físicas, foi de formagradual que nos fomos apercebendo que Macau era um cadinho único deintercepção de culturas, e que a partilha de traços fenótipos não correspondialiminarmente a partilhas culturais, a mundivisões. O nosso (re)conhecimento dos macaenses cingia-se a conhecimentos eamizades de outras paragens com pessoas que para nós eram indiscutivelmenteportuguesas, com as quais partilhávamos a mesma língua, a mesma cultura, amesma nacionalidade, sabendo-as nascidas num território distante, algures na Ásia,e que, como tantos outros amigos, conhecidos, tinham características físicas diversasdas que provinham do Portugal pátria. Eram, tal como nós os filhos do além-mar,de um Portugal de mátrias geradoras de uma grande prole espalhada pelo mundo.Nunca esta situação foi por nós reflectida até ao momento em que nosapercebemos que, naquele específico território, macaenses não eram todas aspessoas nascidas em Macau, eram, e são, algumas pessoas nascidas em Macau eoutras que mereceram para sê-lo. “Macaense é macaense, ponto”, tal como nosdisse um aluno da Escola Comercial Pedro Nolasco, quando, ainda recente na nossaestadia, e em jeito de brincadeira questionámos sobre: o que era ser macaense. A partir desse momento despertou em nós uma curiosidade cuja grandeza foiproporcional ao tempo da estadia, levando-nos a tentar entender o que era sermacaense, como se construiu, ou se foi construindo esta identidade.Temos o privilégio de contar com amigos entre os elementos da comunidade,pois como já referimos, foram quase oito anos de convívio social e profissional emuitas conversas; mas também tivemos o privilégio de ler grande parte da literaturaIrene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 13
  • MARIA BARRAS ROMANA14de Macau, a ficcional, e sobre Macau, as monografias, os relatos, alguns estudosfeitos por membros da comunidade, ou por outros, sobre esta comunidade e sobreo território de Macau; confessamos, contudo, que sem qualquer intuito científico(num primeiro momento1), mas como lenitivo para uma curiosidade insatisfeita.Fomo-nos apercebendo da existência de grupos culturais com especificidadespróprias; fomos aprendendo a distingui-los, nas vivências, nos comportamentos, nasatitudes, no labor e nos ócios, na gastronomia, nas vivências de alteridade, pois nóspertencíamos aos Outros-Nós nos conflitos e na comunhão. Fomos guardandomemórias, às vezes rascunhadas em cadernos comprados na Siu-Siu da rua dasMariazinhas, os convites de casamento, um rebuçado que não conseguimos comer,sob pena de não termos homenageado o defunto num funeral, as tristezas, os risose imensas fotografias, os sabores dos deliciosos manjares da comida macaense quenuma mesma garfada nos sabe a Trás-os-Montes, a Goa, a Malaca e no seu todo aMacau. Por tudo, e sobretudo por Macau.Propusemo-nos com este projecto fazer um estudo da construção/manutençãoda identidade cultural dos Macaenses tendo por corpus “as escrituralidades”; asimagens de semelhança e de alteridade que perpassam nesse construto mais oumenos ficcional de registos de vivências e de estranhamentos que nos chegam emnarrativas romanescas, em pequenos contos e crónicas ou em trovas no falar crioulo(às quais nem o princípio da musicalidade falta, ao jeito do trobar luso) doAutor/Actor que presencia a construção, sendo também ele o construtor/construído,projectando as figurações do imaginário e perpassando o palimpsesto textual deelementos denotadores da sua mundivivência e reprodutores da sua mundivisão.1. Delimitação do temaA Literatura produzida em Macau pode ser perspectivada das seguintesformas: uma literatura constituída por textos literários de escritores que, não sendonaturais de Macau, sobre ele escreveram textualizando as suas vivências de estadiasmais ou menos prolongadas, e foram muitos, esses autores, que ficcionaram a suapassagem em estórias imbuídas do exotismo e de impressões do diferente. Outros________________1 A leitura de parte da obra do macaense Luís Gonzaga Gomes levou-nos, também, a interessar peloestabelecimento dos portugueses no extremo Oriente e a tentar perceber o papel que os jesuítas tiverem, nãosó no território mas na aproximação entre o oriente e o ocidente; em 1994, foi reeditada, em português, aRelação da Grande Monarquia da China, pela Direcção dos Serviços de Educação e Juventude de Macau, ondetrabalhávamos. A primeira edição portuguesa, também ela dada à estampa em Macau, remonta ao ano de1956 e resulta da tradução da edição italiana de 1643, por Gonzaga Gomes. Nunca antes se teve conhecimentode outra versão na língua de Camões, a língua materna do seu autor, o padre jesuíta Álvaro Semedo, para nósum ilustre desconhecido, até ao momento em que lemos a sua Relação. Sendo um dos primeirostextos/documento que chega à Europa sobre a China e sobre o estabelecimento dos Jesuítas em Macau, foipor nós estudado como matéria de investigação na nossa dissertação de mestrado: Da Relação da GrandeMonarquia da China/2004.Irene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 14
  • PARA UMA LITERATURA DA IDENTIDADE MACAENSE – AUTORES/ACTORES15autores, poucos, escreveram a sua terra, um lugar mais imaginado do que real, assuas memórias, a sua origem e sobretudo o Outro na busca da percepção de ‘simesmos’, a alogeneidade de que nos fala José Carlos Venâncio como uma nãopertença consubstanciada na preocupação de traduzir o outro para o conhecer, paracom ele se identificar; considerando ainda que “(…) também na Ásia a mestiçageme os mestiços representam fenómenos de alogeneidade (…)” (Venâncio:1996b:156);referimo-nos aos Macaenses2, aos filhos da terra, aqueles que tematizaram Macauna sua obra não pelo deslumbre da terra estranha, mas porque representa a Mátria,como predicou António Vieira A terra em que nascemos é a mãe que nos cria (…)havia de se chamar mátria; o chão que atenua o seu isolamento e colmata aimpossibilidade de materializar o fantasma pátrio que povoa a sua identidade .3É a produção dos filhos da terra que aqui se entende como LiteraturaMacaense e será na sua tessitura diegética que pretendemos encontrar amanifestação do urdir de uma identidade crioula (Mintz; Price:1992)4 fruto dasescolhas entre o que se conserva e o que se transforma “num processo fantasmalinterminável de identificações” [Derrida:1996a):33]. Mas, também, num cotejar queconsideramos necessário ao narrar de identidades, olharemos, por vezes, paraautores-outros que de Macau têm a visão de fora, de quem passa, vive mas nãosente a vivência na sua totalidade e por isso a representa de forma outra.A Literatura Macaense pode entender-se como representação simbólica que permite percepcionar uma identidade auto-definida, como processo deintegração/transmissão de uma cultura, de uma comunidade que se construiu derelações interétnicas “(…) que se estabelecem numa dinâmica social própria [e levam] ao desenvolvimento de uma dinâmica cultural que tende a recriar a todoo momento contextos adaptativos ao modelo cultural que padroniza os seus modosde ser e de estar” (Piteira:1999:68); daí a possível pertinência de um estudo daconstrução/manutenção da identidade cultural dos Macaenses tendo por corpus“as escrituralidades”.Pode, também, ser entendida como o espaço de construção identitária namedida em que, através do discurso literário, se foi tecendo a auto representação ea hétero representação no sentido da representação do EU-OUTRO construído comoidentidade única, no reconhecimento da sua alteridade em relação ao outro; é, poisnas imagens de semelhança e de alteridade que perpassam nas escritas que registam________________2 Cf. Venâncio (2006:2): “Ao longo do período mercantilista emergiu no território uma cultura mestiçaprotagonizada por uma comunidade, também ela biologicamente mestiça, que se autodenomina, por razõesidentitárias e de diferenciação, macaense. Este é o sentido restrito do termo. (…) Macaenses são, nesta acepção,uma comunidade cuja unidade decorre da sua situação de mestiços biológicos e culturais (…)”.3 Analogia à imagem da metrópole como ser espectral de Jacques Derrida (Derrida:1996 b:74).4 Identidade crioula aqui apresentada como imanente do conceito de crioulização de Mintz e Price, sincretismoque leva ao surgimento de novas formas culturais/identitárias.Irene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 15
  • MARIA BARRAS ROMANA16as memórias, idealizam vidas e cristalizam lugares, e num deter nos textos da prosae da poesia no crioulo fundador, mesmo na singeleza da sua espontaneidade, queiremos procurar os signos que permitem a distinção, que singularizam estacomunidade, e como é que essas escritas assim nos revelam.2. Constituição do CorpusNa constituição do corpus entendeu-se considerar os autores macaenses numentendimento em acordo com Maria Antónia Espadinha quando refere: “LiteraturaMacaense incluirá os textos produzidos por autores macaenses, filhos da terra, ouseja, por euro(luso)-asiáticos, descendentes de famílias que, regra geral, começaramcom o casamento de um português com uma asiática, nomeadamente, goesa,malaquenha ou malaia, mais raramente chinesa…”. Aqueles sobre os quais não éfeita qualquer referência na história da literatura portuguesa, não por uma produçãoimbuído de excesso de hodiernidade mas, talvez, alheamento a textos que falavamem lugares distantes, em realidades outras, porventura de pouco interesse. O factoé que esta literatura não integra o campo literário, não faz parte dos cânones, nãoé reconhecida, pois, como sublinha José Carlos Venâncio ao considerar escritoresoriundos do espaço colonial português, nomeadamente atlântico, onde se inicia amiscigenação, e cujo aumento de reconhecimento, hoje, se verifica mais “em funçãodo contexto lusófono do que propriamente dos respectivos contextos nacionais”(Venâncio:2005:23). Iremos, também, e no intuito de compaginar olhares,debruçarmo-nos sobre dois autores que ‘pertencem’ à literatura de Macau “(…)essa, será toda a literatura produzida em Macau, quer os seus autores sejamportugueses, macaenses ou de qualquer outra nacionalidade” (Espadinha:WP:2010).Os autores macaenses, não constituindo um grupo muito vasto, são contudosignificativos num campo restrito de produção cultural.5 Estes autores são na sua maioria criadores de textos testemunho, muitas vezes com característicasautobiográficas. Não denota, a intenção de muitas destas escrituralidades, o fazerobra literária mas tão só o traditio de uma vivência, de uma cultura, de um lugar;constituem-se como documentos de preservação de memórias particulares, em prolda manutenção de uma memória colectiva, de sentimentos, de emoções, de guardarpara sempre algo sentido como volátil. É assim o livro Macau que eu conheci (2006)de Maria do Céu Jorge, neta de José Vicente Jorge6, membro de uma das famíliasmais antigas de macaenses; texto-testemunho das vivências da sua infância num________________5 Referimo-nos sobretudo à prosa, pois, no que à lírica diz respeito o contributo dos macaenses é um poucomais vasto e as primeiras obras poéticas tanto em português como em pátoà remontam ao início do séculoXIX. 6 Sobre Maria do Céu Saraiva Jorge e o seu livro será feita referência particularizada no último capítulo. Irene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 16
  • PARA UMA LITERATURA DA IDENTIDADE MACAENSE – AUTORES/ACTORES17Macau que a autora guardou na memória, e que almejou imutável; é, também, amemória que está presente na obra de Adé, José dos Santos Ferreira, autor de Macausã Assi, Macau di Tempo Antigo, Qui-nova Chencho, História de Maria e alferes João,Camões Grándi di Naçam, Poema di Macau e Papiá Cristãm di Macau; consideradoum dos maiores marcos da lírica em pátoà, mais do que texto lírico, o que nos dá éa maneira de ser, estar e pensar de uma comunidade, a sua musicalidade numaforma única de expressão, tão única mas tão partilhada como o foram e são oscrioulos espalhados pelo mundo. Mas igualmente em José Baptista de Almeida e Lima7 ou, ainda, nosdocumentos, fruto de uma capacidade de observação invulgar, de Luíz GonzagaGomes, permitindo a visualização e o entendimento do Outro num registo quaseetnográfica, denotando uma busca exaustiva, sobre as origens, numa procura derespostas para a especificidade; embora não constitua parte do corpus do presentetrabalho, consideramos importante uma pequena referência a este autor, à suatrajectória e à sua obra, embora de forma sucinta; Luíz Gonzaga Gomes, ummacaense filho-da-terra, foi aluno do Colégio do Seminário de S. José, onde fez asua formação; dada a sua proficiência na Língua Chinesa foi tradutor-intérprete daadministração do território, professor de português e chinês, bibliotecário daBiblioteca do Leal Senado e Conservador do Museu Luís de Camões; autor profícuona elaboração de textos sobre Macau, textos monográficos, relatos da vivência foi,ainda, tradutor de inúmera bibliografia de autores chineses, mas também dosescritos em latim, ou em italiano, elaborados pelos membros da Companhia de Jesuspioneiros nas várias tentativas de cristianização da China e os missionários com papelmais importante na cristianização de Macau e, diria mesmo, na sua formação.Profundo conhecedor da arte, da língua e da cultura chinesa foi consideradoum importante sinólogo e a ele se devem, também, algumas das mais importantestraduções de documentos chineses sobre a História de Macau.8 Entre traduções,registos de impressões, manuais didáticos, este autor deixou mais de trinta volumes(um dos quais a Relação da Grande Monarquia da China, do Jesuíta Álvaro Semedo,o primeiro registo sobre a história da China feito por um português e que GonzagaGomes traduziu da edição italiana 1643, visto não existir nenhuma versão da obraem português). São do seu cunho as obras Macau, Factos e Lendas (1979) eChinesices (s/d), registos de impressões, situações vividas pelo autor e estórias deMacau, a sua visão sobre a sua terra e seus habitantes, lendas usos e costumes,________________7 Nascido em Macau em 1782, onde faleceu em 1848. De acordo com a recolha de Carlos C. Reis (1992) foi,talvez, o primeiro poeta macaense, um dos mais importantes, sem dúvida, sendo também o primeiroidentificado, a escrever em pátoà (patois ou patuá). 8 Como, por exemplo, Ou-Mun Kei-Lèok – uma monografia de Macau escrita, em 1745, por dois magistradoschineses (Tcheong-Ü-Lâm, Subleitor da Academia Hó-Lâm e Ian Kuong Iâm, Subprefeito da província de Kuóng-Sâu) que no desempenho das suas funções visitavam Macau com frequência.Irene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 17
  • MARIA BARRAS ROMANA18deixando um registo de época muito interessante da Macau portuguesa/macaensee sobretudo da Macau chinesa.Muitos outros autores escreveram sobre Macau, relataram as suas vivências,criaram estórias partindo da representação de um contexto experienciado, mas cujareferencialidade remete para outras paragens. Esses são os macaenses de coração,de adopção, não os de identidade. Não os que, nos seus escritos, clamam por umacontinuidade identitária, pela preservação da sua identidade étnica e cultural, os quepermitem que, através da sua obra, possamos penetrar na alma dos macaenses, evislumbrar a sua identidade, tal como permitiu Leonel Alves no seu poema ‘Sabemquem sou’: Meu pai era transmontano/ Minha mãe china taoista/ Eu cá soueuroaseano/ Cem por cento macaísta (…) Meu peito é luso-chinês/ Meu génio sino-lusitano/ E toda a minha altivez/ Sabe ter um trato lhano (…) Sei rezar Ave-maria/Assim como ó lei tó fate,/ Sempre sonhei ser um dia/ Um bom sino-luso vate (…).9A escolha do corpus recaiu, sobretudo, sobre um destes autores, a saber:Henrique de Senna Fernandes, o “patriarca” da comunidade; Senna Fernandesnasceu em Macau a 15 de Outubro de 1923, no seio de uma família aristocrata.Licenciou-se em direito na Universidade de Coimbra. Dedicando a sua vida àadvocacia e à docência, foi professor do Liceu de Macau, e director da EscolaComercial Pedro Nolasco da Silva, presidente da Associação Promotora para aInstrução dos Macaenses. Morreu a 5 de Outubro de 2010, na sua terra, Macau. A escrita era a sua paixão.De Henrique de Senna Fernandes, são cinco os livros que integram o corpusdeste estudo: dois livros de contos – Nam Van - Contos de Macau; o primeiro10 éconstituído, na voz do autor, de “um punhado de contos e recordações” na suamaioria publicados no Jornal de Macau no início da década de 70; o segundo,Mong-Há, publicado um ano antes da entrega de Macau11, é uma compilação dasmemórias de um lugar, de uma vida, da essência e da matéria do Οΐχος território-lar.Os seus textos denotam o carinho da inter-relação indivíduo/meio, operseguir na assunção de uma identidade e a procura das raízes e dos liames deuma comunidade idealizada/imaginada como nação “conjunto de pessoasligadas por tradições históricas e por uma língua, costumes e instituições comuns”12também é Macau que está presente nos seus três Romances: os primeiros, Amor e Dedinhos de Pé e A Trança Feiticeira13 são dois romances que entrecruzam as formas de finitude do romantismo camiliano e a alvorada do realismo________________9 Leonel Alves autor de um único livro de poesia, póstumo, Por Caminhos Solitários.10 O primeiro livro a ser publicado, em edição de Autor.11 Em 1998.12 Do Latim, natio; Dicionário de Língua Portuguesa Contemporânea.13 Primeiras edições de 1985 e 1992, respectivamente.Irene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 18
  • PARA UMA LITERATURA DA IDENTIDADE MACAENSE – AUTORES/ACTORES19queirosiano14, e também neles transparecem, em certos momentos, pinceladas deautorreferencialidade; o universo narrativo destes dois romances organiza-se emtorno de factos inscritos na vivência/memória do autor, resultando, em Amor eDedinhos de Pé, num romance memorialista que reconta histórias contadas; e numromance assumidamente autobiográfico, o caso de A Trança Feiticeira. Os Dores, oterceiro romance do autor, conta-nos a história de uma mulher macaense, mas semdireito a sê-lo porque era ‘criação’, da sua trajectória e concomitantemente a históriada comunidade macaense; reportando-se às três primeiras décadas do século XX,dos anos vinte aos anos quarenta, “Os Dores” dá-nos, pois, a imagem dacomunidade macaense, da sua maneira de estar e de pensar mas, ao contrário dos outros romances do autor, é uma mulher a protagonista desta narrativa; o eu-outro/mulher olhado com a minucia do observador que também é observado.Embora a temática geral destas obras seja urdida a partir de um eixo emotivo/sentimental, o tema, princípio produtor dos textos que subjaz a todas as suas obrase mediador entre o homem e a sua cultura, referencia a relação com o Outro.A textualização do Outro permite a identificação do eu, constituindo, nestasnarrativas, a relação com o Outro o elemento fundamental da construção identitária,na medida em que a representação ao contrário de revelar distância cultural permite-nos o entendimento do outro-eu-próximo, e dá-nos a imagem da comunidademiscigenada, mestiça, híbrida ou tão só, Macaense.As obras literárias integram a categoria dos bens simbólicos, e como tal“realidades de dupla face, mercadorias e significações, cujo valor propriamentesimbólico e cujo valor mercantil permanecem relativamente independentes”(Bourdieu:1996:168); também constituem, pela sua utilização, marcadores dedistância social e de estratégia de distinção; na década de noventa, momentoposterior à decisão de entrega do território de Macau à República Popular da China,assistiu-se a forte empenho a nível institucional no sentido de editar autoresmacaenses ou autores que de algum modo estivessem ligados a Macau e, nessesentido, foram feitas edições de obras anteriormente editadas, de entre as quais abibliografia de Luís Gonzaga Gomes, grande parte da bibliografia do MonsenhorManuel Teixeira, os livros de Jaime de Inso, os tratados e as relações sobre a Chinados missionários jesuítas; a obra de Adé, tanto em português como em patuá; aHistória de Macau de Montalto de Jesus, as compilações fac-simile dos primeirosjornais tais como Tai-Ssi Yan Kuo e A Abelha da China.Para além deste acervo foram, também, editados vários livros sobre Macau,ou que têm o território como moldura, de escritores, alguns com obra feita, outros________________14 As influências literárias de Senna Fernandes serão abordadas em tempo oportuno pois não se limitam a estesdois autores portugueses. Irene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 19
  • MARIA BARRAS ROMANA20em estreia, alguns emotivamente ligados a um lugar que, por adopção, também jáconsideravam seu, todos aproveitando o momento e quiçá o mecenato do poder(ainda) vigente, e um número significativo de novas edições nas quais se encontramos dois últimos livros, desse período, da autoria de Senna Fernandes;consubstanciando uma função manifesta15, a de registar por escrito as histórias e as memórias humanas de um território, último reduto de um império, que estavaprestes a ser entregue. Contudo, fazendo emergir uma função latente; o reforço da coesão de uma comunidade que pela primeira vez tomou consciência que a sua condição de comunidade era ilusória.A maior parte destas obras, os bens simbólicos do campo cultural de Macau,foram editadas ou coeditadas por instituições públicas, nomeadamente, o InstitutoCultural de Macau, o Instituto Português do Oriente e a Direcção de Serviços deEducação e Juventude de Macau, sob a égide do último Governo da AdministraçãoPortuguesa de Macau. Este facto resulta de determinações no campo político, quese prendiam, por um lado, com o acordo resultante da ‘Declaração Conjunta’ e daLei Básica16 que previa a manutenção da língua portuguesa, como língua oficial doterritório, durante cinquenta anos após a passagem da administração para a China,por outro lado a assunção de uma comunidade portuguesa, ou de línguaportuguesa, como comunidade efectiva desse território e, ainda, o facto de atravésdos textos, num compilar de documentos, num rememorar da história, avocar apresença e reforçar a pertença. Para este desiderato Senna Fernandes teve umcontributo incontornável, pois a sua obra constitui-se como um testemunho paraas gerações de transição, quiçá para as vindouras e, sobretudo, para as gerações dadiáspora, como um elo de ligação à terra-mãe; como um etnema.O seu quinto livro é uma obra póstuma, Os Dores foi publicado dois anosdepois da morte do autor, em setembro de 2012, pelo governo da RegiãoAdministrativa Especial de Macau através do seu Instituto Cultural. Esta publicação________________15 O conceito de Função Social para Merton remete para as consequências objectivas do cultural ou social e nãopara qualquer propósito ou finalidade subjectiva dos actores sociais; daí que em termos concectuais tenhaconsiderado dois tipos de funções. Quando numa possível coincidência as consequências objectivascorrespondem às intenções dos agentes pode-se falar em funções manifestas; sendo as funções latentes as queemergindo de um conjunto de consequências objectivas não se consubstanciam em intenções ou propósitosdos actores sociais. De um modo sucinto considera-se pois, como funções manifestas aquelas que sãoconsciente e objectivamente produzidas pelos actores sociais contribuindo de certa forma para a sua integraçãono sistema social/cultural; e como funções latentes as funções que não são previstas e estão relacionadas comos aspectos simbólicos, não sendo percepcionadas pelos indivíduos. (Merton:1997)16 Declaração Conjunta do Governo da República Portuguesa e do Governo da República Popular da China Sobrea Questão de Macau, 1987, art. (5) “A Região Administrativa especial de Macau definirá por si própria, as políticasde cultura (…) e protegerá, em conformidade com a lei, o património cultural de Macau. Além da língua chinesa,poder-se-á usar também a língua portuguesa (…). art. (6) (…) Os interesses dos habitantes de ascendênciaportuguesa em Macau serão protegidos em conformidade com a lei”. O período de vigência no território dobilinguismo oficial, só é estabelecido pela Lei Básica de Macau, aprovada em 1993, nos artigos que garantem amanutenção das estruturas política, legal, judiciária, económica e social por mais 50 anos após 1999.Irene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 20
  • PARA UMA LITERATURA DA IDENTIDADE MACAENSE – AUTORES/ACTORES21é o primeiro volume de uma colecção da obra completa de Henrique de SennaFernandes.17À escolha de Henrique de Senna Fernandes como “case study” da temáticaque nos propomos explorar, está subjacente o facto de ser:- O autor/actor com obra mais representativa, em termos literários e comosímbolo do imaginário da comunidade Macaense.- Através da representação ficcional de estórias vividas contadas ourecontadas este autor constitui-se também como veículo da memória dacomunidade.- Consideramos que as suas narrativas são um contributo analítico sociológicopara uma melhor percepção dos mecanismos de solidariedade orgânica/mecânica; de distinção, de habitus e das formas de como se foi construindoa identidadeDe entre os outros autores escolhidos para a constituição do corpusdestacamos, com alguma acuidade, Deolinda da Conceição, uma mulher espantosano dizer de quem a conheceu e no sentir da quem tem o privilégio de ler o seu(único) livro de contos, vislumbre do muito que poderia ter realizado. Era umasenhora macaense, mulher numa época em que era difícil sê-lo, sobretudo quandose foge ao ‘socialmente estabelecido’; década de cinquenta, sociedade conservadorae respeitadora das normas da pátria longínqua não viu com agrado uma mãedivorciada, a trabalhar num jornal, mas nas palavras de seu filho António “estaMulher, jovem na casa breve dos trinta, que sentira cedo a dureza da vida, própriae alheia, foi respeitadíssima. Foi Mulher e Senhora entre Homens de letras e de artesquando as mulheres se não sentavam à mesa das tertúlias.”18O pequeno livro, de escrituralidade no feminino, mais do que contos sobremulheres, da mulher sem rosto e sem condição, a mulher que ainda hoje silencia avida constitui-se como histórias de alteridade denotadoras de uma profundaobservação mesclada pela partilha de vivências sofridas; é de forma envolvente quea autora nos leva para o universo do outro feminino, e cada conto é um rasgar dejanelas para a cidade chinesa e para a imensidão de uma China em mudança; asmarcas das duas civilizações, que confluíram naquela parte do mundo, são bemvisíveis, mas, também, visível é a percepção do feminino nestes contos sobremulheres, que poderíamos integrar na denominada literatura de género, na medidaem que esta autora nos dá um particular insight da mulher chinesa tanto docontinente como da mulher chinesa de Macau.________________17 Cf. Nota do editor “Com a publicação de “Os Dores” o Instituto Cultural do Governo da R.A.E. de Macau dáinício à colecção “Obra Completa de Henrique de Senna Fernandes”. (…) “Os Dores”, ora dado ao prelo pelaprimeira vez, é um romance que infelizmente já não foi revisto pelo autor (…)”.18 Excerto do Prefácio da 4ª Edição do livro da Autora, escrito pelo seu filho António Conceição Júnior, em 1995.Irene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 21
  • MARIA BARRAS ROMANA22Através do apontamento poético e da autobiografia, evocaremos alguns dosautores que nos falaram da interioridade macaense. Não em obra integral mas astextualidades poéticas que ao longo dos tempos foram, numa maiêutica cultural,aparecendo em jornais, revistas ou pequenas publicações e que, hoje, estão, emgrande medida, compiladas no livro Trovas Macaenses da autoria de João Reis(1992). Uma obra que não podemos deixar esquecida é Macau que eu conheci anos 20 e 30, de Maria do Céu Saraiva Jorge (2006), um registo autobiográfico/memorialista da infância e adolescência da autora, realizado pela memória, quasemeio século depois.Mas, também, consideramos autores que nos dão as imagens daexterioridade. Porque intentamos o cotejo da visão, consideramos aqueles cujasobras referenciam os momentos dos textos narrativos do nosso corpus macaense;assim, compaginando os momentos cronológicos dos romances de SennaFernandes, a primeira metade do século XX, aduzimos ao nosso corpus o livro decrónicas O Caminho do Oriente, de Jaime de Inso, que consubstancia o registoautobiográfico, embora com um cariz ficcionalizante, da sua estadia em Macau;Jaime de Inso era oficial da Marinha Portuguesa e esteve em Macau, nos finais dosanos trinta, como comandante da canhoeira ‘Pátria’ que, na época, ali estacionava.Através das duas personagens deste romance-crónica de viagem, Inso mostra-nosum Macau em imagens da exterioridade ou, como sublinhou o autor “um quadroou esboço da nossa vida colonial” (Inso:1996:13) numa “perspectiva eurocêntricae colonial” (Laborinho in Inso:1996:8).Seleccionamos, ainda, um dos romances de Rodrigo Leal de Carvalho, OsConstrutores do Império, romance que nos permite perscrutar, com laivos de umaliteratura colonial, embora irisadamente ironizada, o olhar distanciado do Outro-Europeu sobre os espaços-colónias, não deixando contudo de se enquadrar em parteda definição que Manuel Ferreira apontou: “[…] A literatura colonial define-seessencialmente pelo facto de o centro do universo narrativo ou poético se vincularao homem europeu (…)” (Ferreira:1977:10).3. ObjectivosPoderá ser o texto literário veículo ideológico-identitário? Poderá a literatura,nas suas várias formas de narractividade, ser usada para influenciar o seu própriotempo ou o tempo futuro? A literatura retrata as práticas sociais e culturais de umacomunidade num determinado momento histórico?Por vezes as obras literárias consubstanciam certos significados sociais,culturais e históricos, em ligação estabelecida num inerente dialogismo com ocontexto sociocultural em que se inserem e pelo qual, de uma forma directa ouIrene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 22
  • PARA UMA LITERATURA DA IDENTIDADE MACAENSE – AUTORES/ACTORES23indirecta, são motivadas; assim, a literatura pode ser entendida como uminstrumento de intervenção social, de acordo com José Carlos Venâncio “aliteratura surge como agente de articulação de vários segmentos da sociedade”(Venâncio:1990:117).As obras literárias consubstanciam imagens que recuperam no tempo esubstituem no espaço o interagir dos indivíduos, muitas vezes em processos dereferencialidade remota, aparentemente esquecida, por que guardada na memória.As imagens que substantivam as escrituralidades literárias têm a função de recuperar,através das memórias, dos afectos, das emoções, as marcas perdidas que permitema reconstituição das representações societais, não como faces especulares do reflexodo real, mas como emanações prismáticas construtoras de significações signícas,simbólicas, porque reinterpretadas na amálgama das formas antitéticas imaginário/real concretoSendo objectivo primordial entender/apreender o contributo das textualidadesliterárias, dos autores (do habitus), no processo de construção/manutenção de umaidentidade cultural de macaenses-Filhos da Terra, foi, num primeiro momento,delimitado o corpus, base documental analítica do nosso trabalho e, nesse sentido,restringiu-se, por definição daquilo que consideramos ser a literatura macaense, osautores desse corpus; o facto de termos integrado dois autores que não fazem partedo entendimento expresso, deve-se à pertinência de comparar as visões endógenase as visões exógenas.Objectivando responder a algumas questões que consubstanciam aelaboração da presente obra foram delineados os temas de abordagem em seiscapítulos onde, também, numa relação dialógica se percorrerá os caminhos dasociologia, da literatura, da antropologia, da história e da linguística. 4. Metodologia de análise(…) a integridade da obra não permite adoptar nenhumadessas visões dissociadas; e que só a podemos entender fundindoo texto e contexto numa interpretação dialecticamente íntegra emque tanto o velho ponto de vista que explicava pelos factoresexternos, quanto o outro, norteado pela convicção de que aestrutura é virtualmente independente, se combinam comomomentos necessários do processo interpretativo (…) o externo [o social] importa (…) como elemento que desempenha um certopapel na constituição da estrutura, tornando-se, portanto, interno(…) (Cândido:2006:13-14).Irene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 23
  • MARIA BARRAS ROMANA24As obras culturais são objecto de uma apropriação, material ou simbólica eassumem-se como capital cultural e, nesta condição, são sujeitos de distinção,propiciadores de distintas formas de apropriação de acordo com as capacidades deacesso aos instrumentos de apropriação da herança cultural (Bourdieu:1979).Apropriação que “(...) permite superar a oposição entre leitura interna e a análiseexterna sem perder nada das aquisições e das exigências dessa abordagem,tradicionalmente percebidas como inconciliáveis” (Bourdieu:1996:234).O que nos propomos realizar é uma análise de textos literários de autoresmacaenses de acordo com os pressupostos teórico-metodológicos da Sociologia daLiteratura, numa abordagem empírica que privilegia o entendimento da obra literáriacomo documento social, considerando, no entanto que, dadas as características docorpus escolhido, deveríamos optar, também, pela adaptação do modelo analíticoda sociopoética, que tem sido desenvolvido por Alain Viala (1993), pois, o que sepretende ao considerar a produção literária de um autor como objecto de estudono sentido de, através dela, entender até que ponto esse objecto é, simultaneamente,literário e veículo de identidade, é um olhar ao texto, tanto no plano émico como,necessariamente, no plano ético (Venâncio:1990).A literatura constitui um discurso social; um discurso sobre a sociedade, nãono seu todo, não por si só, mas na medida em que é tecida pelos valores, opensamento, os meandros da cultura, os modos de representação, mesmo que nãohaja deles explicitação numa textualidade elaborada pelos fios da literariedade, dalinguagem da literatura. São os narradores, muitas vezes as personagens, quetransportam para o mundo diegético da obra literária o habitus de classe dosautores, muitas vezes replicam as suas trajectórias, deixam transparecer areinterpretação da realidade social de acordo com os valores e a ideologia que lhessubjaz. Na matéria da obra literária emerge sempre o olhar implicado do autor, sejaporque imerge num auto-biografismo, seja porque, na pretensão do olhar exteriorsobre o mundo que escreve pauta o seu trabalho pela interpretação à luz da suaprópria concepção de mundo, da sua realidade social.19O modelo analítico que subjaz à ideia de sociopoética consubstancia duasdimensões (Molinié; Viala:1989): uma que focaliza o valor social dos géneros e dasformas, ou seja, recorre ao construto teorético da sociologia da literatura; outradimensão, que objectiva a análise das construções discursivas da significação enecessita do recurso da teoria da literatura e da poética formal, pois sendo umaproposta de modelo de análise híbrido, ao emergir da confluência dialogante dos________________19 No entender de Alfred Schütz, a realidade social não é assumida passivamente pelos indivíduos, na medida emque eles interpretam e descrevem de forma contínua o que experienciam no seu quotidiano, de modo a darsentido ao que fazem e ao que os outros fazem, e a reconstituir essa realidade, que só assim se torna real.(Schütz:1987)Irene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 24
  • PARA UMA LITERATURA DA IDENTIDADE MACAENSE – AUTORES/ACTORES25campos da teoria literária e da sociologia da literatura, permite uma exploraçãoconjunta da sociedade e da literatura; assim, cada uma das dimensões de análisenão tem papel autónomo ou hegemónico, antes uma relação dialógica simétrica.Ao definir como objecto da sociopoética a relação que se estabelece entre osfactos de uma sociedade e as concretizações históricas de um determinado escrito,o que Viala propõe é uma metodologia que permite interligar as metodologias quetradicionalmente focalizam, em termos analíticos, a obra ou nos aspectos internosou nos aspectos externos. Assim ao inter-relacionar a sociologia da literatura e apoética, a arte das formas, o modelo analítico da sociopoética permite entender omundo referencial do texto de acordo com vários prismas; deste modo o objecto aestudar integra-se nas mediações que constituem os sistemas de relações entre aliteratura e as outras práticas sociais, ou seja os efeitos de prisma.À escolha dos prismas subjaz as características específicas do corpus emanálise; algumas das faces prismáticas, passíveis de ser objecto de análise numa obraliterária são: a língua, o campo literário, o sistema de géneros literários, o autor;estes prismas comportam-se como instâncias mediadoras no texto literário e cadauma das faces prismáticas permite entender o social que é refratado pelo texto;assim, subjacente ao prisma da língua, estão os registos, os níveis, a sua distribuiçãode uso de acordo ou não com os grupos sociais; o dialecto e as intenções da suautilização que perpassa pelo construto enunciativo; o dialecto e estrutura sintáticada língua como factor identitário.No que concerne ao prisma do género e dos códigos estéticos, entende-seque, constituindo os géneros literários códigos sociais e, em termos estéticos, osestilos se constituem como indicadores expressivos das normas culturais de umdeterminado tempo, são compagináveis com as normas linguísticas que seconsubstanciam em facto social. Assim a análise incidirá sobre os géneros literáriosdo corpus; que géneros e que códigos? Os géneros que leitores seleccionam?A respeito do prisma autor a análise incidirá na dimensão de representaçãodo imaginário autoral; a dimensão social de acordo com a sua trajectória; – de quemodo transparecem na forma e conteúdo da escrituralidade? De que forma aestratégia literária se compagina com o seu percurso pessoal e social? Que pacto deleitura estabelece o autor com o leitor? Considerado por Viala (1988:p.67) como um dos prismas fundamentais,embora entenda que não se deve recorrer a este modelo de análise a não ser em períodos e em situações que justifiquem a sua pertinência, o campo literárioconcerne ao conceito formulado por Bourdieu (1996) como espaço socialrelativamente autónomo formado pelo conjunto de agentes, obras e outrosinterlocutores da praxis literária, estruturalmente definido por um sistema de forçasque são motivadas pelos seus conflitos. Constituindo-se como uma mediação não éIrene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 25
  • MARIA BARRAS ROMANA26só veículo das determinações sociais que se exercem sobre a literatura, mas,considera-se que a literatura se elabora de acordo com uma lógica de mediaçõespróprias do seu campo e que tem a eventual capacidade de agir sobre outras esferasdas práticas sociais. Na análise do espaço literário (Viala:1988:64), deverá, pois, ser premente ocotejo com os outros campos sociais, situá-lo no seu momento histórico integradono campo intelectual e relacioná-lo com o campo do poder, na medida em que éparte importante do poder simbólico, e o maior ou menor grau da sua autonomiaé determinante para a sua posição na hierarquia dos valores culturais; tal como asmediações subjacentes à estrutura do campo, ou seja, as posições hierárquicas, aimportância ou a desvalorização de uma corrente estética, de uma escola, o graude consideração a um género literário em detrimento de outro, a avaliação dasinstituições autorictas. Há todo um conjunto de circunstâncias que devem ser tidasem conta quando se pretende fazer o estudo sociológico do literário de acordo comeste prisma de análise. No que às obras literárias, por nós consideradas, diz respeito, refere-se queas textualidades do corpus consubstanciam uma especificidade no que concerne aoseu enquadramento nos cânones literários20 e consequentemente no campo literário.Não sendo conhecida como canónica no âmbito da Literatura Portuguesa, não étambém entendida como uma literatura regional, contudo tentaremos encontrar asformas de reconhecimento que os percursos21 das obras nos permitem.As implicações dos efeitos prismáticos no e do texto, resultado da análiseinterpretativa, permitem consubstanciar o objecto da sociopoética de forma dual,ou seja, a relação entre a sociedade e a literatura pode ser entendida como umarelação de forças em que, por um lado, a literatura, a obra literária, está subordinadaao agir da sociedade; por outro assiste-se à relação inversa que está subjacente aoacto de escrita na medida em que ao escrever o autor antevê os efeitos, reais ousimbólicos, que o seu texto produzirá, antecipando, pois, as condições de recepção,agindo assim a literatura sobre a sociedade. Do ponto de vista epistemológico considerou-se pertinente o recurso aoutras áreas científicas das ciências sociais, assim, e apesar de não ser nossointuito, com o presente trabalho, inovar teoricamente sobre a identidade e a cultura dos macaenses, enquanto grupo, mas tão só, tentar apreender,nomeadamente através das várias teses existentes sobre a temática, as formas ________________20 Se entendermos o Cânone na sua concepção tradicional ou seja “o conjunto de obras literárias, o elenco detextos filosóficos, políticos, religiosos significativo, os particulares relatos históricos a que geralmente se atribuipeso cultural numa sociedade” (Lauter:1991:IX).21 Consideram-se percursos, as edições e a sua recorrência, indicadores do interesse por parte do público, ainternacionalização/traduções, a utilização como fontes de estudos académicos.Irene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 26
  • PARA UMA LITERATURA DA IDENTIDADE MACAENSE – AUTORES/ACTORES27de construção/reconstrução dessa identidade denotada nas obras literárias deautores macaenses.Não se tratando de um trabalho no âmbito da antropologia ou da psicologiasocial, foi contudo, também a elas que recorremos, não só para nos facultarconceitos operatórios que nos permitissem o referido entendimento, mas para aelucidação dos macaenses enquanto grupo identitário, enquanto grupo étnico-cultural de uma singularidade e especificidade muito próprias e cujas construçõessimbólicas são representadas na narratividade consubstanciada nas obras em estudo. A comunidade macaense enquanto grupo étnico pode ser considerada comouma colectividade (A. Smith:1997:36), detentora de uma identidade externa quelhe permite ser reconhecida pelas suas diferenças culturais, na qual a valorização dopapel das memórias históricas e dos mitos de descendência lhe imprime umacondição duplamente ‘histórica’, na medida em que “as memórias históricas sãoessenciais para a sua continuação” mas, também, porque cada um destes gruposétnicos é produto de forças históricas específicas (…) sujeito à dissolução e àalteração histórica” (Smith:1997:36). A identidade étnica consubstancia-se, pois, ematributos históricos e simbólico-culturais; uma comunidade étnica é congregadaatravés de ‘mitos de descendência’ e de memórias históricas e reconhecida pela suadiferenciação em relação ao outro, através de atributos de auto e hétero percepção;a partilha de determinados atributos indicia a idealização de comunidade (Smith:1997:36/7).Irene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 27
  • PARA UMA LITERATURA DA IDENTIDADE MACAENSE – AUTORES/ACTORES29CAPITULO II – A LITERATURA E A SOCIEDADE |A narratividade é inerente ao conhecimento que o homem, enquantoinstância enunciadora, possui e elabora sobre a realidade, permitindo-lhe apresentá-la sucedaneamente em termos temporais e espaciais, constituindo-se no narrar –escrito de novas figurações.Ποιητιϰή, a arte de escrever, tal como a entendiam os gregos, ou literatura,como os romanos nos transmitiram, consubstancia todo um construto teorético quese foi urdindo ao longo dos séculos, mercê de um vasto contributo de reflexões.Para Sartre «(…) écriture et lecture sont deux faces d’un même fait d’histoire»neste sentido, considerou a literatura como um ‘rapport social’. O texto literário sótem existência, enquanto tal, porque é lido, existe para ser lido “L’opération d’écrireimplique celle de lire comme son corrélatif dialectique et ces deux actes connexesnécessitent deux agents distincts” (Sartre:1985:78). Zéraffa, numa reflexão sobre oromance foi um pouco mais longe, ao considerar que “um romancista é realmenteum sociólogo quando traduz um objecto social que ele próprio experimenta e cujocódigo soube decifrar [sendo necessário] uma forte consciência dos imperativostécnicos e estéticos de que dependerá a transcrição da sua visão de si mesmo e dosoutros” (Zéraffa:1974:95-97).O aprofundamento do “rapport social”, que se consubstancia numa relaçãosocial, historicamente variável entre um escritor e um leitor, foi o primordial objectivoda sociologia da literatura. 1. Em torno da Sociologia da LiteraturaNa procura de respostas que relacionem a literatura e a sociologia e permitamolhar para a obra literária como objecto sociológico, encontramos um longo percursoteorético iniciado por sociólogos e literatos, levando mesmo a algumas querelas queIrene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 29
  • MARIA BARRAS ROMANA30opuseram os cientistas do social e os homens das letras no sentido de uma definiçãode ‘territórios’ que tendiam a amalgamar-se. No sentido da elucidação desses percursos que confluem no surgimento deuma disciplina que especializa o estudo da relação entre a literatura e o social,entendemos abordar alguns autores que tem, ao longo do último século,contribuído com, por um lado, a sistematização no elencar das trajectórias dasociologia e da literatura, no caso concreto da obra de Wolf Lepenies (1988) ou noscontributos, embora mais modestos, de Jacques Leenhardt, Paul Aron e Alain Viala;por outro lado, tentaremos referenciar os autores, senão todos, pelo menos aquelesque nos parecem ser dos mais importantes, que estiveram na emergência dadefinição da Sociologia como ciência e na especialização da Sociologia da Literaturacomo disciplina científica.Assim, de acordo com a discussão proposta por Lepenies na sua obraBetween Literature and Science: The rise of Sociology, que constituirá a principalfonte de parte deste título, a Sociologia autonomiza-se e legitima-se como ciência,no século XIX, a partir de uma querela entre duas culturas: a cultura científica e acultura literária. Nesta obra o autor procura entender o emergir desta terceira culturado interior de um verdadeiro campo de forças que opunham as ciências naturais auma cultura literária que, sobretudo com e depois do romantismo, se assume comoveículo de representação dos aspectos da sociedade do seu tempo, constituindo-secomo um modo particular do conhecimento sociológico. Muitos escritorespretenderam nas suas obras representar os aspectos da sociedade do seu tempodando, de certa forma, através do seu olhar, as linhas orientadoras de um evoluirem mudança; consideramos, a título de exemplo: Hugo, Stendhal, Balzac, Flaubert,Zola, Proust, em França; Austen, Dickens, na Inglaterra; Goethe, Schiller naAlemanha; Garrett, Camilo, Eça, em Portugal.Esta querela, longa e várias vezes reacesa, consubstanciou-se na procura,por parte dos homens das ciências do social, de estabelecer uma identidadeprópria para a disciplina que se propunha analisar e entender a sociedade, as suas mudanças e tensões; assim na sua génese, a sociologia tenta equilibrar omovimento pendular que umas vezes a aproxima da cultura literária, reagindo pelanegação da importância do literário na representação do social e, outras vezes, a faz tocar na cultura científica, na medida em que desta última toma porempréstimo o seu modelo epistémico e com ele se escuda para a sua validaçãocomo área científica.Considerava-se, pois, que só a sociologia estaria capacitada para estabelecerum modelo matricial e moral de análise da novíssima sociedade industrial, ou seja,só a sociologia enquanto ciência poderia analisar e propor directrizes condutorasdas novas formas de relacionamento social que emergiam da nova estrutura social.Irene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 30
  • PARA UMA LITERATURA DA IDENTIDADE MACAENSE – AUTORES/ACTORES31Até então a literatura tinha tido o papel de alertar consciências; contudo,no entender dos cientistas, ao substantivar os sentimentos e as paixões influenciavaas formas de agir, o que poderia constituir tanto uma virtude como algo pernicioso:se por um lado auxiliava o indivíduo no aperfeiçoamento do estilo de escrita, poroutro, uma formação excessivamente literária levava a um excesso de sensibilidade,e inerente subjectividade, que conduzia ao ócio. Mas foi sobretudo contra um excesso de preocupação no estilo de escritaque se consubstanciou o início da querela; apresentando o exemplo de Buffon,um dos grandes naturalistas do Século XVIII, autor da Histoire Naturelle, umcientista portanto. Contudo, como refere Lepenies, “It was as a stylist that Buffongained his reputation” (Lepenies:1988:2) revelando um episódio que caracterizabem a relevância, na época, da cultura literária: “When (…) Buffon was in 1753elected to the Académie Française, he spoke on the subject of style. The factsurprised no one: it was considered quite natural that a scientist should also regardhimself as an author (…)” (Lepenies:1988:3).É, porém, nesta época que os escritores experimentam novas formas deescrita mais conducente com as transformações que se verificavam na sociedade;os ‘romans scientifiques’; os tratados científicos, encantatórios pelo estilo maisdo que pelo conteúdo que perdia a importância subjugado à arte da escrita,deixaram de motivar o interesse por parte dos leitores, e mancharam a reputaçãodos seus autores “Buffon (…) was the last scholar whose reputation was foundedon his talento for presentation and the first to lose his reputation because he had devoted himself too much to authorship and too little to research”(Lepenies:1988:3).O princípio da separação entre as duas culturas foi precisamente quandoa formula ‘Stilo primus, doctrina ultimus’ deu lugar a ‘Doctrina primus, stiloultimus’, embora, curiosamente, cerca de cem anos depois de Buffon, numreverso que muito caracterizou esta contenda, Balzac “in 1842 composed thepreface to his Comédie Humaine (…) appealed, among many others, to a poetwho had also been a natural scientist, namely Goethe”, louvando ainda, noreferido prefácio, a memória de Buffon, o cientista natural que foi rejeitado pelosseus pares por ser também um homem de letras (Lepenies:1988:4).É interessante compreender, através de Lepenies, as relações competitivase conflituosas que perduraram, e perduram de certo modo, opondo a literatura,críticos e escritores, a filósofos, a historiadores, a sociólogos e, inclusivamente,aos homens das ciências da natureza, pois como refere o autor, o próprio Balzacquando escreveu a Comédie Humaine (que tencionava denominar de ÉtudesSociales) propunha-se analisar as espécies sociais, que constituíam a sociedadefrancesa do século XIX, escrevendo em simultâneo a história da sua moral, daIrene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 31
  • MARIA BARRAS ROMANA32mesma forma que Buffon havia tratado a zoologia, confrontando a sociologia eassumindo-se como analista da sociedade (Lepenies:1988:4).Sendo este confronto a que se refere Hegel (Hegel, in Lepenies:1988:12)quando, ao analisar o género romance como a forma de arte que apresenta “orderand prose of reality”, no seu trabalho Lectures on Æsthetics considerou que “Thenovel, the modern bourgeoise épopée presupposes a reality already ordered as prose(…) one of the most common and, to the novel, appropriate conflits is therefordthat between the poetry of the heart and the prose of everyday circumstances andthe accident’s of the external world that oppose it (…)”, o que carreia a seguinteconsideração de Lepenies: “Hegel’s description makes it clear why from the momentof its inception sociology becames both a competitor and a counterpart of literature”(Lepenies:1988:12).Esta luta intelectual teve momentos e impactos diferentes quão diferentesforam os espaços culturais que lhe deram guarida. Em França, os conflitos entre aRacionalidade Fria advinda do Enlightenment e a Cultura dos Sentimentos quereflectia o Counter-Enlightenment atingiu formas extremas envolvendo, já na finitudede oitocentos, a comunidade académica e criando uma cisão problemática naSorbonne; a velha Sorbonne defensora de uma cultura literária prestigiante e a novaSorbonne durkheiminiana e avessa a qualquer forma que prestigiasse a literatura ouos homens das letras. Os protagonistas desta contenda foram, curiosamente, doissociólogos; Emile Durkheim e Gabriel Tarde: “(…) the conflict between Durkheimand Tarde was not only a contention between two schools of sociology, it was alsoa dispute between two temperaments in the course of which Tarde repudiatedDurkheim as a scholastic and Durkheim repudiated Tarde as a mere man of letters”(Lepenies:1988:59). Na Grã-Bretanha esta disputa primordial teve menos visibilidade na medidaem que não se verificou uma verdadeira tensão entre a intelligentsia literária e acientífica, e a sociologia filha dilecta desta relação conflituosa surge inglesa masdentro da tradição dos estudos culturais; as diferenças entre sociólogos e homensdas letras quase não existiam, devido ao facto de a elite intelectual inglesa,independentemente das suas áreas científicas, partilhar a mesma educação e teros mesmos grupos de referência. Contudo, não deixou de haver discussões,protagonizadas, por exemplo, por Thomas Huxley e Mathew Arnold, queopuseram aqueles que consideravam a importância da cientificidade nos modelosde análise da sociedade e entendiam que a matéria literária tinha utilidade nosentido lúdico mas não como forma contributiva dessa análise, e aqueles paraquem os estudos culturais e a descrição dos problemas da sociedade, que afinala literatura realizava, eram suficientes no que concernia ao aspecto analítico(Lepenies:1988).Irene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 32
  • PARA UMA LITERATURA DA IDENTIDADE MACAENSE – AUTORES/ACTORES33Toda esta situação de confronto, no sentido de retirar importância a qualquerforma de contributo que a literatura pudesse facultar na leitura do social,inclusivamente, a rejeição por um estilo de escrita que pudesse ser considerada maisliterária “According to Comte, questions of Style were of little importance in thesciences, if only because no two authors had ever been able to agree on what goodstyle was” (Lepenies:1988:19), por parte da sociologia, sobretudo na sua fase deconstrução como ciência e durante os primeiros momentos da sua concretização,tem o efeito perverso de retirar à literatura espaço no campo intelectual e, num certosentido, distanciar momentaneamente a própria sociologia de uma das fontes deprodução de conhecimento.A emergência de uma linha autónoma de investigação e pesquisa quepermitisse o entendimento e a complexidade das relações entre a literatura e o socialtem a baliza no século XX, sobretudo a partir da década de 50, momento em quese volta a questionar a importância desta relação, retomando a velha querela queconsubstanciou a questão das duas culturas, a cultura científica e a cultura literáriae que, de certo modo, fez eclodir a sociologia, no século anterior.Este questionamento, desta vez em Inglaterra, deu origem ao conceito deDuas Culturas (Lepenies:1988:155-195) e consubstancia-se nas várias reflexõesque entretanto, no finalizar do século e no período entre as guerras, tinhamocupado as mentes intelectuais inglesas, nomeadamente, Sidney e Beatrice Webb, cuja contribuição para a definição da sociologia inglesa foi fundamental “The Webbs themselves did much to establish sociology as a science”(Lepenies:1988:137). Pese embora Beatrice considerasse a literatura um estímulopara a imaginação, porém não em demasia por ser prejudicial à saúde, nuncaperdeu a vontade de escrever romances, pois a literatura teve um importante papelna sua formação. Na sua correspondência com Engels onde faz “Surprising observations onliterature and sociology”, Beatrice refere a sua simpatia por Balzac, sobre quemintentou elaborar um ensaio relevando a sua capacidade de análise e descriçãoda sociedade; este projecto foi abandonado por entendê-lo demasiado frívolo.Mais tarde, a propósito da disciplina que denominou de ‘Moral Sciences’,considerou que “Science and literature could not be rigidly separated from oneanother: it was not only what one wrote but how one wrote that mattered; howone researched was important, but so was the manner in which one presentedthe results of one’s researches” (Lepenies:1988:138); de acordo com esta ideia,defendeu a possibilidade dos autores expressarem os factos científicos atravésde uma prosa clara e agradável. Considerou ainda que a literatura e a sociologiapoderiam complementar-se nas ‘Sociological novels’ do século XIX e nasautobiografias (Lepenies:1988:137-144). Apesar de a Inglaterra não ter assistidoIrene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 33
  • MARIA BARRAS ROMANA34a um extremar de posições nesta contenda, em 1861, no romance Grill Grange,Thomas Peacock apresenta uma visão caricatural da sociologia numa demonstraçãoda sua posição anti-ciência, como nos refere Lepenies: Nothing practical comes of it, and indeed so much the better. Itwill be at least harmless, so long as it is like Hamlet’s reading ‘words,words, words’. Like most other science, it resolves itself into lecturing,lecturing, lecturing, about all sorts of matters, relevant and irrelevant:one enormous bore prating about jurisprudence, another aboutstatistics, another about education, and so forth… (Peacock:1861 inLepenis:1988:173).Ainda de acordo com a obra de Lepenies, C.P. Snow publicou, em outubrode 1956, um artigo no New Statesman, jornal semanal fundado pelos Webb, como título «The Two Cultures» cuja matéria referia esta contínua querela da qualemerge a sociologia. Este artigo tem como resultado o reacender a controvérsia,na medida em que consubstanciava uma retrospectiva da disputa que teve o seuauge de discussão no século XIX quando as consequências sociais e culturais darevolução industrial se tornaram percectíveis, os trilhos de uma nova civilizaçãocientífica e tecnológica se tornam visíveis e o acesso à instrução pública torna-sepossível para vastos segmentos da sociedade, substantivando uma mudança deparadigma, e tornando-se o mote das políticas do quotidiano. Snow, nascido em1905, era um reconhecido Físico com vasta experiência em investigação, mas eratambém um conhecido escritor autor de uma série de romances que tematizavama modernidade, ou seja, os problemas relacionados com o exercício científico dopoder e a ética científica; um homem que pela sua trajectória tinha um particularconhecimento do assunto em questão (Lepenies:1988:155).Contudo o discurso em que apresenta o seu artigo, em Cambridge, leva ao seguinte comentário de Lepenies: “Snow spoke of the culture of the scientistand of the literary man as an anthropologist might speak of two hostile tribes:they were groupings whose differing values and norms of behaviour madecommunication between them virtually impossible and made every contact sooneror later degenerate into hostilities” (Lepenies:1988:155); para Snow o afastamentoentre as duas culturas está não só na origem dos problemas actuais do mundoocidental, como também a situação produziu consequências especialmentedramáticas para a Inglaterra, onde a tendência para a cristalização das formassociais era mais pronunciada que na Europa ou nos Estados Unidos.Snow, que assumia a ciência como a sua profissão e a escrita como umapelo, reprova, no seu discurso, os cientistas pelo seu filistinismo literário, e os escritores e artistas pela sua ignorância acerca da ciência e da tecnologia da sua civilização; contudo, não deixando qualquer dúvida, assumiu o seuIrene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 34
  • PARA UMA LITERATURA DA IDENTIDADE MACAENSE – AUTORES/ACTORES35posicionamento ao lado daqueles que considerou os impulsionadores do Futuro:os cientistas.Num discurso duro, e no que ainda concerne aos homens das letras, o maisassertivo reparo, contido no artigo de Snow, refere-se à defeituosa moralidade dosescritores. Considerou, este cientista, que a maioria dos escritores, na sua opiniãorepresentativos da literatura inglesa da primeira metade do século XX – Yeats, Pounde Wyndham Lewis –, não foram só ignorantes, mas falsos, perniciosos, pois amaneira de viver que eles veicularam, através da sua escrita, aceleraram umaevolução que teve como resultado Auschwitz. No que respeita à ciência e aos seusagentes era sua opinião que aquela era profundamente Moral, declarando que oscientistas eram até ao fundo do seu íntimo, éticos (Lepenies:1988:155-156).Embora o peso com que Snow carrega a literatura seja, no nosso entender,demasiado, não podemos negar que os elitismos associados a atitudes muitas vezesanti-democráticas, que impregnaram o Modernismo e as suas escrituralidades, nasprimeiras décadas de novecentos, a proclamação da arte pela arte associada a umprofundo desprezo pelo outro, e sobretudo o manifesto futurista de FilippoMarinetti, foram factores da emergência das ditaduras na Europa. A réplica, às reflexões de Snow, surge, em 1962, pela voz de F.R. Leavis, umacadémico regente em Richmond, que se dirige não só à arrogância dos cientistas,mas também à acomodação dos representantes da literatura inglesa, pois, aos olhosde Leavis, Snow era um devoto da rigidez intelectual e a vulgaridade do seu estiloreflectia a nulidade dos seus argumentos, e sublinha que “(…) this ‘spiritual son ofH.G. Wells’ could quite simply have been ignored if he had not, like an evilman,indicated the consequences threatening from the contemporary decay of culture(Leavis (1962) in Lepenies:1988:156).De forma a colmatar a iminente decadência da cultura urgia que se unissemas forças espirituais ou seja “the concentration of an experienced and creativeintelligentzia into a vital ‘English School’ of which a fundamentally reformeduniversity should be the center”, considerava ainda que a melhor ferramenta paraentender a civilização ocidental e as consequências da Revolução Industrial era aliteratura. Snow era contrário a este argumento, visto que entendia que osintelectuais da literatura tinham estado alienados da cultura científica, não seposicionando adequadamente para aceder às causas da Revolução Industrial, e assim sendo, escritores, como Ruskin, Morris, Emerson e D.H. Lawrence, quesistematicamente ignoraram a realidade social, não poderiam de todo entendê-la.(Lepenies:1988:157-158). Na Inglaterra a crítica literária, enquanto disciplinaconceituada, teve uma importância enorme no atraso da implantação da sociologia,o pensamento sociológico dissimulava-se na crítica, e a sociologia só se afirma comociência ao entrar em confronto directo com o Literary Criticism. Irene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 35
  • MARIA BARRAS ROMANA36Através da questão das Duas Culturas podemos constatar que ao contráriodo que se passou em França, na Alemanha e nos Estados Unidos onde asociologia encontrou cedo (entre o Século XIX e os anos trinta de novecentos) asua autonomização como ciência obtendo o seu espaço dentro da academia, naInglaterra mantém uma indefinição que amalgamava, nos Estudos Sociais, asociologia e a critica literária; de acordo com Lepenies, “in England sociologywas simply a constituent of social common sense” e só alguns anos depois dasegunda Guerra Mundial inicia a sua institucionalização e adquire autonomiacientífica.A título de mera constatação refere-se que, de acordo com Leenhardt(1967:517-532), nos Estados Unidos o criticismo ‘sociológico literário’consubstanciou, diferentemente do que se passou na Europa, um consenso com a situação social: no período pós Primeira Guerra os romancistas da escolarealista, entre os quais, Dos Passos e Steinbeck, demonstram um grande interessepela sociedade, ou melhor pelas vivências e ideais das comunidades que integrama sociedade americana. O ‘critiscism’ americano caracterizou-se pela suaintervenção e o homem que exemplifica a primeira geração ‘critica’, Calverton,autor The Never Spirit, bem o demonstrou ao referir que a contextualização daobra de arte é indispensável para o entendimento dos efeitos observados(Leenhardt:1967:518).Cerca de trinta anos depois o americano R. Harvey Pearce na sua obraHistoricism Once More (1958) considerou “a kind of criticism which is, bydefinition, a form of historical understanding” (Leenhardt:1967:518) sublinhandoo facto de, após se ter debruçado no formalismo do ‘New Criticism’, ter tidonecessidade de estudar as formas literárias sob o ponto de vista da sua importânciahistórica e social.É, sobretudo em 1957, com L. Lwenthal e I. Watt através das suas obras,respectivamente, Literature and the image of Man e The Rise of the Novel, quecomeça a ser reconhecida a importância de uma aproximação entre a sociologia ea literatura. No entender de Watt “The novel’s realism do not reside in the kind oflife it presents, but in the way it presents it” (Watt:1957:II in Leenhardt:1967:520),Watt teve o mérito de no seu estudo, em que compara os romances oitocentistasingleses e a filosofia realista francesa, considerar a ligação entre o novo géneroliterário – o romance – com o novo público – a emergente burguesia que necessitavade se cultivar, de possuir bens simbólicos que lhe granjeasse estatuto, visto que sóos bens materiais não proporcionavam – concluindo que o sucesso que os romancestiveram, se deveu, sobretudo, a essa ligação. É evidente que não podemos esquecerque o século XIX contextualiza o fim do mecenato dos artistas e o surgimento domercado de bens culturais – os primeiros editores-livreiros, com uma substancialIrene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 36
  • PARA UMA LITERATURA DA IDENTIDADE MACAENSE – AUTORES/ACTORES37diminuição dos preços de capa, e galerias de arte – o que carreou o acesso à arte eà literatura por parte de um maior número de pessoas, embora, naturalmente nãoainda, o acesso massificado. Numa breve passagem damos conta do que passou na Alemanha, e comosublinha Leenhardt “In Germany we find a philosophical and sociological traditionwhich is directed to a much greater extent towards the sociology of literature”(Leenhardt:1967:523); a propósito de W. H. Riehl, considerado por George Eliotcomo um modelo de artista e cientista alemão, Lepenies refere: “A book, it was said,could be called successful only if it belonged not merely to science but also toliterature, if the structure of its ideas and its style were welded together into a‘twofold art’ (Lepenies:1988:201).Contudo, na finalização do século XIX encontramos, na Alemanha, por umlado, uma visão sob forte influência do legado de Hegel e de Marx protagonizadapor Mehring que em Ästhetische Streichzüge (1898-1899) define a sua concepçãoda relação entre as obras literárias e as estruturas sociais do seguinte modo: “Theideological heritage also exercises an influence, which has never been denied byhistorical materialism; but its effect is simply like that of the sun, the rain and thewind on a tree which is rooted in the rough soil of material conditions, modes ofeconomic production and social situation” (Leenhardt:1967:522).Por outro lado assitiu-se a uma, não menor, influência da herança kantiana,da qual Dilthey é o porta-voz, e com ele, “another approach has revealed itself: theuse of the concept of form as applied to society and its cultural Productions”(Leenhardt:1967:523); com Georg Lukács a intelligenzia alemã chega a uma visãode compromisso, como sublinha Leenhardt “his work, [Die Seele und die Formen(1911), e a Teoria do Romance (1920)] kantian at the start, then Hegelian andMarxian, represents the corpus of the most complet sociology of Literature yetproduced by a single author” (1967:523).De acordo com Lepenies (1988), tem sido longo o percurso que perspectivauma harmonia de entendimento entre a sociologia e a literatura. Duas dificuldadesconstituem-se como obstáculos no caminho da sociologia da literatura no queconcerne à sua plena realização como disciplina científica: por um lado todas asdisciplinas visam o geral e não o particular; pese embora os fenómenos artísticos,nomeadamente os literários, se definam enquanto criações individuais subordinadosao eco díspar da sua recepção, são contudo factos colectivos, o que carreia umatensão entre o individual e o colectivo que consubstancia a natureza do objectoliterário, sendo esse aspecto de conflitualidade interessante do ponto de vistasociológico. Outro escolho concerne ao facto de a sociologia da literatura recorrernecessariamente a outras áreas do saber o que cria uma heterogeneidade de olharesque se podem complementar mas também podem levar ao confronto.Irene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 37
  • MARIA BARRAS ROMANA38A sociologia da literatura emerge, pois, escudada numa real necessidade deentendimento. Com Lukács, na Alemanha, sobre cujo contributo nos deteremos maistarde, com Gustave Lanson, em França, que, apesar de originário da História daLiteratura, foi muito importante na configuração desta nova disciplina, na medidaem que, utilizando o método histórico, concebeu uma ‘sociologie inductive’consubstanciada na comparação dos factos e das sequências literárias diacrónicas esincrónicas, que permitia elaborar leis que descrevessem os fenómenos observados(Aron; Viala:2006:21).Lanson, numa conferência, em 1904, «L’histoire littéraire et la sociologie»,como nos aludem Aron e Viala, propõe-se estudar o impacto da obras literárias sobreo seu público “(…) en précisent que celui-ci est un être collectif réel, autant qu’unhorizon imaginé par l’ecrivain ‘sur le modèle du passé ou sur le rêve de l’avenir’”;no seu entendimento um facto literário, quando se tem em conta todas as suasdimensões, é indubitavelmente um facto social (Aron; Viala:2006:22-24).É no esteio desta teoria que surge, mais tarde a ideia de ‘sociologia social’representada por Robert Escarpit que objectivava estabelecer uma relação entrefactos sociais e factos literários; nesse sentido Escarpit entende que a observaçãosociológica do objecto literário deveria ser feita tendo em conta três aspectos:os autores, a que ele denominou produtores, os produtos, ou seja, os livros, eos consumidores, leitores. A abordagem incidiria de forma exaustiva na análise sociológica quepermitisse responder a questões de género, condição social, idade, tanto dos autorescomo dos leitores; no concernente às obras, a observação e análise respeitaria apreços, aos circuitos de distribuição e, inclusive, à qualidade material do produto.Segundo Escarpit a existência dos aspectos mencionados constitui-se como umcircuito complexo de troca que une indivíduos definidos a uma colectividadeanónima (Escarpit:1969).Todo o construto teorético deste autor consubstancia-se na convicção dafunção social da literatura, considerando que a literatura, no seu todo, deve serentendida no pressuposto da sua função social e da reciprocidade que o factoliterário requer, enquanto forma de comunicação, obrigando a uma orientação damensagem num determinado sentido, supondo a existência de um público real,assumindo o escritor o papel de fornecedor de matéria-prima, garante do sectorprodutivo da indústria livreira (Escarpit:1974:180-202).Numa tentativa de superação de modelos teóricos que relevassem quaseexclusivamente a componente extra literária da obra, Lucien Goldmann procuroudeterminar, na sua teorização da sociologia da literatura, as estruturas significativasdas obras em função da sua génese histórica e construiu uma relação expressivaentre o imaginário e o real. Para este autor, a obra literária constituiria uma totalidadeIrene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 38
  • PARA UMA LITERATURA DA IDENTIDADE MACAENSE – AUTORES/ACTORES39coerente, integrando um universo imaginário que se reconstrói a partir de umadefinição social e de uma análise diacrónica resultante de mudanças sociais; destemodo, em Goldmann não importa a aparente autonomia das diferentes instânciasdo imaginário, daí o facto de as englobar na categoria de totalidade22 e, por outrolado, exprime um universo real que também se reconstrói de igual modo. Esteuniverso real caracteriza-se por uma inadequação parcial da estrutura capitalista aocampo económico.De acordo com este entendimento, o texto e a realidade relacionam-seatravés da visão do mundo, sendo, pois, necessário perceber as homologias entre aestrutura da visão do mundo do grupo social a que pertence o escritor e a estruturada sua obra, cabendo ao investigador a tarefa de, num exercício de maiêutica, darà luz o sentido profundo do texto através da análise das suas estruturas. Destarteconsubstanciou o conceito de visão do mundo como: “(…) un ensemble cohérentde problèmes et de réponses qui s’exprime, sur le plan littéraire, par la création, àl’aide de mots, d’un univers concret d’êtres et de choses” (Goldmann:1976:349)embora reafirme as capacidades, inerentes à arte e à literatura, de transformaçãodo mundo, teoriza um modelo de análise concebendo a obra como merarepresentação do real, assim sendo, o conceito de visão de mundo constitui-se comoo produto resultante das relações sociais exteriores e inscreve-se na mesma linha depensamento de Lucáks. As noções de reflexo, de expressão, de mediação e de homologia surgem nateoria de Goldmann como versões mais ou menos buriladas, do modelo inicial quetem o conceito de visão de mundo como noção fundamental, sendo consideradocomo um instrumento de análise objectivo e controlável, “Qu’est-ce qu’une visiondu monde? (…) ce n’est pas une donné empirique immédiate, mais au contraire,un instrument conceptuel de travail indispensable pour comprendre les expressionsimmédiates de la pensée des individus. Son importance et sa réalité se manifestentmême sur le plan empirique dès qu’on dépasse la pensée ou l’ouvre d’un seul écrivain(…)” (Goldmann:1976:24).O entendimento da visão do mundo como construto do real e como produtoderivado do real consubstancia-se, também, num “(…) ensemble d’ aspirations, desentiments et d’idées qui réunit les membres d’un group et les oppose aux autresgroupes” (Goldmann:1976:26). As estruturas significativas, que emergem de umadeterminada literatura, são determinadas pela génese sócio-histórica das obrasliterárias. Esta construção é uma operação de sentido visando a simplificação e aclarificação, ou seja, objectiva transmutar o carácter polissémico do imaginário numalinguagem monossémica, própria do real (entendimento diferente de Escarpit, que________________22 Em conformidade com a noção de totalidade de Hegel.Irene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 39
  • MARIA BARRAS ROMANA40admitiu a condição polissémica da verdadeira arte), numa tentativa de tornar unívocoo imaginário; Lukács apropriando-se, ainda que indirectamente, da ideia de essênciaque advém do conceito hegeliano de totalidade concreta (contexto de onde emergea verdade e a essência), considera que a obra/objecto (arte) só é elevado quandorevela uma essencialidade – revelada através das personagens acontecimentos esituações, ou seja, os tipos – que é atingida com a representação da realidade, sópossível através de uma literatura realista, sendo, considera este autor, literaturanaturalista aquela que se revela incapaz de mostrar o ‘típico’ (Lukács:1968:313-338).A teoria de Goldmann, no esteio de Lukács, considera a existência de duasformas de escrituralidade literária: aquela que, produto de entes literários deexcepção, exprime uma visão de mundo, e a outra que se limita a reflectir a imediatezempírica do real, e na qual está subjacente uma representação ideológica do mundo,neste sentido considera a existência de grandes obras e de obras menores, ou seja,de uma literatura superior, de elevado valor estético e que seria reflexo de uma visãode mundo de uma classe social particular, e de literatura menor, de certa formaindigna de ser analisada. Este entendimento de uma espécie de escrituralidade que pudesse sertranscrita de forma denotativa e ausente de pluralidade semântica, numadiscursividade reduzida a uma estrutura significativa, conceptual (Chomsky:2000),significa a tentativa de transformação de um texto literário carreador de literariedade,imbuído de ficcionalidade, de figuração, num texto natural, não figurativo,conceptual.A ideia de mediação é entendida por Goldmann como metodologia emconsonância com o princípio epistemológico de Lukács, mas Goldmann consideravárias formas ou modalidades de mediação. Para Goldmann “Toute grande œuvrelittéraire ou artistique est l’expression d’une vision du monde. Celle-ci est unphénomène de conscience collective qui atteint son maximum de clarté conceptuelleou sensible dans la conscience du penseur ou du poète (…)”, assim, a visão demundo que é expressa pela grande obra resulta de uma mediação entre o real e o imaginário sendo o conceito operatório de mediação, aquele que permite oentendimento da estrutura representativa das obras (Goldmann:1964:28-47).Urgia uma conceptualização da sociologia da literatura que fosse além davisão reducionista e adversativa da obra literária, ou seja:(…) l’a nécessité d’une approche sociologique de la littératures’impose surtout du fait que plusieurs décennies, la sociologie de lalittérature ainsi qui l’histoire littéraire, la littérature comparée, lesétudes de réception, les recherches sur l’autobiographie, surl’intertextualité, etc. infirment l’idée communément admise selonIrene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 40
  • PARA UMA LITERATURA DA IDENTIDADE MACAENSE – AUTORES/ACTORES41laquelle la production des signes appelée «littérature» peut s’expliquerà partir du seul texte. L’ouvre littéraire implique un émetteur (avec unehistoire singulière, notamment au sein du monde littéraire) uneensemble de formes socialement instituées (des mots et de leuragencement jusqu’aux lois d’un genre), des canaux de transmission(éditoriaux, etc.) et un récepteur (imaginaire et réel) (Dirkx:2000:5).É neste sentido que a abordagem entre a literatura e a sociedade muito deveao contributo de Pierre Bourdieu, cuja significativa parte do seu construtoepistemológico emerge do que ele denominou de construtivismo estruturalista doqual emana a ideia de um mundo social constituído por estrutura objectivas, mitose linguagens, recusando que estes constituintes fossem exclusivos dos sistemassimbólicos, na medida em que tanto o pensamento como a acção ou os esquemasde percepção são criaturas do social.Embora mantendo uma vertente marxista ao considerar, por um lado, oespaço social como um campo de luta onde se confrontam os grupos sociais numarelação de forças de dominação e subjugação, não abandona a influência weberianaquando refere que o espaço social “est une représentation abstraite”, tendo arealidade social, assim entendida, uma dimensão simbólica, na medida em que,embora as representações não constituam o todo da realidade social, são matériada sua construção. Esta ideia consubstancia dois conceitos fundamentais a saber: o conceito decampo e o conceito de habitus. Segundo Bourdieu, a ideia de campo correspondea um espaço social, relativamente autónomo, no interior do qual se exercemdeterminadas práticas, no caso concreto do campo literário as práticas associadas à literatura; contudo a análise deste campo não pode estar dissociada doentendimento da sua história e da sua posição no conjunto do campo intelectual ede uma forma mais abrangente na sua inserção no campo do poder.A estrutura do campo literário concerne ao todo das disposições conflituaisque o constituem, assim como às suas regras de funcionamento e de transformaçãoe mutatis mutantis aos habitus que subjazem a estas posições; O habitus designa,pois, as disposições adquiridas (herança familiar, formação escolar, trajectóriaprofissional) que determinam o conjunto das possibilidades para um determinadoindivíduo, sujeitas a uma constante actualização, numa determinada posição, dentrodo campo.Esta forma de entendimento teorético consubstancia-se, pois, numa leiturado social em que as acções de um indivíduo são determinadas pelo que, na suahistória pessoal, constitui um habitus no qual se inscreve uma posição particular.Bourdieu considera que ao habitus está associada a representação do mundo social,ou seja ao espaço dos estilos de vida; o habitus é entendido como um princípioIrene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 41
  • MARIA BARRAS ROMANA42simultaneamente gerador de práticas, que são classificáveis de forma objectiva, econstitui-se como um sistema de classificação dessas práticas (Bourdieu:1979:189).A partir do momento em que se estabelece uma relação entre a capacidadede produzir práticas e a capacidade de apreciar e diferenciar essas práticas emergea referida representação do mundo social. Assim, só através da construção dohabitus é possível relacionar características socioeconómicas e traços distintivosassociados a uma posição no espaço dos estilos de vida, o que subjaz a existênciade habitus diferentes de acordo com diferentes condições de vida.O habitus consubstancia duas dimensões em simultâneo; enquantoorganizador de práticas e da sua percepção assume-se como estrutura estruturante,mas também como estrutura estruturada, pois, sendo “(…) le principe de divisionen classes logiques qui organise la perception du monde social est lui-même leproduit de l’incorporation de la division en classes sociales”; esta divisão carreia um“système de différences” ou posições diferenciais que se constituem como princípiosfundamentais de estruturação das práticas, num jogo de oposições “c’est-à-dire par tout ce qui la distingue de tout ce qu’elle n’est pas et en particulier de tout ceà quoi elle s’oppose: l’ídentité sociale se définit et s’affirme dans la différence”(Bourdieu:1979:191).É, então, esta ideia no seu todo que permite a definição do que o autorconsiderou como campos, as diferentes estruturas constitutivas das práticas e domundo real; os campos assim entendidos são eles próprios estruturados de acordocom o jogo entre os agentes e instituições, os actores dos campos, e a distribuiçãodo capital (Bourdieu:1996).No caso dos campos posicionados na esfera da vida simbólica (o campo daliteratura, ou no geral, o campo dos bens culturais) a forma de distribuição do capitalsimbólico determina a sua estrutura; a dinâmica dos campos está intrinsecamenterelacionada com o princípio da homologia, na medida em que é este princípio quepropicia a tessitura das lógicas dos campos de produção e de consumo, e queestrutura de forma homóloga as lógicas dos vários campos especializados, ou seja,os campos são estruturados segundo o volume de capital específico possuído, e asoposições estabelecem-se entre mais ou menos ricos em capital específico, entredominantes e dominados (Bourdieu:1996); por outro lado, permite a emergênciade novas formas de estudos biográficos consubstanciados pelas trajectóriasindividuais dos autores emanadas das suas histórias de vida e que se traduzem nasposições que os autores ocupam no campo literário.Constata-se, assim, que a maior parte das teorias, modelos de análisepropostos pelos teóricos da sociologia da literatura, não consideraram a possibilidade(ou pelo menos não a privilegiam) de uma análise interna das obras literárias,nomeadamente no que concerne à sua urdidura polissémica e complexidadeIrene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 42
  • PARA UMA LITERATURA DA IDENTIDADE MACAENSE – AUTORES/ACTORES43figurativa impossibilitadoras da sua transformação em discursividades, outras, quenão literatura.No pressuposto da convergência analítica tentando fazer emergir um modeloque congregasse a dimensão interna e a dimensão externa das obras, Alain Viala,muito influenciado pelo construto teórico de Bourdieu, propõe a sociopoética queenquanto modelo analítico pode ser considerado como um ramo resultante daconfluência entre a teoria literária e a teoria dos campos, apto a um melhorentendimento das questões da mediação; a sua base teórica consiste naconsideração de toda a sociedade como um conjunto orgânico estruturado pelosconflitos contidos na obra, tanto no que concerne aos valores simbólicos, como noque respeita aos valores materiais mas, também, do ponto de vista epistemológicosubjacente à investigação literária. Este modelo de análise da obra literária é ummodelo prismático através do qual a obra literária não é entendida como um reflexoda realidade mas contendo em si emanações prismáticas que poderão ser analisadasde vários ângulos e através das várias faces especulares de um prisma ou de múltiplosprismas (Viala:1993).A crítica literária tem recorrido, nas suas reflexões, à metáfora do reflexo doespelho para representar as relações entre literatura e sociedade. Esta metáfora exigeuma reflexão, não pela figura em si, pois muitos dos conceitos consubstanciadoresdas várias ciências têm sido construídos a partir de enunciados iniciais de ordemmetafórica, mas porque estas noções com origem metafórica podem levar a que asua lógica se desvie da própria lógica racional.Assim a teoria do reflexo tem para Viala alguns inconvenientes entre os quaiso facto de não se poder utilizar o reflexo de forma rigorosa, pois uma face especularé uma inversão da imagem real, daí que o reflexo seja por essência enganador, poroutro lado, possíveis imperfeições do espelho podem originar deformações nasimagens, ou sombras onde existe luz; quando se pretende aplicar a teoria do reflexoà obra literária, pressupõe-se que a literatura seja um espelho perfeito, que a suaimagem especular seja exata, que seja uma literatura de exatidão, de observação,uma literatura imbuída de uma escrituralidade objectiva completamente submetida,não à representação, mas à impressão do real. O que pressupõe, pois, uma não-literatura a negação da sua essência, aquilo que consubstancia a sua literariedade – a ficcionalidade – que não se compadece com a descrição fotográfica do real poiso que se pode almejar da literatura “é o vago reflexo da ideia de reflexo”.2. Os Géneros, a Ficção e a RealidadeUma das questões fundamentais quando se fala de literatura é a relação entreficção e realidade; se a ficção se identificar demasiado com a realidade corre o riscoIrene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 43
  • MARIA BARRAS ROMANA44de perder a sua identidade, contudo, ao texto ficcional, como construção imaginária,está subjacente a criação de mundos, parecidos ou não com a realidade, mundosque se constituem como alternativos ao mundo objectivo, embora plasmados narealidade.Assim sendo, a ficção consubstancia uma forma de representação a partir daqual, e através da transformação da realidade, os autores constroem mundosverosímeis – a verosimilhança entendida como uma das características primordiaisda arte literária, tal como era entendida por Aristóteles, como a analogia do que éverdadeiro, daquilo que não sendo real possa sê-lo, daquilo que deveria ser credível(Ricoeur:1987:32).Desde a antiguidade clássica, nomeadamente com o entendimento e reflexãosobre a arte como representação da natureza, que o conceito de mimesis deixa deser entendido como um mero processo ou capacidade de imitar algo e assume-secomo uma das particularidades fundamentais da maneira como se fazia apoesis/literatura. Platão, na República defendeu que a mimesis deveria ser sobretudoprodução de imagens e resultado de pura inspiração e do espanto do artista perantea natureza das coisas aparentemente reais (a aparência permitida pelas sombras).Aristóteles, na Poética, considerou o poeta como um imitador do real por excelência,o intérprete de um mundo que deveria ser descrito através da mimese das coisaspossíveis, não como cópia mas de uma forma de representação indirecta, a referidaverosimilhança.Em Literatura a representação da realidade, e a sua transformação emmundos paralelos, carreou a noção de mundo possível, ou seja, um mundo ficcionalconcebido pela emergência de um domínio referencial do próprio textocorrelacionado semanticamente com o mundo real através da representaçãomimética ou da transfiguração do real.Para Roland Barthes o texto literário constrói-se a partir do momento em queo escritor transforma o ‘real’ em objecto, não no sentido de fazer uma cópia masantes um decalque, “(…) por meio de uma mimese segunda copia o que já écópia(…)” (Barthes:1999:47), ou seja, Barthes considera a arte, sobretudo asmanifestações artísticas inerentes a uma estética realista, tanto pictóricas comoliterárias, como representações “despintadas” do real. Réne Walleck e Austin Warren consideram a literatura “uma instituição socialque utiliza como meio de expressão específico a linguagem – que é criação social”(Walleck; Warren:s/d:113-115) embora não concebam que a literatura seja umespelho que reproduz fielmente a sociedade admitem a função social da literaturana medida em que a literatura ‘representa’ a vida, de alguma forma, imita-a na suacondição de realidade social; “(…) uma grande maioria das questões suscitadas peloestudo da literatura são, pelo menos em última análise ou implicitamente, questõesIrene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 44
  • PARA UMA LITERATURA DA IDENTIDADE MACAENSE – AUTORES/ACTORES45sociais: relativas à tradição e à convenção, às normas e aos géneros, a símbolos e amitos (…)” (Walleck; Warren:s/d:113).Tendo como subjacente a teoria de Popper sobre a possível constituição domundo em, pelo menos, três submundos ontologicamente distintos, sendo que oprimeiro é o mundo físico, ou o mundo dos estados materiais; o segundo, o mundomental, ou o mundo dos estados mentais e o terceiro, o mundo dos inteligíveis oudas ideias no sentido objectivo, sendo este o mundo dos objectos de pensamentopossíveis, o mundo das teorias em si mesmas e de suas relações lógicas, dosargumentos e das situações, aquele que permite as criações artísticas, o mundo dosprodutos mentais (K.Popper:[1963]:2003), Thomas Pavel considerou como mundospossíveis, tanto aqueles criados de forma análoga ao mundo real, como os mundosontologicamente impossíveis (Pavel:1988:59-68); e é também neste sentido queAlbadalejo propõe a noção de Modelo do Mundo que consubstancia a explicaçãoconceptual das relações entre o mundo efectivo/a realidade global e os mundosparalelos, que, não deixando de ser reais, são fruto de representações mentais(Albadalejo Mayordomo:1986:75-79).Estes mundos construídos pelo autor, e entendidos e interpretados peloleitor, são imagens de uma realidade também ela construída de acordo comdeterminadas instruções emanadas do mundo real, que lhe está subjacente, e dascrenças, sonhos e vontades de quem os constrói. Assim sendo, são possíveis, todosos mundos que têm como suporte referencial o mundo efectivo, real. Albadalejoconsidera a existência de três tipos básicos de modelo de mundo, a saber: o modeloda realidade efectiva, o modelo da ficção verosímil e o modelo da ficcionalidadenão verosímil. O primeiro modelo, sendo baseado no mundo da realidade efectiva, pode, oseu conteúdo ser verificado empiricamente e corresponde ao conteúdo dos textosnão literários, mas imbuídos de cientificidade.O segundo modelo contém instruções diferentes daquelas que orientam umanarração de carácter científico, ou seja o ‘narratio’ da própria realidade; contudo omundo construído, esteado no mundo real, tem com este grandes semelhanças, ouseja, é um mundo que se parece com o mundo objectivo. Deste modo, todos osmundos criados/construídos de acordo com o modelo de ficção verosímilconstituem-se como mundos possíveis e estão subjacentes a uma parte significativados textos literários, nomeadamente os de carácter realista.A realidade verosímil que estes textos literários referenciam depende dopróprio entendimento que os seus autores têm do real, em consonância com os seusvalores culturais e as convenções literárias, sobretudo os géneros em que os textosse inscrevem. Na antiguidade clássica, quando Aristóteles entendia que a poesia seconcretizava em diferentes géneros que emergiam da mimesis, uma das suas formasIrene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 45
  • MARIA BARRAS ROMANA46de distinção fazia-se pelo modo de mimesis ou imitação do real; a imitaçãonarrativa23 ou a imitação dramática.24Os géneros literários entendidos, desde a Poética de Aristóteles, como formasde classificação dos textos, devem a sua distinção às suas qualidades conceptuais eformais e agrupam-se por categorias estéticas fixas e codificadas; de acordo com asteorias da literatura um género literário é um universal em si mesmo e neleconvergem as questões ontológicas e epistemológicas que se colocam ao fenómenoliterário. São formas discursivas históricas de representação e de produção literária(Wellek; Warren:cap. XVII).A mudança de paradigma, que se foi configurando a partir de setecentos,promoveu o surgir de novas formas literárias numa atitude de rejeição da teoriaclássica dos géneros e afirmativa de uma liberdade criadora e individual; paraesta situação muito contribuiu Madame Germaine de Staëll (1766-1817) não sócom a sua produção literária romanesca: Delphine: 1802 e De L’Allemagne: 1810que, embora alvo de fortes criticas dos seus coevos, foram contudo consideradosos primeiros romances da modernidade, introdutores do Romantismo na Europa,mas, sobretudo, com a publicação da obra De la littérature considerée dans sesrapports avec les instituitions sociales (1800) que suscitou inúmeras criticas pelofacto de a autora considerar que a literatura, nomeadamente alguns géneros,constituía um dos factores do gradual desenvolvimento das capacidadeshumanas. Madame de Staëll, durante toda a sua vida, proclamou, em viva voz,o direito dos indivíduos, tanto homens como mulheres, à liberdade de palavra e de conduta, sendo, também, ela a primeira a manifestar a importância daliteratura como ‘retrato’ da sociedade.É num contexto de mudança sociocultural e económica, impulsionada pelaburguesia emergente, ávida de cultura, que o romance, herdeiro híbrido da epopeia,se impõe como o género literário ganhando uma importância crescente ao libertar-se do estigma de forma literária meramente lúdica, alarga o âmbito das suastemáticas e introduz novas técnicas, não só no que concerne à estilística, mas dandoforma a novas temporalidades narrativas.A partir do Século XIX o romance emerge como o arauto da mudança, veículode uma cosmovisão dialógica com a sociedade e os valores que contextualizam osautores (Bakhtine:1997). Ao tornar-se matéria de estudo da alma humana, dasrelações sociais, substancia-se como fonte de reflexão e de testemunho, adquirindoo estatuto da mais importante e complexa forma de expressão literária damodernidade.________________23 A epopeia.24 Tragédia e a comédia.Irene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 46
  • PARA UMA LITERATURA DA IDENTIDADE MACAENSE – AUTORES/ACTORES47A literatura, através da sua discursividade, passa a representar a sociedadeem mudança. As narrativas romanescas revelam as contradições sociais do tempo epela observação introspectiva e prospectiva os autores descrevem os costumes asatitudes os comportamentos, i.e. falam-nos do seu tempo. Lukács considerou quea imposição do romance como género eleito pela burguesia se deveu ao surgimentode uma sociedade em que a heroicização do colectivo, apanágio da epopeia, já nãose coadunava com a valorização do ser humano pleno na sua individualidade; paraLukács “o romance formou-se no processo de destruição da distância épica, noprocesso de familiarização cósmica do mundo e do homem, de rebaixamento doobjecto de representação artística ao nível da realidade contemporânea, inacabadae fluente” (Lukács:1970:69,79).O romance, sobretudo com o romantismo, dá-nos a expressão das grandezase misérias da condição humana. A “moderna epopeia burguesa” (Hegel:1977:15)permite-nos o vislumbre, seja ele uma tentativa de reflectir o real ou através dumimaginário ficcional consubstanciado na verosimilhança, das mutações sociais epolíticas, dos avanços científicos e técnicos, dos conflitos existenciais do homem, dasua busca constante de se compreender e de se encontrar. Assim, a forma híbrida, miscigenada, durante muito tempo consideradacomo um subgénero de uma literatura menor, assume-se como género maior,construtor de modelos de mundo25 ao registar ficcionalmente o devir do Homemcomo entidade histórica e social, dando voz a uma sociedade constituída por pessoascomuns apresentadas na sua diversidade de crenças e desejos e capaz de cativargente comum que se vê representada na verosimilhança; o romance compreendeum dialogismo transtemporal na medida em que é o único género que ao saberrepresentar o devir histórico congrega em si, tanto as representações culturaisformadas ao longo do tempo, como matéria que permite compor o futuro. Ao libertar-se do espartilho que as constrições estéticas impunham aosgéneros e sendo muito permeável à absorção do novo, tanto ao nível da técnicacomo da temática, o romance torna-se difícil de definir na medida em que seconstrói plasmado na hibridação genológica, conjugando a realidade e aficcionalidade, por vezes numa amálgama textualizada, que dificulta a distinçãoentre o real, o verosímil e o ficcional. A temática permite-nos de certa formaestabelecer essa distinção, mas, independentemente dos temas ou das verdades, ao(re)nascimento do romance moderno subjaz a intenção de narrar acontecimentoscríveis, de representar o mundo real; “O romance é uma resposta dada pelo sujeitoà sua situação na sociedade burguesa ou estruturada em termos burgueses; essa________________25 O entendimento do romance como género modelizante advém da corrente semiótica da escola de Tartu, aoconsiderar que a modelização é concebida como construção de modelos de mundo cuja estrutura erepresentações emergem de um sistema semiótico (Faccani e Eco:1969:38).Irene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 47
  • MARIA BARRAS ROMANA48resposta supõe uma operação textual sobre o real, o qual é assumido por umanarrativa que implica a existência de um ou vários narradores. A figura do narradoré, quer o duplo do autor-sujeito, quer uma estrutura de ligação dialectizada entre oautor-sujeito e o real” (Krysinski:1981:7).3. Representação e IdentidadePor considerarmos que é através da relação de representação que a obraliterária se relaciona com o conjunto dos fenómenos sociais que a contextualizam,entendemos como necessário abordarmos a noção de representação, não só porqueesta noção é particularmente referida no construto teorético da teoria da literatura,mas também pela sua recorrência nos estudos sociológicos e nas demais ciênciassociais.Porque uma realidade ou relação de ordem não pode serrestabelecida entre duas coisas a não ser que a sua semelhançapermita compará-las (…) É pela semelhança que a representação podeser conhecida, quer dizer, comparada com as que podem ser similares,analisada em elementos (que podem ser comuns a outrasrepresentações) (…) mas se não houvesse na representação o obscuropoder de tornar de novo presente em si uma impressão passada,nunca nenhuma apareceria como semelhante a outra precedente oudissemelhante. (…) É necessário, por um lado, que haja nas coisasrepresentadas o murmúrio insistente da semelhança e, por outro lado,que haja na representação o recesso sempre possível da imaginação(Foucault:2005:121-123).O conceito de representação que, de um modo geral, as ciências sociaisperseguem, aparece-nos teorizado por Emile Durkheim a partir do seu entendimentode facto social26; para Durkheim a representação é uma construção que só pode serestudada cientificamente se houver um estudo objectivo prévio, daí que “compreendera maneira como sociedade se representa a si mesma e ao mundo que a rodeia, énatureza da sociedade e não de particulares” (Durkheim:2004:26); de acordo com oseu pensamento as representações são colectivas e “traduzem a maneira como o grupose pensa nas suas relações com os objectos que o afectam” (Durkheim:2004:26).Neste sentido, o mundo é feito de representações e as mais pertinentes sãode natureza social, que têm uma importante função, a de transmitirem a herança________________26 Os factos sociais considerados como coisas, na medida em que coisa é “tudo o que o espírito só conseguecompreender na condição de sair de si próprio, por via da observação e da experiência, passandoprogressivamente das características mais exteriores e mais imediatamente acessíveis às menos visíveis e maisprofundas” (Durkheim:2004:21).Irene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 48
  • PARA UMA LITERATURA DA IDENTIDADE MACAENSE – AUTORES/ACTORES49colectiva dos antepassados, acrescentando às experiências individuais o que asociedade vai acumulando no decurso do tempo. Também para Marcel Mauss(Mauss:1950) as representações constituíram matéria de teorização, considerandoeste autor que as representações consubstanciam um sistema de ideias queassociado ao culto e ao rito traduzem um sistema de práticas que intentam aexpressão do mundo.É a partir das ideias de representação apresentadas, que Gilbert Durand(Durand:1998) considera a literatura como um conjunto/sistema de representações;a representação, para este autor, realiza-se através dos significantes pois são ossignificantes que permitem a atribuição do sentido na representação do mundo.Esta representação pode ser feita de forma directa, quando o objecto é perceptível,sensível; ou de forma indirecta, o que pressupõe a ausência do objecto e o imperativoda sua representação.Estas formas objectivam a clarificação da realidade do grupo, ideia que foi,também, abordada por Moscovici (Moscovici:1989:62-68) ao considerar que asrepresentações não deveriam ter a denominação de colectivas mas sim de sociais poisconstituem-se como entidades quase ‘tangíveis’, presentes na realidade e manifestáveisem palavras, expressões, em produção e consumo de objectos, em relações sociais.Retomando a ideia de herança de Durkheim refere que as representações nãose constituem só como uma herança transmissível de forma determinista, mas comoalgo que se reconstrói, se recriando, com comportamento dinâmico, pois é criadopelo indivíduo e o indivíduo tem um papel activo na sociedade, sendo,simultaneamente, criador e criatura. As representações são, destarte, “um conjuntode conceitos, frases e expressões, (…)” que emergem de uma vivência, no decorrerde relações inter-individuais. A representação social prepara a acção, na medida emque permite organizar comportamentos modificando-os e reconstituindo-os;verifica-se assim uma partilha, entre os seres humanos, de realidades representadas(Moscovici:1981:181).No esteio da anterior reflexão, Denise Jodelet (Jodelet:1991) considera asrepresentações fenómenos sociais complexos que têm de ser entendidos a partir dasfunções simbólicas e ideológicas que as substanciam e das formas de comunicaçãopor onde circulam. Constituindo-se como formas de conhecimento socialmentepartilhado e elaborado, as representações sociais são sistemas de registo de relaçõesentre o indivíduo e o outro, e entre o indivíduo e o mundo e, consubstanciam aforma de organização de comportamentos e atitudes; nesse sentido perspectivam-secomo instrumentos definidores de identidades pessoais e sociais, como expressãodo grupo e de transformação social.Outros autores teorizaram sobre a representação ou sobre a importância darepresentação na construção de uma mundivivência, tais como Lev Vigotsky, queIrene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 49
  • MARIA BARRAS ROMANA50considerava que a construção e interpretação do mundo real realizar-se-iam por umuniverso de significações resultante da interacção do indivíduo com os sistemassimbólicos de representação social. A forma como o indivíduo acederia aos objectosda realidade (às ‘coisas’ durkeimianas) seria, não directamente mas mediada, atravésde recortes da realidade (Vigotsky:[1933],1997). Roger Chartier, por seu turno, vêas representações como resultado de um processo intelectual mátria de figurasfacilitadoras do entendimento do presente, da leitura do Outro e da decodificaçãodo espaço (Chartier:1990:17).As representações, enquanto forma de conhecimento de senso comum, sãoconsubstanciadas por uma grande capacidade criativa, daí que este conceito sejaigualmente recorrente nos discursos teóricos da literatura “(…) a representação ouimagem funciona adequada e eficientemente só quando é confundida com o seuobjecto. A representação é uma entidade cuja eficiente actualidade, paradoxalmente,coincide com o seu colapso. Quando uma representação funcionar comorepresentação, ela não é entendida como representação, mas como o próprioobjecto representado” (Bonati:1980:19-33).Representar é ‘dar a conhecer’ (Ingarden:1973:267) alguma coisa e, é atravésdas modalidades várias de representação, directamente ligadas aos géneros, que aobra literária se liga à sociedade. De acordo com esta perspectiva as escrituralidades,imbuídas de estórias da memória histórica partilhada, dos autores macaensesconsubstanciam representações que nos permitem ‘conhecer’ a comunidademacaense através dos traços de distinção identitária enquanto comunidade étnico-cultural, de acordo com o entendimento de Smith ao considerar que a referenciaçãode uma comunidade étnica reside no reconhecimento de uma série de atributos taiscomo: “um nome próprio colectivo; um mito de linhagem comum; memóriashistóricas partilhadas; um ou mais elementos diferenciadores de cultura comum; aassociação a uma terra natal específica; um sentido de solidariedade em sectoressignificativos da população” (Smith:1991:37).A identidade pressupõe a pertença, e a assunção da pertença permite criar umsistema de diferenças carreador da possibilidade do indivíduo e do grupo sereconhecerem enquanto tal. É através da pertença social e cultural que se estabelecea relação com o mundo, e nesse sentido o papel da identidade é fundamental no sentido em que auxilia e permite compreender a construção da realidade social “os significados da identidade não são nunca (…) simples indicadores objectivos ou subjectivos. Possuem uma dimensão simbólica e são sempre ‘esquemastranscendentais’ isto é definem valores que vão situar as representações e as práticasdo grupo como transcendentes às decisões objectivas” (Moisés Martins:1996:26).Sendo a identidade social substantivada pela história social e pela história pessoal levaa que a construção identitária se consubstancie pela acção e pela memória colectiva eIrene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 50
  • PARA UMA LITERATURA DA IDENTIDADE MACAENSE – AUTORES/ACTORES51resulte da interpenetração dos processos psicológicos individuais, de contextos sociaisonde o indivíduo se insere e das representações partilhadas (Berger:Luckmann:2010).De acordo com a teoria da identidade social de Tajfel, os indivíduos estãopsicologicamente ligados à estrutura social através das suas definições de si,enquanto membros dos grupos de pertença. Assim a identidade social e as relaçõesinter-grupos definem-se através dos processos cognitivos (a categorização), pelaposição (estatuto e poder dentro do grupo) e pelo entendimento colectivo destassituações, «la connaissance individuelle que le sujet a du fait qu’il/elle appartient à certains groupes sociaux avec au même temps, les significations émotionnelles et les valeurs que ces appartenances de groupe impliquent chez lui/elle (…) laconnaissance qu’il a de son appartenance a certains groups sociaux et à la situationémotionnelle et évaluative qui résulte de cette appartenance» (Tajfel:1972:292).As representações sociais consubstanciam as formas de interpretação quepermitem ao indivíduo relacionar-se com o mundo e com os outros, no sentido emque permitem organizar e orientar atitudes e comportamentos sociais e intervêmnos processos de desenvolvimento individual e colectivo definindo as identidadespessoais e sociais, as formas de expressão dos grupos e as transformações sociais.A distinção identitária manifesta-se perante a presença do outro no momentoem que o indivíduo tem a consciência de pertença ao grupo. Num contextointercultural a identidade emerge de um processo de inclusão/exclusão e constitui-se pela adesão, identificação, formas de ser, fazer, pensar de uma comunidade enaturalmente pela diferenciação, oposição e exclusão no relacionamento com osoutros-outros; consubstancia o encontro de si com os outros, de si com o grupo depertença, e do grupo de pertença com os outros grupos (Moscovici:1989:52-60).Um escritor através da sua escrita, das representações nela contidas, exprimea sua identidade cultural; as suas escrituralidades referenciam os símbolos, oscomportamentos, as atitudes, os traços que o identificam como membro dedeterminada comunidade e que o aproximam ou afastam de uma determinadacultura/herança cultural. Vejamos alguns exemplos de representações subjacentes aestórias contadas em tom intimista fruto, no dizer do autor, de “(…) recordações,experiências vividas, e páginas de pura ficção” (Senna Fernandes:1998:7) sãorepresentações que ‘nos dão a conhecer’ o sentimento de pertença a umacomunidade particular, que carreiam os traços de distinção substantivando o orgulhoda identidade, a manutenção de uma profunda religiosidade ligada à herançacultural Lusa:No cumprimento de um costume dos anos 30, após brevedescanso em casa, saímos para receber a bênção dos avós. Primeiro,a avó paterna, a Avó Condessa, cuja intervenção fora decisiva para anossa Comunhão, e depois os avós maternos. (…)Irene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 51
  • MARIA BARRAS ROMANA52Quando regressamos ia na casa uma actividade crescente comos preparativos do “chá gordo”. Ainda me lembro da mesa enorme atravessada em diagonal naespaçosa casa de jantar que tínhamos. Uma mesa carregada devirtualhas e iguarias, pratos de culinária macaense, confeccionadospor minha mãe e suas amigas. As emanações fortes e apimentadasdo sarrabulho – um segredo da minha mãe – sobrepunham-se aoutras fragâncias e ainda estão vivas no meu olfacto e na minhanostalgia (…). Pastéis, bolos, doces e pudins ocupavam outro tanto um lugarproeminente na mesa. Os “encantos de massa leve”, as “ameixasdouradas” besuntadas de açúcar, os “russos”, (…) “mazacotes”, a“bebinca de leite”, o surang-surave etc (…).Criados de túnica comprida e criadas de cabaia branca e calçaspretas, a trança bem penteada e luzidia de óleo de madeira, serviamsilenciosos e amáveis. (…) Os convidados iam e vinham, pois nesse diahavia chás por Macau fora e não se podia faltar a nenhum sem ofensapara os anfitriões. (…)No auge da festa, na altura mais apropriada, os meus irmãos eeu distribuíamos para cada convidado – outra tradição de Macau – as“imagens” comemorativas da nossa Primeira Comunhão, em salvasde prata. (…)A mais viva recordação que me ficou deste pormenor foi quandome aproximei dum grupo de senhoras idosas. Todas tiveram palavrasde circunstância (…). Uma delas perante a minha curvatura, exclamou:– Qui bonitéza!27 (…) (Senna Fernandes:1998:69-70).________________27 Que gentil, que bem-educado (N.A.).Irene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 52
  • PARA UMA LITERATURA DA IDENTIDADE MACAENSE – AUTORES/ACTORES53CAPITULO III – MACAENSES: ENQUADRAMENTO HISTÓRICO, ETNO-CULTURAL E SOCIOLÓGICO |“Muito mais do que a natureza étnica ou até o local de nascimento,podemos, hoje, dizer que ser Macaense é um estado de alma. Macaense éalguém intrinsecamente ligado a Macau, sentindo esta terra como sua,amando-a e tendo-a no cerne das suas preocupações e como referênciapermanente. É alguém que se identifica com o património cultural queconstitui nosso legado comum, reconhece aqui as suas raízes e tem namemória vivências de Macau. É alguém que tem um forte sentido depertença aos dois mundos que aqui tiveram o seu ponto de encontro maisfecundo e duradouro. É alguém dotado de uma enorme capacidade deadaptação a todas as circunstâncias. Ser Macaense é compreender, sentir eassumir, por inteiro, esta jóia ímpar, física e humana, chamada Macau.”Jorge Rangel 28Um mito de linhagem comum assente em vários mitos fundadores queexplicam a Macau portuguesa e a emergência da comunidade macaense comocomunidade étnica; a posse da pequena península, já envolta em aura sagrada,abrigo segredado pela deusa A-Má a pobres pescadores que nele se recolheram emmomento de tufão, resultou do episódio que opôs portugueses a piratas,transformando-se para uns, em justa e reconhecida recompensa, facto histórico cujaprova se perdeu com o tempo ou, simplesmente, mito de fundação, e para outrospretexto para ocupar um território, mas com feição de arrendamento, pois o Império________________28 Jorge Rangel, Presidente do Instituto Internacional de Macau, participou do Colóquio “Macaenses – Um OlharColectivo sobre a Comunidade” realizado em Macau em 27/28/Outubro/12. Este texto concerne a um artigopublicado no Jornal ‘Tribuna de Macau’, em 05/11/2012, sobre o referido colóquio.Irene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 53
  • MARIA BARRAS ROMANA54do Meio nunca permitiria de outro modo, como nos indica K.C. Fok “Em 1535, sobo pretexto de as suas embarcações terem naufragado, os estrangeiros pediramautorização para desembarcarem em Macau (...) foi-lhes concedida por Wang-Po queera na altura o Hao-tao fu-shih (comissário da defesa marítima) (…) Wang foi destemodo o responsável de uma colónia permanente em Macau” (Fok:1978:33-64)asserção reiterada por Hsü Hsü, “(...) large contingents of Portuguese gradually cameto settle on St. John’s Island, on Lambacao, and on Macao. In 1535, the Portuguesesecured, by way of bribery, official Chinese permission to dry their cargoes in Macao,thus winning legal sanction to reside and trade there.(...)” (Hsü:1990:93).29Durante muito tempo, serviu Macau de entreposto comercial sino-nipónico;da China ia o ouro, do Japão a prata, para a China corria a pimenta, dela eramtrazidas as sedas e as porcelanas, e os agentes da troca, da mercancia, eramportugueses que em Macau intermediavam o comércio: este pequeno entrepostocomercial começa a florescer junto a um dos braços do rio das Pérolas, muitopróximo de Cantão, o porto comercial mais importante da China, e rapidamente vai-se tornando uma república de portugueses em costas chinesas .30As notícias do gradual crescimento de Macau chegam-nos através dosdocumentos das ordens religiosas, sobretudo dos jesuítas31, dando-nos conta que________________29 Sobre a controvérsia da origem de Macau ver: Montalto de Jesus (1990); Ana Maria Amaro (1998); K. C. Fok(1978); Immanuel C. Y. Hsü (1990).30 Nas palavras do historiador Romero de Magalhães: “Macau é como que uma república de portugueses nascostas da China. Começada a organizar junto de um dos braços do rio das Pérolas, estava próxima de Cantão,o grande porto chinês de ligação com o exterior (...)” (Magalhâes:81).31 A igreja católica, nomeadamente através da Companhia de Jesus, foi preponderante na cruzada do proselitismo edifusão do cristianismo nos séculos XVI-XVII, pois, como referiu o padre António Vieira “Às costas de um mercadoria sempre um pregador”. A diocese de Macau é criada em 1576 e, como símbolo da missão civilizadora da igreja,assistiram, os anos subsequentes, a uma proliferação de templos cristãos. O papel da igreja católica no oriente foinão só importante na difusão do cristianismo, como também consubstanciou o processo de construção cultural dematriz europeia, associada a uma ideologia política, que iniciada por D. João II, foi o cerne da expansão portuguesae que particularizou todo o seu processo na prática colonial assente no assimilacionismo e num forte incremento damiscigenação.Ao contrário das formas segregacionistas que a maioria dos países colonizadores implementou nas suas colónias, acolonização portuguesa, de alguma tolerância e permissividade no que concerne às uniões mistas, substantivou emvárias partes do mundo comunidades crioulas. Estas comunidades carreavam a europeização como garante dadominação territorial. Independentemente das razões que lhe possa estar subjacente a forma utilizada pelosportugueses para ocuparem os territórios, e os manterem, constituiu-se como a solução que permitia colmatar afalta de população no reino, o que não se passava por exemplo com os vizinhos de Espanha. Enquanto em casaficavam, maioritariamente, as mulheres e as crianças afiançadores da continuidade do povo, para os territóriosconquistados – as colónias – iam os homens, sobretudo mancebos, cuja missão integrava um serviço particular àpátria, a procriação. A quase ausência de mulheres portuguesas em Macau e a forte repressão que as autoridadeschinesas exerciam sobre sua comunidade coibindo qualquer contacto com os estrangeiros, no início doestabelecimento dos portugueses em Macau, transmutou-se em justificação para a vinda de mulheres de outrosespaços, nomeadamente da India e de Malaca, espaços já missionados, e onde se concentravam, nos conventos, asdenominadas Órfãs do Reino. Refira-se ainda o facto de os primeiros missionários jesuítas terem sentido uma forteresistência à sua missionação por parte da comunidade chinesa autóctone (de acordo com o padre Álvaro Semedo,século XVI), o que se pode constatar pela forma como foi ocupado o espaço na península, com a concentração dosprimeiros portugueses no local onde construíram as primeiras igrejas (Stº António e S. Paulo), separados doschineses que se mantiveram junto aos seus templos (A-Má, Kun Iam Tong, Lin Fong Miu e Sam Kai Vui Kun),símbolos da sua ancestral religiosidade e que se constituíam como repositório da sua cultura (Romana:2004).Irene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 54
  • PARA UMA LITERATURA DA IDENTIDADE MACAENSE – AUTORES/ACTORES55em finais de quinhentos Macau tinha uma população de origem europeia, residente,de cerca de 500 habitantes (sobretudo mercadores) não contando os que utilizavamo território como porto de abrigo, entre viagem, na então rota, florescente, do Japão;Seriam à volta de mil portugueses em meados do Século XVII, de acordo com oprimeiro numeramento que se conhece32 sendo de cerca de sete mil os chineses queentretanto se teriam também radicado em Macau, sobretudo, nas aldeias da Barrae de Mong-Há.33Os portugueses foram para o extremo oriente para comerciar, e com aconquista de Malaca34 Portugal fica detentor, não só do maior entreposto comercialasiático mas, também, das novas rotas comerciais do trato da pimenta, produto deSumatra e da própria península de Malaca. Faltava chegar ao que se sabia ser o seumaior mercado de consumo – a China.35 Não era suficiente a mercancia intermediáriae irregular; era importante o contacto directo com o Império do Meio, tornando-senecessário encontrar um porto de abrigo que permitisse o estabelecimento demercadores. 1. Ou Mun versus Macau – a Génese de uma ComunidadeDas orlas chinesas, conheciam os portugueses Liampó e Chinchéu36, ondechegaram a ter assentamentos efémeros, mas a sentida necessidade do contactocom as populações costeiras e de um lugar de permanência e repouso levou osmercadores ao litoral de Guangdong, primeiramente à ilha de Sanchoão e, algumtempo depois, a uma aldeia de pescadores, numa pequena península situada ao sulda ilha de Xiangshan: Ama-guau ou Macau – a baía da deusa A-Má. A data defundação deste porto comercial é, segundo registos portugueses, a de 1557,embora, de acordo com as fontes chinesas, o ano de 1535 marca o início dapermanência dos portugueses nesse território.Embora as referências à origem de Macau, aos seus primeiros residentesocidentais e às razões que levam ao seu assentamento, sejam escassas econtroversas, é através dos textos do acervo bibliográfico jesuíta que nos chega maiorinformação de, por exemplo, uma escola de primeiras letras, em 1572, (embrião doque viria a ser o colégio de S. Paulo) para responder à necessidade de instrução dos________________32 Manuscrito da Biblioteca da Ajuda Cod.49-IV-61 25/10.33 Biblioteca da Ajuda, Cartas Annuas dos Jesuítas; Carta Annua de 1652.34 Malaca era, segundo Fernão Lopes de Castanheda “(…) o porto de maior escala & das mais ricas mercadoriasque se então sabia no mundo: porque aqui vinham juncos da China que traziam ouro, prata, aljôfar, perlas,almíscar (…) “; (Castanheda; edição de1979, Vol. I, Liv. II, cap. CXII: 461).35 “(…) para a China levava-se pimenta da Sumatra, do Malabar, do Pacém, de Pedir e de Patane, drogas deCambaia, ópio, absinto, bugalhos do Levante (…)”; cf. (Tien-Tsê Chang:1997:80).36 Respectivamente nas províncias de Zheijiang e Fuqien, costa este da China.Irene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 55
  • MARIA BARRAS ROMANA56filhos dos mercadores que se iam radicando no território.37 Ainda segundo fontesmissionárias, em 1637, a cidade de Macau, já fortificada, contava com cerca de milportugueses.38No que concerne ao assentamento dos portugueses em Macau, sabe-se,segundo Jorge Cavalheiro39 que num primeiro momento as construções erampautadas pela precaridade, por imposição das autoridades chinesas e que foigradual, prefigurando desde o início uma ocupação do espaço dual, o que levaria àdistinção entre cidade cristã e cidade chinesa: Uma vez estabelecidos em Macau, os portugueses ergueramuma capela (…) à volta da qual vão construindo as suas primeirashabitações (…) entre a Colina de Patane e a Colina do Monte,onde no final do século XVI os jesuítas constroem o Colégio deSão Paulo (1594), depois a igreja da Madre de Deus (1602) (…)uma fortaleza (1626), (…) a partir sensivelmente de 1580, numprocesso de crescimento contínuo [a povoação] vai ocupar zonasonde hoje se encontram o largo do Senado [Instituição fundadaem 1583], a Sé Catedral e a igreja de S. Lourenço, estendendo-sepela Baia da Praia Grande, sendo a Rua Central o grande eixo daCidade Cristã (…)(…) a população chinesa, que se fixou na península atraídapela actividade comercial desenvolvida pela presença portuguesa vaiestabelecer-se na pequena encosta da Colina de Patane virada parao Porto Interior (…) deste modo vão constituir-se em Macau doisbairros distintos: a Cidade Cristã (portuguesa) e o Bazar (CidadeChinesa) mantendo-se separadas até aos finais do século XIX. Nãoseparava, estes dois mundos, nenhuma muralha: a grande barreiraeram a língua e a cultura de cada uma das comunidades.(Cavalheiro:1997:34).Na opinião de Montalto de Jesus (Montalto de Jesus:1990:39-53), os doisprimeiros séculos de estadia dos portugueses foram pautados por grandeinstabilidade, justificação para a quase ausência de informação sobre esteestabelecimento, nomeadamente, nas fontes oficiais dos cronistas; contudo sabe-se,pelas fontes religiosas, que em 1583, numa assembleia presidida pelo bispo Belchior________________37 Segundo o Padre Álvaro Semedo a escola era: “(…) cosí numerosa, che il suo minor ordine há più di nouentafigli di portughesi, e di quel Paese (…)” (Semedo:1643:214).38 Álvaro Semedo refere, na sua Relação (op. Cit.) um número aproximado de 1.000 portugueses “gente rica emuito luzida”, muitos chineses cristãos, que se vestiam e viviam “à maneira dos portugueses”; e cerca de seismil chineses “gentios”, que constituíam o grupo dos artificies, lojistas e mercadores da cidade. 39 Jorge Cavalheiro, radicado em Macau há várias décadas, é historiador, docente e investigador do Instituto deEstudos Portugueses da Universidade de Macau.Irene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 56
  • PARA UMA LITERATURA DA IDENTIDADE MACAENSE – AUTORES/ACTORES57Carneiro, foi decidido que Macau teria uma administração senatorial, tendo sidoinstituído o Senado sancionado pelo Vice-Rei da Índia.40Ainda segundo o historiador macaense, “(…) os primeiros colonosportugueses casaram com mulheres japonesas41 e de Malaca, mas sobretudo comestas.” Esta afirmação tem como fundamento o facto de ao ‘Patois’ macaense estarsubjacente “uma influência predominantemente malaquesa (…)” (Montalto deJesus:1990:58).A assimetria demográfica caracterizou desde sempre o território de Macau eembora as autoridades chinesas tudo fizessem para controlar o aumento dapopulação chinesa, pois, apesar de, como refere Montalto de Jesus, “no istmo, entrea península de Macau e o continente, os chineses construíram então um murobarreira com um portão [Porta do Cerco] (…) a barreira construída em 1573claramente como delimitação de fronteira, mas servia também para controlar oaprovisionamento da colónia (…)” (Montalto de Jesus:1990:51-52); a comunidadesínica tornou-se substancialmente em maior número que o resto da população,embora segundo algumas fontes, (nomeadamente George-Leonard Stauntonministro plenipotenciário inglês), antes da construção das Portas do Cerco nãoexistissem chineses residentes em Macau.42 Esta informação é corroborada por umdocumento português, As Alfândegas chinezas de Macau – Macau, 187043 querefere o seguinte:Construida a Porta do Cêrco foi accordado com os mandarins deHian-cnan que ella se podesse abrir somente dois dias em cada lua,que n’esses dias os chins fizessem mercado para os portugueses iremfornecer-se dos géneros que precisassem, que aos chins fosse prohibidoentrar no estabelecimentos e aos portugueses e mais extrangeiros sahirao território chinez, e que a dita porta fosse guardada por soldados e________________40 Esta tese tem sido contestada, e é, de certa forma, posta em causa pelos estudos de Almerindo Lessa, dadoque em 1626 Macau tinha já o primeiro capitão-geral da cidade, D. Francisco de Mascarenhas. Refere-se aindaque embora os cronistas do reino pouco atestem nas suas crónicas sobre Macau, são bastantes os documentosque se encontram, nomeadamente referentes à administração do território e que constam dos arquivos do lealSenado mas também nos muitos documentos deixados pelas ordens religiosas, sobretudo os jesuítas,encontrando-se a maior parte nos arquivos da Biblioteca da Ajuda, mas também em Macau.41 Em 1662, devido a perseguições intensíssimas, aos novéis cristãos, por parte das autoridades imperiais do Japãochega a Macau um significativo número de refugiados japoneses.42 A referência é feita por Montalto de Jesus, que justifica citando George-Leonard Staunton, Miscellaneous Noticesrelating to China (1797:vol. I:87), que transcreve um documento chinês “No distrito de Heangshan-hien, (…)existe um promontório que entra pelo mar dentro e que está ligado ao continente por apenas um estreitoistmo, da mesma forma que uma folha de nenúfar está segura pela sua haste. A cidade [Macau] está construídasobre um promontório e é exclusivamente habitada por estrangeiros, sem qualquer chinês entre eles; mas nabarreira foi estabelecida uma alfândega para a verificação de todas as pessoas e bens que passam para cá epara lá. (…)” (M. de Jesus:1990:58).43 As Alfandegas chinezas de Macau; (1870:27-28), Apud, Ta-ssi-yang-kuo, Archives e Annaes do Extremo-OrientePortuguês, vol. I-II: 35.Irene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 22/06/18 12:57 Página 57
  • MARIA BARRAS ROMANA58um official chins. Passados annos, e já depois de existir o senado,estabeleceu-se o mercado semanal, e o procurador recebia dosmandarins uma lista que designava os chinas a quem era permitido vira cidade, continuando porém a ser prohibido a todos habitar n’ella.Os que se encontravam sem licença, ou não mencionados na referidalista eram presos a ordem do procurador (…) afinal a Porta do Cêrcopassou a abrir-se todos os dias, o mercado internou-se e fixou-se;pouco a pouco o zelo dos procuradores enfraqueceu, a brilhante eindustriosa actividade chineza insinuou-se, fez se bemquista, e foiconstruindo e multiplicando casas, lojas e officinas.Embora Macau tenha sido considerada uma ‘rocha’ inóspita e desabitadaantes do estabelecimento dos portugueses, as lendas da sua origem, que se cruzamcom as lendas de fundação dos seus habitantes chineses, revelam-nos um outroentendimento.Segundo Ana Maria Amaro (Amaro:1998:284-287) os primeiros habitantesde A-Má Ngau [a baia de A-Má – Macau] teriam sido familiares (agricultores dosclãs) de generais perseguidos aquando da invasão dos distritos do sul pelos exércitosHan. Esses agricultores e suas famílias debandaram para as ilhas desertas do deltado rio das pérolas e aí se refugiaram acabando por edificar pequenas aldeias. Ossítios escolhidos seriam por ventura os que pela sua localização lhes garantissem omelhor fong soi .44 Um desses locais, com características auspiciosas terá sido umapequena baía abrigada por colinas exemplo de um ambiente promissor. Ainda de acordo com a referida antropóloga, a primeira aldeia de Mong-Háfoi fundada pelas famílias de apelido Sam, e Hó, agricultores, e mais tarde a famíliade apelido Kai (pescadores e comerciantes) terá edificado o lugar de A’Van Kai nosopé da colina da Barra45; conforme os seus registos, estas famílias foram, não sótestemunhas da chegada dos bárbaros do ocidente trazidos por um tufão, mastambém, protagonistas da lenda de fundação que conta ter sido a própria deusa A-Má a encaminhar os seus barcos, durante uma tempestade, para a praia abrigadae segura, em recompensa pelo auxílio, quando, disfarçada de rapariga, lhes pediuajuda para fugir com eles. O reconhecimento à deusa está patente no templo emsua homenagem, indubitavelmente anterior ao Macau português.Se a aportada dos portugueses a Macau foi o resultado dos ventos de umtufão, os quatrocentos anos da sua estadia foram, de certo modo, condicionados________________44 Ambiente auspicioso decorrente da emanação de uma corrente de energia positiva que advém da relaçãoharmoniosa entre o vento (fong) e a água (soi).45 É de referir que as fontes da Professora Ana Maria Amaro são os Chôk Pou (livros manuscritos onde ficaramregistados os principais acontecimentos protagonizados pelos elementos de cada família; este registo competiaaos primogénitos) das famílias Sam e Hó (Amaro:1991:286).Irene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 58
  • PARA UMA LITERATURA DA IDENTIDADE MACAENSE – AUTORES/ACTORES59pelos muitos ‘tufões’ que assolaram o território, sendo o primeiro o isolamento aque esteve votado por imensos períodos, sobretudo após o declínio do comércio dooriente resultado do fim da intermediação comercial e das constantes pressões dasoutras potências europeias.Macau teve nos seus primórdios um vertiginoso crescimento46 apesar daconstante instabilidade que sempre a caracterizou: instabilidade política mercê deuma situação administrativa ambígua e criadora de equívocos; instabilidadeeconómica sobretudo a partir dos finais do Século XVII e a instabilidade queadvinha do facto de ser um palmo de terra geograficamente frágil, masestrategicamente muito forte, para onde convergiram todos os ventos dos muitostufões que fustigaram a vastíssima região da Ásia.A propósito da ambiguidade da situação administrativa de Macau refere-se que, embora a cidade fosse administrada pelos portugueses, os chinesesnunca lhes conferiram o direito de propriedade. De acordo com Celina Veigade Oliveira e António Aresta, “a sujeição do território às imposições chinesasestavam consolidadas através de uma série de práticas que se foram instalandoao longo do tempo: a estadia permanente de um mandarim em Macau; acriação das alfândegas chinesas para cobrar direitos sobre o comérciomarítimo; a exigência dos pedidos de licença às autoridades chinesas para aconstrução e reconstrução de casas; a imposição de manifestações oficiais deregozijo ou de luto para assinalar acontecimentos do Império” (Aresta;Oliveira:2009:97).Foram vários os momentos em que, fazendo da fraqueza força Macau virao rumo natural dos ventos; num primeiro momento, estando Portugal sob domíniocastelhano, Macau sobrevive vitorioso à investida holandesa e, pouco tempodepois, mal se refaz da perda de Malaca, perdendo naturalmente uma das rotascomerciais de grande importância para a sua economia mas também a via deacesso à Índia, ponto indirecto de ligação ao reino. Se o crescente poderioholandês obrigou a um enorme isolamento, o século XVIII europeu, com todas assuas convulsões políticas e físicas47 e a guerra peninsular no início de XIX, nãoforam facilitadores para o quebrar.Na região, vários foram os factos que contribuíram para essa semprepermanente instabilidade: os exteriores ao território que criaram situações algumasvezes graves e perturbadoras do quotidiano de Macau: a Guerra do Ópio, a fundação________________46 Não só em termos económicos, sendo considerado o maior interposto comercial da Ásia, mas tambémculturalmente pois assumindo como o centro de irradiação da cristandade beneficiou da permanência dasordens religiosas nomeadamente da Companhia de Jesus. Macau teve no Colégio de S. Paulo a primeiraUniversidade ocidental na Ásia, em 1588 eram impressos na sua tipografia livros para todo o mundo ocidental.47 Terramoto de 1775.Irene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 59
  • MARIA BARRAS ROMANA60de Hong Kong, a guerra Sino-Japonesa a revolução nacionalista de Sun Yat-sen, aprimeira e, sobretudo, a segunda48 Guerras Mundiais; e os internos que originaramfortes convulsões: o incidente Ferreira do Amaral49, as consequências da RevoluçãoCultural Chinesa materializadas no incidente que ficou na história como “Um, Dois,Três”. Todas estas situações, e os vários acontecimentos políticos e sociaisprotagonizados pela pátria lusa na última centúria, consubstanciaram momentosde instabilidade, directa ou indirecta, no território, mas muitos deles foram o cerneda multiculturalidade de Macau, pois o pontinho minúsculo do delta do rio daspérolas foi desde sempre o porto de abrigo, Ou Mun (Porta da Baia), para todosos que precisaram de refúgio.50________________48 Macau foi porto de abrigo de refugiados, de várias origens, que fugiram às sucessivas investidas e ocupaçõesdos japoneses. As vivências e sobretudo as dificuldades que se sentiram no território foram registadas por algunsescritores, que experienciaram as agruras da segunda guerra no território e nos deixaram alguns fragmentosdas suas memórias; foi o caso do comandante António de Andrade e Silva, que exerceu o cargo de Capitãodos Portos, em Macau, entre 1940 e 1946. O comandante Andrade e Silva deixou um manuscrito inacabadosobre a vida em Macau nesses anos de guerra; as provações, as condições quase sub-humanas dos refugiados,a especulação, a ocupação ‘oficiosa’ japonesa e o bloqueio, em suma são muitas as informações, algumascorroboradas por pequeníssimos apontamentos de notícia que eram publicados na altura, de uma pequenapenínsula que quadruplicou de população e que a par de graves carências em termos de condições de vida,tinha uma ambiência quase enlouquecida própria do momento. Este documento foi publicado em 1991 peloInstituto Cultural de Macau e pelo Museu e Centro de Estudos Marítimos de Macau; numa nota explicativa queprefacia esta edição, o autor sublinha: “Todos os factos mencionados são verídicos, embora alguns episódiospareçam inverosímeis ou fantasiosos, e se os nomes e os cargos das diversas personalidades que figuram nanarrativa não correspondem à realidade, é apenas para evitar possíveis melindres, dos quais desde já pedimosdesculpa” (Andrade e Silva [1946]:1991:7).49 Este incidente foi carreado por uma tomada de decisão por parte do Governador de Macau que pretendeuassumir definitivamente a soberania de Macau, expulsando as autoridades chinesas que desde a fundaçãoestavam estacionadas em Macau; de acordo com a Cronologia da História de Macau (Basto da Silva:1995:Vol. 3:125-126) a 5 de Março de 1849: “O Governador João Maria Ferreira do Amaral proibiu aos Hopus(Alfândegas Chinesas) desta cidade, cobrarem quaisquer direitos às mercadorias exportadas de Macau paraos portos da China, pedindo ao Vice-Rei de Cantão que mandasse retirar os funcionários chineses (…) dentrodo prazo de oito dias.” A 12 de Março do mesmo ano, não tendo o Vice-Rei de Cantão acatado o pedido“O Governador (…) mandou por travessas na porta principal do Hopu (…) e fez postar um piquete desoldados e uma canhoeira de mar em frente do Hopu (…) acabando assim com o último vestígio dainterferência chinesa na administração desta colónia.” No dia seguinte ordenou, o referido governador, “àforça publica que fizesse desaparecer todos os sinais da alfândega chinesa em Macau, ordem que foicumprida imediatamente” a 18 do mesmo mês “No Boletim Oficial do Governo nº 74 è publicada adeterminação do governo de proibir que os Mandarins entrem em Macau tocando bátega, como fazemquando entram em terras chinesas”. Embora tenha havido a saída em massa da população chinesa para ooutro lado das Portas do Cerco, não houve da parte do Governo de Cantão qualquer reacção oficial a estademonstração de poder por parte de Portugal, na medida em que Ferreira do Amaral tinha sido incumbidopelo Marechal Saldanha da missão de tornar Macau uma verdadeira colónia e não um território tuteladopela China. Contudo, de surpresa, o governador é morto a 22 de Agosto do mesmo ano, como indica oseguinte assento: “Assassinato do Governador João Maria Ferreira do Amaral por sete chineses que oacometeram repentinamente, e à traição, próximo das Portas do Cerco”. Três dias depois deste desfechoinfeliz, ocorre o único confronto oficial entre a China (o seu governo do sul) e Macau. Tendo sido decretadoestado de excepção em Macau, pela junta provisória do governo, começa a ser atacada pelo contingente deum pequeno forte chinês, (Pak-Shan-Lan) Passaleão, localizado próximo das Portas do Cerco. Macau malconseguia ripostar tendo em conta a carência de meios. É neste quadro que, à revelia da cadeia de comando,um tenente de Infantaria, o macaense Vicente Nicolau de Mesquita, acompanhado pelo seu pelotão de 32homens, toma de assalto o forte e neutraliza os cerca de quinhentos soldados chineses e os vinte canhõesque ai se encontravam, ficando na história do território como o Herói do Passaleão.50 Como referiu Artur Levy Gomes (1957) “Macau, por três séculos, a única possessão europeia na China”.Irene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 60
  • PARA UMA LITERATURA DA IDENTIDADE MACAENSE – AUTORES/ACTORES612. As digressões Interétnica e Intercultural“(…) o macaense é aquele que tem Macau por referênciae um sentido especial de portugalidade”Henrique de Senna FernandesSe das origens de Macau, o pouco que se conhece está envolto numa neblina,das origens dos macaenses várias são as teorias que procuram consubstanciar a suaespecificidade étnica e cultural. A possível origem desse grupo/comunidade cultural/étnica advém de uma miscigenação do luso/ocidente e de um oriente difuso quepoderá conter Goa, Ceilão, Java e terras Malaias, quiçá o Japão e, porventura, ovasto e diversificado sul da China, não permitindo vislumbrar resposta concreta a talorigem.Dos primeiros estudos antropológicos realizados sobre os macaenses, o doProfessor Almerindo Lessa refere o seguinte:(…) os «Portugueses de Macau» podem ser considerados comoum dos grupos mistos mais estáveis da Ásia. A sua genealogia é frutode múltiplas hibridações, compilada ainda pela enorme riquezagenética das suas raízes (…) (Almerindo Lessa: 1995:394).Segundo este Antropólogo, o macaense, “o homem novo luso-tropical do estuário do rio das Pérolas”, resulta da miscigenação doeuropeu/português com as mulheres de toda a área indonésia e comas chinesas de Cantão.De acordo com Ana Maria Amaro os macaenses são fruto da adaptaçãoequilibrada, no decorrer dos séculos, em relação ao meio adverso encontrado pelos‘homens da Europa’:A princípio, registava-se grande mortalidade entre os europeus,mas, em breve, os seus filhos euro-asiáticos, naturalmenteseleccionados na infância, encontraram melhores condiçõesadaptativas, do ponto de vista morfo-fisiológico. Por outro ladocriaram-se paralelamente ao longo dos séculos, formas culturais desobrevivência, muitas delas originais. Tanto as formas biológicas comoas culturais foram seleccionadas pelo meio e nasceu o macaense e asua original cultura (…) (Amaro:1991:96-103).O estudo de Pina Cabral e Nelson Lourenço (Cabral; Lourenço:1993:20)entende que os macaenses não constituem um fenótipo caracterológicoespecífico, como foi defendido por outros autores, mas constituem-se como umaidentidade étnica contextualizada historicamente no âmbito da complexidadecultural e genética que tem consubstanciado as sociedades meridionais da Ásia;Irene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 61
  • MARIA BARRAS ROMANA62no que concerne às origens, consideram estes autores que “Num contexto depluralidade étnica, o discurso sobre as origens é mais enfático, assumindogeralmente um forte conteúdo emocional” (Cabral; Lourenço:1993:56).Considerando lato sensu os macaenses resultado da miscigenação europeia easiática, defendem que a condição de ser macaense está intrinsecamente ligadaa três vectores que permitem a auto e hétero – identificação, a saber: a língua, areligião e a raça (Cabral; Lourenço:1993:22), embora admitam a possibilidade dea pertença ao grupo não carrear a totalidade dos vectores e, até, conter umelemento de escolha pessoal.Deste modo consideram estes autores que a comunidade macaense éformada pelo grupo de pessoas que partilham um conjunto de instituições e queobjectivam a reprodução de um projecto étnico comum (Cabral; Lourenço:1993:19).Neste sentido, o referido grupo integra um núcleo de construção de identidade,constituído pelas pessoas e famílias que, reunindo os três vectores, são o cerne quepermite que a identidade se auto construa como comunidade. Por outro lado,consideram também que “encontrando-se numa encruzilhada de culturas e depovos, tendo acesso relativo a qualquer um deles, mas não pertencendo a nenhumem absoluto – a identidade étnica macaense surge como ambivalente epotencialmente problemática” (Cabral; Lourenço:1993:59).A razão desta ambivalência, ainda segundo os referidos autores, deve-seessencialmente ao facto de, na explicação da origem desta comunidade, estaremsubjacentes duas versões contraditórias: uma que defende que os macaenses sãooriginários da miscigenação entre homens portugueses e mulheres chinesasprovenientes dos estratos sociais mais baixos da população de Macau (esta versão édefendida pela população chinesa e pode-se considerar valorativa negativa) outra,carreada pela própria comunidade macaense51, considera que a origem se encontrana miscigenação luso- asiática (malaia, indiana, etc.) que terá ocorrido no primeiroséculo (Cabral; Lourenço:1993:60-61).Entendem, Pina Cabral e Lourenço, que perante tais hipóteses, passivas deaceitação, se podem considerar, também, duas formas de entrada para o grupoétnico: a primeira, resultante de “casamentos entre pessoas que já eram macaensesou casamentos com portugueses que se integraram na vida social macaense”, a qualdenominaram de contexto matrimonial de reprodução e uma outra que advém de“casamentos entre pessoas que não são necessariamente macaenses”, o contextomatrimonial de produção.52________________51 E defendida por Almerindo Lessa e Ana Maria Amaro.52 Os autores consideram neste contexto os descendentes de casamentos entre portugueses/chineses, macaenses/chineses, “ou qualquer um destes com pessoa originária de outro referente étnico exterior ao Território” (Cabral;Lourenço:1993:61).Irene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 62
  • PARA UMA LITERATURA DA IDENTIDADE MACAENSE – AUTORES/ACTORES63Do ponto de vista de Carlos Piteira, que propõe a abordagem da questãoétnica dos macaenses num contexto de mudança (Piteira:1999), enquantocomunidade étnica os macaenses são o fruto “(…) da primeira geração de‘portugueses orientais’ (oriundos de filhos de malaias, siamesas japonesas e indianas)que irão proporcionar as bases antropogenéticas das futuras gerações de«Macaenses – Filhos da Terra»”; ainda segundo este autor “(…) a constante ausênciade mulheres europeias (lusas)(…) originou estratégias de matrimónios entre apopulação local, (…) os primeiros ‘doadores de esposas’ situam-se essencialmentenas zonas onde Portugal tinha já consolidado as suas feitorias reais na zona da Ásia(…) seguindo uma política de povoamento que era então dominante na nossaestratégia de colonização” (Piteira:1999:123-124).Piteira considera ‘O Período de Ouro de Macau’, espaço temporal entre 1557e 1685, caracterizado por uma forte expansão mercantil e comercial fomentadorado alicerçar religioso, cultural e patrimonial dos portugueses no território, como omomento caracterizador em termos antropogenéticos da população de Macau:(…) os homens deveriam ‘esposar’ as mulheres orientais quefossem cristãs ou se convertessem ao cristianismo. Dada aimpossibilidade desta situação em Macau, pela [quase] ausência deuma adesão à conversão católica, a mulher em condições de esposarsurgia como uma necessidade de ‘importação’ que era necessáriodotar o território (…) Malaca, a feitoria que contava já cerca de 45anos de ocupação, foi aquela que primordialmente enviou para oterritório ‘jovens esposas’ com vista à política de miscigenação quepermitisse a fundação de uma cidade católica (…) (Piteira:1999:124).Entende também o autor que após este período, e sensivelmente até meadosdo Século XIX, Macau consolida a sua dimensão de cidade multicultural.(Piteira:1999:125) A questão da identidade macaense emerge de dois aspectosfundamentais: a face especular dos próprios macaenses, um grupo que se entendecomo tal, e a imagem que os outros têm, que permite identificá-los como elementode pertença ao grupo. Os estudos antropossociológicos que até hoje se fizeram sobre a origem desse grupo, comunidade cultural/étnica, possível resultado damiscigenação do luso/ocidente e do oriente difuso, não permitem vislumbrar aresposta concreta, objectivável, à questão das origens dos macaenses uma origemque não encontra baliza na cerca de centena de almas que se estabelecem numapequena baía de um minúsculo istmo perdido na imensidão de uma costa de um,também ele imenso, império; o império do meio.A comunidade macaense resulta de uma teia genética urdida ao longo dequinhentos anos, cujo primeiro fio foi concebido por ‘bravos’ mais ou menosrobustos marinheiros/mercadores vindos de ocidental praia, e frágeis e corajosasIrene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 63
  • MARIA BARRAS ROMANA64damas órfãs do reino, exoticamente miscigenadas pela península indiana ou malaia;e esta profícua miscigenação foi permitindo o crescendo de almas que, segundo oscronistas, no fim de quinhentos já se somavam em mil. Muitos outros fios orientais foram compondo a urdidura de um grupohumano, inicialmente com características de communitas53, uma associaçãomotivada pelas contingências contextuais que leva um grupo de seres humanos arelacionarem-se e a associarem-se de modo a garantirem, no caso do grupoprimordial de Macau, a sobrevivência. À medida que o grupo estabiliza no aspectoorganizacional, quando, segundo Bernardi “a espontaneidade cede perante aestabilização da organização, que se faz estrutura, à petrificação da forma que setorna lei” (Bernardi:1982:62) a communitas transforma-se em comunidade. A comunidade que dinamicamente foi emergindo em Macau congregou a suaconstituição essencialmente em dois factores aglutinadores: uma língua partilhadae reinventada pelos seus membros, e uma vivência de religiosidade, para a qualmuito contribuiu a presença da igreja católica através das ordens religiosas. O território de Macau sempre foi sentido pela comunidade chinesa comouma parte da China ‘provisoriamente’ ocupada por um país estrangeiro; segundoMontalto de Jesus “Assim para o chinês comum e particularmente para os mandarinsde Cantão, Macau passava por ser um arrendamento meramente tolerado em solochinês (…) ao velho arrendamento tornado enclave não era permitido qualquerdireito a águas territoriais (…) as quais o tratado de 1887 insiste em deixar pordefinir.” O tratado de 1887 entre Portugal e a China “(…) confirmou a ocupação eo governo perpétuos de Macau e de suas dependências por Portugal como emqualquer outra possessão portuguesa [e compromete Portugal] a nunca alienarMacau e as suas dependências sem a concordância da China.” Neste tratado asfronteiras do território ficaram por definir, mas fica significativamente definida asoberania chinesa, com o parágrafo do compromisso. (M. de Jesus:1990:288). Se aimpressão desse sentimento não foi relevado pelas autoridades administrativas doterritório, ao nível das hierarquias de poder, não deixou, contudo, de estar semprepresente no seio das comunidades que o partilhavam, acabando por se tornarexpressão através da oficialização da entrega de Macau. A comunidade macaense, ao longo dos anos, constituiu-se como um grupode apoio ao poder dominante, pois era composta por indivíduos que assumiam elhes era reconhecida uma ascendência portuguesa, falantes da língua lusa, mesmo________________53 Turner entende por communitas “(…) uma relação entre indivíduos concretos, histórica, de sentir comum. Estesindivíduos não são fraccionados em cargos, mas organizam a vida em termos do eu e do tu. O tipo de sociedadeem que se integram é homogéneo, sem estrutura…”, como refere Bernardi “…neste tipo singular de associaçãoconfluem indivíduos, e todos aqueles que, devido a um período de iniciação ou por uma escolha de destaqueda sociedade estabelecida realizam formas novas de associação” (Turner:131-132); Apud (Bernardi: 1982: 61-62).Irene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 64
  • PARA UMA LITERATURA DA IDENTIDADE MACAENSE – AUTORES/ACTORES65que, na esfera privada, realizassem um crioulo, de base portuguesa, ‘o pátoàmaquista’ e eram naturais de uma terra que, para efeitos de imagem deportugalidade, era parte integrante do ‘império colonial português’. A língua do poder era o português, detendo os macaenses não só acompetência linguística da sua língua materna, mas também a competêncialinguística, embora, de um modo geral, só oral, da comunidade maioritária, ou seja,o cantonense. Esta particularidade ao nível das competências superiorizava-os emrelação à comunidade chinesa, pois permitia-lhes, embora não de formageneralizada, o acesso às esferas mais altas do poder54, mas também, e sobretudo,a possibilidade de ocuparem funções de intermediação entre essas esferas(constituídas quase exclusivamente por funcionários provenientes de Portugal) e os‘outros’ que partilhavam o território. O papel de mediação permitia, aos macaenses, um capital de influência quecarreava o assegurar das posições intermédias na administração pública, emboranão lhes permitisse, na generalidade, ocupar posições mais elevadas, pois, o númerode filhos da terra a prosseguir estudos superiores não era significativo, na medidaem que só aqueles que pertenciam à fracção superior da comunidade tinham capitaleconómico para virem para a Europa; embora Macau tenha tido um colégiouniversitário, o primeiro ocidental em terras asiáticas, o Colégio de S. Paulo,instituição jesuíta criada nos inícios do século XVII, cerca de um século depois, ocolégio foi encerrado por ordem régia e Macau só volta a ter estudos superiores em1981; para além de escolas do ensino primário que se mantiveram desde a suafundação, é de referir que a educação em Macau, ao nível do ensino médio(secundário), era garantida, anteriormente à criação do Liceu, pelos padres doColégio do Seminário de S. José e, desde 1871, pela Associação Promotora daInstrução dos Macaenses que cria o Colégio Commercial, passando a ter adenominação de Escola Commercial em 1885; o Liceu Nacional de Macau só éfundado em 1893 e posteriormente o Instituto Comercial, que funcionava agregadoao liceu. Assim, o prosseguimento de estudos da população estudantil só era possívelna metrópole (tal como se constatava nas outras colónias/províncias portuguesas –embora Angola e Moçambique vissem a situação ligeiramente alterada a partir de1968 com a criação das suas Universidades) e naturalmente tendo em conta osencargos financeiros e a distância, na generalidade, só iam estudar fora os ‘filhos-familia’ da elite económica macaense; deste modo, a maioria dos macaenses obtinha________________54 A propósito das comunidades mestiças e do seu papel social, o Prof. José Carlos Venâncio refere o seguinte (…) os mestiços (…) em situação de minoria na sociedade envolvente, acabam por constituir grupos de status(…) Também na Ásia a mestiçagem e os mestiços representam fenómenos de alogeneidade (…)” (Venâncio:1996).Irene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 65
  • MARIA BARRAS ROMANA66a escolaridade média que lhes permitiam ser absorvidos pelo funcionalismo público,em situações profissionais, também elas, médias. Mas, embora esta situação lhes permitisse assumir uma posição desuperioridade, escudada pelo poder vigente, perante a população de línguachinesa, a comunidade macaense desde cedo teve consciência da precariedadeterritorial que Macau constituía daí a denominação de ‘comunidade bambu’,metáfora utilizada ao referir os macaenses por, bastas vezes, ser assolada por‘tufões’ criadores de instabilidade, algumas vezes mais territorial do que social, ecarreadores de momentos de fuga a uma insegurança mais pressentida do quesentida.Um dos momentos significativos e exemplificadores da instabilidade dacomunidade macaense localiza-se temporalmente na década de 60 do séculopassado protagonizada pelo incidente “Um, Dois, Três” que levou a uma dasmaiores situações de diaspória da comunidade Macaense. Este incidente foi oculminar de uma crescente tensão política dentro do território fomentada pelasescolas chinesas e pelos Kaifong’s55 pró Pequim, e seguidores da Grande RevoluçãoCultural, contra os adeptos chineses nacionalistas do Kuomitang, de Tchan-Kai-Chek, que mantinham em Macau uma frente subversiva contra Pequim de MaoZedong. Os conflitos, que resultaram em oito vítimas mortais e cerca de cemferidos criaram um clima de desconfiança entre a comunidade macaense ‘oscolonialistas portugueses’ levando-os a outros lugares onde, pelo menos desde1922 (outra das situações de forte instabilidade, também associada às convulsõesdo gigante chinês), já existiam grupos de macaenses (Revista Macau:1993).3. Os Filhos da Terra – a Construção de uma IdentidadePode-se considerar que Macau foi cenário de uma colonização atípica56; aintenção primordial dos portugueses foi fazer daquele pequeno istmo um interpostocomercial, rapidamente transformada numa vontade de se estabelecerem tendo em conta que o vislumbre de uma boa mercancia se ia tornando realidade. ________________55 As Comissões de bairro que constituíam o elo de ligação entre os moradores chineses e as autoridades tantoportuguesas como chinesas. Este episódio consta da Cronologia da História de Macau que refere que nos dias 1,2 e 3 de Dezembro de 1966, na sequência de um confronto, em meados do mês anterior, entre a Policia e umgrupo de manifestante chineses, o que levou à detenção de 64 pessoas, Macau sofre um sobressalto “(…) emresultado da tensões políticas (…) eco da Revolução Cultural chinesa, em que o conceito de liberdade chocava como conceito de colónia então aplicado a Macau, os agentes humanos (…) envolveram-se em violentos confrontosde rua, que se saldaram – segundo balanço oficial – em 8 mortos e 123 feridos (Basto da Silva:1998:Vol. 5;91-93).56 É de referir que, por exemplo, as leis orgânicas de 1914, referentes ao conjunto das colónias portuguesas, nãose aplicaram a Macau, reconhecendo-lhe, o Estado, uma situação excecional, nomeadamente no que respeitaà questão de cidadania, na medida em que os habitantes de Macau tiveram sempre garantida a cidadanianacional, o mesmo não se passando com os habitantes das outras colónias que até à revogação da lei, em1961, mantiveram o estatuto de assimilados.Irene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 66
  • PARA UMA LITERATURA DA IDENTIDADE MACAENSE – AUTORES/ACTORES67O assentamento teve contingências várias, pois, o pedacinho de terra pertencia aoImpério do Meio, e assim ficou para todo um tempo, embora Portugal mantivessea ilusão de ter uma colónia.Há colonização quando uma nação soberana ocupa e domina uma região eo seu povo. Há colonização quando a dicotomia, colonizador/colonizado é umarealidade, de acordo com a visão maniqueísta da colonização e defendida por Said,(Said:2004) e contestada por Homi Bhabha considerando este autor que “a relaçãoentre colonizador e colonizado não pode ser vista de forma tão simplista nemhomogénea, pois é uma relação rica em contradições e ambivalências, passível deser analisada à luz de uma teoria psicanalítica em que seja posta em evidência adimensão inconsciente das relações que muitas vezes se materializam na dicotomiarepulsa/desejo, identificação/condenação” (Bhabha:1994:11-12).Se, num primeiro momento, o número de reinóis no enclave erasignificativamente superior à pequena comunidade chinesa de pescadores quehabitava a aldeia da baia de A-Má, esta, progressivamente, vai aumentando comum fluxo migratório contínuo vindo da região de Guangdong, assumindo a terrasua e recusando sistematicamente um governo estrangeiro na medida em que paratal tinham um mandarim enviado do Imperador chinês. É sabido que por parte doschineses o território sempre foi pertença da China, e o estatuto que lhe é atribuídode Território Chinês sob Administração Portuguesa em 1976, só textualizou essarealidade.De Portugal chegavam sobretudo mercadores e missionários, não severificando um movimento de famílias da metrópole para se estabelecerem noreduto chinês, como aconteceu nos outros territórios colonizados, condiçãonecessária para a constituição de uma elite colonizadora; a maior parte das famíliasfundadoras surgem no próprio território e como resultado de casamentos mistos.É pois deste cadinho que se formam os Filhos da Terra e se a cultura do paié imposta pela educação porque proveniente da nação dominante (o domínio daMacau cristã) a cultura materna é transmitida no aconchego do berço, resultandonuma identidade híbrida, processo dialógico entre o ocidente e o oriente, forma decrioulização que, tal como a imagem do oriente e do ocidente, é uma construçãointelectual (Said:2004).Assim, o que subjaz à construção da identidade dos filhos da terra é umaforma de transculturação57 que fluiu naturalmente na identidade híbrida; de acordocom Stuart Hall, a copresença espacial e temporal de sujeitos anteriormente isolados,histórica e geograficamente, e o consequente intercâmbio cultural leva a um________________57 De Fernando Ortiz (1940), modo de aculturação em que ambos os segmentos se modificam gerando novasconfigurações identitárias.Irene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 67
  • MARIA BARRAS ROMANA68processo no qual os grupos selecionam e recriam o que lhes é transmitido pelacultura metropolitana dominante. O hibridismo é pois o resultado de um processocontínuo de transculturação e a identidade híbrida não é mais do que uma novaidentidade que guarda traços das identidades originais (Hall:1996:1-18).A comunidade macaense, embora constituindo-se como um grupominoritário (em termos percentuais) em relação ao exogrupo constituído pelapopulação chinesa, teve um comportamento de sociedade dominante, mas perantea sociedade dominante da qual provinha individualizou a sua cultura e construiuuma identidade própria “a construção da identidade é um processo de negociaçãoentre a ‘mêmeté’, a continuidade da pessoa no tempo e a integração dasrepresentações e novas experiências” (Camilleri:1990:33).Uma das teorias das estratégias identitárias (Camilleri:1990) perspectiva a aculturação como negativa considerando que o indivíduo em situação deaculturação assume a desvalorização dos estereótipos e pré-julgamentos negativosintuídos das relações assimétricas entre a sociedade de acolhimento e o grupo deorigem. Camilleri concebeu o seu modelo de análise tendo por base o estudo degrupos de imigrantes e as relações entre estes grupos e as sociedades deacolhimento/culturalmente dominantes, daí que considere que mediante uma sériede situações negativas e desestruturantes, os indivíduos do grupo tenham de criarestratégias que lhes permitam a sobrevivência social e, sobretudo, lhes permitam oequilíbrio satisfatório entre as duas funções de identidade, a função ontológica58 ea função pragmática59; este modelo é passível de ser adaptado à sociedademacaense, embora se considere que a situação de Macau seja substancialmentediferente, tendo em conta que é nossa convicção não ter havido aculturação, massim transculturação na construção identitária dos Filhos da Terra.60Destarte, o grupo foi criando um conjunto de estratégias ao longo do seuprocesso identitário, que permitiram a coerência entre as duas funções de identidadeobjectivando estabelecer uma unidade de sentido que, de certo modo, obviasse o conflito com o exogrupo que partilhava o território; mas, também, lhesproporcionasse uma relativa harmonia com o campo de poder, que seconsubstanciava na presença de autoridades governativas metropolitanas, apersonificação do poder colonial.________________58 i.e. A referência a certas manifestações e valores considerados fundamentais.59 i. e. A adaptação ao meio envolvente.60 O termo transculturação foi criado na década de 40 por Fernando Ortiz em Contrapunteo Cubano del Tabacoy el Azúcar, correlacionado ao universo das trocas culturais. Este mesmo conceito foi, na década de 70, utilizadopor Angel Rama nos estudos literários; em Imperial Eyes, Mary Louise Pratt (Travel Writing and Transculturation.Londres/Nova Iorque, Routledge, 1992) faz o uso extensivo do conceito de transculturação reportando-se a umuniverso mais amplo, que é o da constituição de um universo simbólico, imagens e discursos queconsubstanciam um modo ou estilo cognitivo e um repertório semântico e imagético por meio do qual o outrocolonial passa a ser abordado.Irene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 68
  • PARA UMA LITERATURA DA IDENTIDADE MACAENSE – AUTORES/ACTORES69As referidas estratégias podem passar por duas formas de coerência:coerência complexa que consubstancia, por um lado, a resolução das contradiçõespor si, e não em si, segundo uma lógica afectiva não relacional procurando maximizaras situações de vantagem e reinterpretando os códigos de modo egocêntrico, poroutro lado, através de uma lógica racional que passa pela reapropriação, valorizaçãodo espírito e suspensão da aplicação dos valores61; e pela moderação de conflitosque leva as comunidades a tomarem atitudes que permitem a ponderação diferencialdos valores que se opõem, a limitação de situações sentidas como penalizáveis eque levam necessariamente a uma alternância de códigos. Entende Camilleri que existe uma relação de complementaridade entre asocialização e a dinâmica identitária e que essa relação depende da estabilidade docontexto social; assim qualquer mudança no contexto social pode provocar amodificação do sistema social de valores, ou seja, da identidade que assume umadinâmica através da qual o indivíduo tenta, a partir do interior, compensar e dominaras mudanças da realidade exterior, de modo a colmatar uma possíveldesestruturação; nesta situação a identidade assume um papel activo de regulaçãoda socialização; as estratégias identitárias são, pois, instrumentos de regulação daactividade quotidiana e a sua escolha depende tanto da situação individual comoda situação da comunidade, tendo o contexto cultural e social um papelpredominante.A cultura pode ser entendida como uma matriz da qual cada um extrai osentido da sua própria identidade cultural (Bernardi:1982), ou seja, a partir dumamatriz cultural, de um modelo específico de cultura, no caso concreto a culturaportuguesa, a comunidade macaense definiu os seus valores e interpretaçõesculturais em formas de representação motivadas e adaptadas segundo o contextoespácio-temporal. São os processos dinâmicos da cultura que permitem aapropriação e a assimilação de valores e comportamentos pelos indivíduos; aoexperienciarem esses valores e comportamentos, ao vivenciá-los, tornam-se parteactiva do processo cultural, seus intérpretes, na medida em que, não só são criaturasde cultura, no sentido em que são seus portadores, mas também seus criadores. Certos comportamentos específicos, expressão de um sistema padronizadode atitudes emotivas, constituem-se como representação do ethos de umacomunidade e a partilha do mesmo ethos traduz-se num processo simultaneamentede identificação e de distinção pois, permite, através da identificação com o seugrupo, a distinção do outro. Bernardi considera quatro aspectos fundamentais no processo dinâmico decultura, o anthropos, ou seja a convergência de indivíduos que provoca o surgimento________________61 Considerando que estas são estratégias problemáticas que não permitem evitar os conflitos (Camilleri:1990).Irene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 69
  • MARIA BARRAS ROMANA70do ethos que corresponde ao processo de formação de uma comunidade a partirda ideia de communitas, um tipo de associação humana sem estrutura definida efruto da necessidade de sentir comum, até à estabilização da sua estrutura epassagem a comunidade onde a cultura se torna um bem comum e se afirma comopatrimónio; neste processo comunitário de cultura, a partilha de uma língua e deum território são valores fundamentais, encontrando cada comunidade a sua própriaforma de cultura, o seu contexto identitário, a sua estrutura de pertença que permiteaos seus membros distinguirem-se dos outros indivíduos e das outras comunidades. O segundo aspecto, que denominou oikos, corresponde à ideia de território,e assume-se como o garante da continuidade; a terra é sentida como pertença, e acontinuidade da terra torna-se sinónimo de continuidade da comunidade. Outroaspecto é o tempo, chronos, que está profundamente interligado com a estruturaçãode uma cultura, e das três dimensões da temporalidade absoluta, são o passado eo presente, as que detêm um valor mais significativo na medida em que a culturapercorre o tempo como um legado geracional tomando a forma de traditio(Bernardi:1982).Os aspectos individuais da cultura consubstanciam-se em antropemas, ou seja,determinados princípios de interpretação que permitem ao indivíduo ou àcomunidade uma orientação nas suas escolhas e são a matriz de expressõesparticulares de cultura; quando os antropemas se articulam entre si de formasistemática originam os etnemas, ou seja, as manifestações colectivas da cultura. Pode-se, também, entender que a cultura é objecto de um contínuo processocom duas vertentes: de transformação, tanto interna, cuja emergência se deve tantoaos antropemas expressos pelos membros das comunidades, como pela aculturação;e de conservação, que se traduz na manutenção da integridade dos seus etnemasestruturais (Piteira:1999).A heterogeneidade cultural das sociedades em contexto pluriétnicoconsubstancia transformações no seio das culturas em contacto dando origem afenómenos de aceitação, rejeição e de adaptação ou adopção, em suma originandoprocessos de aculturação, simbiose e de sincretismo. Estes processos são diacrónicose embora intencionais por parte dos agentes portadores de transformação, são, nageneralidade, selectivos por parte da cultura receptora pois esta só assimila o quelhe é “útil” rejeitando o que lhe é contrário.No que concerne à identificação étnica e identidade cultural, neste tipocontextual, o que subjaz é a forma como o ‘eu’ se define perante o ‘outro’ nummesmo espaço comum e necessariamente partilhado, “Ethnic identities are productsof classfication, ascription and self-ascription and bound up whith ideologies ofdescent. From this point of view the study of ethnicity is related to the study ofideology and of cognitive systems. In this sense ethnicity is part of culture. It is alsoIrene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 70
  • PARA UMA LITERATURA DA IDENTIDADE MACAENSE – AUTORES/ACTORES71meta-culture in the sense that it is a reflection on what ‘our’ and ‘their’ culture isabout” (Vermeulen; in Barth:2000:4).Macau pode ser definido como o lugar de encontro de duas comunidadesque ao longo de séculos tiveram o destino conjunto de partilharem o mesmo espaço:a comunidade chinesa, maioritária, profundamente ligada à terra mãe que acabapor ser dominada administrativamente, mas não colonizada culturalmente. A culturadesta comunidade de chineses de Macau tem as especificidades próprias de umsincretismo cultural fruto de um contacto secular, a matriz é a milenar culturachinesa, sempre entendida pelos próprios como superior a todas as outras culturas;a comunidade macaense minoritária mas dominadora a coberto de um estatuto deportugalidade que lhe advinha da ascendência e de uma vivência cultural com fortesliames da cultura de origem dos seus avoengos; No entender de Brian O’Neill:… as comunidades crioulas – fruto da ligação entre duas ou maisculturas na sua origem – afiguram-se como ‘multiculturais’ no sentidode serem múltiplas desde a sua formação. Englobam e misturamdiversas culturas – dominantes, indígenas, subalternas – dentro de umsó grupo posterior. É esta noção que julgamos poder formar umaextensão do conceito de multiculturalismo critico-multiculturalismocrioulo, apontando para uma hibridização no interior do mesmogrupo étnico. (…) significa a transposição para o interior de um dadogrupo étnico de uma multiplicidade de culturas (O’Neill:2008:89-90).Uma comunidade mestiça resultado da transculturação caracterizada portraços identitários distintivos perante a outra comunidade: uma portugalidade maispressentida e assumida do que vivenciada; uma religiosidade de total pendorcatólico, mas experienciada de forma, por vezes, sincrética; uma língua pátria, aportuguesa, numa realização linguística dual variando de acordo com os níveis e osregistos: o português, próximo da norma mas com os laivos da especificidade noléxico, na morfologia e na estrutura frásica, realizado em situações de comunicaçãoformal; e o português crioulizado, ou até a língua doce crioula, língua íntima,familiar, o Patois ou Doci Papiaçam di Macau. Os macaenses partilham um conjunto de crenças, valores e representaçõesque consubstanciam o universo simbólico carreador do sentido e da coerência dasua existência; as representações desse universo simbólico dos macaenses, queperpassam nos textos dos seus autores, e que substanciam o seu construtoidentitário são, pois, a nossa matéria de análise.Irene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 71
  • PARA UMA LITERATURA DA IDENTIDADE MACAENSE – AUTORES/ACTORES73CAPÍTULO IV – DA LITERATURA MACAENSE |Falar da Literatura Macaense exige, antes de mais, a sua contextualizaçãono espaço cultural de onde emergiu. Assim, considera-se pertinente uma breveabordagem ao (possível) espaço cultural de Macau na medida em que não vemos aeventualidade de reconhecer a existência de um campo literário específico doterritório, pois como defende J.C. Venâncio, “Macau, dividido entre dois mundoslinguístico-culturais que entre si pouco ou nada comunicam, não cumpre, taiscritérios (…)”62 (Venâncio:2006:4).Até cerca da década de oitenta do século passado não existiam instituiçõesintegradoras da vida literária nem sequer se pode considerar a existência dessa vidana medida em que não existiam academias, escolas de estudos superiores, enfim,instituições e agentes do facto literário. Não houve sequer em Macau um grupo deliteratos macaenses que constituísse uma revista que a tornasse a sua voz, que criasseuma estética literária de matriz macaense como aconteceu em Cabo Verde com oMovimento Claridoso, através da sua Revista Claridade, que assumiu uma posição,embora efémera, no campo literário português através do reconhecimento dos seuspares na ‘metrópole’, os Presencistas da última fase do modernismo português, cujarevista Presença foi de fulcral importância na motivação e influência dos Claridosos.O Professor José Carlos Venâncio, a propósito da constituição de um cânonelusófono integrador das várias literaturas de expressão portuguesa, que emergiramnas regiões de miscigenação antiga no espaço atlântico, sublinha que “(…) talveznão seja por acaso que escritores oriundos destas regiões, herdeiros das matrizesmodernistas, vejam hoje, numa situação de pós-nacionalismo, os seus textosrecepcionados e valorizados mais em função do contexto lusófono do que________________62 Os critérios em causa são os que, segundo Bourdieu, consubstanciam a própria definição de Campo Literário(Bourdieu:1996).Irene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 73
  • MARIA BARRAS ROMANA74propriamente dos respectivos contextos nacionais”, referindo ainda que “(…)Henrique de Senna Fernandes, no que respeita à ficção, o mais prolífico e tambémo que apresenta a obra que mais se ajusta ao cânone ou percurso lusófono, o que (…) significa que por essa via, poderá a mesma ser mais valorizada”(Venâncio:2006:10).As escritas que foram surgindo na e da comunidade macaense foram avulsas,geralmente em verso e publicadas nos jornais, muitas vezes de forma anónima equase sempre em pátoà, o que teria o mérito de preservar a forma linguísticacrioulizante do território, mas teve o efeito perverso do auto isolamento; contudo,Macau tem uma história rica na actividade jornalística e esta riqueza permitiuidentificar uma pequena ‘bolsa’ espacial de produção cultural para a qual muitocontribuíram alguns ilustres da terra e outros igualmente ilustres que por Macaupassaram. De acordo com Montalto de Jesus, e de muitos outros estudiosos que nasúltimas décadas têm contribuído para um melhor conhecimento de Macau, aprimeira tipografia data de 1588, pertença da Companhia de Jesus e funcionava emprol da evangelização. Funcionou, também, em prol da memória dos primórdios deMacau, pois, a par dos textos doutrinários de carácter religioso chegaram, aopresente, documentos impressos descritivos de indiscutível valor informativo.Em 1967 é publicada uma obra intitulada Bibliografia Macaense63, da autoriade Gonzaga Gomes que tinha sido Director da Biblioteca Nacional de Macau; trata-se da compilação de todos os títulos publicados em Macau até àquela data. Nelapodemos encontrar, no título Publicações respeitantes a Macau e as que foramimpressas nesta Província, 1808 publicações; podemos ainda encontrar a relação dejornais publicados em Macau, cerca de sessenta, sua periodicidade, início e termode publicação assim como a quantidade de números. Apesar da precocidade naintrodução da tipografia, vicissitudes várias levam a que só em 1822 se publique oprimeiro Jornal “A Abelha da China” cujo responsável, o tenente-coronel Paulino daSilva Barbosa, era liberal e chefe do Partido Constitucional em representação dopartido homónimo do Reino. Por questões de alteração das motivações ideológicasdo poder em Macau este jornal é substituído em 1824 pela “Gazeta Macaense”, oque não obviou a que tivesse, igualmente vida curta, desaparecendo em 26. Duranteoito anos fica o território sem imprensa, mas entre 34 e 44 surgem nada menos queseis jornais, sendo “O Procurador dos Macaístas” o que perdura até 1845. Surgenovo interregno na actividade da imprensa, que volta a ressurgir com “OIndependente”, em 68. Contudo, este espaço temporal foi culturalmente importante________________63 A obra em apreço serviu de principal fonte a esta incursão numa tentativa de referenciar um espaço culturalem Macau.Irene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 74
  • PARA UMA LITERATURA DA IDENTIDADE MACAENSE – AUTORES/ACTORES75pois é em 1863 que se inicia a publicação de “Ta-Ssi-Yang Kuo”, um jornal semanáriocujo conteúdo integrava artigos sobre a história do Oriente português e a primeirapublicação em que aparecem os textos líricos, tanto em pátoà como em português,da autoria de membros da comunidade macaense.Em 1893, chega às bancas “O Echo Macaense”, o primeiro jornalsemanário luso-chinês e onde Sun Yat-sen escreveu algumas das críticas ao regimeimperial chinês (Pinto:93:12). Da Primeira República são os seguintes títulos: “OPortuguês”; “O Macaense”; “O Patriota”; “A Colónia” e “A Opinião”, “O Liberal”,de acordo com os ideários políticos dos seus directores; mas foi “A Pátria”, jornalcatólico, que tinha como colaborador Camilo Pessanha, o que teve mais impactoem temos culturais. Posteriormente é criado o primeiro diário, “O Diário deMacau”, por Damião Rodrigues, que foi Presidente do Leal Senado, e também oprimeiro director de um jornal em Macau a ser preso e desterrado para Timor,alvo da censura do Estado Novo, e a ver o seu Jornal encerrado. Era o Avômaterno de Henrique de Senna Fernandes (Pinto:93:12). Muitos outros jornais sepublicaram, sendo de destacar “O Clarim” com início em 1951 e que se mantémnas bancas e “A Gazeta Macaense” cujo primeiro número é de 1963 e tambémmantém a publicação.Encontramos, também, na referida obra, sob o título Publicações Periódicase Seriadas, uma lista de 158 revistas, boletins e anuários, com os temas por números.Deste modo confrontamo-nos com a existência de um Anuário de Macau cujapublicação se inicia em 1920 e cujos conteúdos temáticos versavam temas tãodíspares como a descrição dos correios e telégrafos ou um artigo da autoria de JackBraga “Some old tombstone in Macao. The East India Company’s Cemetery”; constaainda a publicação do ciclo de Conferências do Circulo Cultural de Macau, fundadoem 1950 e cujo órgão era a revista Mosaico que inicia a publicação no mesmo ano.De entre os seus fundadores encontrava-se o próprio Gonzaga Gomes. Esta revistaideologicamente próxima do regime era sem dúvida uma publicação de carizcultural, e nela encontramos uma profusão de textos literários de autores macaenses;assim como a revista Renascimento que a antecedeu (1943) e que teve comcolaborador Charles Boxer. Não pretendendo a referência exaustiva das publicações, sublinha-se contudoque do rol desta compilação não podemos deixar de registar aquela que nos pareceser a mais antiga revista mensal de cultura “Oriente”, (1915) edição da igreja católica,e que teve a colaboração de Wenceslau de Moraes, de Manuel da Silva Mendes,(que teve um papel fundamental no quadro educativo de Macau) e do, ainda naaltura, padre, D. José da Costa Nunes, Bispo de Macau (1920-1941).Embora não sendo por demais significativa, existia alguma actividade culturalem Macau, nomeadamente de carácter musical, sendo conhecidos alguns concertosIrene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 75
  • MARIA BARRAS ROMANA76que tiveram lugar no ‘Clube de Macau’ e no teatro D. Pedro V.64 Não podemos deixarde referir que o governo de Macau sempre foi o principal mecenas, senão único, naspráticas culturais e na produção dos bens simbólicos. Papel que foi, sobretudo noque à literatura respeita, de relevo nas duas últimas décadas da vigência portuguesaem Macau, num momento em que urgia a preservação das suas produções.As textualidades da Literatura Macaense nomeiam personagens, localizam asacções, constroem o tempo, numa enumeração incessante dos espaços tanto físicoscomo culturais, num apreender e reinventar de uma nova realidade de novosmundos e novas gentes. Constituem-se como textos narrativos ou líricos que contam,relatam sequências de eventos vivenciados por quem os escreveu, ou dos quaistiveram conhecimento por testemunhos orais, por partilha de memórias que permitea construção de um mundo idealizado que consubstancie uma, também, idealizadacomunidade; é a literatura que “reflecte as construções simbólicas que permite aosujeito reconhecer-se face aos outros” (Gilrroy:1994); talvez uma literatura que, maisdo que um lugar no mundo das escritas, almeje ser entendida como representaçãode uma identidade:Identities are therefore constituted within, not outsiderepresentation. They relate to the invention of tradition as much as totradition itself, which they oblige us to read not as an endlessreiteration but as ‘the changing same’ not the so-called return to rootsbut a coming-to-terms-with our ‘routes’. They arise from thenarrativization of the self, but the necessarily fictional nature of thisprocess in no way undermines its discursive, material or politicaleffectivity, even if the belongingness, the ‘suturing into the story’through which identities arise is, partly, in the imaginary (as well asthe symbolic) and therefore, always, partly constructed in fantasy, orat least within a fantasmatic field (Hall:1996:4).A literatura macaense, ou a literatura realizada por autores macaenses é,porventura, escassa e pouco conhecida fora da própria comunidade, embora tenhahavido na última década da administração portuguesa um investimento editorial65que permitiu alguma visibilidade a alguns dos seus autores; não deixa, contudo, deser uma literatura ‘solitária’:Mas a verdadeira solidão está no facto de não haver uma literaturaportuguesa, na acepção mais comum da palavra. Existiram sempreescritores em língua portuguesa, mas em Macau nunca houve uma________________64 A partir da década de oitenta Macau (1987), através da Secretaria Adjunta da Cultura inicia o FestivalInternacional de Música, evento que tem sido continuado com o Governo da RAEM. 65 Por parte das instituições públicas, pois os editores privados não consideraram a sua pertinência. Irene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 76
  • PARA UMA LITERATURA DA IDENTIDADE MACAENSE – AUTORES/ACTORES77comunidade literária portuguesa. Os livros que se lêem em Macau sãode autores oriundos do exterior. Durante a administração portuguesahouve uma actividade editorial mais intensa. Não obstante ter havidopublicação de obras de natureza vária, estava-se longe de se falar deuma literatura macaense. Neste ambiente, escrever é penosamentesolitário. O que vale é a paixão e a persistência em construir o meuespaço, o meu mundo, em que eu me sinta plenamente realizado.66Este sentimento de quase abandono que perpassa neste testemunho, e queé uma constante em Senna Fernandes, consubstancia o ‘inconformismo macaense’o que, segundo Venâncio, “traduz a consciência, a par de um patriotismo afirmado,do não aproveitamento das capacidades locais em prol de um futuro melhor paratodos” (Venâncio:2006:1).1. Literatura macaense – que literatura?Em Macau nunca houve condiçõespara desenvolver uma verdadeira literatura macaense.(H. de Senna Fernandes:2010)Em que literatura se poderá integrar a literatura macaense? A integração daliteratura macaense, como aqui é entendida, na literatura portuguesa é controversa,e de facto não faz parte do campo literário português, por razões que se prendemsobretudo com o acervo literário produzido no território, o que pode justificar a suanão integração no cânone nacional, sobretudo se atendermos à definição de cânonede Lauter (Lauter:1991:IX), já referido; embora a produção dos Macaenses se possaconsiderar de interesse cultural e constitua parte dos bens simbólicos de Macau (nãonos referimos só à ficção pois, por exemplo, a obra de Luiz Gonzaga Gomes contémriquíssimo manancial do ponto de vista da investigação sobre o oriente, sendopraticamente desconhecida em Portugal), o facto é que, salvo raríssimas excepções,nunca fez parte dos circuitos editoriais de comercialização, o que leva à distinçãoentre o que se constitui como as produções literárias dos autores macaenses67 e asobras produzidas em Macau por outros escritores. Poderia ser embrião de uma literatura nacional emergindo numa situação dodespontar de um novo estado/nação. Mas, não é o caso; o Macau textualizado, emtodas as suas dimensões, por macaenses foi um fenómeno que surgiu, predominantemente,________________66 Henrique de Senna Fernandes; entrevista a Miguel Conde: Prosa & Verso (suplemento literário digital de “O Globo); Rio de Janeiro.67 Os filhos da terra, macaenses strictu sensu de acordo com a escolha do Professor José Carlos Venâncio.Irene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 77
  • MARIA BARRAS ROMANA78na segunda metade do Século XX com uma maior incidência nas duas últimas décadas,foi, talvez a forma de fazer perdurar o lugar/emoção, a Mátria, o reforçar de um traçoidentitário que, tal como o renascer do pátoà, a partir de 1994, se deveu à emergênciada distinção da comunidade como única, num momento em que o quadro político-administrativo obrigava os seus membros a tomar consciência da perda.68Poder-se-ia considerar como parte integrante de uma literatura regional, namedida em que esta forma particular de entender se deve ao pressuposto genéricoque consubstancia um tipo de literatura produzida numa determinada área geográficae cultural, remetendo-nos para a dicotomia urbano/rural, no sentido em que denotaum fenómeno específico de manifestação local integrada e referenciada como variaçãode uma literatura nacional. No âmbito da literatura portuguesa, considera-se doismomentos estético-literários no que concerne à integração de obras na denominadaliteratura regional: um primeiro momento associado à estética romântica, onde seconstata as idealizações dos lugares ligados a imagens imbuídas de saudosismo eassociados à nostalgia do universo rural, numa versão do imperium/otium horaciano;o segundo momento enquadra-se na estética realista cuja preocupação temáticafocalizava a descrição das terras e das gentes, não no sentido de descoberta exótica, mascom o intuito de reflectir a condição humana, ao textualizar as assimetrias entre espaços,investigando o homem na sua relação com a paisagem, reportando a variação linguística,a realização cultural, utilizando na discursividade as particularidades das regiões.A expressão literária de especificidades locais tende a ser instrumento depreservação de formas identitárias próprias, configurando-se como referencial detensões entre um mundo urbano, globalizante e descaracterizador, e a manutençãode uma interioridade ritualizado pelo tradictio, que se debate contra o esquecimentoe a invisibilidade. Embora com características de literatura regional, na medida emque traduz especificidades locais, expressa momentos históricos69, realidades sociais,dando-nos a impressão da ‘cor local’, as escrituralidades dos macaenses transmitem-nos, sobretudo, as histórias de vida, as imagens identitárias de um território/de umacomunidade. São as intersecções, as partilhas de culturas, toda uma construçãourdida no contacto de vidas experienciadas, de escolhas, transformações e rejeições,profundamente ligadas a um pedacinho de chão que abrigou num determinadoinstante um povo de identidade arlequinada.70________________68 Os vários momentos de indefinição depois de 1887 - Declaração de Amizade, a primeira tomada de consciênciaque Macau era um lugar imaginado e transitório como lugar de pertença. Declaração Conjunta, 1987 estabeleceo prazo final de entrega do território à China.69 A realidade do universo social de uma região, num determinado momento histórico, foi-nos transmitidaexemplarmente por Aquilino Ribeiro nas suas obras, consideradas durante muito tempo como formas literáriasregionais (e até, por isso, menores) embora hoje esse entendimento não encontre, nem eco, nem justificação.70 Termo utilizado por Derrida ao reflectir sobre o hibridismo étnico quando utiliza a analogia com a tatuagem:“[na tatuagem] o sangue mistura-se com a tinta para deixar ver todas as suas cores [resultando] uma novacomposição corporal que deixa à mostra uma identidade arlequinada” (Derrida:1996 b): 86).Irene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 78
  • PARA UMA LITERATURA DA IDENTIDADE MACAENSE – AUTORES/ACTORES79A literatura macaense constitui-se, pois, como uma literatura, outra, resultadode vivências, outras, fruto de uma comunidade inserida numa realidade socioculturaldiferente e “ganharia se fizesse parte do cânone lusófono”71 na medida em que asua integração num espaço literário de língua portuguesa projectado como veículode culturas, dado que na sua interacção partilham muitos dos fios de uma mesmatessitura, permitiria uma maior visibilidade da comunidade macaense em diáspora.2. A genologia do CorpusAs obras literárias constituintes de parte significativa do corpus integram-senos dois géneros que mais se aproximam: o romance e o conto; tradicionalmenteherdeiro da literatura oral, o conto identifica-se por ser uma narrativa curta; focando,geralmente, um episódio, um caso humano ou uma situação exemplar. Caracteriza-se por uma forte concentração da intriga (unidade de acção), uma forteconcentração do espaço (unidade de espaço), uma forte concentração do tempo(unidade de tempo), por um número reduzido de pausas descritivas, relevandosignificativamente os espaços de diálogo; consubstancia uma intensidade afectivadevido à concentração de acontecimentos no tempo e no espaço. O conto, “(…)em última instância, desloca-se no plano humano em que a vida e a expressão escritadessa vida travam uma batalha fraternal, se me permitem o termo; e o resultadodesta batalha é o próprio conto, uma síntese viva e ao mesmo tempo uma vidasintetizada, algo como o tremor de água dentro de um cristal, a fugacidade numapermanência” (Cortázar:1986:147-163). Os contos que integram o corpus são amaterialização do citado; são estórias-memórias.72O romance surge em contestação a toda a fundamentação teorética eagregando em si vários subgéneros num hibridismo genológico. Considerado porHegel como a ‘moderna epopeia da burguesia’ ou como género autónomo ‘cujaoriginalidade consiste em ser a antítese da epopeia’, de acordo com Bakhtin, há semdúvida particularidades no género romance que substantivam a sua diferença e quese prendem com o facto de ser o género literário que melhor representa o dialogismoentre a literatura e a sociedade. A obra literária, através dos seus modos de representação, liga-se à sociedadee à história; o escritor, vivendo num tempo e num espaço concretos, em diálogocom a sua cultura e com o imaginário que a consubstancia, representa uma________________71 Opinião expressa pelo Professor José Carlos Venâncio. Ainda a propósito deste tema, Venâncio; “Naimpossibilidade de se equacionar (…) um campo literário macaense, a valorização das obras literárias em línguaportuguesa produzidas em Macau ou ao território referidas continuará a processar-se através da sua indexação,ou à tradição literária portuguesa ou (…) pelo cânone das Literaturas africanas e asiáticas em língua portuguesa(…) cânone lusófono” (2006:5).72 No que concerne aos contos de Senna Fernandes.Irene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 79
  • MARIA BARRAS ROMANA80mundividência onde transparece a relação com o seu tempo e espaço histórico; essedialogismo relacional pode estar imbuído de representações (tanto de formaimplícita como por vezes explicitas) dos temas figuras e eventos, figurações docontexto sociocultural e histórico, i.e., do mundo real do escritor.Considera Bakhtin que o dialogismo inerente às diversas esferas da actividadehumana carreia modalidades comunicativas infinitas, que consubstanciam infinitasformas de discursividades; uma delas, a narrativa literária que se realiza através daprosa romanesca tem acumulado diacronicamente elementos que permitemcompreender aspectos do mundo contextualizadores de épocas específicas eperspectivadores do devir histórico; sendo o romance o único género que melhorpermite a visualização do decurso, de parte da humanidade, através das suasrepresentações culturais e sociais (Bakhtin:1981).A obra literária, embora através dos modos de representação, dialoga com asociedade e com a história. O seu autor, vivendo num tempo e num espaço concretosem dialogismo com a sua cultura e com o imaginário que o substancia, representauma cosmovisão reflectora da relação com o seu tempo e espaço histórico. Dessacosmovisão, mundividência ou visão de mundo, emergem temas e valores relativosao mundo, aos seus problemas e contradições. Um aspecto da cosmovisão prende-se com o modo que enforma o dialogismo entre autores/escritores e o seu contextosociocultural e histórico, podendo resultar em representações explícitas de figuras eeventos, embora a interacção da obra com o seu tempo sócio-histórico não tenhanecessariamente, do ponto de vista da cronotopia, de ser expressa.O texto narrativo literário caracteriza-se fundamentalmente pela forma comoé enunciado: um narrador, explicitamente individuado ou reduzido ao grau zero deindividuação, funciona em todos os textos narrativos como a instância enunciadoraque conta uma história – relata uma sequência de eventos ficcionais ou ficcionados,originados ou sofridos por agentes ficcionais antropomórficos ou não, individuais oucolectivos, situando-se tais eventos e tais agentes no espaço de um mundo possível.73Manifesta-se no texto narrativo uma necessária polaridade entre autor textual eo mundo narrado – o desígnio central que rege o romance é a vontade de construirum mundo possível que possua nítida independência em relação ao romancista –desígnio de objectivar na escrita acontecimentos, estados, personagens e coisas, ou sejaconstruir um universo diegético. Entre este mundo construído e o romancista podem-se estabelecer múltiplas relações axiológicas – ódio, indiferença, nostalgia, ternura, etc.– mas, estas relações não aniquilam a fundamental alteridade das produções________________73 Tais eventos, segundo Lubomir Doležel, estão semântica e pragmaticamente submetidos às restrições modais.A relação das estruturas narrativas com sistemas lógicos modais possibilita distinguir segmentos atómicos ouelementares (Doležel:1989). No entender de Gerard Genette o mundo possível assim considerado consubstanciao universo diegético no romance.Irene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 80
  • PARA UMA LITERATURA DA IDENTIDADE MACAENSE – AUTORES/ACTORES81romanescas ante o seu autor textual e o seu autor empírico. A presença ou ausênciado autor empírico na sua obra (problema debatido entre os partidários do romancesubjectivo e do romance objectivo) não constitui entrave para a apreciação da alteridade.Os heróis dos romances podem constituir, como referiu André Malraux(Malraux:1977:130-132), virtualidades do seu autor, projecções dos seus estados deconsciência, mas deve-se reconhecer que, todavia, não se trata de um processoprodutor identificável, pois, uma exigência fundamental do romance consiste emconstruir um mundo peculiar povoado de personagens secundárias e heterogéneasirredutíveis a projecções de estados de consciência do autor.O romance consubstanciou a mais profunda e sensível representação daevolução da própria realidade humana, na medida em que só o que evolui podeentender a evolução (Bakhtin:1981); ao representar o presente vulgar, instável etransitório e elegendo-o como forma primordial de temporalidade, recriou o próprioconceito nocional de tempo inscrevendo-o no espaço da representação.3. A dimensão cronotópica das narrativasTodo o texto narrativo, independentemente dos sistemas semióticos quepossibilitam a sua estruturação74, especifica-se por nele existir uma instânciaenunciadora que relata eventos reais ou fictícios que se sucedem no tempo; aorepresentar eventos que constituem a passagem de um estado para outro estado, otexto narrativo representa, também, necessariamente estados originados ou sofridospor agentes antropomórficos ou não, individuais ou colectivos e situados no espaçodo mundo empírico ou de um mundo possível. Nos estudos literários o cronótopo75 é entendido como uma categoriaconteúdistico-formal facilitadora da análise do decurso de apropriação do tempo edo espaço e da integração do indivíduo histórico real; permite a materialização dotempo no espaço, a visibilidade do tempo através do espaço; sendo um factoressencial na caracterização do género, na medida em que literatura é umamanifestação verbal vinculada pela dimensão temporal carreadora derepresentações.76________________74 A narratividade pode-se manifestar em textos dependentes de diversos sistemas semióticos: os textos narrativosverbalmente realizados constituem apenas uma classe dos textos narrativos possíveis, pois existem tambémtextos narrativos não-verbais – na pintura, escultura, mímica, dança, cinema mudo – e textos narrativos que sóem parte são verbalmente realizados – cinema falado, ópera, banda desenhada.75 O conceito de cronótopo tal como é entendido neste subtítulo deve-se a Bakhtin; refere-se ainda que a fonteprincipal para a elaboração da dimensão cronotópica das narrativas foi “Forms of time and the chronotope inthe Novel” (Bakhtin:1981:84-258).76 “That it is precisely the chronotope that defines genre and generics distinctions (…) the chronotope as a formallyconstitutive category determines to a significant degree the image of man in literature as well the image ofman is always intrinsically chronotopic” (Bakhtin:1981: 85).Irene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 81
  • MARIA BARRAS ROMANA82Assim a ideia de representação encontra-se na entidade a que Bakhtindenominou de cronótopo horizontal, caracterizador do género romance, onde oespaço e o tempo são produtivos e evolutivos; o tempo real consubstancia uma novamoldura do mundo e a representação atende ao movimento da humanidade, nosentido do devir, percorrendo a horizontalidade do tempo histórico. “We will givethe name chronotope (literally ‘time space’) to the intrinsic connectedness oftemporal and spatial relationships that are artistically expressed in Literature (…) Weunderstand the chronotope as a formally constitutive category of Literature”(Bakhtin:1981:84).77A dimensão cronotópica das narrativas respeita à interacção da obra literáriacom o seu tempo sócio-histórico, independentemente das referências expressas, nanarrativa, a esse tempo. No romance é possível encontrar a correlação essencial dasrelações espácio-temporais tal como foram assimiladas pela literatura.78 O homemsitua-se necessariamente na temporalidade e entre temporalidade e narratividadehá uma inderrogável relação recíproca. Por outro lado, a narratividade encontra-seintimamente correlacionada com o conhecimento que o homem possui e elaborasobre a realidade.A representação do tempo é um elemento fundamental no texto narrativo:o tempo-cronologia, que marca a sucessão dos eventos do tempo-duração quemodela e transforma os agentes; do tempo histórico que subsume o tempocronológico e a duração, que configura e desfigura os indivíduos e as comunidadessociais “The adventure chronotope is thus characterized by a technical abstractconnection between space and time, by the reversibility of moments in a temporalsequence and by their interchangeability in space” (Bakhtin:1981:100). O tempocomo horizonte existencial, físico e metafísico do homem, agente de toda anarrativa. Por outro lado, a sequência de eventos e os agentes do texto narrativosituam-se num espaço, físico e social, com os seus condicionalismos, as suas leis,convenções e valores – um espaço sempre interligado com o tempo, em particularcom o tempo histórico, gerador e modificador da cultura. No romance os aspectos sociais, ou mesmo individuais, e o dialogismocarreiam formas, temporalmente contextualizadas no ambiente social, sendo________________77 Na sua conceptualização de cronótopo, Bakhtin explica que se inspirou na definição Kantiana (Critica da razãoPura) de espaço e tempo como formas indispensáveis no processo cognitivo gerador de percepções e derepresentações; contudo, ao contrário de Kant que considerava o processo transcendental, Bakhtin entendeque as formas advêm da mais imediata realidade, daí considerar que o espaço e o tempo desempenham umpapel fundamental no processo de concretização cognitiva artística carreador do sentido da realização dogénero romance (Bakhtin:1981:84).78 Não pondo de parte a conceptualização da estrutura representativa da obra literária, Bakhtin estabelece uma relaçãoentre cronótopos reais, reflexos e criados/imaginados. Para o autor toda a arte é representação, não um reflexoexato, mas um reflexo retocado que permite a invenção sem contudo substituir a vida. A obra e o mundo do qualela dá a imagem, penetram no mundo real e enriquecem-no e, naturalmente o contrário (Bakhtin:1981:259,422).Irene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 82
  • PARA UMA LITERATURA DA IDENTIDADE MACAENSE – AUTORES/ACTORES83através do discurso diegético, sobretudo nas denominadas pausas descritivas79,que se constrói o significado do romance como cronótopo. O processocronotópico que se verifica no género romance, consubstanciado pela relaçãoespacio-temporal reportado ao indivíduo histórico real subjaz às próprias formasdiacrónicas que permitiram a tipificação do romance de acordo com astemáticas desenvolvidas; assim, através de significações figurativas docronótopo os acontecimentos emergem em temporalidades reportadas aespecíficos espaços e é possível identificar cronótopos de acordo com os tiposde romance.80Nas narrativas de Senna Fernandes esta dimensão emerge numa relaçãoconstante entre o passado e a presente reportada aos espaços caracterizadores deidentidade:Isto passava-se no terceiro quartel do século XVIII. (…) Tanto elescomo o pai, ex-grumete, participaram, sob o comando do OuvidorArriaga, na acção contra o pirata Cam Pou Sai, ao largo da ilha de LinTin. Voltaram triunfantes, com fama de valentes e façanhudos.Dedicaram-se à profissão de lorcheiros. Nessa altura, as lorchas deMacau, comandadas por macaenses, de cuja tripulação faziam partetambém chineses, tinham adquirido celebridade na luta persistentecontra a pirataria que infestava as cercanias dos portos ribeirinhos doImpério do Meio (Senna Fernandes:1994:13).Nos dois primeiros romances assiste-se, também, a uma deriva entre a‘cidade cristã’ e a ‘cidade chinesa’, por parte dos protagonistas como se, nasua “estrada da vida”, só atingissem a completude através da passagem pela‘cidade chinesa’, e o retorno à ‘cidade cristã’ constituísse o encontro consigomesmos. Em Amor e Dedinhos de Pé, Francisco Frontaria, o protagonista, um filho– família da ilustre sociedade macaense, surge ao leitor em roupagens de pedintefazendo incursões breves no Macau Cristão, que o renega, escondendo-se noporto interior, o então coração da cidade chinesa, que, igualmente, o rejeita. As________________79 A descrição, segundo P. Hamon, é “ o lugar onde a narrativa se interrompe, onde se suspende, mas igualmenteo espaço indispensável onde «se põe em conserva», onde se ‘armazena’ a informação onde se condensa e seredobra, onde personagem e cenário, por uma espécie de ‘ginástica’ semântica (…), entram em redundância:o cenário confirma, precisa ou revela a personagem como feixe de traços significativos simultâneos, ou entãointroduz um anúncio (…) para o desenrolar da acção (…)” (Hamon:1976:81).80 Alguns dos tipos de cronótopos identificados por Bakhtin foram: do encontro (primeiramente identificado naepopeia), da estrada, do castelo, do salão, da praça pública, da cidade de província; etc. O autor refere, porexemplo, que: “of special importance is the close link between the motif of meeting and the chronotope ofroad (the ‘open road’) and of various types of meetings on the road. In the chronotope of the road in literatureis immense. (…) The motif of meeting is the one of the most universal motifs, not only in literature (…) butalso in others areas of culture and in various spheres of public and everyday life (…) the concept of contact isequivalent in some degree to the motif of meeting” (Bakhtin:1981:98,259-440).Irene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 83
  • MARIA BARRAS ROMANA84pústulas morais, mais do que as físicas que o mortificam, foram a razão doostracismo da sua comunidade:Perdida a casa, arrendou um andar na berma da «cidadechinesa», lá para os lados da rua das Albardas, onde acoitou o pesoinfeliz do seu corpo (AdP:1994:59).Falou a um catecúmeno chinês, que, por sua vez, falou a umparente, para arrendar um cubículo na «cidade chinesa», num dosbecos perto da rua das janelas verde (AdP:1994: 60).A sua origem, a pertença a uma comunidade, outra, é a razão doschineses:Chico não gozava de simpatia nenhuma ali dentro. Nãogostavam do «europeu», mas como era pertença da mulherona,tinham-se resignado a aturá-lo (…) (AdP:1994:86).Juntara-se a ele para ter um companheiro, mas esse homeminútil, de uma raça que não era a sua, classificara-se há muito comoum fardo pesado (AdP:1994:94).Francisco perde as referências, perde a identidade quando é ‘expulso’ dacidade cristã e só o retorno, pela aceitação, o leva ao encontro de si, da suaidentidade. No Romance A Trança Feiticeira, também o protagonista, Adozindo, buscana cidade chinesa o refugio para a intolerância dos seus pares, mas só o retorno ocompleta. Adozindo casa, contra a vontade dos pais, e sob o olhar de reprovaçãoda comunidade, com uma rapariga da cidade chinesa; é nela que tenta viver coma sua família, mas é ao outro lado da cidade que ele pertence, e é essa a ‘estrada’que ele percorre e que o leva ao seu próprio encontro. Em ambos os casos, oencontro com o lugar do passado permite aos dois protagonistas cumprirem o seupresente. No romance Os Dores, a Grande Guerra e os refugiados em Macau dão-nos a dimensão cronotópica da obra no seu entendimento histórico e tambémno seu alheamento “A Grande Guerra, cujos ecos mal tinham penetrado noconvento, findara já e ficara para trás. A horrorosa hecatombe decorreradespercebida para ela e suas companheiras. (…) Não sabiam o que eram aviões,obuses, gases asfixiantes, a guerra das trincheiras e a revolução bolchevista noImpério Russo. Efeitos directos do conflito, aliás quase não foram sentidos naTerra do Santo Nome de Deus (…)” (Os Dores:73), na medida que, só de formaindirecta esta referencialidade ao mundo real é revelada porque directamenteimbricada com os percursos de vida da protagonista, cujo devir se traduz numa relação topos afetivo, cronos objectivo: os lugares da infelicidade/sobrevivência/rejeição, representados pelas matas de Coloane, e os fundos da casaIrene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 84
  • PARA UMA LITERATURA DA IDENTIDADE MACAENSE – AUTORES/ACTORES85da calçada de Stº Agostinho, pertença da Família Policarpo, num Macau invisívela seus olhos, inseridos no cronos objectivo da infância; e os lugares de dicotomia/antinomia felicidade/infelicidade; rejeição/aceitação, infelicidade/emancipação –consubstanciados nos percursos da cidade: o convento das canossianas; o atelierde costura onde a protagonista é confrontada com o advento da modernidadeatravés dos ecos da revolução na moda feminina; o cinema e os estrangeirosrefugiados/hospedados no hotel Bela Vista e que carreavam hábitos diferentes(tomavam banho na praia de S. Pedro e as mulheres fumavam em público), e atravessa do Sancho Pança, na orla da ‘cidade chinesa’, associados ao cronos daadolescência e da maturidade.São retratos de um tempo de relação das histórias com o tempo histórico osque podemos registar em Amor e Dedinhos de Pé (p.14-15):A Guerra do Ópio, a fundação de Hong Kong e o rápidodesenvolvimento da colónia inglesa foram um golpe fatal tanto paraa empresa lorcheira dos Frontaria como para os outros que sededicavam à mesma profissão. Os ingleses, dotados de melhoresmeios e de navios mais eficientes, como canhoeiras, corvetas eescumas, substituíram o papel dos lorcheiros macaenses (…) Macauaté então o único entreposto ocidental na costa da China perdeu parasempre o seu lugar proeminente. Hong Kong abrira-se ao progresso,era um novo Eldorado (…). A Revolta dos Faitiões, o assassínio dogovernador Ferreira do Amaral e a incursão de Vicente Nicolau deMesquita ao Passaleão provocaram uma sensação de mal-estar (…)Iniciou-se uma enorme imigração, a primeira, do macaense para anova colónia (…) entre os emigrantes figuravam os Frontarias deterceira e quarta gerações.Ou ainda nas significativas referências ao real, presente histórico, em A TrançaFeiticeira, actualizando-o, tanto através da ‘notícia’, como de intervenções daspersonagens, não só no que respeita a factos internos: “Às cinco e quarenta e cinco da manhã do fatídico dia 13 deAgosto de 1931, no fim de uma aurora radiosa, uma horrendaexplosão abalou a cidade de lés-a-lés. Portas e janelas escancararam-se violentamente com a deslocação do ar, acompanhada daestridência de vidros desfeitos em fanicos. (…) O paiol da Guia, nosopé da Colina, perto da fonte da Solidão, fora pelos ares. (…) Adevastação fora terrível. O elegante Palacete de Verão do Governador,mais conhecido pelo Palacete da Flora, o Quartel e o casario dascercanias estavam reduzidos a escombros, outrotanto o bairro de LongTin. (…) Viveu-se um dia de terror (…) mortos, onze portugueses,Irene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 85
  • MARIA BARRAS ROMANA86contando com a sentinela africana do paiol, (…) chineses, cinquentae dois” (p.37).81Como, aqueles que, apesar de externos, lhes eram circundantes: “Apanhandoa conversa dos transeuntes, aqui e ali, falava-se da nova guerra entre chineses ejaponeses, numa região longínqua chamada Manchúria. Ninguém parecia muitoexcitado ou alarmado, mas rugiam palavrões de ódio contra o inimigo (…)” (p.82).De modo semelhante, em Os Dores, no tempo histórico que perpassa pelotempo do narrado, nas quase três décadas em que a estória se vai entrelaçando nahistória e nos mostra a alteração subjacente à mudança que a Grande Guerraconstituiu:Efeitos directos do conflito, aliás quase não foram sentidos (...).Aparentemente não houve alteração nenhuma. (…) O termo daguerra produziu, porém, uma solução de continuidade com o mundoantigo, ciosamente preservado, que parecia eternizar-se até aí. Agorasoprava um vento imparável de modernidade. Os navios mercantes(…) invadiam de novo os oceanos (…) e restabeleceram as tradicionaisvias de comunicação, ou criavam outras. Traziam nos seus porões (...)novidades chocantes – modelos de automóveis nunca vistos, aparelhoseléctricos, gramofones e grafonolas (…) (p.74).E a narrativa reporta-nos, também, a concomitante mudança, lenta,de mentalidades:Os Padres trovejavam no púlpito das igrejas contra o risco dadevassidão grassar na terra abençoada de Deus, os chefes de famíliaintransigentes pronunciaram catilinárias contra a ameaça de se instalaruma nova Babilónia em Macau. (…)O conservadorismo monolítico abria, porém, brechasimpossibilitado de lutar contra as influências exteriores. A mudançanas mentalidades era um facto e não havia meio de a deter (…) oelemento mais corrosivo era o cinema (…) (Os Dores:74-75).Apesar de as outras obras do autor não serem romances, mas contos,alguns quase novelas, o que, de certo modo, constrange a possibilidade de umolhar cronotópico, constata-se que a dimensão de tempo que as consubstancia seconstituí na relação passado/presente, e a de espaço se plasma no jogo entre apátria e a mátria, sendo os lugares da pátria os do presente enunciativo donarrador/autor mas com a valência de evocativos de memória e saudade dolugar/território/mátria:________________81 Este facto vem referido na Cronologia da História de Macau do seguinte modo: “1931–(VIII-13) – Uma explosãono Paiol Novo da Flora provocou 24 mortos e 50 feridos e destruiu completamente o Palacete da Flora. Váriascasas ficaram em ruinas ou danificadas num raio de 500 metros” (Basto da Silva:1997:271).Irene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 86
  • PARA UMA LITERATURA DA IDENTIDADE MACAENSE – AUTORES/ACTORES87(…) Estava agora diante do café suíça, café onde sempre,invariavelmente, encontrávamos gente de Macau (…) reconheci-ologo alvoraçado. Era o Alberto (…) O almoço foi opíparo e escolhidopara deixar uma grata recordação. Entre dois macaensesinevitavelmente a conversa teria que recair sobre coisas e loisas daterra do berço comum (…) passamos a recordar os natais em Macau,com os seus costumes e tradições (…) falamos dos pitéus e guloseimasmacaenses (…) (Mong-Há:9).82De modo igual a abordagem ao livro de contos de Deolinda da Conceição nãopode ser feita de acordo com a categoria cronótopo como a entendeu Bakhtin, contudo,consideramos que a dimensão temporal e a dimensão espacial, sobretudo no queconcerne ao tempo histórico que abrange um dos períodos mais importantes da históriada China [contemplando a invasão japonesa, a Segunda Guerra Mundial, a segundaguerra civil chinesa e a instauração da República Popular Chinesa (1949)], sensivelmente,de 1937 até aos inícios de 1950 são muito importantes para o entendimento douniverso feminino, matéria literária dos Contos, sobretudo aqueles que retratam amulher chinesa do continente e o confronto entre um mundo de tradições milenares eigualmente milenares entendimentos sobre o feminino, com os outros mundosantevistos, apesar das guerras, antes da China se voltar a fechar ao mundo.Nestes contos encontra-se, através das trajectórias individuais das personagens,o emergir de uma ainda incipiente transição de uma sociedade tradicionalmentepatriarcal «patrilineal, patriarchal and patrilocal» (A. Wong:1979) para uma novaforma de entendimento societário promotor da lenta caminhada no sentido de darcorpo ao entendimento da mulher como algo mais do que objecto ou mercadoria.83________________82 No nosso entender a utilização, pelo autor, do deítico de tempo ‘agora’ a seguir ao pretérito imperfeito, noinício deste excerto, consubstancia uma aspetualidade verbal passível de ser entendida como o presente dopretérito na linha temporal da enunciação. 83 As relações familiares e o papel da mulher na sociedade chinesa imperial, nomeadamente durante a dinastiaQuig tem sido abordada tanto pelo olhar ocidental [Weber:(1916) 1968; Baker:1979; Levy:1966; Ebrey:1991;M. Wolf:1972, 1987; Stafford:1995…], como pelo olhar dos próprios chineses [Hsu:1971; A. Wong:1979;Huang: 1980]; também as alterações sociais no que respeita à mesma temática têm sido alvo de váriasinterpretações tanto exógenas como endógenas [Croll:1978; Stacey:1983; Meijer; Evans:1997; Wu:1992…],daí que entendemos considerar uma das obras mais recentes de Norman Stockman que faz a síntese destasvisões. Assim, e de acordo com o referido autor: “In pre-revolutionary Chinese society (…) Chinese family lifewas traditionally structured as a series of hierarchical and reciprocal relationships, according to the principlesof generation, age and sex (…) Women were theoretically subordinate to men in all family relationships,normatively expressed in the doctrine of ‘three obediences’: as a daughter a woman should obey her father, asa wife should obey her husband, as a widow she should obey her son who succeeded his father as head of thefamily (…) Children were socialized and educated within the family household where they learned the implicitelements of ‘Confucian’ social theory in the maintenance of harmonious family relationships (…) and daughterswere socialized to accept that their fate was to leave home and marry into a family of strangers. (…) Thetraditional family system came under particular attack from younger reformers and revolutionaries (…) Ba Jin’snovel The Family, set at the time of the May Fourth movement, and published in the 1930s, represented thestruggle of the younger generation to free itself from the shackles of the Confucian family system and was aclarion call for change” (Stockman:2000:94-102).Irene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 87
  • MARIA BARRAS ROMANA88Os percursos da história, e mesmo da memória, que percorremos nestasobras, ligam o tempo cronologia ao tempo da história, no espaço/lugar que é maisemotivo que físico, e documentam as vivências de momentos áureos dacomunidade/território ou as vicissitudes de uma guerra mundial que os transfigurou;mas, também, em permanente jogo de encontros e desencontros, nos encaminhapara a fragilidade sentida numa lenta mas perceptível mudança, para o fim da estrada,numa alteração da imagem do espaço, em cotejos de passado/presente,apontamentos da especificidade de uma comunidade única.4. A literatura como construto da Identidade“Macaense/ que te (in) defines/ pelo não ser bem/ que tambémnão és, bem.../ um mais ou menos/ entre dois polos/ que seatraem/ e se repelem/ pela diferença/ no desconhecimento/divergente./ Fronteira difusa/ num mar de gente,/ tão transparente/e frágil que se esquece./ Por ti passam/ calcando,/ e tropeçam/ nogemido/ silencioso / e sentido./ Miragem/ de olhos postos noOcidente/ e coração suspenso./ A queda livre,/ no abandono/ deum voo/ sobre o mar/ difuso/ difuso/ a apagar-se...” (Cecília Jorge).Numa abordagem genérica, a literatura macaense pode ser entendida comouma discursividade que se consubstancia na interacção de duas culturas diferentes,na qual subjaz a estratégia de integração de uma nova cultura parcialmentedesenraizada da cultura de origem. Assim ao textualizar a relação com o Outro, aorepresentá-lo, a literatura, não só, constitui um dos seus elementos fundamentais,como permite representar a realidade cultural alógena através da qual se constrói apercepção da imagem de si mesmo.84Olhar a identidade como uma construção discursiva cuja tessitura é urdidapelos liames que permitem a (auto) distinção e o (auto) (re) conhecimento, sendo aliteratura um dos veículos de construção e manutenção da identidade.85 A identidadeconstrói-se pela partilha das significações que contextualizam o indivíduosocialmente. Essas significações congregam o sentimento de pertença e subjazem àdefinição dos traços distintivos (como a etnia que segundo Hall constitui-se nascaracterísticas culturais que permitem a identificação de uma comunidade comoúnica: a religião, o costume, tradições e o sentimento de lugar que permitem aoindivíduo reconhecer-se como parte integrante de uma comunidade). A identidade________________84 “Identity is always a temporary and unstable effect of relations which defines identities by marking differences”(Grossberg in Hall:1996:90).85 “Identity is a structured representation which only achieves its positive through the narrow eyes of the negative.It has to go through the eye of the needle of the other before it can construct itself” (Hall:1991:21).Irene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 88
  • PARA UMA LITERATURA DA IDENTIDADE MACAENSE – AUTORES/ACTORES89é um lugar que se assume, uma amálgama de posição e contexto; de todo se podeconsiderar uma essência ou substância a ser analisada:Identities are therefore constituted within, not outsiderepresentation. They relate to the invention of tradition as muchas to tradition itself, which they oblige us to read not as an endlessreiteration but as ‘the changing same’ (Gilrroy:1994): not the so-called return to roots but a coming-to-terms-with our ‘routes’.They arise from the narrativization of the self, but the necessarilyfictional nature of this process in no way undermines its discursive,material or political effectivity, even if the belongingness, the‘suturing into the story’ through which identities arise is, partly, inthe imaginary (as well as the symbolic) and therefore, always, partlyconstructed in fantasy, or at least within a fantasmatic field(Hall:1996:4).As representações têm um papel importantíssimo no desenho dassignificações construtoras de identidade. “Precisely because identities are constructedwithin, not outside, discourse, we need to understand them as produced in specifichistorical and institutional sites within specific discursive formations and practicesby specific enunciative strategies” (Hall:1996:4). A cultura expressa a produção debens simbólicos descritores de identidades; a literatura é por isso forma derepresentação identitária. Nos textos de Senna Fernandes, são muitos os segmentos textuais que, porvezes, nos vão dando o apontamento identitário da diferença, a representaçãoimagética de uma identidade territorial construída pelos liames que vão ligandoculturas e os transformam em tessitura nova. A denotação de uma vivência, outra,mantendo o que da herança cultural se considera importante, carreando o urdir daideia de identidade colectiva que, no caso macaense, se mostra inquieta86 naincessante busca que permita a identificação. É pela descrição de um espaço apropriado na pertença, em rituaisexperienciados numa vivência comum que Senna Fernandes nos revela uma realidadepartilhada, interpretada e construtora da imagem da sua comunidade: acomunidade macaense. Ao longo das suas narrativas, são inúmeros os episódios derepresentação do ambiente social de Macau, sendo manifesta uma especialfocalização na representação de um determinado grupo social – a burguesiamacaense, que nos surge na caracterização das suas personagens: o que pensavam,como experienciavam a sua religiosidade, de que modo era feito a apropriação do________________86 A ideia de identidades inquietas é de Carlos Diogo Moreira, e reporta-se a identidades “à procura delas próprias,exigindo um esforço constante de decifração” (Moreira:2007:147).Irene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 89
  • MARIA BARRAS ROMANA90espaço/território; como se vestiam; que momentos festejavam; como falavam; o quecomiam, quem eram os seus heróis, por que valores se regiam em termos dehierarquização de género; que relações se estabeleciam entre os vários grupos sociaisconstituintes da comunidade, como viam e se relacionavam com o outro; os seushábitos, as suas trajectórias, os seus capitais, em suma, como vivenciavam o seu sere estar macaense.A identidade étnica consubstancia-se em atributos históricos e simbólico-culturais; uma comunidade étnica é congregada através de ‘mitos de descendência’e de memórias históricas (o mito de descendência dos Frontaria87 em Amor eDedinhos de Pé; a referência pelo autor ao título nobiliárquico da sua família emMong-Há, a alusão recursiva, que perpassa as obras de Senna Fernandes, à Igrejade Santo António numa isotopia que metaforiza o lugar de nascença do autor emberço de fundação); e é reconhecida pela sua diferenciação em relação ao outro. Ostextos do autor, sejam narrativas ficcionadas ou excursos de memórias, contêm asrepresentações prismáticas da identidade de uma comunidade fruto de encontros edesencontros entre comunidades étnicas diferenciadas. 5. A obra de Henrique de Senna Fernandes como ‘Etnema’O indivíduo e a comunidade constituem-se como os principais factores decultura, na medida em que, na génese desta se encontra a actividade mental dohomem e a sua relação com as instituições que delineiam a estrutura dascomunidades. Esta relação produz acções individuais, os antropemas, e colectivas,os etnemas88 (Bernardi:1982).Os antropemas, resultado da acção individual dos homens, consubstanciam“motivos singulares, ou princípios de interpretação elementar”89 determinantes nasescolhas, não só individuais mas das próprias comunidades. Os antropemaspermitem analisar a dinâmica que os indivíduos, dentro de uma comunidade,imprimem à sua cultura.A acção dos autores macaenses, no sentido da afirmação de uma identidadecultural e social, pode ser analisada como antropema, pois denota o significadoindividual de uma determinada vivência social.________________87 Possível metaforização da génese dos macaenses.88 Os etnemas constituem-se como aspectos colectivos de cultura (Bernardi:1982:82).89 Cf. Bernardi, os antropemas podem definir-se como: “expressões capilares de cultura originadas pela intuiçãoinventiva de um indivíduo e que portanto se especificam como raízes da estrutura cultural e social”consequentemente, através dos antropemas pode-se perspectivar o significado individual de cultura; De acordocom o autor os antropemas são aspectos individuais da cultura “motivos singulares ou princípios deinterpretação elementar que determinam a escolha do indivíduo ou da comunidade, podendo por isso serconsiderados subjacentes a expressões particulares de cultura (Bernardi:82-83).Irene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 90
  • PARA UMA LITERATURA DA IDENTIDADE MACAENSE – AUTORES/ACTORES91Considerar a obra de um autor como etnema é entendê-la como elementopreponderante na construção cultural e identitária de um grupo, na medida em que,através dela, o grupo, a comunidade reconhece os liames que a mantêm coesa, ostraços que a identificam, e reconhece-se como parte integrante dessa tessitura; aobra consubstancia mais do que a permanência partilhada de uma história comum,de memórias e saudade, torna-se o símbolo mítico de uma herança cultural e étnicapreservada através do escrito. A obra de Senna Fernandes dá-nos a representação da comunidade macaenseatravés da idealização num reafirmar constante de uma tradição de tolerância, docompromisso entre a herança lusa e chinesa/asiática, da especificidade dosmacaenses resultado do encontro entre o Ocidente e o Oriente. As suas narrativascontêm laivos da mitificação adâmica, que caracteriza a gesta dos descobrimentos,criadora de uma etnicidade portuguesa miscigenada, seguindo de certa forma ateorética lusotropicalista de Gilberto Freire, substantivando a idealização em termosde comunidade étnica.90A comunidade que se singulariza através da obra do autor que é consideradacomo parte integrante da cultura do território Macau no reconhecimento por partedo Outro quando se torna Nós – o Instituto Cultural do Governo da RegiãoAdministrativa Especial de Macau entendeu editar a colecção “Obra Completa deHenrique de Senna Fernandes” sobre a qual, em Nota do Editor no romance OsDores, livro que inicia a colecção, refere: “É nossa intenção homenagear o autor quefoi o expoente máximo da Literatura Macaense (…)”.________________90 No sentido em que Benedict Anderson entendeu como comunidade imaginada e já anteriormente referido(Anderson:2005).Irene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 91
  • PARA UMA LITERATURA DA IDENTIDADE MACAENSE – AUTORES/ACTORES93CAPÍTULO V - HENRIQUE DE SENNA FERNANDES:AUTOR /ACTOR |Henrique de Senna Fernandes é macaense neste sentido estrito e a sua obrarevela a consciência dessa identidade (Venâncio:2006:3).O autor literário é responsável pelo texto narrativo decorrente de umaactividade literária a partir da qual se configura o universo diegético.91 Enquanto serbiológico é persona social comprometido com o mundo real ou seja está directamenteimplicado no contexto social a que pertence, e a autoria que decorre da sua funçãode autor escritor implica direitos e deveres: “a categoria de ‘autor’ é a do escritorque põe todo o seu ofício, todo o seu passado de informação literária e artística,todo o seu caudal de conhecimentos e ideias (…) ao serviço do sentido unitário daobra que elabora” (Tacca:1973:17); parte integrante do seu contexto epocal, o autordeixa transparecer no labor da sua obra literária as linhas orientadoras que regem asua vida e nas quais subjaz a sua contextualização histórica, social e ideológica.________________91 A diegese, ou história, segundo os teóricos do Romance, é “o mundo definido e representado pela narração”compreende a realidade evocada, as personagens e os acontecimentos apresentados, correspondendo, pois,ao “significado ou conteúdo narrativo”; ou seja, a diegese é constituída por eventos que na sua sucessãotemporal e causal e nas suas correlações configuram uma história com uma finalidade e um fim e, também, éconstituída por personagens, por objectos, um universo espacial e por um universo temporal (e, naturalmente,pelos valores reconhecidos ou atribuídos a todos esses elementos). O discurso narrativo diz respeito, não aosacontecimentos narrados, mas ao modo como o narrador que relata a história dá a conhecer ao leitor essesmesmos acontecimentos; assim, corresponde ao “acto narrativo produtor e, por extensão, ao conjunto dasituação real ou fictícia na qual se situa”. O discurso narrativo passa também pelas formas de narratividade, ouseja, por uma narração ou discurso propriamente dito, composto de palavras e de frases susceptível de seranalisado de um ponto de vista linguístico e retórico. A diegese de um texto narrativo literário não possuiexistência independente em relação ao texto; a diegese é um “construto tropológico” (expressão de JonathanCuller) só adquire existência através do discurso de um narrador e por isso essa existência é indissociável dasestruturas textuais das micro estruturas estilísticas ou das macro estruturas técnico-compositivas(Culler:1981:169-187). Sobre a mesma temática ver também: (Todorov:1966); (Genette:1969,1972);(Ricardou:1967); (Lefebve:1980).Irene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 93
  • MARIA BARRAS ROMANA94O autor pode, pois, tornar-se porta-voz de um grupo ou intérprete dossentimentos e anseios de uma comunidade. Este é o papel assumido por SennaFernandes, autor/actor; a sua visão de mundo, resultante da sua formação e vivênciapessoal revela-se no construto ficcional da sua obra ao enquadrar o modus vivendida comunidade macaense através do olhar endógeno e, deste modo, arepresentação discursiva da sua comunidade, resulta de um misto de pertença/nãopertença92 que tão bem caracteriza ‘a comunidade bambu’.A história de vida de Henrique de Senna Fernandes consubstanciou-se naprocura do reconhecimento da sua Mátria, constituindo-se como seu representante,a partir do momento em que, deliberadamente a elege como protagonista das suasobras. O Lugar Macau envolve, molda e define as personagens nas quais o próprioautor se deixa diluir, ou integra as realia persona que lhe são próximas.Nasceu em Macau, a 15 de Outubro de 1923, no bairro de Sto. António, umlugar de referência constante na sua obra. Este bairro corresponde ao primeironúcleo habitacional de Macau, sendo a partir dele que os portugueses foramgradualmente ocupando a maior parte do istmo. A primeira Igreja feita de palhaacabou por ser substituída por outra de alvenaria:Uma vez estabelecidos em Macau, os portugueses erguemuma capela (hoje Igreja de Santo António) à volta da qual vãoconstruindo as suas primeiras habitações, tudo com material muitoprecário, por exigência das autoridades chinesas. Esta zona ficaentre a Colina de Patane e a Colina do Monte, onde no final doséculo XVI os jesuítas constroem o Colégio de S. Paulo (1594) (...)(Cavalheiro:1997:34).É este o lugar que o define, lugar berço dentro do lugar mátria; descendentede uma família antiga de macaenses que advém do século XVIII, “A origem da minhafamília remonta a Portugal. Não sei qual era o nome do meu antepassado que veiopara cá. Não sei se era Pedro?! O certo é que ficou por cá no século XVIII e fundoufamília, teve filhos… Nós somos descendentes desse Senna Fernandes (…) do ladomaterno sei de um trisavô que era José de Oliveira e que era de Vila Verde.”(Venâncio:2006:24).Seu trisavô, Bernardino de Senna Fernandes, foi o primeiro barão e viscondede Senna Fernandes, título atribuído em 1888 pelo rei D. Luiz; em 1893 é elevado aconde pelo Rei D. Carlos; sendo o título e as armas um tributo por duas pessoas,mantém-se até ao seu avô Bernardino terceiro conde de Senna Fernandes,extinguindo-se na geração seguinte. Tinha orgulho no seu avô conde e alguma________________92 A propósito do sentimento de não pertença que subjaz no âmago do macaense, refere Venâncio: “(…) osentimento de não pertença à terra, que no caso dele [Senna Fernandes] assume claramente foros dealogeneidade e que se reflecte na forma como representa o Outro [chinês]”; 2006:6.Irene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 94
  • PARA UMA LITERATURA DA IDENTIDADE MACAENSE – AUTORES/ACTORES95tristeza pela não continuação do título, mantendo-se contudo simpatizante dosideais monárquicos, e essa simpatia emerge através da sua personagem FranciscoFrontaria que transporta para o mundo diegético o habitus de classe do autor.Com uma formação católica e vinculada à matriz cultural portuguesa,manteve ao longo da sua vida, de acordo com J.C. Venâncio, uma relação deamor/ódio com Portugal «que, de resto, é extensível a uma grande parte dosportugueses que (…) designei por “ultramarinos”», o que se consubstanciou, porum lado, numa defesa e procura de reconhecimento da condição de macaense paraa sua comunidade, traduzidas na eleição de Macau e dos macaenses comoprotagonistas das suas histórias, mas também, na sua participação, como presidente,na Associação Promotora de Instrução dos Macaenses, professor e, durante dozeanos, director da Escola Comercial “Pedro Nolasco”, pertença desta associação, oucomo presidente da Direcção da ADIM93, em cujo órgão, a revista Confluência,escrevia como critico de cinema; mas foi, ainda, sócio fundador da “Doci Papiaçamdi Macau”, associação que faz renascer o pátoà de Macau, já quase sem expressão. Por outro lado, numa forma de patriotismo magoado, pelo esquecimentoe pelo não reconhecimento, mais da sua comunidade do que de si, o que levouJ.C. Venâncio a denominá-lo como “O escritor do inconformismo macaense”e se manifestou na sua expressão: Portugal é a minha Pátria, Macau a minhaMátria.Portugal é a minha pátria e Macau é a minha mátria... sermacaense é ser diferente de muitas maneiras, é o resultado de umtodo colectivo que diz respeito a três culturas diferentes. Os chinesesde Macau não são iguais aos do continente ou de Hong Kong. Sãodiferentes como diferentes são os portugueses que vieram viver paraMacau e cá continuaram abrindo-se para perceber a novasensibilidade que os rodeava, a nova cultura que aqui encontravam.Macau é uma lição de amor e amizade entre raças. E até se consegue chegar a uma plataforma de entendimento entre os três intervenientes.94A ligação emocional/simbólica, impregnada por laivos de saudosismo, quemantinha com Coimbra, onde fez a formação em Direito, e com a sua Académica,sendo até escolhido pelos amigos, que constituíam um grupo de antigos estudantesde Coimbra e que durante anos recriaram em Macau as festividades das Queimas edas Latadas, para Dux Veteranorum, ‘cargo’ que manteve até 1991, também ohumor o caracterizava, tinha a gargalhada fácil, no dizer dos muitos que com ele________________93 Associação para a Defesa dos Interesses de Macau, criada como associação cívica, no pós-25 de Abril, poucotempo depois da constituição do Centro Democrático de Macau.94 Excerto da entrevista dada ao Jornal Tribuna de Macau 13/Abril/2005 e que integra o artigo de Isabel Castro.Irene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 95
  • MARIA BARRAS ROMANA96privaram, “‘Eu era muito petulante’, soltava com um ‘muito’ prolongado e umagargalhada, a atestar que a idade nos pode ensinar a ceder”, tal como, aliada à suapaixão pela literatura e pelo cinema, a sua paixão pela vida em e com Macau;“Romanceou Macau até ao limite do romantismo, amou mulheres com a prosa quea imaginação e a vida lhe deram. Amou Macau e o que já não resta dela (…)”.Mais de meio século manteve o escritório de advocacia não sem entretantoacumular outras funções, como a de professor, tendo leccionado, para além dojá referido, também, no Liceu de Macau, na Escola do Magistério Primário e naEscola Primária Oficial. Foi, igualmente, director da Biblioteca Nacional de Macau,presidente da mesa da Assembleia Geral da CAM – Sociedade do AeroportoInternacional de Macau e da Associação dos Advogados. Sobre a sua carreirajurídica referiu: “Eu era um advogado fora do normal. Os advogados eram todosvirados para as leis e eu virava-me para a literatura e era visto como alguém quenão percebia nada de Direito, que só me dedicava à literatura e à História (…)”(Venâncio:2006:25).Escreveu histórias que mais ninguém escreveu, com a sua formade ser macaense: de amar Macau como a mátria, e Portugal como apátria.(…) De ambas levou desmotivações – mas não mágoas. Damátria, o não saber ter crescido, de se ter perdido e resultado emhibridez. “Não há proporção entre esta nesga de terra e as gigantescasconstruções”, (…) Da pátria, a ausência à portuguesa – oesquecimento que não merecem os homens que, à distância de ummundo, amam um país só porque lhes ensinaram que é seu(Castro:2010).O reconhecimento teve-o nos finais de oitenta e nas duas últimas décadasda sua vida: através da publicação das suas obras, em reedição e em edições novas,pelas instituições estatais, mas também através dos símbolos que marcam adistinção: a Comenda da Ordem do Infante, em 1986; a Medalha de Mérito Culturaldo Governo de Macau, em 1989; a insígnia de Grão-Oficial da Ordem Militar deSantiago de Espada, em 1998; a Medalha de Mérito Cultural e de Cidadão Eméritode Macau atribuídas pela RAEM, em 2001; a nomeação, pela Sociedade deGeografia de Lisboa, a Académico Correspondente da Academia Internacional deCultura Portuguesa, em 2003; e o Doutoramento Honoris Causa atribuído pelaUniversidade de Macau em 2008. A trajectória e o habitus do autor, uterinamente ligado à mátria, assomam nasua obra através dos lugares de eleição “Descrevo o meu Macau, o meu património,o que eu conheci. Só me lembro desta terra como ela era há anos atrás. Falo delamantendo-a intacta no meu imaginário” (Lemos; Yao: 2004), para o enquadramentodas personagens o Bairro de Stº António seu bairro de pertença, a Escola ComercialIrene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 96
  • PARA UMA LITERATURA DA IDENTIDADE MACAENSE – AUTORES/ACTORES97onde foi director e professor95; o Jardim de S. Francisco “Vivi numa casa na estradade S. Francisco e costumava brincar lá no Jardim” (Lemos e Yao:2004); a Praia Grandeonde morou e teve o escritório de advocacia; mas também através das escolhas de muitas das profissões para as suas personagens; advogados, amanuenses,professores, o copista e o intérprete do escritório dos advogados.No sentido de sublimar a explicitação de matéria autoral, que poderia levarà redução do texto literário a um mero relato biográfico, o autor adopta estratégiasliterárias que passam pela escolha de um determinado género em detrimento deoutro, pela instituição de um determinado tipo de narrador e pela opção deformas/situações narrativas adequadas.Estas estratégias não impedem, contudo, que a posição pessoal do autortranspareça na obra ou até que se desvaneça a ligação do autor com a sua narrativa.Por vezes essa ligação expressa-se (implícita ou explicitamente) através dodialogismo96 com o leitor, apelando à sua receptividade, através de um prólogointentando finalidades diversas, “(…) o texto traz sempre consigo um certo númerode signos que reenviam para o autor.”97No que concerne à obra do autor, em apreço, refere-se que os quatroprimeiros livros contêm um excurso dialógico com o leitor que antecede as narrativas,e no que respeita aos romances, um derradeiro conclusivo do diálogo aberto noinício da escrituralidade; em Amor e Dedinhos de Pé surge-nos a justificação doromance em página de abertura intitulada “Ao Subir do Pano”, onde o autor explicacomo transformou em texto narrativo literário uma “história antiga que escutei (...)num dos serões da velha casa da minha Avó, num daqueles serões tradicionais esempre lembrados de outrora, era eu menino e moço” (Senna Fernandes:1994:5).Refere a opção pelo género adoptado: “Para que o seu sabor e peculiaridade se nãodissipassem no olvido – já que tanta coisa tem sido tragada pela voragem do tempo-comecei por escrevê-la em forma de conto. Na revisão, porém, entusiasmado pelacriação, aumentei as páginas (…) até à sua conclusão no presente romance,aduzindo numa só outras histórias que também estariam irremissivelmentecondenadas ao esquecimento” (Senna Fernandes:1994:5).________________95 E onde seu pai também foi professor.96 Cf. Aguiar e Silva (1996:300): “(…) este diálogo in absentia, em que o receptor tanto pode ser um leitor coevocomo um indeterminado leitor do tempo futuro, se manifeste, ou se dissimule, sob múltiplas marcas textuais(…) os prefácios e os posfácios, as explicações e as advertências proemiais (…) bem como certas notas deesclarecimento, são outros tantos elementos estruturais e para-estruturais do texto em que circula amiúde essediálogo in absentia do autor textual com o leitor.”97 Segundo Foucault autor pode ser definido como: “(…) aquilo que permite explicar tanto a presença de certosacontecimentos numa obra como as suas transformações, as suas deformações, as suas modificações diversas(e isto através da biografia do autor, da delimitação da sua perspectiva individual, da análise da sua origemsocial ou da sua posição de classe, da revelação do seu projecto fundamental)” (Foucault:2002:53-54).Irene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 97
  • MARIA BARRAS ROMANA98A intencionalidade do autor na realização da sua obra também está patentequando afirma que os protagonistas do romance “são macaenses e o enredodecorre, em nota predominante, entre macaenses” e que teve o cuidado dereconstituir a época, fazendo intervir na sua escrita, na qualidade de emissor real ehistoricamente sabedor, não só os factos que respeitam a uma determinadacosmovisão mas aqueles que fazem parte integrante do imaginário cultural dessacomunidade, que é a sua. Por outro lado constata-se, ainda outra intenção, a deestabelecer com o leitor um pacto de leitura:Para ser mais conforme com o ambiente, devia, em certosdiálogos, redigi-los em patois, isto é, no dialecto local, hoje em viasde total desaparecimento. Não o fiz porque, escrevendo sobretudopara o leitor português em geral, não familiarizado com o dialecto, asua leitura tornar-se-ia difícil e exaustiva para a compreensão (…). Noentanto, aqui e ali, cedi à atracção reproduzindo frases em patois, enoutras introduzi a construção gramatical do português falado pelosmacaenses (Senna Fernandes:1994:5-6).A finalização desta relação dialógica entre o autor e o leitor denomina-se “AoCair do Pano”, e o autor reafirma ter-se tratado de velhas histórias de Macau queele desenterrou da memória macaense e que as reconta “para testemunharem queos Portugueses criaram neste cantinho do Extremo Oriente um mundo, com as suaspeculiaridades, as suas idiossincrasias, costumes e tradições” (Senna Fernandes:1994:379)ou como, diríamos nós, impressão de uma identidade que se foi construindo pelassuas peculiaridades, idiossincrasias, especificidades vivenciais de costumes e tradições– a identidade macaense.No romance A Trança Feiticeira, o autor contextualiza a história nas primeiraspáginas descrevendo por “Primeiras Palavras” o espaço onde, nos anos 30 do séculoXX, decorre a história comparando-o com a actualidade.98 Assim, ao longo de quatropáginas, o leitor descerá a calçada do Gaio e, numa visita guiada embrenhar-se-áem CheoK Chai Un, não o descaracterizado que chegou quase irreconhecível aodealbar do seculo XXI e que é a referência, sobretudo para o leitor macaense ou oque conhece Macau, mas o bairro tipicamente chinês “com características de umaaldeia chinesa”. É através do olhar observador, o olhar do ocidental (no dizer de J.C.Venâncio), do autor, que o leitor toma conhecimento e consciência da alteridade.Estas primeiras páginas reportam a maneira de ser e de estar de um segmento dacomunidade chinesa de Macau e da forma como fez, ela também, a apropriaçãodo espaço mas, sobretudo, objectivam contextualizar, histórica e sociologicamente,essa comunidade. ________________98 Entenda-se aqui, como actualidade, a década em que o romance foi escrito (1ª edição:1993).Irene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 98
  • PARA UMA LITERATURA DA IDENTIDADE MACAENSE – AUTORES/ACTORES99Ao contrário do que podemos constatar no primeiro Romance de SennaFernandes, em que há uma continuidade entre os textos (o introdutório e oconclusivo) configurando, os dois, uma forma de dialogismo com o leitor, nestesegundo Romance verifica-se que o texto que antecede a narrativa romanesca nãotem ligação com aquele que finaliza, sendo o primeiro um texto natural, informativo,do cunho do escritor/autor, objectivando enquadrar o leitor na realidade histórica,social e espacial do território de Macau, no sentido de consubstanciar a entidadeespacio-temporal da diegese romanesca. Contudo, o texto que fecha a narração nãotem as mesmas características na medida em que é uma extensão da diegesenarrativa e reporta a um encontro entre o narrador/autor textual e o protagonistanum tempo deslocado (o futuro da diegese e o passado do autor); quiçá o encontrodo autor consigo mesmo; o dialogismo deste texto é indirecto e concerne àreferencialidade ao mundo real (Senna Fernandes:1993:3). O último romance Os Dores (2012) é um romance póstumo não tendo oautor o ensejo de o preparar para edição daí que não existam marcas de enunciaçãoautoral. Contém, no entanto, um prefácio escrito por um dos seus filhos, Miguel deSenna Fernandes, onde emotivamente apresenta o pai e num tom íntimo confidenciaao leitor o seu entendimento da obra não deixando de se lhe dirigir, embora,indirectamente “O leitor é irremediavelmente atraído por uma viagem no tempo e– como foi o meu caso – terá pena de lá sair, pelo fascínio de um mundo que deixoude existir, mas tão eloquentemente reavivado pelo autor. (…) Ler Henrique de SennaFernandes é ler Macau e as suas gentes, explorar a sua alma e evocar a sua memória”(Os Dores:10-11).No que diz respeito aos livros de contos, também eles contêm marcas deenunciação autoral; em ‘Nota de Abertura’ (Nam Van:1978:3-4)99 Senna Fernandesapresenta ao leitor o seu primeiro livro – Nam Van - Contos de Macau, começandopela justificação do título: “NAM VAN é o nome chinês da Praia Grande (…) artériaelegante, centro nevrálgico da vida de Macau e zona residencial preferida pelapopulação.” Revelando a profunda relação emotiva que mantinha com o lugar ondepraticamente nasceu e onde viveu grande parte da sua vida: “Nasci nas suasproximidades e grande parte da minha infância decorreu à sombra das suas árvorescentenárias (…) com a paisagem dos seus juncos e a odisseia dos seus lorcheirosheroicos e aventureiros, inspirou-me os primeiros escritos e embalou-me os sonhosincipientes de escritor (…) alimentou o fundo da minha sensibilidade (…)”; entendeque este livro, com este título, consubstancia a homenagem “a um recanto da Terra________________99 A edição desta obra, a que estamos a fazer referência, é do autor. O primeiro conto A-Chan, A Tancareira foiapresentado nos Jogos Florais da Queima das Fitas de 1950 [Universidade de Coimbra] e ganhou o PrémioFialho de Almeida. Foi mais tarde [1974] publicado no Lobito, Angola, na Colecção Cadernos Capricórnio, emforma de livro.Irene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 99
  • MARIA BARRAS ROMANA100do Nome de Deus, tão caro a portugueses e a chineses e tão intimamente ligado àhistória e à tradição do território (…)”. Dirige-se directamente ao leitor, quando,após a justificação, refere: “Apresento aos meus leitores um punhado de contose recordações (…)” e explicitando que o livro integra somente dois contos inéditos,sendo os outros já conhecidos através da sua publicação no jornal ‘Notícias DeMacau’ entre 1972-1975. Finalmente, desvenda a intenção que subjaz a estapublicação “(…) Contribuir dalguma forma para a literatura de ficção macaense, tãopaupérrima ou quási inexistente nos escaparates da livrarias e bibliotecas.”No concernente ao livro de contos Mong-Há, o Autor redigiu um‘Frontispício’ no qual nos contextualiza a “vasta área que (…) se estende da zonada Flora (…) até ao Porto Interior (…)” denominada Mong-Há e que, por muitosanos, constituiu ‘o campo’ de Macau, onde os citadinos encontravam os recortesbucólicos nos campos em flor ou nas hortas que abasteciam a cidade. Justifica,ainda a escolha do título, numa interpelação directa: “O leitor poderá estranhar otítulo da obra, pois aparentemente não parece relacionado com qualquer dasestórias que se seguem, senão uma ténue referência. No entanto a sua gestaçãonasceu precisamente na pousada de Mong-Há, encravada na colina do mesmo nome(…)”. Contando-nos a estória que o levou a escrever estes contos revela-nos amatéria da sua tessitura: recordações evocadas numa amena tarde macaense e, odesafio de amigos, para as passar a escrito; desta forma as entrega aos leitores:“Aqui estão, submetidas ao juízo e à curiosidade do leitor, produto de dolorosaelaboração, as minhas estórias em que se misturam recordações de experiênciasvividas e páginas de pura ficção.”.Mas constata-se, igualmente, o transporte do habitus de classe do autor parao universo diegético dos textos, através das suas personagens masculinas reveladorasde um auto-biografismo, assumido em várias entrevistas, como se pode verificar noseguinte excerto da conversa que teve com José Carlos Venâncio:“E.: (…) Conhecendo um pouco a sua vida, ousaria dizer que aspersonagens centrais masculinas destes romances (…) têm muito deautobiográfico. (…)H.S.F.: Sim admito que há muito da minha própria pessoa nasduas personagens [Francisco Frontaria – Amor e… – Adozindo –Trança…]. Há algumas experiências. Admito que Adozindocompartilha muita coisa da minha experiência. (…) Admito que hajaalgumas notas pessoais ali. (…) Como os Senna Fernandes, osFrontaria são macaenses (…)” (Venâncio:2006:23).Podendo, ainda, apurar-se na própria identidade dos narradores que,sobretudo em alguns contos, se confundem com o autor-contista de estórias vividas;é através de um discurso em primeira pessoa que Senna Fernandes nos introduz,Irene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 100
  • PARA UMA LITERATURA DA IDENTIDADE MACAENSE – AUTORES/ACTORES101por exemplo, na intimidade familiar da sua infância, na estória que intitulou “Aminha primeira comunhão” e, naturalmente, abre-nos as portas da casa dos avósno Macau dos anos 30 e revela-nos as práticas e os gostos – o habitus – não da suacomunidade, mas, de forma intimista, o da sua família; e deste modo confrontamo-nos com as formas de pensamento, com as atitudes de estar, profundamentemarcados pelos vários signos de distinção de uma família posicionada na fracçãosuperior da classe social dominante; o ambiente e a formação católica, o capitalsimbólico que se percepciona pelo ethos e pela praxis.1. Influências estético-literáriasRecebendo influências de um romantismo tardio, nomeadamente de carizcamiliano, do realismo/naturalismo queirosiano e do realismo social, “Marcaram aminha juventude autores como Aquilino Ribeiro, Eça de Queirós, Jorge Amado eCamilo Castelo Branco, de quem eu gostava especialmente” (Lemos e Yao:2004), oautor congrega na sua discursividade as configurações espácio-temporais demomentos marcantes transmitindo aos leitores a sua visão dos factos.100 Assumetambém as influências advindas de autores brasileiros “Machado de Assis, EricoVeríssimo, Gilberto Freire e Jorge Amado marcaram presença nas minhasleituras”.101Influência que se constata, sobretudo no primeiro romance, na medida emque a visão que o autor nos dá de alguns aspectos de Macau remete para onaturalismo/realismo literário português queirosiano mas também se verifica ainfluência do realismo brasileiro sobretudo de Machado de Assis e de JorgeAmado.102 A cidade cristã é representada como um lugar integrador de umacomunidade que o modela de acordo com a sua forma de estar, associando-se osespaços ao imaginário simbólico; os bairros, tendo como centro de atracção a igreja,espaço vivencial e caracterizador da religiosidade; a ocupação do espaço revelandocomo referência o palácio do governador e a proximidade do seu envolvente, formade segmentação e identificação social. Os excursos descritivos que urdem a representação da ‘cidade chinesa’remetem-nos, por vezes, para os romances de Amado ou até de Aloísio de________________100 Numa quase visão fenomenológica, husserliana, tendo em conta que o que é apresentado pelo autor não éalgo aparentemente distinto da realidade, mas a própria realidade presente no seu pensamento.101 Entrevista dada por Senna Fernandes à revista Prosa & Verso, que só foi publicada depois da sua morte naversão digital do suplemento literário de O Globo.102 Da estética a que as Letras brasileiras denominaram de modernismo regionalistas, embora se considere tambémrealismo social; o dialogismo que os retratos físicos e psicológicos dos protagonistas de Fernandes estabelecemcom Brás Cubas e Quincas Borba de Machado de Assis são contudo elucidativos da influência do realismofinissecular brasileiro.Irene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 101
  • MARIA BARRAS ROMANA102Azevedo, denotando as características da escola realista nomeadamente operfeito conhecimento do meio social e dos costumes; consideramos pertinentereferenciar, por exemplo, que a descrição, realizada com uma adjectivação ‘crua’,do cubículo na ‘cidade chinesa’ em Amor e Dedinhos de Pé – “(…) com muitasfamílias e uma cloaca imunda para os despejos (…), num cubículo (…) infecto esujo, onde havia um eterno cheiro de esterco (…) os percevejos mordiam e asratazanas corriam, em louco à-vontade (…)” (1994:60-65) revela uma grandeproximidade com as descrições naturalistas de Aloísio Azevedo, sendo estadescrição muito próxima do cortiço, no romance homónimo de Azevedo mas,também, nos recorda descrições de Jorge Amado em Teresa Batista Cansada deGuerra e em Terras do Sem Fim, onde é abordado o tema das ‘crias’ baianas, ocorrespondente às crioulas ou criação macaenses que serve de temática nuclearao romance Os Dores.Mas a urdidura sentimental das temáticas, onde as personagens masculinas,sejam heróis ou anti-heróis, se caracterizam simultaneamente pela simpatia e pelafraqueza, onde a descrição do espaço tem os laivos do romantismo nacionalista,onde o tom da linguagem do narrador é muitas vezes de uma ironia benevolentee onde se cruzam a paixão, o diletantismo, o abandono a punição e a regeneração,essa é de imanente influência camiliana.Ao escrever a suas obras o autor dirigiu-as a um público e embora refiraque não é só leitura para os macaenses, pois é consciente a opção por nãoexagerar na utilização do patois ou da estrutura de frase macaense, não deixa deo fazer, na medida em que estes escritos seriam dirigidos a um determinadopúblico nos quais encontraria o (auto) reconhecimento: Uma obra não se apresenta nunca, nem mesmo no momentoem que aparece, como uma absoluta novidade, num vácuo deinformação, predispondo antes o seu público para uma forma bemdeterminada de recepção, através de informações, sinais mais oumenos manifestos, indícios familiares ou referências implícitas. Elaevoca obras já lidas, coloca o leitor numa determinada situaçãoemocional, cria, logo desde o início, expectativas a respeito do ‘meioe do fim’ da obra que, com o decorrer da leitura, podem serconservadas ou alteradas, reorientadas ou ainda ironicamentedesrespeitadas, segundo determinadas regras de jogo relativamenteao género ou ao tipo de texto (Jauss:1993:66-67).Independentemente do que motiva um escritor/autor na elaboração dosseus textos, estes só se realizam em si mesmos como obra literárias se integraremum processo comunicativo, ou seja se forem lidos, se o autor estabelecer umdialogismo com o leitor; e essa circunstância permite aquilatar a importância queIrene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 102
  • PARA UMA LITERATURA DA IDENTIDADE MACAENSE – AUTORES/ACTORES103o leitor tem para o reconhecimento do autor e para a plenitude e completamentoda obra. Nos romances de Senna Fernandes encontramos a necessidadedialogante com o leitor consubstanciada nas marcas da instância de enunciaçãoe no constante apelo ao reconhecimento dos espaços/lugares, “tenhonecessidade de passar para o papel as minhas experiências, porque as pessoasde hoje não têm noção do Macau dos meados do século. É preciso legar àsgerações futuras a vivência do Macau dos meus tempos. Cada tempo tem umtempo” (Lemos e Yao:2004); substantivada na descrição dos percursos atravésda cidade como estratégia narrativa103, no sentido em que, as estratégiasnarrativas resultam, muitas vezes, de opções inconscientes por quem as utiliza,daí que não possam ser mensuráveis a partir das declarações de intenções dosautores, mas observáveis nos factos, o que permite, de certa forma, perceber adimensão social do autor, uma vez que, através da sua análise e da análise dosfactos que lhes são inerentes, ocorre a possibilidade de percepção do habitusdo autor, i.e., é possível percepcionar os reflexos culturais que, interiorizadosinconscientemente, surgem incorporados na textualização. Por outro lado, aestratégia consubstancia uma realidade revelada e construída pelo observador,não se constituindo, pois, como dado imediato, mas subjacente nas explicaçõese nas “advertências proeminais” que se constituem quase como o incipit dassuas obras.A estética realista implica a verosimilhança através da produção de ‘efeitosde real’ adequada às realidades sobre as quais incidem as textualidades dosautores. A necessidade de uma vivência ‘in loco’ que permita sentir ascomunidades, as realidades sociais, é-nos transmitida por Senna Fernandesatravés de uma leitura do real, que lhe é conhecido, pela própria identificaçãodo que existe, por um assumido auto-biografismo “Os meus romances têmpartes autobiográficas, muitas delas vividas por mim. Existem determinadascenas fortes e realistas porque foram vivenciadas na primeira pessoa. Há partesque obviamente romanceei. Há muito de autobiográfico, claro, claro que há…”(Lemos e Yao:2004), resultando numa visão que emerge do interior, não o olhardo observador, um olhar exterior, mas o sentir, a identificação com o objectoobservado; em vários excursos dos seus romances, Senna Fernandes assume, opapel de ‘moralista experimentador’.104________________103 De acordo com Viala, uma estratégia narrativa/literária consubstancia um modo de perseguir um fim e umamaneira de, a partir da própria obra, o atingir (Viala:1985).104 “[de acordo com a óptica de Zola] O romancista, para além de exercer uma sociologia prática, seria tambémum ‘moralista experimentador’, pois o seu olhar metódico sobre a sociedade contribuiria inevitavelmente paraa dinâmica do reformismo social (…)” (Viçoso:2011:33).Irene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 103
  • MARIA BARRAS ROMANA1042. A obra literáriaChegaram barcos, só para partirem de novo.No Porto Interior, armazém de encontros e despedidas, quantos marinheiros portugueses desembarcaramà procura de embriaguez e de colo, quantas raparigas desesperadas secaram as lágrimas com o lenço do mar.O que a água turva não enterra.Tenho de escrever e contar.Braços de ferro não me quebrem a memória!Henrique de Senna FernandesA obra de Senna Fernandes, constante deste corpus, é constituída por trêsromances: Amor e Dedinhos de Pé, A Trança Feiticeira, Os Dores e dois livros decontos/estórias/memórias: Nam Van Contos de Macau, o primeiro em termoscronológicos, e Mong-Há .105Os dois primeiros romances têm a mesma temática; são romances decostumes de pendor sentimental e referem relações amorosas entre jovenspersonagens, relações e reacções familiares, os percalços que num trama amorosoemergem até ao desenlace feliz; são romances que numa primeira observaçãocarreiam as formas de urdidura sentimental da prosa camiliana. Contudo, subjacenteà temática, encontramos a representação de situações sociais de uma especificidadevivencial e as marcas várias que permitem a caracterização identitária dacomunidade. O último romance retrata-nos o percurso de vida de uma mulher, numatrajectória que vai da extrema submissão a uma forma, incipiente, de emancipação,numa visão que emerge através do ponto de vista de um homem, o autor/narrador.Não há lugar, neste romance a um desenlace feliz, embora a finalização da tramaromanesca fique ao critério do leitor. É, tal como os outros dois romances, uma teia urdida por encontros e desencontros numa deriva que, desta vez, não se limita à cidade-Janus, pois abarca também as ‘dependências’ sem, contudo, aparticularidade do retorno no sentido da redenção.Embora, as temáticas sejam idênticas, a tessitura de abordagem édissemelhante em muitos aspectos, não só em termos cronológicos, o que poderiaconstituir-se de somenos importância, se não abrangesse quase um século do modusvivendi da comunidade, mas também no que concerne ao relacionamento socialintra-comunidade e as relações da comunidade com o Outro.________________105 O último livro editado antes da entrega de Macau e que se pode considerar o legado de memórias. Irene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 104
  • PARA UMA LITERATURA DA IDENTIDADE MACAENSE – AUTORES/ACTORES105No primeiro romance a caracterização da comunidade macaense éfundamentada pela contextualização histórica em excursos analépticos explicativos;constata-se a representação dos vários estratos sociais, constituintes da sociedademacaense que se consubstancia numa burguesia conservadora e patriarcal sendo aprópria ocupação do espaço da cidade cristã segmentada, estando associada a umamaior ou menor importância social directamente relacionada com a aproximaçãoou distanciamento à classe do poder (a “persona autorictas” em representação dapátria) e naturalmente a um maior ou menor prestígio.O trama sentimental cerne do romance, consubstancia-se numa teia deencontros e desencontros “No ‘Amor e Dedinhos de Pé’ (…) quis escrever umahistória de desencontros, ilustrar o fosso das classes sociais, que se cruzam nageração seguinte. Saiu bem” (Lemos e Yao:2004); é protagonizado por dois filhosda terra, socialmente de estatutos diferentes, sendo a personagem masculina,Francisco Frontaria, um filho-família herdeiro de uma aristocracia mestiça quedurante décadas constituiu a elite/alta burguesia macaense, gerada pelos primeirosmercadores e homens de armas que foram os fundadores de Macau. O protagonistarepresenta a decadência dessa elite que no início do Século XX sobrevivia dospergaminhos de um ilustre passado escondendo, atrás de algumas pratas eporcelanas, a vergonha de um crescente empobrecimento. Esta personagem, típicado romantismo tematizador do destino, é um ser fraco fruto de uma excessivaprotecção e de um laxismo que o leva a incorrer em situações socialmenteintoleráveis, sendo por isso punido com o ostracismo da sua comunidade.A personagem feminina, Victorina Vidal, é fruto de um casamento desigual,dentro da comunidade, sendo o pai um filho-família “mal casado”, no entender dasvozes da ‘cidade cristã’, com a filha de um espanhol106 socialmente menosimportante; este casamento provocado pelo pai da noiva constituía a única formade ascensão social, não só desta, mas das famílias da pequena burguesia semligações às grandes famílias ou originárias de outros lugares. A história do romancediz-nos que esse ‘estratagema’ nem sempre resultava, pois situações como a referidaenvolviam a ‘perda de face’ como se pode depreender em relação ao patriarca dafamília Vidal, o que o levou a renegar o filho para recuperar a sua dignidade/imagemsocial, e o resultado foi a mobilidade descendente do filho e a concomitante perdade prestígio. Os encontros e desencontros entre estes seres, pois é esta a matéria com queo autor urdiu a narrativa, são marcados pelas alterações de prestígio de cada umaté ao momento em que surge a paixão, e o protagonista é regenerado, nãointeiramente por virtude própria, mas pela mão da mulher amada que, tendo________________106 Denominação dada em Macau aos filipinos de ascendência espanhola.Irene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 105
  • MARIA BARRAS ROMANA106recuperado o prestígio social através da aceitação da família do seu pai, o ajuda nareintegração social. No Romance, os macaenses identificam-se pelas profissões que exercem,caracterizadoras dos seus estatutos sociais, ligadas aos serviços, muitas vezes emfunções de mediação107 e a comunidade caracteriza-se por um forte controlo social,uma profunda religiosidade em termos de prática exteriorizada e, tal como jáapontado, a valores patriarcais onde a submissão consubstanciava o papel social damulher. Mas, também, pela permissividade no que concerne às práticas que envolvemo outro, constatando-se uma profunda separação entre os valores da cidade cristãprotegidos pela aparência, e a desvalorização das vivências na e da cidade chinesa.E, consequentemente, constata-se, ainda, no romance, a abordagem a situaçõesque são recursivas na narratividade da obra e que poderão ser entendidas não sócomo uma crítica descontente, mas também como o afloramento da denúnciaanticolonial (Venâncio:2006) dirigida à referida permissividade por parte, sobretudo,das autoridades, nomeadamente as que punham em causa os valores queoficialmente regiam o território, como a prática da mulher – mercadoria da qual éexemplo a venda de meninas pelos progenitores de baixa condição social, tanto afamílias de estatutos médio ou elevado como mui-tcháis (serviçais), como às ‘patroas’dos lupanares da rua das flores e, ainda, a abastados homens para o seu bel-prazer;um excurso romanesco refere a negociação, mediada pelo protagonista, entre umpai quase indigente que vende a filha a um comerciante de vinhos “Num momentoa transacção repugnante que preparava pesou-lhe na consciência (…) conhecia umhomem com posses. Queria uma rapariga virgem e andava desesperado pordescobri-la (…) para comprá-la aos pais (…) a conversa foi estritamente comercial,como se se tratasse duma mercadoria, um diálogo rasteiramente prático, queviolentava os princípios morais em que Chico fora criado (…) ela já me pertence. Ospais ontem assinarem este papel. [o negociante] exibiu um documento em papelfino, amarelado, conhecido por ‘papel de pagode’, todo cheio de caracteres chineses(…)” (ADP:80).É de notar que, embora o episódio tenha sido protagonizado por ummacaense (o próprio protagonista do romance) há por parte do narrador o apelo àsua desculpabilização “era uma maneira de escapar às esmolas (…) metera-se numacamisa de sete varas (…)” mostrando o seu arrependimento, mas tambémjustificando com a visão que tinha da cultura chinesa, implicitamente culpando ooutro do seu acto: “[pai] a cobiça suplantou os escrúpulos. Filhas tinha-as ele, muitas,eram bocas a mais. Para a sua mentalidade o que interessavam eram os varões” (p.78).________________107 Conforme nota em referência ao ‘grupo de status’.Irene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 106
  • PARA UMA LITERATURA DA IDENTIDADE MACAENSE – AUTORES/ACTORES107Embora situações como a mencionada ou as que envolviam as transações derapariguinhas para ‘as casas de flores’, onde eram compradas pelas ‘patroas’ com ointuito de as ‘educar’ na arte de cantadeiras ou pei-pa-chais, se passassem na ‘cidadechinesa’, longe, portanto, do olhar das autoridades portuguesas, a compra deraparigas – crianças, mui-tchais, era feita pela comunidade portuguesa de Macau epara beneficio da ‘cidade cristã’.No segundo romance de Senna Fernandes encontramos o ideal romântico,no contar de uma estória com laivos assumidos de auto-biografismo; um caminhoque culmina na perene felicidade, após a ultrapassagem dos vários escolhos. Atemática é recorrente, pois, tal como no primeiro romance, o filho-família, Adozindo,oriundo da média/alta burguesia prestigiada porque ancestral e naturalmente ligadaàs famílias de prestígio de Macau leva à ‘perda de face’ do seu progenitor, econsequentemente dos seus parentes próximos, ao casar com uma aguadeira de‘pin’ “uma criatura de tão baixa condição. Uma aguadeira de pé descalço e do CheokChai Un – uma chinoca… uma amuirona. Que vergonha!”; e também desta vez aconsequência foi a ruptura do protagonista com os seus e uma mobilidadedescendente; a perda de prestígio só é recuperada pela aceitação pública por parteda comunidade. Poderia ser mais um romance de matriz camiliana, mas esteromance, editado em 1993, é o romance que representa a união entre a comunidademacaense e a comunidade chinesa de Macau. Os assomos de denúncia da ‘sombracolonialista’ (Venâncio:2006), que se verificam nas primeiras obras, e se materializamatravés da referência critica ao sistema das mui-chai e ao comércio de meninas na‘cidade chinesa’, desvanecem-se dando lugar a uma discursividade de aproximaçãoao Outro, onde subjaz o pensamento lusotropicalista e a visão idílica/idealizada numreforço da [quase] apologética à união interétnica e simultaneamente a inferênciade disponibilidade para o percurso de integração108 de Macau na ‘Terra China’:A-Leng v iu o sogro [Auré l io ] , o coração pulsandoprecipitadamente. Lembrou-se então da palavra mágica que nuncapronunciara e julgara sempre interdita para ela. Suavemente, todaenternecida, murmurou:Entra, Pai. Está em sua casa (…) (TF:1993:177).Contudo, verifica-se neste romance uma visão mais crítica das práticas da‘cidade cristã’ e é ressaltado o preconceito social, ou a ausência dele, quando emcausa estava uma fortuna, em detrimento do preconceito racial, esta situação traduzum jogo estratégico dos agentes em posições desiguais, carreando disposições de ambição de mobilidade ascendente, neste caso através da posse de capital________________108 Considera o Professor Venâncio, que traduz “a aproximação à comunidade chinesa, a eleição da condiçãomacaense (mestiça) como plataforma de entendimento e de vivência (…)” (Venâncio: 2006:13).Irene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 107
  • MARIA BARRAS ROMANA108económico: o pai de Adozindo não aceitou como nora a aguadeira mas queria queele casasse com Lucrécia que, “Era filha dum cabo do Exército e, ao que semurmurava, duma rapariga das várzeas da Porta do Cerco. Que interessava, setambém era a viúva do rico Santerra (…). Os cabedais faziam sempre esquecer asorigens obscuras.”; é ainda de referir que a respeito de Lucrécia, o autor retoma otema das meninas-mercadoria, embora a moldura, desta feita, seja a ‘cidade cristã’e o tom do narrador seja de ironia, “afirmava a má-língua da cidade cristã queSanterra, nada indiferente à carne tenrinha do diabrete, acabara por «comprar» aocabo o seu rebento rebelde. Não houve censura aberta da sociedade, porqueSanterra era um homem de fortíssimos cabedais e os seus vários caprichosconstituíam lenda” (TF).O último romance, Os Dores, retoma a crítica descontente e a denúnciaanticolonial, ao expor como temática a vida de uma crioula/criação ou biche Leontinadas Dores, a heroína deste universo diegético. Neste romance, tal como nos outros,a opção do autor, no construto das personagens femininas consubstancia-se, nãona idealização da mulher romântica, perfeita física e moralmente infeliz, mas naapresentação da imperfeição; a física representada pelo estrabismo da personagemVictorina em Amor e Dedinhos de Pé, a social representada pela personagem A-Lengem A Trança Feiticeira; e a moral representada pela personagem Leontina em OsDores.Estas mulheres, que com a excepção natural de A-Leng, a menina-mulherchinesa, têm retratos fisionómicos acentuadamente europeizados, são frágeis nasua imperfeição, contudo detentoras de uma natureza forte no sentido de saberemultrapassar as próprias vulnerabilidades, sendo uma delas a própria condição de sermulher; assim através das personagens é possível aquilatar no contexto epocal, doponto de vista do autor, o universo feminino da comunidade macaense, onde aindase vislumbrava o uso do Dó (TF:19), embora numa única referência “Senhorasvestidas de dó passavam embiocadas, vindas da Igreja”, num meio conservador epatriarcal que perspectivava, na mulher, um mínimo de literacia, a necessária para oseu papel social “Glafira tinha a sua boniteza (…). Estudou até à 3ª classe daPrimária, (…) Preparando-se para dona de casa, que nisso foi exímia. Satisfez osdeveres de esposa e do lar. Deu com intervalos, quatro filhos (…)” (TF:32). Contudoas mulheres da elite macaense tinham outra educação mais consentânea com o seuhabitus, com a maneira de estar e agir da sua classe social, que consubstanciava aposse não só de capital económico mas também de capital cultural, e que permitiaconstituir-se como marcador de distinção em termos de distância social(Bourdieu:1979:191-2). “D. Emília Madruga (…) pertencia à «aristocracia» do bairrode S. Lourenço (…) era culta falava correntemente inglês e francês tocava piano.Com as conterrâneas endereçava-as preferencialmente em patuá, mas com osIrene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 108
  • PARA UMA LITERATURA DA IDENTIDADE MACAENSE – AUTORES/ACTORES109metropolitanos torrava o português (…)” (Os Dores:94); uma educação superficial,mas profundamente religiosa, dirigida ao saber estar em sociedade e o saber fazerna maternidade e no templo da família, a casa, e ao cumprimento, com devoção,das exigências da religião.A trajectória individual prefigurada pala comunidade para as mulheresdefinia-se por um conjunto de disposições mentais de resignação compaginável como capital herdado, que as posicionava no espaço social através de ‘mécanismes deobjectifs d’élimination et d’orientation’ (Bourdieu:1979:122); nas narrativas de SennaFernandes constata-se que as personagens femininas perseguem valores desubmissão inerentes ao papel social da mulher numa sociedade de tipo patriarcal,ou seja, de acordo com a trajectória definida pelo habitus, e controlada pelo rumor:“aquele desafio [de Victorina] às convenções, à moralidade burguesa, teve a suapaga. Começaram a chover cartas anónimas, um mau hábito da cidade (…)”independentemente da sua origem étnica, a mulher socialmente aceite é a mulherobediente e submissa ao poder masculino seja ele personificado pelos progenitoresou pelos maridos, mas também pelas autoridades.109Nos romances de Senna Fernandes encontra-se, pois, toda uma construçãorepresentativa da mulher burguesa macaense; submissa, educada segundo os valorescristãos, geralmente em instituições católicas, como o colégio Santa Rosa de Lima,onde aprendiam a ser prendadas nas lides domésticas e boas mães e boas esposas,ou seja, a desempenhar, na perfeição, o papel que lhes estava destinado; constata-se, contudo, por vários excursos discursivos, que algumas das suas personagensfemininas tentam rebelar-se com apontamentos de emancipação e consciência dasua condição de mulher-objecto, a consciência demonstrada por A-Leng “Fui apenasum objecto de entretimento de um menino rico, cujo resultado saiu mal (…)”(TF:89); não se conformando com a sua trajectória, a sua condição de mulher,pertença de comunidades conservadoras como as representadas nos romances,inscritas em sociedades patriarcais de que Macau era exemplo.110O papel social da mulher da burguesia macaense que os romances carreiamera o de ser esposa e mãe e as tentativas de emancipação eram tidas como desviantestendo em conta que só as mulheres necessitadas e de baixa condição social poderiamtrabalhar para sobreviver; Victorina (ADP) foi alvo da maledicência (‘chuchumequice’)da ‘cidade cristã’ quando quis ser enfermeira e foi trabalhar para o hospital “Umemprego fora das lides domésticas era indigno para uma jovem prendada de família,demais com os estudos completos no Colégio Stª Rosa de Lima” (ADP:227).________________109 A forma pouco cortês, denotadora de ausência de respeito pela pessoa, assumida pelo tenente em relação àVictorina Vidal retratada em Amor e Dedinhos de Pé.110 Referimo-nos à comunidade macaense representada em Amor e Dedinhos de Pé, Os Dores e A Trança Feiticeirae à comunidade chinesa representada também neste romance.Irene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 109
  • MARIA BARRAS ROMANA110Mesmo depois de receber as heranças, do pai e do padrinho, que atornaram numa mulher rica e independente, resolveu abrir um atelier de costureira,explicando, o narrador omnisciente, ter sido “mais por distracção do que pornecessidade” (ADP:117), como forma de justificação de algo tido como contra-natura – uma filha família ter uma ocupação fora da sua domesticidade,quebrando as formas distintivas em termos de posição social – daí não ter sidopoupada mais uma vez, aos vaticínios e à maledicência que caracterizava acomunidade: “O atelier aguentava-se contra as previsões das tias e a crítica doburgo (…)”; este comportamento pode ser entendido como uma tentativa desubversão do statu quo da comunidade.Em a Trança Feiticeira, a situação é, significativamente diferente, na medidaem que se verifica, por um lado, a inversão de papéis, mas por outro lado aconstatação da descida em termos de mobilidade social de Adozindo, carreada pelofacto de ele não ter emprego o que diminui drasticamente a distância em termosmateriais, que lhe permitia a distinção enquanto membro de uma classe superior, eretira-lhe a sua dimensão social simbólica: A-leng (TF) pôs em causa o papel domarido como chefe de família, quando lhe diz: “Amanhã vou trabalhar (…) vou servir na loja da A-Sôi: (…) A humilhação feriu-o, a boca amargada pela raiva”(TF:88).Tal como nos referidos romances, também, no romance Os Dores, as marcasque permitem a distinção de status das personagens femininas passam pelo maiorou menor grau de ‘ociosidade’ das mulheres na esfera doméstica e a sua preparaçãocomo donas de casa“ (D. Galfira) interrompeu o curso, dedicando-se inteiramente àvida doméstica (…) ao tempo, a Educação das filhas era confiada à mãe quesó se preocupava em fazê-las donas de casa prendadas” (p.29).Embora, como estratégia de distinção fosse socialmente exigida alguma instrução na qual eram adequados conhecimentos de línguasestrangeiras e a execução de um instrumento musical era desejável, por umaquestão de gestão doméstica, o “aprendizado de dona de casa” (p.31) com ocorrespondente conhecimento de cozinha e lavoures, domínios que permitiam‘receber bem’ e ocupar o tempo que não era gasto com as orientações aos‘serviçais’ ou em actividades caritativas associadas às suas paróquias: “nessamesma tarde haveria uma reunião de senhoras na igreja, em vista dospreparativos para a festa anual do santo patrono” (TF:153); a possibilidade deas meninas de família se empregarem era “coisa impensável para a época” (p.30),pois, seria a demonstração de constrangimentos materiais não compagináveiscom posições, que se queriam afirmar elevadas. O distanciamento em relaçãoao ‘desafogo’ económico é corolário de um estatuto inferior (quanto mais nãoseja, dentro do campo do poder) é assim que nos surge neste romance o atelierIrene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 110
  • PARA UMA LITERATURA DA IDENTIDADE MACAENSE – AUTORES/ACTORES111de costureira como forma de trabalho respeitável mas, para as bambinas doconvento, que não tendo família ou sendo provenientes de famílias pobresnecessitavam de trabalhar para a sua subsistência; de acordo com Maria JohannaSchouten:O fenómeno da mulher doméstica que se dedica completamenteà gestão do lar e à educação e que participa pouco na vida pública,desenvolveu-se no século XIX na classe média emergente e espalhou-se como ideal para as camadas socioeconómicas inferiores (…)exilavam a mulher da classe média para o ‘interior’ e excluíam-na detrabalho produtivo, considerado não apropriado. As mais abastadasdelegavam as lides caseiras e assim desenvolveu-se (…) a imagem defemale idleness111 (ociosidade feminina) (Schouten:2011:82).(…) o fenómeno de dona de casa (housewife), sendo o produtoda cultura e das relações de poder, tem uma presença mais forteconforme a época e o meio socio-cultural. O novo papel da mulhercomo ‘doméstica’ foi uma norma não apenas introduzida no mundoocidental na época da industrialização, mas também nas suas colónias(Schouten:2011:84).No que se refere à vertente contista de Senna Fernandes, é constituída pordois livros de contos, um editado em 1978, Nam Van, Contos de Macau, integrandoseis contos que revelam a condição da mulher chinesa vítima do sistema de mui-chai e da cultura tradicional chinesa, mas também, em grande medida, da culturade subalternização da mulher, vigente em Portugal até meados da década de 70 ereproduzida em Macau, e na própria comunidade macaense, como tivemosoportunidade de referir no que respeita ao universo feminino dos romances, atravésda permissividade das autoridades, de um forte controlo social, do confinamentoda mulher à esfera doméstica, como forma de status, e a sua submissão ao poderpatriarcal; mas também nos desvendam a cultura e o pensamento chinês observadospela exterioridade ocidental ou, ainda, a diaspória da comunidade que consubstanciaum dos contos desta obra. O último Livro em apreço Mong-Há relata-nos estórias vivenciadas evivências ficcionadas, algumas memórias, constata-se, em algumas narrativas, oretorno ao tema da condição da mulher, da submissão e controlo social, mastambém à insubmissão aos valores culturais vigentes e a respectiva puniçãoatravés do ostracismo; a comunidade imaginada/idealizada surge-nos comgrande referencialidade ao real, sobretudo nas estórias evocativas das vivênciasdo autor.________________111 Destaque em itálico no texto original.Irene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 111
  • MARIA BARRAS ROMANA1122.1. Os RomancesOs romances constituem-se como reconstrução idealizada de momentospassados como reminiscências do período áureo de Macau; é notório o elementoautobiográfico em universos diegéticos em que a realidade e a ficção se misturam,às vezes, de forma quase imperceptível, pois, na criação dos mundos possíveis hátodo um incorporar de mundos epistémicos112 e, nesse sentido, são reais muitos doseventos que contextualizam as acções; são reais os lugares de eleição, lugares‘sagrados’ na partilha identitária; são reais as sensações e as emoções, é o retratoda cidade, do seu sentir e do sentir das suas gentes, o apelo à memória e à pertençacomo evocação da identidade. Na apropriação do real objectivando a construção da narrativa, verifica-se,por um lado, a representação da cidade, as ruas, os percursos, as ambiênciasdos convívios sociais, que nos reportam ao retrato real; por outro lado, encontramostodo um excurso diegético onde impera a verosimilhança na ficcionalização do realengendrando uma tessitura de histórias, representações homológicas dos tipossociais num plasmar da realidade através da ficção, contudo, não considerando arigidez normativa do conceito de Goldman, pois temos sempre presente asubjectividade inerente ao construto ficcional do texto literário, assim entendemosque as personagens nos permitem a visualização, não a especular goldmannianamas, de vários feixes que emanam dos prismas analíticos e nos quais podemosencontrar/estabelecer homologias.Os romances consubstanciam, pois, mais do que histórias de amor, o retrato,plasmado em tela nostálgica113, de Macau e da sociedade macaense, os encontrose desencontros de culturas, os traços que identificam, as diferenças e assemelhanças, a constatação da partilha, todo um universo de relações substantivadasem aceitação e rejeição, que permitem a construção da identidade. Na ficção deSenna Fernandes subjaz o discurso lusotropicalista denotado na harmonia de traçoque reveste a caracterização física sobretudo das personagens masculinasmacaenses, num (auto) elogio ao resultado físico da miscigenação étnica; tanto nadescrição de Francisco Frontaria, o herói de Amor e dedinhos de pé: “Tinha um rostosimpático e agradável, com uma boa fileira de dentes brancos. Meão de altura ocorpo pendia para o cheio, embora não se pudesse classificar de gordo (…)” (p.36);________________112 No que concerne às denominadas modalidades mistas de existência consubstanciadas em acontecimentoshistóricos ou até em personalidades que por referencialidade se tornam constitutivos do universo ficcional,Roman Ingarden considera que “(…) devem em primeiro lugar ser ‘reproduções’ das pessoas, acontecimentos,coisas, outrora existentes e activas, mas ao mesmo tempo devem representar aquilo que reproduzem”(Ingarden:1973:266). Entende-se que o autor ao utilizar no entrecho narrativo estas modalidades como factorde verosimilhança apela a um conhecimento partilhado com o leitor.113 A referencialidade temporal deste retrato é a do tempo anterior à «voragem» de mudança que se seguiu aocontrato de entrega de Macau, «voragem», essa, bastas vezes referida pelo autor.Irene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 112
  • PARA UMA LITERATURA DA IDENTIDADE MACAENSE – AUTORES/ACTORES113Como na de Adozindo o protagonista de A Trança feiticeira: Orgulhava-se do sedoso dos seus cabelos encaracolados, emondas, do seu nariz caucásico, do redondo dos seus malares de costelachinesa, dos lábios apolíneos e da fileira magnífica dos dentes. Afinal,orgulhava-se de todo o seu aspecto físico. (…) narcisando-se aoespelho, murmurava com sincera convicção: – Oh, Deus, obrigado porme fazeres tão bonito! (p.10).A representação dessa harmonia perpassa também pela descrição de Macau,nomeadamente no que concerne à ‘cidade cristã’, dando-lhe quase o estatuto depersona, principalmente no primeiro romance, com características de Janus, comuma face harmónica, outra face caótica – a cidade cristã/a cidade chinesa – quasenuma dicotomia de luz e de trevas.As Linguagens dos RomancesNa construção dos textos literários está subjacente um processo que flui doselementos de conteúdo conceptual para o discurso e do discurso para o conteúdoconceptual. A este processo de construção do pensamento e dos actos de enunciaçãosubjaz a estratégia discursiva do autor, na medida em que a linguagem em literaturaé fundamental pois é através dela que o autor se assume como criador de mundose permite-nos o entendimento da literatura como acção e acontecimento. É atravésdo prisma da língua, não na sua conceptualização exclusivamente linguística, emboraa ela se recorra sempre que necessário114 que empreendemos a tentativa de análiseabrangente das linguagens dos romances; a linguagem literária inerente à escolhaautoral, apercebida no dito das personagens e, também, sobretudo, na maioria dos textos literários do autor, através do discurso do narrador que transporta arealidade do mundo, as solicitações ideológicas, religiosas, étnicas e culturais,que consubstanciam as construções discursivas da significação.Ao abordarmos as linguagens dos romances de Senna Fernandes, é nossopropósito percorrer o estilo pessoal de escrita literária do autor, em apontamentoque nos permita apreender a visão de mundo que a ela está subjacente. Nessesentido consideramos muito importantes, os instrumentos operatórios em que seconstituem as homologias de Goldman, orientadas para a descoberta das relaçõesentre as estruturas mentais de alguns grupos sociais e as estruturas do universoliterário115, mas não suficientes para o entendimento do facto literário.A visão de mundo goldmanniana é consubstanciada por uma rigideznormativa adstrita a uma classe social; é nosso entendimento que a visão de mundo________________114 Embora não pretendamos fazer uma análise exaustiva no campo da linguística.115 No sentido da transposição directa da vida económica na vida social e do todo que daí resulta nas vivências douniverso diegético.Irene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 113
  • MARIA BARRAS ROMANA114que através do autor emerge no texto literário, na narrativa, como elemento doconstruto do universo diegético é uma visão impregnada da criatividade autoralporque necessariamente imbuída de ficcionalidade, resultando na criação dummundo possível que objectiva não a cópia do mundo real referente, não a faceespecular desse realia, mas sim a possibilidade da sua inteligibilidade.Os três romances de Senna Fernandes contêm uma deriva na estratégiadiscursiva inerente ao contexto epocal da sua escrituralidade, consubstanciando-sena alteração gradual da imagem do outro, que gradativamente vai sendo alvo deuma focalização menos externa, na diminuição do discurso valorativo judicativo econcomitantemente na realização de enunciados com pendor critico e de denúnciamenos velada116, embora se mantenha algum misoneísmo no que se refere aoespaço como referente do real.No que à linguagem diz respeito, os romances, na generalidade, carreiam umestilo de linearidade discursiva, sem um significativo recurso ao estranhamento queemerge de um possível uso de excessivas figuras e no consequente ornato estilístico;embora não signifique uma simplificação em termos de escrituralidade, ficando longedo que se poderá considerar como o grau zero da escrita, como se pode constatarpor alguns exemplos do uso da sinédoque em Amor e Dedinhos de Pé: “O garotio,largado em chalaça”; “Num ápice o rapazio debandou, assustado” (p.11); daprosopopeia “O estômago protestava às guinadas e os pés ardiam, numa torturalancinante” (p.11); da comparação: “uma dor lancinante atravessou-o como gumede punhal” (p.10), ou da metáfora: [Victorina] “rosa ebúrnea de pureza” (p.367).A Trança Feiticeira e Os Dores carreiam uma escrituralidade com o mesmoestilo de linearidade discursiva pontuada pelo registo figurativo, mas contrariamenteao romance Amor e Dedinhos de Pé onde o discurso das personagens, as vozes quese entrecruzam na textualidade narrativa, consubstanciam em maior grau as formasdo discurso indirecto/transposto117 em detrimento do discurso directo que ocorrecom menor evidência, nestes dois romances são mais extensos os segmentos dediscurso directo permitindo com maior nitidez a percepção dos traços idioletais esocioletais, assim como os vectores de ordem ideológica e cultural que subjazem nodialogismo das personagens. ________________116 A propósito David Brookshaw refere: “If Senna Fernandes drinks from the waters of the realism and romanticismof a previous century, it probably reflects not only the generation to which belonged, but also the conservativenature of society in Macao and the gradual path it took to ‘decolonization’. (…) This gradual process, coupledwith the need to foment a more tolerant, liberal society in order to ensure the survival of the territory’s capitalistsystem, suggest that the foundational fictions of a previous age had a similar relevance to Macao, as it madethe transition from Portuguese colony to Chinese Special Administrative Region, under the mantra of ‘onecountry, two systems’. (…) the Macanese and Macao at a time when that world was undergoing profoundchange his progressive heroes and heroines reconcile their Portugueseness and their Chineseness”(Brookshaw:2011:20-21).117 O discurso transposto, tanto como o discurso indirecto livre é recursivo em Senna Fernandes.Irene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 114
  • PARA UMA LITERATURA DA IDENTIDADE MACAENSE – AUTORES/ACTORES115A tessitura textual, de narração tradicional, contém excursos descritivosextensos, nomeadamente os que referem a contextualização histórica das famíliasou, ainda, a exaustiva minucia na descrição dos lugares, não deixando contudo dehaver uma harmonia entre os momentos de narração descritiva e a narraçãodiegética pontuada por diálogos em registos sociolectais e dialectais que permitema referencialidade identitária. Estes registos do discurso, simultaneamente denotadores da diferença efactores de identidade, contêm estruturas frásicas específicas da variação doportuguês de Macau e da proximidade a uma oralidade de acordo com os usuáriosda língua, permitindo constatar a segmentação social através do discurso; asestruturas frásicas próximas da norma do português europeu no que concerne aodiscurso das personagens representantes de grupos de status elevados, o caso deGonçalo Botelho (ADP), mesmo em situações comunicativas em que o nível da línguaé familiar: “Por ora nada mais há a fazer. Tu vais dormir lá em cima, que eu fico nestacama. Estás esgotado”.118 A variação do português dos macaenses, em situaçõesinformais, igualmente de registo familiar (ADP): “Nunca deixarei de vê-la a você”;“Ah, quem não goza você…são todos.”; “Jurei a ela que iria entrar no bomcaminho”;119 ou como representação da corruptela dos estratos sociais mais baixos,como se constata no discurso de Celeste a ‘crioula’: “Encontrei (…) Nhum Antóniono mercado. Ele contou que houve uma pancadaria na Pensão Aurora. O Sr.Francisco varreu a loja de vinhos a soco. Muitos feridos, cabeças e braços partidos.Um deles ficou cara parecido papa. Gente diz cegou. (…) Tudo gente gabá ele muitoastrevido (…)” (ADP:351); a utilização do crioulo em ambiente familiar “– Ele há-deser alguém! Nunca-sa… eu-ça querubim”, “Qui boniteza!” (ADP:22); “Nós sangprimázia” (Os Dores:37); os registos socioletais das personagens oriundas dePortugal, “se querem escaqueirar-se, é no pátio” (ADP:344); “Viva a República!Abaixo os talassas!”; o intercalar, nos actos do discurso, expressões em cantonense“Tens um nome bem complicado. Não sei pronunciá-lo. Ao teu padrinho chamam-lhe o I Kó (Segundo Irmão Mais Velho). Chamar-te-ei Sám Kó (Terceiro irmão MaisVelho)” (ADP:161) ou em espanhol: “Uma palavra menos delicada e são logo tripasao sol, Hombre” referenciadas às personagens destas duas origens.A alternância de códigos, que estes segmentos são exemplo, constituem umrecursivo registo na transposição da oralidade “(…) realizou-se num «cha-kói» doLargo do pagode do Bazar (…)”, “tenho-a encontrado na igreja de Seng On Tó Nei(…)” (TF:152). Consideramos pertinente referir que Seng On Tó Nei é a denominação________________118 ADP:141 - a estrutura frásica é próxima da norma do português europeu.119 ADP:332 - São estas situações em que se constata a variação do português falado em Macau, e que respeitamà realização dos clíticos na estrutura sintática e à dupla realização pronominal.Irene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 115
  • MARIA BARRAS ROMANA116do cantonense de Macau para Stº António. A propósito desta adaptação fonéticadas palavras portuguesas realizada pelos falantes do dialecto cantonense (o dialectoda comunidade chinesa de Macau) sublinha-se que na primeira monografia deMacau, Ou-Mun-Kei-Leok (1751), elaborada por dois magistrados chineses, existeuma secção da tradução de termos empregados em Macau, que diverge do própriodialecto cantonense, pois resultam do contacto linguístico com o português e/oucom o patuá120 (Tcheong:[1751]1979:268-280).Constata-se, também, a alternância no que respeita ao léxico gastronómicopresente nos romances, onde geralmente são utilizadas as designações nas línguasde proveniência das iguarias: “fatias de bolo-mármore e surang-surave” (TF:357);“(…) bolinhos de bacalhau, pãezinhos recheados, chilicotes e cheese-toast (…) chau-chau e lacassá (…)” (Os Dores:95), constituindo uma das possíveis consequênciasdo multilinguismo da comunidade linguística de Macau. Atente-se ainda ao facto de, apesar da constatação a uma proximidade coma norma do português europeu, a generalidade da escrita romanesca deixatransparecer algumas marcas de variação linguística específicas do uso da línguaportuguesa em Macau que não se restringem só aos excursos enunciativos daspersonagens, como podemos constatar no seguinte exemplo, onde a escolha dapreposição difere da norma: “Mas Victorina Vidal saiu toda do lado do pai (…)”(ADP:365)121.No que respeita ao uso do pátoà nos romances, não são muitas asrealizações, tendo em conta que o próprio autor explica, na introdução do primeiroromance, que “para ser mais conforme com o ambiente, devia, em certos diálogos,redigi-los em patois (…) não o fiz porque (…) para o leitor português em geral,não familiarizado com o dialecto, a sua leitura tornar-se-ia muito difícil (…) Noentanto (…) cedi à atracção reproduzindo frases em patois, e noutras introduzi aconstrução gramatical do português falado pelo macaense” (ADP:6); contudo,embora não se verifique a existência de enunciados longos no crioulo de Macau,são significativos os apontamentos desta forma dialectal, tanto em Amor eDedinhos de Pé como em Os Dores122; em relação ao segundo romance (TF), osapontamentos do crioulo são mais escassos dando lugar a algumas expressões emcantonense, perfeitamente justificadas na medida em que a personagem femininaé chinesa.________________120 A título de exemplo apresentamos alguns termos, 1º em cantonense, 2º na forma hibrida (romanizados), coma respectiva tradução em português: U-Kâm → A-kó-láp → Agora / Sân-fu → Kâng-sá-tou → Cansado / Lâu → Teng→ Tem / Sêk →Ku-mei→ Comer (Tcheong:[1751]1979:268-280).121 No segmento frásico ‘do lado’ o uso da preposição ‘de’, em contração, é uma variação, sendo a forma, doportuguês europeu, construída com a preposição ‘a’ em contracção: “ao lado”.122 O Romance, Os Dores, contém, no final, um Glossário com trinta e uma entradas. Refira-se que o maior uso determos do patuá usados nos romances integram ou o campo lexical da gastronomia ou são expressões de calão.Irene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 116
  • PARA UMA LITERATURA DA IDENTIDADE MACAENSE – AUTORES/ACTORES117O tom é muitas vezes pautado por laivos de ironia sobretudo no que se refereaos enunciados do narrador em pleno exercício da sua omnisciência e atitudedemiúrgica123; é, sobretudo, em discurso transposto que, neste romance, o narradornos introduz no discurso ideológico “(…) Timóteo lançou-se numa longa tirada.Analisou a vulnerabilidade da mulher numa sociedade injusta de prevalênciamasculina. Invectivou o despudor satânico dos homens, que só querem divertir-se edepois sacodem de si a responsabilidade (…) Evocou a honra, a santidade domatrimónio, a beleza da virgindade (…)” (ADP:336); embora se possa, também,constatar, através das personagens, em diálogos vivos: “– Então para que é omatrimónio, senão para ter filhos? Deus, na Sua infinita misericórdia, não nos quisdar, por qualquer pecado cometido na mocidade, embora fosse sempre cumpridorda Sua Lei” (ADP:367).Os segmentos descritivos da ‘cidade cristã’ estão repletos de adjectivação queexpressa uma valoração positiva: “Um mês antes do Entrudo propriamente dito, a«cidade cristã», tão pacata e tão caracteristicamente diferente da «cidade chinesa»,acordava da sua dormência” (ADP:37), exaltando a sensação harmoniosa de umlugar idílico:Ladeou o Jardim de S. Francisco, onde as crianças chilreantes,acompanhadas das criadas, corriam nas áleas dos canteiros, eaproximou-se da muralha que o separava do mar. A Baia da PraiaGrande, desde o fortim de S. Francisco até à curva do Bom Parto,coalhava-se de juncos e lorchas na poalha do sol. Encaminhou-se nasombra recolhida das árvores do pagode, cujos murmúrios eram umfundo musical para a cantilena da maré enchente, espumando nosgranitos da Praia Grande” (TF:19).No que concerne à ‘cidade chinesa’constata-se a utilização de algunslexemas com sentido depreciativo, passiveis de serem interpretadas como estratégiaspara marcar a distinção: “Em frente do templo organizara-se uma feira ruidosa queia pela noite fora, com muito povoléu a comemorar uma data do calendário lunar.Era uma festividade retintamente chinesa, com o pagode cheio de fiéis que entravame saíam, alumiado a petróleo e miríades de velas e lampiões” (ADP:39) e a descriçãoreferenciadora de uma ocupação desordenada do espaço: Entraram no troço largo da Rua das Estalagens, tão activa eborborinhante como a rua que deixaram atrás, com os seus vendilhõesambulantes e tendinhas de comércio, atravancando o acesso às lojas,________________123 A atitude demiúrgica resulta do facto de o narrador heterodiegético, na situação narrativa, se situaropostamente ao universo diegético e concomitantemente existir, entre ambos, uma situação de alteridade quaseirredutível. Ao assumir-se como demiúrgico o narrador assume uma autoridade que geralmente não écontestada.Irene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 117
  • MARIA BARRAS ROMANA118num ambiente de feira permanente. Os mesmos cheiros e pregões,diálogos ruidosos, berraria dos condutores de riquexós, zorras a chiare uma babilónia de vozes (TF:145).São várias as alusões que nos romances nos remetem para as atitudes deafirmação da herança cultural portuguesa “Era hábil a recitar versos (…) poemasde Castilho, João de Lemos, Soares de Passos e João de Deus” (ADP:20), e a ligaçãocom a pátria: “(…) os rapazes a cantar (…) as partituras das canções popularesdo filme português «A Canção de Lisboa» que então faziam furor em Macau”(TF:131), no reafirmar do sentir de Montalto de Jesus: «somos os Portugueses doOriente».Mas, estas narrativas também carreiam as contradições e ambivalências quecaracterizavam a sociedade patriarcal macaense da primeira metade do século XX:“– uma outra mulher? (…) – Não digo uma amante (…) o que digo é que precisasde experimentar uma outra, sem compromissos nem obrigações (…) uma cortesã,uma pei-pa-chai (…) Depois irás ao cura confessar o teu pecado (…)” (ADP:164) eonde são denotadas atitudes de profundo conservadorismo no que concerne àdefesa do bom nome da família, a instituição de referência e concomitantemente àdefesa da honra do patriarca/chefe de família, mas, também de superioridade e deintolerância na relação com o outro: “(…) O meu filho perdi-o. Envergonho-me como seu inqualificável procedimento, fui pasto da maledicência e troça. É imperdoável!Esqueceu-se das suas obrigações para com o bom nome da família, para com asociedade (…) para chafurdar nos braços de uma aguadeira promíscua, semeducação e sem instrução” (TF:170).2.1.1. AMOR E DEDINHOS DE PÉ: Personagens/instâncias da enunciaçãoO romance Amor e Dedinhos de Pé é um romance de costumes, fechado124,cuja temática emerge de uma relação amorosa improvável entre dois seres que porrazões diversas foram ostracizados pela sua comunidade; romance em media res e,embora se tenha considerado este romance fechado atendendo ao seu fechamentoem termos conclusivos da diegese contém uma urdidura com alguma complexidadeem termos de sequencialidade e temporalidade, tendo uma dualidade estrutural, namedida em que a diegese deste romance contém dois universos diegéticos e doisprotagonistas, dois heróis que fundem o seu destino, tal como os dois universos.Este no que concerne ao narrado, organiza-se em quatro partes e cinquenta e três________________124 De acordo com V.M. Aguiar e Silva: “O romance fechado caracteriza-se por possuir uma diegese claramentedemarcada com princípio, meio e fim. (…) É particularmente característico do romance fechado um brevecapítulo final em que o autor, em atitude retrospectiva, informa resumidamente o leitor acerca do destino daspersonagens mais relevantes do romance” (Aguiar e Silva:1996:727).Irene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 118
  • PARA UMA LITERATURA DA IDENTIDADE MACAENSE – AUTORES/ACTORES119capítulos; a primeira parte com o título de Chico-pé-Fêde integra os dezasseisprimeiros capítulos.O primeiro capítulo, curto, corresponde ao incipit do romance e, na medidaem que o romance inicia em media res, introduz o leitor a meio de algo que numprimeiro momento consubstancia o espaço psicológico e o estado de debilidadefísica de uma personagem, caracterizado pela doença, indigência e abandono, numtempo cósmico de invernia “Fazia frio. A temperatura caía, de repente o ventoagreste da nortada soprava fúrias siberianas” (p.9) em pleno carnaval “quem iriapreocupar-se com ele em época de carnaval” (p.11). No capítulo seguinte, numaderiva analéptica, recua-se dois Séculos para, através da estória da origem da famíliado protagonista, Francisco Frontaria, percorrermos a trajectória de uma comunidadeno seu espaço uterino, Macau e também, com a integração dos realia, a suacontextualização epocal, concluindo com as duas últimas gerações da FamíliaFrontaria, cerne da matéria narrada.Catorze capítulos são dedicados a parte da trajectória da personagemprincipal; neles se recria a ambiência de um Macau, a ‘cidade cristã’ nas primeirasdécadas do século vinte; as reuniões sociais, através da descrição dos «chás-gordos» e dos assaltos carnavalescos, dos casamentos, noivados e funerais e as comunhões; a descrição das práticas religiosas fruto de uma vivênciaprofundamente católica e reveladora de um dos traços identitários da comunidade,não deixando de introduzir a menção, com a subtil ironia, ao «beatério» da referida‘cidade’, mas também à hipocrisia e à maledicência de um lugar fechado sobresi mesmo.Neles também se assiste à deriva experienciada pelo ‘filho-família’ FranciscoFrontaria da ‘cidade cristã’ que o transforma no anónimo indigente Chico-Pé-Fêdeda ‘cidade chinesa’, a outra face de Janus, caracterizada na sua miséria e igualtradicionalismo; o final desta parte retoma o capítulo inicial e coloca Chico nomesmo espaço onde termina a segunda parte do romance, a rua de Stº António.A segunda parte, denominada Varapau-de-Osso introduz a heroína, VictorinaCidalisa Padilla Vidal, igualmente em media res. O seu surgimento na estória estácontextualizado no mesmo momento temporal do início da primeira parte: ocósmico “Na rua, o vento apanhou-a de surpresa. Não previra a brusca queda detemperatura e o frio queimou-lhe as faces” (ADP:118), no mesmo tempo ‘profano’:“Ir a festas, participar nos folguedos carnavalescos que punham a cidade louca poruns dias? Não.” (p.117); também nesta parte há lugar a um excurso analéptico nosentido de contextualizar a história de vida da personagem a trajectória da sua família,a sua importância social, de certa forma são apresentados os mesmos momentosda vivência macaense com diferentes focalizações. A trajectória desta personagemdifere, pois, ao contrário de Francisco que substancia um movimento descendente,Irene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 119
  • MARIA BARRAS ROMANA120o dela ascende em termos distintivos. O final coloca-a em frente de Chico no mesmoespaço/lugar, a rua de Stº António.A terceira parte do romance denomina-se Chico-Pé-Fêde e Varapau-de-Osso,o lento reencontro de dois seres que percorreram parte da vida cruzando-se emtortuosos desencontros. É neste segmento da narrativa que o herói inicia a suacaminhada contrária no sentido da redenção dos seus pecados e da reintegraçãona sua comunidade com a ajuda da heroína, que primeiro lhe cura a doença físicae, na quarta e última parte, o cura da doença da alma, ajudando ao acolhimentodo filho prodigo pela família e pela comunidade e aceitando a união das duasfamílias num desenlace feliz.O tema nuclear desta narrativa emerge de uma estória, que segundo o autor,é uma “(…) história antiga que escutei (…) num dos serões da velha casa da minhaAvó (…)” (p.5), contextualizando o retrato da comunidade macaense, do princípiodo século XX, a partir do qual são representados as várias fracções sociais queconsubstanciam a comunidade, assim como, a dimensão simbólica das suas relaçõessociais; as situações em que se projectam as formas de mobilidade social, oprestígio/status perante o campo de poder materializado pelas autoridadesnomeadas para a administração do território.Da temática nuclear verifica-se a expansão de excursos diegéticos, ligados aonúcleo temático através dos protagonistas da narrativa, e integrando outras estóriasque permitem a compreensão das relações da comunidade com o outro; e este outroé a comunidade chinesa com quem partilham a terra, é o outro militar, comerciante,ido de Portugal, a comunidade portuguesa, ou ainda o outro de lugaresestrangeiros/estranhos e deste modo assumidos pelos macaenses.O protagonista do primeiro universo é Francisco Frontaria, descendente delorcheiros que ganharam notoriedade na defesa de Macau “tanto eles [filhos] comoo pai, ex-grumete, participaram, sob o comando do Ouvidor Arriaga, na acçãocontra o pirata Cam Pou Sai, ao largo da ilha de Lin Tin”; na descrição da origemdos Frontarias constata-se a homologia entre a origem da família e a origem dosmacaenses como comunidade:“(…) o fundador da família, Bernardo Frontaria, fora umgrumete algarvio que aportara a Macau a bordo de um brigue inglês,sabe-se lá por que artes mágicas (…) os pergaminhos da família não sereferiam com muita minudência aos seus primeiros passos na terra deadopção (…) casou-se depois com uma meio-goesa e meio-minhota,nascida em Macau, que lhe deu filhos rudes mas corajosos. (…) umoutro Frontaria, tendo livrado a família inteira dum china abastado deCantão, cujo tou ficara cercado por facínoras, recebeu como prémiode gratidão eterna a mais bela das filhas (…)” (pp.13-14).Irene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 120
  • PARA UMA LITERATURA DA IDENTIDADE MACAENSE – AUTORES/ACTORES121Também, os momentos áureos da história da família e da história de Macau,que correspondem cronologicamente aos séculos XVII e XVIII (o episódio históricodo Ouvidor Arriaga remonta aos finais de setecentos), são homólogos, tal como éhomóloga a decadência que gradativamente se verifica em ambas as histórias.Macau inicia o seu processo de decadência nos primórdios de oitocentos echega ao dealbar do século XX quase completamente isolada da sua pátriamantendo algum contacto com a Europa através do filtro da nova colónia inglesa;é, ainda nessa época, protagonista do primeiro momento diaspório, dos muitos queciclicamente assolaram o território ao sabor dos ‘ventos de tufão’ causadores deinstabilidades político-administrativas:“(…) a Guerra do Ópio, a fundação de Hong-Kong e o rápidodesenvolvimento da colónia inglesa foram um golpe fatal tanto paraa empresa lorcheira dos Frontarias como para os outros que sededicavam à mesma profissão (…) Macau, até então o únicoentreposto ocidental na costa da China, perdeu para sempre o seulugar proeminente (…) a revolta dos Faitiões, o assassínio dogovernador Ferreira do Amaral (…)” (p.14).Por sua vez, assiste à desagregação da família Frontaria através da emigraçãodos seus membros: “Iniciou-se uma enorme imigração (…) entre os emigrantesfiguravam os Frontarias da terceira e quarta geração.” (p.15); esta saída demacaenses, sobretudo para a nova colónia, contribuiu de certa forma para adecadência do território de Macau: “(…) os Frontarias que ficaram acompanharama decadência de Macau (…) O enorme casarão à Praia do Manduco, celebérrimopelos banquetes, bailes e recepções, alumiado por mil candelabros que o enchiamde uma auréola de opulência em noites de gala, decaíra também (…) por volta de1870, um único ramo da família persistia (…) pertencia à descendência de ÁlvaroFrontaria; o lorcheiro intrépido que trouxera da «terra-china» uma noiva de dezasseisanos (…)” ( p.15). Pode-se verificar pelos excertos apresentados que subsiste apermanente referência às origens da miscigenação étnica, mas também ao forteentorno referencial da herança portuguesa/europeia.A narração da diegese romanesca, no plano da história, é realizada porum narrador heterodiegético125 com conhecimento pleno sobre a vida daspersonagens, sobre os seus pensamentos, ideias, os seus destinos, narrativa dointerior para o exterior, mais do que narrador observador, é um narradortestemunha embora não se possa considerar uma personagem diegética, poisnão assume nenhum papel na diegese do romance, este narrador intromete-se________________125 O narrador é heterodiegético (de acordo com a teoria de Gerard Genette) se não é co-referencial com nenhumadas personagens da diegese, i.e. não participa na história narrada e geralmente funde-se com o autor textual.Irene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 121
  • MARIA BARRAS ROMANA122no discurso126, comentando a atitude das personagens e narrando, algumas vezes,a partir das suas mentes “(…) batia os dentes e estava com tanta fome que tinhaganas de vomitar (…)”; “ficava em êxtase com as gargalhadas em redor oupalmadinhas nas costas, sem discernir, na sua boa fé, que estes gestos muitas vezesescondiam escarninhos e incredulidade (…)” (pp.11,30).; Não se coibindo de fazerapreciações em discurso valorativo de crítica irónica na descrição de algumas daspersonagens ou, como se pode constatar, no retrato da família Vidal em que seencontra os traços que permitem encontrar a posição das personagens no tecidosocial de Macau e os indicadores do seu capital económico, os bens materiais: “(...)cujo casarão, à rua Formosa marcava entre os melhores do burgo (…) Nem a«nobreza» de S. Lourenço ou da Praia grande competia no seu [de Cristóvão Vidal,advogado provisionário] nariz alevantado, no trejeito da boca que não chegava aser sorriso (…). A mãe e as três filhas eram simplesmente intoleráveis (…) quandosaiam as quatro, enormes de carnes e gorduras, ocupavam com autoridade a ruatoda (…)” (p.121). Ou até fazendo advertências ao narratário, reforçando a distinção:“Pablo Padilla – Padilla com dois «ll», não se esqueçam – de origem espanhola (…)”(p.125), “Hipólito Vidal – tinha, claro, um nome mais comprido –” (p.121).Contudo esta interioridade narrativa só se verifica no que concerne àspersonagens macaenses, constatando-se o gradual afastamento em termos dedistância quando os excursos narrativos reportam ao outro, e no caso específicodeste romance, o outro representado pela exterioridade é o outro chinês, como sepode constatar na descrição de A-Tai: “(…) mulher chinesa dos seus trinta e cincoanos, mais ou menos forte e saudável, que ganhava a vida como vendilhã de achares(…) morena e crestada do sol, tinha dentes de ouro, era rude, uma aldeã avantajadaque falava em cantonense (…) pés largos e calejados (…) rosto achatado, malaressalientes, nariz pequenino, de narinas infladas, olhos puxadíssimos (…)” (p.63) e,ainda, do comerciante de vinhos, Lam Sang, retratado da seguinte forma: “Era umhomem possante, cinquenta anos feitos, a trança esticadinha e sempre impecável,um bigode ralo e pendurado de que tinha orgulho” (p. 67); também, o outroportuguês nascido na pátria, representado pela personagem «Zé Trigo»: “O seucompanheiro de mesa era um tal de Zé Trigo, capataz na futura companhiaconcessionária que ia montar a electricidade em Macau, natural de Lisboa (…) nãose sabendo bem se deportado ou refugiado politico (…). Era um homementroncado, descomunal de altura, com forte bigodeira ruiva e patilhas debandarilheiro. Gesticulava muito, autêntico meridional que era (…)” (p.341), ou________________126 A intrusão do narrador consubstancia-se em manifestações subjectivas do narrador projectadas no enunciado;são geralmente segmentos discursivos denotadores de graus diversos de incidência apreciativa ou judicativa e configuram atitudes emotivas e/ou ideológicas no que concerne à história e aos seus elementos(Benveniste:1996:259).Irene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 122
  • PARA UMA LITERATURA DA IDENTIDADE MACAENSE – AUTORES/ACTORES123ainda, o outro espanhol, das filipinas, o avô de Victorina: “Pablo Padilla (…) deorigem espanhola, da colónia das Filipinas (…) era um homem violento, vozeirãotonitruante e intimidativa (…) quando se irritava expunha toda a violência do seucarácter (…) ganhara dinheiro sujo, como corretor da emigração chinesa (…) eraquem tratava a rapaziada boémia das doenças vergonhosas… um porcalhão (…)”(pp.125-128), olhados de uma forma, algumas vezes, judicativa realizam-se empersonagens planas; ou seja, o Outro que não comunga de todos os traços quecaracterizam o macaense na sua especificidade.São esses traços que num constante cotejo permitem que a construção daidentidade seja urdida neste romance e constatada através do já referido e de outrosexcursos narrativos em traços distintivos que representam o ‘Eu macaense’: na suareligiosidade; “Rezou, ajoelhado, o terço da noite junto ao grande altar da casa,recheado de santos hieráticos ou amáveis ladeando um Cristo sofredor (…)” (p.369),registada, por vezes, com leve ironia: “A tia Beatriz, mais conhecida por Títi Bita, erauma mulher inofensiva e bondosa, muito devota à sua igreja. Era rechonchuda, umapaz-de-alma, condenada de pequenina ao celibato (…) Confinava a sua vida entrea casa e a igreja, entre pudins e iguarias de que era exímia cozinheira (…) Era boapara orientar festas de casamentos, baptizados e aniversários. Tinha o prazer doentiode vestir os cadáveres dos amigos e orientava um velório com eficiência (…)” (p.16),os ritos e toda uma referência de índole cristã/católica: “aos oito anos, nãopercebendo bem o que eram os pecados do mundo fez a primeira comunhão. Asmadres do Convento Canossiano, onde os comungantes passavam obrigatoriamenteos três dias de retiro preparatório para a grande solenidade, só tinham palavras deunção para o petiz [Francisco Frontaria] (…) extasiava-as ouvi-lo papaguear sem umafalha os Actos de Fé e de Contrição, os dez mandamentos (…)” (p.21).A assimilação dos costumes chineses nomeadamente no que concerne àsaúde, representando, também, uma notória resistência à mudança: “De repente asaúde da Títi Bita começou a falhar. Como toda a gente antiga de Macau, valeu-seprimeiro das mezinhas e tisanas caseiras. Não melhorou. Mandou chamar o «mestre-china», o curandeiro e o ervanário da casa, de preferência ao médico português (...)”(p.31). As manifestações da vida social, das festas e festividades; as profissões: “(...)[Timóteo] honestíssimo funcionário da Repartição da fazenda (…)” (p.17); a primeiracolocação conseguiu-a pela mão do tio, como copista duma firma comercial (…)”(p.25); “Para o disciplinar, Timóteo Frontaria colocara-o como contínuo da repartição(…)” (p.31); “(fora duro para o orgulho de Timóteo ter um sobrinho continuo (…)”(p.29); “[No escritório do advogado] Havia o inevitável letrado, dois escriturários (...)e, na secretária maior, um indivíduo anafado, (…), que falava com um chinês [o intérprete macaense], (…) Como o Dr. Tovar não soubesse chinês, ele [o chefe dopessoal do escritório] servia de intérprete” (pp.330;332).Irene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 123
  • MARIA BARRAS ROMANA124Os diálogos que consubstanciam, neste romance, o discurso das personagenssão de extrema importância pelo facto de congregarem um factor informativo quenos permite a referência ao pensamento ideológico-cultural da comunidade namedida em que há uma exposição, através da interacção verbal das personagensseja ela em discurso indirecto: “[Podia desfiar todas as reclamações contra aquelestios.] Mas Para quê?” (p.368) ou discurso directo: “– Aliás, aqui não é ambiente para um rapaz casadoiro. E nãogosto nada desta coisa de lutas entre monárquicos e republicanos.Dizes que não, mas não há fumo sem fogo.(…)– Os Frontaria foram sempre fiéis a Sua Majestade Fidelíssima.Isto aqui tem fama de antro de revolucionários (…)” (p.368).Mas, também, pelos seus fluxos de consciência muitas vezes em discursorelatado pelo narrador “Não sabia bem o que isto [republicanos] significava. Tinhauma vaga ideia de que eram aqueles que falavam mal do Rei. Assim o disse. Depolítica não entendia nada (…) o seu mundo era Macau, e os ecos de Portugalapareciam diluídos pela distância e pela memória.” (p.333); dos seus pensamentos:“Os amigos abanavam-se estupefactos. Que pretendia Chico Frontaria? Se nãotomava a sério o casamento, não estava a caminhar longe de mais?” (p.53), doshábitos sociais “marcou-se o dia em que iria pedir oficialmente a mão dePulcritude, porque sem esta cerimónia nenhum casamento era de bom-tom (…)convidou meio mundo, entre gente fina e modesta, num estardalhaço deembasbacar, para um lauto «chá gordo»” (p.53); da expressividade linguística porvezes em apontamento irónico: “(…) aguentava o embate uivante do mais cerradopatois (…)” (p.49); “(…) com toda aquela fala difícil, torrando o português (…)”(p.365).É através da narrativa viva do narrador que a visão de mundo do autor/ator,fruto da sua formação e vivência pessoal, emerge no romance e emoldura o modusvivendi da comunidade macaense. A representação das suas característicasidentitárias surge com o retrato da sociedade patriarcal; com a consciência dadecadência, de uma comunidade que se sentia transitória; através das personagensdo mundo ficcional que representam os macaenses e cujas relações se vãoestruturando à semelhança da comunidade retratada.A denúncia de situações sociais em apontamento, por vezes, sem grandeforça locutiva mas plasmada numa subtil ironia vai permitindo constatar as relaçõesde poder/dependência entre as três comunidades que partilhavam o território:comunidade dominante, mas fugaz, constituída pelas autoridades portuguesas, suasfamílias, e a maioria dos quadros superiores da administração do território,insignificante em termos de número mas muito significativa no que concerne àIrene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 124
  • PARA UMA LITERATURA DA IDENTIDADE MACAENSE – AUTORES/ACTORES125dominação; alguns macaenses pertenciam a este segmento dominante mas “(…)iam buscar vagas ramificações com alguns nomes mais ilustres da heráldica dePortugal, ocultando ciosamente que entre os seus maiores havia cavadores de enxada(…) eram todos soberbões, (…) proclamando o seu sangue azul de última hora,enquanto a arraia miúda troçava (…) que nas suas veias o que corria era «águaazulada da tinta dos tinteiros dos tribunais»” a comunidade macaense, acomunidade «entremuros», que perante a primeira poderia, de acordo com ascircunstancias, assumir atitudes de subserviência, almejando sempre estar «de bemcom Deus e com o Rei», ser «tu cá tu lá» com o governador e «rolar» com as gentesda Praia Grande, contudo, face à comunidade chinesa mostrava-se, não rarasvezes, sobranceira e dominadora.É, também, com laivos de ironia que o narrador nos introduz noconservadorismo da pequena comunidade, como podemos constatar nos seguintesexcertos: “Para espanto do burgo pacato e conservador, usou vestidos de corespampanante e à moda, fazendo alçar as sobrancelhas, sobretudo daqueles quenão se esqueciam de que ainda não decorrera o prazo de luto. (…) Passariadespercebida num meio grande como o empório comercial de Xangai, mas jamaisno mundo pequeno da «cidade cristã» de Macau. O desafio foi muito comentado.As Padillas, rilhando, apodaram-na de Máscara (…)” (p. 263); ou, ainda, através dodiscurso das personagens: “– É isso que te preocupa? Os preconceitos, a fachadade moralidade a que se liga mais importância que à verdadeira moralidade? (…)”(p.237).No confronto com o Outro permite-nos encontrar a referência narepresentação do que concerne à comunidade chinesa, perpassando o conhecimentopelo contacto, pelo convívio, embora prevaleça uma visão externa denotada pelaprópria focalização do narrador que nos descreve os vários aspectos da vivência dacidade chinesa: “Na miséria em que estava, nem sofria por viver entre chineses, numcasarão com muitas famílias e uma cloaca imunda para os despejos. (…) comiaagora num sórdido fan-tim, frequentado por pescadores embarcadiços eestivadores” (p.60), das profissões dos chineses, distintas das profissões dosmacaenses: “Em vez da cadeirinha, acenou por um riquexó, esta nova forma delocomoção (…) Desconfiava de tal veículo, o condutor entre os varais (…) se o culetropeçasse era um mergulho desastroso (…)” (p.32); “(…) uma penteadeira untavade óleo de madeira a trança grossa de uma jovem marítima (…). Perto, o vendedorambulante de acepipes (…) mais além o homem dos «tintins» batia os ferritos e oamolador de facas esfalfava-se, no seu aparelho primitivo, a polir um parão decozinha.” (p.334); algumas vezes textualizadas num discurso valorativo “um dentistaambulante, à luz de uma lâmpada de petróleo, arrancava dentes a um desgraçadoque soltava urros” (p.40).Irene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 125
  • MARIA BARRAS ROMANA126Francisco Frontaria, o herói deste romance, é retratado como a representaçãodos filhos-família da comunidade macaense; um laxismo que advém da protecçãoexcessiva da Títi Bita que lhe proporcionou uma vida fácil e sem compromissos: “A sorte favorecera-o. (…) Gozou dos bons lençóis, um quarto só para ele, umacriada para servi-lo, fatinho limpo, enlambuzando-se dos doces e salgados da tia(…) cheio de mimo (…) Era também uma criança formosa, asseada, cheirando asabonete (…)” (p.19) e que nele se extrema na sua aversão aos estudos ficando sócom a instrução primária feita com um empurrãozinho “Assim, foi com um dolorosoespinho atravessado na consciência que D. Natividade abriu uma excepção. Ficouaprovado o menino gordinho, sempre bem vestido e asseado. Títi Bita exultou maso Tio Timóteo torceu o nariz (…) O petiz passara sem mérito nenhum e lá se criavaamimado, mole e madraço, com dinheirinho sempre na algibeira (…)” (p.22). Édesta forma risível e numa crítica conservadora e moral que o narrador nos apresentaFrancisco, o protagonista do romance e, simultaneamente, a sua família; continuamcontudo os encómios ao nosso herói e em excursos de dialogismo com Brás Cubas127o narrador informa-nos que “Aos treze anos denunciou grande tendência para aboémia”; “Aos quinze teve a sua primeira aventura amorosa com a criada dovizinho”; Evidentemente que os tios tentaram dar-lhe uma formação condigna dosFrontaria, e não lhe reconhecendo capacidades que o levassem ao destino dos outrosmeninos de Macau [os estudos superiores em Portugal] “os dois irmãos concordamque o destino de Francisco estava no funcionalismo ou no comércio” assim sendo:“matriculou-se na Escola Comercial, recentemente fundada” este último excurso,que consubstancia uma nítida intrusão do narrador/autor, refere para a realidadeMacau, para o momento/década da criação desta importante escola queconsubstanciou, mais do que o liceu, a primeira escola de estudos secundários noterritório (o centro de educação e instrução da maioria dos jovens macaenses).A personagem feminina, Victorina Vidal, é fruto de um casamento desigual,dentro da comunidade, sendo o pai um filho-família “mal casado”, no entender dasvozes da ‘cidade cristã’, com a filha de um espanhol de condição social obscura;este casamento provocado pelo pai da noiva constituía a única forma de ascensãosocial, não só desta, mas das famílias da pequena burguesia sem ligações às grandesfamílias ou originárias de outros lugares. No desenrolar da narrativa constata-se aineficácia do ‘estratagema’ pois, situações como a referida, envolviam a ‘perda deface’128 como se pode depreender em relação à atitude do patriarca da família Vidallevando-o a renegar o filho para recuperar a sua dignidade/imagem social, e oresultado foi a mobilidade descendente do filho e a concomitante perda de prestígio.________________127 Protagonista do romance homónimo de Machado de Assis (1946).128 Imagem social.Irene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 126
  • PARA UMA LITERATURA DA IDENTIDADE MACAENSE – AUTORES/ACTORES127É num ambiente de desconforto social que Victorina cresce com um paihumilhado pela família, que o ostraciza e com uma mãe humilhada pela elite dacomunidade que não a aceite e, concomitantemente, aos seus. Victorina épraticamente criada pela crioula que a ajudou a nascer “Para Victorina, a Celeste foiuma verdadeira mãe” (p.147). Não era bonita “feia agreste e chorona” (p.150), eestrábica.O pai sai de casa, embora antes lhe tenha proporcionado uma esmeradaeducação no, então, melhor colégio para meninas patrícias, o que envergonhaprofundamente a família já com uma imagem social muito frágil, numa terra ondeo controlo social se fazia pelo rumor, integrando uma comunidade muitoconservadora e patriarcal. Hipólito Vidal imigra para as feitorias europeias de Cantãoem busca de melhor vida, e consegue, mas não volta para Macau. Depois de umpériplo por várias zonas da China onde prosperou permanece em Cantão(Guangdong) onde morre deixando a filha muito rica. Victorina acaba por herdar,também a fortuna do padrinho do pai, macaense abastado, filho de um diplomatae que não era muito bem visto na comunidade por não se submeter aos seus juízosde valor.De menina-mulher feia, magérrima, infeliz, solteirona, um verdadeirovarapau-de-osso, sempre conventualmente vestida, transforma-se numa raparigaencantadora, um bom partido, e sobretudo porque, após a morte do pai e dopadrinho, quando Victorina se muda para a casa fidalga deste em S. Lourenço, noLilau, em plena zona ‘aristocrática’, os avós paternos, os Vidais da rua Formosa, enaturalmente a elite macaense, à qual eles pertenciam, a recebem de braços abertos.Mulher forte, na sua fragilidade desafia a comunidade quando inicia o processo deredenção do filho pródigo da família Frontaria levando-o para casa e tratando-lheas chagas, alheando-se do ‘chuchumecar’ da comunidade.2.1.2. A TRANÇA FEITICEIRA: Personagens/instâncias da enunciaçãoA Trança Feiticeira é, tal como Amor e Dedinhos de Pé, um romance decostumes que tematiza uma relação sentimental. Romance fechado, constitui-senuma urdidura linear com o princípio, meio e fim demarcados e contendo umasequência temporal sem ressaltos cronológicos. Na primeira parte, ao longo de novecapítulos, o narrador heterodiegético dá-nos a conhecer o protagonista, um jovemmacaense, um ‘Mamão’, oriundo de um dos bairros mais característicos de Macaue que albergava a média burguesia quase exclusivamente macaense, o bairro deSanto António “O Belo Adozindo não possuía a abastança das mansões da PraiaGrande e de S. Lourenço ou das casas que principiavam a erigir-se na Avenida daRepública, mas vivia muitíssimo bem, com a largueza típica de um mamão de StºAntónio” (p.43), um retrato que em interessante dialogismo nos remete paraIrene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 127
  • MARIA BARRAS ROMANA128algumas passagens do protagonista machadiano de Brás Cubas. O Belo Adozindo,em quem a família depositava grandes esperanças de ascensão social, pois de acordocom os costumes estaria destinado a uma menina de família com igual ou superiorprestígio na comunidade, perde-se de amores por uma aguadeira chinesa dehumilde condição. A relação entre o protagonista e a pequena aguadeira é o resultado de umcapricho irresponsável de Adozindo numa representação que patenteia adesigualdade de relações entre as duas comunidades e sobretudo representa,embora de forma atenuada, na discursividade a relação colonial. Os filhos-família‘patrícios’ da comunidade dominante129 considerando-se com direitos sobre asraparigas da comunidade chinesa, que eram olhadas como pertença sua, na medidaem que, maioritariamente ocupavam, na cidade cristã, as funções inferiores, comoserviçais e, naturalmente, numa posição de submissão de acordo com a sua condiçãosocial, não lhes sendo permitido pôr em causa o convencionalmente estabelecido,tanto devido a essa condição, como também pelo facto de pertencerem à ‘cidadechinesa’. Foi, pois, o desafiar dessas convenções “(…) em vez de enlanguescer-seperante a sua [de Adozindo] beleza irresistível, a rapariga ousava sujar-lhe os sapatoslustrosos e as calças sem se desculpar. E era uma aguadeira ou lavadeira de categoriaabaixo de uma criada de servir. A desfaçatez!” (p.19) o que leva Adozindo aocapricho quase obsessivo de conseguir da aguadeira aquilo que considerava comoum direito.O narrador heterodiegético, na medida em que não se configura como umenunciador explícito, nem é co-referencial com nenhuma personagem, na suaomnisciência demiúrgica (Friedman:1975:cap.8) confronta-nos com o quebrar deregras que regiam cada uma das comunidades e que emolduravam a dimensãosimbólica das relações sociais, não só, entre as comunidades e que seconsubstanciavam na interdição imposta no que concernia a outro tipo de contactosque não fossem os de trabalho ou trocas comerciais; mas, ainda, entre as camadassocioeconómicas da comunidade macaense, os comportamentos associados e aspráticas.O que deveria ter sido um relacionamento fugaz e com perda evidente paraA-Leng, pois acabaria inevitavelmente na Rua da Felicidade130, transforma-se numarelação séria e numa representação do entendimento do autor sobre ocomportamento que a formação moral dos jovens da comunidade macaenseperspectivava; o protagonista, enfrentando toda a cidade cristã que o condena,________________129 Na relação com a comunidade Chinesa.130 A rua dos lupanares.Irene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 128
  • PARA UMA LITERATURA DA IDENTIDADE MACAENSE – AUTORES/ACTORES129numa atitude de manifesta intolerância, assume a responsabilidade da sualeviandade; também A-Leng enfrenta a sua gente, e ambos são ostracizados pelasrespectivas comunidades, carreando uma quebra nos laços de solidariedade.A-Leng era oriunda de um bairro fechado, pequena aldeia chinesa na extremada cidade cristã, com um forte vínculo aos valores da cultura tradicional chinesa: “Omundo de A-Leng era o bairro onde vivia e para onde fora trazida garotita, por umavelha a quem chamava de avó, sem o ser (…) menina e moça ainda sem forças paratransportar baldes começou por confeccionar caixas de fósforos (…) a raparigaesperava ansiosa pela festividade do pagode de Tou Tei que quebrava com a rotinados seus dias sempre iguais (…) também aguardava (…) os dias dos festejos do AnoNovo Lunar (…) começava, à meia-noite, no meio do estralejar dos panchões, porbater cabeça no templo (…)” e com um profundo controlo social: “a rainha [dasaguadeiras] era uma mulher avantajada, cerca de quarenta anos, que imperava nopoço, a Abelha-Mestra de todo aquele mulherio (…) quando (…) se enfurecia calava-se o poço inteiro, o casario em volta recolhia-se, a criançada irrequieta debandavaespavorida” (pp.15-16).Adozindo era o varão de uma família patriarcal e, tal como o protagonistado romance anterior, representa a família de distinção “que no Brasil se designariade «família quatrocentona»”, membro, portanto, da fracção dominante da burguesiae detentor de elevado capital simbólico, com várias gerações nascidas no bairro deSanto António, o bairro da burguesia macaense abastada, fechado e com grandecontrolo social, profundamente conservador e católico. Expulsos dos seus lugares de pertença, os dois bairros mais característicos ereveladores em termos identitários das duas comunidades, refugiam-se nas franjasdesses lugares e sem meios de subsistência, pois Adozindo frustra as possibilidadesde um emprego condicente com o seu estatuto, na cidade cristã, sendoexemplificativa a forma como a comunidade macaense se posiciona em relação àcomunidade chinesa e demonstrando a existência de práticas distintivas impossíveisde serem ultrapassadas, pois poriam em causa o habitus de toda uma comunidade:“Invejou os chineses que podiam aceitar tarefas mais humildes, como cules,varredores de rua pedreiros ou marceneiros que ninguém reparava. Mas a ele, filho-da-terra, estava vedado descer a tão humildes profissões, ainda que morresse defome (…)” (p.91).A ajuda surge de uma amiga e antiga colega de profissão de A-Leng “(…)uma das que poucas que saíra do bairro para casar com o dono de uma lojeca depivetes da rua da barca (…)” (p.83) numa forma de solidariedade esperada a umacomunidade sem grandes assimetrias no campo económico em que prevalece a entreajuda; e de um antigo colega de escola de Adozindo de condição social inferior àsua “(…) Valdemero (…) a quem nunca dera suficiente importância (…) noutraIrene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 129
  • MARIA BARRAS ROMANA130situação, Adozindo não se dignaria dirigir-lhe a palavra. (…) um emprego e doinsignificante Valdemero?” (pp.92-93); consideramos esta situação reveladora daimportância, que o capital social e económico e, sobretudo, a posição simbólicaocupada não seio da comunidade, tinham na estruturação distintiva da comunidademacaense.Se a aceitação do casal por parte da comunidade chinesa foi relativamentefácil, no que concerne à comunidade macaense revelou-se um longo percurso queambos tiveram que percorrer, embora de forma desigual, na medida em que paraA-Lenga, como se pode constatar no excerto seguinte, a aceitação, por parte dacomunidade do Outro-marido, associou-se à renúncia de si própria e à submissãoaos valores culturais do marido ou seja à assimilação:– (…) para a minha gente, para se considerar casado, requer-seir à igreja diante do padre.– Mas eu não sou católica.(…) Se aquilo era a vontade dele e o mundo dos «kuai-lous»assim exigia, que remédio senão submeter-se. (…) Foi assim, comrelutância, que anuiu abraçar a religião do seu homem. A-Sôiconsolou-a:– O que tem de ser, tem de ser. Leva daqui pivetes e vai aotemplo aplacar os teus deuses.Este romance textualiza a aproximação das duas comunidades, consubstan-ciada, nomeadamente, em alguns segmentos frásicos que exemplificam comespecial pertinência este devir de união: um respeita à mais célere aceitação do casalmisto pela comunidade chinesa: “(…) e um chinês quando é amigo, é amigo deverdade, generoso, mãos largas (…)”; outro, que nos permite considerá-lo ametáfora do devir, concerne a um momento da narrativa em que Adozindo sedesequilibra e A-Leng o segura dizendo: “– Apoia-te a mim que nunca hás-de cair.”E Adozindo responde: “– Eu sei… Contigo estou sempre seguro” (p.118); ou aindaoutro excurso do narrador, passível de ser olhado também como uma metáfora,sobre o decurso da relação entre Adozindo e A-Leng: “(…) Ao fim e ao cabo, haviauma plataforma de entendimento de parte a parte, alcançada não por imposiçãoou por brutalidade, mas através da paciência e da lenta persuasão que amolecia o contendor.” (p.121) Embora, tendo em conta a ficcionalização do contexto epocal, essa aproximação esteja representada de forma desigual, verificando-se asupremacia da comunidade macaense/portuguesa em relação à comunidade chinesade Macau.Contudo constata-se um olhar crítico por parte do narrador ao conservadorismoda cidade cristã, associado a uma certa hipocrisia, que se consubstancia numademonstração exteriorizada de fortes valores morais de humanidade e numa profundaIrene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 130
  • PARA UMA LITERATURA DA IDENTIDADE MACAENSE – AUTORES/ACTORES131crença religiosa e que na realidade prática se mostra pouco solidária, no sentidohumanista, com os seus; esta ausência de solidariedade manifesta-se nos romancessempre que um dos elementos da comunidade põe em causa as normasestabelecidas pelo grupo, caso contrário verifica-se a ‘solidariedade de grupo’ quenão deixou de ser manifesta na atitude de Valdemero, colega macaense de extratosocial mais baixo, mas que não configura relações autênticas mas sim reacções departilha de ‘infortúnio’ que se consubstanciam em posições de defesa perante aameaça do outro que nestas circunstâncias tanto poderia ser o Outro etnicamentediferente ou o Outro socialmente diferente.131A inflexibilidade e a mentalidade imbuída de preconceitos – eventualmenteassociados a estratégias, que poderiam ser inconscientes, de distinção identitáriacarreadoras da necessidade de auto protecção perante a possibilidade de diluiçãopor parte de uma comunidade significativamente mais numerosa – e muito poucoseguidora dos valores da moral cristã, assumidos como código de conduta, podemser constatadas no excerto do diálogo entre Adozindo e seu pai quando A-Leng éexpulsa do seu bairro onde se pode também constatar traços de um discurso decariz colonial – o Outro visto sempre como inferior: – Oh, Papá, deixa-a entrar e depois conversaremos.– Não.– Não permita que a vizinhança…– Já te disse. Esta badalhoca rafada não passa pela minha porta.(…)– Já afirmei que ela é uma rapariga decente. E esta também é aminha casa.– Não, não é. Para fazeres o que te apetecer. Não ganhaste paraisso. Só tens dois caminhos a seguir. Ou ires com ela, ou entraresmuito obedientemente para dentro, sem ela. É uma questão dedinheiro, paga-se e acabamos com toda esta vergonha. (TF:74)É de referir que esta inflexibilidade e preconceito, no que concerne à atitudeda própria família, tinha como fundamento o facto de a mudança de estatuto e aconsequente mobilidade social descendente de Adozindo, através do casamentocom uma mulher de condição inferior e de outra comunidade, carrear a perda deprestígio da sua família “Quando souberam do casamento de Adozindo em S. Lázaro, ele [O pai, Aurélio] e a mulher afastaram-se da vida social. Vergava-os o________________131 A propósito desta ocorrência refere J.C. Venâncio, na linha do pensamento Weberiano, que os macaense podemser entendidos como um grupo de status, sendo “estes grupos constituídos por membros que ocupam posiçõescimeiras nas sociedades, no que se confundem com as respectivas elites, como deles também fazem parteelementos que, partilhando das suas características culturais, linguísticas e/ou somáticas, pertencem a estratossociais baixos.” (Venâncio:2006:3)Irene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 131
  • MARIA BARRAS ROMANA132estigma da vergonha, esconderam-se como se enlutados. (…) Era humilhante”; estasituação atinge a prima de Adozindo, moça casadoura que acaba por aceitar a cortede um sargento, o que consubstancia um excurso narrativo denotador da distânciaem relação ao outro/pátria e do elitismo subjacente à comunidade “Casar com umsargento de tarimba, um europeu que, mais dia menos dia, a transportaria paramuito longe, para, ao fim e ao cabo «cavar batatas» (…) A mãe e a tia opuseram-se.”132 (TF:166-167), e que carreia um evidente preconceito social. O romanceconsubstancia, também, na sua textualidade enunciativa o sincretismo religiososubjacente ao encontro entre as duas comunidades, ou seja, a atenuação das marcasde distinção.2.1.3. OS DORES: Personagens/instâncias da enunciaçãoO romance Os Dores tem uma estrutura romanesca diferente dos outros doisromances do autor; é um romance aberto133, de temporalidade linear semanacronias, que tem como protagonista uma mulher e a sua história de vida desdeo dia em que foi encontrada, ainda menina, “Era uma tarde triunfal de sol, naqueledia de Outono de 1908” (p.15) até ao momento em que “jovem mulher, cheia deviço” (p.19) se torna senhora do seu destino.No que se refere à estrutura narrativa, é constituído por quatro partes: aprimeira parte, denominada Leontina das Dores, contém seis capítulos; asegunda parte é constituída por quatro capítulos e tem por título FlorianoPolicarpo; composta por cinco capítulos a terceira parte titula-se José LucasPerene; o último capítulo corresponde à quarta parte, e retoma o título daprimeira: Leontina das Dores. No incipit, o narrador heterodiegético narra-nos o ‘achamento’ de umacriança do género feminino, mestiça, no meio da mata “luxuriante de árvores earbustos” que à época caracterizava a ilha de Coloane, então coito de ‘bandidos’ epiratas e cujas praias e cercanias marítimas constituíam locais de surtidas dospescadores amadores da comunidade macaense. Foi, pois, um grupo de cincopescadores que num desses passeios recreativos encontra a menina “uma rapariguitade cinco anos, branca e aloirada”, e um deles “Remígio Policarpo, o homem queorganizara o passeio” resolve, a pedido de Floriano, seu filho adolescente, levá-la________________132 A propósito desta situação que constituiu uma realidade em Macau, Ana maria Amaro refere: “As raparigasmacaenses ambicionavam casar-se com portugueses europeus, principalmente militares, sendo preferidos osde patente mais alta, ou com funcionários públicos qualificados, mesmo no caso de estes terem antepassadoschineses ou de outros pontos da Ásia, uma vez que haviam adquirido um relevante estatuto social”(Amaro:1998:vol.II:595).133 O romance aberto caracteriza-se, segundo Aguiar e Silva, por o seu final não se consubstanciar num verdadeiroexplicit elucidativo da sorte das personagens (V.A.Silva:1996:728).Irene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 132
  • PARA UMA LITERATURA DA IDENTIDADE MACAENSE – AUTORES/ACTORES133para Macau, em princípio para a entregar às autoridades, dado que, segundo a velhachinesa que a acolhia, ter-lhe-ia sido entregue, com uma determinada quantia dedinheiro, por uma mulher chinesa “rogando que tomasse conta da mocita até aoseu regresso” mas da qual nunca mais teve notícias.O natural destino desta criança, após ser entregue às autoridades doterritório e não se encontrando o paradeiro de parentes, seria o convento dasIrmãs Canossianas onde existia um albergue para as meninas órfãs e rejeitadas“as bambinas das canossianas”. Contudo, o patriarca da família Policarpo,constituída pela sua mulher dois filhos duas filhas: “Os Policarpos não pertenciamà fina flor da Praia Grande e de S. Lourenço, da chamada primeira Sociedade,nem tinham a abastança dos mamões de Stº António. Viviam bem econfortavelmente (…)” (p.27), Remígio Policarpo, escrivão da Comarca “pessoarespeitada e considerada pela posição que ocupava” entendeu ficar com apequena que assim passa à condição de ‘crioula’ ou ‘criação’ dos Policarpos; arazão subjacente a esta decisão prendeu-se sobretudo com o facto de a criançater um fácies muito europeu “– Eu fico com ela. Se não é do meu sangue, é-oda minha gente.” (p.19)A situação de Crioula, que se conhece na maior parte das ex-colóniasportuguesas e que chegou a ser textualizada por Jorge Amado em Terras do semFim134, é explicada, num exercício de metalepse, ao narratário:Era usual nas famílias macaenses recolherem-se criançasabandonadas ou enjeitadas, normalmente de etnia chinesa que eramalimentadas e educadas no lar adotivo, senão como filhas, pelomenos sempre acima do nível das criadas, a quem se dava educaçãoem troca de ajudarem nas lides domésticas. Eram as «biches» ou«crioulas» vinculadas moralmente à casa, como parentes pobres. A aquisição de mui-tchais ou escravas de tenra idade começava acair cada vez mais em desuso na época, na comunidade macaense.Uma «crioula-branca» no entanto era uma coisa muito rara (OsDores:26-27).________________134 As ‘Crias’ da casa (filhas libertas de escravos) que nos aparecem neste romance que tão intensamente retrata asociedade Baiana do séc. XIX. Sobre esta situação, o monsenhor Manuel Teixeira refere o seguinte, remetendopara documentação do século XVIII, “– A par dos escravos para os serviços grosseiros e pesados – «os moçoscafres» (…), de portas a dentro havia sempre inúmeras criadas – umas, escravas indianas e sobretudo malaias– «bem-dispostas, proporcionadas e pela maior parte formosas», – já assim as classificava Diogo de Couto;outras, as «bichas», raparigas chinesas, tidas como resgatadas, pelo eufemismo de primeiro as baptizarem,todo este pessoal a aumentar, à medida que os filhos do casal nasciam, tudo englobado no termo genérico de«criação».” (Teixeira;1965: 43-44); também a antropóloga Ana Maria Amaro destaca “– Nestas famíliasmacaense os filhos de ligação com chinesas adquiriam frequentemente o estatuto de crioulo, semelhante aodo chinês comprado, (…) considerado como fazendo parte da família embora o não fosse em termos deconsanguinidade nem tivesse direitos a qualquer herança a não ser por testamento, embora pudesse recebero apelido do seu amo” (Amaro:1998:vol.II:595).Irene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 133
  • MARIA BARRAS ROMANA134A reacção das mulheres da família foi extremamente negativa revelando asua não-aceitação, como membro pobre do agregado, ao tratá-la como serviçal,prefigurando uma atitude de desprezo e de preconceito no que concerne ao outronão macaense135; de acordo com Ana Maria Amaro (Amaro:1998:vol.II:595)este tipo de atitudes da comunidade macaense no que respeita ao outro,independentemente da sua etnia, resultava mais de preconceitos vincadamentesocias do que raciais, sendo uma das possíveis causas do seu isolamento.136Até aos onze anos Leontina das Dores viveu com os Policarpos, maltratada pelasmulheres da casa, pelos criados que seguiam o exemplo das patroas, mas encontrandoum certo conforto e carinho em D. Crescência uma prima pobre de Glafira Policarpo,que por caridade foi recolhida pela família enquanto aguardava vaga no Asilo dosInválidos. Crescência ensinou Leontina a ler e a escrever pois não a tinham mandadopara a escola porque, “As feições mestiças (…) de forte acentuação europeia atiçavamperguntas incómodas. Pairava em torno da criança a vaga mas insidiosa suspeita queera uma bastarda do próprio Remígio Policarpo”. Refere o narrador que, mediante orumor e a intriga, a forma eficaz de controlo social da comunidade macaense, a atitudede Glafira de “azedume cruel para com a crioula tinha assim explicação” (p.36).A representação da comunidade macaense que perpassa neste romancepauta-se pela atitude de distanciamento e superioridade que caracteriza a elitemacaense representada pela família Madruga “Sebastião Madruga (…) genial nobridge (…) recebera toda uma educação inglesa, depois de uma sólida instruçãoprimária no Seminário de S. José” (pp.108-109); “Emília Albuquerque, dosAlbuquerque da Praia Grande (…) frisava (…) que era aparentada com algumascasas fidalgas de Portugal” (pp.92,108), que em vários traços se tenta demarcar dasua componente cultural asiática na pretendida aproximação à herança culturaleuropeia e se traduz pela assumida portugalidade que perpassa no seu quotidiano“a mansão dos Madruga (…) toda branca era uma imitação vaga da casa minhota”.E pela constatação na matéria constitutiva do romance das formas de relação interestratos dentro da comunidade macaense e as solidariedades de grupo, quepermitem e, sobretudo, visam a ascensão social através do casamento, frustrandomuitas vezes outras formas de mobilidade social: mediante a vontade de Florianoestudar direito em Coimbra, o pai reage: “Deixemo-nos de romantismos. O melhorcurso que podes tirar é casares-te com Elfrida Madruga” (p.105); e, ainda, opreconceito que envolve o Outro não macaense, ou não assumido como tal.________________135 A mesma atitude ‘preconceituosa’ é de certo modo ‘mostrada’ nos outros dois romances e na maioria doscontos. Embora mestiça Leontina não era considerada macaense pois não tinha linhagem familiar quesustentasse esta designação identitária.136 De acordo com Ana Maria Amaro este tipo de atitudes no que respeita ao outro, independentemente da suaetnia, resultava mais de preconceitos vincadamente sociais do que raciais, sendo uma das causas. Irene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 134
  • PARA UMA LITERATURA DA IDENTIDADE MACAENSE – AUTORES/ACTORES135Pode-se constatar nestas práticas e nos gostos sociais a elas associados, deacordo com a teoria da distinção de Bourdieu (1979:242-243,353), a distinção entreas várias classes e fracções de classes; a família Madruga detentora de maior capitalsimbólico consubstancia a fracção dominante da classe superior; o prestígio, o nívelelevado de capital económico e a preocupação de se distinguir, das outras classes efracções de classe, por marcadores de distância tanto simbólicos como físicos: obridge, a parentela fidalga na pátria, a mansão, a educação inglesa. Verifica-setambém as disposições mentais, nomeadamente a ambição, que induz a mudançade trajectória no que concerne à mobilidade ascendente da classe média aquirepresentada pela família Policarpo, embora em termos de práticas se verifiquedisposições díspares:A família pretendia a ascensão social através do casamento do filho com aherdeira dos Madruga; o filho, Floriano, tinha o que Bourdieu denominou por «boavontade cultural», almejava ascender na posição social através do capital culturalque um curso superior lhe proporcionaria alterando, assim, a sua trajectória emrelação à dos seus progenitores. Resignando-se ao poder decisório paterno acabapor obter a ascensão social mas numa trajectória definida pelo pai, através docasamento, assim mantém o habitus de classe, e consolida as disposições que irãoactuar nas suas práticas; a ambição e a resignação.Neste romance tal como nos anteriores de Senna Fernandes a cidade surge-nos como o lugar matricial, na sua dualidade entre o sagrado e o profano: o queacolhe mas também expulsa para depois, talvez, redimir: a ‘cidade cristã’, e oque castiga e tolera, mas nunca acolhe: a cidade chinesa.Leontina tem um percurso sinuoso na cidade cristã; é recebida mas não acolhida no lugar da média burguesia, nela não se prefigura a dicotomiadiferente/semelhante, mas realizava-se a noção de inferioridade, que nas sociedadesandrocráticas, caracteriza as mulheres, mas que, a ela, crioula, a caracterizava no seutodo. Acolhe-a o lugar de Deus e dos pobres, o convento “casarão enorme de fachadasombria” (p.58), um espaço da cidade sem estatuto definido, passa pelo atelier decostura, a profissão eleita pelo autor para as mulheres que lutam pelo seu espaço nomundo dos homens. Passa também pelos festejos que identificam a comunidade, astunas e os assaltos carnavalescos com a sua trupe de músicos e mascarados (pp.125-126) e os rituais das missas em S. Lourenço e «a missa ‘chique’ das onze na Sé».Ilude-se com a esperança de casar com o filho do padrinho, Florêncio“esbelto, nada entroncado (…) boca firme, fundos olhos castanhos de latino comqualquer coisa de mouro no sangue” (p.84), e desespera quando a voz da sociedadeo abafa num casamento de conveniência com a filha da família mais importante nacomunidade, a filha dos Madruga, a ‘escada’ que a sua família precisava para serrecebida pelo governador e ‘rolar’ com a «aristocracia» da Praia Grande.Irene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 135
  • MARIA BARRAS ROMANA136Perde-se nos caminhos da vida com a ajuda do anti-herói do romance, aqueleque congrega em si todos os defeitos que nos anteriores romances foramdistribuídos pelos protagonistas mas, sem possibilidade de remissão. Com ele, o seutrajecto de vida desemboca nas franjas da cidade chinesa “a travessa do SanchoPança” com um filho e, verdadeiramente, acolhida por quem não lhe pertencia – asduas irmãs chinesas, suas vizinhas.2.2. O Espaço e o Tempo dos RomancesA literatura trata de experiências humanas, sendo “o tempo e o espaço as duas «intuições puras» que fundamentam todas as nossas experiências”(Kant:1985:61-78). São as categorias de tempo e espaço que consubstanciam oconstruto da nossa percepção do experienciado, é através delas que apreendemoso mundo.O texto literário dá-nos várias dimensões destas categorias, não só na tessituranarrativa mas também na própria concepção genológica, entendendo que a relaçãoda espácio temporalidade permite aferir a cronotopia da obra literária.O tempo do romance é um tempo múltiplo; há um tempo diegético queestrutura a ordem temporal da sucessão dos eventos, o tempo do universo diegético,mundo ficcional fruto do imago autoral. Este mundo pode conter ele próprio váriostempos, e tendo em conta que nos romances se enleiam materiais diversos queconcorrem para a sua tessitura, são várias as digressões para outros tempos-espaçosque se consubstanciam em outros tempos e em outros espaços num jogo discursivoentre a verdade e a verosimilhança.O tempo da cronologia “último quartel do século XVIII e na primeira metadedo século XIX” nos vastos espaços dos portos da China onde os Frontariamercadejavam e pelejavam contra os piratas e o tempo difuso da origem onde só oespaço refere a pátria “o fundador da família, Bernardo Frontaria, fora um grumetealgarvio que aportara a Macau” (ADP); O tempo do momento da História dosHomens nos espaços exteriores “A Guerra do Ópio, a fundação de Hong Kong, aGuerra da Manchúria, a Primeira Grande Guerra”; e no espaço mátria “Tanto eles,como o pai, ex-grumete participaram, sob o comando do Ouvidor Arriaga na acçãocontra o pirata Cam Pou Sai, ao largo da ilha de Lin Tin” (ADP): “O Crash na Bolsade Hong Kong” cujos efeitos são sentidos em Macau; a explosão no Paiol da Flora;a chegada dos refugiados e os primeiros ventos da modernidade.É este o tempo dos objectos imigrantes (Parsons:1980:51), os realia históricosmodelizados no romance “A Revolta dos Faitiões, o assassínio do governador Ferreirado Amaral e as incursões de Vicente Nicolau de Mesquita ao Passaleão” o tempocomposto por factos de determinadas épocas históricas que se vão amalgamandoIrene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 136
  • PARA UMA LITERATURA DA IDENTIDADE MACAENSE – AUTORES/ACTORES137com a ficção; de igual modo as tessituras consubstanciam o tempo do devir de umacomunidade que se fez diáspora: “iniciou-se uma enorme emigração (…) Entre osemigrantes figuravam os Frontaria da terceira e quarta geração.” Um tempo objectivo, diegético, com indicadores de ordem cronológica, “Ascasas alumiadas a petróleo, naquele ano de 1905” (ADP:5); “Naquele dia de Outonode 1908” (Os Dores:15), e necessariamente um outro espaço, o Macau – outro queabarca a primeira metade do século XX textualizado pela saudade da memória; e,ainda outro, constituído por informações do tempo objectivo cósmico “Fazia frio.(...) o vento agreste da nortada soprava fúrias siberianas pelas esquinas (…)” (ADP:9)“«Verão de S. Martinho» continuava luminoso” (Os Dores:15) mas os universosdiegéticos contêm outro tempo, mais fluido e consequentemente mais complexo,um tempo subjectivo, relativo, refractário à linearidade do tempo absoluto; o tempovivencial das personagens, dos ressaltos da memória o tempo que vai confluir comos espaços e se textualiza na tessitura descritiva; o tempo que permite que, porexemplo, Amor e Dedinhos de Pé seja um romance em media res e se estruture emressaltos analépticos extensos; que as anacronias temporais nos romances, A TrançaFeiticeira e Os Dores sejam analepses completivas referenciais às personagens, nãoao colectivo como no primeiro romance.É o tempo da estória contada; tempo igualmente múltiplo porque a suavivência desenrola-se pelas multipersonas dos universos diegéticos. Da infância dosprotagonistas – meninos no espaço-lugar protector, as casas: a da tia Beatriz – TítiBita e a dos pais de Adozindo – no Bairro de Stº António, a zona residencial dasmais antigas famílias macaenses; o lugar da ‘cidade cristã’ como referente identitário.Mas também a casa da Calçada de Stº Agostinho que albergou mas não protegeuLeontina das Dores. É o tempo da infância; é também para eles o tempo daadolescência. Outros tempos, associados a lugares vão tomando conta do narrado.A casa do beco do Lilau, a S. Lourenço, onde Victorina se encontra com a suaidentidade e retoma o estatuto social que sempre lhe pertenceu e que a comunidadelhe negou. O convento das canossianas, ao largo de Camões. E a cidade chinesa – olugar simbólico da transição das trajectórias das personagens mas da imutabilidadedo tempo “A cidade chinesa permaneceu impermeável às inovações, nas suasprédicas, costumes e tradições, costas voltadas ao quotidiano ocidental” (Os Dores:76)ou como a descrição de Cheoc-Vai-Un, em A Trança Feiticeira, assim o demonstra.O espaço como referente do real permite-nos a segmentação da ‘cidadecristã’ por lugares de prestígio; no campo de lazer: o Clube de Macau, da elitemacaense, o Grémio Militar, para as altas patentes, e o Clube dos Sargentos; oslugares de residência sempre associados à importância de uma igreja, núcleo atractivoda sociedade macaense, e à distância relativa ao palácio do Governador, à área deinfluência da Praia Grande; São Lourenço, a Penha, a zona de S. Francisco, tidasIrene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 137
  • MARIA BARRAS ROMANA138como as zonas nobres da cidade cristã da «aristocracia»; os bairros dos estratoselevados da classe média: Stº António, São Lázaro e as imediações da rua do Campo;e permite-nos a caracterização edénica da ‘cidade cristã’: “Toda a orla do casario daPraia Grande, em curva graciosa (…) resplandecia, ornada de árvores frondosas (...)as lindas vivendas disseminadas entre a vegetação bem tratada. Viam de longe (...)gente bem vestida, crianças bem alimentadas” (ADP).2.3. Os Livros de Contos“Os chineses acreditam que os sân – leng voltejam inseparáveisem cima das suas cabeças em forma de invisíveis halos e não háchinês, por mais valente que seja, que não viva obcecado pelo receiodos espectros, cuja fé na sua existência lhe vem sendo instilada no seuespírito através de centenas de gerações e cuja noção lhe é incutidadesde criança” (Gomes:1994:153).Os dois livros de contos/histórias têm por títulos Nam Van contos de Macaue Mong-Há. O título do primeiro remete imediatamente para a opção do géneroliterário, embora o autor justifique a escolha da denominação chinesa, na enunciaçãoautoral ‘Nota de Abertura’:Nam Van é o nome chinês da Praia Grande. O longo areal deantanho, de curva graciosa, transformou-se, no deslize de séculos, emartéria elegante, centro nevrálgico da vida de Macau e zona residencialpreferida pela população.Nasci nas suas proximidades e grande parte da minha infânciadecorreu à sombra das suas árvores centenárias (…) a Praia Grande,com a paisagem dos seus juncos e a odisseia dos seus lorcheiros (…)heróicos alimentou o fundo da minha sensibilidade (…). Eis ajustificação do título em homenagem a um recanto da terra do Nomede Deus (…). (Nam Van:3)Estabelecendo, também, um pacto de leitura, ao justificar a escolha dogénero literário dos textos:Apresento aos meus leitores um punhado de contos erecordações, rabiscados já há alguns anos. Quási todos viram a luz dapublicidade no diário “Notícias de Macau”, entre os anos de 1972 e1975, sendo inéditos “Candy” e a “Desforra de um China Rico”.“A-Chan, a Tancareira” mereceu a forma de um livro, nacolecção cadernos capricórnio do Lobito [1973] (…) como a ediçãofosse limitada (…) resolvi incluir o conto para que não ficasse (…)perdido.” (Nam Van:3)Irene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 138
  • PARA UMA LITERATURA DA IDENTIDADE MACAENSE – AUTORES/ACTORES139E explicando a intenção da escrita: “A intenção deste trabalho é de contribuirdalguma forma para a literatura de ficção macaense, tão paupérrima ou quásiinexistente (…)” e das linguagens: “Mal ou bem, o livro aqui está. Que me perdoemos puristas da madre língua portuguesa se, de propósito137, empreguei uma ou outraexpressão ou frase de construção macaense”. (Nam Van:4)138O título do segundo livro, Mong-Há, também é justificado pelo autor, numfrontispício, onde primeiro explica o que é Mong-Há, num longo excurso descritivo,do qual retiramos um pequeno excerto e posteriormente informa os leitores sobrea razão e o tipo de textos que reuniu:Mong-Há, hoje descaracterizada pelo avanço implacável dacidade (…), é uma vasta área que (…) se estende da zona da Flora eda Montanha Russa até ao Porto Interior, confinada à esquerda (…)pela Avenida Horta e Costa, o Patane e o Bairro de San-Kio, cercando,doutro lado, a Colina dos Diabos Pretos até à Areia Preta e a Zona dasPortas do Cerco e Ilha Verde. (…) O leitor poderá estranhar o título da obra, pois aparentementenão parece relacionado com qualquer da estórias que se seguem (...)No entanto a sua gestação nasceu precisamente na Pousada de Mong-Há, encravada na colina do mesmo nome e conhecida pelos chinesescomo Hak-Kai-Sán, a colina dos Diabos Pretos (…) Tarde memorávelaquela, em que, de conversa em conversa se falou de tudo (…).Quando saímos, íamos confortados, mas nostálgicos. Alguém tocou-me no braço e sugeriu: Porque não escreve aquilo que nos contou? (…). (Mong-Há:7)Na finalização desta enunciação o autor refere num tom de entrega: “Eisaqui, submetidas ao juízo e à curiosidade do leitor, produto de dolorosa elaboraçãoas minhas estórias em que se misturam recordações, experiências vividas e páginasde pura ficção”; são as estórias da memória e da nostalgia o que, maioritariamente,o autor propõe ao leitor neste livro, sem genologia definida.– Nam Van / Mong-HáNan Van é constituído por seis contos: A-Chan, A Tancareira139; embora aestrutura seja do género literário sugerido no título, Nan Van Contos de Macau, ariqueza da composição da personagem remete-nos para o bosquejo de um________________137 Nosso sublinhado.138 Referência subtil a uma alusão negativa à sua sintaxe publicada nas duas recensões aos seus livros na revistaMacau.139 O autor escreveu este conto quando era ainda estudante em Coimbra e, com ele, ganhou o Prémio Fialho deAlmeida dos Jogos Florais da Queima das Fitas, de 1950, da Universidade de Coimbra.Irene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 139
  • MARIA BARRAS ROMANA140romance140. Neste conto, mais do que contar uma história, o autor dá-nos a imagem deum drama social de certa recorrência no território: as ligações entre portugueses, homensem comissão de serviço, e jovens chinesas ou macaenses, geralmente de estratossociais mais baixos, constituindo relacionamentos assimétricos, em termos de relaçãode poder, que tinham a duração da comissão e dos quais, algumas vezes, resultavamcrianças que, ou eram abandonadas/não reconhecidas pelo progenitor, ou, como nosdescreve o conto, ‘retiradas’ às mães, sempre o lado mais frágil destas relações141.A-Chan uma jovem mulher chinesa, tancareira de profissão, relaciona-se comum marinheiro português, Manuel. Dum relacionamento de silêncios e sombrasnoturnas nasce uma criança, menina, Mei-Lai. Depois de uma breve passagem porterra numa casa à qual A-Chan se submeteu, por cultura, tradição e trajectória poispertencia ao grupo das muitas meninas chinesas, oriundas da China tradicionalista,que foram vendidas como mui-tcháis, no seu caso à ‘Velha’ dona do tancá comquem aprendeu a profissão, e num acto de ancestral submissão à vontade masculinae profunda resignação materna, deixa a filha ir com o pai, para o Sai-Iong142longínquo, conformando-se com a esperança na desesperança “Se a filha ficasse,que seria do seu futuro? Ela podia sofrer porque fora criada no sofrimento, vendidapelos pais a mãos empedernidas. Mas nunca a Mei-Lai, que era tão bonita e separecia tanto com o marinheiro de olhos azuis” (Nam Van:17). Esta mesma temática é retomada em Mong-Há, mas com um final diferente,porque diferentes também são os actores sociais; no conto “Um milagre de Natal”,cuja trama consubstancia a estória de uma rapariga, da burguesia macaense, queempobrece ao ficar inesperadamente órfã, descendo na hierarquia social para oestrato mais baixo da comunidade. Apaixona-se por um militar português que aabandona grávida, o que leva ao ostracismo da comunidade. Ostracismo, esse, quese projecta no filho “um filho trás da porta”. A sobrevivência desta mulher égarantida pelo seu trabalho de costura para uma das famílias ricas.Depois do narrar de muitas humilhações, onde está patente o preconceitosocial, o afrouxamento dos laços de solidariedade de grupo e a descrença num Deusjusto, o conto tem um explicit encantatório com a chegada do ‘pai pródigo’ queassume a família numa esperançosa manhã de Natal.O conto memorialista “Uma Pesca ao Largo de Macau” tem uma fortereferência ao real concreto consubstanciando uma autodiégese numa amálgama________________140 O “romance breve” no entender de Ítalo Calvino. Esta situação pode ser comparada aos ‘ensaios’ ou bosquejosde romances de Eça, nomeadamente no que concerne ao conto Civilização a partir do qual o autor estruturouo romance A cidade e as Serras.141 Este conto “(…) indica a aproximação, mesmo que de forma desvanecida, do seu autor à mundividênciaanticolonial”. (Venâncio:2006:11)142 A denominação de Portugal no dialecto cantonense.Irene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 140
  • PARA UMA LITERATURA DA IDENTIDADE MACAENSE – AUTORES/ACTORES141narrador/autor, na medida em que o narrador em primeira pessoa inicia o conto Doseguinte modo: “O meu Avô Conde era um homem com defeitos e qualidades (…)”(Nam Van:33). A estória recupera Macau dos finais do Século XIX através da imagemda elite macaense patriarcal, nas vivências da sociedade “Como os seus conterrâneosdos fins séc. XIX, recebia muito, e a sua mansão à Praia Grande, primava pela hospitalidade (…) entre (…) amigos que não se esqueciam do café do meu Avô figurava o Governador de então (…)” (Nam Van:33) e na própria representação do patriarca macaense consubstanciada na figura do avô,“extremamente rico” “crente sem ser beato”; “Na Procissão Cruz acompanhava ocalvário do Senhor (…) desde Stº Agostinho até à Sé, vestido de preto, a rigor (…)como todo macaense dos fins do séc. XIX, além de ténis, praticava dois desportosem voga, a pesca e a caça” (Nam Van:34-35).Neste conto Senna Fernandes guia-nos através de um Macau, do qualpretende preservar a memória, e onde atesta a importância social da elite macaense(e do seu habitus de classe) em traços de distinção que perpassam na descriçãominudente dos saraus de música da casa dos Avós “minha Avó era uma exímiapianista”, das refeições “o refinamento dos bons pitéus”, os serões com os jogossociais: «o gamão» e «o ‘bafá’»; o número imenso de criados «muito serviçais, comas suas imaculadas cabaias compridas e o rabicho bem penteado» e na religiosidadeprofundamente católica. Estas práticas culturais, que se constituem como traços de identidade, e autilização dos bens simbólicos que perpassam as textualidades, consubstanciam osmarcadores privilegiados das distâncias sociais e das estratégias utlizadas no narradopara afirmar essa distinção, na medida em que não só se verifica a expressividadedos gostos e das práticas correspondentes ao habitus de classe, como também aspróprias escolhas lexicais carreiam signos distintivos.Este Avô, assim apresentado, é matéria do narrado pela sua relação com umhomem chinês salvo, das águas escuras do rio das Pérolas e da lancha dasautoridades alfandegárias chinesas que o perseguiam, pelo Avô que, num ‘pu-tong’143 com amigos, dava um passeio de pescaria. O chinês assim resgatadoapresenta-se na mansão da Praia Grande, umas semanas depois, para agradecer osalvamento e selar a relação fraternal que os uniria futuramente de acordo com atradição chinesa.É uma imagem estereotipada144 do chinês rico que o autor/narradortransmite, e o total alheamento entre as duas comunidades: “Um homem________________143 Embarcação de recreio.144 Imagem construída pelos primeiros portugueses e que emergindo dos registos muitas vezes imbuídos demirabilia dos primeiros contactos, se vai cristalizando na imagética simbólica.Irene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 141
  • MARIA BARRAS ROMANA142sumptuosamente vestido de cabaia comprida de cerimónia, o rabicho luzidio deóleo as mãos metidas nas mangas largas (…) emanando saúde e riqueza”, não sóna descrição citada, mas na sua dupla imagem “afinal era um pirata” mas, tambémera, em Macau “um cidadão pacífico de bem com a lei e com os homens, que vivianuma casa ajardinada na Praia do Manduco, no meio do carinho de duasconcubinas, comerciante registado, com loja e tudo”.Do mesmo modo encontramos a recorrência imagética do estereótipo noconto “A Desforra do China-Rico”, do mesmo volume, em que a temática nosintroduz na referencialidade caracterizadora do povo chinês associada à noção devingança imbuída de uma temporalidade durativa e carreadora da imagem exóticada China145. É, segundo José Carlos Venâncio, o olhar ocidental sobre o mundochinês: “O conto «A desforra de um china-rico» (…) é, porventura, o texto maiselucidativo desse olhar que, não obstante a distância, não deixa de sercomprometido, como era aliás, o de Pearl Buck” (Venâncio:2006:13).A distinção social e as relações de aceitação/rejeição entre a comunidademacaense e a pequena comunidade de portugueses ‘metropolitanos’ sãoabordados no conto “Odio velho não dorme”, no livro de contos Mong-Há, atravésda trajectória de Júlio, um rapaz metropolitano, filho de um funcionário públicoque estando em comissão de serviço em Macau é preso porque “envolvera-senuma falcatrua qualquer”. Esta história surge quando “ao retirar um livro da minhaestante, caiu-me dentre as folhas um velho postal de Boas Festas do Júlio. (…) Alembrança do Júlio perseguiu-me, pairando à minha frente…” (Mong-Há:171).Tendo como contexto espacial e temporal as vivências dos alunos do Liceu deMacau, nos anos 30, onde a aceitação do Outro, metropolitano, pela comunidademacaense, era condicionada pela posição que os progenitores tinham no campodo poder e pelas marcas de distinção, o narrador/autor narra-nos em primeirapessoa, as evocações de memória lapidadas pelo tempo.Júlio era ostracizado pelos colegas, não fazia parte do grupo “Ora, tudoisto vivemos à margem do Júlio” (p.177), porque “O físico não ajudava. Eracurvado de ombros, franzino, pálido, pouco limpo (…) uma dentuça penosamenteirregular (…) a sua apresentação na escola, na igreja, na rua raiava o desmazelo(p.177) imagem associada à representação de um estrato social baixo, tendo emconta que, como refere o autor: “a meio do período apareceu um novo aluno,chegado fresquinho de Portugal. Era filho de um alto funcionário da Administração(…) arrogante, uma estampa de jovem atleta, olhando com indisfarçadasuperioridade para os novos colegas como se tratassem de ‘indígenas’ (…)” (p. 181).________________145 É uma das imagens do exotismo chinês que perpassa n’ O Mandarim de Eça de Queirós. Irene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 142
  • PARA UMA LITERATURA DA IDENTIDADE MACAENSE – AUTORES/ACTORES143A rejeição a Júlio aumenta gradualmente depois da detenção do pai, emborao narrador justifique “não se gostava de Júlio pelo que ele era e não por causa dopai (…)” (p.178) continuando num tom judicativo refere que: “O pior era a suaincapacidade de suscitar simpatia”; “as meninas apelidavam-no de ‘enjoado’ ou‘porcalhão’; e em tom de desabafo “eu perfilhava da mesma opinião”. Por outrolado os ares de superioridade e arrogância de Fernando o menino da ‘elite autorictas’é imediatamente aceite pelas meninas, “tinha estilo”, a distinção que lhe davaprestígio, e foi, gradualmente, assumido ou assumindo o grupo de rapazes quepassa a liderar por livre cedência do ‘líder’ do grupo, numa evidência do posição desubmissão perante o poder.É de referir que este ‘líder’ do grupo de garotos pertencia também àcomunidade portuguesa metropolitana, podendo ser interpretado como umaescolha de prestígio, o que os macaense expressavam como ‘rolar com’, neste casocom os filhos da classe dominante, e mesmo dentro desta se verificava, no caso emapreço, as distinções entre as fracções superiores.A situação de Júlio agrava-se em termos de integração pois Fernando faz deleo alvo de todas as humilhações. Neste ponto da estória o narrador demarca-se enum segmento narrativo explica que o Fernando lhe era antipático e que “a minhaantipatia latente por Fernando mais se acentuou” no momento em que, na iminênciade uma festa organizada por aquele, constata que só o Júlio não foi convidado. Emvez de ir á festa, o autor/narrador vai ao cinema. “Fernando não me perdoou.” Júliofica-lhe agradecido o resto da vida. Anos mais tarde, uma evidente alteração de trajectória leva à ascenção socialde Júlio, e numa posição de prestígio que o cargo de director geral do Ministério doUltramar lhe assegurava, vinga-se das humilhações da sua adolescência, casandocom a noiva de Fernando. O conto encerra com a expressão d o Autor/narrador: “Eupertenci ao lado afortunado dos que ele amou”. Mais do que o mero preconceito eas disposições incorporadas, neste conto perpassam as ambiências e idiossincrasiasda sociedade colonial. 3. Os percursos da ObraData de 1950 o início da escrituralidade de Henrique de Senna Fernandesestreando-se ainda estudante nos jogos florais com o conto A-Chan, a Tancareira.Entre 1972 e 1975, são publicados no diário ‘Notícias de Macau’ mais três contos,Um encontro Imprevisto; Uma Pesca ao Largo de Macau e Chá com Essência deCereja.No ano de 1978, numa edição de autor, Senna Fernandes publica o seuprimeiro livro de contos, Nam Van - contos de Macau, constituído pelos contosIrene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 143
  • MARIA BARRAS ROMANA144referidos no parágrafo anterior e outros dois, inéditos, Candy e A Desforra de umChina-Rico. Acerca desta obra, o autor refere, na entrevista que deu a José CarlosVenâncio: (…) Naquele tempo nós vivíamos mais isoladamente. Com esteisolamento, não se encontrava apoio de ninguém. Nam Van. Contosde Macau foi friamente recebido em Macau Eu mandei algunsexemplares a indivíduos que agradeciam, metiam na gaveta e nunca mais leram. Estou convencido que os exemplares oferecidosnunca foram lidos. Não leram. Nem as autoridades se interessa-ram em comprar.(…) Este desinteresse desanimou-me (…)(Venâncio:2006:25).A segunda edição desta obra é publicada em 1997, pelo Instituto Culturalde Macau, com o número 12 da colecção Rua Central. Os Contos Candy e Chá comEssência de Cereja foram publicados em Hong Kong, em 2002, integrados emVisions of China; Stories From Macao (a Joint publication by Gávea – BrownProvidence and Hong Kong University). A Editora brasileira Gryphus publicou o livroem 2008.Amor e Dedinhos de Pé, o primeiro romance do Autor, tem uma primeiraedição Livraria Portuguesa/Instituto Cultural de Macau, em 1986, dois anos maistarde, sai à estampa com a chancela da Gradiva, e em 1994 com o número 4 daColecção Rua Central, o Instituto Cultural de Macau entrega ao público a 4ª edição.A editora Gryphus, do Rio de Janeiro, publicou o romance em 2008 com o subtítulo“Romance de Macau”. Neste momento o Instituto Cultural do Governo da R.A.E.Macau prepara uma nova edição que integrará o volume 2 da Obra Completa deHenrique de Senna Fernandes.O Romance, Amor e Dedinhos de Pé, foi a primeira obra do Autor adaptadaao cinema pelo realizador Luis Filipe Rocha. A propósito desta adaptação, SennaFernandes confessou a sua desilusão: Em “Amor e dedinhos de pé” não concordei com a distorçãodas figuras. O final foi absolutamente contrário àquilo que eu queriado livro, pois tinha uma mensagem. No filme, o final não tinhaqualquer mensagem. O Chico [Francisco Frontaria, o herói] continuoupatife até ao fim, abandonou aquela rapariga. Bastava dizer-lhe umapalavra: “Eu voltarei”. Ele podia acabar da maneira que quisesse, masfaltava-lhe essa palavra. Ele tinha que voltar. Isto foi de um realizadorque não conhece a vida interna de Macau, nem se transportou paraa época, pois ele não podia fazer uma coisa dessas. Ela morriasocialmente depois de receber o rapaz em sua casa e ele depoisabandoná-la (…) (Venâncio:2006:26).Irene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 144
  • PARA UMA LITERATURA DA IDENTIDADE MACAENSE – AUTORES/ACTORES145O segundo romance de Senna Fernandes, A Trança Feiticeira, teve umaprimeira edição, da Fundação Oriente, em 1993, sendo reeditado pela Fundação em1998 e publicada, no Brasil, pela Gryphus em 2010. Com o título inglês de TheBwitching Braid foi editado, em 2004, em Hong Kong (a Joint publication by Gávea– Brown Providence and Hong Kong University). Também este romance foi adaptado ao cinema, em 1996, pelos realizadoreschineses Kai Bothers. Sobre esta adaptação, o autor fez, igualmente, uma apreciação:«Foi mais fiel. É preciso ver que A Trança Feiticeira foi uma interpretação chinesa. Hácoisas que são mesmo do cinema chinês. Ele [Adozindo] a sair do hospital a correr,a saltar para o mar e a nadar. Isto é ao gosto chinês. Ela encarnou muito bem afigura de A-Leng” (Venâncio:2006:26).Neste momento o Instituto Cultural do Governo da R.A.E. Macau tem noprelo uma nova edição que integrará o volume 3 da Obra Completa de Henrique deSenna Fernandes. Os dois primeiros romances foram editados em língua chinesacom tradução de Yu Hui Juan pela editora chinesa Montanha das flores em parceriacom o Instituto Cultural de Macau, em 1994 e 1996 respectivamente.A obra de Henrique de Senna Fernandes tem sido alvo de vários estudos, nãosó pela comunidade académica portuguesa e de Macau, mas também pelosacadémicos chineses de Macau, e de Hong Kong e pela comunidade académica doBrasil, sendo um dos seus maiores estudiosos o professor David Brookshaw, daUniversidade de Bristol, Inglaterra, na área dos Estudos Luso-Brasileiros.O reconhecimento que legítima o lugar de Henrique Rodrigues de SennaFernandes no vasto mundo dos Autores de Língua Portuguesa.Irene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 145
  • PARA UMA LITERATURA DA IDENTIDADE MACAENSE – AUTORES/ACTORES147CAPÍTULO VI – O NÓS E O OUTRO: OS ACTORES COMO AUTORES |Os textos que constituem este último capítulo têm em comum Macau e sãoregistos de vivências. Os primeiros congregam a memória da comunidade Macaense– de várias formas: Deolinda da Conceição viu Macau de fora para dentro, deixou-nos as suasimpressões daquela Macau sobre a qual os macaenses não se detinham, aquelelugar que ainda nos anos quarenta, cinquenta, continha o mistério do Orienteprofundo e que no imaginário da Cidade Cristã era povoado por cules, pei-paitchais, serviçais, tancareiras. Mas também pelas fábricas, sobretudo de panchões,e pelas mulheres que nelas trabalhavam. Ao olhar as mulheres de Cantão e deXangai, ao ombrear com os refugiados, num caminho de fuga e depois em HongKong e em Macau, Deolinda da Conceição registou-lhes as estórias e escreveusobre eles e sobre as situações homólogas que esse Macau desconhecidocontinha.Miranda e Lima e José dos Santos Ferreira olharam Macau não da plateia,mas do proscénio, numa poesia que contém as fundas raízes da satírica medieval, eque deixa vislumbrar a herança cultural portuguesa, falam a sua comunidade,criticam, às vezes de forma mordaz, mas, sobretudo Adé, chora com ela e por ela epermite-nos encontrar os traços do desenho da alma macaense, entregando-nos asua memória. Maria do Céu Jorge também escreveu sobre a sua comunidade, recuperando-ada memória. Duma memória magoada que quis reter o decurso do tempo, a autoraescreve a Macau que ela amava (no fundo também não o fez Senna Fernandes, Josédos Santos Ferreira e mesmo Deolinda da Conceição?), mas à qual nunca maisvoltou, porque a sua Macau, a sua comunidade, a sua identidade ficaram guardadasno cantinho mágico da memória onde a casa de seu avô não foi substituída por umIrene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 147
  • MARIA BARRAS ROMANA148arranha-céu, onde a Praia Grande continua na fímbria da Baia, onde o Bazar é umsítio longínquo. Os dois últimos textos de Jaime de Inso e Rodrigo Leal de Carvalho registaramas vivências de uma passagem. Breve, a do primeiro, prolongada e voluntária, a dosegundo. É a visão do deslumbre do exótica da memória e, deste último, da afeiçãoque tem pelo território; são as duas visões que permitem reforçar a interpretaçãodos traços distintivos da comunidade macaense.1. Deolinda da Conceição: a Imagem da Mulher de MacauEm Deolinda da Conceição encontramos a matéria de uma vida experienciadatransformada em tessitura literária. A sua emancipação perante uma sociedadeconservadora e patriarcal, o romper de regras, um mundo imenso na singularidadede uma mulher. Nos contos, os acontecimentos por si vividos são evocados pelamemória; Deolinda era de Macau, ‘patrícia’ de São Lourenço onde nasceu, em 1913(a associação dos lugares de nascença, ou residência, à estratificação, às fracçõesda sociedade e ao prestígio, em Macau, é bem visível na obra de Senna Fernandescomo, por exemplo, nos atesta a seguinte passagem d’Os Dores: “Os Policarpos nãopertenciam à fina flor da Praia Grande e de S. Lourenço, da chamada PrimeiraSociedade, nem tinham a abastança dos mamões de Stº António.”) (Os Dores:27);conhecia Cantão, porque lá casou e lá viveu. E conhecia Macau muito bem, nela foialuna de Camilo Pessanha, nela enfrentou a ira do pai e toda a sociedade que exigiaa obediência das filhas, das mulheres, e o desempenho das tarefas que o seu papelpermitia; foi, também, Macau, lugar do nascimento dos dois primeiros filhos.Conhecia Xangai, igualmente seu lugar de morada, dela e da família; e doseu primeiro contacto com o mundo cosmopolita; foi em Xangai que soube domassacre de Nanquim, foi de Xangai que saiu num comboio, ela e os filhos, com oestatuto de refugiada e com muitos outros, fugindo do avanço japonês. Em HongKong ficou num campo de refugiados algum tempo e aí toma contacto com o mundo do trabalho – aquele mundo que estava vedado a mulher do seu estratosocial – torna-se directora da Escola de Refugiados e entretanto escreve e traduz “o serviço noticioso telegráfico de inglês para português para o diário ‘A Voz deMacau’”146.Volta para Macau trazendo na bagagem a experiência sentida e experienciadado horror de uma guerra. Sem nada de seu, a não ser a firme vontade de continuar;vai dar aulas de português no Instituto Canossiano e passa a dirigir a escola de________________146 A Informação e algumas citações fo ram retiradas de uma comunicação que António Conceição Júnior fez sobrea mãe no Instituto Português do Oriente em 2008.Irene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 148
  • PARA UMA LITERATURA DA IDENTIDADE MACAENSE – AUTORES/ACTORES149refugiados em Macau. Ao mesmo tempo faz uma incursão no jornal ‘Notícias deMacau’ onde, depois de passar pelo secretariado da redacção, coordena e escreveo suplemento feminino. Anos quarenta em Macau; a mentalidade patriarcal da‘cidade cristã’ abalada por ventos da modernidade do pós-guerra, não quebra: é debambu; Deolinda escandaliza Macau, afronta a sociedade, divorcia-se e casa-se comum colega também jornalista; deixa de poder leccionar.Esta visão, peculiar, da vida, para uma mulher dos anos trinta, transformou-se em matéria literária. Deolinda da Conceição que, no suplemento do jornal ondetrabalhava, escreveu um artigo sobre o papel da mulher na sociedade, mas silenciouno seu livro de contos a imagem da mulher Macaense, a mulher da sua comunidade.Temo-la através da visão masculina de Senna Fernandes, não da visão da autora,nem da sua trajectória, do seu habitus pois por e com ela, da mulher macaense, oque nos ficou imagem a contrario.1.1. Um olhar no feminino sobre a mulher chinesaOs contos deixam transparecer toda a carga emotiva de quem ficciona uma realidade vivida, e por isso diferentemente abordada. Com uma escritaprofundamente adjectivada e uma visão piscilinea, escrita que se detém no corpo,“as mãos finas e nervosas” (p.113), e na minudência descritiva das crianças, da suafome, do desespero da mulher, numa partilha, numa comunhão. A mesmacomunhão que enleia os gritos de emancipação que as mulheres chinesas lançamdo fundo das páginas dos contos de Deolinda Conceição.As mulheres de Deolinda da Conceição são mulheres sofridas, mulheres quepovoam um universo de luta contra a submissão, mesmo quando essa luta se vencepela morte. Na construção do universo feminino, Deolinda carreia, naturalmente, asua concepção de vida, de mundo “Vida, mãe carinhosa para alguns e madrastacruel para outros! (…) Vida chama-se àquela existência tormentosa onde não brilhasequer um raio de esperança, e vida chama-se também àquela cadeia contínua dealegrias e contentamento que vai (…) deslizando para o seu termo, acabando comotinha começado, docemente, suavemente”; onde a euforia efémera do momento écontraditada pela disforia permanente, pela impossibilidade ao alheamento.Porque os contos nos falam, sobretudo, dos anos trinta num vasto espaçoque medeia Xangai e Cantão; porque dos contos emerge a mudança dementalidades e o confronto ente a tradição e a modernidade, e entrega-nos retalhosde uma sociedade que ainda mantinha a doutrina das “Três Obediências”, apesarde se encontrar num processo de mudança carreado pelo fim da dinastia Qinge pelas convulsões políticas e sociais subsequentes, num quadro em que osmovimentos reformistas e revolucionários exigiam o repensar do sistema familiarIrene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 149
  • MARIA BARRAS ROMANA150tradicional baseado no modelo confucionista, que caracterizou as duas últimasdinastias do Império do Meio, pois, “this cultural critique of the traditional familywas primarily an urban phenomenon” (Stockman:2000:101), consideremos omundo que Deolinda Conceição conheceu na sua espácio-temporalidade, As denominadas sociedades tradicionais resultam de um fechamento sobresi próprias e concomitantemente de um processo de evolução muito mais lento. Nachina o tradictio cristalizou hábitos, crenças e valores no tronco nuclear da suacultura, mantendo, ainda hoje, formas de solidariedade mecânica com umsignificativo consumo de bens simbólicos, substanciada numa filosofia ideológica-moralista que emerge no século VI A.C. no pensamento da Escola Confucionista e,embora tenha tido um momento de atenuação na dinastia Tang, corporiza-se como Neo-Confucionismo da dinastia Ming (1368-1644) e mantêm-se até ao final dadinastia Qing e fim do Império Celestial.A cultura chinesa ancorada na herança de Confúcio e dos seus discípulosnorteou o modus faciendi e o modus vivendi do povo chinês carreando comoprimordiais os valores de persistência, perseverança e o sentimento de vergonha deacordo com o princípio “ordering relationships by status and observing this order”(Bond:1991:70.)147. Embora nos anos trinta estivesse já no início de um processo demodernização, a China tinha alguma relutância ao confronto com o mundo‘moderno’, que lhe estava a ser revelado pelo ocidente, por receio de fragilizar a suacultura e ocidentalizar a sua identidade. A condição da mulher na sociedade tradicional chinesa era a de submissãoabsoluta à estrutura androcrática/tradicional, sem qualquer valor social. Um homemchinês não casava com uma mulher casava com uma nora; um casamento tradicionalchinês correspondia a um negócio, entre duas famílias, sendo o objecto de transaçãouma mulher, que deixa de pertencer à sua família original e passa a ser propriedadeda família do marido:The bride moved on marriage away from the village where shewas raised to the village of her husband’s family, to take her place intheir household; this pattern is referred to as ‘patrilocal’ or ‘virilocal’marriage. The responsabilities of the new bride included servisse toher mother-in-law, who determined her duties within the household.The new member of the household had a very low status, which________________147 Também, segundo Alain Peyrefitte “os grandes impérios foram fundados por grandes centralizadores que (…)impuseram organizações hierarquizadas que lhes sobreviveram por muito tempo (…). Nenhuma foi construídamais solidamente do que o Império chinês, cujos arquitectos se chamam Confúcio e Qin Shihuangdi. Tudo neleestá ordenado com vista a garantir a duração e a grandeza do estado, fazendo perecer o indivíduo, para apenaso exaltar na sua dimensão colectiva e quase religiosa. Cada um tem o seu lugar determinado numa hierarquia(…) assim a sociedade chinesa reproduz-se identicamente, do século III a.C. ao nosso século XX (…)”.(Peyrefitte:1995: 544-545)Irene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 150
  • PARA UMA LITERATURA DA IDENTIDADE MACAENSE – AUTORES/ACTORES151improved only when she had fulfilled her primary function ofproducing a male successor (Stocckman:2000:96-97).No último século, contudo, registou-se uma progressiva evolução dasociedade chinesa, embora com os ressaltos que advêm das conhecidas alteraçõespolíticas e sociais que plasmaram a sua história recente, e constata-se uma novaforma de encarar a mulher na sociedade, fruto nomeadamente das reformas dasleis, que regiam a família, introduzidas primeiro pelo governo do Kuomintang: “TheCivil Code of 1931 established the principle of free-choice marriage and garantedwomen rights in matters of divorce, inheritence and property more equal to thoseof men, though it maintained patriarcal authority in other respects (…)”(Stockman:2000:102). Ainda de acordo com o autor, esta reforma teve algum impacto no seio daclasse média urbana, contudo quase não se sentiu nos meios rurais, ou seja namaioria do território chinês, o que leva, pouco tempo depois o Kuomintang, aoabandonar a sua vertente revolucionária, a tentar reintroduzir uma nova ordembaseada na mistura das virtudes do confucionismo e do cristianismo.Em 1950, por forma a explicitar a sua política familiar, o Partido ComunistaChinês emana a Lei do Matrimónio que “which aimed to replaced the ‘feudal’patriarcal marriage system of the old society whith the ‘new democratic’ marriagesystem” (Stockman:2000:102) que garantia a livre escolha dos parceiros e a igualdadede direitos para ambos os esponsais e em todas as matérias subjacentes aomatrimónio. Contudo, sublinha Stockman, perante alguma resistência das populaçõesrurais e o facto de a alteração da estrutura familiar ter coincidido com a reformaagrária, que alterou substancialmente a estrutura social das comunidades rurais,associado “The need to retain the suport of the rural population, especially the poorpeasantry, also led the party go slow in the implementation of some provisions of theMarriage Law (…) (Stockman:2000:104) levando a que nos meios rurais se mantivessea formula denominada por ‘patriarcal-socialismo’; o mesmo não se passou nos meiosurbanos onde a reforma do sistema familiar foi significativamente aceite.A era reformista, já no período pós Deng Xiao Ping, tende a fazer umareinterpretação do confucionismo, nomeadamente no que concerne aosdenominados lares-empresas, onde não se verifica a separação entre família eempresa, mas se acentuam as desigualdades sobretudo de género148, esta situaçãocorresponde ao que Riley refere como “two steps forward, one step back”, e queestá subjacente ao que a China entende ser a mulher chinesa hodierna: “o seu novotraje é ocidental com características chinesas” (Alves:2007:172); mas espera destanova mulher “[que] seja doce, flexível e saiba assumir a sua feminilidade, bem como________________148 Sobre esta temática ver também Riley (1997)Irene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 151
  • MARIA BARRAS ROMANA152a sua vida familiar já que deve ser uma boa dona de casa” (Alves:2007:172), e,naturalmente permitindo o seu investimento em termos educacionais, desde que ofaça “(…) de modo a poderem colaborar na modernização económica do país (...)”149Sobre Macau a autora não dá voz às mulheres da sua comunidade, mas fá-lo às mulheres chinesas de Macau e desvenda as fábricas e as misérias e as relaçõesassimétricas com laivos coloniais; tal como em Senna Fernandes, há nestes contos asombra da denúncia anti-colonial (Venâncio:2006) mas também alguma luz sobreas práticas coloniais que igualmente emergiam apesar da ‘especificidade’ doterritório, pois “Nas constelações coloniais, no casamento inter-étnico (para não falardo concubinato ou das relações passageiras) o protagonista masculino geralmentepertencia à categoria dos colonizadores (Schouten:2011:76).Os contos remetem para a matéria da história dos seres humanos que àsvezes o não são; em forma de conto; em forma de crónica jornalística, em forma delenda chinesa; por eles se percorre os caminhos das mulheres num tempo da Chinaem dois lugares da China: a sua imensidão e um recanto da cidade de Macau, orecanto Chinês.1.2. O livro de contos “Cheong-Sam – A Cabaia” Faces especulares da alteridadeO pequeno livro de Deolinda Salvado da Conceição contém vinte e setecontos, sendo o primeiro o que intitula o livro. São contos sobre mulheres chinesase da sua condição de mulheres, ainda sob uma vincada cultura tradicionalandrocrática, no tempo de uma década (30-40) num espaço que se estende donenhures da China até Macau e tendo como tempo histórico a progressiva invasãoda China pelos Japoneses, através do olhar de uma mulher que lutou contra umasociedade igualmente patriarcal e conseguiu emancipar-se.Cheong-Sam – A Cabaia é um conto que tematiza a emancipação da mulherchinesa, mais concretamente, a sua tentativa de libertação de uma mentalidadepatriarcal e da sua condição de mulher-objecto. Sendo o maior texto narrativo temuma estrutura ‘diferente’ dado que a narrativa se inicia em ultima rés; levando ao________________149Ainda a propósito, Ana Cristina Alves menciona o facto de, mercê de uma aplicação real da lei ‘um casal umfilho’, “(…) muitas [meninas] das que cresceram nos últimos anos, a caminho do século XXI, foram criadascomo filhas únicas, em famílias de dimensões reduzidas ao jeito ocidental. (…) Desenvolveram-se rodeadas decuidados (…) oportunidades educacionais e culturais. Têm mesmo uma cultura cosmopolita, sendo ocidentaismuitos dos seus ídolos. (…) Não foram obrigadas a lutar, como aconteceu às suas mães, contra os obstáculosde uma mentalidade vincadamente patriarcal.” Contudo os pais chineses projectam nas filhas “as suas frustraçõese sonhos (…) excesso de expectativas, (…) que exige um trabalho duro e constante da parte delas, a fim deestarem à altura das ideias dos progenitores (…) pensando que estão a contribuir para o aperfeiçoamento dadescendência.” Esta situação carreia “vestígios da mentalidade tradicionalista, onde o estudo teórico eprolongado, com efeitos físicos penosos, era muito enaltecido” (Alves:2007:173).Irene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 152
  • PARA UMA LITERATURA DA IDENTIDADE MACAENSE – AUTORES/ACTORES153equívoco interpretativo de, num primeiro momento, o leitor poder considerar estarperante uma história sobre um homem.É através da história de uma mulher e de um homem, ambos do norte daChina, que a narradora nos fala da deriva do povo chinês durante a invasão japonesa,numa fuga em direcção a sul feita de esperanças e desesperanças que termina numacidade não mencionada, mas sobre a qual se vai intuindo o ambiente de Macau;fala-nos também da miséria, da condição de refugiado, mas sobretudo narra-nos, anós, leitores, que vão compreendendo150 a mundividência de um povo e ostraços/valores culturais que carreiam o confronto entre a cultura da tradição milenare a diferença cultural do outro ocidental. Os excursos narrativos que permitem a representação da cultura tradicionalchinesa referem o casamento de A-Chang com Chan Nui, uma adolescente suavizinha, combinado entre seu pai e o amigo vizinho, negociante de vinho enaturalmente pai de Chan Nui, e a aceitação submissa dos dois jovens, que mal seconheciam, perante a resolução paterna. As duas personagens deste conto, cujo contexto temporal o enquadra nadécada de 30-40, provêm de duas famílias chinesas tradicionais mas commundivisões diferentes; o dever da personagem masculina, A-Chung, expressadopor seu pai como razão do seu casamento; ficar à frente do negócio do pai –comerciante de arroz – e de ‘prover ao sustento’ da mãe, irmãs e concubinas do paiquando este morresse; o dever de continuidade da família; a referência às concubinasdo pai e o facto de este considerar que o filho, e este também assim pensava,“trabalhava o sin-pun151 com destreza, conhecia um número razoável de caracteres,lia o jornal e bastava” remetem para os valores da cultura tradicional chinesa e parao conformismo com um estreito mundo fechado. Exemplificando os ventos de modernidade introduzidos pela república de SunYat-sen, a família de Chan Nui era uma família nuclear, pai mãe e filha, o pater-famílias não tinha concubinas, a filha tinha uma educação, até então apenasreservada aos homens; a atracção de Chan Nui pelo novo, pelo diferente, peloscostumes do novo mundo do qual aprendera a língua e começara a conhecer pelocinema, não se compaginava com uma das mais importantes concepções da culturachinesa que caracterizava o seu pai, nesse aspecto, ainda muito tradicionalista: ocasamento combinado entre famílias.A submissão à vontade do progenitor teve uma compensação para aprotagonista desta estória, a possibilidade de ir acabar os seus estudos nesse novomundo que tanto a deslumbrava antes de cumprir o seu dever de obediência e________________150 Na acepção da compreensão goldmanniana.151 [tábua de cálculo, n. A.].Irene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 153
  • MARIA BARRAS ROMANA154respeito. Esta ausência, durante dois anos, do útero cultural constituiu o motivocrucial da transformação da personagem e o início da rejeição dos valores culturaiscom que tinha sido formada, abrindo um profundo fosso entre ela e o noivo: “A-Chung viu-a e compreendeu que Chan Nui não seria nunca igual às mulheres queo rodeavam (…) partira tímida e hesitante e regressava uma mulher perfeita,elegante (…) de gestos firmes (…) falava de igual para igual” (p.16); a diferençaentre a mulher chinesa ocidentalizada e o que era esperado da mulher tradicional“o servilismo característico das mulheres chinesas” (Cheong-sam:18); a tentativa deadaptação e conformação à mundividência do marido.Há todo um percurso pela cultura chinesa através dos seus traçosidentificadores do diferente; os costumes chineses “era com desembaraço querealizava aqueles actos impostos às noivas chinesas (…) ajoelharem-se diante dossogros (…)” (p.16); a revolta contra a tradição que os levaria a morrer de fome “seele não conseguia trabalho ela saberia conseguir os meios para prover ao sustentosda família, ainda que para isso tivesse que vender a alma e o próprio corpo” (p.16);a perda da face do homem chinês quando a mulher vai trabalhar como hospedeirade dancing alterando os papéis dentro da família; o contacto com o mundodesconhecido para ele e onde ela se sentia perfeitamente integrada.O Cheongsam152 como objecto/imagem da emancipação, da modernidade,por um lado, e de rejeição a uma tradição cultural por outro: “Em qualquersociedade a roupa reflecte a pertença a um grupo ou categoria (…)” (J. Schouten:2003:2). A rejeição completa do seu mundo leva a que o marido provoque o seuretorno, através da morte. A punição dos homens – na prisão atormentado pelocheong-sam, que ele almejava rasgar, porque símbolo da sua infelicidade,enlouquece e o degredo aos trinta e dois anos num espaço difuso entre a tradiçãoe a modernização é o seu devir.Muito próximos em termos conteudísticos do conto anterior estão os contos‘Conflitos de Sentimentos’ e o ‘Romance de Sam Lei’; ambos tematizam a culturatradicional chinesa e o papel social da mulher na China tradicional. O primeiro contodá-nos o ponto de vista de uma mulher chinesa profundamente ocidentalizada, pois nasceu e foi educada nos Estados Unidos, detentora de formação superior que regressa pensando, com o seu exemplo, alterar a mentalidade chinesa,profundamente cristalizada no conceito confucionista de supremacia masculina.Espera essa mudança por parte do marido e a profunda desilusão leva-a a um________________152 Cheongsam (旗袍) - Cheongsam is one type of traditional Chinese female costumes. It is featured by standcollar, right side opening, fitting waist and slip bottom, which can fully set off the beauty of the female shape.Cheongsam greeted its prime time in the 1930s when its irreplaceable role in female garment was established.(Encyclopedia Britannica)Irene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 154
  • PARA UMA LITERATURA DA IDENTIDADE MACAENSE – AUTORES/ACTORES155envelhecimento precoce e à completa desesperança; regressa à América com o filhodeixando o marido com as suas quatro concubinas.O outro conto narra-nos a estória de uma chinesa que nunca saiu da sua paíse que depois de passar pela humilhação do servilismo como concubina de um letradochinês liberta-se e escolhe ela um homem para casar encontrando o respeito e a suavida.O ‘Calvário de Linfong’ plasma-se numa textualidade escrita no femininoprofusamente adjectivada, com uma temporalidade uterina e um narradorheterodiegético e omnisciente que tece o sentir da personagem marcado pelainjustiça do mundo e a descrição da miséria das franjas mais baixas da populaçãochinesa de Macau que viviam abaixo do limiar de pobreza; as condições de trabalhona fábrica “horas inteiras ali fechada, curvada sobre a roda, sofrendo calor e frio e sentindo os rins torturados naquela posição incómoda para aquilo que nãochegava a ser uma pataca” (Cheong-Sam:23).Numa continuidade temática de alguns contos de Senna Fernandes, nesteconto, Deolinda da Conceição abre-nos as portas das fábricas e reporta a condiçãoda mulher chinesa de Macau; as relações assimétricas com os ocidentais sãorepresentadas pela figura masculina da sua infelicidade que tinha sido mandado tãode repente para Sai Iong (Portugal) referido sempre na narrativa através do pronomepessoal de terceira pessoa ‘ele’ numa intencionalidade de não identificação, deinvisibilidade, de inacessibilidade, e do qual não é feito qualquer retrato, sendo oúnico indicador de pertença a alusão a Portugal sempre através da denominaçãoem cantonense.A imagem que os chineses tinham dos portugueses no trato com as mulheresda sua comunidade era marcada pela desconfiança “(…) o fiscal da fábrica, A-Cheoc,admoestara-a (…) atribuindo ao outro intenções equívocas” (p.24), “Um dia ‘ele’veio dizer-lhe que partia (…) quanto ao seu segredo, ela saberia certamente, resolvera situação sem o seu auxílio” (p.25), muitas vezes fundamentada, nomeadamentenas situações em que as mulheres eram iludidas e acabavam por se deixar engravidar,facto que levava ao alheamento e muitas vezes ao afastamento por parte do homemsem a assunção dos filhos. A constatação destas situações e a sua recorrênciajustificam a insistência textual do tema do abandono das mulheres (mulheres-objecto, sobretudo chinesas, mas também mestiças das camadas socioeconómicasmais desfavorecidas) nas escrituralidades dos dois autores.Este comportamento foi de certa forma transversal aos lugares de contacto,entre os portugueses e os outros povos, e prefiguram a relação assimétrica docolonialismo, embora, em Macau, esta situação não tenha sido uma realidadeassumida inteiramente, nem pelos portugueses nem pela comunidade macaense,nem pela China, pois, a assunção de uma moldura colonial no território configuravaIrene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 155
  • MARIA BARRAS ROMANA156assimetrias de dominação que não eram de todo compagináveis com a idealizaçãoque a comunidade fez de si própria, mas, também não poderia ser aceitável emtermos de ‘suserania’ chinesa. Mais uma vez o preconceito associado a temáticas de submissão/rejeição éabordado no conto “A Esmola”, onde as marcas da espacialidade são indefinidas153,podendo o contexto espacial ter como referente qualquer lugar do império colonialportuguês. A relação entre um homem português de baixa condição social, sobre oqual o narrador autodiegético faz a alusão a uma possível fuga do lugar de pertençae o refúgio em Macau “O pai tinha vindo de longe da velha Europa desiludido davida (…) para esconder a sua humilhação naquele ponto distante da China”, e umamulher chinesa, operária fabril “a mãe era aquela pobre chinesa, ignorante, de pédescalço (…) que o pai levara para casa um dia e ali se encontrava ainda numasituação indefinida, não se sabia se de serviçal, se de mulher” (p.27); a visão do filhosobre esta ligação traduz-se em atitudes de compaixão pelo pai e de desprezo pelamãe que se vão agudizando no decurso da sua ascensão social através da educaçãoque, apesar da ‘rudeza’ e ‘boçalidade’, ambos lhe proporcionaram.Uma visão marcada pelo estigma que a comunidade macaense, imbuída depreconceito social e profundamente conservadora, imputava aos filhos decasamentos/ligações mistos recentes e das camadas socioeconómicas inferiores eque estes assumiam como própria154 “As representações do Nós, do Eu, do Outro edos outros, na percepção do ambiente social do indivíduo no que concerne pontosde vista, preconceitos e estereótipos, parece, porém, serem de fundamentalimportância nas práticas interculturais” (Amaro:1998:44). A atitude do filho paracom a mãe, no final do conto, carreia a dimensão da sua própria rejeição “Ele deu-me uma esmola, ele deu-me uma esmola, em troca da vida que lhe dei!”(Cheong-Sam:29).Outros contos registam a fuga empreendida pelo povo chinês em direcção a sul na procura de refúgio, outros, ainda, reportam as vivências dos chinesesrefugiados em Macau; pelo olhar da narradora autodiegética de Arroz e Lágrimas,o pequeno conto, mais do género da crónica literária, remetendo-nos para areferencialidade autoral no que concerne à trajectória da autora, narra-nos ummomento da vivência dos refugiados chineses que no pós-guerra procuraramsobreviver em Macau. Através da janela a narradora emociona-se e compadece-seda miséria representada pela fragilidade de uma mãe e de seu filho a quem tudo________________153 Embora a geografia do lugar nos seja apercebida pelo facto de a mulher ser chinesa.154 Segundo Ana Maria Amaro (citando P. Bordieu:1985) “a prática social integra-se num conjunto derepresentações e de vontades. O mundo social é, aliás, o produto de actos cognitivos a partir dos quais aanálise dos pontos de vista do indivíduo é a da posição através da qual ele vê as estruturas sociais.(Amaro:1998:44)Irene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 156
  • PARA UMA LITERATURA DA IDENTIDADE MACAENSE – AUTORES/ACTORES157faltava, até o arroz. E, por isso, grita. Os dois últimos parágrafos substantivam odiscurso ideológico da autora:Como ela, quantas mulheres por este mundo não andamerrando pelas ruas, levando pela mão criancinhas inocentes que amaldade e ambição dos homens condenaram à morte lenta e cruel.E, nesta China imensa, nesta china mártir e sofredora, o gritodessa criança deve ser o eco de tantas e tantas outras que sobemtodos os dias de peitos oprimidos, a implorar ao Céu piedade paraeste mundo abalado por lutas fratricidas (…)” (Cheong-San:33).Alguns dos pequenos contos colocam-nos perante a visão de uma Chinaconvulsionada, ou pela invasão japonesa, ou pela guerra civil; a imagem sobre ainvasão japonesa e o pós-guerra na China com a consequente desestruturação dasociedade tradicional e a emergência da mudança imprimida pela nova RepúblicaPopular é apresentada de uma forma estereotipada pelo narrador de ‘VingançaDesumana’ consubstanciando o temor dos macaenses em relação a uma China queemergiu da segunda guerra ‘desumana’ e ‘vingativa’. São as representações quetextualizam o Outro chinês sob o angulo do “olhar ocidental (…) sobre o mundochinês que (…) nos lembra sobretudo escritores como Pearl Buck, uma dasresponsáveis pela imagem que o ocidente tinha da china na primeira metade doséculo XX (…) Não obstante a distancia, não deixa de ser comprometido (…)”(Venâncio:2006:13).2. As Imagens da InterioridadeAs imagens da interioridade são as que nos reenviam novamente para acomunidade. Num breve apontamento pretendemos com este título fazer umaincursão através de textos em pátoà, uns em verso, numa poética que poderíamosconsiderar de cariz popular, por vezes satírica, mas também apontamentos em prosa,nas formas em que, pela escrita, se vai afirmando a condição de ser macaense, nãosó na tentativa da (auto) definição do sujeito colectivo, mas também na forma comovê as suas práticas sociais. São algumas das muitas trovas que foram aparecendo publicadas nos jornaise nas revistas de Macau, ao longo de cerca de um século, que consubstanciou, decerto modo, uma prática cultural num território onde não existiam nem práticasnem agentes editoriais ou seja não havia mercado editorial sendo a excepção o papelda administração, que através da Imprensa Nacional de Macau, a par do BoletimOficial de Macau, legislação, documentos técnicos e as publicações periódicasemanadas dos vários serviços públicos, ia publicando, fazia a impressão da maioriados títulos da imprensa periódica, como forma de mecenato (Pinto:93:4-22).Irene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 157
  • MARIA BARRAS ROMANA158Entendemos, ainda, integrar neste excurso pelas imagens da interioridade,um ‘pequeno livro de memórias’, como o denominou a autora, sobre as suasvivências e o seu lugar de pertença idealizado pela distância e pelo tempo damemória; as razões que subjazem à escolha desta textualidade memorialista prende-se com o facto de podermos cotejar o dito, ficcionado em Senna Fernandes, com oafirmado, por Maria do Céu Jorge, ainda que porventura idealizado, e que traduzretalho da sua real existência. 2.1. A alma dos Macaenses através dos textos em PátoàOs primeiros textos, líricos, que surgem em Macau foram publicados, emportuguês, no Jornal Abelha da China e remontam ao início do século XIX, 1823, enuma nítida influência dos Árcades, Elmanista e Filintistas, são exemplos da sátirapolítica, anónima, com raízes medievais, que acompanha o desenvolvimento de umaquestão que opôs constitucionalistas aos que no território estavam contra aconstituição liberal. Encontram-se os primeiros textos em pátoà em outros jornais e sãogeralmente de matriz popular e satírica, de crítica, mais ou menos, mordaz àsociedade do tempo, onde se motejam os momentos políticos, os costumes, aindumentária, as atitudes, os constrangimentos da língua e dos comportamentos, avivência da religiosidade; refira-se, ainda, que muitos destes versos, em pátoà egeralmente em quadras, eram usados pelas tunas macaenses no carnaval155 e, porisso, chegaram na forma oral até aos finais do século passado. No sentido deconhecer a visão que os macaenses tinham de si próprios, da sua comunidade, comoolhavam para o decurso do seu quotidiano, para a forma como eram governados,escolhemos alguns textos, em verso e em prosa, dos quais, pela extensão,transcreveremos só alguns excertos; os autores destes textos são: João Baptista deMiranda e Lima, Fillipe Lima, sobre o qual pouco se sabe a não ser o facto deMarques Pereira o apresentar como natural de Macau, e por fim José Inocêncio dosSantos Ferreira, Adé como era conhecido, o macaense que mais fez em defesa dodialecto da sua comunidade.José Baptista de Miranda e Lima, talvez o primeiro trovador macaense aescrever poesia em pátoà, “nasceu em Macau em 10 de novembro de 1782 e faleceuna mesma cidade em 22 de janeiro de 1848” (Marques Pereira:1995 [1901]:778),refere ainda o padre Manuel Teixeira que “sucedeu a seu pai (José Baptista e Lima)no cargo de professor de gramática latina e portuguesa por provisão régia de 7 deJaneiro de 1804 (…)” (Teixeira:1982:97). Deste autor/actor são as seguintes poesias________________155 As Tunas surgem nos três romances de Senna Fernandes e no livro de memórias de Maria do Céu Jorge. Irene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 158
  • PARA UMA LITERATURA DA IDENTIDADE MACAENSE – AUTORES/ACTORES159satíricas: Diálogo entre dois pacatos na rua direita na noite de 13 de maio de 1824 eDiálogo entre Augusta de 15 anos de idade e o seu primo João Fernandes de 18 anos.No que concerne ao primeiro excerto, trata-se de um texto de sátira políticae sobre ele e a data [13 de maio de 1824] esclarece Marques Pereira: “A poesia comunicada pelo sr. dr. Leite de Vasconcellos refere-se a um episodio d’essa epocha muito curioso na história de Macau,em que a reacção absolutista se defrontava com os primeiros protestosdo povo macaense pela liberdade que começava a raiar na metrópole.Mas essa liberdade só muito mais tarde se implantou na colónia. Eraflôr exótica que não se dava bem em terra do despotismo e daescravidão, em que a tyrannia dos governantes, quer eles fossemsenadores, ouvidores ou capitães geraes, tinha por espelho a tyranniados mandarins e mandarinetes” (Marques Pereira:1995 [1901]:778).O diálogo, de uma jocosidade muito interessante, transmite-nos, pois, aimagem da ‘paz’ que se pretendia para o território, sendo elucidativo o final em queambos os ‘pacatos’ desejam que as autoridades sejam abençoadas “em afião” – emópio.Diálogo entre dois pacatos na rua direita na noite de 13 demaio de 1824156Néne e Chico(…)N. Emprega nosso sentidoNa paz e na sociedade;Disfarça tudo maldadeD’esta gente.C. Tudo nos vive contente,Nom tem cuza mais melhorViva el-rei nosso senhorE Macau!(…)C. Viva tudo este cidadeGoverno tropa e SenadoN. Seja tudo abençoadoAmbos. Em afião!157________________156 Num artigo da Revista intitulado “Subsidios para o estudo dos dialectos crioulos do Extremo-Oriente – textose notas sobre o dialecto de Macau” da autoria de J.F. Marques Pereira, este refere ter recebido uma carta doprofessor Leite de Vasconcelos (publicada no artigo) que refere: “ (…) a remessa da cópia de uma poesiamanuscrita que possuo em macaista, e que julgo inédita. Intitula se ella Dealogo entre 2 pacatos na rua Direitana noite de 13 de Mayo de 1824 (…)” (pp.777-778).157 ‘Em ópio’.Irene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 159
  • MARIA BARRAS ROMANA160O segundo texto do mesmo autor, também um diálogo em verso, foipublicado pelo jornal Ta-Ssi-Yang-Kuo158, através duma conversa entre dois primos,ela de Macau, ele, também macaense, a viver em Hong Kong, se reflecte a questãoda língua e o entendimento do que era para os macaenses, já nos inícios deoitocentos, a língua de prestígio em Macau.Diálogo entre Augusta de 15 anos de idade e o seu primo JoãoFernandes de 18 anos (…)A. Vamos primo para dentroTomar um pouco de cháJoana traz pão, manteiga. Chá e açúcar já já.O meu primo lá em Hong-KongNão aprende Português?J.F. Ah… português eu já sabeAgora tá prendê ingrês. Antes de eu vai para Hong-KongDe onze ano pra dozeEu já estudá gramática Na escola de padre Jorge.Tem de cor os rudimentos?J.F. Padre Jorge que são rudo Queré que nós criança criançaNum dia prendê tudoNum são poco bulachoQue nos tudo levá d’ele E cada cute santanaQue rancá cabelo com peleA. Pergunto se o primo aindaSabe as regras da gramática?J.F. Eu nom pode lembrá tudo Já perdê bastante práticaA. Primo fala erradamenteFala apenas um «patois»J.F. Masqui patuá, tudo genteEntendê cusa eu falá.________________158 O texto está no fac-simile do jornal TSYK (1863-1866) que a Direcção dos Serviços de Educação e Juventude ea Fundação Macau editaram, em 1995. Por ser de difícil leitura a transcrição foi feita do livro Trovas Macaensesde João Reis (1992).Irene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 160
  • PARA UMA LITERATURA DA IDENTIDADE MACAENSE – AUTORES/ACTORES161A. Sendo algum português novoNão o pod’rá entender(…)Mesmo entre as mulheres É feio o falar assimQuanto mais entre os homens!Não há coisa mais ruim.De Fillipe M. de Lima “Chistoso poeta macaense (…)” um excerto da poesia23 de Dezembro “publicada em 1895 no Almanach Luiz de Camões, de HongKong” (Marques Pereira:1995 [1901]:189-190), onde o equivocacio e a sátira estãopresentes amalgamados com a portugalidade e a religião:23 de DezembroNatal já tem traz de portaLogo cai na quartafêraVenca nós armar presépio E aranjá candêa ceraNós tem sagrada familia Pastor vacca tem bastante;E tem também três Rê magoMontado na elephante.(…)Na Macau padre Manuel Com mas dôs ou três sium-siumChega festa de NatalCanta gorung gorungung(…)Sim padre Manuel falláQui aquelle são três rês-magrosMas eu senti bem de gordoTudo costas bem de largo.Unga rê são portuguezOutra môro tem turbante;Outro cafre beço grossoCorpo inchido diamante.José dos Santos Ferreira – cultor do dialecto macaense é considerável asua obra escrita em patoá, entre poemas, peças de teatro e operetas, nosentido de não deixar morrer um dos traços que carreiam a condição de sermacaense: Macau Sã Assi (1968), Papia Cristám di Macau: Epítome deGramática Comparada (1978), Camões, Grándi na Naçám (1982), Poéma diIrene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 161
  • MARIA BARRAS ROMANA162Macau (1983) e Macau di Tempo Antigo (1985). Poéma na língu maquista(1992).Conhecido pelo diminutivo Adé, nasceu em Macau a 28 de Julho de 1919 efaleceu a 24 de Março de 1993, em Hong Kong; filho de um português, militar, e deuma senhora macaense, viveu toda a sua vida em Macau. Por razões económicas,era o mais novo de dezoito irmãos, e ficou órfão de pai com apenas cinco anos,interrompe os estudos ao terminar o (antigo) 5º ano e ingressa na função pública,chegando a desempenhou as funções de chefe da secretaria do Liceu Nacional InfanteD. Henrique. Considerado, pela comunidade macaense como o Poeta de Macau, eraum defensor da identidade macaense, do seu lugar de pertença e da herança culturalportuguesa. Se considerarmos uma alma da comunidade macaense, ela, sem dúvida,está contida nas textualidades de Adé, nelas encontramos a distinção. De Adé são os próximos textos; os primeiros em prosa, num registo doquotidiano da comunidade, surgem as histórias ‘divertidas’, onde mais uma vez sesatiriza os costumes, sobre as festas e os comportamentos e, inevitavelmente, oelencar das iguarias gastronómicas, que se constituem, de certo modo como marcaidentitária, pois resultam na sua maioria da mistura de ingredientes e saboresdíspares, a partir de uma base da gastronomia portuguesa.O primeiro texto de Adé dá-nos o retrato da véspera de Natal da famíliamacaense, do dia da consoada, e da profusão de pratos que aguardam o final dojejum que a religiosidade católica impõe aos fiéis. Também nos dá conta doscomportamentos durante a Missa do Galo na Igreja de Santo António, e da roupaquente e pesada, que tiraram do baú, necessária para uma noite gelada, e da gulaque quebra o jejum santificado: “24 sã dia di consoada. Tudo na casa têm-qui lembrá qui sãdia di jenjum, nom pôde comê carne. Unga dia intéro sã ravirá co sópadi lacassá co camarám, comê laia-laia verdura crú champurado. Têmrodela di batata cozido, cenóra, rabo com cincomáz pa quim querê.Titi Chai cumprí su religiám com devoçám bem-fêto, sã lôgo viziá, oláquim astrevê panhá carne comê. Masquí êle assim jambulám duro,tamêm Venáncio, emado, já corê vai cozinha tasquinhá pisunto, pacapí com pám comê. Ai, si Títi Chai sabe...Perto chegá mea-nôte, tudo já têm na Greza Sant’António páuví missa-galo, dessá Chacha Sabina, Chacha Ambrósia co Mui-Muitomá conta di casa.Frio di rachá, ántis di vai, unga-unga já gafinha baul tirá rópagrôsso-grôsso pa encapelá, com lám pa enroscá na piscoço. Mariamêdo su Avô-công panhá frialdade, já obriga vêlo usá capotámpesado qui fazê êle nom sabe andá.Irene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 162
  • PARA UMA LITERATURA DA IDENTIDADE MACAENSE – AUTORES/ACTORES163No meo-meo di missa, tentaçám di Venáncio dá quántocabeçada, já cai co sôno. Chai, quelora repará qui êle tá concá,ramendá águ ta fervê na panela, já arcuá su braço zinguá ungacotovelada na pêto di su nhum. Estunga môno soltá unga “Ai!” assifórti, qui Sium Padre na altar tamêm já uví, faltá unchinho entornávinho di cáliz. Padre virá cara, olá cuza já sucedê.Chegá fim di missa, tudo cavá bezá Minino Jesus, ilôtroazinha corê vai casa, cartá ramatá Títi Dinha co Lolita pa comêceia. Intrá na casa, priméro ancuza qui ilôtro fazê sandê vela, vaidiánte di pesépio rezá pa pedí graça co Filo di Dios co VirgeMaria, Su Mai. Sigundo ancuza, sã Venáncio sentá uví papiaçámdi siara.Cavá pregá sarabanda, Títi Chai dá voz Maria pa ajudá vaicozinha panhá pirú, capám co pisunto botá na mésa pa tudo comê.Querola ta retalhá pisunto, Tití Chai, ôlo vivo, já sentí qui vánda-basso di pisunto já ficá lambiscado. Nancassá priguntá, êle sabequi sã obra di su Venáncio. Lembrá qui sã Natal, dia grándi, êle abríunga ôlo, fichá unga ôlo, já dessá vai-ia.Cavá comê, barriga enchido, unga-unga já virá vai casa,ilôtro fichá bêm fêto tudo janela, trancá porta, apagá lampiám cocandia-cera, cadunga recolê na sua quarto. (...)” (Ferreira:1985).No segundo texto encontramos o Outro numa descrição da cidade chinesa– do Bazar – feita pelo autor; neste texto, que pretende ser um dia, em Macau,no ano de 1825, está representada a comunidade chinesa nas suas práticasquotidianas em função da comunidade macaense; o vendedor de pão, os condutoresdos riquexós, as aguadeiras, as criadas de casa; as práticas de distinção do Outroem oposição a Nós:Ano di Dios 1825 ta perto-perto cavá.(...)Dia já nacêNa rua, china cartá cesto, subi, decê, gritá “Min-pao! Vendêmin-pao, quente-quente!” Cúli pussá caréta, gongchông-gongchông,dôs pê pa-chac, pa-chac chám, sai voz gritá “Uai, uai!”Di lóngi ta vêm china di vendê catupá, co quánto apô-apô tácartá águ-fonte. Áma-áma cartá cesto ta vai bazar comprá sôm. Nariva di travessa, dôs vêla cubrí dol tá andá vai greza.Unga caro roda-di-pau torto-torto, co unga bôi na diánte tapussá, vagar-vagar ta deslizá na chám di rua, levá águ-fónte vai casadi nhu-nhum gente grándi.Irene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 163
  • MARIA BARRAS ROMANA164(…)Dia já nacê. Más unchinho ora, sã ta olá Sol imburcá cabeçapa sai trás di Mato-Guia.Agora sã merendéro co lata na riva di cabéça gritá: “Apa-bicoquente-quente! Coquéla! Bicho-bicho! Quim quelê complá! Quente-quente!” (Ferreira:1985).Os últimos textos escolhidos são, respectivamente, excertos do poemaMacau Sã Assi (1967), Macau, Belêza di Passado (1984) e Unga Poéma, Iou-SuaAmor (1985); neles transparecem a condição de ser macaense e Macau, o lugarde pertença sagrado porque aglutinador da identidade. Nestes três excertos deanos diferentes, temos num primeiro momento, a mátria cristalizada, a Macau-lar imutável, os dois últimos traduzem o sentimento de perda, e na evocação dolugar de pertença que começa a tornar-se imaginário, Adé define a identidademacaense, desenhando de uma forma musical as suas marcas de distinção; emJosé dos Santos Ferreira também se constata o inconformismo referido por JoséCarlos Venâncio, e uma profunda tristeza que emana do sentimento de pertença,não-pertença que faz parte da condição de ser Macaense.Macau Sã Assi(…)Teládo qui vêlo,Co rópa sugá,Escada qui istrêto,Janela co fula,Nho-nhónha cantá.Min-pau qui quente-quentePadéro gritá...Sol fórti di riva,Têng têng lou di basso,Assi sã Macau.Chiste qui papiá na GuiaCoré vai Dona MariaChega cedo San Ma LuQui azinha, como dodaPulá na boca-boca Chunambéro pa LilauNhum falá Macau sã gránde,Quifoi?(…)Irene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 164
  • PARA UMA LITERATURA DA IDENTIDADE MACAENSE – AUTORES/ACTORES165Macau, Beléza Di Passado(…)Sã Macau! Nôsso berço cristámJardim na pê di mundo semeado…Sã Macau,qui têm su coraçámN’unga dilúvio di amôr banhado(…)Fortaléza Mónte co su peça,Lembrá nosso Macau di otrora;Andá vai diànte, decê travessa,Gréza Sant’António sai vêm fora(…)Tera di fé qui tem coraçámTêm alma, inchido di beleza,Sã Macau! Nosso berço cristám,Di Portugal chistosa princésa.(…)Unga Poéma, Iou-Sua AmorDi tanto qui vôs merecêMacau quirido,Iou já dá pa vôsQuêle poco, casi nada.Di tanto qui já panhá di vôs,Macau abençoado,Iou já dá pa vôsUnchinho na~más, casi nada.(…)Pramor di vôsso crençaIou têm iou-sua religiámPa sirví Dios co fervor,(…)Macau Cristám,Sí iou.sua alma mer’cê salvaçámSã vôs Iou têm-qui gardecê(…)Unga Pátria inchido di glória,passado fêto co bravura,Co estória qui mundo inveza.Irene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 165
  • MARIA BARRAS ROMANA166Unga língu burifado di belezaMacau português,Tudo vôs já dá pa iou.159 (…)2.2. A memória em Maria do Céu Saraiva JorgeO discurso magoado enforma o texto que prefacia o livro Macau que euconheci, anos 20 e 30 de Maria do Céu Saraiva Jorge, filha e neta de macaenses;nasce em Lisboa, em 1919, e ainda não tinha um ano de idade quando o pairegressa a Macau levando a família recentemente constituída para o seio da suafamília alargada. A memória datada de um lugar reflecte-se na justificação que, esta antigaprofessora do Liceu Normal Pedro Nunes entrega aos seus esperados leitores:“Este pequeno livro de Memórias vai decerto interessar as pessoas que viveramem Macau, sobretudo aquelas que lá estiveram nos anos 20 e 30 (…)” (p.5) aintenção do escrito também tem um tempo de memória: “foi para informar osvisitantes de hoje, por um lado, e, por outro, para matar saudades aos antigosocupantes portugueses da nossa colónia oriental (…) que eu empreendi atarefa de descrever o que foi Macau no meu tempo de infância e juventude.”(p.5)________________159 Entendemos a pertinência de integrar um pequeno glossário com algumas das formas lexicais que poderiamsuscitar mais dúvidas na interpretação, de acordo com Graciete Batalha “Glossário do Dialecto Macaense”(1988).águ-fonti - água para beber.áma - criada; áma no dialecto macaense não tem o significado de ama, “mulher que amamenta criança deleite”, esta designa-se por áma-lête. áma-seco: criada que trata de crianças, sem as amamentar.apa-bico - apa salgada com recheio de carne, de porco, picada e outros condimentos.apô - mulher chinesa de certa idade. termo derivado do chinês ap’ó que significa velhinha. apô di cartá águ:mulher que traz a água, aguadeira.bicho-bicho - doce macaense à base de farinha e ovos e coberto de açúcar derretido; o nome bicho-bichoderiva da forma torcida do doce semelhante a bichos.cartá - transportar, trazer ou levar.caréta - carro, veículo.caputá - bolo salgado chinês, feito com arroz, carne de porco, etc.cavá - acabar, terminar.dol - manto com que as mulheres se cobriam para irem à igreja.dôs - dois, duas. dôs-dôs: aos pares.gongchông - chocalhar, agitar.greza - igreja.min-pau - termo chinês que significa pão; min-pau quente-quente: pão quentinho; nhum - rapaz. nhu-nhum:senhores, homens; nhónha-nhónha: senhoras, mulheres.pussá - puxar.riva - cima; em cima.torto - torto; torto-torto: entortado.unga - um ou uma.vagar - devagar, vagar-vagar: devagarinho.vêla / vêlo - velha / velho.sôm - termo chinês que significa comida.Irene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 166
  • PARA UMA LITERATURA DA IDENTIDADE MACAENSE – AUTORES/ACTORES167Este texto representa um olhar presente sobre as memórias do olhar quereporta uma realidade que se foi cristalizando numa actualização retardado,interpretada, distante. Maria do Céu Jorge vem para Portugal com 16 anos e nunca mais voltou aeste seu Macau, que perdeu um dia, possivelmente quando teve conhecimento dodesaparecimento do palacete160 de seu avô José Vicente Jorge161. Da sua biografiaconsta que: “estudou (…) no Liceu Maria Amália e na Faculdade de Letras daUniversidade de Lisboa, licenciando-se em Filologia Germânica. Como bolseira doBritish Council, frequentou a Universidade de Nottingham, tendo feito teatro amadorna Inglaterra e aprendido dança na Escócia, trabalhou na BBC como locutora nasemissões em língua portuguesa. Reformou-se em 1974, pouco depois do 25 deAbril”.É como documento que entendemos o seu livro, embora o estilo de escritaseja indiscutivelmente literário. O narrar uma época que foi marcante para a vida donarrador/autor é complexo, na medida em que o que se textualiza consubstanciafactos dessa época, mas através da interpretação filtrada pela visão de mundo autoral.O narrador narra as memórias de um tempo vivido e que é revivido pela observaçãofeita ao rememorado. São assim que se apresentam as memórias deste livro.É pela descrição do passeio de despedida em Julho de 1935, através das ruas,casas e lugares simbólicos de Macau que a autora tece as suas memórias, não só dolugar, Macau; todavia, não da Península, mas da parte que lembra ser portuguesa,aparece-nos, de um olhar exterior, a visão edénica de um Macau onde é poucoperceptível uma ‘cidade chinesa’, embora nos descreva em breves notas o que reteve,por exemplo do Porto Interior “(…) era um vasto amontoado de barquinhoschineses, os sampanes, movidos a remos, com uma meia cobertura (…) por baixoda qual se abrigava uma família inteira (…) rodeados geralmente por algunsgalináceos (…)” (p.10).Num processo de construção da identidade que se vai construindo nanarrativa do eu – pertença imaginária, permite-nos entrar na lembrança vivida econstantemente recriada dos jardins e da casa senhorial de seu avô, mas tambémnas saudades dos momentos vivenciados com a avó Matilde, com os nove tios emuitos primos, com os pais, o irmão Naninho.________________160 “O palacete de José Vicente Jorge na Rua da Penha nº 20, recheado até à exaustão por “cerca de 10.000 peças,representando os principais ramos de arte chinesa – cerâmica, bronze, jade, pintura, caligrafia, escultura,gravura, esmalte, laca, bordado e mobília”, como nos diz na Introdução da sua obra Notas sôbre a Arte Chinesa– elaborada a pensar na Exposição do Mundo Português –, era ponto de passagem obrigatória para todo ovisitante ilustre de Macau, desde cabeças coroadas da Europa e da Ásia, coleccionadores, diplomatas, artistasa escritores, como, por exemplo, Ferreira de Castro” (Sena:2011:47).161 “José Vicente Jorge nasceu em Macau em 27 de Dezembro de 1872, na freguesia de S. Lourenço, (1872–1948),(…) no seio de uma família macaense originária, pelo lado paterno, de armadores algarvios que se haviamestabelecido na cidade, provavelmente nos inícios do Século XVIII” (Sena:2011:42).Irene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 167
  • MARIA BARRAS ROMANA168A memória do lugar transmutasse na narração autobiográfica em que aautora, como personagem das memórias, nos descreve a emoção do funeral da avó,as suas sensações, o seu sentimento de perda, narrando “factos dos quais é o centro,mas que envolvem outras personagens saídas da sua memória” (Lejeune:1996:15).Neta mais velha de uma das famílias mais importantes de Macau, o seu livropermite-nos encontrar as marcas de distinção, não só ao Outro-oriental “(… Todoeste arroz, seis chupas162 , era consumido num só dia normal pela família da casa erespectivos serviçais. Os chineses não podiam passar sem o acompanhamento dearroz branco a todas as refeições. Comiam-no cozido, sem sal pescando com doispauzinhos os pequenos pedaços de carne (…). Nós, os macaenses, tambémcomíamos desse arroz ao almoço e ao jantar, fosse qual fosse o prato principal masusávamos um garfo (…) (Jorge:p.12). Os chineses de Macau aparecem textualizadosnesta memória autobiografia da mesma forma que Senna Fernandes os representamaioritariamente: como personagens secundárias; como “os dois cúlis para otransportarem de ‘Jerinxá’” (p.20); ou na estória em que “o ‘boy’ (criado) vendo umatigela com bastante sal (…)” (p.26).Mas, também as disposições que permitiam a distinção entre as fracções declasse (Bourdieu:1979) que constituíam a sociedade macaense aqui retratada: o habitus da elite sociocultural de Macau “a fina flor” referida nos romances deSenna Fernandes, os lugares simbólicos a ela associados, o bairro de S. Lourenço, aPenha (onde a autora morou, em casa do seu avô). A Praia Grande, o Hotel BelaVista, o Hotel Riviera, o Clube de Macau, o palácio do Governador; os seus gostos,apercebidos na descrição de um “‘cotillon’ de Carnaval, realizado no Clube de Macau(…) as senhoras iam vestidas com vestidos de Cetim (…) ao som de uma valsa,deslizando com os seus pares de casaca negra pelo meio do enorme salão (…) (p.14)as tardes e as indumentárias do ténis civil; tal como as práticas culturais associadasà sua posição, “Como as bibliotecas do meu avô e da minha tia eram muito ricas(…) o avó também ali tinha as obras completas de Shakespeare (…) mas o livro quemais me encantou, nesta biblioteca foi um grosso volume que continha a descriçãode todas as óperas conhecidas” (p.39) “alem de leitura, havia muita literaturadeclamada na discoteca do meu avó (…) a minha família fazia questão de Mandarvir da “Agência Mercantil” todos os discos portugueses que eram editados emLisboa” (p.39). Naquele tempo havia entre os macaenses um certo gosto por poesia”(p.40); ou seja, as disposições que revelam os vários capitais (económico, social,cultural, simbólico). De acordo com Bourdieu (1979) o capital simbólico é inerenteà imagem social e aos rituais associados aos outros três capitais mencionados, deste________________162 Chupa era uma medida de litro e meio, “tratava-se de uma espécie de copo, de bambu, cortado entre doisnós, ficando um dos nós fechado a servir de fundo” (Jorge:2006:12).Irene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 168
  • PARA UMA LITERATURA DA IDENTIDADE MACAENSE – AUTORES/ACTORES169modo lucubrou a distinção de classes em função desses capitais ligando-os àspráticas e aos gostos culturais de cada classe ou fracção de classe.Daí que se considere pertinente referir que, a descrição do riquíssimo ebastante documentado, palacete de José Vicente Jorge ocupa vinte e três páginasdeste livro num capítulo a que a autora denominou A Casa-Museu do meu Avô eonde, com extrema minudência, não só relata as formas de ocupação (europeia)dos espaços interiores, mobiliários, baixelas as porcelanas, como faz o inventário dacolecção de porcelanas chinesas, propriedade de Vicente Jorge, que foi um dosmaiores coleccionadores de arte chinesa, mas também nos descreve os seusexteriores: “a área era muito grande; além da moradia de três pisos, cercada por umgrande jardim, era o meu Avô proprietário de uma vasta zona de nível mais baixo,à qual se acedia por uma escada de pedra. Cá em baixo, tinha o meu Avô mandadofazer um campo de ténis cimentado, onde os meus tios e primos praticavam desportocom os amigos (…) ao fundo do campo (…) havia uma porção razoável de terrenorelvado com bancos e uma mesa de pedra para os jogadores de ténis (…)descansarem (...)” (p.75), podemos, deste modo, constatar as práticas que estavamassociadas ao habitus de classe e distribuídas de acordo com as oposiçõespermitidas; refira-se que, por exemplo o ténis, é considerado um desporto caro edistintivo e que é factor de distinção a posse de um campo de ténis ou a frequênciade um clube privado (Bourdieu:1979).Entre os vários excursos de memória, a autora vai dando ao leitor as notíciasda época, algumas directamente ligadas à família, mas que não deixaram de envolvera comunidade, como o casamento da sua tia Henriqueta com Danilo Barreiros: oupequenas notas de carácter informativo que permitem aquilatar a dimensãosimbólica dos espaços e a sua ocupação directamente relacionados com o prestígioou com o habitus:“Também informo que o bairro de Santo António era habitadopela gente mais antiga de Macau, que se exprimia ainda em ‘patois’cerrado. Chamávamos ‘nhonhas’ às senhoras de meia-idade que lámoravam, pessoas muito religiosas e conservadoras, que até sevestiam de uma forma característica, bastante antiquada, com saiasgeralmente muito compridas (p.47).Nas páginas deste livro são avocados os macaenses pelo nome, é toda umacomunidade presente nas festas, nos jantares, no ténis, nos saraus, nos retratos dajuventude ou da finitude da vida, são mandadas mensagens “se leres estas linhas,Albertina, fica sabendo que não te esqueci e que ainda me lembro com saudade do dia dos teus anos!” (p.69), e num jogo de memória assiste-se à constantecomparação entre o passado lembrado porque vivido e o presente apercebido nadistância: “Chegada ao Lilau, vi a fonte ao fundo jorrando da parede do ladoIrene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 169
  • MARIA BARRAS ROMANA170esquerdo. Dizem-me que cometeram recentemente a barbaridade de transformaresta histórica fontezinha numa estrutura moderna. Segundo a lenda, quem beberdaquela água, ou se casa em Macau, ou tem de voltar a Macau, ou morre emMacau” (p.73).3. As Imagens da ExterioridadeSão imagens da exterioridade as que nos chegam através do olhar de quempassou, em curtas ou longas estadias, que textualizou Macau a partir de uma leituracolonial, ou que tendo consciência dos laivos coloniais da sua leitura, a tentoudesconstruir imbuindo a ironia na sua escrituralidade. As duas obras escolhidas, O Caminho do Oriente (1932) e Os Construtoresdo Império (1994), são textos que consubstanciam escrituralidades diferentes;também os seus autores têm trajectórias diferentes, embora tenham em comum ogosto pela ‘coisa’ literária e o facto de ambos, embora em períodos díspares daHistória, terem servido o império colonial, um na Armada outro na Magistratura, oque carreia leituras de Macau imbuídas de imagens e discursos que cotejam, queopõe lugares e formas de os viver. A primeira é da autoria de Jaime Corrêa do Inso163, um oficial da MarinhaPortuguesa, que esteve por três vezes em Macau. Jaime Corrêa do Inso nasceu em1880, em Portalegre, onde morreu, no ano de 1967. Fez o curso da Escola Naval ena sua primeira viagem, em 1903, como guarda marinha, faz escala nos portos dasvárias colónias, incluindo Macau. Grande parte da sua carreira é feita na canhoeira‘Pátria’ e é nela que vai a Macau numa missão, em 1912, em reforço da soberaniaportuguesa, num momento em que, também, na China se assistia ao nascimentoda república. Fica poucos meses pois um apelo de urgência obriga a canhoeira arumar a Díli164.A impressão que lhe fica de Macau leva Jaime do Inso a publicar, em 1912,nos Anais do Clube Militar Naval, revista para a qual colabora durante cerca de 50anos, um artigo intitulado “Ecos de Macau. Guerra dos Piratas. A Batalha de Lantau”e a proferir na Sociedade de Geografia de Lisboa, em 1913, a conferência “Macau,a Jóia do Oriente”. Fruto de uma estadia em Macau, entre 1929 e finais de 30, O Caminho doOriente foi publicado, em 1931, pelas Edições Elite, e em 1932 recebeu o primeiro________________163 Sobre Jaime do Inso serviu-nos de fonte o artigo homónimo, publicado na Publicação Oficial da Marinha, Revistada Armada, Nº 390, Ano XXXV, Set/Out. 2005, pp.18-21.164 Em Timor, a canhoeira e respectiva tripulação ficam oito meses para fazer o patrulhamento e defesa dos portossobretudo Baucau, onde Jaime do Inso protagoniza várias acções de combate. Sobre estes momentos em Timorescreve um relato “Em defesa de Timor”.Irene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 170
  • PARA UMA LITERATURA DA IDENTIDADE MACAENSE – AUTORES/ACTORES171prémio do Concurso de Literatura Colonial. Ainda sobre as suas viagens pelo Oriente,Jaime do Inso publicou, no ano seguinte, Visões da China, uma colectânea de artigosseus, que ao longo de vários anos tinham surgido na imprensa portuguesa, brasileirae de Macau, e ainda a transcrição da correspondência que manteve com Wenceslaude Moraes entre 1913 e 1927165; e em 1936 publicou, também, uma obra com umvasto conteúdo informativo intitulada China. Passando à reserva em 1938, dedicou-seà investigação histórica e nesse sentido muito concorreu o facto de ter sidonomeado, em 39, para a Secção de História do Estado Maior Naval onde concluium trabalho sobre “A Marinha Portuguesa na Grande Guerra”, publicado nos Anaisdo Clube Militar Naval166.A colecção ‘Cadernos Coloniais’ da Editora Cosmos publica, em 1950, umtexto do autor intitulado Cenas da Vida de Macau, com algumas descrições, senãoiguais, mas muito próximas daquelas que encontramos sobre Macau no romance O Caminho do Oriente; encontramos também dois momentos que nos transportampara a visão de um Macau dual, num registo de espanto pelo diferente, embora onegativo da visão da dualidade que nos deixou, da mesma época, Senna Fernandes:Na parte alta era o socêgo do burgo português setecentista,das rótulas, das igrejas e travessas do ambiente provinciano, dumagrande decaída com a perda do antigo comercio e navegação; naparte baixa era o formigueiro estonteante da vida chinesa, com ocolorido inimitável dos seus caracteres ao vento, as lojas escancaradas,como montras, com tudo à venda, as cosinhas pelas ruas, a abarrotarde arroz, sopa de fitas, peixe, molhos esquisitos para o nosso paladar,carne em bocadinhos, hortaliças etc., tudo como em picados parabonecos, que se comem levados à boca com dois fai-t’chi – era a música dos Cou-laus e o cantar dolente das Pi-pa-chai…(Inso:1950:11)167É, também, impressivo o olhar que o Comandante nos deixa da China, aquelaChina que ele entreviu, sobretudo a partir do Bazar de Macau e que o marcou pelosentir antagónico que desperta e que ele soube traduzir no seu romance:A China é uma esfinge que encanta e arrepia, como mulherformosa e inocente, ou megera desbragada; a China é um símboloque nos prende em pensamentos profundos, ao mesmo tempo que é________________165 Período que corresponde ao momento em que Wenceslau de Morais era cônsul em Kobe e posteriormente seexilou em Tokushima. Refere-se ainda que em 1935, após a sua promoção a capitão-de-fragata, Jaime do Insofoi nomeado Director da Escola de Artilharia Naval, sediada na fragata “D. Fernando II e Glória“ da qual eraComandante, passando à reserva em 1938.166 Sublinhe-se que as Edições Culturais da Marinha fizeram uma edição desta obra em 2006.167 A ortografia está conforme o original.Irene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 171
  • MARIA BARRAS ROMANA172gracejo, uma bobice, um brinquedo de crianças; a China é a Fénix querenasce, continuamente, dum pesado destino de martírio, confiante,juvenil, de sangue novo e ridente; a China qual seára exuberante eflorida, onde fecundam infindas aspirações, a China – a eternacontradição! – é um oceano de tristeza insondável, fatídica,absorvente, a China constitui uma forma diferente de encarar a grandeilusão – a Vida! (Inso:1950:39).168Da autoria de Rodrigo Leal de Carvalho é a segunda obra escolhida. RodrigoAntónio Leal de Carvalho nasceu nos Açores em 1932 e é juiz Conselheiro doSupremo Tribunal de Justiça, jubilado. Foi para Macau em 1959, como delegado doProcurador da República depois de ter estado algum tempo em S. Tomé. Com algunsperíodos curtos de ausência, é em Macau que faz praticamente toda a sua carreirade Magistratura e onde na última década ocupou o cargo de Procurador-GeralAdjunto, só regressando a Portugal em 1999.No início da década de noventa (1993) a Editora “Livros do Oriente” edita oseu primeiro livro, Requiem por Irina Ostrakoff, cuja temática versa sobre osrefugiados no período da Segunda Guerra em Macau; um ano depois edita OsConstrutores do Império (1994).A IV Cruzada (1996) consubstancia a questão das tríades, tendo comoespaços diegéticos Xangai nos anos quarenta sob ocupação japonesa e Macau,ponto de encontro das duas personagens que centralizam a intriga; Ao Serviço deSua Majestade, também de 1996, é um romance, de maior folgo que os romancesanteriores, que se desenrola em vários espaços, percorrendo quase todos oscontinentes, tendo como lugar de partida Macau, tem como tema a diáspora e osdesencontros da vida.O Senhor Conde e as Suas Três Mulheres (1999) tem o espaço e o tempodiegéticos divididos entre Lisboa, nos anos vinte, Macau, nas duas décadas seguintes,e novamente Lisboa na década de cinquenta; Com A Mãe (2000), Leal de Carvalhovolta a privilegiar o tema dos refugiados que a revolução na Rússia levou para Xangai,sendo, mais tarde, obrigados a fugir para Macau pela ocupação japonesa e pelaRevolução Cultural; O Romance de Yolanda, também passado em Macau, tem comoprotagonistas uma macaense e um filipino e um casamento que permite a obtençãoda nacionalidade portuguesa para este último (2005); As Rosas Brancas do Surrey(2007) foi, até agora, o último romance do autor.O género literário que enquadra as duas obras escolhida é o romance, quede um modo geral é substantivado por uma estética que caracterizou muitos dosromances portugueses até aos anos trinta e na qual, de certo modo, também________________168 A ortografia está conforme o original.Irene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:39 Página 172
  • PARA UMA LITERATURA DA IDENTIDADE MACAENSE – AUTORES/ACTORES173podemos enquadrar os romances de Senna Fernandes; muito na senda de umaescrituralidade camiliana, na transição para o realismo, são estruturados através danarração do percurso do herói, que encontra a plenitude no amor numa tramapassional associada ao retrato de costumes que se plasma na descrição pautada pormomentos historicizantes e no apontamento histórico verídico.A influência do realismo consubstancia-se na observação directa da realidadee na constatação mais fidedigna das condições dessa realidade embora a suarepresentação se encontre imbuída de valores moralizantes; consubstanciamtextualidades em que subjaz o memorialismo transmissor de uma visão exógena doslugares, sendo as descrições paisagistas e humanas (sobretudo em Jaime do Inso)mescladas de exotismo, quiçá da mirabilia de Mendes Pinto.Esta forma de realismo peculiar, porque associada a um romantismo tardio,sentimental, moralizante e um pouco provinciano, foi influenciada pela vertentepassadista da corrente saudosista que subjaz a literatura colonial pós ultimatum,“impregnada do idealismo e do nacionalista tradicionalista que se haviam desenhadona última década do séc. XIX” (Prado Coelho:1979:4º Vol) e que carece da visãocrítica dos autores da Geração de 70.No caso específico do romance de Leal de Carvalho, a opção por uma escritaironizada desconstrói, de certo modo, esta vertente laudatória que se encontra emJaime do Inso; contudo e apesar de a advertência referir que não é sua intençãofalar, apesar do título, de “personagens gigantescas, maiores que a vida – osgrandes «Construtores do Império»” (p.303), a narrativa dá-nos a visão do autorque é simultaneamente narrador e que se assume como tal no próprio texto: “Eusentia-o e maravilhava-me (…) não só com a diversidade étnico-somática, mascom a de língua, culinária, maneiras, vestuário, diversões, valores morais e jurídicos(…)” (p.230); “O acontecimento pôs, ao lar do Autor, algumas questões laterais(…)” (p.232) ou seja, e de acordo com o entendimento de Bakhtine (1978:152-156), um ser social historicamente concreto, definido e imbuído de uma ideologia,e o seu texto representa, tal como os textos de todos os autores/actores jámencionados, a sua mundivisão e carreia um significado social, consubstanciadono seu habitus.3.1. O Exotismo e a Diferença: Jaime do Inso – o Caminho do OrienteO Caminho do Oriente é um romance completamente enquadrado naestética da denominada literatura colonial, uma forma de “expressão de uma práticae de um pensamento que assentam no pressuposto da superioridade cultural ecivilizacional do colonizador” (Ferreira:1989:250). Não retendo todos os critériospropostos por Manuel Ferreira na definição deste tipo de prosa, contempla, contudo:Irene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:40 Página 173
  • MARIA BARRAS ROMANA174“a superioridade numérica das personagens brancas” (europeias), que “(…) sãogeralmente protagonistas”; “(…) o tom épico é dominante, numa espécie de‘celebração colonial’; o ponto de vista dominante é o europeu: visão lusocentrista”;“o destinatário é português a viver em Portugal” e “o autor apresenta umaintencionalidade patriótica” (Ferreira:1989:241-249).Neste romance está patente, ainda, uma particularidade que o enquadra noque Mouralis denominou de fase exótica e que se realiza no espanto, na emoção,perante os diferentes espaços e as diferentes gentes, que perpassam no escrito eque revelam o sentir do autor: “O discurso exótico ordena-se, assim segundo umaretórica que visa a expressão e a caracterização de uma realidade considerada comoprofundamente diferente” (Mouralis:1982:95); no primeiro capítulo denominado‘O Oriente’ encontramos um misto de deslumbramento pelo diferente com a laudada gesta da expansão: o Oriente como espaço exótico do narrado, insinuando-seem maléficos encantos, e Portugal como a personagem abnegada que se sacrificaem prol de valores maiores:“É que o Oriente é aquele mundo onde qualquer coisa de novo,de misterioso e de subtil empresta uma nova feição à vida e às coisas.O Oriente é aquela terra tentadora e voluptuosa para o europeu, cheiade ilusões e desilusões, de gozos e de perigos onde, num labutarconstante, numa vida exaustiva de trabalho, de quando em quando,encontra a tortura e a morte: a tortura do espirito, a agonia dapersonalidade!O Oriente, sonho antigo de Portugal, factor da nossa grandezae decadência, visão incompreendida do grande Infante, é o rasto daepopeia lusitana que outros depois trilharam numa ascese deopulência e de riqueza. O Oriente que nos chamava, criando o motivodas estrofes d’Os Lusíadas, fará perdurar na memória dos homens afama e o eco da gente lusitana (Inso:1996:15).São dois, os protagonistas deste romance, que têm o seu a-quo em Lisboa,no momento da sua partida para o Extremo Oriente; com idades compreendidasentre os vinte e trinta anos, jovens, portanto, e diferentes como refere o autor:“Rodolfo Moreira, o mais novo, era um tipo insinuante e fino, apurado no trato eno trajar, mordendo nervosamente os cigarros (…) Frazão Antunes, o mais velho,um tanto prosaico e calmo, revelava-se, a um simples exame, uma antítese perfeitado seu amigo, a não ser nas qualidades de carácter em que ambos irmanavam nomesmo timbre de finura e honradez” (p.17). Comungavam do mesmo destino, erade infância que lhes vinha a amizade, ligados pela sociedade comercial, exportadorade cortiça, dos seus progenitores, e herdeiros dela, num momento em que a crisepõe em causa a saúde financeira do negócio e morto o seu pai, Rodolfo assume aIrene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:40 Página 174
  • PARA UMA LITERATURA DA IDENTIDADE MACAENSE – AUTORES/ACTORES175sua parte na sociedade e a solução por si encontrada foi ‘ir longe buscar novosmercados no Oriente’. O plano para a realização deste intento passava por irem ambos para Macau,ficando o pai Antunes a gerir os negócios em Portugal; Rodolfo, formado em direito,iria como professor do liceu e a possibilidade de livremente advogar no território,Frazão iria na qualidade que o seu cargo, na firma, permitiria: como técnico deprospecção de mercado e regressaria logo que tivesse elementos para a prossecuçãodo plano.É pois numa aventura com riscos materiais acautelados que os dois amigosfazem o caminho do Oriente. Mas num primeiro momento em Macau surgem ossentimentos antagónicos “A impressão era forte e Rodolfo sentiu, num misto deatracção e de repulsa, como que uma sensação de domínio da China, queinstintivamente repeliu…” (p.76). Segundo David Brookshaw, a personagem idealque melhor traduz os valores da ideologia colonial, de acordo com a visão da épocae do autor é o compromisso entre os dois protagonistas do romance de Jaime doInso no sentido em que eles correspondem ao herói e ao anti-herói, o primeiro coma força de carácter que lhe permite resistir aos encantos do Oriente, o segundosujeito a tentações, deixando-se enfeitiçar e submetendo-se ao Oriente:Um dos traços característicos da literatura colonial era que osseus heróis tinham que conciliar o seu desejo de aventura – o queimplicava também um certo fascínio pela nova realidade cultural emque se encontravam e a sua capacidade de preservar a sua própriaidentidade cultural, a sua autoridade como representantes do poderimperial. Daí o conceito da alteridade como sendo, no fundo,perigosa. Por isso, tinha que ser vencida, para depois ser banalizada erendida inútil (Brookshaw:2000:33-42).O Portugal forte, íntegro e não susceptível à dominação oriental perpassa notexto, antes da chegada dos dois amigos a Macau, quando o navio em que seguiamfaz escala em Malaca, e são confrontados com a comunidade malaquenha a quem,nem o tempo, nem a distância, nem o abandono tirou a imagem idealizada da pátriae cujo falar é, segundo o narrador, “um «patois» parecido com o antigo dialecto deMacau” (p.55), contudo, não é na resiliência desta comunidade que o autor encontraa representação da capacidade de preservação da portugalidade: mas sim na figurado padre português: O padre Coroado, de arcaboiço largo e rijo, com 18 anos de serviço em Malaca, era um verdadeiro monumento feito da rijaalma portuguesa. Longe de se desnacionalizar naquele meioabsorvente, cada vez mantinha mais íntegro o seu carácter semabdicar de um termo sequer da nossa língua, de um sentimento ouIrene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:40 Página 175
  • MARIA BARRAS ROMANA176de coisa alguma que pudesse ferir o brio nacional (…) Só pregavaem português, só pensava em português, só sentia como português(…), é digno de especial reparo, porque é preciso conhecer a forçada desnacionalização do Oriente (…) para se avaliar de queextraordinária têmpera é preciso dispor para o espirito se isolar (…)(pp.56-57).A comunidade macaense não tem uma atenção específica neste romancesendo integrada no universo genérico da comunidade portuguesa, resultando como,quase, uma negação da sua existência tornando-a invisível, daí que as poucasrepresentações surjam de forma muito europeizada “Era Tininha, a moça dos cabelosloiros, os olhos infantis e verdes, dum verde jade desmaiado” (p.18), sendo a alusãoao jade (quatro vezes repetida no decurso da narrativa) a única tónica que referenciao Oriente, e através do discurso valorativo, o que nos permite a percepção daimagem que o autor reteve das macaenses “franzina e leve, a contrastar com asconterrâneas, passou uma filha de Macau como uma miragem silenciosa e calmaonde os influxos da China mal se faziam notar” (p.105).Por outro lado, os elementos masculinos da comunidade só são identificadosem situações singulares de referencial lusocentrista: “Foi apresentado ao macaenseJulião Torres, um funcionário muito considerado na Capitania dos Portos (…) comoamigo da sua terra, Julião Torres, que fora educado em Portugal, tratava semprecom carinho e entusiasmo qualquer assunto que dissesse respeito a (…) Macau” oualudindo às ocupações: “Os dois, levando Segismundo [funcionário do território eantigo companheiro de Rodolfo] como cicerone e na companhia de um macaenseamigo dele, Eustáquio, que lhes serviu de intérprete (…)” (p.76) “(…) Os negóciosestão mais nas mãos dos chinas; português «reinol», raro é aquele que aqui fazcomércio e os filhos da terra são mais dados à carteira do que a outras profissões(…)” (p.71). A representação do ambiente vivido na parte Portuguesa de Macauconsubstancia-se nas descrições das recepções onde os dois amigos têm o ensejode constatar a profusão de gentes que circulava no território, e onde ressalta a únicareferência à comunidade macaense como o Outro num discurso de distinção: “Haviaportugueses e estrangeiros, ingleses, holandeses, franceses, alguns chineses decategoria, e macaenses em grande número” (p.103), e “(…) toda a pequenina intrigacolonial posta à solta sob o calor das luzes (…)”; mas, também, as práticas e osgostos sociais, que noutros textos referenciam as fracções superiores da comunidademacaense, e que neste romance nos surgem como sujeitos difusos “Rodolfo jogavaténis, se bem que em Portugal este desporto seja pouco seguido porque só éacessível a ricos, mas em Macau, onde ele é de prática corrente, começava a cultivá-lo com entusiasmo (…)” (p.125). Irene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:40 Página 176
  • PARA UMA LITERATURA DA IDENTIDADE MACAENSE – AUTORES/ACTORES177São também constantes os momentos de assunção do Território no todonacional através do discurso analógico “(…) foram observando de perto o panoramadaquela vertente da cidade, tão tipicamente portuguesa, de um sossego idílico, ascasas de cores alegres, as igrejas como as da nossa terra e até os sons dos sinosfazem lembrar Portugal” (p.72) dirigido ao leitor português; ou num discurso deevidente superioridade: “(…) atracado o navio à ponte, logo apareceram os agentesda nossa autoridade que os chineses se habituaram a respeitar como em nenhumaoutra colónia europeia na China” (p.73) e, ainda na interpretação do Oriente:É só mais tarde, passado um certo período de adaptação, queo europeu, de uma maneira geral, se encontra em face do dilema –ou se molda e adapta ao novo meio que dificilmente virá a trocar poroutro, mesmo pela super civilização, ou não se moldou, não seadaptou e a vida passa a decorrer-lhe como um martírio para que sóhá um remédio: abandonar a China! (…) é que o Oriente e, portanto,a China dispõem de certos influxos intoxicantes, intraduzíveis eestranhos que só quem os experimenta pode sentir e apreciar (p.76).Neste romance a descrição do exótico sobressai no texto, por um lado atravésdo discurso do fascínio pelo diferente “Panos vermelhos, bordados a ouro e comgrossos caracteres de veludo preto, dizeres misteriosos para nós mas simbólicos dapermanente ânsia de felicidade, enfeitavam as paredes inundadas pela luz (…)”(p.78) por outro, os opostos “terra perturbante, enigmática e fatal, a China,revelando-se naqueles cenários imprevistos, tão cheia de cor e de uma civilizaçãotão diferente da nossa” (p.79) levando à perdição “Era a China que Rodolfo sentiapousando-lhe pouco a pouco a garra empolgante, absorvendo-lhe a razão,fascinando-lhe o pensamento – era a China que prende e tortura, agrada e fazsofrer…” (p.130). É sem dúvida esta China, assim traduzida, que o prende nosbraços através da sua personificação, A-Mi, uma pei-pa-tchai, e da qual a providênciaem forma de tufão o liberta, redimindo-o pelo casamento com Tininha, a meninaloira com olhos cor de jade, não sem antes esta o ter convidado para uma récita em«patois». 3.2. A recriação dos espaços e a pretensa visão interior em “Os Construtores do Império” de Rodrigo Leal de CarvalhoOs Construtores do Império é um romance que nos mostra molduras devivências através de personagens tipo do universo colonial português. Num decursoentre as décadas de cinquenta e sessenta, reporta-se a dois espaços do ‘império’ –Moçambique e Macau – que são percorridos, no narrado, através da história de vidado protagonista, Dr. Saraiva Matos, um médico que, não tendo hipótese de umaIrene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:40 Página 177
  • MARIA BARRAS ROMANA178boa colocação na pátria, concorre ao quadro comum do ultramar e inicia a suacarreira em Moçambique. Mulherengo, “não era muito versado em graças sociais;na dança era pesado e canhestro” (p.66) acaba por casar com “uma morenamagnífica, uma tal Maria Júlia Matos da Silva, dez anos mais nova, filha de colonosportugueses da terceira geração, com uma vaga ancestralidade africana apenassugerida na doçura do temperamento e na languidez dos olhos muito negros (…)(pp.25-26). Os lugares por onde passa, na ex-colónia africana, são-nos apresentados,sobretudo, através das alusões às suas ‘conquistas’: “Do Niassa passou à Zambéziae, aí, ao gosto pela africana, adicionou o da semi-africana (…) em breves incursõesna Rodésia do Sul, saboreou algumas rodesianas de pele alva e olhos claros (…) emseguida foi a Beira (…) encantou-se pela pele mate e olhos de corça aveludados emedrosos, de uma cliente indiana (…)” (p.23). Transferido para Macau, tendo emvista um impulso na carreira “(…) descobriu a mulher oriental, para enriquecimentocultural próprio e perturbação do futuro familiar” (p.74). É com o casamento desfeitoque o protagonista regressa a Portugal sem quase Macau dar conta, pois “Macauconstituía, como as Províncias Ultramarinas (…) mero ponto de passagem para as“aves de arribação” que eram os funcionários superiores do Quadro Comum doUltramar. Vão uns, vêm outros e a vida continua”.Sobre a comunidade Macaense, as referências são secundárias e, um poucocomo anteriormente se registou em Jaime do Inso, não se verifica significativaparticularização, embora os registos do habitus, sobretudo das classes superiores,sejam elucidativos, no que respeita aos traços identitários e de prestígio observados,e permita o cotejo com as referências endógenas: “As senhoras locais, macaenses emetropolitanas eram simpáticas e gostavam de conviver. Chamaram-na [a mulherdo Médico, Maria Júlia] a si e embora não apreciasse cultivar a maledicência ou o“gossip” foi (…) integrada nos pequenos grupos de jogo, de chás, jantares e reuniõessociais em que Macau era pródiga” (p.68). “O Administrador do Concelho, macaensede boas famílias, conhecia os noivos (…) esqueceu-se da leitura das disposiçõeslegais (…) porque estava sobre a hora do seu ténis” (p.112).Assim como, dois dos retratos mais representativos, que concernem a “MariaBarros [mulher do Delegado de Saúde] uma macaense baixinha e esguia, compoucos traços orientais e grandes olhos castanhos, só ligeiramente amendoados[note-se a necessidade de vincar o lado europeu], de cabelo preto curto e bemtratado, era alegre e comunicativa, faladora, com o doce sotaque macaísta eabundância de interlocuções britânicas resultado da frequência, na meninice, dasecção Inglesa do Colégio de Santa Rosa de Lima” (…)” (p.55); e ao retrato dosargento-enfermeiro “Tchitcho Pintado, de seu verdadeiro nome Anastácio doRosário Pintado, filho de pai português do Seixal e de senhora de Macau, deIrene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:40 Página 178
  • PARA UMA LITERATURA DA IDENTIDADE MACAENSE – AUTORES/ACTORES179ascendência mista, com acentuada costela concanim” (p.108), que vivia da pensãodo falecido marido, sargento, e da “confecção, para fora, de algumas especialidadesculinárias macaenses – eram justamente famosos os seus chilicotes e apa-bicos (...)”(p.114).O romance, num capítulo ‘introdutório’, contextualiza ideologicamente omomento temporal, nomeadamente no que concerne à tomada de decisão políticasobre as relações do governo português com a China maoista, tendo em conta queurgia proteger a presença portuguesa em Macau. Através de um discurso imbuídode ironia, Leal de Carvalho recria uma reunião de Conselho de Ministros de onde saia decisão que irá nortear este período da História de Macau: uma orientação políticade aproximação a Pequim. Através da descrição da primeira recepção que o, recentemente colocado,Governador de Macau oferece às Delegações e Corpo Diplomático sediados noterritório e ao representante oficial da Comunidade Chinesa de Macau no Conselhodo Governo e, simultaneamente, na Assembleia Nacional Popular da RepúblicaPopular da China169 e demais entidades do território “Em cumprimento darecomendação cifrada do Governo Central” (p.193), o autor faz a representação deuma época introduzindo o leitor nos meandros políticos e sociais de Macau, nasdisputas de aproximação ao poder, nas situações de equívoco carreadas pelos lapsoscomunicacionais entre a comunidade portuguesa e chinesa e minoradas pelamediação da comunidade macaense, na ‘arrogância’ da diplomacia europeia, mas,sobretudo, refere a posição do governo português, face à crescente possível ameaçachinesa, patente no discurso do, já referido, Governador “O governo de Macau e,através dele, o Governo Português, estavam, sem embargo da posição políticainternacionalmente consagrada, profundamente interessados em promover aaproximação à grande República Popular da China, de modo a fomentar e garantiro progresso e a estabilidade social e económica da Província e a alcançar-se o maiore melhor nível de bem-estar para os seus habitantes” (p.206).A retribuição a este gesto de boa vontade por parte das autoridadesportuguesas, surge com a deslocação ao território de parte do elenco da GrandeOpera Clássica Nacional Popular de Pequim, e para a sua única representação, queteve lugar no Teatro Cheng Peng no Bazar “(…) a casa tradicional de Ópera Chinesa,em Macau” (p.225), lugar completamente desconhecido para as outrascomunidades “ninguém sabia sequer onde ficava” (p.225), foram convidadas asaltas individualidades da comunidade portuguesa. A descrição resulta num quadrogrotesco, profundamente irónico, e onde surgem os traços de distinção das fracçõessociais das duas comunidades.________________169 Todos os cargos das várias entidades referidos neste romance são reais.Irene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:40 Página 179
  • MARIA BARRAS ROMANA180Num primeiro momento a moldura do espaço físico, que provoca oseguinte comentário valorativo do autor “Ao deparar com a casa de espectáculoscaiu-nos a alma aos pés”:A multidão compacta comprimia-se no átrio pouco limpo deum edifício que, à primeira vista, me parecia um depósito deautocarros ou um armazém de secos e molhados, como os da ruada madalena ou do Cais das Cebolas, em Lisboa.A entrada para o átrio era aberta de parede a parede, comouma enorme porta de garagem, apenas vedada (…) ao fundo, umaporta mais pequena, e facilmente controlável dava acesso à sala deespectáculos rectangular, grande, desconfortável e mal iluminada.O chão era de cimento, cinzento e áspero, e as cadeiras da plateia,de contraplacado velho e encardido, meio estalado, eramdesconfortáveis, quase repelentes. A assistência não estava muitoacima da categoria ambiente. Comprimia-se, empurrava-seacotovelava-se, sem cerimónia, numa algaraviada estridente.(p.235)Num segundo momento, é-nos apresentada a moldura humana em retratosque opõe classes sociais e não propriamente as duas comunidades, e onde seconstata o capital simbólico das classes superiores através dos bens de prestígioque ostentam:Era visível o cuidado posto na “toilette” pelas senhorasportuguesas e chinesas da melhor sociedade (…) as senhoras deMacau vestiam bem. (…) e não obstante a doçura da noite, serenae temperada (…) exibiam com uma displicência cara, os casacos e as “écharpes” de “vison”, “mink”, raposa ou outras espécies menos qualificadas ou qualificantes sobre os vestidos ou cabaias de seda natural, a complementar as cabeças bem tratadas, aspérolas “Mikimoto” e os jades (privilégio praticamente exclusivo das senhoras chinesas (…) tudo muito bem, como se vê; nãodesmereciam, se não na Ópera de Paris, pelo menos no Coliseu dosRecreios”. (p.237)Mas nem tudo eram sedas, peles e jóias. Na assistênciachinesa representavam-se democrática e abundantemente todas asclasses sociais. (…) comiam de tudo quanto era susceptível de seencontrar nas tendas ambulantes ou nos tabuleiros dos vendilhõesda travessa do auto Novo (…) aos amendoins e às pevides de cascaencarnada que cuspiam para o chão, (…) até às baratas-de-águafritas, negras e luzidias que estalavam quando, com uma dentadaIrene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:40 Página 180
  • PARA UMA LITERATURA DA IDENTIDADE MACAENSE – AUTORES/ACTORES181certeira, se lhes cortava a cabeça; (…) acabado o “picnic”, atiravamao chão, sem cerimónia, as garrafas, as embalagens, os sacos depapel pardo, as cascas, (…) davam o arroto digestivo e cerimonial eajeitavam-se (…) com a serenidade búdica própria da sua etnia ecultura. (pp.237-240)A desconstrução do discurso colonial através da ironia e damordacidade, constata-se logo no primeiro capítulo do romance quandosubverte o discurso ideológico na descrição do conselho de ministros:O Ministro dos Negócios Estrangeiros, muito “dandy” no fatode impecável corte Inglês (…) teceu judiciosas considerações,lamentou o extremismo da posição da República Popular da Chinaignorante dos mais elementares princípios do Direito InternacionalPúblico (…) ajeitou o nó da gravata gris-pérola, relembrou AntónioSardinha e os princípios do integralismo Lusitano, reafirmou aexcelência do princípio da Unidade nacional, compôs na algibeirado peito do casaco a fímbria do lenço da cor da gravata (…).(pp.11-12)Sendo visível ainda, ao longo do romance, expondo as razões quesubstantivavam a ida de certos funcionários para o Ultramar, como o protagonistado romance: “Sem grandes perspectivas de carreira brilhante em Portugal ou declientela rica (não provinha de linhagem ilustre ou de família médica reconhecida)não o seduzia o desterro para qualquer lugarejo perdido nas serranias do interior(…) no Ultramar é que era! Os horizontes, geográficos e profissionais, eram vastos,a ascensão rápida e a clientela privada, rica. (…)” (p.22); na caracterização dasautoridades: “D. Florinda era a mulher do então governador (…) eram ambos muitoprotocolares com manifesta vocação imperial (…) A sociedade de Macau eraanimada e desinibida. Nem a presença quase majestática de D. Florinda e do seuaugusto Marido chegava para arrefecer a “esfuziante alegria e extraordináriaanimação da noite”. (p.88)Esta desconstrução revela a consciência de uma realidade vivenciada, mas,momentos há que o habitus do autor se sobrepõe ao assomo da crítica não arealizando e deixando transparecer laivos da prosa literária colonial, não só nopontuado do discurso valorativo “um camarada indolente e cábula de S. Tomé quesonhava vagamente em formar-se e passar os seus dias avençado na doce preguiçadas praias de Água-Izé (…) convencera-o que no Ultramar (…)” (p.22), como no sublinhado do exótico, na descrição da zona do Bazar: “(…) diminutosestabelecimentos comerciais onde parecia vender-se de tudo, adentro e fora deportas, desde texugo a cobra viva e cão clandestinamente assado, passando poroutros produtos igualmente exóticos e fascinantes.” (p.235)Irene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:40 Página 181
  • MARIA BARRAS ROMANA182Há neste romance uma referencialidade constante ao habitus do autor, nãosó nas constantes alusões jurídicas, mas nas escolhas em termos descritivos eutilização do léxico. Leal de Carvalho não se coibiu, inclusivamente, de alterar aenunciação discursiva de terceira para primeira pessoa e substituir o narrador paraintroduzir a sua impressão de Macau: “Eu chegara de pouco a Macau, com um profundodesconhecimento da realidade oriental em geral e da macaense emparticular (…) O trauma cultural foi grande – não tanto em relação àcomunidade macaense que não divergia sensivelmente, senão paramelhor, da portuguesa metropolitana – mas, naturalmente, emrelação a 98 por cento da população chinesa. A separação abissalentre as culturas dos mundos ocidental e chinês fazia-se ainda sentirem Macau, no fim da década dos 50 quase como no tempo dos“Ventos do Oriente e ventos do Ocidente” da estimada Mrs. PearlBuck. As comunidades fechavam-se nos respectivos casulos e aspontes de contacto quase limitadas à acção de ligação dos macaenses(…)”. (pp.229-230)E, seguidamente, para justificar a estranheza à Ópera Chinesa: “Por fatalidadegenética, não nasci dotado para a música. E porque essa incapacidade era hereditárianão me recordo de, em casa de meus pais, se ter alguma vez ultrapassado o nívelmusical do “Solo Mio” (…) nem os “Mestres Cantores de Nuremberga” eram visitados Leal de Carvalho (…)” (p.231). Este romance carreia a visão exógena de alguémque, embora tenha vivências partilhadas com algumas fracções da comunidademacaense, embora a sua ‘passagem’ se contabilize em mais de três décadas,posiciona-se como observador, não como parte do ‘objecto’, o que de certo modonos permite considerar, no narrado, a vertente integrável na literatura colonial, quede acordo com Salvato Trigo “(…) caracteriza-se pelo facto de os seus cultores nãoabdicarem da sua identidade das referências culturais e civilizacionais dos seus países,embora tentem mostrar-se integrados no meio e na sociedade nova de que fazemparte” (Trigo:1987:144-145).Irene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:40 Página 182
  • PARA UMA LITERATURA DA IDENTIDADE MACAENSE – AUTORES/ACTORES183CONCLUSÕES |Propusemo-nos ao iniciar esta tese, tentar que a nossa análise permitisseencontrar algumas repostas às questões que a substantivaram: Poderá ser o textoliterário veiculo ideológico – identitário? Poderá a literatura, nas suas várias formasde narratividade, ser usada para influenciar o seu próprio tempo ou o tempo futuro?A literatura retrata as práticas sociais e culturais de uma comunidade numdeterminado momento histórico? No sentido da prossecução dos nossos objectivos,o nosso percurso foi o de encontrar o modelo que permitisse senão respostas, maspelo menos contributos para a sua discussão; assim, à concepção e elaboração danossa tese esteve subjacente a procura de uma fundamentação teórica quepermitisse estabelecer uma ponte entre a sociologia e a literatura e encontrar a linhacondutora dentro do campo nocional que congrega a sociologia da literatura.A essa intenção se deve a opção por um modelo que considerasse tanto adimensão interna como a possível dimensão externa das obras literárias, na medidaem que foi um determinado corpus literário de autores particulares que serviu,sobretudo, de matéria de análise; este modelo, do qual tentamos fazer umaadaptação, tendo em conta o caso particular de (in)definição da literatura macaenseque não nos permitia obedecer a critérios rígidos de classificação, contém oconstruto teórico de Pierre Bourdieu, autor que se revelou fundamental na percepçãodas estratégias que permitem o reconhecimento da identidade macaense.No percorrer da relação entre realidade e ficção, sendo a ficção uma dasformas possíveis de representação da realidade, mostrou-se pertinente aprofundaro conceito nocional de representação, uma vez que substancia um dos instrumentosfundamentais possibilitadores da análise a que nos propusemos e, porventura,porque estas noções estabelecem uma profunda relação com a conceptualizaçãogenológica da literatura e permitem o entendimento da construção do conceito demundos possíveis, cuja importância advém do facto de, não só, corporizar a teoréticaIrene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:40 Página 183
  • MARIA BARRAS ROMANA184do género literário, como, o seu construto integrar matéria do mundo real e matériado imaginário autoral e consubstanciar o universo diegético do texto literário, noqual necessariamente está subjacente o habitus do criador.Foi, pois, com base no entendimento que as obras literárias consubstanciamcertos significados sociais, culturais e históricos, que são capazes de estabelecer umdialogismo com o contexto sociocultural em que se inserem, que a obra literáriacontém, na sua tessitura, a leitura autoral do mundo real e que essa interpretaçãoemerge mediada pela representação, que consideramos que as obras escolhidas parao nosso corpus, sendo instrumentos de intervenção social, prefigurariam o abrir deformas de entendimento sobre a comunidade macaense.Contudo para a realização desse intento foi necessária a abordagem, aindaque genérica, ao construto teorético que consubstancia a génese da comunidade;num percorrer dos documentos primeiros que nos revelassem a emergência deMacau, alguns já nossos conhecidos, às teses que justificam, ou refutam, acomunidade como etnicamente diferenciada, não no sentido de pretender encontrarpreviamente o ‘corpo’ que justificasse uma imagem reflectida mas, porque nãoentendemos que a literatura seja um reflexo real, o nosso intento foi o de, emborarecorrendo ao conceito de homologia goldmanniana e integrando na nossa análise,como conceitos operatórios, a compreensão e explicação – tão caros a Goldman –que permitem não só o entendimento das estruturas significativas dos textos, maso reenvio do texto ao seu contexto colectivo – consubstanciar formas que nospermitissem detectar no mundo construído da diegese literária os traços identitáriosque, recursivos nas textualidades, nos proporcionassem a visualização do EUidentitário na sua relação com o Outro alter e com os Outros.Assim, construímos uma tessitura analítica consubstanciada no entendimentoda obra como documento carreador do social, no esteio dos teóricos da Sociologiada Literatura, mas de uma forma adaptada, congregando o contributo de Goldman,Lukács e, sobretudo, como já foi referido, Bourdieu, com a proposta do modeloanalítico de Viala que, ao encerrar duas dimensões em relação dialógica simétrica –uma que atenta ao valor social dos géneros e das formas recorrendo ao construtoteorético da sociologia da literatura, outra que emerge da teoria da literatura atravésda análise das construções discursivas de significação – permite entender o mundoreferencial do texto literário de forma prismática; embora tenhamos a consciênciaque a adaptação de uma proposta de modelo analítico pode constituir um risco nosentido em que não permite mais do que uma aproximação analítica, privilegiamosa análise de acordo com as seguintes formas prismáticas: O prisma do género literário, tentando percepcionar o que subjaz à escolhade determinados géneros em detrimento de outros, a razão do romance e do conto,o romance curto, como formas de escrituralidades que relacionam a obra e o seuIrene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:40 Página 184
  • PARA UMA LITERATURA DA IDENTIDADE MACAENSE – AUTORES/ACTORES185tempo histórico, por terem a capacidade de plasmar estórias, filhas da imaginaçãoe/ou de memórias experienciadas, por permitirem mais do que os outros géneros, ahistorização, ou seja, puderem, numa amálgama narrativa, expressar momentos dahistória, memorada, de uma comunidade que se singulariza num lugar, nos seus mitos, nos seus ritos, nas suas linguagens; traduzindo-se no narrar dessacomunidade numa espácio/temporalidade que permite aquilatar da sua apropriaçãoe da sua auto-assunção; a cristalização do tempo e do espaço social que define a comunidade macaense nos textos estudados consubstancia o que Bourdieudenominou como “estratégias interessadas de manipulação simbólica” (Bourdieu:2011:113) na medida em que a época, metamorfoseada em tempo diegético, dizrespeito à primeira metade do século XX, na qual subjazem as memórias reportadasao século anterior, corresponde de certo modo à imagem que, pela primeira vez,Portugal tem da sua filha dileta oriental e que perpassa nos escritos da literaturacolonial/exótica dos finais de oitocentos e das décadas seguintes, e na revista Ta-Ssi-Yang-Kuo, Archivos e Annaes do Extremo-Oriente Português (editada, em lisboa,pela Antiga Casa Bertrand, entre 1899 e 1901)170; essa representação mental quepassa a fazer parte do imaginário dos Outros-Nós, congrega as propriedadessimbólicas que permitem reconhecer a comunidade macaense como única dentroda diversidade da pátria, como única no território porque é o torrão pátrio no Orientee, de todos, o mais leal, e porque nela concentra todos os traços simbólicos quepermitem o seu reconhecimento e também o autorreconhecimento.O prisma do autor, a dimensão do imaginário autoral, permitiu-nos inferir avisão de mundo do autor e as estratégias literárias que foram adoptadas no sentidode traduzir o Outro, objectivando a distinção (tanto nos autores macaenses comonos autores que escreveram sobre Macau), na medida em que muitas das dimensõesdos textos só significam se tivermos em conta a componente autoral; associado a este prisma está a componente trajectória que consubstancia não só os seus percursos, enquanto ser social, como também se liga intimamente às sua escolhas no que concerne às estratégias e ainda aos próprios percursos das obras,número de edições, traduções, adaptação a outras linguagens, que reflectem oreconhecimento e a expectativas dos leitores.Por outro lado permitiu ainda inferir a intencionalidade do autor de assumirincontestavelmente a sua identidade no sentido em que as suas obras foram escritase pensadas de acordo com o seu habitus que se construiu dentro ou fora de umacomunidade que se fez singular, e cujas textualidades carreiam, tanto a partir davisão endógena como do olhar exógeno, os traços identitários, “as propriedades________________170 Esta Revista era coordenada por João Feliciano Marques Pereira, filho do dono e editor do jornal homónimoque foi editado em Macau, entre 1863 e 1866, António Feliciano Marques Pereira.Irene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:40 Página 185
  • MARIA BARRAS ROMANA186ditas ‘objectivas’” (Bourdieu:2011.121) ou os vectores centrais de auto-identificação” (Cabral; Lourenço:1993:22) como a língua, a religião, e a etnia/raça,mas só as textualidades fruto da condição de ser macaense deixam transparecer aspropriedades a que Bourdieu chamou ‘subjectivas’, as marcas da herança culturalportuguesa que se consubstanciam numa portugalidade inerente à sua identidadee cuja manifestação nas práticas sociais, no estar e no ser se traduzem no “‘actomágico’ pelo qual o grupo [a comunidade macaense] negado e ignorado se tornavisível, manifesta” (Bourdieu:2011:118) para o Outro e para si próprio, mas, tambémpara o Outro-Nós que ao assimilá-lo foi dissimulando-o e negando-lhe a existência.O sentimento de pertença à sua comunidade é a forma de afirmar a suaexistência tornando-a reconhecida e reconhecível, sendo Macau o lugar quematerializa essa pertença, embora exista como representação mental em cadamacaense, e como símbolo em cada ‘Casa de Macau’, pois, cada um pode ter olugar imaginário onde cabe a sua comunidade, seja o Macau físico hodierno, seja oMacau que cristalizou num tempo da memória.A comunidade Macaense, na sua inquietude identitária, que emerge dostextos e do olhar comprometido do autor, consubstancia uma portugalidade ligadaa uma remota pátria e da qual sente uma necessidade de preservar a herançacultural, um dialecto que se torna difuso na utilização, mas que constitui umavariação do português europeu rica em expressividade multilingue e que se assumehoje, novamente, como prática de distinção; uma profunda ligação à mátria, o lugarsagrado do imago da comunidade, e que está sempre presente, mesmo em diáspora.Os autores/actores de um processo de construção da identidade macaensecarreiam na sua textualidade as lutas em que subjaz uma “imposição dereconhecimento da sua identidade étnica” (Bourdieu:2011), da qual, até aos meadosdo século passado, a matriz genética e cultural portuguesa era dominante, e que seauto assume quando, a partir dos finais do século XIX (com a criação de instituiçõesde ensino médio e estruturas administrativas perenes, para além do Leal Senado edo Seminário de S. José, com o contributo da sua face especular que foram asprimeiras publicações da imprensa do território, integrando notícias dos jornaisestrangeiros que referiam Macau e os macaenses171) emerge uma classe dominante(letrada) do interior da comunidade macaenses e esta começa a ter consciência desi própria, e da importância do seu papel mediador. ________________171 Como se pode verificar, a título de exemplo, pela transcrição de um artigo do jornal Porvir de Hong Kong de1901, e inserto nos “Echos do Extremo-Oriente (Extractos de Jornaes e Correspondencias)” da revista Ta-Ssi-Yang-Kuo (série I-Vol. II, 1900-1901) dedicada exclusivamente a temas do oriente português e que, com estaforma era publicada em Lisboa: “Dá-se geralmente o nome de filhos de Macau ou macaenses aos portuguezesnascidos no Extremo Oriente e não pode haver classificação mais imprópria, quando applicada àquelles quenasceram fora de Macau (…)”.Irene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:40 Página 186
  • PARA UMA LITERATURA DA IDENTIDADE MACAENSE – AUTORES/ACTORES187O prisma da língua, no sentido do reconhecimento das linguagens comofactor identitário. O que percepcionamos nos textos foram os discursos nas suascomponentes, valorativa judicativa, ideológica, registos e níveis imbuídos daexpressividade macaense denotada através do uso da componente lexical crioula,sobretudo no campo lexical da gastronomia e dos falares vulgares, como o calão, eda realização das estruturas sintáticas do português falado no território. Por outrolado também nos detivemos nas intenções do uso de expressões do dialectocantonense nomeadamente quando entendemos que as intenções substantivavamuma aproximação da comunidade ao Outro ou que traduziam formas de sincretismo.A formação de uma língua franca, dialectal, resultante de um estratolinguístico do português de seiscentos/setecentos e do contributo de superestratosdos vários elementos étnicos que consubstanciaram a miscigenação traduziu-se,num primeiro momento, na necessidade de comunicação com todas as etnias queconstituíam o território o que, no caso da comunidade chinesa, carreou uma variaçãolinguística no dialecto cantonense, a língua do Bazar.À medida que a comunidade macaense se individualiza das outrascomunidades e se assume como dominante, escudada na sua portugalidade, reservao seu dialecto para o registo familiar e opta pelo uso da língua do poder, oportuguês. De certo modo pode-se considerar que o momento da escolha da línguapela comunidade consubstancia uma forma de assimilação consciente, na medidaem que a comunidade macaense integrou uma europeidade que lhe permitiu opapel mediador e de prestígio, entre a comunidade chinesa, maioritária em númeromas subalterna na relação com as autoridades detentoras da administração doterritório, e a comunidade portuguesa, exígua mas símbolo do poder, e constituídapelos altos funcionários e militares que, na sua maioria, estiveram sempre de passagem.Torna-se prestigiante, e um traço de distinção, a competência na língua deadministração do território e uma forma de dominação simbólica sobre a outracomunidade; contudo quando a contingência histórica perspectiva uma alteraçãode domínio, pela ‘perda’ do lugar reassume-se o crioulo como traço de distinção,como propriedade simbólica que permitia o reconhecimento de uma comunidadediferente e singular e sobretudo seria um dos traços de união identitária de umacomunidade que no imaginário se tornou errante.Alguns dos textos de Senna Fernandes carreiam estas-outras formas que sepodem constituir como traços identitários de um devir e que permitem a constanteadaptação que caracteriza a resiliência da ‘comunidade-bambu’; o percurso nosentido da assunção, não só, do Eu ‘herança genética e cultural’ da portugalidadecom um ‘oriente difuso’ mas de um EU que consubstancia uma herança europeia euma herança do Outro/próximo-chinês e da sua cultura. Nestas escrituralidadesencontramos o Eu que é o todo – o Eu, o NÓS e os Outros: Macau.Irene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:40 Página 187
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  • MARIA BARRAS ROMANA198REVISTAS:Abelha da China-1822-1823, (1994), Macau, Universidade de Macau e Fundação Macau.Revue des Sciences Humaines, (1983) – 1, nº 189: «Le texte et ses réceptions».Revue L ittérature, nº 42, Mai (1981): «L’Institution Littéraire I».Revue L ittérature, nº 44, December (1981): «L’Institution Littéraire II».Revue Lit térature, nº 70, Mai (1988): «Médiations du social» (Articles de Jacques Dubois,Pascal Durand, Claude Grignon, Rémy Ponton, Alain Viala, Jacques Leenhardt, Marc Angenot, RégineRobin).Revue Protée, (1994) vol. 22, nº 1: «Représentations de l’autre».ENDEREÇOS ELETRÓNICOS CONSULTADOS:http://www.fundacaocasamacau.org/https://pt-pt.facebook.com/pages/Casa-de-Macau-em-Portugal-Lisboa/212519091107https://www.facebook.com/casademacaurjhttps://www.facebook.com/Henrique.SennaFernandes/rjhttp://www.casademacau.ca/home.html (Toronto)http://www.casademacausaopaulo.com.br/links_favoritos_9.htmlhttp://www.memoriamacaense.org/projectomemoriamacaensehttp://macauantigo.blogspot.comhttp://www.gentedemacau.comhttp://www.diasporamacaense.orghttp://www.apim.org.mohttp://www.foriente.pthttp://www.admac.orghttp://www.casademacau.org (Vancouver) http://www.uma-casademacau.com (USA)Irene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:40 Página 198
  • Livros publicados no âmbito da colecção SUMA ORIENTAL1 – Timor – da guerra do Pacífico à desanexaçãoFernando Lima2 – Liou She Shun – Plenipotenciário do Império da China – Viagem ao Brasil em 1909Carlos Francisco Moura3 – Macau 1937-45 – Os anos da GuerraJoão F. O. Botas4 – Filhos da Terra – A Comunidade Macaense, Ontem e HojeAlexandra Sofia Rangel5 – Chineses e Chá no Brasil no início do Século XIXCarlos Francisco Moura6 – Portugal e Indonésia – História do Relacionamento Político e Diplomático (1509-1974)Coordenação - Jorge Santos Alves7 – Brasileiros nos Extremos Orientais do Império (Séculos XVI a XIX)Carlos Francisco Moura8 – Filhos da Terra – A Comunidade Macaense, Ontem e Hoje - Edição ChinesaAlexandra Sofia Rangel9 – Figuras de Jade – Os Portugueses no Extremo OrienteAntónio Aresta10 – China na Grande Guerra – A Conquista da Nova Identidade InternacionalLuís Cunha11 – Mao, China y Los ‘Otros’Beatriz Hernández12 – Joaquim Guerra S.J. (1908-1993) Releitura universalizante dos Clássicos ChinesesAntonio José Bezerra de Menezes Jr13 – Macau ConfidencialJoão Guedes14 – O Oriente na Literatura Portuguesa – Antero de Quental e Manuel da Silva MendesCarlos Miguel Botão Alves15 – China’s Techno-Nationalism in the Global Era – Strategic Implications for EuropeLuis Cunha16 – Five Hundred Years of MacauStuart Braga17 – The Western Pioneers and their discovery of MacaoJ. M. Braga18 – Da estada em Macau do Dr. Sun Yat Sen – interpretação do seu pensamento revolucionárioFok Kai Cheong19 – Before the first Guangzhou uprising in 1895 – The Macau experience deciphering the revolutionarythoughts of Dr. Sun Yat SenFok Kai Cheong20 – Instrumentos Musicais Chineses – Colecção do Museu do Centro Científico e Cultural de Macau/LisboaEnio de SouzaIrene2_SUMA_21_Identidade_Macaense_PP_Layout_PP 21/06/18 16:40 Página 199
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