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  • JOÃO GUEDESMACAU CONFIDENCIALSUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:58 Página 3
  • FICHA TÉCNICA:Editor: Instituto Internacional de MacauTítulo: Macau ConfidencialAutor: João GuedesDesign gráfico e paginação: Maisimagem IIColecção: Suma OrientalTiragem: 500 exemplaresImpressão: Gráfica MaiadouroISBN: 978-989-99457-2-2Depósito Legal: 402778/15Lisboa, Dezembro 2015ApoioSUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:58 Página 4
  • MACAU CONFIDENCIALÍNDICE |Prefácio 7Prólogo 9Macau 1850: O mistério do maior desastre naval ultramarino português dos últimos duzentos anos 12O Jantar de Macau que desencadeou o Iberismo 19Os ideólogos de Macau que moldaram o Iberismo 27Quatro nomes que marcaram a história do jornalismo em Macau 32Macau liberal e Macau republicano 38Dois irmãos na ponte de comando contra os piratas de Coloane 42Há cem anos: A última campanha naval ultramarina da monarquia portuguesa 48O pronunciamento dos sargentos republicanos de Macau 53A Maçonaria no 5 de Outubro em Macau 56O general anarquista e a “República Cantonense” 59Anarquistas comunistas e senhores da guerra 64Atribulações de um republicano português na República da China (1914-16) 69Intriga política e dissidências republicanas em Macau 74A retirada oficiosa de um governador corajoso 80A Casa do Mandarim e os esquecidos da memória 87E no pico do Verão chegou a ditadura 91Liu Shifu: O anarquista de Macau que a memória oficial preferiu esquecer 95O mediatismo anglo-saxónico e a subalternização histórica de Macau 99Macau 1913: Dossier revolução encerrado 108O congresso secreto do Partido Comunista do Vietnam em Macau 113Romance, memória e interpretações da História 120Guerra, crime e política: Um “western” de Macau 125O corredor secreto 138Macau 1941-45: Um anel de ferro a toda a volta 142A guerra em campo neutro 147Os guerrilheiros esquecidos do Rio de Leste 150Tóquio Rose: A voz japonesa que embeveceu o Extremo Oriente durante a guerra 153Agosto de 1945: As doze mulheres especiais de Macau 159Mistérios de Macau na Guerra do Pacífico 162A perigosa neutralidade de Macau na Guerra do Pacífico 165Refugiados, espiões e o governo sombra 169Bibliografia 172SUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:58 Página 5
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  • MACAU CONFIDENCIAL7PREFÁCIO |Pela mão do leitorHá cidades cuja história nunca se esgota. Com uma localização geográficaprivilegiada, abraçando ao longo de séculos povos e civilizações muito distantesno espaço, mas que os homens souberam unir numa simbiose perfeita,verdadeiramente singular no mundo que nos rodeia. Macau é uma cidade dona esenhora de um passado extraordinário que seria crime de lesa cultura deixar passarem claro, fazendo-o cair no esquecimento e apagando-o da memória, demasiadocurta, dos apressados homens do nosso tempo. Curiosamente sempre a fugir dotempo em que se criaram as cidades onde trabalham, se edificaram as casas em quenasceram ou vivem comodamente, se desenvolveram as instituições a quepertencem, se calcetaram as ruas que pisam diariamente. Mas o tempo, esse cobardeinimigo que ataca, fugindo, não escapou porém a João Guedes que subtilmente oaprisionou neste Macau Confidencial.Os textos, que integram este livro, receberam inicialmente guarida noprestigiado jornal macaense “Tribuna de Macau”, tendo sido posteriormente revistose acrescidos de uma cuidadosa e rica bibliografia. Em boa hora. Neles perpassa ahistória viva, agitada e, por vezes, perigosa, de uma cidade que foi, e continua a ser,centro nevrálgico de encontros e de desencontros de povos e de culturas.Imagine, pois, o leitor que este é um livro mágico. Não o leia, por isso, comose lê um livro vulgar, sentado comodamente na sua poltrona. Abra-o com cuidadoe entre nele, de corpo e alma, como se fosse um livro que nos engole rapidamentee nos transporta para uma cidade plena, ao mesmo tempo, de mistério e de encanto.Tudo criado, não pela fantasia literária de quem o escreveu, mas pela própriarealidade, ancorada embora no passado, mas que parece ainda pujante de vida,SUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:58 Página 7
  • JOÃO GUEDES8hoje e sempre, dia após dia e noite após noite. E, por favor, leve-me também consigonesta aventura única.Aventura única, sedutora e verdadeiramente empolgante é a que palpita emmuitas páginas, relatando factos ou lembrando episódios pouco conhecidos ouquase esquecidos, de profunda agitação política, de encontros secretos deespionagem e de contra-espionagem, lembrando por vezes, como diz o Autor, ebem, o inesquecível filme “Casablanca”, mas sempre dentro de uma harmonia quaseperfeita e de um convívio correcto e saudável. A importância de Macau na formaçãodo iberismo oitocentista, a difusão das ideias republicanas e a influência maçónicaque nelas se fizeram sentir nos primórdios do século vinte, quando fervilhavam nestacidade também ideais anarquistas e republicanos entre chineses, atentos àsmovimentações que grassavam no imenso império chinês, dão verdadeiramente omote a uma série de pequenos estudos, mais do que simples crónicas, sobre oprimeiro quartel do século passado.Este clima de conspiração, secretismo e aventura sai reforçado quando oAutor se debruça sobre a situação de Macau no período da II Grande Guerra, ouGuerra do Pacífico, conceito geopolítico que melhor se enquadra na peculiar situaçãogeográfica da cidade do Rio das Pérolas. Tendo como política oficial uma claraneutralidade, face às forças em confronto directo, não foi naturalmente fácil exercê-lacabalmente, resvalando antes para uma neutralidade colaborante com as forçasaliadas, neste caso concreto os ingleses, que viram Hong Kong ser ocupado pelastropas japonesas. Esta situação deu origem a um conjunto de episódios que João Guedes relatacom maestria, levando-nos – ao leitor e a mim próprio – a percorrer as velhas ruasde Macau, de olhar esperto e ouvido atento, sem saber, quando “um anel de ferro”rodeava a cidade, se o vulto, que sorrateiro se cruzava connosco, pertencia à BAAG(British Army Aid Group) ou à “Coluna do Rio Leste”. Sem falar sequer no curiosodesaparecimento de Fukui Yasumitsu e de John Reeves, vizinhos que emparedaramas casas para não se falarem… mas de quem todos falavam em Macau.Macau Confidencial ajuda a melhor compreender a história de Macau doséculo passado e merece, por isso, uma atenção especial, ao mesmo tempo que asua leitura nos seduz e entusiasma, como se dele fizéssemos parte integrante. Muitoobrigado, pois, caro amigo leitor, por me ter levado consigo a ler este livro de JoãoGuedes e a visitar, ou revisitar, Macau, cidade que se cola à pele, se entranha nosossos, se dilui na alma e nunca mais se esquece.António Leite da CostaSUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:58 Página 8
  • MACAU CONFIDENCIAL9PRÓLOGO |Resultando esta obra de uma séria de artigos escritos semanalmente no Jornal“Tribuna de Macau” ao longo de mais de dois anos não seguia nenhum fio condutorespecífico. O que se publica são esparsos, episódios, nalguns casos memórias vivasde pessoas, noutras interpretações pessoais do autor confrontado com testemunhos,documentos e bibliografia vária.O que se visa não é elaborar qualquer tese académica, mas sim divulgar opassado de forma a chegar a um público mais vasto do que o das academias quepor norma se encerram nas “Torres de Tombo” e por lá ficam a ganhar pó. Osacadémicos dir-me-ão que o que eu digo já eles sabiam!... Concordo inteiramente.Com o que publico não digo nada de novo para os especialistas, mas creio que ofaço para muita e muita gente cujo acesso às prateleiras das teses das universidades,por não saberem como, ou onde, ou pelas barreiras da burocracia, ou por falta detempo e muitas vezes de interesse não procuram saber de assuntos que depois delongamente ignorados lhes despertam subitamente a atenção quando o lêem numpequeno artigo de jornal.É assim no mundo inteiro e Macau não é excepção.Peço, pois, ao leitor que encare o que vai ler não como texto erudito, massim como um trabalho jornalístico de divulgação. Apenas e só!Transformados que ficam os artigos que agora publico em livro acrescentoapenas notas no final da obra. Notas que não incluí no “JTM”, já que num jornaldiário não têm cabimento. Acrescento também a bibliografia em que me baseei paraescrever o que escrevi de forma a que o leitor interessado possa vasculhar um poucomais o que lhe suscitar maior interesse.Devo acrescentar ainda que os textos que se seguem não são exactamenteiguais aos originais publicados no “JTM” porque entretanto, semana a semanarecebia críticas dos leitores que me chamavam a atenção para o facto do que euSUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:58 Página 9
  • JOÃO GUEDES10escrevia neste, ou naquele artigo, não ter sido exactamente assim neste, ou naqueleponto.Confesso que com algumas críticas concordei, outras corrigi e outras rejeiteide todo. Mas todas foram bem-vindas. É que a história não é uma ciência exactacomo a matemática. Bem pelo contrário. É essencialmente um exercício que carregao subjectivismo do autor e o posicionamento ideológico do leitor.Vejam-se as diferenças entre Fernão Lopes (1378-1459) que diz que nas suaspáginas não se encontra a formosura das palavras, mas a nudez da verdade (Falariaa verdade quando era funcionário dependente de quem lhe encomendou ascrónicas?).E Frei Bernardo de Brito (1569-1617) autor de uma História de Portugal quemuitos consideram essencialmente panegírica e até mentirosa. Ou então AlexandreHerculano (1810-1877) que transformou (apesar de todo o seu rigor científico do iluminismo do século) a História num romance épico. Ou Oliveira Martins (1845-1894) o céptico que acima das ideias desfraldava os podres dos protagonistaspolíticos da história nacional e defendia o “Iberismo”. Até chegarmos aoshistoriadores do século XX, que puseram em causa quase tudo quanto havia a pôr,desde o “milagre de Ourique” às razões da nacionalidade portuguesa. Os autoresda nova história da segunda metade do século XX, Como Oliveira Marques, Matoso,Pulido Valente (reedição hodierna de Oliveira Martins) e finalmente o mais recenteRui Ramos, encarregaram-se de finalizar o capítulo das dúvidas, rebatendo comnovos estudos e novas interpretações o que tinha sido dado por assente nos séculose séculos anteriores.Tendo tudo isto em conta o que tenho por assente é que, bem no fundo, ahistória não se diferencia muito do romance histórico. Os efeitos da história sãoconhecidos, como por exemplo o falhanço da tentativa de Portugal “conquistar aChina” (?...) em 1850; o fracasso do “Iberismo” mal “cozinhado em Macau”; omistério da explosão da Fragata D. Maria II no porto da Taipa no mesmo ano; acoincidência histórica da proclamação da República Portuguesa em 1910 e daChinesa no ano seguinte e a cumplicidade entre republicanos portugueses e chinesesnessa época; o papel da Maçonaria em todos esses episódios. Enfim!... Os efeitosconhecem-se bem, mas as suas causas e processos serão mistérios que sempreperdurarão entre os que defendem o realismo da vida, o acaso e os cultores da teoriada conspiração.Em suma, a histórica verdade que era ontem amanhã será liminarmentecontestada pelos vindouros que encontrarão novos documentos até agora perdidosnos recônditos dos sótãos e no esquecimento do pó dos arquivos oficiais nãotratados, ou então num espólio qualquer de família que só agora foi a leilão edespertou o interesse de um qualquer alfarrabista, ou bibliografo.SUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:58 Página 10
  • MACAU CONFIDENCIAL11A história só se corresponderá com a matemática quando as teorias de“Einstein” de regresso no tempo forem tecnicamente exequíveis neste mundocientífico e racional que vivemos hoje. Até lá porém a História é romance simbologiapolítica e essencialmente subjectividade.Porém, apesar da globalização e do progressivo caminhar para o fim dasfronteiras, a História continuará a ser a memória que faz a identidade dos povos edas culturas muito para além da racionalidade em termos sociais e do realismo quena verdade não existe em termos culturais.SUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:58 Página 11
  • JOÃO GUEDES12MACAU 1850: O MISTÉRIO DO MAIOR DESASTRENAVAL ULTRAMARINO PORTUGUÊS DOS ÚLTIMOS DUZENTOS ANOS |No dobrar da primeira metade do século XIX o que restava do impérioultramarino português vogava entre sentimentos redentoristas de uns e abatidadescrença de outros.Portugal saído de três invasões francesas (1807-14) e de uma guerra civil(1828-1834) encontrava-se completamente exausto em todos os sentidos. Os cofresdo Estado estavam vazios, o país vivia a letras de crédito e o pessimismo imperavana política e na cultura.A dívida externa era colossal. A situação dos dias de hoje, comparada comesses tempos, não seria mais do que a falta de pagamento de um mês de renda decasa e condomínio indevidos que poderiam ser pagos quando Deus quisesse.Nesse tempo, o investimento público e privado interno era praticamenteinexistente. Restavam como pulmões económicos ainda que cronicamente“asmáticos” os proventos do Vinho do Porto das vinhas do Alto Douro (que osingleses geriam e de que retiravam a maior parte dos lucros), os reduzidos têxteisda Covilhã e algumas indústrias de vidros e porcelanas de Sacavém e da MarinhaGrande que despontavam e que, se mantinham a fortuna pessoal de alguns, eramclaramente insuficientes para fazer sair Portugal, por inteiro, da crise profunda emque estava mergulhado. O resto do povo sobrevivia na miséria a cavar a magra terra.O exército estava reduzido à expressão mais simples. Quanto à marinha, commeia dúzia de fragatas e corvetas, mal navegava para não gastar o dinheiro doorçamento disponível que não chegava sequer para pagar o concerto dos navios,quanto mais para patrulhar o ainda imenso império ultramarino português. Por issoficavam ancoradas no Tejo à espera de melhores dias, vogando, de quando em vez,até ao porto do Rio de Janeiro, do outro lado do atlântico e vice-versa, a fim deSUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:58 Página 12
  • MACAU CONFIDENCIAL13manter as aparências de um reino unido, como consagrado umas décadas antesentre Portugal e o Brasil, por tratado, visado, mas que para todos os efeitos nãoexistia desde o momento em que foi assinado (se é que alguma vez chegou a estarem vigor de facto e de direito).Nas bolsas de Londres e de Paris, os títulos do tesouro português valiamapenas o que os grandes especuladores da bolsa, como Mendizabal (o Soros deentão e os Rothschild anglo-franceses e igualmente especuladores internacionais)faziam crer que valiam. Ou seja, de facto, nada…Nesse contexto de crise e desespero, diga-se, Portugal não se encontravasozinho. De facto a vizinha Espanha igualmente saída recentemente das mesmas esucessivas crises (invasões francesas, e guerra civil, para além dos movimentosindependentistas bolivarianos das Américas) encontrava-se em condições semelhantes.Portugal tinha, por força de todas essas circunstâncias, políticas e económicas,perdido o Brasil. A Espanha, por seu turno e por semelhantes circunstâncias, perdeuum continente inteiro, ou seja: – as Américas do Centro e do Sul.Nesse paralelo não admira que entre os dois rivais ibéricos surgisse, nessaconjuntura de “desgraça”, um certo sentimento de solidariedade.Salvar os dois impérios ultramarinos sempre desavindos desde o “Tratado deTordesilhas” contra a crescente supremacia das restantes potências europeias quechegavam, bem mais de dois séculos tardios à corrida global: – Inglaterra, França,Alemanha e Holanda – já não contando com os modernos Estados Unidos daAmérica do Norte (EUA) que entravam na liça como hodiernos conquistadores (Estesainda que apostassem na força das armas, como os outros, mas diferentementeentendiam que os exércitos e as marinhas não eram mais do que suportespragmáticos para fazer valer negócios e extrair lucros do comércio que, no séculoXIX, tudo movimentava e a tudo se começava a sobrepor) parecia ser imperativo.Nesse contexto a tal solidariedade ibérica poderia ser uma solução?Foi assim que, então, se colocou a possibilidade do Iberismo. Uma eventualfederação entre Portugal e a Espanha que salvasse os interesses do Portugalultramarino a Leste do tratado de 7 de Junho de 1494 (o tal de Tordesilhas). Umaproposta que se no Extremo Oriente faria todo o sentido em Portugal e Espanhapouco faria como se viria a verificar (falei deste assunto em artigos anteriores aquinos “Sinais”).Foi nesse ambiente datado que os defensores dos passados imperiais comunse de sebastianismos inconsequentes, manobraram em Lisboa e Madrid no sentidode sair da depressão com um passo resoluto para a China.Perdido o Ocidente, e periclitante o Oriente, a China poderia ser uma saídaairosa e de futuro. Principalmente para Espanha que o único pé que tinha no Levanteeram as Filipinas.SUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:58 Página 13
  • JOÃO GUEDES14O objectivo táctico de Lisboa, em eventual consonância com Madrid (aindaque duvidosa) seria o de enviar as tais fragatas e corvetas que descansavam no Tejoà espera de reparo decente para o outro lado do mundo. Isto, claro, depois dearmadas municiadas e completadas com o embarque de companhias de infantariadevidamente preparadas para iniciarem uma campanha que se destinaria adesembarcar em Macau com fardas e clarins, tambores; engenharia; apoio deartilharia de campanha; estabelecimento de bivaques e em seguida conquistar todaa ilha de Sheong Sam (onde Macau se situa).Politicamente a operação afigurava-se fácil para quem nela queria acreditar.O exército chinês como era sabido (através dos despachos dos correspondentes dosjornais europeus sedeados na China e dos relatórios dos governadores de Macau edos oficiais de “inteligência” da Marinha), era evidentemente antiquado e não teriaforça para se opor a duas centenas de fuzileiros armados com armas de repetição,obuses e morteiros capazes de disparar em pouco minutos rajadas de chumbo edezenas de granadas explosivas que destruíriam qualquer forte medieval que se lheopusesse, como eram os que rodeavam a colónia portuguesa e defendiam a “Bocado Tigre” embocadura do Rio das Pérolas.A Espanha faria o mesmo, como de facto fez, embora com um atraso dequase seis anos, enviando para o arquipélago filipino, igualmente, o melhor quetinha em termos de poderio naval consubstanciado no primeiro navio de guerra avapor e casco de ferro sob o comando do almirante José Malcampo Monje. E certoé que assim foi.A facção redentorista portuguesa enviou para Macau as jóias da sua marinha,ou seja a “Corveta Íris” e a “Fragata D. Maria II”.Só que desígnios políticos mal sustentados raramente surtem efeitos e foi o que aconteceu.Os redentoristas, certos de que a China se encontrava na última dasdepressões da sua história, esqueceram-se de que na conjuntura global do tempo,as únicas forças militares credíveis eram as das grande potências e Portugal estavalonge de se encontrar entre elas, tal como a Espanha. Mas esta constatação é apenasum parêntesis.O que aconteceu a seguir foi que, depois da luz verde política de enviarexpedição militar para Macau, cumprir os traçados do Ministério dos NegóciosEstrangeiros de Lisboa em consonância com Madrid se revelou missão impossível.O comandante da Corveta “Íris” ancorada no Rio de Janeiro, recebidas asordens para rumar para a China fez o que pode, mas depois de ter zarpado e apoucas milhas de rumo não teve mais do que reconhecer a impossibilidade decontinuar por deficiências técnicas. O navio não estava, de todo, em condições dese fazer ao mar para tão longa distância. Por isso não houve remédio senão o deSUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:58 Página 14
  • MACAU CONFIDENCIAL15“dar à ré” e rumar de novo ao socorro do porto das ilhas brasileiras de S. Paulo parareparações porque estava a meter água. Perante todos esses contratempos a “Íris”acabaria por chegar a Macau muito fora do calendário da missão que lhe estavadestinado, tal como a “Corveta D. João II” mandada zarpar de Goa com umacompanhia de “cipaios”, mas que, igualmente, não chegou a fazer junção em tempoútil.Quanto à soberana fragata “D. Maria II”, partida de Lisboa, a viagemdecorreu sem incidentes e no tempo previsto até arribar a Macau onde ancorou no porto da Taipa, mais ou menos no local onde actualmente se encontra aembocadura da “Ponte de Sai Wan”.A tripulação da “D. Maria II” que vinha preparada para a guerra manteve-seno interior do navio desembarcando apenas alguns oficiais encarregados de levardespachos ao Governador e meia dúzia de doentes que careciam de tratamento. O resto da marinhagem permaneceu a bordo.Subitamente porém sem que nada o fizesse prever no dia 29 de Outubro de1850, dia de “mornaça” como se diz no calão da marinha e quando se celebrava oaniversário da rainha que dava nome à imponente embarcação, o Mundo explodiucom a fragata.O fragor foi tão forte que os vidros das janelas das casas da Baía da PraiaGrande em Macau, do outro lado do canal, a mais de dois quilómetros de distância,se estilhaçaram.A soberana fragata D. Maria II destruída em 1850 por um atentado no porto da Taipa em Macau.SUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:58 Página 15
  • O imponente navio de velas alçadas soçobrou em minutos.Em torno dele, igualmente se repercutiu o desastre.Uma fragata francesa, pela força da explosão, perdeu todo o velame eregistou entre a tripulação mortos e feridos. Um brigue inglês que ao ladodescarregava ópio sofreu, igualmente, um número indeterminado de vítimas emquantos marinheiros se encontravam no convés. Milagrosamente a corvetaamericana ”Marion” que se encontrava ainda mais perto do que os outros, comopor milagre, quase nada sofreu e foi a primeira a enviar socorro, ainda que já nadahouvesse a socorrer. Estava tudo perdido e reduzido a tábuas fumegantes e informesque boiavam nas águas. Nem sequer cadáveres havia a recuperar.Mas o pior de perdas em vidas foi o que se registou entre homens e mulheresdos inúmeros juncos e tancares que, nesses tempos constituam uma espécie demercado flutuante que girava em torno dos grandes e inúmeros navios queancoravam na Taipa. Morreram todos, ou quase todos, nas pequenas embarcaçõesque manobravam na feira permanente que era o Porto da Taipa nesse tempo.De entre esses, o número de mortos e feridos nunca se soube ao certo, nemficaram registados oficialmente. Para todos os efeitos eram anónimos carentes deFotografia que ilustra a distância entre o porto da Taipa de 1850 e a cidade de Macau. Estaponte “Nobre de Carvalho” tem 2.400 metros de amplitude. A explosão registou-se à esquerdada ponte, ou seja a quase 3 quilómetros de distância. Por esta ilustração se pode calcular aforça da explosão da Fragata D. Maria II que quebrou os vidros das mansões da Baía da PraiaGrande de Macau do outro lado do canal do Delta do Rio das Pérolas.JOÃO GUEDES16SUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:58 Página 16
  • cédula de identidade, mas terão sido o dobro dos perecidos na fragata e nos outrosnavios estrangeiros que a rodeavam. Ao todo, cálculos feitos, sem estatísticas, onúmero de vítimas mortais terá ascendido a mais de meio milhar.Diz-se que o atentado foi inspirado pela “Sociedade dos Rios e dos Lagos”,uma “tríade” cujos iniciados eram, essencialmente, militares do exército da China eque teriam aliciado numa das várias tabernas do “Bairro do Monte” (adjacente ao queé hoje conhecida como “Rua das Mariazinhas”) um dos tripulantes da “D. Maria II”para a fazer explodir. Se foi assim o aliciado terá sido precursor, em mais de duzentosanos dos terroristas suicidas de que estamos habituados a ouvir falar nos telejornaisdos dias de hoje. O suspeito era um primeiro grumete, fiel da pólvora, alcoólico econhecido por relapso em matéria de disciplina militar, moral e cívica.Segundo relatórios oficiais, no dia seguinte a ter sido castigado por mais umacto de desobediência, perante toda a tripulação da Fragata, terá descido ao porãoe posto fogo ao paiol. Morreu no acto e por isso o inquérito que se sucedeu ficouprivado de uma testemunha (ou réu) essencial, para contar a verdadeira história. Osoutros pereceram todos no desastre.Neste contexto de mistérios atrás de mistérios acresce ainda um outro quevale a pena transcrever dos jornais portugueses da época e é o seguinte: – “pelamala chegada em Outubro (a Macau) recebeu um dos oficiais da fragata o falecidoe de todos lastimado tenente Luís Maria Bordalo (oficial da tripulação), uma cartade Lisboa de seu irmão, em que lhe dizia que naquela capital corria a notícia, de tervoado com uma explosão a “Fragata D. Maria II” carta que por esta singularidade odito oficial mostrou a alguns dos seus camaradas, e hoje se acha em Macau ocavalheiro que a escreveu, que é o actual secretário do Governo (Francisco Bordalo),que plenamente confirma o facto.Na verdade é bem extraordinário falar-se em Lisboa de um sucesso que nadatem de comum e que só daí a dois meses se viria a verificar de facto a 3.600 léguasde Lisboa”.Que estranha e ominosa missiva!…A catástrofe custou a vida a 191 membros da tripulação da Fragata.Os poucos que se salvaram foram 36 tripulantes que se encontravam nacidade. Uns por doença, internados no Hospital Militar de S. Rafael, outros de licençae outros ainda em serviço de estafeta.Também o filho, criança, do comandante da “D. Maria II”, Francisco deAssis e Silva (igualmente vítima mortal do desastre) que viajava a bordo se salvoupelo facto de ter ido a terra, singularmente, por sugestão, do próprio marinheiro,fiel da pólvora, a quem foi atribuído o atentado. Porque razão o comandanteterá dado ouvidos a um dos menos graduados e mais indesejáveis dos seustripulantes acedendo a desembarcar o filho? Outra interrogação insondável aMACAU CONFIDENCIAL17SUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:58 Página 17
  • JOÃO GUEDES18somar a um episódio que permanece desde então rodeado das mais negrassombras.Creio que o mistério da explosão da mais imponente fragata portuguesa doséculo XIX e a verdade do drama nunca será verdadeiramente esclarecida a não sernos romances que o irmão do malogrado tenente Bordalo (Francisco Maria Bordalo)deixou escritos e que jazem, mais ,ou menos ignotos no pó das estantes da BibliotecaNacional de Lisboa e na Torre do Tombo e mal constam da história da literaturaportuguesa.Creio que neste caso a verdade nunca virá a ser conhecida mas apenas a nossaimaginação poderá deixar campo a quem queira pegar no tema e fazer dele umanovela baseada em factos autênticos como se diz nos filmes de ficção, ou nastelenovelas.SUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:58 Página 18
  • MACAU CONFIDENCIAL19O JANTAR DE MACAU QUE DESENCADEOU O IBERISMO |O “Iberismo”, ideologia que defende a unificação política de Portugal eEspanha é bem conhecido. Teve o seu apogeu na segunda metade do século XIX,conheceu um forte declínio a partir de então, mas ainda hoje tem os seus seguidores,tanto em Portugal como do outro lado da fronteira.Segundo um blogue espanhol que cita um inquérito ignoto, 40 por centodos portugueses serão favoráveis a esta ideia. Quanto a respondentes espanhóisainda o são mais, ou seja – 50 por cento. Como não são citadas fontes nemestatísticas oficiais limito-me a transcrever o que se diz sem comentários nemconceder grande fiabilidade ao dito inquérito. Ainda que não me espante se acasoos números forem eventualmente corroborados por qualquer sondagem de opiniãode organismo registado e abalizado pelos parâmetros da República Portuguesa, reaisparâmetros espanhóis, ou pela anódina burocracia de Bruxelas.Nomes sonantes da inteligência portuguesa defenderam, nas suas diversasformas e através dos tempos, essa ideia, nomeadamente: Latino Coelho, OliveiraMartins, Antero de Quental e Pinheiro Chagas entre muitos (omito, a intelectualidadeespanhola de que apenas conheço, neste campo, Unamuno e pouco mais). Opróprio Alexandre Herculano a subscreveu, em parte, numa primeira fase, atéfinalmente a renegar, porventura, por se ter tornado conselheiro pessoal e confidentedo jovem rei D. Pedro V (1837- 1861).O Iberismo desencadeou vasta polémica na imprensa portuguesa ao longode dois séculos. O debate seria postergado pela República até ser silenciado,posteriormente, de todo, durante a ditadura do “Estado Novo” de Salazar.Depois do 25 de Abril de 1974, o tema voltaria a ser livremente retomado erecorrentemente levantado a propósito disto, ou daquilo, já sem peias nem censuraprévia.SUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:58 Página 19
  • JOÃO GUEDES20Consultando a “blogosfera” verifica-se que a discussão não esmoreceu,embora permaneça, como sempre, ou quase, no domínio puramente intelectual,sem repercussões práticas notáveis no campo político, ou diplomático.José Saramago (o último dos Iberistas?) personifica na história das ideias apersistência de um tema que sobrevive apenas em círculos fechados (intelectuais,académicos e areópagos quejandos). A sua “Jangada de Pedra” pode ser consideradacomo epítome, ou epitáfio de uma ideologia que não passa disso mesmo.Na verdade o Iberismo foi e éum movimento sincrético semelhante,em certos aspectos, ao que mantémpelo dia primeiro de Dezembro, de todosos anos, viva, a aspiração (muito sebas-tianista, diga-se), de recuperar Olivençaà usurpação castelhana.Sobre esse debate da união ibérica muito se sabe, ou pode ficar asaber-se, rapidamente, consultando asinúmeras páginas da Internet. Basta fazer uma pesquisa no “Google”. O“Iberismo” mostra centenas de resulta-dos directa, ou indirectamente ligadosao assunto, embora a maior parte deles em língua castelhana (menos são os encon-tráveis em língua lusa).Muito se sabe pois sobre a questão, mas o que pouco se sabe é que a ideiade “união Ibérica” esteve muito longe de nascer nos círculos pensantes de Coimbra,Madrid, Barcelona, Salamanca ou Lisboa. Bem pelo contrário, a ideia surgiu quasenos antípodas. De facto o “Iberismo” começou no Paço Episcopal de Macauexactamente ao dobrar da primeira metade do século XIX.Os seus impulsionadores foram D. Jerónimo José da Mata, bispo da diocese,Carlos José Caldeira (primo deste Bispo), enviado especial do governo português àChina e, durante um ano, editor do “Boletim Oficial” da Colónia, D. Sinibaldo deMas, catalão de origem e ministro plenipotenciário de Espanha na China, o padrecanonista J. Foixa e o dominicano, igualmente espanhol, J. Fernando. Todosselaram num jantar, em final de dia solarengo do ano de 1850 um pacto em quese brindou à Ibéria e à “conveniência da união pacífica e legal de Portugal eEspanha”.Foi ali no Paço Episcopal, que se ergue ao alto da calçada da Sé, ainda querestaurado (pelo próprio D. Jerónimo José) que esse brinde histórico teve lugar e queuma nova ideia surgiu.José Saramago (o último dos Iberistas?).SUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:58 Página 20
  • MACAU CONFIDENCIAL21O jantar não foi mais do que acelebração da conclusão do manuscritointitulado “A Ibéria” (ou “La Ibéria”, emcastelhano) que tinha sido escrito emMacau, nos dois anos anteriores, por D. Sinibaldo de Mas propugnando ajunção das duas coroas peninsularesnuma só nação. Uma tese que incluíaargumentos, políticos, económicos, étnico-sociais e que propunha, também,nessa junção, uma só bandeira paratoda a geografia peninsular a quatrocores: – vermelha, branca, azul e amarela tendo ao centro as armas reais da dinastiados Bourbon de Espanha e a da Casa de Bragança de Portugal, lado a lado e emigualdade.No repasto foi decidido, igualmente, lançar um movimento político, que sequeria supra partidário, destinado a preparar a opinião pública dos dois países, masprincipalmente de Portugal, para essa nova federação, ou confederação, que os cincoconvivas idealizavam na fronteira mais oriental do tratado de Tordesilhas.Da decisão constava, tendo como centro nuclear o livro de Mas, o lançamentode várias publicações simultâneas, nos dois países, destinadas a preparar asrespectivas opiniões públicas para uma unificação política a médio, ou longo prazo.Em suma: – Uma campanha que objectivava dissolver (cientificamente, comose diria no calão local dos dias de hoje), nos reconhecidos progressos da físicahodierna de então, os ácidos ódios e dissabores de dois povos, sempre desavindos,com novos sais apaziguadores da farmacologia moderna.Os cinco de Macau subscreviam, um catalizador positivista e Kantiano (nestecaso o Iberismo). Juntariam em química harmonia os tais ácidos dissocianteslançando sobre ódios históricos sal anódino e supra partidário que o bicarbonatode sódio, conciliador, pouparia a eventual indigestão, ou indesejável azia,dissolvendo, em harmonia social, para bem de todas as questiúnculas que tinhamficado por resolver desde que D. Afonso Henriques foi reconhecido como rei dePortugal em 1143.Os impérios ultramarinos da Península Ibérica juntar-se-iam assim, emconcórdia, e tudo seria ressuscitado, renovado e redesenhado. Nomeadamente otão celebrado quanto historicamente coxo “Quinto Império” (invenção bastarda eposterior que não vem ao caso).Nessa ordem de ideias o jantar da Sé de Macau acabaria por ter repercussõesmuito para além das esperadas pelos próprios convivas ainda que estes estivessem,Uma só bandeira para toda a geografia peninsular a quatro cores.SUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:58 Página 21
  • JOÃO GUEDES22então, intelectualmente, bem à frente do seu tempopor sonharem não apenas com uma penínsulaunida, mas com algo mais. De facto sonhavam, comuma Europa unida e com um internacionalismo global, que seria fracturado, posteriormente, pelaascensão do marxismo-leninismo (1917), mas nempor isso interrompido. Em suma, um sonho que tinham por certo como inevitável e que viria a acontecer, de facto.Primeiro com a unificação alemã de Bismarke o “Zolverein” (ainda nesse século) e mais tardecom a transitória “CEE” que daria lugar finalmenteà actual “União Europeia”, bem já, na segunda me-tade do século XX.O jantar da Sé de Macau consagraria o livro“A Ibéria” inicialmente dado à estampa anónimo,em Lisboa, com prefácio de Latino Coelho, entãojovem jornalista e escritor em 1851.O livro que advogava a “fraternidade, igualdade e união entre portugueses eespanhóis”. Foi uma sensação editorial!Toda a gente culta em Portugal falava do assunto e a obra conheceu quatroedições sucessivas. As recensões críticas nos dois países sucederam-se em profusão.Mas mais do que o livro, o “Sinédrio da Sé de Macau” gerou um movimento deimprensa “sui-géneris” em Portugal pela propugnação de uma causa.Em cadeia foram sendo dados ao prelo as mais diversas publicações emdefesa da união, fosse ela qual fosse.Entre muitas destacam-se “A Revista Peninsular” (1855) em Portugal, dirigidapor António José Caldeira e, em Espanha, a “Revista Ibérica de Ciências, Política,Literatura e Instruccion Publica” (Outubro de 1861 a Junho de 1863) editada pela“La Sociedadd Ibérica”, sociedade anónima que tinha por trás o dedo do Ministériodos Negócios Estrangeiros de Madrid, a impressão digital de D. Sinibaldo de Mas e,acima de tudo, o selo oficial do liberalismo hispano-português que comungavareciprocamente das ideias progressistas da revolução francesa do século anterior edas realizações democráticas e federalistas dos Estados Unidos da América; dobolivarismo latino-americano; e do “grito do Ipiranga” Brasileiro de 7 de Setembrode 1822.Diga-se, neste ponto que, também, Costa Cabral não estava alheado do assunto, nem, o dito lhe passava ao lado. O primeiro-ministro Costa Cabral eratambém, um iberista e talvez por isso se tenha perdido na voragem da história As armas reais da dinastia dosBourbon de Espanha e a daCasa de Bragança de Portugal,lado a lado e em igualdade.SUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:58 Página 22
  • deixando-se retractar, apenas, perante ela, como um mero aspi-rante a ditador de ocasião quenunca foi de facto. Mas Costa Cabral tal como D. Jerónimo Joséda Mata, ainda que protagonistasprincipais, acabariam por ficar defora do quadro da história nesseponto específico.O Movimento gerado pelos“cinco de Macau” dominou ine-quivocamente a década de 60 doséculo XIX.As “Conferências do Ca-sino” (1871) acabaram por sertambém um produto directo do“pacto da Sé de Macau”. A provaprovada está escrita nas obras deAntero de Quental, Oliveira Mar-tins, Eça de Queiroz, Pinheiro Cha-gas e outros seguidores que seprolongaram até ao século XXcom ênfase tardio em Teixeira dePascoais.José Régio, mais tardioainda, parece ter, também, enfi-leirado nessa corrente de pensa-mento. O citado Saramago dessa corrente pode ser entendido igualmente como último apóstolo de uma causa que se dilui hoje numa integração mais vasta que éa da “União Europeia”.O movimento iberista, nascido em Macau porém era miragem demasiadoultramarina global e percursora para fazer caminho perante uma conjunturaetno-centrista “ocidental” que tudo sublevava. Os nacionalismos exacerbados atudo se sobrepunham então. O Imperialismo tomava forma e afirmava-se naChina, como ainda hoje se afirma em todo o Mundo, ainda que desprovido decanhões, como então, mas bem municiado de letras de crédito e títulos dedívida.Nessa conjuntura universal o iberismo perdia e perdeu prioridade perante osventos da história.MACAU CONFIDENCIAL23“Revista Ibérica de Ciências, Política, Literatura e Instruccion Publica” (Outubro de 1861 a Junho de1863) editada pela “La Sociedadd Ibérica”.SUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:58 Página 23
  • JOÃO GUEDES24Sendo assim, o último grito de universalismo anti-paroquial e anti chauvinistapermanece, ainda, com D. Jerónimo José da Mata que em carta escrita a Sinibaldode Mas, datada de 2 de Junho de 1855 referindo-se a Portugal e Espanha diz: – “que em nossas aspirações patrióticas e em nossos colóquios amigáveis tantasvezes desejámos ver unidos em uma pátria comum, que nos desse garantias deprospera estabilidade e independência, emancipando natural e suavemente a nossabella Península do estado de humilhação e miséria a que a conduziram a desuniãoe mesquinhas rivalidades”.Patético pronunciamento o desse preclaro bispo que propositada einjustamente foi obliterado da memória na sua verdadeira dimensão, inclusive pelosprincipais cronistas portugueses da história de Portugal na China.D. Jerónimo governou interinamente Macau, em períodos muito, mas muitodifíceis da sua história, nomeadamente na sequência do assassinato de Ferreira doAmaral em 1849 e nos anos subsequentes que foram não menos dramáticos.Absolvemos, neste campo de julgamento moral e histórico, claro está, autoresestrangeiros, nomeadamente Boxer porque nunca tratou do assunto, ou AustinCoats. Este porque era mais novelista que historiador. Os outros não os absolvemospelas omissões e são eles: – Teixeira, Videira Pires, Regis Gervais, Montalto de Jesus,Jack Braga, Eduardo Brazão e outros que ficam por nomear.Termino citando Sinibaldo de Mas que diz que a sua – “Ibéria” – teve seunobre berço em um palácio episcopal português, e é de origem talvez mais religiosaque política”.Cito também um estudo profundo e circunstanciado sobre o assunto daautoria de Maria da Conceição Meireles Pereira da Faculdade de Letras daUniversidade do Porto que diz em síntese: – “Novas referências a D. Jerónimo daMata surgiriam alguns anos mais tarde, na 5ª edição espanhola da Ibéria, publicadaem 1868, a qual se distinguiu pela novidade de incluir um retrato do bispo deMacau. Nesta edição, o autor revela o jantar de despedida que o prelado dera emsua honra, e os brindes à união ibérica proferidos pelos comensais que eram todoseclesiásticos espanhóis e portugueses, com excepção do próprio Mas e de CarlosJosé Caldeira. Em 1883, ao tratar no Dicionário Bibliográfico Português aentrada Ibéria, Brito Aranha destacou estes factos e transcreveu o excerto.Indubitavelmente, as informações fornecidas pelo diplomata suscitam umainevitável curiosidade sobre a figura e pensamento do bispo de Macau que só novosestudos podem satisfazer, já que as referências esparsas que se podem compilar apartir da bibliografia existente não vão além dos habituais dados biográficos, e dealgumas pinceladas sobre a sua acção prelatícia no Oriente, inserida no contexto da arrastada crise do padroado português. Por outro lado, não deixa de sersurpreendente o facto do seu nome, ao contrário de outros eventualmente menosSUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:58 Página 24
  • ligados à questão, não ter sido evocado nem por adeptos nem por opositores dadoutrina ibérica, durante a “batalha” que a propósito dessa problemática se travouna imprensa nacional ao longo do 3º quartel de oitocentos.E foi assim que nunca se soube que o Iberismo de Latino Coelho, Antero deQuental, Pinheiro Chagas, Oliveira Martins, Teixeira de Pascoais, Régio e Saramago,nasceu afinal num jantar de Verão de 1850 em Macau.MACAU CONFIDENCIAL25Latino Coelho, o primeiro grande advogado do “iberismo”.SUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:58 Página 25
  • E muito menos se soube que: – “En 1850, en el Palacio episcopal de Macao,residencia del Obispo J.J. de Motta, Carlos J. Caldeira, el canonista Fray, el dominicoJ. Fernando y el diplomático espanol Sinibaldo de Mas y Sanz, trazaron un borradordel que surgio la memoria titulada “La Iberia”, que salio a la luz publica en Lisboaen Diciembre de 1851. En ella se defendia la Union Monarquica de ambos países”(Em 1850 no Palácio episcopal de Macau residência do Bispo J.J. da Motta (Mata),Carlos J. Caldeira, o canonista Fray, dominicano, e o diplomata espanhol Sinibaldode Mas e Sanz, traçaram um manuscrito do qual decorreu a memória intitulada “A Ibéria”, que saiu à luz pública em Lisboa em Dezembro de 1851. Nele se defendiaa união monárquica de ambos os países).Depois disso porém tudo se alterou. A Espanha renegou o liberalismo efuzilou o general Prim. Latino Coelho, em Portugal passou a ser esteio principal da intelectualidade republicana e o Iberismo tornou-se pendão de anarquistas,socialistas e principalmente de intelectuais sem poder decisório no mundo da“realpolitik” desde então e até hoje.Mas que a ideia de união ibérica, dois séculos depois da restauração do reinode Portugal em 1640, nasceu em Macau e a partir daqui fez curso disso não podemrestar dúvidas e será importante que se não esqueça esse facto.JOÃO GUEDES26SUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:58 Página 26
  • MACAU CONFIDENCIAL27OS IDEÓLOGOS DE MACAU QUE MOLDARAM O IBERISMO |Ao falar do “Iberismo” no meu artigo da semana passada referi o jantar“espoleta” do Paço Episcopal de Macau que o lançou.Sublinhei, Carlos José Caldeira, D. Sinibaldo de Mas e D. Jerónimo José daMata, como principais protagonistas da ideia e igualmente do repasto. Foi, outerá sido, uma espécie de “Ceia dos Cardeais”, que pecou pela falta de um JúlioDantas que a tivesse posto em verso para a posteridade.Os outros dois frades que nele participaram, confesso, que lhes perdi orasto nas minhas investigações. Continuo por isso a procurar saber quem forame o que terão feito. Terão sido os seguidores dos liberais que mantiveram Macaucomo república democrática e independente durante um ano em 1822 nasequência da revolução do Porto de 1820, ou com eles não teriam nada a ver anão ser o mero facto de pertencerem à mesma ordem religiosa (os Dominicanosespanhóis?). Não perderão pela demora, já que se o Pe. Teixeira, Videira Pires e outros os omitiram, há-de haver documentos que deles falem e que osressuscitem. Se não os encontrar alguém os descobrirá certamente um diadestes.Para completar o artigo transacto convém, no entanto, deixar em traçosgerais o retrato biográfico das personagens principais do repasto, masprincipalmente das razões que levaram pessoas tão dispares a encontrarem-se nofim do mundo para incorporarem uma ideia que ainda hoje agita os círculosintelectuais portugueses e espanhóis.Começo naturalmente por D. Sinibaldo de Mas, figura tão importante nosareópagos do seu tempo como esquecido, ainda hoje (mesmo pelos espanhóis).Neste ponto desconfio que o esquecimento se deve à desconfiança política, ouseja, Sinibaldo de Mas era Catalão, amigo dos portugueses, das autonomiasSUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:58 Página 27
  • JOÃO GUEDES28ibéricas e defensor de uma ideia que se não era cara aos preconceitos portugueses,menos o era ao centralismo castelhano de Madrid.Sinibaldo de Mas, embora inserido no que se diria “establishment” de então,era uma figura destacada do iluminismo do século. Começava por saber falar pelomenos 20 línguas, entre as mortas (latim e grego) e as vivas que eram o português,francês, inglês, alemão, italiano, catalão e restantes 12 que não interessam para ocaso.Para além de poliglota, era também um cultor das ciências e das técnicasmodernas. A ele se devem as primeiras fotografias (daguerreótipos) que mostramos mais diversos aspectos da vida das Filipinas em imagens vivas fixadas no nitratode prata dos negativos das películas que nasciam das descobertas da química natorrente científica e positivista do século. Não consegui apurar se D. Sinibaldo tirou,ou não, algumas “fotos” de Macau nesses tempos, mas é bem provável que sim eque actualmente sejam atribuídas a outros mais tardios, como Jules Etier, algumasdas que ele próprio fez.Para além de fotógrafo D. Sinibaldo foi pintor e destes dotes artísticos ecientíficos sobreviveu durante o tempo em que esteve nas Filipinas sem receber ocompetente ordenado que lhe era devido, como embaixador extraordinário deEspanha, porque a burocracia de Madrid tardava a dar despacho às sua cartascredenciais que o acreditavam como tal em todo o Extremo Oriente.Por esse facto viveu à custa da generosidade dos padres de Manila que, porcaridade, lhe deram guarida durante alguns e custosos meses que ali viveu.A sua fama como fotógrafo é indubitável. Como pintor, dizem ser razoável,ou mesmo boa. Como escritor é igualmente indubitável.Para além disso tudo, foi também, o construtor dos rudimentos de uma novalíngua universal na qual se basearia, em parte, o posterior “Esperanto”. Quanto aoresto da sua vida foi discretamente posta de lado por historiadores e académicosque o reduziram a notas de rodapé. Isto apesar do muito que fez, publicou e estáescrito. Mas talvez porque não era castelhano, ficou-se, como se diria hoje, por um“Óscar” de carreira como melhor actor secundário.Quanto a Carlos José Caldeira a sua vida é um total enigma. Sabe-se que erameio-irmão de Casal Ribeiro e primo de D. Jerónimo José da Mata Bispo de Macau.Mas para além do facto de ter sido director geral das alfândegas, nunca ocupounenhum cargo governamental. Não foi deputado e muito menos ministro.A História da Colónia portuguesa da China dá-o “como um dos directoresque mais brilho deram ao “Boletim Oficial de Macau entre 1850-51” e o homemque ressuscitou esta publicação meio moribunda desde que “A Abelha da China” de1822, do dominicano (mais um!…) Frei António de S. Gonçalo de Amarante foiqueimada em “auto de fé” público à porta do “Leal Senado”, perante as tropasSUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:58 Página 28
  • MACAU CONFIDENCIAL29absolutistas formadas em parada e os homens bons da cidade a encherem o largoe a regozijarem-se com a queima. O povo é sempre assim, em festa, ou drama. Sejanuma romaria peregrina, seja num linchamento.Caldeira foi um jornalista de destaque, mas principalmente um agente dosserviços de “inteligência” que veio para Macau em missão especial na sequência doassassinato do governador Ferreira do Amaral, a fim de se inteirar da situação dePortugal na China e disso informar circunstanciadamente o governo. E foi o quefez, com seriedade e convicção, deixando, posteriormente, escrito um livrodenominado “Macau em 1850, crónica de uma viagem”, que foi o desideratopúblico de um relatório secreto que redigiu para o governo de Lisboa nesse períodoparticularmente conturbado (expurgado naturalmente das partes que nãoconvinham ser tornadas públicas).O nome de Carlos José Caldeira sempre citado quando se fala do Orienteportuguês desses tempos, ficou porém igualmente esquecido nas páginas damemória oficial, permanecendo apenas como prolífico jornalista, autor denumerosos artigos e ensaios nos jornais que publicou e de que foi proprietário. A sua acção como defensor do absolutismo em modos revisionistas e redentores ea herança que deixou como inspiração ao “Integralismo Lusitano” de AntónioSardinha, do século XX, permanece inteiramente, ou quase, julgo eu, por estudar.Ao contrário da maioria dos estudantes universitários de sempre, C. J. Caldeirainiciou o seu percurso político à direita, como redactor de relatórios regulares daconjuntura política ibérica em que os emigrados miguelistas, principalmente emInglaterra e Viena de Áustria, se baseavam para traçar os planos de retomada dopoder em Portugal.Depois disso derivou para a esquerda ao longo dos anos que se sucederam àguerra civil portuguesa (1831-34). Acabaria no “Setembrismo” esquerdista e radicalde Costa Cabral.O Irmão, seu patrono e protector político, Conde de Casal Ribeiro (JoséMaria Caldeira do Casal Ribeiro – Lisboa, 18 de Abril de 1825 — Madrid, 14de Junho de 1896, e igualmente importante jornalista e político português dorotativismo de finais do século XIX) teria percurso contrário, mas mais compreensívelpois começara republicano e acabaria fundador de um partido nacionalista religiosoque tinha como lema “Deus Pátria e Rei”. Embora (e apesar disso) nunca tivessedeixado de conceder ao irmão apoio fraterno em todas as circunstâncias.A carreira de funcionário do Estado de C. J. Caldeira terminaria de modoinglório num escândalo menor mas que a luta político-partidária, dessa épocaelevada ao rubro e ampliada pelos jornais da oposição, destacou de modo inusitado.C. J. Caldeira era director-geral das alfândegas de Portugal (uma espécie desecretário de estado das finanças dos dias de hoje) e nessa condição recebeu umSUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:58 Página 29
  • JOÃO GUEDES30volume postal endereçado de Macau contendo manuscritos e manifestos sobre o“iberismo” remetidos do Oriente por D. Sinibaldo de Mas.O funcionário que se encarregou do processo eximiu o volume à inspecçãoaduaneira e à obrigatória censura isentando-o, de moto próprio, aos respectivosdireitos e taxas e entregando-o, ao seu chefe, sem mais, ignorando todas asformalidades.O caso soube-se por indiscrição intencional, de alguém, o que fez com quea todos os jornais apontassem o dedo à falta de probidade do Director-geral.Caso sabido, a imprensa oposicionista não perdoou e acusou Caldeira de“contrabandista mor”. Nessa conjuntura, nem o irmão “conde”, nem o próprio reiD. Luís lhe puderam valer. C.J. Caldeira foi demitido sem apelo nem agravo.Com ele caiu o governo e o anti-iberismo ganhou mais uns pontos em nomeda realeza católica dos Bragança contra os socialistas emergentes de Antero deQuental, pouco monárquicos e menos crentes, ainda, na divisa – “Deus, Pátria eRei”, ainda que convictos de que uma ibéria unida poderia trazer “novos mundosao mundo” naquela conjuntura política específica do século XIX e nas agruraspolítico-militares por que passava o “Império Ultramarino Português”.Quanto a D. Jerónimo José da Mata (primo dos Caldeiras), o casobiográfico, mas principalmente ideológico, é um pouco mais difícil de analisar edescrever em curtos parágrafos. Isto, porque o prelado gastou a maior parte dasua vida no Oriente e os inevitáveis cronistas da história paroquial de Macau (Pe. Teixeira e Videira Pires, entre outros) quase o omitem por evidentes motivosideológico. O primeiro, reduz a sua biografia à expressão mais simples, o segundopor nunca ter escrito uma linha que fosse sobre ele a não ser brevesapontamentos a propósito de circunstâncias específicas e, mesmo assim, em casosnos quais o bispo surge, mais como ovelha destacada de um rebanho do quecomo pastor determinante em momentos decisivos o que reflecte bem a formacomo uma certa idiossincrasia necessitava de elidir a verdade sempre que nãoconvinha.Até que ponto a história de Macau foi sendo distorcida pelos cronistas oficiaisem toda a questão, durante os mais de 40 anos de “Estado Novo” é igualmenteassunto, que merece estudo, mas que um mero artigo de jornal não seria capaz dedeslindar de todo.Mas o que principalmente me espanta é o facto de ninguém, depois disso,ter tratado até agora no mundo académico o assunto com a objectividade quemerece para esclarecimento de nós todos.D. Jerónimo José da Mata é um caso paradigmático. Sem dúvidabiograficamente inserido na tradição e nos costumes, mas concomitantementefora deles.SUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:58 Página 30
  • MACAU CONFIDENCIAL31Para além de ter governado Macau nos tais tempos sumamente difíceis,posteriores ao assassinato de Ferreira do Amaral em plena revolta chinesa dos “TaiPing”, não teve apenas um papel preponderante em Macau, mas sim na defesa dodecadente “Padroado do Oriente” de que foi o “último moicano” e incompreendidointérprete. Para isso basta citar o que dele se diz de parco nas enciclopédias: –“D. Jerónimo José da Mata, nascido em Arnóia, Sertã, a 18 de Dezembro de1804 – falecido em Campo Maior, a 5 de Março de 1865, foi Bispo da Diocese deMacau entre 1845 a 1862.Depois de ter recebido ordens menores no Seminário de Cernache doBonjardim, viajou para Macau onde concluiu os estudos teológicos. Foi professor noSeminário de S. José. Publicou em Lisboa, em 1837, uma monografia destinada arecrutar pessoal para as missões na Ásia. Em 1843, foi nomeado bispo auxiliar deMacau, com o título de bispo de Altobosco.D. Jerónimo José desempenhou um papel fundamental na reconstruçãoda Sé de Macau em 1850 que ele próprio consagrou em 14 de Fevereiro domesmo ano e na ampliação do Recolhimento de Santa Rosa de Lima.Reorganizou também o Seminário de S. José (Sublinhe-se que nesses tempos oSeminário de S. José coincidiria em importância com a actual Escola Portuguesae Universidade de Macau. Reunia, num só conjunto o ensino primário,secundário e politécnico).A instâncias do governo do Reino de Portugal e de comunidades cristãsdo Padroado Português do Oriente visitou diversas cidades orientais que estavamsem bispo e aí ordenou diversos sacerdotes. Como nessa altura as relaçõesdiplomáticas entre o Vaticano e Portugal estavam cortadas, a acção de D. Jerónimo José valeu-lhe uma admoestação papal”.Em minha opinião D. Jerónimo era mais iberista por amor ao catolicismo eao “Padroado do Oriente” atacado por protestantes, em todas as frentes (ingleses eamericanos) e pela missionação francesa, católica, mas igualmente hostil, do quepropriamente por posicionamento estritamente político.O encontro Oriental de todos estes protagonistas que no “jantar de Macau”decidiram criar uma associação propugnadora da “União Ibérica” merece estudoque resta por fazer.Prometo que voltarei a este tema, não só para falar com mais pormenor dabiografia de alguns dos seus protagonistas, mas principalmente por estar certo queMacau, muito mais do que um entreposto comercial de mais quatrocentos anos queencima os guiais turísticos da cidade, foi de facto um cadinho cultural que atravésdos séculos reuniu e permitiu a reunião de vanguardas, ainda que pequenas emnúmero, mas que acabariam por influenciar o provir das ideias. Não só na China,mas no resto do mundo global que temos nos dias de hoje.SUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:58 Página 31
  • JOÃO GUEDES32QUATRO NOMES QUE MARCARAM A HISTÓRIA DOJORNALISMO EM MACAU |A história da imprensa em Macau remonta a 1822, com o aparecimento doprimeiro jornal, “A Abelha da China”. Desde essa data, o jornalismo praticou-sequase sem quebras, embora se tivessem registado períodos em que Macau passousem jornais e mesmo épocas, embora curtas, em que jornais foram mesmo dados àestampa escritos à mão.O jornalismo verdadeiramente profissional é fenómeno muitíssimo maisrecente, que surge quase explosivamente na primeira metade da década de 80 doséculo XX, com o aparecimento nas bancas de vários diários e semanários e revistasperiódicas, fenómeno que nunca anteriormente tinha acontecido.Antes disso, a maior parte dos títulos que a história regista eram quase todossemanários e o número de jornalistas que a eles se dedicavam a tempo inteiro muitodiminuto.O primeiro jornal diário a ser impresso com regularidade e longevidade foi “A Voz de Macau”, jornal que seria calado à bomba pelos japoneses durante a Guerrado Pacífico (a “Voz de Macau” sofreu três atentados bombistas, de que não resultaramvítimas mas que causaram avultados estragos nas instalações e abalaram seriamente asaúde financeira da empresa). Seguiu-se-lhe em 1945 o “Jornal de Notícias”, que nãoera mais do que o sucedâneo do anterior “A Voz”, com nome diferente. O “Jornal deNotícias” manter-se-ia em publicação, até 1975, data em que obrigado ao pagamentode multa, por alegada infracção à liberdade de imprensa e sujeito a pressões de váriaordem, acabaria por encerrar definitivamente. Diga-se que assoberbado por problemasfinanceiros os seus proprietário receberam com algum alívio a intimação de pagamentoda avultada multa que permitia ao jornal anunciar a sua auto suspensão sem “atirara toalha ao chão” e os seus proprietários e colaboradores salvar a face antes dedeclararem perante os tribunais uma humilhante bancarrota.SUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:58 Página 32
  • MACAU CONFIDENCIAL33Depois disso manter-se-ia em publicação a “Gazeta Macaense”, como únicodiário, até à década de 80, data em que como se viu começaria a poder falar-se emjornalismo profissional em Macau.Essa nova situação resultou em parte do impacte, da revolução de 25 de Abrilde 1974, que consigo trouxe novos conceitos atribuindo novos papéis àcomunicação social e aos seus agentes.Na estreita conjuntura histórica anterior, do jornalismo em Macau, é naturalque jornais e jornalistas tenham desempenhado um papel muito mais relevante nasociedade do que se poderia supor. Caminhando isolados, o estatuto do editor e do próprio jornal eram, pode dizer-se, em certa medida desmesurados. Macau era, politicamente, uma cidade controlada pela figura do Governador dotadopraticamente de plenos poderes e socialmente pela Igreja Católica. Apesar doaparente cosmopolitismo era paradoxal e concomitantemente uma sociedadebastante fechada e conservadora. Todavia, pode dizer-se que a imprensa ainda querelativamente subserviente em certos aspectos, dadas as condições vigentes, mostrousempre um significativo grau de inconformismo. Esse posicionamento pode serentendido na forma como era vista na generalidade pela Igreja Católica através dohistoriador, Monsenhor Manuel Teixeira, ele que era simultaneamente membro daUnião Nacional, o partido único do Estado Novo de Salazar.Monsenhor Teixeira diz assim: – “ …Os jornais liberais de Macau fizeram-secampeões das doutrinas condenadas do racionalismo, indo até à negação dadivindade de Cristo, do naturalismo, prescindindo da religião na sociedade, doestatismo, como o monopólio do ensino pelo Estado e a supressão das ordensreligiosas e até do derrotismo, advogando-se a extinção do Padroado do Oriente eda gesta missionária que nimbou de glória a Nação Portuguesa. Grande parte dosjornais macaenses malbarataram o tempo em lutas mesquinhas de política estéril.Tais foram o Independente, Oriente, O Porvir, A Verdade, O Liberal, o Echo do Povo,a Opinião, O Combate, O Petardo e o Eco Macaense. Por esta triste amostra se vêque o nosso meio ainda não atingiu a maturidade suficiente para dispensar acensura”. Monsenhor Manuel Teixeira, que escrevia este texto em 1965, deixava defora pouco periódicos da história da imprensa de Macau, que não se tinham feito“campeões das doutrinas condenadas do racionalismo”. Todavia coibiu-se demencionar o “Jornal de Notícias” (porque era nele que publicava os seus artigos?).Curiosamente, o proprietário e editor do “Jornal de Notícias”, Herman MachadoMonteiro, era ele próprio também um campeão do tal racionalismo “execrando”.Republicano da primeira hora, Herman Machado Monteiro, abandonariaPortugal, fixando-se em Macau, numa espécie de auto-exílio político, por altura dogolpe de 28 de Maio de 1926. Foi baseado nos princípios que defendia e naoposição à ditadura que sempre conduziu o seu jornal, que teria em Macau um SUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:58 Página 33
  • JOÃO GUEDES34estatuto semelhante ao que possuía emPortugal o jornal “República” de RaulRego, salvaguardadas as diferenças demodo e de lugar. Apesar de não hostili-zar directamente nem o regime vigenteem Portugal nem os poderes instituídoslocais, o “Jornal de Notícias”, não dei-xava de utilizar as subtilezas da lingua-gem, ou os paralelismos com situaçõesque ocorriam no estrangeiro, para de-nunciar atentados à liberdade e prepo-tências, que a censura activa, vigilantee rigorosa em Macau, no que tocava àimprensa de língua portuguesa, não dei-xaria passar em claro. O jornal seria, en-tretanto, pelos mais exaltados, acusadode conformismo e alinhamento com opoder, mas nas entrelinhas lá ia dizendoo que podia.No entanto as acusações teriam mais a ver com a personalidade doproprietário, figura de prestígio e feitio conciliador sempre pronto a evitar conflitos,quando o podia fazer. Isto, apesar de ter visto o seu jornal várias vezes suspenso emultado. O “Notícias de Macau” acabaria irremediavelmente em 1975, na sequênciade um conjunto de multas por alegados atentados à liberdade de imprensa nummomento em que Herman Machado Monteiro já tinha falecido e os que lhesucederam não se encontravam em condições de arrostar com a má fortuna, comodantes. Figura bastante distintade Herman Machado Monteirotinha sido Domingos Gregórioda Rosa Duque, que o antecedeuna liderança de “O Combate”,igualmente alvo dos anátemasde Monsenhor Manuel Teixeira.Em matéria de pergami-nhos, Rosa Duque não ficavaatrás do sucessor. De facto o seurepublicanismo não suscitava dúvidas, já que tinha sido umdos poucos militares que, comHerman Machado Monteiro.Jornal “O Combate” de Domingos Gregório da RosaDuque.SUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:58 Página 34
  • MACAU CONFIDENCIAL35Machado Santos, tinha estadona Rotunda, sem vacilar, de ar-mas na mão, ajudando a procla-mar a República, em 5 de Outu-bro de 1910. Porém Rosa Duquepossuía um feitio bem menosconciliador do que Herman Ma-chado Monteiro, não se exi-mindo à polémica que chegavaa ser por vezes truculenta. O seudesassombro era tal que um anodepois da proclamação da dita-dura militar em Lisboa, nas pá-ginas de “O Combate”, de 23 deAbril de 1927, proclama a suacondição de alto dirigente daMaçonaria portuguesa, em po-lémica que manteria ao longo devários números e que inicioucom o seguinte título de primeirapágina: – A Maçonaria, os estu-dantes reaccionários e “A Pá-tria”(“A Pátria” era o jornal cató-lico rival, favorecido pelo governador, contra o qual Rosa Duque terçava armasquotidianamente). Aliás “O Combate” tinha como lema que se destacava sob o cabeçalho – “pela Pátria e pela República”. Mas o desassombro de Rosa Duque rivalizava, por seu turno com a personalidade igualmente frontal e determinada, deConstâncio José da Silva, director de “A Verdade”. Igualmente estrénuo republicano,que, nunca se eximia da mesma forma que Rosa Duque, à polémica ou à campanha,sempre que achava haver justo motivo, Constâncio pontificou na imprensa deMacau durante as duas décadas anteriores.Tão temido enquanto Jornalista, como respeitado causídico, a “Verdade” deConstâncio esteve na base das alterações políticas resultantes da proclamação darepública em 1910. Seriam as suas denúncias que levariam a guarnição militar apronunciar-se, cercando o Palácio da Praia Grande e obrigando à ponta da baionetao Governador e o Juiz da Comarca a tirarem da gaveta os decretos da República epô-los em execução. A mesma “Verdade” levaria também à efectivação da ordemde expulsão das ordens religiosas de Macau e finalmente à demissão do própriogovernador Eduardo Augusto Marques (Eduardo Marques, que nunca abandonariaJornal “A Verdade” de Constâncio José da Silva.SUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:58 Página 35
  • JOÃO GUEDES36as suas convicções monárquicas e viria mais tarde a integrar um dos governos daditadura). Igualmente republicano, mas com personalidade distinta de Rosa Duquee Constâncio José da Silva, seria finalmente Francisco Hermenegildo Fernandes, cujoperfil se assemelharia bem mais ao de Herman Machado Monteiro, figura que nuncaconheceu, já que morreu em 1923, ou seja, alguns anos antes da chegada daquelea Macau. Francisco Fernandes, dirigiu durante muito tempo o principal jornal deMacau de então, o “Eco Macaense”, igualmente citado por Monsenhor ManuelTeixeira, que singrou nas últimas décadas da Monarquia. De todas as personalidadesligadas à imprensa de Macau, Francisco Fernandes foi sem dúvida uma das suasmais enigmáticas figuras. Apesar de ser um dos principais protagonistas do apoio local à revolução na China, que acabaria por desembocar também ali naproclamação da República em 10 de Outubro de 1911. Isto devido principalmenteàs suas ligações íntimas com Sun Yat-sen. Pouco se conhece da sua vida, apesar dasbuscas empreendidas nesse sentido. Dele também não se conhece uma únicafotografia que o identifique. Nem mesmo na campa onde jaz no Cemitério de S. Miguel. Para além do jornalismo, Francisco Fernandes manteve também umaconstante actividade política, integrando nomeadamente a vereação do Leal Senado.No entanto, das actas da câmara não consta igualmente nenhuma intervenção devulto, da sua autoria. Nas actas da Câmara pouco resta mais do que o seu nomenas notas de presença e a respectiva assinatura. Esse facto contrasta com as posiçõespor vezes radicais que o seu jornal assumia. Posições que por vezes chegavam amelindrar o relacionamento entre o governo de Macau e de Cantão, nomeadamentequando o “Eco Macaense” empreendeu uma campanha pública em defesa dasactividades de Sun Yat-sen em Macau (claramente subversivas) a coberto do exercícioda sua actividade médica. Esta e outras posições semelhantes redundaramnaturalmente em várias suspensões do periódico e pelo menos uma vez nacondenação em tribunal do próprio Francisco Fernandes, por difamação. Estacondenação, que o levou à prisão, resultou de uma das polémica do jornal que tevecomo alvo o então secretário-geral do Governo, Horácio Poiares, que ganhou acausa. Curiosamente o bom relacionamento pessoal de Francisco Fernandes, comsucessivos governadores (a que a lei concedia poderes discricionários, para expulsarqualquer cidadão da colónia sem grandes justificações, o que não era expedienteraro, nunca se verificou quanto a ele) foi sempre uma constante. FranciscoFernandes, já numa época tardia da sua vida, acabaria por, com a aquiescência dogovernador Tamagnini Barbosa, ver aprovado o seu ingresso num lugar confortáveldo funcionalismo público de Macau. A mesma estrutura administrativa da qual oseu “Eco” nunca deixara de denunciar os compadrios e as prepotências fosse emque circunstâncias fosse. Francisco Fernandes, Constâncio José da Silva, Rosa Duquee Herman Machado Monteiro foram as quatro figuras que mais marcaram um SUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:58 Página 36
  • MACAU CONFIDENCIAL37século peculiar da imprensa de Macau, feito de voluntarismo, causas, profissões defé arrebatadas e talvez alguns excessos, mas sempre declaradamente em nome doideal Republicano.SUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:58 Página 37
  • JOÃO GUEDES38MACAU LIBERAL E MACAU REPUBLICANO |No ano em que se comemora o centenário da implantação da República emPortugal, Macau tem a responsabilidade (como afirmava aqui a semana) de olharpara o papel que desempenhou na divulgação do novo ideário que desde aRevolução Francesa (1789) vinha alterando, a pouco e pouco, as estruturas de poderpor todo o mundo.Macau só tem que se orgulhar pois foi, nesta matéria, precursora.De facto, não poderá deixar de se salientar, que imediatamente após arevolução liberal do Porto de 1820, Macau, durante cerca de um ano, governou-seautonomamente. Expulsou o governador e o ouvidor (figura esta, que era umaespécie de primeiro-ministro), representantes do governo do reino e transferiu opoder para o município (então chamado Leal Senado), com a eleição livre de umanova vereação, num movimento de contornos acentuadamente republicanos.Esse período da história de Macau, ainda relativamente mal estudado, podeser conhecido com alguma profundidade através da obra: “A História e os Homensda Primeira República Democrática do Oriente”, que tem como subtítulo: “Biologiae sociologia de uma ilha cívica”. O livro é da autoria do antropólogo AlmerindoLessa.Claro que a “Primeira República Democrática do Oriente” foi Sol de poucadura. O restabelecimento do antigo regime em Goa, de quem Macau dependiaadministrativamente, na organização política ultramarina de então, faria com quedalí fosse enviada uma expedição punitiva, que depois de um prolongado bloqueiodo porto acabaria por obter a rendição do Leal Senado e proclamar de novo oabsolutismo antes reinante.Este fenómeno não surgiu por acaso, mas antes como efeito da presença noTerritório de uma colónia americana assinalável, mas principalmente de um grandenúmero de militares brasileiros, alguns dos quais desempenhariam poucos anosSUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:58 Página 38
  • MACAU CONFIDENCIAL39depois papéis do maior destaque, na independência do Brasil e no governo dessenovo país.Na verdade, enquanto em Portugal, ou em Goa, se discutia liberalismo eabsolutismo, em Macau já se falava em República. Alguns textos exemplares sobrenovas ideologias podem ser lidos nas páginas do primeiro jornal impresso noExtremo Oriente, “A Abelha da China”. Este jornal que durou também tanto quantodurou a autonomia macaense, ou seja, cerca de um ano, pode ser consultado noArquivo Histórico e vale a pena fazê-lo. Aliás, o periódico, dirigido por um padredominicano, despertou tais iras, que acabaria por ver o seu último número queimadoem “auto de fé”, à porta do Leal Senado, em Agosto de 1822. Como se com esseacto pudessem ser queimadas as ideias que os seus libelos disseminavamsemanalmente pelo espírito dos cidadãos.O jornal foi queimado, mas o que nele foi escrito não deixou de exercerinfluência indelével na cidade. A própria comunidade chinesa a isso não terá ficadoalheia, pois seria para Cantão que muitos dos principais dirigentes da revolta liberallocal fugiriam à frente das baionetas dos soldados do comandante Garcês Palha,chefe da expedição, que afastaria o Leal Senado, nomeando vereação a seu gosto eassumindo o cargo de governador até ao total restabelecimento da velha ordem política.Neste ponto convém salientar que alguns dos fugitivos acabariam por seracolhidos em Cantão, continuando dali a incendiar os ânimos de Macau, através dapublicação de jornais e folhas volantes que muitas dores de cabeça haveriam decausar pelos anos seguintes aos governadores de Macau.Isto até o liberalismo triunfar definitivamente em Portugal e Macau, aceitar aCarta Constitucional, promulgada em 1826, por D. Pedro IV.Desde então, Portugal mudava de rosto político, mas Macau, também. Emcurso idêntico embarcaria a China, menos de duas décadas depois.De facto, seria a partir de Cantão que a maior sublevação de sempre terialugar contra a dinastia Ching, reinante em Pequim. Tratava-se da revolução “TaiPing”, que durante doze anos assolou o império (1851-1864).Este verdadeiro cataclismo que chegou a envolver um exército revoltoso demais de 20 milhões de homens armados, seria finalmente detido às portas dePequim, pelas forças imperiais. Todavia depois da revolta dos “Tai Ping”, também aChina política não voltaria a ser a mesma. Novas ideias começavam a germinar e otrono do “celeste império” começava a vacilar seriamente.Desta vez, muitos dos dirigentes, ou simples combatentes da revolta,regressariam a Cantão e alguns procurariam o único refúgio seguro que se lhesapresentava na China: – Macau.Assim se pode explicar a presença em Macau de algumas figuras centrais,que participaram no primeiro processo de liberalização da China, conhecido comoSUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:58 Página 39
  • JOÃO GUEDES40a reforma “Wuxu”, ou “Reforma dos Cem Dias”, durante o reinado do imperadorGuangxu (1875/1908), que acabaria por ser frustrada por um golpe de estado dasforças conservadoras. Entre essas figuras conta-se Liang Qichao. Monárquico liberal,Liang Qichao desenvolveu em Macau intensa actividade política, através dos jornais,chegando a fundar alguns, promovendo a difusão de círculos literários e instituindoaté escolas. Outra figura contemporânea daquela seria Zheng Guanying (a suaresidência, na Rua da Barra, acabou de ser restaurada recentemente pelo InstitutoCultural de Macau e transformada numa casa museu), teórico reformador,monárquico, que teria sido um dos principais mentores ideológicos de Sun Yat-sen,nos primeiros anos da sua juventude, mas não só. Juntamente com Sun Yat-sen,encontravam-se igualmente activos em Macau outros jovens revolucionários, queigualmente tinham bebido nos princípios de Liang Qichao e Zheng Guanying,embora de carizes políticos mais radicais. Destes os mais célebres foram sem dúvida,Yang Heling, Chen Shaobai, Guan Xinyan e You Li, que constituíam o que viria a sero famosos “bando dos quatro”, ou seja um dos primeiros e mais activos embriõesda subversão republicana na China. As actividades de todas as figuras acima citadasnão passavam de modo algum despercebidas às autoridades portuguesas de Macau,todavia poucas vezes seriam incomodados, mesmo quando levavam a cabo públicasmanifestações contra o regime chinês, nomeadamente nos teatros da cidade.Pedidos de captura dos agitadores eram amiúde enviados pelas autoridades deCantão, mas certo é que nenhum surtia efeitos práticos. Macau, independentementedos governadores que se iam sucedendo, optava sistematicamente por fazer “vistagrossa” ao que se passava. Nesta conjuntura desempenhavam inestimável papel demedianeiros, Francisco Hermenegildo Fernandes, jornalista e proprietário de váriosjornais e o advogado António Basto, um dos mais conceituados causídicos deMacau. Como pano de fundo em toda esta cena de oficiosas cumplicidadesperfilava-se a Maçonaria (juntamente com a “Carbonária”, estas associaçõessecretas desempenharam papel fundamental no derrube da monarquia portuguesa)a que Francisco Fernandes pertencia.A Maçonaria contava também nas suas fileiras com uma boa parte dosgovernadores que administraram Macau, pelo menos a partir da segunda metadedo século XIX.De entre muitos, destacaram-se, Francisco Isidoro Guimarães, o governadorque mais tempo esteve à frente dos destinos de Macau (12 anos) e o Conselheiro,Custódio Miguel de Borja. Este chegou mesmo a ser o grão-mestre da Maçonariaportuguesa. Para além dos governadores variadíssimos outros funcionários civis emilitares da administração local nela igualmente estavam filiados. Resta assinalarque o papel de Macau, na história da China moderna, tem sido obliterado, em partepelo que nela desempenharam Hong Kong e Xangai. Todavia, o seu não foi menor.SUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:58 Página 40
  • MACAU CONFIDENCIAL41A grande ignorância, que reina sobre o assunto, reside apenas e só numa questãode bibliografia. É que o que se sabe sobre os últimos duzentos anos da China, estálargamente documentado na universalidade da língua inglesa. O que não se conheceestá escrito, ou publicado quase exclusivamente em português. Não será muito, masconvinha universalizar um pouco mais esse conhecimento.SUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:58 Página 41
  • JOÃO GUEDES42DOIS IRMÃOS NA PONTE DE COMANDO CONTRA OSPIRATAS DE COLOANE |Passa agora o centenário dos combates contra os piratas na Ilha deColoane, no que terá sido talvez a última grande campanha naval ultramarinada monarquia. Muita coisa se tem dito sobre o assunto, mas um estudo maisaprofundado sobre o episódio está ainda por fazer.Na generalidade sabe-se bem como as coisas aconteceram e o eco quelhes foi dado não só na imprensa portuguesa como internacional. Permanecemporém alguns detalhes que nunca foram referidos e que vale a pena salientar apropósito desta efeméride.Um deles é o facto de dois dos mais importantes chefes da marinha deguerra portuguesa presentes nas operações serem irmãos.Refiro-me ao comandante do “Cruzador Rainha D. Amélia”, que com osseus fuzileiros forneceu o grosso das tropas de desembarque e ao imediato da Canhoneira Macau, navio que efectuou o bombardeamento da vila deColoane, barragem de artilharia que cobriu e antecedeu o avanço das forças de assalto.Trata-se de António e Manuel Jervis de Athouguia Ferreira Pinto Basto.António era o comandante do “Cruzador Rainha D. Amélia” que efectuavaem 1910 o habitual périplo da marinha portuguesa pelas colónias asiáticas.Manuel era o imediato da “Canhoneira Macau”.Mas enquanto António efectuava a sua primeira viagem ao Extremo-Oriente, já como oficial superior, Manuel era ainda apenas um segundo-tenenteque iniciava uma comissão de serviço na colónia portuguesa da China. Umacomissão que haveria de ser longa mais longa do que o inicialmente esperado(o habitual eram quatro anos), recheada de episódios misteriosos e queterminaria num fim inesperadamente extemporâneo e dramático.SUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:58 Página 42
  • MACAU CONFIDENCIAL43Manuel Jervis foi o oficial que após o bombardeamento da vila, em Julho de1910, desembarcou com cerca de 40 fuzileiros que seguiam a bordo da canhoneirapara efectuar a ocupação efectiva da vila e das imediações. Só depois disso o grossodas tropas apoiado pela artilharia poria pé em Coloane e iniciaria a escaladasistemática dos alcantis montanhosos da ilha varrendo o terreno de lés a lés numaoperação que culminou com o aprisionamento dos últimos piratas refugiados numasgrutas do lado oposto ao desembarque alguns dias depois.Manuel Jervis de Athouguia Ferreira Pinto Basto nasceu em Lisboa em 1882e entrou para a Marinha exactamente ao dobrar do século (1900). O seu primeirocontacto com Macau ocorreu em 1905, quando integrou a tripulação da“Canhoneira Rio Lima”, vazo de guerra envelhecido, que a “Canhoneira Macau” viriaa substituir em 1909.Apesar da sua juventude, para além de oficial corajoso, como ficoudemonstrado em Coloane, era igualmente dotado de valor intelectual e científicoacima da média. Essa faceta é revelada pelo trabalho desenvolvido na determinaçãodas coordenadas geográficas exactas do Farol da Guia.Manuel Jervis de Athougya Pinto Bastos. Fotocópia da foto constante no seu processo existente no Arquivo da Marinha.SUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:58 Página 43
  • JOÃO GUEDES44Este trabalho foi tanto mais relevante quanto o “GPS” seria aparelho que sósurgiria cem anos mais tarde para banalizar a questão e obliterar de todo bússolas,altímetros e mais ainda sextantes quinhentistas.Farol da Guia. Cortesia Blog Macau Antigo.SUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:58 Página 44
  • MACAU CONFIDENCIAL45Na altura determinar as coordenadas, mesmo de um objecto físico imóvelcomo era o Farol da Guia, exigia um sem número de operações no terreno, consultade cartas geográficas e topográficas, cálculos, novos cálculos, correcções e maiscorrecções que exigiam não só estóica paciência e disciplina como particular rigor esólidos conhecimentos científicos. O trabalho revelava-se na altura tanto maisimportante quanto se negociava nas chancelarias diplomáticas de Pequim e Lisboaa delimitação das águas territoriais de Macau. A sua persistência valeu-lhe um louvordo Governo do Território publicado em Boletim Oficial em Agosto de 1906.Pouco depois, e um ano antes de rumar para a sua última comissão de serviçoem Macau, Manuel Jervis viria a ser também louvado pelo Governo de Lisboa peloseu trabalho de sondagens e estudos de marés que executou no Funchal (Ilha daMadeira) em 1908 quando fazia parte da tripulação do “Cruzador Vasco da Gama”.Para além dos seus conhecimentos científicos, Manuel Jervis era tambémparticularmente dotado em matéria linguística como o prova o facto de falar eescrever fluentemente chinês, conhecimentos que lhe valeram passagem nos examesformais que prestou em 1917 que o deram como proficiente no dialecto cantonensecom nota final de 15 valores.Terão sido estes dotes juntamente com o facto de se encontrar bem integradono seio da comunidade chinesa local e manter contactos, muitos de alto nível, comCantão, que fizeram com que se tor-nasse responsável pelo sector das infor-mações estratégica e de segurança daMarinha em Macau.Neste âmbito, qual precursor“007” de Ian Fleming, ele próprio se en-carregaria de uma das mais delicadas eperigosas missões que lhe foram atri-buídas durante a sua carreira.A China levava dois anos de re-pública e Yuan Chi Kay, recebia o poderde Sun Yat-sen, preparando-se para criaro ambiente político necessário a fim derestabelecer a monarquia consigo pró-prio como imperador.Em todo o país as facções degla-diavam-se e Guangdong rebelava-secontra o governo central declarando acessação do resto do país. Saber aocerto o que se passava do outro ladoPostal ilustrado a cores de Yuan Chi Kay, Presidente da República da China, 1913.SUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:58 Página 45
  • JOÃO GUEDES46das Portas do Cerco era pergunta a que nem a nossa embaixada em Pequim, nem o consulado português em Cantão conseguiam responder. Principalmente no que tocava às intenções prevalecentes relativamente ao futuro de Macau. Recorde-seque as proclamações nacionalistas inflamadas contra a presença europeia na Chinatinham subido alarmantemente de tom desde a proclamação da República em 10de Outubro de 1911.Assim, para tentar esclarecer cabalmente o confuso panorama políticoManuel Jervis foi encarregado de se deslocar a Cantão, indagar e depois fornecerrelato sério e coerente às aflitas autoridades de Macau, que no interior do Territóriotinham que gerir também as actividade subversivas de uma miríade de facções egrupos de interesse os mais díspares. Tolerar essas actividades, proibir alguma, ouexpulsar líder político errado poderia trazer consequências políticas gravíssimas acurto, médio, ou mesmo longo prazo. A aliar a tudo isso a intensificação do tráfegoda marinha de guerra chinesa que cruzava junto às costas de Macau em rotas cadavez mais próximas adensavam as nuvens negras que ascendiam no horizonte.A missão de Manuel Jervis foi coroada de êxito. Depois de vários dias emCantão e de contactos com as mais diversas fontes aos mais diversos níveis, o oficialda marinha que tinha levado consigo um agente da Polícia Secreta de Macau“disfarçado de boy” (criado particular) regressou com notícias optimistas.Macau podia descansar. Yuan ChiKai tinha de momento mais com que sepreocupar no Norte do que em dese-nhar estratégias para expulsar os por-tugueses de Macau, ou os ingleses deHong Kong no tumultuoso Sul.Por seu turno Sun Yat-sen, con-junturalmente afastado do poder, estariaigualmente interessado em tudo menospôr em causa um território onde conti-nuava a contar com apoio unânime e queem qualquer eventualidade lhe poderia servir para voltar ao exílio, ou regressar à China,como o tinha feito tantas vezes antes sempre que os ventos da política lho impuseram.Depois dessa missão (cujo relatório publiquei há uns anos na “Revista daCultura”) Manuel Jervis continuou a efectuar inúmeras deslocações a Cantão, sempreoficialmente justificadas como viagens de turismo e recreio como consta dos arquivosda Marinha.Tudo indica que terá sido através dessas digressões aparentemente lúdicasque o diálogo oficioso entre os governos de Cantão e de Macau fluiu até ao dia 11de Junho de 1919.Congresso da República da China (1913).SUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:58 Página 46
  • Quatro dias depois dessa data os jornais de Macau publicavam umanotícia que chocava toda a gente: – “Dechofre caiu no dia 11 sobre a cidade a notícia do falecimento repentino abordo do Sui-an (vapor que efectuava acarreira regular entre Cantão e Macau)do ilustre 1º Tenente Manuel Athouguia,comandante da “lancha CanhoneiraMacau”. É impossível descrever a comoção que de todos se apoderou,sabido como é que o distinto oficial tinha um amigo, um admirador em todo aquele que com ele convivia… O infelizoficial sucumbiu vítima de uma congestão que em menos de dois minutos o roubouà vida… Foi uma grande desgraça e uma enorme perda para a nossa Marinha de Guerra.O funeral realizou-se em 12, às seis e trinta incorporando-se nele toda apopulação da Colónia… S. Ex.ª o Governador (Joaquim Augusto dos Santos)acompanhou o cortejo fazendo um discurso junto da sepultura”.Para além das condecorações e louvores que possuía, Manuel Jervis era também detentor da mais alta distinção militar portuguesa; o grau de “Cavaleiro daAntiga e Muito Nobre Ordem da Torre e Espada de Valor Lealdade e Mérito”.Curiosamente, quando consultei o que constava sobre este oficial no Arquivoda Marinha, há mais de uma década, o almirante Vítor Crespo que então era seudirector manifestou-se um tanto perplexo.– Sabe, disse-me, há neste processo uma coisa estranha que é o facto de lheter sido atribuída a “Torre e Espada”, mas não constar justificação para tal.Perante o meu olhar interrogativo o almirante concluiu: – É que a concessãoda “Torre e Espada” tem que ter sempre exarada publicamente a justificação, não écomo as outras condecorações, acentuou, é a mais elevada distinção de Portugal.O almirante esboçou então um assomo de subtil sorriso, passou-me asfotocópias do processo para as minhas mãos e não disse mais nada…Ambos percebemos que quaisquer que tenham sido os feitos de Manuel Jervisde Athouguia Ferreira Pinto Bastos, nunca poderiam ser publicamente revelados. Foium herói e pronto.Morreu com apenas 37 anos de idade.MACAU CONFIDENCIAL47Cantão. Rua Tang Lam. 1913.SUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:58 Página 47
  • JOÃO GUEDES48HÁ CEM ANOS: A ÚLTIMA CAMPANHA NAVAL ULTRAMARINA DA MONARQUIA PORTUGUESA |Em ano de centenário da República Portuguesa há também que assinalarem Macau um centenário que antecedeu em poucos meses a queda daMonarquia, e a substituição do seu representante máximo no Extremo Oriente:– o governador Eduardo Marques, monárquico convicto, que deu lugar ao seuajudante de campo, o comandante da marinha Álvaro de Melo Machado que talcomo o primeiro era igualmente convicto, mas republicano.Trata-se de lembrar os combates de Coloane contra os piratas ocorridosdurante quase todo o mês de Julho de 1910.A efeméride, que chegou a servir de mote para o feriado municipal das Ilhas até 20 de Dezembro de 1999, merece ser relembrada, não pelo que tenha sido, em si, já que não setratou de nenhuma campanha militardigna de nota no cômputo geral ultramarino português, mas pelomarco que constituiu na história deMacau.De facto, num território que,segundo alguns, terá sido cedido pelaChina aos portugueses em reconheci-mento do auxílio prestado ao “Impériodo Meio” nas lutas contra os piratasdo século XVI, os combates de Co-loane assinalaram a última campanhamilitar digna de nota contra a piratarianos mares do Extremo Oriente.Álvaro de Melo Machado primeiro governadorrepublicano de Macau.SUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:59 Página 48
  • MACAU CONFIDENCIAL49Depois disso o que se seguiu foram casos de polícia de maiores, ou menoresdimensões, mas que não mais passariam disso mesmo.Aliás os confrontos de Coloane contra os piratas foram mais um conjuntode actos políticos do que verdadeiramente militares e espelharam em grandemedida uma tentativa de afirmação da política ultramarina portuguesa damonarquia que tinha sido ferida de morte com o caso do “Mapa Cor de Rosa”,que culminou com o chamado “ultimato inglês” de 1890 e que tentava obtersucesso capaz de contrariar os achincalhos a que era sucessivamente submetidano parlamento de Lisboa pelos republicanos, nas ruas pelos sindicatos eigualmente nas chancelarias internacionais. Neste caso tanto monárquicas comorepublicanas.O “ultimato”, não tinha sido mais do que a consequência da supremaciamilitar inglesa que se sobrepôs às “líricas” tentativas de Portugal de tentar unirAngola e Moçambique numa só colónia do Leste ao Oeste africano. Contra estedesígnio opunha-se o de Londres que pretendia unir as colónias inglesas de Norte aSul, ou seja do Cairo ao Cabo. Evidentemente que venceram os ingleses.No extremo Oriente os ingleses já tinham vencido também, mas colocava-se a questão suscitada ciclicamente, igualmente por Londres, mas igualmente porParis e Berlim, de que Macau serviria de quartel-general aos piratas que assolavamos Mares do Sul da China. Nada estava mais longe da verdade. Mas como aInglaterra dominava a comunicação social, o que surgia estampado nos editoriaisdos jornais britânicos e ecoado nos franceses, alemães, italianos e americanos,entre outros, era a eventual verdade (diz-se que em política o que parece é). Ouseja Coloane, onde actuavam de facto uns bandos de piratas que se misturavamcom a população, estava muito longe de ser o perigo que constituiriam os grandesbandos que actuavam no vasto espaço geográfico do “Delta do Rio das Pérolas”e mais para Norte, nas costa de Fujian e de Xangai, áreas controladas pelasesquadras britânicas, francesas americanas e alemãs que por ali navegavam. Diga-se que muitos apoiados oficiosamente pelas potências intervenientes sempre queisso lhes servia.O governador Álvaro de Melo Machado e o historiador Pe. Manuel Teixeiradescrevem muito bem a situação: – “Os piratas eram, de um modo geral, bemacolhidos pela população de Coloane, que sabiam quem eram e lhes davam asilo, a população acolhia com benevolência estes malfeitores pelo dinheiro quegenerosamente gastavam; e as próprias autoridades portuguesas, que de sobejosabiam da existência desta gente, toleravam-na, nunca fazendo diligências para aescorraçar”.Por seu turno, o Padre Teixeira diz que “os piratas foram-se ali infiltrando nodecorrer dos anos: aqui montavam uma mercearia, além uma loja de peixe; uns tra-SUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:59 Página 49
  • JOÃO GUEDES50balhavam nas pedreiras, outros entre-gavam-se à agricultura; por isso tinhamde ter casas para as suas famílias. É decrer que os seus vizinhos soubessem queespécie de gente eram eles, mas não osdenunciavam por duas razões: eles nãoos incomodavam, pois a quadrilha faziaas suas operações em terra chinesa epara ali traziam os seus roubos e as suasarmas”. O negócio não era mau e pelosvistos não incomodava ninguém!…Nesse cenário de pretensa guerraque passava bem mais pelos cabeçalhosdos jornais internacionais, do que pelarealidade prevalecente, Portugal nãoteve remédio senão levar a efeito umademonstração de força.Para o efeito foi aproveitada a presença do “Cruzador D. Amélia”,transportando a bordo uma força defuzileiros de cerca de duzentos homens que efectuava o habitual périplo anual peloExtremo Oriente, que costumava levar o vaso de guerra a uma patrulha que passavapor Macau, incluía Xangai, com regresso a Lisboa pelos mares de Timor.A viagem do cruzador, que se arriscava a não passar, mais uma vez, de umaespécie de cruzeiro simbólico, ensejo de fim de curso para os cadetes da marinhapraticarem as artes da navegação, seria aproveitada dessa vez para uma verdadeiramissão de guerra.O pretexto foi o rapto de 18 crianças de uma escola da localidade de TongHang, localizada a poucas dezenas de quilómetros de Macau por um grupo depiratas que teriam a sua base em Coloane.O caso foi denunciado em parangonas sucessivas pelo jornal “A Verdade” deConstâncio José da Silva que, por acaso, era também advogado dos pais de algumasdessas crianças e que exigia acção às autoridades.Diga-se que Constâncio José da Silva era também republicano estrénuo e nãodeixava de aproveitar “o seu caso” para denunciar as fraquezas da monarquia quecom um cruzador carregado de artilharia pesada e fuzileiros fortemente armadospostado a poucas milhas de Macau permitia um desaforo tal sem fazer nada.Face ao ambiente político que se adensava pelas diatribes de “A Verdade”,pela pressão dos vizinhos ingleses de Hong Kong, e pelas recentes tentativas dosMonumento evocativo dos combates contraos piratas de Coloane de Julho de 1910.SUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:59 Página 50
  • MACAU CONFIDENCIAL51alemães de ocuparem a vizinha ilha da Lapa (1900) sobre a qual Portugal reivindicavadireitos, o governador Eduardo Marques não podia fazer mais nada senão requereruma acção militar do comandante do D. Amélia e teve-a.As forças do Cruzador (150 fuzileiros?) desembarcaram em Coloane, comapoio de artilharia. A canhoneira Macau, por seu turno, de mais pequeno caladoe a única que se podia aproximar verdadeiramente através dos baixios da ilha,bombardeou a vila. Diz-se que a acção não passou de um exercício de teste depontaria da artilharia e uma demonstração excessiva de força que provocoumortos e feridos civis desnecessários e mais nada. Mas certo é que com força amais, ou a menos, no final da operação as crianças foram resgatadas e váriospiratas presos.Nesse episódio a China ofereceu-se para colaborar nas operações navais, maso governo de Macau rejeitou a oferta e as canhoneiras chinesas limitaram-se a pairarao largo e a dar caça a juncos tresmalhados suspeitos que singravam pelo dédalode canais do Delta.No final da “campanha” foram mais os estragos que os benefícios já que nãoexistem provas sólidas de que os piratas tenham sido erradicados de Coloane. O queresultou de facto foi uma vila mais ou menos arrasada pelas granadas e pouco mais.O resto da operação foi constituído por um golpe de mão contra um grupode malfeitores que se tinha escondido numas grutas que hoje fazem parte do campode golfe do hotel “Westin Resort”, que envolveu um pelotão de infantaria e que umcabo do exército com uma granada de enxofre bem atirada para o interior das ditasdo alto das arribas desalojou de pronto sem necessidade de recurso a operaçõesCruzador “Rainha D. Amélia” posteriormente rebaptizado “NRP República”.SUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:59 Página 51
  • JOÃO GUEDES52complicadas de estado maior. O golpe completou-se em poucas horas com plenosucesso já que não se registaram baixas de qualquer dos lados e os bandidosacabaram presos.A monarquia não salvou na China, numa eventual epopeia bélica, comopretenderia, a humilhação africana do “Mapa Cor-de-rosa” que tinha sofrido vinteanos antes e afinal de contas quem ganhou pontos foi a República que três mesesdepois se implantaria em Portugal.O cruzador D. Amélia que tinha vindo essencialmente para afirmar a pujançada marinha da monarquia portuguesa perante as potências coloniais presentes naChina registava ali a sua penúltima missão de relevo. Tinha sido construído em 1901no Arsenal de Lisboa e nomeado em honra de D. Amélia de Orleães, mulher domalogrado rei D. Carlos I. Sendo o primeiro vaso naval de grande porte construídoem aço em estaleiros portugueses durou pouco a sua história. Após a revolução de5 de Outubro de 1910, onde teve papel proeminente, foi rebaptizado passando achamar-se “NRP República”. A 6 de Agosto de 1915 acabaria por se perder parasempre encalhando na praia da Consolação, a sul de Peniche.Quanto à lancha canhoneira Macau durou mais alguns anos e teve umahistória substancialmente mais curiosa.Encomendada aos estaleiros Yar-row & Co. de Glasgow (Escócia) foi en-tregue à marinha portuguesa em 1909.Um ano antes do bombardeamento daVila de Coloane. Seria abatida ao efec-tivo da marinha a 15 de Agosto de1943, sendo entregue aos japonesesque ocupavam então a China por trocade 10 mil sacos de arroz passando anavegar com o nome de “Maiko”. Em1949 foi capturada, passando a fazer parte da marinha da China sob novo nome.Desta vez “Wu Fang”. Não se sabe quando esta histórica lancha canhoneira deixoudefinitivamente de efectuar serviço activo.Lancha Canhoneira Macau.SUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:59 Página 52
  • MACAU CONFIDENCIAL53O PRONUNCIAMENTO DOS SARGENTOS REPUBLICANOSDE MACAU |A proclamação do regime republicano em Portugal trouxe consigo profundasmudanças político-sociais para o país inteiro determinando para o bem ou para omal o curso da história. O mesmo aconteceria um ano depois na China. Porém aquias consequências teriam efeitos universais, pode dizer-se, tendo em atenção asproporções desta imensa nação. Todavia, nenhuma das alterações de regimeverificadas e tão coincidentes no tempo teriam efeitos notáveis em Macau, para alémdos normais e de curto prazo que todas as alterações políticas de fundo motivamsempre.De facto, a proclamação do fim de monarquia em Lisboa para além dosresultados imediatos que provocou, nomeadamente a alteração das cores dabandeira, do hino e dos selos das repartições não registou grande impacto na vidasocial do território logo que ultrapassadas as angústias e entusiasmos de momentoe mal que firmadas foram as novas instituições o que não levou muito tempo. Aliása proclamação do novo regime em Macau não suscitou contestação de vulto, nemteve figura de resistência que se assemelhasse a Paiva Couceiro, por exemplo.O mais que houve foi alguma teimosia mais burocrática do que outra coisade um, ou outro, com destaque para o Governador e para o juiz da comarca quefiéis à monarquia pela qual tinham sido nomeados revelavam pruridos evidentes em“virar a casaca”.O percurso subsequente do magistrado Marques Vidal não se conhece. Noentanto sobre o governador Eduardo Marques sabe-se bem que morreu fiel aoantigo regime. Aliás Eduardo Marques nunca deixou a política activa, militandosempre nas fileiras monárquicas. Ali e depois de um período de relativo apagamento,durante os anos áureos da “Primeira República” o ex-governador de Macau voltariaa emergir na sequência do golpe de 28 de Maio de 1926 como ministro de Salazar.SUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:59 Página 53
  • JOÃO GUEDES54Todavia apesar do carácter deEduardo Marques, este nem sequer,como Paiva Couceiro, possuía tropasque o apoiassem se tivesse optado pelaresistência activa. A prova disso mesmoé fornecida pelo jornal “O Colonial” queinformava então: – “A nossa bonita esossegada província de Macau foi hápoucos dias teatro de uma cena quebem podia tirá-la à tutela da nossasoberania e certamente a fez retrocederum grande passo no caminho lento dasua prosperidade.Em 29 de Novembro último,algumas praças da canhoneira Pátriadesembarcaram armadas, juntando-seàs do Corpo de Polícia e Companhia deInfantaria, para obrigarem o Governadora dar cumprimento às determinações do decreto sobre as ordens religiosas, queerradamente imaginavam não tinha sido posto em execução.Todas essas praças, umas 150 aproximadamente, que os esforços dos oficiaisnão conseguiram manter disciplinadas nos quartéis, dirigiram-se debaixo de forma,comandadas por sargentos e já convencidas do engano que as amotinava, ao paláciodo Governo a fim de conseguirem perdão para a falta gravíssima que tinhamcometido e exigiram-lhe que fosse garantido por um documento escrito e assinadopelo Governador. Seguros da impunidade, voltaram aos quartéis, onde, pelo menosaparentemente, a vida normal se restabeleceu e a disciplina continuou mantendo-se como se antes não tivesse por completo sido desprezada ostensivamente”.Ou seja, o Governador pura e simplesmente não podia contar com a forçaarmada já que para além do exército e da marinha também a polícia se juntou aomotim republicano. Perante a quebra de confiança assim demonstrada, EduardoMarques não teve alternativa senão assinar o tal documento ilibando deresponsabilidades os amotinados e entregar seguidamente a administração dacolónia ao seu ajudante de campo, o primeiro-tenente Álvaro de Melo Machado. A solução foi do agrado geral já que Álvaro Machado era bem conhecido pela suafeição republicana. Falta saber ao certo se não teria sido ele próprio um dos principaisinstigadores da sublevação.Se no campo militar a República era um facto, no campo civil nada seregistava em matéria de reacção. Aliás se havia local onde a monarquia não tinhaEduardo Marques, último governador deMacau do regime monárquico.SUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:59 Página 54
  • MACAU CONFIDENCIAL55monárquicos (como dizia o rei D. Carlos) um deles seria com certeza Macau. Defacto, a aristocracia no Território era reduzidíssima podendo ser contada pelos dedosde uma só mão. O número de titulares resumia-se ao Barão do Cercal, que ocupadocom a gerência das suas várias empresas e com os pés mais em Hong Kong do queem Macau pouco se preocuparia com a política. Feliciano Pereira Marques, deputadopor Macau em Lisboa tinha morrido no ano anterior. Restava Bernardino de SennaFernandes. Porém a monarquia em Macau podia contar com todos menos com estejá que o conde (tal como o seu contitular de Portugal, Ribeira Brava) enfileirava hámuito entre as hostes conspirativas republicanas.Sendo assim e para além das alterações de nomes ainda que sonantes naestrutura administrativa em essência pouco mudou na vida quotidiana local e mesmoo motim das tropas não chegou a atingir as cores dramáticas que “O Colonial” lhequis atribuir. O pronunciamento militar liderado pelos sargentos não só não colocouem causa a presença portuguesa em Macau, como muito menos a “fez retrocederum grande passo no caminho lento da sua prosperidade”.Regressada porém a normalidade, o combate contra a monarquia nãoacabou ali. De facto, clarificadas as águas, o poder político concentrava-se agora noapoio ao esforço republicano de derrubar o regime imperial da China, esforço esseque numa parte significativa passava pela colónia.Sun Yat-sen seria a partir de então a nova bandeira dos republicanos locaisque celebrariam novo triunfo logo no mesmo mês de Outubro do ano seguinte,nomeadamente no recém criado “Clube dos Sargentos”, instituição que durantedécadas seria um dos mais significativos cadinhos da cultura republicana de Macau.SUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:59 Página 55
  • JOÃO GUEDES56A MAÇONARIA NO 5 DE OUTUBRO EM MACAU |Muito se tem escrito sobre o papel da Maçonaria na implantação daRepública em Portugal e também no papel decisivo que a Carbonária nela terádesempenhado como braço armado da primeira. Todavia, para além de uma ououtra referência bibliográfica, não é muito o que se sabe da acção destasorganizações na instituição do regime republicano em Macau.É certo que os dados escasseiam (mesmo em Portugal), mas do que seconhece pode concluir-se que a Maçonaria também aqui desempenhou papelequivalente ao da sua congénere da “Metrópole”.O mesmo não se poderá dizer da Carbonária. Sobre esta associação secretaa bibliografia não é abundante, mas pelo menos existem alguns trabalhos, de certodetalhe, identificando-a essencialmente como o “exército civil” que apoiou os heróisda Rotunda nos acontecimentos que culminaram no dia 5 de Outubro de 1910. Umdos seus chefes era o próprio Machado dos Santos. O outro era Carlos da Maia, queviria a governar Macau em 1914. Todavia, sobre a organização no Território o silêncioé absoluto.Embora a história de associações desse género seja sempre difícil de fazerdado o grau de secretismo de que se rodeavam pode dizer-se, com razoável certeza,que o silêncio que reina se deve apenas ao facto da organização não ter existido detodo na então colónia portuguesa da China, pelo menos nesse período.A única referência à Carbonária em Macau diz respeito à estada na cidadede cinco dos seus elementos presos por subversão em Portugal que para aqui foramexilados em 1898. Os cinco teriam, pouco depois da chegada, tentado aliciar algunsmilitares no sentido de sublevar a guarnição, prender o Governador e proclamar aRepública.A tentativa fracassou e os cinco voltaram a ser detidos cumprindo o resto dapena de exílio a que tinham sido anteriormente condenados, mas agora mais longeSUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:59 Página 56
  • MACAU CONFIDENCIAL57ainda, ou seja em Timor. Refira-se todavia que o relato destes factos se baseiaapenas em alusões breves sem citação de fontes reproduzidas nalguma bibliografiarelativa à história do movimento anarquista em Portugal e nada mais.No que toca à Maçonaria o caso é bem diferente. A sua acção em Macauestá relativamente documentada graças ao trabalho de investigação de algunsautores com destaque para o historiador A. H. De Oliveira Marques.Assim sabe-se hoje que o papel dos “pedreiros livres” na colónia portuguesa,reunidos em torno da “Loja Luís de Camões” foi decisivo não só na proclamaçãoda República, como posteriormente no afastamento da elite dirigente monárquicae na consolidação do novo regime.De facto a “Loja Luís de Camões” incluía no seu seio um grande número defuncionários públicos de todos os escalões, militares da marinha e do exército, paraalém de advogados, engenheiros e jornalistas, ou seja o escol da colónia. Assim nãoé de admirar que o próprio ajudante de campo do último governador monárquico(Eduardo Marques) Álvaro de Melo Machado tenha sido escolhido para o substituirdois meses depois da proclamação do regime republicano.Melo Machado era maçom desde 1907, tendo aderido nesse ano à lojalisboeta “Liberdade”. Aqui chegado passou, naturalmente, a integrar-se nos quadrosda “Loja Luís de Camões”. Para além deste à mesma loja pertenciam também outrosvultos que desempenhariam papel fulcral no rumo político que o Território haveriade tomar no futuro.Entre muitos conta-se com particular destaque a figura bem conhecida deConstâncio José da Silva, advogado jornalista e polemista, proprietário e redactordo jornal “A Verdade” que esteve na primeira linha do republicanismo nacampanha pelo afastamento das figuras de proa da monarquia. Constâncioinspirou nomeadamente o levantamento das tropas que cercaram o Palácio daPraia Grande e obrigaram à ponta das baionetas o governador Eduardo Marquesa publicar as novas leis da república que insistia obstinadamente em guardar nagaveta.Outro jornalista que ficaria para a posteridade pelas suas relações demedianeiro entre os revolucionários republicanos chineses e as autoridades locais,amigo pessoal de Sun Yat-sen (fundador da República da China) e igualmenteredactor e proprietário de vários jornais era Francisco Hermenegildo Fernandes,figura sobre a qual muito se tem escrito e de quem ainda hoje pouco mais se sabea não ser o que ele próprio de si deixou publicado. O mais pode resumir-se à friezade um currículo constante na “Repartição dos Assuntos Sínicos” onde era tradutore os dados oficiais inclusos nos autos que contra si foram levantados pelostribunais em diversos processos por alegado abuso de liberdade de imprensa quecontra si foram movidos.SUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:59 Página 57
  • JOÃO GUEDES58Com menor destaque, mas não menos eficácia política, salientou-setambém o coronel José Luís Marques, um dos fundadores da maçonariaorganizada em Macau que ocuparia durante largos anos a presidência do LealSenado.Igualmente pouco citado, mas bem inserido nos centros de decisão,encontrava-se o seu camarada de armas António Antunes, igualmente co-fundadorda “Loja Luís de Camões”, que nos anos subsequentes a 1910 comandaria a Políciade Segurança Pública.Outro advogado de renome e republicano estrénuo pertencente à mesmaloja era Damião Rodrigues, personalidade cujo perfil já abordei aqui emanteriores artigos igualmente devido às suas ligações estreitas à revoluçãorepublicana da China e também pelo combate desassombrado que travou,especialmente, contra a ditadura do “Estado Novo” de Salazar, já numa faseadiantada da sua vida.Para além dos nomes citados muitos outros o poderiam ser. O poeta CamiloPessanha, que dispensa biografias, mesmo maçónicas, que outros já fizeram e compormenor, seria um deles.Deste destaque, necessariamente limitado, fica excluído Rosa Duque,porventura um dos mais combativos jornalistas republicanos de Macau, que coma aproximação do golpe de 28 de Maio de 1926 chegou a anunciar na primeirapágina do jornal “O Combate” a sua filiação maçónica e o alto grau de que eradetentor naquela organização iniciática. A exclusão deve-se apenas ao facto de nomomento em que a república se instaurava nos confins do Oriente, se contar entreos sargentos que na Rotunda, de armas na mão, com Machado Santos, sofriam ocerco e as arremetidas das tropas fiéis a D. Manuel II comandadas por PaivaCouceiro.Este breve artigo não ficaria completo sem uma referência curiosa queparece subscrever o dito do rei D. Carlos, segundo o qual “Portugal era umamonarquia sem monárquicos”. Seria? Não se sabe!O que se sabe é que, em Macau, Bernardino de Senna Fernandes, 2º Condede Senna Fernandes, tal como o ex-realista seu homónimo, Presidente BernardinoMachado, era já maçom e republicano numa época em que a monarquia vigoravaem pleno e a República não passava de um ideal cuja concretização até entre osseus correligionários gerava dúvidas.SUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:59 Página 58
  • MACAU CONFIDENCIAL59O GENERAL ANARQUISTA E A “REPÚBLICA CANTONENSE” |Nem o “socialismo com características chinesas” é conceito novo, nem aChina foi sempre impermeável às novas ideias sociais e políticas que forammarcando a marcha do mundo como por vezes se pretende fazer crer. Bem pelocontrário. O que se pode dizer é que a evolução global do pensamento humanoao ultrapassar a “Grande Muralha” penetrava numa civilização há miléniosestruturada. Uma civilização em que certos debates que se postavam noutroscontinentes como revolucionários, ou apenas modernos, principalmente depoisda transformação europeia de 1789, já tinham sido feitos muitos séculos antes.Como exemplo pode citar-se a velhaquestão da existência, ou não de umaintrínseca bondade humana que tantodividiu as correntes socialistas noséculo XIX e principalmente marxistase anarquistas.O anarquismo, penetrou naChina, pode dizer-se, ao mesmo tempoque se alastrava pela Europa e pelasAméricas. Porém, enquanto nestes doiscontinentes o debate não atendia àdiversidade de povos ou às diferentesculturas, ali, pelo que se disse, não sóse dividiu em variadíssimas correntes(ou não fosse absolutamente libertário),como adquiriu, em alguns casos,características muito próprias. Chen Jiongming, o general anarquista.SUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:59 Página 59
  • JOÃO GUEDES60Tal como no resto do mundo também na China o anarquismo esteve na base dos grandes “ismos” que viriam a transformar e a dividir ideologicamente os povos, produzindo nomeadamente o marxismo-leninismo, embora posteriormenteacrescentado de mais um. O de Mao Tse-Tung.Assim não é de estranhar que nesse fervilhar revolucionário que avassaloutudo nas primeiras décadas do século XX venhamos a encontrar na China um generalanarquista.Chamava-se Chen Jiongming e a sua história tem uma íntima ligação aMacau, lugar onde se refugiou várias vezes ao longo da sua acidentada carreirapolítica.Chen Jiongming é hoje uma figura quase totalmente obliterada pela históriae convenientemente esquecida tanto por comunistas como pelos seus contrários.Isto apesar de não poucos aspectos do seu pensamento político terem sidoadoptados pelo Partido Comunista que tanto o criticou e subsistirem também nostrês célebres princípios do povo propostos por Sun Yat-sen, que constituem aindahoje a base ideológica do “Kwomintang”.Chen Jiongming nasceu em 1878 na cidade de Haifeng, situada nos limitesentre as províncias de Guangdong e Fuqian. Filho de uma família de proprietáriosrurais abastados, cedo revelou propensão para as letras tendo recebido umaformação clássica confucionista. Em 1906 matriculou-se na faculdade de direito deCantão onde se licenciou, tendo participado na elaboração do projecto nacional dereformas destinado a transformar a China numa monarquia constitucional, comodeputado provincial, depois de um período de estudos político-administrativos noJapão.A certa altura porém a evidente resistência do regime à mudança leva-o aperder todas as esperanças na eficácia da acção pela legalidade e a interessar-sepelas obras de Marx, Bakunine e Kropotkin, que começavam a chegar ao ExtremoOriente ganhando adeptos principalmente no “Império do Sol Nascente” que desdefinais do século XIX registava um período fulgurante de progresso e abertura aoexterior e às novas ideias. Chen convencia-se que a revolução era a única saída viável.Convertido à causa internacionalista junta-se ao movimento anarquista cujoprincipal inspirador era Liu Shifu, com o qual se associa num movimento queadvogava a acção directa como forma de derrubar o estado capitalista e feudal.É integrado nesta corrente que arregimenta as massas em Guangdong contraa monarquia, participando activamente em todas as sucessivas conspirações esublevações que foram tendo lugar.No dealbar do ano de 1911, Chen já não é um mero propagandista, massim um general revolucionário que comanda um exército fortemente armadoconstituído por uma mistura de jovens intelectuais e camponeses. É nessa condiçãoSUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:59 Página 60
  • MACAU CONFIDENCIAL61que participa na revolta final contra a dinastia “Manchu” e se torna governadormilitar de Guangdong na sequência da proclamação da República.A partir dessa data, e com Sun Yat-sen em Pequim investido na presidência,Chen leva a efeito profundas reformas em Guangdong. O seu ideário fica desde logo expresso nos caracteres gravados nas três faces do monumento em granito que mandou edificar no centro da sua terra natal: – Ziyou (liberdade),Pingdeng (igualdade), bo’ai (amor fraternal).Chen Jiongming pensava que a China não se encontrava organizada de molde a expressar a sua vontade colectiva, mas antes estava habituada a autogovernar-se a partir das bases nas comunidades rurais. Sendo assim, era necessáriotrabalhar politicamente debaixo para cima e não de cima para baixo como tinhaacontecido em todas as revoluções anteriores para transformar o país.“Acreditamos que se implementarmos as nossas ideias em Guangdong etivermos sucesso, este exemplo levará as restantes províncias a implementar sistemassemelhantes e o movimento alastrará a todo o país”, escrevia.Sem publicar legislação nova e numa atitude sem precedentes, Chen pôsentão em prática algumas medidas percursoras que só surgiriam nas sociedadesindustriais avançadas mais de uma década depois. Entre outras contava-se o direitodos trabalhadores negociarem colectivamente as suas condições de trabalho seminterferência do patronato. Ou seja surgiam na China os primeiros sindicatos.No entanto, as medidas radicais aplicadas pelo general revolucionário poucopassariam de mero esboço de projecto.Em 1913, o novo presidente Yuan Shikai, que queria fazer regressar a Chinaao regime imperial, consigo no trono, intimou as províncias a aceitarem as alteraçõesconstitucionais por ele decretadas. Claro que Chen, de novo em aliança com SunYat-sen recusou.Porém, apesar do apoio popular e do prestígio de que desfrutava, o generalanarquista seria forçado a abandonar o poder derrotado pelas tropas enviadas parao Sul por Yuan Chi Kai.Nessa altura, tanto os anarquistas de Chen como os socialistas revolucionáriose republicanos de Sun Yat-sen, estavam longe de possuir as forças militaresorganizadas e disciplinadas de que viriam a dispor alguns anos mais tarde com acriação da Academia Militar de “Whampoha”, onde se formariam entre outrosChang Kai-shek e Chu Enlai.Em resultado da contra ofensiva monárquica, os dois líderes não tiveramalternativa senão fugir do país e estabelecer em Macau uma espécie de governo noexílio.A escolha de Macau deveu-se ao facto de na colónia portuguesa seencontrarem em actividade os centros de comando partidários e as principais fontesSUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:59 Página 61
  • JOÃO GUEDES62de financiamento que pouco antes tanto tinham contribuído para a instauraçãoda República. Simultaneamente, as rotativas das tipografias locais, semi-adormecidas desde 1911, voltavam a acelerar reiniciando a impressão de jornaise panfletos com inflamadas proclamações. Todavia desta vez aos órgãos decomunicação militantes tradicionais pré-existentes juntavam-se novos títulos deíndole anarquista e marxista, as duas principais correntes que sustentavam orepublicanismo cantonense de então.Esse fervilhar revolucionário, que não era dirigido contra a presençaportuguesa em Macau colocava-a no entanto em sério risco.Pequim exigia a Portugal a prisão dos revolucionários e o encerramentodos jornais hostis de Macau, deixando subentender que o recurso à força para o efeito não seria excluído se as autoridades de Lisboa não respondessempositivamente.Os anos seguintes levantariam sérios desafios político-diplomáticos paraPortugal e para os governadores de Macau que se encontravam na linha da frenteda crise.O facto de Sun Yat-sen ter optado por permanecer pouco tempo em Macau,exilando-se novamente no Japão, contribuiu para aliviar em certa medida a tensãovigente, no entanto a presença reiterada de Chen Jiongming continuava a constituirproblema momentoso, já que para além de inimigo político era também chefemilitar, o que o tornava ainda mais perigoso do ponto de vista do velho general Yuan Chi Kai, do que o próprio Sun Yat-sen, já que se sabia que apesar de exiladonão perdera um segundo a reorganizar as suas forças dispersas nos dois “kuang”(Guangdong e Guanxi).Nesta conjuntura, em que qualquer decisão poderia conduzir ao desastre,assumiu papel de relevo Lou Lim Iok, o então líder da comunidade chinesa local quedesfrutando de boas relações com as hostes restauracionistas de Cantão conseguiuconter os ímpetos monárquicos no limite estrito da diplomacia, aconselhando passoa passo os governadores nessa difícil conjuntura.Para além de Lou Lim Iok, do lado português assumiram igualmente destaquecomo preciosos auxiliares do governo o jornalista Francisco Hermenegildo Fernandese o advogado Damião Rodrigues, para além de outros elementos da Maçonaria,instituição que, à época, possuía decisiva importância e influência na vida políticado Território.No entanto, a morte inopinada de Yuan Chi Kai em 1916 contribuiu umpouco para distender a atmosfera política de chumbo que se vivia.Com o desaparecimento do extemporâneo pretendente ao trono do “CelesteImpério”, Chen Jiongming conseguiu fazer reverter a situação a seu favor e retomaro poder em Cantão. A ele se juntaria novamente Sun Yat-sen.SUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:59 Página 62
  • MACAU CONFIDENCIAL63Nessa nova conjuntura, porém, a revolução passava estar confinada àsfronteiras da província. Assim, os dois dirigentes não encontraram alternativa senãodeclarar a cessação de Cantão e ali de novo proclamar a República.Facto consumado abria-se assim o pano para um segundo acto e nova crise.Com novos actores em palco a pressão voltaria a fazer-se sentir sobre Macau, como mesmo impacte, mas agora de uma forma mais evidente contra a presençaestrangeira.O nacionalismo ganhava corpo entre anarquistas e republicanos que apesardas divergências ideológicas que os separavam comungavam do mesmo sentimento:– Erradicar a presença colonial na China.No teatro local a década seguinte daria lugar a nova cena ainda mais crispadado que a anterior. No novo elenco o protagonista voltava a ser o general ChenJiongming, nas mãos do qual repousou incerto, durante longo período, o futuro deMacau até finais dos anos 20.SUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:59 Página 63
  • JOÃO GUEDES64ANARQUISTAS COMUNISTAS E SENHORES DA GUERRA |Frequentemente, nos relatórios diplomáticos americanos e ingleses, ChenJiongming era referido como “o general bolchevista”. No entanto tal não parece tersido o seu posicionamento como se viria a revelar. Quando muito seria o socialistamoderado que um observador descreve num relatório dirigido ao cônsul americanoem Amoy.É certo que foi o alegado “general bolchevista” que abriu as portas de Cantãoao Komintern, quando a província possuía, pode dizer-se, uma liderança bicéfala(constituída por ele próprio e Sun Yat-sen) no entanto, seria afinal Sun, que durantea reorganização do Kwomintang em 1924 faria uma aliança clara com Moscovo queenviou os seus conselheiros políticos e militares para a China, dando forma ao PartidoNacionalista.Na mesma altura Lenine, através de um enviado especial, sondou igualmenteChen quanto à possibilidade de um entendimento, mas este recusou a ajuda, talvezpor duvidar da revolução russa de que lhe chegavam notícias, mas que então seencontrava ainda numa titubeante infância.Regressado a Cantão em 1915, depois do temporário exílio de Macau, Chenreiniciou a obra que anos antes tinha deixado por concluir. Assim, procedeu a váriasreformas administrativas estabelecendo municípios em moldes modernos, organizoueleições autárquicas, implementou remodelações na educação e no sistema,incentivou campanhas de alfabetização com a criação de escolas nas fábricas etambém a doutrinação política do operariado e do campesinato.Mas a sua mais importante área de actuação e a que maior impacte socialprovocaria verificou-se neste último sector, ou seja, no mundo do trabalho.Nessa área os anarquistas inspirados por Liu Shifu, principal orientadorideológico de Chen, efectuaram um trabalho relevante junto das massas. Assim, deSUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:59 Página 64
  • MACAU CONFIDENCIAL65uma quase total ausência em 1911, o sindicalismo organizado surgiu e expandiu-sede tal forma que em 1922 a província contava com 130 sindicatos e mais de300.000 trabalhadores sindicalizados.Este movimento não se restringiu porém às fronteiras de Guangdongalastrando-se igualmente a Hong Kong e Macau.A acção dos anarco-sindicalistas fez-se sentir na colónia portuguesa atravésda rápida formação de associações de classe cujo número chegou a ascender a quaseoito dezenas segundo dados estatísticos da “Repartição de Administração Civil”.O primeiro sinal de que algo estava a mudar tinha tido lugar muito antes,em 7 de Agosto de 1909 com uma greve geral dos condutores de riquexós. Porémà data o incidente não mereceu atenção por parte das autoridades que semantinham convictas da imobilidade social da China e por conseguinte de Macau.O desengano surgiria (inesperado?) em 1922.Nessa data a capacidade organizativa dos trabalhadores locais era já umarealidade insofismável que só o governo teimava em não tomar a sério. Isto apesarde não desconhecer a situação como afirmava à época o publicista Jaime do Inso: – “Os ânimos na China andavam exaltados mercê da activa propaganda russa entreos chineses, e de Cantão foco vermelho de sempre no sul do ex-Celeste Império, irradiara para Macau, como não podia deixar de suceder, o vírus da revolta introduzidometodicamente pelos agentes (do Komintern) Yoff, Karakan, Borodine e tantosoutros que, nas escolas, nos quartéis, nas oficinas, nas ruas e nos campos, tinhamestendido habilmente a rede da sua propaganda cujos resultados no espírito simplistada população chinesa, a quem faziamcrer que os senhores de hoje passariama criados de amanhã, não havia de sefazer esperar. Os ânimos andavam exal-tados a ponto de Macau, a terra pacíficapor excelência, e que muitos chinesesricos preferem pela segurança e quieta-ção que aqui desfrutam ver nas ruasprocissões chinas, onde, em manifesta-ções verdadeiramente infantis, se faziamalusões deprimentes e de desafio ao“Diabo Estrangeiro”, como , por exem-plo, um chinês cavalgando a esfera ter-restre, como símbolo da China domi-nando o Mundo…”Nesse estado de espírito de queo escritor faz descrição concisamente Jaime do Inso. Oficial de marinha e escritor.SUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:59 Página 65
  • JOÃO GUEDES66correcta, mas eventualmente redutora a verdade é que se adivinharia que umqualquer pretexto bastasse para lançar as massas nas ruas contra o colonialismo. O pretexto foi encontrado em finais de Maio de 1922.Na sequência da prisão de desordeiros numa rixa que envolveu soldadosdo contingente militar de Moçambique estacionado no Território, despoletaram-semanifestações de protesto que culminaram no cerco a uma esquadra de polícia.O cerco terminou com a intervenção do exército que dispersou os manifestantesa tiro. Do tumulto resultaram dezenas de mortos e centenas de feridos. Face aoescalar da violência a lei marcial foi declarada. Por seu turno os sindicatos À greve de Macau seguiu-se pouco depois em Hong Kong processo grevistasemelhante, embora aqui a situação tenha atingido foros de ainda maior gravidadetanto em perda de vidas como em prejuízos económicos que decorreram docongelamento do tráfego marítimo num porto que já então servia uma das maisimportantes praças comerciais do Extremo Oriente.A imprensa macaense não hesitou em apontar o dedo acusador a Sun Yat-sen como mentor dos lamentáveis acontecimentos, reverberando-o pelo facto depagar assim a hospitalidade que Macau tantas vezes lhe tinha concedido em temposde crise.A este propósito e como curiosidade registe-se que nesse mesmo ano entreos candidatos a deputados por Macau ao Parlamento de Lisboa, figurava o nomedo próprio Sun Yat-sen, que apesar de tudo, ainda conseguiu o voto de um eleitor,num universo de 335 eleitores.Todavia a responsabilidade directa, ou indirecta, do inopinado candidato aoparlamento português nos acontecimentos de 1922 ainda hoje permanece poresclarecer por duas ordens de razões:Primeiro, porque à data dos acontecimentos Cantão encontrava-semergulhada num quase total caos político militar resultante da cisão que se revelariadefinitiva entre Sun Yat-sen e Chen Jiongming que estalara nessa altura.No campo sindical a cisão também se encontrava em vias de se efectivar entreos anarco-sindicalistas que viam em Chen um líder indiscutível e os que defendiama luta operária nos moldes marxistas-leninistas. Nesse Verão, a tal “propaganda” doKomintern, orientada por Borodine, e sublinhada por Jaime do Inso já produziaefeitos sensíveis retirando lenta, mas inexoravelmente a exclusividade a ChenJiongming na liderança do movimento operário. A fundação no ano anterior doPartido Comunista da China, por Chen Duxiu, que tinha sido ministro da educaçãode Chen Jiongming em 1920, tinha sido decisiva no isolamento do “generalanarquista”.Tendo esses factos em conta não custa admitir que as massas perante umjogo de forças momentaneamente inconclusivo tenham saído para as ruas maisSUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:59 Página 66
  • MACAU CONFIDENCIAL67como consequência de um movimento de inércia do que de uma acção dirigida eplaneada por uma liderança que na realidade estava muito mais ocupada entre sina luta pelo poder em Cantão do que em instigar motins nas colónias europeias daChina.Seja como for, certo é que a paz social em Macau e Hong Kong só serestabeleceu mais de um ano depois com a consolidação na presidência da“República Cantonense” de Sun Yat-sen e a ascensão de Chiang Kai-shek aocomando indisputado das principais forças militares de Guangdong e provínciaslimítrofes em finais de 1923.Aliás a derrota posterior de Chen Jiongming na luta contra Sun Yat-sen deve-se em grande parte às tropas de Chiang Kai-shek que enquadradas por oficiaisformadas na recém criada academia de Whampoa (fundada em 1924) instaladapelos conselheiros militares soviéticos, superavam largamente em disciplina eficiênciatáctica e armamento as forças do “general anarquista”.No entanto, a luta entre Sun e Chen, muito mais do que disputar-se noscampos de batalha travou-se essencialmente no terreno ideológico.Para Sun o futuro da China passava pelas teses de Lenine defensoras de umestado forte e centralizado num partido único, moldes em que reorganizou oKwomintang. No pólo oposto situava-se Chen, cujas raízes anarquistas o levavam adefender um regime socialista, pluri-partidário e uma China federalista tendo comomodelo os Estados Unidos da América.Apesar do apoio militar e financeiro, que depois do pronunciamento prósoviético de Sun, durante algum tempo lhe foi proporcionado pela Inglaterra atravésde Hong Kong, Chen não conseguiu resistir à máquina militar ascendente doKwomintang que acabou por esmagar o que restava das suas tropas reunidas nochamado “Exército de Guangdong” no bastião de Haifeng, a sua terra natal, ondetinha iniciado a sua vida política como chefe guerrilheiro algumas décadas antes.Em 1925, a colónia britânica abria-lhe as portas do exílio final.Apesar de banido, porém Chen não cessou de lutar pelo seu “socialfederalismo”.Pouco depois de se estabelecer em Hong Kong organizou e foi eleitopresidente do “Partido do Interesse Público” (Zhi Gong) continuando a criticar o sistema Nacionalista de partido único que depois do desaparecimento de Sun Yat-sen e a ascensão de Chiang Kai-shek rompeu definitivamente a aliança com Moscovo e levou a cabo uma acção fulminante de extermínio dos comunistasque integravam as fileiras do Kwomintang.O “Partido do Interesse Público” aderiu em 1947 à frente unida promovidapor Mao Tsé-Tung e é actualmente um dos oito partidos políticos aceites eoficialmente reconhecidos na República Popular da China.SUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:59 Página 67
  • JOÃO GUEDES68O protesto contra a decisão de Chiang Kai-shek de não confrontar o Japãoaquando da invasão da Manchúria (1931) e a campanha subsequente pelo boicoteà compra de produtos japoneses foram os seus dois últimos pronunciamentospolíticos antes de morrer vítima de febre tifóide na colónia britânica em 1933.Com Chen Jiongming morreria também a ideia federalista que chegou a seruma das mais acarinhadas doutrinas entre os intelectuais chineses dos convulsosanos vinte do século passado.SUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:59 Página 68
  • MACAU CONFIDENCIAL69ATRIBULAÇÕES DE UM REPUBLICANO PORTUGUÊS NAREPÚBLICA DA CHINA (1914-16) |Nas duas décadas que permearam entre o final do século XIX e o iníciodo século XX, a oposição parlamentar não monárquica, em Portugal, emboracontendo em si sensibilidades diferentes, era representada apenas pelo PartidoRepublicano, facto que fez com que fossem apenas os seus representantes aocupar o “Parlamento Constituinte” e a redigir a nova Constituição, dada à luzem 1911.Todavia, mal instalada a República, as diversas tendências iniciam ummovimento centrífugo, dando origem a novas formações partidárias entre as quaisse destacou desde logo o Partido Democrático (que viria a dominar pelos anossubsequentes o parlamento, umas vezes sozinho, outras coligado), o PartidoEvolucionista e o Partido Unionista, entre outros de menor expressão nacional,como o Partido Socialista, cuja influência era então quase nula nos corredoresparlamentares.Neste ponto convém lembrar que a República surgiu como um regime ondeo poder político residia apenas e só no parlamento, dependendo os executivos das maiorias que ali se formassem. O “Presidente da República” não passavapoliticamente de “figura de retórica” quase destituído de poderes para além dosde representação protocolar do Estado.Neste cenário, poderia retirar-se a ilação de que situação semelhante sereflectiria igualmente em Macau.Sendo que a palavra “Governo” fosse oficialmente aplicada, nomeadamentenos documentos legais e boletins oficiais, de facto não existia propriamente umgoverno, em Macau, mas apenas o Governador, já que esta era a figura queconcentrava os poderes executivo e legislativo (ainda que sob a tutela do Ministériodas Colónias).SUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:59 Página 69
  • JOÃO GUEDES70O governador delegava apenas poderes funcionais nos chefes das diversasrepartições que não passavam de meros funcionários públicos sem qualquerautonomia.Além disso o Governador era também o comandante militar do Território.A segunda figura da colónia era o Secretário-Geral do Governo,normalmente funcionário da administração ultramarina, que embora substituísseestatutariamente o Governador nos seus impedimentos, igualmente não possuíaqualquer autonomia política, ou administrativa, para além da faculdade de despachar assuntos correntes de menos importância que não necessitavam da aprovação do governador.Por isso a mera repetição em Macau do contexto político da Metrópole,não existia, de direito.Porém existia de facto e provocava tanta agitação como a que se verificavaem Portugal, ou mais ainda tendo em conta que a ela se adicionavam os problemassocio-políticos específicos da colónia.A nomeação dos governadores e dos funcionários públicos que ocoadjuvavam derivava de diferentes razões políticas, ou de empenhos pessoais eemanava muitas vezes de diferentes partidos, ou de outras forças presentes no teatropós revolucionário republicano com destaque para a Maçonaria e por algum tempoa “Carbonária”.Efectivamente, tanto os governadores como os principais funcionários eramnomeados pelo facto de pertencerem ou estarem próximos dos partidos e forçasdominantes em Lisboa, como serianatural.No entanto por vezes ocorriaprecisamente o oposto, ou seja, quandoao Terreiro do Paço convinha afastar fi-guras incómodas mas populares e pres-tigiadas, ou simplesmente influentes,que não tinham lugar na chefia das re-partições públicas, nos elencos ministe-riais, ou nas listas de candidatos a de-putados, a atribuição de um posto derelevo nas colónias era solução corren-temente adoptada.Finalmente, nalguns casos, eramrazões tácticas que levavam a nomearesta ou aquela figura para posto impor-tante no Ultramar a fim de a afastar das Carlos da Maia.SUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:59 Página 70
  • MACAU CONFIDENCIAL71intrigas da capital, esperando ali apenas notícias da alteração da conjuntura e domomento propício para regressar à ribalta lisboeta.Para muitos esse momento ia-se protelando e esses auto-exilados acabavampor ficar afastados, senão para sempre, pelo menos tempo demasiado para poderemvoltar a nutrir aspirações na Metrópole.Um exemplo dessa prática pode constatar-se no destino dado a uma partesignificativa da classe de sargentos, uma das que mais fervorosamente se bateupela República, particularmente os que com Machado Santos combateram,praticamente sozinhos, na Rotunda, nos dois, ou três dias, que ali se mantiveramsitiados a pé firme em armas, enquanto esperavam as adesões de outras forçasmilitares afectas, que depois de conhecidos o assassinato dos dois chefes darevolta, Miguel Bombarda assassinado por um doente mental (3 de Outubro de1910) e o suicídio do Almirante Reis, no dia seguinte, vacilaram e por isso tardavamem pronunciar-se.Com o regime, finalmente, triunfante, no dia 5 e a proclamação da República,na Câmara Municipal de Lisboa, o seu heroísmo foi propalado aos quatro ventos,mas o prémio do sacrifício acabaria por ser o de se verem preteridos nas promoções,ou ainda que de modos subtis, pura e simplesmente afastados.Esses bravos que apareciam nas fotografias rodeados pela aclamação demultidões em delírio, e nos panegíricos dos articulistas dos jornais não eram afinalmais do que bravos no limiar de serem transferidos das fileiras das forças armadaspara as fileiras do desemprego.Afinal diz-se que as revoluções têm tendência para devorar os seus própriosfilhos e neste caso mais uma vez assim foi. Não sobrariam arrivistas de última horapara os substituir.De algum modo, a República terá tido as suas razões para os abater à carga.De facto, uma significativa maioria dos sargentos era oriunda dos institutospolitécnicos, contando por isso habilitações académicas que os qualificavam,estavam fortemente politizados, possuíam vincado sentido de classe e pertenciamna sua esmagadora maioria à “Carbonária”, organização que os enquadrava e quedefendia posições de grande radicalismo.O Conjunto dessas características fazia, assim, com que o novo regime vissena classe de sargentos não a guarda pretoriana da República, mas apenas umelemento desestabilizador, num momento em que qualquer radicalismo poderia pôrem perigo a consolidação das novas estruturas de poder.Um dos visados por esta primeira purga republicana foi Domingos Gregórioda Rosa Duque, que deixou nome no jornalismo e na política em Macau.Articulista na polémica revista dos sargentos do exército que se publicava emLisboa, foi convenientemente mobilizado para Angola na perspectiva de que o SolSUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:59 Página 71
  • JOÃO GUEDES72dos trópicos se não lhe amolecesse a pena, e a exaltação pelo menos lhe moderasseas ideias.No entanto assim não aconteceu e em Angola, Rosa Duque não se calou,continuando a afrontar arrivistas e vira-casacas, proclamando alto e bom som osseus pergaminhos da Rotunda o que lhe valeu a expulsão das forças armadas e novoexílio mas desta vez na mais longínqua Macau.Só muitos anos mais tarde o regime pelo qual tão denodadamente tinhacombatido lhe devolveria o que lhe deveria ter dado no dia seguinte ao da Revolução.A reintegração no exército com o posto de capitão.Neste caso diga-se, de passagem, que se o exército terá perdido um bomoficial, a República ganhou, ainda que no extremo mais oriental do Portugalultramarino de então, um dos seus mais estrénuos e indefectíveis defensores epropagandistas, sem peias mas também sem ressentimentos.“A Verdade” e “O Combate”, jornais que aqui fundou e dirigiu estão aí aprová-lo.No caso de Carlos da Maia, a razão da sua vinda para Macau constituiassunto bem menos claro e por isso mais difícil de abordar do que o de Rosa Duque,mas não parece haver dúvidas de que se tratou também de um afastamentointencional dos centros de decisão de Lisboa.O que não se sabe é se teria sido voluntário, ou forçado.Na panóplia dos militares republicanos, Carlos da Maia era sem dúvida osegundo dos seus mais prestigiados líderes, quase a par de Machado Santos.Mas enquanto este, um pouco à semelhança do capitão Salgueiro Maia, do25 de Abril, se manteria bem mais estritamente nos domínios castrenses, ocupandoapenas uma pasta política de relevo durante o breve consulado de Sidónio Pais,Carlos da Maia rapidamente despiu a farda para passar a envergar o fraque civil nosmeandros da política.Nessa data, a instabilidade no país acentuava-se, com a eminência da entradade Portugal na “Primeira Grande Guerra Mundial”.A bipolarização entre os que apoiavam a participação nacional no conflito e os que a rejeitavam era mais do que nunca evidente. Assim qualquerpronunciamento num, ou noutro sentido, tanto poderia significar uma ascensão em glória, como o fim em apróbio de qualquer carreira política.Nada traduzia melhor a situação do que a formação do primeiro governoque enfrenta o limiar da entrada de Portugal na “Grande Guerra Mundial” (1914-18) e que era maioritariamente constituído por independentes, escusando-se amaioria dos dirigentes partidários a dele fazerem parte.Afonso Costa, chefe do “Partido Democrático” dava o mote retirando-seestrategicamente, nessa altura, para a docência ao assumir a direcção da FaculdadeSUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:59 Página 72
  • MACAU CONFIDENCIAL73de Direito, de Lisboa. Como ele outras figuras faziam compassos de esperaaguardando clarificação da correlação de forças.A eminência da entrada de Portugal na guerra e a possibilidade de o conflitose estender à região Ásia Pacífico terá sido a razão oficial aduzida para nomear Carlosda Maia governador de Macau.Todavia, o facto de pertencer à “Carbonária” tornava-o naturalmente tambémfigura que interessaria a todos muito mais afastar do que manter perto de S. Bento.Mas se em Macau o governador era quem tudo mandava, outras figuras aquiviviam e faziam política.Entre elas contavam-se oficiais da marinha e do exército em comissão deserviço que tinham participado activamente no 5 de Outubro que não só exerciamas suas funções militares, mas também cargos civis na administração.Por outro lado, Macau constituía um círculo eleitoral com direito a eleger umdeputado e um senador para o congresso de Lisboa, os quais não dependiamhierarquicamente do governador.Em 1914, Carlos da Maia vem encontrar em Macau tanto no contexto civilcomo militar, uma situação política complexa.Tanto mais complexa quanto a recém proclamada “República da China”lutava pela sobrevivência contra forças reaccionárias que ameaçavam proclamar denovo a monarquia imperial e nesse tempo Macau era ponto focal da resistênciarepublicana contra os que queriam repor o passado.SUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:59 Página 73
  • JOÃO GUEDES74INTRIGA POLÍTICA E DISSIDÊNCIAS REPUBLICANAS EM MACAU |O Secretário Geral do Governo, Manuel Ferreira da Rocha, que tinhaingressado nos quadros do funcionalismo administrativo ultramarino, pela mãode Carlos da Maia, na sequência imediata do 5 de Outubro de 1910, liderava ashostes do partido da “União Republicana”, formação que tinha resultado da cisãoda ala mais à direita do partido conservador de António José de Almeida. Asamizades estudantis (se é que tinham existido) entre os dois já lá iam!...A agravar a situação, Carlos da Maia e Ferreira da Rocha mantinham entresi apenas relações estritas de serviço, já que um diferendo anterior os tinhaafastado ao ponto da ruptura das relações pessoais, pouco depois de Carlos daMaia ter chegado a Macau.Na presidência do Leal Senado encontrava-se o tenente-coronel José Luís Marques, republicano conservador e tal, como Carlos da Maia, tambémmaçom.Figura local muito prestigiada, José Luís Marques terá recebido o novogovernador senão calorosamente pelo menos num espírito de colaboração políticae institucional.Porém, a breve trecho, o relacionamento entre os dois haveria também demudar de feição.O diferendo parece ter-se devido à proposta de alteração do estatutoOrgânico de Macau elaborada por Carlos da Maia e enviada ao Governo deLisboa, ao que se diz, sem prévia auscultação da população local.No articulado do novo estatuto, o governador incluía a extinção domunicípio e a sua transformação em secretaria na dependência do Governo,embora propusesse a manutenção da designação “Leal Senado” por questõesde tradição histórica.SUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:59 Página 74
  • MACAU CONFIDENCIAL75O caso não agradou ao presidente da edilidade e produziu consequênciaspolíticas bastante negativas para Carlos da Maia, como se verá, mais à frente.Embora o próprio Governador fosse oficial da Armada, ao longo da suaadministração não evidenciou grande sentido corporativo em relação aos seuscamaradas de ramo, alguns dos quais desempenhavam funções civis de relevo naadministração da colónia.Entre estes contavam-se os primeiros-tenentes Luís António MagalhãesCorreia e João de Freitas Ribeiro.A cada um destes oficiais coube em diferentes fases e por inerência os cargosde Comando da Canhoneira Pátria, que correspondiam à chefia da guarnição naval,Capitania dos Portos, Superintendência do Comércio do Ópio (então uma dasprincipais fontes de receitas do governo), e ainda a direcção dos Serviços deMeteorologia.Saliente-se que João de Freitas Ribeiro era também Maçom. IgualmenteMagalhães Correia o seria também.Tendo em conta que o programa de administração de Carlos da Maia passava,com grande prioridade, pela demarcação das águas territoriais de Macau, missãoque estava cometida a Freitas Ribeiro e que incluía a regularização do Porto Interior,bem como a vigilância do tráfego marítimo nessas águas e ainda o controlo docomércio do ópio, lógico seria supor que entre os dois oficiais referidos e ogovernador existissem relações de grande confiança. Tanto mais que os trabalhosde fixação de limites marítimos sempre tinha constituído pomo de discórdia entrePortugal e a China e eram aproveitadas pelas correntes nacionalistas, principalmentede Cantão, para pressionar Sun Yat-sen no sentido de acabar com a presençacolonial portuguesa em Macau.Sublinhe-se, em termos de parêntesis, que processo idêntico tinha lugarcontra a presença inglesa em Hong Kong, embora ali a questão diferisse em largamedida já que o território tinha sido militarmente ocupado (1841) e as fronteirasmarítimas e terrestres exactamente traçadas (pelos decisores políticos e militaresingleses) e subsequentemente vigiadas por linhas fortificadas, destacamentosmilitares e forças navais designados para as fazerem valer.Porém certo é que se tais relações existiram, entre Carlos da Maia, FreitasRibeiro e Magalhães Correia, foram sol de pouca dura, subsistindo antes um climade crispação que se acentuaria à medida que os meses passavam.Essa crispação revelava-se por vezes em assuntos aparentemente triviais,como foi o caso da récita que anualmente a tripulação da canhoneira Pátria levavaa efeito.Ao que parece os organizadores teriam convidado Carlos da Maia de formapouco protocolar, que o Governador considerou acintosa.SUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:59 Página 75
  • JOÃO GUEDES76A récita acabaria assim por ser proibida, por ordem verbal dada a quemcompetia e que era nem mais nem menos do que o secretário geral Ferreira daRocha, o que provocou mais um motivo de divergência entre os dois, já que Ferreirada Rocha, como jurista, alegava que tal ordem só poderia ser executada no âmbitode uma lei que proibisse os militares de todos os ramos das forças armadas emMacau, de participarem em espectáculos públicos.Tal facto afigurar-se-ia de má política, tanto mais que o exército levavatambém a efeito regularmente no Clube Militar e no Clube dos Sargentos variadossaraus, alguns, com larga tradição e popularidade.A proibição, diga-se, colocava também o próprio Ferreira da Rocha numaposição embaraçosa perante os seus correligionários, o que nada lhe convinha jáque nessa altura encetava os primeiros passos de uma carreira política que começariacomo deputado, em S. Bento, em 1919 e culminaria como Ministro das Colónias.Para além dos diferendos com o seu principal auxiliar na administração local,Carlos da Maia confrontou-se também com a animosidade de alguns outrosimportantes oficiais de marinha, contra os quais empreenderia batalhas políticas queacabaria, nuns casos por perder, noutros apenas por se ficar pelo “empate técnico”.Uma das mais salientes contendas foi levada a cabo contra o primeiro tenente, Francisco Gonçalves VelhinhoCorreia, igualmente maçom e destacadoelemento do Partido Democrático, bemcomo contra o capitão-tenente médico,António José Gonçalves Pereira, esteconsiderado como sendo do Partido Re-publicano, de António José de Almeida,quando os dois se juntaram para dis-putar as eleições gerais de 1915, o primeiro como deputado e o segundocomo senador.O mais activo dos dois era semdúvida Velhinho Correia, que defendiaas reivindicações antigas da classe dossargentos, e era por isso popular entresub-oficiais e soldados.Contra si tinham os candidatosCarlos de Melo Leitão e César AugustoFreire de Andrade, que se afirmavam re-gionalistas e independentes de qualquerpartido da Metrópole, isto apesar deVelhinho Correia deputado de Macau em Lisboa, Ministro e procurador à Câmara Corporativa do “Estado Novo”.SUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:59 Página 76
  • MACAU CONFIDENCIAL77ambos serem filiados na “União Republicana” e aqui actuarem evidentementecomo tal.A luta parecia ser à partida desigual, tanto mais que Carlos Leitão e Freire deAndrade tinham, por eles, o jornal, “O Oriente Português”, de que era director opróprio Carlos Leitão.No entanto quem o dirigia de facto era o secretário-geral do governo, Ferreirada Rocha, que também nele escrevia, bem como o próprio Carlos da Maia, emboraem artigos não assinados, ou sob pseudónimo.Para além do apoio dos marinheiros, que em termos de potenciais votantesesteve sempre em dúvida devido às divergências sobre a inclusão ou não dosmilitares em comissão de serviço em Macau, nos cadernos eleitorais, Velhinho Correiae Gonçalves Pereira não contavam com qualquer órgão de comunicação social quelhes abrisse as suas páginas.Isto apesar de Gonçalves Pereira ser parente de Luís Nolasco da Silva, que porseu turno dirigia o jornal “O Progresso”, bem mais firmado na comunidade do queo “O Oriente Português”, que era visto como uma emanação directa do Palácio daPraia Grande.Esta situação mudaria radicalmente quando se soube mais precisamente daproposta de alteração do Estatuto Orgânico de Macau, que incluía, como disse, aextinção do Leal Senado.A partir dessa altura “O Progresso” muda de orientação política passando aapoiar Velhinho Correia e Gonçalves Pereira e a apresentá-los como “deputados dopovo”.De notar que esta reviravolta de “O Progresso”, lhe valeu contundentescríticas por ter sido considerada como uma quebra de coerência na sua oratóriacontra as divisões no seio dos partidos.Para além de Luís Nolasco, surgiu também nas páginas de “O Progresso” apugnar, o presidente do Leal Senado, Luís Marques, que já anteriormente referi,defendendo regulamente em artigos de fundo, Velhinho Correia e Gonçalves Pereiracomo os melhores defensores dos interesses macaenses na “Metrópole”.Assim, e numa das mais concorridas eleições registadas em Macau durantea 1ª República, Velhinho Correia e Gonçalves Pereira acabariam eleitos a consideráveldistância dos seus adversários.Diga-se que, pelo menos, Velhinho Correia não desmereceu os compromissoseleitorais a que se amarrara na campanha, protestando posteriormente noparlamento contra o saque de dinheiro de Macau pelo governo de Lisboa econtinuando a usar as páginas de “O Progresso” para dar conta das suas actividades.Velhinho Correia abandonaria o parlamento por ter sido mobilizado para afrente de combate na sequência da entrada de Portugal, na 1ª Guerra Mundial.SUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:59 Página 77
  • JOÃO GUEDES78Regressado, no final do conflito, a Portugal, foi Ministro do Comércio, em1920 e das Finanças, em 1923.Tendo aderido ao Estado Novo, foi feito procurador à Câmara Corporativa eVice-Governador do Banco de Portugal, deixando publicados diversos estudos sobreeconomia finanças e assuntos coloniais.Outra frente de combate aberta por Carlos da Maia foi contra o comandanteda canhoneira Macau, João Freitas Ribeiro, bem como contra o capitão dos Portos,Luís António de Magalhães Correia.Os motivos das dissenções não são inteiramente conhecidos, mas o que sesabe é que os dois apresentariam uma queixa dirigida ao Ministro das Colónias(Afonso Costa) por motivos que não consegui especificar já que o processo sobre oassunto constante no Arquivo Histórico contém apenas e só, a capa com um númeroe no interior uma única folha de rosto que refere a existência da queixa e os nomesdos queixosos sem mais nada que esclareça o que quer que seja.Refira-se que, Luís António de Magalhães Correia, depois de um regresso àMetrópole, voltaria a Macau como governador em 1922, nomeado pelo primeiro-ministro António Maria da Silva, também este, tal como Carlos da Maia, carbonárioe ainda que mais do que aquele líder supremo (Grão-mestre da “Alta Venda”).O saque de dinheiro da Metrópole a Macau, que levou Velhinho Correia aprotestar veementemente ainda que sem resultados em S. Bento, terá sido (entreoutros) motivo determinante que levouao final antecipado da comissão gover-nativa de Carlos da Maia, em Macau.Discordando das exigências dogoverno central, apresentou, acto con-tínuo, o seu pedido de demissão, pedidoque não seria aceite por Afonso Costa,que sobraçava então a pasta das Coló-nias.Mesmo assim Carlos da Maia,não hesitou e no dia 5 de Setembro de1916, embarcava com a família comdestino à Metrópole, sem explicitar maisrazões de que a necessidade de confe-renciar pessoalmente com o ministro.O seu sibilino secretário-geral(Ferreira da Rocha), não deixaria de lhelembrar que a sua atitude não se qua-donava com os procedimentos do Luís António de Magalhães Correia. Oficial deMarinha, Governador de Macau.SUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:59 Página 78
  • MACAU CONFIDENCIAL79Direito Administrativo, nem com a jurisprudência e porventura com as leis geraisda República. Mas o radical Carlos da Maia pouco se importou com isso. Fez asmalas, foi-se embora e pronto!…SUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:59 Página 79
  • JOÃO GUEDES80A RETIRADA OFICIOSA DE UM GOVERNADOR CORAJOSO |Retomo aqui a última parte de uma série de três artigos sobre a passagemde Carlos da Maia por Macau como Governador. Um assunto que me foi suscitadopelo facto de ter descoberto, um tanto inopinadamente, uma carta do Secretário-geral do Governo (Ferreira da Rocha) dirigida a Afonso Costa (eterno líder da 1ª República) em que se queixava amargamente do seu superior hierárquico.É uma carta mais pessoal do que política, na qual Ferreira da Rocha se justificaaté à exaustão. Revela bem o que era então a política em Macau e, afinal, o quecontinuaria a ser nos anos e décadas seguintes, ou seja: – uma impossibilidade dedestrinçar claramente entre ideologia, sentido de estado e rivalidades pessoaispatentes que se sobrepunham, muitas vezes a quaisquer outras considerações numapequena cidade em que todos se conheciam e em que os defeitos, mais do que asvirtudes eram facilmente exaltados e ampliados do que a defesa serena dos interessescolectivos.Aliás a carta de Ferreira da Rocha termina elucidativamente assinando: – “Ferreira da Rocha, Secretário-Geral fazendo as vezes de Sua Ex.ª o Governador na sua ausência” (!…).Retomemos então: – Foi assim que com a inopinada partida de Carlos daMaia, as rédeas da administração ficaram nas mãos do seu inimigo pessoal (maisdo que político) que era Ferreira da Rocha, ainda que não na qualidade degovernador interino.De facto o despacho de Carlos da Maia deixava expresso que Ferreira daRocha apenas administraria assuntos correntes e cumpriria à risca as instruçõespolíticas que lhe continuaria a enviar de Portugal e que lhe seriam comunicadas peloseu ajudante de campo (que permaneceu em Macau), governando Ferreira da Rochaem seu nome. Apenas e nada mais do que isso.SUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:59 Página 80
  • MACAU CONFIDENCIAL81As relações de Carlos da Maia com Ferreira da Rocha, que pessoalmente jánão existiam, desde praticamente o início do seu mandato, tinham-se deterioradototalmente e igualmente do ponto de vista institucional.Sobre esse facto será ilustrativo citar o próprio Ferreira da Rocha em cartapessoal dirigida a Afonso Costa que o ilustra bem.Diz Ferreira da Rocha:… Depois S. Ex.ª mostrou-me categoricamente os termos em que queriaassinadas as portarias provinciais na sua ausência e deu-me uma minuta de portariapara a entrega do governo.… Começara eu a ler a portaria, quando S. Ex.ª me disse mais que eu nãome serviria da carruagem do governo pois tinha eu verba de representação e comela poderia alugar carros.Seguidamente mandou que eu dissesse se aceitava o Governo porqueprecisava de saber a tempo o que tinha de fazer.Hesitei um instante sem saber o que responder; não tinha eu que dizer seaceitava ou não uma função que como consequência da lei era inerente ao meu cargo.Noutro passo escreve Ferreira da Rocha:Depois disse-me S. Ex.ª o Governador que não queria que eu me servisse doPalácio do Governo (Palácio da Praia Grande). Respondi-lhe logo que não tencionavaAfonso Costa entre os líderes republicanos.SUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:59 Página 81
  • JOÃO GUEDES82ir residir para o palácio e que continuaria a viver na casa alugada onde moro. S. Ex.ªdisse então que não se referia só à residência, mas também a qualquer uso do Paláciodo Governo, que este ficaria fechado e que despachasse eu na Secretaria-geral, quereunisse os conselhos onde quisesse: que pedisse mesmo para esse fim, se talprecisasse, uma sala à Câmara Municipal.Mostrei a S. Ex.ª: que a Secretaria Geral instalada juntamente com aRepartição do Expediente Sínico, a Procuradoria Administrativa dos Negócios Sínicos,a Administração do Concelho, o Comissariado da Polícia e os calaboiços dos presos,numa antiga casa particular comprada pelo Estado, não dispunha de mais umgabinete sequer onde eu pudesse receber chefes de repartições a despacho (actuaisdirectores de serviços).Mais adiante continua:Eu não devia enquanto substituísse S. Ex.ª dispensar um gabinete próprioadequado, onde recebesse chefes de serviços, ou pessoas de categoria, que, em diasde recepção oficial, como o aniversário da República, não podia receber osfuncionários senão no Palácio do Governo; que se tivesse de dar um jantar oficialnão poderia fazê-lo na minha modesta residência; que não tinha onde reunir osconselhos do Governo de Instrução Pública, Obras Públicas, Obras do Porto, etc.,que à testa do Governo não pediria à Câmara Municipal casas emprestadas paraesse fim, estando convencido que nem mesmo S. Ex.ª faria tal pedido e pedifinalmente a S. Ex.ª que fechasse o primeiro andar do Palácio onde instalara a suaresidência mas que deixasse abertas as salas exteriores do rés do chão, isto é ogabinete de despacho e a sala de reuniões dos Conselhos (estas salas seriam maistarde continuadamente ocupadas pelo (Conselho Legislativo, anterior ao 25 de Abrilde 1974 e mais tarde pela Assembleia Legislativa).… S. Ex.ª manteve-se por fim intransigente afirmando que à sombra deexcepções que fizesse, os seus inimigos o iriam desprestigiar na sua própria casaenquanto ele ainda fosse Governador.Insisti em que não iria residir para o Palácio do Governo, embora o pudessefazer. S. Ex.ª exclamou que não devia eu dizer tal coisa, porque não ia nem haviade ir para o Palácio.Claro que a intransigência de Carlos da Maia não teve efeitos práticos,embora a situação de indefinição quanto à manutenção no cargo do Governadorse prolongasse pelos sete meses seguintes até Maio de 1917, data em que umdespacho do novo governo de Afonso Costa o exonerava do cargo.Mas o caso acabaria por se prolongar afinal ainda mais.É que a exoneração seria logo a seguir anulada, e o governo de Macau, maisuma vez entregue a um interino, Vieira de Matos, que substituía um Conselho deGoverno, que antes, por seu turno, tinha substituído, Ferreira da Rocha.SUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:59 Página 82
  • MACAU CONFIDENCIAL83Assim e para todos os efeitos, Carlos da Maia continuou durante mais de umano a ser, nominalmente, Governador de Macau, até finalmente a sua demissão serplenamente aceite e nomeado Governador Artur Tamagnini Barbosa, em 1918 (estasituação faz lembrar o longo e atribulado período de substituição do GovernadorCarlos Montez Melancia (1987-91) durante o qual Macau foi governado igualmenteinterinamente pelo Secretário-Adjunto Murteira Nabo sem se saber quem seria opróximo governador. Se o interino, ou se alguma nova personalidade que Lisboadecidisse nomear.Em todo este “imbróglio”, de salientar o facto de Carlos da Maia, apesar dasua condição militar, ter optado sempre, em Macau, por se apoiar não nos seuscamaradas da marinha mas nos da guarnição de terra.Alguns casos exemplares eram não só os rumores sobre a intenção depretender entregar o governo da Colónia a um oficial do exército, mas também ode ter conferido o comando da guarnição da Ilha da Lapa a outro oficial do mesmoramo, embora este comando estivesse sedeado num navio surto no Porto Interior, oque motivou novas queixas da Armada.Outra questão relevante para a qual não encontro resposta cabal é o factode em Macau a maioria dos inimigos políticos de Carlos da Maia pertencerem, talcomo ele, à maçonaria e à carbonária.Palácio da Praia Grande. Sede do Governo e residência dos governadores até à década de1950. Actualmente continua a ser a sede (ainda que apenas formal para as grandes recepçõesdo governo da Região Administrativa Especial de Macau).SUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:59 Página 83
  • JOÃO GUEDES84Uma possível explicação para este facto aparentemente anómalo poderáprender-se com a ocorrência de uma cisão na Maçonaria Portuguesa, referida pelohistoriador A. H. Oliveira Marques, segundo o qual ocorreu nessa altura (1914) umadissidência na principal obediência maçónica portuguesa, o “Grande OrienteLusitano”, tendo sido Carlos da Maia um dos que a encabeçou.Não esquecer que a Maçonaria e o seu braço armado que era a “Carbonária”serem unanimemente considerados pelos historiadores como as organizações queestiveram na base da proclamação da República e os verdadeiros centros de poderacima dos partidos, durante todo o período da 1ª República.Concluo referindo que apesar de todas as dissenções, jogos políticos, amizadese inimizades pessoais, certo é que as grandes linhas políticas implementadas porCarlos da Maia, em Macau, não foram interrompidas com o seu mal esclarecido finalde mandato, mas prosseguidas pelos seus sucessores, com maior ou menor sucesso.Até mesmo a alteração do “Estatuto Orgânico do Território” foi levada a bomtermo se exceptuarmos o tocante ao artigo que previa a extinção da CâmaraMunicipal (Leal Senado), que tacitamente seria deixado cair.Depois de abandonar Macau, Carlos da Maia aderiu ao movimentonacionalista que antecedeu o 28 de Maio de 1926, liderado por Sidónio Pais, antesde se retirar da vida pública amargurado com a política e com os políticos.… A camioneta continuou a sua marcha sangrenta, agora em busca de Carlosda Maia, o herói republicano do 5 de Outubro e ministro de Sidónio Pais. Carlos daMaia inicialmente não percebeu as intenções do grupo de marinheiros armados.Tinha de ir ao Arsenal por ordem da Junta Revolucionária. Na discussão que se seguiusó conseguiu o tempo necessário para se vestir. Então, o cabo Abel Olímpio, o Dentede Ouro, agarrou-o pelo braço e arrastou-o para a camioneta que se dirigiu aoArsenal. Carlos da Maia apeou-se. Um gesto instintivo de defesa valeu-lhe umacoronhada brutal. Atordoado pelo golpe, vacilou, e um tiro na nuca acabou com asua vida.A camioneta, com o Dente de Ouro por chefe, prosseguiu na sua missãomacabra. Era seguida por uma moto com sidecar, com repórteres do jornal Imprensada Manhã. Bem informados como sempre, foram os próprios repórteres quedenunciaram: «Rapazes, vocês por aí vão enganados… Se querem prender MachadoSantos venham por aqui…». Acometido pela soldadesca, Machado Santos procurouimpor a sua autoridade: «Esqueceis que sou vosso superior, que sou Almirante!».Dente de Ouro foi seco: «Acabemos com isto. Vamos». Machado Santos sentou-sejunto do motorista, com Abel Olímpio, o Dente de Ouro, a seu lado. Na AvenidaAlmirante Reis, a camioneta imobiliza-se devido a avaria no motor. Dente de Ouro eos camaradas não perdem tempo. Abatem ali mesmo Machado Santos, o herói daRotunda.SUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:59 Página 84
  • MACAU CONFIDENCIAL85Morreria, assim, com ficou descrito, assassinado na noite sangrenta de 19de Outubro de 1921, juntamente com Machado Santos, que com ele fundara aRepública, num episódio ainda hoje mal esclarecido, conhecido pelo incidente da“Camioneta Fantasma”. Um momento tão dramático, como pungente, que ficariapara a história de Portugal perpetuado de modo semelhante ao que para os EstadosUnidos da América ficou o assassinato do presidente John F. Kenedy (Dallas, 2 deNovembro de 1963), dando lugar desde então a todo o tipo de especulações e boapena a sucessivas gerações de cultores da “teoria da conspiração”.Que “jagunço” de alguém seria o transmontano Abel Olímpio o ”Dente deOuro”? Quem seria ele próprio? Ainda hoje está por se saber ao certo!… Apesardas entrevistas de Berta Maia.A “Camioneta Fantasma”.SUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:59 Página 85
  • JOÃO GUEDES86Berta MaiaPáginas para a história da mortevil de Carlos da Maia, republicano– combatente de 5 de Outubro –2ª Edição AumentadaLisboa1929SUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:59 Página 86
  • MACAU CONFIDENCIAL87A CASA DO MANDARIM E OS ESQUECIDOS DA MEMÓRIA |Felizmente que neste últimos anos se começa a falar em Macau de figurasque ao longo de quase dois séculos foram expurgadas da memória histórica poracção, ou omissão, decorrentes dos ciclos conjunturais da política. Refiro-meconcretamente ao letrado filósofo economista Zheng Kuan Hin que depois de tervisto a sua casa recentemente restaurada ali ao pé da “Fonte do Lilau” (vencidospreconceitos inumeráveis e várias décadas), parece ter passado a ser fonteinspiradora para novas iniciativas culturais, nomeadamente a criação de um centroem Coloane com o seu nome promovido pelo “Instituto Cultural”. A iniciativa é delouvar a todos os títulos.Ao contrário de Sun Yat-sen, ou Mao Tsé-Tung, Zheng Kuan Hin, permaneceuno limiar de ser apagado liminarmente da história. Não porque as suas ideias nãotivessem influenciado os dois nomes citados, nem porque não tivesse deixado deinfluenciar, também, várias gerações posteriores. Principalmente no período queantecedeu a queda da última dinastia imperial da China e a proclamação daRepública Popular em 1949, mas simplesmente porque Zheng Kuan Hin pertenceua uma geração intelectual inexoravelmente vencida pela força dos ventos da história.De facto o “mandarim” não era republicano e muito menos socialista. Nasceue viveu bem antes destes dois conceitos se firmarem claramente no Mundo Ocidentale no Oriente em particular.Zheng era um monárquico apaixonado pela ciência e pela modernidadesócio-política que absorvia todos os dias em Macau, onde vivia, alcandorado na suacasa da antiga “Praia do Manduco”. Um homem que acreditava que era possívelrestaurar o regime sem pôr em causa a harmonia tradicional confucionista. No planopolítico, prático, seguia como exemplo a restauração “Meiji” do Japão que sem porem causa a tradição tinha limitado os poderes imperiais através de uma “ConstituiçãoSUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:59 Página 87
  • JOÃO GUEDES88do Estado” e a criação de um parlamento, onde, alegadamente, o povo, através dosseus representantes, faria ouvir a sua voz. E certo é que o Japão deu com essareforma um salto histórico para a modernidade.Por outro lado ouvia (em Macau) as vozes ocidentais do livre comércio e dalivre expressão que lhe estavam associadas e que se demonstravam em termospujantes na iniciativa privada; nas novas descobertas da ciência; e na “caixa depandora” repleta de maravilhas que se sucediam nesse século das luzes que prometiaa felicidade a toda a gente. Ricos e pobres, desde que os enunciados de DavidRicardo, em termos económicos, e as propostas (em termos político-sociais) deRousseau fossem cumpridas. Rousseau em menor grau, já que Confúcio tinha dito,mais palavra, menos palavra, mais conceito, menos conceito, o mesmo que o filósofofrancês tinha escrito milénios depois. A miséria, a fome a escravidão e a infelicidademilenares na China seriam inexoravelmente vencidas com a adopção de uma novaglobalidade que Pequim ainda não estava preparada para entender nesses tempose recusava liminarmente.Só que Zheng Kwan Hin acreditava na regeneração do regime a partir decima, ou seja do topo da pirâmide social, não concebendo que fossem as bases adesencadear o futuro.Foi esse o seu único engano e a sua quase obliteração da história como marcoreferencial.Paralelamente, nesses tempos, outras figuras que, igualmente, com ele seequiparavam em intelectual vigor e que irrevogavelmente se obliteraram na memóriapolítica dos dias de hoje estavam também.Falo de Kang Youwei, figura que em Macau viveu longos períodos e quedefendia o fim da propriedade privada e da família no interesse de um futuronacionalismo. Kang citava Confúcio como exemplo de reformador e não comoreaccionário como era visto pelas correntes intelectuais mais hodiernas da sua época.Kang era um militante da transformação da China no contexto de umamonarquia constitucional e pretendia, tal como Zheng Kwan Hin, remodelar o paísà imagem da transformação Meiji japonesa. Essas ideias valeram-lhe uma oposiçãounânime e exacerbada da classe intelectual, tanto modernista como tradicionalista,que deitaram inexoravelmente a sua figura por terra.O último estertor político de Kang ocorreu em 1917, quando já em plenaRepública tentou um golpe de estado destinado a instituir na China a sua sonhada“Monarquia “Constitucional”. Foi uma utópica tentativa inexoravelmente destinadaao fracasso. Os tempos eram outros e muito outros.Kang, juntamente com o seu discípulo Liang Qichao, tinham sidoprotagonistas da campanha de modernização do “Império” durante o período queficou conhecido como “A Reforma dos Cem dias” durante o reinado do ImperadorSUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:59 Página 88
  • MACAU CONFIDENCIAL89Guangxu (1875-1908). Uma reforma abruptamente interrompida pela “ImperatrizMãe “Cixi” em 1898.Liang Qichao, que iniciou a sua vida política igualmente em Macau, onde foiresponsável pela abertura dos primeiros jornais em língua chinesa da colóniaportuguesa, para além de diversas escolas e dos célebres “clubes de leitura”, queprocuravam incentivar, exactamente, os hábitos de leitura pelas classes populares (umdos quais, porventura, com alguns simbolismo se situava fronteiro onde hoje seencontra a Livraria Portuguesa, na Rua Pedro Nolasco da Silva, mais conhecida por Ruadas Mariazinhas) fez o que pôde para acabar, nomeadamente não só com a ignorânciageral e o analfabetismo, mas também com os atentados aos direitos humanos.Nomeadamente com o desgraçado “tráfico de cules” que tanta fortuna pessoal trouxea várias famílias de Macau quanto vergonha lhe granjeou internacionalmente.Eça de Queiroz, um dos maiores nomes das letras portuguesas se encarregariade denunciar este período negro da história de Macau, do outro lado do Mundo,nas Antilhas, num movimento de desagravo pelos direitos humanos. Isto como seum e outro (Liang e Eça) se conhecessem. Mas a verdade é que nesses tempos oque os unia era apenas um sentimento, já que a tal globalidade estava longe de serealizar (o telégrafo de “a Cidade e as Serras” era ainda exclusivo da Europa, dacomunicação entre embaixadas e entre os correspondestes da agência “Reuters”) oresto do mundo ignorava-se literalmente.A Imperatriz “Cixi” pôs termo abrupto às reformas e ordenou a execução dos“macaenses” Kang e Liang que se eximiram à sentença fugindo de Pequim. Primeiropara Macau e posteriormente para o Japão.Na sequência da fuga, durante a estada em Macau, Liang fundou e organizoua oposição intelectual ao absolutismo como pôde através de escolas, movimentos eassociações (nomeadamente o revigoramento da instituição de Beneficência “TongSin Tong” (fundada em 1878) que ao seu nome ainda hoje deve muito (ainda quepermaneça política e convenientemente posto de lado).No Japão, Kang fundava, por seu turno, a “Sociedade para a Protecção doImperador”. Um iniciativa nascida essencialmente fora de tempo já que nessemomento Sun Yat-sen percorria o mundo ganhando simpatias universais que lhepermitiram fundar por seu turno a “Sociedade para A Regeneração da China”, omovimento que viria de facto a renovar o velho e esboroado império em novostermos essencialmente anti monárquicos.Kang e Liang ficavam-se pelos velhos cânones e remetidos a um cantinhopolítico-intelectual passado e sem hipóteses de futuro.A república e o socialismo marxista leninista tinham obliterado, já e então,todas as esperanças utópicas de Zheng Kuan Yin, Kang, Kang You Wey e LiangQichao.SUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:59 Página 89
  • JOÃO GUEDES90Se na “Casa do Mandarim” algum retrato figurar com estas três figuras bemse lhe pode apor a legenda portuguesa do século XIX; – Os “Vencidos da Vida”. Oparalelo é muito semelhante.Uma geração moderna que moldou o futuro mas a que ninguém actualmentedá particular crédito nem louvor a não ser em areópagos muito sincréticos e emespecializadas teses de doutoramento.Todavia, certo é que se Zheng Kwan Hin, Kang You Wey e Liang Qichao, talcomo Guerra Junqueiro, Ramalho Ortigão, Ribeiro da Costa, Lobo de Ávila e Eça deQueirós moldaram na sua militância (ou diletância, conforme o ponto de vista) asideias do futuro.Pena é que tanto uns como outros permaneçam na generalidade esquecidosdos compêndios das escolas elementares de onde deviam constar obrigatoriamentepara memória futura pela sua importância no desenvolvimento das ideias.Por tudo isto é de louvar a iniciativa do “ICM” de relembrar Zhen Kwan Yin ecom ele todos os que lutaram por ideais. E apenas por ideias!Certo é que independentemente dos “ismos” a verdade é que o que temoshoje em termos políticos e sociais resulta do que eles pensaram, do que eles fizerame do que eles publicaram principalmente em Macau.A “Nova China” não se pode esquecer disso. Nem Macau!SUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:59 Página 90
  • MACAU CONFIDENCIAL91E NO PICO DO VERÃO CHEGOU A DITADURA |Foi no dia 22 de Julho de 1926, mais, ou menos no pico do Verão, que emMacau se encerrou o agitado “drama” político da 1ª República. Coube ao coronelManuel Firmino de Almeida Maia Magalhães fazer descer o pano da democracia,demitido do cargo de Governador pela ditadura militar que se tinha estabelecidoem Portugal na sequência do golpe de 28 de Maio desse ano liderado pelo marechalGomes da Costa.A Tamagnini Barbosa, um apoiante entusiasta do golpe de Braga, caberia opapel de fazer subir de novo o pano para o extenso acto político que se iniciava emPortugal e que teria como protagonista Salazar. Primeiro governador não militar aexercer o cargo em Macau, Tamagnini inaugurava com agrado a nova era, já que aocontrário dos irmãos democratas indefectíveis, era um dos apoiantes de primeirahora das correntes nacionalistas que queriam acabar com o parlamentarismo deuma vez por todas em nome da ordem pública.A notícia do pronunciamento de 28 de Maio de 1926 chegou a Macaurapidamente e Maia Magalhães, habituado aos golpes e contra-golpes da Metrópole,não parece ter levado muito a sério os acontecimentos de Lisboa. Afinal, apesar detodas revoluções e conspirações fracassadas ou triunfantes da última década, certoera que o Partido Democrático (PD) acabava por, de uma maneira, ou de outra,emergir sempre na governação do país. Apenas durante o breve consulado deSidónio Pais (1917-18) o PD se viu afastado do governo.Porque não haveria de ser assim mais uma vez?, pensaria Maia Magalhães.Terá sido nessa ordem de ideias que o governador de Macau em vez de colocar olugar à disposição das novas autoridades, aguardou tranquilamente o desenrolar dosacontecimentos. Porém daquela vez não se tratava de apenas mais uma conspiraçãono seio do sistema, mas sim um movimento generalizado contra os partidosacusados de desgovernarem o país, que passava então por uma das mais gravesSUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:59 Página 91
  • JOÃO GUEDES92crises financeiras desde a instauração daRepública em 1910.Face ao seco telegrama que lheimpunha a demissão e nomeava interi-namente o almirante Hugo de Lacerdacomo governador, Maia Magalhães sentiu necessidade de se justificar perante o Conselho Legislativo da coló-nia, afirmando que não o fez porque“as contingências da política da Metró-pole não deviam reflectir-se nas colóniaspelo prejuízo causado e que não se en-contrava filiado no Partido RepublicanoPortuguês que perdera o poder”.Mas se era um facto que MaiaMagalhães não era militante do PD,facto era também que não nutriaqualquer simpatia pelas novas figurasque acendiam nem pelo seu ideário. Maia Magalhães era um democrata de longadata e créditos firmados em combate. Primeiro contra a “Monarquia do Norte”,tendo-se distinguido na defesa de Chaves contra as tropas de Paiva Couceiro e maistarde integrando o “Corpo Expedicionário Português” que combateu em França na“Primeira Grande Guerra Mundial”.Maia Magalhães continuaria a luta participando em 1931 na fracassada“revolta da Madeira” contra a ditadura, sendo então preso. Morreria no anoseguinte.Embora em Macau não se conhecessem intenções revolucionárias notórias,a demissão de Maia Magalhães constituiu um sinal iniludível de que algo iria mudare mudou mesmo. Era chegada de novo a hora de Tamagnini Barbosa, que já tinhagovernado Macau (1918-19), afastar quem lhe não convinha e nesse campo nãoperdeu tempo. Mas se o seu antecessor tinha abandonado o campo sem luta porforça das circunstâncias, o campo democrático local manteve-se firme quanto pôdetendo na liderança Damião Rodrigues, o prestigiado notário da cidade, que paraalém de um pequeno, mas activo grupo de correligionários fieis, era também o presidente do Leal Senado e desfrutava de forte influência que se estendialargamente à comunidade chinesa.O combate entre Tamagnini Barbosa e Damião Rodrigues foi duro e semquartel. O Governador, vendo-se impossibilitado de arredar sem mais justificações o inimigo político, não hesitou mesmo numa tentativa de extinguir a edilidade eManuel Firmino Maia Magalhães, último Governador de Macau da 1ª República.SUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:59 Página 92
  • MACAU CONFIDENCIAL93transformá-la, como no século anterioro tinha feito Ferreira do Amaral, numasimples secretaria do Governo.A luta durou até 1929, feitapublicamente através do jornal “OPetardo” de Isidoro da Costa, que sepublicava nas tipografias de Kowloon,em Hong Kong, eximindo-se assim àcensura de Macau.Durante cerca de dois anos estejornal constituiu um libelo acusatóriosemanal contra a política ultramarina daditadura, sem que Tamagnini Barbosapudesse fazer fosse o que fosse para ocalar. A oportunidade surgiria no entantoum tanto inesperadamente quandoo próprio Damião Rodrigues assinouum artigo atacando pessoalmenteTamagnini Barbosa e insinuando a implicação do próprio Governador noassassinato do comerciante de ópio Lee Hysan.Acto contínuo o governador de Hong Kong (claramente pressionado porMacau) suspendeu a publicação de “O Petardo” e pouco depois Damião Rodriguesseria preso juntamente com outros democratas e subsequentemente deportado paraTimor.Apesar da vitória, Tamagnini Barbosa não se livrava da sombra de DamiãoRodrigues. De facto, a esposa assumiu o facho democrático do marido, levantandoa opinião pública e conseguindo fazer chegar a Lisboa um abaixo-assinado deprotesto contra a prisão. Naturalmente que o protesto não obteve resultadospráticos, mas reanimou as hostes, levando a que nas eleições para o Conselho deGoverno de 1930, Damião Rodrigues, apesar de desterrado, se visse eleito comovogal suplente e o seu advogado vogal efectivo. A eleição de ambos seria no entantoanulada sob o pretexto de ambos serem funcionários públicos, situação prevista naCarta Orgânica.O “Jornal de Macau” veria em tudo isto não só uma prepotência mas maisainda uma censura ao “Estado Novo” afirmando: – O acto governativo a que acimanos referimos foi sancionado pelo Governo Central e assim somos levados àconclusão de que essa fracção do eleitorado de Macau, elegendo neste momento oSr. Dr. Damião Rodrigues para vogal suplente do Conselho de Governo, estando esteSenhor afastado da Colónia por motivo desse sancionamento do poder superior,Tamagnini Barbosa – 1º Governador de Macaunomeado pela ditadura.SUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:59 Página 93
  • JOÃO GUEDES94implicitamente envolve o Governo Central numa censura que outra coisa não procuraser essa mesma manifestação embora de um platonismo forçado pela CartaOrgânica”.Como ilustração da fibra combativa de Damião Rodrigues, há quem recordeque depois de regressar a Macau do exílio timorense colocou na parede do átrio deentrada de sua casa um retrato de grandes dimensões do ex-líder do PartidoDemocrático Afonso Costa. Dizem que ali o manteve bem patente em simbólicodesafio à ditadura até à sua morte em 22 de Julho de 1942.SUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:59 Página 94
  • MACAU CONFIDENCIAL95LIU SHIFU: O ANARQUISTA DE MACAU QUE A MEMÓRIA OFICIAL PREFERIU ESQUECER |Em Macau há uma história antiga que permanece por contar.- Não, contrapõe a bibliografia. O padre Teixeira já contou tudo quanto haviaa contar.- Não, não é verdade!, contraponho. – O padre Teixeira falou de tudo quantohavia a falar sobre a presença dos portugueses em Macau, mas o que disse sobre oschineses? Muito pouco, ou quase nada.- Mas o Padre Videira Pires? Interpela-me de novo a bibliografia que mostracentenas de artigos e mais de uma dezena de livros em abono da sua causa.- Não!, respondo eu novamente: – Esse autor era mais profundo, ainda quemenos prolífico, mas igualmente apenas disse e só sobre os portugueses.- E Montalto de Jesus e Charles Boxer e Anders Ljungstedt. Ou então AustinCoates, que bem sei, que fica entre historiador e romancista, mas que escreveu muitacoisa e muita história? Volta a retorquir a bibliografia como se tivesse a últimapalavra.A esta última interpelação (mais generalista, ou globalizante) respondo emforma de documento judicial; – aos costumes chineses disseram nada, pouco, oumesmo intencionalmente muito pouco!E é assim que Liu Shifu, a maior figura do anarco-sindicalismo chinês do dobrarde dois séculos não consta em qualquer bibliografia. Nem na portuguesa, nem nachinesa e muito menos na toponímia local. Na bibliografia inglesa igualmente passapraticamente despercebida, já que era incómoda para toda a gente.Pessoa que acredita que o ser humano é bom por natureza e que por issohierarquias, polícias, governos e repressão em geral são dispensáveis face à eficáciasuperior do diálogo, liberdade, igualdade e fraternidade, por muito que pugnemarriscam-se a morrer sem deixar assinatura neste mundo.SUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:59 Página 95
  • JOÃO GUEDES96No entanto Liu Shifu, apesar de toda a ingenuidade que pautou a sua curtaexistência, deixou marca.Vale a pena saber quem foi e o que defendia. Principalmente face à sua íntimaligação a Macau.Liu Shifu iniciou a carreira política como adepto do que de mais radical existiano último quartel do século XIX. Niilista, militante privilegiava a acção directa, ouseja o terrorismo revolucionário, nomeadamente o assassinato das elites criminosas.Para Liu Shifu, como para os niilistas desse tempo, o estado não era uma entidadeabstracta mas sim um conjunto de pessoas (elites criminosas do seu ponto de vista).Por isso cada um dos seus elementos era alvo a abater. Assim se iniciou comomembro do “Grupo de Assassinos da China”, um movimento anti-colonialfortemente influenciado pelas tácticas dos niilistas russos.Ele próprio arquitectou com o seu grupo de seguidores um atentado contrao governador de Guangdong, que só não se consumou porque a bomba que estavaa montar para erradicar deste mundo mais um vilão explodiu durante o processo depreparação da dita, deixando-o gravemente ferido.Entretanto, os anos foram passando e sempre com a sua colaboração activaLiu viu a República ser instaurada na China (1911).A partir dessa data renegou publicamente o niilismo e converteu-se semreservas ao anarquismo de Kropotkine, Bakunine, Tosltoi e Malatesta.É durante esse período que inicia um trabalho teórico tão importante quantoactualmente ignorado, que o leva a esquematizar a importância fulcral daorganização dos camponeses na revolução socialista. Esta tese pioneira iafrontalmente contra as ideias já estabelecidas por Marx, Engels, Lenine e Trotsky que entendiam que a revolução só seria possível com a organização dos operários.Isto, alegadamente, por que os camponeses eram possuidores de um intrínsecoespírito reaccionários e simultaneamente imprestáveis numa revolução hodiernacomo era a socialista.Neste âmbito Liu Shifu manteve uma viva polémica com o principal teóricodo marxismo chinês de então, Jiang Khangu (1883-1954), (fundador do PartidoSocialista da China) sobre esse tema. Naturalmente perdeu, como o futuro políticodo mundo viria a comprovar.No entanto a sua derrota revelar-se ia apenas circunstancial, já que as suasteses viriam a ser recuperadas mais tarde e seria com os camponeses e não com osoperários que a República Popular da China seria proclamada em 1 de Outubro de1949, por Mao Tsé-Tung. Um feito que o próprio Estaline nunca pensou ser possívele só relutantemente aceitou.Aliás o assunto nunca seria verdadeiramente dirimido e o divórcio entrePequim e Moscovo, nos tempos de Nikita Krushev, veio provar isso mesmo.SUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:59 Página 96
  • MACAU CONFIDENCIAL97Curiosamente, diga-se, o socialismo soviético ortodoxo e operário acabaria por seestilhaçar, enquanto que a experiência revolucionária baseada no campesinato daChina continua actualmente a singrar e ameaça mesmo transformar o país na maiorpotência mundial nas próximas décadas.Em 1912, Liu Shifu fundou a “Sociedade dos Galos que Cantam no Escuro”,sendo considerado o seu líder. No entanto nela recusou-se sempre a deter qualquerposição ascendente sobre os camaradas. Liu era apenas um entre os que aconstituíam. Não era mais nem era menos.Esta sociedade, também conhecida como “Grupo de Cantão” teve comoprimeira e mais visível acção a formação de uma aliança entre intelectuais etrabalhadores e serviu numa primeira fase para propagandear a diferença entre oanarquismo e os vários socialismos que ascendiam.Da sua plataforma política é de salientar a completa ausência de referênciasa minorias, ou maiorias étnicas (outro marco histórico pioneiro) isto porque na baseda sua plataforma constava como ponto fundamental a eliminação das identidades,raciais e nacionais em prol de um verdadeiro internacionalismo. O seu compromissoera com a humanidade e não com qualquer grupo social independentemente deregiões, países, ou continentes.O próprio combate contra a dinastia “Manchu”, segundo Liu, era falacioso,tendo em conta que se combatia apenas e só contra a opressão universal. O factode o imperador e os seus mandatários serem manchus era questão totalmenteirrelevante (de referir que os manchus, que reinaram na China durante mais de doisséculos, actualmente constituem uma etnia numericamente irrelevante que se ficapelos 8 milhões de pessoas. O resto do país é constituído por mais de mil milhõesde habitantes das etnias mais diversas).Neste quadro ideológico universalista, Liu Shifu foi, também, um dos maioresproponentes do esperanto como língua universal, publicando em Macau, a partirde Agosto de 1913, o jornal “La Voco del Popolo” (voz do Povo) que era dado àestampa nessa língua que lutava (utopicamente, como posteriormente se verificou)por se universalizar e, simultaneamente, em chinês. Era um jornal bilingue. Nessecontexto global o português não contava (tal como o manchu) para o efeito. Eramnaturalmente irrelevantes nesse contexto.A emancipação da mulher, assunto que tardaria mais de meio século aafirmar-se, ocupava já em a “Voz do Povo” prioridade central a par de outros temas,como o do sufrágio universal, que igualmente viria apenas a mostrar-se politicamenteimportante muitas décadas mais tarde.O jornal viria a ser alvo de ordem de apreensão nos locais onde se encontrasse à venda,por ordem do governador Sanches de Miranda. Curiosamente essa ordem limitava-sea proibir a leitura do periódico na cidade e não a sua impressão propriamente dita, jáSUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:59 Página 97
  • JOÃO GUEDES98que “A Voz do Povo” singraria sem interrupção pelos anos seguintes, impresso nastipografias locais e distribuído clandestinamente por toda a China e pelo ultramar.“La Voco del Popolo” e Liu Shifu são ao mesmo tempo um título e um nomeque espelham bem o que foram sempre as especificidades de Macau.Resta dizer que apesar de todos os mandados de captura de que foi alvo,nos tempos do império e posteriormente no efémero interregno monárquico deYuan Shi kai, subsequente à implantação da República, Liu Shifu nunca deixou depublicar o seu jornal e difundir o seu ideário, sem incómodos de maior na colóniaportuguesa da China.Num período da história em que as ideologias políticas se opunham, noExtremo Oriente, de forma mais virulenta do que nunca e o anarquismo era o menore o mais fraco dos “ismos” em disputa, por que razão Liu Shifu conseguiu viver,escrever e principalmente publicar sem ter sido particularmente incomodado?A pergunta revela-se tanto mais importante e enigmática quanto será precisoter em conta que as ideias que defendia colidiam contra tudo quanto as autoridadescoloniais republicanas, que faziam gala no seu progressismo, tinham “cientificamente”por postulado assente e como moralidade social e politicamente demonstrada.Liu Shifu morreria tuberculoso em 1915 com apenas 31 anos de idade. Vidatão curta para tão extraordinária obra.Para nós portugueses, em paralelo, Liu Shifu suscita-nos à ideia AntónioNobre e Cesário Verde, entre outros, que morreram ingloriamente mais cedo eigualmente de tuberculose, do que basta obra prometia e deixaram por escrever.Alguém saberá onde param os números perdidos de “La Voco del Popolo”de Macau? Sabe-se que nalguns, sob alguns artigos, portugueses apuseram a suaassinatura. Quem seriam? Dizem que o advogado Damião Rodrigues que com LiuShifu privou de perto terá deixado ali alguma impressão de chumbo, já que era emcaracteres de chumbo que se imprimiam os jornais nesses tempos de brasa. Mas deresto não se sabe mais nada.SUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:59 Página 98
  • MACAU CONFIDENCIAL99O MEDIATISMO ANGLO-SAXÓNICO E A SUBALTERNIZAÇÃO HISTÓRICA DE MACAU |A influência de Macau na proclamação da república da China é tão evidentequanto mal conhecida e isso deve-se essencialmente à quase total ausência deestudos em língua portuguesa.Ao contrário, a importância de Hong Kong na queda da dinastia imperialchinesa é sobre estimada precisamente pelo oposto, ou seja, pela abundância debibliografia publicada sobre o assunto.O que existe em inglês dispersa-se por milhares de livros e outros tantosestudos académicos especializados, ar-tigos de jornal, documentário de televi-são, excertos na “blogosfera”. Sei lá quemais!… Inversamente em português otema não chegará para ocupar a prate-leira inteira de uma pequena bibliotecaparticular. Certamente que ainda nãoocupou minuto algum no “Canal de His-tória” (ou Memória, não sei…) da RTP,por exemplo.Mas a verdade é que uma partesignificativa dos revolucionários da se-gunda metade do século XIX, e iníciosdo século XX, que contribuíram para aimplantação da República da China, em10 de Outubro de 1911 (e numa se-gunda fase, para a instituição da Repú-Sun Yat-sen como trajava nos tempos em queviveu em Macau.SUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:59 Página 99
  • JOÃO GUEDES100blica Popular em 1 de Outubro de 1949), era originária da província de Guangdong,com destaque naturalmente para o incontornável Sun Yat-Sen.Sun nasceu numa pequena localidade, a pouco mais de 30 quilómetros deMacau e em Macau viveria, como se sabe, durante vários períodos da sua vida. Aliásele próprio reconhece que foi em Macau que ganhou consciência social.Formado em medicina em Hong Kong, imediatamente após a licenciaturapassou a residir na colónia portuguesa, exercendo clínica no Hospital Kiang Wu.Abriu na Rua das Estalagens um consultório e uma farmácia. Abriria uma segunda“botica” numa das casas há muito demolidas (para dar lugar à sede dos Correios)no Largo do Leal Senado, que pertenciam, então, à Santa Casa da Misericórdia.Sun afirma que a militância política se sobrepunha ao exercício da suaprofissão. De facto, em Macau, onde vinha durante as férias, já que a maior parteda sua família por cá residia, formaria o que ficou conhecido como “bando dosquatro”, grupo impulsionador da formação de clubes de leitura que incentivavam apopulação à leitura de jornais e levava a cabo sessões de propaganda política,nomeadamente aproveitando a disponibilidade dos teatros da cidade. Estes teatros,durante um certo período, foram muito mais palcos de realização de entusiásticoscomícios do que centros de divulgação da “arte de Talma”, ou da sétima artenascente com o animatógrafo.Sun Yat-sen numa visita ao Hospital Kiang Wu de Macau, 1912.SUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:59 Página 100
  • MACAU CONFIDENCIAL101Num deles, por exemplo (que ficou célebre), os numerosíssimos presentescortaram simbolicamente as tranças, que eram adorno capilar obrigatório de todoo povo chinês durante a última dinastia imperial que caiu em 1911.Cortar a trança nesses tempos bárbaros correspondia a punição com penade morte. Tendo isso em conta tal acto de rebeldia que se repetiu nas outras colóniasocidentais nas costas da China e também em Singapura, Indochina, ou Indonésia,onde a emigração chinesa era pujante, foi por demais significativo.Mas os dois pontos de verdadeiro contacto da China com as ideias ocidentaiseram, essencialmente, Macau e Hong Kong por óbvias razões geográficas.Nestas se situavam verdadeiramente os baluartes que poderiam, para o bemou para o mal, transformar ou perder o país.As actividades subversivas na vizinha colónia britânica contra a monarquia“Manchu” eram rigorosamente vigiadas, pelas autoridades inglesas. Ao contrário,em Macau, a permissividade oficial nesse campo era notória.Sun Yat-sen e o “bando dos quatro”. Da esquerda para a direita: Yang Heling, Sun Yat-sen,Chen Shaobai e You Lie. De pé Guan Jingliang. Reuniam na casa de Yang Heling na íngremeTravessa dos Santos que desemboca na Rua do Campo em Macau e não em Hong Kong, comosistematicamente surge nas legendas referentes a esta fotografia.SUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:59 Página 101
  • JOÃO GUEDES102Essa situação permitiu que ao longo das duas últimas décadas do século XIXe as duas primeiras do século XX, um dos principais centros de apoio às correntesde oposição aqui estivessem naturalmente sedeados. Ou a tempo inteiro, ou sempreque a conjuntura prevalecente assim o determinava.Em Macau viveram nessa época alguns dos vultos mais destacados que a“Nova China” haveria de produzir. Igualmente aqui se publicavam os jornais deoposição proibidos para lá das Portas do Cerco.Esses jornais derivavam de várias orientações políticas, desde os liberais, que apenas pretendiam a reforma da monarquia, até aos que se proclamavamabertamente anti-monárquicos.Os socialistas aqui imprimiam igualmente os seus órgãos de propaganda,com destaque, numa primeira fase, para os anarquistas.Os referidos periódicos eram escritos e impressos nas tipografias locais.Umas legalmente estabelecidas, outras clandestinas (o governo português poucaconta oficial dava dessas diferenças). Posteriormente eram distribuídos no interioratravés, principalmente, da inextrincável rede de “tríades” que dominavam o paísde então. A sua circulação não se limitava às fronteiras de Guangdong, atingindotambém os grandes centros urbanos incluindo Xangai e Pequim. Mas também oSudoeste Asiático, Austrália, EUA e Europa, com destaque, neste último caso, paraa França.Nesse ponto da história é importante sublinhar que no período daimplantação da república na China, a Maçonaria portuguesa se encontravaextremamente activa e actuante, não só em Macau, mas também em Cantão, Xangaie igualmente nas Filipinas, para não falar já no distante Havai onde Sun Yat-sen eum sem número de resistentes chineses possuíam laços políticos e de sangueiniludíveis.Em Macau os “maçons” eram igualmente um sem número de figuras civis emilitares, revestidas de diversos graus de responsabilidade institucional, incluindo oschefes máximos da administração, ou seja, os governadores. Nessa conjuntura a“Maçonaria” funcionava como organização supra nacional que politicamente tudocoordenava, superando as rivalidades existentes entre facções na China e entre osinteresses por vezes opostos das potências coloniais ali presentes.Na “Maçonaria” de Macau, concentrada na “Loja Luís de Camões II”, talcomo em Portugal, o republicanismo dominava claramente. Esta terá sido outra dasrazões que explicam a cumplicidade da colónia nas actividades subversivas contra a“Dinastia Celestial”. Uns “maçons” apoiavam porque eram republicanos, outrosporque eram monárquicos constitucionais, outros ainda porque estavam rendidosao progresso imparável das “luzes” do século XIX. Mas para todos a China era umamonarquia absoluta que não congregava as simpatias de ninguém.SUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:59 Página 102
  • MACAU CONFIDENCIAL103Nesse âmbito é de salientar circunstancialmente a figura de FranciscoHermenegildo Fernandes, jornalista e proprietário de diversos jornais, que se tornouponte de contacto proeminente entre os republicanos chineses e as autoridadeslocais durante mais de duas décadas.Foi Francisco Fernandes que acolheu Sun Yat-sen em Macau após a sua primeira e malograda tentativa de revolta contra o regime (1895), organizando-lhea fuga ulterior para o Japão. Há correspondência conhecida entre Fernandes e Sun, que revela que para além do graude amizade pessoal partilhavam igual-mente os mesmos ideais políticos e par-ticularmente laços “iniciáticos” eviden-temente maçónicos.Nessa conjuntura de dobragemde século saliente-se que por Macaupassaram igualmente muitos ideólogose activistas chineses de grande renomenacional.Entre outros destaque naturalpara Zheng Guan Yin, autor de váriasobras que reflectiam as correntes maismodernas do pensamento filosófico, po-lítico, social e económico do Mundo po-sitivista do século.Essas obras foram escritas e (na-turalmente) publicadas inicialmente emMacau, já que em Hong Kong seria im-possível tendo em conta que as autori-dades controlavam muito de perto to-das as actividades subversivas dirigidascontra Pequim e o seu regime que nãopretendiam pôr em causa. Isso en-quanto o “Celeste Império” cedesse àsimposições diplomáticas de “Sua Ma-jestade Britânica”.Ainda bem que se restaurou aliperto da “Fonte do Lilau a casa ondeviveu essa grande figura que tantainfluência teve no dealbar da “NovaChina”.Em 1886, Zheng Guannying na sua casa, localizada na Travessa de António da Silva, meditou sobre as suas ideias e concluiu a suaobra prima Shengshi Weiyan (Advertências Severas em Tempos de Prosperidade). Neste seulivro, Zheng sugere a ideia que “um Pais devedesenvolver a sua riqueza de modo a assumir-se como uma Nação forte, notando que a riqueza em si motiva o desenvolvimento daeconomia, o desenvolvimento de indústrias,enaltecendo ainda a importância da educação,leis actualizadas, promoção de valores éticose reformas politicas”. Estas ideias propostas nasua obra Shengshi Weiyan, tiveram grande im-pacto sobre o Imperador Guangxu, Kang You-wei, Liang Qichao, Sun Yat-Sen e, mesmo,Mao Zedong.SUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:59 Página 103
  • JOÃO GUEDES104Uma outra personalidade bemmenos conhecida mas que registou in-fluência igualmente determinante numcerto período, ainda que relativamentecurto da história contemporânea, foi LiuShifu, o nome mais proeminente doanarquismo extremo-oriental do Mundo.Liu era o principal redactor dojornal “A Voz do Povo” dado à estampasimultaneamente em chinês e espe-ranto. Nas sua páginas constavam osgrandes manifestos de Kropotkin, Ba-kunin, Tolstoi e outros anarquistas. Mastambém “niilistas” como Turgeniev, ogrande romancista russo autor de “Paise Filhos”.Liu Shifu, desaparecido prema-turamente (morreu com 31 anos deidade em 1915) desvaneceu-se na pe-numbra da história das ideias políticasface à ascensão imparável do marxismo-leninismo. No entanto o seu ideário deucorpo à fugaz independência de Cantão que perdurou sob a dupla égide de SunYat-sen e Cheng Chiu Meng entre 1913 e 1925.Liu Shifu vagueou clandestino e a fugir à polícia, muitas e muitas vezes, pelarua das Estalagens, pelo Pátio da Mina, pela Rua da Esperança. Enfim…, pelas vielasque só não estão hoje desaparecidas porque o centro histórico de Macau foipreservado graças à declaração do dito como “Património Mundial” pela UNESCO.Finalmente refira-se que a subalternização de Macau como ponto relevantede influência sobre o pensamento político republicano e socialista chinês se devenão só à já referida falta de estudos sobre a matéria em língua portuguesa, masprincipalmente ao verdadeiro tiro de partida disparado com fragor mediático pelomundialmente famoso cientista James Cantlie.Devido essencialmente à sua filiação maçónica, Cantlie, reputado especialistade medicina tropical que tinha sido professor de Sun Yat-sen, em Hong Kong,pontificava nos círculos académicos internacionais, mas essencialmente nos clubessociais e políticos de Londres (não esquecer que tradicionalmente o chefe damaçonaria inglesa foi sempre um membro da família real). Por isso foi capaz de forjaros apoios necessários para fazer saltar a figura de Sun Yat-sen de revolucionário malLiu Shifu principal redactor de a “A Voz doGalo a Cantar no Escuro”. Este periódico ini-ciou publicação em Agosto de 1913, data emque Liu Shifu se encontrava fugido e a residirclandestinamente em Macau. Ostentava o título em esperanto de: – “La voco de La Po-polo”. Após alguns números, mudou o títuloem chinês para “Min Sheng“ (A Voz do Povo).SUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:59 Página 104
  • MACAU CONFIDENCIAL105conhecido, mesmo em Macau e Hong Kong, para o patamar de herói de projecçãointernacional.Para isso concorreu indubitavelmente o lançamento da primeira biografiasobre o então obscuro médico cantonense – “Sun Yat-sen and the Awakening ofChina” – obra escrita em parceria com o jornalista Sheridan Jones, que foi um êxitoestrondoso em todo o mundo. Creio que não existe tradução portuguesa desse livro,o que não deixa de constituir uma interrogação sem resposta cabal. Terá sidoomissão politicamente motivada e intencional pela conjuntura do tempo, ounegligência histórica pura e simples? Inclino-me mais para a segunda hipótese.Neste ponto convém esclarecer, em abono da justiça, que em “Sun Yat-senand the Awakening of China” as actividades de Sun Yat-sen em Macau não passaramem branco. Ainda hoje vale a pena releras páginas desse livro (algumas vezesmesmo superlativamente citadas pordiversos autores ingleses) relativas àscirurgias de extracção de cálculos renais(uma inovação da medicina, mesmo emtermos europeus) que Sun praticava nohospital Kiang Wu.Ali não eram bem os méritos damedicina ocidental que se provavam,mas significativamente mais as possibi-lidades práticas de curar os males político-sociais de uma nação inteira com novosmétodos ainda que colidentes com a tradição milenar de Confúcio.Finalmente de referir que várias personalidades portuguesas de relevo deMacau estiveram em estreito contacto, não só com Sun, mas com os seuscorreligionários, restando saber até que ponto o pensamento político dosrepublicanos chineses terá sido influenciado, ou até eventualmente moldado por viadesses contactos.Lou Lim Iok, Leong Kai Shio,Shen Shaobai salientam-se, entremuitos, do lado chinês. Horta e Costa,Carlos da Maia, Rodrigo Rodrigues,entre outros, destacam-se do ladoportuguês.Outras figuras menos estudadasque no Território viveram, tiveramtambém papéis relevantes como: DamiãoRodrigues, Vicente Jorge, o advogadoHospital Kiang Wu tal como era no tempo emque nele Sun Yat-sen exerceu medicina.José Vicente Jorge. Orientalista, tradutor publicista, coleccionador de arte e figura marcante da intelectualidade macaense.SUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:59 Página 105
  • JOÃO GUEDES106Basto e o ainda hoje enigmático Leôncio Ferreira, este que pontificava em Xangai efoi agraciado com a “Torre e Espada” a mais alta condecoração militar portuguesaembora sempre tivesse sido um civil de gema. Possui uma pequena rua com oseu nome em Macau. O que fez? Não se sabe. Mas coisa importante foi norelacionamento entre Portugal e a China,As actividades dos agentes do Komintern em Macau nos anos 20 do séculoXX foram, em certos aspectos, tão determinante quanto envoltas no segredo emque ainda hoje se encontram.Também na formação do Partido Comunista da China, Macau desempenhoupapel de relevo e não pequeno. A fortíssima ligação a Macau do marechal Ye Jianyingprova-o à saciedade.Do que não resta dúvida é que Macau que não funcionou como peça únicana formação do pensamento político dos republicanos e comunistas chineses, foidecerto o cadinho, conveniente e discreto, onde se forjou e não em pequena parte.Falta estudar com mais profundidade a relevância e influência dos contactospessoais entre os dois lados (portugueses e chineses), para além dos que deixeiMarechal General Ye Jianying (com o Presidente Tito da Jugoslavia), Nascido Ye Yiwei (叶宜伟/叶宜伟), localidade da província de Guangdong, numa família de comerciantes de origemHakka. Liderou a conspiração de generais e dirigentes históricos do PCC que derrubou JianQing e o “Bando dos Quatro” pondo ponto final ao conturbado período da “RevoluçãoCultural” e abrindo caminho à ascensão definitiva de Deng Xiaoping. Deixou a política activacomo vice-presidente do PCC em 1982 e abandonou o Politburo em Setembro de 1985.Morreu em Pequim em 1989. Viveu em Macau durante vários períodos da sua vida.SUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:59 Página 106
  • MACAU CONFIDENCIAL107citados. Falta também vasculhar arquivos em Portugal, mas igualmente (diriaprimordialmente) na China onde, provavelmente, muito do que não se sabe seguarda e aguarda apenas a consulta de quem os queira, ou possa, consultar. Creioque se esse empreendimento for levado a sério e de uma forma sistemática talvezse possa saber com mais ciência certa se o facto das Repúblicas em Portugal e naChina terem sido proclamadas com a pequena diferença de um ano foi apenas meracoincidência, histórica, ou muito mais do que isso.SUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:59 Página 107
  • JOÃO GUEDES108MACAU 1913: DOSSIER REVOLUÇÃO ENCERRADO |O apoio de Macau às correntes liberais, republicanas e socialistas da China,sempre foi um segredo peculiar, ou seja era guardado mais ou menos tacitamentepor quase todos os jornais, mas generosamente partilhado pelas tertúlias e peloscírculos de amigos e conhecidos que deambulavam pelos bares e restaurantes dosclubes e hotéis da cidade.Durante as primeiras três décadas do século XX, Macau constituiu um palcoconspirativo variado e colorido, onde quase todas as correntes políticas do universode então tinham os seus propagandistas.Republicanos, socialistas, agentes “vermelhos” do Komintern, anarquistas,sindicalistas, e até fascistas (pasme-se) por aqui viviam e conviviam, geralmente namelhor das harmonias.Provavelmente porque o verdadeiro palco das guerras reais ou ideológicasque se travavam ficava do outro lado das Portas do Cerco, ou então longe, nasflorestas do Vietname, ou da Malásia, ou mais longe ainda, na remota Europa.Pelas rotativas das tipografias locais, tudo se imprimia, desde folhas volantesa jornais de combate, nas mais diversas línguas e caracteres.Os jornais de parede eram quase tão comuns então como os “grafitti” dehoje e a ousadia (ou romantismo) era de tal ordem que até o jornal “La Voce delPopolo” órgão do movimento anarco-sindicalista italiano, se vendia, (imagine-se)numa farmácia chinesa! Isto até ser apreendido e o proprietário da ervanáriaintimado a nunca mais expor à venda tal título em Macau. Resta saber quem ocompraria?…Mas se o ambiente geral era de certa descontracção, ou seja uma espéciede longa e extemporânea “belle époque”, já o mesmo não se podia dizer quantoao estado de espírito dos responsáveis do governo e da segurança, que tinhamSUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:59 Página 108
  • MACAU CONFIDENCIAL109por obrigação zelar pela manutenção do “decoro político”, de forma a queeventuais exageros ou atitudes arrebatas, não pusessem em causa o sempre delicado relacionamento diplomático entre Portugal e a China por causa de Macau.Um desses momentos surgiu nasegunda metade do ano de 1913, nasequência do golpe de estado de YuanShikai, que dissolveu a Assembleia Na-cional e afastou Sun Yat-sen, da presi-dência da república.A grande base de apoio políticode Sun era sem dúvida Cantão e foi paraali que o dirigente retirou com os seusfiéis disposto a opor-se ao velho general,que queria ser imperador.Yuan Shikai talvez o tivesse sido,se a morte não o levasse no momentoem que todas as alterações constitucio-nais necessárias estavam prontas paradeclarar a restauração da monarquia.É pois em Cantão que Sun orga-niza o seu próprio partido, o “Kwomin-tang” (Nacionalista).Mas Sun não se limita a uma retirada estratégica da capital, prefe-rindo desafiar o novo poder declarando a cessação de Cantão. No entanto a “repú-blica cantonense” duraria muito pouco, já que em Outubro o exército sob o comando supremo de Yuan Shikai exterminava os rebeldes, acabando com as veleidades republicanas.Para se eximir ao aniquilamento total, não restou alternativa aos dirigentesdo “Kwomintang” senão a fuga, para local que garantisse a segurança a curto prazoe não ficasse longe. Por isso o destino óbvio foi Macau e Hong Kong.Macau era local a privilegiar para o efeito, relativamente a Hong Kong, porquepara além da complacência das autoridades coloniais com que os republicanoscontavam, muitos deles, incluindo Sun Yat-sen, possuíam na colónia portuguesaprofundos laços familiares. Além disso uma terceira razão contribuía para a escolha.É que a Inglaterra esclareceu desde logo que não estava disposta, naquelecaso, a conceder asilos políticos, acabando por expulsar os que ali se tinhamrefugiado provisoriamente.Yuan Shikai, o general que queria ser impera-dor da China.SUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:59 Página 109
  • JOÃO GUEDES110Diz-se, que o próprio Sun também se terá acolhido durante um curto períodoem Macau, antes de seguir para o exílio no Japão, país onde esperaria pacientementeo momento propício para regressar.Esse momento, todavia, só che-garia em 1916, com a morte inopinada,mas politicamente oportuna, de YuanShikai. O desaparecimento do presti-giado militar monárquico criou um vaziode poder e desencadeou uma luta generalizada entre os generais das váriasprovíncias, dando início ao dramáticoperíodo dos “senhores da guerra” quefraccionou quase por completo o paíscriando simultaneamente as condiçõespara o regresso de Sun.Entretanto muitos dos seus prin-cipais lugares tenentes tinham preferidopermanecer em Macau, o que causousérios embaraços à administração portuguesa, liderada pelo governadorAníbal Sanches de Miranda.De facto, a instalação dos rebeldes em Macau rapidamente chegou aosouvidos de Pequim, que exigiu através do governador-geral de Cantão, Long ChaiCuang, a detenção e repatriamento dos suspeitos.A carta do governador Long, a Sanches de Miranda, é explícita e pormenorizada,quando se lhes refere dizendo: “– …pude verificar que estão em Macau e que àsocultas se reúnem para aliciar adeptos, tendo até fixado dia para virem a Cantãofazer a revolução”.Os termos do pedido de extradição não deixavam grande margem demanobra ao governo português.Mas o pior era que a sua presença tinha sido corroborada por Lou Lim Iok, olíder da comunidade chinesa local, numa reunião mantida no palácio do governocom Sanches de Miranda e o representante na Colónia do governo chinês.Perante isto a decisão tomada foi a de abrir um inquérito, cometido àProcuradoria dos Assuntos Sínicos, instituição que possuía competências de políciapolítica. Tarefa atribuída pelo melindre de que se revestia ao próprio procurador,Constâncio José da Silva.Saliente-se neste ponto que Constâncio aliava às suas funções de procuradordos assuntos sínicos as de director do principal jornal de Macau (“A Verdade”).Sun Yat-sen em uniforme militar.SUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:59 Página 110
  • MACAU CONFIDENCIAL111Constâncio inicialmente tentou eximir-se, mas perante as ordens taxativas deSanches de Miranda decidiu começar por ouvir formalmente, em declarações, opróprio Lou Lim Ioc. No entanto este, em vez de se demonstrar desconhecedor daquestão, preferiu afirmar (candidamente?), ter sabido pelos jornais que osprocurados, entre eles, Sun Yat-sen, Sun Mei e Chan Kuen Meng, tinham sidobanidos de Hong Kong e que costumava ver entrar alguns deles com frequência emcasa de Chan Chec Iu (outro procurado pelo governo de Cantão), frequentandotodos o “Clube China”.O “Clube China” era igualmente lugar suspeito de ser de facto um dosprincipais centros conspirativos da cidade, estando por isso sob a vigilância dapolícia. Essa vigilância devia-se principalmente ao facto de dele também seremfrequentadores vários funcionários públicos portugueses, entre os quais algunsconhecidos pelo seu pendor radical e simpatias pela causa de Sun Yat-sen.Lou Lim Ioc acrescentava saber também que “todos eram adversos ao actualregime de governo da China”.Perante essas aparentemente surpreendentes declarações, Constâncio Joséda Silva, que esperava que uma alegação de desconhecimento com o peso dapalavra de Lou Lim Ioc, lhe permitisse encerrar o processo sem mais delongasinformando oficialmente que os visados não estavam em Macau, terá ficado muitomais alarmado, ao obter tão completa informação sobre nomes e paradeiros dossuspeitos, do que satisfeito, por estar ao seu alcance prendê-los e encerrar os autoscom sucesso.É que a forma como lhe tinha sido apresentada a questão deixava claramentea entender que o processo não passaria de um expediente para permitir ao governoportuguês uma negação plausível. Ou seja Macau não dava guarida a fugitivos àjustiça chinesa.Por esse facto, o inquérito teve de ser levado a cabo com maior rigor,desencadeando-se as diligências formais em tais eventos que passavam pelaidentificação e audição dos referidos na denúncia.No entanto, para além do que disse Lou Lim Ioc, não constam dos autos asdeclarações de mais ninguém, mas apenas uma informação esclarecendo que ChanChec Iu “se encontrava doente em casa sem poder receber visitas”. Este era umimpedimento que, pelos vistos, incluía as da polícia. Chan Chec Iu, também, nuncaseria ouvido.Quanto aos restantes declarava-se que nenhum possuía residência em Macau,ficando omisso se se encontravam ou não na cidade.Terminadas as diligências que se impunham, Constâncio José da Silvaencerrou o inquérito da forma que lhe pareceu mais airosa em tão peculiarescircunstâncias concluindo que – “A falta de mais elementos sobre a preparação deSUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:59 Página 111
  • JOÃO GUEDES112uma revolução impedem a continuaçãodas investigações nesse sentido”.As anomalias do processo e aaparente ingenuidade das conclusõesdo chefe da polícia, que teriam levadoqualquer magistrado a ordenar pelo me-nos a continuação das diligências, senãomesmo uma admoestação por falta dezelo, não despertou qualquer tipo deinterrogações na mente do Governador,que tranquilamente redigiria a 20 deDezembro de 1913 uma carta dirigidaao seu homólogo de Cantão, infor-mando “ter os suspeitos sob vigilânciae não permitir qualquer acção de de-sestabilização contra a China”.Oficialmente o Governador LongChai Cuang terá aceite como boas asexplicações de Sanches de Miranda, já que não se regista qualquer insistência daChina no sentido de obter as extradições.Certo é que Sun Mei, irmão de Sun Yat-sen, continuou a residir tranquilamentena sua mansão fronteira ao Jardim da Flora (actualmente Casa Memorial Sun Yat-sen).Por seu turno, Chan Kuen Meng continuou igualmente a desenvolver intensaactividade política, inicialmente a partir de Macau e mais tarde de Hong Kong,reorganizando as tropas que lhe tinham permanecido fiéis na província de Guangxi,até conseguir desferir o golpe militar vitorioso em Cantão, que culminou com aconstituição de um governo republicano alternativo, novamente chefiado por SunYat-sen.Chan Kuen Meng faria parte deste governo como governador militar(1920-23). Chan, que era acusado de estar ligado ao movimento de Liu Chi Fu(considerado o ideólogo do anarquismo chinês), haveria mais tarde por romperpoliticamente com Sun Yat-sen, por defender contra as opiniões centralistas destea ideia de uma China federalista. O diferendo levá-lo-ia a retirar-se mais tarde dapolítica activa, fixando residência em Hong Kong, onde se manteve como opositorirredutível do “Kwomintang”, até à sua morte em 1933, vítima de uma febretifóide.Nota: exceptuando o caso de Sun Yat-sen, a grafia dos restantes nomes seguea que é usada na documentação portuguesa da época consultada sobre o assunto.Chan Kuen Meng (Chen Jiaoming), general ejurista.SUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:59 Página 112
  • MACAU CONFIDENCIAL113O CONGRESSO SECRETO DO PARTIDO COMUNISTA DOVIETNAM EM MACAU |Reuniu esta semana o primeiro congresso do Partido Comunista do Vietnam(PCV). O congresso realizou-se entre os dias 27 e 31 de Março no Hotel Cantão.Os delegados aprovaram uma resolução política apelando à mobilização dosoperários e camponeses, jovens, mulheres, soldados e minorias étnicas para quenuma frente unida formem milícias para combater o imperialismo.O congresso aprovou igualmente os estatutos do Partido e as suasorganizações de massas, tendo eleito os 13 membros do Comité Central, com LeeHong Phong, como secretário-geral.Nguyen Ai Quoc (Ho Chi Min) foi eleito representante do Partido junto do(Komintern) Internacional Comunista.A eleição de Lee Hong Phong, para o cargo de secretário-geral do PCV, nãodeixou de revelar alguma surpresa tendo em conta que Ha Huy Tap era anteriormentedado como mais bem posicionado para o cargo.Este relato sobre a realização do primeiro congresso do PCV poderia ser areprodução de uma das páginas dos jornais de expressão portuguesa de Macau, de1935, se a notícia não tivesse ficado silenciada, assim permanecendo até hoje, já lávão 75 anos.Porém a omissão histórica não será de estranhar. Por um lado, devido ao factoda censura do Estado Novo vigorar com todo o rigor em Macau (governava então oTerritório António Bernardes de Miranda, que viria mais tarde a ser chefe de gabinetedo Presidente, Óscar Carmona). Por outro, tendo em conta que o congresso serealizou secretamente, pelo que nem os jornais chineses locais, que a censuraoficiosamente ignorava, a ele tiveram acesso.O secretismo da reunião dos fundadores do PCV não extravasou para osjornais da época, mas não deixou de transpirar, pelo menos em certos círculos.SUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:59 Página 113
  • JOÃO GUEDES114Tanto assim foi, que já nos anos 80, do século passado, Monsenhor ManuelTeixeira, o mais prolífico divulgador da história de Macau, na coluna semanal quemantinha no extinto jornal “Gazeta Macaense”, dava conta de que Ho Chi Min tinhaestado em Macau e aqui fundara o PCV.Monsenhor Manuel Teixeira, que tinha “vasculhado” tudo quanto era arquivono Território, manifestava no entanto surpresa pelo facto de não ter encontrado umúnico documento que se referisse directamente a tais eventos.Este facto tem tanto de anómalo como de significativo, no que toca a saber-sequal o grau de controlo das autoridades portuguesas, designadamente os agenteslocais ligados à PVDE (polícia política portuguesa).Mas mais anómalo se torna se se tiver em conta que em Macau funcionavatambém o “bureau” do Extremo Oriente, do Komintern, organização que estavaentão na mira das polícias do mundo não comunista em geral e das colóniasocidentais na Ásia, em particular.O Komintern, era a designação dada à “Terceira Internacional”. Fundado porLenine em 1919, tinha como objectivo lutar contra o capitalismo, estabelecer aditadura do proletariado, e implantar o socialismo, como forma de transição parauma sociedade sem classes, com a abolição do Estado burguês, utilizando para issotodos os meios disponíveis, inclusive a luta armada.O Komintern estava dividido em oito secções, uma das quais era oSecretariado Oriental. Este Secretariado, por seu turno, estava dividido em trêsdepartamentos: Extremo Oriente, Médio Oriente e Próximo Oriente.A Secção do Extremo Oriente,que coordenava a luta revolucionária,tinha a sua sede precisamente em Macau.As actividades revolucionáriasdo Komintern à data eram lideradaspor Ho Chi Min, Jean Cremet e Le HongFong, este baseado em Macau e en-carregado do sector de agitação e pro-paganda, dirigida em especial à Indo-china francesa.Ho Chi Min e Jean Cremet eramambos fundadores do Partido Comu-nista Francês, de que Cremet tinha sido, pouco antes de partir para o Extremo Oriente, segundo secretário-geral. Jean Cremet.SUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:59 Página 114
  • MACAU CONFIDENCIAL115Figura enigmática do Komintern, Cremet tinha a seu cargo o controlo dasactividades do Komintern, efectuando diversas missões nomeadamente na China,Japão e Coreia a partir das bases instaladas em Macau, Hong Kong e Xangai. Cremetactuava na região utilizando documentos falsos, sob vários nomes supostos, entreos quais o de Thibault. Macau deve tê-lo conhecido por este apelido que era o quemais frequentemente usava.No entanto, Cremet sairia de cena pouco antes do primeiro congresso doPCV, de um modo tão misterioso quanto viveu. De facto, durante a grande lutapolítica travada entre Estaline e Trotsky, Cremet foi um dos que se absteve navotação, que determinou a expulsão do número dois do Partido Comunista Soviético(PCUS).Tendo até certa altura sido um dos homens de confiança de Estaline, emFrança, Cremet sabia que com essa atitude abstencionista se declarava para todosos efeitos inimigo de Estaline e assim assinava literalmente a sua própria sentençade morte.De facto, ao longo das décadas seguintes Trotsky e os seus partidários seriaminexoravelmente perseguidos e liquidados, na União Soviética e um pouco por todoo mundo, até o próprio Trotsky acabar por ser assassinado no México (20 de Agostode 1940).Daí o facto de Dimitri Manuilsky (1883-1959), presidente do comité executivodo Komintern, que tinha também responsabilidades sobre Portugal e as suascolónias, ter nomeado Cremet para o Extremo Oriente, a fim de o protegerpoliticamente, afastando-o do centro mais aceso do teatro da luta entre trotskistase estalinistas.Refira-se que Manuilsky viria a ser dos poucos dirigentes do Komintern quesobreviveu às sucessivas purgas levadas a efeito por Estaline.Nessa conjuntura, Cremet entendeu ser melhor entrar na clandestinidade daclandestinidade, simulando a sua própria morte em Macau.O Komintern chegou mesmo a anunciar que Cremet tinha morrido afogadonum acidente quando viajava num dos “ferry-boats” que faziam a ligação entreMacau e Hong Kong, em 1931.A partir daí a controvérsia gerou-se, havendo quem defendesse queo revolucionário tinha sido assassinado por agentes da GPU (polícia políticasoviética).Na verdade, Cremet, com a ajuda do escritor André Malraux, limitou-semais uma vez a mudar de identidade. Regressou à Europa e passou a viver naBélgica com o nome suposto de Gabriel Peyrot, até à sua morte em 1973.Com o desaparecimento de cena de Jean Cremet, Ho Chi Min, que com eletinha fundado o PCV em 1931 em Hong Kong, assume as suas responsabilidadesSUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:59 Página 115
  • JOÃO GUEDES116na secção extremo oriental do Komintern, regressando a Moscovo, razão pela qualnão integra o núcleo duro da liderança do PCV em Macau 4 aos depois.Refira-se que o “bureu” de Macau, do Komintern, dedicava-se particularmenteà subversão na Indochina, embora controlasse as actividades revolucionárias no Sião(actual Tailândia) e Indonésia.No Território, a organização comunista, entre outras actividades dedicava-se à impressão de propaganda revolucionária, que enviava para aquelas regiõesdo sudeste asiático, atribuía missões aos seus militantes no interior dos paísesalvo e mantinha um posto de transmissões via rádio, que asseguravacomunicações rápidas dos agentes do Komintern da região com Moscovo viaVladivostoque e vice-versa. Essa central de comunicações clandestina coordenavatambém o trabalho dos agentes espalhados um pouco por todo o ExtremoOriente.A razão da escolha do hotel Cantão, como local para a realização docongresso, parece óbvia. Tratava-se de um pequeno e discreto edifício,estrategicamente situado numa ruela ainda mais discreta, nas traseiras do GrandeHotel, que este sim, concitava todas as atenções.Simultaneamente, ficava a poucos metros do principal terminal depassageiros de Macau, facto que lhe conferia vantagens evidentes para quem vivia e viajava na clandestinidade.Porém, a escolha de Macau como local para levar a efeito o congresso nãopareceria tão óbvia, tendo em conta por um lado o facto do Komintern estartambém baseado em Hong Kong e por outro a pequenez da colónia portuguesaonde as notícias demoravam menos a correr a cidade de boca em boca do que aserem impressas e distribuídas pelos jornais.Por muito secretismo em que estivesse envolvida a reunião efectuada aolongo de 5 dias, não deixaria, por todos os motivos, de despertar atenções.Dir-se-ia então, que Hong Kong seria local mais adequado para o efeito tendoem conta as suas muito maiores dimensões, em termos geográficos e demográficos,tal como bem maior em diversidade cosmopolita.Para isso poderão ser aventadas várias explicações, mas a principal terá a vercom o facto de em 1932 a organização do Komintern em Xangai ter sido infiltradapela “sûreté” (polícia política francesa), que prendeu vários elementos do Kominterne apreendeu documentação comprometedora, desmantelando a rede activa naquelacidade.A acção da “sûreté” em Xangai levou a que lhe caíssem nas mãos os nomesde muitos dos agentes da subversão na Indochina e consequente emissão, contraeles, de pedidos de captura internacionais contra os que alegadamente residiriamnas colónias ocidentais da China e em Singapura.SUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:59 Página 116
  • MACAU CONFIDENCIAL117Entre os visados encontrava-seHo Chi Min, que no âmbito das suasactividades circulava constantementeentre Hong Kong, Cantão e Macau. Hoera concretamente acusado de implica-ção na revolta anti-colonialista da Indo-china de 1931, brutalmente sufocadapelo exército francês.Ho Chi Min acabaria por ser lo-calizado em Hong Kong e preso pelasautoridades britânicas. Todavia, em vezde ser extraditado para Hanoi, o tribunalque julgou o caso decidiu apenas ex-pulsá-lo da colónia britânica, o que lhepermitiu refugiar-se de novo em Macau.Acresce a tudo isto o facto dogoverno de Hong Kong, alarmado pela crescente actividade dos grupos militantesde esquerda na colónia, que segundo as autoridades “se contavam por milhares”,ter aumentado em 1930 o efectivo da polícia em 15%, com mais 300 elementos e criado dentro da corporação um “special branch” (departamento especial)exclusivamente dedicado à vigilância e luta contra os comunistas.Esta atitude de Hong Kong, contrastava em absoluto com Macau, onde aatitude das autoridades primava pela passividade.Isto apesar da década anterior ter sido politicamente uma das maisturbulentas da sua história no século XX.De facto, em 1922, a tensão explodiu, com a eclosão de manifestaçõesviolentamente reprimidas pelas forças armadas que deixaram no terreno váriasdezenas de mortos e centenas de feridos, e por uma greve geral que paralisou oTerritório durante mais de um ano.Tudo isto tinha sido fomentado pelas várias associações nacionalistas esocialistas de variados matizes políticos, que actuavam legalmente em Macau.Oficialmente registadas e alegadamente fiscalizadas pela polícia da Repartiçãoda Administração Civil (RAC), a verdade é que o conhecimento que o Governo delastinha não passaria muito além dos nomes dos corpos gerentes e objectivos gerais aque se propunham, informações de preenchimento obrigatório nos formulários, quea RAC visava, antes do registo notarial de qualquer associação, segundo mandava a lei.A análise desta conjuntura laxista e persistente em Macau terá sido por issodeterminante na escolha do Território, para a realização do congresso fundador doPCV.Ho Chi Min.SUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:59 Página 117
  • JOÃO GUEDES118Aliás, analisando os vários relatórios da RAC, que se encontram depositadosno Arquivo Histórico de Macau, muito sobra sobre denúncias de actividadessubversivas, por parte de associações (à data contavam-se em Macau mais de umacentena, devidamente registadas) ou elementos seus, mas muito pouco consta,concretamente, sobre eventuais actividades subversivas que levariam a efeito. Muitomenos ainda surgem referências às tendências ideológicas que professavam.Percorrendo os jornais da época parece constatar-se que a ignorância sobreo que se passava entre a comunidade chinesa de Macau era norma e realidadeassente.Um conhecimento mais exacto sobre a agitação revolucionária que submergiaa Europa, o mundo em geral e o Extremo Oriente em particular, incluindo a China,não seria muito melhor.Os jornais iam dando conta do caos da guerra civil chinesa, com notíciasavulso sobre revoltas, declarações políticas, golpes e contra golpes, mas na verdadepouco esclareciam, se é que não contribuíam ainda mais para adensar a confusãono espírito dos leitores.Ao consultar-se os jornais da época pareceria que a guerra se desenrolava emqualquer ponto longínquo do globo e não ali mesmo ao passar o arco das Portasdo Cerco.As agências noticiosas internacionais, com destaque para a “Reuters”, eramas grandes fontes de informação de Macau sobre o difuso palco da guerra civilchinesa e é através delas que é estampada na imprensa local a que maisaproximadamente refere a existência do Komintern.Trata-se de uma local incerto na Voz de Macau, denunciando a presença emCantão do “perigoso bolchevista Borodino”.Borodino (Mikhail Markovich Gruzenberg) era um agente do Kominternenviado para a China por Moscovo em 1922. Seria um dos principais conselheirosde Sun Yat-sen, até 1927, período em que perdurou um conjuntural “flirt” dopartido nacionalista (Kuomintang), com a União Soviética, mas que terminaria como sangrento massacre da ala esquerda do partido, levado a efeito por Chang KaiShek.Como excepção à regra de falta de informação sobre as actividades doKomintern em Macau, regista-se apenas a existência de um processo aberto pelaRAC, na sequência de um pedido do secretário português da “Entente Internationalcontre la IIIe Internacionale” para o envio de uma relação de todos os estrangeirosresidentes em Macau. Porém não se sabe que resposta obteve esse pedido, ou sequerse a ele foi dado sequênciaO primeiro congresso do PCV, em Macau, é considerado como aquele emque foram delineadas as linhas mestras para a reconstrução do Partido ComunistaSUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:59 Página 118
  • MACAU CONFIDENCIAL119da Indochina (segundo consta da história oficial do PCV) que na altura compreendiaos actuais Vietname, Laos e Cambodja.O congresso realizou-se também num momento particular da história domovimento comunista internacional, com a realização em Moscovo do VII congressodo Komintern, que consagrou a política das frentes populares contra o fascismo.Resta acrescentar que as decisõestomadas em Macau seriam considera-das transitórias sendo posteriormentesucessivamente revistas em plenáriossubsequentes, o primeiro dos quais terialugar no ano seguinte (1936), já no in-terior do próprio Vietname.O mandato de Lee Hong Phongnão duraria muito, já que seria substi-tuído logo, em 1936, por Ha Huy Tap,que com ele tinha disputado a liderançado PCV, no ano anterior, no congressodo Hotel Cantão.Lee Hong Phong acabaria junta-mente com quase toda a direcção doPCV por cair nas mãos das autoridadesfrancesas, que decapitariam quase porcompleto a liderança do PCV.Lee seria preso e executado, jun-tamente com o seu sucessor Ha HuyTap, bem como o sucessor deste,Nguyen Van Cu, em 1941.A verdadeira hora de Ho Chi Min só chegaria em 1951, com a sua eleiçãopara o cargo de presidente do Partido Comunista do Vietname.Lee Hong Phong Secretário-geral do PCV(1935-36), eleito no congresso secreto deMacau.SUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:59 Página 119
  • JOÃO GUEDES120ROMANCE, MEMÓRIA E INTERPRETAÇÕES DA HISTÓRIA |A propósito da guerra do Pacífico, tenho escrito sobre o papel que o “BAAG”(British Army Aid Group) e a “Coluna do Rio de Leste” (guerrilha comunista)desempenharam durante esses anos cuja intensidade dramática apenas podemosavaliar já que todos estamos longe de ter vivido esses tempos.Quem a eles assistiu foi desaparecendo no ciclo da vida e hoje restam muitopoucos que o lembrem com exactidão, sem “contar conto e acrescentar ponto”.Seguramente não existem biografias dos protagonistas desses tempos, masficaram pelo menos nomes indeléveis na memória que, por costume, se transmitede pais para filhos através de curtas recordações de infância. Os filhos lembramalguma coisa. Os netos apenas retêm (quando retêm) esparsos desconexos. Osbisnetos, então(!), a não ser que para isso possuam inclinação e ganhem gostosabem lá o quê? Nada!… A vida quotidiana, cheia de afazeres, não deixa tempo aninguém para pensar em águas passadas. É verdade!Afinal a guerra terminou há 65 anos. No entanto, neste campo de guardarmemórias há excepções. Não fossem elas e não saberíamos hoje não só quemsomos, mas o que somos.Sabemos alguma coisa porque algumas crianças, ou adolescentes, dessaaltura, retiveram o ambiente denso e tenso que os pais viveram e que não lhespassou despercebido. Principalmente, porque o isolamento de Macau, sem jornais,sem filmes, em suma sem novidades para além das conversas boca a boca, levava aque toda a vida se concentrasse essencialmente nos serões caseiros e principalmentenas casas de quem tinha rádio, esse aparelho “mágico” dos anos “40” que permitiaouvir o Mundo. Mas ter rádio nessa época era privilégio de poucos.Nesse contexto de forçada insularidade, mesmo no pequeno mundo deMacau, a ilha da Taipa mais isolada estava ainda já que os cabos submarinos deSUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:59 Página 120
  • MACAU CONFIDENCIAL121telefone tinham sido cortados pelas seitas para vender o cobre, de que eram feitose que valia bom dinheiro, aos japoneses.A Taipa, sob o comando do Alferes Maneiras (já nem falo de Coloane, maislongínquo ainda, onde se encontrava o alferes Bragança, a comandar umdestacamento militar ridículo de pouco mais de 30 soldados), encontrava-se nostempos da “Guerra da Pacífico” tão distante de Macau como do Mundo seencontravam os arquipélagos de Vanuatu no Pacífico, ou Fernando Pó e Ano Bomno Atlântico, ou a Nova Zelândia que só geograficamente era significativa e queparticipava na guerra apenas porque era inglesa e queria.Nas casas do Concelho da Taipa (hoje casas museu) os pais sentavam-se emsemi-círculo, de ar circunspecto, concentrado. A mão no ouvido. Para entendermelhor os sons nem sempre claramente audíveis das ondas curtas das estações queera possível sintonizar. Ouviam e comentavam os acontecimentos.Por seu turno as crianças, presentes na sala, brincavam parecendo alheadasda hecatombe, mas na verdade, se pouco ou nada aparentavam ligar às notícias jáo contrário se verificava no que dizia respeito aos comentários dos pais e amigos aoque se anunciava no boletins noticiosos diários. E os boletins noticiosos sonoroscausavam, nos pequenos, tanta e tão vivida impressão, que eram capazes dedistinguir sem receio de se enganarem o tipo de aviões que sobrevoavam Macaunas sua missões de bombardeamento no interior: – “Estes são bombardeirosamericanos. Estes são os ronceiros aviões de reconhecimento. Aqueles são os “Zero”japoneses, de certeza!”…, enfim, as crianças sabiam tanto quanto os adultosembora se lhes perguntassem não poderiam explicar ao certo como e porque sabiam tanto.Tenho falado com alguns, mas um particular amigo meu que tem seguidoas minhas crónicas não deixa de me fazer reparos sempre que sobre o assuntoescrevo: – “Isto não terá sido bem assim. Aquilo foi assim, mas houve mais portraz da aparência. Aquele nome de que falas era fulano de tal de que ainda melembro muito bem apesar de ser criança. Os japoneses andavam por Macaufardados e armados como se isto fosse território ocupado. Meu Pai via-se gregopara conciliar as verdadeiras batalhas locais que se travavam em torno dadistribuição de arroz e principalmente em impor ordem entre as centenas de“sampanas” que arribavam à Taipa com todo o tipo de contrabando. Umaspertenciam ao monopólio de distribuição alimentar dos japoneses, outras eramsucursais desse monopólio, mas faziam o seu negócio mais, ou menosparticularmente. Outras, enfim! … eram capitaneadas por contrabandistas sembandeira cujo único objectivo era o lucro”.Até agora todas as “implacáveis” críticas desse meu amigo muito ao contráriode me ferirem eventuais susceptibilidades de “aspirante a cronista” têm-meSUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:59 Página 121
  • JOÃO GUEDES122chamado, para além de outras coisas, a atenção para o facto de os documentosestarem bem longe de serem a única fonte de elaboração da história.A este propósito não posso deixar de lembrar aqui um livro relativamenterecente (terá cinco ou seis anos) sobre o chamado “Verão quente de 75”, emPortugal, da autoria de Freitas do Amaral, em que descreve Portugal mais, ou menos,como um país a arder, em que a guerra civil só não campeava porque não haviaunidades militares a combater umas contra as outras nesses tempos de “PREC”, deresto parecia país a saque… Eu vivi esses tempos, percorri o rectângulo nacional, vipor dentro muitos dos seus momentos mais significativos e para além do calorexacerbado do tempo revolucionário que se vivia, não encontrei em lado nenhumpor onde me deslocava (e era mais ou menos de lés a lés) a nação a arder emchamas, nem ódios irreconciliáveis possivelmente comparáveis com os que descreve,por exemplo, Silva Gaio no seu “Mário” da guerra civil portuguesa (1828-34), épocaem que, isso sim, o país esteve irreconciliavelmente divido durante anos e anos e aferro e fogo.O mais que vi, nessa altura, foram excessos e casos de polícia que iam sendoresolvidos como tal. E apesar das declarações que surgiam em parangonas nosjornais sobre a possibilidade de o país se dividir em guerra, nunca senti que issopudesse ser uma possibilidade credível como o não veio a ser.Ora vêm isto a propósito do “BAAG” e da “Coluna do Rio de Leste” cujospapeis (ainda que efectivamente relevantes), não passaram de episódios de guerranas linhas de retaguarda.Porventura não terei deixado isso bem claro em artigos anteriores. Mas certoé que, e cito mais uma vez esse meu amigo, “a guerra verdadeira que envolviaunidades militares de milhares de homens, combates de artilharia e esquadrilhas deaviões, depois da batalha pela ocupação de Cantão e Hong Kong, toda essa grandeguerra ocorria longe daqui”. As linhas da frente estavam no interior da China, comcapital e quartel-general em Chunking, na província de Sichuan. “Esse combatepertencia de facto ao exército nacionalista do Kwomintang, já que os comunistas,para além de não fazerem parte do exército nacional, não possuíam o que sepudesse chamar de forças armadas regulares. Eram apenas guerrilheiros”.Guerrilheiros que se encontravam sedeados muito mais longe e de certo modoisolados em Shensi no Norte, com cerca de cem mil homens, a maior parte dosquais nunca tinha tido qualquer treino de recruta e estavam enquadrados por oficiaisque eram muito mais comissários políticos do que militares profissionais. Aocontrário, o exército do “generalíssimo” Chiang Kai-shek, era constituído por milhõesde soldados. Era um exército regular dividido em companhias, batalhões brigadase regimentos e comandados por oficiais profissionais oriundos de academiasmilitares, nomeadamente a celebrada e histórica “Academia Militar de Whanpoha”,SUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:59 Página 122
  • em Cantão, que constituiu o cadinho da transformação dos conceitos e da práticamilitar chinesa de milénios na primeira escola de guerra moderna do país no dealbardo século XX.Nesse contexto, atribuir qualquer papel decisivo global ao “BAAG”, ou à“Coluna do Rio de Leste” seria não só incorrer em exagero como faltar à verdadehistórica.No entanto sou daqueles que pensam que, como em termos meteorológicos,o bater de asas de uma borboleta num continente pode desencadear um furacãonoutro, assim o mesmo se passa no que toca aos “ventos da história”. E não meposso esquecer, igualmente, de um quadro que sempre me ficou na memória desdeque, adolescente, li o romance “Guerra e Paz” de Leão Tolstoi. Nele surge relatadaa batalha de Borodino (No dia 7 de Setembro de 1812, às 6 horas da manhã,Napoleão deu início ao ataque com seus 135 mil homens e 587 canhões. A batalhadurou até depois do pôr-do-sol). Nesse confronto universal, o Marechal Kutuzov saiualegadamente vencedor.Para quem se interesse por assuntos de táctica e estratégia militar verifica queKutuzov não venceu, nem Napoleão perdeu. A campanha da Rússia continuaria,ainda, depois disso, sangrenta repleta de milhares e milhares de mortos caídos maissob o frio imposto pelo “general Inverno” do que pelas balas dos exércitos emconfronto, mas a verdade é que para a história a vitória russa permanece comoindiscutível.Tosltoi, que não era general, nem estratega, parece-me que explica, melhordo que qualquer professor de ciência militar aplicada, as razões que levaram aatribuir a vitória a Kutuzov. É que no momento em que o exército russo debandavaum ignoto capitão de artilharia, por acaso, e por estar situado num colina estratégicasobre o campo de batalha, não ouviu o soar das notas de clarim que ordenavamretirada geral. Assim sendo, e vendo aproximar-se uma carga de cavalaria e infantariafrancesas sobre o seu campo, manteve, ainda que isolado mas com sangue frio, adisciplina da pequena bateria que comandava, segundo as ordens que lhe tinhamsido dadas, ordenando o disparo metódico das granadas explosivas de que dispunhasobre o inimigo. O inimigo, surpreendido, não só parou, como julgou que tinhacaído em inopinada armadilha. Afinal as notas do clarim de retirada russas pareciam,face às bombas que caíam com eficiente precisão sobre si, não serem mais do queuma manobra bem sucedida de contra-informação (como se diria no vocabuláriodos nossos dias). Assim, a carga final que teria determinado iniludivelmente a batalhaa favor da França foi suspensa. A cavalaria estacou. A infantaria fez volta e meiavolver. Os 587 canhões imperiais calaram-se. Em suma, as hostes napoleónicas, empleno assalto, volveram às posições iniciais a “marche, marche”. A batalha estavaganha e a Rússia salva.MACAU CONFIDENCIAL123SUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:59 Página 123
  • JOÃO GUEDES124Quanto ao nome do capitão artilheiro (muito menos dos seus subalternos esoldados), não consta em lado nenhum da história. Ainda que tivessem sido eles os verdadeiros heróis determinantes do desfecho desse épico drama, como contaToslstoi. Os historiadores não o poderiam celebrar, como tal, por falta dedocumentação impressa e exarada em “ordem do dia” do quartel-general. Apenasum romancista poderia ter deixado para a posteridade um episódio tão pequenoquanto verdadeiramente grande e glorioso. Meia dúzia de artilheiros contra 135 milhomens. Mas, foi o que foi!. Um pequeno detalhe que afinal explica em termossimples uma das batalhas mais complexas e sangrentas da história do Mundo, e queainda hoje é estudado nas academias da especialidade.Tal como nessa épica batalha das estepes russas, o “BAAG”, a “Coluna doRio de Leste”, os agentes secretos aliados atrás das linhas, que operavam a partir,nomeadamente, de Macau, não foram mais, na China da “Guerra do Pacífico” doséculo XX, do que o pequeno capitão de Tolstoi na batalha eslava de “Borodino” doséculo anterior. Decisivas, mas, para sempre, anónimas.Certo é, que existiram! Mas, até que ponto foram determinantes no desfechoda guerra, estou certo, que nunca se saberá.Para a propaganda, politicamente correcta, dos aliados e da China de hojenão existem dúvidas. Foram determinantes. Quanto à realidade dos factos seránecessário outro romancista como Tolstoi para explicar a verdade e a importânciamoral das coisas. Todavia certo é que os Japoneses perderam a guerra. Quanto aofactor determinante da derrota sabe-se lá qual foi…SUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:59 Página 124
  • MACAU CONFIDENCIAL125GUERRA, CRIME E POLÍTICA: UM “WESTERN” DEMACAU |Apesar de toda retórica sobre a invencibilidade do exército e da marinhaimperiais comprovada pela sucessão de vitórias em todo o Extremo Oriente, osestrategas japoneses sabiam bem que ocupar militarmente a China era tarefaimpossível. Daí terem desenhado um plano de ocupação efectiva das regiões nortedo país contíguas à Coreia (então colónia japonesa) base a partir da qual o chamadoexército de Kwantong se encarregaria de lançar uma ofensiva para Sul destinada aapossar-se dos principais portos chineses, desde Tientsin a Xangai, passando porCantão, Hong Kong até à ilha de Hainão.Esta estratégia permitia a Tóquio garantir a impossibilidade de reabastecimentodas províncias interiores, dificultando, ou teoricamente bloqueando, a possibilidadede auxílio dos Estados Unidos e Inglaterra ao exército nacionalista comandado porShiang Kai Chek, totalmente colocado na defensiva perante a trituradora máquinamilitar nipónica.Este plano cuja execução se iniciou com pleno vigor em 1937 foi cumprido,obrigando o governo chinês a abandonar Pequim e sedear em Chunking (muito maisa Sul) a sua capital política. Este movimento estratégico obrigou as forças aliadas aabrirem vias de comunicação de emergência através das províncias meridionaischinesas confinantes com a Birmânia (então colónia inglesa) único ponto através doqual o exército do generalíssimo nacionalista se passaria a poder sustentar.Esta resposta ocidental levaria o Japão, numa fase posterior da guerra, a terque estender a sua campanha mais para Sul da Ilha de Hainão visando a Malásia ea actual Indonésia que passavam a constituir, depois de aberta a estrada daBirmânia (“Burma Road”), os únicos pontos extensamente vulneráveis do cerco daChina.Eventuais planos de invasão da Austrália parecem ter estado desde semprefora de qualquer pensamento estratégico dos generais de Tóquio. A Austrália, pelaSUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:59 Página 125
  • JOÃO GUEDES126sua dimensão geográfica gigantesca seria, tal como a China, caso a ter em contamuito mais tarde e bem mais pelos diplomatas do que pelos generais. A ocupaçãode Timor não passou por isso de um episódio táctico de ordem puramente militarem resposta a um inadvertido passo de Camberra.D. Aleixo Corte Real, régulo de Timor, herói e mártir na luta contra a invasão japonesa.(1886-1943).(foto retirada de: imagemcomparativa.blogspot.com)SUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:59 Página 126
  • MACAU CONFIDENCIAL127A estrada de “Burma” tinha ao todo 1.154 km de extensão e serpenteavaatravés de regiões montanhas em terreno particularmente difícil. A secção entreKunming e a fronteira birmanesa foi construída por 200.000 trabalhadores chineses,a pá e picareta, durante a chamada “segunda guerra sino-japonesa” em 1938. A sua utilidade seria confirmada pouco tempo mais tarde quando os ingleses eamericanos a passaram a usar para o transporte de material de guerra, mas não só,para a chamada “China Livre”.Se a ofensiva nipónica de cerco pelo “Sudeste Asiático” tivesse sucesso, todaa China, mais tarde, ou mais cedo, se renderia sem necessidade de empenharmilhões de homens em expedição duvidosa sobre imensidões continentais. Seria, osjaponeses sabiam bem, uma expedição semelhante à campanha napoleónica contraa Rússia, nos inícios do século XIX. Tal como ela o mais provável é que redundasseno mesmo fracasso. Porém os estrategas militares de Tóquio não ignoravam os quêse porquês dos desaires de Napoleão um século antes. Nesse contexto, para além deSingapura, bem mais a Sul de Hainão e pelas razões aduzidas, dois Portos da Chinaapenas se interpunham à concretização completa do bloqueio continental: – HongKong e Macau.Quanto à primeira a questão ficaria resolvida já que com a aliança Germanonipónica os ingleses passavam a ser inimigos, o que justificou o ataque e ocupaçãoda colónia britânica. Uma ocupação que se verificou em poucos dias sem apelo,Cruzador britânico HMS Rpulse. Afundado pela marinha japonesa no dia 10 de Dezembrode 1941.SUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:59 Página 127
  • JOÃO GUEDES128agravo, ou resistência capaz por parte dos exércitos da Grã-bretanha, o que paraestes constituiu umas das maiores humilhações da sua história imperial.De facto, depois de mais de um século de propaganda de invencibilidademarítima, dois dos mais míticos vasos de guerra do almirantado (Prince of Wales eRepulse) enviados para a Ásia para defender a sua presença, foram a pique quandomal penetravam no teatro de guerra do Pacífico.Hong Kong e Singapura, propaladas como fortalezas inexpugnáveis, pereciam,quase simultaneamente, em poucos dias face ao exército do imperador Hirohito.Que era feito das estrofes do hino: – “rule britannia rule above the seas”? Nada!Ficava a restar Macau, colónia de um país neutral, que apesar da suaexiguidade geográfica e quase ausência de meios militares de defesa não podia serocupada à luz do direito internacional e teria de ser tratada de modo diferente.Nesse aspecto os japoneses cumpriram formalmente, ainda que de modopouco escrupuloso, os requisitos de neutralidade.O exército de Kwantong, depois de ocupar as ilhas da Lapa, D. João eMontanha, todas elas reivindicadas por Portugal (onde existiam destacamentospoliciais permanentes portugueses havia muitos anos, mas que eram territóriospossuidores de estatuto internacional indefinido), parou junto às Portas do Cerco.Para o interior da fronteira de Macau o papel protagonista caberia pelosquatro anos seguintes não às divisões de linha do exército, marinha e força aérea,mas sim aos departamentos de inteligência e polícia militar dos três ramos das forçasarmadas mas principalmente à “Kempentai”, os serviços secretos do exército de suamajestade imperial. Estes, para além da espionagem e contra-espionagem, tinhamcomo missão garantir, por um lado, que os circuitos de abastecimentos de bensessenciais para a população civil e militar (tropas nipónicas e chinesas aliadas,entenda-se) permaneciam exclusivamente em mãos amigas. Por outro lado, queMacau beneficiando do seu estatuto de neutralidade não se constituísse em basede apoio, contrabando, centro de informações estratégicas e sabotagem ao serviçoda “China livre”.Esta situação levou a que o Japão impusesse a elevação do estatuto do seucônsul Fukui Yasumitsu à condição de conselheiro especial do Governador de Macau,com poderes que claramente extravasavam os de um mero representantediplomático de um país estrangeiro. Aliás é curioso notar, neste ponto da história,que, nas listas oficiais de dirigentes mundiais oficial e internacionalmente publicadas,Macau ainda conste, como tendo sido, nessa época, um protectorado japonês e ocônsul Fukui Yasumitsu um super administrador a que o Governador (GabrielMaurício Teixeira) estaria de facto sujeito como efectivamente esteve. Será umaincongruência que até hoje não foi corrigida, ou corresponderia a uma situação real?Responder a esta pergunta depende da consulta de documentação dispersa porSUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:59 Página 128
  • MACAU CONFIDENCIAL129diversas chancelarias de vários países, muita da qual ainda permanece inacessível eprotegida pelos carimbos vermelhos que a dão, apesar de já lá irem mais de seisdécada e meia, como secreta.Concomitantemente com o cônsul, o comandante da “Kempentai”, coronelSawa, tornava-se efectivamente uma espécie de chefe sombra da Repartição dosServiços de Economia de Macau, ainda que formalmente a sua liderança pertencessea Pedro José Lobo.Esta anómala situação levou à criação de uma empresa monopolistadenominada “Companhia Cooperativa de Macau” (CCM) de que o governoportuguês possuía um terço das acções. O outro terço pertencia ao exército japonêse o restante estava distribuído por várias famílias ricas, entre as quais se incluíamnomes como os de Sir Robert Ho Tung e outros grandes magnatas de Hong Kong,que no limiar da ocupação da colónia britânica tinham transferido os seus negóciose os seus bancos para a colónia portuguesa do outro lado do Rio das Pérolas.Como delegado do Governo, Pedro José Lobo geria “oficialmente” essaempresa que, na verdade, em vez de obedecer às directrizes políticas do governo deMacau obedecia isso sim e muito mais, aos objectivos politico-militares nipónicasde controlo dos principais bens de primeira necessidade – o arroz era o principal,mas outros havia não menos importantes.Quem esclarece esta situação é Stanley Ho que através de seu tio (Sir RobertHo Tung) conseguiu uma colocação de certo destaque na emergente “CCM”: – “ogoverno português entregava-nos tudo o que podia. Navios, equipamento decomunicações, ou seja o que havia capaz de render alguma coisa. Tudo isso eraentregue aos japoneses em troca de arroz, feijão, azeite, açúcar, enfim todos os bensessenciais, já que o governo de Macau não tinha recursos para acorrer àsnecessidades da população”.Macau estava inexoravelmente sujeita a cerco semelhante ao dos antigoscastelos da idade média e ao contrário da analogia nem sequer possuía azeite oualcatrão para lançar sobre quem lhe assediava as muralhas!…Apesar porém da existência da “CCM”, certo é que esse monopólio oficialnão decorria de uma acção espontânea e natural dos mercados, mas sim de umimperativo bélico.A “CCM” satisfazia os grandes comerciantes e especuladores que a curtoprazo lucravam com a guerra sem olhar a nacionalidades, ou ideologias, mas apenasestes. Ao governo de Macau, por seu turno, permitia acorrer às inúmerasnecessidade de uma população que tinha crescido exponencialmente com oconstante afluxo de refugiados que surgiam de toda a parte. Dar de comer àspessoas era essencial. Todos os dias se recolhiam pelas ruas cadáveres vítimas dafome, frio, inanição, ou simplesmente do facto de viver se ter tornado fardoSUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:59 Página 129
  • JOÃO GUEDES130demasiado pesado para quem chegava sem nada e não via futuro em nada. Sealguém lucrava ilicitamente com os estratagemas adoptados para salvar vidas e comoé que com isso se lucrava era a menor das interrogações para as autoridades deMacau.Impedido pelas convenções internacionais de manter em solo macaense asua “gendermerie” o coronel Sawa, chefe da “Kempentai”, recorreu naturalmenteàs ancestrais seitas que em Macau passaram sob as suas ordens a desempenharfunções de certo modo semelhantes às que em Portugal desempenhava a “LegiãoPortuguesa” (LP) por esses tempos.Assim os elementos das seitas, tal como os da “LP” na longínqua “Metrópole”eram polícia de segurança pública, oficiais de alfândega e braços executores dosserviços de inteligência chinesa do go-verno fantoche e colaboracionista deWeng Ching Wei aliado dos japonesesque mandavam tanto, ou em certas cir-cunstâncias mais ainda do que as insti-tuições oficiais e legalmente estabele-cidas. Ou seja vivia-se um tempo deinextrincável confusão. Um tempo deexcepção em que um revólver empu-nhado por mão anónima fazia valermelhor a autoridade do que qualquer “crachat” de polícia, ou mandato judicial. Nesses tempos incorrer em crime de desobediência à autoridade dependia apenas da qualidade de quem desobedecia,mas de modo algum de qualquer artigo do Código Penal, por mais evidente que oflagrante delito fosse.O comandante de um dos mais importantes destes corpos (se é que se podechamar assim), actuantes em Macau (onde actuavam outros de outros quadrantes,umas vezes opostos, outras circunstancialmente aliados, “nem sempre todos, nemsempre os mesmos” como rezavam os autos de polícia), era Wong Kong Kit, umcriminoso de delito comum que tinha quartel-general numa casa da avenida CoronelMesquita e residência noutra da Ouvidor Arriaga. Esta defendida por sacos de areiae metralhadoras pesadas numa réplica (ainda que em menor escala) do quartel-general de S. Francisco.- “Wong Kong Kit foi o verdadeiro Clyde de Macau durante a II GuerraMundial. Era um sujeito de voz activa que tinha um complemento directo na pessoade sua Madame Bonnie ilustre costureira, cujas mãos sanguinárias em vez demanusearem a agulha em delicadíssimos bordados empunhavam dois revólveres,que ela podia disparar tanto da esquerda para a direita como da direita para aMacau: Distribuição de arroz durante a guerra.(macauantigo-blogspot.com)SUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:59 Página 130
  • MACAU CONFIDENCIAL131esquerda (…) Estes dois “gangsters” apareceram por encanto na nossa fronteira eestabeleceram a sua firma Bonnie and Clyde sob a superintendência da gendermeriajaponesa (…) qual o negócio? Espionagem, pressão contra o governo português,fiscalização de arroz importado da China, impondo uma taxa sobre ele. Quais osmeios com que contava? Ele transitava pelas ruas em 2 automóveis com 8 homensarmados de pistola “Mauser” e revólver de calibre não inferior a 38. Tinha apoio da gendarmeria japonesa sob o comando do coronel Sawa”. Quem isto diz éMonsenhor Manuel Teixeira que viveu os acontecimentos e os deixou escritos em“sumido” trabalho monográfico que mal consta da sua bibliografia.Deste homem, viremos a encontrar bem mais recentemente uma versãomoderna, ainda que muito menos poderosa durante a chamada “guerra das seitas”que antecedeu o período de transição de soberania de Macau para a RPC, e queteve o seu auge em 1997, no peculiar “Tai Ko” Pan Nga Koi, que actualmente cumprelonga sentença judicial em prisão de alta segurança.Todavia, entre Vong Kong Kit e Pan Nga Koi as semelhanças terminam nofacto de ambos serem essencialmente exibicionistas, fanfarrões e chefes de “seita”,para além, naturalmente de criminosos de delito comum, sem qualquer ideologia.Quanto ao resto, as circunstâncias não têm paralelo. O primeiro era um “gangster”apoiado oficialmente por um Estado ocupante e imperialista.O segundo era “gangster” do mesmo jaez, que chegou a encerrar uma daspontes de Macau contando com espúrias cumplicidade apenas para participar numcena de filme, por si próprio patrocinado, passeando-se por ela com uma coluna decarros repletos de guarda-costas que não passavam de actores. O “Tai Ko” dos anos90 não era uma réplica de Wong Kong Kit, mas apenas alguém que pensava quesim, que era apoiado fosse por quem fosse, que estava acima da leiA diferença era abissal e foi determinante nos seus diferentes destinos. PanNga Koi, por mais poderoso que se julgasse nunca esteve acima do estado de direitoque o julgou e condenou, nem tinha um poderoso coronel Sawa como protector.Quanto a Vong Kong Kit o caso era muito diferente. O estado de excepçãoque se vivia nos anos 40 do século passado era muito semelhante ao das cenas dos“western” americanos. Assim só um justiceiro poderia fazer de facto justiça e foi oque aconteceu. Nesse caso o executor da lei não foi o “herói” John Wayne dos filmesmas, sim um “xerife” real à portuguesa que dava pelo nome de Sebastião VoltairePinto de Morais, comissário da polícia.Para a semana aqui contarei o resto da história....SUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:59 Página 131
  • JOÃO GUEDES132...Num contexto de domínio nipónico absoluto, com a presença de Wong KongKit e os seus bandidos, braços armados do coronel Sawa, junto à porta de casa decada um havia porém e sempre quem recusasse sujeitar-se à força e aos monopóliosinimigos da livre concorrência.Fernando Rodrigues, proprietário da empresa “F. Rodrigues” era um deles. O filho varão do general Rodrigues, conhecido como o “pacificador de Timor”,embora longe de alguma vez ter tido jeito para a vida militar, como o pai, dele tinhaherdado algumas facetas. Uma delas era a de antes quebrar que torcer em qualquercircunstância. Outra, a de não admitir que para além das autoridades constituídas(portuguesas entenda-se) alguém lhe ditasse o que devia, ou não fazer e mesmoassim nem sempre. Igualmente, tinha aprendido, em casa, que ordens, mesmo quegenuinamente exaradas e ainda que emitidas no quadro da sua educação familiar,eram para ser cumpridas, apenas, na medida em que não colidissem com osprincípios de “Deus, Pátria e Família” como dizia Salazar, de que todos os seusparentes eram reverentes e reconhecidos observadores. Afinal, ainda que não fosseconde, nem barão, era filho de um general condecorado por feitos em combate. Senão era fidalgo, era filho mais merecido ainda da república, pelo que se consideravaà partida não sujeito a quaisquer imposições estrangeiras. Menos monárquicas emuito menos imperiais.Assim Fernando Rodrigues operava tão livremente quanto podia a sua redecomercial à revelia dos ditames da “CCM”. Os seus circuitos fornecedores provinhamessencialmente da Indochina, colónia francesa sujeita ao governo de “Vichy”, queapesar de ter passado a protectorado nipónico, mantinha alguma independência,ainda que mínima e mais formal do que outra coisa. No entanto, permitia que ocomércio prosseguisse no Sudeste Asiático independentemente das ideologias.Essa rota era operada (principalmente) pela seita de Siu Keng Siu (“O Imortal”)que com a sua frota de juncos e um exército de gente que não se sabia ao certo seeram pescadores de profissão, piratas nas horas vagas, ou o contrário de tudo isso,se dizia ter mais de três mil homens sob o seu comando. Em suma uma verdadeiraarmada.Essa frota assegurava a chegada regular a Macau de arroz a preços muitomais razoáveis do que os impostos pela “CCM” e essencialmente fora dopoliticamente indecoroso sistema bloqueio e racionamento imposto pelos japoneses.Acima do “Imortal” estava Y. C. Liang, operativo dos serviços secretos inglesescom quem Rodrigues, pelo menos aparentemente, ao que se saiba, se dava muitobem. O Governador também com aquele se dava e convivia, embora formalmentetudo fizesse para parecer que não lhe concedia mais crédito público, ouSUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:59 Página 132
  • MACAU CONFIDENCIAL133consideração, do que a qualquer outro comerciante de menor importância associadoda toda poderosa e veneranda “Associação Comercial de Macau” que pela colóniativesse estabelecimento aberto. O próprio Pedro Lobo, delegado do Governo na“CCS”, sabia do que se passava e do mesmo modo fazia ouvidos moucos aocontrabando que singrava, ainda que evidentemente, contra os interesses da própriaempresa que oficialmente geria. Porém, neste caso, como noutros, desse intrincadojogo de sombras que era Macau, maiores interesses se “alevantavam”.Naturalmente que as ostensivas actividades de Fernando Rodrigues setornaram notadas e o próprio coronel Sawa o advertiu várias vezes. A últimaadvertência que lhe fez foi em pleno cais da Praia Grande, quando Rodrigues assistiaao desembarque de uma grande consignação de arroz. Os mandatários do coronelsurgiram inopinadamente no local e declararam que o desembarque não passavade uma acção patente de contrabando. Rodrigues respondeu que quem tinha queclassificar o que era, ou não, contrabando, eram as autoridades alfandegáriasportuguesas e não qualquer outra autoridade, ainda que legitimada pela força das circunstâncias.A conversa azedou e redundou numa cena de pancadaria pouco edificantepara o prestígio nipónico. Rodrigues (cuja compleição física excedia claramente ados japoneses que o confrontavam) pôs ponto final na discussão derrubando ooficial comandante e os dois subalternos que o coadjuvavam a murro. Nessa cenade pugilato os militares nem sequer pensaram em usar as pistolas de grosso calibreque lhes pendiam dos coldres. A disciplina militar, em que tinham sido educadosdesde pequenos, impedia-os de reagir a quente numa situação como aquela. Porisso, “levantaram-se, limparam-se da poeira” e foram-se embora humilhados eofendidos, mas, acima de tudo, de face perdida.O caso alcandorou de um momento para o outro o prestígio de Rodriguespara um novo patamar em termos de popularidade geral. No diz-se que diz, dastertúlias da cidade, era um civil português de punho firme que tinha desafiado, semmedo, um império inteiro, enquanto o próprio Governo que, apesar de tudo, aindapossuía polícia, exército e marinha, insistia em manter atitude titubeante queclaudicava, sem qualquer assomo de grandeza, que se visse, perante qualquerordem, ou mera sugestão do arrogante invasor da China e imperial capataz deMacau.Para as autoridades locais Rodrigues era o contrário, ou seja, uma dor decabeça que punha em causa um delicado equilíbrio que poderia ser quebrado, comconsequências imprevisíveis, mas seguramente fatais, pelo mais ligeiro acto dedesafio, ou manifestação de firmeza, que poderia cair bem ao orgulho nacionalproclamado pela propaganda do “Estado Novo”, mas que não contribuía, na prática,com o que quer que fosse de positivo para resolver ou minorar a tragédia geral, nãoSUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:59 Página 133
  • JOÃO GUEDES134passando, por isso de pura e simples insensatez. O que não deixava de ser, também,verdade.Assim o arroz desembarcado no “Cais da Praia Grande” lá seguiu o seudestino de alimentar as esfaimadas bocas de um território que pouco mais tinhapara subsistir no dia a dia do que esse básico alimento.Porém o caso não se resumiu a uma vulgar cena de pancadaria. Os socos deRodrigues, que fizeram retirar de modo pouco digno os mandatários de Sawa e asua escolta, mais do que fisicamente terem posto momentaneamente “knock-out”uns quantos oficiais japoneses colocaram, de facto, em causa o prestígio inteiro do“Exército de Kuwantung”. Dezenas de pessoas tinham assistido à cena do cais, queexistia onde hoje se ergue o centro comercial “Yaohan”, a poucas dezenas de metrosda estátua de Jorge Alvares. O próprio cônsul britânico John Reeves, da suaresidência da Calçada do Gaio, sobranceira à cidade, sorriu, fleumático, observandodas faldas da Guia o porto onde tudo se passara e telegrafou seguidamente, emcifra, como fazia regularmente, através do seu emissor clandestino, para Chunking,capital da “China Livre”, mais uma pequena vitória da guerra secreta que dirigiacontra os japoneses.Mas, Fernando Rodrigues assinava, nesse local e nesse momento, a suasentença de morte.E foi assim que Sawa, no seu quartel de Zhouhai, indirectamente combalidopelos socos do filho do falecido e histórico general, deu ordem para matar à “Seitada Ásia Florescente”, confederação de “tríades” pró-japonesas de Guangdong aque Wong Kong Kit pertencia e onde ocupava um cargo paramilitar semelhanteao de major, ou tenente-coronel num exército regular.Tradicionalmente, na colónia portuguesa muitos circunvertiam a lei, muitosdesobedeciam, muitos faziam contrabando, todos fingiam, mas ninguém tinha,até então, como Fernando Rodrigues afrontado directamente a formalidadevigente e tacitamente aceites desde sempre, fosse na paz fosse na guerra, pelaChina, pelo Japão, ou fosse por quem fosse. Muito menos por Macau, a não ser,muito fugazmente, nos quatro anos frontais, de Ferreira do Amaral em meadosdo século XIX, sem paralelo na história. Formalidades eram e sempre foramformalidades que era necessário observar acima de tudo e de todas ascircunstâncias. – Formalidades! – Mais sólidas do que as paredes de granito da Fortaleza do Monte, ou do que os “bunkers” de concreto da Guia. Asformalidades eram tão concretas aqui como o cimento armado nos antípodas,ou mais ainda.Assim Fernando Rodrigues passou a ser um alvo a abater o mais depressapossível, tal como tinha sido meses antes o próprio cônsul japonês Fukui noestertor da derrota do “Sol Nascente”. E assim foi.SUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:59 Página 134
  • MACAU CONFIDENCIAL135Passados dois meses do incidente do cais da Praia Grande, FernandoRodrigues, a 9 de Julho de 1945, foi assistir ao funeral do Dr. Wong (um conceituadomédico local) no cemitério de S. Miguel. Quando saía da cerimónia, um dos capangasde Wong Kong Kit disparou sobre ele, à boca do portão de ferro forjado do silenciosocampo de repouso dos mortos, vários e estrepitosos tiros de revolver, que ecoaramlonge. Fernando Rodrigues sucumbiu quase de imediato atingido por seis tiros,tantos quantos o tambor da arma de calibre 45 podia disparar. Morria(ingloriamente?) horas depois, no Hospital Conde de S. Januário, um mês antes darendição final do Japão.O culpado seria capturado quase de imediato graças ao sistema de vigilânciaque tinha sido implementado pelo capitão Cunha (comandante da PSP) que tinhaum dos seus polícias instalado, com telefone, numa árvore fronteira à casa de WongKong Kit, para onde o assassino tinha corrido, sem êxito, em busca de refúgio.Ao ser interrogado em tribunal o homicida diria: – “Não estou arrependido,pois ele era mau; que se ele não estivesse morto e o encontrasse de novo o mataria”.Este sicário, a soldo, acabaria por ser condenado a 31 anos de degredo emTimor. Não se sabe hoje que sorte foi a sua, terminada a guerra.A sorte de Wong Kong Kit seria pior. Portugal, a China e a Inglaterra não lheperdoariam os crimes que cometeu.Vista geral do Cemitério de S. Miguel ao portão do qual Fernando Rodrigues foi assassinado.(Foto: macauantigo-blogspot.com)SUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:59 Página 135
  • JOÃO GUEDES136Na perseguição, captura e execução de Wong Kong Kit, teria papeldeterminante o tão famoso como enigmático comissário da polícia Voltaire de Morais.O único homem (que se saiba) a favor do qual Salazar interveiopessoalmente anulando com a sua assinatura de “Presidente do Conselho deMinistros” a sentença condenatória, que o tribunal de Macau tinha lavrado e arelação de Moçambique confirmado, declarando-o criminoso de delito comum.Isto muitos anos depois da guerra (porém esta, é outra história que poucosconhecem, mas que já foi contada).Voltaire de Morais não era, nem nunca foi um criminoso de delito comumna acepção vulgar do termo. Terá sido, quando muito, uma espécie de “Javert” de“Os miseráveis” de Vítor Hugo, imbuído de uma idiossincrasia peculiar e uma formamuito própria de entender os conceitos de bem e mal.Terminada a guerra, Wong Kong Kit fugiu de Macau, mas não escapou àculpa, nem Voltaire de Morais se eximiu à ordem moral que o determinava, nem aomandato de captura de que tinha sido incumbido pelos tribunais de cumprir. E assimfoi.Depois de uma aventura semelhante às que nas novelas de espionagem IanFleming deixou descritas sobre o Extremo Oriente, Voltaire de Morais acabaria pordescobrir o paradeiro de Wong Kong Kit, na ilha de Cheung Chau, a poucas milhasde Hong Kong (território inglês). Como o fez e como o trouxe para Macau valerá apena ser relatado, ainda que não na exiguidade deste artigo (talvez num próximo).Mas certo é que o maior foragido acabaria por ser apresentado ao Juiz de InstruçãoCriminal algemado pelas mãos do célebre comissário.Porém, como disse anteriormente, as penas do Código Penal português, aocontrário das leis inglesas de Hong Kong, não contemplavam a pena de morte queWong Kong Kit obviamente mereceria segundo o direito, então universalmenteaceite.Assim sendo e para satisfazer a vingança, mais provavelmente do que ajustiça, Voltaire de Morais julgou não ter alternativa senão a de ser juiz em causaprópria, como os xerifes dos “westerns” americanos, e executou a pena poupandoinconveniências aos tribunais. Nomeadamente, a possibilidade de uma eventual eescandalosa absolvição por falta de provas. Isto já que, ainda hoje, para além de serepetir que Wong Kong Kit era o mentor de todos os crimes, não resta testemunhonem relatório que o dê como tendo disparado, ele próprio, um tiro sobre quem querque fosse. Ao contrário subsistem histórias testemunhadas da sua magnanimidadeno auxílio a carenciados e desvalidos (principalmente da seita que liderava), que nãohesitariam em comparecer em juízo a atestar o bom comportamento cívico e moraldo chefe.SUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:59 Página 136
  • MACAU CONFIDENCIAL137Depois de ter sido ouvido pelo magistrado, Wong Kong Kit recolheu à viaturaprisional escoltado por 4 agentes armados. “Ao chegar à Estrada Adolfo Loureiro…um agente abre-lhe a porta do carro e convida-o a fugir… o homem salta… e éabatido por Morais e Cascais (igualmente Comissário da PSP). Cai o pano. Lavra-seo auto que é arquivado: – malandro tentou fugir…”No curto tempo de prisão preventiva que cumpriu, Wong Kong Kit deixouum testamento escrito em jeito de poema sobre a sua vida e também sobre a suaeventual morte que, pelos vistos, previa como certa. Intitulou-o “Despedida da Vida”Infelizmente o dito poema não consta dos arquivos judiciais de Macau. O capitãoCunha, que o recebeu das mãos do célebre bandido, não o incluiu nos autos que(diga-se) também desapareceram em pó. O capitão guardou-os para si e levou-ospara Portugal quando terminou a comissão de serviço em Macau. “Só é pena que onão tenha publicado até hoje”, como deixa exarado Monsenhor Manuel Teixeira naúnica e exígua monografia sobre a guerra que deixou escrita.O capitão Cunha, Voltaire de Morais e o seu camarada Cascais; “O Imortal”,Gabriel Teixeira, Jack Braga, Menezes Alves, o espião Gardner, o tenente Vieira, bem como o resto dos segredos da guerra, mais os versos de Wong Kong Kit,sumiram-se para sempre com a morte dos protagonistas do drama de Macau naGuerra do Pacífico.SUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:59 Página 137
  • JOÃO GUEDES138O CORREDOR SECRETO |Naturalmente que perante a omnipresença japonesa em Macau o estatutode neutralidade valia menos do que nada e foi isso mesmo que o comandanteGabriel Maurício Teixeira se apercebeu mal chegou ao Território. Isto bem aocontrário do seu chefe da administração civil Meneses Alves. Curioso será entendero facto de ambos serem convictos apoiantes e militantes dos princípios do EstadoNovo não diferindo nesse aspecto em termos ideológicos. No que diferiam era nostermos práticos em que haviam de administrar um território cuja situação geopolíticainternacional só teria paralelo com o Marrocos francês expresso por HumphreyBogarth e Ingrid Bergman no filme “Casa Blanca”.No entanto, apesar de todas as eventuais semelhanças, o cenário de Macaunão era o de Casablanca nem a ficção, ainda que por vezes romântica, se balizavapelo preto e branco. Macau era uma película muito mais complexa. É que sobre asduas cores opostas imperavam todos os matizes de cinzento numa cortina tantomais difusa quanto lhe emprestava o seu oriental exotismo.Este esbatido cenário mostrava-se a toda a largura da boca do pano atravésde dois actores que se mantiveram em cena no palco macaense durante os quatroanos da guerra.Um era o cônsul britânico John P. Reeves, o outro o seu homólogo japonêsFukui Yasumitsu.John Reeves era um jovem diplomata quando chegou a Macau vindo deMukden (actual Sheniang) local onde a guerra secreta se travava de um modoparticularmente aceso entre o Japão, a China e as potências ocidentais.Alegadamente terá vindo para Macau para descansar. De que trabalhos e fadigasque outros dos seus colegas não tenham tido? Não se sabe nem era para saber. Defacto, a ordem oficial de descanso de Reeves não era mais do que uma cobertura jáque o cônsul pertencia ao MI6 (Inteligence Service) organismo que dependia doSUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:59 Página 138
  • MACAU CONFIDENCIAL139Foreign Office. O posto que vinha ocupar estava longe de se assemelhar a umaestação de convalescença, sendo sim uma das principais “antenas” do ExtremoOriente dos serviços de informações.No que diz respeito a Fukui Yasumitsu a história era outra. Fukui era umfuncionário diplomático cumpridor, mas com um espírito intrinsecamente civilistaligado às correntes políticas que se opunham ao totalitarismo militarista que tinhatomado o seu país com a bênção do imperador Hiroito. No plano concreto Fukuireflectia a opinião de correntes prevalecentes ainda que sem poder de decisão juntodos órgãos centrais de que a ocupação militar da China não passava de uma guerraperdida a longo prazo. A curto prazo representaria quando muito um investimentodemasiado caro, tanto em dinheiro como em vidas perdidas sem possibilidade deretorno. Quanto ao slogan “a Ásia para os asiáticos” apregoado aos quatro ventospelo “Império do Sol Nascente” Fukui entendia-o apenas como isso mesmo, ou sejaum mero slogan que na prática não significava mais do que uma entrada tardia doseu país numa era imperialista que a Europa e os EUA tinham iniciado na China coma primeira “guerra do ópio” (1839-42).Estes dois homens encontraram-se em Macau (se não se tivessem encontradoantes em Mukden) numa situação pouco menos que surrealista descrita assim:– Macau é hoje um centro de espionagem japonesa e por sua vez de contra-espionagem chinesa. Registam-se com frequência na colónia atentados a chinesesde tendências pró Japão ou mesmo com a simples suspeita de simpatia por ele (...)os nossos amigos de ambos os lados desconfiam de nós (…) mau é que nos tenhamcolocado nessa posição tornando qualquer movimento que não seja absolutamenteclaro, suspeito aos seus desconfiados olhos (…). Também os japoneses pensam edizem que precisam dificultar a vida a Hong Kong que ajuda o governo de ChiangKai-Shek permitindo que por ali se transporte material e artigos de guerra. (…) Sehouver guerra a nossa posição já é diferente. A amizade secular com a Inglaterrapode ser um factor contra nós. (…) Os chineses suspeitam que Hong Kong nãopoderá dar-nos auxílio e, nestas condições, por sua vez, não nos olharão com osmesmo olhos com que nos vêm agora.Esta era a súmula oficial da situação de Macau descrita em relatório secretopelo bem informado cônsul português em Cantão Vasco Martins Morgado em 1938no limiar da guerra e da chegada dos dois cônsules.Curiosamente, Reeves e Fukuy iriam habitar em residência vizinhas nas faldasda colina da Guia mantendo amizade pessoal que não escondiam, nomeadamenteao marcarem presença conjunta em vários eventos sociais e desportivos patrocinadospelo governo de Macau, ou pelos respectivos consulados.Esta situação mudaria radicalmente na sequência da ocupação de HongKong.SUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:59 Página 139
  • JOÃO GUEDES140Embora permanecessem tão amigos como antes, os dois representantesdiplomáticos, depois da declaração de guerra, não tiveram remédio senãoconsiderar-se também formalmente inimigos.Como prova disso mesmo fizeram questão em emparedar as janelas dasrespectivas vivendas fronteiras em que residiam a fim de vincar o corte de relações.Formalmente os dois cônsules deixavam dali para a frente de se falar. E nunca maisforam vistos juntos nos convívios sociais onde até então tinham sido assíduos.O emparedamento das janelas não passou porém de mais outro formalismo(um tanto conspícuo) já que Fukui e Reeves se encarregaram de mandar construir“secretamente” um corredor entre as duas residências que permitia que secontinuassem a encontrar ou a receber visitas sempre que assim entendiam fora devistas indiscretas. E as visitas oficiais eram sem dúvida, principalmente, os agentesda “Kempentai” (polícia secreta militar) japonesa, comandada pelo coronel Sawa,que mantinham um pesado aparato de vigilância à casa do lado, ou seja de Reeves,seguindo-o sempre e ostensivamente de cada vez que se deslocava de casa para oconsulado, ou para os diversos actos protocolares em que participava.Quanto às instâncias portuguesas a construção do corredor não pareceuconstituir infracção de maior já que não consta ter havido denuncia de obra ilegalefectuada a propósito, nem por parte dos fiscais das Obras Públicas nem da polícia,embora a construção fosse patentemente notado por todos os que por alicirculavam, incluindo as crianças do bairro de S. Lázaro que se perdiam emEm 1943 o Japão reuniu uma conferência histórica com os chefes de estado das nações doSudeste Asiático: – Hideki Tojo (Japão), Wang Jingwei (China), Zhang Jinghui (Manchukuo),Ba Maw (Birmânia), Whaiwhai Thayakone (Tailândia), Jose Laurel (Filipinas) e Chandra Bose(Índia) todos estes tomaram parte na conferência que se realizou numa calorosa atmosferaem Tóquio. “A Ásia para os asiáticos” era o lema.SUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:59 Página 140
  • MACAU CONFIDENCIAL141brincadeiras a poucos metros do local no Jardim Vasco da Gama e que do “secreto”corredor conheciam a história.Apesar do benevolente semi-cerrar de olhos oficial ao anómalo convívio entreFukui e Reeves o caso do “corredor” continua, ainda hoje, a constituir um totalmistério. Terá sido ditado pela necessidade imperiosa de manter secretamente umaforma de contacto regular através dos dois homens entre as duas potências emconflito? É uma possibilidade, tanto mais que o dito corredor não só permitia apassagem de Reeves, Fukui e respectivas famílias, como também a reunião informalde toda a espécie de pessoas que um ou outro dos dois cônsules pudessem convidarpara suas casas. Nesse âmbito incluía-se Menezes Alves, chefe da AdministraçãoCivil, Pedro Lobo o todo poderoso chefe da Repartição dos Serviços Económicos,oficiais do exército, marinha e polícia, bem como os principais próceres das elitescomerciais chinesas de Macau e Hong Kong (estes refugiados em Macau), e mesmoo próprio governador que conforme lhe conviesse poderia entrar oficialmente pelaporta de “casa” do Japão, ou da Inglaterra sem ninguém saber ao certo se quebravaa neutralidade que o cônsul Morgado tão insistentemente defendia que tinha de serpreservada a todo o custo.No entanto o corredor parece ter sido um elemento vital num conjunto deatitudes do consul Fukui que levantou suspeitas de infidelidade ao regime por partedo coronel Sawa.Um dia, ao sair de casa, um comando de assassinos esperava-o à portaabatendo-o a tiros de metralhadora. A autoria do atentado não deixou dúvidas aninguém. O coronel Sawa era o suspeito. No entanto, como o ataque foi levado aefeito por elementos de uma seita chinesa a suspeita não se provou. O governo deTóquio lavrou um protesto diplomático e Lisboa não teve remédio senão pedirdesculpas formais e pagar uma indemnização compensatória por um crime com oqual nada tinha a ver.SUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:59 Página 141
  • JOÃO GUEDES142MACAU 1941-45: UM ANEL DE FERRO A TODA A VOLTA |Falei a semana passada nas actividades clandestinas da resistência dos aliadosem Macau contra a ocupação japonesa durante a Guerra do Pacífico. Um períodode neutralidade precária que Macau viveu envolto no anel de ferro que os japonesesmantiveram em torno do Território que assim permaneceu virtualmente isolado domundo exterior durante mais de quatro anos, particularmente após a queda de HongKong no Natal de 1941.Irei ocupar-me agora da presença japonesa e da sua guerra secreta, mas antesé necessário traçar o quadro da situação nesses anos de brasa, sem o qual não épossível compreender uma situação essencialmente caracterizada por um jogo desombras.A neutralidade de Macau permitiu que ao longo de todos esses anos a “unionjack” que flutuava diariamente no consulado britânico local fosse a única bandeiraaliada visível em todo o Extremo Oriente depois de todas as outras terem sidohumilhantemente arriadas, pelas forças nipónicas que em poucos meses tinhamprovado com a rápida conquista de Hong Kong e Singapura que a Inglaterra comosuper-potência não passava de um mito.O Japão dominava de Norte a Sul, ou seja desde a Manchúria à Indonésia,sem contestação e ameaçava a Austrália. A esquadra inglesa que “alegadamente”patrulhava o Pacífico tinha sido metida a pique pelas forças navais do almiranteYamamoto nos mares de Singapura e a maior parte dos militares de sua majestadeo rei Jorge VI encontravam-se irremediavelmente encarcerada nos campos deconcentração das ex-colónias da costa da China e do Sudeste Asiático. Militarmenteo Japão tinha provado a sua superioridade incontestável nos mares, repetindo deuma forma exponencial a vitória que tinha obtido em 1905 contra os russos, quandose tornou o primeiro país não europeu a derrotar militarmente “sem apelo nemSUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:59 Página 142
  • MACAU CONFIDENCIAL143agravo” um potência ocidental, o que lhe permitiu começar a falar de igual paraigual com o que então era designado como o “mundo civilizado”.Nesse contexto, Macau não foi engolido pela força avassaladora do “SolNascente” apenas porque Lisboa decidiu adoptar uma politica inversa à que aRepública tinha adoptado na “1ª Guerra” (1914-18) e que tinha feito com quePortugal “à autrance” tivesse praticamente “obrigado” a Inglaterra a invocar a “velhaaliança” a fim de se fazer participar no conflito.Desta vez os argumentos de Portugal foram esgrimidos ao contrário. A “velhaaliança” manteve-se, desta vez, guardada nas gavetas do Ministério dos NegóciosEstrangeiros e a Inglaterra agradeceu. Para Londres a neutralidade de Portugalconvinha muito mais do que a beligerância activa que o “Foreign Office” tinhapedido na primeira conflagração mundial, quando solicitou a apreensão dos naviosalemães surtos nos Portos portugueses.Independentemente dos argumentos que hoje possam ser aduzidosrelativamente à atitude do ditador Salazar perante a guerra, certo é que no que dizrespeito exclusivamente a Macau essa posição representou a salvação do Território,não só durante o conflito, mas imediatamente após. Isto porque assinada a rendiçãodo Japão em Agosto de 1945, o futuro da colónia britânica de Hong Kong estevepor um fio face às reivindicações nacionalistas do partido Kwomintang e ao factode os Estados Unidos terem acordado com Chiang Kai-shek que Hong Kong seriaentregue à China logo que os japoneses fossem expulsos do país. Nesse contextoMacau ficava desde logo (como ficou) pela neutralidade decorrente da políticaexterna de Lisboa fora de qualquer pré acordo internacional que pudesse existir elivre para negociar com qualquer das potências que emergissem vencedoras.Por outro lado, no âmbito estritamente militar Macau era na verdade umterritório inerme, por muito que a doutrina do Ministro da Defesa Santos Costaafirmasse que todo o ultramar português era defensável. Essa doutrina estavalonge de corresponder a qualquer realidade, particularmente no que a Macau diziarespeito. Isto apesar das grandes obras de engenharia militar (decorrentes dessadoutrina posta em vigor na segunda metade dos anos 30 do século passado) queforam levadas a cabo e que ainda hoje podem ser observadas em parte nosextensos “bunkers” existentes na zona envolvente do Farol da Guia que no limiarda guerra chegaram a estar eriçados de potente artilharia de costa. Sublinhe-seque antes de dispararem um tiro que fosse os imponentes canhões que ali forammontados tão depressa o foram como o seu destino se cifrou em rápido desmonte.O inusitado afluxo de refugiados que mais do que duplicou a população doTerritório ditou o inexorável desmantelamento da artilharia que seria ingloriamentevendida aos japoneses em troca de arroz base fundamental da sobrevivência dacidade.SUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:59 Página 143
  • JOÃO GUEDES144Complexo semelhante ao da Guia existia também em toda a linha de fronteiraterrestre na zona das Portas do Cerco. Uma verdadeira colmeia subterrânea capazde conter uma guarnição de três mil homens. Deste porém hoje nada resta depoisdas obras que ao longo das últimas décadas foram sendo feitas naquela área.Apesar de toda a aparente imponência, o dispositivo militar de Macau nãopassava de um “tigre de papel” como se diria nos tempos da “Revolução Cultural”.De facto nessa época a guarnição militar era constituída por 497 homens, sendo 22oficiais do exército, 35 da marinha e 440 soldado, cabos e sargentos, 224 dos quaiseram elementos recrutados em Moçambique que constituíam as companhias de“caçadores indígenas” (Landins).Para além destas o dispositivo militar era integrado por uma companhia demetralhadoras, e outra de artilharia. Os destacamentos militares da Taipa e da IlhaVerde completavam o diagrama opera-cional. O apoio aéreo era garantido por4 hidroaviões “Hawker Osprey” da Ma-rinha, que tal como os canhões da Guiaacabariam igualmente por se desvanecerem mãos obscuras resultantes de negó-cios de emergência ditados igualmentepela necessidade de adquirir bens es-senciais.Neste contexto qualquer tenta-tiva de resistência perante o invasor ja-ponês nem sequer à partida seria con-cebível, a não ser para os alegadosestrategas de Santos Costa confortavel-mente instalados nos sofás do Ministério da Defesa no Terreiro do Paço que apenaspretendiam mostrar serviço desenhando planos de batalha fabulosos sobre mapasde conjuntura geográfica e estratégica essencialmente desactualizados. O planoconsistia em resistir até à chegada de reforços. Mas que reforços? Perguntar-se-ia,sabendo-se que as forças armadas portuguesas não possuíam nem efectivos nemmeios de transporte suficientes para enviar forças expedicionárias fosse para ondefosse. Mesmo o Estado de Goa que era a colónia mais próxima e mais forte nãopossuía meios capazes para se defender a si própria quanto mais enviar um corpoexpedicionário para Macau!A mobilização do então tenente Bragança (já falecido) é ilustrativa dessecontexto militar pouco menos que desolador. O tenente Bragança foi mobilizadopara Macau como comandante da defesa anti-aérea, viajando juntamente com ogovernador Maurício Teixeira, de quem tinha aliás opinião politicamente poucoAviação Naval de Macau em 1941.(Foto: macauantigo.blogspot.com)SUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:59 Página 144
  • MACAU CONFIDENCIAL145favorável. Sendo voluntário para o efeito e havendo vaga pouco interessava aoestado-maior do exército que soubesse ou não como operar artilharia contra aviões.Todavia o tenente como era escrupuloso (disse-mo, em entrevista que lhe fiz para aTDM em 1997) em vez das férias a que tinha direito, antes de partir, decidiu antestomar algumas lições de como operar com as novas baterias que iria ter por comissãocomandar. Para espanto seu (e nosso) o seu voluntarismo confrontou-se com oaborrecimento expresso do comandante da defesa anti-aérea de Lisboa que achavaque o estatuto de um oficial estava acima de trivialidades tais como essas de saberapontar uma metralhadora pesada “Bren” e carregar num gatilho para abater umavião inimigo.Certo é que, quando a aviação americana bombardeou o Porto Exterior emJaneiro de 1945 as metralhadoras anti-aéreas de Macau não dispararam um tiro.Ou porque os artilheiros não estavam nos postos de combate, ou porque o tenenteBragança não estava lá para os liderar, já que por ignotos imperativos de serviço seencontrava a comandar um pequeno pelotão estacionado bem longe na ilha deColoane.Pouco tempo depois do tenente Bragança e do governador Maurício Teixeirachegarem a Macau (Outubro de 1940), a Hong Kong chegavam tambémconsideráveis forças canadianas para reforçar as suas defesas, acrescentando mais tropas aos 52 mil homens que constituíam a guarnição da colónia.Simultaneamente a Singapura chegavam os cruzadores “Prince of Wales” e“Repulse” (glórias da “Primeira Guerra Mundial” ingloriamente torpedeadas pelamoderna marinha do “Sol Nascente” mal arribaram ao Estreito de Malaca) paraapoiar os 82 mil homens que defendiam a cidade.Apesar de todas essas demonstrações de força e reafirmações propagandeadaspela “BBC” de que a presença britânica no Extremo Oriente era inexpugnável,Singapura e Hong Kong renderam-se em poucos dias com pesadas baixas. EmSingapura caíram em combate 9.500 homens. Em Hong Kong 2.113. Nessecontexto de hecatombe que poderia fazer Macau, com os seus 497 soldados?Nada! Ou então fariam o mesmo que fez Vassalo e Silva em Goa em 1961, que serendeu em 36 horas porque perante uma força invencível sacrificar vidas era opçãosem sentido.Mas, felizmente que, Maurício Teixeira não era Vassalo e Silva, nem Macauestava tecnicamente em guerra. Por isso, o governador, cuja biografia está ainda porfazer, comandou durante cinco anos um teatro de operações de marionetas sombriase letais cujos cordelinhos que as manipulavam fugiam quase por inteiro ao seucontrolo.Por isso, quando a 5 de Agosto de 1946, o comandante do aviso “Afonso deAlbuquerque”, Samuel Conceição Vieira, assumiu as funções de encarregado doSUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:59 Página 145
  • JOÃO GUEDES146Governo, por um período de treze meses, em substituição de Gabriel MaurícioTeixeira, “afastado de Macau, a pedido das autoridades chinesas, que o acusavamde ter colaborado com os japoneses durante a guerra do Pacífico”, consumava-sefinalmente o teatro de todas as farsas que tinha sido o Extremo Oriente em chamasdesde 1937. Tudo porque durante cinco anos a neutralidade de Macau não passoude um mito. Os senhores da colónia portuguesa eram de facto os japoneses. O seu“shogum” era o frio e implacável coronel Sawa, chefe da temível “Kempentai” apolícia secreta do Imperador do Japão na província de Guangdong.Dele pouco se sabe, mas do que fez há notícia bastante para lhe traçar operfil terrorista. Falarei dele na próxima semana.SUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:59 Página 146
  • MACAU CONFIDENCIAL147A GUERRA EM CAMPO NEUTRO |Ao longo dos quatro anos do chamado conflito do Pacífico, Macau manteve-se território neutral mas a guerra ainda que uma forma muito mais insidiosa tambémteve também aqui o seu teatro ao longo desse angustiante período e apesar de todaa neutralidade oficial.A neutralidade de Macau foi diplomaticamente e na generalidade respeitadatanto pelos japoneses como pelos aliados, ao contrário do que aconteceu em Timor,onde a intenção australiana de ali firmar pé levou o exército nipónico a ocupar aantiga colónia portuguesa.Apesar disso, porém, Macau não deixava de ser igualmente uma frente decombate ainda que esse combate fosse levado a cabo por soldados vestidos à civil,guerrilheiros, mercenários e espiões. Aqui todas as forças estavam na primeira linha,mas os diferentes exércitos em vez de se misturarem em sangrentas batalhasdigladiavam-se nas sombras. Saber quem era o inimigo foi tarefa impossível até aofinal da guerra.O Hotel Central, situado na Almeida Ribeiro, por exemplo era uma verdadeiraBabilónia, onde se entrecruzavam em festas quase permanentes agentes de todasas cores. Fardas do exército português rodopiavam em memoráveis bailes por entreuniformes do “Império do Sol Nascente” e caquis das forças de Wang Jingwei, opresidente chinês do governo de Nanquim marioneta dos japoneses. Jovens mulheresdas mais diversas proveniências, desde Yokohama a Harbin e às vezes de mais longeainda condensavam uma atmosfera envolta em volutas de fumo e eflúvios de álcoolno que se diria uma transposição literal dos loucos anos 30 que fizeram a imagemde Xangai. Nesse ambiente de cacofonia, na pista de dança e nas mesas que acircundavam, segredavam-se os diálogos mais inconcebíveis. Desde informações devalor estratégico para o combate que troava do outro lado das Portas do Cerco, aconvenientes boatos, passando por negócios escuros, ou apenas negócios, atéSUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:59 Página 147
  • JOÃO GUEDES148inocentes juras de amor eterno. Nestes casos o termo “eterno” era um tantodespropositado, pois a eternidade desses tempos em Macau nunca ia muito alémda manhã do dia seguinte, já que o futuro constituía para toda a gente a mais totaldas incógnitas.Desse ambiente, para além de algumas descrições vivas que se podemencontrar nalgumas obras do romancista Leal de Carvalho, por exemplo, otestemunho do antigo deputado do Conselho Legislativo de Hong Kong, RogérioLobo (Sir Roger Lobo) constitui uma breve mas elucidativa síntese: – “Eu nunca sentiódio dos chineses a soldo dos japoneses, ou dos próprios japoneses em Macau. Paramim eram apenas pessoas que faziam o que tinham a fazer. Eu fazia também o quetinha a fazer”. O testemunho de Rogério Lobo é tanto mais exemplar quanto elepróprio pertencia uma das mais célebres redes de espionagem que operou durantea “Guerra do Pacífico” no Sul da China com quartel-general em Macau. – “Nósfazíamos parte do British Army Aid Group essencialmente encarregado de enviarpara a China livre os pilotos dos aviões que eram abatidos nesta região, ou queconseguiam chegar a Macau. Nós conseguíamos retirá-los e fazê-los regressar àssuas unidades de origem. O grupo de “inteligência” passava-nos as informações demodo a conseguirmos localizar os pilotos e colocá-los em juncos depois de nosassegurarmos que a costa estava livre. Essas operações eram normalmente feitascom dois juncos. Um era a motor e suficientemente barulhento para atrair a atençãodas patrulhas japonesas. Seguia de maneira a ser deliberadamente apanhado. Ooutro era o que na verdade transportava o fugitivo escondido e que calmamenterumava sem embaraços com destino à China livre. Eram operações arriscadas. Paranós, para os pilotos, enfim, para toda a gente (…) Recebia as ordens de missãonormalmente pela manhã cerca das 10, ou 11 horas durante os jogos de ténis,modalidade que praticava. Depois lá ia. Aprendemos a nunca falar sobre o quefazíamos. Nem mesmo com meu Pai alguma vez discuti esses assuntos. O grupofazia parte da estrutura comandada por Lord Mountbatten”.Assim, ao longo desses anos Macau foi de facto um palco de guerra e nãosó um oásis de paz, como aparentemente se poderia ser levado a pensar pela maiorparte das memórias que foram sendo recolhidas de quem viveu esses tempos. Olado sombrio e clandestino da guerra permaneceu por isso bem guardado no silênciodas memórias tanto mais que as actividades de espionagem se mantiveramabrangidas pelas leis do segredo de estado até muito depois do final do conflito,com a rendição formal do Japão no dia 2 de Setembro de 1945. Por isso revelaçõesextemporâneas, mesmo já em tempos de paz poderiam ser alvo de pesadascondenações nos tribunais civis e militares ingleses, americanos, ou chineses.No caso português, o regime de Salazar possuía ainda meios de coaçãoadicionais que eram a PIDE e os tribunais plenários que até 25 de Abril de 1974 seSUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:59 Página 148
  • MACAU CONFIDENCIAL149mostraram sempre lestos em descobrir atentados contra a Nação, mesmo nas maisinócuas das memórias, quer fossem dadas à estampa, ou apenas conversadas emtertúlias de café.Como abóbada a encerrar todos os segredos por contar acresce ainda apanóplia de traidores e agentes duplos que faziam com que na Macau da “Guerrado Pacífico” nunca se soubesse ao certo quem era quem. A figura do jovem WilliamGardner fica para a história como um paradigma.Gardner era um dos milhares de refugiados que a Macau se acolheram e quedeu nas vistas por alegadamente se “bandear” abertamente com os japoneses. Porisso era visto com maus olhos por todos os que simpatizavam com a causa aliada eque constituíam a maioria, mas não só. Diz-se que Gardner chegou a passear-se naAlmeida Ribeiro e nos salões do Hotel Central armado e ostentando um uniformejaponês. Por isso sofreu quatro anos de segregação e seus próprios pais nãoescondiam a vergonha que sentiam pelo comportamento do filho. No entanto,selada a paz Gardner surgiria inopinadamente aos olhos dos que o condenavamvestido, agora sim, com o seu verdadeiro uniforme que era o do exército dos EstadosUnidos e integrado numa delegação militar do seu país. Ao peito refulgia para maiorespanto de todos a condecoração que lhe tinha sido imposta por relevantes serviçosprestados em campanha à causa aliada.SUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:59 Página 149
  • JOÃO GUEDES150OS GUERRILHEIROS ESQUECIDOS DO RIO DE LESTE |Como tenho vindo a dizer a história é assunto delicado de pegar.Por um lado não se pode fazer sobre o acontecimento, porque é necessáriodistanciamento no tempo relativamente aos acontecimentos.Por outro historiar, em muitos países, ainda hoje significa, por vezes, ofendero poder político vigente com as consequências que tais ofensas acarretam.E por vezes não são poucas.Muitos que se atreveram a “esgravatar o passado” foram parar às cadeias,ou caíram mesmo perante os pelotões de fuzilamento (noutros tempos claro!).Goya deixou desenhos elucidativos sobre esse assunto.Basta olhar para os seus quadros e esboços sombrios para ter uma ideia doque é pugnar pela verdade contra a verdade que os poderes soberanos de ocasiãoentendem que deve ser.Portanto, porque não convém, politicamente, ou porque não é oportuno, oumesmo porque é arriscado, muitas memórias que muitas vezes poderiam explicarcom simplicidade o rumo dos acontecimentos no mundo permanecem ignoradas,ou pudicamente auto-obliteradas porque não convém. Por isto, ou por aquilo…Essas lacunas só contribuem para lançar véus de mistério desnecessários sobreas razões pelas quais as sociedades se comportam de um modo e não de outro. Por vezes o mundo aparenta mover-se de forma incoerente, mas na verdade osresultados sociais decorrem sempre de causas anteriores bem definidas. Conhecendo-se as causas o rumo da marcha dos povos torna-se então mais discernível.Às vezes, decisões políticas e estados sociais radicam em factos históricosmarcantes mas que pelas razões apontadas foram relegados para o esquecimentoapenas porque a conjuntura política o determinava e a bruma impõe-se.É o caso narrado no livro: “East River Column. Hong Kong Guerrilhas inthe Second World War and After”.SUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:59 Página 150
  • MACAU CONFIDENCIAL151Em português, qualquer coisa como “A Coluna do Rio de Lestes. Osguerrilheiros de Hong Kong durante a Segunda Guerra Mundial e depois”.Mas o que era a Coluna do Rio de Leste?Em resumo pode dizer-se que era um grupo de patriotas liderado pelo Partido Comunista da China (PCC), sobre os ombros de quem pesou a maiorresponsabilidade na resistência contra a ocupação japonesa desde 1937 em diante,nesta região do país. A coluna era composta por umas centenas de militantes queiam de intelectuais a camponeses e pescadores iletrados unidos pelos anseios de liberdade contra a opressão nipónica. Não muitos seriam verdadeiramentecomunistas no sentido militante do vocábulo, mas certo é que estavam enquadradosnas fileiras e operavam de acordo com a estratégia do partido.Esse grupo não só manteve emcheque as forças japonesas, comoprestou igualmente um auxílio valioso(atrás das linhas) aos exércitos aliadosno Leste Asiático, no campo de batalhae no domínio das informações tácticase estratégicas de auxílio à campanha.Por outro lado teve tambémuma acção de relevo no apoio à fugade numerosos prisioneiros de guerraaliados internados nos campos deconcentração japoneses de Hong Kong.Pergunta-se então. Se tiveramuma acção tão relevante, porque é quepouca gente sabe hoje que Coluna tenha sido essa?A explicação é simples.No final da guerra, à Inglaterra, ao reocupar Hong Kong, convinha nãohostilizar o governo nacionalista, do Kwomintang que tinha lutado bem mais contraos comunistas do que contra os japoneses e a “Coluna do Rio de Leste” era o braçoarmado do PCC na província de Guangdong. Não era o governo oficial da China. Só o viria a ser no final da guerra civil em 1 de Outubro de 1949.Por isso, embora reconhecendo os esforços valorosos empreendidos pela Coluna durante a guerra, as autoridades britânicas, com o seu habitualpragmatismo, preferiram conferir uma ou duas medalhas de mérito em combatea alguns dos seus líderes, oferecer uns pequenos montantes em dinheiro aosguerrilheiros reformados que optaram por permanecer em Kowloon e nos NovosTerritórios regressando às suas antigas ocupações e deixar cair, naturalmente, oassunto no esquecimento.Memorial dedicado à luta dos guerrilheiroscontra a ocupação japonesa na província deGuangdong.SUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:59 Página 151
  • JOÃO GUEDES152Do outro lado da fronteira, guerrilheiros e dirigentes foram por seu turnoalvo de reconhecimento, mas apenas momentâneo.É que com a “Revolução Cultural” (1966) triunfante esses combatentesacabariam também por ser acusados de estar ao serviço do imperialismo. Isto apesarde a acusação se basear apenas no facto de durante a guerra terem mantido estreitoscontactos com as forças aliadas e por força das circunstâncias com os Nacionalistasdo Kwomintang. Por isso ter pertencido à Coluna deixava novamente de serpergaminho a ostentar mas antes passado a esconder se possível.É caso para dizer como dizia o nosso Afonso de Albuquerque: – “Mal comos Homens por Amor de Deus, mal com Deus por amor dos Homens”.Finda a Revolução Cultural, a China de Deng Xiaoping não demonstrouinteresse em reabilitar memórias e Hong Kong, em processo de transição desoberania, também não.E assim, a “Coluna do Rio de Leste” desapareceu nas brumas da bibliografiae quase da história, como se nunca tivesse existido.De facto, até surgir a obra que temos vindo a referir, praticamente nada seescreveu sobre o assunto, que continuava a não agradar a gregos nem troianos.Quem decidiu lançar uma pedrada no charco foi Chan Sui Jeung, que searrojou à empresa de tirar do anonimato esse grupo de heróis que chegou a serclassificado, em certos pontos da história, como “bando de malfeitores”.O livro é recheado de peripécias, e resultou de numerosas entrevistas que oautor manteve com os sobreviventes da Coluna, bem como da consulta dos arquivosdisponíveis.Um livro, que apesar de tratar essencialmente de Hong Kong, não deixa desalientar o importante papel que Macau desempenhou na luta contra a agressãojaponesa, apesar da sua neutralidade na guerra.O autor, Chan Sui Jeung, é licenciado pela Universidade de Hong Kong e foidurante vários anos administrador civil nos Novos Territórios, local onde viviammuitos dos guerrilheiros que integravam a Coluna, dos quais teve oportunidade derecolher memórias inestimáveis.De Macau, por enquanto, sabe-se apenas que integravam a coluna 60guerrilheiros; de resto não parece saber-se mais nada.SUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:59 Página 152
  • MACAU CONFIDENCIAL153TÓQUIO ROSE: A VOZ JAPONESA QUE EMBEVECEU OEXTREMO ORIENTE DURANTE A GUERRA |A taipa estava isolada porque as “seitas” cortaram o cabo telefónico queligava a ilha a Macau, para vender o fio aos japoneses. Afinal, eram umas centenas,largas, de metros de cobre, que valiam muito dinheiro. Se Macau já estava isoladado mundo, a ilha da Taipa mais o ficava ainda.O chefe dos correios, sem poder emitir ou receber telegramas, arranjavamaneira de comunicar através do código “Morse”, (TSF) que nessa altura era recursoreservado aos militares.Para comunicar pessoalmente restava o barco velho, de carreira, desengonçadoe ferrugento que fazia a ligação (quando fazia) entre a ilha e a cidade e quedemorava pelo menos uma hora quando não havia avaria a registar durante opercurso. Que paralelo extraordinário!Hoje, através das três pontes, atravessa-se, em menos de cinco minutos, semser preciso exceder os 80 quilómetros de limite de velocidade essa distância. Mas,então, o canal era uma verdadeira inacessibilidade. Mas, nesse tempo era o menos.O maior problema passava a residir com o alferes Maneiras, comandante adjuntoda guarnição da ilha, que subitamente isolado se via arvorado numa espécie degeneral de um território que passava de um momento para o outro e por força dascircunstâncias ao estatuto oficioso de “região militar independente”. Sobre elepesavam todas as responsabilidades não só militares como civis na ilha e em volta.Bem se sabe que a Taipa não tinha grande população residente, mas, emtorno, vogavam milhares de juncos “sampanas” e “tancares”, de pescadores econtrabandistas, para além dos avisos, fragatas e “speed-boats” japoneses. Unsasseguravam o regular abastecimento de bens de consumo para o Território, osoutros encarregavam-se de impedir o contrabando, outros, ainda, limitavam-se aassegurar a subsistência das sua próprias famílias. Que tempos esses!…SUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:59 Página 153
  • JOÃO GUEDES154No entanto o Alferes Maneiras, militar consciente das suas responsabilidades,ainda que pouco amigo dos japoneses que tudo dominavam, arranjou maneira demanter a situação. E para manter a situação não havia senão que manter a telefoniasem fios ligada, ou seja o rádio (seria um Grunding, seria um Philips, seria umBlaupunkt?) já que todas as outras comunicações eram impossíveis ou quase. Ouviro que se dizia através da rádio era caso vital.Através do seu aparelho, o alferes Maneiras mais do que se manter emcontacto com o Governador Gabriel Teixeira (que, diga-se, saberia tanto como elequanto ao que se passava no exterior) mantinha-se em contacto com o Mundoatravés da BBC, da Voz da América (que funcionavam a partir da “China Livre”, comcapital em Chunking) e da “Rádio Tóquio” entre outras que funcionavam em ondascurtas e ondas médias.Foi nesses tempos que o diminuto bairro constituído pelas casas museu daTaipa se transformou num centro conspirativo muito particular constituído pelosobredito alferes, pelo chefe dos correios e de quando em vez pela presença doalferes Bragança (comandante de Coloane) e também por Herman MachadoMonteiro, jornalista, civil e republicano reformado, que entendia que lutar contraos japoneses era o mesmo que combater o Salazarismo vigente em Portugal, ou seja,luta ingloriamente perdida, em termos práticos.Estes dois (Herman e Bragança) vinham de Coloane e juntavam-se ao jantarde quando em vez na casa do outro alferes para saber da guerra (imaginem oAntigas casas para funcionários civis e militares na ilha da Taipa, actualmente transformadasem casas museu.SUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:59 Página 154
  • MACAU CONFIDENCIAL155caminho que faziam já que não havia istmo, nem carreiras regulares de navios emuitíssimo menos o “Cotai Streep” de hoje que nem miragens eram então!). O tenente Viera, desterrado para a Taipa por ter tentado uma insurreição em Macau(de que falei em artigo anterior) era o ocupante da outra casa, mas, por isso mesmo,sem funções precisas deixava ao adjunto Maneiras a responsabilidade de tratar daadministração local (civil e militar).Nesse ponto da história os “cem anos de solidão” de Garcia Marques e arealidade deslocavam-se do ambiente sul Américo para os confins da Ásia.“Ninguém escrevia ao coronel” e muito menos telegrafava. Tal era a situação!Face à ausência de mensagens oficiais regulares, a telefonia do alferesManeiras possuía a supremacia. E a supremacia era disputada entre a geração maisvelha agarrada às notícias. Os mais jovens que por não terem nada que fazerbrincavam descuidados e aparentemente alheados, na sala do comandante, davamprioridade a tudo registando (nos seus cérebros de crianças) notícias, música, “talkshows” e programas de entretenimento.Os últimos êxitos musicais da América, curiosamente, não provinham, porém,dos aliados mas do “eixo”. Chegavam pela voz de “Tóquio Rose” a locutora quenão ocupava mais do que uma meia hora de emissão por dia, mas que falava ao co-ração de toda gente. As outras estações davam notícias que empolgavam ou enrai-veciam os mais velhos, mas “Tóquio Rose” mantinha filhos e netos, crianças e adolescentes a par dos últimos êxitos da música do mundo. E nesse tempo a música do mundo era Glen Miller: – In the Mood, American Patrol, Chattanooga Choo Choo, String ofPearls, Tuxedo Junction, Monlight Sere-nade, Litle Brown Jug, etc. Melodias quefaziam mover os serões de sexta-feira eas matinés sensaboronas de Domingo.Tudo isso de que nos lembramoshoje de ter ouvido, pelo menos uma vezna vida, era transmitido quotidiana-mente não pela “BBC”, nem pela “Vozda América”, mas sim pela “Rádio Tó-quio”.E os jovens de Macau, locais erefugiados de Hong Kong e Xangai, ou-viam também e iam reproduzindo nasorquestras improvisadas esses tons nosIva Toguri, a famosa locutora conhecida porTóquio Rose.SUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:59 Página 155
  • JOÃO GUEDES156serões de casa de cada um, ou nos salões dos hotéis da Colónia (principalmente no“Hotel Central”) onde o grupo de “Hart Carneiro” – pai do antigo ministro da Edu-cação de Portugal Roberto Carneiro, entretinha toda a gente, japoneses, ingleses,portugueses, americanos, franceses, indochineses, enfim… sabe-se lá quantas raçase etnias que no Território conviviam obrigadas por força maior.Claro que ninguém sabia, ou melhor, só muito poucos, tinham conhecimentoque quando a voz de “Tóquio Rose” anunciava discos pedidos e o êxito seguinte deGlen Miller, o texto que lia era, de facto, uma mensagem cifrada com destinoespecífico.Cada palavra correspondia a um endereço postal militar que tanto podia seruma companhia de uma unidade imperial, na China, na Malásia, na Indonésia, ou no Vietname, como um agentesecreto encoberto em missão algures,sabe-se lá onde? Talvez numa qualquer ex-colónia europeia da Ásia (Macauincluído).“Tóquio Rose” empolgava maisainda quando dirigia a música seguintea um “GI” em missão numa ilhaqualquer do Pacífico totalmente ignotatratando-o pelo nome.Como é que “Tóquio Rose sabia”o nome e apelido do soldado raso, maiso seu número mecanográfico no pelotão, na companhia, ou no batalhão?Se o dito não ouvia a menção radiofónica à hora certa, algum dos seuscompanheiros a ouvia certamente e lhe chamava a atenção: – Então ontem a“Tóquio Rose” dedicou-te uma música?. O soldado, o cabo, o sargento, ou o oficialficava desvanecido como não seria de esperar outra coisa.A sequência das músicas correspondia também a um código secreto que sóos agentes japoneses conheciam e sabiam interpretar.Os códigos foram destruídos antes do final da guerra e do que “Tóquio Rose”disse de secreto nas suas mensagens subliminares nunca se saberá. Os códigos forameliminados, como disse, quando o Japão se apercebeu que estava na eminência deser derrotado. Isto uns meses antes das bombas atómicas que o presidente Harry S.Truman mandou lançar sobre Hiroshima e Nagasaky.Para os europeus, preocupados com a guerra no seu continente “TóquioRose” (actualmente) não diz nada a ninguém. “Tóquio Rose” é um nomeinexoravelmente esquecido por todos. Um pequeno episódio de uma guerra hámuito passada e de que ninguém lembra detalhes.Tóquio Rose durante uma das sessões de interro-gatório do tribunal internacional para o julga-mento dos crimes de guerra do regime nipónico.SUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:59 Página 156
  • MACAU CONFIDENCIAL157Para o Extremo Oriente, EUA, e particularmente Macau, “Tóquio Rose” foiporém uma lenda viva, num tempo particular, que sobreviveu muito para além daguerra. Foi a inspiração romântica do pós-guerra apesar de não se saber ao certoquem teria sido (na “Rádio Tóquio” trabalhavam de facto muitas locutoras das maisdiversas nacionalidades) mas certo é que foi tema da sétima arte e citação obrigatóriade romances e novelas.Mas quem era “Tóquio Rose” na verdade? Ainda hoje não se sabe, ao certo.E creio que nunca se saberá, para além do que consta de um processo militar abertopelos americanos e que diz, mais, ou menos assim: – “Tóquio Rose permanece aindahoje como uma espécie de lenda urbana. Uma personagem de ficção. Não existemprovas concretas de quem tenha sido de facto, embora uma mulher tenha sidoacusada e condenada como tal”.Ao que se sabe “Tóquio Rose” era um nome genérico dado pelas forçasaliadas a, pelo menos, uma dúzia de locutoras da propaganda japonesa. A intençãodestas emissões era, obviamente corromper a moral das forças aliadas. “TóquioRose”, não falava apenas em generalidades, mas por vezes nomeava eventos,unidades e até nomes próprios de oficiais, sargentos cabos e soldados quecombatiam na guerra”.“Tóquio Rose” não era uma generalidade, mas sim uma pessoa, fosse elaqual fosse que era preciso descobrir e dar um nome próprio. E isso aconteceu,quando os jornalistas, na sequência da ocupação da capital nipónica invadiram osestúdios da “Rádio Tóquio” ansiosos à procura da voz que embevecera os “GI” emais meio mundo na “Bacia do Pacífico”.E não lhes foi difícil encontrar. À pergunta ansiosa dos média, funcionários ejornalistas da “Rádio Tóquio”, apontaram Iva Toguri D` Aquino como sendo “TóquioRose”.E Iva, subitamente assediada pelas promessas de fama e também de dinheiro,já que os jornais e rádios americanas ofereciam mundos e fundos por umaentrevista e a sua transformação, numestalar de dedos, em estrela deHolywhood, concedendo-lhe mais famae mais dinheiro, não hesitou emassumir-se como tal.Sabe-se lá se era ela ou não?Mas certo é que ao assumir-se edesdobrar-se em entrevistas a todos osórgãos de comunicação social que asolicitavam tornou-se mundialmentenotada e consequentemente incorreu Felipe d’Aquino e Tóquio Rose em 1945.SUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:59 Página 157
  • JOÃO GUEDES158na alçada do tribunal americano encarregado de investigar os crimes de guerra doJapão, juntamente com mais algumas figuras da “Rádio Tóquio” que sendodetentoras da nacionalidade americana foram acusados de traição à Pátria pelotribunal excepcional de guerra criado para o efeito que acabaria por condenar àmorte por enforcamento o primeiro-ministro japonês, general Tojo, e os principaiscomparsas políticos do seu governo (ainda que, cinicamente, deixando de lado oImperador Hirohito principal ícone e mentor da guerra).O processo de “Tóquio Rose” foi um dos mais caros da história judicial dosEUA. Inicialmente condenada à morte salvou-se porque foi provado em tribunal queafinal não tinha nacionalidade americana, mas sim portuguesa, já que era casadacom um macaense de quem tinha recebido o apelido Aquino (descendente docélebre arquitecto Tomás de Aquino que construiu o Palacete de Santa Sancha ereconstruiu a Sé de Macau).Mesmo assim não se livrou de uma condenação a dez anos de prisão e 10mil dólares americanos de multa, por ter sido considerada culpada de ter anunciadoaos microfones a perda de dez navios americanos na “Guerra do Pacífico”(convenhamos, que tal anúncio era fraco despacho de pronúncia em termos dedireito para condenar quem quer que fosse).Iva Toguri cumpriu a pena nos EUA, tendo sido libertada em 1956.No entanto vinte anos mais tarde uma reportagem do programa “60Minutes” da CBS retomaria o tema e a história de “Tóquio Rose” contada por elaprópria. O programa teve repercussões imprevistas emocionando a opinião públicae levando o Presidente Gerald Ford a conceder-lhe, por decreto, a reabilitação totalem 1977.Infelizmente o marido, residente no Japão não quis ou não pode juntar-se àmulher, nos Estados Unidos, acabando por dela se divorciar em 1980. Aquinomorreria em 1996.“Tóquio Rose” ainda é viva, segundo rezam as crónicas, e reside em Chicago.Está velhinha se é que já não partiu desta vida no momento em que escrevo estacrónicaMas seria Iva Toguri De Aquino a voz que comovia corações em meio Mundoe particularmente em Macau?Creio que isso nunca se saberá ao certo.SUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:59 Página 158
  • MACAU CONFIDENCIAL159AGOSTO DE 1945: AS DOZE MULHERES ESPECIAIS DE MACAU |Alta ansiedade é o termo que melhor pode caracterizar o estado de espíritoque se vivia em Macau no mês de Agosto de 1945.No final de quatro anos de total bloqueio, as emissões da BBC e Voz da América,praticamente os únicos meios de comunicação regular que mantinham o Território ligadoao mundo exterior, anunciavam o avanço imparável das forças aliadas por toda a região daÁsia Pacífico em direcção a Tóquio e as sucessivas derrotas do exército imperial nipónico.As dúvidas sobre o resultado da guerra que já não eram muitas desde osprimeiros meses do ano e dissiparam-se no dia 6 desse mês com o lançamento dabomba atómica sobre Hiroshima. A partir daí a rendição do Japão já inevitávelpassava a ser questão de muito curto prazo.Em Macau rejubilava-se, mas a vitória encontrava-se longe de estar completa.De facto, Hong Kong permanecia em mãos nipónicas e as várias dezenas de milharesde refugiados, portugueses de Hong Kong, ingleses, americanos e de diversas outrasnacionalidades imersos na mais completa desmoralização depois de pesados eangustiantes anos de cerco, contavam as horas esperando a todo o momento oanúncio do desembarque anglo americano do outro lado do Rio das Pérolas.No entanto, apesar das novas libertadoras que perpassavam pelo ExtremoOriente, o futuro de Hong Kong mantinha-se seriamente duvidoso no que tocavaao regresso à situação colonial anterior à guerra.De facto, o presidente americano Franklin Delano Roosevelt tinha prometidoao governo nacionalista de Chang Kai Shek que, logo que expulsos os japoneses,Hong Kong seria restituído à China e não à Grã-bretanha.Diga-se que no teatro de guerra a campanha aliada no Extremo Orientedecorria sob o alto comando americano (almirante Chester Nimitz), emboraintegrasse também forças navais inglesas.SUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:59 Página 159
  • JOÃO GUEDES160Para além do combate directo contra os japoneses na ilhas do Pacífico, asforças americanas estavam envolvidas no continente, essencialmente no apoio ecolocação de tropas num xadrez estratégico previamente delineado que incluía asprincipais cidades da China, mas não contemplava Hong Kong.Seria nesse quadro de indefinição que Macau assumiria um papel relevanteno que toca às manobras político militares de Londres destinadas a evitar que ChangKai Shek se reapossasse da colónia.Nesse quadro Macau assumiu o papel de ponta de lança nas operaçõesdestinadas a preparar o regresso das autoridades britânicas de modo a içar no “Portode Vitória” de novo a “union jack” antes que as tropas nacionalistas ali fizessemflutuar a do Kwomintang.Neste âmbito o destaque foi para o cônsul de Inglaterra em Macau, John P.Reeves e para o “BAAG” (British Army Aid Group), rede de resistência comandada apartir de Chongqing pelo coronel Lindsay Ride, o de que faziam parte numerososmacaenses e chineses, como o médico Eddie Gozano, Roger Lobo, o historiador JackBraga, Y.C. Liang e muitos outros.Todas essas figuras se multiplicaram durante o ano de 1945 em missõesclandestinas de vai e vem entre Macau e Hong Kong, destinadas a reorganizar ogoverno britânico e a nomear pessoal de confiança para os diversos postos políticose administrativos. Para além de garantir a adesão de figuras influentes na sociedadede Hong Kong, nomeadamente antigos membros do Conselho Legislativo colonial,vários elementos da anterior administração que se encontravam presos em camposde concentração receberam instruções para se prepararem para reassumirfunções.Entre as várias personalidades contava-se o antigo secretário colonial FrancklinGimson e o presidente do supremo tribunal Athol MacGregor, ambos internados nocampo de Sham Shui Po.O plano posto em prática resultou em pleno, já que aproveitando o momentode hesitação imediatamente anterior à rendição formal do Império do Sol Nascente,Gimson brandindo as credenciais do governo de Londres que o davam comogovernador em exercício em nome a de sua majestade, reocupou o palácio dogoverno. O sucesso de Gimson contou com a aquiescência tácita do comandojaponês que, não possuindo instruções formais sobre o que deveria fazer naquelaconjuntura, não colocou obstáculos à ousadia do ex-prisioneiro de guerra.O golpe foi levado a cabo no momento certo tendo em conta o facto dastropas do Kwomintang que acabavam de ocupar Cantão, se encontrarem já junto àfronteira de Kowloon prontas a receber a rendição japonesa. Graças a Gimson quema receberia seria o almirante Cecil Hacourt que desembarcaria com a flotilha inglesano dia 30 de Agosto, em Hong Kong.SUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:59 Página 160
  • MACAU CONFIDENCIAL161Conhecida esta sucessão de episódios, Macau fervilhava de emoção. Noentanto um balde de água fria arrefeceu os ânimos. Através da edição inglesa dojornal “Renascimento”, os refugiados eram avisados de que pelo menos a breveprazo não haveria regresso a casa. O jornal acrescentava que as notícias sobre areabertura das carreiras fluviais de passageiros entre os dois territórios eram falsas.O frustrante anúncio do “Renascimento” prendia-se com o facto de aadministração britânica ter reassumido apenas e quase só simbolicamente o controlode Hong Kong, já que na prática o que funcionava era a estrutura montada eoperada pelos japoneses com auxílio de colaboracionistas. As autoridades britânicaspreviam um prazo mínimo de três anos para o restabelecimento da situaçãoadministrativa anterior à guerra e o regresso dos refugiados teria por isso de serescalonado.Nesse âmbito o plano do cônsul Reeves entrou numa segunda fase, ou sejaa de seleccionar entre os refugiados em Macau aqueles que tinham sido funcionáriospúblicos antes da ocupação japonesa e escolher outros que tivessem perfil capazpara substituir japoneses e colaboracionistas.A fragata “HMS Parret” seria onavio enviado expressamente a Macaupara transportar o primeiro grupo. Curioso é que nessa operação de emer-gência as mulheres tiveram prioridade.Não porque o fossem, mas sim porqueum grupo especial de dactilógrafas cre-denciadas para lidar com o expedientecivil e militar classificado estava prontoa partir para iniciar funções de assessoriaao almirantado.Segundo Stuart Braga, eramdoze as escolhidas que constavam dalista secreta de John Reeves: – D. Jex,Olga Carvalho, Elsa Carvalho, Mercedes Roza, Marie Roza, Argentina Gonsalves,Lolita Yvanovich, Avelina Gosano, Betty Clarke, Philomena Gonsalves, Irene Alonsoe Hilda May. Foi este o núcleo duro da refundação britânica de Hong Kong há 65anos.Fragata “HMS Parret” que transportou o grupoespecial de dactilógrafas de Macau.SUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:59 Página 161
  • JOÃO GUEDES162MISTÉRIOS DE MACAU NA GUERRA DO PACÍFICO |Para os historiadores e investigadores, um dos maiores mistérios, ainda quedos mais recentes, é o período em que Macau mergulhou, como pequeno territórioneutral, na “Guerra do Pacífico”.A principal razão para que tal se verifique prende-se com a gritante ausênciade documentação sobre esses anos depositada nos arquivos locais e a quaseinexistência de jornais que poderiam esclarecer alguma coisa.Infelizmente, o Arquivo Histórico poucos documentos possui referentes ao períodoentre 1940-46. Por outro lado, os poucos jornais que subsistiram intermitentementedurante essa época surgiam a público fortemente censurados, pelo que deles poucose pode extrair, mesmo relativamente a aspectos da vida social quotidiana.Sendo assim, a maior parte dos estudos e monografias publicadas baseiam-se essencialmente na tradição oral e não em quaisquer fontes documentais oficiais,ou não. Refira-se que panorama de certa forma semelhante se verifica igualmenteno que a Hong Kong diz respeito, embora na vizinha RAEHK se encontre disponívelum acervo consideravelmente maior.De salientar, neste aspecto, o estudo de Chan Sui-jeung, intitulado – “EastRiver Column, Hong Kong Guerrillas in the Second Worls War and After”, publicadoo ano passado pela “Royal Asiatic Society” por exemplo. A investigação que traz àluz numerosos episódios tão determinantes quanto obscuros, particularmente noque se refere a Macau, baseia-se em grande parte na tradição oral. O autordespendeu anos a ouvir as memórias de numerosos combatentes e não combatentesque em vários graus intervieram nos acontecimentos, principalmente os guerrilheiroscomunistas, que depois da guerra optaram por permanecer na antiga colóniabritânica.No que à documentação diz respeito sabe-se da existência de alguns arquivos,embora se encontrem todos fora de Macau.SUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:59 Página 162
  • MACAU CONFIDENCIAL163Uma das mais celebradas fontes é a chamada “Biblioteca Jack Braga”. Trata-se do acervo documental do investigador do mesmo nome, que foi comprado poruma universidade australiana e repousa na Biblioteca Nacional da Austrália emCamberra. No entanto os documentos sobre a Guerra do pacífico que dele constamparecem ser apenas recortes de artigos de jornal e transcrições de emissões de rádioque, como referi, eram alvo de forte censura pelas autoridades.Por estudar permanece o conjunto documental do exército que se encontrapraticamente em bruto depositado no “Arquivo Histórico Militar” de Lisboa.Outro arquivo que se encontra agora já disponível é o do antigo ditadorSalazar, depositado na Torre do Tombo. Trata-se de uma colecção inestimável, queestá já aberta à consulta pública e que os investigadores começam agora a estudarnos seus múltiplos aspectos.Este arquivo já revelou alguma coisa quanto ao papel de Macau,nomeadamente a sua participação na rede de inteligência aliada na guerra.No entanto muitos pontos obscuros permanecem por esclarecer. Tanto noque diz respeito à situação político-militar, como também nos domínios sociais eeconómicos.Neste âmbito, por exemplo, sabe-se que comunidades inteiras de expatriadosevacuaram literalmente Tientsin, Xangai e Cantão entre outras cidades, com destinoa Hong Kong perante o avanço japonês. Com a subsequente queda de Hong Kong,no Natal de 1941, todos esses refugiados acabaram por vir parar a Macau, que naaltura era o único ponto neutral de todo o Extremo Oriente.Sabe-se que o primeiro navio com alguns milhares de refugiados largou doPorto de Vitória, no dia 7 de Fevereiro de 1942, com alguns milhares de refugiadosa bordo rumo à colónia portuguesa. Todavia não se conhecem quaisquer estatísticasque possam informar sobre o número de pessoas que o Território então acolheu. A tradição oral sobrepõe-se nesta área indicando que a população terá aumentadode cerca de 200 mil pessoas para 500 mil. Algumas testemunhas contemporâneasreferem mesmo uma milhão de almas. Como foi possível absorver e manter talnúmero de pessoas num território de tão parcas dimensões por tão longo período?Negociar com os japoneses. Trocar os canhões da fortaleza do Monte e o principalnavio da guarnição naval (Canhoneira Macau) por arroz. Enterramentos colectivosem valas comuns dos numerosos famintos que não resistiam. Atribulações da políciapara manter a ordem pública. Ocupação e transformação de monumentos erepartições públicas em centros de refugiados. Todas estas são respostas parciais,bebidas na tradição oral, que permitem traçar um quadro geral da situação maspouco mais esclarecem.Uma avaliação do governo do comandante Gabriel Maurício Teixeira (1940-47) está quase inteiramente por fazer.SUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:59 Página 163
  • JOÃO GUEDES164Sabe-se alguma coisa do queempreendeu para manter uma sempreprecária neutralidade durante essesanos. No entanto, poucos sabem quepara além de resistir aos japoneses,Maurício Teixeira teve de enfrentar igual-mente uma feroz oposição política interna traduzida, nomeadamente, nafuga para a Metrópole do chefe da “Ad-ministração Civil”, Menezes Alves, comauxílio das redes de espionagem aliadas.A consulta do “Arquivo de Salazar” per-mitiu desvendar parte desse mistério.Outro mistério de que por agorapouco se sabe é o que se refere àsituação de virtual rebelião militar queteve de enfrentar.O súbito aumento do custo de vida e a escassez de géneros terá gerado fortedescontentamento entre a guarnição militar, fazendo eclodir a rebelião que começouna Companhia de Metralhadoras, em Março de 1942.Perante a insubordinação, militares fiéis a Gabriel Teixeira conseguiramrestabelecer a ordem, prendendo o comandante da companhia tenente VieraBranco. No entanto a detenção do oficial, em vez de desactivar a revolta, fê-laalastrar-se mais ainda já que foi posto a correr o boato de que Vieira Branco tinhasido preso apenas por ter proposto ao Governador um aumento de vencimento dossoldados. Para além do exército e marinha, a Polícia de Segurança Pública esteveigualmente a um passo de aderir.Apesar da agitação, no entanto, Gabriel Teixeira (como? Não se sabe.)conseguiu sufocar o motim, que resultou na demissão de vários oficiais sargentossoldados e civis. Alguns seriam detidos e enviados para Portugal, enquanto outrosse viram desterrados para as ilhas (Taipa e Coloane) sob a acusação de “comunistase revolucionários”.Sobre este episódio que seguramente terá provocado forte comoção naMacau da época não restam vestígios que se conheçam na tradição oral conhecidados tempos da guerra.Gabriel Maurício Teixeira governou Macauentre 1940 e 1947.SUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:59 Página 164
  • MACAU CONFIDENCIAL165A PERIGOSA NEUTRALIDADE DE MACAU NA GUERRADO PACÍFICO |Durante a “Segunda Grande Guerra Mundial”, Macau viveu um dosperíodos mais complicados da sua história. Colónia diminuta extravasavalargamente as suas proporções geográficas em termos políticos tendo em contaque era o único território neutral do Extremo Oriente. Esse estatuto decorria,naturalmente, da posição de não beligerância declarada pelo governo de Lisboaface às potências em conflito. Todavia tudo não passava de um neutralidadeperigosamente encapotada.Ao contrário de Lisboa que, durante uma grande parte da hecatombe,pendeu para as forças do “Eixo”, Macau tomou desde logo uma atitudeclaramente favorável aos aliados. Essa situação tornava-se desde logocompreensível e explicável tendo em conta não só a distância que a separava de Portugal, funcionando assim num contexto géo-político muito diverso, masprincipalmente a influência britânica que se fazia sentir primordialmente atravésde laços familiares da comunidade macaense com as de Hong Kong, Xangai eSingapura (esta em menor grau, mas mesmo assim sensível), que eram colóniasbritânicas, ou, no caso de Xangai, onde a preponderância inglesa se fazia sentirmais do que outras.Esse facto fez com que, depois da ocupação de Hong Kong pelos japoneses,no Natal de 1941, Macau se transformasse no mais importante centro de apoio eespionagem atrás das linhas inimigas (japonesas) dos aliados na China.Para o efeito contribuiu decisivamente a imigração massiva para Macau, nãosó de macaenses, mas também dos cidadãos britânicos que residiam em Hong Konge que conseguiram fugir antes de serem capturados e internados nos campos deconcentração ali instalados pelos japoneses, onde muitos passariam os quatrolongos e penosos anos que durou a ocupação e alguns neles acabariam por perecer.SUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:59 Página 165
  • JOÃO GUEDES166Através de artifícios legais e diplomáticos, os fugitivos foram recebidos einstalados em Macau, pelo governador Gabriel Teixeira, permanecendo sob aprotecção da bandeira portuguesa e à responsabilidade do cônsul inglês na cidadeJohn Reeves. Na verdade este limitava-se a conceder uma protecção pura esimplesmente formal, já que não possuía meios para o efeito e se encontravarigorosamente vigiado pela polícia política japonesa (Kempentai) que operava noterritório com a mesma, ou quase tanta liberdade quanto a polícia portuguesa.Discretamente, o apoio aos refugiados era oferecido, de facto, pelo governoportuguês, que auxiliava utilizando, para o efeito, diversas organizações nãogovernamentais, nomeadamente a Igreja Católica.Dessa forma, o governo evitava a hipótese de vir a ser acusado de quebra dascondições de neutralidade por qualquer apoio directo que concedesse aos cidadãosingleses, ou de outros inimigos do “Império do Sol Nascente” arriscando-se a sofrera mesma sorte que Timor.Tudo isso pese embora o facto de Tóquio saber muito bem que em Macau operava, não uma, mas várias redes hostis à ocupação. Essas redes nãosó se encarregavam de fornecer preciosas informações ao alto comando anglo-americano, sobre as movimentações militares terrestres e navais nipónicas,como se incumbiam também de coordenar acções de sabotagem contra alvosdesignados em toda a região costeira do Sul da China, para além de furarem os bloqueios e garantirem o fornecimento de meios de subsistência àspopulações.Essas redes, algumas das quais ficariam célebres, apoiavam-se no mar nasdiversas “tríades” que uniam os pescadores que enxameavam as rotas existentesentre a miríade de ilhas e ilhotas que pontuam as costas de Guangdong, para Sulatravés da ilha de Hainão, até ao Golfo de Tonquim.Em terra apoiavam-se essencialmente na chamada “East River Column”(ERC).“Coluna do Rio de Leste” em português. Tratava-se de um forte grupo deguerrilheiros, baseados em diversos pontos do Delta das Pérolas, liderado eesmagadoramente constituído por elementos do Partido Comunista da China (PCC)bem integrados e apoiados pelas populações. A ERC estava dividida em grupos decombate e possuía diversos aquartelamentos instalados em pontos inacessíveisdas montanhas da região.Duas das suas mais importantes bases de operações situavam-se nos NovosTerritórios de Hong Kong e na ilha de Lantau, pontos fortes que operaram seminterrupção durante todo o conflito. A ERC mantinha-se em contacto com aliderança central do PCC, através de potentes postos de rádio bem escondidosnaqueles dois locais e que apesar das diversas investidas japonesas nunca foramneutralizados.SUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:59 Página 166
  • MACAU CONFIDENCIAL167O seu núcleo de Macau contribuiu desde o início com 50 homens armados.Este grupo nunca diminuiu em número e capacidade de combate e parece termesmo ganho maior dimensão à medida que o conflito foi avançando, embora nãose conheçam dados claros sobre as suas forças.Um terceiro posto de rádio secreto encontrava-se em Macau, tendoigualmente operado sem interrupções até ao final da guerra, a partir da EscolaSalesiana, situada na Rua Central, onde se encontrava dissimulado e que a políciajaponesa nunca conseguiu detectar.Este centro de comunicações porém não estava ligado à ERC, mas sim aoMI9, a rede de inteligência britânica que operava a partir de Chonqing, capital daChina livre (1937-45), local onde se encontrava também a sede do governonacionalista liderado pelo Kwomintang.MI9 era a designação operacional do “British Army Aid Group” (BAAG)organização paramilitar das forças aliadas, que tinha sido criado na sequência daocupação japonesa de Hong Kong.O BAAG foi formado por Sir Lindsay Tasman Ride, professor de fisiologia dafaculdade de medicina da Universidade de Hong Kong, que participou comovoluntário na defesa daquela colónia britânica com o posto de tenente-coronel.Lindsay Ride viria a ser capturado pelos japoneses e internado no campo deconcentração de Sham Shui Po, deonde conseguiu escapar com o auxíliodos guerrilheiros da ERC e atingirChongqin. Ali sugeriu a criação daorganização que viria a ser o MI9 deque assumiria o comando.O MI9 destinava-se a auxiliar oesforço de guerra aliado e particular-mente a restaurar a moral e o prestígiobritânico duramente abalados após asquedas sucessivas de Hong Kong e Sin-gapura às mãos dos japoneses.A organização encarregava-senão só de recolher informações milita-res, mas também de organizar a fugade prisioneiros de guerra, que depoisde se restabelecerem e relatarem o quepudessem saber de interesse, eram rein-tegrados nas suas unidades de origem.Alguns eram-no no próprio MI9, ondeSir Lindsay Ride (sentado ao centro), chefe doBAAG.SUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:59 Página 167
  • JOÃO GUEDES168eram treinados e posteriormente lançados em vários pontos da China para missõesespecíficas.De entre as fugas mais espectaculares organizadas por esta organização,conta-se, no que a Macau diz exclusivamente respeito, a do chefe da Repartição deAdministração Civil, Menezes Alves, que discordava da política que o governadorGabriel Teixeira prosseguia em Macau e temia ser eliminado, embora não se saibabem se pelo próprio governador, se pelos japoneses. Fosse como fosse, o MI9conseguiu retirar secretamente Menezes Alves de Macau e entregá-lo a salvo aocomando aliado em Chongqin, local de onde seguiu depois para Lisboa através deGoa.Menezes Alves pretendia denunciar pessoalmente a actuação do Governadora Salazar. Todavia, a denuncia se ocorreu não produziu efeitos, já que Gabriel Teixeiraseria após o seu regresso a Lisboa agraciado pela forma como conduziu a políticaportuguesa em Macau durante a guerra, enquanto que Menezes Alves se perderiano anonimato da burocracia do Ministério do Ultramar sem mais dele se ouvir falar.Em Macau, o MI9 era liderado por Y. C. Lyang, funcionário de Pedro Lobo, otodo poderoso chefe da Repartição dos Serviços Económicos. Y. C. Lyang viria atornar-se mais tarde em empresário de sucesso tendo sido o introdutor da Coca-Cola no Território.Para além de Y. C. Lyang, vários portugueses faziam parte da rede de agentessecretos da organização. Entre muitos contava-se Jack Braga, destacado intelectuale autor de numerosos ensaios sobre a expansão marítima portuguesa dos séculosXVI e XVII no Extremo Oriente. Outro espião português do MI9 era o médico EddieGosano, figura distinta de humanista, que sob o nome de código de “Phoenix”haveria de ter um papel fulcral no restabelecimento do domínio britânico em HongKong, na sequência da rendição do Japão em 2 de Setembro de 1945.A operação do agente Phoenix é um episódio dos muitos que ainda estãopor contar sobre os cinco anos de perigosa neutralidade que Macau viveu duranteos anos de fogo da Guerra do Pacífico.SUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:59 Página 168
  • MACAU CONFIDENCIAL169REFUGIADOS, ESPIÕES E O GOVERNO SOMBRA |O final da “Segunda Guerra” assinalou não só fim do conflito mais mortíferoque a humanidade conheceu, mas também a entrada numa era inteiramente novano xadrez geopolítico e estratégico mundial. As descolonizações. Um sinal simbólicode partida para essa recomposição que se alastraria pelo mundo seria dado pelasforças americanas no Extremo Oriente. Na contra ofensiva que teve lugar paradesalojar os japoneses das regiões ocupadas as forças dos EUA, juntamente com oexército chinês efectuaram uma lenta progressão através dos principais pontosestratégicos da China, mas ignoraram completamente Hong Kong, que permaneceuem mãos nipónicas durante algum tempo mais do que outras cidades do país. Aprincipal razão para isso prendia-se com o facto de o governo do Kwomintangconsiderar que Hong Kong fazia parte integrante da China, não existindo razõespara que a Inglaterra reassumisse a soberania do território. Por seu turno aosamericanos não interessava de modo algum dar qualquer sinal de parcialidade quepudesse ser considerado hostil pelos nacionalistas. Esta situação levou a que o altocomando sedeado na Índia, tivesse de pedir autorização para destacar um certonúmero de navios britânicos da esquadra do Pacífico sob o comando do almiranteSir Cecil Harcourt, para efectuar uma operação autónoma destinada a reconquistarHong Kong. Um situação de envolveu negociações árduas e que essencialmenteconsumiu tempo precioso do ponto de vista de Londres. Nesse contexto, enquantoa esquadra britânica não chegava impunha-se o restabelecimento urgente dogoverno colonial, que tinha sido literalmente encarcerado nos campos deconcentração levantados pelos japoneses no Natal de 1941. Para Londres essa acçãoera crucial de modo a evitar que na eventualidade de um vazio de poder o governodo Kwomintang levantasse a questão da soberania de Hong Kong, na esfera político-diplomática. Registava-se assim uma situação de corrida contra o tempo. De umlado a esquadra britânica a rumar ao Porto de Vitória e do outro as tropas doSUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:59 Página 169
  • JOÃO GUEDES170Kwomintang a penetrarem, já nos novos Territórios acercando-se perigosamente deKowloon. Assim, Londres através do alto comando aliado na Índia, chefiado porLord Mountbatten enviou ordens expressas para que o antigo secretário colonialFrancklin Gimson, que estava preso no campo de concentração de Stanley, assumisseimediatamente após a sua libertação o cargo de governador em exercício ereorganizasse o governo até à chegada da esquadra britânica momento a partir doqual seria estabelecido um governo militar de excepção que vigoraria até àrestauração da normalidade britânica. O problema era no entanto fazer chegar asordens ao interior do campo. A difícil e perigosa missão seria cometida ao MI9 dotenente-coronel Lindsay Ride e à sua rede de espiões do “BAAG” (British Army AidGroup), os únicos que mantinham canais de comunicação com os campos deinternamento e com a resistência no interior de Hong Kong. As ordens de Londresforam recebidas por telégrafo por Y. C. Lyang, que de imediato as transmitiu aocônsul britânico John Reeves. A missão de entregar as ordens em mão a Gimsonrecaiu sobre o médico Eddie Gosano, que para o efeito recebeu o nome de códigode “Phoenix”. Juntamente com Gosano seguiria Roger Lobo.Para a lém de entregar asinstruções de Londres ao antigosecretário colonial, os dois tinham pormissão contactar várias figuras de HongKong que deveriam colaborar norestabelecimento da administraçãobritânica de Hong Kong. Inicialmente“Phoenix”, Roger Lobo e o próprioLindsay Ride opuseram-se à missãotendo em conta a enorme dificuldadeque representava a travessia do Rio dasPérolas, enxameado de navios patrulhajaponeses, milícias navais pró nipónicase bandos de piratas sem quaisquerlealdades assumidas que apenasaproveitavam a caótica situação parapilhar o que podiam. Uma travessiaassim poderia levar semanas a efectuar,afirmava Ride e a vida dos agentes corria sérios riscos. O assunto resolveu-se quandoY. C. Lyang, que controlava a rede clandestina de navios de pesca que garantiam ofluxo de mantimentos entre o Vietname e Macau, iludindo o bloqueio japonês,garantiu que a viagem seria feita rapidamente e com toda a segurança, designandopara o efeito uma escolta constituída por quatro guerrilheiros armados e largamenteRoger Lobo seguiu com o agente "Phoenix" namissão secreta a Hong Kong.SUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:59 Página 170
  • MACAU CONFIDENCIAL171experimentados nas andanças dos mares do Sul da China. Vencidas as hesitações,o pequeno grupo de homens disfarçados de pescadores partiu num velho junco amotor com destino a Hong Kong, conseguindo passar incólume, como Y. C. Lyangtinha garantido, através da perigosa selva em que se tinha transformado o Deltanos últimos anos. A velha embarcação ainda avariou várias vezes durante opercurso, o que transformou a viagem que normalmente não duraria mais do que12 horas numa angustiante eternidade para Gosano e Lobo. Mas finalmente osdois puderam aportar sãos e salvos no cais de Kennedy Town. Chegados a HongKong, Gosano contactou de imediato o seu colega Selwin Clarke, fazendo-lhe saberque ficava a partir daquele momento responsável pelos serviços de saúde eparticularmente pelo processo de distribuição de alimentos à população erecuperação dos inúmeros prisioneiros de guerra afectados pela fome e emprecárias condições de saúde. Para o efeito aproveitaria o sistema em vigorimplementado pelos japoneses, garantindo o seu continuado funcionamento.Outra personalidade contacta foi Sir Robert Kotwall, que tinha sido o último e maiscategorizado deputado do Conselho Legislativo de Hong Kong, antes da ocupação.As razões para este contacto com Kotwall, notório colaboracionista, permanecemainda hoje um mistério. Isto tendo em conta que até Lindsay Ride se tinha opostoa tê-lo sequer em consideração.A verdade é que o próprio Kotwall, que sabia que a queda dos japonesesestava eminente, se eximiu, declarando-se indisponível por tempo indeterminadopara o exercício de toda e qualquer função oficial alegando motivos de saúde.Kotwall não recebeu Gosano, tendo-lhe sido indicado que contactasse antes ManKam Lo (genro de Sir Robert Ho Tung), que era tacitamente aceite como o líder dacomunidade chinesa de Hong Kong. Finalmente “Phoenix” rumou a Stanley, ondeentrou com facilidade entregando as ordens que trazia num envelope selado, cujoconteúdo ignorava, ao secretário Francklin Gimson. Este não perdeu tempo emunido da carta patente que o nomeava governador empossou o presidente doSupremo Tribunal, e o “postmaster general” (director dos correios), AtholMacGregor e Gwynn-Jones, que consigo se encontravam internados no mesmocampo. Com essas três figuras fulcrais se iniciou a recomposição da administraçãoe a restauração da soberania britânica de Hong Kong. De salientar em tudo isto ofacto de nenhum dos elementos da “Coluna do Rio de Leste”, que tão bravamentese tinham batido contra a presença japonesa em Hong Kong, ter sido tido ouachado na operação. É que logo à chegada dos navios da esquadra do Pacífico, oalmirante Cecil Harcourt fazia saber que as únicas forças combatentes reconhecidasseriam apenas e só as do Kwomintang. Isto, apesar da sua presença se ter feitosentir apenas na fase final do conflito nas imediações de Hong Kong e seguramentenão com o objectivo de facilitar qualquer regresso dos ingleses.SUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:59 Página 171
  • JOÃO GUEDES172BIBLIOGRAFIAObras consultadasA. H. de Oliveira Marques. Dicionário de Maçonaria Portuguesa (Volumes Ie II). Editorial Delta, 1986.A. H. de Oliveira Marques. História dos Portuguesas no Extremo Oriente, 3º Volume. Macau e Timor do Antigo Regime à República. Fundação Oriente, 2000.A. H. de Oliveira Marques. História dos portugueses no Extremo Oriente, 4º Volume. Macau e Timor no período republicano. Fundação Oriente, 2003.Alan Birch & Martin Cole. Captive Christmas, The Batle of Hong Kong.December 1941. Heinemann Asia, Hong Kong. Singapore. Kuala Lumpur, 1979.Alan Birch & Martin Cole. Captive Years, The Ocupation of Hong Kong.1941/45. Heinemann Asia, Hong Kong. Singapore. Kuala Lumpur, 1982.Anders Ljugstedt. An Historical Sketch of The Portuguese Settlements inChina and of the Roman Catholic Church and Mission in China & Description ofthe City of Canton. Viking Hong Kong Publications, 1992.António Vasconcelos de Saldanha. A Guerra vista de Cantão. Os relatóriosde Vasco Martins Morgado, cônsul-geral de Portugal em Cantão, sobre a GuerraSino-japonesa. Livros do Oriente, 1998.Beatriz Basto da Silva. Cronologia da História de Macau, Século XIX, Volume 3.Direcção dos Serviços de Educação e Juventude, 1995.Beatriz Basto da Silva. Cronologia da História de Macau Século XX, Volume 4.Direcção dos Serviços de Educação e Juventude, 1997.Carlos José Caldeira. Macau em 1850. Quetzal Editores, 1997.SUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:59 Página 172
  • MACAU CONFIDENCIAL173C. A. Montalto de Jesus. Macau Histórico. Livros do Oriente, 1990.Chan Sui-Jeung. East River Column – Hong Kong Guerrillas in the SecondWorld War and After, Hong Kong University Press, 2009.Edward J. M. Rhoads. China’s Republican Revolution, The Case of Kwangtung,1895/1913. Harvard University Press, Cambridge, Massachusetts, 1975.Edward L. Dreyer. China at War, 1901/1949. Longman Group Limited, 1995.Frank Welsh. A History of Hong Kong, HarperCollins Publishers, 1993.Hugh B. O’Neill. Companion to Chinese History. Facts on File Publications, 1987.Jacques Gernet. A History of Chinese Civilization. Cambridge UniversityPress, 1985.Jill McGivering. Macao Remembers, Oxford University Press, 1999.João Guedes. As seitas histórias do crime e da política em Macau, Livros doOriente, 1991.João Guedes. Laboratório Constitucional, Instituto Português do Oriente, 1995.Mike Gibby. Crownede with the Stars – The Life and Times of Don CarlosCuarteron First Perfet of Borneo 1816-1880. Diocese of Kota Kinabalu, 2005.Ng Lun Ngai-ha. The Chinese University of Hong Kong, Chen Shenglin, GuoJingrong, Luo Lixin, Zhongshan University, Historical Traces of Sun Yat-sen’s Activitiesin Hong Kong, Macao and Overseas.Pe. Manuel Teixeira. A Medicina em Macau, Vol. IV – Os Médicos em Macauno séc. XX. Macau Imprensa Nacional, 1976.Pe. Manuel Teixeira. Toponímia de Macau Vol. I – Ruas com nomes genérico.Macau Imprensa Nacional, 1979.Pe. Manuel Teixeira. A educação em Macau. Direcção dos Serviços deEducação e Cultura, 1982.Pe. Manuel Teixeira. Vultos marcantes em Macau, Direcção dos Serviços deEducação e Cultura, 1982.Pe. Manuel Teixeira. Os Militares em Macau. Macau Imprensa Nacional, 1984.Pe. Manuel Teixeira. A medicina em Macau (Volumes I – II). Governo deMacau, Gabinete do Secretário Adjunto para os Assuntos Sociais e Orçamento, 1998.Pe. Manuel Teixeira. Imprensa Periódica Portuguesa no Extremo Oriente (fac-símile da 1ª edição com prefácio de Afonso Camões), Instituto Cultural deMacau, 1999.SUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:59 Página 173
  • JOÃO GUEDES174Pe. Manuel Teixeira. Toponímia de Macau Vol. II. Ruas com nomes depessoas. Macau Imprensa Nacional, 1981.Peter Elphick. Far Eastern File, The Intelligence War in the Far East 1930 /1945. Coronet Books Hodder & Stoughton, 1997.Roger Faligot, Remy Kauffer. As Tu Vu Cremet? Librairie Artheme Fayard, 1991.Sally Blyth and Ian Wotherspoon. Hong Kong Remembers, Oxford UniversityPress, 1996.Sterfling Seagrave. The Soong Dynasty. Published by Sidgwick & JacksonLimited, 1985.Estudos e artigos consultadosCarlos Eugénio de Vasconcelos, gerente do BNU em Macau entre 1938 e1946. Relatório da Gerência 1938-1945.Cicero Rozario's P. O. W. Memoirs Experiences at Shamshuipo & SendaiCamps. In Voz de Macaenses de Vancouver in November, 2001.Jin Guo Ping, Wu Zhilzang. Teria havida acordos secretos entre Portugal eo Japão durante a Segunda Guerra Mundial? Revista Administração nº 51 , vol. XIV,2001-1°, 239-275.Luiz Francisco Loureiro. O Estado Novo português nas páginas da Folha daManhã (1933 – 1945): a política de neutralidade portuguesa. Associação Nacionalde História Secção de Minas Gerais, Brasil.Paul Tsui Ka Cheung’s Memoirs. My Life and my Encounters “EBook”.Pe. Manuel Teixeira. Macau durante a Guerra.Stuart Braga. A hockey game to remember. Casa Downunder Newsletter.Casa de Macau na Austrália. April 2010. Volume 22 Issue 1.Stuart Braga. We Have Come Here as conquerors. You will do as we say.Casa Downunder Newsletter. Volume 17, Issue 4, October 2005.World War II Research Collections Top Secret Studies on U.S. CommunicationsIntelligence during World War II Parti. The Pacific Theater Project, Editor Robert E.Lester. Guide compiled by Blair D. Hydrick.Documentação consultadaArquivo Histórico.Fundo da Aministração Civil.SUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:59 Página 174
  • MACAU CONFIDENCIAL1751912, Janeiro 5 – Processo nº 383 – Série R – Relatório do GovernadorInterino da Província, Álvaro de Melo Machado.1912, Janeiro 23 – Processo nº 408 – Série S – Recrutamento de chineses emMacau para servirem como soldados no Norte da China.1912, Fevereiro 1 – Processo nº 350 – Série P – Governo determina que aprotecção contra os piratas passe a ser feita pela Lancha Canhoneira Macau.1912, Fevereiro 2 – Processo nº 214 – Série E – Capitania dos portos pedemelhor iluminação dos cais e requesita armamento para as suas embarcações.1912, Abril 18 – Processo nº 254 – Série L – Conflito com a China. Caso das“lanchas do sal”.1912, Junho 25 – Processo nº 97 – Série C – Conflito com a China.1912, Agosto 30 – Processo nº 403 – Série R – Animosidade chinesa contraMacau.1913, Agosto 7 – Processo nº 156 – Série E – Estatutos não aprovados doclube “Chôk-Chu”. São sócios fundadores famigerados piratas que fizeram fogocontra forças portuguesas em Coloane.1913, Outubro 2 – Processo nº 165 – Série E – Pedido das autoridadeschinesas para a extradição de revolucionários refugiados em Macau.1914, Abril 4 – Processo nº 123 – Série E – Exoneração de Constâncio Joséda Silva do cargo de secretário geral do governo interino.1914, Abril 24 – Processo nº 323 – Série P – Pessoal e funcionamento dosserviços de polícia secreta e Polícia de Segurança Pública.1914, Agosto 7 – Processo nº 363 – Série R – Propaganda contra a RepúblicaChinesa.1916, Janeiro 6 – Processo nº 197 – Série E – Pedido de extradição do cheferevolucionário Chan Kuen Meng.1916, Maio 25 – Processo nº 217 – Série E – Propaganda contra a soberaniaportuguesa.1919, Abril 15 – Processo nº 701 – Série T – Pedido de Manuel Jervis deAthoughia Ferreira Pinto Basto.1919, Junho 13 – Processo nº 373 – Série M – Manifestações de pesar devárias entidades pela morte do Primeiro Tenente, Manuel Jervis de Athoughia PintoBasto, Comandante da Canhoneira “Macau”.SUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:59 Página 175
  • JOÃO GUEDES1761920, Março 3 – Processo nº 292 – Série N – Providências tomadas peloGoverno para pôr cobro à publicação nos jornais de Hong Kong de notícias falsassobre Macau.1920, Agosto 7 – Processo nº 121 – Série E – Expulsão de jornalistas e editoreschineses.1920, Setembro 7 – Processo nº 125 – Série E – Expulsão de funcionários eredactores do jornal “Ou Mun San Pou”.Jornais de Macau consultados“O Independente”, “O Combate”, “A Verdade”, “O Porvir”, “Notícias deMacau”, “Renascimento”, “A Voz de Macau”.Jornais de Hong Kong“South China Morning Post”, “Hong Kong Telegraph”, “Daily Press”.SUMA_13_Macau_Confidencial_fin_III_Irene_Layout_PP 01/02/16 11:59 Página 176
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