• FICHA TÉCNICA:Editor: Instituto Internacional de MacauTítulo: FILHOS DA TERRA - A Comunidade Macaense, Ontem e HojeAutora: Alexandra Sofia RangelProdução gráfica: Maisimagem II - Comunicação Global, Unipessoal LdaColecção: Suma OrientalTiragem: 1.000 exemplaresImpressão: Peres-Soctip - Indústrias Gráficas, SAISBN: 978-972-95722-7-2Depósito Legal: 341282/12IIM - Instituto Internacional de MacauRua de Berlim, Edifício Nam Hong, 2º andar (NAPE)MacauTelefone: (853) 751 727 / (853) 751 767Fax: (853) 751 797E-mail: iim@macau.ctm.netpatrocínio
  • “São eles os descendentes dos bons portugueses que aqui construíram o seular e honradamente criaram a sua prole; apenas não sabiam que Macau era só nossapor empréstimo e que um dia teríamos de a devolver, bonita e próspera.”José dos Santos Ferreira, 1996Este livro é dedicado a Macau, minha terra, e à comunidade macaense, aque tenho a honra de pertencer.
  • AGRADECIMENTOSÀ Professora Doutora Teresa Malafaia, por todo o apoio e acompanhamento no longo trabalho de orientação da minha dissertação de Mestrado.Aos meus pais, Maria João e Jorge Rangel, macaenses que me ensinaram o valor da nossa comunidade e o significado do legado histórico-cultural, resultante do prolongado encontro de culturas que deu a Macau uma singularidade própria.Aos meus restantes familiares, membros dos clãs Rangel e Senna Fernandes, por serem exemplos de que as nossas tradições estão bem vivas e pelo seu constante e afectuoso encorajamento.A Jill Castillo e Ana Assuda pela amizade e estímulo que me deram, conversando frequentemente comigo sobre o meu trabalho.A Ana Barroso pela disponibilidade e simpatia na ajuda que me deu nas traduções para chinês.
  • FILHOS DA TERRA | A Comunidade Macaense, Ontem e HojeÍNDICE | IntroduçãoNota Prévia 11Introdução 13capítulo IA Origem da Comunidade Macaense: Um Enquadramento Histórico1. Os Portugueses no Extremo Oriente: Breves Notas 192. Os Casamentos com Mulheres Orientais 213. A Fundação e a Afirmação de Macau 244. A Origem da Comunidade Macaense 32capítulo IIElementos Caracterizadores da Comunidade Macaense1. A Culinária Macaense 412. O Dialecto Macaense: Patuá 463. Festividades Tradicionais 523.1 Ano Novo Chinês 543.2 10 de Junho 563.3 24 de Junho 593.4 Natal 614. Figuras de Referência na Comunidade 634.1 Luís Gonzaga Gomes 634.2 José dos Santos Ferreira 664.3 Henrique de Senna Fernandes 705. Instituições Macaenses 736. A Diáspora Macaense 78capítulo IIIA Comunidade Macaense Face ao Estatuto Actual de Macau1. A Questão de Macau 832. A RAEM e a Lei Básica 903. O Legado 944. O Futuro 98Conclusão 103Fontes das Ilustrações 109Bibliografia 111Endereços Electrónicos de Referência 117
  • 11FILHOS DA TERRA | A Comunidade Macaense, Ontem e HojeNOTA PRÉVIADescendente de duas antigas famílias macaenses, Alexandra Sofia de SennaFernandes Hagedorn Rangel, na conclusão do mestrado que frequentou em Ciênciasda Cultura (especialização em Comunicação e Cultura), na Faculdade de Letras daUniversidade de Lisboa, escolheu para tema da sua dissertação final um estudo sobrea sua comunidade, apresentando um breve enquadramento histórico sobre as suasorigens e evolução, identificando os elementos que a caracterizam e distinguem eexplicando o seu papel e lugar face ao estatuto actual de Macau, não deixando tam-bém de perspectivar o seu futuro, na terra-mãe e na diáspora.O júri, constituído por dois professores catedráticos da Faculdade de Letrasda Universidade de Lisboa e um da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Uni-versidade Nova de Lisboa, deliberou atribuir-lhe uma alta classificação – 18 valores– e recomendou-lhe que publicasse o trabalho, ao mesmo tempo que a incentivoua dedicar-se à investigação académica.Por isso, e atendendo ao inegável interesse e oportunidade do tema, o Instituto Internacional de Macau decidiu assumir a edição, um ano após a defesada dissertação, e promover a sua divulgação junto da comunidade macaense, tornando, igualmente, mais acessível a sua leitura por outros interessados, numa altura em que se verifica um renovado interesse por Macau, nos contextos histórico, sociológico, cultural, económico e político, nos círculos académicos portugueses echineses e até em universidades de outros países.Pela natureza do trabalho e pelo seu tema, esta obra é, naturalmente, integrada na colecção “Suma Oriental”.Março de 2012Instituto Internacional de Macau
  • 13FILHOS DA TERRA | A Comunidade Macaense, Ontem e HojeINTRODUÇÃONasci em Macau, sendo eu a décima geração macaense da minha família,oriunda de Portugal e com uma presença continuada no Oriente desde o séculoXVII.1 Vivi lá até 2005, ano em que me mudei para Portugal para frequentar a Universidade de Lisboa.Após terminar a Licenciatura em Ciências da Cultura, especialização em Comunicação e Cultura, candidatei-me ao Mestrado na mesma área e, para a dissertação, quis abordar um tema que me fosse próximo. Por isso, propus-me escrever sobre os macaenses, para divulgar a comunidade a que pertenço e quetenho procurado estudar ao longo dos últimos anos, com vista a dar o meu contri-buto para que seja mais conhecida em Portugal. Se as circunstâncias o permitirem,irei mais longe, procurando aprofundar este es-tudo muito para além da apresentação e defesada minha dissertação.Macaense não tem sido, de acordo com atradição, um termo que se deva aplicar a todos oshabitantes de Macau, pois cerca de 95% da po-pulação é chinesa, num território onde tambémreside gente oriunda de muitas partes do mundo,com pequenas comunidades bem distintas e acti-vas de portugueses e outros europeus, filipinos,tailandeses e outros orientais, e, mais recente-mente, até americanos, atraídos pelas oportuni-dades que a todos Macau continua a oferecer. Os macaenses são, em regra, fruto de sucessivas1 Capítulo dedicado à família Rangel em Famílias Macaenses, volume III, de Jorge Forjaz (Forjaz 1996b:9-22).fig. 1| Jovem macaense em meadosdo século XX (Maria Fernanda deSenna Fernandes Robarts)
  • 14ALEXANDRA SOFIA RANGELgerações de cruzamentos entre portugueses e orientais (mulheres malaias, indianas,japonesas e chinesas, entre outras), havendo também os “macaenses por adopção”,chineses que se converteram ao catolicismo, adoptaram nomes portugueses, frequentaram as escolas de língua portuguesa e, por consequência, assimilaram acultura e a língua dos macaenses, que os consideram como parte da comunidade(Batalha 1974: 9).De acordo com outro autor, Macaenses são os descendentes dos portugueses, nascidos em Macau. Frequentaramas escolas locais, onde o português foi a língua veicular da aprendizagem. Devido ao isolamento a que foram votados e à sua radicação em terra longínqua, afas-tada da Mãe Pátria, foram-se casando, pelos séculos fora, uns poucos com portugue-sas, mas a grande maioria com as nativas regionais, misturando-se assim o sangueportuguês com o sangue das chinesas, malaias, filipinas, etc. A percentagem do sangueportuguês, que corre pelas veias dos descendentes desta grande maioria, é irrelevante,visto serem portugueses por descendência. Somente que nasceram em Macau e vive-ram no âmbito dos costumes locais, que séculos moldaram (Silva 2001: 31-32).A miscigenação começou quando os portugueses rumaram à Ásia e contac-taram com os povos locais. Foram encorajados, em Goa e em Malaca, através deatractivos dotes nupciais e a oferta de terras, a casar com mulheres locais, uma po-lítica de Afonso de Albuquerque que tinha como objectivo o rápido povoamento ea vinculação à terra, criando novas gerações nascidas nas possessões portuguesasem número bastante para assegurarem a sua defesa (Amaro 1988: 13-14).Após a fundação de Macau,(…) os portugueses que demandaram Macau encontraram companheiras e lograramcriar um tipo novo de euro-asiático, diferente do mestiço luso-chinês que, alguns autorestêm, indistinta e erradamente, visto, ao longo dos séculos, no macaense ou filho daterra.Em Macau vivem, actualmente, três grupos bem demarcados, grupos que se isolaramno decorrer do tempo e se mantiveram apenas ligeiramente interpenetrados até àsprimeiras décadas do século XX. Esses grupos (portugueses europeus, macaenses ouportugueses de Macau e chineses) apresentam características antropobiológicas e cul-turais muito específicas que lhes conferem vincada individualidade. Destes três gruposo que merece o maior interesse é, sem dúvida, o dos macaenses, grupo novo, frutode um poli-hibridismo muito rico (Amaro 1988: 4).Como refere e bem a autora, os macaenses não são simplesmente “luso-chi-
  • 15FILHOS DA TERRA | A Comunidade Macaense, Ontem e Hojeneses”,2 porque o seu sangue resulta também de outros cruzamentos. Os macaenses usam a expressão “filhos da terra” para se referirem a si próprios, expressão essa derivada do cantonense (dialecto chinês de Cantão, HongKong e Macau) t’ou sáng p’ou yân (土生葡人), que significa “filhos da terra de ascendência portuguesa”, para não serem confundidos com chineses3 nem com oschamados “portugueses de Portugal”, uma vez que os macaenses são e sempreforam portugueses.4Hoje em dia, conceitos como etnicidade5 e identidade no sentido colectivo6podem ser contestados no mundo académico, como, aliás, quase tudo o mais. Masse de facto – como defendem alguns – não devemos usar “identidade” para nos referirmos a um grupo, a verdade é que existe um sentido de pertença que une osmacaenses e elementos caracterizadores de uma identidade e uma postura que traduz uma unidade como grupo. A nossa história, as nossas tradições, o nosso dia-lecto e a nossa culinária, tudo isto nos une numa comunidade, ou seja, num grupocom os mesmos valores e objectivos, um património cultural partilhado e afinidades,numa ligação considerada mais profunda e com mais força do que uma associaçãoracional ou contratual de indivíduos, como é o caso do mercado ou do Estado.72 “Parece coisa tão óbvia – macaense é o natural de Macau. Contudo tenho encontrado muito boa gente,quer na Metrópole quer aqui, que não sabe o que isso é. Ou porque, lá, nunca ouviu o termo macaense,ou porque não compreende bem, nem cá nem lá, o que ele significa, considerando macaense (igual a chinês) tudo quanto nasce ou vive em Macau” (Batalha 1974: 8).3 “(…) o filho de Macau e o chinês se consideram mutuamente estrangeiros” (Batalha 1974: 9).4 “(…) os Macaenses são e sempre assumiram com orgulho a sua condição de Portugueses, além de legalmente o serem. É este, aliás, um traço fundamental da sua personalidade e da sua identidade”(Rangel 2004: 267).5 “Indexing a range of non-biological communal identifications, including nationality, religion, history,language, and culture, it is simultaneously treated as separate from race, and as overlapping with it.The conventional social science distinction maintains that race is a biologically derived, often imposed,identification that assumes individuals and groups possess fixed traits and characteristics. Ethnicity, however, is about cultural distinctiveness” (Bennett et al. 2005: 112).6 “Identity is to do with the (…) sameness of a person or of a social group at all times and in all circumstances; about a person or a group being, and being able to continue to be, itself and not someone or something else. (…) The logic of identity has worked in favor of integrity and coherencewith reference to what came to be figured as the collective self. (…) the group has sought to maintainits culture – its heritage, memories, values, character, particularity, and uniqueness – through time (…)” (Bennett et al. 2005: 172-173).7 “‘Community’ is more generally used as (…) implying a connection – such as kinship, cultural heritage, shared values and goals – felt to be more ‘organic’ or ‘natural,’ and therefore stronger anddeeper, than a rational or contractual association of individuals, such as the market or the state” (Bennettet al. 2005: 51).
  • Como comunidade, ainda que aberta ao mundo e às suas transformações ecapaz de se adaptar a novas circunstâncias, temos o propósito de preservar e divulgar os nossos costumes e tradições e proteger os nossos legítimos interesses.Criámos associações, tanto em Macau como nos países que acolheram os macaensesda diáspora,8 que funcionam como centros de convívio e de afirmação e valorizaçãoda comunidade, através das quais também divulgamos Macau e os macaenses, oresultado vivo do encontro dos portugueses com povos do Extremo Oriente.Macau, constituído pela península de Macau e as ilhas da Taipa e de Coloane,num total de quase 30 quilómetros quadrados, já com as novas áreas resgatadasao mar nas últimas décadas, é um território com mais de 400 anos de presença por-tuguesa que foi devolvido à China em 1999, ano em que se estabeleceu a RegiãoAdministrativa Especial de Macau da República Popular da China, ou seja, um território chinês mas com uma autonomia garantida pela Lei Básica da região, aprovada pela Assembleia Popular Nacional da R.P.C., em consonância com a Declaração Conjunta sobre a Questão de Macau, firmada em Abril de 1987 por Portugal e pela R.P.C. Esta Lei Básica assegurou a continuidade da “maneira de viver”da população de Macau e garantiu aos residentes de ascendência portuguesa a necessária protecção, ao mesmo tempo que manteve a língua portuguesa como língua oficial, ao lado da chinesa. O legado histórico, cultural e arquitectónico, resultante de um prolongado encontro de culturas, que deu a Macau uma singula-ridade própria, foi respeitado pelas novas autoridades, a ponto de, com o apoio 16ALEXANDRA SOFIA RANGEL8 Devido a várias circunstâncias, explicitadas no capítulo II, os macaenses emigraram, em finais do séculoXIX e durante o século XX para países como Portugal, Brasil, Estados Unidos da América, Canadá e Austrália, mas mantendo as suas ligações a Macau.figs. 2 e 3| No Chunambeiro e no Lilau concentraram-se famílias macaenses
  • 17FILHOS DA TERRA | A Comunidade Macaense, Ontem e Hojedeclarado da R.P.C., o centro histórico de Macau ter sido classificado pela UNESCO,em 2005, como património da humanidade.O objectivo da minha dissertação de Mestrado foi explicar quem são os ma-caenses, como surgiu esta comunidade e de que forma o seu lugar ficou asseguradona nova situação de Macau como Região Administrativa Especial da R.P.C., comtodas as dúvidas e legítimas interrogações que se podem colocar quanto ao seu futuro, antes e depois de 2049. Tornou-se, por consequência, importante divulgara comunidade, o seu percurso e a sua herança cultural. Fi-lo, numa perspectiva académica, aproveitando a oportunidade que me foi oferecida pela Faculdade defazer este estudo no âmbito do meu Mestrado.Este estudo encontra-se dividido em três partes: no primeiro capítulo, apre-sento um breve enquadramento histórico, abordando a presença portuguesa naÁsia, a razão dos casamentos luso-indianos e luso-malaios e como estes resultaramnos antepassados dos macaenses, a fundação e a afirmação de Macau, terra queiria acolher os descendentes de portugueses após vicissitudes nos locais onde resi-diam, como Malaca e o Japão, e, por fim, a origem da comunidade macaense, oseu consequente isolamento devido à distância em que se encontrava de Portugal,destacando os matrimónios que foram reforçando a presença portuguesa.O segundo capítulo é dedicado aos elementos que podem caracterizar osmacaenses como grupo: a culinária, o seu dialecto (o patuá, um crioulo do portu-guês), as festividades que comemoram, algumas figuras de referência na comuni-dade, as instituições macaenses e a diáspora, que engloba as associações macaensesno estrangeiro e justifica a realização, com regularidade, dos Encontros das Comu-nidades Macaenses.O terceiro e último capítulo abarca a entrega de Macau, na sequência de negociações entre Portugal e a República Popular da China, os desafios da transição,o novo estatuto de Macau como região administrativa especial da China, a impor-tância da Lei Básica e o legado que os portugueses deixaram em Macau.Tive acesso a fontes diversificadas e recorri a vários autores neste estudo paraconferir maior rigor à reflexão. Visitando a minha terra todos os anos, tenho podidoobservar o desenvolvimento de Macau e a participação da comunidade macaense,que vou acompanhando, igualmente, através dos jornais locais e nos contactos comantigos colegas e outras pessoas ali residentes. Tenho podido, por outro lado, participar em encontros, seminários e sessões de apresentação de novas edições relacionadas com Macau, em organismos existentes em Lisboa, como a Casa deMacau em Portugal, o Centro Científico e Cultural de Macau, a Delegação Económicae Comercial de Macau e a Delegação do Instituto Internacional de Macau.Fiz igualmente uma selecção de documentos visuais, que incluí como umcomplemento para ilustrar aspectos deste estudo.
  • 18ALEXANDRA SOFIA RANGELIncentivada pelos professores, na defesa da minha dissertação, a publicareste trabalho, fico muito grata a todos quantos me apoiaram na sua realização.fig. 4| Baía da Praia Grande e aterros do Porto Exterior na década de 50 do século XX
  • 19FILHOS DA TERRA | A Comunidade Macaense, Ontem e Hojecapítulo IA ORIGEM DA COMUNIDADE MACAENSE: UM ENQUADRAMENTO HISTÓRICO1. OS PORTUGUESES NO EXTREMO ORIENTE: BREVES NOTASOs Descobrimentos portugueses foram um grande acontecimento, não sóna História de Portugal, mas também na História Universal, inspirando outros povoseuropeus a ir em busca de novos mundos e culturas: “Para a Humanidade, as des-cobertas marítimas significaram uma revolução geográfica. As viagens transoceâni-cas iniciaram a globalização, dando lugar ao encontro entre o Ocidente e o Oriente,entre o Velho Continente e o Novo Mundo. Com a aquisição dos conceitos geográ-ficos da Antiguidade e os novos conhecimentos geográficos, a Humanidade redes-cobriu o Mundo à sua volta de forma a conhecer-se melhor a si mesma” (Jin e Wu2007: 16).O Infante D. Henrique, o impulsionador dos Descobrimentos, morreu em1460, ano em que os navios portugueses se encontravam ainda na primeira metadeda costa ocidental de África. Mas o sonho do Infante não foi abandonado, como sesabe, pois em 1488 Bartolomeu Dias dobrou o Cabo da Boa Esperança, até entãodas Tormentas, e, dez anos depois, Vasco da Gama chegou à Índia, completandouma das maiores etapas da história dos Descobrimentos (Coates 1991: 15).Na época, o comércio encontrava-se nas mãos dos árabes, e os portugueseslogo se aperceberam da necessidade de construir fortificações “espalhadas pela Ásia,criteriosamente localizadas em entrepostos comerciais de confluência, não muitodistantes umas das outras e multifuncionais, funcionando como mercados, arma-zéns, aquartelamentos e estaleiros” (Coates 1991: 16). O facto de estarem situadasem pontos estratégicos permitiria aos portugueses defenderem-se com sucesso econtrolar o comércio. O primeiro forte foi construído em 1503 em Cochim, Índia,seguindo-se, em 1505, na costa oriental de África, o início da construção de fortifi-
  • 20ALEXANDRA SOFIA RANGELcações em Mombaça, Zanzibar e Moçambique e, em 1509, a conquista de Ormuz,no estuário do golfo pérsico (Coates 1991: 16-17). Em 1510, os portugueses fizeram de Goa a “(…) capital do império mercantillusitano, sede do ‘vice-rei’ (que a administrava) e o centro mais representativo dacultura europeia jamais criado na Ásia”, onde foram construídos fortes, igrejas, colégios e seminários (Coates 1991: 17-18). O primeiro vice-rei foi D. Francisco deAlmeida, que depois foi substituído por Afonso de Albuquerque, “(…) porventuraa mais notável e marcante personalidade da história portuguesa na Ásia (…)” (Coates1991: 18), cuja visão para o reforço da presença portuguesa foi inovadora e muitoimportante, como iremos ver mais adiante.Restava ainda um ponto estratégico de primordial importância para con-quistar aos muçulmanos: Malaca,9 “(…) que constituía uma passagem obrigatóriaentre o Pacífico e o Índico (…)” (Jin e Wu 2007: 28). Era também através do estreitode Malaca que se efectuava a principal rota comercial entre as ilhas das Especiariase Bagdade, sendo, por isso, um local cobiçado pelos portugueses. Afonso de Albuquerque toma a cidade em 1511, após uma grande batalha, e, desta forma, osportugueses conseguem controlar o comércio naquela zona. Malaca ficou sob o comando de um capitão-mor dependente de Goa e, mais uma vez, “(…) os Portu-gueses constroem fortes, igrejas e estruturas portuárias (…), criando nesse belo localmais uma cidade cristã (…)” (Coates 1991: 19).Malaca foi também o local onde os portugueses se encontraram com os chineses, então conhecidos por “chins”, pela primeira vez: “(…) além de verem confirmada a existência dessa raça, concluíram que a mais conhecida de todas aslendas de viagens não era afinal tão fantasiosa como se cria, podendo eles própriosalcançar talvez o mítico Catai de Marco Pólo pela mão dos Chins” (Coates 1991:19). Os chineses viajavam até Malaca para trocas de produtos: “As mercadorias queos Chineses traziam a Malaca eram principalmente almíscar, sedas, cânfora, ruibarbo,que trocavam por pimenta e cravo. Os comerciantes chineses costumavam ir a Malaca com a monção, entre Março e Abril, e voltavam à China entre Maio e Julho.Os Portugueses tentaram recolher o maior número de informações dos Chinesessobre o Império do Meio, com a intenção de penetrarem na rede comercial entre aChina e o Sudeste Asiático” (Jin e Wu 2007: 27-28). Afonso de Albuquerque decidiu,então, enviar expedições ao Sião10 e à terra dos chins, “(…) que assim adquiriu onome europeu por que é conhecido: China” (Coates 1991: 20).Malaca foi, portanto, a cidade de onde os portugueses saíram em busca de outrasterras do Extremo Oriente, aproximando-se da China e chegando, depois, ao Japão.9 Actualmente, um dos estados da Malásia.10 No século XX, o nome mudou para Tailândia.
  • 21FILHOS DA TERRA | A Comunidade Macaense, Ontem e Hoje2. OS CASAMENTOS COM MULHERES ORIENTAISPor ordem do Reino de Portugal, era proibido aos portugueses levar mulheresportuguesas nos seus barcos: “(…) o Reino proibia o embarque de mulheres para o Oriente a não ser em casos muito especiais” (Amaro 1988: 7). Esta medida levoua que os portugueses se fizessem acompanhar por mulheres asiáticas dos lugares por onde iam passando.Por outro lado, não era permitido que os portugueses se envolvessem comchinesas porque “Para os chineses, todos os estrangeiros eram considerados bárba-ros e as relações entre uns e outros não poderiam, pois, ultrapassar, senão em casosesporádicos, o nível comercial” (Amaro 1988: 4). Contudo, a proibição não impediaque isso acontecesse: “(…) as mulheres chinesas, principalmente aquelas que os paisvendiam ou que acompanhavam os piratas chineses com os quais muitos portugue-ses andavam misturados, teriam sido suas mancebas ou, mesmo esporadicamente,mulheres legais. O mesmo se pode dizer em relação às mulheres japonesas” (Amaro1988: 6). O casamento entre portugueses e chinesas era muito raro “(…) dado oisolamento cultural daquele povo. Aliás, as ligações dos bárbaros do Ocidente comas mulheres do Império do Meio, compradas e feitas escravas, foram uma das anti-gas causas de diferendos entre portugueses e chineses” (Amaro 1988: 8).O comércio de escravos dava muito lucro e não faltavam crianças chinesaspostas à venda por pais na miséria. Estas eram compradas e exportadas para outrosfig. 5| Um museu identificado com a história e a vida marítima de Macau
  • 22ALEXANDRA SOFIA RANGELpaíses sob o pretexto da necessidade de cristianizá-las, embora esse não fosse sem-pre o objectivo: “Se, nalguns casos, tal intenção fosse sincera, noutros limitar-se-iaa abafar os próprios escrúpulos e a dar uma resposta satisfatória às autoridades ecle-siásticas” (Amaro 1988: 11).Após várias tentativas de abolição do tráfico de crianças e escravos por parte dos mandarins,11 dos eclesiásticos e até dos reis D. Manuel e D. Sebastião(Amaro 1988: 9-11), em 1758, o Marquês de Pombal ordenou a libertação de todosos escravos. Ana Maria Amaro lembra que, “Das ligações mais ou menos ilegais dosportugueses com as escravas levadas dos mais diferentes pontos da Ásia, teriam nascido filhos (…) que, em muitos casos, seriam aceites e baptizados pelos pais e,no caso de serem raparigas, provavelmente dotadas para futuros casamentos comos seus companheiros ou filhos deles” (Amaro 1988: 12).Embora tenham nascido mui-tos filhos mestiços de escravas, aomesmo tempo já existiam mestiços resultantes de casamentos legais entreportugueses e mulheres asiáticas. De facto, em Cochim, ainda antes daconquista de Goa, os portugueses já se casavam com mulheres locais. Os casamentos luso-indianos forammuito incentivados por Afonso de Albuquerque, pois cedo se apercebeude que a melhor maneira de colonizaras novas terras era através do seu rá-pido povoamento com portugueses,algo só possível se eles se casassemcom as mulheres dessas terras, criandonovas gerações de portugueses comum vínculo a essas terras: “(…) talacção correspondia, principalmente, a uma política natalista com o fim deconseguir rapidamente soldados por-tugueses naturais da terra em númerobastante para poderem defendê-la”(Amaro 1988: 14).Afonso de Albuquerque conce-11 Altos funcionários chineses ao serviço do Imperador.fig. 6| Afonso de Albuquerque (1462 – 1515), vice-rei da Índia e conquistador de Malaca,Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa
  • 23FILHOS DA TERRA | A Comunidade Macaense, Ontem e Hojedeu terras e casas aos seus soldados que se casaram com indianas, estando estasconcessões “(…) isentas de todas as contribuições excepto do dízimo devido à Igreja”(Amaro 1988: 14) para promover mais casamentos, assim como foram pagos dotesnupciais e também pensões mensais aos filhos das uniões luso-indianas, no caso demorte do pai. Por estas razões, estes casamentos tornaram-se muito atractivos, chamando mais portugueses para a Índia, que se foram casando não só com as mulheres indianas, mas já também com as luso-indianas: “Não admira, pois, quenas armadas seguissem, sempre, muitos fidalgos e os casamentos com asiáticas ou com euro-asiáticas proliferassem, porque eram prometidas e concedidas terrasaos que se casassem na Índia. No século XVII assistiu-se, como consequência destapolítica, ao costume de enviar para Goa os filhos bastardos da fidalguia portuguesa, surgindo, também, uma chamada nova nobreza, em consequência das mercês concedidas aos que se distinguiam na guerra” (Amaro 1988: 15). Destes casamentos resultou “(…) um grande número de raparigas casa-doiras (…) muitas delas formosas” (Amaro 1988: 15) com muitos pretendentes portugueses “(…) devido à sua natural facilidade de comunicação linguística, maiorproximidade biológica, possibilidade de dotes e heranças e, também, à beleza que caracteriza muitas delas” (Amaro 1988: 96). Mesmo quando começaram a serenviadas mulheres portuguesas para Goa, as chamadas “órfãs de El-Rei”, para secasarem com os portugueses ali residentes, as mestiças continuaram a ser as noivasmais procuradas (Amaro 1988: 16). Além das mestiças, as indianas também aindasuscitavam interesse matrimonial pois, em 1695, continuavam a ser concedidas terras aos portugueses que se casassem com as nativas: “Assim, os portugueses demenos posses ou sem títulos, ainda que lhes fosse permitido aspirar a um casamentocom uma portuguesa com dote, preferiam casar com as nativas para aproveitaremessas antigas concessões (…)” (Amaro 1988: 18). Deste modo, “(…) nem sempreera fácil casar todas as raparigas idas do Reino” (Amaro 1988: 16).O que aconteceu em Goa passou-se, igualmente, em Malaca, onde nascerammuitos luso-malaios. Austin Coates diz que Malaca era “(…) o principal ‘exportador’de esposas, visto que a política de miscigenação, seguida desde a fundação da cidade, produzira uma considerável população cristã (…)” (Coates 1991: 59), população essa que iria depois emigrar para Macau. Ana Maria Amaro justifica aprocura de esposas malaias pela sua maneira de ser: “(…) as mulheres malaias eramas mais afectivas e aquelas que mais se prendiam aos seus companheiros. Daí, opoder pensar-se que tanto malaias como luso-malaias tenham merecido, depois daconquista daquela praça, o favor dos portugueses, que passaram a levá-las nos seusbarcos, ao que estas se prestariam de melhor agrado do que outras mulheres asiáticas pela sua dedicação ao homem a quem pertenciam” (Amaro 1988: 96).Nos primeiros tempos, houve grande mortalidade entre os europeus na Ásia,
  • 24ALEXANDRA SOFIA RANGELmas os seus filhos mestiços nasceram mais preparados para se adaptarem àquelaregião do mundo (Amaro 1988: 39), sendo a mistura genética uma vantagem: “De facto, deve ter havido uma mistura genética muito rica em todos os pontos do Oriente por onde os portugueses passaram. Levaram consigo o fundo genéticoportuguês ibérico, já por si fortemente hibridado, e com os seus filhos luso-asiáticoslevaram genes dos pontos mais díspares do continente asiático. Daí o seu espantosopolimorfismo e a sua extraordinária capacidade adaptiva” (Amaro 1988: 56).Carlos Estorninho tem isto a dizer sobre as mulheres que se uniram marital-mente aos portugueses, realçando o seu papel na comunidade de luso-asiáticos de onde nasceram os macaenses: “Todos esses anos foram de sucessivos cruzamentos (…) com as ternas, submissas e amorosas mulheres da Índia, Malaca,Sião, Japão, Timor, etc. – suas dedicadas companheiras, corajosas e decididas, dispostas a correr todos os riscos e sacrifícios e a abandonar as suas próprias famíliase terras, a fim de fazerem companhia aos eleitos do seu coração, aos pais dos seus filhos. Elas educavam, melhor, criavam os filhos à sua maneira, falavam umalinguagem à base dum português arcaico, ou talvez um ‘português pidgin’12 prático,enriquecido com termos locais; vestiam-se e cozinhavam de acordo com os seus hábitos, gostos e paladares, mas com certa influência do pater-famílias” (Estorninho1992: 17). Quando as famílias luso-asiáticas emigraram para Macau, estas mulheresmantiveram os seus hábitos locais como o vestuário e a cozinha e o seu crioulo de português, factores que, algumas décadas mais tarde, seriam preponderantes nosurgimento da comunidade macaense. 3. A FUNDAÇÃO E A AFIRMAÇÃO DE MACAUEm 1513, Jorge Álvares partiu de Malaca e foi o primeiro português a chegarà China, erguendo, no porto de Tamau,13 um padrão com as armas de Portugal (Colomban 1980: IX), sendo este o início da presença portuguesa na China. Foicriada, em 1999, uma Fundação com o seu nome, sedeada em Lisboa e cujo objec-tivo é promover “(…) actividades culturais e filantrópicas, numa tentativa louvávelde manter vivos os vínculos multisseculares entre a China e Portugal, de que o expoente máximo é Macau” (Jin e Wu 2007: 45).Seguiram-se mais viagens à China que permitiram estabelecer algumas relações comerciais, que resultaram num entreposto comercial em Tamau, mas eranecessário que houvesse relações oficiais para desenvolver o comércio luso-chinês.12 Português crioulo.13 Também muitas vezes referido como Tamão.
  • 25FILHOS DA TERRA | A Comunidade Macaense, Ontem e HojeA este propósito, o então vice-rei daÍndia, Lopo Soares de Albergaria, nomeou Tomé Pires como embaixadorà China (Jin e Wu 2007: 29). Este paístinha, na época da dinastia Ming, umsistema de pagamento de “tributos”pelos estados vassalos da China. Ape-nas os países que prestavam vassa-lagem à China tinham o direito deestabelecer relações diplomáticas e comerciais e, como Portugal não se encontrava, naturalmente, nessa lista,os comerciantes portugueses foram im-pedidos de ali exercerem a sua activi-dade: “Ao contrário dos estados vassalosdos Ming, os Portugueses estavammais interessados no comércio do queno pagamento de tributos ao impera-dor chinês. Além disso, o sistema que regulava o ‘comércio tributário’ não permitiaqualquer participante cujo nome não estivesse registado. Após consultas às auto-ridades de Cantão,14 tornou-se claro para o enviado português que, não podendo reclamar o precedente de missões tributárias à China no passado, os Portugueses não podiam simplesmente ser aceites no sistema diplomático e comer-cial chinês” (Fok 1996: 21-22).Outro problema foi a conquista de Malaca, que constituía um dos “vassalos”da China, sendo, por isso, considerada uma afronta ao poder chinês (Fok 1996: 15-16). Chegavam aos chineses notícias e rumores sobre “(…) actos violentos e homicidas (…)” (Fok 1996: 13) cometidos pelos portugueses onde quer que fossem,aumentando a já enorme desconfiança em relação a eles, vindos de uma zona domundo da qual os chineses nunca tinham ouvido falar. O poder militar e o contra-bando com japoneses nas águas chinesas foram também razões para os chinesesnão quererem ter nada a ver com estes novos visitantes:Com as repugnantes imagens de devoradores de crianças, raptores, traficantes de escravos, contrabandistas e saqueadores, os Portugueses caíram, assim, na categoriade gente de má índole, indisciplinada e rapace, com tendência a causar problemas e14 Guangdong, conforme a actual romanização oficial chinesa, nome de uma grande província meridional da China, cuja capital é Guangzhou.fig. 7| A estátua de Jorge Álvares em Macau
  • 26ALEXANDRA SOFIA RANGELa subverter a ordem estabelecida. Os Portugueses constituíam, pois, não só uma preo-cupação para as autoridades, mas também uma ameaça para a segurança das popu-lações. Desta forma, precisavam de ser mantidos sob a vigilância constante dasautoridades locais. Contudo, o que os distinguia de todos os outros grupos tribais indisciplinados e rapaces que da fronteira ameaçavam o governo era o seu armamentoformidável, notado pelos observadores Ming desde o início. Este reconhecimento dasua superioridade bélica reforçou a prudência das autoridades chinesas para com aprimeira leva de europeus. Estes eram considerados ainda mais invencíveis em combatedo que os ferozes piratas japoneses que atacavam as regiões costeiras Ming (Fok 1996:22-23).De facto, a China não estava nada disposta a receber de braços abertos os“bárbaros do Ocidente” e demonstrou-o através das grandes dificuldades que impôsaos portugueses quando estes tentaram estabelecer-se lá: “(…) os Portugueses con-seguiram derrotar, um após outro, os principais potentados muçulmanos e destruí-ram as suas redes comerciais, mas quando tentaram entrar na China na qualidadede conquistadores, sofreram reveses nunca antes enfrentados” (Jin e Wu 2007: 25).Enquanto que em outras partes da Ásia os portugueses conseguiram conquistar territórios, edificar feitorias e fortificações e controlar o comércio, sendo “(…) semprecapazes de obter pela conquista o que pretendiam, na China viram-se confrontadoscom um adversário de respeito” (Fok 1996: 60-61).A embaixada de Tomé Pires foi um fracasso, tendo ele acabado na prisão eos chineses ordenado o cessar de todas as relações devido à recusa por parte dosportugueses de devolver Malaca (Jesus 1990: 28). Naus portuguesas foram sendobrutalmente atacadas e os portugueses feitos prisioneiros ou executados, acabandopor se abandonar o projecto de construção de uma fortaleza na China. No entanto,“(…) embora privados de apoio estatal, alguns intrépidos marinheiros portugueses(…)” conseguiram ir até Liampó, “(…) onde os mandarins, largamente subornados,faziam vista grossa ao comércio proibido, que, com o passar do tempo, se estendeua Chincheu, chegando a restabelecer-se às próprias portas de Cantão” (Jesus 1990:29). Os portugueses acabariam por descobrir que apenas com grandes subornoseram capazes de permanecer na China e, mesmo assim, tiveram muitos problemas.Liampó foi um município oficializado como cidade portuguesa e(…) atingiu o auge da sua prosperidade depois da descoberta do Japão. O comércio,calculado em mais de três milhões de ouro (cruzados, evidentemente), rendia três ouquatro vezes o capital investido. A comunidade era de mil e duzentos portugueses emil e oitocentos orientais, que por ali prosperavam sem ser molestados pelos piratas.Ao sul, no entanto, os portugueses eram muitas vezes vitimados e o comércio entreMalaca e Liampó disso se ressentia fortemente (Jesus 1990: 30).
  • 27FILHOS DA TERRA | A Comunidade Macaense, Ontem e HojeA cidade durou até 1542, ano em que a sua destruição foi ordenada, devido a mais intrigas, comportamento desordeiro dos portugueses e falhas de comunicação entre estes e chineses: “(…) em cinco horas, uma força de sessentamil homens e mais de trezentas embarcações reduziu Liampó a um monte de ruínas,uma catástrofe que custou as vidas de doze mil cristãos, dos quais oitocentos portugueses, que morreram nas chamas, a bordo de trinta e cinco navios e quarentae dois juncos15 – perda avaliada em dois milhões e meio de cruzados de ouro” (Jesus1990: 34).Depois de Liampó, os portugueses fixaram-se em Chincheu, perto de Amoy,mais uma vez após subornarem as autoridades locais, mas, dois anos mais tarde,também esta nova base dos portugueses foi destruída: “Esta foi a horrível sorte dasprimeiras colonizações europeias na China – varridas da face da Terra pelas acçõesilegítimas de alguns (…) e envolvendo a terrível expiação centenas de homens honestos e suas famílias” (Jesus 1990: 34).Mesmo assim, depois destas vicissitudes, os portugueses não desistiram epassaram a fazer pequenas visitas rápidas a Sanchoão para realizar o comércio proibido, sempre sob o olhar vigilante dos mandarins cuja tolerância continuava aser comprada. Em 1554, a ilha de Lampacau, ao lado de Sanchoão, foi designadacomo local para comerciar com os estrangeiros, sendo os portugueses autorizadosa estabelecer-se lá quando aceitaram pagar direitos e, em breve, “(…) a comunidadeem Lampacao excedia os quinhentos portugueses, desenvolvendo um próspero comércio, sobretudo de pimenta trocada por seda e almíscar. Desde então, viveramem paz e sem as baixas que sofriam os seus navios nos tempos em que, escorraçadosde todos os portos, ancoravam ao largo, ficando à mercê dos tufões, aos quais pou-cos sobreviviam” (Jesus 1990: 37). Lampacau foi, portanto, o antecessor de Macau.Macau era um local ideal para os portugueses: “Situava-se na margem oci-dental do rio das Pérolas e estava ligado por um istmo estreito ao distrito de Hsiang-shan, na província de Kuang-tung.16 A sua acessibilidade, a navegabilidade dosmares vizinhos, a proximidade de Cantão e a excelente posição estratégico-defensivacontra possíveis ataques provenientes do mar fizeram de Macau um lugar mais propício à prática de actividades mercantis (…)” (Fok 1996: 61).Macau foi cedido aos portugueses com a condição de pagamento de 500taéis de prata por ano, um “arrendamento” conhecido por “foro do chão” (Arestae Oliveira 2009: 55), que representava “(…) para a mentalidade chinesa (que tinhatodos os países conhecidos como seus tributários e só considerava como fronteirasda China os limites onde chegava de facto a sua força militar e política), o paga-15 Embarcações chinesas de grande dimensão.16 Cantão ou Guangdong, na actual romanização oficial chinesa.
  • 28ALEXANDRA SOFIA RANGELmento dum ‘tributo’, por parte duma nação amiga. (…) Para a mentalidade europeiae, (…) no caso do dito ‘foro do chão’ de Macau, tratava-se apenas (…) do título co-brado dum suborno ou dum presente. Os portugueses teriam, assim, o domínio útilde Macau, perpetuamente, e o imperador do Celeste Império o seu domínio de raiz(…)” (Pires 1988: 115).Uma lenda chinesa sobre a divindade Tin Hau, a Rainha do Céu, cujo nomeera A-Má, explica a origem do nome “Macau”. Em Fukien,17 na China, preparavam--se os juncos para sair do porto quando apareceu uma rapariga pobre pedindo pas-sagem, que lhe foi negada várias vezes. Notando o seu desespero, um dos capitãespermitiu que viajasse no seu junco. Mais tarde, houve uma terrível tempestade e ospassageiros do junco entraram em pânico, mas o capitão ouviu uma voz que lhedisse para não ter medo e continuar a viagem. Depois de contornar um promontório,o junco encontrou abrigo e ancorou perto de onde, mais tarde, viria a ser Macau.Os passageiros repararam que a rapariga tinha desaparecido e foram procurá-la emterra, encontrando a Deusa A-Má, que depois ascendeu ao céu. O nome desta deusaé invocado para protecção durante as tempestades e ainda hoje se pode visitar otemplo erguido em sua honra, nolocal que veio a chamar-se Ama-gao,18 e depois Macau (Jesus 1990:46). Esta lenda continua a ser ampla-mente evocada, mesmo em publica-ções oficiais, para explicar a origemdo nome Macau, o mesmo aconte-cendo com expositores alusivos aosprimórdios de Macau no Museu Ma-rítimo desta cidade.É curioso que “(…) os nomeschineses vernáculos correspondentesa Macau não têm absolutamentenada a ver com a Deusa A-má.19 (…) Esta disparidade talvez se deva a uma das principais característicasde uma terra de confluência de 17 Fujian, na actual romanização oficial chinesa.18 Significa “Porto da Deusa A-Má” (Jin e Wu 2007: 177).19 Macau é Ou Mun em cantonense, dialecto local, e Ao Men em mandarim. Os caracteres 澳門significam “Porta da Baía”, identificando a área do Porto Interior onde se situa o Templo da DeusaA-Má.fig. 8| A entrada do Templo de A-Má
  • 29FILHOS DA TERRA | A Comunidade Macaense, Ontem e Hojeculturas – Macau, cosmopolita e universalista, entre dois mundos” (Jin e Wu 2007:165-166).Instalados os portugueses naquela nesga de terra, o número de habitantesfoi rapidamente crescendo. Macau, que em 1577 já “(…) tinha uma população de2000 habitantes de diversas origens” (Silva 2001: 71), foi dividida em duas partes,a cidade cristã e a cidade chinesa. A cidade cristã estava protegida por muros devidoàs ameaças de invasões e ataques de piratas e era um “(…) espaço onde era possívelobservar uma atmosfera de vida ocidental (…)”, tendo “(…) recantosque em tudo faziam lembrar qual-quer cidade portuguesa (…)” (Arestae Oliveira 2009: 41), como as muitasigrejas que sobreviveram até hoje.Um exemplo é a Igreja de São Paulo,“(…) a mais importante igreja deMacau e do Extremo Oriente (…)”(Aresta e Oliveira 2009: 42), cons-truída em 1602, da qual só resta afachada após um terrível incêndioem 1835. As ruínas de São Paulo sãoagora um dos ex-libris de Macau,contendo, nessa fachada,(…) elementos escultóricos ocidentais e orientais, criando uma ambiência de entro-samento de culturas. Na metade inferior da fachada, a glorificação da Companhia deJesus, representada na Igreja militante, com os jesuítas S. Luís Gonzaga e S. FranciscoBórgia, e no centro S. Francisco Xavier, o Apóstolo do Oriente, e Santo Inácio de Loiola,fundador da Companhia. Na metade superior – Igreja triunfante – encontra-se a pomba do Espírito Santo, no frontão triangular o Deus Menino, Cristo redentor, salvador do mundo, e a Virgem Mãe de Deus rodeada de anjos em apoteose. Pelomeio aparecem crisântemos (a flor símbolo da corte do Japão), inscrições em chinês(com caracteres imperfeitos, o que leva a concluir que terão sido cinzelados por japoneses20) e o dragão, o animal mítico por excelência do Oriente (Aresta e Oliveira2009: 29).De facto, Macau era um ponto estratégico não só pelas rotas comerciais e apossibilidade de comerciar com a China, mas também porque era dali que partiamfig. 9| “The Church and Steps of St. Paul” (1834)de George Chinnery, Museu de Arte de Macau20 A fachada foi trabalhada por artífices europeus, chineses e japoneses (Aresta e Oliveira 2009: 29).
  • 30ALEXANDRA SOFIA RANGELos missionários para a China, Japão e outros países, preparados para a sua entradano Oriente no Colégio de São Paulo, adjacente à igreja com o mesmo nome, estandoao serviço do Padroado Português do Oriente21 (Aresta e Oliveira 2009: 27). Sobrea acção destes missionários na China, Benjamim Videira Pires diz queEntre 1650 e 1667, baptizaram os Jesuítas na China cerca de 105.000 pessoas, osDominicanos 3.400 nas onze residências ou conventos que tinham e os Franciscanos3.500 nos seus conventos (…).Em 1664, os Jesuítas do Padroado tinham publicado em chinês 150 livros sobre ciências e quase outros tantos sobre o Catolicismo. Em 1711, só os missionários dePortugal contavam 42 obras publicadas, algumas das quais em vários volumes, emchinês, e mais de 35 noutras línguas afins. (…)De 1590 a 1763, os Jesuítas recrutaram na China 59 padres e irmãos leigos nativos.(…)Os Jesuítas portugueses que trabalharam no Celeste Império (a maioria dos quais aífaleceu), desde 1552 – data da morte de S. Francisco Xavier na ilha de Sanchoão –até 1762, ano da expulsão de Pombal em Macau, foram 173; de 1862-1910, traba-lharam 33, sobretudo na formação do clero macaense e no ensino dos externos; e,de 1913 até à actualidade, 18. Um total exactamente de 223 Jesuítas, sem contar osmuitos que morreram na viagem e os estrangeiros, também pertencentes ao PadroadoPortuguês (Pires 1988: 45-46).Em 1635, foi assinada a Convenção de Goa, que permitiu aos navios inglesesentrar nos portos e entrepostos portugueses no Oriente e aí comerciar livremente(Coates 1991: 91) e, em 1637, foi feita a primeira expedição inglesa à China, masque não tinha autorização para entrar. Os chineses aplicaram multas a Macau pornão terem impedido os ingleses de aportar ao seu território e, quando elas nãoforam pagas, os portugueses foram impedidos de participar nas feiras de Cantão,“(…) fechando-lhes o porto e inviabilizando desse modo as duas principais rotas comerciais portuguesas: a da China e a do Japão. As únicas rotas de que os Macaenses ainda dispunham eram as de Manila e Malaca, uma vez falhada a tentativa de reatar o trato com o Japão (os mediadores portugueses enviados a 21 “As missões religiosas do Oriente regiam-se segundo a estrutura administrativa imposta por Roma, ospadroados. Em sentido lato, e de acordo com as directivas papais, os missionários católicos em missãoem zonas da esfera de influência portuguesa ficavam sujeitos (independentemente da sua nacionalidade)à aprovação prévia e à autoridade do rei de Portugal, sob cujos auspícios viajavam para o Oriente. A China, o Japão e a Ásia continental pertenciam ao padroado português, apesar de as Filipinas acaba-rem por ser incluídas no padroado espanhol” (Coates 1991: 62).
  • 31FILHOS DA TERRA | A Comunidade Macaense, Ontem e HojeNagasáqui foram decapitados)” (Coates 1991: 98).Mas, com a Restauração da Independência de Portugal em 1640, o comérciocom Manila terminou, sendo agora os espanhóis inimigos dos portugueses maisuma vez. Um ano depois, Malaca foi tomada pelos holandeses. Macau estava condenada a desaparecer como resultado do seu isolamento involuntário, mas “(…) lutou com bravura e empenho para preservar a sua identidade portuguesa,entre as ruínas do que outrora haviam sido as magníficas façanhas de um povo. Dasfabulosas terras e mares que Portugal dera a conhecer ao empreendedor espíritoeuropeu, já praticamente nada lhe restava na Ásia. Os mares, agora infestados de piratas e inimigos, tornaram-se demasiadamente perigosos para os navios earmas portugueses; das terras que dominaram, nada mais lhes restava além de umpunhado de ancoradouros mal defendidos na Índia e em Ceilão,22 dois pequenosentrepostos nas Índias23 (uma língua de terra na ilha de Timor e o ilhéu de Solor) e Macau” (Coates 1991: 99).Macau sofreu bastante nos anos após o fim do comércio com o Japão, vendo os seus recursos económicos desaparecer a passo acelerado, ameaçando tornar irrelevante a própria vocação da cidade como entreposto (Coates 1991: 103).A situação melhorou um pouco com o início do comércio regular entre ingleses e chineses a partir de 1700. Outros europeus, como franceses, dinamarqueses, holandeses, suecos e espanhóis, estavam também a conseguir comerciar cada vezmais com a China mas, no fim de cada época comercial, eram obrigados a deixarCantão, segundo as leis chinesas. Os estrangeiros foram pedindo autorização de residência em Macau, para passarem ali o Verão enquanto esperavam pela novaépoca comercial, fazendo, deste modo, aumentar a população. A princípio, estesestrangeiros foram sujeitos a várias restrições, dado que a maioria deles era protes-tante, mas assim que estas foram levantadas Macau passou por “(…) um períodode rápida recuperação económica, tornando-se o entreposto de toda a Europa, naChina, assumindo lugar de charneira no estabelecimento de relações estrangeirascom o Império do Meio. Esse estatuto foi mantido por mais de oitenta anos, até 1841, altura em que, com a fundação de Hong-Kong e a abertura de Xangai eoutros portos aos estrangeiros, outra era se iniciou” (Coates 1991: 104-105).O tráfico de ópio começou a ser feito pelos ingleses nesta época, aprovei-tando o facto de as alfândegas chinesas estarem mais preocupadas com o comérciocom Cantão. Mas, em 1815, vários traficantes são detidos, tendo início o conflitoentre ingleses e chineses (Coates 1991: 111-112). A Guerra do Ópio durou de 1839a 1842, terminando com a vitória dos ingleses que, em 1841, já tinham colocado a22 Actualmente, Sri Lanka.23 Índias Orientais ou Insulíndia.
  • 32ALEXANDRA SOFIA RANGELbandeira britânica em Hong Kong e começado o leilão de terrenos na nova colónia:“A partir de então iniciou-se o lento e imperceptível – se bem que inexorável – êxodode um elemento vital da comunidade de Macau e que a transformara numa das cida-des mais importantes do mundo. (…) A concessão de Hong-Kong à coroa britânicaera assim formalmente consumada, sendo declarada a abertura aos estrangeiros dascidades de Cantão, Amoy, Fuchau, Ningpó e Xangai, que nelas podiam viver segundo as leis e costumes britânicos e totalmente imunes à jurisdição chinesa”(Coates 1991: 132-133). Hong Kong tornou-se, ao longo do século XX, um dosmaiores portos e centros financeiros da Ásia, roubando a Macau o lugar que, aolongo de séculos, tinha ocupado como entreposto privilegiado entre o Ocidente e oOriente Extremo.A população de Macau, ali mesmo ao lado, mas quase imune às vertiginosasmudanças políticas na grande China no século XX, embora sentindo, inevitavel-mente, os seus efeitos perversos especialmente na área social,24 assistiu à queda damonarquia chinesa e à implantação da república (1911), a lutas fratricidas e guerrascivis (antes e depois da chegada dos japoneses), à invasão e ocupação nipónicas(1937-45),25 à implantação do regime comunista (1949), à revolução cultural chinesa(1966-76) e à espectacular abertura económica daquele imenso país nas últimastrês décadas.4. A ORIGEM DA COMUNIDADE MACAENSEA fundação de Macau abriu as portas à fixação de portugueses, sendo o seuexemplo seguido por famílias luso-asiáticas: “Os portugueses, quando se estabe-leceram definitivamente em Macau a partir de 1555-57, em número de algumascentenas, já traziam consigo as suas mulheres, filhos, familiares, criados e escravos.As suas mulheres não eram reinóis,26 mas sim produto de mestiçagem, de mais decem anos de miscigenação afro-portuguesa e cinquenta de luso-asiática” (Estorninho1992: 17). Os que ainda não eram casados tiveram muitas oportunidades de se 24 As dificuldades foram imensas para Macau, que viveu períodos críticos da sua história secular, mas,mesmo assim, pôde ser porto de abrigo para todos quantos, portugueses e estrangeiros, ali buscarame encontraram refúgio e paz (Azevedo 2004: 39-49).25 Os japoneses já estavam instalados em várias regiões e em zonas costeiras da China desde os inícios dadécada de 30 do século passado, mas a invasão foi oficialmente desencadeada a 7 de Julho de 1937,chegando as tropas japonesas às portas de Pequim a 28 do mesmo mês e alcançando Tientsin a 29,com uma China impotente para as travar (Azevedo 2004: 33).26 Nome dado às pessoas vindas do então Reino de Portugal.
  • 33FILHOS DA TERRA | A Comunidade Macaense, Ontem e Hojecasarem com luso-asiáticas com bons dotes:“Sabe-se (…) que, para Macau, iam homenspara casar na mira desses bons dotes, quando,em meados do século XVII, viviam, naquela cidade, comerciantes muito ricos” (Amaro1988: 17).Assim surgiu a comunidade macaense:“Os filhos da terra apareceram (…) diferencia-dos de portugueses, castelhanos, moços, es-cravos e cafres. Sessenta e cinco anos depoisdo estabelecimento de Macau, período sufi-ciente para a gestação de três gerações, entra-ram em cena esses filhos da terra, de entrehomens capazes de pegar em armas, para adefesa da sua terra natal (…)” (Silva 2001: 69).Concretizou-se, também aqui, o sonho deAfonso de Albuquerque.Em Janeiro de 1614, foi decretada a expulsão dos missionários no Japão eproibida a prática da religião católica, numa época em que existiam lá 300.000 cris-tãos. Começou, então, o êxodo para Macau de comerciantes portugueses, famíliasluso-japonesas e famílias japonesas católicas (Teixeira 1982 20-21). Em 1622, osportugueses são proibidos de residir no Japão, sendo obrigados a sair assim que ter-minassem os negócios (Teixeira 1982: 37). A situação no Japão agrava-se quando aperseguição aos católicos culmina na tortura e queima pública de missionários poreles continuarem a tentar evangelizar o país. Os japoneses cristãos revoltam-se emretaliação: “(…) deu-se a célebre revolta de Shimabara no Japão (1637-38), em queos cristãos, sob a chefia de Amacusa Xiro, de 18 anos, se levantaram contra a tiraniados seus senhores. Os revoltosos arvoraram bandeiras com símbolos e dísticos cris-tãos, usavam o grito de guerra ‘Santiago’ e incendiavam os pagodes budistas e shin-toístas; por isso, os japoneses acusaram os portugueses de a ter provocado” (Teixeira1982: 66). Em consequência disto e das enormes dívidas que os portugueses contraíramno Japão, em 1639 é proibido o comércio com portugueses, sendo eles expulsosdeste país (Teixeira 1982: 72), acabando por vir para Macau: “No século XVII (…)procuraram abrigo em Macau muitos cristãos japoneses e portugueses ali radicados,na sequência das perseguições que se verificaram no Japão contra a religião cristã.Entre estes vieram famílias japonesas proeminentes, com jovens de ambos os sexos.É natural que, nesta altura, se tivessem também verificado casamentos entre portu-gueses de Macau, ou seus filhos, com japoneses ou luso-nipónicos” (Amaro 1988: 23).fig. 10| Senhora macaense com o traje tradicional, o “dó”, em princípios do século XX
  • 34ALEXANDRA SOFIA RANGELMalaca foi tomada pelos holandeses em 1641, deixando Macau numa situação de receio pelo futuro, uma vez que o ataque de 1622 a Macau estava aindafresco na memória (Teixeira 1982: 75-76). Muitas famílias luso-malaias emigrarampara Macau:27 “Com a queda de Malaca, em 1641, de novo o sangue malaio terárevigorado o pool genético macaense, não só por intermédio de mulheres nativas,como das suas filhas luso-malaias” (Amaro 1988: 25). Estas mulheres de Malaca levaram para Macau os seus hábitos, influenciando até as que tinham vindo de outras zonas da Ásia. Austin Coates descreve, assim, a população feminina de Macauno século XVII:28Embora a grande maioria das esposas mestiças fossem europeizadas, seguiam os cos-tumes de Malaca: quando em público, ocultavam o rosto sob uma mantilha, que lhescobria os cabelos e que seguravam com uma mão, de modo a atravessá-la rapida-mente sob os olhos sempre que se cruzavam com um cavalheiro.O sarong29 e a cabaia, as características túnicas femininas originárias da Malaca portu-guesa, constituíam a indumentária mais comum na altura; até as esposas japonesas asusavam quando saíam, embora trocassem pelo quimono ao regressarem a casa.Os sapatos das senhoras da altura tinham a sola e os saltos em cortiça, expressamentevinda de Portugal. Este pormenor revela bem a abastança de uma comunidade quemandava vir do outro lado do mundo o material para o calçado de suas esposas…Quando saíam à rua, as senhoras andavam a pé ou faziam-se transportar em norimons, cadeirinhas japonesas semelhantes a bandejas arredondadas, por cujas extremidades em anel passava uma haste ornamentada e em forma de arco, que as-sentava (com o peso da cadeira e respectiva passageira) nos ombros de dois escravos(Coates 1991: 60-61).Macau foi um porto de abrigo para todos os refugiados referidos atrás e continuou a sê-lo com o passar dos tempos, vendo a sua população crescer tambémcom a chegada de mais chineses e estrangeiros: “Nos fins do século XVIII, procura-ram, também, refúgio em Macau, muitos cristãos da Cochinchina,30 provavelmente27 Mas outras permaneceram: “(…) vários membros da comunidade portuguesa sobreviveram, consti-tuindo ainda hoje um grupo à parte. Embora semelhantes na aparência aos vizinhos chineses e malaios,os seus nomes são portugueses e a religião que praticam é a católica” (Coates 1991: 89).28 Descrição que não se aplica, obviamente, a mulheres chinesas, pois os casamentos com estas só vierama acontecer muitos anos depois.29 Peça de vestuário que consiste num longo pedaço de tecido colorido que se ata à volta da cintura paraservir de saia, cujo comprimento vai até aos tornozelos.30 Sul do Vietname.
  • 35FILHOS DA TERRA | A Comunidade Macaense, Ontem e Hojeos de famílias mais abastadas que teriam facilidade em abandonar o país, devido à(…) perseguição contra a Igreja. Nessa altura, alguns portugueses casaram emMacau com cochinchinesas, o que pode constatar-se da análise dos arquivos paro-quiais de 1785 a 1793. No século XIX, a população chinesa cresceu e muitos estrangeiros estabeleceram-se em Macau, onde se casaram e deixaram filhos (…)”(Amaro 1988: 24).Um factor importante na origem dacomunidade macaense foi o isolamento aque foi sujeita: “Macau esteve praticamenteisolado da Metrópole, desde o seu início, em1557, até à segunda metade do Século XIX.Houve ocasiões em que esse isolamento eratão cerrado que se podia dizer que estavamesmo cortado dela. Desde o seu estabele-cimento até ao ano de 1622, por um períodode 65 anos, Macau pouca atenção mereceuda Metrópole” (Silva 2001: 71). Longe dePortugal e próximos da China, um país com o qual não se identificavam, os macaen-ses acabaram por se isolar, tornando-se numa comunidade virada para si própria,preferindo que os seus filhos se fossem casando dentro da comunidade: “(…) os filhos da terra casavam entre si, principalmente no que respeitava às classes maisfavorecidas, sendo frequente, neste caso, o casamento preferencial com parentesdo quarto e, mesmo, do terceiro grau.31 A seguir, em preferência, as filhas da terracasavam com europeus ou com estrangeiros, o mesmo sucedendo aos nhons,32 sebem que mais raramente. Casamentos com indianos ou com timorenses ou, mesmo,cochinchineses, quando o comércio de Macau se passou a fazer com aquele terri-tório, era contraído, principalmente, por mulheres de condição mais modesta, algumas mestiças directas de chineses ou de pessoas de outras etnias, o mesmo severificando entre os homens, quer portugueses, quer macaenses, que casavam comfilipinas, cochinchinesas e chinesas, sendo estas, geralmente, criação de famíliasricas” (Amaro 1988: 34).33 Ana Maria Amaro diz que a homogamia era preferidapelas famílias mais antigas e preponderantes, cuja “(…) consciência de grupo seacentuou paralelamente à estratificação social e à ida de mulheres do Reino parafig. 11| Grupo de macaenses em finaisdo século XIX31 Suscitando a expressão tudo sã primo-primo (todos são primos) no dialecto macaense.32 Significa rapaz ou homem no dialecto macaense. A forma feminina é nhonha.33 “Criações” eram as crianças adoptadas (ou até mesmo filhos ilegítimos com escravas) que eram depoisbaptizadas e educadas na cultura portuguesa, tornando-se, por vezes, herdeiros dos seus pais (Amaro1988: 24).
  • 36ALEXANDRA SOFIA RANGELMacau (…)” e que isto contribuiu para o isolamento da comunidade macaense, quesó se abria “(…) para casamentos com europeus, principalmente militares de patenteou altos funcionários” (Amaro 1988: 40).Durante muito tempo os macaenses não se misturaram com chineses porque, além de serem culturalmente diferentes, eram um povo fechado aos estran-geiros e que, em Macau, estava, muitas vezes, em situações carenciadas em termoseconómicos. Por este motivo era considerada pouco aceitável qualquer ligação comum chinês; casar-se com um deles significava baixar de classe social e poder estarcondenado à pobreza. De facto, “A acelerada miscigenação entre portugueses e chineses, em Macau, data, principalmente, dos fins do século passado,34 princípiosdo presente século,35 começando a fazer-se, nomeadamente, entre os grupos sociaiseconomicamente mais débeis. Muitas macaenses casavam-se com militares, sendopreferidos os de patentes mais elevadas, ou com funcionários qualificados, mesmono caso destes terem antepassados chineses ou de outros pontos da Ásia, pois haviam adquirido um estatuto social superior. Este facto vem atestar que o isola-mento dos macaenses não deve ter sido, nunca, consequência de preconceitos raciais, mas sim de preconceitos vincadamente sociais” (Amaro 1988: 98-99). Hojeem dia os casamentos com chineses ocorrem com mais frequência, embora muitosmacaenses continuem a preferir contraí-los entre si ou com portugueses e outrosocidentais.figs. 12 e 13| Ana Tereza Vieira Ribeiro de Senna Fernandes (1846 – 1929) e Bernardino de SennaFernandes (1815 – 1893), os primeiros Condes de Senna Fernandes34 Século XIX.35 Século XX.
  • 37FILHOS DA TERRA | A Comunidade Macaense, Ontem e HojeCarlos Estorninho define, da seguinte forma, os macaenses: “(…) os macaenses ‘filhos de Macau’ ou ‘filhos da terra’ (como a si próprios se designam)só consideram seus conterrâneos os naturais de Macau em cujas veias corre sangueportuguês, recente ou por mais remoto e diluído que seja com sangue afro-oriental,tenham mantido a nacionalidade portuguesa paterna, sejam baptizados como cris-tãos e tenham recebido nome português, se exprimam em português ou dialectomacaense, e, ainda, tenham frequentado uma escola portuguesa” (Estorninho 1992:16). O mesmo autor diz também que são características do macaense “(…) o seuatávico receio de ser absorvido e integrado pela China, o seu sentimento de aban-dono, de indiferença ou incompreensão por parte de Portugal (…)” (Estorninho1992: 18).Neste contexto, merece especial menção a presença de sucessivas guarniçõesmilitares portuguesas, em comissão de serviço em Macau. Tanto ou mais do que os funcionários públicos, os militares contribuíram para fortalecer a comunidademacaense, ali deixando prole.36 Em Junho de 1999, foi publicado em Macau umlivro intitulado Unidades Militares de Macau, fazendo um levantamento exaustivofig. 14| Uma das mais antigas famílias macaenses, a família Senna Fernandes, na década de 40 do séc. XX36 Cumprido o serviço em Macau, ficaram ali militares que casaram com chinesas e macaenses. O ComandoMilitar de Macau foi criado, formalmente, em Maio de 1922 e extinto a 31 de Dezembro de 1975(Cação 1999: 60-61).
  • 38ALEXANDRA SOFIA RANGELdas unidades (batalhões, companhias, batarias, grupos e agrupamentos, esqua-drões, corpos expedicionários, de polícia e de voluntários, pelotões, secções e servi-ços) que serviram em Macau, envolvendo muitos milhares de militares. O autor,Armando Cação, Coronel de Engenharia, rende-lhes a sua homenagem “(…) pelocontributo que deram para o desenvolvimento da cidade e para a manutenção dacultura e do sangue português em tão longínquas paragens” (Cação 1999: 9). Jorge Forjaz, por seu lado, compilou, nos três volumes da sua obra FamíliasMacaenses, as árvores genealógicas de 440 famílias macaenses, desde o século XVIIIaté à data de publicação, 1996. Organizadas alfabeticamente, o primeiro volumecontém as famílias Aires até Freitas, o segundo Gaan até Prata e o terceiro Ramalhoaté Yvanovich (Forjaz 1996a: 13-18). Após a tarefa exaustiva e demorada da consultade arquivos paroquiais e registos de famílias macaenses emigradas em Hong Kong,Cantão, Xangai e Singapura, Forjaz produziu uma obra valiosíssima para os macaen-ses, que nos oferece informação sobre os nossos antepassados e também sobre osnossos familiares há muito emigrados e dos quais ou havíamos perdido o contactoou nem sequer sabíamos da sua existência. Forjaz diz que “Não haverá uma famíliaportuguesa nessas orientais paragens que não seja descendente de Macaenses, eque, por muito que se tenha afastado da língua materna, não mantenha o vínculoà Pátria não só pelos laços de cidadania, como pela permanência dos apelidos (…)Levam Macau e a Pátria consigo onde quer que se fixem e são a garantia de queMacau (…) sobreviverá depois de 1999” (Forjaz 1996a: 25). Macau e a comunidadefig. 15| A família Senna Fernandes na década de 50 do século XX
  • 39FILHOS DA TERRA | A Comunidade Macaense, Ontem e Hojemacaense sobreviveram mesmo, sabendo ultrapassar circunstâncias extremamenteadversas e os “tufões” da história, que vergastaram gravemente todo o ExtremoOriente, entre guerras e violentas mudanças de regimes políticos, e adaptando-seàs novas vicissitudes que resultaram da pacífica entrega do exercício da soberania àRepública Popular da China, em Dezembro de 1999.fig. 16| Senhoras macaenses num cocktail no Palácio da Praia Grande (10 de Junho de 1955)
  • 41FILHOS DA TERRA | A Comunidade Macaense, Ontem e Hojecapítulo IIELEMENTOS CARACTERIZADORES DA COMUNIDADEMACAENSE1. A CULINÁRIA MACAENSEA culinária macaense é uma cozinha de fusão euro-asiática-africana commuita influência portuguesa e indo-malaia (Jorge 2004: 10), não devendo ser confundida com a chinesa, da qual é mesmo muito diferente, embora dela tenha,naturalmente, recebido importante influência. Pode dizer-se que essa culinária nasceu logo após a fixação dos portugueses em Macau, ainda na segunda metadedo século XVI, havendo, no final desse século, já cerca de mil portugueses ali residentes (Lamas 1995: 8). Em A Culinária dos Macaenses, João Lamas explica queA cozinha caseira macaense, apesar da pequenez do território, resulta assim justa-mente da diversidade das influências que foi recebendo ao longo dos séculos e atravésdo espaço geográfico por onde os portugueses andaram, “as sete partidas doMundo”; em primeiro lugar, logicamente, a influência portuguesa; em seguida, natu-ralmente, a chinesa (da qual não assimilou contudo o conceito de equilíbrio dietético--espiritual); logo depois, mormente por intermédio de Goa, sede do Padroado doOriente, a indiana; também a malaia; mas ainda a japonesa, a filipina, a inglesa, semesquecer a africana e a sul-americana através das parcelas do ultramar português deentão nesses continentes, além de outras mais numa lista quase impossível de esgotar.É essa a maior riqueza da cozinha caseira macaense (Lamas 1995: 9).Os ingredientes usados na culinária macaense são os que se encontram comfacilidade naquela zona do mundo: açafrão, santã de coco, legumes chineses, soja,agar-agar, gengibre, malagueta, inhame, tamarindo, molho de soja,37 molho de 37 Chamado de sutate pelos macaenses.
  • 42ALEXANDRA SOFIA RANGELbalichão, etc. Para os macaenses emigrados, especialmente em Portugal, foi semprealgo complicado encontrar todos os ingredientes necessários para a sua culinária.Ao relembrar a emigração para Portugal de uma senhora macaense sua conhecida,Anabela Ritchie conta, no prefácio do segundo livro de receitas macaenses compi-ladas por João António Ferreira Lamas,Imagino as dificuldades que teve nessa altura em Portugal, quando preparava os pratosda culinária macaense, porque, chegada a Lisboa muitos anos depois, nos anos sessenta do século passado, experimentei o mesmo, já que à venda não havia prati-camente nada dos ingredientes característicos e essenciais da nossa cozinha. Era, defacto, necessária muita habilidade para arranjar substitutos e tornear carências, situa-ção hoje algo difícil de visualizar, quando em Lisboa se encontra quase tudo nos supermercados da Mouraria e, a pouco e pouco, noutros (Ritchie in Lamas 2009: 7).As receitas macaenses variam de família para família e são passadas de geração em geração, por vezes sendo até verdadeiros segredos (Amaro 1988: 65).Cecília Jorge afirma que “(…) não existe uma única receita, não existe a receita perfeita, nada se mantém inalterável, e possivelmente, as melhores receitas de cadaiguaria repousam hoje nas sepulturas, levadas pelos que, a seu tempo, foram sendofamosos, pela sua arte nas lides da cozinha e da copa” (Jorge 2004: 10).O acompanhamento dos pratos principais é sempre o arroz e mesmo os poucos pratos que levam batata também são acompanhados de uma grande dosede arroz.Para Ana Maria Amaro, as especialidades macaenses podem dividir-se em dois aspectos: relacionadas com certas festividades e relacionadas com pratos característicos de diferentes etnias (Amaro 1988: 65). Existem pratos específicos parao Natal, por exemplo, como a empada de peixe, os coscorões, o aluar (doce de origem indiana, feito com amêndoas), o ladu (feito com farinha de feijão e farinhade arroz glutinoso) e a sopa de lacassá (caldo de camarões com massa de farinha dearroz). Um prato específico para o Ano Novo é o diabo, um refogado picante que é feito com as sobras de carnes do Natal. Sobre o diabo, Cecília Jorge refere queJá foi comparado ao ‘macaense’, fruto de uma grande miscigenação. É prato que jádeu momentos de glória aos que o souberam cozinhar suficientemente bem para me-recer o aplauso dos convivas. O Diabo, nome que poderá ser sugestão do calor ‘infer-nal’ do seu picante, ou das cores vermelho-amareladas a sugerir labaredas, é umcozinhado só possível depois de um grande banquete na véspera ou na antevéspera.Uma espécie de ‘roupa velha’ de todas as carnes servidas, sejam estufadas, assadas,
  • 43FILHOS DA TERRA | A Comunidade Macaense, Ontem e Hojefritas ou panadas, que se desossam, reduzem a pedaços pequenos e são devolvidas àpanela com um estrugido de pickles, mostarda, malaguetas e todos os molhos dascarnes guisadas (…) Para os que gostam de muito picante, existe uma variante extremacujo nome dispensa comentários: o Diabo furioso (Jorge 2004: 94).Outro prato típico macaense é o tacho, também conhecido por chau-chaupele. É parecido com o cozido português e essa será certamente a sua maior influência. No entanto, o tacho é feito com presunto chinês e chouriço chinês emsubstituição dos enchidos portugueses.Alguns pratos têm nomes ingleses ou derivados do inglês, o que demonstraa influência dos hábitos da ex-colónia inglesa de Hong Kong e da comunidade macaense radicada em Xangai durante os princípios do século XX. Temos cheesetoast (tostas de queijo e leite condensado), cake (uma imitação do Christmas Cakeinglês, muito popular na época natalícia e também nas festas de casamento, servidoem fatias finas embrulhadas em papel de prata e naperons rendados) e minchi, nomederivado de minced meat por ser um prato de carne picada, que “(…) tem tantasvariedades como as que os portugueses costumam atribuir ao bacalhau: mil e uma.Pode ser de carne de porco, de vaca, da mistura das duas, de galinha, de peru, depombo (ou ave mais pequena!), de peixe” (Jorge 2004: 100).Minchi é, certamente, a especialidade macaense mais conhecida e tambéma mais apreciada, tanto por macaenses como por estrangeiros. Cecília Jorge chegafig. 17| Minchi, o prato macaense mais conhecido e apreciado
  • 44ALEXANDRA SOFIA RANGELa chamar a este prato “(…) ‘a menina dos olhos’ dos macaenses (…)” (Jorge 2004:100) e diz também queO professor Armando da Silva, um FilhoMac38 da Califórnia (como é uso chamar-sepor lá), indicou em tempos que o hábito enraizado de servir o Minchi com um ovo estrelado está ligado à religiosidade dos macaenses, já que o ovo, com a gema amarelano centro da clara branca, representa as cores da Santa Sé. O mesmo refere que naorigem do Minchi está um prato goês chamado quema ou kheema, um picadinho devaca com cebola, temperado com garam masala e outras especiarias (Jorge 2004:102).Os doces macaenses têm também origens diversas e, em alguns casos, é possível encontrar semelhanças com doces servidos em países asiáticos, como porexemplo o muchi (bolinhos de massa de arroz glutinoso e feijão branco torrado, deinspiração japonesa) (Amaro 1988: 75) e a bebinca de leite (pudim de coco, leiteevaporado e fécula de milho): “(…) na Malásia existe um bolo ou pudim chamadobingka, com os mesmos ingredientes que a macaísta. Também nas tendinhas de ruade Manila se encontra ainda hoje um bolinho de fécula de arroz, açúcar, ovos ecoco, assado de um lado e do outro em lume de carvão e com o nome de bebingkaou bebincam” (Jorge 2004: 116). No entanto, a maior parte das receitas é tão antigaque se torna difícil saber a origem exacta dos doces macaenses, apesar de muitasterem nomes de origem malaia, como chacha (sobremesa líquida de feijão encar-nado), saransurave (bolo cozido a vapor com coco e feijão encarnado), onde-onde(bolinhos cozidos a vapor) e bagi. Este último é chamado, por vezes, “arroz docemacaense”, mas é diferente da popular sobremesa portuguesa. Para Cecília Jorge, a boa mesa macaense traduz o sentido hospitaleiro da comunidade: variada, farta, informal e convivial (Jorge 2004: 13). Um exemplo é ochá gordo, um lanche ajantarado ideal para festas com muita gente, e uma ocasiãoonde se pode provar várias especialidades de doces e salgados macaenses. Servidoem buffet, proporciona o convívio enquanto se come. Normalmente servem-se chilicotes (pequenos fritos picantes em forma de meia-lua), apabicos (bolinhos defarinha de arroz com recheio de cogumelos e carne picados), cheese toast, lo pakkou (pudim de nabo, um pouco diferente do original chinês), minchi, chau min(prato chinês de massa frita), galinha chau-chau parida (frango com açafrão), porcobalichão tamarindo (feito com o molho resultante da mistura da pasta de camarão38 FilhoMac é uma expressão usada pelos macaenses emigrados na América do Norte, sendo uma abreviatura de “filho de Macau”. Outras comunidades de macaenses emigrados também usam a expressão Macau-filo ou Macau-filho.
  • 45FILHOS DA TERRA | A Comunidade Macaense, Ontem e Hojecom pasta de tamarindo) e porco bafassá (porco com açafrão). Também são servidosrissóis, croquetes e pastéis de bacalhau. Entre as sobremesas, contam-se os atrás referidos bagi e bebinca de leite, o tai choi kou (gelatina de chocolate), cornstarch(bolinhos de fécula de milho, também chamados de genetes), midnight cake (bolode chocolate) e bolo menino (conhecido por “pão-de-ló macaense”). Ana MariaAmaro diz que num chá gordo(…) esmeravam-se as senhoras macaenses, pois era ocasião de mostrarem os seusdotes artísticos e, também, de boas cozinheiras e doceiras, prendas que não podiamfaltar a uma menina casadoira e, depois, a uma boa dona de casa. No chá gordo podiamapresentar-se vinte ou trinta especialidades culinárias (doces e salgados) dantes primorosamente enfeitadas com papéis de seda, recortados, alguns muito decorativos,conforme a maior ou menor criatividade de quem os executava (Amaro 1988: 65).No decurso do tempo, deixou de se dar tanta importância ao factor decora-tivo, pois o mais importante num chá gordo é, de facto, o convívio e a boa comida.Ainda hoje, as associações macaenses com sede no território e os organismos dadiáspora costumam comemorar os seus acontecimentos especiais com a realizaçãode chás gordos, amplamente participados, sendo essas ocasiões muito importantespara a coesão da comunidade.Em Janeiro de 2007 foi criada, por escritura pública, a Confraria da GastronomiaMacaense, “(…) visando uma maior promoção da genuína culinária macaense e afig. 18| Chá gordo em 1955
  • 46ALEXANDRA SOFIA RANGELsua mais ampla divulgação, como expressão cultural duma comunidade orgulhosado seu percurso e das suas tradições (…)” (Rangel 2009: 154). Associação de finsnão lucrativos, como é referido nos seus estatutos,39 intervieram directamente nasua constituição a Associação Promotora da Instrução dos Macaenses, que liderouo processo, e vários outros organismos associativos locais, como a Associação dosMacaenses, a Associação dos Aposentados, Reformados e Pensionistas de Macau,o Clube de Macau, o grupo “Dóci Papiaçám di Macau”, o Círculo dos Amigos daCultura e o Instituto Internacional de Macau (Rangel 2009: 154). Não obstante o seu ainda breve funcionamento, este novo organismo tem já desenvolvido uma significativa actividade, estudando, investigando e divulgando o patrimóniogastronómico macaense, além de incentivar iniciativas das Casas de Macau nestedomínio e promover concursos de culinária macaense. Esta Confraria tem tambémestreitado relações de convívio e cooperação com organismos congéneres de Portugal e de alguns outros países europeus.2. O DIALECTO MACAENSE: PATUÁA UNESCO, sobre a língua como património intangível, considera que “aslínguas são as principais ferramentas da humanidade para a interacção e expressãode ideias, emoções, conhecimento, memórias e valores. As línguas são também veículos de expressões culturais e de património cultural intangível, essenciais à identidade de indivíduos e de grupos”.40Os macaenses têm o seu próprio dialecto, normalmente chamado “patuá”,mas também conhecido por língu nhonha, papiâ cristâm di Macau, papiaçâm oumaquista (pronunciado [ma’kista]) (Fernandes e Baxter 2001: 16).O patuá (também referido como patoá e patois) é um crioulo de base portu-guesa e, por isso, a maioria das palavras é de origem portuguesa, embora o patuátenha uma pronúncia, ortografia, funções gramaticais e significados diferentes doportuguês. O patuá conserva arcaísmos portugueses como azinha (depressa), ade(pato) e sombreiro41 (guarda-chuva ou guarda-sol) (Amaro 1988: 58), mas devido39 Veja-se: http://www.apim.org.mo/confraria/estatutos.html.40 Original em inglês: “Languages are humankind’s principle tools for interacting and for expressing ideas, emotions, knowledge, memories and values. Languages are also primary vehicles of cultural expressions and intangible cultural heritage, essential to the identity of individuals and groups”(http://www.unesco.org/culture/ ich/index.php?pg=00136).41 Tanto José dos Santos Ferreira (1996a: 315) como Miguel Senna Fernandes e Alan Baxter (Fernandes eBaxter 2001: 183) referem o termo em patuá como sendo sombrêlo e não sombreiro.
  • 47FILHOS DA TERRA | A Comunidade Macaense, Ontem e Hojeao contexto multilingue recebeu muito vocabulário de várias línguas, como o malaio,o cantonense (dialecto da província chinesa de Cantão, também falado em HongKong e Macau), o inglês, o japonês, o javanês, o tamil, o sânscrito, e até o holandêse o espanhol, línguas dos outros colonos europeus na Ásia (Fernandes e Baxter 2001:34).Devido ao desenvolvimento da escolarização feita em português durante oséculo XX, o patuá acabou por cair em desuso e, hoje em dia, apenas as pessoas demuita idade é que ainda falam o patuá com fluência. As gerações mais novas habi-tuaram-se a falar português ou, em muitos casos, cantonense ou inglês, depen-dendo da língua usada na escola. José dos Santos Ferreira, poeta macaenseconhecido por Adé, que escrevia de preferência em patuá, explica este fenómeno:As famílias macaenses sempre se orgulharam do seu dialecto brincão e nunca tiverampejo de o falar, quer em casa com os seus, quer em público. O dialecto tornou-se detal modo arreigado no seio da comunidade, que, mesmo depois de o português cor-recto ter aqui ganhado proporções importantes, continuou a ser falado como línguacorrente. Só recentemente – já no início deste século42 – quando o ensino da línguaportuguesa se tornou mais acessível às classes populares, é que o uso do “patois” teriacomeçado a afrouxar. Mas nem assim o dialecto deixou de ter presença desejada noslares e centros sociais macaenses, salvo apenas onde polidos “snobes”, novos-ricos,seriamente preocupados com o demonstrar de fina cultura, não admitiam no seu con-vívio, como faziam alarde de o não entenderem (Ferreira 1996a: 5).O patuá está presentemente incluído na lista de línguas em risco de desaparecimento da UNESCO e está classificado como em perigo crítico de extinção.No atlas interactivo das línguas em perigo da página da UNESCO é revelado o número de apenas 50 falantes regulares no ano 2000 (“UNESCO Interactive Atlasof the World’s Languages in Danger”). Muitos são, todavia, os macaenses que entendem o patuá, ainda que o não utilizem no dia-a-dia como instrumento de comunicação.Não se argumenta, pois, a favor do regresso do patuá à sua situação anterior.O próprio José dos Santos Ferreira referia queNão temos por objectivo tentar recuperar o dialecto, para que volte a ser usado. Deusnos livre de semelhante ideia, tão descabida como impensável. O que temos procuradosempre, e continuamos a querer, é contribuir, de todas as maneiras, para o divulgar epreservar o que ficou desse idioma, qual legado suficientemente precioso para ter 42 Século XX.
  • 48ALEXANDRA SOFIA RANGELcabida no rol dos valores que constituem o nosso património cultural. Macau é riquís-sima em tradições. Uma delas é o seu dialecto antigo, a chancela da sua identidade,um dos marcos indeléveis do encontro entre civilizações diferentes, erguido no pas-sado distante (Ferreira 1996a: 5-6).José dos Santos Ferreira afirma também que todos os macaenses devem saber bem a língua portuguesa, “(…) habilitando-se a exprimir-se correctamente noidioma pátrio” (Ferreira 1996a: 5) e que o dialecto macaense pode estar condenadoa desaparecer. O que há a fazer é preservar o dialecto em livros para as gerações futuras tomarem conhecimento de que ele existiu e fez parte da comunidade (Ferreira 1996b: 3).Com o objectivo de contribuir para a divulgação do patuá, apresento umadescrição sucinta da “Epítome de Gramática Comparada” incluída na obra Papiaçámdi Macau de José dos Santos Ferreira (Ferreira 1996a: 229-251):- Há uma proliferação de acentos agudo e circunflexo, mesmo em palavrasque não são acentuadas em português, não só porque as vogais ou são muitoabertas ou muito fechadas, mas também porque os verbos nunca terminamem r (botá, comê, abrí, discompô, casá, gemê), obrigando assim à acentuaçãoda vogal tónica. - Quando os substantivos passam para o plural, dobra-se a palavra. Hóme(homem) passa a hóme-hóme (homens), filo (filho) a filo-filo (filhos), casa(casa) a casa-casa (casas). No entanto, se o substantivo no plural for precedidode numeral cardinal, isto já não acontece: unga hóme (um homem) – cinco hóme(cinco homens); unga cadéra (uma cadeira) – dózi cadéra (doze cadeiras).- Os adjectivos nunca variam em número mas, por vezes, variam em género.Na maior parte dos casos conservam a forma do masculino singular: pám cru(pão cru) – batata cru (batata crua); hóme ateu (homem ateu) – nhónha ateu(mulher ateia); pai judeu (pai judeu) – mai judeu (mãe judia).- Em patuá não existem artigos definidos: O cão e o gato – Cám co gato. Amãe leva o filho à escola – Mai levá filo vai escola. O ladrão roubou a bicicletado Toninho – Ladrám já rubá biciquéta di Toninho. Em alguns casos, usam-seartigos indefinidos, empregando-se unga (um, uma) e quánto (uns, umas).- Os pronomes pessoais são: iou (eu), vôs (tu), êle (ele/ela), nôs (nós), vosôtro(vós), ilôtro (eles/elas). Não se usam as formas do pronome reflexo, que sãosubstituídas pelo termo onçôm ou pa onçôm: A Ana cortou-se com a faca – Anajá cortá pa onçôm co faca. Ele suicidou-se – Êle já matá pa onçôm. O filhoganha para si – Filo tá ganhá pa onçom. Levante-se do chão, homem – Onçômlevantá di chám, hóme. Quanto à formação dos pronomes possessivos, esta
  • 49FILHOS DA TERRA | A Comunidade Macaense, Ontem e Hojeé feita através da junção do pronome pessoal com a partícula sua:43 iou-sua(meu, minha, meus, minhas), vôs-sua (teu, tua, teus, tuas), êle-sua (seu, sua,seus, suas), nôs-sua (nosso, nossa, nossos, nossas), vosôtro-sua (vosso, vossa,vossos, vossas) e ilôtro-sua (seu, sua, seus, suas).- Os numerais cardinais são os seguintes: unga, dôs, trêz, quatro, cinco, sês, séti,oito, nóvi, dez, ónzi, dózi, trézi, catórzi, quinzi, dizassês, dizassete, dizóito, dizanóvi, vinti, vinti-unga, vinti-dôs, etc., trinta, quarénta, cinquénta, sassénta,saténta, oiténta, novénta, um-cento, etc. Os numerais ordinais são: priméro, sigundo, tercéro, quarto, quinto, sésto, sétimo, oitavo, nono, décimo, etc.- Os pronomes demonstrativos são os que se seguem: este/esta – estunga;estes/estas – estunga quánto; esse/essa e aquele/aquela – acunga; esses/essase aqueles/aquelas – acunga quánto; isto – estunga ancuza; isso e aquilo –acunga ancuza.Na mesma obra estão compiladas várias histórias e uma novela, “Estória di Maria coAlféris Juám”, seguida por uma versão em português feita pelo próprio autor, “His-tória de Maria com Alferes João”. Retirei um excerto de cada para se poder ver asdiferenças entre o dialecto macaense e a língua portuguesa. Comecemos pelo patuá:Cavá casá, Venáncio co Chai já têm Francisco. Cara chapado di mai, tudo gente chomáêle Chico-Chai. Bom filo, quelê capaz, azinha já panhá siviço na cartório di tabaliámletrato, Sium Teodorico d’Eça. Têm tánto nina sentí êle chistoso, já largá anzol papanhá estunga nairo. Chico-Chai contente virá, lôgo vai co tudo. Sômente nom-quêroassi azinha casá. Êle tudo ora sã falá “Muler-muler sã nunca fáci aturá!” Sã assi quiêle ta solterám.Chico-Chai co sês áno, quelora Títi Chai têm Maria Josefina. Chapadeca, bránca, ôlográndi, Maria cavá crecê já ficá quelê consertado; já ficá unga nina divera bunita.Nunca faltá gente má-língu, bóca fino-fino priguntá quelê-môdo Venáncio assi feorámpôde têm unga fila co assi bom cara. Divera sã vontade di malinguá. Títi Chai assi virtuosa, cuza têm pa falá di êle? (Ferreira 1996a: 70).E a mesma passagem, agora em português:Venâncio e Chai casaram-se e tiveram Francisco. Cara chapada da mãe, toda a gentepassou a chamá-lo Chico-Chai. Bom filho, bastante esperto, bem depressa se empregou43 Uma clara influência da língua chinesa, sendo o processo igual: pronome pessoal + partícula indicadora de posse, seguidos de substantivo. Como por exemplo, a expressão “o meu dinheiro” fica,em cantonense, ngo ga chin (我既錢) e, em patuá, iou-sua sapeca.
  • 50ALEXANDRA SOFIA RANGELno cartório do tabelião senhor Teodorico d’Eça. Achando-o simpático, não foram poucas as donzelas que deitaram o seu anzol, com mira de apanhar este peixe. AChico-Chai não lhe desagrada namoricar; por isso, vai com todas. Somente não quertão depressa casar. “Não tenho jeito para aturar mulheres. Elas são, por vezes, difíceis”,é o que ele diz sempre. E é por isso que continua solteirão.Tinha Chico-Chai seis anos quando a Tia Chai lhe deu uma irmãzinha – a Maria Josefina. Engraçada e branquinha, de olhos grandes, Maria foi ganhando delicadasfeições à medida que ia crescendo; acabou por se fazer uma moça deveras bonita.Não faltaram línguas viperinas a perguntar, entre dentes, como foi que Venâncio,sendo tão feio, pôde ter uma filha com rosto tão lindo. É mesmo vontade de maldizerdas pessoas. Para mais, se a Tia Chai é tão virtuosa, que há a dizer dela? (Ferreira1996a: 121). Em 1993 foi criado um grupo de teatro macaense chamado Dóci Papiaçámdi Macau (“A doce língua de Macau”). As peças, escritas e encenadas por Miguel deSenna Fernandes, advogado e um dos co-fundadores do grupo,44 são em patuá,com alguns momentos falados em português, cantonense e até inglês, dependendofig. 19| O Teatro Dom Pedro V, palco de muitas récitas macaenses44 Veja-se: http://www.docipapiacam.com/#about.
  • 51FILHOS DA TERRA | A Comunidade Macaense, Ontem e Hojedas personagens da peça e também da capacidade linguística dos actores. A primeirapeça chamou-se Olâ Pisidente (Ver o Presidente), criada especialmente para a visitaa Macau do Presidente da República Mário Soares e recebida com sucesso. Em 1994seguiram-se as peças Mano Beto Vai Saiong45 (Mano Beto vai a Portugal) e UngaSonho di Natal (Um Sonho de Natal). Em 1995 o grupo fez uma digressão a SãoFrancisco, São Paulo e Lisboa com a peça Chacha Querê Festa! (A Avó Quer Festa).46No ano seguinte, o Dóci Papiaçám di Macau marcou presença no Festival Interna-cional de Teatro de Expressão Ibérica e, em 1997, participou, pela primeira vez, noFestival de Artes de Macau. Desde então tem levado ao palco uma peça por ano,aquando do Festival de Artes de Macau.47Tirando o caso de idosos que ainda usam o dialecto, este é quase o únicocontexto onde actualmente se fala o patuá, sendo uma óptima oportunidade paraos mais jovens entrarem em contacto com o dialecto, como é dito na página na Internet do Dóci Papiaçám di Macau: “(…) foi (…) possível, com muita determinaçãoe persistência dos veteranos do Grupo, formar um número de jovens Macaenses noteatro em patuá, muitos dos quais vieram atraídos pela curiosidade e interesse pelalíngua, mas sem a falarem sequer”.48O Conselho das Comunidades Macaenses e outros organismos da sociedadecivil, como a Associação dos Macaenses e a Associação Promotora da Instrução dosMacaenses, além do grupo Dóci Papiaçám di Macau, têm desenvolvido, nos últimosanos, novas acções de promoção do patuá, como récitas e publicações, e está empreparação uma proposta a submeter à UNESCO para que o patuá seja declaradopatrimónio intangível da humanidade. Em consonância com estes propósitos, o Instituto Internacional de Macau publicou a obra Maquista Chapado – vocabulárioe expressões do crioulo português de Macau,49 um extenso vocabulário do patuáque “(…) faz uma nova abordagem da nossa língua maquista, assumindo-se comoinstrumento prático de referência, incluindo palavras e expressões, algumas maismodernas, que podendo não constar dos velhos textos do patuá, foram aceitescomo parte integrante do nosso dialecto na sua forma mais chapada, mais genuína”(Rangel 2004: 21). Além do vocabulário, que ocupa mais de 150 páginas do livro,45 Saiong vem do cantonense sai yeong (西洋), cujo significado literal é Oceano Atlântico mas que durantemuito tempo foi usado para se referir a Portugal.46 É de salientar que as peças do Dóci Papiaçám di Macau são sempre cómicas, pois como dizem na suapágina na Internet, o seu lema é castigat ridendo mores (corrigindo os costumes, rindo-se deles)(http://www.docipapiacam.com/#about).47 Veja-se: http://www.docipapiacam.com/#home.48 Veja-se: http://www.docipapiacam.com/#home.49 Op. cit.
  • 52ALEXANDRA SOFIA RANGELeste contém uma introdução, com notas explicativas sobre os critérios usados na sua organização, a estrutura das entradas, a ortografia seguida, a transcrição fonética, os acentos, a representação fonética dos compostos e expressões mais usadas, a representação gramatical e a etimologia, e ainda referências bibliográficase um interessante apêndice, com uma longa lista de nomes macaenses e alcunhas. São autores de Maquista Chapado Miguel de Senna Fernandes, atrás já referido, e Alan Baxter, prestigiado académico especializado no estudo dos crioulosportugueses do Oriente e falante fluente do papiá kristang de Malaca,50 que foi director do Departamento de Português da Universidade de Macau, onde estão aser desenvolvidos novos estudos sobre o patuá. Na prossecução destes estudos, serão da maior utilidade obras anteriorescomo o Glossário do Dialecto Macaense – Notas linguísticas, etnográficas e folclóricas,com uma primeira edição publicada pela Universidade de Coimbra (Batalha 1977) e uma segunda, facsimilada, pelo Instituto Cultural de Macau (Batalha 1988), e OsCrioulos Portugueses do Oriente – Uma bibliografia (M. I. Tomás 1992), entre outros,além, claro, dos livros de José dos Santos Ferreira.Estes novos estudos têm merecido o aplauso da comunidade, já que, comobem salientou José dos Santos Ferreira, “O dialecto macaense significa mais que serapenas um simples idioma; muitíssimo mais que ser o trivial linguajar quotidianodum povo. Pois se caracteriza a própria índole, os sentimentos, a maneira de ser,assim como os encantos e costumes desse povo, dêem-nos, então, leitores, licençasentimental para dizer que ele é bem a imagem dessa boa gente antiga de Macau”(Ferreira 1996a: 5).3. FESTIVIDADES TRADICIONAISA comunidade macaense habituou-se, ao longo da sua história, a participarmuito activamente em festividades, quer portuguesas, quer chinesas. Ainda hoje,depois da transferência do exercício da soberania, em Dezembro de 1999, é assim,tanto no território, como na diáspora macaense. Os feriados oficiais incluíam, na vigência da administração portuguesa, datasrespeitantes a grandes acontecimentos nacionais portugueses, festividades tradicionaischinesas e também festas da Igreja Católica. Após a transição, foram eliminados osferiados correspondentes a efemérides históricas portuguesas, tendo sido, porém,mantidas algumas das festas católicas, que têm especial significado para a comunidademacaense, como a Páscoa, o Dia da Imaculada Conceição e o Natal.50 Crioulo português falado pela comunidade luso-descendente de Malaca.
  • 53FILHOS DA TERRA | A Comunidade Macaense, Ontem e HojeEm outros tempos, sensivelmente até meados do século XX, também foi amplamente participado, pela comunidade macaense, o Carnaval, o que tornou acidade de Macau diferente das outras daquela área geográfica:Em épocas passadas, Macau ria a bandeiras despregadas. Vestia-se de fantasia e andava pelas ruas, cantando, galhofando, palhaçando, em gestos e atitudes de truão. Os sons alegres das tunas e os risos festivos do rapazio explodiam em melodias ensaiadas durante muitas semanas e em gargalhadas estridentes, provocadas muitasvezes pela visão das máscaras, engraçadas e originais.(…)As festas carnavalescas punham uma nota viva, interessante e chistosa no viver pacatoe monótono de Macau (Machado 2002: 147-150).As festividades chinesas que mais atraem os macaenses são o Ano Novo Chinês, o Festival do Barco Dragão e o Festival de Outono. Para os chineses deMacau, são também importantes o Ching Ming,51 o Dia do Buda e o Chong Yeung.52São festas móveis segundo o calendário lunar. Apesar de já não serem feriados oficiais, duas datas continuam a ter o maiorsignificado para a comunidade macaense: o 10 de Junho, Dia de Portugal, e o 24de Junho, antigo Dia da Cidade de Macau.53 As novas autoridades escolheram paraDia da Região Administrativa Especial de Macau o dia 20 de Dezembro, data do seuestabelecimento, cujas celebrações contam também com o envolvimento das insti-tuições da comunidade macaense.51 Dia do Culto dos Antepassados.52 Dia dos Antepassados (o culto dos antepassados é celebrado duas vezes por ano).53 A data em que a população de Macau se defendeu com sucesso do ataque dos holandeses em 1622.figs. 20 e 21| Baile de Carnaval nos anos 50 do século XX
  • 54ALEXANDRA SOFIA RANGELPara este estudo identifiquei quatro datas particularmente relevantes para osmacaenses: o Ano Novo Chinês, o 10 de Junho, o 24 de Junho e o Natal.3.1 Ano Novo ChinêsDevido ao grande entusiasmo com que é celebrado pelo grupo dominanteda população de Macau, o Ano Novo Chinês faz parte da vida de qualquer ma-caense. Sendo a maior de todas as festas realizadas na China e na vasta diásporachinesa, também os macaenses a comemoram, mesmo quando residentes no es-trangeiro. É impossível sair à rua nesta altura sem assistir às celebrações, cheias decor e movimento, que incluem danças do leão e do dragão, exposições artísticas ede flores, a queima de panchões,54 banquetes e espectáculos musicais.55Uma tradição do Ano Novo Chinês é a oferta de lai-si, pequenos envelopesvermelhos contendo dinheiro, que são dados por pais a filhos, patrões a empregadose casados a solteiros. Os macaenses também participam neste costume, e a entregade lai-si é tão popular entre eles que costumam oferecê-los nos aniversários dos filhos, netos e sobrinhos. Os lai-si têm, muitas vezes, decorações lindíssimas, com54 “(…) os estalinhos chineses, que ali são utilizados para múltiplos fins: cura de doenças, celebração denascimentos, manifestações de regozijo ou de pesar, etc.” (Beires 1925: 192).55 O barulho é considerado auspicioso por ser uma forma de afastar os maus espíritos.figs. 22 e 23| Dois exemplos de lai-si
  • 55FILHOS DA TERRA | A Comunidade Macaense, Ontem e Hojedesenhos muito diversificados, tornando-se em objectos muito apreciados, sendomesmo coleccionados por crianças macaenses e portuguesas, atraídas pelo seu exotismo.As donas de casa, chinesas e macaenses, compram ramos de pessegueiro enarcisos para decorar a casa, assim como arranjos florais elaborados, imitações depanchões e papéis e dísticos vermelhos para afugentar os maus espíritos.Outra tradição é jogar nos casinos, em busca da sorte neste período auspi-cioso para todos. Muitos habitantes e turistas chineses vindos de Hong Kong, Taiwanou do continente chinês enchem estes locais de jogos de fortuna e azar, e dão à cidade uma imagem de alegria e prosperidade económica, participando, activa-mente, nos festejos e adquirindo as guloseimas, flores, roupas, brinquedos e outrosartigos habitualmente consumidos nesta ocasião. Mesmo os menos afortunadosprocuram usar roupas novas e integram-se completamente neste ambiente de festa.Nesta altura do ano também os serviços, os escritórios, as obras públicas e muitascasas comerciais cessam completamente a actividade durante vários dias. Até ospescadores, com as suas embarcações embandeiradas, recolhem ao porto de Macaue vêm para terra.Outro hábito salutar é o pagamento das dívidas até à véspera do Ano NovoLunar. Nenhum homem de negócios, por uma superstição que a todos favorece,transfere para depois dessa data qualquer das suas dívidas, o que é, de facto, muitobenéfico para a economia local.Cada novo ano é referido a um animal do zodíaco chinês. Leonel Barros, em Macau – Coisas da Terra e do Céu, explica assim esta lenda:Uma lenda muito antiga contava que Buda resolveu chamar à sua presença todas asespécies de animais que existiam na Terra, a fim de lhes dar conselhos no que diziarespeito ao modo como teriam que lidar com os homens. De todos os animais existentes na Terra só compareceram doze: o tigre, o dragão, ocavalo, o carneiro, o galo, a serpente, o rato, o boi, o coelho, o macaco, o cão, e oporco.Grato com a presença desses animais, Buda determinou que para cada ano fosse designado um dos doze animais. Assim, cada ano passou a ser conhecido por um dosdoze animais do zodíaco chinês divididos em dois grupos,56 em conformidade comos elementos da teoria dualística da criação, base da concepção chinesa do Universo(Barros 1999: 73).56 “Pertencem ao ramo Yang – elemento viril e activo – o tigre, o dragão, o cavalo, o carneiro, o galo, e aserpente (…) No ramo Ying – elemento feminino passivo – englobam-se o rato, o boi, o coelho, o macaco, o cão, e o porco” (Barros 1999: 73-74).
  • 56ALEXANDRA SOFIA RANGELCom toda a sua carga simbólica e o seu significado, esta é e será, provavel-mente, sempre a maior festa chinesa, que nem regimes mais autoritários conseguiramsuprimir ou limitar: São tradições milenares que resistem ao tempo e às mudanças, não se deixando vencerpor vanguardismos de qualquer cor política ou por modas, sempre passageiras. NaChina, nem o regime comunista nas suas mais demolidoras fases conseguiu modificarhábitos e ritos de antanho ligados às festividades do Ano Novo. Chamando-lhe Festada Primavera ou dando-lhe outro nome, essas festividades continuaram no dia-a-diada vida do povo chinês e os altos dirigentes políticos voltaram a conviver em lautosbanquetes nesses dias de festa, que acabaram por ser oficialmente aceites como comemorativos do Ano Novo Lunar. E, não obstante as grandes transformações verificadas, esta é e será sempre, também, a maior de todas as festas da populaçãode Macau (Rangel 2009: 50).3.2 10 de JunhoO Dia de Camões, de Portugal e das Comunidades Portuguesas tinha notempo da administração portuguesa um significado especial para os macaenses,pois, como refere Henrique de Senna Fernandes, Camões, no coração do macaenses, foi sempre o símbolo da Pátria distante. Esta convicção não era apenas alimentada pela romagem anual à Gruta, onde diante doBusto do Poeta desfilaram gerações de estudantes. (…) era costume presentear-se atodo aquele que ingressasse, pela primeira vez, no Liceu, com um volume de “Os Lusíadas”. Eu recebi o meu. Na mesma época, quando as escolas primárias eram daresponsabilidade do Leal Senado da Câmara, era costume premiar o melhor aluno finalista, em cerimónia simples mas cheia de significado. O prémio que lhe deposita-vam nas mãos, era também um volume de “Os Lusíadas” (Fernandes 1999: 60).Esse significado estendeu-se para além da transição. De facto, Luís de Camõesrepresentou para sucessivas gerações de macaenses a sua ligação a Portugal, da qualnunca se esqueceram apesar da enorme distância entre Macau e a então Metrópole.Nos dias que correm, mesmo havendo facilidade em viajar de Macau para Portugal,Camões continua a simbolizar para muitos de nós as nossas origens, o nosso pas-sado e o país que é a nossa segunda casa.Luís de Camões tem um grande jardim em Macau com o seu nome, onde sesitua a famosa Gruta de Camões, contendo o seu busto. A primeira romagem à
  • 57FILHOS DA TERRA | A Comunidade Macaense, Ontem e HojeGruta foi feita em 1923 por iniciativa do então Governador de Macau, Rodrigo Rodrigues, “(…) um patriota exaltado e fervoroso cultor de Camões (…) que logono primeiro ano da sua chegada a Macau convidou as escolas e as forças armadaspara irem à Gruta homenagear o épico. (…) foi ele que enalteceu o vulto imortal dopoeta e a sua emoção foi tão profunda que desatou a chorar, tendo de interrompero discurso” (Teixeira 1999a: 67-68). Ainda hoje, todos os anos, instituições de matrizportuguesa, nas quais se incluem associações macaenses, e escolas de Macau, incluindo, como não podia deixar de ser, a Escola Portuguesa de Macau e o Jardimde Infância D. José da Costa Nunes, continuam a participar na cerimónia do 10 deJunho, desfilando perante o busto do maior poeta português e colocando flores norespectivo pedestal. Alunos da Escola Portuguesa de Macau e da Escola SecundáriaLuís Gonzaga Gomes declamam sonetos de Camões em, respectivamente, portuguêse cantonense e grupos de danças e cantares actuam no local.Reza a tradição que Camões terá es-crito parte de Os Lusíadas nesta Gruta. Noentanto, a partir do século XIX, foram-se le-vantando vozes contrárias, pondo em causaaté a passagem de Camões por Macau. Maso Padre Manuel Teixeira, respeitado historia-dor que viveu em Macau, comenta que “Osque negam a estada de Camões em Macaubaseiam-se no argumento do silêncio dopoeta sobre Macau, alegando que Macaunão existia. Se isto fosse verdade, tudoaquilo que ele não mencionaria não existiria”(Teixeira 1999b: 21). Nas suas obras A Grutade Camões em Macau (Teixeira 1999a) e Camões esteve em Macau (Teixeira 1999b)ele refuta essas opiniões, apresentando factos e excertos de documentos que deitampor terra os argumentos contrários à estadade Camões em Macau, o que não foi difícil,uma vez que os textos dos contestadores estavam repletos de erros históricos, erros que eles foram copiando uns dos outros,demonstrando uma ignorância sobre os primórdios da história de Macau (Teixeira1999b: 65-78).Contudo, o que interessa aos macaenses não é a polémica criada à volta da estada de Camões em Macau, mas sim, como já foi referido atrás, o que o poetarepresenta para a comunidade: fig. 24| O busto de Camões no jardimdedicado ao Poeta
  • 58ALEXANDRA SOFIA RANGELMacau só tem que se orgulhar de ter sido a primeira possessão ultramarina portuguesaa erigir um busto a Camões.57 Antes mesmo da capital do Império!Porque se não estivera em corpo, o espírito do Poeta, em cá chegando, nunca de cásaiu! Por aqui ficou a impregnar cada um dos descendentes dos portugueses que partiram em demanda de honra e proveito, na Índia e mais além, mesmo muito maisalém da Taprobana…E disso, todas as gentes de Macau, de espírito aberto e ecuménico, neste pluricultu-ralismo que está na sua génese, devem estar orgulhosas. Porque, na obra de Camões,já encontramos a concepção globalista do mundo baseada no encontro entre duasculturas diferentes, que é justamente o que está na base do estabelecimento deMacau. Camões é a chama que nos une, é o símbolo da simbiose do Ocidente com oOriente (Ribeiro 2007: 26)Dito isto, vem a propósito relembrar algumas das referências que um dosmaiores escritores portugueses, dos raros que tiveram contacto directo com o Extremo Oriente, Camilo Pessanha, fez à Gruta de Camões e à permanência do vateem Macau, em “Macau e a Gruta de Camões”, incluído na compilação Camões nasParagens Orientais – Textos por Camilo Pessanha e Venceslau de Morais:Quanto à grandeza gigantesca de Camões, e à da assombrosa epopeia marítima queculminou na formação do vasto império português do século XVI, estão acima dequalquer discussão. Resta apenas ponderar se Macau, esta exígua península portu-guesa do Mar da China ligada ao distrito chinês de Heong-Shan, tem qualidades quea recomendem para assim andar associada à memória dessa epopeia e à biografia dopoeta sublime que a cantou.Ora essas qualidades tem-nas Macau como nenhum outro ponto do Globo. Macau éo mais remoto padrão da estupenda actividade portuguesa no Oriente nesses temposgloriosos. (…)É a Gruta de Camões (…) esse lugar sobre todos prestigioso dedicado ao culto de Camões, que é também o culto da Pátria. Culto e prestígio que não podem extinguir--se enquanto houver portugueses; e enquanto não se extinguem, há-de ser verdadeintuitiva, superior a todas as investigações históricas, que o maior génio da raça lusitana sofreu, amou, meditou, em Macau (…) (Pessanha 1927: 13-15). 57 O busto de Camões já se encontrava na Gruta em 1794, pois é mencionado por Sir George Stauntonno diário de viagem da Embaixada de Lord Macartney à China em 1792-1794 (Teixeira 1999a: 67).
  • 59FILHOS DA TERRA | A Comunidade Macaense, Ontem e Hoje3.3 24 de JunhoMacau foi sempre um ponto estratégico nas rotas comerciais, o que gerou acobiça por parte dos holandeses no século XVII, como afirma Austin Coates:Os Holandeses cedo chegaram à conclusão de que o lucro do comércio com o Japãodependia da quantidade de seda chinesa disponível, e cujo monopólio Macau detinha,satisfazendo amplamente a insaciável procura japonesa. Assim, restava-lhes apenas aseda que iam obtendo dos piratas chineses, a intervalos irregulares, e sempre apóslongas e difíceis negociações.Gerou-se, pois, no seio dos Holandeses um crescente movimento de apoio àquelesque propunham a conquista de Macau pela força (Coates 1991: 76).Em período de União das Coroas da Península Ibérica, os inimigos de Espanhapassaram a ser os mesmos dos portugueses e, estando Filipe III de Espanha “(…)naturalmente mais interessado em salvaguardar as colónias fundadas pelos Espa-nhóis que em dar resposta aos pedidos de reforços lançados pelos Portugueses”(Coates 1991: 73), nada fez para contestar a constituição de Companhias das ÍndiasOrientais por parte dos ingleses e holandeses, estes últimos especialmente interes-sados nas colónias portuguesas.A primeira investida dos holandeses deu-se em 1601. Como a cidade aindanão estava fortificada, entraram facilmente, mas a população rapidamente os deteve,acabando esta primeira tentativa de ocupação com o enforcamento de dezoito holandeses e a retirada dos seus barcos (Coates 1991: 74). Seguiram-se mais tenta-tivas de tomar Macau, mas as hostilidades terminaram temporariamente com o Tratado de Antuérpia em 1609, decretando tréguas entre a Holanda e a Espanha(e, por consequência, Portugal). Neste período foi desenvolvido um plano de defesaem Macau e construíram-se fortificações militares:É desta época que datam os fortes da colina da Barra, à entrada do Porto Interior (asul da península), bem como outros dois fortins, construídos nas duas extremidadesda Praia Grande, para controlo do Porto Exterior.Os preparativos da cidade mobilizaram toda a população, incluindo os Jesuítas. Comefeito, toda a área ocupada pelos seus jardins e edifícios no cume do monte foi inte-gralmente coberta por espessa muralha (que ainda hoje ali se ergue), fazendo-se acomunicação com o Colégio e a Igreja de São Paulo, que lhe eram adjacentes, poruma passagem secreta.Foi também estabelecida uma fundição, cujo mestre era Manuel Bocarro, peça impor-tante (se bem que ignorada) na transformação das tradições bélicas do Extremo
  • 60ALEXANDRA SOFIA RANGELOriente, com os seus magníficos canhões (comprados por todos os países da região),bem como com outros artefactos (os melhores do género produzidos em toda a Ásia)(Coates 1991: 75-76).Todos estes preparativos provaram-se essenciais, já que, findo o período de tréguas, os holandeses atacaram Macau outra vez em 1622. Os confrontos tiveraminício em 23 de Junho, com fortes bombardeamentos sobre a cidade, que se encon-trava desguarnecida, pois a maioria dos soldados estava fora a auxiliar tropas chinesas.Por consequência, “(…) só cerca de mil pessoas se encontravam na cidade, e, dessas,apenas oitenta europeus estariam aptos a pegar em armas” (Coates 1991: 77).A batalha continuou no dia seguinte, 24 de Junho, dia de São João Baptista,com mais bombardeamentos e o desembarque dos holandeses. Austin Coates relata:(…) a escassa população de Macau – leigos e clérigos, homens livres e escravos – ergueu-se para a defender. Os Jesuítas rapidamente desalojaram os canhões dosseus postigos originais, posicionando-os ao longo da muralha norte do seu seminá-rio-fortaleza. Refira-se a propósito que os padres jesuítas eram peritos em balística,habituados que estavam a lidar com a corte de Pequim (…).Neste embate brutal era grande a escassez de armas e homens que as manejassem,especialmente numa ocasião em que a defesa mais eficaz residia na intensidade e nafrequência do fogo de artilharia. Mas tal deficiência veio a ser compensada pela pon-taria certeira de um padre-soldado. De facto, quando o inimigo se acercava já do sopédo Monte, o padre Rho começou a disparar o seu canhão, cujas balas caíram certeirassobre os carroções que transportavam a pólvora da força holandesa, que rebentaramcom estrondosa explosão. (…)O grito de batalha lusitano, “Por Sant’Iago!”, brotou a certa altura de um qualquerpeito, sendo um segundo depois gritado em uníssono por todas as gargantas, comoem uníssono avançou a multidão, inspirada por uma força comum, caindo de todosos lados sobre o invasor holandês. (…) A coberto da mais intensa fuzilaria, a van-guarda portuguesa enfrentava já o inimigo em luta corpo a corpo. (…) O comandanteda força invasora foi o primeiro a cair, após o que o resto das tropas holandesas, per-dendo de vista o seu líder, vacilaram por completo. Momentos depois, tomados depânico, batiam em retirada, desfazendo-se das armas, acossados pelos Macaenses,que os perseguiam pelos campos trespassando com as espadas tantos quantos podiam. Uma mulher africana, vestida de homem, matou dois deles com uma forqui-lha” (Coates 1991: 77-78).Após a estrondosa derrota dos holandeses, decidiu-se comemorar todos
  • 61FILHOS DA TERRA | A Comunidade Macaense, Ontem e Hojeos anos o Dia de São João Baptistacomo agradecimento e recordaçãodeste feito importante na história de Macau, algo que foi feito ao longode quase quatro séculos, celebradocomo o Dia de Macau até 1999. No entanto, apesar de já não ser fe-riado,58 os macaenses não se esque-cem desta data e, todos os anos,através das suas associações comsede no território ou no estrangeiro,continuam a comemorar este dia comuma missa e um chá gordo, man-tendo em pleno o seu significadopara a comunidade. Há datas que são marcos fundamen-tais de qualquer comunidade. O 24de Junho é uma data inapagável damemória macaense: “A vitória de 24de Junho de 1622, sobre os invasores holandeses, marca um dos mais brilhantesfeitos do povo de Macau e um imorredoiro padrão nas tradições desta Cidade doNome de Deus” (Machado 2002: 137).3.4 NatalA comunidade macaense é tradicionalmente católica, uma herança dos paisportugueses de tempos de outrora, e vive numa cidade repleta de igrejas e capelas,algumas existentes desde os primeiros tempos do estabelecimento de Macau. Renelde da Silva justifica a religiosidade dos macaenses da seguinte forma:Face à sua pequenez numérica num ambiente de omnipotência política da vizinhançae do relativo abandono da Metrópole, os macaenses aprenderam a contar consigopróprios, para enfrentar as situações difíceis, por que tiveram de passar.Para além das suas forças, só podiam contar com Deus. Daí a sua religiosidade (Silva2001: 94).58 Sendo uma data específica relacionada com a história de Macau, é opinião generalizada na populaçãoque não deveria ter sido retirada dos calendários oficiais após a transição de administração.fig. 25| O monumento que assinala a vitória sobreos holandeses em 1622
  • 62ALEXANDRA SOFIA RANGELComo para muitos outros católicos, para os macaenses, o Natal é uma festi-vidade muito importante e amplamente participada. Mas nunca foi só uma festa defamília, pois foi sempre vivido também com intensidade em estabelecimentos deensino, em organismos associativos, em empresas, em serviços públicos e em insti-tuições de solidariedade social (Rangel 2007a: 319).O escritor macaense Henrique de Senna Fernandes descreve assim o Natal noseio da sua família:O Dezembro era um mês festivo. O primeiro domingo era dedicado à Primeira Comu-nhão, uma cerimónia tocante na Sé Catedral (…). Logo a seguir, vinham os preparativos para o Natal, as donas de casa atarefadas nacozinha, na confecção do aluar, dos coscorões, empadas e fartes, os costumados docesda época. Encomendavam-se o peru e outras carnes de Hong Kong e, em casa domeu Avô materno, não podia faltar o empadão gelatinado de peças de caça, o famoso“game-pie” do Lane Crawford. Encomendavam-se também à Loja de Omar Moosa,mais conhecido por Kassam, figura prestigiosa e mais destacada da larga comunidade“Moura” de Macau (…).A “missa do galo” desse tempo, o jantar de Natal, o deslumbramento dos brinquedos,a mesa repleta de iguarias, onde se comia à tripa forra, a alacridade e as gargalhadasdos familiares, ainda se repercutem na minha saudade. Os dias seguintes até os Reis,com quebra do dia do Ano Bom, eram dedicados a amigos e conhecidos (Fernandes1999: 65).Outro autor dá-nos o seu testemunho deste modo:À missa do galo iam as famílias católicas, a que se seguia a ceia e o ansiado momentode abertura das prendas. As festas prolongavam-se no dia de Natal, com almoço ejantar especialmente confeccionados para a ocasião, onde não faltavam o peru e outros pratos escolhidos pelas donas de casa, elas próprias quase sempre excelentescozinheiras. Apesar das grandes modificações operadas nas últimas décadas, muitas destas tradi-ções mantiveram-se. A quadra festiva também era e é aproveitada para familiares sereencontrarem e para cada um se lembrar dos amigos, separados pela distância e pelotempo (Rangel 2006: 278).Eis um outro sugestivo relato de um velho residente, José Silveira Machado,originário dos Açores e ex-professor da Escola Comercial Pedro Nolasco, ao relembraro seu primeiro Natal em Macau:
  • Ainda hoje recordo essa noite de festa e de emoções, que me deu a oportunidade devir a conhecer, ao longo da minha vivência em Macau, a forma tradicional e muito especial como os macaenses preparavam e celebravam esta data tão festiva.Católicos por tradição, convicção ou devoção, na senda dos hábitos e costumes queos missionários, navegadores e comerciantes para aqui trouxeram das terras de Portugal, punham um carinho muito especial nas comemorações do nascimento doMenino de Belém. (…)À noite todos se preparavam para assistir à Missa do Galo, enchendo-se de fiéis todasas igrejas da cidade e das ilhas, que, em noites de frio, se embiocavam em agasalhosgrossos, porque não havia meios de transporte para os resguardar da inclemência dotempo. (…)Terminada a Missa e o beija-pé ao Menino, regressavam todos a casa para a consoadaem família, em que tomavam parte alguns parentes ou amigos mais chegados.O que se fazia em primeiro lugar, era acender as velas e rezar diante do presépio epedir graças para toda a família, presentes e ausentes. Vinham então para a mesa grande peru, capão, presunto e todas as outras iguariasque faziam a delícia de todos (…) (Machado 2002: 139-140).Devido à proximidade de Hong Kong, certos hábitos ingleses natalícios foramadoptados por algumas antigas famílias macaenses, como apagarem-se as luzesquando se serve o tradicional Christmas Pudding (pudim de Natal), em chamas, noDia de Natal.Festa universal, comemorada de forma muito idêntica por milhões de pessoas,tinha e tem as suas especificidades próprias no seio das velhas famílias macaenses.4. FIGURAS DE REFERÊNCIA NA COMUNIDADESão muitos os macaenses que se distinguiram em variadas áreas e que se tornaram figuras relevantes no seio da comunidade. No entanto, sendo este um estudo mais focado na área da cultura, escolhi as seguintes três personalidades,tidas generalizadamente como figuras de referência da comunidade macaense: LuísGonzaga Gomes, José dos Santos Ferreira e Henrique de Senna Fernandes.4.1 Luís Gonzaga GomesLuís Gonzaga Gomes nasceu em Macau a 11 de Julho de 1907 e faleceu a20 de Março de 1976. Começou a escrever aos 14 anos, quando frequentava o Liceu63FILHOS DA TERRA | A Comunidade Macaense, Ontem e Hoje
  • 64ALEXANDRA SOFIA RANGELde Macau, onde foi aluno deCamilo Pessanha e colaborouno jornal A Academia, quetambém contou com a penado seu amigo e colega Joa-quim Paço d’Arcos, que setornaria um grande escritorda língua portuguesa, filhodo então Governador deMacau, Henrique MonteiroCorreia da Silva (Paço d’Ar-cos) (Teixeira 1986: 466).Após concluir o liceu, ingres-sou na Repartição Técnica doExpediente Sínico,59 onde sededicou ao estudo do chinês,formando-se como intérpretede 1.ª classe (Teixeira 1986:469). Foi professor primário durante 24 anos ao mesmo tempo que aprofundou osseus conhecimentos da língua chinesa, que lhe permitiram ensiná-la no Liceu deMacau e na Escola dos Correios, Telégrafos e Telefones (Batalha 2007: 9). Ao longo da sua vida, Luís Gonzaga Gomes trabalhou muito no sentido doenriquecimento do diálogo cultural luso-chinês, efectuando traduções e compila-ções, realizando estudos e escrevendo artigos em jornais e livros. Publicou em chinêsuma tradução de Os Lusíadas contados às crianças de João de Barros (1942), Históriade Portugal (1955), Vocabulário Português-Cantonense (1941) e Vocabulário Cantonense-Português (1942). Das obras em português destacam-se Monografiade Macau (1950), Contos Chineses (1950), Lendas Chinesas de Macau (1951), Curiosidades de Macau Antiga (1952), Chinesices (1952), Festividades Chinesas(1953), Arte Chinesa (1954) e Efemérides da História de Macau (1954) (Teixeira1986: 479-480). Como afirma Graciete Batalha, no prefácio do livro Macau Factose Lendas, uma compilação de artigos de Luís Gonzaga Gomes, “Mais de 30 volumespublicados, mais de 20 jornais e revistas em que colaborou ou que dirigiu, atestambem a sua determinação de divulgar a história e a cultura macaense ou de contribuirpara o intercâmbio cultural luso-chinês” (Batalha in Gomes 1994: 5). E no seu opúsculo Luís Gonzaga Gomes e o Intercâmbio Cultural Luso-Chinês, “(…) houvefig. 26| Luís Gonzaga Gomes59 Organismo público responsável pelas traduções oficiais, formação de intérpretes e pela divulgação dosassuntos do Governo junto da comunidade chinesa.
  • 65FILHOS DA TERRA | A Comunidade Macaense, Ontem e Hojeem Macau um homem silencioso e tenaz que, sem grande apoio moral ou material(…) dedicou grande parte da sua vida ao estudo da língua e da cultura chinesa, aomesmo tempo que da ocidental, e ao meritório trabalho de as dar a conhecer umaà outra” (Batalha 2007: 9).Em Macau Factos e Lendas, Luís Gonzaga Gomes conta uma história relativaa duas árvores no jardim do Templo de Kun Iâm, a Deusa da Misericórdia, onde “(…) reina sempre profundo silêncio e um ar de mistério bem propícios para quemnele intente buscar o recolhimento e a paz de espírito” (Gomes 1994: 69). Segundoesta lenda, antes de existir o templo, aquela área era ocupada por um pequeno povoado. Um dos lavradores, mais abastado que os seus vizinhos, vivia apenas com a sua filha e dois empregados. A filha e um dos empregados acabaram por se apaixonar, e ele foi pedir ao lavrador autorização para casar com ela. Este nãoconsentiu e proibiu os dois jovens de se encontrarem novamente. Desesperadoscom a sua situação, os dois resolveram suicidar-se, (…) pois talvez conseguiriam alcançar a felicidade noutro mundo, uma vez que nãopoderiam ser felizes neste (…) e, depois de se abraçarem e chorarem muito, enforca-ram-se, corajosamente, cada um, nos ramos de duas árvores que cresciam isoladasnaquele local. (…) E, fenómeno que causou tão grande espanto, as duas árvores, ondeos dois desgraçados amantes se suicidaram, passaram, daí em diante, a desenvolver--se com extraordinária pujança, mas com os seus troncos abraçados um ao outro,como dois seres envolvidos num forte amplexo e com o estranho aspecto com queficou até hoje (Gomes 1994: 70-71).Este local é um dos mais visitados em Macau, quer por residentes, quer porturistas.Luís Gonzaga Gomes foi conservador do Museu Luís de Camões,60 director dapublicação Arquivos de Macau, director-bibliotecário da Biblioteca Central de Macau,vice-presidente e presidente da Comissão Administrativa do Leal Senado,61 secretárioda Comissão da Defesa e Valorização do Património Artístico e Histórico da Provínciade Macau, secretário da comissão de instalação do Arquivo Central de Macau, alémde ter igualmente desempenhado cargos em organismos da sociedade civil, comopresidente do Rotary Clube de Macau, secretário do Círculo de Cultura Musical e doCírculo Cultural de Macau e secretário da Associação Desportiva Macaense. Foi também director da Emissora de Macau, correspondente da Agência ANI, chefe de60 Primeiro museu de arte de Macau, cujo espólio pertence agora ao Museu de Arte de Macau, integradono moderno complexo do Centro Cultural de Macau. 61 Câmara Municipal de Macau.
  • 66ALEXANDRA SOFIA RANGELredacção e administrador da revista Renascimento, secretário-geral e redactor dodiário Notícias de Macau e colaborador de numerosas publicações periódicas locais,nacionais e estrangeiras (Rangel 2007b: 14-15).Além da sua actividade profissional, nos tempos livres, Luís Gonzaga Gomesrepresentou Macau em ténis contra grupos de Hong Kong, tocou violino no Grupode Amadores de Teatro e Música, participou como cantor em concertos e programasde rádio e adaptou e foi actor em peças radiofónicas (Teixeira 1986: 477). No entanto, era conhecido por ser uma pessoa solitária, dedicada aos seus trabalhosde investigação: “Luís Gomes foi o melhor e o mais prolífico historiador macaensenestes quatrocentos anos de vida desta terra, mas tão modesto que se escondia nopó dos Arquivos, sendo raro vê-lo em qualquer festa ou divertimento. Era um verdadeiro anacoreta” (Teixeira 1986: 473-474).Em 2007, comemorou-se o centenário do seu nascimento, com um muitovariado programa que incluiu uma missa e homenagem junto da sua campa no Cemitério de S. Miguel, uma exposição fotobiográfica, lançamentos de reedições deobras suas e palestras sobre a sua vida e obra. Onze entidades da sociedade civil deMacau assinaram um protocolo de cooperação na organização e promoção destascomemorações. Foi também reactivado o Cenáculo Luís Gonzaga Gomes, com sedena Sala Luís Gonzaga Gomes no Instituto Internacional de Macau, onde se encon-tram livros, fotografias, objectos e outros documentos relacionados com este autore professor (Rangel 2007b: 27).O seu nome foi dado a uma rua de Macau e a uma escola secundária e o seubusto, da autoria do escultor italiano Oseo Acconci, encontra-se no Jardim das Artes,numa zona nova da cidade de Macau. Foi condecorado pelo Estado Português como grau de Cavaleiro da Ordem do Infante D. Henrique e, por decisão do Governadorde Macau, foi-lhe atribuída, a título póstumo, a Medalha de Valor, a mais alta condecoração de Macau na vigência da administração portuguesa. O Governo Francês concedeu-lhe o grau de Cavaleiro da Ordem das Palmas (Rangel 2007b: 16).4.2 José dos Santos FerreiraJosé Inocêncio dos Santos Ferreira, conhecido por Adé, nasceu em Macau a 28 de Julho de 1919, o mais novo de dezoito irmãos, filho de mãe macaense epai português, natural de Seia que, nesse mesmo ano, partiu para Timor em buscade fortuna, trabalhando como comerciante. Morreu pouco tempo depois, deixandoa família quase na miséria (Marreiros 1994: 21-22).Por este motivo, o pagamento das propinas e outras despesas escolares foibastante difícil para José dos Santos Ferreira, deixando o Liceu de Macau aos dezas-
  • 67FILHOS DA TERRA | A Comunidade Macaense, Ontem e Hojesete anos para procurar emprego. Foi au-xiliar de topógrafo e fiscal de obras antesde cumprir o serviço militar obrigatório.Entrou no quadro da Secretaria dos Servi-ços de Saúde em 1943 e, em 1956, foi no-meado chefe de Secretaria no Liceu deMacau, onde “(…) preocupou-se imensoe muito batalhou para que os alunos, fi-lhos de famílias de condições económicasmodestas, tivessem isenção de todas aspropinas – matrícula, frequência e exames– e livros e material didáctico necessários(…) Muitos alunos beneficiaram dessa suapreocupação” (Marreiros 1994: 22). Con-seguiu, portanto, que vários jovens não ti-vessem de passar pelo mesmo que ele,dando-lhes oportunidades e incentivando--os a continuar os estudos, especialmentequando, em 1964, se tornou secretário da STDM – Sociedade de Turismo e Diversõesde Macau e convenceu os proprietários da empresa a instituir bolsas de estudo parao ensino secundário, universitário e pós-universitário (Marreiros 1994: 22-23).Entusiasta de jornalismo, colaborou em vários periódicos locais, fez parte do corpo redactorial do Notícias de Macau e foi chefe de redacção de O Clarim, Comunidade e Gazeta Macaense. Foi correspondente dos jornais portugueses Diáriode Notícias, Diário do Norte e Diário Popular, do jornal de Hong Kong China Mail eda agência noticiosa Associated Press (Marreiros 1994: 23).José dos Santos Ferreira também gostava de desporto e praticou futebol, atletismo, ténis e hóquei em campo, tendo desempenhado cargos e organizadocompetições no Hóquei Clube de Macau, Associação de Futebol de Macau, Conselhode Desportos, Ténis Civil, Associação de Hóquei em Campo de Macau e Associaçãode Tiro de Macau (Marreiros 1994: 23). Integrou a Mesa Directora da Santa Casada Misericórdia e a Direcção do Clube de Macau e foi presidente do Rotary Clube deMacau. Pelo Governo Português foi condecorado com a Ordem do Infante D. Henrique(grau de Cavaleiro) em 1979 e, do Governo de Macau, recebeu as medalhas de Mérito Desportivo e de Mérito Cultural em, respectivamente, 1983 e 1984 (Marreiros1994: 25).Além de todas estas actividades, foi na escrita, principalmente na poesia, emque ele mais se destacou, recuperando o dialecto macaense e dando-lhe uma novafig. 27| José dos Santos Ferreira (Adé)
  • 68ALEXANDRA SOFIA RANGELvida nas suas récitas e poemas, sendo o seu maior divulgador, publicando as seguintes obras em patuá: Macau Sã Assi (1968), Qui-nova, Chencho (1974), PapiáCristãm di Macau (1978), Camões, Grandi na Naçám (1982), Poéma di Macau(1983), Macau di Tempo Antigo (1985), Natal – Amor, Paz, Alegria (1986), AcungaNatal qui nôs já sunhá (1988), Macau, Jardim Abençoado (1988), Sã Natal, Jesus jánascê (1989), Luz di Natal (1990), Dóci Papiaçám di Macau (1990), Natal Cristãm(1991) e Poema na Lingu Maquista (1992) (Marreiros 1994: 26-27).No entanto, apesar de ter uma vida preenchida, o poeta, por dentro, estavaa sofrer com o futuro próximo da sua terra natal:(…) cada vez mais negro estava também, segundo ele, o horizonte da sua amadaterra que um dia acordaria chinês. O poeta que sempre acordou português, em todasas madrugadas, não podia continuar a conviver com a angústia de um dia acordarchinês. Nunca se acostumou à ideia, por isso, foi morrendo por dentro, pedaço a pe-daço, despedaçado. Essa foi a sua morte, para quem o conhecia (Marreiros 1994: 25).José dos Santos Ferreira faleceu num hospital de Hong Kong, a 24 de Marçode 1993. O seu poema “Adios di Macau” (“O Adeus de Macau”), escrito dez anosantes da transferência de administração, é revelador do estado de espírito do poeta,traduzindo a sua profunda mágoa com o destino traçado para a sua terra. Trans-crevo a primeira parte desse poema, em patuá e na versão portuguesa, também dasua autoria:“Adios di Macau”Macau ta perto falá adiosPa tudo su filo-filo,Pa Portugal,Pa gente qui divera querê pa êle.Quim têm êle na coraçám,Lôgo sentí grándi margura;Voz lô ficá engasgado na gargántaNa ora di falá adios pa Macau.Ah! Divera saiám, nôsso Macau!Qui dói coraçám olá vôs têm-qui vai,Escapulí di nôsso vida,Vivo separado di nôsso Portugal.
  • 69FILHOS DA TERRA | A Comunidade Macaense, Ontem e HojeNôs nom-quêro vôs vai,Vôs onçôm tamêm nom-quêro vai…Mâz quim sã nôsNa estunga mundo di gente poderoso,Cuza sã nôsNa estunga mar di ónda assanhado?Têm más dez áno,Dez áno na-más.Tempo corê ligéro,Trás di tempo, tudo passá azinha.(…)(Ferreira 1990: 27).“O Adeus de Macau”Macau está quase a dizer adeusA todos os seus filhos,A Portugal,Às pessoas que a amam verdadeiramente.Aqueles que a guardam no coraçãoHão-de sofrer grande mágoa;A voz lhes ficará embargada na gargantaNo momento de dizerem adeus a Macau.Oh! Que grande pena, nossa Macau!Que sofrimento saber que terás de ir,Sair da nossa vidaE viver desacompanhada do nosso Portugal.Não queremos que vás,Nem tu própria quererás ir…Mas quem somos nósNeste mundo de gente poderosa,
  • 70ALEXANDRA SOFIA RANGELO que somos nósNeste mar de ondas agrestes?Faltam dez anos,Apenas dez anos.O tempo corre velozE atrás do tempo tudo desliza ligeiro.(…)(Ferreira 1990: 201). 4.3 Henrique de Senna FernandesHenrique Rodriguesde Senna Fernandes nasceuem Macau a 15 de Outubrode 1923, oriundo de umadas mais antigas famílias doterritório. Fez os ensinos bá-sico e secundário em Macau.Terminou, em 1952, o cursode Direito na Universidade de Coimbra e regressou aMacau dois anos depois,exercendo advocacia desdeentão. Foi também professorna Escola Primária Oficial, noLiceu Nacional Infante D.Henrique, na Escola do Ma-gistério Primário e na EscolaComercial Pedro Nolasco, deque foi director durante doze anos, sendo recordado com saudade e admiração pormilhares de alunos que o consideram um dos melhores mestres de gerações de jovens de Macau (Rangel 2006: 101). Desempenhou cargos em organismos públicos e associativos, como directorda Biblioteca Central de Macau e da Biblioteca Sir Robert Ho Tung, director do Centrode Informação e Turismo do Governo de Macau, membro do Conselho Consultivofig. 28| Henrique de Senna Fernandes
  • 71FILHOS DA TERRA | A Comunidade Macaense, Ontem e Hojedo Governador de Macau, presidente do Rotary Clube de Macau, presidente da Assembleia Geral da Associação Promotora da Instrução dos Macaenses e presidenteda Associação dos Advogados de Macau (Rangel 2006: 101).Foi colaborador em vários periódicos de Macau, como A Voz de Macau, Notícias de Macau, O Clarim, Gazeta Macaense e Ponto Final, e nas revistas Mosaicoe Revista de Cultura. Foi também crítico de cinema na Emissora de Radiodifusão deMacau (Rangel 2006: 102).Henrique de Senna Fernandes publicou duas compilações de contos, NamVan – Contos de Macau (1978) e Mong Há (1998), e dois romances, Amor e Dedi-nhos de Pé (1985) e A Trança Feiticeira (1993), este último com uma tradução emlíngua inglesa, The Bewitching Braid. Os dois romances foram levados ao cinema:Amor e Dedinhos de Pé foi realizado por Luís Filipe Rocha em 1993,62 e A TrançaFeiticeira por Yuanyuan Cai em 1996.63 Os actores principais foram, respectivamente,Joaquim de Almeida, no papel de Francisco da Frontaria, e Ricardo Carriço, no papelde Adozindo.O seu conto “A-Chan, a Tancareira”, vencedor do Prémio Fialho de Almeidados Jogos Florais da Queima das Fitas de 1950 da Universidade de Coimbra, relataa história de amor em Macau entre uma chinesa pobre, tancareira,64 chamada A-Chan, e um marinheiro português, Manuel, nos inícios da década de 40 do séculoXX. Destaco a seguinte passagem que traduz a atracção de Manuel por A-Chan:A-Chan trazia-lhe paz na sua determinada dedicação. Chocava-o aquela submissãode fêmea amorosa que nada pedia. Uma calada devoção que o enternecia. Gostavade ficar ao pé dela a seguir a marcha rutilante das estrelas, a paisagem nocturna deMacau, o casario da Penha e o da Barra, diluídos em sonho no fundo azul da noite.Era feia, ignorante, açulada pela canga do rio. Mas os olhos orientais não escondiamuma imensa ternura pelo marinheiro saudoso do mar. Sensibilizava-o a maneira comolhe sorria, como lhe oferecia a tigela de chá ou como lhe passava os dedos calosos eásperos pelos seus cabelos loiros de europeu, num requinte de familiaridade. Falavampouco, entendiam-se mais por gestos que por palavras. Mas que reconfortantes os silêncios em que ela se apagava num canto do tancá para não lhe perturbar as medi-tações (Fernandes 1978: 11-12).Manuel e A-Chan, apesar de não estarem casados, acabam por ter uma filha mestiça, com “cabelos aloirados, tez quase branca, olhos claros, a denunciar62 Veja-se: http://www.imdb.com/title/tt0101335/. 63 Veja-se: http://www.imdb.com/title/tt0117953/.64 Mulher que vivia e trabalhava em pequenas embarcações pesqueiras chamadas tancás.
  • 72ALEXANDRA SOFIA RANGELascendência europeia” (Fernandes 1978: 14). Viveram juntos mas, com o fim daGuerra no Pacífico, Manuel é obrigado a regressar a Portugal:Tornou-se-lhe obsidiante o problema da filha. Não tinha coragem de renunciá-la. Quefuturo lhe reservaria a tancareira? Cresceria no ambiente soturno do porto, acompa-nharia a mãe nos espinhos do ofício, maltratada pelo mundo e pela fome que é o es-tigma de todas as camadas paupérrimas da China. E depois, Mei-Lai não tinha feiçõespuras de oriental. Só por si denunciava uma pecaminosa ligação com o europeu.Nunca vira mestiças a trabalhar no rio. Para outros caminhos as levara o destino. Paraos bordéis, para as hospedarias das vielas do amor. Em toda a parte, onde nasciamrebentos clandestinos de europeus, a prostituição lucrava. Não, não podia abandoná--la (Fernandes 1978: 16).Sabendo que só ele poderia oferecer uma vida melhor à sua filha ilegítima,Manuel leva-a com ele para Portugal, abandonando A-Chan no porto, ouvindo osseus “(…) soluços (…). Espaçados, pungentes, envergonhados” (Fernandes 1978:18).Henrique de Senna Fernandes foi condecorado com o grau de Oficial daOrdem de Instrução Pública (1978), a Comenda da Ordem do Infante D. Henrique(1986), a Medalha de Mérito Cultural do Governo de Macau (1989), a Medalha deValor do Governo de Macau (1995), o grau de Grande Oficial da Ordem Militar deSantiago de Espada (1998), o título de Cidadão Emérito de Macau (1999) e a Me-dalha de Mérito Cultural da Região Administrativa Especial de Macau (2001) (Rangel2006: 101-102). Em 2003, foi eleito académico correspondente da Academia Internacionalda Cultura Portuguesa e, em 2004, recebeu o Prémio Identidade do Instituto Inter-nacional de Macau, destinado a contemplar “(…) personalidades ou instituiçõesque, pela sua acção, obra e exemplo, hajam contribuído, activa e significativamente,para a preservação e o reforço da identidade de Macau” (Rangel 2006: 100). O Instituto Internacional de Macau quis homenagear, “(…) com toda a justiça, o escritor, o professor, o jurista, o bibliotecário e o dirigente dedicado de organismoslocais, públicos e privados, que muito contribuiu para a afirmação da identidadecultural de Macau, sendo por muitos considerado o patriarca da comunidade” (Rangel 2006: 103).Henrique de Senna Fernandes faleceu no dia 4 de Outubro de 2010. Nãoobstante problemas de saúde que limitaram a sua intervenção cívica e cultural, con-tinuou nos últimos anos da sua vida a ser um membro activo de várias organizações,como o Conselho das Comunidades Macaenses e a Confraria da Gastronomia Macaense. Na nota de abertura do seu livro de contos Nam Van – Contos de Macau,
  • 73FILHOS DA TERRA | A Comunidade Macaense, Ontem e Hojeescreveu: “Se alcancei o meu objectivo, ficarei grato por saber que prestei um serviçoà minha terra” (Fernandes 1978: 4). É óbvio que sim.5. INSTITUIÇÕES MACAENSESAlgumas instituições macaenses, pela sua antiguidade, reportam-se quaseao início de Macau, tendo sobrevivido, pela sua capacidade de afirmação, até aosnossos dias, como é o caso da Santa Casa da Misericórdia, fundada em 1569 peloBispo D. Belchior (Melchior, na forma erudita) Carneiro e ainda agora em funciona-mento, cumprindo a missão de apoio social que presidiu à sua criação. Esta foi asegunda mais antiga Misericórdia ultramarina, estabelecida logo a seguir à de Goa(Provedoria da Santa Casa da Misericórdia 1969: 10-14). Ainda hoje, os macaensessentem-se muito identificados com este organismo, e os seus órgãos sociais sãoconstituídos por personalidades destacadas da comunidade, tendo muitas delas umaintervenção cívica importante. A Igreja Católica, por seu lado, com o seu conjunto de congregações, irmandades e outros organismos associados, conseguiu ser a mais perene e conse-quente de todas as instituições, realizando objectivos de natureza social e educativa,para além do apostolado. Comunidade ligada aos valores cristãos desde os primór-fig. 29| A Santa Casa da Misericórdia
  • 74ALEXANDRA SOFIA RANGELdios, os macaenses identificaram-se largamente com a acção missionária e envolve-ram-se, ao longo da história, no funcionamento desses organismos, participandonas actividades religiosas e colaborando na sua obra social.A Diocese de Macau teve à sua frente prelados portugueses até vésperas da transição, quando foi designado o primeiro bispo de etnia chinesa, D. DomingosLam, natural de Hong Kong e formado em Macau, no Seminário de S. José, sendofluente na língua portuguesa. Coube-lhe preparar a Igreja e os fiéis para a nova situação político-administrativa de Macau. Substituído depois por D. José Lai, naturalde Macau e formado no Seminário de Leiria, a Igreja continua a ter um papel damaior relevância na sociedade de Macau, com uma intervenção muito significativano ensino e através de organismos de solidariedade social, não tendo sido colocadonenhum obstáculo ao seu funcionamento pelas novas autoridades.No âmbito político-administrativo, a instituição considerada a mais genuínada comunidade foi o Senado de Macau, criado em 1583, vinte e seis anos após adata da fundação de Macau (1557). Nasceu de uma assembleia de moradores queescolheu para sua administração a forma senatorial, baseada nas franquias munici-pais outorgadas pelo Rei a algumas cidades de Portugal, adoptando, no ano se-guinte, o nome de Senado da Câmara, composto por dois juízes ordinários, trêsvereadores e um procurador da cidade, escolhidos, anualmente, por eleição popular(Gomes 1997: 15). A denominação de “CIDADE DO NOME DE DEUS, NÃO HÁ OUTRA MAISLEAL” foi conferida em 1654 por D. João IV “(…) em fé da muita lealdade que co-nheceu nos cidadãos dela” e, a 13 de Maio de 1810, D. João VI concedeu o honrosotítulo de Leal ao Senado de Macau (Gomes 1997: 114-115). Este organismo – Lealfigs. 30 e 31| Igreja de S. Domingos (esquerda) e a Igreja da Penha (direita)
  • 75FILHOS DA TERRA | A Comunidade Macaense, Ontem e HojeSenado de Macau – ostentou com o maior orgulho esta distinção real e foi sua res-ponsabilidade a gestão da cidade até ao fim da transição. Macau adoptou, desdeos primeiros tempos da sua história, o sistema municipal para gestão dos negóciospúblicos, e nem sempre foi pacífica a articulação de poderes entre o Senado, eleitolocalmente, e o Governador, designado pelo poder central em Lisboa (Gomes 1997:110-114). Logo após a transferência de administração em 1999, a primeira lei publi-cada pelas novas autoridades, conhecida por Lei da Reunificação, definiu no seu artigo 15.º, que “(…) os órgãosmunicipais de Macau previamenteexistentes são reorganizados paraórgãos municipais provisórios sempoder político”, passando o LealSenado a denominar-se CâmaraMunicipal de Macau Provisória, omesmo acontecendo com o outromunicípio de Macau, a CâmaraMunicipal das Ilhas, a que seacrescentou a designação “Provi-sória”, deixando os seus símbolos,carimbos e bandeiras de ser utili-zados. Pôs-se fim, desta feita, auma prática longa de participação cívica e de envolvimento directo dos cidadãos navida pública. Um ano depois, a Lei n.º 17/2001 de 17 de Dezembro acabaria mesmo,para surpresa de muita gente, por extinguir essas câmaras municipais provisórias,criando, em sua substituição, um instituto público denominado Instituto para osAssuntos Cívicos e Municipais (Rangel 2004: 255-256).65 A cidade de Macau ficou,assim, sem Câmara Municipal e o velho Senado – Leal Senado – deixou definitiva-mente de figurar entre os órgãos de gestão político-administrativa de Macau. Na área da educação destaca-se a Associação Promotora da Instrução dosMacaenses (APIM), instituição centenária fundada em 1871 e vocacionada para odesenvolvimento da educação da comunidade macaense. Foi criada após a ordemvinda de Lisboa, em 1870, de expulsão de todos os estrangeiros que leccionavamem Macau, tornando-se, pois, necessário que a comunidade macaense tomasse medidas para que a juventude de Macau não ficasse prejudicada com esta decisão.65 Os responsáveis por este novo organismo deixaram de ser eleitos pela população e passaram a ser desig-nados pelo Chefe do Executivo da Região, o que foi mal recebido pelos segmentos mais esclarecidos e activos, quer da comunidade macaense, quer da comunidade chinesa local.fig. 32| O edifício do Leal Senado, agora Instituto para os Assuntos Cívicos e Municipais
  • 76ALEXANDRA SOFIA RANGELAtravés do esforço da Associação,a Escola Comercial Pedro Nolascofoi fundada em 1878 e durou até1998, ano em que a Escola Portu-guesa de Macau foi instaladanesse complexo escolar. A APIMtornou-se, então, membro daFundação Escola Portuguesa deMacau, tendo, por isso, responsa-bilidades de gestão deste estabe-lecimento de ensino cuja línguaveicular é a portuguesa.66 A APIMtem, entre outros, os seguintesobjectivos: conceder bolsas de estudo, facultar material escolar a alunos carenciadose desenvolver outras acções em prol da juventude local. A APIM também mantémem funcionamento uma bibliotecacom livros, na sua maioria, emportuguês e é responsável pelagestão e funcionamento do Jar-dim de Infância D. José da CostaNunes, igualmente em línguaveicular portuguesa.67Outras instituições educa-tivas que não podem ser olvidadas,dado que lhes coube a responsabi-lidade de formar gerações de ma-caenses, tendo o português comolíngua de ensino, foram o Liceu Na-cional Infante D. Henrique e a Es-cola Primária Oficial Pedro Nolasco da Silva, extintos, juntamente com a Escola Comercial,no momento da criação da Escola Portuguesa de Macau, e ainda o Colégio D. Bosco(escola industrial salesiana) e o Seminário de S. José, com internato e externato.Muitos organismos recreativos foram criados ao longo dos tempos, funcio-nando como “(…) centros de convivência, conforme as categorias sociais, de frequência diária (…)”, estando a vida clubista no apogeu a meados do século XX,fig. 33| O edifício da Escola Portuguesa de Macau,onde funcionou anteriormente a Escola ComercialPedro Nolasco66 Veja-se: http://www.apim.org.mo/pt/.67 Veja-se: http://www.apim.org.mo/pt/index.php?option=com_content&view=article&id=78&Itemid=148&lang=pt.fig. 34| O jardim de infância de muitas gerações de macaenses
  • destacando-se então o Clube de Macau, o Grémio Militar (actualmente denominadoClube Militar) e o Ténis Civil, ainda agora em actividade.68 Outros foram sendo extintos com o passar dos anos, como por exemplo o Clube Desportivo Argonauta,a União Recreativa, o Clube de Caçadores de Tiro aos Pratos e o Ténis Harmonia (Fernandes 1999: 62-63).De natureza sindical, me-rece referência a Associação dosTrabalhadores da Função Públicade Macau (ATFPM), que con-grega os funcionários públicos epugna pelos seus direitos.Entretanto, foram criadasnovas associações identificadascom a comunidade, como ogrupo Dóci Papiaçám di Macau,já referido na secção sobre opatuá, o Conselho das Comuni-dades Macaenses, cujo papelestá explicado na secção seguinte deste estudo, a Associação dos Macaenses, aAssociação dos Aposentados, Reformados e Pensionistas de Macau e o InstitutoInternacional de Macau.A Associação dos Macaenses (ADM), instituição sem fins lucrativos fundadaem 1996, tem os objectivos de estabelecer e promover a solidariedade entre os macaenses, defender a identidade cultural e dignificar a presença da comunidademacaense, no território e fora dele, e a realização de acções de beneficência.6977FILHOS DA TERRA | A Comunidade Macaense, Ontem e Hoje68 Além do ténis, a modalidade desportiva com a qual a comunidade macaense mais se identificou foi o hóquei em campo, muito intensamente praticado através do prestigiado Hóquei Clube de Macau.69 Veja-se: http://www.admac.org/macau/htm/index_p/main_p.htm.fig. 35| Os convívios, festas e a vida clubista juntavam a comunidade (5 de Outubro de 1955)fig. 36| Um dos vários conjuntos musicais macaenses que animavam as festas (1956)fig. 37| O ténis e o hóquei em campo foram modalidades de eleição dos macaenses
  • 78ALEXANDRA SOFIA RANGELA Associação dos Aposentados, Reformados e Pensionistas de Macau (APOMAC), constituída em 2001, organiza convívios, palestras, excursões e visitas,e faculta exames médicos e tratamentos destinados a idosos. Também se ocupa de questões relacionadas com pensões e reformas dos seus associados junto dosserviços oficiais competentes e promove a participação em acções de beneficência.70Em 1999 foi criado o Instituto Internacional de Macau (IIM), uma organiza-ção não-governamental que promove a nível internacional a identidade cultural, económica e social de Macau, tendo como objectivo contribuir significativamentepara o desenvolvimento da Região Administrativa Especial de Macau. O IIM veiocomplementar as áreas de intervenção dos organismos macaenses, adicionando-lhea dimensão académica e intelectual, realizando estudos sobre Macau, articulando oseu funcionamento com universidades e outras instituições de ensino superior locaise do exterior, e mantendo uma relação activa com a Europa e o mundo lusófono.Ao longo da sua primeira década de funcionamento, editou largas dezenas de títu-los, em resultado dos seus trabalhos de investigação académica.71Quer antes, quer depois da transição, o Governo de Macau, reconhecendo a importância das instituições macaenses, tem apoiado financeiramente o seu fun-cionamento e desenvolvimento. É muito positivo constatar o dinamismo e a afirmada utilidade destas instituições, que souberam sobreviver e crescer para alémda transferência do exercício da soberania.6. A DIÁSPORA MACAENSEAo longo dos séculos, Macau, pela sua posição privilegiada na costa meri-dional da China, com um estatuto próprio, foi recebendo gente de muitas partesdo mundo, atraída pelas amplas oportunidades comerciais oferecidas, pelo propósitode consolidar uma presença ligada a Portugal, para viabilizar a acção missionária daIgreja Católica e de várias igrejas protestantes, ou pelo acolhimento garantido a refugiados que, em tempos de crise, ali sempre encontraram abrigo e protecção. Nos finais do século XIX, a partir da instalação de possessões de outras po-tências ocidentais na China, com especial relevo para Xangai, que teve um estatutode cidade internacional, e Hong Kong, onde os ingleses se estabeleceram em 1841,muitos estrangeiros então residentes em Macau e famílias macaenses começaram a emigrar para esses locais, fixando-se, especialmente, em Hong Kong, Xangai e Singapura, onde tiveram uma presença muito activa e influente. Esta foi a primeirafase da diáspora macaense (Silva 2007: 9-10).70 Veja-se: http://www.apomac.net/apomac/pt/index.php?lang=pt.71 Veja-se: http://www.iimacau.org.mo.
  • 79FILHOS DA TERRA | A Comunidade Macaense, Ontem e HojeEm Hong Kong, tal como aconteceu em Xangai, os macaenses juntavam-seem bairros próprios. Mato Morro, Yaumatei, Tsimshatsui e Homantin eram zonas de Hong Kong densamente populadas por famílias macaenses (Silva 2007: 35-37),que tinham os seus clubes recreativos, as suas equipas de desporto e até uma escola,a Escola Camões, para os seus filhos estudarem em português (Silva 2007 42-63).Macau não foi ocupado pelos japoneses durante a 2.ª Guerra Mundial por-que Portugal manteve um estatuto de neutralidade, mas a população passou porperíodos muito difíceis, de fome, pobreza e doenças, situação agravada pela che-gada de milhares de refugiados provenientes de terras vizinhas. A ocupação nipónicade vastas áreas da Ásia oriental provocou a saída de estrangeiros que ali residiam emuitas famílias macaenses regressaram à terra natal.72 (Silva 2007: 32-33). No fimda guerra, muitos membros dessas famílias retornaram a Hong Kong e, dadas as incertezas da situação política da China, por causa da guerra civil que opunha oscomunistas aos nacionalistas, que estavam no poder, e, sobretudo, após a implan-tação do novo regime em Pequim em 1949, começaram a emigrar em grande número para os Estados Unidos da América e depois também para o Canadá e paraa Austrália, constituindo Portugal uma outra alternativa (Silva 2001: 92).Quanto às famílias macaenses residentes em Xangai, a opção que lhes restoufoi a de voltarem para Macau numa situação de grande carência, o que obrigou as autoridades locais a um esforço extraordinário para as acolher, ainda no período da guerra, ou já depois da implantação do regime comunista na China, que fez afu-72 Estrangeiros que permaneceram em Hong Kong, incluindo portugueses originários de Macau, alguns dos quais serviram como voluntários nas forças de defesa britânicas, foram barbaramente torturados e mortos pelos japoneses. Muitos foram enviados para campos de concentração (Silva2007: 28-31).fig. 38| A ponte 16,local de partida demuitos dos que fizeram a nossa diáspora
  • 80ALEXANDRA SOFIA RANGELgentar quase toda a população estrangeira. No entanto, a falta de emprego e deperspectivas de vida, bem como o desejo de procurar outras oportunidades fizeramcom que, nos finais dos anos 40 e durante as décadas de 50 e 60, os refugiados deXangai e macaenses residentes em Macau emigrassem para a América do Norte etambém para o Brasil, Austrália e Portugal. Muitos nunca mais voltaram à terra-mãe(Doré et al. 2001: 177). Os macaenses emigrados juntaram-se em associações sem fins lucrativos,como as Casas de Macau, centros recreativos onde são também promovidas inicia-tivas de divulgação de Macau e da comunidade macaense, como palestras, exposi-ções, cursos e concursos de culinária, récitas em patuá, grupos corais, além dos chásgordos em dias de festa. Estas associações têm revelado uma grande vitalidade noseu funcionamento e intensificaram as suas actividades a partir da década de 90graças a apoios substanciais do Governo de Macau e de algumas fundações. Estas são as principais associações macaenses no estrangeiro:- Casa de Macau Inc. Australia (Sydney);- Casa de Macau de São Paulo, Brasil;- Casa de Macau do Rio de Janeiro, Brasil;- Casa de Macau no Canadá (Toronto);- Casa de Macau Vancouver, Canadá.- Club Amigu di Macau (Toronto);- Macao Club (Toronto);- Macau Cultural Association of Western Canada (Vancouver);- Casa de Macau USA (Inc.) (San Francisco);- Lusitano Club of California (San Francisco);- União Macaense Americana (Hillsborough, Califórnia), contemplada em2010 com o Prémio Identidade do Instituto Internacional de Macau;- Club Lusitano, Hong Kong;- Casa de Macau em Portugal (Lisboa);Como se pode ver, “(…) esta impressionante diversidade traduz bem a riqueza da nossa diáspora e a pujança de comunidades que têm nas suas Casas edemais associações congéneres os seus centros de convívio e de solidariedade sociale os seus organismos aglutinadores e representativos” (Rangel 2004: 15). As Casas deMacau podem ser “(…) verdadeiras extensões de Macau (…)” através da prestaçãode “(…) serviços valiosíssimos nos campos económico, cultural e social (…)”, umavez que muitos dos seus membros têm boa formação académica e profissional, podendo ser “(…) os melhores e mais qualificados agentes de promoção de Macau”,colaborando na divulgação económica e turística do território e participando emeventos como feiras e exposições, encontros e conferências para “(…) projectar
  • 81FILHOS DA TERRA | A Comunidade Macaense, Ontem e HojeMacau nas cidades e nos países onde se situam”. Algumas, por sua própria iniciativa,já o fazem, mas precisam de mais meios para continuar (Rangel 2004: 265).A realização de Encontros das Comunidades Macaenses, organizados regularmente em Macau desde 1993, em parceria com instituições locais e com oapoio do Governo de Macau, promoveu uma ligação muito mais estreita entre essasassociações e reforçou as suas relações com Macau. Nestes Encontros, além de actividades recreativas e sociais, são apresentadas récitas e outras iniciativas culturais,como lançamentos de livros, palestras e visitas. Verdadeiras romagens de saudade,os Encontros são importantes não só porque permitem aos macaenses emigradosvisitar a terra que deixaram e fortalecer as raízes que os prendem à terra-mãe, mastambém porque promovem reuniões de famílias e amigos, residentes locais e do exterior, em reencontros tocantes e cheios de alegria (Rangel 2004: 234).Depois de 1999, os Encontros continuaram, sob a égide da Associação Promotora da Instrução dos Macaenses até ao início do funcionamento do Conselhodas Comunidades Macaenses, em Novembro de 2004. Este Conselho é uma insti-tuição de direito privado cujo objectivo principal consiste na integração dos interes-ses e anseios da comunidade macaense da diáspora e a sua articulação comorganismos locais da mesma comunidade. O Conselho integra organizações macaenses não-governamentais da Região Administrativa Especial de Macau (RAEM) e as Casas de Macau e organismos similares no exterior, sendo as seguintesas suas principais atribuições: (…) contribuir para a definição de uma actividade global de promoção e reforço doslaços que unem as comunidades macaenses entre si e a RAEM (…); promover e encorajaro associativismo e intensificar a articulação entre as diversas organizações da comunidade macaense locais e da diáspora, nomeadamente através da realização deencontros, colóquios, congressos e outras iniciativas que visem a análise e o debate detemas do interesse das comunidades; propor ao Governo da RAEM modalidades concretas de apoio às organizações não-governamentais macaenses quer locais quer noexterior, bem como a celebração de protocolos com entidades interessadas, tendo emvista, designadamente, a execução de trabalhos de investigação, cursos de extensão universitária, acções de formação e intercâmbio de informação (Rangel 2004: 236).Em Julho de 2009, teve lugar, em Macau, por iniciativa do Conselho das Co-munidades Macaenses, em conformidade com um dos seus objectivos estatutários,7373 “(…) promover junto das camadas jovens da diáspora melhor conhecimento de Macau, terra dos seusantepassados, articulando formas de contactos com os jovens da RAEM (…)” (http://www.apim.org.mo/ccm/estatutos.html).
  • 82ALEXANDRA SOFIA RANGELo primeiro Encontro da Comunidade Juvenil Macaense. Os jovens participantesforam cerca de 200, 54 dos quais oriundos das Casas de Macau no estrangeiro, edemonstraram entusiasmo em relação à divulgação das suas raízes.74 Este esforçode trazer os jovens da diáspora para Macau e para os fazer participar nas festividadesda comunidade é, evidentemente, necessário: “É claro que as novas gerações, quenasceram e vivem em terras da Austrália, América, Canadá, Brasil, criaram uma outramentalidade e outros interesses, determinados pelo meio em que desenvolvem asua actividade e defendem a segurança do seu futuro. Não é, pois, de admirar quetenham sido absorvidos por culturas diversas e diferentes formas de vida. Mas tam-bém é certo que procuram manter vivos os elos que os ligam à terra natal, atravésde clubes, associações, centros culturais e bibliotecas, festas típicas, onde se respirauma atmosfera portuguesa e um arreigado amor à terra dos seus antepassados”(Machado 2002: 110-111).Em Novembro e Dezem-bro de 2010 realizou-se maisum Encontro das ComunidadesMacaenses, com a participaçãode mais de 1000 representantesda diáspora macaense. Em reco-nhecimento dos apoios dados àcomunidade, na última décadada administração portuguesa,foi convidado de honra o Gene-ral Vasco Rocha Vieira, últimoGovernador de Macau. Além dointenso convívio proporcionado,homenagearam-se personalida-des e instituições e reforçaram--se as ligações a Macau e aconfiança no seu futuro.74 Veja-se: http://www.hojelusofonia.com/encontro-da-comunidade-juvenil-macaense.fig. 39| Encontro das Comunidades Macaenses em 2010
  • 83FILHOS DA TERRA | A Comunidade Macaense, Ontem e Hojecapítulo IIIA COMUNIDADE MACAENSE FACE AO ESTATUTOACTUAL DE MACAU1. A QUESTÃO DE MACAUPara a China, nunca houve dúvidas de que Macau era território chinês e que a presença portuguesa era meramente temporária, pois Macau haveria de, umdia, voltar à “Mãe-Pátria”. Segundo os chineses, a soberania foi sempre chinesa,tendo os portugueses estado apenas a exercê-la na sua administração. Daí que, noperíodo de transição, se tivesse insistentemente, no discurso político das duas partes,referido que estava em preparação a transferência do exercício da soberania e nãoa transferência da soberania.A 15 de Dezembro de 1960, a Assembleia Geral da Organização das NaçõesUnidas votou a favor da descolonização das províncias ultramarinas portuguesas.Seis meses depois, a 30 de Junho de 1961, Salazar afirmaria, na Assembleia Nacio-nal, que a soberania portuguesa em Macau se fundamentava em velhos tratadosentre o Reino de Portugal e o Celeste Império, e que se estes textos jurídicos se mantinham em vigor, então Macau deveria continuar português pois, caso contrário,seria absorvida pela China, ficando o mundo ocidental culturalmente mais pobre(Fernandes 2000: 172-173). Em Dezembro de 1961, a Índia tomou pela força Goa, Damão e Diu, sendoem Maio do ano seguinte repatriados os 4.600 reféns portugueses para Lisboa (Fernandes 2000: 176-181).De facto, os anos 60 e 70 do século XX foram muito turbulentos. Portugalperdeu as possessões indianas, com mais de 400 anos de presença continuada portuguesa, estalou o conflito armado na então África portuguesa, começou, em1965-66, a revolução cultural na China, que duraria quase uma década, com con-
  • 84ALEXANDRA SOFIA RANGELsequências nefastas,75 e, em Portugal, deu-se o 25 de Abril (1974), com a queda doEstado Novo e uma mudança radical da política ultramarina. No ano seguinte, Portugal concedeu a independência aos territórios ultra-marinos de África, Timor foi ocupado pelos indonésios e foi posta, novamente, emcima da mesa, a questão de Macau, o que causou algum receio na população local,sendo que foi o próprio Governador de Macau, General Nobre de Carvalho (1966-74), a confirmar “(…) a existência de uma certa expectativa ou, mesmo, perturbaçãono espírito da comunidade macaense pela insistência com que se fala em descolo-nização, autodeterminação e independência, sem se referirem à especial situaçãode Macau (…)” (Fernandes 2000: 336).Em Janeiro de 1975, Portugal reconheceu a República Popular da China comoo único e legítimo representante do povo chinês, mas apenas em 1979 foram, oficialmente, estabelecidas relações diplomáticas entre os dois países.76 A situaçãode Macau é referida como questão a resolver em momento oportuno e o Governa-dor Garcia Leandro (1974-79) afirmaria que a China está “(…) interessada em manter o status quo em Macau, nos próximos anos” (Fernandes 2000: 363). Coubea este responsável conduzir o processo que levou à aprovação e publicação, em Fevereiro de 1976, do novo Estatuto Orgânico de Macau, que vigorou até 19 de Dezembro de 1999 e, através do qual, Macau passou a ser “um território sob admi-nistração portuguesa” (Estatuto Orgânico de Macau 1976: 3).77Jin Guo Ping e Wu Zhiliang, dois dos raríssimos investigadores com domíniocompleto das línguas portuguesa e chinesa e que contribuíram decisivamente parafacilitar o acesso às fontes históricas existentes nos dois países, argumentam queMacau, como ponto de encontro de culturas e a porta de entrada para a China e desaída de chineses para o resto do mundo, desempenhou um papel fundamental nahistória moderna da China: Sem as funções de interface (…) que o Território desempenhou ao longo da história,entre os dois Mundos, a diferença, distanciamento e conflitos entre a China e o 75 “Após uma década de calamidades devastadoras, a nação chinesa começou a afundar-se num eminentesentimento de crise, com a plena consciência do seu atraso em relação ao resto do Mundo” (Jin e Wu2007: 496).76 Cortadas desde 1949, por Portugal não ter reconhecido o regime comunista então estabelecido em Pequim, após a guerra civil chinesa. Portugal manteve as relações com o anterior governo, que se instalouem Taiwan.77 Os outros governadores, neste período até 1999, foram o General Nuno Viriato de Melo Egídio (1979-81), o Contra-Almirante Vasco de Almeida e Costa (1981-86), o Professor Joaquim Pinto Machado(1986-87), o Engenheiro Carlos Montez Melancia (1987-91) e o General Vasco Rocha Vieira (1991-99).
  • 85FILHOS DA TERRA | A Comunidade Macaense, Ontem e HojeOcidente teriam sido inevitavelmente muito maiores do que aqueles que conhecemos.No que toca à interacção histórica entre a China e o resto do Mundo, sem o apareci-mento de Macau, todo o processo histórico do Mundo talvez não tivesse tido as estruturas que hoje lhe conhecemos. Nem o Mundo seria aquele em que actualmentevivemos, nem a China o que é.Esta afirmação em relação às funções históricas de Macau parece um pouco exage-rada, mas, se reflectirmos bem sobre o que se passou, de forma a corroborar a nossaasserção, talvez não seja. (…) Na História moderna da China, Macau tem sido umponto de partida para os Chineses conhecerem o Mundo e para irem ao encontro dele(Jin e Wu 2007: 493).Interessava, pois, à China, que Macau continuasse a desempenhar esta função. A Constituição da República Popular da China (1982) estipula que o Estadopode estabelecer, quando necessário, regiões administrativas especiais e que os sis-temas a aplicar nessas regiões serão decididos através de leis pela Assembleia PopularNacional, segundo a situação concreta. Após negociações entre os dois Estados, ena sequência de idêntico processo respeitante a Hong Kong, foi assinada, em 1987,a Declaração Conjunta do Governo da República Portuguesa e do Governo da Re-pública Popular da China sobre a Questão de Macau, um acordo que estabeleceu19 de Dezembro de 1999 como o último dia de administração portuguesa (Decla-ração Conjunta do Governo da República Portuguesa e do Governo da RepúblicaPopular da China sobre a Questão de Macau 1995: 10). Esta Declaração começapor dizer o seguinte:O Governo da República Portuguesa e o Governo da República Popular da China, recordando com satisfação o desenvolvimento das relações amistosas entre os doisGovernos e os dois povos existentes desde o estabelecimento das relações diplomáticasentre os dois países, acordaram em que uma solução apropriada da questão de Macaulegada pelo passado, resultante de negociações entre os dois Governos, seria propíciaao desenvolvimento económico e estabilidade social de Macau e a um maior fortale-cimento das relações de amizade e de cooperação entre os dois países (DeclaraçãoConjunta do Governo da República Portuguesa e do Governo da República Popular daChina sobre a Questão de Macau 1995: 5).Além da data da transição, este documento estipula a criação da Região Administrativa Especial de Macau, em conformidade com o princípio “um país, doissistemas”, onde será mantido o sistema social e económico vigente durante cin-quenta anos a contar de 20 de Dezembro de 1999, não sendo, até 2049, aplicadoso sistema e políticas socialistas. A RAEM gozará de um alto grau de autonomia,
  • 86ALEXANDRA SOFIA RANGELtendo poderes executivo, legislativo e judicial, sendo que as relações externas e adefesa são da competência do Governo Popular Central. Serão assegurados todosos direitos e liberdades dos cidadãos de Macau: liberdade pessoal, de expressão, deimprensa, de reunião, de associação, de deslocação e migração, de greve, de escolhade profissão, de investigação académica, de religião e de crença, de comunicaçõese o direito à propriedade privada. O território terá independência financeira, conti-nuando a moeda local, a Pataca, em circulação, a sua própria bandeira e responsa-bilidades nas áreas da cultura, educação, ciência e tecnologia, e defesa dopatrimónio cultural em Macau. A língua portuguesa poderá ser usada nos organis-mos do governo, no órgão legislativo e nos tribunais (Declaração Conjunta do Governo da República Portuguesa e do Governo da República Popular da China sobrea Questão de Macau 1995: 6-8).A partir da assinatura deste documento, começou a ser preparada a transi-ção, observando-se, de igual modo, o que estava a ser feito na cidade vizinha deHong Kong, cuja transferência estava agendada para 1 de Julho de 1997.Ao longo dosdoze anos que se seguiram à assina-tura da DeclaraçãoConjunta, o Governode Macau apostou na criação de váriasinfra-estruturas im-portantes, sendo amais significativa ainauguração do ae-roporto internacionala 8 de Dezembro de1995, uma “(…) aspi-ração constantementeadiada de sucessivas gerações. Com a sua própria companhia aérea – a Air Macau– o território ganhou então uma nova dimensão e ligações directas a outras partesdo mundo, deixando de ser um enclave com entrada e saída obrigatória através deHong Kong, por via marítima, e acesso apenas à província chinesa de Guangdong,pela fronteira terrestre” (Rangel 2004: 93). Foram também construídos escolas e centros de saúde, assim como estradas, pontes, estações de tratamento de águas,recintos desportivos, jardins, parques e outras zonas de lazer, um terminal de con-tentores, um novo terminal marítimo e ainda novas instalações para os serviços públicos, de onde se destacam os edifícios da Assembleia Legislativa e dos tribunaisfig. 40| A bandeira da cidade de Macau até 1999
  • 87FILHOS DA TERRA | A Comunidade Macaense, Ontem e Hojesuperiores. Para se efectuarem estas novas construções, foram feitos aterros quepermitiram que o investimento imobiliário florescesse de uma maneira nunca antesvista (Rangel 2004: 93). Foi extremamente útil o facto de o território não ter dívidasnem falta de fundos:Não obstante a crise asiática, que afectou fortemente toda a vasta área geográfica emque Macau se insere e que obrigou a redobradas cautelas na gestão financeira do território, foi possível trabalhar com orçamentos equilibrados e sem recurso à dívida.Houve, felizmente, meios para tudo e foi com saldos orçamentais que se fizeram asinfra-estruturas e se fez uma aposta decisiva na educação, na saúde, na habitação ena acção social. As abundantes receitas dos casinos e de outros jogos de fortuna eazar, num território onde os impostos são baixíssimos, permitiram assegurar a realiza-ção plena dos empreendimentos projectados pelo Governo.Quando o chefe do Executivo da Região Administrativa Especial de Macau tomouposse, não só recebeu um território preparado para se afirmar no futuro e com umrendimento “per capita” superior a 14 mil dólares americanos, como também herdousignificativas reservas cambiais, suporte seguro para a moeda local, a pataca, que semanteve após a transição (Rangel 2004: 95-96).Durante o período de transição, houve a preocupação de salvaguardar os valores e interesses portugueses em Macau após 1999. Os governos de Macau e dePortugal tomaram um conjunto de iniciativas nesse sentido, nas quais se incluem ainstalação do Consulado Geral de Portugal no território, a fundação da Escola Portuguesa de Macau, cujo currículo é semelhante ao das escolas em Portugal esendo reconhecida pelo Ministério da Educação, a viabilização do funcionamentodo Instituto Português do Oriente, cujo objectivo é divulgar a língua e cultura por-tuguesas, a criação, em Lisboa, do Centro Científico e Cultural de Macau, que temcomo propósito perpetuar a memória da presença portuguesa no Oriente, o apoioà continuidade da presença económica e empresarial portuguesa e a manutençãoda comunicação social de língua portuguesa nas três vertentes: rádio, televisão eimprensa (Baptista e Oliveira 1999: 194-195).78A transferência do exercício da soberania foi um marco histórico, pois Macaufoi a primeira base duradoura dos portugueses na China e conseguiu ser também o último território sob administração estrangeira a ser devolvido à China:A entrega da administração de Macau à China foi um momento histórico marcante.78 Macau continua, mais de dez anos após a transição, a ter um canal de televisão e uma estação de rádioem português e são ali publicados três jornais diários e um semanário em língua portuguesa.
  • 88ALEXANDRA SOFIA RANGELPara Portugal e para a República Popular da China. Ela encerra, com efeito, um ciclode mais de cinco séculos da História de Portugal. Um ciclo iniciado no século XV peloInfante D. Henrique e que levou os portugueses aos cinco cantos do mundo, desde oBrasil ao Japão, passando pela África, Índia, Timor e China.Momento histórico, também, do ponto de vista da China. Com o regresso de Macau,o Império do Meio reapossou-se da última parcela do seu território administrado poruma potência estrangeira. Portugal foi o primeiro país ocidental a instalar-se duradou-ramente na China. E foi o último – depois de potências bem mais poderosas e expan-sionistas – a arriar a sua bandeira, que flutuou na Cidade do Nome de Deus durante442 anos (Castanheira 2000: 7).José Pedro Castanheira relata, assim, a cerimónia da descida da bandeira por-tuguesa no Palácio do Governo a 19 de Dezembro de 1999, um momento de ex-traordinária emoção, cujas imagens correram mundo:Às 17.03 horas, ouvem-se os primeiros acordes de “A Portuguesa”. Um agente da polícia, farda azul, boina vermelha, luvas brancas, puxa lentamente o cordão do mas-tro. Resignada mas grave e honrada, a bandeira verde-rubra começa a descer. Entre amultidão, ouve-se distintamente, em volume crescente, as estrofes de Alfredo Keil:“…o esplendor de Portugal/ Entre as brumas da memória/ Ó Pátria…” Cronometrica-fig. 41| O arriar da bandeira no Palácio do Governo (19 de Dezembro de 1999)
  • 89FILHOS DA TERRA | A Comunidade Macaense, Ontem e Hojemente, a bandeira chega ao fim da derradeira viagem quando a banda dá os últimosacordes e o coro, improvisado e espontâneo, entoa a frase final: “Contra os canhões/Marchar, marchar!” Entre a multidão, ouvem-se algumas palmas. A maioria, porém,guarda silêncio, respeitoso e triste. Há lágrimas, muitas, em muitos rostos. Indistinta-mente: de inúmeros portugueses, sobretudo de macaenses, de alguns chineses. Dentroe fora do palácio.A bandeira é recolhida por dois polícias, que a dobram cautelosa e cerimoniosamente.Colocada, com delicadeza, em cima de uma bandeja de prata, é transportada por um outro polícia até ao governador. Rocha Vieira recebe-a com ambas as mãos e en-costa-a de pronto ao coração. Incapaz de se controlar, deixa rolar as lágrimas pela face. Depois, caminha até à passadeira vermelha. Vira-se para a fachada do palácio, olhauma última vez para o escudo cravado na parede cor de rosa e faz uma curta massentida vénia. Só então se dirige para o exterior; passo decidido, bandeira das quinasainda colada ao peito, entra no Mercedes preto e deixa o Palácio. Para sempre (Castanheira 2000: 324). Seguiu-se um conjuntode cerimónias oficiais que in-cluíram uma bonita e muitosentida sessão cultural, enten-dida pelo público como a festade despedida de Portugal, obanquete oferecido a 2.500convidados, entre os quais re-presentantes de muitos países e de organizações internacio-nais, a curta e profundamentesimbólica sessão das bandeiras,quando, exactamente à meia--noite, foi içada a bandeira daR.P.C., ao mesmo tempo queera arriada a verde-rubra, e a tomada de posse das novas autoridades.Este foi um dia muitoduro para muitos macaenses,ao verem a bandeira de Portugal descer, pela última vez, na sua terra: “Foi o fim deum tempo e o começo de uma nova experiência política que todos, especialmenteos que aqui continuaram a viver, querem que seja bem sucedida” (Rangel 2004: 96).fig. 42| O General Vasco Rocha Vieira, último Governador deMacau, no momento mais expressivo do adeus de Portugal
  • 90ALEXANDRA SOFIA RANGEL2. A RAEM E A LEI BÁSICARenelde da Silva identifica quatro períodos distintos na história de Macau,desde 1557, a data da sua fundação, até 1999, o ano final da transição:O primeiro começou em 1557 e terminou em 1583. Durou 26 anos. Governou Macauo capitão-mór de viagens de Japão e China. Como este estava quase sempre ausenteem viagem de negócios, quem o substituía, na sua ausência, era um cidadão eleito.O segundo foi desde 1583 até 1833. Durou 250 anos. Governou a cidade o Leal Senado, uma autoridade colectiva, apesar da existência de outros titulares (capitães--móres, capitães-gerais ou governadores).O terceiro foi desde 1833 até 1976. Durou 143 anos. Com a redução do Leal Senadoa simples município, Macau passou a ser uma colónia, tendo à testa governadores derestrita autoridade, nomeados e controlados pelo Governo Central. Na parte final desteperíodo, a designação de colónia foi substituída pela da província ultramarina.O quarto foi desde 1976 até 1999. Durou 23 anos. Macau foi declarado TerritórioChinês sob Administração Portuguesa, tendo à testa um governador português. Teveentão a sua autonomia (Silva 2001: 89-90). Actualmente, encontramo-nos numa situação nova, iniciada a 20 de Dezembrode 1999. O nome oficial de Macau é Região Administrativa Especial de Macau(RAEM) da República Popular da China. Não é regida pela Constituição Chinesa massim pela Lei Básica, cujos princípios tinham sido acordados na Declaração ConjuntaLuso-Chinesa: “A Lei Básica da Região Administrativa Especial de Macau incorporou(…) os grandes princípios do acordo firmado com Portugal. No corpo da lei ficaramreferidos todos os direitos, liberdades e garantias de que já gozavam os habitantesde Macau” (Rangel2004: 93). É afir-mado, no Artigo 5.º,que, até 2049, nãoserão aplicados emMacau o sistema epolíticas socialistas,“(…) mantendo-seinalterados durantecinquenta anos osistema capitalista ea maneira de viveranteriormente exis- fig. 43| A bandeira da Região Administrativa Especial de Macau
  • 91FILHOS DA TERRA | A Comunidade Macaense, Ontem e Hojetentes” (Lei Básica da Região Administrativa Especial de Macau da República Popularda China 1999: 4).O Artigo 9.º define as línguas oficiais de Macau como sendo a língua chinesae a língua portuguesa, podendo esta ser também usada nos órgãos executivo, legislativo e judicial.São dois os artigos que se referem à liberdade religiosa: o Artigo 34.º, queafirma que os residentes gozam de liberdade de consciência e de crença religiosa, po-dendo pregar, promover e participar em actividades religiosas em público, e o Artigo128.º, onde é dito que “De acordo com o princípio da liberdade de crença religiosa,o Governo da Região Administrativa Especial de Macau não interfere nos assuntos in-ternos das organizações religiosas, nem na manutenção e no desenvolvimento de re-lações das organizações religiosas e dos crentes com as organizações religiosas e oscrentes de fora da Região de Macau. Não impõe restrições às actividades religiosasque não contrariem as leis da Região Administrativa Especial de Macau” (Lei Básica daRegião Administrativa Especial de Macau da República Popular da China 1999: 53).No Artigo 28.º, é declarado que a liberdade pessoal dos residentes é inviolávele que ninguém poderá ser submetido a tortura ou outros actos desumanos. As liberdades dos residentes são também explicadas nos Artigos 25.º e 27.º: “Os residentes de Macau são iguais perante a lei, sem discriminação em razão de nacionalidade, ascendência, raça, sexo, língua, religião, convicções políticas ou ideológicas, instrução e situação económica ou condição social” e “Os residentes de Macau gozam da liberdade de expressão, de imprensa, de edição, de associação,de reunião, de desfile e de manifestação, bem como do direito e liberdade de organizar e participar em associações sindicais e em greves” (Lei Básica da RegiãoAdministrativa Especial de Macau da República Popular da China 1999: 14-15).No conceito de residentes permanentes de Macau, contido no Artigo 24.º, estãoincluídos “Os portugueses nascidos em Macau que aí tenham o seu domicílio perma-nente antes ou depois do estabelecimento da Região Administrativa Especial de Macau”e “Os portugueses que tenham residido habitualmente em Macau pelo menos seteanos consecutivos, antes ou depois do estabelecimento da Região Administrativa Especial de Macau e aí tenham o seu domicílio permanente” (Lei Básica da Região Administrativa Especial de Macau da República Popular da China 1999: 13-14).O Artigo 42.º refere-se, especificamente, aos macaenses: “Os interesses dosresidentes de ascendência portuguesa em Macau são protegidos, nos termos da lei,pela Região Administrativa Especial de Macau. Os seus costumes e tradições culturaisdevem ser respeitados” (Lei Básica da Região Administrativa Especial de Macau daRepública Popular da China 1999: 19) Durante os cinquenta anos da RAEM, a comunidade macaense está legalmente protegida.
  • O funcionamento da Escola Portuguesa de Macau, com professores portu-gueses e material didáctico vindo de Portugal, encontra-se assegurado no Artigo122.º, sobre a liberdade no ensino:Os estabelecimentos de ensino de diversos tipos, anteriormente existentes em Macau,podem continuar a funcionar. As escolas de diversos tipos da Região AdministrativaEspecial de Macau têm autonomia na sua administração e gozam, nos termos da lei,da liberdade de ensino e da liberdade académica.Os estabelecimentos de ensino de diversos tipos podem continuar a recrutar pessoaldocente fora da Região Administrativa Especial de Macau, bem como obter e usarmateriais de ensino provenientes do exterior. Os estudantes gozam da liberdade deescolha dos estabelecimentos de ensino e de prosseguimento dos seus estudos forada Região Administrativa Especial de Macau (Lei Básica da Região Administrativa Especial de Macau da República Popular da China 1999: 51-52).Sendo a RAEM território chinês, foi estabelecido que, para exercer certos car-gos, seja obrigatório ter a nacionalidade chinesa, além de ser residente permanentede Macau.79 As posições re-servadas a chineses são as deChefe do Executivo 80 (Artigo46.º), membros do ConselhoExecutivo (Artigo 57.º), osprincipais cargos do Gover-no 81 (Artigo 63.º), Presidentee Vice-Presidente da Assem-bleia Legislativa 82 (Artigo 72.º)e Presidente do Tribunal deÚltima Instância (Artigo 88.º).Esta restrição não é colocadaaos presidentes dos tribunaisdas outras instâncias (Artigo88.º), aos juízes dos tribunais das diferentes instâncias (Artigo 87.º) e aos deputadosda Assembleia Legislativa (Artigo 68.º), havendo, neste momento, alguns deputados92ALEXANDRA SOFIA RANGELfig. 44| O Palácio da Praia Grande, sede do Governo de Macau79 Artigo 21.º: “Os cidadãos chineses de entre os residentes da Região Administrativa Especial de Macau participam na gestão dos assuntos do Estado, nos termos da lei” (Lei Básica da Região Administrativa Especial de Macau da República Popular da China 1999: 11).80 Que deverá ter residido em Macau pelo menos vinte anos consecutivos. 81 Cujos ocupantes deverão ter residido em Macau pelo menos quinze anos consecutivos. 82 Que deverão ter residido em Macau pelo menos quinze anos consecutivos.
  • 93FILHOS DA TERRA | A Comunidade Macaense, Ontem e Hojemacaenses e estando ainda ao serviço das estruturas judiciais vários magistrados recrutados em Portugal, colocados nas três instâncias.Os funcionários e agentes públicos da RAEM devem ser residentes perma-nentes de Macau, excepto nos casos em que o território decidir contratar técnicosespecializados e funcionários públicos de categorias inferiores (Artigo 97.º). O Artigo99.º diz que “A Região Administrativa Especial de Macau pode nomear portuguesese outros estrangeiros de entre os funcionários e agentes públicos que tenham ante-riormente trabalhado em Macau, ou que sejam portadores do Bilhete de Identidadede Residente Permanente da Região Administrativa Especial de Macau, para desem-penhar funções públicas a diferentes níveis, exceptuando as previstas nesta Lei. Osrespectivos serviços públicos da Região Administrativa Especial de Macau podemainda contratar portugueses e outros estrangeiros para servirem como consultoresou em funções técnicas especializadas” (Lei Básica da Região Administrativa Especialde Macau da República Popular da China 1999: 42).Quanto aos aposentados de Macau, a RAEM garante-lhes o pagamento dassuas pensões, independentemente da sua nacionalidade e do seu local de residência(Artigo 98.º).Houve, de facto, a preocupação de assegurar a maior continuidade possívelna maneira de viver da população e no modo de funcionamento da administraçãopública, merecendo também menção o facto de, na elaboração da Lei Básica, nãoterem sido envolvidos só chineses, mas também macaenses, entre os quais o Presi-dente da Assembleia Legislativa de Macau, e até o Bispo da Igreja Católica de Macau.fig. 45| O antigo Hotel Bela Vista, agora residência consular de Portugal
  • 94ALEXANDRA SOFIA RANGEL3. O LEGADOApós mais de 400 anos de presença portuguesa em Macau, vemos, nos monumentos e velhos edifícios, marcas do passado do território que nos convidama descobrir a sua história:As velhas pedras são as marcas físicas da presença portuguesa em Macau e para alémdelas há sempre uma história por adivinhar. Não interessa que os canhões já não sejamos de Bocarro, que o são na nossa memória; nem importa saber o nome de quem deu o brado de fogo na noite da destruição de S. Paulo, que houve alguém; nemquantas vidas salvou o farol da Guia, que lhas devem. Às vezes basta assumir o papel do estrangeiro, daquele que não reconhece, e procurar nos elementos que perduram, mesmo num tabique que apodrece, um fio que seja o princípio de umadescoberta. (…)E os prédios, aquilo que sobra da chamada arquitectura colonial portuguesa? Sãoverde alface e têm grandes portadas nas janelas; há-os amarelos com portões de ferroà entrada ou debruados a vermelho sangue. Nas varandas têm vasos de Cantão complantas ressequidas e roupa a estender nas traseiras (Sá e Falcão 1999: 49-56).Macau foi, durante muito tempo, uma cidade de vivendas e casarões antigos,residências de famílias macaenses. Hoje, este tipo de habitação é muito raro, pois a cidade (assim como a população) cresceu a ritmo acelerado nas últimas décadasdo século XX, sendo agora ocupada por modernos prédios de 30 ou mais andares.fig. 47| Um edifício do bairro de S. Lázaro, completamente recuperadofig. 46| Casa-museu da Taipa
  • 95FILHOS DA TERRA | A Comunidade Macaense, Ontem e HojeMas Macau é relativamente pequena. O território tem quase 30 quilómetros quadrados, mas o centro histórico apenas 1/8 dessa área, pelo que, em 10 minutosa pé, podemos deixar a azáfama da zona dos casinos e dos novos hotéis e entramosno sossego de um templo, de uma igreja ou de um jardim chinês, quase todos muitobem preservados.Muitos sentem que o território está a ficar descaracterizado com os novosedifícios, já que o que o torna diferente de outras cidades chinesas são as marcasda presença portuguesa. Jin Guo Ping e Wu Zhiliang afirmam queUma confluência a todos os níveis entre culturas diferentes, da China e do Ocidente,constitui o encanto perene de Macau. A conotação e o valor intrínseco da cultura deMacau constituem uma força motriz para o seu desenvolvimento e, também, uma sólida base para novas conquistas. Trata-se de uma herança preciosa, um capital ines-gotável para o desenvolvimento futuro de Macau. Não só devemos apreciá-la e protegê-la, mas, e mais importante ainda, sistematizá-la, investigá-la, cultivá-la e senti--la com o coração para realçar o seu espírito e significado, a fim de que possa desem-penhar melhor as suas funções, contribuindo para o progresso e desenvolvimento deMacau, da China, do Mundo e de toda a Humanidade (Jin e Wu 2007: 519).Por isso, foi com enorme satisfação que, nãosó os macaenses, mas também a população deMacau em geral, viram, em 2005, o centro históricoda cidade ser proclamado Património Mundial pelaUNESCO, sendo o 31.º local na China a receber esteestatuto. Agora sob a protecção da UNESCO, aszonas características de Macau serão preservadas e tidas em conta em futuros projectos urbanos. O centro histórico (…) constitui uma representação ainda existente do po-voado histórico que marcou os primórdios da cidade, en-volvendo legados arquitectónicos entrelaçados no tecidourbano original da mesma, que inclui ruas e praças, taiscomo o Largo da Barra, o Largo do Lilau,83 o Largo deSanto Agostinho, o Largo do Senado, o Largo da Sé, o Largo de S. Domingos, o Largoda Companhia de Jesus e o Largo de Camões. Estas praças principais e ambientes fig. 48| Jovens chineses a dançar folclore português junto ao Templo de A-Má83 O Lilau foi um dos primeiros bairros residenciais portugueses. Deu origem ao ditado popular “Aquele quebeber da água do Lilau, jamais esquecerá Macau”.
  • 96ALEXANDRA SOFIA RANGELurbanos estabelecem a ligação entre uma sucessão de mais de vinte monumentos,que incluem o Templo de A-Má, o Quartel dos Mouros,84 a Casa do Mandarim,85 aIgreja de S. Lourenço, a Igreja e Seminário de S. José, o Teatro D. Pedro V,86 a BibliotecaSir Robert Ho Tung, a Igreja de Santo Agostinho, o Edifício do Leal Senado, o Templode Sam Kai Vui Kun, a Santa Casa da Misericórdia, a Igreja da Sé, a Casa de Lou Kau,87a Igreja de S. Domingos, as Ruínas de S. Paulo, o Templo de Na Tcha,88 a Secção dasAntigas Muralhas de Defesa,89 a Fortaleza do Monte,90 a Igreja de Santo António, aCasa Garden,91 o Cemitério Protestante92 e a Fortaleza da Guia (incluindo a Capela eFarol da Guia)93 (…) (Direcção dos Serviços de Turismo 2009: 17).84 Assim chamado devido às características mouriscas da sua construção e porque alojou umregimento oriundo de Goa, que veio reforçar o corpo da polícia de Macau.85 Antiga residência de Zheng Guanying, importante figura literária chinesa, que revela uma misturade estilo tradicional chinês com influências ocidentais.86 O primeiro teatro de estilo ocidental na China, construído em 1860.87 Antiga residência de Lou Kau, um importante mercador chinês, construída segundo o estilotradicional chinês.88 Um pequeno templo construído em 1888 que se situa muito próximo das ruínas de S. Paulo, sendo,por isso, “(…) um dos melhores exemplos da identidade multicultural e da liberdade religiosa deMacau” (Direcção dos Serviços de Turismo 2009: 24).89 Construídas a partir de 1569 e são um “(…) testemunho da tradição portuguesa de construir muralhas defensivas em redor das suas cidades portuárias, como em África e na Índia” (Direcçãodos Serviços de Turismo 2009: 24).90 Construída pelos jesuítas entre 1617 e 1626 e foi a principal estrutura militar defensiva da cidade.91 Antiga residência de um rico mercador português, que depois foi alugada à Companhia Inglesa dasÍndias Orientais. Actualmente, é a delegação da Fundação Oriente, que tem sede em Lisboa.92 Onde está sepultado George Chinnery, famoso artista inglês, de quem herdámos pinturas lindíssimasde Macau em finais do século XVIII e na primeira metade do século XIX.93 O farol da Guia foi construído em 1865, o primeiro farol moderno na China. O farol, a fortaleza ea capela “(…) são símbolos do passado marítimo, militar e missionário de Macau” (Direcção dos Serviços de Turismo 2009: 25). fig. 50| O farol, capela e fortaleza da Guia fig. 49| O antigo Quartel dos Mouros, edifícioclassificado
  • 97FILHOS DA TERRA | A Comunidade Macaense, Ontem e HojeA preocupação com a protecção do património está explícita na Lei Básica,no Artigo 125.º: “O Governo da Região Administrativa Especial de Macau protege,nos termos da lei, os pontos de interesse turístico, os locais de interesse histórico edemais património cultural e histórico, assim como protege os legítimos direitos einteresses dos proprietários de património cultural” (Lei Básica da Região Adminis-trativa Especial de Macau da República Popular da China 1999: 53). De facto, as novas autoridades aperceberam-se de que é preciso preservar evalorizar o carácter multicultural de Macau, sendo a herança histórica da cidadeuma vantagem no seu futuro desenvolvimento, até porque constitui uma preciosaatracção turística. Macau tornou-se, também, um importante elo entre a China e omundo lusófono, já que o Governo Central cedo reconheceu o seu potencial nestaárea, em particular nas relações sino-portuguesas,94 e “Uma das políticas mais im-portantes do Governo da RAEM é desenvolver Macau como uma plataforma de coo-peração económica entre a China e os países de expressão portuguesa” (Gabinetede Comunicação Social 2008: 227). A este propósito, foi criado, em 2003, o Fórumpara a Cooperação Económica e Comercial entre a China e os Países de Língua Por-tuguesa, com secretariado permanente em Macau.Mas o legado não se limita apenas aos monumentos; engloba, igualmente,valores e pessoas, as “pedras vivas” da história e a sua memória. Para além das igre-jas, monumentos e casarões de estilo colonial, os portugueses deixaram em Macauuma forma de estar, suportada por um sistema jurídico e judicial de matriz portu-guesa e enriquecida pelos direitos, liberdades e garantias que a Constituição Portu-guesa assegurou até 1999 e que foram incorporados na Lei Básica da região,contribuindo, também aqui, para afirmar a sua singularidade. E ficou esta outra herança indiscutivelmente importante: a comunidade macaense, descendente dossoldados, navegadores e mercadores que, em tempos remotos, partiram em buscade novos mundos e chegaram a essas terras distantes. A eles se juntaram funcioná-rios públicos, profissionais das mais diversas áreas ou simples aventureiros em buscade fortuna e gentes vindas de todas as partes do mundo, em busca de paz, refúgioe oportunidades, além dos chineses de Macau, em número sempre crescente, queali nasceram ou quiseram viver e constituíram o sustentáculo humano indispensávelao seu desenvolvimento. Todos fizeram Macau, marcaram o seu percurso, afirmarama sua singularidade e deram razão de ser ao estatuto de autonomia que lhe foi reconhecido. 94 “É justo reconhecer que a China soube (…) respeitar e valorizar, com lucidez e pragmatismo, este papelde Macau, vencendo os preconceitos e a ignorância de algumas forças vivas locais. Definiu-se um caminho.Importa prossegui-lo determinadamente, com a mesma lucidez e idêntico pragmatismo” (Rangel 2009:241).
  • 98ALEXANDRA SOFIA RANGEL4. O FUTURODoze anos volvidos, podemos constatar que as expectativas foram, em largamedida, correspondidas e a Lei Básica respeitada, o que é essencial para o sucessode Macau:A convivência entre os Chineses e os Portugueses no Território permanece ligada àmemória colectiva histórica eterna, enquanto os sedimentos históricos e culturais emMacau, visíveis e invisíveis, serão a pedra basilar e a força motriz para o desenvolvi-mento e progresso desta terra no futuro. Temos a certeza de que com o empenha-mento na política orientadora de “Um país, dois sistemas” e o cumprimento rigorosoda Lei Básica, Macau poderá desempenhar um papel ainda mais activo no processode modernização da China. O futuro de Macau será então mais promissor (Jin e Wu2007: 520).Nas cerimónias comemorativas do 10.º aniversário do estabelecimento daRAEM, realizadas em Macau, em Dezembro de 2009, e que os órgãos de comuni-cação social locais reportaram larga e intensamente, fizeram-se balanços apropriadosnos discursos oficiais proferidos. A nota dominante foi a da confiança no futuro ede regozijo pelo cumprimento da Lei Básica, assim como pela prosperidade que con-tinua a caracterizar o desenvolvimento económico de Macau, não obstante a crisefinanceira internacional que não deixou ninguém imune. De facto, e apesar de acarga fiscal permanecer muito baixa (12% no máximo), as receitas públicas sãoabundantes e ampliaram-se substancialmente com a política de liberalização dasoperações dos jogos de fortuna e azar, nas quais intervêm, agora, empresas locaisfig. 51| A novaMacau, uma cidadeem espectacular desenvolvimento
  • 99FILHOS DA TERRA | A Comunidade Macaense, Ontem e Hojee interesses económicos do exterior, ligados mormente a Hong Kong e a Las Vegas,que fizeram aparecer muitos mais casinos (são já quase 40 em funcionamento) eoutros recintos de diversões e, com eles, hotéis de impressionante categoria e di-mensão, bem como outras actividades que o efeito multiplicador do turismo permi-tiu criar, expandindo também o emprego e enchendo os cofres da região. Os maisde 30 milhões de turistas, na sua maioria chineses, asseguram o seu funcionamentoe estável crescimento.Também em Lisboa, na mesma altura, por iniciativa da Fundação Jorge Álvares e com a colaboração da Sociedade de Geografia de Lisboa, da Fundação Calouste Gulbenkian e de outras entidades, foi organizada uma sessão solene nogrande auditório da Fundação Gulbenkian, presidida pelo Presidente da Repúblicae com a presença do Embaixador da República Popular da China, em que se teceramrasgados elogios à forma como Portugal cumpriu a sua missão em Macau e passou,de forma muito digna, as responsabilidades políticas e administrativas às autoridadeschinesas. Foi também inaugurada uma exposição, intitulada “Macau, Encontro deCulturas”, que fez a sua itinerância por cidades portuguesas, para divulgar o legadoque ficou em Macau, após mais de quatro séculos de presença portuguesa. Por seu lado, a RAEM também preparou as suas exposições, através de ser-viços oficiais ou utilizando a colaboração e a capacidade de instituições da sociedadecivil, como o Instituto Internacional de Macau. Uma delas, inaugurada em Pequim,foi depois apresentada em outras partes da China. Outras estiveram em Portugal(Lisboa e Porto), no Brasil (São Paulo e Rio de Janeiro) e em cidades dos Estados Unidos da América e Canadá, podendo também ser levadas a outros países de línguaoficial portuguesa. O propósito é apresentar os bons resultados alcançados na primeira década da RAEM e dar uma nota de confiança no futuro, revelando as realidades e as potencialidades desta região especial.Para muitos, as inquietações que se fizeram sentir antes do estabelecimentoda RAEM, dissiparam-se ou, pelo menos, atenuaram-se consideravelmente. A comu-nidade macaense residente, certamente a mais vulnerável neste contexto, adaptou--se às novas circunstâncias e as autoridades, quer as centrais, quer as regionais,deram sinais positivos de quererem continuar a contar com a participação empe-nhada da comunidade na construção do futuro da região. Não houve situações dediscriminação a nível de poder político e, embora alguns casos tenham sido repor-tados ao nível da administração pública, sobretudo no que respeita a concursos e apromoções, os macaenses foram encorajados a manter um envolvimento activo navida física e associativa, as instituições macaenses têm sido apoiadas financeiramentee até foram feitos convites a dirigentes de organismos macaenses para visitarem aR.P.C., onde foram recebidos por altas entidades chinesas. É natural, contudo, quealgumas desconfianças e receios permaneçam, especialmente no que respeita ao fim
  • 100ALEXANDRA SOFIA RANGELda vigência da RAEM, em 2049, e à medida que se vai fazendo, regular e inexoravel-mente, a integração de Macau e Hong Kong na vasta área chinesa do Rio das Pérolas,que é uma das de mais espectacular desenvolvimento em todo o mundo.Quanto aos membros da comunidade que partiram e que engrossaram adiáspora macaense, as atitudes são também mistas, embora de grande abertura ede enorme vontade de verem mantidas as ligações às origens. Os Encontros das Comunidades Macaenses podem estimular o reforço desta ligação.Francisco Lima da Costa, em Fronteiras da Identidade – Macaenses em Portugal e em Macau, apelida os macaenses de “retornados”, apesar de afirmar quenão pretende sugerir “(…) uma semelhança inequívoca com o processo de retornodos repatriados das ex-colónias africanas (…)” (Costa 2005: 143). Mas os macaensesnão são retornados. Retornados macaenses seriam aqueles que emigraram e depoisvoltaram para Macau, como alguns fizeram, após constatar que, na prática, poucotinha mudado depois de 1999. Macau é a nossa terra e, por isso, os que emigrampara Portugal estão na mesma situação daqueles que emigraram para outros paísesda diáspora macaense. A única diferença é que estão culturalmente mais próximosde Portugal, sendo este país como que uma segunda casa para os macaenses.Existem visões ou perspectivas menos optimistas? Túlio Tomás, que dirigiu osServiços de Educação de Angola e de Macau e foi Vice-Reitor da Universidade daÁsia Oriental, identificou muito bem esta questão:Visão pessimista, sem contrapartida? De modo algum. É que Macau conserva aindaintacta uma parte riquíssima – a mais rica – do seu património: as suas gentes. OsMacaenses de raiz. Muito embora dispersos pelo Mundo, eles todos constituem umagrande Macau, que não se perderá enquanto a força da tradição, em que foram educados, os não abandonar. Mesmo que os chamados ventos da História os varres-sem da terra onde nasceram, e onde repousam os seus antepassados, eles continuá--la-iam nas sete partidas do mundo onde se acolhessem. Levariam consigo uma culturamultissecular, feita pedra a pedra, mas que, incompreendida por muitos observadoresvindos do exterior, é uma indiscutível realidade.Muitos não se aperceberão dela localmente, mas o facto é que essa cultura se eviden-cia imediatamente, no seu património, transmitido de tradição em tradição, nos grupos de macaenses que vão fixar-se em terras estranhas. Aí ressalta, imediatamente,a sua personalidade, o seu saber ancestral e, sobretudo, o seu indefectível patriotismo,o seu esforçado apego às coisas portuguesas, tantas vezes mais acendrado que entreos filhos do Portugal europeu, que muitos deles, ainda há pouco, não conheciam.Resta-nos, pois, a consoladora esperança de que, mesmo que as pedras desapareçam,ficarão as almas, e essas são imortais (…) Macau, pois, há-de sobreviver. Serão eles osarautos da Macau rediviva (T. Tomás 1992: 90).
  • 101FILHOS DA TERRA | A Comunidade Macaense, Ontem e Hojefig. 52| Presidentes de associações macaenses com participantes no encontro das comunidades juvenis da diáspora, em 2009
  • 103FILHOS DA TERRA | A Comunidade Macaense, Ontem e HojeCONCLUSÃOÉ costume aplicar-se a Macau a metáfora do bambu: assolado pela tem-pestade, não tem outra solução se não dobrar-se perante os ventos fortes. Mas findoo temporal, o bambu endireita-se novamente, preparado para as próximas vicissitu-des. A meu ver, a comunidade macaense também é como o bambu: sofreu períodosde ameaça ao longo dos tempos, mas adaptou-se às circunstâncias, erguendo-sesempre após cada intempérie.No entanto, enfrentamos hoje uma situação diferente. Macau já não pertencea Portugal, a nossa Pátria e terra dos nossos antepassados, mas sim à China, factoque, ainda hoje, é difícil de aceitar por alguns, devido aos mais de 400 anos de presença portuguesa.José dos Santos Ferreira teve razão em afirmar que não sabíamos “(…) queMacau era só nossa por empréstimo e que um dia teríamos de a devolver, bonita epróspera” (Ferreira 1996b: 3), porque a China sempre considerou o seu solo comochinês, independentemente de quem estava lá a viver e, mais cedo ou mais tarde,haveria de exigir o retorno à “Mãe-Pátria”. Por este motivo, alguns macaenses con-sideram que, em breve, seremos “estrangeiros na nossa própria terra”, havendo osque, neste momento, já se sentem assim, em especial alguns macaenses emigradosque acham que já não têm razões para voltarem a Macau. Transcrevo aqui um ex-certo do depoimento de Luís Pedruco,95 emigrado no Brasil, similar a outros na obraMacau Somos Nós – Um mosaico da memória dos Macaenses no Rio de Janeiro:Mas eu não volto a Macau, pelo seguinte, não posso chegar numa terra onde eu nasci– esquece que Macau sempre foi China, é China – uma terra onde eu nasci, nascicomo português, passaporte português. Eu saio e volto hoje, aí só posso ficar 90 dias,95 Luís Pedruco foi presidente da Casa de Macau do Rio de Janeiro.
  • 104ALEXANDRA SOFIA RANGELcomo turista. Chego, estou habituado a ver tudo aquilo como era. Hoje, olho para ospontos que conheço, onde tinha bandeira portuguesa, e vejo a bandeira da China comunista, para mim é um choque. As repartições públicas onde estava escrito emportuguês, Leal Senado…, tiraram todos os nomes portugueses e colocaram nomeschineses. O que restou? O que vou fazer lá? (…) Então, vou para uma terra chamadaMacau que não é aquele Macau que conheço e sou considerado turista. Não me in-teressa. Então, eu prefiro fechar os olhos e ver Macau. Saudosismo? Sim. Nasci emMacau, mas minha alma é portuguesa, não me interessa, não vou. (…) Vamos suporque lá foi uma casa em que fui inquilino 25 anos, 50 anos, só que o patrão fez despejo. (…) Vou lá para quê? (…) Você vai ao cinema ver um filme que não gosta,um filme de terror que você não gosta? Só se for louco. Para mim, é como um filmede horror, que não quero ver… (Doré et al. 2001: 280).Vários autores preferem a ideia positiva de “Macau somos nós” à negativi-dade de “estrangeiros na sua própria terra”. Segundo eles, nós, macaenses, trazemosconnosco a memória e o significado de Macau, que não podemos esquecer: “PorqueMacau, quaisquer que possam ser as novas vicissitudes da sua história multissecular,existe e continuará viva no coração, na saudade e na personalidade de cada Ma-caense. De facto, Macau somos e seremos todos nós!” (Jorge Rangel no prefácio deMacau Somos Nós – Um mosaico da memória dos Macaenses no Rio de Janeiro,Doré et al. 2001: 12-13). Como afirma Ana Maria Amaro, “Seja como for e quandofor, os macaenses, onde quer que estiverem, manterão sempre, e apesar de tudo,pela saudade e pelas memórias que levarem, bem presas as suas mais profundasraízes à terra deixada, mas não abandonada, que lhes serviu de berço” (Amaro 1992:132). Carlos Estorninho também declara que “Continuaremos Macau, portuguesesde Macau, pois Macau somos nós, os macaenses, onde quer que estejamos. Seremosa memória de Macau” (Estorninho 1992: 18).Devido às incertezas em relação ao nosso futuro pós-2049, torna-se agora,mais do que nunca, importante divulgar a nossa história e os nossos costumes, nãosó para que os portugueses saibam a herança que deixaram num território pequenona longínqua Ásia, mas também para que os jovens macaenses conheçam o seupassado e se apercebam da riqueza da sua cultura. É preciso que os jovens, tantoos de Macau como os da diáspora, se interessem mais pela nossa história, uma vezque circunstâncias actuais e futuras irão, decerto, transformar esta comunidade. António Pacheco Jorge da Silva diz que muitas famílias macaenses emigradascontinuam ligadas à sua cultura, mas que os seus filhos vão assimilando a culturados países que os acolheram e, por isso, há quem ache que não vale a pena tentarfalar-lhes de Macau por não estarem interessados. Este autor afirma que isto não éverdade, pois são cada vez mais os jovens da diáspora a sentir curiosidade pelas suas
  • 105FILHOS DA TERRA | A Comunidade Macaense, Ontem e Hojeraízes. Mas se não encontrarem algo concreto que os inspire e lhes dê um sentidode orgulho no facto de serem macaenses, a cultura macaense acabará por desapa-recer. A memória é, portanto, um legado que temos de deixar às gerações futuras,senão todos aqueles que fizeram parte desta comunidade serão apenas uma “notade rodapé na história”. Para este autor, como poderemos nós, descendentes de gerações e gerações de macaenses, esquecermo-nos deles e também deixar omundo esquecer-se deles? (Silva 2007: 11)96Como se viu noutra parte deste trabalho, José dos Santos Ferreira não acre-ditava num futuro para os macaenses pós-1999 e foi com enorme angústia que antecipava a data em que Macau deixaria de ser território português. Termino estadissertação com mais uma parte do seu poema “O Adeus de Macau”, versão portuguesa de “Adios di Macau”:(…)Terra de fé que Deus abençoou,Macau começou sua vidaHá mais de quatrocentos anos.Nestes longes do Mundo,No cantinho de pé dum colosso,Macau nasceu e cresceu.Sempre filha de Portugal,Sempre cheia de amor cristão,Macau humilde a Deus serviu com devoçãoE serviu a Pátria com dignidade.96 Original em inglês: “Many of those families who have left their eastern shores still cling to their culture.However, it is apparent they and their children are already melding into the ethnic and social aspects ofthe countries which they have chosen as their new home. Knowledge of their past will strengthen theirgenealogical and cultural awareness generating a sense of pride for future generations. Some say theirchildren, born in a new environment, will lose interest in their history and merely dissipate into diverse societies of their new environs. It is quite obvious that this is not so as many who are growing up are looking to find their roots. However, there is the danger that if they find little to inspire them and theyhave nothing to hold on to, their Macanese culture will eventually become extinct. Memories, and whatevercan be gathered to sustain them, are a legacy we have to leave behind. How can generations of thesepeople be left as a footnote in history? How can we, their children and grandchildren, ever forget or letthe world forget?” (Silva 2007: 11).
  • 106ALEXANDRA SOFIA RANGELSeus filhos viveram dias trabalhosos,Suas gentes sofreram atribulações,E fizeram-na grande!Tão grande que se apanhou cobiçada.(…)Na triste hora da largada,De quantos olhos não manjerão lágrimas,Quantos corações não cairão destroçados!Qual manso cordeiro,Macau passará da Pátria para outras mãos.(…)Já muito chorastes, amigos,Não choreis mais.Podeis derramar um oceano de lágrimasQue disso ninguém fará caso…E é mesmo assim… Neste mundo apressado,Em que tudo corre mecanizado,Quem terá tempo para vos ver chorar?(…)Ao dizermos adeus a Macau,Que mais poderemos fazer?(Ferreira 1990: 202-205).Todavia, como vimos atrás, não só as instituições macaenses, como tambémas novas autoridades locais e as da própria República Popular da China, querem queos macaenses, hoje espalhados pelo mundo, permaneçam em Macau. Ao longo dasua primeira década como região administrativa especial da China, os resultados doesforço feito, com este propósito, podem considerar-se positivos. A ligação futura àterra-mãe constituirá um apelo irrecusável a essa comunidade, um permanente desafio à minha comunidade.
  • 107FILHOS DA TERRA | A Comunidade Macaense, Ontem e Hojefig. 53| Vista nocturna de Macau
  • 109FILHOS DA TERRA | A Comunidade Macaense, Ontem e HojeFONTES DAS ILUSTRAÇÕES- Figura 1 – Amaro 1992: 135- Figura 2 – Fotografia da autora- Figura 3 – Fotografia da autora- Figura 4 – Postal fotográfico cedido por João Loureiro- Figura 5 – Fotografia da autora- Figura 6 – Colecção do Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa- Figura 7 – Wikipedia.org (domínio público)- Figura 8 – Fotografia da autora- Figura 9 – Colecção do Museu de Arte de Macau- Figura 10 – Colecção da Sociedade de Geografia de Lisboa, Portugal- Figura 11 – Amaro 1988: 55- Figura 12 – Cedida por Maria Luiza de Senna Fernandes Cardoso de Almeida- Figura 13 – Cedida por Maria Luiza de Senna Fernandes Cardoso de Almeida- Figura 14 – Cedida por Maria Luiza de Senna Fernandes Cardoso de Almeida- Figura 15 – Cedida por Maria Luiza de Senna Fernandes Cardoso de Almeida- Figura 16 – Cedida por Maria Luiza de Senna Fernandes Cardoso de Almeida- Figura 17 – Fotografia da autora- Figura 18 – Cedida por Maria Luiza de Senna Fernandes Cardoso de Almeida- Figura 19 – Wikipedia.org (domínio público)- Figura 20 – Cedida por Maria Luiza de Senna Fernandes Cardoso de Almeida- Figura 21 – Cedida por Maria Luiza de Senna Fernandes Cardoso de Almeida- Figura 22 – Colecção pessoal- Figura 23 – Colecção pessoal- Figura 24 – Direcção dos Serviços de Turismo 2009: 50- Figura 25 – Wikipedia.org (domínio público)- Figura 26 – Rangel 2007b: capa
  • 110ALEXANDRA SOFIA RANGEL- Figura 27 – Marreiros 1994: 13- Figura 28 – Lemos 2004- Figura 29 – Fotografia da autora- Figura 30 – Fotografia da autora- Figura 31 – Fotografia da autora- Figura 32 – Fotografia da autora- Figura 33 – Fotografia da autora- Figura 34 – Fotografia da autora- Figura 35 – Cedida por Maria Luiza de Senna Fernandes Cardoso de Almeida- Figura 36 – Cedida por Maria Luiza de Senna Fernandes Cardoso de Almeida- Figura 37 – Marreiros 1994: 120- Figura 38 – Cedida por Maria Luiza de Senna Fernandes Cardoso de Almeida- Figura 39 – Instituto Internacional de Macau 2011: 4- Figura 40 – Colecção da Sociedade Histórica da Independência de Portugal, Lisboa- Figura 41 – Wikipedia.org (domínio público)- Figura 42 – Instituto Internacional de Macau 2000: 7- Figura 43 – Wikipedia.org (domínio público)- Figura 44 – Fotografia da autora- Figura 45 – Fotografia da autora- Figura 46 – Fotografia da autora- Figura 47 – Fotografia da autora- Figura 48 – Gabinete de Comunicação Social 2008: 318- Figura 49 – Fotografia da autora- Figura 50 – Direcção dos Serviços de Turismo (veja-se: http://www.macautourism.gov.mo/images/photos/20070726163737.jpg)- Figura 51 – Direcção dos Serviços de Turismo (veja-se: http://www. macautourism.gov.mo/images/photos/20101021174640.jpg)- Figura 52 – Conselho das Comunidades Macaenses (veja-se: http://www.apim.org.mo/ccm/pt/index.php?view=image&format=raw&type=orig&id=2634&opion=com_joomgallery&Itemid=62)- Figura 53 – Instituto Internacional de Macau 2010: 13
  • 111FILHOS DA TERRA | A Comunidade Macaense, Ontem e HojeBIBLIOGRAFIAALVES, Jorge Santos (1999). Um Porto entre Dois Impérios: Estudos sobre Macau e as Relações Luso-Chinesas. Macau: IPOR.AMARO, Ana Maria (1988). Filhos da Terra. Macau: Instituto Cultural de Macau.AMARO, Ana Maria (org.) (1992). Macaenses em Lisboa: Memórias do Oriente. Missão de Macau em Lisboa.ARESTA, António, Celina Veiga de Oliveira (2009). Macau – Uma História Cultural.Mem Martins: Editorial Inquérito e Fundação Jorge Álvares.AZEVEDO, Cândido do Carmo (2004). Portas do Cerco – A Ténue Fronteira no Conflito Sino-Japonês de 1894 a 1945. Macau: Instituto Internacional de Macau.BAPTISTA, António Santiago, Celina Veiga de Oliveira (orgs.) (1999). A Administraçãode Macau durante o Período de Transição. Macau: Gabinete do Governador deMacau.BARRETO, Luís Filipe (2006). Macau: Poder e Saber - séculos XVI e XVII. Lisboa: Editorial Presença.BARROS, Leonel (1999). Macau – Coisas da Terra e do Céu. Macau: Serviços de Educação e Juventude.BATALHA, Graciete Nogueira (1974). Língua de Macau – o que foi e o que é. Macau:Imprensa Nacional de Macau e Centro de Informação e Turismo.
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  • ISBN 978-972-95722-7-29 7 8 9 7 2 9 5 7 2 2 7 2
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