• 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO3 ColecçãoNOVOS CAMINHOS
  • Ficha Técnica Título – China e Países Lusófonos – Património Construído Editor – Instituto Internacional de Macau (IIM) Colecção – Novos Caminhos – N.o 3 – edição em Português (1.a edição) Coordenação – José Lobo do Amaral Direcção e produção gráfica – victor hugo design Impressão – Tipografia Welfare Lda.Tiragem – 1000 exemplaresMacau, Outubro de 2016ISBN: 978-99937-45-93-8ColecçãoNOVOS CAMINHOS1Macau e as relações económicas China/Países de língua portuguesa 2À Descoberta da China e dos Países LusófonosPotencialidades Turísticas e Estratégias Promocionais3China e Países Lusófonos – Património Construído Com o Apoio da
  • 4 5CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 311 INTRODUÇÃO19 CHINA EXÉRCITO DE TERRACOTA DE XI’AN > Texto de Bai Yunxiang20 Mausoléu de Qin Shihuang no Sopé da Montanha Lishan22 Aparecimento Imprevisto do Grandioso Exército de Terracota de Qin26 Trincheiras Magníficas do Exército de Terracota 1. Primeira trincheira de guerreiros e cavalos 2. Segunda trincheira de guerreiros e cavalos 3. Terceira trincheira de guerreiros e cavalos 4. Quarta trincheira de guerreiros e cavalos 5. Construção e destruição pelo fogo das trincheiras do Exército de Terracota34 Exército de Terracota Porte Altivo e de Posturas Múltiplas 1. Oficiais de Infantaria 2. Soldados de Infantaria 3. Soldados de Cavalaria 4. Carruagens com Cavalos e Guerreiros 5. Equipamentos e Armas39 Arte e Tecnologia de Produção do Exército de Terracota41 Características Artísticas do Exército de Terracota42 Mausoléu Magnífico do Imperador Qin Shihuang e o Seu Complexo Sistema Funerário45 Essência da Civilização ChinesaÍndice119 ANGOLA M´BANZA KONGO, ANTIGA SÃO SALVADOR DO CONGO (província do Zaire, Angola) > Texto de José Manuel Fernandes A – Breve enquadramento histórico do tema123 B – A Arquitectura do “Reino do Congo”128 C – As principais edificações remanescentes de São Salvador A ocupação militar e o Forte Português / / Prisão O Palácio Real Outras construções 67 MACAU A PRESERVAÇÃO DO CENTRO HISTÓRICO DE MACAU, PATRIMÓNIO DA HUMANIDADE > Texto de Jorge A. H. Rangel69 A decisão da UNESCO73 O Centro Histórico da Cidade 74 Critérios para a classificação O emblema do património mundial75 Acções complementares necessárias76 Monumentos e lugares classificados, integrados no Centro Histórico de Macau51 CHINA A GRANDE MURALHA > Texto de Ma Yong [馬勇] > Xu Chao [徐超]52 Origem da Grande Muralha I. Grande Muralha no período dos reinos combatentes (戰國) 1. A muralha do reino Qi (齊) 2. Muralha do reino Chu (楚) 3. Muralha do reino Yan (燕) 4. Muralha do reino Wei (魏) 5. Muralha do reino Zhao (趙) 6. Muralha do Estado Zhongshan (中山國) 7. Muralha do reino Qin (秦)57 II. Grande Muralha na dinastia Qin (秦朝)58 III. Grande Muralha na dinastia Han (漢代)59 IV. Grande Muralha na dinastia Wei do Norte (北魏長城)60 V. Grande Muralha na dinastia Wei do Leste (東魏) VI. Grande Muralha na dinastia Sui (隋)61 VII. Grande Muralha na dinastia Tang (唐) VIII. Grande Muralha na dinastia Liao (遼) IX. Grande Muralha na dinastia Jin (金) 62 X. Grande Muralha na dinastia Ming (明)65 XI. Grande Muralha da dinastia Qing (清)137 ANGOLA NOVA OEIRAS > Texto de José Manuel Fernandes A – Introdução e enquadramento140 B – O contexto histórico, breve síntese141 C – A acção de Sousa Coutinho em Angola: a tentativa pombalina de modernização e dinamização social-económica da Angola setecentista143 D – A obra de construção de Nova Oeiras: longo e penoso processo de construção, que resultou incompleta e depois abandonada153 E – A redescoberta do conjunto de NO, como referida pela imprensa dos inícios dos anos 1970 154 F – Leitura conclusiva do conjunto de Nova Oeiras: os elementos arquitectónicos fulcrais, o legado para o futuro
  • 6 7CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3157 BRASIL OURO PRETO PATRIMÔNIO CULTURAL DA HUMANIDADE > Texto de José Roberto Teixeira Leite > Fotografias de Mércia Gonçalves164 Igrejas, Capelas e Passos da Montanha Lishan174 O Triunfo Eucarístico de 1733175 Chico-Rei: lenda ou personagem real? Monumentos Civis181 Pontes e Chafarizes183 Literatura184 Música185 Teatro187 A Inconfidência Mineira188 Três Figuras EmblemáticasÍndiceÍndice193 BRASIL CONVENTO E IGREJA DE SÃO FRANCISCO DA BAHIA > Texto de José Roberto Teixeira Leite195 A paradoxal riqueza franciscana197 Arquitetura franciscana no Brasil199 Etapas da construção204 Um olhar sobre o acervo Azulejaria Pintura Imaginária Mobiliário Talha Igreja da Ordem 3ª de São Francisco221 CABO VERDE A CIDADE DA RIBEIRA GRANDE NA ILHA DE SANTIAGO EM CABO VERDE > Texto de Fernando Monteiro dos Reis Pires A evolução urbana232 Os principais edifícios242 O Património da Ribeira Grande249 GUINÉ-BISSAU CACHEU > Texto de Ana Vaz Milheiro257 1. Reconhecimento da costa da Guiné e fixação nas margens do rio São Domingos (1546-1588)259 2. Descrições da Praça Cacheu, afirmação e declínio (1588-1792)265 3. O longo século XIX (1792-1930)274 4. Cacheu no Estado Novo (1933-1974)291 MOÇAMBIQUE ILHA DE MOÇAMBIQUE > Texto de Fernando Monteiro dos Reis Pires e de Maria de Lurdes Janeiro A – Introdução – cidades de influência ou matriz portuguesa em África293 B – Enquadramento histórico e geográfico297 C – Significado(s) da povoação “de pedra e cal” na “Ilha”298 D – Um original traçado urbano300 E – A grande Fortaleza de São Sebastião304 F – Igrejas e Templos da Ilha306 G – Antigas instalações da Misericórdia, dos Dominicanos e dos Jesuítas314 H – Edifícios públicos, equipamentos e espaços cívicos316 I – A arquitectura doméstica na “Ilha”
  • 8 9CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3321 PORTUGAL O MOSTEIRO DOS JERÓNIMOS EM BELÉM > Texto de José Manuel Fernandes A – Belém, a área urbana, breve referência à sua história e evolução327 B – O enquadramento, o sentido e a importância do grande monumento328 C – Os autores, uma sequência330 D – O Estaleiro de Santa Maria de Belém: um longo processo de criação estilística, construtiva, tipológica e arquitectónica.334 E – Uma súmula: significado(s) da obra dos Jerónimos F – O Manuelino, sua caracterização e compreensão340 G – A fase mais recente de edificações nos Jerónimos: ampliações, reconstruções, restauros, séculos XIX e XXÍndiceÍndice343 PORTUGAL CENTRO HISTÓRICO DO PORTO: LEITURA EM TRÊS ANDAMENTOS > Texto de Paula Abrunhosa dos Reis Pires 1. Tema: Terra pitoresca, o Porto 349 2. Desenvolvimento: de burgo e couto de bispo a património do mundo E no princípio era o rio… [VIII a.C. – séc. XII] 353 Da mui nobre e leal cidade… [séc. XII – séc. XIV] 357 Sob a protecção da muralha e da Coroa… [séc. XV – séc. XVII]363 Entre italianos, ingleses e pipas de vinho do Porto… [séc. XVIII]373 Na senda do progresso… [séc. XIX]379 O rasgar da cidade e a afirmação de novas centralidades… [de 1900 à revolução de 1974]384 A intervenção planeada sobre a cidade… [do final do século XX ao XXI]390 3. Finale da capo: Ponto de chegada, ponto de partida395 SÃO TOMÉ E PRÍNCIPE PATRIMÓNIO EDIFICADO DE SÃO TOMÉ E PRÍNCIPE > Texto de Gerhard Seibert A Roça Sundy O património 406 A Roça Sundy na história do Príncipe408 A epidemia da doença do sono410 A expedição científica de Arthur Eddington417 TIMOR – LESTE A URBANIZAÇÃO PORTUGUESA DE DÍLI > Texto de Isabel Boavida Introdução419 1 – Da instalação à ocupação japonesa432 2 – A construção da cidade pós-guerra473 Considerações finais482 OS AUTORES486 OS TRADUTORES
  • 11CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3Notáveis legados, na China e no mundo lusófono, consagrados como património da humanidade Na sequência de dois oportunos e bem recebidos estudos, em que foram analisadas, em variadas vertentes, as relações económicas da China com os países de língua portuguesa e se procurou identificar e explicar as respectivas realidades e potencialidades turísticas, este novo livro da colecção “Novos Caminhos” coloca o enfoque no melhor do património construído naqueles países, caracterizando alguns dos mais notáveis exemplos do riquíssimo legado que a UNESCO consagrou como património da humanidade. Não se pretendeu, obviamente, reproduzir a extensa relação de monumentos que mereceram aquele prestigiado galardão, mas apenas seleccionar e reunir, num só volume, alguns dos que são geralmente reconhecidos como os mais emblemáticos e representativos, cabendo a reputados especialistas de várias origens e diferentes formações proceder, de forma tão exaustiva quanto desejável, à sua descrição, a qual é acompanhada sempre de sugestivas e apropriadas ilustrações. Assim, no que respeita à China, esta aliciante missão foi assumida pelos professores Bai Yunxiang, que nos incentiva a compreender o significado e a dimensão do Exército de Terracota de Xi’an, encontrado no grandioso mausoléu do primeiro imperador da Dinastia Qin, situado no sopé da Montanha Lishan, e Ma Yong, que nos oferece, juntamente com Xu Chao, uma história da Grande Muralha, a mais impressionante estrutura militar nos tempos antigos da China, com quase 22 mil quilómetros de extensão, e um símbolo incontornável da milenar civilização chinesa. São dois gigantescos legados históricos e marcos fundamentais duma das mais opulentas civilizações na longa marcha da humanidade. Estes dois trabalhos convidam o leitor à descoberta da grande China, de ontem e de hoje, na sua espantosa diversidade e na plenitude da sua riqueza artística e cultural, consolidada ao longo de sucessivas dinastias e reafirmada na modernidade presente.Introdução
  • 12 13CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3Introdução Introdução Um capítulo do livro é inteiramente dedicado a Macau, o mais duradouro e fecundo ponto de encontro entre o Ocidente e o Oriente Extremo, cujo centro histórico foi classificado pela UNESCO, em 2005, como património mundial. Território que foi ao longo de mais de quatro séculos administrado por Portugal e que é hoje uma região administrativa especial da China, a sua vocação tradicional de entreposto privilegiado permaneceu e desenvolveu-se. As pedras da história e o património imaterial que ali se produziu documentam bem o seu percurso e ajudam a entender a renovada missão que lhe foi atribuída como plataforma de cooperação entre a China e o mundo lusófono. Os monumentos incluídos nesse centro histórico, que abrange todo o tecido urbano que vem dos primórdios da cidade, constituem testemunhos visíveis de pluralismo cultural. O legado é, basicamente, português e chinês, complementado com elementos de muitas outras origens. Segue-se Angola, com dois sóbrios e bem documentados textos de José Manuel Fernandes, certamente um dos mais conceituados mestres nesta temática da história da arquitectura de origem lusa, com muito valiosa obra publicada. A sua escolha recaiu em M’Banza Kongo, antiga S. Salvador do Congo, “a desaparecida, original e única cidade de origem trecento-quatrocentista no interior do território africano, desenvolvida nesta época sob influência europeia”, e no conjunto de Nova Oeiras, “o resíduo de uma infra-estrutura inovadora e pioneira na sua época (o período Pombalino), representando o resultado de uma intervenção isolada mas significativa, com origem no consulado do Governador Sousa Coutinho, representante da linha reformista e transformadora do Marquês de Pombal (então Conde de Oeiras) em Angola”. São dois relevantes legados que podem ser objecto de candidatura a submeter à UNESCO. É vastíssimo o legado luso no Brasil. José Roberto Teixeira Leite colaborou connosco na apresentação de Ouro Preto, com oportunas referências a outras surpreendentes localidades de Minas Gerais, como Vila Rica, Sabaré, Mariana, Diamantina e Prados, velhas urbes mineiras onde se verificou um “extraordinário surto civilizatório, com o florescimento da arquitectura, da escultura, da pintura, da música e da literatura”, e a Igreja de São Francisco da Bahia, que, em conjunto com o seu convento, é, por muitos, tida como uma das mais lindas do mundo. O autor, em dois textos enormemente estimulantes, aproveita também para caracterizar o barroco luso-brasileiro, “menos monumental, mais singelo, menos rebuscado, mais despojado que o hispano-americano”, concluindo que “é justamente esta sobriedade, este senso da medida, que lhe dá originalidade e força”, sem esquecer que, no Brasil, o barroco, “a princípio aristocrático, passou por gradativo processo de ‘mulatização’, pois a mão de obra disponível era muitas vezes negra, e quase sempre mestiça”, acabando esta ‘mulatização’ por emprestar “às manisfestações artísticas brasileiras do Séc. XVIII encanto peculiar, tornando-as uma variedade dialectal da linguagem original portuguesa”. Para além das praias de sonho, do samba, do Carnaval e de outros “encantos mil”, é este Brasil maravilhoso, do legado luso-tropical, que quer ganhar muito maior divulgação, incentivando uma procura que conduz a gratificantes e inolvidáveis revelações. A cidade de Santiago, antiga Ribeira Grande ou Cidade Velha, preenche o capítulo reservado a Cabo Verde. Pela pena de Francisco Monteiro dos Reis Pires, partimos à descoberta da velha urbe que é “uma referência no universo urbanístico português, não pela sua dimensão física, pois está longe de alcançar a escala de monumentalidade de outros núcleos da expansão, mas pelo papel que desempenhou na ligação entre espaços maiores”, para tal contribuindo o facto de “ter sido um lugar de encontro de raças e culturas, berço da primeira sociedade crioula mestiça e um lugar de partida para a difusão dessa cultura através do Atlântico”. A UNESCO declarou-a, em Junho de 2009, património da humanidade. O artigo explica a evolução urbana, identifica os principais edifícios deste conjunto arquitectónico e refere as acções mais relevantes levadas a efeito com vista a assegurar a sua correcta preservação. Cacheu, a primeira feitoria portuguesa implantada entre os rios Casamansa e Grande, em terras da Guiné, nas derradeiras décadas do século XVI, é objecto
  • 14 15CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3de um elaborado estudo de Ana Vaz Minheiro, que recorda, em abordagem historiográfica, as origens e a evolução urbana da localidade, bem como os seus períodos de ascensão e de declínio. Situada a 25 quilómetros da foz do rio que tem o mesmo nome (e que inicialmente se chamou Rio de S. Domingos), Cacheu foi o ponto de partida para a fixação dos primeiros portugueses naquelas paragens africanas, depois do reconhecimento da costa da Senegâmbia pelos navegadores a mando do Infante D. Henrique. Constitui, com o seu vistoso forte e a capela de Nossa Senhora da Natividade, um monumento incontornável que importa valorizar. O recurso a testemunhos e relatos de cronistas e historiadores enriquece a exposição da autora, que junta uma ampla bibliografia, além da indicação de fontes arquivísticas disponíveis. De Moçambique, a “jóia” apresentada é a ilha do mesmo nome, cuja história, desde que Vasco da Gama ali aportou em 1498, quando já seria uma povoação habitada por árabes e negros, nos é contada por José Manuel Fernandes e Maria de Lurdes Janeiro, que também fazem o enquadramento geográfico e o levantamento do original traçado urbano deste lugar admiravelmente singular. “A Ilha de Moçambique constituiu-se paulatinamente em ‘paisagem cultural’ única no mundo, pelo cruzamento, belo e equilibrado, das múltiplas culturas que encetou. Continua actualmente exibindo o seu belíssimo conjunto histórico edificado, completado por uma portentosa dimensão cénica, e pela vivência das suas gentes. Esta é a sua força, que permanece intocada, apesar dos acidentes da história”. Estas palavras, vigorosas e lúcidas, dos autores resumem bem as características deste impressionante monumento da memória lusa na costa ocidental do continente africano, classificado pela UNESCO como património da humanidade em 1991. “Estudada pela sua história, pelo manancial antropológico e arqueológico, pelo repositório artístico e cultural, a Ilha é única também na capacidade que tem de suscitar a curiosidade do visitante, a vontade de participar na sua vida e de empenho na sua sobrevivência, seja através da divulgação dos seus valores eméritos, seja pelo investimento em acções de utilidade no seu actual processo de lento ressuscitar”. A riqueza e diversidade patrimonial de Portugal tornava difícil a escolha dos monumentos para inclusão neste volume dedicado ao melhor do património edificado na China e em países de língua portuguesa. A opção foi, entretanto, facilitada pela apresentação de dois excelentes trabalhos, um dos quais de José Manuel Fernandes, sobre o conjunto do Mosteiro dos Jerónimos, que podemos considerar, sem exagero, “como a mais importante edificação e obra arquitectónica erigida no quadro da cultura portuguesa dentro e fora de Portugal”. A erudição e facilidade de comunicação do autor permitiram-lhe proporcionar-nos o entendimento do enquadramento, do sentido, da relevância e da dimensão mística do grande monumento que é o Real Mosteiro de Santa Maria de Belém ou dos Jerónimos, como é mais conhecido, bem como o processo de criação estilística, construtiva, tipológica e arquitectónica que se desenvolveu a partir da época de transição do século XV para o século XVI, marcando o período de ouro da expansão. Paula Abrunhosa assina o outro trabalho, sobre o centro histórico do Porto, que a UNESCO adicionou, em Dezembro de 1996, ao seu notabilíssimo rol do património cultural da humanidade, considerando-o “obra-prima do génio criativo do Homem (…), única no seu género e de elevado valor estético”. Na estimulante prosa da autora, o centro histórico “proporciona um cenário de pictórica e quase irreal fantasia, onde diferentes sentidos e linguagens, a convocar épocas passadas, se harmonizam e materializam numa miríade de formas” e, “na linha do horizonte, recortam o perfil inconfundível de um aglomerado urbano esculpido em rendilhada filigrana e suspenso, em imponderável equilíbrio, sobre os declives de um terreno altivo e duro. No perímetro delimitado pela UNESCO, “a comunidade reconheceu as suas especificidades, recuperou qualidade de vida, ganhou consciência da sua importância” e aprendeu a ser parte activa e exigente na defesa do património material e imaterial que lhe pertence. O estudo que este volume integra, sobre o património edificado de São Tomé e Príncipe, é da autoria de Gerhard Seibert, da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira. Nele é dada especial atenção à Roça Introdução Introdução
  • 16 17CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3Sundy, um conjunto de cerca de quatro hectares, numa altitude de 160 a 170 metros, edificado em zona intensamente arborizada da Ilha do Príncipe. “É uma das maiores e mais emblemáticas das antigas plantações de São Tomé e Príncipe. A sua fama não se deve apenas ao seu passado como grande produtor de cacau e copra, mas também ao astrofísico britânico Arthur Stanley Eddington que, em 1919, ali realizou uma expedição científica para comprovar a teoria geral da relatividade”. Esta curiosa expedição é relatada neste capítulo. A roça, que já existia cem anos antes e foi propriedade privada durante muito tempo, sendo nacionalizada em 1975, faz parte, agora, de um “ambicioso projecto de turismo ecológico e agricultura sustentável”. Em último lugar, temos um artigo, sustentado em abundante bibliografia, da investigadora Isabel Boavida sobre “A Urbanização Portuguesa de Dili”, capital e núcleo mais populoso de Timor-Leste, onde se verifica uma maior concentração de elementos arquitectónicos representativos do longo período da administração portuguesa. A autora descreve a evolução urbana desde o estabelecimento da capital na baía de Dili, em 1789, até aos nossos dias. “Com o gradual domínio territorial, o estabelecimento de origem militar e portuária adquiriu maturidade como sede administrativa, desenvolvendo-se como centro de um agregado de baixa densidade, composto por várias zonas, que se formaram em função de assentamentos de comunidades, locais e não locais, e da instalação de equipamentos de apoio à actividade da administração”. Seguiram-se a devastação resultante da Guerra do Pacífico e da ocupação japonesa, a reconstrução de acordo com planos de urbanização do Estado Novo, os períodos conturbados vividos após a declaração da independência em 1975, a anexação militar e política pela Indonésia e, finalmente, o jubiloso reconhecimento de Timor-Leste como país livre e independente, com a expressão duma enorme solidariedade internacional. Ao longo de muitos anos, no desempenho de funções públicas ou no seio de instituições da sociedade civil, pude acompanhar, e até coordenar, múltiplos estudos e projectos respeitantes à preservação e valorização do património. Tive o privilégio de, como membro do Governo de Macau responsável pela Educação, Cultura e Turismo, apresentar formalmente a candidatura do território à condição de membro associado da UNESCO e assistir em Paris, em lindíssima assembleia plenária realizada no grande auditório daquela organização internacional, à sua admissão, aprovada por unanimidade e aclamação. A partir daí, foram inúmeras as oportunidades de participação nas suas reuniões gerais e de comissões especializadas. Entes elas, interessaram-me especialmente as respeitantes a estudos e à classificação do património. A criação do Instituto Cultural de Macau, no início da década de 1980, dispondo de um Departamento de Património Cultural com capacidade de intervenção muito mais eficaz, facilitou o relacionamento com aquela organização e o acesso a esses estudos. Também no âmbito da PATA – Pacific Asia Travel Association, de que fui presidente regional e membro do conselho directivo, e da EATA – East Asia Travel Association, com sede em Tóquio, cuja presidência assumi durante dois anos, estas matérias ganharam um lugar prioritário na elaboração dos planos globais e sectoriais de desenvolvimento turístico então formulados. O mesmo direi da Organização Mundial de Turismo, cujo órgão executivo integrei, em Madrid, e onde foi possível conhecer, apoiar e, no melhor sentido, influenciar decisões políticas coerentes e inadiáveis neste domínio, em várias partes do mundo. Por tudo isso, julgo poder afirmar, sem hesitação, que este volume representa um contributo, certamente modesto mas inegavelmente positivo, do Instituto Internacional de Macau para divulgar algum desse magnífico legado através duma nova colecção editorial cujo propósito é a promoção de relações económicas e culturais entre a China e os países de língua portuguesa. Jorge A. H. Rangel,Presidente do Instituto Internacional de MacauIntrodução Introdução
  • 19CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 318 CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINAEXÉRCITO DE TERRACOTA DE XI’ANO Exército de Terracota de Xi’an refere-se aos guerreiros de terracota descobertos no Mausoléu de Qin Shihuang (o primeiro imperador da dinastia Qin), localizado nos subúrbios, a leste da Cidade de Xi’an, na Província de Shaanxi, também denominado Soldados de Terracota do Mausoléu do Imperador Qin ou Exército de Terracota de Qin. “Bing Ma (guerreiros e cavalos)” refere-se a generais, soldados, cavalos, carruagens e equipamentos de batalha; “yong (estatuetas)” são figuras enterradas em sepulturas antigas, representando pessoas e objectos verdadeiros. O Exército de Terracota de Qin em Xi’an é, de facto, a representação dos antigos generais, soldados, carruagens, cavalos, entre outros, que foram sepultados com Qin Shihuang no seu mausoléu. Os soldados e cavalos são feitos de cerâmica queimada, depois de serem moldados em terra, e as carruagens em madeira.Vista de longe do Mausoléu de Qin Shihuang (tirada de Norte para Sul)Texto de Bai Yunxiang
  • 20 21CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3Mausoléu de Qin Shihuang no Sopé da Montanha Lishan A sul do Rio Wei do Distrito Lintong, localizado a cerca de 35 km a leste da Cidade de Xi’an, na Província de Shaanxi, na planície aluvial a norte da Montanha Lishan, ergue-se um antigo mausoléu imperial grandioso, que é o Mausoléu de Qin Shihuang, o primeiro imperador da história chinesa. Qin Shihuang tinha de apelido Ying, da família Zhao, e o seu nome próprio era Zheng. Em 246 a.C., com apenas 13 anos de idade, subiu ao trono no reino de Qin e ficou conhecido na história como Qin Wang Zheng. Em 238 a.C., com 21 anos de idade, Qin Wang Zheng começou a tratar pessoalmente dos assuntos de Estado, bem como a planear batalhas para unificar todo o país. Durante os dez anos após 230 a.C, sob o comando de Qin Wang Zheng, o reino Qin aniquilou sucessivamente os seis reinos do leste: Han, Wei, Chu, Yan, Zhao e Qi; estabelecendo, em 221 a.C., a dinastia Qin, o primeiro Estado unificado centralizado multiétnico na história chinesa, quando o rei tinha apenas 38 anos de idade. Para ostentar os seus méritos, ter unificado todo o país e estabelecido a autoridade suprema, Qin Wang Zheng criou para si o título de “Imperador”, proclamando-se “Shi Huangdi (o primeiro imperador)”, e tornando-se num grande político da história chinesa. Depois de ter fundado a dinastia Qin, Qin Shihuang levou a cabo uma série de reformas nas áreas política, económica, ideológica e cultural, no sentido de fortalecer o Estado unificado, começando, deste modo, uma nova era de império centralizado. Aboliu o Sistema de Oferta de Feudos e estabeleceu o Sistema de Prefeituras e Distritos em todo o país; implementou o Sistema Hierárquico de Funcionários, estabelecendo um conjunto de burocracias desde o Estado central às prefeituras e distritos; estabeleceu e promulgou uma lei unificadora; uniformizou em todo o país os sistemas de transporte, de escrita, de moeda, de pesos e medidas; mandou exércitos a Norte para atacar os hunos; recuperou os terrenos perdidos em Hehan e construiu a Grande Muralha; mandou tropas a Sul para conquistar Baiyue; construiu o Canal Lingju para a comunicação fluvial. A dinastia Qin estabeleceu uma forte base política para o período imperial que se seguiu, de mais de dois mil anos. É de salientar que Qin Shihuang, logo depois de subir ao trono como rei Qin, começou a construir o seu túmulo junto à Montanha Lishan. Após a fundação da dinastia Qin, mandou transferir 700 mil prisioneiros de todo o país para fazer uma construção de grande escala. Como se descreve nos livros de história: “Logo depois de subir ao trono, o primeiro imperador mandou cavar e administrar a Montanha Lishan, após a unificação de todo o país, e determinou a transferência de mais de 700 mil trabalhadores” (Registos Históricos – Registo de Qin Shihuang). “O primeiro-ministro Li Si mandou 720 mil prisioneiros para construir o túmulo” (Seis Livros sobre o Sistema Burocrático e de Ritos da Dinastia Han – Registos do Sistema Burocrático da Dinastia Han). É raro haver na história, tanto no tamanho da acção como na longa duração, uma obra como a construção do túmulo de Qin Shihuang. No entanto, em Julho do ano 37.º do seu reinado, Qin Shihuang (210 a.C.), com 50 anos de idade, ainda cheio de ambições, morreu de doença em Shaqiu Pingtai (na região a sudeste do Distrito de Julu, na Província de Hebei), quando regressava de uma visita ao exterior. Em Setembro do mesmo ano, foi enterrado no túmulo, cuja construção já levava 38 anos, mas que ainda não acabara. No sopé da Montanha Lishan encontra-se o mausoléu imperial mais grandioso e espectacular da China antiga, motivo pelo qual, mais de 900 anos após, o poeta da dinastia Tang, Li Bai exclamou: “Com imponência e rapidez, o rei Qin aniquilou os outros seis reinos. Unificou todo o país e eliminou o caos, todos os príncipes feudais deslocaram-se para Qin. – Mandou 700 mil prisioneiros para construir o túmulo no sopé da Montanha Lishan. – Olhe no solo subterrâneo do sopé da Montanha Lishan, encontrava-se o caixão de ouro contendo as cinzas frias do Imperador Qin Shihuang.” ChinaPlano simples do Mausoléu de Qin Shihuang
  • 22 23CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3Aparecimento Imprevisto do GrandiosoExército de Terracota de Qin O Mausoléu de Qin Shihuang é de grande envergadura e de estrutura complexa. Pela erosão provocada por vento e chuva, durante dois mil anos, não existe quase nenhuma outra construção à vista, tendo ficado, praticamente, tudo enterrado. Apenas se erguia a alta e grande “estrutura do túmulo acima do solo do cemitério”, como se fosse uma pequena colina quando se olha de longe. O mausoléu foi desaparecendo da vista, no curso da história, pelo que os estudiosos chineses e estrangeiros vêm realizando investigações e estudos, de longa duração, sobre o mausoléu, só desde época recente. Em 1906, o estudioso japonês Adachi Kiroku, então professor da Escola de Ensino Superior de Shaanxi, foi ao mausoléu fazer um estudo, onde mediu a forma, altura e tamanho da base, dados que estão relatados na sua obra Relíquias Históricas de Chang’an (1906), constituindo a primeira pesquisa in loco e o primeiro registo sobre o mausoléu, nos tempos modernos. Nos meados da década de 1920, o estudioso francês Víctor Sogalen também foi ao mausoléu realizar uma investigação sobre o cemitério, tendo notado, pela primeira vez, que o “montículo do túmulo no chão do cemitério” tem três níveis, de alturas diferentes, e possui materiais relevantes para o estudo do mausoléu. Após a fundação da nova China, foram iniciadas, pouco a pouco, as explorações arqueológicas e as investigações científicas sobre o mausoléu. Em 1962, a Comissão de Administração de Relíquias Culturais da Província de Shaanxi começou a fazer estes estudos arqueológicas em várias vertentes, medindo não apenas a altura do “montículo do túmulo no chão do cemitério” e o tamanho da base, comprimento dos muros, interior e exterior, e espessura das camadas do mausoléu, como também desenhando o primeiro plano do túmulo. Além de ter descoberto vários vestígios da construção, abriu uma nova página da arqueologia do mausoléu. Aliás, na altura, o trabalho arqueológico sobre este e os seus resultados apenas se limitaram à protecção do património cultural e ao estudo arqueológico, não tendo suscitado a atenção da sociedade. Em 1964, foi descoberta uma estatueta ajoelhada de terracota, que foi publicitada, embora não tenha também atraído a curiosidade mundial. Em 29 de Março de 1974, os habitantes da Aldeia Xiyang, da área de Yanzhai, do Distrito de Lintong, ao escavarem um poço desenterraram acidentalmente muitos fragmentos de cerâmica, setas de cobre, arcos de cobre e tijolos, entre outros artefactos. Ao saber disso, o departamento local de relíquias culturais mandou, imediatamente, recolher e organizar os achados e, além disso, durante este processo, juntar e colar os fragmentos de terracota, conseguindo estátuas de barro, em tamanho real, fazendo surgir, assim, ao mundo guerreiros e cavalos de terracota de Qin. Menos de dois meses depois, a notícia desta descoberta foi transmitida ao Conselho de Estado. Em 30 de Junho, o então vice-primeiro ministro Li Xiannian fez um despacho sobre a sua protecção, segundo o qual foi constituída, localmente, uma Equipa Arqueológica de Escavação das Estátuas do Mausoléu de Qin. Em 15 de Julho do mesmo ano, esta equipa entrou no local arqueológico, começando, oficialmente, a escavação científica das covas das estátuas de guerreiros e cavalos do Mausoléu de Qin Shihuang. A escavação arqueológica começou na primeira trincheira, onde foram encontradas as primeiras estátuas de guerreiros e cavalos. O trabalho de campo foi árduo e cuidadoso, mas os investigadores ficaram muito animados cientificamente pelos achados e resultados. Graças a este esforço notável, de cerca de um ano, foram expostos ao mundo, majestosamente e sem precedentes, 500 estátuas de barro, 24 cavalos de barro, 6 carruagens de batalha e muitas armas de bronze das estátuas de guerreiros e cavalos. Após a descoberta e escavação científica da primeira trincheira de estátuas de guerreiros e cavalos, os arqueólogos, animados cientificamente, procuraram novas trincheiras naquela área. Para a Equipa Arqueológica de Escavação das Covas de Estátuas de Qin, 1976 foi um ano pleno de êxitos científicos: em Abril, foi descoberta a segunda trincheira em forma de L; em Maio, a terceira de formato côncavo; em Junho, a quarta ainda não acabada. Ao mesmo tempo, iniciou-se a escavação da segunda trincheira de guerreiros de terracota. Para exposição e preservação científica do Exército de Terracota do Mausoléu de Qin, o Estado Chinês, em 1978, fez um avultado investimento para a reconstrução do Museu do Exército de Terracota de Qin Shihuang, que foi concluído e aberto ao público em 1979. As trincheiras do Exército de Terracota ChinaSoldados de cavalaria (desenterrados da segunda trincheira)foram reconhecidas como a Oitava Maravilha do Mundo. Em Dezembro de 1987, o mausoléu e as trincheiras de guerreiros e cavalos de Qin, como as relíquias culturais, foram aprovados para serem classificados na Lista de Património Cultural do Mundo, pela Comissão de Património Mundial da UNESCO, tornando-se um dos cinco primeiros itens da China integrados nessa lista.
  • 24 25CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3Cena do desenterramento do Exército de Terracota (parcial)
  • 26 27CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3Trincheiras Magníficas do Exército de Terracota As mundialmente conhecidas trincheiras do Exército de Terracota estão situadas a 1.500 metros, a leste do montículo do túmulo, no local do Mausoléu de Qin Shihuang e são em número de quatro. Nas três primeiras concluídas, foram enterrados guerreiros e cavalos de barro, e a quarta trincheira, não acabada, parece ter outro destino, ainda em investigação. A primeira trincheira encontra-se a sul e a segunda, terceira e quarta estão situadas a norte da primeira e são construções tipo túnel de estrutura de madeira no subsolo. As primeira e segunda trincheiras afundaram-se depois de terem sido queimadas pelo fogo. A terceira trincheira, para além de ter sofrido um rebaixamento natural, também foi objecto de vandalismo e de roubo.1. Primeira trincheira de guerreiros e cavalos Esta trincheira foi a primeira onde foram encontradas e escavadas as estátuas de guerreiros e cavalos de terracota. Tem um formato rectangular, de comprimento (Leste--Oeste) 230 metros, de largura (Norte-Sul) 62 metros, com 4,6 a 6,5 metros de profundidade e uma área de 14.260 metros quadrados. Cada um dos quatro lados da trincheira tem cinco estradas inclinadas e todas as entradas são fechadas com portas de madeira. Entrando na trincheira pela estrada da extremidade Leste, encontra-se, primeiro, um corredor de comprimento (Norte-Sul) de 57,25 metros, de largura (Leste--Oeste) de 3,45 metros. A oeste do corredor há dez paredes de barro, com largura de 2 metros e altura residual de 0,75 a 2,4 metros, que dividem a trincheira em 11 buracos no sentido Leste-Oeste. Os buracos do lado sul e do norte têm 1,75 metros de largura e 3,2 metros de altura; os 9 buracos no meio têm 3,2 metros de largura e 3,2 metros de altura. Estão cobertos por tijolos pretos na base. Na ponta Oeste dos buracos, também há um corredor de 3,45 metros de largura (Leste-Oeste). Nas paredes do sul e do norte da trincheira há uma plataforma de dois pisos, onde foram montadas coberturas de madeira, no sentido Sul-Norte. Por cima, existe uma esteira, coberta de argila cinzenta, onde está construído o “montículo do túmulo no chão do cemitério do Mausoléu de Qin Shihuang”. É evidente que a primeira trincheira é uma construção ChinaDistribuição das trincheiras do Exército de Terracota do Mausoléu de Qin ShihuangPanorama geral da primeira trincheira do Exército de Terracota (tirada de Leste para Oeste)
  • 28 29CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3subterrânea, tipo túnel, de estrutura de madeira e terra, rodeada de claustros e com nove compartimentos. De 1974 a 2013, foram realizadas três escavações sucessivas nesta trincheira, donde foram retiradas mais de 1.800 estátuas de guerreiros de terracota, 22 carros de guerra de madeira, 88 cavalos de cerâmica; ao mesmo tempo, também foram encontradas 646 peças de carruagem, 486 armas, tais como espadas de bronze, espadas de cabo comprido, alabardas, lança-achas, balistas, entre outras, 280 feixes de setas de cobre e 10.896 setas de cobre dispersas e ainda algumas armas de ferro, tais como setas de cobre com cabo de ferro, lanças de ferro, setas de ferro e uma pequena quantidade de ferramentas de trabalho. De acordo com as escavações, na primeira trincheira foram enterrados, no total, mais de 6.000 soldados de terracota e cavalos de cerâmica, 50 carros de guerra de madeira e 200 cavalos de cerâmica a puxar carros. As escavações e os estudos arqueológicos demonstram que a primeira trincheira tem uma secção rectangular, composta por carros de guerra e tropas de infantaria que se enfileiram alternadamente. Ao redor desta secção, há guardas à frente, atrás e dos dois lados. Os guardas da frente são formados por 204 atiradores de setas; atrás, encontra-se outra secção constituída por tropas de infantaria virada para leste, junto com cavalos de guerra nas 36 estradas dos 9 buracos; à esquerda e à direita daquela, respectivamente, está uma tropa de guardas, virada para o exterior e formada por atiradores de setas; na parte detrás dessa secção, encontram-se três filas de guerreiros vestidos com traje de guerra, que constituem formação de uma tropa de retaguarda. Os carros de guerra são carruagens de eixo único puxadas por quatro cavalos, nas quais há, geralmente, três soldados armados para combate de longo alcance e de defesa próxima. Os soldados de infantaria estão equipados com armas compridas, como lança-achas, lanças, espadas de cabo comprido, alabardas, entre outras. De acordo com os meios académicos, o Exército de Terracota da primeira trincheira representa os soldados que protegem a capital de Pequim.2. Segunda trincheira de guerreiros e cavalos Esta trincheira está situada a 20 metros, a norte da ponta Leste da primeira trincheira, em forma de L. É constituída por estradas inclinadas e buracos. O comprimento (Leste-Oeste) da segunda trincheira é de 124 metros, a largura (Sul-Norte) de 98 metros e a profundidade de 5, tendo uma área de 6.000 metros quadrados. A forma desta é relativamente complicada, pois conta com 9 estradas inclinadas, ficando 4 na parede Leste, 3 na Oeste e 2 na Norte. Na trincheira há 18 vigas revestidas de terra no sentido Leste-Oeste, com 2,2 a 3,2 metros de largura, que a dividem em 18 buracos, no sentido Leste-Oeste. Existem quatro unidades independentes mas inter-relacionadas: a primeira está localizada no canto Nordeste, formada por quatro buracos e uma galeria circular. Nos buracos encontra-se uma formação de soldados constituída por atiradores de ChinaArqueiros ajoelhados de terracota (desenterrados da segunda trincheira)
  • 30 31CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3setas ajoelhados, enquanto na galeria circular estão enfileirados atiradores em pé; a segunda unidade está situada na ponta Sul da trincheira, composta por 8 buracos, no sentido Leste-Oeste e galerias circulares, nos lados Leste e Oeste, de direcção Norte-Sul, onde há 64 carros de guerra equipados cada um com quatro cavalos e três soldados armados que ficam de pé atrás dos carros, sendo um condutor e dois guardas colocados, respectivamente, um à direita e outro à esquerda do carro; a terceira unidade encontra--se no centro da trincheira, composta por três buracos, no sentido Leste-Oeste e um corredor do lado Oeste, onde estão enfileirados carros de guerra, infantaria e cavalaria; a quarta unidade localiza-se no norte da trincheira, composta por três buracos, no sentido Leste-Oeste e um corredor do lado Oeste, onde se enfileiram soldados de cavalaria. O método de construção e a estrutura do topo são iguais aos da primeira trincheira. Em 1976 e 1977, foi realizada uma escavação experimental da segunda trincheira. Em 1994, foi levada a cabo a primeira escavação oficial. Nestas duas vezes, foram encontrados, no total, 11 carros de guerra de madeira, mais de 160 estátuas de terracota, grande quantidade de armas de bronze, peças de carruagem e algumas ferramentas, além de várias estátuas pintadas a cores, de terracota, bem conservadas e descobertas pela primeira vez. De acordo com as escavações, pode inferir-se que foram enterrados, na trincheira, 89 carros de guerra de madeira, cerca de 2.000 peças, tais como cavalos de cerâmica, soldados nos carros de guerra, soldados de infantaria e de cavalaria. Em relação à natureza da matriz militar da segunda trincheira, conforme os meios académicos, é visível o desempenho real da formação militar. Também há cientistas que entendem que se trata de “uma matriz em curva”, descrita no livro antigo de guerra, isto é, na parte frontal esquerda há uma formação de atiradores de setas; no meio, uma formação rectangular composta por soldados, nos carros de guerra, infantaria e cavalaria; atrás, uma formação de cavalaria. Essas formações pequenas dão lugar a uma formação grande, podendo dizer-se que, dentro da formação grande, há formações pequenas; dentro do acampamento grande, há acampamentos pequenos, ou seja, existem formações na formação e acampamentos no acampamento. Por isso, a descoberta da segunda trincheira e a disposição de soldados e cavalos oferecem dados muito preciosos para estudar a arte de guerra e matriz militar da dinastia Qin.3. Terceira trincheira de guerreiros e cavalos Esta trincheira está localizada a 25 metros a norte da extremidade Oeste da primeira e a 120 metros a leste da segunda. O plano da terceira apresenta uma forma de U, no sentido Leste--Oeste. No centro da parede Leste há uma estrada inclinada. O comprimento de sentido Leste-Oeste é de 17,6 metros, a largura na direcção Sul-Norte de 21,4 e a profundidade de 5,2 a 5,4 metros, com uma área total de 520 metros quadrados. Esta trincheira não tem indícios de fogo, mas foi severamente destruída por pessoas. Os soldados e cavalos de terracota ficaram muito danificados, desaparecendo muitas das cabeças. Também foram encontradas poucas armas. A forma de construção e estrutura são, mais ou menos, iguais às das primeira e segunda trincheiras. A escavação arqueológica desta trincheira foi realizada em 1977, onde foram encontrados: um carro puxado a cavalo; 68 peças de guerreiro em terracota; quatro cavalos de cerâmica; armas de bronze, tais como tongshu (um tipo de arma antiga chinesa) e setas de cobre; peças de bronze nas carruagens; componentes arquitectónicos; ferramentas de cobre e de ferro, etc. Além disso, ainda foram encontrados chifres de veado fragmentados e ossos podres de animais. A estrutura do exército em terracota, nesta trincheira, está dividida em três unidades. A primeira fica na parte Sul, ou seja, na zona Sul da porta de entrada, onde foram desenterradas 42 peças de guerreiros de infantaria de cota. A segunda está localizada no centro da trincheira, cuja extremidade Leste está ligada à porta da entrada; à direita está colocada uma carruagem de madeira pintada a cores e puxada por quatro cavalos de cerâmica, à frente. Atrás, erguem-se quatro guerreiros grandes de terracota. A terceira unidade encontra-se a norte da trincheira, onde foram desenterradas 22 peças de guerreiros de infantaria de cota. Na perspectiva dos escavadores, a primeira unidade desta trincheira é o compartimento lateral do Sul, a segunda é o compartimento de carruagens e cavalos e a terceira é o compartimento lateral do Norte. A formação dos guerreiros em terracota da terceira trincheira é completamente diferente da formação das primeira e segunda, representando a fila de soldados de guarda que protegem os comandantes na sala interior e todas as armas longas desenterradas são tongshu; as carruagens de combate de madeira na segunda unidade são completamente pintadas a cores, com sombrinha; todos os soldados e passageiros estão com chapéu longo e com um penteado muito diferente do dos passageiros das outras trincheiras. As carruagens também são diferentes. Daí terem os cientistas escavadores concluído que os soldados de infantaria de cota nesta trincheira são guardas armados de Shu, que desempenham a tarefa de vigia; esta trincheira constitui o posto de comando das primeira e segunda, isto é, a chamada “cortina militar”; a primeira, segunda e terceira formam um conjunto. 4. Quarta trincheira de guerreiros e cavalos Esta trincheira fica a norte da primeira, entre a segunda e a terceira, cuja metade Sul foi destruída por inundações. As explorações arqueológicas descobriram que o plano da trincheira é um rectângulo, no sentido Norte--Sul. A norte, encontra-se um espaço com o comprimento de 48 metros, profundidade de 4,8 e uma área de cerca de 4.600 metros quadrados. Dentro da trincheira não se encontram vigas revestidas de terra, no tecto não há madeira e terra tapada, o chão não está revestido de tijolo, e não foram descobertos guerreiros em terracota, nem carruagens de combate e cavalos de cerâmica, o que parece indicar que a construção não está concluída. Esta trincheira não acabada, junto com as outras três, deverá ser um conjunto mais alargado, constituindo uma parte das trincheiras do exército em terracota do lado Leste do Mausoléu do Imperador Qin Shihuang. Alguns cientistas são de opinião que a quarta trincheira era “o grosso do exército” da construção militar simulada. China
  • 32 33CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 35. Construção e destruição pelo fogo das trincheiras do Exército de Terracota Através das escavações arqueológicas e dos estudos científicos realizados, verifica-se que a primeira, segunda, terceira e quarta trincheiras foram feitas durante a construção em grande escala do Mausoléu do Imperador Qin Shihuang, após a unificação dos seis reinos em 221 a.C., dado os métodos e processos de construção serem muito semelhantes. Em primeiro lugar, conforme o plano e o projecto, foi escavada uma trincheira com profundidade de cinco metros, ao longo da qual foi feita uma plataforma de duas escadas, ou seja, taipas, para fortalecer as paredes e suportar as coberturas de madeira; dentro foram construídas várias vigas separadoras para formarem corredores. Depois, foram instaladas chapas rectangulares de madeira ao redor da trincheira e no fundo das vigas. Em cima das chapas de madeira foi erguida uma coluna de madeira. No topo foram colocadas chapas de madeira paralelas às da parte inferior. Sobre as chapas e as vigas foram instaladas densas coberturas, com a parte de cima revestida primeiro por esteiras de junco e depois com argila cinzenta e terra para formar um monte com cerca de 2 m de altura, desde o plano do chão. Dentro das trincheiras, o fundo dos buracos e os corredores foram revestidos de tijolos, de cor verde-cinzenta. No pavimento de tijolo, foram colocados soldados em terracota, cavalos de cerâmica e carruagens de combate de madeira, etc. Concluída esta fase, todas as portas de entrada foram imediatamente seladas com madeira e tapadas com terra, fazendo com que se tornasse uma obra fechada, subterrânea e de estrutura de madeira e de terra. Estas trincheiras, de tamanho grande e médio, utilizaram quase os mesmos métodos e processos de construção. A única diferença é que o pavimento de algumas trincheiras não é de tijolo mas de madeira. A área das trincheiras ultrapassa 20 mil metros quadrados. Segundo as estimativas, o volume das terraplenagens atingiram mais de 100 mil metros cúbicos. Para a construção das três trincheiras acabadas, foram utilizados mais de 8.000 metros quadrados de madeira de pinheiro e cipreste, cerca de 18.000 metros quadrados de esteiras de junco e de bambu e mais de 2.500 mil tijolos para o pavimento do chão. Além disso, foram produzidos mais de 7.000 guerreiros e cavalos de cerâmica de grande dimensão e mais de 140 carruagens de combate de madeira. Quão incrível, é o volume de construção e os custos humanos e materiais envolvidos! Aliás, a história é implacável. Segundo o registo histórico, no sétimo mês de 209 a.C., em menos de um ano após a morte do Imperador Qin Shihuang, explodiu, no Distrito Qi, uma revolução de camponeses, que era chefiada por Chen Sheng e Wu Guang, estendendo-se rapidamente a todo o país, no fim da dinastia Qin. Quando as tropas desse levantamento, comandadas por Zhou Zhang, chegaram perto do rio Xishui, a norte da Montanha Lishan, a construção das trincheiras do Exército de Terracota, inclusivamente toda a obra do Mausoléu do Imperador Qin Shihuang, foi obrigada a parar. ChinaConforme consta na Biografia do Rei Chu Yuan Wang cit. in História de Han: “Ainda não tinha acabado a obra na Montanha Lishan, porém, já chegara um milhão de soldados de Zhou Zhang.” Após o fracasso do levantamento dos camponeses, Xiang Yu e Liu Bang continuaram a levantar a bandeira contra Qin, e conseguiram derrubar esta curta dinastia, no Outono de 206 a.C. Então, começou a “Guerra Chu Han”, que durou 4 anos. Conforme consta nos livros de história, no décimo segundo mês do ano da destruição da dinastia Qin, alguns dias depois do “Banquete de Hongmen”, “Xiang Yu dirigiu as tropas a Oeste até a Xianyang, para fazer o massacre na cidade. Matou o imperador rendido, Qin Ziyin, queimou o palácio Qin, ateou incêndios sem cessar durante três meses” (Registos Históricos – Registo de Xiang Yu). “Destruíram tudo por onde passaram” (História de Han – História de Gao Di). “Xiang Yu, queimou os palácios e templos recém-construídos. Os que por lá passaram fizeram as escavações”. Tempo passado, um pastor perdeu as ovelhas que entraram no túmulo do Imperador Qin Shihuang. O pastor levou uma tocha para as procurar, mas, descuidadamente, pegou fogo e queimou o caixão (História de Han – Biografia do Rei Chu Yuan Wang). Estes eventos históricos e a análise das descobertas arqueológicas, concluíram que, já durante o levantamento dos camponeses, no fim da dinastia Qin e no decorrer da Guerra Chu Han, as trincheiras e até todo o Mausoléu de Qin Shihuang foram destruídos por exércitos e pelo fogo, restando hoje somente entulhos, cinzas, terra queimada…Cavaleiros de terracota (desenterrados da segunda trincheira)
  • 34 35CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3Exército de Terracota, Porte Altivo e Posturas Múltiplas Após 40 anos de exploração arqueológica e de escavações, o formato, a estrutura e o conteúdo do Exército de Terracota do Mausoléu de Qin Shihuang já foram amplamente estudados. De acordo com as pesquisas e as estimativas, o sítio arqueológico contém mais de 7.000 estátuas de guerreiros (incluindo de infantaria e de cavalaria), 140 carruagens de madeira, 560 cavalos, 116 cavalos de cavalaria e 116 guerreiros de cavalaria nas três trincheiras. O número de estátuas de infantaria desenterradas e limpas através de exploração arqueológica supera 2.000; mais de 1.800 na primeira trincheira, 160 na segunda e 64 na terceira. O número de carruagens de madeira atinge 34, das quais 22 são da primeira trincheira, 11 da segunda e 1 da terceira. Tem, ainda, 116 estátuas de guerreiros de cavalaria, todas elas na segunda trincheira. Passaram-se mais de 2.000 anos, e de quase todas as carruagens de madeira sepultadas nas trincheiras só restam ruínas, por causa de incêndio ou de erosão. Porém, as estátuas fragmentadas de guerreiros e cavalos foram preservadas. Após o processo de restauro, as estátuas ainda mantêm um porte altivo e posturas múltiplas, com formas, tamanhos e alturas semelhantes às reais, tanto no que se prende com as carruagens e cavalos assim como com os guerreiros. As figuras são extremamente reais e têm formas muito belas. As estátuas de guerreiros são, principalmente, de infantaria e de cavalaria. No género de infantaria, há de dois tipos: oficiais e soldados. Além dos arqueiros ajoelhados, sobre um só joelho, e dos arqueiros apoiados num pé sobre uma peanha, outras estátuas de guerreiros permanecem de pé, em peanhas oblongas. As estátuas de terracota de cavalos representam animais de carruagem e de cavalaria.1. Oficiais de infantaria As estátuas de oficiais são mais de 40 peças no total, desenterradas da primeira e da segunda trincheiras. De acordo com a sua indumentária, especialmente as cotas e os penteados, representam oficiais de patente alta, média e baixa. Quanto aos oficiais de alta patente, também designados por “general”, só existe uma peça na segunda trincheira, com uma altura de 196 centímetros. Usa um chapéu longo e complexo e duplas cotas coloridas, com aspecto de escama. Nos ombros tem braçadeiras curtas e pequenas para efeitos de protecção. As mangas estão arregaçadas, e as pernas têm grevas. Traz os pés calçados com sapatos de bico quadrado e arrebitado. Tem uma aparência bastante forte e uma face oblonga, com barba cerrada. A expressão do rosto é severa e o porte majestoso. As mãos dispostas sobre o ventre, empunham uma espada. Perto da estátua há uma longa espada de bronze que deveria estar originalmente na mão. Segundo as escavações, deve ser um marechal ou general. Descobriram-se oficiais de patente intermédia tanto na primeira como na segunda trincheira. Usam um tipo de chapéu longo e sapatos de bico arrebitado, e as mãos esquerdas aparentam empunhar uma espada. Existem dois tipos diferentes de indumentária: um é com trajes das minorias nacionais e cota normal, o outro veste traje da etnia Han e armadura peitoral. Devem ser coronéis, ou seja, de posto mais baixo do que os generais. Há uma grande quantidade de oficiais de baixa patente. Em geral, usam um outro tipo de chapéu longo e vestem túnicas. Segundo a indumentária, podem ser de dois géneros: o primeiro é à ligeira, isto é, com cintos, bermudas, grevas e sapatos, empunhando uma espada na mão esquerda, com uma aparência e postura bastante majestosas; e o segundo é com cotas, a saber, com cotas longas e braçadeiras, usando grevas e sapatos ou botas, empunhando arma longa ou arco, com um aspecto valente e decidido. É óbvio que são como os sargentos, comandando os soldados e carregando sobre os inimigos directamente.2. Soldados de Infantaria Os soldados de infantaria são os militares que combatem a pé, sendo de dois tipos: os que pertencem às carruagens e os infantes. Este género de estátua é em maior quantidade e a principal diferença em relação aos oficiais é que não usam chapéu nem capacete e vestem cota curta. Segundo as diferenças de indumentária e equipamento, as estátuas dos soldados de infantaria podem ser divididas em ligeira e pesada. Os soldados de infantaria ligeira têm o cabelo apertado e não usam capacetes. Vestem túnicas com cinto e grevas nas pernas. Nos ChinaGenerais de terracota (desenterrados da segunda trincheira)
  • 36 37CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3pés trazem sapatos ou botas, aljavas às costas e arcos na mão. Normalmente estão à frente ou em torno da formação, com equipamentos ligeiros e convenientes, caminhando bastante rápido. Todos os soldados de infantaria pesada vestem cotas. Geralmente usam túnicas e cotas curtas, com grevas e sapatos ou botas. Aliás, as suas posturas, penteados, equipamentos, etc. são distintos. De acordo com as suas diferentes posições, dividem-se em dois tipos: de pé ou ajoelhados em apenas uma perna. Os de pé são em grande quantidade e normais. Distinguem-se também quanto ao tipo de penteado. Ora usam um carrapito à direita da cabeça, com armas longas ou arcos na mão; ora usam puxos, também com armas longas ou arcos; ora usam carrapitos mas cobertos com um lenço, e empunham um certo tipo de arma longa. Os guerreiros que se encontram ajoelhados, também designados de “arqueiros ajoelhados”, são bastante raros. Geralmente flectem a perna esquerda e ajoelham a direita, com ambas as mãos no lado direito à altura do peito, uma erguida e outra mais abaixo em posição de disparar a seta. 3. Soldados de Cavalaria Os soldados de cavalaria são 116 peças no total, todos estes desenterrados no Centro--Norte da segunda trincheira. A sua formação assume a seguinte disposição: 4 cavalos constituem um grupo, 3 grupos fazem uma ala e 9 alas uma formação oblonga de combate. Os cavalos são de tamanho real. As crinas bem penteadas e as cabeças erguidas. A altura, incluindo a cabeça levantada, é de 172 centímetros e a altura, até às costas, é de 130 centímetros, enquanto que o comprimento é de 2 metros. Nos dorsos dos cavalos há albardas com os dois lados arrebitados ligeiramente, e estes adornados com enfeites em forma de prego. As albardas são decoradas de vermelho, branco, azul, castanho, etc. e a matéria normalmente usada é couro. Também são equipados e decoradas com fitas curtas e fixadas com cilhas. Os cavalos são aparelhados com bridas completas de bronze. Equipamentos todos funcionais. Os cavaleiros ficam no lado esquerdo à frente dos cavalos com uma mão agarrando a rédea e a outra empunhando o arco. A sua altura é por volta de 180 centímetros. A indumentária é distinta da dos soldados de infantaria: usam um tipo de chapéu decorado com figuras em forma de flor, fixado por baixo do rosto com uma fita; vestem casacos curtos com mangas apertadas, cotas curtas com cintos, bombachas e botas.4. Carruagens com Cavalos e Guerreiros Das carruagens de madeira, soterradas nas trincheiras e destruídas por incêndio, erosão ou depressão de terras, só restam ruínas. Porém, após limpezas minuciosas e exames cuidados, a sua forma e estrutura têm sido recuperadas. Cada uma tem apenas uma cabeçalha, com a parte da frente ligeiramente erguida e a parte traseira por baixo. As cabeçalhas são de 3,7 a 3,96 metros de comprimento. As carruagens são de forma oblonga e têm 1,4 metros de largura e 1,2 de profundidade com um corrimão na frente e na porta detrás. Cada uma tem duas rodas com um eixo de 2,5 metros e a distância entre elas é de 1,9 metros. O diâmetro das rodas é cerca de 1,35 metros. As carruagens são todas pintadas, algumas com figuras coloridas. São todas apetrechados com 4 cavalos. As estátuas destes, normalmente, têm 2,1 metros de comprimento e 1,72 de altura incluindo a cabeça. As carruagens e os cavalos estão todos completamente equipados, assemelhando-se às carruagens reais de combate. De acordo com as decorações e os utentes, as carruagens descobertas até agora podem ser divididos em 4 tipos: as de 4 passageiros, dos comandantes, dos ajudantes e normais. As carruagens dos comandantes são usadas pelos oficiais de alta patente e intermédia. Desenterradas da primeira e segunda trincheiras, já foram descobertas 22 desse tipo. São bem decoradas e pintadas inteiramente de preto com figuras coloridas. Têm baldaquinos em cima e instrumentos musicais suspensos. Na carruagem há três estátuas: um general, um cavaleiro e um soldado. O general ergue-se à esquerda, o cavaleiro ao centro e o soldado à direita. Trajam distintamente. O general usa um chapéu, veste camisa vermelha, túnica verde ou violeta, com cota colorida em forma de escama. Veste calças e usa sapatos de bico arrebitado. Possui uma espada longa como arma. O cavaleiro usa, também, um chapéu longo e veste túnica verde coberta e cota longa sem braçadeiras, calças compridas e sapatos. Em pé, de braços erguidos parece controlar as rédeas, olhando para baixo com toda a concentração. O soldado usa um chapéu longo e veste túnica, cota, grevas e sapatos. A mão esquerda segura uma espada enquanto a direita usa uma arma longa, aparentando ser bastante valente. As duas carruagens dos ajudantes foram desenterradas da segunda trincheira. O formato é igual ao dos comandantes, mas sem baldaquino nem instrumentos musicais. Há duas estátuas em cada: um cavaleiro e um soldado. O cavaleiro fica ao centro, com indumentária idêntica à usada pelos cavaleiros das carruagens dos comandantes. O soldado que fica no lado direito, usa chapéu longo e um traje igual ao dos soldados daquela carruagem. Os braços estão dobrados e a arma na mão não é clara. Antigamente, durante as batalhas, as carruagens dos ajudantes seguiam as dos comandantes. No entanto, neste caso, a carruagem do ajudante desenterrada da segunda trincheira está à frente da formação dos soldados de cavalaria. Parece que a sua função é comandá-los. Só existe uma carruagem de 4 passageiros na terceira trincheira, cujo formato é bastante semelhante ao das anteriores, tendo um baldaquino em cima, mas sem instrumentos musicais. Há 4 estátuas nas carruagens: um cavaleiro, um oficial e dois soldados. A postura e a indumentária do cavaleiro é a mesma dos soldados que seguem nas carruagens dos comandantes. O oficial usa um chapéu grande e veste uma túnica vermelha, uma cota com China
  • 38 39CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3margens coloridas, calças longas, grevas e sapatos. A mão esquerda empunha uma espada e há algo pendente da mão direita que não é claro. Os dois soldados vestem a mesma indumentária, usando chapéus longos, túnicas, cotas, grevas e sapatos de bico arrebitado. No entanto, as suas posturas são distintas. Concluiu-se que esta carruagem devia abrir a marcha, sendo “a carruagem avançada”. As carruagens normais, de transporte de soldados, são 9 no total, e todas foram desenterradas da segunda trincheira. O seu formato é o mesmo das carruagens mencionadas atrás, mas sem baldaquino nem instrumentos musicais. À frente há 4 cavalos e atrás 3 estátuas de pé. O cavaleiro fica no centro e os dois soldados nos lados. As suas indumentárias são muito especiais e delicadas. O cavaleiro tem o cabelo amarrado coberto com um lenço e por cima do penteado usa um chapéu comprido. Veste cota longa, com uma braçadeira coberta até ao antebraço. A cota também se estende até à mão e aos quadris. Nas pernas usa grevas. As indumentárias dos dois soldados são iguais, com cabelo amarrado, coberto com lenço, vestindo túnicas, cotas, grevas e calçando sapatos de bico quadrado e arrebitado. Aliás, as suas posturas são frontais. Olhando um para o outro, parecem vivos.5. Equipamentos e Armas Todas as estátuas estão apetrechadas com armas variadas. Através de escavação arqueológica, foram desenterradas mais de 40.000 peças de armas nas três trincheiras, de dois tipos de material: bronze e ferro. As armas de bronze são em grande quantidade e de vários tipos. A maioria delas são cabeças de flecha de grande alcance e arcos. Normalmente, as flechas estão bastante dispersas nas trincheiras, porém, foram desenterradas e agrupadas em conjuntos de 100, num total de 280 grupos. As armas longas são para combate, e incluem lanças, bisarmas, tiras, achas, dardos, etc. No passado, tinham cabos de madeira ou de bambu com 3 metros de comprimento, no entanto, quando desenterradas, a maioria já havia perdido o respectivo cabo devido à erosão. As armas curtas são de autoprotecção e geralmente são espadas longas, mas também existem algumas catanas. São muito raras as armas de ferro; apenas uma lança, duas flechas e outras duas com cabo de ferro e cabeça de bronze. Por isso, podemos concluir que as armas de bronze desempenhavam um papel mais importante e dominante nas actividades militares. No que diz respeito a armas, normalmente, os soldados de cavalaria usavam arcos e flechas e as carruagens eram equipadas com arcos, lanças e achas. Para os soldados de infantaria, os equipamentos são variados. Por exemplo, na primeira trincheira, os soldados à frente, atrás ou nas asas da formação, estão geralmente equipados com arcos, embora alguns também usem espadas. Poucos utilizam armas longas como lança ou acha. No centro da formação, estão equipados com armas longas. Alguns usam espada, enquanto um número reduzido tem arcos. Na parte dianteira da formação da segunda trincheira geralmente dispõem de arcos, e só poucos empunham armas longas. Pelo contrário, no centro da formação, habitualmente, também, têm armas longas.Arte e Tecnologia de Produção do Exército de Terracota A imponência e a diversidade do Exército de Terracota reflectem não só o grande poderio militar da dinastia Qin, mas também o elevado nível da tecnologia de produção das peças em terracota. Através de observações minuciosas e análises científicas, sabe--se que a matéria-prima, argila de olaria, vem do local e que o processo tecnológico é composto por três etapas: modelação, torrefacção e pintura. Na modelação dum soldado cerâmico, prepara-se primeiro uma matriz, fazendo--se em seguida a decoração dos pormenores. Durante o processo da fabricação dessa matriz, adoptam-se diversas técnicas, como enroscamento de tira de argila e moldagem, as quais se combinam e utilizam ao mesmo tempo, produzindo a forma final com peças colocadas de baixo para cima. A base quadrada que suporta o soldado cerâmico é feita com a técnica de moldagem. Às vezes a base e o soldado são fabricados e cozidos em fogo separadamente, sendo juntos depois; outras vezes são feitos ao mesmo tempo, isto é, quando se faz a base, fabricam-se os pés do soldado e de baixo para cima colocam--se as pernas, o tronco e os braços, sendo a cabeça e as mãos feitas separadamente e depois juntas. Os sapatos de soldado são todos modelados à mão. As pernas podem ser ocas ou maciças. As ocas são produzidas com a técnica de enroscamento, enquanto as maciças são feitas com rolos, sendo cortadas depois. Quanto à modelação do tronco, primeiro põem-se em cima das pernas grandes placas de argila para servir de base e sobre elas se coloca o tronco. Alguns deles são feitos de baixo para cima, com a técnica de enroscamento, enquanto outros são divididos pela cintura em duas partes, que são modeladas separadamente e juntas depois. Os braços podem ser produzidos com a técnica de enroscamento ou com a técnica de enrolamento de placa, alguns sendo divididos pelo cotovelo em duas partes, que são trabalhadas separadamente e juntas depois. Concluído, deixam-se secar um pouco e colam-se ao tórax. Para fabricar a cabeça, há principalmente duas maneiras: a primeira é juntar os moldes, ou seja, modelam-se separadamente a metade dianteira e a metade traseira da cabeça e depois colam-se; a segunda é combinação de moldes com modelação manual, ou seja, a metade dianteira é feita por moldagem, enquanto a metade traseira por modelação manual. Pronta, cola-se a cabeça ao pescoço, inserindo-o no tórax. As mãos são feitas separadamente, de variadas maneiras de fabricação, e coladas depois. Feita a matriz, muitas partes precisam de pormenores, com o objectivo de evidenciar os diferentes vestuários, posturas e expressões faciais. Na cabeça, os trabalhos de escultura incidem principalmente nas sobrancelhas China
  • 40 41CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3e nos olhos, sendo as barbas adicionadas através da escultura negativa ou esculpidas sobre uma placa de barro colada na parte inferior da cara. As orelhas são colocadas na cabeça depois de serem modeladas. Os cabelos e as tranças são gravados numa placa aplicada sobre a cabeça ou podem ser também colados ou inseridos nesta após previamente feitos. Os lenços de cabeça, usados pelos soldados, geralmente são trabalhados depois de aplicação de barro por duas vezes, enquanto os chapéus são sempre modelados primeiro e depois juntos à cabeça. Os outros detalhes, nomeadamente roupas, couraças, cintos, grevas, sapatos, botas, etc., ora são trabalhados e modelados directamente sobre o soldado, ora são feitos sobre placas e bolinhas de barro posteriormente colocadas. No que diz respeito à modelação do cavalo, adopta-se o modelo de fabricação separada e junção final. A cabeça é feita à mão com duas ou quatro placas de barro coladas; o pescoço é modelado manualmente com duas placas coladas, uma à esquerda e outra à direita; o tronco divide-se em três partes: coxa, barriga e peito, as quais são juntas num todo, após serem fabricadas separadamente; no fim, o rabo e as pernas são também produzidos à parte, através de modelagem manual. Tudo feito, é preciso deixar as peças secar um pouco antes de as juntar, aplicando depois as placas de barro e batendo repetidas vezes, nos pontos de junção, para consolidar a peça. Finalmente, fazem-se ajustes, decorações e retoques de pormenor. Modelados, soldados e cavalos, são secos e colocados no forno de terracota para serem cozidos, mas a qualidade da cozedura varia bastante. Segundo os exames, os soldados e cavalos amarelos avermelhados e os pretos no exterior mas amarelos no interior, tiveram temperatura de cozedura de cerca de 950º e são relativamente moles e frágeis; enquanto os totalmente de tom cinzento tiveram temperatura de queima entre 1000º e 1050º, obtendo as mesmas cores e brilhos tanto no exterior como no interior, ouvindo-se repiques cristalinos quando são tocados. Passados mais de 2.000 anos, depois de queimadas e corroídas, as estátuas dos soldados e dos cavalos escavados são geralmente cinzentos ou amarelos avermelhados no exterior, igual à cor do interior, vendo-se apenas vestígios de pintura em algumas partes. Na verdade, nesta cerâmica, a pintura é a última e indispensável etapa após a torrefacção, o que aumenta o grau de semelhança ao tom da pele, aos pormenores, roupas e vestuários. De acordo com os exames, a tinta das pinturas são de origem mineral sublimada por gelatina. Nestas estátuas vêem-se mais de 10 cores, sendo as mais comuns o escarlate, cor-de-rosa, verde-claro, azul-claro e ocre. Na pintura, primeiro unta-se o exterior dos soldados e dos cavalos com uma camada de gelatina como base, pintando sobre ela as diferentes cores e veios. Por exemplo, as caras, pés e mãos dos soldados são pintados de cor-de-rosa, as roupas de verde-claro ou de azul--claro, os cabelos e tranças de preto ocre ou de azul cinzento. Em relação à pintura dos cavalos, normalmente os corpos são pintados de cor de vinho, as crinas e os rabos de preto, os cascos de branco, as línguas de cor-de-rosa, os dentes de branco. Na pintura, adopta-se um processo muito simples designada por Pingtu, mas o tom da cor é bem nítido e belo, deixando os soldados e cavalos com um aspecto sadio e aparência natural e viva. De acordo com o que se descobriu sobre caracteres carimbados ou gravados nas figuras e posterior investigação, os artífices do Exército de Terracota provêm ou das oficinas do governo central ou de oficinas populares; porém, todas as oficinas adoptam um sistema supervisor e administrativo “Gravar o nome do artesão na obra, para verificar a credibilidade” (Capítulo Outubro, nos Comentários de História de Lv). Os artesãos, provenientes de diferentes origens, possuem técnicas e estilos artísticos variados. Os da corte têm o manuseamento perfeito de técnicas unificadas, com estilos rigorosos, produzindo soldados potentes com aparências cavalheirescas; enquanto os artesãos populares são mais livres e simples, com estilos variados mas relativamente mais animados e frescos, possibilitando diversidades e diferenças nos pormenores, num padrão geralmente uniforme. Características Artísticas do Exército de Terracota O Exército de Terracota possui quantidades, dimensões e naturalidades absolutamente raras, perfeita concretização não só de civilização material mas também de civilização espiritual, tornando-se uma pérola brilhante da história da escultura da China ou até do mundo. Em termos dos seus estilos e caraterísticas artísticas, salienta--se o realismo, isto é, fez-se o possível para simular os protótipos, criando obras vivas e naturais. O seu realismo revela-se sobretudo na modelação: infantarias, cavalarias, soldados de carruagem, cavalos de carruagem, cavalos de cavalaria, carruagens de madeira, todos imitam os cavalos, carruagens, soldados e oficiais subalternos reais, com alturas e tamanhos naturais. Oficiais subalternos, soldados em pé, soldados ajoelhados, soldados de carruagem, todas as posturas são autênticas. Para os soldados, os chapéus, lenços, roupas, couraças, cintos com gancho, grevas, sapatos e botas; para os cavalos, selas, cordas, faixas, franjas entre outros objectos decorativos; todos procuram ser exactamente iguais aos protótipos, destacando o melhor possível a qualidade do material. São todos réplicas de artigos originais, incluindo as cabeçadas e rédeas dos cavalos, o que aumenta o realismo do Exército de Terracota. Esta autenticidade também se manifesta nas esculturas e gravações pormenorizadas para maximizar as características dos artefactos, em particular a diversidade de personalidades e a mudança de expressões conforme diferentes estatutos e idades dos soldados, sendo mais figurativo, vivo e natural. Tranças, cabelinhos, barbas, sobrancelhas, olhos, expressões faciais, até olhares; fitas, cordas e ganchos de cabelo; veios geométricos nos cintos; tudo parece real pelas modelações e gravações de pormenor. Até a grossura das pernas e a relação anatómica entre músculos, ossos e peles são tão autênticas que “as peles e carnes são claras enquanto China
  • 42 43CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3os ossos escuros”, aperfeiçoadas também por descascadura e gravação. Milhares de soldados cerâmicos, com aparências e ares diversificados, parecem um exército composto de militares vivos, caracterizando-se por natureza e comparação. Embora sejam simples as decorações pormenorizadas dos cavalos, com a ajuda de descascadura e modelação, nota-se a vivacidade nos olhos, nas crinas, nos tendões salientes do peito e nas coxas arredondadas. O realismo do Exército de Terracota ainda se manifesta na pintura e no manuseamento das cores. Quer os soldados quer os cavalos, foram pintados quase sempre com cores naturais. Normalmente, as caras dos soldados são de cor-de-rosa, os olhos de preto com uma camada de branco no fundo, os cabelos, coques, tranças, sobrancelhas e barbas de preto ocre ou de azul cinzento; os corpos dos cavalos são de cor de vinho, as crinas e os rabos de preto e os dentes de branco. Os vestuários dos soldados, incluindo lenços e cintos, têm veios geométricos coloridos que imitam tecidos. Tais engenhosos tratamentos de cores tornam os soldados e cavalos cerâmicos mais vivos e realistas. Naturalmente, sendo o Exército de Terracota uma forma de arte funerária, releva-se ainda um forte contraste e diversidade de cores, a fim de se ajustar à ocasião. Sendo uma obra realista e estática, adopta uma variedade de técnicas esculturais tradicionais chinesas, como por exemplo, moldagem, sobreposição, modelação com os dedos, acumulação, colagem, escultura, gravação, colorização e pintura, com o objectivo de manifestar o mais real possível as posturas, dimensões, formas, ares, cores e materiais, constituindo uma série de técnicas esculturais e um estilo artístico com características tipicamente chinesas, criando um estilo totalmente novo e tornando-se um modelo exemplar da escultura antiga chinesa. Em relação a métodos artísticos, combina--se o notável realismo com outros métodos, nomeadamente a refinação e o exagero. Por exemplo, a cabeça do soldado é pormenorizada enquanto o tronco é mais estilizado, as barbas e as sobrancelhas são obviamente exageradas. O método de exagero também se aplica ao uso das cores, quer dizer, além das cores naturais das figuras e objectos, dá-se muita importância ao contraste e à sua diversidade. Seja como for, o Exército de Terracota não só surpreende o mundo pela sua escala magnificente e estilo grandioso, mas também demonstra ao mundo, por via da arte realista, que evolui da semelhança formal para a semelhança espiritual e que insere animação em silêncio, constituindo um admirável êxito escultural da dinastia Qin, feito há mais de 2.000 anos. Mausoléu Magnífico do Imperador Qin Shihuang e o Seu Complexo Sistema Funerário O Exército de Terracota do Imperador Qin Shihuang impressiona todo o mundo. Desde a sua descoberta, foi considerado “Milagre Mundial e Orgulho Nacional” (conforme discurso do ex-primeiro-ministro de Singapura, Lee Kuan Yew, em 1976), “Precioso Património da Civilização Humana” (conforme discurso do ex-primeiro-ministro da Mongólia, Dashiin Byambasuren, em 1992), único sem comparação. Contudo, está localizado no complexo do Mausoléu do Imperador Qin Shihuang. O Mausoléu do Imperador Qin Shihuang não só é um túmulo imperial, mas também compreende uma esplêndida necrópole e um complexo sistema funerário, composto por um palácio subterrâneo, montículo, cripta, conjunto arquitectónico, numerosos túmulos de familiares, abundantes covas de acompanhantes, etc. O palácio subterrâneo é um espaço fechado onde se enterrou o imperador, que é o núcleo do mausoléu. De acordo com História de Han – Biografia de Liu Xiang, construíram-se três fontes sob o Mausoléu do Imperador Qin Shihuang, “utilizaram-se arcas para formar palácios, gordura para velas, azougue para rios e mares, ouro para adens e gansos bravos. A riqueza da fortuna, delicadeza do maquinismo, formosura das arcas, grandezas do palácio, são incontáveis”. De acordo com a exploração arqueológica, o palácio subterrâneo localiza-se sob o montículo, a 35 metros de profundidade, 170 de comprimento (Leste-Oeste) e 145 de largura (Norte-Sul), cujo centro é a câmara do túmulo, com 80 metros de comprimento (Leste-Oeste) e 50 de largura (Norte-Sul). A câmara está cercada por muralhas, sendo a interior de pedra, com cerca de 30 metros de altura. A profundidade é de aproximadamente 30 metros e tem 4 portas (Norte, Leste, Sul e Oeste), 5 corredores no Leste, 1 no Norte, 1 no Sul e 1 no Oeste. O palácio subterrâneo do Mausoléu do Imperador Qin Shihuang é superdimensionado, complexo e majestoso, onde existem ainda numerosos mistérios por descobrir. O montículo é a construção nuclear sobre a terra, situado no Centro-Sul da cidade interior da necrópole, com forma de cone quadrado. Possui duas camadas ligeiras de encosta. Não há consenso quanto ao tamanho e altura do montículo. Conforme constava na História de Han: Biografia do Rei Chu Yuanwang, “tem mais de 115 metros de altura e mais de 2.070 metros de circunferência”. Segundo a medida real, o presente montículo tem 350 metros de comprimento (Norte-Sul) e 345 de largura (Leste-Oeste), com 1.390 metros de circunferência, 120.000 metros quadrados de superfície e cerca de 55 de altura; tamanho sem comparação com todos os outros mausoléus imperiais da China, pois parece um monte visto de longe. Por isso, o Mausoléu do Imperador Qin Shihuang também se chamava Monte Lishan, e desde então, os mausoléus imperiais da China designam-se por “monte”. Em torno do montículo, foi construída a necrópole e o seu complexo de edifícios subtilmente organizados e delicadamente estruturados. Chamava-se Parque do Monte Lishan, e encontra-se soterrado devido às vicissitudes dos mais de dois milénios. Como revelaram as explorações e investigações arqueológicas, a necrópole é composta por duas cidades quadrilongas no sentido Norte-Sul; a cidade interior tem 580 metros de largura (Leste--Oeste), 1.355 de comprimento (Norte-Sul), 3.870 de circunferência e muralha de 3,5 de largura, com uma zona relativamente independente, com 670 metros de comprimento (Norte-Sul) e 330 de largura (Leste-Oeste), separada por paredes no Nordeste. A cidade exterior tem 2.186 metros de comprimento (Norte-Sul), 971~976 de largura China
  • 44 45CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3(Leste-Oeste), cerca de 6.322 de circunferência e muralha de 7,2 de largura. As duas muralhas têm 9 portas no total, incluindo uma em cada sentido e mais uma na parede separadora (Leste-Oeste), no Nordeste da cidade interior. As portas e estruturas das duas muralhas assemelham-se no geral, mas diferenciam-se nos seus tamanhos. Por exemplo, as portas Sul das duas muralhas têm 65~68 metros de largura (Este-Oeste) e as portas Leste têm 77 (Norte-Sul). Foram construídas torres de vigia no Este, Oeste e Norte, entre as portas interiores e exteriores, que são as mais antigas encontradas até agora nos túmulos imperiais do país. Além disso, para prevenir o impacte das águas subterrâneas e as regas no palácio subterrâneo, montículo e necrópole, foram construídos obstáculos e pontos de drenagem profundos no Sul da cidade interior. Como demonstram as explorações e investigações arqueológicas, existem vários edifícios e arrumos dentro e fora da necrópole. Na base duma construção no Sul da cidade interior e a norte do montículo encontram-se o salão principal, salão lateral, galeria circular, passagem, etc, o que provavelmente servia de quarto. A noroeste da cidade interior, encontram-se dois conjuntos de edifícios, a norte e a sul. O complexo a norte é composto por 4 edifícios alinhados do leste a oeste e o complexo a sul, de 6 edifícios, geralmente considerados como salão de descanso. Um conjunto de ruínas no Norte, entre as portas do oeste, onde talvez tivessem vivido os cozinheiros, é o edifício da cozinha da necrópole mais antigo e o único encontrado até agora. Um outro grupo de ruínas, encontrado a noroeste, entre a cidade interior e a exterior, pensa-se que aí estavam localizados os escritórios para todos os níveis de administradores e criados. De resto, a norte da cidade exterior, à distância de cerca de 1.300 metros, presentemente a aldeia de Yuchicun, encontra-se um conjunto enorme de ruínas contornado por paredes de terra, com uma área de cerca de 80.000 metros quadrados, que deve ter sido os escritórios do governo responsável pela construção do mausoléu. O túmulo de familiares está presente em todos os mausoléus imperiais da antiguidade. Já se descobriram mais de 420 sepulturas e túmulos de familiares relativos à dinastia Qin dentro e fora do Mausoléu do Imperador Qin Shihuang. Há dois conjuntos de túmulos de familiares na cidade interior. Um deles situa-se a noroeste do montículo, sendo um grande túmulo em forma do carácter chinês “Jia (甲)” que tem um corredor inclinado e que, segundo as pesquisas, devia ser o túmulo de Gao, filho do Imperador Qin Shihuang. O outro localiza-se na zona relativamente fechada a nordeste da cidade interior, onde já se descobriram 33 túmulos, cujas sepultadas, provavelmente, foram de concubinas do Imperador Qin Shihuang. Entre a cidade interior e a exterior, um conjunto de túmulos de familiares fica a norte, entre as portas Oeste, onde existem 61 túmulos, formando um cemitério cercado de muros de terra; o outro fica a norte, entre as portas Leste, onde já se descobriram 3 túmulos. Encontram-se vários conjuntos de sepulturas da dinastia Qin fora do mausoléu, incluindo túmulos dos filhos e ministros, familiares do Imperador Qin Shihuang, por exemplo, na Aldeia Shangjiaocun. Mas há mais sepulturas dos construtores do mausoléu, particularmente da dinastia Qin nas Aldeia Zhaobeihu, Aldeia Yaochitou, Aldeia Wushachang, etc. Fazendo parte integrante do mausoléu imperial, as covas de acompanhantes do Mausoléu do Imperador Qin Shihuang são numerosas, distribuídas largamente, em diversas formas e com riqueza de conteúdo, tal como as do Exército de Terracota. Descobriram-se essas covas em torno do palácio subterrâneo. A norte deste existem 7 covas. A N.º 1, possivelmente, tinha a ver com a utilização de carruagens e cavalos. A sul, há 3 covas, ao K0002, com ossadas de animais e fragmentos de armadura, representando certamente actividade ritual, e ao K0006 com soldados de terracota, carruagens de madeira e achas de bronze, representando Tingwei, oficiais no comando da prisão e justiça. A leste, descobriram-se 3 covas e a oeste outras 3: a N.º 1 que, provavelmente, representa o serviço de nutrição e dietética para a corte e a N.º 2, donde se desenterraram duas carruagens, pintadas com um eixo e duas rodas, metade do tamanho real, e condutores de bronze, sendo talvez viaturas de escolta da carruagem do Imperador Qin Shihuang – consideradas a Coroa dos Bronzes da China Antiga por causa da sua estrutura complicada, tecnologia avançada, elaboração delicada, modelo preciso e muito fiel - o que também é único em todo o mundo. Existe, também, uma grande quantidade de covas de acompanhantes entre a cidade interior e a exterior. Descobriram-se 51 a oeste, uma de presépio em forma de régua curva, onde se enterraram cavalos reais e soldados de terracota, 17 de aves preciosas e animais especiais, e donde se desenterraram abundantes ossadas animais, 14 esculturas de soldados sentados e 16 de funeral, etc. Descobriram-se 13 covas no Leste, ao K9801 donde se desenterraram 87 armaduras e 43 capacetes de pedras ligadas por fios de bronze, representando a então armaria; e ao K9901, onde se enterraram 11 esculturas de terracota de acrobacia em tamanho natural e uma grande trípode de bronze, representando as actividades acrobáticas na corte. Há, ainda, vários conjuntos de covas de acompanhantes fora da necrópole: uma situa-se a nordeste da cidade exterior, à distância de 750 metros, ao K0007 donde se desenterraram 46 bronzes de tamanho real de aves, tais como cisnes, grous e gansos bravos em diferentes posturas, e soldados de terracota; outro conjunto a sudeste da muralha, 98 covas de esculturas de soldados sentados, de cavalos, etc.; uma outra, mais localizada a nordeste, a mais famosa, conhecida por a cova do Exército de Terracota. Toda a espécie de covas de acompanhantes, distribuídas dentro e fora da necrópole, compõe o complexo sistema funerário do Mausoléu do Imperador Qin Shihuang, tornando-se o tesouro subterrâneo de cultura, único e singular no mundo.Essência da Civilização Chinesa Construídas há mais de 2.000 anos, as covas do Exército de Terracota do Imperador Qin, e até mesmo todo o Mausoléu de Qin Shihuang, estiveram, ao longo da história, ocultos da humanidade, de costas voltadas e de conhecimento difuso. No entanto, nos últimos 60 anos, após a sua descoberta – nos anos 70 do século XX – o véu misterioso foi sendo levantado China
  • 46 47CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3gradualmente. Consequentemente, o Exército de Terracota apresentou-se ao mundo em todo o seu esplendor magnífico e colorido. Os milhares de guerreiros com expressões faciais individualizadas e de cavalos de terracota e de carruagens de madeira na sua dimensão real, apresentam posturas diversificadas. As esculturas, em estilos naturais, de cores vivas e realistas, proporcionam um forte impacte visual e apelo artístico, com os generais altos e imponentes: os soldados a pé, enérgicos e valentes; os arqueiros ajoelhados, calmos e concentrados; os cavalos altos de cabeça erguida. Estas figuras maravilhosas, de estilo vigoroso, simples e delicado, rico e comovente, de encanto artístico impressionante, são uma verdadeira representação primorosa das realizações e do pensamento estético da dinastia Qin. O Exército de Terracota que marcou uma época na história da escultura chinesa, devido ao seu papel de herança do passado para criar o futuro, não é só um símbolo da grande maturidade das antigas esculturas chinesas, como também constituem uma pérola brilhante e única na história mundial da escultura. As reproduções realistas dos guerreiros e cavalos em terracota, das carruagens de madeira, bem como das armas e dos equipamentos de uso prático, fornecem materiais visuais e preciosos, quer para pesquisa das formas de guerra, constituição dos tipos de soldados, formações e equipamentos militares, quer para estudar as indumentárias, penteados e arreios e ainda para investigar as indústrias de cerâmica, fundição do bronze, siderurgia e equina. As formações Chinamilitares encontradas no subsolo, constituídas por infantaria, cavalaria, carruagens, armas e equipamentos de combate, são variadas, bem arrumadas e magníficas. Sendo consideradas o símbolo da guarnição militar que residia nas proximidades da capital da dinastia Qin, Xianyang, e interpretadas como uma simulação do cenário em que os soldados faziam formações na procissão do funeral do primeiro Imperador Qin Shihuang, as trincheiras do exército de esculturas em terracota são um microcosmo do poderoso trabalho da dinastia Qin, que mantinha numerosos soldados e fortes cavalos. Também são uma representação do grande poderio militar desta dinastia. O Imperador Qin unificou os seis reinos feudais num império administrativamente centralizado e culturalmente unificado. O imperador combateu os Hunos no Norte e os Baiyue no Sul, expandindo os seus territórios. Tudo isto se deveu, sem dúvida, aos soldados corajosos, aos exércitos fortes e ao grande poderio militar, assente num sistema de organização avançado e rigoroso e num mecanismo de funcionamento eficaz. O conjunto complexo do Exército de Terracota é formado por centenas de covas distribuídas dentro e fora do Mausoléu de Qin Shihuang. Estas covas são numerosas, de diversos tipos, de distribuição ampla e de rico conteúdo externo. Neste conjunto, existem exércitos, arsenais, oficiais superiores encarregados das prisões e da justiça e outros símbolos do Estado. Também estão presentes cenários que simulam viagens, caçadas, passeios pelo parque real, entretenimentos de palácio, entre outros. Independentemente do seu tamanho, número ou tipos e conotações, este mausoléu atingiu o ponto Cavalos de cerâmica (desenterrados da segunda trincheira)
  • 48 49CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3mais alto da perfeição, sem precedente, dos túmulos dos imperadores chineses. O conceito arquitectónico e de construção do ”mausoléu que parece cidade” está plenamente reflectido neste local. Ao mesmo tempo, este conceito e forma de construção tiveram influência directa no conjunto das covas do Exército de Terracota do mausoléu do imperador da fase inicial da dinastia de Han Ocidental. Os estabelecimentos, construções, tipos, conotações, bem como o enterramento de guerreiros e de cavalos em terracota derivam totalmente das covas do Mausoléu de Qin Shihuang. Depois de apreciar o Exército de Terracota e as covas, começa a distinguir-se o Mausoléu do Imperador Qin Shihuang. Este mausoléu destacou-se dos túmulos dos imperadores chineses pelo palácio subterrâneo magnífico e complexo, pela escala grandiosa do túmulo e pelas estruturas paralelas de grandes dimensões. Com base no conceito arquitectónico e no sistema de construção dos mausoléus imperiais do período dos reinos combatentes, as construções do mausoléu do Imperador Qin Shihuang tornaram-se mais ricas, desenvolvidas e aperfeiçoadas, criando uma nova era. O túmulo deste imperador foi construído no centro da cidade interior, a sudoeste do mausoléu imperial, abrindo, assim, um precedente na localização de túmulos imperiais no centro do mausoléu. Os portões monumentais das cidades interior e exterior do mausoléu são as construções mais antigas deste tipo que se conhece, servindo de exemplo aos mausoléus posteriormente construídos. Os quartos de dormir, as salas de repouso e outras instalações do mausoléu mostram o grande desenvolvimento do sistema de construção funerária dos antigos imperadores chineses, influenciando os seus descendentes. O sistema de construções de covas secundárias, tanto na cidade interior como na exterior do mausoléu, mudou na época de Han Ocidental, na qual somente foram abertas covas secundárias na cidade exterior dos mausoléus, o que foi seguido nas construções posteriores. Do ponto de vista da civilização material, atingiram o nível inédito no conceito de desenho, na construção e na técnica de artesanato na construção do Mausóleu de Qin Shihuang e dos artigos enterrados, desde o plano da construção, até a uma espada ou a uma ponta de flecha. Obviamente, neste mausoléu que conta com estruturas rigorosas, construções magníficas e ricos artigos enterrados em grande escala, não se limita a ser o túmulo antigo de um imperador. Nele sente-se a grandeza de espírito do primeiro imperador, ambicioso e dominante, e vê-se a dimensão e prosperidade deste grande país oriental, poderoso e com ciência e tecnologia avançadas. Em resumo, as covas do Exército de Terracota e todo o mausoléu do primeiro Imperador Qin Shihuang têm alto valor científico, histórico e cultural. Representam, verdadeiramente, brilhantes realizações da civilização chinesa e são um valioso património cultural da humanidade que orgulha o povo chinês, que o vai continuar a proteger, valorizar e estudar.ChinaREFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:1. Instituto de Investigação Arqueológica da Província de Shaanxi, etc.: Qin Shihuang Ling Bin Ma Yong Yi Hao Keng Fa Jue Bao Gao (1974-1984) (Relatório sobre Escavações da Primeira Trincheira do Exército de Terracota do Mausoléu de Qin Shihuang), Editora de Património Cultural, 1989.2. YUAN, Zhongyi: Qin Shihuang Ling Bin Ma Yong Yan Jiu (Estudo sobre o Exército de Terracota do Mausoléu de Qin Shihuang), Editora de Património Cultural, 1990.3. Museu do Exército de Terracota do Mausoléu de Qin Shihuang, etc.: Qin Shihuang Ling Tong Che Ma Fa Jue Bao Gao (Relatório sobre Escavações de Carruagens e Cavalos de Bronze do Mausoléu de Qin Shihuang), Editora de Património Cultural, 1998.4. Instituto de Investigação Arqueológica da Província de Shaanxi, etc.: Qin Shihuang Di Ling Yuan Kao Gu Bao Gao (1999) (Relatório Arqueológico sobre o Mausoléu do Imperador Qin Shihuang), Editora de Ciência, 2000.5. Instituto de Investigação Arqueológica da Academia das Ciências Sociais da China: Zhong Guo Kao Gu Xue, Qin Han Quan (Arqueologia da China, Volume de Qin Han), Editora das Ciências Sociais da China, 2010.6. Museu do Mausoléu do Imperador Qin Shihuang: Qin Shihuang Di Ling Bo Wu Yuan (Museu do Mausoléu do Imperador Qin Shihuang), 4.ª parte, Editora Popular de Shaanxi, 2014.Breve apresentação do autor:Bai Yunxiang é doutorado em História, vice-director e investigador catedrático do Instituto de Investigação Arqueológica da Academia das Ciências Sociais da China; professor catedrático e orientador de doutoramento do Instituto de Pós-gradução da Academia das Ciências Sociais da China; membro correspondente da Academia do Instituto de Investigação Arqueológica da Alemanha.Texto traduzido por Sofia Zhang Minfen, Licenciada em Língua e Literatura Portuguesas pela Universidade de Estudos Internacionais de Shanghai, Mestre em Língua e Culturas Portuguesas pela Universidade de Macau e doutoranda em História pela Universidade Nova de Lisboa.
  • 51CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 350 CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINATexto de Ma Yong (馬勇) eXu Chao (徐超)A GRANDE MURALHA A Administração Nacional do Património Cultural da China divulgou, em 2012, que é de 21.196,18 km o comprimento total dos troços da Grande Muralha, construídos em diferentes dinastias e distribuídos por Beijing e por mais de 10 províncias, nomeadamente Tianjin (天津), Hebei (河北), Shanxi (山西), Mongólia Inteior, Liaoning (遼寧), Jilin (吉林), Heilongjiang (黑龍江), Shandong (山東), Henan (河南), Shaanxi (陝西), Gansu (甘肅) e Qinghai (青海). Pela sua extensão, foi-lhe dado, desde longa data, o nome de Grande Muralha e em inglês “Great Wall”. Trata-se de uma estrutura que, pela sua magnificência, rivaliza com as grandes Pirâmides do Egipto, tendo sido eleita como uma das dez Maravilhas do Mundo. Em 2009, a Administração Nacional do Património Cultural da China anunciou, pela primeira vez, que o comprimento total do percurso restaurado e conservado, durante a dinastia Ming, da Grande Muralha é de 8.851,8 km. Até aquela dinastia, a Grande Muralha, considerada a mais importante estrutura militar nos tempos antigos da China, ainda mantinha a sua função inicial de defesa das fronteiras. A Grande Muralha simboliza a civilização chinesa. Na antiga China, quer as grandes construções como a Grande Muralha, quer as barricadas nas povoações ou quintas de famílias simples foram, sem dúvida, concebidas exclusivamente para defesa. Do ponto de vista militar actual, a Grande Muralha deixou de ter funções de defesa. Como símbolo de civilização, porém, a Grande Muralha foi eleita Património Histórico Mundial pela UNESCO em 1987, merecendo sempre do Governo chinês grande atenção e cuidado na sua conservação. Actualmente, inúmeras pessoas, vindas dos quatro cantos do mundo, visitam a Grande Muralha. “Quem não visitar a Grande Muralha não se considera homem de verdade”, dizem. Gentes das diferentes etnias do mundo são encorajadas para o mesmo destino – a Grande Muralha, que de uma obra para separar se tornou num local de reunião e de convívio de pessoas das mais diversas proveniências.
  • 52 53CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3ChinaOrigem da Grande Muralha Muitas pesquisas foram feitas por especialistas, antigos e modernos, sobre a origem da Grande Muralha que é conhecida em chinês por “Chang Cheng (長城)”. “Chang” significa “comprida”, enquanto “Cheng” “praça-forte”. A natureza essencial desta estrutura é, portanto, praça-forte. As primeiras praças-fortes nasceram com o aparecimento do regime de propriedade privada. Tinham a função de defesa dos bens privados contra invasões e pilhagens. Os traços, estrutura e configuração das ruínas das antigas praças-fortes da China e do estrangeiro provam esta função. De escavações arqueológicas, foram desenterradas em Chentoushan (城頭山), do distrito de Feng (灃縣), da cidade Chenda (常德), província de Hunan (湖南), ruínas de uma praça-forte redonda, fundações de terra e mesmo casas. Esta descoberta prova ter havido uma grande civilização nas duas margens do Rio Amarelo, no Paleolítico. A praça-forte de Chentoushan tinha o comprimento de 1.000 m. Construída há 4.800 anos, trata-se da mais antiga praça-forte descoberta até agora no país. No Norte, as ruínas mais antigas de uma praça-forte são as de Xishan (西山), de Zhengzhou(鄭州), na província de Henan (河南), que remontam a cerca de 4.000 anos, pertencendo à cultura de Yansho (仰韶). Foram encontradas ruínas das fundações de muitas casas e vestígios de ofertas e alimentos. Esta praça-forte ocupa uma área de cerca de 30.000 m2. A sua muralha de defesa mede aproximadamente 5 m de largura e 3 m de altura. A praça-forte é rodeada ainda por uma trincheira de 7 m de largura. Trata-se de uma estrutura bem apetrechada. Além destas ruínas, também merecem destaque as da praça-forte de Shijiahe (石家河), de Tianmenshi (天門市), na província de Hubei(湖北), que remontam ao período médio-final da cultura de Qujialing (屈家嶺), as da praça-forte de Ziaicheng (子崖城), Jianyoucheng (章丘城), na província de Shandong, que remontam ao período final da cultura de Longshan (龍山), e as de algumas praças-fortes de pedra, na região da Mongólia Interior. Quer no interior quer no exterior das suas muralhas, as praças-fortes eram cada vez mais bem apetrechadas em termos da defesa. Foram construídas torres, pontes levadiças, torres de ângulo, fossos, etc. A China vivia certa instabilidade social durante o período dos reinos combatentes (戰國). Os reinos guerreavam-se com o fim de conquistar terras e povoações uns aos outros, travando batalhas sem precedentes. Para se defenderem das invasões, os governantes lançaram mão de construções defensivas, ligando com muralhas as diversas praças-fortes distribuídas numa área imensa. A Grande Muralha começou, assim, a ganhar forma. Pouco a pouco, foram-lhe adicionadas estruturas acessórias, tais como torres de sinalização por fumaça, entre outras. A Grande Muralha é o resultado do desenvolvimento social e um importante símbolo de civilização.I. Grande Muralha no período dos reinos combatentes (戰國)1. A muralha do reino Qi (齊) A muralha do reino Qi foi construída antes da governação do rei Qiwei (齊威王), nos primeiros tempos do período dos reinos combatentes. Deve ser a muralha mais antiga da China. O Estado Qi foi pioneiro na construção da Grande Muralha. Muito embora esta obra do rei Qiwei tenha sido menosprezada por alguns estrategas dos outros reinos, o seu valor defensivo não podia ser ignorado. Assim, os outros reinos começaram a imitar, dando o pontapé inicial ao longo processo de construção das muralhas, que se estendeu por 2.000 anos, tendo terminado só na dinastia Ming. A muralha do reino Qi foi referenciada quer em “Registos de História (史記)”, “Intrigas dos Estados Rivais (戰國策)”, “Anais de Primavera e Outono dos Lu ( 氏春秋)”, “Notas de Cursos de Água Navegáveis (水經註)” e “Colecção de Terras (括地志)” quer em crónicas de algumas regiões. O reino Qi tinha fronteiras com o reino Yan (燕)
  • 54 55CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3Chinaa Norte, com os reinos Zhao (趙) e Wei (魏) a Oeste, com o reino Chuo (楚) a Sul. A Leste, era mar. Para se defender dos ataques dos reinos Yen, Zhao, Wei e Chuo, o reino Qi construiu 618 km de muralha entre abismos naturais. Iniciada no Rio Amarelo e terminada à beira-mar, esta muralha parte de Jishui (濟水), passando por Feicheng (肥城), Changqing (長清), Taian (泰安), Lichen (歷城), Laiwu (萊蕪), Changqiu (章丘), Boshan (博山), Linqu (臨朐), Yiyuan (沂源), Yishui (沂水), Anqiu (安丘), Juxuan (莒縣), Rezhao (日照), Zhucheng (諸城), Jiaozhou (胶州) e Qingdao (青島), terminando à beira-mar de Langyatai (琅玡台) (de acordo com “Notas de Cursos de Águas Navegáveis”). Pesquisas realizadas demonstram que esta muralha terminava precisamente na actual zona de Huangdao (黃島), da cidade de Qindao. A data exacta do início e do fim da construção da muralha do reino Qi ainda está por determinar. Calcula-se que a sua construção começou mais ou menos durante a governação de Qishuengong (齊宣公) e concluiu na de Qishuenhuan (齊宣王), ou seja, prolongou-se por 100 anos aproximadamente. Existem, hoje, ruínas da muralha do Estado Qi em várias regiões da província de Shandong, como por exemplo em Zibo (淄博), onde ainda se estendem entre as montanhas. 2. Muralha do reino Chu (楚) O reino Chu tinha a maior dimensão entre todos os outros, no período dos reinos combatentes. Tinha fronteiras com os reinos Qi, Wei, Han e Qin. Pelo grande comprimento das suas linhas fronteiriças, não podia deixar de construir muralhas para se defender de invasões. Há especialistas que afirmam que as primeiras paredes do reino Chu foram construídas num local conhecido por Fangcheng (方城), no Período de Primavera e Outono. Esta tese é reforçada com uma referência em “Zuozhuan (左傳)”. As paredes neste local não passam, no entanto, de embrionárias não constituindo a Grande Muralha propriamente dita. A construção das paredes do reino Chu foi, portanto, iniciada no tempo dos reinos combatentes. Os muros do reino Chu foram referenciados em “Notas de Cursos (水經註)” e “Colecção de Terras (括地志)”. Em virtude do grande comprimento das fronteiras, a muralha do reino Chu não constituía um conjunto mas sim vários trechos. Para se defender da invasão do reino Qin no Nordeste, foi construído um trecho de cerca de 100 km de comprimento, entre a Prefeitura de Rang (穰縣) no Sul e a montanha Yiwang (翼望山), passando pela aldeia de Nei(內鄉). Para resistir aos assédios dos reinos Qi, Wei, Han e Zhao, o reino Chu construiu um outro trecho de muralha no sector Leste. Descobertas arqueológicas confirmam que este trecho começa a sul do norte da montanha Tongbai (桐柏山) e termina na montanha de Pingding (平頂山), passando por Biyang (泌陽), Ye (葉縣) e Fangcheng(方城). Tem o comprimento mais ou menos igual ao da muralha Oeste.3. Muralha do reino Yan (燕) Situado a norte, o Estado Yan tinha fronteiras, no Norte, com a região oriental das tribos nómadas Donghu (東胡) e a sul, com os reinos Zhao, Zhongshan (中山) e Qi. Para defender o seu território, o reino Yan construiu duas muralhas respectivamente a sul e a norte. A muralha Sul é referenciada em “Intrigas dos Estados Rivais (戰國策)”, “Registos de História(史記)” e “Notas de Cursos de Água (水經註)”. Começa a montante do rio Yi (易水), estendendo--se para sudeste ao longo deste rio. A partir do Xushui (徐水), vira--se para nordeste, terminando à beira do Rio Amarelo. Mede aproximadamente 150 quilómetros. Pesquisas realizadas demonstram que a muralha Sul foi construída durante a governação do rei Kuai (噲) e do rei Zhao (昭). A muralha Norte é mencionada em “Registos de História (史記)” e “História de Han (漢書)”. Foi construída depois da muralha Sul. No capítulo sobre os Xiongnus (匈奴), “Registos de História” é referenciado que esta muralha começa em Zaoyang (造陽) e termina em Xiangping (襄平), passando por Shanggu (上谷), Yuyang (漁陽), Youbeiping (右北平), Liaoxi (遼西)e Liaodong (遼東). Esta muralha, relativamente maior, mede cerca de 5.000 quilómetros. Deve ter sido construída durante a governação do rei Zhao. 4. Muralha do reino Wei (魏) O reino Wei era vizinho de Zhao, Ji, Chu, Han e Qin. Segundo pesquisas, há duas muralhas desse reino, que se denominavam Muralha Hexi e Muralha Henan, situadas, respectivamente, no planalto da margem oeste do Rio Amarelo e na margem sul da extensão média do mesmo rio. A muralha Wei foi edificada principalmente para protecção contra os Qin, tendo sido construída por molduras de terras e cascalhos e mencionada diversas vezes no “Registos de História (史記)”. O “Registos de História: Registo Próprio do Qin” diz: “O reino Wei construíu uma muralha a norte do Rio Luo de Zheng (鄭濱洛以北) até à Prefeitura Shang (上郡)”. As investigações indicam que Zheng fica na Prefeitura Hua de Shaanxi (陝西華縣). Portanto, a Muralha Hexi começa em Zheng, segue para o norte ao longo do Rio Luo, e termina à beira do Rio Amarelo. A época da construção deve ter sido durante o reinado de Wei Hui. Mede 200 km. A muralha Henan situa-se a meio do território do reino Wei e a sua denominação foi devida ao facto de se situar na margem sul do rio. Posteriormente, por causa da separação do rio, foi dividida em muralha Sul e muralha Norte. A sua orientação é de Norte-Sul. A capital do reino ficava a leste. Vê-se, portanto, claramente que a finalidade da muralha foi defender a capital Daliang (大梁). Esta muralha foi mencionada em “História da Dinastia Han Posterior: Anais das Prefeituras (後漢書郡國志)”: Há muralha em Juan (卷) que vai para Mi (密) passando por Wuyang (武陽). A muralha de Henan é mais curta do que a de Hexi e mede cerca de 100 km. A sua construção deve ter sido durante o reinado de Wei Hui (魏惠王). Além destas duas, o reino Wei construiu ainda mais uma a leste da serra Taihang (太行山)e a norte do Rio Amarelo. Das suas ruínas podemos ver que esta muralha tem uma orientação Norte-Sul. O trecho sito na planície é feito de terra e o da montanha da sobreposição de rochas. Segundo o “Anais de Florestas e Prefeituras (林縣志)”, a muralha liga no sul a Henei (河內) e no norte a Ganyang (淦陽). Também foi construída para protecção dos Qins e mede à volta de 100 km. O período da construção deve ter sido o mesmo das muralhas Henan e Hexi.
  • 56 57CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3China5. Muralha do reino Zhao (趙) Sendo um dos reinos combatentes, Zhao era vizinho dos reinos feudais, Yan, Ji, Wei, Qin. E para defender-se dos ataques dos vizinhos, começou a construir a muralha no tempo da Governação do Marquês Su do Zhao (趙肅侯). O “Registos da História: Família Zhao (史記:趙世家)” dela faz referência. No entanto, as ruínas da muralha do Marquês Su do Zhao não foram descobertas até hoje, pelo que só se conhece a sua situação geográfica através das descrições históricas. Esta muralha de Zhao foi construída na planície do Norte da China e tinha o seu começo no meio da Serra Taihang (太行山) a Oeste, e o seu fim na margem do Rio Amarelo. Além da muralha Sul, e a fim de poder desenvolver-se a norte, o reino Zhao construiu no tempo do Zhao Wuling (趙武靈王) mais uma outra. O “Registos da História: Os Xiongnus (史記匈奴列傳)” faz uma única descrição: “O rei Zhao Wuling (趙武靈王) usou vestidos dos bárbaros, aprendeu a atirar com arco em cavalo e derrotou os Lin Hu (林胡) e Lou Fan (樓煩). Construiu um trecho de muralha que começa em Dai (代) e Montanha Yin (陰山) e termina em Gaoque (高闕), estabelecendo lá as vilas Yungzhong (雲中), Yanmen (雁門) e Daijun (代郡)”. Esta muralha começa em Dai, que hoje se chama Weixian (蔚縣), e estende-se para Gaoque, cuja localização concreta se desconhece hoje. A muralha de Zhao Wuling mede cerca de 500 km e para a sua construção utilizou-se a técnica de fixar terra e cascalhos em molduras, o que se pode verificar ainda nas ruínas.6. Muralha do Estado Zhongshan (中山國) O Estado Zhongshan (中山國) é um Estado feudal muito pequeno, que nunca pôde comparar-se com os sete reinos combatentes. Construir muralha era uma obra que custava fortunas e recursos humanos, o que não seria possível aos Estados pequenos suportar. Portanto, foram poucos os Estados pequenos que construíram muralha. Porém, na indispensabilidade de ter de construir para se defender, há alguns Estados pequenos que se viram forçados a fazê-lo, de entre os quais o Zhongshan. Esse Estado ficava entre Yan e Zhao que actualmente se considera uma posição estratégica entre Shijiazhuang (石家莊) e Baoding (保定). Portanto, o reino Zhao quis sempre ocupá-lo obrigando-o a construir a muralha. Há uma descrição em “Registos de História: Família Zhao (史記:趙世家)” que diz: “Zhongshan constrói uma muralha, no 6.º ano de Marquês Cheng de Zhao (趙成侯)”. Segundo as investigações, a muralha de Zhongshan fica na cidade Baoding (保定) com uma orientação de Norte-Sul. Começa a norte, no Município Shunping (順平) da cidade Baoding, entra pelo Município Tang (唐縣) e termina na cidade Guancheng (灌城), com um comprimento de 68 km.7. Muralha do reino Qin (秦) O reino Qin (秦國) ficava no extremo ocidental. A muralha Qin fica a norte do reino, apresentando uma orientação de Nordeste--Sudoeste. Portanto, podemos ver que a muralha de Qin não foi construída para defesa dos outros reinos do leste, mas contra os ataques dos Xiongnus do norte. A muralha do reino Qin foi referenciada em “Registos de História (史記)” e em “Notas de Cursos de Águas Navegáveis (水經註)”. A construção foi da iniciativa do rei Qinzhao (秦昭王), ficando também, por isso, conhecida por muralha do rei Qinzhao. Situada em Beidi (北地郡), Shang (上郡) e Longxi (隴西郡), sendo a maior parte sita nos primeiros dois municípios. A muralha tem início em Longxi (隴西), passa por Guyuan (固原) e Huanxuan (環縣), terminando à beira sul do Rio Wuding (無定河) da cidade Yulin (榆林). Mede cerca de 750 km.II. Grande Muralha na dinastia Qin (秦朝) As muralhas da dinastia Qin foram construídas quando o Imperador Qin Shihuang (秦始皇) subiu ao trono. Como a construção foi dirigida por Meng Tian (蒙恬), as muralhas da Qin são chamadas de Qin Shihuang ou de Meng Tian. O imperador manteve as muralhas dos outros reinos utilizáveis para a reconstrução, derrubando as consideradas inúteis. Construiu também umas novas que se juntaram às existentes, unificando-as numa só, integrada num sistema defensivo militar. E estas muralhas formaram a estrutura básica da Grande Muralha. Defender contra a invasão dos Xiongnus (匈奴) foi o principal objectivo das muralhas de Qin. As muralhas ao norte do reino Zhao (趙) foram construídas pelo rei Zhao Wu Ling (趙武靈王) para se proteger dos ataques dos Xiongnus, e na altura eram relativamente novas e bem conservadas. O Imperador Qin aproveitou-as mediante uma fácil reconstrução. Estas muralhas do reino Zhao têm um comprimento de cerca de 250 km.
  • 58 59CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3China As muralhas ao norte do reino Yan (燕) serviam de barreira contra as incursões de Dong Hu (東胡) e Xiongnus, e não estavam muito longe das muralhas Zhao. Ligar as duas constituiu uma óptima defesa natural. Portanto, foram aproveitadas as muralhas do reino Zhao situadas em Fengning (豐寧) e Weichang (圍場), e o troço inicial das muralhas Yan foi também o começo das muralhas Qin. O território de Hetao (河套) era a zona mais importante das actividades dos Xiongnus, e, por conseguinte, a zona prioritária da defesa dos Qins. O governo da dinastia Qin expulsou os Xiongnus para norte da Montanha Yin (陰山), e para prevenir o seu regresso, construiu uma nova muralha a norte da Montanha Yin. Com esta nova muralha, mais a do Zhao que ficava a sul da Montanha Yin, os Qins defenderam-se dos ataques dos Xiongnus. Esta nova muralha começa no lado oeste em Bandeira Central Urad (烏拉特中旗), passando por Bandeira Dianteira Urad (烏拉特前旗) para se ligar à muralha Zhao, e tem de comprimento cerca de 410 km. Com a reparação e reconstrução das existentes e construção de novas, a dinastia Qin estabeleceu um sistema completo de defesa de muralhas, as quais começam em Lintao(臨洮) a oeste e terminam em Liaodong (遼東) a leste, com um comprimento de mais de sete mil quilómetros. Este sistema foi aproveitado pelas dinastias posteriores, e produziu efeitos incalculáveis na protecção da agricultura. A sua magnificência e contribuição histórica foram objectos de expressões de sentimento de personalidades, ao longo dos tempos. Por exemplo, os Imperadores Qianlong (乾隆), We Yuan (魏源) e Mao Zedong (毛澤東) entre outros, escreveram poemas a cantar a Grande Muralha. No entanto, a sua construção implicou grandes custos e recursos humanos. Por isso, o Imperador Qin Shihuang foi sempre alvo de críticas negativas em todos os tempos. O autor de “Registos de História”, Sima Qian (司馬遷), critica a construção como um acto de desprezo pelo povo. O conto de Meng Jiangnu (孟姜女) a chorar na muralha à procura do marido, apesar de fictício, comoveu muitas gerações. O poema “Mulher de Qi Liang (杞梁妻)”, de Yang Weizheng (楊維禎), mostrou a grande indignação com a construção da Grande Muralha.III. Grande Muralha na dinastia Han (漢代) A dinastia Han, como uma sucessão e desenvolvimento políticos da Qin (秦), conservou e aumentou a estrutura da muralha. Os Xiongnus (匈奴) continuavam a ser os maiores inimigos do Império. Dada a fraca força militar, no princípio da dinastia Han, aproveitou-se a estrutura da Qin e as muralhas deixadas pelos reinos combatentes como defesa dos ataques dos Xiongnus. Podemos verificar mais detalhes no livro “A história da Dinastia Han: Os Xiongnus (漢書匈奴傳)”. As principais zonas de defesa são os territórios de Yin Shan (陰山) que se estendem de Hohhot (呼和浩特) a Baotou (包頭). Com base nas muralhas do reino Zhao (趙國) e da Qin (秦), o Governo da Han construiu torres de sinalização de fumaça e ali colocou forças militares. Actualmente, muitas ruínas destas fortificações foram já descobertas por arqueólogos. No período do Imperador Han Wu (漢武帝), o poderio nacional aumentou possuindo suficiente força de contra-ataque para enfrentar os Xiongnus. Então, o imperador mandou osgenerais Wei Qing (衛青) e Hu Qubing (霍去病) para combater os Xiongnus, que, contudo, tiveram de fugir. Desde então, “a sul do deserto não há mais corte real dos Xiongnus” e os territórios da dinastia Han tornaram-se mais alargados. Para evitar o retorno dos Xiongnus, construíram-se linhas de fortificação nas zonas mais nortenhas, incluindo duas muralhas quase paralelas, que foram feitas pelo General Xu Ziwei (徐自為) e recentemente descobertas por arqueólogos, e tinham orientação Noroeste--Sudeste. A muralha do norte começa em Wu Chuan (武川), atravessando a Bandeira Darhan Muminggan (達爾罕茂明安旗), Bandeira Central Urad (烏拉特中旗) e Bandeira da Rectaguarda Urad (烏拉特後旗), e entra na província GobiSul (南戈壁省) da Mongólia, tendo um comprimento de 577 km. A do sul também começa em Wu Chuan, atravessando Guyang (固陽), a Bandeira Darhan Muminggan, Bandeira Central Urad e Bandeira Traseira Urad, e entra na província Gobi Sul da Mongólia, medindo 808 km. Estas duas muralhas exteriores foram muitas vezes mencionadas nos livros de história, oferecendo um notável valor estratégico de defesa na era do Imperador Han Wu e anos posteriores. Além das muralhas acima citadas, na dinastia Han também foram construídas muralhas nas zonas do Rio Shule (疏勒河), onde antigamente habitavam os povos Wusun (烏孫) e Yuezhi (月氏). Depois destes se terem mudado para ocidente, as zonas foram ocupadas pelos Xiongnus. Portanto, estas muralhas também foram construídas para defesa contra a invasão dos Xiongnus. As muralhas nas margens do Rio Shule têm uma orientação Leste-Oeste, com um comprimento total de 556 km. Os materiais utilizados foram salgueiros vermelhos, caniços, areias e pedras, parecendo betão armado da construção moderna, mostrando a grande invenção do antigo povo trabalhador.IV. Grande Muralha na dinastia Wei do Norte (北魏長城) Conforme a “História da Dinastia Wei (魏書)”, o governo da dinastia Wei do Norte construiu muralhas contra a invasão dos Rourans (柔然). Uma destas é a muralha Tai Chang (泰常), cuja construção se iniciou no 2.º mês do 8.º ano do reinado Tai Chang no sul de Chang Chuan (長川). A muralha começou em Chang Chuan, estendendo-se para Wu Yuan (五原) a oeste e para Chi Cheng (赤城)a leste, num comprimento total de cerca de 1.000 km. Além da muralha Tai Chang, o Governo do Wei do Norte construiu ainda a muralha Liu Zhen(六鎮), sita nas seis vilas a norte do monte Yin Shan (陰山), criadas após a derrota dos Rourans pelo Imperador Wei Shizu (魏世祖). No entanto, desconhecem-se ao certo os seus nomes. A muralha Lu Zhen começa em Guyang (固陽), passando por Wu Chuan (武川) e Bandeira Darhan Muminggan (達爾罕茂明安旗) e termina em Feng Ning (豐寧), com um comprimento total de 500 km. Conforme a “História da Dinastia Wei (魏書)”, os Weis iniciaram em 466 d.C. a construção da Muralha de Ji Shang Sai Wei (畿上塞圍) que se encontrava nos arredores da capital imperial para sua protecção. Portanto, era uma muralha de defesa, começando em “Shang Gu (上谷),
  • 60 61CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3Chinaestendendo a oeste para o rio e abrangendo uma área de mil quilómetros”. Shang Gu era uma prefeitura e o rio é o Rio Amarelo. Por isso, esta muralha começa na Prefeitura Shang Gu e termina nas margens do Rio Amarelo, com um comprimento de 500 km.V. Grande Muralha na dinastia Wei do Leste (東魏) Havia constantes guerras entre os reinos do Wei do Leste (東魏) e do Wei do Oeste (西魏), com derrotas e vitórias para ambos os lados. Os orientais começaram a construir muralhas para se proteger dos ataques dos ocidentais. Conforme a “História da Dinastia Wei”, no primeiro ano de Wu Ding (武定), Gao Huan(高歡) reconstruiu a muralha a norte de Si Zhou(肆州). “Começa do oeste de Ma Ling Shu(馬陵戍) e estende-se para Tu Deng (土磴) a leste, terminando a construção em 40 dias”. Trata-se de uma muralha de orientação Sudoeste-Nordeste, com um comprimento total de 100 km, de pequena envergadura. No oitavo ano de Wu Ding, Gao Yang (高洋), filho de Gao Huan, usurpou o trono do Wei do Leste, e estabeleceu o império de Ji do Norte(北齊). Segundo “História das Dinastias do Norte: Ji do Norte (北史北齊書)”, Gao Yang reconstruiu várias vezes as muralhas. No 3.º ano de Tien Bao (天保), reparou a muralha de Huang Lu Ling (黃櫨嶺) e a She Yu Shu (社于戍); no 6.º ano, de You Zhou (幽州) a Yu Geng Zhou (于恒州); no 8.º ano, a dupla muralha dentro das muralhas de Ku Luo Ba (庫洛拔) até Wu Ge Shu (塢紇戍). As muralhas de Gao Yang tiveram um comprimento de cerca 1.000 km.VI. Grande Muralha na dinastia Sui (隋) A dinastia Sui (隋朝) teve uma curta duração que demorou apenas duas gerações. No entanto, perante a constante ameaça dos povos nómadas do norte, nunca deixou de construir muralhas. Comprova-se a construção de Muralhas do Imperador Sui Wen (隋文帝) nos livros de história. Diz o “Mapas e Registos de Prefeiturase Municípios do Reinado Yuanhe (元和郡縣圖誌)”: “A muralha de Sui começa em 40 km a norte de Hexian (合縣), passa por Youzhou (幽州) a leste e estende-se por mil quilómetros, tendo sido construída no 16.º ano de Kai Wang (開皇) seguindo os traços existentes.” Esta muralhado Imperador Sui Wen começa em Hexian (合縣) e termina em Youzhou (幽州), e foi construída com base nas estruturas existentes, medindo de comprimento cerca de 440 km. Além disso, a “História da Dinastia Sui (隋書)” diz: “O Imperador Sui Wen mandou trinta mil operários para construir muralhas na localidade entre Shuo Fang (朔方) e Ling Wu (靈武), as quais se estendem a leste para o Rio Amarelo, a oeste para Sui Zhou(綏州) e a sul para Bo Chu Ling (勃出嶺), com um comprimento de 700 quilómetros. No ano seguinte, tornou a mandar o ministro Zhong Fang (仲方) construir com cento e cinquenta mil operários vários municípios ao longo das muralhas a leste de Shuo Fang (朔方), para se defender das invasões das tribos nómadas do norte.” Após a subida ao trono do Imperador Sui Yang (隋煬帝), as ameaças fronteiriças não se atenuaram, pelo que o imperador teve que continuar a construir muralhas. Conforme relata o “Livro da Dinastia Sui: Imperador Yang (隋書煬帝紀)”: “No 3.º ano de Dai Ye (大業), mandou mais de um milhão de operários para construir muralhas, que se estendem de Yu Lin (榆林) a oeste e para o Rio Zi (紫河) a leste, tendo as obras sido concluídas em dez anos e morrido cento e cinquenta a cento e sessenta mil operários”. Estas muralhas têm uma orientação de Leste-Oeste e um comprimento de cerca de 120 km.VII. Grande Muralha na dinastia Tang (唐) A dinastia Tang (唐) tem um poderio nacional muito forte. Depois de derrotar o Canato Turco(突厥), estabeleceu o Protectorado de Beiteng(北庭都護) e o Protectorado das Regiões Ocidentais (西域都護) e, por conseguinte, os territórios nacionais tornaram-se muito vastos. Adoptou-se uma política aberta que atraiu muitos povos para o país. Praticamente, as muralhas não foram necessárias. No entanto, descobriram-se recentemente nos municípios de Menyuan (門源) e Minhe (民和), na Província Qinghai (青海), ruínas de muralhas antigas, as quais após pesquisas se verificou que foram construídas na dinastia Tang contra a invasão dos Tibetanos (吐蕃). Estas muralhas são pequenas e têm poucos quilómetros de comprimento. Por isso, os habitantes locais chamam-nas de muros fronteiriços (邊牆).VIII. Grande Muralha na dinastia Liao (遼) Segundo a “História da Dinastia Liao (遼史)”, foi construída uma muralha durante a Governação de Yelu Abaoji (耶律阿保機), em Zhendong Haikou (鎮東海口). Houve sempre discórdia racial entre os Kitai (契丹) e Bohai (勃海). Portanto, estas muralhas foram construídas contra os Bohai, para cortar as ligações entre os Bohai e a dinastia Tang. Conforme investigações efectuadas, estas muralhas ficam num terreno estreito com uma largura de 5 km entre o Golfo de Dalian (大連) e Jinzhou (金州), sendo de grande importância estratégica, por poder travar o avanço dos Bohai para o norte. Além das muralhas, os Liaos construíram Urkos (烏爾科), que na língua mongol significa muralha, nas zonas de Hulumbuir (呼倫貝爾) da Mongólia Interior, Baikal Exterior (外貝加爾) na Rússia, e as Províncias Orientais e de Kentii na República da Mongólia. No entanto, como não são muralhas no seu verdadeiro sentido, mas trincheiras, não vamos falar sobre isso.IX. Grande Muralha na dinastia Jin (金) A fim de resolver os problemas fronteiriços, os Jins (金) construíram duas muralhas, uma na zona de Yanbian (延邊) e a outra em Mudanjiang(牡丹江), as quais são pequenas em relação às outras muralhas. De harmonia com o livro “Antigas cidades de Hunchun (琿春古城考)” e “História da Dinastia Jin (金史)”, houve sempre disputa territorial entre os Jins e os Jurchens (女真). Os Jins construíram muralhas ao longo de Hunchun (琿春), Yanji (延吉), Helong (和龍) e Longjing (龍井), incluindo trincheiras paralelas, o que as torna diferentes das outras muralhas dos Jins. O troço de Hunchun não está ligado ao de Yanji, Helong e Longjing. O comprimento destas muralhas é de cerca de 100 km. A outra muralha da dinastia Jin fica no meio das serras a norte da cidade de Mudanjiang, com
  • 62 63CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3Chinaum comprimento de 50 km, que actualmente serve de linha divisória entre as cidades Mudanjiang e Hailin (海林). Esta muralha foi construída segundo a situação geográfica e é praticamente feita por sobreposição de pedras, e só nas extremidades é ligada com barro. Do outro lado, na margem oriental do lago Jingpo (鏡泊湖), há uma muralha feita de pedras, com uma orientação Leste-Oeste e um comprimento de 600 km.X. Grande Muralha na dinastia Ming (明) As muralhas dos Mings (明) são de todos muito conhecidas e as mais bem conservadas de todas as muralhas da China Antiga. A sua boa conservação é devida à melhoria técnica da construção e ao pouco tempo de existência. Por outro lado, a posterior dinastia Qing não lhes causou grandes danos. Vários troços das muralhas dos Mings tornaram-se famosas atracções turísticas, nomeadamente as muralhas de Badaling (八達嶺), de Shanhaiguan (山海關) e de Jiayuguan (嘉峪關). Conforme a “História da Dinastia Ming (明史)”, a ameaça fronteiriça foi bastante grave e, por conseguinte, os Ming empenharam-se fortemente na construção de muralhas, pelo que temos hoje a oportunidade de apreciar esta magnífica obra. As muralhas na dinastia Ming eram chamadasde muros fronteiriços, tendo a de Liaodong (遼東) sido a primeira dos Mings. A muralha de Liaodong está situada na Província Liaoning (遼寧), que foi construída para defesa das zonas do leste do Rio Liao (遼河) da incursão dos mongóis e jurchens. As muralhas foram detalhadamente referidas nos livros históricos “Registo de Liaodong (遼東志)” e “Registo Completo de Liaoning (全遼志)”. Neste, as muralhas dividiam-se em 18 troços minuciosamente discriminados no que respeita à altura, orientação,estrutura, materiais utilizados, etc. Estes dados são importantes índices para o estudo das muralhas de Liaodong. Basicamente, as muralhas têm uma orientação Leste-Oeste, com início a leste em Yalujiang (鴨綠江) e término a oeste em Tiechangbao (鐵場堡), e apresentam uma forma de “M”. Os muros foram feitos de barros, rochas, madeira ou ainda aproveitando a situação geológica das montanhas. Estas muralhas medem de comprimento 627 km. As primeiras muralhas de Liaodong foram construídas no troço central, i.é, de Guangning (廣寧) a Kaiyuan (開元), nos anos de Yungle (永樂), sob a direcção de Deng Yu (鄧鈺). Depois, vem a construção do troço ocidental, de Tiechangbao (鐵場堡) a Guangning, nos anos de Zhengtong (正統), por Bi Gong (畢恭) e, finalmente, do troço entre Kaiyuan a Yalujiang, nos anos de Chenghua (成化). Para defender a cidade capital, o Governo dos Mings construíu as muralhas nas zonas de Jizhen (薊鎮), Xuanfuzhen (宣府鎮), Datongzhen(大同鎮) e Taiyuanzhen (太原鎮), as quais se dividem em interiores e exteriores, feitas de granitos ou tijolos, e muito fortificadas. As famosas muralhas de Badaling (八達嶺) e Mutianyu (慕田峪) encontram-se no sector de Jizhen. De acordo com o “Registo de Quatro Municípios e Três Postos de Fronteira (四鎮三關志)”, as muralhas de Jizhen vão do Posto de Fronteira Shanhai até ao de Juyong (居庸關), tendo uma orientação de Sudeste-Noroeste e um comprimento total de 716 km. Mais pormenores encontram-se inscritos no referido “Registo de Quatro Municípios e Três Postos de Fronteira”, segundo os quais estas muralhas estão divididas em 11 troços maiores e subdivididas em 27 subsectores. As muralhas de Xuanfuzhen mostram uma orientação de Nordeste-Sudoeste, começando no Rio Xiyanghe (西陽河) e terminando em Sihaiye (四海冶), em Yongning (永寧). Trata-se do subsector mais nortenho das muralhas dos Mings. Na parte meridional desta muralha, há uma outra que começa a leste em Huanghuazhen (黃花鎮) e acaba no Posto Longguan (龍泉關). Trata-se de uma muralha interior de Xuanfuzhen(宣府鎮). Estas muralhas interiores e exteriores têm um comprimento total de 680 km. Temos também registo detalhado da muralha de Datongzhen (大同鎮), no “Memorando de Construção de Muros Fronteiriços (修築邊墻疏)”, segundo o qual as muralhas começam a oeste em Yajiaoshan (丫角山) e acabam a leste em Zhenkoutai (鎮口台) do Rio Dongyang (東陽河), e têm um comprimento de 310 km. Actualmente, estas muralhas servem de fronteira entre
  • 64 65CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3Shanxi (山西) e a Mongólia Interior (內蒙古). As muralhas de Taiyuanzhen (太原鎮) denominam-se também muralhas de Shanxizhen (山西鎮長城). Segundo a “Compilação dos Memorandos Imperiais da Dinastia Ming (明經世文編)”, estas muralhas começam em Baodezhou (保德州), à beira do Rio Amarelo, e estendem-se a leste para o Posto Pingxing (平型關), com um comprimento de 505 km. A construção das muralhas de Yulinzhen(榆林鎮) está relacionada com a constante incursão dos mongóis nas zonas de Hetao (河套). Conforme relata a “História da Dinastia Ming(明史) ” , a construção destas muralhas foi dirigida por Yu Zijun (余子俊), nos anos de Chenghua(成化). Começam a leste em Qingshuiying (清水營) e acabam em Dingbianying (定邊營) com um comprimento de 850 km. Porém, estas muralhas não são rectas, mas em forma de V, por causa da situação geológica e das muralhas Qin. Hoje em dia, já é difícil encontrar vestígio das mesmas. As muralhas de Ningxiazhen (寧夏鎮) são, relativamente, muitas, entre as quais se destacam as de Hedong (河東), cuja construção foi dirigida por Xu Tingzhang (徐廷章). De acordo com a “Compilação dos Memorandos Imperiais da Dinastia Ming (明經世文編)”, estas muralhas estão ligadas às de Yulinzhen a leste, em Huamachi(花馬池), e acabam em Huangheju (黃河咀), com um comprimento de 387 km. A série de muralhas situadas a leste das montanhas Helan ou Alashan (賀蘭山), em Hexi (河西), foram construídas para defesa contra as invasões dos mongóis e para proteger a agricultura nas planícies da Ningxia (寧夏). Esta série inclui as do sudoeste de Yinchuan(銀川), construídas no tempo de Chenghua (成化), as quais começam em Shuangshannan (雙山南) e terminam nos limites de Guangwu (廣武); as do sudoeste de Ningxia, também construídas nos anos de Chenghua; as do norte, que incluem duas muralhas paralelas, com início a leste, na margem do Rio Amarelo, e término nas montanhas Helan (賀蘭山). Segundo cálculos, as muralhas de Ningxiazhen têm um comprimento de 690 km. As muralhas de Guyuanzhen (固原鎮) foram construídas perante as constantes ameaças de agressão mongol, pelas montanhas Helan. De acordo com a “Compilação dos Memorandos Imperiais da Dinastia Ming”, estas muralhas estão divididas em antigas e novas. As antigas começam em Raoyang (饒陽) e terminam em Xubinzhui (徐斌水), e as novas vão de Xubinshui a Wushazhou (嗚沙洲), contando ambas com um comprimento total de 690 km. Temos também duas muralhas em Gansu(甘肅), uma no Norte e outra no Sul, convergindo para a cidade de Wuwei (武威). A do Sul é umaextensão das muralhas de Guyuanzhen (固原鎮) que começam em Jingyuan (靖遠縣), atravessando Lanzhou (蘭州) e Tienzhu (天祝), e terminam em Wuwei (武威). A finalidade da sua construção é para prevenir a invasão dos tártaros (韃靼) e é mais antiga. A do Norte é a extensão das muralhas de Ningxia que se iniciam na margem do Rio Amarelo de Jingtai (景泰), da província Gansu, e acabam na cidade Wuwei, tendo sido construídas para a defender dos ataques dos mongóis e, portanto, mais tarde. As duas têm um comprimento total de 525 km. As muralhas a leste de Wuwei foram construídas no tempo de Jiajing (嘉靖) e em anos posteriores, para proteção contra os tártaros e tribos piratas (瓦剌). As muralhas dos Mings foram feitas sobre as existentes, porque assim se pouparam tempo e recursos humanos. Portanto, nas muralhas de Gansu, as da época dos reinos combatentes e da dinastia Qin fizeram parte importante delas. Nas muralhas novas, construídas pelos Mings, as de Jiayuguan (嘉峪關) são as mais famosas, situando-se a extremidade ocidental na parte mais estreita do corredor de Hexi (河西走廊) e numa posição estratégica militar, um lugar ideal de pastagem. Para proteger estas zonas, foram construídas três muralhas com um comprimento de cerca de 83 km. Além das muralhas no norte, foram construídas na dinastia Ming muralhas no sul. Conforme o “Registo de Hunan (湖南通志)”, consta que foi construída uma muralha em Chenzhou (辰州) para defesa fronteiriça. No entanto, desconhecem-se mais pormenores. De um modo geral, as muralhas dos Mings atravessam nove prefeituras do norte, indo de Yalujiang, em Liaodong, a leste até Jiayuguan, em Gansu, a oeste, com um comprimento total de 5.787 km. A sua magnificência firmou a estrutura final das muralhas posteriores, ficando como um coleccionador das muralhas de todos os tempos.XI. Grande Muralha da dinastia Qing (清) A dinastia Qing foi estabelecida pelos Manchus (滿洲人) depois da sua invasão da China. Por experiência própria, conheceram que as muralhas já não tinham a função defensiva como outros pensavam, porque eles mesmos não foram impedidos por elas. Portanto, o Governo dos Qings não deu importância ao valor defensivo das muralhas, pelo que não houve qualquer nova construída. Nos anos de Shunzhi (順治) e Kangxi (康熙), construíram-se “muros fronteiriços de Shengjing(盛京邊牆)”, em Jilin (吉林) e Liaoning (遼寧) que na verdade foram valas, sobre as quais se plantaram salgueiros para impedir a erosão das terras, e por isso, também chamadas de “valas de salgueiros (柳條邊)”. Conforme relata o “Registos de reconstruções de Jiaqing (嘉慶重修一統志)”, os muros fronteiriços de Shengjing começam em Fenghuang (鳳凰城) e terminam no Posto Shanhai(山海關). Estes muros destinavam-se a separar a zona de agricultura da de caça, sem ter uma função defensiva e portanto não são muralhas no verdadeiro sentido do termo.China
  • 67CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 366 CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3MACAUA PRESERVAÇÃO DO CENTRO HISTÓRICO DE MACAU, PATRIMÓNIO DA HUMANIDADEResumo:O Centro Histórico da cidade de Macau foi classificado pela UNESCO como património da humanidade em Julho de 2005. Este trabalho procura explicar o alto significado desta decisão, apoiada pela República Popular da China e por Portugal, e lembra o percurso seguido até à aprovação desta importante proposta e as responsabilidades assumidas, desta feita, pelo Governo da Região Administrativa Especial de Macau, na preservação e valorização do legado histórico, cultural e arquitectónico, num tempo de espectacular crescimento físico e financeiro do território que exige das autoridades e da comunidade, em geral, um enorme sentido de equilíbrio.Texto de Jorge A. H. Rangel Ruínas de S.Paulo.Todas as fotografias deste capítulo foram gentilmente cedidas pelo Instituto Cultural de Macau.
  • 69CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 368 CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3MacauA decisão da UNESCODepois de várias tentativas inconsequentes iniciadas na década de 80 do século passado, a UNESCO aprovou formalmente, no dia 15 de Julho de 2005, a designação do Centro Histórico de Macau como património mundial, permitindo a concretização justa de uma velha aspiração de muita gente ligada à cidade da costa da China que Portugal administrou até Dezembro de 1999. Culminou-se, desta feita, um longo processo conduzido desde o mandato do Governador Vasco de Almeida e Costa (1981-86), que mandou preparar uma bem fundamentada proposta1 para submeter à apreciação daquele organismo internacional. Não tendo merecido a concordância da República Popular da China, ela foi sucessivas vezes reformulada, durante os mandatos dos Governadores Joaquim Pinto Machado (1986-87) e Vasco Rocha Vieira (1991-99), até que, após a transferência de poderes em Macau, quiseram as próprias autoridades chinesas patrocinar uma versão reformulada da proposta e fazer saber do seu grande interesse em que ela fosse aceite, considerando-a mesmo prioritária no conjunto de outras propostas por si formuladas.Apesar do muito que se perdeu, por incúria dos homens ou por inclemência do tempo, sentiu-se, nas décadas de 70 a 80, a urgência na definição de uma política consistente, que permitisse proteger o património arquitectónico e cultural numa altura em que a expansão imobiliária conhecia um rápido desenvolvimento e aumentava a pressão sobre as zonas mais velhas e nobres da cidade. Os Governadores Nobre Carvalho e Garcia Leandro dedicaram ao assunto a maior atenção e, em 1982, foi criado um novo organismo público – o Instituto Cultural de Macau2, onde se integrou a Comissão para a Defesa do Património3, com competências reforçadas e apoiado por um departamento próprio, ao qual foram facultados recursos muito mais alargados.1 A proposta foi precedida de um estudo realizado por uma equipa pluridisciplinar coordenada pelo Arq.º Tomás Taveira. Não obstante os apoios de Portugal, através da sua representação permanente junto da UNESCO, ela não chegou a ser apreciada no seio daquela Organização Internacional. 2 O Instituto Cultural de Macau foi criado pelo Dec.-Lei n.º 43/82/M, de 4 de Setembro, com a natureza de Instituto Público, dotado de autonomia administrativa e financeira, competindo-lhe apoiar o Governo do Território na formulação e execução da política de cultura e investigação científica, promover a preservação dos valores da cultura portuguesa no Território e a sua difusão nas vizinhas áreas geográficas, promover a difusão da língua portuguesa e as relações culturais com povos do Extremo Oriente, incentivar e apoiar manifestações artísticas e culturais ligadas à vivência intercultural luso-chinesa, contribuir de forma activa para a preservação do património cultural do Território, fomentar acções de formação e reciclagem dos investigadores e dos vários agentes culturais, e promover e apoiar acções de intercâmbio cultural.3 A Comissão foi reformulada pelo Dec.-Lei n.º 56/84/M, de 30 de Junho, passando a designar-se Comissão de Defesa do Património Arquitectónico, Paisagístico e Cultural e ficando com competências mais alargadas.Templo de A-Má.
  • 70 71CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3Mais importante ainda foi a identificação, pela via legislativa4, dos monumentos, sítios e conjuntos a preservar, a que se seguiram acções de sensibilização junto da população em geral, mas especialmente dirigidas à juventude, para a consciencialização de toda a comunidade para o esforço colectivo de valorização do precioso legado de muitas gerações que, naquele espaço único, protagonizaram o mais fecundo e duradouro encontro entre o Oriente e o Ocidente.O legado é, basicamente, português e chinês, complementado com elementos de muitas outras origens, constituindo um testemunho visível de pluralismo cultural. O Centro Histórico de Macau reflecte bem este intercâmbio de formas, estéticas e valores, numa coexistência continuada e com uma dinâmica que se prolongou até aos nossos dias, a ponto de as praças, as ruas e os edifícios manterem, em larga medida, as suas funções e vocações tradicionais.A inscrição do Centro Histórico de Macau na Lista do Património Mundial foi a 31.ª da República Popular da China, que, com pragmatismo, tem sabido reconhecer aquela que é a verdadeira mais-valia de Macau: a sua ligação ao vasto mundo lusófono, com o qual aquele país quer manter relações 4 Em anexo do Dec.-Lei n.º 56/84/M, de 30 de Junho foi publicada a relação dos monumentos, edifícios, conjuntos e sítios classificados. 5 Estes Jogos foram da responsabilidade da Associação dos Comités Olímpicos de Língua Portuguesa (ACOLOP).privilegiadas. Vem a propósito lembrar que foi sediado na cidade de Macau o secretariado permanente do Fórum para a Cooperação Económica e Comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa, tendo sido também ali realizados, em Outubro de 2006, os I Jogos da Lusofonia5, congregando atletas seleccionados pelos Comités Olímpicos daqueles Países para competirem em dez modalidades desportivas, tirando proveito dos recintos construídos para os IV Jogos da Ásia Oriental, disputados em Macau em 2005, com reconhecido sucesso.Macau é, desde 20 de Dezembro de 1999, uma Região Administrativa Especial da República Popular da China e a sua população pode orgulhar-se do papel desempenhado por este velho entreposto comercial e cultural na História da China e do mundo. A presença de Portugal deu-lhe características singulares, físicas e humanas, e possibilitou-lhe um relacionamento especial com a Europa e com os territórios onde chegou o abraço armilar luso. Por isso, a cidade continua a acolher grandes reuniões internacionais, algumas das quais ligadas a organismos portugueses, como o Congresso da Associação Portuguesa de Imprensa, em Dezembro de 2005, e vários Encontros da Associação das Universidades de Língua Portuguesa, sendo até apropriado salientar que a presidência desta Associação foi confiada à Universidade de Macau em 2014. Instituições locais, académicas, culturais, sociais e económicas mantêm, por outro lado, uma presença activa em acontecimentos relevantes do mundo lusófono, compreendendo o contexto útil que permitiu o seu desenvolvimento, com uma ambição e uma capacidade que tiveram sempre uma dimensão muito superior à sua limitada geografia.Templo de A-Má.Macau
  • 72 73CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3MacauO Centro Histórico da CidadeO Centro Histórico de Macau abrange todo o tecido urbano que vem dos primórdios da cidade, englobando praças e largos, como os da Barra, do Lilau, de Santo Agostinho, do Senado, da Sé, de S. Domingos, da Companhia de Jesus e de Camões, as ruas adjacentes e uma sucessão de monumentos integrados neste espaço, como o Tempo de A-Má, anterior ao estabelecimento dos portugueses, dispondo de vários pavilhões dedicados a diferentes divindades e representando exemplarmente a diversidade da cultura chinesa nas suas vertentes confucionista, budista e tauista; o Quartel dos Mouros, edificado em 1874 na Colina da Barra com elementos arquitectónicos de influência mourisca; o Lilau, que foi um dos primeiros bairros residenciais típicos dos portugueses de Macau; a Casa do Mandarim, complexo residencial tradicional construído no século XIX para alojar uma importante personalidade chinesa; o Seminário e Igreja de S. José, base histórica da acção missionária na China e no Japão; as Igrejas de S. Lourenço, Santo Agostinho e S. Domingos e a Sé Catedral, recordando a pujança da acção missionária no Oriente; o Teatro D. Pedro V, o primeiro teatro de estilo ocidental na China, construído em 1860; a Biblioteca Sir Robert Ho Tung; o edifício do Leal Senado, com o Salão Nobre e a sua linda biblioteca; a Casa de Lou Kau, velha residência de um abastado mercador chinês; o Templo de Sam Kai Vui Kun, situado no antigo bazar chinês; a Santa Casa da Misericórdia, fundada pelo primeiro Bispo de Macau, em 1569; o pequeno templo de Na Tcha, mesmo ao lado das Ruínas de S. Paulo, o ex-libris de Macau; a chamada Casa Garden e o seu jardim envolvente; o Cemitério Protestante, onde estão sepultadas muitas figuras ligadas à Companhia Inglesa das Índias Orientais e um exemplo do cosmopolitismo da cidade; a Fortaleza da Guia com a Capela e o Farol, o primeiro edificado na costa da China; um troço das Antigas Muralhas de Defesa da cidade, construídas a partir de 1569; e a Fortaleza do Monte, que foi a principal estrutura defensiva da cidade, levantada pelos jesuítas entre 1617 e 1626.Nesses monumentos está espelhada uma História multissecular que caberá às novas gerações respeitar e assumir. A inclusão de Macau na Lista do Património Mundial constituiu também uma homenagem a essa História e representou para as autoridades locais a assunção duma responsabilidade perante o mundo, de conservação do património deixado aos jovens de hoje, naturalmente apostados na edificação da sociedade do futuro, mas sabendo que não haverá porvir estável sem memória e sem reconhecimento.MACAU - PATRIMÓNIO MUNDIALCentro Histórico de Macau
  • 74 75CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3Critérios para a classificaçãoO Comité do Património Mundial da UNESCO toma as suas decisões com base em rigorosos critérios de avaliação. De acordo com as suas regras, para que um monumento, conjunto ou sítio possa merecer a classificação de “património mundial”, deve ele representar uma obra-prima do génio criador humano, ser exemplo de um importante intercâmbio de valores humanos num período de tempo definido ou dentro de uma determinada área cultural, fornecer um testemunho único ou de carácter excepcional sobre uma tradição cultural ou sobre uma civilização que ainda exista ou que tenha desaparecido, oferecer um exemplo excepcional de um tipo de construção, conjunto arquitectónico, tecnologia ou paisagem, que seja representativo de uma ou mais etapas significativas da História da Humanidade, constituir um exemplo excepcional de conglomerado humano ou de utilização territorial que seja representativo de determinada cultura ou culturas, ou estar directa ou tangivelmente associado a acontecimentos ou a tradições vivas, a ideias, a crenças, a obras artísticas e literárias que tenham significado universal excepcional. Após a aprovação, os bens classificados podem usar o emblema do Património Mundial da UNESCO. A Convenção para a Protecção do Património Mundial Cultural e Natural foi adoptada em Novembro de 1972, na 17.ª Assembleia Geral da UNESCO, realizada em Paris, tendo já sido ratificada por 180 países6. Coube à República Popular da China fazê-lo em Dezembro de 1985, após o que, logo em 1986, apresentou as propostas respeitantes à Grande Muralha, ao Palácio Imperial das dinastias Ming e Qing em Pequim, ao sítio do Homem de Pequim em Zhoukoudian, às Grutas de Mogao em Dunhuang, ao Mausoléu do Primeiro Imperador Qin e ao Monte de Taishan, para inclusão na lista da UNESCO. A aprovação foi obtida em 1987.Após a inscrição do Centro Histórico de Macau, na 29.ª sessão do Comité do Património Mundial, a China viu aumentada para 31 a totalidade dos seus monumentos e sítios classificados pela UNESCO.O emblema do património mundialTodos os monumentos e lugares que fazem parte da lista do património mundial podem usar um emblema próprio. Consiste num círculo, representando o mundo e simbolizando a protecção global do património pertencente a toda a Humanidade e os dons da natureza. Dentro dele está um quadrado, representando o produto da capacidade técnica e da inspiração humanas. O círculo não é completamente fechado, abrindo-se na parte inferior em duas linhas que se ligam ao quadrado, para simbolizar a interdependência entre a diversidade natural e cultural. Envolvendo exteriormente o círculo está, em várias línguas, a designação “património mundial”.Macau6 A Convenção para a Protecção do Património Mundial Cultural e Natural foi adoptada em Novembro de 1976, mas o Comité do Património Mundial só foi fundado quatro anos depois, em Novembro de 1976. O primeiro grupo de doze sítios foi inscrito na Lista do Património Mundial em 1978.Acções complementares necessáriasÉ louvável o esforço feito pelas autoridades da Região Administrativa Especial de Macau no sentido de preservar e valorizar o legado histórico e cultural. Em fases de impressionante desenvolvimento, em que a cupidez impera, sendo a obtenção do lucro fácil e rápido um objectivo imediato e generalizado, não é fácil manter os equilíbrios necessários com vista a garantir a protecção do património, ameaçado pela abundância de novas construções, pelo reaproveitamento de todos os espaços disponíveis e pelo sobredimensionamento de novas estruturas, comerciais, turísticas e recreativas, que podem contribuir para uma acelerada descaracterização dos sítios e conjuntos. Macau atravessou um desses períodos ao longo das duas últimas décadas. O sentido de equilíbrio nas decisões políticas nestas áreas e na elaboração dos planos urbanísticos é, pois, absolutamente indispensável.Importa, por outro lado, que haja um esforço conjugado de todos os organismos públicos, cada um no seu âmbito, fazendo o que estiver ao seu alcance para corresponder à expectativa que a decisão da UNESCO legitimamente veio suscitar, aumentando os níveis de exigência na limpeza da cidade, procedendo à regular conservação dos monumentos e áreas adjacentes, cuidando das zonas verdes envolventes, disciplinando um trânsito por vezes caótico, tomando medidas cada vez menos adiáveis neste domínio, ampliando e cuidando adequadamente das zonas pedonais, proibindo o uso incorrecto dos largos e vias integrados no Centro Histórico, tantas vezes invadidos por tendinhas e outras construções temporárias que agridem a estética e prejudicam a circulação de pessoas, prestando mais atenção às vendas ambulantes e à mendicidade e regulando o uso de cartazes e letreiros publicitários nos mesmos. É também indispensável o desenvolvimento de programas de animação compatíveis, a fiscalização rigorosa de restaurantes e lojas, um urbanismo menos ganancioso e um controle mais eficaz da poluição sonora, visual e atmosférica. Há, pois, mesmo muito que fazer. Estes não são, contudo, problemas específicos de Macau. Todos os países com monumentos e sítios classificados também os confrontaram e, com maior ou menor sucesso, procuraram para eles as melhores soluções ao seu alcance. E, sem mais demora, também é preciso encontrar um equilíbrio correcto entre o turismo de massas, porventura excessivo para a exiguidade7 do espaço territorial de Macau, e um turismo de qualidade, que estará mais ao seu alcance se nele se investirem prioritariamente e se a obsessão com os números puder ser atenuada. É que já nem há espaço para os imensos autocarros de turismo estacionarem, nem as estruturas de acolhimento têm condições para receber as multidões que vão chegando, dia e noite, ao terminal marítimo ou que atravessam a fronteira terrestre, que é uma das mais concorridas do mundo.7 A área total de Macau, já incluindo as ilhas e os novos aterros e outros em preparação, é cerca de 30 Km² apenas.
  • 76 77CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3Quando Macau apresentou a sua proposta à UNESCO, devia saber que estava a assumir responsabilidades agora irrecusáveis perante aquela organização internacional e perante o mundo. Importa, pois, que saiba merecer a distinção, sendo interessante registar a pressão positiva que algumas organizações não governamentais e grupos de cidadãos vão exercendo na defesa de um património cujo valor é cada vez mais reconhecido. E é uma satisfação registar o interesse da juventude de Macau na defesa exigente de um património que é, hoje, cada vez mais sentido e assumido como sendo seu, porque sabe que ele é um elemento caracterizador da sua própria identidade. Monumentos e lugares classificados, integrados no Centro Histórico de Macau• Templo de A-Má – Localizado no Largo da Barra, este é o templo mais antigo de Macau, sendo anterior à chegada dos portugueses. É um dos locais mais visitados da cidade. O topónimo Macau deriva do nome deste templo. A-Má é a deusa protectora dos pescadores e das gentes ligadas ao mar, sendo muito venerada pela população de Macau e pelas comunidades chinesas espalhadas pelo mundo. • Largo da Barra – Zona pedonal vistosamente pavimentada com calçada portuguesa, as suas pedras estão dispostas num padrão ondulante simulando a corrente do rio. Tem como principais atractivos o Templo de A-Má e o Museu Marítimo de Macau e confina com a marginal do Porto Interior.Macau• Quartel dos Mouros – Construção de influência mourisca, de meados do século XIX, é a sede da Capitania dos Portos de Macau, depois de ter funcionado como quartel. Está implantado entre os Largos da Barra e do Lilau. • Largo do Lilau – Centro de um velho bairro macaense de traça portuguesa, as edificações têm merecido constante preservação. Ali funcionou a lendária Fonte do Lilau ou do Nilau. Rezava a tradição que quem bebesse a água que dela brotava ficaria eternamente ligado a Macau.• Casa do Mandarim – Casarão edificado no início da segunda metade do século XIX, foi a residência de uma importante figura literária chinesa, de nome Zheng Guangying. O estilo é chinês tradicional, mas estão nele incorporados elementos ocidentais e indianos. Situa-se a dois passos do Largo do Lilau.• Igreja de S. Lourenço – É uma das três igrejas mais antigas de Macau. Edificada originalmente em meados do século XVI, a sua configuração actual data de 1846. A sua imponente fachada apresenta um estilo neo-clássico, com alusões ao barroco, e o edifício é circundado por um aprazível jardim.• Seminário e Igreja de S. José – Principal escola de formação missionária na costa da China, o seminário foi construído em 1728 e a igreja, de estilo barroco, trinta anos depois. Uma longa escadaria liga a igreja à velha Rua do Seminário e as suas traseiras confinam com o Largo de Santo Agostinho.• Largo de Santo Agostinho – Este largo, situado num ponto alto da cidade, é pavimentado com calçada portuguesa e concentra vários edifícios classificados, como a Igreja de Santo Agostinho, o Teatro D. Pedro V, o Seminário de S. José e a Biblioteca de Sir Robert Ho Tung. Ali está também um nicho com uma bonita imagem de Nossa Senhora do Imaculado Coração. • Igreja de Santo Agostinho – Foi construída primeiramente em madeira por padres agostinhos em 1586, mas a sua estrutura presente é de 1874. A entrada é flanqueada por colunas de granito e outras colunas suportam no interior o tecto em abóboda. A igreja guarda uma das mais belas imagens de Nosso Senhor dos Passos, cuja procissão anual é uma das mais participadas.• Teatro D. Pedro V – Construído em 1860, em homenagem ao Rei D. Pedro V de Portugal, a sua fachada neo-clássica só foi adicionada em 1873. Foi o primeiro teatro de estilo ocidental na China. O escritor inglês Austin Coates classificou-o como um dos mais belos pequenos teatros do mundo. Ali foram levados a efeito importantes eventos cívicos e culturais.• Biblioteca de Sir Robert Ho Tung – Edifício de finais do século XIX, foi residência de personalidades abastadas, entre as quais Sir Robert Ho Tung, influente magnata de Hong Kong, que o ofereceu em testamento ao Governo de Macau, em 1955, para nele funcionar uma biblioteca pública, a qual foi oficialmente inaugurada em 1958. • Edifício do Leal Senado – De estilo arquitectónico distintamente luso, ali funcionaram o velho Senado de Macau e a Câmara Municipal, sendo agora sede do Instituto para os Assuntos Cívicos e Municipais. Construído em 1784, foi profundamente remodelado em 1874. Ali está instalada, desde 1929, uma vistosa biblioteca com um valioso acervo de obras publicadas do século XVII a meados do século XX, muitas das quais relacionadas com a presença de Portugal no Oriente. O Salão Nobre e o pequeno jardim interior, bem como as suas galerias de exposições, são muito visitadas.• Largo do Senado – É o centro urbano de Macau. Zona pedonal por excelência, por ali transitam, diariamente, muitos milhares de pessoas, incluindo multidões de turistas. Circundam-no velhos edifícios de estilo colonial e a praça está pavimentada com calçada portuguesa, sobre a qual foi instalado um repuxo ostentando uma esfera armilar.• Santa Casa da Misericórdia – Fundada em 1569, à semelhança das velhas Misericórdias Portuguesas, ainda hoje funciona como instituição de solidariedade social. O edifício foi construído em meados do século XVIII, mas a sua estrutura neo-clássica actual data de 1905. Nele está instalado um museu com um rico acervo que permite entender a missão da Misericórdia. • Igreja da Sé – É a catedral de Macau, sendo ali realizadas as principais cerimónias religiosas católicas. Construída em 1622, é dedicada à
  • 78 79CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3Virgem Maria. A fachada ostenta janelas com vitrais. Sob o altar estão sepultadas as exéquias de bispos dos séculos XVI e XVII.• Largo da Sé – Circundam-no vários edifícios pertencentes à Diocese, incluindo o Paço Episcopal, além da Sé Catedral. • Casa de Lou Kau – Edifício de dois pisos, com características tradicionais chinesas de finais do século XIX, foi residência do abastado comerciante Lou Kau. No interior encontramos uma mistura de estilos, sendo notório o contraste entre as janelas de estilo manchú e gelosias portuguesas. Fica numa velha travessa que liga os Largos da Sé e de S. Domingos. • Largo de S. Domingos – É um prolongamento do Largo do Senado, zona pedonal e comercial por excelência. A Igreja do mesmo nome confere-lhe uma dimensão que surpreende os milhares de turistas que por ali circulam.• Igreja de S. Domingos – Foi originalmente construída em 1587 por padres dominicanos. Tem merecido das autoridades locais um esforço de conservação notável. É por muitos considerada a igreja barroca mais bonita do Extremo Oriente. Alberga um pequeno museu com uma colecção de mais de 300 artefactos católicos.• Ruínas de S. Paulo – “Ex-libris” de Macau, este monumento figura amplamente em cartazes, folhetos e documentários de promoção turística. A antiga igreja da Madre de Deus, construída entre 1602 e 1640, fez parte do histórico Colégio de S. Paulo, que foi a primeira universidade de modelo ocidental do Extremo Oriente. Foi destruída num incêndio ocorrido em 1835, restando-lhe apenas a imponente fachada, a escadaria monumental e a maior parte das fundações. Essa fachada, que exibe uma mistura de estilos orientais e ocidentais, é um verdadeiro “sermão em pedra”.• Largo da Companhia de Jesus – É o patamar de acesso pedonal à escadaria monumental fronteira às Ruínas de S. Paulo. Alguns edifícios ali implantados são de finais do século XIX e primeiro quartel do século XX.• Troço das Antigas Muralhas de Defesa da Cidade – Mapas antigos revelam que toda a cidade esteve rodeada por uma muralha e por fortalezas, cuja construção data de meados do século XVI. Este troço classificado fica junto das Ruínas de S. Paulo e do templo de Na Tcha. • Templo de Na Tcha – Construído em 1888, é consagrado a Na Tcha, divindade muito venerada pela população chinesa. Faz um contraste arquitectónico muito interessante com outras edificações desse local, exaltando o multiculturalismo que caracterizou a cidade ao longo de séculos. • Fortaleza do Monte – A maior fortaleza de Macau, com uma área de cerca de dez mil metros quadrados, teve um papel decisivo na defesa da cidade, repelindo as invasões holandesas. Foi construída entre 1617 e 1626. Nela funciona presentemente o Museu de Macau, de visita obrigatória, sendo aquele amplo recinto um local privilegiado pelas suas vistas panorâmicas. • Largo de Camões – Tem à sua volta o Jardim de Camões, onde se encontram a célebre gruta e o busto do imortal vate, a Igreja de Santo António, o Cemitério Protestante e a Casa Garden.• Casa Garden – Velho casarão do século XVIII, que foi residência de verão de comerciantes e filantropos, é uma das mais belas casas de Macau. Funcionou ali o Museu Luís de Camões, cujo espólio integra hoje o Museu de Arte de Macau, sendo agora o escritório da delegação da Fundação Oriente.• Cemitério Protestante – Ligado à Companhia das Índias Orientais, foi o primeiro cemitério protestante de Macau. A capela foi construída em 1821. Ali estão sepultados militares, sacerdotes, comerciantes e artistas ingleses, americanos, alemães e holandeses, sendo o seu mais célebre morador o famoso pintor George Chinnery.• Igreja de Santo António – É uma das mais antigas igrejas de Macau, tendo sido construída entre 1558 e 1560. O edifício actual é uma reconstrução feita na década de 1930, efectuada após um incêndio que a devastou em 1874. A procissão de Santo António junta todos os anos muitos fiéis. • Fortaleza e Farol da Guia – Construída em 1622, a fortaleza integra a bonita Capela de Nossa Senhora da Guia e o famoso Farol da Guia, ainda em funcionamento. É o ponto mais alto da cidade, com vista ampla sobre as ilhas adjacentes e a foz do Rio das Pérolas. Macau
  • 80 81CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3Templo de A-Má.Macau
  • 82 83CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3MacauQuartel dos Mouros.
  • 8584 CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3Largo do Lilau.
  • 86 87CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3Casa do Mandarim.Macau
  • 8988 CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3Igreja de S. Lourenço.Seminário de S. José.Macau
  • 9190 CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3Largo de Santo Agostinho.Teatro D.Pedro V.Macau
  • 9392 CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3Biblioteca Sir Robert Ho Tung.Macau
  • 94 95CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3Igreja de S. Agostinho.Macau
  • 96 97CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3Edifício do Leal Senado.Macau
  • 98 99CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3Largo do Leal Senado.Macau
  • 100 101CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3Templo Sam Kai Vui Kun.Santa Casa da Misericórdia.
  • 103CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3102Igreja da Sé.
  • 105104 CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3Casa Lou Kau.
  • 106 107Igreja S. Domingos.
  • 108 CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3Templo Na Tcha.Ruínas de S. Paulo.
  • 111CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3110MacauTroço das Antigas Muralhas de Defesase Templo Na Tcha.Fortaleza do Monte.
  • 112 113Igreja de Santo António.
  • 115114 CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3Casa Garden.Cemitério Protestante.
  • 116 117Fortaleza da Guia.
  • 119CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3118 CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3ANGOLAM´BANZA KONGO, ANTIGA SÃO SALVADOR DO CONGO (província do Zaire, Angola)A – Breve enquadramento histórico do temaNa introdução à análise da antiga São Salvador / Mbanza Congo, a desaparecida, original e única cidade de origem trecento-quatrocentista no interior do território africano, desenvolvida nesta época sob influência europeia, há que referir, sucintamente embora, algo sobre as características das cidades de influência portuguesa em África e noutros locais da Expansão Marítima lusa.Há que dizer pelo menos que a esmagadora maioria dessas pequenas urbes expansionistas de Quatrocentos (e logo depois, de Quinhentos) se constituíam em ocupações litorais, em que os seus construtores se implantavam aproveitado as enseadas, as baías abrigadas e as angras, fosse dos litorais costeiros continentais, fosse das linhas de costa das ilhas, mais vizinhas (Goreia) ou isoladas e distantes dos continentes (Funchal na Madeira, Vila do Porto nos Açores, Ribeira Grande em Cabo Verde). Também se devem referir as implantações fortificadas da costa marroquina (Ceuta) e magrebina, e as do Golfo da Guiné (São Jorge da Mina), onde igualmente se procurava por sistema a localização litorânea.Deste modo, observe-se quão diferenciada destes modelos habituais, por ser localizada bem adentro do espaço territorial interno, foi a implantação de São Salvador do Congo, situação certamente justificada e explicada pela sua génese – que foi independente e prévia em relação à presença portuguesa – se relacionar com as características específicas de uma outra cultura, local com uma autonomia, personalidade, história e vivência próprias – a da comunidade negra do chamado Reino do Congo.Mapa de África com a área de jurisdição da antiga “Diocese de Congo e Angola”, sediada em S.Salvador (doc. do arquivo de JMF)Texto de José Manuel Fernandes
  • 120 121CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3Mas há também aspectos, nas caracteristicas físicas e materiais identificáveis na urbe de São Salvador, que são comuns aos das restantes cidades de influência ou marca portuguesa da época, implantadas em outros locais das ilhas do Atlântico e de África. Tais são os tipos construtivos e estilísticos, além de funcionais, das principais edificações monumentais e equipamentos instalados: a igreja, o palácio, a fortaleza, a prisão e o cemitério - sinais de religião, de modo de organização social e cultural, que se importaram para o Congo, e cujos vestígios vamos encontrar no remanescente actual de São Salvador / Mbanza Congo.O arquitecto Fernando Batalha (1908-2012) foi quem ao longo do século XX estudou o legado fundamental de São Salvador, executando até pesquisa arqueológica. Este estudioso analisou a preciosa gravura representando a cidade, publicada na obra de O.Dapper, Description de l´Afrique, com edição holandesa de 1676. Nela se vêem e nomeiam as obras do “Palácio do Rei”, das “Igrejas”, e da “Cidadela” (cf.Batalha, 2006, op.cit., p.27): “O palácio real tem altura que corresponde a dois andares, é quadrangular e está circundado por uma muralha reforçada por contrafortes. A cidadela é uma construção compacta e volumosa, que também aparenta estar rodeada por um muro; na sua proximidade há uma torre que termina em plano horizontal. Uma das igrejas apresenta telhado de duas águas e não tem campanário; duas outras têm torres terminando em pirâmides (...)”. Actualmente localizada adentro do território de Angola, nos vastos espaços para o interior norte de Luanda, mas pertencendo na época de sua fundação ao Reino do Congo, o qual foi cristianizado a partir do século XV e XVI, tendo porém mantido a sua independência - a cidade de São Salvador do Congo / Mbanza Congo, era, anteriormente à chegada dos navegadores e colonizadores portugueses, a capital edificada pelo povo local, desde o século XIV. A presença portuguesa iniciou-se em Quatrocentos, culminando já no século seguinte, em termos materiais, com a edificação de uma igreja, em 1548 – depois elevada a catedral em 1596. Um grande investigador contemporâneo dos temas africanos e congoleses, John Thornton, refere-se deste modo sintético à cidade de São Salvador (in Património / África....op.cit, 2010, pp.470-471, tradução): “Mbanza Kongo situa-se no topo de um planalto de encostas escarpadas, com cerca de cinco quilómetros quadrados, a cerca de 520 metros de altura e 60-80 metros acima da planície envolvente. Possui uma vista abrangente a partir de todos os seus pontos e é facilmente acessível mediante uma estrada que o sobe a partir do lado sudeste. Ao longo desta estrada, existiam várias nascentes que no passado forneciam água à cidade.(...) A construção da cidade de Mbanza Kongo (“Cidade do Congo” em kikongo, cuja ortografia oficial é M’Banza-Kongo) iniciou-se provavelmente no século XIV, embora possam existir no local vestígios mais antigos que ainda não tenham sido alvo de adequada exploração arqueológica. A cidade já era a capital do Congo quando os portugueses chegaram à África Central em 1483 e, na altura, o seu núcleo principal era descrito como tendo as mesmas dimensões de Évora. De qualquer forma, tratava-se da maior cidade da África Central e encontrava-se entre as maiores do continente. Atualmente, é a cidade habitada mais antiga a sul do Equador”.Vemos assim que se tratava de uma urbe originalmente importante, com uma tradição própria, implantada por essa razão no interior, em área planáltica, defensável, no âmago de uma vasta região habitada pela comunidade que a edificou inicialmente.Prossegue John Thornton, na sua descrição de síntese sobre esta cidade: (in Património/ África..., 2010, op. cit.,p.470-471): “Os portugueses que iam viver e trabalhar no reino do Congo habitavam normalmente no seu próprio bairro em Mbanza Kongo, e trabalhavam na administração ou no exército reais do Congo. Outros eram mercadores ou prestavam funções em cargos eclesiásticos. No entanto, o Congo continuava a ser um reino independente, rechaçando as invasões portuguesas desencadeadas a partir de Angola em 1622, 1657 e 1670. Após o batismo do rei Nzinga a Nkuwu como João I em 1491, e em particular durante o reinado do seu filho Afonso I (1509-1542), o Congo tornou-se um reino cristão e adoptou o ensino em português, criando um sistema de escolas e igrejas ao longo do país que utilizavam o português como língua de instrução. Afonso e os seus sucessores construíram vários edifícios, incluindo um palácio e uma série de AngolaVista geral de Mbanza Congo, a rua principal (foto João Loureiro, 2010)
  • 122 123CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3igrejas em pedra. Em 1621, foi fundado no Congo um colégio jesuíta com uma biblioteca, que continuou a funcionar até 1678. (itálico nosso) Embora o kikongo continuasse a ser falado no quotidiano, uma grande parte da elite do Congo falava e lia em português e tinha adotado os costumes e vestuário portugueses, de forma que os visitantes se referiam por vezes ao Congo como um país ´ladino´. Henrique, filho de Afonso, foi nomeado bispo em 1518 e a própria cidade foi declarada sede episcopal em 1596. Em conformidade com a natureza cristã da cidade, o rei D. Álvaro I (1568-1587) começou a referir-se oficialmente à capital como São Salvador, utilizando como nome da cidade a designação dada à igreja principal (fundada em 1548). O nome continuou a ser usado oficialmente no Congo até a cidade ser rebatizada como Mbanza Kongo, após a independência de Angola, em 1975”. Este trecho de Thornton permite avaliar como a cidade, embora de origem africana, se foi adaptando à situação específica, muito original - e única na região - de urbe não só bi-cultural (social, política e institucionalmente euro-africana), como também bi-religiosa (aceitando a missionação cristã a par da presença dos cultos locais), constituindo portanto uma comunidade pioneira (num certo sentido, claro) do futuro multiculturalismo neste continente.Nas fases mais recentes de evolução, São Salvador manteve a sua existência e personalidade, embora perdendo o fulgor de antiga capital do Reino do Congo. Thornton de novo nos explica os principais eventos e evolução da urbe até aos nossos dias (in Património / África..., 2010, op. cit.,p.470-471): “Em meados do século XVII, São Salvador e a zona rural envolvente formavam uma área de grande concentração populacional (...),|cerca de| 100 000 pessoas. No entanto, as guerras civis iniciadas em 1665 reduziram gradualmente a dimensão e a importância da cidade. Em 1678, foi completamente abandonada. Só voltaria a ser reocupada em 1705, quando D. Beatriz Kimpa Vita, visionária que dizia estar possuída por Santo António, reconduziu ao seu repovoamento. Após uma vitória militar sobre os seguidores de Kimpa Vita, o rei D. Pedro IV (1694-1718) elevou de novo a cidade a capital do reino, que assim permaneceria até à conquista gradual pelos portugueses em 1885-1914. Durante os séculos XVIII e XIX, verificou-se uma grande flutuação na população da cidade, consoante o poder e a autoridade do rei que a ocupava, atingindo o seu ponto mais baixo em inícios do século XIX, mas acabando por recuperar no fim do século. Com a conquista portuguesa, tornou-se a capital do distrito do Zaire, em Angola, e atualmente é a capital da província do Zaire. A cidade moderna sofreu danos substanciais durante a guerra civil angolana (1975-2002), e grande parte dos edifícios principais do governo foi destruída ou muito danificada. No entanto, na sua generalidade, os monumentos históricos sobreviveram sem danos ao conflito”.Actualmente, assiste-se a um reentendimento e procura de revalorização do papel histórico da cidade, dentro da sua originalidade, tendo-se encetado novas pesquisas arqueológicas, e pensando-se na sua canditatura a Património da Humanidade pela UNESCO.B – A Arquitectura do “Reino do Congo”Sigamos as descrições de Fernando Batalha nas referências aos contactos entre portugueses e congoleses, na época de Quatrocentos (cf. Batalha, op.cit., 2006, pp.19-31).Iniciados com as viagens de Diogo Cão ao Congo, pelos anos de 1482-1485, os contactos dos portugueses com este reino tiveram um arranque mais concreto em 1491, com a chegada de uma missão, comandada por Rui de Sousa, de intenção a um tempo laica e católica (incluía missionários e pedreiros, entre outros), ao Zaire. Os contactos eram feitos a norte do rio Dande, em “Ambasse”, designação do local da corte do rei do Congo. Ali se construiu uma igreja (a primeira a sul do Equador, ainda antes da descobrta das Américas), para a qual levava paramentos, retábulos e alfaias, e que terá sido concluída por 1492. Esva sob a invocação de Santa Maria, depois de Santa Cruz, e mais tarde, seria sagrada como igreja maior, em 1547.AngolaRuínas da antiga Sé-Catedral de S.Salvador do Congo, Mbanza Congo (foto João Loureiro, 2010)
  • 125CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3124Em 1512 foi Simão da Silva que levou para o Congo as instruções reais de “...fazer uma boa igreja ou mosteiro de pedra e cal...”. Em 1526 já havia ali outras igrejas edificadas, como a de Nossa Senhora da Vitória. Os jesuítas, chegados ao Congo, edificaram depois de 1548 três templos, em Ambasse e nos seus arredores, sendo a primeira a de São Salvador, que deu assim o nome à povoação e viria a ser Catedral em 1596. Estas obras dos século XVI seriam arquitectonicamente de grande simplicidade, estrutural, construtiva, espacial e decorativa - mas de facto sabe-se muito pouco sobre elas. Batalha refere que “..na sua conformação seguiam os padrões de Portugal donde provinham os riscos, os mestres construtores e os operários...” (op.cit., p.20). Conhece-se uma referência à primeira igreja edificada, “...por um missionário que Albuquerque Felner transcreveu no seu livro Angola...” (idem, op.cit., p.20): “é muito formosa e grande com sua Capela Mor com dois altares no frontespício dela, tem mais outra Capela no corpo da igreja da parte do Evangelho (...) a igreja é de três naves, os esteios de formosíssimos mastros e o tecto forrado de madeira coberto de feno, que posto que se achou pedra para se fazer cal, não se achou barro suficiente a se fazer telha”. As únicas ruínas hoje existentes, como vestígios destas igrejas, são as da obra atribuída por tradição à Sé, e (segundo D. António Barros, que ali esteve em 1881), que mede na nave cerca de 35,5 por 12,5 metros, com a forma em planta rectangular, de nave única, com a capela mor também rectangular, a eixo, ao modo habitual das igrejas portuguesas mais modestas dos séculos XV e XVI – erguida em paredes sólidas de pedra e cal. Segundo Batalha, teria tido em tempos uma outra capela e uma sacristia, sendo os seus elementos mais notáveis ainda existentes o arco do presbitério e uma fresta de iluminação da capela mor, ambos em volta perfeita, em pedra talhada com alguma rudeza e expressão medieva.Em termos de arquitectura militar, conhecem-se as referências ao longo recinto muralhado de São Salvador (cf. gravura atrás analisada), que envolvia os seus principais edifícios e monumentos na fase de Quinhentos, e que parece ter tido uma expressão tardo-medieva. É conhecida a detalhada descrição de Duarte Lopes, em tradução por António Pigafetta (1491-1534) (op.cit., p.21-22): “...a qual el-rei D.Afonso o primeiro cristão cingiu de muralhas, dando aos portugueses separadamente o seu lugar, vedado com muros, e ele cercando também o seu palácio e as casas reais com muros, e deixando no meio destes dois cercados um grande espaço onde foi fabricada a igreja principal com seu terreiro defronte; e as portas, assim das casas solarengas como das habitações dos portugueses, olham para o lado da sobredita igreja.(...) Fora destas muralhas, em que estão contidos os paços reais e a Cidade dos Portugueses, muitas outras casas se topam de Senhores diversos, cada um tomando desordenadamente o sítio que lhe parece bem para residir junto à corte.(...) O circuito dos portugueses abraça obra de uma milha, e outro tanto os paços de el-rei”. “Troço das antigas muralhas que protegiam S.Salvador...”, Mbanza Congo (foto dos anos 1960, por Fernando Batalha, in Povoações Históricas de Angola, ed. Livros Horizonte, 2008, p.24)Angola
  • 127126 CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3O texto é muito claro sobre a estrutura da cidadela, que teria duas cinturas de muralhas, uma para a corte outra para os lusos, as quais se articulariam entre si através de um terreiro com a igreja. Parece pois exprimir espacialmente a opção urbanística de sacralização dos dois espaços referidos (o dos locais e o dos estrangeiros), por meio de muralhas – o típico recurso de concepção do “espaço religioso”, ou sacralizado, nas sociedades antigas – mas aqui com a inovação do seu “lugar de intersecção” ser reservado ao espaço de um sagrado especial, inovador, o da igreja católica, aceite por ambas as comunidades, como uma “terceira entidade”. Decorre desta interpretação a confirmação da extrema originalidade urbana da cidade de São Salvador, tripartida como se referiu, pela presença de três tipos diferenciados de espaços relativos aos grandes temas em presença: a “cidade dos brancos”, a “cidade dos negros” e o “espaço da igreja”, habilmente conjugados.Posteriormente, após a longa decadência do lugar, apenas restavam ruínas, das muralhas e dos edifícios, no meio do mato, no século XIX, como pôde constatar o Major A.J. de Castro, em 1845, o missionário George Grenfell, em 1879, e D. António Barroso em 1889. De destacar as referências do Major Castro a um “Palácio do Bispo” que deve datar da época de residência destes na cidade, entre 1597 e 1624: “...tem ainda em pé as quatro paredes principais e alguns interiores; o pórtico se compunha de três belos arcos de cantaria, dos quais o do centro era maior (...) estava tudo coberto de mato” (Batalha, 2006, op. cit., p.25). Dentro do que restava do recinto muralhado, Castro menciona ainda as quatro paredes de uma grande casa” (dos militares?).“Arco de triunfo e interior das paredes da capela mor...”, antiga Sé-Catedral de S.Salvador do Congo (foto dos anos 1960, por Fernando Batalha, in Povoações Históricas de Angola, ed. Livros Horizonte, 2008, p.17)Angola
  • 128 129CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3C – As principais edificações remanescentes de São SalvadorAs ruínas da Catedral de São Salvador e suas congéneresPela sua importância histórica e patrimonial, esta é a ruína mais antiga (do século XVI) e mais significativa de São Salvador, correspondendo embora, arquitectonicamente, a uma obra modesta e de pequena escala. As suas caraterísticas formais e tipológicas, do que nos é permitido ver pela planta e muros da construção remanescente, sugerem a sua filiação, ou relação, com obras análogas do quadro da Expansão Portuguesa. Há pois que fazer uma breve referência a estas e ao seu enquadramento geo-histórico e arquitectónico.Há de facto, nos vários espaços africanos (e até noutras paragens) de colonização portuguesa, uma série de pequenas igrejas e capelas, implantadas em inúmeras e diversificadas povoações, cuja dimensão e forma recorda o caso de São Salvador.Estas igrejas são em geral de concepção muito simples, seguindo o modelo da arquitectura religiosa de feição classicizante simplificada. Modestas na concepção, o seu efeito resultava sobretudo da localização, que valorizava a relação da frontaria com o mar, ou com outros tipos de paisagem circundante. Notem-se as igrejinhas e capelas dos dois arquipélagos luso-afro-atlânticos (Cabo Verde, São Tomé e Príncipe), as quais, opostamente às edificações das Sés locais, ressaltam pela pequena escala e pelas tipologias de espaço muito simples que propõem: na Ilha de Santiago de Cabo Verde, na antiga Ribeira Grande, hoje em ruínas, note-se a capela de São Roque e a igreja do antigo convento franciscano, de naves simples e únicas; em São Tomé, destaque-se a rara igreja da Madre de Deus, nos arredores da capital, obra de origem quinhentista, modesta mas com delicado portal, e a antiga igreja de S. António, na cidade, que exibia ainda, nos fins de Oitocentos, a fachada com três arcos redondos, de desenho clássico, característicos das obras franciscanas, e uma torre quadrangular, aposta de lado. Finalmemte, em Luanda, na “Alta”, mencione-se a primeva Sé Catedral de Nossa Senhora da Conceição (de 1590, arruinada em 1818, e depois demolida), obra modesta, duplamente torreada, e com frontão curvo central sobre a fachada tripartida, de que ainda se viam as ruínas na gravura de Pedrozo no séc.XIX.Por outro lado, e num alargamento geográfico da compreensão deste tipo de pequenas obras, talvez a igreja-catedral de Mbanza Congo esteja relacionada com a presença dos jesuítas no local (cf. texto de John Thornton já referido), desde a primeira metade do século XVII, pois que se conhecem obras sacras e igrejas a seu cargo, com análogas dimensões de pequena escala, erigidas em distantes paragens onde aportaram, sempre no quadro de ocupações urbanas portuguesas. Estas edificações de igrejas jesuítas seguiam de facto, igualmente, o modelo edificado de pequena escala que se refere atrás, com paredes de alvernaria ou de terra e barro, com duas águas em cobertura de estrutura de madeira (revestida com colmo ou telha), apresentando planta rectangular simples, e uma capela mor recta aquadradada. Deste tipo conhecemos nomeadamente, ainda existentes em ruínas, os exemplos de Malaca (na Malásia) e de Ayuthia (na Tailândia) - correspondendo ao um tipo de ocupação adequado aos núcleos de pequena dimensão, com carácter urbano ou pré-urbano. Isto, embora a igreja de Malaca seja obra com alguma monumentalidade, pois a construção de Ayuthia é que será mais parecida com a de Mbanzacongo.Refiram-se portanto, neste quadro de possiveis comparações em termos de dimensão, função, escala e tipologia espacial e construtiva, os dois casos enunciados, seguindo os dados constantes na obra Património... (op.cit.):– A Igreja de Nossa Senhora do Monte em Malaca, que foi do antigo colégio dos Jesuítas, implantou-se no ponto mais alto da urbe, de acordo com a intenção de afirmação visual e domínio simbólico próprio desta ordem (como sucedeu, sistematicamente, por exemplo, nas igrejas dos respectivos colégios em Ponta Delgada, na Horta, em Luanda, em Salvador da Bahia, ou na igreja de São Paulo em Macau). Inicialmente era uma construção frágil, substituída depois por edifício de maior escala, o qual se iniciou em 1561-64 pelo padre Cristóvão da Costa, concluindo-se em 1556-57 por uma construção de pedra – com 24 m de comprimento e 10 m de largura e quase nove de altura (dois pisos); apresentava a fachada encimada superiormente em frontão triangular, com óculo circular a meio, sobre portal e janela. Mas em 1577 o padre Alessandro Valigliano (1539 - 1606) visitador dos Jesuítas, ao ver o edifício da igreja no local, e “desconsolado com o seu estado, exiguidade e modéstia” (cf. Património, op-cit., p.453), tudo demoliu, e deu início à construção definitiva, concluída em 8 meses, e de que sobram hoje as 4 paredes mestras, da nave única e larga, juntamente com as da capela mor quadrangular, através da qual se acedia á sacristia, e daí à torre. Existe um portal axial e dois laterais, sóbrios, conhecendo-se o aspecto do conjunto por representação em gravura holandesa de 1641; – A Igreja de São Paulo em Ayuthia (Ajuda?), igualmente de base jesuíta, cujas ruínas foram escavadas e consolidadas, e que terá correspondido à presença de membros desta ordem no local, chegados depois de 1565-66, a seguir à chegada dos Dominicanos (cf. Património...op.cit., p.427): “De um modo geral, as igrejas do bairro português apresentavam influências locais nas práticas decorativas, como afirma o padre De Marini numa referência à igreja jesuíta de São Paulo: ´Graças ao costume local de pintar coloridamente e dourar, a arquitectura da fachada fica de tal forma graciosa que até os gentios se encantam”.Será portanto possível, se se quiser, aprofundar as relações comparativas patentes entre os vários templos católicos mencionados – de São Salvador com as obras de Luanda, de Malaca e de Ayuthia, para o que seria bom aferir das respectivas dimensões, escalas, e até pormenores arquitectónicos e decorativos.Mas regressemos, (confirmando pelo texto seguinte o interesse nestas comparações), à descrição e referência directa à edificação sacra de São Salvador, com John Thornton (in Património / África..., 2010, op. cit.,p.470-471): “Esta é actualmente a única estrutura centenária Angola
  • 130 131CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3de origem que ainda permanece no local. Trata-se de uma construção de pedra ferruginosa, edificada pelos jesuítas em 1549 e elevada a catedral em 1596. O edifício é rectangular e possuía um telhado de colmo, actualmente desaparecido, embora tenha sido reconstruído por várias vezes durante o século XX. As outras igrejas e edifícios de pedra foram demolidos pela administração colonial para construir os edifícios existentes, incluindo as atuais igrejas católica e batista e os edifícios da administração pública”. As ruínas da antiga Sé são conhecidas, fotograficamente, desde o século XIX, pela imagem de 1882 (com o templo ainda envolvido por vegetação), incluída na obra George Grenfell and the Congo, por Sir Harry Johnston, reproduzida em Batalha, 2006, p.37). Batalha também apresenta fotografias da Sé, dos anos 1960, na sua obra de 2006 (op.cit., pp.38-40). Nesta mesma obra, Batalha ainda apresenta a imagem da demolição do antigo Convento dos Capuchinhos de São Salvador, em meados do século XX, ao qual por certo se refere Thornton quando menciona as demolições (op.cit., p.42).Refiramos ainda duas outras obras, singelas mas historicamente significantes, de localização próxima da igreja: – o Cemitério Real, o qual é “...adjacente à catedral (...) com os restos mortais de todos os monarcas desde Henrique II (falecido em 1842). Os reis anteriores foram sepultados noutras igrejas, entretanto demolidas. Na atual pista do aeroporto, uma estrela de bronze marca o local em que, de acordo com a tradição do século XVII, o rei D. Afonso I sepultou viva a mãe, provavelmente na Igreja de São Miguel” (cf. Património / África, op.cit., pp.470-471);– e a Torre Redonda, ”Ao lado do cemitério (...), com aproximadamente três metros de altura, mencionada pela primeira vez nos textos em 1642. De acordo com a tradição atual, foi o local onde o primeiro rei ordenou aos clãs que ocupassem o país, e deveria funcionar também como torre de vigia sobre o seu território”. (idem, Thornton). A sua imagem, dos anos 1960, bem como a dos elementos do Cemitério Real, está patente na obra de Batalha (op.cit., 2006, p.43).A ocupação militar e o Forte Português / PrisãoVestígio da ocupação portuguesa oitocentista, a fortificação existente em São Salvador remete para uma breve introdução, que permita o seu enquadramento nas acções militares na região. Em relação à arquitectura militar, o período oitocentista correspondeu em Angola a uma ocupação com componente castrense sistemática - de sentido pragmático mas pouca dimensão estética. Efectivamente, no período analisado, as tácticas de guerra evoluíram muito, passando dos processos baseados nos sistemas defensivos, assentes nas fortificações, para a dominante guerra móvel, baseada em tecnologias mais evoluídas e eficazes de sistemas de ataque. Neste quadro, embora sem deixar de existir, a fortificação tornou-se mais ligeira, de rápida execução e maior efemeridade – baseada em movimentos de terra, paliçadas, taludes e seus panos de protecção, redutos e trincheiras.Toda a expansão e consolidação territorial efectuada em Angola assentou inicialmente no sistema dos presídios ou fortes de penetação (que frequentemente se associavam aos chamados “povoados comerciais”); depois, AngolaTúmulos dos Reis do Congo,Mbanza Congo (foto João Loureiro, 2010)
  • 132 133CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3Angolasobretudo entre os anos de 1880-90 e o fim da I Guerra Mundial, baseou-se em grande parte, para além dos investimentos civilizacionais e materiais (infraestruturas, urbanização, equipamentos), num acompanhamento militar contínuo, estratégico e que se revelou decisivo para a consecussão dos objectivos propostos.Numa primeira fase, este processo desenrolou-se ao longo das chamadas “guerras de pacificação”; e depois, no quadro da chamada “Grande Guerra” de 1914-18, com uma nova série de campanhas militares, de verdadeira defesa de fronteiras.Em Angola, a actividade militar, muito intensa por toda a 2ª metade de Oitocentos (e até aos anos de 1910), permite referir inúmeras fortificações, de algum modo também suporte de posterior ocupação efectiva, pré-urbana, do território, sobretudo no sul. Refiram-se, de norte a sul, exemplos, como as fortalezas de Bembe (talvez de 1861, para o interior de Porto Ambriz); de Ambriz (séc XIX); e em Moçâmedes, os fortes de Santa Rita e de S. Fernando, dos meados do século XIX; e ainda Capangombe, fortaleza em 1867-69, que foi sede do concelho do Bumbo, suprimido em 1895.Mais detalhadamente, no norte de Angola, refira-se, em 1852 ou 57, a fundação do presídio/fortaleza de Malanje (depois cidade, em 1933), fortaleza que apoiou nos anos 1850-60 a feira de Cassange e as campanhas militares contra os Jaga. Ora a construção militar que se erigiu junto a São Salvador enquadra-se nestes processos de dominação organizada e sistemática do norte de Angola, sobretudo no meio-século entre 1860 e 1910, como refere John Thornton (in Património/África..., 2010, op. cit.,p.470-471): “No lado oriental da montanha, junto à beira do penhasco, encontra-se um forte, construído em 1891 pelas forças de ocupação portuguesas para servir como sua principal fortificação militar. Atualmente, desempenha a função de prisão regional”. O Palácio RealEsta edificação constitui uma herança provinda da antiga e original arquitectura civil e residencial da cidade. Batalha refere (2006, op.cit., p.23) a existência de edifícios residenciais mencionada pela primeira vez em 1512, no Regimento de D. Manuel a Simão da Silva: “Depois de feita esta igreja ou mosteiro (...) folgaremos que façais uma boa casa sobradada para el rei (do Congo) para ele nela se recolher, dizendo como nos vo-la mandamos fazer para ele, assim por ser melhor para a sua saúde, como para mais sua segurança”. Refiram-se os dados compilados e sintetizados por John Thornton sobre o tema: “O palácio atual foi construído para o rei D. Pedro VI (1901-1910), no local em que se encontrava o palácio dos antigos reis. Actualmente aloja o Museu Real, substancialmente modificado e reconstruído em 2007. Contém vários objetos da família real e do estado. Por volta de 1520, carpinteiros e pedreiros portugueses erigiram um palácio em pedra. Em meados do século XVII encontrava-se aqui um palácio de concepção local com dois pisos. A estrutura foi abandonada em 1678 e quando o palácio foi reconstruído após a reocupação de 1705, surgiu um edifício de um único piso, mas labiríntico e de grandes dimensões. Atualmente, a lembrar o antigo palácio existe apenas uma árvore centenária denominada Yala Nkuwu (Saudação Majestática), onde se diz que os reis aplicavam a justiça. Atrás do atual palácio encontram-se os vestígios da Sungwila, uma estrutura retangular de pedra onde supostamente o corpo dos reis era lavado antes de estes serem sepultados”. (cf. Património/África...,op.cit, pp.471-472)Outras construçõesAinda podem mencionar-se outras edificações no local, nomeadamente pequenas igrejas e edificações públicas, de origem possivelmente oitocentista, com fotografias (por certo dos anos 1950 e/ou 1960) patentes nas obras de Fernando Batalha Batalha editadas em 2006 e 2008:– a Casa do Rei do Congo, construída em meados do século XIX (2006, op. cit., p.43), térrea, com ampla cobertura em chapa, de 4 águas, sobre avarandado frontal;– a igreja da Missão de São Salvador, numa imagem em construção (nos inícios do século XX), e noutra já construída (2006, op.cit., p.41), térrea, com janelas de recorte ogival lateral, e fachada com 3 vãos de arco redondo, óculo central e frontão recto triangular; Museu dos Reis do Congo, na antiga Casa dos Reis do Congo (foto João Loureiro, 2010)
  • 134 135CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3– a igreja da Missão Católica Feminina (2006, op.cit., p.40), térrea, com cobertura de 2 águas, com fachada de portal central de arco redondo e duas janelas de cada lado – com torre lateral;– o edifício dos Paços do Concelho (2008, op.cit., p.22), térreo, com 4 águas de cobertura e varanda coberta, apoiada em pilares espessos, ao longo da fachada – com um frontão Art Deco, com o escudo português, ao centro;– e um edifício comercial de tipo corrente, com expressão utilitária (2008, op.cit., p.23), térreo, com avarandado a toda a volta, e coberto por chapa metálica, em 4 águas.Batalha, que visitou o lugar de São Salvador pela primeira vez em 1954, refere ainda vários achados arqueológicos, nas escavações por ele levadas a cabo (sob a égide do Departamento de Monumentos Nacionais de Angola nos anos 1966 a 1970) naquele lugar - apresentando fotografias documentais de um “troço das antigas muralhas” (2008, op.cit., p.24), de “fundações circulares de uma antiga edificação, presumivelmente uma igreja” (idem, p.25), de “degraus de uma escada rústica e trechos de alicerces” (idem, p.26); Batalha ainda refere e exibe a imagem das “bases de apoio de uma antiga construção conventual que pôde ser identificada pela sua composição e por documento seiscentista existente na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, que descreve a construção e a identifica como obra dos missionários jesuítas” (idem, p.27). BIBLIOGRAFIAAA.VV., Património de Origem Portuguesa no Mundo – Arquitectura e Urbanismo – Ásia e Oceania (dir. José Mattoso, coord. Walter Rossa), Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 2010Batalha, Fernando, Povoações Históricas de Angola, Lisboa, Livros Horizonte, 2008, pp.15-17 e 21.Batalha, Fernando, Angola, Arquitectura e História, Lisboa, Vega, 2006, pp.11 a 28Batalha, Fernando, Povoações de Interesse Histórico, Arqueológico e Turístico, Luanda, Centro de Informação e Turismo de Angola, 1960, pp.11-13Esteves, Emmanuel, “Mbanza Kongo: Ville archaéologique”, Nsi 6, 1989, pp. 159-64 Maret, Pierre de, “Urban Origins in Central Africa: The Case of Kongo,” Silveira, Luis da, Ensaio de Iconografia das Cidades Portuguesas do Ultramar, II vol., Lisboa, Junta de Investigações do Ultramar (s/d, 1956), pp.187-189Thornton, John, “São Salvador: A Cidade Sagrada do Kongo,” Fontes & Estudos 4-5, 1998-99, pp. 135-62; Yambo, F. X. (coord.), Catálogo da exposição permanente do Museu dos Reis do Kongo, Luanda, Ministério da Cultura de Angola, 2007Thornton, John, “Mbanza Congo / São Salvador”, entrada in AA.VV., Património de Origem Portuguesa no Mundo – Arquitectura e Urbanismo – África, Mar Vemelho e Golfo Pérsico (dir. José Mattoso, coord. Filipe Themudo Barata e José Manuel Fernandes), Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 2010, pp.470-471Igreja da Missão Católica Feminina, Mbanza Congo, (foto dos anos 1960, por Fernando Batalha, in Povoações Históricas de Angola, ed. Livros Horizonte, 2008, p.28)Angola
  • 137CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3136 CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3NOVA OEIRASA – Introdução e enquadramentoPara o interior de Luanda, no seu hinterland, na actual província do Cuanza (Kwanza), situam-se os vestígios do notável conjunto, muito arruinado, da antiga “Real Fábrica do Ferro”. Estão publicados diversos artigos, opúsculos e livros pelo arquitecto Fernando Batalha (n.1908), estudioso e pesquisador deste local, com imagens recolhidas nos primeiros anos da década de 1970. Actualmente os elementos remanescentes deste núcleo devem estar ainda em pior estado de conservação.O conjunto de Nova Oeiras constitui o resíduo de uma infra-estrutura inovadora e pioneira na sua época (o período Pombalino), representando o resultado de uma intervenção isolada mas significativa, com origem no consulado de Sousa Coutinho, representante da linha reformista e transformadora do Marquês de Pombal (então Conde de Oeiras) em Angola, onde foi governador entre 1764 e 1772. Coutinho conseguiu erguer durante o seu consulado, contra ventos e marés, uma idealizada unidade produtiva de metal férreo, movida por força hídrica.O governador socorreu-se nesta iniciativa de alguns mestres biscainhos, que conceberam uma vasta e estruturada instalação para produção de ferro (destinada ao fabrico de instrumentos e utensílios), a qual foi erguida na confluência dos rios Luínha e Lucala, no local baptizado de Nova Oeiras (homenagem ao então sítio de residência de Pombal, a Quinta de Oeiras), precisamente entre 1766 e 1772.O conjunto, erigido em alvenaria, de espesa paredes, incluía um dique, um aqueduto para mover os engenhos, um compartimento para as rodas hidráulicas, um forno de fundição (obra-prima da arquitectura proto-industrial, com escadaria dupla), uma ferraria com três armazéns, e um canal de escoamento. ANGOLA“Planta da Casa da Fábrica do Ferro, e Açude que se acha na Nova Oeiras / 1770”, desenhos da Fábrica do Ferro, do século XVIII, da obra Arquivo de Angola cf. citado na bibliografiaTexto de José Manuel Fernandes
  • 138 139CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3Em paralelo, foi edificada a povoação de Nova Oeiras, com igreja, feitoria, intendência, tesouraria, e ainda as habitações para técnicos e operários. De quase todas elas se conhecem, e estão documentadas, as ruínas, as quais foram declaradas como Monumento Nacional em 1925. No século XVIII, falhada embora a iniciativa, pouco depois de iniciada (pela saída do governador, pelo duro clima e quiçá pela precocidade da iniciativa, em termos tecnológicos e de sustentabilidade económica), ficou como ruína histórica, insólita mas atestando a vontade de modernização daquela época. De facto, alguns autores e investigadores, como Catarina Madeira Santos, analisaram recentemente a efectiva possibilidade de ter havido, na Angola pombalina e mariana, a concepção de um “novo projecto colonial”, comprovável pelas reformas estruturadas, pelos novos investimentos, pelo surto de novos quadros na administração (engenheiros, militares), por actos como a fundação da Aula de Geometria e Fortificação em Luanda, em 1769 – ou seja, colocaram a hipótese do território ter sido entendido como um “Novo Brasil”, tema que muito depois viria a ser retomado em contextos colonais muito diversos (a mitificada “África Portuguesa” idealizada como uma “terra prometida” pelo Estado Novo, nos meados do século XX), mas sempre na tentativa de modernização e dinamização da vida colectiva e da dimensão sócio-económica das regiões e comunidades envolvidas. Angola“Torre do Forno de Fundição...”, Nova Oeiras (foto dos anos 1960, por Fernando Batalha, in Povoações Históricas de Angola, ed. Livros Horizonte, 2008, p.94)
  • 140 141CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3os 12 metros de altura. Em 1772, com a partida de Sousa Coutinho, as obras não concluídas foram sucessivamente adiadas e a fábrica foi finalmente abandonada cerca de 1800. Numa tentativa de transferência da tecnologia de fundição, ´o projecto de Nova Oeiras vale sobretudo como a primeira tentativa de aproveitar em África (subsaariana) a energia hidráulica com fins de produção em massa´ (Venâncio, 1996).”Aida Freudenthal resume, no mesmo texto, os dados respeitantes à edificação propiramente dita das Ruínas da Real Fábrica do Ferro de Nova Oeiras: “Dois séculos passados, apenas subsistem ruínas, ainda impressionantes: “dois troços da represa das águas do Luínha, o aqueduto de 22 arcos de cerca de 118 metros de comprimento, condutor da água para mover os engenhos, um grande compartimento para as rodas hidráulicas, um forno de fundição, uma grande ferraria com três armazéns e um canal para escoar água”. Junto à fábrica, foi no século XVIII edificada uma povoação denominada Nova Oeiras, destinada a albergar os artífices e operários da fundição. Foram ainda construídas uma igreja, a feitoria real e outros edifícios públicos, dos quais apenas restam ruínas. Em 1925, o conjunto foi redescoberto e classificado como monumento. Em 1972, foram escavadas algumas ruínas e  identificados vestígios da povoação de Nova Oeiras, procedendo-se a algum restauro dos muros de alvenaria da represa (Batalha, 2008). Desconhece-se o estado atual deste conjunto.”C – A acção de Sousa Coutinho em Angola: a tentativa pombalina de modernização e dinamização social-económica da Angola setecentistaSousa Coutinho, que governou Angola entre 1764 e 1772, foi o político de envergadura capaz de conceber e levar a cabo um empreendimento tão ousado e improvável como era a Fundição de Nova Oeiras. Há pois que analisar, mesmo que de forma resumida, o seu consulado, por forma a compreender e enquadrar aquela iniciativa concreta, no quadro geral da sua acção e intervenção no território e no espaço angolanos. Sigamos as referências de Fernando Batalha (op.cit., 2006, pp.148-151) sobre os aspectos básicos da sua notável intervenção.Embora já tivesse havido em Setecentos governadores que foram percursores das tentativas de modernização de Luanda e/ou de outras localidades angolanas – como foi o caso de D. António Álvares da Cunha (1753-1758), que promoveu a edificação ou reforma de aquartelamentos e fortificações na capital, e de D.António de Vasconcellos (1758-1764), que ergueu novas fortificações em Luanda, determinou medidas de abastecimento urbano (de frescos e mantimentos) e tentou (debalde) trazer por canal as águas do Cuanza até àquela cidade - foi finalmente, na segunda metade do século XVIII, D. Francisco Inocêncio de Sousa Coutinho que lançou um conjunto coerente de acções, obras e projectos que deram a Luanda e a outras áreas de Angola uma nova dinâmica e uma mais moderna dimensão ao território – nos oito anos que duoru a sua presença em Angola.B – O contexto histórico, breve sínteseA historiadora Aida Frendenthal fez uma síntese do processo histórico em que surgiu este empreendimento, na entrada Nova Oeiras, do volume da obra Património de Origem Portuguesa no Mundo – Arquitectura e Urbanismo - África, Mar Vermelho e Golfo Pérsico, pp.482-483: “A política iluminista do governador Sousa Coutinho levou-o a criar na colónia estruturas que dinamizassem a economia, aproveitando os seus recursos minerais em ferro. Nesse contexto se insere a Real Fábrica do Ferro de Nova Oeiras, erguida no vale do Rio Luinha, afluente do Lucala, onde existiam jazidas desse minério. Enquanto empreendimento estatal, o seu produto final seria destinado ao consumo em Angola e no Brasil. Em 1765 foram adotados os processos de fundição e forja praticados pelos ferreiros locais; iniciada em 1766, a construção da fábrica sofreu várias interrupções devido à elevada mortalidade dos mestres fundidores, latoeiros e carpinteiros europeus trazidos de Portugal e da Biscaia para concretizar o projeto. Além das edificações em pedra, foram construídas as rodas hidráulicas e dois foles para a fundição, que iriam aproveitar a força motriz do Luinha. A mão-de-obra africana (fundidores e artífices, alguns deles escravos) e cerca de 400 escravos ocupados na recolha e lavagem do minério, recolha de lenha, etc., haviam sido cedidos pelas chefias africanas avassaladas. Em 1769 concluiu-se a represa, que atingia Em Luanda criou o Passeio Público (1771), então claro sinal de uma nova urbanidade, mais aberta e fazendo chegar um novo tipo de espaço público equipado a mais amplas camadas da população. Na capital ergueu igualmente um conjunto de edificações de grande solidez e qualidade, destinados à modernização dos equipamentos e das infraestruturas servindo a cidade. Refiram-se: para o melhor abastecimento da população, a edificação do Terreiro Público ou Mercado (1765); a vasta mole da Alfândega (1770), na Baixa, junto à baía, ainda hoje existente, embora alterada; o Trem Nacional (1770) e a Casa dos Contos ou Erário; e o novo Hospital. Como os seus antecessores, também ele mandou construir novos quarteis e ampliou ou reconstruiu fortalezas. Ordenou a abertura de cisternas e encetou o desenvolvimento da produção agrícola nos arredores de Luanda.Mas, no âmbito da sua visão modernizadora e integrada, territorial, não se limitou aos trabalhos na capital de Angola, antes tomando iniciativas importantes em outras cidades, e fundando localidades com objectivos específicos: na segunda cidade de Angola, Benguela, mandou construir “uma respeitável fortaleza”, em 1765-1769, (hoje já desaparecida), e um hospital “com botica”; e nomeou para governador a cidade o Capitão-Mor José Vieira de Araújo, o qual “fomentou todos os meios de a opulentar, civilizar o povo, adquirir os bens da fortuna, animar a agricultura, e promover o comércio” (in História de Angola, por E.A. da Silva Correia).Noutras áreas territoriais, Coutinho reparou os presídios militares existentes, e fundou novas Angola
  • 142 143CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3povoações. Na linha de costa, perto dela, ou em enquadramentos fluvais, implantaram-se: o núcleo portuário de Novo Redondo (actual Sumbe), acima de Benguela, em 1769; Benguela Velha, porto a norte de Novo Redondo, em 1771; Nova Caconda, que substituía o anterior presídio em local mais salubre (1769); o Dondo, terra adentro, para organização de um grande ponto de encontro comercial; e, claro, Nova Oeiras, núcleo induustrial de produção da tão necessária utensilagem em ferro, logo em 1766.Mas mesmo em terras mais longínquas, como o interior profundo - o então chamado “Sertão de Benguela” - Sousa Coutinho abriu espaços de construção de novos núcleos desbravadores: em 1768 ordenou a fundação de povoações como a Huíla, o Quipungo, o Bié, o Cutato, Galangue Grande, Invangando e Gunza Cabolo – orientando para que ficassem em sítios salubres, acessíveis, férteis e adequados ao comércio – além de deverem ser nomeados com designações de terras portuguesas.Note-se que toda esta panóplia de acções e iniciativas se relaciona de modo directo com o vasto processo das transformações culturais, dos novos (e inovadores) modos de pensar as sociedades, as cidades e os territórios no Iluminismo de meados e da segunda metade do séc. XVIII. Como referia o estudioso Carlos Sambricio, no colóquio sobre Eugénio dos Santos e o quadro pombalino (Lisboa, 24-11-2011), o tempo de Setecentos, nas áreas coloniais europeias, já não foi essencialmente um tempo de “ocupação militar”, mas sim virado para a “criação de riqueza”. Este novo paradigma significava então a visão e concepção dos núcleos urbanos locais, já instalados, de uma forma mais aberta (sem muralhas envolventes), melhor equipada (com novos serviços, e melhores abastecimentos), com mais higiene pública (os hospitais fornecidos com os medicamentos, dentro do tema do “higienismo”).Significava igualmente uma visão mais interligada e integradora do território, dos amplos espaços “entre” as cidades - daí a importância das novas estradas, a tentativa de abertura de canais explorando e desenvolvendo as melhores comunicações, fluviais e marítimas; e a própria delimitação, protecção e extensão do (já então) vasto território angolano foi uma preocupação, sendo disso prova os presídios reparados e as novas povoações fundadas, que procuravam redefinir e alargar os limites do domínio, ao mesmo tempo que assegurá-lo. Nas urbes, essa visão exprimia-se ainda numa nova noção de conforto colectivo, mais “civilizada”, de que os novos Passeios Públicos são a tradução urbana (numa nova “política de embelezamento”).Também a comunicação escrita e a instrução / ensino evoluiu significativamente nesta fase (Sambricio citava o aumento do número de periódicos na América Hispânica de então), e multiplicavam-se os ambientes de reunião e lazer públicos (os cafés, as tertúlias, os clubes), que no fundo denunciavam a lenta mas gradual formação de nova elites, com uma vida social ligada à burguesia comercial em ascenção. As investigações, já mencionadas, de Catarina Madeira Santos sobre este aspectos na Angola setecentista (“De ´antigos conquistadores´ a ´angolenses´. A elite colonial de Luanda no contexto da Cultura das Luzes...”, op.cit., 2007), traduzem este processo no quadro mais tímido da capital luso-africana – tímido, por comparação com a escala do México ou de Buenos Aires, mas mesmo assim, existente no tempo e na cabeça “pombalina” de Sousa Coutinho, como se vê pelas suas acções e pretensões. Ora o caso da criação (tentativa) de uma instalação fabril na área de influência de Luanda corresponde exactamente a este quadro cultural que se pretendia inovador e mais “urbano e civilizado”. No fundo, se tivesse havido a continidade e a duração de gestão política que não houve no consulado de Coutinho em Angola (uns magros oito anos), ter-se-ia assistido à afirmação de um “novo poder”, iluminado, assente na generalização de bens públicos, com novas comunicações (canais, estradas), com um higienismo crescente (patente em passeios, hospitais e parques), e expresso numa arquitectura ligada à visão neo-clássica, ou pré-neo-clássica - como o foi de facto a linguagem da edificação pombalina: desenho purista, geométrico, em edifícios seriados, dotados com módulos repetitivos e sequências de vãos, janelas e portais exprimindo essa ideia de arregimentação colectiva, em prol de um novo ideal de cidade e de sociedade (“um design puro para uma sociedade higiénica”, alguém disse). Tudo isto, para, como objectivo último e superior, incentivar à produção de riqueza (comercial, industrial), que iria fazer florescer, e assim libertar e engrandecer, as comunidades em causa.Ficam desta tentativa, em Luanda, as grandes edificações públicas – de que hoje o vasto volume da Alfândega ainda traduz, em escala e desenho, aquela procura modular, repetitiva e ordenadora, de efeito monumental (a que se pode juntar o Angolaedifício do novo Palácio do Governador, na Alta luandina, um pouco anterior, demolido o existente em 1761 e logo reconstruído nesta linha pombalina) – e ficam sem dúvida as residuais mas imponentes ruínas da fundição de Nova Oeiras, fruto da iniciativa industrialista de Sousa Coutinho, nos amplos espaços e plainos da recôndita área do rio Cuanza. D – A obra de construção de Nova Oeiras: longo e penoso processo de construção, que resultou incompleta e depois abandonadaOs documento compilados no Arquivo de Angola (op.cit., 1953) são reveladores do longo processo de gestação - com entusiasmo - de execução – atravessada por eventos dramáticos - e de final abandono e decadência, no processo da “Fábrica do Ferro” de Nova Oeiras. Tudo isto se desenrolou, no essencial, entre 1768 e 1800, conforme os documentos que o atestam e permitem, pela correspondência trocada entre os vários “actores”, aferir dos factos, das reacções e das atitudes sucessivamente tomadas. Vamos resumidamente evocá-los e comentá-los.No ofício n.276 de 25 de Novembro de 1768, Sousa Coutinho escreve para Francisco Xavier de Mendonça Furtado, homem de confiança de Pombal, informando-o da chegada a Luanda (a 24 de Outubro) dos mestres biscainhos contratados, para se dar início à obra da fundição, remetendo para o Reino as ordens que mandou para tal obra, “...à qual pretende dar o maior desenvolvimento”. Coutinho comenta o desembarque dos mestres, “totalmente preservados do contágio
  • 144 145CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3de escorbuto, (...) que levou à sepultura onze soldados e um tambor”, e a sua partida para Nova Oeiras a 3 de Novembro.Quanto à sua expectativa, Coutinho diz que “...|Os mestres| são capazes de estabelecer a Fábrica, e se Deus lhes conservar a vida, em bem pouco tempo estará capaz de trabalhar, não obstante que que as Águas interrompem estes primeiros trabalhos, por ser esta a estação das primeiras.” Mas é interessante ver as dúvidas que tem já, em relação aos processos e técnicos biscainhos que congregou, no que concerne aos objectivos desejados, dadas as características da terra angolana: “...não obstante a grande reputação que o Ferro de Biscaia tem na Europa, descubro que nestes fornos, que os Mestres sabem fazer, os defeitos de pequenos, e julgo que a despesa e forma das ferramentas e instrumentos do seu trabalho, são grandes, e proporcionados aos maiores fornos de França e da Alemanha (...) pelo contrário sucede aqui, onde a pobreza dos negros, a sua preguiça e falta de indústria com um total desprezo de possuir riquezas, faz que seja verdadeiramente impossível, que eles apeteçam pelo espírito do lucro, dilatar o serviço e as utilidades do Ferro, o mesmo sem maior diferença sucede aos brancos tão moles e tão inertes, como os mesmos negros...”. Deste modo, considera insuficiente o “método dos fornos de Biscaia”, pela exígua produção que possibilita, se comparado com o quadro concorrencial, a capacidade de iniciativa e a dimensão produtiva dos congéneres centro-europeus.Ele também compreende desde logo a urgência e a prioridade de se formarem outros e mais técnicos e aprendizes, habilitados e sabedores da ciência da produção do Ferro. E alvitra logo a possibilidade de do Reino enviarem outros técnicos de centro-europa, para construirem outro tipo de fornos quiçá mais eficazes. Termina esta missiva esperançado, afirmando que “...eu só posso |as|segurar-lhe que quanto possível à humana diligência esta primeira fábrica se estabelecerá bem depressa e se firmarão as medidas que devem fundar as que se lhe seguirem, e Sua Majestade ordenar...”.Logo porém, surgiram os problemas práticos decorrentes das duras condições do clima tropical. Em carta de 27 de Dezembro de 1768, o enviado do governador a Nova Oeiras, Joaquim de Bessa Teixeira, avisa-o, em plena emergência, da saúde periclitante dos mestres, e da sua dificuldade de adaptação ao regime de trabalho que deles se esperava: “não admitem prática nenhuma racional, nem discurso algum...”. Na verdade, os mestres estavam ansiosos por poder regressar a Luanda, fugindo daquele contexto agreste, e para isso invocavam os seus contratos: “... também outro que diz que sucedendo morrer um ou dois, se poderiam recolher os |de|mais, e nesta contumázia estão, e estão também na teima de se quererem recolher a essa capital”. Os mestres contestavam também os aprendizes brancos, dizendo que estes não serviam, “...não são os que hão-de aprender a fundir (...) que homens que traziam camisas de punho não serviam para tal oficina.”. E, três dias depois, a 30, o mesmo emissário informa pesaroso o Governador do falecimento de um dos dois mestres fundidores, Francisco de Echenique: “...aplicando-se-lhe todos os remédios, não foi possível aproveitarem, nem a Água de Inglaterra |cozimento de casca de quina|, da especial que V.Exa. mandou para eles...”. Em desespero, sem outras opções, o enviado do governador esperava então apenas a melhoria ligeira do sobrevivente, para o levar a Luanda: “...me ponho com ele de marcha com todo o preciso, e necessário para a sua boa assistência, e espero na Virgem Senhora da Conceição de Muxima, pô-lo nessa capital com bom sucesso.”Mas infelizmente este mestre acabou também por morrer. Em carta de 6 de Março de 1979, Sousa Coutinho informa o Reino, na pessoa de Mendonça Furtado, destes factos, lamentando e exprimindo as suas opiniões sobre as causas reais de tal infortúnio. “Estes homens deviam morrer, e não podiam durar nestes climas; a pobreza nas suas terras fazia a sua sobriedade; a riqueza a que passaram, por força dos jornais extraordinários, os enlouqueceram (...) Ainda assim se conservariam se fossem capazes de persuadir-se que era inevitável a primeira doença |faleceram na recaída|, e que era preciso para vencê-la largar o abuso das bebidas, e da braveza do génio, e tomar os remédios (...) na primeira hora em que os vi se gelaram os meus membros, vendo bem claramente o fim que teriam; pois que a arrogância, a inobediência, e o espírito de desordem eram sem limites...”.Homem prevenido e atento, Sousa Coutinho reagiu logo a estas adversidades, avançando com a construção e indicando o caminho a seguir: “...me servi das rudes Plantas dos Mestres e mandei fabricar à minha vista um modelo de toda a obra, e achando-o certo, faço executá-lo, para que vindos outros Mestres a salvamento com o favor de Deus, entrem logo no trabalho (...) os poucos ferreiros brancos que há aprenderam bastante da única fundição que Angolafizeram os biscainhos; e só não conseguiram a forma e perfeição dos fornos; e como destes não deixaram planta, será bem difícil conseguir-se sem outros directores”.Sugeria na mesma carta que os próximos auxiliares da obra pudesem chegar na boa estação climática, para ser bem aproveitado o seu esforço. Sousa Coutinho dava também ordens ao seu intendente na Fábrica, para minorar o atraso que a obra levava, e, apesar do ataque de paludismo deste, instruía-o sobre como superar as dificuldades, dizendo-lhe para dirigir a construção do forno “sentado e sem apanhar sol” (!). Como resultado deste sobresforço, na carta de 6 de Setembro de 1769 para o Reino, o activo Governador informa com evidente satisfação, para além da “alegre conquista do Novo Redondo”, do “...bom estado a que se acha reduzida a Fábrica de Ferro da Nova Oeiras, porque estando acabada a açude, ou presa d´água, que há-de mover o engenho, se vão concluindo todas as outras obras correspondentes; o mesmo engenho se acha quase feito, e estaria já montado se não fosse preciso esperar que se fabricassem as peças de ferro respectivas, que os Mestres não trouxeram (...)”.A descrição que se segue na carta constitui um trecho precioso, para se avaliar bem da visão de conjunto, e do competente sentido de planeamento territorial e urbano que informava todo este projecto, ao modo do melhor urbanismo pombalino – Sousa Coutinho não estruturava apenas o novo complexo fabril, mas este em conjunto com uma nova povoação de apoio, igualmente organizada e composta dos elementos vitais edificados (sublinhado nossos): “Na mesma Fábrica tenho estabelecido aprendizes de todos
  • 146 147CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3os ofícios concernentes à mesma; e tenho feito outra de admirável Carvão, para a qual me servi de um soldado francês, que possuía esta arte; da mesma maneira se trabalham naquele lugar todos os materiais necessários à construção das casas, e fábricas; por cuja causa avançaram muito os trabalhos, e se acha não só a Povoação feita, mas também todos os edifícios públicos, como Igreja, Casas de Intendência, Ferrarias, Tesourarias, Prisões; e habitações dos mestres de todos os ofícios, e engenheiros: além da Fábrica grande, tenho feito outra mais pequena |para| trabalharem os negros; e enfim, se Deus conservar a vida ao único homem que tenho capaz de dirigir os últimos trabalhos da Fábrica, brevemente estará ela no estado perfeito de servir aos próprios Mestres que V. Exa. Mandar; isto se entende até ao fim de Outubro”.O que se disse no capítulo anterior sobre as intenções industrialistas que esta iniciativa expressa, no quadro da concepção desenvolvimentista do Iluminismo – transposto de forma “brutal”, directa, quase ingenuamente, para o “sertão” de Angola – confirma-se pelo passo seguinte da mesma carta, onde Sousa Coutinho alude aos aspectos de articulação científico-técnica, económica e produtiva, como base de sustentabilidade entre o território de Nova Oeiras e o contexto urbano e edificado arquitectónico local, essencial numa visão de conjunto, própria do tema: “Presentemente trabalham os engenheiros, que eu mesmo formei, na medição de todos os rios, matos, madeiras e terras, que devem, em todos os tempos, servir à Angola“Trecho da barragem...”, Nova Oeiras (foto dos anos 1960, por Fernando Batalha,in Povoações Históricas de Angola, ed. Livros Horizonte, 2008, p.91)
  • 148 149CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3Fábrica, para formar uma planta exacta de todas estas grandes obras, assim respectivas à Fábrica, como Povoação e serviço da mesma, para que sendo presente a S. M. possa o mesmo Senhor, com certeza inteira de um País tão remoto, ordenar o que for Servido”.A carta de 30 de Outubro de 1769 assinala o “ponto de chegada” do empreendimento a um aparente “bom porto”, pois nela Sousa Coutinho informa o Reino da (quase) conclusão das obras de construção do conjunto de Nova Oeiras – fábrica e povoação – através das plantas que fez desenhar pelo competente Capitão Manuel António Tavares, o seu homem de confiança, que tinha tido fundamental desempenho no avanço e conclusão dos trabalhos edificatórios depois das mortes do Mestres fundidores. Sousa Coutinho também aproveita a mesma missiva para chamar a atenção para o necessário à consolidação do empreendimento, pedindo a vinda de técnicos e de trabalhadores: “Estando como refiro a obra |pronta|, em termos de trabalho, só V. Exa. lho pode animar primeiro com os Mestres (...) depois ordenando a todas as Relações do Reino, e Conquistas, que os oficiais de ferreiro, serralheiro, carpinteiro e pedreiro, que degradarem nos termos de merecer a pena de vir à Nova Oeiras sejam com efeito aplicados a este serviço porque só deste modo poderá a Fábrica crescer...”.Sousa Coutinho explica ainda, justificando esta demanda, que tem feito todos os esforços para colocar trabalhadores no novo local, mas que “...estes esforços sempre são de um País pobre, havendo de repartir com muitos filhos pobres...”.Entre Outubro de 1769 e Novembro de 1772, passaram três anos, sobre os quais não temos muita informação: apenas os documentos, gráficos e desenhados, de levantamento dos edificios construídos “na” Nova Oeiras, nomeadamente o do notável e majestoso Forno de Fundição, publicados no citado Arquivo de Angola, e referentes ao “Plano para Uma Fábrica de Ferro pelo Capitão Engenheiro Manoel de Souza” (s/d, mas por certo desta fase), à “Planta da Casa da Fábrica do Ferro e Açude que se acha na Nova Oeiras”, s/aut., de 1770, e ainda à “Planta da Casa da Fábrica do Ferro e Açude que se acha na Nova Oeiras”, pleo Capitão de Artilharia António Máximo de Sousa Magalhães, de 1771. Em todos estes três documentos surge a planta da referida edificação, desenhada com grande pormenor, de forma exactamente quadrada, com quatro paredes principais de alvenaria, e tendo internamente outras duas, igualmente espessas, definido-se asim três espaços internos diferenciados:– uma área lateral, subdividida em três compartimentos, possivelmente para funções de estar e destinada aos trabalhos de apoio e direcção; – uma outra, central, que contém o fole e outros aparelhos e máquinas, certamente de fundir;– e um terceiro espaço, mais estreito, do lado oposto ao primeiro, situado no enfiamento da calha do aqueduto, com as rodas de açude e a calha de descarga, para, impulsionadas pela água, acionarem com força motriz os aparelhos da sala contígua.Os dois documentos datados apresentam também o alçado-corte do mesmo edifício, com cobertura telhada de quatro águas (possivelmente em três sistemas de cobertura acoplados, do tipo “telhado múltiplos”), onde se observa a parte terminal dos arcos do aqueduto, junto ao edifício, bem como a calha de condução de água, e as rodas verticais aproveitando a descarga daquela calha. O outro desenho, não datado, apresenta uma diferente disposição dos mecanismos à volta da edificação, como muito mais espaço ocupado e elementos mecânicos - não sabemos se por aperfeiçoamento do conjunto antes referido, ou como uma alternativa. O facto é que esta Casa, ou “Torre de Forno de Fundição”, a peça chave do conjunto fabril - arquitectonicamente a mais cuidada de todo o conjunto - deve ter funcionado ainda algum tempo, nesta fase de cúmulo do empreendimento (a que os desenhos de levantamento se devem referir, entre 1770 e 1771), e ainda era visível, em ruínas, nos anos de 1960-70, 200 anos após o seu início, como as fotografias do Arquivo de Angola e das obras citadas de Fernando Batalha bem documentam. Torre de Fundição, Nova Oeiras (foto dos anos 1960, por Fernando Batalha, in Povoações Históricas de Angola, ed. Livros Horizonte, 2008, p.102)Angola
  • 150 151CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3AngolaEra então uma construção de aspecto maciço, e, embora não correspondendo exactamente ao edifício representado nos desenhos setecentistas, a obra construída apresentava aspectos comuns: um volume de quatro paredes de alvenaria espessa, de expressão quase monumental, (mais alto do que o dos desenhos, e de frontarias aquadradadas), “Perspectiva do aqueduto em cujo canal corria a água desde a albufeira até ao recinto das rodas hidráulicas que accionavam os engenhos...”, Nova Oeiras (foto dos anos 1960, por Fernando Batalha, in Povoações Históricas de Angola, ed. Livros Horizonte, 2008, p.101)com dois pisos, assente na base em um amplo arco redondo ou de volta perfeita (a “boca” da fornalha de combustão da lenha, segundo Batalha (op.cit., 2008, p.102), isto do lado abrindo para o aqueduto (e com os dois ângulos protegidos por dois espessos contrafortes ou “gigantes”), recebendo um deles o encaixe em “L” proveniente do aqueduto. No piso de cima, duas pequenas janelas quadradas, abertas de cada lado, davam ao imóvel o seu tom de obra fabril. Os quatro ângulos do volume, ligeiramente facetados, exibiam pilastras, que rematavam superiormente numa cimalha simples, de recorte clássico.Do lado oposto ao do aqueduto e do arco da fornalha, abria-se a escadaria marcando a entrada principal na torre: aquela, murada de cada lado, era de duplo lance térreo, simétrico, rematando no nível superior por um lance recto axial, encaixado no portal de entrada, encimado este por frontão triangular recto, dotado de baixo-relevo com as armas reais. Do original edificio, dizia Fernando Batalha que “...não obstante ser uma obra de função puramente utilitária, foi delineada com certos requintes de arquitectura” (in op.cit., 2008, p.94). Deixemos porém a descrição dos diversos elementos de Nova Oeiras estudados por Batalha nos anos 1970 para o capítulo seguinte, e voltemos a contar, terminando-a, a história da evolução do conjunto na época pombalina e pós-pombalina.Em Novembro de 1772, Sousa Coutinho, substituído no Governo (talvez a seu pedido, pelo cansaço e pelas vissicitudes dos oito anos de labuta tropical) estava de saída de Angola; e, na carta do dia 26, para o seu sucessor D. António de Lencastre, recomendava os cuidados a ter com o valioso e acarinhado conjunto fabril. Nos aspectos de mão de obra, contribuir para a criação de técnicos sabedores: “...faça que os Mestres, os aprendizes de ferreiro, e todos os que tiverem alguma inclinação a este serviço trabalhem no forno de experiência que mandei fazer junto à fortaleza do Penedo |Luanda|; e como há pedras próprias ao cadinho ou Ouvrage, durará a fundição todo o tempo necessário a enraizar esta arte nos que a hão-de servir”; no aumento da produção, criando mais fábricas na área de Nova Oeiras: “... fazendo-se novas fábricas no mesmo lado da açude, por onde o rio expede as águas que lhe sobejam (...) fica muita madeira cortada, muita cal, telha, e tijolo prontos”; garantir condições no transporte dos materiais produzidos: “...se acham nesta capital alguns jumentos de Sua Majestade para irem fazer as conduções do Ferro da Mina para a Fábrica (...) ao alto da lagoa do açude, havendo ali canoas que baixem com ele à casa da Fábrica...”; garantir igualmente a actividade braçal no sítio: “...será muito útil comprar quatrocentos moleques de ambos os sexos, casá-los e estabelecê-los na Fábrica, os homens para todos os ofícios da mesma, e do mesmo modo seus filhos, as mulheres para cultivar as terras que hão-de alimentar todos”; finalmente, Sousa Coutinho aborda dezenas de aspectos de pormenor e de estratégia, com ideias de quem já conhece bem o terreno e as dificuldades de clima, gentes e meio: “...todo o segredo está em que a arte de fundir, ou liquidar o ferro se reparta por muitas pessoas em atenção ao clima (...) porque se V. Exa. o deixar na maior liberdade, tudo vai perdido, esta região influi nos seus naturais, e nos que naturaliza, muito molura, muita frouxidão e um inteiro desmazelo”; finalmente, aventa a possibilidade de exportação para o Brasil do ferro produzido: “Mandar fazer uns barcos chatos que possam em uma mesma lua e no mesmo dia
  • 152 153CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3Angolaentrar e sair na barra do Cuanza, e fazendo V.Exa. em tempos certos, e em que os armazéns do mesmo rio estiverem cheios de ferro, que vá um navio à sua foz para carregar pelo meio dos ditos barcos, aquele género que muita parte poderá ir por lastro nos navios de escravos, dividindo-se nesta capital, e indo o navio, ou charrua carregada, poderá sair em direitura do mesmo rio para o Brasil”. Em 16 de Setembro de 1773, ciente por certo da notabilidade do que tinha conseguido criar e erguer em Nova Oeiras, empreendimento único no mundo (e talvez para justificar ou defender o património fabril criado em Angola do desinteresse do seu sucessor, ao que se sabe deliberado, por vingança política em relação ao processo pombalino dos Távora), Sousa Coutinho redigia uma “Memória sobre o estado em que deixei a Fábrica de Ferro”, onde refere e enaltece, entre vários aspectos: “Criei a grande povoação de Nova Oeiras, estabelecendo-lhe fábricas de serrar madeiras, fornos de cal, telha e tijolo, que servissem às obras da grande Fábrica (...) concluiu-se a Fábrica, e deixei-a nos termos de trabalhar (...) é insignificante o descrédito da bondade da mina porque o ilustríssimo e Exmo. Senhor Francisco Xavier de Mendonça examinou todo o ferro com a maior delicadeza e o aprovou |1766| (...) trabalhando a Fábrica fica aquele dinheiro |do ferro| no Reino, pode acrescentar-se a guarnição daquele importante País...”.Mas, passado cerca de um quarto de século sobre este depoimento e estas peripécias, em carta de 19 de Dezembro de 1797, o governador D.Miguel de Melo informava no reino, D. Rodrigo de Sousa Coutinho, da necessidade de salvar a Fábrica, ou que dela restava, “...enviando documentos sobre o que fez o seu antecessor para que de todo não perecessem os edifícios da Fábrica de Ferro e lembrando a conveniência de se entregar a fábrica a uma Companhia de negociantes”. Este conteúdo e intenções expressas, para além de anteriores responsabilidades ou intenções, dizem tudo sobre o abandono total do projecto real, a decadência do edificado e seu recheio, e a ideia de recurso de privatizar o conjunto como última hipótese de salvação. E, como “último acto” desta gesta, pioneira e talvez utópica, em 18 de Março de 1800, em plena pré-crise de guerra napoleónica, o governador D. António de Melo, para o mesmo D.Rodrigo de Sousa Coutinho, informa com pesar mas realismo que “...só pretendi mostrar que era falsa a opinião dos que dizem que em Angola não há minas ricas de ferro, mas que ao mesmo tempo era verdade ser impraticável nas circunstâncias em que se acha o Régio Património empreender aqui o estabelecimento de uma Fábrica tão regular e mangnífica como era a da Nova Oeiras hoje totalmente aniquilada e impossível tornar a estabelecê-la no dito sítio pela malignidade do clima”. O Governador remata a missiva referindo o valor do seu antecessor, primeiro criador da Fábrica, mas também que “...é certo que muitas coisas que tentou não conseguiu como foi (...) consolidar a Fábrica de Ferro na Nova Oeiras porque ou o clima se opunha (...) ou porque os meios para as coisas prosperarem lhe faltaram (...) ou finalmente porque em outras terras havia as mesma coisas e eram lá ou melhores ou mais baratas...”. Termina recordando que “...o seu sucessor imediato acintemente destruiu as suas obras e fez malograr os seus projectos...”. Eis pois, em síntese, a triste sina da Fábrica de Ferro da Nova Oeiras, no seu processo global de projecto, edificação e perda. E o assunto perdeu-se até ao século XX, quando foi reabordada, então já numa perspectiva arqueológica, cultural e patrimonial.E – A redescoberta do conjunto de Nova Oeiras, como referida pela imprensa dos inícios dos anos 1970Depois da sua classificação oficial em 28 de Maio de 1925 (ao que se sabe, por indicação de Monsenhor Alves da Cunha), os remanescentes das construções setecentistas de Nova Oeiras só parecem ter sido “redescobertos” em meados do século XX (recordem-se os textos e investigações que foram publicados no Arquivo de Angola em 1953, acima analisados), tentando-se, também sem sucesso, entre 1970 e 75, musealizar o conjunto fabril. No dizer de Fernando Batalha, escrevendo nos anos 1970, foram “...desbravados, consolidados e conservados desde há cerca de vinte anos pelo Departamento de Monumentos Nacionais. Por proposta deste, a Administração Central determinou em 1973 que se procedesse à restauração da Fábrica e à sua recomposição instrumental, como obra comemorativa do quarto centenário da fundação da capital de Angola.|1576-1976| Com a reactivação funcional deste histórico empreendimento ficava criado um museu vivo da siderurgia setecentista em África. Nas instalações da Fábrica que ficavam livres do equipamento fabril seriam expostos os objectos que vinham sendo recuperados nas escavações, bem como outros elementos de natureza histórica, arqueológica e iconográfica conectados com o mesmo Monumento Nacional e com a área de sua influência.(...) os projectados museus (...) estavam prestes a materializar-se, ma acabaram por se desvanecer em consequência das mutações políticas de 1974 e 1975.” (op. cit., 2006, pp.209-210).Deve ter sido nesta sequência e contexto que surgiu o texto publicado na revista Notícia, de Luanda (Pereira, op.cit., pp.47-49), sobre as escavações arqueológicas em curso, referindo que “o arquitecto Fernando Batalha descobriu, o ano passado, no meio do matagal, quatro quilómetros distante, junto à confluência do Luinha com o Lucala, a vila de Nova Oeiras.”. O jornalista descreve noutro passo da mesma reportagem a sua entrada no recinto central das ruínas, na área nuclear de produção da Fábrica: “No ponto em que o aqueduto nasce, existiu uma comporta, talvez de ferro, que se elevava manualmente. A água retida na albufeira enfiava pelo aqueduto, que no seu termo se alarga, formando um tanque. A meio dele, um buraco quadrangular, aberto no tijolo antigo. Sob o fundo do tanque situava-se o Compartimento das Rodas Hidráulicas, em número de três. Assim se conseguia a força motriz, que fazia funcionar diversos engenhos. É fácil a descida, até esse compartimento. Nas paredes largas, os janelões semi-circulares por onde passavam os veios da rodas. Voltemos as costas ao aqueduto. Agora é fácil, com um pouco de imaginação, ver funcionar o ´aparelho´. A água tombava pela abertura do tecto, sobre as pás da primeira roda, fazendo-a girar. Um engenhoso processo de caleiras, em madeira, obrigava a seguir parte do caudal, para fazer andar as outras duas. A água desaparecia pelo arco, ao
  • 154 155CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3fundo, seguindo por um canal recém-descoberto e desentulhado, até ao rio. À nossa direita, uma porta dá acesso à Oficina. Um dos veios fazia funcionar o fole do pequeno forno, onde se livrava o ferro já fundido, das escórias da primeira fundição.Outro veio, punha em movimento os martelos-pilões, que batiam o ferro ao rubro. No edifício do lado ficavam os armazéns, onde se guardavam os lingotes e as ferramentas miúdas. Voltemos agora à ´sala das máquinas´ e desta, para o pátio fronteiro ao forno. Neste, o veio da primeira roda hidráulica punha em movimento um gigantesco fole, cujo bico entrava pela porta, em arco, desta construção quadrangular |a torre de fundição|. Aí se situava a fornalha, alimentada a lenha, que se introduzia por outra face.”. F – Leitura conclusiva do conjunto de Nova Oeiras: os elementos arquitectónicos fulcrais, o legado para o futuroA descrição mais rigorosa e fotograficamente documentada do conjunto fabril, como ele foi registado e pesquisado nos anos 1970 (em 1972, segundo Batalha, precisamente 20 anos depois de concluído), encontra-se na obra de Batalha já atrás mencionada (op.cit.,, 2008, pp.87-105): podemos ver sucessivamente as imagens, comentadas: do frontão sobrepujando a entrada nobre da torre de fundição (p.89); a do longo muro da barragem que delimitava a albufeira (p.91), dos armazéns e oficinas “...onde o ferro seria refinado e forjado em potentes martelos-pilões” (p.93); do aqueduto e sua panorâmica conjunta (pp.95-97); do topo mais largo do aqueduto e do correspondente recinto das rodas motrizes, em que aquele alargamento “...permitia atenuar a corrente da água e fazer a sua distribuição sobre as três rodas hidráulicas por meio de escoadores no fundo do tanque e duma caleira de madeira...” (para a Torre de Fundição e a para a Casa dos Engenhos, de cada lado do extremo do aqueduto, p.98); do referido fundo do tanque, com os encaixes para a rodas nas paredes de alvenaria (p.99); da arcaria do aqueduto (pp.100-101); e das ruínas da fundações da igreja da povoação de Nova Oeiras (p.104). Em síntese final, o conjunto da Antiga Real Fábrica de Ferro e da Povoação de Nova Oeiras, de 1768-1772, reveste-se de uma notabilidade e originalidade tais, que, constituindo possivelmente obra e vestígio único no mundo, é bem merecedor, se convenientemente detectado e registado na actualidade, de se classificar e candidatar como desejavel proposta para Património da Humanidade pela UNESCO, a propôr pela República de Angola.BIBLIOGRAFIA:AA.VV., Património de Origem Portuguesa no Mundo – Arquitectura e Urbanismo – África, Mar Vemelho e Golfo Pérsico (dir. José Mattoso, coord. Filipe Themudo Barata e José Manuel Fernandes), Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 2010Arquivos de Angola, Luanda, Museu de Angola, 1953, 2.ª série, vol. 10, n.ºs 39-42Batalha, Fernando, Povoações históricas de Angola, Lisboa, Livros Horizonte, 2008, pp. 87-10Batalha, Fernando, Angola, Arquitectura e História, Lisboa, Vega, 2006Batalha, Fernando, “Nova Oeiras”, Revista de Angola, Luanda, Editorial Angola Lda, 1973, Abril, p. 9Batalha, Fernando, Nova Oeiras, Luanda, Direcção dos Serviços de Obras Públicas – Monumentos Nacionais – Luanda – Angola, no. 4, s/dBatalha, Fernando (publicação limitada da Secretaria Provincial de Obras Públicas, com o projecto e as obras previstas para a recuperação da Fábrica e montagem do Museu, datada de 1974, segundo F.Batalha)Livingstone, David, Missionary Travels and Researches in South Africa, Londres, 1857Pereira, Moutinho, “No tempo em que se pensava em grande – O Exemplo de Nova Oeiras”, revista Notícia, Luanda, c.1972, pp.43-49 (fotografias por António Cruz)Santos, Catarina Madeira, “De ´antigos conquistadores´ a ´angolenses´. A elite colonial de Luanda no contexto da Cultura das Luzes, entre lugares de memória e conhecimento científico”, in Cultura. Revista de História e Teoria das Ideias (coord. de Ângela Barreto Xavier e Catarina Madeira Santos), Lisboa, vol.24, 2007, II sérieVenâncio, José Carlos, A economia de Luanda e hinterland no século XVIII, Lisboa, Estampa, 1996Frontão com Armas, na fachada da antiga Torre de Fundição, Nova Oeiras (foto dos anos 1960, por Fernando Batalha, in Povoações Históricas de Angola, ed. Livros Horizonte, 2008, p.89)Angola
  • 157CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3156OURO PRETO PATRIMÔNIO CULTURAL DA HUMANIDADEPara começar, algumas palavras sobre as peculiaridades que o Barroco adquiriu no Brasil desde as primeiras décadas do Séc. XVIII, momento em que o ouro e os diamantes, encontrados em grande quantidade numa região que por isso mesmo passou a se chamar das Minas Gerais, proporcionaram as bases materiais para que em Vila Rica, Sabará, Mariana, São João del Rey, Diamantina, Caetés, Prados e em outras cidades mineiras se verificasse extraordinário surto civilizatório, com o florescimento da arquitetura, da escultura, da pintura, da música e da literatura dele decorrente. O fato de em Minas, lugar montanhoso e de penoso acesso, ter nascido e trabalhado Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, considerado o maior artista colonial brasileiro, quando não o maior artista brasileiro, senão americano, de todos os tempos, não foi de modo algum casual, bastando observar que muitos dos principais centros culturais tanto da América Portuguesa quanto da Espanhola surgiram em zonas de mineração - Taxco no México, Potosi na Bolívia, Vila Rica no Brasil. Foram o ouro no Brasil e a prata na América Hispânica que possibilitaram o aparecimento de uma nova sociedade, e com ela uma fase esplendorosa de criatividade artística. Coexistem na América Latina dois tipos de Barroco: o luso-brasileiro e o hispano-americano. Os dois por vezes se aproximam, mas não se confundem: de modo geral, o Barroco luso-brasileiro é menos monumental, mais singelo, menos rebuscado, mais despojado que o hispano-americano. E é justamente esta sobriedade, este senso de medida que lhe dá originalidade e força. Por outro lado, no Brasil o Barroco, a princípio aristocrático, passou por gradativo processo de mulatização, pois a mão de obra disponível era muitas vezes negra, e quase sempre mestiça. Tal mulatização acabou por emprestar, às manifestações artísticas brasileiras do Séc. XVIII, encanto peculiar, tornando-as uma variedade dialetal da linguagem original portuguesa.BRASILTexto de José Roberto Teixeira LeiteIgreja da Ordem 3ª. de São Francisco de Assis (1774). Risco original de Antonio Francisco Lisboa, modificado por Francisco Lima Cerqueira.
  • 158 159CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3BrasilMesmo dentro do Brasil, contudo, é possível distinguir entre duas vertentes: a do Barroco litorâneo, de Pernambuco, Bahia ou Rio de Janeiro, e a do Barroco interiorano, de Minas Gerais, São Paulo ou Goiás. No primeiro caso, manteve-se o estilo mais próximo à Metrópole, mais dependente dela; no segundo, tornou-se mais liberto. Por isso há quem sustente ser o Barroco mineiro a expressão mais elevada desse estilo no Brasil, permanecendo a arte setecentista baiana ou pernambucana mais lusitanas. Depois, se compararmos por exemplo o Barroco mineiro ao pernambucano, veremos que esse último reflete uma sociedade aristocrática e rural, enquanto aquele é a expressão de uma sociedade urbana enriquecida pela mineração, e ideologicamente burguesa.Uma última observação: no Brasil, o Barroco chegou com atraso de um século em relação à Europa; assim, enquanto no Séc. XVIII já os arquitetos e artistas europeus enveredavam pelo Neoclássico, os brasileiros permaneciam fieis aos postulados estéticos do século anterior. O fato é que os Doze Profetas do Aleijadinho, a Última Ceia de Ataíde e o teto perspectivista de João de Deus Sepúlveda na igreja de São Pedro dos Clérigos, no Recife, foram todos concluídos já bem entrado o Séc. XIX!Isso posto, diremos que a descoberta de ouro em Minas Gerais, mais especificamente nas faldas da Serra do Espinhaço, que separa as bacias hidrográficas dos rios Doce e São Francisco, região onde se localiza a moderna Ouro Preto, não foi obra de um só indivíduo: Barroco no Brasil: contraste entre interiores opulentos e exteriores singelos
  • 160 161CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3Buarque de Holanda) - embora haja quem suspeite que Borba Gato e outros bandeirantes paulistas desde muito antes soubessem de sua existência, que cavilosamente escondiam. Seja como for, constatada a abundância de ouro aluvial no Córrego do Tripuí e no Ribeirão do Carmo, o povoamento do entorno deu-se com extraordinária rapidez, e calcula-se que já por volta de 1710 ali vivessem 30.000 pessoas que, levadas pela “cobiça de fácil fortuna” ou em busca de “remédio” para suas ambições (como escreveu Simão Ferreira Machado em 1733 no Triunfo Eucarístico), para lá se deslocavam, vindas de todas as partes do Brasil, do Reino, e inclusive de outros países. Nessa que foi a primeira corrida do ouro dos tempos modernos, muitos padres, “levados pelo espírito do interesse e não do bem das almas” trocaram a batina pela bateia e se fizeram mineiros, soldados desertaram, alfaiates e sapateiros abandonaram o ofício, comerciantes de carne e farinha fecharam as portas de açougues e armazéns, navios ficaram sem marinheiros que os tripulassem e as plantações sem ter quem delas cuidasse, pois todos tinham tomado o rumo das minas, decididos a ser faiscadores, tantas e tão alvissareiras as notícias que lhes chegavam acerca de fabulosas pepitas de três quilos de puro ouro e de fortunas descomunais feitas no garimpo – como a de Baltasar de Godoi, que conseguira juntar 290 quilos de ouro, ou a de Borba Gato, com nada menos de 730! Na prática, no entanto, tudo se passava de modo muito diferente, pois para a imensa maioria dos que, arrostando todo tipo de perigo, conseguiam chegar aos garimpos (já que centenas morriam ou eram mortos no caminho), os sonhos logo se dissipavam, mesmo porque, não havendo moedas em circulação, tudo era cotado e vendido à base de ouro em pó, e mercadorias corriqueiras - uma galinha, um queijo, farinha, feijão -, porque vindas de longe e em pequena quantidade (já que ninguém se dava ao trabalho de cultivar a terra ou criar animais para o consumo), tinham seu valor original várias vezes multiplicado, e acabavam atingindo preços exorbitantes: assim, um boi se vendia por 359 gramas de ouro; um alqueire de milho, que saía em São Paulo pelo equivalente a 1,5 grama, passava a custar nos garimpos 143 gramas – uma valorização de mais de 9.000%! -, enquanto um escravo não se comprava por menos de 1,8 quilo. Em pouco tempo, dissipada a cegueira causada pelo ouro, o que se via por toda parte em Vila Rica eram miséria, violência, revoltas, epidemias, inundações, saques, assaltos, emboscadas, escassez de víveres e fome, muita fome - como ocorreu em 1698, 1700 e 1703, quando a população teve de devorar cães e gatos, depois ratos e finalmente larvas de insetos e o mais que pudesse apanhar, o que parece dar razão a Antonil, quando em seu livro Cultura e Opulência do Brasil escreveu: “Não há pessoa prudente que não confesse haver Deus permitido que se descubra nas minas tanto ouro, para castigar com ele o Brasil”. Nessa sociedade sem leis, onde a consciência fora largada pelo caminho, em que os crimes não eram punidos e todos só tratavam de enriquecer rapidamente e a qualquer custo, roubando-se, matando-se uns aos outros por uma reles cuia de farinha, era natural que também a Coroa saísse lesada: calcula-se que entre 1700 e 1705 Minas produziu 8,8 toneladas de ouro, o que, cumprido o que estipulava a legislação, garantiria à Coroa um quinto desse total, isto é, 1,76 tonelada: pois recebeu, em todo aquele período, apenas 47 quilos. A sonegação era tão despudorada, que o quinto real em 1702 não foi além de míseras 100 gramas, sem que Lisboa pouco ou nada pudesse fazer. Brasilachados praticamente simultâneos do metal ocorreram por toda aquele vasto território, sendo por conseguinte impossível identificar quem primeiro o encontrou – se, como escreveu Antonil, “um mulato”, em tempos do Governador Sá e Meneses (1697-1702), se Duarte Lopes em 1694 (Varnhagen) ou, com maior probabilidade, Antônio Rodrigues de Arzão em 1693 (Sérgio
  • 162 163CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3Brasil Em 1711 as autoridades portuguesas decidiram elevar a vilas os três arraiais que se tinham desenvolvido a partir dos primitivos acampamentos dos mineradores, dando assim origem à Vila do Ribeirão do Carmo - atual Mariana -, à Vila Rica de Nossa Senhora do Pilar - a Ouro Preto de hoje - e à Vila de Nossa Senhora da Conceição - a Sabará de nossos dias. A circunstância de essas cidades terem se desenvolvido a partir de simples acampamentos de mineração explica a topografia irregular de Ouro Preto, o autêntico “caminho de rato” das ruas, seu casario espremendo-se morro acima, equilibrando-se a mais de mil metros de altura. A instituição em 1720 da Capitania de Minas Gerais, que não mais teria de prestar contas, como até então, ao Rio de Janeiro e a São Paulo, veio substituir, Vista parcial de Ouro Preto, patrimônio cultural da Humanidade
  • 165164 CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3após anos de agitações e disputas que culminaram na Guerra dos Emboabas e na rebelião de Felipe dos Santos, a efêmera Capitania de São Paulo e Minas do Ouro: de então por diante, Vila Rica seria a sede do governo da nova capitania, enquanto a Vila do Ribeirão do Carmo, sede de um bispado, funcionaria como capital espiritual e religiosa.Foi entre 1735 e 1763, durante o longo governo do Conde de Bobadela, sendo reis Dom João V e depois Dom José I, que a produção aurífera em Minas, tendo atingido seu apogeu (para logo despencar), proporcionou a Vila Rica as indispensáveis condições materiais para que pudesse assumir o aspecto urbano que até hoje preserva. Pois é essa Vila Rica de tempos coloniais, sobre cujas origens até aqui vínhamos tratando, que já agora podemos adentrar, a fim de conhecer suas igrejas e capelas, pontes e chafarizes, ruas e praças, festas e solenidades, grandes vultos nela nascidos ou que nela viveram, sua vida cultural, instituições e, para resumir, sua condição de museu a céu aberto, maior conjunto urbano do Séc. XVIII chegado a nossos dias, motivos todos esses que levaram o governo brasileiro a declará-la em 1933 Monumento Nacional, a UNESCO a proclamá-la em 1980 Patrimônio Histórico e Cultural da Humanidade, e grandes poetas e pintores brasileiros do Séc. XX, como Cecília Meireles e Murilo Mendes, Djanira e Alberto da Veiga Guignard, terem-na escolhido como motivo e tema de seus poemas e paisagens.BrasilIgrejas, Capelas e PassosO fervor religioso dos habitantes da antiga Vila Rica responde pelo elevado número de igrejas e capelas com que ainda hoje Ouro Preto deslumbra os que a visitam, podendo-se até sustentar que a maioria dos que demandam Ouro Preto o fazem atraídos por suas igrejas, não possuísse a cidade algumas das mais belas e ricas do Brasil. Por isso iniciaremos o presente bosquejo por alguns dos seus principais templos, sem esquecer os humildes passos que ainda podem ser vistos aqui e ali, entre o casario.São Francisco de Assis. Decerto a igreja mais notável de Ouro Preto – na verdade, uma das mais admiráveis realizações da arte e da arquitetura religiosas no Brasil, pela perfeita integração, que nela se verifica, entre arquitetura, escultura e pintura. Iniciada em 1766 pelo pedreiro e canteiro Domingos Moreira de Oliveira, arrematador da obra, e por ele concluída 28 anos depois, em 1794, possui risco (desaparecido em 1913), frontispício, arco-cruzeiro, parte da talha da capela-mor, altar-mor e altares laterais (só executados em 1829), tribunas, púlpitos e lavabo da sacristia de autoria do Aleijadinho (além de algumas imagens). A pintura perspectivista do teto, terminada em 1810 e representando Nossa Senhora (de feições mulatas) coroada pelos anjos, é devida ao maior pintor colonial brasileiro – Manoel da Costa Ataíde, também autor (com João Batista de Figueiredo) das pinturas da capela-mor. Encontram-se nessa igreja várias das melhores criações do Aleijadinho, quer como arquiteto inovador, quer como escultor: além do próprio risco, de grande originalidade, com as duas torres cilíndricas recuadas em relação Outras vistas da Igreja da Ordem 3ª. de São Francisco de Assis, um dos mais importantes monumentos religiosos de Ouro Preto e do Brasil
  • 166 167CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3à portada, o relevo em pedra-sabão de São Francisco em êxtase recebendo os estigmas, que encima a porta principal, ela mesma contornada por profusa ornamentação também em pedra-sabão, a representação em relevo de Jonas engolido pelo peixe, num dos púlpitos, e o lavabo em pedra-sabão com os símbolos da Ordem Franciscana, na sacristia.Nossa Senhora do Carmo. Teve sua construção várias vezes protelada desde 1755, devido a uma série de desavenças ocorridas entre a Ordem Terceira do Carmo e a Irmandade de Santa Quitéria, e em seguida entre a irmandade e as autoridades civis, até que em 1766, com risco de Manuel Francisco Lisboa (depois modificado), as obras tiveram início, arrematadas por João Alves Viana, que as concluiu seis anos mais tarde. Encimando imponente escadaria, a Igreja do Carmo tem frontispício, a portada em pedra-sabão e o lavabo da sacristia de Francisco de Lima Cerqueira, que os executou entre 1771 e 1776, talvez com a colaboração do Aleijadinho. O risco e a pintura do altar-mor são de Manoel da Costa Ataíde, o dos púlpitos de João Gomes e o dos seis altares laterais de João Nepomuceno Correia e Castro, arrematados por Manoel Francisco de Araújo, o qual, enfermo, só conseguiu executar dois deles, o de Santa Quitéria e o de Santa Luzia; os altares de Nossa Senhora da Piedade e de São João, iniciados por José de Camponezes, foram concluídos em 1809 pelo Aleijadinho, enquanto os dois altares restantes são obra de Justino Ferreira de Andrade, discípulo do grande escultor. A capela-mor possui aos flancos painéis de azulejos portugueses, representando cenas da vida da Virgem Maria. Numa das torres acha-se o sino Elias, contemporâneo do início da construção. Santa Ifigênia do Alto da Cruz. Esse templo, cujo projeto é de autoria ignorada e no qual deixou diversos trabalhos Manoel Francisco Lisboa, teve sua construção iniciada em 1733 - quando foram pagas a Antônio Coelho da Fonseca 500 oitavas “a conta da obra da igreja” - e concluída em 1785, data inscrita na cruz que encima o frontispício. O relógio, encomendado em 1762 ao relojoeiro José da Costa Carneiro, é o mais antigo da cidade. A pintura da nave deve-se a Manuel Rebelo de Souza, que a executou em 1768. Matriz de Nossa Senhora do Pilar. Sua construção, em taipa e adobe, teve início em 1731 (em local antes ocupado por uma capela da mesma invocação), segundo projeto do sargento-mor Pedro Gomes Chaves, sendo o risco e a ornamentação interior, em talha dourada, de Antônio Francisco Pombal, tio do Aleijadinho. Quando a construção atingiu a capela-mor, o Santíssimo Sacramento, e com ele os ofícios religiosos, tiveram de ser transferidos para a Igreja de Nossa Senhora do Rosário, onde permaneceram cerca de dois anos. Em 1733, com as obras ainda inacabadas, o Santíssimo Sacramento foi reconduzido à matriz, em procissão solene e em meio a celebrações de brilho extraordinário: foi o Triunfo Eucarístico, do qual trataremos mais adiante. O risco do retábulo e do zimbório da capela--mor, de 1746, devem-se a Francisco Xavier de Brito, e o arco-cruzeiro é de Ventura Alves Carneiro. A decoração interna apresenta-se ricamente trabalhada em talha dourada, como dourados são os púlpitos, sustentados por cariátides e também devidos a Xavier de Brito. Destaque especial merecem a pintura do teto, em caixotões, representando profetas, e as pinturas laterais da capela-mor, com os quatro evangelistas, obra de João Carvalhais. Notáveis são também os quatro sinos, cada um com o nome de um Doutor da Igreja – Jerônimo, o mais antigo (de 1711), só tangido em grandes ocasiões, Atanásio, Ambrósio e Agostinho. BrasilOutras vistas da Igreja da Ordem 3ª. de São Francisco de Assis, um dos mais importantes monumentos religiosos de Ouro Preto e do Brasil
  • 169CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3168BrasilMatriz de Nossa Senhora da Conceição de Antônio Dias. Situada no arraial de Antônio Dias, no local onde antes existiu uma capela mandada erguer em 1699 pelo bandeirante Antônio Dias, sua construção teve início em 1727, com projeto de Pedro Gomes Chaves, cabendo a execução das obras a Manuel Francisco Lisboa. O risco e a talha do altar-mor são de Felipe Vieira. A Matriz de Antônio Dias possui oito altares laterais (de José Coelho de Noronha?), sendo que defronte a um deles, o de Nossa Senhora da Boa Morte, estão os restos mortais do Aleijadinho. Sobre os altares, merecem menção especial as imagens de São Francisco de Paula, São Roque, Santa Bárbara e São João Nepomuceno. As duas pias em pedra-sabão seriam, na opinião do poeta Manuel Bandeira, “talvez as mais bonitas de Ouro Preto”. Era nessa igreja que os governadores da Capitania de Minas Gerais costumavam tomar posse.Igreja Matriz de Nossa Senhora do Pilar: fachada e localização urbana
  • 170 171CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3BrasilNossa Senhora do Rosário dos Pretos. Essa igreja toda em pedra, cujo planta consiste em dois ovais geminados, duas torres cilíndricas e, na fachada recurva, três arcos encimados por outras tantas sacadas, substituiu a primitiva capela erguida em 1716 pela Irmandade de Nossa Senhora do Rosário, na qual se abrigou entre 1731 e 1733 o Santíssimo Sacramento, enquanto a capela-mor da Matriz de Nossa Senhora do Pilar achava-se em obras. Os detalhes de sua construção são controversos: para Germain Bazin, pode ter sido iniciada em 1771, ou, segundo outros, em 1785, com projeto de autoria discutível – se de Antônio Ferreira de Souza Calheiros, se, com maior probabilidade, de Manuel Francisco de Araujo, sabidamente autor do risco do frontispício, em 1784. Há evidente parentesco estilístico entre a planta da igreja ouro-pretana e a de São Pedro dos Clérigos, em Mariana, o que permite supor sejam devidas ao mesmo autor. As imagens de São Benedito e de Santo Antônio da Núbia, que encimavam dois dos seis altares laterais, seriam devidas ao Padre Félix, irmão do Aleijadinho e escultor apenas discreto.Nossa Senhora das Mercês e Perdões (Mercês de Baixo). Ocupando o mesmo sítio onde outrora existiu uma capela dedicada ao Senhor Bom Jesus dos Perdões, erguida, segundo a tradição, por Dona Branca de Oliveira Leitão, foi construída pela Ordem Terceira de Nossa Senhora das Mercês e Redenção dos Cativos, Outra foto da Igreja Matriz de Nossa Senhora do Pilar
  • 172 173CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3e inaugurada em meados da década de 1770. O interesse maior dessa igreja (muito desfigurada em meados do Séc. XIX por desastrosas modernizações) é o retábulo da capela-mor, com risco do Aleijadinho, que por ele recebeu pagamentos entre 1775 e 1778. Consta no Livro de Receita e Despesa da Ordem um pagamento feito a Manuel da Costa Ataíde, mas a pintura a que se refere não foi localizada.Nossa Senhora das Mercês e Misericórdia (Mercês de Cima). Inaugurada parcialmente em 1773, sua construção prolongou-se por mais meio século, o que explica as inúmeras modificações por que passou o projeto original (de autor desconhecido), delas sendo exemplo eloquente a torre central, “que desonra a fachada” na opinião de Germain Bazin. O pórtico exibe um medalhão em pedra-sabão representando a Virgem da Misericórdia, executado em 1810 por Manuel Furtado Bragança.São Miguel e Almas, ou Senhor Bom Jesus de Matosinhos das Cabeças. Situa-se no bairro das Cabeças, assim chamado porque no Séc. XVIII os criminosos eram ali enforcados e tinhamas cabeças expostas. Pouco se sabe quanto à sua construção, anterior de qualquer modo a 1778, quando a fachada estava sendo trabalhada. Notável é o frontispício, no qual o Aleijadinho esculpiu em pedra sabão uma imagem de São Miguel.São José. Mandada erguer pela Irmandade de São José, sua construção estendeu-se de c. 1772 a 1810, data em que Miguel Moreira contratou a obra do frontispício. O retábulo da capela-mor é do Aleijadinho, que o desenhou antes de 1772, e toda a obra de talha de Lourenço Rodrigues de Souza. A igreja sofreu muitas alterações em 1885, e em 1889 recebeu do Imperador Pedro II o título de Imperial Capela, passando a exibir as armas imperiais sobre a porta principal e na boca do trono; contudo, no mesmo ano de 1889 caiu a Monarquia, o que levou a Irmandade a suprimir o título e mandar retirar as armas. Capela do Padre Faria. É o nome pelo qual ficou sendo conhecida a Igreja de Nossa Senhora do Rosário do Barro de Ouro Preto, que aliás nada tem a ver com o padre-bandeirante João de Faria Fialho, que já se tinha retirado para Guaratinguetá quando de sua construção. Na igrejinha primitiva, então consagrada a Nossa Senhora do Parto ou do Bom Sucesso, abrigaram-se por volta de 1740 muitos irmãos brancos que tinham sido forçados a se retirar da Irmandade dos pretos da Igreja de Santa Ifigênia. Passou então por uma série de melhoramentos, ao mesmo tempo em que a devoção original era substituída pela de Nossa Senhora do Rosário – se bem que Nossa Senhora do Parto, cuja imagem ainda ocupa o centro do retábulo, continuasse como padroeira. Externamente muito simples, a igreja possui rica ornamentação interna, com abundante revestimento em talha dourada e belas pinturas (de autor desconhecido) no teto e nas paredes, representando cenas da vida de Maria e sua coroação pelos anjos. Admiráveis são seus três altares, a ponto de sobre o altar-mor ter escrito Diogo de Vasconcelos que era “a joia mais rica desta cidade, chapa de ouro aberta por anjos em maravilhas de talha”. Observe-se o campanário, separado do corpo da igreja, e nele o sino, datado de 1750, com bela representação de Nossa Senhora do Rosário entre anjos.Passos. Uma menção final aos Passos, pequenas capelas, espalhadas por diferentes pontos da cidade, que marcam as diversas estações da Procissão do Enterro, realizada na Sexa-Feira Santa em memória da Paixão e Morte de Jesus Cristo. Ainda as há em Ouro Preto, datando dos Sécs. XVIII (o da Ponte Preta exibe a data de 1788) e principalmente XIX.BrasilCapela de Nossa Senhora do Rosário dos Brancos (Capela do Padre Faria), erguida em 1740.
  • 174 175CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3O Triunfo Eucarístico de 1733De todas as festividades religiosas ou profanas que se realizaram em Vila Rica, em Minas Gerais e em todo o Brasil Colonial, no primeiro caso por ocasião da Semana Santa, do Natal, em louvor do Espírito Santo, de Nossa Senhora do Rosário ou de algum santo ou santa do hagiológio cristão, e no segundo em comemoração ao aniversário do rei, a nascimentos, batizados e bodas de membros da família real ou à chegada de um novo governador, entre outras efemérides, nenhuma se aproximou sequer de longe das que ocorreram em maio de 1733, por ocasião da trasladação do Santíssimo Sacramento, da Igreja de Nossa Senhora do Rosário (onde permanecera desde 1731), de volta à de Nossa Senhora do Pilar, que então se consagrava. Simão Ferreira Machado, provavelmente secretário do governador, Conde de Galveas, deixou-nos o minucioso relato do que foi esse Triunfo Eucarístico – Exemplar da Cristandade Lusitana (que Laura de Mello e Souza considera “um dos eventos sociais mais exuberantes da América Portuguesa”), num pequeno volume mandado imprimir em Lisboa pelos irmãos pretos da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário.O livro, publicado em 1734, divide-se em duas partes: na primeira, Prévia Alocutória, o autor destaca o papel proeminente de Portugal na propagação e na defesa da fé cristã, e insinua serem o ouro e os diamantes de Minas a justa e mais que merecida recompensa por tamanho zelo; na segunda ele descreve, em rica prosa barroca e nos mínimos detalhes, o que foram não apenas a solene procissão que reconduziu o Santíssimo Sacramento à Igreja de Nossa Senhora do Pilar, em 24 de maio de 1733, como também o que se passou nas semanas que a antecederam – os arcos triunfais nas ruas, a ornamentação das casas, as árvores enfeitadas, as alas de mouros e cristãos, as alegorias dos Quatro Ventos e dos Sete Planetas (precedidas pela Fama, coberta de ouro e diamantes), os estandartes, as luminárias que pareciam transformar a noite em dia, o contínuo repicar dos sinos, o foguetório, os desfiles de anjos, os riquíssimos trajes, os mascarados, as fantasias, o rufo dos tambores, as fanfarras, as danças, as cavalhadas, os disparos de mosquetes, a multidão nas praças (todos – ricos ou pobres – pelo menos enquanto duraram as festas irmanados numa só demonstração de fé), os concertos, as peças encenadas nos tablados defronte das igrejas, a declamação de poemas, até mesmo um desfile de carros alegóricos, que a custo podemos imaginar galgando, aos solavancos, as íngremes ladeiras de Vila Rica, com seu calçamento irregular de pedras, em suma: a teatralização, quase diríamos carnavalização, de que se revestiu um evento que se pretendia basicamente religioso (de uma religiosidade mais epidérmica do que profunda), mas que serviu também para reafirmar o poder da Coroa e servir de válvula de escape à população, como se naqueles dias o ouro, que já começava a escassear, pertencesse a todos, e não apenas a uns poucos afortunados. Não há dúvidas: o personagem triunfal, nesse Triunfo Eucarístico, não foi Deus, nem o Santíssimo Sacramento ou Nossa Senhora: foi o Ouro, bastando atentar no fato de que, enquanto no texto do livro os nomes de Deus, de Jesus Cristo e da Virgem Maria são mencionados em 21 ocasiões, o vocábulo Ouro nele aparece nada menos de 149 vezes!Chico-Rei: lenda ou personagem real?É tradição oral ainda hoje em Ouro Preto a história - que pode ser estória - de Chico Rei, o chefe congolês Galanga, da etnia Manicongo, capturado em combate por guerreiros Jaga, junto com a família e toda a sua Corte. Teria chegado ao Brasil em 1740, a bordo do navio negreiro “Madalena”, após ter visto Djalô, sua mulher, e Itulu, sua filha, serem lançadas vivas ao mar pela marujada supersticiosa, que assim buscava aplacar uma tempestade. Comprado pelo Major Augusto de Andrade Gois e enviado, com os demais conterrâneos, para a mina de ouro da Encardideira, teve seu nome original substituído pelo cristão de Francisco da Natividade (ou, segundo outra versão, Francisco Lisboa da Anunciação). Após anos de duro trabalho, conseguiu comprar a própria liberdade e a de um filho, e aos poucos foi libertando outros escravos, até formar uma comunidade de africanos livres, que o proclamaram rei. Acabou comprando ao major a Encardideira; muito rico, tornou-se uma figura influente em Vila Rica, aceito como rei dos africanos pelo Governador Gomes Freire de Andrade, Conde de Bobadela. Foram Chico Rei e seu grupo os fundadores da mais antiga irmandade de pretos livres de Vila Rica, onde ergueram a Igreja de Santa Ifigênia. Todos os anos, em agosto, no dia de Nossa Senhora do Rosário, antes da celebração da missa e em meio a diversas solenidades, ocorria o Reinado de Nossa Senhora do Rosário, durante Brasilo qual Chico Rei, ricamente vestido e na presença de familiares e da sua Corte, era coroado. Lenda? Realidade? O certo é que até hoje não se encontrou um único documento capaz de comprovar a existência de Chico Rei, que é mencionado pela primeira vez somente em 1904, na História Antiga de Minas, de Diogo de Vasconcelos, e em 1966 seria o personagem central do romance histórico Chico Rei, de autoria de Agripa de Vasconcelos. Monumentos CivisA Vila Rica de outrora, hoje Ouro Preto, nesses 300 anos de existência conservou íntegros não apenas seu traçado irregular, a cavaleiro sobre três morros intercalados por vales e dispondo de pouquíssimas áreas planas, como também suas casas acotovelando-se morro acima para formar uma espécie de rua contínua (Sylvio de Vasconcelos), as fachadas coloridas, seus balcões e sacadas, os beirais e cornijas dos telhados, as pontes e os incontáveis chafarizes, as portas e janelas emolduradas por madeira na cor azul, verde ou vermelho “sangue de boi”, as amplas escadarias etc. Destacam-se, nesse contexto urbano único em seu gênero, além de diversas casas dignas de menção por terem nelas vivido ilustres personagens da vida ouro-pretana e brasileira, alguns excepcionais monumentos civis, como o Palácio dos Governadores, a Casa dos Contos, a Casa da Ópera, a Casa de Câmara e Cadeia e o dedicado a Tiradentes. Palácio dos Governadores. Primeiro prédio de alvenaria erguido em Vila Rica, o Palácio dos Capitães Gerais Governadores teve sua
  • 176 177CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3construção autorizada em 1743 (quando as obras já tinham sido iniciadas), num local, o Morro de Santa Quitéria, onde antes funcionara a primeira casa de fundição da vila. O projeto original, de autoria do major de engenheiros José Fernandes Pinto Alpoim, era um quadrado tendo às quinas terraços, guaritas e outros dispositivos que lhe davam aparência de fortaleza, tendo-lhe sido depois acrescentados os aposentos destinados a receber o governador, mas permanecendo as guaritas como elemento decorativo. A construção esteve a cargo de Manuel Francisco Lisboa, sendo o pórtico devido a Caetano Silva, cognominado o Ruivo. Em 1812 construiu-se nos fundos um jardim, dotado de uma fonte em pedra sabão. A partir de Bobadela, que o mandou erguer, o edifício serviu de residência oficial a 105 governadores, presidentes da Província Imperial e presidentes republicanos entre 1748 e 1897, quando a capital foi transferida para Belo Horizonte; nele hoje funciona a Escola de Minas da Universidade Federal de Ouro Preto, com seu renomado Museu de Mineralogia.Casa dos Contos. Também conhecida como Casa dos Contratos e Casa do Real Contrato, seu projeto é atribuído a Antônio Ferreira de Souza Calheiros. Serviu inicialmente de moradia e sede de negócios ao contratador João Rodrigues de Macedo, e sua construção concluiu-se em 1787. Quinze anos mais tarde Macedo, endividado, cedeu-a à Real Fazenda, que nela instalou uma junta. Destaca-se na Casa dos Contos (que foi o mais belo exemplar residencial de seu tempo em Vila Rica) a abundante cantaria, cuja quantidade só encontra rival em umas poucas igrejas e no Palácio dos Governadores. Nas escadarias da Casa dos Contos foi encontrado o cadáver do poeta e inconfidente Cláudio Manuel da Costa, não se sabe se morto por suicídio ou assassinado.Casa da Ópera. Construída ao preço de 16 mil cruzados pelo proprietário João de Souza Lisboa, contratador dos reais quintos e das entradas, a Casa da Ópera, inaugurada em 1770, situa-se na atual Rua Brigadeiro Mesquita, antiga Rua de Santa Quitéria, e se não for o teatro mais antigo das Américas, figura sem dúvida entre os mais antigos, e possivelmente seja o mais antigo ainda em funcionamento. Souza Lobo, entusiasta Brasilda arte teatral, muito contribuiu para a sua renovação em Minas, ao fazer por exemplo que os papeis femininos fossem desempenhados por atrizes, e não, como até então, por atores em vestes femininas. Sua morte, em 1778, representou forte golpe para a Casa da Ópera, que a partir de então entrou em declínio, várias vezes ameaçou ruir ou esteve a ponto de ser demolida. Revestido em madeira e alvenaria, a Casa de Ópera, atual Teatro Municipal de Ouro Preto, possui plateia em lira com 280 lugares, formada por corpo central, três andares laterais e um camarote utilizado em ocasiões especiais. O palco mede seis metros de largo, oito de fundo e seis de altura.Sobrados ouro-pretanos, com seus típicos desenhos de portas e janelas
  • 178 179CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3Casa de Câmara e Cadeia. Sede desde 1938 do Museu da Inconfidência, o projeto original é devido ao próprio Governador Luís da Cunha Menezes, tendo sido a construção iniciada em 1785 sob o seu governo, com fundos angariados mediante uma loteria, e concluída somente em 1855, após inúmeras interrupções. Cunha Menezes parece ter ido longe demais em seu afã arquitetônico, submetendo os 500 negros recrutados para a obra a um regime de terror, a ponto de muitos deles terem morrido de exaustão e maus tratos, tanto assim que no longo poema satírico Cartas Chilenas Tomás Antônio Gonzaga, que o chama de Fanfarrão Minésio, faz-lhe severas acusações, das quais são exemplo os versos seguintes:Em cima das janelas e das portasPõe sabias inscrições, põe grandes bustos,Que eu lhes porei, por baixo, os tristes nomesDos pobres inocentes, que gemeramAo peso dos grilhões, porei os ossosDaqueles que os seus dias acabaram,Sem Cristo e sem remédio, no trabalho. No andar nobre do edifício tinham lugar as reuniões da Câmara e funcionavam outros serviços municipais, enquanto no piso inferior situavam-se as masmorras. Nos quatro cantos da platibanda postam-se as figuras em pedra sabão da Prudência, da Justiça, da Temperança e da Fortaleza, atribuídas a Antônio José da Silva Guimarães. Para Edgar de Cerqueira Falcão, em Relíquias da Terra do Ouro, esse edifício é o mais importante exemplo de arquitetura civil construído em terras brasileiras ao longo de todo o período colonial. Quanto ao Museu da Inconfidência, BrasilAntiga Casa de Câmara e Cadeia, atual Museu da Inconfidência, vendo-se em primeiro plano o Monumento a Tiradentes, de autoria de Virgilio Cestari (1894).
  • 180 181CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3Brasilcriado em 1938, possui no acervo imagens do Aleijadinho e de Xavier de Brito, altares, oratórios, andores, pinturas de Manuel da Costa Ataíde, mobiliário, prataria, documentos, indumentárias, instrumentos de tortura etc. O museu abriga também o Panteão dos Inconfidentes, onde se encontram as cinzas dos que morreram no exílio. Monumento a Tiradentes. De autoria do arquiteto e escultor italiano Virgílio Cestari, foi inaugurado a 21 de abril de 1894. Sobre pedestal de granito trabalhado no Rio de Janeiro, encimado pela estátua de Tiradentes, com 2,85 metros, fundida em bronze na Itália, e 24 peças ornamentais, também em bronze, fundidas em Buenos Aires, domina a Praça Tiradentes (antiga da Independência) do alto de seus 19 metros, e exibe, entre outras, a inscrição Aqui em poste de ignomínia esteve exposta sua cabeça. Diz-se que a estátua foi deliberadamente colocada de costas para a antiga residência dos governadores.Algumas casas notáveis. Entre o casario de relevância histórica ou arquitetônica, citemos, na própria Praça Tiradentes, o conjunto, entre os números 52 e 70, de autoria atribuída ao Brigadeiro José Fernandes Pinto de Alpoim, e nele a casa em que residiu o último governador da Capitania de Minas Gerais, Dom Manuel de Portugal e Castro; a antiga casa de pesagem de ouro depois ocupada pelo poeta Cláudio Manuel da Costa, e em seguida pelo estadista do Império Bernardo de Vasconcelos, na atual Rua Dr. Carlos Thomaz, 2, em Antônio Dias; a casa de Tomás Antônio Gonzaga, na antiga Rua do Ouvidor, atual Claudio Manuel, 61, e no Alto das Cabeças, a em que viveu de 1827 a 1884 o poeta e romancista Bernardo Guimarães. Foram lamentavelmente demolidos o sobrado em que morou Tiradentes, à Rua Tiradentes 18, e o antigo Solar dos Ferrões, no Largo do Dirceu, em Antônio Dias – no qual nasceu, viveu e morreu Maria Joaquina Doroteia de Seixas – a Marília de Dirceu, imortalizada nos poemas de Tomás Antonio Gonzaga.Pontes e ChafarizesOuro Preto é cortada por inúmeros córregos e riachos, o que tornou necessária a construção de diversas pontes para a interligação dos diferentes bairros da cidade. Quase todas essas pontes incluíam originalmente em sua estrutura um cruzeiro, que os que a transpunham costumavam reverenciar. Tomás Antônio Gonzaga, na Lira 37 do livro Marília de Dirceu, refere-se a três delas – a do Rosário, a dos Contos e a de Marília –, sendo de observar que Igreja Nova era à época o nome da atual Barbacena: Toma de Minas a estrada Na Igreja Nova, que fica Ao direito lado, e segue Sempre firme a Vila Rica.Entra nesta grande terra,Passa uma formosa ponte, Passa a segunda; a terceiraTem um palácio defronte.Ponte do Rosário. Ou do Caquende, nome do córrego por ela atravessado. Construída em 1753, é a “formosa ponte” a que se refere o poeta.Ponte dos Contos. É a mais antiga da cidade, concluída em 1745 sobre o córrego Ouro Preto ou do Xavier. O risco original, vindo de Lisboa, serviria de modelo a todas as demais pontes ouro-pretanas. É a segunda das três pontes mencionadas por Gonzaga.Ponte de Marília. Ou de Antônio Dias, cruzando o córrego de Antônio Dias – o antigo Tripuí, famoso por terem sido nele encontradas,
  • 182 183CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3por “um mulato” segundo Antonil, as primeiras pepitas do ouro preto. Concluída em 1755, é a única ponte à romana da cidade, e no poema de Gonzaga é a terceira referida.Ponte do Padre Faria. Data de 1750, e transpõe o córrego do Padre Faria. Achava-se totalmente soterrada em 1937, quando foi restaurada pela então Inspetoria de Monumentos Nacionais.Ponte do Xavier. Sobre o córrego homônimo, originalmente ligava, através uma estrutura de madeira, os antigos bairros de Ouro Preto e Antônio Dias.E mais as pontes do Pilar (1757), do Funil, do Palácio Velho, da Ponte Seca, da Barra (1806) etc.No que respeita a chafarizes, Ouro Preto é pródiga deles, destacando-se pela importância histórica ou artística o Chafariz dos Contos, o do Alto da Cruz e o de Marília.Chafariz dos Contos. Situado na Rua de São José, próximo à Casa dos Contos, é considerado o mais importante de Ouro Preto. Foi arrematado a 12 de abril de 1745 por Joao Domingos da Veiga, pela importância de 940$000. Construído em alvenaria e cantaria, é um vasto paredão cujo espaço central acha-se delimitado por duas volutas em curvas e contracurvas, encerrando uma grande concha apoiada em bacia. Ao alto, sob a cimalha ondulada, a inscrição latina Is quae potatum cole gens pleno ore Senatum, securi ut sitis nam jacit ille sitis, que suscitou ao viajante inglês Richard Burton, de passagem pela cidade em 1867, um comentário sarcástico – “a água é melhor que o latinório” -, e que pode ser assim traduzida: “Ó vós que ides beber, louvai de boca cheia o Senado, pois tínheis sede e ele a saciou”. Sobre essa primeira cimalha situa-se uma segunda, arrematada em vaso gomado e duas alças. Todo o conjunto é dominado por uma pinha central, ladeada às extremidades por coruchéus.Chafariz do Alto da Cruz. Situado próximo à esquina das ruas Padre Faria e Rezende e arrematado ao preço de 800$000 pelo pedreiro Henrique Gomes de Brito, seu risco, de 1752, é de Manuel Francisco Lisboa ou mesmo, a ter razão Lucio Costa, do seu filho Antonio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, que na ocasião não teria senão 14 anos. Consiste num muro de pedra do qual se destacam em cantaria dois cunhais, a cornija, concluída a cada lado por um consolo encimado por pinha, e um frontão recurvo; ao centro, sobre uma cornija horizontal, em pedra sabão e hoje desfigurado, pequeno busto, possivelmente de Baco, exibindo a data de 1761 e que, sempre segundo Lúcio Costa, também teria sido executado pelo Aleijadinho. Na parte inferior do muro, uma placa emoldurada, encimada por uma concha, encerrando três carrancas que lançam água sobre um tanque.Chafariz de Marília. Situa-se na Rua de Santa Efigênia, defronte a uma escola construída em terreno onde se erguia a casa de Maria Doroteia Joaquina de Seixas – a Marília de Dirceu, imortalizada nos poemas de Tomás Antônio Gonzaga. Construídos em 1758, pode ser um dos dois chafarizes contratados a 11 de dezembro de 1757 por Manoel Francisco Lisboa, “um ao pé da ponte de Antônio Dias, e outro no Passarão”; como Lisboa desistiu do contrato do primeiro, cogita-se que o do Passarão seja o atual Chafariz de Marília. Trata-se de uma parede de três corpos, tendo no do centro, esculpida em cantaria, grande cartela barroca da qual se elevam quatro carrancas cujas bocarras vertem água sobre uma grande taça. O conjunto é completado por pilastras, vergas e conchas também em pedra.Citemos ainda os chafarizes do Passo de Antônio Dias, de 1752, com a inscrição latina Gens quanta bibat tot in anos CV regnos aqua suppeditur; o da Rua da Glória, que data de 1753 e exibe a inscrição Curia curat, amat, fabricat, propinat, abhorret, nos ubertatem, staqua, flu....ta sitim; o da Rua Barão de Ouro Branco (1761), o do Alto das Cabeças (1763), o da Rua das Flores, o das Águas Férreas, o do Largo de Frei Vicente Botelho, o do Jardim Botânico...LiteraturaVila Rica foi palco, durante o Séc. XVIII, de um importante movimento literário que, por suas características especiais e pela alta qualidade do que produziram poetas como Cláudio Manuel da Costa, Tomás Antônio Gonzaga, Silva Alvarenga, Basílio da Gama, Alvarenga Peixoto e outros, passaria à História da Literatura Brasileira com o nome de Escola Mineira, enquanto o tipo de poesia que praticavam – artificial, nostálgica das paisagens da Hélade, das ovelhas e pastores gregos, tal como celebrados nos idílios de Teócrito, mas aqui e ali já reveladora de certo sentimento nativo -, ficaria conhecido como Arcadismo, visto como seus integrantes costumavam reunir-se em arcádias - denominação então dada às academias literárias, em alusão à Antiguidade Clássica. Coube a Cláudio Manuel da Costa (que, tal como Basílio da Gama, fora membro na Itália da Arcádia Romana), fundar em 4 de setembro de 1768, dia da posse do Conde de Valadares como novo governador da capitania, uma Arcádia Ultramarina, espécie de braço ou extensão em Minas da Arcádia Romana. Na ocasião Claudio recitou onze poemas em louvor do governador, a quem solicitou proteção para a agremiação que então se fundava. A 5 de dezembro do mesmo ano, de novo reunia-se a Arcádia Ultramarina, agora para celebrar o aniversário do governador, quando se representou o “drama para se recitar em música” O Parnaso Obsequioso. Seguindo antiga tradição, cada árcade, ao ingressar na agremiação, adotava um pseudônimo pelo qual doravante seria conhecido: Glauceste Saturno era Cláudio Manuel da Costa, Tomás Antônio Gonzaga tornou-se Dirceu, sob o epíteto de Alcindo Palmireno dissimulou-se Silva Alvarenga, Termindo Sipílio era o esquisito apelido de Basílio da Gama, e assim por diante. Cláudio Manuel da Costa foi, mais do que o fundador, a alma da Academia Ultramarina de Vila Rica, sendo de sua autoria alguns dos mais belos sonetos da língua portuguesa, perfeitos na forma e plenos de emoção. Grande poeta, sonetista na tradição aberta por Camões, reparte com Tomás Antônio Gonzaga o título de maior poeta de seu tempo no Brasil. Gonzaga leva-lhe talvez a palma com os poemas de amor, eivados de melancolia e tão ingênuos que dedicou à amada impossível, Marília de Dirceu – título de seu livro, até hoje um dos mais lidos da língua portuguesa. É porque, sob a personalidade desse grande lírico, coexistia o magistrado Brasil
  • 184 185CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3Brasilerudito, autor de um Tratado de Direito Natural único no gênero, e se escondia o verdadeiro autor das Cartas Chilenas, poema herói-cômico pretensamente passado no Chile que, assinado por um misterioso Critilo, circulou por toda Minas, pondo a nu em versos satíricos de rara contundência os desmandos, patifarias e malfeitos de Fanfarrão Minésio, que outro não era senão o inescrupuloso Luís da Cunha Menezes, que governou com mão de ferro Minas Gerais entre 1783 e 1788, deixando fama de despótico, cruel e corrupto. MúsicaDesde as primeiras décadas do Setecentos a música, principalmente sacra, fez-se notar com força incomum em Vila Rica, como o comprovam os arquivos do Senado da Câmara, que já em 1716 arrolavam entre os diferentes ofícios o de Professor da Arte da Música, a instalação em 1721 de um órgão na Igreja de Nossa Senhora do Pilar, adquirido por 192 oitavas de ouro e trazido aos trambolhões serra acima desde o Rio, a fundação em 1726 da Irmandade de São José dos Bem-Casados, que congregava os músicos pardos, e registros como os da Ordem Terceira de Nossa Senhora do Monte do Carmo e os das irmandades do Santíssimo Sacramento da Igreja de Nossa Senhora do Pilar, e de Santa Cecília da Igreja de São José (fundada em 1749 e que parece ter mantido uma escola de musica), nos quais acham-se arrolados os nomes de muitas dezenas de compositores, regentes, instrumentistas e cantores; é de lamentar apenas não ter chegado a nossos dias nenhuma partitura anterior ao terço final do Séc. XVIII, ficando-se assim sem saber, ou se sabendo pouquíssimo, acerca do que produziram Antônio de Souza Lobo (a quem Curt Lange chama de Patriarca da Música em Vila Rica, onde já atuava em 1721), Caetano Rodrigues da Silva e muitos outros. Também a música profana marcou ali presença desde os primórdios do povoamento, quando, segundo Geraldo Dutra de Morais, “cristãos-novos e gitanos errantes, proscritos de Portugal e Espanha pelo Santo Ofício, encenaram entremeses, óperas e comédias de autores clássicos, nos tablados armados defronte das ermidas, à luz de fogueiras e archotes, tendo as montanhas e florestas como cenário natural”. Sabe-se além do mais que nos adros das igrejas eram realizados espetáculos musicais, bailados e óperas, alguns francamente “licenciosos e imoráveis”, o que levou o Bispo Frei Antônio de Guadalupe em 1726 a proibi-los, e aos que os assistissem, sob pena de excomunhão. Cerca de 20 anos depois seu sucessor, Frei Manuel da Cruz, dizendo ter detectado nas músicas que vinham sendo executadas nas igrejas de Vila Rica “muita profanidade e indecência, tanto nas letras, como na solfa”, ordenou que doravante, sob pena de excomunhão para os infratores, as missas obedecessem ao rito preconizado pela Igreja para cada festividade, e fossem cantadas somente em latim. O mesmo Frei Manuel da Cruz, na mesma visita a Vila Rica, levava partituras para as orquestras do Pilar e de Antonio Dias, e foi assim que chegaram a Minas obras de Palestrina, Orlando de Lasso, Scarlatti, Lully, Rameau, Frescobaldi e Monteverdi; décadas mais tarde, em 1788, também obras de William Bird, Haendel, Haydn, Purcell e Mozart eram ouvidas em Vila Rica e em outras cidades mineiras, contribuindo para o aprimoramento dos músicos regionais.Segundo pesquisas realizadas por Herculano Gomes Matias, existiu em Vila Rica, anteriormente a 1750, uma Ópera, a qual, arruinada, cedeu vez à Casa da Ópera, construída por Mateus Garcia e inaugurada a 6 de junho de 1770 na Rua de Santa Quitéria. Nessa Casa da Ópera espetáculos musicais tornaram-se relativamente frequentes em Vila Rica, lado a lado com encenações de peças teatrais e autos – como veremos logo adiante, ao tratar do teatro em Vila Rica. Há quem afirme ter sido essa Casa da Ópera, que se conserva até hoje, a primeira do gênero na América Latina; no entanto, o musicólogo alemão Curt Lange contesta tal pioneirismo, que compete a seu ver a Lima, onde em 1701 se cantou La Púrpura de la Rosa, com música de Torrejón y Velasco e versos de Calderon de la Barca. O principal compositor ativo em Vila Rica foi o mulato Francisco Gomes da Rocha (1754?-1808) - cantor, regente, bom orquestrador, soldado-músico do Regimento dos Dragões, “tocando o seu instrumento de Fagote, como muzico que he de profição e como tal compondo novas marchas”; era “perfeito Professor de Muzica, tanto em composição, como em execução tocando ou cantando”, e entre suas obras de maior fôlego encontram-se motetos, antífonas e acima de todos Spiritus Domini, a 8 vozes e orquestra (1795). Quando em 1800 o célebre Lobo de Mesquita partiu para o Rio de Janeiro, após ter vivido três anos em Vila Rica como organista da Ordem Terceira do Carmo, Gomes da Rocha o substituiu, ocupando-se dessa função nos últimos oito anos de vida. Outros compositores de destaque nascidos ou ativos em Vila Rica foram Jerônimo de Souza Lobo (1729?-1810?), violinista e organista, autor de um Credo em ré maior para solistas, coro e orquestra e de uma Novena de Nossa Senhora do Carmo, de leve influência rossiniana; Inácio Parreiras Neves (1736?-1794?), tenor, possível autor da música fúnebre executada por ocasião da morte de Dom Pedro III em 1787, mas de quem só se conhece com certeza um Credo, uma Salve Regina e o Oratório ao Menino Deus na Noite de Natal, único no gênero composto no período colonial; Marcos Coelho Neto (1741?-1806), que deixou o hino Maria Mater Gratiae, além de ladainhas, missas e responsórios; Florêncio José Ferreira Coutinho (1750-1819), e o já pré-romântico Padre João de Deus de Castro Lobo (1794-1832), autor de Missa em ré maior, Missa e Credo e da única obra instrumental profana de toda a música mineira da época, a Abertura em ré maior.TeatroA história do teatro em Vila Rica acompanhou pari passu a da música. As primeiras representações teatrais ocorreram simultaneamente com as musicais em começos do Séc. XVIII, sobre tablados improvisados por aqueles mesmos “cristãos-novos e gitanos errantes, proscritos de Portugal e de Espanha
  • 186 187CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3Brasilpelo Santo Ofício” de que tratou Geraldo Dutra de Morais. As peças então levadas à cena eram autos sacramentais, entremeses, dramatizações e comédias de forte apelo popular – como devem ter sido aquelas que em 1726 celebraram o casamento dos príncipes portugueses. Sabe-se que em 1733, como parte integrante das celebrações do Triunfo Eucarístico (do qual tratamos há pouco), num tablado erguido junto à Matriz do Pilar “custoso na fábrica, e no ornato, e aparência de vários bastidores: viram-se nele insignes representantes, e gravíssimas figuras” (Simão Ferreira Machado), foram encenadas as comédias El Secreto a Vozes, El Principe Prodigioso e El Amo Criado – quase com certeza devidas a Calderon de la Barca, o autor mais festejado da época em Minas, ignorando-se porém se o texto utilizado foi o espanhol original ou, com maior probabilidade, vertido para o português (no que respeita aliás a traduções, muito se destacaria mais tarde uma mulher, Beatriz Brandão (1779-1868). Ao lado de peças de autores estrangeiros, formavam o repertório algumas escritas localmente. O grande poeta Cláudio Manuel da Costa (1727-1789), por exemplo, além de desenvolver intensa atividade como tradutor de Metastasio (a quem conhecera em Roma e que até lhe dedicara uma cantata e um drama lírico), escreveu poemas dramáticos várias vezes encenados, entre eles Mafalda Triunfante, Cyro ou a liberdade de Camboydes, Circe e Ulisses, Orlando Furioso, Siques e Cupido em Rythima Solta, Calipso, Parnaso Obsequioso, que subiu à cena em 1768, e São Bernardo, programado para a quaresma de 1777. A construção em 1770 de uma Casa da Ópera (à qual já nos referimos anteriormente), diz bem do interesse dos cidadãos de Vila Rica em dispor de um espaço especialmente adequado tanto a óperas e concertos quanto a representações teatrais. Desde sua inauguração, e pelo Séc. XIX a dentro, a Casa da Ópera tornou-se o centro da atividade cênica e musical em Vila Rica, e alguns estrangeiros de passagem a ela se referem. John Mawe, por exemplo, que em começos do Séc. XIX foi o primeiro estrangeiro autorizado a visitar Minas, falou em seus “cenários bonitos e atores passáveis”. Já ao naturalista austríaco João Emanuel Pohl, que a conheceu em 1820, a Casa da Ópera e o que ali se representava suscitaram comentários nada abonadores. Segundo ele, o teatro, embora pequeno, com seus 42 camarotes dispostos em três ordens, era grande demais para o número de habitantes, os quais só compareciam aos espetáculos para agradar ao governador, e isso no caso de ele estar presente. Soldados armados de baionetas ocupavam a plateia. Havia um único espetáculo por semana, cancelado caso o governador não pudesse comparecer. Pohl assistiu a três peças, interpretadas por uma companhia ambulante: uma ópera cômica de Dittersdorf, A Donzela de Mariemburgo e a celebérrima Inês de Castro, aliás interpretada por um homem, e sob aplausos gerais. Vinte e dois anos mais tarde, por ocasião do 17º aniversário do Imperador Pedro II, outra vez se encenou a Inês de Castro na Casa da Ópera: segundo Suzannet, que esteve presente, “todos os papeis, mesmo os de mulher, eram representados por oficiais e soldados”.A Inconfidência MineiraFato seminal, que sem ser exclusivo de Vila Rica (pois se irradiou para outras vilas e povoados mineiros), nela, como cabeça da capitania, teria repercussão maior e consequências mais graves, foi a Inconfidência ou Conjuração Mineira, remotamente inspirada nos movimentos libertários que culminaram em 1776 com a independência das 13 colônias inglesas da América do Norte e em 1789 com a queda do regime monárquico em França, e mais diretamente em consequência da insatisfação gerada pelo declínio da produção aurífera nas Gerais, agravada pelo anúncio da iminente cobrança da derrama, o imposto que cada morador teria de pagar para completar as 8,8 toneladas destinadas ao Erário português. Foi nesse cenário de crise econômica, agravada por sucessivas más administrações da capitania, que, usando como divisa um verso extraído a uma das Éclogas de Virgílio - Libertas Quae Sera Tamen, Liberdade ainda que Tardia, uniram-se intelectuais como Cláudio Manuel da Costa, Tomás Antônio Gonzaga e Alvarenga Peixoto, nossos velhos conhecidos da Arcádia Ultramarina, religiosos como o cônego Luís Vieira da Silva – possuidor da maior biblioteca de Minas, entre cujos 800 títulos figuravam obras de Montesquieu e Voltaire, além de umas perigosas Observations sur le gouvernement des Etats Unis de l´Amérique, militares, como o próprio comandante militar da capitania, Coronel Francisco de Paula Gomes Freire, ou seu subordinado em armas, o alferes Joaquim José da Silva Xavier, fazendeiros, proprietários de terras, criadores de gado, comerciantes, e inclusive uma mulher – Hipólita Jacinta Teixeira de Melo, casada com o Coronel Francisco Antonio de Oliveira Lopes, a qual queimou os papeis que o marido pretendia levar ao Visconde de Barbacena, nos quais denunciava a rebelião e os nela envolvidos, tendo sido por isso despojada de todos os seus bens. O ponto de vista de todos os conjurados podia resumir-se numa frase que Tiradentes repetia a quem quisesse ouvir:Pena que uns países tão ricos como estes (as Minas Gerais) estivessem reduzidos à maior miséria, só porque a Europa, como esponja, lhe estivesse chupando toda a substância.A solução, então, seria a capitania, e não o Brasil, separar-se de Portugal. Ninguém desejava a instalação de um regime democrático, ninguém acenou com a abolição da escravatura: desejava-se, isso sim, como escreveu Lucas Figueiredo, “dominar os rendosos postos da burocracia estatal, eliminar os monopólios comerciais de Portugal e livrar-se das mordidas da Coroa sobre o fruto das (já magras) minas de ouro. O negócio da conspiração eram os negócios”.O resto da história é sabido: denunciados por um dos conspiradores, Joaquim Silvério dos Reis, que pretendia em troca ter suas dívidas com a Coroa perdoadas, os inconfidentes foram presos, e quase todos exilados na África, menos dois: Tiradentes, único a sofrer a morte hedionda na forca, tendo sido em seguida decapitado e enforcado, e Claudio Manuel da Costa, encontrado morto na prisão – provavelmente assassinado.
  • 188 189CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3Três Figuras EmblemáticasPudesse a história de Vila Rica ser sintetizada em três nomes apenas, e a escolha recairia sobre dois homens - Antônio Francisco Lisboa e Joaquim José da Silva Xavier – e uma mulher - Maria Doroteia Joaquina de Seixas Brandão -, mais conhecidos como Aleijadinho, Tiradentes e Marília de Dirceu respectivamente, os três tendo em comum o fato de suas vidas oferecerem até hoje pontos obscuros, que se prestam a controvérsias e acaloradas discussões entre os estudiosos.Antônio Francisco Lisboa, filho do importante mestre de obras português Manoel Francisco Lisboa e de Isabel, escrava africana, nasceu em Vila Rica, provavelmente em 1738. A alcunha Aleijadinho adveio-lhe da doença ou moléstia – sífilis, lepra nervosa, bouba, reumatismo deformante, porfiríase ou o que fosse - que o acometeu por volta de 1777 e lhe deformou mãos e membros inferiores, acabando por transformá-lo numa figura assustadora, a ser real o perfil que dele esboçou em 1858 Rodrigo Bretas, fiando-se em descrições da nora do artista e de pessoas que o tinham conhecido, embora possivelmente carregando nas tintas até transformá-lo num verdadeiro monstrengo: As pálpebras inflamaram-se e, permanecendo neste estado, ofereciam à vista sua parte inferior; perdeu quase todos os dentes da boca, a boca entortou-se como sucede frequentemente ao estuporado, o queixo e o lábio inferior abateram-se um pouco; assim o olhar do infeliz adquiriu certa expressão sinistra e de ferocidade, que chegava mesmo a assustar a quem o encarasse inopinadamente. Esta circunstância, e a tortura da boca, o tornavam de um aspecto asqueroso e medonho.Tão repugnante deve ter sido sua aparência, que segundo a tradição um seu escravo tentou o suicídio, ao saber que teria de servir a tão feio senhor - tanto mais que, impossibilitado de caminhar, o Aleijadinho tinha de ser carregado aos ombros. Fugindo do convívio humano, passando a trabalhar em locais ermos, altas horas da noite e pela madrugada a dentro, Antônio Francisco Lisboa tornou-se taciturno e colérico, e assim passaria os próximos 37 anos, até falecer em 18 de novembro de 1814, ao que parece por negligência do antigo discípulo Justino Ferreira de Andrade, de quem em 1812 passara a assalariado. Exageros e lendas à parte, não há dúvida de que o Aleijadinho não foi nenhum Apolo, e certamente não terá merecido em vão a alcunha pela qual já era conhecido desde 1806 pelo menos. Quanto à sua produção como arquiteto e escultor, pode ser admirada principalmente em Ouro Preto, São João del Rey, Sabará e Congonhas do Campo, onde estão os testemunhos mais eloquentes de sua genialidade, mas há também exemplos notáveis de sua produção em Caeté, Santa Rita Durão, Catas Altas e em outras cidades mineiras. Perdido entre as montanhas de Minas, a braços com padecimentos físicos insuperáveis, ao Aleijadinho, derradeiro elo da longa cadeia de grandes imaginários cristãos iniciada em tempos medievais, aplicam-se com justiça as palavras que lhe dedicou Germain Bazin:BrasilO Profeta Isaias, de Antonio Francisco Lisboa, no escadório dos 12 Profetas em Congonhas do Campo (1812)Detalhe do Cristo com a Cruz, num dos Passos que conduz ao Santário de Bom Jesus de Matosinhos, em Congonhas do Campo
  • 190 191CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3Para compreender o sublime dessa obra, é necessário saber o que ela significou em sofrimento. Nunca talvez o gênio, para se realizar, terá exigido tanto heroísmo. Cercada de controvérsias é a figura de Joaquim José da Silva Xavier, nascido em 1746 numa fazenda entre a atual Tiradentes (então São José) e São João del Rey. Após ter sido minerador, tropeiro e mascate, era dentista amador, ofício que aprendera com o padrinho cirurgião, quando aos 30 anos ingressou na carreira militar, na qual não foi além do posto de alferes – correspondente, na atualidade, ao de segundo-tenente -, preterido em quatro ocasiões. A princípio Tiradentes desfrutou de prestígio junto às autoridades portuguesas, que impressionadas com seu desempenho na repressão à bandidagem na Serra da Mantiqueira e nas missões, que lhe foram confiadas, de desbravamento e prospecção dos ermos sertões situados a Leste da capitania, ainda em 1788 o tinham designado para chefiar a escolta da Viscondessa de Barbacena, em viagem a Vila Rica. No ano seguinte, porém, desgostoso com o governo colonial e entusiasmado com a independência dos Estados Unidos da América, cuja Constituição estudou, e atingido pela onda revolucionária que chegou às Américas após a vitória da Revolução Francesa de 1789, juntou-se ao grupo de intelectuais, religiosos, militares, mineradores, proprietários de terras e cidadãos comuns que em Vila Rica e em outras vilas e povoados mineiros queriam fundar não propriamente um Brasil independente e republicano, como ainda há quem pense, porém (como revelou Joaquim Norberto, primeiro historiador a compulsar os autos da devassa da rebelião), uma república independente, integrada pelas capitanias de Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro, continuando o resto do país colônia de Portugal.Baseado nos depoimentos, constantes nos autos, dos inconfidentes e de diversas testemunhas, Joaquim Norberto deixou-nos, em sua História da Conjuração Mineira, um retrato pouco lisonjeiro de Tiradentes, que parece não ter sido levado muito a sério sequer pelos seus companheiros de conjuração: imprudente, fanfarrão, boquirroto, leviano, “um oficial feio e espantado” (Silva Alvarenga), ”homem de fraco talento” (Cláudio Manuel da Costa), “pobre, sem respeito e louco” (Gonzaga), “doido e endemoninhado” (Pires Sardinha), “um pobre doido” para o próprio vice-rei Luís de Vasconcelos e Souza, o alferes parece ter se limitado... a conviver com pessoas de pequena esfera, passando os dias pelas lojas de negócio, e casas de mulheres perdidas, onde, em altas vozes e sempre gesticulando, ou falava nos seus projetos de meter as águas da Tijuca ou do Andaraí na cidade, e de estabelecer armazéns na praia da Saúde e barcas de passagem, ou punha-se a declamar com azedume, segundo o seu estilo, a favor de seus planos de república, atraindo a atenção pública e promovendo cenas de escândalo.Preso afinal no Rio de Janeiro, julgado e condenado à forca com mais dez inconfidentes, enquanto outros sete recebiam a pena de degredo na África), foi nesse momento que Tiradentes se revelou em toda a sua grandeza, pois ao contrário dos demais condenados à morte – de um Cláudio Manuel da Costa, por exemplo, que depôs contra os companheiros -, declarou-se o único culpado pela rebelião, dizendo-se pronto a morrer em lugar dos demais. Assim, “convertendo a leviandade em confissão heroica”, acabou pagando com a vida tamanha coragem, enquanto a pena de morte dos demais inconfidentes era convertida em degredo na África. Como escreveu Eduardo Frieiro, Tiradentespagou por falar demais. Pagou mais que os outros, porque era pobre, de classe modesta e o mais humilde dos indiciados na devassa. Sua mente inflamada, típica do indivíduo impulsivo e exaltado que está sempre pronto a fazer justiça por seu próprio arbítrio, comprometeu irremediavelmente as personagens do tenebroso drama urdido pela polícia política da Metrópole, cavilosa, truculenta e feroz, como costumam ser nesses casos toda justiça política. Mas a dignidade que conservou na provação, em contraste com a pusilanimidade de quase todos os indiciados, o holocausto de sua vida, exigido pelo absolutismo liberticida, seu fim exemplarmente cristão, chegada a hora terrível em que nada mais importa no mundo, o redimiram de todas as imprudências e leviandades. Sua sombra legendária de vítima do despotismo merece o respeito que a História lhe consagra.O terceiro e último personagem-síntese de Vila Rica foi uma mulher, mais que isso – foi musa, a musa adolescente do quarentão Tomás Antônio Gonzaga, que a imortalizaria no livro Marília de Dirceu, do qual já falamos ao tratar da literatura em Vila Rica. Nascida em 1767 e tendo por conseguinte 23 anos a menos que Gonzaga (nascido em 1744), é possível que se tenha apaixonado, mais do que pelo autor, pelos versos que lhe endereçava com frequência o ilustre ouvidor de Vila Rica, homem de mais espírito que atrativos físicos – Pereira da Silva o descreve como “de estatura pequena, cheio de corpo”, acrescentando porém que “sua conversação alegre e jovial encantava, seus modos agradáveis e polidos lhe atraíam todos os corações”. Homem já maduro, com os cabelos já ralos embranquecendo, sem possuir fortuna, vestindo-se com a afetação de um dandy ou, como se dizia em Portugal à época, de um peralta, e além do mais mulherengo (pois não nascera um filho de sua ligação com certa Laura, ali mesmo em Vila Rica?), Gonzaga, embora sinceramente apaixonado por Maria Doroteia, não obteve o consentimento da família da jovem, o que o levou a solicitar à Rainha uma autorização especial para as bodas. O resto é sabido: preso dias antes do fixado para as núpcias, encarcerado por três anos até partir para o exílio em Moçambique, de onde não mais retornaria, Gonzaga ali se casou com Juliana de Sousa Mascarenhas, jovem, muito rica e sem grandes luzes, a qual, se não o fez esquecer de todo a noiva que deixara em Vila Rica, deu-lhe um filho e lhe proporcionou as condições materiais e domésticas para que retomasse a carreira na magistratura: quando morreu, em 1810, era juiz da Alfândega, após ter sido Procurador da Coroa em Moçambique. Quanto a Marilia de Dirceu, dizem uns que morreu em 1853, solteira; outros, talvez mais bem informados e realistas, que casou, teve filhos e netos. Brasil
  • 193CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3192 CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CONVENTO E IGREJA DE SÃO FRANCISCO DA BAHIAEscreveu Frei Antônio de Santa Maria Jaboatão no Novo Orbe Seráfico Brasílico, de 1761, que no Brasil os franciscanos foram a princípio estrelas cadentes, para só se tornarem estrelas fixas depois de 27 de novembro de 1586, quando o Papa Xisto V oficializou a Custódia de Santo Antônio do Brasil, com sede em Olinda e subordinada à Província de Santo Antônio de Portugal. Estrelas cadentes foram por conseguinte, entre tantos outros, Frei Henrique Soares de Coimbra, antigo desembargador da Casa da Suplicação de Lisboa antes de optar pela vida religiosa, mais tarde confessor do Rei Dom Manuel e inquisidor-mor do Reino, mais os sete frades com ele vindos em 1500 na própria frota de Cabral, entre os quais um organista, Frei Masseo; estrelas cadentes, os frades menores ativos desde 1532 em São Vicente e após 1538 em São Francisco do Sul, além desse misterioso Frei Pedro Palacios que, após ter estado na Bahia, plantou em 1558 no topo de um penhasco em Vila Velha do Espírito Santo o Convento de Nossa Senhora da Penha, e do anônimo franciscano espanhol que por volta de 1583 fez erguer em Salvador modesta capela de taipa, São Francisco do Monte Calvário.Foi em 1587 que, procedentes de Pernambuco, chegaram a Salvador Frei Antônio da Ilha e outros dois frades, enviados pelo Custódio Frei Melchior de Santa Catarina para fundar convento na Bahia. Recebidos como se fossem anjos vindos da glória (como anotou o anônimo cronista do Livro dos Guardiães do convento), e abrigados no Palácio Episcopal, semanas depois cedeu-lhes o Bispo Dom Antônio Barreiros umas pequenas casas, no local onde se situa a portaria do atual convento. Apenas instalados, Frei Antônio da Ilha e seus companheiros começaram a procurar pedra e madeira para o futuro convento.BRASILTexto de José Roberto Teixeira LeiteFachada da igreja do Convento de São Francisco da Bahia, com a imagem do orago num nicho sob o brasão da Ordem, e às extremidades as austeras torres sineiras.
  • 194 195CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3O guardião que sucedeu a Frei Antônio da Ilha, entre 1590 e 1596, foi Frei Francisco dos Santos que, esclarece o citado Livro dos Guardiães, era “filho da Província e um dos primeiros religiosos que dela vieram; religioso muito pobre, exemplar e muito apartado das conversações de seculares; tinha grande talento para obras, para ser bem visto na Arte da Arquitetura, e para fazer imagens de barro, como fez muitas na Província e algumas na Custódia”. Autor do risco ou projeto do primeiro convento da Ordem no Brasil - o de Nossa Senhora das Neves, em Olinda (1595) - e de outros cenóbios franciscanos, foi também Frei Francisco dos Santos quem, sempre segundo o Livro dos Guardiães, “traçou esta Casa e começou a obra, e no seu tempo se fez muita parte dela”; de sua autoria, feitos durante sua segunda gestão como guardião, eram igualmente os retábulos, “obra perfeitíssima, que os holandeses quebraram, quando renderam esta Cidade, no ano de 1624”. Profanado durante a invasão holandesa, quando - como informa Frei Vicente do Salvador em sua História do Brasil - “a igreja do nosso seráfico padre servia de armazém de pólvora e armas, e no dormitório morava um capitão com sua companhia de soldados” (que depois o incendiaram), o primitivo convento passou por sucessivas intervenções e reparos até 20 de dezembro de 1686 quando, sendo guardião Frei Tomás da Presentação, e se tendo chegado à conclusão de que o mesmo já era insuficiente para receber o número crescente de religiosos, foi lançada a pedra inaugural do novo e imponente convento, cuja construção se arrastaria por décadas e só estaria concluída quase um século depois, em 1782. É esse Convento e Igreja de São Francisco da Bahia, com sua vizinha Ordem Terceira de São Francisco da Penitência, que hoje deslumbram e emocionam os que têm a ventura de os conhecer, sendo como são um dos mais importantes monumentos religiosos do Brasil, escolhido em 2009, entre 21 candidatos, como uma das Sete Maravilhas com que o gênio português enriqueceu África, Ásia e América do Sul, ao lado da Fortaleza de Diu e da Basílica do Bom Jesus em Goa, na Índia, da Fortaleza de Mazagão Al-Jadida em Marrocos, da Cidade Velha de Santiago, em Cabo Verde, das ruínas da Igreja de São Paulo em Macau e da Igreja de São Francisco da Penitência em Ouro Preto, no Brasil. Na verdade, e como veremos nas próximas páginas, o Convento de São Francisco da Bahia não é apenas (o que já seria muito), um esplêndido monumento da fé religiosa de um povo: também o é de sua cultura, pois nele Frei Vicente do Salvador redigiu a primeira História do Brasil e Jaboatão o Novo Orbe Seráfico Brasilico, e nele funcionaram uma aula de estudos filosóficos e teológicos, transferida do Convento de Olinda em 1632, quando da invasão de Pernambuco pelos holandeses, e entre 1818 e 1847 uma aula pública de desenho, na qual ensinaram dois grandes pintores baianos - Antônio Joaquim Franco Velasco (nomeado em 1821 por Dom João VI) e José Rodrigues Nunes, que o sucedeu em 1833; finalmente, o Convento de São Francisco da Bahia é um soberbo museu de arte, que abriga a maior coleção de pinturas coloniais brasileiras, um extraordinário acervo de azulejaria portuguesa (só superado pelo de São Vicente de Fora em Lisboa), e o mais valioso repertório da melhor talha setecentista lusitana, título que reparte com a Igreja de São Francisco do Porto. A paradoxal riqueza franciscanaA quem adentre a esplêndida folia de ouro – como a classificou Géo-Charles - que é a Igreja do Convento de São Francisco da Bahia, e ali se depare “com um fausto não sonhado, com uma riqueza de ornamentos cobertos de ouro que acabrunha” (Frei Pedro Sinzig), “floresta tropical de acantos, habitada por uma variada população de figurinhas antropomórficas, dos tradicionais anjinhos e putti às sensuais cortesãs de seios desnudos, semi-escondidas nas bacias dos púlpitos” (Myriam Ribeiro de Oliveira), a primeira impressão é de espanto e estranhamento: pois acaso não recomendam os Estatutos da Ordem que nos edifícios e obras franciscanas “resplandeça muito a santa pobreza, não fazendo curiosidades supérfluas, e desnecessárias”? Como então conciliar tanta riqueza, tamanha opulência com os ideais de humildade, simplicidade e justiça pelos quais se norteiam os seguidores do Poverello, que renunciou a todos os bens terrenos e certamente não se sentiria nem BrasilDetalhe do altar-mor, e nele a imagem de São Francisco, obra de Pedro Ferreira inspirada em pintura de Murilo.
  • 196 197CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3um pouco à vontade em seu interior? – Isso mesmo deverá ter acudido a Santos Simões, como se lê em seu livro Azulejaria Portuguesa no Brasil:Impossível pensar no convento de S. Francisco da Bahia sem meditar sobre essa extraordinária explosão de barroquismo português que o impõe como a expressão máxima do joanino colonial! Os movimentos da talha e a exuberância dourada que enriquece a igreja, a plenitude e escala da decoração, e a vastidão das superfícies cobertas, fazem deste monumento o mais “rico” de quantos se produziram no reinado do Magnânimo. Fabulosa ostentação de riqueza, mal ela se compreende em cenóbio de filhos do “Poverello” mas, por outro lado, exemplifica o clima de exaltação cultural num meio e numa época em que as megalomanias encontravam expressão e publicidade nos edifícios religiosos.É que os tempos eram de Triunfos Eucarísticos e celebrações feéricas, civis mas também religiosas, nos quais se esmerava e excedia a imaginação barroca, cada igreja quase transformada em casa de espetáculos ou teatro de ópera. Capital do Vice-Reinado até 1763, a Bahia era rica, bafejada pelo abundante ouro das Minas Gerais, que ia despovoando o Reino e em busca do qual acorriam sôfregos desde começos do século, “das cidades, vilas, recôncavos e sertões do Brasil, brancos, pardos, pretos e alguns índios, homens e mulheres, moços e velhos, pobres e ricos, nobres e plebeus, seculares, clérigos e religiosos de diversos institutos”, como escreveu escandalizado Antonil, em Cultura e Opulência do Brasil. Nessas circunstâncias, não há como estranhar fosse também rica a Ordem Franciscana da Bahia, que podia contar com benfeitores abastados, baianos de cabedal sempre dispostos a abrir suas bolsas, quando vivos, ou de contemplá-la post mortem com generosos legados (como o fez certo Jorge Ferreira, falecido em 21 de dezembro de 1641, em cujo testamento deixava as rendas de seis casas, no total de 152$000 anuais, mais, “para o Capítulo o altar armado como os da igreja e lâmpada sempre acesa, com a condição de ter uma missa diária na capela do Capítulo, pelo descanso de sua alma”), e tudo para cumular seu convento e igreja das mais custosas alfaias, da talha mais requintada, dos mais suntuosos retábulos, de tetos caprichosamente pintados pelos melhores pinceis e de quantos painéis de azulejos fossem necessários mandar vir da Metrópole para lhe atapetar de ponta a ponta paredes e muros, prolongando-se pela sacristia adentro até atingir o claustro inferior e a sala capitular. Pois o próprio Dom João V não fizera questão de contribuir para seu esplendor, presenteando-o com duas pias em pedra lavrada, mais “um ornamento inteiro de casulas e frontais de veludo negro para o cruzeiro, e capa de asperges”? E isso sem falar nos constantes legados e nas generosas esmolas (inclusive recolhidas nas Minas Gerais, por autorização especial do Conde de Sabugosa em 1731), a engordar mais e mais as finanças da Ordem. Mesmo porque toda pompa e ostentação não eram nada, em se tratando do culto divino; quanto aos frades, esses que se resignassem em suas celas humildes, pois sabiam que toda aquela riqueza, que até podiam ver e tocar, de modo algum lhes pertencia, reservada que estava à maior glória de Deus. Arquitetura franciscana no BrasilAntes de ir adiante, tornam-se necessárias algumas palavras sobre a arquitetura franciscana no Brasil. Não foi ela criação de um indivíduo, porém obra coletiva de sucessivos arquitetos (como o próprio Frei Francisco dos Santos, falecido em 1625), que pouco a pouco foram levados a adaptar, a condições e peculiaridades locais, partidos e soluções renascentistas e inclusive românicos. Foi assim que surgiram, ao longo do litoral brasileiro mas principalmente do nordestino, entre a Bahia e a Paraíba, os conventos de Nossa Senhora das Neves (1585), Salvador (1587), Igarassu (1588), João Pessoa (1590), Vitória (1591), Rio de Janeiro (1606), Ipojuca (1606), Vila de São Francisco (1629), Serinhaem (1630), Santos (1639), Cairu (1650) e Nossa Senhora da Penha (1650), até fins da primeira metade do Séc. XVII, e na segunda, BrasilO emblema franciscano: os braços entrecruzados de Jesus e de São Francisco.
  • 198 199CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3Itanhaem (1655), São Cristóvão (1658), Penedo (1660), Marechal Deodoro (1660) e Itaboraí (1660). De como eram alguns daqueles primitivos conventos nordestinos, destruídos sob a ocupação holandesa - e muitos deles reconstruídos após sua expulsão em 1654, como o de Serinham (1654) e o de Igaraçu (1661-1665) - , só ficou o registro sumário em pormenores de pinturas e desenhos de Frans Post (1612-1680), o paisagista que de 1637 a 1644 trabalhou no Nordeste, ao tempo em que Maurício de Nassau governava o chamado Brasil Holandês; mesmo assim, pode-se por meio deles ver que em sua construção já se utilizava materiais como pedra, cal e inclusive tijolo, motivo pelo qual muitos foram demolidos, para que tais materiais fossem reaproveitados pelos holandeses em suas construções. A arquitetura franciscana no Brasil colonial desenvolveu-se de forma coerente e sem grandes alterações. A construção de um convento obedecia invariavelmente a uma sequência lógica: tinha início pelo claustro, prosseguia pela capela-mor, depois era erguida a nave e finalmente se cuidava do frontispício, atrás do qual se situava o pórtico, cuja forma evoluira da dos alpendres de taipa dos primeiríssimos conventos; o frontispício, encimado por frontão triangular ou piramidal e elaborado com esmero e até requinte, fazia enorme contraste com a austeridade e o despojamento das fachadas. Quanto ao pórtico, reminiscência das basílicas dos primeiros tempos do Cristianismo e também chamado galilé (pois está no Evangelho de São Mateus ser a Galileia terra de Gentios), destinava-se a acolher os que ainda não tivessem sido batizados, os quais dali podiam acompanhar a missa sem ter de entrar no espaço sagrado do templo, o que lhes era negado. As igrejas dispunham de uma única nave (à exceção da do Convento de São Francisco da Bahia, com nave central e duas laterais - talvez, como quer Germain Bazin, por emulação com a velha igreja gótica de São Francisco do Porto). O claustro, quadrangular e de inconfundível sabor medieval (evocativo talvez do hortus conclusus, emblemático, na velha simbologia cristã, da virgindade de Maria), localizava-se a um dos flancos da igreja, circundado por arcadas de tipo renascentista, e envelopava precioso espaço que funcionava ao mesmo tempo como lugar de meditação, repouso e refrigério, de inestimável serventia em face do intenso calor tropical; desenvolvia-se em dois pisos, localizando-se no térreo, de pé direito mais elevado, a sala de estudos, a capitular, o refeitório, a enfermaria e demais serviços, e no superior a biblioteca e os dormitórios dos frades. Para se chegar à igreja era necessário atravessar o adro, ao centro do qual se elevava o cruzeiro de pedra. O adro desempenhava a função simbólica de delimitar com precisão o espaço mundano em que se agitam os homens daquele, sagrado, que é a casa de Deus, e desse modo preparava os fieis para o silêncio e o recolhimento que dentro dela reinavam. Etapas da construçãoSão conhecidas, graças à publicação em 1978 do Livro dos Guardiães do Convento de São Francisco da Bahia (1587-1862), compilado e anotado por Frei Venâncio Willeke, as diferentes etapas da construção e ornamentação do atual convento e da sua igreja, o que nos permite acompanhar como, sob uma estrutura basicamente clássica, foram-se acumulando ao longo das décadas elementos ornamentais barrocos, rococós e inclusive neoclássicos. Pela leitura do citado Livro, e a despeito de suas muitas lacunas e omissões – em nenhum momento são revelados, por exemplo, os nomes dos artistas que fizeram as pinturas e esculturas -, conhece-se com precisão, quase que passo a passo, quando e em que circunstâncias foram tomando corpo o convento e sua igreja, dados esses de valor inestimável para o historiador de arte, BrasilO Terreiro de Jesus, tendo ao fundo a igreja do Convento e ao centro o Cruzeiro de São Francisco, em mármore.
  • 200 201CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3que raramente ou quase nunca dispõe desse tipo de informação. Por outro lado, também as substituições, alterações e restauros, nem sempre criteriosos, de que foram alvo (quando não vítima), tornam-se mais e mais frequentes à medida em que o tempo avança, para atingir seu clímax em 1862. Após essa data, faltam-nos dados que possivelmente revelariam outras e talvez mais funestas intervenções. Consultando o citado Livro dos Guardiães a partir do 13º deles, Frei Tomás da Presentação, constata-se que, sendo guardião o aludido Frei Tomás da Presentação, teve início em 1686 “a obra dos corredores novos deste convento a 20 de dezembro, quarta dominga do Advento, dia em que nesta casa se celebrava a festa de Santo Antônio de Arguim”. Coube a Frei Manoel de S. Antônio, guardião entre 1705 e 1707, acabar “as obras do Convento, a saber: a Enfermaria, forrando-a e aperfeiçoando-a de azulejo, o retábulo do altar, e tudo o mais necessário para a sua perfeição, como também acabou as oficinas de baixo, começando do cárcere, Refeitório, poio, cozinha, Capítulo com forro e azulejo; e assim mais seis celas no dormitório de baixo, e mais uma que fica em cima da escada, junto da Enfermaria, e a casa de fora da Enfermaria aperfeiçoou com azulejo e forro”. Em tempos do guardião Frei Vicente das Chagas lançou-se a 1º de novembro de 1708 a primeira pedra na igreja nova, da qual até 1710 tinham sido “envigadas as tribunas de uma parte, isto é, da capela-mor..... feitos os arcos de uma banda, e vai-se lavrando pedra para a outra. Fica a igreja até o Cruzeiro meio feita, capela-mor, e duas capelas mais”, além do que “fizeram-se no claustro 22 pilares, que ficam cinco palmos fora da terra; doze pilares levaram de alicerce 40 palmos, e os mais 32, os somenos 28. A Igreja levou de entulho e alicerces 48 palmos. Soalhou-se a sacristia, despejos e Capítulo”. Sob seu sucessor, Frei Hilário da Visitação (1710-1714), continuaram as obras da igreja com sua capela-mor e foi feita a sacristia, enquanto em 1732-1733, sendo guardião Frei João da Conceição Santiago, fez-se a obra do forro e teto da igreja, ficando concluída a pintura e douração do forro entre 1733 e 1735, já sob Frei Jerônimo da Graça. Ao tempo de Frei Manuel das Mercês (1735-1738) fez-se o douramento dos dois últimos lances do forro, e no do guardião seguinte, Frei Gervásio do Rosário (1738-1741), concluiu-se a douração do teto da capela e dos altares colaterais de Nossa Senhora e de Santo Antônio, fez-se o grande retábulo do altar de São Luiz Bispo e se mandou vir de Portugal pedra lavrada para o pavimento da capela-mor.A Frei Manoel do Nascimento, 38º guardião (1741 e 1743), coube mandar fazer e assentar, entre outras obras de menor vulto, as sepulturas de pedra mármore branca e vermelha em todo o cruzeiro da Igreja, e bem assim o grande retábulo do altar de Nossa Senhora da Glória, encimado por uma imagem nova da mesma e tendo no nicho inferior uma imagem de Santana; também no seu tempo “se fez um órgão para o coro, que custou quinhentos mil reis, que não deixou no coro por não consentir o Padre Visitador; este órgão foi dado por uns devotos”. A imagem de mármore de São Francisco, ainda hoje admirada no nicho do frontispício da igreja, foi mandada vir de Portugal pelo guardião seguinte, Frei Antônio das Chagas (1743-1746), o qual também colocou a imagem de São Luiz Bispo em seu altar, ladeado pelas de São Pascoal Baião e São Diogo, e a de São José no altar da Glória, além de assentar os azulejos desses dois altares, e as duas pias de pedra lavrada presenteadas por Dom João V. Também sob sua administração azulejou-se o salão ao alto da escada da sacristia, na qual pôs cinco painéis representando outros tantos bispos franciscanos, fora os oito colocados no coro. Os cinco guardiães que se seguiram contribuíram, cada qual a seu modo, para as obras do convento e da sua igreja: Frei Boaventura de São José (1746-1748) terminou a douração e pintura do forro sob o coro, fez construir seis novas celas sob a sacristia e azulejou as quatro quadras do claustro, além de enriquecer a livraria com 122 tomos; Frei Francisco da Conceição (1748-1749) deu início ao muro de pedra e cal, do qual se fizeram três lances com 31 braças, além de rebocar e caiar as quatro quadras do claustro; Frei Manuel de Jesus Maria (1749-1752) lajeou o claustro, azulejou e pintou a via sacra e aumentou, dourou e pintou a livraria, ao mesmo tempo em que dava início às obras da portaria, concluídas entre 1752-1755 por Frei Francisco da Conceição, outra vez guardião, que fez também os dois salões que ficam sobre a mesma; quanto a Frei Antônio de Santa Isabel (1755-1758), conseguiu finalmente colocar o órgão no coro, principiou a ampliação da enfermaria e construiu nova senzala para as pretas casadas – uma vez que, devidamente autorizados pelos Estatutos da Província de Santo Antônio, de 1709, os conventos franciscanos possuíam escravos (e continuariam a tê-los pelos próximos 170 anos, até dezembro de 1872), constando no Livro dos Guardiães diversas anotações vergonhosas, como “meteram-se uns escravos do gentio da Guiné”, “meteram-se 7 escravos” (entre eles, possivelmente, um moleque, referido no Livro das Contas em fevereiro de 1792, que custou 121$400), “compraram-se 6 moleques novos benguelas”, “compraram-se 5 moleques novos e um preto crioulo com princípios de pedreiro”, “compraram-se dez moleques, um molecote e deram um de esmola; ao todo quatorze”, “consertou-se o tronco para a prisão dos escravos, e compraram-se dois e deram um de esmola: 3 escravos”, “ trocou-se o escravo Adriano por um moleque de nome João do Prado”; “existe mais um preto velho de nome Paulo dado de esmola pelo Capitão Medões para o serviço do Convento” etc. - coisas essas inadmissíveis, ainda mais porque partidas dos irmãozinhos daquele Poverello que não desejou possuir bens materiais, quando mais seres humanos. Frei João de Jesus Maria, 45º guardião entre 1758 e 1762, além de substituir, no altar que era de São Luiz Bispo, a imagem desse santo pela de Cristo, Senhor da Boa Sentença, deu sequência às obras da enfermaria, mandou dourar e pintar o órgão e fez instalar a lâmpada de prata “que deu o nosso Ir. Antônio André Torres, que importou perto de 6.000 cruzados por ser obra perfeita e grande”. Continuadas por Frei Diego de São Diogo (1761-1763) e Frei Leandro do Sacramento (1763-1764), as obras de ampliação da enfermaria foram concluídas em tempos de Frei Feliciano de Jesus Maria (1764-1768), quando a mesma passou a contar com mais dois dormitórios, um com Brasil
  • 202 203CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 315 e outro com oito celas; o mesmo guardião fez construir as senzalas dos escravos, e deu continuidade às obras do muro.O cemitério, localizado sob a sala de estudos, com “duas andainas de nichos de cima e debaixo, em que se sepultam os religiosos”, foi obra de Frei Manuel da Epifania (1768-1771), enquanto Frei Domingos da Purificação (1771-1774), além de ter enriquecido a igreja com imagens novas de São Francisco e São Domingos – essa última, como se verá mais adiante, a única imagem de autoria documentalmente comprovada do grande escultor baiano Manuel Inácio da Costa -, reedificou o teto da capela da horta, “toda de novo forrada e pintada de perspectiva”, ladrilhou o refeitório e duas quadras do claustro, pintou a portaria, consertou o órgão e concluiu as obras da cozinha da enfermaria.Pouco, quase nada se fez entre 1774 e 1790. Contudo, sob o 55º guardião, Frei Ubaldo de Santana (1782-1783), além de terem sido produzidos, comprados ou recebidos em doação, em número considerável, castiçais, imagens, paramentos, relicários, lampiões, ramalhetes, livros, peanhas, cadeiras, estrados e um esquife “para se enterrarem os religiosos”, veio de Portugal o azulejo da portaria, disposto “ em 24 caixões da dita portaria”, fizeram-se reparos no corredor da cela das catacumbas e na tribuna da capela-mor da parte da Ordem Terceira, foi outra vez pintado e dourado o altar da cozinha da enfermaria, e se refez um lance do muro. De tempos do 58º guardião, Frei José de Santa Inês (1790-1793), datam várias melhorias para a capela-mor, inclusive “quatro evangelistas grandes, estofados, dourados e prateados, com diademas e penas de prata”, e “duas mesas modernas douradas”; na mesma época “colocou-se no altar de São Pedro de Alcântara uma imagem nova do mesmo santo”, além de terem sido incorporadas as imagens de São Dimas, São Judas Tadeu e São Francisco de Paula. Já sob Frei Vitorino do Espírito Santo (1795-1796) o convento foi todo caiado por fora, e a torre recebeu um sino grande, com 70 e tantas arrobas, com a inscrição “Faustino Alves me fez em Lisboa no ano de 1796”. Era natural que entre começos do Séc. XIX e 1862 (quando cessam as anotações do Livro dos Guardiães), diminuíssem as referências a novas construções, e aumentassem as menções a reformas e recuperações, sem falar nas incontáveis incorporações de paramentos, livros, navetas, sacras, cálices, galhetas, lâmpadas, vasos dos Santos Óleos, castiçais, mochos, tocheiros e inclusive imagens, muitas das quais outra vez encarnadas. Houve porém guardiães que, sem descurar da recuperação de bens danificados ou ameaçando ruína, conseguiram fazer adições e melhorias, algumas de monta, ao convento e à igreja – caso, por exemplo, de Frei José de São Sebastião (1805-1808), em cujo tempo “levantou-se o novo cruzeiro de pedra mármore; consertou-se o frontispício que estava danificado; encaliçou-se todo o telhado da igreja e meteram-se madeiras novas. Azulejaram-se ambas as torres; consertou-se e pôs-se corrente no relógio da torre; emadeirou-se de novo o telhado da Livraria, que caiu; fez-se o salão, envidraçado e azulejado até o meio. Fez-se cela nova com seu despejo para os Revmos. Guardiães; consertaram-se as celas do Definitório, preparadas de todo o necessário; consertou-se o Capítulo de S. Boaventura, portaria e grades”. Prosseguindo na leitura do Livro dos Guardiães, ver-se-á que ao 69º deles, Frei André de Santa Teresa de Jesus (1816-1817), coube providenciar a cobertura da senzala, que também ganhou capela própria; ao 71º, Frei Manuel de Santana (1820-1824), colocar vigas e assoalhar de novo o corredor das tribunas e da capela-mor da parte da Ordem Terceira, consertar o telhado do convento e caia-lo e pinta-lo por dentro; e ao 73º, Frei Antônio do Paraíso (1825-1827), reparar a sacristia, retocar os painéis, construir no corredor da Procuração uma cela para o Mestre dos Noviços e no Noviciado 18 cubículos, rouparia, sala de banho e cloacas, além de mandar fazer o retrato de Frei José da Santíssima Trindade, Bispo de Mariana.O 74º guardião, Frei Antônio do Paraíso (1827-1828), entre outras coisas, fez consertar “de várias madeiras, que estavam bastantemente arruinadas, toda a cobertura da igreja, livraria etc., ... tudo retelhado e encaliçado”, além de realizar obras no frontispício, reformar várias celas, substituir o assoalho da enfermaria e mandar caiar o convento; seu sucessor, Frei Joaquim de São Félix (1829-1831), substituiu o telhado da enfermaria, e fez reparos na senzala e capela dos escravos; já o 76º guardião, Frei Manuel da Purificação (1831-1832) anotou no Livro dos Guardiães, talvez com modéstia, talvez com mal dissimulada censura, que “as poucas [obras] que fez, não se dignou inscreve-las, conforme obraram todos, ou quase todos os seus antecessores”.Entre 1832 e 1860 nada se construiu, limitando-se os guardiães a realizar reparos: “repregou-se o retábulo, que forra a capela-mor... emboçou-se os quatro cantos do claustro que principiavam a carcomir-se” (1832-1834); “caiou-se o frontispício da igreja, todo o convento por dentro, bem como se pintaram o reposteiro e portas da dita, assim como todo o mesmo convento, por dentro” (1834-1835); “ladrilhou-se de mármore fino a Igreja e o corredor de São Benedito” (1835-1837); “fizeram-se cinco celas, com suas estantes, no corredor que foi Noviciado” (1837-1838); “lajeou-se de mármore italiano todo o pavimento da portaria... consertou-se todo o Noviciado” (1843-1844); “reparou-se todo o muro fronteiro do convento” (1844-1846); “botou-se na torre uma viga, repararam-se todas as escadas... fez-se de novo todo o forro do salão dos presidentes e assoalhou-se todo o pavimento do mesmo salão... caiou-se e pintou-se toda a Igreja e Sacristia e toda a frente do muro fronteiro à rua... caiou-se todo o frontispício” (1852-1854); “asseou-se a Sacristia, caiando-se e pintando-se a mesma toda a óleo” (1857-1858); assoalhou-se a enfermaria” (1858-1860). Enfim, Frei Antônio de São Pedro Celestino, guardião entre 1860 e 1865, procedeu a uma extensa restauração da igreja, quase toda arruinada em sua formosíssima talha, principalmente o trono e o altar da Conceição. Caíam pedaços dela, dia e noite, mas sem lamentar-se um só desastre, sobre os fieis! Tais peças caídas e quebradas pelas arcadas altas e arremessadas com força dos armadores imprudentes, bem poucas merecem o cuidado de serem apanhadas e guardadas para um dia tornarem aos seus lugares, mediante um tão necessário conserto. Este não se podia deixar por mais tempo de dar princípio, porque já não se celebrava no predito altar da Conceição, cujas grandes ruínas eram visíveis e urgia repara-las Brasil
  • 204 205CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3quanto antes; qualquer demora a tal respeito parecia sem dúvida uma hesitação criminosa de responsabilidade perante Deus e o público. Um olhar sobre o acervoAzulejariaNa comunicação que fez em 1959 no Colóquio de Estudos Luso-Brasileiros que se realizava na Bahia, o grande estudioso do azulejo português José Miguel dos Santos Simões assim se referiu ao acervo azulejar existente no Convento de São Francisco da Bahia em Salvador:Não insistirei sobre a sua excepcional importância, esta principalmente devida à quantidade de exemplares. Na verdade o núcleo franciscano da “Boa Terra” da Bahia é, depois do de São Vicente de Fora, de Lisboa, o mais vasto repositório de azulejo português existente sob um mesmo teto! Os da suntuosa igreja, assinados por Bartolomeu Antunes e datados de Lisboa, de 1737, os do claustro, mais recentes de alguns anos, e os da sacristia, anteriores aos da igreja e os mais notáveis entre todos, constituem um repositório único e de excepcional valor.A quantidade de azulejos do Séc. XVIII que revestem o conjunto franciscano da Bahia de fato impressiona: segundo o mencionado especialista, eles seriam em número de 4.961 na igreja, de 34.566 no claustro e de 9.907 nas demais dependências (sacristia, portaria, a antiga enfermaria, refeitório etc.), totalizando 49.434 exemplares; se se acrescentar a essa soma os 5.502 azulejos do Séc. XIX, chegar-se-á ao total de 54.936 peças, as quais, sempre segundo Santos Simões, caso dispostas lado a lado numa linha contínua, formariam um rodapé de 7.700 metros! No entanto, não é apenas pela quantidade que tais azulejos se destacam: também pela qualidade, raridade e variedade temática, fatores todos esses que contribuem para transformar o cenóbio franciscano de Salvador num formidável repositório da melhor azulejaria portuguesa. Sabe-se com alguma precisão as diferentes épocas em que tais azulejos foram encomendados a Portugal, e inclusive sob quais guardiães deu-se cada encomenda; assim, datam de 1705-1707, sendo guardião Frei Manoel de Santo Antônio, os azulejos que revestem as paredes da enfermaria e da sala capitular do convento; remonta a meados do Séc. XVIII, entre 1737 e 1752, a maior parte da azulejaria que hoje embeleza o conjunto, ao passo que os azulejos que se destinavam a guarnecer a portaria chegaram à Bahia entre 1782 e 1783, acomodados em 24 caixões; infelizmente, não chegou a nossos dias nenhum documento que nos permita saber quem escolheu os diferentes temas nem como se processou tal escolha, do mesmo modo como se perderam os desenhos ou instruções, que só podem ter sido minuciosíssimos, que possibilitaram a mestres trabalhando do outro lado do Atlântico, a uma enorme distância de Salvador, executar os painéis com tamanha exatidão, possibilitando seu encaixe sem erro nos espaços aos quais se destinavam. Por outro lado, com a única exceção de um dos painéis da capela-mor, com cenas da vida de São Francisco, que exibe a inscrição Bmeu Antunes / afes nas olarias / em Lxa no de 1737, ignora-se os autores dos desenhos, e as oficinas nas quais foram os mesmos transpostos para a técnica da azulejaria.Nome bastante conhecido de todos os estudiosos do azulejo português, o mestre azulejador e pintor de azulejos Bartolomeu Antunes nasceu em Lisboa em 1688 e na mesma cidade faleceu em 1753; embora nada se conheça acerca de sua formação profissional, e não conste sua inscrição na Irmandade de São Lucas (o que permite supor tenha iniciado a carreira como empreiteiro), sabe-se que abriu oficina em 1725, e cinco anos depois formou parceria com Nicolau de Freitas, que em 1745 se tornaria seu genro. Talvez através do genro possa ter sentido por algum tempo a influência dos seus grandes contemporâneos Antônio de Oliveira Bernardes e Policarpo de Oliveira Bernardes, pai e filho, embora José Meco considere seu estilo mais avançado que o deles, “mostrando-se um continuador da obra de Teotônio dos Santos e formando uma corrente criativa paralela à de Valentim de Almeida”.BrasilDetalhe do pavimento inferior do claustro, cujas paredes são ocupadas por sucessivos painéis figurados de azulejos.
  • 206 207CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3Bartolomeu Antunes foi provavelmente, de acordo com a periodização proposta por Santos Simões, o mais ativo pintor de azulejos da fase da “grande produção joanina”, a qual se estende de 1725 a 1755, abarcando por conseguinte a metade final do reinado de Dom João V - muito embora não esse soberano, mas a nobreza e o clero fossem os mais assíduos clientes do período, de quem partiu a maioria das encomendas então firmadas. Quase toda a imensa produção dessa época é anônima, mas certas características estilísticas permitiram a identificação de umas poucas personalidades artísticas, como as já citadas de Bartolomeu Antunes e Nicolau de Freitas, Teotônio dos Santos e Valentim de Almeida. Muitas são as obras de Bartolomeu Antunes ainda hoje existentes em igrejas e conventos de cidades portuguesas como Oeiras, Torres Vedras, Castelo Branco, Caldas da Rainha, Braga, Setúbal ou Porto, havendo-as também nas ilhas do Atlântico; no verbete que dedicou a esse mestre em 1989 no Dicionário da Arte Barroca em Portugal, José Meco não hesita em apontá-lo como autor dos painéis da capela-mor, transepto e subcoro da igreja do Convento de São Francisco da Bahia (1737), bem como de todo o conjunto de painéis do claustro do mesmo convento, datáveis de c. 1749-1752 - sem falar nos azulejos do frontispício e da capela-mor da Igreja da Boa Viagem, também na Bahia, e nos que adornam a capela-mor do Convento de Santo Antônio em Belém do Pará.É desnecessário determo-nos na descrição e análise pormenorizadas de todo o imenso acervo azulejar do convento franciscano da Bahia – coisa que Silvanizio Pinheiro, Frei Pedro Sinzig e Santos Simões com rara competência fizeram: basta, para que se constate sua importância, que nos fixemos em uns poucos painéis particularmente notáveis, a começar pelos que adornam o claustro, os quais, talvez por formarem o conjunto mais harmônico e significativo, têm sido objeto de acurados estudos de parte de autores como os já citados Frei Pedro Sinzig, Silvanizio Pinheiro e Santos Simões, e mais Godofredo Filho, Carlos Ott, Mário Barata, Germain Bazin e, mais recentemente, Pedro Moacir Maia e Frei Hugo Fragoso. O claustro do Convento de São Francisco desenvolve-se em dois pisos; os azulejos que decoram o primeiro deles foram encomendados entre 1746 e 1748, sendo guardião Frei Boaventura de São José, e assentados entre 1749 e 1752, de acordo com Germain Bazin, e teriam sido presenteados pelo próprio Dom João V, segundo uma tradição recolhida ainda por Frei Pedro Sinzig, embora não confirmada em qualquer documento. Acham-se dispostos em 37 painéis, com larguras que variam entre 16 e 24 azulejos, e altura máxima, invariável, de 18. Coube ao citado Frei Pedro Sinzig identificar a fonte da qual se originaram as cenas representadas nos painéis: são as gravuras de Otto van Veen ilustrativas do Theatro Moral de la Vida Humana y de toda la Philosophia de los Antiguos y Modernos - a versão espanhola, da qual se conserva um exemplar na biblioteca conventual, da edição latina, de 1650, dos Quinti Horatii Emblemata. Pintor e poeta, Otto van Veen (Leiden, 1556 – Bruxelas, 1629), que latinizou o nome para Octavius Vaenius e ficou conhecido não tanto pela qualidade intrínseca de sua obra, mas por ter sido o segundo mestre do célebre Pieter Paul Rubens, foi artista convencional e pouco inspirado, cujas composições de intenção didática ou moralizante granjearam-lhe certa notoriedade em vida, mas cuja arte destituída de emoção, vitimada, no dizer de Leo van Puyvelde, de “sénilité précoce”, hoje pouco interesse desperta. Das 103 ilustrações que fez para os Emblemata de Horácio, 37 foram selecionadas para servir de tema a outros tantos painéis, compondo um magnífico sermão de azulejos - como os definiu Frei Pedro Sinzig, que se apressa em esclarecer o significado recôndito de todas aquelas alegorias extraídas à Antiguidade Clássica, e por conseguinte não-cristã, povoadas de deuses pagãos e heróis mitológicos:Visitantes apressados ou superficiais, entrando no claustro, terão a impressão de estarem em pleno mundo pagão. Não é para menos, visto como os 37 quadros de azulejos, todos de grandes proporções, não representam senão cenas mitológicas. Nada mais falso, entretanto, do que esta primeira impressão. A língua é pagã, não há dúvida, mas o assunto é genuinamente cristão. Toda a primeira série de painéis constitui uma glorificação da Virtude, – a segunda, na ala oposta à Capela do Capítulo, insiste na fugacidade do tempo e na certeza da morte; - os quadros da terceira ala, correndo paralelamente com a Igreja, põem em contraste virtudes e vícios; - a última série de azulejos, revestindo as paredes externas da Capela do Capítulo e da Portaria, pregam, de preferência, um assunto caracteristicamente franciscano: o desprezo pelo dinheiro.Seguindo a ordem estabelecida em 1933 por Frei Pedro Sinzig, o primeiro painel, Nihil silentio Utilius - Nada mais útil que o silêncio -, representa Harpócrates, venerado no Antigo Egito como deus do Silêncio, que empunha uma bandeira com as iniciais S.P.Q.R. e está sentado entre os símbolos do Vinho e da Ira; à direita vê-se o menino Porfírio, que o pai levara ao Senado, exigindo-lhe que não contasse a ninguém o que ali presenciasse. Perguntado mais tarde pela mãe sobre o que fora deliberado, disse-lhe a criança que doravante (estipularam os senadores), os homens poderiam casar-se com duas mulheres: manteve assim, com uma evasiva, a promessa de se calar sobre o que ouvira. Virtus inconcussa (A Virtude é Imóvel) - a Virtude, que calca aos pés a Fortuna, tendo por companheiras a Religião, a Justiça, a Prudência, a Fortaleza, a Magnanimidade e a Temperança, é o tema do segundo painel; Vitium fugere virtus est (Fugir do vício é virtude) – a Virtude, tendo a seu lado Palas, que lhe dá ânimo para resistir à crueldade, à luxúria e aos demais vícios, é o tema do terceiro painel; e assim por diante, até o último, Virtus invidiae scopus (A virtude é alvo da inveja) – a Virtude, impassível em seu pedestal, sendo hostilizada pelos néscios -, tudo formando uma sequência didática na qual a filosofia estoica é submetida a gradativo processo de cristianização, com a valorização da virtude é valorizada, o desprezo pelos bens terrenos e a ênfase na precariedade da vida humana, no tempo que passa e na morte, que cedo ou tarde colhe todos os homens.Localizados no átrio da escada e no corredor que ligava o claustro à contigua Ordem Terceira estão 17 painéis de azulejos com cenas do Velho Testamento; segue-se um grupo de grandes painéis alegóricos, com as Quatro Partes do Mundo, os Trabalhos dos Meses e os Cinco Sentidos. Na galeria do segundo piso acha-se 21 Brasil
  • 208 209CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3painéis, ilustrados com caçadas, combates, cenas galantes, vistas portuárias, paisagens, jogos infantis e outros temas profanos, inesperados num espaço religioso, mas que Santos Simões assim justifica:Salientamos o interesse dos azulejos da sacristia e referimos a importância histórica dos da capela-mor, assinados e datados. Curioso notar que a esta série de representações de intuitos morais e religiosos corresponde na galeria superior do mesmo claustro uma teoria de painéis com assuntos profanos, incorporando cenas de caçadas, paisagens, jardins, composições bucólicas e até cenas galantes que parecem deslocadas neste ambiente cenobita. Era o recreio dos frades, a quem não estavam proibidos os espetáculos da vida social ou o deleite nas leviandades do tempo.Também desconcertantes são os azulejos da sacristia, com sua temática profana de caçadores, leões, cervos e outros animais, além de deuses e heróis da mitologia clássica, a contrastar com as grandes pinturas com cenas da vida de São Francisco que os encima. Tais painéis, que devem ter sido deslocados de seus lugares originais, têm importância artística e também histórica, pois datam de c. 1715, e porque foram atribuídos por Santos Simões a um notável mestre que se assinava P.M.P. – monograma que aliás não aparece nos azulejos da Bahia:Apesar de não termos encontrado no Brasil esta marca, não duvidamos atribuir ao artista o silhar da sacristia do Convento de São Francisco da Bahia, de tal maneira ele se aproxima estilística e tecnicamente dos trabalhos bem afiançados do monogramista.Mencionemos enfim os azulejos mais antigos do convento, datáveis de fins do Séc. XVII e alguns contemporâneos, talvez, da sua inauguração: são os que se encontram na enfermaria, com figuras de franciscanos e eremitas, e os do refeitório, um dos quais representa a Última Ceia.PinturaConserva-se no Convento de São Francisco da Bahia, distribuído pelos tetos, paredes, altares e nichos de sua igreja, claustro, sacristia, biblioteca e demais dependências, o maior acervo de pintura brasileira e especialmente baiana do Séc. XVIII ainda existente, formando um museu pictórico de valor inestimável, infelizmente ainda à espera de quem com competência, tempo, recursos e paciência o estude em profundidade, “sendo a pintura barroca, como se sabe” - é Luís de Moura Sobral quem o diz -, “um dos capítulos mais mal explorados da história da arte brasileira”. Representados no acervo estão, entre muitos outros mestres menores, os dois mais importantes pintores ativos na Bahia ao longo do Séc. XVIII – o português Antônio Simões Ribeiro (1700?-1755), e o brasileiro José Joaquim da Rocha (1737-1807).Antônio Simões Ribeiro, de Santarém, discípulo de Antônio Lobo, o qual por sua vez estudou com Vincenzo Bacarelli, introdutor em Portugal da pintura de perspectiva ou di sotto in su, forma entre os melhores pintores portugueses do seu tempo e na sua especialidade. Fixando-se em 1735 na Bahia, e ali falecendo em 1755, até bem pouco não era senão um nome na história da pintura baiana, visto como aparentemente nenhuma de suas obras produzidas em Salvador – como a pintura da abóbada da capela-mor da Igreja da Santa Casa de Misericórdia, contratada em 17 de outubro de 1736 ao preço de 150$000, ou a do forro da sala grande das vereações do Senado da Câmara, de maio de 1735 – tinham chegado a nossos dias, perdidas ao que se supunha para sempre. Em época recente, contudo, Vitor Serrão e Magno Moraes Mello chegaram à conclusão de ser de Simões Ribeiro o teto em perspectiva Sapientia Aedificavit Sibi Domum, representando o Triunfo da Sabedoria, da grande sala da livraria do Colégio Jesuítico, sobre a sacristia da atual Sé, assim confirmando o que Clarival do Prado Valladares e Robert C. Smith tinham já intuído acerca de tal obra, anteriormente atribuída a pintor romano não identificado, que a teria executado em 1689. Por sua vez, em 2002, uma equipe de restauradores trabalhando na Santa Casa localizou 15 painéis, cada um pesando com seus caixotões entre 160 e 200 quilos, logo identificados como os originais de Simões Ribeiro desaparecidos da capela-mor. Reconstituiu-se dessa maneira o trabalho de um artista que, chegado ao Brasil precedido de grande fama, por ser o autor, juntamente com Vicente Nunes, dos três tetos em perspectiva da Biblioteca Joanina da Universidade de Coimbra (1723-1724), é hoje reconhecido como o verdadeiro fundador da Escola Bahiana de pintura, além de ter introduzido na Bahia a pintura perspectivista - no que foi aliás precedido, no Rio de Janeiro, por outro artista português, Caetano da Costa Coelho. Já em 1967, no longo ensaio A Pintura na Bahia 1549-1850, Carlos Ott escrevia serem provavelmente de Simões Ribeiro “alguns dos numerosos quadros anônimos existentes no Convento de São Francisco e em outras igrejas” - o que o futuro confirmaria. Com efeito, na sala do Capítulo, por exemplo, a cada lado do altar, dois quadros - a Anunciação a Santana e a Anunciação a São Joaquim – destacam-se de todos os outros no mesmo recinto quer pela concepção e tipologia das figuras, quer pelo colorido e fatura, tão superiores, que não permitem dúvidas quanto à sua autoria, devida ao pintor português. Também de sua mão é a pintura no forro da mesma sala capitular, outrora atribuídas ao beneditino francês Frei Estêvão do Loreto Joassar, calígrafo, cartógrafo e arquiteto – autor do projeto de fortificação da ilha de Fernando de Noronha, por exemplo -, mas cuja atividade de pintor, e ainda mais num convento franciscano, é apenas conjectural. Datável dos primeiros anos da permanência de Simões Ribeiro na Bahia, a referida pintura do forro compõe-se de 32 painéis oitavados, cada um figurando uma virgem tendo à mão a palma do martírio, exibindo diademas e outras joias; dispostos em grupos de quatro, tais painéis são interrompidos a intervalos por outros sete em forma de estrela de oito pontas, o central reservado para sustentar o lustre, e os outros seis ocupados pela figura de um grande anjo musicante equilibrando-se entre nuvens e cercado de querubins, mais um anjinho que sustenta um escudo com um dos emblemas de Maria. Como todas as demais pinturas do Capítulo, também essa é dedicada à Virgem Maria, em sua condição de Rainha dos Anjos, dos Mártires e das Virgens.Também as pinturas em caixotões do forro da igreja, datáveis de entre 1736 e 1738 e Brasil
  • 210 211CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3consideradas por Luís de Moura Sobral como “uma das obras mais espetaculares do gênero em todo o Brasil, brilhante canto do cisne desse tipo de cobertura”, tidas como de autor anônimo até 1988, quando Carlos Ott lhes repartiu a autoria entre José Pinhão de Matos e Antônio Simões Ribeiro, são hoje atribuídas integralmente e sem reservas a esse último artista, como explica o mesmo Moura Sobral:O estado do conhecimento sobre o último artista permite atribuir-lhe hoje, sem hesitação, todas essas pinturas. Simões Ribeiro, que aparece como um artista determinante na decoração do convento baiano, repetiu, com algumas variantes, o esquema do forro do capítulo, com os seus octógonos e estrelas de oito pontas, tendo de novo reservado as estrelas para as figuras de anjos monumentais com atributos da Virgem. O programa de todas as pinturas, que ocupam alternadamente uma sucessão de octógonos, hexágonos e estrelas de oito pontas, compõe um imenso tributo à Imaculada Conceição – a idéia, exposta e defendida pioneiramente pelos franciscanos e que só se tornaria dogma em 1854, segundo a qual Maria, destinada desde antes de Adão e Eva a ser mãe de Jesus, nascera livre do pecado original. Personagens e episódios do Antigo Testamento, como Judite e Holofernes, Ester e Assuero, David e Golias, Jacob e o Anjo, Moisés, Josué e vários outros, transformam-se sob os pinceis de Simões Ribeiro em outras tantas formosas alegorias, premonições e anúncios que são de Jesus e da Virgem Maria, sua mãe imaculada. Outro notável pintor cujo talento pode ser admirado no Convento de São Francisco da Bahia é, como ficou dita mais acima, José Joaquim da Rocha. Decerto impressionados com a impactante pintura do forro da Igreja de Nossa Senhora da Conceição da Praia, em Salvador, por ele concluída cerca de 1774 e justamente considerada obra-prima da pintura perspectivista brasileira, contrataram-no os franciscanos para realizar obra idêntica em seu convento, mais precisamente na portaria, sem atentar no fato, ou minimizando-o, de que esse tipo de pintura requer amplos pés direitos para que se produza a ilusão espacial, quando vista di sotto in sù. Assim, numa superfície de 15 por 10 metros e a uma altura que impossibilita uma perfeita visão do conjunto, José Joaquim da Rocha pintou uma Alegoria da obra missionária dos franciscanos sob a proteção da Virgem da Imaculada Conceição, na qual repete, simplificando-a, a pintura da Conceição da Praia, vendo-se ao centro de uma ilusória cercadura arquitetônica a Imaculada Conceição, tendo à mão esquerda um buquê de açucenas, e com a direita exibindo o pavilhão dos franciscanos portugueses. Sobre a sua imagem está a Santíssima Trindade, e abaixo dela São Francisco com os estigmas, Santo Antônio, as Quatro Partes do Mundo com seus respectivos evangelizadores, todo o conjunto cercado de anjos e querubins.BrasilVisão panorâmica da nave, arco-cruzeiro e altar-mor, tendo no forro pinturas do insigne pintor português Antonio Simões Ribeiro.
  • 212 213CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3ImagináriaA devoção a Santo Antônio, tão arraigada ainda hoje na Bahia, acha-se intimamente ligada a uma imagem do santo que teria milagrosamente chegado à praia de Itapoã em fins do Séc. XVI, quando os franciscanos ainda não tinham terminado a construção do seu convento: como anotou com ingenuidade Jaboatão, à Bahia “não veio o santo em pessoa, mas mandou-nos uma imagem sua que bastou a desempenhar quanto por si próprio podia fazer”. Diz a lenda que em 1595 uma frota de 12 navios partira da França para conquistar Salvador. Ao passar pelo fortim português de Arguim, na costa da Mauritânia, os franceses, que eram luteranos, arrasaram o forte, trucidaram a guarnição e após queimar a igreja, levaram como botim uma imagem de Santo Antônio, que a bordo se tornou alvo de sarcasmos, ofensas e agressões, acabando mutilada a golpes de espada e mordidas de cães. Durante a travessia, gritavam-lhe os marinheiros zombeteiramente que os guiasse até a Bahia, acabando por lança-la ao mar sem uma das mãos e lhe faltando alguns dedos dos pés. No mesmo dia (continua a lenda) um temporal afundou toda a frota francesa, menos a nau que conduzira a imagem, que desarvorada acabou dando nas costas de Sergipe. Presos e conduzidos à Bahia, a escolta que levava os náufragos encontrou na praia de Itapoã, de pé em meio ao vento e às ondas, a imagem de Santo Antônio! Sabedores do ocorrido, os franciscanos depositaram-na na Igreja de Nossa Senhora da Ajuda, de onde em 3 de dezembro de 1595 a transladaram para o seu novo convento, acompanhados de toda a população. Essa imagem de Santo Antônio de Arguim, primeiro padroeiro da Bahia, ainda existia em 1755-1756, quando ainda saía em procissão.Lendas à parte, sabe-se que, durante as sucessivas etapas em que se deu sua demorada construção, foram numerosas as aquisições, doações e incorporações de imagens ao convento franciscano ou à sua igreja. Ao longo dos séculos, era natural que muitas das imagens mencionadas no Livro dos Guardiães se arruinassem, fossem doadas ou de qualquer modo desaparecessem e tivessem de ser substituídas – casos, por exemplo, das atuais imagens do próprio Santo Antônio, de São Francisco e São Domingos, no altar de Santo Antônio, que substituíram em fins da década de 1770 as originais -, enquanto outras, também antigas, durante as muitas reformas e obras de restauração – nem sempre felizes - por que passaram o edifício e seu acervo, tiveram sua aparência a tal ponto “modernizada”, que se tornaram irreconhecíveis. Uma das raras substituições bem sucedidas, surpreendentemente ocorrida em pleno Séc. XX, é a Visão de São Francisco que desde 1930 encima o altar-mor: inspirada na célebre composição homônima de Bartolomé Esteban Murillo (1617?-1682), pintada em 1668 para o convento franciscano de Sevilha e hoje no Museu de Belas Artes da mesma cidade, representa o Poverello abraçado ao Cristo na Cruz, e substituiu um Cristo Crucificado, de autor setecentista desconhecido, que hoje ocupa uma parede ao fundo da igreja, junto à saída para a portaria. O autor da Visão de São Francisco foi um obscuro santeiro de Santo Amaro da Purificação, Pedro Ferreira, que tomou por modelo dois frades do próprio convento, concluindo o trabalho na terra natal, ao cabo de 10 meses. O grupo, em cedro, com 3,50 metros de altura, a todos impressiona não apenas pela evidente perícia de que dá mostras o autor, como pela capacidade, por ele demonstrada, de captar o espírito da época, ao produzir uma imagem capaz de iludir até mesmo os especialistas, que a tomavam como obra do Séc. XVIII! Dezenas e dezenas de outras imagens, quase todas anônimas e algumas de alta, quando não de altíssima qualidade, essas últimas devidas certamente aos melhores escultores e santeiros baianos da época, povoam os altares e nichos de São Francisco da Bahia. Nenhuma delas, decerto, leva a palma ao São Pedro de Alcântara, que a tradição, acolhida por Manoel Raimundo Querino ainda em 1911, atribuía ao grande escultor baiano Manuel Inácio da Costa (1777?-1857), e que Carlos Ott em 1943 pretendeu ser de Chagas, o Cabra, após ter encontrado no Livro dos Guardiães um documento que sustentava datar a referida obra dos tempos do guardião Frei José de Santa Inês, ou seja, de entre 1790 e 1793. Como (raciocinou aquele historiador) por essa época Manuel Inácio da Costa teria não mais de 30 anos, e como por outro lado o São Pedro de Alcântara “não parece ser o produto feliz de uma carreira incipiente de escultor, e sim o último grau de aperfeiçoamento técnico e estético alcançado no fim de uma longa carreira”, melhor seria atribui-lo, como o fez meio apressadamente, a Francisco das Chagas, dito O Cabra, embora quase nada se saiba quanto à vida, à carreira e às características estilísticas da obra, ainda por levantar, desse misterioso artista baiano. Mais recentemente, Jacques Résimont, sem arriscar nomes, acredita que as imagens do São Pedro de Alcântara franciscano e do Cristo da Coluna do Convento do Carmo da Bahia “foram executadas por um mesmo e único autor”, após ter detectado em ambas muitas particularidades em comum, como “o olhar voltado para o alto, em atitude contemplativa, perfil de recortes angulosos bastante próximo e o mesmo rictus da boca”, “no corpo o mesmo alongamento em torsão e nas mãos a mesma fatura nervosa, com a estrutura óssea e venosa fortemente marcada”, idêntica “tensão emocional magnificamente expressada pela talha, de fatura nervosa e acelerada”, e a mesmíssima “expressão exaltada de sofrimento e ânsia”, características todas essas que, diz Résimont, ”inserem-se muito mais na tradição barroca hispano-americana do que na luso-brasileira, geralmente muito mais sóbria e contida”, o que o levou inclusive a admitir a possibilidade de o São Pedro de Alcântara ser obra de artista de origem espanhola ativo em Salvador, quando não importada diretamente da Espanha.Das mais célebres imagens outrora existentes na Igreja do Convento de São Francisco da Bahia foi uma Nossa Senhora da Conceição a que se refere Frei Agostinho de Santa Maria no nono tomo, dedicado à Bahia, do Santuário Mariano e História das Imagens Milagrosas de Nossa Senhora, de 1722:Esta Santíssima Imagem da Imaculada Senhora está em a Capela lateral da parte do Evangelho & mostra muita antiguidade, & assim parece seria colocada nos princípios daquela fundação; é esta soberana Imagem de escultura de madeira; mas perfeitissimamente obrada; a sua proporção é de pouco mais Brasil
  • 214 215CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3de quatro palmos, & está ricamente estofada com as mãos levantadas, & com o ornato de manto, & coroa de prata.Como tantas outras de igual ancianidade, essa Nossa Senhora da Conceição de há muito deixou de existir, tendo sido substituída, entre 1779 e 1780, pela imagem atual, atribuída equivocadamente a Manuel Inácio da Costa.Sendo inaceitável, como se acabou de ver, a autoria de Manuel Inácio da Costa tanto para essa Nossa Senhora da Conceição quanto para o São Pedro de Alcântara e para várias outras imagens que ainda hoje povoam a igreja e o convento, por outro lado a única obra de autoria documentalmente comprovada feita por esse escultor encontra-se na vizinha Ordem Terceira de São Francisco da Penitência: é um São Domingos do qual falaremos no devido tempo.MobiliárioO único nome de artista ou de artesão citado tanto no Novo Orbe Seráfico Brasilico quanto no Livro dos Guardiães, não se sabe porque, é o do irmão leigo Luiz de Jesus, falecido em 1741 e autor, segundo Jaboatão, das grades que circundam as capelas laterais da igreja, feitas “de pau preto de torno, e retorcido, obra perfeitíssima, e fabrica do irmão Frei Luiz de Jesus, religioso leigo, filho desta Província, bem conhecido, e chamado por todos o torneiro, pelo singular da idéia, e perfeição, com que operava estas, e outras obras semelhantes”. São do mesmo artesão, na sala do coro, a estante e as três fileiras de cadeirais, e na sacristia, os dois grandes arcazes, um a cada lado do altar, e segundo autores mais antigos, também os dois imponentes armários que ali se encontram. Possivelmente serão ainda do Torneiro outras peças de mobiliário – como por exemplo a grande mesa da Biblioteca. TalhaSemelhante a uma intrincada floresta revestida de ouro, o interior da igreja conventual de São Francisco da Bahia é uma daquelas cavernas douradas que tanto impressionaram Robert C. Smith ao estudar certas igrejas brasileiras, e se apresenta tão opulentamente revestido de obras de talha que quase não se pode ver, “desde o pavimento até a cornija do teto, mais que uma pequena face de parede nua, e despida” (Jaboatão). Infelizmente, não se conhece nenhum nome dos muitos entalhadores que ao longo dos séculos trabalharam para os franciscanos, permanecendo anônimos os autores dos retábulos, dos púlpitos, dos altares - numa palavra, de toda a suntuosa decoração rendilhada em madeira e depois recoberta de ouro da igreja e do convento franciscanos.Igreja da Ordem 3ª de São FranciscoComplementando o presente ensaio, tornam-se necessários uns poucos parágrafos sobre a contígua Igreja da Venerável Ordem Terceira da Penitência do Seráfico Padre São Francisco da Congregação da Bahia, a qual com o Convento de São Francisco, compõe um dos complexos franciscanos mais importantes não apenas da Bahia e do Brasil, como de todo o mundo que o português criou.Fundada em 1635 e a princípio sediada no próprio Convento de São Francisco, onde lhes foi permitida a utilização de um altar onde celebrar os preceitos preconizados por sua regra, a Ordem Terceira ali funcionou por quase 70 anos, até que, em terreno também cedido pelos franciscanos, deu início à construção de igreja própria, inaugurada a 22 de junho de 1703 com projeto de Mestre Gabriel Ribeiro. Arquiteto, marceneiro e entalhador, esse Gabriel Ribeiro é uma das muitas personalidades enigmáticas de que se acha repleta a ainda pouco estudada história da arte no Brasil. Português, em fins do Séc. XVII já estava em Salvador, pois em março de 1698 era admitido como “irmão de menor condição” da Santa Casa de Misericórdia. No ano seguinte registrou sua carta de examinação, expedida pelo Senado da Câmara do Porto, datando dos primeiríssimos anos do Séc. XVIII o risco da igreja da Ordem Terceira. A peculiaridade maior desta igreja, cujo projeto, até ser identificado em 1921 seu verdadeiro autor, era atribuído a algum arquiteto espanhol ou hispano-americano, reside em sua elaboradíssima fachada em pedra, praticamente sem similar na arquitetura religiosa colonial brasileira, e de um tipo, o das fachadas-retábulos, BrasilUm dos seis altares laterais da nave, consagrado a Santana com a Senhora Menina e circunfluído, como os demais, por opulenta talha dourada.
  • 216 217CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3– sereias aladas, ao lado de um livro com a inscrição franciscana Agite Poenitent (Fazei penitência), a águia que arrebata uma figura, mascarões e anjos, o Bem e o Mal, “pureza e pecado, salvação e danação, tudo em contraponto e linguagem metafórica”, como percebeu Ana Palmira Bittencourt Santos Casimiro? Vale a pena a respeito citar Germain Bazin:Deve-se ver nesse mestre [Gabriel Ribeiro] o autor da fachada esculpida que termina a igreja? É muito pouco provável que trabalho tão importante tenha podido ser executado em um ano e meio, tempo que transcorre entre a realização do concurso e a inauguração da igreja. O estilo dessas esculturas corresponde, de qualquer modo, ao primeiro quarto do século. Devia outrora estar em harmonia com a decoração das obras em madeira descritas pelo Padre Jaboatão.A Igreja da Ordem Terceira de São Francisco da Penitência passou por uma série de malfadadas “modernizações” que a despojaram da maior parte de suas preciosidades, algumas das quais remontavam aos tempos da fundação. A maravilhosa talha dourada e as pinturas que lhe recobriam as paredes ainda em 1760 – “o teto e as paredes dela [igreja] estão cobertos de talha dourada e ricos painéis”, anotou Jaboatão –, desaparecem no Séc. XIX, e mesmo sua fachada passou em 1831 por uma reforma que a desfigurou, ao serem abertas duas portas laterais na igreja. O aspecto geral que o templo hoje oferece deve-se basicamente às referidas reformas, embora continue muito rico o acervo da Ordem em azulejos (alguns raríssimos, como os do claustro, com vistas de Lisboa antes do terremoto de 1755), pinturas (entre as quais a do teto da secretaria, que Marieta Alves atribuiu a Antônio Roiz Braga, que as teria feito em 1738, a do teto da nave da igreja, iniciada em 1831 por Franco Velasco e concluída em 1834, após sua morte, por José Rodrigues Nunes, e um dos mais antigos retratos brasileiros, o do Coronel Domingos Pires de Carvalho, sob cuja gestão se ergueu a igreja), o suntuoso lavabo em mosaico da sacristia, da primeira metade do Séc. XVIII, entre cujos elementos decorativos o anôimo autor incluiu um brasileiríssimo papagaio, valiosas alfaias e, encimando altares ou recolhidas à Casa dos Santos, imagens religiosas, das quais a mais importante talvez seja o São Domingos, executado por Manuel Inácio da Costa em 1833 e – como ficou escrito mais acima – única imagem comprovadamente de autoria desse famoso escultor.BrasilPormenor da ornamentação do púlpito, entremostrando putti entre motivos vegetais.encontrável nas igrejas platerescas da América Hispânica. Infelizmente não se sabe até hoje quem realizou o trabalho de escultura em pedra, que talvez não estivesse concluído em 1703, quando da inauguração da igreja. Terá sido Gabriel Ribeiro também o escultor, ou ao menos o autor do programa da fachada, eivada de densos e contraditórios significados simbólicos
  • 218 219CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3BrasilBIBLIOGRAFIAAraujo, Emanoel (Cur.): O Universo Mágico do Barroco Brasileiro. São Paulo, FIESP, 1998.Alves, Marieta: História da Venerável Ordem 3ª. da Penitência do Seráfico Pe. São Francisco da Congregação da Bahia. Bahia-Brasil, 1948.__________: Pequeno Guia das Igrejas da Bahia II – Ordem 3ª. de S. Francisco. Salvador, Prefeitura Municipal, 1949.__________: Pequeno Guia das Igrejas da Bahia III – Convento de S. Francisco. Salvador, Prefeitura Municipal, 1949.__________: “Escultura”, em História das Artes na Cidade do Salvador. Salvador, Prefeitura Municipal, 1967, p. 47-65.Barata, Mario: Azulejos no Brasil. Rio de Janeiro, ed. do autor, 1955.Bazin, Germain: L´Architecture Religieuse Baroque au Brésil. São Paulo/Paris, Museu de Arte/Plon, 1956.Flexor, Maria Helena Ochi; e Fragoso, Frei Hugo (Orgs.): Igreja e Convento de São Francisco da Bahia. Rio de Janeiro, Versal Editores, 2009.Géo-Charles: L´Art Baroque au Brésil. Paris, Les Editions Internationales, 1956.Jaboatão, Frei Jesus de Santa Maria: Novo Orbe Serafico Brasilico. Rio de Janeiro, I.H.G.B./Typ. Brasiliense, 1858-1862.Kelemen, Pál: Baroque and Rococo in Latin America. New York, Dover, 1967. Livro dos Guardiães do Convento de São Francisco da Bahia (1587-1862). Prefácio e Notas de Frei Venâncio Willeke. Rio de Janeiro, Ministério da Educação e Cultura, IPHAN, 1978.Maia, Pedro Moacyr: Os Cinco Sentidos, os Trabalhos dos Meses e as Quatro Partes do Mundo em painéis de azulejos no Convento de São Francisco em Salvador, Bahia. Brasília, Gráfica do Senado, 1990.__________: Adoração dos pastores e dos magos em painéis de azulejos. Salvador, ed. do autor, 1995. Ott, Carlos F.: “Os Azulejos do Convento de São Francisco da Bahia”. Revista do Serviço do Patrimônio Histórico e Artistico Nacional, 7. Rio de Janeiro, 1943, p. 7-34.__________: “Pintura 1549-1850”, em História das Artes na Cidade do Salvador”. Salvador, Prefeitura Municipal, 1967, p. 69-108.Pereira, José Fernandes (Dir.), e Pereira, Paulo (Coord.): Dicionário da Arte Barroca em Portugal. Lisboa, Editorial Presença, 1989.Santos Simões, João Miguel dos: “Azulejaria no Brasil. Comunicação destinada ao Colóquio de Estudos Luso-Brasileiros, na Bahia, 1959”. Revista do Serviço do Patrimônio Histórico e Artistico Nacional, 14, Rio de Janeiro, 1959, p. 9-18. __________: Azulejaria Portuguesa no Brasil (1500-1822). Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1965.Sebastián, Santiago: L´Arte Baroca in America Latina – Iconografia del Barocco Iberoamericano. Milano, Federico Motta Editore, 1990. Sinzig, Frei Pedro: Maravilhas da Religião e da Arte na Egreja e no Convento de São Francisco da Bahia. Rio de Janeiro, Imprensa Nacional, 1933.Smith, Robert C.: The Art of Portugal (1500-1800). London, Weidenfeld and Nicolson, 1968.__________: “Arquitetura Colonial”, em História das Artes na Cidade do Salvador. Salvador, Prefeitura Municipal, 1967, p. 7-45.Tirapeli, Percival; e Pfeiffer, Wolfgang: As mais belas igrejas do Brasil. São Paulo, Metalivros, 1999. Vicente do Salvador, Frei: História do Brasil 1500-1627. Belo Horizonte/São Paulo, Itatiaia/Edusp, 1982.
  • 221CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3220CABO VERDEA cidade vista da Fortaleza de São FilipeA CIDADE DA RIBEIRA GRANDE NA ILHA DE SANTIAGO EM CABO VERDEA atual cidade de Santiago, antiga Ribeira Grande ou Cidade Velha, constitui uma referência no universo urbanístico português não pela sua dimensão física, pois está longe de alcançar a escala de monumentalidade de outros núcleos da expansão, mas pelo papel que desempenhou na ligação entre espaços maiores. Para tal contribuiu também o facto de ter sido um lugar de encontro de raças e culturas, berço da primeira sociedade crioula mestiça e um lugar de partida para a difusão dessa cultura através do Atlântico, que se foi adaptando aos vários contextos coloniais da América e, sobretudo, por ter sido a primeira cidade “fundada para e pelo tráfico de escravos africanos” (Silva 2010). Entre outros, estes alguns dos argumentos apresentados pelos cabo-verdianos à UNESCO que viria a declarar a cidade, em junho de 2009, património da humanidade. A evolução urbana A localização da ilha de Santiago, a sul do Sahara, confere à Ribeira Grande a circunstância de ter sido a primeira cidade construída nos trópicos para servir de base avançada ao pretendido controle comercial à escala global. A principal razão para a fixação naquele local foi de ordem geoestratégica. A proximidade da ilha de Santiago com a costa ocidental africana potencializava o comércio que se intentava fazer com o continente. Para além do facto, deveras significativo, do arquipélago estar desabitado, a condição insular e a segurança relativa que oferecia, constituíram outras das razões para a instalação ali de um porto de escala e de armazenamento de mercadorias. Texto de Francisco Monteiro dos Reis Pires
  • 222 223CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3Ribeira Grande, dando-lhes autorização para comerciarem com a costa africana dentro dos limites estabelecidos pela lei. Convém esclarecer que a exclusividade do comércio com a costa de África estava entregue a um comerciante particular de Lisboa e o espaço de ação concedido aos habitantes da Ribeira Grande era limitado entre Arguim e o norte da Serra Leoa. A possibilidade de comerciarem com os povos ribeirinhos africanos e as isenções fiscais concedidas pela carta régia de 1466 contribuíram para o estabelecimento de uma corrente migratória em direção à ilha e, consequentemente, para o seu povoamento. No final do século XV, já se tinha formado à volta da zona portuária, junto à baía, um pequeno núcleo urbano constituído pelo ancoradouro, algumas instalações de apoio ao porto (almoxarifado, o presídio, armazéns) e mais a norte, algumas casas de comerciantes moradores na ilha. Também neste período encontrava-se em fase de construção a capela de N. Sr.ª do Rosário, uma das primeiras a serem erigidas na ilha, e em 1497, dava-se início à construção do hospital da Misericórdia. Até então ainda não tinha sido atribuído a Ribeira Grande o estatuto de vila, embora tudo levasse a crer que já nesta altura tivesse condições de o ter. Este estatuto só viria a ser reconhecido em 1512, dado que por volta desta data a povoação já possuía uma câmara atuante e, em 1513, tinha cerca de 114 vizinhos1. A partir do século XVI, a intensificação do comércio de escravos em direção à América, que se transforma no elemento base da economia da Ilha de Santiago, faz com que a vila e o seu porto floresçam e é neste período que a povoação apresenta maior crescimento urbano. Em 1533, é-lhe atribuída a categoria de cidade e torna-se sede de Bispado, que expandia os seus limites até a costa adjacente da Guiné. Por volta de 1555, possuía já cerca de 500 vizinhos. A segunda metade do século XVI, parece ter sido o período de maior investimento no espaço urbano. A partir de 1556 começaram-se a construir as principais obras da cidade, dotando-a de meios defensivos modernos e criando uma série de infraestruturas que condiziam com a posição de destaque que a Ribeira Grande gozava. O grande impulso no investimento em obras foi dado pelo bispo Frei Francisco da Cruz, que assumiu o bispado em 1547, vindo a terminar em 1574. (Chelmicki et al., 1843, p. 177). Em 1556, sob os auspícios do mesmo bispo, iniciaram-se as obras de construção da Igreja da Misericórdia, ao mesmo tempo que as da Sé catedral. Dois anos após o começo, em 1558, houve um embargo feito pelos cónegos locais, contestando a localização e as dimensões da Sé e, na sequência do embargo, por determinação régia as obras foram interrompidas em 1592, apontando-se para tal as seguintes razões: “Por algumas informações que me são dadas sobre a Sé dessa Cidade se não deve fazer no lugar em que a começou o Bispo vosso antecessor, assim com muita despesa que com ela se fará, por ser fabricada com demasiada grandura, como pelo trabalho que o povo receberá em ir de longe a ela. E particularmente por se ter entendido que em caso que os corsários desembarquem nessa Ilha, como já aconteceu, se poderão fazer fortificar na mesma Sé, e dela fazerem muito dano à Cidade, que é matéria de muita ponderação. Vos encomendo que ordeneis, como na obra da dita Sé se não proceda por ora sem especial mandado meu”2. O pedido de embargo tinha a ver, por um lado, com o próprio projeto do edifício e sobretudo a sua volumetria, que permitia ser avistado por mar, o que o tornava vulnerável, e passível de ataques de piratas. Por outro lado, tinha-se formado uma resistência interna dos moradores da vila ao projeto, contestando o local escolhido para a edificação da Sé, por este se encontrar fora do “corpo da cidade” (Barcellos, 2003a, p. 120). Este dado é interessante e cabe fazer algumas considerações que tem a ver com a topografia e com os aspetos locativos da cidade e, sobretudo, com a imagem do urbano em causa na Ribeira Grande. Com efeito, o local escolhido para a implantação da cidade denuncia desde logo as prioridades que foram consideradas. Antes de tudo, a pequena baía que funcionava como ancoradouro, mas de igual importância, a ribeira que fornecia a água para as aguadas dos barcos e para as culturas. A ribeira eleita, precisamente a ribeira grande que dá nome à vila, corria no meio de um vale não muito largo, nem muito profundo, que estava circundado pelas escarpas Cabo Verde1 ANTT, Corpo Cronológico, I-12-120. Carta de Pero de Guimarães, corregedor de Cabo Verde, ao rei dando conta do exercício do seu cargo. Maio de 1513. 2 Carta Régia ao Bispo de Cabo Verde. SII-V03_d05. In Brásio, Padre António, Monumenta Missionária Africana, África Ocidental, 2ª série, vol. 3, doc. 85. IICT. Edição Digital, org. Miguel Jasmins Rodrigues.Como várias cidades de fundação, a Ribeira Grande de Santiago coloca o problema da formação urbana em si como um dado crucial para o seu entendimento. Há, efetivamente, um grau zero do urbano na Ribeira Grande. Mas ele não é apenas o local onde se instalaram os primeiros povoadores, com as suas casas e equipamentos ligados ao porto. Neste grau zero se devem incluir também a própria intenção do urbano e a ideia de cidade que se projetou para aquele lugar. A ideia está implícita na escolha do sítio, está implícita no modo de o ocupar e de o estruturar, como urbano. Assim, logo após o achamento das ilhas, em 1460, o território foi integrado no património da coroa portuguesa, ficando submetido à sua soberania. Estabeleceu-se em seguida o sistema de capitanias, nomeando-se um capitão donatário para proceder às ações de povoamento e à criação de uma estrutura económica própria para o desenvolvimento da ilha. Este procedimento constituiu o primeiro ato administrativo em Cabo Verde. A seguir, foram deslocadas para Santiago as primeiras famílias originárias do sul de Portugal despoletando-se assim o processo de povoamento.Seis anos mais tarde, em 1466, o capitão informava à coroa da sua incapacidade de levar avante o processo de povoamento da ilha, alegando razões tais como a falta de recursos, a grande distância que as ilhas se encontravam do reino e, sobretudo, o clima seco e quente que não lhe permitia cultivar os produtos de que necessitava.Face aos factos descritos pelo capitão-mor, no mesmo ano, a coroa portuguesa concedeu privilégios aos habitantes europeus fixados na
  • 224 225CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3das montanhas, tendo apenas uma abertura, o mar. Esta condição inicialmente terá sido lida como uma segurança acrescida, posto que permitia a defesa concentrada do porto, contudo limitava a expansão urbana. As escarpas funcionavam virtualmente como muros delimitando a forma urbis e o perímetro urbano desde os primórdios da sua implantação. Essa ideia da cidade cercada pelas montanhas, logo protegida por elas, estava tão presente no espírito dos seus habitantes que eles reagiram como se viu quando começou a construção da Sé, afirmando que esta ficaria fora do “corpo da cidade”, por estar numa plataforma mais alta, fora do vale. Mas não eram só os moradores que a viam assim. Na gravura que representa o ataque de Drake à Ribeira Grande, as escarpas das montanhas aparecem desenhadas como muralhas, o que é significativo. Como também é o modo como a mesma gravura representa o tecido urbano da cidade, dando a ver o conjunto de quarteirões, particularmente Cabo Verdeos da margem oeste da ribeira, que representam as ruas da Carreira e da Banana, que eram, na altura, as principais ruas do burgo. O núcleo inicial da formação do tecido urbano da Ribeira Grande constituiu-se naturalmente à volta do porto. A primeira fase do processo corresponde à sua instalação e abrange o período dos primórdios do povoamento, em 1462, até cerca de três décadas depois, com a consolidação do mesmo. Nesse período, a mancha urbana confinava-se às imediações do porto e ocupava sobretudo a margem leste da ribeira, consubstanciando o perímetro do atual largo do pelourinho. Era uma zona essencialmente de comércio, que nasceu e se sustentava das atividades portuárias. Dela faziam parte o próprio largo, as ruas contíguas do Porto, do Calhau e da Misericórdia, todas elas partindo do ancoradouro e rumando para nordeste. As ruas eram atravessadas perpendicularmente pelos becos da Confraria e da Misericórdia. Foi ao longo destas ruas que nasceram as primeiras edificações urbanas, pertencendo aos comerciantes que aí se instalaram. Essas edificações eram casas de um ou dois pisos onde funcionava o comércio, e os albergues da cidade. Mais para nordeste, situavam-se o Hospital e a Igreja da Misericórdia, na rua do mesmo nome. O espaço terminava na rua da Praça, perpendicular à rua da Misericórdia ao longo da qual se encontrariam as primeiras instalações da casa da Câmara e Cadeia, que mais tarde seria transladada para outro local. Uma das raras construções erigida “S. Iago: Sancta Iago a lusitanus propositum haberent [...]”. Anónimo Séc. XVII. A.H.U. Col. Cartografia, impressos IV cg. 154. Ataque de Drake à Ribeira Grande de SantiagoPlanta indicando o núcleo inicial e as direções segundo as quais a cidade se expandiu. (desenho Fernando Pires).Planta da primeira fase da expansão urbana, (desenho Fernando Pires).
  • 226 227CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3na margem oeste da ribeira era a ainda capela de N. Sr.ª. do Rosário. (Pires, 2007, p. 113). A fase seguinte de expansão da cidade compreende aproximadamente os primeiros cinquenta anos do século XVI, onde se nota uma grande ampliação do parque habitacional. É quando Ribeira Grande alberga a sede de bispado e se torna a capital das ilhas. Neste período foram sendo ocupados progressivamente os terrenos disponíveis dentro do vale, constituindo assim o bairro de São Pedro. A cidade nesta época foi descrita por um piloto português como tendo “boas casas de pedra e cal, habitadas por infinitos cavalheiros Portugueses e Castelhanos”, encontrando-se ali “mais de quinhentos fogos” (Sauvageot, 1961, pp. 123–128).No seguimento do eixo estruturador do bairro, que era a rua direita de São Pedro, que seguia paralelamente ao curso da própria ribeira, foram surgindo novos quarteirões a nordeste do núcleo inicial, ainda na margem leste da ribeira, ao mesmo tempo que a mancha se alargava à margem oeste, progredindo depois para norte até ultrapassar os limites do braço que alimenta a ribeira. A expansão para oeste começa pela zona adjacente ao largo, dando origem às ruas da Carreira e da Banana, orientadas para noroeste e tendo como ponto focal a capela de Nossa Senhora do Rosário, então ampliada e transformada em igreja. Esta área passou a ser a zona residencial onde se instalaram os mais importantes funcionários régios. A última fase de crescimento urbano da cidade correspondeu ao período decorrente entre a segunda metade do século XVI até aos finais do século XVII. Foi nessa altura que se realizaram a maior parte das grandes obras, a igreja da misericórdia, a sé catedral e o palácio episcopal. Completou-se efetivamente a mancha urbana no interior do vale, que culminou com a construção, já na encosta, do convento e igreja de São Francisco. Ao mesmo tempo também que se começavam a ocupar as áreas fora do vale, mais próximas da costa, quer a oeste, quer a leste. Em 1626, os oficiais do rei Filipe II descreviam a Ribeira Grande dizendo que nela constavam três bairros “a saber, o de São Sebastião, o de São Brás e o de São Pedro”. (Amaral, 2007, p. 176). O bairro de São Brás surge a oeste. Situado no cimo dos rochedos a noroeste da cidade era constituído por uma única rua designada por rua Direita da Cidade ou rua de São Brás. Foi a zona escolhida para a residência dos Jesuítas que, ao chegarem à ilha, em 1604, terão comprado e urbanizado praticamente toda esta zona. A nascente, precisamente em 1603, quando foram finalmente retomadas as obras da Sé, começou-se a constituir o bairro de São Sebastião, onde antes os moradores reclamavam estar fora da cidade. A rua principal do bairro aparece nos documentos com a designação de rua Direita ao Forte. Foi também nesta época que a cidade começou a ser vítima dos primeiros atos de pirataria, o que implicou a implementação de um sistema defensivo mais elaborado afim de deter as investidas. O sistema foi construído em duas épocas distintas e que correspondem a duas escalas de defesa que caracterizaram a cidade. A primeira escala defensiva estava ligada aos primeiros elementos erigidos, tendo em vista somente a defesa do porto e da cidade e dela constam o baluarte da Vigia, também designado por Presídio, o forte de São Veríssimo e o baluarte de S. Brás que estavamligados entre si por vários troços de muralhas e, anexas aos fortes estavam as principais “portas” de acesso à cidade. Este sistema estava montado segundo a linha da baía e foi construído ainda no decorrer do século XVI. A segunda escala do sistema defensivo, data do final do século XVI e início do século XVII, e estava desenhado para uma linha de defesa Cabo VerdePlanta da terceira fase da expansão urbana, (desenho Fernando Pires).Desenho representando o sistema defensivo da cidade com os seus fortes, muralhas e postos de vigia. (desenho Fernando Pires).Planta da segunda fase da expansão urbana, (desenho Fernando Pires).
  • 228 229CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3Cabo Verdemais alargada e complexa, pensado sobretudo para à defesa do mar e do território. Deste sistema fazem parte a Fortaleza de São Filipe, de 1587, como o elemento mais destacado, fazendo conjunto com os fortes de Santo António, São João dos Cavaleiros, a nordeste da cidade, e o forte de São Lourenço, a noroeste, fechando o acesso à vila através da porta com o mesmo nome. Todo este sistema é complementado por vários troços de muralhas e postos de vigia colocados nos pontos mais altos das montanhas. Com os sucessivos ataques dos piratas, somados à perda dos rendimentos do tráfico, que foi transferido para Cacheu em 1645, há uma clara desaceleração da economia e a cidade entra num processo de decadência que é agravado pelo êxodo da população para o interior da ilha. Neste contexto, a partir do final do século XVII e ao longo de todo o século XVIII observa-se uma fase involutiva no crescimento urbano. Depois de um dos ataques mais demolidores da sua história, feito pelos franceses comandados pelo pirata Jacques Cassard, em 1712, que deixou a Sé e a cidade arrasadas, o bispo decidiu deslocar a sede do bispado, instalando-se, em 1754, na ilha de São Nicolau, e depois em Santo Antão. Em 1769, foi a vez do governador Joaquim Salema Saldanha Lobo transferir-se para a Vila da Praia. A planta da Ribeira Grande, realizada nesse ano pelo engenheiro António Carlos Andrea, apresenta Planta da cidade da Ribeira Grande da ilha de Cabo Verde, com as suas fortificações e o estado delas e da sua artilharia – desenhada pelo eng.º António Carlos Andreas em 1785. (Arquivo Histórico Ultramarino).os terrenos abandonados e o estado de ruína das edificações. (Fig. 7) A partir de então, várias funções centrais foram sendo transferidas para a Praia. Em 1835, o governador Manuel António Martins extinguiu o concelho da Ribeira Grande. Em 1858, a Vila da Praia foi elevada à categoria de cidade, consumando-se assim definitivamente a transferência da capital.Apesar da exiguidade do núcleo, a Ribeira Grande é talvez um dos exemplos mais interessantes das fundações urbanas da expansão portuguesa, porque mostra, num espaço exíguo e condicionado por um relevo difícil, as capacidades de adaptação e maleabilidade dos procedimentos urbanizadores e, sobretudo, porque deixa ver os elementos base da metodologia de instalação no terreno. É significativo que a toponímia da cidade revele a existência de três “ruas direitas” que correspondem aos eixos estruturadores das suas áreas de expansão: a rua Direita de São Pedro, a rua Direita de São Brás (ou da Cidade) e a rua Direita ao Forte. Quanto à malha urbana, é claramente visível que os quarteirões instalados no interior do vale se submetem às condicionantes geográficas e adaptam-se à curvatura da ribeira. Mas mesmo dentro destas condicionantes, se procura criar situações de paralelismo entre os quarteirões que apontam para uma regularidade relativa da estrutura viária. No Bairro de São Sebastião, construído num pequeno promontório onde o relevo é plano, a estrutura viária é manifestamente regular. (Pires, 2007, pp. 129–130).Outro topónimo significativo no urbanismo português também aparece na Ribeira Grande.
  • 230 231CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3Cabo VerdeDesenho do loteamento urbano da cidade. (desenho Fernando Pires).Trata-se da rua da Carreira. Existe em várias urbes, sobretudo a partir do século XV, identificadas como da carreira ou corredoura, indicando a sua característica de rua larga, propícia para a carreira dos cavalos. No caso da Ribeira Grande é interessante ver a representação que se tem desta rua na já referida imagem relativa ao ataque de Drake à cidade. Note-se que a gravura, que correu mundo, mostrava uma Ribeira Grande com quarteirões desenhados de forma regular e onde são evidentes os elementos de identificação realista do burgo, tais como a capela de Nossa Senhora do Rosário, a Misericórdia e, em destaque, a rua da Carreira. Ou seja, esta é uma imagem de perceção efetiva e não uma mera representação fantasiada e a leitura do espaço urbano que dela emana é a de um espaço ordenado.Mas o elemento mais significativo da formação da urbe é a estrutura padronizada do loteamento. A existência de um padrão observa-se em todo o tecido urbano, exceto nas áreas mais próximas do porto, no que é identificado como Largo do Pelourinho, onde subsistem lotes de dimensão variada e irregular. O padrão revela-se na distribuição modulada das frentes que têm dimensões base de trinta palmos, ou variantes proporcionais, a que correspondem dimensões de fundo também proporcionais. Com efeito, o lote-base utilizado na Ribeira Grande tem como medida de frente 30 palmos (aproximadamente cerca de 6,6m), a mesma medida utilizada em várias cidades da mesma época no Universo Português, e que é também o lote padrão utilizado no Bairro Alto em Lisboa, ou em Angra do Heroísmo, por exemplo. Neste caso, tendo em conta a medida da frente estabelece-se a área construída do lote, a partir de um quadrado de 30x30 palmos, que evolui para o duplo quadrado, ou triplo quadrado, de acordo com as áreas da cidade. De igual modo, há ocasiões em que as construções utilizaram não apenas um lote, mais lote e meio, ou a frente dupla. Ou seja, existe uma geometria interna no desenho do lote e na sua utilização que, além do papel de estruturador, modelador e ordenador da malha, vai conferir ao conjunto o efeito estético desejado. (Pires, 2007, pp. 131–137).Como se viu, as características estéticas e ordenadoras do lote contribuíram para conferir uma imagem mais coesa da cidade, principalmente no que toca a edifícios habitacionais, contudo, outros elementos sobressaem na paisagem, e vão contrariando aqui, ou ali, a geometria imposta pelo lote, nas diversas áreas da cidade. Estes elementos marcantes da paisagem urbana são efetivamente os edifícios religiosos e militares que ocupam dentro, ou fora, do tecido urbano, áreas e volumetrias maiores.
  • 232 233CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3Os principais edifíciosA igreja de Nossa Senhora do Rosário é um dos mais antigos edifícios religiosos construídos na ilha. Existiu inicialmente no local uma pequena capela, que remonta aos finais do século XV, que foi depois integrada no corpo da igreja. Trata-se de uma capela de planta quadrada, coberta por abóbada de nervuras que é identificada como capela manuelina. O acesso é feito a partir da nave, por um arco gótico ladeado por duas gárgulas em pedra, que deve corresponder à entrada da primitiva capela. No seu interior encontra-se a pia batismal em pedra maciça, que pertencia à Sé. Da configuração final da igreja, destaca-se a sua planta de nave única, com cobertura de madeira em duas águas. No corpo principal, a separação entre a nave e a capela-mor é feita apenas um por desnível vencido por cinco degraus. Todo o edifício é sustentado por paredes em pedra, reforçadas por dois contrafortes salientes no alçado sul. No mesmo alçado, existem dois vãos laterais de acesso a nave principal da igreja e, na parte superior, nos extremos do edifício, mais dois vãos de janelas que iluminam a nave. Na fachada principal, orientada a poente, encontra-se o portal em cantaria, já de gosto renascentista, com arco interno de volta inteira inserido em moldura de verga reta. Duas janelas ladeiam o portal e uma terceira o encima e sobre esta vê-se um pequeno óculo. Na mesma fachada, mas já junto à encosta, é ainda visível o que resta da torre sineira, que se encontrava sobre a capela manuelina, assim como os restos da escada de acesso à referida torre. Adoçada ao volume da nave, construiu-se, a norte, a sacristia, à qual se tem acesso a partir da capela-mor. As paredes do interior da igreja eram revestidas de azulejos, excetuando a capela mor. Na nave encontram-se várias lápides de importantes personalidades da Ribeira Grande. As obras da igreja já estariam concluídas na primeira metade do século XVII, quando em 1625, a caminho do Brasil, pregou nela o Padre António Vieira, no primeiro domingo do Advento. Depois do abandono da cidade a igreja se foi deteriorando, contudo terá sido a que mais resistiu. Em 1533, a publicação pelo Papa Clemente VII da Bula Pro Excellenti Praementia, atribuiu a Ribeira Grande o estatuto de bispado englobando a terra firme da Guiné. A construção da sé começou em cerca de 1556, data do início do episcopado de D. Frei Francisco da Cruz e logo a seguir as obras foram embargadas, como já se referiu. Em 1603 retomaram-se os trabalhos, agora sob os auspícios de D. Frei Vitoriano Portuense, que viriam a ser concluídos apenas em 1705. Planta da igreja de Nossa Senhora do Rosário, (desenho Fernando Pires). Imagem da fachada principal da Igreja da Nossa Senhora do Rosário, Cidade Velha. (fotografia Fernando Pires).Planta da antiga Sé da Ribeira Grande. (desenho Fernando Pires).Tratava-se de um edifício de planta em cruz latina, com três naves, capela mor e transepto saliente que deve ser incluído na tipologia que caracteriza os edifícios das novas dioceses criadas no século XVI no contexto do Império (Angra do Heroísmo e Salvador) e em Portugal (Leiria, Portalegre e Miranda do Douro). Como afirma Horta Correia “nelas se encontra verdadeiramente a primeira grande vaga de arquitetura chã, anterior em mais de uma década ao estilo desornamentado espanhol” (Correia, 1991, p. 46). A Sé da Ribeira Grande seria, provavelmente, como as suas congéneres, uma hallenkirche. As dimensões da nave evidenciam uma relação proporcional (o duplo quadrado) que a aproximam da planta da Sé de Leiria. No alçado contudo, erguiam-se duas torres sineiras que ladeavam a porta principal, desenhadas no mesmo plano da fachada principal, fechadas por dois campanários, em quatro águas, que se podem relacionar com a Sé de Miranda do Douro. Cabo VerdeImagem da fachada sul das ruínas da antiga Sé da Ribeira Grande. (fotografia de Fernando Pires)
  • 234 235CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3Cabo VerdeEm 1712, depois do ataque de Jacques Cassard, que a pilhou, a igreja ficou bastante danificada. Em 1730, ainda se encontrava por reparar o telhado que só viria a ser concluído em 1744, altura em que a igreja recebeu as cerimónias do 1º Pontifical do Bispo D. Frei Jacinto Valente. (Mimoso, 1981, p. 39). Em 1755, depois de consumada a mudança da sede do episcopado, o edifício entrou em franca decadência e ter-se-á arruinado rapidamente. Trajeto semelhante teve o conjunto formado pelo palácio episcopal, o aljube e a casa do carcereiro, situado nas cercanias da Sé, também mandado erigir pelo mesmo bispo, em 1574. O palácio era um imponente edifício de dois pisos, com 193,5 palmos de comprimento (cerca de 43 m), por 55 palmos de largura (cerca de 12 m), com uma cobertura de quatro águas. A comunicação entre os andares era feita através de uma caixa de escadas exterior, localizada no alçado principal. A orientação escolhida para a fachada principal do edifício era a sul, onde pontuavam oito aberturas de vãos de sacada com varadas no piso superior do edifício, que iluminavam, além das duas salas nobres, vários compartimentos para o bispo e família e uma pequena capela.O acesso ao piso térreo era feito por três portas, duas situadas nos extremos do edifício e a principal mais ou menos no primeiro terço do edifício. Logo a seguir ao pequeno hall de entrada havia uma caixa de escadas de acesso ao piso superior e, do lado esquerdo, na extremidade oeste, estava localizada a cozinha e os serviços anexos. Do lado oposto, distribuíam-se vários compartimentos, todos eles com iluminação direta. Em anexo, na parte sul do edifício principal, encontravam-se os edifícios onde funcionavam o Aljube e a casa do carcereiro, ambos de um único piso. (Barcellos, 2003b, pp. 67–68). Em 1712 o palácio também foi saqueado por Cassard e, em 1755, foi definitivamente abandonado com a mudança de residência do bispo. Apesar disso, ainda houve várias tentativas para a sua reedificação mas nenhuma delas foi bem sucedida, sobretudo pela falta de verbas. Do edifício, nada restou além das fundações. Planta do Palácio Episcopal in Senna Barcellos, Subsídios para a história de Cabo Verde e Guiné, vol. II, Academia das Sciencias, Lisboa, 1900.Fotografia das ruínas da Torre da Misericórdia. (fotografia Fernando Pires)Das várias missões que se deslocaram a Cabo Verde com vista a inventariação ou elaboração de planos de salvaguarda do património, muito poucos se referiram ao palácio e menos ainda foram os que propuseram qualquer ação para as ruínas.O conjunto da Misericórdia era formado pelo hospital e pela igreja, esta também datada de 1556. A igreja era pequena, apenas media 76,5 x 37 palmos, (17 x 8 metros), contudo serviu de Sé, enquanto duravam as obras da catedral. Nela supostamente foram sepultados o terceiro bispo de Cabo Verde, D. Frei Francisco da Cruz e mais três bispos, entre 1613 e 1684. Hoje apenas restam as ruínas da torre sineira, uma construção de planta quadrada, reforçada por cunhais de cantaria com o alçado marcado por dois frisos que contornam o seu perímetro.
  • 237CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3236Cabo VerdeSobre o edifício do hospital, poucas informações nos chegaram sobretudo a propósito das configurações adotadas na sua conceção. Em 1784 a Misericórdia encontrava-se numa situação difícil por não ter recursos financeiros para se sustentar. As casas e enfermarias já nessa altura ameaçavam ruína e a situação terá continuamente piorado. O convento de São Francisco é uma construção da segunda metade do século XVII, cujas obras terão começado em 1657. A Igreja é um edifício de planta longitudinal, composta por nave única e capela-mor destacada. Na fachada principal destaca-se o frontão triangular, o vão da entrada principal aberto por portal encimado por janelão retangular protegido com grades em ferro. Possui um campanário no cunhal do lado esquerdo, com ventana em arco de volta inteira de remate triangular. As paredes laterais contêm janelas, que iluminam o corpo da nave e a capela-mor, todas elas delimitadas por cunhais. As paredes interiores de nave e capela-mor eram revestidos de azulejos e nas paredes laterais e posterior do corpo da nave ainda são visíveis as marcas de um piso, possivelmente do coro alto, que entretanto ruiu. Em 1754, uma tempestade que passou pela ilha causou danos na igreja e no dormitório do convento deixando-o destelhado. Em 1864 o seu estado de conservação, segundo relatos parecia ser sofrível. Hoje, do convento, apenas são visíveis restos dispersos de pequenos muros aparelhados, que eram as suas paredes. A igreja foi submetida a obras de restauro e encontra-se em funcionamento.Em 1629, os jesuítas também pretenderam construir um colégio na cidade que serviria sobretudo de centro da missão para África. O local cedido pelo rei D. Filipe II para a construção era no bairro de São Brás. Pensaram-se pelo menos duas hipóteses para a implantação do edifício que, em qualquer dos casos, teria dimensões consideráveis (180 x 109 palmos, caso se optasse pela sua implantação do lado norte da rua, ou 158x135 palmos, caso fosse na parte sul da mesma rua) (Canavarro, 1977, pp. 388–389). Pela sua planta, a casa desenvolver-se-ia em dois pisos, ficando no piso térreo a igreja e as oficinas, e para o primeiro andar, as habitações dos missionários, a cozinha e a dispensa, tudo à volta de um grande pátio interior. Parecia tratar-se de um excelente equipamento para a cidade, no entanto, enviada a proposta para Lisboa, os consultores acharam que não se devia levar avante a construção e deixou-se cair o projeto. (Canavarro, 1977, pp. 392–400). Fotografia da fachada principal do convento de S. Francisco na Cidade Velha. (fotografia Fernando Pires).Imagem do convento de S. Francisco, mostrando parte das celas do convento. (fotografia Fernando Pires).
  • 238 239CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3nível do mar, dominando toda a vista da Ribeira Grande. A fortaleza, em conjunto com uma série de pequenos fortes construídos ao longo da linha da costa, auxiliados por muralhas e postos de vigia, constituíam a linha de defesa alargada do território. A sua construção começou cerca de 1587 e só ficou pronta por volta de 1593. A planta é um quadrilátero irregular e o seu traçado apresenta um baluarte ao centro voltado a nascente e dois meios baluartes com orelhão nos extremos opostos das cortinas. A sua adaptação ao terreno parece perfeita. No pátio interior encontram-se as estruturas de apoio ao funcionamento do forte, o quartel, a prisão, o paiol de munições, a casa do Outros edifícios religiosos de menor porte existiam na cidade, como é o caso da Capela de São Roque, situada a meio caminho da fortaleza, que foi restaurada nos anos sessenta e perdeu a abóbada em pedra por uma nova em betão, comprometendo assim a sua traça original, ou a igreja de N. Senhora da Conceição que as recentes escavações trouxeram à luz do dia as suas fundações. A mais imponente estrutura ainda visível na Ribeira Grande é, sem dúvida, a Fortaleza de São Filipe. Foi mandada construir por Filipe II, a seguir ao ataque perpetrado pelo pirata Francis Drake à cidade em 1585. Encontra-se no cimo de um promontório, a cerca de 120 m acima do governador e a capela de São Gonçalo. O desenho da fortaleza é atribuído ao arquiteto Filipe Terzi. A obra foi executada e supervisionada no terreno por João Nunes, mestre de obras da cidade de Tânger, que foi deslocado para a Ribeira Grande para este efeito. Porta da cidade na Fortaleza de São Filipe. (fotografia Fernando Pires)Vista do interior da Fortaleza de São Filipe. (fotografia Fernando Pires)Cabo Verde
  • 240 241CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3Cabo VerdeEmbora recém-construída, em 1619, o governador D. Francisco de Moura, dava conta ao rei Filipe II do estado de ruína em que se encontrava a fortaleza, alegando que tal se devia a esta ter sido construída em “pedra e barro”. Entre 1620 e 1638 vários foram os pedidos para o envio de técnicos e material para proceder a reparações na fortaleza. No entanto, com o ataque de 1712 as instalações interiores foram destruídas. Em 1764 consta terem sido reedificados alguns muros pelo governador Bartolomeu de Sousa de Brito. Depois o processo de arruinamento terá sido continuado. Além da fortaleza há que destacar os pequenos fortes de São Lourenço, São João dos Cavaleiros e de Santo António que, em conjunto com os de São Veríssimo e do Presídio, completavam a defesa da vila e do porto, que estão praticamente todos desaparecidos. O sistema era complementado pelas muralhas do mar, que se encontravam junto à baía impedindo o desembarque direto na praia, e a muralha da cidade, que por seu lado impedia o acesso à cidade pelo oeste. Destas muralhas, apenas restam alguns troços ainda visíveis no monte sobranceiro ao bairro de São Brás. Da arquitetura civil resta apenas o pelourinho, do século XVI, implantado no largo com o mesmo nome. É uma peça manuelina em pedra, o seu corpo está assente sobre uma plataforma octogonal que por sua vez assenta sobre uma base poligonal. É encimado por um capitel decorado e onde se encontram as argolas em ferro e uma esfera armilar colocada posteriormente. Encontrava-se em muito mau estado de conservação quando, na sequência dos trabalhos de restauro feitos em 1960 pelo arquiteto Luís Benavente, foi embalado e enviado para Lisboa para posterior restauro. De regresso à cidade velha, foi colocado no centro do largo. Pelourinho da Cidade Velha. (fotografia Ilídio do Amaral, Santiago de Cabo Verde a Terra e os Homens, 1964)Pelourinho da Cidade Velha. (fotografia de Michel Renaudeau, Cape Verd Islands, Delroisse, 1986)
  • 242 243CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3O Património da Ribeira GrandeComo capital das ilhas e dos rios da Guiné, a Ribeira Grande viveu constantemente num equilíbrio precário. Com o pulsar da economia em boa parte dependente de fatores externos, a sua centralidade foi sempre cobiçada em termos regionais e, ao mesmo tempo, fortemente defendida pelos moradores. No entanto, e apesar das resistências, a transferência da capital para a Praia implicou o quase abandono do antigo núcleo. Talvez tenha sido a partir deste momento que a Ribeira Grande passou a ser referida como Cidade Velha, perdendo o seu nome e assumindo-se como um lugar do passado. Este quadro de ruína entra definitivamente no imaginário da cidade colocando-a, desde então, numa espécie de lugar fora do tempo. Consumando esta imagem de abandono eram comuns os atos de retirada de alguns materiais das ruínas para servirem noutras construções. Na sequência de um minucioso inventário de toda a cantaria existente na Cidade Velha, realizado em 18703, o próprio diretor das Obras Públicas de Cabo Verde sugeriu, em 1875, a demolição da Sé, para que com os seus materiais se fizessem novas construções na cidade da Praia. Em 1938, o Governador Joaquim Pereira Marinho sugeriu de novo que as pedras da Sé servissem para a construção de uma nova Sé no Mindelo, onde, nesta altura, se pretendia erigir a capital de Cabo Verde. Outras depredações continuariam ainda a ocorrer, por parte dos próprios habitantes da ilha, que se vieram somar à ação do tempo.Os primeiros discursos sobre a salvaguarda do património da Ribeira Grande começaram a surgir, em Cabo Verde, na primeira metade do século XX. Partiu da iniciativa do governador Filipe de Carvalho um dos primeiros atos conhecidos para a proteção e salvaguarda da Cidade Velha. Trata-se da publicação, em 1922, de uma portaria que visava a conservação das ruínas da cidade4. Mais iniciativas se Vista do bairro de São Sebastião a partir da fortaleza de São Filipe. (fotografia Fernando Pires). 3 AHN, SGG, caixa n.º 616, maço n.º 6, doc. 40.4 Boletim Oficial nº 14 de 8 de Abril de 1922.Cabo Verde
  • 244 245CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3e monumentos nacionais, denunciando as depredações e pedindo expressamente que fosse enviado um técnico a Cabo Verde para recolher elementos sobre a cidade, a qual descreve como “o entreposto de todas as nossas descobertas e conquistas e o último ponto de despedida das frotas que seguiam para as Terras de Santa Cruz e das que pela Costa da África procuravam o rei do Congo, do Preste João e as especiarias do Oriente, servindo no regresso de ponto de reunião”5. A especificidade civilizacional e a história eram os princípios orientadores da seleção, agora não estavam em causa as grandes criações da humanidade mas também eram contemplados os monumentos mais modestos que valiam pelo seu conjunto ou pela sua importância específica em cada caso.Tendo em conta estes aspectos, Luís Benavente elaborou um plano para o restauro dos edifícios mais emblemáticos da Cidade Velha e mandou proceder a execução destes restauros. Em 1972, o arquiteto tinha praticamente concluído o trabalho a que se propôs, tendo realizado intervenções no pelourinho, em várias igrejas e na fortaleza de São Filipe. Além disso, estava a preparar um projeto de legislação para a proteção do património histórico artístico da província para uma posterior classificação da Cidade da Ribeira Grande como monumento nacional.Esta intervenção na Cidade Velha, vinda do Ministério do Ultramar, acabou por ser uma das mais significativas ações de salvaguarda do património em Cabo Verde durante o regime colonial. Mas convém esclarecer que a lógica da intervenção de Benavente na Cidade Velha é uma lógica de restauro, objeto a objeto, tentando recriar e invocar um passado de glória, que já sublinhamos mais atrás no discurso do delegado das obras da colónia Penal de Cabo Verde. Embora não seja aqui o lugar para desenvolver estas questões, também caberia questionar em alguns aspetos a metodologia utilizada nos restauros, como a substituição de azulejos originais, por outros de fábrica recente, como ocorreu na igreja do rosário, ou outros casos. Vista do interior do vale onde se instalou a cidade (fotografia Fernando Pires). 5 Ministério das Obras Públicas e Comunicações. Direção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais. Ordem de Serviço nº 07848 de 5 de Novembro de 1938Cabo VerdeEm 1962, o arquiteto Luís Benavente foi destacado do ministério do ultramar para operar em várias colónias. Esse destacamento de Luís Benavente vinha ainda na sequência da revisão constitucional de 1951, em que houve uma viragem na política do Estado Novo em relação às colónias que se centrava, essencialmente, na melhoria da imagem internacional de Portugal. Para além da supressão de termos como “império” e “colónias” que foram substituídos por “ultramar” e “províncias”, foram criados alguns organismos como o Ministério do Ultramar e o Gabinete de Urbanização do Ultramar que iria lidar com situações como a gestão das cidades e dos monumentos. Tudo leva a crer que foi neste âmbito que Luís Benavente foi enviado para Cabo Verde com a tarefa de elaborar um plano de restauro com vista a salvaguarda do património português nas ditas províncias ultramarinas. Importa realçar que Luís Benavente foi o delegado português que participou nos trabalhos da comissão que culminaria com a publicação da chamada “Carta de Veneza” em 1964. Como se sabe, a publicação da Carta de Veneza trouxe algumas mudanças muito importantes para o campo do património. Alargou-se o conceito de monumento histórico, que passou da criação arquitetónica isolada na obra para abranger conjuntos urbanos e rurais. Assim como se buscou também incluir os elementos mais modestos e não necessariamente monumentais. juntaram a este ato do governador. Em Novembro de 1938, o então delegado das obras da Colónia Penal de Cabo Verde, escreveu ao diretor geral dos edifícios
  • 246 247CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3Logo depois da independência de Cabo Verde, deram-se os primeiros passos no sentido da preservação do património com a criação, em 1978, de uma comissão para a defesa e preservação dos monumentos nacionais. Em 1980, um consultor da UNESCO visitou o país com o objetivo de orientar a realização de um inventário dos bens e a definição de um plano de ação para a proteção do património. Em 1986, criou-se a Direção Geral do Património Cultural depois integrada no atual Instituto de Investigação e do Património Cultural (IIPC). Em 1989 os governos de Cabo Verde e Portugal assinaram um protocolo de cooperação nesta área e coube à equipa do IPPC a tarefa das obras de consolidação das ruínas da Sé e a preservação de alguns túmulos no interior da igreja. Desta intervenção, com vista a dar utilidade às ruínas da Sé, foi elaborado um projeto de arquitetura da autoria do arquiteto Bento de Almeida. O projeto consistia na criação de numa estrutura em betão que recriasse a volumetria do edifício, destacando os seus elementos mais importantes, a nave central, a capela mor e as torres sineiras. As naves laterais serviriam para exposição das cantarias e esculturas que restam e a nave central e transepto, seriam utilizados para espetáculos de música e teatro. Contudo o projeto não chegou a ser executado.(Almeida, 1990, p. 80).No mesmo ano as autoridades cabo-verdianas criaram um gabinete técnico local e estabeleceram uma zona tampão à volta da área da Cidade Velha a preservar. Em 1990, após tentativa falhada na primeira candidatura a património da Humanidade, Cabo Verde declarou a Cidade Velha património nacional. Este aspecto é especialmente significativo na medida em que denuncia o carácter estratégico da candidatura para Cabo Verde.Nos anos seguintes houve algumas ações e intervenções realizadas no âmbito de protocolos de cooperação, sobretudo com Espanha. Em 1998, o arquiteto Álvaro Siza Vieira foi convidado pelo governo de Cabo Verde para elaborar o plano de reabilitação e salvaguarda da Ribeira Grande. (Soares, 2001). Em 2005, a Ribeira Grande recuperou o estatuto de município que tinha perdido para a Praia e no mesmo ano iniciou-se a primeira fase das escavações arqueológicas na antiga capela de Nossa Sr.ª de Conceição, no Convento dos Franciscanos e no Hospital e Igreja da Misericórdia, coordenadas pelo Instituto de Investigação e do Património Cultural, em colaboração com a Universidade de Cambridge e em parceria com a Universidade Jean Piaget de Cabo Verde. Na sequência destas ações e do renovado processo de candidatura à UNESCO, a cidade finalmente obteve a classificação como Património Mundial, em 2009, como já se disse.Cabo VerdeBIBLIOGRAFIAAlmeida, João Bento (1990), A Sé Da Ribeira Grande: Proposta de Recuperação. Oceanos, 5(5): 88–89.Amaral, Ilídio do (2007), Santiago de Cabo Verde: a terra e os homens. Lisboa: Associação das Universidades de Língua Portuguesa.Barcellos, Christiano J. de Senna (2003a), Subsídios para a História de Cabo Verde e Guiné - vol.I - Parte I e II. Praia: IBNL.Barcellos, Christiano J. de Senna (2003b), Subsídios para a História de Cabo Verde e Guiné - vol.II - Parte III. Praia: IBNL.Canavarro, Pedro (1977), Uma Traça Jesuita Para a Antiga Cidade de S. Tiago de Cabo Verde. Separata da Revista da Faculdade de Letras, (IV série, n.o 1): 385–403.Chelmicki, José Conrado C. de and Varnhagen, Francisco A. de (1843), Corografía Cabo-Verdiana: ou, Descripção Geographico-Historica da Província das Ilhas de Cabo-Verde e Guiné. Lisboa: L. C Da Cunha.Correia, José Eduardo Horta (1991), Arquitetectura Portuguesa - Renascimento, Maneirismo, Estilo Chão. Editorial Presença.Mimoso, Alexandre Brás (1981), Relatório Da Missão Técnica de Cooperação Com a República de Cabo Verde. Praia: IPPAR.Pires, Fernando (2007), Da Cidade da Ribeira Grande à Cidade Velha - Estudo Histórico-Formal do Espaço Urbano Séc. XV - Séc. XVIII. Praia: Universidade de Cabo Verde.Sauvageot, Serge (1961), Navigation de Lisbonne Aà L’île São Tome Par Un Pilote Portugais Anonyme (vers 1545). Garcia de Orta, 9(1): 123–128.Soares, Sérgio (2001), Cabo Verde: Cidade Velha. Risco Tropical de Siza Vieira. Cooperação, (1).
  • 249CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3248 CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CACHEUCacheu localiza-se na região noroeste da Guiné-Bissau, nas margens do rio, que os portugueses baptizaram inicialmente de São Domingos, mas hoje com o mesmo nome da cidade, e a cerca de 25 quilómetros da foz. A sua implantação, em 1588, enquanto primeira feitoria portuguesa entre os rios Casamansa e Grande, reflecte as estratégias de colonização da costa ocidental africana e o papel das redes hidrográficas na fixação dos primeiros europeus no continente, que se concentram ao longo dos rios e seus afluentes. Estes portugueses e seus descendentes, ao aventurarem-se pelo sertão, privilegiam, essencialmente por razões de mobilidade, as margens dos cursos fluviais para assentamentos quer sejam de natureza comercial ou defensiva. A segurança é uma preocupação central num contexto hostil tantas vezes descrito pelos cronistas da época, como Gomes Eanes da Zurara, que relatam o avanço para sul das caravelas portuguesas no reconhecimento da costa subsariana em busca de novos dados. Nem sempre, portanto, a salubridade de um lugar é condição suficiente à fixação europeia. A escolha recai frequentemente em “terra muito segura, onde não se faz mal a cousa nenhuma; e estão os nossos nella muito seguros”, como descreve André Álvares d’Almada, autor coevo à fundação de Cacheu, no Tratado breve dos Rios de Guiné do Cabo-Verde: desde o Rio do Sanagá até aos baixos de Sant’Anna..., de 1594 (Almada, 1594, 1841, p. 49), a propósito de uma aldeia próxima, S. Filipe, por vezes descrita como não sendo sadia, “por ser lugar alagadiço e de muitos charcos de agoa” (Idem). GUINÉ-BISSAUCacheu.(Fotografia: Paulo Tormenta Pinto, 2011)FCT: Os Gabinetes Coloniais de Urbanização: Cultura e Prática Arquitectónica PTDC/AUR-AQI/104964/2008ºTexto de Ana Vaz Minheiro
  • 250 251CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3No caso de Cacheu, os aspectos defensivos revelam-se igualmente determinantes, e a criação da praça-forte surge como a solução mais segura para os portugueses que habitam aquela parte do sertão, exigindo-se a um dado momento que engrossem a sua população abandonando outros lugares, fundados anteriormente. É no contexto descrito que Álvares d’Almada, ao assinalar a sua localização, confirma que estão agora “os nossos em aldeia separada dos negros, e tão fortes que, ..., podem fazer muito mal e damno aos negros” (Idem, p. 45).A designação “Cacheu” alarga-se, ainda no período colonial, à região envolvente, constituindo hoje uma das divisões administrativas da Guiné-Bissau. Ocupa aproximadamente 15% do país, sendo habitada por Manjacos, Papéis e Brames, povos herdeiros da mesma diversidade étnica que, no século XVI, os portugueses e outros europeus aqui encontram: “Toda a terra de huma banda e outra he povoada destes negros, os quaes tem muitos reis, huns mais poderosos que outros” (Idem, p. 47). Na fase inicial da colonização, a informalidade que caracteriza a ocupação territorial reflecte-se na instabilidade com que é exercido o poder institucional, muitas vezes subalternizado face a interesses particulares. João de Sousa Campos e Eduardo Costa Dias referem precisamente que “as circunstâncias da fundação de Cacheu, o primeiro e mais importante estabelecimento português oficialmente reconhecido na região, são paradigmáticas da ambiguidade acima referida” (Campos, Dias in Cristóvão, 2005, p. 475). Como esclarecem, apesar de servir o interesse de uma comunidade ainda incipiente de luso--africanos já aqui instalados e essencialmente dependentes de actividades económicas não fiscalizadas, Cacheu resulta da intervenção directa de um representante do poder oficial, o cabo-verdiano Manuel Lopes Cardoso. Com a criação desta praça-forte, o governo colonial, que é então exercido a partir da ilha de Santiago, no arquipélago de Cabo Verde, onde reside o governador, passa a “dispor de uma feitoria em terra, aonde, na época apenas a tinha a bordo de um navio” (Idem). A origem de Cacheu é assim devedora das incursões de vagas de pioneiros de proveniência europeia (principalmente portugueses, mas também franceses, espanhóis, ingleses ou holandeses) que vão penetrando nas regiões interiores do sertão africano, travando relações comerciais com as populações há muito aí radicadas e, eventualmente, ali formando família, dando origem a um fenómeno de mestiçagem que acabará por repercutir-se regionalmente. Estes homens são conhecidos como ”lançados”, mais tarde tangomaos, e têm sido descritos como oriundos de “diversos estratos sociais, aventureiros, renegados, e cristãos-novos, que, subtraindo-se, por diversas vezes, às autoridades portuguesas..., se lançam na terra firme, estabelecendo ali residência e ocupando-se do comércio de produtos vários...” (Santos in Lopes, 1988, p. 67). Guiné-BissauForte de Cacheu.(Fotografia: Ana Vaz Milheiro, 2011)FCT: Os Gabinetes Coloniais de Urbanização: Cultura e Prática Arquitectónica PTDC/AUR-AQI/104964/2008
  • 252 253CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3é relatada, não sem alguma perplexidade, pelos cronistas europeus, a ambiguidade do exercício religioso. Judeus que assumem duplas personalidades religiosas, identificando-se alternadamente como cristãos novos ou judeus. Maometanos que ocultam vestes “europeias” e Alguns pretendem regressar a Portugal. Muitos, contudo, permanecem, por beneficiarem de maiores liberdades, não somente económicas mas também no domínio religioso. Neste sentido, as práticas religiosas reforçam o carácter miscigenado da população. Frequentemente o “sinal da cruz”. Práticas que se cruzam com os “ancestrais” cultos animistas. Antecipando a designação que o antropólogo Landerset Simões faz da Guiné em 1935, a região de Cacheu é, em plenos séculos XVI e XVII, uma autêntica “Babel Negra” onde convivem, com maior ou menor tolerância, mansas, escravos, grumetes e gentios. O economista e sociólogo guineense Carlos Lopes recorda que “estas categorizações são ilustrativas das vertentes inovadoras do espaço social que até ao século XIX vai ter Cacheu como um dos seus pólos de atracção” (Lopes, 1988, p. 14). No século XVIII, a reputação dos lançados ganha má conotação entre os “cronistas” de Cacheu, categoria onde se pode inserir, a par de Álvares d’Almada ou de Francisco de Lemos Coelho, o padre Manuel Álvares que permanece na região entre 1607 e 1616, um ano antes da sua morte: “They are evil itself, they are idolaters, perjurers, defiers of homicides, libertines, thieves who steal reputation, credit and good name from innocents as well as property, and also traitors...” (Álvares, 1625, 1990, p. 4).Entre o comércio que praticam, e que abrange uma gama diversificada de mercadorias europeias, na sua maioria ligada aos lanifícios, trocados por “couros, marfim, cera, goma, âmbar, algalia, anil, ébano... e o sempre desejado ouro” (Santos in Lopes, 1988, p. 70), começa a salientar-se o valor económico do tráfico negreiro. Este acaba por se tornar uma fonte lucrativa de imposto, também para as instituições oficiais. Cacheu transforma-se num dos principais entrepostos negreiros da costa ocidental africana, favorecido pela sua especificidade geográfica, e um porto de origem para destinos que incluem a América espanhola e o Brasil. Como exemplo, estima-se que nos últimos dez anos da dinastia filipina em Portugal, fossem transaccionados anualmente cerca de dois a três mil indivíduos nesta praça.A posterior decadência da vila está inclusive associada às dificuldades que, a partir de 1815, se colocam ao comércio internacional de escravos. A presença sertaneja, herdada dos movimentos dos anteriores lançados, é progressivamente esquecida pela sede política em Lisboa. No mesmo período, em contexto de grande conflitualidade entre as potências europeias, Portugal resgata a questão africana, colocando-a no centro das suas políticas coloniais, já depois da independência brasileira. A questão do Casamansa, que conduz à delimitação das actuais fronteiras da Guiné-Bissau, diminuindo a influência portuguesa na região, coloca-se a partir 1886. Portugal e França iniciam um complexo acordo diplomático. A existência de abundantes matérias-primas no continente africano acelera os fenómenos da colonização moderna em fase de pré-industrialização. A desagregação do reino Káabu que também explica a perda de Casamansa, como recorda Carlos Lopes, acaba por acelerar a própria decadência de Cacheu. No processo, Maria Luísa Esteves explica como a França, a potência colonial mais forte, “tem a última palavra” (Esteves, 1988a, p. 291). As consequências reflectem-se nos tempos pós-coloniais: “Só mais tarde, quando já não era possível emendar os erros cometidos, se verificou Margem do rio Cacheu.(Fotografia: Ana Vaz Milheiro, 2011)FCT: Os Gabinetes Coloniais de Urbanização: Cultura e Prática Arquitectónica PTDC/AUR-AQI/104964/2008Guiné-Bissau
  • 254 255CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3que povos com história e cultura comum foram separados...” (Idem). Os franceses acabam por inviabilizar parte do comércio que ainda se trava na região sob domínio português, enfraquecendo a economia e provocando a deslocação da actividade para norte de Cacheu, o que beneficia feitorias como Ziguinchor e Carabane (Idem). A importância geo-política de Cacheu fragiliza-se. A questão de Casamansa reflecte-se na própria economia do que será, desde então e até à própria independência guineense, a “Guiné Portuguesa”.A importância actual de Cacheu joga-se essencialmente no plano cultural, reflexo de um conjunto alargado de condições geográficas, históricas, políticas, que, naturalmente, as reflexões anteriores ajudam a descodificar. Por ocasião das comemorações do quarto centenário da fundação da cidade, em 1988, Carlos Lopes enuncia diferentes factores que interessam sublinhar num propósito de futuro (Lopes, 1988, p. 11-21). Destaca, por exemplo, a associação da cidade à cultura crioula e ao kriol, enquanto um dos três centros regionais de irradiação Guiné-Bissaudesta língua no país. O kriol é falado por 60% da população guineense sendo, a grande maioria do seu vocabulário de origem portuguesa. A cidade é igualmente um dos raros lugares de peregrinação cristã na Guiné-Bissau. Localiza-se aqui a capela de Nossa Senhora da Natividade, o mais antigo edifício da religião católica que sobrevive na Guiné. Em 2016, (8 de Julho), inaugurou-se o Memorial da Escravatura e do Tráfico Negreiro. A história de Cacheu está ainda relacionada com o percurso de algumas das famílias guineenses mais influentes. Essas relações também marcam a memória da paisagem urbana recente, uma vez que, nos trópicos, a arquitectura rapidamente desaparece no confronto com o clima. Honório Barreto, por exemplo, manda erguer nesta vila a sua residência, visível numa das gravuras que ilustra a narrativa da viagem de Francisco Travassos Valdez realizada entre 1852 e 1858 (Valdez, 1864). A casa, edificada no século XIX, distingue-se do restante casario de matriz setecentista pela sua notória erudição arquitectónica, que os arcos neo-góticos dos vãos sugerem. Significativamente, reproduzindo também a decadência do burgo que se acentua na década de 1870, uma gravura mais tardia revela a mesma casa já em ruínas, o seu estado actual.É também Carlos Lopes quem propõe uma primeira abordagem historiográfica, identificando cinco etapas na formação de Cacheu, fixando uma narrativa sobre a evolução da cidade comummente aceite (Lopes, 1988). A primeira, até 1588, assenta no reconhecimento de uma identidade social, económica e cultural anterior à fundação colonial de Cacheu. A região actualmente ocupada pela cidade seria, então, caracterizada por uma grande heterogeneidade étnica, e politicamente “tutelada pelo poder kaabunké” (Lopes, 1988, p. 15). Um segundo momento (1588-1878) é iniciado com a autorização dada a Lopes Cardoso pelo régulo local Chapala, para a construção de uma fortaleza como dispositivo de defesa dos ataques aos interesses (essencialmente comerciais) dos portugueses, terminando com a escolha de Bolama enquanto capital da Guiné, já no século XIX. Uma terceira fase (1878-1886) desenvolve-se, brevemente, até à redefinição das fronteiras a norte do território, após o desfecho da disputa pela região do Casamansa. A quarta (1886-1915) fixa-se entre a data do tratado entre Portugal e França, e o fim das campanhas de pacificação do território colonial guineense, lideradas por João Teixeira Pinto. Um último ciclo (1915-1956) termina com o surgimento do movimento de independência do país e a consequente criação do Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC), liderado por Amílcar Cabral. A partir de 1956, Carlos Lopes considera que se inicia a história de Cacheu contemporâneo (Lopes, 1988, p. 16).Dada a especificidade deste texto propõe-se aqui, todavia, uma estrutura e uma cronologia pontualmente distintas. Assim, começa-se por assinalar o reconhecimento da costa da Senegâmbia pelos navegadores portugueses até à instalação destes e seus descendentes nas margens do rio Cacheu, muitas vezes em cooperação com as populações africanas locais (1446-1588). A segunda fase trata do momento em que os comerciantes luso-africanos ganham Igreja de Cacheu. (Fotografia: Ana Vaz Milheiro, 2011)FCT: Os Gabinetes Coloniais de Urbanização: Cultura e Prática Arquitectónica PTDC/AUR-AQI/104964/2008
  • 256 257CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3autorização para se fixarem no actual Cacheu, passando pelo processo de consolidação da vila, compreendendo um perímetro delimitado por uma paliçada, com identificação de baluartes defensivos, portas de entrada e diferentes equipamentos, como igrejas, casa do capitão-mor e Casa Forte, hospício, aspectos que integram a cartografia do século XVIII (1588-1792). Uma terceira fase, correspondendo a uma perda crescente de importância no quadro estratégico do território que começa a ser delimitado como “Guiné Portuguesa”, incide sobre o século XIX, indo até à centúria seguinte, incluindo as guerras de pacificação (ou de ocupação) de 1915 e estendendo-se até à publicação do Acto Colonial de 1930 que altera significativamente a política colonial portuguesa, com reflexos nas paisagens africanas construídas (1792-1930). Finalmente, termina-se com o período do Estado Novo, tendo em consideração que a região de Cacheu é uma das menos afectadas pela guerra colonial (guerra da independência), e portanto, onde os agentes estado-novistas prosseguem, até 1974, com as suas estratégias de ocupação, muitas vezes Guiné-Bissaucomuns a outros territórios coloniais (1933-1974). São estes fenómenos que se procurarão expor a propósito de Cacheu, também através da tentativa em construir uma cartografia de análise a partir dos dados documentais e físicos disponíveis.1. Reconhecimento da costa da Guiné e fixação nas margens do rio São Domingos (1446-1588)A presença portuguesa na costa ocidental de África subsariana começa a ser sinalizada a partir da década de quarenta do século XV. Em 1441, o Infante D. Henrique ordena aos seus navegadores Nuno Tristão e Antão Gonçalves que vão além do Rio do Ouro, negociando com as populações litorâneas e recolhendo o máximo de informação. Nuno Tristão terá chegado aos rios da Guiné por volta do ano de 1446, ainda que a data não esteja propriamente comprovada através de factos históricos precisos. A figura de Nuno Tristão, cuja morte é descrita no 85º capitulo da Crónica da Guiné de Zurara, redigida entre 1452 e 1453, simboliza, contudo, a dificuldade das investidas europeias ao continente africano, dentro de uma estratégia de expansão marítima que os portugueses então controlam. Estas incursões – que privilegiam o reconhecimento do litoral e a penetração das regiões interiores através das redes hidrográficas fluviais – têm sido identificadas como configurando um segundo modelo de apropriação da costa africana, “o das bocas fluviais do sertão, condicionado pela importância económica dos resgates de ouro e escravos”, e, por sua vez, dependente “das condições de navegabilidade fluvial para o interior” (Riley, 1998, p. 156). Terá sido esse o procedimento de Tristão que, segundo Zurara, “passando per Cabo Verde, foi mais avante LX leguas, onde achou um rio, em que lhe pareceu que deveria de haver algumas povoações; pelo que mandou lançar fora dous pequenos bateis que levava…” (Zurara, 1453, 1973, p. 360). A expedição é atacada pelos habitantes das povoações ribeirinhas de etnia Mandinga, nas proximidades do rio Gâmbia. Os sobreviventes iniciam a viagem de regresso a Portugal, encaminhados por Aires Tinoco, “duvidosos porem qual seria seu fim” (Idem, p. 363), até avistarem a armada do corsário galego Pêro Falcão, retornando finalmente a Lagos. No mesmo ano, um outro navegador, Álvaro Fernandes, retorna “outra vez à terra dos negros” (Idem, p. 365) por ordem de João Gonçalves, descobrindo o rio Casamansa (Esteves, 1988, p. 15) e aproximando-se supostamente da região de Varela, já no território da actual Guiné-Bissau.Razões simultaneamente políticas e económicas sustentam estas expedições arriscadas. O crescente valor do comércio de escravos e o potencial dos recursos mineiros, conjugam-se com a crença na existência do reino cristão de Preste João, na Etiópia (Riley, 1998, p. 157). Em 1456, o veneziano Luís Cadamosto, e Diogo Gomes, em expedições distintas, atingem o rio Geba e o primeiro chega até aos arquipélagos dos Bijagós. Os relatos de viagem de Cadamosto, publicados no início do século XVI, ficam famosos também pelo modo como descreve as populações “negríssimas” e a paisagem “abundante de enormes árvores e de diversas espécies de Carta Particular de Cazamanza e Cacheo [séc.XVIII].AHU_CARTm_049_D.164
  • 258 259CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3frutas, novas para nós por não haver tais frutos em nossas terras” (Cadamosto cit. por Riley, 1998, p, 156). O reconhecimento desta parte da costa continental africana não acarreta, todavia, um esforço concertado e oficial de povoamento da região. Durante um longo período “o complexo litorâneo dos rios da Guiné e Senegâmbia permanecerá um valhacouto dos lançados e tangomaos, cuja significativa presença na região, se deve, justamente, ao desinteresse do poder central em estabelecer núcleos fixos de ocupação nesse território” (Riley, 1998, p. 156). No entanto, e apesar de instável no plano oficial, a presença europeia influencia a caracterização demográfica, económica e cultural do futuro da região de Cacheu. A partir do século XV, um conjunto de privilégios são acordados entre os portugueses e os chefes africanos relativos ao exercício comercial e à fixação de residência. Entre estes acordos, encontra-se a autorização em desposar mulheres locais, normalmente bem colocadas na hierarquia social africana e, portanto, elementos fundamentais na apreensão de hábitos autóctones por parte dos portugueses no seu processo de adaptação cultural (Brooks in Lopes, 1988, p. 35 e seg.). Apoiada nos estudos de Peter Mark, a investigação de Thiago Henrique da Mota demonstra o contributo português na criação de “uma sociedade geograficamente dispersa e socialmente complexa” (Mota, 2014, p. 129). Entre os séculos XVI e XVII, uma população luso-africana, com uma forte presença cabo-verdiana, resultado deste processo de mestiçagem, distingue-se essencialmente pelo progressivo uso da língua crioula e portuguesa, da religião cristã (mesmo que continuando a participar em outras práticas religiosas), do vestuário ocidentalizado, e da actividade comercial, privilegiando interlocutores europeus. Estes homens contudo não podem ser etnicamente classificados como “europeus”. Henrique da Mota sintetiza que “o conceito de ‘português’ aplicado à identidade luso-africana nos séculos XVI e XVII é alargado além dos limites geográficos, cromáticos e sociais de Portugal” (Mota, 2014, p. 130). De algum modo, descreve-se assim a realidade em que se forma a praça de Cacheu e o ambiente envolvente. Para lá da presença destes luso-africanos em Cacheu, uma outra peça importante joga-se com o papel de Cabo Verde na construção dessa mesma sociedade. A proximidade geográfica do arquipélago cabo-verdiano e a hegemonia política que exerce sobre a Guiné até 1879, repercute-se numa série de privilégios que são dados aos naturais cabo-verdianos e que reforçam os laços sociais e económicos já mantidos entre o arquipélago e os lançados e os tangomaos da Guiné. Em 1466, dá-se a publicação da Carta dos Privilégios dos Moradores de Santiago, autorizando-os ao “resgate” de escravos nos rios de Guiné e incentivando investimentos privados nesta região. Estas concessões serão revogadas oito anos depois, abrindo o comércio a outras proveniências, contudo não deixam de denotar a relação privilegiada que é estabelecida numa época muito inicial da fixação europeia. Como refere Daniel Pereira, “durante séculos (XV-XIX), Cabo Verde esteve indissociavelmente unido ao continente africano e a sua economia dependia, em grande escala, da área a que se convencionou chamar Rios de Guiné” (Pereira in Lopes, 1988, p. 201). A escravatura começa a Guiné-Bissauadquirir proporções comerciais significativas e em 1490, o veneziano Bartolomeu Marchione detém a concessão do tráfico de escravos na Guiné. As travessias de navios negreiros para as Américas iniciam-se 21 anos depois, reforçando o poder da região de Cacheu. Mas o ataque do inglês John Hawkins, entre 1567 e 1568, demonstra a fragilidade defensiva do território face a interesses “não portugueses”. Consequentemente, é durante o período filipino que as intenções de fortificação de uma praça são concretizadas, exactamente como forma de proteger esses mesmos interesses.2. Descrições da Praça Cacheu, afirmação e declínio (1588-1792)A data provável para a fundação da povoação de Cacheu é 1588. O facto é relatado por Álvares d’Almada, capitão cabo-verdiano, mestiço e natural de Santiago. A descrição foi publicada apenas no século XIX, em 1841, ano em que um conjunto significativo de publicações dá conta do crescente interesse sobre temas relacionados com a Guiné-Bissau (Pélisser, vol. 31, 2001, p. 47 e seg.). O texto de d’Almada permite compreender o enquadramento da fundação de Cacheu e fazer uma primeira aproximação à configuração que o aglomerado tem no final do século XVI. Começa por dar pistas sobre o percurso que conduz à fixação em Cacheu, nas margens do rio de São Domingos. De Cassanga para Sara, daí para S. Filipe, assentamento construído de raiz e por isso considerado seguro, cuja designação é uma homenagem a D. Filipe I de Portugal, e posteriormente Cacheu (Mendy in Lopes, 1988, p. 38). Estas movimentações são consequência das constantes rebeliões que afectam a segurança dos lançados portugueses, um dos problemas que a formação da praça de Cacheu deve resolver. Álvares d’ Almada fixa então a referência que depois outros cronistas e, mais tarde, os historiadores tomarão como prova da nova fundação: “E estão ao longo do rio entre a aldeia dos negros e elle, e ali fizérão (um forte) sem ajuda de S. Magestade, e a fortificarão com alguma artilharia que para isso buscarão, com a qual defendem a entrada aos Inglezes e Francezes para que não tomem os navios como d’antes faziao” (Almada, 1594, 1841, p. 45). O documento quinhentista aponta ainda o comerciante Manuel Lopes Cardoso, natural de Santiago, autor da ideia e fundador do novo povoado, cuja autorização de um rei local é obtida de forma ardilosa: “Depois de feito (o forte) e posta artilheria nelle, lhe disse que era necessário casas para estarem alguns dos nossos para defenderem e guardarem a artillheria, e desta maneira foi fazendo no mesmo lugar casas onde passarão os nossos que estávão na aldeia entre os negros” (Idem, p. 45-46). Que configuração têm estes edifícios? Descrevendo a fisionomia de algumas das casas de Cacheu, d’Almada, afirma serem “de taipa como as de Casamança, dellas sobradadas cobertas de olas, com grandes cercas de páus fincados a peque feito hum muro de palha a que chamão Tapadas” (Almada, 1594, 1841, p. 45). Esta descrição distingue-se do modo como, no mesmo documento, são genericamente descritas as casas africanas, “algumas de taipa, redondas, cubertas por cima de palha”, (Idem, p. 27).
  • 260 261CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3O estratagema de ocupação territorial, prontamente desmontado pelos africanos, leva a uma primeira rebelião contra os habitantes da nova povoação. A sublevação é neutralizada. Como desfecho conseguem-se novas alianças e alguma estabilidade. Nos anos em que Álvares d’ Almada passa por estas paragens, parece existir uma povoação estável e, dentro dos padrões da época, próspera, “habitada de muita gente, e há quaresma em que se confessão 700 e 800 pessoas entre brancos e pretos” (Idem, p. 46). O número de habitantes e a sua aparente pacificidade face ao cristianismo trazido pelos colonizadores, leva-o a solicitar intervenção da Coroa portuguesa na sua elevação rápida ao estatuto de vila de modo a regularizar o seu funcionamento, “porque hoje não falta para isso mais que quem pregue a palavra de Deos nella, e faça justiça, porque a não há nestas partes entre estes lançados, e bem se poderá por justiça nesta aldeia” (Idem). O objectivo é prontamente cumprido, em 1605, através de alvará régio (Fernandes, 1988, p. 10).Aproximações à morfologia de Cacheu podem ser detectadas em anos próximos, nas descrições do padre Manuel Álvares que visita a povoação na primeira década do século XVII. Deve-se ao jesuíta a primeira caracterização urbana de Cacheu, que passa pela divisão da cidade em sectores populacionais segregados: a “Vila Fria”, protegida por estacaria e habitada por uma população “europeizada”, na maioria lançados e seus descendentes; e a “Vila Quente”, envolvendo a primeira, ocupada maioritariamente pelos povos africanos e alguns brancos (Fernandes, 1988, p. 11). Os seus cálculos apontam para que tenha então uma extensão de cerca de “dois tiros de mosquete” e uma população já estimada em mil e quinhentas pessoas, das quais um terço são homens de armas (Álvares, 1625, 1990, p. 2/5). Manuel Álvares destaca a configuração plana do lugar, caracterizado por uma paisagem marcada pela palmeira cibé. Aponta contudo importantes desvantagens na sua localização, caso da inexistência de fontes da água potável nas imediações, “causando muita doença e sendo muito inconveniente para toda a população” (Idem, p.1). Na perspectiva da estrutura da vida urbana, salienta que Cacheu tem “tudo o que é necessário a uma comunidade bem organizada” (Idem, p. 2), referindo-se, em paralelo, aos aspectos espirituais, assegurados por clérigos competentes, mas também aos materiais. Cacheu dá boas oportunidades de negócio, proporcionando um estilo de vida apropriado à origem europeia dos habitantes da Vila Fria. As suas casas são de planta quadrada, construídas em taipa, algumas com mais de um piso, e cobertas com folha de cibé, que o calor obriga a renovar anualmente (Idem). Já as casas da Vila Quente são descritas como sendo maioritariamente de planta circular, mesmo que construídas com materiais similares. Habita aqui o que categoriza como “gente comum”, grumetes e forros, com ofícios como carpinteiros ou pescadores. Esporadicamente, também alguns europeus procuram aqui abrigo.Em 1614, João Tavares de Sousa é nomeado o primeiro capitão e feitor da vila, com a incumbência (entre outras) de reparar a fortaleza. Segue-se no cargo Baltazar Pedro Castello--Branco capitão das povoações de Cacheu, Rio Grande e S. Domingos, no ano seguinte. Durante Guiné-Bissauo período anterior à Restauração “a praça de Cacheu continua a ser dominada pelos grandes mercadores de escravos que detêm o poder, provocando com a sua prepotência a indisciplina” (Esteves, 1988b, p. 9). Com a criação da Capitania de Cacheu, na década de trinta do século XVII, passa a existir uma nomeação regular de capitães (Barreto, 1938, p. 86), assistindo-se a uma maior normalização da vida da povoação. Na época da Restauração, Cacheu é “a praça mais importante da Guiné” e o seu núcleo populacional de origem portuguesa, o “mais numeroso de toda a colónia” (Esteves, 1988b, p. 5). É neste contexto que Gonçalo Gombôa Ayala recebe carta de capitão-mor e feitor a 16 de Julho de 1641 (Barreto, 1938, p. 98), dando início a um novo ciclo político-administrativo que, segundo Wladimir Brito, determinará, no futuro, uma maior autonomia relativamente a Cabo Verde (Brito in Lopes, 1988, p. 256). A actuação de Gambôa Ayala em Cacheu é ilustrativa da instabilidade da política colonial portuguesa no período pós-Restauração. Maria Luísa Esteves traça a trajectória do capitão-mor entre 1641 e 1650, ano da sua morte (Esteves, 1988b). Só em 1644, Ayala recebe autorização para ir para a Guiné. No centro do seu governo está a oposição às pretensões castelhanas em manterem os seus interesses económicos após a Restauração, e a construção frustrada da nova fortaleza. Esta seria paga com as cobranças feitas aos comerciantes castelhanos e entretanto depositadas em Santiago. Pedidos de materiais, mas principalmente de mão-de-obra especializada, como mestres-de-obras, carpinteiros, ferreiros e aprendizes, são remetidos da Guiné a D. João IV e ao Conselho Ultramarino. Alguns são atendidos, ainda que a fortificação não seja executada segundo os planos iniciais. Solicita-se igualmente que as populações de Geba e de Gâmbia se mudem para Cacheu, “para ficar aquela pouoação com mais gente, e segurança, e se poder melhor deffender” (Conselho Ultramarino cit. Esteves, 1988b, p. 43). Como estratégia de consolidação da influência portuguesa na região, Ayala funda o presídio de Ziguinchor e fortifica Farim Velho. Em 1649, o capitão-mor, apesar de entretanto designado governador de Cabo Verde, permanece ainda em Cacheu, sem que as obras da fortaleza tenham sido iniciadas. Por volta de 1669, Francisco de Azevedo Coelho, na sua narrativa, reunida em a Descripção da Costa da Guiné..., aconselha a transferência da capitania de Cacheu para a ilha de Bolama, considerada mais segura à fixação do europeu e mais adequada à navegação (Barreto, 1938, p. 107). Na descrição que faz da praça apresenta-a como sendo constituída por duas ruas, “uma posta ao longo do rio, a que chamam direita, e outra por detrás, a que chamam de Santo António” (Coelho cit. Santos in Lopes, 1988, p. 75), toponímia que já vem referida pelo padre Manuel Álvares. A descrição acerta com a de outros aglomerados urbanos fundados por portugueses nos territórios ultramarinos durante o primeiro Império, que privilegiam a definição de vias paralelas às linhas de água e clara fortificação face à fronteira terrestre, como se revela nesta crónica. Azevedo Coelho sinaliza a decadência desde o tempo em que fora “muito bem atabancada e muito defensável” (Idem). Na Vila Fria localiza então “a casa de Sua Majestade em que assiste o capitão-mor, que não tem mais de forte, que o nome... a casa é de adobes,
  • 262 263CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3coberta de palha com um grande terrado... e semelhante a esta são todas a da povoação” (Idem). Por fim, explica que “pela banda da terra está cercada a povoação de tabanca, que são paus de mangue fincados a pique, e por fora uma cava de água” (Idem). É durante estes anos que se dá a fundação da Companhia de Cacheu, depois Companhia de Cacheu, Rios e Comércio da Guiné (1675/1676-1682), que se compromete a terminar a fortificação da praça(Brito in Lopes, 1988, p. 257). À época, “as condições de permanência dos portugueses eram ditadas em função de pagamento de tributo aos reis locais” (Pereira in Lopes, 1988, p. 205). Espera-se que a Companhia contribua para uma maior tranquilidade dos habitantes através de algumas benfeitorias, como a reparação da plataforma de artilharia, a abertura de covas, a construção de “tabanças” e baluartes, e a fortificação da Casa forte com fosso e ponte levadiça (proposta de interessados na formação da Companhia de Cacheu cit. por Pereira in Lopes, 1988, p. 225). O carácter monopolista da Companhia provoca rebeliões entre os colonos e a população local, mas também não parece agradar aos comerciantes de Santiago (Pereira in Lopes, 1988, p. 212 e seg.). Destaca-se a amotinação liderada por Bibiana Vaz, em 1684, que envolve o cativeiro do capitão-mor José Gonçalves de Oliveira e alguma anarquia (Havik, 2000, p. 8). A normalidade é restituída, com a sua prisão em Santiago, julgamento e, sequencialmente, o perdão das coimas atribuídas. Casos como o de Bibiana Vaz, para lá da singularidade de se tratar de uma mulher, para mais africana, reforçam a ideia de que se vive um clima de constante rebelião, confirmando o carácter ingovernável da praça. Após a revolta, a praça de Bissau cresce em importância na estratégia colonizadora (Brito in Lopes, 1988, p. 259).Ao longo de Seiscentos, os rendimentos de Cacheu provêm dos direitos aduaneiros (Barreto, 1938, p. 112). Na transição para o século XVIII, é visitada pelo chefe da Companhia do Senegal, La Brue. A descrição que este faz da praça integra os relatos do padre Jean Baptiste Labat. La Brue encontra uma praça guardada por cerca de 30 homens, descritos como fora-da-lei, e um tal clima de instabilidade que as poucas “senhoras civilizadas” se encontram “permanentemente encerradas nas suas residências por causa dos zelos excessivos dos seus maridos e companheiros” (Barreto, 1938, p. 148). Como edifícios públicos refere uma igreja e um hospício com pouca actividade, habitado por dois frades capuchos (Idem).Logo imediatamente pondera-se o abandono de Cacheu. O relatório de Paulo Gomes de Abreu e Lima, capitão-mor de Cacheu entre 1706 e 1708, traça um quadro de penúria. Em Cacheu não há um único baluarte, nem vestígio de fortificações: “Chamam fortaleza a uma casa que de forte só tem o nome, térrea e com três quartos e próximo do mar uma plataforma com 15 peças apeadas Guiné-BissauEsquema conjectural da planta de Cacheu, século XVIII, a partir de Manuel Pires.(Desenho: Ana Vaz Milheiro e Rogério Vieira de Almeida, 2015)
  • 264 265CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3na maior parte” (Lima cit. Barreto, 1938, p. 142). Contra as expectativas, o Conselho Ultramarino, em Lisboa, decide todavia fortificar Cacheu e, em contrapartida destruir a fortaleza, de Bissau, cuja construção se iniciara entretanto. É ainda Labat quem, em 1728, corrobora a mesma indigência, ao descrever a condição da sua administração: “The Portuguese only value little of plots around their palisades where they cultivate rice, and they lack fields for grazing horned cattle, which is therefore very scarce and expensive” (Labat cit. por Havik, 2004, p. 222). A distância da fonte de água potável e a sua vulnerabilidade aos ataques dos Papéis reflecte a negligência dos responsáveis coloniais. Um desenho do período do capitão-mor Manuel Pires, de 1757, dá conta do programa da praça através da nomeação dos principais equipamentos e seu estado de conservação: “Fortaleza única e arruinada; Caza do Capitão mor ou Casa Forte; Baluarte de São Francisco arruinado; Monte de terra que foi baluarte chamado dos Cavaleiros digo Vensimento; Baluarte sem pesas chamado dos Cavaleiros; Baluarte de Santo António irregular e sem defesa; Baluarte de São José Cahido; Hospício de São Francisco; Igreja Matriz; Igreja de Santo António” (Pires, 1757, AHU_CARTm_049_D.157).Até ao final do século XVIII, alguns acontecimentos são decisivos: a fixação de três postos aduaneiros nesta região controlada pelos portugueses: Santiago, Bissau e Cacheu (1780) e a criação da Sociedade do Comércio das Ilhas de Cabo Verde (1783). Sucessivos incumprimentos contratuais e falta de pagamento aos funcionários e aos militares leva à decadência das fortalezas guineenses. Em 1792, dá-se a ocupação britânica Guiné-BissauPraça de Cacheu. (Manuel Pires, 1757) AHU_CARTm_049_D.157de Bolama, um episódio que ocupará parte importante dos esforços de manutenção da hegemonia colonial portuguesa em pleno século XIX, tornando-se, com a questão do Casamansa, determinante na definição das fronteiras da antiga “Guiné Portuguesa”.3. O longo século XIX (1792-1930)O ano de 1792 assinala um período de transição que se reflecte no século XIX, com a alteração dos processos internacionais de colonização e posse dos territórios coloniais. no plano da politica internacional, e consequente transformação do mapa de ocupação das regiões coloniais. No território guineense, a administração colonial unifica-se durante Oitocentos, já com sede em Bissau (Brito in Lopes, 1988, p. 261). Bissau e Cacheu, contudo, mantêm-se no início do século como as duas únicas capitanias da Guiné. Em 1835, com o território remetido à condição de comarca de Cabo Verde, a capitania de Cacheu extingue-se, passando à condição de concelho. Sete anos depois, recupera a sua autonomia. A situação prolonga-se até 1871, quando Bolama adquire estatuto de sede. Em 1869, a escravatura é abolida em todos os territórios sob administração da coroa portuguesa. Nesse mesmo ano a Guiné encontra-se dividida em quatro concelhos: Cacheu, Bissau, Bolama e Buba. Esta divisão reflecte-se na perda da importância político-administrativa da primitiva feitoria, relevância que só retoma após a independência do país, em 1974, com a criação da Região Norte (Brito in Lopes, 1988, p. 270-1). Como se manifestam estas alterações no desenho e demais aspectos da urbanidade de Cacheu durante o século XIX?
  • 266 267CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3Por volta de 1820, a praça de Cacheu é descrita como possuindo cinco baluartes, número já assinalado na planta de Manuel Pires, quatro nos ângulos, e um a meio, no lado sul, sendo que dois são de adobe (Fernandes, 1988, p. 12). Entre os projectos conhecidos de edifícios, data de cinco anos depois, o desenho do novo Quartel do governo da Praça de Cacheu, de João Cabral da Cunha Goldophim. A legenda permite estabelecer o programa, constituído por arrecadação, quartel da tropa e calabouço (Goldophim, 1825, AHU_CARTm_049_D.163). Em relação ao traçado da cidade, parece existir igualmente vontade em investir na sua regularização e expansão. Assim, um regulamento da Polícia Municipal de 1850 prevê a manutenção dos dois bairros preexistentes, e a fixação de novas ruas (35 pés), travessas (12 pés) e becos (8 pés), e ainda a consolidação de três largos, um dos quais com 70 pés de largura, designados como Casa Forte, Casa de Pedra, e da Feira (Idem). Este investimento a meio do século tem, na opinião de Nelson Fernandes, relação com a prosperidade que a cultura da mancarra adquire a partir de 1840 e que atrai novas populações para a região de Cacheu (Fernandes, 1988, p. 14). Não é claro, pelas crónicas posteriores, que estes planos se tenham concretizado.Em 1841, o tenente José Conrado Carlos de Chelmicki publica Corografia cabo-verdiana ou Descripção geopgraphico-historica da provincia das ilhas de Cabo-Verde e Guiné, com relatos sobre Cacheu que recuam cerca de cinco anos. Chelmicki descreve as condições de navegabilidade do rio, ainda identificado como de São Domingos, e a paisagem das margens “cobertas de arvoredos” (Chelmicki, 1841, p. 106). A vila consolida-se como a mais importante da região, não tendo contudo alterado a sua configuração urbana desde o século XVII. Mantêm-se as duas ruas e os dois bairros, assim como a condição de precariedade dos principais edifícios públicos. O recife “chamado da Calaça” fornece a pedra para a construção civil, destacando-se a casa-forte e a igreja matriz, mas também “as mais cazas da villa” (Chelmicki, 1841, p. 108). A água potável, que tem origem no mesmo ponto geográfico, continua a ser de difícil acesso, como antes descreveu Labat, queixando-se a população da má qualidade do poço da praça e persistindo a intenção de fortificar a nascente. As restantes casas “são de taipa caiada por dentro e por fora; são bastantemente vastas em geral, mas d’um andar só. Em quanto duram as chuvas, as cobrem com folhas de palmeira, porém no tempo secco estendem apenas um panno, o que basta para abrigar do sol e sereno” (Chelmicki, 1841, p. 108). A situação de insegurança persiste e “quasi sempre está Cacheo em guerra com o gentio vizinho” (Chelmicki, 1841, p. 108). É num contexto de “pacificação” da região e alguma estabilidade que surge Honório Pereira Barreto, Provedor da vila, futuro capitão-mor de Bissau e director de Obras Públicas do Distrito de Cabo Verde, e sua mãe, D. Rosa de Carvalho Alvarenga, ou Nhara Rosa, originária da região de Ziguinchor. A economia guineense está também em transição, com o negócio da escravatura estigmatizado internacionalmente e remetido à ilegalidade. Ao mesmo tempo, culturas em ascendência, como o arroz, começam a ganhar potencial económico.Honório Barreto, nascido em Cacheu em 1813 no seio de uma família cabo-verdiana e guineense, irá destacar-se como figura-chave na consolidação portuguesa da Guiné-Bissau, quer através de um eficaz exercício diplomático com as diferentes etnias da região de Cacheu quer, de forma mais pragmática, adquirindo territórios que posteriormente doa à coroa portuguesa, provavelmente em troca de influência política. Uma influência que naturalmente a sua origem africana dificulta. A formação portuguesa de Barreto, cumprida em Lisboa até 1829, ano da morte de seu pai, influi na sua actuação e coloca-o como um dos homens mais preparados na definição de estratégias para a Guiné, cujas fronteiras não coincidem ainda com as actuais. Em 1843 publica Sobre o estado actual da Senegâmbia portuguesa. Causas da sua decadência e meios para a fazer prosperar. Nesse documento esclarece a inoperância dos governos e funcionários coloniais de forma bastante eloquente, indicando também medidas que seria benéfico implementar, principalmente no sector da agricultura. A presença de Honório Barreto cruza-se com alguns viajantes que passam pela Guiné na segunda metade do século, como Francisco Quartel do governo da Praça de Cacheu.(João Cabral da Cunha Goldophim, 1825)AHU_CARTm_049_D.163.Guiné-Bissau
  • 268 269CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3Travassos Valdez, que deixa Lisboa em 1852 para uma expedição de seis anos. Nove anos depois, já depois da morte de Barreto, Valdez publica uma primeira edição inglesa – Six Years of a Travellers’s Life in Western África – onde descreve a situação de Cacheu. Começa por identificar a região, “which is inhabited by papeis or buramos” (Valdez, 1861, 2005, p. 205), relatando a história da fundação da feitoria fortificada (Idem, p. 219), e terminando com uma descrição mais morfológica, onde se refere à coexistência entre a Villa Fria (“inhabited by white people”) e a Villa Quente (“residence of the Grumetes”): “There are some good houses here, as also the mother church built of stone, and dedicated to ‘Our Lady of the Nativity’”(Idem, p. 222). No seu relato destaca a figura de Nhara Rosa, “a wealthy and influential lady” (Idem, p. 223), assim como as três famílias principais: Alvarenga, Barreto e Leabra (Idem). É já em 1864, em volume dedicado ao rei D. Luís, que Valdez amplia um pouco a sua narrativa. Em relação a Cacheu, vale a pena transcrever a descrição da área fortificada: “Consiste esta fortificação em um recinto quadrilongo fechado pelo lado do gentio que fica ao S. com uma muralha de 4 a 5 metros de altura, onde se apoia um terrapleno chrismado com o nome de baluarte de S. Francisco, sobre o qual se podem dispor algumas peças á barbeta. O lado de E., que é um dos maiores e que olha também para o campo do gentio, é fechado com um muro de cerca elevado, junto ao qual se vêem as ruínas do antigo quartel do governo (...) / Pelo lado do N. da praça duas pequenas saliências, extremamente acanhadas, mostram as suas pretensões a baluartes, e elevadas sobre rocha dominam o rio. /A porta da entrada para este recinto Guiné-Bissaué pelo lado da povoação, e d’este lado estão situados os alojamentos e paiol” (Valdez, 1864, p. 378). Aspectos dos sistemas construtivos são igualmente focados. Assim, “os alojamentos (militares) são todos térreos e cobertos de palha, muito húmidos, e quentes no tempo das aguas, motivo por que se dão tantas doenças...” (Idem). Dá também conta de alterações programáticas, decorrentes da condição decrépita do edificado, como a transformação das “ruínas da antiga casa do governo” em arrecadação (Idem, p. 381). Reduz ainda os equipamentos religiosos a “uma igreja e uma capella” (Idem). A igreja é em 1855 representada como uma construção coberta de colmo e em acelerado estado de deterioração numa gravura cujo autor não é identificado (Igreja de Cacheu, AHU_ICONm_049_I, D. 454).No tempo da estadia de Valdez, os dois bairros de Cacheu mantêm-se portanto com idêntica fisionomia à que fora descrita pelos cronistas anteriores: “A povoação de Cacheu acha-se dividida em dois bairros, Villa Fria e Villa Quente. N’este, que é uma rua comprida ao longo do rio na direcção E. a O., vivem os brancos ou pessoas principaes, como ali chamam a estas de qualquer cor que sejam: n’aquelle vivem os grumetes em cubatas ou choupanas de barro cobertas de palha, que ali se acham amontoados sem ordem nem regularidade” (Idem). Os relatos de Valdez remetem para um período em que a iconografia sobre Cacheu começa a ser um pouco mais expressiva. A acompanhar a descrição, Valdez introduz uma gravura “vista da praça de Cacheu” a partir do rio (Valdez, 1864, Igreja de Cacheu (1855).(s.i., 1855)AHU_ICONm_049_I, D. 454
  • 270 271CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3Guiné-BissauAHU_ICONi_049_I, D. 207). A gravura revela um conjunto de sobrados alinhados pela margem, destacando-se uma casa de dois pisos, em estilo neo-gótico, provavelmente propriedade da família de Honório Barreto. Esta deve ser colocada em paralelo com uma perspectiva idêntica, datada de 1855 – provavelmente da mesma colecção da representação da igreja de Cacheu, já citada – , onde se reproduz igualmente uma vista da praça (Bissau-Cacheu, AHU_ICONm_049_I, D. 456). Na primeira gravura, Cacheu é representado como possuindo uma certa urbanidade, o que a segunda gravura não corrobora, ao apresentar um povoado precário e disperso, edifícios na sua maioria térreos e cobertos de colmo. Nas duas, contudo, a casa do capitão-mor ou casa forte mantém idêntica aparência arruinada. A iconografia de 1855, que reproduz os alçados Leste e Oeste, mostra-a bastante destruída (Parte de Leste da Fortaleza de Cacheu / Parte de Oeste da Fortaleza de Cacheu, AHU_ICONm_049_I, D. 455).Vista da Praça de Cacheu (c. 1864).(in Francisco Travassos Valdez, 1864, Africa occidental: notícias e considerações. Lisboa, Imprensa Nacional)AHU_ICONi_049_I, D. 207Vista de Cacheu (1855).(s.i., 1855)AHU_ICONm_049_I, D. 456 (excerto)
  • 272 273CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3Valdez referencia ainda a envolvente imediata a Cacheu: “Os arrabaldes da praça alem de tiro de fuzil são mui pittorescos pela sua densa e vigorosa vegetação, formando matas impenetráveis, pelo que os negros têem de cortar veredas para passar por meio d’ellas” (Valdez, 1864, p. 381). Retrata igualmente as regiões próximas através do recurso à iconografia, salientando-se a reprodução da “aldeia de Piccau perto de Cacheu” (Valdez, 1864, AHU_ICONi_049_I, D. 203), como exemplo das representações dos tradicionais assentamentos e construções africanas. Em 1870 resolve-se a questão de Bolama, que coloca em confronto os interesses portugueses e ingleses, através da intervenção do presidente norte-americano Ulysses Grant. A decisão favorece os portugueses, que vêem internacionalmente reconhecida a sua pretensão em ocupar aquele território. Bolama recebe, nove anos depois, a sede do novo governo da Guiné, após a colónia ter adquirido independência administrativa de Cabo Verde. René Pélissier caracteriza a situação da Guiné, até este período, como uma “dependência esquecida de um arquipélago miserável, por outras palavras, a ‘colónia’ de uma colónia” (Pélissier, v. 31, 2001, p. 41), ilustrando bem a condição periférica que o território guineense detém no panorama do “império” que Portugal está então a consolidar em África durante o século XIX. A disputa pelo Casamansa, com os franceses, sanada em 1886, trará um desfecho diferente de Bolama, como já aqui se escreveu, cabendo aos portugueses, em compensação, a região de Cacine. Todos estes acontecimentos se repercutem em uma decrescente influência política da primeira feitoria portuguesa na Guiné.O período seguinte, mediado entre 1890 e 1930, é descrito por Oliveira Marques como tendo coincidido “com a afirmação do domínio colonial efectivo dos portugueses, mediante sucessivas campanhas militares contra múltiplos indígenas que teimavam em não o aceitar, (tendo sido), também em alguns casos, o da real colonização de territórios, pouco antes delimitados burocraticamente” (Marques, 2001, p. 147). O historiador português sintetiza assim o processo a que os portugueses chamam de “pacificação” e que estabelece a “Guiné Portuguesa” tal como será fixada durante o Estado Novo. Cacheu parece, entretanto, encontrar-se em gradual decadência da sua vida urbana, sem personagens notáveis, como as famílias Alvarenga ou Barreto, capazes de catapultarem uma maior condição progressista.Alçados Leste e Oeste da Fortaleza de Cacheu (1855).(s.i., 1855)AHU_ICONm_049_I, D. 455Aldeia de Piccau perto de Cacheu (c. 1864).(in Francisco Travassos Valdez, 1864, Africa occidental: notícias e considerações. Lisboa, Imprensa Nacional)AHU_ICONi_049_I, D. 203Guiné-Bissau
  • 274 275CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 34. Cacheu no Estado Novo (1933-1974)A estabilização das fronteiras, após as guerras de “pacificação”, travadas nas primeiras décadas do século XX, fixam a superfície do território da “Guiné Portuguesa” em 136.125 Km2 (Galvão, Selvagem, vol. II, 1951, p. 15). É no quadro da organização político-administrativa da colónia, durante o Estado Novo, que Cacheu passa a povoado de “1ª ordem” (Idem, p. 146), perdendo, em 1945, a favor de Canchungo – entretanto rebaptizada Teixeira Pinto – , a sede da circunscrição, facto que se concretiza três anos depois (Boletim Cultural da Guiné, n.11, 1948, p. 848). Consequentemente, os principais serviços assistenciais, sanitários, educativos, e de lazer, deslocam-se para esta vila. Durante a fase final da administração portuguesa, Cacheu mantém, com poucas alterações, a configuração do núcleo que historicamente constitui a Vila Fria, ganhando novos equipamentos implantados nos “Um dos panos da muralha da fortaleza de Cacheu (1914)”.(in Guiné, Alvorada do Império, s.i. : s.n., 19--)“Comando militar de Cacheu (1914)”.(in Guiné, Alvorada do Império, s.i. : s.n., 19--)arrabaldes. Os censos à população guineense, realizados em 1950, apontam para 508.970 indivíduos de etnia africana, considerados população “não civilizada” (Galvão, Selvagem, vol. II, 1951, p. 43), e 6.000 ditos “civilizados” (Idem, p. 75). Destes últimos, 993 vivem na circunscrição de Cacheu (Idem, p. 76). O Acto Colonial (1930) e a Carta Orgânica do Império e da Reforma Administrativa Ultramarina (1933) são os primeiros instrumentos legislativos promovidos pelo Estado Novo para gerir o “império”. Segundo o Boletim Geral das Colónias, em número editado em 1953, o primeiro tinha tido “por objectivo primário um esforço e reivindicação nacionalizadora” (Boletim Geral da Colónias, n.336-7, 1953, p. 32). Esta consciência tem particular importância nas colónias africanas de menor performance económica, como é o caso da Guiné Portuguesa. No mesmo órgão oficial, e já a propósito do I Plano de Fomento (1953-1958) para as províncias ultramarinas, Guiné-Bissau
  • 276 277CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3Guiné-Bissauadmite-se uma economia colonial a dois níveis, “desde as pequenas obras quase totalmente realizadas por indígenas e processos simples, como na Guiné, aos grandes projectos em que a técnica moderna tem plena aplicação”, como se verifica em Angola ou Moçambique (Idem, p. 71). A actuação das autoridades coloniais vai pautar-se por princípios que têm nas Obras Públicas, entendidas desde a infra-estruturação territorial até à casa do funcionário, a sua maior expressão. Eventualmente, a guerra colonial irá reforçar estas estratégias. Nos últimos anos da colonização, privilegia-se a ideia de quantidade de projectos realizados, sobre a obra isolada valorizada nas décadas anteriores. A partir de 1970, assiste-se à liderança das estruturas militares na concretização das Obras Públicas e a uma diminuição de técnicos provenientes dos diferentes organismos ligados à construção, como os Serviços locais de Obras Públicas e Comunicações ou os Gabinetes de Urbanização sediados em Lisboa. Projectos enviados pelo Ministério das Colónias/do Ultramar (depois de 1951), Relatórios sobre a administração, órgãos periódicos como o Boletim Geral das Colónias/do Ultramar (1925-1970) ou o Boletim Cultural da Guiné Portuguesa (1946-1973), Residência do administrador e instalação de serviços (1938-1941), Posto Sanitário e Maternidade Indígena (a partir de 1960), Posto Militar (c. 1970), Cacheu.(Fotografia: Ana Vaz Milheiro, 2011)FCT: Os Gabinetes Coloniais de Urbanização: Cultura e Prática Arquitectónica PTDC/AUR-AQI/104964/2008Residência do secretário (1940), Cacheu.(Fotografia: Ana Vaz Milheiro, 2011)FCT: Os Gabinetes Coloniais de Urbanização: Cultura e Prática Arquitectónica PTDC/AUR-AQI/104964/2008permitem mapear algumas das realizações que gradualmente vão infra-estruturando o território. Em Cacheu, o relatório elaborado pelo administrador António Carreira, em 1945, sintetiza o investimento concretizado nos anos da II guerra mundial: as residências do administrador e instalação de serviços (1938-1941) e do secretário (1940), o cemitério público, capela e casa mortuária (concluídos em 1939). Os edifícios residenciais mencionados são projectos tipo, existindo em Nhacra e em Gabu, por exemplo. Procedeu-se também à regularização de ruas e reparação de valetas (Carreira, 1945, p. 102-4). As dificuldades apontam o preço excessivo dos materiais de construção e a carência de operários, pondo em causa as expectativas em relação a 1946, ano das comemorações do V centenário da Descoberta da Guiné (Idem, p. 114-5). Nesse ano, as obras de restauro da fortaleza ditam a actual configuração do monumento. O evento será determinante na consolidação de estruturas pré-urbanas em muitas povoações da Guiné, que começam a padronizar-se recebendo investimentos como escola primária, posto sanitário, depósito de água, celeiro comunitário, residência de administrador de posto, posto dos Correios, Telégrafos e Telefones, capela, etc. Em Cacheu, as comemorações deixam poucas realizações, não se alterando a condição gradualmente mais periférica da vila. No mesmo ano, ainda, reparam-se as “casas dos aspirantes” e o edifício de repartições (Boletim Cultural da Guiné, n.1-4, 1946, p. 168), cria-se um posto sanitário com enfermeiro, no âmbito da assistência médica às populações locais (Idem, p. 336), e prolonga-se o cais (Idem, p. 342). Os anos seguintes são marcados por iniciativas como a inauguração da maternidade indígena (Boletim Geral da Colónias n.23, 1947, p. 65) ou a construção da ponte de madeira de Xuro, que liga Cacheu a Canchungo (Boletim Cultural da Guiné, n.27, 1952, p. 671). Por ocasião da primeira visita presidencial à Guiné, em 1955, reconhece-se encontrar-se Cacheu “em completa decadência” (Boletim Cultural da Guiné, n.39, 1955, p. 553). O centenário da morte de Honório Barreto é uma oportunidade para um novo ciclo de Obras Públicas: ampliação do posto sanitário (Boletim Cultural da Guiné, n.50, 1959, p. 517) e electrificação da povoação (Idem, p. 521).
  • 278 279CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3Guiné-BissauAs comemorações henriquinas deixam em Cacheu um padrão, da autoria do escultor Portela Júnior, semelhante a outros que se disseminam pelo Império (Boletim Cultural da Guiné, n.63, 1961, p. 163-4), e que integram o programa de fortalecimento dos laços históricos entre Portugal e os territórios coloniais através da monumentalização do espaço público. A marginal de Bissau recebe uma peça idêntica (Boletim Cultural da Guiné, n.61, 1961, p. 161). O momento é um pretexto para o governador Peixoto Correia se deslocar à antiga feitoria inaugurando, em simultâneo, um novo monumento em honra de Honório Barreto (Boletim Cultural da Guiné, n.63, 1961, p. 163-4). O potencial histórico de Cacheu é reforçado no relatório do inspector administrativo Manuel Bento Gonçalves Ferreira, de 1960. O edifício do antigo posto administrativo é agora ocupado pelo posto sanitário e maternidade indígena (como prova a imagem publicada no Boletim Cultural da Guiné, n.67, 1962, s.p.), denunciando a perda de estatuto do aglomerado em relação à década de quarenta. O inspector informa encontrar-se a secretaria do posto, a estação postal, a delegação marítima e a PIDE, instaladas no mesmo “prédio de construção antiga”. Lamenta tratar-se “de uma casa pobre, inestética e sem nada que a caracterize como instalação de serviços públicos”. (Ferreira, 1960, p. 5). A povoação carece ainda de abastecimento de água. Padrão das Comemorações do V centenário da morte do Infante D. Henrique 1460-1960, escultor Portela Júnior (1960), Cacheu.(Fotografia: Ana Vaz Milheiro, 2011)FCT: Os Gabinetes Coloniais de Urbanização: Cultura e Prática Arquitectónica PTDC/AUR-AQI/104964/2008
  • 280 281CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3Guiné-BissauO início dos anos setenta representa o ciclo final da colonização portuguesa, deixando igualmente as suas marcas em Cacheu. Entre 1970 e 1972, a povoação beneficia de um conjunto de equipamentos, pensados em termos quantitativos no âmbito da estratégia “Por uma Guiné melhor” do governador António Spínola: uma escola primária, entre sete localidades beneficiadas com novos edifícios de ensino (Boletim Cultural da Guiné, n.101, 1970, p. 230.); saneamento básico, entre nove localidades dotadas de abastecimento de água (Idem, p. 231); um curral comunitário, entre 43 realizados (Boletim Cultural da Guiné, n.106, 1972, p. 409); onze novas escolas no concelho, entre novos 52 equipamentos escolares (Idem, p. 410); oito poços com bomba manual, entre 48 novos poços disseminados pelo território (Idem, p. 411); um fontanário, em 25 novos bebedouros públicos (Idem, p. 412), etc.. Constrói-se também a ponte sobre o rio Costa Pelundo (Idem, p. 407) e instalações para emigrantes (Idem, p. 412). O grupo de Trabalho de Urbanização faz o levantamento da capela de Cacheu, em 1972, com o objectivo de um novo restauro, que o relatório do inspector administrativo José Ferreira Simões Pinto, em 1973, confirma realizar-se (Pinto, 1973, p. 61).Nesse ano, é finalmente inaugurada, pelo ministro do Ultramar Joaquim da Silva Cunha, e por Spínola, a estrada asfaltada que liga Cacheu a Canchungo (Boletim Cultural da Guiné, n.107, 1972, p. 642). A estrada culmina na avenida principal de Cacheu, com plataforma central e candeeiros de iluminação pública, segundo um esquema corrente de aformoseamento urbano em outras povoações guineenses no período do Estado Novo. É ladeada por residências para funcionários e/ou militares, provavelmente da mesma época, que conferem um certo sentido de urbanidade. Depois da independência irá chamar-se Av. do IV centenário da cidade. Silva Cunha e Spínola visitam ainda “o posto, a Escola Honório Barreto ... e o Posto Sanitário “ (Idem), os dois últimos, nos arrabaldes do núcleo histórico, subsidiados pela Fundação Calouste Gulbenkian. A assistência médica é então assegurada por um médico militar. O que aqui se descreve é um conjunto de equipamentos que representam a actuação de Spínola no governo da Guiné e já sob forte pressão dos movimentos independentistas. Esta listagem coincide com os dados do relatório de 1973, que apontam o Estado como proprietário de apenas cinco edifícios públicos: residência do administrador de posto, secretaria de posto administrativo, posto sanitário, escola primária e central eléctrica (Pinto, 1973, p. 43). Provavelmente, à data do relatório, a antiga Levantamento da capela de Cacheu, elaborado pelo Grupo de Trabalho de Urbanização da Guiné (1972) PT/IPAD/MU/DGOPC/DSUH/1956/00924Avenida Principal de Cacheu (actual Av. IV Centenário).(Fotografia: Ana Vaz Milheiro, 2011)FCT: Os Gabinetes Coloniais de Urbanização: Cultura e Prática Arquitectónica PTDC/AUR-AQI/104964/2008Residências identificadas como dos CTT, Avenida Principal de Cacheu (actual Av. IV Centenário).(Fotografia: Ana Vaz Milheiro, 2011)FCT: Os Gabinetes Coloniais de Urbanização: Cultura e Prática Arquitectónica PTDC/AUR-AQI/104964/2008
  • 282 283CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3residência do administrador, nos anos quarenta, e maternidade, duas décadas depois, torna-se entretanto posto militar. Nesse ano, as principais aspirações da Junta Local são a “reparação das ruas, construção de passeios e alinhamentos adequados” (Idem, p. 119).Esquema conjectural da planta de Cacheu no Estado Novo (c. 1973).(Desenho: Ana Vaz Milheiro e Rogério Vieira de Almeida, 2015)Antiga Escola Honório Barreto (1972).(Fotografia: Ana Vaz Milheiro, 2011)FCT: Os Gabinetes Coloniais de Urbanização: Cultura e Prática Arquitectónica PTDC/AUR-AQI/104964/2008Residências, Avenida Principal de Cacheu (actual Av. IV Centenário).(Fotografia: Ana Vaz Milheiro, 2011)FCT: Os Gabinetes Coloniais de Urbanização: Cultura e Prática Arquitectónica PTDC/AUR-AQI/104964/2008Guiné-Bissau
  • 284 285CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3Estes dias antecipam o último plano urbano para a vila de Cacheu proposto em tempo colonial. Cacheu tem então 1300 habitantes, “de diferentes etnias, com predomínio de manjacos (52%)” (Ordenamento..., 1973, p. 17). Respeita-se o casario existente, prevendo-se novas ruas asfaltadas com perfis de 6 a 9 metros. O desenho obedece a uma lógica de zonamento, destacando-se as áreas residenciais de baixa densidade, as zonas escolar, comercial, sanitária, desportiva, social e religiosa (Idem, p. 17-8). O plano de Cacheu é publicado no livro Ordenamento Rural e Urbano na Guiné Portuguesa, juntamente com outros 61 projectos e prefácio de António Spínola. O sistema colonial está contudo esgotado. Em breve se dará a emergência de uma nova nação e de um novo Cacheu.Cacheu – plano de zonamento (1973).(in Ordenamento rural e urbano na ‘Guiné Portuguesa’, 1973, introd. António Spínola, Lisboa, Agência Geral do Ultramar)Plantas conjecturais de Cacheu sobrepostas (século XVIII e c. 1973).(Desenho: Ana Vaz Milheiro e Rogério Vieira de Almeida, 2015)Praça do Terreiro, Cacheu.(Fotografia: Ana Vaz Milheiro, 2011)FCT: Os Gabinetes Coloniais de Urbanização: Cultura e Prática Arquitectónica PTDC/AUR-AQI/104964/2008Guiné-Bissau
  • 286 287CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3FONTES IMPRESSASAlmada, André Álvares de (1594),Tratado Breve dos Rios da Guiné de Cabo Verde (1594). Porto, Typographia Commercial Portuense, 1841.Álvares, Manuel (1625),Ethiopia Minor and a geographical account of the province of Sierra Leone (c.1625). Tradução e introdução Paul Hair. Liverpool, Department of History, University of Liverpool, 1990. [http://digital.library.wisc.edu/1711.dl/AfricanStudies.Alvares01]Chelmicki, José Conrado Carlos de (1841),Corografia cabo-verdiana ou Descripção geopgraphico--historica da provincia das ilhas de Cabo-Verde e Guiné, Tomo I. Lisboa, Typ. de C. da Cunha.Donelha, André (1625),Descrição da Serra Leoa e dos Rios de Guiné do Cabo Verde (1625). Lisboa, Junta de Investigações Científicas do Ultramar, 1977.Sintra, Diogo Gomes de (1460, c.),Descobrimento Primeiro da Guiné. Lisboa, Edições Colibri, 2002.Valdez, Francisco Travassos (1864)Africa occidental: notícias e considerações. Lisboa, Imprensa Nacional.Zurara, Gomes Eanes de (1453),Crónica do descobrimento e conquista da Guiné: segundo o manuscrito da Biblioteca Nacional de Paris, 2 vol. Porto, Civilização, 1973.Séries periódicas Boletim Geral das Colónias/do Ultramar (1925-1970)Boletim Cultural da Guiné Portuguesa (1946-1973)FONTES ARQUIVÍSTICASARQUIVO HISTÓRICO ULTRAMARINO (AHU), Lisboa Fundo Ministério do Ultramar, Inspeção Superior da Administração Ultramarina (AHU / MU / ISAU)A2.050.04/029.00177 Carreira, António (Administrador) (1945). Colónia da Guiné. Circunscrição Civil de Cacheu.A2.050.05/032.00197 Ferreira, Manuel Bento Gonçalves (Inspector administrativo) (1960).Ministério do Ultramar. Inspecção Superior de Administração Ultramarina. Anexo E ao relatório do inspector. Circunscrição de Cacheu. Vol. 6.A2.49.002/43.00291 Pinto, José Ferreira Simões (Inspector administrativo) (1973).Inspecção dos Serviços Administrativos. Relatório da Inspecção Ordinária à Administração do Concelho de Cacheu Comissão Municipal de Teixeira Pinto e Junta Local de Cacheu.Fundo Instituto Português de Apoio ao Desenvolvimento (IPAD) / Ministério do Ultramar (MU)PT/IPAD/MU/DGOPC/DSTT/1817/00821 (1969)Projecto da estrada Cacheu-Teixeira PintoElaborado pela Brigada de Estudos e Construções.PT/IPAD/MU/DGOPC/DSUH/1956/00924 (1972)Levantamento da capela de Cacheu (fotografias e plantas)Elaborado pelo Grupo de Trabalho de Urbanização da Guiné.Fundo Ministério do Ultramar (MU) / Direcção-Geral de Obras Públicas e Comunicações (DGOPC)OP04302 (1949)Inspecção aos Serviços de Fomento Colonial, Maio/ Junho de 1949. Relatório n.º 1. Condições de navegabilidade nos estuários dos rios Geba e Cacheu.Ministério do Ultramar/Direcção-Geral de Obras Públicas e Comunicações/Núcleo de Documentação Técnica. Inspecção aos Serviços de Fomento Colonial da Colónia da Guiné. Heitor de Mascarenhas Inglês, engenheiro inspector.Fundo Cartografia ManuscritaCarta Particular de Cazamanza e Cacheo [séc.XVIII]Guiné / Cazamanza / Cacheu / Mapa geral / [séc.XVIII]. AHU_CARTm_049_D.164.Goldophim, João Cabral da Cunha (1825)[Quartel do governo da Praça de Cacheu]Guiné / Cacheu / Edifícios / Quartel do governo / Planta de projecto / 1825. AHU_CARTm_049_D.163.Pires, Manuel (1757a)[Praça de Cacheu]Guiné / Cacheu / fortificações / Planta militar / Planta de projecto / [ca.1757]. AHU_CARTm_049_D.154. Pires, Manuel (1757b)[Praça de Cacheu]Guiné / Cacheu / Fortificações / Planta militar / Planta de projecto / [ca.1757]. AHU_CARTm_049_D.155.Pires, Manuel (1757c)[Praça de Cacheu]Guiné / Cacheu / Fortificações / Planta militar / Planta de projecto / [ca.1757]. AHU_CARTm_049_D.156.Pires, Manuel (1757d)[Praça de Cacheu]Guiné / Cacheu / Fortificações / Planta militar / Planta de projecto / [ca.1757]. AHU_CARTm_049_D.157.Fundo Cartografia ImpressaReconhecimento do Rio Cacheu [1896]Comissão de Cartografia, publicado em 1897.GUINÈ AHU_CARTi_049, D.258.Regiões ocupadas pelas colunas de operações ao Oio, a Cacheu e aos balantas [séc.XIX]GUINÈ AHU_CARTi_049, D.279.Fundo Iconografia ManuscritaIgreja de Cacheu (1855)AHU_ICONm_049_I, D. 454.Parte de Leste da Fortaleza de Cacheu / Parte de Oeste da Fortaleza de Cacheu (1855)AHU_ICONm_049_I, D. 455.Bissau / Cacheu (1855)AHU_ICONm_049_I, D. 456.Fundo Iconografia ImpressaAldeia de Piccau perto de Cacheu [ca.1864][Lisboa]: Imprensa Nacional. AHU_ICONi_049_I, D. 203.Vista da Praça de Cacheu [ca.1864][Lisboa] : Imprensa Nacional. AHU_ICONi_049_I, D. 207.Guiné-Bissau
  • 288 289CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3BIBLIOGRAFIAAguiar, J. A. (1952),“L´Habitation dans les pays tropicaux”. Fédération Internationale de l’Habitation et de L’urbanisme. XXI Congrés. Lisbonne.Barcellos, Cristiano José de Sena (1899-1913),Subsídios para a história de Cabo Verde e Guiné. Praia, Instituto da Biblioteca Nacional e do Livro, 2003.Barreto, João (1938),História da Guiné 1418-1918. Lisboa, Edição do Autor.Caroço, Jorge Frederica Velez (1923),Relatório anual do governador da Guiné (1921-1922). Coimbra, Imprensa da Universidade.Cristovão, Fernando (dir. e coord.) (2005),Dicionário Temático da Lusofonia. Lisboa, Texto Editora.Esteves, Maria Luísa (1988a),A questão do Casamansa e a delimitação das fronteiras da Guiné. 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  • 291CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3290 CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3ILHA DE MOÇAMBIQUE A – Introdução – cidades de influência ou matriz portuguesa em ÁfricaOs espaços urbanos de influência ou matriz portuguesa na África Sub-sahariana, implementados e desenvolvidos ao longo dos séculos XV a XVII, assumiram características idênticas, ou pelo menos comparáveis, às desse tipo de espaços em outras áreas da Expansão, como a Índia, o Brasil, o Extremo Oriente e a Oceania.Com uma fundamental base comercial e de tráfico, o modelo urbano era eminentemente “talassocrático”, isto é, directamente dependente do poder marítimo firmado, com o correspondente transporte naval, assente em ligações e abastecimentos ligados aos respectivos pontos de apoio, costeiros, continentais ou insulares, e as sucessivas (...) escalas – que Charles Boxer (1904-2000) tão bem estudou. Essas instalações portuguesas definiram-se de facto em espaços urbanos característicos, basicamente litorais, de pequena dimensão, por vezes resumidos a uma fortificação protectora, outras a uma feitoria, outras ainda a povoações de muito reduzida extensão, que dificilmente designaríamos como cidades, ou mesmo como vilas – mas que funcional e simbolicamente, dada a escassez de recursos humanos e financeiros então disponíveis, desempenhariam um papel análogo a estas.Desenvolveu-se assim, nas linhas de costa e nas ilhas do Atlântico e do Índico africanos, uma ocupação micro-urbana, tradicional dentro do tipo medievo-renascentista que Portugal aperfeiçoou e difundiu, no quadro do modelo geral português da Expansão, estruturada em:– um urbanismo costeiro, insular, litoral, arquipelágico ou continental, ligado ao comércio e às rotas transatlânticas, procurando a boa defesa em singelos postos de reabastecimento distribuídos estrategicamente; MOÇAMBIQUEIlha de Moambique,Gravura belga ,1598.(Petrus Kaerius).Texto de José Manuel Fernandes e Maria de Lurdes Janeiro
  • 292 293CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3– pequenas cidades e povoações, de estruturação interna orgânica, com planos pragmáticos e elementares pouco a pouco consumados, com aspectos espaciais e materiais baseados na cultura urbana da Europa medievo-renascentista, nas variantes aculturadas às áreas meridionais e mediterrâneas; Moçambique– dois sub-tipos de áreas de ocupação, desde a organização territorial ao longo das bordaduras continentais (Golfo da Guiné, costa de Angola); e a presença em sistemas de arquipélagos ou de ilhas costeiras ou não (Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, ilhas de Moçambique).A opção entre a ocupação continental ou nas ilhas não anulava as respectivas complementaridades: por um lado, a presença continental era mais complexa e de difícil manutenção, dada a permanente situação de guerra, ou pelo menos de conflito, com as comunidades locais – mas a necessidade de penetrar nesses territórios era igualmente forte, por aí estarem os maiores recursos, humanos, minerais ou vegetais, que se queria obter. Por outro lado, a presença nas ilhas era mais facilmente defensável, pelo natural isolamento geográfico e a sua pequena escala - mas os recursos aí disponíveis eram mais limitados e claramente insuficientes.Assim e considerando os aspectos, tão sequenciais como estratégicos, da localização dos sucessivos entrepostos marítimo-continentais-insulares, ao longo do vasto “espaço oceânico-africano”, constatamos que se procurou definir sempre um sistema de trajectos “em linha”, apoiado nas comunidades humanas aí instaladas, e assente na perspectiva conjunta de alternânia de fixações urbanas ilhas-continente.B – Enquadramento histórico e geográficoQuando Vasco da Gama ali aportou em 1498, a ilha seria uma pequena povoação swahili, povoada por árabes e negros. Assim referem os Lusíadas (Canto Primeiro, nºs 53 e 54), exprimindo com clareza o desejo luso de chegar à India:“Quem sois, que terra é esta que habitais,Ou se tendes da Índia alguns sinais?”“Esta ilha pequena, que habitamos,em toda esta terra certa escala De todos os que as ondas navegamosDe Quíloa, de Mombaça e de Sofala;E, por ser necessária, procuramos,Como próprios da terra, de habitá-la;E por que tudo enfim vos notifique,Chama-se a pequena ilha Moçambique.”A ela voltaram em breve os navegadores e colonizadores portugueses, ali se sediando por sua vez, definindo uma importante escala de viagem e de abastecimento.Essa instalação urbana na Ilha de Moçambique, que formava uma pequena e alongada porção de terra, muito próxima da costa norte daquele território, constituiu assim, desde 1502-1507, uma das primeiras fixações lusas na costa africana oriental.Neste quadro, a pequena povoação da Ilha, implantada junto às calmas, verde-azuladas e luminosas águas do Índico, ao longo da linha costeira a norte-poente, foi-se gradualmente definindo como uma urbe “de pedra e cal” – sem impedir a continuidade da presença de outras Aspecto de um recanto urbano da Ilha de Moçambique.(fotos do autor de Julho de 2001).
  • 294 295CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3comunidades e tipos de ocupação, indiana, islâmica-swahili e africana. O povoado, defendido por uma poderosa fortificação, foi elevado a vila em 1761, dentro das reformas pombalinas que autonomizaram Moçambique do Estado da Índia, e passou a cidade entre 1818 e 1834 - mantendo-se como capital de todo o território até 1898. Foi ainda capital da região do Niassa até 1934, quando perdeu essa função para Nampula (Boléo, 1951, 330). Da “Ilha” conhece-se uma rica iconografia, correspondendo às épocas de maior desenvolvimento, sobretudo anteriores ao século XIX. Elucidativo da organização geo-territorial onde a ilha se insere é o mapa “O Distrito da Ilha de Moçambique”, publicado no relatório da Escola de Arquitectura de Aarhus (Ilha de Moçambique. Relatório. 1982-85): nele se observa a pequena ilha (com cerca de três quilómetros de extensão máxima), de forma estreita e alongada, defrontando um golfo recortado, ligada a terra por ponte e estrada. A via férrea termina na costa, no Lumbo, perto de um aeródromo. Outras ilhas, ainda mais pequenas (de Goa ou de São Jorge e de Sena ou de São Tiago), situam-se do lado exterior do mesmo golfo. O pequeno ilhéu de S. Lourenço remata a ilha a sul, e defendia-a com fortificação. Na costa norte do golfo, a Cabaceira Pequena topeja-o, enquanto a Cabaceira Grande, mais para o interior, se abre às terras do Mossuril. Carta Topográfica da Ilha de Moçambique, por Gregório T. De Brito, de 1754 (in Arquivo Histórico Ultramarino) Moçambique
  • 296 297CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3Todo este conjunto de micro-ilhas e de povoados sumários definiu em tempos as áreas mais importantes da dominação colonial portuguesa na área, criando um porto fortificado a meio caminho entre o Atlântico e a Índia. À medida porém que a esfera de influência foi transitando para a mais ampla e continental “África Oriental Portuguesa”, ao longo do século XIX, esta área perdeu a dimensão estratégica e a centralidade, a qual foi transferida finalmente para o Sul do território moçambicano, a partir da fundação de Lourenço Marques (actual Maputo) no último terço de Oitocentos.A Ilha é hoje um lugar distante e de difícil acesso, a partir do Maputo, no conjunto do território moçambicano; está situada a cerca de três quilómetros da costa norte daquele território, e encontra-se a 3 horas de voo da capital (linha Maputo-Beira-Nampula), tendo o principal acesso por estrada, desde a interior Nampula à costa do Índico.C – Significado(s) da povoação “de pedra e cal” na “Ilha”A Ilha de Moçambique constituiu-se paulatinamente em “paisagem cultural” única no mundo, pelo cruzamento, belo e equilibrado, das múltiplas culturas que encetou. Continua actualmente exibindo o seu belíssimo conjunto histórico edificado, completado por uma portentosa dimensão cénica, e pela vivência das suas gentes. Esta é a sua força, que permanece intocada, apesar dos acidentes da história (foi refúgio da guerra no “continente”, nos anos 1980), dos azares climáticos, e sobretudo da perda de funcionalidades, como capital, e da consequente, lenta mas inexorável, decadência – pois há mais de um século que deixou de ser o centro político do país. Foi classificada pela UNESCO como Património da Humanidade em 1991, assumindo o seu valor cultural, quer como edificado quer como espaço antropológico. A “Ilha” representa de facto um significativo e rico cruzamento de culturas resultante quer da influência islâmica e hindu, da regional definição swahili, e ainda da expansão portuguesa – contendo habitats brancos, indianos e negros, hindús, cristãos e muçulmanos, todos convivendo (...) de modo equilibrado e coerente, numa resultante estética, espacial, patrimonial e funcional, ímpar. Estudada pela sua história, pelo manancial antropológico e arqueológico, pelo repositório artístico e cultural, a Ilha é única também na capacidade que tem de suscitar a curiosidade do visitante, a vontade de participar na sua vida e de empenho na sua sobrevivência, seja através da divulgação dos seus valores eméritos, seja pelo Moçambiqueinvestimento em acções de utilidade no seu actual processo de lento “ressuscitar”.Ao estudioso e investigador Alexandre Lobato, fixado longos anos em Moçambique, devemos três livros fundadores sobre a ilha: a “Monografia” (1945), o “Panorama Estético” (1966) e o “Panorama Histórico” (1967). A mais bela obra sobre a ilha, porém, será o livro “A Ilha de Próspero”, por Rui Knopfli e Alexandre Lobato, editado em Lourenço Marques em 1972 – obra de feição original, num misto de poesia, desenho e fotografia, não tem paralelo na bibliografia portuguesa. A atenção aos valores patrimoniais da Ilha foi crescendo na segunda metade do século XX, sendo de destacar, ainda na fase tardo-colonial, os trabalhos de restauro pelo arquitecto Quirino da Fonseca na Fortaleza e no Palácio, nos anos 1960. Depois de um período de abandono, entre 1975 e o princípio da década de 1980, em 1983 a exposição A Ilha de Moçambique em Perigo de Desaparecimento, promovida pela Fundação Calouste Gulbenkian com coordenação pelo arquitecto Viana de Lima (1913-1991), chamou a atenção para a decadência material do património edificado local, tendo-se editado, na mesma fase, o vídeo da RTP, Ilha de Moçambique – à espera da Monção e o livro Ilha de Moçambique, Muipiti, por Moira Forjaz e Amélia Muge. Então, o marcante relatório Ilha de Moçambique, da escola dinamarquesa de Aarhus (op.cit., 1982-1985), obra delicada e de autoria colectiva, representou graficamente, com rigor e detalhe, o valor do que se estava a perder. Na década de 1990 efetuaram-se algumas acções concretas de recuperação do património arquitectónico da Ilha, como a do Museu do Um rua tradicional da “Cidade de Pedra e Cal” da Ilha.(fotos do autor de Julho de 2001)
  • 298 299CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3Palácio de São Paulo (que inclui uma colecção de mobiliário indo-português), a da preciosa capela manuelina de Nossa Senhora do Baluarte (pela Comissão dos Descobrimentos), junto à Fortaleza de São Sebastião, e ainda a do Museu de Arte Sacra, que se pretendeu reinstalalar na antiga Igreja da Misericórdia, no centro do “burgo” (a antiga designação da “cidade de pedra e cal”, entre o forte e a “povoação do caniço”). Passados mais de 500 anos desde o início da presença portuguesa, os vestígios desta ocupação são bem sólidos e visíveis, em estruturas materiais que podem ser sucessivamente analisadas. Deste modo, e de nascente para poente, observamos: a estrutura edificada da poderosa fortaleza (com a antiga igreja, cisternas, armazéns e baluartes, inexpugnável ao metódico cerco holandês de Seiscentos); o terreiro frente ao palácio-museu, espécie de centro da pequena povoação-feitoria histórica, com alfândega, cais, a prainha e os restos do singelo jardim romântico, principal espaço de sociabilidade da pequena e local “corte de província” oitocentista; e ainda as habituais sequências de larginhos, ruas, ruelas e terreiros - que sõa o essencial das povoações portuguesas da Expansão, e que aqui ligam o “forte” ao “caniço” – tal como em Diu, no Guzarate, de idêntica tipologia urbana, se liga a fortaleza à povoação muçulmana. D – Um original traçado urbanoA partir da esplanada-praça-terreiro central, define-se um núcleo urbano que, de forma linear, alongada, se espraia ao longo desta parte da ilha, no sentido nordeste-sudoeste:– para nordeste, pela rua que liga a praça central ao Campo de São Gabriel, passando a original “Casa Antiga do Governador”, ou “Casa dos Arcos”, e o conjunto de casas seicentistas, sobre a praia, atingindo a chamada “Cisterna Velha”;– para sudoeste, sequencialmente pelos largos da Misericórdia e do Pelorinho / Teatro, e pela rua dos Arcos, atingindo a pequena praça da antiga Adminstração do Concelho, e seguindo para o larguinho triangular da Câmara Municipal, até aos periféricos terreiros do Mercado e do antigo Bazar.Registe-se ainda uma outra via, perpendicular às duas anteriores, apontada a sul, a qual liga ainda a praça central à costa sul, onde se situa o antigo Paço Episcopal / Fazenda e Residência Paroquial, que depois da independência foi Residência dos Hóspedes do Governo Provincial. Outras vias, mais estreitas e secundárias, como as travessas, relacionam as principais direcções referidas, contendo numa apertada malha alguns vestígios de preciosas habitações indianas, com característicos portais de gosto indiano (Lobato, 1966).Actualmente podemos percorrer o antigo largo do Pelourinho, ou do Teatro, (logo a seguir ao cívico conjunto da Misericórdia e Hospital anexo), onde há boa restauração; e depois seguir pela rua do Arcos, ou dos Banianes (indianos provindos de Diu, uma ilha costeira, chã, do Guzarate), onde o comércio exibe as características jóias de “prata da ilha” e os famosos brinquedos de produção local (na “Missanga”); pode continuar-se pelo ordenado largo das Amoreiras (antes da Sé, com o antigo Arsenal anexo, e as vizinhas ruelas estreitas, como a da “rua dos Libertadores”, as suas portas indianas e os pátios islâmicos); e avançar ainda pelos jardins do Bazar (com o templo hindú anexo), pela Mesquita Grande (junto à praia-mercado e ao enorme Celeiro), e pelo enorme e neo-clássico hospital novo, do final século XIX); virando frente à igreja de N.S. da Saúde, penetra-se no mundo dos “bairros”, densos núcleos de habitações de pau-a-pique e coberturas de colmo, para desembocar na suave baía da praia de Santo António, que remata a igrejinha e forte homónimos, com marcado cariz popular. Atingimos então quase a Moçambique“ponta da ilha”, donde se faz desde os anos 1960 a ligação viária, por ponte, ao continente. E ainda se pode deambular pelo que na ilha também foi ficando no século XX – um empedrado em calçada à portuguesa (com pedra branca de cristais, local), com bancos de jardim, frente ao Índico; o cinema; as antigas instalações do prestigiado Sporting Clube de Moçambique, terminando na praia. Rua dos Arcos, Ilha(fotos do autor de Julho de 2001)
  • 300 301CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3E – A grande Fortaleza de São SebastiãoA arquitectura militar ligada aos espaços urbanos e proto-urbanos da Expansão portuguesa, continuando a tradição instaurada na costa marroquina desde a primeira metade do século XV, e a da ocupação litoral costeira sub-sahariana, desenvolvida por volta de 1450-60, desde a Mauritânia até ao Golfo da Guiné, persistiu na obediência ao velho modelo do “castelo tardo-medievo”; esta persistência ainda atingiu as primeiras décadas de Quinhentos, já na fase manuelina - abrangendo a costa oriental africana, e nela, as iniciais fortificações da ilha de Moçambique.Tratava-se de uma concepção, anterior à fase da piro-balística, em que a fortificação se dotava de altos muros verticais, os quais, na sua versão mais corrente e simples, definiam uma planta sensivelmente quadrada, de modesta dimensão, protegidos aqueles muros por quatro torreões de planta circular, definindo volumes cilíndricos - e por vezes, ainda com uma torre interna, isolada, mais elevada. Assim se ergueram o forte de Arguim, junto à costa mauritana Moçambique(1455-61), ou a fortaleza de São Jorge da Mina (de 1482, no actual Ghana); assim também, nas costas orientais africanas, terá sido concebida a quadrangular “fortaleza velha” da Ilha de Moçambique (desde 1509), depois embebida, ou inserida (e construtivamente aproveitada), no conjunto monumental que chegou até nós como o do Palácio de São Paulo; e também neste tipo militar foi erguido o inicial forte de Sofala (1505), mais a sul; para norte da Ilha e do actual Moçambique, refira-se Quíloa (1505-12), igualmente com a característica base quadrangular muralhada, depois alterada e abaluartada.Maqueta da Fortaleza de São Sebastião da Ilha de Moçambique, existente na entrada da Parada da fortaleza em 2001.O espaço interno da fortaleza, a Parada.(fotos do autor de Julho de 2001)
  • 302 303CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3A fase seguinte, das fortificações da época pirobalística, correspondeu a um modelo seguindo um sistema formal, espacial e técnico muito diferente, quase oposto ao do tipo anterior: apresentava muralhas baixas e em plano oblíquo, baluartes em ângulo, dotados com orelhões para apoiar a resposta de fogo ao assaltante. Ao longo da segunda metade do século XVI, e depois pelo século seguinte, até Setecentos, este modelo propagou-se a todas as fortificações em África, obrigando à reconstrução e/ou adaptação das mais antigas, e constituindo as bases de edificação de inúmeras outras, que de raíz obedeciam às novas regras defensivas. Além das praças isoladas, foram especialmente importantes as fortificações que protegiam as povoações já sedimentadas, ou em processo de sedimentação, representando, apesar dos ataques da potências euopeias concorrentes, a consolidação dos sistemas de urbanização colonial portuguesa na África ßSub-sahariana.Exemplificando, na proximidade dos centros das várias cidades africanas de dominação lusa, refiram-se fortificações como a de São Filipe (na Ribeira Grande de Santiago, Cabo Verde, atribuída a Filipe Terzi, de 1587-93), a de São Sebastião em São Tomé, de 1566, a de São Miguel em Luanda, mais complexa, reedificada em 1638, refeita em 1669-70, ampliada em 1768, e “cruzada” com os fortes de São Pedro da Barra, de 1630 e de 1780, e o de São Francisco do Penedo, de 1639, 1766 e 1795.Na costa afro-oriental, destaque-se a grandiosa fortaleza de São Sebastião da Ilha de Moçambique, implantada no seu extremo nordeste, que substituiu a referida fortaleza velha (a “torre velha” e o forte de São Gabriel), foi uma obra por Miguel de Arruda (?-1563), com projecto de cerca de 1546, seguindo as regras da arte militar pirobalística por Benedetto de Ravena (c.1485-1556), com construção de 1558 a 1583. Esta fortaleza articulou-se depois com um sistema de dois pequenos fortes, o de Santo António (costeiro, a meio da ilha), e o de São Lourenço, obra poligonal simples, assente numa ilhota as sudoeste da Ilha, de 1695-1714. O modelo aplicado em São Sebastião foi de tipo simplificado, mantendo-se por isso, (apenas no que se refere à sua planta), próximo do modelo tardo-medievo, ou seja, seguindo uma forma sensivelmente quadrangular, com quatro baluartes nos ângulos (ver imagem p. 234).Na fortificação destaca-se o baluarte de São Gabriel, e, internamente, a vasta parada ou praça central, para cujo espaço deitam a antiga Igreja de São Sebastião (reconstruída depois de 1636), e as cisternas Pequena e Grande (esta iniciada em 1605), ligadas por um engenhoso sistema de condutas de água, de captação e condução desta pelas coberturas em açoteia das cisternas, até aos reservatórios internos. O conjunto monumental, hoje degradado e meio arruinado, aguarda restauro condigno.Sistemas de condução da água para as cisternas da fortaleza.(fotos do autor de Julho de 2001) Moçambique
  • 304 CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3F – Igrejas e Templos da IlhaEm termos arquitectónicos, e tal como as primeiras construções militares, as obras religiosas, a avaliar pelo que até hoje nos chegou, seguiram a prática construtiva e estilística da fase manuelina. No espaço de África com presença lusa, e exceptuando os vestígios da Catedral de Safim em Marrocos (com um sistema formal, estilístico e construtivo semelhante ao da igreja do Rosário a seguir mencionada), duas graciosas edificações são particamente as únicas que resistiram ao tempo, datando deste período inicial da cosntrução urbana: a capela do Baluarte, junto à Fortaleza de São Sebastião na Ilha de Moçambique, e a igrejinha de Nossa Senhora do Rosário, na Ribeira Grande da ilha de Santiago de Cabo Verde.A igreja da Ribeira Grande apresenta elementos de épocas posteriores, clássicos e barrocos (portal), mas os elementos mais antigos correspondem possivelmente à capela inicial de 1495 (hoje lateral, no interior da nave única, e sobre a a qual se ergue o corpo quadrangular da torre), com cobertura abobadada e nervurada, bem como, possivelmente, ao volume das escadas para a torre (adjacente, de forma cilíndrica). Esta capela poderá ter sido a capela-mor da pequena igreja inicalmente erguida no local, depois ampliada, e que deveria assim ter tido uma posição perpendicular à actual.Na relação com os vestígios manuelinos doutras áreas, os dois preciosos documentos referidos são comparáveis aos dois também preciosos e únicos vestígios manuelinos, com carácter arquitectónico, edificados na India, e ainda existentes: a Igreja do Priorado do Rosário, em Velha Goa, de tipo igreja-torre, axial, e a Capela de São Tomé de Meliapor, perto de Madrasta, um pequeno santuário com escadório, implantado na costa oriental do Industão (ambas exibindo também alguns elementos classicizantes). No Brasil, se os houve, os vestígios manuelinos desapareceram por completo.A Capela de Nossa Senhora do Baluarte recorda, pela sua expressão de volume simples - um corpo unitário, prismático e caiado a branco - as pequenas capelas que definiam a cerca dos Jerónimos em Lisboa: a de São Jerónimo, de 1514, por Diogo de Boitaca (c.1460-1527 ou 28), e, ainda menor, a de Santo Cristo, de 1517. Em todo o caso, há que referir a interpretação que fundamenta a capela de Moçambique pelo aproveitamento de um antigo bastião militar, depois tornado inútil por via da erecção da grande fortaleza anexa, e adaptado ou reconstruído como espaço sacro.A Capela do Baluarte data de 1522, e segue de facto o tipo dos singelos templos poligonais manuelinos: um corpo cúbico, de planta centrada, abobadada (tendo num dos fechos a Cruz de Cristo e quatro esferas), e com um rendilhado de ameias no coroamento externo. O alpendre externo aposto ao volume sacro, com arcos redondos, terá sido refeito, mas sempre dentro da tipologia local de tradicional influência indo-portuguesa.MOÇAMBIQUECapela de Nossa Senhora do Baluarte, vista da muralha da fortificação de São Sebastião,(fotos do autor de Julho de 2001)
  • 306 307CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3Luminosa na sua cor branca, apontada ao intenso azul marinho das águas do Índico, foi nos anos 1990 restaurada pela Comissão Nacional para a Comemorações dos Descobrimentos Portugueses (CNCDP).Outros edifícios religiosos podem mencionar-se na Ilha: – a Igreja de Nossa Senhora da Saúde, implantada no sector a poente do núcleo urbano, frente ao corpo lateral do chamado Hospital Novo. Ocupada por frades Capuchos em 1633, foi remodelada em 1801, recebendo novas obras em 1879. Acedida por escadório, a fachada foi modernizada no gosto oitocentista classicizante, apresentando a frontaria tripartida por um sistema de pilastras; apresenta um portal encimado por frontão quebrado, em articulação com um janelão superior. Outros quatro vãos, envolventes, completam o conjunto, rematado na cornija por um frontão triangular; – a Igreja e Fortim de Santo António ficam situados numa ponta da costa sudeste da Ilha, rematando a longa praia de Santo António, frente à chamada “povoação do caniço”, num volume em sereno diálogo com a paisagem natural envolvente. A igreja propriamente dita implanta-se no interior de um antigo reduto militar. Um corpo central sobreelevado, com portal e janelão superior, dá acesso ao interior do recinto, murado a toda a volta, no centro do qual se soergue o volume abobadado da nave sacra. Com origem Quinhentista, sofreu obras em 1810 e um restauro em 1969;– a Capela de São Francisco Xavier está situada no extremo sudoeste da ilha, constituindo obra modesta mas de gande significado simbólico, marcando o sítio onde o santo esteve; possui um pórtico coberto, arcado, saliente da fachada, ao modo indo-português, e exibia um frontão curvo, de elementos decorativos prusos, a recordar os da igreja da Misericórdia da Ilha,embora com expressão mais vernácula. Nos inícios do século XX ostentava as datas comemorativas de 1622-1922 na frontaria.– o Templo Hindú, implantado perto do mercado/bazar, constitui uma construção modesta, sobretudo assinalável pelo seu significado histórico-cultural; – a Mesquita Principal, dita dos “asiáticos sunitas” (Lobato, 1966), constitui um vasto e pesado edifício, implantado na costa norte da ilha, edificado entre 1930 e 1950, também assinalável pelo seu significado histórico-cultural. G – Antigas instalações da Misericórdia, dos Dominicanos e dos JesuítasOs Conjuntos da antiga Misericórdia, com Igreja e Hospital, do antigo Convento de São Domingos e da instalação Jesuíta apresentam um ponto comum: foram posteriormente adaptados, ou mesmo reconstruídos, para outras funções; ou, embora fiéis ao desígnio inicial, foram muito transformadas e alteradas (caso da Misericórdia). Do ponto de vista arquitectónico e estético, estas obras podiam incluir-se, em termos Moçambiquegerais, na época do classicismo italianizante, mas dentro da linha da chamada arquitectura “chã”, que definiu em Portugal e nas suas áreas ultramarinas, entre 1580 e cerca de 1700, um modo de simplificação e estandartização formal e espacial, adequado aos muitos programas de edificação necessária, no quadro de recursos financeiros muito limitados – criando deste modo na edificação de equipamentos e habitações um desenho sóbrio e um gosto “claro e simples”, que foram muito duradouros.No quadro Índico onde se situa a Ilha, este estilo clássico - “Chão” articulou-se, tal como sucedeu nas outras sub-regiões da África Oriental, com a influência da arquitectura Indo-portuguesa e com as formas espaciais e decorativas da Igreja de Santo António da Ilha,(fotos do autor de Julho de 2001)
  • 309308 CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3tradição swahili local; estes vários vectores foram marcantes e geradores de uma arquitectura com profunda originalidade formal, decorativa e espacial. O uso dos alpendres apostos às frontarias das igrejas e das casas, bem como um decorativismo denso e tematicamente orientalista, expresso em relevos exteriores, serão duas das suas características dominantes.Neste quadro de espaços e formas, na Ilha, destaca-se a igreja da Misercórdia, originária do século XVI, refeita depois de 1607; e, na costa fronteira à Ilha, refiram-se dentro de uma tipologia análoga, no Mossuril, a capela de Nossa Senhora da Conceição e, na Cabaceira Grande, a igreja de Nossa Senhora dos Remédios. Possuem uma expressão inconfundível – por um lado pelo átrio, alpendre ou galilé coberta, aquadradada, que antecede a nave, com espessos arcos redondos; e por outro, pelas fachadas profusamente decoradas com imaginosos relevos de inspiração indo-portuguesa.Sobre a problemática das tipologias arquitectónicas das instalações das Misericórdias, um pouco por todos os espaços ultramarinos de influência portuguesa, há que referir que estas construções assistenciais, conjugando com assinalável originalidade funções cívicas, de agremiação, equipamentais (hospital) e religiosas (igreja ou capela), constituem das obras mais interessantes nos contextos urbanos da Expansão portuguesa. Sofreram porém, na maior parte dos casos, alterações profundas, que dificultam hoje a compreensão das suas tipologias.Nomeadamente, da Misericórdia da Ribeira Grande, em Santiago de Cabo Verde, apenas resta uma parte da torre (com o levantamento das suas ruínas nos anos de 1960); a da Ilha de Moçambique, em contrapartida, está muito bem conservada, conjuntamente com a igreja. A sua pequena escala, quer dos espaços assistenciais quer dos religiosos, dá-nos ainda hoje uma ideia das características tipológicas que estas instituições devem ter tido na maioria dos povoados oceânicos, na época quinhentista: um ou dois corpos quadrangulares para a área hospitalar, outro para a “dependência dos irmãos”, uma torre (com a “casa do fisico”) e a nave sacra – com um pátio de articulação entre os vários espaços funcionais. O tema das tipologias espaciais das Misericórdias, ainda pouco conhecido e estudado, deve ser aprofundado, com análise de outros espaços, noutros locais, nomeadamente no Portugal europeu, onde se multiplicaram estas instituições. Exemplificamos apenas com as construções da Misericórdia de São Sebastião dos Açores (Terceira), onde a persistência do modelo mais antigo também deve suceder, existindo, em sequência conjunta, a capela, o que deve ter sido o corpo hospitalar térreo, e uma espécie de “casa-torre” com dois pisos - a lembrar a disposição da obra da Ilha de Moçambique.Nesta pespectiva comparativa e tipológica, poderá revelar-se interessante a análise tipológica da antiga Misericórdia de São Tomé (São Tomé e Príncipe), actual Tribunal da cidade: por detrás de uma edificação aparentemente mais recente, deve estar ainda a estrutura e organização dos originais espaços assistenciais, estes de Galeria de acesso e distribuição do Hospital da Misericórdia, que corre ao lado da parede lateral da igreja(fotos do autor de Julho de 2001)
  • 310 311CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3feição mais regular (talvez seis-setecentistas), denunciados pela cobertura, com os seus quatro “telhados múltiplos”, de quatro águas cada, paralelos entre si (a antiga capela poderia corresponder a um deles), e fomando um pátio interno. MoçambiqueConjunto da antiga Misericórdia, com Igreja e HospitalImplantada no século XVI, a Misericórdia refez a sua igreja depois do ataque holandês de 1607. O edifício, situado junto ao Palácio de São Paulo, apresenta um pórtico de expressão renascentista, e uma fachada encimada por um frontão curvo com abundante decoração em relevo, ao gosto Indo-português, de 1700 (executada a mando do provedor Manuel Rodrigues da Costa, segundo Fonseca, 1972) - que teve o característico alpendre de arcos redondos sobre a fachada, infelizmente demolido, numa perspectiva errada de restauro. Em 1936 ainda existia (fora erigido em 1509 pelo Capitão Francisco Pereira, na tradição indo-portuguesa das entradas de igreja, seg. Fonseca, 1972). Pensando na sua conformação original, encontramos analogias deste edifício, nomeadamente, com a Igreja de São Francisco de Diu (em ambos, o alpendre fronteiro e aposto à fachada, e o tipo de frontão com aletas e volutas, além da pequena escala). No anexo da Misericórdia da Ilha funcionou desde o século XVIII o hospital, e mais recentemente, ainda na fase colonial, um Museu de Arte Sacra. Antigo Convento de São DomingosExistiram outros conventos de ordens mendicantes, nas várias cidades afro-portuguesas, como o de São Francisco, na Ribeira Grande de Cabo Verde, ou, em Luanda, igualmente franciscano.A obra dominicana da Ilha foi reconstruída, também depois do cerco holandês de 1607, sendo ordenada em 1617, e concluída em 1662. Foi porém muito alterada no século XIX. Em 1852 a igreja foi demolida, em 1826 o restante edifício serviu de quartel, em 1840 para fábrica de fiação de algodão, e em 1875 para Repartição de Obras Públicas; em 1935, passou a Tribunal da Comarca. A fachada actual exibe um amplo avarandado coberto, com escadaria central, e ainda persiste o antigo claustro no coprpo interno do imóvel.Antigo Colégio Jesuíta, depois Palácio do Governador, com a capela de São Paulo Os edifícios das instalações jesuítas nas urbes ultramarinas destacaram-se sempre, quer pela sua implantação em local marcante, quer pela expressão monumentalizante, pelo menos em relação à habitual e modesta escala edificada nas cidades portuguesas – de Ponta Delgada a Macau, de Luanda a Bahia, isso é patente.No quadro africano austral, refira-se, em Angola, a igreja de Jesus e o antigo Colégio dos Jesuítas, de 1605-07, concluídos em 1636, onde em Oitocentos se instalaria o Paço Arquiepiscopal, cujo edifíco perdurou até ao século XX, sendo então refeito num gosto neo-clássico (igreja classificada como Monumento Nacional em 1949); a igreja, que no século XVII foi comparada à obra jesuíta do Funchal, cuja nave seria inspirada na tipologia interna da de Évora, exibe ainda hoje uma impressiva fachada (mas que perdeu expressão no restauro por Humberto Reis em 1953), extremamente semelhante à contemporânea obra da igreja de São Paulo de Diu, de 1601, também Jesuíta.Expulsos os Jesuítas, foi o conjunto adaptado a Paço Episcopal, anexo ao Palácio dos Governadores, muito reformado e ampliado na fase pombalina de 1761 (e, já no século XX, com remodelação em gosto revivalista neo-clássico por Conjunto do Palácio de São Paulo, antiga instalação jesuíta(fotos do autor de Julho de 2001)
  • 313CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3312Fernando Batalha). O edifício setecentista, como a maioria dos grandes casarões da época pombalina, representou a versão, a um tempo residencial e cívica, do modelo classicizante simplificado pelo “filtro” da cultura arquitectónica portuguesa – na medida em que o tempo de Pombal encetou uma releitura erudita e actualizada do que fora o “estilo chaõ” dos séculos XVI-XVII. Num corpo de expressão horizontal dominante, a seriação dos vãos nos seus dois pisos era o tema-base, que imprimia a modulação e o sentido de proporção geral ao imóvel, abdicando este da utilização de elementos decorativos e estilísticos mais complexos (como as colunas, os pilares, os frontões), resumidos apenas ao emprego das pilastras na molduração das esquinas, ao remate superior contínuo, com cornija de desenho clássico, e à marcação da entrada principal com um portal mais elaborado e decorativo.Pois em linha estilística e arquitectónica análoga era o vasto corpo do Palácio de São Paulo, sede do governo na Ilha de Moçambique, que aproveitava a obra jesuíta anterior, em articulação com a remodelada capela. Este conjunto, talvez originado ainda, inicialmente, no antigo forte de S ão Gabriel, terá sido erigido/reformulado entre 1619 e 1635 pelos jesuítas. Forma um pátio interior, com escadaria dupla, de obra mais recente. A capela anexa, de São Paulo, seria contemporânea, mas depois foi muito alterada. Apresenta no exterior um corpo rematado por frontão triangular, com óculo circular, e a torre sineira de coruchéu piramidal (de 1864). No interior, salienta-se o púlpito e o altar-mor, de gosto indo-português, idênticos aos da Sé de Damão. O conjunto de palácio e capela passou, com Pombal, a Palácio dos Capitães Generais (1763), depois a Palácio do Governo, função que deteve até 1898, quando a capital se transferiu para Lourenço Marques, sofrendo sucessivas obras e alterações até 1931. O edifício apresenta hoje um longo corpo de dois pisos, com expressão oitocentista, e um pátio interno, de elegante escadaria. Foi restaurado nos anos 1990, e funciona como museu. No seu interior, salas amplas de esplêndidos sobrados, contêm peças artísticas e mobiliário indo-português. Acapela do Palácio de São Paulo.(fotos do autor de Julho de 2001) Moçambique
  • 314 315CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3H – Edifícios públicos, equipamentos e espaços cívicosAntiga AlfândegaA administração fiscal sobre o comércio e as mercadorias, em articulação com os equipamentos dos espaços portuários, devem ter desempenhado um papel significativo, nas cidades marítimas e “talassocráticas” de marca lusa. O edifício emblemático destas funções foi o da alfândega, que pontuou urbes como São Tomé, Santo António, a Ilha de Moçambique, Luanda e Benguela. Nestas três últimas cidades ainda se pode apreciar o imóvel respectivo, junto ao mar, que em geral apresenta a expressão clara da sua funcionalidade.Em Luanda, no espaço litoral da Baixa, no extremo poente da rua da Praia, marginal à água, ficava o Terreiro Público, fronteiro às praças do Falcão e do Terreiro, que formava um vasto quadrângulo, edificado por Sousa Coutinho no seu governo de 1764-72, e então dotado com ampla cisterna e cais. Perto deste, e ainda existente, o vasto corpo da Alfândega, também de origem pombalina, é uma obra imponente da arquitectura civil. Era construção austera, seguindo em geral as regras classicizantes na composição, com a sequência dos vaõs seriados, ritmando as fachadas. Já do Século XIX, refira-se, seguindo um modelo estilístico classicizante, a antiga alfândega do Mindelo: edifício térreo, erigido sobre a baía, com o corpo central rematado por frontão, exibindo um delicado desenho arquitectural, com uso de pedra branca e molduras de vãos classicizantes. Foi edificada entre 1858 e 61, ampliada em 1880-82.Na Ilha, a Alfândega foi implantada frente ao mar, entre o cais e a praça do Palácio, constituindo um extenso volume térreo, compacto, sem especiais qualidades arquitectónicas, mas atestando um valor histórico muito considerável. A primeira edificação remonta a 1720, sendo construído novo edifício em 1752, e um outro em 1791 (pelo Governador Dom António Manuel de Mello e Castro), reformado em 1882, com novos armazéns em 1886. Das edificações das sedes municipais, nas cidades luso-africanas, pouco se sabe em termos das características originais dos edifícios, devendo em todo o caso destacar-se o exemplar da Câmara da Ilha de Moçambique, pela sua expressão funcional/formal simplificada, de cariz pombalina, que foi edificado em 1781; fronteiro a um largo da cidade, foi alterado em 1909, e possui ainda um avarandado em ferro fundido, abrangendo três vãos do andar nobre. O antigo edifício da Administração do Concelho, anterior a 1750, possui um corpo principal encimado por frontão curvo decorado com relevos; tem parte da cobertura telhada, e outra parte com terraço de recolha de águas; mantém ainda a escadaria lateral de acesso ao andar nobre, e serviu de sede da Polícia. Quanto aos Edifícios da Capitania dos Portos e da Escola de Artes e Ofícios, formam conjunto, pela analogia arquitectónica e volumétrica, com dois pisos em corpos robustos, e expressão similar à dos antes referidos, setecentista e pombalina, aqui com os vãos de lintéis curvos. Refira-se ainda a chamada “Cisterna Velha”, fronteiro ao Campo de São Gabriel, que continha vastos armazéns, com cisterna, arcos e cais. Hospital “Novo” Os conjuntos hospitalares, dentro da chamada “Arquitectura de Obras Públicas” da Monaquia Liberal, da segunda metade de Oitocenetos, teve o seu reflexo nos espaços afro-coloniais. Os hospitais representaram aqui um significativo esforço de modernização assistencial, essencial na assunção da nova escala urbana dos principais povoados, em substituição dos envelhecidos equipamentos existentes. Quase sempre foram obras pavilhonares, procurando nesse sistema as melhores condições higiénicas, de ventilação e arejamento; arquitectonicamente, o signo classicizante está também correntemente presente e dominante. Refiram-se: o Hospital D. Maria Pia, em Luanda (com corpo central de frontão, de 1865-83): o de D. Carlos, em Antigo edifício da Administração do Concelho(fotos do autor de Julho de 2001) Moçambique
  • 316 317CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3Benguela (de 1888, com “planta radial” de vários pavilhões térreos); o Hospital de D. Amélia, em Moçâmedes (com corpo central dois pisos, com frontão); o Hospital de Miguel Bombarda, em Lourenço Marques (uma obra funcional, de largas galerias cobertas, pelo engenheiro João Ferreira Maia, de 1879, ampliado em 1889); e o imponente “Hospital Novo”, da Ilha de Moçambique, de 1877.Situado na parte mais recente da povoação, no local do antigo Convento de São João de Deus / Hospital Real, e fronteiro a amplo jardim, foi erigido em 1877, pela expedição de obras públicas que o ministro Andrade Corvo enviou. A partir de um projecto por Isaías Newton (1838-1921), alterado, o conjunto, de grande escala, apresenta uma expressão clássica, com pórticos de colunata encimados por balaustrada. Está subdividido em vários corpos, em composição monumental e simétrica, e possui quatro grandes cisternas. Ainda podem destacar-se, na Ilha, o moderno, geométrico e abstrato monumento a Sarmento Rodrigues, na ponta sudoeste (por José Aurélio?), fronteiro ao Fortim de São Lourenço; e o monumento a Vasco da Gama, na mesma Ilha, no Largo de São Paulo, com a figura em estátua sobre pedestal. Mencione-se também, neste quadro de construções equipamentais, os conjuntos articulados com espaços de comércio, como é o caso da Rua dos Arcos e Largo do Pelourinho ou do Teatro. Trata-se da antiga rua dos Banianes, prolongada do antigo largo do Teatro - que ligam, em sequência, na malha urbana, o núcleo adminstrativo-portuário (Palácio, Alfândega, Cais), a nordeste da povoação, com o núcleo municipal-religioso (largo do Cruzeiro, da antiga Sé, e Câmara), a sudoeste. A rua, cujas edificações devem ter sido recentemente reconstruídas, ou pelo menos recuperadas, apresenta forte carácter, com longa sequência de arcadas, rematando fachadas desiguais, de intensa policromia, numa área de tradição comercial.I – A arquitectura doméstica na “Ilha”Os espaços e tipologias residenciais das cidades da África de influência portuguesa têm grande importância e significado, expressos em edificações de escalas diferenciadas, desde construções solarengas e aristocráticas, de grande porte, passando por casas com dimensão média, até às casas de expressão popular ou vernácula.Como factor de uniformização, pode referir-se serem todas elas construídas em alvenarias de pedra ou materiais terrosos (taipas, adobes), dotadas de paredes espessas, com vãos de pequenas dimensões, de paredes geralmente caiadas, e com coberturas em armação de madeira, com revestimento cerâmico a telha – seguindo o grande tipo de habitat característico da Europa Mediterrânea, nela implantado secularmente e utilizado no Portugal ibérico. Na Ilha podemos destacar vários exemplos de valor, no quadro da tipologia cívico-residencial, das habitações dos governadores e dos bispos (onde a função doméstica era muitas vezes indissociável da representativa e oficial), como a chamada “Casa Nova do Governador”, ou “Casa dos Arcos”, e o antigo Paço Episcopal:– a “Casa Nova do Governador”, ou “Casa dos Arcos”, situada junto à rua (talvez quinhentista) que liga o vasto terreiro do Palácio com o Campo de São Gabriel, é uma construção notável, pela sua larga arcaria de alvenaria, a qual preenche todo o piso nobre, encontrando-se porém muito arruinada (cf. Relatório de Aarus, op.cit.);– o Antigo Paço Episcopal e Fazenda, erigido ao fundo da rua que liga a área do Palácio com a costa sul da ilha, é um expressivo volume de base setecentista, seguindo o modelo do casarão solarengo urbano, com dois pisos, de elegantes vãos seriados, que serviu recentemente como Residência dos Hóspedes do Governo Provincial. Conjunto de habitações com origem seiscentistaAs casas com mais significado cultural e plástico-arquitectónico da Ilha remetem-nos para algumas obras também preciosas, existentes noutras áreas da África de influência portuguesa: nomeadamente em Benguela há um vestígio da mesma época e com aspectos comparáveis, o chamado “Palácio Velho”; é um imóvel na rua da Praia, de inicial construção setecentista, em adobe, sucessivamente alterado, reconstruído e restaurado e finalmente classificado. Constituindo caso único na cidade, com o seu volume compacto, de dimensão média, possui o maior interesse, para além dos característicos telhados O conjunto do “Hospital Novo”(fotos do autor de Julho de 2001) Moçambique
  • 318 319CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3múltiplos, está na parte posterior, onde, no piso nobre, uma larga galeria coberta, assente em grossos pilares, sobre arcadas redondas térreas, se abre para a escadaria dupla, de clara plasticidade. Trata-se de um tema e uma expressão que evocam as varandas e galerias índicas, que encontramos igualmente, embora mais modestas, na Ilha de Moçambique e no Ibo, em casas da mesma época. As casas tradicionais do Ibo e da “Ilha”, apresentam de facto esta tipologia da varanda alongada e coberta, sobre as frentes (ou amplo balcão ou alpendre, se se quiser), assente em arcos ou pilares, aberta sobre a rua - sendo as coberturas horizontais, de toda a habitação, em açoteia. Um e outro aspecto, decorrem da influência Índica, filtrada pelos indo-portugueses, nesta parte de África, em conjugação com as culturas swahili e islâmica. Quirino da Fonseca referiu este aspecto profundamente original da colonização de Moçambique, hoje quase extinto, que deve ter abrangido toda a área de influência da ilha de Moçambique, até Cabo Delgado, a norte, e de Tete até à fronteira ocidental do Zumbo (possivelmente por via das arquitecturas dos Prazos) – sem deixar de inspirar ainda alguma arquitectura oitocentista tardia, já metálica, ou em madeira, de outras povoações moçambicanas: “Normalmente na fachada principal adoçava-se um alpendre do tipo colunata, de aspecto pesado, em colunas de alvenaria, nas quais havia o cuidado de facetar as arestas, formando largas varandas de tipo indiano.(...) Este processo de construção em açoiteia foi divulgado na Índia pelos Mouros, transitando para Moçambique através dos inúmeros pedreiros e mestres-de-obras banianes que de lá vieram” (Fonseca, Monumenta n.4, 1968, pág.47, e imagens pág.48-a e 48-b).Dentro desta tipologia e modos construtivos, podem referir-se ainda, na “Ilha”, vários exemplos de casas urbanas, com idêntica construção em paredes espessas, e vãos estreitos e pequenos, formando conjuntos, mas aqui com dois pisos. É o caso da “correnteza” de casas de origem seiscentista, ao longo da rua que liga a praça do Palácio com o Campo de São Gabriel, abrindo as traseiras sobre a costa norte; são construções de grande beleza, com cobertura em terraço para recolha pluvial.Março 2012Maria de Lurdes Serra JaneiroJosé Manuel Fernandes ArquitectosÁtrio interior de uma casa tradicional da Ilha, com o pavimento em madeira e tijolo, com intensa caiação(fotos do autor de Julho de 2001) BIBLIOGRAFIABoléo, Doutor Oliveira, Moçambique, Lisboa, Agência Geral do Ultramar, 1951Dias, Pedro, Arte de Portugal no Mundo – África Oriental e Golfo Pérsico, Lisboa, Público, 2008, págs.39-55Fonseca, Pedro Quirino da, “Breves notas sobre a evolução da habitação e construção em Moçambique”, revista Monumenta – Boletim da Comissão dos Monumentos Nacionais de Moçambique, n.º 4, Lourenço Marques, 1968, págs. 45-48Fonseca, Pedro Quirino da, “Algumas Descobertas de Interesse Histórico-Arqueológico na Ilha de Moçambique” , in revista Monumenta n.8, Lourenço Marques, 1972, págs.55-71Ilha de Moçambique. Relatório – Report. 1982-85, (coord. Arkitektskolen i Aarus-Danmark e Secretaria de Estado da Cultura-Moçambique), Aarhus-Danmark, s/d.(A) Ilha de Moçambique em Perigo de Desaparecimento. Uma Perspectiva Histórica.Um Olhar para o Futuro (catálogo de exposição), Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1983Knopfli, Rui, A Ilha de Próspero. Roteiro Poético da Ilha de Moçambique, Lisboa, Edições 70, 1989Lobato, Alexandre, A Ilha de Moçambique, Lourenço Marques, Imprensa Nacional de Moçambique, 1945Lobato, Alexandre, A Ilha de Moçambique. Panorama Estético, Lisboa, Agência Geral do Ultramar, 1966Lobato, Alexandre, A Ilha de Moçambique. Panorama Histórico, Lisboa, Agência Geral do Ultramar, 1967Loureiro, João, Postais Antigos da Ilha de Moçambique & da Ilha do Ibo, Lisboa, ed. do Autor, 2001Pereira, Albano da Silva, Ilha de Moçambique, d/l, Camera Escura, 1995Pereira, Alberto Feliciano Marques, “Escultura, Arquitectura e Outros Valores Artísticos dos Séculos XIX e XX. Obras de Arte de Engenharia da Província de Moçambique”, separata da obra A Arte e a Natureza em Moçambique, Lisboa, 1966. MoçambiqueNOTA: este artigo baseou-se em vários textos da entrada “Ilha de Moçambique” na obra “Património de Origem Portuguesa no Mundo - Arquitectura e Urbanismo - vol.África. Mar Vermelho. Golfo Pérsico” (coord. geral José Mattoso / coord do vol. Filipe Themudo Barata e José Manuel Fernandes), Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 2010, pp.538-545
  • 321CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3320PORTUGALO MOSTEIRO DOS JERÓNIMOS EM BELÉMA – Belém, a área urbana, breve referência à sua história e evoluçãoA pequena povoação, com carácter proto-urbano, designada de Belém (do grego, significando “Casa do pão”, que passou para o hebraico e o árabe), implantada na costa ocidental de Lisboa, como “praia” do Restelo, terá tido origem, por volta do século XIII, num ancoradouro natural (o 1º. cais à chegada a Lisboa), a partir do desenvolvimento comercial ligado aos apetrechos navais e à indústria local de fiação de linho, produzido na encostas vizinhas (daí Restelo, ou “rastelo”, de “rastelar”, limpar o linho com o instrumento próprio para lhe retirar a estopa).O sítio de Belém, (topónimo, de referência mítica e sagrada na cultura cristã, ao local de nascimento de Jesus Cristo), tornou-se assim o cais daquela área a poente da cidade, com um edificado que reflectia a sua vocação portuária. Embora de origem quinhentista e seiscentista, o actual casario de Belém mostra ainda hoje na sua arquitectura as origens medievas e ribeirinhas, com a série de pórticos, galerias com colunas e arcadas das frontarias (imagem da p.320) na envolvente da sua rua principal, a rua de Belém. O crescimento do núcleo, porém, deve ter tido um incremento muito forte sobretudo com a implantação do Mosteiro dos Jerónimos, após 1500.Em termos urbanos, constituiria uma estrutura muito simples, que se conhece por uma planta de 1875 (imagem da p.322), a qual, ainda com os edifícios mais a sul (demolidos em 1939-40) recortados pelas águas do Tejo, junto aos vários cais, deve mostrar, no essencial, a sua organização espacial de origem: – um eixo principal, no sentido nascente-poente, correspondia à Rua Direita de Belém (antigo troço da Estrada Real de Lisboa a Cascais, e actual rua de Belém, cujo nome reflectia então, ao modo tradicional, o ser a ligação “directa” da cidade ao Mosteiro, onde desembocava - como se observa em fotografia oitocentista, ainda com o perfil original da torre do mosteiro) (imagem da p.323); Vista das edificações do Cais de Belém, cerca de 1900, in Belém – Rua Vieira Portuense 1875-1984 (por José Correia, Rui Alves e Teresa Rodeia, DA-ESBAL trabalho escolar dos anos 1983-84)Texto de José Manuel Fernandes
  • 323CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3322– a sul, a antiga rua da Cadeia (ou do Cais de Belém, depois Vieira Portuense), paralela à anterior, apresentava as edificações com galerias térreas ligadas ao antigo cais; – o eixo viário da Rua Direita, estruturante, rematava-se frente ao volume da capela mor da grandiosa igreja, no Largo do Chafariz de Belém, – o lugar público de abastecimento de água do medievo, que evoluiu depois como espaço do mercado, só demolido com as obras da Exposição Internacional de 1940; – os restantes arruamentos, secundários, transversais e muito estreitos (todos de sentido norte-sul), apresentavam designações que reflectiam as antigas funções complementares, Portugalexistentes ainda no século XIX; vejamos, de poente a nascente: Travessa do Chafariz da Bola (que ligava o 1º. cais com o largo do chafariz); Travessa do Mendes, Travessa da Cadeia, e “Praça” do Peixe (esta no enfiamento da Travessa das Galinheiras, a norte); e ainda Travessa da Linheira e Travessa dos Ferreiros; Planta da área de Belém de 1875, in Belém – Rua Vieira Portuense 1875-1984 (por José Correia, Rui Alves e Teresa Rodeia, DA-ESBAL, trabalho escolar dos anos 1983-84)Fotografia oitocentista de Belém, com a antiga torre dos Jerónimos, in Belém 1807-1983 (por Carlos Matos, Paulo Gonçalves e Pedro Santos, DA-ESBAL, trabalho escolar dos anos 1983-84)
  • 324 325CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3– acima e a norte deste conjunto urbano, uma terceira “rua longa”, paralela às duas primeiras referidas, delimitava-o ainda do espaço rural, com a expressiva designação de Rua Atrás das Terras. (cf. planta de 1875).O edificado constituinte desta “aldeia urbana”, desenvolvido em quarteirões simples, de lote a lote, em disposição linear, a sul e a norte da Rua Direita, com construções residenciais e comerciais com dois a três pisos, e fachadas estreitas, interrompia-se quando atingia a igreja – frente a esta, e dignificando-a, apenas existia o vasto areal da Praia de Bélem, que perdurou até aos largos aterros de vocação fabril e à ferrovia, dos finais de Oitocentos.Toda esta área, que no século XVIII articulava o conjunto hieronimita (a poente) com o novo Real Palácio de Belém (a nascente) passou por vissicitudes e peripécias, algumas trágicas. Foi o caso, na época Pombalina, depois do atentado ao Rei, do acto do “Chão Salgado”, que, através da erecção de uma coluna de perpetuação, lançou oficialmente o anátema sobre o local do palácio do Távoras (então destruído, e que se situava no quarteirão a poente da Rua Direita, frente ao antigo Largo do Chafariz (hoje, num espaço furtivo, á direita, a seguir ao prédio dos actuais Pastéis de Belém) - salgando-o simbolicamente, para nunca mais nada ali se edificar.Os aterros industrialistas e ferroviários das últimas décadas do século XIX, que distanciaram os antigos cais locais da linha de água, interiorizaram irremediavelmente o sítio de Belém, que assim perdeu o seu essencial sentido litoral (imagem da p.324). A área de Belém só voltaria a ganhar um novo élan, funcional e sobretudo simbólico, com as grandes obras de preparação da Exposição do Mundo Portguês, em 1938-1940. Foi com esta intervenção, e depois, já nos anos 1980-1990, com a construção do Centro Cultural de Belém, que estabilizou toda a área envolvente da antiga “aldeia” de Belém. Hoje, e numa sequência de poente para nascente, podemos enumerar os seguintes espaços urbanos e arquitectónicos das imediações no núcleo de Belém e da dos Jerónimos (imagem da p.325). – O CCB (arqs. Manuel Salgado e Vittorio Gregotti, c. 1989-92), o Museu da Marinha (arq. Frederico George, c. 1957) e o remate nascente do Plano Residencial da Encosta da Ajuda/Restelo (por arq Faria da Costa, anos 1940-50), este sobre a aréa a norte dos Jerónimos; – A Praça do Império (proj coord. por Cottinelli Telmo, restante da Exposição do Mundo Português), o “redondel” do “eléctrico”, o arranque da rua dos Jerónimos e do Bairro Económico de Belém, dos anos 1930, com o contíguo Jardim Colonial (este também ligado à EMP de 1940, a norte da rua de Belém);– Finalmente, o amplo espaço verde ajardinado e arborizado, a sul da rua Vieira Portuense, com a praça Afonso de Albuquerque e o Palácio de Belém a nascente e a nordeste, respectivamente. Em síntese, e no que interessa a este estudo, sendo um lugar de nome mítico, como se referiu, o povoado de Belém iria reforçar essa vocação com a futura implantação do Mosteiro dos Jerónimos, monumento também ele com um lugar especial e fulcral na história portuguesa, a partir do século XVI.Planta urbana de Belém, de 1916, in Belém – Cerca dos Jerónimos 1572-1925 (por Cristina Camacho, Micaela Vieira e Luís Braga, DA-ESBAL, trabalho escolar dos anos 1983-84)Planta de Belém, com a indicação das transformações urbanas do século XX, in Belém 1807-1983 (por Carlos Matos, Paulo Gonçalves e Pedro Santos, DA-ESBAL, trabalho escolar dos anos 1983-84)Portugal
  • 326 327CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3B – O enquadramento, o sentido e a importância do grande monumentoO Real Mosteiro de Santa Maria de Belém, ou dos Jerónimos, como é mais conhecido, erigido a partir dos inícios de Quinhentos junto à então aldeia de Belém, na estrada de saída da cidade para poente, é um vasta edificação incompleta, sucessivamente alterada e acrescentada, ao longo de séculos de campanhas de obras.Constitui-se de algum modo, na evolução da história nacional e da arquitectura portuguesa, como um “sucessor” do Mosteiro da Batalha, no sentido da sua intensidade simbólica, enquanto representante do rei e da sua nova dimensão epocal.Estilisticamente representa também um “ponto de chegada”, máximo, do experimentalismo inerente ao chamado Manuelino, desenvolvido na revisão e “subversão” dos temas do gótico internacional, no dealbar do século XVI. Ao longo das suas diversificadas fases construtivas, este conjunto conheceu diversos arquitectos e construtores de grande importância e significado no quadro da arquitectura portuguesa, alguns dos quais puderam realizar nos Jerónimos obras de marcada notabilidade e influência na produção nacional.Por estas e outras razões, e sem exagero, podemos considerar o conjunto do Mosteiro dos Jerónimos como a mais importante edificação e obra arquitectónica erigida no quadro da cultura portuguesa, dentro e fora de Portugal. (imagem da p.326)PortugalVista aérea da área do Jerónimos, Belém, e Restelo (bilhete postal edição Gótica Porto Rua N.S. de Fátima, col. JMF)
  • 328 329CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3da igreja e do claustro existentes, com destaque para o Portal Sul, com a sua notável concepção de escultura aplicada, de dimensão monumental.João de Castilho (c. de 1470-1552 ou 1553), um autor biscainho de Santander / Cantabria, seguiu-se a Boitaca, no estaleiro dos Jerónimos. Castilho ficou associado a grandes realizações da primeira metade de Quinhentos em Portugal: provindo de Sevilha, foi o autor da capela mor da Sé de Braga, em 1509, trabalhando depois na igreja Matriz de Vila do Conde. Depois construiu a portal da igreja do Convento de Cristo em Tomar (1515), conjunto onde orientou superiormente as obras, até falecer.O sentido da solidez construtiva está expresso na edificação da Cisterna de Mazagão (El Jadida), em Marrocos, que Castilho levou a cabo em 1541, segundo Rafael Moreira sobre projecto de Miguel de Arruda (? -1563), e em 1547 desenhou o interior da pequena Igreja da Conceição de Tomar, num delicado gosto reascença. Nos Jerónimos, entre 1516-17 e 1525-30,segundo Rafael Moreira, “este genial e incansável arquitecto soube encontrar soluções inovadoras que oferecem alguns dos melhores troços do edifício: as abóbadas e pilares da igreja, o varandim do claustro, a sacristia”. Castilho utilizou um estilo de transição entre o do contexto manuelino e os dos temas da renascença italiana, ou romana, vindo a ser a sua intervenção também marcante neste conjunto edificado. Será intervenção sua determinante, a graciosa mas densa cobertura da grande nave, com a rede / emaranhado de linhas ogivais (imagem da p.329), esbatidas num todo de magnífico efeito, e a solução do transepto. Mas é-lhe atribuído também o portal sul (1517), onde C – Os autores, uma sequênciaDiogo Boitaca, ou Boytac (c. de 1460-1527 ou 1528), ao que se sabe de origem francesa (do Languedoc?), já trabalhando em Portugal cerca de 1492, tinha então realizado a Igreja e o Mosteiro de Jesus em Setúbal (imagem da p.328), que surge como uma espécie de arquétipo formal, tipológico e espacial dos Jerónimos. Foi o primeiro e marcante autor do edifício de Belém, que estudou a partir de 1498-1501, com o arranque das obras em 1502, que acompanhou até 1516. Boitaca foi agraciado por D. Manuel com o título de “Mestre das Obras do Reino”. Construiu a Sé da Guarda, renovou a igreja de Santa Cruz de Coimbra, seguindo para Arzila, no Norte de África, em 1510. Desde 1516 trabalhou no Mosteiro da Batalha, até falecer. No conjunto dos Jerónimos Boitaca desenvolveu plenamente o estilo que ficaria séculos depois conhecido como “Manuelino”. Concebendo uma estrutura muito mais vasta do que a finalmente edificada, delineou o conjunto terá exercido, na linha formal da Custódia de Belém, o ourives Gil Vicente. Todavia, para além destes dois autores, há que mencionar as contribuições autorais seguintes, que se revestiram de grande qualidade.Destaque-se a intervenção por Diogo de Torralva (c.1500-1566), de provável origem hispânica (ou itálica), e considerado por Moreira como “o maior arquitecto do alto renascimento português”, que introduziu no País o registo maneirista do classicismo italiano. Torralva foi Mestre das Obras Régias desde 1534, trabalhou em 1536 na construção da igreja da Graça em Évora (por Chanterenne e Miguel de Arruda, 1532-40), em Mazagão na obra da poderosa Praça Forte em 1537 e 41, em 1544 na igreja do Bom Jesus do Valverde, nos arredores de Évora (por Manuel Pires, 1510?-1570); cerca de 1547 sucedeu a Francisco de Arruda nas obras reais, nomeadamente no Alentejo (Paços de Évora), desenhando o túmulo de D.Jorge de Melo em Portalegre. Em 1549 terá edificado a Capela de Santo Amaro em Alcântara, e em 1551 renovava o Mosteiro da Madre de Deus em Lisboa (claustro e cabeceira). Entre 1554 e 1562 trabalhou no Convento de Cristo em Tomar, construindo a sua obra mais notável, o Claustro de Torralva (de D.João III, ou dos Filipes), em 1557, obra prima do serlianismo / paladianismo luso.Nos Jerónimos, onde foi mestre da obra entre 1540 e 1551, trabalhou na capela mor em 1550-51 (concluída por Jerónimo De Ruão em 1571), e trabalhou também no coro (cadeiral), no andar superior do claustro e na paltibanda deste, segundo um desenho informado pelo renascimento, mas habilmente articulado com a pré-existência manuelina. A intervenção seguinte nos Jerónimos foi por Jerónimo de Ruão (1530-1601), filho do escultor João de Ruão. Já numa fase de restrições orçamentais, que correspondeu ao tempo sebástico, Ruão praticamente concluiu toda esta fase primordial da obra, até às muito posteriores intervenções, já com sentido de restauro e reconstrução, dos séculos XIX e XX. Ruão, que trabalhou na obra desde 1563, refez por completo a capela-mor, numa expressão sólida e de gosto estrutural clássico, e completou também, internamente, o transepto do templo. Entrada principal, aberta a sul, do Convento de Jesus em Setúbal (fotografia JMF)Interior da nave dos Jerónimos (bilhete postal Colecção Dúlia, col. JMF)Portugal
  • 330 331CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3PortugalD – O Estaleiro de Santa Maria de Belém: um longo processo de criação estilística, construtiva, tipológica e arquitectónica.“Correspondente quinhentista ao estaleiro da Batalha” (Pereira, op.cit., p.60), a longa obra dos Jerónimos (cuja fase edificatória durou cerca de um século, até 1600) vai ser espelho de tendências e escolas, local laboratorial e experimental, e, naturalmente, o palco de várias realizações supremas do Manuelino.Sigamos a síntese de Paulo Pereira (op.cit., pp.60-69) sobre este tema. Requerida em 1495, por D.Manuel à Santa Sé, autorização para fundar no local da velha ermida da Ordem de Cristo, um eremitério de frades Jerónimos, e obtida esta, foi feita pelo monarca a doação desse “sítio do Restelo” aos ditos frades, em 1498. Coincidindo isto com o Regresso de Vasco da Gama da India, a nova construção pôde desde logo ser apoiada com os resultados e taxas dos “negócios da India”. E os frades tomaram a chamada “posse canónica” no local em 1500, passando a receber em 1503 a “vintena” das mercadorias da India, o que aumentou em muito os recusos financeiros para a obra.A dimensão mítica está portanto desde cedo ligada ao mosteiro: pela sua relação directa e profunda com os Descobrimentos e o seu feito fulcral, o do Caminho Marítimo para a India; pela relação fundacional com a dinastia de D.Manuel, nas suas pretensões à “coroa peninsular” de sonhada unidade ibérica por via de Portugal; e pela sua sagração, no local de Belém, ponto crítico da cidade de Lisboa, na sua relação com o “mundo do mar”.Em 1504-1505 já a obra de construção avançava em pleno, documentadamente, sob a orientação de Boitaca e com a utilização da luminosa pedra branca de calcário liós, provinda do Rio Seco (vale na encosta da Ajuda, nas imediações do mosteiro), material este que assinalava a nova dimensão quinhentista das arquitecturas levadas a cabo em Lisboa - sendo então abandonada a pedra calcária sedimentar, amarelada, que fora antes usada para erigir os monumentos medievais, como o Castelo de São Jorge e a Sé Catedral. Em 1516, com Boitaca ainda, é referenciável a “execução do extenso corpo do dormitório e das arcadas do alpendre ou galilé” (Pereira, op.cit., p.62), e estaria levantada a capela mor depois substituída. Paredes e janelas da grande nave eclesial estariam igualmente erguidas, faltando consumar a vasta cobertura. O claustro também estaria parcialmente executado (imagem da p.331), com parte da sua cobertura.É pois da concepção de Boitaca a planta da igreja, com o amplo sistema tipológico da “igreja-salão”, seguindo “em grande” o que fizera na igreja de Setúbal – incluindo oito longas e elegantes colunas. A nave teria três grande abóbadas, conjugadas com as do transepto e as capelas respectivas. A parede sul receberia um majestoso portal, e a do lado norte, mais Janela do piso térreo do claustro dos Jerónimos (bilhete postal Colecção Dúlia, col. JMF)Vista geral dos dois pisos do claustro do Jerónimos (bilhete postal Colecção Margrape, col. JMF)
  • 333CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3332espessa, os 24 confessionários “escavados” e a escadaria “em linha”, longa, de acesso ao coro e à cobertura.Boitaca foi então afastado da obra (talvez pela dificuldade na concepção da cobertura, de facto de solução difícil e delicada), e Castilho, com provas dadas neste domínio (Tomar), assumiu a direcção dos trabalhos, em 1516-17. Nesta sequência, o Mosteiro irá tornar-se a “cabeça” da ordem jerónima em Portugal, e o Panteão Real – integrando para isso uma maior dimensão global.Avança-se então, na passagem das décadas de de 1510 para 1520, numa fase de charneira essencial da obra: a construção do Portal Sul, da Sala do Capítulo, da Sacristia, do Refeitório, e, claro, do Claustro, com remate do seu piso térreo e arranque do segundo nível.O artista normando Nicolau de Chanterenne (c.1470-1551) orienta e constrói então o fabuloso Portal Sul, cuja riqueza decorativa, bem como a dimensão simbólica e iconográfica o sinaliza de modo determinante para constituir a “fachada principal” do conjunto (imagem da p.332) – contraditoriamente, assente num plano lateral e paralelo à grande nave. Este aspecto, quanto a nós essencial, só vem confirmar em absoluto a característica de “espaço--mesquita” dos Jerónimos (neste sentido, inscrito na tradição antiga, oriental-mediterrânica), que não privilegia um só eixo, menos ainda o que seria o principal na anterior tradição gótico-ocidental (a sequência portal axial-nave-transepto-capela-mor não existe de todo nesta obra, que, simplesmente...não tem fachada frontal).(imagem da p.333)Tratou-se portanto de construir um sistema de eixos perpendiculares entre si, que determinam no seu conjunto acessos (oeste-este, sul-norte) a um espaço nuclear que resulta por isso muito mais estático, e pluri-direccionado (ou seja, “sem ponto de fuga”), com é realmente a igreja dos Jerónimos – obra muito pouco ortodoxa, dentro dos padrões fundamentais da cultura arquitectónica ocidental, onde a fachada centrada a eixo com a estrutura principal da igreja seria obrigatória.A partir desta fase conceptual manuelina, os Jerónimos atravessarão a fase transicional para a Renascença (com o segundo piso do claustro por Torralva) e Maneirista (com a nova capela mor por Ruão). Mas o determinante pendor manuelino do conjunto estava definitivamente adquirido por volta de 1530, quando Castilho, o grande inventor do edifício, com Boitaca, foi por sua vez substituído. Portal sul dos Jerónimos (fotografia JMF)Portal sul e corpo exterior do transepto (fotografia JMF)Portugal
  • 334 335CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3PortugalE – Uma súmula: significado(s) da obra dos JerónimosOs Jerónimos, destinado pela realeza, como obra sacra, a celebrar em primeiro lugar as Descobertas Portuguesas, e a do Caminho Marítimo para a India, por Vasco da Gama, especialmente (que foi seu pretexto e fundo significado), constituíram-se de facto na obra simbólica pretendida.Em termos mais estritos da sua arquitectura, porém, o conjunto de Belém é mais do que isso – definindo-se como um “agente transformador” da linguagem da sua (longa) época, sobretudo importante, nestes termos, na passagem do gótico final para a temática clássica – com a poética figurativa evocativa das viagens marítimas a servir de pano de fundo, ou de permeio, decorativo. Os Jerónimos constituem, em relação a estes aspectos, ao mesmo tempo uma reflexão, basicamente estrutural e espacial, sobre a essência mesmo da arquitectura portuguesa do tempo – na encruzilhada entre a retoma da tradição meridional-mudéjar, e a resistência às raízes centro-norte-europeias do gótico. Veja-se, em relação ao primeiro aspecto, a enorme “caixa” da nave eclesial, ao modo dos espaços pluri-vectoriais estáticos, sem eixo dominante, das mesquitas; e, no que toca ao segundo universo, o sentido verticalista e direccional, dinâmico, das proporções dessa mesma nave, expresso nos pilares e abóbada. F – O Manuelino, sua caracterização e compreensão Sendo o conjunto dos Jerónimos clara e plenamente inscrito no chamado estilo Manuelino - mais, constituindo mesmo a sua altaneira expressão, de máximo significado e sentido simbólico, em termos histórico-arquitectónicos, nacionais e mundiais - há que procurar descrever, caracterizar, definir detalhadamente e por items esse mesmo Manuelino, para melhor entender o conjunto arquitectónico que aqui se estuda.A época de transição do século XV para o século XVI – em plena relação e consequência com o apogeu do processo de intensa e rápida Expansão geográfica, marítima e comercial do País, com directas consequências políticas, sociais e económicas – permitiu em Portugal um forte surto de novas construções, e correspondeu necessariamente a uma profunda transformação dos seus sistemas artisticos, arquitectónicos e construtivos. O tempo quatrocentista tinha sido o do apogeu do Gótico, de forte componente centro e norte europeia (traduzida na verticalidade dos espaços, na procura da luz “escassa”, na geometria estrutural expressionista e dinâmica, no seu sentido direccional, telúrico e emocional). O Gótico em Portugal, em síntese simplificadora, ficou expresso num universo edificatório de clara dimensão urbana, que tinha tido no conjunto monástico de Alcobaça o seu dealbar (em 1178-1252 e no século XIV), e no mosteiro da Batalha o seu culminar (desde 1386-88 ao Século XVI).O “novo” Manuelino, na procura de um mundo em plena transformação de sentido e do conhecimento, gerado no quadro da profunda mudança geo-cultural e político-social referida, só poderia contestar, subverter esta situação de dominante goticizante – reinventando de uma maneira geral a arquitectura posta à disposição do poder real, e dos inúmeros e renovados programas religiosos, civis e equipamentais da época de D. Manuel, fosse no País ibérico, nas Ilhas Atlânticas e Marrocos, ou no Oriente.Por isso podemos falar, entre cerca de 1490 e aproximadamente 1530, de uma “desconstrução” do gótico, operada gradulamente em todas as frentes edificatórias portuguesas, pelo Manuelino - ou seja, é de referir. e caracterizar o paulatino abandono do gótico em prol de um regresso à tradição mediterrânea-meridional – “clássica”, – numa assunção de raiz tão nacionalista como aberta às influências externas – a qual foi feita por vários processos disciplinares específicos da arquitectura, em simultâneo: – Por via tipológica: nos programas sacros, fundamentais na época, em que o corpo único da nave única (e com a capela mor muito destacada), na arquitectura das igrejas, foi valorizado, seguido crescentemente como regra, em detrimento dos espaços mais complexos e “divididos” do gótico, com igrejas de várias naves e capelas; – Por evolução espacial: surge, como nave das igrejas, a chamada “caixa”, de proporções dominantes horizontais (contrariando a verticalidade do gótico), a qual passa a constituir uma “evocação” do que podemos denominar o “espaço-mesquita”, ou seja, um corpo principal de carácter estático e proporções atarracadas, ao modo das tradicionais obras das culturas meridionais e do Mediterrâneo; este tipo de espaços vinha assim propôr volumes simples, Postal de Lisboa, Torre de Belém
  • 336 337CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3Portugalclaros, abertos internamente, sem quaisquer eixos ou direcções sugeridas como “obrigatórias” – num regresso, de certo modo (embora com carga inovadora), às tradições propugnadas pelo mudejarismo, recuperando os temas moçárabes, mesclados da tradição islâmico-ibérica, que tantos séculos durou na Península;– Por “subversão” dos códigos funcionais vigentes no gótico: há nas obras do Manuelino uma “promiscuidade” anti-funcional, “misturando-se” as formas das diferentes soluções arquitectónicas, independentemente das suas funções; vejam-se os vários edificados que apresentam soluções análogas, como as igrejas com aspecto de fortaleza (as igrejas de torre centrada), ou os paços-palácios habitacionais que parecem fortalezas (Évora Monte), ou as infraestruturas cujos volumes estruturais usam os corpos cilíndricos análogos aos bastiões das fortificações; (imagem da p.336)– Pela expressão volumétrica assente na “geometria pura” (de raiz euclidiana, com tão antigo sedimento mediterrâneo), traduzindo uma atitude mais racional e serena, logo, procurando menos uma expressão emocional: de facto, surge uma nova racionalidade nos edifícios, pensados num todo como conjugação de volumes geométricos elementares, proporcionados e ritmados (paralelepípedos, prismas regulares e cubos, para os espaços principais, e cones, cilindros e semi-esferas para remates e torres) – formando um conjunto equilibrado de partes, e não já o “todo de continuidade plástica” do gótico, onde as linhas estruturais, que iam do chão aos tectos, eram indissociáveis do espaço, das formas lineares, curvas e complexas, e da luz;– Finalmente, pela nova e livre expressão decorativa – a ornamentação, que era no gótico sintética e una com a estrutura e a arquitectura das linhas estruturais, é agora “extripada”, excluída da estrutura e do próprio desenho arquitectónico, passando a justapor-se a este, como uma “pele” - e assim ganhando liberdade, e novas dimensões simbólicas, formais, figurativas, etc. (imagem da p.338)Foi Paulo Pereira que chamou a atenção para muitos destes aspectos do processo de criação do Manuelino (in História da Arte Portuguesa, 1995, vol.II, pp.58-59): ao referir as “características básicas” do novo gosto e “estilo” manuelino (aceite-se esta designação mais recente, inventada e proposta em 1842, pela historiografia do pleno Romantismo oitocentista, por Varnhagen), ele refere-as de modo sequencial e ordenador, que enumeramos, comentando:– As novas tipologias, com a preferencial planta de nave única, na arquitectura religiosa;– A justaposição de sólidos rectilíneos, na formação dos volumes construídos eclesiais;– A “rotação dos volumes” e a introdução dos “redondos” nas volumetrias dos novos edifícios;– O “achatamento” do perfil das abóbadas internas, na procura da proporção horiozontal, ligada ao cubo ou ao prisma da tradição construtiva meridional europeia;– A “decorativização” dos sistemas ogivais, valorizando do seu carácter ornamental (ou seja, anti-gótico), com as “nervuras curvas”, o aumento do número de nervuras secundárias, as “nervuras de combados” (abóbadas com anel, circulares, facilitando o referido achatamento), as abóbadas nervuradas “em rede e de aranhiço” – com as dos anos 1520 na nave dos Jerónimos;– A nova simbólica do espaço sacro – com o sistema de volumes construídos, articulados e separados, baseados em sólidos geométricos simples, permitindo a “racionalização do espaço interno”, com uma nova “unificação espacial”, a da nave única, que simbolizava de algum modo, em metáfora, a força da centralização política, gradual, do poder real/poder central, até chegar às igrejas-salão, cuja unificação espacial total valorizaria finalmente a capela mor, colocada no sentido direccional fulcral do espaço das igrejas (o que explica a nova capela mor dos Jerónimos) – embora, quanto a nós, este aspecto venha a ser já um tema da fase seguinte, renascentista, em abandono do sentido plurivectorial, “islâmico” e “liberto” do Manuelino; (imagem da p.339)– A “libertação do decorativo”, com a amplificação dos ornatos, que se tornam endémicos, podendo surgir em qualquer lugar da arquitectura, porque “soltos” das obrigações estruturais, arquitectónicas, assentes em sistemas de significação independentes, novos, “integrais e coerentes” (com motivos vegetalistas, heráldica, ciclos de escultura Torre de Belém (fotografia JMF)
  • 338 339CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3figurativa, etc), – geradores aliás, nesta dimensão algo “selvagem”, dos equívocos da existência dos motivos marítimos e exóticos: “Em grande medida, dada a sua profusão e riqueza, toda esta parafrenália ornamental é responsável pelos equívocos relativos ao ´exotismo´|orientalista| e ao ´simbolismo marítimo´ do manuelino que existem...sem verdadeiramente existirem” (Op. Cit., p.59).– Todos estes processos decorridos com grande penetração e influências externas, estilísticas, espaciais, técnicas, formais, desde Espanha, França, Inglaterra, etc – em amálgama com os indutores internos – em três grande vias: no Sul, por via do Midi, da Catalunha e do mudejarismo (Évora, Beja, Alvito, Arraiolos); no Centro, com Boitaca e Mateus Fernandes, e as influências do Languedoc, do mundo do norte europeu, inglês ou germânico (Caldas da Rainha, Batalha, Setúbal); e no Norte (com maior dominante tradicional, em que as igrejas de três naves persistem, provindas do gótico final, e em mistura com o Plateresco, trazido pelos mestres espanhóis, biscainhos, etc.(Caminha, Vila do Conde, Viana do Castelo, Viseu).Concluindo, podemos citar um texto anterior de súmula sobre o sentido do Manuelino. De facto, este estilo, sem deixar de se articular com as componentes que autores anteriores referiram (uma particular manifestação “flamejante e plateresca”; a dimensão de um “gótico final”, regional; a de um estilo de transição, mistura entre gótico e renascença; a de um “luso-mourisco” de gosto mudéjar; e ainda o entendimento como um “barroco atlântico”, decorativo e denso) - o Manuelino terá sido sobretudo, quanto a nós, “...na sua essência, um estilo experimental e inovador, intuitivo e prático, procurando na ´desconstrução´ da linguagem gótica em formas geométricas nítidas e elementares (cilindros, cones, pirâmides) o caminho para as novas regras e proporções de um renascimento nacionalmente entendido, - e, em simultâneo, foi um regresso ao mundo das formas ´claras e luminosas´ - cubos e esferas – da comum tradição meridional e mediterrânea (muçulmana e itálica a um tempo). Estilo afirmativo e ´festivo´(como referem Rafael Moreira ou Paulo Pereira), de um recente império marítimo, serviu-se de (e serviu) todos os programas (militares, civis, religiosos, equipamentais) para construir ou ampliar edifícios e cidades, nos diversos continentes |e ilhas| abrangidos. Excessivo (e ´ligeiro´) na decoração, soube porém deixar ver a limpidez das estruturas Conjunto da fachada sul da nave dos Jerónimos (fotografia JMF)O volume exterior do transepto dos Jerónimos (fotogrfaia JMF)que o suportavam, entre o formulário naturalista (cordames, algas, vels marinhas) e os volumes complementares (pináculos cónicos, ameias chanfradas, cilindros adossados às paredes.” (Fernandes, op. cit., 2006, p.48).Portugal
  • 340 341CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3G – A fase mais recente de edificações nos Jerónimos: ampliações, reconstruções, restauros, séculos XIX e XXCompletada no essencial a obra régia quinhentista em 1600, os séculos XVII e XVIII corresponderam nos Jerónimos ao seu enriquecimento decorativo, com azulejaria, talha, pintura, objectos e mobiliário. Sigamos a descrição por Rafael Moreira (Moreira, op.cit., 1987, pp.22-23). A título de exemplo dos novos contributos decorativos, destaquem-se os retábulos de talha joanina no cruzeiro (por Manuel do Couto e João Antunes, em 1709-1711), a redecoração da sacristia em 1713, e a prataria opulenta da capela mor e dos altares (por Manuel da Silva e Pedro Rodrigues, em 1728-31).Mas a fase seguinte será já de gradual e irreversível decadência, quer pela diminuição das rendas dos frades, quer pela menor atenção régia ao conjunto monástico. Nos inícios do século XIX, tinha de haver recurso ao aluguer de espaços, à venda de produtos de doçaria, e em 1807 estava parte da edificação ocupada pela tropa, sendo em 1833 finalmente extinta a ordem monástica, como sucedeu em todo o País. No edifício se instalou um instituto de educação de menores, a Casa Pia, continuando a depalidação dos bens e materiais artísticos do conjunto.Só a partir de 1859, com o provedor José Maria Eugénio de Almeida, se assume uma postura de recuperação e restauro do grandioso conjunto. Mas as opções foram surgindo desencontradas e deconexas, com ampliações, reconstruções e restauros ao longo de meio século, atravessadas pelo ruir de uma estrutura nova em obra, a meio do novo corpo poente, que provocou mortes. Mencionem-se obras e intervenções pelo francês Colson (em 1860), pelo inglês Samuel Bennet (em 1865), por Possidónio da Silva (em 1867) e Valentim José Correia (em 1864), e ainda pelo engenheiro Manuel Raimundo Valadas (1880-86), finalizando-se pela trágica obra dos cenógrafos Cinatti e Rambois (em 1874-78), que terminou tragicamente como referido – seguindo-se ao que se sabe uma intervenção de remedeio, com Victor Laloux, depois de 1896. Já no século XX, outras obras de restauro e/ou reconstrução se seguiram, mas gradualmente coerentes e controladas pela Direcção dos Edifícios e Monumentos Nacionais, criados pelo Estado nos anos de 1920. O conjunto, muito modificado mas também dignificado, alberga hoje museus e outras instituições culturais, estando inscrito com Património da Humanidade pela UNESCO.PortugalBIBLIOGRAFIABelém – Rua Vieira Portuense 1875-1984 (por José Correia, Rui Alves e Teresa Rodeia, trabalho realizado sobre o tema “Transformações de um espaço urbano no tempo”, no âmbito da disciplina História da Arquitectura 2º.ano, do Departamento de Arquitectura da ESBAL, policopiado, Lisboa, 1983-1984)Belém 1807-1983 (por Carlos Matos, Paulo Gonçalves e Pedro Santos, trabalho realizado sobre o tema “Transformações de um espaço urbano no tempo”, no âmbito da disciplina História da Arquitectura 2º.ano, do Departamento de Arquitectura da ESBAL, policopiado, Lisboa, 1983-1984)Belém – Cerca dos Jerónimos 1572-1925 (por Cristina Camacho, Micaela Vieira e Luís Braga, trabalho realizado sobre o tema “Transformações de um espaço urbano no tempo”, no âmbito da disciplina História da Arquitectura 2º.ano, do Departamento de Arquitectura da ESBAL, policopiado, Lisboa, 1983-1984)Carvalho, Artur Marques de, Do Mosterio dos Jerónimos, Imprensa Nacional – Casa da Moeda, Lisboa, 1990Fernandes, Arquitectura Portuguesa – Uma Síntese, Imprensa Nacional – Casa da Moeda, Lisboa, 2000, 2006, pp. 47-49 e 77-78Moreira, Rafael, “Arquitectura: Renascimento e Classicismo”, in História da Arte Portuguesa (dir. Paulo Pereira), Círculo de Leitores, Lisboa, 1995, Volume II, pp.303-364Moreira, Rafael, Jerónimos, Verbo, Lisboa, 1987Pereira, Paulo, “As Grandes Edificações (1450-1530)”, in História da Arte Portuguesa (dir. Paulo Pereira), Círculo de Leitores, Lisboa, 1995, Volume II, pp.10-113José Manuel Fernandes (arquitecto)O sub-capítulo “A” deste texto serviu de base ao início do texto “Histórias(s) do lugar de Belém - Urbanismo e Arquitecturas”, in “Museu Nacional dos Coches”, ed. Uzina Books, Lisboa, 2015, pp.11-16
  • 342 343CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3PORTOTexto de Paula AbrunhosaCENTRO HISTÓRICO DO PORTO: LEITURA EM TRÊS ANDAMENTOS1. Tema: Terra pitoresca, o Porto“… dei uma volta pela cidade, que julgo ser, nas suas dimensões, a mais pitoresca do mundo. Há pequenos burgos acastelados em Espanha e na Itália, de composição talvez mais fantásticas, mas não têm a variedade que a vastidão do Porto oferece, nem um rio correndo entre muralhas de penedos (…), nem a proximidade do mar sempre agitado, que além de lhe alargar o horizonte humedece-lhe a atmosfera, repassando-a de tons de pérola mimosíssimos.Em certas manhãs os efeitos da neblina são incomparáveis; erguem-se muito mais alto os montes em que a cidade assenta; as igrejas, os edifícios públicos, tomam proporções colossais, dominados pela Sé e pelo palácio episcopal (…); o movimento nas pontes é de monstruosos vultos; em baixo, no rio (…) os barcos “rabelos”, com as suas formas estranhas, as arrogantes proas de combate, dir-se-ia saídos do espectaculoso cenário de alguma epopeia (…). A Torre dos Clérigos, recortada e enfeitada como um desmedido círio de fabulosa romaria, assoma ao cimo da rua íngreme, ameaçando despenhar-se por ela abaixo, entre os rolos da névoa que a enchem. […e numa] atmosfera de suaves cambiantes se atenua a rudeza do granito escuro das construções”.Manuel Teixeira Gomes, Regressos [1893]Porto Antigo, óleo sobre tela de António Cruz (1957).fotografia de Guilherme Carmelo © António Mota
  • 344 345CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3 A 5 de Dezembro de 1996, na cidade de Mérida, no México, a Unesco classificou o Centro Histórico do Porto Património Cultural da Humanidade, considerando-o uma “obra-prima do génio criativo do Homem […] única no seu género e de elevado valor estético”. Foi o reconhecer do valor histórico, artístico, cultural e arquitectónico do coração da cidade. Foi o sublinhar do significado e da relevância da aventura de muitas existências que,num esforço milenar de contínua conquista, ajustamento e apropriação de um sítio naturalmente belo, souberam edificar, entre as escarpas de um morro e as margens de um rio inquieto na sua vontade de mar, uma cidade com uma identidade genuína e autêntica. O Porto, situado na região norte de Portugal, transporta no seu nome ecos do ancestral império romano que ao sublinhar a essência do portus, de ligação entre a Lusitânia, a sul do rio, e a Galécia, a norte das suas margens, haveria de condicionar a toponímia do aglomerado existente na foz do rio Douro. Nele se alicerçou a disputa do território entre reino de mouros e de cristãos e de nome de burgo passou a nome de toda uma região, cuja designação selaria a origem onomástica do mais velho país da Europa, considerando a actual autonomia política e delimitações fronteiriças. A localização geográfica da cidade, no encontro de várias directrizes, marcou o seu desenvolvimento e permanece como factor estruturante da sua área de influência: centro litoral de uma extensa e populosa metrópole, cruzamento do eixo norte-sul do país, cais de desembarque para as gentes e bens do interior, porta de acesso para o Atlântico e para a Europa. A área classificada, parte integrante da cidade do Porto, compreende o conjunto formado pelo tecido urbano de matriz medieval, traçado no interior das muralhas do século XIV, ditas fernandinas, hoje praticamente desaparecidas. Salvaguardada de intrusões e mantendo um carácter uniforme demarcado entre uma profusão de realizações construtivas e urbanísticas corresponde à zona mais antiga da cidade. A área delimitada pela Unesco prolonga-se pela Ponte D. Luís I, da autoria de Théophile Seyrig, discípulo de Gustave Eiffel, e envolve o Mosteiro da Serra do Pilar, uma curiosa e original estrutura circular, fundada no século XVI, que apesar de situada na margem esquerda, e, portanto, em terras de Gaia, remata requintadamente os limites da área classificada. Lugar de contemplação e bastiãodefensivo de guerras passadas continua a oferecer, na sua altaneira posição, um olhar privilegiado sobre o Porto. Pelas afinidades históricas, arquitectónicas e paisagísticas com a zona classificada, foi criado ainda um anel de protecção que, a sul, mas à cota inferior, abrange a zona ribeirinha de Gaia com toda a bacia dos armazéns do Vinho do Porto; a norte, pela qualidade e carácter homogéneo da sua arquitectura, o conjunto da Avenida dos Aliados e quarteirões periféricos da Praça de Carlos Alberto e do Jardim do Carregal; a nordeste, a zona envolvente alcança o Hospital de Stº António; a nascente, a encosta das Fontainhas e dos Guindais, com inclusão de uma faixa nas imediações da Praça da Batalha; a poente, a Alfândega e o Vale das Virtudes. Esta orla protectora, resultante da expansão da cidade nos séculos XVIII, XIX e XX, com intrínseca qualidade estética, enquadra e enaltece o valor cenográfico e o sentido histórico do núcleo mais antigo.PortugalPlanta do Centro Histórico do Porto Património Mundial:área classificada e área de protecção.Porto Vivo - SRU
  • 346 347CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3 De facto, sobranceiro ao rio Douro, o Centro Histórico do Porto proporciona um cenário de pictórica e quase irreal fantasia, onde diferentes sentidos e linguagens, a convocar épocas passadas, se harmonizam e materializam numa miríade de formas. Na linha do horizonte, recortam o perfil inconfundível de um aglomerado urbano esculpido em rendilhada filigrana e suspenso, em imponderável equilíbrio, sobre os declives de um terreno altivo e duro. O casario, em permanente e subtil diálogo com a luz que o envolve e reflecte, cria uma imagem intemporal, fundida de sonho e matéria, que deslumbra e inspira. Uma tela de cativantes matizes a exigir reverencial contemplação. Uma unidade feita de diversidades ligadas por um sentir comum, onde um olhar mais atento cedo descortina as marcas populares, as influências italianas nos recortes barrocos da sua silhueta, os traços neoclássicos de herança inglesa ou a férrea e monumental presença da escola francesa que os tempos modernos trouxeram à arquitectura da urbe. Sobreposição de estilos e de formas a denunciar metamorfoses impostas pelo passar do tempo, habilmente ajustadas entre os interesses do colectivo e os recursos naturais à sua disposição. A distância imprime ao quadro uma dissimulada quietude, traída a cada instante pelas constantes mutações impressas pela cor que o rio ou a atmosfera lhe imprime. A cada aproximação pressente-se um constante e apressado pulsar de vida ritmado pela azáfama das gentes que o percorrem, pelas pontes e pelo Douro, que, na estreiteza do seu leito, convida a abraçar e nos insta a percorrê-lo. Para passar à condição de personagem basta abandonar-se ao ritmo de passos que, subindo ou descendo ruas mais ou menos tortuosas, recompensam o esforço e a coragem com surpreendentes paisagens colhidas de varandas que tanto se abrem sobre o rio como acolhem a imponência das colinas. E para que o desígnio da cidade se cumpra há que explorar cantos e recantos, desvendar enigmas, desta e doutras épocas, criar cumplicidades, degustar paladares e descobrir aromas, tentar ir para além da face visível, procurar-lhe um sentido, criar uma narrativa pessoal. A proposta de vade mecum que se segue, foi construída a partir de uma impressão da cidade, de uma leitura com sotaque, cinzelada entre a história dos seus construtores, as palavras dos seus escritores, as imagens dos seus pintores e temperada pelo afecto e pelo orgulho de quem nela nasceu, de quem nela habita, pois, seguindo as palavras de Sophia de Mello Breyner “é o lugar onde para mim começam todos os maravilhamentos e todas as angústias”.Vista panorâmica da cidade do Porto.fotografia de Rita França. © IIM Portugal
  • 348 349CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 32. Desenvolvimento: de burgo e couto de bispo a património do mundo “[O Porto] não nasceu dum desejo sedentário ou duma manifestação de glória. Aconteceu comoum punho que se abriu ao contacto dos dias” Agustina Bessa-Luís, O Porto em vários sentidos (1998) Com uma existência milenar, a cidade foi acontecendo. Assistiu a muitos momentos de confronto e disputa, padeceu com as tragédias que se abateram sobre as suas gentes, celebrou outras tantas glórias e assumiu derrotas, mas o granito que lhe molda a forma e o carácter preservou-o de grandes cataclismos naturais. Não sofreu terramotos nem incêndios devastadores e nem mesmo as guerras que a atravessaram lhe destruíram o tecido edificado ou desestruturaram o território. Por isso, a cidade, terra essencialmente votada ao comércio e orgulhosamente burguesa, foi-se inventando e recriando a partir do seu núcleo fundador. E quando os tempos o exigiram, expandiu-se e soube crescer. Sempre aberta ao mundo, todavia, sem abandonar a conquista diária pela afirmação da singularidade que lhe é própria, formada no curso da sua história.E no princípio era o rio…[VIII a.C. – séc. XII] Remontam ao séc. VIII a.C. os primeiros vestígios de ocupação humana do local onde actualmente se situa a cidade do Porto, junto à foz do rio Douro. Uma praça fenícia aqui se teria estabelecido explorando a navegabilidade do rio e a proximidade do mar. A romanização cristalizou no nome da civitas a sua essência de Portus. Seriam, no entanto, os povos bárbaros a transformá-la num centro administrativo e comercial. Depois deste século, o V da era cristã, sucederam-se tempos de pilhagens e ataques por parte de suevos, visigodos, normandos e mouros. Eras conturbadas e indefinidas redimidas por ventos de Reconquista que lhe devolveriam uma importância estratégica na luta contra os Infiéis. No movimento das presúrias ou do repovoamento do território portugalense emergirá a figura de Vímara Peres, vassalo de D. Afonso III, rei das Astúrias, Leão e Galiza. Em 848 restaura a cidade e torna-se Conde de Portucale. No século XI, o rei de Castela, Toledo e Leão, D. Afonso VI, considera-a seu território e a passagem dos cruzados ingleses, teutónicos e bretões, em 1147, contará com o incitamento do seu Bispo, D. Pedro de Pitões, e o apoio da sua população, para se aliar a D. Afonso Henriques na conquista de Lisboa. Os destinos do reino em formação fundem-se com o nome da terra que acolhe agora dois centros bem diferenciados, contudo determinantes na definição das coordenadas que viriam a marcar o seu crescimento e expansão: no ponto mais elevado, em torno de um edifício religioso, mais ermida Vista panorâmica da cidade muralhada com sinalização dos principais edifícios religiosos; gravura de H. Duncalf e William Toms (1736). AHMP - ID 428342-0001Portugal
  • 350 351CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3que catedral, erguida no alto da Pena Ventosa, acolhe-se um núcleo populacional dominante, protegido por uma remota cerca, velha na memória do burgo, também dita românica ou sueva, e, junto ao rio, no ponto de passagem entre margens, no cais de embarque e desembarque, um núcleo dependente da actividade piscatória. A chegada do bispo D. Hugo, em 1114, iniciara o processo de transição da jurisdição da cidade para o domínio eclesiástico, consolidado pela carta de foral que este lhe concede em 1123. Humilde e diminuta, estava contida numa área muralhada de aproximadamente 4 hectares cujo traçado urbano permanece desconhecido, ainda que seja possível redesenhar o circuito dessa cerca primitiva, erguida sobre anteriores alinhamentos defensivos e entrecortada por 4 portas: de Sant’ Ana; da Mentira, depois Porta da Verdade; a de Nossa Senhora da Vandoma, a principal; e a Porta de S. Sebastião. Uma urbe com um senhor, uma sé e muralhas, a alimentar ânsias de crescimento. Vista panorâmica da Sé Catedral do Porto.fotografia de Rita França. © IIM Portugal
  • 352 353CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3 A época contemporânea celebrou o feito de Vímara Peres com a estátua equestre erguida junto à Sé Catedral, mas de todo este período pouco mais nos resta do que o troço das muralhas situado na esquina da Calçada da Vandoma com a Avenida Vímara Peres e alguns vestígios incorporados nas fundações de casas antigas, como no nº 5 da Rua Dom Hugo, antiga sede da Secção Regional Norte da Ordem dos Arquitectos, nas traseiras Da mui nobre e leal cidade…[séc. XII – séc. XIV] As isenções e regalias concedidas à povoação pelo foral contribuíram para um rápido crescimento do burgo episcopal, já que o domínio régio se exercia na mais sombria e recém-conquistada povoação da margem esquerda do Douro, Vila Nova de Gaia. E a cidade avançava ultrapassando as disputas entre igreja, município e coroa, apropriando-se de campos e olivais para acolher os seus habitantes, estreitando a ligação entre a cidade da capela-mor da Sé, onde escavações arqueológicas também vieram confirmar estratigrafias antigas, igualmente documentadas na ribeirinha Casa do Infante. A primeira, no seu estilo gótico-flamengo e a segunda, a primeira casa da alfândega do Porto, constituem elas mesmas testemunhos do período que conduz ao extravasamento dos primeiros muros da cidade.muralhada e a zona portuária extra moenia, assistindo, enfim, ao florescimento da sua classe mercantil, com prósperas ligações aos países nórdicos, com a Inglaterra, a França e a Liga Hanseática. Daqui sairá, aliás, Afonso Alho para firmar o primeiro tratado comercial anglo-luso. A cidade organiza-se administrativa e urbanisticamente, impondo a construção de nova cerca para atenuar vulnerabilidades e unificar a população. Iniciada “Burgo velho” segundo a Planta do Porto Medieval. AHMP - ID 52888Vista panorâmica nocturna do centro histórico do Porto.fotografia de Rita França. © IIM Portugal
  • 354 355CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3por D. Afonso IV e concluída durante o reinado de D. Fernando, em 1376, erguia-se em panos maciços, com 10m de altura, guarnecidos de ameias e cubelos, reforçados por torres quadradas e rasgados por um total de 17 portas e postigos. Imponentes, as muralhas ampliavam os limites da cidade para 44,5 hectares, envolvendo a área correspondente às freguesias da Sé, S. Nicolau e Vitória. Do apoio a D. João I e à causa de Aviz contra as tropas e ambições de Castela sobre o trono português, o Porto herda a distinção de mui nobre e leal cidade. Obtém o privilégio de receber casamento real e de ser berço de Infante, D. Henrique, o Navegador, nascido na Casa que hoje o invoca e que o burgo honrou abraçando o seu sonho de descobridor. Aqui se faziam muitas e boas naus, mais que em outro lugar que no reino haja, regista Fernão Lopes na sua Crónica de D. João I. Daqui partiram as que por destino tinham conquistar Ceuta e que os habitantes do burgo, numa altruísta privação que saber e arte transformará em iguaria e orgulhosa alcunha, encheram com as carnes guardando as tripas das reses para seu alimento. Com a abertura da Rua Nova, apelidada de sua rua Formosa por D. João I (hoje Rua do Infante D. Henrique), definida entre a Rua dos Mercadores e o Convento de S. Francisco, o Porto adornava-se com uma sala nobre condigna da nova entrada principal da cidade, a Porta de Miragaia. Em tempos mais pacíficos e com um emergente mercado marítimo e fluvial, a velha porta da Vandoma e a Sé cediam o protagonismo à zona ribeirinha. O novo e bem mais amplo traçado da urbe, seguia paralelo ao rio, acolhendo a Igreja de S. Nicolau (que viria a ser reconstruída no século XVII), os Armazéns Reais, a Casa da Moeda e futura Alfândega, assim como diversas casas senhoriais, em clara antecipação do sentido dos grandes eixos viários de ligação ao exterior que outras eras iriam concretizar em larga escala, obedecendo a outros modelos de crescimento e enriquecimento da cidade. Por determinação régia, os nobres encontravam-se impedidos de ter casa ou residir por mais de três dias na cidade, sancionando o desejo tornado consciente de liberdade e independência. Um direito, aliás, que o município manterá vigente até 1509 e que será também a razão da escassa presença de casas nobres no interior do perímetro muralhado do Porto. A muralha sobreviverá intacta até ao final do século XVIII, sendo actualmente escassos os vestígios que resistiram à voracidadedemolidora em nome de prementes ânsias de renovação urbana. Persistem os panos localizados nas escarpas dos Guindais, no troço das Virtudes e nas escadas do Caminho Novo, em Miragaia, assim como a única passagem de serventia, o Postigo do Carvão, na zona da Ribeira, voltado para o rio. E se a moradia situada no Beco dos Redemoinhos, a Casa-torre do Barredo e a Casa-torre da Reboleira ou a Casa da Moeda se convertem em testemunhos vivos de um passado distante, na Sé Catedral, realização fundadora e prova real que os construtores da cidade também souberam fundir e sobrepor novos tempos a velhas estruturas, sobrevive o claustro gótico e a rosácea que rasga a austera e poderosa fachada.Pormenor da Muralha Fernandina (Guindais).fotografia de Rita França. © IIMFachada da Casa do Infante: lápide comemorativa do nascimento de D. Henrique. Portugal
  • 356 357CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3Sob a protecção da muralha e da Coroa…[séc. XV-séc. XVII] Com o senhorio do burgo a ser transferido da Mitra para a Coroa, a época moderna, entre o século XV e finais do século XVII, regista o paulatino reconhecimento da importância do município. O Porto acentua o seu carácter de terra de mercadores e de aventureiros, como Pero Vaz de Caminha, companheiro de viagem de Pedro Álvares Cabral e cronista do achamento das terras brasileiras, ainda que a toponímia retenha o quanto de ruralidade o burgo continua a manter no acanhamento das suas muralhas. A Porta de Carros, que o então distante século XIX viria a eleger para assinalar o lançamento de um novo centro cívico, estabelecia a ligação com a estrada para Guimarães; a Porta do Olival, com a de Braga; a Porta de Cimo de Vila anunciava o caminho para Penafiel; a Porta do Sol para Entre-os-Rios; a Porta de Miragaia orientava-se em direcção à Foz e a Bouças. Intra e extramuros, a população ia aumentando, gerando novos aglomerados e esboçando vias de expansão futura. A solidez da muralha transforma-a em esqueleto e sustentação para o casario que se ergue agora ancorado em ambos dos seus lados. Paradoxalmente, nos nossos dias, a configuração das Ruas de Trás e dos Caldeireiros assegura a sua fantasmagórica presença, pois ao absorver a sua matéria e perpetuar o seu traçado cristalizou o momento em que esta deixou de cumprir a sua função de origem. Entre a zona alta e a zona ribeirinha abrem-se novas ruas e pracetas, bem contrastantes com o sinuoso emaranhado de traçados estreitos e tortuosos de herança antiga. Entre elas destaca-se a Rua das Flores, em terrenos pertencentes às hortas do Bispo e paralela às margens do rio da Vila, que se torna uma das principais e mais elegantes artérias da cidade. Localizada na vizinhança da sinagoga da Vitória, agora acolhida no interior da cerca, vem desaguar à animada Praça de S. Domingos, fronteira de homónimo convento, o mais antigo da cidade, fundado nos primórdios do século XIII. Será esta rua a eleita para a construção de novas moradias por iniciativa de nobres e burgueses endinheirados que assim nos legaram a Casa dos Constantinos, do século XVI, ou a Casa dos Cunhas Pimentéis e a Casa dos Maias, ambas datadas do século XVII. O engrandecimento da escala dos edifícios, civis e religiosos, confirma a prosperidade do burgo. E se os palacetes, como o dos Condes Representação da cidade do Porto e da Barra do Douro por Pedro Teixeira Albernaz (1634).in La Descripción de España y de las costas y puertas de sus reinos, 1634. A Editorial Nerea tem publicada uma versão facsimile. Perspectiva da Rua das Flores. fotografia de Rita França. © IIMPortugal
  • 358 359CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3ou redireccionamento de funcionalidade: o mencionado convento de S. Domingos, sofreu várias vicissitudes, mas chegou a ser um importante local de reuniões públicas e de comércio; severamente afectado por um incêndio, em 1832, nele se estabeleceu o Banco de Portugal; foi sede da primeira contrastaria da cidade; acolheu posteriormente a extinta Companhia de Seguros Douro e depois de uma recente requalificação da sua estrutura arquitectónica reconverteu-se num espaço criativo e multifuncional gerido pela Fundação da Juventude. Das antigas lembranças conventuais resiste o topónimo e uma bela fonte pertencente à sacristia, colocada agora junto ao gradeamento do jardim público mais antigo Igreja dos Carmelitas Descalços e Igreja de Nossa Senhora do Monte do Carmo. fotografia de Rita França. © IIMPerspectiva da Rua das Flores.fotografia de Rita França. © IIM vindouros souberam enaltecer. São disso exemplo as igrejas de S. João Novo, de S. Lourenço (conhecida pelo vulgo como dos Grilos e um dos raros exemplos de arquitectura maneirista no Porto), de Stª Clara, dos Carmelitas ou de S. Bento da Vitória. Porém, o laicismo que norteou ímpetos liberais esvazia os conventos condenando as estruturas arquitectónicas remanescentes a sortes bem diversas, desde a radical demolição ou abandono até à reutilização de Azevedo, e as casas senhoriais começam a ganhar visibilidade na malha construída, os conventos e mosteiros que vêm instalar-se nas suas cercanias, indicam o quão fervorosamente devota permanece a sua população. Invariavelmente edificaram igrejas que os séculos Portugal
  • 360 361CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3da cidade, o Jardim Marques de Oliveira, conhecido pelo vulgo como Jardim de S. Lázaro. Este espaço é fronteiro ao extinto Convento de Stº António, obra já do século XVIII, edifício onde se encontra instalada a Biblioteca Pública e Municipal do Porto, entidade que o chegou a partilhar com a Academia Portuense e o primeiro museu público de arte do município e do país, fundado em 1833, sob o ímpeto liberal de D. Pedro. Retome-se então o ponto de partida desta cronologia: o Convento de S. João Novo serve, nos nossos dias, o Tribunal de Instrução Criminal do Porto; o mosteiro de Stª Clara acolhe um centro de saúde e outras instituições de cariz social e público; o da colegiada de S. Lourenço, depois de ter sido convertido em aquartelamento, regressou à tutela de entidades religiosas, nele residindo presentemente o Seminário Maior da Sé do Porto; o Convento dos Terceiros Carmelitas Descalços está ocupado pela Guarda Nacional Republicana, enquanto nada resta do extinto Convento feminino de S. José e Santa Teresa das Carmelitas Descalças, construído na sua proximidade durante o início do século XVIII, e que viria a desaparecer para em seu lugar nascer, com o seu nome, no início do século XX, um moderno e elegante quarteirão; o Mosteiro de S. Bento da Vitória fragmentou-se entre as instalações do Arquivo Distrital do Porto e uma valência do Teatro Nacional de S. João; o da Congregação dos Padres Lóios, situado junto à Porta de Carros, depois de ser palácio, o das Cardosas, apresenta-se aos nossos dias como hotel de luxo; o mosteiro das freiras de S. Bento da Avé-Maria seria demolido para dar lugar à também moderna Estação Central do Porto ou Estação de S. Bento, da autoria do arquitecto Marques da Silva, que, com um átrio recoberto de impressivos azulejos de Jorge Colaço, foi recentemente considerada uma das mais belas do mundo. Nos arrabaldes de Miragaia edificara-se também, por iniciativa privada, o convento da Madre de Deus de Monchique, mas ainda que dele subsistam apenas as ruínas, sobreviverá no tempo com a memória resgatada de um Amor de perdição, saído da pena de Camilo Castelo Branco.Biblioteca Pública e Municipal do Porto.Porto visto do Convento de Freiras de S. Bento, numa gravura de G. Vivian (1839).© Rodrigo MeirelesIgreja dos Congregados com a Estação de S. Bento à direita.fotografia de Rita França. © IIMPortugal
  • 362 363CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3Entre italianos, ingleses e pipas de vinho do Porto…[séc. XVIII] O decurso do século XVIII vai ficar marcado pela entrada em cena de personagens determinantes e incontornáveis para a definição e afirmação da imagem simbólica, arquitectónica e urbana da cidade: Nicolau Nasoni, os Almadas, pai e filho, e o vinho do Porto. Enquanto o ouro brasileiro impulsiona as pretensões absolutistas e doutrinárias de D. João V, o interior das igrejas portuenses reveste-se de refulgente talha dourada. Este é o tempo de construção do Porto Barroco e o seu principal artífice será Nicolau Nasoni, o autor do ex libris da cidade, conjunto formado pela Torre e Igreja da Irmandade dos Clérigos, sua magna obra e local onde repousam os seus restos mortais. Este pintor-decorador italiano que a prática fez arquitecto, radicado na cidade entre 1723 e 1773, desenvolveu uma ampla e intensa actividade ao serviço dos fervores católicos e idiossincrasias das elites portuenses. A lista de obras projectadas de raiz ou por si intervencionadas é vasta: bastaria citar, para além da majestosa torre, estrategicamente posicionada na cota mais elevada da cidade de então e curiosamente utilizada pelo Abade António da Costa, em 1750, para explicar o que é um teatro de ópera aos seus conterrâneos; as importantes intervenções na Sé Catedral, com a concepção da galilé; Planta geográfica da barra da cidade do Porto de Teodoro de Sousa Maldonado e primeira com representação da Torre dos Clérigos (1789).Gravura antigaPortugal
  • 364 365CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3o magnificente Paço Episcopal, um dos palácios mais grandiosos da cidade; a fachada da Igreja da Misericórdia ou a Igreja da Ordem do Terço; a casa do Despacho da Ordem Terceira de S. Francisco; a capela da Casa dos Maias; o risco da exuberante Igreja da Ordem Terceira de Nossa Senhora do Carmo, em claro contraste decorativo com a sua vizinha Igreja dos Carmelitas; o retábulo na Igreja de St. Ildefonso, ou, mesmo já fora da área classificada, a Igreja do Recolhimento dos Orfãos de Nossa Sr.ª da Esperança. Para além da arquitectura de carácter religioso, Nasoni desenhou a Fonte das Lágrimas e o chafariz de S. Miguel, duas das várias que a cidade veria nascer, inseridas numa acção mais vasta de higienização e canalização das serventias de água da cidade. Afastados que estavam éditos de interditação aristocrática, deixou-nos o traço da actual Casa-Museu Guerra Junqueiro, lugar de celebração da memória do poeta, mas inicial palacete para residência de abastado cónego, e, ainda que fora do âmbito do centro histórico mas de nomeação obrigatória, o Palácio do Freixo, o Palácio da Bonjóia, a Casa de Ramalde e a esotérica Quinta da Prelada. Bem para além das fronteiras imediatas da cidade, projectou para Gaia, Matosinhos, Maia, Trofa, Vila Real e Lamego. Nicolau Nasoni renovou perspectivas, introduziu novos conceitos de volume e luminosidade e, sobretudo, revelou uma capacidade ímpar para tirar partido da topografia distintiva da cidade, estabelecendo com ela um diálogo íntimo e potenciador do efeito Vista panorâmica com a Torre dos Clérigos em destaque.fotografia de Rita França. © IIMPortugal
  • 366 367CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3cénico inerente à sua visão artística e linguagem arquitectónica. Soube imprimir um cunho indelével na fisionomia da cidade transformando-a no teatro que pouco tardaria a chegar. Este febril afã construtivo de setecentos não se esgota, porém, nas obras do mestre italiano, tanto no que se refere à arquitectura religiosa, com a construção da Igreja dos Ferreira Alves, foi erradamente atribuído a Nasoni pois, apesar das semelhanças de estilo, se trata de uma obra da autoria de António Pereira; o Palacete de Belomonte, mandado erigir pela família Pacheco Pereira; a Casa dos Sousa e Silva, na Rua das Flores; e a enigmática Casa das Sereias, a esconder tragédias familiares e hoje propriedade de freiras Canossianas Missionárias. Durante a segunda metade do século, o Porto assistiria à adopção de uma nova estratégia urbana, à implementação de uma nova praxis justificada pelo ideário iluminista, formalmente influenciada pelo código estético neopaladiano e possibilitada pelo suporte político e legislativo do sistema pombalino de governação. A personificar e tornar exequíveis estas mudanças conceptuais e estruturais figura João de Almada e Mendonça, primo do Marquês de Pombal, chegado à cidade em 1757 para assumir o cargo de Governador das Armas e do Partido do Porto e silenciar as reivindicações da insubmissa segunda capital do reino, num momento em que o Porto estava obrigado a construir-se e reconstruir-se dentro de si mesmo. A forte dinamização da actividade comercial, a inserção regional e a intensificação dos contactos com o estrangeiro, nomeadamente através do Tratado de Methuen - o Tratado dos Panos e do Vinho assinado em 1703 - tiveram como consequência um acentuado crescimento demográfico e favoreceram a fixação de comunidades estrangeiras, com particular relevância para a inglesa, expondo as insuficiências da arcaica estrutura urbana medieval que se ia tornando obsoleta em detrimento da necessidade de integração dos aglomerados de Santo Ildefonso, Cedofeita, Massarelos e Miragaia. Com a fundação da Junta das Obras Públicas em 1758, organismo financiado por impopulares impostos, João de Almada e Melo estabelecia a estratégia - continuada posteriormente pelo seu filho e sucessor, Francisco de Almada e Mendonça - capaz de concretizar uma transformação urbana sustentada numa concepção unitária da cidade. Um novo e pioneiro conceito urbanístico assente num plano de expansão de tipo radial, coordenado por um sistema de eixos transversais de ligação, articulado por pracetas e artérias secundárias, cujo núcleo era a Praça da Ribeira. O plano de renovação da Praça, concebido em colaboração com John Whitehead, tinha por modelo a Praça do Comércio de Lisboa. O projecto nunca chegaria a ser plenamente implementado, com posteriores adulterações que lhe quebraram o sentido. Como seu testemunho mantém-se a monumental fonte em granito, a norte. Os melhoramentos da área antiga pretendiam desafogar a circulação e providenciar melhores condições de higiene e salubridade pública, complementados pelo ordenamento das zonas adjacentes às muralhas e pela redefinição das principais vias de acesso. Condicionando os interesses do particular às necessidades do colectivo a cidade foi reordenada, alargada e enobrecida respeitando normas previamente definidas: rasgam-se ruas como a de S. João e do Almada, define-se o eixo da Rua de Stª Catarina e da Rua de Cedofeita; estabelece-se uma nova relação com o rio exaltando a função panorâmica de alguns espaços urbanos como Congregados, do lado exterior do muro, da Igreja de Nª Srª da Vitória, o curioso nicho de Nossa Senhora da Silva, escondido na Rua dos Caldeireiros, ou mesmo da Casa do Cabido, num simbólico sublinhar do poder da Igreja; quanto no âmbito da habitação, com implantação de novos palacetes nas zonas nobres da cidade: o Palácio de S. João Novo, que, segundo Jaime Vista panorâmica com a Igreja de S. Bento da Vitória e a Cadeia da Relação Pública.fotografia de Rita França. © IIM Portugal
  • 368 369CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3a alameda das Virtudes, onde se pode apreciar a casa dos Pinto Meireles (sede da Cooperativa Árvore), o passeio das Fontainhas e a alameda de Massarelos; inicia-se, por fim, o processo que iria ditar a gradual e sistemática demolição das muralhas fernandinas. A antiga estrutura defensiva do Porto, desajustada e desadequada ao quotidiano de uma população que há muito a extravasara, era agora utilizada como matéria-prima para a construção da “nova” cidade, servindo de escoramento de casas, expositor de produtos de feira e mesmo nicho de pedras para a edificação dos grandes equipamentos públicos. A partir de 1787 destroem-se áreas significativas, como é o caso do pano situado entre a Porta de Cimo de Vila e a Porta do Sol. Aqui se inaugura, em 1798, o Teatro do Príncipe, depois designado Real Teatro de S. João, de Vincenzo Mazzoneschi, o primeiro construído de raiz na cidade, violentamente destruído por um incêndio em 1908 e hoje substituído pelo actual Teatro de S. João, com traço do já referido arquitecto portuense, José Marques da Silva e recentemente restaurado; ou o edifício vizinho, originalmente arquitectado por Réginal Oudinot para acolher crianças desvalidas mas que, sem nunca cumprir a funcionalidade para a qual fora criado, acolheu durante muitos anos o Governo Civil, preparando-se agora para uma nova vida depois de um pesado abandono. Apesar de nunca se integrarem profundamente na sociedade portuense, os ingleses contribuíram e influenciaram de forma decisiva o desenvolvimento futuro da cidade fornecendo modelos de costumes e gostos que a aristocracia e a burguesia locais mimetizaram. Paradigma deste contágio por via britânica será o perfilhar de linhas neoclássicas na construção dos novos equipamentos públicos, com o próprio John Whitehead, o influente cônsul inglês, a assinar o projecto da Casa da Feitoria, local de reunião dos homens de negócio ingleses residentes no Porto, construída em estilo neopaladiano sobre terreno cedido pelo Senado da Câmara, na Rua Nova que por essa razão chegará a ser temporariamente denominada Rua Nova dos Ingleses, antes de fixado o nome de Rua do Infante D. Henrique. Consentâneos com a nova morfologia urbanística, os novos e monumentais edifícios vão traduzir a influência estilística e colocar-se em pontos estratégicos de crescimento da cidade. Para além dos que se encontram na zona de muralha demolida refiram-se ainda: o Hospital de Stª António, encomendado a John Carr, arquitecto de York, sem que este alguma vez chegue a conhecer o local de implantação do projecto e cuja desadequação ao terreno, propriedade da Misericórdia, impedirá a sua plena realização; a Escola Médico-Cirúrgica, hoje Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar; e o edifício concebido para a Academia Real de Marinha e Comércio, na actual Praça Gomes Teixeira, onde se encontra instalada a Reitoria da Universidade do Porto. Este projecto da autoria de Carlos Amarante, que também realiza para a freguesia da Vitória a Igreja de S. José Portugal“Planta Redonda” da cidade do Porto, de George Balck (1813). AHMP - ID-ALB-14-01 200
  • 370 371CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3 A iniciativa privada acompanha as tendências tendo como elemento unificador, naquelas que persistiram ao passar do tempo, o facto de o seu historial de contínua ocupação permitir revisitar momentos decisivos da cidade, invariavelmente relacionados com as lutas liberais: caso da moradia da Rua de S. Bento da Vitória, próxima do amplo edifício da Cadeia e Relação do Porto, construída para habitação de um comerciante, actual sede da Directoria do Porto da Polícia Judiciária e local de funcionamento, na passagem para o século XX, do mais antigo liceu do Porto; a solarenga moradia da Rua das Virtudes, também conhecida como a antiga sede do Clube Inglês, onde funciona uma instituição privada de solidariedade social; e da moradia situada na Praça da Batalha, assim designada em evocação da derrota sofrida em longínquo confronto com os exércitos do sarraceno Almançor, o luxuoso Palacete encomendado pelo fidalgo da casa Real, José Anastácio Guedes da Silva da Fonseca, durante largos anos a servir de Estação de Correios e presentemente reconvertido em Hotel, ex-hospital de sangue de campanha e local onde o bravo Sá Nogueira, futuro visconde de Sá da Bandeira, deixaria o seu braço amputado. Embora parcialmente desvirtuado, face ao projecto original, é de referir também como obra deste período, o edifício assistencial do Recolhimento do Ferro, mais propriamente o Recolhimento de Nossa Senhora do Patrocínio da Mãe de Deus e Santa Maria Madalena, localizado nas míticas e íngremes escadas do Codeçal, por doação benemérita. O terceiro personagem determinante para evolução da cidade durante todo o século XVIII, ainda que não de humana feição, o vinho do Porto, será o grande impulsionador das mudanças que nela ocorrem por ser o factor subjacente ao seu pródigo enriquecimento. Contando com o intenso envolvimento da comunidade inglesa, a comercialização deste precioso néctar, obtido a partir das uvas da Região Vinhateira do Alto Douro – igualmente classificada Património da Humanidade pela Unesco, em 2001 – tornou-se uma actividade altamente lucrativa, muito em particular a partir da demarcação da região e da contestada criação da Companhia Geral da Agricultura dos Vinhos do Alto Douro, em 1756, com sede no Porto, por iniciativa do Marquês de Pombal, ainda hoje existente com a mesma designação e marca comercial. O vinho do Douro, tão apreciado por ser naturalmente doce, chegava à cidade acondicionado em pipas transportadas no interior de embarcações de sóbrio colorido, com vela quadrada, fundo chato e navegação a leme, apoiada num longo remo, os típicos barcos rabelos. As formas peculiares e deslizar solene deste barco fluvial que saberes ancestrais souberam adaptar à correnteza caprichosa do rio, tornou-se um elemento imprescindível para o sucesso da epopeia do vinho do Porto e um ícone de toda a região. No final do século XIX, com a chegada do combóio, serão rendidos da sua árdua tarefa. Cumpridos os desígnios, persistem vivos e ao sabor dos novos tempos mostram o seu porte elegante e nobre em regatas, passeios turísticos pelo rio e outras iniciativas similares. Com a cidade onde aporta e que internacionalmente o promoveu, o vinho do Porto estabeleceu uma relação íntima e profícua. A cidade conferiu-lhe uma identidade e, abraçando a margem de Gaia, torna-se cave e armazém, escoadouro, local de abastecimento da região vinhateira, centro de crédito, sede e moradia dos seus negociantes e cultivadores. Em contrapartida, beneficiou de um clima de franca prosperidade que lhe permitiu financiar os grandes empreendimentos e vangloriar-se de ser, “depois da capital a mais ilustre do reino pela sua opulência e grandeza”.Barco rabelo para transporte do Vinho do Porto na Zona do Alto-Douro. Bilhete Postal 1940das Taipas, uma obra de transição entre o Barroco e o Neoclássico, sofreu uma série de contratempos na sua construção, contudo, preserva a sobriedade do estilo clássico, estabelecendo claras afinidades com o Hospital de St. António, seu vizinho. No antigo Campo do Olival, agora designado Campo dos Mártires da Pátria, vai erguer-se o edifício da Cadeia e Relação do Porto, hoje sede do Centro Português de Fotografia, da autoria de Eugénio dos Santos, engenheiro e arquitecto que participou activamente no programa de reconstrução da baixa lisboeta após o terramoto de 1755.Portugal
  • 372 373CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3Na senda do progresso…[séc. XIX] A gestão almadina e a florescente dinâmica comercial abriram caminho para a projecção conquistada pelo Porto durante o século XIX, imprimindo um ritmo de mudança e crescimento em vertiginosa e contínua aceleração, apesar das convulsões políticas e sociais que igualmente caracterizam este século e nas quais a cidade assumiria um papel determinante. Enfrenta estoicamente os invasores franceses em defesa pátria e torna-se baluarte dos valores liberais, voltando a contribuir de forma decisiva para a vitória das hostes de um rei, D. Pedro IV, I do Brasil, que em sinal de gratidão lhe entrega, literalmente, o seu coração. Torna-se invicta por benesse real de D. Maria II, manifesta-se sobre as patuleias, contribui para a queda e eleição de governos, discute com veemência na imprensa, nos cafés, nos teatros e nas assembleias as políticas nacionais, reage duramente ao Ultimatum e propicia condições para o germinar de ideias republicanas e socialistas, num prenúncio de modelos que só o século XX tornaria possíveis. Na verdade, o ideário do liberalismo, ao pugnar pela defesa do indivíduo e da propriedade privada, pelo direito à liberdade de pensamento, de expressão e de associação, pela efectiva aplicação do princípio de igualdade jurídica e política assente num sistema governativo constitucional e laico ajustava-se às aspirações de uma cidade essencialmente comercial e orgulhosamente burguesa, permitindo que os mecanismos do poder transitassem do clero e da aristocracia para novos líderes, saídos de uma classe economicamente poderosa, esclarecida e socialmente ambiciosa, que, em nome da razão e em prol da comunidade e do bem comum, lutava pela ideia de progresso. Lutava pela palavra e não receava o confronto e a acção. Os reflexos destes desenvolvimentos encontram-se gravados no tecido urbano portuense. Na continuidade dos eixos delineados pelos Almadas, e à medida que o século avança, surgem novos arruamentos, como as simbólicas, amplas e iluminadas Rua de Mouzinho da Silveira e Rua Nova da Alfândega, prossegue a demolição das muralhas e definem-se novas centralidades, causa e consequência de novas dinâmicas e de um revolucionário incremento e melhoria das vias de comunicação e meios de transporte. Do ronceiro carroção, puxado a junta de bois, que à porta do teatro lírico em início de século aguardava as famílias para as transportar de regresso a casa, a cidade, ávida de novidade, será a primeira do país e da Península Ibérica a adoptar os pioneiros carros americanos, para, no final do século, usufruir já de uma rede de transportes públicos urbanos de tracção eléctrica com alcance até à Foz. O crescente tráfego entre as duas margens do rio vai pressionar a construção das primeiras pontes: a das Barcas, desaparecida no trágico desastre provocado pela fuga da população aos exércitos de Soult, evocado no painel fixado no Muro da Ribeira, da autoria de Teixeira Lopes; a Ponte Pênsil, encomendada ao engenheiro francês Estanislau Bigot, à cota inferior, entre os Guindais e o sítio do Penedo, na década de 40, de que restam apenas os dois pilares do lado do Porto e parte da casa do guarda; a Ponte D. Maria Pia de Gustave Eiffel, a primeira ponte ferroviária de ligação à margem sul, pela cota superior, hoje desactivada e situada em zona exterior à área classificada, mas de Representação da Ponte Pênsil, do Rio Douro e da cidade do Porto, por Isidore-Laurent Deroy (c. 1850).AHMP - ID 428382Portugal
  • 374 375CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3uma importância crucial para a cidade e de uma enorme beleza arquitectónica; a ponte D. Luís I, inaugurada em 1877. Projectada por um discípulo de Eiffel, como foi anteriormente referido, esta ponte metálica tinha como fundamento para a sua construção permitir empreender a demolição da ponte pênsil, que apresentava sinais de clara degradação, e dotar a cidade de uma dupla ligação a Gaia. Ainda hoje continua em plena actividade, com o tabuleiro superior destinado ao atravessamento do metro e o tabuleiro inferior para passagem de veículos. Oferece diariamente a quem a percorre uma deslumbrante vista sobre a cidade e transforma-seem ponto alto das festas sanjoaninas, altura em que cascatas de fogo cobrem de reveladoras Portugalsombras o seu imponente arco e recortam o seu perfil na noite pontilhada de balões. Junto ao tabuleiro inferior encontra-se o funicular dos Guindais, com uma história acidentada entre eufóricas inaugurações e longos abandonos. Foi recentemente reposta a circulação deste elevador de tracção mecânica que, para além de captar a beleza do rio entrevisto nas malhas da estrutura metálica da ponte, possibilita, tanto hoje como então, uma agradável forma de vencer as escarpas que separam as duas cotas da cidade, saindo directamente nas imediações do edifício da Casa Pia, no topo do morro da Batalha. Retome-se o curso da história. Na zona ribeirinha ainda se mantinha activo o cais, fazendo afluir sobre si uma intensa circulação de embarcações, desde os grandes e “velozes” vapores, às escunas e barcos rabelos, numa azáfama constante de gentes e bens em circulação, sempre conjugada com o rio e com o mar, que apenas seria atenuada com a transferência do porto para a barra de Leixões, no final do século. Não é por isso de estranhar que as novas forças da cidade promovessem a edificação de sedes de instituições ligadas à actividade comercial na sua vizinhança, e entre elas a poderosa Associação Comercial do Porto, que em 1845 se instala no Palácio da Bolsa, então ainda por concluir. O sumptuoso edifício, concebido estruturalmente por Joaquim da Costa Lima, mas cuja construção se prolongaria até 1910 envolvendo uma larga panóplia de reconhecidos artistas e arquitectos, vai implantar-se sobre terrenos do convento de S. Francisco, destruído por um incêndio em 1832 e abandonado em 1834 na sequência da extinção das ordens religiosas. Um pouco mais a norte, o Banco Comercial do Porto fazia erguer um majestoso edifício que posteriormente será adquirido pelo Instituto do Vinho do Porto. Ao lado da Igreja de S. Nicolau o espanhol Manuel Recarey Antero abria o primitivo café-restaurante Comercial que, em finais do século se transferiria para a Praça da Batalha, com o nome de Café Águia D’ Ouro, em ambos os casos tão célebres pela frequência quanto pela arquitectura requintada. No final do século, é construído o Mercado Ferreira Borges, um exemplar da arquitectura portuense do ferro e do vidro que a população local nunca há-de plenamente abraçar na sua vertente original, mantendo-se fiel ao mercado da Ribeira, votando-o a cíclicos processos de abandono, apesar das várias tentativas de renovação que só em recentes anos o conseguiram resgatar convertendo-o num projecto de sucesso, enquanto centro multiuso gerido pelo Hard Club. Uma das mais importantes alterações urbanísticas sujeitou toda a área da praia de Miragaia a uma profunda transformação, substituindo-a pela plataforma destinada à construção da Alfândega Nova, projectada pelo engenheiro francês Jean Colson. O levantamento desta estrutura, nomeadamente no sentido de facilitar o transporte de mercadorias, implicou o estabelecimento de uma ligação com a Estação de Campanhã, através de um ramal de caminho-de-ferro, assim como a abertura da rua Nova da Alfândega, para viabilizar a comunicação com o centro da cidade.Vista panorâmica com a ponte D. Luís I.fotografia de Rita França. © IIM
  • 376 377CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3 A cidade foi-se industrializando e promovendo a afluência de pessoas e a atracção em massa da população rural. Em consequência proliferam as feiras e acelera-se a grande ocupação de terrenos e logradouros, com a divisão de parcelas e acrescento de andares, a criar uma linha de edificações em altura que se torna típica da zona histórica. Não é, por isso, de estranhar que o edifício mais alto da zona ribeirinha tenha surgido associado a uma actividade industrial. A Fábrica dos Chumbos, cuja empena ainda hoje se destaca no casario, pela volumetria e imagem comercial a ela associada – o homem da Sandeman – foi construída em 1880, nas proximidades da igreja de S. Francisco, para produção de projécteis de chumbo para armas de fogo, através de um método tão engenhoso quanto raro em Portugal: a queda de grande altura de chumbo fundido que na sua queda ia arrefecendo até cair num depósito de água em forma de pequenas gotas solidificadas. Portugal Em contrapartida, outros grupos populacionais vão-se espraiando por novos territórios. Com eles crescerá a cidade que assim ganha um novo colorido. Segundo Júlio Dinis, em meados de oitocentos, considerando os grupos populacionais predominantes, a cidade dividia-se claramente em três bairros: o central, habitado pelo portuense propriamente dito, que procurava revestir-se de aparências modernas mas continuava a manter “muitos ares do velho burgo do Bispo”; o oriental, principalmente procurado pelos grandes capitalistas enriquecidos da América, os “Brasileiros de torna-viagem”, com os seus palacetes de exuberante arquitectura; e o bairro ocidental, especialmente destinado à elegante comunidade inglesa. Este movimento expansionista, com a consequente dispersão geográfica aliada à chegada do comboio ao centro da cidade e à travessia fixa para Gaia à cota alta, que acaba por desligar a travessia do Douro da Ribeira, vai contribuir de forma decisiva para a perda de importância da linha de muralhas face às zonas de recente ocupação e sancionar a eleição de um novo centro cívico: a Praça Nova, futura Praça D. Pedro e berço da actual Praça da Liberdade, situada em zona de confluência de acessos, no enclave entre a Torre dos Clérigos e a Igreja de St. Ildefonso, no antigo Campo das Hortas, nas imediações da desaparecida Porta de Carros. A cidade queria-se cosmopolita, por isso, em torno ou nas proximidades da praça e do edifício da Câmara, surgem inevitavelmente as marcas simbólicas do novo estatuto hierárquico deste espaço que se anima com a implantação de estruturas consentâneas com as preocupações das burguesas elites portuenses: para além da banca instalam-se as lojas de excepção e os cafés da moda, locais de tertúlia, de convívio e diletância, as tipografias e principais casas editoras, os hotéis e os equipamentos teatrais que os portuenses tão devotamente frequentam, cortejando as divas e suspirando com as tragédias líricas, exultando com operetas e dramas à la française, divertindo-se em paródias, mágicas e mordazes revistas, ou organizando espectáculos para causas beneméritas. As preocupações sociais e culturais tão caras à ideologia liberal revêem-se também no incentivo e na prática amadora das artes, em particular a musical, que invade os salões burgueses e os coretos dos jardins, passeios públicos de românticas atmosferas. Dentro do perímetro classificado pode ser apreciado o Jardim João Chagas que os habitantes da cidade insistem em chamar Jardim da Cordoaria. Com projecto original do arquitecto paisagista alemão Emilio David, encontra-se completamente alterado, em particular pelas intervenções projectadas pelo arquitecto paisagista João Nunes, no âmbito da remodelação urbana empreendida pela Capital Europeia da Cultura Porto 2001. Uma polémica transformação que preservou contudo o coreto e as estátuas, acrescentando-lhes um conjunto de divertidas esculturas da autoria de Juan Muñoz. Nele podem igualmente ser apreciados exemplares das árvores dominantes nos jardins portuenses, as tílias e as muito acarinhadas camélias. Difundem-se as escolas, oficiais e privadas, criam-se museus e academias em antigos conventos. Os artistas complementam a sua formação no exterior regressando à terra natal com saber técnico e um novo corpo estético que Palácio de Cristal, no ano da sua inauguração (1865). AHMP - ID 257700-0001
  • 378 379CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3a cidade vai convocar para a construção dos espaços públicos, enquanto celebração da glória pátria e da sua capacidade empreendedora. Porém, o expoente da realização burguesa portuense, símbolo de um programa civilizador e mostra do seu conceito de progresso será o extinto Palácio de Cristal, seja pelo feito arquitectónico que representa, seja pelo impacto das grandiosas exposições que aí terão lugar. Afastado do antigo núcleo histórico define outros sentidos de crescimento e denuncia a formação de uma nova ordem marcada pela descoberta de uma vocação industrial para cidade.PortugalO rasgar da cidade e a afirmação de novas centralidades…[de 1900 à revolução de 1974] Os tempos sobrepõem-se, sedimentando, por vezes de forma imperceptível, o que as forças dominantes de cada período, em função dos seus contextos imediatos, vão impondo, num processo contínuo de proposição, assimilação ou rejeição de modelos e estilos de vida. Com as primeiras décadas do século XX implanta-se a República a dar corpo às aspirações dos mentores da revolta portuense de 31 de Janeiro de 1891, cuja memória será evocada na mudança de nome da Rua de Stº António. O Porto não será capaz de gerar estruturas que lhe permitam manter o protagonismo vanguardista do século anterior, mas os novos governantes vão dar continuidade à ambição transformadora do final da centúria de oitocentos, reforçando o empenho na monumentalização e engrandecimento do centro cívico da cidade, investindo na dotação de equipamentos públicos denunciadores de um afã cosmopolita, de uma escala europeia, igualmente presente no enobrecimento da habitação da classe mais abastada e influente. Um dos principais artífices no cinzelar do território será agora um portuense estrangeirado, José Marques da Silva, arquitecto formado na Academia portuense e diplomado pelo Governo Francês (após frequência da École Nationale et Spéciale des Beaux-Arts de Paris e do atelier de Victor Laloux), autor da Estação de S. Bento, do segundo e actual Teatro de S. João, dos liceus da república, dos Armazéns Nascimento, primeiro grand magazin da cidade, do bairro operário do Monte Pedral, das moradias da elite portuense, do Monumento aos Heróis da Guerra Peninsular, na Rotunda da Boavista, e um dos protagonistas do processo de abertura da Avenida das Nações Aliadas, assim designada por afinidade com o contexto político europeu da Primeira Guerra Mundial e cuja contracção resultará na actual Avenida dos Aliados. As grandes transformações da cidade vão traduzir-se na adopção de tipologias e estratégias construtivas inovadoras, funcionais e esteticamente concebidas em função de um novo padrão de gosto e de conforto. Ultrapassando cercos ideológicos e mais recentes cercos epidemiológicos, a cidade empreende finalmente a requalificação do centro cívico, chamando para o debate de ideias várias personalidades, com particular destaque para as várias intervenções planeadas pelo inglês Barry Parker e propostas do já mencionado Marques da Silva. A abertura da Avenida que a cidade até então não possuía implicava a destruição de um espaço físico construído. As demolições iniciam-se em 1916, com a remoção da primeira pedra do edifício que então acolhia a sede do poder municipal, e prolonga-se pelas décadas seguintes com o edifício da Câmara, traçado por Correia da Silva e concluído por Carlos Ramos, situado na face norte da Praça D. Pedro, e antigo bairro do Laranjal, a ser inaugurado em 24 de Junho de 1957. No espaço rasgado, materializa-se uma solução de compromisso e mais contida do que o originalmente previsto, para poupar tanto a Igreja da Trindade, construída no início do séc. XIX, como o chafariz do Laranjal. Serão dois edifícios de Marques da Silva, a sede da Companhia de Seguros A Nacional e o Banco Inglês, a definir o eixo da nova Avenida. O novo tramo vai Carlos de Pezerat:Projeto de embelezamento da cidade do Portopara servir de edificação dos novos Paços do Concelho (1889).AHMP - ID-CDT-A5-30-ID 539547
  • 380 381CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3estabelecer uma ligação cúmplice e intersticial com a Praça da Liberdade e a Praça General Humberto Delgado, coroada pelo edifício da Câmara Municipal. A nova área urbana será preenchida por edifícios de carácter monumental ligados à banca, às finanças e aos seguros, candidatos, em 1917, ao “Prémio de Honra da Cidade do Porto”, destinado a “premiar a mais bela fachada de edifício construída na futura grande avenidajá iniciada”. Nos seus espaços centrais vão surgir ainda várias esculturas da autoria de artistas de renome como Henrique Moreira e Barata Feio, permanecendo, junto à Praça da Liberdade, a estátua equestre de D. Pedro IV, do escultor Anatole Calmels, erguida durante a década de 60 do século XIX. Com a celebração do evento Porto, Capital Europeia da Cultura 2001 e a abertura de linhas de saída para o metro, este conjunto urbano acabou por ser intervencionado a partir do plano traçado por Álvaro Siza Vieira, tendo sofrido uma alteração significativa das zonas ajardinadas que anteriormente a revestiam. O Edifício da Caixa Geral de Depósitos, da autoria de Pardal Monteiro, vai assinalar o alinhamento à Rua de Passos Manuel.Estátua de D. Pedro IV.fotografia de Rita França. © IIMPortugal
  • 382 383CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3nascente do túnel, em 2015, recebeu ainda um painel de azulejos da autoria de Fernando Lanhas intitulado “À Cidade”. O tabuleiro superior da ponte, por sua vez, também continuava a carecer de um espaço urbano próprio com a representatividade necessária e a articulação desejada à nova Avenida dos Aliados. Vários foram os planos e soluções apresentadas para ultrapassar um problema que ainda carece de uma solução articulada definitiva. Desde Barry Parker a Marcello Piacentini, desde Giovanni Muzio ao urbanista francês Robert Auzelle, foram vários os arquitectos que ao serviço do Município tentaram encontrar uma resposta satisfatória para este espaço urbano fortemente afectado pela demolição do casario instalado na encosta norte do morro. Uma decisão radical, em parte precipitada pela presença da Câmara nos terrenos da Sé. A partir da década de 50, outros tantos arquitectos se manifestaram sobre este espaço, desde Fernando Távora, a Manuel Fernandes de Sá e Álvaro Siza Vieira, mas só após a classificação se voltará a intervir de forma significativa na zona, nomeadamente devido à entrada em cena de um novo meio de transporte. A activação do Metro e a cativação do tabuleiro superior para a sua passagem forçou a tentativa de reorganizar o tráfego rodoviário e, em consequência, implicou reformular a Avenida da Ponte, pelo menos em termos de traçado. Apesar de tudo, este espaço vital de entrada e circulação na cidade continua a carecer de uma solução mais harmoniosa na conjugação dos diferentes elementos e dimensões patentes no tecido construído e na forma como se articulam com a área envolvente. económico serão afinal a garantia de preservação do carácter intrinsecamente popular e autêntico do centro histórico. Porém, com as obras da Avenida a decorrer e a Câmara provisoriamente instalada no Paço Episcopal, numa acção enquadrada pelas políticas implementadas por Duarte Pacheco e António Ferro, ministros do Estado Novo, a partir da década de 30 e sobretudo durante a década de 40, com a promoção das comemorações do oitavo centenário da nacionalidade, a cartografia dos terrenos primevos da cidade, em torno da Sé Catedral, vai sofrer profundas alterações. Por seu lado, a figura de Rogério de Azevedo vai assumir um papel protagonista enquanto coordenador da acção de restauro implementada pela Direcção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais, em clara filiação do gosto nacionalista e conservador do regime ditatorial então vigente em Portugal. Profundas obras de consolidação e restauro são levadas a cabo no edifício da Sé acompanhadas da demolição do casario e arruamentos localizados na sua envolvente para, em seu lugar, se construir um amplo terreiro lajeado, sobre o qual será colocado um pelourinho destituído de genuíno significado histórico. No âmbito dessas demolições, o chafariz localizado na Rua de S. Sebastião, obra do século XVII, também conhecido como Fonte do Pelicano devido à presença desta ave nos seus elementos alegóricos, foi deslocado e encostado ao muro de suporte do Terreiro. A descoberta da casa-torre medieval na calçada de D. Pedro de Pitões acabaria por levar ao seu afastamento e reconstrução ao lado das ruínas da medieval Casa dos 24, à entrada da Rua de S. Sebastião, afastada cerca de 15m da sua localização primitiva. Aí passou a funcionar o Gabinete de História da Cidade tendo o espaço sido ocupado pela população na sequência do golpe de estado do 25 de Abril de 74. O Arquivo foi então transferido para a sua actual localização, na Casa do Infante, que, por sua vez, também sofreu profundas obras de restauro e recuperação. Outro equipamento localizado em terreno fronteiro à fachada principal da Sé, igualmente sentenciado a transferência e reedificação em lugar distinto, acabaria por ser a Capela dos Alfaiates, com um historial que a remete ao século XVI, hoje edificada na confluência das ruas do Sol e de S. Luís, na vizinhança do edifício onde se encontrava o antigo Recolhimento do Postigo do Sol, uma instituição assistencial destinada a acolher crianças órfãs, reabilitado em 1991 pelo arquitecto Bernardo Távora para se adaptar às exigências universitárias dos seus mais recentes ocupantes. Durante este período, a vontade de agilizar a ligação entre circulação rodoviária e ferroviária estabelecendo uma passagem directa entre o tabuleiro inferior da ponte D. Luís e a Rua Mouzinho da Silveira conduziu à construção do túnel da Ribeira, inaugurado em 1956, projecto do engenheiro Bernardo Ferrão. Com um acabamento deficiente, em parte colmatado em 83 com a fixação do painel de azulejos de Júlio Resende, Ribeira Negra, e que, segundo Eugénio de Andrade retrata “o historial da miséria e da grandeza da população ribeirinha do Porto”, o túnel acabaria por vir acentuar o declínio da zona medieval, tornando o antigo centro paradoxalmente periférico face às movimentações sentidas na cidade. O topo Na periferia da Avenida e na sequência da aplicação destas intervenções urbanísticas, de um e de outro lado, nascem durante a década de 30 as Praças de D. João I e de D. Filipa de Lencastre, numa evocação do casal real de grata memória para a cidade. Aqui tornam-se claras as linguagens e caminhos modernistas adoptados pelas gerações de arquitectos que vieram a suceder a Marques da Silva, formados na Escola de Belas-Artes do Porto e onde o próprio Marques da Silva assumira funções pedagógicas e directivas. Na Praça de D. João I destacam-se o Teatro Rivoli, de Júlio de Brito, o “arranha-céus” de Rogério de Azevedo, o “Palácio Atlântico” dos ARS (arquitectos Fortunato Cabral, Cunha Leão e Morais Soares). A praça acabaria por ser redesenhada em 2001, tendo sido contudo preservados os conjuntos escultóricos, dois corcéis, que a distinguem. Na Praça de D. Filipa de Lencastre a construção do Hotel Infante Sagres e a Garagem do Comércio do Porto, de Rogério de Azevedo. A cidade foi alterando a sua estrutura económica e social, transformando-se progressivamente numa cidade de serviços. As artérias tradicionais, estreitas e sem espaços para parqueamentos, a denotar subalugamentos e em clara degradação física e social, deixam de ser apelativas para as elites, por sua vez em processo de transferência para os quarteirões periféricos, agora polarizadores de novas dinâmicas e de outras centralidades. Em consequência, a zona ribeirinha mantem-se afastada do movimento de renovação urbanística, fiel apenas à sua singular e íntima relação com o rio. Nela permanecem as populações de origem, as mais humildes, aquelas que com menor poder Portugal
  • 384 385CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3A intervenção planeada sobre a cidade…[do final do século XX ao XXI] Os ritmos evolutivos da cidade ao longo do século XX colocaram o centro histórico do Porto em risco de eliminação: o aumento da escala da cidade, o acentuar de fenómenos de suburbanização e a entrada em crise do próprio centro cívico, em despovoamento contínuo e progressiva ocupação por actividades ligadas ao sector terciário. O gradual desinvestimento e as estruturas danificadas pela incúria continuada dos espaços públicos e da habitação iam fazendo a ruína propagar-se de parcela em parcela de terreno, numa degradação consentida, ou ao menos tolerada, por parte de proprietários que há muito tinham entregado as suas casas a outros moradores, e por uma gestão municipal que se desinteressara de uma zona considerada insalubre, intransitável e periférica. Serão os estudos realizados sobre a cidade por arquitectos formados na Escola do Porto, com destaque para o plano para a renovação urbana do Barredo, elaborado em 1969 pelo arquitecto Fernando Távora, e a crescente consciencialização da importância do património, aliados a uma conjugação de factores de ordem política e social, a inverter a tendência de abandono do núcleo histórico da cidade do Porto. As mudanças provocadas pela revolução de Abril de 1974, e em particular os movimentos reivindicativos das populações locais, fizeram Edifícios da Avenida dos Aliados a partir do interior dos Paços do Concelho. fotografia de Clara Pimenta do ValePortugal
  • 386 387CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3convergir condições propícias à criação do Comissariado para a Renovação Urbana da Área da Ribeira-Barredo (CRUARB), o que levou à definição de uma estratégia capaz de conferir qualidades físicas e ambientais ao território mais antigo da cidade. A partir daí seria este organismo a tutelar uma série continuada e planeada de intervenções assentes nos princípios de preservação de valores patrimoniais e sociais, tendo por finalidade estancar a degradação de edifícios, iniciar um processo de revitalização de espaços públicos e manter o espaço vivo e habitado pela sua população de raiz. Os objectivos do CRUARB estavam ancorados em 8 princípios tutelares: fortalecer a componente social; dinamizar o processo de recuperação e renovação habitacional; reforçar a rede de equipamentos colectivos; renovar e reforçar as redes de infra-estruturas e arruamentos; disciplinar e melhorar o trânsito e a circulação de peões; enfrentar e melhorar os espaços de lazer e animação; incrementar o turismo e a acção cultural; diversificar e melhorar o comércio e serviços. Em suma, considerar o centro histórico como parte integrante da cidade enquanto organismo vivo, enquanto espaço para viver, como defenderia o arquitecto Viana de Lima, um dos principais e mais activos mentores do grupo de acção coordenado pelo arquitecto Rui Ramos Loza. E a cidade, espaço urbano global, encetou o reatar dos laços com o seu núcleo fundador, vencendo incompatibilidades das últimas décadas, num processo nem sempre linear, por vezes polémico, a implicar o realojamento parcial da população. Em 1991, a edilidade aprovava o processo de candidatura do Porto a Património Mundial e criava a Fundação para o Desenvolvimento da Zona Histórica do Porto, com trabalho essencialmente social e de reabilitação de edifícios. A 24 de Junho de 1994, o processo era formalmente aceite para deliberação, na sede da Unesco, em Paris. Durante a avaliação e acompanhamento da candidatura, supervisionada pelo arquitecto espanhol Alvaro Gomes-Ferrer Bayo, o perímetro inicialmente definido acabou por ser expandido de forma a conter a norte a Igreja da Trindade, a Praça de Carlos Alberto e o Jardim do Carregal, e a sul toda a área que inclui as Caves do Vinho do Porto e o Mosteiro da Serra do Pilar, procurando garantir que não fosse colocada em causa a vista que se obtém a partir daquela zona e co-responsabilizando as edilidades do Porto e de Gaia na protecção do património a classificar. A análise da candidatura reconheceria a qualidade excepcional da paisagem urbana, “quer pela sua homogeneidade, quer pela sua osmose com o rio e as colinas”, assim como o carácter singular da sua evolução urbana, acabando por concluir que o “Centro Histórico do Porto oferece, além do seu tecido urbano e numerosos edifícios históricos, um testemunho notável do desenvolvimento duma cidade europeia que, no decurso deste milénio, se voltou para o ocidente com o objectivo de enriquecer as suas ligações culturais e comerciais.” Como foi referido, em 1996, a coerência, sustentação e qualidade do trabalho desenvolvido foram reconhecidas pela Unesco através do parecer positivo à candidatura. Considerando o Porto um conjunto, a Unesco classificou um total de 96 espaços – sinteticamente referenciados e entretecidos na narrativa desta caminhada conduzida pelo ritmo do tempo - e redefiniu os princípios da Câmara, no sentido de garantir que o Plano de reabilitação deveria ter por fim “conseguir a reintegração do Centro Histórico na zona metropolitana, sem para tal afectar as suas características”. As intervenções a pôr em prática abrangeram 120 hectares, com cerca de 17.000 habitantes e aproximadamente 3.200 edifícios que se tornaram matéria de reflexão, objecto de estudo e de detalhada inventariação, bem como alvo de escavações arqueológicas em pontos-chave, como as imediações da Sé Catedral e a Casa do Infante. Um dos exemplos paradigmáticos desta nova atitude tomou corpo no projecto encomendado a Fernando Távora para realizar uma proposta de intervenção nas ruínas quatrocentistas da Casa dos 24, situada junto à Sé Catedral, assim designada por ter sido originalmente erguida para nela se reunirem os 24 representantes dos vários mesteres da cidade do Porto e, como tal, sede do primeiro organismo de representação formal do poder corporativo dos munícipes. O projecto, inovador e inquietante pela forma como questiona o observador, com a sua ampla abertura com vista para a cidade, veio simbolizar uma nova concepção do sentido da intervenção arquitectónica contemporânea sobre espaços e estruturas envoltos de memória e significado histórico. Depois de um exaustivo levantamento e estudo dos vestígios arqueológicos e sem implicar a demolição de construções envolventes ou acrescidas, reenquadrou as existências e (re)construiu uma obra assumidamente contemporânea. Fernando Távora recorreu a materiais e linguagens concordantes com a sua visão/reinterpretação pessoal de arquitecto/criador, e, sem deixar de reconhecer a presença do monumento no local, redefiniu-o e assegurou-lhe, apesar das dúvidas que levanta, um diálogo continuado com o curso dos tempos. Neste momento acolhe o posto de turismo da Sé onde se mantém periodicamente em exposição uma maqueta dinâmica da cidade do Porto com a reprodução dos aspectos formais e estéticos da cidade, de execução coordenada pelo escultor Barata Feio, aí instalada por iniciativa da APOR, Agência para a Modernização do Porto. As intervenções no terreno foram sendo enquadradas por um corpo legislativo de suporte. Em 2001, com a publicação da Lei de Bases do Património, o Centro Histórico do Porto foi classificado Monumento Nacional. O CRUARB manteve-se em funções até 2003, altura em que foi extinto, sucedendo-lhe, em 2004, a Porto Vivo, Sociedade de Reabilitação Urbana da Baixa do Porto, S. A., entidade que passa a ser responsável pela definição de um “Projecto Preliminar de Conversão da Zona de intervenção Prioritária em áreas de reabilitação Urbana” e, como tal, responsável pela implementação de um programa estratégico de reabilitação na área inscrita na Lista do Património Mundial, com prioridade para as 4 freguesias que a constituem: Miragaia, S. Nicolau, Sé e Vitória. O surgimento deste novo organismo pressupôs a vontade política de alargar a estratégia de reabilitação do município à Baixa do Porto, onde se podiam constatar os efeitos de degradação herdados pelo gradual despovoamento e deslocação da população para áreas periféricas e cativar a intervenção privada, através de um programa Portugal
  • 388 389CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3de incentivos, como parceira activamente envolvida num processo até aí suportado quase exclusivamente pelo erário público. Com a entrada em vigor do novo Plano Director Municipal, em 2006, o Centro Histórico é salvaguardado como área que interessa preservar e qualificar, sendo prevista a conservação dos edifícios constituídos como alvos de intervenção, a reconstrução e a construção de novas edificações, se destinadas a substituir os edifícios considerados “uma intrusão arquitectónica ou urbanística de má qualidade e que seja desqualificadora da imagem do conjunto urbano onde se insere”. A intervenção deu os seus frutos: o Centro Histórico do Porto recuperou a vitalidade, com a frente ribeirinha a demonstrar que, para além da beleza da paisagem natural e apesar do que ainda se encontra em transformação ou a necessitar de intervenção, dispõe já de uma capacidade assinalável para criar estruturas de acolhimento ao elevado número de turistas que diariamente a visitam, tendo-se tornado um pólo atractivo para novos habitantes e empreendedores, sem, com as novas valência, perder os traços e o colorido pitoresco que lhe imprime a população de origem e a memória histórica que encerra. Um esforço que tem sido recompensado e incentivado com a obtenção de várias distinções para a cidade, enquanto destino turístico de eleição, por parte de entidades internacionalmente reconhecidas no sector.Entre Gaia e Porto.fotografia de Rita França. © IIM Portugal
  • 390 391CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 33. Finale da capo:Ponto de chegada, ponto de partida.“Para a minha alma eu queria uma torre como esta,assim alta, assim de névoa acompanhando o rio.”Jorge de Sena, Metamorfose (1942) Espaço essencial e indissociável de outras dinâmicas urbanas em curso, geradas pela força catalisadora de equipamentos culturais como a Fundação de Serralves e a Casa da Música, pela requalificação dos acessos, com significativos melhoramentos do florescente Aeroporto Sá Carneiro e do recém-inaugurado Terminal de Cruzeiros do Porto de Leixões, ou o aumento significativo, em quantidade e qualidade, do alojamento e serviços de restauração na cidade, a zona classificada constitui hoje uma das âncoras mais importantes no desenvolvimento global da economia da área metropolitana, optimizado pela articulação com a região Vinhateira do Alto Douro e com impacto em toda a região Norte do País. No perímetro classificado pela Unesco, a comunidade reconheceu as suas especificidades, recuperou qualidade de vida, ganhou consciência da sua importância. Aprendeu a fazer-se a cada NOTA FINAL:O texto agora publicado procura responder ao desafio de apresentar o Centro Histórico do Porto. Visão pessoal, ainda que transmissível, onde outros olhares, afectos e apoios se tornaram essenciais para completar e ditar o rumo da viagem então empreendida. Dessa dimensão, que a palavra escrita não contempla, ficam os nomes e o devido agradecimento: Mariana Fabião, Francesco Cancelliere, José Abrunhosa, Maria João Sampaio, Paula Bonifácio e João Ferreira Alves. A reprodução da pintura de António Cruz tornou-se possível graças a Laura Soutinho, António Mota, Armando Alves e José Carlos Cruz, a quem deixo também um especial agradecimento. Agradeço ainda a Rodrigo Meireles a partilha da gravura de Vivian e a Clara Pimenta do Vale o olhar cúmplice sobre a Avenida.dia e partilha com a globalidade dos portuenses uma atitude mais consciente, crítica e responsável pela preservação do património paisagístico, material e imaterial que lhe é próprio. A distinção conferida transformou-se numa espécie de fio de Ariadne que permitiu ao Porto recuperar o seu coração e torná-lo coisa sua. Tal como o passar dos anos imprime ao vinho do Porto uma melhoria da sua qualidade, também a herança dos tempos e a estratégia do presente lhe permitiu conquistar um novo papel, sabendo que o ponto de chegada se transforma a cada passo num eterno e contínuo ponto de partida. O tempo histórico é a matéria que nos permite construir a arquitectura do que fica para além do visível e dar sentido ao que fisicamente persiste, alimenta a imaginação e orienta o olhar, mas não substituirá nunca o prazer de um contacto directo, na primeira pessoa e em tempo real. Para viver a cidade, de dia e de noite, em qualquer momentodo ano, de barco, observando-a a partir do céu no helicóptero que parte do Heliporto de Massarelos, de automóvel, de autocarro, de metro, ou a pé, sempre calcorreando os seus cantos e recantos, encontram-se muitos roteiros disponíveis com propostas de percursos a assinalar desde os pontos de interesse histórico e vistas panorâmicas, aos museus e galerias de arte, aos jardins, à animação cultural, à diversão nocturna, à gastronomia, às festas populares, e à inevitável prova de vinhos nas refrescantes caves da margem de Gaia. E, claro, que não poderia deixar de ser lançado também um repto para a descoberta de outras dimensões da cidade. As que se escondem no encantamento de olhares que lhe tentaram captar e interpretar a alma: os seus poetas, de Pedro Homem de Mello a Sophia, Eugénio de Andrade ou Manuel António Pina; os seus escritores, de Júlio Diniz, a Camilo e a Ramalho Ortigão, de Arnaldo Gama e Alberto Pimentel a João Grave, Ruben A., Mário Cláudio, Agustina Bessa Luís ou Vasco Graça Moura; os artistas que a fixaram de uma forma única, seja na singeleza de uma canção – e como não mencionar o inevitável Porto sentido de Rui Veloso e Carlos Tê – seja em imagens intemporais. Numa cidade que abraçou tão espontânea e avidamente a fotografia e o cinema – local, no desaparecido Palácio de Cristal, do primeiro encontro Ibérico dedicado à fotografia e berço de Aurélio da Paz dos Reis ou de Domingos Alvão - será sempre de rever os clichés de outras eras ou apreciar as imagens inconfundíveis de Manoel de Oliveira, em Douro, faina fluvial, Aniki Bobó ou O pintor e a cidade, filme que nos remete para o Porto das aguarelas de António Cruz, habitadas por uma luminosidade difusa e enigmática. Uma cidade do século XXI que ainda se reconhece no maravilhamento descrito por Manuel Teixeira Gomes, num dos seus regressos à mui nobre, leal e invicta cidade do Porto, em 1893, cuja citação se tornou ponto de partida para esta viagem. Ontem como hoje, cativa pela sua originalidade, pela sua aura misteriosa e surpreendente, pela sua paisagem, pela sua história, pelo que nela foi edificado e pela altivez e carácter das suas gentes, que lhe dão vida, cor, sentimento e a continuam a moldar a cada momento que passa. Porto, Dezembro de 2015Portugal
  • 393CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3392Elétrico da Cidade do Porto.fotografia de Rita França. © IIMBIBLIOGRAFIA DE REFERÊNCIA:Andrade, Eugénio (org.), Daqui houve nome Portugal, O oiro do dia, Porto, 1983Carvalho, Luís de (texto), Pereira, Ricardo (fotografia), Porto património mundial, O Comércio do Porto,Porto, 1999Fernandes, José A. Rio; Chamusca, Pedro; Fernandes, Inês, Avenida dos Aliados e Baixa do Porto: usos e movimentos, Porto Vivo, SRU, Porto, 2013Figueiredo, Ricardo; Pimenta do Vale, Clara; Tavares, Rui, Avenida dos Aliados e Baixa do Porto: memória, realidade e permanência, Porto Vivo, SRU, Porto, 2013Loza, Rui Ramos (coord), Processo de Candidatura da cidade do Porto à classificação pela Unesco como Património Cultural, vol. I, CMP, Porto, 1993Loza, Rui Ramos (coord), Processo de Candidatura da cidade do Porto à classificação pela Unesco como Património Cultural, Vol. II, CMP, Porto, 1998Loza, Rui Ramos (coord), CRUARB, 25 anos de Reabilitação Urbana, CMP, Porto, 2000Luís, Agustina BessaO Porto em vários sentidos, Quetzal Editores, Lisboa, 1998Marques, Helder; Fernandes, José A. Rio; Martins, Porto, Percursos nos espaços e nas memórias,Edições Afrontamento, Porto, 1990Ramos, Luís A. de Oliveira, História do Porto, 3.a edição, Porto Editora, Porto, 2000Ramos, Rui Jorge Garcia (coord), Leituras de Marques da Silva, FIMS, Porto, 2011Santos, José da Cruz (coord), António Cruz. 1907-1983, Árvore, Porto, 2015Saraiva, Arnaldo (org), O sentimento do Porto. Antologia, Campo das Letras, Porto, 2000Távora, Fernando, Da organização do espaço, FAUP, Porto, 2006Teixeira-Gomes, Manuel, Regressos, Portugália Editores, Lisboa, [1960]Portugal
  • 395CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3394 CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3SÃO TOMÉ E PRÍNCIPEPATRIMÓNIO EDIFICADO DE SÃO TOMÉ E PRÍNCIPEA Roça SundyGerhard Seibert1Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (UNLIAB), Brasil O patrimónioA Roça Sundy, situada no noroeste da ilha do Príncipe (142 km²), a 1°40’10.57”N de latitude e 7°23’0.27”E de longitude, é uma das maiores e mais emblemáticas das antigas plantações de São Tomé e Príncipe. A sua fama e a sua importância patrimonial não se devem apenas ao seu passado como produtor importante de cacau e copra, mas também ao astrofísico britânico Arthur Stanley Eddington (1882-1944) que, em maio de 1919, realizou nesta roça uma expedição científica para comprovar a teoria geral de relatividade do físico Albert Einstein (1879-1955). A Roça Sundy já existia pelo menos cem anos antes, pois uma carta da Ilha do Príncipe feita em 1814 se-refere a uma propriedade com esta designação, onde se encontra uma capela da Nossa Senhora da Penha de França. O topónimo Praia Sundim que aparentemente deu à roça o seu nome aparece num outro mapa do Príncipe, datado de 1757.2Esta carta mostra também uma ribeira do mesmo nome que ali desagua no mar. Segundo uma teoria, o nome Sundy, em lung’ie (literalmente ‘língua da ilha’), o crioulo falado no Príncipe, significa ‘Senhor Dias’ em português. Contudo, entre os especialistas do lung’ie esta etimologia do nome da roça não é consensual.1 Agradeço ao IDL – Instituto Amaro da Costa em Lisboa que me deu acesso ao Inventário do Património Edificado de S.Tomé e Príncipe (1987), ali preservado, assim como o apoio da empresa HBD que me ofereceu alojamento na sua casa de hóspedes em Santo António, de 1 a 3 de março de 2012, e durante esta estadia disponibilizou-me uma viatura para visitar a Roça Sundy, a minha quarta visita a esta antiga plantação desde 1993. Os meus agradecimentos e Ana Paula Machava pela revisão do texto português.2 Nascimento 2010, 22-23.Planta da sede elaborada por Duarte Pape e Rodrigo Rebelo de Andrade 1 CASA PRINCIPAL 2 SERVIÇOS ADMINISTRATIVOS 3 SANZALA 4 ARMAZEM 5 ENTRADA PRINCIPAL 6 ESCOLA 7 HOSPITAL 8 CASA DOS EMPREGADOS 9 ESTABULO E CAVALARIÇAS 10 OFICINAS 11 SECADORES 12 ESTAÇÃO DO COMBOIO 13 CAPELATexto de Gerhard Seibert
  • 396 397CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3A sede da Roça Sundy, um conjunto de edifícios abrangendo uma área de mais de quatro hectares numa altitude de 160 a 170 metros, inserida numa densa zona arborizada verde, é bem visível do ar quando se chega ou parte de avião do pequeno aeroporto do Príncipe. Por via terrestre, quando se chega à Roça Sundy pela estrada de acesso de terra batida, encontra-se primeiro, à esquerda, junto à entrada para o vasto terreiro retangular da sede, o edifício do antigo hospital com uma frente de mais de 70 metros. O hospital foi abandonado há muitos anos, com o interior do prédio vazio, e encontra-se em estado de degradação avançado. Em frente da entrada principal, no lado oposto do terreiro, fica a casa principal, um edifício com um único piso com vãos de verga parabólica e com a frente corrido por um pôntico em betão armado, constituindo uma larga varanda, coberta pelo avanço da cobertura.3 Antigamente o edifício era casa de administração e habitação do proprietário. Depois da independência de S.Tomé e Príncipe em 1975, e a nacionalização da roça, servia como residência oficial do Presidente do país durante as suas visitas ao Príncipe. A casa principal, construída em 1921, pelo pai do último proprietário, Jerónimo São Tomé e PríncipeRoça Sundy (sede), vista aérea, foto do autor, março 2012Antigo hospital, foto do autor, março 2012 3 Lima, M. Guedes, S. Guedes 1987
  • 398 399CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3José Carneiro (1930 - ), e remodelada por volta de 1970, encontra-se num bom estado de conservação. Antes estava no mesmo lugar uma outra casa principal de dois pisos, construída pelo avô do último proprietário. Ao lado esquerdo da casa principal fica uma pequena casa dos serviços administrativos. À direita da casa principal, encontram-se duas antigas casas dos empregados, construídas em 1890, das quais a primeira, de dois pisos, acolhe atualmente a creche da Roça Sundy. No mesmo lado seguem um armazém e a antiga capela que, nos fins do século XIX, foi remodelada Casa principal anterior, foto de Paloma Polo (2011) da original do álbum de Jerónimo José CarneiroCasa principal, foto do autor, março 2012Casa principal anterior, foto de Paloma Polo (2011) da original do álbum de Jerónimo José CarneiroCasa dos empregados, foto do autor, março de 2012São Tomé e Príncipe
  • 400 401CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3Antigo armazém, foto de autor, março de 2012Capela, foto do autor, março de 2012São Tomé e Príncipe
  • 402 403CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3e rebatizada Nossa Senhora de Lourdes. A capela é parecida com uma ermida seiscentista, com intervenções posteriores, mas que não mudaram os seus traços originais. Provavelmente elementos originais são a fechada com o pórtico e as janelas entaipadas que o flanqueiam, os óculos, o frontal quebrado, a peanha e a cruz e o arco com o sino, assim como os vãos que se abrem nos costões. De construção posterior é o nártex que provavelmente substituiu o original, possivelmente de madeira.4Também do final do século XIX é o edifício das cavalariças e estábulos no topo do terreiro. Deste edifício restam apenas as paredes exteriores, pois já não tem telhado nem as instalações interiores. A fechada deste edifício é parecida com uma muralha medieval torreada e coroada de merlões e guaritas. É construído em alvenaria com simulação dos silhares e as aberturas das janelas feitas São Tomé e Príncipeem forma de ferradura. Atrás deste edifício singular, à esquerda, fica o edifício das antigas oficinas que se encontra quase num estado de degradação avançada, parcialmente sem cobertura. Ao lado dos estábulos, no canto ao outro flanco do terreiro retangular, fica a antiga estação do comboio da roça onde ainda permanecem os restos enferrujados de uma pequena locomotiva da antiga linha férrea da empresa. Depois seguem em alinhamento vertical os oito edifícios das antigas senzalas dos serviçais, datados de 1915, cada um deles é duplo virando-se para as duas frentes. Ainda hoje, vivem ali os antigos contratados, maioritariamente oriundos de Cabo Verde, e os seus descendentes, numa situação habitacional precária. Atualmente a comunidade da Roça Sundy é constituída por volta de 400 habitantes. Ao lado das senzalas, próximas da entrada principal, encontram-se os antigos secadores de cacau. Em frente destes, próxima da entrada, fica uma pequena construção recente que serve como Posto Comunitário de Sundy do Projeto Saúde para Todos. Ao outro lado da entrada está o edifício da escola e, ao lado vertical do terreiro ficam outros secadores.Desde a sua nacionalização, em 1975, a Roça Sundy foi sede de uma empresa agrícola com oito dependências, nomeadamente Ponta do Sol, Azeitona, Santa Rita, Belo Monte, Paciência, São João, Praia Inhame e Gaspar. Em 1990 a Sundy, incluindo as dependências, tinha uma superfície de 3.963 hectares, dos quais 1.927 (48.6%) cultivados. Da área cultivada, 431 hectares eram de cacauzal (10.8%), 890 de coqueiral (24.7%) e 441 de palmar (11.1%). Na década de 1980 a produção do cacau variava entre 154.1 toneladas (1981) e 57.6 (1984), enquanto a da copra era entre 579.2 toneladas em 1982 e 123.8 em 1987. Em 1989 a roça produziu ainda 15.9 toneladas de café. Naquele ano a empresa tinha 367 trabalhadores.5 Depois desta data, vários empresários estrangeiros 5 RDSTP 1993, 138. Estábulo e cavalariças, foto do autor, março de 2012Antiga locomotiva, foto do autor, março de 20124 Lima, M.Guedes, S. Guedes 1987.
  • 405CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3404estiveram interessados na exploração da Roça Sundy, contudo, nenhum deles conseguiu realizar o seu projeto. Em 2009, o governo são-tomense assinou um contrato com uma empresa belga sobre a concessão de terras de 5.000 hectares para plantio de palmeiras e a produção de óleo de palma que, além de terras no sul de São Tomé, também integrava a Roça Sundy. Apesar deste acordo, em 2011, o Governo Regional do Príncipe assinou com a empresa HBD, do empresário sul-africano Mark Shuttleworth, um outro contrato de concessão da Roça Sundy. Shuttleworth, um programador de computadores que fez a sua fortuna no setor de software é conhecido no Príncipe como “homem de lua”, visto que, em 2002, foi o segundo turista espacial quando participou numa missão tripulada russa à Estação Espacial Internacional (ISS). Depois da contestação do acordo com a HBD pelo governo central em São Tomé este foi renegociado entre as partes envolvidas. No âmbito destas renegociações o governo central comprometeu-se em compensar a empresa belga com terras na ilha de São Tomé, em troca dos terrenos da Roça Sundy. O acordo definitivo sobre a concessão da Roça Sundy à empresa HBD foi assinado no início de 2012. A Roça Sundy faz parte integral de um ambicioso projeto de turismo ecológico e agricultura sustentável que os sul-africanos pretendem desenvolver no Príncipe.Parte das antigas sanzalas, foto do autor, março de 2012Antigos secadores, foto do autor, março de 2012São Tomé e Príncipe
  • 406 407CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3mestiços, 869 negros livres e 3.857 escravos. Entre os poucos brancos ou embranquecidos encontravam-se os proprietários mais ricos da ilha. Em 1771, cinco brancos possuíam mais de 200 escravos cada, três brancos e um mestiço tinham mais de 150 escravos, e oito brancos e dois mestiços detinham mais de 50 escravos. Esta estrutura socioeconómica assimétrica era característica para o Príncipe durante a época colonial. Em 1807, havia 3.405 escravos, dos quais 2.477 pertenciam aos 35 mais importantes proprietários, enquanto os restantes 928 estavam na posse dos demais habitantes, entre os quais pequenos proprietários nativos.7 A abolição do tráfico de escravos ao norte do equador, em 1815, resultou numa degradação económica e um retrocesso demográfico do Príncipe. O regresso da capital para São Tomé, em 1852, contribuiu para a decadência. Em 1855, a ilha tinha uma população total de 4.181, sendo 36 brancos, 165 mestiços, 1.720 negros livros e 2.461 escravos.8 Naquela altura, a referida Capela da Nossa Senhora da Penha de França pertencia a José Rodrigues Pedronho.9 Além de proprietário ele era também capitão da fortaleza de Santana no Príncipe, graduado em sargento-mor de Milícias, em 1815, e cavaleiro professo da Ordem de S. Bento de Avis.10 Em 1864, António Rodrigues Pedronho, provavelmente o seu filho, é referido como proprietário da Roça Sundy.11 Num relatório do governador de 1871, além da Roça Sundy, a este proprietário também pertenciam as roças de Oque Gaspar, Santo Amaro e Ubá.12 Nos anos de 1860 havia no Príncipe 103 propriedades agrícolas pertencentes a particulares e ao Estado, onde se produzia café, cacau, tabaco, mandioca, feijão, milho e inhame. Nesta década, a exportação do cacau, que exige menos trabalho, registou uma subida significante enquanto a do café caiu.13 As culturas de rendimento do café e cacau tinham sido introduzidas em São Tomé e Príncipe do Brasil, por João Baptista da Silva Lagos, em 1789, e por volta de 1820 respetivamente para incentivar a economia do arquipélago. Silva Lagos foi consecutivamente capitão-mor (1788-1799) e governador de São Tomé e Príncipe (1799-1802). Em 1875, quando a escravatura foi abolida no arquipélago, muitas terras ainda estavam abandonadas e a ilha empobrecida. Contudo, nos finais dos anos 1870 e inícios da década seguinte começou uma alteração da propriedade agrícola com a venda de roças do Estado e um investimento crescente nas roças, por portugueses. Por volta de 1875, Jerónimo José Carneiro comprou a Roça Sundy e, em 1881, adquiriu do Estado as roças Terras do Hospício e Oque Grande.14 A Roça Sundy ficaria cem anos na posse de três gerações da família Carneiro, que não está ligada à família dos antigos donatários do mesmo apelido. Em 1879, a empresa Fernando e Soares & Companhia arrendou a Sundy.15 Nos anos de 1890, a concessão de isenções fiscais viabilizaram a expansão das grandes roças com capitais da metrópole no Príncipe, mas prejudicaram o São Tomé e PríncipeA Roça Sundy na história do PríncipeDesde o século XIX o Roça Sundy faz parte da história da ilha do Príncipe. Descoberta em 17 de Janeiro de 1471, primeiro a ilha recebera o nome de Santo António, em veneração ao santo celebrado pela igreja católica neste dia. Embora não exista certeza absoluta sobre o ano da descoberta da ilha, 1471 é geralmente aceite pelos historiadores. Depois a ilha foi denominada Príncipe, em homenagem ao príncipe D.Afonso, único filho do rei João II (1481-1495), que tinha o direito ao imposto sobre o açúcar produzido na ilha. O povoamento do Príncipe começou em 1500 após a sua doação a António Carneiro e ficou na posse dos seus descendentes até 1753 quando Príncipe reverteu aos bens da Coroa na sequência da transferência da capital do arquipélago para Santo António, devido à conflituosidade política em São Tomé e a suposta melhor salubridade no Príncipe. Ao mesmo tempo, a vila de Santo António foi elevada à cidade. Apesar do seu estatuto, Santo António sempre ficou uma pequena povoação que, em 1910, tinha menos de cem habitantes.6 Durante a época colonial nunca ultrapassou o número de 900 habitantes.No século XVIII, o Príncipe era um entreposto do tráfico de escravos e as produções das roças, entre as quais a farinha de mandioca, inhame, a banana e azeite de palma, eram destinadas à exportação para a Costa da Mina e Angola e, junto com água, madeira e gado miúdo ao abastecimento dos navios negreiros, sobretudo dos franceses e brasileiros. Em 1758, o Príncipe tinha uma população de 4.931 habitantes, sendo 32 brancos, 174 6 Nascimento 2010, 250.7 Nascimento 2010, 34.8 Nascimento 2010, 163.9 Matos 1916:64,10 Forjaz 2011, 405.cofre público o que por sua vez resultou num empobrecimento da ilha. Foram criadas as companhias Sociedade de Agricultura Colonial e Companhia da Ilha do Príncipe, as proprietárias das roças Porto Real e Infante D.Henrique, as duas maiores plantações no Príncipe. O empresário Francisco Mantero (1853-1928) que tinha chegado a São Tomé em 1869, quando começou a sua atividade local como comerciante, foi um dos sócios das duas companhias.16 Entre 1877 e 1888 o Estado vendera-lhe 17 roças no Príncipe.17 Em São Tomé a Companhia da Ilha do Príncipe possuía também a Roça Água Izé e à Sociedade de Agricultura Colonial pertencia a Roça Santa Margarida. Nos finais do século XIX muitos pequenos proprietários nativos foram pressionados a vender as suas terras ou até foram expropriados.18 No início do século XX, já não havia terreno baldio no Príncipe. Havia 52 roças de tamanho diverso que empregavam entre 3 e 500 serviçais africanos que desde 1875 substituíram os escravos.19 Em 1908, havia 3.330 serviçais no Príncipe, a maioria da população total da ilha que tinha descido para 3.830, sendo 150 brancos e 350 ilhéus.20 11 Nascimento 2010, 169.12 Nascimento 2010, 195.13 Nascimento 2010, 182.14 Nascimento 2010, 200.15 Nascimento 2010, 199.16 Nascimento 2010. 188.17 Nascimento 2010, 200.18 Nascimento 2010, 201.19 Nascimento 2010,207.20 Nascimento 2010,255.
  • 408 409CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3Em 1910, a Sundy era a terceira maior roça do Príncipe, depois da Roça Porto Real e da Roça Infante D.Henrique. A Sundy tinha uma superfície de 1.400 hectares, sendo 707 hectares cultivados, 615 incultos e 78 ocupados por instalações, caminhos e cursos de água, assim como um caminho-de-ferro com 9 km. A roça tinha 650 serviçais e produziu 332.2 toneladas de cacau.21 Naquela altura, as vias de transporte da ilha encontravam-se num estado muito deficiente. No transporte dos produtos para e da alfândega apenas duas roças, situadas próximas da cidade, empregavam carros, três roças utilizavam a via marítima e nos outros os serviçais transportavam as cargas às costas.22 Uns anos mais tarde, em 1928, a Sundy é descrita como uma grande plantação com “17 km² de superfície, 50 km de linha férrea Décauville, 800 serviçais, automóveis, locomotivas, cavalos, grandes culturas de cacau, coconote, copra e café”.23 Só em 1947, a Roça Sundy iniciou o transporte de produtos para e da cidade, numa camioneta.24A epidemia da doença do sonoUma das razões da retração demográfica no Príncipe, acima referida, no início do século XX, foi a doença do sono (tripanossomíase), possivelmente importada por serviçais provenientes de Angola, que progrediu na ilha desde os anos de 1880. A doença do sono é causada pelo parasita Trypanosoma brucei que é transmitido pela picada da mosca tsé-tsé (Glossina palpalis), que se concentra em poços, rios e pântanos. Entre 1908 e 1912, a doença do sono provocou no Príncipe taxas de mortalidade assustadoras de 12.3% a 16.4% dizimando a população da ilha. No período de 1902 a 1913, a epidemia matou 2.525 pessoas no Príncipe.25 Uma missão médica que integrava o médico Bernardo Francisco Bruto da Costa, (1878-1948), realizada no Príncipe em 1907/1908, recomendava combater a doença pela erradicação da mosca tsé-tsé. As medidas profiláticas propostas visavam a eliminação do habitat das glossinas por meio de derrube de árvores e da destruição de arbustos para fazer subir a temperatura acima de 35º C a fim de matar as moscas, assim como a secagem dos pântanos e o abate do porco selvagem. Além disso, durante o trabalho os serviçais tinham de usar nas costas um pano preto coberto de visco para apanhar as moscas. Em 1911 estas medidas foram instituídas por um decreto que também previa a constituição de uma brigada de combate à doença do sono, composta por serviçais. Contudo, apesar dos esforços de Bruto da Costa, inicialmente muitos roceiros não executaram as medidas profiláticas da lei sanitária com a justificação que precisavam o pessoal disponível para a colheita de cacau e tratamento das plantações. No período de Agosto de 1911 a Julho de 1912, a doença do sono matou mais 239 pessoas, dos quais 71 só na Sundy devido à renitência do seu administrador a aplicar as medidas decretadas. Apenas depois de ter convencido os principais roceiros da necessidade da aplicação das medidas para erradicar a mosca tsé-tsé, eles começaram a executar as medidas profiláticas sob a orientação de Bruto da Costa. Finalmente, os primeiros efeitos apareceram em 1913 quando se registou uma descida da morbidade e mortalidade em relação aos dados de 1908. Em Janeiro de 1914 a glossina tinha quase desaparecido. Neste mês a brigada apanhou em toda a ilha apenas 19 moscas, quase todas na roça Sundy, enquanto em Janeiro do ano anterior 21.434 glossinas foram capturadas. A última mosca tsé-tsé foi capturada na Roça Sundy em Abril de 1914.26 Consequentemente, em Fevereiro de 1915 a administração local declarou a ilha livre da doença de sono, assim como erradicado o seu agente transmissor. Em 1956, as moscas tsé-tsé reapareceram no Príncipe, contudo, não eram infetadas, pois desta vez a doença do sono não se manifestou, nem em seres humanos nem em animais domésticos. Dentro de dois meses, uma missão chegada ao Príncipe em Maio de 1956 capturou 66.895 glossinas. Depois da captura da última mosca tsé-tsé em 1958 pela segunda vez o Príncipe foi considerado livre do agente transmissor da doença do sono.27 Depois da extinção da doença do sono, em 1915, a população do Príncipe aumentou, como resultado do recrutamento de serviçais e do crescimento dos nativos. Em 1921, a ilha contava São Tomé e Príncipecerca de 7.000 habitantes, entre os quais 5.409 serviçais, o maior número de sempre.28 Depois da I Guerra Mundial um declínio da produção de cacau e dificuldades económicas resultaram numa descida do número de serviçais para 2.300, em 1934, e menos de 1.870, no ano de 1948, quando a população total era 3.011, menos de em 1911, ano do pico da doença do sono. Depois a população voltou a crescer graças a uma subida dos preços do cacau no mercado mundial, entre 1947 e 1956 e, consequentemente, um maior ingresso de serviçais, na sua maioria cabo-verdianos, e o crescimento da população autóctone. Em 1951 havia 2.151 serviçais adultos e em 1960 a população total era de 4.574.29 Na década de 1960, restavam apenas cinco grandes roças, entre as quais a Sundy.30 Ao seu proprietário Jerónimo José Carneiro pertenciam também as dependências Azeitona, Ribeira-Izé, Praia Inhame, Terreiro Velho, São João e Santo Cristo. De 1963 a 1973, a produção do cacau no Príncipe aumentou de 517 toneladas para 618, enquanto a do coconote e da copra decresceu de 147 toneladas para 27 e de 1.590 toneladas para 1.475 respetivamente.31 Até 1970 também a população total da ilha ficou largamente inalterada, enquanto, devido à degradação das roças em consequência da descida do preço do cacau desde 1961, o número dos serviçais desceu gradualmente para cerca de 900 e o número dos nativos aumentou pelo crescimento natural.32 Devido a escassez dos recursos financeiros até aos anos de 1960 havia poucos melhoramentos das infraestruturas no Príncipe e o estado dos edifícios públicos era precário.33 Entre as poucas inovações havia a introdução de uma ligação aérea com São Tomé, 21 Mantero 1910, apêndice22 Nascimento 2010, 251.23 Forjaz 2011, 110.24 Nascimento 2010, 360.25 Nascimento 2010,286.26 Nascimento 2010, 295.27 Nascimento 2010, 297.28 Nascimento 2010, 303.29 Nascimento 2010, 317.30 Brito 1967, 7.31 Nascimento 2010, 357.32 Nascimento 2010, 354.33 Nascimento 2010, 352.
  • 410 411CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3em 1949. Contudo, até 1965 não existia sequer uma única estrada de alcatrão no Príncipe. Apenas durante o mandato do governador Silva Sebastião (1963-1972), que coincidiu com maiores investimentos de Portugal nas suas colónias, o Príncipe beneficiou da execução de várias obras públicas, entre as quais uma pista de alcatrão do aeroporto, as estradas da cidade para o aeroporto (1965), para Oque Boi (1967) e para o Picão (1960), assim como a construção de uma nova escola (1967). Em 1967, o Príncipe tinha 270 alunos do 1º ao 4º ano, mais de duas vezes o número da década anterior.34 Em reconhecimento dos seus méritos pelas melhorias nas infraestruturas no Príncipe, em 1968, Silva Sebastião foi homenageado como Cidadão Honorário da Cidade de Santo António.35 Naquela altura, quase 50 anos depois, ninguém no Príncipe se lembrava da célebre expedição científico do astrónomo Arthur Eddington, ocorrida em 1919.A expedição científica de Arthur EddingtonPoucos anos depois do fim da epidemia da doença do sono começaram os preparativos das expedições científicas da Royal Astronomical Society para provar a teoria geral da relatividade de Einstein, com observações astronómicas durante um eclipse total do Sol, nomeadamente a medição da deflexão da luz pelo campo gravítico. Einstein desenvolvera a sua teoria em cinco artigos científicos publicados em alemão, entre 1905 e 1916. Por sugestão do seu secretário Arthur Eddington, professor em astronomia na Universidade de Cambridge (1913-1944), a Royal Astronomical Society queria comprovar a teoria de Einstein, durante um eclipse total do Sol, então previsto para 29 de maio de 1919, realizados por duas expedições, uma para Sobral, Ceará, no Brasil, chefiada pelo astrónomo Andrew Crommelin, do Observatório de Greenwich e a outra no Príncipe, conduzida pelo próprio Eddington. Ainda durante a I Guerra Mundial, em 1917, a Royal Geographical Society em Londres, a pedido do Astronomer Royal of England, Frank Dyson, enviou cartas para a Sociedade de Geografia de Lisboa (SGL) para informar sobre a pretendida expedição no Príncipe para observar o eclipse total do Sol em maio de 1919 pedindo elementos sobre as condições meteorológicas e geográficas da ilha. Por sua vez, a SGL pediu estes dados e apoio para o alojamento da expedição à empresa Sociedade de Agricultura Colonial, a proprietária da Roça Porto Real, que logo enviou a informação solicitada e aceitou hospedar os cientistas ingleses. Depois, Eddington correspondia diretamente com o Observatório Astronómico de Lisboa sobre o projeto. Finalmente, em 23 de abril de 1919, vindos da Madeira, Arthur Eddington e o seu assistente Edwin Cottingham chegaram ao Príncipe no navio Portugal, pertencente à Companhia Nacional de Navegação. Depois de uma inspeção de dois sítios pertencentes à Sociedade de Agricultura Colonial, Eddington decidiu estabelecer o seu observatório na Roça Sundy onde os ingleses ficaram hospedados em casa do proprietário Jerónimo Carneiro que disponibilizou o apoio dos seus trabalhadores durante as cinco semanas da sua missão. O administrador da roça, Atalia, e os dois funcionários serra-leoneses da Estação do Cabo Submarino britânica do Príncipe, Wright e Lewis, serviram como intérpretes dos cientistas.36 Em 29 de maio, quando ocorreu o eclipse total do Sol, o céu no Príncipe estava nublado e choveu, até houve uma tempestade entre às 10h00 e às 11h30. Contudo, os cientistas já tinham feito ajustamentos permitindo a obtenção de um campo de visualização do eclipse correto, caso o céu estivesse encoberto durante o eclipse total.37 Uns 30 minutos antes da fase da totalidade, o Sol era visível ocasionalmente, e, a partir das 13h55 o Sol era visível continuamente através das nuvens em movimento. O eclipse total permaneceu visível das 14h13 às 14h18. Durante o eclipse, os cientistas tiraram 16 chapas fotográficas das suas observações astronómicas com o telescópio, das quais dez foram afetadas por nuvens e muitas das restantes eram de qualidade marginal. As duas melhoras placas tinham, cada uma, cinco estrelas visíveis.38 Os cientistas ingleses partiram do Príncipe a 12 de junho e, depois do transbordo em Lisboa, regressaram a Greenwich. Ali a análise das imagens obtidas na Roça Sundy e pela expedição idêntica em Sobral confirmou a tese de Einstein. Quando, em novembro de 1919, os resultados das observações feitas em Sobral e no Príncipe foram divulgados em Londres à comunidade científica e reconhecidos como válidos, a comunicação social deu muita atenção ao acontecido e Albert Einstein, até então apenas conhecido como simples estudioso. Desde então Einstein, que em 1921 recebeu o Prémio Nobel de Física, tornou-se o físico mais famoso de todos os tempos. As expedições britânicas realizadas em Sobral e no Príncipe, na Roça Sundy, foram determinantes para a fama mundial de Einstein. O próprio Eddington considerou a sua expedição no Príncipe a realização científica mais importante da sua vida.39 Mais tarde, historiadores sugeriram que Eddington tinha manipulado os dados obtidos para comprovar o que pretendia provar, ou seja, que a teoria de Einstein estava correta.40 Contudo, em 1979, uma reanálise das placas fotográficas de Sobral com equipamento moderno comprovou uma deflexão consistente com as medições de Eddington no Príncipe.41 A primeira comemoração da expedição de Eddington no Príncipe que se realizou em 29 de maio de 1989 deve-se à iniciativa do então embaixador português Eugénio Anacorreta Correia. Na altura, uma placa de mármore foi instalada em frente dos antigos secadores no lado vertical do terreiro, o lugar onde a expedição de Eddington supostamente fez as suas observações. A 29 de maio de 2009, o 90º aniversário da expedição de Eddington 34 Nascimento 2010, 367.35 Nascimento 2010, 366.36 Mourão 2010, 60.37 Mourão, 2010, 70.38 Mourão 2010, 70. Ellis 2012, 56.39 Ellis 2012, 54.40 Wezckalnys 2012, 43.41 Ellis 2012. 57São Tomé e Príncipe
  • 412 413CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3foi comemorada no Príncipe com a participação de cientistas britânicos e portugueses e das autoridades locais. Foi revelada uma placa metálica interpretativa da Royal Astronomic Society, concebida pelo astrónomo Richard Massey, ao lado da placa anterior. Em agosto de 2011, no âmbito da filmagem do curto vídeo Ação a Distância pertencente ao projeto artístico Posição Aparente, da espanhola Paloma Polo, em torno da expedição de Eddington, que foi exibido no Museu Rainha Sofia em Madrid, no início de 2012, a artista mudou as duas placas comemorativas do seu lugar original para o quintal atrás da casa principal. Esta mudança para o quintal onde, segundo as investigações de Polo, realmente ocorreram as observações de Eddington em 1919, tornou as placas comemorativas invisíveis para os olhos do visitante desavisado da Roça Sundy, pois não pode adivinhar que ali estão erguidas.Expedição de Eddington. imagem criada pela artista Paloma Polo para a exposição Posição Aparente (Madrid, 2012)São Tomé e Príncipe
  • 414 415CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3BIBLIOGRAFIABrito, Raquel Soeiro de. A Ilha do Príncipe. Geographica. Revista da Sociedade de Geografia de Lisboa. 10 (III), 1967: 3-20.Ellis, Richard. Eddington and the 1919 Total Solar Eclipse at Príncipe. In: Paloma Polo (ed.), Through Cloud, Hopeful, pp. 53-61. Madrid: Museo Nacional Centro de Arte Reina Sofia, 2012.Forjaz, Jorge. Genealogias de São Tomé e Príncipe. Subsídios. Amadora, DisLivro 2011.Lima, João Abreu; Guedes, Manuel Sousa e Guedes, Sebastião Sousa. Inventário do Património Edificado de S.Tomé e Príncipe. Empresas Agrícolas 1987.Mantero, Francisco. A Mão d’Obra em S.Thomé e Príncipe. Lisboa, edição de autor, 1910.Matos, Raimundo José da Cunha. Corografia Histórica Ilhas de S.Tomé e Príncipe, Ano Bom e Fernando Pó, 4ª edição. S.Tomé, Imprensa Nacional 1916.Nascimento, Augusto. Histórias da Ilha do Príncipe. Oeiras: Município de Oeiras, 2010.Pape, Duarte e Andrade, Rodrigo Rebelo de. Exposição Inventar(iar) as roças de São Tomé e Príncipe. Museu da Cidade de Lisboa, 10 de março a 20 de abril de 2012.Polo, Paloma (ed.). Through Cloud, Hopeful. Madrid: Museo Nacional Centro de Arte Reina Sofia, 2012República Democrática de S.Tomé e Príncipe (RDSTP). Ministério da Agricultura e Desenvolvimento Rural, Recenseamento Agrícola 1990, S.Tomé 1993.Sociedade de Geografia de Lisboa (SGL). Comemorações do 90º Aniversário da Expedição Científica de Eddington à Ilha do Príncipe. Memórias 12. Lisboa, 2010.Vaz, Francisco. San Men Dêçu. A Senhora Mãe de Deus em São Tomé e Príncipe. Lisboa: Província Portuguesa da Congregação dos Missionários do Coração de Maria 1989.Weszkalnys, Gisa Príncipe eclipsed. Commemorating the confirmation of Einstein’s Theory of General Relativity. Anthropology Today 25(1), 2009: 8-12.Weszkalnys, Gisa Speculations on Eddington on Príncipe. In: Paloma Polo (ed.), Through Cloud, Hopeful, pp. 33-47. Madrid: Museo Nacional Centro de Arte Reina Sofia, 2012Braga, Joaquim de Souza & Paulet, José Maria da Silva. Plano da Ilha do Príncipe no Golfo de Guine. Levantado em 1814 e corrigido em 1819. Lisboa 1858. Acedido em http://www.tvciencia.pt/tvccat/pagcat/tvccat02.asp?varcota=CDI-2125-1853&zoom=5Placa comemorativa de 1989, foto do autor, março de 2012Placa comemorativa de 2009, foto do autor, março de 2012São Tomé e Príncipe
  • 417CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3416 CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3TIMOR – LESTEA URBANIZAÇÃO PORTUGUESA DE DÍLIIntroduçãoA organização territorial e o património construído constituem parte do legado do período colonial português em Timor-Leste. Díli representa uma marca evidente desse legado por conservar, desde então, o estatuto de capital e apresentar a maior concentração de elementos arquitetónicos do período português em território timorense.O presente artigo relata a evolução compositiva do agregado de Díli enquanto sede da administração e núcleo mais populoso da ex-colónia portuguesa de Timor, contextualizando o surgimento e consolidação de algumas zonas da atual cidade e a construção dos objetos arquitectónicos mais representativos.No papel de sede administrativa portuguesa, Díli conheceu diferentes fases de construção. No presente texto, a ocupação japonesa de Timor durante a 2ª Guerra Mundial (1942-1945) constitui o marco cronológico que divide a construção do agregado em dois períodos distintos. O primeiro corresponde à consolidação da sede administrativa desde a sua instalação (1769) até à ocupação pelas tropas nipónicas (1942); o segundo inicia-se com o restabelecimento da administração portuguesa (1945), remetendo para a reconstrução pós-guerra e para o desenvolvimento da capital colonial até à proclamação unilateral da independência da República Democrática de Timor-Leste (1975).“Planta Hidro-topográfica da Praça e Porto de Dilly e terreno circunvizinho da Ilha de Timor”, levantada por Frederico Leão Cabreira. 1841. Acervo: Sociedade de Geografia de Lisboa (SGL: 6/C/4).Texto de Isabel Boavida
  • 418 419CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3Desenho esquemático de Díli em 1942.1 - Alfândega; 2 - Ponte cais; 3 - Edifício das Repartições; 4 - Catedral; 5 - Paços do Concelho; 6 - Edifício da Repartição de Fazenda; 7 - Cadeia Civil; 8 - Quartel de Infantaria; 9 - Colégio de Artes e Ofícios; 10 - Antigo Palácio do Governo; 11 - Casa de Timor; 12 - Farmácia e Posto Médico; 13 - Escola Municipal; 14 - Agência do Banco Nacional Ultramarino; 15 - Mercado; 16 - Farol; 17 - Assembleia dos Funcionários; 18 - Colégio das Missões; 19 - Complexo Hospitalar; 20 - Residência do Governo; 21 - Campo de Aviação; 22 - Cemitério de Bidau; 23 - Edifício de função desconhecida; 24 - Edifício de função desconhecida; 25 - Igreja de Santo António de Motael; 26 - Edifício de função desconhecida; 27 - Colégio-Liceu Dr. Francisco Machado; 28 - Edifício pertencente à comunidade chinesa; 29 - Paiol; 30 - Edifício de função desconhecida; 31 - Edifício de função desconhecida; 32 - Cemitério de Motael; 33 - Cemitério de Santa Cruz; 34 - Cemitério Chinês; 35 - Casa do Comandante do Aquartelamento de Taibesse.1 – Da instalação à ocupação japonesaEm 1769, na sequência de um cerco prolongado de três anos à sede da administração portuguesa em Lifau (no atual enclave de Oecussi) o governador António José Telles de Menezes (1768-1776) e a sua comitiva refugiaram-se numa pequena estrutura fortificada na baía de Díli, no reino de Motael. Motivado pelas boas condições do porto e pela a prontidão do régulo no oferecimento de várzeas e terrenos para cultivo e de madeiras e mão-de-obra para construção, o governador decidiu instalar aí a nova sede da administração1. A abundante irrigação da planície pelas ribeiras que desciam da cordilheira montanhosa era favorável à cultura intensiva do arroz, mas, em contrapartida, responsável pela natureza pantanosa dos terrenos2. Para defesa do novo estabelecimento, foi levantado um muro que o isolava do pântano a sul, e organizaram-se três postos militares: 1 Vaquinhas, 1883: 278-79; Matos, 1974: 99.2 Silva, 1887: 38; Silva, 1891: 77-78, 80.3 guardado por portugueses e estrangeiros (Vaquinhas, 1883: 284-285).4 guarnecido pelos habitantes da povoação de Bidau (Vaquinhas, 1883: 285), localizada a oriente da nova sede, onde se instalou o grupo de cristãos foragidos de Lifau, composto por mestiços de portugueses, goeses, de Malaca, das Molucas e nativos de Larantuca e Solor (Castro, 1996: 94; Thomaz, 1974: 278; Thomaz, 1976-77: 510; Thomaz, 1998a: 657-658), que se exprimiam num dialeto crioulo-português, entretanto extinto, que ficou conhecido como “português de Bidau” (Castro, 1996: 94; Thomaz, 1998a: 657-658).5 localizado a ocidente da sede, guarnecido pelos soldados oriundos do reino de Sica, na ilha das Flores, que chegaram a Lifau para auxiliar na defesa da praça, acabando por acompanhar a comitiva do governador aquando da retirada para Díli em 1769 (Vaquinhas, 1883: 285). Diferentes fontes referem localizações distintas do reino de Sica. A localização na ilha das Flores (Castro, 1996: 96; Thomaz, 1974: 278; Thomaz, 1998b: 616) parece ser a mais correta, embora alguns escritos refiram situar-se em Ombai (Alor) (Vaquinhas, 1883: 285) ou Solor (Dores, 1903: 58).6 Thomaz, 1976-77: 509.7 Castro, 1944: 51; Ruas, 1947: 23.8 “Planta Hidro-topográfica da Praça e Porto de Dilly e terreno circunvizinho da Ilha de Timor” de 1841, da autoria do tenente coronel de artilharia e então governador da capitania da Ilha de Timor Frederico Leão Cabreira (1839-1844).o posto de moradores3, o posto de Bidau4 e o posto da companhia de Sica5.Durante muito tempo, Díli terá permanecido na condição de simples praça de armas, que dependia do porto como meio de comunicação com o exterior6. O agregado populacional foi-se desenvolvendo de forma espontânea até ao governo de José Maria Marques (1834-1839), que intentou a higienização da praça pela abertura de uma rede ortogonal de arruamentos e construção de novos edifícios para instalar a residência dos governadores e o quartel de infantaria na rua principal, estabelecendo ainda ligações com Lahane e Dare através de duas estradas para sul 7.Em 18418, existia um núcleo relativamente coeso, cercado por uma paliçada defensiva, que concentrava os edifícios da administração, circundado por zonas suas dependentes e vitais para o seu funcionamento. O núcleo central organizava-se em função da atividade portuária, Timor-Leste
  • 420 421CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3estando os principais edifícios dispostos em torno do terreiro de descarga dos navios9. Entre estes encontrava-se a alfândega, a feitoria dos navios de Macau, a tranqueira de Nossa Senhora da Conceição, o quartel do batalhão, a igreja matriz, a residência do governador, a casa do adjunto da fazenda e a casa da rainha de Manatuto, dos quais os únicos em alvenaria eram a igreja e a casa do adjunto da fazenda, sendo os restantes construídos com pedras chatas irregulares sem ligantes, ou em palapa10. A leste deste núcleo, entre os coilões11 Ahai e Cebo, encontrava-se o Campo China12, a ocidente do qual se desenvolvia a povoação de Bidau, onde habitava a companhia de moradores13 que intervinha em situações de guerra e defesa da praça de Díli. Para oeste estendiam-se os domínios do reino de Motael, cujo centro de regência ficava próximo do recinto muralhado português, ladeado pelo forte do Carqueto que funcionava como posto avançado de vigia às entradas no porto.Com o desaparecimento da paliçada, a barreira física entre a praça e o espaço circundante dissolveu-se e o horizonte de expansão do agregado ampliou-se a toda a planície. À medida que decorria a “pacificação” do território14, Díli começou a ganhar estabilidade e maturidade como sede da administração15, passando a área do primitivo núcleo muralhado a instalar as várias repartições e outros serviços de interesse público, consolidando-se como centro da cidade, em torno do qual gravitavam zonas satélite que instalavam funções essenciais para Timor-Leste9 Lobo, 2002: 8.10 construções com folhas de Gabueira (pelepah em malaio), um tipo de palmeira (corypha utan) comum em Timor, cujos pecíolos eram justapostos para construir as paredes e os limbos dispostos em sucessivas camadas para formar a cobertura (Cabreira, 1842: 83; Oliveira, 1971: 34-35; Thomaz, 1976-77: 510).11 designação dos cursos de água de fraco caudal que derivam das ribeiras, tanto no seu estado natural, como depois de canalizados, por valas de cimento a céu aberto, para escoamento e drenagem.12 área de residência da comunidade chinesa. A numerosa comunidade chinesa, que em meados do século XIX se dispersava tanto por Díli e restantes portos no litoral, como pelo interior, dedicava-se ao comércio. Apesar de já no século XV frequentarem os portos de Timor em busca do sândalo, só no século XVIII surgem referências à existência de chineses radicados em Lifau. O aparecimento de numerosas colónias de chineses em Timor, deu-se no contexto da vaga de emigração chinesa para o Sueste Asiático no início do século XIX (Thomaz, 1974: 244-47).13 tropas de segunda linha.14 só alcançada em 1913, com recurso a sucessivas campanhas militares contra os reinos timorenses que se opunham à administração portuguesa, conhecendo maior intensidade durante a governação de José Celestino da Silva (1894-1908) (Pélissier, 2007).15 a partir de 1896, Timor passou a ser um distrito autónomo, com uma nova organização administrativa independente de Macau (Figueiredo, 2011: 118).16 que por algumas vezes devastaram áreas consideráveis da cidade, como aconteceu em 1866, quando um incêndio que teve início numa casa em Bidau alastrou para oeste, consumindo o quartel do batalhão defensor, o palácio do governo, a repartição de fazenda, a secretaria do governo, a arrecadação de material de guerra (arsenal) e a casa de instrução primária (Oliveira, 1950: 122).17 Correia, 1944: 69-81.18 Martinho, 1943: 33.a atividade da administração. Nas últimas décadas do século XIX, as construções frágeis, vulneráveis a incêndios e terramotos16, começaram a ser substituídas por edifícios de caráter permanente de um ou dois pisos, alguns decorados com colunatas nas fachadas principais e pórticos e frontões de demarcação das entradas.No início da década de 40 do século XX, segundo Armando Pinto Correia, predominavam na cidade quarteirões desocupados consumidos por capim e a par das construções de alvenaria existiam palhotas cercadas de quintais de bananeiras e coqueiros17. Por seu lado, José Simões Martinho descrevia que “através da folhagem verde-escura de grandiosas ficus, enxergam-se os quartéis, repartições e residências”18.
  • 422 423CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3Neste cenário de construção pouco densa, a função portuária continuava a ocupar posição de destaque na cidade, estando o edifício da alfândega19 e a ponte-cais20 localizados na zona central. A catedral21 destacava-se em altura a sul da alfândega. O centro efetivo da cidade era marcado pelo edifício dos paços do concelho22, situado no topo sul da praça Vasco da Gama23. No topo leste da mesma praça, no local da antiga tranqueira, foi construído o edifício do quartel de infantaria24. As repartições da administração estavam distribuídas pelo edifício das repartições25, que instalava os serviços de obras públicas e correios26, pelo edifício da repartição 19 a construção da alfândega foi iniciada em 1881 (Carvalho, 1881: 207), sendo-lhe acrescentado um pórtico orientado para a ponte-cais em 1899 (Carlos, 1900: 3-4).20 construída entre 1899 e 1900 com estrutura de ferro (Heitor, 1898: 5; Heitor, 1899: 17; Carlos, 1900: 9; anónimo, 1923: 33) e posteriormente reconstruída sobre suportes de cimento (Gomes, 1956: 91).21 inaugurada em 1937 como igreja matriz (Castro, 1944: 194, 575; Teixeira, 1974: 182) e posteriormente elevada a catedral. Para sua construção foi demolida, em 1933, a antiga igreja matriz (Martinho, 1943: 30-31), que tinha sido inaugurada em 1880 (Teixeira, 1974a: 575) e reconstruída no início da década de 90 do século XIX, depois de ter sido quase totalmente destruída pelo terramoto de 25 de dezembro de 1890 (Borja, 1891a: 122).22 Construído entre 1912 e 1915 (Vianna, 1912: 103; Móra, 1915: 26), consistindo possivelmente num reaproveitamento do edifício que desde 1884 era utilizado como hospital [que ruiu parcialmente aquando do terramoto de 25 de dezembro de 1890 (Borja, 1891b: 122; Silva, 1892: 81)], uma vez que a sua transformação em câmara municipal fora sugerida em 1888 pelo delegado de saúde (Silva, 1889: 20). Por sua vez, o próprio hospital poderia já ser um reaproveitamento de uma antiga igreja que em 1876 estava arruinada, mas em condições de reabilitação, sendo também então sugerida a sua adaptação a tribunal de justiça ou câmara (anónimo, 1876: 86).23 que resultou do aterro e ajardinamento do antigo terreiro de descarga de navios, em 1898, pela altura da comemoração do quarto centenário da descoberta do caminho marítimo para a Índia (Heitor, 1898: 5-6). Até à década de 20, encontrava-se no centro da praça o edifício da Escola Mendes Leal que, também no contexto da comemoração do centenário, foi adaptado para instalar a Biblioteca Vasco da Gama (Heitor, 1899: 13-14).24 construído entre 1885 e 1899 (Pereira, 1885: 211; Silva, 1887: 38; Heitor, 1889: 9-10). No final da década de 30 do século XX, instalava a administração do concelho de Díli e os serviços de polícia (Magro, 1947: 7).25 construído entre 1882 e 1886 (Oliveira, 1882: 322; Maia, 1886: 54). Em 1893, instalava o arsenal de obras públicas e material de guerra, conservatória do registo predial e também a farmácia (Heitor (1893). Planta do Porto, Cidade e Arredores de Dilly), esta última orientada para a rua José Maria Marques, tendo aí sido instalada depois do terramoto que destruiu o hospital em 1890 (Silva, 1892: 82), acabando por ser adaptada, em 1898, para funcionamento da escola (Heitor, 1899: 14).26 Martinho, 1943: 30.Alfândega e ponte cais. 1927.Acervo: Portugal, Arquivo Histórico Ultramarino (disponível em actd.iict.pt).Paços do Concelho. 1927.Acervo: Portugal, Arquivo Histórico Ultramarino (disponível em actd.iict.pt).Timor-Leste
  • 424 425CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3Timor-Lestede fazenda27 e pelo antigo do palácio do governo28, que alojava a direção dos serviços de administração civil, a repartição militar, a secretaria do governo e o gabinete do governador29. Entre as funções instaladas no núcleo central encontrava-se ainda o colégio de artes e ofícios30, a cadeia civil31, a escola municipal32, o Colégio-Liceu33, a farmácia e posto médico34, as instalações do Banco Nacional Ultramarino (BNU)35 e a Casa de Timor36.27 construído em 1890 para depósito de material de guerra e parque de artilharia, acabando por instalar provisoriamente parte dos serviços hospitalares até à construção do hospital em Lahane (Heitor, 1899: 8). Em 1910, foi readaptado para alojar a repartição de Fazenda (Mousinho, 1910: 21; Martinho, 1943: 31).28 cuja construção foi concluída em 1881 (Carvalho, 1881: 207). Em 1891 instalava a secretaria do governo, a administração do concelho, a repartição de fazenda e a câmara municipal (Silva, 1892: 78-79).29 Martinho, 1943: 29; não identificado, 1933: 57.30 que funcionava no antigo edifício do Colégio de São José e Santa Júlia, que entre 1880 e 1910 instalou o Colégio de Beneficência feminino (Teixeira, 1974b: 229-30), chegando a ser adaptado entre 1915 e 1917 para acolher repartições públicas (Cabral, 1915: 209; Cabral, 1917: 138).31 construída entre 1884 e 1888 (Pereira, 1885: 24; Costa, 1888: 282).32 construída entre 1922 e 1924 (não identificado, 1923: 20-21; não identificado, 1925: 5).33 instituído em 1938 e instalado num edifício preexistente, pertencente ao Estado, localizado na Avenida Sá da Bandeira (Fontoura, 1938a: 298), sendo renomeado Colégio-Liceu Dr. Francisco Machado em 1939 (Fontoura, 1939: 16).34 cujo processo de construção foi iniciado em 1922 (Gomes, 1922: 286).35 o Banco Nacional Ultramarino abriu uma agência em Timor em 1911, que em 1928 foi instalada numa casa arrendada, pertencente a Pedro José Lobo.36 criada para exposição dos artefactos oriundos das diferentes circunscrições. O processo de construção foi iniciado em 1938, por ocasião dos festejos do aniversário da Revolução Nacional (Fontoura, 1939b: 223).Antigo Quartel de Infantaria. Atual Casa Europa. 2011.Fotografia: Flávio Miranda (Secretaria de Estado do Turismo, Arte e Cultura. Timor-Leste).Antigo Colégio de Artes e Ofícios. Atualmente abandonado. 2011.Fotografia: Flávio Miranda (Secretaria de Estado do Turismo, Arte e Cultura. Timor-Leste).
  • 426 427CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3A área a leste do coilão Ahai estabilizou-se como espaço de fixação da comunidade chinesa, adquirindo um caráter predominantemente comercial, que dispunha de equipamentos próprios, entre os quais a associação comercial e a escola chinesa.Em torno do núcleo central identificavam-se quatro zonas habitacionais de casas de palapa dispersas: Bidau e Benamauc a nascente, Caicole a sul, e Colmera a poente. Bidau, que correspondia à antiga zona de residência das Antiga Escola Municipal. Atualmente Universidade Nacional de Timor-Leste (UNTL). 2011Fotografia: Flávio Miranda (Secretaria de Estado do Turismo, Arte e Cultura. Timor-Leste).Instalações do Banco Nacional Ultramarino (BNU). s.d. (posterior a 1928).Acervo: Arquivo Histórico da Caixa Geral de Depósitos. Fundo documental do Banco Nacional Ultramarino. (cgd-ah-bnu: AF/02AG/16.01)Antiga Casa de Timor. 1973. Demolido.Acervo: Portugal, Arquivo Histórico Ultramarino (disponível em actd.iict.pt).Antigo Mercado. Atual Centro de Congressos de Díli. 2014.Fotografia: Megumi Yamada (Secretaria de Estado do Turismo, Arte e Cultura. Timor-Leste)Timor-Leste
  • 428 429CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3tropas de moradores, transformou-se no maior bairro de Díli, possuindo alguns equipamentos destinados à numerosa comunidade católica que aí habitava, entre os quais a escola feminina da missão, a igreja37 e o cemitério católico. Caicole incorporava os terrenos pantanosos a sul do núcleo central, onde foi construído o mercado38, – na confluência das duas estradas inter-regionais que ligavam a cidade a Lahane e às circunscrições da zona leste, guardando afastamento em relação ao centro da cidade, – para realização do bazar, que semanalmente atraía mercadores vindos do interior de Timor. Colmera era um bairro de caráter comercial, onde coexistiam, em iguais proporções, estabelecimentos de chineses e muçulmanos39.Num raio exterior a estas áreas periféricas desenvolviam-se zonas suburbanas, onde foram instalados equipamentos de apoio ao funcionamento da administração e do agregado populacional. Os locais de enterramento guardavam afastamento em relação ao núcleo central, existindo o, já referido, cemitério de Bidau e o cemitério de Motael, que serviam as respetivas comunidades católicas instaladas na marginal, o cemitério de Santa Cruz na estrada de ligação a Lahane, e o cemitério chinês no sopé da montanha40.A área do antigo centro de regência do reino de Motael transformou-se numa zona suburbana próxima ao núcleo central, onde foi erigido o farol de sinalização e apoio à entrada no porto41, e uma igreja42. Em 1922, o quartel da Companhia de Caçadores foi transferido de Motael para Timor-Leste37 as referências à existência de uma igreja em Bidau remontam a 1879. Quanto à escola feminina as notícias surgem em 1887 (Teixeira, 1974: 113-114).38 já construído em 1927 (Duarte, 1928).39 Nos arredores de Díli estabeleceu-se, a partir do final do séc. XIX, uma pequena comunidade muçulmana, composta por dois grupos distintos: os árabes, vindos do arquipélago malaio, mas cujas origens remontavam ao Hadramaut; e os mouros, nativos de Timor e da ilha de Alor, convertidos ao islamismo (Thomaz, 1998c: 600).40 Silva, 1887: 39-40.41 O farol foi edificado para substituir o seu antecessor, cuja construção datava da década de 60 do século XIX (Oliveira, 1950: 99-100). Era constituído por um piso circular de alvenaria, construído em 1889 (d’Andrade, 1889: 216), sobre o qual foi instalada uma estrutura metálica em 1894 (Forjaz, 1894: 62; Heitor, 1898: 5).42 cuja construção foi iniciada em 1901 (Carlos, 1907: 14).43 Ruas, 1947: 23.44 construídas antes de 1938 (Martinho, 1943: 33, Magro, 1947: 7).45 construído em 1938, por orientação de António Jacinto Magro (Magro, 1947: 6, 9).46 Magro, 1947: 8.47 Silva, 1892: 78. 48 instalado, em 1877 (Silva, 1891: 78), como sede da atividade missionária pelo Pe. Medeiros, que chegara a Timor para reestruturar a missão católica quando esta passou a depender da diocese de Macau (Teixeira, 1974).Taibesse43, que assim se estabilizou como zona militar da cidade, sendo aí construídos alguns edifícios de alvenaria, entre os quais duas residências para oficiais44 - a do subalterno junto das instalações do aquartelamento, e a do comandante no topo de um morro, com observação sobre a área do quartel - e o edifício do comando da companhia45. Anexa ao aquartelamento, ficava a colónia penal, onde presos por delitos comuns cumpriam pena, sob vigilância da companhia46.A partir de meados do século XIX, começaram a ser construídas residências para europeus nos terrenos a meia encosta no vale da ribeira de Lahane, que ofereciam temperaturas amenas e afastamento dos focos de paludismo da planície47. Lahane era cortada em partes não comunicantes pelos cursos de água. A ocidente, encontrava-se isolado o colégio das missões48. Farol. 2011.Fotografia: Flávio Miranda (Secretaria de Estado do Turismo, Arte e Cultura. Timor-Leste).Colégio das Missões. 1927.Acervo: Portugal, Arquivo Histórico Ultramarino (disponível em actd.iict.pt).
  • 430 431CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3A oriente estabeleceu-se o bairro para habitação de funcionários europeus49, onde estava instalada a assembleia dos funcionários50 e a residência do governador51. A partir da estrada de acesso à residência do governador, um desvio dirigia-se para o complexo hospitalar, do qual faziam parte o corpo principal52, o pavilhão de isolamento de portadores de doenças infeto-contagiosas53 e a enfermaria para mulheres54.Esta seria a organização ocupacional da planície de Díli e da encosta de Lahane quando, no contexto da Guerra do Pacífico, o território timorense foi ocupado por tropas japonesas (1942-1945) e devastado pelos confrontos entre japoneses e australianos. Neste cenário, o centro da cidade foi bombardeado, perdendo grande parte dos seus edifícios de alvenaria.49 A primeira iniciativa governamental de estabelecimento em Lahane partiu do governador Afonso de Castro (1859-1963), que mandou construir o hospital na base da cordilheira e a sua residência no morro de Castro Lahane. A partir de 1886, passou a residir em Lahane o juiz de direito, existindo, em 1891, mais três barracas, respetivamente destinadas aos delegados de saúde e do ministério público, ao chefe das obras públicas e ao escrivão da alfândega de Díli (Silva, 1891: 78). Durante o período de governação de Celestino da Silva foram aí construídas mais residências para funcionários do Estado (Felgas, 1956: 275).50 A assembleia dos funcionários foi criada em 1938, com o objetivo de acolher os funcionários públicos recém-chegados ou de passagem por Díli que enfrentassem dificuldades na obtenção de alojamento. Para sua instalação, foi aproveitado o edifício inacabado da nova residência do governador (Fontoura: 1938b: 110), cuja construção tinha sido iniciada em 1918 (não identificado, 1922: 3).51 cujo processo de construção se prolongou desde 1884 a 1886 (Pereira, 1884: 24; Maia, 1886: 54; Silva 1889: 20).52 construído entre 1902 e 1906 (Carlos, 1902: 257; Carlos, 1907: 190), inaugurado, em 1906, com o nome Hospital D. Carlos I e renomeado Hospital Dr. Carvalho em 1910 (Mora, 1917: 17).53 construído entre 1938 e 1939 (Fontoura, 1938c: 239-240; Castro, 1944: 210-211).54 construída entre 1916 e 1917 (Cabral, 1916: 138; Cabral, 1917: 138; Mora, 1917: 18-19).Assembleia dos Funcionários. 2014Fotografia: Megumi Yamada (Secretaria de Estado do Turismo, Arte e Cultura. Timor-Leste).Antigo conjunto hospitalar. Atualmente desocupado. 2014.Fotografia: Isabel Boavida.Residência do Governador. Atual Palácio Nobre. 2014.Fotografia: Isabel Boavida.Timor-Leste
  • 432 433CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 32 – A construção da cidade pós-guerra55A Díli moderna não conheceu o crescimento das suas contemporâneas capitais ultramarinas portuguesas no continente africano56. Pelas suas características demográficas57 e pela abundância de espaço para expansão na planície, formou-se num aglomerado descontínuo e de baixa densidade, onde a maioria das construções era de palapa58 e os edifícios de alvenaria não se desenvolviam, por norma, acima do piso térreo59. Era uma cidade de ambiente semi-rural, na qual tinham lugar atividades próprias do modo de vida tradicional, sendo as áreas habitacionais nas imediações do centro da cidade constituídas por quintais cultivados onde também se criavam animais.Um aspeto determinante na construção do espaço urbano foi a inexistência, nos serviços das obras públicas provinciais, de uma equipa técnica que refletisse sobre os problemas da cidade de modo fundamentado60, havendo que solicitar a elaboração de estudos e projetos de arquitetura e urbanismo aos serviços de urbanização do Ministério do Ultramar em Lisboa, o que por vezes resultava numa desarticulação entre os problemas, as soluções e a sua implementação61. Entre as principais dificuldades que se expunham localmente, o desenvolvimento urbano lutava com o elevado custo e morosidade dos trabalhos de construção imobiliária resultantes da necessidade de importação de grande parte dos materiais62, que foram preponderantes na forma como a cidade evoluiu e se configurou.55 As descrições de Fernando Schiappa de Campos (Campos, Fernando Schiappa de (1972). Plano de Urbanização de Díli. Memória descritiva e justificativa. Lisboa: Direcção dos Serviços de Urbanismo e Habitação) e Luís Filipe Thomaz (Thomaz, Luís Filipe F. R. (1976-77). “O afluxo ao meio urbano no Timor português.” Revista Da Faculdade de Letras de Lisboa, 4(1), 495–553) serviram de base para fazer a reconstituição da distribuição funcional e dos equipamentos existentes na cidade na primeira metade da década de 70 do século XX.56 considerando-se aqui os casos de Luanda, capital de Angola, e Lourenço Marques (Maputo), capital de Moçambique, que conheceram grande crescimento na segunda metade do século XX, não ignorando que em Bissau, capital da Guiné, também se verificou uma ocupação de baixa densidade.57 Pelo censo de 1950, a população da capital era calculada em 6000 pessoas, -- das quais cerca de 3000 eram “civilizados”, registando-se entre estes 330 “brancos”, 30 “indianos”, 50 “negros”, 860 “mestiços”, e os restantes “chineses” (Felgas, 1956: 346) --, tendo aumentado substancialmente até 1970, quando rondava as 17 000 pessoas (Thomaz, 1976-77: 513).58 A proporção de pessoas que vivia em edifícios de pedra e cal era de 20% (Thomaz, 1976-77: 514). Algumas casas de palapa assentavam sobre base de cimento e possuíam janelas envidraçadas (Oliveira, 1971: 35).59 Oliveira, 1971: 34; Thomaz, 1976-77: 509; Almeida e Mendes, 1959: 236.60 em Março de 1961, perante a falta de um arquiteto em permanência nos Serviços de Obras Públicas de Timor, o Concelho Orientador da Direcção-Geral de Obras Públicas e Comunicações do Ministério do Ultramar sugere que todos os projetos a cargo daqueles fossem sujeitos a aprovação, senão mesmo elaborados, pela Direcção-Geral (Gama, 1961: 10).61 Almeida e Mendes, 1959: 135-36; Felgas, 1956: 353.62 Felgas, 1956: 350.Depois da retirada das tropas japonesas e do restabelecimento da administração portuguesa, começou a reinstalação dos serviços. O centro da cidade encontrava-se devastado, embora tivessem resistido alguns edifícios em condições de serem reabilitados, entre os quais o quartel de infantaria63, o Colégio de São José64, o Colégio-Liceu65, a escola municipal, a Casa de Timor66, as instalações dos serviços da fazenda67, a farmácia e posto médico68, um edifício pertencente à comunidade chinesa na Avenida Sá da Bandeira (marginal), o edifício das repartições69 e a cadeia, tendo estes dois últimos sido reutilizados mas demolidos mais tarde70. Fora do centro, nas áreas periféricas e suburbanas de Bidau, Motael, Taibesse e Lahane, a maior parte das construções de alvenaria foi poupada.63 que passou a alojar a companhia de intendência, até esta ser transferida para zona militar de Taibesse 1972 (Thomaz, 1976-77: 543).64 logo depois da reocupação, alojou provisoriamente os escritórios da Sociedade Agrícola Pátria e Trabalho (SAPT Lda.) e do Banco Nacional Ultramarino (Fontoura, 1950: 5; Pimenta, 1949: 16). Quando a sociedade construiu edifício próprio, o antigo colégio passou a instalar a Câmara Eclesiástica.65 onde passou a funcionar a Administração do Concelho e a Câmara Municipal (Campos, 1972: 2(13); Thomaz, 1976-77: 543, Almeida e Mendes, 1959).66 que, entre 1966 e 1967, foi adaptada para funcionar como Centro de Informação e Turismo (Presidência do Conselho, 1968: 216; Presidência do Conselho, 1969a: 237).67 que se supõe ser o edifício que na primeira metade da década de 70 funcionava como Direção Geral de Segurança (PIDE) (Thomaz, 1976-77: 542)68 que na década de 70 abrigava os serviços de educação (Thomaz, 1976-77: 543).69 Fontoura, 1950: 5.70 o edifício das repartições foi demolido no processo de abertura do largo Infante D. Henrique. A cadeia foi demolida depois de serem construídas novas instalações prisionais em meados da década de 60 (Silva, 1963: 1), dando lugar a um terreiro de feiras nas traseiras do palácio das repartições (Thomaz, 1976-77: 542).Timor-Leste
  • 434 435CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3Os serviços e funcionários do Estado, bem como os particulares, ficaram provisoriamente alojados em construções de palapa71. Entre as primeiras estruturas de alvenaria erguidas encontravam-se os escritórios e armazéns da Sociedade Agrícola Pátria e Trabalho (SAPT Lda.)72 e equipamentos de apoio à atividade portuária, nomeadamente a alfândega com os respetivos armazéns73 e uma pequena ponte-cais 71 Pimenta, 1949: 1.72 construídos entre 1948 e 1949, reservando-se algumas salas para o funcionando da filial do Banco Nacional Ultramarino (Pimenta, 1949: 17).73 cuja construção foi iniciada em 1950 (Ruas, 1950: 143; Conselho Técnico de Fomento Colonial, 1950: 11; Fontoura, 1950: 2). Na década de 60, com a construção da ponte-cais definitiva, um dos edifícios ficou reservado à capitania do porto, outro foi adaptado, em 1967, para instalar a Imprensa Nacional (Presidência do Conselho, 1969a: 238).74 construída com os blocos das ruínas da Catedral, entre 1946 e 1948 (Pimenta, 1949: 4; Simões, 1949: 13; Pimenta, 1947: 4; Ruas, 1950: 74).75 elaborado no Gabinete de Urbanização do Ministério do Ultramar, pelo arquiteto João António Aguiar (Aguiar, 1951a; Aguiar, 1951b). A razão da demora na elaboração do plano foi a hipótese de transferência da capital para outra localização, onde o clima fosse mais favorável ao estabelecimento europeu (Felgas, 1956: 346).provisória, para desembarque de passageiros e volumes pesados74. As obras de reconstrução decorriam em processos individuais, sem perspetiva de conjunto, até à elaboração do Plano de Urbanização de Díli de 195175, que veio definir as linhas condutoras de organização e desenvolvimento da cidade, entre as quais o sistema de arruamentos, o zonamento e as características das construções.Edifício da Sociedade Agrícola Pátria e Trabalho Lda. (SAPT Lda.). 1957.Acervo: Arquivo Histórico da Caixa Geral de Depósitos. Fundo documental do Banco Nacional Ultramarino (cgd-ah-bnu: AG032538).Antigo edifício da SAPT Lda.. 2011.Fotografia: Flávio Miranda (Secretaria de Estado do Turismo, Arte e Cultura. Timor-Leste).Timor-Leste
  • 436 437CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3Timor-LesteDesenho esquemático de Díli em 1972.1- Sociedade Agrícola Pátria e Trabalho Lda.; 2 - Alfândega e Armazéns; 3 - Palácio das Repartições; 4 - Quarteirão Escolar; 5 - Pólo de equipamentos de Saúde; 6 - Cruz Vermelha; 7 - Académica; 8 - Sport Díli e Benfica; 9 - Sporting Clube de Timor; 10 - Centro de Informação e Turismo; 11 - Hotel Resende; 12 - Hotel Costa Alves; 13 - Rua Dr. Carvalho; 14 - Rua José Maria Marques; 15 - Rua Coilão da Colmera; 16 - Consulado da China e Associação Comercial Chinesa; 17 - Escola Chinesa; 18 - Associação Comercial Agrícola e Industrial de Timor; 19 - Banco Nacional Ultramarino; 20 - Cais-acostável; 21 - Bairro dos Grilos; 22- Bairro do Farol; 23 - Escola Primária do Farol; 24 - Habitações para Funcionários do BNU; 25 - Bairro Económico; 26 - Campo de Futebol; 27 - Quintal-Boot; 28 - Igreja de Nossa Senhora da Conceição; 29 - Colégio Missionário; 30 - Hotel Turismo; 31 - Paço Episcopal; 32 - Consulado da Indonésia; 33 - Habitações económicas para Funcionários do BNU; 34 - Posto Escolar; 35 - Oficinas da Câmara Municipal; 36 - Serviços de Veterinária; 37 - Matadouro; 38 - Serviços de Economia; 39 - Lavadouro e Balneário Público; 40 - Associação Desportiva e Recreativa União; 41 - Quartel da Polícia de Segurança Pública; 42 - Quartel do Destacamento de Material; 43 - Cadeia Civil; 44 - Quartel da Companhia de Caçadores; 45 - Assistência Pública Social; 46 - Central Elétrica; 47 - Quartel General do Aquartelamento de Taibesse; 48 - Aerogare.Antiga Alfândega. Atualmente arruinada. 2011.Fotografia: Flávio Miranda (Secretaria de Estado do Turismo, Arte e Cultura. Timor-Leste).Não obstante a carência de meios, ao longo dos anos os investimentos do Estado e dos privados foram contribuindo para reerguer a cidade e construir o espaço urbano. A partir de 1953, os investimentos do Estado passaram a obedecer a sucessivos planos de fomento que canalizavam verbas para diferentes áreas - agropecuária, indústria (incluindo o turismo), comunicações e transportes, educação e saúde -, incluindo a atribuição de subsídios para investimentos de iniciativa privada, numa procura pelo desenvolvimento económico e social. Entre 1953 e 1973, as verbas dos planos de fomento possibilitaram a realização de trabalhos de urbanização (regularização de arruamentos, pavimentação, lancis e escoamento), saneamento (secagem de terrenos pantanosos por drenagem e aterro), construção de edifícios de interesse público (instalações de serviços e habitações para funcionários), e instalação de redes de fornecimento e distribuição de energia elétrica, captação e abastecimento de água, e telecomunicações.Com o objetivo de fasear os trabalhos de reconstrução de forma a serem praticáveis com os recursos disponíveis, o Município de Díli dividiu a cidade em duas zonas, tomando como charneira a terceira rua longitudinal a contar da marginal. Na primeira zona, chamada “zona de limpeza”, obrigava-se de imediato ao cumprimento da regulamentação de construção em vigor. A segunda zona ficava em regime semi-urbano, onde continuava a ser permitida a existência de hortas e construções provisórias, cujo prazo para urbanização dependeria das possibilidades e recursos dos particulares e da Administração do Concelho 76. Isto levou à formação de um 76 Almeida e Mendes, 1959: 236. Em 1965 a redução do perímetro urbano foi oficialmente publicada (Correia, 1965: 222).
  • 438 439CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3núcleo de construções em alvenaria, em torno do qual se expandiam bairros periféricos de caráter rural onde predominavam construções de palapa. Desta forma, consolidou-se o Bairro Central, delimitado pelas ruas Belarmino Lobo, Jacinto Cândido e do Coilão da Colmera 77.O Bairro Central englobava as áreas que o Plano de Urbanização de 1951 delimitava como “centro cívico” e “zona comercial central”. No centro do bairro foi instalada a praça do “centro cívico”, através da abertura do Largo Infante D. Henrique (no local da antiga praça Vasco da Gama) e da construção do Palácio das Repartições Públicas. O projeto da praça foi elaborado pelo Gabinete de Urbanização do Ministério do Ultramar em Lisboa78, obedecendo às instruções do plano de urbanização de atribuir monumentalidade e valor estético ao espaço de representação oficial da administração da província79. O desenho propunha instalar a câmara municipal no lado ocidental da praça80, e a catedral no extremo Timor-Leste77 Thomaz, 1976-77: 542.78 trabalhos n.ºs 358, 359, 360, 361, 361A, 362 do Gabinete de Urbanização do Ultramar (Aguiar et al., 1952; Aguiar, 1952; Oliveira et al., 1952a; Oliveira et al., 1952b; Oliveira et al., 1952c; Oliveira et al., 1952d), enviados para Timor em 1952 (Cavaca, 1952: 1-2).79 Aguiar, 1951b: 31.80 O bloco da câmara municipal não foi construído, continuando os serviços a partilhar com a administração do concelho um antigo edifício que resistiu ao período japonês, localizado na Avenida Sá da Bandeira.Plano Geral de Urbanização de Díli. 1951.Acervo: Portugal, Arquivo Histórico Ultramarino. Fundo do Centro de Documentação e Informação do Instituto Português de Apoio ao Desenvolvimento (AHU-IPAD: MU/T/Cx. 3,4).Vista parcial do Bairro Central. 1973.Acervo: Portugal, Arquivo Histórico Ultramarino (disponível em actd.iict.pt).Vista parcial do Bairro Central. s.d. (aproximadamente em 1968).Acervo: Arquivo Histórico da Caixa Geral de Depósitos. Fundo documental do Banco Nacional Ultramarino (cgd-ah-bnu: AF/09AM/07.01).
  • 440 441CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3oposto81, mas o único edifício construído foi o palácio das repartições, no topo sul, que era composto por três blocos independentes, cujos projetos, apesar de aprofundados individualmente no espaço de uma década, procuraram manter a unidade inicial do conjunto82.No Bairro Central, das determinações do Plano de Urbanização de 1951, além da instalação parcial da praça do “centro cívico”, apenas se cumpriu a implantação da estrutura de arruamentos, uma vez que a limitação de meios obrigou ao estabelecimento de prioridades, levando ao adiamento indeterminado e abandono de objetivos inicialmente propostos. Nos quarteirões que envolviam o “centro cívico”, para os quais o plano destinava uma “zona comercial 81 A localização da catedral no lado oriental da praça era já uma determinação do plano de urbanização (Aguiar, 1951: 31, 35). A catedral não foi construída, permanecendo, no quarteirão que lhe era destinado, o antigo edifício do quartel de infantaria, construído no século XIX.82 O bloco central foi construído na primeira metade da década de 50 (Gomes, 1956: 53; Presidência do Conselho, 1959: 860), com base num projeto, de 1953, de João António Aguiar (Aguiar, 1953). No bloco lateral oeste, construído entre 1960 e 1962 (Guerra, 1961: 129, 183; Presidência do Conselho, 1962: 267), funcionava a Repartição de Obras Públicas. O bloco lateral leste era reservado aos serviços de Correios, Telefones e Telégrafos (CTT), tendo sido construído entre 1966 e 1969 (Presidência do Conselho, 1968: 216; Presidência do Conselho, 1969a: 237; Presidência do Conselho, 1969b: 294), de acordo como um desenho de 1963, da autoria de António Sousa Mendes (Mendes, 1963).Palácio das Repartições e Largo Infante D. Henrique. 1973.Acervo: Portugal, Arquivo Histórico Ultramarino (disponível em actd.iict.pt).Palácio das Repartições. 2011.Fotografia: Flávio Miranda (Secretaria de Estado do Turismo, Arte e Cultura. Timor-Leste).Timor-Leste
  • 443CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3442central”, onde se pretendia a ocupação densa e uniformizada das ruas Formosa, Dr. Carvalho e avenida marginal, por blocos contínuos com altura mínima de dois pisos, reservados às funções comercial, de escritórios e habitacional (comércio e escritórios no térreo, e habitação nos superiores)83, foram sendo construídos edifícios funcional e formalmente diversos. As funções foram individualmente instaladas em construções com dimensões reduzidas às suas exigências espaciais, na maioria de desenvolvimento térreo.A sudoeste do Palácio das Repartições, em vez da praceta com arcadas proposta pelo plano, surgiu o quarteirão escolar da cidade, composto pela escola primária84, pelo Liceu85, pelo edifício do Centro de Estudos86, pela Escola Técnica87 e pelo ginásio.Timor-LesteAntiga Escola Primária. Atualmente UNTL. 2012.Fotografia: Flávio Miranda (Secretaria de Estado do Turismo, Arte e Cultura. Timor-Leste).Antigo edifício do Centro de Estudos. Atual Arquivo e Museu da Resistência Timorense. 2014.Fotografia: Megumi Yamada (Secretaria de Estado do Turismo, Arte e Cultura. Timor-Leste).83 Aguiar, 1951b: 3, 13-14, 31-32.84 construída entre 1954 e 1957 (Gomes, 1956: 79; Gomes, 1957: 25, 28; Gomes, 1958: 22; Presidência do Conselho, 1959: 860). A partir de meados da década de 60 passou a alojar também a escola de professores de posto escolar Engenheiro Canto Resende (Thomaz, 1976-77: 543).85 acomodado no antigo edifício da escola municipal do período anterior à guerra, que foi reabilitado e aumentado para o efeito entre 1955 e 1956 (Gomes, 1957: 26, 28; Presidência do Conselho, 1959: 860), sendo-lhe acoplado um novo corpo de salas em 1962 (Guerra, 1961: 197).86 em 1952, foi criado o Centro de Estudos de Timor (Presidência do Conselho, 1962: 266). A construção das suas instalações prolongaram-se entre 1955 e 1961 (Presidência do Conselho, 1959: 860; Presidência do Conselho, 1962: 266; Gomes, 1957: 26, 28; Gomes, 1958: 22, 28; Guerra, 1961: 113), embora nunca tenham chegado a desempenhar essa função, vindo a alojar provisoriamente os serviços de obras públicas (Freixo, 1960: 58) e, posteriormente, o Tribunal (Thomaz, 1976-77: 543; Campos, 1972: 11, 13).87 posteriormente renomeada Escola Industrial e Comercial Professor Silva Cunha, cuja construção se prolongou de 1966 a 1971 (Presidência do Conselho, 1968: 217; Presidência do Concelho, 1969b: 295; Presidência do Conselho, 1972: 331; Presidência do Conselho, 1971: 350).
  • 444 445CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3Na parte oriental da “zona comercial central”, nas proximidades de um coilão, foi instalado um pólo de equipamentos de saúde que incluía os edifícios do Centro de Saúde88, Farmácia 88 construído entre 1954 e 1955 (Gomes, 1956: 79; Gomes, 1957: 25; Presidência do Conselho, 1959: 860), de acordo com um projeto elaborado no Gabinete de Urbanização do Ministério do Ultramar por José Manuel Galhardo Zilhão (Zilhão, 1952a), remetido para Timor em 1952 (Cavaca, 1952: 1-2).89 construído, em 1956, como depósito e garagem do centro de saúde (Gomes, 1957: 28), sendo transformado em farmácia em 1966 (Presidência do Conselho, 1968: 217).90 instalada, em 1969 (Presidência do Concelho, 1969b: 297), no edifício que foi construído, entre 1957 e 1958, para alojar o Centro Materno-infantil (Gomes, 1958: 23; Presidência do Conselho, 1959: 860), onde chegou a funcionar provisoriamente a missão de estudos e combate às endemias (Freixo, 1960: 12-13).91 Campos, 1972: 12, Thomaz, 1976-77: 543do Estado89 e Delegacia de Saúde90. No quarteirão a sul encontrava-se o edifício da Cruz Vermelha91, que completava o conjunto dos equipamentos assistenciais existentes na cidade.Antiga Escola Técnica. Atualmente UNTL. 2012.Fotografia: Flávio Miranda (Secretaria de Estado do Turismo, Arte e Cultura. Timor-Leste).Pólo de equipamentos de saúde. 1974.Acervo: Portugal, Arquivo Histórico Ultramarino (disponível em actd.iict.pt).Cruz Vermelha. 2014.Fotografia: Megumi Yamada (Secretaria de Estado do Turismo, Arte e Cultura Timor-Leste).Timor-Leste
  • 446 447CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3A prática de desporto era das poucas atividades de lazer proporcionadas pela cidade. Dentro do perímetro do Bairro Central, alguns clubes desportivos construíram sedes próprias, que também organizavam eventos socioculturais, estando aí representada a Académica, o Sport Díli e Benfica e o Sporting Clube de Timor, sendo este último detentor do único cinema da cidade92. Quanto a equipamentos turísticos, existiam, no bairro, o Centro de Informação de Turismo, instalado no antigo edifício da Casa de Timor, que com o redesenho urbano ficou localizado no canto nordeste do largo do Infante D. Henrique, e alguns estabelecimentos hoteleiros, entre os quais o Hotel Resende93 e o Hotel Costa Alves94.92 Thomaz, 1976-77: 544.93 propriedade de Amadeu Coelho. Em 1969, beneficiou de obras de ampliação (Presidência do Concelho, 1969b: 295).94 O hotel mais antigo de Díli, propriedade do antigo deportado Sebastião Costa Alves (Thomaz, 1976-77: 543), a quem foi permitido construir um bloco de quartos, perante a falta de equipamentos hoteleiros na cidade. O processo de construção foi iniciado em 1959 (Freixo, 1960: 24, 52), sendo o projeto da autoria de João Pimentel Freixo, então Chefe da Repartição de Obras Públicas (Freixo; 1961: 2-14).95 Almeida e Mendes, 1959: 251; Monteiro, 1963: 1-2.No processo de higienização do Bairro Central, a organização da função comercial foi a mais difícil de controlar por envolver a atuação dos proprietários privados, aos quais se impôs a substituição das instalações por estabelecimentos que obedecessem aos regulamentos da Comissão Municipal de Díli95. Com o tempo, as ruas Dr. Carvalho e José Maria Marques, que formavam o eixo principal do bairro, consolidaram-se como artérias comerciais, onde se encontravam grandes casas comerciais chinesas e três lojas de pequenas dimensões mantidas por europeus. Também a Rua do Coilão da Colmera continha alguns estabelecimentos Sede do Sporting Clube de Timor. 1974.Acervo: Portugal, Arquivo Histórico Ultramarino (disponível em actd.iict.pt).Hotel Resende. 1973. Demolido.Acervo: Portugal, Arquivo Histórico Ultramarino (disponível em actd.iict.pt).Timor-Leste
  • 448 449CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3Timor-Lestecomerciais importantes96. A maioria dos comerciantes pertencia à comunidade chinesa97, que assim tinha presença predominante no centro da cidade, e também permanente, pois os proprietários residiam com as suas famílias no mesmo edifício que instalava a loja98.Os quarteirões orientais da planeada “zona comercial central” coincidiam com a área do antigo Campo China do período anterior à ocupação, onde a numerosa comunidade chinesa99 dispunha de equipamentos próprios. Num edifício na marginal herdado do período anterior à guerra, funcionava Consulado da China100 e a Associação Comercial Chinesa. 96 Thomaz, 1976-77: 543-544; Campos, 1972: 5.97 Pelo censo de 1970, metade dos 6120 chineses registados em toda a província viviam em Díli, detendo 98% dos estabelecimentos comerciais e a maior parte do comércio externo, incluindo 60% das exportações de café (Thomaz, 1974: 247).98 Thomaz, 1976-77: 543; Almeida e Mendes, 1959: 251.99 A comunidade chinesa era de origem diversa. A maioria dos chineses pertencia ao grupo Hakká, estabelecido em Timor aquando do fenómeno da corrente de emigração chinesa para o Sueste Asiático no século XIX, mas alguns eram cantoneses de Macau e regiões vizinhas (Thomaz, 1974: 248). Entre os chineses de Macau encontravam-se operários contratados pelos serviços de obras públicas, sapateiros, alfaiates e empregados em atividades comerciais (Almeida e Almeida, 1962: 292).100 Timor mantinha relações com a República da China [Formosa (Taiwan ou China insular)], estando vedado o contacto com a República Popular da China (China continental).Antiga casa comercial chinesa Toko Lay. 2014.Fotografia: Megumi Yamada (Secretaria de Estado do Turismo, Arte e Cultura. Timor-Leste).Casa comercial chinesa Sang Tai Hoo, no cruzamento da Rua José Maria Marques com a Rua Coilão da Colmera. 1973.Acervo: Portugal, Arquivo Histórico Ultramarino (disponível em actd.iict.pt).Antigo estabelecimento comercial chinês Mie Hap. 2014.Fotografia: Megumi Yamada (Secretaria de Estado do Turismo, Arte e Cultura. Timor-Leste).Antigo Consulado da China e Associação Comercial Chinesa. 2011.Fotografia: Flávio Miranda (Secretaria de Estado do Turismo, Arte e Cultura. Timor-Leste).
  • 450 451CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3A sul encontrava-se o templo chinês101 e a escola chinesa, que congregava o ensino primário e secundário102. Fora da área urbana103, em Taibesse, manteve-se o cemitério chinês instalado antes da guerra. Quanto às relações com Macau, o depósito penal de Taibesse passou a receber condenados daquele território104.No seguimento do Palácio das Repartições, foi construída105 a sede da Associação Comercial, Agrícola e Industrial de Timor (ACAIT). Apesar de, aquando do projeto106, se prever a construção noutra localização, o edifício acabou por ser construído dentro dos limites da “zona comercial central”, onde cumpria as características definidas pelo plano de 1951, possuindo a presença urbana que se pretendia para essa área, ao contrário da generalidade do edificado. Segundo o projeto, o edifício possuía três pisos, sendo o rés-do-chão reservado a estabelecimentos comerciais, e os seguintes aos escritórios e outras funções (bar, sala de jogos, salão de festas, biblioteca e quartos para os associados). Era um edifício de linhas modernas que se adaptava às condições do clima tropical, tendo havido a preocupação de utilizar métodos de favorecimento de ventilação transversal e dispositivos de proteção de vãos contra a incidência solar excessiva, e de criar uma galeria no rés-do-chão que resguardava os transeuntes do sol e da chuva. A possibilidade de construção em módulos permitiu que só posteriormente se tenha concluído a totalidade do braço este-oeste.101 O templo chinês, à semelhança do que era vulgar na chamada “China exterior”, que englobava Singapura, Macau, Hong-Kong e Formosa, destinava-se ao culto do confucianismo, taoismo e budismo (Thomaz, 76-77: 543).102 Thomaz, 1976-77: 543. O ensino seguia os programas da Formosa, ao que se somava o ensino da língua e história portuguesas (Thomaz, 1974: 248-249). O mandarim era lecionado como língua de cultura mas, entre si, os chineses exprimiam-se em hakká ou cantonês (falado pelos oriundos de Macau e Kwang-Tung) (Thomaz, 1974: 297-298). O edifício foi inicialmente construído em palapa, em 1945, pelas tropas portuguesas de reocupação, sendo substituído posteriormente por uma construção definitiva, inaugurada em 1960 pelo então governador Filipe Themudo Barata.103 A divisão urbana aqui considerada corresponde à definida pelo Plano de Urbanização de Díli de 1972 (Campos, 1972: 4(1)).104 Thomaz, 1976-77: 545.105 na década de 60.106 O projeto do edifício foi elaborado na Direcção dos Serviços de Urbanismo e Habitação em 1960, por António Sousa Mendes (Mendes, 1960a; Mendes, 1960b).Associação Comercial Agrícola e Industrial de Timor. 1973.Acervo: Portugal, Arquivo Histórico Ultramarino (disponível em actd.iict.pt).Associação Comercial Agrícola e Industrial de Timor. Atual embaixada de Portugal. 2011.Fotografia: Flávio Miranda (Secretaria de Estado do Turismo, Arte e Cultura. Timor-Leste).Timor-Leste
  • 452 453CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3Timor-LesteA par da sede da ACAIT, o edifício da dependência bancária do Banco Nacional Ultramarino107, a única agência bancária de toda a província, constituía um ícone da arquitetura moderna da cidade.No extremo oeste do Bairro Central, perante a necessidade de criar as condições necessárias ao exercício da atividade portuária, foi construído, na década de 60, um cais-acostável para navios de longo curso108, sobre o qual se instalaram telheiros destinados a armazenamento e aos serviços alfandegários109. O porto dispunha ainda de um plano inclinado, com capacidade para duas barcaças de desembarque110.107 desenhado por Fernando Schiappa de Campos (Campos, 1965a; Campos, 1965b). Inaugurado em 1968 (Esteves, 1968: 1).108 o processo de projeto e adjudicação da obra prolongava-se desde 1953, tendo a construção só sido iniciada no âmbito do II Plano de Fomento (1959-1964) (Presidência do Conselho, 1959: 861; Presidência do Conselho, 1962: 263-264). 109 incluindo cobertos para abrigar o equipamento e mercadorias, construídos entre 1967 e 1970 (Presidência do Conselho, 1969a: 237; Presidência do Concelho, 1970: 273; Presidência do Concelho, 1969b: 293; Presidência do Conselho, 1972: 329), e cozinha e refeitório para os trabalhadores e pessoal da administração, construídos entre 1968 e 1969 (Presidência do Concelho, 1970b: 273; Presidência do Concelho, 1969b: 293).110 construído entre 1968 e 1971 (Presidência do Conselho, 1970b: 273; Presidência do Conselho, 1969b: 293; Presidência do Conselho, 1971: 348).Banco Nacional Ultramarino. s.d. (aproximadamente em 1968).Acervo: Arquivo Histórico da Caixa Geral de Depósitos. Fundo documental do Banco Nacional Ultramarino.(cgd-ah-bnu: AF/03RF/08.01)Banco Nacional Ultramarino. Atualmente Banco Nacional Ultramarino (Caixa Geral de Depósitos). 2014.Fotografia: Megumi Yamada (Secretaria de Estado do Turismo, Arte e Cultura. Timor-Leste).Cais-acostável. 1973.Acervo: Portugal, Arquivo Histórico Ultramarino (disponível em actd.iict.pt).
  • 454 455CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3A parte sueste do Bairro Central começou a consolidar-se como uma área residencial. Na década de 50, para realojar os funcionários instalados em construções provisórias de palapa, foi aí instalado um conjunto de vinte casas pré-fabricadas para funcionários médios111, conhecido por Bairro dos Grilos. A partir de 1965, foram construídas várias moradias pelo Fundo de Habitações Económicas112, destinadas a funcionários timorenses e mestiços e a alguns funcionários europeus radicados113.O Plano de Urbanização de 1951 previa a divisão da população por zonas habitacionais consoante o grupo étnico, determinando a criação de duas “unidades residenciais” a nascente da “zona comercial central”, respetivamente destinadas a “nativos” e “chineses” -- que dispunham de equipamentos e centros próprios, e onde se permitia que os particulares empregassem técnicas construtivas tradicionais da respetiva cultura, merecendo, no entanto, especial atenção por parte das entidades fiscalizadoras no acompanhamento das obras --, e três “núcleos residenciais especiais” reservados a funcionários “europeus” e “assimilados”, dois dos quais se localizariam na linha marginal e um na vizinhança do mercado114. Desta proposta de zonamento habitacional apenas se concretizaram dois “núcleos residenciais especiais”: o Bairro do Farol e o Bairro Económico, também construídos em alvenaria, funcionando como extensões do Bairro Central.O Bairro do Farol, destinado ao alto funcionalismo115, localizava-se na parte poente da cidade, perto do Farol, contactando com a frente marginal, sendo composto 111 Felgas, 1956: 345-346; Almeida e Mendes, 1959: 250-251.112 O fundo de habitações económicas foi instituído em Timor em 1965, com o objetivo de resolver o problema habitacional da província (Thomaz et al., 1965), a partir de então, foram construídas várias casas para funcionários na cidade (Presidência do Conselho, 1970b: 276; Presidência do Conselho, 1972: 334)113 Thomaz, 1976-77: 544.114 Aguiar, 1951: 32-33.115 Felgas, 1956: 345-346; Thomaz, 1976-77: 547.Casa pré-fabricada do Bairro dos Grilos. 2014.Fotografia: Megumi Yamada (Secretaria de Estado do Turismo, Arte e Cultura. Timor-Leste).Casa do Fundo de Habitações Económicas. 2014.Fotografia: Megumi Yamada (Secretaria de Estado do Turismo, Arte e Cultura. Timor-Leste).Timor-Leste
  • 456 457CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3maioritariamente por moradias unifamiliares116. De acordo com o desenho do Plano de Urbanização de 1951, o Bairro do Farol deveria integrar a preexistente Igreja de Santo António de Motael117 e cinco casas construídas no pós-guerra em torno do Farol118, também recuperado depois da ocupação japonesa119. Entre 1952 e 1959, foi construído o primeiro conjunto de vinte casas, incluindo parte Timor-Lestedos edifícios da messe de oficiais120, ao longo de três arruamentos paralelos à marginal121, nas quais se empregaram técnicas de construção da tradição portuguesa (paredes grossas e cobertura de telha122).A partir de 1959, o bairro foi-se expandindo para sul, invadindo uma antiga zona de terrenos pantanosos, que foram sendo aterrados123, proporcionando área para construção. Neste processo de expansão, foi construída uma escola primária124 e novas habitações, nas quais se optou pelas linhas modernas, adotando-se um sistema construtivo mais leve, que demonstrava preocupações de adaptação climatérica125. Entre as novas habitações encontravam-se as casas dos funcionários do Banco Nacional Ultramarino126, construídas na segunda metade da década de 60.Vista do Bairro do Farol. s.d. (aproximadamente em 1968).Acervo: Arquivo Histórico da Caixa Geral de Depósitos. Fundo documental do Banco Nacional Ultramarino. (cgd-ah-bnu: AF/09AM/07.01)116 Almeida e Mendes, 1959: 249-250.117 que resistiu ao período japonês, sendo reabilitada e aumentada entre 1954 e 1955 (Presidência do Conselho, 1959: 860; Gomes, 1956: 79; Gomes, 1957: 25), passando a servir de Catedral (Thomaz, 1976-77: 547).118 sendo uma delas uma casa do período anterior à guerra que, em 1949, fora adaptada a residência do faroleiro (Conselho Técnico de Fomento Colonial, 1950: 11; Fontoura, 1950: 2; Ruas, 1950: 140), e quatro construídas entre 1950 e 1951 (Freixo, 1961: 157).119 reconstruído entre 1948 e 1949, incluindo o arranjo urbanístico (Simões, 1949: 9; Conselho Técnico de Fomento Colonial, 1950: 11; Fontoura,1950: 2; Ruas, 1950: 140).120 um bloco de apartamentos para oficiais solteiros foi construído em 1953 (Gomes, 1956: 77; Freixo, 1961: 157), segundo um projeto, de 1952, de Mário de Oliveira (Oliveira, 1952).121 Almeida e Mendes, 1959: 249-250; Presidência do Conselho, 1959: 860; Freixo, 1961: 157-162.122 Muitas vezes, devido à má qualidade de fabrico, em vez de telha, as construções acabavam por ser cobertas com zinco (Almeida e Mendes, 1958: 258).123 as obras de aterro foram iniciadas no âmbito do II Plano de Fomento (1959-1964) (Presidência do Conselho, 1962: 266).124 aumentada entre 1970 e 1971 (Presidência do Conselho, 1972: 331; Presidência do Conselho, 1971: 350).125 Este sistema construtivo foi introduzido em 1959, quando João Pimentel Freixo era chefe da Repartição de Obras Públicas (Freixo, 1961: 2), passando a ser utilizado na maioria das construções do Estado. A sua adoção poderá ter sido impulsionada por influência do estudo realizado pela Missão de Estudos do Habitat Nativo em Timor, entre 1958 e 1959, que defendia a necessidade de uma maior economia e adaptação às condições climatéricas, sugerindo, para tal, o aligeiramento das construções -- através da redução da espessura das paredes, da diminuição da compartimentação do interior e da utilização de placas de fibrocimento na cobertura -- e a integração de mecanismos que favorecessem a ventilação transversal (Almeida e Mendes, 1959: 258).126 as habitações de tipologia A, B e Solteiros (Campos, 1965c; Campos, 1965d; Campos, 1965e).
  • 458 459CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3O Bairro Económico destinava-se a funcionários de baixa categoria127, sendo as casas geminadas e de pequenas dimensões128. Localizava-se a sul do Bairro Central, na zona de Santa Cruz129, que era habitada pelo médio e baixo funcionalismo timorense. O principal equipamento da zona era o antigo cemitério católico. A norte Bairro Económico bairro ficava o campo de futebol. Mais de metade de Santa Cruz correspondia a uma propriedade da SAPT Lda., conhecida por Quintal-Boot, onde se procedia ao tratamento do café130. A sul de Santa Cruz ficava Balide -- onde se localizava a igreja de Nossa Senhora da Conceição (sede de paróquia) e o colégio missionário131 -- que se estendia para poente ao longo da estrada de circunvalação e subia as montanhas a sul132.O terceiro “núcleo residencial especial”, que se previa construir no extremo oriental da área urbana, ao longo da faixa marginal da zona de Bidau, acabou por não ser concretizado, dando lugar a uma zona de reserva de interesse turístico133, onde foi edificado o Hotel Turismo134. A parte norte de Bidau possuía várias casas de alvenaria, algumas herdadas do período anterior à guerra, como as instalações da SOTA Timor e o edifício do Paço Episcopal135, dispostos ao redor do largo de Lecidere, e o edifício do Consulado da Indonésia na rua Belarmino Lobo. Quanto aos demais equipamentos, Bidau instalava algumas pequenas industrias (uma fábrica de refrigerantes e uma empresa europeia de serração de madeiras136), possuía uma escola primária própria137, e dispunha de casas comerciais ao longo da rua Belarmino Lobo, que separava Bidau do Bairro Central. Nos quarteirões interiores os edifícios eram predominantemente de palapa ou mistos (pavimento em pedra e paredes e cobertura de palapa), dispersos por quintais arborizados. 127 Felgas, 1956: 346.128 Almeida e Mendes, 1958: 251. Três destas casas foram construídas em 1954 (Gomes, 1956: 79).129 os limites de Santa Cruz aqui considerados são os mesmos do Plano de Urbanização de 1972 (Campos, 1972). No entanto, nesta zona, como nas restantes zonas periféricas a oriente do Bairro Central, eram correntemente utilizadas outras designações, que remetiam para áreas de limites imprecisos, como Audian, Ailelehum e Acadiruhum, possivelmente adotadas para indicar espaços onde terão existido essas espécies vegetais.130 Thomaz, 1976-77: 546.131 cuja construção foi iniciada em 1957 e terminada em 1961 (Freixo, 1961: 130-156; Guerra, 1961: 112, 147-148, 253).132 Thomaz, 1976-77: 546.133 Campos, 1972: 3(8).134 cuja construção estava em fase de acabamento em 1969 (Presidência do Concelho, 1969b: 295).135 antiga Casa Franklin, que, em 1949, funcionava como residência de missionários (Fontoura, 1950: 6).136 Thomaz, 1976-77: 544.137 que sofreu obras de ampliação no final de 1971 (Presidência do Conselho, 1971: 350).Igreja de Santo António de Motael. 2014.Fotografia: Megumi Yamada (Secretaria de Estado do Turismo, Arte e Cultura. Timor-Leste).Bairro do Farol. Casa construída na década de 50. 2014.Fotografia: Megumi Yamada (Secretaria de Estado do Turismo, Arte e Cultura. Timor-Leste).Timor-Leste
  • 460 461CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3Messe de Oficiais. Residência para Solteiros. 1957.Acervo: Arquivo Histórico da Caixa Geral de Depósitos. Fundo documental do Banco Nacional Ultramarino.(cgd-ah-bnu: AG032538)Antiga Residência para Solteiros. 2014.Fotografia: Megumi Yamada (Secretaria de Estado do Turismo, Arte e Cultura. Timor-Leste).Bairro do Farol. Casa de construção posterior a 1959. 2014.Fotografia: Megumi Yamada (Secretaria de Estado do Turismo, Arte e Cultura. Timor-Leste).Habitações para funcionários do BNU. s.d. (aproximadamente em 1968).Acervo: Arquivo Histórico da Caixa Geral de Depósitos. Fundo documental do Banco Nacional Ultramarino.(cgd-ah-bnu: AF/03RF/08.01)Timor-Leste
  • 462 463CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3Timor-LesteA sul do Bairro do Farol e a poente do Coilão da Colmera, desenvolviam-se Carqueto e Bebora, também áreas habitacionais de casas de palapa. Na parte sueste de Bebora começou a ser 138 dois pares de habitações geminadas, cujo projeto foi elaborado por Fernando Schiappa de Campos (Campos, 1965f). Inauguradas em 1968 (Esteves, 1968: 1).139 construído entre 1970 e 1971 (Presidência do Conselho, 1972: 331; Presidência do Conselho, 1971: 349).140 Construído em 1953 (Gomes, 1956: 78; Presidência do Conselho, 1959: 861), de acordo com uma das três soluções elaboradas no Gabinete de Urbanização do Ministério do Ultramar por José Manuel Galhardo Zilhão (Zilhão, 1952b) e enviadas para Timor em 1952 (Cavaca, 1952: 1-2). 141 Campos, 1972: 3(2). construído um bairro de casas económicas para funcionários timorenses, conhecido por Vila Verde, onde foram instaladas as casas de tipologia económica para funcionários do Banco Nacional Ultramarino138 e um posto escolar139. A sul deste, à beira do coilão, encontravam-se as oficinas da câmara municipal, os serviços de veterinária e o matadouro140. A zona do Carqueto, que se encontrava entre Bebora e o Bairro do Farol, era reservada pelo Plano de Urbanização de 1972 como zona industrial141, tendo aí sido construídas algumas fábricas Casa geminada do Bairro Económico. 1957.Acervo: Arquivo Histórico da Caixa Geral de Depósitos. Fundo documental do Banco Nacional Ultramarino. (cgd-ah-bnu: AG032538) Casa geminada do Bairro Económico. 2014.Fotografia: Megumi Yamada (Secretaria de Estado do Turismo, Arte e Cultura. Timor-Leste).
  • 464 465CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3Timor-Leste(uma de tecidos e outra de sabões) e o edifício dos Serviços de Economia142.Ao longo do troço urbano da estrada de saída da cidade para leste, desenvolveu-se Culuhum, o principal bairro chinês de Díli, de caráter simultaneamente habitacional e comercial, que possivelmente terá conhecido crescimento durante o processo de higienização do Bairro Central, no qual apenas permaneceram os comerciantes aptos a construir instalações de alvenaria. Os estabelecimentos comerciais dispunham-se ao longo das ruas Culuhum, Quinze de Outubro e Belarmino Lobo, expandindo-se nas suas traseiras quintais com habitações dispersas. Comparativamente com a atividade comercial do Bairro Central, o comércio em Culuhum era indiferenciado, as lojas eram de menores dimensões e, na sua maioria, de construção mista ou em palapa143. A sul de Culuhum localizava-se Bemori, cujo único equipamento civil era o Zona ocidental da cidade (Bairro do Farol, Carqueto e Bebora, parte do Bairro Central e parte de Caicole). s.d. (aproximadamente em 1968).Acervo: Arquivo Histórico da Caixa Geral de Depósitos. Fundo documental do Banco Nacional Ultramarino. (cdg-ah-bnu: AF/09AM/07.01)Paço Episcopal. 2014.Fotografia: Megumi Yamada (Secretaria de Estado do Turismo, Arte e Cultura. Timor-Leste).Habitações de tipologia económica para funcionários do BNU. s.d. (aproximadamente em 1968).Acervo: Arquivo Histórico da Caixa Geral de Depósitos. Fundo documental do Banco Nacional Ultramarino. (cgd-ah-bnu: AF/03RF/08.01)Antigo edifício dos Serviços de Economia. 2014.Fotografia: Megumi Yamada (Secretaria de Estado do Turismo, Arte e Cultura. Timor-Leste).142 cujo projeto foi elaborado, em 1971, num gabinete de Luanda (Neto, 1971).143 Thomaz, 1976-77: 545; Campos: 3(7).
  • 466 467CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3Timor-Lestelavadouro-balneário público, encontrando-se instalações idênticas em todas as áreas de ocupação dispersa de casas de palapa da cidade144.Ao Bairro Central era dada a possibilidade de expansão para sul, invadindo os terrenos pantanosos de Caicole. Em Caicole localizava-se o antigo mercado, herdado do período anterior à ocupação, e a respetiva área exterior para realização do bazar, onde havia uma pequena arena para realização de lutas de galos145. Reuniam-se assim, a sul do centro da cidade, os equipamentos reservados às atividades urbanas da maioria da população timorense: a comercialização dos produtos cultivados e a luta de galos. As obras de saneamento, por meio de coletores de drenagem146, e os aterros ao longo do perímetro da zona de Caicole para instalar equipamentos de grandes dimensões, reduziram gradualmente a área pantanosa. Perto do mercado, foi instalada a Associação Desportiva e Recreativa União e o quartel da polícia de segurança pública. No limite sul de Caicole encontrava-se o quartel do destacamento de serviço de material e a cadeia civil, cujos reclusos procediam ao cultivo de várzeas, contribuindo para o saneamento dos terrenos pantanosos147. No limite oeste, localizava-se o quartel da companhia de caçadores, o edifício da assistência pública social, o novo quartel da polícia militar148 e a central elétrica149.Em torno da área urbana desenvolviam-se áreas suburbanas que instalavam equipamentos funcionalmente ligados à cidade. A ocupação das áreas a oriente e a sul era condicionada pela proximidade da cordilheira montanhosa150, enquanto a zona ocidental era predominantemente 144 um destes blocos foi construído em Bebora, em 1970 (Presidência do Conselho, 1972: 334), e outro em Lecidere em 1971 (Presidência do Conselho, 1971: 352).145 Thomaz, 1976-77: 546.146 Presidência do Conselho, 1962: 267; Presidência do Conselho, 1968: 213.147 Thomaz, 1976-77: 546.148 instalado, até 1973, num edifício de construção mista, localizado na área de expansão do Bairro do Farol (Thomaz, 1976-77: 547).149 construída entre 1958 e 1961 (Freixo, 1960: 201; Presidência do Conselho: 1962: 267). Entrou em funcionamento permanente a partir de 1963 (Presidência do Conselho, 1970a: 306), alimentando os diferentes postos de transformação distribuídos pela cidade, localizados em Balide, Taibesse, Lahane, Campo de Aviação, Porto e Bairro dos Grilos, entre outros.150 Campos, 1972: 3(11).Central Elétrica. 1961.Acervo: Portugal, Arquivo Histórico Ultramarino. Fundo do Centro de Documentação e Informação do Instituto Português de Apoio ao Desenvolvimento.(ahu-ipad: MU/T/Cx. 79,1)Antigo Lavadouro e Balneário Público de Bemori. Atual sede de suco (unidade administrativa) de Bemori. 2014.Fotografia: Megumi Yamada (Secretaria de Estado do Turismo, Arte e Cultura. Timor-Leste).
  • 468 469CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3plana e de ocupação dispersa, sendo aproveitada para a produção agrícola, sobretudo para a cultura do arroz151.Para oriente, por via de Bidau, acedia-se ao subúrbio de Santana, habitado por pescadores, localizado no sopé do esporão montanhoso de Fatucama, onde estava implantado o antigo cemitério católico. No vale da ribeira de Benamauc, ao longo da estrada de ligação aos concelhos da zona leste, encontrava-se o subúrbio de Becora, que instalava uma das igrejas sede de paróquia de Díli152.A sueste localizava-se o subúrbio de Taibesse, que após a guerra conservou a condição de zona militar da cidade. Os primeiros edifícios do complexo militar a ser construídos em alvenaria depois de 1945 foram reservados à instalação do quartel general153. Além destes, existiam os edifícios do centro de instrução154, messe de sargentos, destacamento de engenharia, manutenção militar, estação postal militar, entre outros serviços. Próximo dos quartéis, foi construído um bairro para habitação de oficiais e sargentos. Do complexo militar fazia ainda parte o paiol que se localizava no vale da ribeira de Bemori155.Ao longo da estrada que partia de Balide em direção ao aquartelamento, encontrava-se uma área residencial com construções dealvenaria ou mistas, habitadas pelo médio funcionalismo timorense156, algumas delas herdadas do período anterior à ocupaçãojaponesa157.Em Lahane, muitos edifícios resistiram à ocupação, entre os quais o Colégio Bispo de Medeiros. Na estrada de ligação a Dare, o povoamento era, como até à guerra, 151 Thomaz, 1976-77: 550.152 Thomaz, 1976-77: 549.153 datando a construção de meados da década de 50, tendo sido construída, entre 1953 e 1954, uma caserna (Gomes, 1956: 77, 79) e, em 1955, um balneário (Gomes, 1957: 25; Presidência do Conselho, 1959: 860).154 com a transferência do centro de instrução para Aileu, em 1972, passou a instalar a Companhia de Intendência (Thomaz, 1976-77: 543, 545).155 tendo para aí sido transferido da sua antiga localização no sopé de Lahane (Thomaz, 1976-77: 546).156 Thomaz, 1976-77: 545.157 Fontoura, 1950: 5.Casa em Taibesse, construída antes de 1942. 2014.Fotografia: Megumi Yamada (Secretaria de Estado do Turismo, Arte e Cultura. Timor-Leste).Um edifício do antigo Quartel General de Taibesse. 2014.Fotografia: Megumi Yamada (Secretaria de Estado do Turismo, Arte e Cultura. Timor-Leste).Timor-Leste
  • 470 471CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3mais denso, localizando-se aí os serviços de saúde, o consulado da Austrália, o palácio do governador158 e o edifício da assembleia dos funcionários159. Do período anterior à guerra, manteve-se ainda o antigo conjunto hospitalar -- corpo principal160, pavilhão de isolamento161, enfermaria de mulheres162 -- e várias residências para funcionários163 que foram recuperadas. No entanto, Lahane perdeu o estatuto de núcleo habitacional para os funcionários mais graduados que detinha antes da guerra, tendo essa função sido deslocada para o Bairro do Farol164, passando Lahane a alojar o médio funcionalismo165.Nas áreas suburbanas a ocidente, a população dedicava-se à agricultura, embora parte da comunidade muçulmana que habitava na faixa marginal de Campo Mouro vivesse da atividade piscatória. Campo Mouro era um núcleo populacional muçulmano, que dispunha de uma mesquita parcialmente construída em palapa e escola própria166. A sul deste bairro culturalmente fechado, perto da estrada de saída da cidade para os concelhos de oeste, encontrava-se o campo de aviação, com vários edifícios de apoio, incluindo a aerogare167 e os armazéns168. Nas proximidades do campo foram construídas algumas habitações em alvenaria e um bairro económico de casas de palapa chamado bairro Pité169.Aerogare. 1957.Acervo: Arquivo Histórico da Caixa Geral de Depósitos. Fundo documental do Banco Nacional Ultramarino.(cgd-ah-bnu: AG032538)Aerogare e Armazéns. s.d.Acervo: Portugal, Arquivo Histórico Ultramarino (disponível em actd.iict.pt).158 que logo após a guerra sofreu obras de recuperação (Machado, 1947: 31; Simões, 1949: 8, 10).159 que depois da guerra instalou alguns serviços públicos (Fontoura, 1950: 5).160 aumentado com uma ala norte-sul em 1953 (Gomes, 1956: 77; Presidência do Conselho, 1959: 860), tendo a ala este-oeste sido remodelada entre 1961 e 1962 (Guerra, 1961: 166).161 que sofreu grandes obras de reparação em 1946 (Machado, 1947: 31). Entre 1960 e 1961 foi adaptado a pavilhão de cirurgia (Presidência do Conselho, 1970a: 570; Presidência do Conselho, 1962: 266), de acordo com um projeto elaborado em 1959 na Repartição Provincial dos Serviços de Obras Públicas, Portos e Transportes de Timor (Guerra, 1961: 85, 114; Freixo, 1961: 117-129). 162 que sofreu obras de reabilitação em 1946, para funcionar como Maternidade D. Leonor Ruas (Machado, 1947: 31), sendo novamente reconstruído em 1959, quando passou a instalar os serviços de saúde militares (Presidência do Conselho, 1970a: 570).163 entre as quais a antiga residência dos adjuntos (com dois pavimentos), a antiga residência do diretor do hospital e a antiga cresce, estas duas últimas reaproveitadas depois da guerra respetivamente como residência do Bispo e residência do diretor do hospital (Fontoura, 1950: 5).164 Felgas: 1956: 345; Thomaz, 1976-77: 546.165 Thomaz, 1976-77: 549.166 Thomaz, 1976-77: 548; Campos, 1972: 10.167 construída entre 1953 e 1955 (Presidência do Conselho, 1959: 862; Gomes, 1956: 78, 80), de acordo com um projeto elaborado no Gabinete de Urbanização do Ministério do Ultramar por José Manuel Galhardo Zilhão (Zilhão, 1953a; Zilhão, 1953b).168 construídos em 1954 (Gomes, 1956: 80).169 construído por iniciativa da administração do concelho (Thomaz, 1976-77: 547).Timor-Leste
  • 472 473CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3Timor-LesteConsiderações finaisEm 1769, a sede da administração portuguesa foi estabelecida na baía de Díli, que oferecia condições de segurança numa altura em que ainda não existia controlo sobre o território timorense. Com o gradual domínio territorial, o estabelecimento de origem militar e portuária adquiriu maturidade como sede administrativa, desenvolvendo-se como centro de um agregado de baixa densidade, composto por várias zonas, que se formaram em função de assentamentos de comunidades, locais e não locais, e da instalação de equipamentos de apoio à atividade da administração.Apesar da insalubridade da planície, Díli manteve-se como capital em virtude da sua importância portuária.Depois da devastação do centro da cidade durante a Guerra do Pacífico, a reconstrução coincidiu com o período de investimento nos territórios coloniais, integrado no plano imperial do Estado Novo, que se estendia ao urbanismo e a arquitetura através da ação do Gabinete de Urbanização do Ministério das Colónias. O Plano de Urbanização de Díli de 1951 surgiu neste contexto, tendo sido construídas segundo as suas instruções algumas zonas da cidade destinadas à instalação das repartições da administração e à habitação dos respetivos funcionários.Depois da guerra, a cidade manteve a distribuição espacial -- centro e zonas periféricas e suburbanas -- que se haviam consolidado desde o século XVIII. Díli não conheceu grande crescimento demográfico, formando-se num aglomerado de baixa densidade. Até 1975, a atividade construtiva processou-se de acordo com as necessidades e possibilidades da administração local, cingindo-se a poucos núcleos de alvenaria e a equipamentos dispersos entre quintais e casas de palapa, que conferiam à cidade um ambiente semi-rural.Pormenor de casa no Bairro do Farol. 2014Fotografia: Isabel Boavida
  • 474 475CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3BIBLIOGRAFIA:Almeida, Leopoldo de; Mendes, António de Sousa (1959). “Missão de Estudos do Habitat Nativo em Timor. Relatório nº 2: Estudo descritivo e crítico do urbanismo e arquitectura em Díli”. Anais da Junta de Investigações do Ultramar, 13(2): 233-258.Almeida, António de; Almeida, Maria Emília de Castro e (1962). “Contribuições para o estudo antropológico dos chineses de Macau (residentes no Timor português)”. Estudos Científicos Oferecidos em Homenagem ao Prof. Doutor J. Carríngton da Costa: 291-301.Belo, Dom Carlos Filipe Ximenes (2014). Díli, a cidade que não era. Porto: Porto Editora.Cabreira, Frederico Leão (1842). “Memoria resultante do inquerito industrial em Timor”. Annaes Maritimos e Coloniais, 3(2): 73-89.Castro, Alberto Osório de (1996). A ilha verde e vermelha de Timor. 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  • 476 477CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3Timor-LesteBOLETIM OFICIAL:anónimo (1876). “Timor”. Boletim da Província de Macau e Timor, 22 (21): 86.Borja, Custódio Miguel (1891a). “portaria n.º64, de 4 de Maio de 1891: approvando o projecto para a reconstrucção da egreja de Dilly”. Boletim Official do Governo da Província de Macau e Timor, 37 (19): 122.Borja, Custódio Miguel (1891b). “portaria n.º62, de 4 de Maio de 1891: approvando o projecto para a conclusão do edifício do Estado “Escola Mendes Leal” na cidade de Dilly”. Boletim Official do Governo da Província de Macau e Timor, 37 (19): 122.Cabral, Filomeno da Câmara Melo (1915). “portaria n.º 247: aprova a distribuição de fundos para Obras Públicas para o próximo ano económico de 1915-1916”. Boletim Oficial do Govêrno da Província de Timor, 16 (26): 208-210.Cabral, Filomeno da Câmara Melo (1916). “portaria n.º 94: aprova, provisoriamente, a distribuição da verba para materiaes, férias e outras despesas de Obras Publicas, para o ano económico p.f.”. Boletim Oficial do Govêrno da Província de Timor, 17 (25): 138-139.Cabral, Filomeno da Câmara Melo (1917). “portaria n.º 107, de 13 de Junho de 1917: aprova, provisoriamente, a distribuição de fundos de Obras Públicas para o corrente ano económico de 1917-1918”. Boletim Oficial do Govêrno da Província de Timor, 18 (24): 138-139.Carlos, Alberto (1902). “Mappa de despeza feita com obras ordinárias durante o 1.º trimestre do anno economico de 1902-1903”. Boletim Official do Districto Autonomo de Timor, 3 (44): 257.Carlos, Alberto (1907). “Mappa de despeza feita com as obras ordinárias a cargo d’esta repartição, durante o anno economico de 1906-1907”. Boletim Official do Governo do Districto Autonomo de Timor, 8 (36): 190.Carvalho, Augusto César Cardoso de (1881). “Governo de Timor. n.º 86”. Boletim da Província de Macau e Timor, 27 (31): 206-207.Correia, José Alberti (1965). “Portaria nº 3554, de 20 de Março de 1965: Dá nova redacção ao artigo 1.º do Código de Posturas da Câmara Municipal de Díli, aprovado pela portaria n.º 2758, de 27 de Maio de 1961”, Boletim Oficial de Timor, 66(12): 222Costa, António Francisco da (1888). “Governo de Timor. n.º 101”. Boletim da Provincia de Macau e Timor, 34 (33): 281-282.d’Andrade, Raphael (1889). “Governo de Timor. n.º 117”. Boletim da Provincia de Macau e Timor, 35 (29): 216.Fontoura, Álvaro Eugénio Neves da (1938a). “Diploma legislativo n.º 150: Determina que é instituído na Colónia de Timor o ensino liceal particular oficializado do primeiro ciclo em harmonia com a autorização concedida pelo artigo 2.º do decreto-lei n.º 28: 431”. Boletim Oficial da Colónia de Timor, 39(31): 296-299.Fontoura, Álvaro Eugénio Neves da (1938b). “Diploma legislativo n.º 137: Assembleia dos funcionários de Timor”. Boletim Oficial da Colónia de Timor, 39(13): 109-111.Fontoura, Álvaro Eugénio Neves da (1938c). “Diploma legislativo n.º 142: Regula a assistência sanitária aos indígenas, pavilhão de isolamento para tuberculosos e outros portadores de doenças infecciosas”. Boletim Oficial da Colónia de Timor, 39(24): 239-240.Fontoura, Álvaro Eugénio Neves da (1939a). “portaria n.725: determina que o Colégio-Liceu passe a denominar-se Colégio-Liceu “Dr. Francisco Machado”. Boletim Oficial da Colónia de Timor, 40 (2): 15-16.Fontoura, Álvaro Eugénio Neves da (1939b). “Diploma legislativo n.º 163: Casa de Timor”. Boletim Oficial da Colónia de Timor, 40(10): 222-223.Forjaz, Cypriano (1894). “Governo de Timor. n.º 3”. Boletim Official do Governo da Provincia de Macau e Timor, 40 (6): 62.Gomes, José Paiva (1922). “portaria n.º 148, de 12 de Outubro de 1922: determina a expropriação da faixa do terreno sito em Díli, entre as ruas Formosa e a do Príncipe”. Boletim Oficial do Govêrno da Província de Timor, 23 (41): 286.Maia, Alfredo de Lacerda (1886). “Governo de Timor. n.º5”. Boletim da Provincia de Macau e Timor, 32 (8): 54Móra, António Damas (1915). “Balancete do movimento de receita e despêsa do cofre do Município de Díli, referente ao mês de Abril de 1915”. Boletim oficial da Província de Timor. Apenso n.º 3: Estatísticas referidas ao mês de Abril de 1915: 26.Mousinho, José da Costa (1910). “Balancete da despeza feita com obras ordinárias durante o 1.º trimestre de 1909-1910”. Boletim Official do Governo do Districto Autonomo de Timor, 11 (3): 21.Oliveira, Bento da França Pinto de (1882). “Governo de Timor. n.º 142”. Boletim da Provincia de Macau e Timor, 28 (37): 322Pereira, João Maria (1884). “Governo de Timor. n.º 280”. Boletim da Provincia de Macau e Timor, 31 (4): 23-24Pereira, João Maria (1885). “Governo de Timor. n.º 75”. Boletim da Provincia de Macau e Timor, 31 (20): 221.Ruas, Oscar Freire de Vasconcelos (1947). “portaria n.º 1:177: Transferindo a capital da Colónia para Cutulau e dando-lhe o nome de Nova Dili”. Boletim Oficial da Colónia de Timor, 48 (4). 23-24.Silva, José Gomes da (1889). “Relatório: Sobre as necessidades do serviço de saude em Timor”. Boletim da Provincia de Macau e Timor. 35(4), 19-22.
  • 478 479CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3PEÇAS DESENHADAS E MEMÓRIAS DESCRITIVAS:Aguiar, João António (1951a). Trabalho nº 86 (1-3): Plano Geral de Urbanização de Díli. Gabinete de Urbanização do Ultramar (peças desenhadas)Aguiar, João António (1951b). Trabalho nº 86: Plano Geral de Urbanização de Díli. Memória descritiva. Lisboa: Gabinete de Urbanização do Ultramar (documento dactilografado)Aguiar, João António; Oliveira, Mário de; não identificado (1952). Trabalho n.º 358 (1-3): Timor. Repartições Públicas de Díli (2.ª solução). Gabinete de Urbanização do Ultramar (peças desenhadas)Aguiar, João António (1952). Trabalho n.º 359 (1-3): Timor. Câmara municipal de Díli. Gabinete de Urbanização do Ultramar (peças desenhadas)Aguiar, João António (1953). Corpo central do edifício das Repartições Públicas de Díli. Lisboa: Gabinete de Urbanização do Ultramar (documento dactilografado).Cabreira, Frederico Leão (1841). Planta Hidro-topográfica da Praça e Porto de Dilly e terreno circunvizinho da Ilha de Timor (elemento cartográfico).Campos, Fernando Schiappa de (1965a). Memória descritiva e justificativa. Dependência bancária. Lisboa [documento dactilografado]. Campos, Fernando Schiappa de (1965b). Memória descritiva e justificativa. Habitação do gerente. Lisboa [documento dactilografado].Campos, Fernando Schiappa de (1965c). Memória descritiva e justificativa. Habitação do tipo A. Lisboa [documento dactilografado].Campos, Fernando Schiappa de (1965d). Memória descritiva e justificativa. Habitação do tipo B. Lisboa [documento dactilografado].Campos, Fernando Schiappa de (1965e). Memória descritiva e justificativa. Habitação para solteiros. Lisboa [documento dactilografado].Campos, Fernando Schiappa de (1965f). Memória descritiva e justificativa. Habitação do tipo C. Lisboa [documento dactilografado].Campos, Fernando Schiappa de (1972). Plano de Urbanização de Díli. Memória descritiva e justificativa. Lisboa: Direcção dos Serviços de Urbanismo e Habitação (documento dactilografado)Heitor, Antonio (1893). Planta do Porto, Cidade e Arredores de Dilly (elemento cartográfico).Mendes, António Sousa (1960a). Processo n.º 607 (1-11): Projecto da Associação C.A.I. Direcção dos Serviços de Urbanismo e Habitação (peças desenhadas).Mendes, António Sousa (1960b). Instalações da Associação Comercial, Agrícola e Industrial de Timor. Memória descritiva e justificativa. Lisboa: Direcção dos Serviços de Urbanismo e Habitação [documento dactilografado].Mendes, António Sousa (1963). Edifício dos C.T.T. para Dili. Projecto. Memória descritiva e justificativa. Lisboa: Direcção dos Serviços de Urbanismo e Habitação. Direcção-Geral das Obras Públicas e Comunicações. Ministério do Ultramar (documento dactilografado).Neto, José António Ferreira (1971). Edifício dos Serviços de Economia. Memória descritiva. Luanda [documento dactilografado].Oliveira, Mário de; não identificado (1952a). Trabalho n.º 360 (1-3): Timor. Repartições Públicas de Díli (1.ª solução). Edifício n.º1: Serviços de correios, telégrafos e telefones, agronomia e veterinária. Gabinete de Urbanização do Ultramar (peças desenhadas)Oliveira, Mário de; não identificado (1952b). Trabalho n.º 361 (1-3): Timor. Repartições Públicas de Díli (1.ª solução). Edifício n.º2: Serviços de governo, administração civil, fazenda, fazenda concelhia, imprensa nacional. Gabinete de Urbanização do Ultramar (peças desenhadas)Oliveira, Mário de; não identificado (1952c). Trabalho n.º 361A (1-3): Timor. Repartições Públicas de Díli (1.ª solução). Edifício n.º2: Serviços de governo, administração civil, fazenda, fazenda concelhia, imprensa nacional (variante à solução n.º1). Gabinete de Urbanização do Ultramar (peças desenhadas)Oliveira, Mário de; não identificado (1952d). Trabalho n.º 362 (1-3): Timor. Repartições Públicas de Díli (1.ª solução). Edifício n.º3: Serviços de obras públicas, capitania do porto, serviços aéreos e armazéns. Gabinete de Urbanização do Ultramar (peças desenhadas)Oliveira, Mário de (1952). Memória descritiva e justificativa. Messe para 8 funcionários solteiros, para Díli. Lisboa: Gabinete de Urbanização do Ultramar (documento dactilografado).Silva, Carlos Eduardo Macedo (1963). Edifício destinado a cadeia central de Díli. Memória descritiva e justificativa. Díli: Província de Timor. Repartição Provincial dos Serviços de Obras Públicas, Portos e Transportes. Divisão Técnica (documento dactilografado).Zilhão, José Manuel Galhardo Zilhão (1952a). Trabalho n.º 357 (1-6): Delegacia de saúde para Díli. Gabinete de Urbanização do Ultramar (peças desenhadas).Zilhão, José Manuel Galhardo Zilhão (1952b). Trabalho n.º 352 [1-4 (1.ª solução); 1-4 (2.ª solução); 1-2 (3.ª solução)]: Timor. Projecto de um matadouro. Gabinete de Urbanização do Ultramar (peças desenhadas).Zilhão, José Manuel Galhardo Zilhão (1953a). Trabalho n.º 410 (1-7): Aerogare de Díli. Gabinete de Urbanização do Ultramar (peças desenhadas).Zilhão, José Manuel Galhardo Zilhão (1953b). Projecto da aerogare do aeroporto de Díli. Memória descritiva. Lisboa: Gabinete de Urbanização do Ultramar (documento dactilografado).Timor-Leste
  • 480 481CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3Documentação:Carlos, Alberto (1900). Relatório dos trabalhos executados pela repartição no anno economico de 1899-1900. Dilly: Districto autonomo de Timor. Repartição das Obras Publicas (documento manuscrito).Carlos, Alberto (1907): Relatório dos trabalhos executados pela repartição no anno economico de 1905-1906 em conformidade com o artigo 24 do decreto de 20 de Agosto de 1892 que organisou o serviço de Obras Publicas do Ultramar, e em harmonia com as instrucções a que se refere o officio nº 44 de 3 de Maio de 1901 expedido pela 3ª Repartição da Secretaria de Estado dos Negocios da Marinha e Ultramar. Dilly: Repartição das Obras Publicas do Districto autonomo de Timor (documento manuscrito).Cavaca, Rogério A. (1952). À alta consideração de V. Ex.ª. [senhor subsecretário de Estado do Ultramar] tenho a honra de apresentar os estudos a seguir mencionados (...). Lisboa: Gabinete de Urbanização do Ultramar (documento dactilografado).Conselho Técnico de Fomento Colonial (1950). Parecer nº 172/1950: Parecer do Conselho Técnico de Fomento Colonial emitido em sessão de 13 de Novembro de 1950, acerca do relatório do Director da Repartição de Obras Públicas e Fomento de Timor referente ao ano de 1949. Lisboa: Conselho Técnico de Fomento Colonial (documento dactilografado).Esteves, João José Baptista (1968). Telegrama. Assunto: Filial de Díli – Construção da Dependência Bancária e Residência do Gerente e Moradias para Funcionário. Díli: Serviço de Obras, Conservação e Património. Banco Nacional Ultramarino (documento dactilografado).Fontoura, Álvaro Eugénio da (1950). “Apenso”. Parecer nº 172/1950 - Parecer do Conselho Técnico de Fomento Colonial emitido em sessão de 13 de Novembro de 1950, acerca do relatório do Director da Repartição de Obras Públicas e Fomento de Timor referente ao ano de 1949. Lisboa: Conselho Técnico de Fomento Colonial (documento dactilografado).Freixo, João Pimentel (1960). Relatório Anual. 1959. Díli: Repartição Provincial dos Serviços de Obras Públicas, Portos e Transportes (documento dactilografado).Freixo, João Pimentel (1961). Relatório. Díli: Repartição Provincial dos Serviços de Obras Públicas, Portos e Transportes (documento dactilografado).Gama, Eugénio Sanches da (1961). Parecer nº 10/61: O Conselho Orientador da Direcção-Geral de Obras Públicas e Comunicações do Ministério do Ultramar, nos termos do artigo 21º do Decreto nº 41 787, tendo-lhe sido presente o Relatório do ano de 1959 da Repartição Provincial dos Serviços de Obras Públicas, Portos e Transportes de Timor emite o seguinte parecer. Lisboa: Conselho Orientador da Direcção-Geral de Obras Públicas e Comunicações (documento dactilografado).Gomes, J. A. Henrique (1956). Relatório de gerência do ano de 1955. 2.ª Parte. Díli: Filial do Banco Nacional Ultramarino (documento dactilografado).Gomes, Henrique J. A. (1957). Relatório de gerência do ano de 1956. 2ª Parte. Díli: Filial do Banco Nacional Ultramarino (documento dactilografado).Gomes, Henrique J. A. (1958). Relatório de gerência do ano de 1957. 2ª Parte. Díli: Filial do Banco Nacional Ultramarino (documento dactilografado).Guerra, António Joaquim de Sousa (1961). Relatório anual. 1961. Díli: Repartição Provincial dos Serviços de Obras Públicas, Portos, Transportes (documento dactilografado).Heitor, Antonio (1899). Relatório dos trabalhos executados por esta repartição no anno economico de 1898-1899. Dilly: Districto autonomo de Timor. Repartição das Obras Publicas (documento manuscrito).Heitor, Antonio (1898). Relatório dos trabalhos executados por esta repartição no anno economico de 1897-1898. Dilly: Districto autonomo de Timor. Repartição das Obras Publicas (documento manuscrito).Machado, Armando A. T. (1947). Relatório Anual. 1946. Díli: Banco Nacional Ultramarino. Filial de Timor (documento dactilografado).Monteiro, Abílio de Paixão (1963). Informação n.º 2 / 1963, de 5 de Fevereiro de 1963: Encerramento de estabelecimentos comerciais. Díli: Câmara Municipal (documento dactilografado).não identificado (1922). Relatório de 1921. 2.ª Parte. Díli: Banco Nacional Ultramarino. Filial de Timor (documento dactilografado).não identificado (1923). Relatório de 1922. 2.ª Parte. Díli: Banco Nacional Ultramarino. Filial de Timor (documento dactilografado).não identificado (1925). Relatório de 1924. 2.ª Parte. Díli: Banco Nacional Ultramarino. Filial de Timor (documento dactilografado).não identificado (1933). Relatório de 1932. 2.ª Parte. Díli: Banco Nacional Ultramarino. Filial de Timor (documento dactilografado).Pimenta, João Augusto de Bettencourt (1948). Relatório de 1947. 2ª Parte. Díli: Banco Nacional Ultramarino. Filial de Díli (Timor) (documento dactilografado)Pimenta, João Augusto de Bettencourt (1949). Relatório da Gerência. 2ª Parte. Exercício de 1948. Díli: Banco Nacional Ultramarino. Filial de Díli (documento dactilografado).Ruas, Óscar Freire de Vasconcelos (1950). Relatório do Governo da colónia de Timor. 1948-1949. Díli: Governo da Colónia de Timor (documento dactilografado).Simões, Alberto (1949). Relatório do Ano de 1948. Díli: Repartição Técnica de Obras Públicas e Fomento (documento dactilografado).Timor-Leste
  • 482 483CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3Jorge Alberto Hagedorn RangelPresidente do Instituto Internacional de Macau, foi alto dirigente da Administração Pública de Macau, membro do Governo durante mais de 13 anos, tutelando as áreas da Administração, Educação e Juventude, e também as da Cultura, do Desporto e do Turismo, tendo sido também deputado à Assembleia Legislativa de Macau, onde presidiu às Comissões de Assuntos Constitucionais, Liberdades, Direitos e Garantias e do Regimento e Mandatos, e membro da Comissão de Redacção da Lei Básica da Região Administrativa Especial de Macau. É docente convidado de várias instituições de ensino superior e participa regularmente, como orador, em conferências, colóquios e encontros académicos, tendo integrado os corpos directivos de vários organismos internacionais.Isabel BoavidaArquiteta (FCT-UC). Atualmente estuda o património construído do período colonial português em Timor-Leste, encontrando-se a desenvolver a tese “A Dconstrução de Timor colonial: Marcas políticas e administrativas na arquitetura, urbanismo e ordenamento do território (1894-1975)”, no âmbito do programa de doutoramento Patrimónios de Influência Portuguesa (CES | III - UC)Gerhard SeibertGraduou-se em Antropologia Cultural na Universidade de Utreque, Holanda, em 1991. De 1992 a 1999 esteve ligado à Universidade de Leiden, Holanda, onde se doutorou em Ciências Sociais. Logo a seguir foi bolseiro de pós-doutoramento da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT) no Instituto de Investigação Científica Tropical (IICT) em Lisboa, até 2008. Depois foi durante seis anos pesquisador no ex-Centro de Estudos Africanos (CEA) / ISCTE - Instituto Universitário de Lisboa. Desde 2014 é professor adjunto da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (UNILAB), Campus São Francisco do Conde, Bahia, Brasil. Tem desenvolvido projetos de pesquisa em Moçambique, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe e sobre as relações Brasil – África. É autor do livro Camaradas, Clientes e Compadres. Colonialismo, Socialismo e Democratização em São Tomé e Príncipe (Lisboa: Vega 2001).Fernando PiresLicenciado em arquitetura (1983) pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de Sarajevo (com equivalência pela Faculdade de Arquitectura da Universidade Técnica de Lisboa, 1988) e mestre em desenho urbano (1999) pelo Instituto Universitário de Lisboa (ISCTE-IUL). Após diversas experiências profissionais como arquiteto colaborador (1983-2010) e professor de Desenho Técnico na Casa Pia de Lisboa (1988-2010), ingressou na primeira edição do programa de doutoramento Patrimónios de Influência Portuguesa (PIP) do Instituto de Investigação Interdisciplinar (III) e do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra (CES) (2010), onde se encontra a desenvolver a dissertação intitulada Há vila além da costa. Urbanidades em Cabo Verde, século XIX, em relação à qual recebeu financiamento do PIP para deslocação no território de estudo.Bai YunxiangDoutorado em História, vice-director e investigador catedrático do Instituo de Investigação Arquelógica da Academia das Ciências Sociais da China; professor catedrático e orientador de doutoramento do Instituto de Pós-gradução da Academia das Ciências Sociais da China; membro correspondente da Academia de correspondência do Instituto de Investigação Arqueológica da Alemanha.OS AUTORES:Ana Vaz Milheiro Professora Auxiliar, com Agregação, no ISCTE - Instituto Universitário de Lisboa, e investigadora do DINÂMIA’CET-IUL. Doutorada pela Universidade de São Paulo, Brasil (2004). Autora de A Construção do Brasil – Relações com a Cultura Arquitectónica Portuguesa (2005), Guiné-Bissau, 2011 (2012) e Nos Trópicos sem Le Corbusier, arquitectura luso-africana no Estado Novo (Prémio AICA/FCC 2012). Crítica de Arquitectura no Jornal Público (desde 1995). Directora adjunta do JA – Jornal Arquitectos (2000-2004 /2009-2012). Investigadora Principal de três projectos de investigação sobre arquitectura e planeamento urbano nos países africanos lusófonos, financiados pela Fundação para a Ciência e Tecnologia: Os Gabinetes Coloniais de Urbanização: Cultura e Prática Arquitectónica, Habitações para o Maior Número: Lisboa, Luanda e Macau, e Coast to Coast – Desenvolvimento infraestrutural tardio na antiga África continental portuguesa (Angola e Moçambique): Análise histórico-crítica e avaliação pós-colonial
  • 484 485CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3Xu ChaoDoutorado pela Escola de Graduados da Academia de Ciências Sociais da China, Professor do Instituto Politécnico de Xangai.Paula AbrunhosaCom uma Licenciatura em História (FLUP, 1986) e Mestrado em Ciências Musicais (FLUC, 1999), evidencia um percurso marcado pela diversidade de interesses e de áreas de actuação. Formadora de grupos infantis, exercício de funções docentes no ensino básico e coordenadora artística da Orquestra Nacional do Porto foram algumas das actividades desempenhadas. Elaborou textos para programas de concerto, óperas e exposições, apresentou livros e produziu concertos. Fez traduções para legendagem de óperas produzidas no Coliseu do Porto e participou em diversos projectos cénicos. Foi autora do programa Arte de Música, para a Antena 2, e tem promovido iniciativas culturais em várias entidades públicas. É, desde 2007, locutora da Biblioteca Sonora da Biblioteca Pública e Municipal do Porto. A Fundação Instituto Arquitecto José Marques da Silva, onde desempenha actualmente as funções de Assessora de Produção e de Comunicação, proporcionou o contacto com novas áreas de acção e alimentou o interesse pela Arquitetura, em particular pela história da transformação urbana do Porto. Maria de Lurdes JaneiroCo-autora e/ou colaboradora em muitos estudos, investigações, livros, artigos e comunicações realizadas pelo Arq. José Manuel Fernandes Ma YongProfessor catedrático e Investigador do Instituto de História Contemporânea da Academia de Ciências Sociais da China, orientador de doutorandos. Desempenha funções no Centro de Investigação do Instituto de Civilizações do Mundo, Investigador da Universidade de Anhui University, da Universidade de Henan, da Universidade Normal de Fujian, vice-presidente e secretário-geral da sociedade da Cultura Chinesa Contemporânea.José Roberto Teixeira LeiteHistoriador, critico de arte e docente nascido em 1930 no Rio de Janeiro. Lecionou História da Arte na Universidade Federal do Rio de Janeiro e na Universidade Estadual de Campinas, pela qual se aposentou em 2000. Foi diretor do Museu Nacional de Belas Artes (1961-1964), presidiu a Associação Brasileira de Críticos de Arte (1995-2000), e publicou cerca de 40 livros sobre assuntos de sua especialidade, entre eles Jheronimus Bosch (1956), As Companhias das Indias e a Porcelana Chinesa de Encomenda (1986), Dicionário Crítico da Pintura no Brasil (1988), A China no Brasil (1999) e Arte e Arquitetura no Brasil Holandês 1624 -1654 (2015). É sócio honorário do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Vive em São Paulo.José Manuel FernandesArquicteto licenciado pela Escola de Belas Artes de Lisboa ( 1977), Professor, Doutorado (1993) e Catedrático em História da Arquitectura e do Urbanismo da Faculdade de Arquitectura da Universidade de Lisboa. Conferencista convidado no Departamento de Arquitectura da Universidade Autónoma de Lisboa desde 2003, e seu Director no período 1998-2000. Director do Instituto de Arte Contemporânea do Ministério da Cultura de Portugal (2001-2003). Investiga, escreve e publica regularmente sobre História da Arquitectura e do Urbanismo . Coordenador da área da África Sub-sahariana no estudo Património de Origem Portuguesa no Mundo -Arquitectura e Urbanismo, sob orientação de José MAttoso, para a Fundação Calouste Gulbenkian (2007-2010 ). Primeiro Presidente do DOCOMOMO Ibérico, como representante da Associação dos Arquitectos Portugueses (1993-97). Os AutoresOs AutoresDos seus livros mais recentes refiram-se Carlos Ramos. Arquitecturas do Século XX em Portugal (c/Ana Janeiro),ed. Imprensa Nacional/Casa da Moeda e Imprensa da Universidade de Coimbra (2014), Prémio Joaquim de Carvalho da Universidade de Coimbra em 2015, e, em co-autoria/coordenação, Cabo Verde -Cidades,Territórios e Arquitecturas,ed. dos autores (2014) e Macau -Cidade, Território e Arquitecturas, ed. do Instituto Internacional de Macau (2015).
  • 486 487CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3CHINA E PAÍSES LUSÓFONOS – PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO Novos Caminhos N.o 3A GRANDE MURALHA Tradução de chinês para português de Jaime Tchang, intérprete-tradutor (aposentado) da Direcção dos Serviços de Administração Civil do Governo da Região Administrativa Especial de Macau.OS TRADUTORES:XÉRCITO DE TERRACOTA DE XI’AN Tradução de chinês para português de Sofia Zhang Minfen, licenciada em Língua e Literatura Portuguesas pela Universidade de Estudos Internacionais de Shanghai, Mestre em Língua e Culturas Portuguesas pela Universidade de Macau e doutoranda em História pela Universidade Nova de Lisboa.
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