• MISSIONÁRIOS para o Século XXINão podem cabalmente explicar-se a identidade de Macau e o factor cultural que foi sua moção no decurso da História sem considerar a Diocese de Macau, os seus obreiros e legiões de servidores. Considerar, isto é, em adunação ao sidério, ou com o céu (cum + siderio), que foi o que desde os primórdios do porto macaense atraiu os inacianos encandescidos de fervores apostólicos e “acomodados” ao Outro – o que para sempre eternizou Macau como anfiteatro da compenetração cultural Europa/China, uma das grandes vias de realização da unidade ou arquitectação da ecúmena fraterna dos homens.Padres, missionários, mártires, letrados: servidores do Outro, tornado próximo, pelas obras de misericórdia, e no seu carácter e espírito compreendido pela cultura. De 1557 (Bula do Papa Paulo IV que missionava Macau como sede da expansão religiosa no Extremo Oriente) até hoje, em dádiva total aos mais necessitados (desamparados, pobres, doentes, abandonados, a todas as criaturas assombradas pelo espírito do mal), ou na docência, na investigação e no estudo da Língua, da História, dos arcanos civilizacionais.Foi o Século passado constelado por uma geração de ouro, de tantas figuras excepcionais em Macau radicadas, grandes nas obras, como no quase anonimato de uma humildade que é expressão de um verdadeiro sentido ancilar da vida e do destino.Não podemos deixá-los no desconhecimento e no esquecimento das gerações actuais e vindouras. É este imperativo que nos motivou à concepção de mais uma colecção no nosso acervo editorial – “Missionários para o Século XXI”.Volume IPadre Lancelote Rodrigues “Vida e Obra”Leonor SeabraVolume IIPadre Joaquim Angélico Guerra, S. J. “Um Globetrotter ao serviço de Deus e da China”Padre Henrique de Jesus Rios, S. J.Volume IIIMário Acquistapace“Um salesiano no Extremo Oriente”Mário Rodrigues BaptistaVolume IVP. Benjamim Videira Pires, Meu irmãoP. Francisco Videira PiresVolume VLuigi Versiglia e Callisto Caravario “Mártires Salesianos na China”Luís CunhaVolume VIManuel Teixeira, de Menino a MonsenhorJosé TeixeiraVolume VIIUm Apostólo do Oriente Aproximação à Vida e Obra do Cardeal Costa NunesJosé Valle de FigueiredoVolume VIIIPe. Áureo Nunes e Castro Missionário, músico e pedagogoJoão GuedesVolume IXD. Arquimínio Rodrigues da Costa, Bispo de Macau (1976-1988)António ArestaCom testemunhos do Gen. J.E. Garcia Leandro,José Maria Bártolo e Maestro Simão BarretoD. ARQUIMÍNIO RODRIGUES DA COSTABispo de Macau (1976-1988)António ArestaCom testemunhos do Gen. J.E. Garcia LeandroJosé Maria Bártolo e Maestro Simão Barreto
  • 02D. Arquimínio Rodrigues da Costa, Bispo de Macau (1976-1988)MISSIONÁRIOS para o Século XXIAntónio Aresta03 MISSIONÁRIOS para o Século XXITítuloD. Arquimínio Rodrigues da Costa, Bispo de Macau (1976-1988)AutorAntónio ArestaCom testemunhos do Gen. J.E. Garcia Leandro,José Maria Bártolo e Maestro Simão Barreto EditorInstituto Internacional de MacauColecção“Missionários para o Século XXI” Volume IXDirecção GráficaVictor Hugo DesignFotosCarlos Dias (pág: 18/21, 94/95, 98/99)Impressão e EncadernaçãoTipografia WelfareTiragem500 exemplaresApoioFundação MacauMacau, Novembro de 2016ISBN 978-99937-45-94-5D. ARQUIMÍNIO RODRIGUES DA COSTABispo de Macau (1976-1988)António ArestaCom testemunhos do Gen. J.E. Garcia Leandro,José Maria Bártolo e Maestro Simão Barreto
  • D. ARQUIMÍNIO RODRIGUES DA COSTABispo de Macau (1976-1988)António ArestaCom testemunhos do Gen. J.E. Garcia Leandro,José Maria Bártolo e Maestro Simão Barreto
  • Esta ColecçãoMissionários para o Século XXINão podem cabalmente explicar-se a identidade de Macau e o factor cultural que foi sua moção no decurso da História sem considerar a Diocese de Macau, os seus obreiros e legiões de servidores. Considerar, isto é, em adunação ao sidério, ou com o céu (cum + siderio), que foi o que desde os primórdios do porto macaense atraiu os inacianos encandescidos de fervores apostólicos e “acomodados” ao Outro – o que para sempre eternizou Macau como anfiteatro da compenetração cultural Europa/China, uma das grandes vias de realização da unidade ou arquitectação da ecúmena fraterna dos homens.Padres, missionários, mártires, letrados: servidores do Outro, tornado próximo, pelas obras de misericórdia, e no seu carácter e espírito compreendido pela cultura. De 1557 (Bula do Papa Paulo IV que missionava Macau como sede da expansão religiosa no Extremo Oriente) até hoje, em dádiva total aos mais necessitados (desamparados, pobres, doentes, abandonados, a todas as criaturas assombradas pelo espírito do mal), ou na docência, na investigação e no estudo da Língua, da História, dos arcanos civilizacionais.Foi o Século passado constelado por uma geração de ouro, de tantas figuras excepcionais em Macau radicadas, grandes nas obras, como no quase anonimato de uma humildade que é expressão de um verdadeiro sentido ancilar da vida e do destino.Não podemos deixá-los no desconhecimento e no esquecimento das gerações actuais e vindouras. É este imperativo que nos motivou à concepção de mais uma colecção no nosso acervo editorial – “Missionários para o Século XXI”.Os editores
  • 08D. Arquimínio Rodrigues da Costa, Bispo de Macau (1976-1988)MISSIONÁRIOS para o Século XXIAntónio Aresta09 MISSIONÁRIOS para o Século XXI Índice 11 D. Arquimínio Rodrigues da Costa, Bispo de Macau (1976-1988) ANEXOS 43 Bula da nomeação do novo Bispo de Macau 47 A Igreja e a Educação da Juventude na Óptica do II Concílio do Vaticano 63 A Igreja em Macau 75 Censor Cáustico de Costumes e Atitudes 79 No 35º aniversário da minha Ordenação Episcopal TESTEMUNHOS 85 Do General José Eduardo Garcia Leandro Governador de Macau (1974/79) 93 De José Maria Bártolo ex-Seminarista e Chefe de Divisão da Imprensa Nacional de Macau aposentado 107 Do Maestro Simão Barreto
  • 10D. Arquimínio Rodrigues da Costa, Bispo de Macau (1976-1988)MISSIONÁRIOS para o Século XXIAntónio Aresta11 MISSIONÁRIOS para o Século XXID. Arquimínio Rodrigues da Costa, Bispo de Macau (1976-1988)Nas palavras quase proféticas do cardeal D. José da Costa Nunes1, ele próprio um antigo Bispo de Macau, proferidas no dia 23 de Janeiro de 1976, o padre Arquimínio Rodrigues da Costa estaria condenado a ficar “na História como o último Prelado do Padroado do Oriente”2. A revolução democrática em Portugal seguida pela descolonização parecia configurar novas realidades políticas. Portugal e a China não mantinham relações diplomáticas desde 1949, não obstante a 1 Os estudos mais recentes dedicados a esta importante personalidade da vida pública de Macau: Jorge Rangel, José da Costa Nunes, Cidadão Benemérito de Macau, edição do Instituto Internacional de Macau, 2008; José Valle de Figueiredo, Um Apóstolo do Oriente. Aproximação à Vida e Obra do Cardeal Costa Nunes, edição do Instituto Internacional de Macau, 2013; António Aresta, “A China no Pensamento de José da Costa Nunes”, Revista de Cultura [Instituto Cultural de Macau], Nº 41, pp. 125-150, 2013; Maria Guiomar Lima, Nascido para Vencer. D. José da Costa Nunes, Patriarca das Índias, Cardeal (1880-1976), Livros do Oriente, 2015.2 Textos de D. Arquimínio Rodrigues da Costa, [coordenação do Padre Tomás Bettencourt Cardoso], edição da Fundação Macau, 1999, p. 23. Sobre o autor, veja-se António Aresta, “D. Arquimínio Rodrigues da Costa”, Jornal Tribuna de Macau, 25.02.2015 e “D. Arquimínio Rodrigues da Costa, Bispo de Macau (1976-1988)”, Revista Administração [Macau], Nº 108, Vol. XXVIII, 2015, pp. 599-606.
  • 12D. Arquimínio Rodrigues da Costa, Bispo de Macau (1976-1988)MISSIONÁRIOS para o Século XXIAntónio Aresta13 MISSIONÁRIOS para o Século XXIexistência de Macau que era um absoluto legado da história. O paradoxo foi mediado por uma interessante diplomacia patriótica, de ambos os lados, diga-se em abono da verdade. Sim, as palavras de D. José da Costa Nunes foram realmente proféticas. Assim sucedeu, tendo sido também o último bispo português de Macau. A Igreja é universal e local, pelo que o seu múnus e magistério não tem, naturalmente, etnia. Contudo, a força avassaladora do contexto demográfico impôs, com toda a tranquilidade, outras escolhas. E bem, diga-se de passagem.Arquimínio Rodrigues da Costa, filho de António Rodrigues da Costa e de Silencina de Matos, açoriano de S. Mateus do Pico, onde nasceu a 8 de Julho de 1924, Bispo Emérito de Macau ainda felizmente vivo, é um exemplo de modéstia3 no ser e de simplicidade no agir. Após o ensino primário frequentado na sua terra natal, aportou a Macau em 1938 com destino ao Seminário de S. José, um prestigiado estabelecimento de ensino fundado em 1728, então dirigido pelo padre jesuíta Anacleto Pereira Dias, onde fará a sua formação 3 O Padre Tomás Bettencourt Cardoso cita este episódio: “Quando foi eleito, uma empregada do Seminário de S. José, passou a chamar-lhe Sanfou Chi Cau (Sanfou – padre, Chi Cau – bispo). Antes, Sanfou, depois Sanfou Chi Cau, isto é, Padre Bispo. É que ele não modificou em nada o seu modus vivendi. Continuou a residir no Seminário, aqui ao lado, num quarto modesto como este em que me encontro. Em metros lineares: 4 por 4.”, idem, op. cit., p. 21.
  • 14D. Arquimínio Rodrigues da Costa, Bispo de Macau (1976-1988)MISSIONÁRIOS para o Século XXIAntónio Aresta15 MISSIONÁRIOS para o Século XXIA mais negra amarguraEm ti se transfiguraE de luz se reveste,Pois pela dor nos guiasÀs puras alegriasDa morada celeste.Por esse dom celeste- A Fé que Tu nos desteMil graças, ó Senhor !Pois, por sendas de luz,Seu brilho nos conduzAo teu reino de amor.Essa abertura à transcendência iria encontrar uma dramática experiência de finitude quando encontra pela frente, os terríveis anos da segunda guerra mundial, que Macau bem conheceu porque acolheu largas dezenas de milhares de refugiados que verdadeiramente mudaram a fisionomia da cidade. E aí, quer o governo português, quer a Igreja, quer a filantropia dos particulares tiveram uma actuação que foi um verdadeiro hino à generosidade e à humanidade. Arquimínio Rodrigues da Costa recorda a segunda guerra mundial deste modo dolorido: “quem aqui passou esse período atribulado, sabe que, por mais de uma vez, esta terra esteve prestes a ser absorvida teológica e humanística. É desse tempo de grande fermentação cultural e mental, o poema4 escrito por um jovem estudante que já meditava em algumas questões transcendentais:Em louvor da FéQual meiga estrela erguidaSobre este mar da vida,Tu brilhas, luz de Deus.Em ti se nos revelaO amor, que por anos vela,Do Pai que está nos Céus.Qual astro fulgurante,Guiando o navegante,Por entre escarcéus,Ó Fé, tu nos conduzes,Entre dores e cruzes,À eterna paz de Deus.4 Recolhido nos Textos de D. Arquimínio Rodrigues da Costa, idem, op. cit., p. 445.
  • 16D. Arquimínio Rodrigues da Costa, Bispo de Macau (1976-1988)MISSIONÁRIOS para o Século XXIAntónio Aresta17 MISSIONÁRIOS para o Século XXIpelo incêndio que lavrava à nossa volta. No entanto, quando tudo parecia perdido, um golpe de cena, à última hora salvava a situação. E quantas, quantas situações difíceis, humanamente desesperadas, não conheceu esta cidade e esta Diocese através da sua história quadrissecular?”5. Rodrigo Leal de Carvalho, açoriano e escritor de Macau, em “Requiem por Irina Ostrakoff”6, deixou-nos uma vera imagem romanesca dessas vidas que a guerra sugou e escangalhou e que afluíram a Macau, sempre sob o signo do mistério e do sofrimento. Henrique de Senna Fernandes, emérito escritor macaense, também nos deixou um impressionante romance sobre a guerra, “A Noite Desceu em Dezembro”7, vista a partir de Macau.Arquimínio Rodrigues da Costa é ordenado sacerdote em Outubro de 1949, também o tempo da fundação da República Popular da China. Começa aí uma carreira cheia de trabalhos apostólicos e de evangelização. Diz-nos que “evangelizar não é 5 “Inauguração do Ano Jubilar da Diocese de Macau”, Boletim Eclesiástico da Diocese de Macau, Nº 853, p. 178, 1976. Republicado em Textos de D. Arquimínio Rodrigues da Costa, idem, p. 48.6 Publicado em Macau pela editora Livros do Oriente, em 1993. Este romance foi distinguido com o Prémio Instituto Português do Oriente, em 1994. Outras obras do mesmo autor, nas quais Macau ocupa um lugar central: “Os Construtores do Império”, 1994; “Ao Serviço de Sua Majestade”, 1996; “O Senhor Conde e as suas Três Mulheres”, 1999; “A Mãe”, 2001; “O Romance de Yolanda”, 2005.7 Edição do Instituto Cultural do Governo da Região Administrativa Especial de Macau, 2015.Os neos-Sacerdotes:da esquerda para direita, R.P. Arquimínio Rodrigues da Costa, R.P. Lancelote Miguel Rodrigues e R.P. Tché, logo após a Ordenação Sacerdotal em 6 de Outubro de 1949.
  • 18D. Arquimínio Rodrigues da Costa, Bispo de Macau (1976-1988)MISSIONÁRIOS para o Século XXIAntónio Aresta19 MISSIONÁRIOS para o Século XXI
  • 20D. Arquimínio Rodrigues da Costa, Bispo de Macau (1976-1988)MISSIONÁRIOS para o Século XXIAntónio Aresta21 MISSIONÁRIOS para o Século XXI
  • 22D. Arquimínio Rodrigues da Costa, Bispo de Macau (1976-1988)MISSIONÁRIOS para o Século XXIAntónio Aresta23 MISSIONÁRIOS para o Século XXIapenas ensinar. É sobretudo, comunicar uma vida. E para tanto, torna-se necessário vivê-la intensamente por meio duma comunhão constante com Aquele que é a fonte de toda a Vida. Nesta ordem de ideias, todo o cristão é evangelizador na medida em que, vivendo a Fé, dá testemunho dela diante dos que não crêem. Talvez se encontre aqui, a raíz da nossa falta de irradiação missionária. Talvez o testemunho que damos do Cristianismo, seja, em grande parte, negativo e contraproducente em virtude da nossa falta de coerência com a Fé que professamos”8. A sua frontalidade não permite esconder as debilidades: “não podemos deixar de reconhecer, mau grado nosso, quanto a nossa grandeza missionária do passado contrasta com a pequenez e modéstia do presente. Referimo-nos, evidentemente, ao aspecto qualitativo da nossa acção evangelizadora na actualidade. Na medida em que o número de conversões pode ser considerado como índice da nossa vitalidade missionária, será difícil entregar-nos a sentimentos de complacência ou optimismo”9.8 “Nota Pastoral Sobre o IV Centenário da Diocese de Macau”, Boletim Eclesiástico da Diocese de Macau, Nº 850, p. 513, 1975. Republicado em Textos de D. Arquimínio Rodrigues da Costa, idem, p. 39.9 Prefácio à História da Diocese de Macau, do Padre Manuel Teixeira, Boletim Eclesiástico da Diocese de Macau, Nº 853, p. 4, 1976. Republicado em Textos de D. Arquimínio Rodrigues da Costa, idem, p. 43.A profundidade deste pensamento transformar--se-á, paulatinamente, numa vivência de um trabalho de sinceridade e de amor ao próximo. Paralelamente, aprofunda a sua faceta de poliglota, aprende chinês, latim, alemão, italiano e francês. É nomeado Reitor do Seminário de S. José (1961-1966), aí leccionando Latim, Filosofia, Francês e Direito Canónico. Foi Professor no Seminário Maior da Diocese de Hong Kong, em Aberdeen (1968-1973), então colónia britânica. A educação moral e religiosa dos jovens encontra--se sempre presente no seu horizonte de educador: “caros jovens, à vossa formação integral pertence também a dimensão moral e religiosa. Aprofundai-a cada vez mais, através duma assídua participação nas aulas de Religião e Moral, e verificareis, por experiência própria, como a verdade religiosa é libertadora e plenificante, tal como o seu Autor, que é Verdade, Liberdade e Plenitude”10. E porque conhece bem o terreno é muito incisivo no delineamento das suas ideias: “O melhor antídoto contra a droga e tantos outros vícios não menos degradantes é ainda uma boa formação cristã. O descuido nesta matéria está na origem de tantas situações mais que lamentáveis 10 “Nota Pastoral sobre a matrícula dos alunos católicos nas aulas de Religião e Moral”, Boletim Eclesiástico da Diocese de Macau, Nº 918, p. 77, 1981. Republicado em Textos de D. Arquimínio Rodrigues da Costa, Idem, p. 139.
  • 24D. Arquimínio Rodrigues da Costa, Bispo de Macau (1976-1988)MISSIONÁRIOS para o Século XXIAntónio Aresta25 MISSIONÁRIOS para o Século XXIe sobejamente conhecidas. O ambiente moral que se respira em Macau não é dos mais favoráveis à preservação dos bons costumes. Daí, a necessidade duma boa formação moral e religiosa, capaz de conferir à juventude maior poder de resistência às solicitações malsãs do meio em que vivemos”11. Mas, se “o seminário menor local continuar vazio por falta de vocações, quem virá preencher as vagas que a morte e a idade forem abrindo nas fileiras sacerdotais ? Grave problema este, que requer o interesse de toda a comunidade católica de Macau”12. Uma questão dramática e aparentemente insolúvel, que obrigava à tentativa de recrutamento no exterior de pessoal missionário.Na Universidade Gregoriana, em Roma, obteve a licenciatura em direito canónico. Assume cada vez mais responsabilidades na governação da diocese, é governador do bispado e vigário capitular. Em 1976 o Papa Paulo VI nomeia-o Bispo de Macau, sucedendo a D. Paulo José Tavares13, também ele açoriano. As suas primeiras palavras reflectem a união que desejava para a sua missão, “todos nós, digo, porque a renovação da Diocese é obra de toda a comunidade católica de Macau, e não apenas do Prelado. Todos 11 Idem, idem, p.138.12 Circular sobre o Dia Mundial de Orações pelas Vocações, Boletim Eclesiástico da Diocese de Macau, Nº 868, p. 198, 1977.13 Bispo de Macau, 1961-1973.Em Xangai, com o Bispo Emérito daquela Diocese
  • 26D. Arquimínio Rodrigues da Costa, Bispo de Macau (1976-1988)MISSIONÁRIOS para o Século XXIAntónio Aresta27 MISSIONÁRIOS para o Século XXIsomos Igreja e todos precisamos de nos dar as mãos num esforço colectivo pelo progresso espiritual desta Diocese”14. No detalhado Relatório15 sobre a situação a actividades missionárias da Diocese de Macau durante o ano de 1979 reflecte sobre o peso específico dos estabelecimentos de ensino católicos no contexto geral, “se exceptuarmos as poucas escolas luso--chinesas existentes, podemos afirmar que em Macau apenas existe ensino oficial e gratuito para o sector de expressão portuguesa. A esmagadora maioria da população vê-se assim obrigada a recorrer ao ensino particular, que é mantido pelas propinas dos alunos e, no caso das escolas católicas, também por subsídios concedidos pela Diocese ou por organizações estrangeiras”. As estatísticas, em 1978, mencionavam a existência de 39 mil católicos numa população de 300 mil pessoas.A Diocese de Macau mantinha diversas publica-ções doutrinárias e informativas: na língua portuguesa, o jornal O Clarim, a revista Encontro e o Boletim Eclesiástico da Diocese de Macau; na língua chinesa, o jornal A Aurora, o Boletim Eclesiástico da Diocese de 14 Boletim Eclesiástico da Diocese de Macau, Nº 855, Março-Abril, 1976, p. 308. Republicado em Textos de D. Arquimínio Rodrigues da Costa, idem, p. 69.15 Boletim Eclesiástico da Diocese de Macau, Nº 894, Julho, 1979, p. 393. Republicado em Textos de D. Arquimínio Rodrigues da Costa, idem, p. 93.Macau, e o Boletim do Centro Pastoral Diocesano da Juventude; na língua inglesa, a revista Rally, difundida em Singapura. O esforço era enorme, sobretudo na coordenação da diversidade linguística em termos de comunicação com as diferentes comunidades.A resignação de D. Arquimínio Rodrigues da Costa, essa virá doze anos depois, em 1988. O tempo da tran-sição chegara à Diocese, tendo sido entendido como um acto de sabedoria o seu voluntário afastamento. Informa a comunidade16 de Macau nestes precisos termos: “Como é do conhecimento geral, a Santa Sé adoptou, desde há muito, o princípio da localização das igrejas particulares fundadas em terras de missão. Em obediência a este critério, os Bispos passaram a ser escolhidos, na medida do possível, entre o clero autóctone, substituindo gradualmente os Prelados oriundos da Europa ou de outras regiões. Assim suce-deu, por exemplo, na vizinha diocese de Hong Kong, onde o Prelado actual já é o terceiro de etnia chinesa. Algo de semelhante se deu em Taiwan, na Coreia, no Japão, na Malásia, na Indonésia, etc. Até a diocese anglicana de Hong Kong e Macau adoptou a mesma linha de orientação, elegendo, há vários anos, o seu 16 “Comunicação aos Católicos de Macau”, Boletim Eclesiástico da Diocese de Macau, Nº 998, p. 72, 1988. Republicado em Textos de D. Arquimínio Rodrigues da Costa, idem, pp. 255-256.
  • 28D. Arquimínio Rodrigues da Costa, Bispo de Macau (1976-1988)MISSIONÁRIOS para o Século XXIAntónio Aresta29 MISSIONÁRIOS para o Século XXIprimeiro Bispo chinês. Neste contexto, Macau, devido aos seus condicionalismos, tem constituído um caso à parte. Tal situação, porém, em virtude das razões expostas e, sobretudo, da conjuntura histórica em que nos encontramos inseridos, não se podia prolongar indefinidamente. Deste modo, depois de a Sé Episco-pal de Macau ter sido ocupada, durante mais de quatro séculos, por Bispos oriundos de Portugal, a Santa Sé julgou, em 1987, ter chegado o momento de se iniciar o processo de sucessão que culminaria com a minha substituição por um Bispo chinês. Tal decisão foi moti-vada, sobretudo, pelo facto de o Território ter entrado num período de transição, que tem, como ponto de mira, o ano de 1999.(…) Ao deixar a Sé Episcopal de Macau, levo dentro de mim apenas um pesar : o de não ter conseguido fazer mais e melhor por esta diocese. Perto ou longe, terei sempre presente na memória e no coração esta terra, para a qual vim, como seminarista, há 50 anos. E a minha maior alegria será constatar que ela floresce e progride, sobretudo no campo religioso, preparando-se para enfrentar, vitoriosamente os desa-fios do futuro”. Recolhe-se, então, na Ilha do Pico, nos Açores, até aos dias de hoje. O seu sucessor foi D. Domingos Lam Ka Tseung17.17 Bispo de Macau, 1988-2003.O tributo às suas actividades não tardou. A Universidade da Ásia Oriental18, de Macau, concedeu--lhe um doutoramento ‘honoris causa’ em 1986. Foi condecorado pelo Presidente da República, em 1984 com o grau de Grande Oficial da Ordem da Benemerência e em 1988 com a Grão-Cruz da Ordem de Mérito. A Assembleia Legislativa Regional dos Açores , a sua terra natal, condecorou-o em 2012 com a Insígnia Autonómica de Reconhecimento. Ignoramos se o governo de Macau lhe outorgou alguma distinção.O essencial da sua obra doutrinária foi fixada pelo Padre Tomás Bettencourt Cardoso, sob o título “Textos de D. Arquimínio Rodrigues da Costa”, reunindo disper-sos e avulsos, e editado pela Fundação Macau em 1999. O trabalho do Padre Tomás Bettencourt Cardoso mere-ce igualmente um realce particular, porque foi decisivo para a recolha da obra de José da Costa Nunes19, José Vieira Alvernaz20, João Paulino de Azevedo e Castro21 ou Jaime Garcia Goulart22. Este carismático lobby açoriano, boa parte dele formado no Seminário de S. José de Macau, constituiu-se como uma ilha à parte 18 Para uma síntese sobre a história da transição da Universidade da Ásia Oriental para a Universidade de Macau, veja-se Jorge Rangel, Os 25 anos da Universidade de Macau, edição trilingue (português-chinês-inglês) da Universidade de Macau, 2009.19 Bispo de Macau, 1920-1941.20 Bispo de Cochim, 1948-1951 e Arcebispo de Goa e Damão, 1953-1961.21 Bispo de Macau, 1902-1918.22 Bispo de Dili, Timor, 1945-1967.
  • 30D. Arquimínio Rodrigues da Costa, Bispo de Macau (1976-1988)MISSIONÁRIOS para o Século XXIAntónio Aresta31 MISSIONÁRIOS para o Século XXIno arquipélago da espiritualidade portuguesa no extre-mo oriente.Gostaria de convidar o leitor a acompanhar-me na revisitação de três ideias nucleares do pensamen-to de D. Arquimínio Rodrigues da Costa. Pragmático, adepto da simplicidade e profundamente humanista, conjugava a moral cristã com ética da alegria de viver animado pela fé. Em vez da pompa teleológica das cartas pastorais publicava “notas” incisivas, judica-tivas, reflexivas e com uma grande proximidade aos problemas. Com as palavras do autor, trilhamos um caminho de hermenêutica e de descoberta.A primeira ideia, consiste na apreensão e na projecção da pedagogia e da sabedoria da História, que em Macau é um tema muito caro e sensível. Em 1978, a propósito da comemoração dos 75 anos do “Boletim Eclesiástico da Diocese de Macau”, fundado em 1903 pelo Bispo D. João Paulino de Azevedo e Castro, escreveu o seguinte: “sendo apenas uma revista diocesana, o Boletim transcende a estreiteza de tais limites para se projectar no campo da Igreja universal. E isto, em virtude da sua secção de História das Missões. Arrancando ao esquecimento dos arquivos e à erosão do tempo, documentos valiosos sobre a acção da Igreja no Oriente e colocando-os ao alcance dos estudiosos, esta revista vem realizando uma obra digna do apreço de todos os que se interessam pelo passado missionário da Igreja nestas paragens”23. O director era o padre Manuel Teixeira, personalidade bem conhecida e historiador reputado. Mergulhar nas raízes significava pensar na totalidade dos sentidos e nas tendências espirituais e materiais, para além das fraquezas da historicidade: “as comodidades da vida moderna talvez nos impeçam de avaliar o sacrifício heróico dos pioneiros que, em minúsculas caravelas, cruzaram os mares, em longas e penosas viagens, a fim de aqui fundarem a Igreja. Muitos deles sofreram o martírio, enquanto outros deram a vida, numa imolação lenta, entregues às privações e canseiras do labor missionário. E não foram baldados tantos esforços. As cristandades que hoje florescem através do Oriente são, em grande parte fruto e desenvolvimento do gérmen evangélico trazido pelos pioneiros de há quatro séculos. Entre esses frutos, conta-se também a cristandade de Macau”24. É o conhecimento do passado que parece caucionar e dar alento ao presente e ao futuro, projectando os sucessivos ciclos de poderes: “para quem vive em Macau, o nosso passado missionário não pode passar despercebido. Lá estão as ruínas de 23 “Comemorando uma Data”, Boletim Eclesiástico da Diocese de Macau, Nº 882, p. 288, 1978. Republicado em Textos de D. Arquimínio Rodrigues da Costa, Idem, p. 90. 24 “Nota Pastoral sobre o IV Centenário da Diocese de Macau”, Boletim Eclesiástico da Diocese de Macau, Nº 850, p. 513, 1975. Republicado em Textos de D. Arquimínio Rodrigues da Costa, Idem, p. 38.
  • 32D. Arquimínio Rodrigues da Costa, Bispo de Macau (1976-1988)MISSIONÁRIOS para o Século XXIAntónio Aresta33 MISSIONÁRIOS para o Século XXIS. Paulo e o Seminário de S. José a recordar-nos a acção dos missionários jesuítas, indubitavelmente os nossos grandes evangelizadores do Oriente. Lá está o Quartel de S. Francisco, a lembrar-nos a acção dos missionários Franciscanos, que ali tinham o seu centro e dali partiam para espalhar ao longe a boa nova do Evangelho. Lá está a Igreja de S. Domingos a assinalar o esforço evangelizador dos Religiosos Dominicanos. Lá está a Igreja de Santo Agostinho a evocar a acção dos Agostinianos em Macau e nas suas missões através do Extremo Oriente. Graças ao labor apostólico desses pregoeiros do Evangelho e de tantos do clero secular e de outras congregações religiosas, novas cristandades foram surgindo através destas imensas regiões, desde Timor até ao Japão, dando origem a novas dioceses, sucessivamente desmembradas da Diocese-Mãe”25. Toda esta memória antiga, rica e diversificada, é comum a portugueses e a chineses, sem esquecer os estrangeiros que aí viveram longos anos. Macau foi e é um símbolo e um exemplo de tolerância e de multiculturalidade, sobretudo tolerância religiosa. Os diferentes lugares sagrados do taoísmo, do budismo, do cristianismo, do islamismo e de outras religiões coexistem praticamente no mesmo espaço vital, fora 25 “Inauguração do Ano Jubilar da Diocese de Macau”, Boletim Eclesiástico da Diocese de Macau, Nº 853, p. 178, 1976. Republicado em Textos de D. Arquimínio Rodrigues da Costa, Idem, p. 48.da clássica dicotomia sagrado/profano, estudada por Mircea Eliade. O teólogo Hans Kung26 faz notar que “é impossível haver paz entre as religiões sem haver diálogo entre elas”. E a história demonstra a correcção deste axioma.A segunda ideia, centra-se na reflexão sobre a desumanização da sociedade contemporânea, o pensar sobre a racionalidade científica e sobre o valor da objectividade, sobretudo na problemática da ciência e da técnica serem tomadas como ideologia: “não se nega que a ciência e a técnica libertem o homem de muitas limitações e dependências, através do domínio e utilização das forças da natureza. Tal avanço, porém, deverá ser acompanhado por igual progresso moral e espiritual, construído sobre o amor. De outro modo, essas forças libertadoras converter--se-ão, para o homem, em factores de nova escravidão, pelos desequilíbrios e ambivalências que produzem (Cfr. GS 8-9, 10). O mundo contemporâneo, ameaçado pelo espectro da sua autodestruição, é prova evidente dessa verdade. No campo social e político, processam--se ou preconizam-se outras libertações que, por vezes, se limitam a substituir um género de opressão por outro análogo ou pior. Mudam-se as estruturas, mas o coração do homem permace o mesmo. A autêntica 26 Projecto para uma Ética Mundial, Ed. Instituto Piaget, 1996, p. 187.
  • 34D. Arquimínio Rodrigues da Costa, Bispo de Macau (1976-1988)MISSIONÁRIOS para o Século XXIAntónio Aresta35 MISSIONÁRIOS para o Século XXIrevolução, verdadeiramente libertadora, é aquela que procura atingir o mal na sua raiz, levando o homem a superar o próprio egoísmo e a expandir-se na dimensão do amor. É a revolução que Cristo trouxe ao mundo e que progride através das idades”27. Um dos remédios para combater as mais grosseiras alienações tecnológicas, tecnocráticas e tecnoburocráticas, poderá ser construído com o fraterno diálogo entre espiritualidade, a cultura e as religiões? Será o bastante? Como notava o pensador alemão, Karl Otto Apel, “a situação do homem é um problema ético para o homem”28. O essencial do pensamento de D. Arquimínio poderá ser encontrado na simplicidade destas palavras radicais : “Se é necessário que o homem seja culto, não é menos imperioso que ele seja bom. Com toda a razão, são universalmente obrigatórias as aulas de educação física. Não assim, as de formação ética e humana. Porquê? Será menos importante a integridade moral que a saúde física dos alunos?”29. E assertivamente conclui, “pena é que não exista um curso de formação moral baseado nos valores éticos universalmente reconhecidos pela 27 “Mensagem Natalícia”, Boletim Eclesiástico da Diocese de Macau, Nº 934, p. 4, 1982. Republicado em Textos de D. Arquimínio Rodrigues da Costa, Idem, p. 156.28 Discussion et Responsabilité, Cerf, Paris, 1996, p. 21.29 “Nota Pastoral”, Boletim Eclesiástico da Diocese de Macau, Nº 929, p. 104, 1982. Republicado em Textos de D. Arquimínio Rodrigues da Costa, idem, p. 154.comunidade dos povos civilizados”30. A esse propósito, não será despiciendo lembrar o pensamento clássico de Kant31: “A moral não é propriamente a doutrina sobre como nos tornamos felizes, mas como devemos tornar-nos dignos da felicidade. Só quando a religião se acrescenta é que também surge a esperança de um dia participarmos na felicidade na medida em que tivemos o cuidado de dela não sermos indignos”.A terceira ideia, está ligada às questões políticas do relacionamento com a China e o posicionamento da Igreja, em tempos anteriores à Declaração Conjunta. Prudentemente, começa por afirmar que “ao contrário do que por vezes se afirma, a Diocese de Macau nunca fez política à sombra da religião”32, vincando mesmo, “Não viemos para receber, mas para dar. Não viemos para destruir, mas para edificar. Não viemos para ab-sorver, mas para elevar e dignificar. Não viemos para dominar, mas para servir. Viemos trazer a boa nova da fraternidade universal dos homens em Cristo”33. De facto, e a insistência é propositada, pelo que é conveniente recordar que “não foi a Santa Sé que 30 Idem, idem, p. 154.31 Crítica da Razão Prática, Edições 70, 1989, p. 149.32 “Inauguração do Ano Jubilar da Diocese de Macau”, Boletim Eclesiástico da Diocese de Macau, Nº 853, p. 179, 1976. Republicado em Textos de D. Arquimínio Rodrigues da Costa, Idem, p. 49.33 Idem, Idem, p. 180. Republicado em Textos de D. Arquimínio Rodrigues da Costa, idem, p. 49.
  • 36D. Arquimínio Rodrigues da Costa, Bispo de Macau (1976-1988)MISSIONÁRIOS para o Século XXIAntónio Aresta37 MISSIONÁRIOS para o Século XXIhumilhou a China, fazendo-lhe guerra e impondo-lhe tratados injustos. No entanto, alguns factos históricos contribuíram para que a Igreja aparecesse aos olhos dos chineses como uma instituição associada aos invasores ocidentais. Referimo-nos, fundamentalmente, ao facto de figurarem, nos tratados iníquos impostos à China, os missionários católicos como beneficiários duma protecção especial por parte da França”34. Em 1985 foi convidado, pelo Gabinete para os Assuntos Reli-giosos, a visitar a República Popular da China. Foi um importante passo para o apaziguamento institucional e uma verdadeira “romagem de fraternidade humana e cristã.(…). Todos se esforçaram por nos esclarecer sobre a situação da Igreja Católica na China, incluindo as relações da mesma com o Governo.(…) Da nossa parte, não deixamos de salientar a situação específica da nossa Diocese, constituída por duas comunidades culturalmente heterogéneas: uma portuguesa e outra chinesa. Sublinhamos como a fraternidade cristã tem conseguido reunir numa mesma Igreja pessoas tão diferentes, estabelecendo uma verdadeira unidade ci-mentada no respeito pela identidade cultural de cada grupo; como, além da evangelização propriamente dita, estávamos empenhados em servir a comunidade, 34 Jornal O Dever [Açores], 14.08.1997. Republicado em Textos de D. Arquimínio Rodrigues da Costa, idem, p. 298.Em Pequim junto do túmulo de Mateus Ricci. Na página seguinte; Encontro com com Bispos de Xangai: (da direita para esquerda), o Bispo Cheung, titular; D.Arquimínio; o Bispo Jin, auxiliar; e o Bispo de Hong Kong, que esteve preso durante trinta anos.
  • 38D. Arquimínio Rodrigues da Costa, Bispo de Macau (1976-1988)MISSIONÁRIOS para o Século XXIAntónio Aresta39 MISSIONÁRIOS para o Século XXI
  • 40D. Arquimínio Rodrigues da Costa, Bispo de Macau (1976-1988)MISSIONÁRIOS para o Século XXIAntónio Aresta41 MISSIONÁRIOS para o Século XXInomeadamente através das escolas e das instituições de assistência social; como a nossa Diocese estava em comunhão com muitas outras através do mundo, havendo com elas um considerável intercâmbio de pessoal e bens materiais; como em Macau trabalha-vam, lado a lado, missionários chineses e de outras nacionalidades; como a nossa Diocese estava em co-munhão com o Sucessor de Pedro e Pastor de toda a Igreja Católica”35. O seu entendimento quanto ao futu-ro imediato, e corria o ano de 1997, assentava nestes parâmetros: “Como é do interesse da China manter a estabilidade social naqueles territórios em função dos objectivos políticos em vista, é de crer que Beijing não caia na tentação de cercear a liberdade religiosa nos dois enclaves, impondo-lhes a política que vigora no resto do país, onde a Igreja é controlada pela chamada Associação Patriótica e esta, pelo Governo. Tal situa-ção causaria instabilidade social, afectando negativa-mente a prosperidade que se pretende manter. É este o raciocínio dos que prognosticam um futuro de paz e liberdade para a Igreja nas duas ex-colónias. Por um lado, a lógica e o bom senso parecem favorecer este ponto de vista. Por outro lado, há factores de ordem 35 “Comunicado do Bispo de Macau sobre a sua deslocação à República Popular da China”, Boletim Eclesiástico da Diocese de Macau, Nº 966, p. 61, 1985. Republicado em Textos de D. Arquimínio Rodrigues da Costa, Idem, p. 195.emocional, que fogem à pura lógica. Um deles é o na-cionalismo chinês, terrivelmente ferido e exacerbado pelas injustiças cometidas por algumas potências oci-dentais contra aquela nação. Refiro-me, sobretudo, à guerra do ópio e à ocupação da ilha de Hong Kong pelos ingleses no século passado. O Ocidente humi-lhou a China com guerras injustas e tratados iníquos, explorando ignobilmente a situação de fraqueza em que se encontrava aquele povo. Foram ofensas cla-morosas que os chineses dificilmente esquecerão. É impossível prever a medida em que o nacionalismo chinês influenciará o desenrolar dos acontecimentos. De resto, a lógica oriental nem sempre coincide com a nossa. Daí, as reservas com que perspectivamos o futuro da Igreja em Hong Kong e Macau”36.Esta sageza nas relações culturais internacionais, uma característica inata de D. Arquimínio Rodrigues da Costa, ajudou, seguramente, a dissipar algumas histó-ricas crispações e mal entendidos, acumulados a partir de 1949. A arte de ser português no mundo, o diálogo ecuménico e o espírito de tolerância terão feito o resto. D. Arquimínio Rodrigues da Costa, Bispo Emérito de Macau, faleceu no dia 12 de Setembro de 2016, na Ilha do Pico, nos Açores, com 92 anos de idade.36 Jornal O Dever [Açores], 24.07.1997. Republicado em Textos de D. Arquimínio Rodrigues da Costa, idem, p. 297.
  • 42D. Arquimínio Rodrigues da Costa, Bispo de Macau (1976-1988)MISSIONÁRIOS para o Século XXIAntónio Aresta43 MISSIONÁRIOS para o Século XXI37 Publicada no Boletim Eclesiástico da Diocese de Macau, Nº 857, Maio- -Junho, 1976, p. 313. Republicado em Textos de D. Arquimínio Rodrigues da Costa, idem, pp. 71-72.A N E X O SBula da nomeação do novo Bispo de Macau37Paulo Bispo Servo dos Servos de Deusao dilecto filho ARQUIMÍNIO RODRIGUES DA COSTA, Vigário Capitular da Diocese de Macau, Bispo--eleito da mesma Sé, saúde e Benção Apostólica. Uma vez que, pelos superiores desígnios de Deus, fomos elevados à Sé de S. Pedro, Príncipe dos Apóstolos, a fim de governarmos todos os fiéis da Igreja, esforçamo-nos por colocar à frente de cada uma das dioceses bispos inteiramente aptos, que dirijam, com a sua prudência, as comunidades dos cristãos, as ensinem com a sua sabedoria e, com as suas virtudes de espírito, lhes deem coragem para procurarem as coisas mais elevadas. Tendo, portanto, de ser nomeado um Bispo para Macau, depois que, na realidade, essa diocese ficou vaga pela morte de Paulo José Tavares, de boa memória, pareceu-
  • 44D. Arquimínio Rodrigues da Costa, Bispo de Macau (1976-1988)MISSIONÁRIOS para o Século XXIAntónio Aresta45 MISSIONÁRIOS para o Século XXI-nos que tu, dilecto filho, poderias ser destinado para esse múnus, uma vez que conhecemos muito bem os teus dotes de espírito e talento, egrégios por certo e singulares, e a tua experiência da vida pastoral. Acresce que, segundo o protocolo, te apresentou o muito ilustre Presidente da República Portuguesa, em conformidade com a Convenção celebrada entre as autoridades civis da mesma Nação e a Santa Sé, no dia 15 do mês de Abril do ano de 1928. Portanto, em virtude da Nossa autoridade apostólica, nomeamos-te Bispo da Diocese de Macau, concedendo-te ao mesmo tempo os direitos e impondo-te as obrigações que pertencem à tua dignidade e ao teu ofício. Tendo em consideração a tua maior conveniência, concedemos-te a faculdade de receberes a ordenação episcopal das mãos de qualquer bispo católico, fora da cidade de Roma, com a assistência de dois varões da mesma ordem episcopal, segundo as normas das leis litúrgicas. Antes, porém, terás como obrigação emitir a profissão de fé católica e fazer o juramento de fidelidade à Nossa pessoa e aos Nossos Sucessores, na presença de qualquer bispo de fé incontroversa, enviando à Sagrada Congregação para os Bispos, as fórmulas por ti assinadas e munidas do teu selo. Mandamos, além disso, que estas Nossas Letras sejam lidas ao clero e ao povo na igreja catedral da tua diocese, num dia santo de preceito: proporcionada esta oportunidade, exortamos os dilectos filhos a que te recebam exultantes e te prestem o seu preito de veneração, uma vez que foste constituído seu pai no Senhor. De resto, dilecto filho, sabes muito bem o que de ora avante, como bispo, te incumbe executar: abraça, portanto, de ânimo confiante o múnus entregue ao teu zelo, mostrando-te, acima de tudo, unicamente solícito da glória de Deus e da utilidade superior das almas.Dado em Roma, junto de S. Pedro, no dia 20 de Janeiro de 1976, décimo terceiro ano do Nosso Pontificado. João Card. Villot, Secretário de Estado Godofredo Mariani, Protonotário Apostólico Lugar do Selo: PAULO VI Papa
  • 46D. Arquimínio Rodrigues da Costa, Bispo de Macau (1976-1988)MISSIONÁRIOS para o Século XXIAntónio Aresta47 MISSIONÁRIOS para o Século XXI38 Artigo publicado na Revista da Educação, Nº 3, Maio de 1986, edição da Direcção dos Serviços de Educação, Macau, pp. 5-9, [direcção de Manuel Coelho da Silva ; coordenação de Celina Veiga de Oliveira; capa e direcção gráfica de Rui de Carvalho].A Igreja e a Educação da Juventude na Óptica do II Concílio do Vaticano38O tema da educação foi focado em vários docu-mentos pontifícios anteriores ao último Concílio Ecu-ménico. Entre eles, ressaltam os seguintes: Carta Apos-tólica “Communes Litteras” de Bento XV; Encíclica “Divini Illius Magistri” de Pio XI; vários outros escritos dos Papas Pio XII, João XXIII e Paulo VI. Foi, porém, no referido Concílio que o assunto mereceu maior atenção, tendo-lhe sido reservado um lugar à parte através da “Declaração sobre a Educação Cristã”. É deste docu-mento que nos vamos ocupar, procurando acentuar um ou outro ponto de maior interesse e actualidade. Como não podia deixar de ser, a “Declaração”, como todos os demais escritos conciliares, mantém-se no campo dos princípios e orientações gerais, sem descer aos aspec-tos técnicos da questão, que são remetidos para as ins-tâncias especializadas.
  • 48D. Arquimínio Rodrigues da Costa, Bispo de Macau (1976-1988)MISSIONÁRIOS para o Século XXIAntónio Aresta49 MISSIONÁRIOS para o Século XXI1. Direito universal à educaçãoO referido documento conciliar começa por afirmar o direito inalienável de todo o ser humano “a uma educação correspondente ao próprio fim, acomodada à própria índole, sexo, cultura e tradições pátrias e, ao mesmo tempo, aberta ao consórcio fraterno com os outros povos” (Doc. cit. nº 1).Como se vê, a acção educativa deve processar--se em consonância com a natureza e o fim do homem. É, portanto, natural que, nesta matéria, as teorias se multipliquem segundo a diversidade das concepções filosóficas acerca do ser humano e do seu destino. Assim, se numa determinada ideologia o homem for considerado como mero instrumento de produção inserido na engrenagem totalitária do Estado, é evidente que, nessa perspectiva, a educação tenderá a transformar o jovem num ser dócil e maleável, mesmo à custa da sua dignidade de pessoa humana, livre e responsável. Se, pelo contrário, o homem for visto como sujeito de um destino transcendente, nele impresso pelo Criador, a formação do educando deverá ser orientada num sentido totalmente diferente. Na mesma ordem de ideias, o endeusamento ou absolutização da raça ou da Pátria dará origem a sistemas educativos totalmente fechados, em que não haverá lugar para a dimensão universalista do homem nem para a sua abertura “ao consórcio fraterno com todos os povos” (Ibid.).Estas simples reflexões mostram a importância do ponto de partida, ou seja, de uma recta concepção do homem e do seu destino último e, consequentemente, o ideal a atingir através da educação. Por isso, o Concílio publicou também uma “Declaração sobre a Dignidade Humana”. Do mesmo assunto trata todo o primeiro capítulo da Constituição Pastoral sobre “a Igreja no Mundo Actual”. Estes documentos podem considerar--se como o pano de fundo sobre o qual se desenvolvem vários outros escritos conciliares, incluindo aquele de que nos ocupamos.Concretizando melhor o direito à educação, o Con-cílio Ecuménico alude, na mencionada “Declaração”, à necessidade de a criança e o adolescente serem aju-dados “em ordem ao desenvolvimento harmónico das suas qualidades físicas, morais e intelectuais e à aqui-sição gradual de um sentido mais perfeito da respon-sabilidade na própria vida” (Doc. cit., nº 1).Nem se esquece o aludido documento conciliar da educação sexual, acentuando que ela deva ser ministrada de modo positivo e prudente, à medida do desenvolvimento psico-somático do educando.De igual modo, é focada a orientação social da acção educativa. Assim, esta deve tornar os jovens “capazes de se inserirem activamente nos vários agrupamentos da comunidade humana” (Ibid.), abrindo--se ao diálogo com os outros e esforçando-se de boa vontade por cooperar para o bem comum.
  • 50D. Arquimínio Rodrigues da Costa, Bispo de Macau (1976-1988)MISSIONÁRIOS para o Século XXIAntónio Aresta51 MISSIONÁRIOS para o Século XXIA “Declaração” refere-se ainda ao direito de as crianças e os adolescentes “Serem estimulados a estimar rectamente os valores morais e a abraçá-los pessoalmente, bem como a conhecer e a amar Deus mais perfeitamente” (Ibid.). E, a fim de a juventude não ser privada de tão sagrado direito, os governantes e os orientadores da educação são exortados a tomar as necessárias providências. Finalmente, os cristãos são estimulados a inserir-se activamente no campo do ensino, sobretudo nos lugares mais carenciados, a fim de que “se possam estender o mais depressa possível e em toda a parte os justos benefícios da educação e da instrução” (Ibid.).2. Função educativa dos pais, do Estado e da IgrejaDepois de se referir ao direito que assiste aos baptizados de receberem uma conveniente formação cristã, a “Declaração” passa a considerar a função dos progenitores na educação da prole. Sendo eles “os primeiros e principais educadores” dos filhos, a sua importantíssima missão “dificilmente poderá ser suprida”, uma vez que a “família é a primeira escola das virtudes sociais de que as sociedades têm necessidade” (Doc. cit. nº 3).Sobretudo na família cristã, os filhos devem ser ensinados, pela palavra e pelo exemplo, a amar a Deus e o próximo. Através do convívio familiar, devem aprender a superar o egoísmo e a crescer no espírito de serviço e dedicação aos outros, de modo a poderem gradualmente inserir-se na sociedade civil e eclesial.Naturalmente, a acção dos pais precisa de ser completada pelo Estado, ao qual compete “defender os deveres e direitos dos pais e dos outros que colaboram na educação e auxiliá-los; e, segundo o princípio da subsidiariedade, ultimar a obra da educação, se falharem os esforços dos pais e das outras sociedades” (Ibid.). Além disso, o Estado “deve fundar escolas e instituições próprias, na medida em que o bem comum o exigir” (Ibid.).Finalmente, pertence também à Igreja o direito e o dever de educar, não só por se tratar de uma “sociedade humana capaz de ministrar a educação, mas sobretudo porque ela tem o dever de anunciar a todos os homens o caminho da salvação, de comunicar aos crentes a vida de Cristo e ajudá-los, com a sua contínua solicitude, a conseguir a plenitude desta vida” (Ibid.).O mandato evangélico de anunciar a Boa Nova a toda a criatura obriga a Igreja a estender a todos os homens de boa vontade a sua função docente, que é primariamente evangelizadora. Isto, porém, não significa que os aspectos temporais da vida humana sejam estranhos à Igreja. Com efeito, eles estão relacionados com a vocação sobrenatural do homem e, portanto, devem ser informados pelo espírito de
  • 52D. Arquimínio Rodrigues da Costa, Bispo de Macau (1976-1988)MISSIONÁRIOS para o Século XXIAntónio Aresta53 MISSIONÁRIOS para o Século XXICristo. Por isso, a Igreja “colabora com todos os povos na promoção da formação integral da pessoa humana, no bem da sociedade terrestre e na edificação de um mundo configurado mais humanamente” (Doc. cit., nº 3). Não é, portanto, aceitável a opinião segundo a qual a Igreja, ao fundar escolas, invadiria a esfera do Estado ou exerceria uma actividade meramente supletiva.3. A Educação e a EscolaO Concílio Ecuménico acentua, na aludida “Declaração”, a importância especial da escola como meio de desenvolver as faculdades dos alunos, de os ajudar a julgar rectamente, de os enriquecer com os tesouros culturais acumulados através dos séculos, de os introduzir no sentido dos valores e de os preparar profissionalmente para a vida.A escola é ainda apresentada como ambiente de preparação para a vida social, na medida em que promove, através do convívio quotidiano, a mútua compreensão entre os educandos, levando-os a superar as diferenças temperamentais, as tendências egocêntricas e tudo quanto se possa opor a um são relacionamento humano. De resto, a dimensão social da escola decorre ainda do facto de ela ser um centro onde se unem em profícua cooperação as mais diversas pessoas: pais, professores, alunos, agrupamentos de índole cultural, religiosa, etc.São, portanto, dignos de todo o apreço e apoio aqueles que se dedicam à notabilíssima missão de educar a juventude nas escolas. Cumprindo com zelo e eficiência a sua função, eles são verdadeiros beneméritos da sociedade e como tal devem ser reconhecidos. Segundo o Concílio, “o ministério destes professores é um autêntico apostolado, muito oportuno e necessário também em nossos dias, e, ao mesmo tempo, um verdadeiro serviço prestado à sociedade” (Doc. cit. , nº 8). Por outro lado, nem todos são vocacionados para o ensino. Para tanto, requere-se, além da competência técnica ou profissional, muito coração, muito amor e dedicação aos alunos e muita probidade moral. Como afirma o Concílio Ecuménico no citado documento, “esta vocação exige especiais qualidades de inteligência e de coração, uma preparação esmeradíssima e uma vontade sempre pronta à renovação e adaptação” (Doc. cit., nº 5). Por outras palavras, não basta “saber”, mas é necessário “saber ensinar”. E, como não se trata apenas de instruir, mas também de educar e formar, é necessário que o professor “seja” aquilo que deseja transmitir aos alunos. É necessário que a sua vida “fale” tanto ou mais que a sua actividade docente, porque o professor educa, sobretudo, através daquilo que é…. Se ele não for uma pessoa de bem, não será bom educador, mesmo que possua os melhores títulos académicos. Em vez de formar, deformará.
  • 54D. Arquimínio Rodrigues da Costa, Bispo de Macau (1976-1988)MISSIONÁRIOS para o Século XXIAntónio Aresta55 MISSIONÁRIOS para o Século XXIQuando se trata de profissões em que o homem opera sobre a matéria, não se requer mais do que a perícia ou competência técnica. Assim, um bom electricista poderá ser, ao mesmo tempo, uma péssima pessoa. Não assim o educador, cuja acção incide não sobre objectos, mas sobre seres humanos.4. Educação e PluralismoEntramos aqui num assunto controverso, onde nem todos vêem pelo mesmo prisma. O monopólio estatal em matéria de educação é ainda hoje uma triste realidade. O ensino particular ou é expressamente proibido ou então é indirectamente sufocado através de processos bem conhecidos. Aos pais não é reconhecido o direito de escolherem as escolas para os filhos. Ou então são introduzidas medidas legais que tornam esse direito impraticável. Mesmo em Estados democráticos, nem sempre o pluralismo se estende ao domínio da Educação.Ora, segundo o Concílio, os pais “devem gozar de verdadeira liberdade na escolha da escola. Por isso, o poder público, a quem pertence proteger e defender as liberdades dos cidadãos, deve cuidar, segundo a justiça distributiva, que sejam concedidos subsídios públicos, de tal modo que os pais possam escolher, segundo a própria consciência, com toda a liberdade, as escolas para os seus filhos” (Doc. cit., nº 6). Se o ensino particular é directa ou indirectamente impedido, viola-se um direito fundamental dos pais, obrigando-os a matricular os filhos nas escolas oficiais, mesmo que eles discordem de certos aspectos da educação nelas ministrada.Ainda segundo o documento conciliar em estudo, o poder público deve “promover todo o trabalho escolar, tendo em consideração o princípio da subsidiariedade e, portanto, excluindo o monopólio do ensino, que vai contra os diretos inatos da pessoa humana, contra o progresso e divulgação da própria cultura, contra o convívio pacífico dos cidadãos e contra o pluralismo que vigora em muitíssimas sociedades de hoje” (Ibid.).5. Educação e Escolas CatólicasQuanto ao seu escopo geral, a escola católica não difere essencialmente das outras, uma vez que também ela pretende difundir a cultura e formar a juventude. Todavia, para além desta finalidade comum a todas as instituições de ensino e educação, a escola católica procura “criar um ambiente de comunidade escolar animado pelo espírito evangélico…, ajudar os adolescentes para que, ao mesmo tempo que desenvolvem a sua personalidade, cresçam segundo a nova criatura que são mercê do Baptismo” (Doc. cit., nº 8) e tudo o que aprendem seja iluminado pela Fé e ordenado à mensagem da salvação.
  • 56D. Arquimínio Rodrigues da Costa, Bispo de Macau (1976-1988)MISSIONÁRIOS para o Século XXIAntónio Aresta57 MISSIONÁRIOS para o Século XXIQuanto aos alunos que, apesar de frequentarem escolas católicas, possuem convicções religiosas diferentes, é-lhes oferecido, com o máximo respeito pela sua liberdade de consciência e sem pressão de espécie alguma, um conhecimento adequado da doutrina cristã, que eles assimilam a título de enriquecimento cultural. Como diz o adágio popular, o saber não ocupa lugar.Neste contexto, o documento em estudo “procla-ma mais uma vez que a Igreja tem o direito, já declarado em muitos documentos do Magistério, de livremente fundar e dirigir escolas de qualquer espécie e grau, recordando que o exercício de tal direito muito pode contribuir para a liberdade de consciência e defesa dos direitos dos pais, bem como para o progresso da própria cultura” (Ibid.).A este direito se opõe a tendência monopoliza-dora do ensino, atrás referida. Além dessa posição totalitária, há outra menos radical, que não se opõe ao ensino privado, mas mantém o princípio de que ao Estado apenas compete apoiar o ensino oficial. Se-gundo esta óptica, quem quiser escolas particulares, que as mantenha à própria custa.Tal posição é contrária à justiça distributiva. Com efeito, os cidadãos pagam os impostos ao Estado a fim de este promover o bem comum, que inclui também a educação e a defesa dos direitos e liberdades dos pais. Caso o ensino particular não seja convenientemente subsidiado, os progenitores que o preferirem para os seus filhos, além de pagarem ao Governo as contribuições legais comuns a todos os cidadãos, deverão ainda suportar os encargos da formação dos filhos numa escola particular. Pagarão, portanto, duas vezes a educação dos filhos: à dita escola e ao Estado. Deste modo, a sua situação será injusta com relação aos que optam pelo ensino oficial. Nem se objecte que tais pessoas são as únicas responsáveis pela sua situação, uma vez que optaram livremente pelo ensino particular, quando podiam escolher o oficial. A objecção ignora o direito dos pais a escolherem, em plena liberdade, a escola que preferem para seus filhos. Se eles, portanto, são forçados por razões económicas a optar pelo ensino oficial, é evidente que a sua escolha já não é livre. Por outras palavras, foram privados de um direito fundamental.6. Ensino técnico e superiorO documento conciliar em estudo, além de secundar a fundação de escolas inferiores e médias, que constituem a base da educação, mostra o seu apreço pelos estabelecimentos do ensino técnico, profissional e superior, e pelas instituições destinadas à educação dos adultos, à promoção dos socorros sociais e ao cuidado dos que, por defeito da natureza,
  • 58D. Arquimínio Rodrigues da Costa, Bispo de Macau (1976-1988)MISSIONÁRIOS para o Século XXIAntónio Aresta59 MISSIONÁRIOS para o Século XXInecessitam de especial assistência (Cfr. Doc. cit., nº 9 e 10).Sobretudo nas Universidades e Faculdades dela dependentes, a Igreja “procura de modo orgânico que cada disciplina seja de tal modo cultivada com prin-cípios próprios, método próprio e liberdade própria da investigação científica, que se consiga uma inteli-gência cada vez mais profunda dela e …. se veja mais profundamente como a fé e a razão conspiram para a verdade única, segundo as pisadas dos doutores da Igreja, mormente São Tomás de Aquino. E assim se consiga a presença pública, estável e universal da mentalidade cristã em todo o esforço de promoção da cultura superior…” (Ibid., nº 10).Ao recomendar a disseminação das Universida-des e Faculdades Católicas através dos Continentes, o Concílio insiste na necessidade de se preferir a quali-dade à quantidade.Quanto a critérios de admissão de alunos, apenas se afirma que deve ser facilitada a entrada daqueles que oferecem maior esperança, embora de recursos económicos limitados. Em igualdade de circunstâncias, devem ser preferidos os candidatos “oriundos das nações mais jovens” (Ibid., nº 10). Com efeito, são esses países recentemente formados os que mais necessitam de uma “élite” competente, capaz de assegurar, através de uma boa administração, o progresso económico e social.Finalmente, é acentuada a necessidade de uma cuidadosa assistência espiritual aos alunos universitá-rios, aos quais está ligada, em grande medida, a sorte da sociedade e da própria Igreja.De facto, são as ideias que governam o mundo. Por isso, se os apóstolos de ideologias anti-humanas e anti-cristãs procuram apoderar-se do ensino, sobre-tudo superior, ou, pelo menos, influenciá-lo por todos os meios ao seu alcance, não deve causar estranheza que a Igreja, depositária de um mandato divino (“Ide e ensinai todos os povos”), se esforce por levar a sua mensagem ao mundo universitário, procurando imbuílo do espírito evangélico, em ordem à edificação de uma sociedade mais humana e mais fraterna.7. A juventude e o Papa actualNão podemos encerrar esta breve exposição sem uma referência especial ao interesse do Papa João Paulo II pela juventude. Na sua última mensagem para o Dia Mundial da Paz (1984), ele desenvolveu o seguinte tema: “A Paz e a Juventude Caminham Juntas”. E, por ocasião do Ano Internacional da Juventude (1985), dirigiu aos jovens de todo o mundo uma carta, que bem merece a atenção de todos, sobretudo daqueles a quem se destina.Apenas uma citação, que servirá de ponto final ao presente trabalho. No prólogo da referida mensagem, o
  • 60D. Arquimínio Rodrigues da Costa, Bispo de Macau (1976-1988)MISSIONÁRIOS para o Século XXIAntónio Aresta61 MISSIONÁRIOS para o Século XXISanto Padre dirige-se aos jovens de todo o mundo nos seguintes termos : “Vós… sois a juventude das nações e das sociedades, a juventude de todas as famílias e da humanidade inteir; sois vós também a juventude da Igreja. Temos todos o olhar voltados para vós, uma vez que todos nós, em certo sentido, nos tornamos continuamente jovens, graças a vós. Por isso, a vossa juventude não é somente coisa própria vossa, propriedade pessoal ou de uma geração: faz parte do conjunto do espaço que cada homem percorre no itinerário da própria vida e é simultaneamente um bem especial de todos. É um bem da própria humanidade. Em vós está a esperança, uma vez que vós pertenceis ao futuro, como o futuro a vós pertence. Com efeito, a esperança está sempre ligada ao futuro: é o anelo pelos bens vindouros. Como virtude cristã, anda unida à expectativa daqueles bens eternos que Deus prometeu ao homem em Jesus Cristo. Esta esperança, como virtude ao mesmo tempo cristã e humana, é a expectativa dos bens que o homem tornará realidade, utilizando os talentos que lhe foram dados pela Providência”.
  • 62D. Arquimínio Rodrigues da Costa, Bispo de Macau (1976-1988)MISSIONÁRIOS para o Século XXIAntónio Aresta63 MISSIONÁRIOS para o Século XXIA Igreja em Macau1A Igreja em Macau atravessou períodos alter-nados de expansão e redução. Quer fazer uma bre-ve referência à sua história até aos nossos dias?Na data da sua fundação (23 de Janeiro de 1576), a diocese de Macau estendia-se desde a Indochina até ao Japão. Dela já foram desmembradas cerca de 600 novas dioceses. Nos primeiros séculos, o núcleo da diocese era o território de Macau, com a sua comunidade quase exclusivamente portuguesa dentro dos muros da cidade. Fora, os poucos chineses que aqui viviam tinham como chefe um mandarim. As congregações religiosas, sobretudo os jesuítas, exerciam a sua acção evangelizadora, provavelmente, 1 Entrevista concedida à Revista Além-Mar, Nº 343, Lisboa, Outubro de 1987. Foi transcrita, em virtude da sua importância, em A Igreja Católica na China e em Macau no Contexto do Sudeste Asiático: que futuro?, de António Carmo, co-edição Fundação Macau/Instituto Cultural de Macau/Instituto Português do Oriente, Macau, 1997, pp. 722-726.Em Macau, com o Bispo de Malaca-Johor, Rt.Rev. James Chan.
  • 64D. Arquimínio Rodrigues da Costa, Bispo de Macau (1976-1988)MISSIONÁRIOS para o Século XXIAntónio Aresta65 MISSIONÁRIOS para o Século XXIfora dos limites territoriais de Macau. Nesta cidade, os jesuítas dedicavam-se, sobretudo, à formação de pessoal missionário nos seus colégios de S. Paulo e S. José. Assim, a acção da Igreja não se podia concentrar na evangelização directa deste território, aliás pouco povoado, que era quase só uma base logística de actividades missionárias exercidas no exterior. Entretanto, a diocese de Macau começou a ser desmembrada com a criação de novas dioceses: a de Funai (actualmente Oita), no Japão, em 1588; a do Tonquim, em 1658; as de Pequim e Nanquim, em 1690; a Prefeitura Apostólica de Cantão, em 1850, com as províncias de Kwangtung e Kwangshi. Em 1874, foi anexada à diocese de Macau a ilha de Hainan, o distrito e ilha de Heung-shan, as ilhas do distrito de Shan-vui e o território de Timor português. Em 1887, foram anexadas à diocese de Macau as paróquias isentas de São José (em Singapura) e de São Pedro (em Malaca). Em 1903, trocamos Hainan por Shiu-hing, com 12 distritos, ficando, portanto, a nossa diocese com os territórios de Macau, Shiu-hing, Chong-shan, Timor português, além das referidas paróquias isentas de Singapura e Malaca. Em 1941, Timor português separou-se de Macau, constituindo uma diocese independente. Ulteriores vicissitudes, às quais se deve juntar a transferência, em 1981, das paróquias de São José (em Singapura) e de São Pedro (em Malaca) para os prelados daqueles territórios reduziram a nossa diocese ao território de Macau. Só a partir da década de 1950, com a concentração em Macau do pessoal missionário vindo do interior da China, começou a intensificar-se a acção evangelizadora neste território. Multiplicaram-se as escolas e criaram-se alguns catacumenados. Teve grande incremento a acção social, graças aos padres jesuítas da Casa Ricci. Mesmo assim, as paróquias territoriais eram todas portuguesas, assistidas por sacerdotes que não dominavam o idioma chinês. Para os cristãos de expressão chinesa, funcionava uma única paróquia pessoal com sede em São Lázaro. Só na década de 1960 foi extinta a referida paróquia pessoal, passando as paróquias a serem todas territoriais. Na década anterior, fora estabelecida em Macau a Legião de Maria, que conheceu um período inicial de grande actividade e expansão. Com o decorrer dos anos, esta organização do apostolado laical entrou em declínio, estando hoje bastante reduzida. Entretanto, na década de 1970, criaram-se novos centros pastorais no âmbito da comunidade chinesa, destinados à intensificação da acção evangelizadora e à formação dos cristãos, sobretudo os mais jovens. Mas a contínua emigração da população de Macau não tem permitido o crescimento desejado da comunidade católica local.
  • 66D. Arquimínio Rodrigues da Costa, Bispo de Macau (1976-1988)MISSIONÁRIOS para o Século XXIAntónio Aresta67 MISSIONÁRIOS para o Século XXIComo construir o futuro, a partir do presente, tendo em conta que o clero e missionários sofreram grande redução nos últimos anos e se encontram envelhecidos?O caminho a seguir parece ser a valorização, a todos os níveis, dos leigos e a consequente transferência para eles de tarefas actualmente desempenhadas por sacerdotes e irmãs religiosas. Entre essas tarefas, estão as que se referem à educação, à acção social e a tudo o que são funções meramente administrativas ou organizativas. Também os apóstolos, há vinte séculos, sentiram a necessidade de distribuir funções, a fim de se poderem dedicar às actividades essenciais do seu ministério. Hoje será necessário avançar, mais e melhor, nessa linha, de modo que os leigos possam exercer as funções que, em virtude do Baptismo e da Confirmação, lhes competem no âmbito da comunidade eclesial.Qual o papel dos leigos na Igreja actual em Macau e como o encara no futuro, a médio e longo prazos?Devemos reconhecer que, em geral, o laicado católico ainda está longe do ideal proposto pelo Vaticano II. Para muitos, a Igreja ainda são os padres e os membros das congregações religiosas. Há toda uma mentalidade nova a criar. Naturalmente, também a hierarquia é responsável por esta situação, na medida em que não conseguimos criar nos leigos uma consciência mais clara dos seus direitos e deveres no âmbito da comunidade eclesial. Tudo isto nos mostra que, desde o centro até à periferia da comunidade cristã local, há uma enorme tarefa de renovação e ‘conversão’ a realizar. Um primeiro passo nesse sentido deve ser o cumprimento de certas normas referentes a uma maior participação e corresponsabilidade dos leigos na vida da Igreja. Por exemplo, a criação, a nível paroquial, dos conselhos pastorais e económicos previstos pelo novo Código de Direito Canónico, e , a nível diocesano, do conselho do apostolado dos leigos, do conselho pastoral, etc. Estas e outras estruturas semelhantes têm por fim inserir mais activamente os leigos na vida e nos problemas da comunidade eclesial. Deste modo, eles sentirão que também são Igreja e não meros executores passivos de ordens vindas de cima.Pode dizer-nos alguma coisa sobre as relações com a chamada Igreja Patriótica Chinesa?Segundo o Acordo Luso-Chinês de 13 de Abril passado, tais relações “deverão basear-se no prin-cípio de não subordinação mútua, de não ingerência nos assuntos internos de cada uma (das Igrejas) e de respeito mútuo”. Dentro desta orientação, já houve contactos entre elementos da comunidade católica local e elementos de algumas comunidades congéne-
  • 68D. Arquimínio Rodrigues da Costa, Bispo de Macau (1976-1988)MISSIONÁRIOS para o Século XXIAntónio Aresta69 MISSIONÁRIOS para o Século XXIres do interior. Em 1985, uma delegação da diocese de Macau visitou Pequim, Nanquim, Xangai e Cantão, tendo tido, naquelas cidades, vários encontros ami-gáveis com prelados, sacerdotes e outros elementos representativos daquelas dioceses. Posteriormente, alguns grupos de cristãos de Macau tem visitado, na ilha de Sanchoão, o local onde faleceu São Francisco Xavier, tendo tido contactos amigáveis com os irmãos daquela zona. Outros grupos tem visitado outros lo-cais, incluindo leprosarias, podendo estabelecer um diálogo fraterno com diversos grupos de cristãos. Da parte da Igreja do interior, também tem vindo a Macau alguns elementos representativos, entre os quais me-rece especial menção o bispo auxiliar de Xangai.Pelo Acordo Luso-Chinês fica assegurado o património actual da diocese (escolas, casas de retiros, templos, etc.)?Segundo o dito acordo, “as escolas, hospitais e instituições de beneficência pertencentes a organiza-ções religiosas poderão continuar a funcionar como anteriormente”. Estas palavras implicam que, pelo menos, os bens aqui mencionados e pertencentes à diocese de Macau continuarão a pertencer-lhe. Ainda segundo o referido acordo, “a Região Administrativa Especial de Macau assegurará …. todos os direitos e liberdades dos habitantes e outros indivíduos em Ma-cau, estipulados pelas leis previamente vigentes em Macau”. Entre os direitos, vem mencionado “o direito à propriedade privada”. Combinando os dois textos citados, vê-se claramente que os bens pertencentes à Igreja continuarão a pertencer-lhe, uma vez que é reconhecido o direito à propriedade privada. Reco-nhecemos, no entanto, que o acordo poderia ter sido mais explícito neste ponto, para maior segurança de todos. Da nossa parte, fizemos tudo o que estava ao nosso alcance para que assim fosse.O esforço da Igreja de Macau no campo da educação e da assistência social tem sido notável. Pensa que poderá manter-se o actual ritmo sem prejuízo da prioridade à pastoral da fé – prioridade já várias vezes referida por Vª. Excª. Rev.ª? Como pensa desencadear uma ‘ofensiva’, em profundidade e extensão, em ordem à conversão, à catequese e à formação de comunidades actuantes?A pergunta parece supor que as congregações religiosas que se dedicam ao ensino e à acção social poderiam, sem mais, trocar as suas actividades pela evangelização directa. Talvez se deva observar que essas congregações tem, cada qual, o seu carisma próprio e exercem determinadas actividades de acordo com esse carisma. Poderão essas pessoas trocar o exercício do próprio carisma por funções menos conformes
  • 70D. Arquimínio Rodrigues da Costa, Bispo de Macau (1976-1988)MISSIONÁRIOS para o Século XXIAntónio Aresta71 MISSIONÁRIOS para o Século XXIcom ele? De resto, em terras de missão, o ensino e a acção social tem a sua dimensão evangelizadora. Muitas conversões e muita catequese tornaram-se possíveis precisamente devido à existência daquelas obras, que tornam conhecida a Igreja e lhe permitem entrar em contacto com inúmeras pessoas. Haveria mais conversões em Macau se não existissem aquelas obras? De qualquer modo, mantém-se, em princípio, a prioridade da evangelização directa e a necessidade de a intensificar. Como? No âmbito da comunidade chinesa, já se deu início a essa intensificação através dos vários centros pastorais fundados nos últimos dez anos. No entanto, muito mais há a fazer. Precisamos de mais catecumenados e de mais pessoal dedicado a esta tarefa prioritária. Há que formá-lo localmente entre o laicado católico e procurar, se necessário, pessoal especializado vindo de fora. É de notar a inexistência em Macau de qualquer congregação religiosa exclusivamente consagrada à evangelização directa. Um jornal chinês bem apresentado seria um grande meio de evangelização. Quanto à ‘ofensiva’ a que se refere, trata-se de um assunto para o qual não temos resposta articulada. Há que estudá-lo a nível diocesano. Aliás, o Conselho Presbiteral já iniciou um questionário nesse sentido entre o clero e os membros das congregações religiosas. Falta estendê-lo aos leigos e dar-lhe forma orgânica.Quais os problemas mais importantes que de-correm, para a missão da Igreja, de se falarem três línguas no território?Um deles relaciona-se com a criação e funciona-mento de estruturas administrativas e pastorais. Te-mos um exemplo concreto na recente criação das co-missões para a celebração do Ano Santo Mariano em Macau. São necessárias, pelo menos, duas, uma para cada comunidade linguística principal, e, para elas não funcionarem independentemente uma da outra, mais uma comissão central coordenadora. Esta dificuldade existe a nível de qualquer estrutura eclesial. E não é apenas a língua que impede uma maior aproximação e cooperação entre as pessoas; é também a mentalida-de e a psicologia própria de povos e raças diferentes. Não há dúvida de que este condicionalismo dificulta a expressão externa (e não só) da unidade da comuni-dade católica local. As celebrações conjuntas tem de ser em duas línguas, o que descontenta muitos. Re-corde-se, por exemplo, o rito paralitúrgico inaugural do Ano Santo : os cristãos de expressão portuguesa sentiram-se marginalizados. Nem é isenta de dificul-dades, por exemplo, a coexistência de sacerdotes de diferente raça, cultura e mentalidade numa mesma pa-róquia. Também esta circunstância impede a solução de muitos problemas. Outro problema é o que se refere à atribuição de verbas às duas comunidades linguís-
  • 72D. Arquimínio Rodrigues da Costa, Bispo de Macau (1976-1988)MISSIONÁRIOS para o Século XXIAntónio Aresta73 MISSIONÁRIOS para o Século XXIticas pertencentes à mesma paróquia. Nem sempre é fácil encontrar uma fórmula capaz de conciliar todos os interesses e sensibilidades. Estes poucos exemplos podem dar-nos uma ideia das dificuldades resultantes da situação mencionada na sua pergunta.Apesar dos esforços realizados, a percenta-gem do clero nativo parece longe de ser suficiente, obrigando ao recurso a missionários estrangeiros. Pensa que esta situação se prolongará, ou haverá forma de estimular novas vocações entre as comu-nidades chinesa e macaense?Uma vez que, segundo o Acordo Luso-Chinês, a legislação local se deve manter praticamente inalterada, é de esperar que os missionários oriundos de fora possam continuar e exercer as suas actividades em Macau. Isto não impede que a diocese procure, na medida do possível, tornar-se auto-suficiente em matéria de pessoal missionário. Para isso, muito há que fazer a diversos níveis. Como as vocações provêm da família cristã, torna-se necessário que esta se renove, de modo que o ambiente familiar seja propício ao florescimento e à maturação do ideal missionário. A propósito, diga--se que, de famílias de filho único ou de dois filhos, é praticamente impossível que surjam candidatos ao sacerdócio ou à vida religiosa. Funciona em Macau um Movimento Católico de Apoio à Família, com programas de planeamento natural da família, de educação para a vida de família e de ajuda pastoral e psicológica para os cônjuges, mas tudo isso parece ser apenas uma gota no oceano. Existe também uma associação de leigos (Serra Club), cujo fim específico é a promoção de vocações consagradas. No entanto, parece que os resultados não têm correspondido ao esforço dispendido. Os motivos serão muitos, entre eles, as solicitações negativas do ambiente citadino de Macau e o fraco nível cristão de muitas das nossas famílias. E aqui volta de novo o magno problema da renovação do agregado familiar em Macau. É lamentável que, havendo neste território um organismo católico criado para apoio à família e aos que para ela se preparam, sejam tão poucos os que se aproveitam dessa facilidade. Além disso, talvez a maneira como alguns de nós, pastores da Igreja, vivemos o nosso sacerdócio seja uma das causas da falta de vocações. Trata-se, portanto de um problema complexo, para cuja solução se torna necessário trabalhar, ao mesmo tempo, em muitas frentes e a diversos níveis. Para isso, temos de articular melhor a pastoral das vocações, fazendo convergir para este fim os esforços de toda a diocese. Para isso, torna-se necessário criar o conselho diocesano pastoral, já antes mencionado, que se debruce também sobre este assunto, procurando dar-lhe solução adequada.
  • 74D. Arquimínio Rodrigues da Costa, Bispo de Macau (1976-1988)MISSIONÁRIOS para o Século XXIAntónio Aresta75 MISSIONÁRIOS para o Século XXI39 Depoimento publicado em, Vários, Monsenhor Manuel Teixeira, O Homem e a Obra, edição da Missão de Macau em Lisboa/Instituto Cultural de Macau, 1999, p. 22.Censor Cáustico de Costumes e Atitudes39Pedem-me duas palavras sobre Monsenhor Teixeira, em homenagem ao qual a Missão de Macau em Lisboa está organizando uma exposição.Conheço-o desde 1938, data da minha primeira chegada a Macau com destino ao Seminário de S. José. Era ele então pároco de S. Lourenço, director do Boletim Eclesiástico da Diocese, professor do Seminário e não sei que mais. Tive-o como professor de Latim e de História Universal. Desde então comecei a admirá-lo como sacerdote exemplar, de vida ilibada e como trabalhador incansável. Dotado de uma memória prodigiosa, decorava, a princípio, os seus sermões. Neste ponto, como em muitos outros, procurava imitar D. José da Costa Nunes, pessoa que muito admirava. Lembro-me de o ouvir discursar no Jardim de Camões
  • 76D. Arquimínio Rodrigues da Costa, Bispo de Macau (1976-1988)MISSIONÁRIOS para o Século XXIAntónio Aresta77 MISSIONÁRIOS para o Século XXIno dia 10 de Junho. Sem papel, sem esquema, sem uma nota escrita, falava longamente sobre o nosso épico, citando de cor várias estrofes dos Lusíadas.Tanto em Macau como em Singapura, além dos seus deveres sacerdotais, ainda encontrava tempo para se dedicar a trabalhos de investigação histórica, sobretudo sobre Macau e a sua Diocese. E parece que ainda hoje, apesar da sua avançada idade, continua a exercer essa actividade. Durante muitos anos, o Boletim Eclesiástico era apreciado até no estrangeiro por causa da secção histórica de Monsenhor Teixeira.Além disso, quem não admira a sua actividade como jornalista? Quem não conhece, por exemplo, as suas “Pequenas Doses”, publicadas nos jornais de Macau? Censor cáustico de costumes e atitudes, nunca poupou quem lhe merecesse reparos, fosse quem fosse. Mas sabe também apreciar e enaltecer os méritos das pessoas.Outra faceta da sua personalidade cristã e sacerdotal é o seu desprendimento. Veste pobremente, usando sempre a sua batina branca, mesmo de inverno. Nunca exibiu as suas vestes de Monsenhor. E desde há muitas décadas, a sua côngrua vai quase toda para uma fundação por ele criada na sua terra natal em benefício dos pobres.Muito mais havia a dizer, sobretudo a respeito da sua prodigiosa produção literária, que já vai em mais de cem obras. Mas isso, evidentemente, não cabe nos moldes deste modesto depoimento.S. Mateus do Pico, 16 de Maio de 1998
  • 78D. Arquimínio Rodrigues da Costa, Bispo de Macau (1976-1988)MISSIONÁRIOS para o Século XXIAntónio Aresta79 MISSIONÁRIOS para o Século XXI2 Homilia proferida na paróquia de São Mateus, Ouvidoria do Pico, Açores, no dia 25 de Março de 2011.No 35º aniversário da minha Ordenação Episcopal2Irmãos e amigos :As minhas primeiras palavras são de agradeci-mento aos Reverendos Sacerdotes aqui presentes, sobretudo ao Reverendo Ouvidor do Pico, pela amabi-lidade de se associarem a esta Eucaristia de acção de graças, com a qual desejo manifestar a minha gratidão a Deus Nosso Senhor e à Virgem Maria por todas as graças que me foram concedidas durante estes últimos 35 anos de serviço.Os meus agradecimentos vão também para todos os fiéis que se dignaram participar nesta Eucaristia.Como é sabido, a minha ordenação episcopal realizou-se há 35 anos em Macau, onde eu me encontrava desde o dia 8 de Dezembro de 1938.
  • 80D. Arquimínio Rodrigues da Costa, Bispo de Macau (1976-1988)MISSIONÁRIOS para o Século XXIAntónio Aresta81 MISSIONÁRIOS para o Século XXIDurante os últimos 150 anos, nenhum dos meus antecessores foi ordenado em Macau. Por isso, a opinião geral era que a minha ordenação episcopal se devia realizar naquela cidade. Assim tive de renunciar à alegria de ter junto de mim, naquela data, a minha família que, em virtude da enorme distância que nos separava, não podia estar presente. Apenas minha irmã Maria Clemense da Costa, Franciscana Hospitaleira da Imaculada Conceição, pode deslocar-se a Macau naquela altura.Quanto aos sentimentos que então me domina-vam, o menos que se pode dizer é que eu me sentia profundamente abalado. Como Vigário Capitular, já ti-nha experimentado, durante três anos, o que significava estar à frente da diocese de Macau. Quer se acredite quer não, a verdade é que, em virtude da minha maneira de ser, aquela missão equivalia para mim, naquela altu-ra, à maior cruz que me podia ser posta aos ombros.Aceitei a nova missão por um imperativo de consciência, porque, se recusasse, não ficaria em paz comigo mesmo, resistindo à vontade de Deus, tão claramente manifestada através da Santa Sé.Depois de ter permanecido, durante 15 anos, à frente daquela diocese, incluindo três anos como Vigário Capitular, entendi ter chegado a hora de Macau ter, finalmente, o seu primeiro Bispo chinês. De facto, durante mais de quatro séculos, os Bispos de Macau tinham sido sempre portugueses, apesar de cerca de 95% da população ser de etnia chinesa. Além disso, quase todas as dioceses do Extremo Oriente já eram dirigidas, naquela altura, por Bispos autóctones.Lembro-me de um Bispo africano me ter pergun-tado quando é que Macau teria um Bispo chinês. Res-pondi que isso não dependia de mim, mas unicamente da Santa Sé. Da minha parte, eu estava disposto a re-nunciar em qualquer altura.Nas reuniões da Conferência Episcopal do Extremo Oriente, eu sentia-me deslocado por ser o único europeu entre Bispos asiáticos.Como é sabido, a Santa Sé quase nunca toma a iniciativa de sugerir a um Bispo a sua resignação. Portanto, no caso de Macau, ou eu tomava a iniciativa de renunciar ou então a situação prolongar-se-ia sabe Deus até quando… Naquele tempo, a Santa Sé, como regra, só nomeava para as terras de missão Bispos autóctones. Macau era um caso à parte, que em virtude da Concordata, saía fora da linha de orientação da Cúria Romana. E a prova está no facto de um Cardeal da Cúria Romana se ter deslocado, naquela altura, a Macau para obter informações, em primeira mão, acerca de quem devia ser o próximo Bispo daquela diocese.Para facilitar à Santa Sé a mudança que se impunha, apresentei a minha resignação, que foi aceite.
  • 82D. Arquimínio Rodrigues da Costa, Bispo de Macau (1976-1988)MISSIONÁRIOS para o Século XXIAntónio Aresta83 MISSIONÁRIOS para o Século XXIO primeiro passo foi a nomeação, para Macau, dum Bispo auxiliar chinês com direito de sucessão. A Santa Sé fez-me saber que, depois de eu ter um Bispo auxiliar, dependeria de mim continuar à frente da diocese ou renunciar. Mantive-me ainda durante algum tempo no meu posto, a fim de dar tempo ao meu sucessor para ele se familiarizar com os problemas da diocese.Finalmente, depois de 50 anos de actividade em Macau, regressei à minha terra natal.Nos anos que se seguiram, colaborei, dentro das minhas limitadas possibilidades, não só com os sacerdotes do Pico mas também com os de outras ilhas dos Açores e até com o Bispo diocesano, sempre que ele me convidava a administrar o sacramento da Confirmação. Mas, nos últimos tempos, comecei a sentir que, em virtude da minha idade, já não servia para servir.Irmãos e amigos, renovo os meus agradecimentos aos Reverendos Sacerdotes aqui presentes, sobretudo ao Reverendo Ouvidor do Pico, a quem devo a ama-bilidade de ter promovido esta Eucaristia de acção de graças.A todos muito e muito obrigado!Seja louvado N.S.J.C. !Arquimínio, Bispo Emérito de Macau
  • 84D. Arquimínio Rodrigues da Costa, Bispo de Macau (1976-1988)MISSIONÁRIOS para o Século XXIAntónio Aresta85 MISSIONÁRIOS para o Século XXIT E S T E M U N H O SDo General José Eduardo Garcia LeandroGovernador de Macau (1974/79)Conheci D. Arquimínio em princípios de Junho de 1974 quando estive em Macau em representação da Junta de Salvação Nacional e o fui cumprimentar desejando saber das suas preocupações relativamente ao Território. Ele era na altura o Vigário Capitular da Diocese e transmitiu-nos uma grande preocupação quanto ao facto de D. Paulo Tavares ter falecido, em Junho de 1973, e não ter ainda sido substituído como Bispo de Macau.Prometi-lhe tratar do assunto em Lisboa, o que fiz, mas quando cheguei a Macau, em 19 de Novembro desse ano, como Governador, a situação ainda era a mesma e, em 23 de Janeiro de 1976, comemorava-se o IV centenário da Diocese de Macau, não sendo aceitável que esta Diocese, tão importante na expansão da Igreja Católica, não contasse com um Bispo titular.Começou então uma uma relação de grande cooperação e entendimento que eu detalho no meu Em Hong Kong no Clube Lusitano. (Foto gentilmente cedida pelo Gen. Garcia Leandro)
  • 86D. Arquimínio Rodrigues da Costa, Bispo de Macau (1976-1988)MISSIONÁRIOS para o Século XXIAntónio Aresta87 MISSIONÁRIOS para o Século XXIlivro “Macau nos Anos da Revolução Portuguesa – 1974/1979” (de 2011) que se desenvolveu e reforçou durante os mais de quatro anos em que governei Macau. Creio, sem receio de errar, que fui o Governador, que teve uma relação pessoal e de trabalho mais próxima de D. Arquimínio.Depois de várias tentativas frustradas feitas atra-vés de Lisboa para a nomeação do novo Bispo, foi--me dada autorização para contactar o Núncio Apostó-lico em Taipé, o irlandês Monsenhor Thomas White que compreendeu a situação e ficou de a expôr à Santa Sé. Em consequência visitou Macau o Cardeal Agnelo Rossi, brasileiro, responsável pela “Propaganda Fide” com quem tive uma longa reunião, em 28 de Julho de 1975. Esta conversa está muito detalhada no meu livro, que pode ser consultado, pelo que não a vou repetir.Mas, em conclusão, ficou assente que, até 23 de Janeiro de 1976, a Santa Sé anunciaria o novo Bispo, desejando o Cardeal saber qual o sentir da população relativamente à sua etnia. Relativamente à população portuguesa, não havia qualquer dúvida pelo que fiquei de consultar os representantes da Comunidade Chinesa. Curiosamente a resposta foi a mesma, consideravam ser mais adequado um português, o que transmiti por carta ao Cardeal Agnelo Rossi.Verdadeiramente as hipóteses para a nomeação eram o Padre Arquimínio e o Padre Domingos Lam, de origem chinesa; nas conversas prévias que tive com ambos percebi que nenhum estava particularmente interessado na nomeação.Por carta de 2 de Janeiro de 1976, o Cardeal comunicou-me que poderia estar descansado, pois a nomeação seria feita atempadamente. Assim, em 21 de Janeiro, o nome do novo Bispo, D. Arquimínio foi anunciado simultaneamente em Lisboa e no Vaticano, pondo-se assim um ponto final a um interregno de mais de um ano e meio.E agora passo a transcrever diretamente do meu livro:“D. Arquimínio desejou ser sagrado Bispo em Ma-cau, o que não acontecia há mais de 150 anos. A sa-gração ocorreu a 25 de Março, na Sé de Macau, com a presença de outros três Bispos católicos ( John Baptista Wu de Hong Kong, Júlio Xavier Labayen da Diocese de Infanta nas Filipinas e Monsenhor Lemaire, Bispo resig-natário da Manchúria, um francês residente em Hong Kong) e de John Baker, Bispo Anglicano de Hong Kong.................................................................................“D. Arquimínio tinha espírito de missionário e de professor e nunca ambicionou qualquer chefia. Com alguma timidez e um olhar azul-transparente que era o espírito da sua alma foi um Bispo notável, sendo também senhor de enorme e diversificada cultura”
  • 88D. Arquimínio Rodrigues da Costa, Bispo de Macau (1976-1988)MISSIONÁRIOS para o Século XXIAntónio Aresta89 MISSIONÁRIOS para o Século XXIEm Macau, na Sé Catedral. Foto gentilmente cedida pelo General Garcia Leandro.
  • 90D. Arquimínio Rodrigues da Costa, Bispo de Macau (1976-1988)MISSIONÁRIOS para o Século XXIAntónio Aresta91 MISSIONÁRIOS para o Século XXICabe aqui dizer, também transcrito do meu livro, que a Diocese de Macau não era fácil de governar, pois: “A sua presença sentia-se por todo o lado. No ensino, na investigação histórica, nos hospitais, na assistência à infância e à terceira idade, na assistência aos leprosos, aos cegos, aos diminuídos físicos e mentais, na recuperação de delinquentes juvenis, na comunicação social, nos espectáculos culturais, nas organizações de jovens,no apoio aos refugiados, na construção de habitação social, etc..”Com tanta actividade a sua gestão não era fácil, sendo também de lembrar que “a Igreja reunia diversas congregações e contava com uma imensa mescla de nacionalidades entre os seus membros: portugueses, chineses, espanhóis, italianos, franceses, filipinos, ma-laios, mexicanos, irlandeses, alemães, ingleses, vietna-mitas, goeses.......”.Nesta difícil missão veio a ser ajudado por D. Domigos Lam, grande gestor, que lhe sucedeu em 1988 quando resignou e passou a viver na Ilha do Pico. Fizeram uma excelente dupla e fiquei amigo de ambos.Para terminar, apenas três apontamentos muito pessoais:– D. Arquimínio quando vinha Lisboa teve sempre a atenção de me contactar e visitar;– Quando publiquei o meu livro já citado sobre Macau e lho enviei com uma dedicatória em que o tratava por Amigo, respondeu-me muito sensibilizado dizendo que fôra a primeira vez que um antigo Governador o tratava por Amigo, algo de que não se esqueceria;– Em 2014 estive com Minha Mulher na Ilha do Pico e fomos visitá-lo; já estava muito doente, mas ainda pudémos trocar uma palavras sobre o passado vivido em conjunto.Foi um grande missionário e professor, mas também grande como amigo e exemplar Bispo.Trata-se de alguém que ficará para sempre comigo!Lisboa, 26 de Setembro de 2016José Eduardo Garcia LeandroGovernador de Macau (1974/79)
  • 92D. Arquimínio Rodrigues da Costa, Bispo de Macau (1976-1988)MISSIONÁRIOS para o Século XXIAntónio Aresta93 MISSIONÁRIOS para o Século XXIDe José Maria Bártoloex-Seminarista e Chefe de Divisão da ImprensaNacional de Macau aposentadoAs memórias se diluem, se esfumam, enfim, se esvaem com o tempo, à medida que, no seu contínuo passar, se projecta em direcção ao futuro. São passados, diríamos, a que, por vezes, não damos préstimo, embora façam parte de nós. Agradáveis ou nem tanto assim, absconsas ou fulgentes à luz do dia, elas nos afectam ou transportam a tempos em que os sonhos ainda comandavam a vida. E que tempos! Mais de meio século ficou para trás. Foram pedidos uns apontamentos sobre o nosso antigo Bispo D. Arquimínio Rodrigues da Costa. Fiquei um tanto surpreso, porque recordar ou puxar algo de um passado tão longínquo para o presente obriga a transplantar reminiscências já um pouco bolorentas, desfasadas e, naturalmente, um bocado coxas ou mancas nas bases de suporte (a cadeira sem pernas vai abaixo) que as sustentem de forma concreta e lhes dêem força e vitalidade. Quando assim acontece, lá vem a amnésia, tecida de fiaspos de subjectivismo (quantas vezes falazes) que não relevam
  • 94D. Arquimínio Rodrigues da Costa, Bispo de Macau (1976-1988)MISSIONÁRIOS para o Século XXIAntónio Aresta95 MISSIONÁRIOS para o Século XXIuma biografia que se quer urdida de factos objectivos. Os traços que resenham a idiossincrasia do biografado na sua maneira de ser, ver as coisas, de sentir, do ser ele próprio, temperamento peculiar, etc. ficam obviamente prejudicados.Talvez as memórias (escassas) de bem pouco valham ou contribuam para a substância com que o autor queira rechear esta biografia do nosso antigo bispo D. Arquimínio felizmente a viver ainda com os seus familiares nos Açores, donde é natural, e nem, por certo, vão ensinar o Pai-Nosso ao Vigário, como tão bem explícita a locação latina “In silvam non ligna feras insanius” – não sejas tão insensato a ponto de quereres levar lenha para a floresta. É que na floresta já lá há muita lenha. Depois deste longo intróito (sem nexo, diga-se de passagem, ao bom estilo gongórico), vamos ao ponto que interessa, muito embora as lembranças, recordações ou coisa que seja, não abundem, como atrás referi. Se alguma servir, muito bem; caso contrário, o cesto do lixo não deve estar longe.
  • 96D. Arquimínio Rodrigues da Costa, Bispo de Macau (1976-1988)MISSIONÁRIOS para o Século XXIAntónio Aresta97 MISSIONÁRIOS para o Século XXIReportar-me-ei ao Sr. Bispo D. Arquimínio simples-mente como sacerdote, como Pe. Arquimínio, porque foi assim que o conheci de perto. Como Bispo, ficou distante, e com ele não tive muitos contactos.1) Qualidades humanas e intelectuais – Primava pela simplicidade; lhaneza no trato; carácter recto, es-pelhando bondade; brandura no falar, nunca erguendo a voz; confiante nas pessoas; intransigente na discipli-na; humildade, fugindo das luzes da ribalta; muito inte-lectual e um poço de saber sem mostrar fumos de o ser.2) Pe. Arquimínio, como professor – Formado em Direito Canónico pela Universidade Gregoriana, Roma. Tive o Pe. Arquimínio, como professor, no meu 1.º ano do Curso Filosófico. Deixar para trás disciplinas de conteúdo mais concreto e entrar por outra, toda ela abstracta, encafuando-nos na “Logica Minor”, defendendo teses à base de silogismos que satisfizessem a razão (cuidado com os sofismas), foi um bocado difícil. Mas a paciência do Pe. Arquimínio excedia os limites e conseguiu levar a bom porto toda a turma. Claro e conciso na arte de raciocinar e explanação de conceitos, em muito contribuiu para vincar na mente de seus alunos o desenvolver lógico das ideias. Não se cansava de repetir, para que os alunos assimilassem a sequência racional que a lógica impunha. Bom e dedicado professor.3) Pe. Arquimínio, como Pe. Prefeito – Também o Pe. Arquimínio foi, por uns tempos, Pe. Prefeito da Divisão Maior do Seminário de S. José (Cursos Filosófico e Teológico) e logo meu.O Pe. Arquimínio não exteriorizava exigências, mas era exigente; impunha sem mostrar que impunha. Era a disciplina em obediência ao Regulamento do Seminário e ordens superiores. Não era uma disciplina jesuíta, mas não andava longe.Fui protagonista de um caso em que procurei ser lógico, mas a lógica me saiu furada.Um dia (frequentava o Curso Filosófico), um dente (ou dois?) lembrou-se de começar a doer. Forte e feio. Lá fui, com o meu subprefeito a um idoso dentista (mas muito bom), com consultório pelas bandas da Avenida de Almeida Ribeiro. Após uns exames iniciais, mandou--me, praticamente sem agir, de regresso a casa, porque o dente doía, marcando-me nova consulta para uns dias depois. Chegado este dia, lá voltamos outra vez, mas, como o dente continuava a doer, nada feito. Regressamos à base, diria, com as mãos a abanar, com outra consulta marcada. Chegou o dia e o dente doía. Eu, muito lógico, falei com o subprefeito, referindo-lhe que a nova consulta ia dar em nada, porque o dente me continuava a doer. O dentista não me iria tratar. O subprefeito ficou caladinho, boi-mudo, metendo-se em copas, mas parecendo-me que concordava comigo. Foi o meu mal, uma … asneira! Na hora de anunciar
  • 98D. Arquimínio Rodrigues da Costa, Bispo de Macau (1976-1988)MISSIONÁRIOS para o Século XXIAntónio Aresta99 MISSIONÁRIOS para o Século XXI
  • 100D. Arquimínio Rodrigues da Costa, Bispo de Macau (1976-1988)MISSIONÁRIOS para o Século XXIAntónio Aresta101 MISSIONÁRIOS para o Século XXIa nota de comportamento (mensal), reparei que desci. Uma surpresa e … das más, pois se as notas de comportamento não rondavam já os píncaros da lua, pior ficaram. Qual a razão da descida? Galguei a escadaria, bati à porta do Pe. Prefeito Arquimínio e, Eureka! apontou-me a causa última (isto é que é filosofia): “você não quis ir à consulta do dentista que estava marcada”. Toma, leva, é para que saibas. Comi e engoli, em seco. Saí cabisbaixo, rezando jaculatórias contra o boi-mudo do subprefeito. Quantas vezes a lógica não passa de uma batata! E como “contra facta non sunt argumenta”, há que aceitar. A disciplina é para cumprir, nem que se tenha de plantar a couve de raízes para o ar. A disciplina faz parte da vida, sem excluir a dos sacerdotes. Aprendi a lição. O que estranhei foi a atitude do subprefeito que está presente, não só para dirigir, mas também aconselhar. E não aconselhou.4) Pe. Arquimínio – reitor do Seminário de S. José.Frequentava eu o Curso Teológico, quando uma doença, então desconhecida, me bateu à porta. Ines-perada, como sempre acontece. Conduzido ao Hos-pital Conde de S. Januário e reveladas as radiografias, diz-me o Sr. Dr. Nogueira, médido tisiologista: “você quer ficar aqui, ou ir ao Seminário e voltar” O que é que eu tenho, Sr. Dr.? Você tem uma coisa um pouco grave. E mais não disse. Fiquei murcho, sem sangue. Assim montei a tenda por um longo tempo no Hospi-tal, fixando residência num quarto de 1ª classe (tudo privativo) do pavilhão dedicado à tisiologia (hoje já não existe) (sem ser tuberculoso), onde já permoitava um colega meu, sofrendo de pleuresia. Então, qual o meu mal? Vim a saber depois: um abcesso pulmonar (benigno). Passados uns tempos, fiquei único morador do sítio, sempre muito bem tratado por todos, aparando as ferroadas das injecções, por vezes onze por dia (um massacre de picadas, algumas bem dolorosas). Habituado a viver em comunidade, comecei a sentir o que é a solidão. Agora como seminarista e depois, naturalmente, como padre. As visitas eram raríssimas. A minha família era o Seminário.O único a visitar-me provavelmente sempre que podia, resumia-se ao reitor, ao Pe. Arquimínio. Às vezes amiúde, outras de forma mais espaçada, sobretudo aos domingos. Nem o padre, natural da minha própria aldeia, se dignava visitar-me. Nem uma vez. Coisas da vida! O reitor trazia-me a luz que afastava o escuro da solidão. Esse gesto do reitor ainda hoje permanece presente no meu espírito. Ainda hoje grato lhe estou. Somente após um ano é que desmontei a tenda. Curado, até hoje. Já lá vão 50 anos.Reitor, Pe. Arquimínio não se esquecia de velar pelos que estavam sob as suas asas.5) Notei que a maneira de ser do Pe. Arquimínio não se dava bem com manifestações que o tívessem
  • 102D. Arquimínio Rodrigues da Costa, Bispo de Macau (1976-1988)MISSIONÁRIOS para o Século XXIAntónio Aresta103 MISSIONÁRIOS para o Século XXIpor centro ou que lhe mostrassem afeição e reconhe-cimento.Num dos seus aniversários natalícios, os alunos do Seminário Maior resolveram fazer-lhe uma surpresa: juntaram-se à porta da reitoria para lhe cantar os Parabéns e o Hino do Reitor (Ao Reitor tão amigo e bondoso, vamos todos um hino entoar…). O Pe. Arquimínio, perplexo, via-se que se sentia contrafeito, incomodado; via-se que preferia não lhe terem feito aquela surpresa ou “partida”. Mas ele merecia-a.6) Pe. Arquimínio – intelectual e filósofo.Não raro, era visto a percorrer o longo corredor do Seminário em conversa com o Doutor Pe. Júlio Au-gusto Massa, filósofo encartado, a discutir questões metafísicas. Isso nos revelava logo após a sua entrada na nossa aula de Filosofia. “Estivemos a discutir uma questão que transcende a física, metafísica. …Parece que às vezes não concordavam, mas o Pe. Arquimínio respeitava imenso o Pe. Massa (como era mais conhe-cido).7) O Pe. Arquimínio confiava nas pessoas. Era confiante … confiava talvez demasiado. E quando assim é, chovem as desilusões, sobretudo quando ascendeu ao Bispado. Os espinhos do bispo não provêm dos fiéis católicos, mas dos seus sacerdotes. Quando algo mal andava por estes lados, ele era o último a saber ou, se sabia, não o manifestava. Ossos da vida!8) Pe. Arquimínio – Pregador – A missão própria de um saberdote é “praedicare” ou seja, pregar, anunciar a Boa Nova do Evangelho. O Pe. Arquimínio pregava. E pregava bem, tinha o dom da palavra. Quantas vezes, como presidente da Congregação da Imaculada Concei-ção (congregação da Divisão dos Maiores), o convidei, em dias especiais, para falar aos congregadores. Via-se que tinha o maior prazer em abordar temas, relaciona-dos com Nossa Senhora. Desenvolvia-os, prendendo, cativando. Parece até que se empolgava, sempre com uma lógica refinada. Isto nos tempos do meu Seminá-rio. Abordava os temas “per longum et latum”.Como bispo, a história já era um bocadinho dife-rente. Nas homilias dominicais quando era celebrante, alongava-se também, mas o estômago parece que se revoltava quando parecia nunca terminar. Culpa nossa ou minha no desejo de cumprir o dever o mais rápido possível! Os tempos haviam evoluído.9) Pe. Arquimínio – escritor? – Infelizmente, jamais li qualquer coisa escrita pelo Pe. Arquimínio v.g. um simples artigo de jornal. Não sabia escrever? Claro que sabia e, por certo, com profundidade, dado o intelectual que ele era. Nunca vim a saber se era dado à escrita. Talvez, por acanhamento, timidez ou coisa parecida, não quisesse manifestar esse aspecto intelectual, cuja luz alumiava, pelos vistos, o interior do alqueire. Foi pena. Terá produzido enquanto Bispo Emérito de Macau?
  • 104D. Arquimínio Rodrigues da Costa, Bispo de Macau (1976-1988)MISSIONÁRIOS para o Século XXIAntónio Aresta105 MISSIONÁRIOS para o Século XXI10) Enquanto exerceu o múnus de Bispo de Macau, não mantive muitos contactos com ele. Nem aliás tinha que ter. Saí do Seminário uma semana antes de acontecer o célebre 1, 2, 3 de 1966, passando a ser um simples fiel católico, formado no Seminário de S. José, escola de que muito me orgulho, porque tudo me deu. E para o meu crescer como homem nas ciências humanas e divinas, muito o Pe. Arquimínio contribuiu. Apesar da idade que já leva, que continue a gozar de boa saúde. Assim espero.Nota: Os apontamentos não são abundantes, porque a memória é também escorregadia. Se algo for aproveitável, dar-me-ei já por compensado.Macau, 9 de Setembro de 2016.José Maria BártoloEm tempo: O Sr. Bispo Arquimínio voou ou partiu, no dia 13/9, para o Pai que o recebeu de braços abertos para gozar da glória merecida. O Bom Pastor vai à frente do seu rebanho. Que Deus lhe dê o eterno descanso.15.9.2016. José Maria Bártolo
  • 106D. Arquimínio Rodrigues da Costa, Bispo de Macau (1976-1988)MISSIONÁRIOS para o Século XXIAntónio Aresta107 MISSIONÁRIOS para o Século XXIDo Maestro Simão BarretoD. Arquimínio Rodrigues da Costa faleceu recen-temente na sua terra natal, Candelária na ilha do Pico, a mesma vila onde nasceram outras figuras ilustres de Macau, o Pe. Áureo da Costa Nunes e Castro, de longe o melhor compositor que passou por estas paragens; o Pe. António da Costa Nunes, antigo secretário do Seminário de S. José; e o ilustre e inesquecível D. José da Costa Nunes, vice-Camerlengo da Igreja de Roma.D. Arquimínio indubitavelmente pertence ao nú-mero de uma plêiade de eminentes personagens que dignificaram o século XX da Diocese de Macau. Tinha uma facilidade prodigiosa para aprender e adquirir qualquer conhecimento, especialmente as línguas. Aprendia-as com facilidade e, coisa admirável, sem so-taque. Humilde e simples, apresentando-se diante da sociedade sempre em “low profile”, mesmo depois de ser elevado à dignidade de Bispo.Um dia fui visitá-lo ao Pico, na Candelária, onde se refugiara depois de se reformar. Levou algum tempo para me receber.
  • 108D. Arquimínio Rodrigues da Costa, Bispo de Macau (1976-1988)MISSIONÁRIOS para o Século XXIAntónio Aresta109 MISSIONÁRIOS para o Século XXIQuando se apresentou, pediu-me desculpa pelo aspecto em que vinha: tinhas as mãos sujas de terra, do trabalho de monda que estava a fazer no quintal... Simples e humilde, como sempre!Macau, 2 de Outubro de 2016Simão Barreto
  • 110D. Arquimínio Rodrigues da Costa, Bispo de Macau (1976-1988)MISSIONÁRIOS para o Século XXI
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