• MISSIONÁRIOS para o Século XXINão podem cabalmente explicar-se a identidade de Macau e o factor cultural que foi sua moção no decurso da História sem considerar a Diocese de Macau, os seus obreiros e legiões de servidores. Considerar, isto é, em adunação ao sidério, ou com o céu (cum + siderio), que foi o que desde os primórdios do porto macaense atraiu os inacianos encandescidos de fervores apostólicos e “acomodados” ao Outro – o que para sempre eternizou Macau como anfiteatro da compenetração cultural Europa/China, uma das grandes vias de realização da unidade ou arquitectação da ecúmena fraterna dos homens.Padres, missionários, mártires, letrados: servidores do Outro, tornado próximo, pelas obras de misericórdia, e no seu carácter e espírito compreendido pela cultura. De 1557 (Bula do Papa Paulo IV que missionava Macau como sede da expansão religiosa no Extremo Oriente) até hoje, em dádiva total aos mais necessitados (desamparados, pobres, doentes, abandonados, a todas as criaturas assombradas pelo espírito do mal), ou na docência, na investigação e no estudo da Língua, da História, dos arcanos civilizacionais.Foi o Século passado constelado por uma geração de ouro, de tantas figuras excepcionais em Macau radicadas, grandes nas obras, como no quase anonimato de uma humildade que é expressão de um verdadeiro sentido ancilar da vida e do destino.Não podemos deixá-los no desconhecimento e no esquecimento das gerações actuais e vindouras. É este imperativo que nos motivou à concepção de mais uma colecção no nosso acervo editorial – “Missionários para o Século XXI”.João GuedesPe. ÁUREO NUNES E CASTROVolume IPadre Lancelote Rodrigues “Vida e Obra”Leonor SeabraVolume IIPadre Joaquim Angélico Guerra, S. J. “Um Globetrotter ao serviço de Deus e da China”Padre Henrique de Jesus Rios, S. J.Volume IIIMário Acquistapace“Um salesiano no Extremo Oriente”Mário Rodrigues BaptistaVolume IVP. Benjamim Videira Pires, Meu irmãoP. Francisco Videira PiresVolume VLuigi Versiglia e Callisto Caravario “Mártires Salesianos na China”Luís CunhaVolume VIManuel Teixeira, de Menino a MonsenhorJosé TeixeiraVolume VIIUm Apostólo do Oriente Aproximação à Vida e Obra do Cardeal Costa NunesJosé Valle de FigueiredoVolume VIIIPe. Áureo Nunes e Castro Missionário, músico e pedagogoJoão GuedesMissionário, músico e pedagogo
  • TítuloPe. Áureo Nunes e Castro Missionário, músico e pedagogoAutorJoão GuedesEditorInstituto Internacional de MacauColecção“Missionários para o Século XXI” Volume VIIIDirecção GráficaVictor Hugo DesignImpressão e EncadernaçãoTipografia WelfareTiragem500 exemplaresApoioFundação MacauMacau, Novembro de 2015ISBN 978-99937-45-86-0PE. ÁUREO NUNES E CASTROMissionário, músico e pedagogoJoão Guedes
  • João GuedesPE. ÁUREO NUNES E CASTROMissionário, músico e pedagogo
  • Esta ColecçãoMissionários para o Século XXINão podem cabalmente explicar-se a identidade de Macau e o factor cultural que foi sua moção no decurso da História sem considerar a Diocese de Macau, os seus obreiros e legiões de servidores. Considerar, isto é, em adunação ao sidério, ou com o céu (cum + siderio), que foi o que desde os primórdios do porto macaense atraiu os inacianos encandescidos de fervores apostólicos e “acomodados” ao Outro – o que para sempre eternizou Macau como anfiteatro da compenetração cultural Europa/China, uma das grandes vias de realização da unidade ou arquitectação da ecúmena fraterna dos homens.Padres, missionários, mártires, letrados: servidores do Outro, tornado próximo, pelas obras de misericórdia, e no seu carácter e espírito compreendido pela cultura. De 1557 (Bula do Papa Paulo IV que missionava Macau como sede da expansão religiosa no Extremo Oriente) até hoje, em dádiva total aos mais necessitados (desamparados, pobres, doentes, abandonados, a todas as criaturas assombradas pelo espírito do mal), ou na docência, na investigação e no estudo da Língua, da História, dos arcanos civilizacionais.Foi o Século passado constelado por uma geração de ouro, de tantas figuras excepcionais em Macau radicadas, grandes nas obras, como no quase anonimato de uma humildade que é expressão de um verdadeiro sentido ancilar da vida e do destino.Não podemos deixá-los no desconhecimento e no esquecimento das gerações actuais e vindouras. É este imperativo que nos motivou à concepção de mais uma colecção no nosso acervo editorial – “Missionários para o Século XXI”.Os editores
  • Índice 11 Pe. Áureo Nunes e Castro Missionário, músico e pedagogo 23 As origens 33 Seminarista 45 Padre 53 O Conservatório Nacional 59 Regresso a Macau 95 O Músico e o pedagogo104 Bibliografia Consultada
  • 10Pe. Áureo Nunes e Castro Missionário, músico e pedagogoMISSIONÁRIOS para o Século XXIJoão Guedes11 MISSIONÁRIOS para o Século XXIÁureo Nunes e CastroMissionário, músico e pedagogoFazer a história da vida do padre Áureo da Costa Nunes e Castro é contribuir para trazer à luz uma área da cultura de Macau ainda bem mal iluminada. Trata--se da memória da música, na sua área vulgarmente chamada clássica, ou erudita.Buscando na história, desde que a documentação existe preservada, o que corresponde essencialmente aos séculos XIX e XX as referências à música são muitas e variadas.A passagem por Macau dos seus intérpretes é conhecida e ficou assinalada, mas isto apenas quantos aos intérpretes, já que quanto aos compositores as referências são poucas e mais raras ainda as que dizem respeito a compositores clássicos que, pode dizer-se, quase não existem de todo.É pois neste contexto de raridade que avulta a biografia de Áureo Castro, autor que “só não foi uma
  • 12Pe. Áureo Nunes e Castro Missionário, músico e pedagogoMISSIONÁRIOS para o Século XXIJoão Guedes13 MISSIONÁRIOS para o Século XXIfigura que enfileirou com os grandes compositores apenas porque escreveu pouco (1).Áureo Castro nasceu na ilha do Pico, nos Açores um arquipélago que sempre contribuiu significativamente para engrossar as fileiras dos missionários católicos que partiam para o mundo. Note-se porém que de entre as ilhas do arquipélago é, em termos comparativos demográficos o Pico que mais missionários entregou à igreja católica romana ( 12. 3% ) relativamente às restantes ilhas açorianas (2).Por outro lado Áureo Castro é originário de um arquipélago onde a generalidade da população possui propensão intrínseca para a música que se reflecte não só no seu característico folclore inspirador de vários géneros musicais em Portugal e não só, mas também na forma como o culto da música é acarinhado tanto institucionalmente quanto a nível privado pelas famílias.Por outro lado, ainda, Áureo Castro pertencia a um clan que produziu figuras eminentes da Igreja com destaque para seu tio, o cardeal D. José da Costa Nunes, bispo de Macau e de Goa que atingiria a dignidade de Camerlengo da Santa Sé tendo sido um (1) Opinião do maestro Simão Barreto, que foi aluno do Pe. Áureo Castro que seria igualmente quem o recomendaria à Fundação Calouste Gulbenkian para obter a bolsa de estudo com a qual se licenciou no Conservatório Nacional de Lisboa.(2) D. José da Costa Nunes (1880-1976) um cardeal no Oriente, Susana Goulart Costa. Cardeal D. José da Costa Nunes, bispo de Macau e de Goa.
  • 14Pe. Áureo Nunes e Castro Missionário, músico e pedagogoMISSIONÁRIOS para o Século XXIJoão Guedes15 MISSIONÁRIOS para o Século XXIdos primeiros prelados a integrar o Concílio “Vaticano II” por indicação expressa do Papa João XXIII.Apesar da conjuntura familiar e das origens, porém, Áureo Castro, não estaria predestinado a atingir qualquer notoriedade não fora a sua formação ter sido ministrada no Seminário de S. José de Macau, colónia onde chegou a 15 de Setembro de 1931.Nessa data o seminário, pode dizer-se, que congregava em si o que de melhor se praticava em termos pedagógicos em Macau, desde o desporto à música, passando pelas ciências e pela educação física.Esse estatuto fazia com que atraísse os alunos locais, mas também de outras origens, nomeadamente Hong Kong e Cantão (na época havia em Cantão uma comunidade ocidental numerosa) que buscavam esse estabelecimento de ensino de excelência.Diga-se a este propósito que, ao longo da história de Macau, a igreja católica liderou, ou deteve mesmo, o exclusivo das áreas da educação e da cultura, em maior ou menor grau, e em diversas épocas, dada a tradicional e manifesta abstenção do Estado, desde sempre, nessas matérias.Áureo Castro revelou durante os seus anos de estudo boa aptidão escolar, mas também particular inclinação para a música que não deixaria de ser notada pelos seus professores e que viria a determinar o seu futuro como missionário.Concluído o curso seria ordenado em plena “Guerra do Pacífico” (1943), ocupando as funções de pároco na Sé e em S. Lourenço.Simultaneamente leccionaria canto coral e religião e moral em várias escolas. A par de tudo isso encetou também carreira breve como jornalista no jornal católico “O Clarim”.Seminário S. José
  • 16Pe. Áureo Nunes e Castro Missionário, músico e pedagogoMISSIONÁRIOS para o Século XXIJoão Guedes17 MISSIONÁRIOS para o Século XXIPara além do jornalismo e da sua intervenção apostólica, Áureo Castro era um produto do seu tempo, dominado pelos nacionalismos crescentes e pela omnipresença do “Estado Novo” de Salazar. Não admira por isso que tenha aderido à “União Nacional”, o partido único do regime. Esta adesão porém deve--se sem dúvida em grande parte senão inteiramente à influência tutelar de seu tio, o cardeal D. José da Costa Nunes que em conferências, nos jornais e em livros proclamava a missão redentora de Salazar de reunir o estado e a igreja desavindos em Portugal para ressuscitar o nome de Portugal pelos quatro cantos do universo terrestre.Daí também ter integrado em 1944 a Acção Católica, organização que nasceu pela mão do Cardeal Manuel Gonçalves Cerejeira, de modo a estimular a participação dos leigos na Igreja. A Acção Católica Portuguesa era também vista como o braço da Igreja na Sociedade, levando a esta os valores que a instituição professava mas com maior informalidade.“O projecto original da Acção Católica era ter debaixo do mesmo chapéu todas as organizações católicas” e “fazer uma recristianização do país”, objectivos que o cardeal D. José da Costa Nunes tinha como centrais no que devia ser a acção da Igreja o que demonstra sem sombra de dúvidas que a formação ideológica de Áureo Castro advinha muito mais do tio do que de qualquer outro catecismo revolucionário, ou não.Todavia, era muito mais a música do que as ideologias políticas, ou filosóficas, que verdadeiramente o cativava ingressando por isso com grande entusiasmo, ainda que com a apreensão de não conseguir fazer o melhor, que decorria da sua tendência para o perfeccionismo, que o fazia escrever e reescrever os seus trabalhos inúmeras vezes que em 1951 ingressa no Conservatório Nacional de Lisboa onde se formaria com distinção.O regresso a Macau em 1956 marca uma viragem profunda na sua vida quando a música passa verdadeiramente a constituir o centro das suas preocupações, primeiro com a fundação do Grupo Coral Polifónico, mas principalmente com a criação da Academia de Música S. Pio X de que seria o principal esteio e que durante décadas seria também a única instituição de ensino que preparava músicos para o ingresso no ensino superior não só em Portugal, mas também em vários outros países do mundo, com destaque para o mundo anglo saxónico.No âmbito da Academia de Música S. Pio X organizou inúmeros concertos para os quais convidou músicos com carreira internacional.Em 1983 em colaboração com o compositor inglês Stuart Bonner fundaria a Orquestra de Câmara
  • 18Pe. Áureo Nunes e Castro Missionário, músico e pedagogoMISSIONÁRIOS para o Século XXIJoão Guedes19 MISSIONÁRIOS para o Século XXI
  • 20Pe. Áureo Nunes e Castro Missionário, músico e pedagogoMISSIONÁRIOS para o Século XXIJoão Guedes21 MISSIONÁRIOS para o Século XXIde Macau com músicos amadores e professores da Academia que mais tarde seria incorporada no Instituto Cultural de Macau.Áureo Castro entregou a sua vida inteiramente à música. No entanto todos os que com ele privaram são unânimes hoje em afirmar que apesar da sua paixão pela arte o que o impelia verdadeiramente era a missão. A música era o seu instrumento de apostolado.A obra de Áureo Castro será pois “um reflexo tardio das directrizes teológico-musicais que se desenvolveram ao longo da primeira metade do século XX após a publicação do Motu Próprio, o primeiro grande documento pontifical do Papa Pio X sobre a música sacra publicado em 1903 em que apresentava a participação dos fiéis nos mistérios da liturgia como a fonte primária e indispensável do espírito verdadeiramente cristão, palavras que, mais tarde, o Concílio Vaticano II faria suas e introduziria na Constituição sobre a Sagrada Liturgia.Neste âmbito compôs uma obra sólida mostrando--se precursor nomeadamente quando funde nalgumas composições a música ocidental e oriental.O seu espírito um tanto introvertido que contrastava com o de outros missionários do seu tempo fez que não conhecesse como eles tanta exposição mediática durante a vida, mas a sua obra não deixou de ser reconhecida através da condecoração que seria atribuída à sua Academia e a medalha de Mérito Cultural que pessoalmente lhe seria conferida. As condecorações valem o que valem, mas certo é que Áureo Castro o missionário que veio da ilha do Pico nos Açores se ergue como um dos grandes expoentes da cultura de Macau do século XX.Vale a pena contar a sua história. Cerimónia de Condecoração.
  • 22Pe. Áureo Nunes e Castro Missionário, músico e pedagogoMISSIONÁRIOS para o Século XXIJoão Guedes23 MISSIONÁRIOS para o Século XXIAs origensO Pe. Áureo da Costa Nunes e Castro nasceu na freguesia de Candelária, ilha do Pico no arquipélago dos Açores a 18 de Janeiro de 1917, ano em que desapareceria um dos muitos picoenses ilustres do século XX português, Manuel de Arriaga o primeiro presidente, eleito, da República Portuguesa.Áureo Castro nasce no seio de uma família fortemente ligada à igreja, mas também num ambiente em que a missionação está presente com particular intensidade desde o início do século XX.Serão aliás os Açores juntamente com o concelho continental transmontano de Freixo de Espada à Cinta que fornecerão o mais significativo contingente de missionários para o Padroado Português do Oriente. Esta designação referia-se, à extensa área administrativa eclesial que antes se estendia por todo o Extremo Oriente incluindo o Japão e toda a China. No século XX o Padroado estava já limitado à Diocese de Macau e à missão de Shiu Hing na vizinha Açores, Pico.
  • 24Pe. Áureo Nunes e Castro Missionário, músico e pedagogoMISSIONÁRIOS para o Século XXIJoão Guedes25 MISSIONÁRIOS para o Século XXIprovíncia de Guangdong bem como a Timor, colónia que administrativamente lhe ficava anexa.Inicialmente os Açores foram terra de missão mas, pelo menos, a partir do século XIX, tornaram-se terra de produção de missionários.De salientar que, para além de ter sido berço de numerosos sacerdotes, missionários e paroquianos, os Açores contam na sua história com algumas figuras de destaque no seio da igreja entre as quais vário bispos: - D. Manuel de Sousa Enes (1814-1887), D. José da Costa Nunes (1880-1976), D. João Paulino de Azevedo e Castro (1852-1918), D. Manuel de Medeiros Guerreiro (1891-1978), D. José Vieira Alvernaz (1898-1986), D. Paulo José Tavares (1920-1973), D. Arquimínio Rodrigues (1924- ), D. Jaime Garcia Goulart (1908-1997) e D. Humberto de Sousa Medeiros (1915-1983), entre outros altos dignitários da hierarquia católica. O número de prelados é tanto mais relevante quanto a sua exiguidade geográfica e demográfica.No contexto açoriano porém a ilha do Pico destaca--se neste campo já que a percentagem de seminaristas dali originários, apesar das diferenças populacionais relativamente a outras ilhas do arquipélago, chegou a ascender em certas épocas a mais de vinte por cento do total de missionários ou seminaristas.As dificuldades económicas que se faziam sentir na ilha principalmente a partir das pragas de meados do século XIX, que afectaram a vinha que era o principal recurso dos seus habitantes, a vida religiosa e a emigração eram as estratégias mais utilizadas para fazer face à difícil realidade económica.“A escolha dos jovens pela carreira eclesiástica é o resultado da vocação e de pressões familiares mas também espelha o que já foi designado como “genética sacerdotal”.“Na verdade, verificava-se uma tendência para dentro da mesma família diversos membros masculinos se dedicarem à vida religiosa, numa passagem de testemunho, que realmente passa de tio para sobrinho com vários graus de afinidade” (3).Este aspecto verifica-se relativamente ao cardeal D. José da Costa Nunes já que vários dos seus parentes se sentiram atraídos para o sacerdócio acabando por partirem para Macau.“Aliás D. José da Costa Nunes não se limitou apenas a influenciar a sua rede familiar, pois no decurso da sua estada no Oriente leva onze jovens açorianos para estudarem no seminário de Macau (oito terceirenses, dois picoenses e um faialense) nove dos quais seguiram a carreira sacerdotal”.(3) D. José da Costa Nunes (1880-1976) um cardeal no Oriente, Susana Goulart Costa.
  • 26Pe. Áureo Nunes e Castro Missionário, músico e pedagogoMISSIONÁRIOS para o Século XXIJoão Guedes27 MISSIONÁRIOS para o Século XXIDe entre esses contava-se, naturalmente, seu sobrinho Áureo Castro.Por outro lado a sua propensão para a música não é também estranha ao ambiente familiar. De facto o próprio Áureo Castro recorda numa das raras alusões à sua infância açoriana (regressaria apenas uma e única vez aos Açores em toda a sua vida) que o seu primeiro professor de música tinha sido sua irmã que tocava órgão na igreja paroquial da Candelária, sua terra natal.Seu avô era piloto da marinha mercante nos navios que ao tempo faziam a carreira entre os Açores e o Brasil e “nunca se esquecia” de trazer umas canções para a filha Emília (mãe de Áureo), que gostava muito de cantar. Aliás tanto sua mãe Emília, como seu pai Inácio faziam parte do coro da igreja paroquial.Nesse ambiente de grande religiosidade a vocação sacerdotal acabaria por se manifestar mais tarde ou mais cedo, mas o seu destino não seria como esperado o seminário de Angra do Heroísmo, na ilha Terceira, mas sim, o Seminário de S. José, na longínqua Macau.A dor da partida para tão longe terá sido eventualmente maior para seus pais do que para si próprio já que na Candelária, ou noutras freguesias vizinhas a notícia da abalada de emigrantes para a América, Canadá, ou Brasil, a ida de seminaristas para Macau, ou o regresso de muitos que contavam as suas histórias de vida eram habituais e frequentes desde que tomara consciência do mundo.Por outro lado Áureo Castro sentir-se-ia provavelmente bem mais isolado no seminário de Angra do Heroísmo, na ilha Terceira, que para si adolescente de 14 anos de idade era vista eventualmente de ponto de vista tão distante como a realmente distante Macau. Além disso em Angra não tinha parentes nem conhecia ninguém enquanto em Macau, para além do tio D. José estavam dois primos seus, igualmente missionários (Manuel da Costa Nunes e António Maria Nunes da Costa).Além disso por lá estava também outro primo, ainda que de geração anterior, Jaime Garcia Goulart que seria o primeiro bispo de Timor(4). Assim fazer as malas para Macau e juntar-se aos cinco outros rapazes que com ele embarcariam para a Ásia terá sido mais uma tarefa repleta de imaginadas emoções do que iria ser do que propriamente de lágrimas de dor da abalada.(4) Dom Jaime Garcia Goulart nasceu na Candelária do Pico a 10 de Janeiro de 1908 e morreu em Ponta Delgada, a 15 de Abril de 1997. Foi o primeiro bispo da Diocese de Dili, que governou como Vigário-Geral entre 22 de Janeiro de 1940 e 17 de Janeiro de 1941. Foi nomeado em 18 de Janeiro de 1941 Administrador Apostólico cargo que ocupou até 11 de Outubro de 1945. Finalmente, foi eleito bispo a 12 de Outubro de 1945 ocupando esse cargo até 31 de Janeiro de 1967 data em que resignou (WIKIPEDIA).
  • 28Pe. Áureo Nunes e Castro Missionário, músico e pedagogoMISSIONÁRIOS para o Século XXIJoão Guedes29 MISSIONÁRIOS para o Século XXIAliás refira-se que Áureo Castro não terá tido tempo de criar verdadeiras raízes na sua ilha, ou mesmo na sua freguesia, para além das familiares. Isto tanto mais que apenas por uma vez na sua vida regressaria à Candelária, em férias em 1950 antes de ingressar no Conservatório de Lisboa.Seu tio D. José governava a diocese de Macau desde 1920, ano em que foi eleito Bispo. Curiosamente a sua ordenação episcopal não se deu em Macau, mas sim na igreja matriz da cidade da Horta, na ilha açoriana do Faial, a 20 de Novembro do ano seguinte para onde viajou propositadamente com esse fim.Largo de Camões, Ilha da Horta, Faial, Açores. Igreja Paroquial de Candelária, Ilha do Pico, Açores.
  • 30Pe. Áureo Nunes e Castro Missionário, músico e pedagogoMISSIONÁRIOS para o Século XXIJoão Guedes31 MISSIONÁRIOS para o Século XXID. José fez a entrada solene na sua sede diocesana a 4 de Junho de 1922, governando-a até 1940.O seu trabalho missionário na extensa diocese de Macau traduziu-se por um marcado crescimento do número de católicos, que quase duplicou em pouco mais de 20 anos.Também se dedicou à reorganização das estruturas pastorais existentes, entregando o Seminário à direcção espiritual dos Jesuítas. No âmbito da educação fundou também um colégio para rapazes chineses, através do qual introduziu a educação profissionalizante em Macau.Na região do sul da China que se encontrava sob a jurisdição da diocese de Macau, D. José da Costa Nunes procurou reavivar as missões católicas ali sediadas, aumentar o número de missionários, e fazer crescer o número de igrejas, residências, escolas e obras de assistência.Na então colónia de Timor, ao tempo parte da diocese de Macau, reconheceu a crise que ali vivia a Igreja Católica, fundindo os dois vicariatos existentes e procurou melhorar a vida eclesiástica, religiosa, e financeira.Para melhorar a educação religiosa, fundou uma escola de catequistas, que ministrava ensino equivalente ao 3.º ano dos liceus e habilitava os formados a leccionar a instrução primária. Também criou um colégio e uma escola de artes e ofícios.Tendo em conta a distância entre Macau e Timor e as grandes diferenças culturais e pastorais entre ambos os territórios, solicitou à Santa Sé a elevação do vicariato de Díli a diocese, o que foi concedido por bula de 18 de Janeiro de 1941.Nos territórios/paróquias de São José (Singapura)) e de São Pedro (Malaca), também parte da diocese de Macau, intensificou a acção pastoral, dotando a igreja local de estruturas escolares próprias e fomentando o espírito missionário (5).Era pois este dinâmico bispo que indelevelmente marcou também a vida cultural da colónia portuguesa da China nas primeira quatro décadas do século XX à protecção de quem se acolhia o jovem adolescente Áureo Castro, novo aluno do Seminário de S. José para o ano lectivo de 1932-1933. Pode calcular-se pois o grau de influência cultural e ideológica que esse preclaro prelado exercia sobre os seus diocesanos, e particularmente sobre o sobrinho.(5) WIKIPEDIA.
  • 32Pe. Áureo Nunes e Castro Missionário, músico e pedagogoMISSIONÁRIOS para o Século XXIJoão Guedes33 MISSIONÁRIOS para o Século XXISeminaristaA cultura no século XX de Macau divide-se em duas fases bastante distintas. A fase anterior à chamada “Guerra do Pacífico” e a fase posterior ao conflito em que se regista um declínio evidente que perdura até aos anos 80, década em que volta a emergir num processo que coincide com a criação do Instituto Cultural de Macau em 1982.Ao longo da secular história de Macau a Igreja protagonizou, ou deteve mesmo em total exclusivo, as áreas da educação e da cultura. Mas a inexistência de organismos oficiais de apoio das autoridades às manifestações culturais nunca se fez sentir tanto como no século XX. Uma situação, aliás, que não surpreende já que as transformações operadas na humanidade foram particularmente drásticas e vertiginosas nos últimos cem anos. E se é verdade que nos momentos de maior crise florescem ideais, então a Macau dos anos 30 e 40 assume-se como perfeito exemplo desta máxima - uma pequena língua
  • 34Pe. Áureo Nunes e Castro Missionário, músico e pedagogoMISSIONÁRIOS para o Século XXIJoão Guedes35 MISSIONÁRIOS para o Século XXIde terra europeia no Oriente, com escassa atenção da metrópole, ignorada por uma Europa a braços com tempos conturbadíssimos, Macau foi local privilegiado de acontecimentos culturais e sociais que se prolongou até à década de 50. (...) Macau viria a ser a cidade mais procurada da região por razões culturais e políticas. As primeiras já se esboçavam a partir de finais do século XIX quando para aqui convergia a nata da intelectualidade de Hong Kong e Cantão em busca dos famosos recitais do teatro D. Pedro V.“A tendência mantém-se na viragem do século e nas décadas de 10 e 20 a vertente artística era parte importante da educação nas famílias portuguesas de Macau. Muitas crianças e jovens aprendiam pelo menos Cinematografo Vitória.Programa, Teatro Vitória, 1945.
  • 36Pe. Áureo Nunes e Castro Missionário, músico e pedagogoMISSIONÁRIOS para o Século XXIJoão Guedes37 MISSIONÁRIOS para o Século XXIum instrumento musical em casa ou nos colégios. O piano e o violino eram geralmente as opções das famílias mais abastadas, enquanto se tocava viola, bandolim ou cavaquinho entre as camadas mais humildes sendo a guitarra apreciada por todos. As típicas tunas saíam destes grupos de jovens amadores de música. Não é pois de estranhar que uma comunidade pequena, que estimula o gosto pela música nos seus filhos desde cedo e sobretudo, cujos entretenimentos eram limitados (excepção feita ao cinema Vitória e pouco mais) mostrasse apetência pela organização de grupos e eventos culturais.(6) Isabel Machado in Revista Macau nº 62 Janeiro 93. A Belle Époque da Vida Cultural em Macau.(7) Pe. Francisco Xavier Rondina (1827-1897). Missionário no Padroado Português do Oriente, foi professor, pregador e escritor. Dirigiu o Colégio-seminário de S. José em Macau. Realizou missões na América do Norte, Brasil, Japão e China. Publicou em Macau o Compêndio de filosofia teorética e prática para uso da mocidade portuguesa na China, 2 volumes, Tipografia do Seminário de S. José, 1869-1870. Esta obra será um contributo importante para o desenvolvimento da filosofia neotomista, servindo de referêncial durante o séc. XIX. Escreveu ainda para a revista Civitá Catollica a partir de 1882.Esta era uma época em que, de resto, a vida cultural se confundia sendo impossível separar uma da outra, até pelo facto dos seus protagonistas serem os mesmos”(6). Nesse panorama em que o interesse pela cultura artística e musical se acentuava o Seminário de S. José ocupava talvez o papel de maior relevo.A música sempre cultivada no seminário foi particularmente acarinhada na década de 60 do século XIX, quando o padre jesuíta Francesco Xavier Rondina(7) ali ocupou funções docentes. Foi este sacerdote italiano que pessoalmente se encarregou de trazer do seu país todos os instrumentos necessários para a formação de uma orquestra no Seminário.Depois da saída de Rondina a orquestra manteve--se sucedendo a este dois maestros igualmente italianos, Luigi Antinori que morreria no seminário e Miguel Antonini. Este porém acabaria a sua regência de modo atribulado sendo expulso de Macau pelo Teatro D. Pedro V.
  • 38Pe. Áureo Nunes e Castro Missionário, músico e pedagogoMISSIONÁRIOS para o Século XXIJoão Guedes39 MISSIONÁRIOS para o Século XXIbispo D. Manuel Bernardo de Sousa Enes(8). Apesar de tudo a orquestra continuaria sem sobressaltos de maior sendo enriquecida com o espólio de música sacra, considerado excelente que pertencera ao falecido Luigi Antinori. Nas décadas finais do século XIX correspondendo a nova expulsão dos padres jesuítas o ensino no Seminário de S. José conhece algum declínio voltando apenas a reerguer-se já na segunda década do século XX num processo implementado pelo bispo D. José da Costa Nunes que na reorganização que levou a cabo não esqueceu a música mandando vir para o efeito, tal como no século anterior, um maestro italiano a fim de se ocupar da educação musical no seminário. Tratava-se desta vez de Ferdinando Maberini (1886-1956) um sacerdote compositor de música sacra que durante a sua estada em Macau leccionou exclusivamente este género musical. Segundo alguns a sua presença no Seminário de S. José teve uma (8) D. Manuel Bernardo de Sousa Enes (Vila do Topo, 5 de Novembro de 1814 - 8 de Setembro de 1887) foi um prelado português, sucessivamente bispo de Macau (1873-1883), Bragança e Miranda (1883-1886) e finalmente de Portalegre (1886-1887). Manuel Bernardo nasceu no então concelho do Topo, na ilha de S. Jorge, Açores. Cedo ingressou no convento franciscano de S. Diogo, situado na sua terra natal, tendo professado em 1831. Com a extinção das ordens religiosas masculinas em 1834, tornou-se professor no colégio de Santa Bárbara, em Angra do Heroísmo. Daí viria a partir para o Brasil em 1840, sendo ordenado pelo bispo do Pará em 8 de Dezembro de 1845. Regressa a Portugal em Setembro de 1849, matriculando-se na Faculdade de Teologia da Universidade de Coimbra, onde se douturou em 1857, tornado-se lente em 1861 e catedrático em 1872. (Wikipédia a enciclopédia livre).importância superlativa no desenvolvimento das actividades musicais ali realizadas bem como na formação de instrumentistas e professores de música.É pois uma instituição marcada claramente pela reorganização e métodos implementados por Maberini, que o jovem Áureo Castro vem encontrar quando ingressa dois anos depois da saída daquele (1932) no Seminário de S. José de Macau.A presença de Maberini, apesar de ter deixado a instituição para regressar a Itália e à igreja de “Santi Filippo e Giacomo” onde tinha iniciado a sua carreira musical e sacerdotal como organista e capelão, continuaria a fazer-se sentir por alguns anos mais.- “O Pe. Maberini tinha diploma em piano, órgão, composição, canto gregoriano, eu sei lá quantos diplomas ele tinha! E a música que escrevia em estilo de polifonia clássica eram peças musicais muito boas”, afirmava Áureo Castro recordando os seus primeiros tempos de seminário.Todavia quem o educaria e acabaria por o influenciar nas suas preferências em matéria musical seria outra figura que deixaria nome no corpo docente do Seminário. O Pe. Wilhelm Schmid.Este missionário pertencente à ordem dos salesianos chegou a Macau em 1939 e foi professor de música no seminário. Actuou também como instrutor da banda da Polícia de Segurança Pública e foi director
  • 40Pe. Áureo Nunes e Castro Missionário, músico e pedagogoMISSIONÁRIOS para o Século XXIJoão Guedes41 MISSIONÁRIOS para o Século XXIdo Instituto Salesiano entre 1960 e 1966, data em que regressaria à Áustria.Hábil compositor, deixou inúmeras operetas de cunho catequético e obras vocais religiosas entre as quais uma missa, em si bemol, para três vozes e órgão recentemente descoberta (9). A par de Wilhelm Schmid, António André Ngan (1907-1982) seria outro pólo decisivo de influência no seu futuro.Este sacerdote, membro da Missão do Padroado Português do Oriente, nasceu em Macau formando-se no Seminário de S. José em 1931, tendo sido aluno de Ferdinando Maberini. Intelectual notável, foi professor de música do Seminário, director do coro e da orquestra daquela instituição bem como da “Schola Cantorum” da Sé Catedral. O Pe. André Ngan que, para além da música, deixaria vasta obra publicada como pedagogo seria o professor de harmonia do jovem Áureo Castro, que curiosamente chegou a Macau no mesmo ano em que aquele era ordenado sacerdote.Quando Áureo Castro chegou o seminário tinha não só a orquestra fundada no século anterior pelo Pe. Rondina, mas também uma banda de música. Áureo Castro integrou a banda onde tocava trombone, ou trompete.A banda de música tinha um reportório variado com realce para as marchas do compositor americano John Philip de Sousa que Áureo e os colegas tocavam de cor e salteado quando tinham oportunidade para tal. Essas oportunidades surgiam nos passeios que os seminaristas faziam uma vez por mês à Taipa e Coloane, (muito antes de haver pontes a ligar Macau às ilhas) e a que chamavam os “passeios grandes”. Nestes lá ia a banda principalmente quando era a festa de S. Francisco Xavier em Coloane (3 de Dezembro): - “Fazíamos um arraial no coreto em frente à igreja de S. Francisco e lá dávamos um concerto ao ar livre. Era uma banda bastante completa. Imagine que tocávamos todas aquelas marchas do Sousa”.Na década de trinta, e mais tarde na de quarenta, respirava-se música em Macau, dentro e fora do seminário. Todos os seminaristas tocavam um instrumento, além disso nas igrejas paroquiais havia sempre um grupo coral, ou instrumental. A igreja da Taipa tinha uma banda dirigida pelo Pe. Pedro Hui, este também outro produto do Seminário ao qual se devem os esforços para a construção da Igreja de S. Francisco Xavier na ilha de Coloane. Outra banda tinha sido formada em S. Lázaro e o Orfanato dos Salesianos no seu início também possuíra uma no colégio.Todas estas bandas acabariam por se perder com a “Guerra do Pacífico”.(9) Entrevista concedida a Veiga Jardim in, Áureo Castro retrato de um músico, Margareth Lim, Graça Marques, Edição Diocese de Macau 2015.
  • 42Pe. Áureo Nunes e Castro Missionário, músico e pedagogoMISSIONÁRIOS para o Século XXIJoão Guedes43 MISSIONÁRIOS para o Século XXI(10) Tomás Luís de Victoria. Nasceu em 1548, faleceu em 27 de Agosto de 1611. O mais famoso compositor do século XVI espanhol e um dos mais importantes compositores da Contra Reforma juntamente com Giovanni Pierluigi Palestrina e Orlando de Lasso. Victoria, que era padre católico, era não só compositor mas também um exímio organista e cantor. É também conhecido como o Palestrina espanhol. Giovanni Pierluigi da Palestrina nasceu em Palestrina, Itália a 3 de Fevereiro de 1525. Faleceu em Roma em 2 de Fevereiro de 1594. Foi um compositor italiano da Renascença. Ele era o mais famoso no século XVI, representante da Escola romana. Palestrina teve grande influência sobre o desenvolvimento da música sacra na Igreja Católica Apostólica Romana. (Origem Wikipédia, a enciclopédia livre)Mas era no seminário que o ensino da música era levado a rigor. A instituição ministrava estudos teóricos e possuía mais de trinta órgãos portáteis para a prática dos alunos e estudava-se o canto gregoriano: - “ Na Semana Santa era tradicional cantarmos os responsórios da Victoria, espanhol. Que na minha opinião são superiores aos do Palestrina. O Palestrina(10) escrevia música com pompa como se fosse para um cortejo. O Victoria escrevia música mais espiritualizada. O Victoria nunca escreveu uma página que não fosse religiosa. Bem mas foi com essa coisa da polifonia que comecei a sentir cá por dentro um bichinho que me deixava curioso para saber como aquilo funcionava. Foi então que quis estudar composição musical”, Áureo Castro explicava assim a razão de ser do seu percurso de vida que o levaria ao Conservatório Nacional de Lisboa.Igreja de S. Francisco Xavier na ilha de Coloane.
  • 44Pe. Áureo Nunes e Castro Missionário, músico e pedagogoMISSIONÁRIOS para o Século XXIJoão Guedes45 MISSIONÁRIOS para o Século XXIPadreÁureo Castro receberia a ordenação na Sé Catedral de Macau numa cerimónia presidida pelo bispo D. João de Deus Ramalho (11) no dia 8 de Setembro de 1943, em plena Guerra do Pacífico num momento em que a colónia portuguesa da China sofria duramente os seus efeitos.(11) Dom João de Deus Ramalho nascido na Freguesia de S. Vicente da Beira, Castelo Branco, 8 de Janeiro de 1890. Morreu a 26 de Fevereiro de 1958. Foi um sacerdote católico e Bispo de Macau de 1942 a 1953. Foi Bispo Emérito de Macau entre 1953 e 26 de Fevereiro de 1958, ano em que faleceu em Vale Paraíso, Vila Nova de Gaia. Em 1904, concluída a instrução básica na sua terra natal, foi para Guimarães continuar os estudos na Escola Apostólica da Companhia de Jesus. Em 1906, ingressou nesta ordem religiosa, no Colégio do Barro. Em 1910, foi preso em Caxias com outros religiosos. Em Novembro de 1910 embarcou para Gibraltar; a seguir, foi para Exaten, nos Países Baixos, onde em 1911 estudou retórica; em fins desse ano, partiu para a ilha de Jersey onde estudou filosofia durante três anos, interrompidos por um ano que teve de passar em Paris, no Hospital Irmãos Hospitaleiros de S. João de Deus. Nesse ano, com o consentimento dos médicos praticou nesse hospital a enfermagem, que mais tarde lhe veio a ser de grande utilidade na sua vida missionária. De Paris partiu para Davos, na Suíça onde esteve de 1914 a 1915 e onde o colheu a I Grande Guerra Mundial. Em princípios de 1915 foi para Bolengo, Itália, onde leccionou, durante esse ano, no Colégio Francês dos Jesuítas. De Bolengo partiu para Genebra, onde em 1916 iniciou um curso de enfermagem fisiológico e patológico; a teoria, aprendida ali durante um ano apetrecharam-no para a clínica que manteve na missão de Shiu-hing na China. De Genebra foi a Turim consultar Sé Catedral, Macau. Sé Catedral, Macau, cerca 1910.
  • 46Pe. Áureo Nunes e Castro Missionário, músico e pedagogoMISSIONÁRIOS para o Século XXIJoão Guedes47 MISSIONÁRIOS para o Século XXIDesde 1937, que o afluxo de refugiados a Macau motivado pelo avanço das tropas japonesas que vão ocupando os principais portos da costa da China, faz aumentar exponencialmente a população. No entanto será a partir de 1941, com a ocupação de Cantão e de Hong Kong, esta no Natal desse ano que a situação se torna crítica. A população que anteriormente rondava as duzentas mil pessoas aumenta para mais de meio milhão. A acrescentar a isto as forças japonesas estabelecem um bloqueio a Macau restringindo a circulação de bens e o abastecimento de víveres.Apesar de tudo isso, porém, é necessário evitar a perda do moral da população, pelo que se sucedem as festas, os saraus musicais e o número de bandas de sopros e grupos de jazz, bem como os grupos de teatro aumentam, tudo isso incentivado pelas entidades oficiais incluindo a Igreja Católica. um especialista, o qual lhe disse que para se curar seria mister extrair-lhe todo o sistema ganglionar da cabeça. Desistindo da operação, dirigiu-se à Gruta de Lurdes e, após três dias passados junto de Nossa Senhora, saiu dali inteiramente curado. De 1918 a 1921, estudou teologia em Ona, Espanha. Ali recebeu o subdiaconado, diaconado e o presbiterado e celebrou a sua primeira missa, na capela particular de Ona. Em 14 de Dezembro de 1923 embarcou em Marselha para a China, chegando a Hong Kong em 17 de Janeiro de 1924 e a Shiu-hing em 22 do mesmo mês. Em 1926, depois do estudo do chinês, foi colocado no distrito de Shiu-hing, onde entrou a 22 de Dezembro e ali permaneceu até à sua elevação ao episcopado. Em Janeiro de 1925, fundou a revista mensal, Ecos da Missão de Shiu-hing. (WIKIPÉDIA a enciclopédia livre).“Apesar de todas as dificuldades a vida cultural não morre, antes se transfigura. Correm então os anos 40 quando aparecem os concertos com fins caritativos, de orquestras filipinas aqui refugiadas...”. (12)(12) Isabel Machado in Revista Macau nº 62 Janeiro 93. A Belle Époque da Vida Cultural em Macau.Banda de Jazz de Macau-RN, 1940, E. Valle.
  • 48Pe. Áureo Nunes e Castro Missionário, músico e pedagogoMISSIONÁRIOS para o Século XXIJoão Guedes49 MISSIONÁRIOS para o Século XXIÁureo Castro é então nomeado capelão da Sé Catedral com a obrigação de coadjuvar o reverendo cura em Outubro de 1944.No mesmo mês do ano seguinte é nomeado assistente eclesiástico da Juventude Independente Católica Masculina organização de apoio ao Estado (13) D. José da Costa Nunes (1880-1976) um cardeal no Oriente, Susana Goulart Costa.Novo. Esta entrada na política parece dever-se à grande influência intelectual que sobre si tinha seu tio, o Cardeal D. José da Costa Nunes.D. José tinha sido um combatente contra a laicidade da primeira república e a separação da Igreja e do Estado, pelo menos no que dizia respeito ao ultramar português. Tinha assistido ao fim da monarquia e à instabilidade da república e por isso “ a política e a firmeza ideológica do Estado Novo pareciam-lhe uma lufada de ar fresco, capaz de recuperar a glória nacional que, mais que uma possibilidade, para ele se afigurava uma necessidade. Advoga a competência financeira do ministro português, a sua habilidade política e o seu investimento nas áreas da cultura, sociedade e educação nacionais. A apologia de Salazar é pois óbvia, viu ruínas, sangue, incêndios e sem sair do seu gabinete delineou após longo estudo e meditação as directrizes de um novo estado de coisas, que hábeis colaboradores vão pondo em execução, sob as vistas sempre atentas do chefe” (13).Áureo Castro, aliás como os mais destacados sacerdotes da Igreja de Macau fariam por isso a sua adesão ao Estado Novo através da União Nacional, devido muito mais à palavra persuasiva de D. José da Costa Nunes do que ao discurso regenerador dos militares do 28 de Maio de 1926.Festa de Bodas de Prata sacerdotais, 1973.
  • 50Pe. Áureo Nunes e Castro Missionário, músico e pedagogoMISSIONÁRIOS para o Século XXIJoão Guedes51 MISSIONÁRIOS para o Século XXIEsta sua faceta política, raramente aludida nas notas biográficas que ao longo da sua vida sobre ele foram sendo feitas, leva-o naturalmente a colaborar nas páginas de “O Clarim” órgão da igreja católica que Cardeal Costa Nunes visita Macau.à data assume um relevo incontestavelmente superior ao que possui nos dias de hoje, tanto mais que, até finais da década de 70 do século passado, a imprensa local podia considerar-se em grande medida projecto amador.Áureo Castro na sua faceta de jornalista chegaria mesmo a ocupar interinamente a direcção de “O Clarim” que sobraçou durante cinco meses (19-11-48 a 2 -4-1949). Todavia a sua incursão pelo jornalismo foi claramente ditada pelo dever já que nada o atraía nessa área. A música era, definitivamente, o instrumento do seu apostolado.Festa de Aniversário, 1985.
  • João Guedes53 MISSIONÁRIOS para o Século XXIO Conservatório NacionalSe a década de 40, apesar da guerra, ou talvez, devido a ela se caracterizou pela animação, ainda que nos limites do amadorismo que largamente dominava a vida cultural local, essa animação baixaria de ritmo logo no final do conflito com o regresso aos seus locais de origem, dos refugiados que na sua maioria eram quem mantinha viva a chama cultural e artística de Macau nos seus vários aspectos.Depois disso tudo foi definhando até à década de 50 o que levava mesmo o escritor Henrique de Senna Fernandes a afirmar que a vida cultural macaense morreu nos anos 50.O panorama poderia não ser tão drástico como Senna Fernandes declara, mas a situação cultural estava longe do razoável, sentindo-se particularmente na área musical com o desfazer das numerosas bandas e orquestras, coros e grupos corais que tinham caracterizado os anos 30 e 40 de Macau.Perante a situação, a diocese entendeu que havia que elevar o nível nesse campo, mas desta vez não
  • 54Pe. Áureo Nunes e Castro Missionário, músico e pedagogoMISSIONÁRIOS para o Século XXIJoão Guedes55 MISSIONÁRIOS para o Século XXIrecorreu a qualquer músico italiano credenciado como antes sempre tinha acontecido. Agora, o bispo D. João Ramalho decidia enviar alguém prometedor para procurar o reconhecimento de habilitações docentes na área da música que o Conservatório Nacional de Lisboa conferia e o escolhido foi, naturalmente, o Pe. Áureo Castro.Em Julho de 1951, o Pe. Áureo Castro submete-se a exames de admissão ao Curso Geral do Conservatório Nacional de Lisboa passando com altas notas, isto apesar de todos os receios que expressava quanto à possibilidade de não se encontrar bem preparado para o efeito. Em entrevista concedida ao Maestro Veiga Jardim conta que enquanto nas disciplinas de harmonia e composição tinha tido dois bons professores (Wilhelm Schmid e André Ngan) relativamente à história da música não tinha tido qualquer professor, pelo que comprou na ocasião um livro de história da música e outro de história universal a fim de se situar.“Fui lendo alguma coisita. Chegou a data do exame e veio a primeira pergunta: O que nos pode dizer sobre a música antiga oriental? Bem fui vender pescado sobre aquilo que sabia sobre o Japão, a música chinesa e não me lembro quanto pescado mais é que vendi (risos). Estava uma pilha de nervos”.Sucederam-se várias outras perguntas até que “me mandaram embora da sala que estava cheia de gente e eu a transpirar. Uma senhora saiu atrás de mim e deu-me os parabéns. Parabéns porquê, até me mandaram embora. Não! esteve mais de meia hora a falar, retorquiu ela. Eu não tinha dado por nada porque estava convencido que tinha reprovado. Afinal tinha passado com 17 valores.”
  • 56Pe. Áureo Nunes e Castro Missionário, músico e pedagogoMISSIONÁRIOS para o Século XXIJoão Guedes57 MISSIONÁRIOS para o Século XXIConcluiu a licenciatura na classe de Croner de Vasconcelos (14), exímio pianista e excelente pedagogo por quem o Pe. Áureo Castro ficou sempre a nutrir a maior admiração mantendo sempre o retrato desse grande vulto da música na sua mesa de trabalho, até ao fim da vida.Durante a sua estada em Lisboa procurou também complementar a sua formação académica com a prática coral ingressando no Coro do Centro Universitário da Mocidade Portuguesa dirigido pelo maestro Sampaio Ribeiro que viria a coadjuvar. Sampaio Ribeiro, estrénuo defensor do património musical português, passaria a ser também para si outra influência presente.(14) Jorge Croner de Vasconcelos (1910 – Lisboa, 1974). Foi um compositor neoclássico português. Jorge Croner de Vasconcelos constituiu com Fernando Lopes Graça, Armando José Fernandes e Pedro do Pardo um grupo de jovens e alunos do Conservatório Nacional de Lisboa conhecido como o “Grupo dos Quatro”, que influenciou a música neoclássica portuguesa na década de 1930. (Wikipédia a enciclopédia livre).O que leva o Pe Áureo Castro a Lisboa e a submeter-se aos exames no Conservatório é apenas o reconhecimento de habilitações para o ensino da música em Macau, já que o seminário apenas lhe permitia ensinar nas escolas do ensino oficial as disciplinas de religião e moral, português e filosofia. Sendo assim, cumprida a missão com louvor, preparava-se para regressar a Macau, quando o professor Ivo Cruz, Reitor do Conservatório lhe propôs que concluísse o Curso Superior de Composição.A ideia do professor era a de abrir uma escola de música em Macau ligada ao Conservatório. No entanto o seu plano esbarrava com a recusa das pessoas qualificadas para o efeito que não demonstravam qualquer interesse em viajar para tão longe, tanto mais que os incentivos económicos ao tempo estavam muito longe de ser atractivos. Por isso, o Pe. Áureo era a pessoa ideal capaz de viabilizar o projecto. Obtida a autorização do bispo de Macau D. João Ramalho, para o efeito acabaria por já não regressar a Macau, no fim dos seis meses de licença graciosa, como estava previsto ingressando, antes, no curso de Composição e Instrumentação do Conservatório Nacional que finalizaria com 17 valores.Concluiria o curso poucas semanas depois de ter apresentado o seu Te Deum para quatro vozes mistas e órgão na Igreja de S. João de Deus em Lisboa.
  • 58Pe. Áureo Nunes e Castro Missionário, músico e pedagogoMISSIONÁRIOS para o Século XXIJoão Guedes59 MISSIONÁRIOS para o Século XXIRegresso a MacauÁureo Castro regressa a Macau em 1958, com o objectivo de criar a escola de música prometida a Ivo Carneiro, mas a sua criação tardou, constituindo antes disso o Grupo Coral Polifónico em 1960.O Grupo Coral Polifónico nasceu de uma sugestão de uma aluna de Áureo Castro que o desafiou a ressuscitar o desaparecido Orfeão Macaense. A sugestão foi particularmente bem acolhida tendo em conta que lhe daria ensejo de pôr em prática todos os conhecimentos que tinha adquirido ao longo do seu trabalho com o maestro Sampaio Ribeiro que considerava um “mestre absoluto em polifonia”. Por outro lado permitia-lhe dar a conhecer a Macau a polifonia portuguesa que considerava muito boa mas desconhecida.“A ideia que se fazia em Macau da música portuguesa era só o fado e a canção popular. A polifonia portuguesa, contra o que muitos portugueses pensam não é em nada inferior à estrangeira e tem ainda a
  • 60Pe. Áureo Nunes e Castro Missionário, músico e pedagogoMISSIONÁRIOS para o Século XXIJoão Guedes61 MISSIONÁRIOS para o Século XXIAluno de canto em audição escolar, princípios década 60.Saber como ensinar é também uma forma de arte.
  • 62Pe. Áureo Nunes e Castro Missionário, músico e pedagogoMISSIONÁRIOS para o Século XXIJoão Guedes63 MISSIONÁRIOS para o Século XXIPágina de Macau - Boletim de Informação e Turismo - Agosto 1968.Página de Macau - Boletim de Informação e Turismo - Agosto 1968.
  • 64Pe. Áureo Nunes e Castro Missionário, músico e pedagogoMISSIONÁRIOS para o Século XXIJoão Guedes65 MISSIONÁRIOS para o Século XXIparticularidade de possuir uma espécie de saudosismo. Até na Península Ibérica a música portuguesa é muito diferente da espanhola.Os compositores portugueses talvez por estarmos num país mais de poetas que de pensadores, nunca se dedicaram às grandes formas musicais, mas as suas peças são autênticas pérolas. Como dizia o professor Vasconcelos (Croner) “a literatura mais rica de toda a História de Portugal é a literatura musical sobretudo dos séculos XVII e XVIII”.Além de dar a conhecer a música polifónica na China, Áureo Castro sabia bem o campo em que se movia em Macau exprimindo o conceito que sempre o norteou, de ensinar música a duas comunidades onde reinavam noções bem diferentes em diversos aspectos e nomeadamente na música sublinhando os defeitos da pedagogia ocidental nessa área: - “os portugueses sentem-se inferiorizados porque não lêem música, cantam de ouvido e os chineses lêem. O mal é das nossas escolas. Já quando eu era professor de canto coral no liceu, mantinha a opinião que não se podia chamar à disciplina de música canto coral mas sim educação musical. Aquela história de só chamar os jovens para uma aula a cantarolar maça-os e eles saem do liceu quase que odiando música. Nas escolas chinesas aprendem a ler, segundo um método muito prático, do dó móvel, em que toda a escala começa sempre em dó. O nosso sistema embora tecnicamente mais perfeito não é tão bom. Dá-me muito prazer trabalhar com os alunos chineses pelo seu espírito de equipa e determinação na execução dos trabalhos”(15).(15) Entrevista concedida pelo Pe. Áureo Castro à Revista Sábado, do Gabinete de Comunicação Social do Governo de Macau, de 21 de Maio de 1983 sobre o Grupo Coral Polifónico que faria nas comemorações do dia 10 de Junho desse ano uma das suas últimas aparições em público. Concerto do G.C.P. no Liceu.
  • 66Pe. Áureo Nunes e Castro Missionário, músico e pedagogoMISSIONÁRIOS para o Século XXIJoão Guedes67 MISSIONÁRIOS para o Século XXIO primeiro concerto do Grupo Coral Polifónico foi realizado no Colégio D. Bosco e o segundo no Liceu Infante D. Henrique.A empresa acabaria por ser um sucesso. Isto apesar de todas a contrariedades que começavam pelos próprios elementos do coro, todos amadores, que devido ao facto de terem os seus afazeres profissionais não primavam na generalidade pela assiduidade, dificultando um trabalho regular de ensaios e espectáculos.Mesmo assim o coro encantou plateias durante três décadas extinguindo-se em finais da década de 80 do século passado. Ao longo dessas três décadas as suas actuações mereceram os maiores encómios, o que levou a que o coro fosse notado em Hong Kong onde actuou por ocasião das comemorações henriquinas que ali tiveram lugar pouco depois de ter sido fundado.A actuação do Coro Polifónico foi bem acolhida pela crítica que se fez eco do seu nível musical com grande relevo através das páginas do jornal “South China Morning Post”.Uma das últimas aparições do Grupo Coral Polifónico decorreu por ocasião das comemorações do dia 10 de Junho de 1983 em que foram interpretados temas de compositores portugueses nomeadamente Carlos Seixas com arranjos do compositor britânico Stuart Bonner.Mas a criação da Academia de Música, que tinha sido a razão principal da frequência do Curso do Conservatório de Lisboa, era de facto a grande prioridade de Áureo Castro, que apenas fez no arranque desse projecto uma pausa inicial a fim de se adaptar ao panorama musical que se vivia em Macau e avaliar possibilidades de pôr em execução o acordo firmado entre o professor Ivo Cruz e o bispo D. João Ramalho.Concerto do G.C.P. , 1962.
  • 68Pe. Áureo Nunes e Castro Missionário, músico e pedagogoMISSIONÁRIOS para o Século XXIJoão Guedes69 MISSIONÁRIOS para o Século XXIq Governador Jaime Silvério Marques assiste concerto do G.C.P.q Coro americano visita G.C.P. u G.C.P., depois da audição de 6.6.1966.u G.C.P., depois de um concerto, cerca 1960.
  • 70Pe. Áureo Nunes e Castro Missionário, músico e pedagogoMISSIONÁRIOS para o Século XXIJoão Guedes71 MISSIONÁRIOS para o Século XXIt Grupo Coral Polifónico em meados dos 60.t G.C.P. e os visitantes – meados década 60.p Verão 1965.q Natal 1964.
  • 72Pe. Áureo Nunes e Castro Missionário, músico e pedagogoMISSIONÁRIOS para o Século XXIJoão Guedes73 MISSIONÁRIOS para o Século XXIMeados dos 60.
  • 74Pe. Áureo Nunes e Castro Missionário, músico e pedagogoMISSIONÁRIOS para o Século XXIJoão Guedes75 MISSIONÁRIOS para o Século XXI(16) Entrevista concedida pelo Pe. Áureo Castro ao Maestro Veiga Jardim in Áureo Castro retrato de um músico, Margaret Lynn, Graça Marques. Diocese de Macau, Academia S. Pio X.Grande cujas instalações integravam o que inicialmente foi designado como Centro do Grupo Coral Polifónico, os Serviços Diocesanos de Assistência Social do Pe. Lancelote Rodrigues e ainda a Biblioteca D. Policarpo da Costa Vaz, para além do Clube Católico.Para além de ter disponibilizado uma sede a Diocese de Macau pouco apoio financeiro ofereceu, tendo sido os amigos e admiradores de Áureo Castro que se congregaram para o ajudar nos primeiros passos da sua empresa.A ocasião acabaria por surgir no momento em que soube que o professor António Freire Garcia, organista e violinista de renome muito ligado ao canto gregoriano, viria para Macau a fim de ocupar uma vaga como professor do liceu Infante D. Henrique. “Sem mais demora escrevi-lhe a explicar a situação e assim, juntamente com o Pe. César Brianza, abrimos a Academia em 1962” (16).De facto tratou-se apenas de dotar a instituição de recursos humanos necessários, tendo em conta que a sua sede já existia desde o ano anterior com a construção do chamado Centro Católico na rua da Praia Centro Católico na Rua da Praia Grande, 1988.Corpos docente e discente nos princípios dos 60.
  • 76Pe. Áureo Nunes e Castro Missionário, músico e pedagogoMISSIONÁRIOS para o Século XXIJoão Guedes77 MISSIONÁRIOS para o Século XXINeste âmbito desempenhou papel importante o Pe. Lancelote Rodrigues que através da sua vasta rede de contactos locais e internacionais procurou todos os apoios possíveis que permitiram não só a construção do Centro Católico, como várias fontes de subsídios que garantissem a sobrevivência da instituição.Assim a “Academia de Música S. Pio X”, (designação escolhida pelo seu iniciador em honra do Papa que tanto fez pela música sacra coral e polifónica) passaria a ser a primeira entidade a proporcionar um ensino musical sistemático à juventude de Macau.Na página anterior, Padre Lancelote Rodrigues.O fundador da Academia – Padre Áureo – com o Padre Lancelote Rodrigues, nomeado pela Diocese de Macau como o seu director para liderar o destino da instituição.
  • 78Pe. Áureo Nunes e Castro Missionário, músico e pedagogoMISSIONÁRIOS para o Século XXIJoão Guedes79 MISSIONÁRIOS para o Século XXIAo longo de mais de 50 anos, milhares de jovens receberam formação na Academia, e muitos prosseguiram estudos musicais em Portugal, China, Austrália, EUA e Canadá. Alguns regressaram a Macau, contribuindo para a elevação do nível do ensino musical local.A obra que adoptou desde o início, os programas das “Royal Schools of Music” de Londres, currículo considerado como o mais adequado para permitir o acesso dos seus formandos à maioria das escolas superiores de música, começou com 48 alunos e quatro professores: - Pe Áureo Castro, Pe. César Brianza, António Freire Garcia e a mulher deste Maria de Lourdes Barrilaro Ruas.A Academia acabaria por se firmar financeiramente, a partir de 1963, data em que o governo de Macau e a STDM de Stanley Ho começaram a conceder apoios regulares à instituição.Mas a Academia, para além de conter em si o Grupo Coral Polifónico e o Grupo de Pequenos Cantores, este fundado pelo Pe. César Brianza, acabaria por se constituir como o embrião do que mais tarde seria a Orquestra de Câmara de Macau e em última análise a Orquestra Sinfónica de Macau que hoje existe, já não no âmbito da Academia, mas sim do Instituto Cultural.Na página anterior, Padre César Brianza.Grupo de Pequeno Cantores fundado pelo Padre César Brianza.
  • 80Pe. Áureo Nunes e Castro Missionário, músico e pedagogoMISSIONÁRIOS para o Século XXIJoão Guedes81 MISSIONÁRIOS para o Século XXIq Audição na Escola Comercial Pedro Nolasco, 1971.q Alunas graduadas. Cerca 1970.u Jornal Notícias de Macau, 1968.u Macau – Boletim de Informação e Turismo – Agosto 1968. Grupo Coral Polifónico em meados dos 60.
  • 82Pe. Áureo Nunes e Castro Missionário, músico e pedagogoMISSIONÁRIOS para o Século XXIJoão Guedes83 MISSIONÁRIOS para o Século XXIt Ballet. Artigo sobre Recital de Canto e Pianot Jornal “Clarim”, 1977.q Audição, cerca 1970.
  • 84Pe. Áureo Nunes e Castro Missionário, músico e pedagogoMISSIONÁRIOS para o Século XXIJoão Guedes85 MISSIONÁRIOS para o Século XXIJornal “ Notícias de Macau”, 1972.Programa
  • 86Pe. Áureo Nunes e Castro Missionário, músico e pedagogoMISSIONÁRIOS para o Século XXIJoão Guedes87 MISSIONÁRIOS para o Século XXIt Governador Garcia Leandro visita Academia, cerca 1970.q Audição Escolar, cerca 1970.u Boletim, 1977.
  • 88Pe. Áureo Nunes e Castro Missionário, músico e pedagogoMISSIONÁRIOS para o Século XXIJoão Guedes89 MISSIONÁRIOS para o Século XXIRevista Sábado, 21-5-1983.Revista Sábado, 21-5-1983.
  • 90Pe. Áureo Nunes e Castro Missionário, músico e pedagogoMISSIONÁRIOS para o Século XXIJoão Guedes91 MISSIONÁRIOS para o Século XXIt Livro “Academia de Música S. Pio X, 40º Aniversário, 1962 – 2002.q Jornal “Clarim”, 1.8.2008.
  • 92Pe. Áureo Nunes e Castro Missionário, músico e pedagogoMISSIONÁRIOS para o Século XXIJoão Guedes93 MISSIONÁRIOS para o Século XXI“Academia de Música S. Pio X, 45º Aniversário da Academia de Música, S. Pio X, 1962 — 2007.
  • 94Pe. Áureo Nunes e Castro Missionário, músico e pedagogoMISSIONÁRIOS para o Século XXIJoão Guedes95 MISSIONÁRIOS para o Século XXIO Músico e o pedagogoA sua presença física contrastava em absoluto com a sua sensibilidade musical, a sua bondade e senso de humor.Alto, de porte atlético e cabelo hirsuto sobre a testa estreita dominava por si só um coro, ou uma orquestra.O seu ouvido apurado não deixava passar o menor deslize. “Quando o coro não correspondia, enfurecia-se atirando com os óculos em desespero, mas quando atendíamos os seus requisitos comovia-se e gesticulava alegremente,” lembra Iao Ng que integrou o Coro Polifónico.A sua impulsividade notada nos ensaios de coros e orquestras era no entanto particularmente sentida na docência e principalmente nas aulas que ministrava no ensino secundário. Ás vezes quando inquiria a turma sobre um qualquer assunto que tinha explicado e não vinha resposta pronta não era raro voar um livro pela sala fora.
  • 96Pe. Áureo Nunes e Castro Missionário, músico e pedagogoMISSIONÁRIOS para o Século XXIJoão Guedes97 MISSIONÁRIOS para o Século XXINas aulas de latim, ou de moral que ministrava a par da música, era bem mais paciente para com os seus alunos e curiosamente o mesmo se passava com os seus alunos da Academia. Provavelmente, porque se encontravam já noutro patamar de ensino absorvendo com muito mais facilidade e rapidez os ensinamentos do mestre.“O Pe. Áureo era impulsivo e como era exigente consigo mesmo exigia aos outros. Muitas vezes não compreendia que nem todos tinham os dotes dele,” lembra Eduardo Tavares que foi seu aluno no seminário.“Numa ocasião um estudante observou que a música de Bach era difícil. Ele acto contínuo levantou-se, dirigiu-se para o piano e começou a improvisar ao estilo de Bach para demonstrar quão simples podia ser aquele estilo de música”.As improvisações de Áureo de Castro decorriam do seu espírito impulsivo que o fazia reagir emocionalmente a uma conversa, numa aula, ou apenas porque o ambiente o predispunha, como lembra o compositor Richard Gamlen que entretinha longas conversas com ele no seu pequeno gabinete do Centro Católico, que lhe parecia sempre demasiado acanhado para conter a secretária, o piano e as estantes com livros.“Ali passávamos horas muito agradáveis com os nossos cachimbos, um ou dois copos de “chá da Escócia” discutindo música (naturalmente), política internacional e tantos outros assuntos. Por vezes o Pe. Áureo dirigia-se para o piano e começava a tocar peças da sua lavra marcadamente românticas. Tinha boa técnica adquirida primeiro no Seminário e mais tarde no Conservatório, sob a orientação de diversos professores.Estou a vê-lo, em camisa de algodão e suspensórios, levado pelas suas mãos vigorosas não sei em que voos de imaginação – era na verdade uma visão inspiradora”.“O Pe. Áureo era introvertido e a certa altura da Padre Áureo no seu gabinete com dois colaboradores, Sra. Mak Ip Wa e Sr. Jaime Tchang.
  • 98Pe. Áureo Nunes e Castro Missionário, músico e pedagogoMISSIONÁRIOS para o Século XXIJoão Guedes99 MISSIONÁRIOS para o Século XXIvida passou a recolher-se muito nas suas coisas. Era o contrário do Pe. Lancelote que se as pessoas não iam ter com ele, ia ter com as pessoas”.Mas apesar dessa sua faceta não tinha dificuldades em fazer amigos e talvez essa característica do seu carácter o tenha ajudado no trabalho solitário que é o de compor. O Áureo Castro, diz o maestro Simão Barreto que foi seu aluno, só não foi um grande compositor porque escreveu pouco.Aliás para além dos seus trabalhos na área da polifonia coral, cantatas, sonatas e do seu Te Deum, este “um exemplo de música moderna para uso litúrgico” como sublinha o maestro Veiga Jardim, as suas composições reflectem uma singular fusão de Padre Áureo com maestro Simão Barreto (ao centro).Jornal “Clarim”, 2003.
  • 100Pe. Áureo Nunes e Castro Missionário, músico e pedagogoMISSIONÁRIOS para o Século XXIJoão Guedes101 MISSIONÁRIOS para o Século XXIJornal “Clarim”, 2013.Jornal “Clarim”, 2013.
  • 102Pe. Áureo Nunes e Castro Missionário, músico e pedagogoMISSIONÁRIOS para o Século XXIJoão Guedes103 MISSIONÁRIOS para o Século XXIde vida, a doença foi-se apoderando lentamente do seu corpo, impedindo-o de se mover e de continuar a escrever a música que era a razão de ser da sua vida.Áureo da Costa Nunes e Castro morre em Macau no dia 21 de Janeiro de 1993 e com ele se encerrou definitivamente um ciclo da cultura do Território de que foi iniludível protagonista, marcando definitivamente uma época.A cultura em geral e a música erudita em particular muito lhe devem e o estado reconheceu o seu papel atribuindo-lhe a Medalha de Mérito Cultural, condecoração que imporia também à sua Academia S. Pio X de que foi a alma inspiradora e a trave mestra.João Guedes18 de Agosto de 2015 novas correntes da música contemporânea europeia dos primórdios do século XX e de elementos da música tradicional chinesa, como observa a professora Cecília I – Ian Long.Neste campo apresenta-se como um precursor capaz de introduzir um elemento novo de fusão entre o Ocidente e o Oriente na música clássica.Depois de ter submetido algumas obras, entre as quais, as suas Danças de Siu Mui Mui ao seu professor de composição e amigo Croner de Vasconcelos, recebeu dele a seguinte resposta:- “Li com muito prazer as suas obras, primeiro em casa, depois na aula para alguns alunos. Não sei se com razão, parece que as preferências foram para as Danças de Siu Mui Mui.Quanto à sua musicalidade, ela nunca se desmente; quanto ao chinesismo, para nós engraçado não faço ideia alguma da sua autenticidade nem sei se importa verdadeiramente, visto que cria uma cor agradável que parece pessoal (...) creia que me deu profundo prazer esta “prova testemunhal” de que continua a escrever e de que as suas actividades pedagógicas não impedem as do compositor, como, infelizmente é tão fácil acontecer.Se me permite ainda um conselho, não pare, reserve uns minutos diários para a composição”.Áureo Castro não parou mas, nos últimos tempos
  • 104Pe. Áureo Nunes e Castro Missionário, músico e pedagogoMISSIONÁRIOS para o Século XXIJoão Guedes105 MISSIONÁRIOS para o Século XXIBIBLIOGRAFIA CONSULTADA- Cardeal Costa Nunes. Crónicas, Volume VIII. Fundação Macau, 1999.- John Pownall Reeves. The Lone Flag. Memoir of the British Consul in Macau during World War II. Hong Kong University Press, 2014.- Margaret Lynn, Graça Marques. Áureo Castro, retrato de um músico. Diocese de Macau, Academia de Música S. Pio X, 2015.- Maria Guiomar Lima. Nascido para vencer. Livros do Oriente 2015.- Pe. Manuel Teixeira. Missionários de Freixo de Espada à Cinta. Câmara Municipal de Freixo de Espada à Cinta, 1993.- Pe. Manuel Teixeira. A Educação em Macau. Direcção dos Serviços de Educação e Cultura, 1982.- Susana Goulart Costa. D. José da Costa Nunes (1880-1976) um cardeal no Oriente.Jornais, revistas e publicações on-line• Boletim de Informação e Turismo de Macau, Janeiro-Fevereiro de 1977• Jornal O Clarim• Jornal Notícias de Macau, 20-5-1972.• Jornal Tribuna de Macau• Revista Macau• Revista Sábado, 21-5-1983, Gabinete de Comunica-ção Social.• Wikipédia, a enciclopédia livre.Contribuições• Sr. Jaime Tchang, Secretário da Academia de Música S. Pio X• Sr. Eduardo Tavares• Maestro Simão Barreto
  • 106Pe. Áureo Nunes e Castro Missionário, músico e pedagogoMISSIONÁRIOS para o Século XXIJoão Guedes107 MISSIONÁRIOS para o Século XXI
  • 108Pe. Áureo Nunes e Castro Missionário, músico e pedagogoMISSIONÁRIOS para o Século XXI
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