• José Valle de FigueiredoUm Apostólo do OrienteAproximação à Vida e Obra doCardeal Costa NuNes
  • TítuloUm Apostólo do Oriente Aproximação à Vida e Obra do Cardeal Costa NunesAutorJosé Valle de FigueiredoEditorInstituto Internacional de MacauColecção“Missionários para o Século XXI” Volume VIICoordenação editorialRufino RamosDirecção GráficaVictor Hugo DesignImpressão e EncadernaçãoTipografia WelfareTiragem500 exemplaresApoioFundação MacauMacau, Março de 2013ISBN 978-99937-45-66-2
  • José Valle de FigueiredoUm Apostólo do OrienteAproximação à Vida e Obra doCARDeAl COSTA NUNeS
  • José Valle de FigueiredoUm Apostólo do OrienteAproximação à Vida e Obra doCARDeAl COSTA NUNeS
  • 06Um Apostólo do Oriente Aproximação à Vida e Obra do Cardeal Costa NunesMIssIOnárIOs para o Século XXIEsta ColecçãoMissionários para o século XXINão podem cabalmente explicar-se a identidade de Macau e o factor cultural que foi sua moção no decurso da História sem considerar a Diocese de Macau, os seus obreiros e legiões de servidores. Considerar, isto é, em adunação ao sidério, ou com o céu (cum + siderio), que foi o que desde os primórdios do porto macaense atraiu os inacianos encandescidos de fervores apostólicos e “acomodados” ao Outro – o que para sempre eternizou Macau como anfiteatro da compenetração cultural europa/China, uma das grandes vias de realização da unidade ou arquitectação da ecúmena fraterna dos homens.
  • José Valle de Figueiredo07 MIssIOnárIOs para o Século XXI Padres, missionários, mártires, letrados: servidores do Outro, tornado próximo, pelas obras de misericórdia, e no seu carácter e espírito compreendido pela cultura. De 1557 (Bula do Papa Paulo IV que missionava Macau como sede da expansão religiosa no extremo Oriente) até hoje, em dádiva total aos mais necessitados (desamparados, pobres, doentes, abandonados, a todas as criaturas assombradas pelo espírito do mal), ou na docência, na investigação e no estudo da língua, da História, dos arcanos civilizacionais.Foi o Século passado constelado por uma geração de ouro, de tantas figuras excepcionais em Macau radicadas, grandes nas obras, como no quase anonimato de uma humildade que é expressão de um verdadeiro sentido ancilar da vida e do destino.Não podemos deixá-los no desconhecimento e no esquecimento das gerações actuais e vindouras. É este imperativo que nos motivou à concepção de mais uma colecção no nosso acervo editorial – “Missionários para o Século XXI”.Os editores
  • 08Um Apostólo do Oriente Aproximação à Vida e Obra do Cardeal Costa NunesMIssIOnárIOs para o Século XXI
  • José Valle de Figueiredo09 MIssIOnárIOs para o Século XXI Índice11 Aproximação à Vida e Obra do Cardeal Costa Nunes33 Chikom, 13 – X-3238 A Diocese em Coro59 Testamento espiritual do Cardeal D. José da Costa Nunes65 Apóstolo do Oriente
  • 10MIssIOnárIOs para o Século XXIUm Apostólo do Oriente Aproximação à Vida e Obra do Cardeal Costa NunesD. José vestido de mandarim com o Revdo Dr. António José Gomes, em Macau.
  • 11 MIssIOnárIOs para o Século XXIJosé Valle de FigueiredoAPrOXIMAÇÃO À VIDA E OBrA DO CArDEAL COsTA nUnEs“Passando ao Padre Nunes, exercia este, depois do falecimento do bispo da diocese, as funções de vigário geral do bispado. era homem de alto nível intelectual e moral; açoriano da ilha do Pico, tinha uma bela figura e nobre presença; emoldurava-lhe a face de feições muito correctas, uma barba negra bem tratada. Tinha uma voz quente e persuasiva; era muito claro e lúcido na exposição; ensinava com bondade e grande interesse”.Prossegue Joaquim Paço d´Arcos, pois é deste notável escritor português a recordação que trazemos, recolhida nas suas “Memórias da Minha Vida e do Meu Tempo” (I Vol., 1973):“As regras do jogo diplomático, estabelecidas na Concordata com a Santa Sé, assinada em 1886 no pontificado de leão XIII, davam ao Governo Português
  • 12MIssIOnárIOs para o Século XXIUm Apostólo do Oriente Aproximação à Vida e Obra do Cardeal Costa Nuneso direito de indicar os nomes dos sacerdotes que desejaria ver colocados à frente das dioceses do Padroado do Oriente. A Santa Sé tinha a última palavra. A República não aplicaria ao Padroado a lei da Separação da Igreja e do estado que estendera às colónias em 1913. Dessa forma, veio a caber a meu pai (comandante Henrique Corrêa da Silva, governador de Macau) indicar ao governo central o nome do Padre Nunes para bispo de Macau. era ele, de facto, o sacerdote mais notável de toda a diocese, pregador inspirado, conferencista cheio de interesse, e a escolha não poderia ter sido mais acertada. em 1940, o bispo de Macau foi elevado a Arcebispo de Goa e Patriarca das Índias e caber-me-ia a grata missão, como chefe dos Serviços de Imprensa do Ministério dos Negócios estrangeiros, posto que nessa altura exercia, de redigir e enviar para os jornais a nota que tornou pública a elevação do Prelado ao alto posto de que seria o penúltimo ocupante português”.O testemunho de um dos maiores romancistas portugueses contribuiu para apresentar as linhas gerais do retrato de quem foi uma das principais figuras da Igreja Portuguesa – e não só - do século XX.D. José da Costa Nunes, falecido quando ocupava um dos lugares mais elevados da própria administração
  • 13 MIssIOnárIOs para o Século XXIJosé Valle de Figueiredoda Igreja em Roma - Vice-Camarlengo - bem merece que seja recordado na sua vida e nas suas acções, e estudado no seu pensamento, o qual, como poderá concluir-se da leitura dos Obras Completas em tão boa hora editados pela Fundação Macau, abrangem desde a Teologia até aos aspectos mais candentes da Pastoral da evangelização, profundamente inculturada naquelas regiões do Mundo onde exerceu o seu múnus sacerdotal e episcopal: Ásia Oriental e Sub-Continente Indiano.Neste último aspecto, por exemplo, o Cardeal Costa Nunes, sem nunca abdicar da fidelidade às raízes , propugnou por uma abordagem extremamente avançada e moderna aos povos em que se inseriu, com equações e soluções que só muito mais tarde a própria Igreja viria a acolher.Outro grande escritor português - seu patrício, aliás - Vitorino Nemésio, assinalaria deste modo a Figura que aqui nos convoca, e fá-lo no estilo inconfundível que o tornou num dos maiores prosadores de todos os tempos:“É um missionário autêntico, é desses homens que saem da sua casa sacudindo as sandálias, e que, com um pequeno crucifixo e uma roupeta na mala, se entranham entre as gentes exóticas que vivem nos
  • 14MIssIOnárIOs para o Século XXIUm Apostólo do Oriente Aproximação à Vida e Obra do Cardeal Costa Nunesclimas ruins, acostumam-se cedo a apanhar flores entre espinhos e cobras e não se embriagam com cheiros de lisonja “(1)Nemésio, na sua saborosa prosa, evoca-nos as raízes do Pastor que ora declamamos:“este, que pode vigiar o futuro conclave, nasceu em 1880 à borda de um velho vulcão, a ilha do Pico, que por muito tempo dominou os mares não navegados, na frase de Chateaubriand ao passar ao largo dele. Vinha de gente limpa e antiga, de um lugar que se chama Candelária. Os pais criaram filhas para a emigração na América, para ensinar meninos na ilha e aquele para o sacerdócio. Mas aí por 1900, nos Açores, como em toda a parte, os rectas intenções irritavam, às vezes, a mediocridade acintosa.O jovem seminarista atrevera-se, numas férias, a pegar na viola folclórica e a dedilhar entre íntimos, inocentemente, um modilho – e tanto bastou para que o denunciassem e lhe fosse fechada a porta do semi-nário. Mas o moço tinha o apostolado no sangue, e tão sincero desgosto o tomou, que um vizinho, usan-do da sua autoridade e crédito junto do Vice-reitor, conseguiu demonstrar a inanidade e fazer revogar a medida” (2). (1) “Diário Insular”, Angra do Heroísmo, 15 – 11- 1955. (2) Idem.
  • 15 MIssIOnárIOs para o Século XXIJosé Valle de FigueiredoPela vida fora, sempre entendeu D. José da Costa Nunes que proclamar a Palavra era visibilizar a Alegria de estar com Deus e nunca se eximiu a comportamentos que não tivessem esse carácter pois, como se deduz de toda a sua obra, Cristo é Alegria, como Caminho, Verdade e Vida que é.Depressa se abrirá a porta para os voos que iriam caracterizar a sua vida e orná-la dos sinais mais eloquentes.Melhor companheiro não temos do que o já reclamado Vitorino Nemésio:“em 1903, no 3º ano de Teologia, o previdente Reitor do jovem picoense, o Dr. João Paulino de Azevedo e Castro, tesoureiro-mor da Sé de Angra, era eleito Bispo de Macau e, sem esperar por que abrissem ao moço a última tonsura, levou-o para o Oriente como secretário particular. Nesse mesmo ano, José da Costa Nunes era presbítero e missionário. No rosto já tanado e movido por uns olhos coruscantes crescera-lhe uma barba sedosa, cujo viril negrume aquele padre apenas com a idade canónica começava a anediar com circunspecção e esmero na alvura tropical da batina.Três anos depois, D. João Paulino entregava-lhe tranquilamente o governo do bispado. As missões de Malaca e Singapura, desde a Taipa e Chong-San eram-lhe familiares. Ia de visita apostólica a Timor e
  • 16MIssIOnárIOs para o Século XXIUm Apostólo do Oriente Aproximação à Vida e Obra do Cardeal Costa NunesD. José com os pais e irmãs Ana, Francisca e Isabel.
  • 17 MIssIOnárIOs para o Século XXIJosé Valle de FigueiredoSolor, conversava com prelados chineses e vigários indonésios, mas também conhecia elegantes colonos europeus, e não retirava a mão aos negociantes de pérolas e aos mil e um mortais de todas as cores e ritos que, de junco e ilha em ilha, febris de paixões e bons propósitos, prontos a sossobrar no delírio do ópio e das presas, lá iam arrastando a triste condição humana de que nos fala Malraux. Professor do Seminário e do liceu, o Padre José da Costa Nunes fez-se lentamente grande conhecedor de almas. Se as que eram dóceis e firmes à vara do pastor o interessavam, quanto mais atraentes lhe não pareciam as almas dispersas e arredias, principalmente aquelas que, na ignorância ou repulsa da novidade cristã, se mostravam valiosas na eticidade e na agudeza, como certo agnóstico em que tinha um dos seus maiores amigos, e como seus íntimos foram Wenceslau de Morais e Camilo Pessanha.em 1918, falecido D. João Paulino, o cónego Costa Nunes viu o seu cabido elegê-lo Vigário Capitular e, dois anos depois, soube-se preconizado Bispo de Macau pelo Consistório. A vocação nascera e fora rijamente provada nas ilhas; de lá o trouxera um bispo ilhéu quase como a um educando, – e D. José quis que fosse o prelado da sua diocese natal quem o sagrasse na sede do próprio arciprestado ou ouvidoria. A um mês de vista do Natal de 1921 o
  • 18MIssIOnárIOs para o Século XXIUm Apostólo do Oriente Aproximação à Vida e Obra do Cardeal Costa NunesBispo de Angra D. Manuel Damasceno da Costa, na humilde Matriz da Horta, tinha prostrado a seus pés, em sinal de humildade e obediência, aquele homem que todos, de lisboa a Roma e ao Oriente, haviam de sempre conhecer como o vivo exemplar da espinha direita e a confiança varonil.Dos seus trinta e oito anos de missionário em Macau fala essa folha de serviços necessariamente cívica que lhe valeu a Grã-Cruz do Império Colonial; fala, ainda, o curriculum vitae que a Santa Sé não deixa de levantar a nenhum dos seus ministros e que, discretamente reservado, apesar das horas de notoriedade forçada pela eficiência de ministério e de propaganda fidei, foi medido e pesado em todo o seu vulto espiritual ao vermos esse simples padre, sem láurea que não seja um singelo curso teológico, ascender a um dos mais altos e reservados postos da Igreja de Roma, que nenhum clérigo português em perto de mil anos ocupou. Mas dos trinta e oito anos do missionário de Macau e dos treze de Goa falam com uma eloquência mais viva, verdadeiro fluído do espírito Santo, de que as honras de hoje mais não são do que reflexo autêntico, as cristandades espalhadas pelo seio da Ásia meridional, onde como se vê, pode mais a clara vontade e a firme fé de um homem espiritual do que as velhas bombardas e os modernos canhões por si sós”.
  • 19 MIssIOnárIOs para o Século XXIJosé Valle de Figueiredoe a terminar:“A nós outros, que não temos nenhuma das respeitáveis inibições de situação e de cargo que nos limitariam à atitude protocolar e arqui-medida diante de um prócere nacional e príncipe da Igreja, o que nos move e comove, ao falar do Senhor D. José da Costa Nunes, é o padre exemplar, o amigo longânime, o português de têmpera e, de tanta sacralidade e honraria, poder ficar chão e indulgente como quem nasceu e é. Interessa-nos o chefe espiritual que pôde, num homem de acção chamado a altos destinos, conservar a cordura da gente da ilha do Pico, o seu espírito de modéstia, de justiça e de valentia, a sua patriarcalidade nativa, generosa e robusta: o homem dos doze quilómetros a pé pelos trilhos asiáticos e europeus, tão diários como a missa matinal, o vigilante de colégios, descobridor de vocações, tutor de meninos órfãos – e, por cima de tudo isto, homem do mundo sem o deixar de ser de Deus”(3).(3) Ibidem.
  • 20MIssIOnárIOs para o Século XXIUm Apostólo do Oriente Aproximação à Vida e Obra do Cardeal Costa NunesCidadão Benemérito de Macau fotografia no Salão Nobre do ex-leal Senado de Macau, agora IACM.
  • 21 MIssIOnárIOs para o Século XXIJosé Valle de Figueiredoem 1964, o leal Senado de Macau proclamava-o “Cidadão Benemérito de Macau”, numa cerimónia que teve a maior repercussão e culminou com descerramento do seu retrato. Da Acta que se leu esse dia 10 de Dezembro do já referido ano, apresenta-se a Proposta justificativa do galardão, redigida pelo então Presidente do leal Senado, Dr. Alberto Pacheco Jorge. Trata-se de um documento que regista quase exaustivamente o “Cursus honorum” do grande Prelado português. Não iremos transcrevê-lo na íntegra mas fixaremos os principais passos pois, só por si, são eloquentes.Depois de referir-se a esta ”Pátria de Missionários e evangelizadores, onde avultam os nomes de um Santo António de lisboa, de S. Gonçalo Garcia, de S. João de Brito, do Beato Miguel de Carvalho, do Venerável D. Gonçalo da Silveira e tantos outros mais, que constituem galeria infinda, magnífica e gloriosa”, a
  • 22MIssIOnárIOs para o Século XXIUm Apostólo do Oriente Aproximação à Vida e Obra do Cardeal Costa NunesProposta declara que “o nome deste Cardeal português da Santa Igreja tem mais que jus a enfileirar entre os primeiros e os maiores”. e acrescenta-se:“A evangelização do Oriente, desde Macau a Timor e de Timor a Índia, deve a Sua eminência os mais relevantes serviços”.Recapitulemos alguns dos passos da vida do Grande Missionário, seguindo a enumeração constante da Acta de Proclamação como Cidadão Benemérito de Macau:“D. José da Costa Nunes partiu então, para a europa, com o propósito de apresentar à Santa Sé a resignação da dignidade episcopal. Forçado, porém, a aceitá-la, veio ao seu arquipélago natal, sendo sagrado bispo, na igreja matriz da cidade da Horta, no dia 20 de Novembro de 1921.No 4 de Junho do ano seguinte, fazia a sua entrada solene na diocese, Macau, realizando uma obra do mais notável apostolado. Ainda hoje, a sua acção de grande bispo missionário é recordada com a maior admiração, nesta nossa província do Oriente, a tal ponto que, muito depois da sua retirada de Macau para ir ocupar lugares de hierarquia eclesiástica mais alta, continuou sempre a ser “o nosso bispo”. Para enumerar apenas algumas das suas obras materiais mais importantes, o Sr. D. José restaurou o Colégio de Santa Rosa de lima, confiando em 1932
  • 23 MIssIOnárIOs para o Século XXIJosé Valle de FigueiredoD. José na Gruita de Camões
  • 24MIssIOnárIOs para o Século XXIUm Apostólo do Oriente Aproximação à Vida e Obra do Cardeal Costa Nunesa direcção deste estabelecimento às Franciscanas Missionárias de Maria; inaugurou a nova e artística igreja de Santa Clara; cuidou da abertura duma escola Chinesa (P´ui – Ching) e melhorou a escola Portuguesa, ambas anexas à Casa de Beneficência; em 22 de Maio de 1938, inaugurou a Sé Catedral de Macau, restaurada; inaugurou em 13 de Outubro de 1935 a nova igreja da Penha; restaurou o Paço episcopal; o seu interesse por quanto se ligasse com matéria de instrução à juventude até se traduziu na leccionação de português em escolas laicas como fosse o liceu de Macau. Deste seu interesse e do carinho que lhe mereciam as crianças nasceu o facto de uma das escolas desta cidade, que era então uma escola municipal, vir a ser denominada “escola Infantil D. José da Costa Nunes”.Reabriu em 1923 as Casas Canossianas de Timor; espalhou por toda esta ilha uma bem montada rede de catequistas e inúmeras igrejas, a principiar pela igreja matriz de Dili, inaugurada em 3 de Outubro de 1937; fundou o seminário menor de Nossa Senhora de Fátima, de Soibada; concluiu, em Singapura, os dois modernos edifícios, Medeiros e Nunes Buildings; construiu o grandioso edifício onde se acha instalada a escola de Santo António, em Singapura; ergueu, na mesma cidade, uma boa residência e capela para as Irmãs Canossianas; mandou erigir, em Malaca, uma ampla escola; fundou, em Macau e Singapura, a Acção
  • 25 MIssIOnárIOs para o Século XXIJosé Valle de FigueiredoCatólica e as Conferências de S. Vicente de Paulo; etc.Um dia, célere correu nesta terra a notícia de que Sua eminência breve partiria destas plagas. De facto, em sucessão do Patriarca das Índias, D. Teotónio Vieira de Castro, o Sumo Pontífice Pio XII elegeu o Sr. D. José da Costa Nunes, em 11 de Dezembro de 1940, Arcebispo Metropolitano de Goa e Damão, Primaz do Oriente, Patriarca das Índias Orientais e Arcebispo titular de Cranganor. Tomou posse da sua arquidiocese em 18 de Janeiro de 1942.Durante 11 anos, D. José da Costa Nunes governou a histórica e gloriosa igreja metropolitana de Goa, realizando uma acção apostólica que encheu do maior prestígio o nome do Portugal no Oriente, rasgando à vida do Patriarcado das Índias Orientais as mais vastas perspectivas. Foi o grande impulsionador da causa de beatificação do apóstolo de Ceilão, Venerável Padre José Vaz, sacerdote goês, cuja causa de novo introduziu em Roma. O culto de S. Francisco Xavier teve também, durante o pontificado de D. José da Costa Nunes, um incremento valioso. O mesmo se pode dizer da forma como promoveu a educação e preparação do clero missionário. Tornaram-se célebres as suas Cartas à Juventude, publicadas no órgão oficial da arquidiocese.em 1953, após meio século de intensa activi-dade apostólica no Oriente Português, o Patriarca
  • 26MIssIOnárIOs para o Século XXIUm Apostólo do Oriente Aproximação à Vida e Obra do Cardeal Costa NunesD. José da Costa Nunes pediu a sua resignação. em homenagem ao grande Prelado Missionário, que incarnava perfeitamente o espírito de dilatação da Fé da nossa Pátria, o Papa Pio XII concedeu a Rosa de Ouro à cidade de Goa, em Setembro de 1953 e foi ainda nesse ano de 1953, em Fevereiro, que Sua eminência, talvez sentido-se para sempre ligado a esta terra, onde afinal tivera passado quase 43 anos da sua vida missionária, aqui voltou em romagem de saudade. e aqui foi recebido com um alvoroço como até então não havia memória.Aos 16 de Dezembro desse mesmo ano, a Santa Sé aceitou-lhe a resignação e, conservando-lhe o título pessoal de Patriarca, elegeu-o Arcebispo de Odessa e Vice-Camarlengo da Santa Sé. Passou, por isso desde então, a residir na Cidade eterna, vindo a ocupar, mais tarde, a presidência da Comissão Pontifícia para os Congressos eucarísticos Internacionais.Posteriormente, foi nomeado Consultor das Sagradas Congregações Romanas da Disciplina dos Sacramentos, da do Concílio, da dos Religiosos, da Fé, e da dos Negócios eclesiásticos extraordinários. Também é membro da Comissão Central Preparatória do Concílio ecuménico.Desde a sua chegada a Roma, o Sr. D. José da Costa Nunes fez-se rodear de tal prestígio pelo seu talento e dinâmicas qualidades de organizador, que,
  • 27 MIssIOnárIOs para o Século XXIJosé Valle de Figueiredoem todos os Consistórios, desde então efectuados, o seu nome esteve apontado para ascender à sagrada púrpura”.Colégio da Companhia de Jesus em Diu da Diocese de Goa.
  • 28MIssIOnárIOs para o Século XXIUm Apostólo do Oriente Aproximação à Vida e Obra do Cardeal Costa Nunes
  • 29 MIssIOnárIOs para o Século XXIJosé Valle de Figueiredo Foi sempre muito intensa a paixão sentida por Macau. A cada passo encontramos nos seus numerosos textos – onde avultam sempre as qualidades de um grande escritor, um grande Prosador da língua Portuguesa – referências à cidade do Santo Nome de Deus, aqui e ali pontuadas com uma descrição viva, encantada, até saborosa. Por exemplo:“Três horas de viagem e eis-me em frente da Praia Grande.Macau, a formosa cidade do Santo Nome de Deus, surge a meus olhos saudosos. Conheço-lhe todos os recantos: os seus edifícios públicos, as suas belas vivendas, os seus monumentos antigos, as suas ruas e avenidas, seus largos e parques, seus jardins e outeiros cobertos de verdura, seu todo de cidade portuguesa com as características locais deste Oriente tão sugestivo.Praia Grande a Monte da Guia.
  • 30MIssIOnárIOs para o Século XXIUm Apostólo do Oriente Aproximação à Vida e Obra do Cardeal Costa NunesFeiticeira cidade, esta, que tanto prende quem uma vez nela viveu!Pelo seu passado, pelo seu ar antigo e moderno, pela sua mescla de orientalismo e ocidentalismo, pelo que foi e pelo que é, Macau, de todas as nossas cidades coloniais, é a mais portuguesa, a mais rica em tradições, a mais pitoresca e interessante, seja qual for o aspecto debaixo do qual a queiram examinar.Roma do extremo-Oriente, grande foi o papel que outrora exerceu na evangelização, dos países desta remota Ásia; e se hoje, territorialmente, vê reduzida a sua acção religiosa, o que perdeu em extensão, ganhou em intensidade.Macau, terra cristã! Que jamais apagues a luz, que te fez grande!”(1)Ou então este texto, também a pedir referência – e por isso me alargarei na citação – pela extraordinária atenção ao Outro, à Alteridade, num absoluto respeito pela Realidade do Outro em termos que poderemos afirmar ser verdadeiramente invulgares, tendo em consideração, o facto de ter sido escrito em 1932.(1) Boletim eclesiástico da Diocese de Macau (BeDM), A, n.º 344, Nov. /1932, pp. 371-378.
  • 31 MIssIOnárIOs para o Século XXIJosé Valle de FigueiredoComemorando o 25o. Aniversário da Catequese de S. lázaro.
  • 32MIssIOnárIOs para o Século XXIUm Apostólo do Oriente Aproximação à Vida e Obra do Cardeal Costa Nunes
  • 33 MIssIOnárIOs para o Século XXIJosé Valle de FigueiredoChIkOM, 13 – X-32“Seis horas da manhã, e o vaporzinho, que de Macau me conduzia a Kongmun, levantava ferro.O vento norte trazia-nos os primeiros rebates a frio, o que não é muito vulgar no mês de Outubro.À direita, a montanha da lapa semivelada de nevoeiro; à esquerda, o casario do Bazar Chinês ainda pontilhado, aqui e além de luzes eléctricas; no rio, centenas de embarcações madrugadoras na faina diária do ganha-pão.Macau já nos fica pela popa, e à maneira que nos afastamos, sinto que para trás ficou também alguma coisa de mim mesmo. É que não há, creio, cidade tão feiticeira como esta!Bocadinho de Portugal encravado no sul da China, bocadinho da China encravado em terra portuguesa, envolve-os, a um tempo, a atmosfera da nossa terra e o ambiente sugestivo do Oriente.
  • 34MIssIOnárIOs para o Século XXIUm Apostólo do Oriente Aproximação à Vida e Obra do Cardeal Costa NunesDuas civilizações bem distintas ali vivem lado a lado, sem choques, mas também sem transfusões. Portugal e a China tocam-se sem se penetrarem. Fenómeno único na história da colonização portuguesa, porque a verdade é esta: por onde quer que andámos, deixámos sempre nas populações indígenas traços bem visíveis da nossa passagem. Na África, no Brasil, na Índia e na Malásia nacionalizámos; na China, porém, jamais conseguimos assimilar chineses.Os novos que cá chegam estranham o facto e levam-no à conta de incúria, de incompetência, de falta de patriotismo e não sei que mais.Não nego que se poderia ter feito mais e melhor, mas a explicação do fenómeno é outra.Se a população chinesa de Macau fala somente a sua língua, veste à chinesa, come à chinesa, pensa à chinesa e à chinesa inteiramente vive, é porque se defende, como nenhuma outra raça, de infiltrações estranhas.Nenhum povo com individualidade mais vincada; nenhuma raça tão refractária a estrangeirismos.Se nos fixámos em Macau e ali nós dominamos há perto de quatro séculos é porque o nosso contacto foi sempre útil aos chineses e por eles desejado.Se assim não fora, não sei o que teria acontecido...Ontem, eles precisavam de nós para traficarem com a europa; hoje, de nós ainda precisam, quando mais não seja para garantia da vida e haveres.
  • 35 MIssIOnárIOs para o Século XXIJosé Valle de FigueiredoDeixarem-se, porém, absorver por nós, isso é que nunca consentirão, como não o têm consentido em parte alguma.Daí a coexistência das duas civilizações, que em Macau se nota, sendo isso, talvez, o que dá à colónia aquele ar próprio, que logo de entrada enfeitiça todo o português, que aporta a estas bandas.Sentirmo-nos na nossa terra e ao mesmo tempo nas terras lendárias do extremo Oriente é, de facto, motivo para surpresa e encantamento. Por um lado, a mesma língua, a mesma religião, os mesmos costumes, as mesmas virtudes e os mesmíssimos defeitos; por outro, usos tão diversos dos nossos, linguagem que não compreendemos, sentimentos talvez opostos aos da nossa gente, um viver doméstico e social, cheio, para nós, de mil estranhezas e enigmas.Se o coração nos pula no peito, quando vemos casas como as de lá, igrejas como as nossas igrejas, ruas que lembram as de qualquer cidade das nossas províncias, caímos de surpresa em surpresa, à maneira que vamos percorrendo as vielas do bairro chinês e pondo os olhos naquelas arquitecturas bizarras, naqueles pagodes cheios de mistério, naquelas lojas atravancadas de mil coisas exóticas.e enquanto assim discorria, o meu barco, como pessoa que não tem pressa, ia pachorrentamente palmilhando o rio, que ora se alargava com pretensões
  • 36MIssIOnárIOs para o Século XXIUm Apostólo do Oriente Aproximação à Vida e Obra do Cardeal Costa Nunesa mar, ora aproximava suas margens, como que a convidar-nos a admirá-las na suas plantações de bananeira, seus canaviais de açúcar, seus pomares e arrozais.Aqui e além, esparsas pela planície agricultada, aldeias que se advinham pelo maciço de verdura, que de ordinário as cerca, e mais além, a balizar-nos o horizonte, montes desarborizados, como todos os montes do delta, envoltos na neblina azulada das paisagens distantes.Por nós passam embarcações várias e de vários formatos e tamanhos, desde o vapor ao tou, desde o sampan à lorcha e desde a lorcha à sua congénere accionada a motor. estas lorchas-vapores ou estes vapores-lorchas têm qualquer coisa de hibridismo. estão, porém, perfeitamente identificadas com a mentalidade chinesa, a qual jamais evolui, dando saltos, mas passando por todas as metamorfoses intermédias.É ver um chinês que se europeíza. Começará pelas calças ocidentais mas não larga a oriental cabaia; depois usará chapéu londrino, mais tarde sapatos americanos e só depois de ter percorrido estas várias etapas intermédias vestirá integralmente pelo figurino europeu.Com elas dá-se coisa parecida. Primeiramente foi a elegante cabaia de seda que encurtou; a seguir
  • 37 MIssIOnárIOs para o Século XXIJosé Valle de Figueiredovestiram saias pelo joelho; mais um passo e a cabaia e a saia fundiram-se numa só peça à laia de vestido; outro passo, e os lindos sapatinhos bordados transformaram-se em sapatos de salto alto, e as elegantes e fartas tranças tombaram aos golpes impiedosos da tesoura.Ora, eu pensava que não havia necessidade destas desnacionalizações de vestuário.elegantíssimos eram os trajes masculinos e femininos da China há 20 ou 30 anos, e para que esta entrasse no caminho da civilização ocidental, não se tornava obrigatório vestir à europeia.Narra o Padre Hue que ao chegar a Cantão em 1846, da sua viagem ao Tibete, em que gastara alguns anos, sentiu todo o ridículo do traje europeu, quando seus olhos, habituados ao vestuário amplo dos chineses e mongóis, pousaram sobre os primeiros europeus, vestidos de “ces habits étriquetês et en quelque sorte collés sur les membres”.Da dimensão da sua acção missionária e da multiplicidade dos caminhos percorridos por Costa Nunes diz-nos bem o magnífico soneto que a seguir publicamos e que é da autoria do celebrado Padre Manuel Teixeira (1).(1) “Boletim eclesiástico da Diocese de Macau”, Mapa de 1935, Ano XXXII, n.º 372.
  • 38MIssIOnárIOs para o Século XXIUm Apostólo do Oriente Aproximação à Vida e Obra do Cardeal Costa Nunes
  • 39 MIssIOnárIOs para o Século XXIJosé Valle de FigueiredoMais do que demorarmo-nos numa prosa adjectiva ou simplesmente enumerativa de acções e realizações, remetendo o leitor apenas para a generosidade da passiva aceitação, importará apresentar o próprio Autor que se pretende consignar, no quadro de algumas das propostas ou até, das considerações doutrinárias que proclama, as quais se inserem numa linha de manifesta actualidade.Peguemos apenas, ao acaso, em duas “Provisões” redigidas no já longínquo ano de 1935, logo a começar, pois uma é de Janeiro e outra é de Fevereiro. Veja-se com atenção e extraiam-se as conclusões que estão bem em evidência, atestando a grande vitalidade da sua acção diocesana e a profunda radicação local em que se desenvolve.
  • 40MIssIOnárIOs para o Século XXIUm Apostólo do Oriente Aproximação à Vida e Obra do Cardeal Costa NunesPrOVIsÃOD. José da Costa Nunes, por mercê de Deus e da Santa Sé Apostólica, Bispo de Macau.em conformidade com os Cânones 100 e 101 do Primeiro Concílio da China, havemos por bem dividir as nossas Missões na China em três vicariatos forâneos, a saber:I. – O vicariato forâneo de Shiu-hing, com residên-cia na cidade do mesmo nome, abrangendo tôda a Cir-cunscrição – Norte desta Missão, com as Subprefeitu-ras de Ko-iu, San-hing, Tak-hing, Fung-chuen, Hoi-Kin, Kwong – Ning e Sz-ooi e todas as cristandades destas 7 Subprefeituras.II. – O vicariato forâneo de Chik-hom, com residên-cia em Chik-hom, e abrangendo tôda a Circunscrição--Sul da Missão de Shiu-hing, com as Subprefeituras de Hoi-ping, Yan-ping, Yeung-ch'un, Hok-shan e Ko-ming e tôdas as cristandades destas 5 Subprefeituras;III. – O vicariato forâneo de Shek-Ki, com residên-cia na cidade do mesmo nome, e abrangendo tôda a Subprefeitura ou Distrito Autónomo de Heung-Shan ou Chong-Shan, com tôdas as cristandades desta Sub-prefeitura.
  • 41 MIssIOnárIOs para o Século XXIJosé Valle de Figueiredoestes três vicariatos forâneos formam um Vicariato Geral e estão subordinados à jurisdição do Superior das nossas Missões da China, o qual goza das honras de Vigário Geral.As faculdades, que até aqui tinham os ministros de secção, agora suprimidos, passam para os três sacerdotes de Shiu-hing, Chik-hom e Shek-Ki, actualmente encarregados dessas secções, e que são os Revdos. Padres Serafim de Almeida Nazareth, Padre Paulo Hó e Padre João lucas. Quando o nosso Vigário Geral da China assim o entender, poderá acumular, com as próprias atribuições, as de vigário forâneo de Shiu-Hing.Cumpra-se.Dada em Macau, na nossa Residência da Penha, aos 14 de Janeiro de 1935.JOSÉ, Bispo de Macau
  • 42MIssIOnárIOs para o Século XXIUm Apostólo do Oriente Aproximação à Vida e Obra do Cardeal Costa Nunese esta ainda, datada de Fevereiro de 35 PrOVIsÃOD. José da Costa Nunes, por mercê de Deus e da Santa Sé Apostólica, Bispo de Macau.Aos nossos amados católicos chineses da Paróquia de S. lázaro desta cidade.estando decidida, como tanto desejávamos, a organização da Acção Católica na freguesia de S. lázaro, dentro dos moldes traçados pela Hierarquia na China; e tendo-nos apresentado o respectivo Pároco uma lista, votada por eleição, das várias Comissões, que ali devem funcionar, a fim de a confirmarmos com a nossa Autoridade; havemos por bem aprovar a referida lista, que a seguir se publica, abençoando todos os que trabalharem nesta obra de participação dos leigos no Apostolado Hierárquico e recomendando-lhes que a ela se dediquem com todo o ardor.No próximo dia 10, iremos celebrar a Santa Missa à Paróquia de S. lázaro, recebendo antes o juramento dos membros da Acção Católica Chinesa, da qual nomeamos Assistente eclesiástico o Mto. Revdo. Cónego Domingos Yim.Dada em Macau, na nossa Residência da Penha, aos 2 de Fevereiro de 1935.JOSÉ, Bispo de Macau.
  • 43 MIssIOnárIOs para o Século XXIJosé Valle de FigueiredoCOMIssÕEssECÇÃO DOs hOMEnsPresidente .......................................Tomé leiVice-Presidente ...............................José HóSecretário .......................................António TséTesoureiro ........................................Santiago CouVogal ................................................Agostinho lauVogal ................................................Bartolomeu leongsECÇÃO DOs JOVEnsPresidente .......................................Domingos YiiVice-Presidente ...............................Nicolau lamSecretário ........................................André TséTesoureiro ........................................Pedro liuVogal ................................................Paulo VongVogal ................................................Tomás KuanVogal ................................................Gregório lóVogal ................................................Pedro lam
  • 44MIssIOnárIOs para o Século XXIUm Apostólo do Oriente Aproximação à Vida e Obra do Cardeal Costa NunessECÇÃO DAs sEnhOrAsPresidente .......................................Rosa leiVice-Presidente ...............................Filomena PungSecretária ........................................Maria Xavier YimTesoureira ........................................Maria luiza ChoiVogal ................................................Maria lóVogal ................................................Maria José lóVogal ................................................Filomena YúVogal ................................................Agata lósECÇÃO DAs MEnInAsPresidente .......................................Maria José HóVice-Presidente ...............................Izabel leiSecretária ........................................Maria MokTesoureira ........................................Mónica laiVogal ................................................Francisca KuanVogal ................................................Maria leiVogal ................................................Rosa leiVogal ................................................Maria Ip
  • 45 MIssIOnárIOs para o Século XXIJosé Valle de FigueiredoCOnsELhEIrOsCónego Jacob lauPadre António NganJoel José ChoiPedro TámJoão e. leongTomás TangFelipe T´am
  • 46MIssIOnárIOs para o Século XXIUm Apostólo do Oriente Aproximação à Vida e Obra do Cardeal Costa NunesD. José recebe a Rosa de Ouro, na Catedral de Goa.
  • 47 MIssIOnárIOs para o Século XXIJosé Valle de FigueiredoRecuperamos também um texto doutrinário que nos assinala uma das preocupações centrais da sua acção pastoral.Tem a data de 1935 e foi publicado no benemérito “Boletim eclesiástico da Diocese de Macau”, repositório de tanta colaboração sua.Denomina-se “Catequistas” e apresenta-se como uma das várias “Notas Missionárias” que publicou as-sinadas apenas com as iniciais C.N.:“Falemos hoje dos catequistas.Missão que os não tenha, é missão estacionária. Não digo bem. É missão, que tende a desaparecer.Geralmente, cada missionário tem debaixo da sua jurisdição uma área enorme, povoada por muitas dezenas de milhares de pagãos. Disseminadas por essa área, estão as suas cristandades: meia dúzia, uma dúzia e às vezes mais.O missionário tem que as visitar frequentemente. Tem de administrar os sacramentos; tem de examinar os catecúmenos e as crianças da catequese; tem de verificar o adiantamento dos rapazes da escola; tem de inquirir do estado moral dos seus cristãos; tem de chamar este e aquele para os admoestar e corrigir; tem de resolver mil casos, que aguardam a sua visita; tem de dar instruções para serem observadas durante a sua ausência; tem de traçar ao catequista o seu pla-
  • 48MIssIOnárIOs para o Século XXIUm Apostólo do Oriente Aproximação à Vida e Obra do Cardeal Costa Nunesno para atacar uma aldeia pagã ou um chefe indígena, cuja conversão seria acompanhada de muitas outras; finalmente, passa os dias da visita sempre ocupado de manhã até a noite, quando não é por noite dentro.Dali segue para outra cristandade, onde se repro-duz, sensivelmente, o mesmo programa.Passado um mês, terá percorrido o seu distrito e volta à sua residência central, onde se demorará outro mês a tratar dos assuntos gerais e particulares das suas cristandades. ei-lo de novo a começar as visitas, e assim por diante.Como é que este missionário, sem um exército de catequistas a trabalhar debaixo das suas ordens, pode cumprir os seus deveres? Como é que há-de afervorar os seus cristãos e conquistar terreno entre os gentios?Se um missionário só contasse consigo para de-sempenhar o trabalho, que lhe é imposto, podemos estar certos de que as suas cristandades – abandonadas a si durante a maior parte do tempo, não digo bem, durante a média duns 350 dias em cada ano – dentro de pouco estariam paganizadas. Conheço, infelizmente, algumas missões, que se perderam, por falta de catequistas. Mas o mais grave é que certos missionários, quando o seu Prelado lhes falou na necessidade de preparar catequistas, se mostraram contrários a essa iniciativa, que achavam desnecessária!
  • 49 MIssIOnárIOs para o Século XXIJosé Valle de FigueiredoAh! Se nós, missionários portugueses, fossemos a inquirir do desaparecimento de muitas cristandades, teríamos que dizer, uma e muitas vezes, mea culpa, mea culpa...Mas vamos adiante.Hoje não há na diocese de Macau um só missio-nário que não veja a necessidade de catequistas, dum e doutro sexo, e não reconheça que, sem eles, todo o movimento missionário se paralisa. Porque o catequista é o braço direito do padre; é quem atrai os pagãos e lhes ensina a religião, quem prepara as crianças para a confissão e comunhão, quem reúne os cristãos na capela e preside às orações, quem lhes faz práticas e lembra o cumprimento das suas obrigações, quem dispõe tudo para que a visita do missionário seja o mais frutuosa possível, quem, finalmente, informa de tudo que se passa na cristandade e desempenha todas as funções, que o missionário desempenharia, se estivesse presente, com excepção daquelas que fazem parte integrante do exercício do ministério sacerdotal.Além destas funções, o catequista muitas vezes é também professor, caso a missão não tenha um cate-quista somente destinado a leccionar as crianças nas nossas escolas.Sendo assim, vê-se claramente que nenhuma missão pode prescindir de catequistas-homens e catequistas-mulheres.
  • 50MIssIOnárIOs para o Século XXIUm Apostólo do Oriente Aproximação à Vida e Obra do Cardeal Costa NunesIsto é o àbêcê da missiologia, se bem que certos missiólogos da europa já se mostraram contrários ao desenvolvimento dos catequistas, sob pretexto de que o seu recrutamento podia prejudicar o recrutamento das vocações sacerdotais indígenas, tão recomendado pela Santa Sé e tão necessário à criação das igrejas nativas.É possível que a instituição dos catequistas roube uma outra vocação eclesiástica, contudo, duma manei-ra geral, pode dizer-se que tal não sucede. Mas ainda que o facto fosse relativamente frequente, os serviços prestados pelos catequistas e a sua necessidade ab-soluta para o governo, manutenção e desenvolvimento das cristandades, justificam plenamente esse roubo.Certo é que a instituição dos catequistas tem um carácter provisório, isto é, não faz parte da hierarquia da Igreja e durará tão sómente enquanto não se con-verter o mundo pagão.Certos missiólogos – para mais uma vez a eles me referir – fixaram em 100 anos o tempo necessário para converter o bilião e tal de pagãos.Oxalá assim fosse!Mas, quem anda por cá e vê as dificuldades e a lentidão relativa, com que as obras de evangelização lutam e caminham, desconfia um pouco da profecia ... Todavia, Deus pode realizar o milagre.Ia eu dizendo que nenhuma missão pode prescindir
  • 51 MIssIOnárIOs para o Século XXIJosé Valle de Figueiredode catequistas, e, se é tão importante o seu papel, estamos a ver o cuidado enorme a haver com eles, quer na sua preparação, quer no modo de os dirigir, fiscalizar e tratar.Deixemos de parte a questão de preparação, visto termos escolas próprias, com seus programas tanto quanto possível completos, onde ela se ministra. Direi apenas que, sem essa preparação, não se conseguem bons catequistas. Muitas vezes, à falta de catequistas com o seu curso, lança-se mão de ex-alunos e ex-alunas das nossas escolas, ou dum e outro cristão de vida irrepreensível. Na maioria dos casos, porém, os resultados deixam muito a desejar, quando não representam autênticos desastres.Como regra geral, podemos estar certos de que catequistas sem curso, se não são maus, são apenas sofríveis.Mas, repito, punhamos de lado esta questão e ve-jamos a forma como o missionário deve tratar, dirigir e fiscalizar os catequistas, que trabalham debaixo das suas ordens.Como esta nota missionária já vai longa e eu não quero escrever artigos, que se não leiam em 3 ou 4 minutos, fica o assunto para ser tratado no próximo número do Boletim eclesiástico”.
  • 52MIssIOnárIOs para o Século XXIUm Apostólo do Oriente Aproximação à Vida e Obra do Cardeal Costa NunesCom o Cardeal Cerejeira
  • 53 MIssIOnárIOs para o Século XXIJosé Valle de FigueiredoMacau haveria de ficar-lhe para sempre no coração.Mas não ficaria por aí a sua passagem pela Ásia que já fora portuguesa. Quis a Providência que fosse pisar as terras de Roma do Oriente e aí também deixasse a sua marca.em plena Guerra Mundial, D. José da Costa Nunes aportaria a Goa e aí ficaria de 1941 a 1953, data em que iria para Roma para o lugar de Vice-Camarlengo, o que foi considerado, para além do seu mérito, uma compensação a Portugal por ter-lhe sido retirado o último pedaço que lhe ficara do benemérito Padroado do Oriente. Quis a política do Vaticano que assim fosse e soprando os novos ares, o que viria ser Cardeal Costa Nunes foi o protagonista dessa nova fase das relações de Portugal com a Santa Sé, impondo-se de tal forma nas suas novas funções e conquistando tal prestígio num ambiente que à partida não lhe seria o
  • 54MIssIOnárIOs para o Século XXIUm Apostólo do Oriente Aproximação à Vida e Obra do Cardeal Costa Nunesmais favorável, acabando o seu nome por a constar na lista dos que poderiam vir a ocupar o Sólio Pontifício.Mas voltemos a Goa.A sua vinda, no escrever do prestigiado publicista goês Renato de Sá, “constituiu um acontecimento rele-vante na época e nesta antiga Roma do Oriente, onde há muito haviam chegado os ecos da sua acção como Prelado, Homem de letras dos mais distintos e Orador Sacro”.D. José à direita de Papa Paulo VI.
  • 55 MIssIOnárIOs para o Século XXIJosé Valle de Figueiredologo nos primeiros tempos, encarregar-se-ia de imprimir novo dinamismo à acção pastoral, pois “num golpe de vista”, abarcara a “essência das coisas e dos problemas que necessitavam de solução imediata”. (Renato de Sá).Concluiu a construção do indispensável Seminário Menor de Saligão, em Bardês, pôs termo à discrimina-ção que existia em muitas das irmandades goesas que atendiam à origem de casta em prejuízo da condição de cristãos. Foi uma pequena revolução para a época e para o território.Intensificou extraordinariamente os contactos di-rectos com os Fiéis, percorrendo toda a Arquidiocese – visitou todas as cento e setenta e cinco paróquias! – estava sempre em contacto com os seminários, especialmente o de Rachol; as suas Homílias aos Domingos na capela do Paço Patriarcal de Pangim arrastavam multidões, ao mesmo tempo que contribuía para a formação do clero através das suas magníficas e sempre atentas “Cartas aos Sacerdotes”. A admiração tributada pelos povos goês não tinha medida, bem como a dos católicos das paróquias da Índia inglesa pertencentes à Arquidiocese e que também visitou uma a uma.Organizou as retumbantes festas do IV Centenário de S. Francisco Xavier, fundou o Convento das Car-melitas Contemplativas, a escola de Artes e Ofícios dirigida pelos Padres Salesianos, as Conferências
  • 56MIssIOnárIOs para o Século XXIUm Apostólo do Oriente Aproximação à Vida e Obra do Cardeal Costa NunesVicentinas, o Montepio do Clero, a Casa dos estudantes de Pangim, etc., etc. Promoveu a sagração episcopal de dois sa-cerdotes goeses: D. Altino Ribeiro de Santana, Bispo de Sá da Bandeira, e D. José Colaço, Bispo de Cabo Verde, para além de ter escolhido missionários de Goa para Timor, Angola, Moçambique, etc.Um ilustre goês, professor da Universidade de Bombaim, Jorge de Moraes, sintetizou deste modo a sua acção: “Na verdade, o Cardeal Costa Nunes foi um dos maiores homens da Igreja que Portugal mandou para o Oriente”.em 1953 é dado fim à sua permanência como Patriarca das Índias Orientais. Vai para Roma. O Papa Pio XII mantém-lhe o título pessoal de Patriarca, é nomeado Arcebispo titular de Odessa e Presidente das Comissões dos Congressos eucarísticos, sendo também Consultor de cinco Congregações Romanas.em 19 de Março de 1962, o Papa João XXIII fá-lo Cardeal, com o título de Santa Prisca.em 29 de Novembro de 1976, pelas 15h e 12m, o Cardeal D. José da Costa Nunes, em Roma, parte para o Céu.Conforme foi seu desejo, caso falecesse em Roma, ficou sepultado na Igreja de Santo António dos Portugueses.
  • 57 MIssIOnárIOs para o Século XXIJosé Valle de FigueiredoA 27 de Junho de 1997, os restos mortais do Cardeal D. José da Costa Nunes, foram solenemente trasladados para a igreja paroquial de Na. Sra. das Candeias, na Candelária, ilha do Pico, Açores. D. José nascera nessa localidade a 15 de Março de 1880 e deixou a sua casa para um jardim de infância que se encontra transformado em casa-museu, dedicada à sua memória.Ilha do Pico, Açores.
  • 58MIssIOnárIOs para o Século XXIUm Apostólo do Oriente Aproximação à Vida e Obra do Cardeal Costa NunesIgreja de Stº. António dos Portugueses, em Roma.
  • 59 MIssIOnárIOs para o Século XXIJosé Valle de FigueiredoTEsTAMEnTO EsPIrITUALDO CArDEAL D. JOsÉ DA COsTA nUnEsRoma, 16 de Março de 1970Fiz ontem 90 anos. De joelhos agradeço a Deus os benefícios que me concedeu durante tão longa vida e peço-lhe perdão das infidelidades sem conta que cometi e da suprema ingratidão com que correspondi às Suas graças.Tantas coisas que fiz e não devia ter feito!Quantas outras que não fiz e devia fazer!Confio, porém, na misericórdia divina, infinita-mente maior do que as minhas misérias.Nascido no seio de uma família modesta mas rica de sentimentos religiosos, desejei desde criaça ser padre. Para realizar esta aspiração, que meus Veneran-dos Pais também alimentavam, alguns obstáculos tive de vencer.Ao aproximar-se a data da minha ordenação, o Reitor do meu seminário, eleito Bispo de Macau, con-
  • 60MIssIOnárIOs para o Século XXIUm Apostólo do Oriente Aproximação à Vida e Obra do Cardeal Costa Nunesvidou-me a acompanhá-lo como seu secretário. Foi assim que a minha vida eclesiástica se encaminhou para as Missões do Padroado Português do Oriente, onde exerci o meu ministério por espaço de 50 anos.Quando já a minha idade avançada aconselhava a retirar-me da vida activa, Sua Santidade Pio XII colocou-me na Cúria Romana. Penaliza-me ter sido um fraco elemento junto do Soberano Pontífice, pois afeito a assuntos missionários e em contacto permanente com o mundo asiático, sentia-me impreparado para o meio burocrático do Vaticano. Contudo, a bondade do Papa João XXIII quis distinguir-me com a nomeação de Cardeal.Quando olho para o meu passado, vejo traçada uma linha bem diversa da que eu premeditava. e foi essa que tive de percorrer. Considerando-a já total-mente percorrida, pois julgo encerrado o ciclo da minha frágil actividade, peço ao Senhor me chame numa hora boa. Santo Arsénio, que morreu no deserto com 120 anos de grande penitência, tremia ao pensar nas contas a dar no Tribunal Divino. eu não tremo, pois, não obstante tantas fraquezas, confio plenamente na misericórdia do Senhor. este meu sentir não é filho, creio, de condenável presunção, antes inspirado pela certeza de que Deus espera na eternidade, de braços abertos, todos os pecadores arrependidos e todos os que O amaram na vida.
  • 61 MIssIOnárIOs para o Século XXIJosé Valle de FigueiredoTendo ocupado, quase desde o começo da minha vida sacerdotal, cargos de mando, terei cometido erros e magoado subordinados, mas sirva-me de conforto a ideia de ter procurado sempre cumprir o que me era imposto e nunca haver ofendido voluntariamente o pessoal eclesiástico ou não eclesiástico, que de mim dependia. De ninguém conservo má disposição e a todos peço me perdoem.O meu pensamento nesta hora volve-se para as Dioceses do Oriente, que pastoreei. ligado a pessoas e instituições, nunca esqueci essas terras distantes, que ainda hoje vivem bem perto do meu coração e do meu espírito.Apaixonei-me pelas Missões, pelas obras de tantos Operários da Vinha, realizadas no campo do apostolado, e pelas recordações que os antigos portugueses deixaram nesses países longínquos. O tempo, que tudo gasta, vai respeitando muitas dessas tradições nacionais, marcadas quase todas por um cunho acentuadamente religioso.Ao percorrer em serviço das Missões essas regiões orientais, notava que ordinariamente as populações nativas viviam em relativa paz, mas hoje, em muitas delas, reina a desordem e predomina a violência. Que o Senhor traga a paz para esses povos e que a Igreja possa espalhar livremente, por tão vastas regiões, o evangelho, única garantia de levantamento moral e material dessas populações oprimidas.
  • 62MIssIOnárIOs para o Século XXIUm Apostólo do Oriente Aproximação à Vida e Obra do Cardeal Costa Nunesentre as poucas obras que saíram das minhas mãos, uma há que me merece muito cuidado especial: a Casa de S. José, fundada na minha terra natal. Quis assim perpetuar a memória de meus Saudosos Pais, que tantos exemplos de virtude deram em toda a sua vida. Quis também beneficiar o povo da Candelária, no meio do qual me orgulho de ter nascido.A Casa de S. José, em boa hora confiada às Beneméritas Franciscanas Hospitaleiras da Imaculada Conceição, muitos benefícios já espalhou e está espalhando entre os habitantes desta povoação e outras povoações da ilha do Pico.Não tendo outros bens a deixar, deixo esta instituição à gente da terra onde nasci, esperando que todos a amparem como obra de grande utilidade, sobretudo para as gerações novas.Ignoro o dia e local do meu passamento, contudo desejo ser sepultado na Igreja de Santo António dos Portugueses, em Roma, se falecer na Itália; no cemitério da Horta, junto de meus Pais, se morrer em Portugal.Ao terminar, o meu pensamento foge para junto do Santo Padre, que nesta hora grave dirige os destinos da Santa Igreja, com suma prudência e firmeza.Prestando-lhe os meus sentimentos de submis-são e amor filial, peço ao Senhor O ilumine e fortale-ça, para que possa continuar no seu posto por largos anos, servindo a Causa de Deus e os interesses desta
  • 63 MIssIOnárIOs para o Século XXIJosé Valle de Figueiredosociedade, que o espírito do Mal agita e arrasta para a revolução e a morte.Recomendando-me às orações de todos, espero exalar o último suspiro sempre unido à Cátedra de Pedro e sempre esperando na bondade de Nosso Senhor Jesus Cristo, que veio ao mundo para salvar os pecadores, venit in hunc mundum peccatores salvos facere, no dizer de S. Paulo.
  • 64MIssIOnárIOs para o Século XXIUm Apostólo do Oriente Aproximação à Vida e Obra do Cardeal Costa Nunes
  • 65 MIssIOnárIOs para o Século XXIJosé Valle de FigueiredoAPÓsTOLO DO OrIEnTEPelo Padre Manuel TeixeiraNum brado termo, numa ardente súplicaJesus clamava, lá da Cruz pendente:“Oh! Quanta sede a minha boca senteAo ver as almas numa turba imensaMorrendo à míngua da alma pão da fé…Ao menos vós, que no evangelho credes,lançai ao largo, do evangelho as redes.levai ao mundo a crença”.Atenta, a voz do Redentor ouviuNação pequena mas heróica e forte,Que o mar sulcando desde o sul ao norteem rudes povos arvorou a Cruz!Anchieta e Brito, Xavier e Nóbrega,Seus filhos foram, que ao Brasil, Japão.À Índia ignota e ao cruel sertãolevaram vida e luz.Igreja de N.Sra. das Candeias, na Ilha do Pico, Açores, onde se encontra actualmente o túmulo de D. José.
  • 66MIssIOnárIOs para o Século XXIUm Apostólo do Oriente Aproximação à Vida e Obra do Cardeal Costa NunesSeguindo a esteira de varões tão nobresDa mesma Pátria um filho à China veio…No ardor dos anos, de energia cheio,Do Oriente a Roma o acolheu gozoso,e vendo nele outro Xavier ou Brito,Das almas luz, consolação de aflito,Ao céu mil graças deu.Cuidando em paz este jardim formosoPassava ele a juventude amena,e as frescas rosas – cativante cena! –Cresciam vivas sob o céu de anil!Sua palavra sempre terna e quente,Seu bom sorriso sempre terno e lindo,Tudo abraçava com amor infindoO peito seu gentil.Assim passava a mocidade ardenteNum doce enlevo de alegrias puras...Mas eis que ao longe se encastelam durasSinistras nuvens ameaçando a morte!Do averno a fúria esbraveja infrene,Soprando ardente da revolta a chama;“Abaixo a Igreja, abaixo, o ímpio exclama, Vingou a nossa sorte”!
  • 67 MIssIOnárIOs para o Século XXIJosé Valle de Figueiredoe os lobos correm num uivar furioso,Rugindo à volta do redil tremente!Mas que deparam? Um Pastor valenteQue a vida expõe pelo rebanho amado!e, à vista dele, a alcateia insana,Recua, cheia de respeito e medo!…Assim a vaga ante o hostil rochedoRecua ao mar irado.Ceifeiro ardente, eis esse moço intrépido,Arfando agora de fadiga imensa,Os pés em sangue ... semeando a crença Do rosto em baga o suor lhe cai!A CRUZ É GRANDe! Mas à sua frenteCaminha um anjo que lha torna suave:João Paulino, essa figura grave,Que é seu Pastor e Pai.Porém um dia de cansaço exausto,Nos braços seus o vê cair sem vida…Que duro golpe! Que cruel ferida!e ainda opresso pela dor pungente.Já sobre os ombros lhe pousava rudeO fardo enorme da Diocese larga.Oh! quem pudera nessa hora amargaSondar sua alma ardente!…
  • 68MIssIOnárIOs para o Século XXIUm Apostólo do Oriente Aproximação à Vida e Obra do Cardeal Costa Nunesessa alma, misto de Barroso e Vieira,Gemendo ao peso duma dupla Cruz…Que nobre e santo amor de Deus traduz!Do peito a mágoa sufocando estóico,Caminha avante na luta insanae ao seu rebanho que nas trevas jazO pão da Fé vai repartindo audaz,Com zelo ardente, heróico…Da China o solo percorria alegreDormindo em húmidas choupanas, frias,A luz levando às regiões gentias,Que prestam culto ao infernal dragão!Timor, Malaca e Singapura cálidaTambém sentiam de seu zelo o ardor Que a todos dava esse fiel PastorDa Fé o niveo pão!Ao vê-lo em mil perigos esforçado,O Santo Padre meigamente diz:“Regressa, filho amado, ao teu país,e nesse fogo que teu ar traduzInflama os jovens que às Missões se inclinam,Seus passos guia pela senda rudeDo amor das almas! e que Deus te ajudeCom sua graça e luz!…”
  • 69 MIssIOnárIOs para o Século XXIJosé Valle de FigueiredoAtento ouviu a carinhosa voz…e olhando estão para o andado trilhoVinte e oito estádios dum intenso brilhoPassados via neste inculto Oriente;Nutrido e forte o seu rebanho estava De ovelhas novas aumentado e cheio…e à voz de Deus, de obedecer no anseio,Partiu alegremente!Mas eis que ao longe amargamente irrompemGemidos tristes que de filhos vêm…e pai escuta ... não vá ser alguémQue implore auxilio para a dor cruel!…“Querido Pai”, assim começava um coro De frias vozes, suspirando aflitas,“Deixar-nos queres? Converter meditasO nosso gozo em fel?Atende e vê toda a Diocese em pranto,Formoso ninho onde emplumando estãoPequenas aves! OH! Sem tua mão,Talvez que as penas, por engano atroz,Deixando as asas, vão crescer na alma;e a dor, a mágoa, a orfandade, o frioSerão a herança deste lar sombrio,O pão de todos nós!…
  • 70MIssIOnárIOs para o Século XXIUm Apostólo do Oriente Aproximação à Vida e Obra do Cardeal Costa Nunesentão nos olhos desse Pai bondosoBrilharam lágrimas de amor infindoe, abrindo os lábios, num sorriso lindoDiz ele: “Filhos, a quem amo tanto,A vossa dor meu coração feriu!A Roma irei ... Oh! não queirais temerQue em breve aqui me tornareis a ver,limpai do rosto o pranto”.e Roma ouviu as preces tão sentidasDos filhos seus ... Um Aleluia afloraAos corações ... Volta, qual volta a aurora,Após um sonho mau em noite atroz.“eternamente ficará connosco,Jamais, jamais ele há-de ser roubadoAo povo seu, ao seu rebanho amado” –É voz de todos nós.Glória da Igreja, és orador de raça,Mestre do verbo, irmão da Imensidade!Jorra em teu peito a divinal verdade,Iluminando com teu verbo aladoÓrbitas negras, onde reina a morte…Glória da Pátria, és no remoto Oriente.O cantor-mór da lusa raça ardenteCom teu mavioso brado.
  • 71 MIssIOnárIOs para o Século XXIJosé Valle de FigueiredoComo podia Macau tão pequenoConter por mais tempo um vulcão tamanho!Goa o levou ... Nossos heróis d´antanhoQue iluminaram de fulgor a história –Gamas, Pachecos, Albuquerques, Castros –Jaziam nesse palmeiral tão densoDa Velha Goa, cemitério imenso,Da nossa imensa glória ...A lusa Roma, essa Oriental lisboa,Unia o pranto ao soluçar dos ventos,Ao ver igrejas, torreões, conventosTombando em ruínas e num vil desdoiro!…Mas eis que chega ao rio MandoviO Galaaz viril da lusa raça…Olhai e vede: é Portugal que passa,Surge a idade d´oiro!Do seu argênteo altar sorri XavierAo contemplar essa rajada altiva,A rubra chama duma fé tão viva,Que a face muda à nossa Velha Goa!erguem-se ao sol os monumentos nobres,erguem a fronte esses heróis antigosPerpassa um frémito em seus jazigos,Novo clarim ressoa!
  • 72MIssIOnárIOs para o Século XXIUm Apostólo do Oriente Aproximação à Vida e Obra do Cardeal Costa NunesChina, Timor, Macau, Malásia e GoaViram passar este astro refulgenteQue meio século brilhou no Oriente!Glória da Pátria, luminar da Igreja!Ao relembrar a centenária históriaDestas Missões de que ele foi Prelado,Macau saúda o Cardeal amado:– Salve! Bendito seja!Macau, 1 de Dezembro de 1964.Notícias de Macau (edição semanal ilustrada).Macau, 11 de Dezembro de 1964.
  • 73 MIssIOnárIOs para o Século XXIJosé Valle de Figueiredo
  • 74MIssIOnárIOs para o Século XXIUm Apostólo do Oriente Aproximação à Vida e Obra do Cardeal Costa Nunes
  • 75 MIssIOnárIOs para o Século XXIJosé Valle de Figueiredo
  • 76MIssIOnárIOs para o Século XXIUm Apostólo do Oriente Aproximação à Vida e Obra do Cardeal Costa Nunes
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