Luís CunhaMISSIONÁRIOSpara o Século XXILuIgI VerSIgLIa Mártires Salesianos na ChinaCaLLISto CaraVarIo
TítuloLuigi Versiglia e Callisto CaravarioMártires Salesianos na ChinaAutorLuís CunhaEditorInstituto Internacional de MacauColecção“Missionários para o Século XXI” Volume VCoordenação editorialrufino ramosAssistente de Coordenação José teixeiraDirecção GráficaVictor Hugo DesignImpressão e Encadernaçãotipografia WelfareTiragem500 exemplaresApoioFundação MacauMacau, outubro de 2011ISBN 978-99937-45-52-5
LuIgI VerSIgLIa e CaLLISto CaraVarIoMártires Salesianos na China
Luís CunhaLuIgI VerSIgLIa e CaLLISto CaraVarIoMártires Salesianos na China
06Luigi Versiglia e Callisto Caravario Mártires Salesianos na ChinaMISSIONÁRIOS para o Século XXIEsta ColecçãoMissionários para o Século XXINão podem cabalmente explicar-se a identidade de Macau e o factor cultural que foi sua moção no decurso da História sem considerar a Diocese de Macau, os seus obreiros e legiões de servidores. Considerar, isto é, em adunação ao sidério, ou com o céu (cum + siderio), que foi o que desde os primórdios do porto macaense atraiu os inacianos encandescidos de fervores apostólicos e “acomodados” ao outro – o que para sempre eternizou Macau como anfiteatro da compenetração cultural europa/China, uma das grandes vias de realização da unidade ou arquitectação da ecúmena fraterna dos homens.
Luís Cunha07 MISSIONÁRIOS para o Século XXI Padres, missionários, mártires, letrados: servidores do outro, tornado próximo, pelas obras de misericórdia, e no seu carácter e espírito compreendido pela cultura. De 1557 (Bula do Papa Paulo IV que missionava Macau como sede da expansão religiosa no extremo oriente) até hoje, em dádiva total aos mais necessitados (desamparados, pobres, doentes, abandonados, a todas as criaturas assombradas pelo espírito do mal), ou na docência, na investigação e no estudo da Língua, da História, dos arcanos civilizacionais.Foi o Século passado constelado por uma geração de ouro, de tantas figuras excepcionais em Macau radicadas, grandes nas obras, como no quase anonimato de uma humildade que é expressão de um verdadeiro sentido ancilar da vida e do destino.Não podemos deixá-los no desconhecimento e no esquecimento das gerações actuais e vindouras. É este imperativo que nos motivou à concepção de mais uma colecção no nosso acervo editorial – “Missionários para o Século XXI”.os editores
08Luigi Versiglia e Callisto Caravario Mártires Salesianos na ChinaMISSIONÁRIOS para o Século XXI Índice11 Luigi Versiglia (1873-1930)12 Don Bosco e a China13 um anjo a pregar15 De Macau a Heungshan18 religiosos expulsos de Macau20 espalhar a fé na China23 Salesianos regressam a Macau24 Director, missionário e arquitecto26 Novas responsabilidades28 uma conquista para a Missão na China29 Versiglia superior da nova missão31 os primeiros missionários salesianos33 Confissões em chinês34 Novos reforços36 Versiglia elevado a Bispo
Luís Cunha09 MISSIONÁRIOS para o Século XXI38 orfanato de Hosai43 Missão em Shaozhou49 Calisto Caravario (1903-1930)56 assalto à escola da Missão58 um sacerdócio com alma59 Primazia ao trabalho missionário61 a última viagem68 a última confissão dos mártires68 «Nós não queremos dinheiro»69 Cinco tiros de espingarda70 o funeral71 o processo de beatificação73 Cronologia 76 Bibliografia
10MISSIONÁRIOS para o Século XXIILuigi Versiglia e Callisto Caravario Mártires Salesianos na China
11 MISSIONÁRIOS para o Século XXIILuís CunhaLuigi Versiglia e (1873-1930)Luigi Versiglia, vivo e muito esperto, era o único rapaz da família, habitando perto de turim. tinha duas irmãs.Cedo revelou inclinação para a aritmética. o seu gosto pelos cavalos levou-o a pensar em estudar a especialidade de veterinária. em 1885, com 12 anos de idade, aceitou ir estudar para o oratório de Valdocco, impondo a condição de não se tornar padre e, um dia, poder ir para a universidade estudar veterinária. ao princípio teve dificuldades de adaptação ao internato, mas depois habituou-se. o seu aspecto sempre jovial e sereno, a par da sua conduta exemplar e afável, tornaram-no muito apreciado entre os companheiros.De estatura alta e esguia, tinha um semblante quase senhoril, que se impunha naturalmente aos companheiros. D. Bosco era então a figura gigantesca e paternal com que os rapazes se misturavam. eram quase 600 estudantes, chegados da cidade e do campo.
12MISSIONÁRIOS para o Século XXIILuigi Versiglia e Callisto Caravario Mártires Salesianos na ChinaD. Bosco e a Chinaem 1873, antes do seu projecto missionário na Patagónia tomar forma, D. Bosco havia tratado de fun-dar uma escola profissional em Hong Kong. em 1876 era Pio IX a sugerir-lhe a China. D. Bosco começava a acalentar o sonho de ver os salesianos chegarem a Pequim. É por essa altura que D. Bosco começa a ter sonhos relacionados com a China. Num dos sonhos vê dois cálices: um repleto de suor e o outro de sangue – dos salesianos.antes de enviar os seus primeiros missionários para a américa, D. Bosco havia pensado na missão do Império Celeste, como se chamava então à China.em 1873 tinha começado a tratar do processo de fundação de uma escola de artes e ofícios em Hong Kong e tinha falado dos seus projectos numa audiên-cia que teve com o Papa Pio IX, no dia 5 de Janeiro de 1874.Seria o próprio Papa a incentivar D. Bosco a pensar no oriente, na audiência que lhe concedeu mais tarde, a 15 de abril de 1876. o Papa falou na necessidade de se enviarem missionários para a austrália, Índia, China e Japão. ainda numa outra audiência, a 3 de Maio do mesmo ano, o Papa propôs a D. Bosco três Bispados apostólicos, designadamente na Índia, China e austrália.
13 MISSIONÁRIOS para o Século XXIILuís Cunhaa falta de pessoal preparado não consentiu a D. Bosco acolher a proposta do Papa, mas o desejo de contribuir para a evangelização do oriente esteve sempre vivo no seu espírito.Um anjo a pregara discursar, Versiglia superava-se. Na igreja era um verdadeiro anjo a pregar: fervoroso e assíduo na comunhão quotidiana. Na função religiosa solene parecia uma criatura do céu. a sua devoção predilecta ia para o Santíssimo Sacramento e para Nossa Senhora.apesar de não ser carismático, a sua postura moral e o seu comportamento exemplar faziam-no destacar-se no meio dos seus colegas.entretanto morre D. Bosco e Luigi Versiglia participa nas cerimónias fúnebres. Pouco depois, no dia 11 de Março de 1888, assiste à partida de sete missionários e, nesse mesmo dia, decide abandonar a ideia de se fazer veterinário e decide que será também ele missionário salesiano.em 1888, Luigi é noviço em Foglizzo, perto de turim, e no ano seguinte é salesiano. Prossegue os estudos em Valsalice, onde repousavam os restos de D. Bosco. o seu desejo de rumar a uma missão cresce à medida que os dias passam. Segue para a universidade gregoriana
14MISSIONÁRIOS para o Século XXIILuigi Versiglia e Callisto Caravario Mártires Salesianos na Chinaonde estuda filosofia (1890-93). em 1893, aos 20 anos, forma-se em filosofia. em Foglizzio fica assistente e professor dos noviços. apesar do seu ar severo é o professor mais estimado, conquistando a simpatia geral. Demonstra uma extraordinária capacidade para o ensino. era absolutamente imparcial, sem deixar transparecer simpatia ou antipatia excessivas pelos alunos. emergia nele um refinado intuito psicológico.Cientes da maturidade espiritual de Versiglia, comprovada ao longo dos anos de vida salesiana, os seus superiores decidem autorizar-lhe a ordenação sacerdotal que tem lugar a 12 de Dezembro de 1895. uma das suas características é a devoção ao Sagrado Coração, muito comum nos noviços salesianos.em 1896, D. rua, sucessor de D. Bosco, decide abrir um noviciado em genzano, perto de roma e Versiglia é para ali enviado como director e professor. Versiglia tem apenas 23 anos e sente-se incapaz de assumir o cargo. Precipita-se para torino onde tenta convencer D. rua a desistir da ideia. Depois de o ouvir atentamente, D. rua pergunta-lhe: «e quando partes?»Durante uma década (1896-1905) foi um óptimo formador das almas religiosas, estimado e amado como padre. os anos passam e D. Versiglia continua em genzano, exercitando-se física e espiritualmente e a alimentar o sonho de um dia partir para o mundo como
15 MISSIONÁRIOS para o Século XXIILuís Cunhamissionário. esse dia chegou quando é convidado a liderar o primeiro grupo de salesianos a instalarem-se na China.Começa, de imediato, a estudar português e inglês. Com esta finalidade, passa algum tempo em Portugal e Inglaterra. estuda tão intensamente que não aceita nunhum convite para conhecer alguns dos principais monumentos daqueles países.além do italiano, D. Versiglia falará ainda fluente-mente o português, chinês, inglês e francês.temendo a reacção da família à sua vocação mis-sionária, passa algum tempo na terra natal para explicar a sua nova missão. No entanto é só já em alto mar que lhes escreve a dar conta do destino final.De Macau a Xiangshano novo missionário parte do porto de génova a 18 de Janeiro de 1906 com cinco companheiros: dois sa-cerdotes e dois coadjutores salesianos (laicos). o barco tem bandeira alemã e quase todos os passageiros são protestantes nórdicos. Mas os missionários são tratados com deferência. É-lhes atribuída uma pequena sala para as refeições que, durante as manhãs, transformam em capela improvisada.Na escala do segundo dia, em Nápoles, D. Conelli sobe a bordo e entrega-lhes uma surpresa: um retrato
16MISSIONÁRIOS para o Século XXIILuigi Versiglia e Callisto Caravario Mártires Salesianos na Chinado Papa Pio X com uma dedicatória: «ao dileto filho D. Luigi Versiglia e aos seus companheiros, com os votos ardentes que o seu apostolado na China seja coroado dos maiores sucessos».a 13 de Fevereiro de 1906, depois de 26 dias de mar, os primeiros salesianos pisam solo chinês. Desem-barcam em Hong Kong e no dia 17 chegam a Macau. toda a viagem corre perfeitamente. os seis missionários de D. Bosco enviados para Macau são recebidos de braços abertos pelo Bispo da cidade.D. Versiglia encontrou em Macau um pequeno orfanato, propriedade do Bispo local. Dois meses de-pois abrem as portas a três dezenas de órfãos e jovens pobres. «Começamos o trabalho» - escrevem ao reitor-Mor em turim.um dos rapazes do seminário, clérigo chinês, faz de intérprete «e depois – prossegue a carta – o amor possui uma linguagem secreta e misteriosa, para a qual não são precisas palavras. os nossos rapazes compor-tam-se como amigos de velha data ».Na realidade, a língua chinesa apresenta-se como uma séria dificuldade. São precisos pelos menos três meses de intenso estudo e um bom professor para se poder chegar a trocar algumas frases e um ano inteiro para dominar minimamente a língua. apesar disso, ao fim de alguns meses o número de rapazes internados ascende a mais de quatro dezenas e um deles recebe o
17 MISSIONÁRIOS para o Século XXIILuís Cunhabaptismo. o orfanato era pequeno — capaz de albergar até 50 crianças — mas era um início seguro. No Instituto Salesiano são instalados quatro laboratórios, oficinas de alfaiataria, sapataria e a tipografia. rapidamente abre o oratório para os rapazes de língua portuguesa em Novembro celebram-se as primeiras 19 comunhões. Nesse mês o Boletim da Diocese de Macau falava do orfanato e do bom sucesso do trabalho dos salesianos. os salesianos importam instrumentos musicais de Itália, formando-se pouco mais tarde a primeira banda de rapazes que suscita a simpatia geral. em breve não haverá evento em Macau que dispense a banda de música. a descoberta era maravilhosa: o sistema de D. Bosco funcionava até com os rapazes dos olhos amendoados.Vão-se fazendo progressos, mas, lentamente. Comunicando a D. rua o artigo do Boletim eclesiástico, D. Versiglia exprime a satisfação dos confrades que com ele trabalhavam. o método educativo de D. Bosco revelava a sua validade, mesmo na China.No início de 1910 o Superior dos Salesianos em Portugal, D. Pietro Cogliolo, visita Macau e faz um primeiro balanço. No relatório escreve que os salesianos haviam contornado bem as dificuldades da língua, pregando e confessando em chinês. os rapazes pareciam-lhe «vivos, inteligentes, afectivos». D. Cogliolo escreve ainda que «logo que esta obra esteja estável,
18MISSIONÁRIOS para o Século XXIILuigi Versiglia e Callisto Caravario Mártires Salesianos na Chinadevemos estudar a possibilidade de abrirmos um novo campo de trabalho».Religiosos expulsos de MacauNo entanto, a revolução de 1910 no longínquo Portugal estava em vias de colocar os salesianos numa posição difícil. apesar de ir provocar, no imediato, efeitos dramáticos e dolorosos, abria-se uma nova página para os salesianos, de certo modo providencial.em Portugal a nova república não consegue resolver nenhum dos problemas deixados pela Monarquia. as anunciadas reformas acabam por atingir apenas um dos sectores da sociedade: a Igreja. o governo decreta a separação da Igreja e do estado e decreta a expulsão das ordens religiosas. De Portugal e das colónias. o decreto, publicado em Portugal a 18 de outubro, entra em vigor em Macau no dia 19 de Novembro.o decreto da república, extensivo a Macau, era taxativo: “Serão expulsos do território da república todos os membros da chamada Companhia de Jesus, qualquer que seja a denominação sob que ela ou eles se disfarcem e tanto estrangeiros como naturalizados, como nascidos em território português ou de pai ou de mãe português (...) os membros das demais companhias, congregações, conventos, colégios,
19 MISSIONÁRIOS para o Século XXIILuís Cunhaassociações, missões ou outras casas de religiosos pertencentes a ordens regulares serão também expulsos do território se forem estrangeiros ou naturalizados, e, se forem portugueses, serão compelidos a viver vida secular ou, pelos menos, a não viver em comunidade religiosa”.em Macau as autoridades não entendem porque é que a fúria da lei se deveria abater sobre os salesianos, que se ocupavam com a educação de rapazes abandonados, mas os extremistas locais pretendiam executar a lei. em Macau e Hong Kong gera-se um movimento de solidariedade a favor dos religiosos, mas Lisboa não cede e as ordens para abandonar em a colónia portuguesa são entregues aos destinatários. a 29 de Novembro daquele ano, chega a ordem de partir. D. Versiglia comunica a notícia aos rapazes e transmite-lhes algumas recomendações. rezam a última missa e todos se confessam. Depois de quatro anos de intenso trabalho em Macau, os salesianos tomam o barco para Hong Kong.Subitamente, as principais escolas de Macau ficam sem professores e permanecerão fechadas durante vários anos. Do Seminário de S. José, onde estudavam 176 alunos, dos quais 94 externos, saem doze professores e auxiliares jesuítas, ficando a reitoria entregue ao bispo de Macau; o colégio de Santa rosa
20MISSIONÁRIOS para o Século XXIILuigi Versiglia e Callisto Caravario Mártires Salesianos na Chinade Lima, sob a responsabilidade das franciscanas e onde estudavam 120 alunas, fecha as portas; e o mesmo acontece às instituições dirigidas pelos salesianos e canossianas.a educação em Macau vai sofrer um grande abalo de que demorará a recompor-se e, praticamente encerrado o ensino de formação profissional, diversos sectores da opinião pública perguntam para que serve o Liceu, exclusivo da comunidade portuguesa.D. Versiglia fala de uma «dolorosa perplexidade». Inconformados, os salesianos partiam em direcção a Hong Kong.Espalhar a fé na Chinao Bispo de Macau não querendo perder os seus missionários salesianos, entretanto refugiados em Hong Kong, faz uma proposta atraente a D. Versiglia. Dado que a jurisdição da diocese de Macau compreendia um vasto território que se estendia pela China, o Bispo propõe-lhe recomeçar de novo na região entre Macau e Cantão, confiando aos salesianos o distrito de Xiangshan, longe da revolução portuguesa.Por felicidade, novos missionários chegam ao oriente e D. Versiglia julga reunidas as condições para os salesianos se lançarem ao trabalho em terra por desbravar. Depois de uma primeira viagem de
21 MISSIONÁRIOS para o Século XXIILuís Cunhaobservação, D. Versiglila conclui que o campo de trabalho é prometedor. terra inculta mas bom campo de trabalho verdadeiramente missionário. No dia 9 de Maio, começa a instalar-se no sul da China com os seus missionários. o exíllio em Hong Kong tinha durado cinco meses mas agora estavam prontos a recomeçar. D. Versiglia está feliz: o orfanato não oferecia muita possibilidade para a realização do trabalho apostólico, mas agora tinha à sua frente um imenso campo a perder de vista. em Zhujiang encontra uma isolada população constituída por um milhão de almas. os salesianos chegaram a Xiangzhou, pequeno porto a norte de Macau, no dia 18 de Maio de 1911 e, para sua surpresa, eram esperados em ambiente de festa. Dois ex-alunos do orfanato de Macau viviam ali e, quando tomaram conhecimento da nova, tinham mobilizado os seus conterrâneos para as cerimónias de boas-vindas. uma outra surpresa os aguardava: uma pequena casa recheada com a mobília do orfanato em Macau.alguns habitantes da região já sabiam que os missionários iam montar uma escola e organizar uma banda musical. outros pensavam que iam montar uma fábrica de tapetes americanos e que andavam à procura de um terreno. e ao acompanharem os missionários até à residência, queriam ver os tapetes e os instrumentos para a fabricação do artefacto.
22MISSIONÁRIOS para o Século XXIILuigi Versiglia e Callisto Caravario Mártires Salesianos na Chinaestavam há poucos dias na residência quando uma chuva torrencial se abate sobre a região. a casa, apesar da sua boa aparência, começa a deixar entrar água pelo tecto. a meio da noite, uma parede infiltrada pela água, acaba por ruir. Finalmente, ao cabo de uma semana de intempérie, as chuvas diluvianas passaram e os missionários puderam dar início às suas explorações pela região.em 1911, ajudado por D. Ludovico olive, D. Versiglia funda a missão de Xiangshan, localidade situada entre Macau e Cantão.«Finalmente temos um pé na China» - escreve D. Versiglia que decide explorar a zona. aos poucos começa a obra de reorganização dos 300 membros da comunidade cristã daquela região. organizam as pequenas comunidades cristãs da região e, em Dezembro de 1911, são baptizados os primeiros seis adultos. No dia em que D. Versiglia resolve ir visitar o mandarim a Shiqi, para pedir a sua protecção, o país vive um momento histórico: no dia 10 de outubro de 1911 uma revolução coloca Sun Yat Sen na cadeira do poder.No entanto, a república proclamada naquele dia dá lugar a graves cisões internas e o país cai no caos generalizado. Daí à guerra civil foi um passo. a partir da sua missão no sul da China os missionários assistem aos devastadores ventos que varrem a China. a insegurança e a miséria entraram no quotidiano das gentes para ficar.
23 MISSIONÁRIOS para o Século XXIILuís Cunhaentretanto aumentam para quatro as residências missionárias em Xiangshan: a primeira no porto de Xiangzhou; a segunda em Nang Hang na ilha da Lapa; a terceira na ilha de Doumen; e a quarta em Shiqi. No final de 1912, receberam reforços da europa, aumentando para nove o número de missionários salesianos naquela região da China.Salesianos regressam a Macauem Portugal o sentimento anticlerical abrandara e o orfanato de Macau reabre as portas. um novo decreto do governo republicano autorizava a permanência de religiosos estrangeiros. Com a violência da guerra civil na China o orfanato é mais preciso que nunca. o orfanato reabre a 14 de Setembro de 1912 e os salesianos têm a satisfação de verem regressar a maior parte dos alunos dos dois primeiros anos, obrigados a umas «férias» forçadas de quase 10 meses. D. Versiglia divide o seu tempo entre Macau e a missão no Sul da China. Para complicar ainda mais as coisas, no ano de 1912 surge a peste bubónica. trata-se de um impiedoso flagelo que, estranhamente, só atinge os chineses.o seu zelo apostólico e missionário traduz-se na salvação de muitos chineses da peste bubónica e da lepra.
24MISSIONÁRIOS para o Século XXIILuigi Versiglia e Callisto Caravario Mártires Salesianos na ChinaD. Versiglia toma conhecimento de uma pequena comunidade de leprosos, constituída por duas ou três dezenas de cristãos. um dia, três desses leprosos chegam numa barca junto da missão. relatam o assalto de que tinham sido vítimas por parte dos piratas que haviam roubado todos os pertences dos pobres infelizes.entretanto, em 1913, sempre solícito e disposto a realçar o trabalho dos seus confrades, D. Versiglia nomeou dois confrades para coadjutores e um para sacerdote.No início são sessenta, no ano seguinte passam para 80. Passado um ano, o orfanato desenvolveu-se e o número de rapazes era já 120. gera-se uma esplên-dida colaboração entre o orfanato e a missão na região do delta. o orfanato prossegue e continua a restituir à comunidade rapazes formados e preparados, bons animadores da vida cristã.Director, missionário e arquitectoNo ano de 1914, D. Versiglia tinha a trabalhar consigo seis sacerdotes e cinco coadjutores e podia, desse modo, subdividir o trabalho da missão e do orfanato, mantendo estreita relação entre ambas as instituições. Subdivide a Missão de Xiangshan em três zonas e atribui-as respectivamente a D. Pedrazzini, D. olive e D. Canazei.
25 MISSIONÁRIOS para o Século XXIILuís CunhaD. Versiglia continua a seguir todas as iniciativas e visitar frequentemente os vários centros.a missão de Xiangshan e o orfanato de Macau dão início a uma colaboração frutuosa. a missão envia para Macau os rapazes mais necessitados e o orfanato devolve-os, alguns anos mais tarde, homens instruídos, cristãos conscientes dos seus deveres na comunidade. as autoridades apreciam a nova escola. um dia D. Versiglia conduz os rapazes a uma visita histórica à cidade de Shiqi. o mandarim recebe-os de uma maneira um pouco fria. Mas a cordialidade e o ânimo dos estudantes depressa entusiasma o mandarim que oferece uma refeição abundante e faz sentar os professores à sua mesa.«Na missão fazem-se progressos contínuos. Nota-se um movimento de aproximação a nós e até dois protestantes, um pastor e um professor chineses, se converteram, sendo agora catequistas numa das nossas missões» - escreve.em 1916, D. Versiglia dá início a uma nova cons-trução em Macau no terreno do orfanato: depressa surge um grande edifício de três andares com amplas camaratas, laboratórios modernos e um grande pátio para recreação. Começam a funcionar ali oficinas de calçado, alfaiataria, uma tipografia e uma pequena escola comercial.
26MISSIONÁRIOS para o Século XXIILuigi Versiglia e Callisto Caravario Mártires Salesianos na Chinaem 1919 o Colégio D. Bosco tinha já mais de 200 alunos. a influência de D. Versiglia aumenta conside-ravelmente. até o Bispo se confessa a D. Versiglia. a sua obra missionária correspondia a uma visão moderna da intervenção da igreja e a comunidade apreciava e reconhecia este tipo de abordagem.«encontrava-me em Macau há poucos anos — escreve o Cardeal D. José da Costa Nunes — quando vi chegarem os salesianos. era seu superior D. Versiglia, por quem nutrimos sentimentos de especial estima e admiração, pelas suas extraordinárias qualidades humanas e sacerdotais. ele foi o meu confessor e o meu companheiro nas dificuldades e nos triunfos. as sementes que ele semeou cresceram e tomaram proporções gigantescas. animado de um espírito superior, com uma visão clara dos problemas que lhe diziam respeito, dotado de um são equilíbrio, sempre pronto a ajudar aqueles que o rodeavam, austero consigo mesmo e afável com os outros, a sua alma estava completamente imersa em Deus. exerceu uma extraordinária influência na sociedade de Macau».Novas responsabilidadesCom o trabalho em andamento em Macau e nos territórios adjacentes à colónia portuguesa, D. Versiglia
27 MISSIONÁRIOS para o Século XXIILuís Cunhasonhava com a possibilidade de estender o seu traba-lho missionário a um território por desbravar onde os salesianos pudessem assumir inteira responsabilidade pelo seu trabalho. D. Versiglia decide regressar a Itália para pedir um novo terreno na China à Santa Sé.a missão de Xiangshan dava bons frutos na conversão e baptismos, não apresentando dificuldades económicas, porque era subsidiada pelo Bispo de Macau. Mas tinha um carácter precário, que não condizia com o grandioso sonho de D. Bosco para a China.entretanto rebenta a I guerra Mundial e o serviço marítimo torna-se precário. apesar disso D. Versiglia embarca para Itália a 13 de Maio de 1916, ao som da banda do orfanato que vai despedir-se ao cais marí-timo.Demora quase dois meses a chegar ao destino mas o cansaço e os perigos da viagem vão ser compensados. encontra no Cardeal giovanni Cagliero o homem certo para o seu caso. Cagliero tinha sido o primeiro missionário salesiano na Patagónia. tendo sido promovido, havia pouco tempo, à Santa Sé, era estimado por todos e tinha a seu cargo o pelouro das missões. além do mais, o Cardeal era membro da Sagrada Congregação para a Propagação da Fé, da qual dependiam as missões. Com tal protecção, o projecto de D. Versiglia teria que ter bom sucesso.
28MISSIONÁRIOS para o Século XXIILuigi Versiglia e Callisto Caravario Mártires Salesianos na ChinaUma conquista para a Missão na ChinaD. Versiglia, recordando o desejo de D. Bosco, convence Cagliero a ocupar-se das missões salesianas na China. o Cardeal giovanni Cagliero promete fazer o seu melhor em prol das missões dos salesianos na China. Versiglia aproveita para viajar por Itália, recolhendo oferendas para as missões e proferindo palestras em várias cidades. Finalmente decide regressar à China.a 25 de Janeiro de 1917 parte de turim para Bar-celona, de onde deveria embarcar para o oriente, mas descobre que todas as partidas tinham sido canceladas. Mas o milagre acontece: um navio a vapor que havia adiado a sua viagem durante dois meses, decide-se a partir de repente. ultrapassadas algumas peripécias relacionadas com a bagagem, o barco parte finalmente em direcção a Singapura. Chega a Macau a 24 de Maio, depois de uma viagem de quatro meses.a banda lá estava mais uma vez, desta feita para dar as boas vindas. as mais altas autoridades eclesi-ásticas marcaram presença. a viagem tinha sido um sucesso. Mais tarde, os cristãos de Cantão vão em peregrinação ao túmulo de S. Francisco Xavier, na ilha de Sanchoão. D. Versiglia encontra-se com o Bispo apostólico de Cantão. em confidência, o Bispo con-ta-lhe que tinha recebido da Santa Sé instruções para oferecer aos salesianos uma parte do imenso bispado,
29 MISSIONÁRIOS para o Século XXIILuís Cunhaterritório que dentro de algum tempo poderia tornar-se missão autónoma.D. Versiglia fica feliz com a proposta, que tornaria independente o trabalho dos salesianos, constituindo também um acto de confiança do Papa. Numa primeira fase trabalhariam sob a jurisdição do episcopado de Cantão, mas depois teriam plena autonomia. Pouco depois D. Versiglia encontra-se com Mons. De guébriant, Bispo de Cantão, e da reunião re-sulta a concessão aos salesianos de um vasto território no distrito mais setentrional de guangdong, a norte de Cantão. a 4 de Janeiro de 1918, estavam criadas as condições para o trabalho de campo a lançar pelos salesianos. abria-se uma nova fase do projecto de D. Bosco para a China.D. Versiglia tem agora que se multiplicar para poder acorrer à nova missão em Shaozhou. a nova missão precisa de novos braços que chegam a Macau em finais de Setembro de 1918. os confrades recém chegados são enviados para Shaozhou conjuntamente com alguns dos missionários a trabalhar em Macau.Versiglia superior da nova missãoos missionários salesianos deitam mão à obra e algum tempo depois chega a notícia da elevação de D. Versiglia a superior da nova missão de guangdong.
30MISSIONÁRIOS para o Século XXIILuigi Versiglia e Callisto Caravario Mártires Salesianos na Chinaa reacção à notícia não foi de entusiasmo em Macau. D. Versiglia tinha marcado pela positiva a presença dos salesianos na colónia ao edificar uma obra unanimamente reconhecida. a sua partida implicava uma lacuna difícil de preencher.os salesianos davam continuidade ao seu trajecto missionário e geográfico, numa linha vertical que ia do sul para norte. Com início em Macau, a obra acabaria por estender-se para a missão de Xiang- shan, a norte, e mais tarde seguiria em direcção ao norte de Cantão, no distrito mais setentrional de guangdong.Shaozhou tinha à época mais de 34.000 Km2, e uma população estimada em três milhões de habitantes. tratava-se de uma região montanhosa, delimitada a norte por uma cadeia montanhosa. os rios eram as principais vias de comunicação.evangelização: o primeiro a anunciar o evangelho naquela região da China foi o padre Matteo ricci, fundador da moderna missão da China. em 1589 trabalhava em Shaozhou, levando seis anos a fundar a primeira comunidade cristã.Quando se desloca para norte (morrerá em Pequim em 1610), os jesuítas seus confrades prosseguem o trabalho missionário; mais tarde os franciscanos seguem as pisadas dos jesuítas. No final do século XVIII, a cidade contava com três igrejas católicas.
31 MISSIONÁRIOS para o Século XXIILuís Cunhaem 1825 ainda havia vestígios dessas igrejas. Mas a perseguição que se seguiria iria provocar a dispersão da comunidade cristã. em 1850 um padre missionário retoma a evangelização, revitalizando de novo a comunidade cristã e constrói residências estáveis em oito dos onze distritos. em 1918 os salesianos encontram três sacerdotes religiosos e um do clero local a trabalharem naquela zona.Os primeiros missionários salesianosD. Versiglia envia dois dos seus missionários, D. giovanni guarona e D. Ludovico olive para Shaozhou. Primeiro encontram-se com o Bispo de Cantão que lhes dá as instruções necessárias à sua marcha até Shaozhou, 240 Km a norte de Cantão. atravessam a região assolada pela guerra civil e instalam-se na nova missão.Quando, em abril, D. Versiglia resolve ir visitar os seus confrades, depara-se com um cenário de guerra. os missionários, cercados por tropas dos dois exércitos rivais, estão entre a vida e a morte. Depois de atravessarem os campos da morte, D. Versiglia e D. guarona chegam a Kamkong. a residência missionária, com as bandeiras francesa e italiana hasteadas, tinha sido milagrosamente poupada e com ela todos os refugiados na aldeia.
32MISSIONÁRIOS para o Século XXIILuigi Versiglia e Callisto Caravario Mártires Salesianos na ChinaDe regresso a Macau, D. Versiglia depara-se com dois sérios problemas para resolver. o primeiro é o cumprimento do compromisso que havia assumido com o Bispo de Cantão, estipulando a substituição de todos os missionários a trabalharem nos onze distritos de Cantão por confrades salesianos. em segundo lugar, fazer com que cada residência missionária tivesse pelo menos dois religiosos, pois vivendo isolados o desencorajamento e a tentação de abandono abater-se-ia sobre eles. encontrar missionários não era tarefa fácil. a guerra na europa subtraíra à congregação salesiana muitos jovens pacifistas que se viam a caminho das trincheiras.Na sua visita à Itália em 1916, D. Versiglia havia sugerido que alguns daqueles jovens ficassem livres do serviço militar e a iniciativa obteve alguns resultados: em 1918 seis salesianos recebem em turim das mãos do Cardeal Cagliero, o crucifixo missionário. três meses depois chegam a Macau. D. Versiglia acompanha os seis preciosos recrutas até à missão de Shaozhou.Na ocasião, D. Versiglia dá uma l ição de humildade e de vida missionária. tendo que repartir um pequeníssimo quarto com um dos jovens recrutas, seu ex-aluno em genzano, disse-lhe: «olha, só há um leito. eu já estou habituado à vida missionária, mas tu ainda não. ainda estás habituado à vida civil. Portanto, tu dormes na cama. eu durmo no chão». e acrescentou
33 MISSIONÁRIOS para o Século XXIILuís Cunhacom ar paterno: «como meu antigo aluno tu deves obedecer...».Confissões em chinêsos seis missionários lançam mãos ao trabalho de imediato. empreendem uma viagem de três dias até uma aldeia onde se dedicam à aprendizagem da língua chinesa. Seis meses mais tarde, pelo Natal, D. garelli ganha coragem e começa a pregar e a confessar em chinês.entretanto D. Versiglia visita as residências do nordeste, em plena guerra civil, para tomar o pulso às comunidades cristãs daquela zona. Depois passa o Inverno em Macau e no mês de Março volta ao distrito de Linchow. a família cristã aumentara consideravelmente, ainda que de uma forma dispersa. a fé propaga-se entre os camponeses chineses.«Quando encontram um missionário não se inibem, mesmo no meio de pagãos, de pedirem a benção. Quando comem não se envergonham de fazerem o sinal da cruz e de dizerem uma pequena oração. e não têm medo de falarem de religião com todos. Deste modo, o número de cristãos aumenta extraordinariamente em apenas dois ou três anos. Primeiro eram apenas uma centena; baptizados são agora 400 e discípulos da fé são um milhar.
34MISSIONÁRIOS para o Século XXIILuigi Versiglia e Callisto Caravario Mártires Salesianos na ChinaNovos reforçosDe regresso a Macau, D. Versiglia pede, pela enésima vez, aos seus superiores em turim, o envio de outros missionários. Faz ver que os salesianos têm a seu cargo onze distritos, dos quais oito reclamam a presença estável de missionários. e sublinha que a vida de um missionário sozinho é agreste. «Viver isolado é uma verdadeira morte. Para nove em dez missionários este isolamento é um verdadeiro motivo de desgosto e de incerteza».também coloca aos seus superiores o problema da direcção única da obra salesiana na China. o orfanato de Macau tinha 200 alunos, com oito salesianos e doze professores externos. a missão de Xiangshan tinha quatro missionários e duas dezenas de catequistas. e a missão de Shaozhou ocupa todos os meios disponíveis. D. Versiglia pede um novo superior capaz de liderar toda a obra na China. «Quanto a mim, só tenho um desejo, permanecer nesta missão como um simples missionário».também o Monsenhor De guébriant elogia o traba-lho realizado pelos salesianos e insiste para que a Santa Sé decrete a separação oficial da missão de Shaozhou do seu Bispado.Mon. De guébriant era um verdadeiro pai para os salesianos. Com notável prontidão e disponibilidade
35 MISSIONÁRIOS para o Século XXIILuís Cunhatinha acedido aos desejos da Santa Sé, ajudando incondicionalmente os salesianos no seu trabalho missionário.«Considero uma honra e uma sorte poder contribuir para a procura de um local de trabalho para os salesianos de D. Bosco no maior e melhor território pagão da China – escreverá De guébriant, que acrescenta – é tudo obra da Providência. o território que coube à família religiosa dos salesianos tem, creio, tudo o que é preciso para lançarem a obra e, frutuosamente, a generosidade da sua actividade fornecer-lhes-á uma sólida base para a sua futura expansão. reina a mesmíssima confiança entre os salesianos e a missão de Cantão. Considero o digníssimo padre Versiglia como um irmão e todos os bons salesianos como meus filhos».em 23 de agosto de 1919, nove missionários salesianos partem de Marselha e, um mês e pouco depois, chegam a Macau. À sua chegada D. Versiglia exprime a sua satisfação, por ter, finalmente, um grupo de missionários com os quais podia honrar o trabalho realizado na China. No entanto, os novos missionários encontram os seus confrades em luto, pois D. Ludovico olive, 52 anos, acabara de morrer, vítima da cólera.D. Versiglia sente a falta do seu querido amigo. encontra tempo para escrever uma breve biografia de D. Ludovico olive e dá-a à estampa. Mas a vida continua.
36MISSIONÁRIOS para o Século XXIILuigi Versiglia e Callisto Caravario Mártires Salesianos na Chinaem outubro chegam a Macau outros sete missionários e D. Versiglia fica radiante.um outro problema que apoquentava os superiores era o da obra salesiana na China, que já não podia depender de uma só pessoa.o orfanato de Macau tinha atingido os 200 alunos, em duas secções, estudantes e artífices. ali ensinavam oito confrades salesianos e doze professores externos. Havia ainda a missão de Xiangshan, com quatro missionários e uma vintena de catequistas. Não era concebível que uma pessoa, a liderar esta obra, pudesse ainda ocupar-se da nova missão, distante a um dia de viagem.Versiglia elevado a BispoChega o ano de 1920 e D. Versiglia continua envolto em grande azáfama à volta do trabalho missionário. o trabalho de campo nas missões da China restituem-lhe o antigo fervor. a região que os salesianos têm à sua jurisdição é enorme e há muito que fazer. Depois há taiwan, onde a comunidade cristã é escassa e se encontrava restrita, praticamente, à residência missionária.Com o correr do tempo e como consequência da guerra civil, os órfãos na região do sul da China aumentam consideravelmente. a missão necessita de
37 MISSIONÁRIOS para o Século XXIILuís Cunhaum orfanato. em Setembro os missionários reúnem-se com D. Versiglia e decidem construir um orfanato.D. Versiglia que, como arquitecto, tinha dado boa conta de si em Macau, empenha-se a traçar o desenho e a montar todo o empreendimento. em Novembro começa a construção. entretanto, a milhares de quilómetros de Shaozhou havia sido tomada outra decisão: D. Versiglia fora eleito Bispo.o trabalho realizado na China e a autonomia a que aspiravam nos onze distritos que estavam a cargo dos salesianos, faziam com que D. Versiglia carregasse nos seus ombros responsabilidades acrescidas. Mas a perspectiva de ser elevado a Bispo assustava-o. Missionário sim, Bispo não. Mas a Santa Sé tinha outros planos. em 22 de abril nomeia D. Versiglia Bispo. Dois dias mais tarde uma carta parte de turim com a notícia.D. Versiglia ainda tenta resistir ao seu novo destino. escreve de volta e tenta argumentar. ele é preciso como líder e força motriz do trabalho missionário, não como Bispo. tenta renunciar formalmente ao cargo. De pouco lhe valem os argumentos. a 9 de Maio é consagrado Bispo na catedral de Cantão, perante dezassete missionários salesianos. o coro do orfanato de Macau marcou presença na cerimónia.o governador de guangdong assiste ao ritual e, apesar de não ser cristão, elogia a obra dos salesianos
38MISSIONÁRIOS para o Século XXIILuigi Versiglia e Callisto Caravario Mártires Salesianos na Chinaem favor do povo chinês. Poucos dias depois D. Ver-siglia viaja para Macau, para o seu primeiro pontifical. Finalmente regressa a Shaozhou, sede do seu bispado. À chegada é recebido efusivamente pelos cristãos e por muita outra populaça não cristã que se junta à grandiosa manifestação de júbilo. De regresso à sua residência, D. Versiglia regressa também à dura realidade. Depois das esplêndidas catedrais de Cantão e Macau, eis a de Shaozhou: uma pobre capela baixa, estreita, escura, despojada de tudo.Orfanato de Hosaia 17 de abril de 1921, é inaugurado oficialmente o orfanato de Hosai. o Bispo celebra a missa. ainda antes de se decidir pela construção do orfanato, D. Versiglia tinha planeado a formação de uma banda de música. Depressa consegue despertar o interesse de vários rapazes que aprendem as primeiras notas mu-sicais. a 17 de Março de 1922, começam as lições de música e, a 17 de abril, ensaiam duas pequenas marchas. Fazem depois a estreia pública com grande sucesso e nas ruas de Shaozhou o desfile da banda suscita grande simpatia. em Maio de 1922 seis órfãos recebem o baptismo e a festa é enorme. a actividade dos missionários em Hosai começa a ter um grande impacto na comunidade.
39 MISSIONÁRIOS para o Século XXIILuís Cunhaem 1922, os salesianos têm que eleger o terceiro sucessor de D. Bosco e D. Versiglia participa nas eleições na qualidade de superior dos missionários na China. aproveita o seu regresso a turim para realizar uma digressão pela europa em busca de ajuda para a causa missionária. em Itália, espanha, França, Suíça e alemanha é ouvido com muita atenção e as suas conferências obtêm pleno consenso. De resto, basta-lhe relatar o que havia visto e feito junto dos seus. o trabalho missionário junto dos chineses é unanimamente aplaudido.a sua figura ascética, a barba de um missionário, a voz profunda, seduz e produz efeitos concretos. os donativos surgem de toda a parte.a ausência de D. Versiglia dura pouco mais de um ano. a 23 de Maio de 1923, embarca finalmen-te de regresso ao oriente, chegando a Macau em Junho. transporta consigo alguma ajuda material, mas apenas dois novos missionários. Falando aos salesianos da europa, tinha conseguido despertar o espírito missionário, mas muitos eram ainda jovens em formação. o dinheiro que D. Versiglia levava con-sigo representava uma grande ajuda, mas quando se apresentou com apenas dois novos missionários a desilusão foi grande.Durante a ausência de D. Versiglia o trabalho na missão tinha-se tornado muito difícil: a guerra civil
40MISSIONÁRIOS para o Século XXIILuigi Versiglia e Callisto Caravario Mártires Salesianos na Chinaagudizara-se. as tropas em conflito devastavam toda a região à sua passagem. Semeando o terror, tinham-se tornado num verdadeiro flagelo. em Maio, Shaozhou foi invadida pelos soldados que ocuparam as casas a seu bel-prazer. Mais uma vez, a missão encheu-se de refugiados. em Julho trava-se uma violenta batalha na cidade e depois os soldados batem em retirada.em 1923, a situação piora. a região transforma-se num dos principais teatros de guerra. Como se não bastasse, uma praga de piratas abate-se sobre a população que já não ousa trabalhar nos campos. em 1924, o cenário degrada-se ainda mais. o trabalho de evangelização dos missionários torna-se impossível. a saúde dos missionários deteriora-se. D. Versiglia decide enviar uma dezena deles para turim, a fim de recuperarem. Surge ainda uma dificuldade acrescida: a radical mudança nos métodos adoptados para a preparação do pessoal salesiano.em vez de se prepararem na europa, os jovens voluntários para as missões seguem logo viagem, apren-dendo o seu duro trabalho nos seus destinos. o novo método apresenta vantagens a longo prazo, mas, no imediato, implica o recrutamento de jovens inexperien-tes que demorarão ainda longos anos a aprenderem as especificidades de um povo como o chinês.
41 MISSIONÁRIOS para o Século XXIILuís Cunha«o mal desta pobre missão – escreve para turim – é a falta de pessoal suficiente. um remédio? o envio de pessoal eficiente e já formado em todo o sentido. Que posso eu fazer somente com dezasseis indivíduos, alguns de saúde muito debilitada? Só temos três mil cris-tãos, mas quatro milhões de pagãos para evangelizar».a correspondência de Versiglia permite seguir com precisão o seu percurso no oriente; as suas car-tas ao seu director espiritual D. eugenio Bianchi e D. giulio Barberis e sucessivamente a D. eugenio albera e a D. Filippo rinaldi e outros salesianos, permitem reconstituir o caminho espiritual seguido pelo mártir.D. Versiglia retoma o seu dever de visitar as missões mais longínquas, dispersas pela região. em Janeiro e Fevereiro de 1924, em pleno Inverno, aventura-se nos distritos do nordeste e sudeste.apesar das múltiplas dificuldades, o empenho sacrificado do Bispo e dos seus missionários começa a dar frutos. em Shaozhou várias obras nascem e crescem: o orfanato, o Instituto D. Bosco, o Instituto de Maria, a casa dos catequistas, a igreja catedral, a obra para os jovens salesianos em formação. em Março de 1923, chegam as filhas de Maria auxiliadora que ocupam a casa para elas mandada construir pelo Bispo. No Natal desse ano, D. Versiglia baptiza 108 adultos.
42MISSIONÁRIOS para o Século XXIILuigi Versiglia e Callisto Caravario Mártires Salesianos na ChinaNo final de 1924, Versiglia inaugura a sua modesta catedral, dedicada ao Sagrado Coração. em 1926, é inaugurado o Instituto de Maria auxiliadora.a partir de 1924, os missionários enviados da europa para o Bispado não são mais sacerdotes maduros e formados, mas sobretudo aspirantes à vida salesiana, ricos de entusiasmo e de ideais. D. Versiglia olha com extrema simpatia para estes corajosos rapazes que haviam deixado a cómoda europa para viajarem até ao fim do mundo e trata-os como família.em 1924, dá-se um outro acontecimento importante na história dos missionários salesianos na China: chega a Xangai, com os primeiros salesianos, o clérigo Callisto Caravario, futuro companheiro de Versiglia no martírio. Callisto havia encontrado o Bispo em 1922, durante a sua visita a Itália e tinha prometido juntar-se-lhe na China. e tinha mantido a promessa.resumidamente, em 12 anos de trabalho, com a ajuda de uma dúzia de confrades D. Versiglia transformou o orfanato numa moderna escola profissional para 200 alunos, a maior parte órfãos que encontraram uma profissão.D. Versiglia exerceu uma influência extraordinária na sociedade de Macau. D. José da Costa Nunes era então o Bispo da cidade. a capela do Instituto liderado por D. Versiglia era uma referência obrigatória na vida religiosa de Macau.
43 MISSIONÁRIOS para o Século XXIILuís CunhaMissão em ShaozhouNo ano de 1918, a Santa Sé concede aos salesia-nos a nova missão de Shaozhou, a norte de guangdong. D. Versiglia foi encarregado pelos superiores de turim de organizar aquela missão com a ajuda de uma dezena de sacerdotes. a nova missão precisa de novos braços que che-gam a Macau em finais de Setembro de 1918. os con-frades recém chegados são enviados para Shaozhou conjuntamente com alguns dos missionários a trabalhar em Macau.o chefe da expedição, Padre Sante garelli, tinha levado consigo uma prenda do reitor-Mor e deu-o a D. Versiglia no dia seguinte ao da sua chegada. era um cálice – um objecto sem especial significado, mas que despertou em Versiglia memórias desconcertantes.«trouxe-me um cálice» - disse Versiglia - «e eu aceito-o. D. Bosco viu as missões chinesas florescerem quando um cálice ficasse cheio com o sangue dos seus filhos. este cálice foi enviado a mim e — afirmou com a voz cava — vou ter que o encher». «Sentimos todos que aquelas palavras eram uma profecia» - diria mais tarde garelli.No ano de 1920, a missão foi elevada pela Santa Sé a Bispado apostólico e foi decidido elevar D. Versiglia a Bispo. a 19 de Maio de 1921, é consagrado Bispo
44MISSIONÁRIOS para o Século XXIILuigi Versiglia e Callisto Caravario Mártires Salesianos na Chinaem Cantão, cabendo-lhe a jurisdição sobre um vasto território privado de estradas.No ano de 1921, os salesianos abrem um orfanato com escola elementar perto de Shaozhou, tendo em vista a formação de um seminário.Na China continuam as convulsões políticas. os «senhores da guerra» dominam largas fatias do território nacional. em 1921 nasce o Partido Comunista Chinês e, em 1923, o Kuomintang de Chiang Kai Shek forma uma aliança arriscada com o Partido Comunista de Mao tsé tung. Por esses anos, D. Versiglia havia mandado construir uma casa para as Filhas de Maria auxiliadora, que haviam começado a trabalhar na China, acolhendo os primeiros catequistas e um grupo de órfãos.em 1922 foi a turim para uma reunião de religio-sos. a sua barba longa dava-lhe uma nova aura à sua marcante personalidade. as suas palavras geravam grande entusiasmo. Muitos dos jovens salesianos de Valdocco ofereciam-se para ir com ele até à China.No ano de 1924 Versiglia abre em Shaozhou o Co-légio D. Bosco, uma escola elementar e profissional. em 1925 manda erguer uma catedral, modesta mas digna, um orfanato, um abrigo para idosos e um dispensário médico. ele sabia como fazer tudo e dava o exemplo: era tipógrafo, sacristão, pintor, barbeiro. os missionários a trabalharem na China eram respeitados e estimados pela população e autoridades.
45 MISSIONÁRIOS para o Século XXIILuís Cunhaas suas residências eram locais de protecção e asilo para cristãos e pagãos em dificuldade. ao verem a inscrição «tin Chue tong», missão católica, os piratas detinham-se e a soldadesca não ousava prosseguir. Mas o clima geral vivido no país estava a mudar.a campanha contra as potências ocidentais alastrava, atingindo também os missionários. elementos agitadores começam a entrar nas igrejas, ameaçando os fiéis.
46MISSIONÁRIOS para o Século XXIILuigi Versiglia e Callisto Caravario Mártires Salesianos na Chinaem 1927, o Kuomintang e o Partido Comunista Chinês quebram a aliança formada dois anos antes, passando a guerrear-se. tropas regulares e dissidentes, bandos de piratas armados deambulavam pelo país. a situação dos missionários tornou-se crítica. Muitos eram acusados de serem inimigos do povo. o bispado de Shaozhou estava numa posição particularmente vulnerável. «estamos completamente sob o controlo dos bolcheviques» - escrevia Versiglia em 1926, «nós não sabemos como dar a volta à situação».em 12 anos, D. Versiglia transformou a missão, triplicando o número de cristãos e multiplicando as obras religiosas e sociais em toda a região, não obstante as perseguições do regime político. a última obra, a mais cara a D. Versiglia, verdadeiro indicador do progresso realizado na evangelização, foi o seminário para as vocações indígenas, acolhendo 25 jovens. Viu a sua obra acabada, apenas três dias antes do seu martírio, consumado a 25 de Fevereiro de 1930.apesar da instabilidade reinante na China, o país era visto como campo privilegiado para a actuação dos missionários. a política de «porta aberta» imposta à China, favorecia o trabalho missionário, mas também conduziu a um movimento nacionalista com tendências xenófobas.o trabalho de D. Versiglia, abrindo escolas e orfanatos conquistou a simpatia das populações e
47 MISSIONÁRIOS para o Século XXIILuís Cunhaconduziu a conversões genuínas e sinceras; mas a insurreição generalizada ameaçava deitar por terra o esforço realizado.os cristãos na China tinham passado de 300 mil no início de 1800 para 200 mil em 1846. o esforço missionário tinha-se traduzido, no princípio do século XX, no aumento do número de cristãos para 720 mil. Num universo de 330 milhões de chineses. É nesta realidade contraditória que se vem a inserir o trabalho de D. Versiglia, pronto a estabelecer alianças não com o poder político-económico mas antes com um punhado de rapazes órfãos, deixados na berma da vida.
48MISSIONÁRIOS para o Século XXIILuigi Versiglia e Callisto Caravario Mártires Salesianos na China
49 MISSIONÁRIOS para o Século XXIILuís CunhaCalisto Caravario (1903-1930)Nascido em 1903, em Cuorgne, perto de turim, filho de uma família operária. Segue os estudos no oratório San giuseppe, na escola elementar do Colégio San giovanni evangelista e no oratório de Valdocco.o rapaz surpreende. Desde tenra idade que manifestava uma índole séria, uma tendência para o recolhimento e uma grande veneração para com a sua mãe. ao divertimento prefere a companhia da mãe. a sua paixão era a igreja. Na escola primária o professor repara na sua inteligência e bondade. um dia descobre em Saluzzo, não muito longe da sua casa, um oratório salesiano. ali encontra crianças a jogar e a aprender o catecismo.rapidamente o oratório se transforma na sua segunda casa. No oratório encontra dois salesianos que viriam a ser missionários na China, primeiro que ele: D. Sante garelli (aquele que será portador de um cálice para Versiglia) e o clérigo Carlo Braga, futuro director em Hosai.Caravario prima nos estudos, obtendo em dois anos consecutivos o primeiro prémio para estudo e conduta. os companheiros tinham-lhe grande estima e consideração. em 1918 Callisto entra, aos 15 anos, para o noviciado de Foglizzo e decide dar-se sem reservas ao Senhor através das mãos de D. Bosco. De carácter bom,
50MISSIONÁRIOS para o Século XXIILuigi Versiglia e Callisto Caravario Mártires Salesianos na Chinademonstrava, desde muito jovem, uma maturidade de pensamento, uma prudência no agir fora do comum.Desde pequeno que havia tomado a decisão de seguir a vida missionária. ao longo dos seus estudos, torna-se claro que o seu sonho se tornaria, um dia, realidade. os seus companheiros falavam da possi-bilidade de enveredarem pela vida missionária, mas Caravario falava com outra autoridade. era o mais entusiasta de todos quando as missões eram tema de conversa.a 19 de Setembro de 1919, pronuncia os votos religiosos na congregação de D. Bosco. Completa os estudos clássicos no Liceu de turim (1919-23). revela--se um educador exemplar. o seu método de ensino era de todos apreciado. tinha a linguagem clara e fazia-se compreender por todos. Nunca se alterava.em 1923, Callisto assiste em Valdocco à partida de uma expedição missionária e resolve partir. o seu professor, D. Braga, estava já em Shaozhou. escreve-lhe uma carta: «D. Braga, arranje-me um posto». em 1924 a notícia é confirmada: os salesianos poderão aspirar em breve à construção de um instituto salesiano em Xangai. o seu velho amigo D. garelli será o director. Não querendo perder a oportunidade roga aos seus superiores que o deixem partir para a China.eram 103 os salesianos destinados a várias par-tes do mundo que, a 5 de outubro de 1924, recebem
51 MISSIONÁRIOS para o Século XXIILuís Cunhana basílica de Maria o crucifixo missionário. o grupo destinado à China deixa turim, a 7 de outubro. a 11 de Novembro, chega a Macau. D. Braga desloca-se de Shaozhou para encontrá-lo e Callisto, gesticulando, exclama: «Vês como mantive a minha palavra?».No dia 20 de Novembro, estava já em Xangai, pronto a começar o árduo trabalho. os missionários são acolhidos por Joseph Lo Pahong, uma singular figura de industrial cristão, que investe todos os seus ganhos em obras sociais. em 1919, havia acordado com D. Versiglia os planos para a construção de um colégio de D. Bosco em Xangai e agora, com a chegada dos novos missionários, as coisas encaminhavam-se. o futuro colégio acolherá 300 rapazes, órfãos e abandonados. estava igualmente prevista uma secção para oficinas e outra para estudantes.Depressa Callisto se baterá contra as dificuldades de aprendizagem da língua chinesa, mas nas cartas que escreve para a mãe mostra-se animado. Porém, o estudo do chinês não chega: estuda também o inglês e o francês. Com o tempo, começa a dar aulas em chinês. torna-se no braço direito do director da escola. Como não podia deixar de ser, depressa se forma uma banda de música da escola. os primeiros vinte rapazes são baptizados. entretanto, D. Callisto é absorvido por um novo empenho: o estudo da teologia para se tornar sacerdote. os estudos são longos e a meta está
52MISSIONÁRIOS para o Século XXIILuigi Versiglia e Callisto Caravario Mártires Salesianos na Chinaainda longe. Mas Callisto pensa na vocação chinesa. É necessário ter salesianos chineses.em 1926, a situação política em Xangai muda completamente, a guerra civil aproxima-se a grandes passos, prestes a entrar de modo dramático no interior da região. D. garelli pensa em colocar a salvo os sale-sianos mais jovens, incluindo D. Callisto. a 9 de Maio de 1927, D. Caravario parte para Macau. Mas o destino reservava-lhe outras paragens. Depois de uma viagem de quatro meses chega a Macau. É apenas um ponto de passagem para a sua nova missão. timor.em Macau continua os estudos e prepara-se para os exames de teologia. Começa a estudar a língua por-tuguesa que lhe será útil em timor. Caravario integra o primeiro grupo de salesianos que se dirigem para timor a fim de ali construírem uma escola e formarem uma paróquia.Chegam a timor no dia 6 de abril de 1927. São dois sacerdotes, um clérigo (Caravario) e dois salesianos laicos. Caravario adapta-se bem a timor e lança-se com alegria nos meandros do trabalho missionário. em 1928 termina os seus estudos de teologia, mas as circunstâncias impedem-no de ser ordenado. o motivo é simples: timor não dispõe de Bispo. outras dificuldades entravam a obra salesiana em Dili. trata-se de um local longínquo, com difíceis contactos com o mundo exterior. Numa palavra,
53 MISSIONÁRIOS para o Século XXIILuís Cunhasem verdadeiras perspectivas. em Julho de 1928 os salesianos decidem aguardar por melhores tempos, deixando temporariamente timor. Voltariam mais tarde, depois da Segunda guerra Mundial.Para Callisto é tempo de regressar à China. Desta feita o destino é o Bispado de Shaozhou. o Bispo é D. Versiglia e Callisto depressa será ordenado sacerdote.a China continua mergulhada em intensa guerra civil e a região de guangdong é ocupada sucessiva-mente por diferentes exércitos. em 1925, D. Versiglia traça um quadro negro da situação e acrescenta-lhe um novo dado preocupante: a xenofobia é agora comum contra todos os estrangeiros, incluindo missionários. a maioria dos cristãos não se deixa intimidar, mas torna-se muito difícil prosseguir a obra de conversão. o número de convertidos diminui significativamente.em Julho de 1926, realiza-se em Chicago um congresso eucarístico. Versiglia é convidado pelo superior de turim e aceita participar. Não será para ele uma viagem de turismo devoto. Busca ajuda para os seus missionários e também algumas vocações. os salesianos dos estados unidos são muito generosos para com ele, mas também lhe propõem muito trabalho: conferências, ordenações sacerdotais, prédicas de exercício espiritual. em Setembro viaja até ao Canadá para visitar a colónia chinesa de Montreal e adoece. No hospital é-lhe diagnosticada apendicite.
54MISSIONÁRIOS para o Século XXIILuigi Versiglia e Callisto Caravario Mártires Salesianos na Chinaos médicos recomendam repouso absoluto. uma delicada operação cirúrgica retém-no por treze meses na américa do Norte. Quando a saúde o permitia, ocupava-se da propaganda missionária, deixando sempre uma impressão extraordinária nos seus interlocutores.No dia 1 de Maio de 1927 deixa a américa e a 19 de Maio chega a Xangai para uma visita à comunidade salesiana de D. garelli. Versiglia não esconde a sua alegria ao rever velhos companheiros. ao partir o Bispo deixa uma substancial ajuda em dinheiro. a 27 de Maio está de novo em Macau e encontra o representante do reitor-Mor, que ali se deslocara com o objectivo de lhe fazer uma visita.o representante do reitor-Mor era D. Pietro ricaldone que deixa crescer uma bela barba branca. Fecha-se no Bispado apostólico de Shaozhou uns bons meses e decide visitar todas as residências missionárias, demonstrando uma resistência à fadiga da viagem como se fosse um missionário veterano.acompanhado de D. Versiglia visita primeiro o dis-trito do Norte e depois os do Nordeste e mais tarde os do oeste. os meios de transporte são os mais variados: barco, a pé, a cavalo. D. ricaldone não esconde a sua satisfação e admiração pelo trabalho que os salesianos tinham realizado na China. em breve será ele o novo reitor-Mor da Congregação salesiana.
55 MISSIONÁRIOS para o Século XXIILuís CunhaDe regresso a Shaozhou, os seus confrades reser-vavam-lhe uma surpresa: o novo episcopado, construí-do durante a sua ausência. era uma casa grandiosa, de dois andares com um amplo portal, torre panorâmica, de inspiração chinesa, construída num dos cantos do Instituto D. Bosco. o edifício é modesto mas aos olhos de Versiglia é inadmissível. recusa qualquer luxo e refuta categoricamente a designação de episcopado. Baptiza então o edificio como «Casa do Missionário», destinando-o a centro de exercício espiritual, cura e repouso para missionários debilitados. reserva apenas uma camarata para si. o episcopado é ele mesmo. apesar de todas as dificuldades D. Versiglia continua com esperança em melhores dias. em 1927 dá conta de uma melhoria na situação que envolve as missões. Mas não se deixa iludir e sabe, claramente, que o governo tem as missões na sua mira. É uma questão de tempo. Naquela época eram apenas oito os missionários que tinham a seu cargo uma vastíssima região. Havia ainda outros oito missionários, que pou-co podiam contribuir devido ao seu estado de saúde debilitado.Constata ainda que a propaganda anti-clerical havia chegado a Shaozhou, através de uma escola que «demonstrava a inexistência de Deus» e que «a religião é inconciliável com a ciência e o progresso». o ódio aos estrangeiros, incluindo os missionários, era
56MISSIONÁRIOS para o Século XXIILuigi Versiglia e Callisto Caravario Mártires Salesianos na Chinaestimulado através de panfletos, jornais e outros meios de propaganda. Como era de prever, começaram as acções de distúrbio contra o Colégio D. Bosco.a estratégia para combater os estrangeiros é subtil. os agitadores não recorrem à violência mas sim a uma intensa campanha, destinada a obrigar os estrangeiros a deixarem a China. Sucedem-se as tentativas dos soldados para ocuparem as escolas católicas, as residências dos missionários e as próprias igrejas, destruindo as imagens sagradas. em certas regiões os missionários viram as suas residências ocupadas pelos soldados que não lhes deixam sequer um quarto para dormirem.D. Versiglia escreve: «a China está sem fé. Decaiu o culto religioso em favor de um materialismo e um ate-ísmo que transformou a sociedade num caos». apesar da avassaladora maré que se aproxima, os missionários permanecem nos seus postos. os anos de ferro e fogo tinham apenas começado.Assalto à escola da Missãoem Shaozhou entra em acção a «escola da propaganda». os oficiais encarregues daquela escola encontram uma dúzia de estudantes, incutem-lhes o ódio contra os estrangeiros ao mesmo tempo que enaltecem o amor pátrio. entre os estrangeiros
57 MISSIONÁRIOS para o Século XXIILuís Cunhacondenados como opressores da China estavam os missionários. um dos temas obrigatórios para os alunos daquela escola era: «Demonstrai que Deus não existe»; um outro: «a religião é inimiga inconciliável da ciência e do progresso».os efeitos desta escola depressa se fazem sentir. Publicações populares, manifestações, folhetos, jor-nais ilustrados, murais e grandes caricaturas, incitando constantemente o povo à revolta. as autoridades civis de Shaozhou tomavam um papel puramente passivo e agiam de má vontade, especialmente se se tratava de missionários católicos. Numerosos amigos e conhecidos passaram a negar a saudação aos missionários.o Instituto Salesiano crescera em prestígio e estima. em 1926 tinha 240 alunos internos, havendo a acrescer os alunos externos. em 1926-27 as autoridades civis emanam novos regulamentos para a escola privada da missão: a instituição deveria ter um director chinês, os textos deveriam ser aprovados pelo ministério, o ensinamento da religião era proibido. em Dezembro de 1926, explode em Shaozhou a campanha contra o Natal com manifestos, comícios, desfiles de pessoas armadas, ameaças de morte aos cristãos.No final de 1927, os soldados tentam, por várias vezes, ocupar a Casa do Missionário. D. Versiglia faz-lhes frente e leva a melhor. em Hosai o exército chega a ocupar a missão durante uma semana.
58MISSIONÁRIOS para o Século XXIILuigi Versiglia e Callisto Caravario Mártires Salesianos na ChinaUm sacerdócio com almaem outubro de 1924, com 21 anos de idade, o padre Caravario parte como missionário para a China. Fica em Xangai três anos (1924-27) e depois dois anos em timor (1927-29), como assistente e catequista dos rapazes órfãos e abandonados. aproveita esses anos para estudar teologia. Nos quatro anos que dedica aos estudos teológicos (1925-29), o ideal do sacerdócio rompe toda a sua alma.a 18 de Maio de 1929, Callisto foi ordenado sacer-dote em Shaozhou (Cantão), pela mão de Luigi Versiglia. Foi enviado prontamente para a missão de Linchow, onde granjeou a amizade do confrades salesianos e dos fiéis cristãos.No final de 1929, D. Callisto escreve a um salesia-no em Itália: «Linchow é o distrito mais longínquo da nossa missão. De alguns meses a esta parte que me encontro sozinho, vendo um confrade de mês a mês. aqui temos duas escolas e uma cristandade incipiente. a cidade conta com 30 mil habitantes e somos cerca de duzentos cristãos, todos da primeira geração. em vez de pescarmos com rede, pescamos com o amor, uma a uma, as almas que o Senhor nos envia».a conduta de Callisto é exemplar. um professor chinês que ensina em Linchow reconhece: «Nenhum missionário fala e diz coisas como ele, nenhum dá o exemplo como ele».
59 MISSIONÁRIOS para o Século XXIILuís CunhaMorrendo jovem, com apenas 27 anos, Callisto Caravario teve uma vida mais simples, comparando com D. Versiglia. Mas também ele deixou inúmeros escritos.Depois da viagem à europa em 1922 e à américa em 1926, D. Versiglia voltava a viajar em 1929. em Maio realizava-se em turim uma reunião da Congregação salesiana e, não menos importante, o Papa proclamara D. Bosco beato.No dia 2 de Junho de 1929, D. Bosco era procla-mado beato em roma. Mas na China a situação piorava. No dia anterior alguns soldados tinham capturado D. Dalmasso.No dia 30 de Junho, com D. Dalmasso são e salvo, os missionários de Shaozhou e os cristãos homenage-aram D. Bosco.Primazia ao trabalho missionárioDevido à situação instável naquela região da Chi-na, o Bispo Versiglia decide adiar a planeada visita a Linchow, mas em Fevereiro de 1930 decide lançar-se ao caminho.Depois de sete meses de trabalho missionário em Linchow (Julho de 1929 – Maio de 1930), D. Caravario regressa a Shaozhou, sede do Bispado, para acompa-nhar D. Versiglia na sua visita pastoral. D. Caravario teve uma recepção calorosa, especialmente dos rapazes do
60MISSIONÁRIOS para o Século XXIILuigi Versiglia e Callisto Caravario Mártires Salesianos na Chinaseu distrito. No domingo, dia 23 de Fevereiro, passou longas horas na igreja, fazendo apenas pequenas pausas para o almoço e jantar.entretanto, o Bispo concluíra a sua visita ao dis-trito de Nam Yung. Durante a sua ausência tinham-se realizado progressos na adaptação da casa de Hoi San que albergaria os seminaristas, até ali temporariamente alojados na casa do bispo. os seminaristas transferi-ram-se no dia 22 de Fevereiro; no mesmo dia o Bispo Versiglia inaugurou o seminário com uma palestra aos seminaristas na capela de S. José.No seu último ano de vida, D. Versiglia sentia-se inútil, pois os seus afazeres enquanto Bispo retiravam--no cada vez mais do trabalho missionário que tanto prezava. Continua a rogar por escrito, aos seus supe-riores em turim, que lhe arranjem um substituto, mais novo e enérgico. um certo desprendimento da vida começa a caracterizá-lo. Diz aos amigos que pouco tempo de vida lhe restará. Parece adivinhar o surgi-mento de trágicos acontecimentos. «Se para o Bispado apostólico é necessária uma vítima, prego ao senhor que me escolha».também D. Callisto não tem ilusões quanto ao futuro, pois já em timor pensava na eventualidade de um martírio. «o martírio como prova de amor a Deus era, pode dizer-se, argumento habitual em D. Callisto» - recordaria um dos seus companheiros.
61 MISSIONÁRIOS para o Século XXIILuís CunhaQuando toma conhecimento de que deixará timor para regressara China dirá: «Voltarei à China para morrer mártir».Na última carta escrita à sua mãe, Callisto dá conta dos projectos mais imediatos: «dentro de alguns dias partiremos com o nosso Bispo e com alguns jovens que concluíram os seus estudos e vão regressar a Linchow. a estrada está repleta de piratas, mas estamos certos de que o Senhor nos ajudará. estamos nas mãos de Deus».A última viagemNo dia 23, o Bispo celebrou missa para os estu-dantes do Colégio D. Bosco e deu aquele que viria a ser o seu último sermão.o tópico foi surpreendente: uma morte feliz.Na madrugada do dia 24 de Fevereiro, Versiglia celebrou a missa na Capela das Irmãs e às cinco e meia o grupo estava pronto para iniciar a viagem. era cons-tituído pelo Bispo, Caravario e dois jovens professores que se tinham graduado recentemente no Colégio D. Bosco. um era pagão, tong Chong Wai, de 20 anos, e o outro, cristão, tinha 23 anos e chamava-se Ng Pan Chiu (anthony), ambos casados. Com eles viajavam também três raparigas: a recém formada professora tong Su Lien (Mary), irmã de Chong Wai, de 21 anos e
62MISSIONÁRIOS para o Século XXIILuigi Versiglia e Callisto Caravario Mártires Salesianos na ChinaNg Yu Che (Pauline), irmã de anthony, de 16 anos. Ng Yu Che (Pauline) tinha desistido dos estudos e estava a regressar a casa, enquanto que Mary ia despedir-se dos seus familiares, uma vez que tinha decidido tornar-se freira; a terceira era tzen tz Yung (Clarc) uma jovem catequista que ia regressar a Linchow.os estudantes do Colégio D. Bosco foram despe-dir-se do grupo à estação do comboio. No trajecto fo-ram abordados por três soldados que lhes perguntaram sobre o destino da viagem. um deles foi reconhecido como um perigoso agitador que, em tempos, tentara ocupar a casa do Bispo. Às cinco da tarde o grupo chegou a Kong How, tendo ali jantado e pernoitado na missão dirigida pelo Padre John F. Cavada.Na manhã do dia 25, depois da missa, o grupo embarcou num pequeno barco. Duas pessoas junta-ram-se ao grupo: um rapaz de 10 anos, Peter Luk a Piao, que ia para Linchow estudar e uma idosa cristã que também se dirigia para Linchow. Se a viagem de comboio tinha durado oito horas e meia, agora teriam que viajar durante sete dias, para cobrirem uma dis-tância semelhante.a bordo ia igualmente a patroa da embarcação, o filho de 20 anos e duas outras raparigas. o barco has-teou uma bandeira com a identificação «tin Chue tong» (Missão Católica), que havia sido sempre a garantia de uma passagem segura, protegendo as pessoas a bordo.
63 MISSIONÁRIOS para o Século XXIILuís CunhaMas os tempos estavam a mudar. os piratas e os soldados comunistas espalhavam o terror. a destruição do cristianismo fazia parte do programa do Partido Co-munista Chinês. Nos distritos que o grupo teria de atra-vessar as tropas eram escassas porque eram precisas noutras localidades. em resultado, o rio Siu Pak Kong não estava a ser patrulhado. Quando isso acontecia, os «piratas» tomavam o lugar dos soldados, exigindo uma «taxa de protecção» aos viajantes. eram exímios na arte do saque. os donos dos barcos sabiam que, em caso de apuros, o melhor era dar tudo o que havia a bordo, tentando escapar assim com o bem mais valioso: as suas próprias vidas. os aldeões nunca traíam os «pi-ratas» por saberem que eram conterrâneos que faziam uma vida dupla. Camponeses que se transformavam em «piratas» quando a situação o permitia.até à época os piratas não tinham interferido com o trabalho dos missionários. respeitavam os missio-nários ou por serem conhecidos como amigos do povo ou por não terem dinheiro em quantidade, ou ainda por recearem complicações caso os molestassem. assim, os missionários acreditavam que as regiões infestadas por piratas não constituíam perigo de maior.então o que correu de errado naquele fatídico dia de Fevereiro de 1930? Na realidade os meliantes que atacaram o barco não eram «piratas» normais. alguns eram ex-soldados movidos pela propaganda anti-reli-
64MISSIONÁRIOS para o Século XXIILuigi Versiglia e Callisto Caravario Mártires Salesianos na Chinagiosa. também não é de excluir que o ataque tenha sido planeado pelos soldados que viajaram com o grupo no comboio. o barco continuou lentamente pelo rio aci-ma e, por volta das nove horas da manhã, o Bispo e o Padre Caravario desembarcaram, conjuntamente com dois professores, para acompanharem a barca a pé ao longo do banco do rio.atravessaram uma aldeia chamada Pak Ngan Hang onde, sendo dia de mercado, notaram a presença de um numeroso grupo de pessoas, algumas das quais armadas com revólveres e espingardas. Seriam «pi-ratas» ou milícias? Provavelmente os dois. Pareceram surpresos ao verem os estrangeiros. o Bispo Versiglia cumprimentou-os educadamente e eles responderam também educadamente.os viajantes prosseguiram viagem e voltaram a embarcar. Depois do almoço aproximaram-se de um local onde o pequeno rio confluindo de Sui Pin se cru-zava com o rio Siu Pak Kong. era um local perfeito para uma emboscada. Subitamente ouviu-se uma ordem de comando vinda da margem: «Parem imediatamente!». acto contínuo, uma mão cheia de homens assalta a barca, de espingardas em punho. «Quem vai a bordo?» interrogaram os «piratas» aos barqueiros. «o Bispo e um padre católico que vão para Linchow», responderam-lhes. «Para terra imediatamente!» foi a resposta brusca do chefe dos «piratas».
65 MISSIONÁRIOS para o Século XXIILuís Cunhaa princípio, o Bispo Versiglia não ficou muito preo-cupado. Já tinha sido capturado naquele mesmo local e tinha sido libertado mediante o pagamento do pouco dinheiro que transportava na altura. Mas desta vez o cenário era outro.em seguida os «piratas» quiseram saber a quem é que tinham pago a «taxa de protecção» para atra-vessarem aquelas águas. «a ninguém» foi a resposta, «nunca pagámos dinheiro para protecção a ninguém». os «piratas» praguejaram contra os barqueiros, exigindo em seguida 500 dólares a título de «taxa de protecção». era uma soma considerável que os missionários nunca levariam consigo. Foi então que o padre Caravario lhes mostrou o seu cartão de visita. tivessem sido estes «piratas», normais e o incidente ficaria certamente por ali. Mas não era o caso.os assaltantes insistiram no pagamento do dinheiro exigido. Começaram a perder a calma e a gritarem contra todos a bordo. «Vamos destruir os diabos estrangeiros» - alguém gritava. em seguida tentaram deitar fogo à barca mas a madeira estava demasiado húmida e a tentativa foi gorada.Na escaramuça que se seguiu, os meliantes tentaram agarrar as mulheres, ao que os padres se opuseram terminantemente. Versiglia e Caravario foram violentamente agredidos com as coronhas das espingardas e outros objectos contundentes. Foi então
66MISSIONÁRIOS para o Século XXIILuigi Versiglia e Callisto Caravario Mártires Salesianos na Chinaque alguns tiros disparados da margem do rio atingiram a barca.entretanto Versiglia sucumbira à violência das agressões, enquanto que Caravario dava ainda resistência até ele tombar também. recuperando os sentidos por alguns segundos, Versiglia rogou aos «piratas» que não tocassem nas mulheres, mas a força bruta prevaleceu. as três raparigas foram forçadas a deixarem a barca e os dois padres foram arrastados para terra. Foram revistados, empurrados de um lado para o outro e desapossados dos seus bens. «Vamos destruir todas as religiões», disse um dos assaltantes.um dos piratas entra no barco e «convida» Maria a descer a terra. a jovem responde com horror. tenta fugir, mas os piratas agarram-na com firmeza e obrigam--na a abandonar a barca. Impotente, D. Versiglia tenta reconfortá-la com palavras de fé.Maria, libertando-se por instantes das garras dos piratas, decide morrer antes de cair em poder dos meliantes. Mas a água é pouco profunda e os piratas conseguem retirá-la da água.«Vocês, os sete chineses, porque é que querem se-guir os estrangeiros e morrerem?» - perguntam os piratas.os dois missionários foram então atados com cor-das, à maneira dos condenados à morte. Para se preve-nirem contra uma possível fuga, os «piratas» ataram-nos ainda conjuntamente com canas de bambu.
67 MISSIONÁRIOS para o Século XXIILuís Cunhatodos os artigos com a identificação «Missão Católica» não foram levados. o resto da bagagem foi saqueada. Livros e vestes foram queimados e deitados ao rio. os dois professores foram obrigados a carregar com os despojos do assalto mas, incapazes de mante-rem a rápida marcha dos «piratas», acabaram por ser libertados. acabaram por chegar a Lin Kong How às cinco da tarde, comunicando imediatamente o incidente ao Padre Cavada.entretanto, os padres tentavam acalmar as mulheres, assegurando-lhes que seriam libertadas rapidamente. Depois todo o grupo se dirigiu para o bosque; as mulheres sentaram-se a curta distância dos missionários apercebendo-se de que estes estavam a falar entre si. estavam a confessar-se. o Bispo Versiglia fez-lhes um sinal apontando para o céu, para lhes dar coragem.Chocadas e agastadas, as mulheres rogaram aos «piratas» que as libertassem mas foram insultadas por serem seguidoras de «diabos estrangeiros» e da sua religião.«Não temem a morte?» - perguntou um dos pira-tas?. «Somos missionários» - respondeu D. Versiglia, «porque é que devemos temer a morte?»Quanto aos três jovens, os piratas decidiram tranquilizá-los depois de os terem submetido a um in-terrogatório. Disseram-lhes que seriam libertados e que poderiam retomar as suas vidas.
68MISSIONÁRIOS para o Século XXIILuigi Versiglia e Callisto Caravario Mártires Salesianos na China«eu agora estava decidida a morrer» – escreve Maria, porque tinha compreendido que as palavras dos ladrões não eram sinceras. este parecia-lhe o único meio para salvar a sua virgindade.A última confissão dos mártiresos ladrões queriam que o grupo se internasse ainda mais no bosque. D. Versiglia e D. Caravario pre-gavam em voz alta. os piratas insurgiram-se contra as orações e falavam em matar os missionários. um deles perguntou directamente: «Querem morrer ou não?». «Não queremos morrer porque vocês detêm os nossos alunos» - respondeu Versiglia.«Como?» - respondeu um dos piratas - «primeiro tinham dito que estavam contentes por morrerem e ago-ra já não querem morrer? É preciso que morram! temos que os matar porque vocês são homens da religião dos «diabos estrangeiros».«Nós não queremos dinheiro»«Senhor, quanto dinheiro quereis?» - perguntou D. Caravario - «nós somos da missão católica de Shaozhou. Se querem dinheiro, o Padre escreverá para Shaozhou e terão o que quiserem.«Não queremos dinheiro, queremos matar os es-
69 MISSIONÁRIOS para o Século XXIILuís Cunhatrangeiros, porque se os deixamos viver, certamente que eles se vingarão» - responderam os piratas.tendo tentado tudo o que estava ao seu alcance para apaziguar a fúria dos «piratas», os missionários aperceberam-se que apenas o derramamento de sangue iria acalmar os meliantes. ofereceram-se então para serem sacrificados. os jovens queriam seguir os missionários mas fo-ram impedidos pelos ladrões. Pouco mais adiante foram separados dos missionários. o martírio estava prestes a consumar-se.Cinco tiros de espingardaDois dos «piratas» levaram os missionários para o interior do bosque. Momentos depois ouviram-se alguns tiros. o sacrifício tinha sido cumprido. Minutos mais tarde os carrascos voltaram, reportando o dispa-ro de cinco tiros. Foi-lhes ordenado que regressassem ao local da execução para se assegurarem que tinham cumprido a sua missão. os corpos foram enterrados pelos aldeões locais. o Bispo Versiglia tinha 57 anos e o Padre Caravario 27 anos.o primeiro a tombar foi certamente D. Versiglia, seguido de D. Caravario.os ladrões tentaram retirar os crucifixos aos jovens que reagiram com firmeza. «Quando o nosso chefe che-
70MISSIONÁRIOS para o Século XXIILuigi Versiglia e Callisto Caravario Mártires Salesianos na Chinagar ao Poder nós destruiremos, sem distinção, todos os «diabos estrangeiros» e as suas religiões.Para os piratas, que tantas mortes haviam observa-do de perto, aquela execução tinha sido uma revelação. Inexplicavelmente, os missionários tinham enfrentado a morte sem temor. e como se não bastasse, os jovens seguidores dos missionários estavam também eles dis-postos a morrerem em nome da fé.O funeralNaquele fim de tarde o padre Cavada enviou um telegrama para Shaozhou, relatando que o Bispo e acompanhantes tinham sido aprisionados por piratas. No dia seguinte, o secretário do Bispo, Padre Lareno, viajou para Lin Kong How com o Padre Cavada, dirigindo-se rapidamente para o local da tragédia.Poucas informações colheram da população assustada e acabaram por passar a noite na missão de Sui Pin. aí souberam que os missionários tinham sido assassinados. No dia 27 voltaram ao local da tragédia na companhia do chefe da polícia de Sui Pin que sabia do sucedido mas fingia desconhecimento na tentativa de não colocar em perigo a população da aldeia. Conduziu as buscas de modo a que fossem os próprios missionários a encontrarem os restos mortais de Versiglia e Caravario. tinham sido enterrados no local da execução, mas o proprietário do bosque tinha-os
71 MISSIONÁRIOS para o Século XXIILuís Cunhadesenterrado e levado para outro local com medo de represálias. estavam agora enterrados num banco de areia junto ao rio Siu Pak Kong.Com a ajuda do chefe da polícia os restos mortais foram desenterrados e transportados, para Lin Kong How, onde foram colocados em caixões de madeira. as autoridades procederam ao reconhecimento oficial dos cadáveres que foram então colocados em dois caixões de zinco e levados para Shaozhou.os rapazes, entretanto libertados das garras dos piratas, pregaram diante dos restos mortais dos dois mártires, que tinham dado a vida para defenderem a sua pureza.Maria, chamada a depor no processo ordinário, iniciou o seu relato dizendo: «eu sempre tive veneração e grande afecto pelo Mons. Versiglia. Depois da sua morte o meu afecto por ele cresceu ainda mais, porque ele morreu por mim».No dia 6 de Março, o Padre Caravario foi enterrado em Ho Sai, à esquerda da Igreja de S. José. ao Bispo Versiglia foi dado um funeral solene com a participação de Bispos, missionários e cristãos e autoridades locais. Foi enterrado junto à futura Catedral.O processo de beatificaçãoo processo de beatificação dos mártires salesianos teve início em Dezembro de 1934. após demorado
72MISSIONÁRIOS para o Século XXIILuigi Versiglia e Callisto Caravario Mártires Salesianos na China*Beatificação - no século 12 uma declaração oficial do Papa declara que uma pessoa viveu uma vida santa e é merecedora de veneração. a pessoa beatificada fica então «abençoada». o processo conducente à beatificação envolve uma extensa série de exames e investigações da vida, escritos e reputação da pessoa em consideração. a beatificação é, geralmente, um passo importante no processo conducente à canonização.escrutínio, o Papa Paulo VI, emitiu um decreto, a 13 de Novembro de 1976, declarando Versiglia e Caravario mártires; a 15 de Maio de 1983, foram beatificados* pelo Papa.
73 MISSIONÁRIOS para o Século XXIILuís CunhaCronologia Luigi Versiglia e Callisto Caravario1873 – Luigi Versiglia nasce a 5 de Junho, em Pavia, filho de giovanni e Maria giorgi.1885 – 16 de Setembro. o pequeno Luigi vai para torino Valdocco para estudar. Vive durante dois anos e meio com D. Bosco.1888 – No ano em que D. Bosco morre, Luigi entra no noviciado salesiano. Depois frequenta em roma a universidade gregoriana e gradua-se em filosofia.1895 – 21 de Dezembro. É ordenado sacerdote. Durante nove meses é director dos noviços em genzano (roma).1900 – Na China dá-se a «revolta boxer»: a explosão de ódio xenófobo traduz-se no massacre de numerosos cristãos.1903 – 8 de Junho; Callisto Caravario nasce em Cuorgnè (turim) de Pietro e rosa Morgando.1905 – Forma-se na China o «movimento nacionalista» Kuomintang, de que o principal expoente é Chiang Kai Shek.1906 – D. Versiglia dirige a primeira expedição missionária de salesianos na China. Primeira obra: a abertura de um orfanato em Macau, território sob administração portuguesa.
74MISSIONÁRIOS para o Século XXIILuigi Versiglia e Callisto Caravario Mártires Salesianos na China1911 – 10 de outubro. Fim do Celeste Império. É proclamada a república Chinesa.1911 – Monsenhor Versiglia assume a responsabilidade de uma missão no território chinês de Xiang-shan, a norte de Macau.1913 – em turim, para onde a família se transferiu, Callisto frequenta o oratório salesiano. Fica aluno interno em Valdocco.1917 – Na China é concedido um vasto território à missão salesiana em guangdong.1918 – Callisto entra no noviciado. No ano seguinte é salesiano.1920 – o território de guangdong é elevado a Bispado apostólico, com sede em Shaozhou. D. Versiglia é o Bispo (9 de Maio de 1921).1921 – em Xangai é fundado o Partido Comunista Chinês.1922 – Monsenhor Versiglia viaja até Itália. Caravario oferece-se como missionário na China.1924 – o Kuomintang abre-se ao Partido Comunista e aceita a cooperação com a urSS. Callisto parte para a China. trabalha como salesiano em Hong Kong e Xangai. Mais tarde trabalha igualmente em timor.1925 – Chiang Kai Shek inicia uma campanha para a unificação do país.1928 – Forma-se o exército Vermelho; estala uma vio-lenta guerra civil.
75 MISSIONÁRIOS para o Século XXIILuís Cunha1929 – Callisto é enviado para Shaozhou, onde o Monsenhor Versiglia o ordena sacerdote (18 de Maio); é enviado para a residência missionária de Linchow.1930 – No dia 25 de Fevereiro, Monsenhor Versiglia e D. Caravario acompanham, numa barca, três jovens da missão que regressam a casa; são surpreendidos por um grupo de piratas; na tentativa de defenderem os jovens, os missionários são massacrados.1949 – 1 de outubro. Proclamação da república Popular da China, presidida por Mao tsetung.1950-51 – os missionários salesianos são expulsos da China.1952 – É entregue em roma o pedido de beatificação de Mons. Versiglia e D. Caravario.1976 – o Papa Paulo VI decreta que Mons. Versiglia e D. Caravario são “mártires”.1983 – o Papa João Paulo II oficializa a beatificação dos dois mártires.2000 – 1 de outubro. Mons. Versiglia e D. Caravario são canonizados no Vaticano.
76MISSIONÁRIOS para o Século XXIILuigi Versiglia e Callisto Caravario Mártires Salesianos na ChinaBibliografiaBianco, enzo – I Buoni Pastori Danno La Vita Per Me – Mons. Luigi Versiglia e D. Callisto Caravario Salesiano Martiri, editrice elle Di Ci, Leumann (torino), 1983Martiri in Cina, elle Di Ci editriceL. Castano, Santità Salesiana, SeI, 1966a. L’arco, Mons Versiglia e D. Caravario. I primi partiri di D. Bosco, roma, ediz. SDB 1975Bianco, enzo, Hanno Dato La Vita Per Me, editrice elle Di Ci, 1976.
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80MISSIONÁRIOS para o Século XXIILuigi Versiglia e Callisto Caravario Mártires Salesianos na China
Volume IPadre Lancelote Rodrigues “Vida e Obra”Leonor SeabraVolume IIPadre Joaquim Angélico Guerra, S. J. “Um Globetrotter ao serviço de Deus e da China”Padre Henrique de Jesus Rios, S. J.Volume IIIMário AcquistapaceUm salesiano no Extremo OrienteMário Rodrigues BaptistaVolume IVP. Benjamim Videira Pires, Meu irmãoP. Francisco Videira Pires
MISSIONÁRIOS para o Século XXINão podem cabalmente explicar-se a identidade de Macau e o factor cultural que foi sua moção no decurso da História sem considerar a Diocese de Macau, os seus obreiros e legiões de servidores. Considerar, isto é, em adunação ao sidério, ou com o céu (cum + siderio), que foi o que desde os primórdios do porto macaense atraiu os inacianos encandescidos de fervores apostólicos e “acomodados” ao Outro – o que para sempre eternizou Macau como anfiteatro da compenetração cultural Europa/China, uma das grandes vias de realização da unidade ou arquitectação da ecúmena fraterna dos homens.Padres, missionários, mártires, letrados: servidores do Outro, tornado próximo, pelas obras de misericórdia, e no seu carácter e espírito compreendido pela cultura. De 1557 (Bula do Papa Paulo IV que missionava Macau como sede da expansão religiosa no Extremo Oriente) até hoje, em dádiva total aos mais necessitados (desamparados, pobres, doentes, abandonados, a todas as criaturas assombradas pelo espírito do mal), ou na docência, na investigação e no estudo da Língua, da História, dos arcanos civilizacionais.Foi o Século passado constelado por uma geração de ouro, de tantas figuras excepcionais em Macau radicadas, grandes nas obras, como no quase anonimato de uma humildade que é expressão de um verdadeiro sentido ancilar da vida e do destino.Não podemos deixá-los no desconhecimento e no esquecimento das gerações actuais e vindouras. É este imperativo que nos motivou à concepção de mais uma colecção no nosso acervo editorial – “Missionários para o Século XXI”.