• Meu irmãoP. Benjamim Videira PiresP. Francisco Videira PiresMISSIONÁRIOSpara o Século XXI
  • 136Missionários para o Século XXIP. Benjamim Videira Pires Meu irmão
  • TítuloP. Benjamim Videira Pires, Meu irmãoAutorP. Francisco Videira Pires EditorInstituto Internacional de MacauColecção“Missionários para o Século XXI” Volume IVCoordenação editorialRufino RamosAssistente de Coordenação José TeixeiraDirecção GráficaVictor Hugo DesignImpressão e EncadernaçãoTipografia WelfareTiragem500 exemplaresApoioFundação MacauMacau, Agosto de 2011ISBN 978-99937-45-45-7
  • Meu irmãoP. Benjamim Videira Pires
  • P. Benjamim Videira Pires
  • P. Francisco Videira PiresMeu irmãoP. Benjamim Videira Pires
  • 0P. Benjamim Videira Pires Meu irmãoMIssIonárIos para o Século XXIEsta ColecçãoMissionários para o século XXINão podem cabalmente explicar-se a identidade de Macau e o factor cultural que foi sua moção no decurso da História sem considerar a Diocese de Macau, os seus obreiros e legiões de servidores. Considerar, isto é, em adunação ao sidério, ou com o céu (cum + siderio), que foi o que desde os primórdios do porto macaense atraiu os inacianos encandescidos de fervores apostólicos e “acomodados” ao Outro – o que para sempre eternizou Macau como anfiteatro da compenetração cultural Europa/China, uma das grandes vias de realização da unidade ou arquitectação da ecúmena fraterna dos homens.
  • P. Francisco Videira Pires0 MIssIonárIos para o Século XXIPadres, missionários, mártires, letrados: servidores do Outro, tornado próximo, pelas obras de misericórdia, e no seu carácter e espírito compreendido pela cultura. De 1557 (Bula do Papa Paulo IV que missionava Macau como sede da expansão religiosa no Extremo Oriente) até hoje, em dádiva total aos mais necessitados (desamparados, pobres, doentes, abandonados, a todas as criaturas assombradas pelo espírito do mal), ou na docência, na investigação e no estudo da Língua, da História, dos arcanos civilizacionais.Foi o Século passado constelado por uma geração de ouro, de tantas figuras excepcionais em Macau radicadas, grandes nas obras, como no quase anonimato de uma humildade que é expressão de um verdadeiro sentido ancilar da vida e do destino.Não podemos deixá-los no desconhecimento e no esquecimento das gerações actuais e vindouras. É este imperativo que nos motivou à concepção de mais uma colecção no nosso acervo editorial – “Missionários para o Século XXI”.Os editores
  • 0P. Benjamim Videira Pires Meu irmãoMIssIonárIos para o Século XXI Índice11 P. Benjamim Videira Pires, Meu Irmão I – o HoMEM13 O voto do menino 18 Rumo providencial 20 Vigília de armas24 Educador28 Incipit vita nova32 Transfiguração38 Missus43 O coração debaixo da batina II – A oBrA52 O jornalista59 O poeta
  • P. Francisco Videira Pires0 MIssIonárIos para o Século XXI64 Teologia pastoral68 O antropólogo76 O historiador III - As LUTAs FInAIs91 Os antecedentes95 A coroa de glória98 A viragem104 Uma carta dramática106 A armadilha114 O tempo perdido118 Tempo e eternidade129 Bibliografia
  • 10MIssIonárIos para o Século XXIP. Benjamim Videira Pires Meu irmãoP. Benjamim Videira Pires com os pais e irmão em Macieira de Cambra, verão de 1942
  • 11 MIssIonárIos para o Século XXIP. Francisco Videira PiresP. Benjamim Videira Pires, Meu irmãoFrancisco Videira PiresCatedrático de sociologiaQuando, em começos de Janeiro de 1949, arriba a Macau, vindo de Hong-Kong, a bordo do Kuantung, «uma sucata velha, de chaminé alta como um charuto» (Benjamim, 1953, 151), o P. Benjamim, no vigor dos 32 anos, longe andava de pensar que só regressaria definitivamente a Lisboa, em voo da TAP, às 6 das madrugada do dia 6 de Agosto de 1998, reduzido a uma ruína e em cadeira de rodas. Neste espaço de quase 50 anos, a sua vida confunde-se de tal modo com a da “Cidade do Santo Nome de Deus”, em apostolado sacerdotal e actividade cultural, que não soam a hipérbole as palavras do Prof. Doutor Veríssimo Serrão, na carta de pêsames que me escreveu, ao afirmar que, enquanto a herança portuguesa perdurar nesse território, o nome de meu irmão permaneceria também indelevelmente ligado a ele.
  • 12MIssIonárIos para o Século XXIP. Benjamim Videira Pires Meu irmãoNão é fácil escrever sobre um irmão que, para mais, em cartas e dedicatórias de livros, sempre me chamava «irmão duas vezes», - pelo sangue e sacerdócio comuns. Ninguém, por isso, foi tanto seu confidente. A sintonia psicológica, percursos e ideais idênticos, longa e cons-tantemente entrecruzados, permitiram-me viver com ele, em completa empatia, ano a ano e a despeito das distâncias geográficas, cada um dos seus grandes ou pequenos dramas. A carta e o telefone, quantas vezes madrugada alta, pontuavam “os trabalhos e os dias» dum e doutro.Sempr nutri por ele admiração superior à de qualquer outro membro da família. Mais até que pelo sobrinho de escol Lucas Pires. Assombrava-me como, praticamente só com Deus, levou a cabo obra tão multiforme, desdobrando-se, com igual naturalidade, por iniciativas de apostolado, de alta cultura, de educação, de ensino, de construtor duma instituição escolar que hoje vale milhões, escrevendo sempre, para diversíssimos órgãos de imprensa e, mais ainda, livros de variados géneros literários. Com tempo de repartir pelas almas e pelos amigos, nunca suscitando neles a sensação de que estavam a estorvá-lo, como se a cada instante dispusesse da eternidade para cada um que o precisava.Nestas laudas, porventura longas, pelas páginas, mas sempre curtas, para a dimensão da sua personalidade, conto que ao menos um esboço fiel da sua alma venham encontrar quantos as lerem.
  • 13 MIssIonárIos para o Século XXIP. Francisco Videira PiresI – o HoMEMO voto do meninoQuarto de 7 irmãos, nasceu a 30 de Outubro de 1916, na vilazinha bragançana de Torre de Da Chama, com matriz documental na Idade Média e a sua lenda da «dama do pé de cabra», cuja versão local o saudoso Prof. Lindley Cintra considerava mais vetusta que a do P. Benjamim, de pé, à direita da mãe, em Setembro de 1926
  • 14MIssIonárIos para o Século XXIP. Benjamim Videira Pires Meu irmãonobiliário do Conde Barcelos pelo jovem Herculano transfigurada, nas Lendas e narrativas.O pai – Francisco Albino da Conceição Pires, das melhores famílias da terra, fizera o curso completo do seminário, embora sem receber ordens canónicas. Era o intelectual do burgo, lido nos românticos, em particular Garret e o Herculano romancista, escrevia para jornais da tendência miguelista da família, versejando com facilidade e bom domínio da métrica, da redondilha menor ao soneto. Deixou até uma novela de clima provinciano, à Júlio Dinis. Leitor apaixonado e senhor dumas centenas de volumes variados, passava o tempo a escrever, pelo que o Manuel, - o génio da casa e colega do Benjamim, desde a escola primária aos cursos de clássicas e filosofia - na sua irreverência infantil, o crismara de o papeloso.Pela mãe, Adelaide de Jesus Videira Fernandes, tinha sangue serrano, pois nascera na Edrosa (Vinhais). Menina de 12, passou a residir na Torre, em casa do pároco, tio materno, que, em testamento, lhe legou uma das boas casas da região. Do nebuloso morgadio de Vilar de Peregrinos, restava a tradição freirática da última professa das clarissas de Vinhais, vítimas do “Mata-frades”. À Torre se acolhera, em casa do sobrinho padre. Ao lombo de mulas possantes, com ela transportou o que pudera salvar, da rapinagem por
  • 15 MIssIonárIos para o Século XXIP. Francisco Videira Piresque o convento passou, no estilo do que sabemos, em protestos de Garrett e Herculano.“Mulher forte”, à boa letra da Bíblia, a despeito da sua modesta quarta classe, feita já aos 17 anos, por-que na Edrosa não havia ainda escola. Apesar disso, tão contagiante era a sua lucidez, que muito depois, em Coimbra, onde alugaram casa, para que os mais velhos frequentassem a Universidade, um Bispo e um Governador Civil lhe perguntaram em que se licenciara ao que, na sinceridade que sempre a distinguiu, logo esclareceu – Tenho apenas a instrução primária.Ao carácter meditativo do marido, juntava ela uma intuição e um sentido prático de governo, que encon-trava saída certa, para os problemas que o governo do casal lhes trazia. Eram “remediados”, entre os «ricos» e os «pobres», terminologia de classe que o antropólogo Brian O’Neill (1984, passim), revalorizou, e bem menos ideológica do que a do calão marxiano de «burguesia». O que já Aristóteles, na Política, chamava os mesói, - a classe média actual.Entendiam-se como Deus e os anjos. Se discordância de mais vulto surgia entre marido e mulher, recolhiam-se ao quarto, e aí limavam arestas. Só homem feito compreendi que não queriam traumatizar psicologicamente as crianças, com alguma dissidência entre eles, por mansa que fosse.
  • 1MIssIonárIos para o Século XXIP. Benjamim Videira Pires Meu irmãoO santuário da família era um recanto da sala de visitas, em que reinava uma velha litografia do Coração de Jeus, a que, pela voz do pai, o lar se consagrara. Ali, com o terço diário, se cumpriam os actos de culto doméstico – devoção à Sagrada Família, Hora Santa, apenas com excepção para a Via Sacra, na Quaresma, essa instituída na sala de jantar, onde, às refeições, nunca se deixava de «benzer a mesa».Nem por isso, ou antes por isso, faltava alegria, Então, o centro de convívio transferia-se para a leitura, entre a escaneta e o escano, com sua “dormideira”, para, no Inverno, almoçar e jantar, ao borralho, que os rachos de oliveira ou carvalho alimentavam. Depois da ceia, mor-mente pelo Natal e outras festas, o pai organizava uma sinfonieta. Enquanto ele no violino e os dois mais velhos no bandolim e com o violão acompanhavam, os mais novos aprendiam a cantar os lindos cantos do folclore regional.A um recanto, pelo Nata l , a rmava-se o presépio. O artista era o Benjamim. Com uma Ecce-Hommo, desenho do P. Benjamim, a crayon, (quando tinha 16 anos)
  • 1 MIssIonárIos para o Século XXIP. Francisco Videira Pirestesoira e os dedos, inventava ovelhas e pastores, prenúncio do talento plástico, revelado mais tarde. A testemunhá-lo, guardo, como tesouros, um Ecce Homo maravilhoso a carvão, quando contava apenas 16 anos, e um auto-retrato, com o esboço daquele seu sorriso de bondade, a rondar já os 65 e em Macau. E o milagre aconteceu. Teria terminado a primeira classe, a caminhar para os 7 anos. Uma das epidemias rurais do tempo eram as “lentilhas”, designação regional do carbúnculo, que nasceu ao menino sobre a face esquerda. As penicilinas inventá-las-iam, décadas bem mais tarde. O único João Semana andava por fora, e demorado. Acudiu o farmacêutico, prestimoso. O recurso habitual, para males destes, era o ferro em brasa. Com o quarto a cheirar a carne queimada, enquanto o Sr. Figueiredo, retirando-se, após a cruel cirurgia, confidenciava à mãe, aflita, que «o menino não escapa», ele deu de olhos numa estampa antiga de S. Francisco Xavier, pendente da parede branca. Porque Auto-retrato sobre uma fotografia – em Macau
  • 1MIssIonárIos para o Século XXIP. Benjamim Videira Pires Meu irmãovagamente aprendera que o santo fora «missionário», percebendo o sussuro desalentado do farmacêutico, pôs as mãos para a imagem, prometendo-lhe que, se o curasse, havia de ser missionário como ele.Só muito mais tarde, porventura já em Macau, conheceria promessa idêntica do notabilíssimo biógrafo do grande Apóstolo do Ocidente, – o jesuíta alemão Jorge Schurhammer (1992,I,XXXII), pelo que a decisão do menino anacronismo seria filiá-la neste. Aliás, pais e irmãos, desde a cura repentina da criança, com o pequeno gilvaz que lhe ficou no rosto, sempre recordaram o sucedido fielmente, desde então.Rumo providencial Mas os tempos mudavam. Como a casa era farta, na sua agricultura de subsistência, com lavrador e moço de lavoura, o pai recusou até o convite para ensinar no Liceu de Bragança (– «Para aturar canalha, bem me bastam os meus»). E, quando mais tarde, mudou de opinião, não o permitia já a lei. Porque a família crescera para seis rebentos, deixaram de veranear um mês na Póvoa de Varzim, levando criada, para ama dos pequenos. Caira sobre o Ocidente o tremendo crack de 1929 (Galbraith, 1976).Os “rapazes” agarrados “às terras”?, - interrogava-se, angustiada, a mãe, alma dos grandes rasgos. Tinham
  • 1 MIssIonárIos para o Século XXIP. Francisco Videira Piresde ir estudar para fora, audácia pioneira e que suscitou clamor de espanto, entre os restantes remediados do burgo.Providencialmente, passou por lá e hospedou-se em casa um jesuíta extraordinário, - o P. Anacleto Dias, que viria a ser missionário em Macau. Desde 1910, a Companhia de Jesus encontrava-se refugiada no estrangeiro, ultimamente em Espanha. O P. Anacleto levou consigo o Benjamim, que terminara a quarta classe, aos 10 anos incompletos, com mais dois irmãos maiores, enquanto o mais velho ia para o Liceu de Bragança.Em 1910, a primeira República expulsou as Congregações religiosas e, como as outras, a Companhia de Jesus teve de refugiar-se no estrangeiro, sobretudo em Espanha. Daí que o Benjamim e os dois irmãos fossem cursar preparatórios no seminário menor da Ordem, na aldeia de San Martin de Trevejo (Cáceres), encostada à fronteira do Sabugal. Logo a sua aptidão para as letras começou a afirmar-se, como testemunha o caderninho escolar que a mãe guardava como relíquia, com os seus primeiros versos. Tão indelével era a saudade por esse pueblo fronteiriço, que, muito mais tarde, já em Macau, me pediu para o levar lá. Valeu a pena, já que alcançou do Bispo de Ciudad Rodrigo, de cuja diocese o velho convento era propriedade, a oferta dum grande relicário seiscentista,
  • 20MIssIonárIos para o Século XXIP. Benjamim Videira Pires Meu irmãode talha doirada, com um osso do braço de S. Paulo Miki. Mandei-o restaurar, e fomos oferecê-lo, ele e eu, ao santuário dos mártires de Nagasaki, inundando de felicidade o P. Pacheco, jesuíta espanhol, naturalizado japonês, com o nome de Yuki.Em Janeiro de 1932, após quatro anos longe da família, pois o regulamento de então recusava férias, até partir para o noviciado, regressavam os jesuítas a Portugal, dado que o Estado Novo permitiu que os Institutos banidos há 22 anos pudessem instalar-se livremente na Pátria. A Escola Apostólica transferiu-se para Guimarães, onde estivera até 1910, mas agora num antigo convento repleto de história, na encosta da Penha, onde presentemente funciona a excelente Pousada de Santa Marinha.Mas, ao cabo desse ano, Benjamim partia para outro mosteiro, de origem medieval, em Alpendurada (Marco de Canavezes), onde permaneceria os quatro anos do noviciado e juniorado, formando-se em espiritualidade e clássicas.Vigília de armasNa Autobiografia, S. Inácio conta que, após a conversão no castelo de família, se dirigiu em peregrinação ao santuário catalão de Montserrat. Embebido em ideais de cavalaria,«Amadis de Gaula
  • 21 MIssIonárIos para o Século XXIP. Francisco Videira Piresy de semejantes libros, venianle algunas cosas al pensamiento semejantes a aquellas; y así se determinó de velar sus armas toda una noche, sin sentarse ni acostarse, mas a ratos en pie y a ratos de rodillas, delante el altar de Nuestra Señora de Montserrat». (Loyola, 1952,40).Vigília de armas, bem mais demorada, era a que agora Benjamim encetava, ao entrar no noviciado, para formação no espírito da Ordem. Meditação e estudo constantes, a fim de que, ao cabo de cerca de 20 anos, lançado na refrega, fosse um “soldado de Jesus Cristo” (II Tim., II, 3), apetrechado de santidade, cultura e ciência, «para maior de Deus», no serviço incondicional aos homens, onde a obediência determinasse.A Companhia teve como início um grupo de “doutores” de Paris, então o primeiro centro universitário do mundo, imbuído de humanismo renascentista. Se homens como Erasmo e seus pares tomavam por divisa o «homo sum, humani nihil a me alienam puto» (sou homem, e nada humano o considero estranho a mim), do velho Terêncio, S. Inácio ungiu de graça esse ideal pagão, interpretando-o à luz do «omnibus omnia factus sum, ut omnes facerem salvos» (I Cor., IX, 22) (fiz-me tudo para todos, a fim de a todos salvar). Esta abertura integral à maneira de ser e estar dos outros, ouvindo-os e compreendendo-os, antes de procurar convencer, exprimiu-a o fundador numa fórmula de génio, moldada
  • 22MIssIonárIos para o Século XXIP. Benjamim Videira Pires Meu irmãona sua linguagem mal limada de soldado:« ganando su amor hacemos nuestras cosas mejor; y así, entrando con él, salimos con nosotros» (Loyola, 1952, 680), já identificados com os desígnios de Cristo.Desde o noviciado, o jesuíta esforça-se por harmonizar constantemente o livro com o homem, enriquecendo-se de todo o saber possível, com experiências na catequese das crianças, nos hospitais e nos bairros pobres. Mais tarde, ao fim das licenciaturas de cultura clássica e de filosofia, ensaia-se no ensino, em colégios e missões, por terras do mundo, onde a difusão do reinado de Cristo o solicite.As qualidades individuais são cultivadas sabiamen-te, nesse longo tirocínio, em que a assimilação, o mais variada e completa possível, de todo o saber universal, há-de pautar-se pela transformação sobrenatural. Na prática da ascética e da mística ignacianas, o fito é fa-zer de todos servidores santos e sábios do Evangelho. Falando a linguagem da época e do lugar em que vão actuar.A boa complementaridade dos vários escalões por que os cursos aparecem escalonados, preparam o futuro sacerdote, degrau a degrau, para que o nível seguinte encontre apoio sólido no que o precedeu. A cultura humanística, assente na paideia grega e nos clássicos latinos (desde o juniorado, o latim convertia-se na língua falada e escrita, para aulas, tempos de
  • 23 MIssIonárIos para o Século XXIP. Francisco Videira Piressilêncio e correspondência entre estudantes), tudo em grau de licenciatura, abrangia ainda o conhecimento profundo da história e das civilizações modernas, com atenção privilegiada para a mundividência portuguesa. O treino da palavra, falada e escrita, até em exercícios públicos, apoiava-se assiduamente no estudo cuidado da teoria, na chamada persistente aos mestres de sempre, desde Homero aos contemporâneos.Por este caminho, a destreza para pensar e argumentar consolidava-se, abrindo passo à filosofia, com mestres da Ordem, doutorados em Lovaina e na Gregoriana, onde os ventos da modernidade circulavam. Criaram eles uma das nossas revistas de filosofia mais sérias e actualizadas. Através do curso, em inovação pioneira entre nós, a obra revolucionária de Joseph Maréchal, S.J., - Le point de départ de la Métaphysique, citada alguma vez pelo P. Benjamim, até em artigos de vulgarização, ensinava os estudantes a superar os equívocos de Kant, acerca da rainha de toda a especulação filosófica.A epistemologia e a logística, logo de entrada, ginasticava-os no jogo dialéctico, pondo os alunos a discutir com os mestres, com veemência tal, que, e porque a sala de aula dava para a rua pública, um polí-cia de turno pensou intervir no que imaginava distúrbio de tomo. Mas logo percebeu que eram estudantes em diatribe académica. E para mais em latim... A história do
  • 24MIssIonárIos para o Século XXIP. Benjamim Videira Pires Meu irmãopensamento filosófico, dos pre-socráticos a Heidegger, pelos textos originais, a ética, a teodiceia, descendo cri-ticamente às próprias raízes da razão, com abertas para duvidar legitimamente, só contribuíam para fortalecer o vasto panorama cultural, antes acumulado.As sebentas e os apontamentos, de cursos e leituras pessoais, serviriam depois de lastro ao que ensinariam e escreveriam. No que Benjamim se iniciou, já no curso de filosofia, apesar de algum desagrado de professo puritano, que só compreendia o aluno en-clausurado nas disciplinas curriculares. Nasceu, nesse período o seu primeiro livro, Carminda, biografiazinha duma jovem angélica, falecida prematuramente, irmã de 4 jesuítas, dois deles intelectuais assinalados: Mário Martins, medievalista investigador da nossa espirituali-dade, e Diamantino, catedrático de filosofia e autor de ensaios renovadores.EducadorFormado em clássicas e filosofia, apoiadas num leque de ciências positivas, das matemáticas à química e à fisica, Benjamim inaugura, finalmente, outra prova para que a natureza o talhava: a educação da juventude.Semente imprescindível do futuro. S. Inácio, in-tuindo a transcendência da obra pedagógica, nessa viragem histórica da humanidade, nas Constituições
  • 25 MIssIonárIos para o Século XXIP. Francisco Videira Piresda sua Companhia, consagra páginas sapientíssimas à organização das escolas de todos os níveis, que os jesuítas irão manter. Mesmo os textos que são letra do P. Polanco, seu secretário, veiculam todas o seu espírito. (Loyola, 1952,578 segs.).A epopeia educativa da Ordem, no passado e no presente, desde o ensino catequético e elementar ao uni-versitário, através dos séculos e em todos os Continen-tes, constitui um dos seus melhores padrões de glória. Para citar apenas o caso do Brasil, tão ligado conosco, o historiador Serafim Leite, S.J., na sua monumental História da Companhia de Jesus na Assistência do Brasil, documentou como toda a evangelização desse país imenso assentou, em grau maior, na catequese e na rede pedagógica, começada a montar por Nóbrega e Anchieta. Na linha que procedia do fundador, o famoso ratio studiorum, um dos códigos de ensino mais sábios de sempre, respira, em todas as cláusulas, o perfume da alma de S. Inácio. (Cfr, revista Portuguesa de Fi-losofia, LV (1993)).Ao partir de Braga, para ser professor de língua e literatura portuguesas, acumulando o cargo de prefeito, o P. Benjamim estudara Max Scheler, que, na melhor das suas obras, o formalismo na Ética, lembra: «Nada no mundo atrai tão profunda, imediata e necessariamente uma pessoa para o bem, como a visão de um homem de bem, na prática do bem. (...) O bom exemplo, puro e
  • 2MIssIonárIos para o Século XXIP. Benjamim Videira Pires Meu irmãosem mancha, ultrapassa de longe qualquer outro modo de fazer bem a outrem». (Cit. De Hovre, 1952,19). Antes, já os seus clássicos latinos lhe repetiam que “verba volant, exempla trahunt». E a paideia grega, mais original e originária, mostrara-lhe que a personalidade resulta da lenta moldagem duma forma (morphè), que S. Paulo é o primeiro a identificar com Cristo. Se já para Platão, nas Leis (X 897 b), «Deus é o pedagogo do universo», os Padres da Igreja grega, que tinham estudado nas melhores escolas de Atenas, retomam a ideia paulina e insistem em que a forma definitiva da humanidade é Cristo. (Jaeger, 1991,100 segs).Benjamim punha todo o ardor nas suas aulas, pois aprendera até aí, com tantos dos seus professores ex-perientes e modelares, que, mesmo a última aula que se dá, deve preparar-se, com tanto apuro como a primeira. Mas era a missão de prefeito que mais o seduzia. A dis-ciplina era o menos. Ou melhor: devia brotar do exemplo e do amor. Conquistada a alma daquela rapaziada, mal precisaria de impor e corrigir.Faz a vida deles, no salão de estudo, nos campos de jogos, nos passeios esticados entre pinhais, na Serra da Gralheira. Ouve-os, antes de sugerir seja o que for. E cria a Milícia de Cristo Rei, cuja sétima e última “lei” apontava para «um alto ideal», a procurar «com alegria e entusiasmo». Não admira, assim, que esses estudantes de preparatórios, entre os 12 e os
  • 2 MIssIonárIos para o Século XXIP. Francisco Videira Pires18 anos, o recordem, ainda hoje, com saudade, como um dos amigos que mais os marcaram para bem. A maioria acabava por verificar que a sua vocação não era o sacerdócio, mas o laicado. Formaram-se, algum chegou a catedrático eminente, acabando por constituir família. A estima pelo antigo professor e prefeito manteve-se, porém, intacta, a ponto de, nas suas vindas a Portugal, o visitarem e convidarem para suas casas, como se pertencesse ao círculo familiar de cada um deles.Fixado em Macau, o ensino constituiu, desde a chegada, uma das suas ocupações predilectas. Tanto mais que a escola era, desde as origens missionárias da Companhia, com S. Francisco Xavier, na Índia, em Malaca e no Japão (Schurhammer. II, III e IV), um dos instrumentos preferidos de evangelização. Do Liceu à Universidade local, medeiam dezenas de anos. Nesse intervalo, embora começasse pela responsabilidade duma das escolas que a Ordem já mantinha na cidade, não tardou a sonhar com um grande centro educativo, que prestasse, com o infantil e primário, todo o programa do ensino médio do território. Partiu do princípio, com uma escolinha para os mais pequeninos, em edificio de ocasião e emprestado. Até alcançar, com o Instituto Dom Melchior Carneiro, a plena realização da que sempre considerou a maior e melhor das suas obras. Lá o veremos.
  • 2MIssIonárIos para o Século XXIP. Benjamim Videira Pires Meu irmãoIncipit vita novaO dominicano francês Pierre Mandonnet, bom medievalista e conhecedor exímio da obra de S. Tomás de Aquino, publicou, em 1935, a monografia Dante le théologien, que deixou perplexos os dantólogos do tempo. Defendia, com muita argúcia e perfeito domínio do tema, que a Beatriz do genial florentino nunca existira, e era apenas um símbolo da teologia, que ele estudara profundamente no quadrivium. No radical de Beatriz, ocultar-se-ia o adjectivo latino beata (feliz), pois a teologia, sendo a ciência de Deus, é aquela que, pelo estudo e pela prática, abre ao homem o caminho da maior felicidade.Essa a ideia que Dante começa por exprimir, logo à entrada de La vita nuova: «In quella parte del libro de la mia memoria, dinanzi a la quale poco si potrebbe leggere, si trova una rubrica, la quale dice: Incipit vita nova.» (Dante, 1964,265).Seja o que for do arrojo da tese, para Benjamim iniciar a licenciatura de teologia, após dois anos de magistério, na Faculdade jesuítica da Cartuja, em Granada, representou realmente uma vida constitutivamente nova. Era a preparação, mais directa e intensiva, para o que desde menino ambicionava: ser padre - missionário. Tudo o que ficava para trás, representava degraus, para caminhar até ali.
  • 2 MIssIonárIos para o Século XXIP. Francisco Videira PiresCultura geral e filosofia iam receber, agora, o complemento mais precioso. Sabia, por S. Tomás de Aquino, que, ao classificar a filosofia de “ancilla theologiae”, não se negava nem a autonomia da primeira, nem a sua importância imprescindível, para assimilar a alma profunda da outra. O complemento insubstituível do anselmiano “f ides quaerens intellectum” está no “intellectus quaerens fidem”.João Paulo Il acaba de o clarificar bem, na Fides et ratio (no. 49), quando recorda: «Fundamentalmente, a raiz da autonomia de que a filosofia desfruta, está naturalmente orientada para a verdade e, em si mesma, conta com os meios necessários para alcançá-la. Uma filosofia consciente deste seu “estatuto constitutivo”, respeita necessariamente também as exigências e as evidências próprias da verdade revelada». Factualmente, não há teologia autêntica, sem uma filosofia de base. A luterana, posterior a Kant e a Hegel, não aparece toda moldada, nos seus maiores representantes, por categorias destes dois filósofos? Basta lembrar a veemência, às vezes quase violência, de Karl Barth, ao rejeitar o princípio da analogia e, com ele, as provas tomistas da existência de Deus.Benjamim matriculava-se numa escola excelente. Mestres como José Aldama, catedrático de mariologia, em que foi umas das maiores autoridades no século
  • 30MIssIonárIos para o Século XXIP. Benjamim Videira Pires Meu irmãoXX, e Pedro Abellán, depois chamado para leccionar a cadeira de Moral, na Universidade Gregoriana (Roma), impressionaram-no, marcando-o. Tanto, que estou certo que a génese de A mulher venceu devemos buscá-la nas lições magistrais do P. Aldama, de que guardava memória enternecida.Granada, com a grandiosidade da catedral gótica, o fascínio moirisco da Alhambra e do Generalife, com o marfim da Sierra Nevada, para a última linha do horizonte, falavam alto ao espírito sensível do jovem teólogo, na flor dos 24 anos. Visitaria também, nas férias, Sevilha e Córdova. A Giralda, o Alcázar, a Torre del Oro, a Casa de Pilatos, com as suas ruelas a rescender ainda a perfumes e sabores árabes, com o humor castiço dos sevilhanos, bem como a espantosa mesquita de Córdova, com a catedral cristã empotrada no seu interior, impressionaram-no de tal modo, que, em postais ilustrados que escrevia à família, assiduamente, as suas palavras vinham quentes de deslumbramento, por todas essas maravilhas artísticas, instruindo-se mais na sua história e estilo.Fugindo aos rigores de Agosto, a comunidade transferia-se para a orla mediterrânica de Puerto Santa María, onde nascera um dos seus poetas preferidos, Rafael Alberti. Era uma aberta, que não podia desperdiçar, para conhecer melhor a literatura espanhola, sobretudo da “geração de 70” em diante. Nalgum trabalho para
  • 31 MIssIonárIos para o Século XXIP. Francisco Videira Piresreligião e Pátria, muito mais tarde, evidencia bem como este contacto foi sério e alentador.Mas férias eram férias. Ora, desde menino, Benjamim tomara sempre muito a sério o que, para ele, fosse fundamental na vida. E nada poderia comparar-se com a graça do sacerdócio. Com uma espiritualidade intensa, no exercício diário de todas as suas exigências, o aprofundamento científico das disciplinas teológicas constituía o instrumento indispensável para ser padre , à altura do tempo e do meio que iria enfrentar.Partia-se da Bíblia, palavra pessoal de Deus comunicada ao homem, por autores humanos, distanciados pela cultura, línguas diversas e pelo tempo. A exegese, no hebraico/aramaico ou no grego popular em que fora escrito cada um dos seus livros, no Antigo e Novo Testamento, obrigando a uma atenção beneditina sobre cada palavra, na multiplicidade dos códices autênticos, abria passo à hermenêutica, interpretando o sentido misterioso dos textos, à luz da Tradição de sempre, perpetuada, ao logo da história, pelos Doutores e Concílios. Com que alegria me confidenciou a descoberta, feita no estudo de Prat, Cerfaux e Bover, da travação misteriosa entre o moisaico «Eu sou Aquele que sou» (Ex., III, 14), com textos fundamentais da teologia paulina!O leque deslumbrante desdobrava-se, em quatro anos, por cadeiras fundamentais, desde a eclesiologia, a
  • 32MIssIonárIos para o Século XXIP. Benjamim Videira Pires Meu irmãodogmática, o tratado da Santíssima Trindade, a cristologia, a Moral, os Sacramentos, a história eclesiástica, e tantos outros sectores, por que a Revelação divina se clarificava, passo a passo. Apesar de ter sido sempre, até então, estudante modelar, nenhum outro curso o apaixonara tão vivamente. A ponto de o P. Aldama, sábio e exigente como poucos, estranhar que algum dos professores de Braga não o tivesse valorizado como bem merecia.Esta aprendizagem andava, por outro lado, em contacto constante com os fiéis cristãos. Sábados de tarde e domingos, desciam os teólogos aos bairros populares dos jitanos e paróquias da periferia, a auxiliar na catequese e actividades pastorais diversas. Assim preparavam o apostolado futuro, praticando o que a teoria lhes ia ensinando. E ensaiavam também os primeiros voos oratórios a sério.TransfiguraçãoGostou sempre de pôr um toque de poesia divina, nas fases decisivas da sua vida. Nas próprias estampazinhas religiosas de aniversários da sua grande escola macaense, este estilo da sua maneira de estar na vida se percebe. O simbolismo sobrenatural dos mistérios cristãos comovia-o intensamente. Não foi, pois, acaso a escolha da vigília e festa da Transfiguração do Senhor, a 5 e 6 de Agosto, para a ordenação sacerdotal e “Missa Nova”.
  • 33 MIssIonárIos para o Século XXIP. Francisco Videira PiresP. Benjamim celebrando a “Missa Nova”
  • 34MIssIonárIos para o Século XXIP. Benjamim Videira Pires Meu irmãoAcompanhei-o em todos os passos, até porque fui eu que programei os pormenores com o Bispo ordenante, - o venerando Dom Agostinho de Jesus e Sousa, na Sé do Porto, como também a Eucaristia solene, na igreja portuense da Companhia de Jesus, consagrada a Nossa Senhora de Fátima, com lindo paramento gótico oferecido pela madrinha de baptismo e uma tia paterna e que entregou ao noviciado português da Companhia, então em Soutelo, nos arredores de Braga. Mal se cabia na igreja. Muitos antigos alunos marcavam presença, vindos de vários lados, a compartilhar com ele essa hora única de júbilo. A tom com os textos litúrgicos da festa, sentia-se transfigurado. Nas “lembranças”, distribuídas no final, enquanto os assistentes lhe beijavam as mãos ungidas, gravara um breve texto latino do Apocalipse (II,28), que diz: «Dar-lhe-ei a estrela da manhã». Bem pode ter-se lembrado do testemunho ocular de S. Pedro, numa passagem da sua segunda Carta, passagem que figura na liturgia actual dessa festa. Emocionado ainda com o esplendor celeste dessa visão única, o Apóstolo aconselha os seus fiéis a guiar-se em tudo pela Fé do seu baptismo, «lâmpada que brilha em lugar escuro, (...) até que nasça, nos vossos corações, a estrela da manhã» ( II Pet., I, 19)Dia 15 seguinte, festa da Assunção, na vilazinha de Torre de Da Chama, toda a gente andava em festa. É que o P. Benjamim ia celebrar lá, na igreja em que
  • 35 MIssIonárIos para o Século XXIP. Francisco Videira Piresnascera para a família de Deus, a primeira Missa na sua terra. Apesar de ampla, não se cabia nela, com o próprio coro sem uma falha. Pais e irmãos, ainda todos vivos, tinham mais lágrimas de intensa alegria do que palavras. O P. Benjamim sentia-se literalmente transfigurado, como se aquelas horas fossem já do Céu. E, logo no dia seguinte, esqueceu-se do tempo, no confessionário, tanta fora a gente que acudira. Pelas ruas, demorava-se a conversar com todos, sem pressa, confortando idosos, rindo com as crianças. Relapsos que não se confessavam sabia-se lá quando, reconciliou-os, ficando amigos para sempre. E legalizou também todas as uniões matrimoniais canonicamente irregulares. Mas tinha de re-gressar a Granada, para o último ano de teologia, dado que os jesuítas gozavam do privilégio de se ordena-rem no fim do terceiro. Agora, porém, cada dia tinha sentido maior. Na Missa, realizava, enfim, Igreja Matriz de Torre de D. Chama, onde o P. Benjamim foi baptizado e celebrou a segunda “Missa Nova”
  • 3MIssIonárIos para o Século XXIP. Benjamim Videira Pires Meu irmãoa única acção perfeita, infinitamente perfeita, de uma criatura terrena, porque, personificando Cristo, verda-deiro Sacerdote e Vítima do Sacrificio actualizado pela sua palavra e pelas suas mãos, nesses momentos de eternidade a sua transfiguração convertia-se na reali-dade irrecusável da existência.E partilhava-a com todos os homens, seus irmãos. Aprendera, com S. Tomás de Aquino, que o sacerdócio vive todo, e fundamentalmente, para tornar Cristo eucaristicamente presente na terra, preparando os cristãos para o receberem dignamente. É que, doravante, com o poder de perdoar pecados, era capaz de repetir ao maior criminoso, arrependido: - Vai em paz, e não tornes a pecar. Na vida terrena do homem, nada pode equiparar-se a isto. Nem à capacidade, daqui por diante alcançada, de que a sua palavra realizasse, como arauto da Boa Nova, a incarnação no Verbo. Pregar deixava de reduzir-se a exercício retórico de treino para o futuro. Desde a primeira comunidade cristã, a pregação toma o significado duma Eucaristia, já que, a exemplo de Pedro, cabeça do colégio apostólico, o “ministério da palavra” se converte em dever primário da sua missão (Act.,VI,1-7). Palavra e Eucaristia interligam-se indissoluvelmente. Comungada em espírito de Fé, a Palavra, anunciada evangelicamente, converte-se também no alimento sobrenatural de
  • 3 MIssIonárIos para o Século XXIP. Francisco Videira Piresvida eterna. A pregação do P. Benjamim unge-a, pois, desde agora, um carisma divino, que, ao contrário duma linguagem puramente humana e por muito arrebatadora que artisticamente seja, não se limita a deslumbrar sensibilidade e razão; - edifica literalmente, convertendo os que a recebem docilmente, em pedras vivas da Igreja de Deus. Esta a razão por que ele tanto prezava a oratória sagrada.A formação dum jesuíta só termina com a “terceira provação”, após a conclusão da teologia. Para isso, ruma a Salamanca, onde, sob a direcção do P. Enrique Carvajal, santo e sábio, dos jesuítas mais eminentes de Espanha, passa mais um ano. Estuda profundamente, em letra e espírito, as Constituições da Ordem, repete os “exercícios de mês”, desdobra-se em actividades pastorais variadas, peregrina a santuários exemplares da santidade cristã, como ao túmulo da Doutora da Igreja, Santa Teresa de Jesus, “a Ibéria feita mulher” (Pascoaes, 1936). Tanto o impressionou esta visita, que, muito mais tarde, revisitando o Colegio de San Estanislao, em Salamanca, me pediu para voltar a Alba de Tormes.A meio deste ano, vem a Portugal, para a prova do mês de pregação. Não parou um momento. Pela Beira Baixa e Ribatejo, com algum retiro a clero diocesano, o seu verbo inflamado, muito depois, ainda mo recordariam, ocasionalmente, leigos e padres. No
  • 3MIssIonárIos para o Século XXIP. Benjamim Videira Pires Meu irmãoministério da confissão, mostrou-se infatigável, com horas intermináveis, de manhã e de tarde, até pela noite fora, enclausurado nos confessionários desconfortáveis de então.MissusCom 30 anos (caso raro, entre jesuítas, que normal-mente só terminam a carreira com 32 a 33), só já pensa em cumprir o voto que, criança, fizera a S. Francisco Xavier, preferindo Macau, por ficar mais próximo de Sanchoão, onde o grande Apóstolo morrera.Respeitando embora a sua vocação, os superiores precisaram dele, por dois anos, primeiro na “residência” da Covilhã. Logo o clero da região deu por ele. Chamavam-no para as mais diversas actividades pastorais, até para tríduo e festa de tanta responsabilidade como foi a inauguração da sede duma paróquia nova, a de Nossa Senhora de Fátima, agora a valer também de igreja da Universidade da Beira Interior. Por esse tempo, a despeito de tanta juventude, o seu Provincial não receou incumbi-lo de dirigir retiros ao clero secular.Os seus dotes de professor não andavam esquecidos. Faltara o mestre de história no Instituto Nun’Álvares, nas Caldas da Saúde (Santo Tirso). Escolhem Benjamim, para o lugar. Quem sabe se o seu
  • 3 MIssIonárIos para o Século XXIP. Francisco Videira Piresdestino de historiador e membro de várias Academias do ramo, não nasceria então. Sim ou não, foi por essa altura que se revelou, aos olhos dos superiores, como orador de largos recursos. Terminara a procissão solene da festa do Coração de Jesus, largamente concorrida de alunos e fiéis das localidades limítrofes. O Reitor do colégio pediu ao P. Benjamim que subisse à sacada da frontaria do edifício enorme e pregasse. No final, Reitor e mais padres, alguns com nome feito em púlpitos portugueses, correram a abraçá-lo, felicitando-o efusivamente.Veio o fim do ano escolar. E Benjamim entrega-se todo à preparação da partida para Macau. Despedidas da família e de amigos. Nesse tempo, a viagem por mar arrastava-se por dois meses, isolado do mundo em que se fizera, pois a bordo do modesto navio holandês Kertosono, de passageiros e carga, era quase impossível comunicar para a Pátria, mesmo através de carta retardada, escrita nalgum porto de escala.Contamos afortunadamente com Meia volta ao mundo, relato da viagem, que se tornou, sem que, ao redigir essas cartas, pensasse nisso, num retrato comovido da sua alma. Logo de entrada, evocando Camões, como, em muitas das outras páginas, citando os seus poetas, revela o ideal que o guia, - a ânsia de dilatar «a Fé e o Império». Ainda não tinham
  • 40MIssIonárIos para o Século XXIP. Benjamim Videira Pires Meu irmãosoprado sobre Portugal os ventos escaldantes do 25 de Abril, que, ao povoar-nos de mitos, fez de nós homens partidos. E perdidos da nossa mundividência multissecular. Ele ia de alma inteira, como procurará manter-se até ao fim, contra ventos e borrascas. Sem nunca se considerar ultrapassado. Até porque o “império” que ajudaria a dilatar era de almas para Cristo, escudado na força indomável duma Fé vivida «até ao epigástrio», como diria o Kierkegaard de o desespero humano.Percebe-se bem, à medida que esse livro avança em páginas, a pressa de chegar à sua terra prometida. Aguardavam-no “irmãos” jesuítas, amigos de velha guarda. Mas a demora por território macaense ia ser curta. Queria embeber-se todo, quanto antes, de cultura chinesa, a começar na língua. Ora, a “missão” de Shiuhing, integrada na diocese de Macau, era o lugar ideal para este objectivo. A comunidade jesuítica da cidade, composta de padres e irmãos leigos, alguns deles nativos, mantinha um colégio e uma paróquia florescentes, além de outros centros missionários, todos activos, dispersos por esse enclave eclesiástico do que restava do Padroado português no Oriente. Logo tratou de aprender a língua, que acabou por dominar tão bem, que surpreendia os próprios naturais da terra. Até o nome achinesou, passando a ser conhecido por P’un-Sân-Fû.
  • 41 MIssIonárIos para o Século XXIP. Francisco Videira PiresMissionou em vários postos confiados à sua Or-dem. Criando raizes de sólida amizade entre os seus cristãos. Surpreendeu-o o triunfo definitivo do maoísmo. Sabendo que estava para ser encarcerado, os seus fiéis, sem olhar a riscos, passaram-no de barco, durante a noite, para território português. Identificara-se em tudo com eles, nos hábitos alimentares, dominando com destreza os pauzinhos, tomando banho com toalhas molhadas, cumprindo as vénias de estilo num banquete. A mãe, descobria, com uma ponta de humor, que até na fisionomia se ia tornando chinês.Se vinha à Europa, sempre a fugir, o seu pensamento ia a cada passo para essas terras, mesmo em circunstâncias que aparentemente nada tinham com elas. Na minha casa de S. Amaro de Oeiras, mostrei-lhe uma garrafa de porto com 150 anos e que, em parecer de entendidos, renderia, em leilão londrino, uns 200 contos. Pediu-ma de imediato, «para os meus chinesinhos».Toda a sua actividade multiforme (capelão militar, pároco de S. António, professor do Liceu ou da Universidade locais, jornalista, historiador), traduzia, com naturalidade impressionante, a sua paixão missionária. Com sabedoria guiada pela prudência, não forçava ninguém. Considerava-se compensado de todos os sacrifícios, se baptizava um adulto. Na primeira carta para a mãe, escrita de Macau, as laudas mais extensas
  • 42MIssIonárIos para o Século XXIP. Benjamim Videira Pires Meu irmãoreferiam o baptismo que administrara, durante a viagem de barco, a um rapaz que seguia com eles.Sabendo isso, na primeira vez que o visitei, em Macau, ao reparar que o corpo inteiro do Instituto Dom Melchior Carneiro, ainda a dar os primeiros passos independentes, assistiam à Missa solene, com respeito impressionante, mas com muito poucos a comungar, logo me explicou, ante a minha estranheza, que, se fosse a guiar-se pela simpatia pessoal, todos receberiam o baptismo. Não podia antecipar-se ao vento do Espírito, que sopra quando e como quer. Mas nas excursões cul-turais que, anualmente proporcionava aos professores, pelas maravilhas milenares da China continental e na Formosa, celebrava a Missa em chinês, para os católi-cos, com algum deles a fazer as leituras, distribuindo a comunhão aos que desejavam.Era duma fidelidade quase escrupulosa ao progra-ma diário da vida espiritual: meditação matinal, Missa. Breviário e rosário completo. Entre as “recordações” pessoais que me confiou, tudo muito pobre mas duma grande riqueza sobrenatural, figura uma agenda de 1986, em que, fiel à linha dum hábito jesuítico do noviciado, regista o seu dia-dia, com relevo preferencial para as actividades piedosas. Abrem sempre com quatro mai-úsculas: O. J. T. P., precedidas por uma cruzinha, tudo a tinta vermelha. Para exprimir que segredo? Só encontro esta leitura: - «Ó Jesus, tem piedade».
  • 43 MIssIonárIos para o Século XXIP. Francisco Videira PiresLogo na primeira página. esta efusão de alma, que copio, respeitando a ortografia original de minúsculas e maiúsculas: «Céu azul a toda a volta. Mas vento e sol. CRISTO, DIZEI-ME: SOU A VOSSA SALVAÇÃO». Nas estadias em minha casa de Oeiras, levantava-se muito cedo, tomava banho e recolhia-se, já vestido, a meditar e a rezar longamente. E, logo após o jantar, recolhia ao quarto, permanecendo umas duas horas, de luz acesa, em união com Deus.Considero fundamentais estes pormenores. Omiti-los, realçando apenas a produção cultural, é mutilar a sua personalidade. Na intensidade e fidelidade desta sua presença com Deus, é que encontro a única explicação para o espanto que sempre me causou a sua actividade. Porque amava Cristo sem reserva, é que entendia dever multiplicar-se por tudo e por todos.O coração debaixo da batinaO maior prodígio de precocidade da poética fran-cesa, Rimbaud, escreveu, aos 16 anos, uma novelazinha intitulada Un coeur sons une soutane, só publicada em 1924 (Rimbaud, 1960,175 segs.). Não sei de expressão que traduza tão graficamente a personalidade do P. Benjamim. Nenhuma distância e nenhuma renúncia, por mais vividas, apagaram ou afrouxaram o seu afecto para com a família. Pelo contrário, sublimaram-na. Não
  • 44MIssIonárIos para o Século XXIP. Benjamim Videira Pires Meu irmãona acepção rasteira de Freud, que empobreceu o que Aristóteles e Kant haviam ensinado sobre o desejo (Cfr. Vergote, 1997,192-259). Mas dentro da melhor teologia tomista, ao ensinar que a graça não destrói a natureza, mas a sublima.O conceito de personalidade não coincide, aliás, com o de carácter ou “psicologia na primeira pessoa”. A tentativa para lhe fixar uma definição, mais ou menos aceite por todos, ainda não passa de aspiração (Cfr. Hjele-Ziegler, 1992). O mais seguro é regressarmos a Ralph Linton (Linton, 1973), quando via nela a complexa resultante das circunstâncias societárias, a partir dum núcleo psicológico da primeira infância, núcleo elaborado sensivelmente nos primeiros oito anos, e do qual tudo quanto vem depois são desdobramentos.Neste sentido, este primeiro verso dum lindo poema de Miguel Torga, e que o P. Benjamim gostava de citar: «A vida é feita de nadas» (Torga, 1985,249) vale por um tratado. A mãe, quando falava dele, repetia muito dois factos da sua meninice, em que se revela já, tal como se afirmará sempre. Ameaçava-o ela, que admiravelmente harmonizava autoridade e ternura, com um castigozito, por qualquer traquinice anormal. Imediatamente, o pequerrucho suplicou: - “Ó mãe, não castiga, que eu não tono a fazele”. E não tornou. Doutra feita, alguma serviçal de casa o tratou simplesmente por
  • 45 MIssIonárIos para o Século XXIP. Francisco Videira PiresBenjamim. Encristado, emendou imediatamente: - «Eu não Benxamim, ma Sôlo Benxamincinho».Docilidade e sentido de dignidade. A graça não eliminou estas duas constantes do seu carácter. Vincou-as ainda mais, permitindo-lhe, no esforço persistente para em Deus as harmonizar, realizar-se e levar a cabo as empresas a que meteu ombros. Em anos e anos de convívio da maior intimidade, quantas vezes me vieram à mente aquelas duas peripécias infantis! Como certa manhã, de passagem por Valhadolide, em que descobri, dentro da porta do meu quarto, um bilhetinho seu, a pedir-me “perdão” (assim, com as letras todas: «perdão»), lá porque, na véspera, me dera qualquer resposta sem importância, mas que julgou me poderia ter magoado, lamentando não ser ainda santo.O amor da família exigiu-lhe sacrificios heróicos. Os regulamentos de então só permitiam visitá-la, à morte dos pais. E foi a correr que, na “terceira provação”, voltou à Torre, para beijar o cadáver do pai, subitamente falecido, com as mãos apertadas ao crucifixo que lhe oferecera, como lembrança da sua “Missa nova”. E logo partiu com a mãe para o Porto, porque o coração dela ameaçava o fim.Ao seguir para Macau, pediu-lhe ela que não fosse para tão longe, porque também a morte podia, entretanto, bater-lhe à porta. Sem hesitar, observou-lhe:
  • 4MIssIonárIos para o Século XXIP. Benjamim Videira Pires Meu irmão- Que aproveitara ao pai que ela e a filha dormissem em quarto contíguo, para apenas de manhã darem por ele sem vida? Só Deus está sempre connosco.De mau gosto seria, ver nestes factos resquício de ultra-romantismo. Não. Como num soneto de Rilke, «alles dieses spricht/Tod und Leben in den Mund » (Tudo isto fala/de vida e morte na boca) (Rilke, 1954,62). E porque sabia cristãmente que a morte representa a “passagem” para a verdadeira Vida eterna, é que aceitou sereno a perda do Manuel, companheiro da tantos anos de estudo, apenas dois meses a seguir ao pai. Não o autorizando as regras a dar-lhe um último adeus, nem esboçou um protesto, mesmo íntimo. Só tínhamos uma irmã, anjo da família. Aos 44 amos, um cancro no cérebro levou-a para sempre. Estava ele em Nova Iorque, e in-formei-o do seu estado desesperado. Tomou o primeiro voo, na ilusão de a encontrar ainda viva. Abraçando-me na Portela, perguntou logo: - E a Marquinhas? Quando lhe respondi que estava no Céu, mordeu os lábios, para não chorar.Agora já não usava batina, como era hábito, até partir para Macau. Mas o coração continuava tão sensível, como, quando, aos 10 anos, foi para San Martin de Trevejo. Para nunca mais passar um Natal com os seus e na terra natal. A não ser no fim. Ao regressar de vez, incapaz de se mover, numa cadeira de rodas. Cercado de muitos amigos, provou rabanadas, bacalhau
  • 4 MIssIonárIos para o Século XXIP. Francisco Videira Pirescom tronchudas, bebeu umas gotas de bom vinho tinto, sorriu até, ao ouvir cantares natalícios da sua infância. Para, a 9 de Janeiro seguinte, nascer para o Céu.Quantos com ele conviveram o que mais os impressionava era a sua afabilidade e bondade. Preferia dar a receber. Nas idas e vindas, entre Macau e Lisboa, carregava a mala de lembranças. Tudo modesto, de pouco preço. Mas de infalível bom gosto, consoante a idade e a maneira de ser da cada um. De Fátima, levava medalhinhas e terços, benzidos por ele, para os seus professores católicos. Nas suas festas de anos, ficava ajoujado de presentes, alguns preciosos, de mestres e alunos. Não tardava em oferecer tudo. Só guardou sempre, sobre a mesa de trabalho, com retratos modestos de família, sem moldura, a réplica dum cavalinho de bronze, obra-prima da arte chinesa do século II (Tregear, 1980,69), talvez por ver nela um encontro cultural com o Pégaso dos seus estudos de mitologia grega. Só que, em vez de asas, o cavalinho, todo vibrante, apoiava-se numa andorinha, também de asas abertas.Só uma ambição tinha, além da santidade, a maior de todas. Os livros. Quando vinha a minha casa de S. Amaro de Oeiras, revolvia-me as estantes, de alto a baixo. À cata de novidades de tomo. E nunca falhava nos alfarrabistas, a perguntar por espécime raro que lhe faltava para trabalho entre mãos. Arquivos de Lisboa,
  • 4MIssIonárIos para o Século XXIP. Benjamim Videira Pires Meu irmãoParis, Roma. Madrid e Simancas eram-lhe familiares. E lia, lia avidamente, anotando o que lhe interessava.Devia recordar uma anedota, referida pela mãe, de membro da sua Ordem, que, em pregações na Torre, se hospedava lá em casa : - o jesuíta, já estão a deitar-lhe pazadas de terra, na cova, e ainda tenta soerguer a cabeça, a indagar se apareceu algum livro novo. O pai talvez o aconselhasse (como, nos meus 15 anos, ao ver-me a devorar A morgadinha dos canaviais), a que procurasse em tudo os melhores livros, «porque a vida não chega sequer para ler todas as obras-primas».Ainda lhe sobrava ocasião para escrever assidua-mente à família e aos amigos, vários deles da infância, companheiros de escola, que visitava sempre que vinha, em conversas e passeios intermináveis. Sem jamais dar a impressão de que estavam a maçá-lo.Numa carteira, muito gasta, guardava, comovida-mente, estes documentos, com certeza por considerá-los balizas da sua via: certidão de baptismo e de crisma, diploma de congregado de Nossa Senhora, declaração do Bispo que o ordenara e a fórmula da profissão so-lene, manuscrita. E por falar de livros, Tinha a preocupação de se actualizar sempre. Porque, no curso de teologia, Henri de Lubac e Karl Rahner, autores marcantes do século Certidão de Baptismo do P. Benjamim (pag 1)
  • 4 MIssIonárIos para o Século XXIP. Francisco Videira Pires
  • 50MIssIonárIos para o Século XXIP. Benjamim Videira Pires Meu irmão
  • 51 MIssIonárIos para o Século XXIP. Francisco Videira PiresCertidão de Baptismo do P. Benjamim (pag 2)XX, só de passagem, e com alguma reserva, se falava deles, passou a estudá-los metodicamente. O mesmo com a psicologia experimental. Que, no seu tempo, não figurava ainda entre as disciplinas curriculares. Estudou Freud, Adler, Jung e críticos posteriores, pensando mesmo em elaborar um trabalho sobre os “estados oníricos”, já familiares das leituras da Bíblia, de Homero e dos trágicos gregos. Mas, em Espelho do mar (p.41), no poema intitulado Amaeru, não resiste a aproximar o sentido desta palavra japonesa, língua que também estudou, de conceitos de Jung e Freud.Não que acreditasse muito na psicanálise. Ouvira de mestres norte-americanos que ela originara porven-tura mais neuroses do que as que efectivamente cura-ria. O “complexo de Édipo” já o levava a sorrir, antes de aprender que brotara dos ciúmes do próprio Freud, um morfinómano, em relação ao pai (Gross, 1978, 236 segs.). Demais sabia que toda a psicologia, ciência eminentemente aproximativa, não vai além de proba-bilidades, e que o confessionário valia mais que todos os leitos psicanalíticos. Já, em pleno Renascimento, Shakespeare avisava que, às vezes, como no caso de Lady Macbeth, um doente «precisa mais de padre do que de médico» (Shakespeare, 1925,38).
  • 52MIssIonárIos para o Século XXIP. Benjamim Videira Pires Meu irmãoII – A oBrAO jornalistaDesde que nasceu, o jornal foi sempre instrumento privilegiado, para expandir ideias. Mais efémero que o livro, tem sobre este a vantagem do êxito imediato. Aí a razão por que as épocas revolucionárias o consideram arma principal de combate e triunfo. Conhecendo o primeiro grande surto com a Revolução Francesa, marca ela também o aparecimento do jornalismo em sentido moderno.Se o cristianismo tem de actualizar perenemente a Incarnação de Cristo, pregando «o Evangelho a toda a criatura» (Mc., XVIII, 15), e se «a Fé vem do que ouvimos», os meios de comunicação social convertem-se num instrumento primacial, para todas as formas de missionação. Hegel, que, no Stift de Tubinga, se formara em teologia, chamou ao jornal “a oração profana da manhã”. E Karl Barth, geralmente considerado o génio da teologia cristã, no século XX, resumia a missão evangelizadora da Igreja na fórmula: - o jornal e a Bíblia, na tradição luterana de “Scriptura sola”. Mais perto de nós, o conhecido Cardeal Spellman, de Nova Iorque, de passagem por Lourenço Marques, quando o Cardeal Gouveia lhe pediu ajuda para a construção da Catedral, aconselhou-o a fundar primeiro um diário.
  • 53 MIssIonárIos para o Século XXIP. Francisco Videira PiresAo fixar-se definitivamente em Macau, o P. Benjamim encontrou religião e Pátria como revista semanal, fundada cerca de 40 anos antes pelos jesuítas portugueses que lá missionavam. Dirigia-a, na altura, o seu confrade P. António Bernardo Gonçalves, que não tardaria a substituir, quando este voltou como Superior para Goa, onde teria de passar, com outros, como o P. Rogério Frutuoso,S.J., doloroso calvário, por parte de jesuítas nativos, inflados de separatismo nacionalista.A 6 de Janeiro de 1955, assume a direcção, que manteria durante uma boa dúzia de anos. Órgão da Ordem, como veículo das suas obras apostólicas, nomeadamente o Apostolado da Oração, procurou rasgar-lhe abertas para toda a cultura universal, caldeada na frágua do Evangelho. Fugindo, porém, a tudo que rescendesse a incenso de sacristia. Cria secções novas.Com apanhados muito completos do noticiário local e internacional, uma secção juvenil, outra recreativa, os seus fundos, variando entre problemas circunstanciais de religião e cultura geral, embora anónimos ou assinados apenas pela inicial B., impõem-se logo pela mestria pensante, como também pelo estilo muito limpo.Difícil encontrar documento que nos transmita, com tanta fidelidade, a sua maneira de ser, pensar e sentir. Nos poemas que vai publicando, nas referências a individualidades nacionais, internacionais ou locais,
  • 54MIssIonárIos para o Século XXIP. Benjamim Videira Pires Meu irmãoaplaudindo ou censurando ocorrências emergentes, doutrinando ou divertindo, com algum conto, pessoal ou adaptado, lemos, como por um livro, dentro da sua alma. Por isso, ao compulsar, agora, de novo, os números da sua direcção que a mãe religiosamente arquivava (faltam alguns, infelizmente), porque escrevia para leitores concretos, tinha a ilusão de que ele estava outra vez diante de mim, num “estilo falado”, como se classificou a prosa matinal de Fernão Lopes.Certamente, a publicação de documentos inéditos, revelando embora uma das suas preocupações culturais, como que obnubilam este selo pessoal. Mas até nisso, nalguma anotação fortuita e essencial, a sua idiossincrasia transparece. Não por tendência narcisista, que detestava como poucos. Mas os romanos, gente positiva que forjou o rigor do direito, sabiam o que estavam a dizer, ao sentenciar que “ex digito gigas”. O que, para aqui, significa apenas que as personalidades originais são, inevitavelmente, o que fazem e escrevem.Todos os irmãos lhe enviámos colaboração. Amigos macaenses, sacerdotes e leigos, ofereciam, eventualmente, algum artigo esparso. O venerando P. Anacleto Pereira Dias, que o levara para San Martin de Trevejo, assinou, só com as iniciais, várias crónicas internacionais. Mas quantas vezes tinha que se desunhar em heterónimos, para que, enchendo cada número, os leitores vivessem na ilusão de muitos colaboradores.
  • 55 MIssIonárIos para o Século XXIP. Francisco Videira PiresAssim, durante cerca de 12 anos. A vastidão da sua cultura, que lhe permitia passar, com todo o à-von-tade, da espiritualidade à teologia, à filosofia, à critica literária e à história, vinha servida por um estilo corredio, do melhor talho camiliano. Ensaios sobre literatura es-panhola, chinesa, com a tradução pessoal de poemas admiráveis, e portuguesa, bem mereciam, na maior parte, publicação em volume. Lembro-o apenas, uma achega original para mestres camoneanos. Partindo das hipóteses de Afrâneo Peixoto, sobre a enigmática Dinamene, e recorrendo a conhecimentos do chinês que o crítico brasileiro não possuía, expôs uma tese muito plausível, assente sobre a assonância dos tons desse nome. (religião e Pátria, 22 (1957) 22)Alguns dos escritos e poemas, aparecidos na revista, recolheu-os, depois, em livros diversos. Mas os seus números encerram ainda documentação inédita, preciosíssima, para a história local, sempre criteriosamente anotada. Reunida, essa colecção daria volume apreciável, que bem poderia intitular-se Macaiensia monumenta historica. Predominam as efemérides religiosas, com atenção mais demorada nas vicissitudes por que passou a Companhia de Jesus, desde a instalação, no século XVI, até à extinção pombalina. A documentação deste período trágico, culturalmente o AlcácerQuivir do território, além de desconhecida, parece-me fundamental, para
  • 5MIssIonárIos para o Século XXIP. Benjamim Videira Pires Meu irmãodocumentar objectivamente uma das faces sombrias do tirano mais sangrento da história pátria. Com os volumes já publicados pela Verbo, da História da expulsão.., do jesuíta contemporâneo P. José Caeiro (1991 - 1999), junto com as Memórias de um jesuíta, do alemão coevo Anselmo Eckart, à “glória” de Pombal pouco lhe adiantará o subterfúgio, que nada explica, do “despotismo iluminado” imperante, com que ainda tentam ilibá-lo. Por esse caminho, absolveríamos igualmente Nero e Henrique VIII...Na excelente introdução que o Dr. Jorge Arrimar, director da Biblioteca Central, de Macau, escreveu para os dois importantes catálogos da obra do P. Benjamim, de 1992 o primeiro e de 1997 o outro, enumerando os órgãos de imprensa em que colaborou, no Continente e em território macaense, faz-se referência a editoriais suas, que, sob o título genérico de Névoa sobre a cidade, publicou no notícias de Macau. Não tive ainda acesso a elas. Mas, pelo que sei da sua colaboração, no quinzenário Confluência, durante dois anos e de que possuo dois volumes brochados, bem mereciam antologia, ao menos dos que não perderam actualidade.O “Verão quente” do 25 de Abril, que deu origem a esse jornal, abalou-o profundamente. Um abalo comedido pela convicção, dolorosamente vivida, de que a sua missão de padre não estava na política
  • 5 MIssIonárIos para o Século XXIP. Francisco Videira Piresem acto exercido. Visitou-me, por esse tempo, em Petrópolis, em cuja Universidade Católica eu ensinava. Levei-o ao deslumbramento das “cidades históricas” de Minas Gerais: Ouro Preto, Congonhas e Sabará. Chegámos à primeira, ao crepúsculo. Assomando à varanda do hotel, perante a cascata iluminada do casario, espraiado morros abaixo, exclamou: Se Portugal acabasse, gostaria de vir morrer a esta terra tão “portuguesa”.O Confluência revelou uma face inédita do P. Benjamim, o humorista. Um humorismo diluído em símbolos e alegorias, que são, as mais delas, pequenas jóias literárias, sempre anónimas. Vejam só este parágrafo dum trecho intitulado O tocador de caixa: “A figura mais ridícula para a rapaziada, na banda de música de certa aldeia, era o tocador de caixa, de nome Elisário. Sobressaía um palmo, acima da cabeça dos companheiros, erguia as varetas com estilo e presunção, enquanto as suas pernas cambas iam desenhando, através das ruas, um X maiúsculo, que servia de cavalete ao instrumento monocórdico, no intervalo entre duas peças: «trapo, saca-trapo, saca-trapo»”Acompanhei de perto esses dois anos do jornal. Até porque lá vieram, com o pseudónimo de Carlos Azevedo, bastantes artigos meus, logo parcialmente refundidos na dura análises sociológica da “revolução
  • 5MIssIonárIos para o Século XXIP. Benjamim Videira Pires Meu irmãodos cravos” A manhã sobre a cidade (Lello, Porto 1979), que, em Portugal, foi best-seller. Acompanhei, por isso, de perto, em cartas quase semanais, essa fase da sua actividade jornalística. Reveladora, em muitos aspectos. E anónima ou com disfarces fáceis de identificar, porque alguma secção, como Calçada das verdades, lembrava lugares que lhe eram especialmente familiares, ou surgia assinada Maninho Fernandes, nome do avô materno.Esbatidas na bruma dos anos que lhe passaram em cima, muitas dessa páginas, particularmente as de estilo figurado, não perderam actualidade, e bem mereciam selecção cuidada, com alguns contarelos deliciosos, dispersos por religião e Pátria, talvez com o título de Parábolas dum tempo sem tempo. Constituiria uma das homenagens mais perduráveis ao missionário que a Macau lusíada se deu, em alma inteira. Até pela exemplaridade da sua crítica. “Ridendo castigat mores”, aprendera ele com um velho satírico romano. Mais que gargalhar, com travo sarcástico, o P. Benjamim sorria dos disparates desses revolucionários da fancaria, que pensavam inventar o mundo, antes de aprenderem simplesmente a pensar, o que equivalia primariamente a pesar cada decisão. Sem gota de ódio, a escorrer duma só palavra. Antes amor ferido, procurando sempre salvar.
  • 5 MIssIonárIos para o Século XXIP. Francisco Videira PiresO poetaA poética do P. Benjamim, pela sua alma profunda, cabe toda nestes versos dum dos seus autores predilectos, o Prémio Nobel Juán Ramón Jiménez, em pequenino poema intitulado poeta, da colectânea Bonanza, correspondente ao período de 1911-1912: “Cuando cojo este libro,/ subitamente se me pone limpio / el corazón, lo mismo / que un pomo cristalino” (Jiménez, 1958,248).Friedrich von Hardenberg, famoso romântico alemão celebrizado pelo pseudónimo Novalis, terá concluído que os melhores versos são aqueles que não se escrevem. Outra forma de considerar que “o poeta nasce”, e que as palavras que nos comunica não passam de um disfarce do mistério insondável dos abismos inexprimíveis da sua alma profunda.Seja o que for e para usar a linguagem clássica dos críticos, na poesia fundo, ou alma, e forma, ou expressão material da sensibilidade mais depurada, dissociam-se incessantemente, no contraponto cultural das épocas e do seu imaginário. Enquanto a alma perdura intacta, a instrumentação verbal por que ela procura chegar até nós, converte-se, de lugar para lugar e de escola para escola, num Proteu em permanente mudança. Mas o cerne da poesia reside, invariavelmente, no pathos individual que nos transmite, mesmo que a arquitectura
  • 0MIssIonárIos para o Século XXIP. Benjamim Videira Pires Meu irmãoformal já passasse de moda. Vejam a explosão barroca do Cristo de Velázquez, de Unamuno, pura obra-prima de lirismo genial, a contrastar com a produção dos seus pares espanhóis do tempo, de formalismo tão despojado. E todos nomes imortais da poética espanhola.Palavra nenhuma, por mais inspirada, traduz em plenitude o mistério recôndito da alma. Antero de Quental, mestre de Benjamim para a estrutura do soneto, exprime bem esse “tormento”, ao confessar: «Recebi o baptismo dos poetas,/ E, assentado entre as formas incompletas,/ Para sempre fiquei pálido e triste» (Quental, s/d.,35). Outra não será a intenção de Fernando Pessoa, ao reconhecer, à entrada dum curto poema, significativamente intitulado autopsicografia: «O poeta é um fingidor» (Pessoa, 1960, 97).Quando o P. Benjamim terminou o curso humanístico, da geração do orpheu só de Régio lhe chegavam os primeiros ecos. A obra de Fernando Pessoa , à excepção da Mensagem, tardaria a aparecer. Embora a tivesse lido, mais tarde. Não admira que os seus modelos, com os clássicos do Renascimento, fossem os poetas românticos e realistas, com Garrett, Antero e João de Deus a dominar. Viriam depois muitos outros, franceses como Paul Claudel, os espanhóis Giménez e Alberti, os brasileiros Jorge de Lima e Manuel Bandeira, com os chineses, dos antigos aos da “poesia nova”, de que traduziu, directamente dos originais, vários poemas, publicados em religião e Pátria.
  • 1 MIssIonárIos para o Século XXIP. Francisco Videira PiresLogo na sua primeira colectânea, Jardins suspensos, 1955, vertidos para japonês (facto porventura único, depois de Wenceslau de Morais), Rezando o breviário em latim, com o P. Joaquim Ferreira da Silva, S.J., colega desde S. Martín, junto ao Mensageiro do Coração de Jesus, em Braga
  • 2MIssIonárIos para o Século XXIP. Benjamim Videira Pires Meu irmãoa sugestão garrettiana de “Asas brancas” das Flores sem frutos, pressente-se no lindo poema “Aquele vestido”. Estamos ainda no que poderíamos designar pelo primeiro período, situado entre Macieira de Cambra, Braga e tempos de aclimatação a Macau. O individualismo radical de Rousseau passou a pesar em excesso, no nosso conceito de originalidade criadora, apesar da inversão que tentaram Ezra Pound e T.S. Eliot, incorporando, com soberba mestria, versos inteiros de Dante, como Camões de Petrarca, até nos Lusíadas. Perde alguma coisa de genialidade o soneto “Alma minha”, pelo facto de ser uma paráfrase do mestre italiano? É que o citado poema do P. Benjamim, embora à distância paire nele a sugestão esbatida de Garrett, não tem menos originalidade. E é tão belo como a possível fonte inspiradora.Descobrimento aparece 3 anos mais tarde. Benjamim nunca se considerou escritor, no sentido estritamente profissional. Os poemas surgiam esparsos, quando a alma lhos pedia, e em horas libertas de afazeres prementes. Como se percebe por este livro, já todo escrito em Macau, ou nas ilhas da Taipa e Coloane. Embora abra com um soneto, a forma vem toda mais solta, a reflectir os espanhóis da sua predilecção, mas com um colorido oriental marcado, no impressionismo de lugares e imagens, que sugerem mais que descrevem.
  • 3 MIssIonárIos para o Século XXIP. Francisco Videira PiresMas é em Espelhos do mar (1986), após silêncio poético de 28 anos, que o orientalismo da sua inspiração se afirma adulta, com liberdade e variedade de formas, antes pressentidas apenas. Considero-o uma das melhores criações da poética macaense, não saindo envergonhado, junto à sombra de Camilo Pessanha. Algum dos poemas, escritos em Chôk Ván, evocam um dos eremitérios em que, na companhia dum empregado chinês e um mastim corpulento, gostava de se recolher, em silêncio, para o retiro anual de oito dias, a meditar.Sei que uma ilustre senhora prepara uma antologia de poetas macaenses, com algum poema do P. Benjamim. Nada mais justo. Aliás, o P. Abel Guerra, S.J., irmão do ilustre sínólogo e abnegado missionário nessas terras do Oriente, P. Joaquim Guerra, S. J., nas suas famosas selectas, para estudantes do ensino secundário, incluíra já algum poema do meu irmão. Raros saberão, contudo, de outro livrinho, a que chamou Palavras-Poemas, de 1994. A solidão espiritual adensava-se . Na “residência” do Largo de S. Agostinho, 4, ninguém sintonizava já com a sua actividade cultural. Assim, esta “colecção/postais”, de não sei que Edições Macau, mal terá passado duma aventura de modesta centena de exemplares, para amigos escolhidos. Nem o escrupuloso Dr. Jorge Arrimar parece ter dado por ele, no minucioso catálogo da “exposição bibliográfica” , de 30 de Outubro de 1997.
  • 4MIssIonárIos para o Século XXIP. Benjamim Videira Pires Meu irmãoTrata-se de folhas avulsas, 6 ao todo, em redon-dilha menor, com os versos enquadrados entre duas vinhetas, tudo guardado num envelope aberto, com a assinatura autógrafa do autor na capa. O primeiro é um “Postal para Miguel Torga”. A quintilha inicial reza assim: «Sou dos lados da Sardosa,/ de Torre de Dona Chama,/ que foi Flâmula Rodrigues,/ castelã dura e saudosa,/ vassala de Mumadona”. Chama-se o último: «Deixo os olhos na paisagem”: Que termina: «Os olhos sem horizontes,/ O coração é um abismo,/ Fixo-me em vales e montes,/ Mas eu próprio paro e cismo».Perto dos 80 anos, a chama não se apagara de todo, na solidão mortal dos tempos derradeiros, com o regresso, em saudade, “ao reino maravilhoso de Trás-os-Montes”, que imortalizou Miguel Torga, apesar da gralha que desfigura Sabrosa em Sardosa.Teologia pastoralAcima de tudo, colocou sempre a sua condição de sacerdote. Até no pormenor acidental de em público usar infalivelmente o colarinho eclesiástico. Estudara teologia muito a sério. Mas, nela, a sua predilecção ia para a pastoral, por directamente voltada, por completo, para a santificação das almas.A maior parte dos diversos números de religião e Pátria, semana a semana, assinando ou não, são
  • 5 MIssIonárIos para o Século XXIP. Francisco Videira Piresprincípios eternos de espiritualidade segura, ora acompanhando o ritmo da liturgia, ora incentivando as grandes devoções cristãs, centrando-as numa cristologia aberta. Figuras eclesiásticas, do Papa a algum sacerdote local, eventos ocorrentes no dia-a-dia das paróquias ou comunidades religiosas locais, com saliência para a acção dos leigos, tudo realça, com raro saber e oportunidade.Alguns desses escritos publicou-os, depois, em separatas, como os que tratavam da mensagem de Fátima e da devoção das 3 Ave-Marias, por certo para mais ampla difusão, em forma de folhetos. Só Deus sabe quantos não terá oferecido aos seus paroquianos, alunos e soldados.Mas os dois testemunhos mais completos desta sua preocupação santificadora temo-los nos volumes A mulher venceu e Pregai o Evangelho, de características muito diferentes. A ideia do primeiro ele próprio confessa, a abrir o Prelúdio, que lhe andava no espírito «há mais de vinte anos», talvez desde os bancos universitários de Granada, escutando com avidez as lições memoráveis do P. Aldama. Sobre as notas dos seus cursos e de muito que lera posteriormente, era-lhe fácil enveredar por via erudita e de alta especulação. Mas, ainda que se nota o bom domínio da doutrina, em fontes e autoridades, norteia-o apenas a intenção de se tornar acessível a todos, em estilo corredio, salpicado
  • MIssIonárIos para o Século XXIP. Benjamim Videira Pires Meu irmãode exemplos, à maneira dum autor então muito em voga, Mons. Thiamer Toth.Com a Bíblia e a Tradição como fundamento constante, os testemunhos mais sábios dos grandes teólogos cristãos fundamentam solidamente a exposição, nas cinco partes por que o volume se reparte. Considerá-lo uma “vida de Nossa Senhora”, como se anunciava modestamente em números de religião e Pátria, sabe a pouco. Com efeito, além da existência terrena da Virgem de Nazaré, a sua teologia, a partir do mistério fundamental da maternidade divina, aparece muito bem exposta, até aos dogmas marianos, definidos, como a Assunção, ou a definir: Co-redenção e Mediação Universal de Maria. Sem omitir a devoção ao Coração Imaculado de Maria, tão ligado a Fátima.Publicado em Macau e com tiragem restrita, não teve larga difusão na metrópole. Mas os sages da matéria apreciaram-no. Um deles, professor de teologia, felicitar-me-ia efusivamente, apesar do seu temperamento comedido, com o pedido de fazer chegar o seu apreço ao autor.Pregai o Evangelho, publicado pelo Apostolado da Imprensa, do Porto, em 1963, recolhe “2 séries de homilias, para todos os Domingos e Festas do ano”, como esclarece o sub-título. Primariamente aparecidas na revista macaense que dirigia, teve o cuidado de as
  •  MIssIonárIos para o Século XXIP. Francisco Videira Pireslimar, ao incorporá-las em livro. De confecção anterior à reforma litúrgica do Vaticano II, pediriam, hoje, outra ordenação. Tarefa simples, dado que os textos evangélicos continuam os mesmos, a despeito da diferença de designação de alguns tempos.O método expositivo não repete, na segunda parte, o da primeira. Enquanto, nesta, arranca normalmente da leitura do texto evangélico, explicado, logo de seguida, em linguagem exegética acessível até aos que não estudaram teologia, na outra toma por base ora algum texto bíblico da Missa do dia, ora alguma “oração” da mesma, de preferência a colecta, a mais venerável pela sua antiguidade, pois remonta ordinariamente às origens da liturgia, quando o latim substituiu o grego nas igrejas de rito romano, e ainda a mais rica de sentido interpretativo, pois nos dá a tónica de toda a “liturgia da palavra” e também do espírito pontual de cada festa ou Domingo.Ficamos, assim, a conhecer o estilo do P. Benjamim, nas suas homilias, como igualmente o apuro com que sempre as preparava, mesmo na idade avançada. Se demorava algum Domingo ou festa, na minha casa de Oeiras, ia normalmente celebrar uma das Eucaristias de Porto Salvo, onde conserva numerosos amigos. Na véspera, além do Missal e da Bíblia, para enquadramento das leituras, consultava com frequência os meus dicionários, bíblicos ou exegéticos. A pregação
  • MIssIonárIos para o Século XXIP. Benjamim Videira Pires Meu irmãoda palavra divina constituía, para ele, a vivência pessoal do Sacramento-Sacrifício, que “em nome de Cristo”, actualizava para os irmãos. O antropólogoA surpresa mais inesperada que dele tive, estava-me reservada para a segunda ou terceira vez que fui a Macau. Hospedou-me no quarto andar do Instituto Dom Melchior Carneiro, onde toda a “comunidade” jesuítica residia, por então. O P. Henrique Rios, S.J., quando Superior local, meteu ombros à boa audácia Em Oeiras, com o Colar da Academia Portuguesa de História e os retratos da Mãe e da Irmã na parede. O quadro bordado a ouro e matiz, foi a prenda dos professores do Instituto Melchior Carneiro nos 90 anos da Mãe
  •  MIssIonárIos para o Século XXIP. Francisco Videira Piresde transformar a velha Vila Flor. Ao longo de 20 anos, o P. Benjamim, e confrades naturalmente, dormiu sobre uma esteira estendida no colchão, para acordar, pela manhã, de pijama a escorrer suor. Confortável edifício com ar condicionado, a nova “residência” do Largo de S. Agostinho, 14, hospeda, hoje, além da “comunidade” permanente, muitos que por ali passam, seja ou não da Ordem. Ao construir, aos poucos, o seu Instituto, dotou--o logo de ar condicionado, na zona residencial do último piso, servido por ascensor, em que grupos de estudantes japoneses estagiaram, para cursos de língua e cultura portuguesas. Os quartos, com banho privativo Instituto “Dom Melchior Carneiro, S.J.” – Na conclusão da segunda fase de construção
  • 0MIssIonárIos para o Século XXIP. Benjamim Videira Pires Meu irmãoe espaço para 4 pessoas, abrem para amplo corredor, com a linda capela numa das pontas e, na outra, a cozinha, o refeitório, a sala de estar e a biblioteca, em que chegou a reunir mais de 6.000 volumes, muito escolhidos. No quarto dele, sobressaía logo, em cima da secretária, com obras preciosas de consulta constante, uma rima de papéis anotados e um manuscrito. Que ocultava surpresa inimaginável. Nada mais nada menos que os extremos conciliam-se, à espera dos últimos retoques.Julgava conhecer bem meu irmão, com aquilo de que ele seria capaz. O que nunca suspeitaria era que ele escrevesse um livro de antropologia, e logo obra que, relativamente a Macau, me lembrou monografias de referência, como os clássicos The chrysanthemum and the sword, de Ruth Benedict, e Japanese society, de Chie Nakane. Tinha nas minhas mãos um manuscrito, que, dada a afinidade com o meu campo de estudos, meu irmão, com a humildade que o marcava, me pediu para ler, “corrigindo” (assim mesmo: “corrigindo”) o que entendesse.Comecei de pé atrás. Mal terminara, porém, o primeiro capítulo, e já uma vaga de espanto me ia dominando. Demais recordava eu o velho provérbio: «Quod natura non dat, Salamanca non praestat». (Salamanca não fornece o que a natureza não dá). Mas fui-me lembrando da capacidade de intuição e da
  • 1 MIssIonárIos para o Século XXIP. Francisco Videira Piresavidez cultural insaciável de meu irmão. E, chegando ao fim, compreendi como, sem nunca ter cursado antropologia, ele a adivinhara, na faceta mais legítima e actual.O termo aparece em 1501, dentro do pensamento humanista, para designar todo o tipo de saber respeitante ao homem. Mas só na segunda metade do século XIX se autonomiza como ciência, cobrindo-se logo de prestígio, ao fixar-se no estudo das chamadas “sociedades primitivas”, que hoje preferimos apelidar “ágrafas” ou “arcaicas”. Posteriormente, em meados do século passado, estendeu o interesse, já com o último Malinowski e sobretudo Norbert Elias, ao comparativismo das formas sociais da cultura. Nada mais legítimo. Nas últimas décadas, contudo, esqueceu que os arquivos de dados de institutos científicos norte-americanos guardam uma riqueza quase inesgotável de factos em bruto (Cfr. Lévi-Strauss-Eribon,1988,202).Ora, na na crise mortal de indefinição, que já Malinowski verificava (Malinowski, 1968, 176 segs.), como lucidamente observa um mestre, vem-se assemelhando, cada vez mais, a «uma sabedoria cujas vastas ambições de definição e de programa, encobrem uma acumulação desconexa de elementos a mais» (Greenberg, 1976, I, 391). Perdendo o sentido indispensável dum objecto específico e exclusivo, descaracteriza-se, arriscando-se a converter-se em ideologia.
  • 2MIssIonárIos para o Século XXIP. Benjamim Videira Pires Meu irmãoO que Benjamim evita, sabiamente guiado pelo confronto aberto entre culturas muito diferenciadas. Comparativismo que foge tanto ao evolucionismo, como ao difusionismo. Sabendo que semelhança não envolve necessariamente dependência, preferiu mostrar como, passo a passo, duma interculturação lenta e continuada, no diálogo pacífico de séculos, surgiu o milagre duma transculturação, mais concreta que o lusotropicalismo de Gilberto Freyre. A perspectiva histórica abre o passo à exposição antropológica. A miscigenação (biológica, linguística, sapiencial e religiosa) efectiva-se, apoiada numa práxis portuguesa, que meu irmão chamava “política do bambu”, que dobra, aguenta ventos e marés, mas não quebra.Os capítulos da obra obedecem a um verdadeiro processo hegeliano de afirmação, negação da afirmação e negação da negação. Para, assim, tudo resultar num mundo novo, que já não é chinês nem português, mas intensamente luso-chinês ou sino-lusíada, se preferem. Podem os actores em presença usar línguas muito diferentes. Uma realidade mais dinâmica sobreleva essa distância. É uma mundividência cultural de convívio , em que a plasticidade adaptativa do china e do luso cria uma capacidade de compreensão mútua, que acabou por superar todas as outras distâncias. Sempre me fez sorrir a estranheza, quase escândalo, do metropolitano arribadiço, ao censurar o reduzido
  • 3 MIssIonárIos para o Século XXIP. Francisco Videira Piresnúmero de gente de etnia oriental a falar português. A antropologia conhece, desde as origens, a explicação. A língua não é factor primário de fusão. Nem sequer de nação. Outras componentes culturais pesam mais que ela. E os extremos conciliam-se classifica-as e salienta-as bem.Para não alongar este apartado, e porque a análise exaustiva da obra pediria quase um livro de dimensões iguais, saliento apenas três aspectos, que, na perspectiva antropológica, considero relevantes: um certo relativismo histórico, o bailado da toponímia e a interfusão de provébios.Casamento de um antigo aluno do Instituto Dom Melchior Carneiro, na Igreja de Santo António
  • 4MIssIonárIos para o Século XXIP. Benjamim Videira Pires Meu irmãoQuem passe os olhos apenas pelo índice do livro, sabendo o conhecimento minucioso que o P. Benjamim tinha da historiografia de Macau, poderá incorrer na impressão redutora de estar diante duma síntese da vida do terrritório, ao longo dos séculos. Nada menos exacto. O que surpreende, num homem que trazia na ponta dos dedos toda a bibliografia e documentação arquivística da terra, é a relativização com que incorpora os materiais genuinamente históricos, num trabalho que, explicando o fluir dos factos, em tempo e espaço, ultrapassa a unicidade e irrepetibilidade da historiografia, para captar e fixar o que vai permanecendo, para além de anos e séculos, cristalizado numa cultura inteiramente original.Mons. Manuel Teixeira, com a persistência beneditina que o caracteriza, dedicou à toponímia macaense uma encorpada monografia de 2 volumes compactos, que nos permite acompanhar as flutuações por que ela passou, nestes quinhentos anos de presença lusa no território. (Teixeira, 1997). Por outro lado, possuímos um extenso repositório comparativo de provérbios chineses e portugueses, que nos levam a compreender como, para além do distanciamento linguístico, uma sintonização mental muito secreta possibilitava a conciliação de culturas aparentemente muito distanciadas. (Ngan,1998).
  • 5 MIssIonárIos para o Século XXIP. Francisco Videira PiresHegel considerava Aristóteles a inteligência mais vasta e profunda de todos os tempos (Hegel, 1 972, III, 499). Ora, sabemos hoje que, na sua obra, perdida em grande parte, figurava um volume de Provérbios, que considerava a condensação da sabedoria tradicional. (Aristóteles, 1968, I e II, p. XXIX-XXX). Demais sabia o estagirita que a filosofia grega dos pre-socráticos se exprimia, pelo que deles nos resta, com aforismos, tão densos, que ainda agora dão que especular aos intérpretes.Aliás, todos os grandes educadores e fundadores religiosos ensinavam através duma paremiologia de riqueza inesgotável. Matou o cientismo esta fonte originária da sabedoria humana. Mas não deixa de impressionar que Wittgenstein recuperasse este estilo de pensamento. A Bíblia tem até um livro com o nome de Provérbios. E os Analectos, de Confúcio, não se expressam, predominantemente, desse modo? (Legge,1949,I).Na sua contenção exemplar, equilibrando sempre a extensão do texto com o essencial da documentação de apoio, Benjamim não se alonga em pormenores laterais dessa documentação. Um número restrito de exemplos, tanto de topónimos como de provérbios, apoia cada ideia, no que importava estabelecer. Se a toponímia, em tempos e lugares mais expressivos da existência comunitária, lhe revelava a consolidação de hábitos
  • MIssIonárIos para o Século XXIP. Benjamim Videira Pires Meu irmãode convivência radicada e perpetuada, a paremiologia patenteava-lhe a progressiva cristalização duma sabedoria, que, muito mais que expressão abstracta de cultura materializada por escrito, o metia dentro duma idiossincracia, tão viva como vivida.Oportuna e muito justamente vertido para chinês, conviria apurar se, do lado de lá, existe algo de semelhante a os extremos conciliam-se. Estudos recentes de historiadores provindos da etnia macaísta têm-nos revelado, ultimamente, no recurso a arquivos de Pequim, e não só, o que os chins pensavam dos portugueses. Mas trata-se duma perspectiva historicista. Tanto quanto sei , nada temos, neste ponto, parecido com os dois ensaios de Ruth Benedict, uma norte-americana, e Chie Nakane, japonesa, sobre o Japão. Esperemos que alguém supra a lacuna. Com saber e objectividade.O historiadorFoi a história que mais projectou o nome do P. Benjamim. Por ela, tornou-se membro da Academia Portuguesa da História (nela conquistou vários prémios de investigação), da Academia da Marinha, do Instituto Histórico Ultramarino e da International Association of Historians of Asia, na categoria de governador. Em atenção aos seus méritos, principalmente neste
  •  MIssIonárIos para o Século XXIP. Francisco Videira Pirescampo, recebeu sucessivamente, diversas distinções honoríficas, a última das quais póstuma (Ordem Militar de Santiago da Espada grande colar de “Ciências, Letras e Artes”), que eu tive a alegria de receber, em nome da família, no salão nobre do Palácio do Governo, das mãos do Exmo. Senhor Presidente da República, - Dr Jorge Sampaio, a 18 de Março de 1999. Recepção na Academia Portuguesa de História
  • Grã-Cruz da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada
  • Oficial da Ordem do Infante D. Henrique
  • 0MIssIonárIos para o Século XXIP. Benjamim Videira Pires Meu irmãoO semanário diocesano, o Clarim, salientava, muito justamente, no dia seguinte: «Missionário, educador, um dos raros sinólogos portugueses e um historiador com créditos firmados, o P. Benjamim é, por isso, considerado um dos mais respeitados vultos da cultura portuguesa, no Oriente».Tentar uma análise, sumária que fosse, de tudo quanto publicou, neste domínio, levar-me-ia demasiado longa, para os limites deste escrito. Basta recordar que vários desses trabalhos, como o dedicado à primeira polícia de Macau, A viagem de comércio Macau-Manila, nos séculos XVI-XIX, as revelações relativas ao “foro do chão”, entre muitos Universidade Sofia, Tóquio – 1989 Conferência sobre “Influências de Portugal no Japão”
  • 1 MIssIonárIos para o Século XXIP. Francisco Videira Piresoutros, mestres como Charles Boxer os citam por decisivos. Tal era a sua competência de investigador escrupuloso, que o catedrático alemão Rolf Dieter Cremer lhe pediu o capítulo referente às origens e história antiga de Macau, para a obra colectiva Macau, city of commerce and culture, da UEA Press, de Hong Kong, de 1987, que, apenas três anos volvidos, conheceria segunda edição. Dada, pois, a extensão e riqueza do tema, prefiro pôr em relevo aspectos mal conhecidos da personalidade do P. Benjamim, como historiador. A partir do modo como ordenava os materiais, para concretização dos projectos que ia concebendo. Se reparamos no que, neste ponto, deixou impresso, em livro ou na imprensa, tudo se ordena em torno da actividade de Portugal e da Igreja, por essas paragens remotas. Procurava sempre ir às fontes, que, à falta de fotocopiadoras, as mais das vezes transcrevia à mão, cotejando depois tudo, palavra a palavra, com o texto da obra, respeitando até a própria ortografia da época. Chegava a regressar ao mesmo arquivo, português ou estrangeiro, para de novo se certificar da exactidão dum texto já copiado, anos antes.Poucos, antes dele, num método que a nova historiografia da Universidade de Macau vem explorando com tanto êxito, se terão lembrado de vasculhar fontes e arquivos chineses, no que tocasse a Portugal. Mesmo
  • 2MIssIonárIos para o Século XXIP. Benjamim Videira Pires Meu irmãoem Pequim. Mas foram-lhe ciosamente fechados, por ser estrangeiro. Do pouco a que teve acesso, o seu domínio do chinês (cujos caracteres tinha sempre o cuidado de apor à versão portuguesa de nomes próprios, locativos ou até expressões correntes mais raras), permitia-lhe clarificar pormenores por que outros, antes dele, tinham passado intrigados.A epigrafia funerária, como complemento importante do livro ou do manuscrito, mereceu-lhe particular atenção, quem sabe se por inspiração do que, em tempos, aprendera na metodologia de Fernão Lopes. Estudou todos os cemitérios de Macau, em particular o dos cristãos parsis, que no território se refugiaram, para fugir à perseguição dos turcos, o que lhe valeu alta consideração, de parte da família Gulbenkian. Quando não conseguia fotografar as legendas das campas, com muita habilidade e exactidão, desenhava-as em folhas, de que guardo vários exemplares, anotando frequentemente, ali mesmo ao lado dos desenhos, particularidades mais relevantes.A memória costuma apontar-se como qualidade indispensável ao historiador. Ele a possuía, em grau eminente. Não tanto por exercício pedagógico, nos anos de formação. A literatura oral mantinha-se viva, na sua infância, À lareira, ouvira, encantado, horas e horas a fio, de criadas e mais duma prima das serras da mãe, lendas intermináveis, que não raro passavam dum dia
  • 3 MIssIonárIos para o Século XXIP. Francisco Videira Pirespara outro, histórias de lobos e ladrões, romances de sabor medieval, com Rolando e os cavaleiros de Carlos Magno, a malhar nos moiros como em centeio verde. Isto lhe permitia lembrar subitamente particularidades que todos julgavam esquecidas.O 25 de Abril tornou “ocupada” a minha casa de S. Amaro de Oeiras, mesmo que eu tivesse deixado o País legalmente, para ensinar em Universidades estrangeiras. Quando voltei de vez, atirei-me a repor tudo no seu lugar. Afortunadamente, o P. Benjamim estava por lá. Perante a réplica-miniatura duma escultura românica, parei, sem conseguir lembrar-lhe nome e origem. Com precisão absoluta de datas e circunstâncias da nossa visita, já velha de bem 15 anos, a León (Espanha), esclareceu-me imediatamente que era S. Isidoro de Sevilha, segundo o alto-relevo que decora o lado esquerdo da porta de entrada para a famosa igreja de S. Marcos.À memória, pronta e fiel juntava-se, frequentemente, o conhecimento enciclopédico de muitos livros e documentos antigos. No Museu dos Mártires, de Nagasaki, quando lá fomos em romagem oferecer o antebraço de talha doirada, com um osso do braço de S. Paulo Miki encastoado nele e protegido por um vidro (séc. XVII), o P. Diego Pacheco, S.J., criador desse acervo preciosíssimo, deu logo por um nome português, inscrito na peanha, precedido da palavra DONO, que ele interpretou pelo verbo espanhol “dono” (doou, ofereceu).
  • 4MIssIonárIos para o Século XXIP. Benjamim Videira Pires Meu irmãoSem hesitar, o P. Benjamim explicou tratar-se do nome dum jesuíta português coevo, que missionara em terras do Extremo. Citando fielmente, por datas e lugares, quanto dele se conhecia. P. Benjamim com o autor, Francisco Videira Pires, em frente às Ruínas de São Paulo
  • 5 MIssIonárIos para o Século XXIP. Francisco Videira PiresO último catálogo de exposição da sua obra publicada refere 57 títulos, entre artigos e livros. Mas logo o cuidadoso Dr. Jorge Arrimar, no prefácio, adverte que, além de muitos artigos dispersos por diversos órgãos de imprensa, a que não conseguiu chegar, a Enciclopédia luso-brasileira VErBo contém, nos seus volumes umas 200 entradas, algumas fundamentais, sem contar as centenas de estudos históricos não utilizados e que iam aparecendo na religião e Pátria. Quando o Instituto Cultural publicou, em 1995, Taprobana e mais além, em declaração já escrita, projectava ainda uma obra em 2 volumes, sobre a Companhia de Jesus, no Extremo Oriente. Várias vezes me confidenciou essa empresa, que acarinhava muito, e em que reuniria, devidamente enquadrados, todos esses materiais, tão ricos, variados e reveladores.Uma lacuna, nos catálogos da sua obra, revela exemplarmente o desinteresse cultural pela sua actividade científica, por parte de quem mais devia acarinhá-la. Trata-se de Xavier em sanchoão. - a ilha de sanchoão, ontem e hoje (monografia histórica), Macau, 1994... A disponibilidade do Instituto Cultural de Macau, apesar de, como ninguém, ter promovido a publicação de livros seus, era limitada por muitas circunstâncias, como a necessidade de trazer à luz do dia outros autores. As verbas também não dariam para tudo. Manuscritos houve que tiveram de esperar anos
  • MIssIonárIos para o Século XXIP. Benjamim Videira Pires Meu irmãopela impressão. Ora, Benjamim sofria, vendo trabalhos de interesse adormecidos na gaveta. Para Xavier em sanchoão, os superiores locais fizeram ouvidos de mercador. O recurso foi editar a monografia, com tiragem muito restrita, à conta do Instituto Dom Melchior Carneiro.Quando me chegou, a dedicatória referia-se ainda, na lonjura de tantos anos, ao «Santo que me curou do antraz, aos 7 anos de idade». A inteira objectividade documental do pequeno ensaio de 58 páginas, não disfarça a ternura que o autor sempre alimentou pelo grande Apóstolo. A minúcia com que reconstitui lugares, apoiado em mapas antigos, as informações acerca da evolução por que passara o culto do Santo, no local, as peregrinações que promoveu até lá, o rigor de todo o texto, convertem o trabalho numa achega valiosa à biografia monumental de Schurammer, no que respeita a Sanchoão, cujo tratamento apressado este grande historiador atira para um apêndice final, minimizando-o, apesar de lá se ter dado a morte de Xavier e o local guardar a sua primeira sepultura.Isso quis o P. Benjamim suprir, salientando a importância única dessa ilha. Anos antes, levara-o eu, com demora de dias, aos santuários de Loyola e Xavier. Este último não o conhecia ainda. A emoção com que celebrou, na capela em que tudo lembrava o Santo,
  •  MIssIonárIos para o Século XXIP. Francisco Videira Piresé intraduzível. Passou horas em colóquio com outro jesuíta espanhol, especialista de nome feito na vida de Xavier, dando-lhe a conhecer pormenores menos sabidos por ele da sua presença no Oriente. Nasceria então a inspiração desta monografia. Impressa a correr, saiu com gralhas muito graves, que ele certamente emendou nalgum exemplar que pode ter deixado em Macau. Desfiguram ideias, quase a cada página. Quando lhe chamei a atenção para a triste realidade, limitou-se a observar-me: - Que queres ? Tenho de fazer tudo sozinho, corrigindo até as provas mais duma vez, com tipógrafos que não sabem palavra de português, e tudo compõem, letra por letra.Outro manuscrito trouxe anos entre as mãos, em busca de publicação. Continha o estudo sobre uma princesa indiana que morrera mártir, e fora premiado pela Academia Portuguesa de História, com o relatório muito cuidado do levantamento cultural de que o Instituto Cultural de Macau o incumbira, sobre a situação das relíquias da cultura portuguesa, em Goa, Damão e Diu. E que a diferença de reacção dos superiores de Portugal! Apenas falei com o P. Manuel Morujão, S.J., antigo Provincial e presentemente Reitor da comunidade da Faculdade de Filosofia, em Braga, imediatamente o mandou imprimir, com o título de Dona Maria de Além-mar (um mês pela Índia Portuguesa), Apostolado da Imprensa, Braga,1995.
  • MIssIonárIos para o Século XXIP. Benjamim Videira Pires Meu irmãoQuando regressou definitivamente à Torre, os superiores portugueses ofereceram-lhe dois pacotes avultados de exemplares desta obra. Com que alegria, e mão ainda bem firme, escrevia uma dedicatória no livro, aos amigos especiais, que de longe vinham vê-lo! Impressionava a firmeza com que, a seguir ao seu nome, acrescentava infalivelmente o S. J. de filiação à sua querida Companhia de Jesus. Uma das freiras que o tratava, brincando, perguntava-lhe às vezes se era franciscano. Quase ofendido, ripostava de pronto: - Não, senhor. Sou jesuíta.É frequente, mesmo com nomes dos mais famosos da literatura universal, como Tolstoi, que nem sempre o livro mais consagrado pela crítica e público, fosse o predilecto do autor. Apesar de não o reconhecer pelo mais importante, aquele que Benjamim acarinhava ,acima de todos, chama-se Embaixada mártir, edição do Centro de Informação e Turismo, de Macau (1965). Chegou a pensar em segunda edição, só porque, na Biblioteca de Madrid, conseguira enfim a fotocópia do documento original, que antes consultara em obra secundária. Enviou exemplares a todos os Prelados portugueses, à Congregação romana incumbida das Causas de beatificação e canonizazação, aos Cardeais da Cúria que poderiam interferir no Processo e ao “postulados” da Companhia, acompanhando-os de carta justificativa da introdução da causa desses verdadeiros “mártires”,
  •  MIssIonárIos para o Século XXIP. Francisco Videira Piresalgum deles escravo negro recém-baptizado. Invadia-o uma nuvem de tristeza, sempre que referia a inutilidade do seu esforço.Há dias, o grande e velho amigo P. Jaime Coelho, S. J., cujo Dicionário de Japonês-português constitui um marco assinalado, na cultura nacional, telefonou-me, de passagem em Portugal, a noticiar-me que descobri-ra um trabalho histórico inédito do P. Benjamim. Logo pensei em quantos outros haverá, talvez em vias de perder-se, como certamente aconteceu ao acervo dos seus “papéis” manuscritos.É a pensar em tudo isto que daqui lanço um repto aos jovens mestres em história da Universidade de Macau. Porque os jesuítas locais não dispõem de ninguém capacitado para tal. Quanto antes, para bem da cultura lusa nessas paragens, urge reunir tudo o que o P. Benjamim deixou disperso, com documentação às vezes revelada em primeira mão, seja na VERBO, seja em órgãos de imprensa, local ou não. Que se sabia da expulsão dos Jesuítas de Macau, antes que meu irmão desenterrasse dos arquivos daí tantos documentos que lá jaziam? E das confrarias religiosas, sem falar de tantos outros sectores da vida macaense, como o caso de monumentos memoráveis lançados ao abandono?Um estudo notabilíssimo quero distinguir - o IV Centenário dos Jesuítas em Macau. Tão esquecido deve andar (quem sabe se até parcialmente perdido),
  • 0MIssIonárIos para o Século XXIP. Benjamim Videira Pires Meu irmãoque meu irmão só dispunha duma fotocópia, para me oferecer. O Provincial de então, Lúcio Craveiro da Silva, um dos primeiros intelectuais que temos, confessava que essas comemorações, de que o P. Benjamim, foi a alma, o deslumbraram. Pois esse livrinho comemorativo, além de revelar, pela primeira vez, a lista completa dos superiores da “casa” jesuítica desses tempos originários, dá ainda a conhecer uma plêiade de “precursores” portugueses de Ricci, que, se nada roubam ao seu génio, patenteiam bem como encontrou caminhos por nós em boa parte abertos. Uma sua reedição é de todo oportuna também. Mesmo que não pretenda reparar o injusto esquecimento a que o P. Benjamim se viu remetido, noutras festas jesuíticas jubilares, aqui mais perto de nós, em que se trouxe de Lisboa, como conferencista de fundo, um antigo aluno seu, que da história de Macau sabia apenas vulgaridades de Lineu...
  • 1 MIssIonárIos para o Século XXIP. Francisco Videira PiresIII - As LUTAs FInAIsOs antecedentesOrtega y Gasset lembrou-nos que a verdade pu-ramente humana resulta, em larga medida, duma pers-pectiva, com linhas que vêm do passado e outras que apontam ao futuro. Nesta fase final da vida do P. Benja-mim, pelo drama doloroso que a agitou, com versões tão contraditórias, esta visão perspectivada impõe-se, para tentarmos conseguir a historicidade limpa dos factos.E temos de lembrar, sumariamente embora, realida-des que estão longe, nas próprias origens da Companhia de Jesus. É que, em boa cronologia, a Província portu-guesa, graças a D. João III, foi a primeira a constituir-se organicamente. E logo com destino missionário, tanto em virtude da apostolicidade essencial à Igreja, como pela estreita vinculação entre Fé e Império da nossa expansão ultramarina. Xavier abre-lhe a frente oriental, de Goa ao Japão. Mal os portugueses, por favor dos mandarins cantonenses, se fixam em Amacau, logo uma capela cristã aparece. O Apóstolo do Oriente rondara já essas paragens, em naus de gente nossa. Mas só depois da sua morte, com a outorga do “foro do chão”, se estabelecem no território os jesuítas. A partir de en-tão, e porque a própria cristandade japonesa vivia dos caprichos dos daimios, só Macau, e as Filipinas para
  • 2MIssIonárIos para o Século XXIP. Benjamim Videira Pires Meu irmãoos espanhóis, oferecia terreno firme, convertendo-se na “porta da Cruz” e “mãe das missões”, para o Japão e a China.Assim aconteceu, até à supressão da Companhia, com Pombal. Depois de restaurada, voltando ao Oriente, Goa e Macau tornam-se de novo os pólos de irradiação do apostolado oriental da Ordem, repetindo-se o facto, mal as Congregações religiosas, banidas em 1910 pela primeira República, conseguiram voltar.Foi uma fase doirada para a Ordem. Pequim, Cantão e Macau tornaram-se rapidamente núcleos de irradiação para ela, que, pouco a pouco, ia recrutando excelentes vocações nativas, que vinham formar-se nas melhores escolas da Europa. Assim aconteceu com Macau, por então uma das dioceses mais vastas do mundo católico, pois, além do próprio território, se estendia a Malaca e Singapura, abrangendo ainda larga fatia da província de Cantão, a vasta região de Shiuhing.A velha casa de Vila Flor, coração dos jesuítas portugueses, estendia a sua acção apostólica a grande parte de Shiuhing, com uma escola florescente na cidade e diversas estações missionárias, dali até à fronteira de Hong Kong e Macau. Com irradiação até à ilha de Timor oriental, onde o P. Sebastião Aparício, S.J., foi um pioneiro. Como este, outros jesuítas portugueses deixaram marca funda, na igreja macaense. Uma história que valia a pena
  • 3 MIssIonárIos para o Século XXIP. Francisco Videira Piresescrever, agora que ninguém fala deles. Recrutaram muitos jovens que vieram formar-se a Portugal, tais como, entre outros, o piedoso Dom Domingos Tang, S.J., Bispo Titular de Elat e Administrador Apostólico de Cantão, o P. Matias Tché, S.J., que morreu mártir das enxovias de Mao Tsé Tong, e o P. Francisco Tam, S.J., felizmente ainda vivo. Dominavam todos a nossa língua e a nossa cultura.De Lisboa, os quadros iam-se renovando, com estudantes da Ordem que escolhiam Macau por destino, como o P. Benjamim e o actual superior local, - P. Luís Sequeira, S.J.. A crise de vocações que, nos últimos 50 anos do século passado, afectou a Igreja, na Europa, refluiu lamentavelmente sobre Macau. Para salientar apenas a situação local da Companhia, baste lembrar que, à partida do P. Benjamim, da matriz lusíada restava apenas o superior referido.Mas outra calamidade mais devastadora se abatia, entretanto, sobre o cristianismo, com o triunfo, definitivo e total do maoísmo. A Universidade Católica de Pequim, que, entre outras iniciativas de vulto, estava prestes a terminar o famoso dicionário poliglota chinês (que só viria a aparecer, em edição definitiva de 2 volumes, sob a direcção do grande orientalista P. Yves Ragujn, S.J.), teve de transfigurar o que pôde salvar para a Formosa, dando origem à Universidade Católica de Taipé. Outros acolheram-se a Hong Kong, onde jesuítas irlandeses
  • 4MIssIonárIos para o Século XXIP. Benjamim Videira Pires Meu irmãodesenvolviam há muito acção pastoral e cultural de importância. Finalmente, um grupo reduzido, maiorita-riamente espanhol, abriu em Macau a Casa Ricci.William Graham Summer, prócere da sociologia norte-americana, criou, em 1906, com o seu famoso Folkways, o termo etnocentrismo, que acabaria por encontrar larga difusão nas ciências sociais, embora com matizes diferentes, impostas pela natureza de cada uma delas. Na mente do seu criador, a palavra era, porém, «the technical name for this view of things, in which one’s own group is the center of everything, and all others are scaled and rated with reference to it» (Summer, 1968, 28-31). As suas manifestações vão desde a rivalidade aberta, o desprezo, a indiferença, ao complexo de superioridade, entre grupos, que inventam alcunhas para caracterizar o outro. Em meios altamente cultos, tudo se reduz, habitualmente, àquilo que Merton (1970, 135-136) chama “funções latentes”. Que nem por isso deixam de aflorar, com os disfarces mais diversificados.A história documenta abundantemente o facto. Mesmo dentro do catolicismo, entre eclesiásticos. O P. Benjamim revelou mais duma dessas manifestações, entre missionários jesuítas das Filipinas e de Macau. Mas não só de Espanha sopraram esses ventos. O clima cultural que nos forma (e conforma também!) marca-nos a todos, inevitavelmente. Como Gasset
  • 5 MIssIonárIos para o Século XXIP. Francisco Videira Piresensina, «yo soy yo y mi circunstancia». Pequenos que somos, os estrangeiros sempre tiveram dificuldade em perceber como conquistámos tanto mundo. Mais ainda: como fomos os últimos a manter essa terras e enclaves, quando outros, incomparavelmente mais poderosos, tudo perderam, muito antes.A coroa de glóriaConsidero indispensável este excurso, para com-preender por dentro, ou empaticamente, como diria Max Weber (1965,325 e segs.), génio soberano das ciências sociais, o drama final do P. Benjamim. Com-preender des-te modo não equivale a denegrir qualquer das “dramatis personae”. Menos ainda caluniá-las. Exige apenas que as situemos no seu contexto cultural, e as procuremos explicar, metendo-nos, o mais possível, dentro delas. Não somos todos seres estritamente situados, como Heidegger tão subtilmente analisou? (1964,168 segs.)O P. Benjanfim sempre considerou o Instituto Dom Melchior Carneiro a obra maior da sua vida, a sua coroa de glória, expressão que aliás nunca usou. Foram anos de luta implacável, a bater às portas mais inesperadas do mundo, para, a partir duma escolinha de miúdos, e com ela em bolandas de lado para lado, até conclusão do sonho, pôr de pé um dos estabelecimentos de ensino secundário mais vastos e qualificados de Macau.
  • MIssIonárIos para o Século XXIP. Benjamim Videira Pires Meu irmãoA economia de palavras com que ele resume essa dura faina, em boletins da escola que assinalavam datas marcantes, na sóbria humildade com que fala de si próprio, diz quase nada da obra espantosa que as paredes do enorme edificio corporizam. Falam mais alto o espanto de dois superiores que por lá passaram. Um era o Provincial português, e não hesitou em considerar o colégio a obra maior da Companhia, no século XX, em Macau. O outro o Geral presente dos jesuítas. Encantado com o que via na visita ao Instituto, em passagem por Macau, perguntou ao P. Benjamim como levara a cabo uma obra daquela grandeza. Com a frontalidade que sempre o definiu, respondeu: - “Não certamente com a pequena ajuda duns escassos milhares de patacas iniciais que a Companhia me ofereceu”Toda a verdade sobre a sua escola resumiu-a ele, num artigo que assinou do volume profusamente ilustrado e com gráficos excelente, ao celebrar 30 anos de existência, - que assinalavam a conclusão do projecto inicial, quando, «no dia 4 de Setembro de 1961,com 40 alunos na 1a classe do curso primário e 1 professora, no rés-do-chão alugado da casa n° 29 da Rua Pedro Nolasco da Silva, hoje demolida». (30 Anos..., 1991,2)Esta breve exposição, admiravelmente ordenada. No primeiro artigo, sobre o “Estatuto jurídico” da ins-tituição, reza textualmente «O Instituto Dom Melchior Carneiro, S.J. (...) é propriedade da Corporação Mis-
  •  MIssIonárIos para o Século XXIP. Francisco Videira Piressionária PROVÍNCIA PORTUGUESA DA COMPANHIA DE JESUS, reconhecida oficialmente pelo governo português e de Macau (Boletim Oficial do Governo de Macau, 1944. No 12)»Embora tudo ali fosse obra sua, e só ele amealhas-se, pelos quadrantes do mundo, mormente graças à ge-nerosidade das autoridades e personalidades de Macau, nunca se considerou dono do imóvel e seu recheio. O sonho dele, que tantas vezes em vão tentou concretizar, nas licenças graciosas a Portugal, era despertar nalgum estudante jesuíta vontade de se fixar em Macau, para, ordenado sacerdote, lhe passar a direcção de tudo.Mais. Nos tempos difíceis do 25 de Abril, ao saber-me reduzido ao estipêndio da Missa diária e sem reservas bancárias, por ter acabado de montar casa em Oeiras, escreveu-me, a lamentar-se de, em virtude do voto de pobreza, não poder ajudar-me, dos rendimentos do Colégio. No governo sempre confirmou os dotes administrativos de quando fora o responsável pela economia dos jesuítas macaenses. Contou-me o Provincial de então, - o saudoso santo e sábio Prof. Doutor Júlio Moreira Fragata. S. J., que os seus estudantes de teologia podiam manter-se no estrangeiro, graças à excelente operação de venda de prédios da Província em Hong Kong, por ele operada, revertendo 4.000 contos do tempo (muito antes de 1974) para Portugal e outro tanto para os superiores de Macau.
  • MIssIonárIos para o Século XXIP. Benjamim Videira Pires Meu irmãoO P. Benjamim lamentava sempre não pagar o que desejaria aos seus professores, embora ajustasse a tabela de vencimentos pelo que a lei regulava. Na linha duma tradição dos colégios da Ordem , os lucros fazia-os reverter em beneficio dos alunos (bom número deles estudava até gratuitamente) e professores, sem esquecer os funcionários mais modestos. Nos passeios culturais que organizava, através da China, à Formosa ou ao Japão, os mestres que se inscrevessem pagavam apenas metade dos custos, cobrindo o resto o Instituto. Esboçou mesmo uma obra social, em favor destes últimos. Casas de habitação, nalguma das ilhas. Por fim, com aplauso de todos eles e prévia autorização do Provincial português, optou por uma vivenda confortável, para duas famílias passarem férias, numa linda urbanização, em Albufeira (Algarve), entregue, após a sua morte, à Província portuguesa.A viragemQuando, em Março de 1973, visitei Macau, pela primeira vez, a cidade abrigava duas comunidades jesuíticas, a viver separadas, - a portuguesa em Vila Flor (Largo de S. Agostinho, 4), e a Casa Ricci, constituída por sacerdotes espanhóis, da Província chinesa. Contactei com eles um pouco, sobretudo quando vinham comer com seus irmãos portugueses. Não precisei de muita
  •  MIssIonárIos para o Século XXIP. Francisco Videira Pirespsicologia, para logo perceber alguma tensão entre os dois grupos, com certo complexo de superioridade por parte dos primeiros, em relação aos nossos compatriotas.Claro que a Fé e a identidade de ideal e formação religiosa inibia reflexos mais agressivos, tudo se esfumando num sorriso ou nalguma piada mansa, incapaz de ferir suceptibilidades. Os da Casa Ricci consideravam-se missionários a corpo inteiro, ao passo que portugueses de Macau seriam servidores do Padroado. O que não impedia que todos se amassem lealmente, como irmãos.Era este o clima em que se vivia, até cerca de 1980, quando o P. Arrupe, seguindo proposta dos seus padres da Formosa, onde o Provincial da China residia agora, com o seu conselho, decidiu que, em Macau, passaria a haver uma só comunidade, integrada na circunscrição de Taipé. Todos os portugueses abandonaram a Província portuguesa, com sede em Lisboa, passando a fazer parte da chinesa. Doravante, existiria uma só comunidade jesuítica em Macau, estabelecida no n° 4 do Largo de S. Domingos. Só o P. Benjamim continuou ligado a Portugal.Não procedeu assim por rebeldia ou qualquer veleidade de patriotismo saloio. O seu receio era que, antecipando-se a Companhia, com este gesto, a praticar a política de integração na China, antes que o território
  • 100MIssIonárIos para o Século XXIP. Benjamim Videira Pires Meu irmãopassasse para a administração de Pequim, desta capital surgisse uma atitude hostil para os jesuítas, com o seu governo estabelecido na ilha rebelde. Tanto mais que o chefe oficial da igreja cismática ou “patriota” era um jesuíta chinês de grande argúcia, com a categoria de Arcebispo, a residir na capital do país imenso.Para mais, essa decisão passava uma esponja sobre a transcendência única do passado missionário de Macau, subalternizado à Formosa, centro de todas as iras de Pequim. Benjamim não ocultou de ninguém o seu desgosto. Exprimiu-o até ao Geral, naquele espírito de verdade aberta que tanto prezava.Surdos de começo, e sempre dissimulados o mais possível, aí surgiram atritos frequentes, sem palavras e atitudes, que lentamente o iam fazendo aparecer como um estranho, na sua própria casa. Por outro lado, e porque assim em parte o requeria o meio e a diversificação de actividades, vigorava uma certa autonomia de cada, quanto ao sector em que operava. Cada qual se imaginava senhor do seu feudozinho. Sem excluir o Irmão leigo, com um posto de enfermagem numa das ilhas.Se a caridade colmatava rapidamente as brechas que apareciam, nem por isso elas deixavam de surgir, quando menos se esperava. Até com alguma reserva, para com o P. Benjamim, quer de um lado quer do outro. Numa altura, porque abriu uma garrafa de porto, para
  • 101 MIssIonárIos para o Século XXIP. Francisco Videira Piresprovar um cálice, não tardou o remoque do ecónomo. Pior foi quando um chinês, que teria metade da idade dele, lhe chamou “velho tonto”, sem que esboçasse reacção de protesto. Calejara, na “revolução cultural” dos guardas vermelhos que lhe apedrejaram a janela do seu gabinete, cobrindo-o de calúnias nos jornais deles. Aprendera a sofrer e a calar, para completar em si próprio o que faltava à Paixão de Cristo, como aprendera em S. Paulo. Verdade que os seus superiores saíram logo em defesa dele, publicamente.Não obstante, jamais se considerava um mártir, nem sequer marginalizado. Continuando a conviver fraternamente com todos, sem qualquer assomo de desforço, fosse de quem. Nas mesas do refeitório, acamaradavam todos na melhor harmonia. Mas, no subconsciente mais refugado, a sombra dum certo etnocentrismo, que nada tinha a ver com racismo, lá persistia. Não consciencializada, mas real.Tudo mudava, ao chegar diariamente do seu Instituto. Dos alunos aos serviçais, todos acorriam a saudá-lo, a abraçá-lo e até os mais pequerruchos a saltar-lhe para os braços, tentando beijá-lo. Com os professores, era tudo uma família. De que eu beneficiei. Se possuo estudos fundamentais sobre a China, antiga e actual, como os volumes da tradução magistral dos Chinese classics, feita por Legge, pedidos da Formosa, a vários deles os devo. Espírito de família e entre-ajuda
  • 102MIssIonárIos para o Século XXIP. Benjamim Videira Pires Meu irmãocomo o que nos acompanhava em tudo, nalguma excursão que fiz com o seu grupo, no interior do país, até à grande Muralha, nunca mais o encontrei, na minha carreira de trotamundos. Entretanto, a saúde de meu irmão degradava-se, a olhos vistos. A ameaça de cancro prostático consternava os que, nas tarefas escolares de cada dia, mais conviviam com ele. Telefonavam-me, a pedir solução. No Largo de S. Agostinho, o superior passava largas temporadas longe, assistente como era, para o Extremo Oriente, das Irmãs da Madre Teresa de Calcutá. Membro da Ordem, só alguém dela podia legitimamente adoptar as diligências convenientes. Como nunca mais Distribuição de diplomas a alunos do Instituto Dom Melchior Carneiro
  • 103 MIssIonárIos para o Século XXIP. Francisco Videira Piresapareciam, foram os professores dele, no Instituto, que, passando por cima de tudo, o internaram num dos melhores hospitais de Hong Kong, onde cirurgiões experientes procederam a uma raspagem que o salvou, apesar de tardia. Regressou, porém, à residência, no convívio com todos os confrades, sentido mas engolindo queixas. E foi pouco depois que os superiores da Formosa o atingiram com o golpe mais doloroso, ao impor-lhe o abandono da direcção do colégio, obra da sua vida e menina dos seus olhos. Visitou-me, nessa altura. Sem uma lágrima, embora de coração destroçado, confidenciou-me que, dali a um ano, seria obrigado Com os primos Prof. Dr. Cassiano Reimão e esposa e P. Luís Ruiz, no seu gabinete do Instituto Dom Melchior Carneiro
  • 104MIssIonárIos para o Século XXIP. Benjamim Videira Pires Meu irmãoa deixar a orientação da escola que levantara, pedra a pedra. Tornou-se homem psicologicamente morto, em algo fundamental da sua personalidade.Jesuíta de Portugal, e da maior responsabilidade governativa, ao sabê-lo, quando o P. Benjamim vivia sequestrado adentro das paredes que ele fizera erguer, garantiu-me que nada disto teria acontecido, se a resi-dência macaense dependesse ainda de lá. Houvesse mais tacto, dando-lhe um adjunto chinês como sub-director, e ter-se-ia evitado a tragédia posterior. Posso garanti-lo. Meu irmão estava decidido a entregar toda a responsabilidade, faseando a transição, pois ele próprio reformaria a secretária chinesa, que iria viver na América, junto da filha.Uma carta dramáticaPressentindo o pior, escrevi a meu irmão, lembrando-lhe que a suprema sabedoria era conformar-se, bebendo o cálix da amargura, até à última gota. Uns oito dias depois, mandava-me esta carta dramática, de que o meritíssimo Juiz, instrutor do processo que movi contra os sequestradores de meu irmão, em 1998, quis guardar fotocópia, apensa aos respectivos autos, pelo impressionante do seu testemunho. Aqui está, no essencial, ainda com letra muito firme:
  • 105 MIssIonárIos para o Século XXIP. Francisco Videira Pires«17 de Junho, 1995Querido Francisco»«Embora me custe muito, concordo plenamente, com que me dizes, na tua última carta. Deixar tudo, até a nossa vontade, nas mãos de Deus, eis o segredo da PAZ.Seja tudo em desconto dos nossos pecados e dos do mundo. (..) Só peço a Deus que me mantenha a fé, a esperança e a caridade, e me não deixe exasperar e perder a cabeça, com as atitudes canhestras e incompre-ensíveis dos que são e devem ser sempre Superiores.As homenagens que me vão prestar, aqui, pelos não jesuítas, não me aquecem nem me arrefecem. O importante é o louvor de Deus e o seu perdão para todas as nossas faltas.Prevejo que muitas coisas se destruirão das que eu fiz. A responsabilidade não é minha. Seja o que Deus quiser ou permita. Reza por mim.Um abraço mto. Amigo do teu irmãoP. Benjamim, S.J. “Nestas poucas linhas, admiravelmente domina-das, pulsa o coração inteiro de meu irmão. Se quem isto escreve, depois do golpe irreflectido que aca-bavam de lhe infligir, é declarado incapaz, então já
  • 10MIssIonárIos para o Século XXIP. Benjamim Videira Pires Meu irmãoninguém sabe o que é competência nem sentido de responsabilidade.Os novos superiores chineses deveriam infor-mar-se de que meu irmão era, em Macau, o jesuíta português de currículo socio-cultural e prestígio mais notável de todo o século XX. UM DOS Provinciais mais competentes que tivera declarou que não o nomeara superior local, porque a burocracia administrativa duma comunidade impedi-lo-ia de continuar a escrever e a publicar obras, com o ritmo nele habitual. Soube-se até que, do trio de nomes enviado a Roma para Bispo de Macau, só não foi o preferido, para não haver dois jesuítas, a breve trecho um do outro, a superintender à diocese. Num caso e noutro, o P. Benjamim respirou de alívio, por continuar, sem qualquer hiato, a que sempre considerou a linha verdadeira da sua vocação.A armadilhaAlguém poderá surpreender-se que, num clima destes, ele se mudasse, temporariamente e em busca de calma, como tencionava, para o seu colégio, deixan-do o Largo de S. Agostinho? Aqui, já ninguém lhe dizia humanamente nada, ao passo que, no Instituto, até as paredes o confortavam de tão negra incompreensão.Sinto-me completamente à vontade, para escrever isto. Ninguém foi mais duro do que eu, para meu irmão.
  • 10 MIssIonárIos para o Século XXIP. Francisco Videira PiresA tal ponto, que o Provincial português, ao ouvir-me, chegou a corrigir-me: - «Não diga isso, do seu irmão. A Companhia deve-lhe muito; e a idade, com as circuns-tâncias, devem levar-nos a desculpá-lo».Fui tão longe, que a comemoração das suas bodas de oiro sacerdotais, que nesse ano ocorriam, só não se celebraram, na Torre, porque, em meados de Julho, lhe pus, como condição, que regressasse ao Largo de S. Agostinho.Se esta minha carta lhe chegou às mãos (daí em diante, eram-lhe sistematicamente destruídas, sem que delas suspeitasse), e não seguiu o meu conselho, como sempre fazia, é porque a armadilha, em que acabaram por enleá-lo, começava a ser tecida, pela quadrilha (este o nome vernáculo de gang) chefiada por Marta Su Wan e sua filha Doutora Fátima Yang.A superficialidade sensacionalista de certo jorna-lismo de Macau e Hong Kong, imbuído até ao tutano de pansexismo freudiano, tentou envenenar o relaciona-mento de meu irmão com estas duas senhoras. Nesta hora de verdade sem reservas, convém clarificar que, nos seus primeiros tempos de fixação, quando chusmas de chineses fugiam ao triunfo do maoísmo, escolhendo Hong Kong e Macau para terra de abrigo, o P. Benjamim deparou na rua com um casal católico, levando pela mão uma filhita de 3 anos, a mendigar. Pela pureza do chinês que falavam, logo percebeu tratar-se de gente
  • 10MIssIonárIos para o Século XXIP. Benjamim Videira Pires Meu irmãoculta, e procurou empregar a senhora no colégio de Santa Rosa de Lima.Aberta a primeira escola, logo que esta começou a crescer, chamou-a para “prefeito de estudos”, lugar que desempenhou sempre com dinamismo e competência. Numa população escolar inteiramente de etnia chinesa, só alguém do mesmo sangue e da mesma cultura era capaz de lidar com tantos alunos e professores, integrando-se por completo na sua maneira de ser e sentir. Tornou-se, pois, um elemento não só competente, mas imprescindível, embora o P. Benjamim lhe conhecesse bem as limitações, que lamentava e pessoalmente lhe lembrava. Procurou, por isso, rodeá-la de adjuntos dos dois sexos, algum dos quais apreciava mais que Marta, embora não possuíssem a sua energia de decisão nem tanta clarividência, no trato com a gente da casa. Nem sequer recebia o salário mais alto, entre os funcionários da escola.Mas o chinês, com a riqueza deslumbrante da sua civilização, é mestre insuperável na arte de “salvar a face” ou “as aparências”. Durante milénios, o magistério confuciano das “cerimónias” e dos “ritos” moldou-lhe definitivamente a mundividência. Da rica bibliografia a este respeito, ressalto apenas um clássico da antropologia contemporânea, - Interaction ritual, de Erving Goffman. Citando um profundo estudioso da alma chinesa (Chester Holcombe, em The real Chinaman),
  • 10 MIssIonárIos para o Século XXIP. Francisco Videira Pirestrancreve este texto luminoso: «Uma boa parte da hipocrisia atribuída aos chineses, enquanto povo, não passa dum atributo das exigências da etiqueta. Um “não” rotundo e franco constitui, para eles, o cúmulo da má educação. Uma recusa deve sempre adoçar-se e amaciar-se, de modo a equivaler apenas à expressão duma impossibilidade que se lamenta». (Goffman, 1974, 28 n.22).Apesar de todo o bom conhecimento do seu psiquismo, bem comprovado em os extremos conciliam-se, uma idiossincrasia tão complexa como a do chinês jamais um estranho consegue dominá-la exaustivamente. Retalhos de alma, manifestações mais salientes e dominantes, como o sentido de família, ainda um estrangeiro perspicaz o capta. Mas não vai além das franjas visíveis dum universo muito mais rico. É a ideia que hoje me fica dos romances de Pearl Buck, depois que estudei um pouco em profundidade a alma deste povo admirável, em observações de campo e na literatura de trabalhos fundamentais, como religion in chinese society, de C. K. Yang, e My country and my people, de Lin Yuntang, com a análise prolongada dos “clássicos chineses”. A psicologia de profundidade só tem confirmado que o coração do homen é um abismo insondável, como um livro do Antigo Testamento o considerava já (Ecles., XLII, 18). As aparências refolham mistérios impenetráveis, em que só Deus sabe ler.
  • 110MIssIonárIos para o Século XXIP. Benjamim Videira Pires Meu irmãoO que não obsta a que reconheçamos no chinês uma das personalidades mais pragmáticas da história. Nas suas orações aos deuses, dificilmente deparamos com arroubos místicos de entrega integral à divindade invocada, como no hinduísmo e no budismo. Invariavelmente, é longa vida e riqueza material. Se pretende favor de alguém, não costuma solicitar frontalmente o que deseja. Cerca de atenções o beneficiário, dias e dias a fio. Quando este, finalmente, multiplica os agradecimentos, é que lhe expõe o que procura alcançar dele. O laisee tradicional, na oferta de um presente, deve ser a expressão ritualista mais requintada do velho “do ut des “ romano.As cortesias para com o P. Benjamim, do lado da Marta e família, vinham-se consolidando, através de muitos anos. Sempre recompensada, tanto por ele como pela companhia de Jesus, que chegou a dar-lhe 30.000 dólares, quando a filha, fixada na América, onde formara e doutorara, decidiu comprar casa, em cidade satélite de Nova Iorque. Mas a ancestralidade ambicionava-lhes mais: - nada menos que apropriar-se do Instituto, apenas Macau regressasse à administração de Pequim.Passaram a acirrar cada vez mais a incompreensão entre o P. Benjamim e a comunidade de S. Agostinho. Analfabeto de tal modo, que ninguém, nem sequer os familiares de passagem o conseguiam ver, a menos que
  • 111 MIssIonárIos para o Século XXIP. Francisco Videira Piresa esposa do senhor Governador interviesse, ainda então, com um gendarme perto a vigiar. Tratava-o habitualmente um curandeiro. Pelo que pude comprovar, quando o fui libertar, em Junho-Julho de 1998, deviam ameaçá-lo sistematicamente, drogando-o e batendo-lhe até, a avaliar pelos vergões de hematomas vermelhos que trazia nos ombros e nas costas. Até a dormitar gritava como se lhe estivessem a bater. O P. Jaime Coelho, S.J., único jesuíta que teve a coragem de se instalar no colégio, referiu-me que acordou, alta noite, aos gritos de meu irmão. Acudindo logo, um dos capangas saiu-lhe ao encontro, explicando que eram maus hábitos que ele contraíra, na doença. Só já na Torre, e à medida que o fui serenando, repetindo-lhe, insistentemente, que agora ninguém o maltratava, é que deixou de gritar, voltando a sorrir e a divertir-se com os que o rodeavam.A tortura moral deve ter sido ainda mais grave e implacável. Todos os professores e funcionários honestos, incapazes de dobrar-se ao ditatorialismo da Marta e da Filha (que acabou por fixar-se em Macau, deixando o marido, um formosino, na América), abandonaram o colégio. Alguns deles me escreveram, a lamentar a indignidade perpetrada contra meu irmão. E constituiu, então, a quadrilha, cegamente fiel aos seus caprichos despóticos. Ao mesmo tempo, fazia declarar uma campanha cerrada na imprensa, falsamente assinada por meu irmão. Um grupelho de
  • 112MIssIonárIos para o Século XXIP. Benjamim Videira Pires Meu irmãouns 4 advogados portugueses, meros aventureiros de ocasião e sem escrúpulos, redigiam os comunicados, que alguém medianamente a par do estilo do P. Benjamim logo percebia serem apócrifos, de mal redigidos que vinham, combinando erros de gramática e brocardo jurídico, numa incongruência de arrepiar. E inventavam preocupações, de cuja falsidade tomei conhecimento directo, quando uma advogadazita, ignorante e atrevida, exigiu falar com meu irmão, já na pousada de Mong Há. Mal declarou que tinha ali uma procuração que ele lhe passara, meu irmão reagiu de imediato: - «Mas eu não passei declaração nenhuma a ninguém». E ficou varado, ao ver o papelacho, com a assinatura dele, evidentemente falsificada. Forçaram-no aos espectáculos mais degradantes de arruças e contestação pública a pessoas e institui-ções, arrastado na cadeira de rodas, em contradição gritante com a sua maneira de ser e tratar as pessoas. Na última visita de Mário Soares, perante o sobrinho Lucas Pires, a audácia dessa gentalha foi ao ponto de lhe chamarem traidor, só porque o Presidente o recolheu para o átrio do Leal Senado. Quando fui libertá-lo e a polícia de choque invadiu o Instituto, revolvendo tudo, na ilusão de que o tivessem fechado nalgum recanto mais escuso, um serventuário da Marta ameaçou que ainda haveria sangue. Tão aterrado devia andar, que, no passeio que lhe proporcionámos, para que admirasse
  • 113 MIssIonárIos para o Século XXIP. Francisco Videira Piresas transformações por que a cidade passara, nos três anos em que estivera sequestrado no colégio, mal viu a Marta e filha surgirem inesperadamente, começou a tremer, aterrado, e só acalmou, ao reentrar no quarto da Pousada. Com o sobrinho, Lucas Pires
  • 114MIssIonárIos para o Século XXIP. Benjamim Videira Pires Meu irmãoO tempo perdidoSó nessa altura, já demasiado tarde, os superiores locais me telefonaram a solicitar que fosse a Macau, desenvencilhar o nó górdio. Recusei a proposta, para não estrangular mais o beco em que eles e as autoridades religiosas se fecharam, reagindo às campanhas caluniosas em que a quadrilha os envolveu. Só tarde, tarde demais, caíram na conta do logro, remetendo-se ao silêncio.E ainda tiveram sorte, com a ignorância de direito internacional desses juristas de alforreca. É que, à face do direito concordatário português, o Instituto continuava a pertencer, não à província chinesa da Companhia de Jesus, mas à portuguesa, já que esta era corporação missionária reconhecida por Portugal, com direito a possuir legalmente imóveis. Conto que meu irmão, que sabia disso, apesar de convertido num títere, em mãos daquela gente sem escrúpulos, nunca tenha levantado o problema.Mas outra questão mais transcendente perturbou, ainda mais, a possibilidade de entendimento. Foi o recurso desnecessário à “obediência cega”, que S. Inácio prescreve aos seus, em casos-limite. De longe, têm-se dado decisões de superiores que levaram os súbditos a situações extremas, que o santo fundador seria o primeiro a desautorizar. Sucedeu,
  • 115 MIssIonárIos para o Século XXIP. Francisco Videira Pireslogo nas origens, com a campanha de que foi alvo o P. Simão Rodrigues, seu companheiro de Paris e co-fundador da Ordem. O grande historiador P. Francisco Rodrigues, S. J., repôs a verdade histórica, sobre essa interpretação maniqueia da obediência. E um dos maiores teólogos do século passado, Hans Urs von Balthasar, preferiu abandonar a Companhia, que amaria até ao fim, para que, não viesse a converter-se numa simples «instância oficial», (...) «excluindo, dum lado e doutro, qualquer situação de diálogo» (Balthasar, 1985,57). Ali perto, na Sophia University, de Tóquio, um Provincial não fora obrigado pelo Geral a emendar a mão, de abusos contra um jesuíta português?Que contraste com a prudência, impregnada da mais profunda humildade e caridade, de S. Inácio, sempre que tinha de tomar decisão grave, conforme a Autobiografia e o seu diário espiritual testemunham, tão ao vivo! Se é verdade que meu irmão tenha afirmado, nalgum excesso, que só obedeceria ao Papa, não é este, chefe da Igreja universal, também o Superior supremo da Companhia, ao qual se encontrava até ligado por quarto voto especial?Amava a sua família religiosa, com toda a alma. Algum sacerdote diocesano, e qualificado, chegou a sugerir-lhe, no mais agudo do conflito, que a abandonasse, encardinando-se numa diocese
  • 11MIssIonárIos para o Século XXIP. Benjamim Videira Pires Meu irmãocontinental. Recusou cerce o conselho. Na espera do regresso definitivo a Portugal, já em Mong Há, pediu literalmente perdão ao superior local. E porque já não tinha mão firme para escrever, eu próprio mandei uma carta, em seu nome, ao Bispo da diocese, a fazer o mesmo. Na última concelebração colectiva da Eucaristia, dentro da suite de Mons. Manuel Teixeira, abraçou, de lágrimas nos olhos, todos os sacerdotes da Ordem, até o Vice-Provincial chinês, vindo expressamente de Hong Kong. E, à despedida, no aeroporto, antes de subir para o avião, abraçou-os a todos, com o espírito fraterno habitual, superando divergências passadas. Depois disso, nunca por nada lhe ouvi palavra crítica a alguém, por mais que se falasse de Macau.Também por isto, tenho muita dificuldade em compreender que alterassem o nome do Instituto para o do P. Ricci, certamente missionário de génio, mas a que Macau, por onde passou sem deixar marca, nada deve. Ao passo que Melchior Carneiro, para lá da dignidade de Bispo santo, está na origem do glorioso Colégio da Madre de Deus, do Hospital de S. Januário e de outras glórias ligadas aos primórdios cristãos da cidade. A justificação de que se tratou da transferência de umas centenas de alunos, do colégio Ricci para o desmantelado Melchior Carneiro, é de uma lógica improcedente. Como se um ano de reorganização
  • 11 MIssIonárIos para o Século XXIP. Francisco Videira Piresdinâmica não acabasse por lhe trazer, a breve trecho, a enchente de milhares que o haviam frequentado, antes da crise... A memória de meu irmão deveria merecer maior respeito, mesmo porque lhes deixava um património valiosíssimo. Coragem teve Mons. Manuel Teixeira, ao escrever, em diário da terra, que esta ofensa bastaria para matar o P. Benjamim, se ainda vivesse. O pressentimento da carta dele, acima transcrita, acabou por torná-lo profecia, com um travo de ingratidão. A tragédia passada não restituiria a Sabedoria, dom do Espírito Santo. Oxalá não acabem por alienar tudo, como o P. Benjamim tanto receava, transferindo os valores sabe-se lá para onde. Depois de condecorado, em Macau, juntamente com Mons. Manuel Teixeira
  • 11MIssIonárIos para o Século XXIP. Benjamim Videira Pires Meu irmãoTempo e eternidadeNum poema inicial de Four Quartets, o Prémio Nobel T.S. Eliot recorda sabiamente que «only through time, time is conquered». (Eliot, 1950, 20).Espantosa verdade! O povo, com sabedoria milená-ria, até repete que o tempo cura tudo. Cura e transfigura. E o tempo sem tempo da eternidade do Pai melhor que nada. Definitivamente. Num definitivo de pura glória, a que já não encontram acesso as nossas poltronices humanas, demasiado humanas.Custa chegar lá. Também porque se intrometem covardias inomináveis, que pontuam o nosso tempo de espera. Foi o que tanto me levou a hesitar, em três anos de angústia inimaginável, sem receber letra ou escutar palavra de meu irmão, que eu previa num martírio atroz, de onde a onde quebrado por jornais recebidos de Macau, na maioria com uma enxurrada ignóbil de fantasias caluniosas, disparadas contra ele, mesmo quando pretendiam defendê-lo, e contra os superiores, religiosos ou diocesanos, em total deformação do que fundamentalmente estava em jogo. Escrever? As cartas nunca lhe chegavam às mãos. Telefonar? Recebia, invariavelmente, do lado de lá, a resposta sacramental: - «Father Benjamin is out», ou então:- «is sleeping», por muito que repetisse o apelo, distanciando horas. Amigos a que recorri o fossem ver, o segurança de
  • 11 MIssIonárIos para o Século XXIP. Francisco Videira Piresserviço barrava-lhes a entrada. Com o desplante de ainda anotarem, numas folhas que guardo comigo, as palavras rituais: - «Tomei conhecimento», assinadas compulsivamente: - «P. Benjamim».Na oratória Jeanne au bûcher, de Honegger, com libreto de Paul Claudel, uma voz lacrimosa ritma, para Joana D’Arc entre as chamas, estas duas palavras latinas «Spera! Spira!» (Espera e respira). O que eu fazia: respirava e esperava. Havia tantas boas almas a rezar, dentro e fora da Companhia, em Portugal e Macau! Soubéssemos nós esperar e Deus faria o milagre.E eis que, ao cabo de três anos de angústia, um afilhado e excelente jurista me lança o desafio - «Padrinho, quer vir comigo a Macau?» Dei comigo a duvidar se os meus 79 anos aguentariam tantas horas de avião. Mas logo o meu jovem pároco, avantajado em corpo e alma, se prontificou a acompanhar-nos. Liberto já de ocupações académicas, a quadra não podia vir mais asada. Para mais, ao encontrar-nos todos em Frankfurt, eles vindos de Lisboa, nós dois pelo voo do Porto, meu afilhado trazia com ele um simpático inspector da Judiciária, seu antigo companheiro de estudos secundários.O leggo divino começava a encaixar as peças. Com Macau sabia eu que podia contar. O Senhor General Rocha Vieira, cujo chefe de gabinete fora meu aluno, almejava resolver a quaestio vexata de meu irmão. Com
  • 120MIssIonárIos para o Século XXIP. Benjamim Videira Pires Meu irmãoele, sintonizava inteiramente o Secretário-Adjunto para a Segurança, Sr. Brigadeiro Manuel Soares Monge, ca-tólico de fé e mandamentos. A chover oiro sobre azul, o seu braço direito chamava-se Coronel Armando Mar-ques Ramos, que todos nós consideramos há muito de casa. Tudo propício para avançar.Assim, na tarde em que cheguei, com o Cor. Mar-ques Ramos à minha espera, mal encostei malas no quarto da Pousada, em que o Senhor Governador me instalou, disparámos para o Instituto Dom Melchior Carneiro. Descer a miudezas dava um nutrido romance policial, nos dois dias em que lá passei horas, tentando parlamentar, amigavelmente, com dois ou três dos ca-pangas ainda meus conhecidos, depois da barrela que a Marta operara no pessoal. A intervenção em força da polícia resultou baldada. Felizmente, na tarde do segundo dia, quando falazávamos, na secretaria, com aquela gente, amestrada em disfarces, avisaram-me, subitamente, que tinha meu irmão ao telefone.Percebi logo que a voz, dorida e arrastada, provinha de fora de Macau. Mas donde? Alguém, a seu lado, ditava ao P. Benjamim, em português fluente, o que devia comunicar-me. Subitamente, desatou a soluçar, mas ainda com ânimo para me avisar: - «Olha, vai-te embora», por certo com receio de que a quadrilha me fizesse mal. Decidi falar-lhe em latim, temendo que o meliante que tinha ao lado percebesse tudo, se me
  • 121 MIssIonárIos para o Século XXIP. Francisco Videira Piresexprimisse em francês ou inglês. E gritei-lhe, nessa velha língua, alto e bom som; - «Vim para te ver, e não me irei de Macau, sem o conseguir, mesmo que tenha de esperar até ao fim do mundo.»Já a raiar o desespero de causa, Marques Ramos, “capitão de Abril” e herói medalhado de Angola, abriu a sua cartilha secreta de grande mestre em espionagem mundial. Obteve dos magistrados autorização para alcançar, da respectiva central, a gravação de todas as conversas telefónicas feitas, naqueles dois dias, de dentro do Instituto. Assim descobrimos que meu irmão fora levado, secretamente, subornando os guardas fron-teiriços e sem que nada constasse do passaporte, para Fat San, 25 quilómetros a Sul de Cantão.Eram 11:30 da noite. Passeava eu na Taipa, com um primo, funcionário em Macau, e eis que o telemóvel dele recebe um apelo da Judiciária, a pedir que seguis-se imediatamente para lá, pois tinham localizado meu irmão, no luxuoso Poshan Hua Qiao Hotel, de Fat San. Tínhamos de transpor a fronteira, antes da meia-noite. Nunca me passara pela cabeça viver na pele um filme de James Bond, com a sirene do nosso carro, disparado, a atordoar as avenidas congestionadas de Macau, para logo arrancar, acompanhado pelo meu jovem pároco, com oficiais da INTERPOL chinesa e outro da macaense, a servir de intérprete. Pouco faltou para sermos assal-tados na estrada, no meio do caminho, por um grupo de bandidos armados.
  • 122MIssIonárIos para o Século XXIP. Benjamim Videira Pires Meu irmãoJá nos aguardava no Hotel, com a Marta e com-parsa, detidos, um destacamento da INTERPOL chi-nesa, sempre amabilíssima connosco. O P. Benjamim dormitava (eram 3:30 da madrugada), reclinado na cabeceira da cama, respirando pesadamente. Toquei-lhe no ombro, chamando: - «Benjamim». Abriu os olhos e sorriu-me, perguntando, assarapantado: - «És tu, Francisco?» Mal lhe respondi: - «Sim, sou eu, não estás a ver nenhum fantasma.» Logo inquiriu, sorrindo e brincando, enquanto apontava o Sr. P. Fernando Ca-lado, meu companheiro, um pouco atrás de mim: - «E quem é esse homenzarrão?»Fomos para quartos magníficos, reservados pela polícia, até que, às 11 da manhã, com a Marta e o pseudo-enfermeiro presos, e eu com meu irmão na mesma ambulância, largámos para Macau, não sem que, antes, no átrio do hotel, ela se recusasse a pagar a conta do P. Benjamim. Nunca suspeitara que o meu VISA da CGD pudesse proporcionar-me tanto júbilo, nesse cabo do mundo. Mas foi lá que as minhas suspeitas se confirmaram, pelo que me comunicou a INTERPOL chinesa. Alguém informara a Marta ou a filha da minha ida a Macau, pelo que se apressaram o retirar meu irmão para longe, a fim de lá o forçarem a fazer-lhes testamento do colégio. O que o P. Benjamim recusou tenazmente.Esta a última batalha que urgia decidir, mesmo que, para tranquilidade de meu irmão, já para nada
  • 123 MIssIonárIos para o Século XXIP. Francisco Videira Piresimportasse. Até à última, tentaram apoderar-se do colégio. Ainda por 1996, a Doutora Fátima veio expressamente a Lisboa, para tentar que eu entrasse no jogo. Recusei-me a recebê-la. Ao P. Jaime Coelho teve a ousadia (ou insensatez?) de afirmar que, sendo o colégio propriedade de meu irmão, este poderia doá-lo a quem quisesse. Já com ele tranquilamente em Mong Há, assistido por um enfermeiro da obra social do bondoso P. Luís Ruiz, S.J., e sempre com dois polícias de vela, o grupelho de uns dez indivíduos, chefiados pela Fátima e um tal Rosa, a servir de intérprete para português, tentaram ainda encontrar-se com ele, o que eu impedi. O pobre argumento esgrimido pelos advogados era esse. E urgia destruir o sofisma que arrastava a questão, no tribunal. O Dr. Manuel Doutel, afilhado - advogado que fora comigo, teve, então, a ideia decisiva: - perguntar a meu irmão se, para acabar com malabarismos jurídicos, lhe parecia bem passar uma procuração, que, anulando quantas lhe tinham inventado, declarasse o Instituto propriedade da Companhia e, portanto, sem possibilidade de contestação posterior. Assentiu logo. Como eu já levava comigo, de Portugal, o nome dum excelente advogado de Macau, o Dr. Luís Gonzaga Cavaleiro de Ferreira, de uma distinta família amiga de Bragança, tudo ficou solucionado no dia seguinte.Tão vivo era no meu irmão ânsia de voltar, que todos os dias me perguntava, insistentemente:
  • 124MIssIonárIos para o Século XXIP. Benjamim Videira Pires Meu irmão«Quando vamos para a Torre?», Visitas dos seus amigos de sempre, desde a Senhora Dra. Anabela Ritchie à professora Dra. Beatriz Lee, acudiam constantemente, felizes por vê-lo de novo, e liberto. Mais que todos, o Senhor Governador (que, apenas reentrado nas “Portas do Cerco”, se demorou uns 20 minutos com ele, no Hospital de S. Januário, confessando-me, no final, que há 4 anos que não via o P. Benjamim «tão feliz»), diariamente se informava de que nada lhe faltasse. E acorreu à despedida, no aeroporto. Despedida de alegria irreprimível, para todo o grupo de íntimos que não quiseram faltar, para lhe dar o último abraço da vida. Despedida, no aeroporto de Macau, rodeado pelo Governador Rocha Vieira e Amigos, sobretudo os jesuítas da Rua de Sto. Agostinho, 4
  • 125 MIssIonárIos para o Século XXIP. Francisco Videira PiresEram 6 da manhã, ainda escuro, quando aterrámos em Lisboa. Apesar disso, lá estava o P. José Carlos Belchior, S.J., Provincial português, que de imediato o levou para a enfermaria modelar do Colégio de S. João de Brito, até podermos instalá-lo em Torre de Da. Chama. A solicitude dos jesuítas portugueses por meu irmão foi sempre impressionante. Na recepção que a gente da nossa terra lhe quis prestar, vários deles vieram participar. No funeral, compareceram outros, do Porto e Braga. O P. Henrique Rios, S.J., que fora superior dele em Macau, acudiu mais tarde, para Missa de sufrágio na igreja paroquial, e, perante muitos fiéis, realçou, comovido, as virtudes e a grande obra do P. Benjamim.A cidade de Bragança atribuiu o seu nome a um arruamento novo. E a Câmara Municipal de Mirandela, com a Junta de Freguesia da Torre, no primeiro aniversário da sua morte, dedicaram-lhe uma sessão solene, presidida pelo novo Provincial, P. Amadeu Pinto, S.J.. O P. Belchior exaltou a personalidade religiosa e missionária do P. Benjamim, enquanto o Dr. Jorge Santos Alves, Mestre em História e ex-Assistente da Universidade de Macau, punha em relevo a sua obra de escritor e historiador. A seguir, com a presidência do Bispo diocesano e a concelebração de sacerdotes jesuítas e diocesanos, celebrou-se Missa de sufrágio, colaborando um grupo coral de Bragança. Terminou
  • 12MIssIonárIos para o Século XXIP. Benjamim Videira Pires Meu irmãotudo com a romagem ao jazigo de família, onde uma sua professora macaísta mandou depor um lindo ramo de cravos brancos.No Céu, o P. Benjamim teria já confessado ao Pai que fora apenas um “servo inútil”. Que procurara fazer, e mal, o que devia. Nós, que em mágoa o recordamos, vemo-lo indissoluvelmente ligado a Macau. Parece-me ainda ouvi-lo a ler-me o soneto final de Espelho do mar (1986, 55), significativamente intitulado «Acto de esperança»:«Senhora de T’oi Sán e da fronteira sentinela isolada de Além-Mar, envolve-nos a noite traiçoeira, com estrelas vermelhas a rondar...Dominas, Mãe de Deus, a terra inteira, dum trono atapetado de luar,Que futuro, Divina Mensageira, descobre para nós o teu olhar ?Nesta hora, a Cidade iluminadaé uma flor de nenúfar delicada, pairando sobre medos e cansaços...Senhora, não reveles o destino;Macau prefere a sorte dum meninoque dorme, confiado, nos teus braços.»
  • 12 MIssIonárIos para o Século XXIP. Francisco Videira PiresTrês dias antes da morte, perguntei-lhe se queria receber a Santa Unção e o Viático, em face do agravamento extremo do seu estado. Acenou-me que sim, com a cabeça. Mal terminei, apertou-me as mãos, a P. Benjamim com o autor, seu irmão, P. Francisco Videira Pires, em frente às “Portas do Cerco”
  • 12MIssIonárIos para o Século XXIP. Benjamim Videira Pires Meu irmãoagradecer, enquanto uma lágrima silenciosa lhe deslizava pela cara. Visitei-o diariamente, no Hospital de Mirandela, em que médicos e enfermeiras se desdobravam em cuidados, para debelar a desidratação monstruosa que o minava. Falava-lhe, a tentar que reagisse. No rosto, impressionantemente sereno e dentro do olhar ausente, pairava uma PAZ sobrenatural. Já não era deste mundo. O tempo conquistara a Eternidade, nos braços do Pai de todas as misericórdias.
  • 12 MIssIonárIos para o Século XXIP. Francisco Videira PiresBibliografiaAgustín (San), LAS CONFESIONES, BAC, Madrid, Macau, 1991Aristóteles, POLITIQUE,”Les Belles Lettres”, I-II, Paris, 1968Arrimar, Jorge, BENJAMIM VIDEIRA PIRES, S.J. (expo-sições bibliográficas), Macau, 1992 e 1997Balthasar, Hans Urs von, ADRIENNE VON SPEYER ET SA MISSION THÉOLOGIQUE, Mediaspaul, Paris, 19Caeiro, José, S.J., HISTÓRIA DA EXPULSÃO DA COM-PANHIA DE JESUS DA PROVÍNCIA DE PORTU-GAL (séc. XVIII), VERBO, Lisboa, 1991-1998Dante Alighieri, TUTTE LE OPERE, Barbèra, Firenze, 1964De Hovre, F., ENSAYO DE FILOSOFIA PEDAGÓGICA, Fax, Madrid, 1962 Eliot, T. S., QUATRE QUATUORS, Seuil, Paris, 1950Eckart, Anselmo, S. J., MEMÓRIAS DE UM JESUÍTA PRISIONEIRO DE POMBAL, A. I., Braga, 1987Freches, Claude-Henri, LE THEATRE NEO-LATIN AU P0RTUGAL (1550-1745), Paris-Lisbonne, Nizet-Bertrand, 1965Galbraith, John K., EL CRAC DEL 29, Ariel, Barcelona, 1975Goffman, Erving, LES RITES D’INTERACTION, Minuit, Paris, 1974
  • 130MIssIonárIos para o Século XXIP. Benjamim Videira Pires Meu irmãoGreenberg, Joseph H.- Antropologia (ámbito), na ENCICLOPÉDIA INTERNACIONAL DE LAS CIENCIAS SOCIALES, Aguilar, Madrid, I 1974Gross, Martin L., THE PSYCHOLOGICAL SOCIETY, Random House, New York, 1978 Hjelle, Larry J Ziegler, Daniel J, PERSONALITY THEORIES, McGraw, New York, 1992Hegel, G. W. F., LEÇONS SUR L’HISTOIRE DE LA PHILOSOPHIE, III, Vrin, Paris, 1972Heidegger, Martin. L’ÊTRE ET LE TEMPS, Gallimard, Paris, 1964Jaeger, Werner, CRISTIANISMO PRIMITIVO E PAIDEIA GREGA, Edições 70, Lisboa, 1991Jiménez, Juan Ramón, ANTOLOJÍA POÉTICA, Losada, Buenos Aires, 1944Legge, James (trad.), THE CHINESE CLASSICS, 4 vols., SMC, Taipei, 1991Lévi-Strauss, Claude-Eribon, Didier, DE PRÈS ET DE LOIN, Jacob, Paris, 1998Linton, Ralph, CULTURA E PERSONALIDADE, Mestre Jou, São Paulo, 1973Loyola, San Ignacio de, OBRAS COMPLETAS DE. – BAC, Madrid, 1952Malinowski, Bronislaw, UNE THÉORIE SCIENTIFIOUE DE LA CULTURE, Maspéro, Paris, 1968Martins, Mário, S. J., TEATRO QUINHENTISTA NAS NAUS DA ÍNDIA, Brotéria, Lisboa, 1973
  • 131 MIssIonárIos para o Século XXIP. Francisco Videira PiresMartins, Mário, S. J., O TEATRO NAS CRISTANDADES QUINHENTISTAS DA ÍNDIA E DO JAPÃO, Brotéria, Lisboa, 1986Merton, Robert K., SOCIOLOGIA (TEORIA E ESTRUTURA), Mestre Jou, S. Paulo, 1970Ngan, Mons. António André, CONCORDÂNCIA SINO -PORTUGUESA DE PROVÉRBIOS E FRASES IDIOMÁTICAS, Macau, 1998O’Neill, Brian, Juan, PROPRIETÁRIOS LAVRADORES E JORNALEIRAS, Dom Quixote, Lisboa, 1984Pascoaes, Teixeira de, S. JERONIMO E A TREVOADA, Lello & Irmãos, Porto, 1936 Pessoa, Fernando, OBRA POÉTICA, Aguilar, Rio de Janeiro, 1960Quental, Antero de, SONETOS COMPLETOS, Couto Martins, Lisboa, s/d.Rilke, Rainer Maria, SONETOS A ORFEO (TEXTO EN ALEMÁN Y ESPAÑOL), Adonais, Madrid, 1954Rimbaud, Arthur, POÉSIES COMPLÈTES, Gallimard, Paris, 1960Schuhammer, Georg, S. J., FRANCISCO JAVIER (SU VIDA Y SU TIEMPO), I, Pamplona, 1992Shakespeare, MACBETH, Lello & Irmão, Porto, 1925Summer, Wiliam Graham, FOLKWAYS, New American Library, New York, 1960Teixeira, P. Manuel, TOPONÍMIA DE MACAU, Instituto Cultural de Macau, Macau, 1997
  • 132MIssIonárIos para o Século XXIP. Benjamim Videira Pires Meu irmãoTorga, Miguel, ANTOLOGIA POÉTICA, Coimbra, 1985Tregear, Mary, CHINESE ART, Thames and Hudson, New York, 1980VV. AA., RATIO STUDIORUM DA COMPANHIA DE JESUS (1599-1999), Revista Portuguesa de Filosofia, Braga, LV(1999) 3Vergote, A., LA PSYCHANALISE À L’ÉPREUVE DE LA SUBLIMATION, Cerf, Paris, 1997Videira Pires, Benjamim, MEIA VOLTA AO MUNDO, Macau, 1958Videira Pires, Benjamim, ESPELHO DO MAR, Instituto Cultural de Macau, Macau, 1986Videira Pires, Benjamim, S. J. 30 ANOS DO INSTI-TUTO D. MELCHIOR CARNEIRO, Macau, 1991Weber, Max, ÉSSAIS SUR LA THÉORIE DE LA SCIENCE, Plon, PARIS, 1965
  • 134MIssIonárIos para o Século XXIP. Benjamim Videira Pires Meu irmão
  • 135 MIssIonárIos para o Século XXIP. Francisco Videira Pires
  • 13MIssIonárIos para o Século XXIP. Benjamim Videira Pires Meu irmão
  • Volume IPadre Lancelote Rodrigues “Vida e Obra”Leonor SeabraVolume IIPadre Joaquim Angélico Guerra, S. J. “Um Globetrotter ao serviço de Deus e da China”Padre Henrique de Jesus Rios, S. J.Volume IIIMário AcquistapaceUm salesiano no Extremo OrienteMário Rodrigues BaptistaVolume IVP. Benjamim Videira Pires, Meu irmãoP. Francisco Videira Pires
  • Missionários para o Século XXINão podem cabalmente explicar-se a identidade de Macau e o factor cultural que foi sua moção no decurso da História sem considerar a Diocese de Macau, os seus obreiros e legiões de servidores. Considerar, isto é, em adunação ao sidério, ou com o céu (cum + siderio), que foi o que desde os primórdios do porto macaense atraiu os inacianos encandescidos de fervores apostólicos e “acomodados” ao Outro – o que para sempre eternizou Macau como anfiteatro da compenetração cultural Europa/China, uma das grandes vias de realização da unidade ou arquitectação da ecúmena fraterna dos homens.Padres, missionários, mártires, letrados: servidores do Outro, tornado próximo, pelas obras de misericórdia, e no seu carácter e espírito compreendido pela cultura. De 1557 (Bula do Papa Paulo IV que missionava Macau como sede da expansão religiosa no Extremo Oriente) até hoje, em dádiva total aos mais necessitados (desamparados, pobres, doentes, abandonados, a todas as criaturas assombradas pelo espírito do mal), ou na docência, na investigação e no estudo da Língua, da História, dos arcanos civilizacionais.Foi o Século passado constelado por uma geração de ouro, de tantas figuras excepcionais em Macau radicadas, grandes nas obras, como no quase anonimato de uma humildade que é expressão de um verdadeiro sentido ancilar da vida e do destino.Não podemos deixá-los no desconhecimento e no esquecimento das gerações actuais e vindouras. É este imperativo que nos motivou à concepção de mais uma colecção no nosso acervo editorial – “Missionários para o Século XXI”.
  • 進階搜尋|全站搜尋