Missionários para o Século XXINão podem cabalmente explicar-se a identidade de Macau e o factor cultural que foi sua moção no decurso da História sem considerar a Diocese de Macau, os seus obreiros e legiões de servidores. Considerar, isto é, em adunação ao sidério, ou com o céu (cum + siderio), que foi o que desde os primórdios do porto macaense atraiu os inacianos encandescidos de fervores apostólicos e “acomodados” ao Outro – o que para sempre eternizou Macau como anfiteatro da compenetração cultural Europa/China, uma das grandes vias de realização da unidade ou arquitectação da ecúmena fraterna dos homens.Padres, missionários, mártires, letrados: servidores do Outro, tornado próximo, pelas obras de misericórdia, e no seu carácter e espírito compreendido pela cultura. De 1557 (Bula do Papa Paulo IV que missionava Macau como sede da expansão religiosa no Extremo Oriente) até hoje, em dádiva total aos mais necessitados (desamparados, pobres, doentes, abandonados, a todas as criaturas assombradas pelo espírito do mal), ou na docência, na investigação e no estudo da Língua, da História, dos arcanos civilizacionais.Foi o Século passado constelado por uma geração de ouro, de tantas figuras excepcionais em Macau radicadas, grandes nas obras, como no quase anonimato de uma humildade que é expressão de um verdadeiro sentido ancilar da vida e do destino.Não podemos deixá-los no desconhecimento e no esquecimento das gerações actuais e vindouras. É este imperativo que nos motivou à concepção de mais uma colecção no nosso acervo editorial – “Missionários para o Século XXI”.António Rodrigues BaptistaMissionáriospara o Século XXIVolume IPadre Lancelote rodrigues “Vida e obra”Leonor SeabraVolume IIPadre Joaquim Angélico Guerra, s. J. “Um Globetrotter ao serviço de Deus e da China”Padre Henrique de Jesus Rios, S. J.Volume IIIMário AcquistapaceUm salesiano no Extremo orienteMário Rodrigues BaptistaUm Salesiano no Extremo OrienteMÁRIO ACQUISTAPACE
TítuloMário AcquistapaceUm Salesiano No Extremo OrienteAutorAntónio Rodrigues Baptista EditorInstituto Internacional de MacauColecção“Missionários para o Século XXI” Volume IIICoordenação editorialLuís Sá CunhaDirecção GráficaVictor Hugo DesignImpressão e EncadernaçãoTipografia WelfareTiragem500 exemplaresMacau, Dezembro de 2009Edição integrada no programa de comemoração do 10º Aniversário do IIM.ISBN 978-99937-45-30-3MÁRIO ACQUISTAPACEUm Salesiano no Extremo Oriente
MÁRIO ACQUISTAPACEUm Salesiano no Extremo OrienteAntónio Rodrigues Baptista Padre Mário Acquistapace (2001)
06Mário Acquistapace Um salesiano no Extremo OrienteMIssIonárIos para o Século XXIAntónio Rodrigues Baptista 07 MIssIonárIos para o Século XXIEsta ColecçãoMissionários para o século XXINão podem cabalmente explicar-se a identidade de Macau e o factor cultural que foi sua moção no decurso da História sem considerar a Diocese de Macau, os seus obreiros e legiões de servidores. Considerar, isto é, em adunação ao sidério, ou com o céu (cum + siderio), que foi o que desde os primórdios do porto macaense atraiu os inacianos encandescidos de fervores apostólicos e “acomodados” ao Outro – o que para sempre eternizou Macau como anfiteatro da compenetração cultural Europa/China, uma das grandes vias de realização da unidade ou arquitectação da ecúmena fraterna dos homens. Padres, missionários, mártires, letrados: servidores do Outro, tornado próximo, pelas obras de misericórdia, e no seu carácter e espírito compreendido pela cultura. De 1557 (Bula do Papa Paulo IV que missionava Macau como sede da expansão religiosa no Extremo Oriente) até hoje, em dádiva total aos mais necessitados (desamparados, pobres, doentes, abandonados, a todas as criaturas assombradas pelo espírito do mal), ou na docência, na investigação e no estudo da Língua, da História, dos arcanos civilizacionais.Foi o Século passado constelado por uma geração de ouro, de tantas figuras excepcionais em Macau radicadas, grandes nas obras, como no quase anonimato de uma humildade que é expressão de um verdadeiro sentido ancilar da vida e do destino.Não podemos deixá-los no desconhecimento e no esquecimento das gerações actuais e vindouras. É este imperativo que nos motivou à concepção de mais uma colecção no nosso acervo editorial – “Missionários para o Século XXI”.Os editores
08Mário Acquistapace Um salesiano no Extremo OrienteMIssIonárIos para o Século XXIAntónio Rodrigues Baptista 09 MIssIonárIos para o Século XXI Índice11 Mário Acquistapace Um salesiano no Extremo Oriente53 Algumas memórias56 Testemunhos de amigos63 Conclusão66 Documentos77 Cronologia79 Notas87 Bibliografia 89 António Rodrigues Baptista Curriculumn Vitae
1110MIssIonárIos para o Século XXI MIssIonárIos para o Século XXIMário Acquistapace Um salesiano no Extremo Oriente António Rodrigues Baptista Mário AcquistapaceUm salesiano no Extremo oriente Entre os incansáveis obreiros nas Missões da Ásia Extrema, a partir de Macau, sobressai a figura do Padre Mário Acquistapace. Trata-se de um dos virtuosos Filhos de S. João Bosco, cuja acção muito se fez sentir não só na Cidade do Nome de Deus, mas também nas missões de Pequim, do Vietname e Filipinas. Sem embargo, é principalmente em Macau que a acção do Padre Acquistapace mais se faz sentir de modo particular em dois momentos cruciais: durante a Guerra do Pacífico e após o 25 de Abril de 1974. Vê-los-emos na devida altura.1Jovem clérigo, Acquistapace veio aportar a Macau em 1926, na XIII expedição proveniente de Turim (Itália), integrando um contingente de dezanove missionários.2Francisco Xavier Rôndina – Jesuíta interessado na ida dos Salesianos para a China
1312MIssIonárIos para o Século XXI MIssIonárIos para o Século XXIMário Acquistapace Um salesiano no Extremo Oriente António Rodrigues Baptista Anos de formação Mário Acquistapace andava pelos 20 anos quando chegou a Macau. Aos vinte anos… – a aurora da manhã da vida! Nascera a 16 de Julho em Lodi Vecchio, diocese de Lodi, na província de Milão, em Itália. Seus pais, Pietro Acquistapace e Teresa Oltrasi. Feitos os estudos básicos e depois os secundários, a partir de 1917, na Casa Salesiana de Milão, ingressou o jovem Acquistapace, em 1921, no noviciado da Congregação de Dom Bosco. Três anos mais tarde completou o curso filosófico e profissional em Turim (Valsalice). Em Milão, concluiu o tirocínio prático, como assistente de artes e ofícios.Apurado entretanto para o serviço militar, Mário Acquistapace veio a ser posteriormente dispensado, ficando disponível para partir para o Oriente, na referida XIII expedição salesiana. Uma vez em Macau, em 2 de Fevereiro de 1926, o jovem salesiano ficou instalado no Orfanato da Imaculada Conceição. Como chegara por alturas do Ano Novo Chinês (como recordará, mais tarde, nas “Memórias”), logo os mestres do Orfanato aproveitaram o colega recém-chegado para os substituir no trabalho de vigilância e prefeitura, enquanto (eles) se retiravam para férias. Tratando-se de prestar assistência a várias dezenas de adolescentes, não foi fácil para Mário Acquistapace aquela ingrata tarefa, tanto mais que não sabia (ainda) falar o Chinês, tendo de orientar os rapazes por simples gestos. (Voltaremos a esta situação insólita).O clérigo Acquistapace ficaria, pois, todo aquele ano no Orfanato como assistente dos jovens artesãos, enquanto se lançava na aprendizagem do dialecto cantonense.Em 1927, Mário Acquistapace iria principiar seus estudos de Teologia em Hong Kong, os quais se prolongaram por quatro anos. Mais tarde haveria também de recordar nas “Memórias” alguns dos bons Antigo Orfanato da Imaculada Conceição, Macau
1514MIssIonárIos para o Século XXI MIssIonárIos para o Século XXIMário Acquistapace Um salesiano no Extremo Oriente António Rodrigues Baptista momentos (mormente no campo desportivo) vividos com os rapazes vizinhos da comunidade salesiana de Hong Kong.Recebendo as ordens menores a partir de 9 de Fevereiro de 1929, veio Acquistapace a receber a ordenação sacerdotal em 30 de Maio de 1931. Terá sido este, decerto, um dia único para o novo sacerdote salesiano, agora com 25 anos! 3A Bússola CantonenseAo regressar a Macau como assistente escolástico de artes e ofícios no Orfanato da Imaculada Conceição, um dos trabalhos que o Pe. Mário realizou, nos primeiros anos de docência, foi a tradução para italiano da obra de Pedro Nolasco da Silva, intitulada Bússola do Dialecto Cantonense, que havia sido publicada em Macau em 1912.Esta versão para a língua de Dante, era destinada principalmente aos futuros missionários italianos que demandavam a China. Para isso, aproveitou o Pe. Aquistapace o ano da canonização do Beato Dom Bosco, em 1934, para desenvolver a referida tradução. Vai dedicada aos seus “Confrades”, para que obtenham Bussola del Dialetto di Canton (tradução italiana pelo Padre Acquistapace, em 1934)
1716MIssIonárIos para o Século XXI MIssIonárIos para o Século XXIMário Acquistapace Um salesiano no Extremo Oriente António Rodrigues Baptista de S. João Bosco a eficácia da palavra, e, com a santidade de vida, possam cumprir na China as maravilhas profetizadas “pelo Pai”, tudo coroado pela virtude da “Caridade”.Nas “Noções Preliminares” da Bússola, o Pe. Mário traduz para italiano as quatro páginas da “Introdução” do livro de Nolasco da Silva. Trata-se da explicação e aplicação do método “indutivo”, utilizado depois nas 75 lições e 50 diálogos, com palavras correntes e frases criteriosamente escolhidas, para não causarem “fastio”. Por outro lado, chama o tradutor a atenção dos leitores italianos para as características da língua chinesa, escrita e falada. Menciona designadamente os principais dialectos: o Mandarim do Norte (Pequim), o Mandarim do Sul (Nanquim), o dialecto Cantonense e o dialecto de Xangai.4Na continuação, – e seguindo a metodologia de Nolasco da Silva – Acquistapace regista a tabela dos sons para exercícios práticos; em seguida, apresenta as várias lições, principiando pelos elementos mais simples, com indicação dos caracteres chineses, pronúncia romanizada e respectivo significado, num quadro bastante atractivo.Trata-se, portanto, de uma valiosa edição, fruto sem dúvida do amor do Pe. Acquistapace para satisfazer plenamente o “sonho de Dom Bosco” para a China.Viagem com o Padre KolbeDigno de registo, por estes anos, foi o encontro deveras estimulante que o Pe. Aquistapace veio a travar com o Pe. Maximiliano Kolbe. Este franciscano polaco viria a viajar no verão de 1936 com o missionário salesiano, desde Hong Kong até à Itália.O Pe. Acquistapace teve ocasião de narrar a viagem no bissemanário de Macau “O Clarim”, por altura da canonização do Pe. Kolbe, em Roma, no dia 10 de Outubro de 1982. Tal crónica de viagem é um texto profundamente expressivo, com aspectos de grande interesse para a biografia dos dois religiosos.5Como vamos transcrever na íntegra, em apêndice, esta narrativa do Pe. Acquistapace, baste-nos, por ora, uma breve síntese.O relato do Pe. Mário é muito conciso. Refere que durante a viagem que fizera com o Pe. Kolbe, fora ele (Pe. Mário) a pôr em evidência os conhecimentos que possuía do idioma chinês, perante um grupo de professores de Cantão que viajavam também para Itália. O Pe. Kolbe, sendo mais velho doze anos que o Pe. Acquistapace, limitava-se a observar com curiosidade os gestos e o à-vontade do missionário salesiano, deixando transparecer muita pena por não saber falar Chinês. Entretinha-se então a jogar partidas de xadrez com alguns companheiros de viagem.
1918MIssIonárIos para o Século XXI MIssIonárIos para o Século XXIMário Acquistapace Um salesiano no Extremo Oriente António Rodrigues Baptista A propósito, regista o Pe. Mário: Eu recordo sobretudo aquele vivo interesse pela minha pessoa e pelos meus diálogos em Chinês; recordo também as suas alegres partidas de Xadrez com Capelli e com alguns passageiros de bordo particularmente dotados. Mas ele era mais ́hábil´ que os seus ́adversários´ e quase nunca perdeu. Posteriormente, Kolbe não esqueceria aquela amizade. Passados meses voltaria a Macau para visitar o padre salesiano, e poder verificar “in loco” os métodos de trabalho dos Filhos de D. Bosco. Notemos, finalmente, que durante a viagem para Itália, e também mais tarde, o Pe. Mário exerceu um verdadeiro apostolado junto dos professores de Cantão: não somente foi intérprete e conselheiro da “ementa” na embarcação, mas sobretudo orientou em Itália a visita ao Papa Pio XI. Por outro lado, haveria de influenciar na conversação ao cristianismo o próprio reitor da Universidade de Cantão.6 nos Colégios salesianosQuando observamos o trabalho realizado nos Colégios Salesianos de Macau, ficamos maravilhados com a obra realizada na Cidade do Nome de Deus, pelos Filhos de Dom Bosco, em prol da formação humana e profissional da juventude. O método baseia-se na proximidade entre o educador e o educando, com sentimentos de amabilidade e mútua confiança. Tal educação é destinada, em geral, aos jovens mais carenciados para alcançarem uma aprendizagem adequada e poderem realizar-se plenamente no campo familiar e social, obtendo, além disso, um diploma técnico-profissional, a fim de ganharem a vida com dignidade. Pois bem, na direcção ou na raiz das principais instituições salesianas de Macau – Orfanato da Imacu-lada Conceição, Colégio Yuet Wah, Colégio Dom Bosco e Escola Profissional de Coloane –, esteve presente a imaginação, os esforços constantes e a diplomacia, sem par, de Mário Acquistapace. a) – Instituto da Imaculada ConceiçãoEsta escola tem a sua origem no Orfanato da Imaculada Conceição, criado pelo bispo D. João Paulino de Azevedo e Castro, sendo entregue aos cuidados dos primeiros religiosos salesianos que chegaram a Macau, em 1906.A história da instituição macaense é-nos relatada de forma minuciosa pelo Pe. Manuel Teixeira no livro “A Educação em Macau”.
2120MIssIonárIos para o Século XXI MIssIonárIos para o Século XXIMário Acquistapace Um salesiano no Extremo Oriente António Rodrigues Baptista Sobre os directores que precederam o Pe. Mário Acquitapace, recolhemos os nomes dos padres Luís Versiglia, Vicente Bernardini, José da Silva Lucas, João Pedrazzini e João Guarona. O Pe. Acquistapace sucedeu-lhes na direcção do Orfanato entre 1937 e 1946. Foi um período muito difícil, sobretudo por causa da Guerra do Pacífico.De qualquer modo, podemos referir que o Pe. Mário Acquistapace, durante os 16 anos que trabalhou no Instituto, quer primeiramente como mestre e docente, quer depois como director, conheceu ou foi protagonista das várias transformações por que passou o mesmo Instituto: assistiu à construção da espaçosa capela, inaugurada em Agosto de 1934; presenciou a demolição da arcaria do célebre edifício das “dezasseis colunas”, seguindo-se a criação de novas oficinas de carpintaria, em 1935, e de um novo edifício para salas de aula e estudo, em 1936; por fim, teve lugar a construção do ginásio-teatro, inaugurado já na direcção do Pe. Acquistapace, em 28 de Janeiro de 1939.Após a saída do dinâmico salesiano para Pequim, em 1946, prosseguiram as construções: foi erguido um novo pavilhão de 3 andares (inaugurado em Outubro de 1959), e um centro de formação electro-mecânica, concluído em Abril de 1964. Esta, em traços gerais, a história do Instituto Salesiano da Imaculada Conceição, cujo desenvolvimento o Pe. Acquistapace incrementou, para nele se prepararem para a vida profissional e social, muitas centenas de crianças e jovens pobres de Macau.Registemos outrossim que, em 1987/88, o Instituto era frequentado por 897 alunos, nos graus do ensino primário (362) e do ensino secundário (535).7b) - Colégio Yuet Wah Esta expressão (Yuet Wah) significa “Flor de Cantão”, tendo sua origem precisamente na cidade de Cantão, em 1925. De facto, este colégio foi fundado nesta capital do sul da China por duas senhoras cristãs: Liu Fong Kei, como directora, e Tam Kai Man, como assistente.1912 – Primeiros Salesianos de Macau – Padre Versíglia (3.º à esquerda)
2322MIssIonárIos para o Século XXI MIssIonárIos para o Século XXIMário Acquistapace Um salesiano no Extremo Oriente António Rodrigues Baptista Não obstante, a escola seria transferida para Macau em 1928, por motivo dos distúrbios políticos ocorridos em Cantão. Ficaria, por essa altura, instalada num prédio da Rua da Vitória. Entrementes, com a ajuda do Governo Português e uma subscrição feita na China e também nos Estados Unidos da América, surgiu um novo edifício em 1935. Muitas centenas de crianças e jovens pobres, de ambos os sexos, aí receberam as regras de boa educação, iniciando-se, outrossim, nas artes domésticas, como a preparação do sabão e outras actividades.Com os anos da Guerra do Pacífico, problemas financeiros insolúveis foram surgindo, de tal modo que as referidas senhoras cristãs não puderam resignar-se ao ver decair a sua Escola. Desta feita, dirigiram-se ao Pe. Mário Acquistapace, então director do Instituto da Imaculada Conceição, para que os Filhos de Dom Bosco tomassem conta da Escola Yuet Wah.Como nesta altura os Salesianos planeavam fundar uma escola secundária para a juventude chinesa, e tendo o Pe. Acquitapace obtido a aprovação do Inspector Salesiano, Carlos Braga, residente em Xangai, pôde então Mário Acquistapace concluir o contrato com Liu Fong Kei, em 4 de Janeiro de 1942, passando a Escola Yuet Wat para os Salesianos.Colégio Yuet Wah (secção Chinesa e Inglesa), Macau Colégio Yuet Wah (1955) – Recepção ao Reitor Maior da Congregação Salesiana, tendo à sua direita o Padre Acquistapace, então Provincial do Extremo Oriente
2524MIssIonárIos para o Século XXI MIssIonárIos para o Século XXIMário Acquistapace Um salesiano no Extremo Oriente António Rodrigues Baptista O primeiro director foi o padre Miguel Suppo, que tomou oficialmente a direcção da Escola em 7 de Julho de 1942. Seis anos mais tarde, por iniciativa dos padres Lapin e Robert Vech, seria aberta no Colégio Yuet Wah também uma secção inglesa.Depois de 1948, o Colégio Yuet Wah viu ampliar consideravelmente as instalações para poder albergar as muitas centenas de alunos que aí têm sido acolhidos pela mão protectora dos religiosos de Dom Bosco. Enfim, no ano lectivo de 1987/88, a «Secção Chinesa» do Colégio Yuet Wah, era frequentada por 745 alunos, nos graus de ensino pré-escolar (184) e primário (561); a «Secção Chinesa e Inglesa» era frequentada por 1267 alunos, nos graus de ensino primário (263) e secundário (1004).8c) - Colégio Dom BoscoTeve origem este Colégio nas diligências que Mário Acquistapace igualmente foi mantendo, durante dez anos, não só com o Governo de Macau, mas ainda com as autoridades religiosas da Diocese.Por ocasião do termo da Administração Portuguesa (Dezembro de 1999), o Pe. António dos Santos Rosa elaborou um breve relatório histórico, cuja grata leitura nos facultou. Neste relatório se afirma que, em relação ao «Passado» do Colégio Dom Bosco, este deve o nascimento “sobretudo à alma dinâmica e apostólica do grande missionário Pe. Mário Acquistapace”. A propósito, escreve com simpatia António Rosa que o Pe. Mário, apesar de ser um missionário italiano, conserva no seu coração “um cantinho português”.Observamos, portanto, que o Colégio Dom Bosco foi uma ocupação (e preocupação) permanente do Pe. Acquistapace durante mais de dez anos, atravessando os anos da Guerra do Pacífico.António Rosa descreve-nos algo acerca das diligências feitas pelo Pe. Mário, ainda na flor dos anos, ou seja, a partir de 1936, numa época em que o jovem padre Acquistapace e seus colaboradores se dedicavam zelosamente (sobretudo nos sábados e domingos de tarde), às actividades do “Oratório Festivo” no Instituto Colégio Dom Bosco, Macau
2726MIssIonárIos para o Século XXI MIssIonárIos para o Século XXIMário Acquistapace Um salesiano no Extremo Oriente António Rodrigues Baptista da Imaculada Conceição. Aqui acolhiam os jovens portugueses e macaenses, proporcionando-lhes “desporto, catequese, música, teatro e passeios”. Tal a dinâmica do “bravo salesiano” – como no dito relatório é designado Mário Acquistapace.Por outro lado, regista António Rosa que em 24 de Maio de 1940, o Pe. Acquitapace obteve do Governo a concessão gratuita de um terreno, onde hoje está implantado o complexo do Colégio Dom Bosco. O terreno destinava-se à construção de um Oratório Festivo e de um Colégio, para “ internato dos filhos dos portugueses da classe média e pobre”.Efectivamente, em 24 de Novembro do ano seguinte (1941), seria “benzida a primeira pedra”, pelo bispo de Macau, D. José da Costa Nunes. Contudo, a Guerra não permitiu o avanço dos trabalhos. Somente oito anos mais tarde (6 de Fevereiro de 1949), seria “benzido o local e a pedra angular” sobre a qual seria erguido, de vez, o «Colégio Dom Bosco de Artes e Ofícios» para os portugueses do Extremo Oriente.Desta sorte, durante dez anos – continuamos a ler no relatório de A. Rosa –, os primeiros alunos tiveram de levar uma “vida nómada”, entre dificuldades e incertezas. Em Julho de 1941, os primeiros 22 alunos internos foram acolhidos no «Asilo dos Órfãos» (Calçada da Flora). Seriam entregues, por conseguinte, aos cuidados do Pe. Acquistapace, auxiliado neste momento pelos sacerdotes salesianos Guterrez e Montini (sendo, este, sobrinho do futuro papa Paulo VI). Passados breves meses, os alunos tiveram de abandonar aquele local, sendo transferidos para o edifício Dª Maria Alicoque Barbosa (D. Maria I, em Mong Há). Contudo, por causa de uma estrada, os mesmos alunos tiveram de transitar em Março de 1942, para o «Asilo dos Órfãos», na Calçada do Gaio. E dois anos depois (Agosto de 1944), haveriam de passar, os então 40 alunos existentes, para o Instituto da Imaculada Conceição, partilhando desta forma do ambiente dos Actual Instituto da Imaculada Conceição, Macau
2928MIssIonárIos para o Século XXI MIssIonárIos para o Século XXIMário Acquistapace Um salesiano no Extremo Oriente António Rodrigues Baptista alunos chineses. Como o Pe. Acquistapace havia comprado, entretanto, uma casa na Estrada da Vitória, os alunos passaram aqui a frequentar as aulas, no ano lectivo de 1946-47.Após muito peregrinarem - conforme expressão de António Rosa -, chegaram, por fim, estes alunos dos padres salesianos, à sua “Terra Prometida”, em Julho de 1951. O Colégio Dom Bosco seria finalmente inaugurado a 12 de Fevereiro de 1952, nele recebendo então assistência “mais de 100 alunos”.9Nas décadas seguintes, nunca o número de alu-nos deixou de aumentar no Colégio. Mantiveram-se os ensinos primário, preparatório e secundário; criaram-se vários cursos profissionais (serralheiro mecânico, torneiro, electricista, fresador); prepararam-se os alunos para os Institutos Industriais, e realizaram-se cursos de computadores, a partir de 1982, além de outras actividades.No ano escolar de 1987/88, o Colégio Dom Bosco era frequentado por 528 alunos, nos diferentes graus de ensino: pré-escolar (76), primário (180) e secundário (272).9 (Notemos que o Pe. Mário Acquistapace já se encontrava em Pequim desde 1946, para desenvolver um empreendimento similar, ou seja, para fundar na capital do Império, um novo Oratório Festivo. Voltaremos a este ponto em alínea própria.)na Guerra do PacíficoVários amigos do Pe. Acquistapace salientam sobremaneira a sua acção durante os anos terríveis da Guerra do Pacífico (1941-45). Sobre o tema, registamos nomeadamente os testemunhos de D. Arquimínio Rodrigues da Costa, José Silveira Machado, Leonel de Barros e Mons. Manuel Teixeira. Vamos demorar-nos mormente naquilo que Mons. Teixeira descreve no estudo «Macau durante a Guerra». O valiosíssimo ensaio encontra-se publicado no Boletim do Instituto Luís de Camões.10Num estilo ágil e realista, M. Teixeira expressa o acendrado patriotismo, acentuando que Macau foi para todos, de modo especialíssimo nestes anos de guerra, uma “cidade de refúgio”. Ademais, refere M. Teixeira que em Macau havia “milhares de mendigos esfomeados” e como a fome aumentava impiedosamente “morriam de inanição uns cem por dia nas vias públicas”.11Acção humanitáriaNo estudo que estamos a verificar para avaliarmos a acção humanitária dos serviços da Diocese de Macau e, nessa acção, o importantíssimo papel desempenhado pelo Pe. Acquistapace, Mons. Teixeira escreve relativamente à população de Macau:
3130MIssIonárIos para o Século XXI MIssIonárIos para o Século XXIMário Acquistapace Um salesiano no Extremo Oriente António Rodrigues Baptista De 150.000 pessoas em Dezembro de 1941, subiu vertiginosamente logo nos primeiros meses da guerra (Fevereiro e Março de 1942) para 450.000.Quanto à ajuda alimentar e apoio pecuniário, estes chegavam sobretudo através da Cruz Vermelha Americana e da Associação Geral Chinesa. Por outro lado, a denominada “caridade católica”, em geral através das “Conferências Vicentinas”, acudia principalmente a “pobres e doentes”. Desta sorte, a “Obra de Socorro da Diocese de Macau” mantinha duas cozinhas económicas, uma no Hospital “Kiang Wu” e outra no Pagode da Barra. Também na porta da “Cerca do Seminário” eram distribuídas rações diárias. No “Orfanato Salesiano” as crianças recebiam igualmente “uma refeição diária”. Para não irmos mais longe, registemos que na Rua de S. José se abriu um “Asilo para Crianças abandonadas”. Estas ficaram a cargo das religiosas americanas de Maryknoll, refugiadas nesses anos em Macau. Pois bem, o director deste Asilo era justamente o Pe. Mário Acquistapace, o qual, por outra parte, tinha a seu cargo “600 órfãos” no Orfanato da Imaculada Conceição.12 socorro a Chong-sánAlém de socorrer os pobres da cidade, a acção da Diocese de Macau alargou-se igualmente ao distrito de Chong-Sán, onde “milhares de pessoas morriam à fome”. Esta região estava ocupada pelos japoneses e era muito difícil que o auxílio diocesano lá chegasse. Por isso, foi organizada uma Comissão de Socorro composta pelos padres João António Monteiro (dioce-sano), Mário Acquistapace e Martinho Scheneitdberg (salesianos).Estas visitas tiveram lugar durante o mês de Março de 1942, em três ocasiões. Os padres tiveram assim uma boa ocasião para levar ajuda e distribuir géneros alimentícios a muitas centenas de pessoas. Por que não prosseguiram? Segundo nos informou (pessoalmente) Mons. Tei-xeira, e também ele o descreve no estudo que estamos seguindo, os soldados japoneses começaram a não ver com bons olhos o auxílio da Cruz Vermelha Americana, distribuído através de Macau. Disseram então os japoneses aos padres, na terceira ida a Chong-Sán, para não voltarem. “Mais tarde, talvez” - acrescentaram. Sobre esta atitude dos japoneses, contava-nos Mons. Teixeira, com graça, um episódio ocorrido com os padres. A cena é relatada igualmente no estudo sobre «Macau durante a Guerra». Vale a pena recordá-la, pois se trata de uma ocorrência na qual esteve envolvido também Mário Acquistapace. Como o Pe. Monteiro possuía um coração de oiro, mas tinha ao mesmo tempo algum “génio”, logo ali pediu aos japoneses para marcarem “um dia” para a próxima
3332MIssIonárIos para o Século XXI MIssIonárIos para o Século XXIMário Acquistapace Um salesiano no Extremo Oriente António Rodrigues Baptista visita. Os japoneses tal recusaram. Voltou-se então o Pe. Monteiro para João Richie (que também acompanhara os padres na 3ª visita e conhecia a língua japonesa), exclamando: “Ó Richie, diga lá aos japoneses que eles são como o barbeiro da minha terra, que colocava na loja uma tabuleta, dizendo: Amanhã faz-se a barba de graça. (Enchia-se a loja de clientes, mas quando estes se iam retirando sem pagar, logo o barbeiro acudia: “Isso é amanhã”.)Richie traduziu à letra. Os japoneses ficaram furiosos – refere M. Teixeira.Passados alguns dias, o Comissário da Polícia de Macau recebia do Comandante japonês uma requisição para que lhe entregasse o Pe. Monteiro. Foi o cabo dos trabalhos… O Comissário desculpou-se dizendo que os padres não dependiam dele, mas do delegado do Papa, que vivia em Tóquio. Como o processo parecia complicado, os japoneses desistiram. E assim terminaram aqueles socorros de Macau para a China.13Na sequência do estudo de Mons. Teixeira sobre «Macau durante Guerra», há ainda diversas referências à acção humanitária dos missionários salesianos, tendo à cabeça mormente os padres Vicente Bernardini e Mário Acquistapace. Bernardini realizou em Macau uma “obra extraor-dinária”. Sem polícias nem assalariados, conseguia atender 7 mil pessoas, em menos de 3 horas. Para isso, estabeleceu em Mong-Há um centro de venda de arroz, distribuído com ordem e disciplina impecáveis. É que a organização, a boa ordem e a caridade fazem milagres! – remata M. Teixeira.14800 pessoas a sustentarDiariamente, Mário Acquistapace tinha a seu cargo “800 pessoas a sustentar”. Dêmos de novo a palavra ao Padre Teixeira: À frente do Orfanato Salesiano da Imaculada Conceição estava então um homem fora de série que, sem nada possuir, conseguiu vestir, alimentar e educar nada menos de 800 jovens. Trata-se do Pe. Mário Aquistapace. Mais adiante, Teixeira explicita: “O Orfanato Salesiano de Macau albergava então 400 alunos internos, 300 semi-internos e estendia a sua acção benfazeja a 100 protegidos, a quem dava uma refeição diária”. E termina o mesmo historiador: “Sem rendas de espécie alguma, sem o auxílio exterior, imagine-se o que este homem (o Pe. Mário) não passaria para alimentar diariamente essas bocas famintas”.15Testemunho de Dom ArquimínioPara conhecermos o segredo que fazia parte do modo de agir do Pe. Mário, podemos recorrer ao teste-
3534MIssIonárIos para o Século XXI MIssIonárIos para o Século XXIMário Acquistapace Um salesiano no Extremo Oriente António Rodrigues Baptista munho do antigo prelado de Macau, D. Arquimínio Ro-drigues da Costa. Efectivamente, escreve D. Arquimínio no seu “Depoimento”: O Pe. Mário, sem meios para manter o internato, passou horas bem amargas. Ao seu coração compassivo repugnava a ideia de fechar o instituto, mandando para a rua tantos jovens e adolescentes. Lembrou-se então de promover uma festa, convidando para ela não só as autoridades portuguesas, mas também os elementos mais representativos da comunidade chinesa. Diante deles discursou longamente em Português e Chinês, expondo a situação desesperada do estabelecimento que dirigia, e apelando à generosidade de todos. Descreveu em pormenor o esforço dos internados, que trabalhavam em pequenas indústrias caseiras para poderem sobreviver. Explicou como eles preparavam graxa para o calçado. Mas faltavam as pequenas caixinhas para guardar o produto e colocá-lo à venda. Pediu por isso a todos os presentes que lhe dessem esses recipientes, em vez de os lançarem fora. Em seguida, conclui o antigo Bispo de Macau: “Graças ao esforço do P. Mário e à compreensão do público, o internato continuou a funcionar durante aqueles terríveis anos de guerra.16Estes testemunhos (presenciais) durante os anos da Guerra do Pacífico, nomeadamente os de Dom Arquimínio da Costa e de Mons. Teixeira, são hoje para nós sumamente importantes. Só assim poderemos aquilatar devidamente do valor e do carisma destes “mensageiros de Deus” em Macau, para que esta cidade estivesse, durante os anos cruciais daquela guerra, à altura das responsabilidades, podendo realizar um verdadeiro “milagre da Providência”. Eram homens, estes, de uma aparência humilde, é certo, mas possuidores de uma “alma de gigantes”!na Missão da Chinano coração do ImpérioAtravés de um importante “memorandum” denominado «Os milagres de Nossa Senhora de Pequim» - cuja cópia chegou ao nosso conhecimento por D. Lorenzo Acquistapace (sobrinho do missionário salesiano) - podemos verificar designadamente as dificuldades, mas também as graças obtidas pelo Padre Acquistapace durante o primeiro ano da sua ida e permanência na capital da China, preparando assim os caminhos da Missão Salesiana no coração do Celeste Império. Pequim havia sido sempre para a Família Salesiana um nome fascinante, digamos “fatídico”, na expressão do memorial, visto remontar à visão de D. Bosco: Quando i nostri Missionari andranno ad evangelizzare [...] Io già li vedo avanzarsi nell’Africa e nell’Asia ed
3736MIssIonárIos para o Século XXI MIssIonárIos para o Século XXIMário Acquistapace Um salesiano no Extremo Oriente António Rodrigues Baptista entrare nella Cina, e proprio in Pechino avranno una casa!Por conseguinte, quando o Pe. Mário foi enviado para dirigir a missão de Pequim, em 1946, com a intenção de abrir a primeira Casa Salesiana na capital do Império, estremeceu de alegria pelo facto de poder dar cumprimento ao “sonho de D. Bosco” e poder, ao mesmo tempo, realizar os dois grandes amores do seu coração: a devoção a Maria Imaculada e o amor à China. Não era por acaso que o seu nome era Mário... – pensava. Pelo menos, o Pe. Acquistapace assim o entendia. Este dedicado filho de D. Bosco só lamentava que tal não pudesse ter acontecido mais cedo, visto que havia sido escolhido desde há muito por D. Berruti para tal desígnio, estando Acquistapace em Macau há vinte anos (1926-46).Na companhia de três confrades (o Inspector D. Braga, o sacerdote D. Glustich, e um jovem coadjutor de origem pequinense, João YU), embarcaram então os quatro salesianos num navio com poucas comodidades. Atormentados na viagem por uma espécie de tufão, ao largo do promontório de Shantung, aportaram finalmente aportaram a Pequim, após uma noite trágica, com a temperatura de vinte graus negativos, tendo celebrado Missa de acção de graças numa capela abandonada, sendo no entanto acolhidos pelos Padres de Parma.Mãos à obraAntes de lançarem plenamente mãos à obra, veio a aprendizagem (nada fácil) do Mandarim e dos usos e costumes chineses. E enquanto procuravam um ter-reno apropriado para construírem a Casa, foi nella camera de Don Acquistapace [...] che sì principò la vita salesiana… Por vezes alguns confrades seriam obrigados a dormir simplesmente no chão, num casebre fustigado pelas temperaturas negativas, sendo flagelados pelas frieiras e pelas chagas nas mãos e nos pés.Prosseguindo na leitura do memorial, damo-nos conta das muitas angústias e dores, gestos de amizade e diplomacia... que o Pe. Acquistapace teve de sofrer e desenvolver, durante aquele (longo) primeiro ano da sua estadia em Pequim. Contudo, sempre animado pela oração e fé em “Nossa Senhora de Pequim” (como ele confessa), foi trabalhando e esperando às vezes sozinho (quando os companheiros se encontravam to-dos doentes ao mesmo tempo), para que tudo fosse levado a bom porto: alcançar um local capaz, para assentar a Casa, construir uma capela e uma escola e, simultaneamente, as oficinas de sapataria, alfaiataria e carpintaria, para os rapazes mais pobres.Sobre as enormes dificuldades, bastará transcrever do memorial estas palavras:
3938MIssIonárIos para o Século XXI MIssIonárIos para o Século XXIMário Acquistapace Um salesiano no Extremo Oriente António Rodrigues Baptista Quante corse, quanti affani, quante perdite de facia, o meglio quante umiliazioni e quanti pericoli per la moralità, quante minaccie, il Signore solo lo sa…Poderemos assim sintetizar: em 24 de Agosto de 1946, o Pe. Acquistapace é nomeado director da Mis-são Salesiana de Pequim; em 8 de Dezembro seguinte, chega à capital do Império, acompanhado pelo Pe. Provincial e mais dois religiosos; no dia 1 de Janeiro de 1947, o Provincial (D. Braga) parte de Pequim; no dia 11 de Fevereiro, o Pe. Mário celebra a primeira missa na nova residência, ainda provisória, ajudado (sempre) por “bravos ex-alunos”. Repetia-se, por conseguinte, em 1946, em Pequim, com a chegada do Pe. Mário e seus confrades, aquilo que quarenta anos atrás havia ocorrido em Macau, com dificuldades similares, aquando da chegada do primeiro grupo de Salesianos liderado por D. Luís Versiglia. Agora, em Pequim, durante os primeiros meses, tudo o Pe. Acquistapace foi encaminhando com a ajuda da Providência, o “Poder de Maria”, juntamente com o “olhar pacífico e caritativo dos Salesianos” e ainda o apoio dos Beneditinos americanos e da Missão da Igreja Russa-ortodoxa. Pois de todas estas ajudas tiveram os missionários recém-chegados de lançar mão para não soçobrarem – acrescentemos em abono da verdade.Escola salesianaEm Outubro de 1947, puderam contar os Filhos de D. Bosco, em Pequim, com a sua Escola para 60 alunos. Esta congregava cinco classes elementares, após o reconhecimento (civil) da obra dos Salesianos. Para isso tiveram necessidade de adaptar a casa e a capela, juntamente com as várias oficinas, feitas de madeira e tijolos, após a saída da última das 21 famílias que ainda ocupavam aquele local, onde se instalou, por fim, o complexo salesiano. Como quer que seja, – e será justo sublinhá-lo! – todas aquelas famílias ficaram com as melhores recordações dos Padres: Con un optimo ricordo dei padri – nas palavras do memorial. Entrementes, chegavam as primeiras remessas de alimentos e vestuário: trinta sacos de farinha e três sacos de roupas. Salientemos que tudo isto foi fruto de muita paciência, de muito saber e prudência, ou seja, de muita longanimidade e fé do Pe. Acquistapace. Só assim tudo seria levado com segurança: Pian, pianino, ma securamente – na expressão de Acquistatapace. Em carta a D. Bertoli, com data de Hong Kong a 11 de Março de 1995, o Pe Acquistapace recorda, por outro lado, alguns acontecimentos. Lembra, por exemplo, o “milagre” da farinha de trigo, numa altura em que estavam todos no Orfanato muito aflitos por não haver já farinha para alimentar os cem órfãos. Porém, em dado momento, tendo ido os rapazes rezar
4140MIssIonárIos para o Século XXI MIssIonárIos para o Século XXIMário Acquistapace Um salesiano no Extremo Oriente António Rodrigues Baptista para a igreja, uma hora não tinha passado sem que um camião chegasse à capela carregado com “mais de cem sacos de farinha branca”. saída de PequimEm 2 de Setembro de 1952, salienta o Padre Mário que se despediu dos seus rapazes em Pequim, não podendo esconder as lágrimas. Depois, enquanto esperava pelo comboio da meia-noite na estação, com o rosário nas mãos, eis que avistou um grupo de alunos internos, mais velhos, que vinham despedir-se. Pediam mais uma vez a bênção de Maria Auxiliadora: “Somos filhos do povo – diziam – dê-nos a bênção de Nossa Senhora!”O Pe. Mário recorda, outrossim, que durante aquela viagem que fizera na companhia de um antigo aluno de Cantão, avistara no corredor do comboio designadamente o jesuíta Kontaller, com as mãos “ligadas” entre dois polícias, a caminho da carruagem dos prisioneiros. Ao apelo que lhe dirigiu - exclamando Padre! - logo os polícias o mandaram calar bruscamente. Mais tarde, em Tientsin, também o Pe. Acquistapace iria encontrar um grupo de Religiosas e Religiosos expulsos da China.Ainda noutro passo eloquente, refere o Pe. Mário que a sua partida de Pequim fora feita a pedido do Inspector D. Carlos Braga. Na altura, havia sido essa ordem para ele um “golpe duríssimo”, pois nem queria acreditar. Por isso, tivera a notícia “escondida” durante alguns dias. Mas era forçoso obedecer.Episódio da Longa MarchaFacto também digno de registo foi, em certa altura, a entrada em Pequim de um contingente de soldados da “Grande Marcha”. Quando um grupo de soldados quis entrar, porta dentro, e ocupar tudo, o Pe. Mário correu ao seu encontro com um grupo de alunos. Todos começaram a bater palmas e a gritar “W W” (querendo dizer “dez mil anos”). A partir deste momento o Pe. Acquistapace não deixa que o Comandante dos soldados fale. Só diz aos seus rapazes para gritarem e cantarem, sem cessar, o hino patriótico “Inofensivos Comunistas”. Simultanea-mente, vai dizendo aos soldados para seguirem para outros sítios mais desocupados do que aquele. Desta maneira o comandante deu ordem aos soldados para continuarem a entrada na cidade. Com um Deo gratias et Mariae (Graças a Deus e a Maria Auxiliadora), termina o Pe. Mário Acquistapace o relato deste curioso episódio.17no VietnameNo estado actual das nossas investigações sobre a Missão Salesiana no Vietname, não nos é possível
4342MIssIonárIos para o Século XXI MIssIonárIos para o Século XXIMário Acquistapace Um salesiano no Extremo Oriente António Rodrigues Baptista desenvolver, com detalhe, as actividades que o Pe. Acquistapace levou a cabo durante os dezasseis anos em que missionou no Vietname. Não obstante, sabemos pelo “Elenco” dos Salesianos, publicado em Roma através das Obras de Dom Bosco, que o Pe. Acquistapace ocupou os mais altos cargos, a partir da cúpula. Assim, pelo “Elenco” de 1953, verificamos que o sacerdote Mário Acquistapace ocupava o cargo de Inspector (ou Provincial) para a «Inspectoria da China de Maria Auxiliadora». Esta Inspectoria havia sido erecta canonicamente por decreto de 28 de Maio de 1926, tendo sua sede em Hong Kong, na Província da China dos Salesianos de Dom Bosco (Salesians of Don Bosco Chine Province), englobando o Vietname. Por outro lado, pelo registo de 1953, observamos que em Hanói (Vietname) existia, já em 1952, o “Orfanato de Santa Teresa”, com uma escola elementar e profissional. Por sua vez, nos registos de 1962 e 1964, constatamos que o Pe. Mário Acquistapace residia em Go Vap, como Delegado Inspectorial para o Vietname. É também de notar que já existia desde 1955, em Go Vap (Diocese de Saigão), uma Escola primária, secundária e profissional, para alunos internos e externos. No ano de 1962, o referido “Elenco” aponta a existência de cinco sacerdotes salesianos na Direcção, presidida por Mário Acquistapace, com mais um confessor e onze coadjutores. Finalmente, no “Elenco” de 1970, verificamos que o Pe. Acquitapace dirige a missão da Imaculada Conceição em Thu Duc, no Vietname do Sul (agora Arquidiocese de Saigão).18 Por diversas informações obtidas (v. g., da diligente investigadora Tereza Sena), tivemos conhecimento que, para além de Macau, foi no Vietname que o Pe. Acquistapace pôde trabalhar mais anos. Assim, em 1958, estava Mário Acquitapace em Hanói. Mas com a chegada dos comunistas àquela região, teve o Pe. Mário de se retirar para Saigão, continuando aqui com o mesmo optimismo e dinâmica habitual. Deste modo, com seus colaboradores, pôde o Pe. Acquistapace construir casas salesianas em Go Vap, Thu Duk, Da Lat e o Orfanato de Saigão. Só este albergava mais de 600 jovens. Desta feita, pôde o Pe. Mário continuar o seu trabalho de educação e ajuda aos mais pobres, durante vários anos. Em 1974, com a chegada dos comunistas ao Sul, o missionário salesiano teve de abandonar o Vietname, regressando definitivamente a Macau, para a derradeira etapa da sua vida apostólica. na Missão de ColoaneNo regresso à Cidade do Nome de Deus, Mário Acquitapace foi nomeado pároco de Coloane. A igreja dedicada a S. Francisco Xavier fora construída em 1928. Tal projecto havia sido destinado, em 1927, também
4544MIssIonárIos para o Século XXI MIssIonárIos para o Século XXIMário Acquistapace Um salesiano no Extremo Oriente António Rodrigues Baptista para a criação de uma Escola. Contudo, esta só viria a ser inaugurada em 5 de Setembro de 1959, sendo destinada ao sexo masculino.Com a chegada do Pe. Mário em 1974, a Diocese resolveu construir no terreno da Missão de Coloane um edifício de dois andares destinado a Escola Técnica. Deste modo, o Pe. Acquistapace transformou em Outubro deste ano a Escola Primária numa Escola com oficinas de mecânica e serralharia. Este conjunto formava a Escola Profissional de S. Francisco Xavier, com oficinas de mecânica, carpintaria, reparação de barcos, aulas de desenho, língua portuguesa e inglesa, salão de jogos e campos de futebol, vólei e basquetebol para toda a juventude das Ilhas. Várias vezes por semana, o Pe. Mário também dava aulas de Português (la lingua quasi madre – como afirmava), servindo habitualmente de intérprete e coordenando o trabalho dos vários professores e Irmãos salesianos.Entretanto, a Escola seria transformada no Instituto Educacional de Menores, pois a autoridade civil começou a enviar para a Escola de Coloane rapazes da rua, com graves problemas de inserção e recuperação. Conservou-se, no entanto, ao Instituto o nome que tinha a escola: “Instituto Educacional de Menores de S. Francisco Xavier”. É de notar que o método usado para a regeneração dos rapazes era dado por Dom Bosco: “todos os rapazes são bons por dentro, e devem ser tratados como tais”.19 Entrevista singularEm 1986, numa entrevista concedida ao «Boletim Salesiano», aquando da passagem do Pe. Acquistapace por Lisboa, a caminho dos Estados Unidos da América, o zeloso salesiano teve ocasião de relatar o trabalho que levava a efeito na Missão de S. Francisco Xavier, a seu cuidado desde 1974-75.Afirma o Pe. Mário para o jornalista:São centenas e centenas de rapazes. E olhe que 99,9% são pagãos! Todas as semanas vêm à igreja. Igreja da Missão de S. Francisco Xavier, em Coloane
4746MIssIonárIos para o Século XXI MIssIonárIos para o Século XXIMário Acquistapace Um salesiano no Extremo Oriente António Rodrigues Baptista Reúno-os num pequeno auditório e falo-lhes na religião, da virtude, dos mandamentos da lei de Deus, aprendem a cantar, a rezar e a ser melhores...De facto, não se poderia dizer tanto, em tão breves palavras. Ao lado deste trabalho - refere o Boletim Salesiano -, havia também “o clube, o centro juvenil de Nossa Senhora, com bilhar, matraquilhos, patins para atrair os jovens”.Mais adiante prossegue o Padre Mário: Imagine que eles (jovens da Missão de Coloane) já consideram a religião como parte da sua família, ainda que muitos não sejam cristãos! Sobre o local da Missão, ou seja, o templo (ou santuário) de S. Francisco Xavier de Coloane, aonde acorrem “turistas e fiéis de muitas religiões”, acrescenta o Pe. Acquistapace:É corrente encontrar pelo chão pedaços de papel com dizeres como este: ´aqui tive a revelação da minha fé´; ´aqui comecei uma outra vida´.Ora, tudo era devido, sem dúvida, ao modo de aco-lhimento e ao carisma especial do Padre Mário, que a todos sabia falar, não só na própria língua (pois ele falava fluentemente uma dezena de línguas!), mas sobretudo sabia falar às pessoas a “língua do coração”.Efectivamente, escutando esta “língua do coração”, o autor destas linhas, com sua família, tiveram ocasião de visitar a Escola da Missão de Coloane, em fins de Setembro de 1990. Aqui encontraram estas formas de trabalho do venerando sacerdote, sempre pronto para receber os visitantes e oferecer lembranças (como livros, crucifixos e medalhas de “Maria Auxiliadora”), na igreja de S. Francisco Xavier e oratório dos mártires do Oriente. Era assim, de facto, o Pe. Mário: um “diplomata de Deus”, acolhendo e praticando o bem.20 Culto à Virgem de FátimaUma das devoções que o Pe. Mário alimentou durante a derradeira etapa de Macau, foi a devoção (especial) a Nossa Senhora de Fátima. Daí ter visitado Monumento a N.ª S.ª de Fátima, em Coloane (1983)
4948MIssIonárIos para o Século XXI MIssIonárIos para o Século XXIMário Acquistapace Um salesiano no Extremo Oriente António Rodrigues Baptista o próprio Santuário de Fátima e o local das aparições na Cova da Iria, em Portugal. Isto aconteceu em vários momentos, principalmente nas décadas de 80 e 90, –conforme nos relatou D. Alice Marto.21Sem embargo, foi na Missão de Coloane que o Pe. Mário veio a conceber, outrossim, a construção de um pequeno santuário dedicado à Virgem de Fátima. Pre-cisamente na extremidade do istmo Taipa-Coloane. Ora, esta ideia do Pe. Acquistapace só viria a ser realidade com o apoio dos serviços de Obras Públicas de Macau e do Município das Ilhas, mas ao mesmo tempo com a ajuda pecuniária de amigos particulares. Tal apoio generalizado comunicou-o no Verão de 1984 o sacerdote salesiano ao jornalista Rosa de Freitas, da «Tribuna de Macau».22 Este periódico viria a relatar os vários aspectos referentes ao Monumento: o montante das primeiras despesas (“37 mil patacas”); a protecção de ferro, para salvaguardar a placa central à volta do monumento; o exercício da devoção nos primeiros sábados de cada mês; a colocação de figuras da Via-Sacra “em mármore brando de Carrara”; e ainda a aquisição de um “grande Crucifixo” de mármore, colocado “bem alto sobre um pedestal de cimento”. (Notemos que o Crucifixo foi oferta de um amigo italiano, como os quadros da Via-Sacra o haviam sido por amigos de Macau e do exterior.)Tudo isto, na verdade – confessava o Pe. Mário ao jornalista da Tribuna – tinha como finalidade iniciar “um grande apostolado” em Coloane, dando assim “nova vida” àquela Ilha!Através de notícias respigadas nalguns jornais da época23 e, além disso, por diferentes fotografias que possuímos sobre as primeiras manifestações públicas, verificamos não só o ar festivo do local e monumento a Nª Sª de Fátima (cuja inauguração teve lugar a 13 de Setembro de 1983), mas igualmente observamos a celebração do 1º aniversário, sob a presidência do Bispo de Macau (D. Arquimínio da Costa). O mesmo podemos Primeiro aniversário da inauguração do monumento a N.ª S.ª de Fátima, em Coloane (1984)
5150MIssIonárIos para o Século XXI MIssIonárIos para o Século XXIMário Acquistapace Um salesiano no Extremo Oriente António Rodrigues Baptista constatar aquando da procissão de velas a 12 de Maio de 1984, ostentando a primeira estátua da Virgem de Fátima, entronizada em Macau no ano distante de 1928.Em “Carta-convite” de 23 de Agosto de 1985, assinada pelo Pe. Mário Acquistapace, este “mariano atrevido” (como escreve), ao dar a notícia da conclusão da “Via-Sacra”, na rotunda do Monumento, acrescenta com ênfase:É um complemento artístico, precioso e único no Extremo Oriente, que coloca o monumento de Nossa Senhora de Fátima na categoria dos grandes santuários, junto dos quais nunca falta a Via-Sacra. A Via-Sacra seria inaugurada, com solenidade, em cerimónia presidida de novo por D. Arquimínio da Costa, em 30 de Agosto de 1985, justamente no 1º dia da novena em honra de Nª Sª da Natividade, - padroeira da Sé de Macau.Na mesma “Carta-convite” refere o Padre Mário que não só o monumento é visitado ou visto por milhares de pessoas que passam junto da rotunda no final do istmo (quando se dirigem designadamente no Verão para as praias de Cheoc Van ou Hac Sá), mas também por numerosos romeiros que aproveitam para visitar a “Relíquia de S. Francisco Xavier e as dos Mártires do Japão e Vietname, conservadas na Missão de Coloane”.Em todas estas notícias e manifestações de amor e fé, notamos sobremodo o entusiasmo e empenho constantes do Pe. Acquistapace para nobilitar e engrandecer aquele rincão de Coloane.Para finalizar este apontamento, registemos que o Governo de Macau não deixou de apreciar nomeadamente o trabalho educacional do venerando missionário. Por tal motivo, o Pe. Acquistapace veio a ser agraciado pelo Governo de Portugal em 1980, com o Grau de Comendador da Ordem de Mérito Civil de Benemerência, no mandato do Governador Melo Egídio.Notemos, ademais, que por estes anos, outros (dois) missionários salesianos seriam agraciados em Padre Acquistapace, em Coloane, com o Governador General Melo Egídio e sua Esposa (1981)
5352MIssIonárIos para o Século XXI MIssIonárIos para o Século XXIMário Acquistapace Um salesiano no Extremo Oriente António Rodrigues Baptista Macau, com idêntica condecoração: os padres Caetano Nicosia 24 (1973) e César Brianza (1981). Estas honras significavam, com verdade e justiça, o grande apreço que o Governo português nutria pela gesta missionária e humana, mormente no campo da educação e formação da juventude, à qual dedicava com zelo inexcedível a Família Salesiana.Algumas MemóriasPor esta ocasião dos 90 anos, teve o Pe. Mário oportunidade de recordar alguns acontecimentos dos primeiros tempos de Macau e Hong Kong. Vale a pena rememorar alguns episódios recolhidos do memorando que nos foi facultado por Lozenzo Acquistapace. Chegada a MacauFora no dia 2 de Fevereiro de 1926. Sendo o início das festas do novo Ano Chinês, e estando por tal mo-tivo os mestres em férias – facto a que já fizemos breve alusão – o jovem Acquistapace, recém-chegado, teve de ficar no Orfanato repleto de rapazes. Dormia no quarto de jovens, entre os 12 e os 14 anos, não sabia nada de Chinês, e ficara encarregado desses órfãos durante várias semanas. (O Pe. Mário refere “um mês”). Só por sinais se fazia o jovem clérigo entender. Acquistapace confessa que olhava o mar em baixo. Então, apertando nas mãos o rosário, lembrava a sua Itália e deixava cair as lágrimas: piangevo... – exclama. No fim das festas do Ano Chinês, voltariam os mestres. Pôde nessa altura Mário Acquistapace começar a estudar e a praticar o Chinês, fazendo-se acompanhar dum “velho bandolim” porque o chinês-cantonense é como um canto: il Cinese cantonese, è come un canto – afirma.
5554MIssIonárIos para o Século XXI MIssIonárIos para o Século XXIMário Acquistapace Um salesiano no Extremo Oriente António Rodrigues Baptista Tempos de Hong KongPassado um ano em Macau, Acquistapace foi de-pois, com dez companheiros, frequentar o curso de Teologia em Hong Kong. Aqui estava como Inspector, D. Carlos Braga. Começava então novo período na sua vida. De Hong Kong recorda o Pe. Mário os primeiros meses. Com uma picareta nas mãos, começou a terra-plenar, nas horas vagas, o terreno para um campo de futebol, junto à fábrica de gás. Lembra que alguns rapazinhos o vinham espreitar e piscavam os olhos, chamando-lhe, no princípio, “diabo estrangeiro”. O jovem teólogo sorria-lhes e apontava-lhes a bola, fazendo o gesto de chutar. Então os rapazes começaram a chamar-lhe “diabo de Jesus”. Mais tarde, convidá-los-ia a entrar e a jogar. Os miúdos chamavam-lhe agora: “Um de Jesus, adeus”. Com o crescimento da amizade, começaram a chamar-lhe apenas “Jesus, Jesus”. E termina com felicidade o Pe. Mário: “Expliquei-lhes então quem eu era, e quem era Jesus, e desta forma estava principiado o Oratório Festivo!” Graças de AmigosEntre as gratas recordações que o Pe. Mário registou por altura dos 90 anos, aponta sobretudo três datas e três factos:Em primeiro lugar, 1926. Estando o jovem Acquis-tapace na iminência de morrer, acontece que um noviço salesiano oferece a sua vida por ele. O noviço morre, e o clérigo Acquistapace sobrevive. Pelos anos de 1938 e 1941, numerosos jovens, de 12 a 14 anos, já moribundos, são recolhidos pelas ruas de Macau e tratados na Enfermaria dos Salesianos. No termo da vida, mas conscientes ainda, oferecem a sua vida pelo sacerdote salesiano. Também em 1948, em Pequim, quando o Pe. Mário estava gravemente doente, um estudante universitário que havia vindo com ele de Macau para Pequim, caiu de uma bicicleta. Por causa da ferida não medicada, apanhou o tétano. Sabendo então no hospital que também ali estava hospitalizado o Pe. Mário, afirmou aos universitários que o acompanhavam: “Vocês sabem que eu não tenho sucesso nos estudos e que já não posso fazer muito; por isso, ofereço a minha vida pelo Pe. Mário que, em Pequim, realiza a profecia de D. Bosco”.Daí que, em 1996, com a sua idade já avançada (90 anos), o missionário salesiano tenha afirmado ao seu interlocutor que ele (Acquistapace) já estaria a viver alguns dos anos de todos aqueles que haviam oferecido sua vida por si... Mas (louvado Deus!) ainda lhe restavam mais seis anos por completar!
5756MIssIonárIos para o Século XXI MIssIonárIos para o Século XXIMário Acquistapace Um salesiano no Extremo Oriente António Rodrigues Baptista Testemunhos de AmigosPara o director do «Colégio D. Bosco» no ano da transferência de Macau para a China – António dos Santos Rosa -, o Padre Mário era um “homem benquisto, muito amigo dos portugueses, com grande paixão por Portugal”. Caracterizava-se pela “piedade e acção social”, possuindo um “coração muito grande”. Impressionara-o, certa vez, em Fátima, em que o Pe. Mário “estivera uma noite inteira, sentado numa pedra, a confessar”.Para o antigo superior dos «Jesuítas de Macau» - Henrique Nestor Rios dos Santos -, o Pe. Mário cumpre em Pequim o “sonho de D. Bosco”, abrindo a residência dos Salesianos. Corajoso evangelizador sem fronteiras, – continua o Pe. Rios – o Pe. Mário rompe pelos meios técnicos mais modernos. Como tinha um interesse especial pela educação dos jovens, o sacerdote salesiano criou no Jardim de Coloane um sector de televisão, ao ar livre, onde fazia passar a mensagem cristã através de discos e cassetes. Por outra parte, vendo o Pe. Mário que precisava de estimular a vida na Igreja de S. Francisco Xavier de Coloane, vai ao Seminário de S. José de Macau e leva consigo as relíquias dos santos mártires do Japão e do Vietname que aí se conservavam, fundando na Igreja de Coloane um verdadeiro centro de devoção e peregrinação, em especial para os japoneses.25 Do mesmo modo, para o coadjutor da Sé de Macau – Francisco Maria Fernandes –, o Pe. Mário não perdia uma ocasião para fazer apostolado. Para isso, trazia os bolsos da batina cheios de “medalhinhas” para oferecer às crianças e para outras pessoas. Certo dia, no palácio do Governador Rocha Vieira – prossegue o Pe. Fernandes –, Mário Acquistapace (com conhecimento da Esposa do Governador), distribuía “pagelas” (em forma de “lai-sis”) aos circunstantes, com orações ao Divino Espírito Santo. A quem o interpelava por isso, respondia simplesmente: “leve para a sua esposa!” 26 Igualmente para o pároco da Taipa (Senhora do Carmo) – Tomás de Bettencourt –, o Pe. Mário possuía um olhar doce, mas marcante. Como Cristo, nada escrevia, pois a sua escrita era sua “presença edificante” – salienta o Pe. Tomás. Certo dia, em conversa particular, o Pe. Mário aconselha Tomás de Bettencourt a fazer um contrato com Deus. De forma muito simples: “que cada respiração seja um pedido de perdão” – mesmo que não se pense nisso. De acordo com o sacerdote salesiano de Évora – José Soares –, o Pe. Mário era um “coração aberto e generoso em profundidade”. Caracterizava-se pelo “desprendimento”, seguindo na íntegra o lema salesiano: Da mihi animas, caetera tolle (entrega-me as almas, e leva o resto).
5958MIssIonárIos para o Século XXI MIssIonárIos para o Século XXIMário Acquistapace Um salesiano no Extremo Oriente António Rodrigues Baptista Segundo o antigo professor do Colégio D. Bosco de Macau – Ramiro Galhispo, – Mário Acquistapace era um homem simples, desprendido de tudo, com uma ânsia enorme de salvar as almas. Era um salesiano, com carisma, cem por cento. Dar a conhecer Cristo às pessoas era a sua maior alegria – acrescenta o Pe. Galhispo, que notava, designadamente, no Pe. Mário “o grande respeito pelos pequeninos, pelos pobres, pelos emigrantes, pelas pessoas das barracas; no meio dos sem-casa, sem tecto, abandonados… era lá que a gente via o homem feliz. Para essa gente o Pe. Mário procurava dinheiro aqui e além. Era um coração enorme, enorme, enorme…” 27Com o historiador de Macau – Mons. Manuel Teixeira –, várias vezes conversámos sobre o Padre Aquistapace. Com efeito, Mons. Teixeira desde muito cedo conhecera o Pe. Mário. Seria até o teólogo Teixeira que nos princípios da década de 30 (quando o neo-sacerdote Acquistapace regressara de Hong Kong a Macau), o ajudava a preparar as homilias em Português. Estes encontros sucediam-se nos sábados à tarde, para aperfeiçoamento da pronúncia. Depois, nos anos da Guerra do Pacífico – continua Mons. Teixeira, – com a ajuda do Governador Gabriel Teixeira, dedicou-se o Pe. Mário “de alma e coração” aos refugiados, dirigindo o socorro da Diocese de Macau, como salientamos noutro local.Ainda conforme Mons. Teixeira, três devoções caracterizavam o Pe. Mário: a grande devoção ao Espírito Santo; a especial devoção a Nª. Sª Bambina (cuja imagem trouxera de Roma para Coloane, a fim de estimular as mulheres-devotas a dar à luz); e a particular devoção ao Pe. Maximiliano Kolbe, com quem, certa vez (em 1936), viajara de Hong Kong, para Itália. Além disso, sublinhava Mons. Teixeira a profunda espiritualidade e o espírito de missão que caracterizavam o Pe. Mário. Tais manifestações eram de tal modo tocantes que o padre jesuíta, Benjamim Videira Pires, se lamentava por querer imitar o Pe. Mário, e não o conseguir... Enfim, para Mons. Teixeira, o Pe. Acquistapace possuía uma “vida admirável e santa”. Daí não deixar de revelar-nos em 7 de Julho de 2000: “como agora tudo é chinês… até os padres desconhecem este homem que durante a Guerra alimentou milhares de chineses!” 28 No parecer do antigo Governador de Macau, General Garcia Leandro, o Pe. Mário manifestava uma “força interior” e um “olhar luminoso e forte”. Por outro lado, deixava transparecer o “olhar vivo e azul transparente dos olhos”. Além disso, o Pe. Mário parecia possuidor de uma “energia quase inesgotável, apesar da sua figura “muito frágil e aparentemente cansada”, – após o regresso do Vietname, no período dos 70 anos de idade. Não obstante, deixava uma “impressão viva,
6160MIssIonárIos para o Século XXI MIssIonárIos para o Século XXIMário Acquistapace Um salesiano no Extremo Oriente António Rodrigues Baptista de forma perene”. Acima de tudo, levava uma “vida totalmente dedicada aos outros”, mormente aos mais desprotegidos. Era, na verdade, um “santo homem!” – confessa Garcia Leandro.29Para D. Alice Marto, que conheceu de perto o sacerdote salesiano, através de seu irmão – Pe. António Rosa, – o que mais caracterizava o Pe. Mário era o “desprendimento”. Assim, certa vez em Fátima – conta D. Alice – num dia de inverno, aproxima-se um idoso a tremer de frio, e o Pe. Mário, sem mais, entrega-lhe a própria samarra. Noutra altura, aproximaram-se dele algumas ciganas a pedir ajuda; o Pe. Mário lança a mão ao bolso e dá-lhes os três mil escudos que D. Duarte, herdeiro da Casa Real, lhe havia oferecido, horas antes, para comprar medalhas. Por outro lado, no “Café” de D. Alice, na aldeia de Casa Velha, o Pe. Mário, já octogenário, bastas vezes ali se encontrava a conversar com os clientes. Quando não aparecia, eram estes que perguntavam: “Dona Alice: e esse padre velhote… qué dêle?”Segundo o testemunho da professora de Macau, D. Estela Nóia, o Padre Mário interessava-se muito pelas pessoas. Sobretudo gostava de ajudar os professores de Macau, enviando-lhes textos e jornais, além de traduções para o ensino do Francês. Por outra parte, dava trabalho a jovens raparigas para poderem depois vender os seus produtos, por ex., a montagem de relógios. Ademais, gostava de mostrar as suas coisas e sensibilizava-se quando notava que as pessoas mostravam interesse pelo trabalho que fazia.Leonel de Barros, desenhador do Museu Marítimo de Macau, recorda-se bem do tempo da guerra em que o Pe. Mário recebia “com carinho” os leprosos expulsos da ilha da Lapa, levando-os depois para Coloane. Além disso recorda Leonel de Barros a ajuda do Pe. Mário na distribuição do arroz junto à igreja de Santo Agostinho, em “filas intermináveis”. Era realmente um “santo homem!” – conclui. 30 O professor José Silveira Machado conserva ainda na memória a imagem viva do Pe. Mário a circular de bicicleta, por toda a parte em Macau, durante os anos da guerra. Numa entrevista que lhe fizera, dissera-lhe o sacerdote salesiano que aquilo que mais o impressionava em Macau era o aprumo dos militares e das forças armadas na “guarda de honra” às procissões católicas da cidade. O Bispo emérito de Macau – D. Arquimínio Rodrigues da Costa, – cujo depoimento deveras impressionante nos foi remetido gentilmente e publicamos em anexo, conheceu o Pe. Mário a partir de 1938. Refere-nos D. Arquimínio que o Pe. Mário era um sacerdote comunicativo, a irradiar “alegria, optimismo e boa disposição”. Era, por essa altura, o “dinâmico
6362MIssIonárIos para o Século XXI MIssIonárIos para o Século XXIMário Acquistapace Um salesiano no Extremo Oriente António Rodrigues Baptista director do Instituto Salesiano”. Com que alma ele o sabia dirigir, ao mesmo tempo que atraía também outros “jovens, adultos e pagãos”. Dom Arquimínio não esquece, por outro lado, “as horas bem amargas” que o Pe. Mário passou durante a guerra do Pacífico”, numa altura em que o futuro bispo de Macau frequentava o Seminário de S. José e o incansável Filho de D. Bosco se esforçava, sem limites, para dar uma refeição por dia, às muitas centenas de crianças esfomeadas. E sempre aparecendo “de semblante risonho no meio das dificuldades”… Mais tarde o Pe. Mário quis ficar sepultado no Oriente, pois só “desejava ardentemente viver e morrer nas Missões, sobretudo na China”. Deus conceder-lhe-ia essa graça, em 25 de Setembro de 2002. ConclusãoQuando o jovem clérigo Mário Acquista-pace aportou a Macau em 1926, já os Filhos de Dom Bosco estavam na Cidade do Nome de Deus, havia duas décadas . Con tudo , seria o novo missionário quem, após os estudos de Teologia em Hong Kong, iria imprimir, pelo saber e diplomacia, um incremento deveras notável na implantação da Família de Dom Bosco, não somente em Macau, mas também na capital do Império do Meio, no país do Vietname, e ofertando ainda a sua experiência às ilhas Filipinas.Em Macau, nomeadamente, matou a fome, como vimos, a muitos milhares de pessoas miseráveis, em especial às crianças desprotegidas, mormente nos anos da Guerra do Pacífico. Igualmente em Macau se ocupou o Pe. Acquistapace na direcção, desenvolvimento ou fundação de vários institutos sócio-profissionais: o Orfanato da Imaculada Conceição, o Colégio Yuet Wah, o Colégio Dom Bosco, Padre Acquistapace, nas Filipinas
6564MIssIonárIos para o Século XXI MIssIonárIos para o Século XXIMário Acquistapace Um salesiano no Extremo Oriente António Rodrigues Baptista e mais tarde, em Coloane, a Escola Profissional de S. Francisco Xavier. Após a Guerra do Pacífico, tanto em Pequim, como no Vietname, não deixou de continuar o zeloso missio-nário, com muitos esforços e superior clarividência, a obra salesiana encetada em Macau. Padre Acquistapace, na Comunidade Salesiana de Hong Kong (2001)Em todos estas missões, onde trabalhou durante mais de sessenta anos de vida activa, foi acima de tudo o Pe. Acquistapace, como vimos, um autêntico mensageiro de Deus, que na Terra apenas sabia praticar o bem, sobretudo entre as crianças e os jovens mais carenciados.Para além disso, conseguiu o Pe. Mário ser um verdadeiro taumaturgo, ouvindo inúmeras pessoas e escutando as suas mágoas, nunca lhes faltando com uma palavra benfazeja, um conselho amigo, ou simples-mente uma lembrança.Após mais de seis décadas de trabalho e dedi-cação nas Missões no Extremo Oriente, veio o Pe. Acquistapace a falecer, em 25 de Setembro de 2002, precisamente em Hong Kong, ficando deste modo sepultado no País que ele tanto amava – a sua tão querida China!
6766MIssIonárIos para o Século XXI MIssIonárIos para o Século XXIMário Acquistapace Um salesiano no Extremo Oriente António Rodrigues Baptista Documentos1 – Crónica de Mário Acquistapace sobre o encontro com Maximiliano Kolbe«O navio “Victoria” atracou ao porto de Hong Kong com um franciscano a bordo. Um homem elegante, bela barba, olhos bons e penetrantes… um desses “tipos” que te impressionam de repente e que depois não se esquece facilmente. Provinha do Japão e dirigia-se para a Europa… devia desembarcar em Génova para prosseguir depois para a Polónia, sua pátria de origem. Encontrámo-nos assim sem formalidades, naquele dia do ano de 1936, em que também eu embarcava no “Victoria” em direcção a Lisboa, sob indicação da “Junta de Saúde” do Governo de Macau…«Comigo seguiu o escolástico salesiano Giovanni, que regressava à Itália ameaçado, diziam, pela tuberculose. No navio, encontrámo-nos rodeados de um grupo numeroso de “sábios”. A maioria do corpo docente da Universidade de Cantão tinha embarcado também no “Victoria” para visitar as Universidades italianas de Nápoles e Roma e a Exposição Internacional de Berlim; estavam connosco o reitor, os presidentes e dirigentes de várias faculdades e professores… Uma vez que eu falava o Chinês, imediatamente fui “empossado” como intérprete. O meu papel era não só fazer de intérprete de línguas, mas também de gostos e de “menus”, chegando mesmo a dar indicações aos responsáveis pela cozinha de bordo sobre os melhores pratos chineses…De modo que nascia assim uma certa cordialidade de relações com aqueles professores de Cantão. O missionário franciscano “examinava-me” com curiosidade: sem inveja, mas certamente com pena de não conhecer o Chinês e de não se poder inserir na nossa conversação. Traduzia-lhe uma frase ou outra, breves diálogos, mas como interpretar aquela densidade inegável da sua alma cristã, aquele seu comportamento cristão tão simples e ao mesmo tempo tão profundo e intraduzível? Deixava-o em companhia do escolástico Capelli. Os professores assaltavam-me para que lhes servisse de intérprete também durante a visita que deviam fazer às Universidades de Nápoles e Roma; e que fosse ter com eles depois, aquando do meu regresso, à Universidade de Cantão.«Sim, o missionário franciscano continuava a escrutar-me. Agora tenho a certeza que rezava por mim; percebia-o claramente daquele seu olhar penetrante, límpido, único. Tive a confirmação disso mesmo depois. No grupo dos docentes havia um certo senhor Siu Kun Yen, frontalmente hostil ao papa Pio XI, a quem ele chamava “imperialista”, e hostil também
6968MIssIonárIos para o Século XXI MIssIonárIos para o Século XXIMário Acquistapace Um salesiano no Extremo Oriente António Rodrigues Baptista em relação a mim, que era o seu representante… Consegui, no entanto, convencê-lo a pedir ao papa uma audiência, em Roma. Aceitou o convite e voltou de lá transformado, completamente conquistado. O próprio reitor da Universidade de Cantão, após o seu regresso a Cantão, se fez cristão e me pediu para que as suas filhas, também elas baptizadas, fossem admitidas na escola das Franciscanas de Maria, em Macau. «Quanto ao “hostil” Senhor Siu, encontrei-o um dia – por acaso – na Catedral de Cantão a escutar uma conferência do bispo Yu Pin. Reconheceu-me logo, recordou tudo e disse-me: “Se não fosse por causa daquela visita, com certeza não me encontraria aqui hoje…” Palavras que me soaram um tanto misteriosas. Não muito depois, soube que tinha sido trucidado pelos soldados “revolucionários”…«O olhar, o fascínio, a oração daquele missionário franciscano, tão profundos e eficazes!... Mas quem era afinal de contas, aquele homem? Tínhamo-nos apresentado. O seu nome não me dizia grande coisa. Chamava-se Maximiliano Kolbe, era polaco, missionário no Japão. E recordo sobretudo aquele vivo interesse pela minha pessoa e pelos meus diálogos em Chinês; recordo também as suas alegres partidas de Xadrez com Capelli e com alguns passageiros de bordo particularmente dotados. Mas ele era mais “hábil” que os seus “adversários” e quase nunca perdeu. Recordo ainda – ao meu desembarque em Nápoles, enquanto ele prosseguia para Génova – como se interessou pelo meu trabalho em Macau, pelo que fazia e quando regressaria, “porque – disse-me – haveria de vir a visitar os salesianos nesta sua missão”. De facto, voltou dali a alguns meses. Visitou a nossa obra e quis sobretudo conhecer a tipografia, os métodos de ensino e aquilo que publicava…«Antes de se despedir, ofereceu-me alguns exemplares do seu periódico: “O cavaleiro da Imaculada”. Recordo-me perfeitamente: formato, paginação, tipo de papel, grafia…tudo. A capa era azul e algumas páginas eram impressas em papel azul. Soube então que, em circunstâncias deveras extraordinárias e em localidade muito especial, também ele tinha fundado uma tipografia no Japão…Pagela invocando o Espírito Santo (especial devoção do Padre Acquistapace)
7170MIssIonárIos para o Século XXI MIssIonárIos para o Século XXIMário Acquistapace Um salesiano no Extremo Oriente António Rodrigues Baptista «Saudámo-nos com um abraço. Fiquei com a impressão que era realmente um justo. Nunca podia ter imaginado que estava a hospedar e a abraçar um santo. M. Acquistapace, S.D.B.» 312 – Depoimento de Dom Arquimínio rodrigues da Costao meu depoimento«Pedem-me um testemunho sobre o Pe. Mário Aquistapace, Salesiano de Dom Bosco.«Na falta de quaisquer documentos sobre a sua vida, actividades e virtudes, exporei apenas aquilo de que me recordo.«Quando, no dia 8 de Dezembro de 1938, cheguei pela primeira vez a Macau, era ele o dinâmico director do Instituto Salesiano da Imaculada Conceição. Estou mesmo a vê-lo, com a sua barba ainda preta. Alegre, comunicativo, afável, irradiando simpatia, optimismo e boa disposição, atraía não só os jovens de quem era educador, mas também os adultos, sem excluir os pagãos. Nunca ouvi uma referência negativa acerca da sua pessoa. Todos eram unânimes em reconhecer a sua virtude, o seu humanismo, a sua bonomia, o seu zelo e dedicação ao bem da juventude desprotegida.«Durante a guerra do Pacífico, o Instituto que ele dirigia deixou de receber os auxílios habituais provenientes do sector chinês da população de Macau. O Pe. Mário, sem meios para manter o internato, passou horas bem amargas. Ao seu coração compassivo repugnava a ideia de fechar o instituto, mandando para a rua tantos jovens e adolescentes. Lembrou-se então de promover uma festa, convidando para ela não só as autoridades portuguesas, mas também os elementos mais representativos da comunidade chinesa. Diante deles, discursou longamente em Português e Chinês, expondo a situação desesperada do estabelecimento que dirigia, e apelando à generosidade de todos. Descreveu em pormenor o esforço dos internados, que trabalhavam em pequenas indústrias caseiras para poderem sobreviver. Explicou como eles preparavam graxa para o calçado. Mas faltavam as pequenas caixinhas para guardar o produto e colocá-lo à venda. Pediu, por isso, a todos os presentes que lhe dessem esses recipientes, em vez de os lançarem fora.«Graças ao esforço do Pe. Mário e à compreensão do público, o internato continuou a funcionar durante aqueles terríveis anos de guerra, em que todos os dias morria gente à beira dos caminhos. Devido à invasão de refugiados vindos do interior da China, a população de Macau triplicou, passando de menos de 200.000
7372MIssIonárIos para o Século XXI MIssIonárIos para o Século XXIMário Acquistapace Um salesiano no Extremo Oriente António Rodrigues Baptista habitantes para cerca de 600.000. Foi neste ambiente de miséria e sofrimento que o Pe. Mário conseguiu manter o internato em funcionamento.«No meio de tantas dificuldades, ele aparecia sempre de semblante risonho. Todos o admiravam. Todos o estimavam, incluindo o então Governador de Macau, Comandante Gabriel Teixeira, que com ele se aconselhava. Descreviam-no como um homem que só pensava nos outros e só para eles vivia, sem se importar consigo.«Terminada a guerra, quando os Salesianos pensavam em abrir uma casa em Pequim, o indigitado para tão difícil missão foi precisamente o Pe. Mário. Para lá se dirigiu, fundando a primeira obra salesiana na capital do Celeste Império. Ali trabalhou até que a revolução comunista o forçou a abandonar a China.«Posteriormente, quando se pensou em estender a acção salesiana ao Vietnão, de novo a escolha recaiu sobre o Pe. Mário. E lá foi ele para aquele território, como pioneiro da Pia Sociedade Salesiana. Assim, ele, que já dominava o Português e o Chinês, viu-se obrigado a aprender mais uma língua: o Vietnamita. Depois de tantos trabalhos e méritos, era natural que assumisse maiores responsabilidades dentro da sua Congregação. E foi o que lhe sucedeu ao ser nomeado Provincial dos Salesianos, passando a residir em Hong Kong.«Terminado o mandato, regressou a Macau. Mais tarde foi-lhe confiada a Missão de Coloane, onde exerceu a sua actividade junto de Portugueses e Chineses. Chamava os jovens pagãos para a igreja e ensinava-lhes cânticos religiosos e orações. Quando os rapazes não apareciam, ele ficava desolado. Parece que não podia viver sem eles.«Desejava ardentemente viver e morrer nas Missões. O que mais temia era que os Superiores o mandassem regressar à Itália. E foi precisamente isso o que lhe sucedeu. Quando se começou a falar no assunto, ele ficou consternado e começou a fazer uma novena a Nossa Senhora para que tal não sucedesse. A meio da novena, porém, veio a ordem de seguir para a Itália. Os Superiores apenas desejavam proporcionar-lhe um período de repouso. Ele, porém, pensava que tudo era um estratagema para o retirarem do Oriente. Dizia amargurado: “E eu que desejava deixar os meus ossos na China”… Afinal, depois dumas férias na Itália, regressou a Macau, onde continuou o seu apostolado na ilha de Coloane, enquanto as forças e a saúde lho permitiram.»32
7574MIssIonárIos para o Século XXI MIssIonárIos para o Século XXIMário Acquistapace Um salesiano no Extremo Oriente António Rodrigues Baptista 3 – Testemunho do General Garcia Leandro «Palavras sobre o Padre Mário Acquistapace«Tivemos, Minha Mulher e eu, o privilégio de conhecer bem e privar de amiúde com o Padre Mário que, quer como Pessoa, quer como Missionário, nos impressionou vivamente e de forma perene.«A sua vida foi totalmente dedicada aos outros e na procura de fazer o bem àqueles quem em zonas pobres, eram ainda os mais desprotegidos.«Tendo nascido em 1906 na Província de Milão em Itália, já em 1926 se encontrava em Macau nunca mais tendo deixado o Oriente. Macau, Hong-Kong, entre 1946 e 1958 em Pequim, onde chegou a Provincial dos Salesianos, depois no Vietnam entre 1958 e 1974 onde foi Director e Inspector Delegado dos Salesianos, até em 1974 ter regressado a Macau.«Foi durante os meus anos de Governador de Macau (1974-79) que tivemos oportunidade de lidar com este Santo Homem, primeiro como Director da Escola de S. Francisco Xavier em Coloane e depois como Pároco também em Coloane.Testemunho do antigo Governador General Garcia Leandro e sua Esposa
7776MIssIonárIos para o Século XXI MIssIonárIos para o Século XXIMário Acquistapace Um salesiano no Extremo Oriente António Rodrigues Baptista Cronologia 331906 – 16 de Julho. Nascimento, em Lodi Vecchio, Milão-Itália.(Em 13 de Fevereiro, chegara a Macau o 1º Grupo de Salesianos)1917 - 07 de Outubro. Entrada na Primeira Casa Salesiana, em Milão.1921 – 18 de Setembro. Ingresso no Noviciado, em Schio.1922 – 21 de Setembro. Profissão religiosa, em Este.1922. 1924 - Curso Filosófico, em Turim (Valsalice).1924. 1925 – Início do Tirocínio Prático (Assist. de artes e ofícios), Milão.1926. 1927 – Continuação do Tirocínio Prático, em Macau.1927. 1928 - Conclusão do Tirocínio Prático, em Hong Kong.1927. 1931 – Curso Teológico, Hong Kong.1931 – 30 de Maio. Ordenação sacerdotal, Hong Kong.1931. 1933 – Conselheiro Escolar Profissional, em Macau.1933. 1935 – Prefeito e Conselheiro, Macau.1935. 1936 - Prefeito, em Macau.1936. 1946 - Director, em Macau.1946. 1952 – Director, em Pequim.«Convivemos já no período dos seus 70 anos, dando-nos simultaneamente a sua figura muito frágil e aparentemente cansada, depois de tantos anos e dificuldades na China e no Vietnam, ao lado de um entusiasmo transbordante por qualquer obra nova, que se reflectia no seu olhar vivo e no azul transparente dos seus olhos, e de uma energia quase inesgotável.«Pouco tempo após o seu regresso a Macau lançou-se na realização da Escola de S. Francisco Xavier em Coloane, escola de artes e ofícios para adolescentes já com actos de delinquência. Os resultados alcançados tanto no levantamento e alagamento da Escola, como na recuperação desses adolescentes foram notáveis e uma referência que procuramos visitar sempre que possível.«Por outro lado, para quem como nós em tal período também trabalhou com muitos problemas e dificuldades ter tido a possibilidade de acompanhar, conviver e ter o apoio e a amizade do Padre Mário foi um privilégio e até um incentivo moral que estas palavras nunca conseguirão fazer justiça na totalidade.Lisboa, 31 de Julho de 2001Maria da Graça e José Eduardo Garcia Leandro
7978MIssIonárIos para o Século XXI MIssIonárIos para o Século XXIMário Acquistapace Um salesiano no Extremo Oriente António Rodrigues Baptista 1952. 1958 - Inspector (ou Provincial), para Vietname, China e Filipinas.1958. 1964 – Director e Delegado Provincial, em Govap (Vietname).1964. 1970 – Director e Delegado Provincial, em Thu Duc (Vietname).1970. 1974 – Delegado Provincial, Govap (Vietname).1974. 1976 – Director da Escola de S. Francisco Xavier, Coloane (Macau).1976. 1989 – Pároco de Coloane.1989 – Aposentação e regresso a “Braga House”, Hong Kong.2002 – 25 de Setembro. Falecimento em Hong Kong.notas1 Vale a pena recordar alguns antecedentes que rodearam a vinda da Família Salesiana para Macau – faz agora cem anos! De facto, deve-se ao jesuíta italiano, Pe. Francisco Xavier Rôndina (que no Seminário de S. José fora, entre 1862 e 1871, um prestigiado professor de Filosofia), a ideia e o encorajamento da vinda de religiosos salesianos para Macau, a fim de poderem dedicar-se à “juventude pobre e abandonada”. Aqui deveriam os Salesianos ensinar, designadamente, as “artes e ofícios”. Desta forma se dava cumprimento ao famoso sonho de D. Bosco: “ Se eu tivesse vinte missionários para enviar para a China, estou certo de que ali seriam recebidos em triunfo, não obstante a perseguição” (Cf. A. Kirschner, Dom Bosco e a China, Macau, 1970, p.74). Vencidas não poucas dificuldades, começaram a avançar as expedições em direcção ao Extremo Oriente, a partir de 1906. Por iniciativa do bispo, D. João Paulino, chegaria a Macau em 13 de Fevereiro deste ano, o primeiro grupo de 6 missionários, chefiado pelo Pe. Luís Versiglia. Hospedados inicialmente durante três semanas, no Seminário de S. José, vieram a abrir, no dia 1 de Abril seguinte, o Orfanato da Imaculada Conceição, inaugurado
8180MIssIonárIos para o Século XXI MIssIonárIos para o Século XXIMário Acquistapace Um salesiano no Extremo Oriente António Rodrigues Baptista depois no dia 6, com vinte meninos pobres. O internato passou, entretanto, para a rua de S. Lourenço, estabelecendo-se no denominado “edifício das dezasseis colunas”, aonde ainda hoje se encontram a funcionar algumas oficinas, após remodelações várias. Apesar da expulsão de Macau, em 29 de Novembro de 1910, por decreto do Governo da República portuguesa, regressaram os missionários salesianos dois anos mais tarde, para voltarem a dirigir o Orfanato da Imaculada Conceição. Este seria ampliado, seguidamente, até à Calçada da Paz, em novo edifício, inaugurado em 1924. Neste ano, o Orfanato atingiu a cifra de 232 alunos, nomeadamente com as classes de alfaiataria, sapataria e tipografia, às quais se juntaram outras actividades.2 A. Kirschner, Dom Bosco e a China, p. 308.3 Acerca dos diferentes graus de ordens sacras, concedidos em Hong Kong, por Mons. Valtorta, a Mário Acquistapace, notemos que este recebeu a prima-tonsura em 9 de Fevereiro de 1929, o subdiaconado em 20 de Dez. de 1930, o diaconado em 4 de Abril de 1931, e por fim o presbiterado em 30 de Maio de 1931. Ao Rev. Carlos Socol, da Casa Generalícia de Hong Kong, agradecemos estes elementos enviados em 24 de Outubro de 2000. 4 Cf. Bussola del Dialetto di Canton, pp. VI-VII. 5 Maximiliano Kolbe era um frade conventual polaco, nascido em Zdunska-Wola, em 1894. Preso durante a 2ª Grande Guerra, veio a ser morto em Auschwitz em Agosto de 1941, pelos esbirros do nazismo alemão. Certo dia, ofereceu-se para substituir um companheiro de prisão, que na altura lamentava a sorte da família, pois estava sentenciado a morrer de fome com nove companheiros seus, no subterrâneo da morte. Por outra banda, recordemos que, na sua vida de Missão, o Pe.Kolbe tornara-se conhecido por ter fundado a “Milícia da Imaculada” – uma associação que preconizava o exemplo do trabalho e do sacrifício em prol dos outros. Para poder expandir o seu apostolado, Kolbe lançou também uma revista na Polónia que chegou a tirar um milhão de exemplares. Seria então preso pelos alemães em Fevereiro de 41, sendo deportado para o campo de concentração de Auchwitz, em Maio seguinte. 6 A impressão com que ficamos ao ler esta crónica assinada pelo Pe. Mário Acquistapace, é a mesma que um certo leitor de “O Clarim” expressava, em 1982, no termo da leitura, interrogando: “Afinal, quem é o santo?” Que o leitor procure também responder…
8382MIssIonárIos para o Século XXI MIssIonárIos para o Século XXIMário Acquistapace Um salesiano no Extremo Oriente António Rodrigues Baptista 7 A história do “Instituto Salesiano da Imaculada Conceição”, é narrada minuciosamente pelo Padre Manuel Teixeira, em A Educação em Macau, Direcção dos Serviços de Educação e Cultura, Macau, 1982, pp. 362-378. Para a frequência em 1987/88, cf. Estabelecimentos de Ensino em Macau, coordenação de Maria do Carmo Moreno, Direcção dos Serviços de Educação, 1988, p. 101. 8 Manuel Teixeira, A Educação em Macau, pp. 375-378; Estabelecimentos de Ensino em Macau, Dir. dos Serviços de Educação, pp. 48-49. 9 Cf. Estabelecimentos de Ensino em Macau, p. 29.10 Boletim do Instituto Luís de Camões, números 1 e 2, Macau, 1981.11 Ibidem, pp. 33 e 35.12 b., pp. 39-40.13 Ib., pp. 41-42.14 Ib., pp. 42-43.15 Ib., p. 43.16 Ver na íntegra, em apêndice, o “Depoimento” de Dom Arquimínio .17 Estas e outras memórias (sobre recordações de Macau e recordações de Pequim), referentes à Missão da China, levada a cabo pelo Pe. Mário Acquistapace entre 1946 e 1952, são recolhidas da cópia de dois documentos gentilmente enviados a partir de Lodi Vecchio (Itália), em Janeiro de 2004, por D. Lorenzo Acquistapace, a quem reiteramos o nosso agradecimento. 18 Cf. Elenco, 1953, p. 400; 1962, pp. 460-461; 1964, p.475; 1970, p. 498.19 Manuel Teixeira, A Educação em Macau, 1982, pp. 407-410. 20 Cf. “Boletim Salesiano”, 1986, p. 379. Em diversos painéis da sala de reuniões da Missão de Coloane (frequentada por cerca de 500 alunos) poderíamos ver em Chinês e em Português, por exemplo, esta e muitas outras invocações: «Vem Espírito Santo/ Manda-nos do Céu/Um raio da tua luz…». Ver “Boletim Salesiano”, 1986, p. 377.21 Aproveitando uma sugestão de seu irmão (Pe. António Rosa), tivemos ocasião de entrevistar Dona Alice Marto, em duas ocasiões (15 e 21 de Março de 2001), no lugar de Casa Velha, em Fátima. A amável senhora foi extremamente generosa nas informações que nos prestou. Daqui o preito dum especial reconhecimento.22 Lamentamos não ter sido possível verificar o dia de publicação desta entrevista na “Tribuna de Macau”.23 Por ex., “Jornal de Macau” e “Boletim Salesiano”. Os recortes de alguns destes jornais foram-nos facultados gentilmente, em cópia, bem como a
8584MIssIonárIos para o Século XXI MIssIonárIos para o Século XXIMário Acquistapace Um salesiano no Extremo Oriente António Rodrigues Baptista reprodução de algumas fotografias de Coloane, pelo Cónego Luciano Coelho Cristino, director do Serviço de Estudos e Difusão do Santuário de Fátima (Portugal). Para este infatigável investigador e amigo, fica registada uma gratidão permanente.24 Na correspondência mantida com este amável sacerdote salesiano da Igreja de Nª Sª da Dores de Ká-Hò (Coloane) , não foi possível obter resultados assinaláveis.25 Henrique Rios dos Santos, antigo superior dos Padres Jesuítas de Macau, na década de 80, falou--nos em diversas ocasiões na forte personalidade do Pe. Acquistapace. Dizia-nos, um dia, o Padre Rios, que a presença do Padre Mário, no Conselho Presbiteral de Macau, era notória à vista de todos. Quando o Pe. Mário notava que algum dos membros começava a divagar, cortava cerce a questão. É que o Pe. Mário só tinha um tipo de linguagem: “sim, sim; não, não!” (Cf. Anuário Católico de Portugal, 1986-87, p. 598). Foi ainda o padre jesuíta (Rios dos Santos) quem nos facultou amavelmente algumas das suas últimas fotografias tiradas em Hong Kong, por ocasião da Páscoa de 2001, com o venerando sacerdote salesiano. 26 Na última conversa que mantivemos em 4 de Junho de 2000, com este sacerdote timorense, coadjutor na Sé de Macau, escutámos muitos pormenores sobre o modo como o Padre Mário se relacionava com as pessoas. Quando, por vezes, era necessário tomar alguma atitude mais arriscada também o Pe. Mário não deixava de a ter. Por exemplo, em certo dia (contava o Padre Xico Fernandes), pelas onze horas da noite, tendo ido o Pe. Mário, com F. Fernandes, ao Colégio Dom Bosco, e tendo encontrado a porta fechada e o porteiro a dormir, o Pe. Mário não hesitou em dar dois fortes pontapés na porta.27 Foi no dia 13 de Março de 2001, que no Externato/Oratório de S. José, em Évora, pude entrevistar estes dois dedicados Filhos de Dom Bosco (Padres Soares e Galhispo). Acompanhou-me o meu ex-colega no Liceu Camões (Lisboa), Prof. António Alves da Comba Lopes, - também ele um antigo e activo aluno salesiano. Do mesmo modo me apresentou, em 21 de Março seguinte, no Colégio do Estoril, ao celebrado Pe. Provincial, Armando Monteiro.28 Nas numerosas cartas que conservo de Mons. Manuel Teixeira, escritas após a minha saída de Macau, no Verão de 2000, encontro diversas referências ao Pe. Mário Acquistapace. Foi, inclusive, Mons. Teixeira que em 13 de Outubro de 2002, a partir de Chaves (Portugal), me deu a notícia do falecimento do sacerdote salesiano.
8786MIssIonárIos para o Século XXI MIssIonárIos para o Século XXIMário Acquistapace Um salesiano no Extremo Oriente António Rodrigues Baptista 29 Após várias diligências, foi com imenso gosto que conseguimos falar em 4 de Junho de 2001, com o General José Eduardo Garcia Leandro, no Instituto de Defesa Nacional.30 Foi em 14 de Julho de 2000 que entrevistámos Leonel de Barros, no Museu Marítimo. Da entrevista, ficou-nos também a grata imagem dum encontro com um homem bom e generoso. 31 Cf. O Clarim, 10 de Outubro de 1982. A fotocópia desta crónica foi-nos enviada pela mão gentil da Irmã Fernanda.32 Carta-ofício com data de 12 de Outubro de 2000.33 Cronologia concluída a partir dos dados fornecidos pela Casa Provincial de Hong Kong, em carta remetida a 24 de Outubro de 2000.BibliografiaACQUISTAPACE, Mário – Bussola del Dialetto di Canton. Traduzione (…) della «Bussola do Dialecto Cantonense», del Sig. Pedro Nolasco da Silva. Edizione ordinata ed aumentata dal Sac. Mario Acquistapace, Salesiano. Sc. Tip. Salesiana, Macao-China, 1934.ANUÁRIO CATÓLICO DE PORTUGAL. Diocese de Macau. 1984-85; 1986-87; 1988-90; 1995-1998. BOLETIM SALESIANO. Nº 346, 1981; Nº 356, 1982; Jan. – Fev., 1984; Nov.-Dez., 1985; Nº 377 e 379, 1986.ESTABELECIMENTOS DE ENSINO DE MACAU. Coordenação de Maria do Carmo Moreno. Direcção dos Serviços de Educação. Macau, 1988.JORNAL DE MACAU. 10-10-1984; 15-10-1984.KIRSCHNER, Carlos António – D. Bosco e a China. Contributo para a História dos Salesianos. Macau, 1970.LE MERAVIGLIE DELLA MADONNA A PECHINO. (Cópia cedida por Lorenzo Acquistapace).NOLASCO DA SILVA, Pedro – Bussola do Dialecto Cantonense. Macau, 1912.O CLARIM. Semanário de Macau, 10-10-1982; 11-10-2002. RECORDAÇÕES DE MACAU E DA CHINA. (Cópia cedida por Lorenzo Acquistapace).
8988MIssIonárIos para o Século XXI MIssIonárIos para o Século XXIMário Acquistapace Um salesiano no Extremo Oriente António Rodrigues Baptista ROSA, António dos Santos – Colégio D. Bosco (Relatório). Macau, Janeiro de 1998. SALESIAN. 246, Spring, 2003.SALESIANOS DE DON BOSCO. Vol. 54, Nº 2, 2003.TEXEIRA, Manuel – A Educação em Macau. Direcção dos Serviços de Educação e Cultura. Macau, 1982.IDEM – “Macau durante a Guerra”, Boletim do Instituto Luís de Camões. Nº 1 e 2, Macau, 1981.VOZ DA FÁTIMA. 63 (748), 13-01-1985.António rodrigues BaptistaCurriculumn VitaeAntónio Rodrigues Baptista. Nutural de Ourém (Portugal). Estudos de Filosofia e Ética, Direito, Línguas e Literaturas, nas Universidades de Toulouse, Lisboa, Coimbra, Lyon, Santiago de Compostela, São Paulo (Brasil) e Salamanca. Licenciatura em Filosofia (Toulouse, 1963) e Letras (Coimbra, 1974); doutoramento em Filologia Hispânica (Santiago de Compostela, 1989); pós-graduação em Ética (Salamanca, 2005). Leitor de Língua e Cultura Portuguesa nas Universidades de Toulouse, Montpellier e Santiago de Compostela (1962-63; 1967-71; 1971-78). Professor de Filosofia, Sociologia e Psicologia no Liceu Camões (Lisboa, 1981-90). Professor e Investigador Principal na Universidade de Macau (1990-2000). Professor voluntário em Angola (Uije, 2004). Fundador e professor da Universidade Sénior de Ourém (2008-09). Estudos realizados e publicados sobre Cultura Portuguesa, Cultura e Literatura Espanhola, História e Cultura Ouriense, Filosofia e Ética, Missões e Missionários no Extremo Oriente. Coordenador do Dicionário de História de Macau (1997-2000). Director da Revista de História e Cultura “AUREN” (Ourém, 2009).
9190MIssIonárIos para o Século XXI MIssIonárIos para o Século XXIMário Acquistapace Um salesiano no Extremo Oriente António Rodrigues Baptista
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