MOSAICOVOLUME LXIIManuel V. BasílioO Grande Bazar de MacauPÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS DE MACAU
Editor: Instituto Internacional de MacauTítulo: O Grande Bazar de Macau - Pátios, Becos e Travessas de MacauAutor: Manuel V. BasílioComposição gráfica: ABM Design & ComunicaçãoCapa: Ângela Canavarro RamosColecção: Mosaico, Volume LXIITiragem: 300 exemplaresImpressão: Castle-Productions Ltd - Decor, Events & Marketing ProductionsISBN: 978-99965-59-50-1Macau, Novembro de 2020IIM – Instituto Internacional de MacauRua de Berlim, 204, Edifício Magnificent Court, 2º (NAPE), MacauTelefone: (853) 2875 1727 / (853) 2875 1767Fax: (853) 2875 1797E-mail: iim@iimacau.org.moPágina Electrónica: www.iimacau.org.moPatrocínio
O Grande Bazar de MacauPátios, Becos eTravessas de MacauManuel V. Basílio
Volume LXII • 5PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS DE MACAUÍndiceA Rua Grande do Bazar do bairro chinês, paredes meias com a cidade cristã.............................................7O memorável bairro de Santo António..................................67Rua das Estalagens, uma via que marcou uma época no passado...............................................................................135Os temas acima referidos foram originalmente publicados em “Crónicas Macaenses”:1) em 15 de Agosto de 2019;2) em 17 de Dezembro de 2019; e3) em 26 de Março de 2020.
Volume LXII • 7PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS DE MACAUA RUA GRANDE DO BAZAR DO BAIRRO CHINÊS, PAREDES MEIAS COM A CIDADE CRISTÃIgreja de Santo António, em cujo local se construiu a primeira capela, após o estabelecimento dos portugueses. No cimo da rampa, há uma placa toponímica para assinalar o início da Calçada do Botelho, que desce até ao fundo, indo terminar na Rua do Tarrafeiro.
8 • Colecção MosaicoMANUEL V. BASÍLIODurante séculos, a população chinesa vivia, sobre-tudo fora dos muros da cidade, nos campos ou vár-zeas que se estendiam a norte até à Porta do Limite ou Porta do Cerco. Devido a restrições impostas pelas autoridades chinesas, os operários ou vendedores chi-neses, para exercerem as suas actividades na cidade cristã, atravessavam diariamente as portas da cidade e só regressavam às suas habitações, ao fim do dia, antes de as portas se fecharem. Com o decorrer do tempo, os habitantes chineses, designadamente os que viviam na povoação do Patane, começaram a espalhar as suas casas nas imediações da zona ribeirinha conhecida por “Sá Lán Chai” (沙欄仔, literalmente, pequena barrei-ra de areia), ou seja, na zona do Tarrafeiro (1), situada ao fundo da actual Calçada do Botelho (2), onde, an-tes dos aterros, havia pontes-cais para acostagem de barcos, e cuja linha da costa continuava ao longo da actual Rua dos Faitiões (3), seguindo-se depois pela Rua da Tercena e Rua de Nossa Senhora do Amparo, fazendo então parte de “os sítios da Praia Pequena”. A partir sobretudo de inícios do século XIX, esta linha da costa, com assoreamento e subsequentes aterros, começou a estender-se gradualmente em direcção a oeste, acabando por formar uma significativa área, onde os chineses, em curto espaço de tempo, edifica-ram barracas e casas para habitação e comércio, nos locais onde acharam mais conveniente, sem qualquer planeamento e alinhamento.
Volume LXII • 9PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS DE MACAUSabe-se, no entanto, que até meados do século XIX, a água ainda chegava à Praia Pequena, onde se situava o Hopu Grande, a principal alfândega chinesa, pois há notícia de que, durante o governo de Ferreira do Amaral, se fez “uma muralha de 214 côvados (4) na Praia Pequena, e o cais prometido …”, e que “nos sítios da Praia Pequena A placa toponímica que se vê no lado direito é onde termina a Rua dos Faitiões e, a seguir, começa a Rua da Tercena.
10 • Colecção MosaicoMANUEL V. BASÍLIOdos Faitiões e Tarrafeiro estão os chinas (5) de novo levan-tando barracas, a despeito de Ordens, que sobre isto se tem ultimamente publicado”.A linha da costa, porém, não terminava na Praia Pe-quena. Mapas de princípios do século XIX mostram que continuava nas proximidades da actual Rua dos Merca-dores, indo contornar junto do sopé da colina, no cimo da qual hoje se encontra a igreja de Santo Agostinho. Há nomes que ainda subsistem na toponímia, quer em português, quer em chinês, evidenciando que outrora a linha da costa por ali passava, tais como, Rua da Barca da Lenha, Travessa do Aterro Novo e Pátio do Aterro, ou então, a denominação, em chinês, “K’iu Châi T’âu” (橋仔頭, significando “K’iu Châi”, pontinha ou peque-na ponte; e, “T’âu”, início ou começo), cujo nome já caiu no esquecimento, dado que a pontinha deixou de existir há muito tempo.Além disso, existiram a partir do Tarrafeiro, em épocas diferentes, vários cais, designadamente o cais do Tarrafeiro, localizado ao fundo da Calçada do Bo-telho, próximo da actual Rua dos Faitiões; o cais do Simão (cujo topónimo, em chinês, “Si Máng Má T’âu” (呬碼頭) ainda consta da toponímia local, sendo “Si Máng” a transliteração de Simão (6) e, “Má T’âu, que significa cais ou ponte-cais); as tercenas (7), que deram o nome à Rua da Tercena, embora este nome não cor-responda ao topónimo “Kwó Lán Kái”, em chinês (8); e, ainda, o topónimo “Tái Má T’âu Kái”, (sendo “Tái
Volume LXII • 11PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS DE MACAUMá T’âu” 大碼頭, cais grande, e “Kái” 街, rua), onde é hoje a Rua do Teatro (9).A Rua dos Mercadores não termina no ponto em que intersecta com a Avenida de Almeida Ribeiro. Em frente, há duas vias: 1) Do lado esquerdo, a zona da calçada à portuguesa ainda faz parte da Rua dos Mercadores, que vai terminar junto da Rua da Alfândega e da Rua dos Cules; e, 2) A via do lado direito é designada Travessa do Aterro Novo, cujo nome resultou dos aterros que se fizeram então, até próximo da actual Rua das Felicidades. O prédio que se vê ao fundo, com a porta pintada de vermelho, situa-se já na Rua das Felicidades.
12 • Colecção MosaicoMANUEL V. BASÍLIOMapa de princípios do século XIX. O círculo assinalado a amarelo mostra o local da Praia Pequena e a reentrância da linha da costa antes dos aterros.
Volume LXII • 13PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS DE MACAUAspecto de uma zona do Bazar, mesmo junto do Largo e Igreja de S. Domingos.Desenho de George Chinnery, datado de 1839.
14 • Colecção MosaicoMANUEL V. BASÍLIOAspecto do Largo de S. Domingos, em 2019. O edifício do lado esquerdo, em cuja fachada há duas colunas, é o actual Mercado de S. Domingos, agora designado Complexo Municipal do Mercado de S. Domingos, inaugurado em 26 de Outubro de 1998.
Volume LXII • 15PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS DE MACAUPresentemente, ainda podemos encontrar, entre a Rua dos Mercadores e a Rua de Camilo Pessanha (an-teriormente, Rua do Mastro), muitas casas antigas, de um ou dois pisos, construídas ao longo de estreitas e sinuosas vielas, em terreno resultante da fase inicial de aterros que progressivamente se fizeram. A princípio, tais casas não eram de alvenaria, como as de agora, mas sim barracas e casas feitas de material não duradoiro que, de tempos a tempos, eram destruídas por incên-dios e, em curto espaço de tempo, renasciam das cinzas novas habitações. Foi naquela zona, designadamente desde o Tarrafeiro, passando pela Praia Pequena até aos novos aterros, que confinavam com a actual Rua das Felicidades, que nasceu o BAIRRO CHINÊS, cujo centro se situava na zona designada por BAZAR ou BAZAR GRANDE.Bazar do Bairro ChinêsBazar é um termo adoptado em terras do Oriente para designar um mercado em geral e, às vezes, feira, ou então, uma rua de lojas. Outrora, existiram alguns bazares em Macau, dos quais se destacou o Bazar Gran-de, cujo nome foi dado pelos portugueses a uma zona onde predominava o comércio da população chinesa.
16 • Colecção MosaicoMANUEL V. BASÍLIOAlém deste bazar, havia também o Bazarinho, que ia da Travessa do Mata Tigre até à Calçada Eugénio Gonçal-ves. Eram estes dois os mais conhecidos, não obstante ter havido também outros bazares que surgiram com os novos aterros, nomeadamente o Bazar do Pagode.Conforme referido num relatório do Serviço de Saú-de de Macau, dos anos 1865 a 1867, o Bazar “é um ema-ranhamento de ruas estreitas e de casas chinas pequenas, escuras e húmidas. A isto acresciam os alpendres caprichosos que impediam a entrada do ar e da luz, os variados objec-tos de venda que se expunham fora das lojas até impedir o trânsito e o nauseabundo cheiro proveniente dos canos de despejo que seguem pelo meio das ruas e eram, como estas, cobertos de grandes lages mal unidas e que deixavam fendas e buracos entre si”.Apesar de esforços desenvolvidos pelo governo de então, no sentido de modificar as condições higiénicas dentro daquele populoso bairro, apenas alguns melhora-mentos foram conseguidos, porquanto a população chi-nesa, arreigada aos seus hábitos, achava muito normal aquela forma de vida.Num outro relatório a respeito do estado de saúde do Bazar, em 1870, referia que “no Bazar, onde residem os chinas, que ali têm grande parte do seu comércio e todas as espécies de estabelecimentos, as causas de insalubridade são numerosas, ainda que notavelmente diminuídas durante o governo do sr. Conselheiro Coelho do Amaral. Encontram--se nesse grande bairro chinês muitos focos de infecção nas
Volume LXII • 17PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS DE MACAUtravessas, becos e pátios recônditos. Não será fácil obter ali grandes melhoramentos por demandarem muita despesa, e em consequência dos usos e costumes do povo chinês, que pode ser considerado naturalmente imundo”.Aspecto de uma zona do Bazar, mesmo junto do Largo e Igreja de S. Domingos.Desenho de George Chinnery, datado de 1839.
18 • Colecção MosaicoMANUEL V. BASÍLIOTravessa do Soriano, em 2019. Outrora, esta via era designada Travessa do Surriano e, por vezes, Rua do Suriano, em editais e anúncios judiciais. No entanto, o topónimo, em chinês, é “Ch’ou Mâi Hóng” 粗米巷 (“Ch’ou Mâi” 粗米, arroz não polido, e “Hóng” 巷, Travessa).
Volume LXII • 19PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS DE MACAUIntegração da população chinesa na Cidade CristãApesar das intervenções pontuais do governo para a melhoria das condições sanitárias do Bazar, a situação manteve-se praticamente inalterável até à publicação do Decreto de 26 de Março de 1908, para regular a execução das Obras de Saneamento do Bazar Chinês e à criação da Comissão Administrativa das Obras de Saneamento do Bazar Chinês.Por Portaria nº 51, datada de 14 de Setembro de 1867, foi nomeada uma Comissão para apresentar um relatório ao governador Ponte e Horta, para formular a formação de um corpo especial de Obras Públicas. No extenso e bem elaborado relatório, mencionou-se a existência de dois bairros, “como que formando duas cidades distintas: a primeira mais populosa, o Bazar, habitada exclusivamente pelos chinas, aferrados às suas tradições e aos seus preconceitos; vexados sob o domínio dos mandarins; um emaranhado de ruas estreitas, imun-das, sem condições higiénicas, e apinhadas de casas de má aparência e pouco salubres; a segunda, a cidade cristã, com as suas velhas portas (10), verdadeiras barreiras ao progresso …”. Foi o Conselheiro Coelho do Amaral, durante o seu governo, que “ fez desaparecer as portas da cidade; ligou com bons caminhos o bairro cristão com o china e os diferentes bairros entre si; alargou os limites da
20 • Colecção MosaicoMANUEL V. BASÍLIOcidade; alterou todo o sistema de viação; construiu pontes; abriu novas ruas …”. Foram ainda propostas outras medidas importantes no intuito de acabar com a se-paração daqueles dois bairros, de forma a integrar toda a população, as quais incluíam, designadamente “aproveitar a actividade dos chinas, de que muito se pode esperar, tanto para o comércio como para a indústria…; fazer desaparecer o preconceito da inconveniência de con-ceder aos chinas o adquirir propriedades…; aumentar os rendimentos públicos pelos foros que pagam os terre-nos concedidos e as novas edificações; alargar a cidade, levantando novos bairros, de melhor aparências e cheios de vida…; e, finalmente, interessar os chinas nas obras públicas, a ponto de lhes prestarem grande auxílio em capitais e trabalho.”Foi a partir de então que os chineses mais abastados começaram a adquirir propriedades dentro da chamada cidade cristã, em zonas mais nobres, bem como cons-truir as suas mansões nos sítios onde achavam existir melhor “ fengshui” e, gradualmente, foram deslocando os seus estabelecimentos para dentro da cidade, por ser mais seguro que na zona do Bazar.Já antes disso, a permissão a estrangeiros para com-prarem ou edificarem casas e possuírem qualquer terre-no em Macau, mediante o pagamento de foro à Fazenda Pública, tinha sido autorizada pelo governador Ferreira do Amaral em 1846, em virtude da Carta de Lei de 2 de Maio de 1843.
Volume LXII • 21PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS DE MACAUPolícia do BazarCom o crescimento da população chinesa, o bairro do Bazar passou a ser habitado maioritariamente por chineses, não só simples operários, como também co-merciantes chineses, incluindo os mais abastados, que tinham os seus negócios sobretudo na então via prin-cipal, usualmente designada rua grande do Bazar (11). O Bazar era também frequentado por aqueles que “não sendo aqui estabelecidos, nem tendo ocupação conhecida, se aplicam ao roubo, jogo e outros exercícios próprios de ociosos e vadios, sem que contudo a Polícia os possa bem conhecer ou distinguir dos que são aqui estabelecidos”. Muitos des-ses vadios viviam numa zona conhecida por Tercenas do Bazar e quando o governador Ferreira do Amaral teve conhecimento de que eles viviam em tercenas fe-chadas, mandou publicar um Edital, datado de 12 de Fevereiro de 1849, nos seguintes termos: “Faço saber, que achando-se mais de metade das tercenas do Bazar fechadas e cercadas, servindo de habitação a chinas pela maior parte vadios, e sem ocupação conhecida, os quais indevidamente e com notável prejuízo público ocupam assim aquele lugar, que fora destinado pelo Governo a quem pertencem as mes-mas tercenas, para servir de mercado público; e cumprindo que quanto antes se remova tal inconveniente; hei determi-nado que os chinas que actualmente ocupam as referidas tercenas, as despejem dentro do prazo improrrogável de
22 • Colecção MosaicoMANUEL V. BASÍLIOoito dias contados desta data, devendo no fim dele, ficar as ditas tercenas abertas e limpas…, ficando por uma vez entendido que mais se não permitirá que naquele lugar se fixe habitação permanente …”.Era, por conseguinte, preocupante a questão da se-gurança no Bazar, devido à presença de chineses vin-dos de localidades circundantes, geralmente por mar, à procura de uma vida melhor, acabando geralmente por se tornarem vadios e mendigos, e mesmo até, praticar roubos para a sua subsistência. Por esse motivo, a Procu-ratura teve que tomar as medidas que fossem necessárias para proteger os habitantes chineses do Bazar, como por exemplo, num despacho de 18 de Março de 1851, intimidou “o principal cabeça de rua (12) para dar semanal-mente na Procuratura uma lista de todos os chinas vadios, e de carácter suspeito, de que ele tivesse notícia”.Face a estas circunstâncias, em 1857, o negociante chinês Au Ieong Peng (歐陽炳) formou uma pequena guarda destinada a vigiar e proteger os bens que possuía no Bazar. Subsequentemente, Bernardino de Senna Fer-nandes e alguns abastados chineses também se juntaram para aumentar essa guarda. Como se destinava essen-cialmente a zelar e proteger o Bazar, onde “lanchaes” (13) praticavam roubos e provocavam desacatos, essa guarda ficou conhecida por Guarda da Polícia do Bazar. Por Portaria Real de 14 de Outubro de 1857, foi nomeado Comandante desta guarda, Bernardino de Senna Fer-nandes, com honras de Capitão. Em 18 de Julho de 1861,
Volume LXII • 23PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS DE MACAUEstátua do Conde de Senna Fernandes, Bernardino de Senna Fernandes, colocada no jardim da “Casa Garden”. Figura destacada do século XIX, desempenhou diversos cargos, designadamente o de Comandante da Polícia de Macau, o primeiro a ser nomeado para estas funções, por Portaria Real de 14 de Outubro de 1857, com honras de Capitão.
24 • Colecção MosaicoMANUEL V. BASÍLIOtambém por Portaria Real, foram-lhe concedidas as hon-ras de Major, conforme comunicação feita pela Secretaria de Estado dos Negócios da Marinha e Ultramar.Para assegurar a segurança, o governo cobrava aos habitantes chineses uma contribuição, como consta do Balancete da Caixa Geral da Província de 1872, publica-da no Boletim da Província, sob a rubrica “Contribuição dos chinas para a polícia”.Incêndio no BazarNo dia 4 de Janeiro de 1856, deflagrou “um terrível incêndio, como nunca antes se viu nesta pequena cidade. O fogo começou pela uma hora e três quartos numa das boticas chinas no centro do bazar. O vento, que soprava um pouco fresco do norte, fez com que a chama espalhasse com extraordinária velocidade por todos os lados do bazar. Às 5 horas, mudando o vento para leste, o fogo avançou com a maior força sobre as boticas do Matapau. Às 6 e meia tornou outra vez ao norte, e o fogo foi progredindo pelas travessas de S. Domingos, rua de Quintal e a tra-vessa do Tronco. O ex-convento de S. Domingos esteve a ponto de arder, porém uma bomba colocada na igreja fez maravilhosos efeitos. O incêndio durou por toda a noite, e
Volume LXII • 25PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS DE MACAUconsumiu quase todo o bazar, deixando só de pé algumas boticas da parte do norte e do sul”.De acordo com uma reportagem, neste terrível in-cêndio arderam cerca de mil e quinhentas casas, incluin-do mais de 600 lojas, com avultados prejuízos e algumas perdas de vida. No entanto, não foi o único incêndio de grandes proporções. Há notícias de mais incêndios, no-meadamente um outro que ocorreu em 13 de Novembro de 1893, e que destruiu o mercado do Bazar.Consta que, quatro anos depois, os comerciantes Lou Kau ou Lu-Cao (盧九) e Vong-Atai ou Vong Tâi (王帝) requereram ao Leal Senado de Macau para a construção de um mercado no mesmo local. Não nos parece que este pedido fora aprovado, porquanto o Leal Senado, num edital de 1901, anunciou a construção de um novo mer-cado, informando que “… logo que começarem os trabalhos de demolição dos prédios e construção do mercado, devendo a venda de hortaliças ter lugar nas circunvizinhanças e a carne de porco às portas dos respectivos estabelecimentos de porqueiros, não sendo permitida venda de qualquer destes géneros no Largo de S. Domingos, do lado da Rua do So-riano, na Rua do Soriano, na Rua dos Mercadores do lado que confina com a Rua do Soriano, na Rua do Mercado, Travessa das Frutas, Beco do Poço e Beco do Porqueiro, visto que vão ser demolidos os prédios ali situados”. A construção do novo mercado ficou, portanto, a cargo do Leal Senado, tendo a obra sido arrematada pelo valor de $20.350 patacas, em 1904. O projecto do mer-
26 • Colecção MosaicoMANUEL V. BASÍLIOcado fora elaborado pelo arquitecto espanhol José Maria Casuso, que naquela época também foi projectista dos bairros de S. Lázaro e de Táp Siac.Mercado de S. Domingos construído em princípios do século XIX, segundo o projecto da autoria do arquitecto espanhol, J.M. Casuso.
Volume LXII • 27PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS DE MACAUExpropriaçõesEm 1918, pelas Secretarias da Procuratura Admi-nistrativa dos Negócios Sínicos e Administração do Concelho de Macau, através de um anúncio publicado em Boletim Oficial nº 8, “se fez público que, tendo sido determinada por utilidade pública e urgente a expropria-ção dos prédios urbanos existentes no bairro chinês desta cidade, que estejam avançados, no todo ou em parte, sobre a linhas exteriores das novas vias públicas traçadas no pla-no de melhoramentos do mesmo bairro, determinação essa feita por Decreto de 26 de Março de 1908, publicado no Boletim Oficial do Governo desta Província, nº 21 de 23 de Maio do mesmo ano e nos termos das leis no mesmo decreto designadas, prédios urbanos a expropriar de que fazem parte os sob os números de polícia: 2, 4, 6, 8, 10, 12, 14, 16, 18, 20, 24, 26, 28, 30, 32, 34, 36, 38, 40, 42, 44, 46, 48, 50, 52. 54, 56, 58, 60, 62, 64, 66, 68, 70, 72, 74, 78, 80, 82, 84, 112, 118, 120, 122, 11, 13, 15, 107, 107, 111, 115 e 117 da Rua dos Mercadores (14); 124, 126, 128 e 130 da Rua do Matapau; 1, 3, 5, 7, 9, 11, 13, 15 e 17 da Travessa do Aterro Novo; 22 da Rua da Felicidade; 60, 62, 64, 100, 102, 104, 106 e 108 da Rua das Estalagens; 30 da Travessa da Porta; 2, 4, 6 e 8 da Rua do S. Paulo; 26 e 30 da Travessa dos Algibebes; e 6, 8, 10, 12, 14, 16, 18, 20, 22, 24, 26, 28, 30, 11, 13, 29, 31, 31ª, 33, 35, 37, 39, 41, 41ª, 43, 45 e 47 da Rua
28 • Colecção MosaicoMANUEL V. BASÍLIOdo Mastro; e o Pagode de Seong-ka-hong, sito nesta última rua sem número de polícia … “ foram chamados todos os interessados nos supramencionados prédios para compare-cerem nas secretarias das ditas repartições, instaladas no prédio nº 1 da Rua Central, a fim de ali examinarem os documentos e planta respectiva e em face deles fazerem as reclamações e observações que julgarem convenientes acerca da supra designada expropriação”.Constatámos que, apesar da urgente expropriação acima referida e mesmo depois de os referidos prédios terem sido adjudicados ao Estado, a Comissão Admi-nistrativa das Obras de Saneamento do Bairro Chinês, teve de publicar, em 1921, avisos por forma a intimidar proprietários a demolir os seus prédios segundo os novos alinhamentos e a remover os materiais e entulhos no prazo de 40 dias.A expropriação dos referidos prédios resultou da apli-cação do Decreto de 26 de Março de 1908, do Ministé-rio dos Negócios da Marinha e Ultramar, por haver uma urgentíssima necessidade de proceder ao saneamento da cidade de Macau, com vista a acabar com o insalubre bairro denominado Bazar chinês, onde em estreitíssimas ruas se aglomerava uma numerosa população e onde se originavam frequentes epidemias. A melhor forma para levar avante este projecto era proceder à abertura de vias públicas suficientemente largas, bem arejadas e drenadas dentro do bairro, “devendo as ruas novas principais ter uma faixa de 8 metros de largura”, conforme fora deter-
Volume LXII • 29PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS DE MACAUminado. Esta determinação, porém, não foi aplicada às travessas e outras vias secundárias, por isso ainda exis-tem estreitas e desalinhadas vias transversais com cerca de dois metros de largura em vários pontos da antiga zona do Bazar.A Rua dos Mercadores vista junto da Travessa do Soriano. Ao fundo, vê-se o edifício do antigo Hotel Central, que presentemente se encontra em inactividade.
30 • Colecção MosaicoMANUEL V. BASÍLIOA Rua Grande do BazarA “rua grande do Bazar” ou “rua denominada Bazar grande” eram designações utilizadas em meados do século XIX, até mesmo em editais e anúncios judiciais, para se referir à rua principal do Bazar, numa altura em que ainda não estava fixado o topónimo Rua dos Mercadores, em português. A “rua grande”, situada no coração do Bazar, correspondia então ao nome “Tái Kái” (大街), dado pelos chineses (ou seja, “Tái” 大 , grande, e “Kái” 街 , rua).Placa toponímica da Rua dos Mercadores, cujo topónimo em chinês é “Tái Kái” 大 街, ou seja, “a rua grande”, que no passado era a via principal do Bazar grande. O nome alternativo, em chinês, é “Yêng Tei Tái Kai” 營地大街, escrito entre parêntesis, cujo nome não constava dos Cadastros das Vias Públicas e Outros Lugares da Cidade de Macau de 1905 e 1925, e essa designação adicional só mais tarde é que ficou incluída no Cadastro de 1957.
Volume LXII • 31PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS DE MACAUAnúncio datado de 24 de Setembro de 1861, em que faz menção da “rua denominada Bazar grande”.
Verifica-se, no entanto, que esta via, em chinês”, além do topónimo “Tái Kái” (大街), foi posteriormente acres-centado, em meados do século XX (15), o nome “Yêng Têi Tái Kái” (營地大街, que literalmente tanto pode signifi-car “rua grande do acampamento militar” ou “rua grande do bazar”), como consta da placa toponímica, escrita en-tre parêntesis, por baixo da denominação principal “Tái Kái”. Em virtude de o termo “Yêng Tei” (營地) ter sido Edital de 7 de Agosto de 1865, em que faz a menção da “rua grande do Bazar”,antes de ser fixado o topónimo Rua dos Mercadores.MANUEL V. BASÍLIO32 • Colecção Mosaico
indevidamente usado para designar “bazar, mercado ou feira”, há quem diga que tal termo derivou do facto de ter existido naquele local um “acampamento militar” (16), esquecendo-se, porém, que o caracter chinês “Yêng” (營), também significa “comercializar” ou “negociar” e, deste modo, “Yêng Tei” (“Yêng” 營 , comércio, e “Tei” 地 , ter-reno, lugar ou localidade) seria então “terreno ou localida-de destinado a comércio”, estando, deste modo, em con-formidade com o termo Bazar, em português, utilizado desde o início. Cremos que toda esta confusão surgiu por utilização indevida ou incorrecta do termo “Yêng Têi” (營地) para designar mercado, bazar ou feira e, sendo bazar ou feira, o termo apropriado será “si cháp” 市集.Por isso, o grande Bazar era designado por “wah yân si cháp k’ôi” (華人市集區, ou seja, zona do bazar chinês).Tanto a Rua dos Mercadores como a Travessa dos Mercadores constam do relatório dos trabalhos da Co-missão nomeada por Portaria nº 44, de 12 de Março de 1869, para determinar e fixar de modo definitivo os nomes de todas as vias públicas da cidade. Notámos, no entanto, que diversos nomes de ruas que existiam antes de 1869 não foram incluídos naquele relatório e outros, que estavam listados, deixaram de constar no Cadastro das Vias Públicas de 1905 e no de 1925, por terem sido extintos, por razões diversas, entre as quais, expropriações e demolições de propriedades em que aquelas vias esta-vam localizadas ou, então, por terem sido substituídos por novas designações.PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS DE MACAUVolume LXII • 33
Os nomes da vias públicas, constantes do referido re-latório de 1869, apenas estão escritos em português, sem qualquer referência em chinês. Apesar desta omissão, constatámos em anúncios judiciais e em editais traduzidos A via situada à direita é a Travessa dos Algibebes. O troço da Rua dos Mercadores, que vai do prédio de cor ocre até aproximadamente onde circula um táxi preto, era outrora designado, em chinês, “Sék Cháp Mun”, devido a um portal ou porta de pedra que ali existiu. MANUEL V. BASÍLIO34 • Colecção Mosaico
para a língua chinesa que a Rua dos Mercadores tinha duas designações em chinês: o troço que ia desde a junção entre a Rua das Estalagens, Rua dos Ervanários e Rua de Nossa Senhora do Amparo até imediações da Travessa dos Algibebes era designado “Sék Cháp Mun” (17) e, a seguir, é que começava “Tái Kai”, a rua grande. O nome “Sék Cháp Mun” (石閘門) provém de um portal ou porta de pedra, que existiu naquela localidade e que outrora servia para im-pedir a entrada na cidade de chineses indesejados, vadios e desconhecidos. Numa das transversais da Rua dos Merca-dores, existe a Travessa dos Mercadores, que dantes era sim-plesmente designada, em chinês, “Sâp Pát Kán” (十八間) , cujo nome revela ter existido naquela Travessa um conjunto de 18 (“sâp pát”) estabelecimentos comerciais. Embora a Travessa continue a ser conhecida por “Sâp Pát Kán” (十八間), foi-lhe aditado, em meados do século passado, um novo topónimo, em chinês, passando a ser “Seong Yan Hóng” ( 商人巷 , ou seja, “Seong Yan” 商人 , Negociante ou Comerciante, e “Hóng” 巷 , Travessa), como consta do Cadastro das Vias Públicas de 1957.Outrora, a Rua dos Mercadores foi, sem dúvidas, a mais importante e movimentada “rua grande do Bazar”, pois era onde os principais comerciantes chineses tinham os seus negócios, designadamente os chamados bancos chineses ou cambistas. Após muitas vicissitudes, a Rua dos Mercadores continua a ser, tal como no passado, uma importante zona de comércio, situada a dois passos do coração da cidade – o Largo do Senado.PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS DE MACAUVolume LXII • 35
36 • Colecção MosaicoMANUEL V. BASÍLIOFontes de consulta: Boletins do Governo dos séculos XIX e XX; Ca-dastros das Vias Públicas e Outros Lugares da Cidade de Macau(Salvo indicação em contrário, as fotos antigas foram baixadas da internet, designadamente do grupo Antigas Fotos de Macau).Apesar de transformações verificadas ao longo de séculos, o Largo do Senado era e continua a ser um ponto fulcral no centro da cidade, hoje em dia muito frequentada por visitantes.
Volume LXII • 37PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS DE MACAUNOTAS:(1) A zona do Tarrafeiro é designada, em chinês, “Sá Lán Châi” (沙欄仔 , ou seja, “Sá Lán” 沙欄 , barreira de areia; e, “Châi” 仔 pequena). Tarrafeiro era o pescador que pescava à tarrafa, ou seja, com a rede que se arremessa de lanço.(2) A Calçada do Botelho começa na Praça de Luís de Camões e no Largo de Santo António e termina na Rua do Tarrafeiro. Além desta Calçada, há ainda a Rua do Botelho e a Travessa do Botelho.(3) Faitião é um termo derivado do chinês “fái t’éng” 快艇 (“fai” 快 , veloz, rápido; e “t’éng 艇 , um tipo de embarcação ou barco ligeiro utilizado por chineses). Foi dado à via o nome Rua dos Faitiões para comemorar a vitória dos portugueses na insurreição conhecida por Revolta dos Faitiões, motivada pelo lançamento de impostos sobre os barcos ligeiros chineses, no tempo do governador Ferreira do Amaral. Além da dita Rua, que também é conhecida, em chinês, por “Mâi Kái” 米街 (“Mâi 米 , arroz; e, Kái 街 , rua, ou seja, Rua do Arroz), há ainda a Travessa e o Beco dos Faitiões.(4) O côvado foi uma medida de comprimento usada por di-versas civilizações antigas. Era baseado no comprimento do antebraço, da ponta do dedo médio até o cotovelo, variando essa medida de comprimento de povo para povo. O côvado chinês (“ch’ék” 尺 , em cantonense) mede tradicionalmente cerca de 0,371475 metros (usado em Hong Kong e em Macau) ou modernamente cerca de 0,3333 metros (usado na China Continental).(5) Naquela época o termo “chinas” quer dizer “chineses”.(6) Este Simão era Simão Joaquim Botelho, cujo nome figura na toponímia de Macau, designadamente Calçada do Botelho;
38 • Colecção MosaicoMANUEL V. BASÍLIOCais do Simão (em chinês, “Si Máng Má T’âu” 呬碼頭 , cuja via é actualmente designada Rua do Infante); e Rua do Simão (em chinês, “Si Máng Kai” 呬街 , nome este alterado para Rua Nova de El-Rei e, depois da implantação da Repú-blica Portuguesa, novamente alterado para Rua de Cinco de Outubro). Apesar dessas alterações, os nomes, em chinês, “Si Máng Má T’âu” e “Si Máng Kai” ainda constam das respec-tivas placas toponímicas.(7) Termo antigo e pouco usado, que significa espaço à beira do rio ou perto de um cais para recolher ou armazenar cereais; doca ou estaleiro.(8) “Kwó Lán Kái” 菓欄街 (literalmente, rua do mercado de fru-tas), significando também “kwó lán” 菓欄 os estabelecimentos de revenda de frutas por grosso. Teria lá funcionado um “ba-zar de fructas”, cujo nome era mencionado em editais e num mapa do século XIX.(9) Era habitual naqueles tempos armarem palcos de bambu em terrenos vagos para representações da ópera ou auto cantonense. Há, no entanto, notícia de que ali, ou próximo dali, existiu um teatro, construído em 1868. Actualmente, ao longo da Rua do Teatro, há diversos estabelecimentos de fornecedores de frutas.(10) As “velhas portas” referem-se às Portas da Cidade, designada-mente a Porta de Santo António e a Porta do Campo (também conhecida por Porta de S. Lázaro), que davam acesso à Cidade Cristã. As “velhas portas”, bem como as muralhas da cidade, foram demolidas por ordem do governador Conselheiro Coe-lho do Amaral.(11) Há um anúncio judicial, datado de 24 de Setembro de 1861, referente a arrematação em hasta pública de uma casa “sita na rua denominada Bazar grande”, bem como um edital, datado de 7 de Agosto de 1865, em que faz a menção da “rua grande do Bazar”. A “rua grande” é tradução literal da designação, em chinês, “Tái Kái”.
Volume LXII • 39PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS DE MACAU(12) Era designada “cabeça de rua” a pessoa escolhida por morado-res de uma rua, a quem competia resolver ou tratar dos assun-tos que ocorriam, bem como “registar” os nomes de todos os moradores daquela rua, a fim de impedir estadia de estranhos. Era uma figura que existia na China.(13) “Lanchaes” (deriva do cantonense “lán châi” 爛仔) era um termo aportuguesado, que então se utilizava em editais e anúncios judiciais, para designar malfeitores.(14) Apesar dos limitados recursos financeiros do então governo de Macau, a expropriação dos prédios urbanos existentes no bairro chinês, determinada por utilidade pública e levada a cabo pela Comissão Administrativa das Obras de Saneamen-to do Bazar Chinês, não foi tarefa fácil. Conforme anúncio publicado no Boletim Oficial nº 8, de 1918, pode-se consta-tar que praticamente todos os prédios existentes na Rua dos Mercadores, que estavam fora do alinhamento traçado para a nova via pública, tiveram que ser expropriados e demolidos. Verificámos que, dentro da Rua dos Mercadores, há prédios que deixaram de existir e no mesmo local não foram erigidos novos prédios, como por exemplo, os prédios números 2 a 6, e 1 a 11, bem como os números 46 e 48 (junto da Travessa dos Becos), talvez com a intenção de, futuramente, alargar tam-bém as vias transversais. Actualmente, a Rua dos Mercadores inicia no prédio nº 8, do lado da numeração par, e no prédio nº 13 , do lado da numeração ímpar, um oposto ao outro.(15) No Cadastro das Vias Públicas de 1905 e no de 1925, a Rua dos Mercadores era apenas designada, em chinês, “Tái Kái” 大街 . A designação “Yêng Têi Tái Kái” (營地大街) foi aditada posteriormente e só a partir de 1957 é que passou a constar do Cadastro das Vias Públicas e Outros Lugares da Cidade de Macau. Por conseguinte, “Yêng Têi Tái Kái” (營地大街) não é um topónimo originalmente adoptado pelos chineses, nem provém de “acampamento militar”, como algu-
40 • Colecção MosaicoMANUEL V. BASÍLIOmas pessoas alegaram ter lá existido. Conforme explicámos, o termo “Yêng” (營), também significa “comercializar” ou “negociar” e, “Tei” (地) quer dizer “terreno, lugar ou loca-lidade”), devendo, assim, ser interpretado como “terreno ou localidade destinado a comércio”(16) O que existiu, de facto, foi um aquartelamento militar que se instalou no edifício do Convento de S. Domingos, expro-priado pelo governo, após a expulsão das ordens religiosas no ultramar português, em 1834. Aquele aquartelamento não era “Yêng Tei” ou “acampamento”, visto que os militares estavam instalados dentro de um edifício.(17) Não existem vestígios quanto à localização do portal de pe-dra, demolido em data desconhecida. Apesar disso, mesmo nos anos 50-60 do século passado ainda se ouvia os velhos re-sidentes chamar “Sék Cháp Mun” àquele troço entre o início da Rua das Estalagens e a Travessa dos Algibebes.
Volume LXII • 41PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS DE MACAURua dos Mercadores vista junto da Rua Sul do Mercado de S. Domingos. Do lado esquerdo, é a Travessa do Soriano, como indica a placa toponímica ali colocada.
42 • Colecção MosaicoMANUEL V. BASÍLIOEm frente, é a Travessa dos Algibebes, com acesso à junção entre a Rua de S. Paulo e a Rua da Palha.
Volume LXII • 43PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS DE MACAURua dos Mercadores. Foto tirada junto da Travessa dos Becos.Placa toponímica da Travessa dos Becos. Deveria ter sido uma via com diversos becos, no entanto, em chinês, é designada “Kât Heng Hong” (Kât Heng 吉慶, Auspicioso), também conhecida por “Kât Heng Lei” (“Lei” quer dizer Beco e, “Hong”, Travessa.
44 • Colecção MosaicoMANUEL V. BASÍLIOO prédio do lado direito tem o número policial 44 e o prédio do lado esquerdo tem o número policial 50, o que significa que os prédios números 46 e 48 foram demolidos e não reconstruídos, provavelmente com o objectivo de alargar a Travessa dos Becos para dar continuidade à via desde a Travessa do Soriano até à Rua do Mastro, seguindo o mesmo alinhamento. Presentemente, a Travessa dos Becos continua a ser uma estreita via, com acesso pelo lado esquerdo do prédio, ao fundo. No referido prédio número 46 estava estabelecido o Banco Tai Vó - 泰和銀店 - que faliu em 1908.
Volume LXII • 45PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS DE MACAUA estreita e sinuosa Travessa dos Mercadores.
46 • Colecção MosaicoMANUEL V. BASÍLIOUm troço da Rua dos Mercadores. Em frente, uma via transversal da Rua dos Mercadores, denominada Beco das Caixas. Os prédios que ladeiam a via foram reconstruídos já com recuo. Apesar disso, mais adiante, a travessa continua estreita e desalinhada.
Volume LXII • 47PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS DE MACAUOutra via transversal da Rua dos Mercadores, denominada Travessa da Porta. O prédio do lado direito foi reconstruído já com recuo, para alargar o acesso. A seguir à parte alargada, entra-se então na parte estreita da travessa. Rua Sul do Mercado de S. Domingos.
48 • Colecção MosaicoMANUEL V. BASÍLIOUm troço da Rua dos Mercadores, do lado da numeração ímpar. Com o recente encerramento de outra loja similar, a Foc Iu Cheong, resta agora este Louceiro Fu On, tido como uma das lojas mais antigas da Rua dos Mercadores.
Volume LXII • 49PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS DE MACAUEmbora o negócio se encontre encerrado há muito tempo, a fachada do edifício continua a ostentar o nome do banco chinês (ou cambista) que ali funcionou – Cambista Hâng Fát (衡發銀號). Naqueles tempos, os cambistas eram também conhecidos por bancos chineses, pois praticavam diversas operações bancárias.
50 • Colecção MosaicoMANUEL V. BASÍLIOO antigo Banco Hang Fát, visto num ângulo diferente. Existiu posteriormente no r/c uma loja denominada Mercearia Tai Un Hou (泰源號), que também já encerrou actividade há muito tempo.
Volume LXII • 51PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS DE MACAUEste Templo, designado “Sám Kái Wui Kun” 三街會館 (“Sám Kai” 三 街 , três ruas, e “Wui Kun” 會館 , sede de uma corporação”, associação ou agremiação), está situado junto da zona antiga do Bazar Grande. Construído em data desconhecida, provavelmente em finais do século XVIII, era o local onde representantes do comércio de três ruas do Bairro Chinês – Rua dos Mercadores, Rua das Estalagens e Rua dos Ervanários, se reuniam, sempre que necessário, para tratar de assuntos de interesse comum. Esta “associação das três ruas” é tida como precursora da Associação Comercial de Macau, que só foi fundada por negociantes chineses em 1913. Com a mudança da sede da associação, o Templo passou a servir exclusivamente como local de culto da divindade Kuan Tai ou, em mandarim, Guan Di (關帝), símbolo da lealdade e justiça.
52 • Colecção MosaicoMANUEL V. BASÍLIOConforme mostra a placa toponímica, colocada no prédio do lado esquerdo, é ali que começa a Rua dos Mercadores. No entanto, este prédio tem o número policial 8, o que indica que os prédios nºs. 2, 4 e 6, já não existem, porque foram demolidos para alargar a Rua das Estalagens.
Volume LXII • 53PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS DE MACAUA rampa do lado esquerdo é a continuação da Rua das Estalagens até ao início da Rua de S. Paulo. O prédio à direita é onde começa a Rua dos Mercadores (do lado da numeração ímpar) e tem o número policial 13, o que indica que os prédios nºs. 1, 3, 5, 7, 9 e 11 já não existem, porque foram demolidos para alargar esta parte da Rua das Estalagens.
54 • Colecção MosaicoMANUEL V. BASÍLIOUm troço da Rua de Nossa Senhora do Amparo. Mais adiante, do lado direito, situa-se o Pátio da Mina, onde aproximadamente esteve sediada a Hopu Grande, até ser extinta pelo governador Ferreira do Amaral.
Volume LXII • 55PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS DE MACAULargo do Pagode do Bazar, ca. 1890.Rua dos Mercadores, nos anos 50-60 do século passado. As lojas que lá havia já encerraram as suas actividades, tais como Padaria Colombo, Papelaria e Artigos de Escritório Cheong On, etc.
56 • Colecção MosaicoMANUEL V. BASÍLIORua Norte do Mercado de S. Domingos.
Volume LXII • 57PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS DE MACAUDesignações de novas vias públicas, dadas pelo Leal Senado à zona do novo Mercado de S. Domingos, em 27 de Dezembro de 1904.
58 • Colecção MosaicoMANUEL V. BASÍLIORua Sul do Mercado de S. Domingos. Rua Leste do Mercado S. Domingos.
Volume LXII • 59PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS DE MACAURua Oeste de Mercado de S. Domingos.
60 • Colecção MosaicoMANUEL V. BASÍLIOInterior do Mercado de S. Domingos.Interior do Mercado de S. Domingos.
Volume LXII • 61PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS DE MACAUA Calçada do Botelho vai até à Rua do Tarrafeiro, no sítio onde circula o veículo automóvel branco. Do lado esquerdo, o edifício de cor ocre é onde começa a Rua dos Faitiões.
62 • Colecção MosaicoMANUEL V. BASÍLIOMapa de Macau do último quartel do século XVIII. A zona assinalada com um círculo amarelo era a Praia Pequena, antes dos aterros. Neste mapa é bem visível a ponta do Patane, cuja saliência é designada, em chinês, por “Sá Lei T’âu” (cabeça de pêra).
Volume LXII • 63PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS DE MACAUPlanta em que mostra a localização da povoação do Patane, donde se expandiu pela zona ribeirinha até à Praia Pequena e, dali, até à zona do Bazar Grande, após os aterros. Em cima, está mencionado um Hospital, que era um hospital britânico, e mais abaixo, está assinalada a localização da “Chinese Custom H.” ou seja, “Chinese Custom House”, a alfândega chinesa. (Extracto de uma planta de princípios do século XIX).
64 • Colecção MosaicoMANUEL V. BASÍLIONo âmbito do saneamento do Bazar, a maior obra que ali se realizou foi a construção de uma nova avenida, além do alargamento da existente Rua dos Mercadores. Aquela nova artéria, por se encontrar na zona do Bazar, foi-lhe inicialmente dado o nome de NOVA AVENIDA DO BAZAR CHINÊS, a ser aberta, numa primeira fase, a partir do Largo do Senado até ao Pátio do Martelo (que já não existe). A NOVA AVENIDA, que ainda hoje os chineses a designam SÂN MÁ LOU (tradução literal de Nova Avenida), passou mais tarde a ser designada AVENIDA DE ALMEIDA RIBEIRO, devido à verba de $150.000 patacas que o então Ministro das Colónias, Artur de Almeida Ribeiro, autorizou para a conclusão da obra da avenida até à marginal do Porto Interior. Só mais tarde, entre 1918 e 1920, é que foi aberto o troço entre a Rua Central e a Rua da Praia Grande.
Volume LXII • 65PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS DE MACAUO MEMORÁVEL BAIRRO DE SANTO ANTÓNIOA Igreja de Santo António, em Novembro de 2019. No lado direito, é um edifício residencial, nos pisos superiores, estando o piso inferior a ser utilizado como Centro Sócio-Pastoral de Santo António.
66 • Colecção MosaicoMANUEL V. BASÍLIOA primeira ermida dedicada a Santo AntónioReza a tradição que o culto a Santo António remon-ta ao tempo do estabelecimento dos portugueses em Macau, visto que, além de Santo Popular, era também santo protector dos navegantes. A introdução desse culto deve-se aos Jesuítas, porquanto, anos após a fundação oficial de Macau em 1557, aqui vieram e se instalaram num morro (1) não muito distante de um ancoradouro utilizado pelos portugueses. A escolha daquele sítio não foi por mero acaso, pois ficava próximo de uma pequena povoação de pescadores chineses, da etnia Hakká, loca-lizada na baía de “Pet Wán” (2), como era designada no dialecto deles, e cujo nome foi desde logo adoptado pe-los portugueses, passando a povoação e a zona adjacente a ser conhecida por Patane.Seguindo a tradição daquela época, junto aos case-bres que os jesuítas construíram para a sua habitação, construiu-se também uma ermida ou capela dedicada a Santo António, com paredes de madeira e cobertura de junco (3), visto que os portugueses só estavam autorizados a fazer edificações temporárias e, segundo consta, essa er-mida, naquele morro do Patane, já existia antes de 1565.A ermida assentava em local próximo da actual igre-ja e deveria ter sido reconstruída várias vezes, devido a danos causados por intempéries, até que, em 1638, foi
Volume LXII • 67PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS DE MACAUconstruída, em pedra e chunambo (4), uma igreja já com maior dimensão.Subsequentemente, foram feitas novas obras, quer de reconstrução, quer de reparação, sobretudo por causa de dois grandes incêndios que ocorreram em 1809 e em 1874 e também de tufões que, de tempos a tempos, assolavam a cidade de Macau. No século XX, devido ao estado de degradação da igreja, novas reparações tiveram de ser feitas em 1930, quando era pároco o Pe. José António Augusto Monteiro e, uma década depois, em 1940, foram feitos restauros na fa-chada e na torre sineira, tendo o exterior da igreja sido revestido com “Shanghai plaster”, tal como se apre-senta actualmente. Mantém-se no adro uma grande cruz de pedra, estando gravado no pedestral 1638, para assinalar o ano em que foi construída a igreja, em substituição da anterior capela.A Igreja de Santo António está, desde 2005, lista-da como Património Mundial da Humanidade, cujo nome oficial em chinês é “Seng Ón Tó Nei Tóng” (聖安多尼堂), uma transliteração da designação em por-tuguês, ou seja, “Seng”, santo; “Ón Tó Nei”, António; e “Tóng”, igreja.
68 • Colecção MosaicoMANUEL V. BASÍLIOA cruz de granito implantada no adro da igreja, em cujo pedestral está gravado 1638, ano em que foi construída a igreja, em pedra e chunambo, em substituição da anterior capela.
Volume LXII • 69PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS DE MACAUA porta de Santo AntónioDurante séculos, a igreja de Santo António ficava dentro dos muros da cidade. Existiu uma muralha que descia da Fortaleza do Monte, a qual, depois de contor-nar a Rua de Tomás Vieira, passava ao longo desta via, por detrás das actuais casas do lado da numeração par, até à junção com a Praça de Luís de Camões e a Rua de Coelho do Amaral. Era aproximadamente naquela junção que se situava uma das portas da cidade, deno-minada Porta de Santo António.Esta Porta foi demolida por ordem de Coelho do Amaral, durante a sua governação (5), a fim de extender os limites da cidade para o norte e acabar com aquela separação que existia entre habitantes portugueses e chi-neses. Hoje em dia ainda podemos ver vestígios do anti-go muro da cidade, feito de taipa ou chunambo, na Rua de Tomás Vieira. O muro de taipa envolvia um enorme terreno, incluindo o que era designado pelo nome de Hortas de Santo António, situado na parte tardoz da antiga igreja da Madre de Deus, mais conhecida por Ruínas de S. Paulo, por restar apenas a fachada, depois de a igreja ter sido destruída por um incêndio ocorrido em 1835.Em virtude das hortas que outrora lá existiram, à nova via que por ali foi aberta, antes de 1925, desde a actual Rotunda do Almirante Costa Cabral até ao Largo
70 • Colecção MosaicoMANUEL V. BASÍLIOA Porta de Santo António, cuja localização está assinalada com um círculo. Vê-se, designadamente, a parte tardoz da igreja de Santo António, o palacete conhecido por “Casa Garden”, o morro do Patane, coberto de árvores, onde se acha a gruta de Camões e, ainda, o muro junto da Porta, que descia até à povoação do Patane. (Desenho de Thomas Watson).
Volume LXII • 71PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS DE MACAUda Companhia, foi dado o nome de Rua da Horta da Companhia (presentemente, Rua de D. Belchior Car-neiro), cujo topónimo, em chinês, “Kou Yün Kái” (高園街), ainda se mantém, o qual, literalmente, quer dizer “rua da horta de cima”. A “horta de baixo” ou “parte baixa da horta” está dentro do Pátio do Espinho, situada entre a dita Rua da Horta da Companhia e as traseiras dos prédios nºs 18 a 68-CC, da Rua de Tomás Vieira. A parte baixa é também conhecida, em chinês, pelo nome “Yün Tâi” (園低 , “Yün”, horta ou jardim; e “Tâi”, baixo), como era vulgarmente designada por ve-lhos residentes, não obstante o seu topónimo ser “Ch’i Lâm Wâi” (茨林圍) (6).A Rua da Horta da Companhia (actualmente, Rua de D. Belchior Carneiro), aberta antes de 1925, cuja obra dividiu o Pátio do Espinho em duas partes: no lado direito, é a parte alta e, no lado esquerdo, a parte baixa.
72 • Colecção MosaicoMANUEL V. BASÍLIOApós a abertura da Rua da Horta da Companhia, que atravessou o Pátio do Espinho de uma ponta a outra, este ficou dividido em duas partes: uma parte começa junto do Templo de Ná Tchá (大三巴哪吒廟) e vai até à Rua da Horta da Companhia e, a outra, en-tre esta rua e as traseiras dos prédios da Rua de Tomás Vieira, correspondente à parte ocupada pela referida “horta de baixo” ou “Yün Tâi” (園低) , em chinês.Além da Rua da Horta da Companhia, já existia, antes da abertura desta via, um largo situado na parte mais alta junto da igreja de Santo António, conhecido por Largo da Horta da Companhia, em chinês, “Fá Wong T’óng Kou Yün” (花王堂高園 , isto é, “Fá Wong” (7), jardineiro; “T’óng”, igreja ou templo; “Kou”, alto; Yün, horta ou jardim), o qual, literalmente, quer dizer “horta de cima da igreja do jardineiro”. Esta de-signação em chinês sugere que existiu, uma horta ou jardim da igreja, onde um jardineiro, que se tornou no-tável pelo cultivo de flores, utilizadas na ornamentação da igreja. Não se sabe quem teria sido esse jardineiro, que ficou associado à designação dada pelos chineses.A igreja de Santo António, também conhecida pe-los chineses por “igreja florida”, cujo nome deriva do facto de, naqueles tempos, a igreja estar frequentemen-te ornamentada com muitas flores para a celebração de casamentos, sobretudo de noivos macaenses, e essa preferência se devia, na maioria dos casos, ao cumpri-mento de promessas feitas ao Santo Casamenteiro.
Volume LXII • 73PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS DE MACAUO nome “Fá Wong T’óng” (8) , embora seja usado para designar a igreja de Santo António, esta igreja é também conhecida por “Seng Ón Tó Nei Tóng” (聖安多尼堂), uma transliteração do nome em português da igreja de Santo António.As Hortas de Santo AntónioAo longo de séculos, as Hortas de Santo António tiveram vários proprietários. Consta que, a dada altura, pertenceram a D. Catarina de Noronha e que acabou por vender aquelas Hortas em leilão público, em 1730.No âmbito do chamado “China Trade”, a partir de 1759, a China autorizou os mercadores estrangeiros a estabelecerem as sedes das suas companhias e os seus lares em Macau, depois de uma permanência de seis me-ses, de Outono a Inverno, nas feitorias de Cantão, para adquirir produtos chineses, e esta medida destinava-se a evitar o regresso forçoso às suas colónias ou à Europa e permitir-lhes, nos restantes seis meses, preparar em Macau os seus negócios para a época seguinte. Nestas circunstâncias, representantes comerciais da Compa-nhia Holandesa das Índias Orientais também consegui-ram autorização das autoridades chinesas para residirem em Macau, tendo então adquirido alguns prédios e
74 • Colecção MosaicoMANUEL V. BASÍLIOuma horta, próximo da igreja de Santo António, que, segundo consta, pertenciam a Manuel Homem de Car-valho. Embora o comércio da Companhia Holandesa das Índias Orientais com a China tivesse terminado em 1781, devido à Quarta Guerra Anglo-Holandesa, numa planta topográfica dos anos trinta do século XIX ainda vinha referenciada a “Casa denominada Companhia Holandesa” e a “Horta da Companhia Holandesa”, cuja designação terá originado a Horta da Companhia. Sub-sequentemente, esta Horta teria pertencido a António Bernardo Ribeiro e, ainda, a outros proprietários.Seja como for, o lote de um terreno, denominado “Horta da Companhia”, acabou por entrar na posse do governo e, em 24 de Dezembro de 1923, o governador Dr. Rodrigo José Rodrigues fez uma doação do referido terreno, com uma área de 2.075,75 m2, à Santa Casa da Misericórdia, então representada pelo Provedor, o gene-ral Fernando José Rodrigues, para nele ser construído um asilo para inválidos ou órfãos. O prédio ficou con-cluído em 1925, tendo-lhe sido dado o nome de Asilo das Inválidas (agora, Lar Nossa Senhora da Misericórdia).Depois da construção do Asilo, o topónimo Largo da Companhia passou a ser, em chinês, “Lou Yan Yün Ch’in Tei” (老人院前地 , sendo “Lou Yan Yün”, asilo; e, “Ch’in Tei”, largo, ou seja, Largo do Asilo), embora seja também conhecido, sobretudo por antigos residen-tes, pelo nome “Fá Wong T’ong Kou Yün” (花王堂高園), ou seja, a “horta de cima da igreja do jardineiro”.
Volume LXII • 75PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS DE MACAUAsilo das Inválidas (actualmente, Lar Nossa Senhora da Misericórdia) construído em 1925. A via do lado esquerdo é a primeira ramificação do Largo da Companhia. Placa toponímica do Largo da Companhia, em chinês, “Lou Yan Yün Chin Tei” (Largo do Asilo).
76 • Colecção MosaicoMANUEL V. BASÍLIOSanto António, "Capitão da Cidade"Reza a tradição que Santo António foi alistado como soldado no ano de 1623, tendo integrado o presídio mi-litar que veio de Goa com o primeiro governador de Ma-cau, D. Francisco de Mascarenhas. Como militar tinha direito ao respectivo pré ou soldo, que outrora lhe era entregue anualmente na igreja de Santo António pelo Leal Senado, normalmente na véspera da sua festa, que é celebrada no dia 13 de Junho. No entanto, consta que houve um período em que, por dificuldades de tesoura-ria do Leal Senado, o pagamento do soldo foi suspenso e, quando assim aconteceu, os habitantes atribuíam as desgraças ou calamidades que ocorriam na cidade à falta de pagamento do soldo a Santo António. Bernardo Alei-xo de Lemos e Faria, depois de ter assumido as funções de governador de Macau, em 1873, promoveu Santo António ao posto de capitão e solicitou ao Senado para pagar todos os soldos em atraso. Ao longo do tempo, o soldo foi sendo actualizado e consta que, nos anos 50 do século passado, era de mil e duzentas patacas.Outrora, a cerimónia da entrega do soldo anual de Santo António revestia-se de solenidade e era feita ao pároco, no adro ou junto à entrada da igreja, com a pre-sença de representantes do Leal Senado, designadamente o secretário e/ou o tesoureiro, estando também presen-te uma pequena força militar para prestar a guarda de
Volume LXII • 77PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS DE MACAUhonra, com toque de clarins. Teria sido em meados dos anos sessenta (9), que a guarda de honra militar deixou de fazer parte da entrega do soldo, mantendo-se, no entan-to, o repique do sino na torre da igreja para anunciar a chegada do tesoureiro do Leal Senado e de outras indivi-dualidades. A partir de então, a entrega do soldo passou a ser uma simples formalidade, tendo sido em 1999 a última vez que o então Leal Senado pagou o soldo a San-to António. Assim, após a transição da administração portuguesa para a China, o “Capitão da Cidade” passou à situação de “reformado”, sem direito a pensão.Procissão e Festa de Santo AntónioÉ desconhecida a data em que se iniciou a procis-são de Santo António. Apenas encontrámos uma breve descrição de que outrora a “procissão reveste-se dum tom militar. A imagem, acompanhada até 1833 pelo clero, o governador, a nobreza, o batalhão e o povo comum, era levada num andor por quatro oficiais e cada manhã, du-rante treze dias, um corpo de soldados se postava na sua igreja para dar uma salva de tiros”. (10) Assim se sabe que, no século XIX, a procissão de Santo António se realizava com a participação de enti-dades militares, incluindo o governador.
78 • Colecção MosaicoMANUEL V. BASÍLIOVolvidos muitos anos, mesmo sem o peso da presença de militares, a tradição da procissão foi mantida, no decur-so do tempo, devido sobretudo ao empenho de párocos e de devotos do Santo Padroeiro. Como se sabe, a partir de inícios do século XX, a igreja de Santo António teve pá-rocos muito dedicados, não só ao apostolado, como tam-bém a actividades caritativas, sendo de salientar o padre Dr. António José Gomes, um extraordinário sacerdote, a quem se deve a criação da “Obras do Pão dos Pobres”.Aspecto da Procissão de Santo António, a descer pela Calçada de S. Paulo (anos cinquenta do século XX). (Foto da família Carion)
Volume LXII • 79PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS DE MACAUAlém dele, foram também párocos o padre José An-tónio Augusto Monteiro, o cónego Manuel Pinto Basa-loco, que tinha como coadjutor o padre Filipe Tché e, mais tarde, o padre João Baptista Guterres.Aspecto da Procissão de Santo António, a descer pela Calçada de S. Paulo (anos cinquenta do século XX). (Foto da família Carion)
80 • Colecção MosaicoMANUEL V. BASÍLIOPelo que sabemos, em meados do século passado, quando viviam muitas famílias macaenses no bairro de Santo António, as festividades em honra do Santo Pa-droeiro eram muito concorridas e a procissão de Santo António era sempre realizada no dia 13 de Junho, per-correndo um itinerário bastante longo, pois, depois de sair do adro da igreja, seguia pela Rua de Tomás Vieira, passando em seguida pela Rua da Horta da Companhia (actualmente, Rua D. Belchior Carneiro), indo descer pela Calçada de S. Paulo, junto às Ruínas de S. Paulo e, por fim, passando pela Rua de S. Paulo e Rua de Santo António, regressava à igreja.Houve anos em que organizaram arraiais no adro da igreja, com tendas ou barracas enfeitadas, para jogos e venda de petiscos e doçarias. Até havia a largada de um balão (11) e no momento em que enchiam o balão de ar quente, a rapaziada, muito entusiasmada, ficava à volta a observar, com olhos arregalados. Assim que o balão era largado, subindo e subindo devagarinho, soltavam uns gritos e aplaudiam de contentamento, não parando de acompanhar, com os olhos voltados para o céu, o trajec-to do balão até desaparecer do horizonte.Porém, nas últimas décadas do século XX, diversas famílias macaenses começaram a deixar de viver no bairro, mudando-se para outras localidades da cidade ou, então, emigraram definitivamente para o estran-geiro. A partir de então, a festa de Santo António foi perdendo aquela solenidade do passado, e até o itinerá-
Volume LXII • 81PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS DE MACAUrio da procissão passou a ser mais curto. Além disso, a procissão nem sempre era realizada no dia 13 de Junho, sendo normalmente antecipada ou adiada para um dia de fim-de-semana mais próximo. No dia da festa e à hora da procissão, a imagem do Santo Padroeiro, levada num andor pela Irmandade de Santo António, depois de sair do adro, percorria uma parte da Praça de Luís Aspecto da Procissão de Santo António, a descer pela Calçada de S. Paulo (anos cinquenta do século XX). (Foto da família Carion)
82 • Colecção MosaicoMANUEL V. BASÍLIOde Camões e, depois de contornar o limite da Praça, a procissão regressava à igreja, sendo acompanhada por dezenas de devotos, incluindo antigos residentes do bair-ro, indo à frente do andor algumas crianças, vestidas de branco, com cestinhos na mão, a lançar pétalas de flores.Procissão de Santo António, em 2019.
Volume LXII • 83PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS DE MACAUA festividade, como de costume, inicia-se com uma trezena, em chinês e em português, seguida de missa, respectivamente em horas diferentes. Em 2019, a trezena realizou-se entre os dias 2 e 14 de Junho, e a tradicional procissão, no dia 15, com um novo itinerário, tendo percorrido ao longo da Rua de Sto. António e Rua de S. Paulo até ao Largo da Com-panhia de Jesus, situado em frente das Ruínas de S. Paulo, regressando dalí, em sentido contrário, para a igreja de Sto. António.Moradores do Bairro de Santo AntónioVisto que a paróquia de Santo António ainda é gran-de, neste trabalho apenas vamos fazer referência, como moradores do bairro, os que viveram nas imediações da igreja, designadamente no Largo de Santo António, Lar-go da Companhia, Rua da Horta da Companhia (agora designada Rua de D. Belchior Carneiro) e, também, num troço da Rua de S. Paulo, conhecida em chinês pelo nome “Cheung Lau” (長 樓 , literalmente, edifício longo ou, por outras palavras, um longo renque de pré-dios), desde a Calçada do Amparo até à Rua de Santo António e, ainda, a primeira parte da Rua de Santo An-tónio até à Travessa da Viola. Assim,
84 • Colecção MosaicoMANUEL V. BASÍLIONa Praça de Luís de Camões• António Espírito Santo, sua mulher Maria e filhos: Aida, Maria, Alice, Fernando, António e Américo.• Lucrécia Trancoso.• José Maria Gouveia Luís, casado com Andresa Corrêa.• Cecília Corrêa.• Jaime Robarts, sua mulher Albertina Manhão e filhos: Armindo, Geraldina, Maria Felisbela, Jaime Robarts Jr.• Teodora Maria da Conceição Siqueira e seus filhos: Humberto Alexandrino Siqueira (depois de casar com Beatriz do Rosário, ambos ali viveram com os seus filhos Aleixo, Gabriela e Jaime), Geraldo Gui-lherme, Evelina Maria, Laura Iolanda, Felisberta Maria e Cesaltina.Ainda na Praça de Luís de Camões, mas já dentro do Jardim, num prédio ao pé do antigo edifício da Im-prensa Nacional (actualmente, delegação da Fundação Oriente) viveram:• A família de Timóteo Rosário, sua mulher e filhos: Rei-naldo e Daniel; e filhas: Raquel, Amália, Brazilda, casada com César Capitulé e, Olga, casada com Luiz Collaço.• A família Capitulé e seus filhos: José, António e João; e filhas: Maria, Irene, casada com Henrique Manhão, e Ivone.• Maria Lopes, casada com Daniel Rosário e suas filhas: Fernanda, Norma, Virgínia, Ana e Maria.
Volume LXII • 85PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS DE MACAUNo Largo de Santo AntónioNo número 2:• (Piso de cima): Raúl Rosário, sua mulher Jacinta Ro-drigues e filhos: José Rodrigues do Rosário e João Ro-drigues do Rosário (Janjan).• (Piso de baixo): Fausto Bento, sua mulher Celeste Vi-seu e filhos: Herman, Braselina, Esmeralda, Fausto, Idalina, Umbelina e Raimundo.No número 4:• Pedro Pereira, sua mulher Mary Pereira e filhos: Car-men, Pedro e Elfrida.Na foto, vê-se uma faixa escrita em chinês, com a seguinte descrição: Celebrações do 19º aniversário da implantação da República Popular da China. Portanto, a foto data de 1968, em que se vê ainda o prédio nº 4, onde viveu a família de Pedro Pereira (no lado esquerdo) e, o prédio nº 2, onde viveram as famílias Bento (no piso inferior) e Rosário (no piso superior).
86 • Colecção MosaicoMANUEL V. BASÍLIONo Largo da CompanhiaO Largo da Companhia, além da via que vai terminar na Rua de D. Belchior Carneiro, tem duas ramificações, uma antes e outra depois do actual Lar Nossa Senhora da Misericórdia (anteriormente, Asilo das Inválidas).Na ramificação antes do Asilo, viviam no lado esquerdo:• No número 5: Olga Mota e irmã Aida.• No número 7: Fernando Xavier das Dores, sua mulher Maria da Assunção, e filhos: Luísa, Fernando, Maria Fátima e Deolinda.• No número 9A: António Rosário e suas irmãs Alice, Francisca e Natália; depois, mudaram-se para o mes-mo prédio, Eurico do Rosário, sua mulher Cesaltina Siqueira e filhos Rogério e Eurico Jr.• No número 9: Amália Rodrigues do Rosário; e, mais tarde, seu neto, Estanislau do Rosário, mulher e filhos.• No número 9B: Alexandre Silva, sua mulher Laura Siqueira e filho Humberto.• No número 11: Manuel Basílio, sua mulher Maria e filhos José, António, Manuel, Fernando e Afonso.Na ramificação depois do Asilo, viviam no lado direito:• No número 34 : Alfredo Augusto Pereira, sua mulher Adelaide Carion e filho Alfredo Carion Pereira.• No número 36: Plácido Teomótio Carion, sua mulher Angelina de Jesus, e filhos: Adelaide, José, Geraldina,
Volume LXII • 87PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS DE MACAULígia, Plácido, Fernando e António. Vivia também nesta casa Alexandrino Rogério Carion.• No número 38: Maria Fong e filhos. Mais tarde, vive-ram nesta casa diversas famílias chinesas.• No número 40: Lindamira do Rosário.• No número 42: José Carion, sua mulher Maria e filhos Lucila, Ivone, José Jr., Arlete, Jaime e João.• No número 44: Maria Regina de Senna Fernandes d’Assumpção (mais conhecida por Micas).Foto tirada em frente da casa de José Carion. (Foto da família Carion)
88 • Colecção MosaicoMANUEL V. BASÍLIOAo fundo desta ramificação, havia um prédio com 4 moradias, que também tinham porta de acesso pela Rua de Tomás Vieira.No lado esquerdo da moradia de baixo:• Raul, Carlos e João Nantes; e depois,• Júlio Marreiros, sua mulher Maria de Fátima Santos e filho Carlos Alberto.Mais tarde, viveram:• Eugénio Veríssimo dos Santos, sua mulher Ana Maria e filha Maria Eugénia.No lado direito da moradia de baixo:• Maria Rosa do Espírito Santo; e depois,• Leonel Onofre Jorge, sua mulher Ana Maria Manhão e filhos: Victor, Natália, Fátima, José, Filomeno, An-tónio, Arlete, Judas, Maria e Carlos.Mais tarde, viveram:• Clemente de Jesus, Elfrida e Carlos e sua mãe Carme-linda.No lado esquerdo da moradia de cima:• Francisco do Espírito Santo, sua mulher Doreen e filhos: António, José e Alexandre; e depois,• Joaquim Franco Gaspar, sua mulher Geraldina, e filhos: Carlos, Helena, António, José, Maria Fernanda, Fran-cisco, Patrícia, Henrique, Isabel e Mário.
Volume LXII • 89PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS DE MACAUMais tarde, viveram:• Luíz Gonzaga Collaço, sua mulher Olga e filhos: Judite, Orieta e Luís.No lado direito da moradia de cima:• Victor Hugo de Lemos, sua mulher Alice e filhos: Ar-naldo, Carlos e Adelaide.Os prédios situados em frente do Asilo tinham todos portas de acesso tanto pela Rua de S. Paulo, como pelo Largo da Companhia.Na parte tardoz, com portas voltadas para o Largo da Companhia:• No número 4: Quirino Alves.• No número 6: João do Espírito Santo, sua mulher Maria Lopes e filhos: José, João, Margarida, Manuel e Ilda.• No número 8: António Fernandes, sua mulher Caro-lina e filhos: Fátima, Camila, Américo, Júlio, Luís e restantes irmãos.• No número 10: José Maria Braga (Jack Braga) e fa-mília; e depois, José Fernandes, sua mulher Celestina Rocha e filhos: Eduardo, Fátima, Maria Adelaide e Alzira. O filho Eduardo, depois de casar com Sarita Sousa, ali viveu com os filhos Filomena e Francisco.• No número 12: Maria Rosário (Milie).• No número 14: Romualdo Pereira, sua mulher e filhos:
90 • Colecção MosaicoMANUEL V. BASÍLIOElisa, Amadeu, Gustavo, Lídia, Fernanda e Mariazinha.• No número 16: António Gomes da Silva, sua mulher Catarina; Adriano Gomes da Silva, sua mulher Virgí-nia e filhos: Américo, Isabel, Alberto e Joaquim.• No número 18: Fausto Branco, sua mulher Amanda e filhos: Júlio, Fernando e Carlos.Os quatro prédios do Montepio Oficial de Macau (nºs 16 a 22, já demolidos), na Rua de D. Belchior Carneiro, vistos a partir do prédio número 22.
Volume LXII • 91PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS DE MACAUNa Rua Horta da Companhia (actualmente, Rua de D. Belchior Carneiro)Nos prédios, designados "Edifícios do Montepio" (um conjunto de 4 blocos de casas geminadas, já demo-lidos), viveram:No número 16:• João Lopes, sua mulher Alda Morais e filhos: João, Fernando, Armando e Rita.• Fernando Hugo Amorim, sua mulher Amélia Noro-nha e filhos: Regina, Álvaro e José.• Alberto Bointin Rosa e sua mulher Angelina.• Eduardo Armando de Jesus, sua mulher Zuleima Co-laço e filhos: Jorge, Eduardo e Isabel.• Rogério da Encarnação Couto, sua mulher Alexandra Rios Quan e filhos: Maria Teresinha, Rogério Jr., Ma-ria Alice, Carlos e Maria Isabel.• Amadeu Xete.No número 18:• Óscar e Isabel Batalha.• Horácio Sales de Oliveira, sua mulher Maria Pereira e filhas: Mirandolina, José Manuel e Horácio.• Alexandre Jacinto Rodrigues Sales, sua mulher Josefa Azinheira e filhos: Orlando, Catarina, António, Deo-linda, Armanda, José, Joaquim, Ana e Lurdes.• Albertino Almeida e sua mãe Etelvira Lopes.
92 • Colecção MosaicoMANUEL V. BASÍLIO• Francisco Xavier Placé, sua mulher Anna Linda e fi-lhos: Margarita, Artur, Josefina, Irene, Jane, Natércia e Mário.• José da Silva Maneiras e sua mulher Florinda da Silva.• José Basílio, sua mulher Irene Manhão e filhas: Ângela e Sandra. Seguidamente, na mesma moradia, viveu Afonso Basílio, sua mulher Maria Cristina e filho Humberto.• José Armando Paulo Gonçalves (conhecido por Coim-bra), sua mulher Filomena Drummond Gonçalves e filha Ana Maria.No número 20:• Rui Jorge do Rosário, sua mulher Ana Sales e filhos: Carlos, Lídia, Mário, Rita, Lurdes, Rui, Regina e Ro-berto.• Alberto Costa, sua mulher Fátima Oliveira Costa e filhos: José, Anabela, Teresa, Maria Fernanda, Cristó-vão e Joaquim e, também, os netos Evelina e Raquel.• Manuel Eduardo Variz, sua mulher e filhos: Alberto, Afonso, Carlos, Ângela e Júlia.• José César, sua esposa Marta e filhos: Marco e José.• César Jofre Amarante, sua mulher Olga Tavares e fi-lhos: Leonardo, Luzia, Ivone e Daniel.• Alberto da Rosa Nunes, sua esposa Florinda Santos e filhos: Delfim e Fátima.• Augusto Júlio Loureiro de Bastos, sua mulher Maria Luisa Guterres e filhos: Augusto, Henrique, Isabel,
Volume LXII • 93PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS DE MACAURosa, Eduardo, Arnaldo e António.• Francisco Nunes, sua esposa Esmeralda e filha Benilde.No número 22:• Manuel de Almeida Pereira, sua mulher Fernanda Sales e filhos: Manuela, Telma, Maria de Fátima, Manuel, Luis e Francisco.• Joana dos Santos e filhos Carlos Saraiva e Armando.• Manuel Basílio, sua mãe e irmãos menores, Fernando e Afonso. Por fim, o Fernando, depois de casar, con-tinuou a viver, na mesma moradia, com sua mulher Telma Pereira e filho Sérgio.• Maria Fong e filhos: Ângela, Teresa, António e Fran-cisco.• Damião Rodrigues, sua mulher Maria Madalena e filhos: Maria Teresa, José Manuel e Damião Rodri-gues Jr.• Alexandre Madeira, sua mulher Alice e filhos: Simeão, Diamantino, José, Anabela, Norton, Gina, Julieta e Faculto.• Leonel de Sousa Guilherme, sua mulher Celina Góis e filhos: Daniel, Laurinda, Vasco e João.• Fausto Manhão, sua mulher Isabel Eva da Cunha e filhos: Regina e António.(Mais famílias macaenses viveram no conjunto de prédios do Montepio ao longo de mais de quatro décadas, até finais dos anos noventa. Infelizmente, não se conseguiu
94 • Colecção MosaicoMANUEL V. BASÍLIOobter a pretendida informação relativamente a outras fa-mílias que lá viveram).Viveram também nesta rua:• Alice e Linda Carqueja.• Joaquim José de Jesus Jorge e sua mulher Maria Fer-nanda Gomes Jorge.• João Santos, sua esposa Agostinha Belém e filhos: Isa-bel, Florinda e António.• Joaquim Aniceto Coelho Pereira, sua esposa Alzira Ália Alice de Sousa Pereira e filhos: Ália, Paulo, Gui-da e Rui Pereira e, também, Palmira e Aldina Sousa, irmãs de Alzira.Na Rua de S. Paulo(Do lado de numeração par, desde os nºs 2 a 14, as por-tas traseiras comunicavam com o Largo da Companhia)As famílias que viveram no lado de numeração par desta rua estão referenciadas no Largo da Companhia.(Do lado de numeração ímpar)Viveram no troço entre a Calçada de Nossa Senhora do Amparo e a Calçada do Embaixador, várias famílias macaenses, designadamente:• José da Cunha Amorim, sua mulher Coleta Barros, e filhos: Maria das Dores, Fernando Hugo, Natércia, Natália, Henriqueta e restantes irmãos.
Volume LXII • 95PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS DE MACAUA primeira parte da via é a Rua de Santo António, que vai até à Calçada do Embaixador. A partir desta Calçada é a Rua de S. Paulo. Nesta foto, pode-se ver uma plataforma, cujo acesso é feito por dois lanços de escadas de pedra, um de cada lado. Esta plataforma é designada em chinês por Tiu Yü T’ói (釣魚台).
96 • Colecção MosaicoMANUEL V. BASÍLIO• Alberto Maria da Conceição, sua mulher Celestina de Jesus e filhos Maria de Fátima, Alberto Jr. e Carlos Alberto.• José Madeira de Carvalho, sua mulher Teresa e filhos: Felisberto Madeira de Carvalho e Augusto Madeira de Carvalho. Este, depois de casar com Rita Siqueira, continuou o casal a viver ali com os seus filhos Antó-nio, Alina e Augusto.• José Luz, sua mulher Glafira e filha Ivone.• Jorge Eduardo Robarts (Giga) e mulher Fernanda de Senna Fernandes e filhas: Maria do Céu, Maria Hele-na e Margarida Ana.• Gustavo Adolfo Batalha, sua mulher Caroline e filhos: Carla, Ricardo e Lina.• José César, sua mulher Marta e filhos: Marco e José.(Do lado de numeração par, com acesso pelo Pátio do Sol)Nesse Pátio, junto à Rua de S. Paulo, viveram Emílio e Alberto Botelho dos Santos, bem como as suas irmãs Ivone, Maria, Glória e Jacinta.
Volume LXII • 97PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS DE MACAUUm troço da Rua de S. Paulo, desde a Calçada do Embaixador (com acesso pelo lado direito) até próximo da Calçada do Amparo.
98 • Colecção MosaicoMANUEL V. BASÍLIONaqueles tempos…nos anos 50 – 60 do século passadoTal como outros bairros marcadamente macaenses, o Bairro de Santo António foi também um bairro onde viveram e conviveram diversas famílias macaenses e onde jovens da nossa geração ali cresceram, se conhe-ceram e brincaram.As brincadeiras daquela época, ou se passavam na-quelas ruas toscamente empedradas, onde, quando nos juntávamos, fazíamos os jogos preferidos da época, tais como o futebol, a cabra-cega, jogo das escondidas e o de polícia e ladrão, ou então, num espaço de terra batida que havia na parte tardoz da então Escola do Santíssimo Ro-sário, ali jogávamos trióis (berlindes), o talú, a tapa, etc.Porém, mal chegava o verão, o entusiasmo que inva-dia a rapaziada era largar papagaios de papel, ou “saran-gong”, como diziam as velhinhas do bairro em patuá, para fazer os jogos de “corta-corta” entre os competi-dores, conhecidos e desconhecidos, do bairro e fora do bairro. Os melhores papagaios de papel eram vendidos na loja Chan Sou Kei (陳蘇記), muito pequena e estrei-ta, localizada no início da Rua de S. Paulo.O local onde decorriam quase todas as nossas brinca-deiras era naquele troço do Largo da Companhia, mesmo em frente do Asilo (actualmente, Lar), visto que raramen-te um veículo automóvel por ali circulava. Por isso, era na-
Volume LXII • 99PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS DE MACAUquele local, ao fim da tarde, que nos juntávamos para jogar à bola. À noite, depois do jantar, reuníamos, sentados, nos degraus da entrada principal do Asilo, para um bate-papo ou, então, para fazer o arranjo de um jogo, normalmente precedido de “ch’ái fêng”. Quando era o jogo das escon-didas, a modalidade preferida era a de lançamento de Fachada principal do Lar Nossa Senhora da Misericórdia (anteriormente denominado Asilo das Inválidas.
100 • Colecção MosaicoMANUEL V. BASÍLIOuma lata, para o “caçador” ir apanhá-la e colocá-la no sítio indicado, enquanto todos os outros participantes no jogo se escondiam onde podiam, e assim começava o jogo. No período da noite, quem não gostava das nossas brincadeiras eram as velhinhas do Asilo, por causa do barulho que fazíamos, porque às 9:00 horas da noite, as luzes do dormitório apagavam-se, para as velhinhas dormirem. Quando o barulho era muito, vinha uma velhinha cá fora a ralhar-nos com aquelas genuínas fra-ses em “patuá”. Então, dizíamos uns aos outros “Xiu, pouco barulho! Silêncio!" Ficávamos, por momentos, em silêncio, mas não tardava muito para recomeçarmos o jogo, lançando de novo para longe a latinha que, ao cair no chão, ouvia-se novamente o tilintar da lata… tling, tling, tliiing, tling, a rolar no empedrado. E animação continuava …Sim, a animação continuava, porque não tardava muito ouvir um vendedor ambulante a apregoar “ngá chói cháu fân” ( 芽菜炒粉 ) (12) e, mesmo que não apre-goasse, a sua presença era anunciada pelo forte cheiro a alho trazido pela brisa, assim que preparava o “wók” para fritar a massa de arroz. Era uma delícia! Chegou, pois, a hora da ceia, mas infelizmente nem todas as noites podíamos saborear o “ngá chói cháu fân”, porque a mãe nem sempre nos dava dinheiro para satisfazer o nosso apetite.Depois de o vendedor ambulante de “cháu fân” se deslocar para outra rua do bairro, vinha a seguir um ve-
Volume LXII • 101PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS DE MACAUlhinho, com um saco de cânhamo às costas e uma caixa de zinco na mão, soltando palavras, uma atrás da outra, em voz alta, “min páu” (麵飽) … “min páu” (麵飽), “yit lát lát min páu”( 熱辣辣麵飽 ) …, “muchi-muchi”…, “ladu” …, enquanto caminhava pausadamente. Dentro do saco de cânhamo trazia papo-secos, quentinhos e estaladiços, enquanto que na caixa de zinco estavam os “muchi-muchis” e “ladus”, tão saborosos e tão caracterís-ticos da doçaria macaense.No dia seguinte, logo pela manhã, mesmo à entrada da rua, aparecia um outro vendedor ambulante, quase sempre muito atarefado, com uma grande tesoura na mão a cortar tiras de “chü cheong fân” (豬腸粉) e a regar molhos por cima, enquanto algumas pessoas ficavam ali em redor à espera de serem servidas. Tudo quentinho e a fumegar … O “chü cheong fân” era um apetitoso pequeno almoço.O bairro estava bem servido de comezainas. Mas havia mais! Faltava vir o A-Kâo (13), que ao fim da tarde empurrava uma carrinha de mão, com recipientes de ge-lados, de fabrico artesanal, e tão saborosos eram que fa-ziam crescer água na boca, assim que ouvíamos o A-Kâo a gritar “süt kou” ( 雪糕 ) … “süt kou” ( 雪糕 ), “heong wát süt kou” ( 香滑雪糕 ) e, em seguida, em som alto e prolongado, “ice cream”… “ice creeeaaam”…Quando nos apetecia outro tipo de guloseimas, não era necessário ir até muito longe. Bastava irmos à Praça de Luís de Camões, onde havia tendinhas ambulantes,
102 • Colecção MosaicoMANUEL V. BASÍLIOsendo a preferida a do Cheong Sôk. Havia lá “leong fân” (涼粉), “hông tâu peng” (紅豆冰) e outros refrescos, bem como uma variedade de frutos secos e cristalizados, ou, então, quando por lá passavam outros vendedores ambulantes, havia também, a determinadas horas, o “téng-téng t’ óng” (叮叮糖) (14) e o “mâk ngá t’ óng” (麥芽糖) (15) e, por vezes, o “tâu fu fá” ( 豆腐花). Numa outra tendinha, vendia-se “káp péng” (夾餅) , “kâi tán châi” (雞蛋仔) e, assim que o frio do outono chegava, passava a vender-se também o saboroso “láng kou” (冷糕). Quem gostava de “sün chói” (酸菜), isto é, picles artesanais, feitos sobretudo de gengibre, alho, pepino, etc., também se podia comprar numa das tendinhas.O espaço da Praça era maior, sem as actuais paragens de autocarros, por isso, lá apareciam de vez em quando uns artistas chineses que faziam exibições de “kung fu” e acrobacia, cuja finalidade era atrair clientela para com-prar os seus “milagrosos” produtos medicinais.Na Praça, costumava estar um homem à espera de cliente, sentado pacientemente num banquinho, diante de uma gaiola com um passarinho bem treinado, capaz de retirar com o bico um dos envelopes, dispostos à sua frente. Quando um cliente chegava e após breve troca de palavras, o homem abria a portinhola da gaiola, o pas-sarinho saía, puxava um dos envelopes com o bico e, em seguida, voltava para dentro da gaiola. Era o adivinho que lá estava. Depois de abrir o envelope, com caracteres chineses escritos num papel, o adivinho interpretava o
Volume LXII • 103PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS DE MACAUque lia, enquanto o cliente escutava atentamente tudo quanto lhe explicava, sobretudo o que deveria fazer para evitar fatalidades ou para melhorar a sua sorte.Transpondo, então, o portão do Jardim de Camões e indo até junto da gruta, podíamos encontrar, em tardes de verão, um ajuntamento de pessoas, a escutar, atenta-mente, a voz sonora e encantadora de um homem, ali em pé, gesticulando suavemente os seus braços, enquanto se exprimia. Era o contador de histórias, uma profissão (16) que existiu naqueles tempos em Macau, o qual, antes do início das suas cativantes narrações, fazia a colecta de uma moeda, que os ouvintes voluntariamente lhe davam.Havia também comida de gala, mas apenas para pessoas de elite. Durante vários anos, em quase todos os fins de semana, havia festas, com lautos jantares, na residência de Pedro Pereira. O casarão, onde a sua fa-mília vivia, ficava junto do adro da igreja, com entrada principal pelo número 4 do Largo de Santo António. A festa era só para convidados especiais e, por vezes, até ia o governador de Macau, bem como altas patentes mili-tares. Um dos convidados de honra, que normalmente ia ao jantar, era o Dr. Pedro José Lobo e, para abrilhantar a festa nos momentos de dança, ia também a sua orquestra privada. Enquanto decorria a festa no salão, a orquestra tocava alternadamente e, lá fora, podia-se apenas ouvir a música, enquanto, da cozinha, localizada no tardoz do prédio, ia expelindo, através da janela, o fumo e o cheiro agradável da comida. Ali perto, a rapaziada do
104 • Colecção MosaicoMANUEL V. BASÍLIObairro, como de costume, ia-se divertindo, alegre e des-contraidamente, sem saber como decorria a festa dentro daquele casarão.Passaram anos e, a dada altura, aquelas festas cessa-ram. Teria sido em finais dos anos cinquenta, ou depois de Pedro Pereira se aposentar do cargo de tesoureiro que exercia na filial do Banco Nacional Ultramarino em Macau. Não muito tempo depois, a família deixou de viver naquele casarão, mudando-se então para um prédio localizado na Avenida de Lopo Sarmento de Carvalho.Não tardou muito que as velhas casas e casarões do bairro de Santo António começassem a ser demolidas, uma após outra, e substituídas por novas construções, sobretudo a partir dos anos setenta e oitenta do século passado.Foi no bairro de Santo António que vivemos grande parte da nossa juventude. Por isso, quando agora passa-mos por aquele bairro, a tristeza invade-nos, porque pra-ticamente nada resta para reavivar a memória daqueles tempos. Apenas se mantém o velho e quase centenário edifício do Asilo junto do Largo da Companhia. Tudo o resto foi demolido: as casas nas duas ramificações daquele Largo; a maioria dos prédios que existiam no “Cheung Lau” (17); e, há cerca de dez anos, também deita-ram abaixo aquele conjunto de 4 prédios, com moradias geminadas (18), que pertenciam ao Montepio Oficial de Macau, localizadas na Rua de D. Belchior Carneiro (19). E, assim, tudo o progresso levou!
Volume LXII • 105PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS DE MACAULivros consultados: Famílias Macaenses, de Jorge Forjaz, e publica-ções diversas.(Salvo indicação em contrário, as fotos antigas foram baixadas da internet, designadamente do grupo Antigas Fotos de Macau).O edifício do lado esquerdo, no qual está instalado o Centro Sócio-Pastoral de Santo António no r/c, era um grande prédio, onde viveu a família de Pedro Pereira.
106 • Colecção MosaicoMANUEL V. BASÍLIONOTAS:(1) Foi em 1563 que os primeiros Jesuítas vieram para Macau, com a intenção de pedir licença para entrar na China. Como lhes foi recusada a autorização, aqui se estabeleceram e fundaram, em 1565, junto à ermida de Santo António, a residência da Companhia de Jesus.(2) “Pet Wán”, o mesmo que “Pâk Wán” (北灣), em cantonense, ou seja, “baía do norte”, era um excelente ancoradouro situa-do numa zona da península, a que os portugueses deram o nome de Patane, uma corruptela de “Pet Wán”. Patane não era um nome estranho para navegadores portugueses, visto que existia um reino ou sultanato, localizado mais a norte da actual Malásia, conhecido por Patani ou Patane, desaparecido há muito tempo, e este nome foi transposto para Macau, dada a semelhança da pronúncia.(3) Wâi ch’ou (葦草) é uma espécie de junco usado para diversos fins, incluindo para a cobertura de cabanas. Estas casas pro-visórias, construídas nos primóridos do estabelecimento dos portugueses em Macau, foram gradualmente substituídas por edificações mais resistentes, mediante autorizações concedi-das por autoridades chinesas, sobretudo depois de 1573, ano em que começaram a cobrar o “foro do chão”.(4) Chunambo, também conhecido por taipa, era uma argamassa usada antigamente para construir paredes e muralhas, com-posta essencialmente de terra húmida, aplicada em camadas e compactada entre tábuas.(5) José Rodrigues Coelho do Amaral foi governador de Macau no período entre 22 de Junho de 1863 e 25 de Outubro de 1866.(6) “Ch’i” (茨) é um junco ou caniço, do género “mao ch’ôu” (茅草), usado, depois de seco, sobretudo na cobertura de cabanas.
Volume LXII • 107PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS DE MACAUO caracter 茨 (ch’i, junco) é homófono de 刺 (ch’i, espinho). Existe, portanto, uma divergência entre o topónimo Pátio do Espinho e a designação “Ch’i Lam Wâi” (茨林園), em chinês. Teria lá existido uma moita de caniço ou caniçal para os chi-neses designarem aquele local “Ch’i Lam Wâi” (茨林園)? Ou o Pátio do Espinho foi erroneamente traduzido de “Ch’i Lam Wâi”? De notar que, no Dicionário Chinês-Português, Edi-ção do Governo da Província, de 1962, o caracter 茨 regista este significado: “Cobrir com colmo o tecto da casa. Nome duma planta (Tribulus terrestris, Bot.) ”. (7) Em cantonense vulgar, “Fá Wong” (花王) significa jardineiro (vide Dicionário Chinês-Português, Edição do Governo da Província, de 1962.)(8) Templo ou igreja florida é também uma designação dada pelos chineses à igreja de Santo António.(9) Se a memória não nos falha, a guarda de honra militar teria cessado após os incidentes conhecidos por 12.3, ou seja, de 1966.12.3.(10) Extraído do Boletim Eclesiástico Macau, vol. XII.(11) O balão era confeccionado pela família Carion, que o largava no dia da festa de Santo António.(12) “ngá chói cháu fân” é massa de arroz, de tira larga, frita com rebentos de mungo.(13) Era conhecido por A-Kâo ou Kâo Sôk (porque era o 9º filho da família), mas o seu nome completo era Châu Sai Kóng (周世光). Apesar de ser chinês, foi baptizado com o nome de Manuel Joaquim Correia. Após deixar de ser vendedor am-bulante, abriu uma loja de sorvetes e refrescos na Travessa do Roquete, denominada Sorvegel, que esteve em funcionamen-to durante muitos anos.(14) Também se diz “tóng, tóng t’ong” (噹噹糖), devido ao som “tóng, tóng” emitido quando o doce no tabuleiro é partido aos
108 • Colecção MosaicoMANUEL V. BASÍLIOpedacitos com um buril e martelinho de metal.(15) Doce de malte, um doce mole que era enrolado num pauzi-nho de cana com uma espátula. Podia-se comprar este doce sem ser com dinheiro, bastando apenas entregar ao vendedor ambulante, como moeda de troca, uma latinha de leite ou qualquer embalagem de metal.(16) Durante a Segunda Guerra Sino-Japonesa, travada de 1937 a 1945 entre a China e o Japão, vieram para Macau muitos re-fugiados da China. Os que tinham talento, em vez de mendi-garem, procuravam dedicar-se a um ofício para sobreviverem e, por isso, costuma-se ainda dizer que os chineses exercem 72 ofícios. Os ofícios que os refugiados exerciam em Macau foram-se extinguindo ao longo do tempo, depois da guerra.(17) Tem esta designação em chinês o troço da Rua de S. Paulo que vai desde a Calçada do Amparo até à Rua de Santo Antó-nio e, ainda, a primeira parte da Rua de Santo António até à Travessa da Viola.(18) Nos anos de 2010-2012, foram feitas escavações arqueológi-cas nas imediações das Ruínas de São Paulo, na sequência da demolição de quatro moradias do Montepio, construídas em meados dos anos cinquenta do século passado.(19) Anteriormente denominada Rua da Horta da Companhia, tendo sido alterada para Rua de D. Belchior Carneiro em 1969, para comemorar o 400º aniversário da chegada a Macau do bispo D. Melchior Nunes Carneiro Leitão, mais conhecido por D. Belchior Carneiro.
Volume LXII • 109PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS DE MACAUO paredão marca o fim da Rua da Horta da Companhia (actualmente, Rua de D. Belchior Carneiro). Para cá, é já o Largo da Companhia.
110 • Colecção MosaicoMANUEL V. BASÍLIOEste era o troço do Largo da Companhia, mesmo em frente do Asilo, onde a malta do bairro fazia os seus jogos e brincadeiras, porque outrora raramente circulava por ali um automóvel. Agora está totalmente diferente. Até o piso empedrado desapareceu.
Volume LXII • 111PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS DE MACAUOs dois longos renques de casas, que se vêem mais ou menos ao centro da foto, eram conhecidos, em chinês, por “cheung lau” (“cheung”, quer dizer longo ou comprido, e “lau”, prédio).
112 • Colecção MosaicoMANUEL V. BASÍLIOActual aspecto de um troço de “cheung lau”. Todas as antigas casas foram demolidas, excepto as primeiras casas do lado esquerdo, com varanda, junto da Calçada do Amparo.Troço da Rua de S. Paulo, visto a partir da Calçada do Embaixador, cujo acesso é feito pelo lado direito.
Volume LXII • 113PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS DE MACAUAspecto dos 4 prédios do Montepio, meses antes do início da demolição.
114 • Colecção MosaicoMANUEL V. BASÍLIOParte tardoz dos prédios do Montepio, meses antes da demolição.
Volume LXII • 115PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS DE MACAUA via que se construiu após a demolição dos prédios do Montepio (nºs. 16 a 22).Aspecto actual da Rua de D. Belchior Carneiro. Os 4 prédios do Montepio estavam localizados no lado esquerdo.
116 • Colecção MosaicoMANUEL V. BASÍLIOA Praça de Luís de Camões, com uma nova configuração, tendo parcialmente sido aproveitada para uma paragem de autocarros. Actual aspecto da Praça de Luís de Camões, com uma área mais reduzida, devido à existência, na parte anterior, de uma paragem de autocarros.
Volume LXII • 117PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS DE MACAUNo lado direito, detrás dos bancos, está um muro feito de chunambo sobre uma base de granito. Era um dos muros da cidade que descia da Fortaleza do Monte, passava ao longo da actual Rua de Tomás Vieira, e ia até à Porta de Santo António. Um pequeno troço do antigo muro da cidade, que está visível, após a demolição de um antigo prédio, localizado na Rua de Tomás Vieira, nº 68.
118 • Colecção MosaicoMANUEL V. BASÍLIOLado esquerdo: Rua de Tomás Vieira; centro: Praça de Luís de Camões; e, lado direito, Rua do Coelho do Amaral. Era aproximadamente nesse entroncamento que estava localizada a Porta de Santo António. O prédio do lado direito foi construído sobre o terreno onde era a Casa de Beneficência e Escola Canossa.
Volume LXII • 119PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS DE MACAUUm aspecto do Pátio do Espinho, do lado da parte baixa, em meados do século XX.
120 • Colecção MosaicoMANUEL V. BASÍLIOOutro aspecto da parte baixa do Pátio do Espinho, vendo-se ao cimo um dos acessos. As construções existentes na parte baixa do Pátio do Espinho.
Volume LXII • 121PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS DE MACAUImagem de Santo António, num dos altares laterais da Igreja de Santo António. Esta imagem difere das tradicionais imagens desta Santo, visto que, em vez de segurar uma flor de lírio, tem na mão um pão, para simbolizar o Pão dos Pobres, uma obra criada pelo padre Dr. António José Gomes, em 1903. (Altar oferecido por Dr. Pedro José Lobo).
122 • Colecção MosaicoMANUEL V. BASÍLIOPlaca existente no lado esquerdo da parte inferior da fachada da igreja.Aspecto da Igreja de Santo António, praticamente destruída, na sequência do tufão ocorrido no ano de 1874.
Volume LXII • 123PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS DE MACAUAspecto da Igreja de Santo António em princípios do século XX (ca. 1910). No lado direito, vê-se um lanço de escadas de pedra (já demolido), que dava acesso ao Largo da Companhia.Igreja de Santo António em festa.
124 • Colecção MosaicoMANUEL V. BASÍLIOPlaca existente no lado direito da parte inferior da fachada da igreja. Foto tirada junto da porta da casa de José Carion com familiares, vizinhos e amigos. (Foto da família Carion)
Volume LXII • 125PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS DE MACAUPrimeira comunhão e crisma nos anos cinquenta do século XX. Vê-se na foto, da esquerda para a direita, o Pe. Costa, o Pe. Sarmento, o Bispo D. Policarpo e o Pe. Basaloco. (Foto da família Carion)
126 • Colecção MosaicoMANUEL V. BASÍLIOPrimeira comunhão e crisma nos anos cinquenta do século XX, estando meio o Bispo D. Policarpo e, ao seu lado, o Pe. Basaloco. (Foto da família Carion)
Volume LXII • 127PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS DE MACAUAcesso lateral à parte tardoz do antigo Asilo, onde existia uma dependência para idosas de etnia chinesa. Actualmente são as novas instalações do Lar.Esta via é a segunda ramificação do Largo da Companhia. As antigas casas, de um só piso, foram todas demolidas e no mesmo espaço foram construídos os actuais prédios.
128 • Colecção MosaicoMANUEL V. BASÍLIOActual aspecto da segunda ramificação, vista em direcção à entrada. Vê-se ao fundo um automóvel de cor escura a circular no Largo da Companhia. (Foto de MV Basílio)O prédio nº 36, da família Carion, após reconstrução em Dezembro de 2006.
Volume LXII • 129PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS DE MACAUMalta do bairro, (da esq. para dir.) : Júlio Fernandes, Carlos Lemos, Américo Fernandes, Alfredo Pereira, Fernando Basílio e Rogério Carion.O mureto onde a malta do bairro gostava de sentar-se para conversar.
130 • Colecção MosaicoMANUEL V. BASÍLIOO vendedor ambulante Cheong Sôk (cujo nome completo é Cheong Chák In 張澤賢), que durante muitos anos exerceu actividade na Praça de Luís de Camões. Na foto vê-se o Carlos Lemos, a Ivone Carion e a Maria Eugénia Santos, antigos residentes do Bairro de Santo António, que em Novembro de 2019 foram à casa do Cheong Sôk fazer uma visita a ele e à família, tendo-o encontrado em bom estado de saúde, apesar de ter mais de 90 anos de idade. (Foto cedida por Carlos Lemos)
Volume LXII • 131PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS DE MACAURUA DAS ESTALAGENS,uma via que marcou uma época no passadoA Rua das Estalagens foi uma via que se prolongou à medida que os aterros para o lado oeste avançavam, indo até a então Rua Nova de El-Rei que, no ano seguinte à implantação da República Portuguesa, passou a desig-nar-se Rua de Cinco de Outubro.Antes da abertura da Rua da Felicidade e da Avenida de Almeida Ribeiro, a comunicação viária entre a zona do Porto Interior e o coração da cidade era feita, de um modo geral, por diversas vielas ou ruelas, que atraves-savam o chamado Bairro Chinês, em que a actual Rua dos Mercadores era, por assim dizer, uma das linhas divisórias entre a chamada cidade cristã e aquele Bairro. As referidas vielas eram estreitas e sinuosas, com uma largura média de dois metros, por onde nem sempre era fácil para um carregador transitar, levando consigo dois cestos ou baldes com uma pinga (1), ou empurrando um rudimentar carro de mão de madeira, sem estorvar quem caminhasse em sentido contrário. Por essa razão, mesmo até finais do século XIX e princípios do século XX, a Rua do Gamboa e a Rua das Estalagens eram duas im-portantes vias, que usualmente serviam para a comuni-cação viária entre a zona do Porto Interior e o centro da
132 • Colecção MosaicoMANUEL V. BASÍLIOcidade, visto que eram consideradas relativamente largas para a época, podendo ali circular carruagens puxadas a cavalo e outros meios de transporte, como a cadeirinha e o riquexó, com relativa facilidade.Aspecto actual de um troço da Travessa dos Becos.
Volume LXII • 133PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS DE MACAUDo lado esquerdo, é a Rua das Estalagens e, do lado direito, a Rua dos Ervanários, revestida com calçada à portuguesa. O troço anterior da Rua das Estalagens, onde estão parcados vários automóveis, foi alargado; o troço seguinte, a partir do prédio em cor salmão, é mais estreito, pois volta a ter, aproximadamente, a largura original.
134 • Colecção MosaicoMANUEL V. BASÍLIOAinda existem as vielas do passado?Os mapas da península de Macau de princípios do século XIX mostram que a água do rio ainda banhava a zona conhecida por Tarrafeiro, a partir da ponta do Pa-tane, continuando então a linha da costa nas imediações das actuais ruas de Faitiões, da Tercena e dos Ervanários.A zona do Tarrafeiro está assinalada com um círculo amarelo. Mapa de Macau ca. 1846.
Volume LXII • 135PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS DE MACAUDevido ao gradual assoreamento, a linha da costa foi avançando em direcção a oeste. Consequentemente, os aterros mais significativos realizaram-se na primeira metade do século XIX, os quais se foram estendendo, em fases sucessivas, até próximo de um local onde se construiu um dique, com cais ou rampa-cais, para a acostagem de embarcações chinesas, o qual ficou conhe-cido por “Lou Sék T’óng” (2). Com os novos aterros, não tardou muito para que os terrenos fossem aproveitados pela população chinesa na construção de casas destinadas a comércio e habitação, as quais foram surgindo sem obedecerem a qualquer alinhamento ou plano prévio. Apesar disso, seguiram uma orientação ou disposição muito característica, a partir de uma via principal, outrora designada Rua Gran-de do Bazar (3), acabando por construir vários renques de casas contíguas, separadas por estreitas e sinuosas vielas.Por que motivo as casas foram assim construídas, em renques e em direcção a oeste? A resposta pode even-tualmente ser encontrada num dos mapas, em chinês, em que mostra que as estreitas e sinuosas vielas serviam de “cor-redor” entre a Rua Grande do Bazar e zona ribeirinha, onde atracavam embarcações que traziam mercadorias e produtos para serem transportados até aos armazéns ou às lojas situa-das no coração do Bazar. O local de entrada de cada uma das vielas, na zona ribeirinha, era designado, em chinês, por “Sôi Hâu” (水口 , sendo “sôi“ 水, água, e “hâu” 口 , boca ou entrada, e cujo termo pode significar “embocadura”).
136 • Colecção MosaicoMANUEL V. BASÍLIO[1] Linha amarela: Rua das Estalagens; [2] Linha vermelha: O troço da via até à Travessa dos Algibebes era originalmente conhecida por “Sék Cháp Mun”, isto é, a Porta da Pedra e, em seguida, é que começava a Rua Grande do Bazar; [3] 船 澳 口“Sün Ou Hau” (entrada da doca), cujo nome ainda figura numa das vias da toponímia local ; [4] 蘆石塘Lou Sék T’óng (e não 爐石塘, como está erroneamente escrita na actual designação toponímica), que corresponde ao sítio da Rua de Camilo Pessanha; [5] 十八間 Sâp Pát Kán (18 divisórias ou casas), que era a anterior designação, em chinês, da Travessa dos Mercadores; [6] 士步頭 Si Máng Pou Tâu, isto é, Cais do Simão; [7] 沙欄仔 , Sá Lán Châi, cujo topónimo, em português, é Tarrafeiro; e, [8] Hopu Grande (大關 , “Tái Kwán”, isto é, 大 “tái”, grande, e 關 “kwán”, alfândega).
Volume LXII • 137PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS DE MACAUAssim, apesar de todo o progresso dentro da cida-de de Macau, naquela zona que outrora fazia parte do bairro chinês junto do Bazar, entre a actual Rua dos Mercadores e a Rua de Camilo Pessanha, subsistem vá-rias vielas que resistiram à destruição, designadamente a Travessa dos Alfaiates, a Travessa dos Mercadores, a Travessa dos Becos, o Beco das Caixas e a Traves-sa da Porta, onde ainda se pode observar os estreitos “corredores”, com casas antigas, muitas das quais de dois pisos. De notar que, ao longo daqueles “corredo-res” não havia (nem há) ruelas transversais, pois todas aquelas vias vão directamente terminar na actual Rua de Camilo Pessanha, que continua a ser conhecida, em chinês, por “Lou Sék T’óng”, local do antigo dique. Das referidas vias, a que se destacou teria sido a Tra-vessa dos Mercadores, visto que o topónimo original, em chinês, era “Sâp Pát Kán” (十八間, isto é, “Sâp Pát 十八 , dezoito, e Kán 間 , divisórias), cujo termo tam-bém pode significar “dezoito casas”, ou então, segundo consta, tais casas poderiam ter sido “dezoito armazéns” ou “dezoito estabelecimentos comerciais”.Juntamente com os aterros que se fizeram, criou-se uma nova via que também seguiu a orientação das refe-ridas vielas, em direcção a oeste, a qual se tornou uma importante artéria dentro do Bairro Chinês, com acesso à Rua Grande do Bazar. É a Rua das Estalagens.
138 • Colecção MosaicoMANUEL V. BASÍLIOActual aspecto da Travessa dos Mercadores.
Volume LXII • 139PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS DE MACAUAspecto da Rua das Estalagens nos anos 60 do século XX.
140 • Colecção MosaicoMANUEL V. BASÍLIOA Rua das EstalagensA Rua das Estalagens veio a ser uma via que se foi prolongando à medida que as obras de aterro avança-vam em direcção a oeste, isto é, à zona do porto interior, acabando por ter a actual extensão. Numa das fases do aterro, teria chegado até próximo do dique conhecido por “Lou Sék T’óng”. Subsequentemente, com os novos aterros feitos a partir do dique, a linha da costa avançou até à zona do actual Largo do Pagode do Bazar, pois consta que, já em 1860, ali se construiu um santuário e que depois se expandiu para as actuais dimensões do Templo de Hóng Kung 康公廟 (4). Desde então, o Largo em frente ao Templo passou a ser a nova zona ribeirinha, onde as embarcações ali descarregavam as mercadorias, para venda e distribuição e, deste modo, se tornou um bazar muito frequentado pela população chinesa.Actualmente, ainda subsistem topónimos em chinês, que evidenciam ter existido, antes dos aterros, cais e pon-tes naquela zona, nomeadamente o topónimo, em chinês, “Môk K’iu Kái” 木橋街(“Môk K’iu” 木橋 , ponte de madeira e, “Kái” 街 , rua), embora, em português, tenha a designação de Rua do Pagode, e este Pagode refere-se ao Pagode do Bazar; o topónimo “Sân Pou T’âu Kái” 新埗頭街 (Sân 新, novo; Pou T’âu 埗頭 , cais ou ram-pa-cais; e, Kái 街 rua, isto é, “rua do novo cais”), sendo esta via designada, em português, Rua da Madeira; e a
Volume LXII • 141PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS DE MACAUantiga designação “Sün Ou Hâu” 船澳口 (“Sün Ou” 船澳, doca, e “Hau” 口 , boca, entrada, ou seja, a “entrada da doca”), cujo local é hoje apenas assinalado pelo Beco dos Coulaus. Há ainda uma via não muito afastada da Rua das Estalagens, com a denominação toponímica “Tai Má T’âu” (大碼頭 , ou seja, “cais grande”), no entanto, em português, tem a designação de Rua do Teatro.Templo de Hóng Kung (康公廟, Hóng Kung Miu), também designado Hóng Chan Kwan Miu (康真君廟), no Largo do Pagode do Bazar.
142 • Colecção MosaicoMANUEL V. BASÍLIOA designação da Rua das Estalagens deriva do facto de, naqueles tempos e antes do aparecimento dos primei-ros hoteis (5), terem ali existido as melhores hospedarias, estalagens ou pensões, e porque era uma importante via de acesso ao centro da cidade, com frequente movimento de pessoas, esta situação favoreceu o desenvolvimento de várias actividades comerciais e de diversão ao longo da rua. Assim, na Rua das Estalagens, além de hospedarias, passaram a funcionar também casas de “Fantan” (o mais popular jogo de apostas da época), por isso, nos mapas turísticos de então, esta via era também conhecida por “Rua do Jogo”.Sendo então uma via comercial, por onde transita-vam pessoas de diferentes classes sociais, além de casas de “Fantan”, havia também uma variedade de estabeleci-mentos, normalmente instalados em prédios, designados “lojas-casa” (6), não faltando até “Coulaus” (ou “Culaus”), um termo aportuguesado que significava Casas de Pasto(7) e, ainda, um tipo de estabelecimento, bastante concorrido Beco dos Coulaus, cujo topónimo também é conhecido, em chinês, por “Sün Ou Hâu” (船 澳 口, ou seja, “entrada da doca”).
Volume LXII • 143PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS DE MACAUe frequentado sobretudo por negociantes chineses, conhe-cido por “Chá Wá Sât” (茶話室) que, literalmente, signi-fica “sala de chá e de conversa”, mas na realidade era onde repousavam e fumavam ópio ou, à mesa do chá, tratavam de negócios. Tais estabelecimentos eram, na realidade, fumatórios públicos, que se mantiveram em actividade enquanto o consumo do ópio era legal.Rua das Estalagens, ca. 1915, outrora também conhecida por “Rua do Jogo”.
144 • Colecção MosaicoMANUEL V. BASÍLIOFumatório de ópio – Pintura a óleo de Fausto Sampaio, datada de 1937.
Volume LXII • 145PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS DE MACAUUm documento histórico gravado em pedraHoje em dia, quem transita pela Rua das Estalagens, e se não souber, passa-lhe despercebida a existência de uma lápide de granito, assente na parede lateral do prédio nº 69-A, que dá para a Travessa das Janelas Verdes, com inscrições em português e em chinês, cujo texto relata uma questão suscitada entre um sapateiro e a Confraria dos Chinas do Bazar (8), em que o sapateiro, de nome Sau Wa, alegara que a botica (9), onde exercia activida-de, lhe pertencia e, por isso, deixou de pagar a devida renda. A questão arrastou-se por mais dez anos, tendo em 10 de Junho de 1873 sido declarado por sentença do Procurador dos Negócios Sínicos (10) que a botica sempre pertenceu à dita Confraria, assim como o terreno. Para dar a conhecer publicamente aquele facto, foi ali coloca-da a referida lápide, que possui valor histórico, visto que, além de ser um exemplar único, documenta a resolução de um caso judicial entre chineses, que solicitaram a in-tervenção da Procuratura.
146 • Colecção MosaicoMANUEL V. BASÍLIOA lápide rectangular, com inscrições em português (no lado esquerdo) e em chinês (no lado direito), que se acha colocada na parede à entrada da Travessa das Janelas Verdes, junto da Rua das Estalagens.
Volume LXII • 147PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS DE MACAUA Farmácia Chông SâiSun Yat-sen, normalmente referido como Pai da Nação, foi médico, político e líder revolucionário chi-nês, tendo desempenhado um papel fundamental no derrube da Dinastia Qing, a última dinastia imperial da China, em Outubro de 1911. Sun Yat-sen (11) nasceu em Cuiheng (翠亨, em cantonense, lê-se “Chôi Hâng”), então uma aldeia, situada a cerca de 50 Km a norte de Macau, no dia 12 de Novembro de 1866 e faleceu a 12 de Março de 1925, em Beijing.Sun Yat-sen esteve ligado a Macau em vários momen-tos da sua vida. Ainda jovem, com apenas treze anos, veio a Macau e daqui partiu para Honolulu (Havai), passando ali a viver com seu irmão mais velho, Sun Mei (孫眉, em cantonense, lê-se Sün Mei), que para lá tinha emigrado, tendo-se depois tornado um próspero comer-ciante. Em Honolulu, aprendeu inglês e estudou em várias escolas. Anos mais tarde, Sun Yat-sen regressou para Hong Kong e ali frequentou o curso de medicina. Concluído o curso, em 1892, voltou para Macau e aqui exerceu medicina ocidental, primeiro no hospital Kiang Wu e, depois, abriu uma clínica privada.Consta que o Dr. Sun Yat-sen, durante a sua estadia em Macau, manteve um consultório, durante vários me-ses, na então Farmácia Chong Sai (中西藥房 “Chong Sai Yeok Fong”, literalmente, Farmácia Sino-Ocidental),
148 • Colecção MosaicoMANUEL V. BASÍLIOsituada na Rua das Estalagens nº 80. Não se sabe ao cer-to se de facto a dita Farmácia funcionou naquele prédio, pois há quem diga que foi num outro prédio ali próximo. Seja como for, para evocar e homenagear a passagem por Macau do “pai da China moderna” e, também, para divulgar a sua vida e obra, o governo adquiriu aquele prédio nº 80 e transformou-o em casa-museu, que abriu ao público no dia 15 de Dezembro de 2016, após obras de restauro.No prédio do lado direito, podemos ver na fachada 3 caracteres chineses 同善堂 (“Tung Sin Tong”, escritos da direita para a esquerda), e foi naquele prédio onde funcionou a sede da Associação de Beneficência Tung Sin Tong, fundada em 1892. No prédio ao lado foi onde o Dr. Sun tinha a sua clínica privada. A via do lado esquerdo é a actual Travessa do Roquete e o edifício mais alto é a Santa Casa da Misericórdia.
Volume LXII • 149PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS DE MACAUFachada do prédio nº 80, sito na Rua das Estalagens, onde se acha instalada a casa-museu, designada Antiga Farmácia Chong Sai.
150 • Colecção MosaicoMANUEL V. BASÍLIOSabe-se, efectivamente, que Dr. Sun exerceu activi-dade no prédio nº 14-A (já demolido), situado no Largo do Senado, mesmo junto do começo da Travessa do Roquete, o qual tinha alugado à Santa Casa da Miseri-córdia para servir de consultório médico.Durante a sua estadia em Macau, quer como médi-co, quer como político, conheceu ilustres e influentes figuras da vida social e política macaense, com os quais estabeleceu as melhores relações de amizade, nomeada-mente Francisco Hermenegildo Fernandes e António Joaquim Bastos.Fundou em Hong Kong, em 1894, a Sociedade para a Regeneração da China, que tinha como objectivo fomen-tar actividades revolucionárias contra a Dinastia Qing para derrubar o regime imperial e instalar um governo democrático no país. No ano seguinte, participou numa tentativa de golpe de estado em Guangzhou (廣州 , ou seja, Cantão), mas o golpe falhou e teve de fugir. Foi Francisco Fernandes que acolheu Sun Yat-sen em Macau e organizou-lhe a fuga para o Japão. Durante o seu exílio, viajou pelos Estados Unidos, Canadá e Europa.A rebelião armada contra a dinastia governante Qing, que ocorreu em Wuchang (武昌), província de Hubei, em 10 de Outubro de 1911, marcou o início da Revo-lução Xinhai (辛亥革命), que derrubou com sucesso a última dinastia imperial da China. Naquela altura, Sun Yat-sen encontrava-se em Denver, nos Estados Unidos da América e, ao ter conhecimento da Revolução, voltou
Volume LXII • 151PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS DE MACAUà China, à cidade de Nanjing, onde em 29 de Dezembro do mesmo ano foi designado presidente provisório da nova República da China.Retrato de Sun Yat-sen que se encontra exposto na Casa Memorial, sita na Rua de Silva Mendes nº 1.
152 • Colecção MosaicoMANUEL V. BASÍLIOAlém da referida casa-museu, designada Antiga Far-mácia Chong Sai, na Rua das Estalagens, nº 80, em Ma-cau, há ainda a Casa Memorial do Dr. Sun Yat-sen, na Rua de Silva Mendes, nº 1, bem como monumentos, vias públicas e outros locais que lhe são dedicados, designada-mente o Parque Municipal Dr. Sun Yat-Sen, um jardim multifuncional na zona norte de Macau; duas avenidas, uma em Macau, no NAPE, e outra na Taipa, denomi-nadas Avenida do Dr. Sun Yat-sen; e, estátuas de corpo inteiro, na Casa Memorial, no Hospital Kiang Wu e no Jardim do Parque Municipal, na zona norte de Macau.O troço da via que veio a integrar a Rua das EstalagensConforme se referiu, a Rua das Estalagens foi uma via que se prolongou à medida que os aterros para o lado oeste avançavam, indo até a então Rua Nova de El-Rei que, no ano seguinte à implantação da República Portu-guesa, passou a designar-se Rua de Cinco de Outubro.No âmbito da política de expropriações, por razões de utilidade pública, adoptada pelo governo, sobretudo na se-gunda década do século XX, os prédios existentes na Rua dos Mercadores, que estavam fora do alinhamento traçado para a nova via pública, foram expropriados e demolidos.
Volume LXII • 153PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS DE MACAUVerifica-se, por conseguinte, que há na Rua dos Mercado-res, locais onde existiram prédios que, depois de expropria-dos e demolidos, nunca mais voltaram a ser aproveitados para a construção de novos prédios, como aconteceu com os prédios números 2 a 6 e 1 a 11. Actualmente, a Rua dos Mercadores começa, do lado de numeração par, no prédio nº 8 e, do lado de numeração ímpar, no prédio nº 13.Nem todos os prédios do lado da numeração ímpar foram expropriados na mesma altura. Consta que, pri-meiramente, ocorreu um incêndio no Templo de “Nôi Wó”, em 1914, o qual destruiu parte das instalações do Templo, bem como vários prédios ali situados, incluindo os do início da Rua dos Mercadores, situação essa que foi depois aproveitada pelo governo português, aquando da expropriação de outros prédios vizinhos, para a abertura de uma via. Assim, tendo ali deixado um espaço livre, a Rua das Estalagens prolongou-se, desta vez, em sentido inverso, para o lado leste, até à junção com três vias exis-tentes: Rua de S. Paulo, Travessa dos Algibebes e Rua da Palha. Até então, o acesso, quer à Rua de S. Paulo, quer à Rua da Palha, a partir da Rua dos Mercadores, era feito pela Travessa dos Algibebes, outrora também conhecida por “Rua das Raparigas”, cuja designação consta de uma queixa feita por uma meretriz, publicada num Boletim do Governo.
154 • Colecção MosaicoMANUEL V. BASÍLIOTroço da via que foi aberto após o incêndio no Templo de ” Nôi Wó”, em 1914, e que, depois, ficou integrado na Rua das Estalagens. A parte anterior é mais larga, devido à demolição dos prédios expropriados. A Travessa dos Algibebes é uma das mais antigas vias de Macau, tendo outrora sido uma importante via de acesso à Rua de S. Paulo ou à Rua da Palha, passando pelo sítio conhecido por “Porta de Pedra”, antes do início da Rua Grande do Bazar.
Volume LXII • 155PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS DE MACAUO Templo de "Nôi Wó"Com a extensão da Rua das Estalagens a partir da Rua dos Mercadores para a extremidade leste, o Templo de “Nôi Wó” (女媧廟), também conhecido por Templo de “Leng Ngám Kwun” (靈巖觀廟 Leng Ngám Kwun Miu), ficou integrado naquela rua.Segundo consta, o Templo foi construído em 1888, com fundos angariados por mulheres de bordéis, de-pois de a prostituição em Macau ter sido regulamen-tada pelo governador Januário Correia de Almeida, Visconde de S. Januário.Não é muito comum a existência de um templo dedi-cado a “Nôi Wó Neong Neong” (女媧娘娘, ou seja à di-vindade “Nôi Wó”). O edifício que existe em Macau não tem a configuração de um templo tradicional, parecendo mais um simples prédio de cor ocre. Dizem que o antigo salão principal do Templo de “Nôi Wó” estava localizado naquele espaço aberto, mesmo em frente à actual entrada e que, devido ao incêndio ocorrido no inverno de 1914, aquele salão foi destruído. Seguidamente, em virtude da ampliação da rua, ordenada pelo governo português, o salão principal nunca mais foi reconstruído.A deusa “Nôi Wó” era outrora muito venerada por meretrizes, à qual oravam para pedir benção e protec-ção e, sobretudo, para alcançar um bom casamento, de forma a poder libertar-se da profissão e mudar de vida.
156 • Colecção MosaicoMANUEL V. BASÍLIOO prédio de cor ocre é o Templo de “Nôi Wó” (女媧廟 , Nôi Wó Miu), localizado na junção entre a Travessa de Algibebes, Rua da Palha, Rua de S. Paulo e Rua das Estalagens.
Volume LXII • 157PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS DE MACAUEntrada do Templo de “Nôi Wó”.
158 • Colecção MosaicoMANUEL V. BASÍLIOOnde se situava a Porta de Pedra?Várias pesquisas foram feitas com vista a encontrar a localização e a finalidade da Porta de Pedra (em chinês, “Sék Cháp Mun” 石閘門). No entanto, poucas infor-mações foram encontradas, tanto em português, como em chinês, a respeito daquela Porta e as que existem são, de um modo geral, baseadas em suposições e sem menção da devida fonte. Vários mapas antigos, incluin-do mapas chineses, foram examinados, não tendo sido encontrada qualquer referência à localização da Porta de Pedra, bem como referência em documentos quanto ao ano de construção e demolição. Nada consta, também, ter sido uma das portas da cidade, porquanto esta porta, naquela zona, se situava próximo da igreja de Santo An-tónio, conhecida por Porta de Santo António.Salvo melhor opinião, a Porta de Pedra teria sido uma das portas idênticas a outras que existiram em vários lo-cais da cidade, tal como o acesso alpendrado da Rua do Gamboa ou aquele que os chineses dizem ter existido na Rua da Alfândega, denominado “Hông Chéong Mun” (Portal de Janela Vermelha). Naqueles tempos, havia muitas portas ou portais alpendrados, em pátios, becos e travessas, cujas portas se fechavam, sobretudo no período da noite, para protecção dos moradores. Macau era então um local de atracção para emigrantes chineses, muitos dos quais vinham aventurar-se em busca de uma vida melhor.
Volume LXII • 159PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS DE MACAUEm meados do século XIX, há notícias de que o gover-no proibiu o fecho de tercenas para servirem de “habitação a chinas, pela maior parte vadios, e sem ocupação conheci-da”, tendo até a Procuratura intimidado “o principal cabeça de rua para dar semanalmente uma lista de todos os chinas vadios, e de carácter suspeito, de que ele tivesse notícia”. Há também notícia de que, “nos sítios da Praia Pequena, dos Faitiões e Tarrafeiro, estão os chinas de novo levantando bar-racas a despeito de Ordens, que sobre isto se tem ultimamente publicado” e que, segundo consta de um Edital, “é inteira-mente proibido edificar barracas naqueles sítios”.Ora, os “sítios da Praia Pequena” eram onde se fixa-ram os portugueses, desde os primórdios da fundação de Macau e, segundo consta, só em 1688 é que por ali se estabeleceu a Hopu, a alfândega chinesa, vulgarmente conhecida por “Tái Kwán” (大關 , ou seja, a alfândega grande ou hopu grande), próximo da Calçada do Am-paro e, por esse motivo, esta via é designada, em chinês, “Tái Kwán Ché Hong” (大關斜巷, “Tái Kwán”, alfân-dega grande, e “Ché Hong”, travessa).Consta também que a população chinesa, nomea-damente emigrantes chineses, começou a ocupar, a partir de princípios do século XIX, os sítios da Praia Pequena e ali levantaram barracas para habitação. Teria sido esta uma das razões por que construíram a Porta de Pedra para impedir a entrada no bairro do Bazar de “chinas vadios e de carácter suspeito”, que lá iam praticar roubos, numa altura em que não havia po-
160 • Colecção MosaicoMANUEL V. BASÍLIOEsta foto, tirada em Março de 2020, mostra a actual situação de 3 vias: no lado esquerdo, a Rua das Estalagens; no lado direito, a Rua de Nossa Senhora do Amparo; e, a rua pedonal, revestida com calçada à portuguesa, é a Rua dos Ervanários.liciamento, visto que a Guarda do Bazar só foi criada em 1857. Provavelmente sim, tal como as outras portas ou portais alpendrados, que existiram no passado. Pa-rece não haver fundamento suficiente, num dos textos consultados, que a Porta de Pedra tinha por finalidade a cobrança de impostos, visto que o posto principal da alfândega chinesa, a Hopu Grande, estava localizado
Volume LXII • 161PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS DE MACAUali próximo. É de recordar que nos “sítios da Praia Pe-quena” já havia habitações de portugueses, anos depois da fundação de Macau.A Porta de Pedra já não existe, nem se sabe quando foi demolida. No entanto, desde os tempos da nossa ju-ventude ouvíamos falar de “Sék Cháp Mun” 石閘門 (石 “Sék”, quer dizer, pedra, e 閘門“Cháp Mun”, pode significar, nomeadamente, portão) e, ao longo de anos, perguntámos, em diversas ocasiões, a velhos residentes onde se situava “Sék Cháp Mun”. As respostas pouco va-riavam: “É por ali”, apontando para o cruzamento entre a Rua das Estalagens com o início na Rua dos Mercadores. Hoje em dia, pouca gente sabe, sobretudo a nova geração, onde é o local outrora conhecido por “Sék Cháp Mun”.Por não se saber ao certo onde estava erigida a Porta de Pedra, durante muito tempo, esse nome passou a ser usado para designar uma pequena zona, que abrangia até o início da Travessa dos Algibebes, e este argumento pode basear-se num Anúncio, em que publicitou o tres-passe de uma loja de fazendas, estabelecida na Rua dos Mercadores nº 29, no qual consta, na respectiva tradução para a língua chinesa, que dita loja se situava em “Sék Cháp Mun”. Não existe na toponímia local nenhuma rua designada Porta de Pedra ou “Sék Cháp Mun”, caso con-trário, em chinês, ter-se-ia acrescentado o carácter “kái” (街 , rua). A zona designada “Sék Cháp Mun”, com a construção de prédios, foi então transformada numa via, que mais tarde ficou integrada na Rua Grande do Bazar,
162 • Colecção MosaicoMANUEL V. BASÍLIOpassando, a partir de 1869, a ser apenas denominada Rua dos Mercadores. Apesar disso, a designação “Sék Cháp Mun”, atribuída àquele local, foi perdurando na memória de muita gente até cair em desuso.Um troço da Rua dos Mercadores, outrora conhecida por “Sék Cháp Mun” (石閘⾨). Este anúncio foi feito no ano 34º do Imperador Guangxu (光緒 , em cantonense, Kwóng Sôi), correspondente ao ano de 1908.
Volume LXII • 163PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS DE MACAUO prédio nº 29, a que se refere o anúncio, é o que está pintado de cor ocre, junto da esquina da Travessa dos Algibebes. Era ali que terminava a zona conhecida por Sék Cháp Mun e a partir da Travessa dos Algibebes é que começava a outrora Rua Grande do Bazar, ou Tái Kai, em chinês. O troço da via conhecida por “Porta de Pedra” e a Rua Grande (大街, Tai Kái) vieram mais tarde a formar uma única via, denominada Rua dos Mercadores.
164 • Colecção MosaicoMANUEL V. BASÍLIOA Rua das Estalagens no presenteA Rua das Estalagens, tal como outras vias adjacentes, deixou de ter a importância do passado, e muitas das anti-gas lojas, ou já se deslocaram para outros locais, ou já ces-saram actividade, visto que aquela via não é normalmente visitada por turistas, apesar de algumas associações locais organizarem, de tempos a tempos, actividades culturais e recreativas, ou pequenas feiras de artesanato local, com o objectivo de dinamizar aquela zona antiga da cidade. Ao longo da rua, ainda existem algumas lojas relativamente antigas, mantendo-se ali uma ourivesaria, e acolá, uma loja de fazendas. Outras, apesar de estarem já encerradas há vários anos, continuam com as velhas tabuletas ou dísticos comerciais afixados por cima da porta do estabe-lecimento, talvez à espera de melhores dias.A Rua das Estalagens juntamente com a Rua dos Er-vanários e a Rua dos Mercadores eram conhecidas como as “Três Ruas” (12) que deram origem a uma associação de negociantes chineses, porque eram as vias mais impor-tantes e movimentadas dentro do então Bairro Chinês. Destas três vias, a Rua dos Mercadores, devido à sua loca-lização, ainda se mantém com alguma pujança. Na zona da Rua dos Ervanários, incluindo a Rua de Nossa Senho-ra do Amparo e a Calçada do Amparo, o comércio está a ser revitalizado, desde princípios de 2015, por iniciativa de jovens empresários, que estão criando novos e modernos
Volume LXII • 165PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS DE MACAUestabelecimentos, sobretudo relacionados com a restau-ração. Para atraírem visitantes àquela zona, renovaram prédios antigos a seu gosto, pintando as fachadas com cores variadas e vistosas, engalanando aquelas ruas com guarda-chuvas, lampiões e bandeirinhas, dando, assim, um ar festivo e alegre às pessoas que por lá passam. A Rua das Estalagens, porém, que outrora fora uma das mais importantes e movimentadas vias comerciais, continua em estado dormente, carecendo, portanto, de iniciativas que possam atrair visitantes para aquela zona da cidadeAspecto da Rua das Estalagens, em Dezembro de 2019. Parte do troço anterior foi alargado devido ao alinhamento para as novas construções. O troço posterior mantém a largura original.
166 • Colecção MosaicoMANUEL V. BASÍLIONOTAS:(1) Vara de bambu (em cantonense: tám kón 擔桿) que serve para transportar ao ombro, seja o que for, pendurado em cada uma das extremidades da vara.(2) “Lou Sék T’óng” era um dique, com cais ou rampa-cais, que se construiu numa enseada para atracagem de embarcações chinesas, servindo também de abrigo, em caso de tufões. Foi próximo desse dique que mais tarde se construiu a então Rua do Mastro (actualmente designada Rua de Camilo Pessanha). A respeito de “Lou Sék T’óng”, ver: https://cronicasmacaenses.com/2018/02/05/em-curiosidades-de-vias-publicas-de-ma-cau-manuel-basilio-nos-conta-sobre-a-antiga-rua-do-mastro/(3) A Rua Grande do Bazar (em chinês, “Tai Kái” 大街) situava-se mais ou menos na actual Rua dos Mercadores.(4) O Templo de Hóng Kung (康公廟) é também designado Hóng Chan Kwan Miu (康真君廟). Diz-se que a divindade venerada no Templo é Li Lie (李烈 , em cantonense, lê-se Lei Lit), marechal da dinastia Han, a quem foi atribuído o título “Hóng Kung”, devido a grandes conquistas que alcançou na protecção do reino, tornando-se depois uma divindade.(5) Os hotéis de estilo ocidental começaram a aparecer em Macau, na segunda metade do século XIX, designadamente depois de o comerciante chinês Pedro Hing Kee (aliás, Leong Hing Kee) ter estabelecido o famoso Hotel Hing Kee, na então Rua da Praia Grande. Por motivos de mudança de proprietário, o hotel passou a ser designado sucessivamente por Hotel Macao, New Macao Hotel e, mais tarde, Hotel Riviera. O Hotel Ri-viera abriu no dia 15 de Janeiro de 1928 e encerrou no dia 24 de Fevereiro de 1969, tendo o edifício sido demolido em Feve-reiro de 1971. Seguidamente, no mesmo local, foi construído
Volume LXII • 167PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS DE MACAUo edificio comercial Nam Tung (南通商業大廈) , concluido em 1974. O actual edificio foi reconstruido em 1998, estando o rés-do-chão a ser usado para instalações de uma das depen-dências do Banco da China.(6) Prédios, normalmente de 2 pisos, de estrutura tipicamente chi-nesa, em que o rés-do-chão servia como loja e o andar superior se destinava à habitação.(7) Casa de Pasto era um termo utilizado para designar restauran-tes chineses e cujo termo já caiu em desuso.(8) Confraria dos Chinas do Bazar foi a versão que se usou, em português, na inscrição feita na pedra colocada na Travessa das Janelas Verdes. Presentemente, o prédio nº 69 é a sede da Associação de Beneficência e Assistência Mútua dos Morado-res das 6 Ruas Chou Toi (澳⾨草堆六街區坊眾互助慈善會), fundada em 1967.Fazem parte destas 6 ruas, a Rua dos Ervanários, a Rua de Nossa Senhora do Amparo, a Rua de S. Paulo, um troço da Rua dos Mercadores, a Travessa dos Algibebes e a Rua das Es-talagens. A denominação, em chinês, da Rua das Estalagens é “Chou Toi Kái”, e a origem do topónimo “Chou Toi” está explicada no artigo “Antiga Rua do Mastro”, publicado em Crónicas Macaenses.(9) Termo usado naquela altura para designar loja de venda a re-talho ou estabelecimento comercial. Botica também significa drogaria ou farmácia.(10) Na inscrição está mencionado o nome de Lourenço Marques, que exerceu várias vezes e em anos diferentes o cargo de Pro-curador.(11) Sun Yat-sen era conhecido por vários nomes, designadamente pelo nome de nascimento Sun Wen (孫文 , em cantonense, lê-se Sün Man); pelo nome oficial Sun Deming (孫德明 , em cantonense, lê-se Sün Tâk Meng); pelo seu nome literário
168 • Colecção MosaicoMANUEL V. BASÍLIORixin (日新 , em cantonense, Yât Sân) e, mais tarde, Yixian (逸仙 , em cantonense, Yât Sin, ou, conforme a romanização, “Yat-sen”). Ele é também conhecido por Sun Zhongshan (孫中山 , em cantonense, lê-se Sün Chông Sán).(12) Junto à Rua Sul do Mercado de S. Domingos, ainda existe um templo, designado “Sám Kái Wui Kun” 三街會館 (ou seja, “Sám Kai” 三 街 , três ruas, e “Wui Kun” 會館 , sede de uma corporação”, associação ou agremiação), o qual foi construído em data desconhecida, provavelmente em finais do século XVIII, onde outrora representantes do comércio de três ruas do Bairro Chinês (Rua das Estalagens, Rua dos Ervanários e Rua dos Mercadores) se reuniam, sempre que necessário, para tratar de assuntos de interesse comum. Esta “associação das três ruas” é tida como precursora da Associação Comercial de Macau, que só foi fundada por negociantes chineses em 1913. Com a mudança da sede da associação, o Templo passou a servir exclusivamente como local de culto da divindade Kuan Tai ou, em mandarim, Guan Di (關帝), símbolo da lealdade e justiça.Publicações consultadas: Boletins da Província de Macau e Timor, Mapas de Macau do século XIX, Cadastros de Vias Públicas e Outros Lugares de Macau e, também, publicações diversas.(Salvo indicação em contrário, as fotos antigas foram baixadas da internet, designadamente do grupo Antigas Fotos de Macau).
Volume LXII • 169PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS DE MACAUO troço da via do lado esquerdo, outrora conhecido por “Sék Cháp Mun”, foi mais tarde integrado na Rua dos Mercadores. Apesar disso, os chineses mantiveram aquela designação por muitos anos. A via do lado direito é a Travessa dos Algibebes.
170 • Colecção MosaicoMANUEL V. BASÍLIOAltar de rua, na Travessa dos Mercadores. Consta que este altar foi erigido numa das fases do aterro, para assinalar o local onde terminavam as “dezoito divisórias” das casas construídas ao longo da travessa. Ao fundo da via é a Rua de Camilo Pessanha.
Volume LXII • 171PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS DE MACAUUma viela que tem comunicação entre a Rua de Camilo Pessanha e a Rua dos Mercadores. É a Travessa dos Alfaiates. À entrada, do lado direito, há um altar de rua e, normalmente, quando um morador por lá passa, pára diante do altar, retira um ou mais pivetes de um saco ali pendurado, acende-os, faz uma vénia às divindades e coloca os pivetes no devido sítio.
172 • Colecção MosaicoMANUEL V. BASÍLIOOutro altar de rua, na Travessa dos Becos, que dizem ser muito antigo.
Volume LXII • 173PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS DE MACAUUm troço da Rua de Camilo Pessanha, visto a partir da Rua das Estalagens.
174 • Colecção MosaicoMANUEL V. BASÍLIOOutro aspecto da Rua das Estalagens, vendo-se na parede do edifício do lado esquerdo 7 caracteres chineses, relativos a uma ourivesaria, a mais antiga ainda em actividade. Outrora, havia diversas lojas idênticas em toda a rua.
Volume LXII • 175PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS DE MACAURua das Estalagens, vista em direcção à Rua de Cinco de Outubro. A ourivesaria que se vê do lado direito é a mais antiga que ainda se encontra em actividade.
176 • Colecção MosaicoMANUEL V. BASÍLIOA mais antiga loja de fazendas que resta na Rua das Estalagens. Era uma das actividades mais florescentes daqueles tempos.
Volume LXII • 177PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS DE MACAUAlfaiataria Foo Man Lau, que encerrou actividade há muitos anos, era um estabelecimento que, além de uniformes que fazia, sobretudo para agentes militarizados, confeccionava também galhardetes, pavilhões e bandeiras, incluindo a bandeira portuguesa, manualmente, com a sua velha máquina de costura.
178 • Colecção MosaicoMANUEL V. BASÍLIODuas lojas antigas, cujas actividades se encontram encerradas há muito tempo. A Loja de Fazendas Veng On era muito antiga, dado que a sua denominação, em chinês, contém o carácter 號 (lê-se “hou”, em cantonense), que significava “estabelecimento comercial”, e cuja designação já caiu em desuso.
Volume LXII • 179PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS DE MACAUAlgibebe é um tipo de estabelecimento ou actividade praticamente extinta em Macau. Há ainda na toponímia local a Travessa dos Algibebes. No Dicionário Priberam da Língua Portuguesa explica que algibebe é a “pessoa ou loja que vende roupa pronta a vestir, nova ou usada, mas geralmente de fraca qualidade”. No entanto, em Macau, o algibebe vendia sobretudo peças de pano, roupas chinesas, incluindo vestes dos mortos. Na tabuleta da Loja de Algibebe Veng Sang estão escritos os caracteres chineses 布疋 (“pou p’ât”, isto é, peça de pano ou fazenda) e 壽衣 (“sâu yi”, vestes dos mortos).
180 • Colecção MosaicoMANUEL V. BASÍLIOTemplo “Sám Kái Wui Kun” 三街會館 (ou seja, “Sám Kai” 三 街 , três ruas, e “Wui Kun” 會館 , sede de uma corporação, associação ou agremiação), junto da Rua Sul do Mercado de S. Domingos, onde outrora representantes do comércio de três ruas do Bairro Chinês (Rua das Estalagens, Rua dos Ervanários e Rua dos Mercadores) se reuniam, sempre que necessário, para tratar de assuntos de interesse comum.
Volume LXII • 181PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS DE MACAUAspecto da Rua dos Mercadores, ca. 1970.
182 • Colecção MosaicoMANUEL V. BASÍLIOA Rua das Estalagens, ca. 1990. No lado superior direito, vê-se a placa toponímica desta via.
Volume LXII • 183PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS DE MACAUA Rua dos Mercadores, em Março de 2020.