• Título:  O LEGADO LUSO NA RAEM – Uma reinterpretação do seu signi icado,                 vinte anos depoisEditor:  Instituto Internacional de MacauAutor:  Jorge A. H. RangelCapa e fotogra ia:  António R. J. MonteiroFotogra ia:    António  R.  J.  Monteiro,  Macau  Focus  ‑  IIM,  Macaulink,  Jornal        Tribuna de MacauComposição grá ica:  Chou Wai InColecção:  Mosaico, Volume LXITiragem:  300Impressão:  Castle‑Productions Ltd ‑ Decor, Events & Marketing ProductionsISBN:  978‑99965‑59‑53‑2Patrocínio:  Macau, Dezembro de 2020Todos os direitos reservados.  Instituto Internacional de Macau (IIM)Rua de Berlim, 204, Ed ifı́cio Magni icent Court, 2.º (NAPE), MacauTelefone:  (853)2875 1727 / (853)2875 1767Fax:  (853)2875 1797www.iimacau.org.mo  ⃓   iim@iimacau.org.mo
  • O LEGADO LUSO NA RAEM – Uma reinterpretação do seu significado, vinte anos depoisJORGE A. H. RANGEL
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  • Nota biográficaJorge Alberto Hagedorn Rangel, presidente do IIM, nasceu  em  Macau,  onde  a  famı́lia,  oriunda  de  Portugal  e com ligações à Alemanha, a Goa, à China e ao Japão, reside permanentemente há dez gerações. Foi  membro  do  Governo  de  Macau,  com  a  tutela das  áreas  da  Administração  Pública,  Educação,  Cultura, Juventude  e  Desporto,  deputado,  com  a  presidência  das comissões  permanentes  dos    Assuntos  Constitucionais, Direitos,  Liberdades  e  Garantias  e  do  Regimento  e Mandatos,  presidente  da  Fundação  Macau,  director  do Turismo  e  da  Comunicação  Social  e  presidente  da comissão instaladora do Instituto Politécnico de Macau.Desenvolveu  e  mantém  ainda  intensa  actividade académica,  associativa  e  no  seio  de  organizações internacionais, dedicando‑se agora mais a estudos sobre a memória  de  Macau  e  à  investigação  de  matérias relacionadas com a China contemporânea e a região Asia‑Pacı́ ico.Volume LXI • 5
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  • INTRODUÇÃO
  • Este trabalho, intitulado “O legado luso na RAEM – uma reinterpretação do seu signi icado, vinte anos depois”, resultou  da  adaptação  e  actualização  de  diversas comunicações apresentadas, pelo autor, em conferências e seminários  realizados  na  Universidade  Católica Portuguesa, na Associação da Força Aérea Portuguesa e na Universidade  de  Aveiro,  esta  última  no  âmbito  do  II Congresso  Internacional  “Diálogos  Interculturais  Portugal – China”, levado a efeito de 13 a 15 de Março de 2019 pelo Instituto  Confúcio,  com  a  colaboração  do  Instituto Internacional de Macau.Foi  nosso  propósito  identi icar,  sinteticamente,  os aspectos mais relevantes e signi icativos desse legado, nas suas  variadas  vertentes,  e  interpretar  a  forma  como  se conseguiu  valorizar  o  património  cultural  que  justi icou que  lhe  tivesse  sido  atribuı́do  o  estatuto  de  Região Administrativa  Especial  de  Macau  (RAEM)  da  República Popular da China (RPC), dotada de ampla autonomia e de órgãos de governo próprio. Este estatuto, de acordo com a Declaração Conjunta e a Lei Básica da RAEM, deve vigorar até 2049.Duas décadas após a transferência do exercı́cio da 8 • Colecção Mosaico
  • soberania,  de  Portugal  para  a  RPC,  é  justo  realçar,  não obstante  algumas  insu iciências,  ou  mesmo  eventuais desvios,  a  forma  reconhecidamente  positiva  como  a herança de Portugal foi sendo amplamente respeitada.Em  todos  os  perı́odos  de  mudança  histórica,  são inevitáveis as dúvidas, as inquietações e as incertezas, pelo que  muitos  poderão  não  ter  acreditado  que,  decorrido  o perı́odo de  transição,  o  acordo  irmado  e  rati icado pelos dois  Estados,  em  1987,  sobre  “a  questão  de  Macau”,  na forma duma Declaração Conjunta1, pudesse alcançar    tão   signi icativa e icácia na sua execução, espelhada no regular funcionamento da região especial que dele resultou.Coube ao Governo de Macau a responsabilidade de realizar, em nome de Portugal, de 1987 a 1999, um vasto conjunto  de  projectos  em  todas  as  áreas,  das  infra‑estruturas  à  educação,  da  acção  social  à  organização jurı́dica  e  judiciária  e  da  consolidação  inanceira  à a irmação  da  sociedade  civil,  visando  a  preparação  do território  para  o  novo  estatuto  polı́tico‑administrativo acordado pelos dois Estaods.1    Declaração  Conjunta  do  Governo  da  República  Portuguesa  e  do  Governo  da  República   Popular da China sobre a Questão de Macau, assinada em Pequim a 13 de Abril de 1987, pelo Primeiro‑ Ministro Anıb́al Cavaco Silva e pelo Primeiro‑Ministro Zhao Ziyang.Volume LXI • 9
  • Alguns  anos  após  a  transição,  reconhecendo  a vocação histórica de Macau como entreposto com o mundo lusófono,  as  autoridades  centrais  chinesas  criaram  o Fórum para a Cooperação Económica e Comercial entre a China  e  os  Paı́ses  de  Lı́ngua  Portuguesa,  com  o secretariado  e  serviços  de  apoio  permanentemente instalados  em Macau.  Pouco  depois,  em 2005,  a  UNESCO integrou  o  centro  histórico  de  Macau  na  sua  prestigiada lista do Património Mundial.  Com  o  rápido  desenvolvimento  da  sua  ambiciosa iniciativa de dimensão universal denominada “Uma Faixa, Uma  Rota”,  os  objectivos  do  Fórum  para  a  Cooperação foram  reajustados  e  o  seu  funcionamento  articulado  com esse enorme projecto, cabendo à região de Macau o papel de  plataforma  de  cooperação  com  os  paı́ses  de  lı́ngua portuguesa.  Entretanto,  foi  também  atribuı́do  à  região  o papel  de  centro  mundial  de  turismo  e  lazer,  acolhendo mais de 30 milhões de visitantes por ano e sendo a  única parte  da  China  onde  os  jogos  de  fortuna  ou  azar  estão autorizados.  Além  de  ser  um  atractivo  turı́stico  da maior relevância,  esta  é  também  a  maior  fonte  de  receitas  de Macau, permitindo que o seu rendimento “per capita” seja, presentemente, um dos mais altos do mundo. 10 • Colecção Mosaico
  • Um  novo  e  decisivo  desa io  foi  recentemente lançado a Macau, o qual  tem a ver com a sua progressiva integração  num  espaço  mais  amplo  –  o  da  Grande  Baı́a Guangdong  ‑  Hong  Kong  ‑  Macau,  que  compreende  nove cidades do grande delta do Rio das Pérolas e as suas duas regiões administrativas especiais (Hong Kong e Macau). Foi  o  legado  luso,  cultural  e  humano,  enriquecido por  povos  e  culturas  de  outras  origens,  que,  em  larga medida,  justi icou  a  criação  da  segunda  região administrativa especial chinesa com as caracterı́sticas que tem.  Esse  legado,  com  um  sistema  económico  e  uma maneira  de  viver  diferentes,  marcou  a  sua  singularidade. Duas décadas volvidas, a pergunta que é legı́timo fazer é se esse  legado  continuará  a  ser  importante,  sabendo‑se  que poderá já não ser determinante, no processo de construção do  seu  futuro.  E  matéria  que  se  mantém  prioritária  nos nossos  estudos  e  que,  até  por  isso,  iremos  acompanhar com a maior atenção, sendo nossa  irme convicção que os planos  em  elaboração,  para  aplicação  nas  próximas décadas,  só  serão  verdadeiramente  consequentes  se houver  uma  participação  efectiva  das  forças  vivas  locais mais  esclarecidas  e  conhecedoras  dos  caminhos  e  das opções que nos permitiram chegar tão longe.Volume LXI • 11
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  • A TRANSIÇÃO POLÍTICO--ADMINISTRATIVA
  • Os desa ios  eram enormes,  em  todos  os  domı́nios da  actividade  governativa  e  no  seio  da  sociedade  civil, quando  se  de iniu  o  enquadramento  polı́tico  do  processo de transição e se escolheu a data de 19    de Dezembro de 1999 para a sua conclusão, com o estabelecimento formal, no  dia  seguinte,  da  Região  Administrativa  Especial  de Macau  (RAEM),  marcando  o  im  duma  presença administrativa plurissecular de Portugal.Enquanto   no    foro   diplomático     prosseguiam os contactos regulares, no  âmbito  de  um  Grupo de Ligação Conjunto2, coube ao Governo de Macau a responsabilidade  de    pôr    em    execução    um  vastı́ssimo  programa  de realizações,  que  iam    das  infra‑estruturas  à  educação,  da organização  jurı́dica  e  judiciária  à  expansão  dos  serviços sociais  e  da  estabilização  inanceira  à  consolidação  das instituições.  Todas  estas  medidas  apontavam  para  o reforço  do  “segundo  sistema”,  no  conceito  “um  paı́s,  dois sistemas”3  que  inspirou  a  criação  o icial  das  regiões administrativas  especiais  chinesas,  dotadas  de  elevado 2      A  im  de  assegurar  a  aplicação  efectiva  da  Declaração  Conjunta  e  “criar  as  condições apropriadas para a transferência de poderes em 1999”, foi instituıd́o pelos dois Governos o Grupo de Ligação Conjunto Luso‑ Chinês.3    Conceito  de inido  por  Deng  Xiaoping,  o  timoneiro  da  abertura  da  China,  visando  a “reuni icação da pátria  chinesa”,  através da  integração pacı́ ica  e  suave de Hong Kong e de Macau e, mais tarde, de Taiwan.14 • Colecção Mosaico
  • grau  de  autonomia  e  com  a  maneira  de  viver  das  suas populações,  bem  como  o  respectivo  sistema  económico, salvaguardados. Neste  contexto,  foi  o  território  transformado num imenso  estaleiro,  com  múltiplas  obras  simultaneamente projectadas e  lançadas, numa verdadeira corrida contra o tempo,  visando  dotá‑lo  das  infra‑estruturas  necessárias, que  comportavam  um  aeroporto  internacional,  velha aspiração  de  sucessivas  gerações  constantemente protelada, pontes e estradas, um renovado parque escolar, desportivo,  cultural  e  social  e  planos  urbanı́sticos consistentes.Ao mesmo    tempo   –   e   porque    tudo   era, a inal, prioritário – trabalhou‑se, determinada e aceleradamente, na  formação  de  quadros  médios  e  superiores;  na “localização”  das  leis  e  da  lı́ngua  chinesa,  que  se  tornou o icial  em  1992,  a  par  da  portuguesa;  na  reestruturação dos serviços públicos; no aumento dos apoios e estı́mulos ao associativismo; na    “internacionalização”   de   Macau,     reforçando  as  suas  ligações  à  Europa  e  aos  paı́ses lusófonos; nas complexas tarefas da produção legislativa e da  tradução  jurı́dica;  no  alargamento  da  participação Volume LXI • 15
  • cıv́ica  e  polı́tica;  no  desenvolvimento  dos  sectores  com maior  impacto  directo  na  vida  da  população,  como  a educação,  a  saúde,  a  habitação  e  a  acção  social,  para  os quais  foram  canalizados  abundantes  recursos;    e,  na  fase inal, na passagem das responsabilidades administrativas e na preparação da transferência de poderes. De salientar  é também o facto de, durante todo o perı́odo de transição4, o Governo de Macau  ter  abraçado o  princı́pio  do  equilı́brio orçamental,  ao  mesmo  tempo  que,  rejeitando  o endividamento  público,  soube  impulsionar  o desenvolvimento  sustentável  através  de  investimentos correctamente  dimensionados  e  de  um  sistema  iscal estável e atraente, caracterizado por impostos de reduzido valor.Quando,  naquela  noite  fria  de  19  para  20  de Dezembro,  numa  cerimónia  inolvidável  pelo    seu    alto signi icado,  uma  bandeira  era  arriada  e  outra  içada  e  os mais  altos  magistrados  das  duas  nações  selavam simbolicamente  o  compromisso  com  um  histórico  aperto 4    O    perıódo  de  transição  foi  o  perıódo  compreendido  entre  a  entrada  em  vigor  da Declaração Conjunta e o dia 19 de Dezembro de 1999.5      O  General  Vasco  Rocha  Vieira  foi  o  último Governador  de Macau.  E  reconhecido  o  seu contributo, muito  relevante,  para  o  sucesso  do  processo  de  transição.  Os  dois  Presidentes eram Jorge Sampaio e Jiang Zemin.16 • Colecção Mosaico
  • de  mãos  perante  2500  convidados  e  altas  entidades  de muitos  paı́ses  e  câmaras  de  televisão  com  cobertura mundial,  tı́nhamos  chegado  ao  im  de  um  tempo  de Portugal no Oriente5. O território iria,  a partir dessa data, ixada na Declaração Conjunta, enfrentar o futuro que para ele tinha sido traçado pelos dois Estados com legitimidade de intervenção na de inição do seu novo  igurino polı́tico.Volume LXI • 17
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  • A RAEM
  • Na  Declaração  Conjunta  havia  sido  acordado  que os  sistemas  social  e  económico permaneceriam em vigor, mantendo‑se  também  basicamente  inalteradas  as  leis então  vigentes,  e  que  seriam  assegurados  “todos  os direitos  e  liberdades  dos  habitantes  e  outros  indivı́duos em  Macau”,  designadamente  as  liberdades  pessoais,  as liberdades  de  expressão,  de  imprensa,  de  reunião,  de associação, de deslocação e migração, de greve, de escolha de pro issão, de  investigação académica, de  comunicação, de religião e de crença, e o direito à propriedade privada.A  Declaração  Conjunta  estabeleceu,  igualmente, que  a  região  de iniria,  por  si  própria,  as  polı́ticas  de cultura,  educação,  ciência  e  tecnologia  e  protegeria  o património  cultural  de  Macau,  podendo  também  ser mantidas as relações económicas e culturais e celebrados acordos com paı́ses, regiões e organizações interessadas. O estatuto  de  porto  franco  e  território  aduaneiro  separado, para  desenvolvimento  de  actividades  económicas,  seria também  mantido,  assim  como  o  livre  luxo  de  capitais,  a circulação de moeda própria (a pataca de Macau) e a sua convertibilidade,  comprometendo‑se  o  Governo  Popular Central  da  China  a  não  arrecadar  quaisquer  impostos  na região,  cuja  independência  inanceira  icou,  desta  feita, 20 • Colecção Mosaico
  • contemplada.No   que    respeita   a   Portugal,    icou   expressa     a possibilidade de a região estabelecer relações económicas de benefı́cio mútuo, sendo também  tidos em consideração os  interesses  económicos  de  Portugal  e  de  outros  paı́ses em  Macau,  ao  mesmo  tempo  que  se  estabeleceu  que  os interesses  dos  habitantes  de  ascendência  portuguesa seriam protegidos em conformidade com a lei. E, quanto à lı́ngua portuguesa,  garantiu‑se  a  continuidade do  seu uso nos  organismos  do  Governo,  no  órgão  legislativo  e  nos tribunais da região.No  quadro  da  sua  autonomia,  foram  também atribuı́dos  à    região    poderes    executivo,    legislativo  e judicial  próprios,  incluindo  o  de  julgamento  em  última instância, devendo os  lugares de membros   do Governo e do órgão legislativo ser ocupados por habitantes locais6.Foi em consonância com estes parâmetros que se elaborou a  Lei  Básica  da Região  Administrativa  Especial  de Macau 6   Os primeiros Chefes do Executivo foram Edmund Ho Hau Wah (1999‑ 2009) e Fernando Chui Sai On (2009‑2019), sendo ambos naturais de Macau. Em Dezembro de 2019 assumiu funções Ho Iat Seng, que tem décadas de permanência em Macau. Volume LXI • 21
  • da República Popular da China, aprovada em 19937, a qual incorporou  aquelas  mesmas  polı́ticas  fundamentais  e de iniu  a  estrutura  polı́tico‑administrativa  e  o funcionamento  da  região.  A  sua  feitura  foi  da responsabilidade exclusiva da China, que envolveu na sua preparação residentes permanentes de Macau.Para muitos, para além da história, da memória, da identidade  e  do  património  arquitectónico,  cultural  e humano,  foram,  indubitavelmente,  os  direitos,  as liberdades e as garantias, no seu conjunto, anteriormente assegurados pela Constituição da República Portuguesa, a melhor expressão viva do legado luso em Macau. São esses direitos  e  liberdades  que  lhe  garantem  um  estatuto diferente. Sem eles, o “segundo sistema” não teria razão de ser.A Lei Básica,  indo mais  longe do que a Declaração Conjunta,  declarou  o  português  também  como  lı́ngua o icial8.7    Aprovada  em  31  de  Março  de  1993,  na  Primeira  Sessão  da  Oitava  Legislatura  da Assembleia Popular Nacional da R.P.C., e promulgada, na mesma data, pelo Presidente Jiang Zemin.8     O artigo 9.º da Lei Básica estabelece que “além da lıńgua chinesa pode usar‑ se também a lıńgua  portuguesa  nos  órgãos  executivo,  legislativo  e  judiciais  da  Região  Administrativa Especial de Macau, sendo também o português lıńgua o icial”.22 • Colecção Mosaico
  • COOPERAÇÃO MULTIFACETADA
  • A  RAEM  ganhou  uma  nova  dimensão  nas  suas relações  com  o  exterior,  quando,  em  2003,  foi  criado  o Fórum para a Cooperação Económica e Comercial entre a China  e  aos  Paı́ses  de  Lı́ngua  Portuguesa,  com  o secretariado  e  serviços  de  apoio  ali  permanentemente instalados.Esta  decisão  pragmática,  inteligente  e politicamente coerente com a visão estratégica da China na a irmação crescente do seu papel no mundo,  representou também o reconhecimento  de initivo  da vocação histórica de  Macau  como  entreposto  privilegiado  entre  povos  e 24 • Colecção Mosaico
  • culturas,  agora  com  novos  propósitos,  assumindo‑se  a região como plataforma o icial de cooperação, inicialmente com  objectivos  predominantemente  económicos  e abrangendo,  paulatina  e  estavelmente,  outras  áreas,  à medida que as estruturas de suporte ao alargamento dessa cooperação,  que  foi  produzindo  resultados  inanceiros encorajadores  para  todas  as  partes  envolvidas,  se  foram consolidando e a experiência na sua promoção e gestão foi sendo enriquecida.A  capacidade  de  resposta,  rápida  e  segura,  das autoridades  e  instituições  locais  a  este  oportuno  desa io lançado pelo Governo Central da China, tornou‑se possıv́el graças  às  condições  criadas  no  perı́odo  de  transição,  à forma  suave  e  consensual  como  se  processou  a transferência de poderes  e  aos passos dados no  inı́cio da nova fase do longo percurso daquele minúsculo território, assolado  por muitas  tempestades    naturais    e    polı́ticas,   mas    que  soube  alimentar  sempre  uma  ambição  legı́tima muito maior do que a sua limitadı́ssima geogra ia. Recebendo há  cinco  séculos  o primeiro  abraço de Portugal, Macau quis depois abraçar o mundo, sendo hoje património da humanidade. A visita a Macau, em 2010, do Volume LXI • 25
  • Primeiro‑Ministro  Wen  Jiabao9  constituiu  um  ponto  de viragem  nas  atribuições,  que  se  foram  tornando  mais extensas,  do  Fórum  para  a  Cooperação,  e  o  discurso lapidar  que  então  proferiu,  exaltando  o  valor  da cooperação  e  a  importância  da  lı́ngua  portuguesa,  como instrumento de comunicação no e com o mundo lusófono, deu um renovado  impulso e  incentivo  à missão de Macau no  exercı́cio  dessa  plataforma  de  cooperação,  não    só económica,  mas  também,  e  cada  vez  mais,  cultural  e social. Assim,  o  3.º  Plano  de  Acção  para  a  Cooperação, assinado em Novembro de 2010, pelos representantes dos paı́ses  de  lı́ngua  portuguesa  e    da  China,  reunidos  em Macau,  ampliou  as  vertentes  e  as  actividades,  nos domı́nios  da  administração  pública,    agricultura,    infra‑estruturas,    transportes    e  comunicações,  turismo,  saúde pública,  educação  e  recursos  humanos,  ciências  e tecnologia,  cultura,  rádio,  cinema  e  televisão.  Especial ênfase foi colocada na formação.Reuniões  subsequentes,  ao  mais  alto  nıv́el, con irmaram  esses  propósitos  e,  quando  a  RPC  lançou  a 9  A visita foi feita em Novembro de 2010, no âmbito da 3.ª Conferência Ministerial do Fórum para a Cooperação Económica e Comercial entre a China e os paıśes de lıńgua portuguesa.26 • Colecção Mosaico
  • sua  arrojada  Iniciativa  “Uma  Faixa,  Uma  Rota”,  procurou‑se, desde logo, integrar os programas do Fórum de Macau nos  objectivos  de inidos  nesse  imenso  novo  projecto polı́tico‑económico  inspirado  na  revitalização  das  antigas rotas da seda. Volume LXI • 27
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  • EDUCAÇÃO E FORMAÇÃO DE QUADROS
  • No desenvolvimento do Fórum para a Cooperação, Macau  passou,  quase  de  imediato,  a  funcionar  como  um grande centro de formação contı́nua, por cujas instituições foram passando milhares de quadros médios e superiores dos  paı́ses  lusófonos,  para  a  frequência  de  cursos  de variadı́ssima natureza, temática e duração.O  Fórum  para  a  Cooperação  criou  o  seu  próprio centro de formação, mas quis também utilizar os recursos disponibilizados  pelas  instituições  de  ensino  superior  ali existentes  e  diversos  institutos  técnicos,  cobrindo  uma gama  variadı́ssima  de  áreas  e  oferecendo  alargadas oportunidades.  A  Universidade  de  Macau,  o  Instituto Politécnico de Macau, o Instituto de Formação Turı́stica, a Universidade  de  S.  José,  a  Universidade  da  Ciência  e Tecnologia  de  Macau,  a  Universidade  Cidade  de  Macau (antiga  Universidade  Aberta  Internacional  da  Asia),  o Instituto do Milénio e o  Instituto de Gestão de Macau são algumas  das  instituições  disponıv́eis  e  várias  delas continuam a oferecer cursos em lı́ngua portuguesa. As três primeiras  e,  ainda,  a  Escola  Superior  das  Forças  de Segurança  de  Macau,  são  as  instituições  públicas      de ensino superior, todas criadas nas últimas duas décadas da administração portuguesa.30 • Colecção Mosaico
  •   Neste âmbito, é indispensável referir, igualmente, a Escola  Portuguesa  de  Macau  (EPM)  e  a  Fundação responsável  pela  sua  gestão,  instituı́da  em  1998  pelo Estado  Português10,  associado  à  Fundação  Oriente  e  à Associação  Promotora  da  Instrução  dos  Macaenses (APIM),  e  o  Instituto  Português  do  Oriente  (IPOR)11, instituição  portuguesa  vocacionada  para  promover  o ensino  da  lı́ngua  portuguesa,  enquanto  lı́ngua  o icial consagrada  na  Lei  Básica  da  RAEM,  “assegurando  o  seu ensino  não  curricular  como  lı́ngua  de  trabalho  em articulação  com  instituições  representativas  das actividades pro issionais de Macau”.A EPM, com alvará concedido à sua entidade titular pela  Direcção  dos  Serviços  de  Educação  e  Juventude,  em 21 de Agosto de 1998,  insere‑se no  sistema educativo de Macau  como  instituição  educativa  particular  sem  ins lucrativos. O IPOR, que teve os seus estatutos alterados em 1999, passando a ter como associados o Estado português, representado  pelo  Instituto  Camões  (51%),  a  Fundação Oriente  (44%)  e  diversas  empresas  (5%),  tem  a 10     Esta Fundação foi criada pelo Decreto‑ Lei n.º 89‑B/98, de 13 de Abril de 1998.11    Constituıd́o  por  escritura  pública  em  Setembro  de  1989,  tendo  como  associados  o Governo  de  Macau  e  o  Estado  português,  através  do  então  Instituto  de  Cultura  e  Lıńgua Portuguesa.Volume LXI • 31
  • responsabilidade  de  interagir  com  entidades representativas do sistema de ensino da RAEM, no sentido de  melhor  promover  o  ensino  do  português  como  lı́ngua segunda ou lı́ngua estrangeira. Estas duas instituições têm um papel verdadeiramente  fulcral na promoção e difusão da lı́ngua portuguesa.Desde  a  sua  criação,  o  IPOR  tem  mantido  uma intervenção  relevante  no  apoio  aos  centros  de  estudos  e leitorados  de  português  em  universidades  do  Extremo Oriente, onde é crescente o interesse na aprendizagem da lı́ngua portuguesa.A Universidade de Macau e o  Instituto Politécnico de  Macau  continuam  ser  membros  muito  activos  da Associação  das  Universidades  de  Lı́ngua  Portuguesa  e desenvolvem  parcerias  úteis  com  instituições  de ensino superior  de  Portugal.  Essa  Universidade  tem  um Departamento de Português e o  Instituto Politécnico uma Escola de Lı́nguas e Tradução, com acções de intercâmbio e  colaboração  envolvendo  instituições  educativas  de Portugal  e  da  RPC,  e  criou  um  bem  orientado  Centro Pedagógico  e  Cientı́ ico  da  Lı́ngua  Portuguesa.  O  curso anual de Lı́ngua e Cultura Portuguesa da Universidade de 32 • Colecção Mosaico
  • Macau,  levado a efeito  todos os anos no perı́odo de  férias escolares, propicia a estudantes e professores daquela área geográ ica  oportunidades  de  encontro,  aprendizagem  e partilha de experiências pedagógicas.Os  Serviços  de  Educação  e  Juventude  também promovem  o  ensino  da  lı́ngua  portuguesa  em  centros  de formação  e  nas  escolas  luso‑chinesas,  havendo  ainda  um estabelecimento  pré‑escolar,  o  Jardim  de  Infância  D.  José da Costa Nunes, mantido pela APIM, cuja lı́ngua veicular é a portuguesa.Volume LXI • 33
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  • DIMENSÃO CULTURAL E PATRIMÓNIO MUNDIAL
  • A  inclusão,  pela  UNESCO,  do  centro  histórico  de Macau  na  sua  prestigiada  lista  do  património  da humanidade, em  Julho de 2005,  foi um acontecimento de invulgar  relevância  e  signi icado.  Este  centro  histórico engloba  praças  e  largos,  como  os  da  Barra,  do  Lilau,  de Santo  Agostinho,  do  Senado,  da  Sé,  de  S.  Domingos,  da Companhia de Jesus e de Camões, as ruas adjacentes e uma sucessão  de  monumentos  integrados  nesse  espaço,  entre os quais as Ruı́nas de S. Paulo, ex‑libris da cidade, o templo de A‑Ma, anterior ao estabelecimento dos portugueses, as igrejas de S. Lourenço, Santo Agostinho, S. Domingos e   a   Sé  Catedral,  recordando  a  pujança  da acção missionária no Oriente, o teatro D. Pedro V, o primeiro teatro de estilo ocidental  na  China,  o  edifı́cio  do  Leal  Senado,  com  o  seu salão  nobre  e  biblioteca,  a  Santa  Casa  da  Misericórdia,  a mais  antiga  instituição  do  território,  fundada  pelo  seu primeiro  bispo,  o  pequeno  templo  de Na Tcha,  divindade chinesa muito venerada, a Fortaleza da Guia com a capela e  o  farol,  o  primeiro  edi icado  na  costa  da  China,  a Fortaleza do Monte, que foi a principal estrutura defensiva da  cidade,  a  chamada  Casa  Garden  e  o  seu  jardim envolvente, o Cemitério Protestante, onde estão sepultadas muitas  iguras  ligadas  à  Companhia  Inglesa  das  Indias Orientais,  um  troço  das  antigas  muralhas  de  defesa  da 36 • Colecção Mosaico
  • cidade,  o  Quartel  dos  Mouros,  sede  da  Capitania  dos Portos,  a  Casa  do  Mandarim,  complexo  residencial tradicional,  a  Casa  de  Lou  Kau,  velha  residência  de  um abastado mercador, e a Biblioteca Chinesa de Sir Robert Ho Tung.Esse  património  é  maioritariamente  português, mas  também  é, naturalmente,  chinês  e de outras origens, re lectindo  aquele  que  foi  o  mais  prolongado  e  fecundo encontro  do  Ocidente  com  o  Extremo  Oriente.  Depois  de diversas  tentativas  e  abordagens  feitas  ainda  na  vigência da  administração  portuguesa12,  foi  com  o  total empenhamento  da  China  que  a  UNESCO  apreciou  e aprovou a proposta apresentada pela RAEM.Apesar  de  alguma  notória  descaracterização  das áreas  envolventes  dos  principais  monumentos  desse centro  histórico,  em  resultado  do  rápido  crescimento urbano,  é  possıv́el  e  absolutamente  desejável  manter  e valorizar  todo  esse  património,  sendo  a  obrigação assumida  perante  instâncias  internacionais  a  sua  melhor 12  A primeira proposta a submeter à UNESCO tinha  sido elaborada na década de 1980, no mandato do Governador Vasco de Almeida  e Costa,  na  sequência de  estudos  iniciados por decisão dos Governadores José Manuel Nobre de Carvalho e José Eduardo Garcia Leandro.Volume LXI • 37
  • garantia,  a  par  da  crescente  exigência  manifestada  pela população local, especialmente pelas gerações mais novas, na sua adequada preservação. Cabe, em primeiro lugar, ao Instituto Cultural da RAEM13  , a salvaguarda e valorização de  todo o património histórico e cultural e a manutenção do Arquivo de Macau (anteriormente denominado Arquivo Histórico de Macau) e de bibliotecas públicas, onde existe um valioso acervo de obras em lı́ngua portuguesa.Macau dispõe também de um invejável conjunto de museus,  de  alto  signi icado  e  qualidade,  com  destaque para  o  Museu  de  Macau,  muito  bem  instalado  e enquadrado na Fortaleza do Monte, o Museu Marı́timo de Macau,  situado  na  barra  do  Porto  Interior,  e  o  Museu  de Arte de Macau,  integrado no complexo do Centro Cultural de  Macau,  uma  das  obras  emblemáticas  da  fase  inal  da administração  portuguesa,  com  todas  as  condições  para acolher grandes manifestações artı́sticas e culturais, como o Festival de Música e o Festival das Artes, que fazem parte de  um  rico  calendário  anual  de  festividades.    Os importantes  acervos  desses  museus  espelham  o  legado 13  Este organismo público foi criado em 1983 com a designação Instituto Cultural de Macau, sendo  suas  atribuições  o  esenvolvimento  da  acção  cultural,  a  protecção  do  património histórico, arquitectónico e cultural e a investigação histórica.38 • Colecção Mosaico
  • cultural  que  deu  ao  território  uma  singularidade  e  uma identidade  próprias.  Neste  contexto,  interessa  também referir  que  as placas  toponı́micas de Macau permanecem bilingues,  tendo  sido  plenamente  respeitados  os  nomes originais  das  vias  públicas,  sendo  preocupação  visıv́el  do Instituto  para  os  Assuntos  Cıv́icos  e  Municipais  a manutenção  da  traça  portuguesa  nos  arranjos urbanı́sticos,  com  recurso,  amiúde,  à  calçada  portuguesa na decoração artı́stica dos passeios do centro histórico.Volume LXI • 39
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  • COMUNICAÇÃO SOCIAL E EDIÇÕES
  • A  actividade  editorial  em  lı́ngua  portuguesa permanece  muito  signi icativa,  continuando  a  ser publicadas  obras  na  lı́ngua  de  Camões  através  de  vários serviços públicos, instituições académicas e organismos da sociedade  civil,  como,  por  exemplo,  o  Instituto Internacional  de  Macau  que,  em  pouco  mais  de  uma década,  produziu  já  algumas  centenas  de  tı́tulos.  E  de destacar  também, neste contexto a editora privada Livros do Oriente.A  imprensa  escrita  portuguesa  tem  uma  história antiga  em  Macau,  desde  1822,  quando  saiu  o  “Abelha  da China”.  Sucederam‑lhe  muitos  tı́tulos,  como  “Gazeta  de Macau”,  “Chronica  de  Macau”,  “O  Macaı́sta  Imparcial”,  “O Commercial”, “O Portuguez na China”, “A Aurora Macaense”, “O  Procurador  dos  Macaı́stas”,  “O  Independente”,  “Echo Macaense”, “A Voz do Crente”, “O Portuguez”, “O Macaense”, “O Patriota”,  “A Colónia”,  “O Liberal”,  “Diário de Macau”,  “A Voz  de  Macau”,  que  foi  o  primeiro  diário,  “Correio  de Macau”,  “Notı́cias  de  Macau”,  “Gazeta  Macaense”, “Comunidade”,  “Democracia  em  Marcha”  e  “Con luência”, entre  outros  que  registaram  para  a  posteridade  os acontecimentos mais  relevantes dos  últimos dois  séculos. Muitos  deles  tiveram  efémera  existência.  Hoje,  ainda 42 • Colecção Mosaico
  • temos  três  diários  (“Jornal  Tribuna  de  Macau”,  “Ponto Final”  e  “Hoje Macau”) e o  semanário  católico  “O Clarim”, os mesmos que se publicavam antes da transição, além de dois  diários  em  lı́ngua  inglesa  (“The Macau  Post Daily”  e “Macao  Daily  Times”)  e  o  semanário  luso‑  chinês “Plataforma Macau”. O “Jornal Tribuna de Macau” resultou da  fusão  do  diário  “Jornal  de  Macau”  com  o  semanário “Tribuna de Macau”. Quanto  a  revistas,  várias  são  também  publicadas em português, como a “Macau”, a  “Revista de Cultura” e a “Oriente/Ocidente”.  O  Boletim  O icial  do  Governo  da RAEM,  com  duas  séries  semanais,  é  bilingue.  Além  de revistas de periodicidade variável em  lı́ngua chinesa,  têm aparecido,  ultimamente,  revistas  em  lı́ngua  inglesa, acompanhando  o  desenvolvimento  do  turismo  e  da indústria  hoteleira,  agregada  aos  novos  casinos.  No  que respeita  aos  órgãos  audiovisuais,  a  Teledifusão  de Macau (TDM),  que  iniciou  emissões  regulares  em  Fevereiro  de 1988, tem um canal em português (TDM – Macau) e outro em chinês    (TDM– Ou Mun), em funcionamento 24 horas por dia, além de existirem vários canais digitais, a TV Cabo Macau  e  emissores  por  satélite,  com  programação predominantemente em chinês.  Na  dependência  da TDM, Volume LXI • 43
  • operam  duas  estações  de  rádio,  em  lı́ngua  portuguesa (Rádio  Macau)  e  em  lı́ngua  chinesa  (Ou  Mun  Tin  Toi), existindo  igualmente  uma  emissora  privada,  a  Rádio  Vila Verde.A  Lei  de  Imprensa  é  ainda  do  tempo  da administração  portuguesa14.  Ela  regula  o  exercı́cio  da liberdade  de  imprensa  e  do  direito  à  informação,  bem como a actividade das empresas  jornalı́sticas, editoriais e noticiosas.  Existem  oito  associações  de  pro issionais  de comunicação  social  em  Macau,  uma  das  quais  é  a Associação de Imprensa de Lı́ngua Portuguesa e Inglesa de Macau. O portal do Governo da RAEM fornece informação ao  público  em  chinês,  em  português  e  em  inglês  e contribui  para  uma  maior  divulgação  das  polı́ticas públicas,  assegurando  uma  comunicação  regular  com  a população em geral.14  Lei n.º 7/90/M. de Agosto de 1990.44 • Colecção Mosaico
  • PEDRAS VIVAS
  • Além  das  pedras  da  história,  há  a  considerar  as “pedras  vivas”,  as  pessoas,  os  portugueses  e  gentes  de muitas  nacionalidades  que  escolheram  Macau  para  sua terra e ali permaneceram para além da transição. Também importa  referir  a  comunidade  macaense,  legado  precioso daquele  encontro  de  Portugal  com      o  mundo  e  fruto  da longa  viagem  da  história,  com  as  suas  tradições,  os  seus valores  e  a  sua  culinária  própria,  contribuindo  para reforçar a singularidade de Macau e para a irmar a terra e a memória na diáspora que se espalhou pelos continentes, sabendo  manter  o  coração  ligado,  indissoluvelmente,  a Macau e a Portugal, e fazendo funcionar os seus centros de convıv́io que são as Casas de Macau.Todas  essas  gentes  dão  vida  e    sentido    às    suas associações  e  outras    instituições,    fazendo    com  que Macau  seja  também  exemplar  na  força  e    na  capacidade interventora da sua sociedade civil, apoiada por entidades governamentais,  com  especial  destaque  para  a  Fundação Macau. São múltiplas as que se mantêm igadas a Portugal, ostentando com orgulho a sua “matriz portuguesa”, desde a Casa de Portugal, que desenvolve um vasto programa de actividades,  ao  Instituto  Internacional  de  Macau15, passando por organismos com longa história como a Santa 46 • Colecção Mosaico
  • Casa  da  Misericórdia,  ou  pro issionais  e  sociais  como  a Associação  dos  Trabalhadores  da  Função  Pública  e  a Associação  dos  Aposentados,  Reformados  e  Pensionistas de  Macau,  clubes  desportivos,  recreativos  e  culturais, organismos  da  Diocese  de  Macau,  a  Confraria    da   Gastronomia  Macaense,  a  centenária  Associação Promotora da Instrução dos Macaenses, as associações de antigos  alunos  de  escolas  de  lı́ngua  portuguesa,  a Associação dos Macaenses, o centro cultural Albergue SCM e  o  grupo  de  teatro  Dóci  Papiaçám  di  Macau,  cultor  e promotor  do  patuá,  crioulo  português  de  Macau,  já classi icado  pelo  Governo  da  RAEM  como  património imaterial local.Cerimónias  religiosas  da  Igreja  Católica  são também facultadas aos  iéis, diariamente, em português e as duas mais participadas procissões, que são a de Nossa Senhora  de  Fátima  e  a  do  Senhor  dos  Passos,  foram, igualmente,  integradas  na  lista  o icial  do  património imaterial de Macau. 15  O Instituto Internacional de Macau, organismo de natureza Associativa e  ins académicos e culturais,  é  a  única entidade  local presente na CPLP – Comunidade dos Paıśes de Lıńgua Portuguesa, usufruindo do estatuto de observador consultivo, e mantém estreita cooperação com dezenas de instituições  do espaço lusófono.Volume LXI • 47
  • Na  RAEM  funcionam  um  Consulado‑Geral  de Portugal,  que  foi  prometido  à  população  de  Macau  que seria  o  maior  da  rede  consular  portuguesa,  e  uma delegação da AICEP – Agência de Investimento e Comércio Externo  de  Portugal,  para  promoção  do  investimento. Compete ao Consulado coordenar as comemorações do Dia de Portugal, de Camões e   das Comunidades Portuguesas, as quais incluem a tradicional romagem ao Jardim e Gruta de Camões, sempre muito concorrida e com uma presença signi icativa de jovens de escolas e de associações locais. As estruturas da administração pública    local   são também,  inevitavelmente,  uma herança da  administração portuguesa,    como    o    são    muitos    dos  quadros  que  já então  exerciam  cargos  ou  frequentavam    acções 48 • Colecção Mosaico
  • especializadas    de    formação.  Também  é  indispensável mencionar  o  Banco Nacional  Ultramarino,  banco  emissor juntamente com o Banco da China, empresas portuguesas que  souberam  a irmar‑se  em  Macau,  a  Associação Empresarial  Internacional  para  os  Mercados  Lusófonos  e outras  novas  associações,  impulsionadas  por  jovens empresários.Alguns  daqueles  organismos  revelam  um surpreendente  dinamismo,  promovendo  uma  diversidade de eventos em que a marca portuguesa é sentida, além da Semana da Lusofonia e da Semana Cultural da China e dos Paı́ses  de  Lı́ngua  Portuguesa,  que  já  fazem  parte  de  um calendário  intenso,  emprestando  à  cidade  e  às  ilhas  um ambiente de festa permanente. Por outro lado, instituições, agentes  culturais  e  artistas  portugueses  realizam iniciativas  em  Macau,  na  forma  de  exposições, espectáculos,  seminários,  conferências,  mostras comerciais e outras. Até as mais emblemáticas instituições académicas  portuguesas  têm  sido  ali  acolhidas  para  a realização dos seus encontros16. Vale a pena referir ainda Volume LXI • 4916  Entre elas, a AULP – Associação das Universidades de Lıńgua Portuguesa, instituições de ensino superior portuguesas, o Observatório da Lıńgua Portuguesa, a Associação de Gestão do Ensino Superior, a associação Colóquios da Lusofonia e o Centro Nacional de Cultura, que ali realizou, em parceria com o Instituto Internacional de Macau e a Fundação Jorge Alvares, os I e II Encontros de Poetas Chineses e Lusófonos.
  • que  os  I  Jogos  da  Lusofonia,  promovidos  pela  Associação dos  Comités  Olı́mpicos  de  Lı́ngua  O icial  Portuguesa (ACOLOP),  tiveram    lugar    em   Macau,    em    Outubro    de 2006,  tirando‑se proveito do excelente parque desportivo ali  existente.  Participaram  nesses  Jogos    mais    de  mil atletas  do  mundo  lusófono17,  que  competiram  sob  o interessante lema “Quatro continentes, uma lı́ngua, unidos pelo desporto”. O evento contou com oito modalidades de alta  competição:  atletismo,  basquetebol,  futebol,  futsal, taekwondo,  ténis  de  mesa,  vóleibol  e  vóleibol  de  praia, com 156 medalhas em disputa,  icando em primeiro lugar o Brasil, logo seguido de Portugal.17  De notar que também estiveram presentes atletas da India (Goa) e do Sri Lanka, membros associados da ACOLOP.50 • Colecção Mosaico
  • NOVOS DESAFIOS E CONCLUSÃO
  • Muito  icou  por  dizer  num  trabalho  como  este, necessariamente  limitado,  para  caber  no  espaço  duma conferência,  sobre  o  legado  que  importa  preservar  e valorizar em Macau e sobre o papel que este território, que é  hoje  região  administrativa  especial  da  China,  pode continuar a desempenhar no reforço das  relações entre o mundo  lusófono  e  a maior  potência  emergente do  século XXI. Apraz‑nos saber que outros trabalhos e estudos foram ou  estão  a  ser  feitos,  directa  ou  indirectamente relacionados  com  estes  temas,  sendo  esta  também  uma área de intervenção assumida pelo Instituto Internacional de Macau.Ao  longo  dos  últimos  anos,  multiplicaram‑se também  os  estudos  e  publicações  sobre  a  China  e  o  seu espantoso  crescimento,  a  sua  incontornável  in luência  na recon iguração  do  mundo  e  os  desa ios  imensos  e complexos que se colocam aos seus responsáveis, em todas as  vertentes  e  a  todos  os  nıv́eis,  sendo  fascinante  e prioritário,  na  área  da  Ciência  Polı́tica,  entender  o  seu devir e perscrutar o seu futuro, cheio de interrogações que permitem desenhar  os mais  variados  cenários.  E matéria que  vamos  acompanhando  interessadamente,  até  pelos seus inevitáveis e imediatos re lexos em Macau.52 • Colecção Mosaico
  • Em 1999, Portugal entregou  à China um território moderno, dotado das  infra‑estruturas essenciais,  com um legado  cultural  sólido,  sistemas  administrativo  e  judicial que  foram  os  suportes  fundamentais  do  seu funcionamento  e  que,  em  larga  medida,  permaneceram para  além  da  transição,  um  sistema  educativo  próprio  e um ensino superior diversi icado, estruturas adequadas de apoio  e  solidariedade  social,  uma  sociedade  civil interventora  e  multifacetada  e  condições  para  poder continuar  a  desempenhar  o  seu  papel  de  entreposto comercial e cultural privilegiado.Com  pragmatismo,  a  China  atribuiu,  entretanto,  a Macau  duas  missões  fundamentais:  a  de  centro internacional  de  turismo  e  lazer,  que  já  atrai  cerca  de 30 milhões  de  visitantes  por  ano,  e  a  de  plataforma  de cooperação  com  os  paı́ses  de  lı́ngua  portuguesa.  A  estes, podemos, se quisermos, acrescentar mais uma, que é a de centro  de  formação  avançada,  estando  o  novo  e  enorme campus  da  Universidade  de  Macau,  construı́do  na  ilha chinesa  vizinha  de  Hengqin,  já  em  pleno  funcionamento, permitindo‑  lhe,  ao  lado  de  outras  instituições  de  ensino superior  e  de  investigação  académica,  ganhar  uma dimensão compatıv́el com a inserção de Macau no grande Volume LXI • 53
  • Delta do Rio das Pérolas, que tem sido, ao longo das duas últimas  décadas,  a  área  de  maior  desenvolvimento  em todo o mundo.Entretanto,  a  RPC  incluiu  o  Fórum  de  Macau  e  o sistema  de  cooperação  que  lhe  cabe  sustentar  e desenvolver  no  seu  recentemente  anunciado  projecto  de dimensão universal intitulado “Uma Faixa, Uma Rota”, que contém  um  gigantesco  e  multifacetado  conjunto  de iniciativas e de investimentos que vão das infra‑estruturas à cooperação económica e cultural. Nos  últimos anos, um novo projecto  foi anunciado e entrou em rápido desenvolvimento: a criação da Grande Baı́a  Guangdong  – Hong Kong  – Macau,  abrangendo nove cidades  do  delta  do  Rio  das  Pérolas  e  as  duas  regiões administrativas  especiais  de  Hong  Kong  e  de  Macau, visando a sua continuada aproximação e integração numa megapolis  com  cerca  de  70  milhões  de  habitantes  e  um PIB que será um dos mais elevados do mundo, numa área que  tem  sido,  ao  longo  das  últimas  décadas,  uma  das  de maior e mais espectacular crescimento.Oxalá  Portugal  e  outros  paı́ses  de  lı́ngua 54 • Colecção Mosaico
  • portuguesa  possam  compreender  melhor  esta  situação  e tirar maior  proveito  das  oportunidades  que  podem  advir duma  cooperação  multifacetada  que  exige  a  sua  lúcida  e empenhada participação. Este poderá ser o tema para uma comunicação  a  apresentar  no  III  Congresso  Internacional “Diálogos  Interculturais Portugal  – China”,  que deverá  ser realizado  em  2021,  se  a  pandemia,  que  tantos  prejuı́zos causou  a  toda  a  humanidade,  não  provocar  o  seu adiamento.   Será então oportuno responder também, com realismo  e  objectividade,  a  esta  pertinente  questão,  que tem  a  ver  com  a  construção  do  futuro  de  Macau:  ao completar  vinte  anos  de  existência  como  região administrativa especial da China, em que medida o legado luso,  que  deu  corpo,  sentido  e  razão  de  ser  ao  território que  Portugal  e  os  portugueses  administraram  durante quatro  séculos  e  meio,  continuará  a  ser  importante  na a irmação  da  sua  individualidade  num  contexto  cultural, económico, polı́tico e social muito mais amplo e cada vez mais  integrado  e  em  que  “um  paı́s”  se  tornará, provavelmente,  preponderante  na  aplicação  prática  e pragmática do princı́pio “um paı́s, dois sistemas”?  Consideramos  indispensável  que,  nos  planos  que estão  a  ser  elaborados,  para  aplicação  nas  próximas Volume LXI • 55
  • décadas,  haja  um  envolvimento  efectivo  das  forças  vivas locais mais esclarecidas e conhecedoras da realidade local, bem como dos caminhos e opções que nos  izeram chegar tão  longe.  Se  a  RAEM  é  uma  história  de  sucesso,  a explicação  é  óbvia.  Houve  lucidez  e  capacidade  para entender  que  nenhum  futuro  seria  edi icado  com estabilidade,  coerência  e  resultados  positivos  sem  se assumir,  por  inteiro,  a  memória  de  séculos  que  deu consistência  e  razão  de  ser  a  um  território  que  valeu  –  e continuará  certamente  a  valer  –  pela  sua  diferença  no contexto da grande China. Este  texto  foi  escrito  na  antiga  ortogra ia,  até  porque  em  Macau  o  Acordo Ortográ ico não está o icialmente em vigor.56 • Colecção Mosaico
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