• JOSÉ SILVEIRA MACHADOum macaense dos AçoresMOSAICOVOLUME LVIIIISBN 978-989-54696-0-49 7 8 9 8 9 5 4 6 9 6 0 4CMYCMMYCYCMYKmosaico_LVIII_Silveira_Machado_capa_PP.pdf 1 25/03/2020 15:17
  • MOSAICOVOLUME LVI I I JOSÉ SILVEIRA MACHADO um macaense dos AçoresJOSÉ SILVEIRA MACHADO UM MACAENSE DOS AÇORES
  • Editor Instituto Internacional de Macau Título José Silveira Machado – um macaense dos Açores Direção Gráfica e Paginação Maisimagem II - Comunicação Global Unipessoal, Lda. Colecção MOSAICO Tiragem 500 exemplares Impressão Gráfica Central de Almeirim ISBN 978-989-54696-0-4 Depósito Legal 465710/19 Lisboa, Dezembro 2019 apoio
  • SUMÁRIO 5 Prefácio – Uma justa e oportuna evocação Jorge Rangel 9 José Silveira Machado, o unânime Luís Sá Cunha 15 José Silveira Machado António Aresta 55 José Silveira Machado: Macau no coração Marco Carvalho 83 Momentos que vivi com o meu querido pai Maria de Lurdes Botelho Machado 95 José Silveira Machado – um pai sempre presente... e amigo Manuela Machado Eleutério
  • Colecção MOSAICO, Volume LVIII5PREFÁCIO Uma justa e oportuna evocação Num encontro informal com personalidades locais ligadas à cultura, levado a efeito há pouco mais de dois anos, na sequência do lançamento de mais um livro do já vasto acervo editorial do Instituto Internacional de Macau (IIM), foi perguntado por um dos participantes se havia conhecimento de alguma iniciativa relacionada com o centenário do nascimento de José Silveira Machado. Natural de S. Jorge (Açores), este saudoso pedagogo, jornalista e escritor soube adaptar-se exemplarmente à condição de “filho da terra” na cidade lusa da costa meridional da China que o destino lhe reservou como lar de eleição, ali permanecendo desde a juventude até entregar a alma ao Criador. Não tendo nenhum dos organismos culturais oficiais incluído na sua programação anual qualquer acto comemorativo ligado àquela efeméride, foi-nos lançado o repto de ser o IIM a assumir a responsabilidade de promover uma sessão evocativa, mesmo sabendo que ela podia pertencer, prioritariamente, a outras entidades talvez mais vocacionadas para o efeito. Poucas semanas volvidas, estava já em organização, pelo IIM, na Livraria Portuguesa de Macau, um colóquio de homenagem a essa personalidade singular, cujo legado todos achavam merecedor de mais ampla e eficaz difusão. Entretanto, numa deslocação a Portugal, foi-me proporcionado o ensejo de, em reunião da comissão asiática da Sociedade de Geografia de Lisboa, que também integro, propor aos demais membros a realização de uma conferência num dos auditórios desta prestigiada instituição, digna guardiã da história dos portugueses no mundo, sobre a vida e a obra de José Silveira Machado. A sua preparação foi, desde logo, confiada à professora Celina Veiga de Oliveira, que prestou meritórios
  • serviços em Macau, como docente e qualificada investigadora, com relevante obra publicada. Este volume, da colecção “Mosaico”, reúne as comunicações apresentadas em Macau e em Lisboa, sendo um contributo útil e justo para se dar a conhecer o legado cultural de mais um Português que, em distantes paragens do globo, deu o melhor de si. Além de se encarregar da formação de gerações de jovens macaenses, como competente professor da língua pátria, distinguiu-se na acção cultural, no desporto e em actividades juvenis, bem como no jornalismo e na literatura. Tive o privilégio de o acompanhar em muitos dos círculos onde se destacou, podendo testemunhar a qualidade do seu trabalho, e de ser seu amigo, não obstante a acentuada diferença de idades. Ao longo dos anos, fez-me chegar vários dos seus livros, nos quais deixou simpáticas dedicatórias. Eles terão sempre lugar especial nas estantes da minha biblioteca. Ao professor António Aresta, notável e incansável divulgador da memória de Portugal no Oriente, que prontamente aceitou a incumbência de ser o principal orador em ambas as sessões, e a todos os demais intervenientes, bem como aos familiares que partilharam de forma muito sentida episódios íntimos do percurso do homenageado, e ainda aos coordenadores desta edição, expresso, em nome do IIM, o nosso reconhecimento pela valiosa colaboração prestada. Honrar o legado de quantos afirmaram Portugal em terras e nos mares do Extremo Oriente e ajudaram a talhar a maravilhosa jóia que é Macau, continuará a ser, para nós, uma irrecusável Missão. Jorge Rangel Presidente do Instituto Internacional de MacauColecção MOSAICO, Volume LVIII 6
  • Colecção MOSAICO, Volume LVIII7
  • Colecção MOSAICO, Volume LVIII 8
  • JOSÉ SILVEIRA MACHADO, O UNÂNIME Luís Sá Cunha
  • Terá sido o último reinol em Macau, porque pertenceu à geração de portugueses que arcavam as memórias da Macau antiga, ainda não mareada de modernismos e assaltos invasivos, e foi sobrevivente aos derradeiros da sua tertúlia espiritual, onde se encontravam Adé dos Santos Ferreira, Henrique de Senna Fernandes, Alberto Estima de Oliveira. O passado sempre reveste uma pele do sagrado, espaço então qualificado, porque proscrito da homogeneidade avassaladora dos novos tempos em correria de afirmação e domínio. Será a memória a maior categoria do espaço. Para mim, ouvi-los, era fascínio inesgotável, sempre que as suas palavras se me escoavam como areia na ampulheta dos dedos porosos, grãos da Macau romântica de antes da Guerra do Pacífico, de crónicas romanescas, revelação de mistérios chinas, encantos da pequena história do burgo, a Macau ainda casada com as águas e os mares, dos tous, tancares e do porto interior, da Rua da Felicidade e da Avenida de Almeida Ribeiro, rasgo de modernidade no velho corpo urbano, onde aos fins de tarde desfilava a corte elegante das chinesas de cabaia… Todos eles, sempre, com jovial admiração, diria culto, ante a escultura encantatória da mulher… e …a gula das sápidas mesas. O José Silveira Machado tinha, de mais próprio seu, o ser unânime, quer dizer-se, o congregar a respeitosa simpatia de todos; nunca se lhe conheceu adversidade, inimizade, animosidade de alguém na cidade cristã. Quando o via no espaço público a conversar, era sempre num caixilho de simpatia mútua, e apurava-se dessa rotina um respeito cálido que a personalidade cordial do José de todos recebia. Recolhia, naturalmente, unanimidade, graça só concedida às personagens complacentes e amoráveis. Dele era, também, a intensidade da vida vivida. Vivia o tempo, de dia e de noite, com a mesma paixão vital, num ciclo circadiano em que era lunar na paisagem diurna e solar na da noite. Passado já da meta em que os homens se recolhem da vida operária, ele continuava a LUÍS SÁ CUNHAColecção MOSAICO, Volume LVIII11
  • trabalhar por necessidade, na empresa do comendador Dias Ferreira, a meio da Almeida Ribeiro, não dando porém qualquer sinal de tédio, cansaço ou desistência, sempre tonificado por pulsão juvenil de vida. Católico bem ancorado, na fé, esperança e caridade, virtudes que nunca se lhe emurcheceram depois da sua saída do seminário de S. José, ele esteve na fundação do jornal O Clarim, onde sempre pugnou na defesa dos mais pobres, desprotegidos ou desamparados da vida, colaborando também em corpos sociais de organismos culturais criados na cidade. Foi professor de Português na Escola Comercial de Macau, onde, como sempre, deixou rasto de simpatia geral nos alunos, e onde era mestre “à antiga”: não desperdiçava momento em que pudesse intercalar conselho moral, sugestão à arquitectação da personalidade, exortação à vida exemplar. A sua faceta professoral nunca a deixou pelo andar dos tempos: muitas vezes presenciei, sempre que conhecia gente mais nova, assomar-lhe essa postura de mestre de vida e conselheiro, em prelecções que enfatizava com repetições, “escuta, escuta”, sublinhadas com chamativos crescentes dos agudos e sinalética dos dedos. Era um temperamento paternal, andava sempre em missão na vida vulgar. Mas se de dia era dos outros, de noite era dele, na fruição de outra pulsão vital que o habitava, onde se derramava o seu pendor romântico, na alegria de um convívio mais informal e afectivo, onde todas as idades se parificavam e ele vivia a ilusão de uma juventude declamada em galanteios do mais enamorado Romeu casanovista. Entrava na noite como em terreno seu, casa sua, teatro cúmplice onde tinha papel reservado per naturam, onde esbanjava a sua cordialidade, simpatia, afectivo convívio. Rondava a noite, estacionava habitualmente nos lugares mais vibrantes, sempre animados pelos conjuntos filipinos, onde tinha acolhimento privilegiado, saudado à sua entrada com dedicatória de canção preferida e acolhimento carinhosa das cantoras. Unanimidade de dia, unanimidade de noite. JOSÉ SILVEIRA MACHADO – um macaense dos AçoresColecção MOSAICO, Volume LVIII 12
  • Por vezes, tarde já na noite, de regresso ao quarto solitário, pingava uma palavra, onde podia pressentir-se que havia ali também algum socorro para a solidão e as provações que lhe assombravam a rotina dos dias. Intenso, sempre pela aresta da vida não adiada, era ele também unânime na sua harmonia com todas as horas, todos os lugares, todas as ambiências: onde estava, ele era. Lembro-me de o ter visto algumas vezes, em despedida, a palmilhar a Almeida Ribeiro em traveling sob as arcarias e a sumir-se lá ao fundo à direita, na dobra para o hotel onde se albergava. Transportando consigo história, memória e funda vivência, ele não era um adereço ou figurante que passava frente aos telões do cenário, ele era já cenário. Com ele, foi um pouco da velha Macau que se esfumou no Letes. Para onde se esgota, hoje, todos os dias, a velha alma de Macau.LUÍS SÁ CUNHAColecção MOSAICO, Volume LVIII13
  • JOSÉ SILVEIRA MACHADO1 António Aresta
  • Aqueles que não sabem o que é a China não me incomodam. Pearl S. Buck, 1949 Macau voltará a ser o grande centro da cultura latina e cristã em terras do Oriente. José Silveira Machado, 1956 José Silveira Machado [24.10.1918 – 18.11.2007], açoriano de Velas, na ilha de São Jorge, foi um carismático homem de letras, dividido entre a poesia, o ensino e o jornalismo. Observador arguto da vida quotidiana de Macau, José Silveira Machado teve uma constante intervenção cívica na imprensa, essencialmente no jornal O Clarim2, do qual foi um dos fundadores, corria o ano de 1948. Esse activo espírito reformista e de culta expressão de cidadania torna-o, neste particular, um seguidor de Manuel da Silva Mendes. Chegou a Macau em 1933, com apenas quinze anos de idade, para o Seminário de S. José. O Liceu tinha 167 alunos3 e da Escola Comercial Pedro Nolasco não se conhecem estatísticas. O Bispo era o açoriano D. José da Costa Nunes e o Governador era o tenente-coronel António Bernardes de Miranda. Nesse mesmo ano era promulgada a nova Constituição e republicado o Acto Colonial. Era o amanhecer do Estado Novo, sob a égide de António de Oliveira Salazar. No dia 21 de Dezembro de 1933 o Boletim Oficial da Colónia de Macau4 transcrevia o extenso Decreto Nº 21.110, sobre o novo Regulamento da Educação Física nos Liceus, assinado pelo Ministro da Instrução Pública, Gustavo Cordeiro Ramos e promulgado pelo Presidente da República António Óscar Fragoso Carmona. Cultivar o corpo e a motricidade de uma forma pioneira e inovadora era o que se pretendia, se possível com uma prática e com um exemplo que transbordasse o ensino oficial, chegando nomeadamente aos Seminários e a outras escolas de orientação religiosa. ANTÓNIO ARESTAColecção MOSAICO, Volume LVIII17
  • José Silveira Machado5 conta como é que veio parar a Macau: “Como se deu a minha vinda para tão longe? Meu pai era lavrador e tinha uma criação de vacas leiteiras, pois sou natural de S. Jorge, a ilha do queijo e da manteiga. Mas nunca tive queda para a lavoura nem para a pastorícia. Eu queria era prosseguir os estudos, o que não era possível na minha ilha e meu pai não tinha meios para me mandar para fora. Foi então que um missionário de Macau, que era natural da ilha do Pico, foi de férias aos Açores e fez convites a alguns rapazes para virem para Macau frequentar o Seminário. Eu aceitei logo e, apesar de ser o filho mais velho, meus pais não se opuseram, disseram logo que sim”. Os Açores e Trás-os-Montes foram, mercê de circunstâncias várias, provavelmente as zonas geográficas de Portugal que mais vocações missionárias proporcionaram à Igreja Católica. Nem ele, tão pouco a família tinham uma exacta noção da localização de Macau, algures entre o muito longe ou lá para as terras da China, que no imaginário popular significava o fim do mundo. Mas isso não foi um obstáculo. Eram tempos muito duros e heroicos, esses em que as crianças e os adolescentes cruzavam os continentes e os oceanos para servirem causas transcendentais e para se educarem. Sem o apoio da família, enfrentavam um mundo radicalmente diferente, da geografia física e clima, passando pela cultura, pela língua ou pela gastronomia. A vertigem da novidade e do desconhecido, tolhiam por vezes o desenvolvimento da personalidade e o equilíbrio emocional dos jovens. O Seminário de S. José era uma antiga e prestigiada instituição educativa, da Diocese de Macau, fundada em 1728 e com uma longa tradição na hospitalidade e no acolhimento de jovens que eram destinados à carreira eclesiástica. Em 1933, o ano em que José Silveira Machado entra no Seminário, este encontrava-se sob a direcção dos Jesuítas e o seu director era o padre António Dinis Henriques Farto. JOSÉ SILVEIRA MACHADO – um macaense dos AçoresColecção MOSAICO, Volume LVIII 18
  • ANTÓNIO ARESTAColecção MOSAICO, Volume LVIII19A descrição da sua primeira viagem intercontinental foi registada, por José Silveira Machado, com esta particular sensibilidade, ora comovida, ora deslumbrada6 pelo admirável mundo novo: “A viagem fez-se ao ritmo das horas na imensidão de mares e continentes. Trajectória com ponto de partida no mar atlântico e ponto e chegada no Rio das Pérolas. Rota de sonho, encanto, magia. S. Jorge, Lisboa, Argel, Marselha, primeiro fascínio de outras gentes, de outras paragens. Port-Said, Suez, de minaretes e trajes exóticos, Mar Vermelho à sombra do Sinai, Djibuti, os altos penhascos de Aden. O Índico a conduzir a rota até Colombo, a indicar marcas da hora magnífica da descoberta do mundo, do arredondamento da terra. Estreito de Malaca, o Oriente à vista. No Pacífico a verdejante baía de Singapura, o cenário deslumbrante do rio Mekong, Saigão, de toque francês e gentes estranhas. Hongkong, Macau, num estuário de ilhas e ilhotas a emoldurar a fisionomia do Rio das Pérolas. Os caminhos a infância entraram pela porta da Baía. Os sonhos de menino cresceram em sensibilidades novas. Uma outra trajectória se prolongou noutro tempo e noutro espaço.” O seu testemunho é por todos esses motivos deveras importante: “e assim cá vim parar, na companhia de mais cinco rapazes, dos quais apenas um se ordenou. Tive no Seminário grandes mestres, quase todos jesuítas, com excepção do então diácono Manuel Teixeira, hoje monsenhor, que foi o meu primeiro professor de Latim. De todos os meus professores, o P. Revelard, belga, que leccionava Matemática, o P. Manuel Ferreira, professor de Francês, e outros, apraz-me recordar o P. Joaquim Guerra, que me ensinou todo o Português que eu sei”7. Abriu-se um outro mundo de descobertas e de prazeres, cuja largueza de horizontes lhe apraz rememorar: “tínhamos, de facto, bastante
  • liberdade, tínhamos muitas actividades escolares, muitos passeios. Naquela altura podíamos passar as Portas do Cerco sem qualquer problema. Quantos passeios eu dei à China! Nesses passeios, íamos muitas vezes à ilha da Lapa que, por detrás da encosta virada para Macau, tem um vale muito arborizado, com água corrente, e com mesas de pedra para piqueniques. Também íamos muitas vezes à Taipa e a Coloane, fazendo a viagem de sampana, em que eram os seminaristas a remar, com permissão das raparigas chinesas que se dedicam a essa profissão”8. O estudo da língua chinesa não era valorizado de todo, sequer como estratégia para a missionação9. Diz-nos, “nunca tive aulas de chinês, mas no recreio da noite, antes da hora de dormir, constituíram-se grupos de alunos portugueses e chineses que eram obrigados num dia a falar português, noutro a falar chinês. Foi assim que aprendi algum do pouco chinês que falo. Não consigo dar os tons, pois não tenho ouvido nenhum para a música, a ponto de ter sido dispensado das aulas de música”10. A fascinação intelectual viria a seguir: “Na Ilha Verde tínhamos as férias grandes que eram sempre estupendas. Eu aproveitava essas férias, como nunca fui um grande desportista, para devorar livros. Li todo o Eça, todo o Almeida Garrett, todo o Alves Redol, todo o Alexandre Herculano, além de muitos Sermões do padre António Vieira. Havia livros que não éramos autorizados a ler, eu ia à biblioteca e levava-os às escondidas para a casa de férias.(…) Além da Biblioteca Nacional, instalada no edifício do Leal Senado, riquíssima em obras de muito valor, havia as bibliotecas do Clube Militar e do Clube de Macau que, segundo consta, levaram um sumiço que ninguém sabe explicar”11. A grande e sólida cultura geral nasce nesse tempo, transformando-se, aprimorando-se e especializando-se com o passar dos anos. A aprendizagem da cartografia mental e emocional da cidade, por vezes sozinho, outras vezes acompanhado pelos amigos mais afoitos, foi de uma saborosa lentidão12, no espaço e no tempo: JOSÉ SILVEIRA MACHADO – um macaense dos AçoresColecção MOSAICO, Volume LVIII 20
  • “A cidade era um mundo de fascínio e de mistério. Abria as suas portas à curiosidade e aos anseios da minha irrequieta juventude. Percorri ruas de luz baça, onde os recortes das silhuetas semelhavam sombras fugidias. Deambulei por bairros excêntricos, apinhados de gente pobre e anónima num vaivém de silenciosas amarguras. Penetrei em vielas esconsas, espicaçado pelo entrechocar de sensações narcotizantes. Transpus os pórticos dos templos budistas no desejo de desvendar os mistérios da velha China. Calcorreei calçadas e subi colinas para mergulhar o pensamento e a sensibilidade nos encantos e desencantos da cidade cristã. Subi o rio por entre juncos, lorchas e sampanas, para sentir a vida dos homens do mar, na sua luta contra a incerteza dos ventos e das marés. Palmilhei a estrada inquietante duma mocidade fogosa. Alonguei os braços na madrugada indecisa da fantasia. Corri como um louco na ânsia de sorver, no colo níveo da arte e da beleza, as delícias embriagantes das noites orientais.” Por este enquadramento, percebemos com alguma clareza os motivos pelos quais José Silveira Machado não se sentia com uma vocação genuína e inteira para abraçar o múnus do sacerdócio. E tudo sucedeu da forma mais insólita: “Eu tinha a mania de ser poeta, de escrever poesia, que guardava na gaveta da minha carteira de estudo. Um colega foi lá, tirou um poema de cariz amoroso e distribuiu-o por outros alunos. Isso chegou ao conhecimento do prefeito e do reitor que ficaram muito escandalizados e preocupados. Fui logo separado do resto da comunidade e metido num dos quartos que havia nas caves. E como tive de sair do Seminário, não terminei o Curso de Humanidades, o que só vim a fazer depois, quando já era homem”13. Parece-me importante fazer uma reflexão sobre o ambiente cultural de Macau, cuja realidade multicultural era complexa por ser policêntrica. A Igreja Católica era a única instituição verdadeiramente organizada e que ANTÓNIO ARESTAColecção MOSAICO, Volume LVIII21
  • dispunha de um grupo de colaboradores claramente internacionalizado e que pontificavam no ensino e na doutrinação moral. Depois do desaparecimento das grandes figuras como Camilo Pessanha, Pedro Nolasco da Silva, Manuel da Silva Mendes, Lourenço Marques ou José Gomes da Silva, cujo legado de laicidade axiológica, de intervenção cívica e política teve um grande peso em Macau, outras personalidades emergiram tais como Carlos Montalto de Jesus, João Paulino de Azevedo e Castro, Charles Boxer, Jack Braga e José da Costa Nunes. No tempo de José Silveira Machado duas figuras de enorme influência na formação dos jovens foram o padre Fernando Maciel, director de O Clarim por longos anos, jornalista de fôlego e grande cultor da língua portuguesa e o padre Júlio Massa, filósofo com uma obra muito relevante, ambos injustamente esquecidos nesta modernidade inculta e apressada. Da geração de José Silveira Machado, começam a despontar outras figuras como Luís Gonzaga Gomes, Deolinda da Conceição, Herculano Estorninho, Adé/José dos Santos Ferreira, António Augusto da Canhota, Tomás da Rosa Pereira ou José Carvalho e Rego. O padre Manuel Teixeira missionava em Singapura. O padre Joaquim Guerra SJ e o padre Benjamim Videira Pires SJ conciliavam a missionação com a reflexão e o estudo sinológicos. A imprensa, apesar da vigilância exercida pela Comissão de Censura, foi uma grande escola formativa para os portugueses expatriados e para a comunidade portuguesa residente. A identidade portuguesa muito ficou a dever a Hermann Machado Monteiro ou a Domingos da Rosa Duque, cujos jornais foram símbolos de cultura. A saída do Seminário foi um salto no desconhecido, numa cidade onde não dispunha do conforto da família que estava nos Açores, ou da solidariedade dos amigos. O passo seguinte foi o ingresso na vida militar: “Conheci José dos Santos Ferreira quando éramos dois garbosos soldados, nos anos 1938/1939, na Companhia de Artilharia de Macau, e logo nos tornamos grandes amigos. Chegado dos Açores a Macau, entrei JOSÉ SILVEIRA MACHADO – um macaense dos AçoresColecção MOSAICO, Volume LVIII 22
  • directamente para o Seminário. Do Seminário fui prestar o serviço militar. Quando saí, era praticamente um desconhecido em Macau, sem família e com poucos amigos, e o Adé foi então para mim mais do que um amigo. Proporcionou-me um acontecimento que eu nunca mais esqueci e que teve uma influência muito grande em toda a minha vida. O meu primeiro contacto com uma família macaense num rico jantar de uma noite de Natal. Pela primeira vez entrei em contacto com a sociedade macaense, com o seu calor humano, com os seus costumes, com as suas tradições, com o seu portuguesismo arreigado, com os seus sentimentos religiosos. Depois dessa noite de Natal, nunca mais, praticamente, nos separámos na vida. Começamos por trabalhar juntos no jornal Renascimento com dois grandes vultos da cultura macaense dos anos 50, Luís Gonzaga Gomes e Francisco de Carvalho e Rêgo. Passamos depois para o bissemanário O Clarim14. Contudo, a vida militar deixará alguma nostalgia no seu espírito e nas suas memórias, “onde fiquei dois anos e quatro meses. Fui obrigado a deixar o serviço militar por ter mais de quarenta dias de hospitalização, uma dessas leis coloniais que nunca cheguei a compreender. Mas talvez tenha sido a forma de não me agarrar àquela vida”15. A segunda guerra mundial, cujo palco no Pacífico foi de uma inaudita violência, afectou o livre-trânsito das pessoas e por isso cortou carreiras escolares e universitárias e também promissoras trajectórias profissionais. A situação de José Silveira Machado não foi um caso único. O Japão, na região da Ásia e do Pacífico, representava o epicentro de um expansionismo brutal que afectou directamente Macau, cuja periclitante neutralidade se assemelhava a uma ilha rodeada pelas novas possessões sob o controle nipónico. Recorda a difícil posição portuguesa: “Tanto nas horas felizes como nos momentos de angustiosa incerteza, sempre Macau com todos repartiu o pão da sua mesa e a paz da sua vida de bem-querer e de bem fazer. Do vasto território chinês vieram, em horas de aflição, milhares e milhares de foragidos a quem Macau abriu as suas portas de par ANTÓNIO ARESTAColecção MOSAICO, Volume LVIII23
  • em par. Em todos os tempos, vai em mais de quatro séculos, recebeu e agasalhou esta minúscula parcela de Portugal no Oriente centenas de refugiados, provando sempre, apoiada no heroísmo da caridade, a pujança espiritual dos seus destinos e a nobreza da civilização latina e cristã”16. E, concretiza, para a memória futura, o seu testemunho pessoal: “Foi, contudo, a partir de 1937, ano em que as forças nipónicas invadiram a China, que Macau se tornou seguro e humanitário centro de refúgio. A histórica Porta do Cerco abriu-se de par em par, como reconfortante certeza de paz e de esperança, para deixar passar quantos necessitam de pensar feridas, de encontrar repouso para o corpo e para o espírito, de angariar honestamente, protegidos por leis igualitárias, o pão diário. Mas a Porta do Cerco viu, sobretudo, passar centenas e centenas de crianças que, nos asilos e orfanatos da cidade, se preparam para as contingências da vida e para as incertezas do futuro”17. Ingressa na antiga Repartição da Fazenda, “como fiscal do liu-pun, vinho chinês. Ganhava 17 patacas por mês, que não chegavam para viver. Resolvi o problema indo de casa em casa, após as horas de expediente, dar explicações. Fui subindo na carreira de funcionário, sempre por meio de concurso, em que fiquei sempre classificado em primeiro lugar, o que constitui um certo orgulho e vaidadezinha. Naqueles tempos não se davam promoções por mérito ou antiguidade. Era tudo muito rigoroso, porque havia muita gente à procura de emprego e os lugares eram poucos. Aposentei-me na categoria de chefe de secção, o máximo a que podiam ascender os não licenciados”18. Manteve em paralelo à sua carreira profissional outros interesses que eram absorventes nas suas exigências especializadas, nomeadamente a docência e o exercício do jornalismo, para além da militância na vida social nos clubes e associações culturais, desportivas e recreativas. É assim que o encontramos nos corpos gerentes do Sport Macau e Benfica, do Hoquéi Clube de Macau, na Secção Desportiva da Mocidade Portuguesa de Macau, JOSÉ SILVEIRA MACHADO – um macaense dos AçoresColecção MOSAICO, Volume LVIII 24
  • na Associação de Futebol de Macau, na Associação Promotora da Instrução dos Macaenses, no Comité Olímpico de Macau, no Conselho Provincial de Educação Física ou entre os fundadores do Círculo Cultural de Macau. Já octogenário, ainda se mobilizou generosamente para emprestar o seu saber de hospitalidade multicultural nas funções de Conselheiro das Comunidades Portuguesas pelo Círculo da China/Japão/Tailândia. A paixão pelo cinema era enorme, não só pelos trabalhos jornalísticos que assinou, mas também porque esteve ligado à produção da primeira longa metragem rodada em Macau, “Os Caminhos Longos”, para além de diversos documentários promocionais de Macau a que esteve associado. A sua reconhecida erudição, decorrente da boa preparação académica recebida no Seminário de S. José, proporciona-lhe o acesso à docência: “Comecei a dar aulas no Instituto Salesiano, não propriamente a alunos, mas aos padres e irmãos leigos salesianos que se encontravam a trabalhar em Macau. Convidaram-me depois para leccionar no Colégio D. Bosco. Foram, ao princípio, aulas bastante difíceis, dada a minha quase nula experiência e falta de calo para ensinar turmas de rapazes irrequietos, traquinas e, às vezes, mal educados”19. Caso raro, mas não de todo invulgar no antigo espaço ultramarino, onde se cooptavam para a docência personalidades de mérito reconhecido, independentemente da titularidade de habilitações formais, quase sempre inexistentes. A carreira docente aparece de mansinho, insinuando-se no seu modo de ser e de estar: “Mais tarde, convidaram-me para leccionar na Escola Comercial Pedro Nolasco, donde guardo as melhores recordações e onde me realizei como professor. Face ao meu espírito de iniciativa, revolucionei muita coisa naquela escola. No dia da festa da Escola, a 8 de Janeiro, era da praxe servir um lanche aos alunos, que consistia em um saquinho com sanduíches e bolos, e uma bebida. Cada um ia sentar-se na sua carteira a comer o seu lanche. Quando, no primeiro ano, vi aquilo, falei com a ANTÓNIO ARESTAColecção MOSAICO, Volume LVIII25
  • directora, a falecida D. Beatriz Nolasco da Silva, e disse-lhe que tínhamos de mudar aquilo. Ela alegou que se se preparasse uma merenda para todos, uns comiam tudo e os outros ficavam sem nada. Eu repliquei que o papel dos professores é precisamente educar os alunos, para saberem comportar-se. Iniciei, também, ainda no edifício velho, ao cimo da Calçada do Gamboa, umas récitas músico-literárias, levadas a efeito numa aula, em cima de um estrado. Já no edifício novo, onde havia boas instalações, realizaram-se bons espectáculos. Dediquei-me ainda a promover o desporto, e a Escola Comercial teve brilhantes participações em muitas provas desportivas, o que lhe valeu muitas taças e troféus”20. Era uma velha ambição da comunidade portuguesa a criação de uma universidade local21 que facultasse o prosseguimento de estudos aos jovens chineses e portugueses de Macau. Após o fecho do Colégio Universitário de S. Paulo decorrente da expulsão dos jesuítas, a Universidade regressou a Macau em 1981 enquanto instituição particular de Hong Kong. O governo português adquiriu essa pequena escola do ensino superior em 1991 e transformou-a na Universidade de Macau. Na Oração de Sapiência pronunciada na abertura solene das aulas na Escola Comercial Pedro Nolasco22, José Silveira Machado enunciou com clareza o seu pensamento pedagógico, isto é a sua bússola axiológica para a educação: “Há que projectar a Escola na dimensão do futuro. Há que dar-lhe perspectivas que abram horizontes novos e mais aliciantes. Não se pode, porque isso é trair a verdadeira missão da Escola, confinar a educação da juventude às limitações do presente. Seria ficar para trás, ou mesmo recuar, na marcha acelerada do tempo. Para que a Escola possa acompanhar o ritmo da vida moderna, apresenta tendências para uma evolução cada vez mais dinâmica, mais agressiva e mais realista, torna-se imperioso imprimir-lhe novos rumos. Esses novos rumos consistirão essencialmente, em reformar métodos, actualizar processos de ensino, enquadrar a educação nas coordenadas do pensamento que domina hoje JOSÉ SILVEIRA MACHADO – um macaense dos AçoresColecção MOSAICO, Volume LVIII 26
  • as estruturas sociais. Transformar as escolas em centros de convívio sócio-cultural. Sabemos todos que o mais transcendente objectivo da Escola é preparar os jovens para a vida”. Ideias arrojadas para tempos conservadores, convenhamos. Henrique de Senna Fernandes, conhecido romancista e antigo director da Escola Comercial Pedro Nolasco, oferece-nos um testemunho lapidar sobre José Silveira Machado como professor: “Mas foi no ensino, sobretudo como professor de Português na Escola Comercial Pedro Nolasco que, descobrindo a verdadeira vocação, deu o melhor do seu entusiasmo e dedicação. Exercendo, sem desânimo, a difícil arte de ensinar a língua de Camões nestas paragens, classificou-se como um dos mais distintos docentes que leccionaram naquele estabelecimento já centenário. A demonstrar a sua competência, depõem os antigos alunos de trinta e mais gerações de estudantes que lhe guardam amizade e respeito e lhe estão reconhecidos. Esta foi a melhor recompensa que lhe podiam ter dado e de que muito se orgulha”23. Mas o jornalismo foi uma paixão duradoura, um serviço à comunidade e um desafio permanente. Foi um dos fundadores de O Clarim, um jornal ainda hoje em publicação, e aí escreveu centenas de artigos, uns assinados mas a maioria sob pseudónimo ou não assinados. A sua colaboração estendeu-se à Voz de Macau, à Comunidade, ao Boletim Informativo de Macau, à Revista Renascimento, à Revista Macau [2ª série], tendo sido correspondente do Diário da Manhã e da Revista Plateia. Monsenhor Manuel Teixeira, emérito historiador de Macau e um dos mais prolíficos colaboradores permanentes de O Clarim, publicou um divertido e jocoso poema dedicado ao jornal24, onde transparece o ambiente que se vivia em Macau, no círculo da comunidade portuguesa:ANTÓNIO ARESTAColecção MOSAICO, Volume LVIII27
  • “VAIDADE HUMANA Falei ontem ao Clarim; Anda triste o desgraçado; Diz que não agrada a todos E não tem outro pecado. Nesta terra de Macau, Quem tem um olho é rei, Ninguém tem defeito algum, Tudo ouro puro de lei. Se há um jantar no Estoril Um tea-party no Solmar, Se o Silveirinha faz anos, Toma posse dum lugar, Se o patrão vai à Formosa, Ou dá baixa ao hospital, Se o Zé passa em seu exame, Ou vai até Portugal. No aniversário da posse, Ou quando tem um bebé, Se dá um jantar chinês, Ou, caindo, torce um pé, Se desembarca em Macau, Ou então prega um sermão, Se às quintas vai aos rotários E ali faz alocução. ……………………………….”. Espírito conservador e afecto ao regime que Salazar tinha acantonado no partido único, a União Nacional, José Silveira Machado manteve sempre uma postura equilibrada nos seus escritos25, uma pedagogia da solidariedade, com uma opinião substantivamente própria dentro da JOSÉ SILVEIRA MACHADO – um macaense dos AçoresColecção MOSAICO, Volume LVIII 28
  • política ultramarina oficial: “Nunca preocupou o Governo da Província a mesquinha política de interesses reservados ou de domínio autoritário, por não estar isso de acordo com uma linha de conduta que, de há muito, orienta a nossa acção ultramarina. Amigos daqueles que nos vivem à porta, com eles estabelecendo as mais amistosas relações de convívio, sempre com todos nos demos bem. Daí as frequentes visitas de altas personalidades estrangeiras a esta cidade, numa demonstração concludente de que a nossa presença em Terras do Oriente, muito longe de prejudicar quem quer que seja, constitui uma vizinhança a todos os títulos proveitosa e que, de forma altamente meritória, contribui para um universalismo humanitário e cristão”26. A União Nacional publicava em Macau as alocuções doutrinárias do Presidente do Conselho, António de Oliveira Salazar27, não descurando assim a formação e a informação dos compatriotas que viviam no espaço ultramarino. Mas José Silveira Machado não poupa nas palavras e acentua um discurso inequivocamente situacionista e patriótico, quando o regime político é atacado, “Macau corou, não só de vergonha como também de indignação, diante da insidiosa e inequívoca atitude de uns quantos desgarrados que, valendo-se duma ocasião propícia, se arrogaram o direito de pedir o afastamento de Salazar e a demissão do actual Governo Central. E num brado uníssono, o conjunto de bons portugueses desta como todas leal província portuguesa ergueu bem alto a sua voz, para clamar contra a indigna acção dos sectários da rebelião, da desordem e da descrença, que sub-repticiamente pretendem lançar o País no abismo da desunião e ruína total. Numa atitude que não deixa dúvidas quanto à malevolência dos seus desígnios escuros, esses energúmenos insensatos saíram pressurosos da penumbra onde se tinham mantido acobertados, com o intuito de mostrarem ao mundo o seu ódio desmedido a Salazar e ao regime que este grande Estadista criou e mantém firme, num esforço ímpar para salvar Portugal do caos e da confusão em que vivia outrora e no qual pretendem lançá-lo novamente tantos ANTÓNIO ARESTAColecção MOSAICO, Volume LVIII29
  • inimigos da nossa Pátria. Portugal é a Pátria digna dos bons Portugueses, que a receberam dos seus maiores e a querem conservar intacta para a legarem aos vindouros”28. Os problemas internos oriundos de informações maliciosas ou contra-informações, sobre o futuro de Macau não deixavam de agitar as consciências e o próprio equilíbrio político e social entre as comunidades29, gerando mal-estar e incomodidades. Esta parcela da história de Macau tem sido estrategicamente omitida, quer por portugueses, quer por chineses30, em contextos muito precisos. A projecção internacional de Macau era suposto derivar da arte de ser português no mundo, acima das diferenças ideológicas, visto que “Foi de vincado humanismo a mensagem que trouxemos à velha terra dos mandarins”31, daí resultando uma excepcional harmonia luso-chinesa ou sino-portuguesa, pois “nunca numa existência de quatrocentos anos, se verificou, a dentro de suas muralhas, a diferenciação de raças, de credos ou de ideologias, para todos sendo de igual acolhimento a sombra benéfica da Bandeira das Quinas”32. O frisson nouveau resultava da assumpção das confluências kantianas entre a moralidade do ser e a moralidade do dever, “Fomos nós que revelamos aos povos da velha Europa as subtilezas e as maravilhas das civilizações orientais, e abrimos, ante seus olhos ávidos e estarrecidos, o caleidoscópio de seus ritos e crenças, de seus usos e costumes, de sua arte e de sua literatura. E fomos nós ainda que até eles trouxemos, em rajadas de génio, de audácia e de humanismo, o que de mais valioso possuía a civilização latina – os ensinamentos de Roma e de Atenas passados pelo crivo dos filósofos da Idade Média”33. Por isso tinha toda a razão quando verberava, “o conformismo é o grito sinistro das grandes derrocadas, o toque alarmante da desagregação dos espíritos, a tábua de salvação dos homens de ideal amesquinhado e efémero que ambicionam simplesmente a satisfação de momento. Não há pois lugar ao conformismo na hora grave que passa”34. É através da poesia que José Silveira Machado melhor assimila a essência fugitiva de Macau, que é uma realidade complexa, plural e em permanente JOSÉ SILVEIRA MACHADO – um macaense dos AçoresColecção MOSAICO, Volume LVIII 30
  • tensão identitária. A poesia revelou-se um vero exercício de aproximação ao real, com um olhar alegorizado sobre o oriente da imaginação, sempre com a presença de uma réstia de melancolia, porventura decorrente do sortilégio das ilhas dos Açores que insconscientemente o acompanhava: “E na sombra silenciosa do pagode, diante do buda terrível e implacável, a alma pequenina de SIU IENG era uma espiral ondeante de incenso, a subir, leve e lenta, em voluptuosa ode, à região desconhecida do mistério imenso.”35 Este lirismo recorta com nitidez uma virtuosidade quase silogística numa realidade erotizada mas absorvidamente religiosa. Os mistérios orientais não são um ludíbrio sensorial em cima de um dramatismo intelectual, mas podem ser considerados como o inevitável sentido esotérico de uma realidade diferente onde tudo parece evanescente e dolorosamente vazio: “Pobre e pequenina SIU IENG, não mais te dobres ao peso milenário dos grandes mistérios do Oriente; mostra na tua boca linda e vermelha a arrogância do peito ardente que sabe calar – aroma de centelha – a paixão proibida que te devora. Não mais ergas os olhos lindos, tristes e súplices, de amor doridos, à mudez do Buda terrível, indiferente; não mais levantes as mãos finas, mornas como carícias de boninas, longas carícias embriagadoras, aos ídolos de seduções inquietadoras.”36 ANTÓNIO ARESTAColecção MOSAICO, Volume LVIII31
  • 32Colecção MOSAICO, Volume LVIIIJOSÉ SILVEIRA MACHADO – um macaense dos AçoresJosé Silveira Machado coloca com sinceridade o seu pensar crente, estimulando uma discussão iluminada por uma candura espiritual e voluntarista, reivindicando uma finitude radical: “No tempo psicológico a encandear paixões, anseios, alegrias, tristezas, encantos e desencantos. No espaço íntimo de emoções fortes, de silêncios magoados, de prazeres capitosos, de imagens delirantes, de ilusões perdidas. E ao longo dessa trajectória a poesia surgiu trazida numa caravela de sonho.”37 O conhecimento de Macau significava uma reorganização das ideias pré-concebidas em nome do dever de entender, assumindo as inquietações com toda a clareza, por vezes matizada de hostilidades orgânicas: “Transpus os pórticos dos templos budistas no desejo de desvendar os mistérios da velha China. Calcorreei calçadas e subi colinas para mergulhar o pensamento e a sensibilidade nos encantos e desencantos da cidade cristã. Subi o rio por entre juncos, lorchas e sampanas, para sentir a vida dos homens do mar, na sua luta contra a incerteza dos ventos e das marés”38. O sentimento de pequenez perante os enigmas cósmicos entrelaçam-se com as emoções delicadas por uma apreensão estética intensa e positivista dos saberes, assumindo a alteridade como uma prerrogativa da exterioridade: “Deuses e heróis comandam os destinos e os anseios da velha terra dos mandarins. As espadas flamejantes dos heróis da lenda e os olhos de jade dos deuses, terríveis e implacáveis, dominam a vida desse grande povo. Símbolos de arreigadas crenças exercem profunda influência nas determinantes do pensamento. A muralha secular, estendida por quilómetros de estepes, é ainda baluarte forte a impedir o avanço de concepções estranhas. A tradição pesa demasiado na vida do chinês para que ele se desembarace dos conceitos de seus antepassados, firmados em máximas de reconhecida sabedoria.”39
  • José Silveira Machado reflecte sobre a sua circunstância e a conjuntura tumultuária de onde provém as suas grandiosas energias, formulando uma reflexão melancólica e vagamente dolorida: “Eu sou apenas o passado não vou nem fico nem posso recuar. A nostalgia das horas trouxe-me o ontem de amanhã o presente não conta o futuro não interessa o passado não morre. Dentro da noite e do mistério vivo com a minha sombra no ontem de amanhã”40. Este quase neoplatonismo remete as ideias puras para um mundo ideal, cujo esforço de ascenção não chega para apaziguar o espírito: “Irrequieto melancólico alucinado o pensamento esfuma-se nas brumas do mistério.”41 Apesar das limitações, ao “contemplar a cidade de Macau, jóia de rara beleza a impor no Extremo Oriente o nome dum Povo e o significado duma Civilização, sentimo-nos orgulhosos do seu passado de glória e cresce em nós a mais profunda confiança no seu futuro de terra de paz, de ordem e de trabalho. Percorrer, pois, as ruas de Macau, em tarde calma de primavera, é viver, no significado histórico os seus monumentos e na religiosidade dos seus templos, o lusitanismo criador que nos atirou para as sete partidas do Mundo. É desvendar, no silêncio misterioso dos pagodes e nos usos e costumes do povo chinês, a alma enigmática da velha China. É embriagar o espírito nas 33 Colecção MOSAICO, Volume LVIIIANTÓNIO ARESTA
  • belezas naturais desta aliciante terra de maravilha”42. Esta declaração de amor a Macau é a marca sensível deste orientalismo romântico que valoriza e respeita as relações intersubjectivas com os seus versos e reversos, na sua especificidade e dignidade, colocando em evidência a hospitalidade como a grande fonte de sentido para a histórica presença portuguesa. E nas tertúlias com os amigos, manteve até ao fim esse espírito ecuménico numa sociedade aberta onde a tolerância parecia ser ilimitada. Esta questão radical encontrava uma resposta ondulatória, cada caso era um caso com os seus próprios pressupostos43, sem tempo mas com a “nostalgia das horas”: “Tortura-me o silêncio das horas a distância o mar as ondas o vento em requebros sensuais o pensamento em dobras de angústia. Gosto das horas mortas Sem nada Sem ninguém eu mesmo e só eu dentro e fora do tempo e do espaço no silêncio de mim mesmo”. JOSÉ SILVEIRA MACHADO – um macaense dos AçoresColecção MOSAICO, Volume LVIII 34
  • ANEXOS A Integração da Nova Escola nas Sociedades Modernas44 Ao longo da história de todos os povos, pelo menos dos considerados civilizados, a Escola tem evoluído sempre, nos aspectos económico, social, político e cultural das sociedades que a aceitaram e lhe deram estruturas. Tanto no seu conteúdo como nos seus métodos, pode-se afirmar que a Escola nunca se fixou em formas estáticas, por mais brilhantes que fossem, mas que sempre procurou enriquecer o seu conteúdo e dinamizar os seus métodos. Se considerarmos que as sociedades têm vindo a evoluir em ritmo extraordinariamente rápido, não podemos consentir, nem permitir, nem aceitar, que nessas sociedades funcionem escolas de conteúdo obsoleto e ultrapassado e de métodos antiquados. Há que projectar a Escola na dimensão do futuro. Há que dar-lhe perspectivas que abram horizontes novos e mais aliciantes. Não se pode, porque isso é traír a verdadeira missão da Escola, confinar a educação da juventude às limitações do presente. Seria ficar para trás, ou mesmo recuar, na marcha acelerada do tempo. Para que a Escola possa acompanhar o ritmo da vida moderna, que apresenta tendências para uma evolução cada vez mais dinâmica, mais agressiva e mais realista, torna-se imperioso imprimir-lhe novos rumos. Esses novos rumos consistirão essencialmente em reformar métodos, actualizar processos de ensino, enquadrar a educação nas coordenadas do pensamento que domina hoje as estruturas sociais. Transformar as escolas em centros de convívio sócio-cultural. Sabemos todos que o mais transcendente objectivo da Escola é preparar os jovens para a vida. E em face de tal exigência pedagógica, essa preparação não pode ser ministrada à margem da vida, nem à margem das correntes sócio-político-culturais que formam e informam o caminhar ANTÓNIO ARESTAColecção MOSAICO, Volume LVIII35
  • JOSÉ SILVEIRA MACHADO – um macaense dos AçoresColecção MOSAICO, Volume LVIII 36da gente nova para um mundo novo, para um estilo de vida que não se compadece com muitos dos preconceitos de que enferma a sociedade em que vivemos. A Escola deve, pois integrar-se na sociedade em que funciona, não contrariando, de maneira alguma, os aspectos económico-sociais que rodeiam e influenciam o meio ambiente em que o estudante desenvolve o seu crescimento mental. Mas deve procurar, de forma positiva, coordenar a sua acção-conteúdo e métodos – no sentido de constituir um ponto de encontro entre o mundo escolar e o mundo da família. A Escola tem, assim, de realizar uma integração social que favoreça e aproveite o conhecimento de certas realidades a que, infelizmente, por comodismo ou rotina, não se tem ligado muita importância. A primeira dessas realidades é a necessidade de se caminhar para um estilo novo de cooperação entre o professor e os alunos, o qual representará, afinal, a integração social da escola na vida da comunidade que ela serve. A segunda dessas realidades é a exigência actual de transformar a escola num organismo vivo, mediante a adopção de técnicas novas de organização escolar e de formação de dirigentes de acção coordenadora. A terceira realidade é que a escola não é apenas a aula e os tempos lectivos, mas sim, a par da aula, com o seu interesse, respeito e disciplina da vida, os recreios com os seus problemas de camaradagem e liberdade, a situação do aluno no lar, as relações humanas de amor e obediência, o culto do sentido de responsabilidade, a abertura franca de ideias e de pensamento, o convívio social de professores e alunos num ambiente de sinceridade e confiança mútuas. Numa escola de estilo novo, em que se saiba coordenar e agir perante as realidades do mundo presente, urge que professores e alunos, alunos e professores se empenhem todos em manter um diálogo de interesse e de verdade, num autêntico convívio de sociologia moderna. Para tanto, há
  • ANTÓNIO ARESTAColecção MOSAICO, Volume LVIII37que desbravar novos caminhos, trilhar novos rumos, abrir os espíritos às realidades da vida, formar personalidades que resistam ao embate do egoísmo e da hipocrisia, remover obstáculos que a rotina enraizou ao longo dos anos. Dentro desta perspectiva todos os professores têm de ser mais novos do que na realidade são. É que o aluno quer ver no professor um amigo, porque a juventude de hoje procura qualquer coisa que os adultos, muitas vezes, não lhe souberam ou não quiseram dar. Procura a justiça, hoje tão destituída de verdade. Procura a sinceridade, tantas e tantas vezes violada. Procura a autenticidade, que tem sido tão burlada e escarnecida. Procura a liberdade, que vemos ultrajada e espezinhada em todos os recantos da terra. Esses jovens têm sede de serem eles mesmos, de viver num mundo diferente, de construir um mundo melhor. E é àqueles, sobre quem recai a tremenda responsabilidade de educadores, que cabe e compete trabalhar juntamente com esses jovens, com apelo à pedagogia da contestação, da admiração e da tolerância, para a conquista desse mundo melhor, onde seja restituída à pessoa humana a sua verdadeira dignidade. Mas quantas vezes os educadores se preocupam apenas com o exterior: com os cabelos compridos, com as patilhas, com as guitarras eléctricas, com as vestimentas garridas e exóticas. Há que aprofundar mais, ir mais dentro, penetrar nos espíritos, para descobrir que essa juventude busca a sinceridade, a compreensão e a justiça. Podemos afirmar, parafraseando um escritor espanhol, que um estabelecimento de educação formará bem os seus alunos na medida em que se parecer a um lar, onde o aluno não seja um número, mas um rapaz ou uma rapariga que é tomado a sério, que é conhecido pelo seu nome, de quem se sabe a idade mental, as virtudes, os caprichos, a forma de estudar,
  • JOSÉ SILVEIRA MACHADO – um macaense dos AçoresColecção MOSAICO, Volume LVIII 38os gostos, o carácter; um rapaz ou rapariga de quem se conhecem as possibilidades e dificuldades para o estudo. Tudo isto exige um trabalho colectivo, um trabalho de verdadeira cooperação e integração no conteúdo e nos métodos da Escola, de forma que o conjunto do professorado de um estabelecimento de ensino esteja plenamente de acordo sobre o nível a alcançar pelos alunos. Quando se conseguir um clima de sinceridade e de autenticidade, em que se viva o respeito mútuo e uma grande confiança entre professores e alunos, ter-se-á alcançado um ambiente e uma atmosfera em que sobejam os castigos, os delatores, os chefes de turma, as faltas disciplinares. A Escola tem de ser uma família, um lar, em que todos se conheçam e se respeitem, em que todos, professores e alunos, caminhem na mesma direcção, que é a preparação desses jovens para a sua integração nas sociedades em que terão de ganhar honradamente a sua subsistência. Será, pois, chegada a hora de ensinar novos processos, adoptar novos métodos, modificar o conteúdo? Será chegada a hora de estabelecer um diálogo mais franco, mais aberto, mais actual, entre professores e alunos? A interrogação pesa tremendamente e obriga talvez a uma paragem. A uma paragem que tenha como objectivo precisamente corrigir hábitos adquiridos, alterar antigos métodos de disciplina, dar nova orientação aos processos até agora seguidos, insuflar ideias actuais no conteúdo do ‘curriculum’ escolar. E sobretudo, declarar guerra aberta à rotina, a essa rotina que destrói qualquer centro de formação. Em conclusão, podemos afirmar que a Escola moderna terá de ser ao mesmo tempo instrumento escolar, social, desportivo e cultural, de forma que os alunos saiam para a vida com um sentido penetrante dos seus direitos e responsabilidades nas sociedades em que se hão-de integrar. Mas para tanto, é necessário que os alunos se convençam de que nada é possível do que acabamos de afirmar, se neles não nascer o estímulo suficiente para desenvolverem o seu temperamento pessoal, o espírito
  • ANTÓNIO ARESTAColecção MOSAICO, Volume LVIII39de iniciativa, o sentido de responsabilidade, a noção de respeito e de obediência para com os superiores, o ideal de camaradagem para com os condiscípulos, exactamente como se vivessem no seio de uma família numerosa e bem orientada. Festividade d0 Outono45 Colhidos os frutos maduros na festividade do outono, o povo rejubila em noite de lua cheia. O eco dos tambores corre por vales e montes, a água fresca das fontes canta em flautas de bambú, mãos finas tangem alaúdes dedilhando a lira. Os camponeses alegres de suor e esperança sacrificam aos deus do campo as oferendas da terra: maçarocas de milho espigas doiradas ovelhas mansas cabritos da montanha. Piras de bronze velho queimam papéis votivos nos pagodes em festa, hinos de louvor sobem ao trono dos deuses a pedir chuva suave e moderada que fertilize várzeas e arrozais multiplique nas arcas os grãos da abundância.
  • JOSÉ SILVEIRA MACHADO – um macaense dos AçoresColecção MOSAICO, Volume LVIII 40Depoimentos sobre José Silveira Machado46 1 – Por Beatriz e João Basto da Silva (Coimbra, Outubro de 2018) Ao chegarmos a Macau, em 1970, os convivas, nos acontecimentos festivos a que acorríamos, eram praticamente todos conhecidos uns dos outros. Os encontros desportivos, culturais, religiosos, as celebrações do 10 de Junho no Jardim de Camões e no Palácio, a frequência dos Clubes (de Macau, Militar, Ténis), as esplanadas dos cafés (Solmar…), os cafés sem esplanada (Safari…), os novos espaços oferecidos pelo recentemente aberto Hotel Lisboa, as Missas (Sé, S. Domingos, S. Lázaro), e até os corredores do Hospital Conde de S. Januário, de nenhum destes pontos excluimos a possibilidade de cruzar com José Silveira Machado. E cruzar não era só “passar por”, era ficar à conversa um bom bocado, porque assunto e comentários não faltavam. No serviço, eu, Beatriz e eu, João, porque ambos assinamos este depoimento, já não era tão fácil, porque ensinávamos em escolas diferentes. A impressão que dele colhemos devia-se também a termos uma sua filha como aluna. As nossas ideias convergiam agradavelmente e focavam-se com frequência nos pontos de vista que ele exprimia como jornalista de pena hábil. Sujeito educadíssimo e aprumado, ou não fosse ele açoriano, brilhava em si a facilidade e riqueza linguística adquiridas no Seminário de S. José. Definitivamente para clérigo não iria! Casou com uma senhora de Macau (frequentadora dos Chás da Primeira Dama e membro da Obra das Mães), mas, curiosamente, seria mais tarde ela própria a optar por viver em Lisboa (filhas a estudar), enquanto Silveira Machado se agarrou ao oriente como se ali tivesse raízes.
  • E tinha: hábitos, amigos que prezava devotadamente, o ambiente e o ar que considerava, do coração, seus. Como professor da ECPN, o Director com quem mais tempo trabalhou foi o Dr. Henrique de Sena Fernandes. A sua actividade docente coincidiu, apesar de tudo, de forma larga e suficiente para, no meu (João Bosco) exercício de Director o ter apreciado e admirado pela sua enorme dedicação. De uma empatia extraordinária com os colegas e alunas, alunos também, de sábio e pronto conselho, estava sempre disponível quer nas festas da Escola, quer nos eventos desportivos ou nos passeios escolares. Em visita dos alunos finalistas às Filipinas, coube-me como Director ter a prestimável companhia e ajuda do Prof. Silveira Machado. Ficamos instalados no mesmo quarto, o que proporcionou entre nós uma camaradagem que, pela diferença de idades e pelo tempo de serviço, não teria ocorrido de outro modo. Eu, Beatriz, acrescento só uma nota pessoal: “– Ó Prof. Silveira Machado, sendo o sr. o revisor de provas do divertido romance do Dr. Henrique ‘Amor e Dedinhos de Pé’ tão bem sucedido que foi levado ao cinema, por que não alterou algumas deixas do texto para um português padrão? Não é uma pena aquela sintaxe desadequada, enfim… o que me diz? – Olhe menina, fiz a limpeza possível, o resto era ofender o estilo do romancista.” Portanto, preferiu que o revisor passasse por distraído, não o sendo de todo! Silveira Machado escritor, homem de cinema, de desporto, de sociedade, de jornais … é extenso demais para caber num curto depoimento.ANTÓNIO ARESTAColecção MOSAICO, Volume LVIII41
  • 2 – Por Hélder Fernando (Novembro, 2018) Conheci José Silveira Machado em 1983 nos escritórios do Grupo Empresarial Aldifera onde fui fazer uma entrevista, previamente agendada pelo telefone, ao gerente e proprietário Alberto Dias Ferreira, conhecido como “ministro”. O Zé era amigo e colaborador e foi ele que depois das apresentações, do telefonema desconfiado para cima, e ar de poucos amigos, subiu comigo as escadas de acesso ao gabinete do chefe. No regresso da entrevista, umas 3 horas e uma garrafa de uísque depois (trabalho feito), ficámos celebrando o facto de nos termos conhecido em Lisboa, em fins dos anos 70, nos então estúdios da Tobis, por causa de um documentário. Filme que ele tinha ali mesmo, numa gaveta, e o meu nome na ficha técnica. Feita aquela amizade até à morte, o bom do Silveira Machado era outro, combinámos jantar no dia seguinte. Encontros que se repetiram alegremente por mais de 20 anos até ao seu falecimento em 2007. Quase sempre havia uma figura aglutinadora das tantas tertúlias vividas, o também inesquecível Alberto Estima de Oliveira. Os locais habituais dessas reuniões absolutamente de amigos, nunca organizadas como alguma coisa para além da informalidade de acompanharmos iguarias chinesas com tinto português em copos de licor, eram no Taim Sam Un, no prolongamento da Rua da Felicidade, hoje creio que um pequeno hotel modernaço, ou, quase em frente, na Travessa da Felicidade, o Vun Kei, que ainda existe e nos últimos anos completamente renovado e de grande qualidade. Começaram por ser almoços a 3 ou 4, Silveira Machado, Estima e eu, agregando logo depois o Carlos Morais José, o Yao Jing Ming, o Américo Monteiro, em muitas ocasiões o José Maneiras, a Celina Veiga de Oliveira, JOSÉ SILVEIRA MACHADO – um macaense dos AçoresColecção MOSAICO, Volume LVIII 42
  • o Padre Lancelot, variadíssimos mais, incluindo figuras de passagem por Macau que ali ensaiavam ou digeriam a palestra feita, o teatro representado, a música tocada, as imagens captadas, ou qualquer missão cumprida ou por cumprir. Tudo sempre indisciplinado, acalorado, polémico, sem medo das palavras ecoadas nos azulejos ou manchadas nos papéis de limpar as mãos. Teciam-se crónicas de jornal, lapidavam-se frases fazendo-as poemas, inspiravam-se cantigas, sugeriam-se divulgações de incomparáveis histórias antigas, o Zé contava episódios rocambolescos do desaparecido filme ‘Caminhos Longos’, de Eurico Ferreira de que ele foi produtor. Emocionava-se de cada vez que falava deste filme. O Professor, como a generalidade das vezes era mencionado, foi um apaixonado, rebelde e tolerante, intempestivo e meigo, conservador e revolucionário, mas não tudo ao mesmo tempo, dependia das conversas, das situações, muitas vezes do cruzamento de olhares. Nas vadiarias nocturnas mostrava sempre o seu irrepreensível porte de cavalheiro. Foram muito difíceis – sei que foram por ter testemunhado – os últimos tempos de vida internada num asilo. Nos primeiros desses dias ter-se-ão sucedido alguns episódios revoltantes, o mais possível mitigados pela solidariedade activa de um companheiro ali alojado, por uma sua jovem amiga que diariamente se sentava à cabeceira durante as horas permitidas, a comida caseira que lhe levava outra amiga, ou a visita de alguns amigos. ANTÓNIO ARESTAColecção MOSAICO, Volume LVIII43
  • Subsídios para uma bibliografia de José Silveira Machado 1. Em volume Macau, Sentinela do Passado, edição da Secção de Propaganda e Turismo, Macau, 1956, 113 pp. Rio das Pérolas, introdução de Carlos Marreiros e de Henrique de Senna Fernandes, edição Mar-Oceano Editora, 1993, 73 pp. Duas Instituições Macaenses: Associação Promotora da Instrução dos Macaenses e Escola Comercial Pedro Nolasco, com João Guedes, prefácio de Henrique de Senna Fernandes, edição da Associação Promotora da Instrução dos Macaenses, 1998, 286 pp. Macau na Memória do Tempo, edição da Fundação Macau, 2002, 213 pp. O Outro Lado da Vida, edição O Clarim, Macau, 2005, 147 pp. 2. Antologia [está incluído em] Trovas Macaenses, organização de João C. Reis e Maria Helena Osório Reis, Mar-Oceano Editora, Macau, 1992. Antologia de Poetas de Macau, selecção e organização de Jorge Arrimar e Yao Jingming, prefácio de Ana Paula Laborinho, edição bilingue, português/chinês, Instituto Camões/Instituto Cultural de Macau/Instituto Português do Oriente, 1999. Poetas Portugueses de Macau/Portuguese Poets of Macao, organização de Christopher Kelen e Lili Han, Ed. Association of Stories in Macau, edição bilingue português/inglês, 2009. 3. Colaboração dispersa47 O Grande Amor, Revista Renascimento [Macau], Vol. II, Nº 6, Dezembro, 1943, pp. 664-665. Ansiedade, Revista Renascimento [Macau], Vol. III, Nº 1, Janeiro, 1944, pp. 98-99. Ao Nascer do Sol (quadro simples), Revista Renascimento [Macau], Vol. III, Nº 2, Fevereiro, 1944, pp. 138-139. Poema da Carne, Revista Renascimento [Macau], Vol. III, Nº 2, Fevereiro, 1944, pp. 213-214. Alma Triste (quadro simples), Revista Renascimento [Macau], Vol. III, Nº 3, Março, 1944, pp. 262-263. Aragem, Revista Renascimento [Macau], Vol. III, Nº 3, Março, 1944, pp. 327-328. Conformismo, Revista Renascimento [Macau], Vol. III, Nº 4, Abril, 1944, pp. 344-346. JOSÉ SILVEIRA MACHADO – um macaense dos AçoresColecção MOSAICO, Volume LVIII 44
  • Quando a tarde cai, Revista Renascimento [Macau], Vol. III, Nº 4, Abril, 1944, pp. 426-427. Fumos da Vida, Revista Renascimento [Macau], Vol. III, Nº 5, Maio, 1944, pp. 470-472. Almas Denegridas, Revista Renascimento [Macau], Vol. III, Nº 5, Maio, 1944, pp. 515-516. Primavera na Terra – Primavera no Céu, O Clarim [Macau], Nº 1, 01.05.1949. Mensagem de Fátima … e os caminhos transbordantes de gente e de milagres, O Clarim, [Macau], Nº 2, 08.05.1949. Conto: Uma Velha Lenda, O Clarim, [Macau], Nº 14, 31.07.1949. Carta Aberta ao autor de ‘O Leão do Passaleão’, O Clarim Literário [Macau], Nº 1, 11.09.1949. Cândido de Figueiredo, o grande filólogo português, O Clarim Literário [Macau], Nº 2, 25.09.1949. A Sétima Arte, O Clarim Cinematográfico, [Macau], Nº 1, 02.10.1949. Conto: Gabriela, O Clarim Literário, [Macau], Nº 3, 16.10.1949. Crítica Cinematográfica: ‘Fátima, Terra de Fé’, O Clarim Cinematográfico, [Macau], Nº 2, 23.10.1949. Traduttore, tradittore…, O Clarim Literário [Macau], Nº 5, 11.12.1949. A Festa de Natal da Imprensa Nacional, O Clarim [Macau], Nº 36, 01.01.1950. O Amor e a Saudade dos Portugueses nos ‘Lusíadas’, Revista Mosaico [Macau], Nº 1, 1950, pp. 49-53. ‘Momentos Musicais’ de Francisco Carvalho e Rego, O Clarim Literário [Macau], Nº 6, 15.01.1950. O Movimento Espiritual no Teatro e no Cinema, O Clarim Cinematográfico [Macau], Nº 4, 22.01.1950. A Poesia em face da lei da cooperação, O Clarim Literário [Macau], Nº 8, 05.03.1950. A estreante do D. Pedro V: Mariazinha Soveral, O Clarim Cinematográfico, [Macau], Nº 6, 19.03.1950. Relatório da Associação de Football de Macau, O Clarim [Macau], Nº 10, 09.07.1950. Concerto Musical em benefício do Colégio D. Bosco, O Clarim [Macau], 09.07.1950. A obra imortal de Garrett: Frei Luís de Sousa, O Clarim [Macau], 27.08.1950. O amor e a saudade dos portugueses nos ‘Lusíadas’, Revista Mosaico, Vol. I, Nº 1, Setembro, 1950, pp. 49-53. ‘Macau’ de Francisco Carvalho e Rego, O Clarim [Macau], 01.10.1950. Solenes Festejos em honra do pequeno grande santo Domingos Sávio, O Clarim [Macau], 03.12.1950. A minha homenagem, O Clarim [Macau], 31.12.1950. Os rapazes do Colégio Dom Bosco, O Clarim [Macau], 14.01.1951. Mais uma obra de assistência social, O Clarim [Macau], 21.01.1951. ANTÓNIO ARESTAColecção MOSAICO, Volume LVIII45
  • A acção beneficente da exm.ª Sr.ª D. Helena Cremilda de Oliveira, O Clarim [Macau], 25.03.1951. Preito de Saudade, O Clarim [Macau], 29.04.1951. Macau viu com tristeza e com saudade partir o seu estimado Governador Com. Albano Rodrigues de Oliveira, O Clarim [Macau], 29.04.1951. Dois dias em Hongkong, O Clarim [Macau], 29.04.1951. Dois livros de Francisco Carvalho e Rêgo, O Clarim [Macau], 06.05.1951. Hernâni Anjos fala a O Clarim, O Clarim [Macau], 30.05.1951 Vai começar a segunda fase do Bairro Económico, O Clarim [Macau], 03.06.1951. Sessão solene promovida pela União Nacional, O Clarim [Macau], 03.06.1951. A assistência em Macau, O Clarim [Macau], 29.07.1951. O passado missionário de Portugal, O Clarim [Macau], 16.09.1951 O vento das boas impressões, O Clarim [Macau], 02.12.1951. O Clarim e a sua semana desportiva, O Clarim [Macau], 16.12.1951. Noite de Natal, O Clarim [Macau], 23.12.1951. Comandante Joaquim Marques Esparteiro em visita oficial a S. Ex.ª o Governador de Hong Kong Sir Alexander Grantham, O Clarim [Macau], 06.01.1952. O significado de uma visita, O Clarim [Macau], 13.01.1952. Fazei muita cristandade, O Clarim [Macau], 24.02.1952. Filme ‘Senhora de Fátima’, O Clarim [Macau], 24.02.1952. Filme ‘Senhora de Fátima’, O Clarim [Macau], 02.03.1952. Na estreia de ‘Senhora de Fátima’, O Clarim [Macau], 09.03.1952. A propósito do regresso de Leonor Maia aos Estúdios, O Clarim [Macau], 23.03.1952. Uma pergunta e 18 respostas acerca do filme ‘Senhora de Fátima’, O Clarim [Macau], 23.03.1952. Clarim cinematográfico, O Clarim [Macau], 06.04.1952. Foi inaugurada oficialmente a Emissora Vila Verde, O Clarim [Macau], 13.04.1952. Macau viveu horas de fé nos dias 12 e 13 de Maio, O Clarim [Macau], 18.05.1952. Sérgio Varela Cid e Silva Pereira, O Clarim [Macau], 22.06.1952. Siou Yeng (poesia), com tradução francesa de R. Wengraf, O Clarim [Macau], 27.07.1952. Ricardo Malheiro, O Clarim [Macau], 24.08.1952. Porque fomos às Ilhas?, O Clarim [Macau], 14.12.1952. Fazei muita cristandade, O Clarim [Macau], 14.12.1952. … e uma estrela brilhou (poesia), O Clarim [Macau], 25.12.1952. Ronda internacional, O Clarim [Macau], 25.01.1953. D. José da Costa Nunes, O Clarim [Macau], 26.02.1953. Ao bater das doze badaladas…, O Clarim [Macau], 04.01.1953. JOSÉ SILVEIRA MACHADO – um macaense dos AçoresColecção MOSAICO, Volume LVIII 46
  • Ronda internacional, O Clarim [Macau], 08.03.1953. Luís Vaz de Camões, poeta e soldado, O Clarim [Macau], 11.06.1953. ‘A mais formosa cidade de quantas vi em toda a minha vida’, O Clarim [Macau], 18.06.1953. Discurso na eleição do melhor atleta de 1954, O Clarim [Macau], 13.02.1955. O Paraíso, O Clarim [Macau], 01.03.1956. Conversando com refugiados, O Clarim [Macau], 29.04.1956. ‘A Mulher Venceu’, O Clarim [Macau], 17.05.1956. Macau na história das relações comerciais com a China, Boletim Eclesiástico da Diocese de Macau, Vol. LV, Nº 641, 1957, pp. 818-829. Francisco de Carvalho e Rêgo, O Clarim [Macau], 17.01.1960. Os Salesianos em Macau, O Clarim [Macau], 31.01.1960. Uma manifestação de apreço, O Clarim [Macau], 18.02.1960. Camarotes dos barcos de carreira, O Clarim [Macau], 27.03.1960. Condução difícil, O Clarim [Macau], 31.03.1960. Transporte colectivo de estudantes, O Clarim [Macau], 03.04.1960. Dia Mundial da Saúde, O Clarim [Macau], 07.04.1960. Coisas que acontecem, O Clarim [Macau], 28.04.1960. O atletismo em Macau, O Clarim [Macau], 05.05.1960. ‘Enchanting Macau’, O Clarim [Macau], 08.05.1960. Quem foi ‘Henrique’?, O Clarim [Macau], 12.05.1960. Mães Canossianas, O Clarim [Macau], 15.05.1960. Funcionários e suas categorias, O Clarim [Macau], 19.05.1960. Sua Ex.ª o Governador regressa, O Clarim [Macau], 22.05.1960. As avezitas também choram…, O Clarim [Macau], 26.05.1960. Horário de Verão, O Clarim [Macau], 29.05.1960. Futebol… uma doença!, O Clarim [Macau], 05.06.1960. Aproxima-se o tufão!, O Clarim [Macau], 09.06.1960. E pontos nos iii…, O Clarim [Macau], 12.06.1960. Solidariedade, O Clarim [Macau], 16.06.1960. Hospitalização em 3ª classe, O Clarim [Macau], 19.06.1960. Moradias para funcionários municipais, O Clarim [Macau], 26.06.1990. A América e o Japão, O Clarim [Macau], 30.06.1960. Ainda … os buracos das ruas, O Clarim [Macau], 03.07.1960. Exames, O Clarim [Macau], 07.07.1960. O trânsito e os seus problemas, O Clarim [Macau], 10.07.1960. Quanto pode a avareza?, O Clarim [Macau], 14.07.1960. Funcionários louvados, O Clarim [Macau], 17.07.1960. ANTÓNIO ARESTAColecção MOSAICO, Volume LVIII47
  • Uma decisão justa, O Clarim [Macau], 21.07.1960. Considerações sobre o dinheiro, O Clarim [Macau], 28.07.1960. Unidade nacional, O Clarim [Macau], 31.07.1960. Rua Madre Teresina, O Clarim [Macau], 04.08.1960. Macau e o turismo, O Clarim [Macau], 07.08.1960. As Ruínas de S. Paulo, O Clarim [Macau], 11.08.1960. Grande Prémio de Macau, O Clarim [Macau], 14.08.1960. A presença do Brasil, O Clarim [Macau], 21.08.1960. Ano Olímpico de 1960, O Clarim [Macau], 25.08.1960. Pelas ruas da Cidade, O Clarim [Macau], 28.08.1960. Um sonho inofensivo, O Clarim [Macau], 04.09.1960. Protejamos os animais, O Clarim [Macau], 08.09.1960. O embelezamento da Cidade, O Clarim [Macau], 11.09.1960. O exemplo dos Olímpicos, O Clarim [Macau], 15.09.1960. O primeiro aniversário, O Clarim [Macau], 18.09.1960. Os valdevinos da cidade, O Clarim [Macau], 22.09.1960. No Bairro de Mong Há, O Clarim [Macau], 25.09.1960. Noção do dever, O Clarim [Macau], 29.09.1960. Censo da População, O Clarim [Macau], 02.10.1960. A missão da imprensa, O Clarim [Macau], 06.10.1960. Hotéis e Turismo, O Clarim [Macau], 09.10.1960. Problemas de trânsito, O Clarim [Macau], 11.12.1960. Aproxima-se o Natal, O Clarim [Macau], 18.12.1960. Visita a Hong Kong de S. Ex.ª o Governador, O Clarim [Macau], 25.12.1960. Bons dias, 1961, O Clarim [Macau], 01.01.1961. Macau e as suas ruas, O Clarim [Macau], 15.01.1961. É de louvar, O Clarim [Macau], 22.01.1961. Vil e vergonhosa acção, O Clarim [Macau], 29.01.1961. Comédia humana, O Clarim [Macau], 19.02.1961. O nosso sistema de trânsito, O Clarim [Macau], 26.02.1961. O ‘Time’ americano, O Clarim [Macau], 05.03.1961. A independência da menina Libéria, O Clarim [Macau], 12.03.1961. A ONU e Portugal, O Clarim [Macau], 16.03.1961. O direito à aposentação, O Clarim [Macau], 19.03.1961. Praga de mosquitos, O Clarim [Macau], 06.04.1961. Saber perder… uma vitória, O Clarim [Macau], 16.04.1961. A farsa da ONU, O Clarim [Macau], 23.04.1961. JOSÉ SILVEIRA MACHADO – um macaense dos AçoresColecção MOSAICO, Volume LVIII 48
  • Pavimento das ruas, O Clarim [Macau], 07.05.1961. Norte-americanos e Salazar. Carta aberta, O Clarim [Macau], 11.05.1961. Norte-americanos e Angola. Carta aberta, O Clarim [Macau], 14.05.1961. Cheiro que incomoda, O Clarim [Macau], 18.05.1961. Revolução Nacional, O Clarim [Macau], 28.05.1961. ‘Os Pecados da Juventude’, um filme condenável, O Clarim [Macau], 06.08.1961. Materiais sujeitos a licenças, O Clarim [Macau], 10.08.1961. Vale mais prevenir, O Clarim [Macau], 13.08.1961. Medidas de precaução, O Clarim [Macau], 20.08.1961. Certificado de vacinação, O Clarim [Macau], 24.08.1961. A conferência de navegação bateu o pézinho! O Clarim [Macau], 27.08.1961. Sinais dos tempos, O Clarim [Macau], 31.08.1961. Um ministro … um exemplo, O Clarim [Macau], 03.09.1961. O estado de conservação das ruas, O Clarim [Macau], 07.09.1961. Vendilhões da honra alheia, O Clarim [Macau], 10.09.1961. Verdades amargas, O Clarim [Macau], 14.09.1961. Um filme japonês, O Clarim [Macau], 21.09.1961. Matagais, O Clarim [Macau], 24.09.1961. O mundo de Suzie Wong, O Clarim [Macau], 01.10.1961. A economia nacional, O Clarim [Macau], 05.10.1961. Mais urros e grunhidos!, O Clarim [Macau], 08.10.1961. Nunca confiar…, O Clarim [Macau], 12.10.1961. Horário de verão, O Clarim [Macau], 15.10.1961. Livre de cólera, O Clarim [Macau], 19.10.1961. Males dos cinemas, O Clarim [Macau], 22.10.1961. O mundo actual, O Clarim [Macau], 26.10.1961. Manias … e maníacos, O Clarim [Macau], 29.10.1961. Obras municipais, O Clarim [Macau], 05.11.1961. O 8º Grande Prémio, O Clarim [Macau], 09.11.1961. Não vendemos Portugal!, O Clarim [Macau], 12.11.1961. Campo desportivo do canídromo, O Clarim [Macau], 03.11.1961. A integração da Nova Escola nas Sociedades Modernas, O Clarim [Macau], 12.10.1972. Depoimento sobre José dos Santos Ferreira, in Carlos Marreiros, Adé dos Santos Ferreira Fotobiografia, edição da Fundação Macau, 1994, pp. 48-49. A importância da Comercial na formação dos macaenses – 125 anos da APIM: formar e instruir a juventude macaense, Revista Macau, II Série, Nº 48, 1996, pp. 22-31. Damão: saudade revisitada, Revista Macau, II série, Nº 64, 1997, pp. 72-77. ANTÓNIO ARESTAColecção MOSAICO, Volume LVIII49
  • A indústria fosforeira no princípio do século XX, Revista Macau, II série, Nº 85, 1999, pp. 90-96. 470 anos de assistência aos leprosos em Macau, Revista Macau, II série , Nº 90, 1999, pp. 90-97. 4. Filmografia Documentário “Macau”, 1952: [direcção de Ricardo Malheiro; texto, José Silveira Machado; locução, Fausto Branco; música, Pedro José Lobo; fotografia, João Macedo e Albert Young]. Filme “Caminhos Longos”, drama, 1955, 105 minutos [Produção Eurásia Filmes, Ldª; realização, Eurico Ferreira; argumento, José Silveira Machado; Música, Pedro José Lobo; Fotografia, Albert Young; Elenco, Chung Wong Ching, Irene Matos, Joaquim Rufino, José Pedro e Lola Young]. 5. Teatro de Revista Nhum Vêlo / Os inquilinos do Senhor Zacarias. Teatro D. Pedro V, Abril, 1977. Adaptação de José Silveira Machado. 6. Direcção de Edição Obra Completa de José dos Santos Ferreira. Edição da Fundação Macau, Macau, 5 volumes, 1994-1996. 7. Condecorações Medalha de Mérito Desportivo [Governo de Macau], 1980. Medalha de Mérito Cultural [Governo de Macau], 1995. Oficial da Ordem da Instrução Pública [Presidência da República], 1978. Comendador da Ordem de Mérito [Presidência da República], 1999. Grande Oficial da Ordem da Instrução Pública [Presidência da República], 2005. 8. Sobre o Autor António Aresta, “José Silveira Machado”, Jornal Tribuna de Macau, 17.03.2011. António Aresta, Figuras de Jade. Os Portugueses no Extremo Oriente, edição do Instituto Internacional de Macau, 2014, [pp. 103-106]. Clara Gomes, “Uma Vida em Macau”, Revista Macau, II Série, Nº 92, Dezembro, 1999, pp. 69-73. JOSÉ SILVEIRA MACHADO – um macaense dos AçoresColecção MOSAICO, Volume LVIII 50
  • Fernando Costa Andrade, Memórias e Testemunhos, edição da Direcção dos Serviços de Educação e Juventude, Macau, 1999. [pp. 462-471]. Isabel Castro, “Faleceu José Silveira Machado. Do outro lado da vida”, Tai Chung Pou, 19.11.2007. Jorge Forjaz, Famílias Macaenses, Vol. I, 2ª edição, ed. Albergue SCM, Macau, 2017. Jorge Rangel, “No centenário de José Silveira Machado – um percurso de dedicação a Macau”, Jornal Tribuna de Macau, 29.01.2018 José Carlos Seabra Pereira, O Delta Literário de Macau, edição do Instituto Politécnico de Macau, 2015, [pp. 403-409]. José Machado Lourenço, Açorianos em Macau, edição de autor, Angra do Heroísmo, 1981. Manuel de Almeida, “A Memória da Cidade II”, Hoje Macau, 25.10.2018. Marco Carvalho, “O Macaense dos Açores nasceu há 100 anos”, O Clarim, 26.10.2018. 9. Webgrafia Blogues com entradas sobre José Silveira Machado: https://nenotavaiconta.wordpress.com https://cronicasmacaenses.com https://www.macanesefamilies.com macauantigo.blogspot.com NOTAS ________________ 1 Texto base apresentado na sessão evocativa por ocasião do centenário do nascimento de José Silveira Machado, promovida pelo Instituto Internacional de Macau no auditório da Livraria Portuguesa de Macau, no dia 24 de Maio de 2019, que contou com a participação de Jorge Rangel, Luís Sá Cunha, José Gonçalo Basto da Silva e Marco Carvalho. Com ligeiras alterações, foi apresentado a convite da Comissão Asiática na Sociedade de Geografia de Lisboa, no dia 15 de Outubro de 2019, como uma conferência sob o título “José Silveira Machado, um açoriano no Oriente”. 2 O jornal O Clarim, ainda em publicação, era propriedade de Juventude Católica de Macau e tinha a Redacção e Administração na Residência Paroquial de São Lourenço. Era composto e impresso na Tipografia Mercantil de N. T. Fernandes e Filhos, Ldª, Rua Central, 26-28, em Macau. O cabeçalho foi concebido pelo pintor russo George Smirnoff. O primeiro número viu a luz do dia em Maio de 1948 e o seu director e editor era o Padre Fernando H. L. Maciel. A edição Nº 1 do Ano II, saiu no dia 1 de Maio de 1949. 3 Monsenhor Manuel Teixeira, Liceu de Macau, 3ª edição, corrigida e aumentada, Direcção dos Serviços de Educação, Macau, 1986, p. 581. ANTÓNIO ARESTAColecção MOSAICO, Volume LVIII51
  • 4 Suplemento ao Nº 50, 21 de Dezembro de 1933, páginas 1415-1447. Em Portugal, o Decreto 21 110 tinha sido promulgado em 4 de Abril de 1932. 5 Fernando Costa Andrade, Memórias e Testemunhos, Edição da Direcção dos Serviços de Educação e Juventude, Macau, 1999. A entrevista a José Silveira Machado está nas páginas 462-471. Participei nessa entrevista, juntamente com Aureliano Barata e Rui de Carvalho, em Março de 1997, que teve lugar na sala de reuniões do 5º piso da Direcção dos Serviços de Educação e Juventude. Guardo desde então as referências para identificar alguns artigos não assinados que publicou em O Clarim. 6 Rio das Pérolas, Mar Oceano Editora, Macau, 1993, p. 15. 7 Fernando Costa Andrade, Memórias e Testemunhos, idem, p. 464. 8 Idem, pp. 465-466. 9 Registe-se a contradição. Em 10 de Fevereiro de 1930, o Bispo de Macau, D. José da Costa Nunes, publicou uma Provisão sobre o “Estudo da Língua dos Povos a Evangelizar”, no Boletim Eclesiástico da Diocese de Macau, Nº 312. No Seminário de S. José era obrigatório o estudo e o conhecimento da língua chinesa. Mas, a Provisão não seria cumprida?! 10 Idem, p. 466. 11 Idem, p. 466. 12 Rio das Pérolas, idem, p. 21. 13 Fernando Costa Andrade, Memórias e Testemunhos, idem, p. 465. Henrique de Senna Fernandes, no Prefácio ao Rio das Pérolas, tem esta certeira intuição: “Adolescente, estimulado por uma vocação que julgava firme, partiu da sua ilha, desprendendo-se corajosamente do aconchego e do carinho do lar paterno. Foi uma separação psicologicamente dura e defrontou, desde então, uma solidão interior ciosamente íntima que o acompanharia vida fora e que só raros amigos detectaram, por baixo da risada folgazã e do convívio alegre”, p. 9. 14 Depoimento inserto em Carlos Marreiros, Adé dos Santos Ferreira, Fotobiografia, edição da Fundação Macau, 1994, p. 48. 15 Fernando Costa Andrade, idem, p. 467. 16 José Silveira Machado, Macau, Sentinela do Passado, edição da Secção de Propaganda e Turismo, Macau, 1956, p. 27. 17 Idem, p. 85. 18 Fernando Costa Andrade, Idem, p. 468. 19 Idem, p. 469. 20 Idem, p. 469. 21 António Oliveira Matos, “Uma Universidade em Macau”, jornal O Clarim, 09.01.1964; Jorge Rangel, Os 25 Anos da Universidade de Macau, ed. Universidade de Macau, [português-chinês-inglês], 2009. 22 Publicada integralmente em O Clarim, 12.10.1972. 23 Prefácio a Rio das Pérolas de José Silveira Machado, Mar-Oceano Editora, Macau, 1993, p. 10. 24 Ano XXIII, Nº 33, 23 de Agosto de 1970. O poema era dedicado “Ao Zé Pedro, a Frei Thomaz e a todo o Corpo Redactorial de O Clarim”. Estava assinado, sob o pseudónimo “Irmão Manuel da Pera Branca”, isto é, Monsenhor Manuel Teixeira. 25 Vejam-se, por exemplo, os artigos, “Sessão solene promovida pela União Nacional”, O Clarim, 03.06.1951 ou “Fazei muita cristandade”, O Clarim, 14.12.1952. 26 José Silveira Machado, Macau, Sentinela do Passado, idem, p. 75. 27 Por exemplo, na Revista Renascimento, Vol. I, Nº 3, 1943, foi publicada a “Comunicação ao País [Defesa Moral], proferida ao microfone da Emissora Nacional, no dia 25 de Junho de 1942”, pp. 231-234. 28 O Clarim, 12.11.1961.JOSÉ SILVEIRA MACHADO – um macaense dos AçoresColecção MOSAICO, Volume LVIII 52
  • ANTÓNIO ARESTAColecção MOSAICO, Volume LVIII5329 O Governador Jaime Silvério Marques fez publicar um “Comunicado à Imprensa”, em 12 de Fevereiro de 1960 que dizia o seguinte: “À notícia do DAILY TELEGRAPH transcrita na imprensa acerca de pretensas negociações entre Lisboa e Pequim, sobre a situação de Macau, o Governo desta Província opõe um categórico desmentido”, O Clarim, 14.02.1960. Neste mesmo jornal é inserida esta Declaração: “Distribuiu a agência noticiosa UPI à Imprensa um telegrama de Londres que condensa um artigo publicado no ‘Daily Telegraph’ por “um correspondente especial” do mesmo jornal em Pequim em que se atribuem determinadas declarações aos Portugueses que visitaram a China. É transparente tratar-se de uma miserável manobra cujos desígnios não nos interessa discutir. Os Portugueses que recentemente, em viagem meramente particular, visitaram a China não foram delegados ou comissionados fosse por quem fosse. Mas, ainda que o fossem, como portugueses patriotas e conscientes das suas responsabilidades, nunca poderiam fazer as insólitas afirmações que essa agência caluniosamente lhes atribui. E assim, repudiam com a maior veemência e desprezo as insinuações e afirmações irresponsáveis da referida agência informativa”. Macau, 12 de Fevereiro de 1960. Fernando da Silva Nunes, 1º Ten. Eng. Maq. Naval; Vivaldo Eurico Modesto da Rosa, Médico; José Francisco Bastos, Cap. de Engª; Luís Gonzaga Gomes, Professor; Ivo Cordeiro, Jornalista. 30 Veja-se esta declaração publicada na imprensa: “Declaração de solene pedido de desculpas de Cheang Iu Sân. Eu, Cheang Iu Sân, aliás Carmelo Cheang, na manhã de 24 do corrente, estando dentro do recinto do Leal Senado, proferi palavras impensadas, insultando o Presidente Mao, o glorioso Dirigente do Povo. Cometi um grave erro que naquela altura causou extraordinária indignação aos empregados chineses do Leal Senado e aos moradores do bairro, os quais se juntaram para me acusar. Reconheci o meu erro e fiquei arrependido depois deste acontecimento, pelo que desejo de verdade acatar as críticas e os ensinamentos que os meus colegas e os moradores do bairro me dispensaram, dando garantias de que não se repetirão de futuro semelhantes incidentes. Além e reconhecer pessoalmente o meu erro perante os meus colegas e apresentar-lhes o meu pedido de desculpas, publico a presente declaração para reconhecer o meu erro perante os meus colegas e os moradores do bairro e apresentar-lhes as minhas desculpas. 26 de Maio de 1967. Declaração publicada por Cheang Iu Sân, aliás Carmelo Cheang”. 31 Macau, Sentinela do Passado, Idem, p. 76. 32 Macau, Sentinela do Passado, idem, p. 69. 33 Idem, p. 102. 34 “Conformismo”, Revista Renascimento, Vol. III, Nº 4, Abril, 1944, p. 345. 35 “Aragem”, Revista Renascimento, Vol. III, Nº 3, Março, 1944, p. 327. 36 Idem, p. 328. 37 Rio das Pérolas, idem, p. 16. 38 Rio das Pérolas, idem, p. 21. 39 Rio das Pérolas, idem, p. 49. 40 Rio das Pérolas, idem, p. 72. 41 Idem, p. 30. 42 Macau, Sentinela do Passado, idem, pp. 27-28. 43 Rio das Pérolas, idem, p. 64. 44 Oração de Sapiência pronunciada na abertura solene das aulas na Escola Comercial Pedro Nolasco, em Macau, em Outubro de 1972. Publicada integralmente no jornal O Clarim [Macau], Ano XXV, Nº 47, 12 de Outubro de 1972. 45 José Silveira Machado, Rio das Pérolas, Mar-Oceano Editora, Macau, 1993, p. 53. 46 Estes dois depoimentos, de Beatriz Basto da Silva/João Basto da Silva e de Hélder Fernando foram propositadamente redigidos para este estudo. Em nome da preservação da memória de José Silveira Machado e de uma certa ambiência de Macau, agradecemos reconhecidos. 47 Está por fazer o levantamento exaustivo da colaboração que deixou dispersa na comunicação social.
  • JOSÉ SILVEIRA MACHADO – um macaense dos AçoresColecção MOSAICO, Volume LVIII 54O corpo docente da Escola Comercial em 1952, vendo-se ao centro, Beatriz Nolasco da Silva, directora, tendo à sua direita, Albertina Dias do Rosário e Idália Maria da Luz e, à esquerda, Edmundo de Senna Fernandes e Gaby de Senna Fernandes. De pé, da esquerda para a direita, Manuel Maria Sapage, Padre Ramiro Dias Branco, António Augusto da Canhota e José Silveira Machado.Colégio de S. José, Macau, 1950. Da esquerda para a direita: 1ª fila: António Augusto da Canhota, José dos Santos Ferreira (Adé), Padre Fernando Maciel. 2ª fila: Januário de Almeida, José Silveira Machado, Ceríaco Marçal, Tomás da Rosa Pereira. 3ª fila: Américo Córdova, Bernardino Tomé.
  • JOSÉ SILVEIRA MACHADO: MACAU NO CORAÇÃO Marco Carvalho
  • Os últimos petardos da Grande Guerra morriam e matavam nos castigados campos do Marne e do Somme quando José Silveira Machado veio ao mundo, a 24 de Outubro de 1918, na ilha açoriana de São Jorge. Longo e devastador, o conflito terminaria menos de três semanas depois, com o chamado Armistício de Compiègne, mas a sombra em que enredou a Europa persistiu durante longos anos, com a brusca sofreguidão de uma espessa neblina. A guerra não chegou a Portugal continental, mas chegou às ilhas, e os Açores – periféricos e vergados ao insustentável peso da insularidade – são arrastados, por mais do que uma ocasião, para o centro do conflito graças a uma posição estratégica insuperável, a meio termo entre a Europa e o continente americano. A cidade da Horta, na ilha do Faial, é bombardeada em Dezembro de 1916, Ponta Delgada em Julho de 1917 e as aparições de submarinos alemães nas águas do arquipélago multiplicam-se ao ponto de rivalizarem com o avistamento de baleias e golfinhos. Dez exactos dias antes de Silveira Machado nascer, numa lugente casa agrícola da freguesia de Velas, o U-Boot alemão U-139 afundou o navio-patrulha Augusto de Castilho ao largo das ilhas do grupo Oriental dos Açores, no que foi o derradeiro acto significativo de guerra em que as débeis forças portuguesas estiveram envolvidas. O conflito exacerbou vulnerabilidades económicas, acentuou divergências políticas e aprofundou clivagens sociais, suscitando novos problemas e adensando os já existentes. Ao elevado grau de dependência externa e à falta de competitividade do tecido produtivo português, acresciam os efeitos do encarecimento do custo de vida, a escassez de bens alimentares, o esforço financeiro associado às despesas de guerra e o falhanço das reformas políticas, educativas e económicas promovidas pela Primeira República. Faminto e embrutecido, o país resvalou no pós-guerra para um contexto de crise económica e financeira, cujas consequências se prolongaram muito para além da luta armada. MARCO CARVALHOColecção MOSAICO, Volume LVIII57
  • Se a fome que acomete grande parte da população portuguesa reflecte os efeitos imediatos do conflito, a constrangedora amplitude da iliteracia denota um problema estrutural: em 1920, 70,5 por cento dos portugueses não sabem ler, nem escrever. Filho morgado de uma família de lavradores – o pai possuía uma criação de vacas leiteiras – José Silveira Machado cresce numa Europa pacificada, mas plenamente consciente do carácter periférico de São Jorge, ilha que à época não chegava a totalizar as 14 mil almas: “Nunca tive queda para a lavoura, nem para a pastorícia”, escreve. “Eu queria era prosseguir estudos, o que não era possível na minha ilha e o meu pai não tinha meios para me mandar para fora”, recorda, em tom memorialista. A redenção, ou pelo menos a fuga ao ciclo de miséria que lhe parecia destinado, chega pela mão de um missionário açoriano, natural da ilha do Pico, há vastos anos radicado em Macau. O Oriente, insinua, precisa de vocações, de sangue novo que faça florescer a fé católica e o jovem Silveira Machado, ciente que a fortuna raramente cruza os mesmos atalhos por duas ocasiões, não hesita: “Eu aceitei logo e apesar de ser o filho mais velho, os meus pais não se impuseram”, clarifica desde logo. “A viagem fez-se ao ritmo das horas na imensidão de mares e continentes. Trajectória como ponto de partida do mar atlântico, e ponto de chegada no rio da pérola. Rota de sonho, de encanto e de magia”, assinala na extensa e sentida bibliografia que legou. José Silveira Machado aporta a Macau em 1933, com o propósito de estudar no Seminário de São José. Tem quinze anos e a cidade que o acolhe, na difícil transição entre a idílica bonomia da adolescência e o eclodir da idade adulta, brinda-o primeiro com a inevitável solidão dos que arriscam a aventura do desenraizamento e, depois, com o fascínio de onde emana o pragmático orientalismo que norteou os mais de setenta anos de vida que dedicou ao território. Enreda-se, quando pode, pelas estreitas ruas do Bazar chinês, absorve-lhe os cheiros, compadece-se das JOSÉ SILVEIRA MACHADO – um macaense dos AçoresColecção MOSAICO, Volume LVIII 58
  • dificuldades de quem por lá trabalha e vive. A experiência de descobrir e receber para depois transmitir e dar fazem crescer nele a percepção de que a vocação religiosa não é suficientemente forte para justificar a opção pela via do sacerdócio. No Seminário aprende com Manuel Teixeira e cruza-se com figuras de vulto da história de Macau – como o também açoriano Áureo Castro ou o malaqueiro Lancelote Rodrigues – mas a fragilidade das convicções acaba por direccionar José Silveira Machado por outros caminhos, numa decisão impulsionada em parte por um sórdido incidente: “Eu tinha a mania de ser poeta, de escrever poesia, que guardava na gaveta da minha carteira de estudo. Um colega foi lá, tirou o poema de cariz amoroso e distribuiu por outros alunos”, escreve. Dividido entre o serviço à causa transcendental que o traz a Macau e as pulsões e paixões da carne, Silveira Machado opta pela vida civil em detrimento da carreira eclesiástica. Não é, de resto, caso único. Dos cinco rapazes que com ele rasgaram os oceanos na longa viagem desde Lisboa apenas um é ordenado. A passagem pelo Seminário de São José molda-lhe incontornavelmente o carácter. Pouco metódico, indisciplinado por vezes, Silveira Machado recebe na mais prestigiada instituição educativa da Diocese de Macau uma refinada formação clássica; os anos que ali passa reforçam nele um teísmo que, não sendo inteiramente antropocêntrico, se consubstancia na ideia de que a melhor forma de conhecer a Deus é percorrendo os caminhos que levam ao coração dos homens. A realização pessoal exige escolhas, sacrifício, sensibilidade e bom senso. Arredado da vida eclesiástica, José Silveira Machado torna-se funcionário público em Janeiro de 1941, assumindo funções na então denominada Repartição da Fazenda do Concelho de Macau. Oito anos depois, nas vésperas de a China abraçar a ideologia comunista e renascer sob a égide de uma República Popular, assume novo desafio, MARCO CARVALHOColecção MOSAICO, Volume LVIII59
  • JOSÉ SILVEIRA MACHADO – um macaense dos AçoresColecção MOSAICO, Volume LVIII 60passando a integrar o quadro dos Serviços de Economia. Pelo meio, em 1945, exorciza de vez a solidão e contrai matrimónio com Margarida Maria Botelho, com quem tem quatro filhas: Estela, Lurdes, Guida e Manuela. Macau permanece nominalmente neutro durante a Segunda Guerra Mundial, mas o mais trágico conflito armado da história da Humanidade não poupa o território. Durante a meia década pela qual se prolongou o conflito, a população do então enclave português duplica e Silveira Machado testemunha em primeira mão o infortúnio, a miséria e a desumanidade associadas ao tenebroso diferendo bélico. Oásis de paz no coração de um Oriente em chamas, Macau recebeu milhares de refugiados e, perante as dificuldades com que autoridades civis se deparavam, a Igreja posicionou-se na linha da frente dos esforços de ajuda aos mais necessitados. Incapaz de permanecer indiferente à carência e ao desamparo dos que assomavam a Macau, o açoriano junta-se a alguns antigos companheiros do Seminário e aos esforços desenvolvidos pela Igreja no sentido de proporcionar abrigo, comida e assistência médica aos refugiados provenientes de Hong Kong, de Xangai e de outras paragens da China Continental. A educação que recebeu no Seminário de São José fomenta nele o respeito e o cultivo dos valores fundamentais da dimensão ontológica da Igreja: a caridade, a compaixão, a misericórdia são traços de carácter que herdou da experiência como seminarista. A estes junta-se uma sujeição quase empírica ao carácter institucional do Catolicismo, do qual foi interlocutor privilegiado e aberto defensor. Em 1948, integra o grupo de oito jovens que sugere aos padres Fernando Leal Maciel e Júlio Augusto Massa a criação de O Clarim, jornal que se publicou nesse ano pela primeira vez a 2 de Maio. Com o semanário católico colabora até ao fim da vida, encarreirando naquela que acabaria por ser uma das suas grandes paixões: o jornalismo.
  • MARCO CARVALHOColecção MOSAICO, Volume LVIII61Para além de escrever para o jornal que fundou com José Patrício Guterres, Herculano Estorninho, Abílio Rosa, Gastão de Barros, José de Carvalho e Rego, Rui da Graça Andrade e Rolando das Chagas Alves, Silveira Machado colabora ainda com “A Voz de Macau”, o jornal “Comunidade”, a revista “Renascimento” e o Boletim Informativo de Macau e é correspondente do lisboeta “Diário da Manhã” e da revista “Plateia”. Ao legado jornalístico, junta ao longo de mais de cinco décadas um importante legado literário. Cronista, poeta e prosador com uma atenção particular ao detalhe, Silveira Machado assinou obras como “Macau, Sentinela do Passado”, “Rio das Pérolas”, “Macau, Mitos e Lendas”, “Duas Instituições Macaenses”, “Macau na Memória do Tempo” e “O Outro Lado da Vida”, obra a que imprime um forte cunho humanista. Homem de cultura, contador de histórias inveterado, Silveira Machado – açoriano de nascimento, macaense de coração – sucumbe desde cedo ao fascínio pela Sétima Arte, mas o gosto pelo cinema não se resume à crítica literária. Em 1955, junta-se a outras forças vivas do panorama cultural do território e aventura-se na produção da primeira longa-metragem realizada quase que por inteiro com meios humanos e técnicos locais. Assume o estatuto de produtor e argumentista de “Caminhos Longos”; Pedro José Lobo assina a banda sonora. O filme, estreado a 23 de Novembro de 1955 no Teatro Vitória, retrata as agruras a que os refugiados de Xangai estiveram sujeitos após a tomada da cidade pelas forças fiéis a Mao Zedong. Os que têm raízes portuguesas concentram-se em Macau e a península transforma-se num invulgar campo de acolhimento. As dificuldades de adaptação e de subsistência – e dramas como o contrabando, a pirataria e a prostituição – estão no cerne de “Caminhos Longos”. Entretanto desaparecida, a película foi pioneira em mais do que um sentido. Realizada por Eurico Ferreira e com os actores chineses Chung
  • JOSÉ SILVEIRA MACHADO – um macaense dos AçoresColecção MOSAICO, Volume LVIII 62Ching e Wong How nos principais papéis, a obra contou ainda com os desempenhos de Irene Matos, de José Pedro, de Joaquim Rufino e de Lola Young e procurou manter-se o mais fiel possível à natureza pluricultural do território: “Está a despertar grande interesse não só pelo conteúdo da sua história como ainda pelas suas características especiais, pois, incluindo no seu elenco artistas portugueses, chineses e eurasianos, eles falam as suas próprias línguas”, escreveu na altura o Boletim Geral do Ultramar. Sócio fundador do Círculo Cultural de Macau, Silveira Machado deixou também uma marca indelével no desporto do território. Ajudou a fundar, a 13 de Agosto de 1950, a filial local do Sport Lisboa e Benfica, colectividade que promovia modalidades como “o futebol, o ténis de mesa e os desportos atléticos” e da qual foi o primeiro vice-presidente. Homem de uma versatilidade infinita, presidiu à Comissão de Árbitros do território, ao Conselho Provincial de Educação Física e ao Comité Olímpico de Macau. À influência de José Silveira Machado e de António da Conceição, outro vulto maior do jornalismo e do desporto na Macau pós-conflito, ter-se-á ficado a dever a afirmação dos mais bem sucedidos futebolistas macaenses de todos os tempos. No pós-Guerra, o futebol adquiria no território contornos sérios. O açoriano apostou no desenvolvimento da modalidade e a aposta não tardou a dar frutos: Airosa Lopes, Joaquim Pacheco e Augusto Rocha começaram a dar nas vistas nos pelados de Macau. Com contactos privilegiados nos maiores clubes portugueses, Machado e Conceição conseguem que Pacheco seja contratado pelos leões em 1950. O macaense estreia-se com a camisola dos leões a 17 de Setembro desse mesmo ano, num “derby” contra o Benfica em que alinhou como avançado. Nos oito anos em que vestiu de “leão ao peito”, Pacheco sagrou-se campeão português por quatro ocasiões e torna-se uma estrela maior de uma constelação em que alinhavam jogadores como Jesus Correia, Vasques, Wilson, Travassos e Martins, os imortais “cinco violinos”.
  • MARCO CARVALHOColecção MOSAICO, Volume LVIII63Cinco anos depois, Augusto Rocha segue-lhe as passadas, mas não se consegue afirmar em Alvalade. Ao fim de uma temporada difícil, ruma a Coimbra e à Académica, emblema do qual é ainda hoje uma referência. É dele o golo com que a Selecção Portuguesa alcança o seu primeiro triunfo frente ao então campeão mundial Brasil, a 21 de Abril de 1963. Em 1974 – e depois de ter dedicado mais de três décadas de vida à função pública, ao jornalismo e ao associativismo – Silveira Machado aposenta-se e fixa-se em Lisboa, cidade para ele estrangeira e quase inteiramente desconhecida. A estadia num Portugal do qual guarda apenas insulares recordações de infância prefigura-se breve. Em 1976, dois anos depois de deixar o território, Silveira Machado regressa ao território que o coração elegeu como casa e reata a ligação ao ensino, depois de uma breve passagem, em meados da década de 60, pela efémera “Escola Normal”, projecto concebido tendo em vista a formação de professores. Regressado a Macau, “o macaense dos Açores” lecciona na Escola Comercial Pedro Nolasco, no Colégio Dom Bosco e no Centro de Formação dos Serviços de Juventude e abraça vários desafios: é vogal da Associação Promotora da Instrução dos Macaenses, exerce cargos de direcção no Comité Olímpico de Macau e da Associação de Hóquei em Patins. Arredado do ensino, José Silveira Machado vê na indesejada reforma a oportunidade para dedicar mais tempo à escrita e às tertúlias. Aos escaparates das livrarias chegam algumas das suas obras emblemáticas – “Macau, Mitos e Lendas” e “Macau na Memória do Tempo”. Ao mesmo tempo mantém, nas páginas de O Clarim uma produção jornalística – sobretudo no domínio da crónica – admirável. Publicada em 2005, a sua última obra “O Outro lado da vida” é um testemunho da sua preocupação com o próximo, considerou o seu último director no semanário católico, o padre Albino Pais.
  • Poeta, cronista, prosador, Silveira Machado nunca voltou as costas ao debate político e às suas responsabilidades cívicas e em 2003, aos 85 anos, assume o seu derradeiro grande desafio, ao ser eleito – a par de Mário Gabriel e de José Maria Pereira Coutinho – para o cargo de Conselheiro das Comunidades Portuguesas pelo Círculo da China/Japão/Tailândia. O contributo dado a Macau ao longo de quase oito décadas e a prolífica actividade cívica que sempre pautaram a sua forma de estar valeram-lhe, por várias vezes, o reconhecimento da classe política, tanto em Macau, como em Portugal. José Silveira Machado recebeu a Medalha do Mérito Civil da Instrução Pública, a Medalha de Mérito Desportivo, a Medalha de Mérito Cultural, a Comenda da Ordem do Mérito e o Grau de Oficial da Ordem da Instrução, tendo sendo homenageado com esta última distinção em Janeiro de 2005 pelo então Presidente da República Portuguesa, Jorge Sampaio. Espírito livre e eclético, Silveira Machado faleceu a 18 de Novembro de 2007, aos 89 anos. Homem ligado ao desporto, ao turismo, à educação e à cultura, a sua morte foi considerada uma “enorme perda pela comunidade em geral”, escreveu na altura a agência Lusa. Na memória dos que o conheceram e com ele privaram, subsiste a imagem de um homem culto e generoso, apaixonado pela vida, por Macau e pelas comunidades que lhe chamam casa. Ou não fosse ele um macaense que o acaso fez nascer do outro lado do mundo. JOSÉ SILVEIRA MACHADO – um macaense dos AçoresColecção MOSAICO, Volume LVIII 64
  • MARCO CARVALHOColecção MOSAICO, Volume LVIII65Nasceu a 24 de Outubro de 1918 na freguesia de Velas, na ilha açoriana de São Jorge.É colega de Manuel Teixeira e de Áureo Castro, mas acaba por não seguir a carreira eclesiástica.FOTOS DO ARQUIVO DO JORNAL O CLARIM
  • JOSÉ SILVEIRA MACHADO – um macaense dos AçoresColecção MOSAICO, Volume LVIII 66Desembarca em Macau em 1933 com o propósito de estudar no Seminário de São José.Janeiro de 1941. Silveira Machado torna-se funcionário público e assume funções na então denominada Repartição da Fazenda do Concelho de Macau. Oito anos depois, em 1949, passa a integrar o quadro dos Serviços de Economia.
  • MARCO CARVALHOColecção MOSAICO, Volume LVIII67Integra o grupo de oito jovens que em 1948 sugere aos padres Fernando Leal Maciel e Júlio Augusto Massa a criação de O Clarim. Colabora com o semanário católico até ao fim da vida.
  • JOSÉ SILVEIRA MACHADO – um macaense dos AçoresColecção MOSAICO, Volume LVIII 68O Jornalismo torna-se, para Silveira Machado, uma de várias paixões. Para além de O Clarim, colabora ainda com “A Voz de Macau”, o jornal “Comunidade”, a revista “Renascimento” e o Boletim Informativo de Macau e é correspondente do lisboeta “Diário da Manhã” e da revista “Plateia”.
  • MARCO CARVALHOColecção MOSAICO, Volume LVIII69Ao legado jornalístico, junta um importante legado literário. Cronista, poeta e prosador com uma atenção particular ao detalhe, Silveira Machado deixou obras como “Macau, Sentinela do Passado”, “Rio das Pérolas”, “Macau, Mitos e Lendas”, “Duas Instituições Macaenses”, “Macau na Memória do Tempo” e “O Outro Lado da Vida”, obra em que inscreve um forte cunho humanista.
  • JOSÉ SILVEIRA MACHADO – um macaense dos AçoresColecção MOSAICO, Volume LVIII 70Em 2005, aos 87 anos, lança o seu último livro. “O Outro Lado da Vida” reúne textos e comentários que publicou ao longo de vários anos no Semanário Católico O Clarim.
  • MARCO CARVALHOColecção MOSAICO, Volume LVIII71O gosto pelo cinema não se resume à crítica literária e em 1955, Silveira Machado é produtor e argumentista de “Caminhos Longos”, longa metragem realizada quase que por inteiro com meios locais. Pedro José Lobo assina a banda sonora.O filme retrata as agruras a que os refugiados de Xangai estão sujeitos após a tomada da cidade. Os que têm raízes portuguesas concentram-se em Macau e a península transforma-se num invulgar campo de acolhimento. As dificuldades de adaptação e de subsistência – e dramas como o contrabando, a pirataria e a prostituição – estão no cerne de “Caminhos Longos”.
  • JOSÉ SILVEIRA MACHADO – um macaense dos AçoresColecção MOSAICO, Volume LVIII 72Sócio fundador do Círculo Cultural de Macau, Silveira Machado deixou também uma marca indelével no desporto do território. Ajudou a fundar, no início da década de 50, a filial local do Sport Lisboa e Benfica, da qual foi o primeiro vice-presidente, presidiu à Comissão de Árbitros do território, ao Conselho Provincial de Educação Física e ao Comité Olímpico de Macau.
  • À influência de Silveira Machado ter-se-á ficado a dever a afirmação dos mais bem sucedidos futebolistas macaenses de todos os tempos. Com contactos privilegiados no Sporting Clube de Portugal, Machado conseguiu que Joaquim Pacheco fosse contratado pelos leões em 1950. Cinco anos depois, em 1955, Augusto Rocha segue-lhe as passadas. MARCO CARVALHOColecção MOSAICO, Volume LVIII73
  • JOSÉ SILVEIRA MACHADO – um macaense dos AçoresColecção MOSAICO, Volume LVIII 74Em 1974, e depois de ter dedicado mais de três décadas de vida à função pública, ao ensino, ao jornalismo e ao associativismo, Silveira Machado aposenta-se e fixa-se em Lisboa, cidade para ele estrangeira e inteiramente desconhecida. A estadia num Portugal do qual guarda apenas insulares recordações de infância prefigura-se breve.Em 1976, dois anos depois de deixar o território, Silveira Machado regressa a casa e reata a ligação ao ensino, depois de uma breve passagem pela efémera Escola Normal, projecto concebido tendo em vista a formação de professores. Regressado a Macau, “o macaense dos Açores” lecciona na Escola Comercial Pedro Nolasco, no Colégio Dom Bosco e no Centro de Formação dos Serviços de Juventude.
  • MARCO CARVALHOColecção MOSAICO, Volume LVIII75Arredado do ensino, Silveira Machado vê na indesejada reforma a oportunidade para dedicar mais tempo à escrita e às tertúlias. Aos escaparates das livrarias chegam algumas das suas obras mais emblemáticas – “Macau, Mitos e Lendas” e “Macau na Memória do Tempo”, por exemplo – ao mesmo tempo que mantém, nas páginas de O Clarim, uma produção jornalística (sobretudo no domínio da crónica) admirável.José Silveira nunca voltou as costas ao debate político e às suas responsabilidades cívicas e em 2003, aos 85 anos, assume o seu derradeiro grande desafio, ao ser eleito – em conjunto com Mário Gabriel e com José Maria Pereira Coutinho – para o cargo de Conselheiro das Comunidades Portuguesas pelo Círculo da China/Japão/Tailândia.
  • JOSÉ SILVEIRA MACHADO – um macaense dos AçoresColecção MOSAICO, Volume LVIII 76O contributo dado a Macau ao longo de quase oitenta anos e a prolífica actividade cívica que sempre pautaram a sua forma de estar valeram-lhe, por várias vezes, o reconhecimento da classe política. Silveira Machado recebeu a Medalha do Mérito Civil da Instrução Pública, a Medalha de Mérito Desportivo, a Medalha de Mérito Cultural, a Comenda da Ordem do Mérito e o Grau de Oficial da Ordem da Instrução, tendo recebido este último galardão em Janeiro de 2005 das mãos do então Presidente da República Portuguesa, Jorge Sampaio.Em 1995 recebeu das mãos do então Governador, Vasco Rocha Vieira, a Medalha de Mérito Cultural do Governo de Macau.
  • MARCO CARVALHOColecção MOSAICO, Volume LVIII77José Silveira Machado e Gastão de Barros, os dois últimos sobreviventes do grupo de jovens que em 1948 ajudaram a fundar o Semanário Católico O Clarim. Antigo presidente da Câmara Municipal das Ilhas, Gastão de Barros faleceu em Setembro de 2019. O último livro de José Silveira Machado, “Do Outro Lado da Vida”, foi apresentado, em Outubro de 2005, pelo então director de O Clarim, o Padre Albino Pais e pelo investigador Luís Cunha.
  • JOSÉ SILVEIRA MACHADO – um macaense dos AçoresColecção MOSAICO, Volume LVIII 78A amizade era um dos valores que mais apreciava e fazia questão de ter sempre tempo para os amigos. “Fazia amizades facilmente com todos, era disciplinado e um defensor de valores humanistas em resultado da sua formação católica que o marcou para sempre”, recordou logo após o seu falecimento o padre Albino Pais. Quando morreu, em Novembro de 2007, Silveira Machado já não visitava Portugal há 17 anos. Dizia – meio a brincar, meio a sério – que se aterrasse em Lisboa, era capaz de se perder em cinco minutos.
  • MARCO CARVALHOColecção MOSAICO, Volume LVIII79Amigo de longa data do Padre Lancelote Rodrigues, manteve quase até ao final da vida o saudável hábito de almoçar uma vez por semana com o sacerdote de Malaca.
  • JOSÉ SILVEIRA MACHADO – um macaense dos AçoresColecção MOSAICO, Volume LVIII 80Em Gastão de Barros e no Padre Lancelote Rodrigues, José Silveira Machado encontrou dois amigos e confidentes de longuíssima data. A Albino Pais, seu último director em O Clarim, coube a iniciativa de recolher e publicar os textos que estiveram na origem de “Do outro lado da vida”, o seu último livro.Para Silveira Machado, era à mesa que se moldavam as grandes amizades. Aqui com o Padre Albino Pais e com Gastão de Barros, numa das muitas tertúlias a que fazia questão de se associar.
  • MARCO CARVALHOColecção MOSAICO, Volume LVIII81Na celebração de um dos seus últimos aniversários natalícios, na companhia de amigos e da redacção do Semanário Católico O Clarim.
  • JOSÉ SILVEIRA MACHADO – um macaense dos AçoresColecção MOSAICO, Volume LVIII 82Com Jorge Rangel, presidente do Instituto Internacional de Macau.Com o Governador de Macau, General Vasco Rocha Vieira, e sua mulher, Dra. Leonor Rocha Vieira, no Palácio de Santa Sancha.
  • MOMENTOS QUE VIVI COM O MEU QUERIDO PAI Maria de Lurdes Botelho Machado Testemunho na homenagem promovida pela Comissão Asiática da Sociedade de Geografia de Lisboa, em 15 de Outubro de 2019
  • Boa tarde a todos os presentes. Sou Lurdes Machado, uma das filhas de José Silveira Machado. Em primeiro lugar, queria cumprimentar a Mesa: Professor Doutor Luís Aires-Barros, Presidente da Sociedade de Geografia de Lisboa; Embaixador Fernando Machado, Presidente da Comissão Asiática; Dr.ª Celina Veiga de Oliveira, Vice-Presidente da Comissão Asiática; Doutor António Aresta, grande conferencista. Em segundo lugar, queria cumprimentar e felicitar a Comissão Asiática da Sociedade de Geografia de Lisboa, por ter levado a efeito esta cerimónia, em Portugal, denominada “José Silveira Machado – um açoriano no Oriente”, o que muito nos honra. Também queria agradecer, muito reconhecidamente, ao Instituto Internacional de Macau, na pessoa do seu Presidente, Dr. Jorge Rangel, a comemoração que resolveram fazer ao nosso querido Pai, José Silveira Machado, por ocasião do centenário do seu nascimento, no dia 24 de maio de 2019, na Livraria Portuguesa de Macau. Sabemos que correu muito bem, mas por impedimento de agendas não foi possível estar presente qualquer membro da Família Silveira Machado. No entanto, foi referido que haveria uma sessão idêntica em Lisboa. E aqui estamos. Em terceiro lugar, queria referir que a nossa Mãe, com perto de 91 anos, também agradece a realização desta cerimónia, porém, devido a problemas de locomoção, não foi possível estar presente. MARIA DE LURDES BOTELHO MACHADOColecção MOSAICO, Volume LVIII85
  • Os nossos Pais tiveram quatro filhas: – Estela Maria Botelho Silveira Machado – Maria de Lurdes Botelho Machado – Guida Maria Botelho Machado, e – Maria Manuela Silveira Machado Eleutério Infelizmente a nossa irmã Guida faleceu precocemente, pelo que, no presente, somos apenas três. Alguns momentos vividos com o meu Pai Já bem conhecedores do trabalho pelo meu Pai exercido em Macau, às filhas compete a referência, a momentos por elas não esquecidos, no âmbito familiar. Foi nesta bela moradia que tive a alegria de passar a minha infância e juventude: JOSÉ SILVEIRA MACHADO – um macaense dos AçoresColecção MOSAICO, Volume LVIII 86
  • Em jeito de um à parte, e porque cada filha evoca uma abordagem diferente, recordo que quando o meu Pai chegava a casa, esgotado pelo trabalho, e antes do jantar, pedia-me sempre para lhe arranjar um Whisky com soda. Enchia sempre o copo, mas antes de lho entregar, “bebia um golinho”. Ele sabia. Era um homem muito perspicaz, mas nunca me disse nada… O seu cansaço nunca invalidou que do jantar se fizesse um momento de encontro e partilha familiar. No entanto, em dias de aniversários, a festividade realizava-se quase sempre no Restaurante FAT SIU LAU. A Família da minha Mãe, residente em Hong-Kong, vinha, com certa frequência, passar uns dias a nossa casa. Como sempre admirei o esforço financeiro que o meu Pai fazia, estudei bastante e sempre obtive êxito nos estudos. Assim, fui merecedora de uma Bolsa de Estudo, enquanto estudante em Coimbra. MARIA DE LURDES BOTELHO MACHADOColecção MOSAICO, Volume LVIII87
  • Com muita satisfação minha, informei o meu Pai que já não era necessário mandar-me a mensalidade. Continuou a enviar…, mas em menor valor. Senti o orgulho do meu Pai. Consegui empregar-me logo nos Serviços da Segurança Social de Leira, e aí, disse-lhe que já não me era necessário o seu apoio financeiro. Todos os anos o meu Pai vinha passar férias a Portugal e continuámos a conviver. Por outro lado, a minha Mãe, que veio para Portugal para acompanhar as filhas nos seus estudos, também ia a Macau, com certa frequência para passar algum tempo com o meu Pai.JOSÉ SILVEIRA MACHADO – um macaense dos AçoresColecção MOSAICO, Volume LVIII 88Família materna, da esquerda para a direita: 1º plano – Estela, Guida e Lurdes; 2º plano – Tia Irene, Avó Victória Matos, minha Mãe, meu Pai e a Tia Aida. A minha irmã mais nova, Manuela, ainda não era nascida.
  • MARIA DE LURDES BOTELHO MACHADOColecção MOSAICO, Volume LVIII89Com os netos – André Faria, meu filho; João e Pedro Eleutério, filhos da minha irmã Manuela, numa das suas visitas a Portugal.
  • Fotos de algumas estadias da minha Mãe em Macau JOSÉ SILVEIRA MACHADO – um macaense dos AçoresColecção MOSAICO, Volume LVIII 90Em 1996, no dia 3 de março, para festejar as Bodas de Ouro.
  • MARIA DE LURDES BOTELHO MACHADOColecção MOSAICO, Volume LVIII91Foi uma Cerimónia simples, onde esteve a Família que se encontrava em Macau – eu, a minha irmã Guida e o meu filho André Faria, bem como o seu grande amigo, Estigma de Oliveira. No lançamento do livro “Duas Instituições Macaenses” – sobre a Associação Promotora da Instrução dos Macaenses e a Escola Comercial Pedro Nolasco, 1998.
  • JOSÉ SILVEIRA MACHADO – um macaense dos AçoresColecção MOSAICO, Volume LVIII 92O meu Pai também era um homem muito divertido.
  • E o tempo foi passando… Em 1995, aceitei fazer uma Comissão de Serviço em Macau. A minha relação com o meu Pai modificou-se totalmente. Antes era o meu grande Protetor… mas, a partir dessa altura, tornámo-nos grandes AMIGOS. Passava quase todos os Sábados e Domingos com ele, e já tínhamos conversas de certa cumplicidade… (gostávamos de falar um com o outro e confiávamos um no outro). Terminada a Comissão de Serviço em Macau, em dezembro de 1998, regressei a Leiria. Porém, disse-lhe que, no ano seguinte, voltaria a Macau para o trazer para Portugal definitivamente. Assim o fiz. No ano de 1999, e durante os 15 dias que estive em Macau, não consegui convencê-lo a regressar a Portugal. Disse-me que Macau já era a sua Terra Natal e que aí quereria continuar… Nada pude fazer… Em setembro de 2007, juntamente com a minha irmã Manuela, regressei a Macau e pude verificar que o meu Pai estava muito doente, e com ele passei os seus últimos dias… Julgo que ele estava à espera de uma visita familiar… para falecer com Paz e Harmonia. Teria muito mais para falar sobre o meu Pai, no entanto, e para terminar, apenas quero esclarecer uma questão: No ano de 2018, fui a Macau, e várias pessoas me perguntaram onde estavam os seus restos mortais. A Família Silveira Machado tinha decidido que, satisfazendo a sua vontade explícita, os seus restos mortais ficariam em Macau, anonimamente. Não posso terminar sem deixar de fazer referência à minha querida Mãe, Margarida Maria Botelho Machado, um outro grande pilar da harmonia familiar. Confirma-se, assim, o ditado: Por detrás de um Grande Homem, está sempre uma Grande Mulher.Colecção MOSAICO, Volume LVIII93
  • JOSÉ SILVEIRA MACHADO – UM PAI SEMPRE PRESENTE... E AMIGO Manuela Machado Eleutério Testemunho na homenagem promovida pela Comissão Asiática da Sociedade de Geografia de Lisboa, em 15 de Outubro de 2019
  • Não vou abordar as várias vertentes centradas no nosso querido Pai, como escritor, poeta, professor e todas as obras do conhecimento geral. Apenas vou falar do nosso Pai, como Pai… Um Pai que já completou mais de 100 anos de nascimento. Gostaria de começar por contar uma pequena história que me aconteceu há uns meses atrás. Estava num parque com os meus netos e havia uma cerca. Eu estava de um lado e o meu neto de 8 anos estava do outro. Avó – salta a cerca António Neto – avó é impossível Avó – nada é impossivel se quisermos muito uma coisa Neto – avó há uma coisa que é impossível. Tu não consegues viver para sempre! Este episódio fez-me reflectir como uma criança que na sua inocência já tem a percepção do ciclo da vida. O nosso Pai completou o seu ciclo de vida a 18 de Novembro de 2007 com 89 anos. Ficam as memórias gravadas nas nossas mentes com muita saudade e são dessas que queremos falar. Começamos por referir que temos um orgulho enorme pelo Grande Homem que um dia trocou a sua Terra Natal (Açores) por Macau. Atendendo a que os nossos avós paternos eram agricultores, pretendiam que os seus filhos prosseguissem os estudos e não tendo condições económicas para tal, a única hipótese que se lhes oferecia era o ingresso num Seminário. O nosso Pai tinha 14 anos, e aceitou o desafio de frequentar o Seminário de Macau. Com essa idade, entrou um dia num navio com destino ao desconhecido, desafiando o futuro na procura de novos horizontes, porque a ilha pequena onde vivia não era suficiente para tudo o que precisava respirar. E assim MANUELA MACHADO ELEUTÉRIOColecção MOSAICO, Volume LVIII97
  • partiu, deixando para trás uma infância, parte da adolescência e toda uma família e amigos. Não temeu! Já nessa altura, mostrou a sua personalidade: coragem, determinação, vontade de estudar… Com 15 anos recebe o seu primeiro Bilhete de Identidade de Macau. Afastado da família no início da adolescência, por razões inerentes à sua formação académica, concluiu os seus estudos em Macau, tendo optado posteriormente pela vida civil, pois não tinha efectivamente vocação para a carreira eclesiástica. Assentou praça em Macau com 20 anos, e depois passou a trabalhar como funcionário público nos Serviços de Economia. Por outro lado, a nossa Mãe, de origem britânica, vivia em Hong Kong, com a sua família. Quando Hong Kong foi invadida pelos Japoneses, na 2ª Grande Guerra, a família da nossa Mãe refugiou-se em Macau. JOSÉ SILVEIRA MACHADO – um macaense dos AçoresColecção MOSAICO, Volume LVIII 98
  • Foi em Macau que o nosso Pai conheceu a nossa Mãe, que era uma Mulher muito bonita e muito meiga. Assim, logo que a Guerra terminou, os nossos Pais casaram-se em 1945. A nossa Mãe só falava inglês ou cantonense. Com a sua persistência, o nosso Pai ensinou-a a falar português, única língua permitida na nossa família. No entanto, nós falávamos cantonense com as empregadas... e assim fomos aprendendo as duas línguas. Os nossos pais tiveram direito a uma licença graciosa até aos Açores, à Ilha de S. Jorge, e foi aí que nasceu a primeira filha: a Estela. Passado ano e meio, nasceu a Lurdes, em Macau, e um ano e meio depois, a Guida. Como o nosso Pai desejava ter um filho…, passados anos, em 1956, nasceu outra menina, eu, a Manuela… Pararam por aí… MANUELA MACHADO ELEUTÉRIOColecção MOSAICO, Volume LVIII99
  • O nosso Pai, para proporcionar uma vida boa à Mulher e às quatro filhas, trabalhou arduamente… E nas horas vagas, quase sempre graciosamente dava explicações, já mesmo muito cansado. Porém, mesmo assim, quando chegava a casa, tinha sempre um sorriso para todas e permanentemente estava a par do que acontecia com a família… Como??? Não sabíamos explicar nesse tempo!!! E se calhar, nem hoje… Acompanhava os nossos estudos e as nossas “tropelias”. Sempre com um ar muito didáctico e meigo, dava os seus conselhos, individualmente, a cada uma das filhas. Daí as experiências vividas por cada uma também serem diferentes. JOSÉ SILVEIRA MACHADO – um macaense dos AçoresColecção MOSAICO, Volume LVIII 100Família completa, sendo eu a bebé. Eu e as minhas irmãs, já crescidas.
  • Nunca nos faltou nada… podemos mesmo afirmar que tivemos uma infância e juventude muito felizes, mas sempre reconhecendo que o nosso Pai trabalhava imenso, para nada faltar à família… O encontro familiar diário era ao jantar. Falávamos de tudo, contávamos o que se tinha passado durante o dia e eram momentos muito bons de convívio. O nosso Pai sempre perguntou às filhas o que queriam fazer no futuro… Assim, com muito esforço, deu um curso a cada uma, de acordo com as nossas preferências… As nossas relações com o nosso Pai modificaram-se totalmente, quando nos tornámos adultas. Antes era o nosso grande Protector… mas a partir dessa altura, passou a ser o nosso maior AMIGO. O nosso Pai constituiu-se como um Grande Homem, com a sua inteligência, a sua cultura, o seu dinamismo, a sua simplicidade e a sua generosidade … e sobretudo como um grande Pai que foi para as filhas. Tinha sempre um diálogo aberto e franco connosco. Para nós filhas, o nosso Pai foi o melhor Pai que poderíamos ter tido. No ano de 1999 a nossa irmã Lurdes foi até Macau especificamente para convencer o nosso Pai a regressar a Portugal, onde tinha a sua família. No entanto, ele referiu que já tinha estabelecido uma enorme ligação afectiva com Macau, a terra que adoptou como sendo a sua Terra Natal e não chegou a voltar. Perante o agravamento do seu estado de saúde, eu e a Lurdes fomos até Macau, em setembro de 2007, e com ele passámos alguns dias. Os últimos dias... de despedida... Como já não podíamos fazer mais nada, e o nosso Pai insistia em ficar em Macau, terra que tinha adoptado, nós regressámos a Portugal. Continuou internado no Lar da Santa Casa da Misericórdia de Macau, com grande sofrimento, e faleceu na tarde do dia 18 de novembro de 2007. MANUELA MACHADO ELEUTÉRIOColecção MOSAICO, Volume LVIII101
  • A nossa Família esteve representada no seu funeral, pela minha irmã Estela, por mim e pelo meu filho Pedro. Para terminar, queremos apenas referir uma memória que cada filha escolheu. Memória da Estela O meu Pai, muitas vezes sentava-se a ouvir música, especialmente a ópera Madame Butterfly e ia escrevendo. Quando acabava, colocava os papéis numa gaveta. A minha curiosidade cresceu e um dia fui à tal gaveta e descobri muitos poemas que ele escrevia. Li cada papel, cada poema e eram poemas lindíssimos. Tenho muita pena que esses manuscritos tenham desaparecido. Memória da Lurdes Quando foi do Terramoto nos Açores em 1980, a maioria da família do meu Pai emigrou para o Canadá. Quando estive em Macau, numa comissão de serviço, o meu Pai manifestou muito interesse em ir ao Canadá visitá-la. Dei-lhe forças. Comprou o bilhete e combinámos que eu o acompanhava até ao aeroporto de Hong Kong. Ajudei-o a fazer a mala e reservei um Táxi. No dia combinado, antes de sair de casa, telefonei-lhe a dizer que já ia buscá-lo. Para espanto meu, ele disse-me para “o levar ao Hospital…”. Entrei na sua casa e vi que não estava bem. Em vez de o levar ao aeroporto, levei-o ao Hospital Conde de S. Januário. Depois da consulta médica, vieram-me dizer que o meu Pai estava muito nervoso e que não era aconselhável fazer uma viagem tão longa, sozinho. Regressou a casa, muito triste, e passei o dia com ele.JOSÉ SILVEIRA MACHADO – um macaense dos AçoresColecção MOSAICO, Volume LVIII 102
  • Memória da Manuela Recordo-me com muito carinho e com muita saudade os serões que passava com o meu Pai a conversar, a fazer jogos e onde eu pude aprender imenso sobre vários temas entre os quais o gosto que ele me incutiu pela música nas suas várias vertentes. Fui algumas vezes com ele a concertos no Círculo Cultural de Macau. Queremos agradecer sinceramente esta oportunidade que nos foi dada de podermos reviver a vida e a memória do nosso Pai, um Pai que foi um grande Humanista. Fazemo-lo com muita honra e com muito orgulho. Um grande obrigada por esta oportunidade e pela vossa presença.MANUELA MACHADO ELEUTÉRIOColecção MOSAICO, Volume LVIII103
  • JOSÉ SILVEIRA MACHADOum macaense dos AçoresMOSAICOVOLUME LVIIIISBN 978-989-54696-0-49 7 8 9 8 9 5 4 6 9 6 0 4CMYCMMYCYCMYKmosaico_LVIII_Silveira_Machado_capa_PP.pdf 1 25/03/2020 15:17
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