Ficha técnicaEditor: Instituto Internacional de MacauTítulo: Gentes da Índia por terras de MacauAutor: Mário Cézar LeãoCapa e composição gráfica: ABM Design & ComunicaçãoColecção: Mosaico, Volume LVIITiragem: 300 exemplaresImpressão: Foshan Nanhai Baosheng Packing Factory (Baosheng Printing)ISBN: 978-99965-59-38-9Macau, Dezembro de 2019IIM – Instituto Internacional de MacauRua de Berlim, 204, Edifício Magnificent Court, 2º (NAPE), MacauTelefone: (853) 2875 1727 / (853) 2875 1767Fax: (853) 2875 1797E-mail: iim@iimacau.org.moPágina Electrónica: www.iimacau.org.moPatrocínio
Gentes da Índia por terras de MacauMário Cézar Leão
Volume LVII • 7“Falava-se muito da história de Goa, e parecia sempre que não tivesse havido nada a Norte, quando a presença portuguesa na India, teve para além de Goa, Damão e Diu esse enorme território, a Província do Norte na região de Bombaim, com o dobro da área de Goa. É um aspecto da história de Portugal completamente esquecido do público. Até ao século XIX, tudo o que se escreveu e publicou sobre Goa foi escrito por Portugueses. Não havia uma li-teratura local. Os Locais não estavam metidos na escrita. Apenas no século dezanove, uns quantos indivíduos extraor-dinariamente inteligentes que tinham escrito umas coisas, como Menezes Bragança, António de Noronha, Francisco Luís Gomes, Agostinho Lourenço e mais uns quantos que permanecem quase desconhecidos, deixaram um contributo à historiografia e à literatura Goesa. Uma questão muito importante para eles, era o que era a cultura: afinal era aquilo que os Portugueses tinham leva-do para lá, tudo assuntos retratados em Português, ou era a velha cultura Indiana Marata/Hindi. IntroduçãoGENTES DA ÍNDIA POR TERRAS DE MACAU
8 • Colecção MosaicoMÁRIO CÉZAR LEÃOA proibição da escrita do Concanim inibiu o domínio da escrita – como forma de expressão cultural – a toda as comunidades Goesas, que não dominavam o Português como língua-mãe. É uma aberração impôr um sistema de linguagem a um povo que não está profundamente dentro dessa língua e forma de poder.”(Excerpto de conversa com Mário Leão sobre: “o que te leva a escrever?”, Lisboa, Junho de 2018).Texto fornecido pelo seu filho, Arq. Rui Leão.
Volume LVII • 9É natural da Índia Portuguesa (Goa) – filho de Leão Crisóstomo Fernandes, professor do Liceu Nacio-nal Afonso de Albuquerque e proprietário da Livraria Académica no centro de Panjim, e sobrinho-bisneto do ilustre Francisco Luís Gomes, Estadista, Escritor e En-saísta Goês – fez os estudos primários e secundários em Panjim, ingressando depois na Escola Médica de Goa que concluiu em 1953. Segue para Portugal onde fez o curso de Medicina Sanitária e Tropical no Instituto de Medicina Tropical em Lisboa. Em 1956 ingressou no quadro Médico do Ultramar, sendo colocado em Cabo Verde. Em 1962 retorna a Portugal, e entra no San-atório de D. Carlos no Lumiar, tendo aí feito o estágio e a especialidade em Pneumologia.Segue para São Tomé e Príncipe em 1966 onde per-manece 7 anos. A convite do Hospital da Santa Casa da Misericórdia de Velas em São Jorge mudou-se para os Açores em 1973, onde trabalhou 4 anos nessa Insti-tuição. Dos Açores partiu para Macau onde ingressou nos Serviços de Saúde de Macau em 1977, tendo-se aposentado em 1997.Mário Cézar Leão GENTES DA ÍNDIA POR TERRAS DE MACAU
10 • Colecção MosaicoMÁRIO CÉZAR LEÃOÉ autor da monografia “A Província do Norte do Estado da India” publicada pelo Instituto Cultural de Macau em 1996. Em 2011, com o apoio da Fundação Rui Cunha, publicou o título “Introdução da Imprensa na Índia”.
Volume LVII • 11GENTES DA ÍNDIA POR TERRAS DE MACAUGentes da Índia por terras de MacauT arefa difícil esta a de escrever sobre a interligação humana de comunidades radicadas e desenvolvi-das em parcelas do Império Português, na Índia e Macau, iniciada há quase quatro séculos e meio e separadas por milhares de quilómetros de distância, num continente extenso, com dois mares de permeio e um fio de ligação comum com um terceiro povo vindo do Atlântico, o Português, perfazendo no total 18.000 quilómetros, três continentes e três oceanos, distância que pressupunha, em eras passadas, longos percursos por mar, em precá-rias condições, a bordo de ronceiras caravelas, empurra-das por ventos que nem sempre sopravam de feição, ar-rostando perigos de tempestades, naufrágios, incêndios, doença, fome, sede, ataques e abordagens por piratas e forças inimigas, europeias e asiáticas.São também escassos e às vezes controversos os da-dos históricos e documentais, especialmente, nos tem-pos nebulosos em que se formou Macau (1556), este minúsculo e discreto entreposto em terras do Extremo Oriente, onde comerciantes e navegadores portugueses na sua progressão metódica para o Oriente acabaram por encontrar condições favoráveis que permitiram uma prosperidade que largamente compensou sacrifícios e esforços dispendidos.
12 • Colecção MosaicoMÁRIO CÉZAR LEÃOProcuraremos, em pinceladas rápidas, tentar dar uma imagem de alguns aspectos que condicionaram este contacto entre a Índia e Macau e fazer uma breve refe-rência a algumas figuras históricas que vindas da Índia demandaram aquele termo do Mundo, desde o século XVI até aos dias de hoje.Começaremos por abordar a formação da comuni-dade luso-descendente. Dobrado o Cabo da Boa Espe-rança, nos fins do século XV e forçadas as portas do Oriente, aos navegadores seguiram-se os conquistadores, colonizadores e missionários que com o andar dos tem-pos acabaram por construir o extenso Estado da Índia Portuguesa, cuja capital era Goa, mais ou menos equi-distante entre a ponta ocidental da Europa, Lisboa, a capital do Império, e o Extremo Oriente, com o Japão e a China e os seus apreciados mercados de seda e por-celana, por um lado, e a Indonésia as especiarias, por outro. Foi espantoso o progresso e prosperidade desse complexo colonial durante os séculos XVI e XVII. Goa Dourada passou a ser a cidade mais importante da Ásia Portuguesa, sede política, comercial e religiosa; dela par-tiam as directrizes para o domínio do Oriente, através de vice-rei ou governadores da Índia; nela se formavam exércitos e esquadras que permitiram o domínio terri-torial das áreas conquistadas e controladas; dela saíam missionários que penetravam os locais mais remotos, levados pelo zêlo apostólico; nela se preparavam técnicos nos mais variados ramos de actividade que, juntamen-
Volume LVII • 13GENTES DA ÍNDIA POR TERRAS DE MACAUte com os enviados da metrópole lusitana, iam prover postos na administração, necessários ao bom funciona-mento da vasta rede de empreendimentos coloniais; e era em Goa que durante cerca de cem anos, era concedida a autorização para o início da viagem do Navio Negro do Comércio com o Japão, em demanda do Extremo Oriente, com escala obrigatória em Macau.O rosário de povoações, cidades, feitorias, fortalezas, territórios e colónias, algumas com apreciável extensão, como a Província do Norte com a sua rica e próspera capital, Bassaim, começava no extremo sul do Conti-nente Africano e prosseguia para norte por Moçambique e Melinde, contornava o Golfo Pérsico onde estavam Mascate e Ormuz e entrava no sub-continente Indiano por Cambaia e a estrategicamente situada fortaleza de Diu, derivava para sul, passava por Damão, Província do Norte e Chaul e continuava pelas costas de Concão e Malabar, por Goa, Cananor, Cochim, Costa da Pescaria e Coulão; atingida a ponta sul da Índia, saltava o bra-ço do mar, espalhava-se por Ceilão e voltava a apanhar terra firme na costa oriental ou de Coromandel onde a ocupação era mais esparsa; passava depois por Melia-por e Negapatão, progredia para norte em direcção ao Golfo de Bengala por Aracão, Pegu e Sião; de Malaca, a segunda mais importante cidade no tráfico do Oriente, entreposto de comércio e especiarias, a rota seguia para o estreito de Sumatra onde divergia para leste, em busca de especiarias e madeiras raras, nas Molucas e outras
14 • Colecção MosaicoMÁRIO CÉZAR LEÃOilhas do arquipélago indonésio e para norte em direc-ção a Macau, ponto de articulação vital para o comércio com a China e Japão.Ao longo desse percurso, nas citadas e em outras menos importantes localidades, sempre próximas umas das outras, deu-se início a uma fusão racial entre mari-nheiros, guerreiros, colonos, comerciantes, exploradores, aventureiros e degredados portugueses, com as popula-ções autóctones, resultando da miscigenação do euro-peu com etnias africanas ou asiáticas, etnias mistas com características antropobiológicas, culturais, linguísticas, conforme o elemento local, mas com traços comuns vei-culados pelo denominador comum português, originan-do nichos populacionais espalhados na rota do comércio do Oriente, centros de mestiçagem e caldeamento de civilizações que se estendiam dominantemente pelas suas duas costas da península Indiana e outros pontos da Ásia entre Ormuz e Macau e Japão; e sempre que apareciam situações de risco ou crise, uniam-se e apoia-vam-se mutuamente, constituindo uma comunidade com continuidade e solidária, com consciência dos seus interesses colectivos bastante arreigados, para poderem suprir e ultrapassar situações criadas pelos inimigos ou mesmo pelos dirigentes nacionais, distantes em Lisboa, por desconhecimento das situações locais ou pouca ha-bilidade em conduzir assuntos do Estado. Sem a colabo-ração preciosa dessas comunidades, pode-se afirmar sem receio de errar, que para Portugal teria sido difícil, ou
Volume LVII • 15GENTES DA ÍNDIA POR TERRAS DE MACAUmesmo impossível, construir e manter o império, que só recentemente se desfez.Na Índia, o primeiro destes núcleos terá acontecido em 1502, quando Vasco da Gama na sua viagem, fun-deou em Quiloa, na costa africana, como narrou Gaspar Correia, havia “muitas formosas mulheres” muçulmanas que “fugiram para os portugueses, e foram acolhidas nas naus com muito gosto e satisfação” pela marinhagem que as manteve na clandestinidade. Quando o almirante soube do caso, devolveu-as a terra, mas as que não fo-ram reclamadas por familiares, foram aceites de volta e o comandante desembarcou-as em Cochim e Cananor, onde já existiam feitorias e constituíram família com os portugueses por aquelas bandas fixados.Mas quem implementou conscientemente a política de casamentos interraciais e lançou os fundamentos de uma sociedade indo-portuguesa foi Afonso de Albuquer-que, que assim interpretava o pensamento da monarquia portuguesa, bem expresso por D. João III que desejava a “criação de um império oriental, povoado por gente portuguesa”. Depois da tomada de Goa, encorajou o conquistador o casamento de portugueses com viúvas maometanas e mulheres recolhidas dos haréns dos ofi-ciais de Idalcão, dando-lhes em troca casa, terras e tudo o mais que fosse necessário.Essas uniões regulares e as irregulares, foram o ali-cerce, a que se juntaram levas posteriores do elemento masculino que demandavam o Oriente, famílias que
16 • Colecção MosaicoMÁRIO CÉZAR LEÃOpara lá se transplantavam e as noivas de El-Rei, mulhe-res solteiras que desde D. João III e sob protecção real, iam procurar pretendentes, para constituir família. E quando se fundou a cidade de Macau, muitos dos novos colonos tinham família constituída com mulheres de et-nia europeia, euroasiática, ou indígena, em Goa, Malaca ou outras feitorias, que já as havia muitas na altura da fundação da futura cidade do Santo Nome, que para lá se transferiram quando se verificaram condições de tranquilidade, segurança e prosperidade.De entre os membros dessa comunidade luso-des-cendentes ou euroasiática, cujos expoentes máximos no século XVI terão sido o cosmógrafo Fernão Vaz Doura-do, nascido na Índia, e o explorador Manuel Godinho Herédia, natural de Malaca, houve muitos que deixaram o seu nome ligado à história de Macau e do Extremo Oriente, pelos serviços relevantes prestados. Passemos uma vista de olhos por algumas destas figuras que liga-ram parcelas distantes do Oriente Português a Macau.São Gonçalvo Garcia, este santo obscuro e pouco conhecido entre nós, nasceu em 1557 em Bassaim, na Província do Norte do Estado da Índia. De seu pai pou-co se sabe, seria Português ou Luso-Descendente, a mãe era nativa. Depois dos estudos primários no Colégio de Santo Nome de Deus de Bassaim, fundado e dirigido pelos padres Jesuítas e pela mão destes, após curta estada em Goa, seguiu, em 1572, para o Japão, onde durante oito anos exerceu funções de catequista, na complexa
Volume LVII • 17GENTES DA ÍNDIA POR TERRAS DE MACAUe eficiente estrutura da missionação organizada pelos Jesuítas no Japão. Desgostoso por não ser admitido na Companhia de Jesus, que era a sua aspiração, abandonou os seus patronos e embarcou para Macau, onde durante quatro anos exerceu actividades ligadas ao comércio, en-tre 1583 e 1589, altura em que terá sentido novo apelo para o misticismo e rumou para Manila, onde foi aceite como membro da Ordem dos Frades Menores Frans-ciscanos. Pelo facto de dominar a língua japonesa, foi integrado na comitiva de Frei Pedro Bautista, enviado diplomático do governo de Manila junto da côrte de Hideyoshi, acabando, pouco depois, por ser julgado e condenado por infringir a legislação anti-cristã decreta-da por aquele chefe japonês. Morreu na cruz, com mais vinte e cinco companheiros de martírio na Colina dos Mártires de Nagasaqui, em 5 de Fevereiro de 1597.Bem mais conhecida é a figura de outro Indo-Portu-guês, que foi pessoa grada e preponderante na sociedade macaense do seu tempo. Trata-se de Manuel Tavares Bocarro, que chegou a esta cidade vindo da Índia em 1623, para exercer funções de fundidor de canhões, si-nos, âncoras e outros artefactos de bronze e ferro e foi considerado o mais hábil profissional nessa arte e fundiu os mais belos e eficientes canhões do seu tempo. Luso--Descendente ou Euro-Asiático, era neto e bisneto de “casados” portugueses estabelecidos em Goa. Viveu a maior parte da vida em Macau, onde fez parte da opu-lenta burguesia da terra e ocupou lugares importantes na
18 • Colecção MosaicoMÁRIO CÉZAR LEÃOadministração local como conselheiro do Leal Senado em 1655 e Governador entre 1657 e 1664. Conside-rando acidente transitório a sua passagem por Macau, regressou a Goa onde terá falecido por volta de 1672.Francisco Lopes Carrasco foi outro fidalgo goês que por lá passou, militar com distintos serviços prestados na Índia. Foi despachado pelo Rei para Macau (1616) investido nas funções de “capitão e ouvidor tanto na ausência como na presença do capitão-mor da viagem do Japão”, e é por alguns considerado como o primeiro Governador de Macau, anterior a D. Francisco de Mas-carenhas investido naquelas funções em 1623. A sua actuação não terá sido do agrado dos seus superiores e das forças vivas locais, pelo que apeado das suas funções, regressou a Goa.Da família Melo Sampayo, fidalgos oriundos de Bas-saim e Goa, saiu uma plêiade de homens que brilharam na história da epopeia portuguesa na Ásia, tendo alguns deles passado por Macau, desempenhando funções de destaque, como Luís de Melo Sampayo e Diogo de Melo Sampayo, ambos oficiais superiores da Marinha e que governaram Macau entre 1679 e 1682 e 1700 e 1702, respectivamente. Eram ainda seguramente de ancestra-lidade indiática os governadores Belchior de Amaral e Meneses, natural de Negapatão e descendente de Goeses (1682 a 1685), D. Francisco da Costa, natural de Goa (1691 a 1693), Joseph da Gama Machado, natural de Damão (1703 a 1706), Diogo de Pinho Teixeira (1706 a
Volume LVII • 19GENTES DA ÍNDIA POR TERRAS DE MACAU1710), António Carneiro Alcáçova, natural de Goa (1724 a 1727), António Amaral Meneses, natural de Goa (1732 a 1735), D. Rodrigo de Castro, natural de Goa (1752 a 1755), Francisco António Pereira Coutinho, natural de Taná, Bassaim (1755 a 1758), D. Diogo Pereira, natural de Bassaim (1758 a 1761), António Mendonça Corte Real, natural de Chorão, Goa (1761 a 1764), Vasco Luís Carneiro Sousa Faro, nascido em Taleigão, Goa (1790 a 1793) e provavelmente Francisco Xavier de Mendonça Corte Real (1788 a 1789).No século XIX, durante os conturbados tempos de lutas liberais, o Luso-Descendente de Goa, Joaquim Mourão Garcês Palha, oficial da Marinha portuguesa no comando da fragata “Salamandra”, veio de Goa, com um destacamento de duzentos homens, a maior parte dos quais Goeses, com a missão de dominar uma insur-reição anti-governamental que tinha estalado em Macau (1823). Restabelecida a ordem, foi-lhe confiado o gover-no de Macau, funções que por motivos de saúde desem-penhou por pouco tempo, sucedendo-lhe anos depois, em 1829, o major do exército, Luso-Descendente, João Cabral Estefique, que fora um dos oficiais da guarnição da fragata “Salamandra”.Outro facto que aproximou a Índia de Macau foi cer-tamente a Nau do Trato do Japão ou a Grande Nau de Macau, que durante quase cem anos, do século XVI até à primeira metade do século XVII, partiu regularmente de Goa e com escalas variáveis no percurso, aportando
20 • Colecção MosaicoMÁRIO CÉZAR LEÃOMacau, com o capitão-mor da viagem a bordo. Deixava Goa entre Abril e Maio, levando têxteis de fabrico india-no, objectos de manufactura europeia, vinhos portugue-ses e outros produtos de colocação fácil nos portos que iria escalar. Em Macau demorava 10 a 12 meses, pois era lá que se fazia a aquisição da seda, comprada nas feiras de Cantão que se realizavam duas vezes por ano ou ad-quirida aos contrabandistas chineses, que desciam com a carga o Rio das Pérolas, e que depois ia ser vendida no Japão. Entre Junho e Agosto o grande barco negro e embarcações menores que o acompanhavam, zarpavam em direcção ao Japão, onde a carga era paga em prata e de lá regressavam a Macau, entre Outubro e Novembro. Além das barras de prata, traziam outros produtos do artesanato japonês e, durante anos, de lá veio o cobre para abastecer a oficina de fundição de canhões do Chu-nambeiro de Macau, dirigida por Bocarro, enquanto este permaneceu em Macau.O capitão-mor, sempre português, e que durante a permanência em Macau acumulava funções de Gover-nador interino da cidade, era a pessoa mais importante ligada à viagem anual do Japão. Havia poucos mari-nheiros portugueses, sendo estes na sua maioria Euro--Asiáticos ou Africanos. Esta composição da tripulação, bem como os seus hábitos, costumes e vestuário, podem, ainda, ser apreciados através do estudo dos biombos japoneses, vulgarmente conhecidos por “nambans” do século XVI e XVII.
Volume LVII • 21GENTES DA ÍNDIA POR TERRAS DE MACAUA prosperidade trazida a Macau pela viagem ao Ja-pão, contrastava com as condições depauperantes e o progressivo declínio de Goa, a partir do início do século XVII, que levou o Senado de Macau a afirmar, em 1640, que era a sua cidade e os seus recursos provenientes do Japão que tinham evitado a decadência e o fim do Esta-do Português da Índia, em luta com os holandeses.Não é, pois, de admirar que o Navio Negro, vindo do Extremo Oriente e atracado no cais de Goa, descar-regando preciosidades e riquezas de um mundo distante, funcionasse como um pólo de atracção para quem já tivesse vivido, há bem pouco tempo, uma época áurea e por esse motivo aspirasse a novos horizontes e uma melhoria do estilo de vida. Compreende-se assim, uma referência numa carta régia, que afirmava haver em Ma-cau seiscentas famílias indo-portuguesas estabelecidas em princípios do século XVII.Foi mais tardia a participação de nativos oriundos da Índia nos assuntos de Portugal de uma maneira geral e de Macau, por tardia ter sido a assimilação dos Goeses no mundo criado pelos portugueses. Mas mesmo assim, de uma forma anónima, tiveram os conquistadores au-xiliares nativos nas suas campanhas. Lascares mercená-rios do Malabar foram colaboradores importantes dos portugueses desde o início da ocupação do Oriente que tomaram parte em expedições de várias frentes, ao lado das forças militares europeias. Lascarins, marinheiros indianos de várias etnias, recrutados localmente, cons-
22 • Colecção MosaicoMÁRIO CÉZAR LEÃOtituíam a maior parte da tripulação das naus, galeotas, fustas, juncos e outras embarcações que circulavam de feitoria em feitoria no comércio interno da Ásia, ou em empreendimentos militares no mar.Aliás, a elevação do estatuto cívico e político dos goeses no âmbito administrativo e religioso deu-se mais de duzentos anos depois da conquista de Goa e só em 1720 foram os naturais aceites como membros do conselho municipal de Goa e a partir de 1750 ad-mitidos em ordens religiosas. Ao Marquês de Pombal e ao ângulo democrático da sua visão política se deve, no entanto, a equiparação dos Goeses aos Portugueses, quando declarou os indígenas da Ásia portuguesa per-feitamente iguais perante a lei aos Portugueses nascidos no Reino e estabeleceu penas para quem tentasse con-servar entre Europeus e Indianos, diferenças anterior-mente introduzidas.Há factos e referências históricas que permitem loca-lizar Goeses autóctones, mestiços ou Indianos, em Ma-cau, desde o século XVI. Em 1640 dirigiu-se ao Japão uma embaixada portuguesa com o intuito de desblo-quear uma situação de impasse comercial na sequência do decreto que proibia os portugueses de demandarem os portos nipónicos, por pretenso apoio dado ao revol-toso Shimabara (1638). Dos setenta e um componentes deste grupo, pelo menos dezassete eram de origem india-na e entre eles, um dos quatro embaixadores, Luís Pais Pacheco, natural de Cochim e morador em Macau, que
Volume LVII • 23GENTES DA ÍNDIA POR TERRAS DE MACAUfoi um dos sessenta e um que foram condenados à morte e degolados na Colina dos Mártires de Nagasáqui.Posteriormente, através dos séculos, falam as cróni-cas e relatos, aqui e ali, da chegada da gente da Índia a Macau, com os intuitos mais diversos, como em 1784, quando chegaram cento e cinquenta praças Goeses que foram integradas nas forças de defesa e segurança de Macau. A “Gazeta de Macau e Timor” de 15 de Julho de 1873 informava que “41 soldados mouros” tinham chegado de Goa no navio “Concórdia”; o “Independen-te” de 1 de Agosto de 1887 comentava: “não vai longe o tempo em que todo o serviço de polícia e da guarnição era desempenhado por um batalhão da Índia” e o “Cor-reio Macaense” de 20 de Abril de 1888, noticiava que “tinha chegado de Goa um grupo de 150 Maratas sob o comando de um tenente da Índia Portuguesa para a guarda policial de Macau”.Na esteira dos ingleses que estiveram em Macau, antes da ocupação de Hong Kong (1842), a sede da Companhia das Índias Orientais, estabeleceu-se naque-le território uma colónia de Parses, que a avaliar pelo cemitério que lá deixaram deve ter sido importante, mas é difícil hoje avaliar qual o impacto que a presença desse povo terá sido na sociedade macaense.Mas já anteriormente no século XVII, a pedido da diocese de Macau, eram enviados padres seculares ordenados em Goa, para fazerem face às necessida-des sempre crescentes de pessoal indispensável para
24 • Colecção MosaicoMÁRIO CÉZAR LEÃOa evangelização de Macau e regiões adjacentes, que continuaram a afluir nos séculos seguintes, juntamente com médicos, advogados, militares, magistrados, enge-nheiros, professores e funcionários públicos que às cen-tenas se integravam nos quadros locais numa torrente quase constante até aos nossos dias. Mencionaremos apenas alguns nomes de personalidades que por lá se evidenciaram, sem desprestígio para os que não forem mencionados. No campo eclesiástico, começaram a chegar alguns sacerdotes formados e ordenados no seminário de Goa a partir do século XVII, que exerceram a sua actividade de párocos e cónegos, tais como, no século XIX os pa-dres Caetano Filipe da Piedade Conceição de Margão e Francisco Caetano Santana e Costa de Cansaulim e mais perto de nós, o cónego Francisco Xavier Soares, natural de Aldonã, que por mais de quarenta anos missionou em Macau, destacando-se no entanto entre todos, pela sua abnegação e dedicação pelo ministério de Deus, o Pe. Manuel Francisco do Rosário Almeida, natural de Chinchinim, a quem se deve a fundação do Hospital Asilo dos Pobres e o Asilo da Infância Desvalida, sendo conhecido pela população local do seu tempo como o “Apóstolo da China”. O mais alto posto na hierarquia coube, no entanto, a D. João Xavier da Trindade e Sou-sa, dominicano de último superior do convento de S. Domingos em Macau, deputado às Côrtes por Timor e por fim Bispo de Malaca.
Volume LVII • 25GENTES DA ÍNDIA POR TERRAS DE MACAUNa área da saúde e assistência o Dr. Henrique Cae-tano Vitor Figueiredo, habilitado na Aula de Medicina do Hospital Real de Goa e aprovado por sua Majestade Fidelíssima, antes da fundação da Escola Médica de Goa (1842), chegou àquelas paragens nos inícios do século passado e aí se fixou, constituíu família e faleceu. Vários médicos lhe seguiram, formados pela Escola Médica de Goa, como o Dr. João Jacques Floriano Álvares que se integrou na sociedade macaense, onde ainda tem larga descendência. Em tempos mais próximos, em princípios do século actual, o Dr. João António Filipe de Morais Palha, formado na Universidade de Lisboa, permaneceu trinta e cinco anos em Macau, tendo exercido funções de director dos Serviços de Saúde e deixou o nome ligado ao estudo de problemas sociais e médicos. É justo, por fim, fazer referência ao Dr. Pedro Joaquim Peregrino da Costa que por lá labutou entre 1916 e 1939, com grande apreço e reconhecimento da população que serviu, onde deixou um largo círculo de amigos e para além da sua actividade profissional dedicou os tempos livres, tanto em Macau como em Goa, para onde se retirou depois de se aposentar, a vários aspectos da história de Macau e do Oriente.Noutras actividades se distinguiu no século XIX, João Maria Sequeira, capitão das milícias de Bardez (Goa), que foi secretário do Governador. Entre advo-gados provisionários, habilitados em Goa, distingui-ram-se Francisco Assiz Fernandes, que foi Delegado
26 • Colecção MosaicoMÁRIO CÉZAR LEÃOdo Procurador Régio, vereador e presidente do Leal Senado; José Gabriel Fernandes, que exerceu funções de Juiz da Paz e dos Órfãos e Síndicos da Santa Casa da Misericórdia e das Missões de Pequim; João Baptista Gomes, Delegado do Procurador Régio e Juiz Admi-nistrador das Alfândegas, cujo sangue corre ainda nas veias de várias famílias macaenses; Saturnino Pereira, pai de Francisco Xavier Pereira, nascido em Macau, formado em Direito pela Universidade de Coimbra, que foi vulto eminente na sociedade do seu tempo, ten-do sido presidente do Leal Senado e cujo nome foi dado a uma das principais artérias da cidade onde nasceu e o advogado Caetano José Lourenço, que era pai do capitão de artilharia Eduardo Lourenço, nascido em Macau, uma das figuras proeminentes da vida pública da sua terra em fins do século passado.E sobre o pano de fundo da gente e da cultura por-tuguesas, acabou por se formar, bordado pelo sangue chinês, malaio, japonês, filipino, indiano, timorense e de outra origem, o Macaense, filho da terra, produ-to híbrido multiracial, com características somáticas e antrobiológicas específicas, com uma língua, dialecto de português, cultura, tradição e folclore próprios, um todo, integrado por várias componentes e como não podia deixar de ser, a India teve uma quota parte nesta mesclada composição, sobretudo no tipo físico dos filhos da terra, nos usos e costumes na cozinha, e, em especial, no “patois”, ou língua falada pelos naturais.
Volume LVII • 27GENTES DA ÍNDIA POR TERRAS DE MACAUImportante é a percentagem de sangue de Goa que corre nas veias das gentes de Macau. Contou-me o es-critor, Dr. Senna Fernandes, descendente de famílias há séculos estabelecidas no território, que na sua ances-tralidade, os quatro avós tinham antepassados vindos de Goa. No momento actual, no entanto, as coisas têm estado em franca transição e a identidade da cultura em risco de se dissolver para sempre. O “patois” é um dialecto em vias de extinção e pouca gente o fala ou entende. A população macaense há longos anos iniciou a sua diáspora e a emigração continua em ritmo sempre crescente, havendo hoje inúmeros núcleos de macaen-ses no Canadá, em Portugal, nos Estados Unidos da América, na Austrália, no Brasil e em outros países. Hábitos, tradições e cultura levados por estes emigran-tes vão-se aos poucos esboroando longe da terra, conta-minados pela influência dos povos onde se encontram inseridos. Depois de 20 de Dezembro de 1999, data em que o pano cairá sobre o império português, com a entrega daquele pequeno território à China, receio bem que a velha e absorvente civilização daquele país, acabe por fazer desaparecer as impressões deixadas por povos que em vagas sucessivas se estabeleceram em Macau durante os mais de quatrocentos e cinquenta anos da presença portuguesa, criando a tão típica cul-tura multifacetada que é uma das características mais peculiares do Macaense.
28 • Colecção MosaicoMÁRIO CÉZAR LEÃOCabe hoje às instituições portuguesas de Macau, nos escassos sete anos que ainda sobram, coligir e pre-servar os resíduos culturais de vários povos que contri-buíram para moldar a fisionomia e deixaram rastos da sua passagem na gente e coisas de Macau, de modo a permitir uma ulterior análise e estudo detalhado das várias componentes da cultura macaense, entre elas a Indiana e a Goesa.O presente texto foi apresentado numa Conferência em28 de Dezembro de 1992, realizada no Salão Nobre do Instituto Menezes Bragança, em Panjim, Goa (Índia).
Volume LVII • 29GENTES DA ÍNDIA POR TERRAS DE MACAUSUMMARYFrom the earlier beginnings of the Portuguese settle-ment in the Far East there were people from India who following the wake of those navigators and colonizers proceeded to those lands.In the ship ś crew, often holding responsible posts like captains, there were natives from India enlisted for this purpose. From the beginning of the 16th century, Indian mercenaries known as “lascares” (auxiliary troops) under the command of European officials played a predomi-nant part in the military undertakings of that country.Once the period of discoveries started during the days of Prince Henry the Navigator towards the second quarter of the 15th century, for reasons we shall not examine here, the Portuguese, having rounded the Cape of Good Hope, headed to the East, building “feitorias” (trading posts), fortresses and settlements all along the route, stretching from Mozambique to the Far East and the Moluccas Islands through the Golden Goa — the capital of the Eastern Empire. In these strategically situated lands very close one from another, there sprang up with the arrival of the Europeans a blending of races giving rise to a mixed ethnic group, the luso-descendants who backed up each other if need arose. Out of these mixed groups there were
30 • Colecção MosaicoMÁRIO CÉZAR LEÃOmany who helped the Portuguese expansion overseas and without their support Portugal would not be able to hold on to its overseas dominions of the East for such a long time. Members of this community among whom we have illustrious men like the Goan-born Fernão Vaz Dourado and Manuel Godinho Herédia born in Malacca set out to Macau immediately after the establishment of this settlement and at the turn of the 15th century, made up an important segment of its population. Prominent among those who at the time passed through this tiny commercial “entrepot” along the silk route to Japan, was St. Gonzalo Garcia — the first Indian to be canonized — a native from Bassein born in 1557, whose father was of European ancestry and mother a native of India. Also, a luso-descendant from Goa was Manuel Tavares Bocarro. He was by profession founder of bells and cannons and set out to Macao where he not only practiced his craft, but was an outstanding personality in the community of that “feitoria”. Towards the end of his life, Bocarro returned to Goa where he died. In the course of the 17th and 18th centuries, people from India thronged Macao and many governors of that settlement hailed from Goa like Luís de Mello Sampayo and Diogo de Mello Sampayo, both born at Bassein, Vasco Carneiro de Sousa e Faro, born at Taleigão and more recently Mourão Garcez Palha.Native Goans started holding high positions in sev-eral branches of the administration at a later stage, but
Volume LVII • 31GENTES DA ÍNDIA POR TERRAS DE MACAUalready in the 17th century priests trained and ordained in Goa began to arrive in Macao dispatched there at the request of the local See. They were followed by doctors who played a pivotal role in the sanitation and other health services, lawyers, soldiers and skilled workmen who gave and are still giving their contribution for the development of that tiny Portuguese enclave in China which will be handed over to the People ś Republic of China at the threshold of the 20th century, on Decem-ber 20th 1999.This migration which went on uninterrupted and at a growing pace for centuries could not but have a profound impact on the “patois” – a Portuguese dialect spoken by the Macanese – on its culture, folklore and in the blood of people of Macao in whose veins flow a considerable dose of Indian blood. Mário Leão