PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS 1 Da Avenida ao Tap Siac PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS DE MACAU Artigos, fotos e legendas de autoria de Manuel V. Basílio Abril de 2019
MANUEL V. BASÍLIO 2 TÍTULO Da Avenida ao Tap Siac - Pátios, Becos e Travessas de Macau TEXTOS, FOTOS E LEGENDAS Manuel V. Basílio EDITOR Instituto Internacional de Macau GRAFISMO Ângela Canavarro Ramos COLECÇÃO Mosaico VOLUME 54 TIRAGEM 500 exemplares IMPRESSÃO Foshan Nanhai Baosheng Packing Factory (Baosheng Printing) APOIO Fundação Macau ISBN 978-99965-59-30-3 Abril de 2019
PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS 3 PREFÁCIO Este é o terceiro volume dos escritos de Manuel Viseu Basílio que nos contagia com o seu interesse sobre estórias de Macau. Factos e nomes que trouxe à memória de personalidades que aqui viveram no passado recente ou que podem servir de referência para familiares que se transferiram para o estrangeiro. Todavia, a descrição pormenorizada da emblemática Avenida Almeida Ribeiro que fora a artéria principal do comércio a retalho da cidade no séc. XX, de uma estrada nova que foi aberta até à Porta do Cerco que permitiu o desenvolvimento dos bairros de S. Lázaro e Tap Siac, onde residiam muitas famílias macaenses, com a indicação dos nomes dos seus elementos, são de leitura apetecível, instructiva mas nostálgica. Esperemos que o autor continue a alimentar-nos com mais informações úteis e consistentes sobre um passado recente com o qual lamentavelmente perdemos quiçá contacto. Macau, Abril de 2019. Instituto Internacional de Macau
MANUEL V. BASÍLIO 4 ÍNDICE Avenida Almeida Ribeiro https://cronicasmacaenses.com/2019/02/02/avenida-de-almeida-ribeiro-uma-importante-e-emblematica-avenida-de-macau/..5 A Estrada do Campo https://cronicasmacaenses.com/2019/03/25/macau-a-estrada-do-campo-e-seu-significado-politico-no-governo-de-joao-maria-ferreira-do-amaral/.........................................................................44 O Bairro de S. Lázaro https://cronicasmacaenses.com/2018/08/17/o-bairro-de-sao-lazaro-de-macau-e-antecedentes-historicos/....................................73 O Bairro Tap Siac https://cronicasmacaenses.com/2018/11/04/em-macau-o-bairro-tap-siac-um-bairro-de-gratas-recordacoes/..............................101
PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS 5 AVENIDA DE ALMEIDA RIBEIRO Uma importante e emblemática avenida de Macau A mais complexa obra viária realizada em Macau foi, sem dúvida, aquela que se projectou em princípios do século XX e que durou quase duas décadas para ser concretizada, acabando por sanear uma boa parte de bairros chineses e abrir uma larga e rectilínea via para a circulação de pessoas e veículos, desde o coração da cidade – o Largo do Senado, até à marginal oeste do Porto Interior e, posteriormente, desde o referido Largo até Praia Grande. Não foi uma obra fácil, nem podemos dizer que foi conseguida por uma só pessoa, quer seja governador, quer seja director das Obras Públicas, devido à complexa questão de expropriações e demolição de muitos prédios, que desordenadamente foram surgindo, como cogumelos, ao longo dos anos, naqueles bairros chineses, inseridos numa zona conhecida por Bazar Chinês. Por isso, o projecto da nova avenida, desde que foi arquitectado, passou por fases de pára-arranque, tendo em conta não só a aprovação de orçamentos para o efeito, mas também o processo de negociações, com vista à determinação de respectivos valores referentes à expropriação de prédios a serem demolidos. A primeira pessoa que idealizou um plano para abertura de uma longa e espaçosa via, que estabelecesse a comunicação directa entre o Largo do Senado e a marginal do Porto Interior, foi o engenheiro Augusto Abreu Nunes, numa altura em que estava prestes a terminar a sua comissão de serviço como director das Obras Públicas, cujo cargo exerceu com elevada competência, desde que aqui chegou em 1893, cabendo a ele a realização de importantes obras de saneamento na zona do Tap Siac, bem como o planeamento e abertura de novas vias, designadamente a Avenida do
MANUEL V. BASÍLIO 6 Conselheiro Ferreira de Almeida, a Avenida de Horta e Costa e, ainda, a Avenida de Vasco da Gama (1). Mapa de 1912, antes da abertura da Avenida de Almeida Ribeiro. O local assinalado a amarelo é o Largo do Senado. A linha vermelha refere-se ao traçado da nova avenida, desde o Largo do Senado até marginal do Porto Interior. A linha verde, desde o Largo do Senado até Praia Grande, refere-se ao troço da via que só foi aberto posteriormente, entre 1918 e 1920. Foi em 1903 que se elaborou o primeiro plano destinado à abertura de uma ampla avenida, com vista a estabelecer a comunicação, de forma rápida e conveniente, entre o centro da cidade e a marginal do Porto Interior, bem como à realização de obras de saneamento urbano, com a construção de um cano colector ao longo da nova avenida para esgotos e também canos nas vias transversais, para melhorar o estado deplorável em que se encontrava a rede de esgotos naquela zona do Bazar Chinês. Além disso, era também indispensável o alargamento de vias públicas, nomeadamente Rua dos Mercadores e Rua do Mastro (2), Travessa do Aterro Novo e o prolongamento da
PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS 7 Travessa da Cordoaria até à Rua da Felicidade. No entanto, como o plano implicava consideráveis gastos, sobretudo com expropriações de propriedades chinesas, não foi possível executá-lo de imediato, tendo desde então e durante vários anos sido apenas realizados alguns trabalhos de saneamento e melhoramentos. Demolição de prédios para alargamento de via pública (foto cedida por um velho amigo) Início da abertura de uma nova avenida Após a elaboração do referido plano, a projectada obra ficou apenas no papel durante vários anos, até que o então Director das Obras Públicas, Engº. António Pinto de Miranda Guedes, assinou em 20 de Dezembro de 1908 um anúncio, para publicitar a “arrematação em hasta pública da empreitada da obra de construção da Nova Avenida do Bazar chinês (1º lanço – do Largo do Senado à Rua dos Mercadores)”, conforme anúncio publicado no Boletim Oficial nº 1, de 1909. No entanto, esta obra veio a ser executada em duas fases, a primeira das quais, numa extensão de 62 metros, desde o Largo do Senado até ao início do Pátio do Martelo (3),
MANUEL V. BASÍLIO 8 destinada a alargar a Travessa do Tintureiro. A fase seguinte foi realizada mais tarde, porquanto só a 7 de Outubro de 1913 é que se procedeu à arrematação em hasta pública, “por licitação verbal da obra de construção da Nova Avenida do Bazar Chinês (do Pateo do Martello à Rua dos Mercadores) na extensão de 44 metros” e, após a realização desta obra, extinguiu-se a Travessa do Tintureiro (4). Do lado direito, vê-se o Hotel Central na Avenida de Almeida Ribeiro, ainda sem o acréscimo dos últimos 5 pisos Concluído o referido 1º lanço, os trabalhos não avançaram de imediato, por razões diversas, nomeadamente a aprovação de nova verba para a fase seguinte da obra e, também, o complicado e moroso processo de expropriação de prédios a serem demolidos. Por insuficiência de dinheiro, o governo local teve de solicitar ao então Ministro das Colónias, Artur Rodrigues de Almeida Ribeiro, uma considerável verba, destinada ao prosseguimento da obra, tendo posteriormente, por comunicação da Direcção Geral da Fazenda das Colónias, datada de 2 de Setembro de 1913, sido autorizada a verba de 67.500 escudos, ou seja, 150.000 patacas, considerada necessária para conclusão da obra da avenida até à marginal do Porto Interior.
PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS 9 Deste modo, em sinal de gratidão ao Ministro, foi feita uma proposta para que seja dado o nome de Almeida Ribeiro à nova artéria, substituindo, assim, a designação inicial – a de Nova Avenida do Bazar. A abertura da nova avenida deu origem à construção de um notável conjunto de edifícios, que foram construídos à medida que a via estava sendo aberta, e cuja avenida passou a ser uma ampla e moderna via, com uma largura de 15 metros, em que foram reservados, em cada lado, 2,5 metros para servir de passeio coberto em arcadas, ficando, portanto, a avenida com 10 metros de largura para a circulação de veículos. O último troço da Avenida Depois da conclusão da nova avenida, que estabeleceu a comunicação viária entre o Largo do Senado e a zona marginal do Porto Interior, começou então a ser arquitectado um novo e ambicioso projecto de obra, que consistia na ligação desde o Largo do Senado até Praia Grande. Durante anos, este projecto foi considerado de difícil concretização, visto que havia obstáculos a remover, os quais implicavam elevados gastos, caso a obra viesse a ser realizada. Até princípios do século XX, a comunicação entre o Largo do Senado e a Rua da Praia Grande fazia-se pela Rua do Gonçalo (5), que começava na Rua Central (junto da Calçada do Governador (6) e do Beco do Gonçalo) e terminava no Largo do Senado. Para se chegar à Rua da Praia Grande, era necessário subir pela Rua do Gonçalo, contornando um montículo que lá havia, descer pela Calçada do Governador e, em chegando à esquina do lado esquerdo, havia um prédio térreo, onde estava instalado o Correio, (anteriormente conhecido por Casa do Guarda, quando o edifício do lado direito era Palácio do Governador, que depois serviu para Repartições Públicas). Mesmo ao lado deste prédio, estava estabelecido o Hotel Hing Kee (7) e, a seguir, era uma
MANUEL V. BASÍLIO 10 propriedade pertencente a um abastado negociante chinês, de nome Lam Lin (林蓮, em pinyin: Lin Lian), com casa, dependências e jardim. Proposta da designação da Avenida de Almeida Ribeiro (extraída do folheto distribuído aquando da Exposição sobre a Avenida de Almeida Ribeiro e Ruas Periféricas) Para levar a efeito a abertura de uma nova artéria, desde o Largo do Senado até Praia Grande, era indispensável ultrapassar, pelo menos, dois grandes obstáculos, ou
PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS 11 seja, arrasar um montículo, no cimo do qual passava a Rua da Sé até à junção com a Rua do Gonçalo e, ao mesmo tempo, expropriar uma boa parte da propriedade do referido Lam Lin (林蓮). Entretanto, surgiu também uma terceira questão: a oposição de geomantes, “mestres do fengshui”. Era da crença popular, que havia um dragão, cujo dorso estava por baixo da via que se estendia desde o Largo da Sé, subindo pela encosta até ao cimo da Rua Central, e no ponto mais alto, repousava a sua majestosa cabeça. Por isso, a Rua Central, em chinês, é designada por “Lông Sông Cheng Kái”, significando “Lông” ( 龍 ), dragão. Ora, diziam os geomantes de então que, arrasando o montículo, cortaria o dorso do dragão em duas partes e este acto traria inúmeras desgraças à população. Aspecto da artéria entre o Largo do Senado e Praia Grande, após ter sido aberta. Do lado esquerdo, vê-se uma rua arrampada, já cortada de cima para baixo (presentemente é uma escadaria), a qual fazia parte da Rua da Sé, que passava no cimo de um montículo para terminar na Rua do Gonçalo. O terreno do lado esquerdo foi mais tarde aproveitado para a construção do edificio dos CTT. Todas as antigas casas já não existem (foto cedida por um velho amigo) Seja como for, das pesquisas efectuadas, sobretudo a partir do ano de 1918, constatámos uma série de editais da Comarca de Macau, publicados em Boletins Oficiais, que fazem referência a expropriações, por utilidade pública, bem como portarias provinciais referentes à aprovação de projectos de expropriações para conclusão
MANUEL V. BASÍLIO 12 da Avenida de Almeida Ribeiro e a sua ligação com Praia Grande, incluindo o projecto de alargamento da Rua do Gonçalo e Calçada do Governador, sendo de destacar a portaria datada de 17 de Setembro de 1918, na qual se acha publicado, em anexo, o mapa de prédios a expropriar, no Largo do Senado e Travessa do Roquete (8). A 15 de Abril de 1919, o Governador Artur Tamagnini de Sousa Barbosa assinou duas portarias, autorizando a liquidação, como parte de despesas, respectivamente de $3,750 e $4.100 patacas, referentes ao projecto de expropriações para a conclusão da Avenida Almeida Ribeiro e a sua ligação com Praia Grande. Estas e outras autorizações idênticas constam de publicações em Boletim Oficial daquela época, não só para conclusão da Avenida, mas também para o alargamento das vias transversais, com um novo alinhamento de prédios. Foto tirada a partir do cruzamento entre a Rua Central, Rua do Padre Luís Fróis S.J. (anteriormente, Calçada do Governador) e Beco do Gonçalo. Antes da abertura do último troço da via a ligar até Praia Grande, a Rua do Gonçalo (que já não existe) terminava no referido cruzamento e era ali que começava a Rua Central. Ao fundo, vê-se uma escadaria que dá acesso à Rua da Sé e que foi construída depois de um montículo, que se estendia até à rampa da Rua do Gonçalo, ter sido arrasado.
PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS 13 Afinal, em que ano a obra da Avenida ficou concluída? Publicações existentes de vários autores, dum modo geral mencionam que a obra de abertura da Avenida, desde o Largo do Senado até Praia Grande ficou concluída em 1918. No entanto, com base nas pesquisas efectuadas, chegámos à conclusão que aquela obra só se concretizou mais tarde, porquanto houve mais expropriações que foram feitas em 1919, bem como autorizações para os respectivos pagamentos. A questão fulcral para a conclusão da projectada obra residia na expropriação de parte das propriedades de Lam Lim (林蓮). Assim, por portaria datada de 13 de Julho de 1920, o Governador da Província de Macau, Henrique Correia da Silva, determinou que, por utilidade pública e urgente, se procedesse a expropriação de várias casas, incluindo “parte do corpo principal da casa, quasi todo o jardim e outras dependências representada a tinta Carmin com a área de 450m2”, em nome do herdeiro de Lam Lin. Assim sendo, a abertura do último lanço até Praia Grande só poderia ficar concluída na segunda metade do ano de 1920, após a referida expropriação. Quem era Lam Lin Nas pesquisas feitas em publicações em língua chinesa, poucas referências foram encontradas a respeito de Lam Lin (林蓮). Ficamos, no entanto, a saber que o seu nome completo era Lam Ham Lin (林含蓮), também conhecido por Lam Sin San (林蒨生) e era, na sua época, um dos negociantes mais ricos de Macau e, dado ao seu prestígio e posição social, fez parte como vogal suplente da Junta Fiscal das Matrizes. Além de outros negócios, era dono de um dos quatro maiores cambistas (assim eram designados os bancos chineses), denominado Si Fung (時豐銀號), estabelecido na Rua dos Mercadores. Devido à
MANUEL V. BASÍLIO 14 sua riqueza, era proprietário de diversos prédios, incluindo um terreno situado na Rua da Praia Grande, sobre o qual mandou construir em 1907 um prédio com o número 67 para a sua habitação. Anúncio em que consta o nome de Lam Lin, nomeado para o cargo de vogal suplente da Junta Fiscal das Matrizes do Concelho de Macau, na qual integra também o Dr. Manuel da Silva Mendes. Tal como outros negociantes ricos, tinha uma grande família, com vários filhos. Em determinada fase da sua vida, tornou-se um apegado fumador de ópio (9) e, nestas circunstâncias, a pouco e pouco passou a ter menos empenho na liderança dos seus negócios, de forma que a gestão do seu banco ficou entregue a seus gerentes. Estes, abusando da confiança do dono, defraudaram uma avultada quantia em dinheiro. Espalhada a notícia, deu-se uma corrida aos depósitos por parte dos clientes e, devido à falta de liquidez, o banco foi encerrado e, subsequentemente, por acção judicial, Lam Ham Lin foi declarado falido pelo Tribunal do Comércio da Comarca de Macau, em 1 de Abril de 1910, tendo sido nomeado administrador da massa
PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS 15 falida Francisco Xavier Anacleto da Silva. Para liquidar as suas dívidas, vendeu propriedades, tendo também hipotecado, designadamente, o prédio número 67 da Rua da Praia Grande a favor da Agência do Banco Nacional Ultramarino (BNU) em Macau. Lam Ham Lin faleceu em Abril de 1920 e, em consequência disso, o administrador dos bens da família
MANUEL V. BASÍLIO 16 de Lam Ham Lin e herdeiros foram executados para pagamento da quantia de $71.268,59. Assim, o prédio nº 67, mandado construir por Lam Ham Lin, em 1907, para sua residência, entrou na posse do BNU em 1923, após ter sido extinta a dívida e cancelada a hipoteca e, em meados de 1924, foi demolido para a construção do actual edifício do BNU, que foi oficialmente inaugurado a 1 de Março de 1926. A intrigante numeração policial que existiu na Avenida de Almeida Ribeiro Possivelmente para homenagear o Coronel Mesquita (10), que em 1910 foi reabilitado pelo Juízo Eclesiástico, tendo os restos mortais sido transladados, no dia 28 de Agosto daquele ano, para o Cemitério de São Miguel Arcanjo, com todas as honras militares e eclesiásticas, foi dado o nome de Avenida do Coronel Mesquita à artéria que ia do Largo do Senado à Rua da Praia Grande. Por conseguinte, aquele troço não fazia parte integrante da Avenida de Almeida Ribeiro. Esta Avenida começava no prédio onde era o antigo estabelecimento Mercearia e Cambista Soi Cheong, na esquina onde começa a Rua do Dr. Soares (anteriormente designada Rua da Cadeia). Era àquele prédio que tinha sido atribuído o nº 1, e ao prédio em frente, mesmo junto ao Largo do Senado, o nº 2. A designação Avenida do Coronel Mesquita, originalmente dada àquele troço que ia desde o Largo do Senado à Rua da Praia Grande, foi de curta duração. Possivelmente por acharem que o “Herói de Passaleão” merecia que o seu nome figurasse numa artéria mais condigna, por isso, depois da conclusão da Nova Avenida de Mong-há, o topónimo desta nova via foi alterado para Avenida do Coronel Mesquita.
PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS 17 Planta da Avenida de Almeida Ribeiro, na qual consta a numeração original (extraída do folheto distribuido aquando da Exposição sobre a Avenida de Almeida Ribeiro e Ruas Periféricas) Com esta alteração, a Avenida de Almeida Ribeiro estendeu-se até à Rua da Praia Grande e, consequentemente, toda a numeração policial existente teve de ser revista. Assim, o anterior prédio nº 1 passou a ser nº 1-S, ficando o Novo Hotel de Macau (mais tarde, Hotel Riviera) com o nº 1, o mesmo sucedendo com o lado de numeração par, em que o nº 2 passou a ser nº 2-I, tendo aquele número policial sido atribuído ao edifício do BNU. Curiosamente, havia dois prédios que não tinham numeração policial – o do Leal Senado e o dos Correios. Esta situação invulgar perdurou até que foi adoptado um novo sistema de numeração policial, conhecido por numeração métrica. Um ilustre desconhecido Artur de Almeida Ribeiro é uma figura pouco conhecida, mesmo entre portugueses residentes em Macau e, para os chineses, é naturalmente um ilustre desconhecido. A transliteração do seu nome, que figura no topónimo – “Á Mei Tá Lei Pei Lou Tai Ma Lou”, é complicado para ser dito, porquanto “Á Mei Tá” (Almeida) e “Lei Pei Lou” (Ribeiro) são meros sons, sem
MANUEL V. BASÍLIO 18 qualquer significado, e apenas sabem que “Tai Ma Lou” quer dizer “avenida”. Prédio com duas numerações – a anterior (nº 72) e a actual numeração métrica (nº 390). Efectivamente, os chineses preferem chamar “San Má Lou” à nova via. Esta designação não é nenhuma novidade, ou invenção de chineses, visto que, desde o início, a projectada artéria deveria chamar-se Nova Avenida do Bazar Chinês, ou simplesmente, Nova Avenida ou Nova Avenida do Bazar, cuja designação “Nova Avenida” corresponde, em chinês, a “Sân Má Lou” (“Sân” 新, Nova, e “Má Lou” 馬路 (11), Avenida). É frequente ler-se em publicações escritas em português que “San Má Lou” significa “Estrada Nova” ou, literalmente traduzido, “Caminho Novo para os Cavalos”. Nada disso, apesar de “San” 新 significar “nova”; “Má” 馬 , “cavalo”; e “Lou” 路, “caminho, rua ou estrada”. “San Má Lou” (新馬路) quer mesmo dizer
PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS 19 “Nova Avenida”, cuja origem provém da designação inicial, tal como consta da publicação em Boletim Oficial do anúncio, na versão chinesa, para efeitos de adjudicação da obra (12). De notar que, na toponímia actual, todas as avenidas são designadas “Tai Má Lou”, (significando “Tái”, grande), cujo termo passou a ser adoptado, desde que começaram a abrir as “grandes ruas” ou avenidas. O passado e o presente da Avenida de Almeida Ribeiro Até à abertura da Avenida de Almeida Ribeiro, uma das vias que podiam comunicar com a marginal do Porto Interior era a Rua do Matapau (13), que começava da Rua dos Mercadores e terminava na Rua do Guimarães. Era uma estreita e desalinhada rua, que hoje em dia dificilmente passaria um veículo automóvel e num só sentido. Ainda podemos transitar a pé um troço da Rua do Matapau que, com a abertura da Avenida, grande parte desta via desapareceu (14) e que agora termina num beco sem saída. Seria caótica a circulação viária em Macau, caso a administração portuguesa não tivesse levado avante o arrojado projecto de abertura da Avenida de Almeida Ribeiro, bem como o alargamento das vias adjacentes, que apenas foi possível mediante execução de muitas expropriações, por interesse público. Foram melhoramentos, não apenas na comunicação viária, mas também no saneamento básico. Concluídas as obras, os principais negócios ficaram concentrados ao longo da Avenida de Almeida Ribeiro e vias adjacentes, designadamente hotéis, casinos, cinemas, ouriversarias, relojoarias, cambistas, casas de penhores, pastelarias, drogarias, casas de pasto, etc. Durante décadas, muitos negócios floresceram na Avenida de Almeida Ribeiro, por ali circularem muitas pessoas, sobretudo passageiros provenientes do exterior, que diariamente embarcavam e desembarcavam em ponte-cais do Porto Interior.
MANUEL V. BASÍLIO 20 Aspecto da Avenida de Almeida Ribeiro, ca. 1935 Os florescentes negócios de então começaram a decrescer, designadamente a partir de meados dos anos sessenta do século passado, com a nova era do monopólio do jogo a partir de 1962 e o início do desenvolvimento nos aterros ao longo da Avenida do Infante D. Henrique, que culminou com a construção do Hotel Lisboa, inaugurado a 3 de Fevereiro de 1970 e, também, com a introdução de modernos meios de transportes marítimos, que passaram a ligar entre Macau e Hong Kong. Iniciou-se então a era dos hidroplanadores (ou “hydrofoils”), cujos barcos, mais velozes que os tradicionais barcos a vapor, passaram a atracar numa ponte-cais, construída no Porto Exterior, perto do actual Terminal Marítimo. Apesar de os barcos a vapor terem continuado a operar, durante alguns anos, no Porto Interior, o gradual declínio desse negócio ditou o fecho das carreiras de transporte de passageiros entre
PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS 21 Macau e Hong Kong com barcos a vapor, mantendo-se o Porto Interior para o tráfego de barcos de carga. Aspecto da Avenida de Almeida Ribeiro, ca. 1950 Não é praticável, neste breve trabalho, enumerar os estabelecimentos que existiram ou operaram no passado, e ao longo de décadas, na Avenida de Almeida Ribeiro. No entanto, muitos deles, apesar de terem já encerrado as suas actividades, ainda perduram na memória, designadamente Cinema Vitória e Teatro Apollo; Café Ruby, Restaurante Belo e Restaurante Safari; Moosa & Co.; Fazendas Veng Tai; Tabaqueria Filipina Fôk Vo; Barbearia Kac Lan; Mercearia e Cambista Soi Cheong; H. Nolasco & Cia.; Agência Comercial Aldifera; hotéis Riviera, Central e Grand (Grande Hotel Kuoc Chai); Casa de Penhores Tak Seng On e Cheong T’ái; lojas de Artigos Eléctricos Kuong Heng Hong e Seng Kuong; Pastelarias Iun Loi, Ieng Kei, Hin Kei, Chi Heong, Yuen Wa e Yu Lei; Alfaiatarias Chio Sôn e Félix; Quinquilharias Lee Veng Kei, Ieng Cheong e Wong Chan Kei; Drogarias Glory e Happy, etc. De lamentar que o progresso tenha destruído muitos aspectos tão característicos da Avenida, que mereciam ter sido preservados. Lojas antigas fecharam
MANUEL V. BASÍLIO 22 gradualmente as suas actividades e os vetustos edifícios foram sendo substituídos por prédios modernos ou estão em risco de demolição. Um edifício recentemente construído, designado Pensão Comercial San Tung Fong, cuja fachada original não foi preservada. Muito se tem falado sobre a revitalização de zonas antigas de Macau. Apesar de ter havido algumas iniciativas com vista a dimanizar aquela zona antiga da Avenida e vias adjacentes, continuam a existir estabelecimentos com fraca actividade, ou mesmo encerrados à espera de serem alugados. Caso futuramente houver novos empreendimentos turísticos, tais como o da PONTE 16 RESORT, dotado de casino, hotel e actividades similares, inaugurado a 1 de Fevereiro de 2008, poderão então ser criadas condições para atrair mais visitantes a frequentarem aquela zona da cidade.
PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS 23 Apesar das vicissitudes, a Avenida de Almeida Ribeiro continua a ser uma emblemática e importante avenida para a circulação viária e de transeuntes. NOTAS: (1) A Avenida de Vasco da Gama, aberta em finais do século XIX, já não existe, visto que, a partir de 1935, foi progressivamente retalhada para dar lugar à construção da Escola Primária Oficial “Pedro Nolasco da Silva”, da Escola Luso-Chinesa “Sir Robert Ho-tung”, de uma piscina municipal e do edifício do Clube Nocturno “Sân Fá Ün” que, depois de demolido, no mesmo local, se construiu em 1963, o edifício do Hotel Estoril e Casino Estoril, da nova concessionária de jogos de fortuna e azar – a Sociedade de Turismo e Diversões de Macau (STDM). (2) Foi alterada para Rua de Camilo Pessanha, em 1926. (3) O Pátio do Martelo desapareceu quando o troço entre a Avenida de Almeida Ribeiro e o Pátio de Cotovelo foi alargado para ficar integrado na Rua Oeste do Mercado de S. Domingos. (4) A Travessa do Tintureiro começava na Rua dos Mercadores e acabava na Rua da Cadeia (agora, Rua do Dr. Soares). Presentemente, só resta para memória o Beco do Tintureiro, com cerca de 6 metros de comprimento, ao fundo do qual é uma porta de acesso. Resta também o Pátio das Esquinas, que está reduzido a uma estreitíssima viela. (5) A Rua do Gonçalo, que começava na Calçada do Governador e acabava no Largo do Senado, foi extinta aquando da abertura da Avenida de Almeida Ribeiro e com o alargamento da Rua Central. Originalmente, a Rua Central não começava na Avenida de Almeida Ribeiro, mas sim mais acima, onde acabava a Rua do Gonçalo, e, portanto, era mais curta. Actualmente ainda resta o Beco do Gonçalo. (6) A Calçada do Governador, inicialmente designada por Calçada do Pe. Fróis, começava na Rua da Praia Grande e terminava em frente do Beco do Gonçalo. Em 1964, restituiu-se o nome que antigamente tinha, passando esta via a ser designada por Rua do Padre Luís Fróis, S.J. Este jesuíta
MANUEL V. BASÍLIO 24 português viveu algum tempo em Macau, viajando depois para Japão, onde desenvolveu o seu trabalho como missionário, vindo a falecer em Nagasaki. Entre as suas obras encontra-se uma História do Japão. (7) O Hotel Hing Kee pertencia a um chinês chamado Leong Hing Kee, também conhecido por Pedro Hing Kee, que em 1903 o vendeu ao inglês William Farmer, passando a ser designado “Macao Hotel”. Depois, quando mudou de gerência, mudou também a designação para “New Macao Hotel”, que encerrou actividade em 1927. No ano seguinte, com novos proprietários, reabriu a 15 de Janeiro de 1928, sob a denominação “Hotel Riviera”. Este hotel, de muitas memórias, acabou por encerrar definitivamente a sua actividade em 24 de Fevereiro de 1969, tendo o edifício sido demolido em 1971. (8) Na sequência das expropriações e demolições dos prédios existentes no Largo do Senado e Rua da Sé, a Travessa do Roquete foi alargada naquela altura. (9) Lam Ham Lin conheceu o escritor Bernardo Pinheiro Correia de Melo, primeiro conde de Arnoso, quando esteve em Macau em 1887, na viagem que fez, como secretário do conselheiro Tomás de Sousa Rosa, que ia a Pequim, em missão diplomática, na qualidade de ministro plenipotenciário português, com vista a participar na assinatura de um tratado com a China. Certo dia, a pedido do Conde, Lam Ham Lin demonstrou a forma como ele fumava ópio, tendo o Conde feito o seguinte registo: “Deitado ao comprido e de lado sobre a cama, com a cabeça encostada sobre o duro travesseiro, principiou por desatarrachar devagar e com amor a pequenina caixa onde estava o ópio; em seguida, acendeu a lâmpada e, tomando com a ponta da haste de metal um pouco de ópio gelatinoso, levou-o à chama. Ardendo como lacre, fazia girar a haste para o não deixar cair. Passados alguns minutos e reduzido já o ópio a uma pequena bola rescendente de perfume, introduziu-a, chegando também a chaminé do cachimbo à chama, no orifício do depósito. Sempre deitado, era com delícia e paixão, e com os olhos. meios cerrados, que aspirava o aroma subtil”.
PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS 25 (10) Devido às circunstâncias macabras da sua morte, o Governador de Macau rejeitou dar-lhe um funeral militar e o Leal Senado de Macau, em conformidade com os preceitos da Igreja Católica, recusou-lhe a sepultura cristã, determinando que “a sepultura para o coronel deve ser em lugar não bento”. Cerca de trinta anos depois, em 1910, ele foi reabilitado pelo Juízo Eclesiástico e, em conformidade com a opinião pública sobre a importância deste homem na história de Macau. Deste modo, os seus restos mortais foram então transladados para o Cemitério de S. Miguel Arcanjo. (11) Consultar o Dicionário Chinês-Português, editado em 1962, pelo Governo da Província. O carácter “má” (馬 , cavalo), associado a um outro carácter, origina um termo composto, com significado totalmente diferente (ver pág. 421 do dito Dicionário) e, portanto, o termo assim formado não pode ser traduzido à letra ou separadamente, tal como o termo “bicho-carpinteiro”, em português, não significa que o bicho seja carpinteiro. A actual toponímia de Macau adopta, em chinês, o termo 大馬路 (tái má lou) para designar todas as avenidas, enquanto que 街 (kái) é a designação para “rua”. (12) Ver o anúncio para arrematação da empreitada da obra de construção da Nova Avenida do Bazar (13) O topónimo em chinês é “Kât Châi Kai” ( 桔仔街 ), ou seja, Kât Châi” (桔仔), tangerina, e “Kai” (街), rua. (14) Foram também extintos o Beco do Barbeiro e o Beco do Loureiro. ▪ Fontes de consulta: Cadastros de Vias Públicas, designadamente o de 1905; Boletins Oficiais das primeiras décadas do século XX; e publicações várias em língua chinesa. (Texto, fotos e respectivas legendas de MV Basílio. Salvo indicação em contrário, as fotos antigas foram baixadas da internet, designadamente do grupo Antigas Fotos de Macau).
MANUEL V. BASÍLIO 26 Anúncio para arrematação da empreitada da obra de construção da Nova Avenida do Bazar Beco do Tintureiro, uma “relíquia” que sobreviveu à extinção da Travessa do Tintureiro
PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS 27 Beco do Tintureiro na localização actual, com cerca de 6 metros de comprimento. Pátio das Esquinas, outra “relíquia” que sobreviveu com a abertura da Avenida de Almeida Ribeiro
MANUEL V. BASÍLIO 28 O Pátio das Esquinas na localização actual, entre dois prédios. O que resta é um estreito e curto beco sem saída. Actual aspecto da Rua do Matapau, uma via desalinhada e estreita, que termina num beco sem saída.
PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS 29 Vê-se na foto a Avenida de Almeida Ribeiro, aberta até à junção com a Rua do Guimarães, antes da expropriação e demolição dos últimos prédios para se estender até à marginal do Porto Interior. O edifício mais alto era o Hotel Oriental (agora, East Asia Hotel), não estando ainda construído o Grand Hotel, também designado por Grande Hotel Kuoc Chai, que só foi inaugurado em 9 de Março de 1941. A via que intersecta com a Avenida de Almeida Ribeiro é a Rua Cinco de Outubro Foto tirada a partir do cruzamento entre a Rua Central, Rua do Padre Luís Fróis S.J. e Beco do Gonçalo. Ao fundo, é a Avenida de Almeida Ribeiro, vendo-se um veículo automóvel a mudar de direcção para subir a Rua Central.
MANUEL V. BASÍLIO 30 Actual aspecto do troço da Avenida de Almeida Ribeiro, entre Avenida da Praia Grande e o Largo do Senado, que originalmente se chamava Avenida do Coronel Mesquita. A abertura deste troço, desde a Rua Central até ao cruzamento com a Avenida da Praia Grande, só foi possível após a expropriação parcial da propriedade que pertencia a Lam Lin. Ao fundo, vê-se parcialmente o empreendimento hoteleiro PONTE 16 RESORT.
PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS 31 Edifício do agora designado Instituto para os Assuntos Municipais (anteriormente, Leal Senado e, após a transição de administração, Instituto para os Assuntos Cívicos e Municipais). A nova designação entrou em vigor a 1 de Janeiro de 2019. Avenida de Almeida Ribeiro vista junto do Largo do Senado
MANUEL V. BASÍLIO 32 No primeiro edifício do lado esquerdo, funcionou durante muitos anos a Mercearia e Cambista Soi Cheong. Originalmente, era naquele edifício que começava a Avenida de Almeida Ribeiro, com o nº 1. O edifício amarelo, do lado direito, era o nº 2. Ao fundo, vê-se um edifício moderno, recentemente construído no local resultante da demolição do antigo edifício onde funcionou durante muitos anos o Restaurante Safari. Era sensivelmente neste troço da via que se situava o Pátio do Martelo, que desapareceu quando este troço entre a Avenida de Almeida Ribeiro e o Pátio de Cotovelo foi alargado para ficar integrado na Rua Oeste do Mercado de S. Domingos. Este troço tem saída pelo Pátio do Cotovelo, que comunica com a Rua dos Mercadores
PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS 33 Passeio coberto em arcada ao longo da Avenida, estando o pavimento revestido de calçada à portuguesa. Um troço da Avenida de Almeida Ribeiro, visto junto do Banco Tai Fung
MANUEL V. BASÍLIO 34 Um troço da Avenida de Almeida Ribeiro, visto junto da Rua dos Mercadores Um troço da Avenida de Almeida Ribeiro, visto em direcção ao Largo do Senado. No prédio onde estão três grandes caracteres chineses, era a Casa de Penhores Tak Seng On
PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS 35 Neste prédio funcionou durante largos anos o Restaurante Belo Vários prédios da Avenida, alguns dos quais já reconstruídos e sem a fachada original
MANUEL V. BASÍLIO 36 O 2º prédio do lado esquerdo é um prédio antigo, já sem aproveitamento e a carecer de conservação. Actual aspecto da Avenida de Almeida Ribeiro, visto em direcção à Praia Grande
PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS 37 A célebre Ponte 16, integrada no empreendimento hoteleiro PONTE 16 RESORT PONTE 16 RESORT, dotado de casino, hotel, restaurantes e outras facilidades. Apesar de não fazer parte da Avenida de Almeida Ribeiro, este empreendimento hoteleiro tem por objectivo dinamizar a zona antiga da cidade.
MANUEL V. BASÍLIO 38 Casa de Penhores Cheong T’ai, que funcionou mesmo em frente ao Hotel Central. Presentemente, o r/c do edifício foi reaproveitado para um estabelecimento comercial. Uma relojoaria que foi próspera no passado e que se encontra encerrada
PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS 39 Actual aspecto da entrada principal do Hotel Central (inicialmente, Hotel Presidente). Era um edifício de 6 andares construído em 1928 e, mais tarde, foram acrescentados mais cinco andares. Funcionou naqueles tempos no rés-do-chão e na sobreloja o famoso restaurante Golden Gate; no primeiro andar, um casino; no quinto andar, o restaurante Golden City; e, no sexto andar, um salão de dança. Os restantes pisos eram quartos do hotel. O hotel começou a entrar em decadência a partir de 1962, depois de a Companhia Tai Heng ter perdido o monopólio do jogo que detinha. A ouriversaria Pou Fung, que foi próspera no passado e que se encontra encerrada
MANUEL V. BASÍLIO 40 Drogaria Happy, um estabelecimento que foi próspero no passado e que se encontra encerrado Esta pastelaria era muito conhecida pelos bolos de casamento do tipo chinês que fabricava.
PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS 41 O Grand Hotel ou Hotel Kuoc Chai situado no fim da Avenida de Almeida Ribeiro, já encerrado há muitos anos. Está a decorrer um processo para a requalificação deste edifício hoteleiro.
MANUEL V. BASÍLIO 42 Do lado direito, vê-se o dístico comercial do Café Ruby, que até à cessação de actividade era o local de encontro de muitos macaenses. Obras de melhoramento do sistema de drenagem na Avenida de Almeida Ribeiro, que decorreram nos meses de Julho/Agosto de 2018.
PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS 43 As obras de melhoramento do sistema de drenagem na Avenida Almeida Ribeiro trouxeram à luz do dia um canal de esgotos de pedra com cerca de 100 anos, composto por uma vala de pedra e uma abóbada em tijolo burro. Substituição parcial do antigo canal de esgotos.
MANUEL V. BASÍLIO 44 A ESTRADA DO CAMPO E SEU SIGNIFICADO POLÍTICO NO GOVERNO DE JOÃO MARIA FERREIRA DO AMARAL Acontecimentos que antecederam ao governo de João Maria Ferreira do Amaral Na sequência da derrota da China na chamada Primeira Guerra do Ópio, que terminou com a assinatura do Tratado de Nanjing, em 29 de Agosto de 1842, pelo qual a China aceitou, nomeadamente, abrir cinco portos (1) ao comércio britânico, pagar uma pesada indemnização de guerra e ceder a ilha de Hong Kong ao governo britânico, pouco demorou para que a nova colónia, deste modo fundada, se desenvolvesse e se transformasse num importante porto franco, no sul da China. Portugal ressentiu-se desta situação, nomeadamente devido às vantagens comerciais alcançadas pela Grã-Bretanha, as quais também despertaram interesses de outras potências ocidentais, entre elas a França e os Estados Unidos. Em consequência disso, a situação económico-financeira de Macau ficou muito afectada e, nestas circunstâncias, o então governador Adrião Acácio da Silveira Pinto nomeou uma comissão para ir a Cantão negociar com comissários chineses, com vista a alcançar algumas vantagens económicas para Macau. As negociações continuaram, mesmo depois de Silveira Pinto ter sido substituído no governo de Macau pelo seu sucessor, José Gregório Pegado, tendo o ex-governador sido nomeado Comissário Régio para tratar da confirmação dos assuntos discutidos. Até à cessação das suas funções e regresso para Portugal, não conseguiu obter os resultados desejados nas várias negociações tidas com autoridades chinesas, nomeadamente com o Comissário Imperial, Qi Ying (2). Entretanto, para reforçar a presença nacional nestas paragens do oriente, a rainha D. Maria II decretou em 1844 a criação de um governo provincial constituído por
PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS 45 Macau, Timor e Solor, passando a ser uma só província independente do Estado Português da Índia (3), tendo também concedido mais poderes ao governador da província, em detrimento do Leal Senado, que desde 1834 já tinha perdido a sua importância e influência política, passando a ser uma simples Câmara Municipal. Durante o governo de José Pegado, a situação económica continuava em crise e, embora as negociações com as autoridades chinesas prosseguissem, as principais pretensões do Comissário Régio, nomeadamente as de natureza política, não foram satisfeitas. No entanto, devido a uma relação de amizade entre José Pegado e Qi Ying, o governador conseguiu que este “fechasse os olhos”, de forma a permitir a ancoragem de navios de maior calado na ilha da Taipa, passando então a ser um dos portos de Macau. Apesar de os portos de Macau, incluindo o da Taipa, terem sido declarados portos francos, por decreto de 1845, portanto, já depois de Hong Kong estar a operar como porto franco desde 1842, aquele decreto não teve efeitos imediatos durante a vigência do governo de José Pegado, porquanto só foi posto em execução pelo seu sucessor. João Maria Ferreira do Amaral nomeado para o cargo de governador de Macau Devido ao agravamento da situação económico-financeira e da crise existente, o bispo de Macau, D. Jerónimo da Mata, solicitou ao Governo de Lisboa o envio de um governador, dotado de firmeza e determinação, capaz de solucionar o estado das coisas que se alastrava há vários anos. A escolha de uma personalidade com este perfil e de confiança do então Ministro da Marinha e Ultramar recaiu em João Maria Ferreira do Amaral, um distinto oficial da Marinha, agraciado com a Comenda da Ordem de Avis, em 1840, pelos valiosos serviços prestados à Pátria. Após a sua
MANUEL V. BASÍLIO 46 nomeação para o cargo, partiu de Lisboa em Janeiro de 1846, tendo chegado a Hong Kong no dia 18 de Abril do mesmo ano, pelo vapor Lady Mary Wood. Na manhã de 19 de Abril, rumou para Macau a bordo do vapor de guerra inglês Pluto, “que lhe fora oferecido por o conduzir para Macau pelo Governo daquela Cidade, aqui desembarcou de perfeita saúde, às 2 horas da tarde, e foi recebido com todas as honras que lhe são devidas”. Dois dias depois, ou seja, no dia 21 de Abril, pelas 5 horas da tarde, foi dada a posse do Governo da Província a João Maria Ferreira do Amaral, na Fortaleza do Monte, com todas as formalidades do estilo, assistindo ao acto todas as autoridades e um grande número de cidadãos, a convite do Leal Senado. Retrato de João Maria Ferreira do Amaral
PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS 47 Após assumir as suas funções, tratou logo de pagar os vencimentos em atraso aos militares e funcionários públicos e nomear uma comissão para propor reformas administrativas e financeiras. Entretanto, por sua iniciativa, foi tomando outras medidas necessárias, com vista à resolução de questões mais urgentes. Macau transformado em Porto Franco Apesar da oposição da elite local, não tardou a pôr em execução o decreto que tinha sido promulgado em 1845, o qual visava transformar Macau num porto franco. Deste modo, mandou extinguir, em primeiro lugar, a alfândega portuguesa, ficando a aguardar uma melhor oportunidade para a resolução da alfândega chinesa, a poderosa Hopu (4), gerida por mandarins enviados pelo governo de Cantão, a qual também exercia autoridade sobre os chineses residentes em Macau.
MANUEL V. BASÍLIO 48 O lançamento de impostos e o seu contexto político Perante a escassez de recursos financeiros, decidiu lançar impostos a todos os residentes, incluindo a população chinesa. Para melhor identificação dos proprietários das casas e lojas, mandou publicar um Edital, para que “todas as ruas da Cidade tenham os seus nomes… assim como que sejam numeradas as Casas”, tendo incumbido este trabalho ao intérprete da Língua Sínica, João Rodrigues Gonçalves, e ao 1º Escriturário da Contadoria da Fazenda, José Joaquim d’Azevedo. Além disso, determinou que os donos dos “faitiões” (5) registassem os seus barcos na Procuratura (6), mediante o pagamento de uma pataca mensal. Esta tributação deu origem à chamada “revolta dos faitiões”, em que, na madrugada de 8 de Outubro de 1846, cerca de 1500 chineses desembarcaram de 37 “faitiões” e atacaram a cidade, mas foram derrotados e repelidos por 40 soldados com duas peças de campanha. O lançamento de impostos à população chinesa era encarado como um acto político, com vista a afirmar o domínio português, porquanto os chineses estavam subordinados às autoridades chinesas. O alargamento do domínio português Uma das questões mais sensíveis que o governador Ferreira do Amaral quis resolver era precisamente a autonomia territorial, estendendo o domínio português, desde as muralhas da cidade até ao istmo da península, ou seja, para a zona conhecia por “extra muros” ou Campo, que as autoridades chinesas sempre alegaram ser território sob a jurisdição chinesa e que a Barreira (7), que os mandarins mandaram construir em 1573 no istmo da península, não se destinava à demarcação da fronteira a norte de Macau, servindo apenas como posto de controlo de pessoas, bem como de fornecimento de géneros alimentícios e outros bens, provenientes do interior da China. Não era, porém, este o entendimento
PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS 49 de Ferreira do Amaral. Para concretizar o alargamento do domínio português a toda a península, decidiu então abrir uma estrada, designada Estrada do Campo, partindo da Porta do Campo, passando pela Barreira e indo terminar na Porta de Santo António (8), com o objectivo de definir os limites do território para além das muralhas da cidade. A Porta do Cerco, construída em 1870 durante do governo do Contra-Almirante Sérgio de Sousa, ostentando por cima do arco o brasão de armas da monarquia portuguesa e a inscrição A PÁTRIA HONRAI QUE A PÁTRIA VOS CONTEMPLA
MANUEL V. BASÍLIO 50 Ao fundo, vê-se a colina de Mong-Há, no cimo do qual está a fortaleza, cuja estrutura principal foi erguida em 1849 por determinação do então governador Ferreira do Amaral, com a função de defesa do sector norte de Macau. Vê-se ainda o Campo entre a zona arborizada e a colina de Mong-Há e, do lado direito, a nova Avenida de Vasco da Gama e, também, um troço da antiga Estrada do Campo, que corresponde à actual Avenida de Sidónio Pais. Do lado esquerdo, vê-se a capela do Cemitério de S. Miguel Arcanjo. Ao centro, a povoação e o campo de Tap Siac. Subscrição pública para a abertura da Estrada do Campo Para a realização deste projecto de obra, foi aberta uma subscrição pública para a construção da Estrada do Campo, pois esta era a melhor forma para aliviar o orçamento do governo e, sobretudo, obter o claro apoio de residentes na execução de uma obra sem o prévio consentimento das autoridades chinesas. A subscrição pública foi bem sucedida, tendo conseguido, até 29 de Maio de 1847, angariar a quantia de $775 patacas, cujos subscritores foram maioritariamente residentes portugueses, vários estrangeiros, e ainda, “oito Chinas” (anónimos), variando os respectivos montantes entre $1 e $50 patacas, os quais incluíam, designadamente, António Joaquim Bastos, Alexandrino António de Melo, Camilo Lelis de Sousa, Francisco José de Paiva, José de Lemos, José Francisco de Oliveira, José Tomás Aquino, João Baptista Gomes, José Vicente Jorge, João Joaquim dos Remédios, Lourenço Marques, Manuel Pereira e
PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS 51 também vários estrangeiros, tais como F. J. Bush, G. Lungley, John Dent, J.A. Durran Jr., John Wise, T.B. Watson, W.W. Dale, W.W. Parkins, W. R. Mills, N. M. Datlobhoy e Pallanjee Dorabjee. Houve também uma contribuição não monetária por parte de Caetano Gomes da Silva, tendo este dirigido uma carta, datada de 17 de Fevereiro de 1847, ao governador referindo que “constando-me que V. Exa. desejava que eu cedesse algumas braças (9) da Horta Begman (10), de que sou Proprietário, para a construção da estrada que passa por aquele sítio; tomo a liberdade de dirigir esta a V. Exa. significando que gratuitamente ofereço aquela porção de terreno que V. Exa. julgar será preciso para a dita construção”. A estrada, em primeiro plano, é a Estrada da Bela Vista (que ainda existe) e o morro que esta estrada circunda é, presentemente, o Jardim da Montanha Russa. A estrada que se vê ao fundo, corresponde à actual Estrada da Areia Preta, que termina em frente da Rampa dos Cavaleiros. No canto superior esquerdo, vê-se a Fortaleza de Mong-Há Remoção de sepulturas Antes do início da abertura da Estrada do Campo, o governador Ferreira do Amaral mandou publicar um Edital, em 27 de Fevereiro de 1847, nos termos seguintes e cujo teor foi dado conhecimento à população chinesa:
MANUEL V. BASÍLIO 52 “Faço saber aos Chinas, que habitam conjuntamente com os Portugueses, que tendo determinado a fazer uma estrada, que vai desde a porta do campo, e há-de passar perto de Pagode da Porta do Cerco, e acabar na Porta de S. António, não só para comodidade de nacionais e estrangeiros, mas até para evitar que se passe como até agora por cima de sepulturas que os Chinas sem consideração nenhuma têm semeado num território, de que os Portugueses pagam foro; de modo que se as coisas assim forem andando com o habitual desleixo, que hei determinado acabar, em bem pouco tempo o Estabelecimento Português se tornaria um exclusivo Cemitério China; e porque é comum a todas as Religiões o respeito aos restos dos nossos antepassados e amigos; por isso mando publicar o presente Edital para conhecimento de todos os Chinas, para que eles mudem as sepulturas dos seus parentes, ou amigos, que ficam no lugar por onde se vai fazer a estrada. Aquelas, pois, que não estiverem removidas até o fim do mês de Março, o Governo as mandará remover, ou obrará como julgar mais conveniente, na certeza de que, o que neste Edital se expressa há-de ser levado a efeito como costuma”. Apesar de ter havido alguma contestação, decidiu avançar com as obras. No entanto, antes do fim do prazo estabelecido para a remoção de sepulturas, Ferreira do Amaral foi informado de que havia chineses que não dispunham de meios monetários para transladar os restos mortais dos seus antepassados e, por conseguinte, a 12 de Março de 1847, o governador mandou publicar um novo Edital, nos termos seguintes: “Faço saber a todos os Chinas habitantes de Macau, que constando-me que alguns Chinas pobres se vêem embaraçados em não poderem cumprir o Edital de 27 de Fevereiro próximo passado, no qual lhes é ordenado remover impreterivelmente os restos dos seus parentes, ou amigos, do lugar por onde se está fazendo a estrada, até o fim deste mês, como no dito Edital se acha marcado; como pois, no mencionado Edital tenho mostrado, que não hei querido ofender os costumes chineses; agora para mostrar também que me compadeço dos pobres, ordeno que todos aqueles que não tiverem meios pecuniários para a dita trasladação se dirijam à Procuratura para serem acompanhados por um dos Línguas, o qual presenciando a
PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS 53 remoção das Sepulturas, dará um certificado ao pobre, que receberá na Procuratura uma pataca por cada sepultura que tirar de dentro do lugar marcado, por onde passa a estrada”. A linha pontilhada, de cor azul, corresponde aproximadamente à Estrada do Campo, mandada abrir por Ferreira do Amaral À medida que a construção da estrada ia avançando e no intuito de afirmar o domínio português dentro e fora dos muros da cidade, determinou, em 14 de Julho de 1846, a concessão do direito de residência e propriedade a estrangeiros, podendo comprar ou edificar casas e possuírem qualquer terreno em Macau, designadamente nos terrenos situados na zona do Campo, mediante
MANUEL V. BASÍLIO 54 pagamento de foro à Fazenda Pública. Depois, permitiu também aos chineses a construção e arrendamento de casas na cidade, mediante um contrato celebrado na Procuratura. Até então, para a construção de edifícios novos ou reconstrução dos antigos, conserto de navios, etc., era necessário, mediante petição apresentada por autoridades portuguesas de Macau, obter uma “chapa”, em cuja autorização ou resposta levava o selo ou carimbo do mandarim da Casa Branca (11). De acordo com um relatório publicado no Boletim do Governo, além da Estrada do Campo, que ia desde a Porta do Campo até junto do Pagode da Porta do Cerco (12), “começaram mais duas, uma à roda da montanha de Mohá (13), e outra desde a porta de Santo António, que deve ir encontrar a já concluída junto do Pagode” e até finais do ano de 1847 “removeram-se mais de 700 sepulturas”. Título de posse dos terrenos do Campo É de crer que Ferreira do Amaral se apoiava em pareceres ou recomendações do juiz Morais Carneiro, sobretudo antes de tomar uma importante decisão. Desta vez, para afirmar que toda a zona do Campo não estava sob a jurisdição chinesa, Ferreira do Amaral mandou publicar, em 1 de Abril de 1848, o seguinte edital, redigido com muita argúcia e habilidade, a fim de transmitir a ideia de que o governo português não era rendeiro, mas sim o senhorio de toda aquela zona do Campo: “… havendo grande número de Chinas apropriado de terrenos em Macau, aquém da porta do limite, tirando até agora proveito da sua agricultura, sem poderem apresentar títulos pelos quais mostrem direito a esse terreno, que, pertencendo aos Portugueses, só pode estar em seu poder por desleixo de um e usurpação de outros. E não querendo o Governo Português privar os Chinas dos terrenos por eles agricultados, nem tão pouco continuar a tolerar que os Chinas se julguem com direito a estes terrenos só porque lançaram mão deles, ordeno
PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS 55 que todos os Chinas que até à data deste estejam gozando de terrenos agricultados em Macau, se apresentem por si ou por seus procuradores na Procuratura, no prazo de 15 dias da data da publicação deste edital, a fim de que se lhes dê um título que legalize a sua posse, na certeza de que os que não se apresentarem no supradito prazo ficar-se-á entendendo que abandonarão o terreno usurpado, que ficará, assim como são os baldios, pertencente à Fazenda”. Assim, em 1848, o governo começou a exigir o pagamento de impostos à população chinesa residente no Campo, embora em número e montantes muito reduzidos. Cemitério Chinês Mesmo após a abertura da Estrada do Campo, muitas outras sepulturas ficaram por remover, mantendo-se nos campos de cultivo, visto que a população chinesa não tinha o costume de sepultar os seus mortos num cemitério. A fim de evitar que os chineses continuassem a espalhar desordenadamente as sepulturas pelos campos de cultivo, o governador Ferreira do Amaral, mandou publicar um Edital, datado de 3 de Janeiro de 1849, determinando que “aos Chinas habitantes de Macau se designe um lugar próprio, e com a exposição conveniente para nele enterrarem os seus mortos, determino que seja para aquele fim apropriado todo o espaço de terreno compreendido entre o bosque de Mohá, ao Sul, o Pagode novo, e a estrada nova ao Norte, as varjas (14) na estrada da rampa a leste, e a estrada de Mohá a Oeste que ficará destinado para servir “in perpetuum” de Cemitério Chinês, os quais o poderão fechar e resguardar com um muro se assim lhes aprouver; devendo porém no prazo prefixo de dois anos contados desta data, remover os cadáveres que se acham em todos os outros lugares compreendidos no território sujeito ao domínio Português, o qual termina na Porta do limite; ficando entendido que os que não houverem sido removidos findo este longo prazo, reputar-se-ão abandonados, e o Governo se incumbirá de sua remoção”.
MANUEL V. BASÍLIO 56 As várias medidas implementadas por Ferreira do Amaral que marcaram o início do período colonial O governo de Ferreira do Amaral é considerado como o ponto de viragem de três séculos de jurisdição mista, porquanto o território de Macau, que até então era governado por autoridades portuguesas e chinesas, passou a vigorar um novo regime – o de governo colonial. Ficou na história o papel que Ferreira do Amaral teve na imposição da soberania portuguesa, mediante a implementação de significativas medidas, designadamente a ocupação da zona “extra muros” até ao istmo da península, o não pagamento do foro do chão, a abertura dos portos de Macau ao comércio de todas as nações, a extinção das alfândegas portuguesa e chinesa, o lançamento de novos impostos a toda a população residente, incluindo a população chinesa e estrangeira, a legalização do jogo, a ocupação das ilhas da Taipa e outras medidas controversas, às quais pagou com a sua própria vida. Mapa das ilhas da Taipa, em 1912. Do lado esquerdo, o rectângulo cor de rosa assinala a localização do Forte da Taipa, que o governador Ferreira do Amaral mandou construir.
PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS 57 A ocupação da Taipa Após a abertura da Estrada do Campo, as atenções de Ferreira do Amaral viraram-se para as ilhas da Taipa (naquela altura eram duas ilhas), por ali possuir um bom ancoradouro, com condições mais favoráveis que as do porto de Macau, cuja utilização tinha sido iniciada no governo do seu antecessor, na sequência de negociações levadas a cabo com o Comissário Imperial Qi Ying. Sob o pretexto de defesa contra a pirataria, a 6 de Maio de 1847, Ferreira do Amaral avisou Qi Ying de que iria ser levantado um forte na Taipa, tendo então incumbido o capitão do porto, Pedro José da Silva Loureiro, de construir a Casa Forte da Taipa, situada na Taipa Pequena. As autoridades chinesas contestaram, afirmando que Taipa estava fora do território sujeito ao pagamento do foro do chão. Mas perante a determinação do governador, apenas puderam assistir ao facto consumado. Aspecto actual do Forte da Taipa, mandado construir por Ferreira do Amaral em 1847. Este Forte foi remodelado em princípios do século XX para ser utilizado como residência de verão do Governador de Macau e, mais tarde, serviu ainda como Esquadra de Polícia da Taipa. Agora é a sede da Associação de Escoteiros de Macau, inaugurada em 12.12.1999.
MANUEL V. BASÍLIO 58 Foro do chão Durante séculos o Procurador entregava ao mandarim da Casa Branca o valor de 500 taéis (15) de prata para pagamento do chamado Foro do Chão, uma renda paga anualmente pela ocupação do território cedido pela China, o qual teve início em 1573, no mesmo ano em que as autoridades chinesas construíram uma barreira ou cerco no istmo da península. No entanto, houve períodos em que foi necessário pagar acima daquele valor nominal, quando as autoridades chinesas arbitrariamente aplicavam uma taxa de conversão da prata corrente em prata fina, além de exigirem contribuições adicionais. Houve também alguns anos em que, devido às dificuldades de tesouraria do Senado, conseguiu-se a dispensa do pagamento daquele foro. Em 1849, com o objectivo de afirmar o exercício efectivo de jurisdição portuguesa sobre todo território que se estendia até ao istmo da península, Ferreira do Amaral suspendeu o pagamento do foro do chão. O encerramento do Hopu No entanto, a medida mais melindrosa tomada por Ferreira do Amaral durante o seu governo foi a abolição do Hopu (户部) ou alfândega chinesa, porquanto a sua vontade política de transformar Macau num porto franco não era compatível com a presença do Hopu, que na realidade não era apenas um posto alfandegário, mas também uma entidade que interferia em assuntos políticos. O Hopu estava estabelecido em Macau desde 1688, inicialmente como um simples posto alfandegário e, mais tarde, para fiscalizar todo o comércio que se fazia e receber dos chineses direitos de carregamentos de ou para Cantão e, também, taxas de tonelagem dos barcos estrangeiros e demais impostos. Chegado ao ano de 1849, Ferreira do Amaral achou ser a altura mais oportuna para extinguir o Hopu. Assim, a 9
PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS 59 de Fevereiro de 1849, mandou encerrar o Hopu (户部) da Barra e a 5 de Março de 1849, deu um prazo de 8 dias para encerrarem o Hopu da Praia Pequena, o posto que restava e considerado o mais importante. Expirado o prazo e continuando em actividade, Ferreira do Amaral ordenou expulsar os funcionários que lá se encontravam e encerrar o edifício do Hopu. Legalização do jogo “fantan” A fim de aumentar as receitas públicas com a cobrança de novos impostos, Ferreira do Amaral autorizou em Janeiro de 1847 a lotaria chinesa, nomeadamente o Pacapio, embora existisse uma outra modalidade de lotaria, que estava a ser explorada pela Santa Casa da Misericórdia. Já naqueles tempos, o jogo e outras formas de apostas faziam parte da vida quotidiana dos chineses e mesmo antes da autorização da lotaria chinesa já se jogava de forma ilegal. Mais tarde, em Abril de 1849, legalizou também o “fantan” (番攤), um jogo mais atractivo e viciante que a lotaria, visto que era operado de modo contínuo. Por conseguinte, foi o governador Ferreira do Amaral quem, pela primeira vez, regulamentou e tributou o jogo e outras formas de apostas em Macau, cujas actividades vigoraram legalmente até aos dias de hoje. O jogo de “fantan”, legalizado pelo governador Ferreira do Amaral
MANUEL V. BASÍLIO 60 O FIM TRÁGICO DE FERREIRA DO AMARAL O único governador de Macau assassinado no seu posto As medidas acima referidas, designadamente relativas a domínio territorial, lançamento de impostos, remoção de sepulturas, abolição do Hopu e, ainda, outras de carácter político, tomadas por Ferreira do Amaral durante o seu governo, não foram do agrado das autoridades chinesas e, por conseguinte, foram objecto de várias contestações. A sua coragem e firmeza eram louvadas por uns e detestadas por outros. O aspecto actual do Templo Lin Fong. Na tarde do dia 22 de Agosto de 1849, quando passeava a cavalo nas imediações do Templo “Lin Fông” (蓮 峰 廟 , em cantonense, “Lin Fông Miu” ou Templo de Lótus), não muito distante da Porta do Limite, apenas
PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS 61 acompanhado pelo seu ajudante de campo, Jerónimo Pereira Leite, um grupo de sete chineses da povoação de Mong-há, liderado por Sâm Chi Leong (沈 志 亮), também conhecido por Sâm Á Mâi (沈 阿 米), com o pretexto de entregar uma petição a Ferreira do Amaral, aproximou-se dele e rapidamente os assaltantes derrubaram-no do cavalo e esfaquearam-no. Em seguida, fugiram com a cabeça e a mão esquerda da vítima, que tinham cortado, para o interior da China. Ao tomar conhecimento da ocorrência, o Procurador foi ter com as autoridades chinesas e solicitou a captura dos assassinos. Sâm Chi Leong, depois de preso, confessou ser o autor do crime, tendo declarado que praticou tal acto em virtude de Ferreira do Amaral ter sido um tirano, que lançou impostos às lojas, mandou abrir estradas, arrasando várias sepulturas, entre as quais as dos seus antepassados e, por isso, levado pela vingança, decidiu acabar com o tirano. A estátua equestre de Ferreira do Amaral, que esteve implantada na Rotunda de Ferreira do Amaral (agora, Praça de Ferreira do Amaral) até ser removida em 28 de Outubro de 1992
MANUEL V. BASÍLIO 62 Ferreira do Amaral foi o único governador que teve uma estátua em Macau (16), inaugurada em 24 de Junho de 1940. Pouco mais de 50 anos depois, na sequência das polémicas declarações proferidas por Lu Ping (17), aquando de uma visita que fez a Macau, tendo dito que China gostaria que fossem removidos os símbolos ou monumentos coloniais antes do final do período de transição, aquela imponente estátua equestre, que conseguiu escapar aos motins conhecidos por 123 (12.3, ou seja, Dezembro 3), foi retirada em 28 de Outubro de 1992, durante o governo de Rocha Vieira e, mais tarde, enviada para Lisboa.
PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS 63 Andaimes de bambu montados antes da retirada da estátua equestre de Ferreira do Amaral
MANUEL V. BASÍLIO 64 Momento da retirada da estátua esquestre de Ferreira do Amaral No entanto, mesmo após a transferência da soberania, o nome de Ferreira do Amaral não foi apagado por completo, pois continua a figurar na toponímia de Macau, mantendo-se a Rua, a Estrada e o Istmo de Ferreira do Amaral e, ainda, a antiga rotunda, onde esteve implantada a sua estátua, é agora denominada Praça de Ferreira do Amaral, em chinês, Á Má Lá (Amaral) Kwong Cheong (Praça), nome este que continua a ser dito e falado diariamente, por residentes e visitantes, visto que a Praça funciona como terminal de autocarros. Após a morte do governador Ferreira do Amaral, em 22 de Agosto de 1849, com apenas 46 anos de idade, iniciou-se um período de governo colonial, que durou 150 anos, até ao dia 20 de Dezembro de 1999, findo o qual se realizou a transferência da soberania, passando Macau a ser uma Região Administrativa Especial da República Popular da China.
PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS 65 Rocha junto ao Templo Lin Fong, em que está gravado o brasão de armas da monarquia portuguesa. Consta que foi gravado em 1848, para servir de marco fronteiriço. Este marco serve também para assinalar, aproximadamente, o local onde, em 22 de Agosto de 1849, Ferreira do Amaral foi assassinado NOTAS: (1) Os 5 portos que a China foi forçada a abrir ao comércio internacional foram: Cantão, Fuzhou, Xiamen, Ningbo e Xanghai, devendo também nas respectivas cidades permitir a fixação de cônsules e comerciantes britânicos com as suas respectivas famílias. (2) Qi Ying (耆英 , deve ler-se “chi ying”, porquanto, em pinyin, o “q” pronuncia-se “ch”). No entanto, em cantonense, pronuncia-se K’ei Yeng. (3) Desde o tempo dos vice-reis, Macau estava dependente do Estado Português da Índia. Em 1844, através de um decreto real, Macau passou a ser uma província independente, que incluía Timor e Solor, tendo então redefinido que o governador era o principal órgão político-administrativo de Macau e não o Leal Senado. (4) Hopu, assim era designada a alfândega chinesa, deriva do termo, incorrectamente pronunciado, “Hubu” (户 部) , em mandarim. (5) Um tipo de barcos de pesca, ligeiros e velozes.
MANUEL V. BASÍLIO 66 (6) A Procuratura, que mais tarde se veio a denominar Procuratura dos Negócios Sínicos de Macau, foi instituída com a primeira vereação do Senado em 1583. O procurador geria os dinheiros públicos e era também o responsável pelas relações com autoridades chinesas. Por Decreto de 20 de Agosto de 1847, a Procuratura foi desligada do Leal Senado e anexada à Secretaria do Governo, para se encarregar de Negócios Sínicos. (7) Era o nome adoptado para designar a Porta do Limite, que depois passou a ser Porta do Cerco. (8) Presentemente, a Estrada do Campo, desde Porta do Campo até ao Templo de Lin Fong (então, também conhecido por Pagode Novo), corresponde, sensivelmente, à Rua de Ferreira do Amaral, Avenida de Sidónio Pais, Estrada de Ferreira do Amaral, Rampa dos Cavaleiros, Estrada da Areia Preta e Estrada do Arco. (9) Braça é uma de comprimento equivalente a cerca de dois metros (1,8288 metros). (10) Conforme mostra uma planta topográfica de 1838, a Horta Begman estava localizada aproximadamente a leste da Ermida de N. Sra. da Esperança, junto à Horta de Volong, estendendo-se até ao sopé da colina da Guia. (11) O Mandarinato que tinha jurisdição directa sobre o território de Macau estava localizado em Qianshan (em cantonense, Chin Sán) e era designado na historiografia portuguesa por Casa Branca. Actualmente Qianshan faz parte da Zona Económica Especial de Zhuhai. (12) O Pagode da Porta do Cerco, então também conhecido por Pagode Novo, é o actual Templo de Lin Fong. (13) Presentemente, diz-se e escreve-se Mong-Há (14) Várzeas (15) Tael, uma unidade chinesa de peso que, quando aplicada à prata, era usada há muito tempo como unidade monetária. A maioria dos taéis era equivalente a 1,3 onças de prata. (16) De autoria de Maximiliano Alves. (17) Lu Ping era na altura Director do Gabinete para os Assuntos de Macau e Hong Kong junto do Conselho de Estado chinês.
PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS 67 Rocha em que está gravado o topónimo RAMPA DOS CAVALLEIROS, com brasão de armas da monarquia portuguesa. Rampa dos Cavaleiros.
MANUEL V. BASÍLIO 68 O monumento que resta da Porta do Cerco, junto do actual Posto Fronteiriço. Acampamento de tropa chinesa junto à Porta do Cerco (Desenho de Auguste Borget, publicado em 1842) Ao fundo, vê-se a configuração da antiga Porta do Cerco.
PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS 69 Embora pouco visível, está inscrita nesta pedra PORTA DO LIMITE, a qual Ferreira do Amaral mandou colocar no antigo pórtico, localizado no istmo. Além da pedra com inscrição em português, foi colocada uma outra pedra com os caracteres chineses 關閘門, cujo termo corresponde a Porta do Cerco. Interior do Forte da Taipa. Ao fundo, por cima da janela, está ainda visível o brasão de armas da monarquia portuguesa.
MANUEL V. BASÍLIO 70 Este brasão esteve durante muitos anos encoberto até que, um dia, o então Comandante da P.S.P., José Luis Machado, foi pessoalmente ao Forte e mandou retirar com cuidado o reboco que o cobria e, pouco depois, o brasão voltou a aparecer à luz do dia. Em seguida, mandou restaurar as cores originais.
PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS 71 Um canhão, fundido em Boston, com a data de 1855, no Forte da Taipa. A Fortaleza do Monte, construída por jesuÍtas para a defesa da cidade, foi no entanto ocupada com a chegada do primeiro governador de Macau, D. Francisco de Mascarenhas, em 1623, para servir de residência governamental.
MANUEL V. BASÍLIO 72 Entrada principal da Fortaleza do Monte, por onde entrou Ferreira do Amaral para a cerimónia da tomada de posse como governador de Macau.
PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS 73 O salão principal do Templo Lin Fong é consagrado à deusa Tin Hau, a Imperatriz Celestial, com um pavilhão que conduz ao altar da deusa. O pavilhão foi utilizado por Lin Zexu (林則徐), o comissário imperial do governo Qing, para as negociações que manteve com entidades portuguesas sobre a proibição do comércio do ópio, quando esteve de passagem por Macau para uma missão de reconhecimento, em 3 de Setembro de 1839. Museu Lin Zexu de Macau junto ao Templo Lin Fong, que ficou concluído em 1997. Do lado esquerdo, está erigida uma estátua do comissário imperial Lin Zexu.
MANUEL V. BASÍLIO 74 O BAIRRO DE SÃO LÁZARO Desde o estabelecimento dos portugueses em Macau, oficialmente em 1557, até ao governo de João Maria Ferreira do Amaral (1846-1849), o território de Macau ocupava praticamente apenas metade da área da então península. Após o estabelecimento e durante mais de meio século, as autoridades chinesas não consentiram aos portugueses a edificação de fortificações com receio de serem utilizadas contra a própria China. Só depois das várias tentativas dos holandeses para conquistar a próspera cidade de Macau aos portugueses, os chineses consentiram então, em 1622, a construção de fortes e muralhas, na condição de os canhões não ficarem voltados para o território chinês. Foi por este motivo que o Forte de Patane ou da Palanchica teve uma existência efémere, cuja fortificação teve que ser demolida, ficando reduzido a uma simples muralha (1), com entrada por uma das portas da cidade – a Porta de Santo António. Além desta Porta, havia uma outra porta que demarcava os limites da cidade, que era a Porta do Campo, também conhecida por Porta de S. Lázaro. O território de Macau, que desde os tempos do estabelecimento dos portugueses não tinha fronteiras definidas, ficou a partir de então administrativamente delimitado pelas muralhas que construíram, porquanto a parte restante do território entre os limites da cidade e a Porta do Limite (2), edificada pelas autoridades chinesas em 1573, era tida como território sujeito à jurisdição dos Mandarins, e a Porta do Limite, tal como afirmavam, não servia de fronteira, mas apenas um posto destinado a controlar da circulação de pessoas e bens (3). Por essa razão, durante séculos, aquela parte da península foi disputada pela administração portuguesa, por considerar que a Porta do Limite é que demarcava o
PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS 75 limite territorial, embora aquela zona rural estivesse ocupada sobretudo por pequenos agricultores chineses, onde se fixaram e criaram várias aldeias, tais como Lông T’in Chün (龍田村), T’áp Sék Chün (塔 石 村), Fán Tei Chün (汎 地 村), Sék Lou T’âu Chün (石 盧 兜 村), sem contar com a Móng Há Chün (望 廈 村), ou a aldeia de Mong-há, que já existia antes do estabelecimento dos portugueses em Macau. Monumento a Ferreira do Amaral, nos anos 60 do século passado (foto baixada da internet, do grupo Antigas Fotos de Macau) Aquela divisão territorial perdurou até ao governo de José Maria Ferreira do Amaral. Naquela altura, além de a cidade carecer de mais espaço para acomodar o crescimento da população, o principal empenho do governador Ferreira Amaral, após assumir as suas funções governativas, era afirmar o domínio português em toda a península de Macau e acabar de vez com as interferências dos Mandarins na administração portuguesa. Por isso, no intuito de quebrar a divisão territorial, que até então vigorava, e extender o domínio territorial até à Porta do Limite, uma das primeiras medidas que o governador Ferreira do Amaral tomou, a partir de 1846, foi a abertura de uma estrada – a Estrada do Campo, em direcção a norte da península, a partir da Porta do Campo, cuja obra teve de enfrentar uma forte oposição da população chinesa, por ter atravessado as imediações da aldeia chinesa Lông Tin Chün (龍 田 村) e
MANUEL V. BASÍLIO 76 ordenado a remoção de sepulturas de chineses. Por esta e outras medidas que corajosamente tomou, designadamente o encerramento do Hopu ou Alfândega Chinesa, a expulsão do Mandarim que exercia poderes judiciais e administrativos em Macau, a suspensão do pagamento do foro do chão, e a cobrança de impostos aos chineses, o governador Ferreira do Amaral pagou com a sua própria vida, tendo sido assassinado por Sâm Chi Leong (沈 志 亮), também conhecido por Sâm Á Mâi (沈 阿 米), juntamente com alguns chineses da aldeia de Mong-há, que lhe cortaram a cabeça e a mão esquerda, e cujo crime ocorreu junto ao istmo e próximo do Templo Lin Fông (蓮 峰 廟 , em cantonense, “Lin Fông Miu”). Gravura alusiva ao assassinato do governador Ferreira do Amaral (baixada da internet, do grupo Macau Histórico) Alguns anos depois, o governador José Rodrigues Coelho do Amaral deu seguimento à política iniciada por Ferreira do Amaral e, deste modo, em 1864, ordenou a demolição da Porta do Campo e praticamente toda a muralha que subia até ao forte de S. Jerónimo, restando o troço, desde a Fortaleza do Monte até à Rua do Pato, que só viria a ser demolido em 1913.
PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS 77 Igreja de S. Lázaro, vista da Rua Nova de S. Lázaro. O espaço compreendido entre esta via e o muro de granito, com os degraus que dão acesso ao portão de ferro, é designado, na toponímia de Macau, por Adro de S. Lázaro. Nas duas moradias do lado direito, ainda se podem ver nas janelas do 1º andar, as adufas feitas de lâminas de conchas semi-transparentes, com caixilhos de madeira, usadas antigamente em Macau, em lugar de vidros. Urbanização da zona “extra muros” A expansão territorial fora dos limites das muralhas foi motivada por várias circunstâncias, designadamente a “questão dos limites”, uma divisão assumida que urgia de ser quebrada, tendo este acto, conforme já referido, sido executado por Ferreira do Amaral. Anos mais tarde, o governador Coelho do Amaral deu continuidade à política de expansão territorial, tendo mandado realizar diversas obras de melhoramento, incluindo a reconstrução e alargamento de vias públicas (4). Além da referida “questão de limites”, havia outro motivo que urgentemente necessitava de intervenção por parte da administração portuguesa – a de saneamento das zonas rurais, bem como dos bairros da Horta do Volong e de São Lázaro, que eram autênticos focos de epidemias.
MANUEL V. BASÍLIO 78 No entanto, antes da construção da muralha que dividiu a península praticamente em duas partes, já existia desde os primórdios do estabelecimento dos portugueses, num local não muito distante da então Porta do Campo, a Ermida de Nossa Senhora de Esperança (5), mandada erigir pelo bispo D. Belchior Carneiro Leitão, que criou também junto dela um hospício para leprosos (6), derivando daí o nome de São Lázaro, o santo protector dos lázaros ou leprosos. Letras gravadas na base da cruz: CRVX DA ESPERANCA ANO 1637. Em virtude do aumento populacional, cresceu mesmo junto à zona extra muros uma zona habitacional, conhecida por Bairro de São Lázaro, onde noutros tempos viviam essencialmente chineses católicos. Devido ao desordenado crescimento, as vias que existiam eram estreitas e mal arejadas, sem saneamento básico, por isso as condições sanitárias eram degradantes, favorecendo periodicamente ao surto de doenças endémicas, que ameaçavam a saúde pública. Nestas circunstâncias, por ocasião da grande epidemia de peste bubónica em 1894, aquele Bairro de S. Lázaro foi a zona mais afectada. Como todos os anos eram centenas as vítimas da peste, o então governador Eduardo Galhardo, no Boletim Oficial de 30 de Junho de 1900, mandou demolir e sanear o Bairro de S. Lázaro, para dar início à elaboração de um plano de urbanização para aquela zona. Com a demolição do antigo Bairro de S. Lázaro, os nomes das vias que ali existiam, tais como
PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS 79 Beco do Barro, Travessa do Padeiro, Beco do Coco, Beco da Pá, Travessa do Pivete, Beco do Lenço, Beco da Amêndoa, Beco da Jarra, Calçada do Marfim, Beco e Travessa da Capella, Rua do Asylo, etc., todas elas se extinguiram da toponímia de Macau, incluindo a via principal, a então Rua de S. Lázaro, que depois da urbanização, criou-se uma nova artéria que passou a ser designada por Rua Nova de S. Lázaro. Uma das sinalizações para a demarcação do Bairro de S. Lázaro. O primeiro bairro planeado O novo BAIRRO DE SÃO LÁZARO foi o primeiro bairro devidamente planeado em 1903, em território fora dos antigos muros da cidade, de acordo com o projecto do arquitecto espanhol J.M. Casuso. Concluída a urbanização, o novo Bairro de S. Lázaro passou a abranger toda área situada nas proximidades da Igreja de S. Lázaro (7), mais ou menos limitada pela Calçada do Poço, parte do Caminho dos Artilheiros, Rua de Sanches de Miranda, Estrada do Cemitério e parte da Avenida do Conselheiro Ferreira de Almeida, com
MANUEL V. BASÍLIO 80 moradias de dois pisos, ordenadas perpendicularmente e edificadas dentro das seguintes novas vias: Rua do Volong, Rua Nova de S. Lázaro, Rua de S. Roque, Rua de S. Miguel, Calçada Central de S. Lázaro, Calçada da Igreja de S. Lázaro, Rua de Eduardo Marques, Adro de S. Lázaro e Pátio de S. Lázaro. Cinco das vias acima referidas foram atribuídas por referência à Igreja de São Lázaro; uma, dedicada a S. Roque, o santo protector de pestes perniciosas e de epidemias; uma, a S. Miguel, devido ao cemitério de S. Miguel Arcanjo, ali próximo; outra, a Eduardo Marques, cuja via ocupa uma parte da antiga Rua do Asilo (8), a qual foi alterada em 1933 para Rua de Eduardo Marques, em homenagem a Eduardo Augusto Marques, governador de Macau entre 1909-1910, que, na sequência da implantação da República, entregou o governo, em 29 de Novembro desse ano, a João Marques Vidal, nomeado governador interino; e, por fim, a Volong, um abastado chinês que viveu e faleceu em Macau. Quem era Volong? Pouco se sabe deste chinês, cujo nome completo é Lôi Vó Lông (呂 和 隆 , em pinyin, Lü Helong). Tal como muitos outros chineses que aqui fizeram fortuna nos seus negócios, poucas referências existem sobre esta personalidade em Macau. Consta que veio de Sôn Tâk (順 德 , em pinyin, Shunde), tendo sido Conselheiro para a Administração da Dinastia Qing. Foi católico, sendo Francisco Volong o seu nome de baptismo. Era proprietário de terrenos situados junto do antigo Bairro de S. Lázaro, conhecidos por Horta do Volong (和 隆 菜 園, em cantonense: Vó Lông Ch’ói Yün). Diz-se que, numa altura em que a situação económica esteve em crise, as autoridades portuguesas pediram-lhe o fornecimento de arroz e outros géneros alimentícios, a
PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS 81 crédito, para socorrer os necessitados, tendo em conta as boas relações que mantinha com o governo de Macau. Não sendo uma figura conhecida na história da China, teve no entanto a honra de figurar o seu nome numa artéria de Macau, situada dentro da sua antiga propriedade. Faleceu novo, aos 49 anos de idade, em 1864, e porque era católico, teve também a honra de ter sido o primeiro chinês a ser sepultado no Cemitério de S. Miguel, numa enorme campa, talvez a maior que lá existe, estando também ali sepultada a sua esposa, Leong Si ( 梁氏). Um conjunto de moradias da Rua do Volong, muitas das quais se encontram desabitadas, por falta de manutenção, interiormente. Famílias macaenses que residiram no bairro de S. Lázaro Após a urbanização do Bairro de S. Lázaro, que passou a ser uma zona bem arejada e com boas condições de salubridade, dispondo de moradias totalmente novas, para lá se mudaram e viveram durante décadas, diversas famílias macaenses, designadamente:
MANUEL V. BASÍLIO 82 Entre a Rua de São Miguel e a Rua Nova de São Lázaro: Maximino da Rocha e filhos, Deolinda, Flávia, Mário, Adelina, Cíntia e Palmira; Augusto Madeira de Carvalho; Manuel Gomes Eusébio; Henrique, Carlos, Sebastião da Rosa, bem como Telma e Helena Rosa; Fernanda do Rosário; Jorge Lagariça, sua mulher Natália, e filhos Ângela e António Lagariça; Dália Jorge; Natércia, José, António e Coleta Amorim; João Conceição; Horácio Conceição; Luísa Viana; João Mendes; Joaquim Luz; Francisco Poupinho; Henrique, Carlos e José Avelino da Silva, bem como suas irmãs Elóia, Fátima, Alice e Celeste; António Fernandes; Rosita Xavier e marido Fernando Nascimento; Venâncio Xavier; António Crestejo; Cândido e Anita Bañares; Remígio Bañares; André Bañares, sua mulher Maria, e filhos, André, Feliciana, Ângela, Felisberto, Rita, Vitória e Cristina; Cornélio Bañares, sua mulher Maria Francisca, e filho Cornélio, casado com Lúcia, tendo este casal os seguintes filhos: Maria, Francisco, João, Fátima, Carlos, Diana, Josefina e Irene; Cipriano Bernardo, sua mulher Sabina, e filhos Cipriano, Moisés, Marcelino e Sabina; Francisco Xavier Placé, pai de Margarida, Artur, Josefina, Irene, Jane, Natércia e Mário; Leonardo Pinto Marques e Aida Maria do Espírito Santo, e filhos, Aida, Virgínia, Maria Teresa e Leonardo; Eugénio Cordeiro, sua mulher Edwiges da Luz Placé, e filhos, Eduardo, Elsa, Augusto, Américo, Maria, Amadeu e Frederico; Alberto, Isabel, Daniel Mendonça e seus pais, Luis Gonzaga Machado de Mendonça e Maria da Conceição dos Santos Ferreira; Miguel Clemente Cordeiro e mulher, Elvira Rosalina Barreira, pais de Carlos, Natércia, Laura e Manuel; os Viana: Euclides (Clyde), e Celeste, Humberto, Telma, Euclides (Kiddy), Maria, além da família do Eurico Viana casado com Ermelinda, bem como Miro Viana (irmão do Clyde) e esposa Maria; Stella Luz; Família Luz: Álvaro Augusto e Marcelina, e filhos Cíntia, José Carlos, Natércia, Yolanda, Álvaro António e Rogério.
PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS 83 Na Calçada da Igreja de S. Lázaro (do lado direito) Estanislau Barros e seu filho Gastão Barros; Mário Lemos. No Adro de S. Lázaro: Júlio Boyol; Ambrósio Tang. Na Rua do Volong: Vicente Gracias e filhos, António e Eduardo Gracias; Amadeu Rodrigues; Francisco Xavier Antunes, sua mulher, Evelina Conceição da Silva, e filhos, Dâmaso e Flávio Antunes; Alfredo Augusto de Almeida e mulher Rosalina Boyol; Capitão Joaquim Cortês, um militar português (9), casado com Astéria Mendonça; João Baptista Lam; José Sá e Silva, sua mulher, Angelina Nunes da Silva, e filhos, Felisberto, Victor, José, Arminda, Florentina, Henriqueta, Maria Luísa e Maria Amélia; Estanislau Alberto Carlos, pai de Fausto Carlos; Carlos, Humberto, João, Natália e Raul Nantes; Boaventura do Rosário; José Maria de Siqueira e Isabel de Sousa Siqueira, pais de Mário, Ludgero e Zoé Siqueira; João de Deus Campos. Na Rua de Eduardo Marques: José dos Santos Ferreira (mais conhecido por Adé) e sua mulher Alba Bárbara Viana; Belmiro José Pedro; Luiz Gonzaga Collaço; José da Silva Maneiras e mulher, Florinda da Silva, pais de José Celestino Maneiras; Inácio, Camilo, Justino e Catarina Lei; Cassiano Pinto. Além das pessoas acima referenciadas, houve mais pessoas ou famílias macaenses, ora não mencionadas, que viveram no Bairro de S. Lázaro e, no caso em apreço, a referência feita a uma só pessoa ou a uma família é tida como incluir outros membros da mesma pessoa ou família que eventualmente residiram naquele Bairro. Apesar das pesquisas feitas junto a várias pessoas, as informações obtidas nem sempre são completas, pois houve famílias que viveram lá durante muitos anos e outras por períodos mais curtos, bem como pessoas que
MANUEL V. BASÍLIO 84 apenas são conhecidas por alcunhas e, por isso, não estão referenciadas. Em frente à igreja, está o prédio No. 7 da Calçada da Igreja de S. Lázaro, mandado construir em 1918 por Ch’ôi Nók Chi (崔諾枝), cujo nome de baptismo é Joel José Choi Anok. Em 1923, ele e alguns amigos criaram a Associação Educadora de Crianças Chinesas de Macau, passando então aquele prédio a ser utilizado para fins educativos. Mais tarde, o prédio serviu também para outras finalidades. Depois de décadas vividas naquele Bairro tão peculiar, famílias macaenses começaram a mudar-se para outras localidades, sobretudo a partir dos anos 70 e 80 do século passado. Foi por essa altura que muitas das casas do Bairro foram alienadas e demolidas, para dar lugar à construção de novos prédios de 5 ou 6 pisos, que passaram a ser habitados principalmente pela população chinesa. Com as novas construções, o Bairro ficou parcialmente descaracterizado, mantendo-se, no entanto, como bens imóveis classificados, os prédios situados nas imediações da Igreja de S. Lázaro, dos quais se destacam o edifício pertencente à Associação Educadora de Crianças Chinesas de Macau (em chinês:
PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS 85 中華請少年教育輔助會, que literalmente quer dizer Associação para o Apoio Educativo de Jovens Chineses) (10) e do Albergue da Santa Casa da Misericórdia (11) e, ainda, os prédios restaurados para as instalações do Fundo de Segurança Social, da Incubadora de Indústrias Criativas FANTASIA 10, da Escola de Música do Conservatório de Macau, etc. A reabilitação ou requalificação de vários prédios do Bairro de S. Lázaro deve-se ao facto de aquela zona ter sido escolhida, pouco após a transferência de soberania, em 1999, para ser uma zona destinada à promoção de actividades artísticas e culturais e, por isso, pavimentaram-se algumas vias com calçada à portuguesa e colocaram candeeiros de rua ao estilo europeu, com vista a dar àquele Bairro uma nova vida e criatividade. Pena é que os resultados deste projecto ainda estão aquém do desejado, pois restam muitos prédios, já devolutos, sem calor humano, a carecer de obras de conservação, e a aguardar um condigno aproveitamento. Neste prédio nº 10 da Calçada da Igreja de S. Lázaro, junto à escadaria, funciona a Incubadora de Indústrias Criativas FANTASIA 10.
MANUEL V. BASÍLIO 86 NOTAS: (1) Era a muralha que descia da Fortaleza do Monte, corria depois ao longo da actual Rua de Tomás Vieira até à Porta de Santo António, indo dali até à Rua do Patane e cuja muralha contornava o morro da Gruta de Camões. Dado que aquele troço da muralha era de pedra, a Rua do Patane é ainda designada, em chinês, por “Sék Ch’eong Kái” (Sek, pedra; Ch’eong, parede, muro ou muralha; e, Kai, rua). (2) A primitiva Porta era de estilo chinês, designada “Kuán Cháp Mun” (關 閘 門), em português, Porta do Limite. Em 1849, as forças portuguesas avançaram mais para norte e, depois, demoliram a primitiva Porta, para se construir, num local mais acima, a actual Porta do Cerco, inaugurada em 1871, durante o governo de António Sérgio de Sousa (1868-1872). (3) Contrariamente ao que muitos escreveram ou aprenderam nas escolas, que Macau foi oferecido ou doado aos portugueses, as autoridades chinesas, porém, nunca assim consideraram. A fixação dos portugueses em Macau era encarada como uma ocupação consentida pelas autoridades chinesas, mediante o pagamento anual do foro do chão, com vista a benefícios mútuos. Devido aos receios que tinham em relação aos estrangeiros, adoptavam então uma astuta estratégia – a do isolamento, restringindo-os num determinado espaço territorial, de forma a estarem sob o seu controlo. Como nunca se chegou a acordo quanto à fixação de fronteiras, por isso, no preâmbulo da Lei Básica da RAEM, está expressamente mencionado que “A partir de meados do século XVI, foi gradualmente ocupado por Portugal”. Na realidade, assim foi, visto que, aquando da fundação de Macau, Taipa e Coloane não faziam parte integrante do território ocupado pelos portugueses. (4) Existem vias públicas que lhe são dedicadas, nomeadamente a Rua do Coelho do Amaral, que termina na Estrada do Repouso, começando dalí a Estrada do Coelho do Amaral, que vai terminar na Avenida do Coronel Mesquita. Primitivamente, esta Estrada terminava na Estrada do Arco,
PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS 87 junto do templo “Lin Fông” (蓮 峰 廟 , em cantonense: “Lin Fông Miu”). (5) A igreja de S. Lázaro continua a ser designada, em chinês, por “Móng Tâk T’óng” (望 德 Móng Tâk, significa esperança, e 堂 T’óng, igreja), nome derivado da antiga ermida de Nossa Senhora de Esperança. (6) Em 1882, a maior parte dos leprosos foi transferida para Pac Sá Lan ( 白 沙 欄 ), na ilha de D. João (então sob a administração portuguesa, situada em frente à ilha da Taipa) e, depois, para Ka-hó, em Coloane, cuja leprosaria já foi encerrada, restando ainda as antigas instalações (recentemente restauradas) e a moderna capela de N. Srª. das Dores. (7) Em 1885, o Governador Tomás Rosa mandou demolir a igreja de São Lázaro, que estava arruinada, a fim de edificar uma nova, que ficou concluída no ano seguinte. Em 1967, a igreja de S. Lázaro foi ampliada, passando a ter a actual configuração. (8) O prédio No. 7 da Calçada da Igreja de S. Lázaro, foi mandado construir em 1918 por Ch’ôi Nók Chi (崔 諾 枝), cujo nome de baptismo é Joel José Choi Anok. O prédio, no entanto, só foi inaugurado a 27 de Maio de 1923, depois de ele e mais alguns amigos terem criado a Associação Educadora de Crianças Chinesas de Macau, passando então aquele prédio a ser utilizado para fins educativos, designadamente para a instalação da Escola Kông Káu. Após encerramento desta escola, o prédio foi utilizado para fins assistenciais e até como salão paroquial. Presentemente, o prédio alberga a Casa de Arte Tai Fông T’óng (大 瘋 堂 藝 舍), que faz parte da Zona de Indústrias Culturais e Criativas da Freguesia de São Lázaro. Merece fazer aqui uma breve referência a Ch’ôi Nók Chi, aliás, Joel José Choi Anok, porquanto foi uma destacada figura na comunidade local, tendo desempenhado diversos cargos, tais como o de director do Hospital Kiang Wu e da Associação Comercial de Macau, bem como o de presidente da Associação de Beneficência Tung Sin Tong, além de ter sido escolhido pelo Governo de Macau, como representante da comunidade chinesa, para vogal do Conselho do Governo. Pelos dedicados e relevantes serviços que prestou, recebeu
MANUEL V. BASÍLIO 88 várias medalhas, destacando-se a condecoração, que lhe foi atribuída, com o grau de Cavaleiro da Ordem de Cristo. Por ter sido um grande benemérito, sobretudo pelas inúmeras acções que praticou no auxílio a carenciados e refugiados em Macau, no período da Segunda Guerra Sino-Japonesa (1937-1945), existe no interior da Associação de Beneficência Tung Sin Tong um busto em sua homenagem. Faleceu a 22 de Agosto de 1945, com a idade de 78 anos. (9) Além de famílias macaenses que viveram no Bairro de S. Lázaro, ali viveram também, na Rua do Volong, alguns oficiais do exército, que vieram para Macau em serviço militar, tais como capitão Joaquim Cortês, capitão Teixeira e, ainda, capitão David da Conceição Oliveira. Conforme mencionou o historiador Pe. Manuel Teixeira, num dos seus livros, o capitão Oliveira “veio para Macau no posto de capitão de infantaria, e fora morar com a sua mulher e seus quatro filhos na Rua do Volong, perto da igreja de S. Lázaro”. Um dos seus filhos era Albano de Oliveira, que aqui fez a instrução primária e frequentou o Liceu de Macau, e depois de regressar a Lisboa tirou o curso da Escola Naval. O então capitão-tenente Albano de Oliveira, depois de cumprir várias missões de serviço, exerceu o cargo de Governador de Macau, de 1 de Setembro de 1947 a Junho de 1951, e antes de cessar as suas funções governativas, foi proclamado, em sessão do Leal Senado de 28 de Março de 1951, Cidadão Benemérito de Macau, porque a cidade lhe deveu muitos melhoramentos. (10) A extinta Rua do Asylo (Asilo) ocupava parte da actual Calçada da Igreja de S. Lázaro, continuando depois pela Rua de Eduardo Marques. (11) Actualmente, já não tem a finalidade de Albergue, porquanto o prédio foi requalificado e aproveitado para várias finalidades, designadamente, para as instalações de um restaurante de gastronomia portuguesa, uma loja que comercializa produtos portugueses, denominada Mercearia Portuguesa e, também, uma galeria de exposições. Uma nota final de agradecimento a todos aqueles que deram o seu contributo na identificação de pessoas ou famílias que viveram no Bairro de S. Lázaro, em particular, Ismael Sá e Silva, Eduardo Gracias, Ângela Lagariça e Fernando
PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS 89 Nascimento, bem como Carlos Lemos, que apesar de não ter residido naquele Bairro, lá viveram parentes dele. Vista geral do antigo Bairro de S. Lázaro, com a antiga igreja, demolida em 1885 e, em sua substituição, foi construída uma nova igreja no ano seguinte. Do lado esquerdo, vê-se o Cemitério de S. Miguel Arcanjo. Aspecto da Igreja de S. Lázaro, ca. 1900
MANUEL V. BASÍLIO 90 Aspecto da Calçada Central de S. Lázaro, ca. 1960. Os prédios do lado direito foram todos demolidos, para dar lugar a novas construções. Rua de Sanches de Miranda, que demarca um dos limites do Bairro de S. Lázaro. Todos os prédios do lado direito foram já demolidos. Aspecto da Calçada da Igreja de S. Lázaro, ca. 1970.
PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS 91 A actualidade A actual configuração da igreja de S. Lázaro.
MANUEL V. BASÍLIO 92 A Cruz da Esperança datada de 1637, implantada no lado direito, depois de subir pelos degraus do Adro de S. Lázaro. Um troço da Rua Nova de S. Lázaro, vendo-se ao fundo a Igreja de S. Lázaro.
PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS 93 Outro aspecto da Rua Nova de S. Lázaro, visto do Adro da Igreja de S. Lázaro Fachada do prédio No. 7 da Calçada da Igreja de S. Lázaro. Presentemente, o prédio alberga a Casa de Arte Tai Fông T’óng (大瘋堂藝舍), que faz parte da Zona de Indústrias Culturais e Criativas da Freguesia de São Lázaro
MANUEL V. BASÍLIO 94 Um troço da Calçada da Igreja de S. Lázaro. No primeiro prédio do lado esquerdo, funciona presentemente a Escola de Música do Conservatório de Macau. Calçada da Igreja de S. Lázaro, vendo-se do lado direito a placa toponímica do Adro de S. Lázaro e, do lado esquerdo, a entrada principal do referido prédio No. 7. Na parede do prédio do lado direito estão afixadas as letras FSS, isto é, Fundo de Segurança Social, em cujo prédio estão instalados os seus serviços.
PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS 95 Um troço da Calçada da Igreja de S. Lázaro junto ao Albergue da Santa Casa da Misericórdia, com a escadaria ao fundo que dá acesso à Rua de Sanches de Miranda. A entrada para o Albergue da Santa Casa da Misericórdia. Um prédio construído em 1925, que já serviu para várias finalidades.
MANUEL V. BASÍLIO 96 Outro aspecto da Calçada da Igreja de S. Lázaro. Calçada Central de S. Lázaro, vista da Rua do Volong. Do lado esquerdo, todas as casas antigas foram já demolidas, para dar lugar à construção de prédios de 5 ou mais pisos. No canto do lado direito, existiu uma casa, onde viveu um militar português, conhecido por Capitão Cortês.
PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS 97 Calçada Central de S. Lázaro, em direcção à Rua do Volong, vendo-se do lado esquerdo duas antigas casas que ainda restam e, do lado direito, vários prédios de 5 ou mais pisos, que foram construídos após a demolição de antigas casas do Bairro de S. Lázaro. Um troço da Rua de S. Miguel, que entronca com a Calçada da Igreja de S. Lázaro. Na rampa que se segue, começa a Rua de Eduardo Marques, que vai terminar na Estrada do Cemitério. Rua de Eduardo Marques, vendo-se ao fundo a torre da capela do Cemitério de S. Miguel Arcanjo.
MANUEL V. BASÍLIO 98 Outro aspecto da Rua de Eduardo Marques. Rua de S. Miguel, vista a partir da Rua de Eduardo Marques. Os prédios de 5 ou mais pisos, que se vêem, fazem parte do Bairro de S. Lázaro, construídos nos terrenos resultantes da demolição de antigas casas. Outro aspecto da Rua de S. Miguel, vendo-se do lado direito um conjunto de 5 moradias, todas desabitadas e em mau estado de conservação.
PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS 99 Rua de S. Roque, no estado actual. Placa toponímica da Rua do Volong
MANUEL V. BASÍLIO 100 Rua do Volong em direcção à Estrada do Cemitério. Moradias devolutas na Rua do Volong. No canto da rua, existiu uma casa onde viveu Eduardo Gracias, até 1978. Após ter sido demolida em princípios dos anos 80, o terreno foi mais tarde aproveitado para servir de jardim à Escola de Música.
PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS 101 Outro aspecto da Rua do Volong, em direcção à Calçada da Igreja de S. Lázaro. Sepultura de Volong, no Cemitério de S. Miguel Arcanjo. Uma cruz com a seguinte inscrição: ANTIGO CEMITERIO DE S. LASARO TRANSLADADO EM MAIO DE 1910. Durante muitos anos existiu um cemitério para cristãos chineses no Bairro de S. Lázaro, e quando foi encerrado, as campas foram transladadas para o Cemitério de S. Miguel Arcanjo. Aquela cruz serve apenas para assinalar a transladação que se efectuou em 1910.
MANUEL V. BASÍLIO 102 O BAIRRO TAP SIAC Um bairro de gratas recordações Durante séculos, a cidade de Macau apenas ocupava o território situado a sul das muralhas que os portugueses construíram, a partir de 1622, para a sua defesa, as quais dividiram praticamente a península em duas partes. Toda aquela área fora dos muros até ao istmo da península era designada por “Campo”, onde viviam agricultores chineses, e cuja área, conforme afirmavam as autoridades chinesas, estava sob a sua jurisdição, embora os habitantes da cidade pudessem atravessar a Porta do Campo, sem restrições, e circular pelo Campo (1). Vista parcial do Bairro Tap Siac (foto baixada da internet, do grupo Antigas Fotos de Macau) Não muito distante da Porta do Campo, estendia-se então um largo vale bastante fértil, devido à abundância de água proveniente sobretudo da encosta da colina da Guia, de forma que algumas zonas dos campos de cultivo ficavam alagadas, formando, aqui e além, pequenas lagoas (2) ou charcos (ch’i t’óng 池 塘 ). Dado que existiam condições favoráveis à actividade agrícola e à criação de aves e animais domésticos no Campo, há muito que ali se fixaram pequenos agricultores chineses que, com o decorrer dos tempos, criaram em certas
PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS 103 localidades povoações ou aldeias chinesas, e as que floresceram próximo do vale foram a Tap Siac Chün (aldeia de Tap Siac) (3) e a Lông T’in Chün (aldeia de Lông Tin) (4). Com o aumento gradual de população destas duas aldeias, as condições sanitárias tornaram-se deploráveis, não só por causa dos costumes pouco higiénicos a que os agricultores estavam habituados, mas também devido à poluição das águas retidas nos charcos, à acumulação de fezes humanas usadas como adubo na produção hortícola e, ainda, ao deficiente escoamento das águas das chuvas, de forma que algumas zonas da várzea do Tap Siac se transformaram em autênticos pântanos, imundos e fétidos, constituindo estas e outras causas um autêntico foco de infecção. Perante esta situação, o governador José Maria de Sousa Horta e Costa determinou que se procedesse ao saneamento da várzea do Tap Siac, cuja obra ficou a cargo do então director das Obras Públicas, engenheiro Augusto César de Abreu Nunes, não faltando a intervenção directa do próprio governador Horta e Costa, porquanto ele também era formado em engenharia (5). Desta forma, Abreu Nunes conseguiu resolver um grave problema que ameaçava a saúde pública, bem como lançar as necessárias bases à expansão e desenvolvimento da cidade. Para a execução das obras de saneamento da várzea do Tap Siac e regularização do respectivo terreno era necessário extrair grandes quantidades de terra e, deste modo, escolheu-se o sítio mais próximo para o efeito, que era o local anteriormente conhecido como “Campo dos Arrependidos” (6), bem como uma zona da encosta da colina da Guia. Com as terraplanagens, que entretanto foram feitas junto à encosta, criaram-se condições para a abertura de novas vias públicas, designadamente a maior e mais larga avenida de então, que viria a ser denominada Avenida de Vasco da Gama (7).
MANUEL V. BASÍLIO 104 Por que se chama Tap Siac? Tem-se lido e escrito, em publicações de autores portugueses, que o termo “Tap Siac”, em chinês, quer dizer “torre de pedra”. Na realidade, embora o nome da rua, em chinês, esteja escrito 塔 石 (que se pronuncia, em cantonense, “t’áp sék”, sendo “t’áp” (塔), torre ou pagode, e “sék” (石), pedra, rocha ou rochedo), estes dois caracteres, na forma como estão posicionados, não significam, de modo algum, “torre de pedra” ou “pagode de pedra”. Para ter o significado de “torre ou pagode de pedra”, os respectivos caracteres teriam que estar escritos na forma invertida, ou seja, em vez de 塔 石 (t’áp sék), seriam escritos 石 塔 (sék t’áp). Não é este o primeiro caso na toponímia de Macau em que um caracter é escrito incorrectamente, por deturpação de pronúncia (no presente caso, de “táp” para “t’áp”), tendo, desta forma, alterado o seu verdadeiro significado, passando a ser um topónimo sem sentido lógico, ou mesmo inexplicável, na língua chinesa. Efectivamente, deveria escrever-se 疊 石 (táp sék), significando 疊 (táp), sobrepor, amontoar ou empilhar, e 石 (sék), pedra, rocha ou rochedo, cujo termo seria então traduzido por “rochas ou rochedos sobrepostos”. Na realidade, nunca lá existiu qualquer torre de pedra. O que se conta e que está comprovado através de um desenho atribuído a George Chinnery, existiu, de facto, naquela localidade, antes das obras de saneamento, um conjunto de rochas ou rochedos sobrepostos, a que os habitantes da aldeia lhe deram o nome “Táp Sék” (疊 石 e não “T’áp Sék” 塔 石 ). Infelizmente, apesar de oposições por parte da população chinesa, aquele conjunto de rochas ou rochedos sobrepostos foram, em princípios do século XX, despedaçados com dinamite, no decurso das obras de regularização do terreno, desaparecendo, assim, para sempre, um marco outrora tão prezado pelos habitantes daquela localidade, do qual originou o verdadeiro e correcto topónimo “Táp Sék” (疊 石), ou seja, rochas sobrepostas. Além deste, existem
PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS 105 ainda vários topónimos em língua chinesa que foram deturpados por dicção incorrecta, ou por outro motivo, porquanto havia topónimos adoptados pelos chineses ao longo dos tempos que não estavam oficialmente fixados, os quais eram transmitidos oralmente, de geração para geração. De salientar que, nos primeiros marcos de vias públicas em granito, bem como nas antigas placas toponímicas, só estavam gravados os topónimos em português, sem os respectivos nomes usados em língua chinesa, resultando daí divergências, que ainda existem, em antigas vias públicas de Macau. Desenho atribuído a George Chinnery, em que mostra várias rochas sobrepostas ou empilhadas, as quais originalmente deram o correcto nome “Táp Sék” (疊 石 e não T’áp Sék塔石 ) a toda aquela zona. Este desenho tinha sido anteriormente postado em Crónicas Macaenses por MV Basilio, para ilustrar um comentário que fez em 21.01.2016. Urbanização da zona do Tap Siac A plano de urbanização da zona do Tap Siac teve início após o saneamento e a conclusão das obras de regularização do terreno, e cujas obras decorreram entre finais do século XIX e princípios do século seguinte. No entanto, já em 1895 começou a abertura de uma nova e principal artéria, com início na Rua do Campo, a que foi dado o nome de Avenida do Conselheiro Ferreira de
MANUEL V. BASÍLIO 106 Almeida (8), em homenagem a José Bento Ferreira de Almeida, que naquele ano tinha sido nomeado para o cargo de ministro da Marinha (9). Junto daquela nova avenida e dentro da zona do Tap Siac, construiu-se nas primeiras décadas do século XX um conjunto de edifícios com características neoclássicas (10), tendo-se também edificado outros conjuntos de moradias, de estilo mais sóbrio, na zona tardoz, entre a Rua do Tap Siac propriamente dita e a Rua da Esperança, formando, assim, todas aquelas edificações, o chamado Bairro Tap Siac. Conforme consta do Cadastro de Vias Públicas, é conhecida por Tap Siac “a área da cidade situada de um e outro lado da Rua do Tap Siac, área esta mais ou menos limitada pela Rua da Esperança, parte da Estrada de Adolfo Loureiro, parte da Avenida do Conselheiro Ferreira de Almeida e parte da Estrada do Cemitério”. No entanto, é tido também como fazendo parte integrante de Tap Siac, o campo desportivo defronte aos edifícios neoclássicos, conhecido por Campo do Tap Siac. O Campo do Tap Siac O nome inicialmente dado era Campo do Coronel Mesquita. No entanto, era vulgarmente mais conhecido por Campo do Tap Siac, onde mais tarde se fez um campo relvado, destinado essencialmente à prática do hóquei em campo. Foi ali que muitos macaenses iniciaram a aprendizagem desta nova modalidade de desporto, cuja primeira iniciativa partiu de um jovem tenente de infantaria, Filipe Augusto O’Costa, tendo em 1926 reunido um grupo de rapazes e homens no Campo do Tap Siac, e lhes incutiu o interesse e gosto pelo hóquei em campo, uma modalidade que ele próprio aprendeu em Alemanha e na Inglaterra. Desde então, e durante décadas, foi a modalidade desportiva preferida e praticada por muitos macaenses, vários dos quais se destacaram em diversas competições locais e no exterior.
PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS 107 Prédio com moradias geminadas, respectivamente nºs. 89-A e 89-B, onde actualmente funciona a Biblioteca Central de Macau Durante largos anos, o Campo do Tap Siac foi palco de imemoráveis competições desportivas, quer em “interports” com equipas de Hong Kong, quer em campeonatos inter-escolares, tão populares naqueles tempos. Conjunto de moradias geminadas, junto da Avenida do Conselheiro Ferreira de Almeida, no troço transformado em zona pedonal e já integrado na Praça do Tap Siac . O novo edifício multi-pisos que se vê atrás é designado por Lótus Vista, construído em 2005, no terreno resultante da demolição do antigo edifício “Bispo D. Belchior Carneiro”
MANUEL V. BASÍLIO 108 O Campo do Tap Siac era também o local escolhido para outras actividades, designadamente as celebrações anuais do 1º dia de Dezembro, data da Restauração da Independência Nacional, pela Mocidade Portuguesa, onde vários actos cívico-religiosos se realizavam, incluindo a missa campal, celebrada pelo Bispo de Macau, depois de o Governador passar revista à guarda de honra que a Mocidade lhe prestava. Prática de hóquei no Campo do Tap Siac, vendo-se ainda no lado esquerdo o edifício do Ginásio do Liceu Actividades da Mocidade Portuguesa no Campo do Tap Siac
PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS 109 Pode-se dizer que mudança do Liceu Central de Macau (11), em 1924, para o edifício do Asilo de Órfãos, tendo ali funcionado até 1958, contribuiu também para a dinamização do Campo do Tap Siac. O edíficio onde funcionou o Liceu de Macau, nos anos 40 do século passado, vendo-se na foto o célebre poço das 9 da noite, onde a partir daquela hora a rapaziada se juntava para se divertir, contar histórias e pôr a conversa em dia Já antes da mudança, o então professor do Liceu, Fernando Lara Reis, no desejo de auxiliar os estudantes mais necessitados, tinha iniciado a angariação de fundos e apoios necessários para a criação de uma Caixa Escolar. Construiu-se depois um edifício na extremidade sul do campo para a instalação da Caixa Escolar, o qual foi inaugurado em 1925. A partir de então o campo desportivo passou a ser também conhecido por Campo da Caixa Escolar.
MANUEL V. BASÍLIO 110 Aspecto do Campo do Tap Siac, também conhecido por Campo da Caixa Escolar, devido ao edifício da Caixa Escolar, que se vê ao fundo. Originalmente, era o edifício da Caixa Escolar. Agora é designado por Pavilhão de Exposições e Espectáculos Artísticos para Jovens O espaço situado junto ao edifício da Caixa Escolar era o local que habitualmente servia de campo de recreio aos alunos do Liceu. Com a mudança do Liceu para um novo edifício sito nos aterros da Praia Grande, aquele espaço veio, mais tarde, a ser dividido em 3 partes, para a criação de 3 pequenos campos, revestidos de cimento, destinados à pratica de várias modalidades desportivas, dois dos quais sobretudo para basquete e vólei, e o terceiro, era um ringue de patinagem, que foi aproveitado para a prática de hóquei em patins, tendo
PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS 111 esta modalidade de desporto sido introduzida em Macau pelo padre salesiano Francisco Santos, em finais dos anos 60 do século passado e, portanto, os primeiros praticantes foram alunos do Colégio de D. Bosco. Aquele ringue serviu também para a prática de futebol de cinco, cuja modalidade tinha sido introduzida e incentivada pelo então médico radiologista dos Serviços de Saúde, Dr. Júlio Gil Agostinho, mais conhecido por Dr. Gil, um ex-futebolista da briosa Associação Académica de Coimbra. Do lado esquerdo, vê-se o campo de hóquei e, do lado direito, um espaço dividido em 3 pequenos campos para a prática de outras modalidades de desporto. Moradores do Bairro Tap Siac Vamos, seguidamente, fazer menção de várias famílias, quase todas macaenses, que viveram no Bairro Tap Siac. Por falta de confirmação ou informação mais detalhada, um bom número de famílias e respectivos membros de família ou parentes não estão aqui incluídos e, desta forma, a menção de um dos familiares serve apenas de referência para uma futura actualização ou rectificação, caso haja novas informações ou confirmações. Houve
MANUEL V. BASÍLIO 112 famílias que ali viveram por largos anos e outras por períodos relativamente curtos, gerando assim algumas incertezas, devido a mudanças de residências no decurso do tempo. Decerto houve ainda pessoas que ali viveram e que por ora não estão mencionadas, porque a memória das pessoas inqueridas também vai faltando. Das pesquisas efectuadas, ficamos a saber que: Junto ao troço da Ave. do Conselheiro Ferreira de Almeida, desde a Calçada do Cemitério até à Rua de Afonso de Albuquerque, a seguir aos actuais edifícios do Instituto Cultural de Macau (12) e do Centro de Saúde do Tap Siac (13), está localizado o primeiro prédio, que compreende duas moradias geminadas, respectivamente nºs. 89-A e 89-B, nas quais viveram a família de Mário Barros e a família de Manuel Vieira, então conhecido por tenente Vieira e, mais tarde, Francisco Barros. Os prédios entre a Rua de Afonso de Albuquerque e a Rua de Sacadura Cabral No prédio nº 91, que faz esquina com a Rua de Afonso de Albuquerque e, na outra extrema, com a Travessa do Tap Siac, viveu a família de Anízio Rómulo Luiz; e, no 1º andar, viveram o capitão Afonso de Veiga Cardoso e mulher Francisca Xavier de Azevedo e, também, Jorge Rangel e filhos, Luísa e Jorge Alberto; no prédio nº 93, junto à Travessa do Tap Siac, viveu no r/c a família de Pompílio da Silva Pedruco; e, no piso superior, o médico Alberto Manuel de Sequeira Basto, sua mulher Ivone Augusta Simões, e filhos Carlos Alberto, Ana Maria e Jorge. No prédio nº 95, que faz esquina com a Travessa do Tap Siac e, na outra extrema, com a Rua de Sacadura Cabral, viveram Veríssimo Francisco do Rosário, sua mulher Albertina Alves, e filhos Ângela Isabel, Rui Hugo, Rigoberto, Rogério, Veríssimo Francisco Jr., José Victor (e sua mulher Albertina Dias, mais conhecida por Miss Dias, e filhos, José e Cíntia), Maria Lucinda, Eurico e
PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS 113 Henriqueta; e, no lado direito desta moradia geminada, viveu a família Sousa (Porfírio Zeferino Sousa, sua mulher Alice Fátima, e filhos Raquel, Bernardo, António Zeferino, Orietta, Pedro e Porfírio). Os prédios entre a Rua de Sacadura Cabral e a Rua do Bispo Medeiros São dois prédios, cada um com duas moradias geminadas. O prédio nº 95-A, que faz esquina com Rua de Sacadura Cabral viveu a família de José Neves Catela e, no nº 95-B, a família de Damião Rodrigues; a seguir, no prédio nº 95-C, viveu a família de Tranquilino da Silva e, no 95-D, o cónego António Maria de Morais Sarmento, mais conhecido por Padre Sarmento, tendo depois ali residido Júlio de Assis. Por fim, o prédio entre a Rua do Bispo Medeiros e a Estrada de Adolfo Loureiro Este prédio é constituído por três moradias, com os nºs, 95-E, 95-F e 95-G. No nº 95-E, viveu a família de Abílio Basto e, depois, a de Fernando Batalha da Silva; na moradia do meio, a família do sargento Branco e, depois, a de Alexandre José Airosa; e no nº 95-G, ou seja, na última moradia, João Braga, sua mulher Maria Teresa Cameirão, e filhos Arnaldo e António. Na Rua do Tap Siac Desde o início da Rua do Tap Siac até à intersecção com a Rua de Afonso de Albuquerque viveram as seguintes famílias e/ou familiares de: António Xavier Nogueira; John Franklin Barnes; Francisco Xavier do Rosário; Artécia do Rosário; Clementina, António e Geraldo Rodrigues; João Aires da Silva; Leonel Barros; Manuel Jesus, sua esposa Aida, e filhos Sónia, Carolina e Manuel; João Brito da Silva e Fernanda Silvano; José Guerra; José Herculano do Rosário, no lado de numeração ímpar; Alberto Pompeia
MANUEL V. BASÍLIO 114 dos Santos, pai de José Nuno, José Luis, José Vasco, José Manuel, Maria Fátima, etc. ; Graça e Paulo Pedruco e, também, Aldegundes Pedruco, no lado de numeração par. Nas moradias desde a Rua de Afonso de Albuquerque até Estrada de Adolfo Loureiro, viveram, designadamente: José Ferreira, sua mulher Beatriz, e filhas Regina, Irene, Olinda, Elsa e Ivone; Adriano da Silva e sua mulher, Alice; Manuel Lata e sua mulher Filomena; Armando Abrantes e filhas Silvina, Conceição e Olga; João Almeida dos Santos; José dos Santos, sua mulher Laura, e filhos Judite, Hermínio, Júlio e Domingos; Américo da Cruz Coelho; José Achiam; Teresa Botelho e filhos Jorge e Fernanda; Fátima Badaraco; Natércia, António, Elvira, Jorge e Benjamim Coimbra; Joaquim da Paz; Fernando Baptista; Maximino Rocha, sua mulher Luísa Sequeira, e filhos Herculano (conhecido por Josico), Duarte e Natália. Nas moradias viradas para a Rua de Afonso de Albuquerque, entre a Rua do Tap Siac e a Rua da Esperança: José dos Santos Ferreira (Adé); Lisbelo da Luz, sua mulher, e filhos Lurdes, Melba, Lisbelo Jr. Manuel e Carlos; Francisco Xeque do Rosário, sua mulher Maria Fátima, e filhos Isabel, Teresa, Jerónimo, Ilda, Isaura, Geraldo, Generoso, Gervásio, Gaspar e Gonçalo. Na Rua da Esperança Desde o início da Rua até Rua de Afonso de Albuquerque, viveram: Zamora Lisboa; António Correia Gageiro, sua mulher Ana, e filhos Teresa, Alberto, Armanda, Arminda, Alda, Albertina, João e Luísa; Leonel Borralho; Celeste Gonçalves; Roberto, João Maria e Bartolomeu Silva;
PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS 115 Helena Silva; Fernando Rosa, António Joaquim; e, a partir de Rua de Afonso de Albuquerque até Estrada de Adolfo Loureiro, viveram, designadamente, Jaime e Alda Gomes e filhos Jorge, Alice, Maria, Lisa e Delfim; António, Philip, Deolinda, Pedro, Glória e Lancelote Xavier; Santiago Agostinho Badaraco, sua mulher Cecília, e filhos Daniel, Orlando, Alfredo e Virgínia. Edifício “Bispo D. Belchior Carneiro” Dentro do Bairro do Tap Siac existiu um edifício, denominado Bispo D. Belchior Carneiro, situado no quarteirão limitado por Rua do Tap Siac, Rua do Bispo Medeiros, Rua da Esperança e Estrada de Adolfo Loureiro, no qual habitaram várias famílias, designadamente: No bloco com entrada pela Rua do Tap Siac Laertes Leopoldo da Costa; Belarmino da Silva; Henrique Rosa dos Santos; Emídio Custódio Tavares; Henrique José Manhão Jr.; António Freire Garcia; Leonel Borralho; Mário Correia de Abreu; Rigoberto Rosário Jr.; António Lopes do Rosário; Alice Maria da Silva; Joana Carvalho; Rita Drummond; Leolinda Vicente; João Novikoff Sales; Júlia dos Santos; Adriano da Silva; Alberto Correia Gageiro; Gabriela Siqueira; Beatriz Siqueira; Livínia Gomes da Silva; Filomeno da Rocha; Beatriz Ferreira; Joaquim Madeira de Carvalho; Jaime Mendonça. No bloco com entrada pela Rua da Esperança Dr. Júlio Gil Agostinho; Alexandre José Airosa; Abel Paulo Sequeira; António Augusto Canhota; António Francisco Xavier; José da Silva Martins; Eulália Sales de Oliveira; Alberto Colaço; Mário Corrêa Pais de Assumpção; Manuel Joaquim Pinto; Francisco Xavier Lobato de Faria; José Simões; Alberto Lopes da Silva; Alice de Souza; Florinda Cardoso; Virgílio de Carvalho; António Agostinho; Eulália de Oliveira; José Noronha
MANUEL V. BASÍLIO 116 Amorim; Romeu Xavier; João Gageiro; João Cordeiro; Celeste Rosário; Regina Santos; Manuel Fonseca; André Cheong. O edifício “Bispo D. Belchior Carneiro” era um conjunto de dois blocos, com 4 pisos, construído de raiz para fins residenciais, para o qual se mudaram, a partir do ano de 1964, sobretudo famílias macaenses, incluindo algumas que então residiam no Bairro do Tap Siac, tendo lá vivido durante décadas até quando todo o prédio foi vendido e depois demolido, a fim de o terreno ser aproveitado para a construção de um novo edifício multi-pisos, denominado Lótus Vista, que ficou concluído em 2005. Requalificação do Campo do Tap Siac e dos edifícios do Bairro Tap Siac A fim de transformar o Campo do Tap Siac num espaço destinado a fins culturais e recreativos, todos os campos, quer de hóquei, quer de outras modalidades desportivas, foram destruídos em 2005, tendo-se iniciado, em Maio desse ano, a construção da maior praça de Macau, com a área de 13.000 m2, toda ela revestida de calçada à portuguesa, a qual ficou concluída em 2007. Placa toponímica da Praça do Tap Siac
PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS 117 É a Praça do Tap Siac (14), que passou a ser assim designada, situada entre a Avenida do Conselheiro Ferreira de Almeida e a Avenida de Sidónio Pais, confinando a sul com a Rua de Filipe O’Costa e, a norte, com a Rua de Sacadura Cabral. Toda a Praça é agora uma zona pedonal, incluindo o troço da Avenida do Conselheiro Ferreira de Almeida, que nela ficou inserido, passando os veículos a circularem por um viaduto ou túnel, em forma de “U”, por baixo da Praça. Sendo uma Praça muito ampla, tornou-se, desde então, um local popular para a realização de diversos eventos, tendo para lá sido transferida, a partir de 2009, a tradicional Feira na Véspera do Ano Novo Chinês, para os chineses fazerem as suas compras de fim do ano, designadamente plantas e flores alusivas à época. Para estimular a indústria criativa local, é também lá realizada a Feira de Arte do Tap Siac, bem como outras actividades recreativas e culturais, que, de tempos em tempos, se organizam. Além da requalificação do Campo do Tap Siac, transformando-o numa Praça, os edifícios voltados para a Avenida do Conselheiro Ferreira de Almeida foram também reabilitados e remodelados. A actual Praça do Tap Siac, onde se organizam, de tempos em tempos, actividades recreativas e culturais
MANUEL V. BASÍLIO 118 Assim, o antigo edifício, que anteriormente serviu para os Serviços de Saúde, foi requalificado em 2005, passando a ser as instalações do Instituto Cultural de Macau. Ao lado, é agora o Centro de Saúde do Tap Siac. A seguir, é a Biblioteca Central de Macau e, mais adiante, o Arquivo Histórico de Macau. O prédio situado, mesmo na esquina, antes do cruzamento da Avenida do Conselheiro Ferreira de Almeida com a Rua de Sacadura Cabral, é o Centro de Arte Moderna. O prédio nº 95 da Ave. do Conselheiro Ferreira de Almeida, em que viveram as famílias Rosário e Sousa. Este prédio, nos anos 80 do século passado, serviu para as instalações da Repartição dos Serviços de Educação. Actualmente, está instalado o Centro de Arte Moderna Mesmo antes das referidas requalificações, já a partir de meados dos anos 70 do século passado, alguns edifícios do Avenida do Conselheiro Ferreira de Almeida tinham sido aproveitados para instalações de serviços públicos, designadamente o prédio nº 95 F-G para a Repartição de Assuntos Chineses e, anos depois, o prédio nº 95 para a Repartição dos Serviços de Educação. Além disso, os serviços administrativos da Universidade Internacional de Macau, bem como os do Instituto Ricci de Macau também funcionaram, respectivamente, nos prédios nº 95-A e nº 95-E. Desde 2015, está sediada no prédio 95 C-D, a Academia Jao Tsung-I (饒宗頤學藝館), inaugurada em 9 de Agosto do referido ano, a qual foi fundada pelo Governo de Macau, a fim de homenagear o académico
PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS 119 Jao Tsung-I, que foi um grande promotor da cultura e artes tradicionais chinesas. Todo o conjunto de edifícios com características neoclássicas está classificado e faz parte do Património da UNESCO. Prédios nºs. 95-A, 95-B, 95-C e 95-D, cada um com duas moradias, localizados entre a Rua de Sacadura Cabral e a Rua do Bispo Medeiros
MANUEL V. BASÍLIO 120 Edifício do Instituto Cultural de Macau, que já serviu para outras finalidades Entrada principal do Instituto Cultural
PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS 121 Edifício do novo Centro de Saúde do Tap Siac Vista parcial do bairro do Tap Siac, em que se vê a Praça revestida de calçada à portuguesa. O novo prédio, de cor amarela, situado entre a Rua do Tap Siac e a Rua da Esperança, foi construído no mesmo terreno em que estava o antigo prédio
MANUEL V. BASÍLIO 122 O troço da Avenida do Conselheiro Ferreira de Almeida transformado em zona pedonal Do lado esquerdo, é o edifício da Biblioteca Central de Macau, e do lado direito, é o do Arquivo Histórico de Macau, cujos edifícios estão separados pela Rua de Afonso de Albuquerque
PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS 123 A via que se vê entre os dois prédios é a Rua de Afonso de Albuquerque Na foto vê-se um veículo automóvel, de cor branca, depois de sair do túnel que passa por baixo da Praça do Tap Siac, continuando a circulação pela Avenida do Conselheiro Ferreira de Almeida
MANUEL V. BASÍLIO 124 Outro aspecto do prédio nº 95, localizado na intersecção entre a Avenida do Conselheiro Ferreira de Almeida e a Rua de Sacadura Cabral, onde presentemente funciona o Centro de Arte Moderna O prédio que compreende duas moradias geminadas onde viveram, do lado esquerdo, a família Catela, e do lado direito, a família Damião Rodrigues, respectivamente nºs 95-A e 95-B
PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS 125 O prédio que compreende duas moradias geminadas onde viveram, do lado esquerdo, a família Tranquilino da Silva, e do lado direito, a família Assis, respectivamente nºs. 95-C e 95-D. Presentemente, é a sede da Academia Jao Tsung-I Prédio com 3 moradias, com os nºs 95-E, 95-F e 95-G, onde viveram, respectivamente, as famílias Batalha da Silva, Airosa e Braga
MANUEL V. BASÍLIO 126 Rua do Tap Siac vista a partir da Estrada de Adolfo Loureiro Entrada lateral para o pátio do prédio nº 95 C-D, no qual se vê um poço. Quando eram duas moradias, havia uma parede divisória a separar o poço ao meio, podendo assim ser partilhado pelas respectivas famílias
PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS 127 O antigo prédio situado entre a Rua do Tap Siac e a Rua da Esperança. Depois de demolido, no mesmo terreno, foi construído um novo prédio, designado “The Serenity”. (Foto de Jorge Basto) O novo prédio, designado “The Serenity”, localizado entre a Rua do Tap Siac e a Rua da Esperança. Do lado esquerdo, vê-se uma placa toponímica, que assinala o início da Rua do Tap Siac.
MANUEL V. BASÍLIO 128 Um aspecto da Rua da Esperança, no troço junto ao cemitério de S. Miguel Arcanjo, com o novo prédio “The Serenity” no lado esquerdo O prédio de estilo chinês, de cor ocre, está construído mesmo na esquina onde termina a Rua da Esperança, após a demolição de um antigo prédio, que era uma bonzaria. No lado direito, situa-se o Jardim Lou Lim Ieoc, cercado por um muro de granito. A via pública que se vê na foto – a Estrada de Adolfo Loureiro, é um dos limites do Bairro do Tap Siac
PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS 129 + A Rua da Esperança vista a partir da Estrada de Adolfo Loureiro. Curiosamente, a designação “Estrada” ainda se mantém, embora toda a zona envolvente esteja já urbanizada. Do lado esquerdo, é o edifício Lótus Vista, construído no terreno resultante da demolição do edifício “Bispo D. Belchior Carneiro” A memorável escadaria de pedra junto da Rua de Sacadura Cabral. No lado direito da escadaria, funcionou no passado e durante largos anos a tendinha “Chün Kei”, que vendia o saboroso “chü ch’eong fân”.
MANUEL V. BASÍLIO 130 Edifício do Asilo dos Órfãos, cujo estabelecimento foi encerrado em 1918, por razões económicas, tendo a partir de 1924 sido utilizado para outras finalidades Vista parcial do Bairro Tap Siac, ainda com o campo relvado (antes de ter sido substituído por relva sintética). A via pública que se vê na foto é a Rua de Afonso de Albuquerque.
PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS 131 NOTAS: (1) Sobre esta matéria, ler também “O bairro de São Lázaro de Macau e antecedentes históricos” (https://cronicasmacaenses.com/2018/08/17/o-bairro-de-sao-lazaro-de-macau-e-antecedentes-historicos/) (2) Uma das lagoas foi aproveitada para a construção do Jardim Lou Lim Ieoc, sendo esta a única que resta. (3) O nome “Tap Siac”, inscrito no Cadastro de Vias Públicas, é no entanto pronunciado “T’áp Sék”, em cantonense, conforme a romanização que consta do Dicionário Chinês-Português, editado pelo Governo, em 1962. Por conseguinte, no texto, este nome também aparece escrito, na forma romanizada, “T’áp Sék”, em vez de “Tap Siac” (anteriormente, também se escrevia “Tap Seac”). (4) Lông T’in Ch’ün (sendo Lông, dragão; T’in, campo cultivado ou várzea; e, Ch’ün, aldeia) era uma povoação outrora existente no local mais ou menos ocupado pelas actuais Ruas de Leôncio Ferreira, de Alves Roçada, de António Basto, parte da de Silva Mendes e, ainda, parte do Jardim Lou Lim Ieoc, que confina com a Estrada de Adolfo Loureiro, sendo esta via um dos limites do Tap Siac. (5) O Capitão de Engenharia José Maria de Sousa Horta e Costa tomou posse como Director das Obras Públicas de Macau em 2 de Novembro de 1885, tendo mais tarde sido nomeado governador de Macau por duas vezes, a primeira de 1894 a 1897, e a segunda, de 1900 a 1902. (6) O antigo local conhecido como “Campo dos Arrependidos” foi onde se travou parte dos combates contra os invasores holandeses, no dia 24 de Junho de 1622. O Monumento da Vitória, da autoria do escultor Manuel Maria Bordalo Pinheiro, inaugurado em 1864, foi colocado “no mesmo lugar onde uma pequena cruz de pedra comemorava a acção gloriosa dos portugueses”. (7) Avenida Vasco da Gama, aberta em 1898, por ocasião do IV Centenário do Descobrimento do Caminho Marítimo para
MANUEL V. BASÍLIO 132 a Índia. Essa avenida tinha 500 metros de comprimento e 65 de largura, sendo então a mais larga via pública. Pena é que, a partir de 1935, a avenida foi progressivamente retalhada para dar lugar à construção da Escola Primária Oficial “Pedro Nolasco da Silva”, da Escola Luso-Chinesa “Sir Robert Ho-tung”, de uma piscina municipal e do edifício do Clube Nocturno “Sân Fá Ün” que, depois de demolido, no mesmo local, se construiu em 1963, o edifício do Hotel Estoril e Casino Estoril, da nova concessionária de jogos de fortuna e azar – a Sociedade de Turismo e Diversões de Macau (STDM). (8) A construção desta importante avenida deve-se a Abreu Nunes, já traçada na altura da urbanização da zona do Tap Siac. Pelas importantes obras que realizou, enquanto Director das Obras Públicas, Abreu Nunes bem merecia que o seu nome fosse dado àquela avenida. No entanto, por a obra ter sido executada antes da obtenção da devida autorização do governo central, e tendo o Conselheiro Ferreira de Almeida sido, naquela altura, nomeado ministro da Marinha (8), resolveu portanto atribuir o nome desse ministro à nova avenida, apesar de ele nunca ter vindo a Macau, para homenageá-lo (ou talvez para não o enfurecer, visto que tinha mau feitio, a fim de aprovar a obra sem demora). Consta que, após os invasores holandeses terem sido derrotados, em 1622, vários deles ficaram prisioneiros e se fixaram nas imediações do “Campo dos Arrependidos”, ali cultivando umas hortas. Por isso, em chinês, aquele local ficou conhecido por Hó Lán Yün, ou seja, “horta dos holandeses”. Apesar de a avenida ser designada por Avenida do Conselheiro Ferreira de Almeida, em chinês, é simplesmente conhecida por “Hó Lán Yün Chêng Kái” (sendo “Hó Lán Yün”, horta dos holandeses e, “Chêng Kai”, rua principal), em vez da complicada transliteração do nome do referido ministro “Á Mei Tá Fei Lei Lá Tai Má Lou”. O engenheiro Abreu Nunes, embora tenha sido o grande obreiro daquela e de outras avenidas, o seu nome apenas figurou, numa modesta via secundária, paralela àquela nova avenida, denominada Rua de Abreu Nunes, cujo topónimo em chinês é bem elucidativo – Hó Lán Yün Yi Má Lou (ou seja, “Hó Lán Yün”, horta dos
PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS 133 holandeses, e “Yi Má Lou”, a segunda via ou via secundária), mais conhecida apenas por “Yi Má Lou”. (9) Até 1910, o Ministro da Marinha, além de se ocupar de assuntos marítimos, era também responsável pelos assuntos do Ultramar Português e só a partir de 1911 é que se criou o Ministério das Colónias. (10) Projecto do arquitecto espanhol J. M. Casuso, o mesmo arquitecto que planeou o Bairro de S. Lázaro. (11) Quando foi criado, chamava-se Liceu de Macau, cuja denominação foi alterada em Julho de 1924 para Liceu Central de Macau e, posteriormente, a partir de Agosto de 1937, passou a designar-se Liceu Nacional Infante D. Henrique. (12) O edifício foi originalmente construído para servir de Asilo dos Órfãos, criado em 1900, mas por razões económicas, foi extinto em 1918. Em virtude de o Governo de Macau ter comprado em 1923 o edifício do Hotel Boa Vista (posteriormente, alterado para Hotel Bela Vista), o Liceu Central de Macau que estava instalado naquele edifício, teve que se mudar, em 1924, para Tap Siac e instalar-se no antigo edifício do Asilo dos Órfãos. Com a inauguração do novo edifício para o Liceu, em 1958, construído nos aterros da Praia Grande, aquele prédio da Avenida do Conselheiro Ferreira de Almeida passou mais tarde a ser utilizado pela Repartição Provincial dos Serviços de Saúde e Delegacia da Saúde e, depois, Serviços de Saúde de Macau. (13) Anteriormente, era o edifício do Ginásio do Liceu de Macau, inaugurado a 30 de Dezembro de 1934, o qual, para além de práticas desportivas, serviu também para a realização de outras actividades, tais como festas e bailes. Com a mudança do Liceu para os aterros da Praia Grande, o edifício passou depois a servir de Dispensário Anti-Tuberculose e, presentemente, no novo edifício que se construiu naquele terreno e no terreno anexo, funciona o Centro de Saúde do Tap Siac.
MANUEL V. BASÍLIO 134 (14) A Praça do Tap Siac foi concebida pelos arquitectos Carlos Marreiros e José Maneiras e pelo engenheiro civil Chui Sai Peng, aliás, José Chui. Uma nota final de agradecimento a todos aqueles que deram o seu contributo na identificação de pessoas ou famílias que viveram no Bairro Tap Siac, em particular, Telmo Martins, Geraldo Rodrigues, João Gageiro e, ainda, Carlos Lemos, tendo este ajudado a obter a confirmação de nomes de várias pessoas, actualmente residentes fora de Macau.