Manuel V. BasílioDe Patane a LilauPÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS DE MACAUMOSAICOVOLUME LII
PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS 1 Do Patane a Lilau PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS DE MACAU Artigos, fotos e legendas de autoria de Manuel V. Basílio Outubro de 2019
MANUEL V. BASÍLIO 2 TÍTULO Do Patane a Lilau - Pátios, Becos e Travessas de Macau TEXTOS, FOTOS E LEGENDAS Manuel V. Basílio EDITOR Instituto Internacional de Macau GRAFISMO Ângela Canavarro Ramos COLECÇÃO Mosaico VOLUME 52 TIRAGEM 500 exemplares IMPRESSÃO Tipografia APOIO Fundação Macau ISBN 978-99965-59-23-5
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PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS 5 NOTA DE APRESENTAÇÃO Vamos continuar a nossa deambulação, seguindo novamente as pisadas do Manuel Basílio. Este nosso conterrâneo exercera funções docentes em alguns estabelecimentos de ensino de Macau, tendo depois enveredado pela actividade profissional como auditor de contas e recentemente pela pesquisa de assuntos relacionados com esta sua terra natal. Temo-lo visto a consultar publicações portuguesas e chinesas, a recolher informações junto de velhos residentes e, sobretudo, a procurar recordar a vivência dos tempos antigos da sua juventude enquanto deambula pelos recantos desta cidade, cujo momento é aproveitado para fazer registos fotográficos. Desta vez, seguimos por algumas das ruas mais antigas do bairro chinês e do cristão, por acaso as zonas mais emblemáticas da cidade. Seria muito útil e interessante fazer-nos acompanhar deste guia, particularmente para quem a conheceu antigamente e queira fazer a sua comparação com aqueles bairros históricos. E aprender também mais algumas tradições e costumes desta rica terrinha! O tempo mudou muito, fazendo desaparecer marcos, de que nem resta a memória. Para as gerações vindouras ficam agora estes escritos e algumas das fotografias que podem ilustrar o “inexorável progresso” da civilização que afligiu aquela pequena, fotogénica e simpática mas saudosa “Macau” dos tempos idos. Reiteramos ao autor um sincero obrigado pela sua gentileza em ter acedido ao nosso pedido de publicação destes seus interessantes escritos. Macau, Outubro de 2018 Instituto Internacional de Macau
MANUEL V. BASÍLIO 6 ÍNDICE Patane, a Baía do Norte https://cronicasmacaenses.com/2017/07/29/conheca-melhor-patane- onde-camoes-teria-escrito-versos-em-Macau......................................... 7 Rua do Campo https://cronicasmacaenses.com/2018/05/31/a-rua-do-campo-em- macau-origem-do-nome-detalhes-historicos-e-a-actualidade............. 21 Rua Cinco de Outubro https://cronicasmacaenses.com/2017/01/24/a-historia-da-rua-cinco-de- outubro-em-macau-por-m-v-basilio.................................................... 44 Rua do Padre António, em chinês, a Rua do “Prédio Alto” https://cronicasmacaenses.com/2017/05/15/em-macau-a-rua-do-padre- antonio-que-e-chamada-em-chines-de-rua-do-predio-alto-como-manuel-basilio-explica .................................................................................... 53 De Patane a Lilau https://cronicasmacaenses.com/2017/06/26/macau-de-patane-a-lilau- artigo-de-manuel-basilio-conta-com-detalhes-a-historia-e-os-dias- de-hoje .............................................................................................. 68
PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS 7 PATANE, A BAÍA DO NORTE É conhecida pelo nome PATANE “a parte da cidade, de limites vagamente definidos, que circunda o Jardim de Camões pelos lados Oeste, Norte e Leste, estendendo-se na direcção Norte até à Doca de Lam Mau e à Bacia Sul do Patane, na direcção Nordeste e Leste até às zonas de Sân K’iu e de Santo António e na direcção Oeste até ao Porto Interior”, conforme descrição constante do Cadastro das Vias Públicas e Outros Lugares da Cidade de Macau, de 1957. Planta da Península de Macau, de 1889, em que se vê a antiga baía norte já demarcada, mas não totalmente aterrada. A nova Avenida Marginal (que viria a ser a Avenida do Almirante Lacerda) ainda não estava projectada, nem as docas. A baía sul, ou seja, a baía da Praia Grande, mantinha-se, por assim dizer, intacta. É bem notória a zona das hortas.
MANUEL V. BASÍLIO 8 O círculo preto indica o local da “cabeça de pêra” (Sá Lei T’âu), apesar de a configuração estar menos notória, devido a aterros que foram feitos; o círculo amarelo a localização do morro de Patane, actualmente ocupado pelo Jardim de Camões; o círculo azul o local da antiga povoação de Patane; e o círculo vermelho era a foz da ribeira do Patane, estando a zona da margem sul já aterrada. Por que se chama Patane? A respeito da origem do nome Patane, existem opiniões que divergem da nossa. Achamos que o livro Aomen Jilue ( 澳 門 記 略 , em cantonense, “Ou Mun Kei Leok”, isto é, Monografia de Macau), escrito por Yin Guanren e Zhang Rulin, dois funcionários chineses, encarregados dos assuntos de Macau entre 1744 e 1746, na sua versão em chinês, nos dá uma boa sugestão, ao descrever que “Macau tem duas baías – baía sul (南 灣 nam ván) e baía norte (北 灣 pâk ván)”. A baía sul era, portanto, a Baía da Praia Grande e a baía norte era Patane e, por conseguinte, estamos em crer que o nome Patane, dado por portugueses, teria sido uma corruptela de “pâk ván” ( 北 灣 baía norte).
PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS 9 No entanto, entre chineses, há uma zona de Patane que é conhecida por Sá Lei T’âu ( 沙 梨 頭 , sendo “Sá Lei” uma espécie de pêra, cuja designação botânica é “pyrus sylvestris” e “T’âu” quer dizer “cabeça”). Assim, o nome “Sá Lei T’âu” teria derivado do facto de ter existido uma notória saliência naquela zona marginal, não muito distante do morro de Patane, com a configuração de “cabeça de pêra”, a qual há muito que desapareceu, devido a assoreamentos e também a aterros que foram feitos em toda a marginal. Apesar disso, “Sá Lei T’âu” continua a ser a designação usada, em chinês, na actual toponímia, tanto para a referida zona ( 沙 梨 頭 , em cantonense, Sá Lei T’âu), como para a Rua da Ribeira do Patane ( 沙 梨 頭 海 邊 街 , em cantonense, Sá Lei T’âu Hoi Pin Kái), enquanto que “Pâk Ván” (北 灣) foi caindo em desuso, devido ao desaparecimento da baía norte e ao surgimento de uma nova zona urbana, resultante do saneamento das antigas hortas e várzeas. Um miradouro construído sobre penedos dentro do Jardim de Camões, donde se vê grande parte do Patane. Morro de Patane Próximo de uma praia, onde desaguava uma ribeira que veio a ser designada por Ribeira do Patane, ergue-se um
MANUEL V. BASÍLIO 10 morro, com enormes rochas ou penedos onde, segundo a tradição, Camões teria passado os seus tempos ócios a descansar junto de uns penedos, a inspirar-se com tudo que via em redor, a meditar ou a escrever no silêncio os seus versos. Embora haja quem duvide da estadia de Camões em Macau, existem, no entanto, fortes indícios de que ele teria sido um dos primeiros habitantes de Macau, apesar de nunca ter mencionado a sua passagem por Macau, referindo apenas, nos seus escritos, ter estado “nas partes da China”. Estes penedos ficam por detrás do maior Templo do Deus da Terra que existe em Macau, localizado no Patane. Ao cimo desta escadaria é já o Jardim de Camões. Era natural e compreensível que assim tivesse escrito, porquanto, tal como Lampacau 1, Macau era uma das partes da China, um estabelecimento sem confirmação do seu estatuto, nem certeza quanto à continuidade de permanência, apenas conhecido por “Porto da China”, “Porto de Nome de Deus”, “Amacao”, ou outras designações similares, e só passou a ser o único porto português na China, depois de um outro estabelecimento, situado mais a sul, designado por 1 Por volta de 1548, colonos portugueses tinham o seu estabelecimento na ilha de Sanchoão (onde viria falecer S. Francisco Xavier, em 1552) e, a partir de 1553, começaram a fixar-se em Lampacau, que então era uma ilha mais a norte de Sanchoão.
PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS 11 Lampacau, ter sido definitivamente abandonado. É de crer que Camões teria deambulado com frequência naquele morro, tão próximo do local onde colonos portugueses tinham o seu estabelecimento. Se Camões não tivesse estado em Macau, por que razão aquele morro, já nos primórdios do estabelecimento, ficou consagrado por uso como sendo “Penedos de Camões” e, mais tarde, registado com este topónimo no inventário dos bens de raiz da Companhia de Jesus, a primeira ordem religiosa que aqui chegou no ano de 1563? Campo de Patane Patane teria sido o local onde fundearam os primeiros barcos portugueses, porque ali corria uma ribeira de água potável, além de estar bem abrigado de ventos dominantes e fortes na época de tufões. Segundo consta, aquele local não era despovoado e, mesmo antes da vinda de mareantes portugueses, era frequentado sobretudo por um grupo étnico de pescadores chineses, que ali se abrigavam, sempre que necessário, e alguns dos quais teriam criado uma pequena aldeia. Dado que aquele local oferecia muito melhores condições que Lampacau, deste modo, por volta de 1555, mareantes portugueses teriam construído barracas e habitações precárias num campo entre a ribeira e o sopé de um morro, para repousarem e abastecerem-se de água fresca, antes de prosseguirem a viagem. Mas a partir de 1557, após permissão concedida por autoridades chinesas, colonos portugueses começaram a construir as suas casas em sítios onde havia pequenas elevações, nas vertentes de colinas ou em redor de igrejas, seguindo um costume trazido das suas terras. Assim, construíram as suas habitações mais para o centro da península, onde, após alguns anos, surgiram as principais instituições e a igreja matriz. A partir dali o crescimento urbano foi-se expandindo para o sul e para as zonas ribeirinhas, onde se desenvolvia a actividade marítima.
MANUEL V. BASÍLIO 12 Em princípios do século XVII, sobretudo após os primeiros ataques de holandeses, sentiram a necessidade de reforçar a defesa da cidade, construindo então, em pontos estratégicos, muralhas e fortificações, cujas obras acabaram por dividir a península em duas zonas distintas. Patane ficou, deste modo, fora dos muros da cidade, bem como toda a zona desde a Porta do Campo até à Porta do Limite 2. A fixação de colonos portugueses trouxe novas oportunidades para trabalhadores e artífices chineses. Nos primeiros tempos, os que viviam nas redondezas do interior, quando cá vinham, tinham que regressar às suas terras no mesmo dia, depois da venda dos seus produtos ou prestação dos seus serviços, porquanto não lhes era permitido o pernoitamento. Anos mais tarde, conseguiram arranjar maneiras para permanecer na zona de Patane, e ali viver, passando desde então a dedicar-se sobretudo ao cultivo de hortas, devido à abundância de água, à existência de uns pequenos lagos, bem como várzeas, em zonas mais baixas. Assim, a população chinesa que ali se fixou, incluindo a população marítima, foi progressivamente crescendo, passando a viver, quer dentro de embarcações junto às margens, quer em barracas, construídas sobre estacas de madeira, mesmo junto à ribeira e, com este modo de vida, foram inquinando a água da ribeira, tornando-a, no decurso do tempo, imprópria para consumo. A frequente circulação de barcos costeiros ou barcas (渡 船 tou sün), que faziam travessia de uma margem para outra, para transporte de passageiros, também contribuiu para a poluição das águas da ribeira. Entretanto, a população não parou de aumentar, sobretudo na segunda metade do século XIX, com a vinda de muitos chineses, quer à procura de uma vida melhor, quer atraídos pela emigração para outras partes do mundo, sobretudo para a América. A população destes novos emigrantes cresceu 2 Actualmente designada por Porta do Cerco, já sem as funções de posto de controlo, constituindo apenas um dos ex-líbris de Macau
PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS 13 de tal modo que as condições higiénicas se deterioram drasticamente. Com o desenvolvimento da povoação de Sá Kóng ( 沙 崗 , literalmente, outeiro ou morro de areia), as pontes que existiam sobre a ribeira, feitas de madeira, por não oferecerem segurança necessária, devido ao uso e desgaste ou a danos causados por intempéries, houve necessidade de se construir uma nova ponte de pedra, a que os habitantes deram o nome Sân K’iu ( 新 橋 , sendo Sân 新 , nova, e K ’iu 橋 , ponte, ou seja, ponte nova), e cujo nome acabou por designar toda a zona entre Sá Kóng e Patane, com limites vagamente definidos, abrangendo a Rua de João de Araújo e partes das seguintes vias: Rua de Coelho do Amaral, Estrada do Coelho do Amaral, Avenida de Horta e Costa e Avenida do Almirante Lacerda. O Templo de Lin K’âi, na Travessa da Corda, próximo do qual correu a ribeira a que os chineses deram o nome de Lin K’âi (ribeira do Lótus), mas, em português, era designada por Ribeira do Patane. Expansão da cidade para além dos muros A expansão da cidade para além da muralha norte motivou a necessidade de se proceder à abertura de novas vias e alargamento de caminhos existentes, bem como ao
MANUEL V. BASÍLIO 14 saneamento com vista a melhorar as condições existentes. A expansão extramuros foi iniciada durante o governo de Ferreira do Amaral, e continuada depois, com a vinda de oficiais de Engenharia Militar, quer como governadores, quer como Directores de Obras Públicas, designadamente José Rodrigues Coelho do Amaral, governador, e José Maria de Sousa Horta e Costa, Director das Obras Públicas e duas vezes governador, os quais procederam ao saneamento de bairros chineses, das várzeas e à regularização das ruas. Aterro do Canal de Sân K’iu Em 1888, o governo mandou proceder à regularização das margens da ribeira, tendo-a transformado num canal, que passou a ser conhecida por Canal de Sân K’iu. No entanto, os Serviços de Saúde continuavam a alertar o governo, com sucessivos relatórios, sobre a necessidade de saneamento, devido à insalubridade em toda aquela zona, cujas condições constituíam latentes focos de infecção. Depois de se inteirar da situação, o governador Tomás de Sousa Rosa mandou sanear a zona de Sân K’iu e, sobretudo, a de Sá Kóng, cujo trabalho teve continuidade, quando o então director das Obras Públicas, Horta e Costa passou a assumir as funções de governador. As péssimas condições de salubridade originaram a que o Canal de Sân K’iu se transformasse num colector de esgoto a descoberto e a exalar um cheiro fétido, por isso julgou-se conveniente o entulhamento do Canal, que foi feito por fases, e só em 1935 é que ficou totalmente aterrado. Concluído o aterro, a Rua das Pontes3, que ladeava o lado norte do Canal, extinguiu-se, tendo surgido uma nova via – a Rua da Barca ( 渡 船 街 tou sün kái), nome assim dado devido às barcas ( 渡 船 , tou sün), que navegavam na antiga ribeira, e cuja via está 3 Começava na Rua da Alegria, acompanhava o extinto canal de San K’iu, e terminava nas proximidades da junção da actual Travessa de Martinho Montenegro com a Rua da Restauração.
PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS 15 construída, em grande parte, sobre o aterro do Canal. Saneada toda a zona, surgiu o novo bairro de Sân K’iu, que cresceu rapidamente, tendo esse bairro absorvido progressivamente a povoação ribeirinha de Sá Kóng, que já não existe. Tal como a Rua das Pontes, várias outras vias também desapareceram, entre as quais a Rua dos Arrozaes 4, restando ainda, apenas na toponímia, algumas vias relacionadas com a extinta zona rural, designadamente a Rua de Entre-Campos, a Travessa da Ponte e a Travessa do Lago. Aspecto do antigo Canal de Sân K’iu, que depois se transformou num esgoto a descoberto, tendo sido totalmente aterrado em 1935. Rua sem nome Nos anos sessenta do século XIX, devido a assoreamento, cada vez mais acentuado, tiveram que fazer aterros na zona marginal do Patane, na sequência dos que já tinham sido realizados mais a sul. Deu-se então inicio à construção da Rua da Ribeira do Patane, que foi terminar precisamente na margem sul do local em que o Canal de San K’iu desembocava no rio do Oeste5. No século seguinte, dando continuidade à regularização da zona 4 Evidencia, assim, a existência de arrozais. 5 O braço do delta do Rio das Pérolas que corre no Porto Interior.
MANUEL V. BASÍLIO 16 marginal do Patane, foi projectada uma Nova Avenida Marginal, com início a partir da margem norte do Canal de Sân K’iu, e cuja Avenida, após a conclusão, foi dado o nome de Avenida do Almirante Lacerda, em homenagem ao Almirante Hugo de Lacerda, que passou oito anos em Macau, a desempenhar as funções de Director das Obras Públicas e das Obras do Porto de Macau. Devido à construção destas duas vias, em épocas diferentes, permite-nos hoje identificar, exactamente, o local onde desaguava a Ribeira do Patane. No entanto, entre o fim da Rua da Ribeira do Patane, onde anteriormente era margem sul da ribeira, e o início da Avenida do Almirante Lacerda, na margem norte, existe um troço da via, correspondente à foz da extinta ribeira, que ficou sem nome. Por isso, podemos dizer que ainda existe em Macau uma RUA SEM NOME (veja grupo de fotos). Esta placa toponímica com pedestal marca o fim da Rua da Ribeira do Patane que dantes era a margem sul da foz da ribeira.
PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS 17 Vemos na foto duas placas toponímicas com pedestal: a da esquerda, assinala o fim da Rua da Ribeira do Patane e, a da direita, o início da Avenida do Almirante Lacerda. Outra perspectiva sobre a localização das duas placas toponímicas, que marcam o local onde desaguava a ribeira do Patane. Antes do fecho do separador das vias com arbustos, cada uma das placas estava colocada no centro, ou seja, no sítio do separador, por isso no espaço entre o fim e o início das respectivas vias existe um troço da via a que chamamos “RUA SEM NOME”. O fim da Rua da Harmonia, ou seja, o local onde desaguava a Ribeira do Patane.
MANUEL V. BASÍLIO 18 Templo do Deus da Terra do Patane O Templo do Deus da Terra do Patane, construído no sopé do morro actualmente ocupado pelo Jardim de Camões, está situado no cruzamento da Rua do Patane com a Rua da Palmeira. Dentro do Templo há vários santuários. Outro aspecto do Templo do Deus da Terra do Patane, vendo-se ao centro os primeiros penedos. Atrás do Templo, há um acesso para o Jardim de Camões, muito utilizado por moradores daquela zona. Altar do Templo do Deus da Terra do Patane.
PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS 19 Sete prédios antigos recuperados e a Biblioteca do Patane Este conjunto de sete prédios antigos, em estilo “arcada”, um estilo arquitectónico típico dos antigos edifícios costeiros do Porto Interior de Macau, foi requalificado e convertido em instalações da Biblioteca do Patane, cuja inauguração ocorreu em 9 de Dezembro de 2016. Outro aspecto do conjunto de sete prédios recuperados, onde está instalada a Biblioteca do Patane, muito frequentada por moradores da zona. Átrio da Biblioteca do Patane.
MANUEL V. BASÍLIO 20 Uma das salas da Biblioteca do Patane. Entrada para um espaço de lazer, denominado Jardim de Sân K’io, mesmo junto ao Teatro Alegria. Atrás deste “jardim” há um recinto para prática desportiva. O “jardim” e o recinto desportivo ocuparam todo o espaço do Largo da Cordoaria e, portanto, efectivamente, o largo já não existe, restando apenas o topónimo. Este é o espaço designado por Jardim de Sân K’iu, que praticamente é ocupado por um estabelecimento de comidas e bebidas, que se vê do lado direito, geralmente frequentado por pessoas idosas. Ao fundo, é um recinto para prática de desporto, designadamente o basquetebol.
PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS 21 O novo edificio da Federação das Associações dos Operários de Macau, construído no mesmo terreno onde anteriormente existiu o velho edificio do Cine-Teatro Nam Keng. É a partir deste prédio que começa a Rua da Ribeira do Patane. RUA DO CAMPO Durante séculos existiu em Macau um pequeno vale entre os sopés das colinas da Guia e do Monte para o qual confluía a água proveniente das encostas, tendo no decurso do tempo ali criado uma vala por onde, em certas épocas do ano, corria um riacho. Por esse motivo, os chineses deram o nome “sôi háng” para designar aquela vala de água e o local onde terminava a vala ficou conhecido por “sôi háng mei” 水 坑 尾 (“soi 水 , água; “háng” 坑 , vala; e “mei” 尾 , fim ou extremidade).
MANUEL V. BASÍLIO 22 Placa toponímica da Rua do Campo, em cantonense, Sôi Háng Mei Kái. Este nome em chinês acabou por ficar incorporado na toponímia de Macau, quando se formou uma nova via que se estendeu, aproximadamente, até onde terminava a Rua do Hospital 6 convergindo neste ponto à existente via que ia até à Porta do Campo. Esta Porta, aberta na chamada muralha norte que descia da Fortaleza do Monte, demarcava o limite da cidade, e a partir dali a muralha continuava subindo quase junto da actual Rua da Colina até ao Fortim (ou Forte) de S. João e, a seguir, até ao Forte de S. Jerónimo 7. Naqueles tempos, todo o espaço territorial para além da muralha era designado por campo, por se situar fora da cidade, onde viviam agricultores chineses que cultivavam as suas hortas e faziam criações de aves e animais domésticos. Por isso, a via pública que terminava na Porta do Campo era, e continua a ser, a Rua do Campo, enquanto que, em chinês, se generalizou o nome “Sôi Háng Mei” (literalmente, “fim ou extremidade da vala de água”) para 6 A Rua do Hospital foi alterada para a actual denominação Rua de Pedro Nolasco da Silva, em 1942. 7 Já não existe, visto que a colina, onde o Forte de S. Jerónimo estava erigido, foi aplanada, estando ali construído o bloco de consultas externas do Hospital Central Conde actualmente S. Januário. O Fortim ou Forte de S. João também já não existe, o qual ficava próximo da actual Travessa de S. João, uma das transversais da Rua da Colina, no bairro da Mitra.
PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS 23 designar toda aquela zona, tendo-lhe então acrescentado o carácter chinês “Kái”, ou seja, “rua”, de forma que a via passou a ser designada por “Sôi Háng Mei Kái“. A Porta do Campo, aberta na muralha norte da cidade, vendo-se, parcialmente, através da porta, a torre sineira da igreja de S. Lázaro, que então ficava fora da cidade (Desenho de George Chinnery) S. Lázaro, originalmente designada por ermida de Nossa Senhora da Esperança, junto à qual o primeiro Bispo de Macau, D. Melchior Carneiro, fundou um hospício para leprosos e, por isso, ficava fora da muralha da cidade (Desenho de George Chinnery, em 1832). Presentemente, a Rua do Campo começa na Avenida da Praia Grande, mesmo junto do Centro Católico, e termina na Avenida do Conselheiro Ferreira de Almeida, entre a
MANUEL V. BASÍLIO 24 Rua de Ferreira do Amaral e a Calçada do Poço 8. A Rua do Campo, que constitui um dos principais eixos viários da cidade, originalmente não tinha a actual extensão. Próximo do local onde começa a referida rua existiu em tempos idos um campo conhecido por Campo de S. Francisco e foi este Campo que deu origem ao topónimo Rua do Campo, cuja artéria se estendeu depois até à Porta do Campo. Início da Rua do Campo, na junção com a Avenida da Praia Grande, mesmo junto ao Centro Católico. O primeiro edifício do lado direito é o Edifício Ribeiro, que presentemente ficou integrado na Rua do Campo, agora com o número 7. De acordo com publicações em língua chinesa, o troço que ia das proximidades da Rua da Formosa até à Rua do Hospital era outrora conhecido por “Tai Chêng T’âu” 大井頭 (Tai 大 , grande; Chêng 井, poço; e, T’âu 頭 , princípio ou começo), por ter existido um grande poço público 9 próximo do início da via. Era um poço de água fresca e potável que, tal como sucedeu com muitos outros poços públicos, foi fechado, sem deixar vestígios quanto à sua exacta localização, quando a partir de 1938 8 A Rua do Campo outrora começava junto das Ruas da Santa Clara e Formosa, como consta em anteriores Cadastros de Vias Públicas. Nota-se que o antigo prédio da Associação de Educação de Macau, antes de ser demolido, situava-se na Rua de Santa Clara, números 1 a 3. Presentemente, o edificio ali reconstruído, designado “China Construction Commercial Building”, faz parte da Rua do Campo, cuja entrada principal é o número 78. 9 O Cadastro de Vias Públicas de 1957 faz menção de 1 poço público e 29 poços particulares, na Rua do Campo.
PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS 25 a Sociedade de Abastecimento de Águas de Macau tomou conta de todos os poços públicos. No entanto, procuramos saber junto de velhos residentes acerca daquele poço e um deles, de apelido Ló, já com os seus invejáveis noventa anos de idade, mas ainda com memória bem lúcida, prestou-nos um importante esclarecimento, tendo-nos dito que se situava aproximadamente defronte do actual edifício da Associação de Construtores Civis e Empresas de Fomento Predial de Macau10,onde havia um pequeno espaço ajardinado que separava as faixas da via. Com o desaparecimento daquele poço público, a designação “Tai Chêng T’âu” foi caindo em desuso e agora a nova geração já nem sabe que aquele local assim se chamava. O troço outrora designado por “Tai Chêng T’âu” chegou a ser uma zona nobre da cidade, com mansões do estilo arquitectónico ocidental e oriental, alguns dos quais ainda tivemos a oportunidade de os ver, antes de serem demolidos para dar lugar à reconstrução dos actuais prédios, ditos modernos. Tanto de um lado como do outro da rua, as mansões que existiam eram essencialmente habitadas por chineses que fizeram as suas fortunas nas principais indústrias da época, desde o jogo até ao lícito comércio do ópio. De todas essas mansões, a única que ainda resta é a que serviu de residência do magnata Kou Ho Neng11, e que se encontra bem preservada exteriormente. Outras mansões que, segundo consta, pertenceram a Siu Ieng Chau, Leong Hau In, Fók Chi Teng ou seu filho Fók Pou Chói, foram todas já demolidas, incluindo uma, do estilo arquitectónico tipicamente chinês, que existiu no mesmo 10 É um edifício para fins comerciais e residenciais, situado junto do início da Travessa dos Anjos, no qual a Associação dos Macaenses tem a sua sede. 11 Kou Ho Neng era o magnata que, em 1937, se associou a Fu Tak Iam, também conhecido por Fu Lou Iong, os quais constituíram a Companhia Tai Heng, que ganhou naquele ano o concurso de concessão exclusiva dos jogos de fortuna e azar em Macau, tendo o Hotel Central sido escolhido, como estabelecimento principal, para as suas actividades.
MANUEL V. BASÍLIO 26 local do actual edifício Pák Hap 百合大廈 12, com um pátio interior, que se podia ver através de um portal, adornado de granito, quando deixavam aberta a porta da entrada principal. Consta que, antes do fim do século XIX, foi naquele edifício que se fundou e editou um dos primeiros jornais chineses em Macau – o jornal 知新報 “The Reformer China” (em cantonense: Chi San Pou), cujo objecto estava em linha com os princípios reformistas do periódico 鏡海叢報 (em cantonense: Kéng Hói Chông Pou), criado por Sun Yat-sen, cerca de quatro anos antes, em Julho de 1893. Mesmo ao lado daquele prédio de arquitectura chinesa, funcionou durante muitos anos, num edifício de dois pisos, uma clínica da Associação Geral dos Operários 13 ; mais adiante, havia um prédio onde estava sediada a empresa Yau Vo & Cia. Construtores Civis e Empreiteiro (又和健築公司), do construtor civil Chui Tak Kei 14, uma destacada figura da comunidade chinesa, que nos anos noventa fez o reaproveitamento do terreno resultante da demolição da sede e armazéns da dita empresa Yau Vo, bem como dos prédios adjacentes, incluindo o Pátio do Comprador, que tinha a entrada por um portal, para a construção de um novo edifício, que acabou por ser adquirido pelo governo, por intermédio dos CTT (Direcção dos Serviços de Correios e Telecomunicações), e cujo edifício é agora designado por Edifício Administração Pública; e, por fim, entre o extinto Cinema Império e o Pátio do Comprador, existia um prédio com jardim 15, onde funcionou a Escola para Filhos e Irmãos da Associação Geral das Mulheres (婦聯 12 Prédio onde se encontra a Padaria Maxim, ali estabelecida desde 1974, sendo esta a mais antiga loja, ainda em funcionamento, naquele troço da via. 13 No terreno resultante da demolição do antigo prédio, foi construído um edifício para fins comerciais e habitacionais, estando ali sediada a Federação das Associações dos Operários de Macau. 14 Falecido em 24 de Outubro de 2007, era tio de Chui Sai On, o segundo Chefe do Executivo da RAEM. Chui Tak Kei desempenhou importantes cargos na vida política, empresarial e social de Macau, designadamente como presidente da Associação de Beneficência Tung Sin Tong, vice-presidente da influente Associação Comercial de Macau e vice-presidente da Assembleia Legislativa de Macau. 15 Presentemente é o Edifício Associação das Mulheres de Macau.
PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS 27 子弟學校), e cujo prédio, originalmente, pertenceu ao já referido comerciante Leong Hau In, uma proeminente figura no seio da comunidade chinesa de então. Passando para o lado oposto da rua, mesmo junto à esquina onde começa a Travessa dos Anjos, havia uma mansão 16 que pertenceu a um abastado negociante chinês e que, no período da Segunda Guerra Sino-Japonesa (1937-1945), serviu para as instalações de uma escola primária, denominada Wang Hón ( 宏漢學校 ). A seguir, separado por dois prédios, sendo um de dois pisos e outro de três pisos 17, havia uma outra mansão, que por essa altura também serviu para uma escola do ensino secundário, denominada Chi Iong ( 知用中學 ) 18. Foi durante o referido período de guerra que aquelas duas escolas, bem como várias outras escolas chinesas, se transferiram de Cantão para Macau 19, continuando aqui a desenvolver as suas actividades de ensino. No mesmo lado da rua, de numeração policial ímpar, está implantada a referida mansão de Kou Ho Neng, junto à esquina da Travessa do Pe. Soares 20, e a seguir a um prédio de dois pisos ergue-se o Edifício Banco Delta Ásia, ali construído, após a demolição do antigo edifício da Repartição Provincial das Obras Públicas, Portos e 16 No sítio do actual edifício da Associação de Construtores Civis e Empresas de Fomento Predial de Macau. 17 O prédio de dois pisos, depois de demolido, ficou integrado no terreno anexo, onde se construiu o actual edifício da Associação de Construtores Civis e Empresas de Fomento Predial de Macau; e o prédio de 3 pisos, depois de demolido, foi ali construído o actual Edifício Mei Mei. 18 No sítio deste prédio e dos prédios adjacentes até ao início da Travessa do Pe. Soares, depois de demolidos, construiu-se em toda a extensão um novo prédio, denominado Edifício Ngan Fai, concluído em 1983. Foi neste edificio que se inaugurou em 26-04-1987 o primeiro estabelecimento da cadeia de “fast-food” McDonald, em Macau. 19 ) Incluem, designadamente, as escolas secundárias Leng Nam (嶺南中學), Pui Cheng (培正中學), Chong Tak (中德中學), bem como outras, que entretanto foram encerrando, tais como Hip Vo (協和女子中學), Châp Son (執信中學), Yuet Sán (越山中學), Pui Ieng (倍英中學), etc. 20 Atrás da mansão do magnata Kou Ho Neng situa-se o Pátio do Rochedo que, em chinês, é designado por 竹 園 圍 (em cantonense: Chôk Ün Vâi) e a via transversal – a Travessa do Pe. Soares, também é conhecida por 竹 園 圍 斜 巷 (em cantonense: Chôk Ün Vâi Ché Hong), o que indica ter ali existido uma plantação de bambús, visto que 竹 園 (Chôk Ün) significa jardim de bambú.
MANUEL V. BASÍLIO 28 Transportes 21. Este edifício serviu para várias finalidades antes de ser Repartição e, segundo consta, era nesse mesmo local que o abastado macaense Francisco Paulo Noronha 22 tinha a sua residência, o qual era também proprietário de terrenos na Horta da Mitra que foram expropriados pelo governo, em 1871, tendo, por isso, reclamado por uma indemnização. Conforme os anteriores Cadastros das Vias Públicas e de Outros Lugares da Cidade de Macau, podemos constatar que a numeração policial ímpar dos prédios ia de 1 até 69 (actualmente, até 351), enquanto que a numeração policial par ia do número 2 até 54 (presentemente, até 358). Com a introdução da actual numeração métrica, demolições de prédios antigos e respectivos reaproveitamentos, só é possível fazer as respectivas correspondências numéricas mediante consulta a registos cadastrais. Por exemplo, a numeração policial da mansão de Kou Ho Neng era 29 e, com a referida alteração, passou a ser 165. Rua do Campo, vendo-se do lado esquerdo a mansão de Kou Ho Neng, pintada de amarelo. Do lado direito, vê-se parcialmente, em primeiro plano, o Edifício Administração Pública 21 Passando mais tarde a ser designada por outros nomes, designadamente Repartição de Transportes e Obras Públicas. Actualmente, é designada por Direcção dos Serviços de Solos, Obras Públicas e Transportes. 22 Existe uma via que lhe é dedicada – a Rua do Noronha, que começa ao fundo da Rua Henrique de Macedo e termina na Rua Nova à Guia.
PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS 29 Durante muitos anos, mesmo nos anos 60-70 do século passado, o troço que ia desde o início da Rua Campo até ao edifício das Obras Públicas, não era uma zona comercial. Praticamente, as lojas estavam concentradas no troço que ia desde o antigo Cinema Império até ao início da Avenida Conselheiro Ferreira de Almeida, onde entronca com a Rua Ferreira do Amaral e a Calçada do Poço. Nas referidas décadas do passado, existiam do lado de numeração ímpar, a partir do fim da Rua de Pedro Nolasco da Silva, os seguintes estabelecimentos: Foto Salon 沙龍攝影 Alfaiataria Kam Kei 錦基洋服 Consultório do Médico Lok Keng Fai 陸鏡輝醫生 Entre a Travessa do Pato e a Travessa dos Santos Relojoaria Soi Si 瑞士錶行 Sapataria Lok Tou 樂都鞋店 Sapataria João 康華鞋店 Foto Maxim 美心攝影 Mercearia Cheong Heng (2 lojas) 昌興辦館(2間店舖) Artigos Eléctricos Un Kong Hong 源光行電器 Padaria Chung Kwok (2 lojas) 中國麫飽(2間店舖) Da Travessa dos Santos até Calçada do Poço Alfaiataria Kong Lo 廣羅洋服 Residência particular de família portuguesa 葡人住宅 Padaria Militar (2 lojas) 俄國麫飽(2間店舖) Do lado de numeração par, a partir do Cinema Império até à Rua de Tomás da Rosa, existiam os seguintes estabelecimentos: Loja de Sorvetes Pak Kong 白宮雪糕 Artigos Eléctricos Kam Heng 錦興電器 Farmácia Chinesa Pak Leng Tong 百齡堂中藥 Artigos Eléctricos Nam Fong 南方電器 Restaurante A Vencedora 坤記餐廳 Entre a Rua de Tomás da Rosa e a Rua da Colina Tipografia Progresso 布利素印刷 Leitaria Nam Mei 南美牛奶店
MANUEL V. BASÍLIO 30 Mercearia Man Lei 萬利士多 Artigos Eléctricos Nang Kong 能光電器 Carne Assada Cheong Chán 祥棧燒味店 Sopa de Fitas Vai I 唯二麫家 Padaria Ka Lan 嘉蘭麫飽 Alfaiataria Son Heng 順興洋服 Mercearia Vo Heng 和興辦館 Barbearia Iat Lok Ia 一樂也 理髮 Carpintaria Leong Lam 梁林建築 Padaria Vo Long 和隆麫飽 Mercearia On On 安安士多 Entre a Rua da Colina e a Rua de Ferreira do Amaral Relojoaria Tai Meng 大名錶行 Relojoaria Veng Cau 永久錶行 Dos estabelecimentos acima referidos, quase todos já cessaram as suas actividades, porquanto, além do centenário restaurante A Vencedora, estabelecido em 1918, pela família Lam, ainda restam a loja de artigos eléctricos Un Kong Hong, Foto Maxim, as relojoarias Tai Meng e Veng Cau. Os prédios antigos, onde funcionavam as lojas acima referidas, praticamente todos foram já demolidos, alguns dos quais, depois de reconstruídos, adoptaram o nome do estabelecimento como designação do novo prédio, tais como o edifício Vai I (唯 二 樓), onde estava a referida loja de sopa de fitas, e o edifício Cheong Chan (祥 棧 樓 ), um estabelecimento de carne assada. A loja de Sopa de Fitas Vai I era muito frequentada por apreciadores de “chau min”, pois era de facto um “chau min” sem igual, que muita gente ainda recorda com saudades. Depois de um bom “chau min”, era quase inevitável passar pela Mercearia On On, para uma bebida bem fresquinha, por vezes acompanhada da deliciosa bebinca de côco ou de chocolate, ou então de outras guloseimas. Para os residentes portugueses, sobretudo polícias e militares, a loja que preferentemente frequentavam era a Mercearia Cheong Heng (昌 興 辦 館), que vendia um pouco de tudo, sobretudo produtos portugueses, mas na realidade
PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS 31 funcionava como uma autêntica tasca, onde passavam horas a tomar bebidas alcoólicas, a petiscar, sempre em animada cavaqueira e por vezes até em grande bebedeira. Para uma boa e económica refeição à portuguesa, o restaurante A Vencedora, mais conhecido por Kuan Kei 23, era a primeira opção. O Cinema Império (inicialmente designado por Broadway) movimentava muitos apreciadores de filmes ocidentais, e até crianças, pois havia, aos fins de semana, uma sessão de desenhos animados (os “cartoons“ como lhes chamavam), que lhes era especialmente dedicada. Era, sem dúvida, em toda a extensão da rua, a zona mais comercial, com uma diversidade de negócios, não se limitando a produtos alimentares, pois havia uma tipografia – a Tipografia Progresso, pertencente a uma família portuguesa 24, e até uma carpintaria 25, que na própria loja fazia caixão de modelo ocidental, à medida do defunto! Agradecimento: Uma nota final de agradecimento ao amigo João Baptista Manuel Leão pela sua contribuição e esclarecimentos prestados relativamente às denominações das lojas existentes nos anos 60-70 do século passado, na Rua do Campo, onde durante muitos anos ele foi residente e onde o seu pai era dono de um estabelecimento. 23 O restaurante A Vencedora, mais conhecido pelo nome Kuan Kei ( 坤記 ), em cantonense, situava-se num prédio mesmo no canto junto à Rua de Tomás da Rosa, e quando aquele antigo prédio ia ser demolido, mudou-se então para um prédio vizinho e, a partir de Junho de 1992, instalou-se no actual prédio. 24 A Tipografia Progresso pertencia a Jaime da Silva Pinho, cujo nome completo o amigo Carlos Lemos nos ajudou a confirmar, pelo que agradecemos. Era um estabelecimento que executava diversos trabalhos tipográficos e também vendia material escolar para escolas portuguesas. Muitos devem lembrar-se dos cadernos escolares da Escola Primária Oficial “Pedro Nolasco da Silva” (usualmente designada por Escola Central), que a Tipografia fazia, com uma estampa do Monumento ao Coronel Mesquita na capa e a patriótica frase da época AQUI É PORTUGAL. 25 Carpintaria Leong Lam, em chinês, 梁林建築 (Leong Lam Kin Chôk, ou seja, Leong Lam Construções), situava-se no prédio número 46 (anterior numeração policial).
MANUEL V. BASÍLIO 32 Outro aspecto da Rua do Campo, com a mansão de Kou Ho Neng no lado esquerdo, a única que resta, porquanto as outras foram todas demolidas. Entrada principal da mansão de Kou Ho Neng, vendo-se no gradeamento da porta uma pequena placa com a letra P e o símbolo 井. Era assim que identificavam as casas com poço particular, representado pela letra P, e o símbolo 井 representa o caracter chinês “chéng”, que significa poço.
PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS 33 Do lado esquerdo, é a Rua do Campo e, do lado direito, a Rua de Pedro Nolasco da Silva (anteriormente, Rua do Hospital). O edifício ao centro é o Banco Delta Ásia, construído no terreno resultante da demolição do antigo edifício das Obras Públicas. Igreja S. Marcos e Escola Secundária Chói Kou (em inglês: Sheng Kung Hui Choi Kou School Macau), da Associação Anglicana, cujo edifício está localizado na junção entre o fim da Rua de Pedro Nolasco da Silva e a Rua do Campo.
MANUEL V. BASÍLIO 34 Maxim Photo Supplies, uma loja muito conceituada, que vende equipamento e acessórios fotográficos. Un Kong Hong, uma das antigas lojas de venda de artigos eléctricos, que ainda resiste ao encerramento.
PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS 35 Lojas de artigos de desporto, mesmo junto à Travessa dos Santos. Do lado direito, podemos ver duas pessoas a subirem pela Calçada do Poço. Era junto a esses degraus da Calçada que descia a muralha norte da Fortaleza do Monte até à Porta do Campo, que se situava entre a actual loja “bauhaus” e a relojoaria Tai Meng, no lado oposto da rua.
MANUEL V. BASÍLIO 36 O primeiro edifício do lado direito é designado “China Construction Commercial Building”, o qual ocupa o terreno resultante da demolição do antigo edificio do a Associação de Educação de Macau (澳門中華教育會) e o terreno anexo. O edifício seguinte, agora designado por “Pák Hâp”, construído em 1974, após a demolição do anterior prédio de arquitectura tipicamente chinesa, era onde o periódico The Reformer China, editado em língua chinesa, tinha a sua sede, em finais do século XIX. Padaria Maxim’s, estabelecida em 1974, actualmente com a numeração policial 112, do edifício Pák Hâp r/c. O edifício anteriormente existente, demolido em princípios dos anos 70 do século passado, para a nova construção, tinha o número 4.
PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS 37 Entrada do edifício denominado Centro Comercial Broadway construído no terreno resultante da demolição do antigo cinema Império. Actualmente, funcionam nesse edifício vários estabelecimentos, designadamente o Centro Comercial Chi Fu, o Supermercado Vang Kei e a Livraria Wan Tat. O centenário estabelecimento de comidas ou restaurante A Vencedora, mais conhecido por Kuan Kei, na actual localização, desde 1992.
MANUEL V. BASÍLIO 38 Um estabelecimento de comidas, recentemente aberto. No antigo prédio, antes de ser demolido, era onde estava originalmente estabelecido o restaurante A Vencedora, mais conhecido por Kuan Kei. Mesmo ao lado está um terreno resultante da demolição de um antigo prédio. Do lado direito, era uma antiga mercearia, denominada Mán Lei Hóng, que já cessou há muito a sua actividade, mas ainda não foi retirado o dístico comercial. A loja do centro está devoluta, com um anúncio para arrendamento ou venda. Mesmo ao lado de Mán Lei Hóng, era um prédio de 3 pisos, já demolido, onde estavam a Tipografia Progresso e a Leitaria Nam Mei, no r/c (rés-do-chão/térreo). Do lado direito, é um prédio reconstruído, cujo nome actual é edifício Vai I, ou seja, o local onde estava a famosa loja de Sopa de Fitas Vai I.
PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS 39 Neste mesmo local, onde agora está uma das dependências do Banco da China (Bank of China), existiu um prédio antigo, em que estava estabelecida a Mercearia On On. Duas relojoarias antigas, no termo da Rua do Campo. Do lado esquerdo, onde se vê um autocarro a circular, é a Rua de Ferreira do Amaral e, do lado direito, é a Rua da Colina. Conforme mostra uma fotografia antiga dos anos oitenta do século XIX, a muralha norte da cidade passava, aproximadamente, no sítio onde agora está a Relojoaria Tai Meng (a do lado direito), subindo então junto da Rua da Colina até ao Forte (ou Fortim) de S. João, continuando dali até ao Forte de S. Jerónimo. A Porta do Campo deveria situar-se em frente da referida Relojoaria Tai Meng.
MANUEL V. BASÍLIO 40 Rua do Campo nos anos 70. O primeiro prédio do lado esquerdo era a antiga sede da Associação dos Construtores Civis e no mesmo terreno resultante da demolição (juntamente com o do prédio adjunto) foi construído o actual prédio, denominado Edifício da Associação de Construtores Civis e Empresas de Fomento Predial de Macau. Aspecto da Rua do Campo, ca. 1900. O prédio do lado direito era o local onde, anos mais tarde, a Repartição das Obras Públicas e Transportes esteve sediada. No mesmo local, após a demolição do anterior prédio, foi construído o edifício Banco Delta Ásia. O primeiro prédio ao fundo, do lado esquerdo e fora do alinhamento de outros prédios, é onde está presentemente o Edifício Administração Pública.
PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS 41 Edifício das Obras Públicas, na junção entre a actual Rua de Pedro Nolasco da Silva e a Rua do Campo. Outro aspecto da Rua do Campo, na junção entre a actual Rua de Pedro Nolasco da Silva e Rua do Campo. Nesta foto, pode-se ver o prédio do cinema Império.
MANUEL V. BASÍLIO 42 Vê-se na foto a Mercearia Cheong Heng (localizado no prédio com varanda no piso superior, com uma pessoa sentada à porta), um estabelecimento muito frequentado por portugueses, bem como a Sapataria João, mesmo junto do automóvel preto ali estacionado. O troço mais comercial e movimentado da Rua do Campo, nos anos 60-70 do século passado. Do lado direito, vê-se um prédio de 3 pisos, já demolido, em que no rés-do-chão estava estabelecida a Tipografia Progresso e, mesmo ao lado, a Leitaria Nam Mei. No quarteirão anterior, mesmo junto da Rua de Tomás de Rosa, ainda se pode ver o Restaurante Kuan Kei, ou seja, A Vencedora, com o dístico comercial representado por 4 caracteres chineses, pintados de preto.
PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS 43 Outro aspecto da Rua do Campo, em que se vê o edifício do cinema Império antes de ser demolido. O portão de ferro do lado direito era a entrada da Escola para Filhos e Irmãos da Associação das Mulheres de Macau. Prédio em que funcionou a Clínica da Associação Geral dos Operários (foto aquando da inauguração da Clínica). (As fotografias antigas foram baixadas da internet, designadamente do grupo Macau Old Photos ou Antigas Fotos de Macau)
MANUEL V. BASÍLIO 44 RUA DE CINCO DE OUTUBRO e o topónimo originalmente dado por chineses Os três caracteres chineses que estão escritos entre parênteses na placa toponímica lêem-se “si máng kai”, isto é, Rua do Simão. A Rua de Cinco de Outubro, que começa na Rua da Ribeira do Patane, junto da Rua Norte e termina na Travessa de Cinco de Outubro, entre a Travessa da Caldeira e a Rua das Lorchas, foi outrora uma via muito movimentada, devido à diversidade de actividades que aí floresciam, porquanto era uma artéria principal que comunicava com o Bazar Chinês, antes da abertura da Avenida de Almeida Ribeiro. Anteriormente era denominada Rua Nova de El-Rei, tendo sido alterada para a actual denominação, após a implementação da República Portuguesa. No entanto, a denominação original em chinês não era “Wong Ká San Kai” (皇家新街), isto é, Rua Nova de El-Rei, nem “Sâp Yuet Chó Ng Yât Kai” (十月初五日街), ou Rua de Cinco de Outubro, mas sim Si Máng Kai (泗街). Embora a expressão ou combinação dos caracteres sínicos 泗 (si máng) não exprima qualquer significado, foneticamente, é a transliteração do nome “Simão”.
PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS 45 Cruzamento entre a Rua de Cinco de Outubro e a Rua das Estalagens. No livro Toponímia de Macau (Vol. II), do Mons. M. Teixeira, há uma referência a um Botelho, “que deu o seu nome ao Largo, depois ao Cais e subsequentemente à Calçada do Botelho”. Diz o autor do livro que “não o pudemos identificar, mas cremos que se trata de um ascendente de Simão Joaquim Botelho”. A menos que esse ascendente também se chamava Simão, caso contrário tudo leva a crer que teria sido o referido Simão Joaquim Botelho quem deu o nome a “Si Máng” (Simão) “Kai” (Rua), bem como a “Si Máng” (Simão) “Má T’âu” (Cais). Efectivamente, há uma via, que começa na Rua do Guimarães e termina na Rua dos Faitiões (atravessando a actual Rua de Cinco de Outubro), denominada Rua do Infante, literalmente, em chinês, “Wong Chi Kai” (皇子街), mas também é conhecida por “Si Máng Ma T’âu”(泗碼頭), e estes 4 caracteres chineses ainda figuram na placa toponímica. A Rua do Infante fica muito próxima da Rua do Tarrafeiro, que termina na Calçada do Botelho e o Cais deveria situar-se nas imediações do extinto Largo do Botelho, onde em 1727 o embaixador Alexandre Metello de Sousa e Meneses desembarcou, após o regresso de uma viagem à China. Por conseguinte, na época em que existia o Cais do Botelho (ou, em chinês, Cais do Simão), a água do rio chegava até ao sopé do morro, então conhecido por
MANUEL V. BASÍLIO 46 Penedos de Camões, continuando ao longo da actual Rua dos Faitiões, Rua da Tercena e Rua de Nossa Senhora do Amparo, formando então a Praia Pequena. O Cais do Simão e outros cais que existiam na Praia Pequena extinguiram-se devido ao gradual assoreamento da zona ribeirinha e a subsequentes aterros. Foi em 1873 que se iniciou a execução da primeira fase do alargamento do aterro marginal do Porto Interior, por ordem do Governador Januário de Almeida, Visconde de S. Januário. O reboliço que outrora se vivia na Rua de Cinco de Outubro (adiante, abreviadamente, “a Rua”), praticamente já deixou de existir, sobretudo a partir do momento em que deixaram de aportar navios a vapor no Porto Interior, passando os novos barcos de carreiras entre Macau e Hong Kong a atracar no terminal marítimo do Porto Exterior e, também, quando a cidade começou a expandir-se para os lados do NAPE (novos aterros do Porto Exterior) cujo desenvolvimento foi impulsionado na sequência da construção do Hotel-Casino Lisboa. Essa viragem motivou o gradual encerramento de muitas actividades tradicionais, quer de comércio, quer de serviços, que exerciam naquela Rua e imediações, porquanto até então todo o movimento de barcos e passageiros, bem como de cargas, se concentrava naquela zona do Porto Interior, tanto de dia como de noite, de modo que as casas de pasto, lojas ou casas de chá, designadamente Lok Kók, Kun Nam e Tak Loi funcionavam quase ininterruptamente. Estas três casas de chá já cessaram há muitos anos as suas actividades, mas o estabelecimento onde estava o Tak Loi reabriu mais tarde, sob o novo dístico comercial “Tai Long Fong”. Casas de câmbio, casas de penhor, ouriversarias, tabacarias, farmácias chinesas, lojas de venda de chá, peixe salgado e mariscos secos, mercearias, lojas de fazendas, quinquilharias e tudo o mais se vendia ao longo da Rua. Hotéis, hospedarias e pensões abundavam na Rua e nas vias adjacentes. Próximo do início da Rua, havia um mercado público, o “Kông Yek Kai Si” (公益
PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS 47 街市), já demolido, restando presentemente apenas um dos pórticos. A Rua atravessa o Largo do Pagode do Bazar, com o templo chinês “Hóng Kông Miu” a confrontar o espaçoso Largo, onde vendilhões montavam tendas para as suas actividades. Nos prédios junto ao Largo funcionavam pensões ou hospedarias, e também “fantáns” ou casas de jogo. Duas lojas de venda de chá: Wa Luen, à esquerda, e Ieng Kei, à direita. Embora os caracteres 泗街 (Si Máng Kai, isto é, Rua do Simão) ainda figurem (entre parênteses) na placa toponímica, por baixo dos caracteres 十月初五日街 (Sâp Yuet Chó Ng Yât Kai, literalmente, Rua Cinco de Outubro), a juventude de hoje e forasteiros só conhecem esta via por “Sâp Yuet Chó Ng Kai” ou Rua de Cinco de Outubro. Tendo vivido e passado a minha juventude nas imediações da igreja de Sto. António, transitando com frequência toda a zona envolvente da Rua de Cinco de Outubro, guardo ainda a grata recordação de ter ouvido da boca de velhos residentes pronunciar “Si Máng Kai”. Naturalmente, no decurso de tantos anos, este topónimo em chinês foi caindo em desuso, passando então a fazer parte da história.
MANUEL V. BASÍLIO 48 Interior da Loja de Chá Ieng Kei. Embora com alguns móveis antigos, as prateleiras já foram remodeladas. Hoje em dia, ainda podemos encontrar em toda a extensão da Rua de Cinco de Outubro algumas lojas tradicionais, do tipo familiar, geridas por descendentes de várias gerações ou por antigos empregados, que tentam reavivar o negócio, mantendo o tradicional ou mudando de ramo de actividade, renovando ou dando uma nova imagem aos seus estabelecimentos. Dado que a Rua se situa numa zona antiga da cidade, muitos dos prédios que conheci já foram demolidos e reconstruídos, e os que ainda existem, ou estão em abandono ou em muito mau estado de conservação. Apesar de os topónimos em português e em chinês nem sempre serem coincidentes, constituindo as divergências uma das especificidades de Macau, são no entanto muito ricos em termos de história e de curiosidades, que merecem ser exploradas.
PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS 49 Ainda há vendedores ambulantes ao longo da Rua de Cinco de Outubro
MANUEL V. BASÍLIO 50 Algumas lojas tradicionais. A primeira, à direita, é uma loja que vende massa de fitas, a seguir, de mariscos secos e outras iguarias e, a terceira, de carnes assadas. O pórtico que resta do antigo mercado público “Kông Yêk” (公益街市) , em português, Mercado do Tarrafeiro.
PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS 51 O tempo chinês Hóng Kông Miu, no Largo do Pagode do Bazar. Placa toponímica do Largo do Pagode do Bazar. Largo do Pagode do Bazar, atravessado pela Rua de Cinco de Outubro.
MANUEL V. BASÍLIO 52 Actual fachada da Casa de Chá Tai Long Fong. Hotel East Asia, anteriormente designado por Hotel Oriental, sito na Rua Cinco de Outubro
PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS 53 RUA DO PADRE ANTÓNIO, EM CHINÊS, A RUA DO “PRÉDIO ALTO” Placa toponímica que não foi substituída após a transição, pois era este modelo adoptado anteriormente, durante a administração portuguesa. De notar que os caracteres sínicos 高樓街 se apresentam na forma clássica, isto é, de cima para baixo. A Rua do Padre António foi, durante séculos, um importante troço que integrava o eixo centro-sul de vias públicas de Macau, que, partindo do Largo do Senado, passando pela Rua do Gonçalo (extinta com a abertura da Avenida de Almeida Ribeiro, restando actualmente apenas o Beco do Gonçalo), terminava junto ao Templo da Barra. Antes da expansão territorial em direcção a norte da península, a cidade propriamente dita era demarcada pelas muralhas que desciam da Fortaleza do Monte, com acesso pela Porta do Campo ou pela Porta de Sto. António; do lado oeste, as águas do rio banhavam a Praia do Manduco e zonas ribeirinhas até à Praia Pequena, continuando dali para o norte; e, do lado leste, o acesso pela Praia Grande terminava no Chunambeiro. Só a partir do terceiro quartel do século XIX, devido a constantes assoreamentos, foram feitos os primeiros aterros, dando então origem à abertura de novas vias públicas. A avenida marginal, desde o Forte do Bom Parto até ao Forte de S. Tiago da Barra só se concretizou com a
MANUEL V. BASÍLIO 54 conclusão da Avenida da República, inaugurada em 1910. Por conseguinte, desde a Rua Central (a artéria central da cidade, antes da abertura da Avenida de Almeida Ribeiro), passando pela Rua de S. Lourenço, Rua do Padre António e Rua da Barra (que começa junto ao Largo do Lilau), todas essas vias eram vias nobres, ao longo das quais, bem como nas vias transversais, viveram muitas famílias, incluindo as mais proeminentes, da comunidade macaense, até aos anos 70-80 do século passado, altura em que os antigos prédios, a maioria dos quais de dois pisos, foram, a pouco e pouco, transaccionados e demolidos, dando lugar aos desenfreados empreendimentos imobiliários, com a construção de inestéticos prédios, ditos modernos. Por cima da porta de ferro, vê-se a placa nº 1 e é ali que começa a Rua do Padre António. Quem era o Padre António? Relativamente ao Padre António, a quem foi dado o nome à Rua, podemos encontrar no livro Toponímia de Macau, Volume II, que esse presbítero era o Pe. António José da Costa, nascido em Macau, cujo pai também se chamava António José da Costa, um rico mercador, que, além de negócios, fez parte de vereações do Senado. Quando este estava já afastado da vida pública, foi designado para assumir interinamente o cargo de Governador de Macau, em Janeiro de 1780, apesar de sua avançada idade e estado de saúde muito debilitado, na
PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS 55 sequência do falecimento do então governador, tendo exercido esse cargo apenas por cerca de 8 meses. Após a tomada de posse do seu sucessor, recolheu-se à sua residência, conhecida por Casa das Dezasseis Colunas, onde viria a falecer em Fevereiro do ano seguinte. O seu filho António José da Costa, casado com Inácia Caetana de Sousa, encarregou-se da administração dos bens herdados, incluindo a dita Casa, conhecida em chinês por “sâp lôk chü” (ou seja, dezasseis colunas), devido ao facto de o prédio possuir esse número de pilares, tendo ele, depois de ficar viúvo, abraçado a vida religiosa, passando mais tarde a ser conhecido por Padre António. O motivo do nome em chinês de Rua do Prédio Alto Se a Rua ficou conhecida, em chinês, por essa designação, era porque existiu no passado algum prédio alto … Desenho de George Chinnery, feito em 1836 (o Prédio Alto em destaque)
MANUEL V. BASÍLIO 56 Vista parcial nos anos 1880, com o “prédio alto” em destaque (centro inferior mais à esquerda). Vista parcial nos anos 1900, vendo-se o “prédio alto” (centro da foto) e, mais à esquerda, as árvores do Largo do Lilau, bem como a Travessa de António da Silva. Por esta Travessa, vai-se à Casa do Mandarim e, continuando, pode-se ir à Rua da Praia do Manduco, descendo pela Escada Quebra-Costas.
PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS 57 A Rua do Padre António começa na Rua de S. Lourenço, junto do actual edifício do Instituto Salesiano (outrora ocupado pela Casa das Dezasseis Colunas e pela extinta Rua Sena Fernandes) e termina entre a Travessa de António da Silva e o Largo do Lilau. Tal como acontece com muitas outras vias, o topónimo em português, atribuído à dita Rua, em homenagem ao Padre António, não corresponde ao que é designado em chinês, porquanto, curiosamente, é conhecida por “Kou Lau Kái” (高樓街, literalmente, Kou (alto), Lau (prédio) e Kái (Rua), ou seja, Rua do Prédio Alto). Se a Rua ficou conhecida, em chinês, por essa designação, era porque existiu no passado algum prédio alto, comparativamente a outros prédios baixos na zona envolvente. Revendo os desenhos feitos por George Chinnery, podemos de facto encontrar uns quantos esboços em que mostram um prédio com destacável volumetria, com uma torre na cobertura, destinada a iluminação natural e ventilação. Teria sido aquele prédio, implantado quase no sopé da encosta da colina da Penha, que serviu de referência para a designação “Rua do Prédio Alto”, devido à destacada altura do prédio naquele local. Tentámos, durante anos, encontrar o sítio em que estava implantado o “prédio alto”. Graças a várias fotografias feitas no século passado e em finais do século XIX, pudemos então constatar que, após a demolição do “prédio alto”, no mesmo local foi construído um conjunto de oito moradias, de dois pisos, nos quais residiram, famílias bem conhecidas, tais como Paiva, Mazo (de origem mexicana), Henriques, Mendonça, Oliveira, Ramalho e, ainda, a D. Alice Jesus, uma senhora que dava lições particulares, na sua residência, a crianças que viviam naquela zona. Há já alguns anos que aquele conjunto de 8 moradias foi também demolido, tendo juntamente com o terreno resultante da demolição dos prédios números 2 e 4 da Rua da Penha sido reaproveitado para a construção de
MANUEL V. BASÍLIO 58 um novo edifício residencial, com parque de estacionamento privativo, e esta nova construção, agora designada por “THE FOUNTAIN SIDE” (por referência à fonte do Lilau), ficou concluída em Fevereiro de 2015. O prédio designado por “The Fountain Side”, recentemente construído no terreno resultante da demolição do antigo prédio de 8 moradias, de que resta apenas a fachada voltada para a Rua do Padre António. No entanto, nem tudo foi arrasado, pois a fachada daquele conjunto de oito moradias, na Rua do Pe. António (apesar de não fazer parte do património protegido ou classificado), foi carinhosamente preservada pela empresa promotora do projecto imobiliário, tendo inclusivamente atribuído às moradias, sitas naquela Rua, as seguintes designações: ao nº 41, Vila Algarve; ao nº 43, Vila Flor; ao nº 45, Vila Porto; e ao nº 47, Vila Prado. Além destas 4 “Vilas”, o empreendimento tem ainda um total de 38 apartamentos, com entrada pelo nº 2 da Rua da Penha.
PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS 59 O “prédio alto”, além de ter dado nome, em chinês, à Rua do Padre António, deu também a outras vias com a qual confluem, designadamente a Calçada da Paz e a Calçada do Bom Jesus. A Calçada da Paz, em chinês, é “Vó P’êng” (Paz) Ch’é Hóng (Calçada), que é uma tradução literal do topónimo em português. No entanto, além desse nome, figuram ainda na placa toponímica os caracteres sínicos “高樓下巷” (Kou Lau Há Hóng, ou seja, Travessa de Baixo do Prédio Alto). A Calçada do Bom Jesus, que começa entre a Calçada da Paz e a Travessa do Colégio e termina entre o início da Avenida da Praia Grande e a Praça do Lobo de Ávila, é designada em chinês por “Kou Lau Ché Hóng” (ou seja, Calçada do Prédio Alto). Actualmente esta Calçada continua a ser um acesso bastante utilizado, visto que por essa via se pode aceder a pé à Rua do Padre António, passando pela Calçada da Paz, que também é conhecida por “Kou Lau Há Hóng” (高樓下巷), conforme acima mencionado. Temos, assim, mais um prédio que foi determinante ou que serviu de referência para a atribuição do topónimo em chinês. No entanto, para os chineses, o presbítero é uma figura desconhecida ou inexistente, porquanto aquela via continua a ser designada por 高樓街 (Kou Lau Kái, a “Rua do Prédio Alto”), apesar de o prédio em causa ter sido já demolido há quase um século.
MANUEL V. BASÍLIO 60 • As fotos antigas foram baixadas da internet, designadamente do Grupo Macau Old Photos. Ao amigo José Cabral, um especial agradecimento por ter ajudado a completar os apelidos de algumas famílias que viveram naquele prédio de 8 moradias (M.V. Basílio) Casa das Dezasseis Colunas, onde actualmente está implantado o edifício do INSTITUTO SALESIANO. Hoje em dia já não se ouve falar em “sâp lôk chü”, pois esta designação foi caindo em desuso, após o desaparecimento daquela Casa.
PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS 61 Entrada do Instituto Salesiano. A placa toponímica está erradamente colocada, pois a Rua do Padre António só começa mais à direita, onde termina este edifício. Rua do Padre António, em direcção ao Largo do Lilau, vendo-se à direita a Travessa do Abreu.
MANUEL V. BASÍLIO 62 Rua do Padre António ca. 1946, vendo-se ao fundo, parcialmente, as duas torres da igreja de S. Lourenço. No canto superior esquerdo, vê-se parcialmente a tabuleta da parteira Ng Sin Si (veja comparativo na foto seguinte).
PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS 63 Fotografia actual, tirada no mesmo local da anterior foto. À direita, é a Rua da Penha. Ao fundo, o Instituto Salesiano e, do lado direito, estão duas pessoas a subirem para a Calçada da Paz.
MANUEL V. BASÍLIO 64 Aspecto do edifício residencial “The Fountain Side”. Do lado esquerdo, vê-se uma porta de vidro, que é a entrada para as moradias do edifício “The Fountain Side”. Do lado direito, é o acesso para o parque de estacionamento, destinado aos moradores.
PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS 65 Fim da Rua do Padre António, vendo-se a seguir o Largo do Lilau. Fim da Rua do Padre António, junto à Travessa de António da Silva. Do lado esquerdo, alguns metros mais adiante, é a entrada para a Casa do Mandarim.
MANUEL V. BASÍLIO 66 Actual edificio do Colégio “Estrela do Mar”, localizado mesmo em frente ao antigo prédio das 8 moradias. Um troço da Calçada da Paz, visto da Rua do Padre António. Esta Calçada é habitualmente designada, em chinês, por “Kou Lau Há Kái”, isto é, a “Rua de Baixo do Prédio Alto”.
PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS 67 Ponto em que confluem 4 vias públicas: do lado de cá, o fim da Calçada da Paz; do lado esquerdo, a Calçada do Bom Jesus; do lado direito, a Travessa do Bom Jesus; e ao fundo, a Travessa do Colégio, que vai terminar na Calçada da Penha. Em frente, a Calçada do Bom Jesus, que vai terminar entre a Avenida da Praia Grande e a Praça de Lobo de Ávila.
MANUEL V. BASÍLIO 68 DE PATANE A LILAU Actual Fonte do Lilau, cuja água vem da rede pública e não da nascente do Lilau. “A bica do Lilau desapareceu há várias décadas e a água que corre da actual fonte vem da rede pública e não da nascente do Lilau, por isso já não se pode dizer que “quem bebe água do Lilau não mais esquece Macau …” Não se sabe ao certo o ano em que os portugueses desembarcaram pela primeira vez em Macau. Dos relatos que existem, sabe-se que mercadores portugueses, mesmo antes de 155726, já frequentavam estas paragens e o local preferido para servir de ancoradouro era uma baía, 26 Oficialmente considerado como sendo o ano da fundação de Macau.
PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS 69 com um extenso areal, visto que aquele local dispunha de excelentes condições para servir de porto de abrigo, além de, ali próximo, correr água límpida e fresca de uma ribeira, a que mais tarde foi dado o nome de ribeira do Patane. Teria sido junto à ribeira e não muito distante de um morro27, que ali existe, o local onde montaram as primeiras cabanas e, depois, quando ali se fixaram, surgiram então habitações mais estáveis. A partir dali e à medida que a população foi crescendo, novas habitações começaram a espalhar-se mais para o centro da península, quer no sopé da colina do Monte, quer junto de igrejas, edificadas por ordens religiosas, que entretanto para cá vieram. Com a construção da muralha norte, que praticamente dividiu a península em duas partes, a zona centro-norte ficou fora dos muros da cidade, e só décadas mais tarde, mediante permissão de residência, é que ali começaram a viver, em zonas baixas, alguns horticultores chineses, que gradualmente as converteram em zona rural. Após várias décadas, com o aumento da população, a expansão urbana fez-se a partir do centro para o sul, tendo por isso, em 1618, sido construída, em direcção a sul, a igreja de S. Lourenço, em chunambo 28 , em substituição da que existia em madeira. A actual configuração desta igreja data da primeira metade do século XIX, após subsequentes reconstruções. Em 1622, foi construída uma ermida consagrada a Nossa Senhora da Penha de França, e cuja ermida veio a dar o nome de Penha à colina. Provavelmente foi por essa altura que fizeram o caminho pela encosta norte da Penha para facilitar o acesso à ermida. 27 Onde se situa actualmente o Jardim e a Gruta de Camões. 28 Era uma mistura de barro, terra, areia, palha, conchas de ostras moídas, etc., num aglomerado que é compactado em camadas sucessivas, outrora empregue na construção de muralhas ou paredes.
MANUEL V. BASÍLIO 70 Reprodução parcial de uma gravura (ca. 1840), em que se vê a Povoação do Mato da Penha, já extinta, assinalada com um círculo As vias públicas que existem nas encostas das colinas tiveram a sua origem, dum modo geral, nos trilhos que os utilizadores iam fazendo nas suas caminhadas, e que ao longo dos tempos se transformaram em caminhos mais largos e, finalmente, numa rua ou calçada. O povoamento nas vertentes ou no sopé da colina da Penha só se verificou mais tarde, tendo surgido, de início, aqui e além, umas cabanas ou edificações precárias, devido à existência de valas de água na colina. Há registos que referem que, em finais do século XVIII, já havia uma pequena povoação numa das vertentes, que ficou conhecida por Povoação do Mato da Penha, habitada por chineses. Não vamos aqui mencionar os motivos que levaram à desocupação daquela povoação. O Cadastro das Vias Públicas da Cidade de Macau
PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS 71 regista a extinção da Povoação do Mato da Penha (em chinês, 西 坑 村 , Sai Háng Chün, que significa Aldeia a Oeste das Valas de Águas), e estas valas de águas deram o nome, em chinês, à Rua da Penha ( 西 坑 街, Sai Háng Kái, ou seja, a Rua Oeste das Valas de Águas). A referida povoação situava entre o cimo da Calçada do Lilau e parte da Calçada da Penha e a ocidente desta povoação existiu um cemitério privativo de Arménios. Um dos bairros mais típicos da comunidade macaense … Não são esclarecedoras quanto ao período em que começaram a construir casas de alvenaria à volta do local onde viria a ser um dos bairros mais típicos da comunidade macaense – o Bairro do Lilau. Cremos que teria sido em meados ou na segunda metade do século XVIII, sobretudo depois de o caminho junto à Casa das Dezasseis Coluna, localizada em frente à igreja de S. Lourenço, ter sido alargado e transformado em via pública, a que se deu o nome de Rua do Padre António, a qual se prolongou até a um largo, onde segundo a tradição existiu um poço, conhecido por chineses pelo nome “Á P’ó Cheng” ( 亞 婆 井, o seja, Poço da Avó). A partir de então, começaram a construir cada vez mais prédios, passando a haver naquela zona uma maior concentração de habitantes, quer ao longo da Rua do Padre António, quer nas vias circundantes e, a pouco e pouco, o bairro do Lilau foi ganhando forma, tendo também extendido a via pública até à Barra, onde junto ao templo e nas imediações viviam sobretudo chineses que se dedicavam à faina marítima.
MANUEL V. BASÍLIO 72 Actual fonte do Lilau. Relativamente ao Poço da Avó, existe uma versão em que se conta que, em tempos idos, havia uma velhinha muito bondosa, que vivia na encosta da colina junto de uma nascente de água potável e que ela, todos os dias, assistia ao sofrimento de pessoas, que viviam naquelas redondezas, a irem até ao sitio da nascente buscar água, transportando-a depois em dois baldes de madeira com uma pinga29 ao ombro. Como era extremamente árdua a caminhada pela encosta, quer a subir, quer a descer, a velhinha, que tinha algumas posses, condoeu-se do sofrimento dos aguadeiros ou das pessoas que iam buscar água e, certo dia, mandou desviar uma corrente de água para uma cisterna ou poço que foi aberto, a expensas suas, num local mais abaixo. Assim durou o poço por muitos anos até que, em dada altura, o governo português resolveu mandar introduzir obras de melhoramento, de tal forma que o poço se transformou numa fonte, tendo nela colocado uma cabeça de dragão, a jorrar água pela 29 Vara de bambu (em cantonense: tám kón 擔桿) que serve para transportar ao ombro seja o que for, dentro de dois baldes ou cestos, pendurados em cada uma das extremidades da vara.
PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS 73 boca. A partir de então, os chineses que viviam nas imediações passaram a chamar à fonte “Lông T’âu Cheng” ( 龍 頭 井 , isto é, poço com cabeça de dragão). É curioso verificar que a designação “Á P’ó Cheng” (亞 婆 井 ) aparece juntamente com os nomes das vias do Lilau (Rua, Calçada, Pátio e Largo), excepto Beco do Lilau, que em chinês é designado por Lông T’au Lei ( 龍 頭 里, isto é, Beco de Cabeça do Dragão). Com o decorrer dos anos, devido ao continuado uso, a cabeça de dragão sofreu grave desgaste e teve de ser substituída por um outro motivo decorativo, desta vez pela cara ou cabeça de um homem (人 頭 Yân T’âu), passando a fonte, a partir de então, a ser designada por Yân T’âu Cheng ( 人 頭 井 ). Por conseguinte, o Poço da Avó teve, pelo menos, em chinês, as referidas três formas de designação, mas actualmente, para a nova geração, apenas subsiste a de Á P’ó Cheng (亞 婆 井), apesar de a fonte do Lilau ter já desaparecido há várias décadas, visto que desmoronou na madrugada de uma noite chuvosa e, após a ocorrência deste caso, não foi reconstruída. O topónimo Largo do Lilau é recente … O topónimo Largo do Lilau, em chinês, Á P’ó Cheng Chin Tei (亞 婆 井 前 地 ) é recente, pois esta designação só foi atribuida em 1995. Até então, o espaço do referido Largo era conhecido por Bica ou Fonte do Lilau, ou simplesmente, Lilau, em chinês, Yân T’âu Cheng ( 人 頭 井 ) e “por este nome é designada a pequena área da cidade, situada na vertente Norte da Colina da Penha, área esta que abrange a Rua, o Beco, o Pátio e a Calçada do Lilau”, como consta do Cadastro das Vias Públicas da Cidade de Macau, de 1957. O Largo, como dantes, continua sombreado com 3 árvores de pagode. A que está junto da Rua da Barra e a do meio são recentes, dado que as duas anteriores árvores foram derrubadas e substituídas pelas actuais. A velha árvore
MANUEL V. BASÍLIO 74 que existiu junto da dita Rua era referenciada por moradores chineses pela designação Yông Sü T’âu (Yông Sü, isto é, árvore de pagode, e T’âu, que significa, no contexto, a principal ou a primeira. No entanto, em sentido lato, podia significar todo o espaço do actual Largo). Junto da primeira árvore de pagode funcionou, durante muitos anos, uma tenda de café, com um toldo que se estendia até à árvore do meio, onde se podia comer umas torradas muito deliciosas, feitas num fogão a carvão. Em dada altura, havia duas tendas de café, funcionando a outra junto da última árvore. As duas tendas de café há muito que foram desmontadas e, presentemente, existe lá um quiosque, que nem sempre está aberto, visto que o Largo deixou de ser um ponto de encontro e de convívio. No sítio onde está a menina de costas, junto aos prédios de cor ocre, é onde começa a Rua do Lilau. Afinal, qual é a origem do nome Lilau? Conforme relatos existentes, a designação original era Nilau, mas com o uso deturparam este nome para Lilau. As palavras Nilau e Lilau não constam dos dicionários portugueses, nem têm qualquer significado no dialecto macaense. Nilau teria derivado da designação chinesa
PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS 75 “nei lau” ( 瀰 “nei”, que significa transbordar e 流 “lau” quer dizer fluxo ou corrente de água). Ouvimos esta designação “nei lau”, dita por um velho morador chinês, que vivia no início do Pátio do Lilau, quando em 1997, depois de subirmos até ao cimo da Calçada do Lilau, lhe perguntámos onde era a localização da nascente do Lilau. Mostrando-se muito amável, lá nos levou até um certo ponto da encosta, onde há uma casota, com porta, e ali nos explicou como sai a água da nascente. Indicou-nos que lá dentro há duas grandes rochas sobrepostas, escorrendo a água no sítio da junção. Explicou-nos ainda que “aquela água é subterrânea e por detrás das rochas existe um lençol de água, de onde transborda e sai por uma fresta daquelas duas rochas sobrepostas. Por este motivo chamam “nei lau” ( 瀰 流 ) à nascente”. Disse ainda que, “antigamente, a água escorria com mais abundância, mas agora há cada vez menos água, levando às vezes mais de um dia para encher o tanque dentro da casota. Mesmo assim, ainda há moradores que lá vão buscar água, que se apresenta límpida e fresca. Era esta nascente que alimentava a fonte que existiu no Largo”. O Largo do Lilau foi restaurado nos anos de 1994-95, tendo-se construído uma fonte moderna, que era uma enorme placa de pedra com duas bicas, colocada no canto direito do Largo e, juntamente com outros arranjos executados no Largo, fizeram uma caiação às casas envolventes, dando-lhes um aspecto novo, não faltando até, para assinalar esta beneficiação, uma cerimónia de inauguração, que se realizou em Janeiro de 1996. . . .quase todas as casas do Lilau continuam desabitadas e algumas delas já em ruínas Aquando da citada visita que fizemos à nascente do “nei lau”, acompanhado do referido morador chinês, fizemos um elogio por terem restaurado o Largo e as casas envolventes. Depois de ouvir as nossas palavras, aquele morador respondeu-nos simplesmente com o
MANUEL V. BASÍLIO 76 seguinte reparo, relativamente às casas caiadas de novo: “Só lhes deram uma camisa nova. Por dentro, continuam podres”. E tinha ele toda razão. Passados estes anos todos, quase todas as casas do Lilau continuam desabitadas e algumas delas já em ruínas ou ameaçando ruína. Apenas os prédios que estão ao fundo do Largo é que foram renovados posteriormente e estão agora a serem usados como loja ou galeria, com artigos variados, alguns de luxo, expostos à venda. As famílias macaenses que viveram em Lilau Para que a memória não se apague, vamos aqui recordar algumas famílias que viveram no Lilau em meados do século passado, as quais incluem: (na Rua do Lilau) Maria de Brás Carmen; Belarmina Marques e irmã Angelina, esta casada com Fernando Albuquerque; Ismael Silva e Berta Passos; João e Isabel Trabuco; José Maria de Senna Fernandes (mais conhecido por Zé Conde); Carlos e Maria Castilho; José Maria Xavier de Siqueira e Isabel Maria Pópulo de Sousa Siqueira, pais de Mário, Ludgero e Zoé Siqueira; José e Florinda Lagariça; Domingos Dias; João Filipe do Sameiro Afonso Reis (mais conhecido por Johnny Reis); Maria Lurdes Costa Almeida; Maria Marques; a grande família de Machado Mendonça; José Martins Bruno; Hermenegildo da Luz; e, (na Calçada do Lilau) Carlos e Edite Nogueira (pais de Zaida, Valentim, Amaro, Inês, Maria Francisca e Olga); Cecília Gomes Joaquim (mãe de Cristina e Deolinda); José Augusto Cabral, em cuja casa, originalmente, viveu José Valentim Nogueira e, depois, Francisco Remédios; (ao fundo do Beco do Lilau) António Ferreira Batalha e António Maria Conceição; e, por fim, a família do Conde Bernardino de Senna Fernandes, com o seu vetusto prédio, a ostentar ainda o ano de construção: 1898. A enumeração das referidas famílias está, sem dúvida, incompleta, devido à mudança de inquilinos em determinadas alturas, podendo ser ainda
PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS 77 actualizada, caso haja novas informações. Não estão aqui mencionadas as famílias que viveram nas vias circundantes, designadamente nas Ruas do Padre António, da Penha, da Barra, e na Travessa de António da Silva. A fonte de duas bicas, feita aquando das obras de requalificação do Largo do Lilau, em 1994-1995. Esta fonte já não existe. (Foto baixada da internet) … já não se pode dizer que “quem bebe água do Lilau não mais esquece Macau …” Para ilustrar este artigo, fomos várias vezes a Lilau fazer fotografias. Todas as vezes que lá chegávamos, costumamos observar tudo em redor do Largo e, após uma breve pausa, sentíamos uma dor de alma por ver casas desabitadas, degradadas, sem calor humano, e mesmo sem vida. Por falta de adequado aproveitamento, as casas situadas entre o Beco do Lilau e a Calçada do Lilau estão em péssimo estado de conservação, umas já sem telhado e outras apresentam-se com portas e janelas apodrecidas, ou mesmo sem porta ou janela. As casas de cor ocre, da Rua do Lilau, estão vazias e fechadas. A bica do Lilau desapareceu há várias décadas e a água que
MANUEL V. BASÍLIO 78 corre da actual fonte vem da rede pública e não da nascente do Lilau, por isso já não se pode dizer que “quem bebe água do Lilau não mais esquece Macau …”. Lilau já perdeu todo aquele fulgor ou vitalidade que ainda existiu há pouco mais de meio século e actualmente está mesmo em estado de abandono. Fazemos votos que façam reviver Lilau e que dêem um aproveitamento condigno àqueles prédios, designadamente para fins culturais ou recreativos, porquanto este ponto turístico ainda faz parte integrante do Centro Histórico de Macau. (Agradecimentos ao José Cabral Jr. e ao António Lagariça, ambos antigos moradores do Lilau, pelas informações prestadas relativamente às famílias que viveram naquele Bairro). Do lado direito, eram os prédios nºs. 1 e 3 (anterior numeração), da Rua do Lilau. Com a alteração para a numeração métrica, o nº 1 e o nº 3 passaram a ser, respectivamente, nº 7 e nº 9.
PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS 79 A rampa que se vê é a continuação da Rua do Lilau. A ligação desta rua com a Rua da Penha é feita através de uma escadaria de pedra. A rampa do lado esquerdo é o Beco do Lilau. Do lado direito, onde se vê uma placa toponímica, junto a uma sinalização de trânsito, é a entrada da Calçada do Lilau.
MANUEL V. BASÍLIO 80 Em frente, é a Travessa de António da Silva. Do lado esquerdo, o primeiro prédio pintado de branco é a entrada para a Casa do Mandarim. Em frente, é a Rua da Barra, que começa a partir da passadeira de zebra.
PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS 81 A casa onde viveu a família Remédios e depois, a família Cabral. A localização da nascente do Lilau, que não abastece a fonte Por este caminho do Pátio do Lilau vai-se à nascente do Lilau.
MANUEL V. BASÍLIO 82 Caminho aberto na encosta, por onde se vai à nascente do Lilau (reprodução de uma foto do autor, feita em 1997). Nascente do Lilau, no interior da casota que a protege (reprodução de uma foto do autor, feita em 1997).
PÁTIOS, BECOS E TRAVESSAS 83 Porta da casota que protege a nascente do Lilau (reprodução de uma foto do autor, feita em 1997). C:\Users\imac\Library\Mobile Documents\com~apple~CloudDocs\de Aspecto do Largo do Lilau, após as obras de requalificação executadas em 1994-1995. como a fonte de duas bicas. Nota-se que o pavimento e os canteiros já foram posteriormente substituídos, bem como a fonte de duas bicas