• ANTÓNIO ARESTAMOSAICOVOLUME XLIVManuel da Silva Mendes
  • Manuel da Silva MendesMOSAICOVOLUME XLIVANTÓNIO ARESTA
  • Edição Instituto Internacional de MacauTítulo Manuel da Silva MendesAutor António ArestaCapa Desenho de Regina LamaresDirecção Gráfica e Paginação Maisimagem II - Comunicação Global, Lda.Colecção MOSAICOTiragem 500 exemplaresImpressão Gráfica Central de Almeirim, Lda.ISBN 978-989-99457-9-1Depósito Legal 432869/17Lisboa, Outubro 2017apoio
  • SUMÁRIO5 PREFÁCIO9 MANUEL DA SILVA MENDES E A QUESTÃO DA CHINA15 PADRE MANUEL TEIXEIRA, SILVA MENDES E O MISTÉRIO DE UM MANUSCRITO21 MANUEL DA SILVA MENDES E RAUL BRANDÃO25 MANUEL DA SILVA MENDES E JOSÉ DA COSTA NUNES31 MANUEL DA SILVA MENDES E CAMILO PESSANHA41 MANUEL DA SILVA MENDES, PENSADOR DE MACAU47 A BIBLIOTECA DE MANUEL DA SILVA MENDES53 BIBLIOGRAFIA DE MANUEL DA SILVA MENDES67 ANEXOOfício ao Governador de Macau
  • PREFÁCIOO convite que me foi dirigido pelo Instituto Internacional de Macau paraprefaciar a colectânea Manuel da Silva Mendes, de António Aresta, deixou-memuito honrada e, simultaneamente, numa atrapalhação, porque o espaço que mefoi concedido é curto para explicar tão longa amizade e, ainda, para descreversucintamente o percurso biobibliográfico deste autor que conta com mais de: 80artigos em publicações de referência; 35 trabalhos editados em volume ouseparata, 19 organizações de edição com prefácio e notas; redacção de prefácios;colaborações em multimédia; organização de exposições e antologias, assim comoprolífica colaboração na imprensa nacional e de Macau com publicações no Jornalde Letras, Artes e Ideias; 132 artigos no Semanário de Macau – Tribuna de Macau,entre 1988 e 1995; 118 artigos no Jornal Novo – Diário Matutino de Macau, entre1993 e 1994, e 101 artigos no Jornal Tribuna de Macau – Diário Matutino deMacau, entre 2010 e 2017.A nossa amizade vem de longe. Quando eu dava os primeiros passos nosestudos chineses. Estudava com afinco, mas não podia ser considerada bilingue,ainda que esse conceito em Macau tivesse à época da administração portuguesa umsentido bastante alargado e difuso. Não era bilingue, mas os meus amigos, com oAntónio à cabeça e a Celina Veiga de Oliveira no seu encalço, tudo faziam para queme tornasse uma estudiosa dos assuntos sínicos. Encomendavam-me artigos,colaborações, enfim, talvez quisessem companhia para os gigantescos esforços queentão empreendiam no domínio da Sinologia e na recém-desenhada Macaulogia.O António andava especialmente entusiasmado à época com a SinologiaPortuguesa. Datam desse período, ou seja, de 1997, os seus trabalhos: “Os EstudosSínicos no Panorama da História da Educação em Portugal”, artigo publicado narevista Administração; “A Sinologia Portuguesa, um Esboço Breve”, publicado naRevista de Cutura, nas edições portuguesa e inglesa. Desde então, o tema nuncadeixou de o acompanhar, tendo publicado mais três artigos sobre a SinologiaPortuguesa, respetivamente em 2006, 2014 e 2015, incluindo-me sempre comgrande gentileza e generosidade entre os seus companheiros espirituais.Colecção MOSAICO, Volume XLIV5
  • A sua amizade real e o seu incansável labor intelectual, à maneira criativa daaranha que vai tecendo escrupulosamente a sua teia, foram para mim umextraordinário incentivo, mesmo nos períodos mais difíceis, e todos os temos.Quando pensava reformar-me intelectualmente e dedicar-me em regime deexclusividade à contemplação do nosso belo planeta, lá estava ele a lançar-me umemail com um desafio nas áreas a que se tem dedicado. Antes de mais: à Sinologiae, sobretudo dentro desta, à Macaulogia; mas também à cultura em geral; àliteratura e literatura infanto-juvenil; à história e à filosofia portuguesas; ao ensinoe à pedagogia; bem como à história destes, em Macau, em Portugal e emMoçambique; à Lusofonia; à língua e à política; à educação cívica; à diásporamacaense e às impressões quotidianas de Macau, de Portugal e de Moçambique,entre outras regiões, tais como Timor; além das curiosidades históricas que temvindo a publicar na imprensa.O António Aresta é um grande amigo, não apenas na acepção física dapalavra como ainda na intelectual, especialmente na área da Macaulogia. Pela suaprosa os autores que estiveram em Macau e/ou se devotaram aos assuntos dasinologia são constantemente lembrados. Vejamos apenas alguns daqueles sobrequem tem escrito com o claro objetivo de espalhar o nome deles por toda a parte:Ana Maria Amaro, Graciete Batalha, Maria Ondina Braga, Charles Boxer, D. Arquimínio Rodrigues da Costa, Luís Fróis, Pe Joaquim Guerra, Luís GonzagaGomes, Joaquim Afonso Gonçalves, Armando Martins Janeira, José Miranda eLima, Wenceslau de Moraes, D. José da Costa Nunes, Camilo Pessanha, ÁlvaroSemedo, Pedro Nolasco da Silva, Maria Anna Acciaioli Tamagnini, MonsenhorManuel Teixeira, António Manuel Couto Viana, Alice Vieira, Benjamim VideiraPires, entre outros.A incessante partilha das suas amizades intelectuais é notória ainda emrelação a Manuel da Silva Mendes. Note-se as palavras do autor na abertura dapresente colectânea: “tenho procurado recolocar a obra de Manuel da SilvaMendes no lugar cimeiro que lhe é devido”. E assim o fará, mostrando-nosdiversas facetas deste sinólogo português que tanto tempo viveu em Macau. Somoslevados a conhecê-lo melhor através das relações com Padre Manuel Teixeira, RaulMANUEL DA SILVA MENDESColecção MOSAICO, Volume XLIV 6
  • Brandão, José da Costa Nunes, Camilo Pessanha e até nos é dada a oportunidadede seguir a argumentação jurídica de Silva Mendes em carta dirigida aoGovernador de Macau, datada de 20 de Setembro de 1923 a solicitar a revogaçãoduma portaria que declara nula um contrato de emprazamento.Aresta escolhe para abertura da colectânea um artigo de Silva Mendes,intitulado “A Questão da China”, publicado em Julho de 1900 no “Regenerador”,no qual o Advogado revela uma enorme sensibilidade e simpatia pelos chineses, àépoca desprotegidos da história a lutar contra diversos poderes coloniais, o quede acordo com uma leitura esotérica da sua biografia talvez o tenha colocado noplano cósmico das calhas de Macau, onde já se encontra em 1901 na qualidade deprofessor de português e de latim do Liceu de Macau.Segue-se um artigo onde se aborda o misterioso desaparecimento, mas nãoperda definitiva, dum manuscrito de Silva Mendes, Macau Antigo, referido porLuís Gonzaga Gomes e pelo Monsenhor Manuel Teixeira, contribuindo para retiraro véu deste mistério. De facto, a faceta laica e totalmente combativa face à religiãocatólica de Silva Mendes, onde quer que ela estivesse, condenaram o manuscritoao desaparecimento por parte da instituição alvo da agressão literária, cujosexecutantes do extravio foram os sacerdotes salesianos, num acto louvado por umdos mais ilustres representantes culturais em Macau, Manuel Teixeira. Hoje temosmais dificuldade em aceitar aquele tipo de censuras que à época eram correntes.Seja como for, o episódio ilumina bem um dos aspectos mais característicos damaneira de ser de Silva Mendes – a sua veia anárquica em relação aos poderesestabelecidos, no caso o da igreja católica. Mas tal não significa que “O BanqueiroAnarquista” fosse parcial ao ponto de rejeitar os membros da instituição católica.Sabia separar águas, os poderes instituídos e aqueles que os representam, tantasvezes gente de carácter e de boa-fé, como nos mostra o autor da presentecolectânea no artigo: “Manuel da Silva Mendes e José da Costa Nunes”. SilvaMendes era amigo do bispo de Macau, sem que essa amizade sofresse com adivergência de ideais religiosos. Era mais fundo o que os aproximava. Já o mesmonão se pode dizer em relação a outros dos seus compatriotas, por exemplo CamiloPessanha. Aparentemente teriam muitas afinidades intelectuais, ambos haviamColecção MOSAICO, Volume XLIV7
  • cursado direito, ambos colecionavam arte, ambos eram poetas, Camilo Pessanha,mais literário, Manuel da Silva Mendes, mais filosófico, mas como nos mostra oautor, as relações entre eles não podiam ter sido mais difíceis, já que os distanciavao temperamento. Eram praticamente opostos. Ora pelas relações de Silva Mendescom Camilo Pessanha compreendemos melhor Silva Mendes, através delas ressaltaa sua faceta: organizada, trabalhadora, correta, social e politicamente interventiva.Diz-nos Aresta: “Com temperamentos diametralmente opostos, metodologias detrabalho e de estudo distintas e com formas de pensar e de agir diferentes, estesdois homens trouxeram um superlativo ‘élan’ criador e intelectual a Macau”.Porque para o autor de Manuel da Silva Mendes, o que mais se destaca nopanorama das suas ideias é Macau, ao ponto de o transformar num cultor maiorda Macaulogia.Silva Mendes ocupa, como é reconhecido por António Aresta, um lugar dedestaque na Sinologia que justifica bem a publicação da presente colectânea.Deixemos, à laia de conclusão, falar o seu autor a respeito da importância de Silva Mendes para o Território: “Macau deixa de ser vista como paroquial eunidimensional, para doravante ser estudada a partir de uma coligação de saberespluridimensionais, sendo por isso o primeiro mentor da moderna macaulogia.”Se Silva Mendes foi o primeiro mentor da Macaulogia não será o único, poiso século XX trouxe-lhe vários companheiros de saber, possuindo hoje, já em plenoséculo XXI, em António Aresta o seu mais digno e destacado continuador.Ana Cristina AlvesCarcavelos, 9 de Outubro de 2017MANUEL DA SILVA MENDESColecção MOSAICO, Volume XLIV 8
  • ANTÓNIO ARESTAColecção MOSAICO, Volume XLIV9MANUEL DA SILVA MENDES E A QUESTÃO DA CHINAAo longo dos anos, em artigos, colóquios, nas aulas ou emlivros, tenho procurado recolocar a obra de Manuel da Silva Mendesno lugar cimeiro que lhe é devido, seja no espaço da filosofia, naárea da educação, nos terrenos da sensibilidade estética, ou, aindacomo colecionador de arte, como cronista ou professor.Após o trabalho editorial de Luís Gonzaga Gomes, muitíssimomeritório, diga-se, nos idos de cinquenta, ainda não apareceu aObra Completa, modernizada e acessível a qualquer interessado.Faz falta à cultura portuguesa e mais ainda à identidade cultural deMacau. Diga-se, a talhe de foice, que foi reeditada em 2007, em fac-símile, pela editora Letra Livre, a sua obra “Socialismo Libertário ouAnarchismo”, com 369 páginas, originalmente publicada em 1896.Ocupei-me desta obra em 1991, na “Revista de Cultura” do InstitutoCultural de Macau.Apresento hoje aos leitores um interessante artigo de Manuelda Silva Mendes, publicado em 1900, ainda Portugal estava sob oregime monárquico e um ano antes de se radicar em Macau. Otítulo é sugestivo, “A Questão da China”. Viu a luz do dia no jornal“O Regenerador”, nº 38, de 21 de Julho de 1900, que se publicou emVila Nova de Famalicão. Devo ao dr. Amadeu Gonçalves a fantásticadescoberta deste artigo esquecido. Apenas foi actualizada a grafia.A Questão da ChinaAndam em bolandas as nações da Europa por segurar a pazna China. Os diabos estrangeiros, como os chineses chamam aos
  • europeus lá estabelecidos, tem sido trucidados aos centos, e otelégrafo cada dia anuncia novos morticínios. Mas, a que vem tãogrande sanha? Que motivos tem os tais senhores chins para seatirarem aos estrangeiros como gatos a bofes?A cousa já vem de longe. Os chins nunca viram com bonsolhos na sua terra os europeus. Dantes, aqui há pouco mais demeio século, a China era quase absolutamente vedada aosestrangeiros, e os primeiros que ali foram consentidos residir, mascom grande repugnância por parte de todos os súbditos do Filhodo Sol, foram os embaixadores, os cônsules. Antes deles já por láse tinham metido manhosamente os missionários, mas a cadapasso eram, e tem sido, corridos, quando não trucidados. Oscônsules foram lá introduzidos para em certo modo garantirem avida dos estrangeiros que se arriscavam a passar ou residir nessepaís do chá e do arroz. Mas os chins sempre embirraramprofundamente com os senhores cônsules e mais com os senhoresmissionários. A estes que lhes desfariam as crenças com pretendermeter lá a crença de Cristo e desbancar-lhes o Buda corriam-nosmais ou menos à socapa sempre que tinham ocasião azada.Faziam-lhe como o nosso povo rude faria a qualquer bando demissionários protestantes que se lembrassem de vir para aquipregar às turbas: ‘lá fora! hereges, gente assaliara do diabo !’.Portugal já fez o mesmo que tem feito os chins: foi aos judeus.Nada deve admirar, portanto, o procedimento desta gente derabicho. Mas adiante.Há uns anos a esta parte, a faina de cristianizar a China fezgrandes progressos: missionários franceses, ingleses, alemães,americanos – de toda a parte. E para os proteger, navios deMANUEL DA SILVA MENDESColecção MOSAICO, Volume XLIV 10
  • guerra em barda, ameaçadoramente, a bordejar pelas costaschinesas. Não é que os governos europeus se interessem grandecoisa em que a China seja cristã ou seja budista. O caso é outro: éque com os missionários, ou atrás deles, vão os negociantes, e ocolocar na China os produtos europeus ou tê-los sem vendaacumulados nos armazéns faz beta boa diferença. O ‘pivot’ domundo moderno é o industrialismo, e para ele viver é forçosoarranjar-lhe mercado, desembocadouros. E a China é tão extensae tem tanta gente que lá podem despejar-se à vontade as naçõeseuropeias. Portanto toca a introduzir lá as mercadorias.Os missionários são boa vanguarda? Mandam-se missionários,e quantos mais melhor, mais caminhos abrem, e se não abrem,mais pretextos dão para os canhões terem razão para falar. Cadagrande nação da Europa traça a sua esfera de influência e,apoiando-as com as esquadras, tem ido desde então metendo látudo quanto pode: telégrafos, caminhos de ferro, feitoriascomerciais, o demónio. E as cousas pareciam correr bem, e tãobem que ultimamente as nações começaram a falar alto à Chinaquando pretendiam mais do que de mansinho conseguiam. Foi odemónio, porque a China entrou de não gostar, ou antes, de não sedeixar invadir assim à boa, e o caldo entornou-se. Os maispatriotas começaram de berrar contra os diabos estrangeiros euma liga, associação, ou como lhe quiserem chamar, formou-se eorganizou-se para os expulsar. Os ‘boxers’ são esses tais patriotas,assim chamados, ao que parece, porque blasonam que hão-de pôrde lá fora os estrangeiros a murro. Nós cá diríamos a pontapés,mas como os chins parece que só tem pezinhos, dizem como unsvalentes que julgam ser: a murro! Vade retro! A murro ou porANTÓNIO ARESTAColecção MOSAICO, Volume XLIV11
  • outra forma, o certo é que tem sido mortos centos de europeus, eo certo é também que não são já os tais ‘boxers’ que se atiram aosestrangeiros, mas sim todos os chineses. A Europa tem queridocortar-lhes os rabichos (com balázios, é claro), mas até hoje aindao não conseguiram porque as tropas europeias são ainda lápoucas. Mas vão mais, e os chineses sem o rabicho ficam, que é oobjecto mais precioso que eles tem. E aqui está em poucas palavraso que é a questão da China.Este artigo é surpreendente e revela vários níveis interpretativossobre a China. É muito nítido o seu pendor ideológico, a sua visãorepublicana, socialista e anticlerical, tomando partido por umaChina sofrida e humilhada pelas potências coloniais. O estilo doartigo é coloquial e simples, mas denota uma boa informação.Esta opinião de Manuel da Silva Mendes é bastante divergentedas imagens de Macau e da China veiculadas pela educação popularportuguesa do século XIX, por exemplo, “O Panorama” (1837), “O Archivo Popular” (1841), “Diccionario de Educação” (1873) ou“Diccionario Popular” (1876). A crueza nas relações internacionaissob o paradigma da força militar a abrir o caminho para os negóciospouco se compadecia com uma historiografia ora positivista, oraromântica, enredada em preceitos do direito natural, com os olhosna missionação, mas envergonhada pela pujança de uma éticaprotestante que lidava com o dinheiro sem complexos.Não deixa de ser insólito, que ao rememorar o passado pertodo fim da vida, num artigo publicado no “Jornal de Macau” em1929, não lhe tenha ocorrido que escreveu sobre “A Questão daChina”. Talvez tenha sido uma omissão deliberada. A sua memóriaMANUEL DA SILVA MENDESColecção MOSAICO, Volume XLIV 12
  • fixou-se em ‘fait-divers’: (…) confesso: causaram-me desagradabilíssimaimpressão os chineses. Eu fazia-os muito outros. Nunca tinha vistonenhum em carne e osso. Conhecia-os porém: conhecia-os dasfiguras de caixas de fósforos e do Café Chinês da Póvoa de Varzim.Era este café (onde perdi as ditas seis ricas libras) mobilado todoà chinesa! Mesas, cadeiras, sofás, alizares das paredes comembutidos de osso e madrepérola, pintados com pagodes, chinesesde rabicho sobre robes de chambre (parecia) e chinesascoradinhas, ‘mignons’, pequeninas, muito engraçadas, todaschim-chim, envolvidas em mantons de seda bordada, coisa rica…Eram estes chineses e estas chinesas que eu trazia na cabeça.Manuel da Silva Mendes foi nomeado Professor do Liceu deMacau, pelo decreto de 31 de Janeiro de 1901, tendo tomado posseno dia 27 de Maio desse ano. O resto da história já todos aconhecemos.ANTÓNIO ARESTAColecção MOSAICO, Volume XLIV13
  • PADRE MANUEL TEIXEIRA, SILVA MENDES E OMISTÉRIO DE UM MANUSCRITONeste ano de 2012, mais concretamente em Abril, evoca-se ocentenário do nascimento do Padre Manuel Teixeira (15 de Abril de 1912, Freixo-de-Espada-à-Cinta – 15 de Setembro de 2003,Chaves), o que é um pretexto para lembrar a figura e para convocara história do Território enquanto ‘ars inveniendi’, esse processológico de criação de narrativas interculturais com um assinalávelpeso valorativo.O valor do trabalho histórico e historiográfico empreendidopelo Padre Teixeira ao longo de uma vida, não deixa ninguémindiferente, tal a sua magnitude e pluralismo temático. Dificilmentese lobriga um palmo da história de Macau onde ele não tenhatocado, salvo um documento, cerzido uma teoria, aventada umahipótese, recolhido um testemunho ou valorizado o papel daIgreja. Sem esquecer que escreveu imensa poesia, boa parte delaeditada no “Boletim Eclesiástico da Diocese de Macau”, onderefulgem temas místicos e apologéticos. Todos lamentamos quenão tenha tido tempo e oportunidade para escrever as Memóriasda sua vida em Macau e das suas andanças em Singapura, muitoembora tenha derramado na imprensa (por exemplo, no “MacauHoje” ou na “Gazeta Macaense”) inúmeros textos autobiográficose memorialísticos.Como tantos compatriotas, conheci e privei com o PadreManuel Teixeira numa Macau de fim de século que já não existe, edele guardo a memória de um vero embaixador cultural dePortugal, para além da estima pessoal e da admiração intelectualANTÓNIO ARESTAColecção MOSAICO, Volume XLIV15
  • por uma obra ímpar. E a obra aí está, mais de cem volumes (muitosa carecer de reedição), alguns traduzidos para chinês, inglês oujaponês, centenas de estudos dispersos em revistas e milhares deartigos espalhados na imprensa (todos à espera de uma laboriosainventariação a fazer por gente que ame o ofício), tudo dedicado aMacau e à presença dos portugueses no extremo oriente. De resto,é bem conhecida esta resposta do Padre Teixeira quando lheperguntaram sobre o modo como gostaria de ser lembrado: ohomem é pó, a fama é fumo e o fim é cinza… só os meus livrospermanecerão… e essa é a minha consolação. E é verdade.Gostaria de, muito ao de leve, comentar a forma como o PadreManuel Teixeira tratou de alguns pormenores da biografia deManuel da Silva Mendes, um dos mais categorizados intelectuaisportugueses radicado em Macau, desde 1901, ainda Portugal erauma monarquia. Os seus ideais abertamente republicanos, a suaafeição ao socialismo libertário (publicou em 1896 “SocialismoLibertário ou Anarquismo”, reeditado há poucos anos em fac-símile) e a sua ligação à filosofia taoista chinesa, cedo o deixaramindiferente e imune à tutela moral e religiosa exercida por algunselementos mais interventivos do padroado português do orientesobre a comunidade portuguesa. Esta hostilidade educada e cortês,mais céptica do que cínica, magistralmente descrita na obraliterária por Flaubert, não obstava a colaborações pontuais, paraintegrar comissões diocesanas de belas artes, a solicitação, porexemplo, do padre José da Costa Nunes, ou para colaborar empublicações dessa mesma área.Manuel da Silva Mendes tinha aprontado um livro, “MacauAntigo”, cujo manuscrito fora entregue, para ser composto, àMANUEL DA SILVA MENDESColecção MOSAICO, Volume XLIV 16
  • Tipografia do Orfanato da Imaculada Conceição. A inesperada eprematura morte do autor fez com que o manuscrito ficasseesquecido, provavelmente até da própria família, legítimaproprietária do documento. No importante livro “Liceu de Macau”(publicado pela Direcção dos Serviços de Educação, em Macau, cuja3ª edição é de 1986), o Padre Manuel Teixeira traça a biografia deManuel da Silva Mendes, porque ele tinha sido Professor e Reitordo Liceu. Aí é referido esse lamentável episódio da destruição domanuscrito, de um livro póstumo, “Macau Antigo”, de Manuel daSilva Mendes, invocando-se o testemunho de Luís Gonzaga Gomese dos autores materiais dessa mesma destruição, os padressalesianos que dirigiam a Tipografia do Orfanato da ImaculadaConceição, possivelmente aterrados com as heresias e com aexpressão de um pensamento jacobino e maçónico. Escreveu oPadre Manuel Teixeira, “é que essas páginas dum homem quemorreu sem sacramentos eram irreligiosas e ofensivas dasinstituições monásticas de Macau” e, ainda, afirmando comindignação, “essas páginas, se fossem publicadas, seriam não só uminsulto à Igreja, mas também à memória de Silva Mendes, que emgeral era equilibrado e moderado”.Nesses anos trinta, a par da lenta alvorada do Estado Novo,ainda se vivia na ressaca das perseguições religiosas da primeirarepública, pelo que o comentário do Padre Manuel Teixeira, umasdezenas de anos depois, ainda se assemelha a um ajuste de contasvindo lá do fundo da história. Ficamos a saber, com este exemplo,que a intolerância não se dissolve com os anos, nem com a cultura.O manuscrito continha setenta páginas e foram destruídas sessentae oito. O Padre Manuel Teixeira cita abundantemente essas duasANTÓNIO ARESTAColecção MOSAICO, Volume XLIV17
  • páginas remanescentes com um escusado acinte, pouco cristão deresto, chegando ao ponto de dizer que Austin Coates era umdiscípulo de Silva Mendes no respeitante às pretensas calúniasdirigidas aos franciscanos e às clarissas. E o que escreveu Manuel daSilva Mendes?: “quis, em primeiro lugar, rir-me um pouco, etambém, em segundo, abaixar alguns pontos, por me parecer maisconforme com a verdade, vista do século vinte, no geral superlativode virtudes a que os antigos escritores elevaram tudo, todos osfrades e todas as freiras”. O comentário do Padre Manuel Teixeiraé lacónico na sua rispidez moral: “pois bem, os Salesianos deramum golpe de misericórdia nesta tacanha pretensão”.Mas a história não acaba assim. Uma pessoa não identificada,talvez um sacerdote salesiano desavindo com a ortodoxia interna,talvez um tipógrafo, leu o manuscrito na sua integralidade e,provavelmente devido ao prestígio intelectual e social de Manuelda Silva Mendes, teve a intuição clara da polémica nascente e tomou a decisão de fazer, confidencialmente, uma cópiamanuscrita. Previa a sua destruição, à revelia da família do autor,e estaria seguro de que esse texto era realmente importante parao delineamento do pensamento do seu autor. É crível que tenhasido um tipógrafo, fazendo jus a uma aura de ilustração e saberde que essa corporação merecidamente gozava. Imagine-se agoraquem terá sido o destinatário desse documento? Nem mais nemmenos do que um antigo professor no Seminário de S. José, amigodo Padre Manuel Teixeira, de nome José Maria Braga, conhecidotambém como Jack Braga. Essa sorte poderia ter calhado aCharles Boxer, outra figura central no estudo da história deMacau.MANUEL DA SILVA MENDESColecção MOSAICO, Volume XLIV 18
  • Esse misterioso manuscrito não saiu de Macau, esteve semprebem acondicionado na biblioteca particular de Jack Braga. Omistério continua. Jack Braga publicou tantos títulos, publicitouimensos documentos, este, porém, permaneceu intocável e inédito.Por outro lado, Jack Braga não teve a coragem de desvendar estesegredo ao Padre Manuel Teixeira, de quem era amigo. A doaçãodo manuscrito teria implicado um perpétuo sigilo, quanto à fonte equanto à publicidade? Jamais o saberemos. O mistério terminoujustamente após a alienação da Biblioteca de Jack Braga à NationalLibrary of Australia, cujo Catálogo tem o título “The Portuguese inAsia and the Far East: The Braga Collection in the National Libraryof Australia”. O manuscrito aí repousa, com 69 páginas, disponívelmediante microfilmagem.Bem andaria o Arquivo Histórico de Macau em providenciar asua aquisição, enriquecendo assim o seu fundo documental, epromovendo a sua edição. Este pequeno episódio não merece umalinha na biografia intelectual do Padre Manuel Teixeira, sequerbelisca a sua grandeza, mas pode ilustrar como uma combatividadeobsessiva redunda, invariavelmente, numa infeliz tautologia moral.Neste ano em que se celebra o centenário do nascimento doPadre Manuel Teixeira, tomo a liberdade de sugerir à doutora EdithSilva, directora da Escola Portuguesa de Macau, que pondere acriação do “Prémio Padre Manuel Teixeira” destinado a galardoaro estudante melhor classificado na disciplina de História,honrando-se a memória e o legado de um homem que dedicou asua vida e a sua inteligência a Macau.ANTÓNIO ARESTAColecção MOSAICO, Volume XLIV19
  • MANUEL DA SILVA MENDES E RAUL BRANDÃOA propósito da evocação dos 150 anos do nascimento deManuel da Silva Mendes (1867-1931) e de Raul Brandão (1867-1930), gostava de lembrar uma singular convergência destas duaspersonalidades em Macau, no ano de 1907, não obstante o entãotenente Raul Brandão nunca ter posto os pés no Território e que aotempo andava seguramente enfeitiçado com “Os Pobres”, publicadoem 1906.Manuel da Silva Mendes era, desde 1904, o Reitor do Liceu deMacau e foi nomeado pelo Governador Pedro de Azevedo Coutinho,em 18 de Outubro de 1907, para presidir a uma comissão que tinhacomo principal missão repensar todo o ensino da instruçãoprimária para que “nesta colónia seja igual ou semelhante à doReino, mas também para que os livros a adoptar sejamharmónicos com as circunstâncias especiais que se dão nestacolónia”. Essa comissão integrava algumas figuras gradas da vidalocal, os professores Pedro Nolasco da Silva, Joaquim FranciscoXavier Gomes, Etelvina d’Assumpção Osório e Artur da Silva Basto.O trabalho foi realmente feito no tempo previsto, tendo o ConselhoInspector de Instrução Pública acolhido as sugestões da comissãopresidida por Manuel da Silva Mendes, incluindo os compêndiosescolares que seriam adoptados nas escolas primárias de matrizportuguesa do Território.É aqui que aparece o “Livro de Leitura (1ª, 2ª, 3ª e 4ªclasses)”, de João da Câmara, Maximiliano de Azevedo e RaulBrandão. Esta obra foi aprovada pelo Decreto de 4 de Setembro de1903 e manteve-se nas escolas nacionais até ao fim do ano lectivoANTÓNIO ARESTAColecção MOSAICO, Volume XLIV21
  • de 1910, pelo que alguns milhares de alunos em todo o universoimperial português se iniciaram nos mistérios da língua e da leituracom este livro, que deverá existir no fundo histórico português daBiblioteca Central de Macau. É uma obra canónica da pedagogia eda metodologia escolar portuguesas, sendo os seus autores figurasbem conhecidas. Mas, quem era esse trio de intelectuais? João daCâmara (1852-1908), aristocrata e marquês, dramaturgo e literato,publicou “Os Velhos” (1893), “Meia-Noite” (1900), “O Poeta e aSaudade” (1903) e o “O Conde de Castelo Melhor” (1903).Maximiliano de Azevedo (1850-1911), tenente-coronel de artilharia,jornalista e escritor, pubicou “Inês de Castro” (1894), “Marchas eEstacionamentos” (1892), “Histórias das Ilhas” (1899) e “EmCampanha e no Quartel” (1900). Raul Brandão (1867-1930),tenente de infantaria, jornalista e escritor, tinha publicado as“Impressões e Paisagens” (1890), a “História dum Palhaço” (1896),“A Farsa” (1903) e “Os Pobres” (1906). Em 1909 chegará uma outraobra destes mesmos autores, “O Livro das Crianças Portuguesas eBrasileiras”, que procurava ser um suplemento de alma para ascrianças de uma pátria atomizada por vários continentes. RaulBrandão dizia de um modo exemplar no “Húmus”: “É com aspalavras, que são apenas sons, que tudo edificamos na vida. Masagora que os valores mudaram, de que nos servem estas palavras?É preciso criar outras, empregar outras, obscuras, terríveis, emcarne viva, que traduzam a cólera, o instinto e o espanto”. É claroque tempos novos requeriam palavras novas.Olhemos então para os outros livros escolares escolhidos pelacomissão Silva Mendes: “Cartilha Maternal ou Arte da Leitura”,de João de Deus; “Gramática Portuguesa”, de Ulisses Machado;MANUEL DA SILVA MENDESColecção MOSAICO, Volume XLIV 22
  • “Aritmética Prática e Geometria Elementar”, de Ulisses Machado;“Compêndio de Moral e Doutrina Cristã”, do cónego ManuelAnaquim; “História de Portugal”, de Henrique Lopes deMendonça; “Noções Elementares de Corografia de Portugal”, deVicente Almeida d’Eça; “Compêndio de Desenho”, de José Vicentede Freitas; “Cadernos Caligráficos para decalque”, de Carlos daSilva. É caso para dizer que era o tempo em que escritoresconsagrados se dedicavam a conceber e a organizar os manuaisescolares. A historiografia pedagógica actual começa a dedicarmuita atenção aos livros\manuais escolares antigos, um vastocontinente por estudar em todas as suas áreas, porque a primeiraestruturação dos valores e da cultura começa mesmo aí, nessestempos delicados para o sujeito cognoscente.No dealbar de 1907, Macau vivia os sobressaltos habituais de uma relação instável com a China imperial, que não queria dar parte de fraca perante os portugueses que residiam eadministravam essa pequenina península situada na sua orlameridional. A pressão política do Vice-Rei de Cantão eraacompanhada por um conjunto de provocações estrategicamenteatemorizadoras e disseminados no espaço e no tempo. Estava emcausa a jurisdição sobre as ilhas da Lapa, da Montanha e de D. João,assim ingloriamente perdidas, o que indiciava o exercício de umasoberania fraca em Macau porque era medrosa em Lisboa. Tambémo incidente com o vapor japonês Tatsu Maru não ajudou aconsolidar a imagem internacional de Macau.Manuel da Silva Mendes pede a exoneração de Reitor do Liceu,em 6 de Novembro de 1907, “cargo que exerceu com zelo einteligência”, como escreveu o Governador Pedro de AzevedoANTÓNIO ARESTAColecção MOSAICO, Volume XLIV23
  • Coutinho na Portaria Nº 186. Começava o seu tempo na advocaciae de grande colecionador de arte chinesa.Para terminar esta breve nótula evocativa dos dois autores,convoco esta afinidade sapiencial perante a vida e a morte.Manuel da Silva Mendes: “Nascer não é começar; morrer nãoé acabar. Não tem fim nem princípio a existência; Ser, não-ser émais que sequência”.Raúl Brandão: “Que faz de nós a vida? A vida gasta-nos,reduz-nos a linhas essenciais. Habituamo-nos a viver, e quandoestamos habituados a viver, suprime-nos”.Outra ilustre personagem, também nascida em 1867,encontrava-se em Portugal, no Porto, onde seria sujeita a umaintervenção cirúrgica no Hospital da Ordem do Carmo. Refiro-mea Camilo Pessanha.MANUEL DA SILVA MENDESColecção MOSAICO, Volume XLIV 24
  • MANUEL DA SILVA MENDES E JOSÉ DA COSTA NUNESUm pequeno artigo de Manuel da Silva Mendes [1867-1931]intitulado “A Alma de Tao Kuong” publicado no jornal “A Pátria”, de28 de Julho de 1923, vem revelar uma insuspeitada e fraternalamizade com o Bispo de Macau, D. José da Costa Nunes [1880-1976], que chegou ao Território em 1902, como seminarista, trazidopelo Bispo D. João Paulino de Azevedo e Castro, que o ordenarásacerdote em 1903. Esta amizade terá muito provavelmentecomeçado no Liceu cujo Conselho Escolar recomenda a nomeaçãodo reverendo presbítero José da Costa Nunes “para regerinterinamente a cadeira de português”, a partir de 29 de Setembrode 1903. E foram-se encontrando por essa velha urbe, em comissõesdiversas, no jornalismo ou no ‘Instituto de Macau’ de que foramfundadores. A fotografia de conjunto desses fundadores, tirada naGruta de Camões, ficou como um símbolo da inteligênciaportuguesa expatriada, mas a má língua dizia que era apenas umfriso de maçons, de ponta a ponta. Bispo incluído.Nesse mesmo dia 28 de Julho, em que o artigo aparece em “A Pátria”, o Governador Rodrigo José Rodrigues, através daPortaria Nº 143 nomeia uma Comissão para estudar e “remodelaro Código de Usos e Costumes chineses para servir de norma nosactos oficiais; de estudar a mais conveniente organização do ensinogeral e profissional que é preciso estabelecer, com carácter oficial,na comunidade chinesa de Macau”. A Comissão era presidida pelojuiz Álvaro Pato e integrava Manuel da Silva Mendes, Lao Ioc Hon,Camilo Pessanha, Carlos Melo Leitão, Lu Lim Ioc, Tchau Fong Tchi,José Vicente Jorge, Jacob Lau e Pedro Nolasco da Silva.ANTÓNIO ARESTAColecção MOSAICO, Volume XLIV25
  • E a presente história começa com uma visita ao Paço Episcopalde Macau, algures em Julho de 1923, “em uma destas calmosastardes em que a gente tirando tudo sente que ainda tira muitopouco, me fui, na simplicidade da decência, de visita a um velhoamigo, cujo santo múnus lhe não consente, adentro de portasmesmo, que se deixe ver senão em grande compostura”. O calor e ahumidade eram insuportáveis e Silva Mendes anota, “fiquei-me emsilêncio alguns instantes cogitando como é que pessoa viva podetão fartas e longas vestes resignadamente nestes meses amortalhar-se. Eu não podia, ou só por muito dinheiro e por pouco tempoaceitaria o múnus”.A conversa desliza e entretanto “veio o chá da obrigação –infusão já neutra de tratos que sofrera – e, a ladear o recipiente,três, apenas três espalmadas bolachinhas”. Silva Mendes dá largasà sua erudição como professor de latim, citando largamenteexpressões de cariz religioso, apressando-se a dizer, “não foi o meu amigo que me fez ouvir estas palavras do Evangelho, como os leitores, se eu não fizesse esta observação, naturalmentepresumiriam”, confessando ainda que se sentia “há muito arrediodestas salutares leituras”, como ateu convicto que era.O motivo central da conversa entre os dois amigos seriam aschávenas nas quais era servido o chá. De um lado, o olhar cobiçosode um colecionador de porcelanas antigas e de obras de arte e daparte do Bispo, um matreiro divertimento com uma situaçãoestudada com o refinamento oriental.Não escapou a Manuel da Silva Mendes este pormenor,“contrastando com a infusão, era o recipiente, a chávena, umautêntico Tao Kuong azul e branco. Não cuide alguém, pouco sabidoMANUEL DA SILVA MENDESColecção MOSAICO, Volume XLIV 26
  • em cerâmicos produtos, que estivesse ali cousa de encher olho. Averdade é que nada deste tipo, que esse período nos deixou, é dignode ocupar estantes de museu; a escassez, porém, de exemplares dosmelhores tempos e a baixeza a que desceram os posterioresprodutos, tornaram os similares da dita chávena hoje apetecíveis”.Como um jogador de xadrez, o Bispo estuda a fisionomia do seuparceiro e diz-lhe: “É um Ming, bem sei – inquiriu de mimduvidosamente o meu amigo”. Silva Mendes responde à medida daprovocação: “Ming – lhe tornei – não é. Um Tau Kuong, um TaoKuongzito, simplesmente”. O Bispo não se fica e diz-lhe: “Sim, oimperador pode ser que seja esse; mas o que eu queria dizer é queesta louça é muito antiga – trezentos anos talvez”. E a verdadeirarazão sempre apareceu, “olhe, a chávena não a leva… Outra cousa:os seus artigos para ‘A Pátria’ … ainda não vi nenhum…”. A respostabem humorada de Silva Mendes não se fez esperar, “É que nãocostumo trabalhar … p’ró bispo…”. Disse-lhe logo o Bispo,“Escreva… e a respeito da chávena ainda havemos de conversar…”.O diálogo entre os dois amigos evoluiu para uma análise sobrea vida política, económica e social do Território governado porRodrigo José Rodrigues, o popular RóRó: “apreciou o meu amigo,com elogio, o apurado classicismo do ‘Boletim Oficial’; eu, compalavras por igual laudatórias, a rapidez de execução das obras daAvenida Coronel Mesquita; veio depois a Boa Colheita do nossogeneral e ambos concordamos em que não poderia melhor terassentado a carapuça; por fim, a Central, a Moeda portuguesa, aAgência, o Mercado modelar, a Banda educativa, a Escola pueril, o Lar, o Casino, os Cavalinhos, os Cafés parisienses… mas aqui cala-te boca que é melhor…”. Silva Mendes revela ainda uma facetaANTÓNIO ARESTAColecção MOSAICO, Volume XLIV27
  • curiosa sobre o disciplinado exercício diário de manutenção físicado Bispo D. José da Costa Nunes: “faltavam nesse dia ao meuamigo, para os sete habituais, ainda dois quilómetros, quediariamente faz, como boi em calcadeiro, num terraço do jardim e para lá me levou ele”. O Bispo media os passos com um“pedómetro” e todos os dias calcorreava sete quilómetros. Mistério,mistério era o persistente anúncio, da Imprensa Nacional de Macau,que publicitava a venda, por $ 0,75, da “Conferência realizada noGrémio Militar de Macau, em 25 de Janeiro de 1910, sobre as Obrasdo Porto de Macau, por António Pinto de Miranda Guedes”.A conversa regressou inevitavelmente às chávenas. Oargumento sedutor de Silva Mendes, “eu o faria cardeal”, era umapremonição e uma lisonja à qual o Bispo parecia imune, dizendo-lhe, “Bem entendo, mas tenha paciência: não leva as chávenas.Diga-me antes quando chegam os artigos”. A estocada divertida equase final de Silva Mendes: “estes artigos (que assim apelidá-los é,em arte, sacrilégio) se fossem de K’uang Hsi, do riquíssimo,‘mahommedan blue’, sim, isso era caso para trazê-los o meu amigoaí ao peito pendurados…”. E o Bispo, o que lhe respondeu? Apenasisto: “Como, como?! Mahomet foi hereje maior da marca. Pode lá otal ‘mahommedan blue’ ter sido cousa boa! Não diga disparates….”.D. José da Costa Nunes despede-se de Silva Mendes, “apareçamais vezes. Não se esqueça dos artigos. Adeus!”. E Silva Mendes,“pois sim, os artigos virão, se mos devolver embrulhando aschávenas…”. O Bispo, com um sorriso, não se desmancha, “Issonão! Enfim, poderá ser, vamos a ver. Adeus! Sim, talvez… sim”.Manuel da Silva Mendes terá recebido as suas chávenas e a suacolaboração em “A Pátria” foi regular e condizente com o seuMANUEL DA SILVA MENDESColecção MOSAICO, Volume XLIV 28
  • prestígio. Vale a pena mencionar que em toda a extensa obra doCardeal D. José da Costa Nunes, maioritariamente editada pelaFundação Macau, não há referências a episódios memoriais ou aamizades cifradas como este lance que Manuel da Silva Mendesdesvenda num artigo de jornal. A história cultural e social de Macausempre viveu deste pudor, deste silenciamento que dá algumtrabalho em desocultar e descodificar.Manuel da Silva Mendes falece em Macau, no ano de 1931. D. José da Costa Nunes é nomeado em 1940 Arcebispo de Goa eDamão, acumulando os títulos de Primaz do Oriente e Patriarca dasÍndias Orientais. Em 1962 é investido na dignidade de Cardeal peloPapa João XXIII. Falece em Roma, em 1976.ANTÓNIO ARESTAColecção MOSAICO, Volume XLIV29
  • MANUEL DA SILVA MENDES E CAMILO PESSANHAManuel da Silva Mendes (1867-1931) publicou um artigosobre Camilo Pessanha (1867-1926) no jornal “Ideia Nova”, de18 de Março de 1929, cerca de três anos após a sua morte, umaedição integralmente dedicada ao Poeta, incluindo a apresentaçãode dois inéditos, os poemas “Vida” e “Branco e Vermelho”. Esteartigo parece mais um cartão de visita de Manuel da SilvaMendes do que uma evocação da vida e da obra de CamiloPessanha. Tudo aquilo que os separava e tudo quanto os uniaficou aí marcado de uma forma muito clara e às vezes com laivosde deselegância.Muito pouco se tem escrito sobre o relacionamento entreestas duas figuras proeminentes da cultura portuguesa emMacau, nas primeiras décadas do século XX. Escreve SilvaMendes, “conheci Camilo Pessanha durante mais de vinte anosde Macau e sempre com ele estive em boas relações”. E isso,acima das diferenças, parece ser verdade. Por exemplo, CamiloPessanha aceitou substituir Silva Mendes no Liceu, a partir de14 de Março de 1914, quando este necessitou de ir a Changai para“entre outros assuntos do seu interesse ali procurar umestabelecimento para a educação da sua filha”. A Cantão foraminúmeras vezes juntos, em verdadeiras expedições à procura deantiguidades. Mas nem sempre foi assim. Dez anos antes, LuísNolasco da Silva e Silva Mendes queixaram-se da desorganizaçãodos serviços da Conservatória dirigida por Camilo Pessanha, quechegou a escrever com um fósforo carbonizado. Isso causoumossa na relação entre ambos, mas o tempo sarou tudo.ANTÓNIO ARESTAColecção MOSAICO, Volume XLIV31
  • Com temperamentos diametralmente opostos, metodologiasde trabalho e de estudo distintas e com formas de pensar e de agirdiferentes, estes dois homens trouxeram um superlativo ‘élan’criador e intelectual que escapava a Macau desde a expulsão dosjesuítas, com o padre Francisco Xavier Rondina à cabeça. A Revista“Arquivos de Macau” começa a ser editada, confortando oshistoriadores que desesperavam por um espaço para divulgardocumentos, para publicitar estudos em torno da secular história deMacau e que também servia para insinuar a legitimação dasoberania de uma forma diplomática.A laicidade fria destes republicanos e o Liceu de Macau irãounir estas duas personalidades, ambas formadas na Faculdade deDireito da Universidade de Coimbra. Camilo Pessanha chega em1894 e Manuel da Silva Mendes em 1901. Só uma prolongada baixamédica é que terá impedido Camilo Pessanha de subscrever, em1902, uma petição inusitadamente dura em defesa do Liceu,dirigida a El-Rei D. Carlos, assinada pelo Reitor José Gomes daSilva e pelos Professores, entre eles Manuel da Silva Mendes. É umapeça argumentativa ainda hoje digna de ser lida. O cerne da questãoestava na sobrevivência do Liceu e na continuada ingerência do LealSenado acolitado pela Associação Promotora da Instrução dosMacaenses, que representavam a pequena politiquice local,interesseira e medíocre.Que pessoas eram estas antes de chegarem a Macau? CamiloPessanha tinha sido subdelegado do procurador régio emMirandela e advogado em Óbidos, já era poeta com colaboraçãodispersa por várias publicações e sobre alguns dos seus poemasFernando Pessoa dizia,“sei-os de cor, aqueles cujas cópias tenho, eMANUEL DA SILVA MENDESColecção MOSAICO, Volume XLIV 32
  • eles são para mim fonte contínua de exaltação estética”. Manuel daSilva Mendes tinha publicado uma história do socialismo libertárioou anarquismo, editado uma tradução de Schiller e estado presopor motivos políticos decorrentes da sua activa participação napropaganda republicana. Advogava em Vila Nova de Famalicão.Teve um filho em solteiro. Casou no ano em que foi para Macau,em 1901, com uma alemã, que não era a mãe do seu filho.Já em Macau, Camilo Pessanha foi um iconoclasta quequebrou tabus, entregou-se à volúpia do ópio e aos amores dechinesas e sempre um poeta torturado pela estética da perfeição,a par do seu fascínio pelos estudos históricos e literários sobre aChina. Silva Mendes marca o seu território edificando uma casaapalaçada, estuda a cultura chinesa, publica dois livros sobre afilosofia taoísta e serve-se da imprensa local para difundir umenérgico magistério cultural e cívico. Jamais o moralismo ou afalsa moral se intrometeu entre ambos. De moral deveriaperceber, por exemplo, o Leal Senado que ao celebrar o contratocom o Mestre da Banda de Música, o italiano Aléssio Bénis,incluiu uma cláusula extravagante, para além da duração docontrato e do vencimento,“a proibição de se embriagar”. Isto emDezembro de 1920. A “Clepsidra” aparecerá neste ano, com aorganização de Ana de Castro Osório e sob a chancela da EditoraLusitânia.Este artigo de Manuel da Silva Mendes faz um balanço do seuconhecimento de Camilo Pessanha, em seis patamares distintosque, paradoxalmente funcionam como um estranho auto-retrato.Estas palavras flutuantes, como disse Roland Barthes, podemtornar-se feitiços.ANTÓNIO ARESTAColecção MOSAICO, Volume XLIV33
  • No primeiro patamar, “como conhecedor de arte chinesa” oseu testemunho é arrasador: “C. Pessanha nunca visitou museualgum que contivesse qualquer secção de arte chinesa. Nunca viunenhuma colecção particular importante. Não possuía livrossobre arte chinesa pelos quais se pudesse instruir, com excepçãode alguns, poucos, em que apenas se encontravam algumasnoções gerais ou apenas profundavam um ou outro ramo. Nuncateve mestre ou perito a quem consultasse”. Ora Manuel da SilvaMendes representava o pólo oposto. Visitou museus na Inglaterra,na Alemanha, na Itália, em França e em Portugal. Possuía uma boabiblioteca sobre arte chinesa, que foi adquirida pelo governo deMacau após o seu falecimento. Conhecia artistas, discutia eescrevia sobre a arte chinesa. Era um colecionador erudito. Noartigo “Um Ovo por um Real”, publicado em ‘O Macaense’ em 14 deMarço de 1920, ficamos a saber que adquiriu uma pintura, numtin-tin, por tuta e meia, e após lavar a tela com sabão surgiu umChinnery. Pediu a abalizada opinião a Manuel Antunes Amor,superintendente das escolas municipais, artista e cinéfilo, queconfirmou a autoria da obra. No segundo patamar, Camilo Pessanha “como colecionador”,afiança-nos Manuel da Silva Mendes que a “sua colecçãocompunha-se, na sua quase totalidade, de louças e pinturas. Nemem umas nem em outras porém, igualmente no resto, continha ela uma única peça rara ou de grande valor, quer antigo quermoderno. Das dinastias Tang, Sung e Yuan, em que a artecerâmica atingiu o apogeu nas formas e na monocromia,nenhuma, mesmo de inferior qualidade”. Quanto a pinturas, “nãoconseguiu Camilo Pessanha coligir um único exemplar antigoMANUEL DA SILVA MENDESColecção MOSAICO, Volume XLIV 34
  • original. Toda a colecção consistia em pinturas modernas, sendomuito poucas as de bons artistas, e o resto constituído por cópiase exemplares de artistas inferiores”. Manuel da Silva Mendesrevela um conhecimento pormenorizado da colecção de Pessanhaque era classificada como sendo um nível acima da fancaria, aocontrário da sua. Camilo Pessanha doou ao Estado português omelhor do seu espólio, tendo impresso um catálogo descritivo, umgesto de grande altruísmo e de benemerência. Do alto da suaimportância, o Estado agradeceu e guardou num armazém as caixascom a doação de Pessanha, dezenas de anos a fio. Contudo, Manuelda Silva Mendes, nos seus primeiros tempos de Macau chegou aaconselhar-se com Pessanha: “E, por segurar-me, fui-me, o rolodebaixo do braço, a casa do meu colega, doutor Camilo Pessanha,que passava por entendedor. – Ó colega, que tal lhe parece isto?vale alguma cousa ou não vale nada? – Hum! disto há muito;quaisquer duas ou três patacas pagam isto. – Era essa também aminha opinião”.No terceiro patamar, “como poeta”. Aqui as divergênciasestéticas e literárias são profundas e irreconciliáveis. Para Manuelda Silva Mendes, poeta “não é o indivíduo que faz versos, mas sóaquele que fielmente reproduz em formas poéticas as noções dobelo. Ora, naquela sua obra os erros de metrificação, as ideiasilógicas, incongruentes e inconsequentes, são em tal número querevelam claramente a sua impotência para reproduzir o belo”.Está naturalmente a referir-se à “Clepsidra”. Mas a sova continua.“Há quem diga que isso a que eu chamo erros, não o são, mas simapenas desvios das regras clássicas, pois que Camilo Pessanha époeta simbolista. Antes de responder a esta objecção, devoANTÓNIO ARESTAColecção MOSAICO, Volume XLIV35
  • confessar que quando me encontro em presença de uma obra queme cheira a post-impressionista, simbolista, futurista ou qualqueroutra espécie ‘ista’, fico logo de pé atrás, pois que para mim tenhoque todas as obras ‘istas’ são, com raríssimas excepções, merasaberrações da arte e produtos, em geral, de indivíduos que,incapazes de produzir o belo pelas formas que uma longa evoluçãocriou, a evolução da humanidade, pretendem alcançar aqueleresultado por meio de outras derivadas do seu capricho, à sombrade teorias de sua invenção para se fazerem passar por artistas e ‘pour épater le bourgeois’.” Termina o seu juízo crítico: “AClepsidra está inundada de emoções poéticas. Como porém nãobasta para se ser poeta sentir efervescências de beleza, mas éindispensável que sejam produzidas em formas belas (estas nãose obtém caprichosamente ou com violação das regras criadaspela longa evolução da humanidade, as chamadas regrasclássicas, como C. Pessanha fez) a conclusão que eu daqui tiro éque ele não era poeta na verdadeira acepção do termo”. Aseveridade opinativa, escrita em 1929, revela que Manuel da SilvaMendes era inflexível quanto à ruptura do cânone literário. Estaposição conservadora não se traduziu num ataque ‘ad hominem’ a Camilo Pessanha, o que é de relevar, mas não o isentará deresponsabilidades quanto à recepção da imagem literária do poetaem Macau, pouco lisonjeira, diga-se. No quarto patamar, “como professor”, Manuel da SilvaMendes lembra que Camilo Pessanha foi incondicionalmente umgrande mestre: “regeu C. Pessanha durante anos as disciplinas defilosofia e de história e desta última ouvi muitas vezes as suasprelecções, podendo assim observar que ele não se contentava comMANUEL DA SILVA MENDESColecção MOSAICO, Volume XLIV 36
  • ensinar aos alunos o que o compêndio (árido e seco, comogeralmente todos são) continha, mas, amenizando e mais altosubindo, procurava fazer-lhes compreender como os factos se relacionavam entre si na mesma civilização e no queconcordavam ou divergiam de outras civilizações, a fim de lhespermitir ver o fio da evolução da humanidade. Demais,prelecionava com dicção correcta e com convicção; e para que oseu trabalho fosse o mais profícuo possível, escrevia as prelecçõese passava-as aos alunos. Excelente professor!”. O testemunhoescrito de inúmeros alunos corrobora esta opinião.No quinto patamar, “o prosador”. Manuel da Silva Mendes éum confesso admirador do estilo e da forma de Pessanha. “RecebeuC. Pessanha uma educação literária completa e esmerada. Foramseus mestres os velhos mestres da língua e da literaturaportuguesa anteriores ao moderno predomínio do ensino dasciências que muito veio prejudicar o das letras”. Não se coíbe deavançar com outras pistas: “Preguiçoso como era, os seus trabalhosem prosa são pouco numerosos e ele não os coligiu: encontram-seavulsos em revistas, em jornais, em prefácios e, os maisnumerosos e extensos, em articulados, alegações, minutas,sentenças e outros escritos jurídicos. Pureza, correcção e clareza,graça ou elegância com o cunho da sua individualidade, de resto,tão característica, são qualidades bem impressas nos seus escritos.Eu leio-os e antes de ver a assinatura, logo digo: cá está ele, éPessanha, excelente prosador!”. Camilo Pessanha era um prosadorsoberbo e até na sua correspondência essa qualidade é ainda visível.No sexto patamar, “como jurisconsulto e advogado”. Manuelda Silva Mendes julga-o como “advogado, não foi notávelANTÓNIO ARESTAColecção MOSAICO, Volume XLIV37
  • conhecedor dos diplomas legais. Indisciplinado como era no seulabor, possuía apenas os fundamentais e alguns secundários que,em, sobre e sob armários e mesas e no chão tinha e com os quaiscães e gatos diariamente se entretinham”. Mas, ressalva que“durante a sua longa vida em Macau não houve jurisconsulto queo igualasse: ele foi sempre a palavra última, como tal tido e comotal respeitada por colegas e magistrados, se bem porque,indolente, indisciplinado no viver e de modos nem sempresociáveis, não teve nunca grande clientela”. Os advogados e juízes,contemporâneos de Pessanha, são coincidentes na afirmação daexcelência do seu raciocínio jurídico.As ideias de Camilo Pessanha não deixavam as pessoasindiferentes. A conferência sobre literatura chinesa, cujo relato foiescrito pelo próprio Poeta para ser publicado no jornal “OProgresso”, de 21 de Março de 1915, terminava deste modo“Concluiu por um apelo dirigido a tantos portugueses moços queos acasos da fortuna ou o dever profissional condenam apassarem nesta remotíssima e exígua possessão portuguesa –verdadeira prisão com homenagem – alguns anos de mesquinhavida intelectual, para que dediquem ao estudo da língua chinesa eda civilização chinesa, nos seus múltiplos aspectos, as horas quedos seus serviços obrigatórios lhes restarem livres, – pois que,além do alto serviço que com este estudo prestarão à pátriaportuguesa, auferirão do seu próprio esforço, inefável deleiteespiritual”. Esta magnífica exortação, de fino recorte educativo,sinológico e ético, foi salva por Daniel Pires que a incorpora novolume “Camilo Pessanha, Prosador e Tradutor”. Ora estas ideiasnão caíram em saco roto. Anos depois, ao discorrer sobre “Macau eMANUEL DA SILVA MENDESColecção MOSAICO, Volume XLIV 38
  • a Província de Kuangtung”, parodiando sobre piratas e aviões, nojornal “O Macaense” de 6 de Junho de 1920, Manuel da SilvaMendes escreve: “se Macau, portanto, é uma fortaleza comhomenagem, é-o só para quem assim quere. É fortaleza para aignorância, para a preguiça; e muita gente há, de resto, que até afortaleza mal conhece e a homenagem, para essa, é favor que nãomerece”. Curto e grosso, mas a falar da mesma realidade.Manuel da Silva Mendes não deixou passar em claro a notíciado falecimento de Wenceslau de Morais no Japão, numa crónicapublicada no “Jornal de Macau”, de 20 de Agosto de 1929, onde expressa a sua admiração pelo escritor, “terá então de ser considerado como figura excepcional na contemporânealiteratura, pois nela mui raros são os escritores de comparávelquilate”.O dia da consoada do Natal de 1929 em Macau, foiviolentamente agitado por uma gravíssima insubordinação dastropas portuguesas aquarteladas na Fortaleza do Monte. Quemisteriosos desígnios seriam esses que o Tribunal Militarplacidamente considerou como um ruidoso levantamento derancho? E que opinião terá tido Manuel da Silva Mendes sobre esseassunto?Manuel da Silva Mendes e Camilo Pessanha repousam ambosno Cemitério de S. Miguel Arcanjo, em Macau, a escassos metrosum do outro.ANTÓNIO ARESTAColecção MOSAICO, Volume XLIV39
  • MANUEL DA SILVA MENDES, PENSADOR DE MACAUManuel da Silva Mendes (1867-1931) antecipou muito bem oespírito do movimento da “Seara Nova” em Macau: combatividadecívica e protestativa, alheamento dos partidos políticos mas não dapolítica, defesa intransigente da liberdade e da democracia, dagovernação justa e ética. Foi um intelectual ferozmente independenteque procurou redescobrir Macau na sua dimensão histórica,cultural e política. Serviu-se da imprensa portuguesa (escreveu em“A Voz de Macau”, “Vida Nova”, “O Progresso”, “O Macaense”, “APátria”, “Ideia Nova”, “Jornal de Macau” ou “A Academia”) comouma tribuna livre para pensar as relações do estado com oindivíduo, procurando uma linha de racionalidade onde ela,aparentemente, não era visível. E como se tornou num “sage”, assuas ideias eram seguidas e comentadas, os seus artigos nos jornais,recortados e guardados. Para gerir esse enorme legado cultural, oseu antigo aluno no Liceu de Macau, Luís Gonzaga Gomes, fazrepublicar no jornal “Notícias de Macau”, em folhetins, toda a suacolaboração dispersa, coligindo-a mais tarde em duas ediçõesdistintas, uma com três volumes e a outra com quatro volumes.Todo esse desinteressado magistério cultural foi, como registouHenrique de Senna Fernandes, muito apreciado e valorizado pelacomunidade. Note-se que só aos romancistas é que era concedido oprivilégio desta notoriedade repartida em folhetins. Este gesto deLuís Gonzaga Gomes, emérito historiador de Macau, trouxe umarevolução coperniciana aos estudos de Macau. Com o pensamentode Manuel da Silva Mendes, Macau deixa de ser vista comoparoquial e unidimensional, para doravante ser estudada a partir deANTÓNIO ARESTAColecção MOSAICO, Volume XLIV41
  • uma coligação de saberes pluridimensionais, sendo por isso oprimeiro mentor da moderna macaulogia. A grande obra deBenjamim Videira Pires, “Os Extremos Conciliam-se” inscreve-sejustamente nessa linhagem aberta pelo espírito metodológico deManuel da Silva Mendes. E que se encontra onde menos se espera,“eu também digo que vir para Macau é aventura. Quem não tiverfeitio para viver vida regrada, quieta, modesta e simultaneamenteo não tiver para se afeiçoar ao estudo das cousas chinesas e forçaque de vícios arrede, não deve vir para Macau: deixe a China paraos chineses; deixe-se ficar onde ouça cantar o cuco e a língua deCamões”. Recado para alguns inadaptados com dificuldades paraescolherem entre a verdade e a angústia da existência, ou comodizia Heidegger, para trilhar os caminhos que não conduzem a ladoalgum? José Régio, nos “Poemas de Deus e do Diabo”, escreveu“Não sei por onde vou\Sei que não vou por aí!”, encaixando-se naperfeição esta forma de pensar que é um trabalho e um prazer.Manuel da Silva Mendes colocava incisivamente o dedo naferida: “temos tido em Macau ultimamente uma série de anosfinanceiramente prósperos. Viu algum que se houvesse aproveitadoesta prosperidade para o progresso intelectual da colónia? Nemum avo se aplicou nisso”. Estaria provavelmente a referir-se àinexistência de um Museu, de uma Biblioteca pública e de umArquivo Histórico, instituições que considerava nucleares para aelevação cultural dos cidadãos e para a preservação da memória eda identidade do Território e cujo desinteresse governamentalequiparava a um crime.Por estas e por outras era um homem cuja opinião era temidae incómoda. Ninguém o igualou nesse corajoso registo de indagarMANUEL DA SILVA MENDESColecção MOSAICO, Volume XLIV 42
  • a complexidade luso-chinesa e sino-portuguesa geradoras desentido e de controvérsia, de encontros e desencontros. E começalogo em 1901, o ano em que chegou: “Nesse tempo, bom tempo esse,Macau era na aparência, ainda muito da Roma do ExtremoOriente. O bispo era um príncipe vistoso; o governador, um vice-rei temido, com poderes de esbofetear mandarins, embora porprudência não esbofeteasse. Quase tudo fingimento, sim; mas todaa gente, quando eles passavam na rua, repimpados em ricospalanquins, cristãmente transportando seus volumes sobre pobrescúlis, ricamente fardados, se arredava, se descobria, se perfilava.Macau mantinha ainda reflexos dos rendosos tempos docontrabando de ópio e sal, do tráfico de cúles, do wai seng”. Ora,quantas questões antropológicas contemporâneas em torno daconstrução pessoal e social da imagem do cidadão e da própriaidentidade de Macau, não apresentou na imprensa do Território? A sua crítica indignada, brusca e violenta ficou registada para ahistória: “Macau conservou-se sempre e em tudo português; teve,sempre e em tudo até meados do século XIX, carácter. Desde entãopara cá é que começou a soprar um vento de insânia, a mania dedestruir o que havia de bom, sem que uma voz de protesto selevantasse. O maior réu neste descalabro tem sido o governo local,que por grande número de expropriações para endireitar ealargar ruas (que tem substituído por outras tortas e estreitas)tem deitado tudo abaixo sem respeito pela história, nem pela arte.Edifícios, como iguais nunca ele soube construir nem reconstruir,esplêndidos trechos de cantaria aparelhada, que deveria terrespeitado como venerandas relíquias, tem, a martelão, despedaçadopara alicerces de miseráveis edifícios que por boas, característicasANTÓNIO ARESTAColecção MOSAICO, Volume XLIV43
  • construções portuguesas e chinesas tem trocado”. A reflexãotranscendente e perseverante de Manuel da Silva Mendes sobretudo o que se desmorona e em torno dos valores subjacentes àutopia em Macau, descentrada da China e descentrada de Portugal,permanece em aberto porque a sua ressonância não se apagou. Comexcepção do coronel José Gomes da Silva e que é um caso à parte,não encontramos mais ninguém animado desta energética crítica,assumida e frontal mas também com a faceta construtiva epedagógica.Pedro da Silveira, poeta e investigador açoriano, recorda quenos meios anarquistas portugueses Manuel da Silva Mendes eraconhecido por “banqueiro anarquista” visto que tinha enriquecidoatravés da sua bem sucedida carreira de advogado. A informaçãoviera de outro professor do Liceu de Macau, Humberto Severino deAvelar, convicto anarco-sindicalista. Manuel da Silva Mendes tinhapublicado em 1896 uma obra de referência, “Socialismo Libertárioou Anarquismo” (reeditada em fac-símile, em 2006), tendo lidoextensivamente Proudhon, Bakunine, Kropotkine, Karl Marx,Comte, Hobbes ou Rousseau. Mas para o Silva Mendes radicado emMacau todo esse substracto intelectual e filosófico jamais éreferenciado, mas não quer dizer esquecido, porque encontra outrocaminho com verdade, liberdade e com sentido, nas ideiasfilosóficas de Lao Tse e de Chuang Tse, que estuda com paixão eafinco, rodeado de importante bibliografia nas línguas francesa einglesa. Considerava toda a parenética do confucionismo um poucoconflituante com os valores da liberdade. É extraordinariamenteimportante o diálogo virtual espaçado no tempo, que mantém comJosé da Costa Nunes (1880-1976) que publica no semanárioMANUEL DA SILVA MENDESColecção MOSAICO, Volume XLIV 44
  • macaense “Vida Nova” as 24 “Cartas da China”, de 30 de Maio de1909 até ao dia 5 de Dezembro desse mesmo ano, onde perpassa opensamento inquieto do neotomismo em torno da questão clássica,pode compreender-se a fé sem a razão no seio da cultura chinesa?Manuel da Silva Mendes mantém-se actualizado, traz paraMacau, em 1915, as inquietações de John Ruskin, então muito emvoga em Portugal, com a tradução de “As Fontes da Riqueza”,inserida na ‘Biblioteca das Sciencias Contemporâneas’ da EmpresaLiterária Fluminense, onde apareceram autores como Ribot, LeDantec, Schopenhauer ou G.B. Ughetti. Faz a defesa dos valoresmorais e espirituais contra o deslumbramento cego da razãocientífica e técnica: “as maravilhas do progresso, as mais altascriações contemporâneas da inteligência humana, se não todas,no maior número podem ser contempladas, admiradas por todosaqueles que se julgam mal nascidos neste asiático recanto.Automóveis? – Circulam diariamente pelas ruas de Macau.Aeroplanos? – Não são novidade para ninguém. Telegrafia semfios? – Há uma estação a dois passos das Portas do Cerco.Gramofones? – Toda a gente pede que se calem. Cinematógrafos?– Há aí que farte. Submarinos? – Podem ver-se em Hongkong.Sismógrafos? – Nem isso cá falta. O 606? – Tem sido aquiaplicado. Teatro lírico? – Faz actualmente as delícias dosmacaenses. Que mais oferece Paris, Berlim, Londres, New York aonosso ser moral e intelectivo sem cara e incompensada usura davida? Peso de riqueza, refinamento de luxo, turbilhonantemovimento, depravação em maior grau, mais fortes sensações,mais enérgico e rápido consumo de vida – sim; afeições maispuras, encantos mais suaves, mais belas flores, mais quietação,ANTÓNIO ARESTAColecção MOSAICO, Volume XLIV45
  • mais doce repouso, mais felicidade – não. A felicidade mora comquem sabe procurá-la”. Estas palavras retratam o avanço de Macauem relação a Portugal, foram escritas no jornal “O Progresso”, de 7de Março de 1915, e parecem impregnadas pelo eco de “A Cidade eas Serras”, obra póstuma de Eça de Queiroz e ainda pela essênciadas ideias de Ruskin complementadas pela aventura espiritual dotaoísmo filosófico. Parece que o taoísmo lhe trouxe uma conversãoíntima mas sem fazer perder as exigências do enfrentamento darealidade.Mas, para responder a uma questão redundante, Macau valeua pena? Manuel Silva Mendes diz-nos o seguinte: “Não que deMacau eu tenha queixas. Pelo contrário: afeiçoei-me à terra e aquifiquei. Nunca ganhei nem perdi dinheiro no jogo, porque nuncajoguei; nunca ganhei rios de dinheiro nem cousa que com isso separecesse porque, além de outras razões, em Macau, rios dedinheiro, honestamente, ninguém pode ganhar. Mas conseguiamealhar o bastante para viver modestamente e tem-me Macau,a China e amigos chineses proporcionado meios de satisfazer asminhas necessidades intelectuais”.MANUEL DA SILVA MENDESColecção MOSAICO, Volume XLIV 46
  • A BIBLIOTECA DE MANUEL DA SILVA MENDESUma casa apalaçada para um futuro “tai pan”, rodeado deuma enorme colecção de arte amorosamente reunida e de umabem abastecida biblioteca, eis o mundo de Manuel da SilvaMendes (1867-1931), figura proeminente de Macau onde tinhachegado em 1901, esfuziante de vida e de ideias. Após a sua morteem 1931 parece que há uma vera traição ao sentido primordial doseu projecto de vida. O desmantelamento do legado material deManuel da Silva Mendes seguiu alguns passos metódicos, sempreno sentido de alienar os bens obtidos em Macau, a casa, acolecção de obras de arte e a biblioteca. A família abandonavaMacau, de grata e cordial memória, pelo que era lógico eabsolutamente normal a venda dos haveres. Contudo, no planosimbólico, a construção daquela casa apalaçada tinha sido umsinal inequívoco de quem veio para ficar para sempre, geraçãoatrás de geração. Isso não aconteceu, pelo que recordo Séneca,que no seu tratado “Da Brevidade da Vida” se interrogava sedeveremos aprender a viver para não desperdiçarmos o tempo danossa vida. Ou não. Afinal, Macau não era mesmo o “Jardim deEpicuro”. Ficou no Cemitério de S. Miguel, com esta sibilinainscrição na pedra tumular, “Nascer não é começar; morrer nãoé acabar”. O nome numa rua, a partir de 1932. E uma memóriacintilante e misteriosa no panorama da cultura portuguesa emMacau, cujo improvável discípulo, Luís Gonzaga Gomes, seesforçou por manter viva.A Biblioteca de Manuel da Silva Mendes deveria ser valiosavisto que era um reconhecido especialista na filosofia e na arteANTÓNIO ARESTAColecção MOSAICO, Volume XLIV47
  • chinesas. E por ser um homem viajado certamente não perderia oensejo de se actualizar em face das novidades. O governo portuguêsde Macau, através da Direcção dos Serviços de Fazenda eContabilidade assumiu a sua aquisição, em 29 de Junho de 1933,com as seguintes considerações: “Tendo-se reconhecido servantajosa para o Estado a aquisição duma colecção de livros sobrea arte chinesa, pertencente aos herdeiros do falecido Dr. Manuel daSilva Mendes, colecção que irá enriquecer o Museu Luiz de Camõese que é cedida por um preço que se averiguou ser realmentemódico”. Ora, esta grande “colecção de livros sobre a arte chinesa”foi realmente adquirida pela “quantia de $1.584,00”, mas nãoconsta do espólio do antigo Museu Luiz de Camões, sequer éconhecida uma memória descritiva. Ironicamente essa referidaquantia foi encontrada aqui: “Havendo no cap 10º - artº 321º - nº5 – alínea j), sob a rubrica ‘À Associação Portuguesa de SocorrosMútuos de Hongkong para manutenção duma Escola de Português’disponibilidades absolutamente dispensáveis em todo o decurso doresto do exercício que podem ser aproveitadas para o fim em vista”.À medida da mesquinhez nacional, uma Escola pobremente dotada,mais pobre ficou. O paradeiro desses livros é uma incógnita e ahipótese mais benigna e ingénua é a de presumir que se encontrematomizados no fundo antigo da Biblioteca Histórica do Leal Senado,fundo esse maioritariamente oriundo da Biblioteca do Liceu deMacau. Essa foi a triste sina de algumas bibliotecas particulares emMacau e recordo a de José Gomes da Silva que se esfumou, a deCamilo Pessanha da qual “sobrou” menos de um terço da doaçãooriginal ou a biblioteca do médico Lourenço Marques, dono dapropriedade onde está a Gruta de Camões, da qual apenas seMANUEL DA SILVA MENDESColecção MOSAICO, Volume XLIV 48
  • conhece o bem nutrido Catálogo elaborado por Joaquim Gomes,em 1924.Como reconstituir, então, a sua biblioteca particular? Ocaminho da hermenêutica possível é prestar atenção aos detalhes eaos pormenores dos seus textos e dos seus livros, às alusões directase às citações extensivas de obras e de autores, uma familiaridadeque não deixa margem para grandes dúvidas. Mas, as evidênciasnão se esgotam aí. Quanto às línguas citadas, o francês, o inglês, oespanhol e o latim. Curiosamente, não aparecem títulos na línguaalemã, que dominava e da qual era professor no Liceu. Na línguachinesa, também nada consta.Para além da imprensa portuguesa de Macau, sabemos que eraleitor regular de “O Primeiro de Janeiro”, “The Hongkong DailyPress” e da “Illustracion Française”. O “Diário do Governo” e o“Boletim Oficial” eram escrutinados com toda a regularidade e apartir deles escreveu muitos artigos na imprensa.A informação generalista e enciclopédica era recolhida no“Grand Dictionnaire Larousse”, na “Encyclopaedia Britanica” e na“Encyclopaedia Sinica”, de Samuel Couling, que na actualidadecontinua a ser editada em fac-símile.Mal pareceria a um professor de latim não ter alguns títulos,mesmo religiosos, “Antigo Testamento”, “Epistola B. Pauli adCorinthios”, “Liber Proverbiorum”, “Liber Psalmorum”, “LiberEcclesiastici”, “Evangelium Secundum Matheum”, “EvangeliumSecundum Lucam”.A sua fascinada devoção pela sabedoria chinesa, sobretudo aarte, a filosofia e a religião não resultava de uma vã tentativaretórica ornada de superficialidades. A bibliografia que cita,ANTÓNIO ARESTAColecção MOSAICO, Volume XLIV49
  • manuseia e reflecte é impressiva da profundidade dos seus estudosorientais e sínicos: Montucci, “De Studis Sinicis”; Claude Visdelou,“Notice du livre chinois nommé Y-King ou livre canonique deschangements”; Chalmers, “Tao-Te-King”; Watters, “Lao-Tze, astudy in chinese philosophy”; Stanislas Julien, “Le livre de la Vie etde la Vertu”; James Legge, “Chinese Classics”; Abel Rémusat,“Memoire sur la vie et les opinions de Lao-Tze”; Abel Rémusat, “Surdes Chinois qui sont venus en France” ; Douglas, “Confucianismand Taoism”; Gilles, “Introdução à História da Pintura Chinesa”;James Orange, “Japanese Lacquer”; René Jean, “Les Arts de laTerre”; Hirth, “La Chine Ouverte”; P.B. Morse, “The Trade andAdministration of the Chinese Empire”; L. Richard, “Geographiede l’Empire de la Chine”; H. Chavannes de la Giraudière, “LesChinois pendant une période de 4458 annés”; M.G. Pauthier, “LesLivres Sacrés de l’Orient”; Joseph Edkins, “Religion in China” ;Henri Doré, “Mithologie Chinoise”; Eudore de Colombam,“Hommes et Choses d’Extreme-Orient”; Thompson, “HistoricalLandmarks of Macao”; Ljunstedt, ”Historical Sketcht of PortugueseSettlements”; E.H.Parker, “China, her History”; Attiret, “LettresEdifiants”; Chang Ping Cheng, “Ilustração da Agricultura e daTecelagem”; Raschi-el-din, “Histoire du Monde”; Cesar Cantu,“História Universal”; Evaristo Fernandez Arias, “El beato Sanz yCompañeros Martires”; Cheng Ki Tong, “Les Chinois Peints pareux-mêmes”; Confúcio, “Analectos”. Note-se a diversidade deestudos sobre a filosofia taoista e das versões do clássico de Lao-Tse.Convoca amiúde Marco Polo, “Viagens”, La Fontaine,“Fábulas” e Goethe, “Fausto”. MANUEL DA SILVA MENDESColecção MOSAICO, Volume XLIV 50
  • Quanto aos autores portugueses, há referências nominais aCamões, “Os Lusíadas”; António Feijó, “Cancioneiro Chinês”; Joãode Deus, “Poesias”; Wenceslau de Morais, “Dai Nippon” e “Bom-odori em Tokushima”; Camilo Pessanha, “Clepsidra”; D. JoãoPaulino de Azevedo e Castro, “Os Bens das Missões Portuguesas naChina”. E estes escassos títulos representam apenas a parte visíveldo iceberg do que terá sido a sua biblioteca. De resto, nuncasaberemos se seria mesmo “A Biblioteca de Babel” idealizada porJorge Luís Borges. Suspeitamos que sim.Manuel da Silva Mendes faz questão de recordar para memóriafutura, no jornal “O Progresso”, de 2 de Fevereiro de 1915, o estadolastimoso da Biblioteca Pública de Macau: “Na sala do liceu em queos rapazes se divertem, há umas três ou quatro estantes com livros:é a Biblioteca Pública Nacional de Macau! Os livros são em númerode alguns centos, sem valor no maior número, muitos deles dadospor quem não tinha onde os arrumar ou outro destino a dar-lhes. OEstado não paga a bibliotecário. Bibliotecário é um dos professoresdo liceu, que até hoje tem tido a sorte de não precisar de atender opúblico… Com pessoal, o Estado despende apenas $18 por mês, queé quanto paga a um guarda que, para não morrer de fome, temexercido cumulativamente por conta do arrematante das matériasfecais o cargo de fiscal das ditas …”.ANTÓNIO ARESTAColecção MOSAICO, Volume XLIV51
  • Manuel da Silva Mendes, arquivo da Família.
  • A BIBLIOGRAFIA DE MANUEL DA SILVA MENDESEM PORTUGALEm Volume1896: Socialismo Libertário ou Anarchismo: história e doutrina,edição de Autor, Coimbra.1898: Guilherme Tell, drama de Schiller, introdução, tradução e anotaçõespor Manuel da Silva Mendes, Vila Nova de Famalicão, Typographia Minerva.Colaboração dispersa na imprensa1897“Reformas, Aposentações e Direitos Adquiridos”, O Porvir [Vila Nova deFamalicão], Nº 94, 10.03.1897.“Creta”, O Porvir [Vila Nova de Famalicão], Nº 97, 31.03.1897“A Dissolução da Banda dos Bombeiros Voluntários”, O Porvir [Vila Novade Famalicão], Nº 102, 05.05.1897“Canoyas del Castillo”, O Porvir [Vila Nova de Famalicão], Nº 116, 11.08.1897“Dr. Eduardo de Carvalho”, O Minho [Vila Nova de Famalicão], Nº 7,18.11.18971898“Barão da Trovisqueira”, O Minho [Vila Nova de Famalicão], Nº 57,03.11.1898“A Espanha Moribunda”, O Minho [Vila Nova de Famalicão], 04.08.18981900“Monsenhor Santos Viegas”, O Regenerador [Vila Nova de Famalicão], Nº26, 28.04.1900“A Questão da China”, O Regenerador [Vila Nova de Famalicão], Nº 38,21.07.1900ANTÓNIO ARESTAColecção MOSAICO, Volume XLIV53
  • EM MACAUEm Volume1907: Reflexões Jurídicas. Acção de Processo Ordinário –contrato de empreitada, Imprensa Nacional, Macau, 1907, 170 pp.1909: Lao Tze e a sua doutrina segundo o Tao Te King.Conferência realizada no Grémio Militar de Macau em 3 de Janeiro de1909, Imprensa Nacional, Macau, 1909, 35 pp.1930: Excertos de Filosofia Taoísta. Segundo o Tao Te King de LaoTze e o Nam Hua King de Chang Tze, primeira parte, Tipografia do Orfanatoda Imaculada Conceição, Macau, 1930, 65 pp.Colaboração dispersa na imprensa11909“Discurso pronunciado num comício”, Vida Nova [Macau], 09.05.1909.“Estudos económicos sobre Macau. A propriedade urbana”, Vida Nova[Macau], de 26.09.1909 até 09.01.1910.1910“Notas sobre o regulamento do imposto do selo”, Vida Nova [Macau], de27.03.1910 a 10.06.1910.1914“A nova reforma da instrução pública de Macau”, O Progresso [Macau], de07.10.1914 até 08.11.1914.“Matrizes Prediais”, O Progresso [Macau], 15.11.1914.“Duas Obras”, O Progresso [Macau], 15.11.1914.“Sindicâncias”, O Progresso [Macau], 22.11.1914.MANUEL DA SILVA MENDESColecção MOSAICO, Volume XLIV 54________________1 Com base na recolha de Luís Gonzaga Gomes, que dá ideia de não ser exaustiva talvez porque não existem ascolecções completas dos diversos jornais. Manuel da Silva Mendes manteve uma presença muito regular naimprensa de Macau, mas notam-se alguns hiatos: 1901-1909, 1910-1913, 1916, 1917, 1918, 1921, 1922, 1923,1924, 1925, 1926, 1927, 1928, 1930 e 1931.
  • “Um museu em Macau”, O Progresso [Macau], 29.11.1914“Pintura chinesa”, O Progresso [Macau], 06.12.1914“Água Potável em Macau”, O Progresso [Macau], 20.12.1914“Casas Baratas”, O Progresso [Macau], 27.12.19141915“A Instrução, base do progresso”, O Progresso [Macau], 10.01.1915.“A Pintura chinesa”, Revista Oriente [Macau], Janeiro\Setembro, 1915“Medidas ofensivas das garantias constitucionais”, O Progresso [Macau],03.01.1915.“A Estética da Cidade”, O Progresso [Macau], 17.01.1915“Cousas”, O Progresso [Macau], 24.01.1915“Necessidade de economizar”, O Progresso [Macau], 31.01.1915“Peritos em expropriações”, O Progresso [Macau], 31.01.1915“Biblioteca Pública de Macau”, O Progresso [Macau], 07.02.1915“Política Portuguesa”, O Progresso [Macau], 14.02.1915“Instrução Pública”, O Progresso [Macau], 28.02.1915“Sobre uma setença de Ruskin”, O Progresso [Macau], 07.03.1915“Obras do Porto de Macau”, O Progresso [Macau], 14.03.1915“China e Japão”, O Progresso [Macau], 04.04.1915“Edifício Escolar”, O Progresso [Macau], 21.04.1915“O Jogo em Macau”, O Progresso [Macau], 18.04.1915“A Moda”, O Progresso [Macau], 02.05.1915“A propósito da Santa Casa da Misericórdia”, O Progresso [Macau],09.05.1915“A China sob o Japão”, O Progresso [Macau], 16.05.1915“Escolas a Mais e Organização a Menos”, O Progresso [Macau], 30.05.1915“História de Macau”, O Progresso [Macau], 06.06.1915“Os arrabaldes de Macau”, O Progresso [Macau], 20.06.1915ANTÓNIO ARESTAColecção MOSAICO, Volume XLIV55
  • “Ainda os arrabaldes de Macau”, O Progresso [Macau], 27.06.1915“O Pagode de Mongha”, O Progresso [Macau], 04.07.1915“A instrução em Macau”, O Progresso [Macau], 11.07.1915“As cheias do rio do Oeste”, O Progresso [Macau], 18.07.1915“A Ciência e a Guerra”, O Progresso [Macau], 25.07.1915“Um capítulo de história”, O Progresso [Macau], 01.08.1915“Indisciplina da Língua Portuguesa”, O Progresso [Macau], 08.08.19151916“A pintura na China. Apontamentos para a história da arte na primeirametade do século XIX”, O Progresso [Macau], 07.05.19161918“Notas soltas sobre a arte chinesa”, Macau [Macau], de Dezembro de 1918até Janeiro de 19191919“Um arboricídio”, O Macaense [Macau], 29.06.1919“Outra liga das nações”, O Macaense [Macau], 26.09.1919“Novo Tribunal”, O Macaense [Macau], 13.07.1919“Conto chinês”, O Macaense [Macau], 13.07.1919“A entronização de Kun Yam”, O Macaense [Macau], 20.07.1919“Imprudente propaganda”, O Macaense [Macau], 27.07.1919“Liceu de Macau: quatro nomeações”, O Macaense [Macau], 03.08.1919“A publicação do primeiro código na China”, O Macaense [Macau],03.08.1919“Modelo de discrição chinesa”, O Macaense [Macau], 10.08.1919“Caça aos espíritos malignos”, O Macaense [Macau], 17.08.1919“Factos, surpresas, ensinamentos”, O Macaense [Macau], 24.08.1919“A questão monetária em Macau”, O Macaense [Macau], 31.08.1919MANUEL DA SILVA MENDESColecção MOSAICO, Volume XLIV 56
  • “A deusa Tze Ku que foi Madame Violeta”, O Macaense [Macau], 14.09.1919“As contradições dos grandes homens”, O Macaense [Macau], 14.09.1919“Os primeiros tiros de fogo no Japão”, O Macaense [Macau], 21.09.1919“Ernest Haeckel”, O Macaense [Macau], 28.09.1919“Arquitectura Sacra em Macau”, O Macaense [Macau], 28.09.1919“O Budismo e os pagodes de Macau”, O Macaense [Macau], 12.10.1919“As expropriações em Macau”, O Macaense [Macau], 19.10.1919“A exposição dos trabalhos do Sr. Rebelo de Andrade”, O Macaense [Macau],26.10.1919“História tágica de uma família chinesa de Macau e leis de ponta e mola”, O Macaense [Macau], 02.11.1919“Novo agente de energia”, O Macaense [Macau], 16.11.1919“Os Portugueses no extremo oriente”, O Macaense [Macau], 23.11.1919“Macau e Hongkong”, O Macaense [Macau], 07.12.1919“Os militaristas chineses”, O Macaense [Macau], 14.12.1919“Liga Desatada”, O Macaense [Macau], 21.12.1919“O dia dezassete”, O Macaense [Macau], 21.12.19191920“Em romaria”, O Macaense [Macau], 04.01.1920“Doutores em Fung Shui”, O Macaense [Macau], 18.01.1920“O Bolchevismo”, O Macaense [Macau], 25.01.1920“Conversando”, O Macaense [Macau], 01.02.1920“Os Câmbios”, O Macaense [Macau], 08.02.1920“Lá e cá”, O Macaense [Macau], 22.02.1920“Bodhidharma-Tat Mó”, O Macaense [Macau], 29.02.1920“O que vai pela europa”, O Macaense [Macau], 14.03.1920“Um Ovo por um Real”, O Macaense [Macau], 14.03.1920“Religiões da China”, O Macaense [Macau], 21.03.1920ANTÓNIO ARESTAColecção MOSAICO, Volume XLIV57
  • “O ensino da moral nas escolas primárias”, O Macaense [Macau],28.03.1920“O Governo de Cantão”, O Macaense [Macau], 11.04.1920“Como está a europa”, O Macaense [Macau], 18.04.1920“Exorcismos na China”, O Macaense [Macau], 25.04.1920“Adopções-venda na China”, O Macaense [Macau], 02.05.1920“O Liceu e o Conselho do Governo”, O Macaense [Macau], de 09.05.1920até 23.05.1920“Cantão”, O Macaense [Macau], 30.05.1920“Macau e a Província de Kuangtung”, O Macaense [Macau], 06.06.1920“Sem rei nem roque”, O Macaense [Macau], 13.06.1920“Água”, O Macaense [Macau], 20.06.1920“O ensino da língua portuguesa em Macau”, O Macaense [Macau],11.07.1920“Depressão comercial”, O Macaense [Macau], 04.07.1920“Por doze contos”, O Macaense [Macau], 01.08.1920“Antiga e Moderna Mobília de Macau”, O Macaense [Macau], 08.08.1920“Obras do porto de Macau”, O Macaense [Macau], de 22.08.1920 até31.10.1920“Hommes et choses d’extreme-orient”, O Macaense [Macau], 25.07.1920“Chat Ku”, O Macaense [Macau], 22.08.1920“Confúcio”, O Macaense [Macau], 10.10.1920“Jada”, O Macaense [Macau], 24.10.1920“Hotéis em Macau”, O Macaense [Macau], 07.11.1920“Filosofia da Criação”, O Macaense [Macau], 14.11.1920“Defronte de um Buda”, O Macaense [Macau], 05.12.1920“O jogo em Macau”, O Macaense [Macau], 26.12.1920MANUEL DA SILVA MENDESColecção MOSAICO, Volume XLIV 58
  • 1921“Shao Seng”, O Macaense [Macau], 09.01.19211922“A Revolta dos Chineses de Macau”, Revista Colonial [Lisboa], Ano XI,13.07.1922, pp. 403-405.1923“A alma de Tao Kuong”, A Pátria [Macau], 28.07.1923“A colecção do Imperador Hui Tsong”, A Pátria [Macau], 24.12.19231924“Escultura”, A Pátria [Macau], 19.01.1924“Coleccionadores e colecções de porcelanas”, A Pátria [Macau], [?] 1924“Ainda as colecções e os colecionadores de porcelanas”, A Pátria [Macau],26.01.1924 e 09.02.1924“Um ‘Yao Kuai’ na aldeia de C’hai Tien”, A Pátria [Macau], 08.03.1924“Barros de Kuangtung”, A Pátria [Macau], 29.03.19241925“Casas”, A Pátria [Macau], 28.02.19251927“De Viagem. Kashima Maru à vista de Ceilão, 1 de Junho de 1927”, A Pátria[Macau], 26.06.1927“De Viagem. Kashima Maru no porto de Aden, em 10 de Junho de 1927”,A Pátria [Macau], 27.07.19271929“In Illo Tempore”, Ideia Nova, [Macau], 25.02.1929“Camilo Pessanha”, Ideia Nova [Macau], 18.03.1929“In Illo Tempore. Reisadas”, Ideia Nova [Macau], 31.03.1929“Macau antigo e moderno”, Jornal de Macau [Macau], 08.06.1929ANTÓNIO ARESTAColecção MOSAICO, Volume XLIV59
  • “O Templo de Tin Hau na Barra”, Jornal de Macau [Macau], 11.06.1929“O Lourenço”, Jornal de Macau [Macau], de 27.06 a 13.07.1929“O Abade de Figueiras”, Jornal de Macau [Macau], de 10 a 15.08.1929“Venceslau de Morais”, Jornal de Macau [Macau], 20.08.1929“A co-educação no Liceu de Macau”, Jornal de Macau [Macau], 26.09.1929“Até Shiu Hing”, Jornal de Macau [Macau], de 19 a 28.09.1929“Impressões e recordações de Macau. De Lisboa a Macau”, Jornal de Macau[Macau], de 31.10.1929 até 21.11.19291930“O assassínio de Mgr. Versíglia no Kuangtung”, Jornal de Macau [Macau],18.03.19301931“Histórias de Kuei”, A Voz de Macau [Macau], de 17.09.1931 até 08.11.1931DIVERSOSPetição a El-Rei em defesa do Liceu Nacional de Macau, 23 deMaio de 1902 [assinada pelo Reitor José Gomes da Silva e pelos ProfessoresMatheus António de Lima, Balthazar Estrocio Falleiro, António José GonçalvesPereira, Alfredo José Durão, Adelino Barbosa de Lemos, Manuel da SilvaMendes, Luciano José Cordeiro e José Ferreira Cidade]. Transcrição integral emMonsenhor Manuel Teixeira, Liceu de Macau, edição da Direcção dos Serviçosde Educação, 3ª edição, 1986, pp. 55-61.POESIAS“Poesia”, O Progresso [Macau], 11.04.1915“Poesia”, O Progresso [Macau], 09.05.1915“Poesia”, A Academia [Macau], Nº 3, 01.12.1920“Cosi Fan Tutte”, A Pátria [Macau], 19.11.1926MANUEL DA SILVA MENDESColecção MOSAICO, Volume XLIV 60
  • INÉDITOS“Sem Título”, publicado na Nova Colectânea de Artigos de Manuel da SilvaMendes, organização de Luís Gonzaga Gomes, edição Notícias de Macau, 1964,Vol. IV, pp. 65-96“Sem Título”, idem, pp. 97-131“O Senhor Pompílio”, idem, pp. 133-164“Macau moderno”, idem, pp. 165-171CARTASCarta a Bernardino Machado, Macau, 10 de Novembro de 1910Carta a Soi Cheong, Porto, 3 de Novembro de 1927Carta a A Meng, Porto, 17 de Novembro de 1927RELATÓRIO“Relatório da Reitoria do Lyceu Nacional de Macau referente ao anno de1910 e 1911” [Boletim Oficial, Nº 42, 21 de Outubro de 1911, pp. 556-558].EDIÇÕES PÓSTUMAS EM VOLUMEColectânea de Artigos de Manuel da Silva Mendes, organização eprefácio de Luís Gonzaga Gomes, edição Notícias de Macau, 1949, 3 volumes [303+ 307 + 159 pp.]Nova Colectânea de Artigos de Manuel da Silva Mendes,organização e prefácio de Luís Gonzaga Gomes, edição Notícias de Macau,1963\1964, 4 volumes [324 + 356 + 324 + 195 pp.]Macau, Impressões e Recordações, prefácio de Graciete Batalha,edição Quinzena de Macau, 1979 [132 pp.]Sobre Filosofia, edição do Leal Senado de Macau, s\d, [169 pp.]Sobre Arte, prefácio de António Conceição Júnior, edição do Leal Senadode Macau, 1983 [113 pp.]ANTÓNIO ARESTAColecção MOSAICO, Volume XLIV61
  • A Instrução Pública em Macau, organização e introdução de AntónioAresta, prefácio de Maria Edith da Silva, edição da Direcção dos Serviços deEducação e Juventude, Macau, 1996, [100 pp.]Socialismo Libertário ou Anarquismo: história e doutrina, ediçãofac-similada, prefácio de João Freire, Letra Livre, Lisboa, 2006.ANTOLOGIASCarlos Pinto Santos e Orlando Neves, De Longe à China. Macau naHistoriografia e na Literatura Portuguesas, edição do Instituto Cultural deMacau, 1996, Tomo III [Manuel da Silva Mendes está antologiado nas páginas899-910].Daniel Pires (org.), Homenagem a Camilo Pessanha, Edição do InstitutoPortuguês do Oriente\Instituto Cultural de Macau, 1990 [Manuel da Silva Mendesestá antologiado nas páginas 31-36].ARTIGOS VÁRIOS“O Bonzo Sek Kin Seng”, Notícias de Macau [Macau], 07.07.1950“Barros de Kuang Tung”, Boletim do Instituto Luís de Camões, [Macau],Vol. II, 1967, pp. 125-146ESTUDOS SOBRE MANUEL DA SILVA MENDESALVES, Carlos Botão. “Silva Mendes e o Taoísmo. Perspectivas sobre o Tau-Te-Ching”, Revista de Cultura [Instituto Cultural de Macau], Nº 15,Julho\Setembro, 1991, pp. 151-162.ALVES, Carlos Botão. O Oriente na Literatura Portuguesa. Antero deQuental e Manuel da Silva Mendes, ed. Instituto Internacional de Macau, 2016.ARESTA, António e OLIVEIRA, Celina Veiga de. Macau, uma HistóriaCultural, Editorial Inquérito, 2ª edição, 2009.ARESTA, António. “Manuel da Silva Mendes, historiador do socialismolibertário”, Revista de Cultura [Instituto Cultural de Macau], Nº 15,Julho\Setembro, 1991, pp. 144-150.MANUEL DA SILVA MENDESColecção MOSAICO, Volume XLIV 62
  • ARESTA, António. “Manuel da Silva Mendes e a Poética do Taoísmo”, Actasdo Terceiro Congresso da Associação Internacional de Lusitanistas, Universidadede Coimbra [18 a 22 de Junho de 1990], Coimbra, 1992, pp. 325-330.ARESTA, António. “Manuel da Silva Mendes e a Pedagogia do Civismo”,ASIANOSTRA: Revista de Cultura Portuguesa do Oriente, Macau, Nº 1, Maio de1994, pp. 63-70.ARESTA, António. A Educação Portuguesa no Extremo Oriente. Estudos deHistória da Educação, Lello Editores, Porto, 1999.ARESTA, António. “Manuel da Silva Mendes, professor e homem de cultura”,Revista Administração [Direcção dos Serviços de Administração e Função Pública],Macau, Nº 58, 2002, pp. 1351-1374.ARESTA, António. “Manuel da Silva Mendes e a Questão da China”, JornalTribuna de Macau, 24.02.2011.ARESTA, António. “Padre Manuel Teixeira, Silva Mendes e o Mistério de umManuscrito”, Jornal Tribuna de Macau, 16.04.2012.ARESTA, António. Figuras de Jade. Os Portugueses no Extremo Oriente,ed. Instituto Internacional de Macau, 2014.ARESTA, António. “Manuel da Silva Mendes e Raúl Brandão”, JornalTribuna de Macau, 10.04.2017.ARESTA, António. “A Biblioteca de Manuel da Silva Mendes”, JornalTribuna de Macau, 09.05.2017.ARESTA, António. “Manuel da Silva Mendes e José da Costa Nunes”, JornalTribuna de Macau, 06.06.2017.ARESTA, António. “Manuel da Silva Mendes e Camilo Pessanha”, JornalTribuna de Macau, 28.06.2017.ARESTA, António. “Manuel da Silva Mendes, pensador de Macau”, JornalTribuna de Macau, 04.08.2017.BAPTISTA, Pedro. Filosofia Contemporânea Portuguesa em Macau.Introdução, Livros do Meio, Macau, 2013.BARATA, Aureliano. O Ensino em Macau, 1572-1979, ed. Direcção dosServiços de Educação e Juventude, Macau, 1999.ANTÓNIO ARESTAColecção MOSAICO, Volume XLIV63
  • BOTAS, João. “Manuel da Silva Mendes, 1867-1931”, Jornal Tribuna deMacau, 30.01.2014.BOTAS, João. Manuel da Silva Mendes, Biografia, 1867-1931, Ed.Autor\Instituto Cultural do Governo da R.A.E.Macau, 2017.CABRITA, Maria João. “Manuel da Silva Mendes, Socialismo Libertário ouAnarchismo [recensão crítica à edição em fac-símile, 2006], Cultura – Revista deHistória e Teoria das Ideias, Vol. 26, 2009, pp. 307-310.COSTA, Artur Sá da e GONÇALVES, Amadeu. Uma Aproximação aosAutores Famalicenses. Catálogo da Exposição, Edição da Câmara Municipal deVila Nova de Famalicão, 1998.COSTA, Artur Sá da e GONÇALVES, Amadeu (org.). Antologia de AutoresFamalicenses, Edição da Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão, 1998.COSTA, Artur Sá da. “Em Busca da Figura Famalicense do Século”, OpiniãoPública [Vila Nova de Famalicão], 13.12.1999.CRUZ, Erasto Santos. Em Busca do Inominado: Silva Mendes e a suareescrita de alguns trechos do Dao De Jing e do Nan Hua Jing, Universidade deSão Paulo, Brasil, 2017 [dissertação de mestrado, policopiada].CRUZ, Erasto Santos. “Chuang Tze e o Rei de Chu: Silva Mendes e suaadaptação dos clássicos taoistas”, Cadernos de Literatura em Tradução, Nº 18,pp. 11-25, São Paulo, 2017.D’ARCOS, Joaquim Paço. Memórias da Minha Vida e do Meu Tempo,Guimarães & Cª Editores, Lisboa, 3 vols., 1973\1979.FERNANDES, Henrique de Senna. “Macau de Ontem”, in, Vários, PresençaPortuguesa no Extremo Oriente, edição do Instituto Cultural de Macau, 1986, pp. 5-20.FERNANDES, Sousa. “Dr. Silva Mendes”, O Porvir [Vila Nova deFamalicão], Nº 62, 29.07.1896.FERNANDES, Sousa. “Bibliografia. Silva Mendes, Socialismo Libertário:História e Doutrina, 1896”, O Porvir [Vila Nova de Famalicão], Nº 83, 23.12.1893.FERNANDES, Sousa. “Dr. Silva Mendes”, O Porvir [Vila Nova deFamalicão], Nº 93, 03.03.1897.MANUEL DA SILVA MENDESColecção MOSAICO, Volume XLIV 64
  • FORJAZ, Jorge. Famílias Macaenses, ed. Fundação Oriente\InstitutoCultural de Macau, 1996, Vol. III.GOMES, Luís Gonzaga. Museu Luís de Camões, Macau, Imprensa Nacional,1973.GONÇALVES, Amadeu. “Breviário Tirsense de Manuel da Silva Mendes”,Revista da Liga dos Amigos do Hospital de Santo Tirso, Nº 8. Março, 1994, pp. 53-55.GONÇALVES, Amadeu. “Manuel da Silva Mendes com Vila Nova deFamalicão e em Macau: entre o anarquismo e a filosofia oriental”, Boletim Cultural[Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão], III Série, Nº 3\4, 2009, pp. 103-128.LISBOA, Eugénio (org.). Dicionário Cronológico de Autores Portugueses,Publicações Europa-América, Vol. III, 2001.PENAJOIA, Francisco. “À margem das comemorações do cinquentenário doLiceu de Macau”, Renascimento [Macau], Vol. IV, 1944, pp. 283-299.RANGEL, Jorge. “Silva Mendes e o exercício da cidadania”, Jornal Tribunade Macau, 10.12.2007.RANGEL, Jorge. “Como Silva Mendes via o jogo em Macau há cem anos”,Jornal Tribuna de Macau, 14.08.2017.RANGEL, Jorge. “Quando Silva Mendes pugnava por uma história deMacau”, Jornal Tribuna de Macau, 21.08.2017.RANGEL, Jorge. “Preocupações de Silva Mendes com a estética da cidade”,Jornal Tribuna de Macau, 28.08.2017.RANGEL, Jorge. “Silva Mendes e a Irresistível comparação com Hong Kong”,Jornal Tribuna de Macau, 04.09.2017.RANGEL, Jorge. “Quando Silva Mendes se queixava da falta de hotéis emMacau”, Jornal Tribuna de Macau, 11.09.2017.RANGEL, Jorge. “Curiosas interrogações de Silva Mendes sobre obolchevismo”, Jornal Tribuna de Macau, 18.09.2017.RANGEL, Jorge. “Silva Mendes e as dificuldades no ensino da línguaportuguesa”, Jornal Tribuna de Macau, 09.10.2017.REGO, Francisco de Carvalho e. Cartas da China, ed. Imprensa Nacional,Macau, 1949.ANTÓNIO ARESTAColecção MOSAICO, Volume XLIV65
  • REGO, José de Carvalho e. Figuras D’Outros Tempos, ed. Instituto Culturalde Macau, 1994 [a evocação de Manuel da Silva Mendes, pp. 345-348].SÁ, Victor de. “Um Anarquista Famalicense em 1896: Manuel da SilvaMendes”, Boletim Cultural [Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão], Nº 13,1995, 141-144.S\Autor, “Manuel da Silva Mendes”, in Dicionário de EducadoresPortugueses, direcção de António Nóvoa, edições ASA, 2003, pp. 918-919.SENA, Maria Teresa. “Manuel da Silva Mendes”, DITEMA [DicionárioTemático de Macau], Universidade de Macau, Vol. III, pp. 975-977, Macau, 2011.SÉRGIO, Vanessa. “Manuel da Silva Mendes, entre fascínio e sortilégio”,Revista de Cultura [Instituto Cultural de Macau], Nº 31, 2009, pp. 64-77.SILVEIRA, Pedro da. “Silva Mendes, notícias bio-bibliográficas”, Seara Nova,Nº 1446, Abril, 1966, pp. 101-103.TEIXEIRA, Padre Manuel. Os Militares em Macau, ed. Comando das Forçasde Segurança de Macau, 2ª ed., 1984.TEIXEIRA, Padre Manuel. Liceu de Macau, ed. Direcção dos Serviços deEducação, Macau, 3ª edição, 1986 [a biografia de Manuel da Silva Mendes,professor e reitor, pp. 420-430].TERROSO, Rodrigo. “Guilherme Tell”, O Minho [Vila Nova de Famalicão],03.03.1898.TERROSO, Rodrigo. “Socialismo Libertário”, O Minho [Vila Nova deFamalicão], 12.05.1898.TERROSO, Rodrigo. “Dr. Silva Mendes”, O Minho [Vila Nova de Famalicão],23.06.1898.TERROSO, Rodrigo. “Dr. Silva Mendes”, O Minho [Vila Nova de Famalicão],20.10.1898.VÁRIOS. Lao Zi, edição do Instituto Cultural de Macau, 1993. [Catálogo daExposição Bibliográfica realizada de 22 de Maio a 5 de Junho na Biblioteca SirRobert Ho Tung, pela Biblioteca Central de Macau e ASIANOSTRA – Estudo deCulturas, 40 pp. Nota introdutória de António Aresta].MANUEL DA SILVA MENDESColecção MOSAICO, Volume XLIV 66
  • ANEXOSExmo. Sr. Governador da Província de Macau1Manuel da Silva Mendes, advogado e proprietário, residente em Macau,tendo lido no Boletim Oficial de 15 do corrente uma portaria, com o nº 182, em quese lhe declara nulo e de nenhum efeito o contrato de aforamento de um terreno sitona Montanha da Guia, com a área de 948,00 m2, feito por escritura de 17 deOutubro de 1917 “por não terem sido cumpridas as condições do contrato”, e istonos termos do art. 14 do Regulamento de 22 de Outubro de 1908, pretende expora V. Ex.ª sobre este assunto as seguintes considerações.A) Considera nulas e de nenhum efeito as disposições contidas nos art. 13 e 14 do citado Regulamento; e nulas e de nenhum efeito entende que são e queassim devem ser tidas por serem anti-constitucionais e anti-legais. São anti-constitucionais, porque transferem o poder de julgar questões de direito civil, comosão as referentes a emprazamentos, para o poder executivo, que, para mais, é aomesmo tempo, uma das partes – inversão e violação dos fundamentais princípiosjurídicos. Nem a Constituição Portuguesa admite que julgue senão o poder judicial(e a referida portaria julgou que as condições do contrato não tinham sidocumpridas e por isso o declarou nulo, assinando-a como juiz o governador,delegado do poder executivo); nem a mesma Constituição admite que contraqualquer pessoa seja proferido julgamento sem ser ouvida (e no caso decidido pelareferida portaria a parte interessada não o foi). E são anti-legais as aludidasdisposições do Regulamento, porque contrariam o estatuído no art. 1657 do CódigoCivil que não permite que, além do fôro ou pensão enfitêutica, nos contratos deemprazamento se convencione encargo algum extraordinário ou casual sobANTÓNIO ARESTAColecção MOSAICO, Volume XLIV67________________1 Fonte: Arquivo Histórico de Macau, Administração Civil, P-9019, 20 de Setembro de 1923.
  • qualquer título (e encargo ou obrigação extraordinária é a que no art. 13 do citadoRegulamento se consigna de edificar dentro de determinado prazo); porque, a ser válida tal condição e respectiva sanção, os contratos de emprazamento, pela aplicação desta última, tornar-se-iam temporários, de incerta duração,contrariamente a uma das suas fundamentais características, que é a de seremperpétuos e como tais explicitamente os declara o art. 1654 do mesmo Código Civil;e porque, sendo como é, para o foreiro, absolutamente livre o usufruto do prédioaforado segundo determina o art. 1672 (contanto que o não deteriore) a imposiçãoda condição de construir (e demais a mais em determinado prazo) contrariariaessa essencial característica de domínio. Outras considerações jurídicas poderiamser ainda apresentadas para demonstrar a nulidade das discriminadas disposiçõesdo Regulamento. As expostas, porém, parece que serão suficientes.B) Há ainda a questão de facto. A portaria anula o emprazamento “por nãoterem sido cumpridas as condições do respectivo contrato”. Quais condições? Duassão as condições estabelecidas no art. 13 do Regulamento: uma, a de apresentar àapreciação do Conselho Técnico por intermédio da Direcção das Obras Públicas osprojectos de construção no prazo de três meses a contar da assinatura do contrato;outra, a de começar as obras até três meses depois da aprovação dos projectos.Nos termos da portaria teria havido falta de observância das duas condições, poisnela se diz: “por não terem sido cumpridas as condições do respectivo contrato”.Ora, é de ver: a) a escritura foi assinada e feita em 17 de Outubro de 1917; b) osprojectos de construção deram entrada na Direcção das Obras Públicas em 8 deJaneiro de 1918 – nove dias, portanto, antes do prazo marcado no cit. Art. 13; c)logo, se houve falta, não foi das duas condições; seria de nova (Os projectosestavam com o respectivo requerimento, formando um processo, arquivado, naDirecção das Obras Públicas ainda há dias, e lá deverão ainda estar, e desseprocesso foi copiada a data de entrada). A segunda condição, aquela que não teriasido cumprida, seria, pois, o não haverem as obras começado até três meses depoisda aprovação dos projectos. Pelo mesmo processo, porém, se vê que até hoje oConselho Técnico não apreciou esses projectos. A Direcção das Obras Públicas nãoMANUEL DA SILVA MENDESColecção MOSAICO, Volume XLIV 68
  • os apresentou, como lhe cumpria fazer, a esse Conselho. Em vez de o fazer, o entãodirector das Obras Públicas arrogou, ilegalmente, a si as funções desse Conselho,indeferindo o pedido para a construção sob o fundamento ou o pretexto de quenão havia conformidade dos projectos com o terreno aforado. Procedeu comoprocederia, por exemplo, um secretário geral do governo, que, em vez deapresentar ao governador um requerimento que na secretaria geral deveria darentrada e deu, mas só por este pudesse ser apreciado, não o apresentou e elemesmo despachou. Não houve, portanto, falta de observância da segundacondição. Foi o Governo que faltou a esta parte do contrato. De quem, portanto, éa responsabilidade? Quem ler a portaria, há-de concluir que do enfiteuta! Quem lera portaria, entenderá que o enfiteuta não apresentou os projectos; ou que os nãoapresentou em devido tempo; ou que se os apresentou, o Conselho Técnico osrejeitou e o enfiteuta não apresentou outros; ou que, tendo-lhe sido aprovados,não deu começo às obras dentro do prazo legal. É isto que se depreende daportaria; é o que lá está. E é essa a verdade? Terá de entender-se que o enfiteuta,tendo feito por sua parte o que lhe cumpria fazer, é responsável pelo que por suaparte, o governo pelos seus órgãos, pelas suas repartições, deveria ter feito e nãofez?C) Há mais. Está estabelecido na lei que o Estado em questões depropriedade é equiparado aos particulares (Cod. Civil, art. 55; por isso os direitoscivis não mudam de natureza nem sofrem modificações pelo facto de serinteressado neles o Estado; não é o sujeito, mas o objecto do direito, que determinaa sua natureza e categoria. Ora podem as partes ajuntar aos contratos as condiçõesou cláusulas que bem lhes parecerem, contando que não sejam proibidas pela lei(art. 672 do Cod. Civil), como igualmente podem prescindir delas. Supondo, pois,que fosse válido no contrato de enfiteuse a obrigação de construir e de começar aconstrução dentro de determinado prazo sob pena de ser declarado nulo ocontrato, o direito da declaração de nulidade deixaria de existir desde que poralgum facto, praticado pela parte em favor da qual tal obrigação foi imposta, estasignificasse, ou pelo facto se mostrasse, que, não obstante o não cumprimentoANTÓNIO ARESTAColecção MOSAICO, Volume XLIV69
  • dessa obrigação, ela considerava o contrato como subsistindo, ou pelo sensocomum ou pela lei se devesse considerar como tal. Ora foi o que aconteceu. A construção não foi feita (supondo que por culpa do enfiteuta); o Estado, por suaparte, durante anos, comportou-se como se comportaria se ela tivesse sido feita.Mais do que isso: foi cobrando anualmente os foros e um ano em que aconteceuque o enfiteuta não os pagou no prazo devido, intimou-o, sob pena de penhora, apagá-los dentro de poucos dias. Com que fundamento cobrou o Estado os foros ecom que fundamento intimou o enfiteuta a pagá-los? Considerava o Estado ocontrato nulo por não ter sido cumprida a referida obrigação? Não, por certo, poisque de contratos de emprazamento nulos não são devidos foros: portantoconsiderava-o válido. Válido, sim, pois de outro modo, como poderia justificar oseu procedimento? Nem a lei, nem o senso comum admitem nisto outrajustificação. Parece fora de dúvida. E realmente o Estado podia, legalmenteproceder como procedeu. O Código Civil permite que as partes prescindam dequalquer obrigação que hajam estabelecido nos contratos, quer por declaraçãoexpressa, quer por factos de que isso se deduza (art.º 648 e 672). Tudo isto é ditono entendimento (que não poderá deixar de ser considerado verdadeiro) de que anulidade do contrato (se nulo pudesse ser julgado) não resultaria de assim odeclarar a portaria e desde que tal o declarou, mas sim do facto do nãocumprimento das obrigações nele insertas e desde que não foram cumpridas. Aportaria seria como uma certidão de óbito, que atesta o facto da morte, mas quenão a produz.D) Há no caso sujeito mais ainda. Haverá um mês ou pouco mais, o Estadofez, por intermédio da Direcção das Obras Públicas, com o enfiteuta um contratopor escrito, em que este cedeu uma parte do terreno aforado com a obrigação deque aquele lhe consentisse alterar os muros de vedação e lhe deixasse portas decomunicação com o mesmo terreno. O Estado tomou essa parte do terreno edeixou aberturas para essas portas. Pode em seguida vir dizer que está nulo ocontrato de aforamento por não terem sido cumpridas há cinco anos tais e taisobrigações?MANUEL DA SILVA MENDESColecção MOSAICO, Volume XLIV 70
  • São estas as considerações, de direito e de facto, que o abaixo assinado desejaapresentar à ponderação de V. Exª. E apenas lhe parece que deve acrescentar que,em seu entender, pode o Estado conseguir o que deseja, isto é, que hajaconstruções nos terrenos aforados, empregando outra forma de proceder. E essaforma seria ceder por contrato escrito o uso para construção dos terrenos a aforar,sob determinadas condições de tempo e de modo desse uso e sob determinadaspenas pelo não cumprimento dessas condições; e cumprido esse contrato, celebrar-se-ia então o de aforamento, em que não seria imposto senão o encargo dopagamento do fôro.Com dizer isto não pretende o abaixo assinado nem censurar, nem criticar omodo por que o governo da colónia procede ou tem procedido neste assunto:pretende apenas por as cousas nos termos em que, em seu entender, devem serpostas. E se V. Ex.ª se convencer de que são justas as considerações que ficamexpostas, fica o abaixo assinado convencido de que imediatamente anulará aportaria em que lhe declarou nulo o contrato de emprazamento.Macau, 20 de Setembro de 1923Manuel da Silva MendesANTÓNIO ARESTAColecção MOSAICO, Volume XLIV71
  • ISBN 978-989-99457-9-19 7 8 9 8 9 9 9 4 5 7 9 1
  • 進階搜尋|全站搜尋