• MOSAICOVOLUME XXXIXMOMENTOSDO INTERCÂMBIOCOMERCIAL E CULTURALCOM O ORIENTEANTÓNIO DE ABREU FREIREmosaico_XXXIX_INTERCAMBIO_ORIENTE_Layout 1 15/12/22 15:49 Página 1
  • Edição Instituto Internacional de MacauTítulo Momentos do Intercâmbio Comercial e Cultural com o OrienteAutor António de Abreu FreireCapa Reprodução do mapa-mundi oferecido pelo jesuíta Matteo Ricci ao imperador chinês Wanli em 1601 – ilustração de Sérgio CarvalhoIlustrações Sérgio CarvalhoDireção Gráfica e Paginação Maisimagem II - Comunicação Global, Lda.Colecção MOSAICOTiragem 500 exemplaresImpressão Gráfica Central de Almeirim, Lda.ISBN 978-989-99457-1-5Depósito Legal 401458/15Lisboa, Dezembro 2015apoiomosaico_XXXIX_INTERCAMBIO_ORIENTE_Layout 1 15/12/22 15:49 Página 2
  • SUMÁRIO5 Prefácio15 Intercâmbio Comercial e Cultural com o Oriente81 Pelos Oceanos da Euforia89 Camões e Vieira100 Bibliografiamosaico_XXXIX_INTERCAMBIO_ORIENTE_Layout 1 15/12/22 15:49 Página 3
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  • PREFÁCIO«O Império Português é um dos maiores enigmas da história».Assim inicia Charles R. Boxer a sua obra The Portuguese SeaborneEmpire (1969). Esse primeiro e também último império colonialfascinou um oficial britânico colocado na China e no Japão e ditouos Momentos […] que nos dá António do Abreu Freire, numaviagem inspirada em Camões e Vieira, as «grandes referências do poder da língua portuguesa no mundo, um Quinto Impérioinesperado e realizado». O livro, como que escrito de uma penada,lembra a Miscelânea de Garcia de Resende numa inspirada viagempor um mundo cheio de «novas novidades, grandes acontecimentose desvairadas mudanças», num tempo em que «outro mundoencoberto vimos então descobrir / outro mundo novo vimos pornossa gente se achar». É a memória de «cinco séculos de relações entre povos eculturas diferentes» que aqui se retoma. Em pouco mais de umacentena de páginas, tal como o controverso Júlio Dantasrecomendou – «o que é mais difícil não é escrever muito; é dizertudo, escrevendo pouco» – vislumbramos o imenso contributode Portugal para a expansão dos valores ocidentais, umapresença bem marcada, sobretudo no que diz respeito àpropagação do cristianismo pelo Oriente e à influêncialinguística e cultural, nas suas formas mais duradouras. Há aqui uma intenção patriótica de «afirmação da nossa identidadenos tempos presentes, como falantes de uma língua comum amuitos povos» e também um propósito didáctico e crítico namedida em que «a maior pobreza», como diz o autor, «é não ANTÓNIO DE ABREU FREIREColecção MOSAICO, Volume XXXIX5mosaico_XXXIX_INTERCAMBIO_ORIENTE_Layout 1 15/12/22 15:49 Página 5
  • nos conhecermos, alimentar-nos de utopias e delirarmos combugigangas».Em resposta a um jornalista que o indagava sobre as razões dasua preferência pelos estudos históricos, Jaime Cortesão (1930)afirmou a sua atracção de sempre pela «face da vida extinta dopassado e a da vida do presente». Sabia que só se podia explicaruma pela outra, com a convicção de que «a averiguação do facto,na sua identificação real, acarreta consigo o amor da verdade e arepulsa da mentira; ensina a relatividade do humano e o respeitopela diversidade alheia; e torna-se uma lição permanente decompreensão e dignidade» Tinha a convicção de que «a primeiralição que a História e a vida nos ensinam é a transitoriedade dosmitos, dos regimes e sistemas». Tinha também uma grandeesperança na «capacidade do homem em melhorar as sociedades».E concluía, constatando que «os homens passam e desaparecem; a Humanidade permanece e marcha».António de Abreu Freire comunga dessa esperança. Neste livroencontramos uma visão de conjunto sobre o fascínio europeu peloexotismo, o requinte e a riqueza do vasto e sedutor Oriente; oimenso choque pela notícia de novas terras e de novas gentes; ostraumatismos do confronto entre o velho mundo oriental e o novomundo do continente americano e das ilhas encontradas navastidão do Índico e do Pacífico.Através de Fernão Lopes de Castanheda, Gaspar Correia, Joãode Barros, Diogo do Couto, Fernão Mendes Pinto, conhecemos aexperiência oriental portuguesa. O autor descreve-a como umarealidade que se passou «ao ritmo de um frenesim desenfreado,constantemente em guerra contra alguém, imaginando a cadaMOMENTOS DO INTERCÂMBIO COMERCIAL E CULTURAL COM O ORIENTEColecção MOSAICO, Volume XXXIX 6mosaico_XXXIX_INTERCAMBIO_ORIENTE_Layout 1 15/12/22 15:49 Página 6
  • oportunidade novas estratégias diplomáticas e comerciais, commilhares de navios costeiros e centenas de grandes naus navegandopelo Índico e pelo Pacífico, desde a costa oriental da África até aoJapão, dando nova vida a uma centena de cidades, feitorias eentrepostos que se ganhavam e se perdiam por vezes ao sabor dasmonções. Os melhores cidadãos do reino lá encontraram o terrenomais propício para mostrar o seu valor e satisfazer as suas ambições.Quantos foram e voltaram? Quantos mais por lá ficaram?»Palavras e interrogações que recordam as do padre AntónioVieira: «sem sair ninguém pode ser grande». Nas suas sentençasheróicas encontramos a gesta portuguesa: «nascer pequeno emorrer grande é chegar a ser homem. Por isso nos deu Deus tãopouca terra para o nascimento e tantas para a sepultura. Paranascer, pouca terra; para morrer toda a terra: para nascer Portugal,para morrer, o mundo. Perguntai a vossos avós quantos saíram equão poucos tornaram».Camões deixou-nos um poema que ficou por séculos comoreferência dos desejos mais profundos de uma nação que seconsiderava predestinada para grandes feitos. Perdida aindependência política, a identidade nacional resistiu na memóriadas glórias passadas, na defesa intransigente da cultura, da línguae das instituições políticas portuguesas, na manutenção da tradiçãohistórica e na esperança messiânica do sebastianismo. Aexperiência de uma vida muito marcada pela aventura asiáticamostrara-lhe que «todo o mundo é composto de mudança». Tudose altera, se troca, se renova ou se transforma: «mudam-se ostempos, mudam-se as vontades», mas o mais espantoso é, semdúvida, a mudança da mudança! ANTÓNIO DE ABREU FREIREColecção MOSAICO, Volume XXXIX7mosaico_XXXIX_INTERCAMBIO_ORIENTE_Layout 1 15/12/22 15:49 Página 7
  • No século XVI, havia a noção de que o futuro do reino estavano Oriente, enquanto o Brasil era um vasto espaço inculto,praticamente desconhecido, sem promessas de glória nem deriqueza. Um século mais tarde, perdido o comércio da Índia paraas poderosas companhias comerciais de holandeses e ingleses, opadre António Vieira – conjuntamente com um pequeno, massignificativo, grupo de portugueses (ministros e conselheiros,diplomatas e homens de negócio, muitos deles de origem judaica)– considerava que a obra da Restauração só estaria completa coma recuperação do antigo poder e riqueza do reino de Portugal, o quepassava pela restituição das parcelas mais importantes do territórioultramarino. Nos sermões de Roma, o jesuíta sugeria o regresso àÍndia com uma armada poderosa, para restaurar o domínioperdido, para construir sobre essa abundância o império do futuro,o reino de Cristo na terra. Depois dos Assírios, dos Persas, dosGregos e dos Romanos, o visionário Vieira imaginava um QuintoImpério de todos os súbditos de um rei cristão e português. O grande projecto desses militares e administradores queimaginaram um império português duradouro por terras do Orientenão aconteceu. O apresamento de uma nau portuguesa em Malacatinha motivado o parecer intitulado De Jure Praedae, que HugoGrócio escrevera como advogado da Companhia holandesa dasÍndias Orientais, donde resultou o célebre texto Mare Liberum. Frei Serafim de Freitas escreveu De Justo Império LusitanorumAsiático (1625) opondo-se à fundamentação jurídica apresentadaque, em última análise, servia para legitimar todas as ocupaçõesdos holandeses nas possessões portuguesas do Índico. O argumentofundamental era o da prioridade e consequente justa propriedadeMOMENTOS DO INTERCÂMBIO COMERCIAL E CULTURAL COM O ORIENTEColecção MOSAICO, Volume XXXIX 8mosaico_XXXIX_INTERCAMBIO_ORIENTE_Layout 1 15/12/22 15:49 Página 8
  • dos portugueses, que abriram e tornaram navegável o Oceano até à Índia «com muito derramamento de sangue, quase infinitasdespesas, extremos trabalhos e perdas». Alegava com o direito das gentes: à semelhança dos primeiros habitantes da terra, osportugueses podiam apropriar-se daquele comércio e proibi-lo aosestrangeiros. Também o inglês John Selden, no seu Mare Clausum,se opôs à tese de Grócio, contestando a pesca holandesa nas costasbritânicas. A obra, escrita cerca de 1618, foi proibida por motivospolíticos; acabou por vir a lume apenas em 1635. O efeito dosargumentos de ambos foi claramente atenuado pelo tempo eultrapassado pelos acontecimentos. Os grandes historiadores nunca esquecem a função social daHistória. Sabem que apenas ela permite a racionalização damemória. Reconhecem que só assim o homem pode ser visto emalternativa e debate e não como uma necessidade. Isso implica oconhecimento de vencidos e de vencedores, a análise das razões deconfrontos e de resistências, a compreensão das soluções que foramsendo dadas no decorrer de um processo que está longe de serlinear e de ter uma só sequência. O autor conta-nos, à sua maneira, a nossa história. Umahistória de «muitas miudezas» e de «alguns momentos de glória –momentos sublimes de grandeza», uma história do tempo em queos portugueses se fixaram em espaços que pertencem a dezenas deactuais nações. Há hoje portugueses em quase todos os países domundo. São já quase cinco milhões, todos os anos reforçados comcentenas de emigrantes, a maioria jovens, que optaram por sair dasua terra face à precariedade das condições económicas e àincerteza do futuro.ANTÓNIO DE ABREU FREIREColecção MOSAICO, Volume XXXIX9mosaico_XXXIX_INTERCAMBIO_ORIENTE_Layout 1 15/12/22 15:49 Página 9
  • A problemática histórica é constante e aberta. Não deve servir para uma justificação ideológica do presente, nem pode ser apresentada num rigoroso e exclusivo encadeamento causal,sem alternativa, numa evolução legitimada e determinadapela actualidade. Em nada se altera o que já passou. O que muda é apenas a nossa interpretação e compreensão dessa realidadepassada constantemente reconstruída fundamentada no rigorcientífico e em exigências éticas de procura da verdade e decompreensão de outros pontos de vista.Na sua escala asiática, o Império viveu um sonho breve,alimentando o imaginário nacional rendido aos olhos do Orientedas especiarias, das sedas, das pedras preciosas, dos sonhos deriqueza e fantasia. Não há história do passado sem história dofuturo. O presente é apenas um momento efémero, algures notempo. Depois da Ásia, as relações mais consistentes e duradourasestabeleceram-se na ponte transoceânica que unia o continenteeuropeu à África e ao Brasil. O império sonhado pelo visionárioVieira «era já uma saudade», uma história do passado, mas aípermaneceu a influência linguística e cultural portuguesa nas suasformas mais duradouras. Até ao final do século XVIII, o portuguêsera a principal língua comercial por todo o Oriente.«A minha pátria é a l íngua portuguesa» escreveu,profeticamente, Fernando Pessoa: «não choro por nada que a vidatraga ou leve. Há porém páginas de prosas que me têm feito chorar. Lembro-me, como do que estou vendo, da noite em que,ainda criança, li pela primeira vez numa selecta, o passo célebre deVieira sobre o Rei Salomão, “Fabricou Salomão um palácio”. E fuilendo, até ao fim, trpémulo, confuso; depois rompi em lágrimasMOMENTOS DO INTERCÂMBIO COMERCIAL E CULTURAL COM O ORIENTEColecção MOSAICO, Volume XXXIX 10mosaico_XXXIX_INTERCAMBIO_ORIENTE_Layout 1 15/12/22 15:49 Página 10
  • felizes, como nenhuma felicidade real me fará chorar, comonenhuma tristeza da vida me fará imitar. […] Não tenho sentimentonenhum político ou social. Tenho, porém, num sentido, um altosentimento patriótico. Minha pátria é a língua portuguesa».Perdido o Brasil, descolonizada África, (re)encontrada aEuropa, será a língua portuguesa o Quinto Império dessessonhadores de impossíveis que foram Vieira e Pessoa?Ana Leal de FariaCentro de História da Faculdade de Letras da Universidade de LisboaDezembro de 2015ANTÓNIO DE ABREU FREIREColecção MOSAICO, Volume XXXIX11mosaico_XXXIX_INTERCAMBIO_ORIENTE_Layout 1 15/12/22 15:49 Página 11
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  • ANTÓNIO DE ABREU FREIREColecção MOSAICO, Volume XXXIX13O rei David no Salmo 67, versículo 33, fala da conversão dosreinos e terras do Oriente, convertidas à fé por meio da pregaçãodos portugueses, e descobertas por eles. A fé e o conhecimento deDeus primeiro havia de acontecer nas terras mais ocidentais, quesão as que habitamos e depois havia de passar ao Oriente, que sãoaquelas que descobrimos, conquistámos, alumiámos com a luz doEvangelho; e esta é a virtude que Deus deu às vozes da sua voz(isto é, as vozes dos seus pregadores).(…)Pelo fruto espiritual que vão fazer os missionários, vêm de láos frutos temporais, com que Portugal se enriquece; e, se vãofaltando os segundos frutos, é porque também vão faltando osprimeiros de que eles nascem. Mas que frutos são estes? A canela,a canafístula, o sândalo, o benjoim, as áquilas, os calambucos e todo o outro género de espécies odoríferas e aromáticas, asmesmas que vêm da Índia.Padre António VieiraHistória do Futuro (1665)Par. 263 e ssmosaico_XXXIX_INTERCAMBIO_ORIENTE_Layout 1 15/12/22 15:49 Página 13
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  • ANTÓNIO DE ABREU FREIREColecção MOSAICO, Volume XXXIX15INTERCÂMBIO COMERCIAL E CULTURAL COM OORIENTEO fascínio pelo oriente vem de muito longe no tempo. Já naantiguidade ocidental se admiravam as civilizações da Mongólia,da China e da Índia, já se conhecia a existência da ilha da Taprobana(Ceilão), uma das mais antigas civilizações asiáticas, dondeprocediam joias, marfim e pedras preciosas que os antigos gregos eromanos admiravam e cobiçavam. Alexandre III da Macedónia (o Grande, 356-323 ac), discípulo do filósofo Aristóteles,entusiasmou-se pelo oriente no século IV ac e estendeu o seupoderio militar e cultural helénico até às fronteiras da Índia, ao atual Afeganistão, criando o maior e o mais rico império da antiguidade. Na memória dos povos ocidentais o oriente era sinónimo de riqueza, requinte e sabedoria. Os ensinamentos de Buda eram amplamente conhecidos e comentados peloseruditos da antiguidade; desde o século VI ac que as ideias dopríncipe que abandonou a realeza para alcançar a felicidade,tornando-se um mestre iluminado e desperto, ajudavam os homensa superar o sofrimento e a morte e faziam parte do cardápio culturaldos poetas e dos filósofos do ocidente. Na descrição da vida de Jesus Cristo deixada pelo evangelistaMateus, o salvador recém-nascido foi visitado por três magos dooriente que lhe ofereceram presentes; na narrativa bucólica desteevangelho os forasteiros, conhecedores dos astros e dos seusaugúrios, contrastavam em sabedoria com a rudeza dos poderososdo império romano e com a notória ambição do grande rei Herodes,personalidade que dominava naqueles anos a cena política,mosaico_XXXIX_INTERCAMBIO_ORIENTE_Layout 1 15/12/22 15:49 Página 15
  • económica e cultural do espaço hebraico. Os sábios regressaram aos seus reinos distantes sem qualquer consideração pelo reiambicioso e cruel, amigo e vassalo dos romanos, restauradorde cidades e fortalezas, em especial de Jerusalém, suas torres emuralhas, mais o templo de Salomão, segundo os padrões daarquitetura greco-romana.Os orientais por sua vez também se deixaram seduzir peloocidente e Átila, o último soberano dos Hunos (406-453), um povoseminómada da Ásia central (hoje Cazaquistão), invadiu o ocidenteno século V dc, dominou todo o espaço entre o mar Negro e oBáltico alcançando as melhores terras de França e de Itália. Oflagelo de Deus, comandante de um povo de pastores protegido porum exército de cavaleiros que deixava por onde passava um rasto dedestruição, foi detido quase por milagre já muito perto da capitalreligiosa e política do ocidente. Não faltou quem visse um milagrena intervenção do santo papa Leão I, o Grande, em 452, para tentarpersuadir Átila a poupar a cidade. O chefe huno cedeu e retirou-semas abriu o caminho a novos predadores do império decadente:Roma foi saqueada pelos Vândalos, povos germânicos orientais, em455 e o último imperador, Rómulo Augusto, foi destronado em 476,no momento da invasão dos Hérulos, povos eslavos liderados porOdoarco, um descendente de Átila.Os mercadores muçulmanos chegaram ao oriente no século X,onde criaram uma sólida rede de trocas comerciais e implantaramos primeiros núcleos do islamismo na ilha de Ceilão, a Taprobanados antigos e mais além na ilha de Samatra, no arquipélago deSonda, onde fundaram um reino muçulmano. Rapidamente semultiplicaram os sultanatos pelos espaços mais apetitosos doMOMENTOS DO INTERCÂMBIO COMERCIAL E CULTURAL COM O ORIENTEColecção MOSAICO, Volume XXXIX 16mosaico_XXXIX_INTERCAMBIO_ORIENTE_Layout 1 15/12/22 15:49 Página 16
  • oriente e criaram-se poderosas redes comerciais até aosarquipélagos do oceano Pacífico. No século XIII o chefe mongolGengis Kahn (1162-1227) conquistou a China e dirigiu-se para o ocidente, à frente de um exército de cavaleiros e arqueiros,alcançando o sul da Rússia e a Ucrânia. Em 1291 largaram deVeneza duas galés comandadas pelos irmãos mercadores Ugolino eVadino (ou Guido) Vivaldi, rumo à Índia contornando o continenteafricano pelo Atlântico, mas a aventura não terá ultrapassado acosta da Guiné. Pelos mesmos anos foi pelo caminho mais curtooutro viajante e mercador italiano de Veneza, Marco Polo (1254-1324), visitar o oriente durante dezassete anos e demorar-se pelaANTÓNIO DE ABREU FREIREColecção MOSAICO, Volume XXXIX17Viagens de Marco Polo.mosaico_XXXIX_INTERCAMBIO_ORIENTE_Layout 1 15/12/22 15:49 Página 17
  • China, a que na Europa passaram a chamar de Cataio, onde foiconhecer a corte do neto de Gengis Kahn, Kublai Kahn, fundador dadinastia Yuan e do primeiro grande império chinês. O viajante teveconhecimento da existência do Japão, um arquipélago isolado aleste do continente asiático e que os europeus passaram a conhecerpelo nome de Cipango – a terra onde o sol nasce. Em 1292 Marco Polo visitou o reino muçulmano de Samatra.O veneziano deixou-nos um relato sedutor das suas viagens, escritopelo seu companheiro na prisão de Génova, Rusticello de Pisa(cerca de 1298) e divulgado somente mais de um século após a suamorte; foi o infante D. Pedro, filho de D. João I e também ele umgrande viajante, quem trouxe o primeiro texto para Portugal em1428. Mais tarde, em 1502, um comerciante e erudito alemãoinstalado em Lisboa e que adotou o nome de Valentim Fernandes,traduziu e editou a obra de Marco Polo. Ninguém queria acreditarno que contava o veneziano; a narrativa do forasteiro ultrapassavaa capacidade de enxergar dos ocidentais. Pelos mesmos anos emque Marco Polo viajava pelo oriente, entravam em Cataio osprimeiros missionários franciscanos, também italianos, que ficarammuito surpreendidos ao encontrarem vestígios de um cristianismoprimitivo instalado em climas tão distantes desde o século VII danossa era. Outros religiosos, franceses e ingleses aventuraram-seaté aos confins da Índia ao encontro de antigas comunidadescristãs. O grande viajante e geógrafo marroquino Ibn Battuta, queesteve na Índia e na China, também visitou Samatra em 1344; o marroquino viveu em Granada no final da sua vida e deixourelatos detalhados das suas viagens pelo oriente; ele foi o primeiroas divulgar no ocidente as qualidades e a importância do comércioMOMENTOS DO INTERCÂMBIO COMERCIAL E CULTURAL COM O ORIENTEColecção MOSAICO, Volume XXXIX 18mosaico_XXXIX_INTERCAMBIO_ORIENTE_Layout 1 15/12/22 15:49 Página 18
  • da pimenta, o mais lucrativo de todos. Outro mercador veneziano,Nicolau de Conti (1395-1469) viajou pelo oriente durante vinte e cinco anos e o seu relato, De Varietate Fortunae, foi editado em 1492.Os ocidentais tiveram conhecimento dos povos orientaisatravés de diversos encontros militares, comerciais, culturais e dasnarrativas dos grandes viajantes. Foram os portugueses osprimeiros que, a partir de 1509, divulgaram pela Europa o nome deChina em substituição de Cataio; no Livro de Duarte Barbosa,escrito no regresso do autor a Portugal, pelos anos de 1515 a 1518,após cerca de quinze anos de viagens e serviços pelo oriente (ele foiescrivão em Cananor e intérprete de Afonso de Albuquerque), jánão aparece mais o nome de Cataio. Na Suma Oriental de ToméPires, escrita em 1514, já aparece o nome do Japão.A 29 de Maio de 1453 deu-se a queda de Constantinopla,último bastião do império romano e cristão oriental e uma das maisricas e requintadas cidades do mundo de então, pivô do comércioentre o oriente e o ocidente. A cidade sucumbiu aos exércitosotomanos comandados por Maomé II, obrigando os ocidentais aprocurar outros caminhos para alcançar os países distantes dondeprovinham as especiarias, os tecidos raros, as joias, as pedraspreciosas e quanto bastasse para alimentar a especulação emnegócios fabulosos. Dois anos depois, em 1455, o papa Nicolau V,através da bula Romanus Pontifex, concedeu aos portugueses odireito de dominar territórios e povos desde a Guiné até à Índia,numa permanente guerra de conquista e de cruzada, para expansãoda fé e da civilização cristã. A diocese de Ceuta, criada em 1417 pelo papa Martinho V, o primeiro papa eleito após a grande criseANTÓNIO DE ABREU FREIREColecção MOSAICO, Volume XXXIX19mosaico_XXXIX_INTERCAMBIO_ORIENTE_Layout 1 15/12/22 15:49 Página 19
  • que dividiu a igreja (o grande cisma, quando havia papas em Pisa, Avignon e Roma), restaurou a presença cristã no Magrebeberbere e presidiu à cruzada durante quase cem anos. Ao tempo da bula papal de Nicolau V as navegações exploratórias dosportugueses tinham apenas alcançado o Senegal, Cabo Verde e asprimeiras terras da Guiné, reinava D. Afonso V e ainda se incluíamMOMENTOS DO INTERCÂMBIO COMERCIAL E CULTURAL COM O ORIENTEColecção MOSAICO, Volume XXXIX 20Pimenta, o fruto de um arbusto que se apresenta sob a forma de cachos, éconhecida como produto aromático desde a Idade Média. Abundante no Malabar.Marco Polo e Ibn Batuta mencionaram-na nos seus textos.mosaico_XXXIX_INTERCAMBIO_ORIENTE_Layout 1 15/12/22 15:49 Página 20
  • no fonema Índia as terras desconhecidas do continente africanobanhadas pelo alto rio Nilo, onde reinaria um poderoso imperadorcristão e donde procederia o ouro encontrado nos portos do golfo daGuiné. Essa era a Índia, imaginada e desejada ainda em vida doInfante D. Henrique (1394-1460).Pelos tratados de Alcáçovas (1479) e de Tordesilhas (1494) ospaíses ibéricos dividiam entre si a posse de uma parte consideráveldo mundo descoberto e por descobrir assim como a exclusividadede rotas marítimas de relevante importância comercial, tratadosreconhecidos e ratificados pela suprema autoridade da igrejacatólica. Cinquenta anos mais tarde os poderes cristãos emuçulmanos dividiam entre si não só a Europa e as margens doMediterrâneo mas o mundo inteiro, liderados por dois dosmaiores soberanos de todos os tempos: o imperador Carlos V e Solimão o Magnífico. O imperador cristão faleceu em 1558 aos cinquenta e oito anos e o comandante dos crentes e sucessordo profeta morreu aos setenta e um anos em 1566. Os turcosotomanos tentaram ocupar a ilha de Malta (em 1565) econquistaram Chipre (em 1570) numa ação estratégica paradominar todo o comércio marítimo no Mediterrâneo, do estreitodo Bósforo até ao Atlântico, mas perderam a hegemonia marítimana batalha de Lepanto em 1571, num confronto anacrónico comcentenas de galeras e outras embarcações em desuso, com umaestratégia militar ultrapassada mas que travou o poderio navalotomano. Reinava em Portugal D. Sebastião, o poder militar ecomercial português pelo oriente já tinha alcançado a sua máximaextensão até ao Japão e Camões aguardava a publicação para oano seguinte do grande poema à glória dos feitos do peito ilustreANTÓNIO DE ABREU FREIREColecção MOSAICO, Volume XXXIX21mosaico_XXXIX_INTERCAMBIO_ORIENTE_Layout 1 15/12/22 15:49 Página 21
  • MOMENTOS DO INTERCÂMBIO COMERCIAL E CULTURAL COM O ORIENTEColecção MOSAICO, Volume XXXIX 22lusitano contra o grande obstáculo às ambições imperialistas emessiânicas dos portugueses que, no oriente, continuava a ser omuçulmano. As rotas terrestres do Mediterrâneo até ao oriente,controladas pelo império otomano, além de perigosas, tornavamo preço das mercadorias exorbitante. (O império fundado porOthman I El-Gazi (1280-1324) em 1299, teve a sua maiorexpansão nos séculos XVI e XVII e durou até 1922)A Europa erudita medieval conhecia o exotismo, o requinte ea riqueza cobiçada do vasto e sedutor oriente, mas a distância e adificuldade dos caminhos para o alcançar, o obstáculo dominadordo vasto mundo islâmico e as grandes diferenças culturais elinguísticas, mantiveram por muito tempo a expectativa na áreaproibida da utopia. O cristianismo fortaleceu a autoestima dospovos europeus ao ponto destes considerarem a civilização cristãocidental como o modelo de todas as civilizações, o que dificultousobremaneira o diálogo e o relacionamento comercial no momentodo encontro mais intenso e sustentado com as civilizações dosoutros continentes, no século XVI: o confronto causou gravestraumatismos no velho mundo oriental como no novo mundo docontinente americano e nas ilhas encontradas pela vastidão doÍndico e do Pacífico. Na Europa, o choque provocado pela notícia denovas terras e de novas gentes foi ainda maior.O primeiro português a alcançar a Índia com intençõescomerciais terá sido Pêro da Covilhã (1450-1530) em 1488; escudeirodo rei D. Afonso V, poliglota, mercador de sucesso e diplomata,passou ao serviço de D. João II quando o rei Africano abdicou emfavor do filho em 1477 e ele foi enviado como espião pelas cidades daorla do oceano Índico, empreendendo uma viagem secreta namosaico_XXXIX_INTERCAMBIO_ORIENTE_Layout 1 15/12/22 15:49 Página 22
  • companhia de outro personagem, Afonso de Paiva, comerciante e navegador natural de Castelo Branco (1443-1490), fluente naslínguas hebraica e árabe. Viajaram juntos até Áden, na entrada doMar Vermelho, onde se separaram: Paiva seguiu para a Etiópia e Pêroda Covilhã alcançou Goa e Calecute regressando ao Cairo no início de 1491, para o reencontro combinado. Porém, Afonso de Paivafalecera ao regressar ao Egito, vítima da peste. A fim de conseguir as informações que Afonso de Paiva não chegara a transmitir, Pêro continuou a viagem pela costa oriental da África, por Melinde, Mombaça, Moçambique e Sofala, espaços dominados pelos muçulmanos, percorrendo as principais rotas comerciais dasespeciarias do oriente e recolhendo preciosíssimas informações sobreos roteiros, os portos, as ilhas mais importantes, os regimes dasmonções do Índico e sobre as técnicas de navegação utilizadas poraquelas latitudes, conhecimentos importantes que fez chegar ao rei através de dois rabinos judeus enviados por D. João II ao seu encontro no Cairo: Abraão de Beja e José de Lamego. Pêro daCovilhã nunca mais regressou a Portugal e optou por viver na Etiópia,onde não encontrou aquela terra próspera do lendário Prestes João,mas um reino pobre e marginal encurralado entre poderosascomunidades islâmicas, governado por um soberano cristão heréticoao qual passou a servir com grande sucesso pessoal. Ele foi overdadeiro inspirador e o guia acreditado da viagem de Vasco daGama (1460-1524), o percursor da maior aventura marítima da nossahistória. Figura na face oeste do padrão dos descobrimentos emLisboa entre o cartógrafo Jácome de Maiorca e o cronista Azurara.O resultado de tão arriscada viagem permitiu dar a conhecer aposição dos portos orientais de interesse comercial e os de escalaANTÓNIO DE ABREU FREIREColecção MOSAICO, Volume XXXIX23mosaico_XXXIX_INTERCAMBIO_ORIENTE_Layout 1 15/12/22 15:49 Página 23
  • estratégica pela costa africana do oceano Índico, indispensáveispara a reparação e o abastecimento dos navios. Permitiu igualmenteter uma ideia exata do comércio muçulmano que se estendia donorte de África até além de Samatra e Banda, facilitou o acesso adocumentos importantes de cartografia daquelas paragens,necessários para uma tão longa e arriscada viagem marítima.Enquanto os espiões de D. João II viajavam por terra, BartolomeuDias assegurava a rota para o Índico pelo cabo da Boa Esperança(1487/88), determinando a latitude do limite sul do continenteafricano. Um navegador com o pseudónimo de Cristóvão Colombo,MOMENTOS DO INTERCÂMBIO COMERCIAL E CULTURAL COM O ORIENTEColecção MOSAICO, Volume XXXIX 24Viagens de Pêro da Covilhã e Afonso de Paiva.mosaico_XXXIX_INTERCAMBIO_ORIENTE_Layout 1 15/12/22 15:49 Página 24
  • bem conhecido por armadores e comerciantes portugueses, zarpoude Palos de la Frontera ao serviço da coroa espanhola para alcançarCataio ou Cipango (Ji-Pangu em chinês, país do sol nascente) em1492; o globo terrestre exibido a partir de 1490 por Martin Behaimem Nuremberga posicionava estas terras algures a ocidente, alémdos arquipélagos conhecidos e cartografados do oceano Atlântico,pela latitude do trópico de Câncer – o continente americano nãoconstava e Colombo convenceu-se que tinha alcançado as ilhasavançadas do destino desejado. O rei de Portugal recolherainformações detalhadas sobre a organização política e comercialdos poderes muçulmanos e hindus pela manta de retalhos doespaço indiano, sobre os portos comerciais da costa orientalafricana pela rota que levaria os portugueses até à Índia econvencera-se portanto que a proposta do tão experiente quantovisionário Colombo, rumando a ocidente, não tinha viabilidade. Aproposta datava já de 1483, baseada num mapa anterior ao globoterrestre de Bahaim, desenhado em 1474 pelo astrónomo e geógrafotoscano Paolo Toscanelli (1397-1482), que por sua vez se apoiavana autoridade dos textos de um cardeal e professor da universidadede Paris, Pierre d’Ailly, que no seu tratado Imago Mundi defendia(já em 1410) que a rota para a Ásia era mais curta rumando a oestee nada provava nem desmentia então a viabilidade das intuições de Pierre d’Ailly, Toscanelli e Colombo, apenas a opção do reiportuguês e dos seus conselheiros foi outra: baseados na intuição deuma maior distância na longitude das terras a alcançar, osportugueses continuaram as explorações pela costa africana atéencontrar onde acabava o continente que separava o Atlântico doÍndico.ANTÓNIO DE ABREU FREIREColecção MOSAICO, Volume XXXIX25mosaico_XXXIX_INTERCAMBIO_ORIENTE_Layout 1 15/12/22 15:49 Página 25
  • Tanto os conselheiros dos reis portugueses como os dos outrospovos europeus alimentaram durante séculos ideias erradas masestimulantes sobre o fabuloso reino cristão de um tal Preste Joãoque no final do século XV se identificou como sendo a Etiópia etodos sonhavam com a rota marítima para encontrar os cristãosdispersos pelo oriente desde a queda de Constantinopla (1453). Osportugueses alcançaram este objetivo quarenta e cinco anos depois,fazendo seis escalas pela costa oriental da África, passando porMoçambique, Mombaça e Melinde, donde alcançaram Calecute emMaio de 1498 atravessando o Índico, dez anos depois da viagemexploratória de Pêro da Covilhã e da passagem pelo extremo sul docontinente africano, proeza que Bartolomeu Dias concretizara.Foram precisos dez anos de intensa preparação técnica e científica,no armamento das embarcações e nos programas de navegaçãoastronómica, para que os pioneiros navegassem com rigor esegurança até aos portos avançados da costa oriental da África; apartir daí, foi indispensável a contribuição dos pilotos e cartógrafosdo Índico para a última parte da viagem. Atribulado com outrosproblemas políticos do reino (o príncipe herdeiro D. Afonso faleceuem 1491) foi o rei D. João II quem engendrou toda a estratégia daviagem que o seu sucessor, D. Manuel, confiou a Vasco da Gama; aprimeira frota era modesta, discreta e não assustava ninguém:largaram do Tejo (Julho de 1497) quatro embarcações com cento esetenta homens e três delas alcançaram Calecute (Maio de 1498)após dez meses de navegação. As mercadorias que o comandantetransportava não impressionaram o Samorim (o soberano, ou rajá)daquele estado que foi muito claro nas suas exigências: sequisessem negociar a sério não seria com trocas por bugigangas.MOMENTOS DO INTERCÂMBIO COMERCIAL E CULTURAL COM O ORIENTEColecção MOSAICO, Volume XXXIX 26mosaico_XXXIX_INTERCAMBIO_ORIENTE_Layout 1 15/12/22 15:49 Página 26
  • Regressaram ao reino (Agosto de 1499) apenas dois navios, opequeno Bérrio, uma embarcação comandada por Nicolau Coelhoe a nau São Gabriel, a do almirante da frota, após três meses decontatos exploratórios na Índia; após mais de um ano inteiro denavegação na rota do regresso, desembarcaram cinquenta e cincohomens, menos de um terço dos que partiram. Quase dois anos denavegação para ir e voltar, para três meses de contatos na Índia, umcomeço difícil! Não foi um sucesso comercial, mas os navegantesregressavam com uma ideia muito clara do modo como se poderiamalcançar os mercados e traziam novos conhecimentos náuticos, napessoa de um piloto experiente dos mares orientais, ummuçulmano de Túnis, de nome Monçaide; outro piloto e cartógrafoárabe, da escola do célebre Ahmed Ibn Madjid, guiara a frota deMelinde até Calecute e mostrara aos portugueses as qualidades dokamal, uma espécie de balestilha, instrumento que permitia umamedição mais rigorosa da altura dos astros do que os astrolábios equadrantes, facilitando o cálculo das latitudes. A rota da Índiaestava traçada, faltava apenas consolidá-la.Em Março de 1500, passados apenas seis meses após a chegadados pioneiros, largava para a Índia uma nova frota, a de PedroÁlvares de Gouveia com treze navios, onze da coroa e dois dearmadores particulares (mil e quinhentos homens entre soldados emarinheiros) mas apenas seis deles alcançaram o destino,Calecute e cinco regressaram ao reino carregados de mercadorias;os navegantes, que pelo caminho tiveram um encontropromissor com os indígenas da costa brasileira, em nada inovaramem relação ao itinerário e aos portos de escala explorados por Pêroda Covilhã, mas a estratégia militar e comercial foi corrigida,ANTÓNIO DE ABREU FREIREColecção MOSAICO, Volume XXXIX27mosaico_XXXIX_INTERCAMBIO_ORIENTE_Layout 1 15/12/22 15:49 Página 27
  • assim como as datas da largada e do regresso, o que fez da viagemuma das mais bem-sucedidas de todas as que foram à Índia evoltaram e aquela que serviria de modelo a futuras empreitadasmarítimas por todo o oriente.Na rota de ida o almirante, que ficaria conhecido pelo nomeque herdou do pai em 1503, Pedro Álvares Cabral, fez escala emQuíloa (Tanzânia) e Melinde (Quénia), pelas terras indianaspassou pela ilha de Angediva, pelos portos de Cananor, Calecutee Cochim e regressou por Sofala (Moçambique) com a monçãofavorável. Levou no total da ida e da volta cerca de doze meses deMOMENTOS DO INTERCÂMBIO COMERCIAL E CULTURAL COM O ORIENTEColecção MOSAICO, Volume XXXIX 28Primeira viagem de Vasco da Gama e viagem de Pedro Álvares Cabral.mosaico_XXXIX_INTERCAMBIO_ORIENTE_Layout 1 15/12/22 15:49 Página 28
  • navegação para uma atividade comercial de quatro meses naÍndia. Em 1502 Vasco da Gama repartia com vinte navios e forçaarmada quanta bastasse para impor pela conquista o respeito e odomínio do comércio nos portos mais frequentados de toda acosta indiana até Coulão, no atual estado de Kerala; o domíniomilitar, a conquista e até o terror impunham-se como condiçõespara a segurança de um comércio lucrativo e a guerra inevitável,apesar de não haver no território indiano unidade política nemmilitar, exigia armamento sofisticado e executantes de grandeexperiência. No regresso da segunda viagem de Gama zarparamda Índia treze naus carregadas de mercadorias. O almirante sóvoltaria à Índia vinte e um anos depois com o título de vice-rei,falecendo pouco tempo após a chegada, na véspera de Natal de1524. Os portugueses beneficiaram das rivalidades étnicas,políticas, religiosas e comerciais entre hindus e muçulmanos,conseguindo o apoio dos primeiros para se apoderarem dosespaços controlados pelos sultões; os soberanos locais deixavam-se facilmente subornar, o que também facilitou a instalação defeitorias. As primeiras viagens à Índia permitiram tambémesclarecer uma situação com a qual os portugueses não contavam:havia cristãos por aquelas bandas, mas eles faziam parte dascastas pobres, sem preponderância política nem económica quepudesse ser útil aos forasteiros. Pelo caminho da ida, as escalasna costa oriental da África exigiram a construção de fortalezas emSofala e nas ilhas de Moçambique e de Quíloa, erguidas entre 1505e 1508 para apoio e segurança das naus, a meio caminho entre oCabo e a Índia. Marfim e pimenta eram as mercadorias que deinício recheavam os porões.ANTÓNIO DE ABREU FREIREColecção MOSAICO, Volume XXXIX29mosaico_XXXIX_INTERCAMBIO_ORIENTE_Layout 1 15/12/22 15:49 Página 29
  • O texto escrito por D. João de Castro (1500-1548), o Roteiro deLisboa a Goa, descrevendo a sua primeira viagem à Índia em 1538,revela-nos como se passava uma viagem marítima bem-sucedidaentre Portugal e Goa: largaram de Lisboa a 6 de Abril de 1538,passaram ao largo de Porto Santo a 10 e pelas Canárias a 13.Estavam em Cabo Verde a 22 e rumaram pela longa volta doAtlântico sul chegando ao Cabo Agulhas, o extremo sul docontinente africano, divisória entre o Atlântico e o Índico, a 27 de Junho. Fizeram aguada e um repouso de duas semanas emMoçambique e dobraram o Cabo Delgado, na foz do rio Rovuma,atual fronteira com a Tanzânia, a 17 de Agosto. Chegaram a Goa a11 de Setembro, após cinco meses de viagem. Nos séculos XVI eXVII as viagens de regresso da Índia demoravam normalmenteentre seis e sete meses de navegação, só excecionalmente menostempo. (D. João de Castro foi nomeado governador da Índia em1545 e depois vice-rei até à sua morte em 1548; excelenteadministrador, cartógrafo e cosmógrafo de grande relevo, umintelectual erudito e crítico, foi também o primeiro a estudar asdeclinações magnéticas. Sucedeu a Martim Afonso de Sousa.Morreu nos braços de São Francisco Xavier a 6 de Junho, com quarenta e oito anos) O último navio militar portuguêsexclusivamente à vela, a fragata D. Fernando e Glória levou cincomeses na viagem inaugural de Goa a Lisboa em 1845 – um poucomais do que a viagem excecional do regresso de Martim Afonso de Sousa em 1545, em quatro meses e meio.Para navegar da costa oriental da África até aos confins docontinente asiático, ou seja até à China e ao Japão, nos limites dooceano Pacífico que, pelo tratado de Tordesilhas em 1494 corrigidoMOMENTOS DO INTERCÂMBIO COMERCIAL E CULTURAL COM O ORIENTEColecção MOSAICO, Volume XXXIX 30mosaico_XXXIX_INTERCAMBIO_ORIENTE_Layout 1 15/12/22 15:49 Página 30
  • em Saragoça em 1529, caberiam a Portugal, os navegadoresportugueses apenas precisavam de adquirir as cartas marítimas econtratar bons pilotos, entre muçulmanos, malaios ou chineses,para alcançarem os portos das especiarias; as grandes rotasorientais estavam traçadas há séculos e o comércio fazia-se comnavegação de cabotagem. Não tardou até que cosmógrafos ecartógrafos portugueses se tornassem exímios conhecedores dosmares do Índico e dos limites ocidentais do Pacífico e os armadoresdisputavam os melhores pilotos pagando-lhes generosamente. Paraserem aceites como forasteiros de confiança e parceiros de bonsnegócios era necessário diplomacia, persuasão e arrogância quantabastasse, junto de comunidades muito diversificadas e sem unidadepolítica nem étnica. Porém, na China e no Japão, países com umaunidade política e cultural muito mais forte do que a África oriental,Índia ou Malásia, a aceitação dos portugueses foi muito maiscomplicada. Mesmo em Bengala (atual Bangladesh) e sobretudo naCochinchina (atual Vietname) foram precisas décadas de tentativase muita diplomacia para angariar a confiança dos governanteslocais e aceder aos mercados cobiçados, sempre com pouco sucesso.Desde as primeiras viagens à Índia que surgiu a ambição de alcançar outros mercados mais distantes, os da Malásia, daChina e do Japão, nas terras até então conhecidas como Cataioe Cipango. Os portugueses começaram por alcançar Ceilão eestabeleceram as primeiras relações comerciais em 1505;consolidaram a presença na ilha e fundaram a cidade de Columboem 1517, que viria a ser a capital a partir de 1565. Durante cerca decento e cinquenta anos, até 1656, a ilha mais cobiçada de todo ooriente foi dominada pelo comércio dos portugueses que oANTÓNIO DE ABREU FREIREColecção MOSAICO, Volume XXXIX31mosaico_XXXIX_INTERCAMBIO_ORIENTE_Layout 1 15/12/22 15:49 Página 31
  • perderam, assim como muitos dos outros assentamentos comerciais,em benefício dos holandeses, os novos senhores dos oceanos,donos dos navios mais sofisticados e poderosos de então, apoiadosem companhias comercial e financeiramente bem estruturadas enos conhecimentos náuticos e astronómicos levados para os paísesbaixos pelos judeus cultos foragidos da península Ibéricaintolerante. Em 1509 Diogo Lopes de Siqueira aborda à ilha de Samatra e cria os primeiros contatos comerciais que seprolongariam por noventa anos, até 1599; o melhor lenhoaromático de todo o oriente, o aloés, vinha de Samatra e daIndochina. Os portugueses avançaram na exploração doarquipélago de Sonda e em 1512 alcançaram Timor, garantindo onegócio das madeiras exóticas que os chineses já dominavamséculos antes através de Malaca, em especial o do sândalo,MOMENTOS DO INTERCÂMBIO COMERCIAL E CULTURAL COM O ORIENTEColecção MOSAICO, Volume XXXIX 32Os meridianos de Tordesilhas e Saragoça na partilha do mundo.mosaico_XXXIX_INTERCAMBIO_ORIENTE_Layout 1 15/12/22 15:49 Página 32
  • madeira utilizada na decoração, na estatuária e na perfumaria.Timor fornecia os sândalos mais preciosos, o branco e o amarelo;o sândalo vermelho, ou falso-sândalo era utilizado na construçãode templos e na estatuária. Pelos mesmos anos os portuguesesabordaram as proximidades de Macau, alcançaram a Austrália evisitaram outras ilhas do oceano Pacífico, na procura de novasfontes de riqueza, em ousadas viagens exploratórias.O primeiro centro administrativo das empreitadas portuguesas pelo oriente foi a feitoria da cidade de Cochim, a ANTÓNIO DE ABREU FREIREColecção MOSAICO, Volume XXXIX33Extensão geográfica do comércio português no oriente.mosaico_XXXIX_INTERCAMBIO_ORIENTE_Layout 1 15/12/22 15:49 Página 33
  • sul da Índia, território do Malabar, onde se instalou o primeiro vice-rei D. Francisco de Almeida em 1505. Após a conquista doterritório do sultão Abdul Muzaffar Yusuf Adil Shah, o Sabaio, por Afonso de Albuquerque (Goa foi ocupada em Dezembro de 1510), a capital do império português do oriente passouprogressivamente para a cidade de Goa, uma antiquíssimaaglomeração controlada pelos muçulmanos, sujeitos ao poderpolítico do sultão do Cairo, situada numa ilha fértil e bemposicionada para servir de centro administrativo e de entrepostocomercial. A administração portuguesa instalou-se definitivamenteem Goa a partir de 1530, no governo de Nuno da Cunha (filho deTristão da Cunha) que passou daí em diante a ser a cidade dos vice-reis e governadores de todo o oriente, antes e depois da expansãodaquele território e da construção de uma nova capital. Portugalcontava por essa data pouco mais de um milhão e duzentos milhabitantes quando a aventura oriental se aproximava do apogeu.Para além da diminuta população do reino, o século XVI foimarcado por fomes, epidemias e terramotos devastadores quedizimavam povoações inteiras.O primeiro português que chegou a Damão foi umdesafortunado que naufragou naquelas costas quando procuravaalcançar Ormuz em 1523, chamava-se Diogo de Melo. A cidade eraum grande centro de estaleiros navais, de armazenamento demadeiras e de armamento das frotas dos muçulmanos que seconfrontavam no mar com os navios portugueses; as florestas deNagar-Aveli forneciam as melhores madeiras para a construçãonaval, principal indústria que sustentava o comércio marítimo. Porisso a cidade, os entrepostos e os estaleiros foram incendiados emMOMENTOS DO INTERCÂMBIO COMERCIAL E CULTURAL COM O ORIENTEColecção MOSAICO, Volume XXXIX 34mosaico_XXXIX_INTERCAMBIO_ORIENTE_Layout 1 15/12/22 15:49 Página 34
  • 1531, por ordem do governador Nuno da Cunha, tudo de imediatorestaurado pelos seus habitantes. Em 1534 Martim Afonso de Sousa (o mesmo que foi primeirodonatário da capitania de São Vicente no Brasil e comandante daarmada enviada em 1531 para defender as costas brasileiras)bombardeou e destruiu de novo Damão. No ano seguinte o sultãode Cambaia ofereceu a ilha de Diu aos portugueses pelos serviçosprestados na luta contra os mongóis; os portugueses ficaramassim posicionados para controlar a entrada do golfo de Cambaia,no Mar Arábico. Martim Afonso de Sousa voltou à Índia comogovernador, chegando a Goa em Maio de 1542; levava com ele ostrês primeiros padres jesuítas, um deles espanhol de Navarra,cofundador da Companhia de Jesus, chamado Francisco Xavier,que passaria para a história do cristianismo como o apóstolo do oriente. Na primeira viagem, em 1534, levara como médicopessoal um filho de cristãos novos já famoso no reino, chamadoGarcia da Orta, que se instalou como médico em Goa, ondeconviveu com Luís de Camões e onde viria a falecer em 1568.Devemos-lhe uma grande obra científica publicada em Goa em1563, Colóquio dos simples e drogas e coisas medicinais da Índia. Damão foi definitivamente ocupada pelos portugueses em1559, governava o vice-rei D. Constantino de Bragança; foi o últimoespaço do oriente a ser anexado pelos portugueses, marcando o fimdo expansionismo comercial e militar. Finalmente por tratado, em1780, foram oferecidas a Portugal, como recompensa por outraspraças perdidas na região, os territórios de Dadrá e Nagar Aveli,com imensas reservas florestais. Das florestas de Nagar-Avelisaíram as madeiras para a construção de grandes naus de guerra eANTÓNIO DE ABREU FREIREColecção MOSAICO, Volume XXXIX35mosaico_XXXIX_INTERCAMBIO_ORIENTE_Layout 1 15/12/22 15:49 Página 35
  • de comércio, e as três mil toneladas de madeira de teka queserviram para a construção do maior navio construído na Índiaportuguesa, a fragata D. Fernando e Glória, decisão tomada por D. João VI em 1824 e que levaria 20 anos a concretizar. Restauradaem 1998, a fragata figura no roteiro histórico e turístico portuguêse algumas das suas madeiras ainda são as da floresta indianaentretanto totalmente abatida.Ceilão, a joia do oriente, despertou a curiosidade de todosquantos portugueses por lá se aventuraram durante cerca de centoe cinquenta anos; viajantes, militares e missionários deixaram-nostextos encantadores sobre a ilha e os seus habitantes, mas que sóforam publicados muito tempo depois de terem sido escritos. A ilhachegou a ser, na segunda metade do século XVII, a principal fontedo comércio oriental do reino, perdidas quase todas as outraspraças e feitorias comerciais em benefício das Companhias dasÍndias holandesa e inglesa. O franciscano frei Paulo da Trindade(1570-1651) publicou Conquista Espiritual do Oriente. O capitãoJoão Ribeiro, que viveu dezoito anos em Ceilão e foi prisioneiro dosholandeses, escreveu em 1685 um texto intitulado FatalidadeHistórica da ilha de Ceilão, publicado em Portugal apenas em 1826e posteriormente em 1989. Entre 1684 e 1688 o jesuíta Fernão deQueiroz (1617-1688) estava em Ceilão; deslumbrado com o requintede uma civilização antiquíssima e inspirado nos textos dofranciscano, redigiu uma obra que só foi publicada em 1916:Conquista temporal e espiritual de Ceilão. O retorno dosportugueses à ilha perdida para os holandeses em 1658representava para muitos patriotas do século XVII a possibilidadeda reconquista dos outros espaços perdidos pelo vasto oriente.MOMENTOS DO INTERCÂMBIO COMERCIAL E CULTURAL COM O ORIENTEColecção MOSAICO, Volume XXXIX 36mosaico_XXXIX_INTERCAMBIO_ORIENTE_Layout 1 15/12/22 15:49 Página 36
  • Devemos o nosso conhecimento histórico básico sobre ooriente a quatro personagens incontornáveis do século XVI:Fernão Lopes de Castanheda (1500-1559), Gaspar Correia (1495-1561), João de Barros (1496-1570) e Diogo de Couto (1542-1616).Castanheda viveu dez anos no oriente, entre 1528 e 1538 e depoisde regressar a Portugal escreveu os oito volumes da História doDescobrimento e Conquista da Índia pelos Portugueses, editadosem Coimbra a partir de 1551 e logo traduzidos para as principaislínguas europeias. Gaspar Correia, o Políbio português, viveugrande parte da vida na Índia onde foi o secretário de Afonso deAlbuquerque nos últimos anos de vida deste; deixou-nos uma obrasobre os primeiros tempos da presença portuguesa no oriente, osanos da formação do Estado da Índia, que ficou inédita até aoséculo XIX, Lendas da Ásia. João de Barros, um dos homens maiseruditos do seu tempo, iniciou o relato das (quatro) primeirasDécadas da Ásia, apesar de nunca ter estado no oriente e Diogode Couto continuou-as acrescentando mais nove décadas, dasquais cinco chegaram até nós. O cristão-novo António Bocarro(1594-1642) continuou o trabalho de Diogo de Couto, sucedeu-lheno posto de cronista e guarda-mor da Torre do Tombo de Goa eacrescentou a Década XIII, abrangendo os anos de 1612 a 1617. FoiDiogo de Couto quem, no regresso da sua primeira missão naÍndia, em 1569, encontrou Camões desamparado e endividado nailha de Moçambique onde chegara no final de 1567 e conseguiuangariar dinheiro para lhe pagar o regresso; sem a generosidade eo empenho do cronista possivelmente a obra Os Lusíadas, que o poeta escrevera e polira ao longo dos dezassete anos deperegrinações e aventuras por terras do oriente, de Goa a Macau,ANTÓNIO DE ABREU FREIREColecção MOSAICO, Volume XXXIX37mosaico_XXXIX_INTERCAMBIO_ORIENTE_Layout 1 15/12/22 15:49 Página 37
  • entre detenções e naufrágios, numa época de grandes conflitos como poder muçulmano, poderia nunca ter sido editada. Profundoconhecedor da Índia, onde viria a falecer (em Goa), o historiadordeixou-nos uma narrativa severa da vida quotidiana no vice-reino, denunciando os excessos, a violência e a corrupção daselites portuguesas no Diálogo do Soldado Prático. TambémCastanheda denunciou os abusos dos poderosos pelo oriente e arainha regente D. Catarina acedeu ao pedido dos nobres do reino,interditando a publicação dos dois últimos volumes (póstumos) dasua História; até o irreverente Camões, nas Sátiras proibidas,denunciou a imoralidade, a ganância e a corrupção queminavam a administração e os negócios, o que lhe valeu maisalguma de muitas detenções.Por Goa, Cochim, Ceilão, Malaca e Macau passaram nessesmesmos anos outros grandes personagens que enfeitam o elencoliterário do século de ouro da nossa glória, tais como DuarteBarbosa, Garcia da Orta, Fernão Mendes Pinto, Fernão Álvares doOriente, Duarte Pacheco Pereira… que muito provavelmente seencontraram mais do que uma vez. A capital do império portuguêsno oriente era a cidade de Goa, sede do governo, ponto de encontrode civilizações (muçulmana, hindu e cristã), onde se decidiam noséculo XVI as estratégias do comércio, da guerra e da religião; teráchegado aos duzentos mil habitantes, a maior cidade da Índia, uma capital comercial, cultural e religiosa à altura do sonho de Albuquerque. O Hospital Real, fundado por Afonso deAlbuquerque, foi a primeira instituição de assistência social nooriente e o colégio de Santa Fé, edificado entre 1541 e 1544 foi oprimeiro grande foco da cultura ocidental. Mas a cidade tãoMOMENTOS DO INTERCÂMBIO COMERCIAL E CULTURAL COM O ORIENTEColecção MOSAICO, Volume XXXIX 38mosaico_XXXIX_INTERCAMBIO_ORIENTE_Layout 1 15/12/22 15:49 Página 38
  • rapidamente cresceu quanto definhou e no século XVII já eraapenas uma sombra do tempo da sua grandeza: a má qualidade e a corrupção dos administradores, a intolerância religiosa (a Inquisição chegou em 1560), uma imigração descontroladade criminosos e degredados, a falta de planeamento urbano,epidemias e ocupações reduziram rapidamente a Goa Dourada,a Roma do Oriente, a uma decadente cidade de província, recheadade ruínas. Em 1655, num célebre sermão de sexta-feira santapregado na igreja da Misericórdia em Lisboa, o padre AntónioVieira fez a seguinte alusão: Encomendou el-rei D. João, o Terceiro,a S. Francisco Xavier o informasse do estado da Índia por via deseu companheiro, que era mestre do príncipe (D. João Manuel, paide D. Sebastião): e o que o santo escreveu de lá, sem nomear ofíciosnem pessoas, foi que o verbo “rapio” na Índia se conjugava portodos os modos. (Sermão do Bom Ladrão)Os comerciantes portugueses alcançaram o Japão (que MarcoPolo não visitou mas do qual teve notícias e denominou de Cipango)ao longo do ano de 1543 e os pioneiros da empreitada terão sidoFernão Mendes Pinto e os seus companheiros Cristóvão Borralho eDiogo Zeimoto, ao desembarcarem, sem autorização do governadorMartim Afonso de Sousa, numa das ilhas do arquipélago de Osumi,no sul do país, a ilha de Tanegashima. A introdução da arma de fogo(o bacamarte) pelos portugueses foi a primeira grande novidadetécnica vinda do ocidente e que modificou por completo a arte e osucesso militar naquele país que era então governado por senhoresda guerra, à maneira do feudalismo europeu medieval. Ainda nosnossos dias se celebra anualmente na ilha o Festival daEspingarda, comemorando tal evento (como se celebra no nordesteANTÓNIO DE ABREU FREIREColecção MOSAICO, Volume XXXIX39mosaico_XXXIX_INTERCAMBIO_ORIENTE_Layout 1 15/12/22 15:49 Página 39
  • brasileiro o Festival do Bacamarte). A partir de 1547 os mercadoresjaponeses visitavam Malaca e a partir de 1548 frequentavam Goa. Os missionários jesuítas chegaram em 1549 à cidade deKagoshima e o comércio com os “namban jin”, os “bárbaros do sul”,desenvolveu-se rapidamente em menos de uma década graças ao apoio estratégico de Macau, mantendo-se por largos anosmonopólio dos portugueses. Em 1581 um cartógrafo português,talvez o jesuíta Inácio Moreira, desenhava a primeira cartageográfica do Japão. Porém, a presença dos europeus em terras tão distantes e culturas tão diferentes sempre foi precária erecheada de imprevistos.MOMENTOS DO INTERCÂMBIO COMERCIAL E CULTURAL COM O ORIENTEColecção MOSAICO, Volume XXXIX 40Posição estratégica de Macau no extremo oriente.mosaico_XXXIX_INTERCAMBIO_ORIENTE_Layout 1 15/12/22 15:49 Página 40
  • A fixação dos portugueses na China foi problemática e quasetodas as tentativas falharam para chegar a um entendimento comas autoridades do império chinês. O navegador Jorge Álvares partiude Malaca em 1513 às ordens do capitão-mor Jorge de Albuquerquee fixou um padrão clandestino em Tamão sem mais consequências;o embaixador Tomé Pires, naturalista e boticário real, não tevesucesso e foi preso em 1516. A China não via com bons olhos a presença dos ocidentais que somente à custa de subornosconseguiam fixar-se esporadicamente em alguns pequenos portos.O missionário São Francisco Xavier faleceu em 1552 em Sanchoão,próximo de Macau, em mais uma tentativa frustrada de instalararraiais em terras chinesas. Finalmente em 1557 houve acordo entreportugueses e chineses para uma espécie de arrendamento de umespaço no delta do rio das Pérolas, nas proximidades de Cantão.Logo nesse ano o arrojado dominicano frei Gaspar da Cruz, vindode Goa e Malaca, por lá iniciou a divulgação do cristianismo. Seisanos depois chegaram os jesuítas e a cidade de Macau foi elevada a sede de um bispado em 1575. O primeiro hospital público, oHospital dos Pobres, uma leprosaria e a Santa Casa da Misericórdiaforam obras dos jesuítas a partir de 1569. O colégio de São Paulofoi erguido em 1594 e de lá irradiou a cultura ocidental pelo espaçodo império chinês. Em 1600 os portugueses conseguiram criar umentreposto comercial na ilha de Taiwan, a que chamaram Formosa,mas foi uma empreitada pouco duradoura, perdida para osespanhóis que mais tarde, em 1642, a deixaram aos holandesestambém com pouco sucesso, pois foram expulsos de lá peloschineses em 1661. Macau foi um caso único de sucesso político,cultural e comercial; logo no primeiro quartel do século XVII oANTÓNIO DE ABREU FREIREColecção MOSAICO, Volume XXXIX41mosaico_XXXIX_INTERCAMBIO_ORIENTE_Layout 1 15/12/22 15:49 Página 41
  • pequeno território possuía a mais sofisticada fundição de canhõesde todo o oriente, a de Manuel Tavares Bocarro. Mas a China sempre foi um espaço quase interdito aosestrangeiros, dificilmente aceites por um povo que se consideravao centro do mundo e que olhava para “os outros” como seresestranhos com hábitos de vestuário e de alimentação consideradosbárbaros e grotescos. Até ao século XIX os letrados chinesesignoravam até o nome dos principais países ocidentais, pelos quaisnão tinham o mínimo apreço nem ponta de curiosidade. Somentea partir da criação da República Popular da China em 1949 esobretudo com a revolução cultural implantada por Mao Tsétungem 1966 é que a grande maioria dos cidadãos chineses teveconhecimento, mais pela negativa, da existência de países de outroscontinentes, amigos ou inimigos do povo chinês. Foram muitopoucos os personagens estrangeiros que ao longo da históriaconseguiram conquistar o apreço e a admiração dos chineses. A presença dos portugueses, pelo seu reduzido número e por umaatuação genericamente discreta, nunca preocupou as autoridadeschinesas, mesmo se, em momentos de alguma tensão (como emDezembro de 1966) recaíram sobre eles as mesmas depreciaçõesque se aplicavam aos povos denominados imperialistas esanguinários, inimigos da nação chinesa. Os portugueses ficaramem Macau até 20 de Dezembro de 1999, quando aquele espaço foidevolvido à China após quatrocentos e quarenta e dois anos deconvivência pacífica.O personagem que logo evocamos quando nos referimos àexpansão do cristianismo pelo oriente é São Francisco Xavier(1506-1552): chegou à Índia com trinta e seis anos em 1542, naMOMENTOS DO INTERCÂMBIO COMERCIAL E CULTURAL COM O ORIENTEColecção MOSAICO, Volume XXXIX 42mosaico_XXXIX_INTERCAMBIO_ORIENTE_Layout 1 15/12/22 15:49 Página 42
  • armada de Martim Afonso de Sousa, abordou Ceilão em 1544,estava nas ilhas Molucas em 1546. No ano seguinte encontrou-seem Malaca com Fernão Mendes Pinto que regressava do Japão equase o convenceu a fazer-se jesuíta. Dois anos depois fez escalaem Cantão, na China, a caminho do Japão que alcançou em Julhode 1549, para uma primeira investida missionária sem grandesucesso. Ficou com saudades da China onde os estrangeiros eramdificilmente aceites e morreu numa das ilhas do arquipélago deSanchoão, próximo de Macau, a 3 de Dezembro de 1552, aosquarenta e seis anos, quando tentava realizar o grande sonho,ANTÓNIO DE ABREU FREIREColecção MOSAICO, Volume XXXIX43A fundição de canhões de Manuel Tavares Bocarro funcionou em Macau a partirde 1625.mosaico_XXXIX_INTERCAMBIO_ORIENTE_Layout 1 15/12/22 15:49 Página 43
  • depois do insucesso do plano do embaixador do rei português,Diogo Pereira; viveu dez anos de euforia missionária pelo orienteno limite da loucura. O seu corpo foi transladado para Malaca emais tarde (1637) sepultado em Goa na basílica do Bom Jesus.Canonizado pelo papa Gregório XV em 1622, a carreira doapóstolo do oriente foi uma verdadeira obsessão, uma aventuratemerária que inspirou e seduziu dezenas de outros que vieram,depois dele, realizar façanhas tão ousadas e loucas quantosublimes.Na primeira carta que o fogoso jesuíta escreve da Índia aocompanheiro e cofundador da Companhia de Jesus, Inácio deMOMENTOS DO INTERCÂMBIO COMERCIAL E CULTURAL COM O ORIENTEColecção MOSAICO, Volume XXXIX 44Viagens de São Francisco Xavier.mosaico_XXXIX_INTERCAMBIO_ORIENTE_Layout 1 15/12/22 15:49 Página 44
  • Loyola, em 1542, ele faz as mesmas apreciações que o seu confradepadre Manuel da Nóbrega fará sete anos depois ao chegar aSalvador da Bahia: a curiosidade das crianças pela novidade docristianismo, a desconfiança dos adultos face às ideias dos padres,a arrogância e a malvadez dos colonos e mercadores que, longe doberço onde nasceram e num ambiente libertário, excitados pelaganância, se esqueciam do céu e não se preocupavam com o inferno.(Um companheiro de Nóbrega no Brasil, da primeira leva de 1549,o padre João de Azpilcueta Navarro, foi um bandeirante da fé e umpioneiro ao utilizar as línguas indígenas na evangelização do NovoMundo; era parente de Francisco Xavier)O personagem que sonhou com um império político ecomercial português no oriente foi Afonso de Albuquerque(1453-1515), um genial e vitorioso estrategista militar com longaexperiência no norte de África; tão qualificado guerreiro quantoadministrador, em apenas seis anos como governador da Índia(1509-1515) onde chegou já com cinquenta e seis anos,conquistou e criou as condições para fazer de Goa a capital docomércio oriental, estendeu o domínio português desde Ormuz,na entrada do golfo pérsico, até Malaca, criou relaçõesdiplomáticas com a Etiópia, Áden, o reino de Sião, a Pérsia e aChina. A cidade de Malaca (Melaka – como se chamava então),na altura um estratégico porto de abrigo de pescadores e decorsários bem como um importante entreposto comercial, foiconquistada pelos homens de Albuquerque ao sultão MahmudSyah em 1511 e transformou-se rapidamente num ponto de apoioimportante para a expansão do domínio português pelo oriente,o porto de escala obrigatório das naus que demandavam as terrasANTÓNIO DE ABREU FREIREColecção MOSAICO, Volume XXXIX45mosaico_XXXIX_INTERCAMBIO_ORIENTE_Layout 1 15/12/22 15:49 Página 45
  • mais distantes da China e do Japão. O estreito de Malaca era econtinua sendo um ponto estratégico na passagem do Índicopara o Pacífico e por isso a cidade recebeu fortificações das quaisainda restam vestígios; foi terra de pilotos, cartógrafos, chefesmilitares, administradores e missionários, durante cento e trintaanos, até ser perdida para os holandeses em 1641. João deBarros chamou-lhe a feira universal do oriente, expressão quetalvez tenha inspirado o padre António Vieira num célebresermão pregado em 1674 em Roma e dedicado à rainha SantaIsabel: Este mundo, senhores, composto de tanta variedade deestados, ofícios e exercícios públicos e particulares, políticos eeconómicos, sagrados e profanos, nenhuma outra coisa é senãouma praça, ou feira universal, instituída e franqueada por Deusa todos os homens, para negociarmos nela o reino do céu. Àdata do sermão, Malaca já não era portuguesa há mais de trêsdécadas, mas o pregador jesuíta acreditava que seria possívelreverter a situação.No final da missão, Afonso de Albuquerque foi agraciado como título de vice-rei e duque de Goa, mas a ação política e diplomáticado governante foi mal entendida no reino e os últimos tempos de vida, assim como os primeiros da sua ação na Índia, foramassombrados pelas intrigas, pela inveja e pela ingratidão dos seusparceiros. Mal ante ele (El-Rei) por amor dos homens, e mal comos homens por amor dele. Bom é de acabar – lamentava. As ideiasimperialistas e messiânicas de D. Manuel tinham interpretaçõesconflituosas entre os intelectuais e poderosos do reino. Faleceu nomar, a bordo de uma nau à vista de Goa, a 16 de Dezembro de 1515,tinha sessenta e dois anos. A sua visão de um império comercial noMOMENTOS DO INTERCÂMBIO COMERCIAL E CULTURAL COM O ORIENTEColecção MOSAICO, Volume XXXIX 46mosaico_XXXIX_INTERCAMBIO_ORIENTE_Layout 1 15/12/22 15:49 Página 46
  • oriente, assente em estruturas coloniais de ocupação do espaçofísico por uma população aculturada às ideias e virtudes do povolusitano foi a mais genial das utopias jamais saídas do imagináriode um português, apenas comparável com a ideia profética do Vº Império do padre António Vieira, que era uma criança de sete anosquando o vice-rei faleceu e deixava Lisboa a caminho da capital daANTÓNIO DE ABREU FREIREColecção MOSAICO, Volume XXXIX47Noz-Moscada, a semente de um fruto que, depois da maturação e da secagemtem um sabor nobre e delicado. Marco Polo deu-a a conhecer ao ocidente.mosaico_XXXIX_INTERCAMBIO_ORIENTE_Layout 1 15/12/22 15:49 Página 47
  • colónia brasileira, com a qual se identificaria. Albuquerque enviououtros navegadores como António de Abreu no alcance das ilhasMolucas (as ilhas do sultão Al-Malouk, que geraram uma polémicaentre o imperador Carlos V e D. João III sobre o posicionamentodelas no hemisfério de influência do tratado de Tordesilhas, assuntoresolvido no tratado de Saragoça em 1529), de Timor, de Java e doarquipélago da Banda em cata da valiosíssima noz-moscada e muitoprovavelmente alguns deles visitaram a costa australiana, pelosanos de 1511/12, uma década antes de Cristóvão Furtado deMendonça; às ordens do governador de Malaca (então Jorge deAlbuquerque, sobrinho de Afonso), Jorge Álvares alcançou a ChinaMOMENTOS DO INTERCÂMBIO COMERCIAL E CULTURAL COM O ORIENTEColecção MOSAICO, Volume XXXIX 48Espaço da ação militar e diplomática de Afonso de Albuquerque.mosaico_XXXIX_INTERCAMBIO_ORIENTE_Layout 1 15/12/22 15:49 Página 48
  • em 1513, numa primeira tentativa sem sucesso para criar um pontode encontro, um assentamento permanente. Um outro António deAbreu, madeirense, também foi capitão de Malaca, duas décadasdepois do seu homónimo. Afonso de Albuquerque e António deAbreu figuram juntos na face leste do padrão dos descobrimentosem Lisboa, entre as figuras de Diogo Cão e de São Francisco Xavier.Um dos governadores da fortaleza de Malaca pelos anos de1520 foi Duarte Coelho Pereira, provável descendente bastardo do toscano Gonçalo Coelho – um dos capitães a quem o rei D. Manuel confiou o levantamento da costa brasileira em 1503, nacompanhia de Américo Vespucci. Duarte Coelho Pereira foi oprimeiro português a abordar a Cochinchina (em 1523) e duranteduas décadas no oriente provou as suas qualidades de militar e degovernante. Acompanhava Jorge Álvares por terras chinesasquando este faleceu em 1521 e deu-lhe sepultura junto ao padrãoque tinha erguido no refúgio clandestino da ilha de Tamão; D. João III escolheu-o (em 1534) como donatário da capitania dePernambuco (Nova Lusitânia), no Brasil, a que teve maior sucesso.Era casado com Brites de Albuquerque, sobrinha do grande Afonsode Albuquerque. Outro dos escolhidos para donatário de duascapitanias foi o cronista João de Barros, que nunca tomou possedelas, apesar de ter gasto a fortuna e ter perdido dois dos seus filhosem tentativas frustradas de colonização. Outros donatáriostinham sido militares e administradores no oriente: VascoFernandes Coutinho esteve em Goa e Malaca com Afonso deAlbuquerque, recebeu a capitania do Espírito Santo e lá gastousem sucesso toda a sua fortuna; Francisco Pereira Coutinho,homem rígido e severo por terras africanas e indianas – tinhaANTÓNIO DE ABREU FREIREColecção MOSAICO, Volume XXXIX49mosaico_XXXIX_INTERCAMBIO_ORIENTE_Layout 1 15/12/22 15:49 Página 49
  • a alcunha de rusticão – perdeu tragicamente a vida na capitaniaque lhe foi atribuída, a da Bahia.Fernão Mendes Pinto (c. 1510-1583) foi o personagem quemais intensamente terá vivido a experiência oriental durante osvinte e um anos que durou a sua peregrinação por todo o espaçoque vai da península arábica ao até então interdito Japão. Deorigem humilde, serviu na casa de um nobre (o duque de Aveiro,D. João de Lencastre) e embarcou para a Índia em 1537, teria unsvinte e sete anos. Foi soldado, mercador, embaixador, entusiasmou-sepela vida religiosa quando encontrou São Francisco Xavier, masregressou ao reino desiludido e revoltado com a atuação dosprincipais intervenientes nos negócios orientais, tanto os religiososcomo os militares, os mercadores e os administradores. Aossessenta anos instalou-se numa quinta da Charneca da Caparica,no Pragal, onde durante oito anos escreveu as memórias daexperiência de vida passada naquelas terras longínquas. O quenarrava era tão estranho e tão incrível que ninguém acreditava; eletambém denunciava os vícios e os abusos dos conquistadores ávidospor sacar e pilhar para enriquecer rapidamente e regressar à pátriacom fabulosas fortunas. A obra só foi publicada, muito adulteradaem relação ao texto original, para não perturbar as consciências,vinte anos depois da sua morte, em 1614, e com um estrondososucesso já que em menos de duas décadas a Peregrinação tevedezanove edições em seis línguas, uma divulgação muito superior aOs Lusíadas. A civilização cristã ocidental não estava preparadapara reconhecer a qualidade de uma outra civilização que tinhacrescido à margem do cristianismo e que era descrita comoportadora de valores humanos e de preceitos morais que aMOMENTOS DO INTERCÂMBIO COMERCIAL E CULTURAL COM O ORIENTEColecção MOSAICO, Volume XXXIX 50mosaico_XXXIX_INTERCAMBIO_ORIENTE_Layout 1 15/12/22 15:49 Página 50
  • dignificavam. Os tempos da intolerância já tinham tambémchegado ao oriente e o tribunal do Santo Ofício relaxava oscondenados para as fogueiras que o poder civil oferecia emespetáculo à populaça, que entrava em delírio com o cheiro a carnequeimada. As naus da Índia chegaram a transportar dezenas decondenados pelos tribunais do Santo Ofício do reino, homens emulheres, para serem executados nas fogueiras de Goa e de Baçaim,a partir de 1567.O império português do oriente, imaginado por Albuquerquecomo um grande espaço mercantil e cultural, durou menos de umséculo. O governador sonhava com uma vasta miscigenação deportugueses com mulheres indianas, criando uma raça aculturadaque servisse de apoio à empreitada comercial e política portuguesa,uma verdadeira colonização, mas os nobres do reino recusavam aideia de uma raça de mestiços que porventura viesse a ofuscar adignidade e a qualidade da utópica pureza lusitana que estava namoda – o peito ilustre lusitano. A intolerância foi porventura o principal obstáculo ao sucesso das empreitadas comerciais e à convivência pacífica entre portugueses, hindus e muçulmanos.Albuquerque mostrou-se tolerante com os muçulmanos,permitindo-lhes o culto para criar relações pacíficas com os maiorescomerciantes do oriente, nas a sua atitude conciliadora não foientendida no reino. A ideia de Albuquerque, experimentada emGoa, não vingou; o império oriental manteria como alicerce umprojeto comercial agressivo, por onde a ambição não tinha regrasnem limites e as empreitadas sucederam-se, por entre tragédias esucessos. A pouca gente portuguesa (o reino contava em 1527 poucomais de um milhão e duzentas mil almas), muito disseminada peloANTÓNIO DE ABREU FREIREColecção MOSAICO, Volume XXXIX51mosaico_XXXIX_INTERCAMBIO_ORIENTE_Layout 1 15/12/22 15:49 Página 51
  • vastíssimo espaço oriental, sempre foi uma minoria vulnerávelapesar de arrogante e a intolerância foi dos maiores obstáculos à manutenção do império. A corrupção, a indisciplina, oenriquecimento ilícito, o nepotismo, o roubo e a ganância, pirataria,massacres de inocentes e vinganças, sobretudo o fanatismo e aintolerância, ultrapassaram todos os limites e transformaram aepopeia num pesadelo, os heróis em bandidos. O tribunal daInquisição de Goa condenou à fogueira a irmã de Garcia da Ortaem 1569, no ano seguinte ao da morte do médico e mandou exumaros restos mortais dele, que se encontravam na sé de Goa, para osqueimar num aparatoso auto-da-fé em 1580. Os recursos humanoseram demasiado exíguos, fracos e sem virtude para manterhonradamente um tão vasto império. O recurso ao espetáculo doterror piorou os resultados. D. João III abandonara o norte deÁfrica para acudir às necessidades de investimento no oriente, masa fasquia tinha sido colocada demasiado acima das capacidades e daqualidade dos pretendentes. Em 1548 a feitoria portuguesa naFlandres, por onde se escoavam as mercadorias mais valiosas da Índia, fechou as portas. No último quartel do século XVI, quandoo comércio português do oriente começou a desmoronar-se, aEspanha estava no auge do seu poder financeiro, com a abundânciade ouro e prata que os galeões das Américas descarregavam emSevilha. Porém, outras potências europeias emergentes cobiçavamos recursos da península ibérica arrogante, unificada pela mesmacoroa a partir de 1580.Quando os holandeses e os ingleses, no primeiro quartel deseiscentos, com as suas companhias de comércio das ÍndiasOrientais, começaram a apoderar-se dos espaços portuguesesMOMENTOS DO INTERCÂMBIO COMERCIAL E CULTURAL COM O ORIENTEColecção MOSAICO, Volume XXXIX 52mosaico_XXXIX_INTERCAMBIO_ORIENTE_Layout 1 15/12/22 15:49 Página 52
  • no oriente, o império afastava-se da competição. A perda deOrmuz às mãos dos ingleses e dos holandeses em Fevereiro de1626 marcou o fim do domínio português nos mares orientais etambém o fim da hegemonia nos demais oceanos. Restavam sobrasde somenos importância. A coroa francesa nunca investiu emprojetos de descoberta, deixando tais iniciativas aos armadoresparticulares, mas em 1664 o poderoso ministro do rei francês LouisXIV, Jean-Baptiste Colbert, decidiu imitar os holandeses e osingleses criando também uma Companhia das Índias Orientais,para tomar conta das poucas fatias apetitosas que ainda sobravam.ANTÓNIO DE ABREU FREIREColecção MOSAICO, Volume XXXIX53Malaca, pivô do comércio português no oriente.mosaico_XXXIX_INTERCAMBIO_ORIENTE_Layout 1 15/12/22 15:49 Página 53
  • Chegaram a passar de meia centena as possessões portuguesasespalhadas pela península Arábica, Índia, Malásia, China e Japão,onde Portugal exercia plena soberania, sem contar as muitasfeitorias e assentamentos comerciais onde não havia ostensivapresença militar (enumeradas no Livro das Plantas de todas asfortalezas, cidades e povoações do Estado da Índia Oriental, deAntónio Bocarro, enviado ao rei Filipe III em 1635). OliveiraMartins precisa: Em certos pontos, como no Malabar e em Malaca,onde a política de Albuquerque levara à constituição de cidadesportuguesas, havia propriamente Governo e Estado: uma colónia,no sentido comum da palavra. Mas tais exemplos eram exceções;a regra era a existência de uma fortaleza dominando uma cidadeindígena, cobrando as páreas dos sultões da terra, e abrigando osnavios que aí iam comerciar (Oliveira Martins, 1994,35). Em 1533 foram criadas pelo papa Clemente VII quatro novasdioceses no espaço dos domínios portugueses, a diocese de CaboVerde sedeada em Santiago, a diocese de São Miguel em Angra(Açores), a de São Tomé na ilha do mesmo nome e a primeira diocesecatólica do oriente, sedeada em Goa, com jurisdição desde o cabo deBoa Esperança até ao Japão. Até essa data haviam sido criadas quatrodioceses por todo o espaço ultramarino português: a diocese de Ceuta,criada em 1417 (pelo papa Martinho V, dois anos depois da tomada dacidade), a de Tânger fundada em 1468, a de Safim em 1487 e a doFunchal criada em 1514 (pelo papa Leão X depois da fantásticaembaixada de D. Manuel no ano anterior), da qual chegaram adepender todos os padres seculares, religiosos e missionários dosespaços ultramarinos portugueses. No final do século XVI eram noveas dioceses orientais sob a jurisdição do padroado português, haviaMOMENTOS DO INTERCÂMBIO COMERCIAL E CULTURAL COM O ORIENTEColecção MOSAICO, Volume XXXIX 54mosaico_XXXIX_INTERCAMBIO_ORIENTE_Layout 1 15/12/22 15:49 Página 54
  • na China e no Japão quase dois milhões de cristãos, Macau (na China)e Funai (no Japão) eram as dioceses mais orientais do mundo e oporto de Nagasaki, abordado pelos portugueses em 1570, foi cedidopelas autoridades japonesas, a partir de 1580, em exclusividade paraas atividades comerciais da Companhia de Jesus. A convivênciapacífica durou sessenta anos e a cidade contava em 1614 trinta milalmas. Desde 1556 que se imprimiam livros em Goa e desde 1588em Macau. No Japão existiam mais de sessenta missões católicas ena última década do século XVI imprimiam-se livros em português,latim e japonês. Um filho de pai português e de mãe indiana, nascidoem Baçaim, aluno dos jesuítas, comerciante bem-sucedido e maistarde frade franciscano, Gonçalo Garcia (1556-1597), foi martirizadoem Nagasaki em 1597 com mais vinte e seis companheiros ecanonizado pelo papa Pio IX em 1862. Nos finais do século XVII,quando todo o comércio português do oriente estava em declínio, asdioceses estendiam-se até Meliapor (na costa oriental da Índia),Pequim e Nanquim. O padroado português ultrapassava a zonacomercial criada pelos mercadores e defendida pelo poder militar: ostrês poderes (religioso, comercial e militar) mantinham-se solidáriospara garantir o domínio português no oriente. O que mais e melhorresistiu foi o poder religioso, muito para além dos demais que sedesmoronaram na segunda metade do século XVII; até ao séculoXIX os bispos (ou administradores apostólicos) das diocesesorientais criadas no âmbito do padroado eram todos portugueses eem algumas dioceses até meados do século XX.O padre João Rodrigues, natural de Sernancelhe (1560-1633),embarcou para o oriente muito jovem, pelos catorze anos e láentrou na Companhia de Jesus; fez os estudos de filosofia e teologiaANTÓNIO DE ABREU FREIREColecção MOSAICO, Volume XXXIX55mosaico_XXXIX_INTERCAMBIO_ORIENTE_Layout 1 15/12/22 15:49 Página 55
  • no colégio jesuíta de Nagasaki, foi ordenado padre em Macau etornou-se num dos maiores conhecedores ocidentais da línguajaponesa. Ele compôs o primeiro dicionário japonês-português(1603) e escreveu a primeira gramática da língua japonesa (1604).Para além de escrever uma história do cristianismo no Japão, que não é apenas uma história da igreja mas uma verdadeiraenciclopédia da cultura nipónica, o padre foi também comerciante,diplomata, político e intérprete junto dos estrangeiros quedemandavam o país do sol nascente. A carreira promissora dopadre terminou em 1610, no momento de um incidente infeliz coma nau do trato Madre de Deus, destruída pelos japoneses na baíade Nagasaki, depois de uma ação mal sucedida em Macau. Emretaliação pela morte de soldados e marinheiros japoneses, amaioria dos padres foi expulsa do Japão e o comércio declinou. A presença dos missionários portugueses em Nagasaki terminouem 1639 e a história da vida deste jesuíta inspirou o romanceShogun de James Clavell, que deu origem à série televisiva e aofilme com o mesmo nome em 1980.A expansão do cristianismo pelo oriente foi de longe oacontecimento mais notável e mais duradouro de toda aempreitada portuguesa do século XVI. Ainda hoje os vestígios empedra e cal do cristianismo são muito mais numerosos e grandiososdo que os das fortalezas e dos entrepostos comerciais, resultado dapostura assumida pelos reis portugueses e pela igreja católica que foi o padroado: a Santa Sé delegava a organização e aadministração da igreja católica aos reis portugueses em todos osseus domínios. A coroa arrecadava dízimos e contribuições das diferentes fontes de rendimento de origem religiosa eMOMENTOS DO INTERCÂMBIO COMERCIAL E CULTURAL COM O ORIENTEColecção MOSAICO, Volume XXXIX 56mosaico_XXXIX_INTERCAMBIO_ORIENTE_Layout 1 15/12/22 15:49 Página 56
  • comprometia-se a construir e manter igrejas e conventos, missõese colégios, podendo também criar novas comunidades religiosas; acoroa usufruía ainda do direito de nomear os bispos e os superioresdas ordens religiosas. Este acordo entre o papado e a coroa é muitoanterior à ideia de alcançar o oriente, já que a primeira versão dopadroado data de 1456, quando o papa Calisto III (um espanhol,Afonso Borja), pela bula Inter Coetera, ratificava a decisão do seupredecessor Nicolau V (bula Romanus Pontifex, de 1455) e a bulade cruzada de Eugénio IV (bula Rex Regum de 1435), no tempo do infante D. Henrique, quando os navegadores portugueses,alcançado o Cabo Verde, avançavam até ao golfo da Guiné. As bulasde Calisto III e Nicolau V foram emitidas logo nos anos seguintesà queda de Constantinopla às mãos dos muçulmanos (1453). Opoder religioso em Roma confiava na guerra de cruzada dosportugueses e na sua estratégia de expansão marítima para travaro crescimento do Islão e a expansão do comércio muçulmano. Ospapas apoiaram a expansão portuguesa sem reservas, logo desde acriação da primeira diocese portuguesa em África, que aconteceuem 1417, dois anos após a tomada de Ceuta e concedendo uma bulade cruzada dois anos antes da primeira investida contra Tânger(em 1437, reinava D. Duarte), que se saldou por um desastre.Em 1506 e em 1513 o rei D. Manuel enviava a Roma duasvistosas embaixadas, para agradecer o apoio papal ao tratado deTordesilhas e à empreitada oriental; a primeira, recebida pelo papaJúlio II foi comandada pelo arcebispo de Braga D. Diogo de Sousae a segunda, a mais impressionante, riquíssima em pedras preciosase presentes exóticos (cavalos persas, onças adestradas e umelefante) foi recebida pelo papa Leão X em Março de 1514,ANTÓNIO DE ABREU FREIREColecção MOSAICO, Volume XXXIX57mosaico_XXXIX_INTERCAMBIO_ORIENTE_Layout 1 15/12/22 15:49 Página 57
  • comandada por Tristão da Cunha. Em Junho desse ano, o mesmopapa criava a diocese do Funchal. Em 1551 o papa Júlio IIIratificava mais uma vez o padroado a pedido de D. João III e agregava definitivamente a Ordem de Cristo à coroaportuguesa. Os privilégios do padroado mantiveram-se até aoconcílio Vaticano II, na década de sessenta do século passado,quando a imposição da mitra cardinalícia ao patriarca deLisboa, último vestígio simbólico do padroado, deixou de serum privilégio do chefe da nação. No âmbito do padroado, osarcebispos de Lisboa e de Goa acederam ao título honorífico depatriarcas, que ainda hoje mantêm. Desde 1572, por bula do papaGregório XIII, que o arcebispo de Goa era o primaz do oriente e apartir de 1886 o papa Leão XIII concedeu ao prelado o título dePatriarca das Índias Orientais. O arcebispo da diocese de Goa eDamão é o atual patriarca das Índias Orientais, D. Filipe Néri doRosário Ferrão, natural de Goa como o seu predecessor o patriarcaemérito D. Raul Nicolau Gonçalves.A presença dominante dos portugueses no Oriente durouaproximadamente um século, mas foi recheada de feitos sublimesque logo se apagaram, deixando na memória o sonho e odeslumbramento das ruínas. O comércio do oriente fez de Lisboauma das maiores cidades da Europa no início do século XVII(165.000 habitantes em 1619). Porém, depois do longo cerco de Goapelos holandeses (1639), da perda de Malaca (1641) e de Ceilão(1657), da entrega de Negapatão (1658), da cedência de Bombaímaos ingleses como dote do casamento de D. Catarina de Bragançacom Carlos II (1662), o império português do oriente declinourapidamente. No final do primeiro quartel do século XVII poucoMOMENTOS DO INTERCÂMBIO COMERCIAL E CULTURAL COM O ORIENTEColecção MOSAICO, Volume XXXIX 58mosaico_XXXIX_INTERCAMBIO_ORIENTE_Layout 1 15/12/22 15:49 Página 58
  • restava também do esforço dos cento e quarenta e dois jesuítas (dosquais setenta e um autóctones), de uma centena de franciscanos ealgumas dezenas de dominicanos infiltrados na China e Japão,entusiasmados pelo sucesso comercial dos investidores e pelaempreitada louca de São Francisco Xavier. Em 1650 os últimospadres foram expulsos do Japão e os cristãos resistentes passarama viver na clandestinidade. O último bispo do Japão nomeado porD. João IV, o padre jesuíta André Fernandes, nunca chegou a serconfirmado pelo papa nem pisou terras nipónicas; faleceu emLisboa em 1660.O catolicismo não entrou no oriente por iniciativa dosportugueses: tanto os primeiros franciscanos que chegaram à Índiana primeira viagem de Vasco da Gama e na de Cabral, como Xaviere os jesuítas nas suas ousadas investidas pela China meio séculodepois, já lá encontraram cristãos de longa data e tradição. Porém,a partir da intervenção dos missionários portugueses, através do Padroado da Ordem de Cristo, nunca mais deixou de havercontinuidade na presença cristã pelo oriente. Uma narrativalendária, muito divulgada no tempo da expansão marítimaportuguesa, dizia que o apóstolo São Tomé chegara à Índia pelosanos ’50 da nossa era, deixando vestígios da sua presença. O padreAntónio Vieira entusiasmou-se com esta lenda e escreveu naHistória do Futuro, redigida em 1665: Assim o profetizou na Índiao seu primeiro apóstolo São Tomé, quando na cidade de Meliaporentão famosíssima, levantando uma cruz de pedra em lugardistante das praias, não menos que doze léguas, lhes disse emandou esculpir no pé dela que quando o mar ali chegasse,chegariam também de partes remotíssimas do ocidente outrosANTÓNIO DE ABREU FREIREColecção MOSAICO, Volume XXXIX59mosaico_XXXIX_INTERCAMBIO_ORIENTE_Layout 1 15/12/22 15:49 Página 59
  • homens da sua cor, que pregariam a mesma cruz, a mesma fé e omesmo Cristo que ele pregava. Cumpriu-se pontualmente aprofecia porque o mar, comendo pouco a pouco a terra, chegou aolugar assinalado e no mesmo tempo chegaram a ele osportugueses. Igual glória (e não sei se maior de Portugal) a daÍndia que ainda tivesse a São Tomé por seu apóstolo e Portugalpor seu profeta. O entusiasmo missionário fazia parte dopatriotismo que alimentava os sonhos imperiais, tanto os domomento da grandeza como os do tempo das crises.Os missionários portugueses, primeiro os franciscanos, depoisos dominicanos, os agostinhos e finalmente os jesuítas, vieramreacender no oriente uma fé residual, obra de outros missionáriosmuito mais antigos e quase esquecidos, criando novas estruturasreligiosas, igrejas, conventos, hospitais e colégios que se erguerampara ficar muito para além das empreitadas dos comerciantes e dosmilitares. Mais ousados que os comerciantes, eles foram autênticosbandeirantes desafiando todos os perigos para chegar até aos povosmais distantes, muito longe da proteção dos outros intervenientes:eles alcançaram civilizações tão isoladas como as do Tibete, doNepal e do Butão. No primeiro quartel do século XVII, o jesuítaAntónio de Andrade, chegado a Goa em 1600, foi o primeiroeuropeu a atravessar as neves perpétuas do Himalaia e a fundaruma missão no Tibete em 1626. Outros missionários, como o jesuítaJoão de Brito (1647-1693), empreenderam ações missionárias esociais junto dos mais pobres e segregados da Índia, em Madurai,longe de qualquer interesse comercial. O padre oratoriano José Vaz,um brâmane natural de Goa (1651-1711), dedicou vinte e três anosde apostolado à comunidade católica de Ceilão, durante o períodoMOMENTOS DO INTERCÂMBIO COMERCIAL E CULTURAL COM O ORIENTEColecção MOSAICO, Volume XXXIX 60mosaico_XXXIX_INTERCAMBIO_ORIENTE_Layout 1 15/12/22 15:49 Página 60
  • do domínio holandês; beatificado pelo papa João Paulo II em 1995,a canonização pelo papa Francisco teve lugar no Sri Lanka emJaneiro de 2015. O papa Pio IX tinha canonizado em 1862 ofranciscano Gonçalo Garcia, natural de Baçaim, a cidade rivalde Goa em importância estratégia e comercial (atual Vasai-Virar, a norte de Bombaim, onde os portugueses permaneceramdurante dois séculos, de 1534 até 1738), filho de pai portuguêse mãe indiana, martirizado em Nagasaki em 1597. João de Brito foicanonizado pelo papa Pio XII em 1947.A persistência da religião cristã permitiu a continuidade dainfluência linguística e cultural, nas suas formas mais duradouras.Até ao final do século XVIII o português era a principal línguacomercial por todo o oriente. Há uma dezena de anos ainda sepublicava em Ceilão um jornal em crioulo de português, mantidopor uma igreja cristã. São doze os crioulos indo-portuguesesidentificados e cinco os crioulos malaio-portugueses, a maioriadeles quase extinta. O papiá kristáng, um dialeto de origemportuguesa com mistura de fonemas malaios e chineses, ainda éfalado por mais de cinco mil cidadãos em Malaca e Singapura e por alguns mais dispersos por comunidades migrantes naAustrália e em Inglaterra. Um crioulo similar ainda subsiste comolíngua única dos seus utilizadores em Chaul, o kristí, dialeto dacomunidade cristã de Korlai, a sul de Bombaim, onde a presençaportuguesa durou até 1740, falado por um milhar de pessoas. Osúltimos redutos do domínio português até ao século XX, osespaços do antigo Estado Português da Índia, mais os de Macaue de Timor, contribuíram grandemente para a continuidade dalíngua, mesmo que residual. Cerca de metade da população doANTÓNIO DE ABREU FREIREColecção MOSAICO, Volume XXXIX61mosaico_XXXIX_INTERCAMBIO_ORIENTE_Layout 1 15/12/22 15:49 Página 61
  • atual estado de Goa (que é de um milhão e quinhentos milhabitantes) continua católica e a língua portuguesa, apesar de muito minoritária em relação às línguas concani e marata e mesmo ao inglês, ainda é falada por centenas de famílias. O diário O Heraldo foi publicado em português até 1983. Só como exemplos da permanência do padroado português pelooriente, basta recordar que até 1847 os bispos da diocese chinesade Pequim eram portugueses, até 1868 os bispos da diocese de Malaca e Singapura eram portugueses, como os bispos deMeliapor e de Cochim até 1951. A igreja de São José emSingapura, construída na primeira década do século XX, ostentao escudo português na sua decoração. O português é atualmenteum dos três idiomas oficiais da República da Maurícia, umarquipélago habitado por um milhão e trezentas mil almas,situado a leste de Madagáscar, encontrado pelos portugueses em 1505.Em Goa Velha, estão de pé e abertas ao público a sé catedral,as igrejas do Rosário, do Bom Jesus e de São Francisco, todaserguidas no século XVI. Em Macau subsistem as igrejas de SãoLázaro, de Santo António e de São Lourenço, da mesma época. Pormuitos outros espaços do que foi o sonhado império português dooriente resistem ao tempo vestígios eloquentes do que foi a obrado padroado português. No entanto, existe por todo o oriente umoutro cristianismo que não é de raiz portuguesa; na própriaRepública da Índia o maior número de praticantes pertence àigreja Siro-Malabar (com vinte e seis dioceses) e à igreja ortodoxaSiríaca-Malankara. Elas agrupam dezoito dos cerca de vinte e oitomilhões de cristãos da Índia. A igreja católica, sob o patriarcadoMOMENTOS DO INTERCÂMBIO COMERCIAL E CULTURAL COM O ORIENTEColecção MOSAICO, Volume XXXIX 62mosaico_XXXIX_INTERCAMBIO_ORIENTE_Layout 1 15/12/22 15:49 Página 62
  • das Índias Orientais (agora reduzido apenas a duas dioceses,Goa/Damão e Sindhudurg, esta criada em 2005), reúne cerca desetecentos e cinquenta mil praticantes. A República da Índia (comuma população que ronda um bilhão e duzentos e cinquentamilhões de habitantes) permanece maioritariamente hinduísta(83%), a população muçulmana cresce e anda presentemente pelos11% enquanto o cristianismo tem uma aderência ligeiramenteacima do sikhismo, com 2,5% de crentes.Um dos personagens mais relevantes da implantação docatolicismo na China foi o jesuíta Matteo Ricci (1552-1610),cientista, matemático e cartógrafo, o primeiro europeu que criouum intercâmbio científico e cultural com o oriente ao mais altonível, junto da corte imperial chinesa. O cristianismo tinha penetradona China já no século VII, através dos cristãos Nestorianos(seguidores da teologia do bispo Nestório de Constantinopla quenegava a existência da dupla natureza, divina e humana, de Jesus eque foi considerada herética nos concílios de Éfeso e Calcedónia,no século V, mas que vigorou e se expandiu durante muitos séculossobretudo pela Ásia) e em seguida, no final do século XIII entraraatravés da ação missionária dos primeiros franciscanos italianosque fundaram uma diocese em Pequim em 1307.Os jesuítas não foram os primeiros missionários portuguesesno oriente, mas foram os mais ousados e destemidos na propagaçãodo cristianismo, a partir de Goa, seguindo o exemplo de SãoFrancisco Xavier. O padre Francisco de Sousa escreveu em 1707 ahistória da grande empreitada missionária dos jesuítas pelo orienteem dois volumes, desde a chegada dos pioneiros até 1585: OrienteConquistado a Jesus Cristo pelos padres da Companhia de JesusANTÓNIO DE ABREU FREIREColecção MOSAICO, Volume XXXIX63mosaico_XXXIX_INTERCAMBIO_ORIENTE_Layout 1 15/12/22 15:49 Página 63
  • da Província de Goa. Franciscanos, dominicanos e oratorianosseguiram de perto as investidas ousadas dos missionários daCompanhia de Jesus.Matteo Ricci formou-se em Itália e veio para Portugal em 1577,com vinte e cinco anos, para aperfeiçoar durante um ano osconhecimentos de português na Universidade de Coimbra e partiupara Goa em 1578, integrado nas missões jesuíticas do padroadoportuguês; ensinou latim e grego no colégio dos jesuítas de Cochim(hoje a maior aglomeração urbana do estado de Kerala, no sul daÍndia), enquanto estudava teologia e foi ordenado sacerdote emCochim em 1580. Em 1582 foi enviado para Macau (a diocese tinhasido fundada em 1576), a fim de aprender a língua chinesa e no anoseguinte, juntamente com outro missionário, o padre MiguelRugieri, fundava a primeira missão na China, em Zhaoqing,dependente do colégio dos jesuítas de Macau. O colégio Madre deDeus, fundado pelos franciscanos viria a ser, a partir de 1594, como nome de colégio de São Paulo e já sob a tutela dos jesuítas, umainstituição da mais alta qualidade: aí se ensinava filosofia, teologia,matemática, geografia, astronomia, latim, português, música e artese deste colégio se difundiu a cultura cristã por terras chinesas e dosseus aliados: em 1664 contavam-se duzentos e cinquenta milcristãos pelo espaço de influência chinesa. Em 1690 havia trêsdioceses na China: Macau, Nanquim e Pequim, todas vinculadas aopadroado português.O sucesso do catolicismo foi obra de pioneiros como o padreMatteo Ricci e Alexandre Valignano (1539-1606), outro jesuítaitaliano, visitador das missões ao serviço do padroado português.A ação em território chinês começou naquela missão de Zhaoqing,MOMENTOS DO INTERCÂMBIO COMERCIAL E CULTURAL COM O ORIENTEColecção MOSAICO, Volume XXXIX 64mosaico_XXXIX_INTERCAMBIO_ORIENTE_Layout 1 15/12/22 15:49 Página 64
  • onde Ricci e o seu companheiro compuseram o primeiro dicionáriochinês-português e o primeiro catecismo em língua chinesa. Ricciadotou os hábitos e os costumes do país, a indumentária dos altosfuncionários e dos letrados, entusiasmou-se pela cultura deles,estudou-a e divulgou-a. Os franciscanos, os primeiros missionárioscatólicos do oriente, assim como são Francisco Xavier, tentaramuma abordagem catequética através de uma imagem desimplicidade e de pobreza, o que não teve sucesso na China nem noJapão; rapidamente entenderam que a nova doutrina teria que seimpor como uma ideologia de homens cultos e bem-sucedidos,respeitados e generosos, capazes de convencer o povo pelo sucessopessoal e pela autoridade que tinham sobre ele. Em 1589 Ricciintroduziu o calendário gregoriano na China e em 1594 traduziupara latim os quatro livros do Cânone do Confucionismo,permitindo pela primeira vez o acesso dos ocidentais à filosofiade Confúcio (551-479 ac).Nesse mesmo ano Ricci decide viajar até Pequim, para juntodo poder central da China, mas fica-se por Nanchang, ondeintensifica os contatos com intelectuais chineses e escreve em1595, em chinês, o Tratado sobre a Amizade, para dar a conheceraos chineses a sabedoria ocidental, livro que teve um imensosucesso entre os intelectuais. No ano seguinte escreve o Método deAprender de Cor, um tratado sobre a memória e um método paraaprender a memorizar a tradição oral segundo a lógica ocidentale publica ainda um novo catecismo intitulado Verdadeira Noçãode Deus. Finalmente chega a Nanquim em 1598, já nomeadosuperior dos jesuítas na China e em 1600 está em Pequim. Érecebido pelo imperador no ano seguinte. O encontro era fulcralANTÓNIO DE ABREU FREIREColecção MOSAICO, Volume XXXIX65mosaico_XXXIX_INTERCAMBIO_ORIENTE_Layout 1 15/12/22 15:49 Página 65
  • para a continuidade da empreitada dos jesuítas na China e osmissionários que acompanhavam Ricci ofereceram quantidadeimpressionante de presentes ao imperador Wanli, qual deles omais maravilhoso, mas o que mais impressionou o soberano foium mapa-mundi desenhado pelo próprio Ricci, que mostrava pelaprimeira vez a China “no meio” das outras nações do planeta. Oschineses sempre consideraram o seu país como “o centro” domundo e o presente, vindo de um estrangeiro, entusiasmou oimperador.Os jesuítas foram autorizados a construir uma residência, abrircolégios e divulgar a cultura cristã, para o que até beneficiaram dagenerosidade imperial. Da missão franciscana fundada em 1289 notempo de Kublai Kahn e da primeira diocese fundada em 1307(suspensa em 1375) quase nada restava na memória dos chineses eos jesuítas ergueram um templo em Pequim, no mesmo lugar ondeainda hoje existe a basílica da Imaculada Conceição, sede da atualdiocese (restaurada no quadro do padroado português em 1690).Em 1605 Matteo Ricci estabelece contatos com a comunidadejudaica local e inicia a tradução para chinês dos Elementos deEuclides, permitindo assim aos chineses o acesso ao método dalógica dedutiva, à álgebra e à geometria ocidentais. Publica emchinês as principais orações do ritual católico e os princípios damoral cristã, auxiliado pelos padres portugueses que, emproveniência de Macau e de Goa, reforçam a presença católica noimpério chinês. Em 1607 ele tentou socorrer o confrade Bento deGóis, que terminava uma das maiores aventuras de que hámemória: o caminho por terra de Goa a Pequim. Exausto e doente,o jesuíta açoriano (nasceu em Vila Franca do Campo) não resistiriaMOMENTOS DO INTERCÂMBIO COMERCIAL E CULTURAL COM O ORIENTEColecção MOSAICO, Volume XXXIX 66mosaico_XXXIX_INTERCAMBIO_ORIENTE_Layout 1 15/12/22 15:49 Página 66
  • ao esforço e aos percalços da caminhada e morreu aos quarenta ecinco anos sem alcançar o destino, na cidade de Suzhou, a meiocaminho entre Macau e Pequim. Nos últimos anos de vida, entre1608-1610, Ricci redigiu a sua obra mais famosa e compêndio dereferência para todos quantos pretendiam conhecer a China: AEntrada da Companhia de Jesus e do Cristianismo na China.Faleceu aos cinquenta e sete anos e o imperador autorizou que fossesepultado em solo chinês, privilégio raro, já que os estrangeiros que faleciam na China tinham que ser enterrados fora do território (eram transladados para Macau). A comunidade cristãANTÓNIO DE ABREU FREIREColecção MOSAICO, Volume XXXIX67Principais centros da atividade missionária dos jesuítas pelo oriente.mosaico_XXXIX_INTERCAMBIO_ORIENTE_Layout 1 15/12/22 15:49 Página 67
  • por ele formada cresceu sobretudo entre as elites intelectuais,ultrapassando os dois mil e quinhentos batismos. Ele é consideradopelos chineses como um dos mais notáveis e brilhantes homens dahistória, o mestre do grande ocidente. No Museu da História daChina, em Pequim, só dois ocidentais mereceram figurar entre osgrandes construtores do império: Marco Polo e Matteo Ricci.Outro jesuíta que desempenhou um papel preponderante naChina foi o padre Tomás Pereira (1645-1708), natural deFamalicão, que chegou a Goa com o vice-rei D. João Nunes daCunha em 1666, ainda noviço, aos vinte e um anos, ondecompletou os estudos seguindo depois para Macau em 1672.Músico, astrónomo, matemático e diplomata, frequentava a cortedo imperador Kangxi em 1680 e fez parte da delegação chinesa queassinou o primeiro tratado de paz com uma nação europeia, aRússia, em 1689, onde reinava Pedro I o Grande, soberano quemodernizou e abriu o seu país à influência ocidental. O jesuítaintroduziu na China a música erudita europeia, construiu oprimeiro órgão de tubos e montou o primeiro carrilhão numa igrejachinesa. Apesar de ter desempenhado a sua ação já numa fasedecadente do poder económico e cultural português no oriente, o seu contributo para o intercâmbio cultural com a China foibrilhante.O cristianismo continuou na China através da intervenção dospadres franceses, até que em 1834 as dioceses chinesas foramdesvinculadas do padroado português, restando somente Macau,donde tinha irradiado o cristianismo para todo o território chinês eda qual dependia também a igreja de Timor até à criação daprimeira diocese em Dili (1940), por insistência das autoridadesMOMENTOS DO INTERCÂMBIO COMERCIAL E CULTURAL COM O ORIENTEColecção MOSAICO, Volume XXXIX 68mosaico_XXXIX_INTERCAMBIO_ORIENTE_Layout 1 15/12/22 15:49 Página 68
  • portuguesas no ano da grande exposição do mundo português e dacomemoração dos oitocentos anos da nacionalidade. A diocese deMacau, que mantém atualmente uma universidade (Universidadede São José) em parceria com a Universidade Católica Portuguesa,depende hoje diretamente da Santa Sé e conta cerca de vinte e novemil fiéis espalhados pelas nove paróquias e missões. Hoje existemna China cerca de um milhão e meio de católicos, um número muitoreduzido dada a dimensão populacional chinesa, aproximadamenteo mesmo número que em Ceilão (mas o Sri Lanka tem vinte milhõesde habitantes e a China conta cerca de mil e trezentos milhões).ANTÓNIO DE ABREU FREIREColecção MOSAICO, Volume XXXIX69Dioceses do padroado português no oriente no século XVII.mosaico_XXXIX_INTERCAMBIO_ORIENTE_Layout 1 15/12/22 15:49 Página 69
  • Existem duas arquidioceses (Pequim e Nanquim) e duas dioceses(Hong Kong e Macau). No Japão contam-se atualmente cerca demeio milhão de católicos numa população de cento e vinte e cincomilhões e meio de habitantes. O país tem três arquidioceses(Tóquio, Osaka e Nagasaki) e catorze dioceses, algumas com menosde cinco mil aderentes. A génese e a continuidade desta presençacristã pelo oriente até aos nossos dias é indissociável da ação dosmissionários portugueses e do padroado ultramarino. A primeiradiocese chinesa foi a de Macau, criada em 1576 e a primeira diocesejaponesa foi a de Funai, criada em 1588 (extinta em 1625 erestaurada como arquidiocese de Tóquio em 1891).Em 1672 o padre António Vieira estava em Roma, admiradopela fina flor da intelectualidade europeia, pregando para cardeaise cabeças coroadas, sonhando ainda com a recuperação do oriente,insistindo nas cartas e sermões sobre a necessidade de uma grandecompanhia de comércio para restaurar o domínio portuguêsnaquela parte do mundo. Pelo Colégio Romano, onde residia,passavam os padres que chegavam da Índia, da China e do Japão e que alimentavam os sonhos patrióticos do pregador, a ideia do Vº Império. O poder dos jesuítas no oriente estava então no auge,apesar do império estar em frangalhos e a carreira da Índia numatragédia; a primeira vida da Companhia de Jesus duraria mais umséculo. Admirado por reis, príncipes, cardeais e pelo próprio papaque o queria perto de si, o pregador criticava a postura que Portugaltomara nos últimos anos, governado por um príncipe regente queele tanto apoiara (D. Pedro II) e que deixava o país empobrecer,minado pela má administração, a imoralidade e a corrupção. Naigreja de Santo António dos Portugueses ele despejava sobre umMOMENTOS DO INTERCÂMBIO COMERCIAL E CULTURAL COM O ORIENTEColecção MOSAICO, Volume XXXIX 70mosaico_XXXIX_INTERCAMBIO_ORIENTE_Layout 1 15/12/22 15:49 Página 70
  • público seleto toda a emoção do seu patriotismo visceral, mastambém toda a raiva que lhe corroía a alma, apelando às virtudesancestrais dos portugueses. E bradava:A nossa terra se pode chamar Lusitânia porque a ninguémdeixa luzir. É a terra mais ocidental de todas. Porque ali vãomorrer, ali acabam, ali se sepultam e se escondem todas as luzesdo firmamento.(…) E se isto sucede nos lumes celestes e imortais,porque nos lastimamos, Senhores, de ler os mesmos exemplos nasnossas histórias? Que foi um Afonso de Albuquerque no Oriente?Que foi um Duarte Pacheco? Que foi um D. João de Castro? Que foi um Nuno da Cunha e tantos outros heróis famosos, senão uns astros e planetas lucidíssimos que, assim como alumiaramcom estupendo resplendor aquele glorioso século, assimescureceram todos os passados? Cada um era na gravidade doaspeto um Saturno, no valor militar um Marte, na prudência e na diligência um Mercúrio, na altivez e magnanimidade umJúpiter, na fé, na religião e no zelo de a propagar e estenderentre aquelas vastíssimas gentilidades um Sol. Mas depois devoarem nas asas da fama por todo o mundo estes astros, ouindigentes da nossa nação, onde foram parar quando chegarama ela? Um, vereis privado com infâmia do governo (Albuquerque),outro preso e morto em um hospital (Pacheco Pereira), outroretirado e mudo em um deserto (D. João de Castro) e o melhorlivrado de todos foi o que se mandou sepultar nas águas do oceano(Nuno da Cunha) encomendando aos ventos que levassem à suapátria as últimas palavras com que dela se despedia: Ingratapatria, non possidebis ossa mea (pátria ingrata, não possuirás osmeus ossos).ANTÓNIO DE ABREU FREIREColecção MOSAICO, Volume XXXIX71mosaico_XXXIX_INTERCAMBIO_ORIENTE_Layout 1 15/12/22 15:49 Página 71
  • O grande projeto desses militares e administradores queimaginaram um império português duradouro por terras dooriente não aconteceu, nem o Vº Império imaginado pelo maiorgénio da nossa identidade, assente sobre aqueles exemplos devirtude e patriotismo; no tempo dos sermões de Roma o orienteportuguês já era uma saudade. Os sonhos de grandezaconcretizaram-se para alguns privilegiados e sobraram as ruínase os rebentos mais poderosos que como ervas daninhas resistemaos tufões e a todas as contrariedades. Desde o tempo de D. João IIque mercadores e banqueiros (como o florentino BartolomeoMarchione) acumularam fabulosas fortunas por conta dasempreitadas marítimas portuguesas. À morte de D. João III (1557)eram portugueses os homens mais ricos do mundo, mas o reinoestava falido – aviso que não foi entendido nem tido em conta;pelo contrário, os representantes do “terceiro estado” nas cortesde 1559 (o Estado do Povo) pediam o fecho da universidade deCoimbra e a atribuição do seu orçamento ao reforço militar noultramar, para reconquistar as praças africanas perdidas e enviarmais tropas para o oriente. Restavam em África apenas Ceuta,Tânger e Mazagão, cujos destinos seriam muito diferentes.Ninguém acreditava que o Brasil, última opção dos candidatos àriqueza, salvaria um dia o reino da humilhação. Camões dedicou-lhe duas rimas (entre oito mil oitocentas e dezasseis) no grandepoema da nossa vaidade.Pelas rotas da Índia e das especiarias do oriente os portuguesesforam encontrando terras e povos cuja existência era completamentedesconhecida dos ocidentais. Madagáscar, a maior ilha africana,cujo nome fora mencionado por Marco Polo no século XIII mas queMOMENTOS DO INTERCÂMBIO COMERCIAL E CULTURAL COM O ORIENTEColecção MOSAICO, Volume XXXIX 72mosaico_XXXIX_INTERCAMBIO_ORIENTE_Layout 1 15/12/22 15:49 Página 72
  • ninguém imaginava onde se situaria, foi encontrada em 1500 porum capitão da frota de Cabral desgarrado do resto da armada:Diogo Dias, irmão de Bartolomeu Dias chamou-lhe ilha de SãoLourenço. No Atlântico os portugueses encontraram as ilhas de Ascensão e Santa Helena (1501) e um dos mais remotosarquipélagos do planeta, Tristão da Cunha (1506). Os arquipélagosdas Maurícias e das ilhas Comores foram encontrados em 1505 e osportugueses abordaram as Molucas (as ilhas de Al-Malouk) em1511, onde o islão se tinha implantado desde o século XII. Chegaramàs Maldivas em 1558 e instalaram uma feitoria que mantiveram até1573. Ainda em 1606 os homens de Pedro Fernandes de Queirósavistaram uma ilha a que chamaram Terra Austrália do EspíritoANTÓNIO DE ABREU FREIREColecção MOSAICO, Volume XXXIX73Novas terras e gentes abordadas pelos portugueses pelas rotas do oriente.mosaico_XXXIX_INTERCAMBIO_ORIENTE_Layout 1 15/12/22 15:49 Página 73
  • Santo, tratava-se da maior das ilhas do arquipélago de Vanuatu(Novas Hébridas); nesse mesmo ano terá acontecido o primeirodesembarque “oficial” de ocidentais na maior ilha do mundo, aAustrália, feito creditado aos marinheiros holandeses do capitãoWilhelm Janszoon, que utilizou documentos náuticos dosportugueses, quiçá roteiros do tempo de Jorge de Albuquerque eCristóvão Furtado de Mendonça, empenhados a partir de Malacana expansão do domínio português (cerca de 1520).A presença portuguesa no oriente passou-se ao ritmo de umfrenesim desenfreado, constantemente em guerra contra alguém,imaginando a cada oportunidade novas estratégias diplomáticas ecomerciais, com milhares de navios costeiros e centenas de grandesnaus navegando pelo Índico e pelo Pacífico desde a costa oriental daÁfrica até ao Japão, dando nova vida a uma centena de cidades,feitorias e entrepostos que se ganhavam e se perdiam por vezes aosabor das monções. Os melhores cidadãos do reino lá encontraramo terreno mais propício para mostrar o seu valor e satisfazer as suasambições. Quantos foram e voltaram? Quantos mais por lá ficaram?Ninguém sabe quantos morreram no mar nem quantos a guerramatou. Passados quatro séculos sobre o fim da grande epopeia dosportugueses pelo velho oriente e pelo novo mundo, ninguém sabeao certo quantas criaturas utilizam a língua portuguesa no seu tratoquotidiano, mas o número andará muito próximo dos duzentos equarenta milhões. É a terceira língua ocidental de maior relevância,depois do inglês e do espanhol, idioma oficial de oito paísesespalhados por quatro continentes e de vastas diásporas dispersase diluídas por outras culturas. Os dois países de língua portuguesamais vastos do continente africano não dispõem de censos credíveisMOMENTOS DO INTERCÂMBIO COMERCIAL E CULTURAL COM O ORIENTEColecção MOSAICO, Volume XXXIX 74mosaico_XXXIX_INTERCAMBIO_ORIENTE_Layout 1 15/12/22 15:49 Página 74
  • há mais de quarenta anos e o número de cidadãos africanos queefetivamente falam português no seu trato quotidiano baseia-se empalpites e aproximações. Ninguém consegue vislumbrar um futuroprevisível para os falantes da língua portuguesa, que representamcerca de 3,5% de uma população mundial que já ultrapassou os setemil milhões de habitantes. Segundo os mais recentes dados daONU, cerca de noventa milhões dos seres humanos que habitam ospaíses de língua oficial portuguesa vivem uma cidadania precáriapor iliteracia, ou seja: 40% dos humanos adultos que habitam ospaíses de língua oficial portuguesa são analfabetos. Em Portugal,matriz da língua e único país deste grupo que faz parte do primeiromundo, a iliteracia afeta 20% da população (contando osanalfabetos primários e funcionais). Com esta violenta realidadetorna-se difícil imaginar o que acontecerá dentro de cinquenta anos,passado o pórtico da terceira vaga, a da era do conhecimento,quando a população total dos países de língua oficial portuguesapoderá ultrapassar os quatrocentos milhões de criaturas.A nossa história conta muitas miudezas e alguns momentos deglória – momentos sublimes de grandeza. A aventura oriental foidesastrosa financeiramente para Portugal mas, como escreveOliveira Martins, a nossa ruina foi o preço do maior ato dacivilização nos tempos modernos (Martins, 1994, 110). No final doséculo XVI concediam-se em Goa graus académicos em artes,direito e teologia, mas também em medicina e cosmografia.Imprimiam-se livros em Goa, Cochim, Macau e Nagasaki, o que sóviria a acontecer no Brasil no primeiro quartel do século XIX. Omaior génio da nossa identidade, o padre António Vieira, no meiodo maior descalabro para a nação, imaginava para os portuguesesANTÓNIO DE ABREU FREIREColecção MOSAICO, Volume XXXIX75mosaico_XXXIX_INTERCAMBIO_ORIENTE_Layout 1 15/12/22 15:49 Página 75
  • nada menos que o Vº Império do mundo. O seu patriotismo eravisceral, ele reconhecia como uma verdadeira loucura o amor quetinha por Portugal augurando, naqueles anos que passou em Roma,um futuro de riqueza e de felicidade para o reino. Lembrava quemesmo Jesus Cristo de tantos milagres nunca curou um tolo. Já nofinal da vida, retirado na sua querida cidade de Salvador da Bahia,a chama do patriotismo continuava a iluminar a sua mente rebelde.A cada escala das naus da Índia em Salvador, o seu espíritopatriótico exaltava-se. Em 1688 fez escala um confrade jesuítachamado João Heitor de Brito, vinha da terra dos Tamil, tinhaquarenta e um anos e quinze de experiência missionária; o entãovisitador António Vieira, apesar de enfermo e debilitado, nãodeixou de se informar em primeira mão das últimas novidades dooriente quase todo perdido, onde os companheiros resistiam até aomartírio. João de Brito, missionário junto dos párias mais pobres deMadurai, seria martirizado cinco anos mais tarde, em 1693.A Europa dominou o mundo a partir do século XVI com oconhecimento, a tecnologia, a civilização e a cultura; Portugalcontribuiu com uma fatia considerável para a expansão dos valoresocidentais, deixando bem marcada a sua presença. As descobertase a expansão portuguesa contribuíram para que a igreja católicaassumisse uma postura de exibição de grandeza: um dos primeirosatos do papa Martinho V eleito em 1417, após uma gravíssima criseque fragilizou a igreja, foi a criação da diocese de Ceuta, praçaconquistada aos muçulmanos dois anos antes e em 1455, dois anos após a tomada de Constantinopla pelos turcos otomanos, quando os portugueses alcançaram as terras da Guiné, o papa Nicolau V confirmava o projeto português de expansão, comércio eMOMENTOS DO INTERCÂMBIO COMERCIAL E CULTURAL COM O ORIENTEColecção MOSAICO, Volume XXXIX 76mosaico_XXXIX_INTERCAMBIO_ORIENTE_Layout 1 15/12/22 15:49 Página 76
  • cristianização de todas as terras que o reino pudesse alcançar, o quemereceu confirmação dos papas seguintes. Passados dois séculos,quando o poder político e comercial português se desmoronava nooriente, a igreja católica continuava a sua expansão e o recinto doVaticano exibia, no tempo do último papa renascentista, AlexandreVII (reinou de 1655 a 1667), o seu poder e grandeza com ainauguração da colunata de Bernini, que simboliza a igrejadominando e protegendo o mundo. Para além do poderoso espólioreligioso presente até aos nossos dias por todo o oriente, a línguaportuguesa infiltrou-se nas principais culturas orientais, todas elasexibindo no seu vocabulário fonemas de origem portuguesa, assimcomo no quotidiano de pequenas comunidades que ainda falamdialetos do português, na identidade das pessoas, nos nomes dasembarcações de pesca da Malásia e da Indonésia, nas festastradicionais, na cor da pele… Mas neste início de século XXI oocidente já não domina mais o ritmo do progresso, ultrapassadopelo poder demográfico e produtivo das antigas civilizaçõesorientais e pelas ambições dos países emergentes do novomundo; o grande desafio deste início de século, para todas ascivilizações do planeta, é o da gestão das incertezas.A língua portuguesa, irmã gémea da galega (cujo primeirodocumento de referência relevante é o testamento de D. Afonso IIdatado de 1214), diferenciou-se a partir de 1290, quando D. Dinis aimpôs como idioma oficial da corte e da administração do reino.Ela consolidou-se em 1516 com a publicação do Cancioneiro Geralde Garcia de Resende (o Cancioneiro da Ajuda, do século XIII, é em galaico-português) e normalizou-se com as gramáticas deFernão de Oliveira (1536) e de João de Barros (1540). A consolidaçãoANTÓNIO DE ABREU FREIREColecção MOSAICO, Volume XXXIX77mosaico_XXXIX_INTERCAMBIO_ORIENTE_Layout 1 15/12/22 15:49 Página 77
  • e normalização da língua aconteceram ao mesmo tempo que ela sedisseminava pelos novos espaços onde os portugueses assentavamarraiais no século de ouro da epopeia marítima, comercial ecultural. Permeável às influências linguísticas e fonéticas dos povosagregados à expansão portuguesa, a língua assimilou quantidadeimpressionante de fonemas que a enriqueceram e a globalizaram,enquanto fornecia às outras línguas novas sonoridades, numintercâmbio de exotismo sustentado e duradouro.À data da primeira edição d’Os Lusíadas (1572), o grande textoda nossa epopeia linguística (escrito em parte por terras orientais),tinham passado apenas trinta e seis anos após a primeira tentativade normalização da língua portuguesa (oitenta e cinco desde aintrodução da imprensa). A afirmação da nossa identidade nostempos presentes, como falantes de uma língua comum a muitospovos, terá que encontrar novos meios, tão ousados e arriscadoscomo os do passado, para marcar presença não só na plateia comosobretudo na cena do mundo do futuro. Não será certamente umaEuropa que perdeu o destino para o qual foi criada, nem umageração de políticos oportunistas e ignorantes que contribuirãopara a expansão da língua portuguesa pelo mundo, nem servem dedesculpa a crise económica e financeira e o ambiente de incertezaque nos aflige para adiar sem data o que é essencial para avalorização das nossas culturas. A maior pobreza é não nosconhecermos, alimentar-nos de utopias e delirarmos combugigangas. Nos tempos do império os portugueses assentaramarraiais em mais de cinquenta das atuais nações do planeta e hojetem portugueses morando em cento e sessenta dos cento e noventae cinco países do mundo (dados de Junho de 2013); mais de quatroMOMENTOS DO INTERCÂMBIO COMERCIAL E CULTURAL COM O ORIENTEColecção MOSAICO, Volume XXXIX 78mosaico_XXXIX_INTERCAMBIO_ORIENTE_Layout 1 15/12/22 15:49 Página 78
  • milhões de emigrantes nascidos em Portugal estão registadosoficialmente nos consulados (dados do Observatório da Emigraçãode Agosto de 2015) mas eles não estão construindo o Vº Império,eles são antes uma diáspora em diluição. As próximas gerações dosemigrados não falarão português.Os portugueses não são mais os únicos nem os principaisresponsáveis pela expansão das culturas de língua portuguesaporém, como matriz da língua, têm obrigação de dar exemplo comopioneiros. São muitos os destinos procurados pelos jovens talentose um deles é precisamente o oriente, onde eles continuam a validaraquela ideia do grande pregador que encantava os eruditos deRoma, quando a epopeia oriental já era uma saudade, uma históriado passado, mas a vontade de ser grande continuava a imperar: semsair ninguém pode ser grande… Nascer pequeno e morrer grandeé chegar a ser homem. Por isso nos deu Deus tão pouca terra parao nascimento e tantas para a sepultura. Para nascer, pouca terra;para morrer toda a terra: para nascer Portugal, para morrer, omundo. Perguntai a vossos avós quantos saíram e quão poucostornaram…Mais de cento e vinte mil portugueses optaram por emigrarcada ano para outros países, a maioria jovens; nas atuaiscondições socioeconómicas e políticas do país e face à incerteza dofuturo a médio prazo, poucos regressarão. Ficarão em memória osnomes de família e muitos deles não deixarão de visitar um dia, comalguma ternura e emoção, as terras de origem dos antepassados:retalhos de um povo de emoções, marcado pelo estigma dadispersão, para quem a realidade sempre foi um mistério e a utopiaum prazer sensual, gostoso que nem pecado. Alguns farão parte deANTÓNIO DE ABREU FREIREColecção MOSAICO, Volume XXXIX79mosaico_XXXIX_INTERCAMBIO_ORIENTE_Layout 1 15/12/22 15:49 Página 79
  • elites e lideranças de países que generosamente os acolheram.Destino traçado na palma da mão?! Portentosas foramantigamente aquelas façanhas, ó Portugueses, com quedescobristes novos mares e novas terras e destes a conhecer omundo ao mesmo mundo… Vós descobristes ao mundo o que eleera e eu vos descubro a vós o que haveis de ser. Em nada é segundoe menor este meu descobrimento, senão maior em tudo: maiorcabo, maior esperança, maior Império. Naqueles ditosos tempos(mas menos ditosos que os futuros) nenhuma coisa se lia nomundo senão as navegações e conquistas de portugueses: estahistória era o silêncio de todas as histórias. (Padre António Vieira,História do Futuro (1665), parágrafo 26)The rest is silence (Shakespeare, Hamlet, 1600, última cena)MOMENTOS DO INTERCÂMBIO COMERCIAL E CULTURAL COM O ORIENTEColecção MOSAICO, Volume XXXIX 80mosaico_XXXIX_INTERCAMBIO_ORIENTE_Layout 1 15/12/22 15:49 Página 80
  • PELOS OCEANOS DA EUFORIAANTÓNIO DE ABREU FREIREColecção MOSAICO, Volume XXXIX81Encontro dos oceanos Atlântico e Índico (detalhe da decoração de um coche doMuseu dos Coches).mosaico_XXXIX_INTERCAMBIO_ORIENTE_Layout 1 15/12/22 15:49 Página 81
  • MOMENTOS DO INTERCÂMBIO COMERCIAL E CULTURAL COM O ORIENTEColecção MOSAICO, Volume XXXIX 82Fusta: embarcação ligeira de cabotagem, de um ou dois mastros, armada comcanhões de pequeno calibre, oferecendo proteção e assistência às grandes naus.Movia-se a remos e à vela.mosaico_XXXIX_INTERCAMBIO_ORIENTE_Layout 1 15/12/22 15:49 Página 82
  • ANTÓNIO DE ABREU FREIREColecção MOSAICO, Volume XXXIX83Caravela redonda: de uma capacidade de transporte entre sessenta e duzentostonéis, de três ou quatro mastros, envergando velas quadradas no mastro devante, foi sendo substituída por navios de maior porte, mais adequados aocomércio longínquo.mosaico_XXXIX_INTERCAMBIO_ORIENTE_Layout 1 15/12/22 15:49 Página 83
  • MOMENTOS DO INTERCÂMBIO COMERCIAL E CULTURAL COM O ORIENTEColecção MOSAICO, Volume XXXIX 84Nau: navio de grande porte, podendo ultrapassar a capacidade de dois mil tonéise transportar mais de quatrocentas pessoas.mosaico_XXXIX_INTERCAMBIO_ORIENTE_Layout 1 15/12/22 15:49 Página 84
  • ANTÓNIO DE ABREU FREIREColecção MOSAICO, Volume XXXIX85Astrolábio – um dos instrumentos mais antigos para medir a altura dos astros.mosaico_XXXIX_INTERCAMBIO_ORIENTE_Layout 1 15/12/22 15:49 Página 85
  • MOMENTOS DO INTERCÂMBIO COMERCIAL E CULTURAL COM O ORIENTEColecção MOSAICO, Volume XXXIX 86Quadrante náutico – adaptação de um instrumento medieval de medição deângulos e alturas à navegação, utilizado, como o astrolábio e a balestilha, paramedir a altura dos astros.mosaico_XXXIX_INTERCAMBIO_ORIENTE_Layout 1 15/12/22 15:49 Página 86
  • ANTÓNIO DE ABREU FREIREColecção MOSAICO, Volume XXXIX87Balestilha – instrumento muito usado na Idade Média, conhecido como bastão deJacob para medir a altura dos astros assim como as distâncias entre pontostopográficos. Muito utilizado pelos navegadores muçulmanos no oriente.mosaico_XXXIX_INTERCAMBIO_ORIENTE_Layout 1 15/12/22 15:49 Página 87
  • mosaico_XXXIX_INTERCAMBIO_ORIENTE_Layout 1 15/12/22 15:49 Página 88
  • CAMÕES E VIEIRAUm século separa estes dois génios da língua e da sagaportuguesa, mas foi um século de grandes e profundas mudançasno mundo ocidental e por todo o espaço da intervenção dosportugueses. Camões viveu no tempo da euforia da Índia, viajoudurante dezassete anos pelos territórios da empreitada comercial,do corso e da expansão cultural e religiosa pelo oriente, enfimdeixou-se embriagar pela ideia do império que Afonso deAlbuquerque sonhara para Portugal. Muitos acumularam empoucos anos fabulosas fortunas, mas o poeta ficou pobre, semmesmo o acalanto da querida Dinamene; resgatado da precariedadea que ficou reduzido por terras de Moçambique, após ter regressadoao reino e publicado a epopeia de uma raça de homens diferentedas do resto do mundo, o poeta morreu na indigência, mas comlucidez suficiente para ver o país tão despedaçado quanto ele. Nãofoi no desastre de Alcácer-Quibir que se perdeu o reino, mas simna ruinosa administração de D. João III ao longo dos trinta e seisanos de um reinado caótico e durante os anos que se seguiram à suamorte em 1557, quando a intolerância e a obsessão religiosatomaram conta das mentalidades e dos destinos de um povo àderiva. Camões deixou em herança um poema que ficou por séculoscomo referência dos desejos mais profundos de uma nação: odomínio de uma fatia considerável do planeta, sonhos de vitórias,de riqueza e de poder de um povo pobre que nunca aceitou a suafraqueza e sempre se iludiu com o seu destino.O peito ilustre lusitano cantado por Camões (I,3) era o povoLusíada, vocábulo criado pelo seu contemporâneo, o grandeANTÓNIO DE ABREU FREIREColecção MOSAICO, Volume XXXIX89mosaico_XXXIX_INTERCAMBIO_ORIENTE_Layout 1 15/12/22 15:49 Página 89
  • humanista André de Resende (o autor do De AntiquitatibusLusitaniae) para definir e identificar os descendentes de umaantiquíssima raça autóctone, referência genética ancestral de todosos heróis e de todos os artífices da epopeia marítima e civilizacionalportuguesa. Porém, a utopia não tinha consistência, porque a talraça lusitana, descendente de ancestrais deuses lúdicos, nuncaexistiu fora da imaginação dos poetas renascentistas. O povo doterritório de Portugal sempre foi constituído por uma mescla étnicadas mais diversas origens e até o nosso primeiro rei, o fundador damonarquia lusitana, era um exemplo desta mistura circunstancial,um dos seis filhos de um imigrante francês e de uma bastardagalega. A Lusitânia foi o nome dado artificialmente a uma regiãoadministrativa do tempo do domínio romano e não contemplavaqualquer originalidade nem unidade racial, linguística ou cultural.O nome escolhido para este pedaço de império nunca passou deuma fantasia poética de bardos antigos e a história de semideusescomo Luso e Lísias, descendentes do deus Baco (apelação romanado Dionísio grego), apenas contemplava, talvez, o gostocaracterístico dos ibéricos pelo vinho tinto e pelos prazeres maissensuais da vida. Baco era também uma divindade protetora daÍndia, onde teria fundado uma cidade para os seus seguidores(Nysa, atual Nagar), o que não deixava de acrescentar ainda maispicante à ementa dos nossos imaginativos renascentistas.No poema de Camões a raça lusitana, predestinada por Deuspara grandes feitos e glórias ímpares, era porém uma etniadiferenciada, autóctone e cristã; judeus, muçulmanos, africanos,povos nómadas atrevidos originários da Europa profunda e todos os seus descendentes que no termo de imensas caminhadasMOMENTOS DO INTERCÂMBIO COMERCIAL E CULTURAL COM O ORIENTEColecção MOSAICO, Volume XXXIX 90mosaico_XXXIX_INTERCAMBIO_ORIENTE_Layout 1 15/12/22 15:49 Página 90
  • assentaram arraiais na península Ibérica, ficaram excluídos de tãopreciosa tribo, apesar de terem sido os marinheiros, os soldados,os navegantes, os pilotos, os armadores e os comerciantes das nausda fortuna, a mão-de-obra da riqueza. Os Lusíadas sempre foramum poema à glória dos feitos assombrosos e reais de gentedestemida que os imaginou e realizou, mas esses feitos foramatribuídos a uma raça fictícia, para glória dos escolhidos, dosprivilegiados e para exclusão de todos os demais. O tribunal daANTÓNIO DE ABREU FREIREColecção MOSAICO, Volume XXXIX91Camões passou dezassete anos da sua vida viajando e prestando serviços entreGoa e Macau, num dos momentos de maior tensão entre muçulmanos e cristãospelo domínio do comércio oriental. Foi nesse ambiente que o poeta completou aredação d’Os Lusíadas.mosaico_XXXIX_INTERCAMBIO_ORIENTE_Layout 1 15/12/22 15:49 Página 91
  • Inquisição era um dos instrumentos legais que zelava pela purezada raça e dos pensamentos, assim como pela distribuição dasmercês aos privilegiados, assumindo a responsabilidade dainvestigação genealógica dos merecedores de honras. Quando dapublicação do poema, os censores da Inquisição nada encontraramque ofendesse os bons costumes e as ideias canónicas do tempo.Quando o padre António Vieira pregou os primeiros sermõesnas igrejas de Salvador da Bahia, em templos com paredes de barroe cobertura de palha, tinham passado 60 anos depois da publicaçãod’Os Lusíadas e da morte de André de Resende. Do impériosonhado e cantado apenas sobravam retalhos e o poema tinha sabore toada de elegia. Clarividente e objetivo, o pregador explicavaminuciosamente ao novo vice-rei desembarcado na capital dacolónia em 1640 que aqueles que recebiam mercês e louvores nãoeram os mesmos que combatiam e se esforçavam para levantar opaís da ruína e avisava que o povo clamava por justiça. O jesuítaadmirava Camões e teceu-lhe ao longo da vida numerosos elogios,citando-o e partilhando o patriotismo e a ideia do destino gloriosodo reino. Também partilhava com André de Resende a admiraçãopelo romantismo da mitologia clássica e não deixou de incluir nosSermões algumas alusões aos velhos mitos que colavam umaidentidade singular aos povos da península, até nos anos avançadosda sua vida. Ouçamos agora uma antiguidade antiquíssima donosso reino, e tão notável como antiga. Depois da morte de El-ReiLuso, de quem os portugueses se chamaram lusitanos, foram taisas saudades com que o choraram, e a estimação que fizeramdaquela perda, que se resolveram todos, pois tinham perdido talrei, de não admitir jamais outro. Chegou nesse tempo a EspanhaMOMENTOS DO INTERCÂMBIO COMERCIAL E CULTURAL COM O ORIENTEColecção MOSAICO, Volume XXXIX 92mosaico_XXXIX_INTERCAMBIO_ORIENTE_Layout 1 15/12/22 15:49 Página 92
  • Baco, celebrado com jogos e festas, e com lanças laureadas deparra os seus famosos triunfos: e como passasse o Guadiana eentrasse em Portugal, contentou-se tanto da terra e da gente, quedesejou fazer rei dela um filho que tinha chamado Lísias (…) e assim como dantes em memória de Luso (os portugueses)tomaram o nome de Lusitanos, assim dali por diante, nãomudando, mas continuando a mesma memória de Lísias, sechamaram também Lisíadas. O pregador avança mesmo uma dataprovável para que o acontecimento parecesse mais credível: mil equinhentos anos antes de Jesus Cristo (Discurso Apologéticodedicado à rainha D. Maria Sofia em 1689, pela morte doprimogénito D. João, Sermões, XV,51). Assim escrevera Camões(Canto VIII 2 e 3): Este que vês é Luso, donde a Fama / O nossoreino Lusitânia chama… Que ali quis dar aos já cansados ossos /Eterna sepultura, e nome aos nossos. Vieira pagou tributo a quemdevia.No seu tempo de estudante e de jovem pregador na Bahia,reinava em Portugal uma dinastia estrangeira e o rentável comércioda Índia viajava no bojo de naus cujo destino não era Lisboa; ariqueza do oriente era transportada em navios de outras bandeiras.Da frota portuguesa de centenas de navios de alto bordo e demilhares de caravelas dos anos quinhentos, da armada de milharesde fustas dos mares orientais pouco restava e as embarcações queiam e vinham sem percalço não chegavam ao reino com cargas deespeciarias que valessem a pena. O espaço controlado no orientepelos portugueses diminuíra drasticamente e em poucos anosVieira assistiu ao descalabro final: uma fatia importante do Brasile de África passou a partir de 1630 para o controle dos holandeses,ANTÓNIO DE ABREU FREIREColecção MOSAICO, Volume XXXIX93mosaico_XXXIX_INTERCAMBIO_ORIENTE_Layout 1 15/12/22 15:49 Página 93
  • inimigos da coroa espanhola e poderosos quanto bastasse paratomar conta da riqueza mais cobiçada da colónia esquecida porCamões, o açúcar. A riqueza da Índia e do Brasil servia agora asambições de fama e de poder de uma raça de excluídos, os judeusbanidos do reino por D. Manuel e por D. João III para preservar apureza da fé e da raça dos heróis, refugiados em França e naHolanda, em cujas mãos estava o comércio mundial do açúcar e, apartir de 1640, a salvação de um rei atrevido que detestava a guerra.Deles dependia agora a independência de um reino sem futuro.O jesuíta era mestiço, à imagem da grande miscigenação que caraterizava o reino de Portugal. Quando chegou à Bahia anotícia da Restauração da monarquia portuguesa ele foi um dosescolhidos para a primeira viagem de um navio que zarpouapressadamente para o reino em Fevereiro de 1641 a fim de garantirao novo monarca a fidelidade do vice-rei do Brasil. Vieira pregarasermões em defesa do Brasil contra a má administração, contra oroubo e a corrupção que enriqueciam os administradores da colóniae a nobreza ociosa da península, mas assumiu a partir de então acausa da independência do reino e fez desse projeto uma bandeira,porque partilhava com outros letrados, artistas, poetas, teólogos,astrólogos e pregadores do seu tempo, a ideia de que o reino dePortugal tinha uma missão divina por cumprir, revelada pelopróprio Cristo ao primeiro rei, escrita desde tempos imemoriais nostextos dos profetas bíblicos e anunciada nos tempos mais recentespor outros profetas populares, respeitados pelos seus vaticínios.Essa missão era a de um Império Universal de riqueza e defelicidade, incluindo todos os homens e todas as raças da terra, semexcluir ninguém, um novo e definitivo reino assente nas virtudesMOMENTOS DO INTERCÂMBIO COMERCIAL E CULTURAL COM O ORIENTEColecção MOSAICO, Volume XXXIX 94mosaico_XXXIX_INTERCAMBIO_ORIENTE_Layout 1 15/12/22 15:49 Página 94
  • ancestrais dos portugueses e governado por um soberanoportuguês: o Quinto Império do mundo, o reino de Cristoconsumado na terra, feito de todas as raças, de todas as nações doplaneta. Ao chegar a Portugal em Abril de 1641 o padre António Vieiratinha trinta e três anos. Saíra de Lisboa com sete anos e toda a suaformação acontecera na capital da colónia brasileira. Regressava àterra natal para propor uma nova visão da história do reino e dassuas conquistas, muito mais atrevida e grandiosa que a dos seuscontemporâneos, tão fabulosa que muito poucos a enxergavam. A sua visão da identidade e da história do povo português erainovadora, ambiciosa e profética. Ao longo de quase três décadasfoi embaixador, missionário, arguido num processo do tribunal doSanto Ofício por delito de heresia, foi preso e condenado, semnunca se afastar do rumo e dos objetivos que escolheu, sempreimpulsionado por um patriotismo exemplar que era uma quaseloucura.Fazia exatamente cem anos da publicação do grande poemaépico quando o padre António Vieira, já perdoadas as penasimpostas pelo tribunal que o condenara, vivia em Roma, rodeado deadmiradores, cardeais, príncipes, embaixadores e até uma rainhanórdica culta e excêntrica que gostava de o ter perto de si. Aossessenta e três anos o padre sonhava mais que nunca com o QuintoImpério, apesar de desiludido com a fraqueza do soberano queguiava os destinos do reino e com o desleixo das virtudes ancestrais.Defendia mais uma vez o regresso dos mercadores judeus ao reinoe acreditava que estava iminente o reencontro das tribos perdidasde Israel. Tanta profecia, tanto empenho, tanta ousadia passada,ANTÓNIO DE ABREU FREIREColecção MOSAICO, Volume XXXIX95mosaico_XXXIX_INTERCAMBIO_ORIENTE_Layout 1 15/12/22 15:49 Página 95
  • tudo comprometido com a mediocridade que invadia o país, acorrupção que o minava, a má administração e a falta de coragemque destruía as ambições de um povo de costas voltadas para o seudestino! Pátria ingrata, não tomarás conta dos meus ossos!MOMENTOS DO INTERCÂMBIO COMERCIAL E CULTURAL COM O ORIENTEColecção MOSAICO, Volume XXXIX 96Inspirado nas façanhas dos portugueses pelo oriente e nos textos do cronistaJoão de Barros que denominava Malaca a Feira Universal, o padre AntónioVieira pregou em Roma, entre 1670 e 1675, os seus mais famosos sermõespatrióticos, na igreja de Santo António dos Portugueses, sonhando com um Vº Império, que seria universal e português. Este mundo, Senhores, compostode tanta variedade de estados, ofícios e exercícios públicos e particulares,políticos e económicos, sagrados e profanos, nenhuma outra coisa é senão umapraça, ou feira universal, instituída e franqueada por Deus a todos os homens,para negociarmos nela o reino do céu. (Sermão dedicado à Rainha Santa Isabel,Roma, 1674) mosaico_XXXIX_INTERCAMBIO_ORIENTE_Layout 1 15/12/22 15:49 Página 96
  • A história de Portugal é feita de muitas miudezas e de algunsmomentos de grandeza. Esses poucos momentos foram sublimes edefiniram a identidade de um povo. Camões e Vieira representamdois momentos quase antagónicos dessa grandeza: um é o poeta daraça e da exclusão, e outro é o profeta da universalidade e dacidadania. Camões transmitiu autoestima aos portugueses num dosmomentos mais difíceis e críticos da história do reino, apelando àutopia de uma raça lusitana, nas virtudes da qual assentava a glóriade ter domado os oceanos e chegado até às riquezas fabulosas dooriente. A defesa da pureza da raça e do seu valor foi o argumentoforte para que a Inquisição não pusesse obstáculos à publicação dopoema. Quando o poeta publicava Os Lusíadas, em 1572, a ideia deum império sonhado por Afonso de Albuquerque e el-rei D. Manueljá se tinha desvanecido; os poderosos do reino não aceitavam aideia de criar uma raça mestiça, feita a partir de portugueses e demulheres indianas para garantir o suporte genético da empreitadacomercial e civilizacional no oriente. A população do reinodiminuíra para metade e não sobrava gente para tamanhaempreitada. Aquele espaço chamado Brasil que viria a ser o maiorde todos os que tornariam a língua portuguesa universal nãomereceu mais que duas linhas em todo o poema de Camões e onome do seu descobridor nem sequer foi mencionado. Seis anosdepois da publicação do poema, em Alcácer-Quibir, acontecia o desastre que mergulhava o reino numa das piores crises de toda a sua história e a salvação veio daquele pedaço esquecido do império sonhado, o Brasil que Camões não cantou. Para ospatriotas renascentistas do século XVI, o futuro do reino e o dosespeculadores estava no oriente, enquanto o Brasil era um vastoANTÓNIO DE ABREU FREIREColecção MOSAICO, Volume XXXIX97mosaico_XXXIX_INTERCAMBIO_ORIENTE_Layout 1 15/12/22 15:49 Página 97
  • espaço de ócio, de vida fácil e inglória. E eis porque sentes, dia adia, à-toa, essa ambição de apodrecer na rede e esses impulsos debrigar em Goa. (Humberto de Campos, jornalista e escritormaranhense, 1886-1934)Vieira começou a pregar em Salvador da Bahia sessenta anosdepois da publicação d’Os Lusíadas e uma das suas primeiraspreocupações foi de se afastar do sebastianismo e da seita quemergulhara o reino no desespero e no fanatismo, à espera de umrei que se foi matar nas areias de África. O jesuíta apelava àsmesmas virtudes ancestrais dos portugueses, mas eram para elevirtudes de um povo inteiro e não de uma minoria seleta nem deuma raça privilegiada: ele acreditava mesmo que todos os povos enações das conquistas dos portugueses pelo mundo herdavam astais virtudes pelas quais o reino alcançaria a liderança mundial,sanada a tristeza endémica e o fatalismo atávico. A Restauração doreino significava para o padre a recuperação do poder e da riquezapara construir sobre essa abundância o império do futuro, o reinode Cristo na terra, o Quinto Império, que era de todos os súbditosde um rei cristão e português. Nos sermões de Roma, o jesuítasugeria ainda o regresso à Índia com uma armada poderosa, pararestaurar o domínio perdido.O poeta mereceu um túmulo vistoso num dos templos da nossaglória, o padre não tem tumba nem campa rasa, os seus ossosdesapareceram. Os de Cabral também. Juntos, Camões e Vieira sãoa grande referência do poder da língua portuguesa no mundo, umQuinto Império inesperado e realizado. Do mesmo modo que D. João IV foi para Vieira o rei inesperado da profecia de são freiGil, a expansão da língua portuguesa é hoje o verdadeiro impérioMOMENTOS DO INTERCÂMBIO COMERCIAL E CULTURAL COM O ORIENTEColecção MOSAICO, Volume XXXIX 98mosaico_XXXIX_INTERCAMBIO_ORIENTE_Layout 1 15/12/22 15:49 Página 98
  • com que Vieira não sonhou. A raça cantada por Camões tinha umpassado imaginário, mereceu um poema épico, mas não tinhafuturo real e a história encarregou-se de o mostrar; a feira universalonde se encontram todos os homens e todas as raças, uma espéciede Nova Malaca, tem futuro garantido e uma fatia consideráveldessa praça de encontro dos homens fala a língua portuguesa. Joãode Barros imaginou o que nunca viu e o samorim de Calecute terálembrado ao Gama que o mundo era muito vasto para a ambiçãodos portugueses. Camões poetizou o passado, Vieira profetizou ofuturo. No 10 de Junho, aniversário da morte de Camões, já não sefesteja mais o dia de uma raça, mas sim o das comunidadesdiferenciadas que pelo mundo falam a língua portuguesa. Quandoos que acabam de nascer estiverem na idade da sua maiorcapacidade produtiva, os falantes da língua portuguesa poderão serquatrocentos milhões, cidadãos de países espalhados por quatrocontinentes e ligados por uma identidade comum que nãocontempla como referência nenhuma raça, nenhuma tribo,nenhuma ascendência privilegiada, nenhuma divindade dereferência. Os indígenas do Maranhão e Grão-Pará, aquela gentepisada e dilacerada de quem falava talvez o profeta Isaías,profetizando a missão de Vieira ou talvez não, fazem hoje parte deuma nova História do Futuro, misturados a todos os outros, demuitas raças e de muitas nações, que com eles partilham a mesmalíngua e as mesmas ambições, por demais adiadas.Para nascer, pouca terra; para morrer, toda a terra: paranascer, Portugal; para morrer, o mundo – pregava Vieira nospúlpitos de Roma. Visão de um génio, ou de um misto de génio,mago e aventureiro, como o descreveu Miguel Torga.ANTÓNIO DE ABREU FREIREColecção MOSAICO, Volume XXXIX99mosaico_XXXIX_INTERCAMBIO_ORIENTE_Layout 1 15/12/22 15:49 Página 99
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