A derrota dosHolandesesem 1622MOSAICOVOLUME XVIMacau, Agosto de 2010LUíS GOnzAGA GOMES
Colecção MOSAICO, Volume XVILUíS GOnzAGA GOMES2Título A derrota dos Holandeses em 1622Autor Luís Gonzaga GomesEdição Instituto Internacional de Macau (IIM)Colecção Mosaico (Edição em Português)Volume XVICoordenação editorial Rufino RamosAssistente de Coordenação José TeixeiraDesign Victor Hugo DesignImpressão Tipografia WelfareApoio Fundação MacauTiragem 500 exemplaresMacau, Agosto de 2010ISBN 978-99937-45-35-8
Colecção MOSAICO, Volume XVILUíS GOnzAGA GOMES3(1) A Derrota dos Holandeses em Macao no Ano 1622, Macao, 1938; 24 de Junho de 1622 - Uma façanha dos Portugueses, in Boletim da Agência Geral das Colónias. 1926, pgs. 117 a 128 e pgs. 27 a 40, Ataque dos Holandeses a Macau em 1622, in Boletim da Agência Geral das Colónias.Quem tenha de escrever sobre o inusitado e brilhante feito de armas, conseguido pelo denodo de um punhado de valorosos portugueses na memorável tarde de 24 de Junho de 1622, não pode eximir-se de consultar os exaustivos trabalhos que o lusófilo C. R. Boxer, actual professor de português da Universidade de Londres, escreveu sobre o assunto, principalmente a brochura A Derrocada dos Holandeses em Macau no Ano de 1622 (1), este tema histórico se encontra conscienciosamente estudado e por-menorizadamente explicado.Neste desenvolvido ensaio, em que ficaram devidamente esclarecidos muitos pontos obscuros deste glorioso cometimento, foi dado o valor às principais personagens que nele intervieram directamente e restabelecida, mediante meticuloso trabalho de investigação, a justa proporção das proezas praticadas pelos heróis de tão memorável acção que salvou Macau da cobiça dos batavos. Pena foi, porém, que o seu autor se não tivesse lembrado de o completar com a inserção das traduções das versões holandesas do acontecimento em questão, pois os que se A DErrOTA DOS HOLAnDESES EM 1622
Colecção MOSAICO, Volume XVILUíS GOnzAGA GOMES4interessam por este assunto gostariam, certamente de conhecer a forma como os próprios holandeses narraram a infausta aventura a que se abalançaram tão esperançadamente e como explicaram o seu desfecho, para eles, tão ignominioso. Em compensação estão reproduzidos dois documentos, até então inéditos, que permitem, ao leitor interessado no assunto, o seu confronto com as diversas versões da época tanto de origens holandesas como portuguesas já conhecidas.Uma das fontes citada pelo ilustre investigador britânico, neste seu estudo, é «O artigo de António Feliciano Marques Pereira, no Boletim do governo da província de Macau, Nº. 30 de 28 de Junho de 1862, elaborado à vista de documentos coevos no cartório do Senado, e algures que o autor conseguiu consultar, mas que já não existem». (2) Interessou-nos conhecer este trabalho, mas não consegui-mos encontrá-lo nas três colecções do Boletim do Governo que nos foi possível consultar pois, caso curioso, faltam, em todas as três, exactamente o VIII volume, onde deveria figurar o artigo em (2) A Derrota dos Holandeses em Macao no Ano 1622, Macao, 1938, pg. 11.
Colecção MOSAICO, Volume XVILUíS GOnzAGA GOMES5Vista geral de Macau, reproduzida da Hèong-Sán Ün-TchiNesta gravura está assinalada a muralha defensiva de Macau, que foi construída, depois da vitória ganha aos holandeses, em 22 de junho de 1622 e durante o turbulento governo do primeiro capitão-geral e governador desta cidade, D. Francisco Mascarenhas.
Colecção MOSAICO, Volume XVILUíS GOnzAGA GOMES6questão. O número 52, o último do Vol. VII, data de 30/11/1861 e o Nº. 1 do Vol. IX é de 6/12/1862. Tal artigo aparece, no entanto, reproduzido, na íntegra, a pág. 86 e seguintes do primeiro volume da mencionada revista e J. F. Marques Pereira anota, no rodapé dessa página, o seguinte:Em 28 de junho de 1862, data do Boletim em que sahiu essa descripção, estava meu pae em Pekim, como secretário da missão diplomática; mas poderia ter deixado o artigo antes de partir de Macau. Pode-se assim explicar a razão de certos erros que o artigo apresenta e que só se dariam pela ausência d’um bom revisor. Por outro lado, estou em grandes dúvidas de que o artigo fosse d’elle, porque, como veremos, ha um ponto pouco esclarecido relativo ao ataque de 1627; e elle exgotava, com um demorado estudo, todos os assumptos de que tratava.Foi Boxer quem com os seus estudos sobre este memorável feito fez ressuscitar, nos nossos tempos, o esquecido nome de Lopo Sarmento de Carvalho, apoiando-se, principalmente, na Breve Rellação da Vinda dos Olandezes a Macau... (3) do Pe. Fr. Álvaro (3) Publicada no Boletim da Agência Geral das Colónias, No. 33, 1928.
Colecção MOSAICO, Volume XVILUíS GOnzAGA GOMES7Rosário, que foi o primeiro que o apontou como o principal herói do dia. Tem hoje a cidade, em testemunho de tardia gratidão, uma via pública com o nome deste herói e que foi inaugurada, durante as festas do Duplo Centenário. Ora, não é desmerecedora de menor admiração a figura de António Rodrigues Cavalinho que, segundo a esquecida e interessante versão de Carlos José Caldeira, publicada no Boletim do Governo de Macao, Timor e Solor, Vol. VI - Nº. 32 de 28/6/1851, adiante reproduzida na íntegra, e a versão de A. Marques Pereira, ao ver da sua casa, situada no campo em frente da colina da Guia, que nesse tempo se chamaria de Charil, (4) o desembarque da tropa invasora inimiga, constituída por 800 aguerrid0s batavos, homens bem experimentados dos campos de Flandres e os melhores que a Holanda possuía então na India e mercenários japões, se precipitou afoitamente e sem hesitação, apenas seguido de cinco portugueses e alguns moços (assim se designavam os escravos negros), para fazer frente à horda inimiga que fora transportada em mais de trinta «lanchas, escuchas e catraios» sob o comando de Cornelio Regres (forma aportuguesada de Kornelis Reyerszoon) e se firmara na praia (4) Compendio de Geografia Elementar, por José Vicente Jesus, 2a. ed., Macau, 1888, pg. 51.
Colecção MOSAICO, Volume XVILUíS GOnzAGA GOMES8a coberto duma cortina de fumo provocada com o incêndio intencional dum barril de pólvora molhada.Boxer diz, porém, na sua obra Fidalgos in the Far East, (5) que Cavalinho estava a comandar 150 mosqueteiros portugueses e eurasianos entrincheirados num banco de areia na Praia de Cacilhas. O erudito investigador histórico britânico baseou esta sua afirmação num documento coevo, a «Relacion de la Vitoria...» por ele divulgado, que afirma esta primeira linha de defesa da cidade entregue a 60 portugueses e 90 filhos da terra, mas nem este documento nem a «Breve Rellação da Vinda dos Ollandezes...», do Pe. Fr. Álvaro Rosário asseveram de modo explícito que Cavalinho se encontrava entre esses defensores. é possível que Cavalinho tivesse cometido a arrojada acção a ele atribuída, nas versões de Caldeira e Marques Pereira. Custa, no entanto, a acreditar que este se afoitasse com cinco portugueses e alguns escravos a fazer quixotescamente frente a 800 holan-deses. O que deveria ter acontecido é que Cavalinho, ao ter conhecimento do desembarque, saiu com os seus homens, para se juntar aos defensores, que já se encontravam naquele posto, (5) Fidalgos in the Far East, Haia, 1948, pg. 80.
Colecção MOSAICO, Volume XVILUíS GOnzAGA GOMES9Macau no século XVIIGravura reproduzida da «Ásia Portuguesa» de Manuel Faria e Sousa
Colecção MOSAICO, Volume XVILUíS GOnzAGA GOMES10porquanto não é admissível que os moradores da cidade não esperassem que a invasão ou, pelos menos, uma das vagas do assalto se fizesse por aquele lado. Tinham, portanto, construído ali uma trincheira, que se encontrava guarnecida por alguns homens, mas não 150, pois, se a maioria dos moradores estava nessa ocasião em Cantão a adquirir mercadorias para a viagem anual do Japão e a guarnição da cidade ficara reduzida «a cerca de 50 mosqueteiros e uns 100 moradores ou casados capazes de pegar em armas», como afirma a mais antiga versão portuguesa, estariam, portanto, todos os homens válidos concentrados nessa primeira linha de defesa o que é impossível, visto que havia, também, a necessidade de homens para manobrar as peças dos três fortes que existiam: o de S. Francisco, Bom Parto e Barra. O de S. Francisco até teve de travar, na véspera, rijo duelo com três dos navios atacantes, o Groeningen, o Gallias e o Engelsche Beer, combate este que se renovou e se intensificou, no dia seguinte, desde o romper do sol, provavelmente com o fim de se pretender fazer com que os moradores julgassem que o desembarque se faria na Praia Grande. O da Barra pôde dispensar umas dezenas de homens que, com outras dezenas fornecidas pelo batidíssimo forte de S. Francisco, perfaziam um total duns 50 homens que, em dado momento do combate, foram enviados, sob o comando
Colecção MOSAICO, Volume XVILUíS GOnzAGA GOMES11de João Soares Vivas, para acudir a outros combatentes de que dispunha Lopo Sarmento de Carvalho. Portanto, todos esses homens juntos totalizariam decerto muito mais que os 50 mosqueteiros e 100 moradores que as antigas narrações diziam que se encontravam, em Macau, nessa ocasião.O reduzido punhado de homens do comando de Cavalinho, não podendo impedir, por mais tempo, o avanço do numeroso invasor, cede terreno e recua até ao sítio que fica entre os actuais edifícios do Quartel de Artilharia e das Escolas Primárias Oficiais, local esse que se chamou, após a derrota dos holandeses, Campo de Vitória e onde, antes da construção da hoje desaparecida Avenida Vasco da Gama, era designado por «Jardim do Padre Almeida». Foi neste local que se decidiu a sorte do desproporcionado prélio. Cavalinho e os seus homens, ao recuarem perante o ímpeto do avanço das tropas holandesas, dispersaram-se, astuciosamente, à laia de guerrilheiros atrás dos penhascos da encosta da Guia, donde atiravam, sem poderem falhar a pontaria sobre a massa compacta dos holandeses que marchavam ritmicamente, de passo acertado, ao rufo de tambores, em formação de esquadrões, como se seguissem em passeio militar, garbosos e impantes de sobranceria, pois certos estavam duma fácil vitória.
Colecção MOSAICO, Volume XVILUíS GOnzAGA GOMES12Jacob Rho, célebre jesuíta e matemático italiano que, com outros seus companheiros se encontrava na fortaleza do Monte, cuja construção estava ainda muito longe de se encontrar concluída, pois, ao seu convento situado próximo da fortaleza, se tinham acolhido as religiosas de Sta. Clara e várias senhoras, mulheres e filhos dos principais moradores de Macau, assesta a única peça que dispõe e calcula os seus tiros com tanta precisão que o terceiro fez explodir um barril de pólvora que seguia no meio da formação inimiga. Reina grande consternação entre os holandeses que reagem, hesitando, porém, avançar, com receio de que os portugueses pretendessem armar uma emboscada atrás dum bambual, que forçosamente teriam de atravessar para poderem entrar na cidade, bambual este que, em 1791 fora mandado destruir por Felipe Lourenço de Matos, sendo depois transformado na Horta de Rita Bragmand e onde, mais tarde, se construíram as casas que são hoje atravessadas pela Rua Volong, no bairro de S. Lázaro pertenceram a Francisco Volong, chinês naturalizado português.Os holandeses esforçam-se, entretanto, por ganhar o alto da colina da Guia, donde conseguiriam dominar a cidade, mas impede-lhes o avanço, Rodrigo Ferreira com oito portugueses
Colecção MOSAICO, Volume XVILUíS GOnzAGA GOMES13A Praia Grande, reproduzida da Hèong-Sán Ün-TchiNesta gravura encontram-se anotados da esquerda para a direita; a Fortaleza da Barra, a Fortaleza do Bom Parto, a Ermida da Penha, a Igreja de S. Lourenço, o Colégio de S. José, os Escritórios da Companhia Inglesa das Índias, o Palácio do Governo, o Fortim de S. Pedro, o Tribunal, a Igreja de S. Paulo, a Alfândega Chinesa, a Fortaleza do Monte, o Convento de St.ª Clara, a Fortaleza da Guia e a Fortaleza do S. Francisco.Em frente da fortaleza do Bom Parto está assinalada a Pedra Areca.
Colecção MOSAICO, Volume XVILUíS GOnzAGA GOMES14e uns vinte topazes e cativos que se encontravam agachados atrás dumas penhas. Colhidos entre três fogos - dos homens de Rodrigo Ferreira pela frente, dos de Cavalinho pela retaguarda e do Monte pelo flanco - o inimigo, verificando que a partida estava perdida, só pensa agora em ganhar o alto dum morro que lhes fica atrás, para proteger a sua retirada e embarque. é nesta ocasião que Lopo Sarmento de Carvalho, capitão-mór da viagem do Japão, ao ver que a confusão se tinha estabelecido entre o inimigo se lançou afoitamente com os seus homens da parte da cidade, naquela refrega, não sendo portanto, injustificada a desconfiança dos holandeses a respeito da cilada armada atrás do bambual. A Sarmento de Carvalho, junta-se como se disse, João Soares Vivas com os seus 50 mosqueteiros e vendo aquele que os holandeses pretendiam alcançar o morro pelo oriente e, fazendo frente ao esquadrão inimigo, incita de tal forma os seus homens que não foram bastantes oitocentos mosqueteiros para o deterem.Não se encontravam portanto, na cidade, somente 150 homens válidos; Havia mais, mas poucos mais. O que nos consola hoje é que este aguerrido punhado de bravos conseguiu infligir a mais decisiva e vergonhosa derrota de
Colecção MOSAICO, Volume XVILUíS GOnzAGA GOMES15quantas sofreram os holandeses, nesses tempos de épica bravura e de incomparável denodo, das mãos dos nossos antanhos. Interveio, evidentemente, o factor sorte, pois, o almirante Reijersen foi das primeiras vítimas na ocasião do desembarque, tendo uma bala disparada pela gente de Cavalinho ido alojar-se no seu ventre, inutilizando-o completamente. Deu--se depois a explosão do barril de pólvora, quiçá fortuitamente atingido com o terceiro tiro dirigido pelo jesuíta Jacob Rho. Mas nada empana a esplendorosa glória desses duzentos e tantos portugueses, macaenses e escravos africanos e asiáticos contra 800 dos melhores soldados que a Holanda dispunha ao tempo, nessas paragens, e assim, em poucas horas de refrega, apenas com a perda de 4 portugueses, 2 espanhóis e alguns escravos e 20 feridos, juncavam o solo - no campo e na praia - e boiavam no mar, 500 cadáveres de holandeses. Recolheram os nossos como despojos oito bandeiras, um canhão, cinco ou seis tambores, muitas armas e alguns prisioneiros, dos quais até o dia seguinte só viveram sete (6). Outro jesuíta e (6) Tem-se escrito que a antiga muralha da cidade, construída após esta malograda tentativa dos holandeses para se apoderarem de Macau, foi construída por prisioneiros holandeses. Tal afirmação carece de verosimilhança, pois, os sete cativos sobreviventes não deveriam ser suficientes para construir a extensa e espessa muralha.
Colecção MOSAICO, Volume XVILUíS GOnzAGA GOMES16célebre matemático, Adão Schall Von Bell conseguiu capturar, pessoalmente, um capitão, tão importante que os holandeses ofereceram 300 cativos portugueses em troca da sua liberdade. Diz Marques Pereira, referindo-se aos troféus deste combate: Estas armas existiam, até irem para Gôa os Jesuítas, no seu convento: depois, ignora-se o destino que tiveram.Entretanto, o povo, grato pela intervenção e especial protecção da Providência, exarava o voto que ininterruptamente se tem cumprido, desde o glorioso dia de 24 de Junho de 1622, cujo termo já não existe, como não existem um quadro a óleo representando este combate e uma tabuleta com os seguintes dizeres e que se encontravam no Leal Senado: A 23 e 24 de Junho Vespera e Dia de S. João Baptista - Tem obrigação o Leal Senado ir na Vespera, e Dia do ditto Santo com a capa, e volta à Missa Solemne na Sé Cathedral, como também às Vesperas. N.B. Foi instituida esta Festa por um votto que o Leal Senado fez por Termo na Caza da Câmara, junta em Conselho no ano de 1622: Isto em reconhecimento da distinta mercê,
Colecção MOSAICO, Volume XVILUíS GOnzAGA GOMES17que Deos Nosso Senhor foi servido fazer a esta Cidade, nestes dois dias, em aliviar das Tropas Hollandezas que na Praia de Cassilhas desembarcaram de bordo de treze (13) Naos, de que os Moradores alcançaram Victoria do Campo de Mohá, que pertenderam senhoriar com 800 Soldados.Diz Carlos José Caldeira que Alem desta Festa por voto solene ficou-se fazendo todos os annos, em dia de S. João, uma Missa em uma barraca que para tal fim se armara, no plano por baixo da Guia, no local onde se acha de pé a pilastra de pedra de que acima fallámos, que é a haste da antiga cruz, cujo braço cahio por um tufão. Esta Missa se chamava de Vitoria, para ella dava o Senado cinco patacas de esmola, e concorriam a ouvilla muitos moradores de Macau e suas familias, indo as creanças com flores e bandeira: passavam por alli o dia com musicas e folguedos, n’uma especie de festa d’arraial, que foi muito do gosto e usança popular, até que a Missa passou a dizer-se na Ermida da Guia, a qual por fim cahio em esquecimento parece que desde 1844.Nos antigos Boletins do Governo lê-se que a procissão do dia 23 de Junho, era solenemente acompanhada pelas principais
Colecção MOSAICO, Volume XVILUíS GOnzAGA GOMES18autoridades da colónia e, quando a imagem do milagroso S. João passava pelo Largo do Senado, os canhões do Monte ribombavam, estrondorosa e festivamente, com uma salva de 21 tiros.A raiva de morte e a indignada repulsa pelo execrando inimigo ficaram, porém, tão indelevelmente gravadas nos corações dos moradores de Macau que, por centenas de anos, perdurou a tradicional cerimónia do auto-de-fé dum holandês em efígie. Contam assim, os autores de uma monografia sobre Macau, escrita em chinês no século XVII, que era costume confeccionar-se, todos os anos, no décimo mês do ano, um boneco, em papel, que representava o abominado inimigo. O boneco, depois de amarrado, era levado pelas ruas da cidade e todos empurravam-no, perseguiam-no, espancavam-no e insultavam-no e, na ocasião em que o punham na rua, cantavam e, ao anoitecer, queimavam-no no descampado. (7)––– • –––Não sendo fácil encontrar-se o número do Boletim do Governo de Macao, Timor e Solor, onde veio publicado o artigo (7) Ou-Mun Kei-Leok, por Tcheong- Ü-Lâm e Ian-Kuong-Iâm, trad. do chinês, por Luis G. Gomes, Macao, pg. 187.
Colecção MOSAICO, Volume XVILUíS GOnzAGA GOMES19de Carlos José Caldeira sobre o ataque dos holandeses, vamos reproduzi-lo na íntegra para conhecimento dos que se interessam sobre este assunto:“Terça-feira 24 de Junho foi um dia de gloriosa recorda-ção para Macao. Ha 229 anos, em um semelhante dia de 1622, nos tempos em que a Monarchia Portugueza, e suas Colonias sofriam os mais desastrosos effeitos da sugeição a Castella, - um punhado de valentes repelio o formidável attaque, que contra esta Cidade tentaram os Hollandezes, então muito poderosos nestas partes. Este feito d’armas, digno de figurar entre as nossas antigas gentilesas d’Azia, parece-nos que é pouco conhecido em Portugal, e não sabemos mesmo se se acha impressa em alguma parte a circunstanciada noticia delle em portuguez: Ljungstedt o refere com alguma extensão no seu Historical sketch of Portuguese Settlements in China pag. 73, e algumas memorias e papeis avulsos sobre Macao o emocionam, mas sem maior individuação, e no Macaista Imparcial de 23 de Junho de 1836 lemos tãobem algumas noções deste facto.é por isso que não julgamos ocioso resumir aqui por esta occasião, uma notícia sobre este successo, colhida de
Colecção MOSAICO, Volume XVILUíS GOnzAGA GOMES20alguns manuscriptos que vimos, combinados com a tradição, e a um dos quaes que temos por bastante merecedor de fé, nos aproximaremos o mais possivel na ordem dos acontecimentos e nas palavras de que usa.Sabendo os Hollandezes que em Macao se achava pouca gente, por terem a maior parte dos moradores hido nos seus navios commerciar a varios portos, como usavam fazer na quella estação do anno, - vieram sobre a Cidade com uma frota de quatorze navios, e encontrando perto della três outros inglezes que hiam para Cantão, os convidaram para os ajudarem na empresa, mas exigindo estes que o saque lhes pertenceria, não se combinaram.Surgiram pois só em frente de Macao na vespera de S. João, 23 de Junho de 1622, e tendo informação certa de que pouca artelharia havia nas Fortalezas do Monte e da Barra, e que pela parte de terra nem muros, nem defesa alguma existia, - tentaram neste mesmo dia o ataque, principiando por baterem o Forte de S. Francisco, para que a artelharia deste não embaraçasse o desembarque na praia de Cacilhas: do Forte porém lhe corresponderam de modo que um dos navios foi muito maltratado, tiveram os inimigos de o abandonar logo, e se afundou: no entanto acercaram-se os outros mais da praia, e prepararam o desembarque para o dia seguinte.
Colecção MOSAICO, Volume XVILUíS GOnzAGA GOMES21Naquele tempo contava esta Cidade apenas oitenta homens portuguezes capazes de pegar em armas e os seus criados, e sem capitão que os dirigisse, porque até então se governava este Estabelecimento, desde a sua fundação em 1557, como República, somente pelo Senado: e só em 1623 foi nomeado pelo Vice-Rei da India, Conde da Vidigueira, o primeiro Governador e Capitão Geral de Macao D. Francisco de Mascarenhas.Com effeito no dia de S. João, 24 de Junho, em mais de trinta lanchas, escuchas, e catraios, desembarcaram uns 800 hollandezes na praia de Cacilhas, tendo antes, dado fogo por barlavento a um barril de polvora molhada, para poderem encobertos com o fumo della desembarcar com mais segurança.António Rodrigues Cavallinho assistia então em umas suas cazas, que no tempo fica fronteiro à ellevação onde está hoje a fortalesa da Guia, e sahio com mais cinco portuguezes, e alguns de seus moços (negros escravos), a impedir o desembarque aos Holandezes, o que não podendo conseguir com tão pouca gente, vieram aquelles avançando em forma com o seu cheffe Cornelio Regres, (ou Kornelis Regerszoon segundo Ljungstedt) que era tão bem o Comandante da expedição, até ao plano que fica por baixo do monte da Guia, um pouco ao nascente, proximo onde hoje é o jardim denominado do Padre Almeida, e onde existe um
Colecção MOSAICO, Volume XVILUíS GOnzAGA GOMES22simples marco ou pilastra de pedra que, segundo a tradicção, recorda este successo.Alli fizeram alto, suspensos por dois tiros de canhão que lhe dirigiram da Fortaleza do Monte (então incompleta), com uma unica bombarda que naquella direcção se havia assentado; cujos tiros foram feitos pelos Padres da Companhia de Jesus, que nesse dia estiveram na mesma Fortaleza, porque no seu Convento próximo della se refugiaram as Religiosas de Santa Clara, e varias senhoras, mulheres e filhos dos principaes moradores de Macao, - e com tal felicidade que um dos tiros acertou em um barril de polvora, e incendiando-a abrazou alguns Hollandezes.Elles desconfiaram de não verem mais gente, e temeram que lhes estivesse armada alguma embuscada atraz de um bambual, que tinha necessariamente de passar quando quizessem penetrar na Cidade.Resolveram-se a subir pelo monte da Guia, onde estava uma Ermida defensável (provavelmente no mesmo local da que hoje se acha dentro da Fortaleza), e nella Rodrigo Ferreira, com oito Portuguezes, e uns vinte filhos da terra, e alguns moços captivos; e todos cobertos com os rochedos que alli havia, foram dando descargas nos inimigos, e fizeram-nos vacilar e parar na subida.
Colecção MOSAICO, Volume XVILUíS GOnzAGA GOMES23No entanto os capitães ou Cabos que dirigiam as baterias nos dois Fortes de S. Francisco e do Bom Parto, contra as naos dos Hollandezes, vendo que estes acometiam pela parte da ter-ra, deram logar a que João Soares Vivas acudisse com cincoen-ta mosqueteiros ao posto do campo, do qual estava encarregado Lopo Sarmento de Carvalho, Capitão-Mor da viagem do Japão, e conhecendo este medo e confusão nos inimigos, os carregou da parte da Cidade, acompanhado de João Soares: um dos capitães delles fez rôsto aos nossos, mas sendo morto, os soldados se de-sordenaram, e se poseram em fuga, largando bandeiras, armas e tambores, e trataram só de salvar as vidas; o que deo logar ao povo miudo para os ir seguindo à sombra dos Portuguezes, com tanto ímpeto que até uma cafra (negra) fez, neste dia de Forneira d’Aljubarrota, asseverando uns que matara alguns Hollandezes com o espeto da cosinha, onde a mesma cafra cosinhava, e outros que com uma alabarda: assim lhes foram fazendo muitos mortos no campo, e os perseguiram até os obrigarem a embarcar preci-pitadamente, e alguns a nado, sem lhes valerem as companhias de reserva que na praia deixaram, que em vão tentaram forma-dos de novo, para se não perderem todos pela confusão.Deixaram mortos no campo, na praia, e no mar afogados, acima de 500 homens; e por despojos oito bandeiras, um canhão,
Colecção MOSAICO, Volume XVILUíS GOnzAGA GOMES24cinco ou seis tambores, muitas armas, e alguns prisioneíros, dos quais até ao seguinte dia só viveram sete.Nesta occasião aquelles Portuguezes, (e alguns Hes-panhoes que se achavam aqui, obraram maravilhas, princi-palmente na primeira rota do esquadrão inimigo, que custou algum sangue e duas vidas; e se bem que os Hollandezes não fizeram a resistencia que podiam, não se pode deixar de admi-rar a resolução e cometimento de tão pouco contra tantos.Tal terror tomaram os Hollandezes, que nunca mais investiram esta Cidade, apesar de ficar tão afastada de Goa, donde só podia ser socorrida, e de se ver depois em grandes apuros, - ao mesmo tempo que o poder delles augmentava nas paragens do sul: diz-se com tudo que perderam, ou se lhe dispersou uma esquadra que enviavam a nova tentativa.Consta que o Regulo de Caantão naquelle tempo sabendo desta victoria, dirigio aos Portuguezes muitos louvores; fez-lhes offerecimentos; e enviou 400 picos (quintaes aproximadamente) de arroz, pelo valor e fedilidade com que entraram na peleja.Em consequencia deste successo, e do receio de novo attaque dos Hollandezes, os moradores de Macao mandaram pedir soccorro a Manila, como sujeitos então ao Monarcha Hespanhol, e o Governador lhes enviou 200 homens com um
Colecção MOSAICO, Volume XVILUíS GOnzAGA GOMES25Mestre de Campo, por cuja industria se murou e fortificou melhor a Cidade, que até este anno não tinha muros baluartes alguns; e tãobem dalli vieram algumas bombardas.A Fortaleza do Monte, começada parece que em 1606, foi concluida por estes tempos em 1626.A Fortaleza do N. S. da Guia tãobem foi construida pouco mais tarde, como se collige da seguinte inscripção em pedra, ainda hoje existente na muralha a porta da mesma Fortaleza :«Este forte mandou fazer a Cidade a sua custa pelo Capitão d’Artelharia Antonio Ribeiro d’Raia começou-se en Setembro de 1637 acabou-se en Março de 1638 sendo Geral da Camara (d’Noronha).»A piedade de nossos maiores não deixou de atribuir a salvação de Macao, do perigo que correo de ser presa dos Hollandezes, a especial protecção da Providência, e os seus moradores e o Senado fizeram o voto que ainda hoje louvavelmente se cumpre.Procurámos em vão achar no archivo do Senado o termo original que se lavrou daquele voto, e que ainda existia em 1782, segundo o testemunho do author da relação a que nos referimos; nem delle encontramos copia: mas no mesmo Senado existe uma antiga taboleta onde se lê o seguinte:
Colecção MOSAICO, Volume XVILUíS GOnzAGA GOMES26«A 23 e 24 de Junho Vespera e Dia de S. João Baptista - Tem obrigação o Leal Senado ir na Vespera, e Dia do ditto Santo com a capa, e volta à Missa Solemne na Sé Cathedral, como também às Vesperas.» N.B. Foi instituida esta Festa por um votto que o Leal Senado fez por Termo na Caza da Câmara, junta em Conselho no ano de 1622: Isto em reconhecimento da distinta mercê, que Deos Nosso Senhor foi servido fazer a esta Cidade, nestes dois dias, em aliviar das Tropas Hollandezas que na Praia de Cassilhas desembarcaram de bordo de treze (13) Naos, de que os Moradores alcançaram Victoria do Campo de Mohá, que pertenderam senhoriar com 800 Soldados.Alem desta Festa por voto solene ficou-se fazendo todos os annos, em dia de S. João, uma Missa em uma barraca que para tal fim se armara, no plano por baixo da Guia, no local onde se acha de pé a pilastra de pedra de que acima fallámos, que é a haste da antiga cruz, cujo braço cahio por um tufão.Esta Missa se chamava de Vitoria, para ella dava o Senado cinco patacas de esmola, e concorriam a ouvilla muitos moradores de Macau e suas familias, indo as creanças com flores e bandeira: passavam por alli o dia com musicas e folguedos, n’uma especie de festa d’arraial, que foi muito do gosto e usança
Colecção MOSAICO, Volume XVILUíS GOnzAGA GOMES27popular, até que a Missa passou a dizer-se na Ermida da Guia, a qual por fim cahio em esquecimento parece que desde 1844.São estas as notícias que em pouco tempo podemos coligir sobre o acontecimento de que tratamos, e que por ventura terão alguma valia para os amadores das antigualhas, que tem relação com os factos da nossa historia nacional.» (8)––– • –––J. F. Marques Pereira, que foi o primeiro a esmiuçar, escrupulosamente, este retumbante feito dos portugueses, publicou, entretanto, na valiosa revista que dirigiu - Ta Ssi Yang Kuo, série I, Vol. I - Dezembro de 1809, pg. 165/6, a tradução que fez da relação oficial holandesa da autoria de William Bontikoe, comandante do «Groningen», um dos navios da esquadra invasora.A tradução de Marques Pereira é, porém, um tanto diferente duma outra que foi publicada no «Boletim da Província de Macau e Timor» Vol. XV, Nº. 26 de 28 de Junho de 1869.Esclarece Boxer, no seu estudo, que a tradução de Marques Pereira foi feita sobre a versão francesa, publicada em 1725, da (8) Boletim do Governo de Macao, Timor e Solor, Vol. 6, No. 32 de 28-6-1851.
Colecção MOSAICO, Volume XVILUíS GOnzAGA GOMES28relação de Bontikoe, intitulada Journael ofte gedenck-waerdig beschrijvinghe van de Oost Indische Reys. (9)Portanto, para melhor conhecimento da fulminante e decisiva derrota que, os nossos antepassados infligiram aos holandeses, vejamos a narração pouco conhecida do comandante do «Groningen», conforme a tradução publicada no mencionado Boletim, que foi feita dum artigo publicado, no China Magazine, de Março de 1869. (10)A commissão do navio hollandez «Groningen» commandado por Willem Bontikoe, nos mares da China em 1622-1624. Traduzido do hollandez por George Phillips.Eu, Willem Ysbrandsz Bontikoe, fui mandado à China no Groningen, com mais sete navios, commandados todos (9) Existe uma tradução recente em inglês desta obra, cujo título é Willem Ysbrantsz Bontekoe - Memorable Description of the East India Voyage 1618-25, translated from the Dutch by Mrs. C. B. Bodge-Hodgkinson and Pieter Gevl, Londres, 1929.(10) Esta tradução é menos fiel que a de J. F. Marques Pereira.
Colecção MOSAICO, Volume XVILUíS GOnzAGA GOMES29por Kornelis Reyerz van Derzton. O objecto d’esta expedição era a captura de Macau, ou falhando isto, navegar para os «Pescadores», e fazer todos os esforços para estabelecer commercio com a China, d’accordo com as amplas instrucções que nos foram dadas por Jan Pieterzoon Koen, governador de Java. Para a execução dos seus planos tinha elle escripto para os vários lugares onde deviam achar-se os diversos navios, que deviam fazer parte da nossa esquadra, de maneira que todos estivessem prontos a reunir-se-nos na nossa passagem.Entre as cartas que escreveu a este respeito havia uma para Manila, para o commander Willem Jansz, o qual, por certas rasões, tinha navegado de conserva com alguns navios inglezes. N’esta carta recebeu elle ordem de destacar alguns dos seus navios para a nossa esquadra.A 10 d’abril de 1622, partimos de Batavia, e navegamos para o estreito de Balembuan. Oito dias depois encontramos o navio Niew Zeeland, em viagem do Japão para Batavia trazendo consigo dois yachts portuguezes, capturados pela nossa gente perto de Malacca. Nada mais de notável nos aconteceu até a nossa chegada a Macau, a 22 de Junho. A esquadra compunha-se de 15 navios e yachts; e havia também com nosco dois navios inglezes.
Colecção MOSAICO, Volume XVILUíS GOnzAGA GOMES30MakouEmbaixada da Companhia Holandesa das Índias Orientais de Batávia ao Imperador da China, chegando a Macau, 1669
Colecção MOSAICO, Volume XVILUíS GOnzAGA GOMES31As guarnições de todos os navios eram inspeccionadas e exercitadas todos os dias.No dia seguinte ao da nossa chegada aproximaram-se da cidade 3 navios – o Galjas, o Engelsche Beer, e o meu Gro-ningen – e anchorámos em frente d’ella em 3 braças d’agoa na vasante. (11)Determinou-se primeiro que eu e o sobrecarga Bosschert van Delft desembarcassemos à testa da nossa gente. Depois erradamente se determinou que fossem com o navio os dois commandantes mais antigos, e, em consequência d’esta alteração fiquei eu a bordo. 0 commandante em chefe da nossa esquadra desembarcou também, e collocou-se à frente das tropas.No dia 24 ao amanhecer, rompemos um bem sustentado fogo sobre todos os lados da cidade; e, pouco depois, desembar-cou o commandante em chefe com 600 homens. Dois dos yachts aproximaram-se da terra o mais possivel, para estarem promptos para qualquer emergencia, especialmente para favorecer a retirada se fosse repelida a força desembarcada, (11) A citada tradução inglesa de 1929, diz: The 23rd, afternoon, with three of our ships, to wit: Groningen, de Galies and de Engelsche Beer, we came close upthe town and anchored in three fathom at low tide, about to a pedereo-shot from the shore, we shot that evening five shots.
Colecção MOSAICO, Volume XVILUíS GOnzAGA GOMES32e também para cobrir as embarcações meudas, que foram levar até a praia, para que os nossos podessem embarcar, em caso de necessidade. Os portuguezes tinham levantado um entrincheiramento no logar do nosso desembarque; pouca resistencia, porem, offereceram ali, pois apenas começou o ataque retiraram immediatamente para um convento situado no alto d’um monte.Apenas terminou o desembarque, começaram os nossos o ataque corajosamente; fazendo os portuguezes diversas sortidas, mas sendo repelidos sempre. Uma grande desgraça, porem nos aconteceu. Incendiaram-se alguns barris pequenos da polvora, e, como os navios estivessem longe, não foi possivel substitui-los rapidamente. Acconteceu ainda peior que foi serem os portuguezes informados d’esta desgraça por um japonez, que desertou do nosso campo para o d’elles. Nós tencionavamos retirar, conservando em segredo a perda da nossa polvora, o que seria muito facil; mas o inimigo, tendo sido informado da critica posição em que nos achavamos, cahio sobre a nossa gente, que, faltos de munições, não podiam offerecer resistência, sendo muitos victimas d’esta desgraça.Perdemos 120 homens mortos, e quasi outros tantos feridos. Logo no princípio do ataque foi o nosso sobre
Colecção MOSAICO, Volume XVILUíS GOnzAGA GOMES33carga Kornelis Reyersz ferido no estomago por uma balla d’espingarda, curando-se contudo, felizmente d’este ferimento. Logo que os restos da força desembarcada conseguiram chegar a bordo, retirou a esquadra perto d’um quarto de milha, e fomos fazer agoapa a uma ilha ao sul de Macau». (12)––– • –––Ora, parece que, durante muito tempo, pouco se preocu-param os habitantes e as autoridades locais em aprofundar os seus conhecimentos sobre a brilhante vitória que os nossos ante-passados, em momento de inspirada epopeia, alcançaram sobre os holandeses, na memorável tarde de 24 de Junho de 1622.Para a sua curiosidade bastavam-lhes o que se contava de boca em boca através de subsequentes gerações e um precioso documento iconográfico sob a forma dum quadro a óleo, evocativo desse glorioso feito das nossas armas, que, por desamor ou desapego às coisas antigas, ou ainda por abominável incúria, (12) Deve-se dizer que esta tradução está muito longe de ser uma tradução fiel e integral da passagem que vai da pg. 80 a 87, da narração de Bontekoe na citada tradução inglesa de Hodgkinson-Geyl se bem que as referências escamoteadas sejam de pouca relevância para o assunto em questão.
Colecção MOSAICO, Volume XVILUíS GOnzAGA GOMES34levou sumiço, quando é certo que, há uns cinquenta anos, ainda existia no Leal Senado de Macau.Quanto à gratidão, ficavam os seus sentimentos satisfeitos com a realização anual da festividade que o Leal Senado, como representante da cidade, cumpria promover, na véspera e no dia de S. João Baptista, na execução do voto formulado na Casa da Câmara, pelo Senado, em junta de conselho, no mesmo dia da vitória, mas, em que termos expressaram os gratos habitantes esse voto ao Santo que adoptaram para padroeiro, pela miraculosa intervenção sobrenatural que os livrou de serem exterminados pelos batavos, muito superiores em número e armamento, é coisa que ainda nenhum investigador histórico conseguiu apurar. A iniciativa de se comemorar tão glorioso feito das armas nacionais com um monumento condigno, parece que surgiu, só no ano de 1862, partindo do procurador Lourenço Caetano Cortela Marques, como se depreende do parágrafo 6º. da acta da sessão do Senado de 25 de Junho de 1862 (Cod. 19 pg. 98v) :O procurador apresentou o plano, ou desenho do monumento, que se pretende erigir no campo, no mesmo
Colecção MOSAICO, Volume XVILUíS GOnzAGA GOMES35lugar, onde antigamente havia uma cruz, em memoria da felicissima victoria ganhada por esta cidade contra os hollandezes, em 23 de Junho de 1922: cujo plano foi aprovado n’esta sessão; e quanto ás suas despezas, depois de vêr o orçamento, que o dito procurador ficou de apresentar, se tratou de promover dinheiro, ou por meio de uma loteria, que o mesmo procurador ficou encarregado de obter a permissão de exmo. conselho de governo, ou por meio de subscripções voluntarias.No ano seguinte, isto é, em 1863, em que, António Feliciano Marques Pereira publicou o seu trabalho, o aniversário da vitória sobre os holandeses foi comemorado com desusado brilho e entusiasmo, como se verifica pela seguinte notícia, publicada no Boletim do Governo de Macao, Vol. IX, No. 30 de 27/6/1863, pg. 120:Na tarde do dia 23 celebrou-se, feita pelo Senado, a Procissão de voto popular, do milagroso S. João Baptista, testemunho dado a Deos, pelo milagre deste dia ha dois seculos a esta parte, na victoria brilhante, heroismo de armas, e dedicação ao Rei de Portugal, que esta Cidade
Colecção MOSAICO, Volume XVILUíS GOnzAGA GOMES36soube ganhar, e que é uma das mais ricas paginas da sua historia.O acompanhamento da procissão foi formidavel, e a concurrencia popular muito significativa. O préstito ia deslumbrante, fazendo parte delle as principaes autho-ridades do paiz; e os canhões do Monte ribombando ao passar no largo do Senado o milagroso Santo, serviam para nos pintar, com as mais bellas côres, a causa deste voto que fielmente tem sido cumprido pelo Municipio de Macao, e a que as gerações modernas assistem cheias de enthusiasmo, como necessariamente deviam ter assistido os bravos que a historia de Macau aponta, e que ao cessar a peleja, correram fervorosos a prostrarem-se humildes aos pés de Deos, sem se ufanarem da victoria alcançada em luta tal, com coragem e dedicação tão sobrenatural.Sentimos faltar-nos o tempo, e espaço para nos dedicarmos com maiores detalhes a estas suaves recordações dos gloriosos dias do nosso passado, pois são ellas tão bellas, tão elevadas e tão soberbas, que é preciso ser portuguez, para poder avaliar devidamente o que se sente na alma, e o que occorre à mente, quando se folheam as paginas brilhantes da nossa historia, em todos os pontos onde se
Colecção MOSAICO, Volume XVILUíS GOnzAGA GOMES37hastêa, a Bandeira das cinco chagas, e onde desde remotas eras só se tem ouvido esses hymnos de amor, que sôam tão fortemente e que dizem - Deos, Patria e Liberdade.Entretanto, em 1865, chegada a época de se promover mais uma comemoração do glorioso feito, sendo Lourenço Caetano Cortela Marques, presidente do Senado, entendeu ele que tão importante acontecimento deveria ser melhor conhecido, motivo por que endereçou o oficio, que adiante se transcreve, ao Governador Geral dos Estados da India, sendo reproduzido do «Livro de Registo de Oficios Recebidos e Expedidos de 27 de Dezembro de 1852 até 23 de Abril de 1870» do Arquivo do Senado, Códice 91, pg. 60:Illmo e Exmo. Snr.Dezejando este Leal Senado obter mais esclarecimento sobre a glorioza batalha alcançada pelos Portuguezes sobre os Hollandezes em 1622, quando estes vierão atacar Macao não tem sido possivel encontrar nos Archivos da Camara e da Fazenda memoria que diga respeito a esse feito d’Armas Portuguezas. Occorre ao Leal Senado a
Colecção MOSAICO, Volume XVILUíS GOnzAGA GOMES38indica (sic.) (13) que talvez nos Archivos da Capital d’India Portugueza se encontre, visto que nesse tempo, estando esta Cidade sugeita ao Governo de Goa o Leal Senado teria dado parte de todo o occorrido. Este Leal Senado pede encarecidamente a V. Exa. haja a bem do serviço nacional e Real mandar vêr se se depare com alguma memoria nos Archivos de Goa, e ter a bondade de fazer transmitir ao m.mo Senado = D.s G.e a V. Exa. Macao em Sessão de 28 de Junho de 1865. Eu M. F. Da Roza Esc.m da Camara a fiz escrevi e sobscrevi == Illmo e Exmo. Snr. G.or G.l dos Estados da India = L. Marques = C. L. de Souza, = J. d’Almeida = V. Portaria = J. P. da Silva = J. B. Goularte.Não contente com este ofício, Lourenço Marques enviou uma 2ª. via, um mês depois, isto é, em 28 de Julho desse mesmo ano.é na verdade estranho que o Senado não tivesse encontra-do nos seus arquivos ou da Fazenda qualquer memória respeitante a tal feito de armas, porquanto tal memória ainda hoje existe, co-piada no Livro de registo da correspondencia recebida e expedida (13) ideia.
Colecção MOSAICO, Volume XVILUíS GOnzAGA GOMES39desde 9 de Agosto de 1710 até 7 de Setembro de 1768, códice 68, com o título Rellação da Victoria q a Cidade de Macao na China teve dos Hollandezes aos 24 de Junho no anno de 1622, e foi tres-ladado no anno de 1754, a qual por ter já sido publicada nos Arqui-vos de Macau, Vol. I, pg. 85, nos abstemos de a reproduzir.Estranho, também, não conhecer o Senado o trabalho de António Feliciano Marques Pereira, publicado apenas três anos atrás, no citado Boletim do Governo, e que, segundo afirma Boxer, foi «elaborado à vista de documentos coevos no cartório do Senado e algures que o autor conseguiu consultar, mas que já não existem».Como quer que seja, a resposta do Governador Geral dos Estados da India não tardou, respondendo o mesmo, dois meses depois, no seguinte teor:Nº. 34 India Portugueza Governador G.lNova Goa 23 de Setembro de 1865.Illmos SenhoresEsse Leal Senado em Officio de 28 de Junho ultimo me pede mande ver se nos Archivos de Goa se depara com alguma
Colecção MOSAICO, Volume XVILUíS GOnzAGA GOMES40memoria sobre a victoria que os Portuguezes alcançaram dos Hollandezes em defensão da Cidade de Macau no anno de 1622; e dezejando eu satisfazer mui exactamente os dezejos do Leal Senado, mandei fazer as averiguaçoens necessárias, das quaes rezultou a certeza de não haver nestes Archivos as memorias requeridas, porque, correspondencias de Macau não as ha hoje no Archivo anteriores ao anno de 1639, e as correspondencias do Governo da India com o de Sua Magestade em Lisboa, relativas à primeira metade do seculo 17o. foram remettidas a Lisboa no século passado; mas sei que estas ultimas correspondencias, entre as quaes está de certo o anno de 1622, e os proximos seguintes se guardam no Real Archivo da Torre do Tombo de Lisboa, em volumes, que tem por titulo == Documento da India = Acresce que no Cathalogo dos Manoscriptos da Biblioteca Publica da Cidade de Evora, ordenado pelo actual Secretario deste Governo Geral, e que corre impresso, se faz menção de um escripto existente na dita Bibliotheca no Codice CXVI/2-II a no. 38, cujo titulo é Relacion de la vitoria que la Ciudad de Macau tubo de los Olandeses dia de Sam Juan Baptista deste ano de 1622, recojida de la que envio el Padre Visitador de la compania y de la misma Ciudad de Macau para esta Ciudad de Manila. Começa este papel pelas palavras = Este ano de 1622
Colecção MOSAICO, Volume XVILUíS GOnzAGA GOMES41binieron los Olandeses = é de letra contemporanea; e nas costas tem duas notas, uma por letra tambem contemporanea que diz = de la vitoria de Macau para el Padre Morejon ==, e outra um pouco mais moderna diz = falça relação de vitória de Macau. Esta ultima nota nos adverte que a relação se deve ler com certa cautella; mais quando fôr confrontada com os documentos Officiaes, que digo devem estar na Torre do Tombo, apparecerá a verdade inteira == Para tudo o mais que for do serviço desse Leal Senado fico muito prompto = D.s G.e a V. Sa. Nova Goa 22 de Setembro de 1865. Illmos Snres Prezidente, e Vereadores do Leal Senado de Macau.O Governador GeralJosé Ferreira PestanaQuanto ao Monumento da Vitória, foi construído com o fundo que, originalmente, se constituiu para a erecção dum monumento a S. João Baptista e dos escrúpulos e receio de melindres em erigi-lo, nos elucida o seguinte Officio do Prezidente do Leal Senado da Camara, a S. Ex.a o Governador da Provincia respectivo ao Monumento de Sm. João Baptista, que se encontra registado a fl. 92v. do códice 90 do Arquivo do Leal Senado:
Colecção MOSAICO, Volume XVILUíS GOnzAGA GOMES42Illmo e Exmo Snr.Não me foi possivel rezolver a dar destino ao pequeno fundo de quatrocentas patacas e seus juros, creado para o Monumento de S.m João Baptista, ao cargo da Camara desta Cidade, que prezido, em vista das devergencias, em que estão os Vogaes della, já por que a obra poderia accarretar serias responsabilidades se se derem queixas de alguns istrangeiros, que se reputem offendidos por isso, já por ser huma deliberação alheia da competencia das Camaras, as quaes sob pena de nullidade, não são authorisadas para tratar de assumpto algum, senão do que se acha positivamente consignado nas Leis, igoalmente sendo isto hum projecto de huma das Camaras transactas, haverá cousa de 8 annos, e existindo hum fundo para este fim, se faz necessaria huma decizão Superior para se dar andamento ao negocio; he neste sentido que a Camara me incumbe como seo Prezidente de communicar a V. Exa este objecto não duvidando fazer a devida entrega do refferido fundo ao Cidadão Lourenço Marques, encarregado de mandar vir o Monumento, se V. Exa for servido assim determinar.
Colecção MOSAICO, Volume XVILUíS GOnzAGA GOMES43D.s g.e a V. Exa p.r M.tos an.sMacao 1o. de Fevereiro de 1869Illmo e Exmo Snr ConselheiroAntonio Sergio de Souza, ViceAlmirante; e Governador da Provincia de Macao e Timor e suas Dependencias.assignado Felix Hilario d’AzevedoPrezidente da CâmaraA este ofício, o governador António Sérgio de Souza deu a seguinte resposta:Illmo. Snr.Em resposta ao Officio de V. Sa. No. 4 cumpre-me dizer a V. Sa. que deve ser entregue ao Cidadão Lourenço Marques pelas razoens por V. Sa. allegadas, o fundo de $400 e seus juros, importancia da subscrição a que V. Sa. se refere, para que o ditto Cidadão lhe dê devida applicação.
Colecção MOSAICO, Volume XVILUíS GOnzAGA GOMES44D.s G.e a V. Sa.Macao 3 de Fevereiro de 1869Illmo Snr Feliz Hilario d’AzevedoPrezidente da Camara de Macaoassignado Antonio Sergio de SouzaGovernadorA pedra fundamental para o monumento que Carlos José Caldeira, por incumbência do Leal Senado, encomendara a Manuel Maria Bordalo Pinheiro, pai do tenente coronel de artilharia Feliciano Henrique Bordalo Proste Pinheiro, que prestou notáveis serviços na Direcção das Obras Públicas desta província, quando da reconstrução dos edifícios e reparações dos estragos causados pelo desastroso tufão de 1874, foi solenemente lançada, em 23 de Junho de 1870 e assim descreve o Boletim da Provincia de Macau e Timor, Vol. XVI, Nº. 26 de 27/7/1870, esta cerimónia:Collocou-se, no dia 23 do corrente às 6 horas da manhã, a primeira pedra do alicerce sobre que hade alevantar-se um padrão de gloria, que recorde à posteridade um dos mais brilhantes feitos dos nossos maiores.
Colecção MOSAICO, Volume XVILUíS GOnzAGA GOMES45Foi S. Ex.a o Governador celebrar esta cerimonia e vio à roda de si quasi todos os funcionarios civis e militares, que anuiram solicitos ao convite de S. Exa.; patenteando assim a sua veneração por tudo que signifique gloria das armas portuguezas, desde tanto acostumadas a vencer.Teve lugar a solemnidade na Praça da Victoria, junto da Flora Macaense, na estrada que por S. Lazaro conduz à porta do Cêrco.Depois de leitura do auto que foi assignado por todos os funcionários presentes foi elle encerrado num cofre com as moedas nacionaes como é d’uso praticar-se nestes actos.Em seguida S. Ex.a o Governador deitou a primeira colher de cal para segurar ao solo a pedra fundamental de todo o alicerce - e apoz elle algumas outras autoridades pratica-ram egual cerimonia.Foi uma festa toda patriótica e que assignalou um dia nunca esquecido pelo povo de Macau.No sitio destinado a receber o monumento já existia uma pilastra de pedra, que commemorava o feliz resultado da brava peleja, travada ali pelos moradores de Macau no dia 21 de junho do anno de 1622 contra uma expedição hollan-
Colecção MOSAICO, Volume XVILUíS GOnzAGA GOMES46deza, que tentava assenhorear-se desta cidade, como que desconhecendo quanto valor e brio usam os portuguezes mostrar sempre que o amor da patria os incita as mais arrojadas empresas para defesa da sua nacionalidade, e reivindicação de seus sagrados direitos.O monumento foi mandado construir em Lisboa por iniciativa do leal senado, e ouvimos que se espera no primeiro transporte vindo d’aquella cidade.Será dia de grande festividade para os macaenses aquelle em que se inaugurar um dos padrões de suas passadas glorias, e o nosso pequeno paiz, abrindo aos contempo-raneos mais uma vez uma das paginas brilhantes de sua historia, dará ideia da grandesa de seus fastos e do quanto avalia as suas tradições que se perpetuam, brilhantes sempre, apezar dos muitos revezes que ultimamente têem pretendido anniquilal-o.O texto do auto desta cerimónia reza o seguinte:Auto da solemnidade da collocação da pedra funda-mental do monumento, que se vae erigir à commemoração da victoria alcançada em Macau pelos portuguezes contra a frota
Colecção MOSAICO, Volume XVILUíS GOnzAGA GOMES47hollandeza, que em vinte e três de junho do anno de mil seiscen-tos e vinte e dois desembarcou na praia de Cacilhas.Aos vinte e três dias do mez de junho do anno do nascimento de Nosso Senhor Jesus Christo de mil oitocentos e setenta, n’esta cidade do Santo Nome de Deus de Macau na China e Praça da Victoria, sendo governador o conselheiro vice-almirante graduado António Sérgio de Sousa e na presença dos chefes das repartições do estado e mais funccionarios civis e militares, se procedeu a cerimonia da collocação da pedra fundamental do monumento que se ha de erigir, como recordação do triumpho, obtido em Macau contra uma força hollandeza no dia vinte e três de junho do anno de mil seiscentos e vinte e dois, e por proposta e iniciativa do leal senado da camara, como se vê da junta copia da acta da sessão respectiva.Este auto depois de assignado ficará depositado no cofre para este fim, bem como as moedas nacionaes, soldando-se em seguida o referido cofre, devendo uma copia d’este auto ser guardada no archivo do leal senado da camara.Em seguida se procedeu à colocação do mesmo cofre na cavidade da pedra fundamental do monumento, procedendo as formalidades do estylo. E para documento authentico de que esta
Colecção MOSAICO, Volume XVILUíS GOnzAGA GOMES48solemnidade se fez, pela forma que dito fica lavrei e assignei o presente auto: eu secretario das obras publicas - Está conforme. - Antonio Augusto Ferreira, alferes, secretario - Antonio Sergio de Sousa - Antonio Manuel Pereira - Joaquim Peres da Silva - Francisco d’Assis e Fernandes - Antonio Ferreira de Lacerda, juiz de direito - Antonio Sergio de Sousa Junior, secretario geral interino do Governo - M. P. Simões, secretario da junta de fazenda - Jeronimo Pereira Leite, superintendente interino e commandante da policia - Domingos José d’Almeida Barbosa, tenente coronel, comandante do batalhão e director das obras publicas - L. Marques - J. E. Scarnichia, capitão do porto - João Corrêa Paes d’Assumpção, presidente do lançamento de decimas - Francisco Joaquim Marques - B. S. Fernandes - Domingos de Sousa Rodrigues, capitão tenente, commandante da corveta Sá da Bandeira - Antonio José Caminha 1º. tenente, commandante da escuna Principe Carlos - Barão do Cercal, tenente coronel, commandante do batalhão nacional - João Monteiro Pinto da Fonseca Vaz, 2º. tenente da armada - Ernesto Augusto do Valle, 2º. tenente-Guilherme Maria Mayer, facultativo naval de 1º. classe- Augusto Ludgero Vichi, official de marinha - Antonio Duarte Graça, machinista de 2ª. classe - José Maria Teixeira Guimarães, 2º. tenente da armada - Domingos Lopes da Silva,
Colecção MOSAICO, Volume XVILUíS GOnzAGA GOMES49O Porto Interior, reproduzida da Hèong-Sán Ün-TchiNesta gravura encontram-se anotados da esquerda para a direita; a Porta do Cerco, o Templo de Ling-Fông, o Posto Militar Chinês de Mong Há, o Cais da Alfândega Chinesa, a Fortaleza da Guia, a Igreja de St.º Agostinho, o Colégio de S. José, a Ermida da Penha, o Templo da Barra, o Posto da Alfândega Chinesa e a Fortaleza de Barra.Três caravelas inglesas estão ancoradas no Porto Interior junto da Ilha verde, que está representada invertidamente e ainda não ligada a Macau — e duas chalupas portuguesas em frente da Barra.Voltando a gravura, vê-se da esquerda para a direita; a Ilha de Bugio, a Ribeira Grande, a Casa Branca e a Ilha da Lapa.
Colecção MOSAICO, Volume XVILUíS GOnzAGA GOMES50capellão da corveta Sá da Bandeira - Albano Alves Branco, 2º. tenente - John Norton Jr., machinista naval de 1ª. classe - Januário Agostinho de Almeida, major do batalhão de Macau - Caetano Gomes da Silva, capitão - André Pires Trolhos, capitão do batalhão de Macau -Manuel d’Azevedo Coutinho, capitão - Elias José da Silva, capitão - Francisco Augusto Ferreira, tenente ajudante do batalhão de Macau - Henrique Augusto Dias de Carvalho, tenente - Joaquim P. S. de Pinto e Sousa, tenente - Raphael das Dores, alferes - José Fernandes d’Oliveira, tenente quartel mestre - Luiz de Balsemão de Sá Nogueira, capitão - Carlos Vicente da Rocha, capitão - José Joaquim d’Azevedo, tenente - Lucio d’Azevedo, alferes - Antonio N. Brandão - F.G.F. Corte Real - Carlos Dias da Costa, tenente - Bernardo Maria das Neves d’Araujo e Rosa - José da Silva Reis, alferes ajudante - Vicente Caetano da Rocha - Tercio da Silva.––– • –––O Monumento da Vitória é composto por um soco octogonal sobre o qual se assenta um fuste canelado, tendo nele aplicado as duas cartelas, no estilo do século XVII, e encimado
Colecção MOSAICO, Volume XVILUíS GOnzAGA GOMES51por dois escudos, um com as armas de Portugal e outro com as da Cidade, ornados de carvalho e loiro. é rematado, no topo, pela coroa real portuguesa.O autor do Monumento da Vitória foi-o também do busto em bronze do Príncipe dos Poetas Portugueses, que se encontra colocado na Gruta de Camões, em Macau.Concluído o monumento foi o mesmo expedido para Macau, pelo governo da Metrópole, livre de frete, no vapor Saida, que em Junho de 1870 transportou um contingente militar para esta cidade sendo inaugurado, no dia 26 de Março de 1871, ainda pelo governador, Conselheiro Vice-Almirante graduado, António Sérgio de Sousa.
Colecção MOSAICO, Volume XVILUíS GOnzAGA GOMES52Na cartela do lado das armas de Portugal lê-se a seguinte inscrição:PARA PERPETUAR NA MEMORIA DOS VINDOUROSA VITORIAQUE OS PORTUGUEZES DE MACAOPOR INTERCESSÃO DO BEMAVENTURADOS. JOÃO BAPTISTAA QUEM TOMARAM POR PADROEIROALCANÇARAMSOBRE OITOCENTOS HOLANDESES ARMADOSQUE DE TREZE NÁOS DE GUERRA CAPITANEADASPELO ALMIRANTE ROGGERSDESEMBARCARAM NA PRAIA DE CACILHASPARA TOMAREM ESTA CIDADEDO SANTO NOME DE DEUS DE MACAOEM 24 DE JUNHO DE 1622
Colecção MOSAICO, Volume XVILUíS GOnzAGA GOMES53e na das armas da cidade encontram-se gravados os seguintes dizeres:NO MESMO LOCAL ONDEUMA PEQUENA CRUZ DE PEDRACOMEMORAVAA ACÇÃO GLORIOSA DOS PORTUGUESES MANDOUO LEAL SENADOLEVANTAR ESTE MONUMENTONO ANO DE 1864O sítio, onde se erigiu este monumento, ficou sendo desig-nado pelo nome de Campo de Vitória, sendo também conhecido por Campo dos Arrependidos, pois era ali que noutros tempos, os condenados iam expiar, no patíbulo, os seus crimes.
Colecção MOSAICO, Volume XVILUíS GOnzAGA GOMES54
Colecção MOSAICO, Volume XVILUíS GOnzAGA GOMES55O Almirante Cornelis Reijersen, comandante da frota enviada pelos Holandeses para conquistar Macau, é referenciado várias vezes durante a obra, e o seu nome sofre alterações em cada transcrição e citação: Cornelio Regres e Kornelis Reyerszoon, pg. 7; Reijersen, pg. 15; Cornelio Regres, e Kornelis Regerszoon, pg. 21; Kornelis Reyerz van Derzton, pg. 29; Kornelis Reyersz, pg. 33; Almirante Roggers, pg. 52.nOTA DOS EDITOrES