MOSAICOVOLUME VIJOrgE A.H. rAngELLuís Gonzaga GomesNo Centenário de
Colecção MOSAICO, Volume XVAntónIO AreStA64
Colecção MOSAICO, Volume VIJOrge A.H. rAngelMOSAICOVOlUMe VIJOrge A.H. rAngelLuís Gonzaga GomesNo Centenário deMacau, Novembro de 2007
Colecção MOSAICO, Volume VInO CentenárIO de lUíS gOnzAgA gOMeS título No Centenário de Luís Gonzaga Gomes Autor Jorge A.H. Rangeleditor Instituto Internacional de MacauColecção MOSAICOVolume VICoordenação editorial Luís Sá Cunhadesign Victor Hugo DesignImpressão Tipografia Welfare tiragem 500 exemplaresMacau, Novembro de 2007ISBN 978-99937-45-12-9Edição integrada no programa das comemorações do Centenário do Nascimento de Luís Gonzaga Gomes – (Março de 2007/Julho de 2008), e apresentada durante o III Encontro das Comunidades Macaenses, Macau, 25 de Novembro a 2 de Dezembro de 2007.Patrocínio da Fundação Jorge Álvares
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Colecção MOSAICO, Volume VIJOrge A.H. rAngelnO CentenárIO de lUíS gOnzAgA gOMeS Homenagem ao maior promotor do intercâmbio cultural luso-chinêsJorge A.H. Rangel, Presidente do Instituto Internacional de Macau “… houve em Macau um homem silencioso e tenaz (…)que dedicou grande parte da sua vida ao estudo da línguae da cultura chinesa, ao mesmo tempo que da ocidental,e ao meritório trabalho de as dar a conhecer uma à outra.Esse homem foi Luís Gonzaga Gomes.”Graciete Nogueira Batalha, 25 de Junho de 1991.“Luís Gomes foi o melhor e o mais prolíficohistoriador macaense nestes quatrocentos anosde vida desta terra…”P.e Manuel Teixeira, “Liceu de Macau”, 1986
Colecção MOSAICO, Volume VInO CentenárIO de lUíS gOnzAgA gOMeS “Foi um expoente autêntico da cultura de raiz macaense, e foi a sua terra a grande inspiradora dos seus escritos.” Túlio Tomás, “Como vi Luís Gonzaga Gomes”, Revista de Cultura nº 23, II Série, 1995.
Colecção MOSAICO, Volume VIJOrge A.H. rAngelUMA COMeMOrAçãO dIgnAOnze organismos da sociedade civil de Macau firmaram um protocolo de cooperação, em Julho de 2007, para partilharem recursos com vista ao desenvolvimento de um programa condigno de comemoração do centenário do nascimento de Luís Gonzaga Gomes (11 de Julho de 1907 – 20 de Março de 1976), professor, escritor e historiador macaense, que deu um contributo de excepcional relevância para aproximar as comunidades locais, viabilizar o diálogo cultural luso-chinês, divulgar a História e reforçar a identidade deste território, agora Região Administrativa Especial da República Popular da China, deixando aos vindouros uma obra da maior importância para a memória de Macau.Em vários artigos publicados em Macau, desde Setembro de 2004, e em muitas conversas com entidades públicas ou associativas, fui chamando a atenção para a necessidade de, com alguma urgência, se definirem as entidades a envolver e os meios a disponibilizar. Com bastante antecedência, quis também sugerir iniciativas que me pareceram adequadas e facilmente exequíveis, como homenagem justíssima a essa personalidade singular e à sua obra, até porque é sempre bom lembrar que o sucesso da criação daquela Região Administrativa Especial(1) só foi possível graças à intervenção lúcida e persistente de muitos
Colecção MOSAICO, Volume VInO CentenárIO de lUíS gOnzAgA gOMeS homens e mulheres que, nas mais diversas circunstâncias e ao longo dos tempos, quiseram e puderam dar o melhor do seu saber e dos seus esforços a Macau. Neste contexto, Luís Gomes ocupou, sem dúvida, um lugar cimeiro na vertente cultural, além de ter desenvolvido uma exemplar actividade cívica.As sugestões(2), reiteradamente apresentadas, foram, resumidamente, as seguintes:a) a designação, em momento julgado oportuno, da entidade coordenadora das comemorações, devendo a escolha recair num organismo oficial com sensibilidade para entender a importância da efeméride;b) o convite a outras instituições públicas e a associações locais para se fazerem representar na comissão coordenadora, cabendo-lhe a preparação do respectivo programa geral;c) a publicação da fotobiografia de Luís Gonzaga Gomes por uma entidade pública ou com os necessários meios por ela facultados;d) a reedição dos seus trabalhos mais relevantes e significativos;
Colecção MOSAICO, Volume VIJOrge A.H. rAngele) a divulgação da sua obra nas escolas de Macau;f) o redimensionamento do prémio escolar que tem o seu nome;g) a realização de palestras e a publicação de artigos alusivos ao centenário;h) a obtenção da colaboração da Teledifusão de Macau para a apresentação de programas sobre a vida e a obra do escritor, na rádio e nos canais televisivos;i) o levantamento e o tratamento do seu espólio;j) a organização de exposições fotográfica e bibliográfica;k) a reactivação do Cenáculo Luís Gonzaga Gomes; el) a organização duma sessão solene comemorativa em Macau e de sessões evocativas nas associações macaenses espalhadas pelo mundo.O tempo passou depressa e, infelizmente, a poucos dias do centenário (11 de Julho), constatou-se que nenhuma entidade fora designada para dar cunho oficial às comemorações e garantir-lhe a dimensão e a coordenação desejáveis. Ficou, assim, posta à prova a capacidade da sociedade civil para, de forma descentralizada, assumir esta irrecusável responsabilidade, fazendo o que estiver ao alcance de cada
Colecção MOSAICO, Volume VInO CentenárIO de lUíS gOnzAgA gOMeS 0organismo e em conformidade com os respectivos objectivos estatutários.Quanto às instituições que deviam tomar parte, foram identificadas, desde logo, as seguintes, independentemente de outras que poderiam associar-se: o Instituto Cultural, o Instituto para os Assuntos Cívicos e Municipais, a Universidade de Macau e o seu Departamento de Português, o Instituto Politécnico de Macau, a Direcção dos Serviços de Educação e Juventude e a Escola que tem Luís Gonzaga Gomes como patrono, a Escola Portuguesa de Macau, a Biblioteca Central e o Arquivo Histórico, o Conselho das Comunidades Macaenses, a APIM – Associação Promotora da Instrução dos Macaenses, o Instituto Internacional de Macau (IIM), o IPOR – Instituto Português do Oriente, o Círculo dos Amigos da Cultura, o Elos Clube de Macau, a Associação dos Macaenses, o Clube de Macau, o Rotary Clube de Macau, a TDM – Teledifusão de Macau e as Fundações ligadas a Macau.Na ausência da entidade “tutelar”, quis o Instituto Internacional de Macau (IIM) avançar com algumas diligências no sentido de obter a adesão de outros organismos associativos macaenses, incentivando também algumas das instituições
Colecção MOSAICO, Volume VIJOrge A.H. rAngelpúblicas atrás referidas a uma participação tão alargada quanto possível. Foi animador verificar que começaram logo a tomar forma diversos projectos e acções, como, por exemplo, a “refundação” do Cenáculo Luís Gonzaga Gomes, graças à esclarecida intervenção do escritor Luís Sá Cunha, que foi o seu entusiástico promotor quando lançado informalmente em 1991; uma nova selecção, já em curso, de trabalhos de Luís Gomes anteriormente publicados na imprensa local, para reedição; algumas actividades que a Escola Secundária Luso-Chinesa que ostenta o seu nome pretendia levar a efeito; artigos a publicar em jornais; e a inaguração duma sala do IIM com o seu nome, ornada com motivos alusivos à sua vida e obra. Também foi proposta ao Conselho das Comunidades Macaenses a inclusão duma homenagem durante o Encontro das Comunidades marcado para Novembro/Dezembro de 2007. Ficou, assim, garantido que o centenário não ficará esquecido, podendo muito mais ser feito ao longo dos meses, se o engenho, a vontade e os meios não faltarem.
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Colecção MOSAICO, Volume VIJOrge A.H. rAngeldAdOS bIOgráfICOS dO eSCrItOrLuís Gonzaga Gomes nasceu em Macau no dia 11 de Julho de 1907 e consagrou a vida e o talento a um fecundo e intenso labor intelectual, até que a morte o levou em Março de 1976(3).Enquanto aluno do Liceu de Macau, onde teve grandes mestres como D. José da Costa Nunes, Camilo Pessanha e Manuel da Silva Mendes, foi assíduo colaborador do jornal estudantil “A Academia”. Neste interessante projecto jornalístico juvenil, que teve uma efémera existência (de Outubro de 1920 a Junho de 1921), participaram os irmãos Paço d’Arcos, filhos do Governador Henrique Monteiro Correia da Silva, que se distinguiriam, mais tarde, no campo das letras. Luís Gomes tornou-se amigo deles e trocou correspondência com o laureado escritor Joaquim Paço d’Arcos durante anos.Além de intérprete oficial, Luís Gomes foi professor primário, ascendendo, por mérito, a director da Escola Primária Pedro Nolasco da Silva, tendo sido também inspector, substituto, do ensino primário. Leccionou, no Liceu, Chinês e Inglês, línguas que também ensinou a funcionários públicos, sendo de realçar que foi, igualmente, professor de Português de altos funcionários
Colecção MOSAICO, Volume VInO CentenárIO de lUíS gOnzAgA gOMeS chineses colocados em Macau, em organismos ligados à República Popular da China.O seu apego ao trabalho e reconhecida capacidade recomendaram a sua escolha para elevadas funções, como as de conservador do Museu Luís de Camões, director da publicação “Arquivos de Macau”, director-bibliotecário da Biblioteca de Macau, vice-presidente e presidente, em exercício, da Comissão Administrativa do Leal Senado, vogal da Comissão de Terras, secretário da Comissão da Defesa e Valorização do Património Artístico e Histórico da Província de Macau, vogal-secretário da Comissão Provincial da União Nacional e secretário da comissão de instalação do Arquivo Central de Macau. Em organismos da sociedade civil, distinguiu-se como presidente do Rotary Clube de Macau, secretário e grande impulsionador do Círculo de Cultura Musical e do Círculo Cultural de Macau, secretário da Associação Desportiva Macaense e da União Desportiva Macaense, tesoureiro do Grupo de Amadores de Teatro e Música e director do Boletim do Instituto Luís de Camões, nele publicando muitos trabalhos sobre temas históricos e culturais. A comunicação social foi também uma das suas paixões, tendo sido, além de director
Colecção MOSAICO, Volume VIJOrge A.H. rAngelda Emissora de Macau, correspondente da Agência ANI, chefe de redacção e administrador da revista “Renascimento”, secretário-geral e redactor do diário “Notícias de Macau” e colaborador de numerosas publicações periódicas locais, nacionais e estrangeiras.Deixou obra notável, entre traduções, compilações, artigos publicados em jornais e revistas e trabalhos de investigação histórica e etnográfica. “Lendas Chinesas de Macau” (1951), “Chinesices” (1952), “Curiosidades de Macau Antiga”(1952), “Festividades Chinesas” (1953), “Arte Chinesa” (1954), “Efemérides da História de Macau” (1954) e “Páginas da História de Macau” (1966), todos da colecção “Notícias de Macau”, são livros seus, muito apreciados, mas já esgotados.Pouco antes de falecer, mesmo estando já bastante debilitado, aceitou a incumbência do Governador Garcia Leandro, em 1974, de fazer um resumo da História de Macau, que foi a sua última produção literária conhecida. Foi publicado com o título “Algumas Noções sobre a História de Macau” na Revista de Cultura (no. 23, II Série), de Abril/Maio de 1995.
Colecção MOSAICO, Volume VInO CentenárIO de lUíS gOnzAgA gOMeS Em 1977 foi colocado o seu busto, da autoria do escultor italiano Oseo Acconci, numa das salas do então Museu Luís de Camões, sendo outro, do mesmo artista, instalado, em 1984, no Jardim de S. Francisco. Este foi, já no final da década de 90, transferido para o Jardim dos Poetas, entretanto inaugurado.O nome de Luís Gonzaga Gomes foi dado a uma rua da Zona dos Aterros do Porto Exterior, para onde a cidade nova se expandiu, bem como à Secção Histórica do Museu Luís de Camões, por deliberação municipal. O Estado Português distinguiu-o com o grau de Cavaleiro da Ordem do Infante D. Henrique e, por decisão do Governador Vasco de Almeida e Costa, foi-lhe atribuída, a título póstumo, a Medalha de Valor, a mais alta condecoração de Macau na vigência da administração portuguesa. Em sua memória foi criado o prémio escolar Luís Gonzaga Gomes. Também lhe foi atribuída uma condecoração pelo Governo Francês.
Colecção MOSAICO, Volume VIJOrge A.H. rAngelnA MeMórIA de qUeM O COnHeCeUAtentemos, a seguir, à imagem que dele transmitiram diversas pessoas que com ele privaram, na vida profissional ou na actividade cultural e associativa.No prefácio do volume intitulado “Macau, Factos e Lendas” (1a. edição, 1979), Graciete Batalha, professora e filóloga, escreveu: “Luís Gonzaga Gomes foi talvez a personalidade macaense mais singular e mais curiosa dos últimos tempos. Não tendo constituído nunca uma família, ocupou os seus dias num labor sem tréguas e lançado para os campos mais diversos, desde o estudo à Administração Municipal, desde a política ao desporto. Mas as suas paixões mais constantes foram duas: a terra natal e a música. A Macau – pontinho de terra minúsculo, porém estuante de vida e carregado de História, dedicou Luís Gomes a maior parte das suas horas solitárias, numa devoção constante e criadora. Mais de 30 volumes publicados, mais de 20 jornais e revistas em que colaborou ou que dirigiu, atestam bem a sua determinação de divulgar a história e a cultura macaense ou de contribuir para o intercâmbio cultural luso--chinês. Sob o signo deste intercâmbio, foi um dos fundadores e director do Boletim do Instituto Luís de Camões, do qual, em sua vida, se editaram nove volumes, com três ou quatro
Colecção MOSAICO, Volume VInO CentenárIO de lUíS gOnzAgA gOMeS tomos cada, sendo raro o que não contenha um artigo seu. (...) Com suas humanas limitações, deixou uma obra de valor incontestável para quem queira conhecer Macau. (...) Morreu com 69 anos, em Março de 1976. Solitário como tinha vivido. E creio que só com o tempo Macau compreenderá bem quanto lhe ficou devendo”.A sua modéstia e a sua solidão eram, de facto, os traços mais visíveis da sua personalidade, contrastando com o reconhecido valor da sua obra. Nos dados biográficos que o P.e Manuel Teixeira compilou para o Boletim do Instituto Luís de Camões (vol. X, nos. 1 e 2, 1976) e desenvolveu na 3a edição do livro “Liceu de Macau” (Direcção dos Serviços de Educação, 1986), é referido que “Luís Gonzaga Gomes tomou parte em quase todas as iniciativas artísticas e culturais desta sua terra natal” e “foi o melhor e o mais prolífico historiador macaense nestes quatrocentos anos de vida desta terra, mas tão modesto que se escondia no pó dos arquivos, sendo raro vê-lo em qualquer festa ou divertimento. Era um verdadeiro anacoreta”. Também Joaquim Morais Alves, no prefácio da 3ª edição de “Chinesices” (Instituto Cultural de Macau, 1984), lembrou
Colecção MOSAICO, Volume VIJOrge A.H. rAngel“o homem de poucas palavras, procurando apagar-se e não dar nas vistas” e cujos “méritos e serviços que prestou à sua terra e a Portugal só após a sua morte foram verdadeiramente reconhecidos”. Morais Alves, outra personalidade marcante de Macau, que recordamos sempre com profunda saudade, foi seu colega na vida profissional e vizinho no muito simpático bairro Governador Albano de Oliveira, onde apenas viviam dezasseis famílias em oito edifícios de dois pisos, o que lhe permitiu conhecê--lo bastante bem: “simples, modesto, despretensioso, era muito desprendido do dinheiro pois o que ganhava investia em discos e livros novos e velhos que procurava nos alfarrabistas. Foi alvo, por vezes, de invejas mesquinhas que, estóica e indiferentemente, suportava. (...) Deixou uma obra muito meritória, a sua vasta cultura foi reconhecida. Deixou uma riquíssima biblioteca pessoal que, felizmente, após o seu falecimento, foi adquirida pelo Governo de Macau e cá se encontra acessível aos estudiosos da História de Macau”. A circunstância de terem trabalhado juntos, primeiro no jornal “Notícias de Macau”(5) e posteriormente no Leal Senado(6), deu a Morais Alves o “ensejo de constatar as suas qualidades de trabalhador incansável, de pessoa muito recolhida sobre si própria, sempre agarrado aos livros, esforçando-se por aumentar o seu saber e registar memórias da vida e da História
Colecção MOSAICO, Volume VInO CentenárIO de lUíS gOnzAgA gOMeS 0de Macau”, sendo “impossível, em poucas palavras, dar uma imagem completa e exacta da vida e obra de Luís Gonzaga Gomes, tão multifacetada era a sua personalidade”. O cronista Afonso Correia, contemporâneo e admirador de Luís Gomes, dedicou-lhe algumas páginas do seu livro “Macau, terra nossa” (Macau, Imprensa Nacional(7), 1951), testemunhando que a preocupação constante de Gomes, “um bibliófilo de aturado estudo” era “trabalhar sempre, cultivar-se cada vez mais”, não conhecendo ele, em Macau, “um intelectual que tanto se firmasse na ânsia de iluminar o cérebro, com o desejo de repartir pelas gentes largas somas da sua riqueza espiritual.” Afonso Correia também sublinhou a sobriedade e a modéstia de Luís Gomes e “o seu amor às coisas chinesas, aos costumes, à civilização, às lendas, às superstições, à mostra dos preconceitos, à arte, à literatura do povo chinês, através dos tempos”, elogiando-lhe o saber e as formas da sua transmissão “na sua cadeira de professor, através da rádio, da imprensa local, mormente nas colunas do ‘Notícias de Macau’, da palestra, da conferência, do ensaio ou do livro”.Túlio Lopes Tomás, pedagogo cultíssimo, que foi Chefe dos Serviços de Educação do Governo de Macau e vice-reitor da
Colecção MOSAICO, Volume VIJOrge A.H. rAngelUniversidade da Ásia Oriental(8), deixou também um depoimento (Revista de Cultura nº 23, 1995) sobre este “marco, e alto, na cultura de raiz local”, “um dos raros exemplos de pessoas que dedicam toda a sua actividade, desinteressadamente, a cultivarem-se a si próprias, e a procurarem repartir com outros as suas próprias experiências culturais, sem reservas de qualquer espécie”. Desfazendo a ideia de que Luís Gomes era excessivamente reservado, dele disse ainda Túlio Tomás, que foi seu amigo: “Era, aparentemente, um homem concentrado e de poucas falas. Pensava muito mais do que falava. Mas quando confiava no interlocutor e se sentia receptivo, abria as comportas do seu pensamento, e era um prazer escutá-lo. Observador finíssimo, sabia perfeitamente distinguir a mediocridade ou a vulgaridade do pensamento honesto dos outros. (...) Não fazia alarde da sua obra nem dos seus trabalhos nos lugares que ocupava: satisfazia-se com a consciência de ter feito algo de útil aos outros. (...) A escrita de Luís Gomes é clara, corrente e despretensiosa. Dotado como era para as línguas, possuía um vocabulário rico, e empregava até, de quando em vez, vocábulos pouco em uso, alguns de especial sabor clássico. (...) Luís Gomes correspondia-se com gente grande do mundo cultural, e talvez fosse, até, mais conhecido em meios internacionais do que na sua
Colecção MOSAICO, Volume VInO CentenárIO de lUíS gOnzAgA gOMeS própria terra, não porque esta o não prezasse ou não conhecesse a sua envergadura mental, mas porque a sua própria modéstia, isolamento e espírito sobretudo de estudioso, o afastavam das multidões e o faziam desinteressar-se da publicidade do seu próprio nome e feitos culturais”.Túlio Tomás visitou-o duas vezes no hospital, imediatamente antes de falecer. Descreveu a segunda visita assim: “ao vê-lo encostado a almofadas, e, aparentemente, sem dificuldades respiratóras, disse-lhe, sem afectação, que o achava muito melhor. Ele só respondeu, e repetiu: ‘Estou muito pior’. E alongou-se no ‘muito’, como para sublinhar o pressentimento que lhe ia na alma. Nessa noite morria. Mas só fisicamente. Começou uma nova vida para o seu nome, para a sua obra, para o seu exemplo”.O Pe. Manuel Teixeira, como tantos que acompanharam Luís Gomes até à última morada, emocionou-se no funeral: “vimo-lo, em 21 de Março de 1976, descer à sepultura; e quando a terra era padejada para cima do seu féretro, sentimos a enorme perda dum velho amigo de mais de 50 anos e que a cultura, em Macau, ficava desfalcada com o seu desaparecimento.”
Colecção MOSAICO, Volume VIJOrge A.H. rAngelConheci Luís Gonzaga Gomes quando, ainda aluno da Escola Primária Oficial, ia duas ou três vezes por semana à sua residência, para as lições de violino que recebia da sua irmã, professora Maria Margarida d’Alacoque Gomes, pessoa de invulgar talento e cultura, mas de feitio difícil, que estudara música, canto e bailado nos Estados Unidos da América. Antes e depois das lições, procurava, sempre que possível, falar com ele e admirava a sua vasta biblioteca, os seus objectos de arte chinesa e a sua imensa colecção de fitas gravadas e discos de música clássica. No Liceu, foi meu professor e, embora reservado, pude manter com ele um diálogo sempre interessante e enriquecedor, sobre Macau, a arte e a cultura chinesas, a música e, sentindo nele momentos raros de visível entusiasmo, sobre o movimento rotário internacional. Já na universidade, em Lisboa, continuei a contactá-lo, trocando alguma correspondência e publicações e visitando-o durante as férias. Regressei a Macau meses antes do seu falecimento e pude participar activamente nas homenagens que lhe foram prestadas, pelo Governo de Macau, pelo Leal Senado e pelo Rotary Clube de Macau, de que foi presidente e a que fiquei também ligado.No dia 20 de Março de 1984, exactamente oito anos após o seu passamento, tive o privilégio de presidir, como membro do Governo de Macau, à instalação do seu busto no Jardim de
Colecção MOSAICO, Volume VInO CentenárIO de lUíS gOnzAgA gOMeS S. Francisco, fazendo o elogio, juntamente com a professora Graciete Batalha, daquele que foi um dos mais insignes filhos desta terra querida. Importa que Macau e a Comunidade Macaense saibam merecê-lo e aproveitem o centenário do seu nascimento para promoverem uma ampla divulgação da sua obra junto das novas gerações.
Colecção MOSAICO, Volume VIJOrge A.H. rAngelO IníCIO dAS COMeMOrAçõeSUma missa no Cemitério de S. Miguel, precisamente no dia 11 de Julho de 2007, promovida por um grupo de associações locais e rezada pelo Bispo da Diocese, D. José Lai, marcou o início das celebrações do centenário, ao mesmo tempo que era marcado, para 26 do mesmo mês, a assinatura do protocolo visando a organização e execução do programa comemorativo.O lançamento do opúsculo “Luís Gonzaga Gomes e o intercâmbio cultural luso-chinês” constituiu um ponto alto do programa dessa sessão, em que a assinatura do protocolo de cooperação vinculou 11 entidades da sociedade civil de Macau na organização e promoção de actos comemorativos do centenário do nascimento daquele escritor e professor macaense, que se notabilizou também nas áreas da tradução e da gestão e difusão cultural. Edição do Instituto Internacional de Macau(9) (IIM), integrada na colecção “Mosaico”, esta comunicação de Graciete Nogueira Batalha, proferida em Junho de 1991, na fase inicial do funcionamento do Cenáculo Luís Gonzaga Gomes, e pela primeira vez agora publicada, mereceu um acolhimento muito positivo do público, uma vez que identifica, em bem elaborada síntese, os aspectos mais relevantes da obra de Luís Gomes, com especial enfoque no seu elevado contributo intelectual para o
Colecção MOSAICO, Volume VInO CentenárIO de lUíS gOnzAgA gOMeS reforço das relações culturais luso-chinesas. Foi esta, igualmente a melhor maneira de se proceder à reactivação do Cenáculo, que vai passar a ter existência institucionalizada, com a estabilidade e permanência julgadas necessárias, incluindo a eleição de órgãos sociais, em conformidade com os seus estatutos, ora em preparação no âmbito da sua comissão instaladora.A adesão entusiástica ao Cenáculo, numa lindíssima sessão levada a efeito no auditório do IIM, foi um significativo ponto de partida para um plano de actividades ambicioso e consentâneo com a importância destas celebrações e com as altas expectativas já criadas. E o facto de tantas instituições locais terem garantido a sua participação(10) – Associação dos Aposentados, Reformados e Pensionistas de Macau, Associação dos Macaenses, Associação Promotora da Instrução dos Macaenses, Casa de Portugal, Círculo dos Amigos da Cultura, Clube de Macau, Elos Clube de Macau, Escola Portuguesa de Macau, grupo Dóci Papiaçám di Macau e Rotary Clube de Macau, além do IIM – assegurou o sucesso deste abrangente projecto, dependente apenas da extensão dos patrocínios que venham a ser obtidos. O IIM canalizará para algumas das iniciativas apoios recebidos da Fundação Macau para o seu programa geral
Colecção MOSAICO, Volume VIJOrge A.H. rAngelde funcionamento, a Fundação Jorge Álvares já confirmou a sua vontade de subsidiar uma das edições e várias empresas deram sinais encorajadores de envolvimento.A Sala Luís Gonzaga Gomes, inaugurada no IIM no mesmo dia, deverá ser a sede do Cenáculo e ali estão a ser reunidos livros, fotografias, objectos e documentos relacionados com o seu ilustre patrono, mas as actividades realizar-se-ão em múltiplos locais, no âmbito dos organismos subscritores do protocolo e de outros que fizeram saber que querem também colaborar. O Cenáculo terá vida para além destas comemorações, que decorrerão de Julho de 2007 a Julho de 2008.
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Colecção MOSAICO, Volume VIJOrge A.H. rAngelreSUMO dA ObrA de lUíS gOMeS nO OpúSCUlO pUblICAdOO seguinte extracto do opúsculo, já disponível em livrarias, identifica alguns dos mais meritórios trabalhos de Luís Gomes:“Logo em 1941-42, organizou um Vocabulário Cantonense-Português e um Vocabulário Português-Cantonense, sob a égide das Comemorações dos Centenários da Fundação e Restauração (de Portugal). No mesmo ano de 1942 traduziu para Chinês ‘Os Lusíadas contados às crianças’ de João de Barros.Tinha então 34 ou 35 anos. Daí até ao fim da vida, e acumulando com mil outros interesses que não irei enumerar mas que iam das línguas estrangeiras à música clássica, da radiodifusão ao desporto, da Biblioteca Municipal ao Museu Luís de Camões e tantos outros, Luís Gomes publicou um sem número de estudos, artigos, traduções, todos eles tendentes a fomentar essa divulgação inter-cultural que hoje nos parece tão importante.Desses estudos destacarei o ‘P’ou Kuók Si-Leok’ (História de Portugal em Chinês), em 1955, e uma série de trabalhos sobre as influências mútuas – sino-portuguesas ou sino-europeias – em matéria artística, porque a arte chinesa foi também uma das suas paixões. São eles, por exemplo, ‘A arte europeia na corte de K’in Lông’, ‘A influência chinesa na arte europeia do séc. XVIII’,
Colecção MOSAICO, Volume VInO CentenárIO de lUíS gOnzAgA gOMeS 0‘A influência estrangeira na arte chinesa’, ‘Portugal e a arte chinesa’, etc.Chego agora à sua obra de tradutor, melhor diria de divulgador, porque Luís Gomes nunca foi, nem pretendia ser, um tradutor fiel e meticuloso do chinês. Não que possa eu ajuizar da fidelidade das suas traduções, mas é o próprio autor que se refere, no prefácio do ‘Ou-Mun Kei-Leok’ à sua ‘insuficiência de conhecimentos sinológicos’, e ao facto de não diligenciar ‘fazer uma pretensiosa e fastidienta tradução (estou a citá-lo), pedantescamente rigorosa, pois isso só serviria para entediar o leitor’.Poderá talvez estranhar-se que o próprio Luís Gomes se afirme como insuficiente conhecedor do Chinês, mas isto só prova um realismo e uma sensatez admiráveis. Quem tenha vivido aqui suficientemente para ter adquirido uma certa noção das complexidades da língua e da literatura chinesa, compreenderá perfeitamente que quem deseje ser um acabado sinólogo terá de se dedicar ao estudo dessa língua e dessa literatura por muitos anos a tempo inteiro. Ora não foi o caso de Luís Gomes. O seu espírito, com aquela ‘multiplicidade de facetas que enriqueceram – ou porventura fragmentaram – a sua personalidade’ (como eu disse noutro lugar) não podia concentrar-se, porque não estava na sua natureza, num único estudo ou numa única actividade.
Colecção MOSAICO, Volume VIJOrge A.H. rAngelMas, com verdadeira clarividência, apercebeu-se de que só é possível divulgar um produto se ele for apresentado de forma atraente. Isto faz-nos vir à mente o nome do Pe. Joaquim Guerra, que não pode ser esquecido como incansável tradutor do Chinês, mas que não foi jamais um divulgador...Foi-o Luís Gomes e nunca será demais enaltecer o dom inato que tinha para essa tarefa. Ele não teve, por exemplo, a veleidade de traduzir para Chinês alguma parte de ‘Os Lusíadas’, o que poderia resultar numa tradução mal conseguida e desprimorosa para o original. Traduziu, sim, qualquer coisa de mais acessível e mais popular, ‘Os Lusíadas contados às crianças’. E numa edição parcialmente bilingue, e reduzida, da ‘Mensagem’ de Fernando Pessoa, limitou-se a traduzir apenas alguns versos de alguns poemas, aqueles que pudessem dar uma síntese da ideia fundamental que neles o Poeta exprimia.Esta foi uma edição do Governo da Província em 1959, no 24º aniversário da morte de Fernando Pessoa, e Luís Gomes terá sido solicitado para essas traduções como professor de Chinês, uma cadeira optativa no Liceu de Macau. Mas, segundo a mentalidade típica desses anos, a edição foi ‘reservada para distribuição aos alunos do Liceu Nacional Infante D. Henrique’ e não aos das escolas chinesas de Macau... Foi uma tiragem de
Colecção MOSAICO, Volume VInO CentenárIO de lUíS gOnzAgA gOMeS 500 exemplares apenas e em 1985, quando me aposentei, ainda eu distribuía, por iniciativa própria, essa edição da ‘Mensagem’ aos meus alunos de literatura portuguesa!Mas enfim, este foi um trabalho menor para Luís Gomes, embora não de fácil execução. Traduzir Fernando Pessoa nunca será fácil em língua alguma. Trabalho aturado foi realmente o espantoso número – mais de centena e meia – de contos, lendas, tradições chinesas de Macau que Luís Gomes publicou no ‘Notícias de Macau’ ao longo dos anos, que coligiu em cinco volumes da Colecção ‘Notícias de Macau’ e que foram ‘Lendas chinesas de Macau’, ‘Contos chineses’, ‘Chinesices’, ‘Curiosidades de Macau antiga’, ‘Festividades chinesas’, além de outros escritos de maior fôlego, entre eles ‘Relação da Grande Monarquia da China’ do Pe. Álvaro Semedo, que traduziu do Italiano e ‘Nova Relação da China’ do Pe. Gabriel de Magalhães, traduzida do Francês.”––– • –––Estes parágrafos da comunicação da saudosa professora e filóloga Graciete Nogueira Batalha, sempre credora da nossa admiração e gratidão pelo muito que ofereceu a Macau, dão--nos uma ideia do muito que Luís Gomes produziu em vida, num esforço determinado e eficaz, estudando, investigando,
Colecção MOSAICO, Volume VIJOrge A.H. rAngelensinando, traduzindo e divulgando, com a preocupação inabalável de partilhar o saber com os outros. Como bem referiu Graciete Batalha “era assim Luís Gomes – generoso, desinteressado, trabalhando infatigavelmente no silêncio e no recolhimento, e nem sempre a sua dedicação foi devidamente apreciada”. Está agora, em grande medida, nas mãos dos seus conterrâneos fazê-lo.No fim das comemorações, em Julho de 2008, será oportuno fazer um balanço, que será certamente positivo, do programa realizado, mesmo que, por insuficiência de meios, se fique aquém do desejável. Ficará também provada – e isto é importante assinalar – a capacidade da sociedade civil e das suas instituições culturais, sociais e recreativas, para alcançarem resultados mesmo com uma menor intervenção do Governo.
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Colecção MOSAICO, Volume VIJOrge A.H. rAngelnOtAS1. Macau é Região Administrativa Especial desde 20 de Dezembro de 1999 e o seu funcionamento é regulado pela Lei Básica da Região Administrativa Especial de Macau da República Popular da China, aprovada em 31 de Março de 1993 na 1a. sessão da 8a. Legislatura da Assembleia Popular Nacional da RPC e promulgada na mesma data pelo Presidente da República Jiang Zemin. As negociações com Portugal, com vista à transferência de poderes, foram concluídas em 1987, com a assinatura da Declaração Conjunta do Governo da República Portuguesa e do Governo da República Popular da China sobre a Questão de Macau. Para além da acção de políticos e diplomatas neste contexto, é justo reconhecer o trabalho de escritores, professores, artistas, membros de instituições cívicas e associativas e de muitos cidadãos que, ao longo da História recente de Macau deram contributos relevantes para o sucesso do período de transição, ajudando a viabilizar a criação da Região Administrativa Especial de Macau.2. Algumas destas sugestões só são concretizáveis através do activo e interessado envolvimento de entidades públicas, por mais entusiástica e empenhada que seja a adesão de organismos da sociedade civil, de natureza privada, associativa ou não. Em Macau, o Governo tem meios abundantes para apoiar iniciativas de interesse público e eles raras vezes faltam quando são entidades oficiais a organizá-las ou promovê-las.
Colecção MOSAICO, Volume VInO CentenárIO de lUíS gOnzAgA gOMeS 3. Luís Gonzaga Gomes nasceu e viveu toda a vida em Macau. Não havendo aqui, nesse tempo, ensino superior, é verdadeiramente admirável o esforço por ele feito de valorização pessoal e cultural. Foi um exemplar autodidacta.4. A Revista da Cultura foi criada pelo Instituto Cultural de Macau, tendo sido dirigida até 1999 pelo jornalista e escritor Luís Sá Cunha. Teve, desde o início, edições em três línguas (Português, Chinês e Inglês) e foi muito apreciada pelo seu excelente conteúdo e grafismo. A sua publicação continuou na vigência da RAEM, embora com uma orientação diferente. Luís Sá Cunha é hoje Secretário da Direcção do Instituto Internacional de Macau.5. Embora fosse o jornal menos afecto ao regime político deposto na “Revolução de Abril”, este diário cessou a sua publicação alguns meses após a revolução, na sequência de várias multas que lhe foram aplicadas por uma comissão “ad hoc” para a comunicação social. Luís Gonzaga Gomes foi um dos seus mais prolíficos colaboradores e o jornal teve uma dimensão cultural que nunca mais foi emulada.6. Leal Senado é a antiga Câmara Municipal de Macau, a mais genuína instituição cívica macaense, extinta pouco depois da transição político-administrativa que conduziu à criação da Região Administrativa Especial de Macau. Foi, inicialmente, substituída pela Câmara Municipal de Macau Provisória, ela própria extinta
Colecção MOSAICO, Volume VIJOrge A.H. rAngelpouco depois, juntamente com a Câmara Municipal das Ilhas Provisória. Um instituto público, denominado Instituto para os Assuntos Cívicos e Municipais, com um Conselho de Administração designado pelo Governo da RAEM, assumiu as responsabilidades anteriormente cometidas às duas Câmaras Municipais.7. A actual Imprensa Oficial de Macau tinha anteriormente esta designação.8. A Universidade da Ásia Oriental iniciou o seu funcionamento em Macau em 1981, como instituição privada, tendo sido convertida em entidade pública em 1991, passando a chamar-se Universidade de Macau, com uma nova estrutura e novos cursos, tendo desempenhado um papel da maior importância na formação e valorização de quadros superiores para a Região Administrativa Especial de Macau.9. O Instituto Internacional de Macau é uma instituição de direito privado, de natureza associativa, criada em 1999 e reconhecida pelo Governo como organismo de utilidade pública, de fins académicos e culturais.10. Todas estas instituições são de direito privado, na sua maioria de natureza associativa.
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