Luís Gonzaga GomesMOSAICOVOLUME IIIGrACIEtE NOGUEIrA BAtALhAe o intercâmbiocuLturaL Luso-chinês
Colecção MOSAICO, Volume XVAntónIO AreStA64
Luís Gonzaga Gomese o intercâmbiocuLturaL Luso-chinêsMOSAICOVOLUME IIIMacau, Julho de 2007GrACIEtE NOGUEIrA BAtALhA
Colecção MOSAICO, Volume IIILUíS GONzAGA GOMES E O INtErCâMBIO CULtUrAL LUSO-ChINêStítulo Luís Gonzaga Gomes e o Intercâmbio Cultural Luso-ChinêsAutor Graciete Nogueira BatalhaEditor Instituto Internacional de MacauColecção MOSAICOVolume IIICoordenação Editorial Luís Sá CunhaDesign Victor Hugo DesignImpressão Tipografia Welfaretiragem 500 exemplaresMacau, Julho de 2007O texto aqui dado à estampa foi lido pela Dr.ª Graciete Nogueira Batalha no dia 25 de Junho de 1991, na “Sala Bocage” do Hotel Mandarim, na sessão sexta do Cenáculo, dedicada à evocação do seu patrono, Luís Gonzaga Gomes.
Colecção MOSAICO, Volume IIILUíS GONzAGA GOMES E O INtErCâMBIO CULtUrAL LUSO-ChINêS
Colecção MOSAICO, Volume IIIGrACIEtE NOGUEIrA BAtALhAQuando cheguei a macau, há quarenta anos, pouco se falava aqui, muito menos em Portugal, em intercâmbio cultural luso-chinês. não havia grande interesse da população, nem mesmo macaense, pela cultura chinesa, nem se promovia entre os chineses o conhecimento da cultura lusíada. não havia qualquer instituição ligada ao Governo de macau que se preocupasse com tal desiderato. nem mesmo o círculo cultural de macau, que foi fundado pouco depois de eu chegar e ao qual também pertenci, presidido e financiado pelo velho Dr. Pedro José Lobo (hoje tão esquecido), nem mesmo o círculo cultural, que publicava a revista “mosaico”, tinha nos seus principais objectivos esse intercâmbio. enfatuados com a nossa cultura ocidental, não nos parecia a cultura chinesa digna de ser estudada. e os intelectuais chineses da terra, que os devia haver embora por nós pouco conhecidos, primavam certamente por um sentimento semelhante, talvez ainda mais arreigado do que o nosso, quanto à cultura portuguesa. sentimentos não deliberados nem devidos a qualquer inimizade, creio que escapando totalmente à consciência duns e doutros, mas reais, no entanto.só agora, que essa mentalidade felizmente mudou e que começamos a descobrir-nos mutuamente, portugueses e chineses,
Colecção MOSAICO, Volume IIILUíS GONzAGA GOMES E O INtErCâMBIO CULtUrAL LUSO-ChINêSé que, olhando retrospectivamente, vemos a estultícia de tantos anos, tantos séculos, perdidos num afastamento mutilador.eu própria, confesso, tendo sempre gostado de línguas e de trabalhos de investigação, nunca meditei seriamente no assunto, nunca me dediquei a estudar a língua chinesa (e o que poderia ter aprendido em 40 anos!) e só em 1959 pareço ter notado qualquer coisa de estranho no relacionamento das duas comunidades. Permiti-me que me cite (dum artigo no “notícias de macau”):“ É já um lugar comum afirmar que em Macau se reunem dois mundos. O mais extraordinário, porém, não é que esses dois mundos, pois que aqui se reunem há quatro séculos, se entremisturem como as tintas duma paleta, dando à cidade o seu tom muito sui generis. O que afinal parece causa de admiração é que, em certos aspectos, as duas civilizações que aqui convivem pareçam tão extremadas, tão distantes uma da outra, como se jamais tivessem vivido lado a lado”.claro que houve sempre tentativas isoladas de aproximação das duas civilizações pelo conhecimento mútuo, e não vou agora demorar-me em obras antigas que poderia citar do lado português, porque do chinês pouco sei, como o Tractado das Cousas da China, de Frei Gaspar da cruz, a Suma Oriental de tomé Pires, a Ásia Sínica e Japónica de Frei José de Jesus maria e outras.
Colecção MOSAICO, Volume IIIGrACIEtE NOGUEIrA BAtALhAmais recentemente na revista Ta-Ssi-Yang-Kuo, publicada em Lisboa e dirigida pelo macaense João Feliciano marques Pereira em princípios deste século (para arredondar datas) e onde, aliás, foi publicada pela primeira vez a Ásia Sínica e Japónica, aparecem artigos muito interessantes sobre temas chineses, como Denominações dadas pelos chineses ao seu país, ao Japão e aos principais países europeus; Chinesices; Costumes e crenças da China, etc.em macau, tivemos manuel da silva mendes, advogado e professor liceal que viveu em macau trinta anos a partir de 1901 e que logo em 1909 proferiu uma conferência sobre Lao Tze e sua doutrina segundo o Tao Te King, publicando depois artigos vários como Barros de Kuang Tung e ainda outros sobre os assuntos chineses, reunidos em colecção do “notícias de macau” precisamente pelo nosso homenageado de hoje.também camilo Pessanha traduziu, como é bem sabido, as Oito elegias chinesas, em 1931, e escreveu aquele magnífico prefácio ao livro do Dr. Morais Palha, Esboço crítico da civilização chinesa, ambos interessados, portanto, em dar a conhecer aos portugueses alguma coisa da china.Já depois de eu chegar a macau, Francisco de carvalho e rego publicou Cartas da China, Contos e lendas da velha
Colecção MOSAICO, Volume IIILUíS GONzAGA GOMES E O INtErCâMBIO CULtUrAL LUSO-ChINêSChina, Da virtude da mulher chinesa e Mui-Fá, uma pequena antologia de poesia chinesa, traduzida para português com a ajuda dum seu amigo chinês, pois Francisco de carvalho e rego não conhecia a escrita chinesa. talvez por isso, ou porque o tradutor não possuísse grande talento para a poesia, as traduções não revelam a força poética dos originais e antónio Graça de abreu, autor do excelente livro Poemas de Li Bai, classifica-as de “incolores”.De qualquer modo, todos esses trabalhos foram esforços de intercâmbio muito louváveis, mas esporádicos. teremos de exceptuar os do “instituto Luís de camões”, que teve precisamente como ideia mestra criar um elo de ligação entre as culturas ocidental e oriental e cujo Boletim cumpriu exemplarmente esse desiderato por quase vinte anos, apoiado pelo Leal senado da câmara de macau. mas o instituto, criado por amadores, verdadeiramente nunca existiu senão no papel, as suas actividades reduziam-se ao Boletim e este, penso eu, tinha audiência restrita.não havia, como agora, um icm, uma Fundação oriente ou um iPor, com disponibilidades económicas, funcionários a tempo inteiro, instalações próprias; nunca houve um acervo de traduções de Português para chinês ou vice-versa como há hoje,
Colecção MOSAICO, Volume IIIGrACIEtE NOGUEIrA BAtALhAnunca se promoveram edições bilingues de revistas ou obras literárias.no entanto, houve em macau um homem silencioso e tenaz que, sem grande apoio moral ou material (o próprio Boletim do Instituto Luís Camões, que dirigiu durante muitos anos e no qual colaborou assiduamente com os seus artigos, não remunerava ninguém), houve um homem, dizia, que dedicou grande parte da sua vida ao estudo da língua e da cultura chinesa, ao mesmo tempo que da ocidental, e ao meritório trabalho de as dar a conhecer uma à outra.esse homem foi Luís Gonzaga Gomes.Formado como intérprete de primeira classe na escola da antiga repartição do expediente sínico, não seguiu, contudo, essa carreira, sendo professor primário durante cerca de 24 anos, mas utilizando os seus conhecimentos de chinês, que certamente foi desenvolvendo em estudos subsequentes, numa vasta obra de intercâmbio cultural luso-chinês, que incluía o ensino da língua chinesa no Liceu de macau e na escola dos correios, telégrafos e telefones, aos funcionários dessa instituição.Logo em 1941-42, organizou um Vocabulário Cantonense-Português e um Vocabulário Português-Cantonense, sob a égide das comemorações dos centenários
Colecção MOSAICO, Volume IIILUíS GONzAGA GOMES E O INtErCâMBIO CULtUrAL LUSO-ChINêS10da Fundação e restauração (de Portugal). no mesmo ano de 1942 traduziu para chinês Os Lusíadas contados às crianças de João de barros.Tinha então 34 ou 35 anos. Daí até ao fim da vida, e acumulando com mil outros interesses que não irei enumerar mas que iam das línguas estrangeiras à música clássica, da radiodifusão ao desporto, da biblioteca municipal ao museu Luís de camões e tantos outros, Luís Gomes publicou um sem número de estudos, artigos, traduções, todos eles tendentes a fomentar essa divulgação inter-cultural que hoje nos parece tão importante.Desses estudos destacarei o P’ou Kuók Si-Leok (história de Portugal em chinês), em 1955, e uma série de trabalhos sobre as influências mútuas – sino-portuguesas ou sino-europeias – em matéria artística, porque a arte chinesa foi também uma das suas paixões. são eles, por exemplo, A arte europeia na corte de K’in Lông, A influência chinesa na arte europeia do século XVIII, A influência estrangeira na arte chinesa, Portugal e a arte chinesa, etc…chego agora à sua obra de tradutor, melhor diria de divulgador, porque Luís Gomes nunca foi, nem pretendia ser, um tradutor fiel e meticuloso do chinês. Não que possa eu ajuizar da fidelidade das suas traduções, mas é o próprio autor que se
Colecção MOSAICO, Volume IIIGrACIEtE NOGUEIrA BAtALhA11refere, no prefácio do Ou-Mun Kei-Leok à sua “insuficiência de conhecimentos sinológicos”, e ao facto de não diligenciar “fazer uma pretensiosa e fastidienta tradução (estou a citá-lo), pedantescamente rigorosa, pois isso só serviria para entendiar o leitor”.Poderá talvez estranhar-se que o próprio Luís Gomes se afirme como insuficiente conhecedor do Chinês, mas isto só prova um realismo e uma sensatez admiráveis. Quem tenha vivido aqui suficientemente para ter adquirido uma certa noção das complexidades da língua e da literatura chinesas, compreenderá perfeitamente que quem deseje ser um acabado sinólogo terá de se dedicar ao estudo dessa língua e dessa literatura por muitos anos a tempo inteiro. ora não foi o caso de Luís Gomes. o seu espírito, com aquela “multiplicidade de facetas que enriqueceram – ou porventura fragmentaram – a sua personalidade” (como eu disse noutro lugar) não podia concentrar-se, porque não estava na sua natureza, num único estudo ou numa única actividade.mas, com verdadeira clarividência, apercebeu-se de que só é possível divulgar um produto se ele for apresentado de forma atraente. isto faz-nos vir à mente o nome do Pe. Joaquim Guerra, que não pode ser esquecido como incansável tradutor do chinês, mas que não foi jamais um divulgador...
Colecção MOSAICO, Volume IIILUíS GONzAGA GOMES E O INtErCâMBIO CULtUrAL LUSO-ChINêS1Foi-o Luís Gomes e nunca será demais enaltecer o dom inato que tinha para essa tarefa. ele não teve, por exemplo, a veleidade de traduzir para chinês alguma parte de Os Lusíadas, o que poderia resultar numa tradução mal conseguida e desprimorosa para o original. traduziu, sim, qualquer coisa de mais acessível e mais popular, Os Lusíadas contados às crianças. e numa edição parcialmente bilingue, e reduzida, da Mensagem de Fernando Pessoa, limitou-se a traduzir apenas alguns versos de alguns poemas, aqueles que pudessem dar uma síntese da ideia fundamental que neles o Poeta exprimia.esta foi uma edição do Governo da Província em 1959, no 24º aniversário da morte de Fernando Pessoa, e Luís Gomes terá sido solicitado para essas traduções como professor de chinês, uma cadeira optativa no Liceu de macau. mas, segundo a mentalidade típica desses anos, a edição foi “reservada para distribuição aos alunos do Liceu Nacional Infante D. Henrique” e não aos das escolas chinesas de macau... Foi uma tiragem de 500 exemplares apenas e em 1985, quando me aposentei, ainda eu distribuía, por iniciativa própria, essa edição da Mensagem aos meus alunos de literatura portuguesa!Mas enfim, este foi um trabalho menor para Luís Gomes, embora não de fácil execução. traduzir Fernando Pessoa nunca
Colecção MOSAICO, Volume IIIGrACIEtE NOGUEIrA BAtALhA13será fácil em língua alguma. trabalho aturado foi realmente o espantoso número – mais de centena e meia – de contos, lendas, tradições chinesas de macau que Luís Gomes publicou no “notícias de macau” ao longo dos anos, que coligiu em cinco volumes da colecção “notícias de macau” e que foram Lendas chinesas de Macau, Contos chineses, Chinesices, Curiosidades de Macau antiga, Festividades chinesas, além de outros escritos de maior fôlego, entre eles Relação da Grande Monarquia da China do Pe. Álvaro semedo, que traduziu do italiano e Nova Relação da China do Pe. Gabriel de magalhães, traduzida do Francês.os artigos a que atrás me referi pressupõem traduções do chinês, certamente bastante livres, ou pelo menos a consulta de fontes chinesas, escritas ou orais, que servissem talvez apenas de inspiração, porque muitas narrações contêm algo de pessoal, como sejam certos laivos de humor que não se deviam encontrar nos originais.Que originais seriam esses? sobre isso, Luís Gomes não nos elucida. ou porque, tendo sido um auto-didacta, não se preocupava com aquele rigor que os mestres nos incutiram, ou porque, publicando artigos de divulgação, não lhe pareceu dever sobrecarregar esses artigos com notas bibliográficas que
Colecção MOSAICO, Volume IIILUíS GONzAGA GOMES E O INtErCâMBIO CULtUrAL LUSO-ChINêS1poderiam até dar-lhes um ar um tanto pretensioso. o que é certo é que Luís Gomes não indicava as suas fontes, o que torna quase impossível avaliar até que ponto esses escritos provinham de textos chineses, ou de tradições orais que conheceu, ou até da sua própria imaginação. o facto é que são pequenas histórias de leitura agradável e de inestimável interesse para quem queira ter uma ideia da mentalidade popular da velha china, sobretudo desta zona do sul.a propósito, e uma vez que este cenáculo “Luís Gonzaga Gomes” está ligado ao instituto cultural de macau, eu peço vénia para lembrar ao icm algo que possivelmente não será ideia nova – a oportunidade de reeditar esses volumes da Colecção “Notícias de macau” , uma colecção modestíssima, em papel quase de jornal e de encadernações a desfazerem-se, pois datam já dos anos de 1950 a 1954. além disso, creio que sem ofensa à memória do autor, essa edição poderia incluir uma revisão cuidada de certos pecadilhos de sintaxe que uma redacção apressada não evitou, além dos erros tipográficos vulgares em qualquer edição desse género.o mesmo poderíamos dizer da tradução de Luís Gomes do Ou-Mun Kei-Leok ou Monografia de Macau, publicada em 1950 e que já em 1954 um professor universitário inglês dizia
Colecção MOSAICO, Volume IIIGrACIEtE NOGUEIrA BAtALhA1ser mais difícil de encontrar do que o próprio original, escrito em meados do século XViii. a comissão organizadora da Quinzena de macau que se realizou em Lisboa em 1979 publicou essa tradução em fac-simile, portanto sem nenhuma revisão, mas creio que também esta é já bastante rara.Propositadamente, deixei para o fim esta obra do nosso homenageado, a obra que mais projectou o seu nome para o exterior de macau, não só pelo serviço prestado a quem não conheça o chinês e queira ter uma visão do que era macau no século XViii, na óptica chinesa é claro, mas sobretudo para os linguistas interessados no dialecto de Macau – linguistas quase sempre estrangeiros, pois que os portugueses com esse interesse são bem poucos.É que nessa Monografia de Macau, como possivelmente é sabido de vós todos, encontra-se a mais antiga fonte até hoje conhecida – uma fonte chinesa, é curioso – para o estudo do que era o dialecto de macau nessa época. claro que os autores não tinham a noção de que as palavras e frases que transcreviam eram dialectais e que daí lhes adviria o interesse que hoje despertam. eles foram informados, crê-se, por chineses de macau que falavam o cantonense e o Português, tal como era vulgarmente falado pelos macaenses, e assim o registaram.
Colecção MOSAICO, Volume IIILUíS GONzAGA GOMES E O INtErCâMBIO CULtUrAL LUSO-ChINêS1não foi na altura uma coisa inédita, chineses compilarem um vocabulário deste género. Desde muito cedo que os chineses se interessaram pelas línguas dos estrangeiros, primeiramente línguas asiáticas apenas; e por meados do século XViii, precisamente a época da redacção do Ou-Mun Lei-Leok, aparecem na china vocabulários do inglês, do Francês, do alemão, do italiano, do Latim e este do Português.todavia tal vocabulário, tão importante para a história dos nossos dialectos crioulos da Ásia, permaneceu praticamente ignorado tanto de estrangeiros como de portugueses, até que Luís Gomes, traduzindo todo o volume, teve de traduzir para Português um vocabulário do Português... Porque as transcrições foram feitas em caracteres chineses que se aproximassem, pelo som, das sílabas das palavras portuguesas, sendo esses caracteres sem significados, e sendo antecedidos da tradução em Chinês da palavra ou frase respectivas.não sendo linguista, Luís Gomes não se preocupou, naturalmente, com a reprodução exacta da forma macaense e onde, para darmos um exemplo, se deve reconstituir a transcrição chinesa como muito saudade (forma típica do dialecto), ele apontou a forma correcta em Português: muitas saudades. mas alguns linguistas estrangeiros, sobretudo professores
Colecção MOSAICO, Volume IIIGrACIEtE NOGUEIrA BAtALhA1universitários ingleses e alemães, têm-se posteriormente dedicado ao estudo desse vocabulário; e nenhum deles o fez nunca sem ter como primeira referência o trabalho de Luís Gomes.contudo, a importância desta Monografia não lhe advem só do vocabulário, como é óbvio. Já historiadores de macau, como montalto de Jesus e outros, se lhe referiam, mas sem lhe poderam ter acesso por desconhecerem a língua chinesa e não existir qualquer tradução numa língua europeia. Foi Luís Gomes o primeiro que empreendeu essa tradução.Quando o fez, já a obra original era uma raridade bibliográfica (o que será hoje!) e só teve à sua disposição dois exemplares, os únicos que existiam em Macau – um pertencente a outro macaense ilustre, José maria braga, e o segundo a um erudito chinês, tchéong-tchâng-K’âu, que possuía uma valiosa colecção de livros chineses, segundo Luís Gomes no prefácio da sua tradução. os dois exemplares eram xilografados, uma grande parte dum deles era até uma simples cópia manuscrita, com erros do copiador, e ambos com algumas folhas quase ilegíveis pela acção das traças e do tempo.assim mesmo, Luís Gomes meteu mãos à obra. não nos diz no seu prefácio quanto tempo levou a executá-la, mas adivinha-se aí um trabalho extremamente fastidioso, que só a
Colecção MOSAICO, Volume IIILUíS GONzAGA GOMES E O INtErCâMBIO CULtUrAL LUSO-ChINêS1desusada pertinácia deste macaense e um grande amor à sua terra ajudariam a terminar.“Os caracteres desta obra” – esclarece o tradutor – redigida no obsoleto estilo erudito, seguem-se uns atrás dos outros sem um único sinal de pontuação a facilitar a compreensão do texto, além de que as letras arcaicas abundam com farta prodigalidade, para maior desespero daqueles que se abalançam a decifrar o texto original. A cada passo, topa-se com um poema intercalado, a meio do texto, e ninguém desconhece quão difícil é traduzir para uma língua europeia, versos chineses com as mirabolantes imagens criadas pela fértil fantasia dos poetas nativos e as suas gongóricas citações mitológicas e históricas, num desconcertante alarde de exótica erudição.”creio, porém, que no decorrer desse longo exercício de paciência Luís Gomes a quem, como vimos, não faltava sentido de humor, se deve ter divertido o seu tanto a ler as descrições extravagentes que os autores do Ou-Mun Kei-Leok fazem das gentes e fauna estrangeiras de macau. É extraordinário que iân-Kuóng-iâm e tchèong-Ü-Lâm, que foram magistrados da chamada sub-Prefeitura de macau, a qual superintendia nos assuntos relacionados com os chineses, e parece que chegaram a residir na aldeia de mong-há, já para dentro da muralha
Colecção MOSAICO, Volume IIIGrACIEtE NOGUEIrA BAtALhA1divisória, podendo sem dúvida circular livremente pela cidade, afirmem que em Macau se encontravam elefantes, rinocerontes e leões, ursos, veados e lontras, bois do tamanho de cães e com gibas como os dromedários, caranguejos com pinças que podiam apertar a cabeça dum homem e cuja carapaça, esvasiada, dava para uma pessoa dormir debaixo dela, baleias, às quais os pescadores atiravam pipas de madeira que elas engoliam (várias pipas duma vez!), depois do que “dobravam a cabeça e morriam”, e outras maravilhas do género.É certo que, segundo o Professor charles boxer, os portugueses carregavam nas naus da prata que se dirigiam de Goa ao Japão, jaulas com tigres, antílopes, falcões, pavões e outros exemplares da fauna indiana para serem oferecidos ou vendidos aos daimios japoneses, e enquanto a nau esperava em macau pela monção favorável, esses animais eram aqui mantidos para depois seguirem viagem, mas o exagero da enumeração é evidente.Quanto aos habitantes europeus, dizem, por exemplo:“Esta gente [os portugueses] é de raça branca, de alto nariz, olhos verde-escuros mas sem brilho (...). Os que possuem escravos julgam-se importantes. O corpo destes é inteiramente negro como a laca. O seu lábio é vermelho e os dentes brancos, sendo bastante parecidos com seres humanos”...
Colecção MOSAICO, Volume IIILUíS GONzAGA GOMES E O INtErCâMBIO CULtUrAL LUSO-ChINêS0“As mulheres, mesmo no rigor do inverno, só usam uma blusa que chega apenas até à cintura. O vestuário interior é composto de três peças. Uma que chega até aos joelhos, uma que esconde as pernas e outra para calçar os pés e que é feita de seda de cinco cores (...) Ao princípio andavam todas descalças e nem mesmo usavam meias. Ultimamente utilizam o couro encarnado para fazerem calçados tão curtos que não se podem enfiar neles os dedos dos pés.“Os homens e as mulheres assentam-se [à mesa] de mistura uns com os outros e os escravos servem-lhes a comida que é levada à boca com garfos de prata. Comem sempre primeiro os assados e sentam-se, tendo todos a mão direita estendida por debaixo duma (...) almofada sem a empregarem. Chamam a isto mão imóvel. Quando comem comidas muito misturadas empregam infalivelmente a mão esquerda, tirando a comida com os dedos.”Poderá ser ignorância minha, mas nunca soube desse processo de comer com uma mão debaixo duma almofada...Peço me desculpem se me alonguei demasiadamente sobre uma obra que provavelmente todos os presentes conhecem. mas eu acho este livro uma preciosidade, não tanto para nos dar a conhecer o macau dessas eras, pois que as informações que fornece
Colecção MOSAICO, Volume IIIGrACIEtE NOGUEIrA BAtALhA1não são certamente todas fidedignas, mas para levantar um pouco mais a ponta do véu que para nós, até certo ponto, envolve ainda a mentalidade chinesa, tão dada à fantasia, podemos dizer ao poético, e tão ao contrário da nossa, toda preocupada com o rigor e portanto tão prosaica...e é precisamente isso o que mais “invejo” em Luís Gomes ou outro euro-asiático intelectual (porque o euro--asiatismo puramente físico pouco significa), a possibilidade de se movimentarem em duas culturas, a largueza de horizontes que tal possibilidade lhes confere e que não é dada ao simples mortal nado e criado nos estreitos padrões culturais duma só parte do mundo. Refiro-me aqui à cultura no sentido mais lato e não apenas no sentido intelectual.mas Luís Gomes poderia ter guardado soberbamente para si próprio ou para um restrito círculo de amigos essa riqueza que foi sua herança familiar, mas que multiplicou em tantos anos de aturado estudo. não o fez. Prodigalizou-a, essa riqueza, pô-la ao dispor de quantos a quisessem partilhar, muitas vezes queimando as próprias pestanas para poupar as dos outros. como nos diz no prefácio do livro Arte Chinesa: “Fui (...) anotando informações e elementos que me eram úteis e que talvez sirvam a quantos pretendam conhecer um pouco da arte chinesa, evitando-lhes
Colecção MOSAICO, Volume IIILUíS GONzAGA GOMES E O INtErCâMBIO CULtUrAL LUSO-ChINêSassim o exaustivo trabalho de procurar esses conhecimentos, já por se encontrarem dispersos em múltiplas obras geralmente inacessíveis, já por se encontrarem esgotadas, já por estarem algumas publicadas em língua inacessível como seja a chinesa e já porque o preço da maioria delas faz arrefecer os mais entusiastas.”Era assim Luís Gomes – generoso, desinteressado, trabalhando infatigavelmente no silêncio e no recolhimento, e nem sempre a sua dedicação foi devidamente apreciada.em sua vida, só um louvor do então Governador comandante albano de oliveira, em portaria de 1951, e mais tarde uma condecoração do Governo da república agraciando-o com a modesta medalha de Oficial da Ordem do Infante D. Henrique. uma outra condecoração que recebeu não foi de Portugal mas da França, a de cavaleiro da ordem das Palmas.Quem fala várias vezes no mesmo assunto, dificilmente se não repetirá. e como já tive a honra de ser convidada mais que uma vez a falar ou escrever sobre Luís Gomes, vou repetir-me mais um pouquinho, se me desculpam. três anos depois da sua morte, escrevia eu:“Creio que só com o tempo Macau compreenderá quanto lhe ficou devendo.”
Colecção MOSAICO, Volume IIIGrACIEtE NOGUEIrA BAtALhA3Penso que finalmente estamos compreendendo. Já em 1979, além da reedição do Ou-Mun Kei Leok, a comissão organizadora da Quinzena de macau em Lisboa, a que já me referi, publicou também um pequena antologia, intitulada Macau–Factos e Lendas, dos artigos de Luís Gomes no “notícias de macau”. em 1984, e por iniciativa do instituto cultural de macau, colocou-se um busto do escritor no jardim de s. Francisco, descerrado no aniversário da sua morte, que foi a 20 de março de 1976, e sendo a cerimónia presidida pelo então secretário--Adjunto para a Educação, Cultura e Turismo, Dr. Jorge Rangel. Depois, o seu nome foi dado a uma rua de Macau e ainda à Escola secundária Luso-chinesa a funcionar no complexo escolar de macau. agora, com a inaugação formal deste cenáculo, também sob a égide do icm e organizado pela sua Revista de Cultura, e no qual, tomando-o por patrono, se homenageia, mais uma vez, Luís Gonzaga Gomes, estamos todos consolidando um reconhecimento que de há muito lhe era devido.Graciete nogueira batalha, macau, 25 de Junho de 1991
Colecção MOSAICO, Volume IIILUíS GONzAGA GOMES E O INtErCâMBIO CULtUrAL LUSO-ChINêS