FALAR DE NÓS – XVMACAU E A COMUNIDADE MACAENSE– ACONTECIMENTOS, PERSONALIDADES, INSTITUIÇÕES, DIÁSPORA, LEGADO E FUTUROJORGE A. H. RANGEL
FALAR DE NÓS – XV
EdiçãoInstituto Internacional de MacauPatrocínio daFundação MacauApoio daFundação Jorge ÁlvaresFicha TécnicaTítulo FALAR DE NÓS – XIV • Subtítulo Macau e a Comunidade Macaense – acontecimentos, personalidades, instituições, diáspora, legado e futuro • Autor Jorge Rangel • Editor Instituto Internacional de Macau • Direcção e execução gráficas ABM Design & Comunicação • Dactilografia Emília Guine • Tiragem 300 exemplares • Impressão e encadernação Castle-Productions Ltd - Decor, Events & Marketing Productions • ISBN 978-99965-59-59-4• Macau, Março de 2021Nota: Edição composta pela série de crónicas e ar tigos publicados no “Jornal Tribuna de Macau”, de 9 de Abril de 2018 a 18 de Março de 2019.
FALAR DE NÓS – XVMACAU E A COMUNIDADE MACAENSE– ACONTECIMENTOS, PERSONALIDADES, INSTITUIÇÕES, DIÁSPORA, LEGADO E FUTUROSérie de crónicas e artigos publicados no “Jornal Tribuna de Macau”, de 9 de Abril de 2018 a 18 de Março de 2019JORGE A. H. RANGELMacau, Março de 2021
F A L A R D E N Ó S - X V 6J O R G E A . H . R A N G E LÍNDICE13Nota prévia15No 20.º aniversário da EPM – os discursos oficiais na hora do arranque09/04/1819EPM - Reapreciar o quíntuplo objectivo estratégico definido há 20 anos16/04/1823Instrumentos musicais chineses - de dissertação a livro23/04/1827Pertinentes observações do autor do livro 'Instrumentos Musicais Chineses'30/04/1831EPM - 20 anos, contigo a navegar07/05/1835Novas edições do IIM em três sucessivas sessões de apresentação14/05/1839Tascas portuguesas dos anos cinquenta em Macau21/05/1843Para uma literatura da identidade macaense28/05/1847Encontros recentes do IIM com altos responsáveis da RAEM04/06/1851Um hino à mulher portuguesa no Extremo Oriente11/06/1856Macau – Janela do Ocidente aberta sobre o Oriente25/06/1860Como Armando de Aguiar viu Macau e Hong Kong nos anos 5002/07/1864No 1.º Congresso das Comunidades Portuguesas, em Macau e em Lisboa09/07/18
F A L A R D E N Ó S - X V7J O R G E A . H . R A N G E L68Recordações de Carlos Pereira de Lemos em “A História de uma vida”16/07/1872Impressões de Macau numa viagem de Lisboa a Díli, em 196023/07/1876“Quotidianos”, de António Conceição Júnior, apresentado em Lisboa30/07/1880Cidade culta, cidade criativa – um desígnio irrealizável? 06/08/1884Chamada de atenção para o centenário de Adé07/08/1788Henrique de Senna Fernandes – evocação e homenagem20/08/1892Reconhecimento porventura tardio, mas ainda e sempre oportuno27/08/1896Poeta popular de Macau ganha projecção académica 03/09/18100Memória do Poeta, da Ria de Aveiro ao Rio das Pérolas10/09/18104Emigrante, soldado, poeta18/09/18108Como um brasileiro viu Macau no final do século XIX24/09/18112Macau em 1880 – contrastes observados por um visitante do Brasil08/10/18116Oriente/Ocidente - uma revista de reconhecida qualidade15/10/18120De Portugal a Macau – filosofia e literatura no diálogo de culturas22/10/18
F A L A R D E N Ó S - X V 8J O R G E A . H . R A N G E L124A visita do General Garcia Leandro, ex-Governador de Macau29/10/18128Macau em 1974-75, na memória de Garcia Leandro05/11/18132Um Estatuto Orgânico adequado a Macau num tempo de mudança12/11/18136Medidas determinantes para a estabilidade de Macau após o 25 de Abril19/11/18140Circuito da Guia inspirou nova mostra de artistas locais26/11/18144Como era Coloane no final dos anos cinquenta04/12/17148Um serão com Jorge Arrimar em Lisboa17/12/18152Um Natal macaense nos anos sessenta31/12/18156Ano novo – esperanças renovadas e promessas por cumprir07/01/19161Do Neolítico ao Último Imperador - recordando uma notável exposição14/01/19165Do ensaio do coleccionador macaense sobre a arte chinesa21/01/19169O mercado das flores do Ano Novo na memória de Ana Maria Amaro28/01/19173Nin Mei – A grande noite é hoje, véspera do Ano Novo04/02/19177Ano Novo Chinês recordado por escritora macaense no Brasil11/02/19
F A L A R D E N Ó S - X V9J O R G E A . H . R A N G E L181Passear com Wenceslau de Moraes no Jardim Botânico de Lisboa18/02/2019185Fragmentos do Oriente - memórias de Macau no Brasil25/02/19189Quando Hong Kong foi bombardeada pelos japoneses04/03/19193Sugestivo relato de um tufão em “Fragmentos do Oriente”12/03/18197Revista portuguesa de viagens dedica capa e amplo espaço a Macau18/03/19201Nota biográfica
F A L A R D E N Ó S - X V11J O R G E A . H . R A N G E LÀs instituições da sociedade civil de Macau, pela sua rica diversidade e notável capacidade de intervenção, vinte anos após a transição. Oxalá os responsáveis políticos continuem a entender e a apoiar a sua indispensável participação no correcto desenvolvimento da RAEM.
F A L A R D E N Ó S - X V13J O R G E A . H . R A N G E LNota préviaQuinze volumes publicadosÉ com natural satisfação que vemos, ano após ano, fechar mais um volume destes artigos e crónicas, iniciados em Dezembro de 2003 e que o Jornal Tribuna de Macau aceitou acolher, semanalmente, nas suas páginas ao longo de mais de dezassete anos. Tornou-se, assim, possível manter esta continuada conversa com o leitor sobre diversificados assuntos relacionados com Macau, descrevendo acontecimentos e referindo personalidades, instituições, o legado, a diáspora e o futuro.Especial atenção tem sido dada, também, a livros, de ontem e de hoje, que têm Macau como tema central ou fonte de inspiração. É verdadeiramente notável a produção editorial em torno desta terra e das suas gentes, bem como da sua memória e da projecção que ela soube alcançar nas vertentes cultural e económica, favorecida pela conjugação feliz de circunstâncias positivas.Dois volumes saíram agora do prelo quase ao mesmo tempo: o XIV, que sofreu um compreensível atraso causado pelas limitações impostas pela pandemia de covid-19, que a todos prejudicou de forma irreparável, e este que nos faz retomar o ritmo de produção, estando já o XVI em fase de organização, para ficar concluído, desejavelmente, no decurso dos próximos meses. No seu conjunto, esses volumes representam um contributo, modesto certamente, mas sentido e persistente, para uma melhor compreensão da dimensão humana, social e política de Macau, entreposto privilegiado que a História consagrou e que, como região administrativa especial da China, quer prolongar, no espaço e no tempo, a sua vocação de sempre.Muitas iniciativas foram proteladas neste tempo de pandemia que as autoridades e a população local souberam enfrentar e travar com uma eficácia exemplar. Com os olhos postos no porvir, esperamos ver chegado em breve o momento do retorno à normalidade e à pujança do crescimento experimentado nas últimas décadas. Não faltará matéria para estimular a elaboração de novos artigos e crónicas, justificando a
F A L A R D E N Ó S - X V 14J O R G E A . H . R A N G E Lpublicação de mais alguns volumes, se a saúde, a vontade, a disponibilidade e os meios o permitirem.A quantos nos ajudaram a viabilizar este persistente projecto, de colegas, amigos e leitores ao editor, à empresa gráfica e ao Jornal Tribuna de Macau, expressamos o nosso sincero e muito sentido reconhecimento. Macau, Março de 2021O autor
F A L A R D E N Ó S - X V15J O R G E A . H . R A N G E LNo 20.º aniversário da EPM – os discursos oficiais na hora do arranque Já estão preparados os actos comemorativos do 20.º aniversário da Escola Portuguesa de Macau, instituição fundamental para garantir a permanência de portugueses, afirmar Portugal nestas paragens e reforçar a promoção, a difusão e o uso da língua portuguesa na RAEM. É este um tempo de balanço do seu funcionamento e de perspectivação do seu desenvolvimento futuro, que se deseja estável, eficaz e consonante com a relevantíssima missão que lhe foi em boa hora cometida, em vésperas da mudança definitiva do estatuto político-administrativo de Macau.Definida a constituição da Escola e da sua entidade titular – a Fundação Escola Portuguesa de Macau – e decidida, pelo Estado Português, a sua instalação no recinto da centenária Escola Comercial Pedro Nolasco, foi organizada com grande visibilidade uma cerimónia, anunciada como sendo de “lançamento da primeira pedra da Escola Portuguesa de Macau”, a qual foi levada a efeito no dia 18 de Abril de 1998, tendo esta sido considerada a data oficial da sua criação. Além da remodelação geral do complexo escolar existente, o Governo de Macau assegurou a construção imediata de uma nova ala, para poder acolher a totalidade da população escolar prevista. Três discursos lapidares foram proferidos na ocasião, dois dos quais são aqui reproduzidos. Vale a pena reler as partes fundamentais dos mesmos, pelas orientações e legítimas expectativas que marcaram o arranque da Escola: Do Primeiro-Ministro António GuterresComo sabem, desde a primeira hora que temos afirmado que a escola é a paixão do meu Governo. As verdadeiras paixões resistem à distância. E por isso essa paixão tanto se manifesta em Portugal como se manifesta aqui em Macau.“... queremos que esta Escola se torne conhecida, se prestigie, pela qualidade da sua gestão e, acima de tudo, pela excelência da sua capacidade pedagógica, tornando-se um marco, não só do sistema de ensino português, mas um marco do sistema educativo nesta parte do mundo.”
F A L A R D E N Ó S - X V 16J O R G E A . H . R A N G E LDaí a importância extraordinária que demos à criação da Escola Portuguesa de Macau. Porque ela é um elemento fundamental da afirmação de Portugal. Mas da afirmação de Portugal em sintonia com a sua estratégia e com a sua identidade, no contexto das relações internacionais do nosso país; da afirmação de Portugal, porque aqui se ensinará e aprenderá Português; porque as alunas e os alunos desta Escola terão o seu currículo reconhecido no sistema oficial de ensino português, terão o seu acesso às Universidades e aos Politécnicos Portugueses quando completarem o 12.º ano.Afirmação de Portugal no contexto da sua estratégia, porque esta não é uma Escola de vocação simplesmente portuguesa. É uma escola de vocação europeia, no momento em que Portugal se afirma no núcleo duro da construção da União Europeia. Mas afirmação de Portugal, também, no contexto da nossa identidade. E a identidade de Portugal é a identidade de um povo que se formou numa permanente encruzilhada de civilizações.Ora, um dos pontos dessa encruzilhada é em Macau. Aqui se cruzaram a cultura e a civilização do Ocidente e do Oriente, da China e de Portugal. E nós queremos que esta Escola seja a continuação dessa encruzilhada, desse encontro de culturas, de civilizações, do ocidente e do oriente, da China, de Portugal e da Europa. E queremos, acima de tudo, que esta Escola se torne conhecida, que esta Escola se prestigie, pela qualidade da sua gestão e, acima de tudo, pela excelência da sua capacidade pedagógica, tornando-se um marco, não só do sistema de ensino português, mas um marco do sistema educativo nesta parte do mundo.” Do Ministro Eduardo Marçal Grilo“A constituição da Fundação Escola Portuguesa de Macau é um marco que resulta da vontade de três entidades que se reuniram para a edificar:
F A L A R D E N Ó S - X V17J O R G E A . H . R A N G E LO Governo Português, envolvendo directamente os Ministérios dos Negócios Estrangeiros e da Educação, a Associação Promotora da Instrução dos Macaenses (APIM) e a Fundação Oriente, hoje representadas directamente no Conselho de Administração da Fundação, através, respectivamente, do Eng.º Roberto Carneiro, Presidente, da Dr.ª Joana Orvalho e do Dr. José Augusto Pereira Neto, em representação do Estado Português, do Dr. Oliveira Rodrigues, actual presidente da APIM e 1.º Vice-Presidente da Fundação e do Dr. João Amorim, em representação da Fundação Oriente e 2.º Vice-Presidente da Fundação.A constituição desta Fundação foi uma operação delicada e eu gostaria de assinalar nesta cerimónia os seus principais obreiros. Permitam-me, em primeiro lugar, que de forma muito sensibilizada me dirija à APIM e à Fundação Oriente, nas pessoas dos seus presidentes, Dr. Oliveira Rodrigues e Dr. Carlos Monjardino, bem como ao Dr. Henrique de Senna Fernandes, à data das negociações presidente da APIM, para agradecer todo o esforço que desenvolveram e a grande capacidade de negociação que demonstraram para que fosse possível constituir esta Fundação que é para nós uma peça essencial da presença de Portugal em Macau e sobretudo um instrumento que vai permitir aprofundar a cooperação entre Portugal e a República Popular da China, numa lógica de diálogo e de interacção culturais que não se esgotam com esta nossa iniciativa mas que se completa com a aproximação crescente que vem ocorrendo entre instituições portuguesas e chinesas da área educativa, seja ao nível do ensino superior, seja ao nível do ensino não superior, nomeadamente das escolas profissionais que foram recentemente definidas como áreas de actuação prioritária por parte dos dois governos. Permitam-me ainda que faça um agradecimento muito especial ao Governo de Macau e, em particular, ao Senhor Governador, o General Rocha Vieira, bem como ao
F A L A R D E N Ó S - X V 18J O R G E A . H . R A N G E LSenhor Secretário Adjunto, Dr. Jorge Rangel e à Direcção dos Serviços de Educação e Juventude pela forma como, desde o primeiro momento, se empenharam nesta iniciativa e o extremo cuidado com que sempre lidaram com questões que importava ultrapassar para se atingir o objectivo que a todos nos mobilizou e uniu. Finalmente uma palavra para o Eng.º Roberto Carneiro para lhe agradecer, em nome do Ministério da Educação e do Governo, ter aceite o nosso convite para presidir à Fundação e para lhe expressar o meu empenhamento pessoal no apoio do Ministério ao programa que vier a ser desenvolvido pela Fundação e pela própria Escola. Embora não competindo ao Ministro da Educação a nomeação da equipa que vai dirigir a Escola, quero saudar vivamente a escolha da Dr.ª Maria Edith da Silva para Presidente da Direcção, e agradecer-lhe a sua disponibilidade para dirigir uma Escola a que eu me sinto hoje tão ligado não só do ponto de vista institucional, mas também do ponto de vista afectivo e emocional. A Escola não poderia ficar melhor entregue e V. Ex.ª, Dr.ª Edith Silva, é o garante do projecto.”A terceira intervenção, contendo linhas de rumo e objectivos estratégicos, foi a de Roberto Carneiro, que iremos recordar e reapreciar no próximo artigo.9 de Abril de 2018
F A L A R D E N Ó S - X V19J O R G E A . H . R A N G E LEPM – Reapreciar o quíntuplo objectivo estratégico definido há 20 anos A propósito do 20.º aniversário da Escola Portuguesa de Macau, que se comemora, com justificado júbilo, no corrente mês de Abril, recordámos, no artigo anterior, os discursos de dois altos responsáveis políticos do Estado Português, proferidos no dia 18 de Abril de 1998, no acto público que assinalou formalmente a criação daquela Escola. O Primeiro-Ministro, António Guterres, classificou a Escola como “um elemento fundamental da afirmação de Portugal”, “no contexto das relações internacionais do nosso país”, mas “também no contexto da nossa identidade”, devendo ela constituir “um marco não só do sistema de ensino português, mas um marco do sistema educativo nesta parte do mundo”. Por seu lado, o Ministro da Educação, Eduardo Marçal Grilo, explicou a constituição da Fundação Escola Portuguesa de Macau, identificou os seus primeiros parceiros e obreiros e expressou os seus agradecimentos pessoais e os do Ministério às entidades que ajudaram a “atingir o objectivo que a todos nos mobilizou e uniu”, sendo a Fundação “uma peça essencial da presença de Portugal em Macau e sobretudo um instrumento que vai permitir aprofundar a cooperação entre Portugal e a República Popular da China, numa lógica de diálogo e de interacção culturais que não se esgotam nesta iniciativa mas que se completa com a aproximação crescente que vem ocorrendo entre instituições portuguesas e chinesas da área educativa”.Orientações estratégicasJuntamos agora a intervenção de Roberto Carneiro, presidente do Conselho de Administração da Fundação Escola Portuguesa de Macau, que merece ser reapreciada neste tempo de necessário balanço. Com clareza e fluência, apontou, desde logo, rumos e objectivos estratégicos: “Uma futura Escola Portuguesa de Macau serve este nobilíssimo propósito: aprofundar e ampliar a mais-valia do Território no contexto da confluência criativa entre dois mundos...”
F A L A R D E N Ó S - X V 20J O R G E A . H . R A N G E L“Macau enfrenta, neste virar de século, um novo ciclo da sua história.A mudança de Administração que terá lugar a 20 de Dezembro de 1999, feita de modo tranquilo e concertado, apresenta-se para o Território e para a sua população como uma extraordinária oportunidade, potenciando o aprofundamento de uma estratégia diferenciadora para Macau, no contexto da grande nação chinesa.Num tempo de globalização os grandes espaços necessitam de pontes eficazes. Portugal e a Europa precisam de iniciar um novo período de abertura à grande pátria chinesa, do mesmo modo que a China vê em Portugal e na Europa um parceiro indispensável ao seu desenvolvimento.Só por acaso – um acaso que terá distado uns escassos 50 anos – os grandes navegadores coevos Cheng-Ho e Bartolomeu Dias não se encontraram em plena costa oriental africana. Por mero capricho do destino, um encontro marcado para ter lugar no mar só viria a ter lugar em terras macaenses algumas décadas mais tarde.Uma futura Escola Portuguesa de Macau serve este nobilíssimo propósito: aprofundar e ampliar a mais-valia do Território no contexto da confluência criativa entre dois mundos, apostando numa presença activa da língua e da cultura portuguesa bem como nas condições de um diálogo perene com as matrizes linguística e cultural chinesas. Para a família e a cultura chinesas, a educação é a mãe de todas as oportunidades, a porta de abertura para o futuro. ‘A vida é limitada, mas o aprender é ilimitado’ como repetidamente ouvimos dizer na sempre fresca sabedoria confuciana. Do mesmo modo, para Portugal, os investimentos na promoção da sua língua e na valorização da sua cultura são o seu mais incontornável desígnio, um dever indeclinável para quem durante 500 anos vagueou pelo mundo, semeando os seus mistérios.
F A L A R D E N Ó S - X V21J O R G E A . H . R A N G E LNeste entendimento, a futura Escola Portuguesa de Macau serve um quíntuplo objectivo estratégico:1. Dar continuidade ao legado espiritual e intercultural de Macau, fortalecendo a indispensável contribuição da presença multissecular portuguesa no Território.2. Favorecer a afirmação dos traços diferenciadores de Macau e elaborar sobre as suas mais marcantes especificidades.3. Constituir-se como sede de um verdadeiro centro de excelência educativa dotado dos mais avançados meios pedagógicos e vocacionado para prestar serviços avançados em educação e em formação, para benefício de toda a região envolvente.4. Ministrar o ensino da e em língua portuguesa, de natureza curricular e extracurricular, mediante uma cuidada articulação com outras instituições de referência no Território.5. Estabelecer pontes entre as línguas e culturas europeias de grande expressão internaional e a chinesa, por forma a potenciar a vantagem competitiva da população beneficiada e a permitir a emergência gradual de futuras gerações, no mínimo, trilingues (isto é fluentes nos idiomas chinês, português e inglês).China e Portugal entrelaçam-se num eterno abraço macaense. A sonoridade da palavra é confrangedoramente curta e pobre para o significar. A expressão, porventura, mais feliz para o traduzir encontrar-se-ia na bela palavra do grande poeta chinês Li Bai: O teu cavalo é baio, / o meu cavalo é branco. / Diferente a cor dos cavalos, / semelhante o coração dos amigos.”
F A L A R D E N Ó S - X V 22J O R G E A . H . R A N G E LUm balanço decisivoVinte anos volvidos, importa reequacionar, à luz da experiência feita e dos resultados alcançados, o quíntuplo objectivo estratégico oportunamente traçado por Roberto Carneiro. Tendo ele acompanhado, intensa e empenhadamente, o funcionamento da Escola ao longo de duas décadas e conhecendo profundamente o seu percurso, nem sempre linear e sereno mas que, com todas as insuficiências constatadas, pode ser reconhecido como uma história de sucesso, o seu papel no balanço que importa fazer é indispensável. Um livro em execução, artigos e entrevistas que serão certamente publicados e as intervenções públicas que integrarão as comemorações contribuirão para fazer a história deste projecto educativo fundamental, mesmo sabendo que muito do que se discutiu e se estudou, ainda na fase das opções que foram sendo consideradas, bem como episódios relevantes relacionados com os caminhos percorridos, poderão nunca ser completamente conhecidos. No entender de muitos, talvez já nem interesse relembrar ou aprofundar tudo, porque é o amanhã que deve, sem dúvida, preocupar mais os responsáveis.Com as alterações estatutárias recentemente efectuadas, de que se destacam a sua conveniente reestruturação e a criação de um conselho de curadores, constituído por personalidades que são, no seu conjunto, mais-valias para a Fundação e para a Escola, a par da ampliação dos apoios oficiais locais, poderão estar criadas as condições para, com realismo e ambição, se consolidar o funcionamento da Escola como instituição de referência e se redimensionar, com visão de futuro, a sua capacidade e os seus meios, para que ela possa assumir integralmente o papel que lhe foi confiado desde a primeira hora. 16 de Abril de 2018
F A L A R D E N Ó S - X V23J O R G E A . H . R A N G E LInstrumentos musicais chineses – de dissertação a livro “Um sistemático e analítico inventário de instrumentos musicais chineses, um marco de investigação integrada e precisa, no estudo das relações transculturais musicais, que no passado e no presente tornam próximas as distâncias, fazem emergir afinidades e partilhas no para além das diferenças.” A colecção “Suma Oriental”, do vasto acervo editorial do Instituto Internacional de Macau (IIM), foi recentemente enriquecido com a publicação do livro “Instrumentos Musicais Chineses – Coleção do Museu do Centro Científico e Cultural de Macau/Lisboa”, cujo lançamento teve lugar na Biblioteca João Paulo II da Universidade Católica Portuguesa (UCP), em Lisboa, no passado dia 11 de Abril, com numerosa participação de professores, estudantes, entidades ligadas a Macau, colegas e amigos do autor.No âmbito da cooperação estabelecida com a UCP, foi com grande satisfação que o IIM assumiu a edição deste premiado trabalho sobre os instrumentos musicais chineses da colecção do Centro Científico e Cultural de Macau (CCCM), instituto público do Estado Português criado em 1999 por iniciativa do General Vasco Rocha Vieira, último Governador do território que é uma região administrativa especial da China desde 20 de Dezembro de 1999. Este trabalho resultou da adaptação da melhor tese de mestrado apresentada na UCP em 2016, na área de estudos asiáticos, sendo seu autor Enio de Souza, personalidade ligada há mais de três décadas a instituições culturais e centros de investigação académica cujo objecto principal tem a ver com estudos de Macau e das relações interculturais de Portugal com a China, nas suas diversificadas vertentes, sendo hoje um reconhecido especialista em diversas matérias neste domínio. Esta circunstância feliz permitiu que a UCP, o CCCM e o IIM ficassem envolvidos num relevante projecto editorial conjunto que contou também com a colaboração da Fundação Jorge Álvares.Enquadramento e caracterizaçãoÉ do presidente do CCCM, Prof. Luís Filipe Barreto, esta sucinta nota de apresentação, que enquadra, resume e caracteriza muito bem o conteúdo do livro:
F A L A R D E N Ó S - X V 24J O R G E A . H . R A N G E L“I – O Renascimento Asiático Global é um dos padrões chave do século XXI. As Ásias da Ásia, com especial destaque desde os anos oitenta do século passado para a China, possuem crescente impacto mundial. Existe hoje um peso cada vez mais vincado e explícito de sociedades, economias, políticas e culturas da China, Índia, Coreia, Japão, Indonésia, etc. no dia-a-dia das Europas da Europa e dos outros mundos Africano, Asiático, Americano. Este nosso presente, bem como um provável futuro de crescente asiático, tem consequências e implicações em todas as áreas das vidas individual, institucional e social. Os acontecimentos e as informações, as tecnologias e as ciências, patrimónios e museus, conhecimentos práticos, eruditos, científicos, manifestam, cada vez mais, mil e um sinais de presença e de reforço de traços de asiatização. Asiatização dialogal e sincretizada com a anterior europeização mundial mas que, ainda assim, desafia horizontes do conhecido e valorado, modelos e certezas, cânones e normas instituídas sobretudo a partir do século XIX.II – O estudo histórico-cultural, específico e fundamentado, de traços de Ásia e de Asiatização, no presente e no passado, é uma das faces visíveis deste fenómeno. A obra do mestre e investigador Enio José de Souza que agora se edita é um excelente manifesto do crescente interesse pelo património eurasiático, pela herança cultural da multissecular relação direta, regular e contínua de europeus com os mundos da China e da restante Ásia Oriental. Este estudo de caso está centrado no conjunto de Instrumentos Musicais Chineses da coleção do Museu do Centro Científico e Cultural de Macau, Instituto Público do Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior de Portugal. Investigação que revela um património de alto valor e informa, de um modo acessível, rigoroso e detalhado, acerca de um caminho nas relações transculturais entre Portugal e a China. Caminhos de mais de meio milénio
F A L A R D E N Ó S - X V25J O R G E A . H . R A N G E Lcom múltiplas vias, fases e faces de relacionamento, integração, sincretização, que sempre passam por Macau, a fronteira e a ponte comuns das histórias e geografias da China/Ásia Oriental e Portugal/Atlânticos. Em Macau o mestre Enio de Souza ganhou fundamentos e interesse sobre a cultura e a sociedade chinesas. Ganhou vivência e experiência nas relações interculturais Portugal-China. Esta formação foi trazida para o CCCM (que integra, desde 1999) e onde tem continuado a desenvolver ação e conhecimento, investigação e divulgação, reflexão e informação (sobretudo mas não só) na área da museologia e da cooperação com a China e a Região Administrativa Especial de Macau.O investigador Enio José de Souza continua a desenvolver, aprofundar, especializar todo este universo de investigação. O trabalho que agora se publica é no entanto já um fundamental exercício de ponto de situação na área da musicologia e do património intercultural China-Portugal. Um sistemático e analítico inventário de instrumentos musicais chineses, um marco de investigação integrada e precisa, no estudo das relações transculturais musicais, que no passado e no presente tornam próximas as distâncias, fazem emergir afinidades e partilhas no para além das diferenças. O conhecer, crítico e académico, do património cultural chinês que se formou e acumulou em Portugal é um dos desafios científico-culturais do século XXI. Um dos questionários prioritários na missão do CCCM e com maior utilidade social de conhecimento em áreas como museologia, turismo cultural, relações internacionais, cooperação académica. O estudo de caso de Enio José de Souza é um contributo que revela também a pluralidade de dimensões e decisões, circunstâncias e ritmos, que se cruzam e emergem nas políticas e práticas culturais/transculturais.O CCCM agradece ao doutorando Enio de Souza e congratula-se com o seu percurso também académico que nos permite este saber pormenorizado de uma coleção do
F A L A R D E N Ó S - X V 26J O R G E A . H . R A N G E LCCCM. Que nos permite cumprir mais e melhores funções chave deste instituto público que passam pela integração harmoniosa de investigação académica com disseminação e divulgação fundamentadas. Através desta obra a coleção de instrumentos musicais chineses do CCCM pulsa vida e saber, paixão e experiência.”Estudo bem elaboradoEste oportuno e bem elaborado estudo de Enio de Souza irá, sem dúvida, permitir uma divulgação mais ampla e sistematizada desta representativa colecção de instrumentos musicais chineses do CCCM, instituto público português que tem estimulado e desenvolvido notável investigação da cultura chinesa e do património cultural luso na Ásia Oriental, e cujo museu, de reconhecida qualidade e alto significado, merece maior promoção e apoio. Além duma introdução onde o autor explica a metodologia seguida, o livro contém um capítulo dedicado ao contexto histórico da música chinesa e respectiva organologia, a que se segue um outro em que é divulgada a história da colecção que constitui objecto principal deste trabalho. São depois classificados e caracterizados os instrumentos, cada um dos quais é mostrado através de bonitas fotografias coloridas, sendo também referidos os selos, marcas e inscrições neles existentes. Na conclusão, o autor identifica as principais colecções existentes em Portugal e defende a criação de uma disciplina ou seminário sobre música chinesa em departamentos de ciências musicais de universidades portuguesas e nos conservatórios de música. O livro fecha com um glossário, um quadro cronológico da civilização chinesa e uma extensa relação bibliográfica. Esta obra de Enio Souza deverá ser apresentada em Macau, na segunda quinzena de Maio, com a presença do autor. 23 de Abril de 2018
F A L A R D E N Ó S - X V27J O R G E A . H . R A N G E LPertinentes observações do autor do livro “Instrumentos Musicais Chineses”“Neste estudo abordámos a organologia chinesa em Portugal, com especial destaque para as espécies que integram a coleção do Museu do Centro Científico e Cultural de Macau, em Lisboa, considerada uma das mais significativas coleções de instrumentos musicais que melhor representam a erudita organologia da civilização chinesa.”Nota contida nas conclusões do livroNo artigo anterior, referimos, com natural júbilo, a recente publicação do livro “Instrumentos Musicais Chineses – Coleção do Museu do Centro Científico e Cultural de Macau/Lisboa”, o qual foi lançado recentemente na Universidade Católica Portuguesa. É seu autor Enio de Souza, conhecido e qualificado investigador das relações interculturais Portugal – China, tendo esta bem concebida edição ficado integrada na colecção “Suma Oriental” do vasto acervo do Instituto Internacional de Macau.Considerações oportunasPela sua inegável pertinência e oportunidade, quisemos reproduzir agora, com vista à sua maior divulgação, as seguintes observações e considerações em boa hora formuladas pelo autor: “1 – Não é compreensível o facto de em Portugal não haver especialistas (musicólogos e/ou etnomusicólogos) que se tenham debruçado sobre a música e os instrumentos musicais chineses e, consequentemente, a falta de estudos académicos, considerando, sobretudo, os cinco séculos de intercâmbio entre Portugal e a China. Em 2013, foram assinalados os quinhentos anos do aportamento de Jorge Álvares numa das ilhas da província de Guangdong, no sul da China.2 – A música e os instrumentos musicais chineses são referenciados em documentação produzida por cronistas, por mercadores e por representantes de algumas ordens religiosas, nomeadamente pelos membros da Companhia de Jesus, desde a primeira metade do século XVI. Em Portugal há poucos estudos e/ou levantamentos do material contido nestas fontes documentais relativamente ao tema do presente estudo. Conseguiu-se, contudo, encontrar algumas referências à
F A L A R D E N Ó S - X V 28J O R G E A . H . R A N G E Lmúsica chinesa e seu intrumental, como por exemplo num artigo datado de 1997, da autoria de Maria de São José Côrte-Real, ‘A música na Peregrinação de Fernão Mendes Pinto’, na obra Portugal e o Mundo, Encontro de Culturas na Música, editado por Salwa el-Shawan Castelo-Branco; nas comunicações de Gerhard Doderer e Ana Padesca, publicados em 1998, nos Cadernos de História IX, pela Comissão Municipal dos Descobrimentos, em Lagos; um texto publicado no catálogo da exposição Os Fundamentos da Amizade – Cinco Séculos de Relações Culturais e Artísticas Luso-Chinesas, datado de 1999, edição do CCCM; dois textos de Enio de Souza, ‘O Património Musical Chinês em Portugal’, Portugal-China: 500 Anos, editado pela Biblioteca Nacional de Portugal, datado de 2014; ‘Estudo de Caso: Duas Pedras Sonoras (qing) Coleção Casa-Museu Medeiros e Almeida’ publicado em 2015 nas atas do colóquio Património Cultural Chinês em Portugal, editado pelo CCCM e, mais recentemente, a apresentação e defesa da dissertação de mestrado de Leonor Azêdo, Nós somos o Estado e o Estado é o território: Música e Representação Identitária na Orquestra Chinesa de Macau, defendida em 2016. Assim, será de extrema importância que se dê continuidade ao exaustivo levantamento das obras de autores portugueses, onde a música e os instrumentos musicais chineses são referenciados e, consequentemente, se proceda ao seu respetivo estudo. 3 – De igual modo, é relevante dar continuidade ao levantamento das espécies organológicas chinesas existentes em coleções públicas e privadas, parte integrante do património cultural chinês, existente em Portugal e, por conseguinte, proceder ao seu estudo sistemático. Lembramos que, do levantamento já realizado, em cinco coleções, apenas em Lisboa, foram localizadas mais de quatrocentas espécies.4 – Atendendo à complexidade e especificidade da música chinesa e respetiva organologia, urge a criação de uma disciplina e/ou um seminário, em
F A L A R D E N Ó S - X V29J O R G E A . H . R A N G E Ldepartamentos de ciências musicais que integram algumas das universidades portuguesas e dos conservatórios de música, cujo conteúdo programático incida sobre a temática em apreço. Do levantamento realizado em universidades, institutos politécnicos e em conservatórios de música, concluímos a completa inexistência de formação nesta área. 5 – Do levantamento realizado sobre o instrumental chinês em algumas coleções em Lisboa foram, também, encontradas diversas espécies instrumentais de outras culturas asiáticas, nomeadamente da Índia, do Japão, da Indonésia e da Tailândia. Daquilo que se conseguiu apurar durante a presente investigação há, também, em Portugal, poucos estudos relacionados com a música e instrumentos musicais da Ásia. Conclui-se, então, a importância de serem criadas disciplinas relacionadas com esta matéria, nomeadamente no âmbito da musicologia histórica e da etnomusicologia, incrementando, assim, os Estudos Asiáticos, em Portugal. 6 – Relativamente a algumas instituições museológicas com espécies instrumentais chinesas expostas, deparou-se com algumas informações menos corretas e, por vezes, desatualizadas quer na identificação e classificação dos instrumentos quer na nomenclatura utilizada. Assim sendo, urge atualizar estas informações principalmente no que se refere à nomenclatura. Atualmente, adota-se o sistema Pinyin, em detrimento do sistema Wade-Gilles. 7 – Dos inúmeros encontros científicos realizados em Portugal, desde 2000, cuja temática incidiu sobre a Cultura Chinesa, o número de comunicações apresentadas sobre a arte sonora na China é relativamente insignificante. Durante este período, foram apresentadas somente três comunicações sobre organologia chinesa em Portugal, a saber: no colóquio O Património Cultural Chinês em Portugal,
F A L A R D E N Ó S - X V 30J O R G E A . H . R A N G E Lorganizado pelo Centro Científico e Cultural de Macau, em 2013; na terceira edição do Organological Congress, organizado pela Associação Nacional de Instrumentos Musicais (ANIMUSIC) e na 20.ª Conference of the European Association for Chinese Studies, realizadas em Braga e em Coimbra, em julho de 2014. Esta realidade é simplesmente a denúncia da inexistência de especialistas e, consequentemente, a falta de estudos sistemáticos, em Portugal, sobre a matéria em causa. 8 – Este estudo aponta, também, para uma série de temas que poderão constituir importante material de investigação, a saber: identificação iconográfica de instrumentos musicais chineses em objetos de tipologias diversas, no quadro das artes em Portugal, o que poderá constituir um importante contributo para a reconstituição de cenas do quotidiano chinês, no qual a música desempenha um papel de destaque; a análise sociológica da arte sonora e respetivo instrumental na civilização chinesa; a influência ocidental na música e organologia chinesas, sobretudo a partir da segunda metade do século XIX; o panorama musical chinês depois de 1911; o revivalismo musical durante a Revolução Cultural, entre outros.”Sugestões fundamentadasO Autor, que merece o nosso aplauso e reconhecimento, não se limitou à identificação das principais colecções existentes em Portugal, à classificação e caracterização das espécies e a explicar o contexto histórico da música e sua organologia na China, bem como o seu desenvolvimento em Portugal nas últimas décadas. Juntou bibliografia, um glossário e uma cronologia útil e ofereceu a quem possa interessar um conjunto de sugestões fundamentadas para consideração e reflexão nas escolas de música. Oxalá possa, ele próprio, ser envolvido na resolução correcta das insuficiências constatadas. 30 de Abril de 2018
F A L A R D E N Ó S - X V31J O R G E A . H . R A N G E LEPM – 20 anos, contigo a navegarPara assinalar o seu vigésimo aniversário, a Escola Portuguesa de Macau (EPM) promoveu a realização, no dia 21 de Abril, no grande auditório do Centro Cultural de Macau, de um vistoso, muito significativo e bem encenado sarau, inteiramente concebido e organizado por professores e estudantes. Os fortes e prolongados aplausos do público, constituído maioritariamente por alunos, professores, pais e outros familiares, além de convidados ligados à Fundação Escola Portuguesa de Macau (FEPM) e a organismos públicos e privados dos sectores educativo e cultural da RAEM, foram muito bem interpretados como um expressivo reconhecimento da qualidade do espectáculo que a muitos surpreendeu positivamente. Para além de várias outras iniciativas, incluindo um convívio na Escola, onde se procedeu ao corte do bolo de aniversário na presença do membro do Governo da RAEM responsável pela área da Educação e do Cônsul-Geral de Portugal, ambos apoiantes incondicionais deste singular projecto educativo, foi este sarau o ponto alto das comemorações, jubilosamente levadas a efeito num tempo de balanço que o Conselho de Curadores da FEPM aproveitou para, em sucessivas reuniões de trabalho, fazer uma profunda reflexão sobre o seu funcionamento e para perspectivar o seu desenvolvimento futuro. Duas décadasO presidente da Direcção da EPM, Manuel Peres Machado, na saudação de abertura, aproveitou para, em cuidada síntese, referir o bem conseguido percurso da Escola. Desse texto, reproduzimos algumas passagens mais relevantes: “Neste percurso de vinte anos, em que a Escola Portuguesa se afirmou e consolidou o seu projeto educativo junto da sociedade, é incontornável o nome da Dra. Maria Edith Silva, obreira incansável e principal responsável pelo sucesso alcançado, “Neste percurso de vinte anos, em que a Escola Portuguesa se afirmou e consolidou o seu projeto educativo junto da sociedade, é incontornável o nome da Dra. Maria Edith Silva, obreira incansável e principal responsável pelo sucesso alcançado, juntamente com todos aqueles que constituíram a sua equipa nos primeiros quinze anos de existência desta instituição.”Manuel Peres Machado, presidente da EPM
F A L A R D E N Ó S - X V 32J O R G E A . H . R A N G E Ljuntamente com todos aqueles que constituíram a sua equipa nos primeiros quinze anos de existência desta instituição.Atualmente a Escola Portuguesa é frequentada por 577 alunos de 24 nacionalidades, do 1º ao 12º anos de escolaridade. Ao longo dos últimos 5 anos, a realidade desta Escola tem-se vindo a alterar significativamente, exigindo um trabalho contínuo de acompanhamento e de reflexão por forma a melhor responder às novas exigências. É de referir, a título de exemplo, o aumento progressivo do número de alunos que não têm o português como língua primeira, a sua cada vez maior diversidade cultural, e o número crescente de estudantes com necessidades educativas que realizam um percurso escolar integrado e bem sucedido. A Escola Portuguesa, arrogando a nobre responsabilidade de representar Portugal, a sua cultura e os seus valores, na Região Administrativa Especial de Macau, da República Popular da China, assume, portanto, um projeto educativo holístico que, a par do conhecimento, honra a dimensão humana e as suas idiossincrasias, a identidade dos seus alunos e o respeito que lhes é devido, estando certa de que este é o caminho a prosseguir. Cabe aqui uma palavra de gratidão aos pais pela confiança depositada neste projeto e de profundo agradecimento à minha equipa, aos professores, às equipas especializadas e restantes funcionários da Escola Portuguesa, cujo trabalho e dedicação à Escola foram e continuarão a ser essenciais para a afirmação desta instituição na Região Administrativa Especial de Macau. Na verdade, as políticas e os valores educativos consagrados no Projeto Educativo da Escola Portuguesa de Macau, sobrelevando o primado da pessoa e de um quadro de
F A L A R D E N Ó S - X V33J O R G E A . H . R A N G E Lvalores que envolvem um profundo respeito pelo indivíduo e a abertura à comunidade envolvente numa perspetiva de permuta e serviço, privilegiando a comunicação entre culturas, têm levado a que esta instituição venha sendo procurada e reconhecida por um público cada vez mais vasto. Prosseguiremos, assim, os nossos objetivos de ministrar um ensino que, com um núcleo curricular português, faculte, como tem facultado, o prosseguimento de estudos em Macau, em Portugal e no resto do mundo. O aprofundamento da língua portuguesa, o ensino da língua chinesa, o reforço do multilinguismo, a comunicação com a comunidade educativa e a diversificação dos apoios aos alunos constituem alguns dos vetores em que continuaremos a investir com o intuito de oferecer uma educação que prepare os jovens para os desafios que enfrentarão quando abandonarem os bancos da Escola Portuguesa de Macau.”Para concluir, agradeceu a todas as entidades que apoiaram a Escola e enalteceu o esforço conjunto de muitos professores, alunos, ex-alunos e encarregados de educação, com destaque para a “equipa criativa” que concebeu e coordenou o sarau, constituída pelas professoras Cristina Street, Marinela Ferreira e Teresa Sequeira. Uma viagem de 500 anosO espectáculo, intitulado “20 Anos, Contigo a Navegar”, com a duração de cerca de três horas e meia, resumiu a longa viagem dos portugueses e o seu legado no mundo, em quadros sucessivos que envolveram danças, cânticos, poesia, desenho e teatro, com partida de Lisboa, de “uma nau feita de sonhos” que se fez ao mar “em busca de encontros que nos hão-de fazer quem somos, afinal”. A nau levou-nos às costas africanas, ao som de “África Minha, África Nossa”, passando por Cabo Verde,
F A L A R D E N Ó S - X V 34J O R G E A . H . R A N G E LGuiné-Bissau e S. Tomé e Príncipe, Angola e Moçambique e, para fechar a primeira parte, chegando ao país-irmão do outro lado do Atlântico, o Brasil, com os ritmos do samba e da capoeira, vencidos que foram os ventos de tormenta no cabo que se chamou da Boa Esperança. Na segunda parte fomos transportados ao Oriente, para Goa, Damão, Diu, com um festival de cores vivas, Malaca, a “tera di SanFrancisku”, Timor Leste, onde as notas de “Kole Lele Mai” preenchem o coração da saudade e, finalmente Macau, em “páginas de um livro que se inscreve no tempo”. Oito foram as cenas dedicadas a Macau, jardim abençoado: “Ontem e hoje”, o ontem e o hoje cruzaram-se, em cenas a cor e a preto e branco; “Complementaridades”, quando o Yin e o Yang se encontraram no Jardim de Camões, através de uma dança de lanternas e a dança do leão; “Deconversas, ou as bocas no Camões”, com um sketch de “chuchumecas”, malinguando em patuá; “Contemplação”, que se traduziu numa homenagem a Camilo Pessanha, num momento de grande lirismo; “Renovação”, traduzida na airosa dança da flor do jasmim; “Laços que perduram”, uma lição de amizade; “Nunca me esqueci de ti”, um hino vivo de louvor à EPM; e, finalmente, “20 anos, contigo a navegar”, quando os tambores rufaram e instrumentos musicais portugueses e chineses celebraram o encanto de vinte anos de vivências. Com todos os participantes no palco e nos corredores de acesso, a apoteose final fez levantar o público em estrondosos aplausos, terminando a festa com o hino da EPM orgulhosamente cantado. Parabéns, EPM! 7 de Maio de 2018
F A L A R D E N Ó S - X V35J O R G E A . H . R A N G E LNovas edições do IIM em três sucessivas sessões de apresentação“Para além dos seminários, conferências, colóquios, exposições e acções diversificadas de intercâmbio académico e cultural com instituições do exterior, foi, sem dúvida, na área das edições que o IIM alcançou resultados muito gratificantes, pela qualidade e variedade dos trabalhos publicados, na sequência de estudos realizados e dos contributos de uma vasta rede de colaboradores.”Do relatório anual do IIM respeitante a 2017Novas edições do Instituto Internacional de Macau (IIM) serão publicamente apresentadas, nos próximos dias 16, 17 e 21 do corrente, respectivamente no auditório do Consulado-Geral de Portugal, no salão principal do Clube Militar de Macau e no Albergue SCM, com a colaboração e o apoio destas três entidades. O já vasto acervo editorial do IIM fica agora enriquecido com mais estes livros, enquanto outros vão chegando à fase final de preparação, ao mesmo tempo que se procede já a identificação das publicações que integrarão o plano de 2019, ano da comemoração do 20.º aniversário da RAEM e do IIM. Mais um livro sobre a “Faixa e Rota”, no ConsuladoDecorrerá no próximo dia 16 de Maio, pelas 18:15 horas, no auditório do Consulado-Geral de Portugal em Macau e Hong-Kong, a sessão de lançamento do importante estudo “China’s Belt and Road Initiative – The role of Macao and the Portuguese-speaking countries”. Edição em língua inglesa do IIM, assumiu a sua produção a Agência de Informação e Notícias Macaulink, sob a coordenação de Gonçalo César de Sá, e integra análises de Thomas Chan, Paul Mooney, Paulo Figueiredo e José Luís Sales Marques sobre a ambiciosa iniciativa chinesa, que é provavelmente o maior projecto diplomático, político e económico da actualidade, pela imensa área geográfica coberta e pelo valor dos investimentos envolvidos, em infra-estruturas, comunicações, energia e empreendimentos económicos e empresariais. A iniciativa “Faixa e Rota” e o papel de Macau e dos países de língua portuguesa são explicados neste livro, publicado pelo IIM numa altura em que o assunto merece ainda maior destaque pela sua ligação ao projecto da Grande Baía que integrará
F A L A R D E N Ó S - X V 36J O R G E A . H . R A N G E La Província de Guangdong e as Regiões Administrativas Especiais de Hong Kong e Macau. O livro apresenta ainda a versão oficial da “Visão para a cooperação marítima no âmbito da iniciativa Faixa e Rota”, tornada pública pelo governo central da China em 2017. Apoiada pelo Fundação Macau, a sessão contará com apresentações de Francisco Leandro, professor da Universidade de São José, e José Luís Sales Marques, presidente do Instituto de Estudos Europeus de Macau. Em Dezembro passado, o IIM já havia apresentado, em Pequim e em Macau, o livro do investigador Paulo Duarte sobre este relevantíssimo tema, cujo título escolhido pelo autor foi “A Faixa e Rota chinesa – a convergência entre Terra e Mar”, sendo esta a primeira obra em língua portuguesa sobre o tema.Obras sobre Manuel da Silva Mendes em destaqueO salão principal do Clube Militar de Macau vai servir de cenário, no próximo dia 17 de Maio, pelas 18:30 horas, ao lançamento de duas novas edições dedicadas a Manuel da Silva Mendes.O primeiro livro, intitulado “O Oriente na Literatura Portuguesa – Antero de Quental e Manuel da Silva Mendes”, da colecção “Suma Oriental” do IIM, resultou de uma profunda investigação do professor do Instituto Politécnico de Macau, Carlos Botão Alves, de que resultou a identificação de um conjunto de ideias e de conceitos oriundos das correntes sapienciais do pensamento oriental, que foram tomados por Antero de Quental nos seus sonetos, e por Manuel da Silva Mendes nos seus ensaios, ao mesmo tempo que se destacou o papel activo que estes autores desempenharam no diálogo cultural entre a Europa e o Oriente. Enquanto que “Antero de Quental teve
F A L A R D E N Ó S - X V37J O R G E A . H . R A N G E Lum contacto indirecto com o Oriente cultural, sobretudo através de traduções, já Silva Mendes, que viveu em Macau durante cerca de três décadas, teve um diálogo directo e contínuo com orientais”. O que é relevante é que “os dois pertencem a uma geração de grande empenhamento político e social, para além de fecunda do ponto de vista literário”. Menos conhecido, provavelmente por ter passado a vida em Macau, é dada agora a este autor e pensador a projecção que merece. O segundo livro “Manuel da Silva Mendes”, da colecção “Mosaico” do IIM, é da autoria do investigador António Aresta, resultando de uma selecção de importantes artigos que publicou na imprensa sobre Silva Mendes. No prefácio deste livro, Ana Cristina Alves, outra conhecida professora e investigadora, destaca que Aresta tem procurado recolocar a obra de Manuel da Silva Mendes no lugar cimeiro que lhe é devido, com a divulgação de “diversas facetas deste sinólogo português que tanto tempo viveu em Macau”. Silva Mendes é reconhecido por António Aresta como o primeiro mentor da “Macaulogia”, ao lado de vários companheiros de saber que estiveram em Macau nas primeiras décadas do século XX. Com o apoio da Fundação Macau e colaboração do Clube Militar de Macau, as apresentações dos livros contarão com a presença de um dos autores, professor Carlos Botão Alves, da professora de língua e literatura da Universidade de Macau, Ana Cristina Dias, e de José Rocha Diniz, administrador do Jornal Tribuna de Macau. Estudo sobre instrumentos musicais chineses, no Albergue SCMNo dia 21 de Maio, pelas 18:30 horas, será apresentada no Albergue SCM a recente edição do IIM, intitulada “Instrumentos Musicais Chineses – Coleção do Museu
F A L A R D E N Ó S - X V 38J O R G E A . H . R A N G E Ldo Centro Científico e Cultural de Macau/Lisboa”. Este trabalho, que teve o patrocínio da Fundação Macau, resultou da adaptação da melhor dissertação de mestrado apresentada na Universidade Católica Portuguesa (UCP) em 2016, na área de estudos orientais, sendo seu autor Enio de Souza, personalidade ligada há mais de três décadas a instituições culturais e centros de investigação académica cujo objecto principal tem a ver com estudos de Macau e das relações interculturais de Portugal com a China. Esta circunstância feliz permitiu que a UCP, o Centro Científico e Cultural de Macau em Lisboa (CCCM) e o IIM ficassem envolvidos num relevante projecto editorial conjunto que contou também com a colaboração da Fundação Jorge Álvares. No âmbito da cooperação estabelecida com a UCP, foi com grande satisfação que o IIM assumiu a edição deste premiado trabalho sobre os instrumentos musicais chineses da colecção do CCCM, instituto público do Estado Português criado em 1999 por iniciativa do General Vasco Rocha Vieira, último Governador de Macau. Além duma introdução onde o autor explica a metodologia seguida, o livro contém um capítulo dedicado ao contexto histórico da música chinesa e respectiva organologia, a que se segue um outro em que é divulgada a história da colecção que constitui o objecto principal deste trabalho. São depois classificados e caracterizados os instrumentos, cada um dos quais é mostrado através de bonitas fotografias coloridas, sendo também referidos os selos, marcas e inscrições neles existentes. Caberá ao autor deste artigo, na qualidade de presidente do IIM, a coordenação das três sessões de apresentação. 14 de Maio de 2018
F A L A R D E N Ó S - X V39J O R G E A . H . R A N G E LTascas portuguesas dos anos cinquenta em Macau “No caso específico de Macau, a culinária portuguesa foi desenvolvida não só pelos nossos compatriotas mas também pelos chineses que conviveram de perto com soldados e marinheiros…” Pequenos restaurantes e tascas da propriedade de gente lusa aqui residente, de famílias macaenses ou de habitantes locais de etnia chinesa que foram tendo contactos mais intensos com a guarnição militar portuguesa ou que prestaram serviço nessas castiças casas de comida, foram aparecendo e desaparecendo ao longo de todo o século XX em Macau. Ainda hoje é assim, mais de 18 anos após a transição e não obstante o espantoso desenvolvimento que a indústria hoteleira e similar conheceu nas últimas décadas.Neste que é também um espaço de evocação e de memória, reproduzimos hoje um interessante artigo de Alberto Alecrim, saudoso amigo que a morte levou recentemente, publicado na Revista Macau, de Dezembro de 1988, com o título “Tascas portuguesas em Macau – naquele tempo não havia fast food”: Velhas tascas portuguesas “A arte culinária é componente essencial da cultura de qualquer povo. Os portugueses que o digam: em cada recanto do mundo que percorremos, sempre levámos o incomparável sabor das nossas iguarias. Macau não constitui excepção a esta regra: há pouco mais de meio século, existiam aqui diversas casas de pasto, onde se provava a típica dobrada com feijão branco ou a suculenta caldeirada à nossa moda. Tudo regado com bom vinho de cepa lusa…O progresso, porém, veio alterar este panorama. Com o rodar dos tempos, as casas de pasto foram fechando para dar lugar aos incaracterísticos especializados em ‘fast food’. Hoje, praticamente só A Vencedora subsiste como derradeiro exemplo das velhas tascas portuguesas de Macau. É certo que os pratos confecionados fora das paragens lusitanas pecam muitas vezes por falta de casticismo. Ou porque não existem condimentos apropriados, ou pelas
F A L A R D E N Ó S - X V 40J O R G E A . H . R A N G E Lcarências provocadas pela distância, ou por excesso de improvisação dos cozinheiros, a verdade é que o gosto pela mestiçagem que sempre revelámos noutros domínios também se estendeu à gastronomia. De qualquer modo, geralmente a assimilação tem a virtude de fazer sobressair, ainda mais, a saudade dos mais variados petiscos – prova insofismável de que através do repasto também nos sentimos ligados ao torrão natal. No caso específico de Macau, a culinária portuguesa foi desenvolvida não só pelos nossos compatriotas mas também pelos chineses que conviveram de perto com soldados e marinheiros, fazendo a sua aprendizagem nos ranchos e messes dos quartéis ou a bordo dos navios de guerra em missão de soberania.Nos alvores do século já havia diversas casas de pasto espalhadas pela cidade. Mas as que fizeram história concentravam-se, há cerca de 50 anos, na Rua do Campo ou suas imediações, como aconteceu com A Japonesa, nome que o seu proprietário registou por estar casado com uma filha do Império do Sol Nascente. Por essa altura, na mesma artéria, também abriram as portas a Casa do Povo e a Aurora Portuguesa – fundadas por Eugénio Jorge, que ainda mantém descendência no Território, embora nenhum dos filhos tivesse seguido a vocação do progenitor. Eugénio Jorge explorou igualmente o célebre Quiosque, que dispunha no andar térreo de um concorrido jogo de bilhar. Hoje, o Quiosque encontra-se no mesmo local – defronte do Centro Católico – mas foi transformado, há longos anos, em biblioteca chinesa.”A Kuan e Lam IuNeste artigo, Alberto Alecrim recordou o velho A Kuan, de A Vencedora, e Lam Iu, proprietário do Adamastor, onde o azeite utilizado era só o português:
F A L A R D E N Ó S - X V41J O R G E A . H . R A N G E L“Ementas portuguesas fizeram igualmente fama no Restaurante Lisboa e, mais tarde, no Lusitano e no Kai San, fundado por um antigo miliciano na Travessa dos Anjos, onde se jogava a popular ‘laranjinha’, com as características do provinciano jogo da malha, mas jogado com bolas de madeira a tabelar numa bola mais pequena, chamada ‘carriça’. Este passatempo, muito vulgar nas antigas tascas portuguesas, também aqui já passou de moda. A Cecília, na Rua Pedro Nolasco da Silva, também se dedicava à confecção da nossa culinária, à semelhança de tantas outras casas de pasto que abriam e fechavam as portas consoante o fluxo do negócio. De propriedade de cidadãos chineses existiam, já no dealbar dos anos trinta, o Fat Siu Lau, na Rua da Felicidade, e A Vencedora, na Rua do Campo. Só estas duas acabaram por resistir à erosão dos tempos, chegando aos nossos dias. Mas o Fat Siu Lau veio a perder as características que o popularizaram até ao mais recôndito recanto de Portugal: a cozinha portuguesa de permeio com o pombo assado e o arroz ‘à Malo’ – distorção do nome de Mário pronunciado pelos empregados chineses, e que teve origem num dos seus mais assíduos clientes, Mário Morais Alves. Na verdade, só A Vencedora subsiste como casa de pasto, apesar de o ex-proprietário ter já entregue o negócio aos filhos. Foi o velho A Kuan, com o precioso auxílio de sua mulher, que fomentou o negócio legado por seu pai, negócio que resiste desde há 73 anos e que o tornou no mais popular poiso dos militares durante os períodos de licença. A Kuan, não só apresentava as ementas a preços módicos como também nos momentos de aflição monetária, auxiliava os habituais clientes a desenvencilhar-se dos seus problemas momentâneos. Distante da maioria das casas de pasto, num ponto outrora pacato da cidade, existia o Adamastor, situado na Avenida Horta e Costa, a poucos metros do Mercado Vermelho. O proprietário, o chinês Lam Iu, baptizou a sua casa de comidas em homenagem ao vaso de guerra do mesmo nome, onde serviu como ajudante de cozinha
F A L A R D E N Ó S - X V 42J O R G E A . H . R A N G E Le com tamanha dedicação que o comandante do navio o incorporou na guarnição, finda a comissão de serviço, durante a viagem de regresso a Lisboa. Depois de regressar a Macau, Lam Iu trabalhou no Palacete de Santa Sancha, ao tempo do Governador Tamagnini Barbosa, vindo anos depois a dedicar-se à exploração da cozinha portuguesa como ramo de negócio. Foi o Adamastor que em meados dos anos setenta viu entrar, como seu fortuito cliente, o filho de Tamagnini Barbosa, que, integrado na primeira romagem de saudade organizada pela Casa de Macau em Lisboa, aproveitou para dar um abraço ao velho cozinheiro após uma ausência de mais de trinta anos. Lam Iu nutria tanta admiração pelos vindouros da ocidental praia lusitana que em todas as suas refeições utilizava o azeite português. Nestes dias em que a ‘fast food’ se tornou moda citadina, do Adamastor só resta o imponente edifício duma instituição bancária.”Fotos de conhecidas tascasVárias fotografias ilustram o artigo: uma da biblioteca chinesa do Jardim de S. Francisco, edificada num dos cruzamentos mais movimentados da cidade, com a legenda “Há meio século era o Quiosque, tasquinha portuguesa com bilhar no rés-do-chão”, e quatro do interior de A Vencedora, com as mesas ocupadas com comensais saboreando os seus petiscos caseiros e estas breves notas “A Vencedora é dos raros locais onde uma certa velha guarda portuguesa, luso-chinesa e chinesa se encontra e confraterniza” e “O antigo proprietário soube transmitir aos filhos, anos e anos de experiência. A Vencedora é dos poucos restaurantes onde a relação entre quem come e quem serve é de amigos de longa data.” Recordar é reviver. À mesa saberá sempre ainda melhor! 21 de Maio de 2018
F A L A R D E N Ó S - X V43J O R G E A . H . R A N G E LPara uma literatura da identidade macaense “... cada um pode ter o lugar imaginário onde cabe a sua comunidade, seja o Macau físico hodierno, seja o Macau que cristalizou num tempo da memória.” As duas últimas semanas foram férteis em sessões de lançamento de novas edições do Instituto Internacional de Macau (IIM), levadas a efeito nas suas próprias instalações, no auditório do Consulado-Geral de Portugal, no Clube Militar de Macau e no Albergue SCM. Até ao fim do ano, muitos outros livros, que fazem parte do programa editorial do IIM para 2017/2018, deverão ser publicamente apresentados, em Macau, em Portugal, no Brasil e em cidades de outras partes do mundo onde algumas Casas de Macau têm as suas sedes ou onde funcionam instituições que estabeleceram parcerias úteis com o IIM. Entretanto, está prestes a sair do prelo mais uma tese académica relacionada com Macau e a identidade macaense. Reconhecendo a sua relevância e oportunidade, foi com satisfação que o IIM decidiu integrar no seu já vasto acervo editorial mais este trabalho relacionado com a memória de Macau e com uma comunidade singular que é a sua expressão viva mais autêntica e, em significativa medida, a verdadeira razão de ser do estatuto de autonomia que lhe foi assegurado por acordo firmado, em 1987, pelos dois Estados com direito de intervenção na definição do seu futuro – Portugal e a República Popular da China – e que se mantém em vigor quase duas décadas após a transferência do exercício da soberania, ocorrida solenemente em Dezembro de 1999. Esse estatuto, como se sabe, tem validade juridicamente garantida até Dezembro de 2049, não obstante os passos seguros já preparados e que vão sendo dados no sentido da natural e progressiva integração do território em espaços vizinhos mais amplos. Investigadora e professoraA autora desta tese, Maria da Conceição Correia Salvado Pinto Pereira Barras Romana, distinta e respeitada investigadora e professora do ensino superior, cuja permanência de oito anos em Macau lhe despertou o interesse por temas relacionados com a presença portuguesa no Oriente, procurou perspectivar, no seu estudo, a literatura produzida em Macau. Esta é constituída por obras de autores – e foram muitos – que,
F A L A R D E N Ó S - X V 44J O R G E A . H . R A N G E Lnão tendo nascido no território, sobre ele escreveram, “textualizando as suas vivências de estadias mais ou menos prolongadas”, e por contos, romances, relatos, crónicas e poemas, em português e em “patuá”, crioulo luso então generalizadamente falado entre nós e agora, infelizmente, em risco de extinção, que os “filhos da terra” nos foram legando, dando testemunho dos valores, da maneira de viver, das tradições e dos hábitos enraizados na mátria que lhes serviu de berço e que, para eles, constituirá, ainda e sempre, referência permanente e fonte inesgotável de inspiração. Licenciada em Ciências Sociais e em Português Científico, pós-graduada em Linguística Geral, mestre em Estudos Portugueses Interdisciplinares e doutora em Sociologia, com especialização em Sociologia da Literatura, Maria da Conceição Barras Romana é professora do Instituto Politécnico de Tomar, cujos Conselhos Pedagógico e Técnico-Científico integra, além de ter dirigido os cursos de licenciatura em Comunicação Social e em Vídeo e Cinema Documental. A sua dissertação de mestrado, defendida na Universidade Aberta, foi sobre a “Relação da Grande Monarquia da China”, bosquejo histórico do Celeste Império, de 1643, escrito pelo missionário jesuíta Álvaro Semedo, simultaneamente protagonista e narrador de muitas histórias sobre “um reino encantatório, longínquo e diferente”, que o Ocidente começava então a descobrir. Título e conteúdoPara título da sua tese de doutoramento, que mereceu do júri a nota máxima na Universidade da Beira Interior, a autora escolheu “Para uma Literatura da Identidade Macaense, Autores/Atores”, que é também o título deste livro, sendo um muito importante estudo da “construção/manutenção da identidade cultural dos Macaenses tendo por corpus as suas obras”, sendo analisadas “as imagens de semelhança e de alteridade constantes nas narrativas romanescas ou em pequenos contos, crónicas e poemas do autor/ator que presencia a construção, sendo também ele o construtor/construído”.
F A L A R D E N Ó S - X V45J O R G E A . H . R A N G E LAo longo de seis capítulos, que incluem uma introdução onde são explicados os objectivos e a metodologia de análise adoptada, faz-se um enquadramento conceptual em torno da Sociologia da Literatura, em que são caracterizados os géneros, a ficção e a realidade, a representação e a identidade, sendo depois recordados a génese de uma comunidade e o longo processo da construção da sua identidade, bem como o papel da literatura como contributo dessa identidade, com os actores sendo os próprios autores, o que é revelado através de imagens da sua interioridade e também da exterioridade.Henrique de Senna Fernandes e a sua obra ganham nesta tese um destaque especial, sendo identificadas as influências estético-literárias visíveis nos seus escritos e referido o significado plasmado nos seus romances e contos. É dada também a Deolinda da Conceição e ao seu único livro (“Cheong-Sam – A Cabaia”), que é “um olhar no feminino sobre a mulher chinesa”, a necessária atenção. A alma macaense através dos textos escritos no crioulo tradicional macaense, cujo mais conhecido e consequente cultor e divulgador foi José dos Santos Ferreira (Adé), é correctamente interpretada, sendo igualmente objecto de apreciação as obras de Maria do Céu Saraiva Jorge, Jaime do Inso e Rodrigo Leal de Carvalho. Sentimento de pertençaNa parte final, a autora conclui que “o sentimento de pertença à sua comunidade é a forma de afirmar a sua existência tornando-a reconhecida e reconhecível, sendo Macau o lugar que materializa essa pertença, embora exista como representação mental em cada macaense, e como símbolo em cada ‘Casa de Macau’, pois, cada um pode ter o lugar imaginário onde cabe a sua comunidade, seja o Macau físico hodierno, seja o Macau que cristalizou num tempo da memória”. A incessante procura e a constante afirmação da diferença constituem condições de sobrevivência que importa ter em conta, ao mesmo tempo que a valorização dos elementos identitários
F A L A R D E N Ó S - X V 46J O R G E A . H . R A N G E Lreforça a coesão da comunidade, não obstante os conflitos e as diferenças que, longe de a afectarem, podem permitir o seu reforço. O contributo da literatura neste contexto, que a autora tão claramente enaltece, pode ser considerado fundamental, para não dizer determinante. Este estudo suscitará certamente novas aproximações e um saudável debate académico sobre temática, para nós, sensível mas merecedora de continuada reflexão. Confrontada com imensos tufões, naturais ou políticos, ao longo da sua história plurissecular, a comunidade viu-se obrigada, amiúde, a demandar portos mais seguros, próximos ou distantes, estabelecendo a sua diáspora em vários continentes, e soube adoptar, como referência incontornável, a imagem simbólica do bambu, assolado por muitas tempestades e que volta a apontar firmemente as hastes ao céu, continuando a crescer, viçoso, em tempos de bonança. Ali reside, provavelmente, o maior segredo da sua sobrevivência. Uma vasta e útil bibliografia completa o volume que veio enriquecer a prestigiada e muito procurada colecção “Suma Oriental”, que constitui motivo de justificado orgulho para o IIM, entidade que mais livros publica em Macau, em resultado dos trabalhos realizados no seio dos seus núcleos e centros de estudos ou através de contribuições provenientes da sua rede cada vez mais alargada de qualificados colaboradores espalhados pelo mundo. Novas obras sobre a memória e o legado, bem como sobre o presente de Macau e o seu futuro anunciado, mas cujos caminhos e opções definitivos estão ainda dependentes de muitos factores que interessa atenta e lucidamente conhecer e acompanhar, não deixarão de ser estimuladas e assumidas pela comissão editorial do IIM, nos programas de edições para os próximos anos. 28 de Maio de 2018
F A L A R D E N Ó S - X V47J O R G E A . H . R A N G E LEncontros recentes do IIM com altos responsáveis da RAEM “O Chefe do Executivo manifestou a sua satisfação pela realização do encontro e disse que após o estabelecimento do IIM, há cerca de 20 anos, foram realizadas muitas acções no âmbito do estudo da cultura local e na promoção das características do território, o que permitiu criar diversas publicações, bem como organizar seminários e outras actividades académicas, a fim de divulgar e promover Macau no exterior.” Do comunicado oficial de 17 de MaioDesde o estabelecimento da RAEM, em Dezembro de 1999, os principais responsáveis do Instituto Internacional de Macau (IIM) têm mantido contactos funcionais ou de cortesia com as mais altas autoridades da RAEM e com entidades da República Popular da China directa ou indirectamente ligadas a Macau, além de organismos académicos e culturais chineses, com os quais têm sido desenvolvidas relações úteis de cooperação em estudos e na organização de acções de intercâmbio, seminários e conferências. Raras vezes o IIM promoveu a divulgação dos conteúdos dos encontros efectuados, preferindo, em regra, deixar que fossem essas entidades a fazê-lo. No passado dia 17 de Maio, mais uma vez o Chefe do Executivo recebeu o presidente e outros destacados membros do IIM, depois de, na manhã do mesmo dia, se ter realizado um encontro dos mesmos com o Secretário para os Assuntos Sociais e Cultura. A articulação conveniente dos programas de celebração do 20.º aniversário da RAEM, em que o IIM deverá ter um papel interventor, à semelhança do que acontecera por ocasião do 10.º e 15.º aniversários, e a colaboração do IIM em variados projectos com interesse para a RAEM, em diversificadas áreas, foram os propósitos que justificaram a marcação destas reuniões que decorreram de forma muito positiva e em ambiente de grande cordialidade, como se pode verificar nos dois comunicados oficiais nesse mesmo dia emitidos através do Gabinete de Comunicação Social, que, pelo interesse dos relatos neles contidos, achámos por bem transcrever.Com o Chefe do ExecutivoO primeiro comunicado, que teve por título “Encontro entre o Chefe do Executivo da RAEM e o presidente do Instituto Internacional de Macau”, sintetizou bem os
F A L A R D E N Ó S - X V 48J O R G E A . H . R A N G E Lassuntos tratados e o ambiente em que a reunião decorreu: “O Chefe do Executivo da Região Administrativa Especial de Macau (RAEM), Chui Sai On, reuniu-se, esta tarde (17 de Maio), na Sede do Governo, com o presidente do Instituto Internacional de Macau (IIM), Jorge A. H. Rangel, e sua comitiva para trocar impressões sobre a promoção das características e imagem de Macau. O Chefe do Executivo manifestou a sua satisfação pela realização do encontro e disse que após o estabelecimento do IIM, há cerca de 20 anos, foram realizadas muitas acções no âmbito do estudo da cultura local e na promoção das características do território, o que permitiu criar diversas publicações, bem como organizar seminários e outras actividades académicas, a fim de divulgar e promover Macau no exterior. O mesmo responsável disse acreditar que as referidas acções têm contribuído para a promoção da imagem da RAEM no domínio internacional. Em seguida, o presidente do IIM expressou igualmente a sua satisfação e agradeceu o apoio prestado, ao longo dos anos, pelo Governo da RAEM ao IIM.No encontro, Jorge A. H. Rangel fez ainda uma apresentação dos trabalhos realizados pelo Instituto, nomeadamente as obras publicadas sobre Macau e descreveu o papel que a cidade pode vir a desempenhar ao participar na construção da iniciativa de ‘Uma Faixa, Uma Rota’ e no planeamento da Grande Baía Guangdong – Hong Kong – Macau. O presidente referiu ainda que, no próximo ano, a celebrar o 20.º aniversário do estabelecimento da RAEM e do IIM, deseja poder continuar a obter o apoio do governo. Acrescentou que por esta ocasião o Instituto irá organizar uma série de actividades académicas e culturais, promovendo a cidade, através da comunicação com instituições no exterior, nomeadamente as Casas de Macau.Chui Sai On disse ainda que pretende auscultar as opiniões e sugestões do IIM, assim como apoiar os trabalhos realizados, fazendo votos de que o mesmo possa
F A L A R D E N Ó S - X V49J O R G E A . H . R A N G E Lcontinuar a promover a imagem de Macau a nível internacional. Relativamente ao desenvolvimento de Macau, pelo qual considera que o Instituto se tem mostrado atento, o Chefe do Executivo afirmou que o País autorizou a participação e o apoio da RAEM na iniciativa ‘Uma Faixa, Uma Rota’ e, para o efeito, recentemente chefiou uma delegação numa visita ao Camboja e à Tailândia, com o objectivo de desempenhar as funções do território. Quanto ao planeamento da Grande Baía Guangdong – Hong Kong – Macau, o mesmo responsável revelou que aguarda a divulgação oficial, em que as duas regiões administrativas especiais e outras nove cidades irão participar em conjunto. Acredita que esta grande oportunidade de desenvolvimento serve para Macau desempenhar funções específicas, no sentido de impulsionar uma maior diversificação económica.”Com o Secretário Alexis TamAcções concretas, no âmbito das comemorações do 20.º aniversário da RAEM e do IIM e no domínio da cooperação nas áreas da cultura e da educação, foram apreciadas na reunião com o Secretário para os Assuntos Sociais e Cultura, conforme o comunicado sucinto então distribuído:“O Secretário para os Assuntos Sociais e Cultura, Alexis Tam, teve hoje, na Sede do Governo, um encontro com a direcção do Instituto Internacional de Macau (IIM). O presidente do IIM, Dr. Jorge Rangel, apresentou o programa de celebração do 20.º aniversário daquele organismo, que incluirá uma exposição fotográfica alusiva à celebração dos 20 anos do estabelecimento da RAEM, assim como seminários, palestras e edições de livros. A rede internacional de instituições com as quais celebrou protocolos permitiu que as exposições alusivas ao 10.º e ao 15.º aniversários fossem exibidas em muitas instituições. O Secretário reconheceu e felicitou o importante trabalho
F A L A R D E N Ó S - X V 50J O R G E A . H . R A N G E Ldesenvolvido pelo IIM na promoção de Macau a nível internacional, nomeadamente nos países de língua portuguesa, como Portugal e o Brasil, mas também no Canadá e nos Estados Unidos. O Dr. Jorge Rangel apresentou os muitos livros que o IIM tem publicado e que abordam várias temáticas relacionadas com Macau, nomeadamente sobre a sua história, cultura, turismo cultural mas também sobre o Oriente. Destacou os que versam sobre a China, como os 7 livros sobre o Dr. Sun Iat Sem e sobre a iniciativa nacional ‘Uma Faixa, Uma Rota’. O Secretário para os Assuntos Sociais e Cultura considerou, em especial, que a implementação, em Macau, de um centro de intercâmbio cultural entre a República Popular da China e os países de língua portuguesa constitui uma oportunidade para o envolvimento do IIM na organização de alguns eventos como sejam a organização de conferências e palestras. O Secretário reiterou, ainda, a continuação do apoio por parte dos organismos sob sua tutela ao trabalho do IIM, nomeadamente no sector da Educação, com quem aquele organismo tem colaborado, como sejam o Gabinete de Apoio ao Ensino Superior (GAES) e a Direcção dos Serviços de Educação e Juventude (DSEJ), cuja colaboração se tem revelado extremamente frutífera. O encontro contou, ainda, com a presença de outros membros do Instituto, nomeadamente a Dra. Maria Edith da Silva, o Prof. Rui Martins e o Dr. António Monteiro.” 4 de Junho de 2018
F A L A R D E N Ó S - X V51J O R G E A . H . R A N G E LUm hino à mulher portuguesa no Extremo Oriente “O oceano tem a vaga e os céus a amplidão,A Mulher tem o amor, o seu maior brasão...” Para além do muito que escreveu e compilou em prosa, o Pe. Manuel Teixeira também nos deixou poemas. No opúsculo “Galeria de Mulheres Ilustres de Macau”, que o Centro de Informação e Turismo publicou em 1974, o sacerdote e historiador identificou 16 mulheres que, nas áreas cultural, social e filantrópica, se distinguiram neste território até meados do século XX. Foram elas a Madre Leonor de S. Francisco, a Madre Maria da Madre de Deus, Maria Nunes, Maria Gaio, Isabel Reigota, Maria de Moura Vasconcelos, Afanásia du Niloff, Marta da Silva Merop, Harriet Low, Maria Ana Josefa Pereira Marques, Clara Claudina Maria Marques, Ana Maria Gomes Álvares, Um-belina Maria Gonçalves, Maria Teresa Lucian, Laura Maria Nolasco Guimarães Lobato e Maria Ana Acciaioli Tamagnini Barbosa. Esta “galeria” abre com um poema do autor que é um hino à mulher portuguesa no Extremo Oriente:“À Mulher Portuguesa no Extremo OrienteÓ Mulher Portuguesa, ó heróica Senhora,Que incendida no ardor de Portugal de outrora,Ao Oriente vieste e cá no fim do mundo,À Pátria filhos dás do teu seio fecundo,Ergue-te da apagada, estranha e vil tristeza;E fita com orgulho a Pátria Portuguesa…Não a vês ressurgir, num milagre sem par,Sob as bênçãos de Deus, no mar, na terra e ar?Vem depressa também, ó Mulher Portuguesa,Uma pedra lançar no templo da grandeza…
F A L A R D E N Ó S - X V 52J O R G E A . H . R A N G E LE pelo teu carinho e pelo teu amorVerá o Extremo Oriente um Portugal Maior!Família, Pátria e Deus, eis o lema bendito,Que, em teu bom coração, deve andar sempre escrito.Oh! não deixes jamais o aconchego do lar,Onde só pelo amor é que deves reinar!Seja essa casa um ninho, um sacrário de amor,Onde reine a harmonia e a paz do Senhor!O oceano tem a vaga e os céus a amplidão,A Mulher tem o amor, o seu maior brasão…Tem perfumes a flor e a estrela mil brilhos,A mulher tem o amor do esposo e dos filhos…Se pode haver na terra a celeste ventura,Ela deve existir da esposa na ternura…E és terna sem rival, ó Mulher Portuguesa,Tu és cheia de graça e cheia de beleza!Ânfora a transbordar de piedade e de amor,Inebrias o lar de celeste esplendor;
F A L A R D E N Ó S - X V53J O R G E A . H . R A N G E LEspelho da Trindade, és a fonte da vida,Dando filhos a Deus e à Pátria estremecida…Jamais seque essa fonte, Ó Mulher Portuguesa,Que nela a Pátria tem toda a sua riqueza!Imita o pelicano e arranca, sem tremer,O fruto do seu seio, Ó Mártir do dever…Com esses filhos teus – ó que alegria santa! –O lar é mais feliz e a Pátria se alevanta!O lar de filhos cheio é qual poema de Abril:As aves a cantar entre flores às mil!Já vistes por acaso a videira do MinhoO vigoroso ulmeiro abraçar de mansinho,E as uvas a pender desse tronco possante,Que ampara a frágil vide em abraço vibrante?...É belo um quadro assim, abraço assim é belo!Ó Mulher Portuguesa, ama assim com anelo.Este idílio sem par, de infinita doçura,Seja o teu doce lar, o jardim da ventura…
F A L A R D E N Ó S - X V 54J O R G E A . H . R A N G E LE a passarada alegre, a cantar num sorriso,Fará da tua casa um doce paraíso…E a portuguesa língua, ensinada aos filhinhos,Em todo o Extremo Oriente, em tão dispersos ninhos,Fará de cada Lar uma parcela vivaDo heróico Portugal, da nossa Pátria altiva…E de Cristo a doutrina, tesoiro sagrado,Transmitida às crianças, qual pio legado,Dará a cada alma, a cada coraçãoA ternura da pomba, a braveza do leão…E o peito português, esse peito tão lhano,Será ninho de luz, será um Vaticano,Que em todo o Extremo Oriente, em rajadas de luz,Desfralde novamente o Pendão de Jesus…E essa Cruz, arvorada em cada habitação,Fará de cada lar uma Igreja em botão!E a Mulher Portuguesa, a cantar ao Senhor,Levantará no Oriente um Portugal Maior…
F A L A R D E N Ó S - X V55J O R G E A . H . R A N G E LE assim todos verão o fulgor sem igualDe um nome a dar a volta ao mundo: PORTUGAL!”Neste poema, entre outros que foi publicando na imprensa local, o Pe. Manuel Teixeira, mais tarde elevado a Monsenhor pelo Santo Padre, revela a intensidade do fervor patriótico que dominou o seu pensamento e animou os seus propósitos em to-das as circunstâncias, a par da sua devoção inabalável à causa da evangelização, que serviu no exercício do sacerdócio e através da educação e da cultura. A sua visão do papel e do lugar da mulher na sociedade e no seio da família era obviamente distante dos conceitos mais avançados do tempo presente, estando certamente em impossível sintonia com os exacerbados feminismos que se vão afirmando por aí, de forma cres-centemente intolerante… 11 de Junho de 2018
F A L A R D E N Ó S - X V 56J O R G E A . H . R A N G E LMacau – Janela do Ocidente aberta sobre o Oriente“Não é sem justificada razão que a Macau, a Cidade do Santo Nome de Deus, chamam a Janela do Ocidente aberta sobre o Oriente.”Nas minhas estantes com livros dos anos 50 do século passado, alguns sobressaem pela dimensão, como “O Mundo que os Portugueses criaram”, do jornalista e escritor Armando de Aguiar, que a Empresa Nacional de Publicidade publicou em 1954 e que conheceu uma 2.ª edição em 1958. Com quase 650 páginas, profusamente ilustradas e com dezenas de extra-textos, o capítulo sobre Macau, intitulado “Macau – Janela do Ocidente aberta sobre o Oriente”, ocupa nove dessas páginas e contém diversas fotografias de monumentos e vistas gerais da cidade, além de algumas reproduções de gravuras da Gruta de Camões e do conhecido desenho de Macau do Diário de Peter Mundy.É sempre interessante ler ou reler relatos de viagens e de visitas ocorridas em diversas épocas, pelo prazer que proporcionam e pela importante informação que nos podem facultar. Por isso, tenho trazido, de quando em quando, textos escolhidos para este espaço semanal que o Jornal Tribuna de Macau pôs à minha disposição. Chegou agora a vez de apreciarmos estas crónicas de Armando de Aguiar. Passando por cima dos primeiros parágrafos, em que Armando de Aguiar recorda sucintamente factos históricos que devem ser do conhecimento generalizado dos nossos leitores, como a chegada de Jorge Álvares, a viagem de Leonel de Souza e os propósitos evangelizadores dos irmãos de Santo Inácio de Loyola, foi nestes termos que aquele jornalista se referiu a Macau:Um passeio pela cidade“Macau, a mais longínqua e a menor das províncias do Império Português, é, proporcionalmente a qualquer das outras de além-mar, a mais complicada na sua estrutura política e social. Trata-se de uma cidade onde vivem para cima de 340.000 chineses e onde entram, diariamente, quer atravessando as históricas Portas do Cerco, quer desembarcando dos milhares de juncos, lorchas e sampans que navegam, airosamente, em volta de Macau, mais de 10.000, o que dá à Cidade do Santo Nome de Deus a categoria de terceira do Império Português. Antes estão Lisboa e Porto. De
F A L A R D E N Ó S - X V57J O R G E A . H . R A N G E Lmaneira que governar Macau é função difícil para cujo cargo se necessita de alguém que possua as indispensáveis qualidades de inteligência, cultura do meio chinês e, em especial, tacto diplomático. Lembremo-nos que tem de lidar com um povo subtil, de reacções demoradas por serem longamente pensadas e por traduzirem a inspiração transmitida pelos deuses budistas na silenciosa tranquilidade de um pagode. A acrescentar, ainda, que Macau tem sido sempre um excelente posto de observação para quem se queira debruçar sobre a China. (…)Ao chegar a Macau fui agasalhado com inequívocas provas de simpatia e amizade pelo então governador, comandante Albano de Oliveira, que muito me sensibilizaram. A seu convite e na sua companhia realizei um longo passeio de automóvel pela cidade. E acentuo longo porque ao cabo de três horas, com paragens aqui e acolá, ainda não havíamos terminado de percorrer os 70 quilómetros de estradas, avenidas, ruas e caminhos que cortam Macau em todos os sentidos, sem referência, já se vê, às centenas de ruazinhas, ruelas, travessas e becos que formam um verdadeiro labirinto onde vive a numerosa população chinesa. Primeiro foi o alto da Guia que me deslumbrou com o cenário maravilhoso que dali se desfruta. Um farol, o primeiro que se ergueu no Oriente, continua na sua missão de paz. Ao lado, a histórica capelinha da Guia, lugar obrigatório de peregrinação de quantos homens iam para o mar. Em nossa volta desdobrava-se a minúscula Macau, formigueiro humano que nunca abandona as ruas, enquadrada por um panorama deslumbrante. Não ocultei a minha primeira exclamação de entusiasmo pelo encanto do cenário que se desdobrava em torno de mim. Macau é, realmente, uma cidade cheia de interesse e beleza. Visitei-a à vontade. Percorri-a de lés a lés. Entrei em contacto com o povo chinês e fui aos seus bairros. Verifiquei encontrar-me numa cidade de trabalho em que a política sem elevação foi de há muito posta de parte. O principal problema que ainda hoje continua a preocupar o actual governador, almirante Marques Esparteiro, é dar solução aos problemas pendentes, muitos dos quais foram profundamente alterados com a última grande guerra. O ritmo de trabalho que observei
F A L A R D E N Ó S - X V 58J O R G E A . H . R A N G E Lnos vários departamentos do Estado era uma garantia segura de que em Macau havia calma e confiança, e o nosso exemplo de serenidade – porque nada há que nos force a não sermos serenos – dá aos chineses a certeza de que podem continuar a realizar os seus negócios sem receio de qualquer crise que os obrigue a emigrar para outras paragens.”Amizade luso-chinesaArmando de Aguiar aproveitou o ensejo para explicar e realçar a amizade luso-chinesa e o respeito mútuo que aqui pôde constatar: “É fácil de compreender a simpatia que o Chinês nos dedica. Em quatro séculos de permanência portuguesa em Macau, sempre lhe demos o nosso afecto cristão e nunca o tratámos como raça inferior. Antes pelo contrário. Quantos dos nossos missionários, comerciantes e militares não se sacrificaram pela China? A nossa obra de civilização no Oriente, que teve a sua origem em Macau, é digna da maior admiração e de Macau partiram preciosas ajudas para os governos de Pequim quando eles as solicitaram. Auxílios em homens de ciência e eficiência militar. Mesmo hoje, o chinês que sofre as contingências das oscilações políticas é em Macau que encontra o centro de refúgio, sabendo que ali uma bandeira – a portuguesa – o protege contra qualquer desacato. Nesse meu primeiro contacto com Macau penetrei numa das mals concorridas artérias da cidade, a Avenida Almeida Ribeiro, repleta de comércio e onde uma multidão heterogénea fala, gesticula e oferece os seus produtos. Observei então que desde a primeira autoridade – o governador – ao mais simples cidadão qualquer indivíduo pode andar à vontade nas ruas da cidade sem o mais pequeno receio.Há ordem e respeito e as nossas boas relações com os vizinhos permitem-nos trabalhar com calma, sem receio do futuro, que só a Deus pertence. O espírito da
F A L A R D E N Ó S - X V59J O R G E A . H . R A N G E Lpopulação é elevado porque conhece o meio em que vive e porque já passou pela pior das provações, quando do cerco que os japoneses fizeram a Macau, procurando impedir, por todos os meios ao seu alcance, a entrada dos géneros alimentícios de primeira necessidade. Foi nessa altura que os nossos amigos chineses deram uma das provas mais eloquentes da sua sincera amizade por Portugal, por quantos ali se encontravam, que, sem eles, morreriam à fome. Com risco da própria vida e ludibriando, o mais possível, a feroz vigilância das sentinelas japonesas, introduziam todas as noites, quase sempre atravessando os rios, tudo quanto Macau necessitava para dar de comer a cerca de 500.000 pessoas que se tinham abrigado sob a protecção da bandeira nacional.Eu acredito na amizade dos chineses por Portugal. De quantos povos europeus têm procurado fixar-se na China, nós, portugueses, fomos os únicos que sempre respeitámos as suas nobres tradições e prontamente compreendemos o que é lidar com chineses. Quando ali chegámos, no século XVI, fomos encontrar uma civilização adiantadíssima. Foi preciso haver da parte dos nossos antepassados muita diplomacia e muita firmeza de carácter para que o Chinês não sofresse de nós o que às vezes sentimos de certos indivíduos com quem tratamos: desilusão. Realmente foi essa a grande vitória do génio português no Extremo-Oriente: haver-se imposto como povo civilizado, a uma civilização que se bem que não estivesse no seu apogeu era, no entanto, ainda bem superior, em certos aspectos, à civilização ocidental, após o longo período da Idade Média.”O próximo artigo conterá a parte final do relato da visita a Macau e uma síntese da deslocação de Armando de Aguiar a Hong Kong para contactos com as mais representativas instituições portuguesas ali sediadas. 25 de Junho de 2018
F A L A R D E N Ó S - X V 60J O R G E A . H . R A N G E LComo Armando de Aguiar viu Macau e Hong Kong nos anos 50“Macau é um alto padrão do velho prestígio português na Ásia...” O relato do jornalista Armando de Aguiar sobre Macau nos primeiros anos da década de 1950, que reproduzimos parcialmente na semana passada, fica concluído com mais esta pitoresca descrição da sua visita e com o que lhe foi proporcionando conhecer sobre instituições de matriz portuguesa em Hong Kong:Das Portas do Cerco à Fortaleza do Monte“O automóvel levou-me depois até às famosas Portas do Cerco. Transpostas estas, uma barreira de arame farpado diz-nos ser ali que termina a fronteira mais avançada de Portugal, no Mundo. Alguns soldados de Angola e Moçambique procediam à limpeza do terreno enquanto outros trabalhavam na construção de novos fortins. Dei em seguida uma volta pelos cais, ao longo de uma floresta de mastros e juncos, lorchas e sanpans, no meio de uma vozearia de pregões, tilintar de ferrinhos, gritos dos coolies que puxam típicos rickshaws, de toda aquela gente que vive do mar e no mar e vem a terra vender os seus produtos e comprar outros. Acabava de ser construída nessa altura uma elegante e enorme gare marítima de um chinês rico, o Sr. Fu Tak Iam, para os seus navios da carreira com Hong-Kong, e grandes armazéns, mais abaixo, estão a ser levantados. Qualquer das obras custa milhões de patacas, que o Chinês gasta sem receio, confiado, como está, na boa administração portuguesa. Visitei mais tarde o liceu e duas ou três escolas primárias. Havia uma alegria saudável nos rostos daqueles rapazes, alguns filhos de europeus mas outros, na sua maioria, chinesinhos de olhos enviesados. O movimento escolar é grande. As escolas primárias, o liceu e ainda os colégios particulares entregues a religiosas e aos irmãos salesianos estão cheios. A instrução é a principal riqueza que naquelas bandas do Mundo e nesta época um pai pode e deve deixar aos filhos. (…)
F A L A R D E N Ó S - X V61J O R G E A . H . R A N G E LPode ainda dizer-se que em todas as circunstâncias graves para Macau, provenientes das periódicas crises chinesas, a Cidade do Santo Nome de Deus tem passado incólume e salvo sempre o prestígio de Portugal. Já isso aconteceu durante a dominação filipina, em que a bandeira nacional nunca deixou de estar hasteada na Fortaleza do Monte; já quando dos repetidos assaltos dos holandeses em 1601, 1603, 1604, 1607 e 1622; já ainda quando do cerco nipónico na última grande guerra, em que foram postas frente a frente, num jogo de inteligência, a diplomacia japonesa, representada por aqueles que haviam criado em Macau um movimentado consulado, e o patriotismo e a inteligência das nossas autoridades. Macau é o penhor mais valioso do prestígio e da honra portuguesa no Extremo-Oriente. Nunca até hoje, entre Chineses e Japoneses, Filipinos e Javaneses, Malaios e Siameses, Indo-chineses e Cambojanos; do Tibete a Pequim e da Formosa a Hanoi, se falou de Macau sem que prontamente não se lhe ligasse o nome de Portugal.”Camões e Bocage em Macau “Não podia deixar Macau sem realizar uma peregrinação histórica: visitar a célebre gruta onde a tradição afirma que Camões iniciou o seu imortal poema Os Lusíadas. Situada no meio de um jardim sempre florido e dominando um panorama deslumbrante sobre a cidade e o porto, a gruta do Épico constitui ou um milagre das forças da Natureza, que colocaram em forma trapezoidal três enormes lajes, duas laterais e uma horizontal a servir-lhe de tecto, ou representa o trabalho hercúleo de alguns homens que para ali carrearam aqueles três monólitos e os dispuseram com jeito de abrigo. A ser verdade ter Camões estado realmente em Macau como Provedor dos Defuntos e dos Ausentes, nada nos deve repugnar acreditar haver sido ali, com efeito, onde se recolhia nas horas de lazer para meditar, relembrar-se da Pátria distante, dos poucos entes queridos que cá deixou e das horas de desventura que sofreu quando sonhou com a epopeia épica do povo lusitano e lhe deu forma para maior glória de Portugal através d’‘Os Lusíadas’.
F A L A R D E N Ó S - X V 62J O R G E A . H . R A N G E LInspirado nesta legenda pronunciei em véspera de deixar Macau, junto da gruta, algumas palavras sobre o Príncipe dos Poetas portugueses, defendendo o princípio de que era preferível deixar viver uma lenda já arreigada no sentimento do povo chinês, em como Camões havia vivido na Cidade do Santo Nome de Deus, do que destruí-la com a verdade histórica de jamais o imortal poeta haver sofrido e amado naquela terra secularmente portuguesa. Também por ali passou e ali versejou o insigne Manuel Maria Barbosa du Bocage, Elmano Sadino, cuja presença foi igualmente assinalada em Cantão, onde se rendeu de amores por uma chinesinha de olhos lânguidos e alma romântica. Que alguma coisa ficou em Macau da passagem espiritual desses dois génios da intelectualidade portuguesa prova-o o facto de ser intensa a actividade cultural na Cidade do Santo Nome de Deus, como me foi dado observar, e em que generosamente assumiu o invejável papel de Mecenas o brilhante intelectual e grande português Dr. Pedro Lobo, que à Pátria tem prestado, em ocasiões difíceis, os mais relevantes serviços. Macau é ainda um alto padrão do velho prestígio português na Ásia, bastando citar as ruínas da igreja da Madre de Deus, vulgarmente conhecida por S. Paulo, de 1602, e destruída por um incêndio em 26 de Janeiro de 1835; os monumentos a Ferreira do Amaral, governador assassinado por chineses a 22 de Agosto de 1849, e ao tenente Vicente Nicolau Mesquita, o bravo conquistador do forte de Passaleão; e o monumento comemorativo da brilhante série de vitórias das armas portuguesas sobre os holandeses, coroada pela grande derrota que no dia 24 de Junho de 1622 a fraca guarnição de Macau infligiu ao almirante Willem Ysbrandsz Bontikoe, quando fez ir pelos ares o navio do seu comando, o Gromingen, abatendo para sempre a soberba do batavo.”Em Hong KongAo deixar Macau, Armando de Aguiar visitou instituições portuguesas de Hong Kong, como os Clubes Lusitano e de Recreio, que se mantêm ainda activas, sendo o
F A L A R D E N Ó S - X V63J O R G E A . H . R A N G E LClube Lusitano, situado mesmo no centro da cidade, uma casa portuguesa de que Portugal e os portugueses se podem orgulhar:“Num dos navios do magnate macaense Sr. Fu Tak Iam fiz-me transportar a Hong-Kong. O braço amigo do Dr. Eduardo Brasão levou-me a visitar a cidade e os arredores, incluindo Kowloon, que em chinês quer dizer ‘nove dragões’, de Kow (nove) e Lung ou Loon (dragões). E levou-me também a transpor as páginas da história pátria no que diz respeito à presença de Portugal no ‘Porto Perfumado’. Numa das barulhentas e policromas ruas da cidade chamou-me a atenção uma casa revestida de azulejos de aspecto português. Dei- me à curiosidade de investigar a sua origem e apurei serem, realmente, de origem nacional, fabricados em Aveiro. O Clube de Recreio, em Kowloon, é uma afirmação do espírito social da comunidade portuguesa, assim como o Clube Lusitano, fundado em 1866, marca um lugar do mais alto relevo entre as instituições culturais que exaltam e prestigiam o nome de Portugal em países estrangeiros. Pois foi dentro das veneráveis paredes daquela patriótica instituição que o actual secretário nacional da Informação fundou, em Novembro de 1947, o douto Instituto Português de Hong-Kong, destinado à divulgação da nossa cultura naquela colónia britânica, onde, graças ao fecundo impulso que desde o início lhe foi dado por aquele brilhante diplomata, têm sido versados os principais problemas relacionados com a obra da inteligência em Portugal, no passado e no presente. O Instituto Português de Hong-Kong deve ser considerado o remate da obra de defesa da língua de Camões naquela colónia inglesa, onde vivem cerca de mil portugueses. O Instituto e a Escola de Camões, também patriótica iniciativa do Dr. Eduardo Brasão, constituem dois instrumentos onde vibra a alma de Portugal.”Continuaremos a trazer para este espaço textos relevantes que evocam a memória de outros tempos desta terra e das suas gentes. 2 de Julho de 2018
F A L A R D E N Ó S - X V 64J O R G E A . H . R A N G E LNo 1.º Congresso das Comunidades Portuguesas, em Macau e em Lisboa “Fascinante leitura – história de vida, história do país e de outros países... Não imaginava uma vida tão repartida pelo mundo...” Manuela Aguiar, ex-Secretária de Estado das Comunidades Portuguesas, no prefácioO livro “História de uma vida” (Chiado Editores, 2016), que tive o prazer de receber recentemente com uma simpática dedicatória do autor, o comendador Carlos Pereira de Lemos, contém várias referências a Macau, entre as quais um comentário sobre a sua participação no 1.° Congresso das Comunidades Portuguesas, levado a efeito em Lisboa, em Junho de 1981, o qual foi antecedido, dois meses antes, para os participantes do Extremo Oriente e Austrália, de um encontro preparatório em Macau, cuja coordenação me foi confiada, numa altura em que dirigia os Serviços de Turismo e Comunicação Social. Foi nesses encontros que conheci Carlos Pereira de Lemos, um português de muitas errâncias pelo mundo que, nesse livro, com cerca de 400 páginas, nos relata o seu notável percurso pessoal e profissional por terras de vários continentes, que visitou ou que escolheu para viver, como aconteceu em Moçambique, na África do Sul, em Timor e na Austrália, onde foi cônsul honorário de Portugal em Melbourne e membro muito empenhado de organismos lusos. O encontro preparatório em MacauComo representante das associações portuguesas da Austrália, juntamente com o Pe. Artur Sardo, capelão em Sydney, Carlos Pereira de Lemos esteve no encontro levado a efeito em Macau e depois em Lisboa, no Congresso. Foi nestes termos que descreveu a sua participação: “O Congresso, no caso do Oriente, teve duas sessões separadas. A primeira teve lugar em Macau e logo a seguir em Lisboa. A reunião em Macau teve a presença de delegados da Austrália, do Japão, Filipinas, Singapura, Malaca, Goa e vários de Macau e de Hong Kong, alguns por convite. As sessões tiveram lugar no Palácio do Governo e a maioria dos visitantes ficámos instalados no Hotel Lisboa. A organização foi impecável, sendo responsável pelo programa Jorge Rangel, Diretor dos Serviços
F A L A R D E N Ó S - X V65J O R G E A . H . R A N G E Lde Turismo e Comunicação, que veio a assumir mais tarde posições de destaque na administração de Macau. Além das sessões de trabalho tomámos parte em muitas atividades sociais e culturais e uma que se destacou foi um banquete clássico chinês, a alto nível de requinte, oferecido por Stanley Ho, o homem mais rico de Macau, proprietário de casinos e hotéis. Uma outra variante interessante foi uma excursão à China, no território vizinho. Esta visita foi notável, considerando que a China vivia praticamente isolada do mundo e era difícil para europeus lá entrarem. Mas a visita teve o apoio das autoridades chinesas, como não podia deixar de ser, e permitiu ver uma cidade, não longe de Cantão, onde era difícil andar nas ruas devido à congestão de peões, tendo visitado escolas onde as crianças dançaram e cantaram, e centros de artesanato. Visitámos também a casa onde nasceu o Dr. Sun Yat Sen, numa povoação de nome Cuiheng, que foi o primeiro Presidente da República da China (1912) e também na mesma localidade um centro educacional de grandes proporções com o seu nome. Este ilustre chinês também é venerado pelos chineses de Macau, onde foi médico, e a casa onde ele viveu é edifício histórico. O que notei naquela viagem é que em todos os pontos em que parámos fomos objeto de curiosidade para os chineses, que na maior parte nunca tinham visto um europeu, e nas estradas e ruas das cidades eram raros os automóveis, o que dominava eram as bicicletas, o que tinha uma vantagem, não havia poluição. O que contrasta com a situação de hoje. Em 2007 visitei Beijing e do hotel onde fiquei não conseguia ver o outro lado da rua e, até nas famosas muralhas, a mais de 100 km da cidade, a altitude mais elevada, a poluição era evidente.Foi em Macau que conheci o comendador Arnaldo de Oliveira Sales, que representava Hong Kong e, além de outros, também conheci os dois delegados do Japão, um de nome Alonso, residente em Tóquio e que, embora com nome espanhol, tinha ascendência portuguesa; e o outro, Wenceslau José de Couto, residente em Kobe, era o nosso Cônsul honorário naquela cidade, que nada tinha de português mas a representação consular já tinha tradição na família, o avô tinha sido cônsul
F A L A R D E N Ó S - X V 66J O R G E A . H . R A N G E Lhonorário, assim como o pai. E o nome deve ter sido inspirado no de Venceslau de Morais, que lá foi Cônsul, lá casou e lá morreu e escreveu vários livros sobre a vida no Japão, que li quando jovem e que achei fascinantes. Durante as sessões em Macau tive também o prazer de ficar ao lado do venerado e histórico Padre Manuel Teixeira, que era altamente respeitado pela sua sabedoria e a sua dedicação a Macau, onde viveu a maior parte da sua vida. Publicou mais de cem livros, não só sobre Macau mas também sobre os portugueses no Oriente e o seu trabalho foi reconhecido não só por Portugal mas também internacionalmente, em especial pelo historiador Charles Boxer, o autor que mais escreveu em inglês sobre a presença portuguesa no Oriente e que chegou a colaborar numa revista que Manuel Teixeira fundou. Recebeu várias condecorações, entre elas a de Grande-Oficial da Ordem do Infante D. Henrique.O Padre Manuel Teixeira teve sempre em ideia morrer em Macau e ser lá sepultado. Mas, depois de 1999, não gostou da transição daquele território para a China e entendeu que não gostaria de ser sepultado em terra chinesa. Regressou a Portugal em 2001, tendo falecido em Chaves em 2003, com 91 anos. Com as suas barbas brancas e o seu traje eclesiástico também branco, era uma figura impressionante. Durante o Encontro em Macau fui entrevistado por um jornalista da revista ‘Macau’ e a entrevista foi publicada no n.º2, Ano 1, abril/junho 1981, ilustrada com uma fotografia dos participantes junto à Gruta de Camões.”Este memorável encontro contou com excelentes comunicações sobre as comunidades e associações e sobre a história, a sociologia e a economia dos países onde os participantes se radicaram.Congresso em Lisboa
F A L A R D E N Ó S - X V67J O R G E A . H . R A N G E LCarlos Pereira de Lemos foi um dos dez participantes eleitos em Macau para se deslocarem a Lisboa. No seu livro recorda a sua presença num Congresso que contrastou com o encontro realizado em Macau, pelo ambiente de confrontação política nele instalado, eivado de insultos e até de agressões físicas. Presidiu ao mesmo o Prof. Raúl Rosado Fernandes, catedrático da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e bom amigo, recentemente falecido, cuja memória aproveito para saudar com respeito e admiração. Foi por decisão dele, após uma reunião em Macau com o então presidente da Assembleia Legislativa, Dr. Carlos Paes d’Assumpção, que me foi endereçado o convite para coordenar e moderar as sessões do referido encontro preparatório. Voltei a estar com ele bastantes vezes em actividades académicas e associativas em Portugal nas últimas décadas, podendo também acompanhar a sua profícua passagem por Bruxelas, como deputado europeu. Na muito difícil condução dos trabalhos do Congresso, Rosado Fernandes contou com a capacidade de intervenção do sindicalista António Cabecinha, que foi o secretário-geral. Foi graças a ambos, bem como ao contributo positivo de muitos dos congressistas que souberam manter a serenidade naqueles dias de diálogo por vezes impossível, que o Congresso conseguiu, apesar de tudo, um balanço positivo. Destaco, de entre eles, os comendadores Joaquim Morais Alves, de Macau, Arnaldo de Oliveira Sales, de Hong Kong, e o próprio Carlos Pereira de Lemos, cujo relato será reproduzido no próximo artigo. Ainda guardo abundante documentação destes dois eventos, cujo objectivo foi dar voz à diáspora lusa e permitir um mais estreito relacionamento entre representantes dessa diáspora dispersa pelo mundo. 9 de Julho de 2018
F A L A R D E N Ó S - X V 68J O R G E A . H . R A N G E LRecordações de Carlos Pereira de Lemos em “A História de uma vida” “O Congresso foi dominado pelos delegados da Suíça, França e África do Sul, que eram os mais vociferantes, e os brasileiros destacaram-se pela sua oratória.” A agradável leitura de apontamentos do comendador Carlos Pereira de Lemos no seu livro “História de uma vida” (Chiado Editora, 2016), sobre o 1.° Congresso das Comunidades Portuguesas, realizado em Lisboa, em Junho de 1981, fez-me recordar essa importante, embora tumultuosa, reunião magna de representantes da diáspora lusa. Ela foi precedida de um encontro preparatório levado a efeito em Macau, que tive a honra de coordenar e que foi aberto a participantes das comunidades lusas no Extremo Oriente e na Austrália. Este assunto foi tratado no artigo anterior da série “Falar de Nós – Macau e a Comunidade Macaense”, que há 14 anos vem ocupando este espaço semanal do Jornal Tribuna de Macau. Notas sobre o CongressoOs comentários de Carlos Pereira de Lemos, sobre esta sua singular e inolvidável experiência, foram os seguintes: “O Congresso teve lugar no Hotel Penta, onde fiquei hospedado com a maioria dos delegados. Houve um pequeno incidente na primeira sessão. Estava programada a abertura do Congresso pelo Presidente da República Ramalho Eanes. Mas este não compareceu e, em vez dele, enviou o Chefe da Casa Militar, um oficial de alta patente, para o representar. E no corredor que dava acesso ao palco, pessoas que discordaram da decisão do PR tentaram agredi-lo, o que causou uma certa perturbação, que ia dando pancadaria, mas como pouca gente presenciou a cena, o assunto foi abafado.Ao Congresso assistiram os 100 delegados eleitos e cooptados, muitos observadores e muitos políticos. Foram aprovadas dezenas, senão centenas de moções, que já estavam redigidas pela comissão organizadora. Aos delegados davam três minutos para exporem os problemas dos países que representavam. No meu caso resumi a exposição que preparei e não foi perda total do tempo que levei a prepará-la, porque
F A L A R D E N Ó S - X V69J O R G E A . H . R A N G E Lfoi depois publicada, sem cortes, no jornal de Sydney ‘O Português na Austrália’, na sua edição de 1 de julho de 1981.O Congresso foi dominado pelos delegados da Suíça, França e África do Sul, que eram os mais vociferantes, e os brasileiros destacaram-se pela sua oratória. Fiquei com a impressão de que os brasileiros, tal como muitos portugueses, cultivam a linguagem pedântica e a arte de falar muito sem dizer nada. Além das sessões de trabalho, os delegados foram bem tratados. Fomos convidados para várias receções, incluindo a que ofereceu o Presidente da Câmara de Lisboa, Nuno Abecasis, no Parque de Monsanto, jantar no Pátio das Cantigas com danças e música popular, excursão a Nazaré, lugares reservados na Avenida da Liberdade para ver as Marchas, um almoço histórico no Mosteiro de Alcobaça e muito mais. O 1.º Congresso e o Conselho das Comunidades, como passou a chamar-se, tinham o seu mérito, por duas razões: primeiro, os delegados e conselheiros eram eleitos pelas organizações comunitárias fora de Portugal, sem a interferência de políticos profissionais; segundo, provia a plataforma para o diálogo e interação entre os delegados de várias origens.”Estávamos já em 1981, mas as posições políticas de alguns grupos de congressistas ainda se mantinham assustadoramente extremadas, reflectindo as opções inconciliáveis que se confrontaram no período pós-revolução de Abril e que se intensificaram até à exaustão durante o chamado “verão quente” de 1975, amainando, quiçá insuficientemente, após os acontecimentos de 25 de Novembro do mesmo ano. Foi com admirável serenidade que o presidente da comissão organizadora do Congresso, Prof. Raúl Rosado Fernandes, com a ajuda do secretário-geral António Cabecinha, hábil e experiente sindicalista, e o apoio de representantes de comunidades lusas do
F A L A R D E N Ó S - X V 70J O R G E A . H . R A N G E LOriente, da Austrália e de alguns outros países, suportou os desmandos e desacatos provocados por alguns barbudos e deslavados revolucionários de meia tigela que ali se encontravam apenas para perturbar uma iniciativa cheia de propósitos positivos. Com quase infinita paciência e forte determinação, os trabalhos puderam ser conduzidos até ao fim. Ainda antes da cerimónia de abertura, já se respirava um ambiente pesado no então Hotel Penta (agora Marriott), onde o Congresso teve lugar, com acaloradas discussões nos corredores de acesso às salas de reuniões e distribuição insistente de panfletos, cuja origem era identificável através dos emblemas e siglas dos mais variados movimentos, predominando os de extrema esquerda. O Presidente da República fez-se representar pelo Chefe da sua Casa Civil, Embaixador Fernando Reino (e não pelo Chefe da Casa Militar, como o autor do livro referiu), o qual, na confusão gerada por alguns congressistas empoleirados em cima das mesas, quando ele ainda usava da palavra, em vez de declarar aberto o congresso, considerou-o encerrado e abandonou rapidamente o salão, acompanhado de quase todos os membros da mesa. O militar que sofreu alguns empurrões à saída, por ter permanecido na sala, foi o Coronel Vítor Alves, que presidia então à comissão organizadora do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas. Quando os ânimos serenaram, os trabalhos foram retomados no dia seguinte e o programa geral, incluindo a parte complementar de natureza social e recreativa, pôde ser quase integralmente executado. Grande senhor e grande portuguêsQuem assistiu atónito a tudo isto, sentado nas sessões ao meu lado e junto de outros participantes que tinham estado no encontro preparatório de Macau, foi um verdadeiro “gentleman”, o comendador Arnaldo de Oliveira Sales, respeitada figura pública e presidente do Clube Lusitano de Hong Kong. Foi neste Congresso que
F A L A R D E N Ó S - X V71J O R G E A . H . R A N G E LCarlos Pereira de Lemos o conheceu e se tornou seu amigo, visitando-o várias vezes, a última das quais em 2007. No livro, relatou este incidente curioso que vem a propósito transcrever: “O então Presidente da Câmara, Eng. Nuno Krus Abecasis, ofereceu uma receção aos delegados no Parque de Monsanto. Eu estava a conversar com o Comendador, quando um assessor do Presidente se aproximou e disse que o Sr. Presidente o convidava para a sua mesa, o que ele recusou. E o Comendador comentou depois para mim: ‘Não ia deixá-lo sozinho e ir para a mesa do Presidente.’ Isto revela o calibre do homem, porque a maioria das pessoas não hesita em descartar os mais pequenos para se encostarem aos mais graúdos.”Também deixou, no livro, este apontamento sobre os seus encontros em Hong Kong: “Já depois de estar a viver na Austrália, no regresso de Portugal ou de outros países, fiz várias vezes escala em Hong Kong e Macau, e encontrei-me sempre com o Comendador Arnaldo de Oliveira Sales e ele convidou-me sempre para almoçar com ele no Clube Lusitano. Este clube foi fundado em 1865 e encontra-se agora instalado num edifício de 30 andares no centro da cidade, ocupando quatro e os restantes são alugados. Arnaldo Sales foi presidente várias vezes e foi dos principais a levar avante a construção do edifício.”Ofereceu-nos, igualmente, uma nota biográfica do impressionante percurso cívico de Arnaldo de Oliveira Sales, não deixando de afirmar que “sem dúvida, que foi e é um grande português”. Um grande senhor e grande português! 16 de Julho de 2018
F A L A R D E N Ó S - X V 72J O R G E A . H . R A N G E LImpressões de Macau numa viagem de Lisboa a Díli, em 1960 “Macau deixou impressão indelével. A grandeza dos edifícios, as casas senhoriais, as igrejas, as fortalezas, os jardins e tanto mais...” No livro “História de uma vida” (Chiado Editora, 2016), que foi objecto de apreciação nos dois últimos artigos inseridos neste espaço do nosso JTM, o autor, comendador Carlos Pereira de Lemos, também partilhou connosco as suas impressões de Macau colhidas numa paragem aqui feita, na viagem de 47 dias que o levou de Lisboa para Timor, no navio “Índia”, em 1960. Era ainda o tempo das longas viagens de barco para o Extremo Oriente, ao longo da costa de África ou através do Mediterrâneo e do Canal do Suez, com destino a Goa, Macau e Díli, a bordo de paquetes como o “Índia” e o “Timor”. Pelo interesse de testemunhos como este, transcrevemos esta descrição do autor após o seu primeiro contacto com a Cidade do Santo Nome de Deus: Um retrato de Macau“Entretanto a viagem tinha que continuar e o próximo destino foi Macau. O navio não atracou no cais, devido a profundidades baixas da água, e o transbordo de passageiros e carga foi feito por lanchas. Mas, qualquer que fosse o acesso a Macau, a primeira impressão era de beleza e longa história.Embora naquela altura a cidade aparentasse estar em estado de hibernação, ao dar uma volta na parte menos chinesa era impressionante observar as magníficas construções que os portugueses erigiram ao longo de séculos. E digo menos chinesa porque somente numa pequena área se notava presença portuguesa enquanto a maior parte da cidade era essencialmente chinesa. E isto aplicava-se igualmente à população. Viviam lá cerca de 300 portugueses nascidos em Portugal e cerca de seis mil nacionais, incluindo os nascidos em Macau, e à volta de 600 mil chineses que, embora residentes permanentes, não tinham a nacionalidade portuguesa. Para evitar o vaivém da lancha, fiquei duas noites num hotel, o que permitiu ver muito da cidade. Subi ao Farol da Guia, que foi o primeiro construído no Oriente e dali
F A L A R D E N Ó S - X V73J O R G E A . H . R A N G E Lvê-se a cidade toda, estendendo-se a vista até terras da China e ilhas e ilhotas que a circundam. Visitei também a Gruta de Camões, onde se presume que ele tenha escrito parte dos ‘Lusíadas’. O local é rodeado de árvores seculares enormes, e jardim com muitas flores. E o busto de Camões é rodeado de enormes rochas, com lápides em português e chinês, mas o busto de Camões é minúsculo, o Poeta merecia maior destaque. Visitei também a fachada da antiga Catedral de São Paulo, que é o que resta. Foi construída pelos Jesuítas em 1602 e destruída num incêndio em 1835. Além do significado histórico é de grande atração turística, até porque a frontaria retém a magnificência do que a catedral era. A artéria principal de Macau era a Avenida Almeida Ribeiro, muito comprida e, na parte europeia, curta, era onde se encontrava o comércio e terminava no Largo do Senado. A partir deste Largo, onde se encontrava o edifício do Leal Senado e o edifício clássico, enorme, dos correios, a Avenida era dominada pelos chineses e as suas lojas. O edifício do Leal Senado, onde funcionou durante muitos anos a Assembleia Legislativa, tem um significado muito especial. Foi ali que os membros da Assembleia, representando os residentes, decidiram não aceitar a soberania espanhola durante o interregno (1580-1640). Macau foi o único território português onde esteve sempre e somente içada a bandeira portuguesa. Por estas razões, D. João IV mandou gravar no edifício, ‘Cidade do nome de Deus, não há outra mais Leal’. Numa das noites em que dormi na cidade fui ver uma ópera chinesa no teatro local, que a publicidade dizia ser acontecimento especial. Certamente que foi um espetáculo impressionante, mas nada se percebia do enredo. Muitos atores e cantores, numa lengalenga que nunca mais acabava, salvando-se somente, para ignorantes, a coreografia e os belos trajes cheios de cor.
F A L A R D E N Ó S - X V 74J O R G E A . H . R A N G E LDescobri também uma loja onde só se vendia material comunista, vindo da China, tudo muito barato, quase de borla. Comprei vários livros de Karl Marx e Engels e comprei também uns lenços de assoar, de linho muito fino. Estes lenços, pormenor em que só mais tarde reparei, tinham estampados caracteres chineses e um dia pedi a um chinês para os traduzir. Dizem ‘Trabalhadores do mundo, unidos venceremos’. Como o linho é bom continuo a assoar-me neles. Chegou entretanto a altura de partir para Timor, a última etapa. Mas Macau deixou impressão indelével. A grandeza dos edifícios, as casas senhoriais, as igrejas, as fortalezas, os jardins e tanto mais, tudo indicava, que passaram por lá homens de visão e com grande capacidade de execução. Mas vendo naquela altura a cidade tão morta, especialmente se comparada com o desenvolvimento eufórico de Hong Kong, também me fez pensar que os portugueses de antanho teriam sido mais empreendedores e mais enérgicos do que o português moderno.”47 dias de viagemNos dois dias passados em Macau, nesta sua primeira visita, Carlos Pereira de Lemos aproveitou bem o tempo para ver alguns dos principais monumentos e locais de interesse histórico e turístico. Também tentou compreender a cidade e este singular encontro de mundos e de culturas e ainda conseguiu ir a uma ópera chinesa e apreciar a sua exótica coreografia e os trajes cheios de cor, mesmo sem poder entender o enredo. E ainda descobriu uma loja que vendia artigos comunistas produzidos na China continental, adquirindo ali alguns livros então proibidos em Portugal. Depois de Goa e de Singapura, navegando pelo Mar da China, o navio fez escala em Hong Kong antes de chegar a Macau. Como acontecia com qualquer recém-chegado, também o autor apontou o contraste entre a vibrante colónia britânica e
F A L A R D E N Ó S - X V75J O R G E A . H . R A N G E Lesta nossa urbe luso-chinesa, nessa altura bastante adormecida, “tão morta”. Todavia, não deixou de enaltecer a imagem positiva que Macau lhe proporcionou, pelo precioso legado que aqui encontrou, o qual justificou a classificação do centro histórico da cidade como património da humanidade.Em 1960, eu frequentava ainda o Liceu. Posso confirmar que era tudo mesmo assim. Nós próprios fazíamos constantemente essa comparação inevitável entre a invejável praça financeira vizinha e esta pequena economia em busca de crescimento, mas, apesar de tudo, gostávamos mais da nossa terra, que tinha memória e história, convívio e entendimento, cultura e identidade, um sentido nobre de sobrevivência e uma capacidade espantosa para vencer tufões, naturais ou políticos, que foram abundantes ao longo de quatro séculos e meio de presença de portugueses nestas paragens. Prosseguindo a viagem, o navio rumou a sul, “em direção às Filipinas, meandrando por entre imensas ilhas e ilhéus, para finalmente ancorar em Díli, Timor”. “A bordo muitos passageiros já se queixavam que estavam saturados da vida a bordo, da repetição da comida e do espaço, que parecia ficar cada vez mais pequeno”. O autor, porém, como ele próprio nos revelou no livro, sentiu-se satisfeito a bordo. Leu, conversou, deu muitas voltas no convés, apreciava a paisagem e nunca achou o mar e o céu monótonos. “Contudo, soube bem chegar a Díli, ao fim de 47 dias, depois de partir de Lisboa.”Carlos Pereira de Lemos visitou mais vezes Macau depois de se radicar definitivamente na Austrália, onde escreveu este notável livro de memórias de uma vida intensamente vivida em países e territórios de vários continentes. Até por isso, vale a pena ler este admirável testemunho de um português que se afirmou exemplarmente como cidadão do mundo. 23 de Julho de 2018
F A L A R D E N Ó S - X V 76J O R G E A . H . R A N G E L“Quotidianos”, de António Conceição Júnior, apresentado em Lisboa “António Conceição Júnior, espírito culto, informado e originalmente polifacetado, escritor, pintor, gravador, fotógrafo, criador de moda, dirigiu o Museu Luís de Camões e os Serviços Culturais do Leal Senado...” A apresentação do livro “Quotidianos” (edição do autor, 2018), de António Conceição Júnior, levada a efeito na passada quinta-feira em Lisboa, além de ter sido uma sessão bonita e muito bem participada, com um numeroso público interessado que lotou o auditório do Centro Científico e Cultural de Macau (CCCM), constituiu também uma boa oportunidade de convívio em torno da obra e do autor, reconhecido como personalidade incontornável no panorama cultural de Macau. Pertenceu-me a gratificante tarefa de coordenar e moderar a sessão, na qualidade de presidente do Instituto Internacional de Macau (IIM), entidade que organizou a mesma, cabendo ao professor de Filosofia e respeitado investigador António Aresta, que tem vasta e notável obra publicada sobre Macau e sobre a presença de Portugal e de portugueses no Oriente, a apresentação do livro. O prefácio, que é também da sua autoria, resume o bem elaborado texto que leu na ocasião.A dimensão cultural do autorEstes dois parágrafos do prefácio caracterizam adequadamente a dimensão cultural do autor:“António Conceição Júnior é um dos vultos marcantes da identidade cultural portuguesa contemporânea de Macau. No artigo ‘Tempo e Memória’ desvenda com nitidez uma parte da sua genealogia social e cultural em torno do importante jornal ‘Notícias de Macau’, ainda à espera de ser digitalizado e estudado, incluindo a sua enorme e pioneira actividade editorial. Encontramos aí uma boa parte da aristocracia cultural de Macau, onde pontificava a sua Mãe, Deolinda da Conceição, uma jornalista e escritora com uma escrita de fina sensibilidade e originalidade. Mas dentro desse pequeno cosmos, não podemos esquecer Hermann Machado Monteiro, Domingos Rosa Duque, Raul da Rosa Duque, Adelino da Conceição, Mário de Abreu, o Major Cabreira
F A L A R D E N Ó S - X V77J O R G E A . H . R A N G E LHenriques, António Maria da Conceição, Patrício Guterres, entre outros, figuras que, com excepção de Luís Gonzaga Gomes, resvalaram injustamente para uma nota de rodapé da história social de Macau. O tempo das incertezas e das indiferenças em que vivemos não parece acolher uma hermenêutica que valorize os lances biográficos de grande elevação moral e educativa. António Conceição Júnior, espírito culto, informado e originalmente polifacetado, escritor, pintor, gravador, fotógrafo, criador de moda, dirigiu o Museu Luís de Camões e os Serviços Culturais do Leal Senado de Macau onde comissariou umas boas dezenas de grandes exposições temporárias de arte ou de índole etno-antropológica, trazendo desse modo um invejável cosmopolitismo à cidade. Isso representa muito bem o exemplo vivo da partilha do sensível, na perspectiva estética que Jacques Rancière cunhou. A alma de artista está presente em todas as parcelas da sua vida, incluindo nas aulas de Religião e Moral, leccionadas pelo Padre Manuel Teixeira no Liceu de Macau, e onde recorda com um humor irreverente, ‘ele distribuía santinhos e eu caricaturas’.”Um exercício de cidadaniaQuanto ao livro, estas palavras de apresentação explicam o seu significado e importância a vários níveis:“Em primeiro lugar, como exercício de humildade e de modéstia: ‘Nem todos os textos nascem para a literatura, porque esse não é nem o seu objectivo nem a sua natureza. São textos operários, de obra. Servem sobretudo para revelar as insuficiências urbanas, oferecendo soluções e, assim, almejar para que a cidade melhor se qualifique’. É nesta plataforma transcendental que se iluminam os raciocínios, que se agitam as quimeras e se reciclam as vivências contraditórias.
F A L A R D E N Ó S - X V 78J O R G E A . H . R A N G E LEm segundo lugar, é um exercício de cidadania corajosa, culta, actualizada e com um poder de contágio simpático. Poderá criar um discipulato numa terra arredia ao exercício da liberdade de expressão? Esta é, porventura, a melhor parcela da ‘escola’ Manuel da Silva Mendes em Macau: ‘Macau não tem disseminada, uma elite pensante em várias línguas (...) É o desenvolvimento do colectivo, da qualificação da cidade enquanto um todo habitado e habitável, que me impele à defesa da cidadania plena, da qualidade e critérios, que só podem existir quando se compreender, por via da cultura, que a economia tem de ser encarada como força criativa e não especulativa’. A legitimidade de uma soberania passa também pela construção de novos conceitos referenciais. ‘A Domesticação do Ser’, de Peter Sloterdijk decalca esse caminho permitindo a fuga a verdades perigosamente iluminadas. Em terceira lugar, é um livro de fronteira. Está desigualmente repartido entre a antropologia filosófica, a ciência política, a literatura de ideias e o pensamento urbano: ‘Pergunto-me quem terá construído o Teatro D. Pedro V, o estuque original do medalhão da fachada de S. Domingos, o Clube Militar? Quem construiu a bela biblioteca do velho Leal Senado? Os móveis de pau-rosa, de pau-preto ou de huang hua li, em estilo chinês ou ocidental, já não se fabricam em Macau. Também as gerações de mestres, outrosa formados nas escolas salesianas, foram substituídos por curiosos sem preparação, seguindo os ditamos corrompidos dos sifu. Tudo se vai tornando descartável. A cidade pede qualidade e tranquilidade, mas é-lhe exigida rapidez desvairada, e oferecido ruído, poluição e confusão, também esteticamente.”Existir é a nossa força António Aresta recordou ainda as palavras de António Conceição Júnior no prefácio à quarta edição de “Cheong-sam (A Cabaia)”, de Deolinda da Conceição: “Mesmo que nos ignorem, não deixamos de existir. Existir é a nossa força. Fomos e somos aqueles
F A L A R D E N Ó S - X V79J O R G E A . H . R A N G E Lque legitimaram a presença portuguesa”. E considerou que “esta reflexão eticamente perfeita, dentro dos limites do poder e da razão, deveria ter sido o virar de uma nova página do pensamento filosófico de Macau sem qualquer descortesia para com outras tentativas, mas ficou apenas como um bordão identitário a que alguns se agarram”. Por tudo isso, defendeu que “na actualização do monumental ‘Delta Literário de Macau’, José Carlos Seabra Pereira terá de acomodar este novo afluente estético, pluridisciplinar, urbano e cosmopolita, que transcende como nenhum outro os limites da macaulogia tradicional”.No livro, António Conceição Júnior partilha com o leitor as suas reflexões e preocupações, bem como a sua visão, lúcida e sábia, sobre a sua (e nossa) cidade, que antecipa como uma cidade culta, criativa, com uma sociedade civil interventora e valorizada: “Macau tem todas as possibilidades, ainda, de se converter numa cidade criativa, se houver visão e vontade política”.Énio de Souza, quadro superior do CCCM, fez as honras da casa, saudando os principais protagonistas da sessão, assim como o IIM e a parceria útil estabelecida entre as duas instituições. Na assistência distinguiam-se os antigos Governadores Garcia Leandro e Rocha Vieira, a Prof.ª Ana Paula Laborinho, responsáveis de organismos ligados a Macau e académicos de várias instituições de ensino superior. No fim, um beberete estimulou o convívio e animadas conversas que envolveram as muitas pessoas ligadas a Macau que marcaram ali presença, enquanto o autor autografava muitas dezenas de exemplares deste seu bem conseguido livro. 30 de Julho de 2018
F A L A R D E N Ó S - X V 80J O R G E A . H . R A N G E LCidade culta, cidade criativa – um desígnio irrealizável? “Estamos então a falar na Cidade Criativa, que é não só um novo contrato social mas também um método de planificação estratégica, examinando e estimulando o modo como as pessoas podem pensar, planear e agir criativamente na cidade. Em suma, é a instalação do diálogo pleno com vista a conduzir a uma compreensão sobre a maneira como se pode humanizar e revitalizar as cidades tornando-as mais produtivas e eficientes, recuperando o talento e a imaginação dos cidadãos.” No seu mais recente livro, baptizado com o título “Quotidianos” (edição do autor, 2018), António Conceição Júnior quis partilhar com o leitor algumas das suas ponderadas, oportunas e, porventura, necessárias observações sobre a cidade, que são fruto óbvio da sua esclarecida visão, aliada a um profundo conhecimento de Macau, das suas realidades, potencialidades e limitações, bem como do seu plurissecular e, bastas vezes, assaz acidentado percurso.Conhecer a cidadeNa sessão de apresentação desta obra em Lisboa, levada a efeito numa soalheira tarde de final de Julho no Centro Científico e Cultural de Macau, cujo auditório foi insuficiente para acolher o numeroso e interessado público presente, foram recordadas estas palavras de Miguel Torga, quando nos veio conhecer: “Cruzo a cidade em todas as direcções, visito fortes, igrejas e casinos, meto-me numa lancha e espreito o porto interior, desembarco nas ilhas, percorrendo-as e regresso estonteado ao hotel. Nunca tinha tido uma experiência assim. De caminhar tantas horas em levitação. Tudo nesta terra é simultaneamente natural e mágico, concreto e abstracto, imóvel e fugidio.” Como tantos homens cultos que, nas últimas décadas, vieram ver e quiseram entender a cidade e suas gentes, Torga traduziu bem as percepções e sentimentos de muitos, que vão da surpresa ao deslumbramento, na descoberta de um lugar singular marcado por múltiplos encontros, desencontros e reencontros e no exercício de reconhecimento de um confronto continuado e enriquecedor que a todos ensina a alteridade, permitindo uma compreensão mais clara do “eu” e do “outro”. Neste mundo de contrastes, não é por acaso que, simbolizando tempos, memórias, propósitos e funções diferentes, até mantemos ainda, em pleno funcionamento e salutar complementaridade, um porto interior e um porto exterior...
F A L A R D E N Ó S - X V81J O R G E A . H . R A N G E LAntónio Conceição Júnior, porém, “filho da terra”, personalidade relevante no contexto cultural e cívico, a um tempo pensador, criador e agente em busca permanente da excelência, quis sempre ir mais longe. Pode, assim, convicta e seguramente, sugerir ou propor outros caminhos, prioridades e realizações para a sua (nossa) cidade. As palavras que abrem este artigo e que foram por ele escritas em Fevereiro de 2015, sintetizam, de algum modo, a sua concepção de “cidade culta”, em sintonia com Charles Landry, autor de “The Creative City: a toolkit for urban innovators”, um “verdadeiro manual para planificadores urbanos”, publicado no ano 2000, cujo conteúdo é por ele, a traços largos, lembrado numa outra intervenção, datada de Dezembro de 2015, a propósito da participação deste respeitadíssimo académico num evento realizado no Centro de Design de Macau: “Quanto do seu saber (de Charles Landry) será aproveitado? Já por mais de uma vez tive oportunidade de escrever que uma cidade é um organismo vivo, orgânico, um lugar consequentemente holístico onde uma acção se repercute em todo o tecido urbano e humano. Macau tem todas as possibilidades, ainda, de se converter numa cidade criativa, se houver visão e vontade política”. Bom seria que governantes e outros responsáveis administrativos da RAEM conhecessem livros fundamentais como esse (há uma 2.ª edição, de 2008, facilmente ao alcance de todos através da Amazon. Do mesmo autor, também se recomenda “The Intercultural City: planning for diversity advantage” (em co-autoria com Phil Wood, publicado em Novembro de 2017) e “The Art of City Making”, de 2006, onde se esclarece que não há planos simplistas aplicáveis uniformemente a todas as cidades, mas há princípios consagrados que podem contribuir para um correcto planeamento urbanístico. As cidades cultas, criativas e inteligentes dependem, certamente, desse saber e de visão, vontade política e capacidade de realização. E é de todo indispensável que auscultem opiniões autorizadas de reputados especialistas e tirem proveito de encontros e reuniões internacionais em que temas relevantes como estes são tratados. É que não se pode mesmo gerir uma cidade apenas com recta intenção e propósitos positivos...
F A L A R D E N Ó S - X V 82J O R G E A . H . R A N G E LUm renovado desafio Em “Quotidianos”, que importa ler e reler, António Conceição Júnior oferece-nos estas lúcidas, amadurecidas, corajosas e inspiradoras considerações:“O contexto singular de Macau, característica antiga que situa ainda hoje a cidade ao nível da excepção e não da regra, radica fundamentalmente o seu estatuto numa relação de conveniência pragmática, compromisso que permitiu a consolidação da sua essência conjugadora entre dois mundos. A nova realidade de Macau é um processo ainda por concretizar na definição política que lhe foi conferida, de centro mundial de turismo e lazer. Só o poderá ser verdadeiramente se a amálgama de todos os problemas forem resolvidos, se existir uma matriz estruturada para acolher este desígnio. Perante esta indesmentível constatação, importa extrapolar um conceito que há mais de duas décadas venho defendendo, tendo em conta que uma parte da população de Macau é transitória: o da consolidação de um polo referenciador e aglutinador das diversas comunidades em presença e que tenha como referência a percepção da Cidade, a relação supra-linguística, a recíproca interpretação cultural, num processo de plena abertura para com o Outro, tanto naquilo que o assemelha como naquilo que o distingue. É na teia de relações e afectos ainda improváveis, que a Cidadania – enquanto também identidade – se pode consolidar na sua plenitude, permitindo então a aplicação plena da abordagem cultural na Cidade Criativa.A questão da cidadania sempre me foi particularmente cara pelo que comporta de implícito compromisso, e também porque Macau, integrado no segundo sistema, tão inteligentemente concebido por Deng Xiao Ping, constitui parte integrante. Vislumbro aqui a formulação do segundo sistema como um acto de política eminentemente
F A L A R D E N Ó S - X V83J O R G E A . H . R A N G E Lcriativa, inicialmente destinado, como se sabe, a operar a progressiva transformação do interior da China pelo efeito de capilaridade de que a criação de zonas económicas especiais e de regiões administrativas especiais, todas situadas na orla marítima, são instrumentos fundamentais. Porém, cidades como Shenzhen, nascidas do nada, já desempenham importantes papéis no que toca à estruturação urbana, cívica e de experimentação que urge observar e reflectir. Se o figurino urbano de Macau mudou radicalmente desde a sua criação, a sua essência de cidade-estado mantém-se subjacente e inalterada, independentemente do seu estatuto político. E é neste figurino que se joga o êxito ou insucesso não apenas da organização da cidade, mas da interpretação e cumprimento do desígnio que Pequim outorgou à RAEM. Ou seja, ou a cidade se torna globalmente culta ou os desígnios não se concretizam, porque a cultura é o pressuposto fundamental.”É este, efectivamente, um desafio inadiável que cabe aos responsáveis políticos, às gentes e às mais representativas instituições da RAEM abraçar. 6 de Agosto de 2018
F A L A R D E N Ó S - X V 84J O R G E A . H . R A N G E LChamada de atenção para o centenário de Adé “Genuinamente Macaense, o Poeta Adé dos Santos Ferreira, já não é só da sua família. É de todos nós, que o amamos. É património cultural de Macau. E deveria sê-lo, também, de Portugal. É pedra basilar de toda uma herança (...)”Carlos Marreiros, 1994Os centenários propiciam o reconhecimento definitivo, justo e suficientemente distanciado daqueles que, por obras valorosas e elevado mérito, conseguiram situar-se entre os melhores de todos nós. É agora a vez de, neste contexto, recordarmos José dos Santos Ferreira (Adé), cujo nascimento ocorreu em Julho de 1919, sendo certamente oportuno que algumas entidades culturais de Macau, ou de algum modo ligadas à memória desta terra e da comunidade macaense, comecem a preparar, conjuntamente ou de forma tanto quanto possível articulada, um programa comemorativo digno desta relevante personalidade e do seu legado. Sessões evocativas envolvendo pessoas que o conheceram ou que estudaram a sua obra, artigos e outras intervenções em órgãos de comunicação social e reedições de trabalhos marcantes do Poeta, com vista à sua maior e mais eficaz divulgação, poderão, facilmente, integrar esse programa. Em 1994, um ano após o seu falecimento, a Fundação Macau, organismo público de que fui o primeiro presidente e que então tutelava, como membro do Governo de Macau, consagrou-lhe uma fotobiografia, bem concebida e coordenada por Carlos Marreiros. Poderá valer a pena reeditá-la ou até ampliá-la, para constituir mais um volume da notável colecção de fotobiografias que o Albergue SCM vem produzindo, a qual já distinguiu José Vicente Jorge, Carlos d’Assumpção e Chui Tak Kei. Um apontamento biográficoÉ da investigadora académica Alexandra Sofia Rangel esta sucinta biografia de Adé, que está no seu livro “Filhos da Terra – a comunidade macaense ontem e hoje” e foi adaptada posteriormente para um artigo incluído no número 34/II série (2017) da revista “Oriente/Ocidente”:
F A L A R D E N Ó S - X V85J O R G E A . H . R A N G E L“José Inocêncio dos Santos Ferreira, conhecido por Adé, nasceu em Macau a 28 de Julho de 1919, o mais novo de dezoito irmãos, filho de mãe macaense e pai português, natural de Seia que, nesse mesmo ano, partiu para Timor em busca de fortuna, trabalhando como comerciante. Morreu pouco tempo depois, deixando a família quase na miséria (Marreiros 1994: 21-22).Por este motivo, o pagamento das propinas e outras despesas escolares foi bastante difícil para José dos Santos Ferreira, deixando o Liceu de Macau aos dezassete anos para procurar emprego. Foi auxiliar de topógrafo e fiscal de obras antes de cumprir o serviço militar obrigatório. Entrou no quadro da Secretaria dos Serviços de Saúde em 1943 e, em 1956, foi nomeado chefe de Secretaria no Liceu de Macau, onde “(…) preocupou-se imenso e muito batalhou para que os alunos, filhos de famílias de condições económicas modestas, tivessem isenção de todas as propinas – matrícula, frequência e exames – e livros e material didáctico necessários (…) Muitos alunos beneficiaram dessa sua preocupação” (Marreiros 1994: 22). Conseguiu, portanto, que vários jovens não tivessem de passar pelo mesmo que ele, dando-lhes oportunidades e incentivando-os a continuar os estudos, especialmente quando, em 1964, se tornou secretário da STDM – Sociedade de Turismo e Diversões de Macau e convenceu os proprietários da empresa a instituir bolsas de estudo para o ensino secundário, universitário e pós-universitário (Marreiros 1994: 22-23).Entusiasta de jornalismo, colaborou em vários periódicos locais, fez parte do corpo redactorial do Notícias de Macau e foi chefe de redacção de O Clarim, Comunidade e Gazeta Macaense. Foi correspondente dos jornais portugueses Diário de Notícias, Diário do Norte e Diário Popular, do jornal de Hong Kong China Mail e da agência noticiosa Associated Press (Marreiros 1994: 23).José dos Santos Ferreira também gostava de desporto e praticou futebol, atletismo, ténis e hóquei em campo, tendo desempenhado cargos e organizado competições no
F A L A R D E N Ó S - X V 86J O R G E A . H . R A N G E LHóquei Clube de Macau, Associação de Futebol de Macau, Conselho de Desportos, Ténis Civil, Associação de Hóquei em Campo de Macau e Associação de Tiro de Macau (Marreiros 1994: 23). Integrou a Mesa Directora da Santa Casa da Misericórdia e a Direcção do Clube de Macau e foi presidente do Rotary Clube de Macau. Pelo Governo Português foi condecorado com a Ordem do Infante D. Henrique (grau de Cavaleiro) em 1979 e, do Governo de Macau, recebeu as medalhas de Mérito Desportivo e de Mérito Cultural em, respectivamente, 1983 e 1984 (Marreiros 1994: 25).Além de todas estas actividades, foi na escrita, principalmente na poesia, que ele mais se destacou, recuperando o dialecto macaense e dando-lhe uma nova vida nas suas récitas e poemas, sendo o seu maior divulgador, publicando as seguintes obras em patuá: Macau Sã Assi (1968), Qui-nova, Chencho (1974), Papiá Cristãm di Macau (1978), Camões, Grandi na Naçám (1982), Poéma di Macau (1983), Macau di Tempo Antigo (1985), Natal – Amor, Paz, Alegria (1986), Acunga Natal qui nôs já sunhá (1988), Macau, Jardim Abençoado (1988), Sã Natal, Jesus já nascê (1989), Luz di Natal (1990), Dóci Papiaçám di Macau (1990), Natal Cristãm (1991) e Poema na Lingu Maquista (1992) (Marreiros 1994: 26-27).No entanto, apesar de ter uma vida preenchida, o poeta, por dentro, estava a sofrer com o futuro próximo da sua terra natal:(…) cada vez mais negro estava também, segundo ele, o horizonte da sua amada terra que um dia acordaria chinês. O poeta que sempre acordou português, em todas as madrugadas, não podia continuar a conviver com a angústia de um dia acordar chinês. Nunca se acostumou à ideia, por isso, foi morrendo por dentro, pedaço a pedaço, despedaçado. Essa foi a sua morte, para quem o conhecia (Marreiros 1994: 25).
F A L A R D E N Ó S - X V87J O R G E A . H . R A N G E LJosé dos Santos Ferreira faleceu num hospital de Hong Kong, a 24 de Março de 1993. O seu poema “Adios di Macau” (“O Adeus de Macau”), escrito dez anos antes da transferência de administração, é revelador do estado de espírito do poeta, traduzindo a sua profunda mágoa com o destino traçado para a sua terra. (…)A comunidade macaense adaptou-se ao novo estatuto de Macau, como região administrativa especial da República Popular da China e continua, localmente e na diáspora, a recordar Adé como um dos seus filhos mais dilectos.”Breves notasPreparada com recurso a elementos contidos na fotobiografia elaborada por Carlos Marreiros (Fundação Macau, 1994), o apontamento biográfico de Alexandra Sofia Rangel também transcreve na íntegra, nas versões portuguesa e em patuá, o poema “Adios di Macau” (“O Adeus de Macau”), atrás referido, que tem posição de destaque no livro “Dóci Papiaçám di Macau”, com que o Instituto Cultural de Macau abriu a sua colecção “Poetas de Macau” em 1990. O prefácio é de Alberto Estima de Oliveira, outro vate maior que Macau muito bem acolheu quando, por razões profissionais, residiu no território, encontrando aqui motivos bastantes de inspiração para o desenvolvimento e o redimensionamento da sua apreciada obra poética. 13 de Agosto de 2018
F A L A R D E N Ó S - X V 88J O R G E A . H . R A N G E LHenrique de Senna Fernandes: evocação e homenagem“Na nota de abertura do seu livro Nam Van – Contos de Macau, escreveu: ‘Se alcancei o meu objectivo, ficarei grato por saber que prestei um serviço à minha terra’. É óbvio que sim.” Nunca é demais evocar e homenagear Henrique de Senna Fernandes, a quem me ligaram, para sempre, relações familiares, de amizade sincera e de mestre e aluno, no Liceu de Macau, onde tive também o privilégio de ensinar cerca de década e meia depois. Já o recordei várias vezes nos meus artigos e crónicas, ao longo do seu brilhante percurso profissional e literário e após a notícia dolorosa do seu passamento, em Outubro de 2010. Foi há precisamente quarenta anos que ele viu sair do prelo o seu primeiro livro de contos (“Nam Van – Contos de Macau”, edição do autor, 1978). No mesmo ano recebeu a sua primeira condecoração nacional – Oficial da Ordem de Instrução Pública, pelo desempenho meritório de funções docentes. E foi há justamente duas décadas que foi publicada a sua outra colectânea, que teve por título “Mong Há” (Instituto Cultural de Macau, 1998), e que ele viu consagrado o reconhecimento, ao mais alto nível, da sua notável obra literária, quando lhe foi atribuído o grau de Grande-Oficial da Ordem de Sant’Iago da Espada. Quatro boas razões, entre outras, para uma vez mais relembrar uma das nossas maiores referências culturais. Uma sucinta biografiaÉ da investigadora Alexandra Sofia Rangel, sobrinha-neta do escritor, este apontamento biográfico que integra o seu artigo “Notas sobre três referências culturais da comunidade macaense” (Revista Oriente/Ocidente, n.° 34/II série, 2017):“Henrique Rodrigues de Senna Fernandes nasceu em Macau a 15 de Outubro de 1923, oriundo de uma das mais antigas famílias do território. Fez os ensinos básico e secundário em Macau. Terminou, em 1952, o curso de Direito na Universidade de Coimbra e regressou a Macau dois anos depois, exercendo advocacia desde então. Foi também professor na Escola Primária Oficial, no Liceu Nacional Infante D. Henrique, na Escola do Magistério
F A L A R D E N Ó S - X V89J O R G E A . H . R A N G E LPrimário e na Escola Comercial Pedro Nolasco, de que foi director durante doze anos, sendo recordado com saudade e admiração por milhares de alunos que o consideraram um dos melhores mestres de gerações de jovens de Macau (Rangel 2006: 101). Desempenhou cargos em organismos públicos e associativos, como director da Biblioteca Central de Macau e da Biblioteca Sir Robert Ho Tung, director do Centro de Informação e Turismo do Governo de Macau, membro do Conselho Consultivo do Governador de Macau, presidente do Rotary Clube de Macau, presidente da Assembleia Geral da Associação Promotora da Instrução dos Macaenses e presidente da Associação dos Advogados de Macau (Rangel 2006: 101).Foi colaborador em vários periódicos de Macau, como A Voz de Macau, Notícias de Macau, O Clarim, Gazeta Macaense e Ponto Final, e nas revistas Mosaico e Revista de Cultura. Foi também crítico de cinema na Emissora de Radiodifusão de Macau (Rangel 2006: 102).Henrique de Senna Fernandes publicou duas compilações de contos, Nam Van – Contos de Macau (1978) e Mong Há (1998), e dois romances, Amor e Dedinhos de Pé (1985) e A Trança Feiticeira (1993), este último com uma tradução em língua inglesa, The Bewitching Braid. Os dois romances foram levados ao cinema: Amor e Dedinhos de Pé foi realizado por Luís Filipe Rocha em 1993 e A Trança Feiticeira por Yuanyuan Cai em 1996. Os actores principais foram, respectivamente, Joaquim de Almeida, no papel de Francisco da Frontaria, e Ricardo Carriço, no papel de Adozindo.O seu conto “A-Chan, a Tancareira”, vencedor do Prémio Fialho de Almeida dos Jogos Florais da Queima das Fitas de 1950 da Universidade de Coimbra, relata a história de amor em Macau entre uma chinesa pobre, tancareira, chamada A-Chan, e um marinheiro português, Manuel, nos inícios da década de 40 do século XX. (…)
F A L A R D E N Ó S - X V 90J O R G E A . H . R A N G E LHenrique de Senna Fernandes foi condecorado com o grau de Oficial da Ordem de Instrução Pública (1978), a Comenda da Ordem do Infante D. Henrique (1986), a Medalha de Mérito Cultural do Governo de Macau (1989), a Medalha de Valor do Governo de Macau (1995), o grau de Grande Oficial da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada (1998), o título de Cidadão Emérito de Macau (1999) e a Medalha de Mérito Cultural da Região Administrativa Especial de Macau (2001) (Rangel 2006: 101-102). Em 2003, foi eleito académico correspondente da Academia Internacional da Cultura Portuguesa e, em 2004, recebeu o Prémio Identidade do Instituto Internacional de Macau, destinado a contemplar “(…) personalidades ou instituições que, pela sua acção, obra e exemplo, hajam contribuído, activa e significativamente, para a preservação e o reforço da identidade de Macau” (Rangel 2006: 100). O Instituto Internacional de Macau quis homenagear, “(…) com toda a justiça, o escritor, o professor, o jurista, o bibliotecário e o dirigente dedicado de organismos locais, públicos e privados, que muito contribuiu para a afirmação da identidade cultural de Macau, sendo por muitos considerado o patriarca da comunidade” (Rangel 2006: 103).Henrique de Senna Fernandes faleceu no dia 4 de Outubro de 2010. Não obstante problemas de saúde que limitaram a sua intervenção cívica e cultural, continuou nos últimos anos da sua vida a ser um membro activo de várias organizações, como o Conselho das Comunidades Macaenses e a Confraria da Gastronomia Macaense. Na nota de abertura do seu livro Nam Van – Contos de Macau, escreveu: “Se alcancei o meu objectivo, ficarei grato por saber que prestei um serviço à minha terra” (Fernandes 1978: 4). É óbvio que sim.O Instituto Cultural de Macau assumiu, entretanto, a responsabilidade de publicar as obras completas de Henrique de Senna Fernandes, cujos primeiros volumes foram o romance inédito Os Dores, em 2012, a que se seguiram as reedições de Amor
F A L A R D E N Ó S - X V91J O R G E A . H . R A N G E Le Dedinhos de Pé e A Trança Feiticeira e, em 2015, A Noite Desceu em Dezembro, um novo romance parcialmente publicado no jornal Ponto Final.”Algumas notas complementaresNesta sucinta biografia, que contém citações extraídas do 2.° volume de “Falar de Nós – Macau e a Comunidade Macaense”, a autora também transcreveu passagens relevantes do conto “A-Chan, a Tancareira”, que abre a colectânea “Nam Van – Contos de Macau”, a qual conheceu uma reedição, em 1997, por iniciativa do Instituto Cultural de Macau. Vários dos contos foram divulgados em primeira mão nas páginas do “Notícias de Macau”, entre 1972 e 1975. Com vista à divulgação de Henrique de Senna Fernandes no Brasil, a Gryphus Editora produziu edições brasileiras de “Nam Van – Contos de Macau” e “Amor e Dedinhos de Pé”. Assisti ao seu lançamento numa sessão levada a efeito na sede da Academia Brasileira de Letras, no Rio de Janeiro, em 2008. Quanto a “Mong-Há”, conforme as palavras do autor no frontispício, são “estórias em que se misturam recordações, experiências vividas e páginas de pura ficção, submetidas ao juízo e à curiosidade do leitor” e “produto de dolorosa elaboração”. Dolorosa, pelas dificuldades em conciliar a vida profissional, social e familiar com a escrita, mas, indubitavelmente, uma obra rica e genuína, um legado de que Macau e a comunidade macaense se podem orgulhar. 20 de Agosto de 2018
F A L A R D E N Ó S - X V 92J O R G E A . H . R A N G E LReconhecimento porventura tardio, mas ainda e sempre oportuno“O António Aresta é um grande amigo, não apenas na acepção física da palavra como ainda na intelectual, especialmente na área da Macaulogia. Pela sua prosa os autores que estiveram em Macau e/ou se devotaram aos assuntos da sinologia são constantemente lembrados.” Na bonita e calorosamente participada sessão de lançamento de “Quotidianos”, de António Conceição Júnior, recentemente realizada no auditório do Centro Científico e Cultural de Macau, em Lisboa, ao saudar António Aresta, que o autor muito bem escolheu para apresentar o livro, achei oportuno recordar, ainda que sucintamente, a obra reconhecidamente relevante já produzida por este persistente e qualificado investigador e divulgador da memória de Macau e da presença de Portugal e dos portugueses no Oriente. Quis também partilhar com aquele público interessado, ligado de algum modo a Macau e/ou a diversos organismos culturais, o propósito de incluir no programa de acção do Instituto Internacional de Macau (IIM) para 2019, no âmbito das comemorações do 20.° aniversário do estabelecimento da Região Administrativa Especial de Macau (RAEM) e do próprio IIM, algumas homenagens porventura tardias, mas absolutamente merecidas, a personalidades que se distinguiram pelo seu elevado mérito cultural, como é o caso de António Aresta, de cuja competência e capacidade muito temos ainda a esperar. Essas homenagens deverão ser organizadas em Portugal e em Macau. Incansável labor intelectualProcedemos, há poucos meses, no elegante salão do Clube Militar de Macau, ao lançamento da colectânea intitulada Manuel da Silva Mendes (IIM, Outubro de 2017). No prefácio, Ana Cristina Alves, outra professora que ficou intimamente ligada a Macau e à Sinologia, cuja colaboração, na docência, na investigação e na produção literária, as instituições académicas de Macau não podem deixar de estimular, escreveu: “O convite que me foi dirigido pelo Instituto Internacional de Macau para prefaciar a colectânea Manuel da Silva Mendes, de António Aresta, deixou-me muito honrada e, simultaneamente, numa atrapalhação, porque o espaço que me foi concedido é curto para explicar tão longa amizade e, ainda, para descrever sucintamente o percurso biobibliográfico deste autor que conta com mais de: 80 artigos em publicações de referência; 35 trabalhos
F A L A R D E N Ó S - X V93J O R G E A . H . R A N G E Leditados em volume ou separata; 19 organizações de edição com prefácio e notas; redacção de prefácios; colaborações em multimédia; organização de exposições e antologias, assim como prolífica colaboração na imprensa nacional e de Macau com publicações no Jornal de Letras, Artes e Ideias; 132 artigos no Semanário de Macau – Tribuna de Macau, entre 1988 e 1995; 118 artigos no Jornal Novo – Diário Matutino de Macau, entre 1993 e 1994, e 101 artigos no Jornal Tribuna de Macau – Diário Matutino de Macau, entre 2010 e 2017. A nossa amizade vem de longe. Quando eu dava os primeiros passos nos estudos chineses. Estudava com afinco, mas não podia ser considerada bilingue, ainda que esse conceito em Macau tivesse à época da administração portuguesa um sentido bastante alargado e difuso. Não era bilingue, mas os meus amigos, com o António à cabeça e a Celina Veiga de Oliveira no seu encalço, tudo faziam para que me tornasse uma estudiosa dos assuntos sínicos. Encomendavam-me artigos, colaborações, enfim, talvez quisessem companhia para os gigantescos esforços que então empreendiam no domínio da Sinologia e na recém-desenhada Macaulogia. O António andava especialmente entusiasmado à época com a Sinologia Portuguesa. Datam desse período, ou seja, de 1997, os seus trabalhos: ‘Os Estudos Sínicos no Panorama da História da Educação em Portugal’, artigo publicado na revista Administração; ‘A Sinologia Portuguesa, um Esboço Breve’, publicado na Revista de Cultura, nas edições portuguesa e inglesa. Desde então, o tema nunca deixou de o acompanhar, tendo publicado mais três artigos sobre a Sinologia Portuguesa, respetivamente em 2006, 2014 e 2015, incluindo-me sempre com grande gentileza e generosidade entre os seus companheiros espirituais. A sua amizade real e o seu incansável labor intelectual, à maneira criativa da aranha que vai tecendo escrupulosamente a sua teia, foram para mim um extraordinário incentivo, mesmo nos períodos mais difíceis, e todos os temos. Quando pensava reformar-me intelectualmente e dedicar-me em regime de exclusividade à contemplação do
F A L A R D E N Ó S - X V 94J O R G E A . H . R A N G E Lnosso belo planeta, lá estava ele a lançar-me um email com um desafio nas áreas a que se tem dedicado. Antes de mais: à Sinologia e, sobretudo dentro desta, à Macaulogia; mas também à cultura em geral; à literatura e literatura infanto-juvenil; à história e à filosofia portuguesas; ao ensino e à pedagogia; bem como à história destes, em Macau, em Portugal e em Moçambique; à Lusofonia; à língua e à política; à educação cívica; à diáspora macaense e às impressões quotidianas de Macau, de Portugal e de Moçambique, entre outras regiões, tais como Timor; além das curiosidades históricas que tem vindo a publicar na imprensa.”Mentores da Macaulogia“O António Aresta é um grande amigo, não apenas na acepção física da palavra como ainda na intelectual, especialmente na área da Macaulogia. Pela sua prosa os autores que estiveram em Macau e/ou se devotaram aos assuntos da sinologia são constantemente lembrados. Vejamos apenas alguns daqueles sobre quem tem escrito com o claro objetivo de espalhar o nome deles por toda a parte: Ana Maria Amaro, Graciete Batalha, Maria Ondina Braga, Charles Boxer, D. Arquimínio Rodrigues da Costa, Luís Fróis, Pe Joaquim Guerra, Luís Gonzaga Gomes, Joaquim Afonso Gonçalves, Armando Martins Janeira, José Miranda e Lima, Wenceslau de Moraes, D. José da Costa Nunes, Camilo Pessanha, Álvaro Semedo, Pedro Nolasco da Silva, Maria Anna Acciaioli Tamagnini, Monsenhor Manuel Teixeira, António Manuel Couto Viana, Alice Vieira, Benjamim Videira Pires, entre outros. A incessante partilha das suas amizades intelectuais é notória ainda em relação a Manuel da Silva Mendes. Note-se as palavras do autor na abertura da presente colectânea: ‘tenho procurado recolocar a obra de Manuel da Silva Mendes no lugar cimeiro que lhe é devido’. E assim o fará, mostrando-nos diversas facetas deste sinólogo português que tanto tempo viveu em Macau. Somos levados a conhecê-lo melhor através das relações com Padre Manuel Teixeira, Raul Brandão, José da Costa Nunes, Camilo Pessanha e até nos é
F A L A R D E N Ó S - X V95J O R G E A . H . R A N G E Ldada a oportunidade de seguir a argumentação jurídica de Silva Mendes em carta dirigida ao Governador de Macau, datada de 20 de Setembro de 1923 a solicitar a revogação duma portaria que declara nulo um contrato de emprazamento. (...)Silva Mendes ocupa, como é reconhecido por António Aresta, um lugar de destaque na Sinologia que justifica bem a publicação da presente colectânea. Deixemos, à laia de conclusão, falar o seu autor a respeito da importância de Silva Mendes para o Território: ‘Macau deixa de ser vista como paroquial e unidimensional, para doravante ser estudada a partir de uma coligação de saberes pluridimensionais, sendo por isso o primeiro mentor da moderna macaulogia’.Se Silva Mendes foi o primeiro mentor da Macaulogia não será o único, pois o século XX trouxe-lhe vários companheiros de saber, possuindo hoje, já em pleno século XXI, em António Aresta o seu mais digno e destacado continuador.”Ana Cristina Alves conhece bem a obra de António Aresta, cuja dimensão, valor e significado este seu testemunho consegue sinteticamente caracterizar, sendo de sublinhar e aplaudir a conclusão contida na última frase do prefácio, que resume de forma feliz um percurso notável que tem ainda pela frente muitos renovados desafios. 27 de Agosto de 2018
F A L A R D E N Ó S - X V 96J O R G E A . H . R A N G E LPoeta popular de Macau ganha projecção académica “A literatura popular em língua portuguesa merecia ser declarada património imaterial da humanidade. Que estas obras magníficas, em boa hora editadas pelo Instituto Internacional de Macau, se divulguem pelas instituições culturais e educativas de todo o espaço da língua portuguesa e que sejam mais uma contribuição para que esta proposta se torne sem mais demora uma realidade.”Prof. António de Abreu Freire, Dezembro de 2014No seu estudo O Roteiro do Verso Popular – Das Taifas do Al-Andaluz ao Delta do Rio das Pérolas, publicado em Dezembro de 2014 pelo Instituto Internacional de Macau (IIM), o Prof. António de Abreu Freire, autor de trabalhos académicos altamente meritórios sobre a poesia popular luso-brasileira, deu a J. J. Monteiro, grande poeta popular de Macau, a projecção académica que lhe é, desta feita e ainda em boa hora, reconhecida, depois de ter também apresentado em academias brasileiras de Letras comunicações sobre a sua vida e obra. Este docente universitário tem sido, indubitavelmente, o mais eficaz promotor de J. J. Monteiro em círculos académicos. Também a Câmara Municipal da Murtosa (Portugal) dedicou, em 2014, uma sessão especial, muito concorrida, à exaltação da memória daquele até então quase desconhecido conterrâneo, que passou a maior parte da vida em Macau e soube descrever, nas suas memórias expressas em castiços versos, os usos e costumes, bem como as festas e festividades das terras por onde passou, desde tenra idade, com destaque para o Bunheiro, Lisboa, a Madeira, o Brasil (Belém do Pará), Macau e os portos que conheceu nas longas viagens que o ligaram definitivamente a três continentes. Os Serviços de Turismo, o Instituto Cultural de Macau e, mais recentemente, o IIM publicaram os principais livros de J. J. Monteiro, incluindo alguns, como Memórias do Romanceiro de Macau e Meio Século em Macau, que saíram do prelo muito depois do seu falecimento (em 1988), graças à forma empenhada como os seus filhos se envolveram na reunião e revisão dos textos e na sua interessada coordenação. As sessões de apresentação dos livros foram marcadas pela saudade e pela emoção, tendo como principais oradores descendentes do poeta, sempre acarinhados por numeroso público.
F A L A R D E N Ó S - X V97J O R G E A . H . R A N G E LUm estudo oportunoSem a publicação dos citados livros, teria sido impossível conhecer, em toda a extensão, a qualidade e a dimensão da obra legada. O IIM assumiu essa responsabilidade e foi, com a maior satisfação, que também acolheu o trabalho do Prof. Abreu Freire, integrando-o na sua colecção Mosaico. Este estudo do Prof. Abreu Freire tem duas partes e um breve epílogo, sendo a primeira consagrada à identificação e explicação das raízes hispano-árabes da literatura de cordel e à evolução da poesia popular até aos nossos dias, como “arte ancestral que tem a dimensão e o fascínio da língua portuguesa e de toda a sua história pluricontinental”. A segunda – “José Joaquim Monteiro – o cordel em Macau” é inteiramente dedicada ao poeta “cujos versos simples não são apenas uma narrativa”, mas “são também e sobretudo uma reflexão crítica sobre a sua vida e a do povo simples e nobre, com o qual se identifica”. Quando escreveu sobre um dos livros do poeta (“Macau vista por dentro”, 1983), uma das figuras de maior dimensão intelectual da segunda metade do século XX em Macau, o Pe. Benjamim Videira Pires considerou-o “uma Obra notável esta, de carácter popular, sim, mas cheia de ritmo, emoção, beleza e poesia”. No epílogo, Abreu Freire transcreve um soneto com que o jurista, professor e poeta Dirceu Rabelo, da Academia Pernambucana de Letras, o presenteou em Novembro de 2014, uma semana após um encontro sobre “Origens e Expansão da Literatura de Cordel”, levado a efeito no Recife, “capital do nordeste brasileiro, a cabocla civilizada, como lhe chamou Manuel Bandeira, onde o verso popular tem espaço cativo e privilegiado”. Nesse evento académico, Abreu Freire dissertou sobre J. J. Monteiro e as suas obras editadas pelo IIM, pelo que quis que aquele soneto de um grande poeta erudito, “mais uma ponte entre a literatura académica e a literatura
F A L A R D E N Ó S - X V 98J O R G E A . H . R A N G E Lpopular” fosse também entendida como “uma homenagem ao emigrante que um dia saiu de uma aldeia humilde de Portugal e levou a arte da palavra do povo até ao delta do rio das Pérolas”.Nas palavras finais do livro, lembrou que “os filhos do poeta popular de Macau contam que em família ele se exprimia correntemente em verso, improvisando rimas e estrofes ao jeito e feitio de cada momento e circunstância”. “É assim mesmo um autêntico poeta de cordel”. Todava, não foi assim apenas no seio da família. Também o foi nos encontros com amigos e em ocasiões festivas. Ou até nas conversas com gerações de alunos do Liceu de Macau, onde trabalhou durante muitos anos, fazendo as delícias da pequenada com a facilidade com que improvisava quadras alusivas a qualquer acontecimento e a cada pessoa. Poeta-soldadoJ. J. Monteiro foi militar ao longo de mais de 13 anos, dos quais 8 passados em Macau, onde desembarcou em Novembro de 1937, com 24 anos de idade. “Na tropa aprendeu a ler e a escrever, passando para o papel os versos que lhe acalentavam o quotidiano”; “era tal o gosto pelo verso e o uso que dele fazia que logo ficou conhecido como o soldado-poeta”. Estas palavras constam do livro de Abreu Freire, que mais adiante identificou os principais trabalhos do poeta: “Os jornais Diário de Notícias e o Diário da Madeira, onde cumpriu serviço em 1936/7, já tinham publicado alguns dos seus textos quando o jeito para a escrita ainda era rudimentar, mas nunca deixou de aperfeiçoar a arte, multiplicando os escritos em verso e prosa que depois publicaria na revista macaense Religião e Pátria (dirigida pelo padre jesuíta, também poeta e historiador, Benjamim Videira Pires) e em outros jornais de Macau. Também foram os companheiros de regimento que lhe compraram
F A L A R D E N Ó S - X V99J O R G E A . H . R A N G E Los primeiros livros, A Minha Viagem para Macau (1939) e A História de um Soldado (1940), editados por conta própria, tinha vinte e sete anos. O soldado-poeta logo foi solicitado para escrever as letras dos hinos e canções que animavam paradas, representações teatrais e saraus da colónia. Casou em 1943 em Macau, aos trinta anos, com Teresa Leong Monteiro e licenciou-se do serviço militar em 1946, já pai de dois filhos. Foi contínuo no Liceu Nacional Infante D. Henrique, onde trabalhou até se aposentar e em dada altura arriscou a publicar mais um livro por conta própria, De Volta a Macau (1957). A Direção dos Serviços de Turismo publicou em 1983 Macau Vista por Dentro e o Instituto Cultural de Macau, em edição póstuma, editou Anedotas, Contos e Lendas em 1989. Finalmente o Instituto Internacional de Macau prestou-lhe uma justa homenagem publicando em edições de grande formato (32 x 23 cms) Meio Século em Macau (460 pp. 2 volumes, 2010) e as Memórias do Romanceiro de Macau (362 pp., 2013). O autor faleceu em Macau em 1988 com 75 anos e ainda sobram textos para pelo menos mais um volume de escritos inéditos em verso e prosa.” Homem probo e de recta intenção e propósitos nobres, de límpida simplicidade e parca educação formal, mas impressionantemente culto, pelas vivências extraordinárias que teve na universidade da vida e pelo esforço constante de aprendizagem que foi para ele um desafio permanentemente abraçado e vencido, é impossível esquecê-lo. Como admirador da “arte da palavra” que o poeta tão brilhantemente cultivou e bom amigo dos seus filhos, recordo-o de forma muito sentida neste ano do trigésimo aniversário do seu passamento. 3 de Setembro de 2018
F A L A R D E N Ó S - X V 100J O R G E A . H . R A N G E LMemória do Poeta, da Ria de Aveiro ao Rio das Pérolas “Os versos de J. J. Monteiro são um hino à vida, em verso popular.”Prof. António de Abreu FreireO importante estudo do Prof. António de Abreu Freire, intitulado “O Roteiro do Verso Popular – Das Taifas do Al-Andaluz ao Delta do Rio das Pérolas” (IIM, Dezembro de 2014) foi objecto da nossa apreciação no artigo anterior, especialmente no que respeita ao valor do verso popular e à projecção finalmente dada ao maior poeta popular de Macau, J. J. Monteiro, cuja obra notável merece agora adequado reconhecimento.Do Bunheiro a Belém do ParáÉ também neste oportuníssimo trabalho de Abreu Freire que encontramos notas biográficas muito completas do poeta, das suas origens e do seu percurso, até à chegada a Macau, como jovem soldado do Exército Português, em 1937:“Nascido em 1913, chegado ao Bunheiro (então pertencente ao município de Estarreja até 1926) com nove meses, foi lá que José Joaquim Monteiro viveu uma infância feliz que ele recorda em muitas quadras, sextilhas, décimas, duodécimas e sonetos, versos dedicados à terra, às gentes marinhosas e à família das Carmeiras, com quem foi criado por ter ficado órfão de pai em tenra idade. São sessenta e sete páginas das Memórias do Romanceiro de Macau dedicadas à infância e aos familiares do Bunheiro. Aos 6 anos de idade emigrou com a avó para o Brasil, ao encontro do avô, que já se encontrava em Belém do Pará com a mãe e o padrasto, destino traçado na palma da mão de milhares dos seus conterrâneos e já também do bisavô. A vida desta família de imigrantes no Brasil não correu bem e o jovem estava de regresso à terra com a avó aos dez anos, em 1923. Os poucos anos que passou na capital do estado do Pará marcaram profundamente o adolescente atento a tudo quanto se passava à sua volta: ele conta com minúcia nos seus versos os conflitos familiares que afetaram fortemente aqueles anos, os ciúmes da avó que vigiava os desvios do marido deixado à solta no calor dos trópicos durante
F A L A R D E N Ó S - X V101J O R G E A . H . R A N G E Ldemasiados anos, a loucura do padrasto pelo jogo, a ruína e a sua morte, seguida da do avô e de uma irmã de dois anos e meio, as propriedades da família, a liquidação do património: tinham vacas e leitaria na rua 2 de Dezembro, casas e barracas na travessa 14 de Março, três hotéis e uma pensão na estrada da Nazaré, um barracão, uma hospedaria, um botequim e um telheiro na avenida 22 de Junho (atual Av. Alcindo Cacela, uma grande artéria da capital paraense) e uma quitanda na praça da Nazaré (Memórias (2013), 81). Pela lista dos bens familiares, aquela era uma família de imigrantes bem-sucedida que em dada altura teve percalço na vida e se arruinou rapidamente. (...) José Joaquim Monteiro transportava na sua bagagem cerebral desde criança um gosto inato pelos versos e foi o que mais o marcou durante os anos que viveu no Brasil: analfabeto como nessa altura cerca de 85% da população portuguesa, cresceu exercitando a memória, porque apenas aprendeu a ler e a escrever na tropa, quando se alistou aos dezanove anos. O acesso tardio à literacia desenvolveu nele a oralidade, graças aos versos populares que o tinham entusiasmado quando escutava os cantadores nas festas da sua juventude pelas terras marinhoas, o que ele descreve minuciosamente. O Marques Sardinha de Avanca era assíduo nos arraiais, um homem do povo que aprendeu na escola da vida, respeitado e temido pelo seu verbo: ele andava nas bocas do mundo e era um personagem admirado que muitos gostavam de imitar.”O livro “Memórias do Romanceiro de Macau”, de J. J. Monteiro, foi publicado pelo Instituto Internacional de Macau em 2013, na sequência de “Meio Século em Macau” (em dois volumes) em 2010. Do regresso à terra até aportar a MacauÉ deveras fascinante acompanhar o relato da vida singular do poeta:
F A L A R D E N Ó S - X V 102J O R G E A . H . R A N G E L“No regresso do Brasil, com pouco mais de dez anos, o adolescente contava em verso e com o sotaque brasileiro, aos amigos de Lisboa e do Bunheiro, as suas vivências e aventuras pelo Pará, entusiasmando os ouvintes ao ponto destes lhe oferecerem dinheiro: Tantos tostões eu juntei/ que o Caetano, prazenteiro/ logo ali, ao fim duns dias/ ofereceu-me um mealheiro. Fez nova tentativa de frequentar a escola mas sem sucesso, porque o brasileiro preferia as brincadeiras libertinas que a grande capital lhe proporcionava, com a cumplicidade de uma virgem perversa chamada Elvira; mas entretanto o jovem foi perdendo naturalmente o sotaque brasileiro e o interesse dos companheiros e vizinhos pelos seus versos diminuiu: Ao fim dum mês de cá ‘star/ vi falir meu mealheiro/ porque perdi toda a graça/ do sotaque brasileiro. E foi o regresso à terra dos tempos de criança, ao Bunheiro: de comboio até Estarreja, de carruagem de cavalos até ao Monte e de carro de bois até ao lugar da Mata. Antes de emigrar para o Brasil a avó Joana vendera quase tudo quanto possuía e agora avó e neto regressavam a uma casa mais pobre e arruinada do que a que deixaram: tinha um poço, uma figueira e um curral – recomeçara a vida com uma vaca, um cordeiro, um suíno e uma cadela branca. A vaca pastava pelas bermas e combros, eles não tinham terras que a alimentassem: era o viver dos pobres, um quotidiano de azáfama por caminhos de areia bordados de silvas e loureiros, tamargueiras e chorões, uma vida feita de pouca coisa: pinhas, caruma, gravetos, leitugas e milhã. São mais cento e quinze páginas dedicadas ao Bunheiro, um retrato fiel, um perfil antropológico da terra e das gentes que a habitavam nos anos ’20 e ’30 do século passado. Nas páginas 248 e 249 ele descreve as desfolhadas e o descante, as cantigas ao desafio que os ciclos das estações, das festas e das colheitas proporcionavam e presta fiel homenagem à grande referência de todos os que se entusiasmavam pela arte do versejar, o poeta popular e quase vizinho Marques Sardinha. Os versos que contam com minúcia a história da sua infância, da adolescência e dos primeiros passos de uma vida sacrificada em cata da subsistência foram escritos
F A L A R D E N Ó S - X V103J O R G E A . H . R A N G E Lmuitos anos depois de ter aprendido a ler, quando já era conhecido como soldado-poeta e vivia do outro lado do mundo, em Macau. É lá que a memória se desenrola em escrita, para contar as romarias a pé à Senhora da Saúde que ele fazia com a avó, cumprindo promessas, de barco até à Senhora das Dores em Verdemilho e ao São Paio da Torreira, os serões invernais de roca, fuso e dobadeira, à luz das candeias e da chama das achas na lareira, os moços de cajado e gabão, as violas e as cantigas ao desafio. Os Reis e as Janeiras, cortejos e procissões, as trindades e o dobrar dos sinos, as festas do padroeiro, as feiras de gado, o junco e o moliço, o pão do forno, uma sardinha para dois, o canto dos grilos na lareira, as moças de xaile de merino com seus cordões domingueiros... nada falta a um panorama antropológico da terra que define a identidade bunheirense assumida pelo poeta como sua. (...) Quando teve que deixar a terra para tentar ganhar a vida em Lisboa, fê-lo revoltado: Só Deus sabe o que sofri/ e as saudades que senti/ lá, nessa grande Lisboa/ tendo sempre na ideia/ Bunheiro, esta linda aldeia/ e a sua gente tão boa (Memórias, 303). Fora criado de servir na aldeia e habituara-se aos trabalhos duros da lavoura, com carros de boi arrastando-se por infinitos caminhos de areia, mas a vida era muito mais dura na capital, onde fez um pouco de tudo para sobreviver: foi moço de recados, vendedor ambulante, engraxador, ajudante de alfaiate, passou fome e dormiu ao relento. Encontrava consolação nas cantigas à desgarrada e vingava-se das frustrações do quotidiano ganhando os desafios dos becos e calçadas de Lisboa. Depois, um dia, quando virou soldado, aprendeu a ser homem. A vida militar durou treze anos, um mês e vinte e cinco dias, dos quais oito anos, dois meses e oito dias em Macau, a joia portuguesa do oriente, no delta do Rio das Pérolas. O soldado corneteiro J. J. Monteiro desembarcou em Macau em 1937, tinha vinte e quatro anos.” 10 de Setembro de 2018
F A L A R D E N Ó S - X V 104J O R G E A . H . R A N G E LEmigrante, soldado, poeta “No Bunheiro o poeta viveu o encanto e a serenidade da Ria de Aveiro e em Macau a sedução e o deslumbramento do Rio das Pérolas.”Prof. António de Abreu FreireJ. J. Monteiro, que foi, sem dúvida, o maior poeta popular de Macau, aqui aportou em 1937, com apenas 24 anos de idade, como soldado, integrado numa unidade do Exército Português. Deixou-nos definitivamente em 1988, com 75 anos, após meio século completamente integrado na terra que passou a ser sua e onde deixou numerosa descendência e uma obra verdadeiramente notável, que só recentemente foi ganhando o merecido reconhecimento. Foi graças, em larga medida, às comunicações apresentadas e aos estudos feitos pelo professor universitário António de Abreu Freire, de que se destaca “O Roteiro do Verso Popular – Das Taifas do Al-Andaluz ao Delta do Rio das Pérolas” (Instituto Internacional de Macau, Dezembro de 2014), que essa obra foi alcançando maior divulgação em círculos académicos portugueses e brasileiros. Este propósito foi mais facilmente realizado após a publicação, pelo Instituto Internacional de Macau, das obras “Meio Século em Macau” (em dois volumes, 2010) e “Memórias do Romanceiro de Macau” (2013). De Portugal para o mundoPela qualidade do relato, que caracteriza admiravelmente o percurso de J. J. Monteiro, vale a pena juntar às transcrições feitas nos dois artigos anteriores mais estas considerações e apreciações contidas no estudo atrás referido:“A vida de José Joaquim Monteiro é a história de um emigrante português como milhões de outros sobre os quais já no século XVII o padre António Vieira, num célebre sermão pregado na igreja de Santo António dos Portugueses em Roma (1671) dizia: Sem sair ninguém pode ser grande (...) Nascer pequeno e morrer grande é chegar a ser homem. Por isso nos deu Deus tão pouca terra para o nascimento e tantas para a sepultura. Para nascer, pouca terra; para morrer toda a terra: para nascer, Portugal; para morrer o mundo. Perguntai a vossos avós: quantos saíram e quão poucos tornaram?
F A L A R D E N Ó S - X V105J O R G E A . H . R A N G E LMas estes são os ossos de que mais se deve prezar o vosso sangue. Ele mesmo, o grande Vieira, foi um emigrante e o santo a quem dedicava o sermão também fora um emigrante: santo António. J. J. Monteiro viveu ao ritmo das oportunidades que a vida lhe ofereceu, à medida das suas ambições e da sua coragem, por três continentes. Refletindo sobre ela viveu-a uma segunda vez através dos seus versos, partilhando-a assim com todos os peregrinos que encontram na palavra escrita um jeito nobre e generoso de acalantar a existência. Como muitos portugueses que fizeram do mundo inteiro o terreiro das leivas dos seus arados, ele cultivou uma arte de versejar que fazia parte do universo lúdico da sua infância e serviu-se desse instrumento para partilhar a história da sua vida, dos seus conterrâneos e a da comunidade que o acolheu durante meio século. Seria banal se esta forma de comunicar não se inserisse numa longa história que faz parte da identidade dos povos de língua portuguesa desde tempos imemoriais, desde antes ainda da existência da própria nacionalidade. Ele não teve em Macau o apoio de outros poetas nem o ambiente competitivo que encontraria no nordeste brasileiro, não teve o apelo da cantoria que caracteriza a peleja nordestina, mas desenvolveu com os seus próprios recursos e a sua inspiração a arte tão genuinamente portuguesa do verso popular.”Meio século em MacauMacau, sua terra de eleição, proporcionou-lhe as condições para registar as memórias, em verso, para a eternidade: “Macau fica muito longe, nos antípodas da terra da infância do poeta. Do casamento no longínquo oriente com Teresa Leong Monteiro (faleceu em 1973) nasceram 6 filhos e estes o brindaram com 12 netos, deixando aos seus descendentes a mais valiosa das heranças: uma obra escrita, uma reflexão sobre a sua identidade. O
F A L A R D E N Ó S - X V 106J O R G E A . H . R A N G E Lsegundo filho, Rogério Monteiro, também foi militar, beliscou a poesia e contribuiu para a ilustração da obra agora publicada. Tanto mais meritório é o percurso literário do poeta quando o ambiente cultural português em Macau sem dúvida que em nada se poderia comparar com qualquer espaço do Brasil onde o verso popular tem vastíssimas plateias e competidores que apoiam, valorizam e divulgam a arte; existia no entanto um ambiente cultural muito próximo dele, que proporcionava algum incentivo: José Silveira Machado (1918-2007) era funcionário público na Fazenda de Macau, autor da obra poética Rio das Pérolas e do livro de contos Macau, Mitos e Lendas, um açoriano de São Jorge que fazia parte dos amigos próximos de J. J. Monteiro. Também havia em Macau um ambiente de desafio em verso suficientemente aparatoso para que constasse das regras impostas aos soldados: um regulamento datado de Novembro de 1969 e assinado pelo soldado Luís Américo Chao menciona que o soldado Não tomará parte em descantes ou espectáculos públicos sem autorização (p. 109, vol. 2), o que deixa entender que tais eventos seriam bastante comuns, frequentados e confusos para constarem de uma lista de restrições. O descante (é assim que ainda hoje se chama o cantar ao desafio no norte de Portugal) é uma propensão inata para a peleja verbal em verso cantado que faz parte do imaginário mais profundo do povo português. E estava instalado nos arraiais de Macau!Textos do tempo das primeiras publicações do autor na revista Religião e Pátria comparam os versos de J. J. Monteiro aos de Manuel Alves, o poeta cavador, natural de Anadia (1843-1901), analfabeto que encantou com rimas poderosas muitos escritores académicos como Ramalho Ortigão, Teófilo Braga e Afonso Lopes Vieira; exímio repentista da Bairrada, foi apoiado por Tomaz da Fonseca que compilou e publicou os Versos dum Cavador em 1900 e que chegaram a Macau. Também ele emigrara para o Brasil onde não encontrou fortuna, mas lá aperfeiçoou a arte e deixou vestígios já que em 1955 ainda circulavam folhetos com décimas e quadras de sete sílabas de sua autoria (...)
F A L A R D E N Ó S - X V107J O R G E A . H . R A N G E LComo acontece com a literatura de cordel brasileira, a narrativa em verso do quotidiano sobrepõe-se a todas as demais narrativas, jornalísticas, radiofónicas e televisivas. Conhecida a história pelos jornais, rádios e televisões, acontece frequentemente que os folhetos de cordel contando aquela mesma história em verso vendem centenas de milhar de exemplares, porque o povo gosta de uma narrativa diferente, em verso. Aconteceu com J. J. Monteiro e a sua descrição da história de Macau por ele vivida mais intensamente, a dos tempos da guerra, dos graves problemas sanitários e alimentares, quando a presença japonesa se tornou ostensivamente invasiva e os aliados americanos, equivocados ou talvez não, bombardearam a cidade; na confusão do momento surgiram personagens no mundo confuso da espionagem e da criminalidade como o célebre Vong Kong Kit. Nada escapa à perspicácia do narrador, qual repórter dotado de um olhar crítico e refletido sobre os acontecimentos que afetaram a comunidade macaense. Mais que um soldado-poeta ele é um emigrante-poeta, um viajante que iniciou a sua peregrinação numa terra de emigrantes, que esticou a vida por três continentes, por onde deixou rasto da sua passagem.” Como bem concluiu o autor, “os versos de J. J. Monteiro são um hino à vida”, a uma vida que o poeta viu repartida por terras de vários continentes, com longos capítulos e o epílogo em Macau. Oxalá o Prof. António de Abreu Freire possa continuar a promover com sucesso o precioso legado de J. J. Monteiro, ao mesmo tempo que vai contribuindo eficazmente para valorizar a poesia popular, como “arte ancestral que tem a dimensão e o fascínio da língua portuguesa e de toda a sua história pluricontinental”. 18 de Setembro de 2018
F A L A R D E N Ó S - X V 108J O R G E A . H . R A N G E LComo um brasileiro viu Macau no final do século XIX “Macau conserva aquela originalidade, que não deixou de produzir-me grata impressão, ainda que certa estranheza...” “A China e os Chins – Recordações de Viagem” é o título de um apelativo livro que Henrique C. R. Lisboa, secretário da missão oficial especial nomeada para estabelecer relações entre o Brasil e o Império do Meio, escreveu e fez publicar em Montevideu, em 1888. Nele também descreveu Macau, que foi visitada por aquela missão, partilhando com o leitor as impressões que colheu da cidade, em 1880, e as considerações que teceu sobre a vida urbana, o património construído e os contrastes que facilmente detectou. O “amável Governador Graça”, referido no texto, era Joaquim José da Graça, tenente-coronel do Exército Português, que desempenhou altos cargos na administração ultramarina e governou Macau de 1879 a 1883, tendo sido, nesse período, simultaneamente, ministro plenipotenciário junto dos Imperadores da China e do Japão e do Rei do Sião. Eis algumas passagens mais relevantes das suas curiosas observações, que transcrevemos com a grafia actualizada: A vida urbana“A Cidade do Nome de Deus hão há outra mais leal ocupa a parte sul da pequena península que termina a ilha de Hiang-Chang. Nove morros a dominam do lado do mar, erguendo-se em quatro deles outras tantas fortalezas armadas de antiga artilharia. O bairro onde se albergam os 4.000 europeus que vivem em Macau acha-se situado na parte leste da cidade e apresenta um alegre aspecto, com suas construções pintadas de vivas e variadas cores, seus seculares conventos e igrejas e seu belo passeio à beira mar, que recordou-me a Promenade des anglais de Nice ou a praia de Botafogo. A ‘Praia’ é o nome desse passeio onde, à tarde, saem a respirar a suave brisa do mar morenas europeias ou amarelas mestiças, trajando vistosas saias que procuram imitar as modas um pouco atrasadas de Paris.
F A L A R D E N Ó S - X V109J O R G E A . H . R A N G E LCarros antiquados, cadeirinhas e pedestres cruzam-se constantemente em uma e outra direcção, parando de vez em quando para permitir alguns cumprimentos ou confidências de amor, arte a que se dedicam assiduamente os mancebos de Macau, por não encontrarem, talvez, outra ocupação. Não se pode, porém, negar que empreguem grande engenho para ostentar uma toilette sempre cuidada. Nada mais interessante do que esses moços de fisionomia chinesa e cabelo naturalmente lustroso, trajando elegantes fraques, com os pequenos e bem formados pés apertados em brilhantes botinas e o pescoço encerrado em altos e duros colarinhos rodeados de coloridas gravatas. É Macau a única cidade da China em que se mantém a pretensão dos trajes europeus, ainda que adulterados pelo gosto e a distância e pela especulação do comércio, que encontra aí cómodo mercado para os artigos passados de moda. Em outras partes, os residentes estrangeiros adaptam o seu traje à comodidade de movimentos ou às condições do clima; Macau, porém, conserva aquela originalidade, que não deixou de produzir-me grata impressão, ainda que certa estranheza, depois, que os meus olhos se tinham habituado, na minha longa viagem desde o istmo de Suez, a só ver como excepção a comprida sobre-casaca e o chapéu de copa. É verdade que os ingleses nunca abandonam a casaca e a gravata branca para sair à noite; mas, durante o dia chegam a suprimir a camisa e só usam daqueles chapéus de formas extravagantes que chamam a atenção dos flaneurs da nossa rua do Ouvidor, quando aporta ao Rio de Janeiro algum vapor da Austrália. Não são, porém, somente os janotas e as elegantes de Macau que lhe dão um cunho especial entre as cidades da China. As suas ruas escabrosas, com suas escadinhas que lembram as velhas calçadas lisbonenses; as suas casas de construção irregular, ornadas de balcões de madeira verde, estilo árabe, ou de janelas engradadas; as numerosas igrejas e os conventos empoeirados, residências de padres que circulam gravemente, como quem tem consciência da sua influência, vestindo amplas batinas e deitando a
F A L A R D E N Ó S - X V 110J O R G E A . H . R A N G E Lbênção sobre os transeuntes; o contínuo repique dos sinos e o retumbar dos tambores da guarnição, tudo dá a Macau uma fisionomia que contrasta com a das outras cidades, onde predomina o espírito prático dos ingleses e em que a actividade comercial absorve todas as outras manifestações da vida. Mas o comércio de Macau está em constante decadência e não parece longe de limitar-se às necessidades locais. Em vinte anos, o número anual das saídas de navios do seu porto caiu de 1000 a 200, sendo estes, pela maior parte, embarcações de cabotagem que transportam a Hong Kong o chá ainda exportado da colónia portuguesa no valor de dois mil e quinhentos contos.”O património construídoVer a gruta de Camões era, nesse tempo, imperativo. O visitante brasileiro não deixou de lá ir e de apreciar algum do vasto património construído: “Acha-se situada essa gruta dentro de uma propriedade particular, cujo dono tem prazer em franquear acesso ao pitoresco sítio onde, à sombra de frondosa vegetação, cantava o vate lusitano as glórias da pátria ingrata. Numa cavidade, entre dois rochedos, vê-se um busto do autor dos Lusíadas, rodeado das inscrições com que os visitantes prestam justa homenagem a uma glória hoje universalmente reconhecida. Obtém-se daí uma esplêndida vista de Macau e da sua plácida baía e compreende-se que se prestasse esse ameno refúgio a tão sublimes inspirações. Ainda depois, os modernos poetas e pintores que o destino atira a essas praias frequentam carinhosamente esse delicioso retiro, seja para respirar nas perfumadas auras da tarde os eflúvios da poesia ou para roubar com o pincel, no esplendor de um tropical pôr-do-sol, os encantos dessa natureza privilegiada. O Palácio do governo de Macau é um vasto edifício cuja arquitectura nada tem de notável. A mobília que o guarnece merece, porém, atenção dos amantes de coisas
F A L A R D E N Ó S - X V111J O R G E A . H . R A N G E Lantigas, e algumas peças obteriam, certamente, como tais, preços fabulosos em Paris ou Londres. Também admirei ali o magnífico serviço de porcelana chinesa antiga, com o qual ofereceu o amável Governador Graça um banquete à Missão de que eu fazia parte.Entre outros edifícios, se não elegantes, ao menos respeitáveis pela sua idade, notam-se a Catedral, o Paço municipal, o Senado e a igreja de São Paulo, construída em 1594. Esses edifícios estão ornados exteriormente de estátuas de mármore e granito, deformadas pela intempérie, e interiormente, de pinturas a fresco, quase destruídas pela incúria. Ao sair desses monumentos seculares, acorda o viajante como de um sonho, sentindo-se na China, depois de ter sido transportado em espírito a alguma antiga basílica de Portugal ou Espanha.” Quem chamou a nossa atenção para a existência deste livro foi Carlos Francisco Moura, respeitado investigador do Real Gabinete Português de Leitura do Rio de Janeiro, quando, ainda jovem, escreveu um artigo sobre o mesmo no Boletim do Instituto Luís de Camões (vol. IX, de 1975), que o nosso saudoso Luís Gonzaga Gomes diligente e competentemente dirigia. Carlos Francisco Moura continua ligado àquela emblemática instituição portuguesa do Brasil, criada em 1837, sendo também colaborador do Instituto Internacional de Macau, que publicou vários dos seus estudos sobre o relacionamento do Brasil com Macau.Outras observações de Henrique C. R. Lisboa, sobre a cidade chinesa, contrastes com Hong Kong e diferenças entre as artes ocidental e oriental, serão incluídas no próximo artigo desta série semanal intitulada “Falar de Nós – Macau e a Comunidade Macaense” iniciada em Dezembro de 2003.24 de Setembro de 2018
F A L A R D E N Ó S - X V 112J O R G E A . H . R A N G E LMacau em 1880 – contrastes observados por um visitante do Brasil“Macau, com sua construção europeia, suas ruas calçadas de pedra, suas igrejas, conventos e imensos quartéis, não parece estar na China.” Partilhámos com o leitor, no artigo anterior, alguns comentários e descrições de Henrique C. R. Lisboa, no seu livro “A China e os Chins – Recordações de viagem”, publicado em 1888, na sequência de uma visita oficial à China, que não deixou de incluir curtas permanências em Hong Kong e Macau. Vimos as apreciações feitas à nossa cidade e ao património nela edificado e deixámos, para este segundo artigo, os contrastes que o autor identificou entre a parte europeia da urbe e os bairros tradicionais chineses, uma comparação com Hong Kong e também as diferenças observadas na arte pictórica. Contraste com Hong KongA prosperidade rápida do ainda recente estabelecimento britânico e o visível declínio do território luso são salientados pelo autor: “A imensa riqueza comercial que, a custo de ingente trabalho e de uma vertiginosa ambição, atesouram anualmente Hong Kong e outros centros europeus na China, poderá por acaso compensar o ideal bem-estar em que vivem os modestos habitantes de Macau, à sombra dos seus pitorescos morros, no gozo de um clima privilegiado e embalados pelas gloriosas recordações do passado? Esta pergunta faz meditar o filósofo sobre o verdadeiro sentido da palavra felicidade. Onde encontrá-la: no judeu, ávido de ouro, a quem o afã de amontoar faz desprezar aqueles mesmos gozos que lhe poderia proporcionar o cobiçado metal, ou no sentimental trovador, cuja própria miséria exalta as inefáveis expansões da alma! É este um problema que não é dado à humanidade resolver a menos de admitir que a felicidade reside aí onde cada um julga encontrá-la; mas, nos próprios europeus que habitam aquelas longínquas regiões temos um exemplo de que não há quem esteja contente da sua sorte. Com efeito, os moradores de Macau vivem sonhando com a sua mudança para Hong Kong e, em compensação, muitos residentes desta última cidade só almejam
F A L A R D E N Ó S - X V113J O R G E A . H . R A N G E Lenriquecer para retirar-se a Macau. Alguns já aí se estabeleceram definitivamente, outros possuem na colónia portuguesa bonitas chácaras, onde vêm passar o verão, muito mais suave do que em Hong Kong. Não são, entretanto, somente os europeus os que dão merecido apreço às qualidades de Macau; muitos chins acomodados aí fixam sua residência, seja para procurar o amparo do pavilhão português contra as tendências acaparadoras das autoridades imperiais, ou para entregar-se à sua paixão favorita, o jogo.”A cidade chinesaOs contrastes entre as zonas urbanas de traça europeia, cujas observações do autor integraram o artigo anterior, e os bairros chineses, com aspectos exóticos talvez mal compreendidos, são igualmente assinalados no texto: “Deixando esse lado da península, onde se ostentam como fúnebre memento as recordações da passada glória lusitana, chega-se, depois de uma marcha de dois quilómetros, à cidade chinesa. Não é gradual, como em Hong Kong, a transição de uma cidade à outra; Macau, com sua construção europeia, suas ruas calçadas de pedra, suas igrejas, conventos e imensos quartéis, não parece estar na China. Se, encostado à muralha do cais, numa das extremidades do arco de círculo descrito pela Praia, deixa-se absorver o viajante pelas reflexões que lhe sugere a contemplação dessa relíquia dos séculos, não é sem sobressalto que verá interrompida a sua meditação pela fantástica aparição de um san-pan em forma de ovo, resvalando mansamente sobre o espelho das águas, ao esforço de uma estranha mulher coberta de enorme chapéu pontudo. Os carregadores de cadeirinhas, interpelando-se vivamente em gutural dialecto, não lhe parecerão, nesse momento, menos fenomenais hóspedes caídos do céu ou do inferno. Mas, atravessada a estreita superfície que ocupam essas velhas ruas, galgadas
F A L A R D E N Ó S - X V 114J O R G E A . H . R A N G E Las escadinhas e ladeiras e transpostas as chácaras, que vão escasseando pouco a pouco, entra-se de repente em outro mundo, em outra atmosfera.Não é somente no sentido figurado que se sente essa variação do ambiente. Os viajantes que têm percorrido as regiões da terra terão notado os cheiros especiais que se desenvolvem nas aglomerações de população dos diversos países que visitam. Atribui-se, e com razão, essa particularidade às emanações dos artigos de maior uso ou consumo. Ouvi dizer a alguns chins que os europeus não escapam à regra geral a esse respeito, nem é extraordinário que assim suceda e que o hábito nos inabilite a reconhecê-lo praticamente. Tive disso uma incómoda prova quando, em excursões que fiz nas cidades chinesas, fui insistentemente olfateado e perseguido por ladridos e ameaças de cães, que não se deixavam lograr pelo escrupuloso traje chinês que eu ostentava com a dignidade de um letrado. A densidade da população da China estende mesmo aos campos o seu cheiro composto de almíscar, ópio, verniz, azeite, peixe, esterco e provavelmente muitos outros ingredientes menos voláteis. Em toda a China sente-se esse cheiro especial que ainda se nota nos objectos chineses que chegam ao Ocidente. No bairro europeu de Macau, porém, é ele menos pronunciado, por se confundir, talvez com o forte cheiro português antigo, e isso permite ao viajante antecipar a sua chegada à cidade chinesa, onde os hábitos pouco asseados da população e a sua principal ocupação, a pesca, dão preferente desenvolvimento às emanações das duas últimas matérias primas que citei.Nada de especialmente curioso tem essa parte de Macau. As mesmas ruas tortuosas e estreitas de Cantão, sem as ricas lojas ou os interessantes edifícios daquela cidade, casas baixas e amontoadas em uma irregularidade que perturba a vista pelos inúmeros paus, tábuas, roupas, cordas e utensílios de toda sorte, dispostos nas fachadas ou através das ruas.”
F A L A R D E N Ó S - X V115J O R G E A . H . R A N G E LDiferenças na arteAs diferenças na arte são também apontados pelo autor do livro, que enaltece a qualidade e o papel de George Chinnery, que viveu e morreu em Macau e cuja obra marcou um tempo e teve qualificados emuladores:“Em idênticas circunstâncias acha-se a pintura. As composições desse género ressentem-se de uma falta absoluta de perspectiva linear ou aérea, e apenas são notáveis pelo seu brilhante colorido que não apresenta, contudo, senão mui vagas noções do claro-escuro. Nas cópias são porém exímios. Do mesmo modo que aquele alfaiate de Macau, citado por alguns viajantes, o qual, devendo fazer um par de calças pelo modelo de outro usado, copiou até os remendos, assim o pintor chinês reproduzirá escrupulosamente os próprios defeitos da tela.A especialidade do retrato é antiquíssima na China e não dá tanto lugar à crítica, principalmente depois que os que a ela se dedicam puderam observar e imitar os processos dos pintores europeus que frequentaram aquele Império. Entre estes, merece ser citado o retratista e paisagista inglês Chinnery, que se estabeleceu em Macau no princípio deste século e ali fundou uma escola da qual saíram alguns chins verdadeiros artistas.”Continuaremos a trazer para este espaço do Jornal Tribuna de Macau selecções de relatos de visitantes que, nos últimos dois séculos, nos facultaram testemunhos relevantes que importa reler e de novo divulgar, juntamente com os artigos e crónicas, sobre acontecimentos, personalidades, instituições, a memória, o legado e o futuro, que são a razão de ser de uma praticamente ininterrupta colaboração semanal, prestes a completar quinze anos. 8 de Outubro de 2018
F A L A R D E N Ó S - X V 116J O R G E A . H . R A N G E LOriente/Ocidente – uma revista de reconhecida qualidade“... órgão de difusão cultural do IIM, que é um utilíssimo instrumento de intercâmbio académico e de permuta com múltiplas e diversificadas instituições locais e do exterior.” Acaba de sair do prelo mais um número da revista Oriente/Ocidente (n.° 35/II série, 2018), apresentando qualificada colaboração e diversificada temática, na sequência dos números anteriores, sempre muito bem recebidos em círculos académicos e culturais, entre os quais universidades, bibliotecas e centros de estudos e investigação. A sua apresentação pública ocorrerá no dia 29 do corrente, às 18 horas, na sessão de encerramento do X seminário sobre “O Papel de Macau no Intercâmbio Sino-Luso-Brasileiro, conjuntamente organizado pelo Instituto Internacional de Macau (IIM) e pelo IBECAP – Instituto Brasileiro de Estudos da China e Ásia-Pacífico, com a participação de outras entidades académicas e associativas de Portugal, do Brasil, da República Popular da China e de Macau. Esta sessão terá lugar no auditório do IIM, onde se divulgarão também as conclusões dos encontros realizados no Rio de Janeiro, em Pequim e em Xangai e se procederá ao lançamento do livro “A China e a Revitalização das Antigas Rotas da Seda – Novo Vetor do Comércio Mundial”, de Fernanda Ilhéu e Leonor Janeiro, com prefácio do Embaixador António Martins da Cruz (edição conjunta do IIM e da Associação Amigos da Nova Rota da Seda), e do livro “Faixa e Rota, uma iniciativa da China – O papel de Macau e dos países de língua portuguesa”, também edição do IIM, executada pela Macaulink sob a orientação de Gonçalo César de Sá.Acompanhando de perto a produção dessa revista, levada a efeito apenas com “prata da casa”, sob a coordenação do vice-presidente do IIM, José Lobo do Amaral, e sem recurso à intervenção de profissionais de comunicação social, sei que foi com natural satisfação e a consciência do dever cumprido – agradável sensação que a todos deve impelir para novas e sempre mais completas e consequentes realizações – que foi concluído mais este número do órgão de difusão cultural do IIM, que contém material de alto valor e constitui um utilíssimo instrumento de intercâmbio académico e de permuta com múltiplas e diversificadas instituições locais e do exterior. Creio que a qualidade exigida pelos colaboradores e leitores espalhados pelo mundo foi uma vez
F A L A R D E N Ó S - X V117J O R G E A . H . R A N G E Lmais conseguida, sendo oportuno a todos expressar um justo reconhecimento pelos contributos que foram recebidos de variados quadrantes, ao longo dos últimos anos.Rico e variado conteúdoUm importante trabalho do General José Eduardo Garcia Leandro, que foi Governador de Macau (1974-79), sobre um período crucial e imensamente difícil da vida do território, quando Portugal atravessava uma fase de profundas mudanças políticas, a seguir à chamada “revolução dos cravos”, e a China chegava ao fim da sua tumultuosa “revolução cultural”, abre a série de artigos de fundo sobre temas históricos e sociológicos relacionados com a presença de Portugal no Oriente, o prolongado encontro de culturas e as relações luso-chinesas. Também encontramos trabalhos sobre a arte, numa perspectiva intercultural, a valorização da identidade macaense, a língua, como indispensável elemento estruturante de comunicação, e o funcionamento da administração pública, como sustentáculo fundamental da sociedade. É assegurada a continuidade do estudo de uma das matérias mais relevantes da actualidade, que é a ambiciosa iniciativa chinesa, de dimensão universal, denominada “Uma Faixa, Uma Rota”, que tem merecido do IIM uma aprofundada intervenção, a ponto de o seu acervo editorial ter ficado recentemente enriquecido com vários livros sobre este gigantesco desafio que a China ousou lançar ao mundo, gerando, simultaneamente, entusiásticas adesões e inevitáveis desconfianças e resistências. É neste contexto que se insere mais um artigo do investigador Paulo Duarte, intitulado “Viagem ao Centro da Terra: a oportunidade sino-europeia no quadro da Faixa e Rota”.Do Brasil, chegou informação, que é gostosamente partilhada, sobre a biblioteca de Marcello Caetano, compreendendo 40 mil volumes. Doada à Universidade Gama Filho, ficou agora à guarda do Real Gabinete Português de Leitura do Rio de Janeiro, instituição
F A L A R D E N Ó S - X V 118J O R G E A . H . R A N G E Lpor muitos considerada a mais emblemática da comunidade portuguesa no país irmão. Ela estabeleceu com o IIM um amplo protocolo de cooperação, que proporcionou a organização de relevantes iniciativas conjuntas e a utilização frequente de instalações da sua magnífica sede para actividades do IIM e de outras instituições macaenses.Foi precisamente no Brasil que o IIM iniciou e desenvolveu, com eficácia e praticamente desde a sua criação, as suas actividades no exterior, tendo ali firmado protocolos de cooperação com mais de dez entidades, além de parcerias úteis que estabeleceu com universidades para projectos concretos. Ainda agora, nos últimos dias de Setembro, foi efectuado, com assinalável sucesso, mais um conjunto de actividades do IIM no Rio de Janeiro, no Real Gabinete Português de Leitura, na Escola Superior de Guerra e numa Câmara do Comércio, Indústria e Turismo.Na parte final, como habitualmente, é referido mais um dos principais parceiros do IIM – o Gabinete Português de Leitura de Salvador, com 155 anos de história ao serviço da língua portuguesa no Estado da Bahia e cuja sede, edificada há precisamente cem anos, é um ex-libris da cidade. E é feita uma resenha das realizações integradas no programa de acção do IIM, bem como notas sobre as suas edições em 2017.Alguns outros títulosMerecem menção alguns outros títulos: “Rumo à China: os portugueses nos mares da China na primeira metade do século XVI”, de Isabel Horta Lampreia, mestre em História de Arte pela School of Oriental and African Studies (University of London), “À procura do Oriente. Notas para uma definição do conceito”, de António Leite da Costa, professor, investigador e membro efectivo do IIM, “A arte como uma metáfora para o auto-cultivo: uma perspectiva intercultural da relação do artista com a matéria”, de Caroline Pires Tang, pesquisadora do Real Gabinete Português de Leitura e doutoranda em História e Crítica
F A L A R D E N Ó S - X V119J O R G E A . H . R A N G E Lda Arte, “Portugal – China: sob um olhar intercultural”, de Álvaro da Rosa, professor universitário e membro do IIM, “O Prémio Identidade do Instituto Internacional de Macau: propósitos e entidades contempladas”, de Alexandra Sofia Rangel, investigadora e autora do livro “Filhos da Terra – A Comunidade Macaense, Ontem e Hoje”, “O ‘Tsunami’, o Homo Floresiensis e remanescências portuguesas no Sri Lanka e na Indonésia – os Silvas de lá – um brasileiro de Cametá, governador de Timor”, de Carlos Francisco Moura, historiador, “Macau in the Goa Archives”, de Maria de Lourdes Bravo da Costa Rodrigues, historiadora e antiga bibliotecária da Biblioteca Central de Goa, “A língua como elemento de identidade cultural: a propósito de um manual trilingue relativo ao Crioulo Português de Malaca”, de Sílvio Moreira de Sousa, professor universitário e “Do chinês ao português que distância vai”, de Xu Yixing, directora do Departamento de Português da Universidade de Estudos Internacionais de Xangai. Apreço da RAEMNum encontro recentemente realizado na sede do Governo da RAEM, para acerto de formas de participação nas comemorações do seu vigésimo aniversário, a levar a efeito no próximo ano, foi imensamente gratificante ouvir do Chefe do Executivo uma apreciação muito positiva do percurso feito pelo IIM ao longo de quase 20 anos. O expressivo comunicado oficial, divulgado imediatamente após esta audiência, dando público testemunho do apreço da mais alta entidade da Região, constitui um poderoso incentivo para se poder ir sempre mais longe, no cumprimento pleno dos seus objectivos estatutários. O IIM está disponível, à semelhança do que havia sido feito por ocasião do 10.° e 15.° aniversários, para se empenhar na realização de um conjunto de projectos com idêntico propósito em 2019/2020. 15 de Outubro de 2018
F A L A R D E N Ó S - X V 120J O R G E A . H . R A N G E LDe Portugal a Macau – filosofia e literatura no diálogo de culturas “Talvez não haja lugar como Macau, para este exercício fundamental de nos construirmos, sabendo da nossa identidade fugidia. São lugares assim, de confronto, que nos mostram o caráter imperfeito e não definitivo da identidade.” Em Março de 2017, em Macau, e em Maio do mesmo ano, no Porto, quase cem académicos, residentes na região de Macau, na República Popular da China, em Portugal, no Brasil e em Espanha, marcaram presença em dois encontros em torno do inspirador tema “Filosofia e Literatura – Entre Portugal e Macau: Lusofonia, Utopia criadora?”, que justificou e deu conteúdo a um importante e muito oportuno congresso organizado pelo RG “Raízes e Horizontes da Filosofia e da Cultura em Portugal”/Instituto de Filosofia da Universidade do Porto, com a colaboração da Universidade de Macau, da Universidade de S. José (Macau), do Instituto Politécnico de Macau e do Instituto Internacional de Macau, com sessões levadas a efeito em todas estas instituições e uma cerimónia de encerramento no Salão Nobre do Palácio da Independência, sede da Sociedade Histórica da Independência de Portugal, em Lisboa. Mais de quarenta comunicações então apresentadas foram agora reunidas num volume de quase seiscentas páginas, com o título “De Portugal a Macau – Filosofia e Literatura no Diálogo de Culturas”. Coordenado pelos professores Maria Celeste Natário, Renato Epifânio e Maria Luísa Malato e publicado pelo Bairro dos Livros, com edição de conteúdos da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, a obra foi financiada pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia do Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior de Portugal. A um prefácio que procura fazer o enquadramento dos encontros e da vasta temática tratada, segue-se uma intervenção de fundo de Guilherme d’Oliveira Martins, presidente do Centro Nacional de Cultura, sobre “Língua e Cultura – Cadinho de Diferenças”, sendo as comunicações arrumadas em dois grandes grupos: “Entre Filosofia e Literatura” e “Entre Oriente e Ocidente”, por ordem alfabética dos nomes dos respectivos autores. A pérola e a viagemO prefácio, como elucidativa nota de abertura, recorda sucintamente a lenda da
F A L A R D E N Ó S - X V121J O R G E A . H . R A N G E Ldeusa A-ma, que terá dado o nome à cidade que os portugueses edificaram na costa meridional da China, e desenvolve o significado da pérola como símbolo universal, a propósito do monumento do artista português José Rodrigues na Rotunda da Amizade: “a pérola é, biologicamente, o resultado de uma digestão complexa, feita de inclusão e exclusão num espaço de metamorfose”. “O jardim da Pérola evoca os cinco elementos constitutivos do Mundo: a Madeira, o Fogo, a Terra, o Metal, a Água e os 5 pontos cardeais: o Ocidente, o Sul, o centro, o Oriente, o Norte. A esfera da escultura simula Vénus, nascida da espuma das águas. Parece não tocar na terra. Não é pois um tempo preciso, mas um tempo esférico: uma duração em que é indistinto o princípio e o fim”. No prefácio também se evoca Pessanha, pela artificialidade duma certa nostalgia lusófona e a facilidade duma imaginação forçada pela memória, “perdido num espaço em que quase nada afinal parece evocar o ponto de partida, o viajante é submerso por uma realidade que o invade, a ele o invasor”, e Torga, “sobre este exotismo de ser estranho num espaço em que o viajante se reconhece, ainda que de passagem rápida”, sendo “tudo nesta terra simultaneamente natural e mágico, concreto e abstracto, imóvel e fugidio”, para concluir que “talvez não haja lugar como Macau, para este exercício fundamental de nos construirmos, sabendo da nossa identidade fugidia” e que “são lugares assim, de confronto, que nos mostram o caráter imperfeito e não definitivo da identidade”, pois “são lugares assim, de estranhamento, que nos ensinam a alteridade como função maior da literatura iniciática”. É por isso que “muitos dos textos aqui publicados refletem precisamente sobre um conhecimento dialético, de afirmação e negação de conceitos como o Eu vs. Outro, Invasor/Invadido, Eutopia/Distopia”, porque “falamos aqui talvez de um Porto Interior e de um Porto Exterior”, que são precisamente os dois portos que servem esta cidade singular, com propósitos diferentes, mas complementares, um virado mais para dentro, para o interior da China, rio acima, e o outro aberto ao mar e ao mundo.
F A L A R D E N Ó S - X V 122J O R G E A . H . R A N G E LVoltando à pérola e ao profundo simbolismo que ela encerra (não é por acaso que o rio cuja foz banha a barra de Macau é o Rio Pérola ou das Pérolas), sabemos que a noção da pedra na sua concha é como “a verdade e o conhecimento, cuja aquisição exige um esforço”. Este volume de invulgar dimensão é, pois, assumido “como uma longa viagem”. Recordando a velha Arcádia Lusitana, cujos estatutos tinham a “curiosa constatação de que a lucubração solitária é tautológica”, podemos concordar que só existiriam “duas formas efetivas de promoção do conhecimento: a academia e a viagem. A viagem porque nos desloca para fora do nosso espaço confortável. A academia porque colocava em diálogo diferentes maneiras de pensar e de dizer”. Este livro é, pois, pelo seu conteúdo e pelos seus propósitos, uma viagem. Merece, portanto, chegar a todas as pessoas que deram vida, forma e saber aos dois encontros em boa hora realizados e às instituições, não só às que os acolheram, mas também a todas as outras que, no vasto espaço lusófono queremos estimular para muitas novas viagens dos portos de partida para os de destino, nos caminhos e estradas da lusofonia.Cadinho de diferençasGuilherme d’Oliveira Martins lembra, na sua intervenção, que “a nossa pátria moderna é a língua, uma pátria de várias pátrias, de várias culturas, cultura de várias línguas”. “Sentimos a força e a fraqueza de um império universal da língua, que Vieira premonitoriamente viu, mas que poucos vislumbraram com ele”. “Força, de um idioma que continuará a crescer, enquanto centenas de outros vão minguando, quando não passam à qualidade de línguas mortas”. Património comum, a nossa língua pertence hoje a várias pátrias e a várias culturas, e é “domínio que tem de ser cultivado, estudado, defendido, salvaguardado. Mas não se trata de preservar uma língua fechada e rígida, mas de ir ao encontro da
F A L A R D E N Ó S - X V123J O R G E A . H . R A N G E Lpluralidade da vida, buscando novas palavras e ideias para comunicar melhor, para entender melhor”. As novas tecnologias colocam à língua novos desafios. “Cuidemos da clareza, da correção, mas também do dinamismo e da vida”. E “resistamos à harmonização, à uniformidade”, porque uma língua viva tem de abrir as janelas de par em par para o mundo, para as diferenças”. É pois, este “o grande desafio para duzentos milhões de falantes, mais de quatrocentos no final do século”, cabendo a todos a defesa da nossa língua...Uma presença viva de MacauNos dois grupos de comunicações (Entre Filosofia e Literatura e Entre o Oriente e o Ocidente) são abundantes os temas relacionados com Macau, a memória de Portugal no Extremo Oriente, o património, um legado vivo, a literatura, os poetas, tradições, mitos e costumes do Outro, o pensamento, as religiões, o intercâmbio e representações culturais da lusofonia a partir deste ponto de encontro de culturas, ponto de chegada e ponto de partida, criado para acolher sempre novas chegadas e apoiar novas partidas, mas valorizando as sementes aqui lançadas e não deixando apagar os rastos dos que por aqui foram passando, ao longo de séculos, deixando para trás algo de si. Duradouro e fecundo ponto de encontro, Macau soube ser também porto de abrigo e ponte entre culturas. É isso que justifica, afinal, o continuado interesse de entidades académicas e culturais no seu estudo, duas décadas após a sua transição político-administrativa e o seu retorno para o seio da grande China, mas, por vontade de todos, com preservação da sua identidade e das suas diferenças. 22 de Outubro de 2018
F A L A R D E N Ó S - X V 124J O R G E A . H . R A N G E LA visita do General Garcia Leandro, ex-Governador de Macau“Um dos temas que mais tem ocupado a Fundação desde a sua criação é a protecção e investigação do património histórico, documental e artístico que nos ficou de mais de 500 anos em Macau na nossa relação com aquela terra e o Oriente em geral e que está concentrado no Centro Científico e Cultural de Macau (CCCM).”General Garcia Leandro, no editorial do Boletim Informativo da FJA, Fev. de 2018A convite da comissão organizadora do Prémio de Jornalismo da Lusofonia, encontra-se entre nós, de 26 de Outubro a 2 de Novembro, o General José Eduardo Garcia Leandro, ex-Governador de Macau (1974-79), com uma distinta folha de serviços prestados a Portugal, na sua carreira militar, no exercício de funções públicas e no seio de organizações da sociedade civil. Além de proceder à entrega do prémio numa cerimónia a levar a efeito no Clube Militar, na tarde de 31 do corrente, na qualidade de presidente da Fundação Jorge Álvares (FJA), instituição que lhe concedeu o patrocínio, o programa da visita inclui encontros com entidades locais, participação em diversas actividades, incluindo um importante colóquio-seminário, e contactos com organismos académicos, culturais e associativos. Um programa bem preenchidoLogo após a chegada, aquela personalidade esteve presente na festa da Escola Portuguesa de Macau, onde foram entregues prémios escolares e menções de excelência, tendo sido anunciados dois novos prémios atribuídos pela FJA. No fim de semana teve encontros com os conselheiros das comunidades portuguesas residentes em Macau e responsáveis da ATFPM – Associação dos Trabalhadores da Função Pública de Macau, cuja sede visitou, tendo-se deslocado também à Santa Casa da Misericórdia, à Associação dos Macaenses, à Fundação Rui Cunha e ao Albergue SCM, onde foi recebido pelos principais titulares dos órgãos sociais, além de ter assistido a um jogo de hóquei em campo entre o Sport Clube Lusitânia e o Kowloon Cricket Club, a que se seguiu um jantar de confraternização organizado por aquela agremiação desportiva que tem sido apoiada pela FJA há mais de uma década, tendo em consideração os resultados por ela obtidos em campeonatos locais.
F A L A R D E N Ó S - X V125J O R G E A . H . R A N G E LGarcia Leandro esteve igualmente presente numa sessão realizada no Instituto Internacional de Macau (IIM), com os jovens inscritos no Encontro Juvenil Macaense, com quem conversou sobre o legado da administração portuguesa e sobre o papel das novas gerações na construção do futuro da RAEM e junto das organizações da diáspora macaense. Durante esta sessão, em que foi lançado um novo DVD sobre a comunidade macaense, foi também apresentada e distribuída uma separata de um artigo do General intitulado “Macau 1974/1979: estabilidade política, reforma do Estado e desenvolvimento económico”, que abre o último número da revista “Oriente/Ocidente”, órgão de difusão cultural do IIM. Nesse artigo, são explicados o enquadramento histórico e as opções políticas, administrativas e sociais tomadas num período muito difícil da vida do território, nos primeiros anos após a “revolução dos cravos” em Portugal e quando a tumultuosa “revolução cultural” chinesa chegava ao fim e se dava início à abertura da China, com Deng Xiaoping. Hoje, 2.ª feira, o General Garcia Leandro encontra-se com o novo Cônsul-Geral de Portugal, visita o IPOR – Instituto Português do Oriente e assiste, como convidado de honra, ao encerramento do X seminário sobre “O papel de Macau no intercâmbio sino-luso-brasileiro”, que este ano teve sessões no Rio de Janeiro, em Pequim e em Xangai, sendo coorganizado pelo IIM e pelo IBECAP – Instituto Brasileiro de Estudos da China e Ásia-Pacífico, em parceria com o Centro Chinês de Estudos dos Países de Língua Portuguesa, que tem sede na UIBE – Universidade de Economia e Negócios Internacionais de Pequim.Um aguardado colóquio-seminário sobre “O Mundo Global, a Nova Rota da Seda e Macau” será protagonizado amanhã, às 18 horas, no Clube Militar, pelo General Garcia Leandro, pela Prof.ª Fernanda Ilhéu, do Instituto Superior de Economia e Gestão da Universidade de Lisboa e presidente da Associação Amigos da Rota da Seda, e pelo Dr. José Luís Sales Marques, presidente do Instituto de Estudos Europeus de Macau.
F A L A R D E N Ó S - X V 126J O R G E A . H . R A N G E LPara os dias subsequentes, estão marcados encontros com o Bispo da Diocese, algumas altas entidades oficiais, o reitor da Universidade de S. José e responsáveis do Conselho das Comunidades Macaenses, APIM – Associação Promotora da Instrução dos Macaenses, Confraria da Gastronomia Macaense e APOMAC – Associação dos Aposentados, Reformados e Pensionistas de Macau. Um notável percursocinco comissões no antigo Ultramar Português, sendo duas em Angola e uma na Guiné, em situação de guerra, uma em Timor, como chefe do Gabinete do Governador, tendo sido Governador de Macau de 30 de Outubro de 1974 a 1 de Fevereiro de 1979. Foi o primeiro a ser nomeado depois do 25 de Abril. Entre as funções que desempenhou, salientam-se as de conselheiro militar da Delegação de Portugal junto da NATO/OTAN em Bruxelas (1987-90), comandante operacional do Exército (1998), comandante da componente militar da Missão das Nações Unidas para o Referendo no Sahara Ocidental – MINURSO (1996), subdirector e director do Instituto de Altos Estudos Militares (1998-2000), vice-chefe do Estado-Maior do Exército (2000-2001), director do Instituto da Defesa Nacional (2001-2004), presidente do Conselho Coordenador do Ensino Superior Militar, presidente da direcção e da assembleia geral da Associação dos Antigos Alunos do Colégio Militar e presidente do OSCOT – Observatório de Segurança, Criminalidade Organizada e Terrorismo (2007-2009), presidente e membro do Conselho Geral da Universidade Aberta (2009-2013), sendo também um dos fundadores da PASC (Plataforma Activa da Sociedade Civil) em Janeiro de 2010 e do CIDSENIOR (Movimento de Cidadania Sénior) em Maio de 2013, a cuja mesa da assembleia geral presidiu. É presidente da Fundação Jorge Álvares, curador da Fundação Casa de Macau e
F A L A R D E N Ó S - X V127J O R G E A . H . R A N G E Ldo Instituto da Democracia Portuguesa, membro dos Conselhos Supremos da Sociedade Histórica da Independência de Portugal e da Associação dos Antigos Alunos do Colégio Militar, de que é membro honorário, assim como do MiL – Movimento Internacional Lusófono, sendo também académico correspondente da Academia Internacional da Cultura Portuguesa. No exercício de funções docentes, foi professor do Instituto de Altos Estudos Militares (1991/93) e professor convidado do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da então Universidade Técnica de Lisboa (1999 a 2005), bem como da Universidade Nova de Lisboa, da Universidade Autónoma de Lisboa e da Universidade Católica Portuguesa. Representou Portugal em múltiplas reuniões internacionais e apresentou comunicações sobre temas de Estratégia, Relações Internacionais, Gestão de Crises, Sistemas Colectivos de Segurança e Missões de Apoio à Paz. É autor do livro “Macau nos Anos da Revolução Portuguesa – 1974/1979” (Gradiva, 2011) e coordenador da obra “Portugal e os 50 anos da Aliança Atlântica” (Ministério da Defesa Nacional, 1999). Dando continuidade ao trabalho dos seus antecessores (os antigos Governadores António Lopes dos Santos e Carlos Melancia), o General Garcia Leandro tem conseguido assegurar um novo impulso ao funcionamento da Fundação Jorge Álvares, a qual apoia e patrocina diversificados projectos e actividades ligados a Macau e tem garantido o suporte financeiro necessário à execução do programa de acção do Centro Científico e Cultural de Macau, instituto público do Estado Português criado em Lisboa, por iniciativa do último Governador de Macau, General Vasco Rocha Vieira, em 1999.29 de Outubro de 2018
F A L A R D E N Ó S - X V 128J O R G E A . H . R A N G E LMacau em 1974/75, na memória de Garcia Leandro“Embora 1974 e parte de 1975 tenham sido períodos de instabilidade e dúvidas conseguiu-se recuperar a estabilidade política, ao mesmo tempo que se arrancaram com os trabalhos para a reforma do Estado em Macau com o objetivo de conseguir criar um sistema orgânico que permitisse ser localmente que se governava Macau.”No encontro com jovens da diáspora macaense e da Associação de Jovens de Macau, realizado na tarde de Sábado, 27 de Outubro, no auditório do Instituto Internacional de Macau (IIM), o qual contou também com a participação de membros deste Instituto e responsáveis de doze associações locais, foi distribuída uma separata do último número da revista Oriente/Ocidente, contendo um artigo da autoria do General José Eduardo Garcia Leandro, intitulado “Macau 1974/1979: estabilidade política, reforma do Estado e desenvolvimento económico”. Nesse artigo, o ex-Governador de Macau relata, sumariamente, as principais prioridades e realizações do seu mandato (1974-79), num período muito difícil da vida do território, na sequência da “revolução dos cravos”, ocorrida em Portugal em Abril de 1974, e no ocaso da “revolução cultural” chinesa, que decorreu de 1966 a 1976.Macau em 1974No artigo atrás referido, o General Garcia Leandro faz esta breve descrição do território, em resposta à pergunta “Mas como era Macau em 1974?”:“Sendo o turismo a primeira das suas atividades (entre muitas outras), Macau era uma cidade aparentemente adormecida, mas atraente e cosmopolita, fervilhante de movimento (com ligações a Hong Kong, Cantão e ilhas), composta por gente de várias etnias, rica de património edificado, com muitas escolas, uma forte presença da Igreja Católica e vários templos de diferentes confissões religiosas. Possuía, ainda, inúmeros restaurantes, um bairro flutuante com centenas de barcos de pesca, diversas indústrias (dominadas pelas fábricas de têxteis, lãs e mobiliário) e uma construção civil muito ativa, os tradicionais tintins (antiquários e vendedores de velharias), ourivesarias, bancos, casas de câmbio e de penhores, muito comércio, hotéis, três casinos, corridas de galgos e apostas na pelota basca, bem como um grande prémio automóvel.
F A L A R D E N Ó S - X V129J O R G E A . H . R A N G E LAo mesmo tempo, coexistiam em Macau bolsas sociais de grande pobreza e milhares de refugiados vindos de vários conflitos regionais que encontravam aqui a sua resposta em muitas associações de beneficência. Na Taipa e em Coloane não acontecia praticamente nada. As Ilhas careciam de grande desenvolvimento.A sociedade civil chinesa era muito ativa e integrada num elevado número de associações dedicadas a todo o tipo de objectivos.Os portugueses, profundamente minoritários, viviam como numa espécie de vila, na sua sociedade de língua e cultura portuguesas com alguma vida associativa (Clube de Macau e Clube Militar), evidenciando alguns residentes elevado gabarito cultural. Tinham uma enorme convivência com estrangeiros, por via do turismo e pela influência de Hong Kong, pelas relações históricas com Cantão, Xangai e Pequim, e pelo próprio mosaico de etnias que ali tinham escolhido residir, originando uma miscigenação rara das mais diversas origens.Na sua vida social, Macau era o casamento quase perfeito do Oriente com o Ocidente, algo desorganizado, mas que nunca deveria ser destruído. Eram manifestamente necessárias algumas mudanças importantes para que tudo pudesse ‘entrar nos carris’ e chegassem definitivamente o desenvolvimento e a estabilidade. Até ali, a capacidade de intervenção do Governo na regulamentação e acompanhamento das atividades económicas era reduzida, existindo grande confusão e indisciplina: um ‘salve-se quem puder’. O Governo pairava acima dos interesses instalados...Os mecanismos sociais eram muito específicos e complexos, porque Macau tinha sido, ao longo dos séculos, o local de encontro entre duas comunidades culturalmente diferentes que souberam criar uma nova sociedade de entendimento com as naturais
F A L A R D E N Ó S - X V 130J O R G E A . H . R A N G E Lconsequências em tudo quanto à vida humana diz respeito. Residia aqui o seu encanto e a sua raridade.”O Estatuto de MacauE como era o território em termos constitucionais e jurídicos? “O Estatuto de Macau à data do 25 de Abril (25A) era igual aos das outras Províncias Ultramarinas com muito pouco poder atribuído localmente ao Governador e à sua Assembleia Legislativa (AL); tudo quanto era importante estava concentrado em Lisboa. Assim, o Governador era um agente político dependendo do Ministério do Ultramar (MU) mas com poucos poderes; apenas como exemplo, as Fas dependiam dos seus Chefes de Estado-Maior em Lisboa, enquanto que toda a atividade monetária e cambial era tratada pelo BNU, que fazia a função de Banco Emissor em ligação com o Banco de Portugal (BP); mesmo os grandes investimentos estavam dependentes do MU que muitas vezes tinha de consultar outros Ministérios para tomar decisões o que levava ao gasto de muito tempo e mesmo à perda desses possíveis investimentos. E era assim em todas as áreas. A nova situação nacional criada pelo 25 de Abril (25A) obrigava a ter de alterar este processo para o que era preciso ter ideias claras e capacidade de as implementar. Antes de tudo era necessário conseguir a estabilidade política que fora muito abalada com os acontecimentos de Abril de 1974, com consequências internas em Macau mas também atingindo Hong Kong (HK) e a RPC (nos anos finais da Revolução Cultural) onde se levantaram muitas interrogações e receios, sendo de lembrar que a Bolsa de HK sofreu quedas devido ao ocorrido em Portugal e Macau nessa altura.
F A L A R D E N Ó S - X V131J O R G E A . H . R A N G E LEmbora 1974 e parte de 1975 tenham sido períodos de instabilidade e dúvidas conseguiu-se recuperar a estabilidade política, ao mesmo tempo que se arrancaram com os trabalhos para a reforma do Estado em Macau com o objetivo de conseguir criar um sistema orgânico que permitisse ser localmente que se governava Macau.Mas também era preciso ganhar a confiança da população através do programa definido e anunciado, mas também pelo comportamento pessoal dos novos governantes que teria de ser exemplar e demonstrando que se estava ali para ficar e governando para a população como um todo, sem qualquer diferença. E foi explicado a todos que Macau deveria fazer tudo que fosse necessário para ser autosustentável, deixando de receber apoio financeiro de Lisboa, na altura com grandes dificuldades. Pelas medidas tomadas, pelo desenvolvimento económico conseguido, a partir de 1977 tal reforço financeiro deixou de existir. Assim, no topo da agenda política estava a estabilidade política e social garantindo a confiança no futuro e a criação do novo Estatuto Orgânico de Macau adaptado à nova realidade com os poderes necessários concentrados no Governador e numa Assembleia Legislativa (pela primeira vez dois terços eleita e não presidida pelo Governador).”Veremos, nos próximos artigos, algumas das mais relevantes medidas então definidas e rapidamente postas em vigor, com consistência e consequência, para garantir o desenvolvimento e a estabilidade de Macau. 05 de Novembro de 2018
F A L A R D E N Ó S - X V 132J O R G E A . H . R A N G E LUm Estatuto Orgânico adequado a Macau num tempo de mudança“O novo Estatuto Orgânico de Macau (EOM), embora não fosse a única reforma necessária, foi a porta grande para que todas as outras fossem possíveis.” A propósito da visita do General Garcia Leandro e do seu trabalho intitulado “Macau 1974/1979: estabilidade política, reforma do Estado e desenvolvimento económico”, publicado no último número da revista “Oriente/Ocidente”, órgão de difusão cultural do Instituto Internacional de Macau, transcrevemos, no artigo anterior, as suas considerações sobre a vida, a situação e o estatuto de Macau, quando o ex-Governador assumiu funções neste território após o 25 de Abril em Portugal. Como vimos, no topo da sua agenda política estavam a manutenção da estabilidade social e a garantia da confiança no futuro, pelo que foi neste contexto que se deu a maior prioridade à elaboração do Estatuto Orgânico de Macau. Um processo urgente e complexoVale a pena recordar os passos determinantes então dados, para que Macau tivesse rapidamente um enquadramento jurídico-constitucional adequado. São de Garcia Leandro estas sucintas notas explicativas:“Pude contar com o apoio de grupos sociais importantes, como os representantes da Comunidade Chinesa e da Igreja Católica, mas também de influentes portugueses de HK, sendo de sublinhar que os portugueses de Macau se dividiram (entre os que apoiaram entusiasticamente a nova situação, os que se opuseram e nela viram muitos perigos para o futuro e uma maioria que ficou esperando silenciosa, embora com receios), sendo que a maioria dos chineses continuou a fazer tranquilamente a sua vida. Da parte da RPC e dos seus representantes houve um acompanhamento cuidadoso, expetante, mas progressivamente cooperante.O novo Estatuto Orgânico de Macau (EOM), embora não fosse a única reforma necessária, foi a porta grande para que todas as outras fossem possíveis; assim, tendo eu chegado a 19 NOV 74, logo em 27 DEZ nomeei por Despacho publicado
F A L A R D E N Ó S - X V133J O R G E A . H . R A N G E Lem Boletim Oficial a Comissão encarregada da sua redação constituida por entidades representativas de todos os grupos sociais da população, Comissão que trabalhou com grande eficiência permitindo que em Maio de 1975 quando da minha primeira visita de serviço a Lisboa pudesse ter apresentado ao Conselho da Revolução (CR) e aos Partidos Políticos representados na Assembleia Constituinte as suas grandes linhas, tendo recebido de todos a sua aquiescência e apoio; ao mesmo tempo mantive com os representantes da Comunidade Chinesa um diálogo permanente, sendo de lembrar que eles próprios faziam parte da Comissão de Redação. Este projeto apontava para que Macau passasse a gozar de quase total autonomia política, administrativa, económica e financeira, concentrados nos seus órgãos de Governo Próprio, o Governador e a AL; apenas ficariam à responsabilidade de Lisboa três áreas:– a Justiça, que depois da Declaração Conjunta assinada em Pequim entre Portugal e a RPC em Abril de 1987, também foi localizada;– as Relações Externas, embora pudessem ser delegadas no Governador competências sobre assuntos específicos de Macau pelo Presidente da República (PR) e pelo MNE, o que sempre se veio a concretizar;– a Defesa, da responsabilidade do PR mas assegurada através de meios políticos e diplomáticos, o que de imediato significava que não se considerava a hipótese de uma ameaça externa, abrindo-se uma relação de confiança com a RPC.”Forças de SegurançaA saída definitiva das Forças Armadas, em Dezembro de 1975, deu lugar à criação e ao início do funcionamento das Forças de Segurança de Macau:
F A L A R D E N Ó S - X V 134J O R G E A . H . R A N G E L“Esta opção na questão magna da Segurança e Defesa também teve consequências nas Forças Armadas e nas Forças de Segurança; assim, eu fora graduado em Coronel para também poder desempenhar as funções de Comandante-Chefe, pelo que logo em inícios de JAN 75 dei, nesta qualidade, dois Despachos estruturantes (Comissão Liquidatária das estruturas organizadas das Fas: Comando Chefe das Forças Armadas de Macau (CCFAM), Comando Territorial Independente de Macau (CTIM), Comando da Defesa Marítima de Macau (CDMM), que deveriam ter o seu final a 31 DEZ desse ano; Comissão para a criação das Forças de Segurança de Macau (FSM) que deveriam ser implementadas a partir de 01 JAN 76 e dependendo diretamente do Governador), tudo em coerência com o projeto do novo EOM.Embora num ano tão difícil como o de 1975, tudo foi conseguido, tanto a legislação que teve de ser aprovada em Lisboa, como todas as ações que tiveram de ser concebidas e realizadas em Macau. Assim, em 31 DEZ 75 tiveram lugar as cerimónias de encerramento dos centenários Comandos e Forças Militares de Macau e em 01 JAN 76 as FSM (QG, PSP, Polícia Marítima e Fiscal (PMF), Corpo de Bombeiros, Polícias Municipais e Centro de Instrução Conjunto de Coloane – CIC) tiveram o seu arranque pleno. Ainda em 21 DEZ 75 o CR aprovou a nova Lei do Serviço Militar adaptada a Macau, tendo como finalidade prever a situação dos portugueses que não querendo integrar as FSM podiam cumprir ali o seu Serviço Militar Obrigatório (SMO). As consequências administrativas destas alterações foram profundas e longas (transferências para Macau ou regresso a Portugal de pessoal e de algum material das várias unidades obrigando a fazer listagens completas de tudo quanto existia; transferência para Macau de património físico ou construído, que antes eram da responsabilidade do Exército e da Marinha, o que obrigou também à intervenção do Ministério das Finanças (MF); mas também a alguns leilões de material de guerra
F A L A R D E N Ó S - X V135J O R G E A . H . R A N G E Ljá obsoleto e que se encontrava armazenado; as chamadas Comissões Liquidatárias duraram ainda mais de um ano).”Aprovação e promulgaçãoOs passos seguintes foram a aprovação e a promulgação do EOM, o recenseamento eleitoral e a preparação e realização de eleições:“Na sequência deste processo, o projeto do EOM foi enviado em Novembro de 1975 para Lisboa e depois de ter passado com algumas alterações pelos diferentes crivos de Parecer foi aprovado pelo Conselho da Revolução (CR) em 06 FEV 76, promulgado pelo PR em 10 FEV e publicado em DR como Lei Constitucional n.º 1/76 em 17 FEV; o EOM veio depois a ser integrado na Constituição da República de 1976 (aprovada em 25 de Abril deste ano).A partir daqui entrou-se localmente num processo legislativo e administrativo com vista ao recenseamento da população e preparação das eleições para a Assembleia Legislativa e Conselho Consultivo do Governador, que tiveram lugar em 11 JUL, tendo a sua Abertura Solene tido lugar em 09 AGO em sessão por mim presidida em representação de S. Ex.ª o Presidente da República. (...)Encerrou-se assim em 1976 o ciclo de reconstrução constitucional depois do 25 de Abril. Em Portugal, com a aprovação da nova Constituição da República, com as sucessivas eleições para Presidente da República e para a Assembleia da República, que deu origem ao I Governo Constitucional presidido por Mário Soares; e em Macau com a promulgação do EOM e a eleição para a AL que iniciou funções em 09 AGO.”12 de Novembro de 2018
F A L A R D E N Ó S - X V 136J O R G E A . H . R A N G E LMedidas determinantes para a estabilidade de Macau após o 25 de Abril“A estrutura da governação local também se alterou para se poder responder a mais responsabilidades e competências atribuídas pelo novo EOM.” Como vimos no artigo anterior, a publicação do Estatuto Orgânico de Macau (EOM), em Fevereiro de 1976, foi a medida política decisiva para garantir a estabilidade do território, abalada pelas mudanças provocadas na sequência da “revolução dos cravos” e por uma conjuntura externa desfavorável. Logo a seguir, preparou-se o acto eleitoral para a Assembleia Legislativa, tendo as eleições sido realizadas, com assinalável sucesso, no dia 11 de Julho do mesmo ano. Tive o privilégio de encabeçar uma das listas concorrentes, a qual foi a segunda mais votada (a primeira foi a do Dr. Carlos d’Assumpção), pelo que integrei o órgão legislativo como deputado durante toda a primeira legislatura (1976-80), podendo acompanhar de perto a criação de condições para o seu pleno funcionamento, bem como a muito significativa produção legislativa que ali teve lugar. O EOM também impôs modificações importantes na composição do órgão executivo. Como bem referiu o ex-Governador Garcia Leandro no seu trabalho “Macau 1974/1979: estabilidade política, reforma do Estado e desenvolvimento económico”, “a estrutura da governação local também se alterou para se poder responder a mais responsabilidades e competências atribuídas pelo novo EOM. Assim passou-se de apenas um Secretário-Geral que apoiava o Governador do antecedente (lugar que nem sempre estava ocupado) para uma composição de Governo com cinco Secretários Adjuntos, equiparados a Secretários de Estado, enquanto que o Governador foi equiparado a Ministro. Além destes, havia ainda outro com a designação específica de Comandante das Forças de Segurança que anos mais tarde veio a mudar o seu nome para Secretário Adjunto para a Segurança. A este conjunto juntou-se com o mesmo estatuto o novo cargo de Procurador-Geral Adjunto.” A partir daí, também se garantiu aos serviços públicos uma forma mais eficaz de funcionamento, no uso da autonomia que o EOM em boa hora consagrou.
F A L A R D E N Ó S - X V137J O R G E A . H . R A N G E LO banco emissor e a moedaNum tempo de reduzidas receitas próprias, a área financeira não podia deixar de merecer do Governador a maior atenção, pelas preocupações acrescidas então sentidas e pela absoluta urgência em suster a desvalorização da Pataca. Ninguém melhor do que ele pode explicar o enquadramento desta que foi uma das questões mais difíceis de resolver, pelas vulnerabilidades resultantes da situação então vivida: “A questão do Banco Emissor e a da moeda (Pataca e sua indexação) eram de uma importância e complexidade raras por tudo quanto envolviam, visões e interesses associados.Depois do Acordo de Bretton Woods, na sequência da II Guerra Mundial, o Governo Português com a visão conhecida que de que todo o território era igual do Minho a Timor, resolveu indexar rigidamente a Pataca ao Escudo (com ligeiras flutuações) e também ao Dólar de HK. Nesta solução indexou a Pataca com paridade a um Dólar de HK, enquanto que a Pataca valia cinco escudos. Isto só poderia funcionar sem sobressaltos se o sistema financeiro e cambial mundial mantivesse a estabilidade e o equilíbrio. A partir dos anos 70 as roturas começam a surgir. Para começar, o primeiro grande choque petrolífero de 1973 (já em 1969 ocorrera outro menos violento), depois a Revolução de Abril, levando a que a Pataca se começasse a desvalorizar brutalmente. A Pataca chegou a estar desvalorizada do HK Dólar em 19%. Esta situação levou a que grandes negócios tivessem sido feitos com transferências que muito prejudicaram Macau. Na altura quem quisesse comprar um Dólar Americano em Portugal, de acordo com a evolução cambial, gastaria 50, 80 ou 100 escudos e por aí adiante; mas se fizesse a compra através de Macau, com 25 escudos adquiria 5 Patacas e com estas comprava um Dólar Americano. A cobertura para este negócio era dada
F A L A R D E N Ó S - X V 138J O R G E A . H . R A N G E Lpelas reservas de Macau, levando a grandes prejuízos para o Território até a correção ter sido conseguida. Era assim indispensável desindexar a Pataca do Escudo, bem como ter um Banco Emissor que respondesse às orientações do Governo de Macau. O Banco Emissor foi algo a que me dediquei intensamente porque o BNU era um banco com um estatuto de privilégio único e que não correspondia às novas necessidades. O BNU tinha em Macau três posições: era o banqueiro do Governo, era o Banco Emissor e era também Banco Comercial, que não dava sequer juros ao Governo de todos os depósitos ali colocados. Era uma situação insustentável, que só se resolveu depois de um processo longo, complexo e difícil com o BNU, Banco de Portugal e Ministério das Finanças; do BNU tivemos a sorte de ter como seu Presidente o Dr. Oliveira Pinto, que compreendeu a aberração deste cenário, tendo-se chegado a um acordo em 07 ABR 77. Antes deste Acordo, o Governo local nem sequer sabia qual era o valor da cobertura da Pataca, pois tal era sigilosamente tratado em Lisboa. Em consequência a Pataca foi desindexada do Escudo e indexada apenas ao Dólar de HK; o seu valor relativamente ao Escudo passou a ser calculado pelo resultado da sequência Pataca/Dólar de HK, Dólar de HK/Dólar Americano, Dólar Americano/Escudo. Relativamente a um novo Banco Emissor de Macau, estrutura que foi muito trabalhada pelo Governo de que fui responsável e pela AL, foi solução mais tarde abandonada, mantendo-se o BNU como Banco Emissor, embora as receitas da emissão de moeda passassem para o Território, o que reforçou muito a sua capacidade financeira. Estas profundas modificações alteraram completamente a situação com vantagens legítimas e grandes para Macau, o que foi sentido na solidez e valorização progressiva da Pataca.
F A L A R D E N Ó S - X V139J O R G E A . H . R A N G E LTodas as medidas tomadas permitiram que a Pataca tivesse valorizado progressivamente. Assim, passou-se de cinco escudos antes da desindexação para cerca de dez escudos em finais de 1979. À data da transferência da Administração para a China em Dezembro de 1999, cotava-se em cerca de 18 escudos.” Além da estabilização do valor justo da Pataca, ficou controlada a situação respeitante ao montante das divisas. Em Janeiro de 1979, o Governador pôde informar a Assembleia Legislativa de que a circulação fiduciária estava coberta a cerca de 181% e a emissão monetária a cerca de 68%.A reforma tributáriaOutros passos reconhecidamente relevantes no domínio económico-financeiro foram a revisão dos contratos, com especial destaque para o contrato de exploração de jogos de fortuna ou azar, e a reforma tributária, através da qual se definiu um sistema que, em ampla medida, se mantém ainda em vigor. Os impostos eram antigos (alguns datavam do tempo da II Grande Guerra) e as receitas eram manifestamente insuficientes para proporcionar ao território condições para estimular o crescimento. Além disso, desde os incidentes de 1966 (o chamado “1, 2, 3”), muitos chineses deixaram de pagar os seus impostos durante alguns anos. Por tudo isso, impunha-se, como medida prioritária, a revisão da legislação tributária, a qual incidiu nas seguintes quatro grandes áreas: Imposto Complementar, Imposto Profissional, Contribuição Predial e Sisa e Contribuição Profissional. É de salientar a boa colaboração que existiu entre os órgãos executivo e legislativo na concretização desta grande reforma que permitiu o reforço da capacidade financeira do território e a introdução de um sistema fiscal muito mais coerente e positivamente consequente. 19 de Novembro de 2018
F A L A R D E N Ó S - X V 140J O R G E A . H . R A N G E LCircuito da Guia inspirou nova mostra de artistas locais“Esta Associação de matriz portuguesa tem por objectivo promover o Circuito da Guia em Macau e no estrangeiro (...) a fim de ser reconhecido pela UNESCO como património da humanidade.”Nota do catálogo Vinte artistas locais juntaram-se, sob a égide da Associação para a Promoção e Desenvolvimento do Circuito da Guia de Macau (APDCGM) e por ocasião do segundo aniversário da sua fundação, para apresentarem trabalhos inspirados no Circuito da Guia e no Grande Prémio de Macau. A mostra foi levada a efeito, de 12 a 21 de Novembro, na galeria dos Serviços de Turismo, situada no Largo do Senado. Fotografia, pintura, design, escultura, cerâmica, joalharia, instalação, graffiti e caligrafia chinesa foram as modalidades escolhidas, numa diversidade e com uma qualidade merecedoras do justo apreço do público. Eis os seus nomes e os trabalhos exibidos: Arte fotográfica Adriano Ma – Presidente da assembleia geral da Associação Fotográfica de Macau, Ma Chi Son, laureado em concursos de fotografia e membro de júris internacionais, seleccionou uma bonita fotografia digital, mostrando um troço do circuito, com uma bandeira da RAEM em primeiro plano.Alice Yan – Dedicada a temas de natureza pictórica e ao registo de documentação da vida social de Macau, tem trabalhos fotográficos divulgados através de publicações chinesas. Marcou presença com uma fotografia digital da curva mais difícil do circuito e do troço subsequente.Chan Hin Io – Com seis álbuns fotográficos já editados e obras no Museu de Arte de Macau e no Arquivo de Macau, este fotógrafo laureado participou nesta mostra com duas fotografias aéreas do Circuito da Guia. É consultor da Sociedade Fotográfica de Macau.Derek da Rocha Hoo – Natural de Macau e apaixonado pelo automobilismo desde criança, estudou Arte Fotográfica no Reino Unido e trabalhou como fotógrafo na Direcção dos Serviços de Turismo. Divulgou uma fotografia digital do seu ídolo, Emanuele Pirro.
F A L A R D E N Ó S - X V141J O R G E A . H . R A N G E LGonçalo Lobo Pinheiro – Fotojornalista português residente em Macau há sete anos, é colaborador de importantes publicações portuguesas e estrangeiras e é presentemente coordenador fotográfico da Revista Macau. A mostra contou com três fotografias da sua autoria, de corredores nos seus bólides.Hélder Santos – Engenheiro e gestor empresarial, radicado em Macau desde o início da década de 90, Hélder Santos tem na fotografia o seu passatempo favorito. Participa na mostra com uma excelente fotografia digital do Farol da Guia irradiando luz, à noite. José L. R. Estorninho – Aficionado do Grande Prémio desde longa data, trabalha em diferentes vertentes das artes visuais e plásticas, tendo obtido prémios em concursos locais e internacionais. Publicou vários livros sobre o Grande Prémio. Além de duas fotografias digitais, submeteu uma pintura em acrílico sobre tela. É o presidente e fundador da APDCGM. Pun Tak Cheong – Membro Honorário da Associação Fotográfica de Macau e do Grace International Club de Hong Kong, foi já distinguido pela Federation International de L’Art Photographique. Três fotografias digitais suas de cenas do Circuito da Guia ao anoitecer foram expostas. Renato Marques – Em Macau desde 2007, foi nesse ano que este fotojornalista português fotografou pela primeira vez o Grande Prémio de Macau, marcando presença todos os anos desde então. Realiza trabalhos para diversas publicações locais e internacionais. Esta mostra inclui três bem seleccionadas fotografias suas de bólides em competição. Outros trabalhosAdalberto Tenreiro – Arquitecto residente em Macau desde 1983, expôs um sugestivo desenho da porta da capela da Guia, enquadrando uma vista do terreiro
F A L A R D E N Ó S - X V 142J O R G E A . H . R A N G E Ladjacente e de edifícios crescendo para lá dos muros da fortaleza. Arlinda Frota – Artista residente em Macau e com participação em cerca de uma centena de exposições, os seus trabalhos são “mensagens de amizade e respeito para com as pessoas e culturas, como homenagem às maravilhas artísticas do mundo”. Preparou uma vistosa placa comemorativa do 65.º aniversário do Grande Prémio de Macau em porcelana pintada, a qual foi gentilmente oferecida pela autora à APDCGM.Cristina Vinhas – Em Macau desde 2007, Cristina Vinhas ensina joalharia na Casa de Portugal em Macau e trabalha com prata, ouro, cortiça, vidro, madeira e pedras preciosas e semi-preciosas para criar as suas peças de joalharia. O trabalho submetido foi uma representação do Circuito da Guia em vitrofusão. É na natureza que busca inspiração para as suas criações. Duarte Esmeriz – Jurista residente em Macau desde 2003, está desde sempre ligado ao mundo das artes, nomeadamente no teatro, em acrobacias aéreas e em pintura e gravura. Trabalhando com várias técnicas de gravura, criou para a mostra uma água-forte com verniz e Chine collé.Elisa Vilaça – Com residência em Macau há mais de vinte anos, é actualmente directora da Escola de Artes e Ofícios da Casa de Portugal em Macau. Desenvolve actividades como joalharia, escultura, gravura, serigrafia e marionetas e participou em exposições colectivas e individuais, tendo escolhido uma instalação com tecido, bambu e madeira para esta mostra.Fanny Lai – Pintora desde 2014, tendo trabalhado em pequenos ateliers locais, os seus temas favoritos são animais, retratos e paisagens. Exibiu um quadro a óleo sobre tela intitulado “Pearls on Palms”.
F A L A R D E N Ó S - X V143J O R G E A . H . R A N G E LHong San San Rodrigues – Residente local desde 1981, apresentou um trabalho em caligrafia chinesa, arte que aprendeu com o pai. Gerente da empresa portuguesa mais antiga de Macau, protagonizou há alguns meses uma exposição de caligrafia chinesa.Jacky Lee – “To Be Number One”, trabalho em graffiti sobre chapa de ferro, foi por ele escolhido para a mostra. A sua primeira exposição individual teve lugar em 2013 e foi já premiado em diversas competições.João Saldanha – Desde a adolescência que este designer, que efectua agora trabalhos para coleccionadores, se interessa pela ilustração de automóveis. Em 2015 visitou Macau pela primeira vez, regressando no ano seguinte para apresentar a sua exposição “Macau GP Legends – Motosport Art by João Saldanha”. Escolheu para esta mostra duas aguarelas sobre papel. Lei Chi Fai – Membro honorário da Associação Fotográfica de Macau, foi instrutor de fotografia, astronomia e música e participou em vários concursos de fotografia. As suas esculturas em metal foram seleccionadas para exposições e concursos, tendo recebido diversos prémios. Foi precisamente uma escultura em metal de um carro da Fórmula III que ele trouxe para esta mostra. Maria Odete Sequeira – Foi a partir da sua aposentação da função pública que esta artista portuguesa pôde dedicar-se a tempo inteiro à pintura e à escultura. Escolheu para esta mostra um trabalho em pastel de óleo sobre tela com várias cenas do Circuito da Guia. Parabéns a todos e à APDCGM pelo sucesso da exposição. 26 de Novembro de 2018
F A L A R D E N Ó S - X V 144J O R G E A . H . R A N G E LComo era Coloane no final dos anos cinquenta“Entretanto, é ainda a pesca que anima a vila e o seu pequeno comércio. Tal como em Macau, só as pequenas sampanas encostam aos cais ou mais se aproximam de terra...”Há poucos dias, a convite do presidente da Associação dos Antigos Alunos da Escola Comercial Pedro Nolasco, pude partilhar recordações da década de 1950, que foi um período de paz instável, a seguir à Guerra do Pacífico e à guerra civil chinesa, cujo desfecho foi marcado pela implantação da República Popular da China em Pequim, no dia 1 de Outubro de 1949. Nesse encontro, integrado na série intitulada “Serões com História”, que aquela associação tem levado a efeito na Fundação Rui Cunha, apenas houve tempo para uma referência muito breve à vida nas ilhas, cujo ambiente era ainda muito bucólico e a actividade económica basicamente artesanal. É, por isso, oportuno, facultar ao leitor este elucidativo testemunho redigido no final da década de cinquenta por Raquel Soeiro de Brito, investigadora e professora universitária, e publicado em Lisboa, em 1962:Parca urbanização “Situada 6km a sul de Macau, a ilha de Coloane é um arco granítico, aberto a sul-sudeste, formado por uma série de picos, de que o mais elevado, no sul, atinge 173 m, separados uns dos outros por colos estreitos, aparecendo a diferentes alturas entre os 50 m e 110 m. A costa é geralmente abrupta, à excepção de exíguos anfiteatros formados pela junção ocasional de algumas linhas de água (Ká-Hó, Siac Pai Van, Tai Van, Coloane) e de uma autêntica baía, Hac-Sá. Coloane, com 6,6 km² de superfície e 2800 habitantes, de que mais de metade (1660) pertence à vila, e 460 às duas maiores aldeias, Hac-Sá (220) e Ká-Hó (240), é o território menos povoado da província de Macau. Todas as aldeias e lugares habitados se situam perto das melhores enseadas e são sempre limitados, pelo interior, por um pequeno aro de culturas: hortas nas zonas mais baixas, por vezes arroz que trepa pelas encostas socalcadas, até onde as nascentes e riachos o permitem. As aldeias têm o casario junto, formando pequenos núcleos com espaços de horta entre eles. As casas
F A L A R D E N Ó S - X V145J O R G E A . H . R A N G E Lsão térreas, rectangulares, de tijolinho de cutelo, segundo a tradição do Sul da China, telhado de duas ou quatro águas, de telha plana com as juntas protegidas por outras em meia-cana, imitando os bambus que vieram substituir. Portas estreitas e pequenas aberturas dão ao interior pouca luz, que serve para encobrir a confusão, a falta de arranjo e a tristeza do interior, pequeno e pejado de coisas, onde as pessoas se não podem mover à vontade. Como sempre, defronte da porta fica o altar com a estela familiar, onde ardem permanentemente pivetes e lamparinas; junto às paredes vêem-se, de dia, os ‘burros’ de lona que à noite se abrem em qualquer canto. A vila é formada por duas longas ruas paralelas à baía e algumas transversais. Quase todas as casas fronteiras ao mar têm os pisos térreos reservados ao negócio da pesca; a rua de trás é a rua comercial: géneros alimentícios, vestuário, quinquilharias; tanto num caso como noutro, os andares superiores são sempre para habitação. A vilória termina por uma cintura de hortas que estacam contra os relevos vizinhos.” Um mundo ruralComo vimos, na ilha havia apenas a vila de Coloane e algumas pequeníssimas povoações, predominando a vida rural:“O interior da ilha, de vigoroso relevo granítico, é despovoado e sem qualquer cultura. Como a cobertura vegetal é muito rala e o solo de alteração granítica extremamente friável, todas as zonas elevadas da ilha mostram enormes grotas por onde, na época das chuvas, as águas rolam em turbilhões, arrastando atrás de si grandes quantidades de terra. Este processo agrava-se de ano para ano, razão da urgência do repovoamente florestal, a que se começou a proceder há cerca de três anos. As espécies mais indicadas são casuarinas (Aquisitifoli e Strita), pinheiro da China (Pinus maçoniana) e acácias, com que já estão repovoados 150 ha, faltando ainda 310 ha.
F A L A R D E N Ó S - X V 146J O R G E A . H . R A N G E LApenas uns 40 ha (6 p. 100 da superfície total), estão sujeitos a cultura regular, de que o arroz ocupa a maior parte, embora com menor rentabilidade do que as hortas. Estas são sempre pequenos retalhos minuciosamente tratados, tal como em Macau; somente, enquanto ali se usa a hortaliça estreme, aqui é frequente encontrarem-se renques de papaieiras ao longo dos canteiros. Também são mais usuais do que em Macau a batata doce e o inhame (Colocásia), este geralmente bordejando os canteiros ou em filas, alternando com as outras hortaliças. Nos terrenos com abundância de água a horta alterna com o arrozal. Em Março, depois das chuvas, preparam-se os tabuleiros de arroz, começando os homens por fazer uma passagem a arado, puxados por búfalos, a que se segue uma gradagem e uma estrumação (com estrume humano e de qualquer animal). Logo a seguir as mulheres fazem a sementeira densa, pois passados vinte a trinta dias procede-se à repicagem para os tabuleiros definitivos, cuja preparação foi idêntica à dos viveiros. As variedades mais empregadas conservam-se na terra à roda de três meses. (...)Logo que o arroz é ceifado prepara-se a terra para a horta, removendo-a apenas com arado e alisando-a com grade, fazendo-se imediatamente as sementeiras de hortaliça. Esta ficará na terra até Março, altura em que de novo entra o arrozal. Esta intensa ocupação é relativamente recente e devida ao constante aumento demográfico e à falta de terrenos com boas condições de cultura. A produção é quase exclusivamente destinada ao consumo local e só se poderá desenvolver quando houver disponibilidades de água para rega. (...)”Pesca e construção navalMais do que a limitada agricultura, era a pesca que dava vida e movimento à ilha: “Entretanto, é ainda a pesca que anima a vila e o seu pequeno comércio. Tal como em Macau, só as pequenas sampanas encostam aos cais ou mais se aproximam
F A L A R D E N Ó S - X V147J O R G E A . H . R A N G E Lde terra; os barcos maiores ficam sempre ao largo, mais ainda do que ali, porque o assoreamento é muito grande e não podem correr o risco de ficar encalhados na maré baixa. Embora todo o dia haja movimento no cais e na avenida que lhe fica fronteira, é da tardinha até às dez, onze da noite que ele se acentua, com a chegada quase contínua de dezenas de sampanas que fazem o transbordo do peixe e de pessoas entre os barcos ancorados ao largo e a terra. Umas vezes pertencem aos próprios barcos, outras são alugadas expressamente para esse serviço. A maior parte delas vem quase a rasar a água, abarrotadas de peixe e de gente – homens para fechar os negócios da venda e comprar os apetrechos necessários, mulheres para as voltas domésticas, gaiatada para correr à vontade enquanto os pais resolvem os seus problemas. Perto do cais, no mar repleto de embarcações, o movimento é grande: umas sampanas encostam e descarregam gente e pescado e outras manobram para a partida, enquanto muitas aguardam pacientemente um lugar para acostar. Em terra a azáfama é semelhante: numa área relativamente larga da rua andam pessoas apressadas, de um lado para outro, transportando cabazes e embrulhinhos; os miúdos esgueiram-se, a correr, por entre as pessoas, dando encontrões a este e àquele. No cais, ainda a confusão é maior: o pequeno plano inclinado está cheio de mercadoria e de gente que se acotovela num vaivém contínuo, na azáfama da descarga e carga dos barquitos... O peixe é levado directamente aos lans, onde é leiloado e vendido, seguindo muito camarão e linguado para Hong Kong.”Perto da vila havia também um estaleiro de construção naval, que ainda foi resistindo até ao tempo presente, mas já com cada vez mais reduzida actividade. Para se chegar a Coloane, ia-se de lancha que saía do Porto Interior e demorava cerca de uma hora a aportar à ponte-cais da vila, sendo os horários sujeitos às marés. Foi um outro tempo de Macau, bem diferente do actual e que muitos, hoje, nem querem acreditar que poderá ter existido ainda no início da década de 1960. 3 de Dezembro de 2018
F A L A R D E N Ó S - X V 148J O R G E A . H . R A N G E LUm serão com Jorge Arrimar em Lisboa“Vejo a cidade pela porta da baía refulgindo na noite morna sobre uma ilha de flores de lótus.”Versos do primeiro poema de inspiração macaense de Jorge Arrimar A Fundação Casa de Macau promove, periodicamente, na sua sede em Lisboa, na Praça do Príncipe Real, variadas iniciativas em torno de Macau e da memória macaense ou relacionadas com a cultura e tradições chinesas. Foi neste contexto que, na semana passada, o poeta Jorge Arrimar protagonizou um serão com leitura, em português e chinês, de poemas do seu último livro, intitulado “Rotas Circulares”. Na mesma sessão, foi apresentada uma mostra bibliográfica de poetas de Macau e inaugurada uma bonita exposição de pintura (“Seda e bambu”), do artista Mário Leitão, que também foi o ilustrador daquele livro que integra a colecção “Cantares de amigos”, do acervo de uma das mais prestigiadas editoras portuguesas – a Gradiva, cujo primeiro responsável, Guilherme Valente, está intimamente ligado a Macau por laços familiares e por muitos anos de permanência no território, onde fez o serviço militar e teve, mais tarde, uma relevante prestação no sector cultural, no desempenho de funções públicas. No momento do encerramento, quando se procedeu à entrega de certificados de reconhecimento ao poeta e ao artista, foi gratificante para mim poder, na qualidade de presidente do conselho de curadores daquela Fundação, enaltecer o percurso e a obra de Jorge Arrimar, tendo sugerido que se mobilizassem recursos para viabilizar a organização de um encontro com o poeta em Macau, sendo ao mesmo tempo apresentada aquela exposição. Poemas que Macau inspirouVinte e cinco poemas inspirados em Macau e na cultura chinesa integram este bem conseguido volume. Como referiu outro conhecido e apreciado poeta, Yao Feng, no prefácio, “Jorge Arrimar é um poeta que não para de escrever, escrever no lugar precário da poesia, mas um escrever enraizado numa terra fértil de amor. Escrever é fazer crescer uma árvore que acolhe os ventos de todos os lados mas também se alimenta na treva do húmus. Quando ouve o crepitar de síbabas dentro do tronco, vê as suas palavras a dar
F A L A R D E N Ó S - X V149J O R G E A . H . R A N G E Lfrutos, frutos da memória, da vivência, da saudade mas, afinal, também do amor”.Efectivamente, ao passar os olhos sobre os poemas e, ao mesmo tempo, mirando as sugestivas ilustrações que os acompanham, facilmente podemos concluir que “o que se fundamenta como o cerne nestes fragmentos poéticos é exatamente o amor: amor a uma cidade da qual o poeta partiu com uma cumplicidade fortemente estabelecida, amor aos instantes fugazes que continuam vivos e vividos nas rotas circulares, amor às pessoas, conhecidas e desconhecidas, mas que constituem todas o rosto da sua memória”. Quem viveu em Macau sabe bem que “No templo de A Ma, / os caminhos desenhados / entre as pedras / são velhos / como as orações”. E naquela terra abençoada “Cruzam-se rotas / descruzam-se sinas” e “Do mesmo material / se constrói / a casa, / a rua, / a praça / e a vontade / de tatuar galáxias, / brancas e negras, / na epiderme dos passos”. No chão dos velhos caminhos “onde se carimba a passagem / dos dias, os passos do destino, / as indeléveis pegadas do sonho”.A saudosa professora e escritora Graciete Batalha, tantas vezes lembrada nestas ocasiões, quando prefaciou “Fonte do Lilau”, o primeiro livro de poesia de inspiração macaense de Jorge Arrimar, deixou este testemunho de apreço que merece ser sempre recordado entre nós: “Estou convencida que se o poeta, profundamente humano que Arrimar é, aqui ficasse por muitos anos, o seu coração acabaria por não ser apenas nyaneka (nat. de Huíla, Angola) mas também em boa parte macaense”, já que “no seu peito, creio bem, não vai secar, nunca mais, a Fonte do Lilau”. O tempo e a obra de Jorge Arrimar confirmaram aquelas palavras justas e premonitórias. Um itinerário macaenseNatural de S. Pedro da Chibia, Huíla (Angola), Jorge Manuel de Abreu Arrimar, doutor em História, com uma tese sobre Macau no primeiro quartel de quinhentos
F A L A R D E N Ó S - X V 150J O R G E A . H . R A N G E L(2007) e em Ciências Documentais (2013), desenvolveu parte significativa da sua vida profissional em Macau a partir de 1985, depois de ter residido na ilha de S. Miguel (Açores). Prestou serviço no Arquivo Histórico de Macau e organizou a biblioteca do Complexo Escolar de Macau, sendo depois nomeado para exercer as funções de subdirector e director da Biblioteca Central de Macau (de 1986/87 a 1998).O Instituto Cultural de Macau publicou obras suas nas áreas da História e das Bibliotecas (“A Biblioteca Central de Macau”, “Influência e poder do ouvidor Arriaga” e “António José da Costa uma voz dissonante”), mas foi na poesia que Jorge Arrimar se tornou mais conhecido, com as seguintes obras: “Fonte do Lilau” (Livros do Oriente, 1990), “Secretos Sinais” (ICM, 1992), “Confluências” (ICM, 1997, com Yao Jingming), “Antologia de Poetas de Macau” (ICM, 1999, coord. com Yao Jingming) e agora “Rotas Circulares” (Gradiva, 1997). Além disso, ofereceu colaboração às revistas “Macau”, RC Revista de Cultura e Revista da Educação e participou no Dicionário Cronológico de Autores Portugueses, com entradas sobre escritores de Macau (2000), e no Dicionário Temático da Lusofonia (2005), e tem trabalhos incluídos nas antologias “De Longe a China” (1996), Antologia de Poetas de Macau (1999), “I Roll the Dice – Contemporary Macao Poets” (2008) e Poetas da Ásia Portuguesa (2013).Entre outras actividades, foi membro da comissão organizadora do I Encontro de Poetas de Macau (Dezembro de 1994), participou no Ciclo de Poetas de Macau, levado a efeito na Delegação Económica e Comercial de Macau em Lisboa (2007), e representou o território no espectáculo de encerramento das Comemorações dos 8 Séculos da Língua Portuguesa, no Centro Cultural de Belém, onde declamou o seu poema “Viagem ao Oriente” (Julho de 2015). Foi-lhe atribuída pelo Governador Vasco Rocha Vieira, em 1997, a Medalha de Mérito Cultural.
F A L A R D E N Ó S - X V151J O R G E A . H . R A N G E LOração de sapiênciaConvidado pela Universidade Sénior de Almada para proferir a oração de sapiência na sessão solene de abertura do ano lectivo, Jorge Arrimar escolheu o tema “Os Portugueses no (e do) Oriente”, cujo texto foi divulgado, na íntegra, através do boletim informativo dessa instituição formativa. Na introdução, foi explicada deste modo a sua ligação a Macau: “Vou, pois, falar-vos um pouco dos Portugueses no (e do) Oriente, tema que tem a ver com a disciplina que tenho leccionado nesta universidade. O meu interesse pelo Oriente é já antigo, dos tempos em que, ainda adolescente, vi chegar à minha terra, no sul de Angola, uma prima macaense. Do convívio com ela, Macau passou a estar mais perto e, um dia, resolvi pôr-me a caminho desse pequeno território sob administração portuguesa, localizado numa das pequenas penínsulas do delta do Rio das Pérolas, no sul da China. E assim, em 1985 fixei residência em Macau, num lugar misticamente protegido pela deusa Kun Iâm. Afinal, apenas me limitara a seguir a rota de Jorge Álvares, que havia mais de 500 anos tinha assumido o acto histórico de ser o primeiro europeu moderno a tocar terras do Grão Catai, ou, como hoje se diz, da grande China. E chamo à liça este homem para iniciarmos uma viagem no tempo e tentar perceber alguns factos, referir alguns nomes, falar de algumas personalidades que marcaram e foram marcados pelo Oriente. Entender um pouco das suas motivações na busca de novas terras, de novos conhecimentos, ou de novas emoções e diferentes aventuras; perceber, também, o que os faz tão diferentes dos portugueses do Ocidente e ao mesmo tempo tão próximos.” Voltaremos a essa oração de sapiência no próximo artigo. 17 de Dezembro de 2018
F A L A R D E N Ó S - X V 152J O R G E A . H . R A N G E LUm Natal macaense nos anos sessenta “Nas casas macaenses estão já prontos fartes, coscorões e aluá, o famoso colchão do Menino Jesus com a sua mantazinha e a almofada. (...) Tudo a postos para a consoada depois da Missa do Galo.”“Natal em Macau”, Ana Maria Amaro De entre o muito que escreveu sobre Macau e a China, Ana Maria Amaro, que foi professora de Geografia do Liceu de Macau ao longo de praticamente toda a década de 1960 e, mais tarde, catedrática do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, em Lisboa, onde foi uma qualificada e persistente promotora de estudos, seminários e publicações sobre a China, não podia, naturalmente, deixar de relatar algumas das principais festividades e efemérides de Macau, por ela atentamente observadas. Descreveu em várias obras os motivos de encanto da cidade “em despretensiosa mas emotiva prosa, como se as aguarelasse, para mais tarde melhor as reviver”. No livro “Aguarelas de Macau – cenas de rua e histórias de vida”, que a Comissão Territorial de Macau para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses publicou em 1998, com o apoio da Fundação Macau, reunindo textos de Ana Maria Amaro, numa edição coordenada por Celina Veiga de Oliveira, foram incluídos estes seus apontamentos sobre um Natal nesta “terra linda”, “uma terra mestiça com algo de magia que ultrapassa a atracção pelo exotismo” e onde “o cheiro a sândalo e a frituras ou mesmo o acre odor da pólvora dos panchões a manchar o chão de pétalas vermelhas de papel são inesquecíveis”:Natal em Macau“A noite desceu, manto violáceo manchado de nuvens a semi-ocultar uma lua baça quase em plenilúneo. Uma aragem mais fria do que tépida levanta golas e desperta abafos dos seus recantos rescendentes a cânfora.As eufórbias vermelhas, de grandes brácteas como penas de asas de fenix em voo, oscilam numa cadência que a brisa embala. Pelo ar os acordes monótonos de instrumentos de corda e a voz lânguida duma cantatriz chinesa dobram a voz do vento em sons talvez só compreensíveis pelos Génios.
F A L A R D E N Ó S - X V153J O R G E A . H . R A N G E LUm vendilhão rasgou o lilás da fluorescência dos candeeiros que semeiam círculos pela rua enegrecida, apregoando jornais: – iat-pou! Um grupo barulhento, onde duas ou três raparigas de calças afusadas e reluzentes min-hap se confundem com outros tantos casacos ocidentais axadrezados, seguindo alguns homens de fatos de bom corte, passaram sobraçando malas, sacos e embrulhos. Recém-chegados de Hong Kong, por certo chineses cristãos, vinham passar a consoada com a família de Macau. Três pivetes pintalgam de rubro cendrado a borda dum passeio. Vindo de longe adivinha-se o movimento da cidade afadigada nas últimas compras.Lojas engalanadas e policrómicas nos seus vistosos ademanes de papel pejados de flores, de muitas flores artificiais de todos os tons, aliados à púrpura e aos estanhados a reflectir mil luzes.De quando em quando sobe no ar o som alegre do estralejar de panchões. Das casas europeias alcançam a rua cheiros adocicados a frituras, a açúcar queimado e a azeite a ferver.Nas casas macaenses estão já prontos fartes, coscorões e aluá, o famoso colchão do Menino Jesus com a sua mantazinha e a almofada. No forno cozem as empadas de garoupa desfiada, assadas nos pires, recheadas de ovo cozido, açafrão e pinhões de azeitonas chinesas.Sobre os velhos armários alinham-se laranjas de casca fina como pepitas de ouro a atrair felicidade e abastança. Tudo a postos para a consoada depois da Missa do Galo.E eis que no meio daquela atmosfera de festa, atmosfera difusa que mais se sente em cada coração saudoso de uma infância passada em Portugal do que no ambiente que nos envolve, surge um velho alquebrado, comendo enquanto avança míseros
F A L A R D E N Ó S - X V 154J O R G E A . H . R A N G E Lrestos de comida recém-lançada na sua tigela estalada e envelhecida de tantas vezes ser estendida à caridade de quem passa.É um pobre. Esfrangalham-se as vestes sem cor mas têm mil cores os farrapos que traz atados aqui e além. Dobrado sobre o peito avança vergado pela fome e pela miséria impiedosa. É já velho e doente para guiar triciclo ou trabalhar nas hortas. Fugiu da China há muito tempo. Recorda a sua Pátria com saudades e com terror. Onde estará a sua família? Dispersaram-se todos na altura da fuga. Foi o medo que os dispersou. Ele, o mais velho, o avô, conseguiu, um dia, chegar a Macau. O homem, como uma sombra avança pelo passeio. Pára aqui e espreita a greta de luz escoada duma porta. Ultrapassa os pivetes que ardem rua além e espera, ao frio, que outra porta se abra e mais alguns bagos de arroz caiam na sua tigela.Estralejam mais panchões na noite sem luz. Ouve-se um riso distante. Num riquexó, empunhando grandes balões de cor e alguns brinquedos coloridos, passa uma criança sentada ao lado da mãe.Além, numa janela, vêem-se acender e apagar ritmicamente as luzes coloridas duma árvore de Natal em plástico, onde as pratas fazem brilhar neve nos flocos de algodão que nos recordam quadros da infância passada.Em breve os sinos virão repicar chamando os fiéis para a Missa do Galo, onde irão beijar mais ou menos devotamente a imagem em marfim do Deus-Menino. Nasceu Jesus, Hossana!Véus pretos, trajos escuros, alguns casacos de peles vestidos pelas mulheres do Ocidente; min-hap de seda usados por algumas portuguesas de Macau, igrejas plenas de luz, missais abertos, círios tremulantes.
F A L A R D E N Ó S - X V155J O R G E A . H . R A N G E LNasceu Jesus! Natal Bendito! Festeja-se o Rei dos Reis. O Pai dos humildes, o redentor da Humanidade.Caem algumas gotas duma chuva miudinha e fria e ouve-se o tilintar de alguns avos em pobres tigelas que nos degraus das igrejas se estendem.”De um modo geral, era assim que o Natal era vivido entre nós, como festa de família por excelência, com ceia tão repleta quanto possível de iguarias macaenses, algumas confeccionadas especialmente nesta quadra, a aguardada troca de presentes e uma participação muito concorrida da tradicional “Missa do Galo” e em outras cerimónias religiosas. Para os estudantes, as férias de Natal, que marcavam o fim do primeiro período escolar, eram aproveitadas para convívios com amigos, num tempo em que ainda quase ninguém saía do território para ir em demanda de destinos orientais exóticos ou para viajar até à então metrópole, salvo em situação de gozo da licença graciosa, que era uma das regalias mais apreciadas pelo funcionalismo público. Um livro sobre o NatalTextos de vários autores sobre o Natal foram já divulgados neste espaço, ao longo de mais de uma década. Vamos tentar reuni-los num volume a publicar logo que oportuno, podendo ser nele também incluídos alguns outros ainda inéditos. 31 de Dezembro de 2018
F A L A R D E N Ó S - X V 156J O R G E A . H . R A N G E LAno novo – esperanças renovadas e promessas por cumprir “Más unga áno já vêm inchidoDi tudo laia di esperánça.Más dózi mêz quelê divertido,Ta vai pará na mar di festança.Quim desezá unga filiz áno,Quim querê tudo sorte na lado.Nôs querê paz na roda di áno,Co más unchinho di amôr juntado.”José dos Santos Ferreira (Adé), “Macau sã assi” Com mais feriados e tolerâncias de ponto do que dias de trabalho no decurso das últimas semanas, eis-nos chegados ao novo ano, recebido universalmente com deslumbrante fogo de artifício, despedidas ruidosas do ano que findou, esperanças que teimosamente se renovam, juras por dias melhores e promessas reiteradas que ficam amiúde por cumprir. Como em quase todo o mundo, também entre nós não faltaram as habituais mensagens de altas e médias entidades, oficiais, empresariais ou de outro cariz, contendo palavras de mera circunstância, lidas com pouca ou nenhuma convicção e tantas vezes desenquadradas da realidade. É um ritual que quase só por obrigação se repete, felizmente com protagonistas que, de quando em quando, vão mudando.Desafios para MacauPara nós, o novo ano será, em significativa medida, marcado por alterações no topo da liderança local, cujo processo de selecção estará desencadeado em breve e concluído alguns meses depois, pondo fim às inevitáveis especulações que vão entretendo os observadores mais ou menos atentos, embora nem sempre esclarecidos ou conhecedores da situação. Vamos assistir à azáfama que rodeia processos como este, com centenas de membros das respectivas comissões de notáveis fingindo acreditar, atarefadíssimos, que terão poder de decisão na escolha final. A todos quantos estão
F A L A R D E N Ó S - X V157J O R G E A . H . R A N G E Larredados de qualquer capacidade de intervenção em matéria de tanta relevância, restará desejar que sejam feitas as melhores opções.O Executivo, as instituições públicas e as forças vivas, apoiadas em organizações da sociedade civil, estarão também empenhadas na preparação e realização dos actos comemorativos do 20.° aniversário da implantação da RAEM, sendo previsível a inclusão de muita e variada festança, num tempo em que as circunstâncias recomendam que se faça, prioritariamente, um sério e profundo balanço do percurso feito, a par da perspectivação, lúcida e descomplexada, dos novos desafios que o já anunciado projecto da “Grande Baía” lança ao território e às suas gentes, como decisivo patamar duma progressiva e desejavelmente estável integração no “Grande Delta” do Rio das Pérolas. O impressionante crescimento de toda esta vasta área, que tem no centro a grande metrópole em que se tornou a cidade de Guangzhou (Cantão), pôde ser por nós acompanhado e estudado ao longo de várias décadas, praticamente desde o início da aplicação das surpreendentes políticas de abertura económica definidas por Deng Xiaoping, que as autoridades nacionais chinesas quiseram agora assinalar com o destaque merecido, estendendo as celebrações desta inegável história de sucesso até às regiões administrativas especiais, elas próprias expressões vivas duma história com vários capítulos por concluir.Outro desafio tem a ver com a evolução da conjuntura política e económica internacional e os seus inevitáveis reflexos na economia chinesa com repercussões na situação financeira local, conhecida que é a excessiva dependência do território em relação àquela que é a sua maior receita, não obstante os insistentes apelos e os esforços encetados no sentido duma maior diversificação dos rendimentos. Voltaremos a este tema e, para já, para dar as boas-vindas ao novo ano, oferecemos ao leitor mais um poema, desta vez em português, do nosso sempre lembrado Adé, dedicado ao ano novo:
F A L A R D E N Ó S - X V 158J O R G E A . H . R A N G E L“Promessas... do novo anoNovo ano, nova vida,Em tudo, novas esp’ranças.Feliz entrada à saída,Alegrias, abastanças.O ano novo que começa,Olham todos co’optimismo;Fazem jura e promessa,Com sensato estoicismo.Promete o cão, convencido,Não ladrar a vida inteira!Ao rato, o gato, condoído,Promete paz derradeira.Jura o galo não cantar,Toda a vida mais seis meses.Promete a rã não chorar,P’ra não maçar os burgueses.O vilão também prometeNão mais chegar na mulher.O intriguista não se meteMais na vida de quem quer.O bêbado, pressuroso,
F A L A R D E N Ó S - X V159J O R G E A . H . R A N G E LJura não tocar no vinho.Jura mais o mentiroso,Nunca mais mentir sozinho.Faz promessa o ladrão,De não mais aqui roubar;Ali, o vil intrujãoPromete não mais burlar.Promete o bom porqueiro,Vender carne mais barato;Promete o sapateiroMais em conta o sapato.Vinho, pão e mais azeite,Também prometido está,Ser barato, como o leite, Mais café, açúcar e chá.‘Té os Cinemas da cidadePrometeram algo lindo:Vão romper a amizade,Que co’os ratos vêm nutrindo.Mas se tudo é assim,P’ra que mais preocupações?Não vai tudo ser jardim,Dentro em nossos corações?
F A L A R D E N Ó S - X V 160J O R G E A . H . R A N G E LMas o leitor, desconfiado,É capaz de perguntar:– Ser tanto palavreado,Digno de nele se fiar?”Em sintonia com o nosso Adé, neste poema escrito com simplicidade e fina ironia e naquelas duas quadras em patuá que abrem este artigo, desejamos a todos os leitores um ano feliz, com paz e amor no coração. E, a quem de direito, julgamos poder pedir mais e melhor por Macau e pelo seu futuro. 31 de Dezembro de 2018
F A L A R D E N Ó S - X V161J O R G E A . H . R A N G E LDo Neolítico ao Último Imperador – recordando uma notável exposição “Perante este magnífico conjunto de peças de Arte Chinesa da colecção do Senhor António Sapage, desde o período do Neolítico até ao Último Imperador, somos levados a percorrer uma das mais fascinantes páginas da história da cultura chinesa, da história da expansão portuguesa e da história das relações comerciais entre os dois povos, onde Macau, ontem como hoje, impera no modo próprio da singularidade cultural que o caracteriza, e ao mundo fascina.” Maria Alexandra da Costa Gomes, coordenadora geral da exposição e do catálogo De entre os vários livros que recebi de familiares e amigos mais chegados no último Natal, surpreendeu-me um volume de maior dimensão, muito bem embrulhado em papel de prenda ostentando motivos alusivos à quadra festiva. Tratava-se de um exemplar do bem concebido catálogo, atraente no grafismo e rico nos textos de apoio, de uma magnífica exposição de arte chinesa, da colecção privada de António Sapage, que atraiu milhares de visitantes ao Palácio Nacional de Queluz, onde ela foi aberta ao público e mereceu de críticos e especialistas referências muito elogiosas. Uma mostra memorávelIniciativa do Governo de Macau, com a colaboração do Instituto Português do Património Arquitectónico e Arqueológico e da Comissão Organizadora das Exposições de Lisboa 94/Capital Europeia da Cultura, a coordenação geral foi confiada a Maria Alexandra da Costa Gomes, que desempenhava no período de transição as funções de directora da então Missão de Macau em Lisboa, representação oficial do território que, no início da vigência da RAEM, foi reestruturada e passou a chamar-se Delegação Económica e Comercial de Macau. Foi com enorme prazer que, ao folhear de novo as cerca de 200 páginas do catálogo, pude recordar, quase 25 anos volvidos, aquela marcante mostra que teve repercussões muito positivas em publicações estrangeiras, além do excelente acolhimento que alcançou em Portugal.
F A L A R D E N Ó S - X V 162J O R G E A . H . R A N G E LO então presidente do Instituto Português do Património Arquitectónico e Arqueológico, Prof. Nuno Santos Pinheiro, quando se referiu à importância deste acervo cultural dado a conhecer ao grande público da capital portuguesa, salientou que a ambiência do belo Palácio Nacional de Queluz era “o lugar certo para nele poderem ser contempladas peças da multissecular cultura chinesa”, sendo esta “uma exposição que nos transporta ao sétimo milénio antes de Cristo e que nos devolve ao nosso tempo”, abarcando “o completo quadro cultural de um povo com a intemporaneidade própria do carácter da mais antiga civilização do mundo, no seu processo contínuo ao longo dos tempos”. Por seu lado, a administradora das Exposições de Lisboa 94/Capital Europeia da Cultura, Simonetta Luz Afonso, personalidade que teve um relevante percurso no sector cultural em Portugal e com quem mantive contactos como membro do Governo de Macau e, mais tarde, como presidente da Sociedade Histórica da Independência de Portugal, sublinhou o facto de no ano em que Lisboa era a Capital Europeia da Cultura, “assumindo-se como local privilegiado do encontro e intercâmbio de culturas, nada melhor do que evocar as origens e evolução da preciosa porcelana, verdadeira súmula de dois Mundos, registo por excelência de aculturação e simbiose”. E manifestou a sua grande satisfação por ver esta exposição assumir “toda a sua plenitude e oportunidade quando conjugada com uma outra”, intitulada “A Influência Oriental na Cerâmica Portuguesa do Século XVII”, apresentada no Museu Nacional do Azulejo, ao mesmo tempo que enalteceu a decisão do Governo de Macau de “proporcionar, pela primeira vez, a mostra e conhecimento desta valiosa colecção privada ao público português”.A equipa responsável, que incluiu dedicados e competentes colaboradores, entre os quais Maria Inês Ferro, Margarida Alcântara de Melo, Maria Filomena Silva Pinto, Sofia Marçal, João Bento de Almeida e o próprio António Sapage, cumpriu muito bem a missão, compreendendo o alto significado da realização deste evento cultural no ano em que Lisboa promovia uma vasta agenda como capital europeia da cultura e se evocavam outros tempos em que, no auge da expansão, Lisboa também foi capital do
F A L A R D E N Ó S - X V163J O R G E A . H . R A N G E Lmundo. Na verdade, como bem recordou Maria Alexandra da Costa Gomes, “a história de Macau será definitivamente marcada pela própria história da expansão portuguesa em terras do Oriente, particularmente pelas relações que os portugueses e chineses desenvolveram a partir do primeiro quartel do século XVI”.A exposição contou uma história longa de vários milénios. O seu conteúdo ficou bem caracterizado nesta feliz síntese produzida pela então directora do Palácio Nacional de Queluz, Inês Ferro: “Dos confins do Neolítico ao limiar da Revolução Chinesa, é a viagem que vos convidamos a fazer através da preciosa colecção de António Sapage, um macaense que, desde há cerca de três décadas, vem reunindo de forma criteriosa um acervo de peças de artes decorativas muito diverso, com especial incidência na cerâmica. A beleza plástica dos objectos apresentados seria só por si suficientemente apelativa: a ingenuidade e sedução das figuras em terracota dos períodos Han e Tang, a sofisticação das formas e vidrados Song, a mestria da porcelana e do azul e branco a partir da dinastia Ming, seguida da abertura à Europa numa explosão de cores e formas, através das porcelanas de encomenda e da enorme variedade de objectos destinados ao China Trade, a sumptuosidade do mobiliário imperial...” Obra de referênciaMuito mais do que um normal guião, com a identificação exaustiva das centenas de peças expostas, o catálogo é uma obra de referência, pela qualidade dos textos que contém, das quais merecem destaque “China, uma viagem por seis mil anos de arte e factos”, de António Sapage, “A cerâmica dos Shang aos Qing – alguns apontamentos”, de Maria Antónia Pinto de Matos, “A chinoiserie ou história curiosa de um estado de espírito”, de António Pimentel, “Breve visão histórica sobre o comércio sino-ocidental”, de Zhang Wen-Quin, “O mobiliário na China”, de Lam Chon Fat, “O ópio”, de António Pedro Pires, e “Sobre a cerâmica de Shek Wan”, de António Conceição
F A L A R D E N Ó S - X V 164J O R G E A . H . R A N G E LJúnior. Foi este mesmo Conceição Júnior, multifacetado e admirado artista macaense que, na qualidade de conservador do então Museu Luís de Camões, foi o responsável por outra grande mostra artística de Macau em Portugal, levada a efeito nos salões de exposições temporárias da Fundação Calouste Gulbenkian, em 1979, sendo ela a principal manifestação integrada numa “Quinzena de Macau” que visou promover uma nova imagem do território na capital portuguesa. No 40.° aniversário deste extraordinário evento cultural, não deixaremos de recordar o significado e o conteúdo da exposição “Macau – 400 anos de Oriente”.Voltando ao catálogo de “Do Neolítico ao Último Imperador – a perspectiva de um coleccionador de Macau”, vale a pena referir também que a profusão de imagens, algumas de página inteira, com adequadas legendas e sucintas notas explicativas, valoriza sobremaneira o volume, que merece figurar em qualquer boa estante dedicada a obras seleccionadas sobre Arte Chinesa. Nas últimas páginas, os organizadores da edição não deixaram de incluir uma útil cronologia e uma extensa bibliografia.Muitas das peças expostas naquela mostra integram agora o valioso acervo do Museu do Centro Científico e Cultural de Macau em Lisboa, entidade criada no final do período de transição por decisão do Governador Vasco Rocha Vieira e do Ministro Mariano Gago. Instituto público do Estado Português, tutelado pelo Ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, o Centro desenvolve um vasto programa de actividades, muitas das quais contam com o patrocínio da Fundação Jorge Álvares. 14 Janeiro de 2019
F A L A R D E N Ó S - X V165J O R G E A . H . R A N G E LDo ensaio do coleccionador macaense sobre a arte chinesa“Esta exposição dá-nos a oportunidade rara de fazer uma ‘viagem de sonho’ por milhares de anos da vida de um povo que procura recuperar o seu antigo esplendor e reencontrar-se com o passado para programar o futuro.” António Sapage, no ensaio incluído no catálogo da exposição O artigo anterior inserido neste espaço foi dedicado à recordação, quase 25 anos volvidos, de uma muito apreciada exposição de arte da colecção de António Sapage, levada a efeito no Palácio Nacional de Queluz, em 1994. O bem concebido catálogo da mesma, com cerca de duzentas páginas contendo uma completa identificação das peças expostas, acompanhada de abundantes ilustrações e vários ensaios de inegável qualidade, permitiu perpetuar a memória daquela marcante efeméride. Um deles, intitulado “China, uma viagem por seis mil anos de arte e factos”, é assinado pelo próprio coleccionador macaense, falecido em Outubro passado em Portugal, onde passou a residir a partir do ano 2000. Em sentida homenagem, julgamos oportuno transcrever o essencial da sucinta caracterização por ele feita da arte nas duas últimas dinastias imperiais chinesas, no contexto das quais os portugueses chegaram e se fixaram em Macau, aqui construindo, ao longo de mais de quatro séculos, o mais duradouro entreposto comercial e cultural entre o Ocidente e o Oriente. Dinastia MingA dinastia Ming (1368-1644) sucedeu à Yuan (1279-1368), quando o general Zhu Yuanzhang atacou Pequim e obrigou a corte mongol a retirar-se para a região da Mongólia Interior. “Declarou-se a si próprio imperador com o título dinástico de Hongwu, fixando a capital em Nanjing.” Seguiram-se reformas administrativas e sociais muito importantes. “O Imperador Hongwu de início preocupou-se com a reorganização do governo criando vários ministérios e departamentos na dependência directa do Imperador. Melhorou as condições de vida dos camponeses criando um novo sistema de trabalho e organização da vida aldeã, registo de propriedade da terra e cobrança de impostos, que começaram a ser quase totalmente pagos em dinheiro”.
F A L A R D E N Ó S - X V 166J O R G E A . H . R A N G E LOs seus sucessores conseguiram exercer uma influência crescente sobre as nações vizinhas e estimularam as expedições marítimas, tendo sido organizadas, no tempo do imperador Yongle, seis expedições comandadas pelo lendário almirante Zheng He, que atingiu a costa oriental africana. “Contudo, é no Reinado de Xuande (1426-1435) e seguintes que a Dinastia Ming atinge o seu período áureo no campo das artes através do apoio intensivo dos imperadores. A porcelana conhece uma nova fase de revitalização com Jingdezhen a transformar-se no maior centro produtor de toda a China e para aí é enviado um comissário imperial com a missão de controlar a produção e a qualidade.”A partir de Malaca, os portugueses preparavam-se, entretanto, para demandar a China. “Jorge Álvares, saindo de Malaca, ‘terminal dos comerciantes da China’, chegou à ilha de Tamão onde levantou o Padrão do Rei de Portugal e junto a ele sepultou os restos mortais do seu filho, morto durante a viagem.” Foi em 1513, sendo rei de Portugal D. Manuel I. “Estabeleceram-se contactos posteriores e Tomé Pires tentou chegar à Corte de Pequim, vindo a ser encarcerado e torturado, morrendo ‘depois de ser posto em tormentos’ (8 de Julho de 1521).”Os portugueses persistiram e estabeleceram-se em Liampó, em 1542. “Cinco anos depois, a cidade foi arrasada pelas tropas imperiais sob as ordens do governador de Fujian. Os poucos sobreviventes conseguiram chegar a Sanchoão, ilha pouco abrigada, de onde partiram algum tempo depois à procura de um porto mais abrigado (Lampacau). Mas, o ancoradouro desejado foi encontrado a dezanove milhas mais a leste, em Amagau (actual Macau). É a partir daí que a arte chinesa vai seguir em grandes quantidades para a Europa, transportada nas naus portuguesas. Para os portugueses fabricaram os chineses as primeiras peças de porcelana azul e branca. Parte dela seguia
F A L A R D E N Ó S - X V167J O R G E A . H . R A N G E Lpara o Japão juntamente com carregamentos de seda e era vendida em troca de prata. A restante era transportada para Lisboa que nessa altura era ‘o depósito de todas as maravilhas chegadas do Oriente’. Mais tarde, os holandeses tentaram substituir os portugueses no comércio com os países asiáticos.”A acção missionária foi crescendo no Celeste Império, tendo a influência dos jesuítas chegado junto do próprio imperador. “Mas, enquanto a Corte continuava a apoiar a ciência e as artes, no interior do país grassava a corrupção e a opressão dos camponeses, sujeitos ao despotismo dos mandarins e dos ‘senhores da terra’. O imperador Wanli (1573-1620) ainda tentou implementar um programa de reformas sob a orientação do competente ministro Zhang Zuzheng. Tarde de mais. O imperador desinteressou-se do governo e o declínio da dinastia era inevitável. Sucedem-se as rebeliões no interior do país e forças do exterior juntam-se-lhes para pôr termo ao governo Ming.”Dinastia QingOs manchus invadiram a China, conquistaram Pequim em 1644 e proclamaram uma nova dinastia, a Qing (1644-1911). “Ao contrário de invasores anteriores, como por exemplo os Mongóis, os Manchus deixaram-se achinesar (assimilar) e não tentaram impor as suas leis tribais, nem a sua forma de governo. Assumiram o sistema burocrático chinês e o segundo imperador da Dinastia Kangxi, (1662-1722) manteve os exames imperiais e chamou os letrados chineses mais experientes para o serviço do seu governo. Durante o reinado deste imperador e do seu sucessor Qianlong (1736-1795), a China conheceu o período mais brilhante da sua história, não só pela política de incremento da vida intelectual e apoio a todas as formas de arte e cultura chinesas – merecendo por esse facto a simpatia de vastas camadas da população – como pelas relações estabelecidas com os povos vizinhos (Burma, Nepal, Vietnam, Turquestão, Coreia).”
F A L A R D E N Ó S - X V 168J O R G E A . H . R A N G E LFoi no reinado de Qianlong que a China alcançou impressionantes níveis de desenvolvimento económico e cultural. “A porcelana conseguiu uma qualidade rara, tanto nas formas como nas cores e desenhos, ainda inigualável até aos dias de hoje. Mercadores e viajantes europeus vêm de propósito à China para conhecer a sua cultura e para adquirir porcelanas raras, ou fazer encomendas para as famílias reais da Europa. É também o período em que os ocidentais encomendam peças com motivos europeus (palácios, cenas da corte, brasões de família, paisagens, cenas amorosas). Os chineses imitavam tudo, sem se importarem com o seu significado, incluindo os motivos religiosos apresentados pelos jesuítas (crucificação, ascensão de Jesus ao Céu, apóstolos, a Virgem Maria).” No primeiro século e meio da dinastia Qing, a China foi um país muito próspero e influente. “Pequim foi reconstruída e a ‘Cidade Proíbida’ tornou-se o símbolo emblemático do poder do ‘Filho do Céu’, da riqueza e nível artístico do Império Chinês.” Cantão foi o grande centro de intercâmbio com o exterior, mas “a balança comercial, largamente favorável aos chineses até ao fim do século XVIII, desequilibrou-se no início do século XIX pela importação de novos produtos ocidentais, sobretudo o ópio.” Revoltas de camponeses que se foram multiplicando, calamidades naturais, graves dissidências internas, a quebra irreversível do poder imperial e a intervenção consequente de novos movimentos políticos de cariz republicano apressaram a queda definitiva do regime, em 1911.Oxalá seja possível, com acordo da família, republicar o trabalho atrás referido de António Sapage, como tributo à sua memória. 21 de Janeiro de 2019
F A L A R D E N Ó S - X V169J O R G E A . H . R A N G E LO mercado das flores do Ano Novo na memória de Ana Maria Amaro“Continuamente, o povo aflui ao tão desejado centro e parte, sobraçando grandes ramos, ou sobrecarregando riquexós, com vasos floridos, que irão, em cada casa, testemunhar, aos deuses, que o ano que vai chegar é auspicioso e festivamente aguardado.” Para além dos convívios que se multiplicam por todo o lado e dos muito apreciados espectáculos tradicionais, um dos pontos altos do programa comemorativo do Ano Novo Chinês foi sempre o lindíssimo mercado das flores, já no passado muitas vezes centrado no Largo do Senado e disseminado por artérias e pracetas adjacentes. Vale a pena ler esta eloquente descrição da saudosa professora Ana Maria Amaro, que leccionou Geografia no Liceu de Macau ao longo da década de sessenta; o texto foi por ela oferecido a amigos e integrou, mais tarde, com adaptações, o seu livro “Aguarelas de Macau” (Fundação Macau, 1998): As mais variadas e magníficas flores“Em redor do recinto arrelvado, onde a brônzea estátua de Mesquita emerge, escura, como quinhentista Neptuno, no meio de um lago de jardim real, ergueram-se, em círculo, estrados modestos de apodrecidas madeiras, amareladas esteiras e velhos bambus, para venda de flores, surgindo, como de varinha de fada, o popular e policrómico mercado tradicional, desta quadra do Ano Novo chinês. Sobre os balcões improvisados, empilham-se, em profusão, as mais variadas e magníficas flores, que transbordam, relva além, até à base do monumento, matizando o solo de pinceladas multicolores. Debruçados sobre corolas alacres, floristas de ambos os sexos, combinam tons e entrelaçam hastes delgadas, em ramos caprichosos, donde emergem as cabecinhas de cor, a tentar os mais díspares e mais exóticos gostos. E a multidão corre a vista por sobre as modestas ou vistosas plantas, que não emurchecem, continuamente renovadas e prodigamente salpicadas de água refrescante e cristalina. Os tons de laranja, o cardinal, o branco e o púrpura, em diferentes combinações, em descuidada promiscuidade, esmaltam telas gritantes de tons opostos, de desenhos indefinidos, que lembram, algures, clarões de incêndio, nas chamas rubras
F A L A R D E N Ó S - X V 170J O R G E A . H . R A N G E Ldas grandes dálias, a extinguir-se nos laranjas e púrpuras das cristas de galo e nos amarelos lívidos dos kôk-fá (crisântemos). Ao passar para a tela o quadro grandioso e surpreendente de mil flores, de mil tons dispersos ou amontoados em confusos arco-íris, só poderia ser fiel o talento impressionista dum inflamado pintor, que deixasse correr a tinta, sem nexo, alagando a tela e permitindo recíprocas difusões às cores...Em frente, junto ao cimento que rodeia os canteiros franjados de relva, junto ao grande edifício dos Correios, degraus sucessivos, de madeiramento velho, apresentam a mais escolhida colecção de plantas envasadas. Aqui, as dálias flamantes, sem perfume, mas luminosas, como balões de carmim, incendiados, erguem-se, sustentadas por delgados e claros colmos de bambú, erectas e orgulhosas, acima dos grandes vasos bojudos, de porcelana verde esmaltada, onde as raízes se escondem. Ali, os crisântemos lilases, brancos e dourados, em falripas desordenadas, meneiam as suas cabecinhas frementes, ao ondear da brisa. Mais adiante, as tangerinas anãs, carregadas de pequeninos frutos laranja-esverdeados, levantam, a custo, os seus frágeis bracinhos acinzentados, acima dos grandes vasos claros e limosos, fazendo lembrar, na sua singeleza, grandes bolas de azevinho presas a folhas modestas de setinosa gilbardeira. São estas últimas, as mais caras plantas do recinto e o principal motivo de cobiça dos compradores, porque o seu nome kat lembra a pronúncia desta outra palavra tão desejada por todos: FELICIDADE.Mais abaixo, nos primeiros degraus mais largos, em forma de improvisado balcão, sucedem-se os vasos pequenos de argila barrenta, donde as corolas lilases dos aristocráticos cíclames e outras flores roxas de estufa, desafiam os mais requintados gostos. Perto, sucedem-se as baixas tinas de esmalte claro, onde os bolbos amarelados dos sôi-sin-fá (jacintos), cultivados fora da terra, em água areenta ou em algodões
F A L A R D E N Ó S - X V171J O R G E A . H . R A N G E Lhumedecidos, erguem, em súplica, as suas mãozinhas verdes, de folhas agudas, a proteger os primeiros botões, ainda por abrir.Entre os vasos dos cíclames rosados e lilases, pequenas miniaturas de pagodes, sobre pedras limosas, são uma curiosidade e, se não uma flor, outrossim um fruto de habilidade, de engenho e de paciência. São os decorativos pun keng (paisagens envasadas). No chão, como num último degrau, sucedem-se mais vasos e o tema repete-se, com as mesmas flores, variadas nos tons, mas quase sempre iguais e igualmente viçosas.”Vasos floridos em cada casaVisitar o mercado das flores constituía uma experiência inolvidável: “Num dos extremos do vasto recinto, duma grande camioneta esverdinhada, transbordam molhos e molhos de flores coloridas, para o grande círculo de venda, onde as legendas das floristas, penduradas da cercadura de bambú, que se ergue, de cada estrado sem cor, pintalgadas em rectângulos de papel desbotado, exibem os seus nomes ou os das suas conceituadas fá-tim (loja de flores). Continuamente, o povo aflui ao tão desejado centro e parte, sobraçando grandes ramos, ou sobrecarregando riquexós, com vasos floridos, que irão, em cada casa, testemunhar, aos deuses, que o ano que vai chegar é auspiciosa e festivamente aguardado. Na rua escura e pedregosa, que se abre do Largo, para o grande e movimentado Mercado de S. Domingos têm a sua sede várias lojas de flores artificiais. Aí em novos balcões, mais modestos, ladeados por grandes latas, corroídas pela ferrugem, que lhes embota a cor, a água brilha e, dela, emergem nodosos e escuros troncos sem folhas, ramificados em grandes e esguios braços, onde, pequeninos botões rosados, em vários tons, emergem os seus sésseis e frágeis pedúnculos esverdeados. São as características tou-
F A L A R D E N Ó S - X V 172J O R G E A . H . R A N G E Lfá, rosadas e dobradas flores de pessegueiro, as lei-chai-fá, as pálidas flores de ameixieira e de abrunheiro e as tiu-chong-fá, as flores campainha, tão do agrado do povo chinês, tão arreigado às suas profundas tradições, ao longo dos séculos conservadas...Os vendedores apressam a venda, pois, à meia-noite, deverão estar desembara-çados de todas as suas flores, seja por que preço for, visto ser de mau agoiro e inde-fectível indício de azar, levar as plantas sobrantes, para casa. Indiferentes, as flores caras ou modestas, chegadas de Cantão, onde foram criadas com especiais cuidados, tendentes à sua floração precisamente nesta época festiva, aguardam o momento em que, em cada casa, irão emprestar, ao ambiente de sonho e de alegria, o natural encanto da sua simplicidade. Tal como o pinheiro de Natal, do Ocidente, muitas des-tas arvorezinhas de pessegueiro, ameixieira e flores-campainha serão coroadas de luzes coloridas, no alto dos seus vasos ou jarras de porcelana policromada, onde, dia a dia, será prescrutado o seu desabrochar, em ansiosa expectativa, pois darão, pelo seu número e relativa disposição das pétalas, seguros indícios de infortúnio ou de felicidade. Rio abaixo, as flores deixaram os seus viveiros, os seus jardins imensos, para virem amontoar-se, ali, frente ao Leal Senado, para lá dos velhos balcões de madeira apodrecida, onde, até à meia-noite, esperarão os seus últimos compradores, em cujas casas, frente ao Deus do Lar, ou no ângulo recôndito da sala de recepções, aguardarão, impassíveis, que o Novo Ano chegue, pleno de esperanças, apagando, por momento, todas as desilusões do que findou.” 28 de Janeiro de 2019
F A L A R D E N Ó S - X V173J O R G E A . H . R A N G E LNin Mei – A grande noite é hoje, véspera do Ano Novo “Cruzam-se, em formigueiro, todas as idades, todas as esperanças, todas as ambições, imersas em recônditos pensamentos, onde algo de supersticioso se inocula, subtilmente se insinua e irá misturar-se aos auspiciosos votos de Boas-Festas que, em breve, serão trocados.” Vivendo em ambiente mais ou menos festivo à roda do ano, a cidade e as suas gentes concluíram, nos últimos dias, os preparativos para aquela que é, desde sempre, a sua mais grandiosa e participada festa. Ela assinala a chegada de um novo ano do calendário lunar, que todos, legitimamente, esperam que seja mais auspicioso e feliz do que o anterior. As intensas, coloridas e ruidosas celebrações têm mesmo este propósito, que é o de alcançar as graças e a protecção dos deuses, venerados por multidões nos templos ou discretamente em altares caseiros. Foi assim na China milenar e é-o em qualquer recanto do seu imenso território e em todas as comunidades da sua vasta diáspora. O momento alto está a chegar! Quando, à meia-noite, se der início ao Ano do Porco, com as suas irrecusáveis promessas de prosperidade e abastança, também em Macau o fogo de artifício iluminará os céus, acompanhado do incessante estralejar de panchões, seguindo-se dias de generalizada e exuberante festança. Tal como no artigo anterior, escolhemos um belo texto da professora Ana Maria Amaro, intitulado “Nin Mei” (fim do ano), para descrever o frenesim e os exóticos rituais que acompanham a ansiada passagem do ano:Últimas folhas do calendário“A manhã surgira embaciada de cinzentos vapores. No céu, nuvens acasteladas brancas e pardacentas, encobriam o azul, sem promessas de sol. Mais uma folha foi arrancada ao colorido calendário, onde a face risonha de uma verdadeira ninfa, envolta em policrómicas vestes, exuberantes de ouro, nascia diáfana, dos lótus cor-de-rosa, cujas franjadas cabeças majestosas emergiam, em longas pinceladas, dum lago de cristal, entre folhas verdes, fantasiosamente douradas. No cartão, de contorno vermelho, pintalgado de arabescos amarelos, suspenso, algures, de velho prego enferrujado, ficou, apenas, a última folha vacilante, que o
F A L A R D E N Ó S - X V 174J O R G E A . H . R A N G E Lvento das horas arrancaria, em breve, como a última e amarelecida folha do desnudado tronco de prateada faia é levada pelo vento dum final de Outono. Todas as outras folhas, soltas, dia a dia, no decorrer dum ano, assistentes impávidas de alegria, de desesperos, de mil sonhos arquitectados, de mil ilusões desfeitas, jaziam no pó, esquecidas umas, dolorosa ou saudosamente relembradas outras. Lá fora, em estralejar contínuo, os panchões e os cartuchos de pólvora que impregnam o ar de fumos cinzentos, alacre e ruidosamente despedem-se do último dia do ano que finda, com a última fase da ‘Lua da Amargura’, que a flor de ameixieira, no calendário, simboliza. Pelo ar, há qualquer coisa de festivo, que torna o ambiente alegre, que inunda os corações de esperança, de promessas, de mil desejos, de míticas crenças, irradiadas de cada fisionomia, para lá de cada olhar semi-velado de quem passa, apressado, cruzando ruas, sobraçando embrulhos ou apertando, nos dedos nodosos e esguios, chamiças claras, donde pendem legumes ou retalhos de carnes e de peixes indefinidos.Ao longo dos passeios, junto a cada degrau, no ângulo de cada umbral de pedra, ou suspensos da parede, em pequenos cilindros de metal, forrados de púrpura, molhos de pivetes votivos, erguem ao Céu as suas hastes esguias e semi-consumidas. Pastelarias e casas de chá exibem lanternas e balões coloridos, pujantes de ouro, rutilantes em caprichosos recortes estanhados, numa alacridade de tons, que emprestam, ao ambiente, as suas melhores galas de luz e de cor.Cruzam-se, em formigueiro, todas as idades, todas as esperanças, todas as ambições, imersas em recônditos pensamentos, onde algo de supersticioso se inocula, subtilmente se insinua e irá misturar-se aos auspiciosos votos de Boas-Festas que, em breve, serão trocados. Sente-se uma impaciência mal contida, um certo nervosismo na alegria estampada em cada rosto, no próprio crepitar do lume e no explodir das mil centelhas, soltas no ar.”
F A L A R D E N Ó S - X V175J O R G E A . H . R A N G E LNo coração da polícroma cidadeHoje, como ontem, um mar de gente, de muitas origens e variados estratos sociais, acorre ao centro da cidade e aos múltiplos locais de entretenimento. Residentes e visitantes partilham a incontida alegria: “Todo o labirinto de travessas e ruas, como gigantesca rede sanguínea, pujante de vida, desta polícroma e ruidosa Cidade de Macau, vem desembocar naquele grande coração palpitante, que é a Praça do Senado, vasta e quase circular, a escoar-se pelas grandes e largas avenidas, até ao rio. Num dos ângulos, domina a maciça mole do edifício dos Correios, que se ergue, majestosa, no seu pardo claro, a esmaltar as colunas cilíndricas que conquistam andares, perfurando o Céu, com o seu torreão esguio, onde os relógios, em círculos claros, desvendam, sincrónicos, o desenrolar de cada hora que passa. Em frente, os fan-tim (restaurantes), iluminados e coloridos, nos seus ornatos de papel, exibem, em tigelas caras, entre duas lanternas franjadas de seda vermelha, especialidades da quadra, entre as quais, avultam as brancas tiras de côco, o gengibre, as laranjinhas, a abóbora, as sementes e os rizomas de loto, cristalizados, os min (massas chinesas), o chin-toi (bolinhos de massa de farinha de arroz, com gergelim), o tai-long-kou (pudim de arroz glutinoso e jagra) e o célebre e tradicional chai (prato vegetariano indispensável nesta quadra), com os seus cogumelos, os claros lin-chi (sementes de loto), os negros fios de agar-agar e outros vegetais, cobertos de espesso molho acastanhado, a par de montes de amêijoas profusamente condimentadas.Pelo Largo, passa, de olhar distante, um criado chinês, de cabaia clara e calça setinosa escura, erguendo, em ambas as mãos, um bolo vestido de papéis lilases recortados caprichosamente, que semi-ocultam, em cada andar, as saborosas ameixas, laranjas e carambolas cristalizadas e beijinhos de ovos, além de outras famosas
F A L A R D E N Ó S - X V 176J O R G E A . H . R A N G E Lespecialidades características da quadra, oferta dos filhos-da-terra e de alguns portugueses de passagem, em retribuição dos favores e felicitações formulados pelos chineses por ocasião do Natal.Junto dos engalanados fan-tim, discretamente iluminados, para lá das sucessivas arcadas, a findar na Rua do Mercado, vendedores de revistas e de blocos de papel de capa colorida, exibem os seus vermelhos hong-pau (bolsinhas de papel vermelho e dourado), de todos os tamanhos e arabescados de ouro, destinados aos lâi-si (ofertas tradicionais e auspiciosas), por tantos, ansiosamente, esperados. Frente aos Correios, o Peng On (cinema Apollo), de largo portal aberto, sob o vistoso e policrómico cartaz do mais recente filme americano desvenda as suas decorações de papel, em tiras franjadas, fortemente coloridas, como em festivo carro de noivado, irradiantes no tecto da vasta entrada, como gigantesca teia, urdida com fios de luminoso arco-íris. Ao fundo, a fachada do Leal Senado, muito branca como as nuvens flocosas que, lentamente, como velas enfunadas de grandes barcos de cinza, percorrem o céu, serve de fundo ao magnífico e colorido cenário a três dimensões há alguns dias erguido em sua frente.”Quanto ao espectacular mercado das flores e às bancas disseminadas pela cidade, já referidos no artigo anterior, a véspera do Sân Nin (Ano Novo) era também o seu dia maior, com a abundante e diversificada oferta a esgotar-se rapidamente. As tristezas são esbatidas nesta quadra. O que se vê em cada rosto é um sorriso e o que se sente é um desejo em cada coração: Kung Hei Fat Choi! Festas felizes para todos! 4 de Fevereiro de 2019.
F A L A R D E N Ó S - X V177J O R G E A . H . R A N G E LAno Novo Chinês recordado por escritora macaense no Brasil “Desde a antevéspera do grande dia que a cidade se encontra vestida de gala.” A escritora macaense Alda de Carvalho Ângelo, radicada no Brasil logo após a Guerra do Pacífico, publicou em 1965 o livro “Fragmentos do Oriente (contos, viagens e culinária)”, com o propósito de contribuir para uma maior divulgação de Macau no país de acolhimento. Entre os variados temas tratados, o Ano Novo Chinês mereceu compreensível destaque: A maior festa tradicional chinesa“Qual é a pessoa que morando na China, vivendo na China não pense com emoção na chegada do Ano Novo? Como não lembrar dos cinco dias de festas, dos jogos de cluk cluk que são permitidos somente nessa época; dos doces exóticos de sabor e cheiro tão diferentes dos do estrangeiro; das noites barulhentas; do cheiro característico a pólvora de bombas e bombinhas qual noite de São João no Brasil, mas em maior quantidade; das casas alegres caiadas de fresco, tudo limpinho; das miríades lanterninhas das ruas e das embarcações todas embandeiradas que nesses dias ancoram em fileiras, em número superior a cinco mil, quase ocupando toda a extensão e largura do porto, formando como que uma outra cidade, uma cidade flutuante rivalizando-se com a primeira em alegria e gala?! Como não lembrar do aspecto festivo dos chineses em suas roupas típicas, variadas, cuja única preocupação é a de se divertirem?! Como não lembrar...Công Hei Fát Chói! Công Hei Fát Chói! Felicidades, felicidades, muita sorte, muitas felicidades! Assim cumprimentam mutuamente parentes e amigos, sorrisos nos lábios, a cabeça balançando levemente para frente e para trás, as mãos enfiadas nas largas mangas das cabaias novinhas em folha. Estamos no dia primeiro do primeiro mês lunar, isto é, no dia do Ano Novo Chinês, do Ano Novo, a maior festa tradicional chinesa, a festa a que ninguém deixa de tomar parte. Desde a antevéspera do grande dia que a cidade se encontra vestida de gala.
F A L A R D E N Ó S - X V 178J O R G E A . H . R A N G E LMeia noite em ponto. Os panchões (bombas e bombinhas) de muitos metros de comprimento estouram ao desafio partindo das casas e das embarcações atracadas em fileiras dentro do porto. As bancas de cluk cluk, ao longo de ambos os lados das principais ruas da cidade, dão começo ao jogo. Os banqueiros, sentados em toscos bancos compridos atrás de um tabuleiro, agitam os dados num pires coberto com uma tigela e gritam: – Mái! Mái! Ng Mái Iau Hói! Hói! (comprem, comprem, joguem, abre!). Em volta das bancas iluminadas por frouxas luzes de candeeiro, o povinho apinhado, uns sobre os outros, as mãos estendidas, colocam ou recolhem o dinheiro sobre o tabuleiro, muito colorido, muito vistoso, com letras pretas, vermelhas e verdes sobre um fundo envernizado. As expressões dos jogadores são das mais variadas, mas de um modo geral, todos gritam, gesticulam, riem ao mesmo tempo. A atenção está concentrada na tigela.Não é menos a animação nas ruas de flores, nas lojas de doces, nos restaurantes, nas casas de jogo, nas casas de chá, no bazar, em suma, nos bairros chineses onde há comes e bebes e divertimentos. Tendas improvisadas nas calçadas estão abarrotadas de doces de toda espécie, de várias cores e feitios, bolos tipicamente chineses, louças vistosas e um sem número de bugigangas, aumentando assim o colorido especial da festa.O movimento do vaivém é enorme. Dir-se-ia que, movido por uma mola mágica, todos foram arrancados de suas pacíficas moradias e atirados no turbilhão da massa popular, incorporando-se a ela, movendo-se com ela. E, como para criar ainda maior confusão, irrompe por entre a multidão a procissão do dragão com seu infindável séquito, atroando aos ares suas músicas barulhentas misturadas com incessantes estouros de panchões, assinalando a passagem de sua majestade o dragão. Aos empurrões, dias e noites, durante cinco dias, saindo de uma banca para outra, jogando, comendo, correndo a cidade toda, enfrentando a chuvisquinha, a neblina, o
F A L A R D E N Ó S - X V179J O R G E A . H . R A N G E Lfrio de gelar, enfim, todas as intempéries do inverno que costumam advir com o Ano Novo Chinês, ninguém perde a oportunidade para se divertir, ninguém faz questão de dormir ou de descansar, querendo, talvez, nesses cinco dias do ano desforrar os trezentos e sessenta restantes que mourejam de sol a sol, matando-se de trabalho. Em contraste, todo outro comércio está fechado, morto, completamente morto. Ninguém trabalha.”Rituais eternos da época festivaA autora não só descreveu o impressionante movimento e o exotismo que sempre caracterizaram estas festividades, como também recordou alguns dos hábitos e rituais por ela observados nos anos de juventude em Macau: Công Hei Fát Chói! Công Hei Fát Chói! – Assams e amuis (criadas) cumprimentam os patrões e estes correspondem ao cumprimento, dando-lhes um lâi si (gratificação em dinheiro embrulhado em papel vermelho. O papel vermelho dá sorte, segundo os chineses). Công Hei Fát Chói! As criancinhas e os mocinhos esperam avidamente o lâi si dos parentes e amigos e até das próprias criadas. – Công Hei Fát Chói! Công Hei Fát Chói – Moças e velhas, ricas e pobres, de cheón sám ou de cabaias e calças compridas, novinhas, mandadas fazer especialmente para esse dia, fitinhas na cabeça, sapatinhos de cetim bordados a cores, o lencinho preso na casa do botão do lado direito, sorriso nos lábios, faces vermelhas, airosamente se dirigem umas para as casas das outras, para o cumprimento do estilo. Acompanham-nas nessa romaria as criadinhas pendurando no braço o tradicional hap ló (caixa de madeira fina redonda com divisões), repleto de frutas e doces das mais variadas, tais como: tiras cristalizadas de abóbora, de restrate e de côco, frutas cristalizadas chinesas, o quá chi vermelho e preto (sementes de abóbora e melancia), as tangerinas pequeníssimas mas muito doces, os ovos cozidos pintados a vermelho, as diversas qualidades de bolos feitos de farinha de arroz e rapadura ou açúcar pedra, tais os deliciosos chin toi cobertos de gergelim ou os công sú peáns e,
F A L A R D E N Ó S - X V 180J O R G E A . H . R A N G E Lacima de tudo, o famoso tái lông cou, o bolo rei de cor marron, envolvido em folhas de bananeira, enfeitado ao centro com o indispensável mât chou bem vermelhinho (maçã pequena seca), e uma infinidade mais de outras guloseimas próprias da ocasião. A dona da casa, agradecendo cordialmente o cumprimento, abre o hap ló, retira de lá o presente. Tira um pedaço de tái lông cou, dois ou três chin tôi, três ou quatro tangerinas, enfim, um bocadinho de tudo. É de boa norma e civilidade não ficar com todo o presente e colocar no hap ló um lâi si para a criadinha. A dona da casa oferece a suas visitas uma xícara de chá cheia três quartos sem açúcar, com o habitual sorriso, dizendo iâm chá, meneando levemente a cabeça. As visitas são recebidas numa salinha, cujo chão é de ladrilho poroso, mobiliada a pau preto com encrustações de madrepérola, com cochins (almofadas) de cetim vermelho bordados a cores. Os jarros enormes, nos cantos das salas, os famosos vasos de porcelana chinesa com desenhos raros, estão cheios de flores de pessegueiro, a flor tradicional do Ano Novo Chinês, a que não falta nunca em nenhuma moradia chinesa nessa época. Enfeitam também a sala os lindos séac sán, montanhas em miniatura, feitas com resíduo de coque queimado ligado com cimento e água, colocadas sobre bandejas de porcelana cheias de água, contendo peixinhos ornamentais e plantas aquáticas. Sobre as montanhas vêem-se homens, pontes, casinhas, templos, etc. de pedra, artisticamente dispostos. Ao longo das paredes estão compridos e estreitos quadros chineses pintados a aguarela ou a tinta Nanking e espelhos de alto valor com desenhos ou letras. É interessante notar que os chineses não varrem a casa no próprio dia do Ano Novo. Fazem isso na véspera, porque, segundo a superstição, varrer a casa no dia do Ano Novo é varrer dinheiro e felicidade.” Voltaremos brevemente a falar desta escritora e do conteúdo do seu muito interessante livro. 11 de Fevereiro de 2019
F A L A R D E N Ó S - X V181J O R G E A . H . R A N G E LPassear com Wenceslau de Moraes no Jardim Botânico de Lisboa “Celebrar Wenceslau de Moraes descrevendo a flora japonesa do Jardim Botânico de Lisboa foi para mim um projecto desde Outubro de 2003, quando fiz um primeiro esboço de programa para as comemorações do seu 150.° aniversário.”Pedro Barreiros, no prefácio É um livro que merece ser referido e saudado, pelo seu muito adequado formato, rico conteúdo, vistosas ilustrações e bem seleccionadas citações extraídas de textos produzidos pelo escritor no seu longo exílio no Japão. Edição da Associação Wenceslau de Moraes, de Novembro de 2017, com coordenação de Margarida Jardim e Pedro Barreiros, o seu título é “Flora Nipónica no Jardim Botânico de Lisboa – um passeio com Wenceslau de Moraes”. Muito mais do que um vulgar guia, para identificar as cerca de 60 espécies de plantas provenientes do País do Sol Nascente, a forma como as fichas de classificação estão organizadas merece o apreço e o reconhecimento de quem o adquiriu e já utilizou no interessante percurso de descoberta de cada uma dessas espécies, cuja localização ficou facilmente assinalada. Enorme é o prazer de ler as citações que acompanham cada ficha. Fica-se mesmo com a agradável sensação de que o escritor caminha ao nosso lado e conversa connosco sobre a flora mais exótica daquele magnífico jardim que confina com o Museu Nacional de História Natural, situado na Rua da Escola Politécnica, em Lisboa.Portugaru-SanPedro Barreiros, major-general médico, artista e escritor macaense, profundo conhecedor da obra de Wenceslau de Moraes, recorda, no prefácio deste muito bem conseguido trabalho, o “Portugaru-San”, o Senhor Portugal, como ficou conhecido no Japão, onde viveu de 1913 até ao seu falecimento, em 1929. A sua casa, em Tokushima, tinha apenas uma divisão no rés-do-chão, um quarto no piso superior e um pequeno jardim, “de que cuidava com imenso carinho”:
F A L A R D E N Ó S - X V 182J O R G E A . H . R A N G E L“Vestia-se com uma ‘Yukata’ japonesa, ia todos os dias ao cemitério local fazer a sua meditação junto às campas das suas falecidas mulheres japonesas, Ó-Yoné (a senhora Bago de Arroz) e Ko-Haru (a jovem Pequena Primavera), e a seguir subia até ao templo budista para conversar com o monge que o guardava. Regressado a casa, passava o resto do dia sentado no chão junto à sua secretária japonesa, bebendo em pequenos goles o chá que preparava no bule de ferro e a escrever. Escrevia em português, numa actividade longa e intensa, as cartas e postais que enviava todos os dias à sua família, nomeadamente às irmãs, sobretudo à sua querida Chica (a irmã Francisca) e aos muitos amigos ou apenas correspondentes, na maioria antigos camaradas da Marinha. Mantinha ainda uma actividade jornalística intensa enviando crónicas diárias a jornais portugueses para serem lidos pelos seus ‘amigos desconhecidos’, tal como designou o público que o lia, na dedicatória do seu último livro Relances da Alma Japonesa. Muitas dessas crónicas, acrescidas de outros escritos, todos eles sempre em português, foram reunidos em livros publicados em Portugal durante aqueles dezasseis últimos anos da sua vida japonesa.”Ligação a PortugalÉ errada a ideia de que Wenceslau de Moraes decidira desligar-se completamente de Portugal. Pedro Barreiros aproveitou a oportunidade para, uma vez mais, asseverar que Moraes nunca se esqueceu “da sua gente e da terra em que nasceu”, já que “durante toda a sua vida japonesa, passou pelo menos metade dos seus dias ligado espiritualmente a Portugal, a ler livros portugueses, jornais e cartas que recebia de Portugal, mantendo-se informado sobre tudo o que se passava, desde as mais profundas mudanças políticas e sociais até às obras do elevador do Lavra.”
F A L A R D E N Ó S - X V183J O R G E A . H . R A N G E LAlém disso, em todos os seus escritos, ia informando os seus compatriotas “de tudo o que era o Japão: a Arte, a Literatura, a Língua, o Pensamento, os Costumes, as Festividades, a Política, a História, a Vida Quotidiana, e também as suas cidades e as suas paisagens. Descrevia as florestas, os parques e os jardins, em língua portuguesa, pormenorizava a Flora Japonesa, fazendo os leitores, através de uma escrita verdadeiramente impressionista, verem as cores, as tonalidades e o brilho, as formas e quase até sentir os aromas das plantas, dos arbustos, das árvores e das flores, aquecidas pelo sol, molhadas pela chuva ou pelo orvalho, ou dançando com a aragem.” Jardins em TokushimaA paixão de Wenceslau de Moraes pela escrita e pelo desenho e o encantamento que a flora dos jardins nele produzia foram muito anteriores à sua partida para o Oriente, após 23 anos de vida em Lisboa: “Foi a memória dos jardins portugueses que o fez criar o pequeno jardim da sua casa descrito no seu livro mais autobiográfico ‘Bon-Odori em Tokushima’, do qual transcrevo uma das suas impressões íntimas: ‘... feliz do homem solitário que, como eu, encontra ainda num jardim recreio ao seu espírito, que se deleita na cultura de dois palmos de terra, que cuida por suas mãos das plantas, que vê com prazer o ínfimo rebento desenvolver-se em folhas e flores. Este homem não está só; acha-se, pelo contrário, cercado de amigos; nem a reclusão lhe empederniu o sentimento, porque quem ama as plantas crê em alguma coisa, crê, pelo menos, na harmonia universal e na justeza dos destinos; e, quem sofre, encontra nestas crenças consolação inefável às angústias da alma dolorida.’Com efeito o seu jardim de trinta metros quadrados em Tokushima foi a sua grande fonte de ternura durante os treze últimos anos da sua vida, depois de em
F A L A R D E N Ó S - X V 184J O R G E A . H . R A N G E L1916 ter falecido a sua ‘Pequena Primavera’, a jovem Ko-Haru. Foi nesse jardim que, em 1 de Julho de 1929, foi encontrado morto. Embora a sua ligação ao jardim e ao mundo vegetal lhe tenha sido despontada em Lisboa, acompanhou-o em Macau e desenvolveu-se, sobretudo literariamente, quando foi integrado no verde, nos verdes de Tokushima, a sua cidade escolhida para viver e também por ele eleita para receber as suas cinzas quando a vida terminou.”Desde 2003, quando foi preparado o primeiro esboço do programa comemorativo do 150.° aniversário de Wenceslau de Moraes, que Pedro Barreiros acalentava a ideia de descrever a flora japonesa do Jardim Botânico de Lisboa. Fizeram-se então visitas guiadas a este belo jardim, que muitos lisboetas, infelizmente, não conhecem, e procedeu-se ao lançamento do livro “O Profeta do Orvalho”, de José Jorge Letria, inspirado em Moraes.Pedro Barreiros concebeu e realizou uma ampla e eficaz divulgação do escritor e promoveu uma cuidada reedição das suas obras, na qualidade de comissário oficial daquelas comemorações. Graças à sua persistência e à conjugação dos esforços de várias entidades, este livro foi finalmente produzido. Parabéns à Associação Wenceslau de Moraes e a quantos contribuíram para o sucesso desta importante iniciativa. 18 de Fevereiro de 2019
F A L A R D E N Ó S - X V185J O R G E A . H . R A N G E LFragmentos do Oriente – memórias de Macau no Brasil “E me sentirei feliz e compensada se meus contos, narrações, assuntos culinários – trazidos do oriente para o ocidente – forem de interesse e utilidade para as famílias brasileiras a quem dedico minhas recordações.”Alda de Carvalho Ângelo, na nota de apresentação do seu livroA publicação, em 1965, do livro “Fragmentos do Oriente (Contos, Viagens, Culinária)”, da escritora macaense Alda de Carvalho Ângelo, radicada no Brasil quase duas décadas antes, meses após a rendição do Japão em 1945, permitiu-lhe realizar o propósito de contribuir para uma maior divulgação da sua terra natal nos círculos culturais e sociais que escolheu e onde teve intervenção positiva. Ao longo de 160 páginas, são partilhadas interessantes recordações dos anos de infância e juventude passados em Macau, a que a Autora juntou conhecimentos de culinária macaense e chinesa, narrativas e relatos e alguns contos inspirados nas suas vivências no Extremo Oriente. Constitui também uma homenagem à sua Mãe, dona Cândida Maria dos Remédios Carvalho, falecida em Macau meses antes da conclusão do livro. Um mundo de recordaçõesA obra abre com uma breve nota introdutória em que é referido um telegrama que deu a conhecer o passamento da Mãe da Autora e o “mundo de recordações” que essa notícia suscitou, a par do desejo de “as ver reproduzidas em letras, ver impressas para todo o sempre em homenagem à Sua memória, como um monumento a recordar, a reviver nossa vida no oriente”, ficando ela “feliz e compensada” se os assuntos tratados “forem de interesse e utilidade para as famílias brasileiras” a quem essas recordações foram dedicadas. Segue-se a transcrição do poema “Vida e Morte”, extraído do livro “Excerptos de Filosofia Taoista”, de Manuel da Silva Mendes, em que se assevera que na morte “Ficam cinzas de lenha consumida; / Mas o espírito, o lume que era a vida, / Esse, como a existência, não tem fim.”
F A L A R D E N Ó S - X V 186J O R G E A . H . R A N G E LOs diversos capítulos abarcam temas como o Ano Novo Chinês em Macau, cujo texto foi já reproduzido recentemente neste espaço, usos e costumes locais, aspectos folclóricos orientais, um “ABC da cozinha chinesa”, “Ecos da culinária macaense”, com uma boa selecção de receitas, relatos de viagens em “terras chinas”, descrições de um funeral chinês e de um tufão que assolou Macau, pequenos contos e vários apontamentos sobre “A Guerra, esse monstro”, incluindo um sentido testemunho dos efeitos do bombardeamento de Hong Kong pela força aérea nipónica, precedendo a ocupação da colónia britânica em plena Guerra do Pacífico. A última parte é uma ternurenta narrativa de cariz autobiográfico duma longa viagem “do oriente para o ocidente”, de Macau para Lisboa e da capital portuguesa para o Rio de Janeiro e Santos, onde dois namorados se reencontraram, após uma cruel separação de vários anos.Edição da própria autora, a sua difusão confinou-se a um universo inevitavelmente limitado, pelo que foi através de uma sua familiar muito próxima, a quem me liga uma grande amizade que vem dos bancos do Liceu, que pude ter acesso, há alguns anos, a um exemplar, imediatamente lido e apreciado com enorme prazer e, na última quadra natalícia, avidamente relido. É, pois, chegada a altura de, nesta série já longa de crónicas e artigos, comentar o livro, interpretar o seu significado e enaltecer a obra de uma escritora macaense que se afirmou na grande metrópole em que São Paulo já se estava transformando quando ali passou a ter a sua nova residência permanente. De Macau para uma nova pátriaNatural de Macau e radicada no Brasil desde 1946, Alda Martins de Carvalho Ângelo foi membro da União Brasileira de Escritores, da Sociedade Brasileira de Autores Teatrais e da Associação dos Profissionais de Imprensa de São Paulo, Brasil. Colaborou em revistas e jornais do Rio de Janeiro e de São Paulo e na selecção e tradução de contos e lendas que integram o livro “Maravilhas do Conto Chinês”, publicado em São
F A L A R D E N Ó S - X V187J O R G E A . H . R A N G E LPaulo, sendo também autora de “Taquigrafia Portuguesa Pitman”, editado pela Casa Pitman, de Londres, além de “Fragmentos do Oriente (Contos, Viagens e Culinária)”. Separada do noivo durante cerca de seis anos, por causa da ocupação nipónica da China e de outras vastas áreas da Ásia Oriental, a jovem Alda de Carvalho Ângelo partiu para Lisboa no primeiro navio português disponível, imediatamente após a rendição do Japão, que marcou o fim da Guerra do Pacífico (1939-1945), e daí para o Rio de Janeiro. O porto de Santos, onde ancoravam transatlânticos carregados de emigrantes oriundos de muitas partes do mundo, “quer isoladamente, quer em colónias, cheios de esperança”, em busca de paz e de novas oportunidades de fixação e reconstrução do futuro, serviu de cenário para o dramático e ansiado reencontro. O noivo, já estabelecido em São Paulo, “a grande cidade industrial, cidade, trabalho e vigor em pleno desenvolvimento, a cidade que, como nenhuma outra, em poucos anos, crescia, se transformava em rival dos maiores centros do mundo”, foi o seu perfeito guia na entrada resoluta na nova vida... na nova pátria...Muitos outros macaenses demandaram aquelas paragens nas décadas seguintes, fixando-se, maioritariamente, no Rio de Janeiro e em São Paulo, metrópoles que acolheram gentes de diversificadas origens, cujo dinamismo e empenhamento contribuíram para o seu invejável crescimento. As Casas de Macau ali fundadas na fase terminal da administração portuguesa neste território são os seus principais locais de encontro e de convívio e importantes elos que reforçam as ligações dos seus membros à terra-mãe. Essas Casas são também centros vivos da memória macaense. Oxalá, mais alguns dos seus associados possam seguir o exemplo de Alda de Carvalho Ângelo, partilhando em livro as suas mais genuínas recordações e juntando-as ao imenso manancial de informação que Rogério da Luz tem reunido, persistente e dedicadamente, ao longo das últimas décadas.
F A L A R D E N Ó S - X V 188J O R G E A . H . R A N G E LEcos da culináriaA autora não quis, no seu singelo trabalho, “transmitir aos leitores tudo sobre a culinária macaense”, mas achou oportuno divulgar as receitas de alguns dos “pratos mais representativos da mesa macaense”. Assim, começou pelo inevitável minche (ou minchi), com seis variantes: minche sutate, minche de carne de porco, ovos recheados com minche, madeira fán (arroz frito com minche), esparguete e minche ao forno e nabo chau-chau porco. Seguem-se os cucús (porco cucús e peixe cucús), o tradicional diabo, “riquíssimo prato macaense, de gosto inigualável, quase sempre feito de sobras de grandes banquetes”, o famoso chau chau pele, que cada família macaense faz à sua maneira, o arroz mouro, o câi si fán (arroz de galinha desfiada), a vaca estufada e o porco vinho de alho. Além de uma identificação dos principais condimentos chineses, são apresentadas também algumas receitas de comida chinesa mais apreciada em Macau: arroz branco, arroz frito ou arroz chau chau, carne frita, porco agridoce e molho agridoce. O molho de soja é, obviamente, referido como “o mais importante condimento para o preparo de pratos chineses” e “tem o nome de ‘si iau’ em chinês e sutate em macaense”, sendo vendido no Brasil nas lojas japonesas com o nome de ‘shoy-u’”. Estes “Ecos da culinária macaense” e o “ABC da cozinha chinesa”, merecem certamente uma republicação, com procura garantida. Aliás, o livro todo, esgotado há mais de cinco décadas e contendo tanta matéria interessante, pode muito bem justificar uma oportuna reedição. 25 de Fevereiro de 2019
F A L A R D E N Ó S - X V189J O R G E A . H . R A N G E LQuando Hong Kong foi bombardeada pelos japoneses “Diariamente, esquadrilhas e esquadrilhas de aviões de ataque, a grande altitude, sobrevoavam Macau, carregados de bombas que iam despejar sobre Hong Kong.”“Quando Hong Kong foi bombardeada” é um dos mais conseguidos e interessantes relatos reunidos no livro “Fragmentos do Oriente (Contos, Viagens e Culinária)”, da escritora macaense Alda de Carvalho Ângelo, publicado em São Paulo, Brasil, em 1965. À semelhança de outros textos representativos da literatura macaense ou particularmente significativos para um melhor conhecimento da história e da realidade presente de Macau, vamos reproduzi-lo parcialmente neste espaço.O período da Guerra do Pacífico foi um tempo de muito sofrimento para todos, mesmo em Macau, que os japoneses não ocuparam, mas onde a sua influência era fortemente sentida e temida. Apesar das ameaças constantes, poucos acreditavam nos ataques a Hong Kong e na sua capitulação em Dezembro de 1941. Vale a pena ler as partes mais relevantes deste sentido testemunho: O ataque a Hong Kong“Inacreditável! Como era isso possível! Mas que temeridade! Atacar Hong Kong! Atacar uma cidade tão bem fortificada! Não paravam aqui os comentários. Em um mês, em uma semana, talvez menos, os invasores seriam liquidados, vaticinavam os macaenses. O porto de Hong Kong estava cheio de navios de guerra, os aviões preparados, as tropas a postos, os abrigos prontos a proteger a população civil! Com estes e outros comentários tão otimistas, era de se prever um desenlace rápido e feliz para os aliados. Infelizmente, porém, tal não aconteceu. (...)As primeiras notícias mais precisas chegavam com oito portugueses de Macau que tinham logrado escapar – eles tinham ido a Hong Kong ou a negócios ou a passeios – escondidos num junco chinês que se dirigia a Macau a coberto da noite. Soubemos, então, que ninguém, ou quase ninguém, em Hong Kong, suspeitava do que estava acontecendo quando surgiram os primeiros aviões atacantes. Julgavam tratar-se de simples manobras
F A L A R D E N Ó S - X V 190J O R G E A . H . R A N G E L(nessa época Hong Kong era teatro de contínuos ‘black-outs’ e exercícios). A população de Hong Kong observava calmamente o movimento do vai-vem dos aviões lançando bombas em diversos pontos da cidade, fazendo os comentários costumeiros sobre exercícios. Até que... tiveram conhecimento da triste verdade: a cidade estava sendo bombardeada de verdade! As bombas eram bombas! Mas, então, por que não levantaram voo os aviões ingleses para dar combate? Triste desilusão! Em Hong Kong, não havia, nesse momento, mais do que oito aviões, os restantes, assim como grande parte de navios de guerra, tinham sido enviados, na véspera, para Singapura onde se esperava toda a força do ataque. Até os abrigos não estavam em condições! Assim, Hong Kong não estava em situação de poder enfrentar uma guerra. Daí, o pânico geral. Diariamente, esquadrilhas e esquadrilhas de aviões de ataque, a grande altitude, sobrevoavam Macau, carregados de bombas que iam despejar sobre Hong Kong. (...) Uma semana de luta e a península de Kowloon caía nas mãos inimigas: palmo a palmo, os invasores penetravam no território inglês, combatendo nas ruas da cidade. Dez dias depois, a ilha de Hong Kong se rendia... Atacado por ar e por mar, sem ajuda de navios ou de aviões, o exército local não pôde resistir à forte invasão japonesa.”Após a rendiçãoA ocupação de Hong Kong alterou profundamente a vida na colónia britânica, com efeitos nefastos fortemente sentidos em Macau:“Depois da rendição, os portugueses civis de Hong Kong foram autorizados a embarcar para Macau e, nos primeiros dias de fevereiro, chegava o primeiro barco carregado de homens, mulheres e crianças, entre os quais muitos súditos ingleses. Para o cais de vapor, no porto interior, acorria quase toda a população portuguesa de Macau para ver os infortunados amigos e parentes que acabavam de sofrer grandes
F A L A R D E N Ó S - X V191J O R G E A . H . R A N G E Lperdas. Abraços em profusão, lágrimas, risos, todos falavam ao mesmo tempo: este tinha perdido a casa, os móveis, tudo; aquele vira morrer os seus sem nada poder fazer; aquele outro relatava o susto que apanhou, outro, do combate que tinha assistido; enfim, todos tinham qualquer coisa que contar! Houve até quem contasse que tivera sorte que fora ajudado pelos japoneses, que conseguira tudo salvar. Assim foi que ficámos conhecendo mais pormenores sobre a condição de Hong Kong durante os dois meses que se passaram, não obstante algumas notícias terem sido contraditórias. Soubemos, então, que grande número de tropas inglesas acantonadas em Hong Kong foram enviadas para Singapura, tendo elas sido substituídas por tropas canadenses recentemente chegadas à colónia. E fora, justamente, no ponto onde se encontravam essas tropas, o ponto onde menos se esperava ser atacado que os invasores lançaram toda a força do ataque. Essas tropas canadenses foram apanhadas de surpresa e, como não conheciam a topografia da colónia, não puderam sequer fugir. Segundo consta, foi uma verdadeira carnificina. O ponto mais perigoso de Hong Kong, o ponto mais vulnerável, estava sendo defendido por voluntários portugueses de Hong Kong, habituados ao terreno, ao clima, mas, nesse ponto, não foi trocada uma única bala. Os voluntários foram surpreendidos pela retaguarda, tendo sido feitos prisioneiros e enviados para o campo de concentração de Sam-Shui-Po. Os militares ficaram concentrados no campo de concentração de Stanley. As tropas assalariadas chinesas traíram a defesa, usando as armas que lhes foram entregues, para assaltar casas e pessoas. Reinava a desordem e anarquia. Lojas inteirinhas foram saqueadas, espalhando-se o terror. Parte das mercadorias saqueadas foi, mais tarde, levada para Macau e aí vendida a bom preço. Essa, uma das razões por que não houve escassez total de géneros de primeira necessidade em Macau. Verdade seja que o governo local tomou todas as providências – as melhores possíveis – para que pudéssemos enfrentar os quatro anos de guerra com relativa comodidade.
F A L A R D E N Ó S - X V 192J O R G E A . H . R A N G E LOutro e outro barco carregado de refugiados chegava a Macau e, com ele, mais notícias sobre os horrores da guerra, das barbaridades perpetradas pelas tropas de ocupação, além dos roubos e crimes praticados pelos bandidos chineses. A vida no campo de concentração tornava-se dia a dia mais insuportável, a alimentação deficientíssima, a higiene deixando muito a desejar. Os ingleses, em geral, definhavam-se a olhos vistos, não conseguindo adaptar-se à triste situação a que chegaram. Os portugueses de Hong Kong, conquanto sofressem também, aguentavam-se melhor, quer pela sua constituição resistente, quer por estarem mais habituados à vida árdua, ao clima, à comida... Muitos prisioneiros tentaram atravessar a linha da prisão, mas eram quase sempre mortos a tiros antes de conseguir seu desígnio ou, então, apanhados vivos, o que ainda era bem pior. Macau, tendo sido o único ponto em todo o Extremo Oriente que conservava a neutralidade durante os quatro anos de guerra, era o foco para onde se convergiam os refugiados de todas as outras nacionalidades, tornando-se, por assim dizer, o oásis, o paraíso procurado avidamente por todos – vencidos e vencedores. Por essa razão, encontrava-se superlotado. Não havia casas que chegassem para tanta gente! Os géneros alimentícios, o aluguel... tudo aumentava de preço de um modo assustador! O Hotel Bela Vista, o Clube de Macau, o Clube Recreativo de Areia Preta, o Clube de Beneficência, a Chácara de Leitão e até um barco, o ‘Sai On’, se transformaram em centros de refugiados.” Ao longo desses quatro anos, Macau a todos acolheu. Gentes oriundas de muitos lugares aqui tiveram o seu porto de abrigo até à derrota do Japão, em 1945, quando a vida foi voltando, paulatinamente, à normalidade. 9 de Março de 2019
F A L A R D E N Ó S - X V193J O R G E A . H . R A N G E LSugestivo relato de um tufão em “Fragmentos do Oriente” “... em 22 de Setembro de 1874, data sinistra e de triste memória para a colónia portuguesa de Macau, foi registado o maior tufão nos anais da sua história. Tão violento (...) que Macau ficou quase em ruínas!”Daqui a poucos meses, nova “época de tufões” ameaçará o território. Sendo certo que quem aqui vive já se habituou às tempestades tropicais que sempre assolaram o território no período de estio, a verdade é que, nos últimos anos, alguns tufões, pela sua invulgar intensidade, assustaram mesmo a população, além de terem posto à prova a capacidade de resposta das autoridades, obrigando-as a rever procedimentos e criar uma mais eficaz articulação entre as diversas entidades com intervenção na protecção civil.De entre os variados temas tratados no seu livro “Fragmentos do Oriente (Contos, Viagens, Culinária)”, já referido recentemente neste espaço, a escritora macaense Alda de Carvalho Ângelo ofereceu-nos um relato muito sugestivo de uma forte tempestade por ela experimentada em Macau. Além de recordar que “a costa sul da China é frequentemente assolada por tufões, durante os meses de Junho, Julho e Agosto, causando grandes estragos” e que os “tufões ocorridos fora da época são os mais violentos”, como aconteceu em 22 de Setembro de 1874, brindou-nos com este testemunho que, pela qualidade da descrição, achámos oportuno partilhar agora com os nossos leitores:Um tufão em formação“De minuto a minuto, a atmosfera torna-se mais e mais pesada, o ar quase irrespirável, sufocante. O suor rola pelas faces, em nenhum ponto da cidade a gente se sente bem. Grande parte da população é atraída para a beira-mar. Até a brisa marítima não satisfaz: é uma brisa quente! Aperta-se o calor cada vez mais, o céu muda de cor a cada instante até tornar-se quase vermelho, refletindo uma claridade metálica. De quando em quando, um raio rasga o espaço, acompanhado do ribombar abafado de trovoadas. Nem uma gota de água, nem um ventinho fresco! A depressão atmosférica é cada vez maior, mais
F A L A R D E N Ó S - X V 194J O R G E A . H . R A N G E Lacentuada, o barómetro registra uma baixa sensível. Sente-se no ar, na água do mar que esquenta, na transformação do colorido do céu, enfim, em tudo, que, em qualquer ponto do globo não muito distante, se está formando um tufão. Se erguermos os olhos para os pontos altos da cidade, para a Fortaleza do Monte ou para a Colina da Guia, ... lá veremos pendurada a bola preta enorme, sinal n.° 1. Não se ouve outra coisa entre nós, senão: ‘O tufão vem aí!’ ‘Se não desviar, cá temos o tufão!’ ‘Estamos precisando de um tufão. Não se respira!’ Essas e outras frases semelhantes ferem continuamente o ouvido. Breve, a bola preta será substituída pelo triângulo, sinal n.° 3, indicativo de que o tufão continua se formando, visando a cidade. Mais ainda do que o sinal dependurado nas colinas, o sinal mais certo, o sinal que não engana, é a aproximação a toda a vela dos inúmeros barcos de pesca que, ao longe, parecem pontos negros na linha do horizonte; pontos esses que vêm crescendo, crescendo até tornar-se mais visível, rumo ao porto em busca de abrigo contra o inimigo certo. Os pescadores, pela larga experiência, pela consciência do perigo, sentindo a aproximação do tufão, – a água do mar se amorna, torna-se lodosa, mais salgada, as ondas crescem de momento a momento, levantando bem altas suas cristas para dar lugar logo em seguida a espuma branca – os pescadores colhem mais e mais vento, as velas incham-se, tornam-se côncavas, e os tancares, os sampanes, as lorchas, os tous, em desafio, tentam vencer a distância que ainda os separa da terra firme. A atmosfera continua pesada, o observatório meteorológico assinala, recebendo a cada instante notícias de Manila, a direção em que vem se aproximando o tufão (sinais n.°s 5, 6, 7 ou 8). A cidade toda se acautela, toma as medidas preventivas. As embarcações aproximam-se mais e mais do porto, enquanto a população, em suas casas, uns amarram as janelas, colocam o ‘pau de tufão’ em cada uma delas (tranca de ferro ou de madeira atravessada nas venezianas), outros retiram os vasos de plantas
F A L A R D E N Ó S - X V195J O R G E A . H . R A N G E Ldos terraços, amarram tudo com cordas grossas e bem seguras para que nada voe, preparam velas ou candeeiros – quando o tufão está sobre a cidade a central elétrica é completamente desligada para evitar curtos-circuitos – tudo preparam de modo a que ninguém tenha que sair da casa. Só sai quem é obrigado a sair. Os navios de pequena e grande cabotagem são avisados a não saírem do porto ou se se encontram em pleno mar a se apressarem sua ancoragem no porto mais perto. Os marinheiros estão cada qual em seu posto munidos de galochas, gabardines, capuzes... Os salva-vidas estão prontos para a primeira chamada; os bombeiros, a polícia, os hospitais com as ambulâncias, todos, todos a postos para qualquer emergência.”No auge da tempestade“O sinal é mudado para nove, indicação de que o tufão está se dirigindo velozmente para a cidade. Os pescadores dão as últimas atenções aos barcos, amarram-nos fortemente, um junto ao outro, na enseada. A praia está quase deserta, vendo-se aqui e acolá um caminhão e algumas pessoas ocupadas em retirar os últimos móveis das barracas de banho. O sinal n.° 9 é substituído pelo n.° 10. A sirene apita incessantemente, anunciando à cidade que o tufão está sobre ela. Todas as repartições públicas e o comércio em geral fecham as portas, os empregados regressam apressadamente a suas casas. Essa mesma sirene adverte a marinha, o exército, a polícia, o pessoal técnico que esteja tudo a postos. Até as avezinhas assustadas procuram refúgio nos beirais dos telhados! Começa a levantar um pé de vento, forte, gradualmente se vai aumentando de intensidade e, de um momento para outro, cai uma chuva torrencial, oblíqua, que tudo inunda! As ruas ficam completamente desertas. O vento e a chuva tomam conta
F A L A R D E N Ó S - X V 196J O R G E A . H . R A N G E Lda cidade. O vento recrudesce de intensidade, sibila, redemoinha, varre tudo o que encontra à sua frente: arranca árvores deixando fora as raízes, derruba muros menos seguros, arrasa casas mais velhas, arranca tabuletas, quebra vidros, derruba linhas telefónicas e elétricas, qual gigante furioso que com os membros possantes destrói tudo na sua passagem! Nem homens nem carros se atrevem a enfrentar a fúria do tufão! As ondas crescem a uma altura gigantesca, inundam grandes áreas à beira-mar; em algumas ruas, a água chega à cintura. Durante cerca de cinco a seis horas, o tufão ruge sem parar; começa a soprar pelo vento norte com intensidade incrível, diminui um pouco com o vento leste, aumenta novamente de violência com o vento sul, decresce com o vento oeste até abrandar por completo. A duração de cada vento é mais ou menos de uma a uma hora e meia. A sirene apita novamente, dessa vez para anunciar à população que o perigo se foi. A chuva vai diminuindo até parar completamente. As ondas recolhem-se ao mar, diminuem gradualmente de altura até entrar novamente em seu leito normal. O céu torna-se claro, limpo de nuvens, o ar puríssimo, a atmosfera agradabilíssima. As ruas, pouco antes desertas, se enchem de curiosos, desejosos de conhecer a extensão de estragos: aqui e ali uma árvore tombada com as raízes de fora; mais além uma família em altos choros junto a sua casa destruída; vidros quebrados aos montes; janelas arrancadas, tabuletas jogadas longe dos lugares primitivos; as ruas cobertas de folhas soltas, de ramos e troncos de árvores; corpos inertes de avezinhas que não lograram encontrar abrigo a tempo; linhas telefónicas e elétricas espalhadas por terra; e até cadáveres boiando à tona de água!... O tufão deixou bem assinalada sua passagem!”11 de Março de 2019
F A L A R D E N Ó S - X V197J O R G E A . H . R A N G E LRevista portuguesa de viagens dedica capa e amplo espaço a Macau“... boas razões para descobrir este pedacinho da China com encanto português.” A edição de Março da “Volta ao Mundo”, que é, para muitos, a melhor e mais completa revista de turismo e viagens publicada em Portugal, dedica a capa e dezoito páginas, correspondentes a cerca de 1/5 da mesma, a Macau, com um artigo, muito bem ilustrado, intitulado “Macau – 20 propostas para descobrir”. A foto da capa é uma vista dos edifícios mais altos do centro da cidade, ao anoitecer, com a apelativa e muito lisonjeira legenda “O destino convidado da BTL 2019, Macau – 20 sugestões para uma das melhores viagens da sua vida”. O artigo abre com a indicação de que Macau é “uma paixão antiga da ‘Volta ao Mundo’ e dos viajantes portugueses”, sendo “o destino internacional convidado da Bolsa de Turismo de Lisboa deste ano”, havendo “só boas razões para descobrir este pedacinho da China com encanto português”. Identificam-se, a seguir, as vinte propostas, acompanhadas de pequenos textos nossos que complementam ou completam os da revista: • Largo do Senado, o centro da cidade, com uma área bonita de cerca de quatro mil metros quadrados, onde estão implantados os edifícios da Santa Casa da Misericórdia e do antigo Leal Senado, uma fonte com esfera armilar e um muito atraente pavimento com calçada portuguesa em toda a extensão, fazendo jus à classificação do centro histórico da cidade como património da humanidade. • Ruínas de S. Paulo, o verdadeiro “ex-libris” de Macau, ponto de passagem obrigatória de muitos milhares de visitantes que ali se juntam todos os dias para apreciarem a impressionante fachada que é o que resta da Igreja da Madre de Deus, destruída por um incêndio em 1835, e a sua monumental escadaria.• Templo de A-Má, anterior à chegada dos portugueses, foi erguido em honra da deusa A-Má, venerada pela população em geral e pelos pescadores em especial. Segundo a lenda, este templo deu o nome a Macau.
F A L A R D E N Ó S - X V 198J O R G E A . H . R A N G E L• Fortaleza da Guia, um antigo posto de defesa situado no ponto mais alto da cidade, o que faz dele um magnífico miradouro. Dentro das suas muralhas situam-se o mais antigo farol da costa meridional da China e a capela de Nossa Senhora da Guia.• Centro Ecuménico Kun Iam, estrutura em forma de uma flor de lótus, encimado por uma estátua da deusa da Misericórdia com vinte metros de altura. Concebido pela arquitecta Cristina Leiria e construído quase ao lado do novo Centro Cultural, já na fase final da administração portuguesa, tornou-se um dos lugares mais procurados por visitantes. • Jardins de Macau. Apesar da alta densidade populacional e da construção urbana foram preservadas importantes zonas verdes que merecem ser visitadas. A revista destaca o jardim chinês de Lou Lim Ieoc, de finais do século XIX, e sugere também o de Camões, onde está a conhecida gruta com o busto do vate, e o da Flora. • Torre de Macau, com 338 metros de altura, oferecendo vistas panorâmicas de 360° sobre a cidade e o delta do Rio das Pérolas. Tem um restaurante giratório, plataforma de observação e o mais alto ponto de bungee jumping do mundo. Na sua base funciona uma estrutura de larga dimensão albergando restaurantes, cinema, lojas, sala de jogos e grandes salões para banquetes e conferências.• Igreja de São Domingos. Fundada por sacerdotes dominicanos no século XVI, é por muitos considerada a mais bonita igreja barroca do Extremo Oriente. Por iniciativa da Diocese, foi instalado numa área contígua um museu de arte sacra. Além das actividades normais de culto, incluindo a mais concorrida de todas as procissões católicas de Macau, que é a de 13 de Maio, dedicada a Nossa Senhora de Fátima, são também realizados concertos no corpo principal da igreja.
F A L A R D E N Ó S - X V199J O R G E A . H . R A N G E L• Museu do Grande Prémio, inaugurado em 1993 para assinalar o 40.° aniversário do Grande Prémio de Macau, que é levado a efeito em Novembro de cada ano. Alberga bólides que fizeram história no circuito da Guia e contém excelente informação sobre este mundialmente conhecido evento que contou com a participação de campeões que ganharam fama, mais tarde, na Fórmula I. • Vila da Taipa, situada numa ilha que conheceu um espantoso desenvolvimento e onde podemos encontrar uma enorme variedade de restaurantes de comida chinesa, macaense, portuguesa e de outras origens. • Museu Marítimo. Contruído mesmo ao lado do velho Templo de A-Má, este museu contém abundante informação sobre os descobrimentos portugueses, as viagens do Almirante Cheng Ho e a vida marítima de Macau, entreposto comercial e cultural por excelência do Ocidente com o Oriente ao longo de séculos. • Praia de Hác Sá, a maior praia de Macau, de areia preta, muito visitada no verão e situada na ilha de Coloane, ainda muito verde e dispondo de boas áreas para actividades ao ar livre.• Casino Venetian de Macau, o maior casino do mundo, instalado num gigantesco complexo hoteleiro, de diversões, feiras e congressos, rodeado de outros enormes centros hoteleiros e de jogos, edificados em novos aterros que ligaram as ilhas da Taipa e de Coloane. • Museu de Macau, concebido pelo arquitecto Bonina Moreno, que o integrou primorosamente na Fortaleza do Monte. Quem o visita recebe uma verdadeira lição de História. É uma das obras emblemáticas da fase final da administração portuguesa.
F A L A R D E N Ó S - X V 200J O R G E A . H . R A N G E L• The House of Dancing Water, o mais grandioso espectáculo de água, luz e som do mundo, coreografado pelo famoso encenador Franco Dragone e sempre com a lotação esgotada. Funciona no complexo City of Dreams. • Hotel e Casino Lisboa, em funcionamento desde a década de 1960 e agora enriquecido com um novo edifício, que é o mais alto da cidade, compreendendo salas de jogo e dezenas de restaurantes, vários dos quais com estrelas Michelin.• A noite de Macau, servida por uma impressionante quantidade e variedade de locais a demandar e descobrir, numa cidade cheia de vida, cor e movimento, dia e noite. • Pastel de nata, um sucesso surpreendente, de origem portuguesa, amplamente divulgado em Macau e através de Macau, sendo o mais procurado aquele que é fabricado em conformidade com a receita de um britânico que lançou o estabelecimento Lord Stow. As outras duas sugestões da revista, que faz uma excelente promoção de Macau, são o Galaxy Resort e o Studio City, com os seus hotéis de luxo, dezenas de restaurantes, salões de diversões e centenas de lojas. 18 de Março de 2019
F A L A R D E N Ó S - X V203J O R G E A . H . R A N G E LNOTA BIOGRÁFICAJorge A. H. RangelPresidente do Instituto Internacional de MacauPresidente do Instituto Internacional de Macau desde Dezembro de 1999, Jorge Alberto Hagedorn Rangel desempenhou funções públicas em Macau, sua terra natal, durante quase 25 anos, treze dos quais como membro do Governo, tendo tutelado as áreas de Administração Pública, Educação, Cultura, Juventude, Desporto e Turismo, bem como o Gabinete Coordenador das Cerimónias de Transferência. Em várias ocasiões foi Encarregado do Governo de Macau, substituindo o Governador nas suas ausências.É casado e tem uma filha, vivendo a família, oriunda de Portugal, há dez gerações em Macau e noutras terras do Extremo Oriente.Fez os ensinos básico e secundário em Macau e os estudos superiores em Lisboa, Cambridge, Bonn e Navarra. Enquanto estudante, dedicou-se intensamente a actividades de juventude, desde as da Mocidade Portuguesa às de associações académicas, tendo participado também em encontros estudantis e juvenis no estrangeiro, e interessou-se pela comunicação social, tendo obtido a classificação de “óptimo” no I Curso Nacional de Jornalismo organizado pelo Sindicato Nacional de Jornalistas, além de ter feito o Curso de Ciências e Técnicas de Informação, em Pamplona (Espanha).Cumpriu o serviço militar nos Açores e na Guiné, onde, como Capitão Miliciano de Infantaria, comandou uma companhia em zona operacional, com vários louvores. Na fase final da comissão militar na Guiné, trabalhou junto do Governador e Comandante-Chefe.Foi eleito deputado à 1.a legislatura da Assembleia Legislativa de Macau (1976-80), onde presidiu às Comissões de Assuntos Constitucionais,
F A L A R D E N Ó S - X V 204J O R G E A . H . R A N G E LDireitos, Liberdades e Garantias e do Regimento e Mandatos e, entre outras funções públicas, foi também presidente da Fundação Macau e director do Turismo e da Comunicação Social. As suas últimas responsabilidades oficiais foram a coordenação da transferência das responsabilidades administrativas da Administração Portuguesa para o novo Governo da Região. Foi também membro do Conselho de Redacção da Lei Básica da Região Administrativa Especial de Macau.No âmbito académico, além de funções docentes, foi o presidente da comissão instaladora do Instituto Politécnico de Macau, de que é agora presidente honorário, e membro das comissões instaladoras do Curso de Administração Pública e da Faculdade de Ciências da Educação da Universidade de Macau. Também presidiu ao Conselho da Universidade de Macau e aos Conselhos de Educação, do Desporto e de Juventude e foi consultor da Universidade Aberta Internacional da Ásia. É professor convidado de várias instituições de ensino superior, sendo também director honorário do Centro de Estudos Comparativos de Culturas da Universidade de Soka (Tóquio). Foi conferencista no Instituto da Defesa Nacional de Portugal, ministrando a matéria “A Bacia do Pacífico, Situação Estratégica e Perspectivas de Evolução”, e integrou o corpo docente do curso de pós-graduação em China Moderna no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da então Universidade Técnica de Lisboa, dando idêntica colaboração docente no Curso de Estudos Chineses (China Moderna e Contemporânea) da Universidade de Aveiro, ocupando-se dos Estudos de Macau.Desenvolveu e mantém ainda uma actividade intensa em organismos internacionais, como a UNESCO, a EROPA (Eastern Regional Organization for Public Administration), de que é membro vitalício, a Universidade das Nações
F A L A R D E N Ó S - X V205J O R G E A . H . R A N G E LUnidas e a Associação das Universidades de Língua Portuguesa (AULP). Foi presidente da EATA (East Asia Travel Association), com sede em Tóquio; presidente regional da PATA (Pacific Asia Travel Association), com sede em Banguecoque, de que é director vitalício, e membro do Conselho Executivo da Organização Mundial do Turismo, com sede em Madrid. Participa regularmente, como conferencista, em encontros internacionais, de que se destaca a Conferência Internacional sobre o Diálogo das Civilizações, que se realizou em Tóquio e Quioto, no âmbito das Nações Unidas, tendo presidido à sessão sobre “Multiculturalismo e Encontro de Culturas”.A actividade associativa ocupa parte importante do seu tempo, tendo sido presidente do Elos Internacional – Movimento da Comunidade Lusíada durante dois mandatos (eleito em São Paulo, Brasil, em 1999, e reeleito em Coimbra, em 2001), presidindo depois ao seu conselho superior. Foi presidente da assembleia geral da Associação Promotora da Instrução dos Macaenses e presidente dos conselhos consultivos da Associação de Gestão de Macau e do Conselho das Comunidades Macaenses, membro dos órgãos sociais do Observatório da Língua Portuguesa e presidente da Direcção Central e do Conselho Supremo da Sociedade Histórica da Independência de Portugal, além de dirigente ou membro de numerosas outras associações de natureza cultural, educativa e social. É académico honorário da Academia Portuguesa de História e membro da Comissão Temática da Língua Portuguesa da CPLP. O Instituto Internacional de Macau, de que é presidente e membro fundador, é uma organização não governamental, com a classificação oficial de organismo de utilidade pública. É também membro dos conselhos de curadores das Fundações Casa de Macau, Jorge Álvares, da Escola Portuguesa de Macau e do Santo Nome de Deus, todas ligadas a Macau, sendo também membro honorário de agremiações macaenses espalhadas pelo mundo.
F A L A R D E N Ó S - X V 206J O R G E A . H . R A N G E LÉ autor de várias obras, com destaque para “Macau e a Comunidade Macaense”, com 16 volumes, dos quais 15 já publicados.Foi agraciado com condecorações e outras distinções nacionais e estrangeiras, entre as quais a Ordem Nacional do Infante D. Henrique (Grande Oficial em 1982 e Grã-Cruz em 1998), a Medalha de Valor (a mais alta distinção honorífica de Macau), a Medalha de Mérito Pedro Ernesto da Cidade do Rio de Janeiro, a Medalha de Mérito da Federação das Associações Portuguesas e Luso-Brasileiras do Brasil, os títulos de membro honorário do Liceu Literário Português e benemérito do Real Gabinete Português de Leitura do Rio de Janeiro, a Comenda Eduardo Dias Coelho, do Elos Internacional, a Medalha Machado de Assis, a Medalha Victor Hugo de Cultura e a Medalha de Mérito Min-On (Tóquio), tendo também recebido o Award of Excellence do Instituto de Filosofia e Estudos Orientais de Tóquio, o Paul Harris Fellow e o título de membro benemérito da organização rotária internacional, a medalha de mérito do Lions International e, ainda estudante, o troféu D. Quixote, do Conselho da Europa, nos Colóquios Internacionais sobre a Juventude e a Europa do Futuro, além de vários doutoramentos honoris causa.