FALAR DE NÓS – XIVMACAU E A COMUNIDADE MACAENSE– ACONTECIMENTOS, PERSONALIDADES, INSTITUIÇÕES, DIÁSPORA, LEGADO E FUTUROJORGE A. H. RANGEL
FALAR DE NÓS – XIV
EdiçãoInstituto Internacional de MacauFicha TécnicaTítulo FALAR DE NÓS – XIV • Subtítulo Macau e a Comunidade Macaense – acontecimentos, personalidades, instituições, diáspora, legado e futuro • Autor Jorge Rangel • Editor Instituto Internacional de Macau • Direcção e execução gráficas ABM Design & Comunicação • Dactilografia Emília Guine • Tiragem 300 exemplares • Impressão e encadernação Castle-Productions Ltd - Decor, Events & Marketing Productions • ISBN 978-99965-59-58-7• Macau, Março de 2021Nota: Edição composta pela série de crónicas e ar tigos publicados no “Jornal Tribuna de Macau”, de 27 de Março de 2017 a 26 de Março de 2018.Patrocínio daFundação MacauApoio daFundação Jorge Álvares
FALAR DE NÓS – XIVMACAU E A COMUNIDADE MACAENSE– ACONTECIMENTOS, PERSONALIDADES, INSTITUIÇÕES, DIÁSPORA, LEGADO E FUTUROSérie de crónicas e artigos publicados no “Jornal Tribuna de Macau”,de 27 de Março de 2017 a 26 de Março de 2018JORGE A. H. RANGELMacau, Março de 2021
F A L A R D E N Ó S - X I V 6J O R G E A . H . R A N G E LÍNDICE13Nota prévia15Notáveis legados, na China e no mundo lusófono, caracterizados em novo livro do IIM27/03/1719Património construído no Brasil, nos PALOP e em Timor03/04/1723Pe. César Brianza e a cultura em Macau após a guerra do Pacífico10/04/1727Estórias de amor em Macau24/04/1731Sugestivo relato da primeira grande procissão de N. Sra. de Fátima em Macau08/05/1735Fátima e Macau – a propósito do Centenário das Aparições15/05/1739O culto de Maria em Macau22/05/1743Grã-Cruz da Ordem da Instrução Pública para Roberto Carneiro29/05/1747Grupo Musical do Club Amigu di Macau em terras portuguesas05/06/1751Olhares amendoados - reminiscências do Extremo Oriente12/05/1755Miscelânea - Escritos da quarta idade...19/06/1759Arte de Ieong Tai Meng no 15.º aniversário da ACIML26/06/1763A oportuna renovação do protocolo de cooperação IIM/ISCSP03/07/17
F A L A R D E N Ó S - X I V7J O R G E A . H . R A N G E L67Pequenos Cantores – um regresso fugaz, emotivo e inolvidável10/07/1771O Colégio D. Bosco – uma escola portuguesa singular no século XX17/07/1775O legado cultural de Macau em novo álbum fotográfico24/07/1779Xangai - o crescimento e a derrocada duma grande cidade internacional31/07/1783Xangai na década de 1940 - os anos do fim07/08/1787Como Silva Mendes via o jogo em Macau há cem anos14/08/1791Quando Silva Mendes pugnava por uma história de Macau21/08/1795Preocupações de Silva Mendes com a estética da cidade 28/08/1799Silva Mendes e a irresistível comparação com Hong Kong04/09/17103Quando Silva Mendes se queixava da falta de hotéis em Macau11/09/17107Curiosas interrogações de Silva Mendes sobre o bolchevismo18/09/17111Apelo de Silva Mendes para salvar Macau num tempo de crise25/09/17115Silva Mendes e as dificuldades no ensino da língua portuguesa09/10/17119Camilo Pessanha na memória crítica de Silva Mendes17/10/17
F A L A R D E N Ó S - X I V 8J O R G E A . H . R A N G E L123Falecimento e funeral de Silva Mendes em Macau23/10/17127Catorze anos de continuada colaboração06/11/17131IIM publica importante estudo em português sobre “a Faixa e a Rota”13/11/17 135Um contributo para a história do Instituto Cultural20/11/17139Maria em lendas e milagres da tradição macaense27/11/17143IIM co-organizou importante conferência em Pequim04/12/17147A Fachada de S. Paulo – um sermão em pedra11/12/17151Notas complementares sobre a Fachada de S. Paulo18/12/17155Saudar o novo ano no velho dialecto macaense03/01/18159Primeiro livro de Adé em patuá foi há 50 anos08/01/2018163Poemas do Nome de Deus, no 80.º aniversário de José Augusto Seabra15/01/18167Evocar Maria Ondina Braga, 15 anos depois22/01/18171No centenário de José Silveira Machado – Um percurso de dedicação a Macau29/01/18175“O patuá em foco no 'The Guardian'” e um sentido adeus a Carlos Coelho05/02/18
F A L A R D E N Ó S - X I V9J O R G E A . H . R A N G E L179Um relato do Ano Novo Chinês em Macau na década de 195012/02/18183Ou-Mun – coisas e tipos de Macau26/02/18187“Famílias Macaenses” em Lisboa05/03/18191O jogo nos anos cinquenta visto por um português12/03/18195Tentar a sorte nos anos cinquenta19/03/18199Bragança acolhe futuro Museu da Língua Portuguesa26/03/18203Nota biográfica
F A L A R D E N Ó S - X I V11J O R G E A . H . R A N G E LTendo este volume sido organizado e publicado em plena pandemia de covid-19, que atingiu muito gravemente o mundo todo, é oportuno dedicá-lo à Administração de Macau e à sua população, das mais variadas origens, pela forma exemplarmente solidária e eficaz como souberam limitar os seus efeitos perniciosos, garantindo a máxima protecção a quantos aqui vivem.
F A L A R D E N Ó S - X I V13J O R G E A . H . R A N G E LNota préviaVolume concluído em ano de pandemiaEsta longa série de artigos e crónicas teve início em Dezembro de 2003, tendo o primeiro volume saído do prelo em Dezembro do ano seguinte, a tempo de ser lançado no Encontro das Comunidades Macaenses nesse ano realizado, já em plena vigência da RAEM, cujas autoridades quiseram assegurar a sua continuidade, reconhecendo a sua importância. Semana após semana, os artigos e crónicas sucederam-se, sendo este já o 14.o volume desta continuada conversa com o leitor sobre diversificados assuntos relacionados com Macau, identificando acontecimentos e referindo personalidades, instituições, o legado, a diáspora e o futuro. Especial atenção tem sido dada, também, a livros, de ontem e de hoje, que têm Macau como tema central ou fonte de inspiração. É verdadeiramente notável a produção editorial em torno desta terra e das suas gentes, bem como da sua memória e da projecção que ela soube alcançar nas vertentes cultural e económica, favorecida pela conjugação feliz de circunstâncias positivas. Enquanto este volume é concluído, outro está já em fase de finalização, representando um contributo, modesto certamente, mas sentido e persistente, para uma melhor compreensão da dimensão humana, social e política de Macau, entreposto privilegiado que a História consagrou e que, como região administrativa especial da China, quer prolongar, no espaço e no tempo, a sua vocação de sempre. Em Dezembro de 2019, foi jubilosamente celebrado o 20.º aniversário do estabelecimento formal da RAEM. O programa comemorativo, com iniciativas marcadas para o primeiro semestre de 2020, ficou prejudicado pela pandemia de covid-19 que ainda se faz sentir no mundo todo, mas não deixámos de trabalhar, mesmo com as limitações que foram, inevitavelmente, impostas por esta imensamente incómoda situação. O Instituto Internacional de Macau executou o seu plano de acção para 2020,
F A L A R D E N Ó S - X I V 14J O R G E A . H . R A N G E Lnum formato revisto e convenientemente adaptado, que incluiu um novo conjunto de edições no qual se integra mais este volume do “Falar de Nós”. Duas décadas volvidas permitem um apropriado balanço do percurso realizado. Novos temas irão, por isso, estimular algumas das crónicas futuras, sempre com o propósito de apreciar, analisar e divulgar matérias que poderão interessar a todos nós. O propósito de continuarmos a escrever sobre Macau permanece. Vamos, portanto, prosseguir. Macau, Dezembro de 2020O autor
F A L A R D E N Ó S - X I V15J O R G E A . H . R A N G E LNotáveis legados, na China e no mundo lusófono, caracterizados em novo livro do IIMNa sequência de dois oportunos e bem recebidos estudos, em que foram analisadas as relações económicas da China com os países de língua portuguesa e se procurou identificar e explicar as respectivas realidades e potencialidades turísticas, este novo livro da colecção “Novos Caminhos”, que será lançado na próxima 6.ª feira, coloca o enfoque no melhor do património construído naqueles países, caracterizando alguns dos mais notáveis exemplos do riquíssimo legado que a UNESCO consagrou como património da humanidade. Não se pretendeu, obviamente, reproduzir a extensa relação de monumentos que mereceram aquele prestigiado galardão, mas apenas seleccionar e reunir, num só volume, alguns dos que são geralmente reconhecidos como os mais emblemáticos e representativos, cabendo a reputados especialistas de várias origens e diferentes formações proceder, de forma tão exaustiva quanto possível e desejável, à sua descrição, a qual é acompanhada sempre de sugestivas e apropriadas ilustrações. Coordenou a edição José Ângelo Lobo do Amaral. ChinaAssim, no que respeita à China, esta aliciante missão foi assumida pelos professores Bai Yunxiang, que nos incentiva a compreender o significado e a dimensão do Exército de Terracota de Xi’an, encontrado no grandioso mausoléu do primeiro imperador da Dinastia Qin, situado no sopé da Montanha Lishan, e Ma Yong, que nos oferece, juntamente com Xu Chao, uma história da Grande Muralha, a mais impressionante estrutura militar nos tempos antigos da China, com quase 22 mil quilómetros de extensão, e um símbolo incontornável da milenar civilização chinesa. São dois gigantescos legados históricos e marcos fundamentais duma das mais opulentas civilizações na longa marcha da humanidade. Estes dois trabalhos convidam o “Este volume de cerca de 480 páginas representa um contributo inegavelmente positivo, do Instituto Internacional de Macau, para divulgar algum desse magnífico património...”
F A L A R D E N Ó S - X I V 16J O R G E A . H . R A N G E Lleitor à descoberta da grande China, de ontem e de hoje, na sua espantosa diversidade e na plenitude da sua riqueza artística e cultural, consolidada ao longo de sucessivas dinastias e reafirmada na modernidade presente.MacauUm capítulo do livro é inteiramente dedicado a Macau, o mais duradouro ponto de encontro entre o Ocidente e o Oriente Extremo, cujo centro histórico foi classificado pela UNESCO, em 2005, como património mundial. Território que foi ao longo de mais de quatro séculos administrado por Portugal e que é hoje uma região administrativa especial da China, a sua vocação tradicional de entreposto privilegiado permaneceu e desenvolveu-se. As pedras da história e o património imaterial que ali se produziu documentam bem o seu percurso e ajudam a entender a renovada missão que lhe foi atribuída como plataforma de cooperação entre a China e o mundo lusófono. Os monumentos incluídos nesse centro histórico, que abrange todo o tecido urbano que vem dos primórdios da cidade, constituem testemunhos visíveis de pluralismo cultural.PortugalA riqueza e diversidade patrimonial de Portugal tornava difícil a escolha dos monumentos para inclusão neste volume dedicado ao melhor do património edificado na China e em países de língua portuguesa. A opção foi, entretanto, facilitada pela apresentação de dois excelentes trabalhos, um dos quais de José Manuel Fernandes, sobre o conjunto do Mosteiro dos Jerónimos, que podemos considerar, sem exagero, “como a mais importante edificação e obra arquitectónica erigida no quadro da
F A L A R D E N Ó S - X I V17J O R G E A . H . R A N G E Lcultura portuguesa dentro e fora de Portugal”. A erudição e facilidade de comunicação do autor permitiram-lhe proporcionar-nos o entendimento do enquadramento, do sentido, da relevância e da dimensão mística do grande monumento que é o Real Mosteiro de Santa Maria de Belém ou dos Jerónimos, como é mais conhecido, bem como o processo de criação estilística, construtiva, tipológica e arquitectónica que se desenvolveu a partir da época de transição do século XV para o século XVI, marcando o período de ouro da expansão. Paula Abrunhosa assina o outro trabalho, sobre o centro histórico do Porto, que a UNESCO adicionou, em Dezembro de 1996, ao seu notabilíssimo rol do património cultural da humanidade, considerando-o “obra-prima do génio criativo do Homem (…), única no seu género e de elevado valor estético”. Na estimulante prosa da autora, o centro histórico “proporciona um cenário de pictórica e quase irreal fantasia, onde diferentes sentidos e linguagens, a convocar épocas passadas, se harmonizam e materializam numa miríade de formas” e, “na linha do horizonte, recortam o perfil inconfundível de um aglomerado urbano esculpido em rendilhada filigrana e suspenso, em imponderável equilíbrio, sobre os declives de um terreno altivo e duro. No perímetro delimitado pela UNESCO, “a comunidade reconheceu as suas especificidades, recuperou qualidade de vida, ganhou consciência da sua importância” e aprendeu a ser parte activa e exigente na defesa do património material e imaterial que lhe pertence.Valorizar o patrimónioAo longo de muitos anos, no desempenho de funções públicas ou no seio de instituições da sociedade civil, pude acompanhar, e até coordenar, múltiplos estudos e projectos respeitantes à preservação e valorização do património. Tive o privilégio de, como membro do Governo de Macau responsável pela Educação, Cultura e Turismo, apresentar formalmente a candidatura do território à condição de membro
F A L A R D E N Ó S - X I V 18J O R G E A . H . R A N G E Lassociado da UNESCO e assistir em Paris, em lindíssima assembleia plenária realizada no grande auditório daquela organização internacional, à sua admissão, aprovada por unanimidade e aclamação. A partir daí, foram inúmeras as oportunidades de participação nas suas reuniões gerais e de comissões especializadas. Entes elas, interessaram-me especialmente as respeitantes a estudos e à classificação do património. A criação do Instituto Cultural de Macau, em 1982/83, dispondo de um Departamento de Património Cultural com capacidade de intervenção muito mais eficaz, facilitou o relacionamento com aquela organização e o acesso a esses estudos. Essa foi uma das minhas primeiras prioridades no Governo. Também no âmbito da PATA – Pacific Asia Travel Association, de que fui presidente regional e membro do conselho directivo (em S. Francisco, Manila e Banguecoque), e da EATA – East Asia Travel Association, com sede em Tóquio, cuja presidência assumi durante dois anos, estas matérias ganharam um lugar prioritário na elaboração dos planos globais e sectoriais de desenvolvimento turístico então formulados. O mesmo direi da Organização Mundial de Turismo, cujo órgão executivo integrei, em Madrid, e onde foi possível conhecer, apoiar e, no melhor sentido, influenciar decisões políticas coerentes e inadiáveis neste domínio, em várias partes do mundo. Por tudo isso, julgo poder afirmar, sem hesitação, que este volume de cerca de 480 páginas representa um contributo inegavelmente positivo, do Instituto Internacional de Macau, para divulgar algum desse magnífico património, através duma nova colecção editorial cujo propósito é a promoção de relações económicas e culturais entre a China e os países de língua portuguesa.O próximo artigo incidirá sobre o património construído no Brasil, nos países africanos de língua portuguesa e em Timor. 27 de Março de 2017
F A L A R D E N Ó S - X I V19J O R G E A . H . R A N G E LPatrimónio construído no Brasil, nos PALOP e em Timor A propósito de “China e Países Lusófonos – Património Construído”, nova edição do Instituto Internacional de Macau (IIM), fizemos no artigo anterior uma apreciação dos trabalhos nela incluídos respeitantes à China, a Macau e a Portugal. Prosseguimos essa apreciação, referindo agora os valiosos contributos sobre o Brasil, os PALOP e Timor-Leste: Património nos PALOPAngola está representada em dois sóbrios e bem documentados textos de José Manuel Fernandes, certamente um dos mais conceituados mestres nesta temática da história da arquitectura de origem lusa, com muito valiosa obra publicada. A sua escolha recaiu em M’Banza Kongo, antiga S. Salvador do Congo, “a desaparecida, original e única cidade de origem trecento-quatrocentista no interior do território africano, desenvolvida nesta época sob influência europeia”, e no conjunto de Nova Oeiras, “o resíduo de uma infra-estrutura inovadora e pioneira na sua época (o período Pombalino), representando o resultado de uma intervenção isolada mas significativa, com origem no consulado do Governador Sousa Coutinho, representante da linha reformista e transformadora do Marquês de Pombal (então Conde de Oeiras) em Angola”.A cidade de Santiago, antiga Ribeira Grande ou Cidade Velha, preenche o capítulo reservado a Cabo Verde. Pela pena de Francisco Monteiro dos Reis Pires, partimos à descoberta da velha urbe que é “uma referência no universo urbanístico português, não pela sua dimensão física, pois está longe de alcançar a escala de monumentalidade de outros núcleos da expansão, mas pelo papel que desempenhou na ligação entre espaços maiores”, para tal contribuindo o facto de “ter sido um lugar de encontro de raças e culturas, berço da primeira sociedade crioula mestiça e um lugar de partida para a difusão dessa cultura através do Atlântico”. A UNESCO declarou-a, em Junho de 2009, património da humanidade. O artigo explica a evolução urbana, identifica “Este novo livro da colecção ‘Novos Caminhos’ coloca o enfoque no melhor do património construído naqueles países.”Da nota introdutória
F A L A R D E N Ó S - X I V 20J O R G E A . H . R A N G E Los principais edifícios deste conjunto arquitectónico e refere as acções mais relevantes levadas a efeito com vista a assegurar a sua correcta preservação. Cacheu, a primeira feitoria portuguesa implantada entre os rios Casamansa e Grande, em terras da Guiné, nas derradeiras décadas do século XVI, é objecto de um elaborado estudo de Ana Vaz Minheiro, que recorda, em abordagem historiográfica, as origens e a evolução urbana da localidade, bem como os seus períodos de ascensão e de declínio. Situada a 25 quilómetros da foz do rio que tem o mesmo nome (e que inicialmente se chamou Rio de S. Domingos), Cacheu foi o ponto de partida para a fixação dos primeiros portugueses naquelas paragens africanas, depois do reconhecimento da costa da Senegâmbia pelos navegadores a mando do Infante D. Henrique. Constitui, com o seu vistoso forte e a capela de Nossa Senhora da Natividade, um monumento incontornável que importa valorizar. O recurso a testemunhos e relatos de cronistas e historiadores enriquece a exposição da autora. De Moçambique, a “jóia” apresentada é a ilha do mesmo nome, cuja história, desde que Vasco da Gama ali aportou em 1498, quando já seria uma povoação habitada por árabes e negros, nos é contada por José Manuel Fernandes e Maria de Lurdes Janeiro, que também fazem o enquadramento geográfico e o levantamento do original traçado urbano deste lugar admiravelmente singular. “A Ilha de Moçambique constituiu-se paulatinamente em ‘paisagem cultural’ única no mundo, pelo cruzamento, belo e equilibrado, das múltiplas culturas que encetou. Continua actualmente exibindo o seu belíssimo conjunto histórico edificado, completado por uma portentosa dimensão cénica, e pela vivência das suas gentes. Esta é a sua força, que permanece intocada, apesar dos acidentes da história”. Estas palavras, vigorosas e lúcidas, dos autores resumem bem as características deste impressionante monumento da memória lusa na costa ocidental do continente africano, classificado pela UNESCO como património da humanidade em 1991. “Estudada pela sua história, pelo manancial antropológico e
F A L A R D E N Ó S - X I V21J O R G E A . H . R A N G E Larqueológico, pelo repositório artístico e cultural, a Ilha é única também na capacidade que tem de suscitar a curiosidade do visitante, a vontade de participar na sua vida e de empenho na sua sobrevivência, seja através da divulgação dos seus valores eméritos, seja pelo investimento em acções de utilidade no seu actual processo de lento ressuscitar”. O estudo que este volume integra, sobre o património edificado de São Tomé e Príncipe, é da autoria de Gerhard Seibert, da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira. Nele é dada especial atenção à Roça Sundy, um conjunto de cerca de quatro hectares, numa altitude de 160 a 170 metros, edificado em zona intensamente arborizada da Ilha do Príncipe. “É uma das maiores e mais emblemáticas das antigas plantações de São Tomé e Príncipe. A sua fama não se deve apenas ao seu passado como grande produtor de cacau e copra, mas também ao astrofísico britânico Arthur Stanley Eddington que, em 1919, ali realizou uma expedição científica para comprovar a teoria geral da relatividade”. A roça faz parte de um ambicioso projecto de turismo ecológico e agricultura sustentável.No Brasil e em Timor-LesteÉ vastíssimo o legado luso no Brasil. José Roberto Teixeira Leite colaborou connosco na apresentação de Ouro Preto, com oportunas referências a outras surpreendentes localidades de Minas Gerais, como Vila Rica, Sabaré, Mariana, Diamantina e Prados, velhas urbes mineiras onde se verificou um “extraordinário surto civilizatório, com o florescimento da arquitectura, da escultura, da pintura, da música e da literatura”, e a Igreja de São Francisco da Bahia, que, em conjunto com o seu convento, é, por muitos, tida como uma das mais lindas do mundo. O autor, em dois textos enormemente estimulantes, aproveita também para caracterizar o barroco luso-brasileiro, “menos monumental, mais singelo, menos rebuscado, mais despojado que o hispano-americano”, concluindo que “é justamente esta sobriedade, este senso da medida,
F A L A R D E N Ó S - X I V 22J O R G E A . H . R A N G E Lque lhe dá originalidade e força”, sem esquecer que, no Brasil, o barroco, “a princípio aristocrático, passou por gradativo processo de ‘mulatização’, pois a mão de obra disponível era muitas vezes negra, e quase sempre mestiça”, acabando esta ‘mulatização’ por emprestar “às manisfestações artísticas brasileiras do Séc. XVIII encanto peculiar, tornando-as uma variedade dialectal da linguagem original portuguesa”. Para além das praias de sonho, do samba, do Carnaval e de outros “encantos mil”, é este Brasil maravilhoso, do legado luso-tropical, que quer ganhar muito maior divulgação.Em último lugar, temos um artigo, sustentado em abundante bibliografia, da investigadora Isabel Boavida sobre “A Urbanização Portuguesa de Díli”, capital e núcleo mais populoso de Timor-Leste, onde se verifica uma maior concentração de elementos arquitectónicos representativos do longo período da administração portuguesa. A autora descreve a evolução urbana desde o estabelecimento da capital na baía de Díli, em 1789, até aos nossos dias. “Com o gradual domínio territorial, o estabelecimento de origem militar e portuária adquiriu maturidade como sede administrativa, desenvolvendo-se como centro de um agregado de baixa densidade, composto por várias zonas, que se formaram em função de assentamentos de comunidades, locais e não locais, e da instalação de equipamentos de apoio à actividade da administração”. Seguiram-se a devastação resultante da Guerra do Pacífico e da ocupação japonesa, a reconstrução de acordo com planos de urbanização do Estado Novo, os períodos conturbados vividos após a declaração da independência em 1975, a anexação militar e política pela Indonésia e, finalmente, o jubiloso reconhecimento de Timor-Leste como país livre e independente. Este livro, agora lançado, tem merecido as melhores referências, podendo o IIM regozijar-se com o inegável sucesso alcançado. 3 de Abril de 2017
F A L A R D E N Ó S - X I V23J O R G E A . H . R A N G E LPe. César Brianza e a cultura em Macau após a guerra do Pacífico“A música, mais do que um peso, foi desde sempre a grande ‘paixão’ que ele sentia fortemente como missão educativa. Além das tarefas que desempenhou regularmente no Colégio, distinguiu-se como Mestre da Banda da Polícia e como professor de piano muito conceituado na Academia de Música S. Pio X, até ao último dia da sua vida.”Pe. Jorge Falcão, no elogio fúnebre recordado por João Guedes no livro Com o título “César Brianza – a missão, o coro e o sonho da China”, acaba de sair do prelo mais um volume da colecção “Missionários para o Século XXI”, do Instituto Internacional de Macau. O seu autor é o conhecido jornalista João Guedes, que já havia escrito “Pe. Áureo Nunes e Castro – Missionário, músico e pedagogo”, da mesma colecção, que compreende agora dez livros, todos eles dedicados a uma plêiade de homens da Igreja que, ao longo do século passado, ajudaram a preparar este território para o dealbar do século XXI. “Foram figuras excepcionais em Macau radicadas, grandes nas obras, como no quase anonimato de uma humildade que é expressão de um verdadeiro sentido ancilar da vida e do destino”, como foi oportunamente referido no acto de apresentação desta colecção editorial iniciada em 2008.A música e a docência foram as actividades mais relevantes a que se entregou César Brianza, missionário salesiano nascido em Chiari, na Lombardia (Itália), em Agosto de 1918, e radicado no Extremo Oriente desde 1935, primeiro em Hong Kong e Macau e depois em Xangai, que já era então uma das maiores e mais importantes e desenvolvidas cidades do mundo, de 1938 a 1949, onde concluiu o curso de Teologia e foi ordenado padre, e de novo em Hong Kong e Macau, após a entrada vitoriosa dos comunistas em Xangai, em Maio de 1949. O ambiente cultural de MacauO autor sintetizou assim o ambiente cultural de Macau quando o Pe. César Brianza aqui chegou depois de abandonar definitivamente Xangai:
F A L A R D E N Ó S - X I V 24J O R G E A . H . R A N G E L“César Brianza chega a Macau num momento de crise da cultura. Os anos da Guerra (1939-45) tinham transfigurado Macau. Tendo-se então transformado num centro de refugiados de toda a China, a colónia portuguesa acolheu durante esse período artistas das mais diversas áreas. No âmbito da música as grandes orquestras que animavam a vida cultural de Xangai e de outras grandes cidades da China mudaram-se com armas e bagagens para a colónia portuguesa. Este movimento seria reforçado a partir do Natal de 1941, data da ocupação de Hong Kong pelos japoneses, o que fez com que se registasse um êxodo semelhante dos elementos mais destacados do panorama da música erudita e ligeira, do teatro e do espectáculo em geral da vizinha colónia britânica.Com a reposição da normalidade que começou a ter lugar a partir de 1946, outro êxodo se viria a registar, mas este em sentido contrário, ou seja os grandes intérpretes culturais que tinham animado as ‘matinés’ e ‘soirées’ dos tempos da guerra deixavam inoxoravelmente Macau. Uns regressavam aos seus pontos de origem, nomeadamente a Hong Kong que rapidamente se recompunha da tragédia da ocupação nipónica. Alguns, voltavam a Xangai confiados que a grande metrópole de outrora voltaria a alcandorar-se ao brilho de antes da guerra. No entanto a maioria desiludia-se das promessas asiáticas e rumava à Europa, aos Estados Unidos da América, ou à Austrália. Todas tinham, um destino, mas ninguém ganhara raízes suficientemente sólidas para permanecer. De facto, Macau era um território demasiado pequeno para poder manter uma classe artística profissional fosse em que domínio fosse. Finda a guerra a música e o teatro passavam de novo a depender inteiramente de mecenas de ocasião e do empenho de amadores mais ou menos dotados. Depois disso tudo foi definhando o que levava mesmo o escritor Henrique de Senna Fernandes a afirmar que a vida cultural macaense morreu nos anos 50. O
F A L A R D E N Ó S - X I V25J O R G E A . H . R A N G E Lpanorama não seria tão drástico como o escritor afirmava, mas não se encontrava muito longe disso. Salvava a situação Pedro José Lobo, com o seu ‘Círculo Cultural de Macau’ que promovia iniciativas em várias áreas. Assim surgem os debates, palestras e conferências em torno dos grandes temas que animavam a vida cultural europeia e americana. Pedro Lobo financiava também a edição de livros e era já conhecido na cidade como o mecenas. Sob a sua protecção (...) nasce pouco depois a delegação em Macau do ‘Círculo de Cultura Musical de Portugal’ que trouxe até cá grandes artistas nacionais e estrangeiros. Sequeira Costa, Silva Pereira, Varella Cid, Hellen Traubel, Catarina Heinz e António David foram apenas alguns dos que aqui actuaram. Seja como for, porém, as iniciativas promovidas por Pedro Lobo e o seu ‘Círculo Cultural’ não passam de eventos esporádicos ainda que meritórios que não chegavam para levar verdadeiramente a arte à população em geral de um modo contínuo e abrangente.No âmbito da educação musical, esteio e pólo de atracção de músicos, o ambiente era desolador. Nesse âmbito a educação com algum grau de estruturação limitava-se quase estritamente ao Seminário de S. José, já que o ensino oficial se circunscrevia às aulas rudimentares de solfejo do Liceu.”Um movimento restauradorFoi nesta conjuntura que surgiu a ideia de se criarem delegações do Conservatório Nacional de Música em territórios ultramarinos, por iniciativa do professor e reitor Ivo Cruz. Essa ideia foi abraçada de imediato em Macau pelo Bispo D. João Ramalho.“É que a Igreja macaense estava determinada a fazer elevar o nível do ensino e da cultura
F A L A R D E N Ó S - X I V 26J O R G E A . H . R A N G E Lmusical sacra aos altos índices que tinha conhecido no Seminário de S. José sob a direcção de notáveis maestros, principalmente italianos, que tinham formado bandas e orquestras cuja fama perdurou na memória por muitas décadas.”Como bem lembrou João Guedes, “o forte empenhamento, que pode dizer-se político, da Igreja de Macau na aplicação dos conceitos da encíclica ‘Motu Próprio’ do Papa Pio X, que envolveria o Pe. César Brianza mas não só inseria-se num movimento restaurador que vinha detrás. Esse movimento restaurador caracterizou-se por um vínculo particularmente estreito com Roma, representando sob determinados aspectos o culminar de desenvolvimentos de séculos que marcaram para a igreja católica essa zona do globo, nomeadamente aquela que levou à gradual predominância da acção missionária ao serviço da Propaganda Fide em esfera do Padroado Português do Oriente.” Neste contexto, distinguiram-se, entre outros, o salesiano austríaco Wilhelm Schmid, o Pe. Áureo de Castro, o sacerdote e depois bispo D. Domingos Lam Ka-Tseung e César Brianza, cuja obra e percurso de vida serão objecto de apreciação nos próximos artigos, em que não deixaremos de recordar o Colégio D. Bosco e os seus inesquecíveis Pequenos Cantores.O livro de João Guedes será apresentado no próximo dia 17 num grande convívio organizado conjuntamente pelo Instituto Internacional de Macau e por antigos alunos do Colégio D. Bosco. 10 de Abril de 2017
F A L A R D E N Ó S - X I V27J O R G E A . H . R A N G E LEstórias de amor em MacauQuem leu os romances, contos e outros escritos de Maria Helena do Carmo sabe que os seus conteúdos se revelam cada vez mais apelativos, pelos temas escolhidos e pela capacidade de comunicação da autora. Depois dos romances históricos “Uma Aristocrata Portuguesa no Macau do Séc. XVII – Nhônha Catarina de Noronha” (2006), “Mercadores de Ópio – Macau no tempo de Qianlong” (2012), “A Ilha do Ouro, viagem de Emanuel Godinho de Herédia à Índia Meridional” (2014) e “Bambu Quebrado” (2014), esta professora e escritora, intensamente ligada a Macau, onde desempenhou funções docentes e concluiu o mestrado em Língua e Cultura Portuguesa – variante de História, oferece-nos agora doze contos, reunidos num volume que o Instituto Internacional de Macau (IIM) acaba de publicar e cujo lançamento teve lugar em singela e bonita cerimónia realizada no seu auditório, na semana passada.Estes contos, de agradável leitura, contêm histórias de amor enquadradas em conjunturas político-sociais muito bem caracterizadas, que vão do século XVI ao final do século XX, a que se juntou uma nota final sobre o tempo presente de Macau, como região especial da China. Personagens e históriasNum sucinto prefácio, a autora explica as motivações que inspiraram a divulgação destes contos, cujas personagens são verídicas, havendo “um fio condutor a ligar figuras (neles) referenciadas”:“A ideia de escrever sobre histórias de amor em Macau ganhou consistência após entrarmos no ano Lunar da Cabra, do horóscopo chinês, com início a 19 de fevereiro de 2015. A cabra simboliza um ano pacífico, segundo dizem os entendidos na matéria, por resultar da combinação do caule celeste Yi, do elemento madeira na sua vertente Yin, e do ramo terrestre Wei, conhecido por Yang, presságio de boa harmonia. As “O encadeamento destes contos desenrola-se ao longo de quatro séculos da permanência portuguesa em Macau, permitindo o enquadramento histórico de cada um acompanhar a evolução do espaço físico e a orgânica administrativa do território, com relevantes transformações na última década do século XX.”A autora do livro, no prefácio
F A L A R D E N Ó S - X I V 28J O R G E A . H . R A N G E Lforças energéticas Yin e Yang são dois princípios básicos na formação do cosmos, cuja dinâmica alterna o poder de uma sobre a outra, após a expansão da mais forte, para que se mantenha sempre o equilíbrio. Este trabalho procurou realçar a conjugação dos elementos Yin e Yang na magia do feminino e a sua influência no universo masculino. Os contos deste livro incidem em personagens verídicas, tendo algumas figuras femininas conquistado um lugar na História, por se distinguirem pela força do seu amor, ou por ascenderem a um meio social que lhes era vedado. Sendo elas o “elo mais fraco” perante as leis dos homens, quantas vezes o “elo mais forte” na luta pela sobrevivência, merecem toda a nossa atenção. Algumas estórias são inéditas. Outras, já divulgadas em romances de amor, que o destino concretizou ou não num final feliz, são aqui tratadas numa abordagem sucinta. Retratam estados de alma, imposições sociais ditadas por leis consuetudinárias, locais ou imperiais, que datam desde os primeiros contactos dos europeus com o Extremo Oriente, até ao final do primeiro milénio. Ao longo desses anos muitos casos de amor floresceram e morreram na cidade de Santo Nome de Deus de Macau, felizes ou não correspondidos, uns legais e outros ilícitos, dando muitos deles origem à população macaense. Senhoras ou escravas, diferentes apenas no estatuto, aceitavam as normas sociais instituídas, sendo raras as que reagiam à marcha do seu destino contra os preconceitos da época. Certos amores resultaram em casamento, mesmo quando a lei o proibia, sendo a maioria das relações uma simples entrega, sem qualquer vínculo sentimental.”A sessão no IIMApresentou a obra, com a vivacidade e a competência que lhe são reconhecidas, a professora e escritora Celina Veiga de Oliveira, autora de vasta bibliografia sobre Macau e a presença de Portugal no Oriente e que, ainda recentemente, lançou mais
F A L A R D E N Ó S - X I V29J O R G E A . H . R A N G E Lum livro seu, intitulado “Carlos d’Assumpção – Um Homem de Valor”. Nesta obra é evocada a memória do ex-presidente da Assembleia Legislativa de Macau, tendo a edição sido assumida pelo Albergue SCM, com a colaboração de várias outras entidades com sede em Macau e em Portugal. Sintetizados os conteúdos desses contos – “Chinesas Cristãs”, “Europeia Escritora”, “Nhónha Navegante”, “Menina Mulher”, “Prima Predilecta”, “Serva Senhora”, “Americana Aventureira”, “Rosa Revoltada”, “Teresa de Trento”, “Bicha Branca”, “Telma Traída” e “Elsa Extremosa” –, coube a Maria Helena do Carmo explicar as motivações que marcaram o seu percurso nos caminhos da escrita, ao mesmo tempo que homenageou Manuel Teixeira, “um amigo a quem devo o interesse pelo romance histórico a partir das inúmeras pistas que deixou na sua vasta obra”, e Henrique de Senna Fernandes, “professor e romancista que retratou a sua cidade com mestria e sensibilidade”.Como nota final, quis a autora deste livro recordar que “para os escritores, a História dos portugueses pelo Extremo Oriente encontra-se recheada de episódios dos mais variados, que vão do drama ao romance, da tragédia à epopeia, de sucessos dos que souberam vencer e dos que não foram bafejados pela sorte. Teriam sido inúmeros e fascinantes os casos de amor através dos tempos, dos quais só conhecemos aqueles que os manuscritos, atas e ofícios, ou a literatura de viagens, fizeram chegar até nós”. E conclui que, nestes tempos conturbados, “Macau continua a ser um lugar maravilhoso, distinto de qualquer outro neste planeta azul”. Além de deixar expresso o agradecimento aos amigos e às instituições que contribuíram para alargar o seu conhecimento, entre as quais o Arquivo Histórico de Macau, o Instituto dos Arquivos Nacionais da Torre do Tombo, a Biblioteca Nacional de Portugal e os centros de documentação da Fundação Casa de Macau e do Centro
F A L A R D E N Ó S - X I V 30J O R G E A . H . R A N G E LCientífico e Cultural de Macau em Portugal, destacou a colaboração do IIM e manifestou o desejo de ver a sua colecção de contos chegar “a todas as comunidades macaenses dispersas pelo mundo e lhes permita melhorar o conhecimento das raízes e da multiplicidade de eventos históricos que sustentam vivos os valores da sua identidade”.Parabéns a Maria Helena do Carmo por mais uma obra bem conseguida. Como foi salientado na sessão de lançamento, ficamos desde já à espera do anúncio do próximo livro.Entretanto, a autora publicou, em 2016, um roteiro turístico com a história do Concelho da Lagoa, cidade algarvia onde reside e ensina História na Academia Cultural Sénior. O título que escolheu para este importante e bem recebido trabalho de promoção e divulgação foi “No Coração do Algarve”. Visita regularmente Macau, juntamente com o marido, Dr. Feliciano Flor, que desempenhou funções de assessoria jurídica no território, ficando ambos ligados para sempre a esta terra onde criaram memórias e deixaram muitos amigos. 24 de Abril de 2017
F A L A R D E N Ó S - X I V31J O R G E A . H . R A N G E LSugestivo relato da primeira grande procissão de N. Sra. de Fátima em Macau“A devoção a N. Sra. de Fátima foi introduzida em Macau em 1928 pelo P. Manuel Joaquim Pintado, que a inaugurou na igreja de S. Domingos, onde hoje tem o seu centro.”Pe. Manuel Teixeira, “Macau e a Sua Diocese”, vol. IX, 1969 No volume IX da sua obra monumental “Macau e a Sua Diocese” (Tipografia da Missão do Padroado, Macau, 1969), o Pe. Manuel Teixeira atribuiu ao Pe. Manuel Joaquim Pintado a introdução em Macau da devoção a N. Sra. de Fátima em 1928, realizando-se a primeira procissão logo no ano seguinte, da Igreja de S. Domingos até à Penha, na tarde de 13 de Maio. Esta iniciativa teve continuidade até hoje, com a participação de muitos milhares de fiéis.A escritora Maria Anna Acciaioli, esposa do Governador Artur Tamagnini Barbosa e autora do livro de poemas de inspiração oriental “Lin Tchi Fá – Flor de Lótus”, deixou-nos, em 1930, esta bonita e sentida descrição da procissão: “Entardecia e lá no alto da colina da Penha acendiam-se as primeiras luzes... luzes de festa. Iluminada a capela branca, grinaldas de lâmpadas brilhavam, fazendo realçar os símbolos queridos da nossa terra. As cinco Quinas, a vermelha Cruz de Cristo – bela evocação de Portugal longínquo – que os seus braços estendendo por sobre os mares foi erguer os seus eternos símbolos de glória e de lá no cimo da Igreja de Penha lá no alto, para que os nossos olhos saudosos, erguendo-se para Deus, a eles se prendessem também.Junto aos muros do adro da igreja vão-se encostando os que primeiro chegam ansiando por ver o espectáculo belo que pressentem. Curiosos ou crentes? Deus sabe. São almas que esperam, talvez, o momento de se sentirem tocadas pela graça divina, são pelo menos almas sequiosas de beleza e de impressionismo. Anoitece. No céu azul-escuro surge uma luzinha trémula: a primeira estrela e a multidão aproxima-se. Já vem de longe, percorrendo as ruas em passo vagaroso e lento, orações nos lábios e naqueles corações que em fé se consomem, porque a Deus se prenderam. É linda a procissão, vista do alto, em longa e interminável fila.
F A L A R D E N Ó S - X I V 32J O R G E A . H . R A N G E LAinda mal se distingue ao longe a nuvem branca do andor e já perto de nós sobem as escadas que conduzem ao adro os pequeninos chineses que à frente caminham, olhares brilhantes e sorrisos alegres. Seguem-nos os adolescentes, os que ignoram ainda as dores que a vida lhes reserva, e vêm sorrindo também. Atrás deles, com seu ar modesto, as pequeninas da Sta. Infância, fatos domingueiros, largos chapéus de palha, mas os seus olhos tristes de abandonados têm hoje uma expressão alegre. Vêm subindo, velas a arder nas mãositas frágeis e as escadas enchem-se de crianças, luzes, sorrisos castos. Erguidos ao alto pendões de seda branca baloiçam por sobre um mar de cabecitas infantis e a ascensão pela colina continua em massa, cada vez mais densa, multidão compacta e cerrada subindo em silêncio, numa ordem perfeita, num sentimento uníssono de respeito e crença. Como um bando de pombas, as pequenitas de ‘Sta. Rosa de Lima’, todas de branco, véus de tule esvoaçando como se asas fossem, trazem círios a arder e vêm subindo numa auréola de luz. E agora são as ‘Filhas de Maria’, escondendo os seus cabelos negros, cabelos de oiro pálido sob véus de um azul claro e transparente. Sobem iluminados pela luz dos círios, de olhos baixos e corações erguidos. Atrás delas, moços e velhos, por amor, promessa ou gratidão, lá vão subindo em silêncio, velas acesas, esquecidos da terra nesta hora de fé. No seu andor pequenino, envolta numa nuvem branca, linda e branca, como se da espuma surgisse, a Virgem sorri, num sorriso magoado de amor e perdão. De branco ainda as donzelinhas que trazem o andor, devagarinho, no visível cuidado, no carinho infinito de quem tem à sua guarda um tesouro sagrado. Subidas as escadas o andor da Virgem descansa sob um arco de luzes fulgurantes e, lá do alto, a linda imagem da Senhora de Fátima contempla docemente os milhares de penitentes que a acompanharam e que em voz íntima lhe suplicam um conforto para os seus males, um amparo para as suas almas, uma graça Divina.
F A L A R D E N Ó S - X I V33J O R G E A . H . R A N G E LOs cânticos religiosos, as evocações à Virgem sobem ao Céu na noite calma. A luz escondendo-se ilumina apenas uma nuvem, que, transparente, parece ter-se fixado como um doce nimbo de luz suave, por sobre o andor. No mar ascendem-se luzinhas avermelhadas, são as dos barcos de pescadores, de longe as alcantiladas montanhas da China recortam-se vagamente, num fundo de cenário que é belo, porque é a própria natureza a mostrar-nos o poder supremo do Criador. Contemplativa, a nossa alma goza esse momento de beleza, mas uma voz sonora desperta-a. Impetuosa e forte, vinda do coro da Igreja, ela conta aos milhares de peregrinos a história de Nossa Senhora de Fátima. E a nossa memória evoca: Há 13 anos, num recanto quase ignorado do nosso Portugal, duas pastorinhas e um pastor, criancinhas ainda, viram, numa clara manhã de um dia 13, por sobre uma velha oliveira abandonada, uma Virgem linda com um rosário na mão, que lhes sorria docemente. E a história das criancinhas não era um imaginário conto de fadas, uma sugestão de fé, uma estranha manifestação de loucos visionários. Na ingenuidade pueril das suas almas ignorantes, as crianças contavam apenas um facto que os seus olhos surpresos haviam presenciado e, das suas palavras, das suas atitudes, da expressão sincera dos seus olhos a verdade sobressaía. Uma verdade imensa que calou forte nas suas almas crentes e abalou e converteu o cepticismo dos descrentes. Verdade tão grande que, treze anos volvidos, neste recantozinho português do Extremo Oriente conseguiu levar e unir, sentimento único de fé e de amor, milhares de portugueses e de chineses católicos em peregrinação, em êxtase, até ao alto da Ermida da Penha para ajoelhar ante a imagem da Senhora de Fátima, a Virgem que há treze anos abençoou Portugal com a sua doce aparição na, então, ignorada Cova de Sta. Iria.Da janela do coro da Igreja, D. José, Bispo de Macau, numa torrente de palavras fluentes e convictas, pede a gratidão das nossas almas para a doce e incansável protectora de Portugal e recorda-nos Aljubarrota, Vila Viçosa, Nazaré, todos esses lugares de fé patriótica e de crença e mostra-nos, como suprema dádiva nestes
F A L A R D E N Ó S - X I V 34J O R G E A . H . R A N G E Ltempos de prosaísmo e materialismo, a divina aparição da Virgem aos pastorinhos na pequena aldeia de Fátima. Em silêncio, o povo escuta agora episódios vários de fé, de amor Divino, abnegações supremas: Mães que conduzem em êxtase pela própria mão os filhos ao suplício, mártires do cristianismo, e que sorriem, certas da recompensa divina para os filhos do seu coração amargurado. A nossa alma escuta em silêncio, sofre. Sente-se infinitamente pequena e fraca, impotente ante os exemplos sublimes, e chora. Mas a Virgem, no seu andor, sorri erguendo-a devagarinho em suas mãos suaves, envolve-a no seu manto de ternura e acalma-a.É que para aqueles que sofrem, o olhar da Virgem é como o olhar tranquilo e bom da nossa Mãe. No seu regaço as nossas dores acalmam, olhando a Virgem a nossa alma desprende-se da terra, sobe, paira lá tão alto que as dores humanas não conseguem atingi-la. Bendita seja Maria entre as mulheres, bendita seja no Céu velando por elas.”A iniciativa do Pe. Manuel Pintado, que era o orientador da Catequese na Igreja de S. Domingos, teve imediato apoio das autoridades eclesiásticas locais e a adesão dos católicos. Por altura da primeira procissão realizada, o Pe. António Maria Alves, S.J. prometeu que a imagem de N. Sra. de Fátima seria levada todos os anos de S. Domingos à Penha. Assim aconteceu até hoje. 8 de Maio de 2017
F A L A R D E N Ó S - X I V35J O R G E A . H . R A N G E LFátima e Macau – a propósito do Centenário das Aparições“Precedida de novena, celebra-se esta festa a 13 de Maio e é hoje uma das maiores e mais devotas de Macau.”Pe. Manuel Teixeira, vol. IX de “Macau e a sua Diocese”, 1969A visita do Santo Padre a Fátima, a 12 e 13 de Maio, foi um impressionante acontecimento cívico-religioso que mobilizou as atenções de muitos milhões de fiéis espalhados pelo mundo, dos quais mais de novecentos mil se concentraram no Santuário e nas cercanias da Cova da Iria. A celebração do Centenário das Aparições deu também um significado especial a esta grande festa dos católicos de Macau, que mais uma vez acompanharam a imagem de Nossa Senhora de Fátima da Igreja de S. Domingos à Ermida da Penha, repetindo jubilosamente um ritual aqui iniciado nos últimos anos da década de 1920.Os locais de cultoComo recordámos no artigo anterior, foi na Igreja de S. Domingos que o Pe. Manuel Pintado iniciou em Macau, em 1928-29, o culto de Nossa Senhora do Rosário de Fátima. Missionários locais levaram depois esta devoção às missões portuguesas de Singapura e Malaca e a outras localidades do Extremo Oriente.A Congregação de Nossa Senhora de Fátima foi inaugurada a 13 de Dezembro de 1929 pelo Pe. António Roliz, sendo substituído, como sacerdote responsável, pelo Pe. António Maria Alves, S.J. após o seu falecimento em Dezembro de 1933.Ainda em 1929, por iniciativa do Pe. José António Augusto Monteiro, foi erguida a primeira capela dedicada a Nossa Senhora de Fátima, no Bairro Tamagnini Barbosa, onde está agora a Paróquia de Nossa Senhora de Fátima, fundada por provisão de 10 de Agosto de 1965. Uma airosa e moderna igreja, concebida pelo arquitecto macaense A. M. Pacheco Jorge da Silva, tomou o lugar da capela em Dezembro de 1968, sendo a construção confiada ao conhecido artista italiano Oseo Acconci, radicado em Macau. A imagem de Nossa Senhora de Fátima, que se encontra no seu nicho nesta igreja desde Fevereiro de 1968, foi oferecida pela Diocese de Leiria.
F A L A R D E N Ó S - X I V 36J O R G E A . H . R A N G E LO Pe. António Maria Alves fundou, em 1935, a Residência de Fátima da Província Portuguesa da Companhia de Jesus, junto à Igreja de Santo Agostinho, sendo a capela dedicada a Nossa Senhora de Fátima. No jardim, ao lado da imagem do Sagrado Coração de Jesus, foi colocada outra da Virgem de Fátima. As madres angelinas construíram, em 1950, um monumento a Nossa Senhora de Fátima, com os três pastorinhos, no jardim do seu Lar de Nossa Senhora da Fátima. Também em 1950, o comando militar instalou uma Gruta de Nossa Senhora de Fátima no aquartelamento de Mong Há, junto da qual foi colocada uma lápide com estes dizeres: “Esta Imagem de Nossa Senhora de Fátima foi entregue na Cova da Iria às forças expedicionárias que, em Julho de 1949, saíram do Tejo, e oferecida a todas as guarnições militares que hão-de manter com Fé e Heroísmo o Santo Nome de Deus e da Pátria nesta cidade de Macau”. Duas outras grutas idênticas foram inauguradas, em 1953, no quartel da Ilha Verde e na Carreira de Tiro da Taipa. Imagens de Nossa Senhora de Fátima existem em quase todas as igrejas e outros locais católicos de culto da cidade e das ilhas, e até em residências de famílias católicas, sendo o terço rezado em muitas delas. Quando o Seminário de S. José abriu a sua casa de campo e centro de férias em Coloane, em 1958, foi nela erguida uma capela dedicada ao Imaculado Coração de Maria, tendo no altar uma imagem de Nossa Senhora de Fátima. O mesmo aconteceu na antiga gafaria de Ka-Hó. Quem hoje entra na Sé Catedral vê em grande destaque uma linda imagem de Nossa Senhora de Fátima, encimada por estas palavras gravadas a ouro na parede: “Rainha do Mundo, Mãe de Portugal, Amparai Macau”. Foi em comemoração do Tricentenário da Consagração de Portugal à Imaculada Conceição, em Dezembro de
F A L A R D E N Ó S - X I V37J O R G E A . H . R A N G E L1946, que essas palavras de prece foram ali colocadas, ao mesmo tempo que a imagem recebeu uma coroa de ouro fino.Capela de Macau na Basílica de FátimaUm dos altares da Basílica de Nossa Senhora do Rosário de Fátima contêm esta inscrição que muitos residentes de Macau não conhecem: “Contribuíram para esta Capela os católicos de Macau, reconhecidos à Senhora de Fátima e a Portugal na II Grande Guerra”. Durante a Guerra do Pacífico, a Diocese, a Acção Católica e numerosas congregações de Macau promoveram intensas manifestações religiosas em que rogaram à Virgem de Fátima protecção plena para a nossa cidade, num tempo conturbadíssimo e de enormes carências, marcado pela ameaça nipónica e pelo afluxo constante de refugiados provenientes de muitas partes do Extremo Oriente, fugidos dos flagelos da guerra. Duas iniciativas se conjugaram então: a organização duma peregrinação a Fátima e a promoção de uma subscrição pública com vista à aquisição e oferta dum lampadário de prata à Basílica. A subscrição, na qual teve relevante intervenção uma ilustre senhora macaense, de nome Laura Maria Guimarães Lobato, que mais tarde foi uma das principais impulsionadoras do funcionamento da Casa de Macau em Lisboa, de que se tornou sócia honorária, rendeu cerca de 30 contos. A 13 de Maio de 1949, deslocaram-se a Fátima o Pe. Manuel Ferreira, S.J., e o Capitão Eduardo José Teixeira Bastos de Abreu, acompanhados de outros fiéis. Sendo a quantia conseguida insuficiente para a compra do lampadário de prata, a mesma acabou por ser entregue ao Bispo de Leiria, D. José Correia da Silva, para viabilizar, de imediato, a conclusão da capela com o altar da Agonia do Senhor no Horto, a qual foi, efectivamente, a primeira a ver as obras terminadas.
F A L A R D E N Ó S - X I V 38J O R G E A . H . R A N G E L Na manhã de 13 de Maio, o Bispo de Leiria recebeu e deu a bênção ao pequeno grupo de peregrinos de Macau, portadores duma mensagem redigida pelo professor Torcato Gomes, do Liceu de Macau, do seguinte teor: “A cidade do Nome de Deus de Macau, pegada de Terra Portuguesa e Cristã no Extremo-Oriente, tão pequena que a cobre toda a sombra da Bandeira das Cinco Chagas arvorada no meio dela, julgando-se devedora da sua salvação, durante a última guerra, à protecção da Nossa Senhora de Fátima, quis deixar neste Santuário, à Excelente Padroeira de Portugal um penhor de gratidão que perpetuasse o milagre e o reconhecimento até ao fim do mundo. Mas a pobreza dos recursos não permitiu que se realizasse plenamente a grandeza da intenção (...)”.No ano seguinte (1950), fez-se nova subscrição para a oferta de paramentos confecionados em Macau e diversos objectos de culto para aquela capela. Em carta dirigida ao Bispo de Macau, datada de 10 de Fevereiro de 1951, o Bispo de Leiria agradeceu as oferendas que “além do seu valor real, tem também a nota de Macau, o que eu muito estimo”. E salientou que “por isso a capela de Macau é a mais linda de todas”. A grandiosa e incontornável obra “Macau e a sua Diocese”, do Pe. Manuel Teixeira, diversos boletins eclesiásticos e a revista “Religião e Pátria” facultaram-nos os elementos necessários à elaboração deste artigo, por ocasião do Centenário das Aparições. 15 de Maio de 2017
F A L A R D E N Ó S - X I V39J O R G E A . H . R A N G E LO culto de Maria em Macau O volume IX de “Macau e a sua Diocese”, do Pe. Manuel Teixeira, é inteiramente dedicado ao culto de Maria em Macau. Nos seus 17 capítulos, é feito um levantamento exaustivo, acompanhado de descrições e transcrições documentais, dos institutos religiosos, igrejas, capelas, escolas, fortalezas e baluartes sob a invocação de Maria, além de confrarias, congregações, festas, lendas, literatura e bibliografia marianas. Logo no proémio, aquele que foi certamente o mais prolífico historiador de Macau atesta que “neste trabalho, vamos dar um passeio pela história quadrissecular de Macau e vê-la-emos orlada de igrejas, capelas, oratórios, fortalezas, institutos religiosos, congregações, confrarias, miradoiros e escolas onde se lê gravado em letras de oiro o nome dulcíssimo da Ssma. Virgem” e que “a literatura, a lenda e até o milagre nos farão compreender como Macau é e foi sempre a terra de Santa Maria”. Outras relevantes obras, entre as quais “Macau, Mãe das Missões no Extremo Oriente”, do Pe. Eusébio Arnaíz (versão portuguesa de 1957, traduzida pelo Pe. Artur Augusto Neves) conduzem-nos facilmente à mesma conclusão: o culto de Maria é tão antigo quanto a história de Macau. Templos sob a invocação de MariaCom efeito, conforme refere o Pe. Manuel Teixeira, já em Fevereiro de 1564, o Pe. Francisco Perez, jesuíta espanhol, falava da “Igreja principal da povoação, que tinha no altar-mor, além do Crucifixo, a imagem de N. Senhora”. Esta igreja foi depois elevada a Catedral em Janeiro de 1576, pela bula Super Especula do Papa Gregório XIII.Em 1745, Frei José de Jesus Maria dava conta da existência de igrejas e capelas dedicadas a N. Senhora: a Igreja Matriz (N. Senhora da Natividade), Colégio de S. Paulo (Madre de Deus), Convento de S. Domingos (N. Senhora do Rosário), Santa Casa da Misericórdia (Visitação de N. Senhora), Igreja de S. Lourenço (N. Senhora do Socorro), “A Cidade do Nome de Deus de Macau pode legitimamente orgulhar-se de ser também a Cidade da Virgem, pois tem por padroeira Nossa Senhora da Conceição.” Pe. Manuel Teixeira, “Macau e a sua Diocese”, vol. IX, 1969, prémio
F A L A R D E N Ó S - X I V 40J O R G E A . H . R A N G E LConvento de S. Agostinho (N. Senhora da Graça), Igreja de N. Senhora da Penha, Convento de S. Francisco (N. Senhora de Porciúncula), Igreja dos Catecúmenos (N. Senhora do Amparo), Igreja do Hospital de S. Lázaro (N. Senhora da Esperança), Igreja da Fortaleza da Guia (N. Senhora da Guia), Forte do Bom Parto (N. Senhora do Bom Parto) e Convento de Santa Clara de Religiosas Capuchas (N. Senhora da Conceição).Muitas dessas igrejas, substituídas, restauradas, remodeladas ou reconstruídas, resistiram até aos nossos dias. A Igreja da Sé, dedicada a N. Senhora da Natividade e Catedral desde 1576, teve como seu primeiro vigário o Pe. Gregório Gonçalves Freire, nomeado em Fevereiro de 1577. O actual edifício data de 1937/1938, quando era Bispo de Macau o Cardeal D. José da Costa Nunes, uma das mais carismáticas figuras da Igreja no Oriente. É ali que continuam a ser celebrados muitos dos principais actos litúrgicos diocesanos. Quanto à imponente Igreja da Madre de Deus, ficou apenas a fachada, que é hoje o “ex-libris” da cidade, um “sermão em pedra” ou, se quisermos, “uma verdadeira teologia sistematizada”. Vale a pena ver, admirar e entender toda a sua riquíssima simbologia. Ali está também Nossa Senhora rodeada de anjos. Institutos religiososAs Franciscanas Missionárias de Maria chegaram a Macau em Novembro de 1903, convidadas pelo Bispo D. João Paulino de Azevedo e Castro. Ocuparam-se do ensino e da acção hospitalar, com destaque para o Colégio de Santa Rosa de Lima, tido por muitos como uma das melhores escolas de Macau. Este Colégio foi também durante três anos, de 1929 a 1932, dirigido pelas Irmãs Missionárias de N. Senhora dos Anjos, provenientes do Canadá no final da década de 1920.
F A L A R D E N Ó S - X I V41J O R G E A . H . R A N G E LAs Missionárias do Perpétuo Socorro vieram do México em Junho de 1966 para tomarem conta do Infantário Ave Maria. As primeiras Carmelitas chegaram de Hong Kong em Outubro de 1941 e edificaram o Carmelo no Monte do Bom Jesus, com a Capela de N. Senhora do Carmo. Estas instalações foram já demolidas. Merecem também especial referência as Filhas de Caridade Canossianas, que se estabeleceram em Coloane em Julho de 1952, e as Missionárias Dominicanas do Ssmo. Rosário, que em 1949, ano da implantação do regime comunista, saíram da China para a Formosa, Hong Kong e Macau, tendo aqui aportado por intervenção do Bispo D. João de Deus Ramalho. Deram apoio ao Seminário de S. José e à leprosaria de Ká-Hó e, mais tarde, em Dezembro de 1962 foi-lhes confiada por D. Paulo José Tavares a direcção do Orfanato Helen Liang, construído com um avultado donativo da sua benemérita e fundadora. As confrarias e congregações ligadas ao culto de Maria, algumas muito antigas, foram e ainda são em grande número. O espaço disponível permite-nos apenas enumerá-las: a Congregação ou Confraria de N. Senhora da Anunciada, a Confraria de N. Senhora da Misericórdia, a Confraria de N. Senhora do Rosário, a Confraria de N. Senhora dos Remédios, a Confraria de N. Senhora da Boa Viagem, a Confraria da Imaculada Conceição, a Confraria de N. Senhora da Conceição, a Confraria de N. Senhora da Boa Morte, a Confraria de N. Senhora dos Anjos, a Confraria do Imaculado Coração de Maria, as Filhas de Maria, a Congregação de N. Senhora das Dores, a Congregação de N. Senhora de Fátima, a Congregação de N. Senhora de Lurdes e ainda a Legião de Maria, fundada em 1952 e depois elevada a Comitium de N. Sra. de Fátima, com várias cúrias (Imaculado Coração de Maria, Rainha das Vitórias, Estrela da Manhã e Mãe da Igreja). Claro que há ainda muitas escolas católicas e instituições de solidariedade social consagradas à Virgem Maria. Desde o antigo Colégio da Madre de Deus ao modelar
F A L A R D E N Ó S - X I V 42J O R G E A . H . R A N G E LInstituto Salesiano da Imaculada Conceição (antigo Orfanato Salesiano), escolas como o Colégio Yuet Wah, que tem por padroeira a Imaculada Conceição, o Colégio de N. Senhora de Fátima, a Escola do Santíssimo Rosário, a Escola de N. Senhora da Esperança, o Colégio de N. Senhora da Purificação, a Escola Estrela do Mar, fundada pelo grande mestre e sinólogo Pe. Joaquim Angélico Guerra, o Colégio Stella Matutina, a Escola da Sagrada Família, o Colégio Ricci, que tem como orago a Imaculada Conceição, a Escola do Coração Imaculado de Maria e o Colégio do Perpétuo Socorro são bons exemplos de instituições educativas marianas. E até fortalezas e miradouros, lendas e milagres que se integraram nas tradições locais e festas marianas que congregam os católicos em ocasiões especiais. O culto de Nossa Senhora inspirou a imensa obra da Igreja ao serviço da população de Macau. Este é o terceiro de uma série de artigos que incluímos neste espaço, a propósito da visita do Santo Padre a Fátima no Centenário das Aparições. 22 de Maio de 2017
F A L A R D E N Ó S - X I V43J O R G E A . H . R A N G E LGrã-Cruz da Ordem da Instrução Pública para Roberto Carneiro Foi numa bonita tarde primaveril do corrente mês de Maio, num dos principais auditórios da Universidade Católica Portuguesa, em Lisboa, que colegas, amigos e discípulos quiseram prestar uma justíssima homenagem a Roberto Carneiro no momento em que deixava a actividade académica regular na Faculdade de Ciências Humanas daquela Universidade, assim como a presidência do Centro de Estudos dos Povos e Culturas de Expressão Portuguesa (CEPCEP), onde realizou trabalho de muito elevado mérito e qualidade, sendo merecedor do reconhecimento de quantos com ele trabalharam ou de algum modo colaboraram. Além do Presidente da República, que aproveitou a oportunidade para distinguir o homenageado com a Grã-Cruz da Ordem da Instrução Pública, especialmente pelos altíssimos serviços prestados no sector da Educação, como Ministro, Secretário de Estado, docente, investigador, humanista, educador por excelência e cidadão exemplar, marcaram presença destacadas personalidades como o Cardeal Patriarca de Lisboa, o Ministro da Educação, o ex-Presidente da República Ramalho Eanes, os antigos Ministros Eduardo Marçal Grilo e Guilherme d’Oliveira Martins, ambos presentemente administradores da Fundação Calouste Gulbenkian, o General Vasco Rocha Vieira, último Governador de Macau, responsáveis de variadas instituições académicas, culturais e sociais, professores e estudantes. É também de referir a simpática presença de três gerações de familiares deste homem singular que tão bem soube conciliar, em todos os passos da vida e mormente como pedagogo, no pensamento e na intervenção cívica, as humanidades com as ciências e as modernas tecnologias.“Figura que concilia, e sempre de forma excelente, as – por vezes desavindas – duas culturas, das ciências e das humanidades, o seu contributo abundante e profundo em áreas tão distintas como as ciências da educação e as novas tecnologias de informação, tornou-o a encarnação da figura do Mestre, para todos nós que crescemos academicamente próximos dos seus projectos. Um Mestre que tem tanto de genial, de inspirador, de plural e dialógico como de obsessivo na busca da perfeição.”Isabel Capeloa Gil, reitora da Universidade Católica Portuguesa
F A L A R D E N Ó S - X I V 44J O R G E A . H . R A N G E LRoberto Carneiro, intimamente ligado a Macau e ao Extremo Oriente por laços familiares, é, desde a sua criação, na fase terminal da administração portuguesa, presidente do Conselho de Administração da Escola Portuguesa de Macau, cujo desenvolvimento continua a liderar.O Futuro ao nosso alcanceNa mesma ocasião, foi lançado um grosso volume de quase 800 páginas contendo intervenções, saudações e trabalhos académicos, coordenado por Artur Teodoro de Matos, Guilherme d’Oliveira Martins e Peter Hanenberg, cujos título e subtítulo escolhidos foram “O Futuro ao nosso alcance – Homenagem a Roberto Carneiro”. Juntou-se-lhes uma tábula gratulatória com os nomes das muitas dezenas de individualidades que aderiram a esta iniciativa e foi também incluída, ao longo de trinta páginas, uma exaustiva relação da vasta bibliografia de Roberto Carneiro, na forma de livros, estudos, relatórios, discursos e artigos.Coube a Guilherme d’Oliveira Martins, que também redigiu a Nota Introdutória, fazer o elogio do homenageado. Das suas esclarecidas palavras, extraímos, com a devida vénia, este muito significativo trecho, que resume o perfil de Roberto Carneiro e os princípios que devem orientar a acção educativa com vista a um “novo reformismo”: “Licenciado em Engenharia Química pelo Instituto Superior Técnico, Mestre em Economia de Recursos Humanos, Doutor Honoris Causa pelas Universidades Aberta e Católica Portuguesa. É Professor Associado da Universidade Católica Portuguesa e dirige o CEP-CEP – Centro de Estudos de Povos e Culturas de Expressão Portuguesa. Iniciou as suas intervenções públicas no jornal universitário Tempo, dirigido por Adelino Amaro da Costa, que viria a ser seu cunhado – a quem devo sentidamente homenagear também aqui. O seu currículo é riquíssimo, desde o Ministério da Educação (onde foi
F A L A R D E N Ó S - X I V45J O R G E A . H . R A N G E LMinistro de 1987 a 1991), passando pela UNESCO, Banco Mundial, OCDE e Conselho da Europa. Exerceu atividade em pelo menos 46 países. Foi diretor da revista Colóquio Educação e Sociedade, presidente do conselho administrativo da Escola Portuguesa de Macau. Foi examinador das políticas educativas em diversos países e dirigiu a equipa de Avaliação Externa da Iniciativa Novas Oportunidades.Já o disse, o Engenheiro Roberto Carneiro continua a sua incessante atividade e o seu fantástico entusiasmo. Ensina-nos, assim, que urge partir das experiências educativas para um novo reformismo audacioso, persistente, determinado, de que o nosso homenageado é exemplo – adotando alguns princípios que aqui lembro: (a) Há a necessidade de realizar um novo Contrato Social, capaz de reunir compromissos e vontades, no sentido da fidelidade aos valores, da verdade e da justiça; (b) Há que regressar a um planeamento inteligente, indicativo, assente na subsidiariedade e na descentralização responsável; (c) Importa definir com clareza fins e metas intermédias – e escolher os instrumentos adequados; (d) A disciplina, o rigor, a exigência têm de ser as marcas na sociedade educativa; (e) A educação de infância, o ensino básico, o ensino secundário, o ensino profissional têm de se constituir em fatores motivadores; (f) O ensino artístico constitui um elemento crucial para o desenvolvimento integral da educação; (g) A educação não se esgota no espaço escolar obrigando à cooperação Escola / Família / Comunidade; (h) O Ensino superior, universitário e politécnico, terá de se desenvolver a partir da abertura, da internacionalização, da avaliação exigente, da articulação com a investigação científica e da consciência de que Portugal só poderá desenvolver-se com melhor capital humano e social; (i) O triângulo Educação, Ciência e Cultura é a chave do desenvolvimento. A subsidiariedade, a sobriedade, a clareza e a simplicidade são a chave do tesouro; (j) As humanidades exigem compreensão dos valores, da história, da língua e da autonomia. Nestes termos, estamos certos de que o Engenheiro Roberto Carneiro continuará na torre de comando deste caminho para o desenvolvimento humano.”
F A L A R D E N Ó S - X I V 46J O R G E A . H . R A N G E LCom o brilhantismo que é habitual nas suas intervenções, Guilherme d’Oliveira Martins sintetizou muito bem o notável percurso deste Homem, bem como os desafios que abraçou e as metas que definiu e, determinadamente, procurou alcançar. Por seu lado, Marcelo Rebelo de Sousa, como mais alto magistrado da Nação, mas sem se desvincular da sua condição de amigo e admirador, expressou-lhe a gratidão do país nestes termos: “Estamos, inequivocamente, perante a simbiose de cultura clássica e contemporânea, de cultura atenta à tecnologia e cultura artística, de cultura da academia e de cultura da vida –, simbioses assinaladas pela probidade. Probidade que deu asas a uma inteligência invulgar, conferiu crédito a uma oratória pedagógica, garantiu respeito a uma lucidez penetrante. (...) E, para além de todos estes predicados, temos o sentido abnegado de missão. Na Família. Na Amizade. No trabalho. Na sociedade. Na política. Na vida. (...) O Roberto Carneiro alcançou o essencial – a expressão mais elevada da afirmação da missão pessoal e comunitária. E, por isso, bem pode considerar-se um dos mais realizados de todos nós.”Como amigo, que teve o privilégio de o acompanhar e com ele partilhar responsabilidades nos extraordinários caminhos da Educação, foi, para mim, uma alegria poder marcar presença nesta inolvidável sessão. 29 de Maio de 2017
F A L A R D E N Ó S - X I V47J O R G E A . H . R A N G E LGrupo Musical do Club Amigu di Macau em terras portuguesasO Fórum da Maia, centro cultural da cidade nortenha em cuja área municipal se situa o Aeroporto Internacional Francisco Sá Carneiro (do Porto); a RTP, no seu popular programa matinal “A Praça”, transmitido de Vila Nova de Gaia; a Academia de Música de Espinho, com o apoio do município local; o Largo do Intendente, em Lisboa, em sessão promovida pela Junta de Freguesia de Arroios e pela Fundação INATEL; a Casa da Cultura da Ericeira, com organização e patrocínio da Câmara Municipal de Mafra; e o auditório do Museu do Oriente, em Lisboa, foram os locais que acolheram os seis concertos do Grupo Musical do Club Amigu di Macau, de Toronto (Canadá), cuja digressão decorreu de 21 a 27 de Maio, sempre com muito boa resposta de variados públicos que manifestaram alto apreço ao grupo pelas suas bem conseguidas actuações. Especialmente significativa foi a interpretação de conhecidos trechos de música portuguesa com recurso a instrumentos tradicionais chineses. Como muito bem referiu o Cônsul-Geral de Portugal em Toronto, Dr. Luís Barros, na mensagem que dirigiu ao Club Amigu di Macau, tratou-se da “expressão de uma cultura sincrética, caldeada em quase 500 anos de entrelaçamento – ou abraço – entre, e alicerçada em, duas culturas, a portuguesa e a chinesa”. No mesmo contexto, foram muito apreciadas as canções em patuá, da autoria de Armando Santos, que também cantou em português em todos esses concertos. Esta deslocação a Portugal, para comemorar o 15.º aniversário da criação do Grupo Musical, resultou da louvável persistência de José Cordeiro, presidente do Club Amigu di Macau, e de um enorme esforço pessoal e financeiro do grupo, cujos elementos comparticiparam nas despesas, uma vez constatada a ausência de subsídios oficiais. Apoios locais relevantes foram recebidos da Fundação Jorge Álvares, que assegurou o alojamento hoteleiro em Lisboa e estabeleceu contactos consistentes “Sem esquecer o sucesso da sua digressão a Macau em 2004, o Grupo Musical do ADM (Amigu di Macau) concretiza outro sonho ao visitar Portugal para comemorar o 15.º aniversário da sua fundação e atua em vários pontos do país sob o tema ‘Difusão de Culturas’.”José Cordeiro, no opúsculo de apresentação
F A L A R D E N Ó S - X I V 48J O R G E A . H . R A N G E Lcom diversos municípios e com a RTP, além de proporcionar os transportes para os locais onde o grupo actuou, ao mesmo tempo que garantiu a necessária e eficaz coordenação da digressão. Além dos patrocínios das autarquias atrás identificadas, a Fundação Casa de Macau organizou um agradável convívio para receber o grupo na sede da Casa de Macau em Portugal, a Fundação Oriente promoveu o concerto no Museu do Oriente e o Instituto Internacional de Macau assumiu os encargos com algumas refeições. Além destas, umas poucas entidades de Toronto são também mencionadas na página de agradecimentos contida no opúsculo de apresentação: a Toronto Chinese Music School, a empresa Viana, a Aliança dos Clubes e Associações Portuguesas do Ontário e a Camões TV e Rádio.Um interessante programaO Grupo Musical, constituído por profissionais e amadores, tem como director musical o conhecido artista Guochan Chen. Natural de Taishan, Província de Guangdong, e formado no Conservatório de Xangai, integrou diversas orquestras e actuou como solista em numerosos concertos, tendo obtido importantes prémios em concursos e festivais realizados no continente chinês, em Hong Kong e em Macau. Em 1998, acompanhou a Orquestra Chinesa de Macau numa memorável deslocação a Portugal, onde as suas maviosas interpretações de erhu e gaohu foram muito elogiadas. Está radicado no Canadá desde 2007.Colaborando intimamente com ele, como directora artística e conselheiros artísticos, destacam-se também Xiaomei He, Zhuoming Xu e Di Zhang, exímios intérpretes de pipa, dizi e yangqin, respectivamente, todos com formação especializada obtida na China continental, invejável currículo musical e notável experiência internacional.
F A L A R D E N Ó S - X I V49J O R G E A . H . R A N G E LO interessante e sugestivo programa abrangeu interpretações pelo grupo e também a solo. Trechos de música chinesa, como “A primavera do Sudeste da China”, “A dança da serpente dourada”, “Reflexos aquáticos de flores primaveris ao luar”, “O cantar dos pássaros na floresta” e “Despedida de Yang Guan” contrastaram harmoniosamente com conhecidas canções portuguesas, como “Coimbra”, “Lisboa antiga”, “Verde vinho”, “Uma casa portuguesa” e “Canção do Mar”, não faltando também algumas macaenses, como “Bastiana”, “Macau sã assi”, “Macau, terra minha”, “Aqui bôbo” e “Mamã sã filo”. Por estarmos no mês de Maio, em consonância com as celebrações do Centenário das Aparições em Fátima e a visita do Santo Padre, a orquestra arrancou fortes e continuados aplausos quando, ao encerrar vários dos concertos, surpreendeu a assistência com um inédito “A Treze de Maio”, solenemente tocado por todos. Um dos espectadores, admirado e comovido, pediu a palavra para expressar um sentimento que era geral: “Surpreendente e magnífico! Mais do que isso, foi divino!”, exclamou, estimulando outra prolongada vaga de aplausos. Canções de Armando SantosA voz, a letra e as composições de Armando Santos reforçaram a componente “maquista” desta digressão. Natural de Macau e radicado no Canadá desde 1988, Armando Eugénio de Sousa Santos toca guitarra, piano e bateria, compõe e canta em várias línguas. Actuou nos melhores hotéis de Macau e em acções promocionais de Macau no exterior e continua a apresentar-se, como instrumentista e intérprete musical, em Toronto, onde reside e marca presença constante em festas de associações macaenses. Vários eventos inseridos nos Encontros das Comunidades Macaenses, que têm lugar na terra-mãe de três em três anos, contaram com a sua participação, tendo ele
F A L A R D E N Ó S - X I V 50J O R G E A . H . R A N G E Llançado dois CD em 2006 e 2007, cujos títulos que escolheu foram “Lembranças de Macau”, em português e patuá, e “Memórias de Macau”, totalmente em patuá. Tem já no seu repertório mais de duzentas canções em patuá, português e inglês. As canções que apresentou agora em Portugal são “Iou sã maquista”, “Macau maquista”, “Comizaina” e “Macau de uma voz”. Parabéns, Armando Santos, pelo seu valor e talento e pela continuada e meritória divulgação do patuá e da música macaense. Outras actividadesOs membros do grupo, nos tempos livres entre concertos, aproveitaram para conhecer monumentos e atracções turísticas das terras onde estiveram, bem como a variada gastronomia portuguesa. Também visitaram Fátima e a costa do Estoril e Cascais, o Palácio Nacional de Mafra e, em Lisboa, a zona histórica de Belém, o Palácio da Independência, o Museu do Oriente e a Casa de Macau, onde se encontraram com responsáveis de várias entidades ligadas a Macau, como o General Garcia Leandro, presidente da Fundação Jorge Álvares, e membros dos órgãos sociais da Casa de Macau e da Fundação Casa de Macau. Em todos os lugares e momentos deixaram uma lembrança muito positiva, pela simpatia e cordialidade que souberam irradiar. Também fizeram uma ampla distribuição de folhetos turísticos de Macau, juntamente com o opúsculo “Difusão de Culturas”, produzido por José Cordeiro, contendo mensagens, notas sobre o Club Amigu di Macau e o seu Grupo Musical e o programa geral dos concertos.5 de Junho de 2017
F A L A R D E N Ó S - X I V51J O R G E A . H . R A N G E LOlhares amendoados – reminiscências do Extremo Oriente Foi com muito agradável surpresa que, através do General Garcia Leandro, tomei conhecimento deste muito interessante livro, escrito também com o coração e recorrendo à memória de um tempo inolvidável vivido pelo autor (Óscar Gomes da Silva) em Macau. Chama-se “Olhares Amendoados – Reminiscências do Extremo Oriente”, tendo a Chiado Editora, que o publicou, decidido integrá-lo na sua colecção “Palavras soltas”. É um conjunto notável de notas soltas, bem redigidas, traduzindo recordações e vivências, sentimentos e experiências, observações e ensinamentos, colhidos em terras e caminhos do eternamente exótico Oriente, que muitos portugueses foram descobrindo através de Macau. É prosa que, em muitos momentos, tem um sabor a poesia, que se lê de um trago, tão bonita e sentida ela é. Como muito bem refere o apontamento explicativo contido na contracapa, “A Cidade do Santo Nome de Deus é o cenário principal onde se desenrola grande parte dos acontecimentos que nos fazem refletir sobre o mundo e a vida, e nos conduzem a um ciclo histórico que findou. O autor lembra-nos que os nossos antepassados portugueses fizeram obra da mais espantosa e admirável… estabeleceram-se em Macau, no Sueste da China, onde o avô transmontano, beirão ou algarvio, e a avó cantonense, malaia ou goesa legaram netos macaenses, hoje dispersos pelas sete partidas do mundo…”O livro abre com uma singela dedicatória aos filhos e netos “para que não esqueçam as suas raízes luso-orientais” e à esposa, que o “incentivou a concluir este trabalho”, seguindo-se o prefácio assinado por um filho (Pedro Gomes da Silva), uma advertência, do próprio autor, e mais de uma centena de pequenas crónicas, reflexões ou apontamentos que, “assentada a poeira dos anos, amadurecidas as observações e as memórias”, o autor quis partilhar, depois de ter vivido “esperanças e desenganos, amizades e invejas, lealdades e traições, alegrias e sofrimentos, harmonias e discórdias”, “Óscar Gomes da Silva, com a sua prosa fácil, inspiradora, atraente, e mesmo poética, dá ao leitor asas para voar rumo ao exotismo oriental, num desfilar de memórias, observações e relatos sobre a história, a filosofia e a cultura de uma civilização milenar, e a convivência de séculos da gente lusa com o povo chinês.”Da nota de apresentação
F A L A R D E N Ó S - X I V 52J O R G E A . H . R A N G E Lsem se deixar “emaranhar na teia dos acontecimentos muitas vezes surpreendentes e dolorosos”.A sua leitura convida-nos à meditação sobre as lições de sabedoria contidas em muitas dessas crónicas e notas, que nos proporcionam também “flashes” ou “frescos” sobre “a chegada dos portugueses ao sul da China, o território e a história de Macau, o papel dos missionários ocidentais na China e no Oriente, a cultura e a idiossincrasia chinesa, as tradições do jogo, do Ano Novo Chinês e do zodíaco lunar, diferentes locais da milenar China, de Hong Kong, Kowloon e dos Novos Territórios, o culto do chá pelos chineses e suas origens, a escrita chinesa, a referência a Camões em terras de Macau, a recordação de um antepassado (Capitão do Exército) que terá falecido em Macau (séc. XIX) e a importância da China no atual mundo globalizado”.O AutorOficial superior do Exército Português, Óscar Gomes da Silva nasceu em Goa, antigo Estado Português da Índia, frequentou e terminou, com distinção, o ensino secundário no Liceu Afonso de Albuquerque e, como bolseiro, fez o curso de Infantaria na Escola do Exército, licenciando-se em Ciências Militares. Serviu na Índia Portuguesa, em Moçambique, Angola e Macau. Colaborou assiduamente no Jornal do Exército e na revista Baluarte e é autor das seguintes obras: “A acção do homem e o ambiente geográfico” (1978), “Algumas reflexões sobre a Instituição Militar e as Relações Internacionais” (1989) e “Civilizações e Especiarias” (2003).Durante a sua permanência em Macau, visitou “vezes sem conta” Hong Kong, Kowloon e os Novos Territórios, as zonas económicas especiais de Zhuhai e Shenzen e
F A L A R D E N Ó S - X I V53J O R G E A . H . R A N G E Lalgumas outras cidades da China continental. Conheceu e relacionou-se “com gente de diversos estratos, convicções e crenças”, observou, analisou e estudou, mas, como ele próprio reconhece, foi “pouco para uma civilização milenar tão rica e multifacetada”. Talvez pouco, mas o suficiente para nos deixar este valioso repositório de “imagens onde a ficção se dilui na realidade e na história”. Quadrinhos vivosPara estimular o leitor a ler o livro, escolhi estes dois singelos quadrinhos, sobre um passeio de triciclo (que substituiu o tradicional riquexó, ainda puxado à mão) e o farol da Guia, de tanto significado para as gentes de Macau:O riquexó“Seco, baixo, a pele bronzeada, os olhos em forma de amêndoa mal se vendo sob o chapéu de junco-bravo e aba redonda, Lam pedalava com o maior vigor que o peso dos anos e da profissão permitia. Guardava na memória o tempo em que o riquexó era um veículo de transporte puxado pelo homem a pé. Depois tudo mudou. O seu trabalho deixou de ser tão árduo. Sentado no selim, passou a mover o seu triciclo com mais facilidade e ligeireza. Um belo dia levou-me a passear desde o Hotel Lisboa até ao templo A-Má, percorrendo devagar as Avenidas da Praia Grande e da República. Pigarreava frequentemente, sinal de catarro crónico. O silêncio só era quebrado por uma ou outra frase em cantonês que eu não era capaz de decifrar. Lembrei-me de ter lido que, em 1894, Camilo Pessanha tinha por hábito chegar ao liceu, onde era professor, no seu alto riquexó privativo, acompanhado do seu cachorro, o Arminho. Como seria Macau naquele tempo?
F A L A R D E N Ó S - X I V 54J O R G E A . H . R A N G E LO meu pensamento voou para uma outra era. Sonhei e imaginei…”O farol“O meu junco navega com lentidão. Não vejo nada. À minha volta, só a noite escura como breu. O mar está de águas mansas. A pescaria foi boa. Como é dura a vida de pescador! É hora de regressar ao porto interior. Vejo, ao longe, uma luz que se acende e apaga e nela me guio para não errar o rumo. Foi o primeiro farol a ser construído na costa chinesa, pelos Portugueses na colina da Guia em 1865. O potente feixe ilumina a noite e continua a levar os marinheiros a bom porto.”Outros textos, verdadeiros quadrinhos vivos e de miríades cores, podia ter escolhido, mas o espaço disponível não permite a sua inclusão aqui. A cidade, que o autor tão bem conheceu e tanto amou, permanece e cresce, vencendo o tempo, as mudanças (que já foram muitas) e a fortuna; os turistas, que se multiplicaram em número surpreendente, invadem as ruas do centro histórico, os monumentos da memória e os casinos da sorte (ou do azar); e o velho farol, símbolo de esperança que sucessivas gerações abraçaram, irradia ainda a sua poderosa luz sobre as águas, para que cada navegante chegue seguro a bom porto neste eterno recanto de paz…12 de Junho de 2017
F A L A R D E N Ó S - X I V55J O R G E A . H . R A N G E LMiscelânea – Escritos da quarta idade...Foi com grande satisfação que, numa belíssima tarde soalheira de Junho, acompanhei o jornalista e escritor Vasco Callixto na mesa, juntamente com o General José Baptista Pereira, presidente da Assembleia Geral da Sociedade Histórica da Independência de Portugal, no acto de lançamento do seu último livro, publicado pela Chiado Editora e a que foi dado o título “Miscelânea – Escritos da quarta idade...”, cujo aparecimento ficou bem enquadrado nesta breve nota gravada na contracapa:“‘Miscelânea’ é a 56.ª obra do autor, entre livros (45) e opúsculos (11) publicados desde 1962/63, quando editou dois volumes de ‘Fala a Velha Guarda’, como subsídios para a história do automobilismo em Portugal. Mais tarde, à Aviação Portuguesa consagrou oito opúsculos resultantes de conferências proferidas em diversas instituições. A história e o turismo preencheram desde sempre os trabalhos do autor, que foi desde a juventude um viajante nato; com sua mulher, e preferencialmente de automóvel, viajou pelos cinco continentes, foi ao encontro e divulgou a presença de Portugal no mundo e levou ao ponto mais setentrional da Espanha o primeiro automóvel de matrícula portuguesa. Os livros de viagens sucederam-se anualmente, foram ‘guias’ para uns tantos leitores. A colaboração na imprensa foi extensiva à maior parte dos principais jornais diários e a diversas revistas, contando-se por mais de quatro milhares os artigos publicados. Numa experiência de dezoito anos, foi director de uma revista de estradas e turismo. Está presente no Dicionário Cronológico de Autores Portugueses.”Esta “Miscelânea”, a que o autor, com a sua muito apreciada jovialidade e tendo em conta os 92 anos que recentemente completou, quis juntar o subtítulo “Escritos da quarta idade...”, reúne 60 crónicas e artigos (todos eles devidamente ilustrados) publicados nos últimos dois anos em três jornais: “O Diabo”, “Mundo Português” e o “Diário do Sul”. “Impossibilitado de estar presente, por me encontrar de visita oficial aos Açores, expresso as antigas gratidão e admiração pela obra notável de Vasco Callixto, exemplo de juventude perene e de espírito ecuménico e universal, e que prestigia Portugal.”Mensagem do Presidente da República
F A L A R D E N Ó S - X I V 56J O R G E A . H . R A N G E LNo prefácio, Vasco Callixto explica o propósito que o animou na produção de mais este livro: “Com mais de meia centena de livros e opúsculos publicados, ao longo de mais de meio século, acrescidos de mais de quatro mil artigos em jornais e revistas, cometi a ‘proeza’ de ultrapassar as nove décadas de idade. Embora hoje tal ‘proeza’ esteja bem mais vulgarizada do que no tempo dos nossos pais e avós, representa algo, sem dúvida, numa longa caminhada de vida. Dir-se-á que passei a vida a escrever, com uma ou outra lacuna. E é bem certo, desde a juventude. Porquê? Talvez por ‘herança’ familiar, desde meu bisavô, poeta e prosador, a meu irmão, que deixou assinaláveis trabalhos de uma bem trabalhosa e apreciada especialidade. E muito me congratulo por meu neto primogénito já ter dois livros publicados, de uma outra especialidade que tem sido a sua paixão. As nossas ‘obras’ ficam para a posteridade; muito me satisfaz um tal legado.”Justa homenagemCom o Salão Nobre do Palácio da Independência, em Lisboa, praticamente lotado, a palavra fluente do escritor e jornalista Jorge de Morais, autor de importante obra resultante da persistente e qualificada investigação historiográfica a que se dedicou, prendeu a atenção de todos quando procedeu à apresentação do livro, ao mesmo tempo que saudou calorosamente a longa carreira jornalística e literária de Vasco Callixto: “criou na sua obra de imprensa um estilo muito próprio, que historicamente se filia na melhor epistolografia de viagens e na mellhor crónica cultural”, merecendo também destaque o seu “fôlego de prosador”, que “podia ter-se esgotado no jornalismo e na crónica curta – e já teria cumprido a sua obrigação, que é a medida daquilo que entendemos dever numa vida ao nosso semelhante”.
F A L A R D E N Ó S - X I V57J O R G E A . H . R A N G E LMas “o alargamento do seu raio temático exigia mais espaço”, pelo que “em 1962 iniciou a publicação de trabalhos em livro, espraiando-se então em relatos mais circunstanciados” e “com os livros surgiram viagens de cada vez maior alcance, tornando pálida a lembrança de uma primeira incursão por terras longínquas, num bisonho Fiat Topolino com que escrutinou Trás-os-Montes em 1952”. Outra característica salientada foi que “sempre presente na sua obra está Portugal – o Portugal imorredoiro que ele foi encontrando em Malaca, Singapura, Honolulu, um pouco por toda a parte, e que gravou em Portugal na Costa Leste dos Estados Unidos (1994), Uma Volta ao Mundo em Português (1996), O Japão Português (1998) e Retalhos de Portugal (2004). O mundo que foi o nosso Ultramar tem lugar de honra em Viagens Transafricanas (1972) e é depois retomado em Viagem a Cabo Verde (1974), Viagem à África Ocidental (1991) e Viagem a São Tomé e Príncipe (1992)”. Macau e Malaca tambémRealmente, muito escreveu Vasco Callixto, sobre aldeias, vilas e cidades de Portugal e também sobre pequenas e grandes urbes do mundo que foi conhecendo e divulgando. Figuras e factos históricos tiveram destaque nas suas páginas de observações e recordações. Visitou Macau pela primeira vez em Novembro de 1977. Alguns meses volvidos, inaugurou na então Junta de Turismo da Costa do Sol uma exposição fotográfica dessa inolvidável viagem e o material recolhido suscitou a publicação do seu livro Viagem a Macau, que seria interessante reeditar agora, quase quarenta anos volvidos. Em Macau, no Centro de Relações Económicas, proferiu uma palestra sobre “O que eu vi de Portugal no Mundo e as primeiras viagens aéreas Lisboa – Macau”. Também foi convidado para conferências na Casa de Macau em Portugal. Escusado será dizer
F A L A R D E N Ó S - X I V 58J O R G E A . H . R A N G E Lque ficou para sempre ligado à nossa terra, cujo desenvolvimento foi acompanhado interessadamente. Este seu último livro inclui uma crónica, de Novembro de 2016, intitulada “Reencontrar o Dr. Jorge Rangel e recordar Macau”, que já mereceu tratamento neste espaço. Uma sugestiva crónica sobre Malaca (“Recordar Malaca”), de Março de 2016, que conheceu há vinte anos, enriquece este volume. “Embora já tenham passado mais de três séculos, os 130 anos de presença portuguesa naquela parcela do mundo oriental deixaram raízes fortes”, fez questão de realçar. “Lá estão os testemunhos que o tempo não venceu, aos quais se aliam os testemunhos vivos, que teimam em manter presente o passado português”. A sua emotiva descrição do “Kampung Portugis” (Bairro Português), área situada à beira-mar, a cerca de três quilómetros do centro da cidade, merece ser lida e relida vezes sem conta, assim como o relato que faz da Porta de Santiago e das ruínas da Igreja de S. Paulo.Uma oportuna saudação do Presidente da República marcou positivamente esta memorável sessão. O gesto foi bem acolhido por todos os presentes. 19 de Junho de 2017
F A L A R D E N Ó S - X I V59J O R G E A . H . R A N G E LArte de Ieong Tai Meng no 15.º aniversário da ACIMLNo regresso duma viagem a Cabo Verde, onde se realizou, de 16 a 18 de Junho, o “Encontro de Empresários para a Cooperação Económica e Comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa, Praia 2017”, a ACIML – Associação Comercial Internacional para os Mercados Lusófonos, estabelecida em Macau para promover relações empresariais e servir de elo eficaz de ligação comercial entre a República Popular da China, Macau e os países lusófonos, organizou uma festa comemorativa do seu 15.º aniversário, em Lisboa, nas amplas instalações da Culturgest, braço cultural da Caixa Geral de Depósitos, proporcionando a dezenas de convidados e amigos residentes em Portugal um excelente e útil convívio. Além de um beberete com sabor macaense, a ocasião foi assinalada com uma exposição de pintura do conceituado artista Ieong Tai Meng (Iang Daming), respeitado mestre residente em Macau, que foi contemplado com a Medalha de Ouro no Salão da Sociedade Nacional de Belas Artes em Paris, em 2014. O seu trabalho “O Sonho do Lótus II” foi enaltecido pelo júri, que teve em conta a qualidade, o simbolismo, a criatividade e a capacidade do artista, inspirado nos estilos mais tradicionais da melhor pintura chinesa, em afirmar com mestria, na cor, na harmonia pictórica, nos contrastes e na audácia, a sua notável originalidade. Fragrâncias e poesia na arteNo catálogo da exposição, que contém uma selecção criteriosa de reproduções dos variados trabalhos expostos, os quais ficaram graciosamente alinhados ao longo das altas paredes do salão principal, o artista explica que os seus quadros foram inspirados num poema cujos primeiros versos são “In moonlight red flowers blossom “A ACIML patrocina a exposição de pintura chinesa do Professor Ieong Tai Meng tendo como objectivos, através deste evento, promover o intercâmbio cultural entre Lisboa e Macau e, ao mesmo tempo, providenciar uma oportunidade de encontro entre os artistas de Belas Artes dos Países de Língua Portuguesa e da China, construindo uma amizade mais profunda.”Eduardo Ambrósio, Presidente da ACIML
F A L A R D E N Ó S - X I V 60J O R G E A . H . R A N G E Lover the branches. / In sunlight image of the painting shines in our mind” (Flores rubras desabrocham nos ramos ao luar. / À luz do sol a imagem da pintura resplandece no nosso espírito). Na verdade, a poesia e a imaginação são fontes inspiradoras da arte da vida, no processo de ver, conhecer e sentir. Nos trabalhos de Ieong Tai Meng, as flores mostram-se ao luar e na claridade e ganham vida através dos pincéis e das tintas da China em tons mais carregados ou mais ténues, magistralmente combinados, infiltrando-se no papel. As imagens brotam do espírito e mergulham no concreto, harmonizando o imaginário ou a fantasia com o real e alcançando a unidade dos opostos.A escolha intencional e recorrente do lótus projecta uma presença simbólica de Macau. Representa vida e sabedoria e é a nossa flor. Nela e nas outras flores as cores parecem exalar fragrâncias e a poesia dos traços delicados penetram subtilmente na imaginação de quantos estão preparados para receber a mensagem contida em cada quadro concluído, espelhando o sentido estético e a cultura filosófica do artista consumado. Nota biográficaIeong Tai Meng nasceu em Sanshui, Província de Guangdong, em 1949. Radicou-se em Macau com a família, considerando esta a sua terra, onde tem dado um contributo valioso para o desenvolvimento das actividades artísticas. É membro da Associação de Artistas Chineses, director da Sociedade de Pintura Chinesa, presidente da Academia de Pintura de Macau, director executivo da Associação Internacional de Pintura e Caligrafia da China, consultor da Associação de Artistas de Macau, presidente do Instituto dos Artigos de Jade de Macau, pesquisador do Museu de Nanjing e professor visitante de várias escolas e academias de Belas Artes da China. Participou em importantes exposições nacionais e internacionais e ganhou prémios muito relevantes, como o Asia Art Award (2013, na Coreia), a Medalha de Bronze no Salão Internacional de Pintura de Paris (2013), a Medalha de Ouro da Exposição
F A L A R D E N Ó S - X I V61J O R G E A . H . R A N G E LInternacional de Arte de Paris (2014), o Prémio Internacional de Pintura do Salão Internacional da Sociedade Nacional de Belas Artes da França (2015) e o Prémio Especial do Júri no Salão Internacional da mesma Sociedade (2016). É presentemente membro da Sociedade Nacional de Belas Artes da França.A cerimóniaNa abertura da cerimónia, o presidente da comissão executiva da ACIML, Eduardo Ambrósio, salientou o papel desta associação na promoção de relações comerciais com os países de língua portuguesa e justificou a realização desta exposição de um consagrado artista de Macau como “uma forma de promover o intercâmbio cultural entre Lisboa e Macau”, providenciar uma oportunidade de encontro entre artistas da China e dos países lusófonos, “construindo uma amizade mais profunda” e, em conjunto, “contribuir para o desenvolvimento das indústrias criativas em Macau”. Também recordou que esse intercâmbio tem uma longa história e, “seguindo o desenvolvimento da estratégia de ‘Uma Faixa e Uma Rota’, o papel de Macau enquanto plataforma de relações económicas, comerciais e de cultura tem demonstrado o seu valor e tem produzido efeitos positivos”. Usou também da palavra o presidente do IPIM – Instituto de Promoção do Comércio e do Investimento de Macau, Jackson Cheong, que felicitou a ACIML e realçou os esforços promocionais de Macau e o desenvolvimento da cooperação com o mundo lusófono, cujos bons resultados dependem também da participação de empresários e de organismos associativos como a ACIML. Depois destas saudações, foram convidados o presidente do IPIM, o ex-Governador Vasco Rocha Vieira, a directora da Delegação Económica e Comercial de Macau em Lisboa, Ó Tin Lin, o artista e eu próprio, na qualidade de presidente do Instituto Internacional de Macau, para procedermos ao habitual e sempre vistoso corte da fita. Foi esta, sem dúvida, uma jornada muito positiva e uma forma digna de a
F A L A R D E N Ó S - X I V 62J O R G E A . H . R A N G E LACIML comemorar o seu 15.º aniversário em Portugal, ao mesmo tempo que divulgou as suas iniciativas e estreitou relações com entidades portuguesas.Revista periódica A ACIML, que produz uma revista periódica intitulada “Novidades da Plataforma”, procedeu à distribuição do seu número mais recente (n.º 25, respeitante aos meses de Maio e Junho de 2017) na cidade da Praia e em Lisboa. Os temas principais são Cabo Verde na mira dos empresários e a reunião anual do Secretariado Permanente do Fórum para a Cooperação e o seu plano de actividades para 2017, bem como a promoção do investimento e cooperação empresarial em Shenzhen. Contém também uma esclarecedora entrevista protagonizada pelo empresário português João Mesquita Ferreira, radicado em Macau há quase 35 anos, sobre as condições que Macau tem para funcionar como plataforma de cooperação, e uma outra com o empresário David Chow sobre investimentos em Cabo Verde, de que é cônsul honorário em Macau. As principais actividades da ACIML são também resumidamente relatadas na revista, cuja difusão tem aumentado consideravelmente nos últimos anos. As celebrações do 15.º aniversário da ACIML estender-se-ão até ao final deste ano e deverão decorrer em Macau, no continente chinês e em alguns países lusófonos. A associação tem a sede na Alameda Dr. Carlos d’Assumpção, 263, 20.º, em Macau. 26 de Junho de 2017publicados nos últimos dois anos em três jornais: “O Diabo”, “Mundo Português” e o “Diário do Sul”.
F A L A R D E N Ó S - X I V63J O R G E A . H . R A N G E LA oportuna renovação do protocolo de cooperação IIM/ISCSPO Instituto Internacional de Macau (IIM) e o Instituto do Oriente, órgão operacional e centro de estudos do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP) da Universidade de Lisboa, mantêm uma colaboração útil há quase década e meia, inicialmente através de algumas acções pontuais e depois, de forma mais estruturada e eficaz, nos termos do protocolo firmado pelo seu presidente, Prof. Narana Coissoró, e pelo autor deste artigo, na qualidade de presidente do IIM. Promoveram-se encontros, estágios e acções de formação. De entre essas actividades realizadas, merece menção especial um curso intensivo que o Instituto do Oriente preparou expressamente, há poucos anos, para um grupo de 24 quadros superiores de serviços do Conselho de Estado da República Popular da China, incluindo o Gabinete de Ligação do Governo Popular Central na Região Administrativa Especial de Macau. Este curso, sobre Administração Pública Portuguesa, foi organizado a pedido do IIM, a quem tinha sido lançado por autoridades chineses o desafio de elaborar e orientar um programa de formação abrangente e diversificado, sobre a realidade portuguesa actual, que também envolveu institutos públicos, autarquias, universidades, empresas, personalidades e organismos da sociedade civil de Portugal. Eu próprio assumi a coordenação, juntamente com o vice-presidente e delegado do IIM em Lisboa, José Lobo do Amaral, tendo os resultados alcançados excedido, de um modo geral, as expectativas, conforme foi oportunamente reportado. O Instituto do Oriente participou, a convite do IIM, em importantes encontros informais com responsáveis do mesmo Gabinete de Ligação e da Academia das Ciências de Pequim, nas suas visitas a Portugal. E professores e investigadores ligados ao Instituto do Oriente foram oradores em seminários levados a efeito pelo IIM. No regime de reciprocidade instituído, ofereci idêntica colaboração ao Instituto do Oriente em diversas conferências e integrei o corpo docente do seu Curso de China “O presente protocolo tem como finalidade promover a cooperação entre as duas instituições com o objectivo de realizar, conjuntamente, actividades de natureza académica, científica, técnica, pedagógica e cultural em áreas de interesse comum.” Ponto 2 do protocolo de cooperação
F A L A R D E N Ó S - X I V 64J O R G E A . H . R A N G E LModerna, ministrado em regime de pós-graduação, além de ser membro da sua comissão de acompanhamento externo, que todos os anos emite parecer sobre o seu funcionamento.Protocolo actualizadoApós a fusão, em 2013, das duas maiores universidades com sede na capital portuguesa, a Universidade de Lisboa e a Universidade Técnica de Lisboa, de que o ISCSP e o seu Instituto do Oriente faziam parte, foi decidida a reavaliação das parcerias anteriormente estabelecidas. Foi neste contexto que se procedeu à revisão do protocolo que havia ligado o IIM ao Instituto do Oriente, mas, por decisão dos órgãos de gestão do ISCSP, não se tratou duma mera renovação, já que o conteúdo foi ampliado, bem como as suas perspectivas de desenvolvimento, além de, formalmente, a execução ter passado do Instituto do Oriente para o âmbito do ISCSP. Assim, numa singela cerimónia presidida pelo presidente do ISCSP, Prof. Manuel Meirinho, que se encontra no exercício desse alto cargo académico desde Abril de 2012, o protocolo com o IIM ganhou nova vida e dimensão, passando a abranger actividades de natureza académica, científica, técnica, pedagógica e cultural em áreas de interesse comum, como a investigação e a formação, a cooperação técnica, projectos conjuntos, intercâmbio académico, documentação e informação. As duas partes manter-se-ão reciprocamente informadas quanto ao desenvolvimento das acções de cooperação, devendo o protocolo vigorar até Janeiro de 2022. Já na vigência do novo protocolo, o IIM foi co-organizador duma grande conferência sobre o papel de Macau como ponte ou plataforma de cooperação e sobre o ambicioso projecto das novas rotas da seda, enquadrado na iniciativa denominada “Uma Faixa e Uma Rota”. Esta conferência teve o ISCSP como empenhado e competente anfitrião e
F A L A R D E N Ó S - X I V65J O R G E A . H . R A N G E Lcontou com boas comunicações de dezenas de reputados especialistas, tendo a sessão de encerramento, que mereceu a presença de altas entidades públicas, académicas e empresariais, sido presidida pelo Presidente da República Portuguesa, Prof. Marcelo Rebelo de Sousa, que fez, na ocasião, uma notável intervenção, recordando a forma muito positiva como se processou a transição de Macau e se desenvolveram as relações luso-chinesas e identificando as mais-valias e as oportunidades oferecidas por esse relacionamento no tempo presente. A iniciativa teve o envolvimento de várias outras entidades, como a AICEP, a Embaixada da República Popular da China, o Conselho Empresarial da CPLP, o Instituto Brasileiro de Estudos da China e Ásia-Pacífico, o China Logus, vários bancos, empresas e a Fundação Jorge Álvares, cujo presidente, General Garcia Leandro, que foi Governador de Macau de 1974 a 1979, teve um papel de coordenação e liderança que foi fundamental para o sucesso do evento. O IIM, na sequência de apoios anteriores a bolseiros e colaboradores do Instituto do Oriente, está neste momento, em consonância com o protocolo, a apoiar mais um mestrando do ISCSP, facultando-lhe o acompanhamento possível e o uso das instalações do IIM como base de trabalho. Um dos anteriores estagiários do ISCSP e colaborador do Instituto do Oriente – André Castel-Branco da Silveira – acabou por prolongar a permanência em Macau, a fim de aqui fazer o mestrado em Estudos Europeus, tendo o IIM assegurado os apoios logísticos e funcionais necessários. André Silveira doutorou-se depois em Cambridge, com uma bolsa parcial do IIM, sendo o seu percurso como estudante uma verdadeira história de sucesso e, provavelmente, o melhor exemplo que se pode apontar das consequências da parceria que estas instituições em boa hora criaram. A sua tese de doutoramento, sobre a governabilidade dos recursos hídricos da China, analisa um conjunto de questões de extrema relevância e premência nas áreas ecológica e sociológica e os estudos efectuados tiveram a participação interessada de universidades chinesas.
F A L A R D E N Ó S - X I V 66J O R G E A . H . R A N G E LBreves notas sobre o ISCSPO ISCSP foi fundado em Janeiro de 1906 como Escola Colonial, sendo em 1926 elevado a estabelecimento de ensino superior (Escola Superior Colonial). Em 1954 ganhou maior dimensão e um novo nome (Instituto Superior de Estudos Ultramarinos), sendo integrado na Universidade Técnica de Lisboa em Agosto de 1961. No ano seguinte, instalou-se no Palácio Burnay, na Junqueira, já como Instituto Superior de Ciências Sociais e Política Ultramarina (ISCSPU). Na sequência da mudança de regime político ocorrida em Abril de 1974, viveram-se tempos difíceis e foi determinada a sua reestruturação, com nova alteração do nome, passando de ISCSPU a ISCSP (Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas). Como bem referiu um dos seus maiores Mestres de sempre, o Prof. Adriano Moreira, que foi seu respeitado director de 1958 a 1969, o Instituto “tinha a consistência suficiente para resistir, renovar-se, e ter o lugar que lhe pertence”, estando “pronto a intervir na quarta dimensão da Universidade para o século XXI”. Quando Adriano Moreira proferiu a sua inolvidável oração de sapiência em Janeiro de 2002, no acto de inauguração das modelares instalações do ISCSP no novo campus do Alto da Ajuda, estava aberto um novo ciclo na sua história. Numa mensagem que abre o livro “Tradição e Inovação – 1906-2012”, Manuel Meirinho lembrou que a escola “foi pioneira num modelo de formação interdisciplinar e que se fez escola de ciências sociais e políticas de relevo nacional”. Será justo acrescentar que é de relevo nacional, mas com evidente projecção externa, pelas suas sólidas ligações académicas e científicas ao mundo. 03 de Julho de 2017
F A L A R D E N Ó S - X I V67J O R G E A . H . R A N G E LPequenos Cantores – um regresso fugaz, emotivo e inolvidávelAntigos alunos, familiares e muitos amigos lotaram o auditório do Colégio D. Bosco para, numa bela tarde do passado mês de Abril, assistirem à cerimónia de lançamento do livro “César Brianza – a missão, o coro e o sonho da China”, de João Guedes (IIM, Dezembro de 2016), em cujo programa estava anunciada a actuação de um grupo de ex-Pequenos Cantores da Cruz de Madeira do Colégio D. Bosco. O livro, integrado na colecção “Missionários para o Século XXI”, mereceu já uma crónica laudatória neste espaço do Jornal Tribuna de Macau. Para além da curta referência então feita, faltou, porém, falar dos Pequenos Cantores, que a todos surpreenderam neste fugaz e emotivo regresso, décadas após o encerramento definitivo das suas actividades, com o falecimento do Pe. César Brianza, aos 67 anos de idade, em Janeiro de 1986.Memorável actuaçãoCoube a Manuel Silvério, ex-presidente do Instituto do Desporto, que se distinguiu na organização e coordenação de grandes eventos desportivos internacionais em Macau, a grata tarefa de apresentar o grupo, como antigo aluno, “pequeno cantor” e impulsionador desta memorável sessão que contou com o apoio total do Instituto Internacional de Macau e a colaboração de diversos outros organismos e personalidades. Além de evocar a memória do Pe. Brianza, “que foi o nosso professor de Educação Musical e de Religião e Moral e que muito enriqueceu a nossa educação e formação”, recordou o Mestre José Maróngiu, professor de Tecnologia e de Matemática, “que foi o seu braço direito nos mais diversos trabalhos relacionados com os Pequenos Cantores” e o saudoso ex-colega e também “pequeno cantor” Danilo Catela Antunes que, numa missa em homenagem ao Pe. Brianza, em Abril de 2014, lançara o desafio de se organizar um grupo de antigos membros deste famoso coro para uma apresentação pública”. Também foi Danilo Antunes quem, na véspera da sua partida para a eternidade, a 3 de Abril de 2016, entregou a Manuel Silvério uma gravação que permitiu a produção do CD, lançado na sessão.“A actuação dos Pequenos Cantores marcou sempre os momentos mais nobres, emocionantes e alegres da nossa vida colegial. Além do desporto, os Pequenos Cantores eram e são o nosso orgulho.” Das palavras de apresentação de Manuel Silvério
F A L A R D E N Ó S - X I V 68J O R G E A . H . R A N G E LTerminada a sua saudação, na qual anunciou uma sistemática compilação em curso de fotografias e documentos, ao mesmo tempo que apelou à colaboração de todos no site dos antigos alunos do Colégio D. Bosco, foram chamados ao palco os seguintes “pequenos cantores”: André Cheong, um dos veteranos do primeiro grupo, Victor Gaspar, Eduardo Carvalho, Manuel Canavarro, Herculano Dillon, Hugo Silva Jr., José Domingos Guerra, Alfredo Botelho, Bernardo Lameiras, João Lourenço, José Lourenço, José da Fonseca Tavares, Mário Farinha, Pedro Evaristo, Roberto Petrovich, Mário Lameiras, na guitarra, José Sin, na bateria, Mário Sin, maestro, e o próprio Manuel Silvério. Ao piano esteve Carmen Tong, antiga aluna do Pe. Brianza e fundadora da China Chuan Ya (Macau) Arts Association. As canções, primorosamente interpretadas, foram “Kanimambo”, bonita saudação musical entoada em muitos dos concertos anteriores, “Arrivederci Roma”, sentidamente dedicada ao Pe. Brianza, “Ave Maria” de Bach, em homenagem à Diocese e ao seu clero em pleno período pascal, sendo de destacar a voz maviosa de Roberto Petrovich, e a sempre popular “Tia Anica de Loulé”, que quase toda a assistência acompanhou entusiasticamente. A intensa e prolongada ovação foi um sinal claro de que todos queriam ainda mais! E foi entendida como um estímulo importante para novas apresentações, se possível. Durante a sessão, foi lida pelo secretário-geral do IIM, Rufino Ramos, uma calorosa mensagem do sempre lembrado Pe. Ramiro Galhispo, que foi professor do Colégio desde 1964 e director de 1970 a 1973.O percurso dos Pequenos CantoresJoão Guedes, naquele excelente trabalho, resumiu muito bem a génese e o percurso dos Pequenos Cantores do Colégio D. Bosco:
F A L A R D E N Ó S - X I V69J O R G E A . H . R A N G E L“Inserido numa Ordem missionária que faz apostolado através do trabalho, cada salesiano é um operário que se especializa na área que mais sente como vocação da sua própria vocação e César Brianza depois de alguns anos como perfeito, primeiro, e mais tarde como professor de Religião e Moral, encontra na música a inspiração divina que o levou a tornar-se missionário. Convencido de que tinha encontrado o caminho, o passo seguinte foi o de convencer os seus superiores a darem-lhe carta-branca para a reorganização do canto coral no Colégio D. Bosco, elevando esta disciplina a um nível de grande perfeição, tendo como modelo os pequenos cantores de Viena, onde tinha estagiado e de que sempre falava a propósito disto ou daquilo, tanto nas aulas como nas conversas com os seus colegas, ou nos encontros habituais com a comunidade laica de Macau. César Brianza, que sempre se tinha destacado pela sua tenacidade na prossecução de objectivos, não tardou a obter a concordância do director do Colégio, bem como o apoio do corpo docente da instituição na elevação do canto coral a um estatuto de especialidade no seio das disciplinas técnicas e curriculares em vigor.Seria assim decorrente do salutar espírito determinado de César Brianza e da confiança que os seus irmãos salesianos nele depositavam que nasceria, em 1957, um dos projectos de maior alcance da história da música de Macau. Um projecto que transformaria um conjunto de crianças naturalmente irrequietas e em idades caracterizadas pela aversão à disciplina e na irrequietude num grupo homogéneo de vozes cristalinas que levaria o nome de Macau às mais distantes paragens e ao qual o próprio Papa, apesar de toda a sua agenda preenchida, encontrou tempo para dele tomar conhecimento e abençoar.Os ‘Pequenos Cantores da Cruz de Madeira do Colégio D. Bosco’, um projecto tão extraordinário quanto efémero já que, nascido com o mestre, não sobreviveria ao
F A L A R D E N Ó S - X I V 70J O R G E A . H . R A N G E Lseu desaparecimento, apesar de decorrer da política firme da Igreja a restauração e engrandecimento da música Sacra no âmbito da ‘Encíclica Motu Proprio’ de Pio X.A importância dos pequenos cantores do Colégio D. Bosco e a estatura artística e profissional do Pe. César Brianza ficaram para a história desta área da música sacra. Isso mesmo seria relevado no 40.º Congresso Internacional dos ‘Pueri Cantores’ realizado em Roma (2015-16) por Aurélio Porfiri, doutorado em história da música com uma tese sobre Macau. Aurélio Porfiri lembrou num artigo publicado no jornal católico de Hong Kong ‘Sunday Examiner’ que César Brianza retirava a maior satisfação dos muitos concertos e ‘performances’ em igrejas levados a cabo pelos seus ‘Pequenos Cantores da Cruz de Madeira’, ao longo de mais de 30 anos em Macau, Hong Kong, Japão, Filipinas, Malásia, Itália e Portugal. (...)O Pe. Brianza tinha um jeito especial para cativar os jovens que ao longo dos anos iam engrossando o Grupo. Era exigente, mas compreensivo quanto baste. Foi com eles que percorreu cidades e países, com um reportório rico e variado, conseguindo assim derrubar fronteiras e unir povos, utilizando ritmos e línguas diferentes com especial destaque para a língua portuguesa.” Foi uma tarde inolvidável, até pela forte emoção sentida. O CD, produzido pelo Instituto Internacional de Macau, contendo uma selecção de vinte cânticos e canções que as vozes juvenis límpidas dos Pequenos Cantores divulgaram por muitas partes do mundo, como jovens embaixadores de Macau, será uma óptima recordação de um outro tempo desta terra abençoada e de um projecto notável que deixou marcas inapagáveis. 10 de Julho de 2017
F A L A R D E N Ó S - X I V71J O R G E A . H . R A N G E LO Colégio D. Bosco – uma escola portuguesa singular no século XX Como acontece em muitas partes do mundo, a congregação salesiana tem também em Macau uma presença muito significativa nas áreas do ensino e da formação da juventude. É esta uma vocação de sempre, sendo os seus projectos educativos inspirados nos ensinamentos e no exemplo de vida de S. João Bosco, mas permanentemente abertos à inovação e à modernidade. Da formação profissional aos ensinos técnico e pré-universitário, as escolas salesianas primaram sempre pela qualidade.Em vários artigos publicados no corrente ano, referimos o livro do jornalista João Guedes, intitulado “César Brianza – a missão, o coro e o sonho da China” (IIM, Dezembro de 2016), a personalidade e a obra do sacerdote salesiano César Brianza e o percurso dos Pequenos Cantores do Colégio D. Bosco. Parece-nos, por isso, apropriado dedicar um artigo a este Colégio, que foi uma das quatro escolas secundárias de língua veicular portuguesa que funcionaram em Macau no século XX, oferecendo aos jovens macaenses uma diversidade de opções de formação. As outras foram o Liceu de Macau, depois denominado Liceu Nacional Infante D. Henrique, a Escola Comercial Pedro Nolasco e o Externato do Seminário de S. José. Além de ser uma escola secundária industrial, oficializada pelo Decreto-Lei n.º 43.093, de 28 de Julho de 1960, o Colégio D. Bosco, gerido pela congregação salesiana desde a sua criação, integrava também nos seus planos curriculares os então denominados ensino primário e ciclo preparatório do ensino secundário. A primeira pedra para a sua construção foi lançada em Fevereiro de 1949 num terreno do bairro de Mong Há concedido em 1940 por decisão do Governador Artur Tamagnini de Sousa Barbosa, num período muito conturbado, com conflitos bélicos cada vez mais acentuados nesta área geográfica. Anunciou-se então o nome do edifício escolar: Colégio D. Bosco, de Artes e Ofícios, destinado ao Ensino Técnico e Profissional. O arquitecto foi António Bastos e o Pe. António Giacomino foi o primeiro director. “E assim, por fases sucessivas, apareceu este grandioso colosso que hoje se chama Colégio D. Bosco, acabado de construir em 1963, com a ajuda do Governo da Província. Não obstante nele funcionar o ensino primário, o Colégio D. Bosco é principalmente uma Escola Industrial.” Pe. Manuel Teixeira, “A Educação em Macau”, 1982
F A L A R D E N Ó S - X I V 72J O R G E A . H . R A N G E LAs obras, com avanços e interrupções, foram sendo feitas ao longo dos anos (salas de aula, dormitórios, oficinas, laboratórios, capela, refeitório, instalações desportivas e culturais) e novas alas foram acrescidas à estrutura inicial. “E assim, por fases sucessivas – como salientou o Pe. Manuel Teixeira em “A Educação em Macau (Direcção dos Serviços de Educação e Cultura, 1982) – apareceu este grandioso colosso que hoje se chama Colégio D. Bosco, acabado de construir em 1963…” Os apoios foram oficiais e provenientes também de outras entidades, destacando-se as contribuições do mecenas e filantropo Pedro José Lobo, a quem o Colégio prestou algumas homenagens. Actividades de complemento educativoNo modelo educativo que abraçou, o Colégio foi exemplar no desenvolvimento de diversificadas actividades circum-escolares. Na obra atrás citada, o Pe. Manuel Teixeira identificou as principais áreas de complemento educativo: música e canto coral, desporto, sessões culturais, imprensa, associações juvenis e oratório festivo, onde as portas foram abertas a jovens de outras escolas, sendo a todos oferecidos jogos, sessões de cinema e outras salutares diversões, além da missa dominical e da instrução moral.A música e o desporto ocupam um lugar primordial em todos os colégios salesianos. Assim aconteceu, naturalmente, no Colégio D. Bosco, onde o canto coral ganhou enorme projecção através do grupo dos Pequenos Cantores, fundado em 1959 pelo Pe. César Brianza e que esteve filiado na associação internacional dos Pequenos Cantores da Cruz de Madeira. No desporto, o Colégio estimulou a prática das mais conhecidas modalidades, atingindo níveis elevados, com os seus atletas alcançando resultados muito lisonjeiros nos campeonatos escolares. Quanto a sessões culturais, o Pe. Manuel Teixeira recorda que o Colégio D. Bosco aproveitava “todas as ocasiões para dar aos seus educandos uma sólida preparação
F A L A R D E N Ó S - X I V73J O R G E A . H . R A N G E Lmoral e cultural, técnica e literária, fomentando a prática de recitais, palestras, representações de cinema e outras manifestações”. Os jovens associavam-se em torno destas actividades e também se reuniam para dialogar e debater “sobre temas de interesse para a sua idade, orientados por um professor”. Teve grande sucesso um Clube de Guitarras, “para aprendizagem e actuação nas festas, dentro e fora do Colégio, tendo-se registado execuções notáveis, especialmente nas missas dominicais”.Para divulgação das actividades e para manter um contacto regular com antigos alunos, era publicado quinzenalmente o boletim informativo Vida Colegial, “com excelente apresentação”.Em resumo, as actividades desenvolvidas pelo Colégio D. Bosco muito contribuíram “para a valorização e projecção dos jovens de Macau, capacitando-os para enfrentar a vida com dignidade e proporcionando-lhes um futuro risonho, onde eles poderão actuar com confiança, com base na educação que receberam”.Até à transiçãoO crescimento do Colégio não cessou em 1963. Continuou a desenvolver-se nas décadas seguintes, a remodelar as instalações e a enriquecer os equipamentos, continuando a operar como escola privada de língua veicular portuguesa, reconhecida e substancialmente apoiada pelo Governo de Macau.Acompanhei de perto o seu funcionamento desde os anos da adolescência, participando nas suas iniciativas juvenis e nos campeonatos escolares, e mais tarde como membro do Governo responsável pela área da Educação, de 1981 a 1986 e de 1991 a 1999. Embora a minha escola fosse o Liceu, tive de entre os alunos do Colégio alguns dos melhores amigos de sempre.
F A L A R D E N Ó S - X I V 74J O R G E A . H . R A N G E LNos anos derradeiros da Administração Portuguesa, e após a criação da Escola Portuguesa de Macau, foi necessário repensar caminhos, tendo a congregação salesiana, através dos seus mais altos responsáveis, optado por rumos diferentes, passando o Colégio a assumir uma nova missão como escola privada salesiana de língua chinesa, integrada no sistema educativo entretanto aprovado para a RAEM.Ainda no período de transição, o Colégio foi dotado de um novo complexo desportivo, inaugurado em Janeiro de 1997 e constituído por um campo de futebol de relva sintética, dois ginásios multiusos e uma piscina aquecida, com sistema de climatização geral. Como foi sempre seu timbre, o Colégio aceitou partilhar essas instalações com associações e clubes desportivos locais, franqueando-as também ao público em geral.Os serviços que o Colégio prestou a Macau e à juventude foram inestimáveis. Para a sua história, deverá ser também referido que várias das suas salas de aula foram facultadas à então Universidade da Ásia Oriental para poder iniciar os seus cursos enquanto construía os primeiros edifícios académicos. Esta instituição privada de ensino superior, que iniciou o seu funcionamento em 1981, converteu-se dez anos depois numa entidade pública chamada Universidade de Macau, ao mesmo tempo que era também oficialmente criado o Instituto Politécnico de Macau. 17 de Julho de 2017
F A L A R D E N Ó S - X I V75J O R G E A . H . R A N G E LO legado cultural de Macau em novo álbum fotográficoO Instituto Internacional de Macau (IIM), com o propósito de promover uma maior divulgação do património da RAEM, especialmente junto das camadas mais jovens da população, organiza, desde 2014, um concurso de fotografia que, ano após ano, tem conseguido maior adesão e participação. Esta é também uma forma de envolver a juventude local na defesa e valorização de um rico legado, construído ou imaterial, que é cada vez mais sentido como pertença sua. Os trabalhos apresentados são apreciados por qualificados júris, cujos membros estão ligados à Associação de Fotografia Digital, ao Leo Clube de Macau Central, que colabora empenhadamente na promoção dos concursos, e ao próprio IIM. As personalidades locais que aceitaram voluntariamente esta incumbência foram: Carlos Dias, Yen Kuacfu, Yuen Wai Man, Kuok Heng San, Au Thien Yn, Si Wun Cheng, Joel Chong Kei Lei, Sérgio Basto Perez, Pedro Senna Fernandes e António Monteiro. A cooperação especializada facultada pela Associação de Fotografia Digital tem sido determinante para o sucesso desta iniciativa.As fotografias submetidas viabilizaram a organização de exposições, no Centro de Ciência de Macau, em 2014, no edifício da Caixa Escolar, em 2015, e no Edifício Ritz, no Largo do Senado, em 2016, com o patrocínio, respectivamente, do órgão de gestão do Centro de Ciência, da Direcção dos Serviços de Educação e Juventude e da Direcção dos Serviços de Turismo. Elas permitiram também a preparação de mostras para apresentação no exterior, acompanhando as actividades que o IIM realiza em vários países, na forma de encontros, conferências, seminários e acções de intercâmbio académico e cultural. Surgiu depois, como corolário dos certames anteriores, a ideia da produção de um álbum fotográfico, contendo uma selecção dos trabalhos premiados e outros que, pela “Com o intuito de estimular o conhecimento generalizado do património tanto construído como imaterial desta Região Administrativa Especial, o Instituto Internacional de Macau organiza, desde 2014, um concurso de fotografia sobre esta temática, convidando em especial os jovens a apresentarem os seus trabalhos.”Da nota introdutória
F A L A R D E N Ó S - X I V 76J O R G E A . H . R A N G E Lqualidade e pela diversidade temática, justificaram a sua inclusão, tendo a Macaulink, com a coordenação competente de Gonçalo César de Sá, assumido prontamente a tarefa. Assim, acaba de ser produzida, em edição trilingue, uma publicação que tem por título “O Legado Cultural de Macau”, que terá certamente bom acolhimento do público, à semelhança de um outro álbum, sobre “Festas e Festividades de Macau”, que foi um verdadeiro sucesso editorial, merecendo uma ampla distribuição através de Casas de Macau e em eventos do IIM por ocasião da comemoração do 15.º aniversário da RAEM.Edição do IIM, de Abril de 2017, este novo álbum, que já está disponível na secretaria do IIM, poderá ser obtido igualmente através da Livraria Portuguesa. A coordenação editorial é de Catarina Mesquita, sendo o design de Fernando Chan e a fotografia da capa de Lam Sao Wa. Categorias e temasAs fotografias foram agrupadas por anos (2014, 2015 e 2016), categorias e temas: património cultural intangível e património cultural edificado, com sectores de participação geral ou reservados a estudantes, e secções sucessivamente dedicadas, aos seguintes monumentos e sítios: Templo de A-Má, Quartel dos Mouros, Largo do Lilau, Casa do Mandarim, Igreja de S. Lourenço, Igreja e Seminário de S. José, Teatro D. Pedro V, Largo de Santo Agostinho, Edifício do Leal Senado, Largo do Senado, Templo de Kwan Tai, Santa Casa da Misericórdia, Igreja da Sé, Casa de Lou Kau, Igreja de S. Domingos, Ruínas de S. Paulo, Templo de Na Tcha, Fortaleza do Monte, Casa Garden, Igreja de Santo Agostinho, Cemitério Protestante e Fortaleza da Guia. Estão também arrumadas fotos ligadas à Ópera Yueju (ópera cantonense), rituais taoístas de Macau, Festival do Dragão Embriagado, crenças e costumes de A-Má, costumes e crenças de Na Tcha e escultura de ídolos sagrados.
F A L A R D E N Ó S - X I V77J O R G E A . H . R A N G E LAo lado de cada fotografia está o nome do respectivo autor, sendo de salientar as que mereceram as mais altas classificações. No grupo do património cultural intangível, foram escolhidas, na categoria geral, em 2014, “Dança”, de Tang Loi Cheng (1.º prémio), “Procissão do Bom Jesus dos Passos”, de Lok Wai Keong (2.º prémio) e “Dragão embriagado”, de António Leong (3.º prémio) e, na categoria reservada a estudantes, “Procissão do Senhor dos Passos”, de Lei Keng Hong (1.º prémio), “O pequeno deus Na Tcha”, de Chau Sai Ieong (2.º prémio) e “Dragão embriagado”, de Ieong Ka Seng (3.º prémio). Em 2014, no que respeita ao património cultural edificado, foram os seguintes os trabalhos premiados: na categoria geral, “Ruínas de S. Paulo”, de Yen Kuac Fu (1.º), “Janela para a Cultura”, de Chan Kuong Chong (2.º) e “Sombra do tempo”, de Lao Sio Fong (3.º); e na secção reservada a estudantes, “Templo de Na Tcha”, de Ng Hoi Tek (1.º), “Farol da Guia”, de Olivia Yen (2.º) e “Festejos”, de Kuan Cheng Cheng (3.º). A partir de 2015 deixou de haver uma separação entre património intangível e património edificado. Na categoria geral, foram seleccionadas, em 2015, “Largo do Senado”, linda imagem panorâmica dos edifícios desse largo, com a esfera armilar em posição central e em grande plano, de Lam Sao Wa (1.º prémio), “Dragão domado celebra o Ano Novo Lunar”, de Lok Wai Keong (2.º prémio) e “Dança do dragão embriagado”, de Ng Ka Ho (3.º prémio), e, na categoria reservada a estudantes, “Vitória do dragão embriagado”, de Shinoda Yin Kai (1.º prémio), “Cultura ocidental e oriental”, de Kuan Cheng Cheng (2.º prémio) e “Farol da Guia”, de Olivia Yen (3.º prémio). Os melhores trabalhos de 2016 foram, na categoria geral, “Nos bastidores da Ópera Cantonense”, de Ng Ka Ho (1.º prémio), “Mistura de culturas”, de Lei Heong Ieong (2.º prémio) e “Nascer do sol na Fortaleza da Guia”, de Alice Im (3.º prémio). De entre estudantes, os contemplados foram “Grande remédio, sabor amargo”, de Leong Ho Kuan, “Ruínas de S. Paulo durante as festas de Na Tcha”, de Chan I Kuan, e
F A L A R D E N Ó S - X I V 78J O R G E A . H . R A N G E L“Tradição”, de Ng Man Hei. Por decisão dos júris, foram atribuídas também 20 menções honrosas em 2015 e 17 em 2016. Apresentação pública e outros álbunsEste álbum terá a sua apresentação pública numa conferência sobre a defesa e valorização do património, conjuntamente organizada por várias associações locais, no dia 5 de Agosto, no auditório do IIM. Prevê-se a participação de representantes de algumas associações da China continental igualmente interessadas nesta temática. O outro álbum, que o IIM publicou em Maio de 2015, foi dedicado às festas e festividades. As principais celebrações tradicionais de Macau estão presentes em toda a sua diversidade, cor e exotismo, tendo sido também incluídas fotografias e notas explicativas de grandes acontecimentos internacionais e actividades diversas que passaram a fazer parte do calendário anual da RAEM. Novos álbuns fotográficos sobre temas de Macau já fazem parte dos programas do IIM para os próximos anos. 24 de Julho de 2017.
F A L A R D E N Ó S - X I V79J O R G E A . H . R A N G E LXangai – o crescimento e a derrocada duma grande cidade internacionalO livro “César Brianza – a missão, o coro e o sonho da China”, de João Guedes (IIM, Dezembro de 2016), lançado no Colégio D. Bosco em Abril, contém um capítulo inteiro dedicado à grande cidade internacional que foi Xangai, onde o Pe. Brianza fez o curso de Teologia e se ordenou padre em Janeiro de 1944. Também foi ali que, atraídas por uma aparentemente imparável prosperidade, muitas famílias portuguesas oriundas de Macau e Hong Kong se foram radicando desde a viragem do século XIX para o século XX, vendo-se obrigadas a uma debandada geral e definitiva na segunda metade da década de 1940. É uma síntese muito bem feita que, em poucas páginas, permite ao leitor saber o essencial sobre uma cidade verdadeiramente singular, a “Paris do Oriente”, uma das urbes mais avançadas do mundo nas décadas de 1920 e 1930, com um percurso de crescimento verdadeiramente notável, afectado e depois interrompido pela guerra sino-japonesa e pela guerra civil que antagonizou furiosamente as forças nacionalistas e comunistas no continente chinês, a qual culminou na entrada dos comunistas em Xangai em Maio de 1949 e na implantação da República Popular da China em Outubro do mesmo ano, em Pequim. Nas primeiras décadas do século XXVejamos algumas passagens fundamentais do livro atrás referido, o qual pode ser adquirido na secretaria do Instituto Internacional de Macau ou através da Livraria Portuguesa:“Nesse tempo já Xangai é uma das maiores cidades do Mundo com uma população de 3,000,000 de habitantes. De entre estes cerca de 50 mil são europeus ocidentais, mas também do Leste já que o número de refugiados russos deslocados desde a revolução de 1917 atingia em 1930 os 35 mil, excedendo já largamente a restante população caucasiana. Esta comunidade russa de Xangai era muitas vezes mal olhada pelos restantes ocidentais pelo facto de aceitarem os trabalhos mais mal remunerados e inaceitáveis pelos restantes europeus, como a prostituição. A esta juntava-se um segmento da “Nas décadas de 20 e 30 do século XX, Xangai passou a ser citada na imprensa como a Paris do Oriente...”
F A L A R D E N Ó S - X I V 80J O R G E A . H . R A N G E Lmesma nacionalidade que incluía algumas famílias bem instaladas. Eram os russos também que dominavam a vida artística.A cidade estava assim dividida entre uma metade ocidental mais europeizada e a metade oriental tradicionalmente chinesa. As novas invenções como a electricidade e os carros eléctricos foram inovações prontamente introduzidas, o que rapidamente transformou Xangai numa metrópole.Ingleses e americanos faziam dinheiro no comércio e nas finanças enquanto os alemães a usavam como base dos seus investimentos na China, fazendo com que constasse nas estatísticas como centro por onde passavam metade das importações e exportações do país. Deste modo a parte ocidental cresceu quatro vezes mais do que a parte oriental chinesa.Xangai nunca chegou a ser uma colónia na verdadeira acepção da palavra, mas a zona ocidental, ou ‘International Settlement’ como era conhecida tinha quase todas as prerrogativas de uma colónia com administração municipal própria, tribunais e destacamentos militares que se encarregavam da protecção dos nacionais das diversas potências. Certas áreas eram mesmo proibidas aos nativos chineses, com excepção dos chamados ‘compradores’ intermediários entre as empresas ocidentais e o resto do país. Estes ‘compradores’ tornaram-se numa classe particularmente dinâmica que passou a certa altura a constituir-se como o verdadeiro motor do desenvolvimento da China convertendo Xangai no maior centro financeiro da Ásia Oriental. Nas décadas de 20 e 30 do século XX, Xangai passou a ser citada na imprensa como a Paris do Oriente, ou a Nova Iorque do Ocidente reflectindo o seu estatuto ímpar numa China dividida pelos ‘senhores da guerra’. É dessa época que data a construção dos grandes e emblemáticos edifícios do ‘Bund’, como o ‘Shanghai Club’,
F A L A R D E N Ó S - X I V81J O R G E A . H . R A N G E Lo ‘Asia Building’ e o ‘Hong Kong & Shanghai Bank’. A cidade criava assim uma nova e distinta silhueta reflectindo riqueza e poder que a distinguia também de qualquer outra incluindo as colónias portuárias como Cantão ou Amoy. Mas para além do comércio e do investimento legítimo, Xangai transformou-se também nessa época num centro nacional e internacional de tráfico de ópio, os casinos surgiram e multiplicaram-se, a par da prostituição, tudo isso controlado pelas ‘tríades’ fazendo com que a corrupção reinasse impune. As tríades tinham como principal líder Huang Jinrong, que era simultaneamente chefe do corpo de detectives da ‘concessão francesa’, o que por si só define bem a conjuntura prevalecente. Para complicar ainda mais a situação o Partido Comunista (fundado em 1921 precisamente em Xangai) inicia desde essa data uma campanha de agitação permanente. A turbulência laboral que atingia particularmente os estivadores acabaria por levar o Partido Nacionalista a aliar-se ao ‘Bando Verde’ principal seita da cidade desencadeando uma luta feroz entre os operários de ambos os lados. Esta guerra termina com a eliminação de centenas de militantes comunistas e a erradicação do partido, deixando o campo livre às tríades que passam a dominar os sindicatos e também a bolsa.”Japoneses e refugiadosA instabilidade era cada vez mais generalizada, mas o pior ainda estava para vir, com a entrada do exército nipónico na cidade e com outros acontecimentos devastadores subsequentes: “Esta situação altera-se em certa medida depois da chamada batalha de Xangai travada em 1937 que leva à ocupação da cidade pelos japoneses. Os combates deixam porém intactas as concessões internacionais que se tornam num enclave de
F A L A R D E N Ó S - X I V 82J O R G E A . H . R A N G E Lprosperidade, mas também de decadência no meio de um mar de miséria e medo. Essa situação atrai um inusitado afluxo de refugiados que chega às 400.000 pessoas que buscam a protecção internacional em apenas 4 anos. Este afluxo contribui como seria de esperar para o agudizar de tensões levando a uma vaga de assassinatos de funcionários chineses que trabalhavam para as autoridades japonesas. Esta campanha alarga-se depois tomando como alvos os comerciantes que faziam negócios com as forças nipónicas. O rumo que as coisas tomaram acabou naturalmente com a ocupação do ‘International Settlement’ pelas forças nipónicas.É pois esta cidade ocupada pelas forças do ‘Império do Sol nascente’ com milhares de refugiados das mais diversas proveniências e com todos os estratos sociais em processo de rápida degradação que César Brianza encontra e a que terá de se adaptar. Diga-se em abono da verdade que apesar de tudo a Igreja Católica ainda não é nesta altura alvo prioritário de nenhuma das forças em confronto no terreno. Isso só viria a acontecer mais de uma década depois.” Salvo alguns incidentes pontuais, os japoneses respeitaram ou, pelo menos, toleraram as instituições da Igreja. Foi assim que César Brianza pôde concluir a formação no seminário e continuar os estudos de aperfeiçoamento musical, que viriam a ser determinantes para a obra magnífica realizada mais tarde em Macau, no Colégio D. Bosco, onde fundou o grupo coral dos Pequenos Cantores da Cruz de Madeira, e na Academia de Música S. Pio X. No próximo artigo encerraremos este sucinto relato sobre Xangai, incidindo a atenção na década de 1940. 31 de Julho de 2017
F A L A R D E N Ó S - X I V83J O R G E A . H . R A N G E LXangai na década de 1940 – os anos do fim É abundante e de muito boa qualidade a literatura existente sobre Xangai, sobretudo em inglês. Em português, porém, não são muitos os trabalhos acessíveis, sobre a cidade na primeira metade do século XX. É, por isso, de saudar a síntese histórica que o jornalista João Guedes nos ofereceu, a propósito dos sete anos vividos pelo Pe. Brianza em Xangai, no seu livro “César Brianza – a missão, o coro e o sonho da China” (IIM, Dezembro de 2016).A evolução na década de 1940Na sequência das transcrições anteriormente feitas, vejamos como a situação evoluiu na década de 1940 naquela grande urbe portuária, cujo modelo e forma de funcionamento se aproximava rapidamente do fim: “Os guetos e campos de concentração, entre os quais avultavam o que mantinha detidos cerca de 23 mil refugiados judeus e o ‘centro de reunião de civis’ (Civil Assembly Center) com mais de seis mil europeus enclausuravam em condições de difícil sobrevivência a parte da comunidade expatriada que não tinha conseguido fugir de Xangai, e que anteriormente mantinha nos mais diversos sectores, comerciais, industriais, artísticos e culturais, a vida frenética da cidade e que agora apenas existia nos limites da sobrevivência.Nas ruas, antes repletas de tráfego, salientavam-se agora mais do que ninguém as patrulhas e as sentinelas japonesas. Contra estas moviam-se nas sombras os grupos da resistência comunistas e as tríades nacionalistas levando a cabo campanhas sistemáticas de assassinatos. Nesse quadro, os cruzamentos de ruas e avenidas eriçavam-se de barricadas de arame farpado, enquanto as guaritas das sentinelas eram reforçadas com chapas de aço. A cada assassinato os japoneses respondiam mandando evacuar bairros inteiros a meio da noite, expondo os moradores à humilhação de passarem horas ao relento apenas de roupa interior.“Xangai, a quarta maior cidade do mundo, rende-se aos comunistas no dia 1 de Maio de 1949.”
F A L A R D E N Ó S - X I V 84J O R G E A . H . R A N G E LEssas rusgas de grandes dimensões que levavam ao encerramento de quarteirões inteiros acabavam por não resultar em nada, já que os atiradores furtivos facilmente escapavam misturados com a população, pelos dédalos de becos e vielas que se escondiam à sombra das traseiras dos grandes edifícios do centro da cidade. Foi nestas ruas que César Brianza se moveu no seu quotidiano de estudante durante sete longos e trágicos anos, tropeçando a cada passo com cadáveres abandonados nas ruas, ou interpelado pelas patrulhas japonesas. Concluída a graduação em Teologia, César Brianza é ordenado padre no dia 29 de Janeiro de 1944. Este acto solene que deveria ser festivo também esteve longe de o ser. A sua ordenação ficaria indelevelmente marcada pelo início dos raides aéreos americanos contra Xangai. Os japoneses da ofensiva passavam à defensiva e estavam a ser acossados do lado do mar pelos bombardeiros dos porta-aviões da esquadra americana do Pacífico e por terra pelas tropas nacionalistas do generalíssimo Chiang Kai Chek. César Brianza exultou naturalmente com a libertação e mais ainda com o regresso da administração de Xangai a mãos chinesas. As potências vencedoras tinham de facto posto termo à administração internacional da cidade e fim ao colonialismo partilhado que ali vigorava desde a sua fundação em 1842.”Da esperança ao desesperoApesar de todas estas vicissitudes, muitos eram os que mantinham teimosamente a esperança em dias melhores: “A nova situação atenuava igualmente as patentes desigualdades sociais e políticas e as injustiças que geravam. O novo ambiente parecia propício a um recomeço mais
F A L A R D E N Ó S - X I V85J O R G E A . H . R A N G E Lsão e também a restaurar a paz entre a juventude de que César Brianza se encarregava agora como professor no seminário menor de Xangai.No entanto nada disso se viria a verificar. Ainda que os Salesianos passassem a poder actuar mais livremente, recuperando as escolas comerciais e industriais e os orfanatos que tinham a cargo, a administração nacionalista que sucedeu à ocupação nipónica rapidamente perdeu a confiança dos munícipes e da Igreja Católica. No decurso da reocupação de Xangai pelo Kuomintang a desordem e a corrupção caracterizavam a administração pública. Oficiais das mais diversas procedências e escalões, e até comerciantes e criminosos de delito comum apoiados por nacionais das antigas potências colonizadoras prosseguiam as mais díspares agendas que desafiavam toda e qualquer racionalidade. A situação agravou-se de tal modo que foi o próprio presidente do parlamento nacional T. V. Soong que teve de assumir a administração do município. Porém a sua intervenção não chegou para reparar os danos causados ao prestígio do governo nacionalista do Kuomintang factor que contribuiu também para a fácil tomada do poder político na cidade mais tarde pelos comunistas. Apesar de tudo César Brianza e os Salesianos mantinham-se cheios de fé no futuro de Xangai e de esperança quanto à expansão da sua obra não só na imensa metrópole, mas em toda a vizinha região Norte que Xangai influenciava. Todavia a realidade estava longe de indiciar qualquer futuro para os salesianos. De facto para a maior parte da população os missionários eram vistos na generalidade como aliados do partido nacionalista o que era aproveitado pelos comités de agitação e propaganda comunistas para denunciar a Igreja Católica como um dos
F A L A R D E N Ó S - X I V 86J O R G E A . H . R A N G E Lbraços do imperialismo ocidental e cúmplices dos desmandos e corrupção que afectavam o país. Por outro lado ainda que os padres pouco ou nada tivessem a ver com a situação catastrófica que se vivia na China e a sua acção filantrópica fosse reconhecida mesmo pelos não católicos e até por comunistas que os salesianos tinham auxiliado em diversas circunstâncias, certo é que a presença da Igreja católica não era vista como humanitária ou exclusivamente espiritual mas sim como uma questão política.O futuro da Igreja encaminhava-se para um desfecho dramático à medida que os grupos guerrilheiros de Mao Tsé Tung por todo o país se iam integrando num exército regular e disciplinado e iniciavam uma movimentação das suas bases tradicionais de apoio nos campos com o objectivo de cercar as cidades que começavam a cair uma a uma.Xangai a quarta maior cidade do Mundo rende-se aos comunistas no dia 1 de Maio de 1949. A partir desta data sela-se também o destino de César Brianza. O sonho chinês da sua infância terminava para todos os efeitos naquele dia. A sua Ordem chamava-o a servir em Hong Kong e Macau. O ainda recém-ordenado padre sai da China num momento em que a ordem de expulsão dos missionários da China ainda não tinha sido dada. Pouco tempo depois o Partido Comunista decretaria a erradicação das missões estrangeiras de todo o país. Muitos recusam-se a acatar a ordem e permaneceram firmes nos seus postos mas apenas para se verem presos, encarcerados, submetidos a julgamentos sumários por tribunais populares, fuzilados, ou condenados a longas penas de prisão.” César Brianza acabaria por reencontrar em Macau amplos motivos para renovar os seus entusiasmos, ao serviço da juventude e da Igreja, realizando aqui uma obra extraordinária, como educador e músico. 7 de Agosto de 2017
F A L A R D E N Ó S - X I V87J O R G E A . H . R A N G E LComo Silva Mendes via o jogo em Macau há cem anos A propósito do centésimo quinquagésimo aniversário do nascimento de Manuel da Silva Mendes (1867-1931), têm sido publicados importantes trabalhos sobre a vida e a obra deste jurista, professor, vereador e notável coleccionador de arte chinesa que foi, sem dúvida, uma personalidade marcante da vida cultural e cívica de Macau no final do século XIX e nas primeiras décadas do século XX. De entre esses trabalhos, merecem referência e louvor uma oportuna biografia da autoria de João F. O. Botas, lançada na última Feira do Livro de Lisboa, a tese de doutoramento de Carlos Botão Alves, docente do Instituto Politécnico de Macau, sobre Antero de Quental e Manuel da Silva Mendes, cuja edição o Instituto Internacional de Macau assumiu, vários artigos e algumas intervenções em recentes conferências, na sua maioria ainda inéditas.Silva Mendes foi também um persistente e acutilante crítico dos costumes da terra que escolheu para viver, tendo escrito abundantemente em jornais locais. Associando-nos às homenagens que lhe têm sido prestadas, seleccionámos para este espaço alguns dos seus artigos versando temas que podem voltar a ter actualidade ou significado entre nós. Agora que de novo se opina e se aguardam decisões sobre o futuro das concessões de jogos de fortuna e azar, vejamos a sua posição em relação ao desenvolvimento do jogo num elucidativo artigo publicado em “O Progresso”, em Abril de 1915, cujo título foi precisamente “O Jogo em Macau”:“O governo chinês, ainda no tempo do império, proibiu o jogo na província de Kuang Tung e as respectivas autoridades apressaram-se em tornar rigorosamente efectiva a proibição. O facto causou grande entusiasmo na população chinesa, desbordando em festejos, que se prolongaram por muitos dias, na capital e em outras terras importantes da província.Se bem nos recordamos, foi logo criada uma comissão de vigilância a fim de evitar que, por meios clandestinos ou fraudulentos, fosse sofismada a proibição, quer por “Como poderia a administração pública da colónia viver sem os rendimentos do jogo? – É este o argumento formidável que se opõe a quem quer que seja que não defenda o regime imoral em que nos colocamos.”
F A L A R D E N Ó S - X I V 88J O R G E A . H . R A N G E Lparte das autoridades, quer por parte dos cidadãos. Como era natural, houve imorais interesses prejudicados, e os representantes desses imorais interesses procuraram conseguir por todos os meios a revogação da proibição. Por honra da China, tais esforços ficaram sem êxito durante anos. Ultimamente, porém, chegou a parecer que os sindicateiros não trabalharam baldadamente, pois que de Pequim baixou a permissão de se criar uma lotaria pelo período, se bem nos recordamos, de três anos, cujos lucros seriam aplicados a obras de caridade. Não temos conhecimento do texto da permissão; mas ou porque fosse ambígua a redacção, ou porque parecesse azada a oportunidade de abusar, dispôs-se tudo para que se voltasse ao antigo regime de porta aberta. As autoridades locais eram pelos sindicateiros e tudo parecia indicar que mais uma vez a imoralidade campearia. Não sucedeu, porém, assim. Algumas associações de Cantão protestaram energicamente contra a pouca vergonha dos sindicateiros e das autoridades que os patrocinavam, levaram esse protesto ao conhecimento da comissão em Pequim encarregada da defesa dos interesses da província de Kuang Tung, e esta, por seu turno, elucidou o Presidente da República acerca do que, de facto, estava em via de realizar-se. Foi o bastante para que o Presidente fizesse dar ordens terminantes para que as autoridades fizessem cumprir rigorosamente a antiga proibição do jogo. E não há motivos senão para o louvar.***Quando em Cantão não há jogo, em Macau aumentam os rendimentos da fazenda auferidos desta fonte de receita; e, se em hasta pública, algum dos monopólios sobe, é motivo para troca de congratulações entre as autoridades. O governador felicita o ministro, o inspector de fazenda felicita o governador, e assim por aí abaixo... Temos
F A L A R D E N Ó S - X I V89J O R G E A . H . R A N G E Lassistido a cenas destas! E muitos créditos têm ganhado governadores e inspectores de fazenda com esses triunfos...Quem nasceu no Extremo Oriente e vê dois palmos adiante do nariz e quem aqui reside ou residiu alguns ou muitos anos com olhos de ver as coisas, sabe muito bem que é tão fácil ou tão difícil reprimir o jogo entre os chineses, como o é na Europa entre os europeus. Mas turistas que passam e vêem culis nas esquinas a matar o tempo com o jogo dos cantinhos, e bom número de indivíduos que aqui residem pouco tempo sem poder assentar ideias, vão para a Europa com a impressão de que o jogo nos chineses é uma paixão irresistível, um vício irreprimível, uma prática corrente, normal.Em Lisboa, nos ministérios, quem disser que isso é uma das muitas pataratas que dos chineses na Europa correm, causa surpresa e não é acreditado. O ministério das colónias está cheio de relatórios, ao que nos consta, de governadores e inspectores de fazenda, afirmando a necessidade da existência legal do jogo em Macau por ser um vício inato nos chineses, irreprimível e bem aceite por esta secção da população.E lá tem-se acreditado nisto! Ninguém se tem dado ao trabalho de ver um pouco mais largamente o assunto e passa isso como dogma. Se o estudassem, porém, alguma coisa mais, reconheceriam que em Singapura, onde uma grande parte da população é chinesa, o jogo é proibido e por isso se não joga lá; que em Hong Kong, em Xangai, em Tsing Tao, em Wei Ai Wei e em todos os portos da China também se não joga por ser aí o jogo proibido e reprimido.Concluiriam que, portanto, se há jogo em Macau, é somente porque ao governo português agrada que aqui haja em razão dos lucros que dele aufere – Não porque tenha motivo algum, senão esse, de permitir a existência franca de tal vício. Alegar que o jogo é vício inato, irreprimível entre os chineses serve para nos iludirmos ou
F A L A R D E N Ó S - X I V 90J O R G E A . H . R A N G E Lfingir que nos iludimos uns aos outros. Serve para usos domésticos, para dar ares de seriedade a decretos jogateiros: para mais nada. Uma vez ou outra têm aparecido pessoas, poucas, raras, das que mandam ou podem influir na orientação da administração pública, mostrando repugnância por esse papel que escandalosamente estamos fazendo no Extremo Oriente. Têm, porém, sido vozes isoladas e nenhum esforço, nenhum plano sério até hoje se fez ou formulou que indique decisão de mudar de rumo.Como poderia a administração pública da colónia viver sem os rendimentos do jogo? – É este o argumento formidável que se opõe a quem quer que seja que não defenda o regime imoral em que nos colocamos. É o argumento de todos os viciosos. É a indirecta confissão, o tácito reconhecimento de quem não sabe viver só do trabalho honrado. É admitir que entre tantos povos que nestas paragens encontram riqueza obtida por trabalho honesto, só nós fazemos excepção.Em Macau este assunto não preocupa a atenção de quase ninguém. O hábito fez uma segunda natureza. O depreciativo conceito que estranhos de nós façam, não nos impressiona. Não se divisa sequer um esforço, vendo todos que o regime em que se vive e tem vivido não tem trazido à colónia benefícios alguns, porque ela propriamente não tem vivido mas vegetado, não se divisa, dizíamos nós, sequer o mais pequeno esforço para mudar de regime, nem mesmo um protesto se formula que seja incentivo para o despertar de ideias novas. É triste!” Como vimos, este já era e será sempre um tema polémico, em torno do qual poderão ser esgrimidos os mais variados e acalorados argumentos. 14 de Agosto de 2017
F A L A R D E N Ó S - X I V91J O R G E A . H . R A N G E LQuando Silva Mendes pugnava por uma história de Macau C. A. Montalto de Jesus já tinha publicado, em 1902, em Hong Kong, o seu “Historic Macau”. Manuel da Silva Mendes, contudo, no seu artigo em “O Progresso” de 6 de Junho de 1915, intitulado “História de Macau”, reconhecendo embora a utilidade e o mérito daquele muito bem acolhido trabalho, considerou-o “longe de poder ser considerado como uma história desta colónia”. Por isso, lamentou a falta de uma “história completa” e em português e apelou a diversas entidades locais no sentido de contribuírem para que esse desiderato fosse alcançado. Também se queixou da incúria generalizada na conservação e no tratamento de documentação de valor histórico: “Não é raro que venham a Macau homens de ciência, geralmente comissionados por associações literárias ou científicas, no intuito de colher aqui elementos para estudos históricos ou de crítica. Os japoneses, os ingleses, os franceses, os americanos principalmente são os que se interessam mais por esses estudos.É natural que Macau, que foi por muitos anos o único porto na China aberto aos estrangeiros, seja considerado como uma excelente fonte de informações para a história dos tempos mais antigos dos europeus no Extremo Oriente. Era por Macau que penetravam na China os embaixadores, os missionários, os negociantes, os exploradores. Em Macau foram impressos grande número de livros sobre a língua e a literatura chinesas, sobre os trabalhos das missões religiosas e políticas, sobre o movimento comercial, etc.A igreja de S. Paulo ou o que resta dela, os conventos de Santa Clara e S. Francisco, as muralhas, as fortalezas, a Horta da Companhia e tantos outros edifícios religiosos, ou de importância militar, comercial e social no Extremo Oriente. Tudo o que eram relações de europeus ou americanos com a China, com o Japão, com as Filipinas, com Timor, com Sião e ainda em parte com a península de Malaca e com a Índia, partia de Macau ou aqui vinha ter.“Parece incrível, mas é verdade; uma colónia como Macau não tem história escrita – uma história completa.”
F A L A R D E N Ó S - X I V 92J O R G E A . H . R A N G E LDeve-se afigurar, pois, a todos os estudiosos de coisas antigas, Macau como uma mina em que os materiais desejados sejam porventura de extracção difícil, mas abundantes e ricos. É aqui terra de conventos, de frades e de freiras, terra de muitos homens e poucas mulheres, terra de aventureiros e de piratas, que inexaurível mina para romancistas! Pois, meus senhores, podia Dante ter escrito à entrada de Macau o ‘voi che entrate, lasciate ogni speranza’ – porque do muito, do muitíssimo que podia e devia haver, não há quase nada! Desapareceu quase tudo, e o que resta, está para aí abandonado.Documentos escritos houve inúmeros; mas nunca se coligiram, nunca se seleccionaram, nunca se imprimiram, nunca se catalogaram, nunca se fez o devido caso deles. Andaram de armário para armário, de repartição para repartição, de mão para mão como coisas velhas, bolorentas, inúteis. Outros, o maior número, foram queimados ou comeram-nos os vermes ou levaram-nos os tufões. E hoje, se se quiser fazer a história de Macau em face dos documentos, é isso impossível, porque não existem.Parece incrível, mas é verdade; uma colónia como Macau não tem história escrita – uma história completa. O Sr. Montalto de Jesus publicou há anos um volume em inglês que intitulou Historic Macao; esta obra, porém, conquanto útil e de merecimento, está longe de poder ser considerada como uma história desta colónia.”Um desafio ao Estado e aos historiadoresNão acreditando na capacidade de entidades privadas para levarem a cabo tão necessário e grandioso empreendimento, defendeu que devia ser o Estado a fazê-lo, “incumbindo pessoa ou pessoas competentes de o levar a termo”. E identificou várias entidades cuja intervenção podia ser relevante:
F A L A R D E N Ó S - X I V93J O R G E A . H . R A N G E L“O Leal Senado de Macau, instituição quase tão antiga como a colónia, e que tem sempre exercido um papel preponderante na vida local, nunca se lembrou de a mandar escrever. O facto não se justifica por falta de dinheiro, porque o Leal Senado tem-no tido bastante para isso. Não há muitos anos dispendeu alguns milhares de patacas para ocupar os lazeres de dois oficiais do exército sob o pretexto de levantarem uma (levantada) carta de Macau...A Santa Casa da Misericórdia, outra instituição com séculos de existência, também não tem história escrita. Existem no seu cartório uns livros velhos de quase nenhuma importância; os que tinham valor desapareceram. Não consta, de resto, que alguma vez tentasse pôr em letra redonda o que tem sido e o que tem feito durante a sua longa existência esta instituição.O Seminário, outra velha instituição, e o Bispado, não menos antigo, estão nas mesmas condições. Alguns documentos existem, velhos, poeirentos, meio comidos, por gavetas e armários; e é tudo. É uma pena; a desorganização entrou connosco e não vemos sinais de ressurgimento. E é ao mesmo tempo uma vergonha que estrangeiros venham aqui frequentemente em viagem de estudo e tenham de partir desapontados. Ainda há poucos dias isso aconteceu com um americano que aqui veio comissionado por uma associação científica de Washington.Ainda se poderia fazer alguma coisa. Restam dos muitos que houve, vários maços de documentos no Leal Senado, na Santa Casa da Misericórdia, no Seminário, na Sé e em algumas repartições do Estado, que deveriam ser estudados, seleccionados, catalogados e imprimidos. Porque se não faz ao menos isso?Dever-se-ia ir muito mais longe. Além desses manuscritos, há livros, opúsculos, revistas e outras publicações com notas interessantes para a história de Macau. Dever-
F A L A R D E N Ó S - X I V 94J O R G E A . H . R A N G E Lse-iam coligir e, ao mesmo tempo, dever-se-ia organizar um índice desenvolvido com referência a tudo quanto a colecção contivesse sobre o assunto e merecesse interesse ou importância.Era assim que um dia, juntos que fossem todos estes elementos, alguém poderia abalançar-se a escrever a história de Macau. Não é de esperar que a iniciativa particular se lance em semelhante empresa; tudo isso exige muito tempo, muito estudo, muito trabalho, muitas despesas. Deverá o Estado, sendo como é o assunto de interesse público, empreendê-lo, incumbindo pessoa ou pessoas competentes de o levar a termo; e só assim julgamos que é possível dar-lhe boa solução.” O “Historic Macau” conheceu uma segunda edição, revista e ampliada, impressa em 1926 na Tipografia Mercantil e no Instituto Salesiano, em Macau, que acabou envolta em acirrada polémica. A Oxford University Press promoveu uma ampla divulgação desta obra, através duma edição fac-similada que saiu do prelo em Hong Kong, em 1984. Em Setembro de 1990, a editora Livros do Oriente publicou a 1.ª edição do “Historic Macau” (versão de 1926) em português, com notas introdutórias de Carlos Estorninho. Ao longo do século XX, é incontornável a obra imensa legada pelo Monsenhor Manuel Teixeira, que classificou Luís Gonzaga Gomes como o maior historiador de Macau de sempre, sendo indispensável referir também, entre outros, os contributos fundamentais de Beatriz Basto da Silva, Charles Boxer, Celina Veiga de Oliveira, António Aresta e investigadores universitários de alto mérito, como António Vasconcelos de Saldanha, Jorge Santos Alves, Luís Filipe Barreto e Rui Manuel Loureiro. Mas, um século volvido, o desafio de Silva Mendes, na opinião de muitos, permanece válido...21 de Agosto de 2017
F A L A R D E N Ó S - X I V95J O R G E A . H . R A N G E LPreocupações de Silva Mendes com a estética da cidade Como se pode ver em vários dos seus artigos publicados na imprensa local, Manuel da Silva Mendes (1867-1931) foi muito crítico das transformações urbanas operadas em Macau nas primeiras décadas do século XX, como o foram tantos outros, ao longo das décadas seguintes, até aos nossos dias. Com o título “A estética da cidade”, em “O Progresso” de 17 de Janeiro de 1915, deixou-nos estas incisivas considerações:Sem arte e sem gosto“As obras públicas nesta colónia têm tido por objectivo principal o embelezamento da cidade. Nisto têm sido dispendidas nos últimos dez anos algumas centenas de milhares de patacas.De facto, a cidade, sob certos respeitos, está melhor do que antes do começo desse período. Todavia deve reconhecer-se que, sob o ponto de vista estético, nada se tem adiantado. Um passeio pelas ruas da cidade revela completa ausência de sentimento artístico tanto nas obras dos particulares como nas obras do Estado. Dantes, ainda havia bom número de prédios, principalmente no estilo chinês, em que se podia notar, se não requinte de arte, pelo menos qualidades de bom gosto. Havia também alguns edifícios em estilo europeu que, embora não fossem grandiosos, eram de aparência decente, agradável. Havia mesmo alguns em que se via reproduzida, tão longe de Portugal, a feição das antigas casas portuguesas: pátio, escadaria externa de granito, salão e ao lado o quarto.Tudo ou quase tudo isso foi abaixo; e o que em vez disso (que era alguma coisa de interessante e característico) se construiu, é uma fancaria que repugna ao mais elementar senso estético. Alguma coisa que ainda há de bom, alguma coisa decente que resta, foi o que escapou ao camartelo demolidor. “Este descalabro podia tê-lo evitado o Estado, dando o exemplo e ministrando a necessária instrução. Mas o Estado, que pela sua Direcção de Obras Públicas para si nunca conseguiu obter coisa que fosse digna de ver-se, nenhuma acção, a não ser negativa, exerceu sobre o espírito público.”
F A L A R D E N Ó S - X I V 96J O R G E A . H . R A N G E LVeio primeiramente, com ares de importância, um arremedo de estilo ‘renascença’ – a maior parte destas fachadas em arcaria, construídas com materiais impróprios e com um acabamento de barraca de feira. Tinham ainda assim as primeiras construções linhas correctas; pouco a pouco, porém, nem correcção de linhas, nem materiais adequados, nem sofrível acabamento: a mais banal fancaria.O estilo chinês não degenerou menos. Para se darem ares de europeizados, os proprietários chineses foram abandonando pouco a pouco o seu antigo estilo, construindo habitações que nem são europeias nem chinesas. Há ainda quem se lembre da completa separação em que viviam dantes os europeus ou macaístas e os chineses. Podiam estes ter criado um novo estilo arquitectónico ou ter ao menos fundido harmoniosamente os elementos do estilo chinês com algum dos tipos ou estilos europeus. Não fizeram, porém, nada disso; fizeram o que aí se vê: construções sem arte, sem gosto, sem comodidades. Não lhes era, de resto, fácil encontrar satisfatória solução. Dos europeus, que não sabiam construir nem manifestavam senso artístico no que construíam, não lhes podia vir exemplo nem educação. Por si, pouco ou nada podiam fazer, pois que na China nunca foi permitido alterar o tipo ancestral de construção e não tinham, por isso, em si os estímulos que sempre são necessários ao desenvolvimento artístico ou à criação de novas formas.Este descalabro podia tê-lo evitado o Estado, dando o exemplo e ministrando a necessária instrução. Mas o Estado, que pela sua Direcção de Obras Públicas para si nunca conseguiu obter coisa que fosse digna de ver-se, nenhuma acção, a não ser negativa, exerceu sobre o espírito público. Edifícios do Estado, os de melhor construção e de melhor aparência, foram adquiridos de particulares.”
F A L A R D E N Ó S - X I V97J O R G E A . H . R A N G E LObras Públicas e o seu Conselho TécnicoNo mesmo artigo, talvez com algum excesso de linguagem, Silva Mendes entendeu por bem lançar oportunas farpas à actuação da Direcção das Obras Públicas e do seu Conselho Técnico, pelo “triste papel” de ambos:“A Direcção das Obras Públicas e um Conselho, por ironia denominado Técnico, tem exercido a atribuição de aprovar ou rejeitar os projectos de construções e de fiscalizar a execução de toda essa moderna fancaria predial que a cidade apresenta a quem a visita. Triste papel ambos têm feito!Em países adiantados não se procede assim. Ninguém é obrigado a fazer obras primas ou mesmo obras de arte; mas a ninguém é permitido levantar edificações que ofendam o senso estético do público. Exteriormente, nas fachadas que olham para as ruas, exige-se pelo menos correcção de linhas, emprego de materiais adequados ao tipo da construção e acabamento correspondente à importância da obra.Interiormente, respeitados os preceitos da higiene, tolera-se que construa cada qual como pode ou como quer. Nesta parte governa somente o gosto, o interesse ou a conveniência do proprietário. Exteriormente, não; exteriormente o prédio é, até certo ponto, público e deve, por isso, ser construído de modo que não ofenda o senso estético comum. Em todos os países civilizados as cidades são consideradas como valores sociais; e, assim, a sociedade tem o direito de, por intermédio de quem a representa, fiscalizar estes valores. Daí a existência de regulamentos para as construções ou edifícios dos particulares.
F A L A R D E N Ó S - X I V 98J O R G E A . H . R A N G E LO regulamento de Macau é de recente data, mas, sob este ponto de vista, inteiramente deficiente. Poderiam até certo ponto completá-lo as entidades às quais a lei confere as atribuições de aprovar os planos das construções; nada têm feito, porém, a tal respeito. A composição do conselho técnico é tal, que não se ofenderia a maioria dos seus membros se, em vez de técnico, se lhe chamasse acrobático ou musical.Por isso aí está a cidade desvalorizada, sem meia dúzia de edifícios que sejam dignos de ser vistos. Tem-se dito que entra nos planos da administração pública fazer de Macau uma cidade atraente de modo a ser procurada por turistas. Se assim é, não o parece; ou então conta-se que sejam pretos os turistas...O mal que está feito, feito está. Daqui em diante, porém, poder-se-ia mudar de orientação. Há novas avenidas a abrir: que ao menos nessas se não tolere a construção de prédios que envergonhem a cidade; e quanto ao pouco de aceitável que resta ainda do muito que se tem demolido, que se não permitam alterações para pior. Bem sabemos que quase ninguém entre nós olha para estas coisas; mas olham os outros, os de fora, os mais civilizados; e não nos pode ser agradável que se diga e se escreva, como de facto se diz e se escreve, que Macau, como cidade, a não ser certas ruínas, nada vale.”Preocupações de ontem que permanecem vivas entre nós, um século depois... 28 de Agosto de 2017
F A L A R D E N Ó S - X I V99J O R G E A . H . R A N G E LSilva Mendes e a irresistível comparação com Hong Kong A partir do estabelecimento dos ingleses em Hong Kong e do seu rápido desenvolvimento como singular e próspera colónia de Sua Majestade Britânica, tornou-se irresistível, para quem residia em Macau, uma constante comparação entre os dois territórios. Também Manuel da Silva Mendes o fez em vários dos seus escritos, mas com particular ênfase neste artigo intitulado “Macau e Hong Kong”, publicado no jornal “O Macaense”, de 7 de Dezembro de 1919:Macau e Hong Kong“Muita gente que mora em Macau e vai uma vez por outra a Hong Kong, traz de lá a impressão de que, ao pé de Macau, aquilo é que é a cidade! Pois também nós uma vez por outra vamos a Hong Kong e voltamos de lá sempre com a impressão de que aquilo, para lá se viver, não presta. É Hong Kong melhor do que Macau, ou é Macau melhor do que Hong Kong?Melhor e pior são termos relativos. Quem põe como principal fim do seu viver ganhar dinheiro, sentirá que vive melhor em Hong Kong do que em Macau; quem põe no seu viver em mais estima gozar saúde, sentirá que em Macau passa melhor. Quem se dá bem no meio de grande movimento, de bulício, de ruído, gostará mais da vida de Hong Kong; quem prefere viver em tranquilidade, gostará mais da vida de Macau.Tomando a grandeza como ponto de comparação, é evidente que Macau está muito abaixo de Hong Kong; mas, no caso, o ponto é mal tomado, porque nunca uma cidade foi considerada melhor do que outra simplesmente por ser maior. As cidades, como os homens, não se medem aos palmos; como nem os burros por terem grandes orelhas dão na feira mais dinheiro.Ora, em nosso entender, a superioridade de Hong Kong sobre Macau, tirando o seu comércio e partes que com ele se relacionam, consiste principalmente em ter “Hong Kong tem grandes construções, grandes prédios; Macau tem construções que não passam de modestas. Mas onde há mais variedade, mais elegância, mais pitoresco: nas construções de Hong Kong ou nas de Macau?”
F A L A R D E N Ó S - X I V 100J O R G E A . H . R A N G E Lmaiores orelhas. Macau é uma cidade velha, mas, apesar disso, ou mesmo por isso, é, sob o ponto de vista estético, muito superior a Hong Kong. Não só a natureza dotou Macau de maiores belezas, como também aqui a mão do homem as executou melhores. E se esta afirmação a alguém parecer menos verdadeira, lembre-se esse alguém de que a grandeza não é essencial predicado da beleza. As coisas grandes, as muito maiores do que aquelas que estamos habituados a ver, podem produzir em nós admiração. A admiração, porém, não é necessariamente uma vibração estética.Hong Kong tem grandes construções, grandes prédios; Macau tem construções que não passam de modestas. Mas onde há mais variedade, mais elegância, mais pitoresco: nas construções de Hong Kong ou nas de Macau? Há nestas. O conjunto das de Hong Kong tem um ar pesado, abafador; sente-se a gente, lá nas ruas, olhando para aqueles enormes blocos, como que pequeno, como que bicho rastejante, como que formiga de um vasto formigueiro.Ora a ideia, a impressão (se não é facto), de sermos ou parecermos mais pequenos do que somos, incomoda. Aqui em Macau, pelas ruas, sentimos que somos o que somos – ‘filhos de algo’. Não nos apoucam os prédios: somos o que somos e, por vezes, quando estamos cheios de nós mesmos até nos parece que somos maiores alguma coisa. Há justa proporção entre nós e a cidade; em Hong Kong, não há: há desproporção, o que em estética é erro grande. A fábula da rã e do boi em Hong Kong não poderia ter-se dado; enquanto que aqui em Macau, incha a gente quanto quer.Não há beleza sem variedade. Ora, lá, se aquilo não é tudo monotonia, bem o parece. A variedade que haja, é abafada, sufocada pela dominante impressão de ser tudo aquilo uma mole enorme que pesa sobre nós enormemente. Não há sons ali; há um ruído só, um ruído contínuo, extenso, imenso. A voz humana não é voz humana: é uma parte indistinta desse ruído grande, confuso, importuno, constante. Não se ouve ninguém a cantar, um cão a ladrar, um gato a miar!”
F A L A R D E N Ó S - X I V101J O R G E A . H . R A N G E LDiferente, para melhorEstabelecido o paralelo e não deixando de reconhecer as vantagens oferecidas por Hong Kong, a conclusão de Silva Mendes, pelos motivos que identificou, era claramente favorável a Macau:“Quão diferente de Macau! Aqui, de dia, é a natureza a rir; de noite, se não dormimos, há sempre, para nos entreter, um cão que ladrando nos diz que alguém passa, concertos felinos nos telhados, um galo que dá a meia-noite, outro que saúda a alvorada, um grilo que canta na cozinha, a natureza, enfim, em plena actividade. (...) Ora isto enche a alma! Faz-nos bem este contacto com a natureza: ouvir no inverno ao longe o mar bramando, ou, quando não, na praia a espreguiçar-se; ouvir, sem o sentir, debaixo da manta, o vento da invernada, ou, no verão, o zéfiro a acariciar o arvoredo; ouvir a chuva a potes a fustigar a natureza, e a nós não, debaixo do lençol! Onde é que em Hong Kong há isto? – À noite, quando o ruído cai, fica tudo lá um cemitério; e, se é em hotel que ficamos, em quarto numerado como se já nome não tivesse o morador, e somos dados à fantasia, sentimo-nos à meia-luz se não dormimos ou se acordamos, no inverno, regelados, no verão, como que em câmara funerária a apodrecer!...Tem Hong Kong mil navios; altas chaminés que vomitam negro fumo; autos, eléctricos, locomotivas; hotéis, armazéns, oficinas, bancos grandiosos – o progresso, enfim, que a Europa e a América criam. Mas é isto, é o progresso a felicidade? – ‘It appears to me doubtful if we Europeans are a whit happier for progress’ – parece que a felicidade humana nada ganha com o progresso (E. H. Parker, China, her History, etc.), ‘it has certainly not had cheerful results so far for the Chinese’ – e que aos chineses o progresso não tem feito bem algum (ibid., pág. 86).
F A L A R D E N Ó S - X I V 102J O R G E A . H . R A N G E LNão somos nós tão pessimistas. Algum bem o progresso faz à gente. Mas há-de andar com a moral e com a estética combinado. A sós, é a materialidade que depressa conduz ao retrocesso, à miséria, à dor, ao desespero, ao nada. O silvo do progresso arrepia-nos as carnes: há-de ouvir-se também ao lado o arrulho de uma rôla. Podem golpes de Bolsa ousados dar-nos milhares de libras, um milhão: mas cuidado, vive mais feliz o pobre que é honrado, do que o rico que é ladrão. O progresso é um vinho apetitoso, mas quer-se tomado em medida. É a mocidade, geralmente, por ter menor experiência, quem se ilude mais. Ferve-lhe o sangue e gosta do bulício. É ela quem mais culto presta, por isso, à Leviandade para a qual o progresso com força a arrasta; mas é também ela, se de sãos princípios de moral e de estética não anda couraçada, quem por fim, pesadíssimos tributos paga em dores, em desenganos. Estamos em Macau mais com a natureza. Confortos do progresso não os temos tantos; mas nadamos em ar oxigenado. Dinheiro, queremos dizer milhões, não temos como em Hong Kong; mas dinheiro, muito dinheiro, milhões, dá-nos isso felicidade, a verdadeira felicidade? – Não nos dê Deus a miséria aborrecida, mas livre-nos de opulência que não seja de saber e de virtude.”Preferindo, sem hesitação, Macau, cidade pequena e de recursos limitados, mais humana e próxima da natureza, tranquila, aconchegada e bonita, Silva Mendes acreditava que o progresso “algum bem faz à gente”, mas “há-de andar com a moral e a estética combinado”. Depois das impressionantes mudanças verificadas em Macau, nas últimas décadas, ao comparar a nossa bendita terra com Hong Kong, o que diria agora Silva Mendes? 4 de Setembro de 2017
F A L A R D E N Ó S - X I V103J O R G E A . H . R A N G E LQuando Silva Mendes se queixava da falta de hotéis em Macau No fim da Grande Guerra (1914-18) era visível o declínio acentuado de Macau. Enquanto em Hong Kong se abriam novas vias de crescimento e prosperidade, Macau definhava e já nem sequer tinha condições para atrair forasteiros que, nesse tempo e nas décadas seguintes, começavam a demandar a nova colónia britânica. Num artigo publicado no jornal “O Macaense”, de 7 de Novembro de 1920, Manuel da Silva Mendes punha o dedo na ferida:Sem hotéis“Faz grande falta em Macau um hotel que se possa dizer bom. Há uns seis ou oito anos ainda havia o Hotel da Boa-Vista e o Macau-Hotel, que serviam menos mal. Nenhum deles, porém, estava bem à altura já do conforto desejável e por isso não tantos forasteiros aqui vinham, como, se melhores fossem, viriam visitar-nos. Pelintras são poucos os que viajam e destes o maior número metem-se em qualquer canto, nos lugares de terceira ou quarta ordem, que todos os bons hotéis em regra têm, e fazem ou cuidam que fazem mesmo assim grande figura – Em que hotel Você ficou? – No Palace Hotel. (Já se entende: nas traseiras de um quarto ou quinto andar com vistas sobre a cozinha e o depósito de carvão; mas o sujeito, cuidando que em outro sentido a resposta lhe tomaram, fica com vontade de lá voltar para mais uma vez se envaidecer). Têm sobre os de meia tijela os hotéis de luxo esta vantagem: aparato, conforto, bons bifes, macios aposentos para quem tem dinheiro e gosta de gozar; lugares de segunda ordem, comodidade, para quem na bolsa tem modéstia; e muita vaidade para pelintras amigos de aparentar grandezas. E há tantos. Quer, porém, em Macau um rico, novo ou velho, sobre um macio sofá um charuto espiralizando fazer luzir os dólares e abundantemente de champanhe regar a pança, “Estão os hotéis de Hong Kong repletos de hóspedes sempre, os bons; está o único hotel que há em Macau, dias seguidos assobiando por fregueses.”
F A L A R D E N Ó S - X I V 104J O R G E A . H . R A N G E Ldão-lhe de verga um soi-disant sofá e do ‘José e Joaquim and Co.’ uma mixórdia avinagrada. Se quer um dandy noivo com a noiva gentil por uma temporada em Macau aluar-se, ou outro que noivo não é, com uma romântica gazela em ‘flirt’ uns dias passar, em vez dos fofos colchões que o caso requer, com soldadesco leito topa que os ideais do himineu logo desfaz ou outras ilusões. Não está bem. Não será para muito, mas não é terra Macau para tão pouco. A guerra explicou e justificou muita coisa: mas, agora, que tantos ricos há, que tanta gente viaja, estamos desaproveitando riqueza, dinheiro, e perdendo nome, ineptamente. Estão os hotéis de Hong Kong repletos de hóspedes sempre, os bons; está o único hotel que há em Macau, dias seguidos assobiando por fregueses.É o caso: trepa quem tem unhas (unhas aqui é cabeça) e nós não as temos. Os chineses, no ‘manejo’ dos quais está o único hotel que aqui existe, o New Macao Hotel, terão vontade mas, está provado, não têm jeito para isto. Um ‘tiang’ com bico de rouxinóis, ninhos de andorinha, barbatanas de peixe, rebentos de bambú, ‘vinho’ de rosas e... pipáchais, arranjam bem: fora disto, não dão. E isto não é o que o rico quer, a não ser uma vez para dizer que viu... e que provou...Foi nomeada, há dois anos ou mais, uma grande comissão (de que felizmente não fizemos parte) de turismo chamada, que no seu complexo programa tinha, se bem nos recordamos, um capítulo encimado com a palavra Hotéis. Ora não seria por culpa da comissão, mas o caso deu-se de ficarmos daí em diante cada vez em matéria de hotéis ‘mais pior’. São sempre assim as grandes comissões; se fazem pouco as pequenas, não fazem as grandes nada.Um bom hotel é, pois, uma das necessidades de que Macau precisa não sofrer. Como, porém, remediá-la, com lucros bons para quem se meter a isso, não sabemos
F A L A R D E N Ó S - X I V105J O R G E A . H . R A N G E Lnós; que se soubéssemos, não publicaríamos a receita, mas para nós a aviaríamos, que andamos do vil metal mais que bastante precisado.”Nada que atraía forasteirosAlém de lembrar a falta de hotéis, Silva Mendes foi também demolidor, talvez injustamente, no que respeita à ausência de atractivos turísticos: “Censurou-nos um amigo, não vai há muito tempo – um amigo que sabe, elogiando, censurar – porque havemos, por vezes, feito crítica com convincente lógica (sua expressão) destrutiva de ideias ou planos que o público tem por bons, sem indicarmos ao mesmo tempo substitutos que o mesmo público tenha por melhores, ou sem desanuviarmos os horizontes de coisas tristes. Aqui, porém, esperamos que igual merecida crítica nos não caiba, porquanto, em vez de um bife um coiro, que é o que dão, ninguém, o nosso amigo inclusive (que não é de maus comeres), por certo, há que goste. Deve este artigo satisfazê-lo agora, pelo suco não, que não tem nenhum, que lhe dê proveito, mas por ver que não caem as suas observações em roto saco. Resolvem-se problemas destes pela particular iniciativa, ou, quando esta falta ou não é eficaz bastante, pela acção daqueles que têm por cargo velar de cima, em instância última, pela pública prosperidade. De lamentar é que em Macau a iniciativa particular não baste, sobretudo se atendermos a que em muitas terras de bem somenos cabedais e movimento ela é suficiente. Parece que é sina nossa aqui não termos nada que atraia forasteiros, como tantas outras terras têm. Em Portugal, por exemplo, tem Lisboa o bom colares, Coimbra as arrufadas, o bom mexilhão Aveiro, o Porto seu conceituado vinho e tripas, Braga frigideiras, todas as terras, enfim, seus pitéus, com que a gente se pode consolar à tripa forra. Em Macau, de original, só conhecemos, de ver que não de experimentar, de
F A L A R D E N Ó S - X I V 106J O R G E A . H . R A N G E Lmãos chinesas os ‘tiangs e pipáchais’ e de macaístas o ‘chao chao diabo’, que não são positivamente para turistas, entre os quais abundam, nos tempos que vão correndo, fracas damas delicadas, comeres dos mais apetitosos.Tudo hoje anda mudado. Os espirituais apetites estão pelo preço agora dos rublos. Não vemos, como já vimos, bichas de gente de enfiada para as igrejas: tudo enfia hoje, de automóvel para chegar depressa, não vá o bife arrefecer, para o hotel ou o restaurante. Carnais apetites, e nada mais. Temos até certo receio, tão solitárias as igrejas e os museus estão, de lá entrar, não vão mal dizentes línguas pôr as nossas espirituais tendências em suspeita, quando lá, a sós com o sacristão ou o porteiro, nos lobriguem. Temos aqui no ‘Macaense’, repetidas vezes, a excelência dos prazeres espirituais posto em relevo, e aconselhado (posto que de pesado conselho não sejamos, mas, enfim, na qualidade de carola, que ainda nos honramos de nestas coisas possuir) ao governo, mas em vão, artísticos atractivos aos turistas apresentar. Confessamos, porém, que temos andado no reino da lua ou começado pelo fim; e hoje reconhecemos que devem o bife e os colchões moles ter na vida primazia, e que, sem isso, nada, como nos está acontecendo; depois, depois, outro bife, e talvez mais nada...”Realmente, só muito tardiamente o território acreditou nas suas potencialidades turísticas e apostou nelas. Apesar da situação conturbada vivida na China, foram aparecendo alguns novos hotéis e restaurantes nas décadas de 1920 e 1930, mas uma promoção turística mais consistente só tomou forma a partir da criação de uma estrutura incipiente denominada Secção de Propaganda dos Serviços de Economia, a que se seguiu, já na década de 1960, a criação do Centro de Informação e Turismo de Macau. 21 de Agosto de 2017
F A L A R D E N Ó S - X I V107J O R G E A . H . R A N G E LCuriosas interrogações de Silva Mendes sobre o bolchevismoA revolução bolchevique, que tão poderosa influência exerceu nas opções ideológicas e na organização política de muitos estados no século XX e cujo centenário se comemora agora, também mereceu de Manuel da Silva Mendes, jurista e professor, algumas legítimas interrogações e irónicas observações. Estávamos em Janeiro de 1920, quando ele fez publicar um artigo intitulado “O bolchevismo” no jornal “O Macaense” (25/1/1920):O mistério do bolchevismo“As notícias que da Europa nos chegam sobre política internacional são tão confusas, tão incompletas e por vezes tão contraditórias, que difícil nos é compreendê-las. O bolchevismo estava dado como moribundo; a anarquia na Rússia seria completa; os exércitos revolucionários eram batidos por toda a parte. Se não quando, convencida toda a gente de que teria daqui a dias ou quando muito daqui a meses de assistir aos políticos funerais de Trotsky e Lenin, dão-no-los as últimas notícias como recobrados, fortes, sãos, como nunca até aqui se viram. Onde é que está a verdade? Alguma vez esteve o bolchevismo abatido? A população russa – diziam-nos as agências – estava na maior penúria, submetida a um regime inimaginável de tortura e de terror. Reinava lá o mais fero despotismo; em algumas cidades os habitantes mais queriam à morte do que à vida. Campeava por toda a parte a fome, a miséria extrema.Se não quando, a cuidar a gente que deveria em consciência concorrer com um óbulo para aliviar tanta miséria, chega-nos quente a notícia de que a Inglaterra abriu meia porta do bloqueio, que estava fazendo ao bolchevismo, para de lá importar muitos milhares de toneladas de cereais, a que a Rússia não pode dar consumo, e “Para longe vá o agoiro! Não nos faltava mais nada senão à última hora termos de, por dentro, reconhecer que o bolchevismo é bom e, por fora, de andar de pistola aperrada para a apontar ao primeiro bolchevista que nos gritasse que tudo é de todos – deles.”
F A L A R D E N Ó S - X I V 108J O R G E A . H . R A N G E Lmuitos outros milhares de ‘raw materials’, matérias-primas para as britânicas indústrias transformarem. Tínhamos já feito as nossas contas e apartado para as vítimas bolchevistas maquia adequada às nossas posses. Mas agora não; já não damos nada. Bolchevistas, vítimas e não vítimas, são, ao que parece, mais ricos do que nós. Eles exportam e nós não exportamos nada.Anda grande mistério no bolchevismo. O que é que ele é? – É a peste da humanidade; é o despotismo feroz, sem piedade; é a anarquia geral, dissoluta; é a fome negra, a miséria física e moral. Assim nos parlamentos, nos discursos políticos, nas gazetas o tem pintado. Mas será, de facto, o bolchevismo isso?Em artigo de fundo notou o The Hongkong Daily Press, de 23 do corrente, com razão, que se a Rússia tem para exportar a grande quantidade de cereais e matérias-primas que se diz, é isso prova de que nesse país, ao contrário do que tem sido propalado, há ordem, há organização; e entende que, no pé em que as coisas estão, mais vale proceder-se a uma séria investigação do que lá se passa e dizer-se claramente a verdade, do que ocultá-la ou envolvê-la, em notícias dúbias ou contraditórias. Apoiado.Mas nem todos apoiam. Há partidários de um cordão apertadíssimo à Rússia, que estrangule, se não a ela, ao bolchevismo; e, entre os Aliados, parece que é a França (quem o havia de dizer?!) que quer que se puxe com mais força a corda. Será lembrança e vingança do que lhe fez a Rússia, associada a outros, em 1789...Do procedimento dos Aliados desde o princípio do bolchevismo até ao presente várias conclusões se podem tirar, e, entre outras, as seguintes: a) que nunca chegaram a saber o que o bolchevismo é, ou que, se chegaram a sabê-lo, puseram freio à imprensa
F A L A R D E N Ó S - X I V109J O R G E A . H . R A N G E Lpara que o não divulgasse; b) que nunca as potências aliadas puderam entender-se acerca das medidas a tomar para com a Rússia.”De bacamarte em punhoNos últimos parágrafos do artigo, embora mantendo as interrogações iniciais, Silva Mendes concluiu que, se, para o bolchevismo, é “tudo nosso”, isto é, “tudo deles”, esperá-lo-ia de bacamarte ou andaria “de pistola aperrada para a apontar ao primeiro bolchevista que nos gritasse que tudo é de todos – deles”:“Aqui no Extremo-Oriente, na Sibéria, empataram as potências meses e meses a decidir se haviam ou não haviam de auxiliar o almirante Kolchak. Que sim, e vieram tropas dos Estados Unidos, da Inglaterra, do Japão e não sabemos mais donde. Que não agora, e dos Estados Unidos já veio ordem para que as suas tropas retirem imediatamente. O Japão ficaria, há poucas semanas, incumbido de manter a ordem, ou antes, de impedir o avanço da onda bolchevista. Que já não é isso, pois que o Japão não quer – dizem as últimas notícias.No norte da Rússia tem acontecido o mesmo. A Inglaterra desembarcou lá tropas. Daí a tempos tirou de lá as tropas e ficou a bloquear com a esquadra o Báltico. Agora decidiu abrir meia porta para deixar passar cereais e matérias-primas que, dizem recentes telegramas, ficam, vindos da Rússia, muito mais em conta do que comprados na América. A França, o ano passado, mandou para o Mar Negro também uma esquadra contra os bolchevistas: teve de a fazer retirar à pressa, porque os marinheiros entraram em via de se bolchevizarem...Que reina anarquia na Rússia, conclama a imprensa europeia. – Sim, senhores, será isso; mas, se é, é uma anarquia de nova espécie, uma anarquia militar que vence
F A L A R D E N Ó S - X I V 110J O R G E A . H . R A N G E Los exércitos disciplinados, uma anarquia económica que estimula a produção a ponto de exceder as necessidades do consumo. Se isso assim é, excelente anarquia e viva o bolchevismo!Para longe vá o agoiro! Não nos faltava mais nada senão à última hora termos de, por dentro, reconhecer que o bolchevismo é bom e, por fora, de andar de pistola aperrada para a apontar ao primeiro bolchevista que nos gritasse que tudo é de todos – deles. Anda grande mistério no bolchevismo. O mesmo foi dantes com a Revolução Francesa. Aquilo era a maior peste que sobre a humanidade podia ter caído. Era proibidíssimo ler coisas francesas; queimavam-se os jornais e os livros da França com a mesma devoção com que a Inquisição queimava judeus e pedreiros-livres. Afinal, a gente ri-se hoje desse medo e dessas humanas maluqueiras...Será com o bolchevismo a mesma coisa? – Não sabemos; estamos em desconfiada expectativa, se bem que não rejeitemos in limine, a priori, a hipótese de virmos, mais dia menos dia, a ser um sincero e apaixonado bolchevista. Tudo pode ser; mas para isso é preciso que ele não seja como o pintam, ‘tudo nosso’, quer dizer ‘tudo deles’, porque se ele é isto, esperá-lo-emos de bacamarte...” Falecido em 1931, Silva Mendes ainda acompanhou à distância, ao longo de mais uma década, as profundíssimas mudanças políticas operadas na Rússia e a difusão da nova ideologia que conheceu rápida expansão no mundo, atingindo o seu ocaso no estertor da União Soviética, na década de 1980. Silva Mendes não precisou de empunhar o bacamarte, nem apontar a pistola...18 de Setembro de 2017
F A L A R D E N Ó S - X I V111J O R G E A . H . R A N G E LApelo de Silva Mendes para salvar Macau num tempo de crise A crise económica mundial alastrava-se rapidamente no final da primeira década do século XX e os sinais de mudança dos regimes políticos na China Imperial e em Portugal avolumavam-se. Mais uma vez Macau atravessava um período de acrescidas dificuldades, incertezas e ameaças.Numa reunião pública levada a efeito no dia 1 de Maio de 1909, Manuel da Silva Mendes juntou a sua voz às de outros influentes cidadãos locais, fazendo esta veemente intervenção que fez publicar, na semana seguinte, no Vida Nova (9 de Maio de 1909):Crise avassaladora“Como cidadão português e como interessado directa e pessoalmente na prosperidade desta colónia, eu não devia faltar a este ajuntamento do povo de Macau, em que ele procura achar os meios que mais convém adoptar nesta hora de crise. Chegou, efectivamente, uma hora para esta colónia, em que não é lícito a nenhum cidadão português deixar de prestar o seu concurso na solução do problema que nos assoberba.Macau não morrerá; assim o esperamos e assim deve ser; mas para que não desapareça do mapa do mundo colonial português, e também para que, ficando terra portuguesa, não passe a viver uma vida apenas vegetativa, é absolutamente indispensável que se produza uma acção forte de vontades em todos nós e que às nossas determinações corresponda uma acção enérgica e intemerata conquanto prudente e reflectiva. Senhores! A crise que avassala esta colónia não é inteiramente recente. Ela começou de manifestar-se sob carácter económico após a guerra russo-japonesa, para mais tarde se agravar com o krak financeiro da América do Norte, que bracejou para “Macau excedeu em valor histórico todos os estabelecimentos europeus no Extremo Oriente; quase todos os povos europeus aqui têm uma parte da sua história.”
F A L A R D E N Ó S - X I V 112J O R G E A . H . R A N G E La Europa e para a Ásia. Todo o Extremo Oriente se ressentiu gravemente desta crise, que nestas partes tomou especialmente o carácter de depressão comercial, e ainda hoje afecta todos os mercados do Extremo Oriente. Este ponto é indispensável tê-lo em vista para a justa compreensão da nossa situação. Não foi Macau, pois, o único mercado atingido: foram-no todos os do Extremo Oriente; e apraz-me consignar que mais que o nosso outros sofreram e estão sofrendo – Tientsin, por exemplo, que se acha numa situação verdadeiramente inextricável. Felizmente, essa situação vai melhorando por toda a parte; o horizonte económico apresenta claros sinais de desanuviar-se. Declarou-o há poucas semanas com autoridade para falar no ponto, o presidente da câmara de comércio da vizinha colónia de Hong Kong; e demonstra-o o actual movimento, realmente animador, das bolsas de Londres e Hamburgo, que são na Europa barómetros certos do estado económico do Extremo Oriente. E Macau, pelo que eu tenho podido observar (se erradas não têm sido as minhas observações), não apresentará talvez sinais evidentes de ressurgimento – o que eu explico pela fraqueza das suas forças anteriores – mas vai agora realizando em relativa, quase satisfatória tranquilidade as suas minguadas transacções – tranquilidade que eu julgo sinal precursor de convalescença. Não viria, pois, mal de morte a Macau se à aludida crise não viessem à última hora ajuntar-se, para a complicar, factores de ordem política e recentemente financeira. Eis aí o mal com mais graves aspectos.” Decisões prementesTraçado este enquadramento, apelou-se à tomada urgente de decisões inadiáveis, tidas como fundamentais para a sobrevivência económica de Macau:“Incidentes vários com as autoridades do Império Chinês, que são do conhecimento
F A L A R D E N Ó S - X I V113J O R G E A . H . R A N G E Lde todos e por isso não recordarei, trouxeram a questão da delimitação de Macau e azedaram os ânimos da população dos distritos vizinhos, a ponto de se nos pretender negar direito ao senhorio de terrenos que de há séculos ocupamos, possuímos, usufruímos e são nossos, e das águas que banham o litoral da colónia.Devemos crer que o governo da metrópole não dorme; devemos crer que está cumprindo e cumprirá com patriotismo o seu dever. Mas é preciso, é absolutamente indispensável que haja urgência na solução desta pendência, pois que ela nos será desfavorável na medida da demora que se puser em resolvê-lo. Reclamemos, pois, urgência: lembremos ao governo da metrópole que toda a demora nos será prejudicial; que venha o mais rapidamente possível o delegado português para a delimitação da colónia. Com este assunto prende-se a questão das obras do porto, cuja execução há mais de trinta anos se reconheceu ser de urgente e inadiável necessidade. É uma questão de vida ou de morte para esta colónia. Se deixarmos que os nossos vizinhos de Heung-chao se nos adiantem; se nós nada fizermos e eles fizerem, como projectam, aí um porto com as indispensáveis condições; se Heung-chao se tornar o terminus das várias vias férreas que indubitavelmente num futuro próximo hão-de cortar os ricos distritos vizinhos – Macau tornar-se-á, não já numa aldeia de pescadores, mas um lugar deserto ou um montão de ruínas. (...)É desnecessário, porém, meus senhores, repetir o que todos sabemos, avivar o que todos sentimos. As necessidades da colónia são palpáveis, evidentes; e o perigo da sua não imediata satisfação a todos é tão manifesto, que eu não quero ser prolixo, descrevendo-o em mais traços. Passa para a colónia uma hora das mais angustiadas da sua longa existência. Passa uma hora em que não é lícito à metrópole, que das situações prósperas desta terra se tem aproveitado, deixar de olhar agora para ela com excepcional e particular atenção.”
F A L A R D E N Ó S - X I V 114J O R G E A . H . R A N G E LMarco históricoO discurso terminou com a exaltação do valor histórico de Macau: “Macau é terra portuguesa e isso basta dizer. Mas Macau é também o marco que Portugal plantou mais distante nos heroicos tempos da sua gloriosa epopeia marítima. Macau é quem dá nome do Extremo Oriente a Portugal.É a Macau que a Europa e a América devem a sua iniciação no comércio com o vasto Império Chinês. Aqui se estabeleceram os armazéns das históricas e poderosas companhias da Índia e Holandesa, em segurança que noutra parte não tinham. Por aqui entraram, aqui se estabeleceram e aqui se refugiaram nas horas de perigo os primeiros pioneiros da civilização ocidental, os primeiros comerciantes e os primeiros missionários, que da Europa e da América vieram à China.Macau excede em valor histórico todos os estabelecimentos europeus no Extremo Oriente; quase todos os povos europeus aqui têm uma parte da sua história. Macau é, pois, credor da gratidão da Europa. Aos sentimentos de estranhos não temos, porém, necessidade de recorrer. Cumpre-nos tão somente neste momento congregar os nossos esforços para debelar a crise por que a colónia passa; e como é de evidência que só por nossos esforços a não podemos vencer, façamo-lo saber à metrópole para que com o seu auxílio Macau possa ressurgir à altura dos seus antigos tempos de esplendor.”Claro que Macau venceu mais essas vicissitudes da sua história. E, mais de um século volvido, continuam a ser desejáveis, entre nós, lúcidas intervenções cívicas como esta que Silva Mendes frontalmente assumiu. 25 de Setembro de 2017
F A L A R D E N Ó S - X I V115J O R G E A . H . R A N G E LSilva Mendes e as dificuldades no ensino da língua portuguesaTodos os professores que ensinaram a língua portuguesa em Macau puderam identificar, com maior ou menor precisão, as dificuldades encontradas no desempenho das suas funções. Também as experimentaram os docentes das mais variadas disciplinas em escolas locais de língua veicular portuguesa. Há quase cem anos, Manuel da Silva Mendes, entre outros artigos que publicou em órgãos de imprensa sobre temas relacionados com a educação, escreveu assim na edição de 11 de Julho de 1920 do jornal “O Macaense”:Matéria ingrata de ensinar“Nas escolas de Macau a matéria mais ingrata de ensinar é a língua portuguesa. Os alunos entram na escola com um conhecimento muito limitado do vocabulário, com grande indisciplina gramatical e eivados de vícios de linguagem, morfológicos e construcionais. Em Portugal já assim não é; os alunos vêm de casa disciplinados no falar e com um já extenso cabedal de usuais termos. O trabalho do professor, por isso, na metrópole consiste quase somente em corrigir uma ou outra errada locução, em aumentar o conhecimento do vocabulário, em ensinar e fazer compreender as diferentes formas locucionais das mesmas ideias e em provocar o gosto pela leitura da linguagem apurada ou artística.Em Macau a tarefa do professor é diferente. Tem de começar por demolir e reconstruir ao mesmo tempo: demolir numerosos erros fonéticos, morfológicos e sintáticos; e reconstruir com os materiais sãos que ficam e com outros que vai fazendo adquirir, o edifício de conhecimentos linguísticos dos alunos. Várias são as causas determinantes da diferença do conhecimento da língua portuguesa observada entre os alunos da metrópole e da colónia; mas a três se podem reduzir as de inferioridade destes, que são: a insuficiência numérica da população, a estreiteza do meio e a influência da língua chinesa.“Os erros camptológicos são, por isso, numerosos, nos alunos das escolas de Macau – erros que afectam já se vê, também a sintaxe, e anulam o sentimento estético da língua.”
F A L A R D E N Ó S - X I V 116J O R G E A . H . R A N G E LAqui quase que não há intercâmbio social de ideias; a convivência é pouco mais do que familiar. Ora, em toda a parte onde menos a linguagem se exercita é, por ser estreito, fechado, quase uniforme o meio, em família. Quem sente necessidade de conversar, de variar, de ter que dizer e de ouvir, sai de casa, vai para a rua, para os lugares de reunião, para onde haja enfim variada gente. Ora é precisamente isto o que aqui em muito falta. A terra são dois palmos; as pessoas conhecidas com as quais se pode conversar são parentes, com quem não há que dizer; se não são parentes, têm os mesmos hábitos, fazem as mesmas monótonas coisas; o que uns sabem, sabem já os outros: por isso e por não encontraram outra distração, a toda a hora joga-se ‘vafá...’.Para se adquirir extenso vocabulário é indispensável que o meio seja complexo: população numerosa, diferentes classes, diferentes profissões, fauna e flora abundantes, conflitos sociais, políticos, artísticos, etc. Sem um meio assim dizem-se sempre as mesmas coisas, não há variedade no falar, não se espevitam ideias, não se variam as formas da linguagem, não se criam locuções novas. Ora Macau sob este ponto de vista é um charco.”Influência do chinêsA influência negativa do chinês na aprendizagem da língua portuguesa foi frontalmente sublinhada por Silva Mendes, com base na sua experiência pessoal e na longa vivência que teve nesta terra que bem conheceu: “A língua chinesa, por outro lado, é para a língua portuguesa um elemento deletério. Língua monossilábica, inflexiva, arrasta para a sua natureza o falar português, idiomaticamente antípoda. Pelo contacto (o que é um facto bem curioso) não sofre o chinês do português; não há exemplos disso: mas sofre muito o português nas suas formas e na sua estrutura com o contacto da língua chinesa. O ‘patois’ macaísta não é senão um português estragado pelo contacto com a língua chinesa.
F A L A R D E N Ó S - X I V117J O R G E A . H . R A N G E LÉ facto bem verificado que as crianças não chinesas aprendem com mais facilidade a falar a língua chinesa do que a portuguesa. Não nos parece que este facto, como temos ouvido, tenha explicação no assíduo convívio com amas e criados: em nosso entender, resulta da maior simplicidade da língua chinesa, que as crianças desde a mais tenra idade ouvem simultaneamente com a portuguesa. Língua monossilábica e inflexiva é para a expressão das ideias elementares mais apreensível. Note-se que a gente de Macau no conhecimento da língua chinesa fica-se nos rudimentos infantis; não progride na medida da experiência: as formas expressivas de ideias complexas, abstractas, elevadas, ignora-as sempre. O seu chinês é todo terra a terra, como o das crianças; do vocabulário e das formas locucionais sabe só o que há na língua de mais simples e corrente. Mas este acanhadíssimo saber da língua chinesa é bastante para afectar muito gravemente não só a apreensão das formas de falar portuguesas, como também parece que para adormentar o sentimento estético delas. O ‘patois’ macaísta tende, por influência da língua chinesa, para a inflexão. Nunca chegou a constituir um dialecto, mas, se o houvesse constituído, ter-se-ia no seu desenvolvimento aproximado de um extravagante inflexivismo.Os erros camptológicos são, por isso, numerosos, nos alunos das escolas de Macau – erros que afectam já se vê, também a sintaxe, e anulam o sentimento estético da língua. A flexão nominal de número, a de mais difícil prolação, é, por essa razão e quando menos necessária à compreensão, a que mais padece; e anos leva o professor com alunos assim viciados a criar neles o hábito de se exprimirem correctamente. Mais grave, porém, é a ignorância em parte e, simultaneamente, em outra parte o errado conhecimento do emprego das preposições, com que os alunos entram nas escolas. Na língua chinesa, como é sabido, as relações não são indicadas por preposições com a frequência com que o são na língua portuguesa. Até para os próprios chineses
F A L A R D E N Ó S - X I V 118J O R G E A . H . R A N G E Luma das maiores dificuldades da língua é o de apreenderem o nexo lógico das partes do discurso. É como que telegráfica a linguagem na sua mais artística estrutura. (...)O incorrecto emprego das formas reflexas e passivas é outro ponto em que a dicção macaísta se torna reparada. A falta de formas paralelas na língua chinesas e, se não estamos em erro, a maneira simplista por que elas são traduzidas nesta língua, arredam as crianças da apreensão dessas complicadas e difíceis formas portuguesas, e leva-as a exprimirem-se também com um indisciplinado simplismo que irrita educados ouvidos portugueses, e se apresenta destituído da mais elementar graça.Corrigir este errado mecanismo da expressão das ideias exige grande experiência e especial tacto; é mais fácil criá-lo do que corrigi-lo. Facilmente a natureza o cria e o torna de automático funcionamento; dificilmente pelo esforço do professor e do aluno é corrigido, e raramente adquire instintivo, automático funcionamento.”Silva Mendes escolheu para título deste artigo “O ensino da língua portuguesa em Macau”, no qual não deixou de revelar a sua posição em relação ao patuá (“patois”), que classificou como “um português estragado, pelo contacto com a língua chinesa”. Observador atento, dotado de acutilante sentido crítico, a sua intervenção cívica manifestou-se em variados domínios, tendo o ensino sido para ele um dos mais relevantes. 9 de Outubro de 2017
F A L A R D E N Ó S - X I V119J O R G E A . H . R A N G E LCamilo Pessanha na memória crítica de Silva Mendes Manuel da Silva Mendes (1867–1931) foi contemporâneo de Camilo Pessanha (1867–1926) em Macau durante mais de duas décadas. No ano em que se comemora o 150.º aniversário do nascimento de ambos, vem a propósito recordar as demolidoras apreciações que Silva Mendes fez da obra do poeta num artigo publicado no dia 18 de Março de 1929 no quinzenário Ideia Nova: Conhecedor da arte chinesa“Conheci Camilo Pessanha durante mais de vinte anos de Macau e sempre com ele estive em boas relações. Durante a sua vida e ainda depois do seu falecimento até ao presente foi e tem sido ele, em jornais, revistas e no público, considerado como notável conhecedor da arte chinesa, grande coleccionador e excelente poeta. Eu discordo completamente de tal opinião e vou dizer porque assim penso.Camilo Pessanha como conhecedor da arte chinesa, – C. Pessanha nunca visitou museu algum que contivesse qualquer secção da arte chinesa. Nunca viu nenhuma colecção particular importante. Não possuía livros sobre arte chinesa pelos quais se pudesse instruir, com excepção de alguns, poucos, em que apenas se encontravam algumas noções gerais ou apenas aprofundavam um ou outro ramo. Nunca teve mestre ou perito a quem consultasse. Nunca procurou instruir-se, visitando os melhores estabelecimentos da venda de artigos nas espécies que pretendia coleccionar.Ora, nestas condições, sabido que não há ciência infusa e que o talento não supre sem um persistente e longo estudo a suficiente aquisição de conhecimentos, Camilo Pessanha não podia ter sido, como afirmo que não foi, um conhecedor da arte chinesa, se bem que geralmente tido como tal. E a prova mais concludente desta minha afirmação encontra-se na larga colecção que ele formou.“Durante a sua vida e ainda depois do seu falecimento até ao presente foi e tem sido ele (...) considerado como notável conhecedor da arte chinesa, grande coleccionador e excelente poeta. Eu discordo completamente de tal opinião...”
F A L A R D E N Ó S - X I V 120J O R G E A . H . R A N G E LCamilo Pessanha como coleccionador. – A sua colecção compunha-se, na sua quase totalidade, de louças e pinturas. Nem em umas nem em outras porém, igualmente no resto, continha ela uma única peça rara ou de grande valor, quer, antiga quer moderna. Das dinastias Tang, Sung e Yuan, em que a arte cerâmica atingiu o apogeu nas formas e na monocromia, nenhuma, mesmo de inferior qualidade. Da dinastia Ming, em que a classe de azul e branco e a policromia em desenho livre e largo atingiu também a maior perfeição, apenas um pequeno número de peças de inferior qualidade, que, de resto, podem ser adquiridas em qualquer estabelecimento importante por algumas dezenas de patacas. De outras peças respeitantes ao período moderno, que vai de Hang-Hsi até ao presente, de mais fácil aquisição, o maior número não passava de vulgaridades e o resto era constituído apenas por peças de segunda ou terceira ordem. Pinturas, não conseguiu Camilo Pessanha coligir um único exemplar antigo original. Toda a colecção consistia em pinturas modernas, sendo muito poucas as de bons artistas, e o resto constituído por cópias e exemplares de artistas inferiores.”PoetaSilva Mendes, ele próprio poeta e coleccionador, recusou, neste artigo, aceitar que Camilo Pessanha fosse “poeta na verdadeira acepção do termo”:“Eu quando quero saber se um trabalho ou obra que passam por artísticos, realmente o são, começo por examinar o modo da sua realização, verificando se os princípios e regras fundamentais relativos ao ramo da arte a que pertencem, foram ou não observados. Por exemplo: se se trata de uma pintura cuido primeiramente de ver se o desenho é correcto, se a perspectiva é exacta, se o colorido é harmonioso e se a atmosfera está suficientemente representada; e, se reconheço que na obra há pecados
F A L A R D E N Ó S - X I V121J O R G E A . H . R A N G E Lgraves contra esses princípios ou regras, logo concluo, sem necessidade de ir mais além, que ela não é artística não me interessando portanto já o assunto que representar, nem as emoções ou quaisquer efeitos que possa produzir, pois sei que naquelas condições não pode a beleza estar ali expressa.Também procedo da mesma maneira na apreciação duma obra poética: e, assim, começo por examinar se foram ou não observadas as regras aplicáveis à sua realização, isto é, se os versos estão devidamente construídos (bem acentuados, bem medidos, bem rimados e harmoniosos). Poeta não é o indivíduo que faz versos, mas só aquele que fielmente reproduz em formas poéticas as noções do belo. Ora, naquela sua obra os erros de metrificação, as ideias ilógicas, incongruentes e inconsequentes, são em tal número que revelam claramente a sua impotência para reproduzir o belo.Há quem diga que isso a que eu chamo erros, não o são, mas sim apenas desvios das regras clássicas, pois que Camilo Pessanha é poeta simbolista. Antes de responder a esta objecção, devo confessar que quando me encontro em presença de uma obra que me cheira a post-impressionista, simbolista, futurista ou qualquer outra espécie ‘ista’, fico logo de pé atrás, pois que para mim tenho que todas as obras ‘istas’ são, com raríssimas excepções, meras aberrações da arte e produtos, em geral, de indivíduos que, incapazes de produzir o belo pelas formas que uma longa evolução criou, a evolução da humanidade, pretendem alcançar aquele resultado por meio de outras derivadas do seu capricho, à sombra de teorias de sua invenção para se fazerem passar por artistas. Apesar disso, creio poder analisar com justiça a obra de Camilo Pessanha, e, assim, respondo que a objecção não colhe, porque o que se desviou delas, no metro em poucos casos, na acentuação em maior número, aceitando na rima o que as regras clássicas prescrevem: donde eu concluo que ele as adoptava em princípio ou como
F A L A R D E N Ó S - X I V 122J O R G E A . H . R A N G E Lsendo as melhores para as suas composições e que, portanto, não foi seu propósito desviar-se delas, violando-as, porém em muitos casos por incapacidade de as observar.É certo que Camilo Pessanha sentia abundantes e fortes emoções do Belo: disso não tenho eu a menor dúvida. A musa fervia-lhe furiosamente na alma. A ‘fúria grande e sonorosa’ que Camões pedia às musas, concederam-na elas, se bem que menos intensa, a C. Pessanha. A Clepsidra está inundada de emoções poéticas. Como porém não basta para se ser poeta sentir efervescências de beleza, mas é indispensável que sejam produzidas em formas belas (...) a conclusão que eu daqui tiro é que ele não era poeta na verdadeira acepção do termo. (...) É que, como já disse, poeta não é aquele que sente emoções belas, mas somente aquele que, sentindo-as, tem o poder de as reproduzir e as reproduz em formas poéticas.” Professor, prosador e jurisconsultoContudo, na parte final do mesmo artigo, Silva Mendes reconhece os méritos de Camilo Pessanha como professor (“Excelente professor!”), prosador (“Pureza, correcção e clareza, graça ou elegância com o cunho da sua individualidade, de resto tão características, são qualidades bem impressas nos seus escritos”) e jurista (“Durante a sua longa vida em Macau não houve jurisconsulto que o igualasse”). Quanto a ser ou não um verdadeiro poeta, contrariando em absoluto a opinião de Silva Mendes, Camilo Pessanha tem o seu lugar na história da literatura como um dos maiores poetas da língua portuguesa. 17 de Outubro de 2017
F A L A R D E N Ó S - X I V123J O R G E A . H . R A N G E LFalecimento e funeral de Silva Mendes em MacauO órgão regionalista independente Eco Macaense, de 2 de Janeiro de 1932, dedicou a Manuel da Silva Mendes este “In Memoriam”, em homenagem ao seu notável percurso de vida, como “professor erudito, causídico brilhante, excelente poeta, cintilante escritor, perseverante estudioso da literatura, da história, da arte e da filosofia chinesa” e “Mestre em muitos ramos do saber”:In Memoriam“Figura simpática e vulto de destaque nesta terra, a inesperada morte do sr. Dr. Manuel da Silva Mendes foi profundamente sentida em Macau, onde viveu metade da sua vida e onde em cada pessoa contava um amigo e admirador das suas lídimas qualidades intelectuais e morais.Para Macau veio há cerca de 30 anos como professor do Liceu, onde leccionou até ainda há bem poucos anos quando, tendo atingido o tempo de reforma, se retirou já cansado do esgotante trabalho do seu magistárrio, ao qual se dedicou com vontade e carinho, e enfraquecido de saúde. Como professor, foi um dos mais eruditos que o Liceu teve. As suas lições foram sempre atentamente escutadas porque soube sempre com raro tacto fazê-las interessantes de maneira a captar a atenção dos seus alunos, aos quais tratava com bondade e estima, que o admiravam e respeitavam. Também foi advogado, e dos melhores deste auditório em todos os tempos. Mestre no Liceu, também o foi no foro. Como poucos, soube exercer a sua nobre profissão com dignidade, aprumo moral e elevação. Foi, na verdade, como advogado, segundo a definição do Dr. Henri Robert ‘le défenseur de la veuve et de l’orphelin, le champion desintéressé de toutes les nobles causes, celui dont le dévouement est acquis à tous les désherités de la fortune et qui fait entendre, devant la justice, la voix de l’humaine pitié et de la miséricorde’. “Nascer não é começar. Morrer não é acabar.”
F A L A R D E N Ó S - X I V 124J O R G E A . H . R A N G E LTrabalhador incansável, apesar de doente e entrevado, recostado na sua cadeira de rodas, à beira da sua secretária cheia de livros e papelada, bastas vezes o fomos encontrar no seu escritório, transformado em precioso museu de arte, enfronhado em perseverantes investigações e profundos estudos. Mais de uma vez o vimos trabalhar, nestes últimos tempos, em processos judiciais, mais por amor à arte (como nos explicava) do que em mira de interesses materiais, e, geralmente, para tirar de embaraços algum colega menos experiente que à sua brilhante inteligência e vasta cultura recorria. A sua obra está pouco divulgada, porque a sua modéstia tornou-o em severo e exigente crítico de si mesmo. Ainda assim, dispersos pelos jornais e revistas publicaram-se muitos escritos seus, versando geralmente assuntos chineses em que era uma autoridade respeitável, e em muitos processos judiciais se encontram trabalhos jurídicos seus, inconfundíveis pelo seu cintilante estilo de laureado escritor da língua portuguesa. Há bem pouco tempo acabámos de reler os seus ‘Excertos da filosofia taoísta’ em que, a par da cultura, demonstrada, se nos revelou um profundo filósofo.Professor erudito, causídico brilhante, excelente poeta; cintilante escritor, perseverante estudioso da literatura, da história, da arte e da filosofia chinesa, a sua inteligência e vasta cultura tornaram-no Mestre em muitos ramos do saber. Roubou-o a Morte no momento em que ele quase que concluía a revisão de mais uma obra de vulto à qual, durante anos de paciente trabalho, dedicou o melhor dos seus esforços.Morreu o Mestre! Mas ‘morrer não é acabar’. À nossa admiração e agradecida amizade ficou a saudosa e perdurável lembrança dos seus doutos ensinamentos e dos seus modelares exemplos, em homenagem dos quais prestamos hoje publicamente o preito sentido da nossa imensa saudade e profunda gratidão pelas lições que deste Mestre e Amigo querido recebemos”.
F A L A R D E N Ó S - X I V125J O R G E A . H . R A N G E LEste “In Memoriam” termina com uma selecção de excertos da filosofia taoísta compilados por Silva Mendes e publicados em 1930 numa edição muito limitada, dedicada aos alunos do Liceu de Macau. Homenagem sentidaA imprensa local e de Hong Kong noticiou amplamente o falecimento ocorrido a 30 de Dezembro de 1931, sendo também de destacar o artigo publicado no jornal A Voz de Macau no dia 3 de Janeiro de 1932, cujo título foi “O funeral do Dr. Manuel da Silva Mendes”. Dele reproduzimos estas passagens mais relevantes:“Morreu o Dr. Silva Mendes!Esta notícia tão inesperada colheu-nos com a mais dolorosa surpresa. É que se sente, profundamente, o abalar inesperado de um amigo bom, um colaborador dos mais distintos de ‘A Voz de Macau’ cujas páginas abrilhantou com a sua colaboração distinta, um camarada ilustre cuja convivência nos honrava pela lhaneza de trato e amizade desinteressada com que nos distinguia.Os seus conhecimentos vastos e profundos, quer como advogado distintíssimo, quer como escritor de raro mérito, nunca desmentidos na vasta e douta obra que legou à posteridade, impõe-se à nossa consideração e respeito como exponente de uma inteligência invulgar ao serviço de uma proficiência e probidade profissionais verdadeiramente raras.As facetas variadas do seu saber, manifestam-se irradiando o fulgor da sua erudição profunda, no conhecimento e manejo hábil da língua difícil de Camões; na vastidão dos seus escritos nos jornais de Macau, nos arquivos dos tribunais da comarca,
F A L A R D E N Ó S - X I V 126J O R G E A . H . R A N G E Lem documentos de subido valor, pela profundeza de argumentação, pela clareza da linguagem e pela elevação e singeleza de conceitos e beleza da forma. Vindo novo ainda para Macau, em Fevereiro de 1901, em Maio desse ano tomava posse do seu lugar de professor do Liceu de Macau, onde, no ensino das letras pátrias e da língua latina, demonstrou durante 25 anos do magistério secundário, profundo e sólido conhecimento na regência das disciplinas que lhe foram entregues. Assim o declaram os seus inúmeros alunos que hoje lamentam a perda de tão ilustre ornamento do corpo docente do Liceu de Macau.Durante os seus 30 anos de residência em Macau, foram-lhe confiados, em diversos períodos da sua vida, elevados cargos de responsabilidade da administração pública, como substituto do Juiz de Direito e do Delegado do Procurador da República, tendo por várias vezes entrado em exercício dessas funções; como Presidente do Leal Senado, Administrador do Concelho, membro de várias comissões públicas nomeado pelo governo, tendo em todos estes cargos relevado uma inteligência lúcida, uma cultura e ponderação invulgares e um saber profundo que nas mais insignificantes circunstâncias se revelavam, e impunham ao respeito de todos os que o ouviam. No exercício da advocacia mostrou-se sempre pronto a acolher todos os que recorriam ao seu saber profissional, jamais se preocupando em distinguir pobres de ricos, a todos tratando com o maior desvelo e o mesmo carinho.”Acompanharam o féretro, no Cemitério de S. Miguel, onde foi sepultado este respeitado professor e causídico, as mais altas entidades públicas, colegas, alunos e muitos amigos. Na sua lápide ficaram gravadas estas palavras: “Nascer não é começar. Morrer não é acabar.”23 de Outubro de 2017
F A L A R D E N Ó S - X I V127J O R G E A . H . R A N G E LCatorze anos de continuada colaboraçãoFoi na singela e bem participada recepção comemorativa do 35.º aniversário do Jornal Tribuna de Macau (JTM), levada a efeito há poucos dias no salão principal do nosso emblemático Clube Militar que, em conversa com o seu fundador, primeiro director e agora administrador, José Rocha Diniz, me ocorreu dedicar este espaço, que me foi gentilmente facultado há catorze anos, a um comentário sobre a longa e regular colaboração que venho assegurando desde 5 de Dezembro de 2003, com um artigo ou crónica semanal cujo título genérico é “Falar de Nós”.Os primeiros artigos estavam relacionados com um importante Encontro das Comunidades Macaenses então em fase de organização: “Presidentes das Casas de Macau preparam Encontro 2004”, “Novas edições sobre a identidade e a diáspora macaenses”, “Maquista Chapado – precioso vocabulário”, “Macau Somos Nós – memórias de macaenses do Rio de Janeiro”, “Um ano de grandes desafios para a APIM” e “A Identidade Macaense – livro para ler e comentar”. Seguiram-se, ao longo dos anos, cerca de setecentos artigos e crónicas abordando temas sobre a memória, o legado, o presente e os desafios do futuro colocados a Macau em novas encruzilhadas do seu acidentado mas sempre persistente e abençoado percurso. Assegurou-se, desta feita, uma presença constante, apenas interrompida quando o dia destinado à inserção desses artigos foi feriado ou teve “tolerância de ponto”, o que em Macau acontece frequentemente. Por vontade própria, só uma vez o artigo não seguiu para publicação: foi quando faleceu o Presidente Mário Soares, sabendo que todo o espaço disponível não seria demais para cobrir tão relevante acontecimento. 14 volumesNo início de cada ano, os artigos e crónicas do ano anterior foram sendo reunidos em sucessivos volumes, cuja edição o Instituto Internacional de Macau (IIM) assumiu. “... uma palavra de gratidão a todos quantos tornaram possível este modesto contributo para uma maior compreensão de Macau e da Comunidade Macaense, cuja existência deu alma e identidade a esta terra que tanto amamos...”Do prefácio do 1.º volume do “Falar de Nós”, Dezembro de 2004
F A L A R D E N Ó S - X I V 128J O R G E A . H . R A N G E LSaíram já do prelo 11 volumes, estando mais dois em fase final de edição e devendo o 14.º ser fechado em Janeiro próximo. Vários tiveram anexos contendo entrevistas dadas a órgãos de comunicação social sobre temática relacionada com esta terra, suas gentes, manifestações culturais e uma história de quatro séculos e meio. O título escolhido foi o mesmo que acompanhou, desde o início, as séries de artigos e crónicas: “Falar de Nós – Macau e a Comunidade Macaense”. Acrescentou-se-lhe um subtítulo para caracterizar e, de algum modo, balizar o seu conteúdo: “Acontecimentos, personalidades, instituições, diáspora, legado e futuro”. Tem-me dado enorme satisfação encerrar cada novo volume, com a preciosa colaboração de Emília Guine, qualificada e competente funcionária do IIM, e da minha filha Alexandra Sofia, ela própria também dedicada, como investigadora, aos estudos de Macau. Devo recordar, igualmente, todo o apoio anteriormente garantido por uma antiga secretária, Lídia Cunha, que se entregou prematuramente aos braços do Senhor, sendo sempre lembrada com respeito e saudade. Macau tem suscitado nas últimas décadas um acrescido interesse, mesmo em círculos académicos a que pude ficar de novo associado quando as minhas responsabilidades no seio do Governo de Macau cessaram definitivamente, em Dezembro de 1999. Se outro mérito os escritos contidos nesses volumes não tiverem, valem pelo menos pelas pistas que jovens investigadores poderão prosseguir e aprofundar nos seus trabalhos que vão sendo cada vez mais numerosos, quer em universidades nacionais quer em estrangeiras. Não é errado afirmar que nunca Macau, nas suas variadas vertentes, ganhou tanta projecção externa como no tempo presente. Por outro lado, muita da impressionante bibliografia existente (e ainda crescente) sobre Macau tem sido objecto de atenta apreciação em artigos e crónicas que esses volumes contêm, o que lhes confere também alguma utilidade no contexto académico.
F A L A R D E N Ó S - X I V129J O R G E A . H . R A N G E LÉ verdadeiramente notável a produção editorial em torno desta terra, bem como da sua memória e da projecção que ela soube alcançar nas vertentes cultural e económica, favorecida pela conjugação feliz de circunstâncias positivas. Quantos mais volumes iremos ainda conhecer? Quando este projecto foi lançado e o primeiro volume foi concluído, vislumbrávamos a possibilidade de, eventualmente, serem acrescentados mais dois ou três. Aqui chegados, com catorze já praticamente arrumados, cabe-nos continuar a assumir o desafio, enquanto a saúde, a vontade e a capacidade o permitirem. Acreditamos que este é um contributo, modesto certamente, mas sentido e persistente, para uma compreensão correcta da dimensão humana, social e política de Macau, entreposto privilegiado que a História consagrou e que, como região especial da China, quer prolongar, em tempos de mudança, a sua vocação de sempre. Prémio de Jornalismo da LusofoniaOs dois últimos números do JTM, agora com novo visual e um reafirmado propósito de continuar a servir Macau duma forma séria, consequente e plural, já referiram amplamente o seu 35.º aniversário, cuja jubilosa comemoração reuniu altas entidades oficiais, presidentes e membros de organismos académicos, associativos e culturais locais e muitos colaboradores e amigos. Ao saudarmos esta efeméride e quantos tiveram intervenção na produção do jornal ao longo de três décadas e meia, apraz-nos ainda realçar uma valiosa iniciativa conjuntamente lançada pelo JTM e pelo Clube Português de Imprensa, instituição reconhecida como de utilidade pública pelo Estado Português, tendo a Fundação Jorge Álvares concedido à mesma o seu imediato patrocínio, por decisão do seu órgão de gestão, agora presidido pelo General Garcia Leandro, ex-Governador de Macau (1974–1979).
F A L A R D E N Ó S - X I V 130J O R G E A . H . R A N G E LPrémio destinado a jornalistas e à imprensa de Língua Portuguesa de todo o mundo, o regulamento impôs – e bem – que os trabalhos tivessem Macau como tema principal, tendo sido escolhida, por unanimidade, pelo júri, a reportagem “Floriram por Pessanha as rosas bravas, 150 anos depois”, da jornalista Sílvia Gonçalves, do diário macaense Ponto Final, pela “originalidade da abordagem e a forma como foi construída a narrativa”. Além da qualidade inquestionável do trabalho premiado, foi Camilo Pessanha, reconhecido como um dos maiores poetas da língua portuguesa, tão intimamente ligado a Macau, muito justamente – e também por esta via – homenageado no 150.º aniversário do seu nascimento. Estão de parabéns José Rocha Diniz, Dinis de Abreu, presidente do Clube de Imprensa, os membros do júri (jornalistas Dinis de Abreu, que presidiu, José Rocha Diniz, José Carlos Vasconcelos, director do Jornal das Letras, Artes e Ideias, Carlos Magno, pela Fundação Jorge Álvares, e José António Silva Pires, do Clube Português de Imprensa), a jornalista contemplada e a Fundação Jorge Álvares pelo sucesso da primeira edição deste Prémio de Jornalismo da Lusofonia. Que este prémio, de periodicidade anual, tenha a continuidade, os apoios e a participação que merece alcançar em futuras edições. 6 de Novembro de 2017
F A L A R D E N Ó S - X I V131J O R G E A . H . R A N G E LIIM publica importante estudo em português sobre “a Faixa e a Rota”Vai ser lançado no fim do mês em Pequim, num seminário a levar a efeito na Universidade de Estudos Económicos e Negócios Internacionais (UIBE), no seio do seu Centro de Estudos dos Países de Língua Portuguesa, e logo a seguir na Livraria Portuguesa em Macau, no próximo dia 1 de Dezembro, a obra “A Faixa e Rota chinesa – a convergência entre Terra e Mar”, da autoria do investigador Paulo Duarte. Edição do Instituto Internacional de Macau (IIM), trata-se do primeiro livro em língua portuguesa sobre este relevantíssimo tema, desenvolvido com abrangência, consistência e extensão. Um centro de estudos plurifacetadoO IIM, como centro multidisciplinar de estudos e investigação académica, acompanha de muito perto a evolução política, social e económica da China, praticamente desde o início do seu funcionamento pleno, em Janeiro de 2000, imediatamente após a eleição dos titulares dos seus órgãos sociais e a aprovação das principais linhas de acção que orientaram o seu desenvolvimento, quando os primeiros programas de actividades foram também elaborados. Neste contexto, a par duma vertente fundamental que é a dos estudos de Macau, que abarca matérias que vão da memória e do legado histórico-cultural aos desafios que são presentemente colocados a este território que Portugal administrou e que tem hoje o estatuto de região administrativa especial da China, são os novos caminhos e opções político-económicas deste imenso país, com milénios de história e uma vontade legítima de retomar um lugar cimeiro no contexto internacional, que prendem a atenção de muitos dos nossos investigadores e colaboradores em várias partes do mundo.Parcerias diversas estabelecidas com outros organismos e instituições, como universidades, centros culturais e institutos de investigação, foram reforçando e “O texto agora dado à estampa não destoa. Claro, rico, bem ancorado em chão firme e prudente na alçada das considerações que vai fazendo em catadupa e que se articulam num arco narrativo maior, dá corpo a um trabalho de fôlego que nos enriquece.”Prof. Armando Marques Guedes, no prefácio
F A L A R D E N Ó S - X I V 132J O R G E A . H . R A N G E Lampliando a nossa capacidade de intervenção. De entre eles, importa referir o Instituto do Oriente (do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa), a que o Doutor Paulo Duarte, autor deste importante trabalho intitulado “A Faixa e a Rota chinesa: a convergência entre Terra e Mar” está também agora ligado, e o IBECAP – Instituto Brasileiro de Estudos da China e Ásia-Pacífico, cujo presidente, Prof. Severino Cabral, co-organizou com o IIM dezenas de actividades, de que se destaca a série de seminários subordinados ao tema geral “O papel de Macau no intercâmbio sino-luso-brasileiro”, que têm sido anualmente levados a efeito em sete cidades de três continentes.Foi numa sessão complementar realizada em Macau, em vésperas duma conferência em Pequim, em Dezembro de 2016, que pudemos contar, pela primeira vez, com uma comunicação de Paulo Duarte, precisamente sobre o significado deste ambicioso projecto de afirmação política e económica denominado Uma Faixa, Uma Rota, que tem sido objecto de estudos e seminários que têm contado com a nossa activa e interventora participação. De então para cá vimos as nossas relações estreitadas, pelo que foi apenas natural que o IIM assumisse a publicação deste valioso e bem estruturado trabalho, incluindo-o numa das suas colecções editoriais mais procuradas, a “Suma Oriental”, reconhecida pela sua inegável qualidade.Esta ligação em boa hora criada conhecerá certamente novos contornos no futuro próximo, até porque Paulo Duarte soube interpretar muito bem o papel que Macau pode desempenhar no desenvolvimento desse projecto, “como polo importante na Faixa e Rota chinesa, entre outros aspectos, enquanto interlocutor entre a China e os países de língua oficial portuguesa, algo que em muito beneficiará do contributo de excelência prestado pelo Instituto Internacional de Macau”, conforme referiu numa das páginas deste livro, em que também enaltece o papel do IIM “na produção de ciência e, em concreto, no contributo para a compreensão do que é a China, a sua idiossincrasia, ambições, projectos e expectativas face à Comunidade Internacional” e
F A L A R D E N Ó S - X I V133J O R G E A . H . R A N G E Ltambém “através da produção de conhecimento, para que os académicos, as elites e os responsáveis políticos chineses compreendam melhor as expectativas do mundo face à China”. Sintonizados nestes propósitos, é previsível a intensificação duma colaboração útil, duradoura e mutuamente gratificante.Conteúdo desta relevante obraAinda há pouco tempo, tivemos o prazer de assistir à apresentação, em Lisboa, do livro em língua inglesa Pax Sinica – all roads lead to China (Chiado Editores, Junho de 2017), de Paulo Duarte, com prefácio do Prof. Li Xing, da Universidade de Aalborg, Dinamarca, onde dirige a Journal of China and International Relations. Neste prefácio são sintetizadas as questões mais candentes relacionadas com o crescimento da China, que Paulo Duarte muito bem identifica e desenvolve ao longo de oito esclarecedores capítulos em que a iniciativa Uma Faixa, Uma Rota é analisada em todas as suas vertentes e implicações. Incansável no seu labor intelectual, tão pouco tempo volvido saiu do prelo este novo estudo – “A Faixa e Rota chinesa: a convergência entre Terra e Mar”, o qual está dividido em duas partes, visando a primeira proporcionar uma compreensão da China actual, que inclui uma apreciação crítica das principais tendências da nova política externa chinesa e da posição chinesa face à periferia centro-asiática, com enfoque na vulnerabilidade energética e sua “securitização”. Na segunda é escalpelizada a iniciativa Uma Faixa, Uma Rota, nos seus objectivos fundamentais e nas suas vias terrestres e marítimas, não deixando de nos oferecer as conclusões a que chegou e uma visão prospectiva do desenvolvimento dos imensos corredores que ligarão a China à Europa e ao mundo, englobando a Cintura Económica da Rota da Seda (componente terrestre) e a Rota da Seda Marítima do Século XXI (componente marítima).Particularmente interessante é a forma como o autor aborda a intrigante questão do “soft power” chinês. Conceito desenhado por Joseph Nye, o “soft
F A L A R D E N Ó S - X I V 134J O R G E A . H . R A N G E Lpower” complementa o tradicional “hard power”, funcionando ambos em inevitável interligação. O “talento de seduzir” e a capacidade de influenciar através da promoção cultural, difusão de ideias e pela constância da diplomacia, com vista à criação duma “sociedade harmoniosa” e à construção duma imagem crescentemente positiva do país, tentando desmistificar a tese da ameaça chinesa e oferecendo um modelo “win win” para todos os parceiros, em projectos colectivos de criação de prosperidade, são objectivos permanentes do exercício do “soft power”. O autor aborda também com a necessária objectividade a questão do Mar da China Meridional, nas suas diversas perspectivas, incluindo os propósitos de “securitização” das mais importantes vias marítimas e de criação duma grande “marinha de águas azuis”.Assina o prefácio um especialista em matérias de estratégia e observador atento e qualificado da conjuntura política internacional, o Prof. Armando Marques Guedes, professor universitário e ex-director do Instituto Diplomático, organismo dependente do Ministério dos Negócios Estrangeiros de Portugal. Este respeitado mestre resumiu assim o trabalho do autor: “Paulo Duarte habituou-nos a vasculhar os seus livros e artigos académicos – e muitos são já, para alguém tão jovem, doutorado há não muito tempo –, cartografando com a minúcia devida decisões e resultados de uma articulação (melhor, de uma série de conexões) em que a China hoje em dia se empenha”. 13 de Novembro de 2017
F A L A R D E N Ó S - X I V135J O R G E A . H . R A N G E LUm contributo para a história do Instituto CulturalAo reler, agora mais atentamente, a obra “Um Sonho Perpétuo”, edição comemorativa do 30.º aniversário do Instituto Cultural de Macau (IIM), publicada em Dezembro de 2012, com coordenação editorial de Ioc Lan Fu Barreto (Teresa Barreto) e concepção gráfica de Victor Hugo Marreiros, vieram-me à lembrança, inevitavelmente, os desafios e as circunstâncias que justificaram a criação desta instituição no início da década de 1980.Um propósito realizadoPercorrendo as 380 páginas deste volume, profusamente ilustrado, foi com especial satisfação que recordei todo o trabalho, intenso e apaixonante, levado a efeito no meu gabinete, em 1981/82, para concebermos e pormos de pé um novo organismo público, com intervenção directa na acção cultural, na defesa e valorização do património, na realização de estudos, seminários e conferências, na produção editorial e, naturalmente, no apoio à formulação de políticas públicas neste domínio. Mais de trinta anos volvidos e, sendo o percurso realizado reconhecidamente positivo, é justo saudar todos quantos contribuíram para que o ICM fosse uma história de sucesso e desejar aos seus actuais responsáveis os maiores êxitos na continuada afirmação da sua utilidade e relevância e na definição das suas opções e programações presentes e futuras. Quando o Governador Vasco de Almeida e Costa me chamou, em 1981, para integrar a sua equipa governativa e me confiou a tutela das áreas da Educação, da Cultura e do Turismo, não havia ainda, no território, um serviço público que se ocupasse, de forma integrada e coerente, da promoção, coordenação e dinamização das actividades culturais e da preparação e definição de políticas para o sector cultural. O que existia era uma minúscula Divisão de Cultura, estrangulada no seio dos Serviços de Educação, além de uma comissão, empenhada e persistente mas com pouco poder decisório, que estudava e emitia pareceres sobre a defesa do património urbanístico, “A cultura é a base da identidade.”Cheong U, ex-Secretário para os Assuntos Sociais e Cultura do Governo da RAEM, na página de abertura do livro “Um Sonho Perpétuo”
F A L A R D E N Ó S - X I V 136J O R G E A . H . R A N G E Lpaisagístico e cultural, e alguns apoios pontuais concedidos pelos Serviços de Turismo. Outras iniciativas culturais eram de natureza municipal ou projectadas e lançadas por algumas associações locais, cujo mérito deve ser exaltado até porque estávamos ainda numa época em que os recursos, materiais e humanos, eram extremamente escassos. Podemos dizer, como então foi salientado, que esta foi a minha primeira decisão de fundo, como membro do Governo, no início do mandato de um novo Governador (1981–86), de quem não faltaram o incentivo e a cobertura. Com concordância superior, estabeleci, por despacho, a Comissão Coordenadora da Acção Cultural, que foi o embrião do Instituto Cultural. Com ela, integrando o Eng.º João Rodrigues Calvão e a Dr.ª Gabriela Ramiro Pombas Cabelo, apoiados por um pequeníssimo núcleo de pessoal técnico e administrativo (nesse tempo, o gabinete de um membro do Governo tinha apenas cinco ou seis pessoas, incluindo um assessor e um motorista e não havia chefe de gabinete), fomos delineando as estruturas, as competências e as atribuições do futuro instituto e preparando a respectiva legislação de suporte ao seu funcionamento, bem como a necessária orçamentação. Deu-se a este projecto a maior das prioridades e, num prazo muito curto, vimos materializado o nosso esforço, com a criação oficial, em 1982, do Instituto Cultural de Macau (nome que a todos pareceu ser o mais adequado), o qual foi recebido com enorme expectativa pelos agentes culturais e pelas associações do sector, que também consideraram correcto que o Arquivo Histórico de Macau, a Biblioteca Central e a Biblioteca de Sir Robert Ho Tung tivessem passado para a sua dependência directa. Ainda conservo cópia da abundante documentação preparada, incluindo apontamentos ainda manuscritos, alterados e melhorados em sucessivas versões até alcançarem a forma definitiva.No âmbito do ICM, a defesa do património arquitectónico, paisagístico e cultural ganhou, igualmente, maior dimensão e significado, tendo à sua frente o Arqt.º Francisco
F A L A R D E N Ó S - X I V137J O R G E A . H . R A N G E LFigueira, cujo trabalho notável foi muito bem prosseguido pelo Arqt.º Carlos Marreiros, que assumiu, mais tarde, uma presidência marcante no Instituto. Todo o apoio político e administrativo foi assegurado ao departamento competente, que recebeu acrescidas atribuições neste relevantíssimo sector, e à comissão que junto dele funcionava e à qual foram cometidas maiores responsabilidades. Sem esse apoio, confirmado e reiterado pelos mais altos responsáveis do território, todas as iniciativas numa área tão sensível não teriam saído do patamar das boas intenções. Fui responsável pela designação dos seus primeiros órgãos de gestão, presididos pelo Eng.º João Rodrigues Calvão e, depois, pelo Dr. Jorge Morbey Ferro Ramos Pereira, e pude acompanhar muito de perto a sua instalação, com apenas uma dúzia de funcionários, numa vivenda da Av. Horta e Costa, que havia sido a residência oficial de um alto funcionário, e o seu rápido e seguro crescimento, até Maio de 1986, com uma posição consolidada e resultados amplamente enaltecidos. A forma como se processou a sua fase de arranque foi determinante para a sua estável expansão, muito para além da Administração Portuguesa, sendo um instrumento indispensável da acção governativa na vigência da RAEM, com as modificações estruturais e de chefias que foram introduzidas. Ao núcleo inicial pertenceu o jovem artista macaense Guilherme Ung Vai Meng que viria, mais tarde, a dirigir o Museu de Macau, ascendendo depois à presidência do Instituto Cultural, cargo que abandonou no corrente ano para retomar em pleno a actividade artística. Após 1999, já mais ligado a organismos associativos, pude continuar a apreciar as actividades realizadas pelo Instituto. Com momentos melhores e piores e algumas visíveis regressões e também acidentes de percurso, creio poder dizer, sem hesitação, que considero extraordinariamente relevante a obra levada a efeito pelos seus órgãos de gestão, chefes de departamento e de divisão, pessoal técnico, administrativo e auxiliar, e pelos seus muitos colaboradores. Apenas me pareceu desnecessária e inconveniente a
F A L A R D E N Ó S - X I V 138J O R G E A . H . R A N G E Lmudança do nome, em português, de Instituto Cultural de Macau para Instituto Cultural do Governo da Região Administrativa Especial de Macau, designação pouco pronunciável que substituiu a outra já internacionalmente consagrada. A vontade de em tudo mexer em períodos de mudança leva muitas vezes a desfechos negativos. Também não foi sempre feliz a escolha dos seus mais altos dirigentes, o que foi bem visível logo após a transição. Primeiras actividades do InstitutoVale a pena recordar as primeiras actividades mais significativas do ICM, uma vez iniciado o seu funcionamento em Outubro de 1982, imediatamente após a tomada de posse do Eng.º João Rodrigues Calvão como seu primeiro presidente: exposição do artista macaense Herculano Estorninho; palestras sobre a arte, dando-se início a uma série de reuniões académicas de elevado nível; primeiros concertos organizados pelo ICM; exposição sobre “Talhas Portuguesas” no Hong Kong Art Museum; apresentações de peças de teatro; concurso fotográfico sobre o Património Arquitectónico de Macau; publicação do primeiro livro do ICM – a versão chinesa da “História da Literatura Portuguesa”, de António José Saraiva, traduzido por Zheng Weimin, a que se seguiram muitas novas edições sobre literatura, arte, música, folclore, história e outros estudos académicos onde se desenvolveu também um relacionamento positivo com instituições culturais da República Popular da China; adesão do Arquivo Histórico ao Conselho Internacional de Arquivos; ciclo de cinema português com 11 filmes; concerto “Noite de Música Chinesa”, com a participação do famoso intérprete de erhu Wong On Yuen; realização do primeiro concurso para jovens músicos de Macau e organização da primeira feira do livro chinês e português. Tudo isso em poucos meses. Estava feito o arranque auspicioso que todos desejavam. A visão e a ambição fariam o resto. 20 de Novembro de 2017
F A L A R D E N Ó S - X I V139J O R G E A . H . R A N G E LMaria em lendas e milagres da tradição macaenseMuitas famílias católicas macaenses preservam no seu seio lendas que a fé foi acalentando, a ponto de terem sido passadas de geração em geração. Por outro lado, a recolha de testemunhos orais que algumas instituições locais, como o Instituto Internacional de Macau, têm feito junto de membros mais idosos da comunidade macaense permitiram que ficassem registados fragmentos de “estórias” de vida e de devoção que reforçam e enriquecem os relatos mais consistentes que escritores e historiadores puderam compilar e divulgar, especialmente nos dois séculos que nos antecederam. Um deles foi o Pe. Manuel Teixeira que, na imensa obra que nos deixou sobre a Igreja em Macau, também explicou algumas dessas lendas, bem como milagres que a população atribuiu à intercessão da Mãe de Jesus, o que se considera apenas natural num território onde o culto mariano ganhou uma expressão notável. De Nossa senhora da Conceição, Padroeira de Portugal e, portanto, igualmente de Macau, à Senhora de Fátima, esse culto alargou-se à numerosa comunidade filipina aqui residente e a muitos habitantes chineses, naturais de Macau ou aqui há mais tempo radicados. Não é por acaso que a procissão de 13 de Maio se tornou a mais participada e de maior dimensão no território, mesmo agora, quase 18 anos após a transferência do exercício da soberania, de Portugal para a República Popular da China.No Festival Tabula RasaNuma comunicação que preparei para o II Festival Tabula Rasa, recentemente realizado em Fátima, subordinado ao tema “A Literatura e o Sagrado”, procurei identificar algumas dessas lendas. Entre elas, referi a lenda que garante que a Senhora da Guia saiu da sua ermida, edificada no ponto mais alto da cidade, e estendeu com as suas mãos os dois lados do manto para receber nele as balas dos holandeses, num “Talvez que em todos estes casos a lenda seja mais verdadeira do que a história. Afinal, é o povo que tem razão. Se esta cidade, sem armas e sem defesa, dura há quase 400 anos, não será devido à protecção especial da Sua Padroeira, a SSma. Virgem?”Pe. Manuel Teixeira, “Macau e a sua Diocese”, Vol. IX, 1969
F A L A R D E N Ó S - X I V 140J O R G E A . H . R A N G E Lferoz ataque ocorrido de 22 a 24 de Junho de 1622, com 13 navios, sendo derrotados pelos defensores da cidade, entre militares portugueses, gentes da terra e sacerdotes jesuítas e de outras ordens religiosas. Um tiro de canhão disparado do alto do monte de S. Paulo fez explodir diversos barris de pólvora dos invasores, que tentaram depois escalar o outeiro da Guia onde foram escorraçados. Conforme relatos vários, “a população precipitou-se sobre eles e foi uma matança horrível”. Outra lenda, relacionada directamente com o mesmo ataque, refere que a Virgem, que campeia no nicho central da fachada da Igreja de S. Paulo ou da Madre de Deus, deixou o seu nicho para abrir os seus braços sobre a cidade, lançando uma luz ofuscante sobre ela, o que fez o inimigo fugir desordenadamente. Para comemoração da vitória, foi inaugurado em 26 de Março de 1871, pelo Governador António Sérgio de Sousa, o monumento da vitória e o dia 24 de Junho, dia de S. João Baptista, foi escolhido para Dia da Cidade. Em Dezembro de 1966 houve graves distúrbios em Macau, relacionados com a revolução cultural chinesa, após o que se instalou um ambiente de enorme tensão na cidade, quando guardas vermelhos ameaçavam entrar em Macau pelas Portas do Cerco (fronteira de Macau com o continente chinês). Diz uma lenda que Nossa Senhora foi vista a pairar sobre aquele monumento e marco de fronteira, o que surpreendeu os revolucionários, fazendo-os recuar e salvando a cidade duma invasão que poderia ter levado ao fim da presença portuguesa. Outro ameaçador incidente de fronteira teve lugar em Junho de 1952, na Ilha Verde (ilhéu de Macau situado perto das Portas do Cerco). Houve tiros, mortos e feridos. Uma lenda explica que os nossos soldados foram protegidos pelo manto de Nossa Senhora, que terá sido vista no cume da colina da Ilha Verde. As comunicações foram interrompidas durante cerca de um mês e restabelecidas a 25 de Agosto, após muito difíceis negociações.
F A L A R D E N Ó S - X I V141J O R G E A . H . R A N G E LO Festival Tabula Rasa, além da dimensão lusófona, assegurada pela participação de oradores dos diversos países e regiões do espaço da língua portuguesa, teve igualmente uma dimensão ecuménica, com um painel sobre “O sagrado nas várias tradições religiosas”, do catoliciscmo ao islamismo, sem esquecer as vertentes religiosas orientais. Foram também entregues os prémios “Obras Tabula Rasa 2016–2017”, nas diversas categorias (literatura infanto-juvenil, ficção e filosofia) e o Grande Prémio Tabula Rasa Vida e Obra ao escritor e filósofo Pinharanda Gomes. Curas extraordináriasTambém há interessantes registos de milagres, ligados a curas extraordinárias que muitos crentes atribuíram à protecção divina, mostrando a sua gratidão à Virgem, sempre bendita. Uma delas foi narrada no Boletim Eclesiástico de Macau, de Fevereiro de 1908: uma irmã canossiana que tinha ficado com um braço atrofiado ao tentar salvar o pai num incêndio, só conseguiu a cura total através da sua devoção ilimitada a Nossa Senhora de Lourdes, a quem consagrou todas as suas orações num tempo em que meios humanos se revelaram incapazes de a curarem. Outra cura extraordinária, igualmente divulgada através do Boletim Eclesiástico da Diocese de Macau (de Outubro de 1951), teve a ver com uma irmã do Noviciado de Nossa Senhora dos Anjos, que padecia de violentas dores de cabeça, além duma inflamação na nuca e na garganta que se foi alargando ao rosto. Consultados vários médicos, um dos quais um especialista com clínica em Hong Kong, foi-lhe diagnosticado um tumor, cujo tratamento aconselhado seria em Nova Iorque e mesmo assim apenas com alguma probabilidade de êxito. Não podendo efectuar tão onerosa deslocação, a irmã decidiu encomendar-se a Nossa Senhora de Fátima, principiando uma novena a 6 de Junho de 1951, findo o qual as dores tinham cessado e o inchaço desaparecido. No mês seguinte, voltou a ser vista pelo mesmo especialista que confessou tratar-se de uma cura extraordinária que ele não podia explicar.
F A L A R D E N Ó S - X I V 142J O R G E A . H . R A N G E LNos arquivos da Diocese de Macau, existe um documento de 1703 assinado pelo secretário da Confraria de Nossa Senhora dos Remédios em que se revela um “grande milagre” que “cruzou nos gentios a maior admiração e espanto, infundiu também nos cristãos hum intimo reconhecimento ao benefício de Deus e de SS. Mãe”, sendo a “fiel relação do sobredito Milagre” conservado no Arquivo desta Confraria “para bastão da mesma, e de todos os confrades”. Simples manisfestações de fé? Simples manifestações de fé? É ainda o nosso saudoso historiador Pe. Manuel Teixeira, elevado a Monsenhor pelo Santo Padre, quem responde a esta pergunta no volume IX da sua monumental obra “Macau e a sua Diocese”, publicado em 1969: “...em qualquer perigo grave a imaginação popular vê sempre o manto da Virgem a proteger a cidade, A isto chamamos nós aparições lendárias. Mas quem terá razão: nós ou o povo? Talvez que em todos estes casos a lenda seja mais verdadeira do que a história. Afinal, é o povo que tem razão. Se esta cidade, sem armas e sem defesa, dura há quase 400 anos, não será devido à protecção especial da Sua Padroeira, a SSma. Virgem?”Pois, que estas e outras lendas – e porque não os “milagres” também – continuem a justificar o percurso deste pequeno território, assolado por muitas tempestades naturais e políticas, mas que acreditou sempre na continuidade duma Missão que foi sempre a razão de ser da sua existência plurissecular. 27 de Novembro de 2017
F A L A R D E N Ó S - X I V143J O R G E A . H . R A N G E LIIM co-organizou importante conferência em PequimA Conferência Anual de Estudos Conjuntos dos Países de Língua Portuguesa/2017, organizada conjuntamente pelo Centro Chinês de Estudos dos Países de Língua Portuguesa (CCEPLP), pelo Instituto Brasileiro de Estudos da China e Ásia-Pacífico (IBECAP) e pelo Instituto Internacional de Macau (IIM), teve lugar, no início da semana passada, no salão de conferências da Universidade de Economia e Negócios Internacionais de Pequim (UIBE), com muito numerosa participação de professores, investigadores académicos, estudantes, diplomatas, jornalistas, empresários e outros profissionais de diversas áreas. As línguas utilizadas, em todos os documentos e nas comunicações e intervenções feitas, foram o mandarim e o português, com recurso à tradução simultânea. Representaram o IIM os seus presidente e vice-presidente, Jorge Rangel e José Lobo do Amaral, e o investigador Paulo Duarte, autor do livro “A Faixa e Rota Chinesa – a convergência entre Terra e Mar”, o qual foi lançado na passada 6.ª feira, na Livraria Portuguesa de Macau, após uma pré-apresentação na capital chinesa. E, do IBECAP, esteve presente o seu primeiro responsável, Severino Cabral, que é também colaborador do IIM em múltiplas iniciativas no Brasil e na organização das séries de seminários sobre “O papel de Macau no intercâmbio sino-luso-brasileiro”, que tem sido anualmente realizado em sete cidades de três continentes. Conferencistas e temasAbriu a conferência o ex-Vice-Ministro do Comércio da China, Wei Jianguo, que dirige presentemente o Centro de Intercâmbios Económicos Internacionais da República Popular da China. Traçou uma lúcida panorâmica das relações da China com “Sendo a primeira instituição académica da China que estuda os países lusófonos, o seu objectivo é promover a amizade, a cooperação e o intercâmbio entre a China e os Países de Língua Portuguesa, contando com importantes contribuições provenientes de diversas esferas e individualidades...”Da nota de apresentação do Centro Chinês de Estudos dos Países de Língua Portuguesa, 2017
F A L A R D E N Ó S - X I V 144J O R G E A . H . R A N G E Los países lusófonos, sumariando o percurso já realizado e apontando as perspectivas de desenvolvimento da cooperação nas próximas décadas. Seguiram-se as intervenções do conselheiro Lan Hu, do Ministério dos Negócios Estrangeiros da RPC, do director adjunto do Departamento de Hong Kong, Macau e Taiwan, do Ministério do Comércio da RPC, Kwang Wen, do director do Departamento da Ásia e África da Associação do Povo Chinês para a Amizade com os Países Estrangeiros, Sun Xueqing, da Embaixadora de Cabo Verde, Tânia Ramalho, em representação dos países de língua portuguesa, do Prof. Severino Cabral e do coordenador do Gabinete de Ligação e delegado de Timor-Leste junto do Secretariado Permanente do Fórum de Macau, Danilo Henriques, encerrando esta série de comunicações da sessão de abertura o presidente do IIM. Cada um dos oradores referiu o papel das instituições a que estão ligados na promoção de relações de intercâmbio e cooperação da China com os países lusófonos, quer no âmbito económico, quer no cultural e social. A coordenação e moderação foi assumida por Wang Cheng’an, director do CCEPLP e ex-secretário-geral do Fórum para a Cooperação Económica e Comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa. Nas sessões seguintes, constituiram-se diversos painéis para tratamento do seguinte tema geral: concertação de políticas e medidas entre os países de língua portuguesa e a China, face aos desafios da conjuntura internacional. Este tema foi desenvolvido por professores e investigadores de várias universidades chinesas e por alguns empresários, tendo o painel sobre o “diálogo entre a China e os países de língua portuguesa” integrado o vice-presidente do IIM, José Lobo do Amaral, e o investigador Sheng Jixin do Instituto de Estudos dos Países de Língua Portuguesa da Universidade Cidade de Macau. Por seu lado, o painel sobre “cooperação entre a China e os países de língua portuguesa” contou com uma intervenção de Paulo Duarte sobre o tema do seu livro e sobre a sua própria experiência pessoal nos estudos que fez “in loco” em várias partes da China e em países da Ásia Central.
F A L A R D E N Ó S - X I V145J O R G E A . H . R A N G E LCentro Chinês de EstudosO recentemente reestruturado Centro Chinês de Estudos dos Países de Língua Portuguesa (CCEPLP) foi criado em Janeiro de 2012, como instituição complementar do Fórum para a Cooperação Económica e Comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa, o qual foi estabelecido em Macau em 2003, estando ligado também à Comissão de Acção de Acompanhamento da Parte da China do Fórum de Macau. Sendo a primeira instituição académica na China que estuda os países lusófonos, o seu objectivo é promover a amizade, a cooperação e o intercâmbio entre a China e os países de língua portuguesa, contando com importantes contribuições provenientes de diversas esferas e individualidades, tais como quadros de organismos governamentais, especialistas, eruditos e empresários, tanto da China, como dos países de língua portuguesa. Nesse sentido, o CCEPLP vai-se afirmando como uma instituição de investigação académica especializada, um eficaz think tank, sobre os países de língua portuguesa. De modo a estabelecer laços sólidos entre a China e os países lusófonos e aproveitando a Região Administrativa Especial de Macau (RAEM) como plataforma de ligação entre grupos de investigação da China continental, Macau e países de língua portuguesa, o CCEPLP pretende executar projectos na área da investigação histórica e, igualmente nas de estudo contemporâneo, nos domínios da política, da economia, da sociedade, da cultura, da educação e do direito dos países lusófonos. O Centro dedica-se também à análise da evolução das relações sino-lusófonas, atribuindo uma especial atenção ao papel da RAEM na cooperação económica e comercial e no intercâmbio cultural entre ambas as partes. Para alcançar esses objectivos, o CCEPLP vai continuar a organizar seminários, palestras e cursos de formação, procedendo ainda à publicação de estudos académicos relevantes.Uma nota de apresentação do Centro, distribuída durante a conferência, refere também os estudos efectuados e as edições produzidas pelo Centro, de que se destaca um
F A L A R D E N Ó S - X I V 146J O R G E A . H . R A N G E Lextenso trabalho sobre os Dez Anos do Fórum para a Cooperação Económica e Comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa, bem como os seminários e conferências organizados no âmbito dos seus programas de actividades. Também são mencionadas algumas das entidades do exterior que mais colaboração têm dado ao Centro, como o Observatório da China em Portugal, o IBECAP e o IIM. O CCEPLP que se chamava anteriormente Centro de Estudos dos Países de Língua Portuguesa, adoptou a sua nova designação (CCEPLP) nesta última conferência, cujo sucesso foi amplamente reconhecido pelos participantes e através de órgãos de comunicação social chineses, como a agência Xinhua, que destacou a relevância da conferência, do papel do CCEPLP e do livro do investigador Paulo Duarte, que havia publicado recentemente outra importante obra sobre a política externa chinesa, intitulada “Pax Sinica”.Foi, entretanto, aprovada a organização conjunta da conferência de 2018, com as mesmas entidades intervenientes. Do reforço da cooperação encetada, resultarão certamente novos encontros, seminários e edições. 4 de Dezembro de 2017.
F A L A R D E N Ó S - X I V147J O R G E A . H . R A N G E LA Fachada de S. Paulo – um sermão em pedraHá poucos meses, fui convidado para mais um encontro com académicos brasileiros, para lhes falar de Macau, e um dos pedidos que me fizeram foi o de lhes ser disponibilizado algum documento, guia ou livro que os ajudasse a interpretar o simbolismo da Fachada de S. Paulo. Há outros trabalhos agora disponíveis, mas ainda utilizo um opúsculo do Pe. Manuel Teixeira, de 1941, cujo título é precisamente “A Fachada de S. Paulo”, sempre que, ao longo de já algumas décadas, acompanho amigos que nos vêm visitar. É no 2.º capítulo – “Um sermão em pedra” – que podemos encontrar uma sintética mas assaz completa descrição daquele monumento, hoje definitivamente consagrado como o “ex-libris” por excelência de Macau:Majestosa fachada“Sendo as Ruínas de S. Paulo ainda hoje admiradas por todos os turistas que nos visitam e sendo um dos mais soberbos monumentos históricos que Macau possui, cumpre-nos dar aqui a descrição da Fachada. Esta é toda de granito e as estátuas de bronze. Dá acesso ao adro da Fachada uma vasta escadaria de 68 degraus, maior que a do Capitólio de Roma. Agora, no adro, podemos contemplar com emoção a majestosa Fachada que, sem apoio de espécie alguma, desafia a fúria dos tufões, a lima do tempo e a incúria dos homens, há mais dum século.Quatro ordens de colunas jónicas se nos apresentam com um entablamento coroado dum pequeno frontão, tudo repleto de simbólicos ornatos e encimado por remates e pináculos. “Testemunha sempre viva e sempre eloquente, cada imagem, cada símbolo, cada coluna, cada pedra, cada linha são capítulos sugestivos da história missionária de Portugal no Oriente.” Pe. Manuel Teixeira, “A Fachada de S. Paulo”, Macau, Imprensa Nacional, 1941
F A L A R D E N Ó S - X I V 148J O R G E A . H . R A N G E LA primeira e segunda ordem tem dez colunas cada uma, jónicas na primeira e compósitas na segunda; a terceira tem seis colunas coríntias; a quarta ordem tem apenas quatro colunas a formar a base do frontão com uma cruz no acrotério e dois postes de cada lado.Começando agora de cima para baixo, temos: no acrotério do frontão triunfa a cruz de Jerusalém; no tímpano do mesmo, a pomba simbólica do Espírito Santo, fundida em bronze, rodeada de quatro estrelas, com o sol à direita e a lua à esquerda; oito obeliscos, encimados por esferas, ornamentam os três corpos do frontão.”Imagens e estátuas“Logo abaixo do Espírito Santo, na quarta ordem de colunas, aparece num nicho a estátua do Menino Jesus, estendendo a mão esquerda como a segurar um objecto, provavelmente o globo que lhe caiu da mão e tendo a mão direita entreaberta para o alto com o indicador estendido a apontar o céu; está rodeado dos instrumentos da Paixão, a saber: à sua esquerda, a escada, a cana verde, os cravos, a bandeira do Império Romano; à sua direita, a esponja, a coroa de espinhos, o azorrague, o martelo, a torquês, a lança; aos lados, duas colunas de ordem coríntia de cada banda, tendo entre si duas estátuas de anjos, em corpo inteiro; o anjo da esquerda, com brincos na orelha, suporta a coluna da flagelação; o anjo da direita, com o seu colar denticulado e com botões bem nítidos no peito, suporta a cruz, encimada pelas letras I. N. R. I. (ou seja, Jesus Nazarenus, Rex Judeorum: – ‘Jesus Nazareno, Rei dos Judeus’); ao lado do anjo da esquerda, um pouco mais para fora, vê-se um objecto que semelha um molho de trigo; nas bases dos dois obeliscos sem esferas, lêem-se as inscrições: SP ED RO SP AV LO, isto é, S. Pedro na extremidade do lado direito do Menino Jesus e S. Paulo na extremidade esquerda; ao lado da inscrição de S. Pedro vêem-se dois leões, um na parte da frente da Fachada e outro já na parte ocidental, a bica e a cabeça de Cristo
F A L A R D E N Ó S - X I V149J O R G E A . H . R A N G E Lcoroada de espinhos também junto ao leão da parte ocidental; depois da inscrição de S. Paulo, vem um leão; quanto ao outro leão da parte oriental e respectiva bica, já lá não aparecem, tendo provavelmente caído com o tempo; ao lado do anjo da direita, aparece uma corda que alguns, sem razão, confundiram com uma serpente e, a seguir, um obelisco sem esfera, em cuja base, como dissemos, se lê o nome de S. Pedro.Logo abaixo do Menino Jesus, na terceira ordem de colunas, está num nicho a estátua de Nossa Senhora (Imaculada Conceição), de mãos cruzadas sobre o peito; há uma porta que dá para o nicho da Virgem; os símbolos em roda representam o triunfo da Imaculada; emoldurando o nicho há ornatos imitando flores e em volta uma corda em estilo manuelino; a Virgem está rodeada de seis anjos, três de cada lado; os dois de cima, de mãos postas, em atitude de oração e reverência, os do meio tocando trombetas e os de baixo incensando; em cima, uma cabeça de serafim; dos lados, estão seis colunas de ordem coríntia, seis de cada banda; entre a 1.ª e a 2.ª coluna, à esquerda da Virgem, está a Árvore da Vida; entre a 2.ª e a 3.ª, a hidra das sete cabeças, e superiormente um busto da Virgem encimado pela inscrição cuja tradução é: ‘A Santa Mãe calca a cabeça do dragão’; entre a 3.ª coluna e o 1.º obelisco encimado por um globo, vê-se um esqueleto, deitado e ferido por um dardo na ponta dum pau, empunhando a foice ou gadanha, representando a morte, lendo-se por cima a inscrição chinesa em alto relevo cuja tradução literal é: ‘A pessoa que se lembra da morte é sem pecado’ (ou seja, ‘lembra-te da morte e não pecarás’); entre os dois obeliscos, encimados por globos, está uma coroa atravessada por duas flechas em cruz a significar talvez a realeza de Cristo conquistada pelo sofrimento; logo abaixo das flechas está uma porta em miniatura, talvez a Janua Coeli – ‘porta do céu’, que se abre à entrada do Senhor no seu reino. Passando agora para o lado direito da Virgem, temos: entre a 1.ª e a 2.ª coluna, uma fonte; e entre a 2.ª e a 3.ª, um navio de três mastros com um busto da Virgem superiormente e um candelabro de 7 velas inferiormente; entre a 3.ª coluna e o 1.º obelisco, o demónio, atravessado por um dardo, com garras, cauda e asas,
F A L A R D E N Ó S - X I V 150J O R G E A . H . R A N G E Lencimado por uma inscrição chinesa em alto relevo cuja tradução é: ‘O diabo tenta o homem para praticar o mal’; entre os dois obeliscos, uma pomba. Note-se a seguinte curiosidade: o demónio tem o corpo de mulher e a cabeça de demónio para indicar que a sensualidade é o demónio que arrasta o homem ao pecado. No plano abaixo do demónio vê-se um cálice coberto com um véu, como se costuma fazer na quinta-feira santa, rodeado de duas espécies de flores indígenas, as papoilas e as líchias; neste mesmo plano, logo a seguir ao cálice, está o túmulo para o SS.mo Sacramento e sobre o túmulo uma pomba poisada num globo.”Pareceu-me interessante e útil partilhar com o leitor estas notas explicativas produzidas pelo nosso saudoso monsenhor Manuel Teixeira, cujo notabilíssimo legado, na imensa documentação que conseguiu reunir e conservar e no muito que ele próprio escreveu, permite aos investigadores aprofundar os estudos sobre a presença de Portugal no Oriente, com destaque para a acção missionária que ninguém mais do que ele investigou e divulgou.Um outro artigo conterá as notas soltas que ainda faltam sobre a Fachada de S. Paulo, do mesmo opúsculo, de reduzida tiragem, preparado no âmbito das comemorações dos Centenários da Fundação e da Restauração, em 1940. Através destas oportunas explicações, qualquer visitante mais interessado poderá entender a mensagem que irradia daquele verdadeiro “sermão em pedra”. 11 de Dezembro de 2017
F A L A R D E N Ó S - X I V151J O R G E A . H . R A N G E LNotas complementares sobre a Fachada de S. PauloNo artigo anterior, facultámos aos nossos leitores um texto do Pe. Manuel Teixeira sobre a fachada de S. Paulo, o ex-libris por excelência da cidade de Macau, visitado e admirado pelos nossos muitos milhões de turistas. Esse texto contém informação e descrições utilíssimas para a compreensão do significado daquele impressionante “sermão em pedra”. As notas seguintes completam a identificação da simbologia deste monumento, que reflecte a obra imortal da evangelização nestas paragens: Simbolismos identificados“Na segunda ordem de colunas, há três janelas, hoje desguarnecidas, com flores na parte superior; nesta 2.ª ordem há dez colunas, como já dissemos, cinco de cada banda; do lado esquerdo da janela central, está uma palmeira entre a 1.ª e a 2.ª coluna; depois vê-se a estátua de S. Francisco Xavier num nicho entre a 2.ª e a 3.ª coluna; vem a seguir uma janela e depois a estátua de S. Luiz Gonzaga, então Beato, num nicho entre as duas colunas extremas; do lado direito da janela central, ostenta-se uma palmeira entre a 1.ª e a 2.ª coluna; depois a estátua de S.to Inácio de Loyola, num nicho entre a 2.ª e a 3.ª coluna; segue-se uma janela e depois a estátua de S. Francisco de Borja, num nicho entre as duas colunas extremas. Na base de cada uma das estátuas lêem-se os seguintes dísticos: B. RC.º B. S. IGNA. S. RC.º X. B. LVIS G. que significam: Beato Francisco Borja, S.to Ignácio, S. Francisco Xavier e Beato Luiz Gonzaga. Nas abreviaturas de Francisco, segundo o uso dos antigos, no R está incluído o F. Estas estátuas foram provavelmente trabalhadas na fundição de Manuel Tavares Bocarro, que então fabricava, em Macau, canhões de ferro e de bronze. “Desenhado por um mártir e executado por cristãos perseguidos, o Frontispício de antiga Igreja da Madre de Deus ainda hoje campeia, erecto e granítico, por sobre as velhas e modernas construções da Cidade do Nome de Deus, como para mostrar a todas as gerações a obra imortal de Macau na evangelização do Extremo-Oriente.”Pe. Manuel Teixeira, na introdução, 1941
F A L A R D E N Ó S - X I V 152J O R G E A . H . R A N G E LNa primeira ordem de colunas, há três portas, hoje guarnecidas com portões de ferro; sobre a porta principal, lê-se a inscrição: MATER DEI; esta inscrição vem emoldurada por quatro artísticos pólipos, um em cada canto, estendendo os seus tentáculos para sugar, e ligados por uma cadeia de pérolas e diamantes; sobre as duas portas laterais está um coração em chamas encimado pelo emblema da Companhia: JHS. Na pedra da esquina ocidental, lê-se: VIRGINI MAGNAE MATRI CIVITAS MACAENSIS LIBENS POSSUIT AN. 1602Na Fachada há vários degraus, pelos quais se pode subir desde o fundo, passando pelo centro até ao frontão superior.Vemos, pois, que esta Fachada com os seus simbolismos tão significativos é um sermão em granito, que todos podem ler sem grande dificuldade; poucas fachadas haverá que narrem a sua história com tanta clareza como esta, que é mesmo um livro aberto. ‘Eis – exclamava há pouco tempo, nas páginas da revista The Rock, um ilustre jesuíta irlandês, o P. Y. D. Francis – eis todo o sermão: é uma verdadeira teologia em pedra; é a Comunhão dos Santos, em que Maria, a Mãe de Divina Graça, tem a sua parte gloriosa. Começando pela fileira de cima, podemos reduzir a lição toda a uma sentença: pela graça do Espírito Santo, num determinado momento (primeira fila), Cristo incarnou e com a sua Sagrada Paixão alcançou-nos a graça e libertou-nos da morte e do inferno, vencendo estes monstros (segunda fileira) e esta graça é-nos concedida por meio de Maria (terceira fila), por cuja poderosa intercessão todos podem nutrir a esperança de transpor as portas da Eternidade. De maneira que a economia da salvação consiste em que Deus nos devia salvar por meio de Cristo, cujos merecimentos são aplicados às nossas almas pela intercessão, em primeiro lugar, da Sua Santíssima Mãe e, depois, de todos os Santos’.
F A L A R D E N Ó S - X I V153J O R G E A . H . R A N G E LEsta é, em linhas gerais, a tradução daquele sermão em pedra, daquela teologia sistematizada. Procuremos agora tentar explicar todos os símbolos, começando pelo frontão da Fachada.Em cima, campeia a Cruz da Redenção, o símbolo mais vivo e impressionante do cristianismo, que não é mais que o amor de Deus em Cristo. O Espírito Santo baixa do céu, onde se vê o sol, a lua e as estrelas, a cobrir Maria com a virtude do Altíssimo; é que a Incarnação, realizada no tempo, é obra do céu. Cristo apresenta-se Menino, porque como tal nasceu de Maria; mas esse Menino que aos 12 anos maravilhou os doutores da lei, aponta para o céu com o indicador, e com a outra mão sustenta o mundo; foi pela sua Paixão dolorosíssima, cujos instrumentos se representam naquela fileira, que remiu esse mesmo mundo do pecado e lhe abriu as portas do céu. – O molho de trigo, que se vê na mesma fileira, refere-se a José do Egito, tipo de Cristo Menino. Nossa Senhora está rodeada de anjos, uns em prece em atitude de veneração, outros embocando a trombeta e outros incensando; a fonte e a árvore da vida são símbolos de Maria, donde brotou Jesus, o fruto do seu ventre, que veio para a todos dar vida e uma vida mais abundante; a Virgem, pela sua Imaculada Conceição, calca a cabeça do dragão infernal, a hidra das sete cabeças, e triunfa da morte e do inferno, pois que tanto o esqueleto como o diabo se encontram derrotados e prostrados por um dardo; o navio representa a esperança, com que havemos de chegar ao porto de salvamento, às praias da Eternidade; a pomba inocente e pura representa também a Virgem sem mancha, e a coroa e as flechas o amor e a realeza de Cristo. Vêm então os Santos que, velejando em busca do porto, pela graça de Cristo e pela intercessão de Maria, já o alcançaram, lançando ferro nas praias da Eternidade.”
F A L A R D E N Ó S - X I V 154J O R G E A . H . R A N G E LUm precioso opúsculoO opúsculo, impresso em 1941 na então Imprensa Nacional de Macau e onde o texto foi inserido, teve uma tiragem muito limitada, com apenas 450 exemplares em papel vulgar e mais 50 em papel “dutch cream wooven”, numerados de 1 a 50. Foi publicado por ocasião das comemorações do duplo centenário (da Fundação e da Restauração) em 1940, que tiveram também expressão significativa em Macau. As ilustrações, que valorizam sobremaneira a edição, são do Barão de Reichenau, artista consumado, de nacionalidade alemã, que dedicou à fachada de S. Paulo a maior atenção, estimulado pela comissão organizadora local daquelas comemorações. Com quase 60 páginas, o opúsculo compreende três capítulos, o primeiro dos quais é uma muito bem elaborada resenha histórica e sendo o segundo uma descrição completa do monumento e a explicação da sua complexa simbologia. O último capítulo contém uma apreciação artística feita pelo próprio Barão de Reichenau. Na breve nota de apresentação, o Pe. Manuel Teixeira justifica a produção deste seu trabalho sobre “essa fachada monumental, desamparada de todos os lados, mas erecta, firme e inabalável, servida por uma majestosa escadaria, verdadeiro e imorredoiro padrão das glórias missionárias jesuíticas, das tradições apostólicas de Macau, da obra gloriosa de Portugal missionário e evangelizador”. 18 de Dezembro de 2017
F A L A R D E N Ó S - X I V155J O R G E A . H . R A N G E LSaudar o novo ano no velho dialecto macaensePassada a quadra festiva e após os muitos feriados e tolerâncias de ponto do mês de Dezembro (Natal, Solstício de Inverno e 18.º aniversário do estabelecimento da RAEM), eis-nos chegados ao novo ano, que desejamos seja auspicioso para Macau e para toda a sua população.Ano Velho, Ano NovoÉ com versos do nosso sempre lembrado poeta José dos Santos Ferreira (Adé) que, neste ritual anual renovador de esperanças, saudamos os nossos leitores na doce “papiaçám” dos nossos avós macaenses: Áno Vêlo, Áno Novo“Unga áno intrementes ta sai,Logomente otrunga ta goelá.Áno vêlo ta virá costa vai,Áno novo qui azinha ta intrá.Vida azinha-azinha corê,Sã dia co mêz ligéro passá.Gente antigo, susto di morê,Pensá qui Mundo ta perto cavá.Pôde vai co diabo, bicho traquino,Áno oiténta quatro savanado. Lembrá rabixá um-cento mufinoPa azinha aguá co vôs juntado. “Este nosso trabalho é apresentado nesse dialecto, ou seja, no resto que ficou desse autêntico fenómeno linguístico, que existiu entre nós e que é merecidamente tido como legado precioso dos nossos avós.”Da nota introdutória do autor, “Macau di Tempo Antigo” (Macau, 1985)
F A L A R D E N Ó S - X I V 156J O R G E A . H . R A N G E LOlá êle batê asa aguá, Nôs sintí qui mundo nádi saiám;Tudo pao-chông qui gente lô quimá,Sã pa mundo nom têm consumiçám.Quim tá ánsia vai zavaná azar,Quim ta sacudí vento-suzo mau;Ancuza galado, pinchá na mar,Pa tirá saván di nosso Macau.Áno vêlo, vôs bêm di buliçoso,Já bulí co nôs na estunga vánda.Vôs já ficá unchinho ma-peçoso,Sã merecê Chacha-sa sarabánda.Calistro, ispalhá fome na mundo,Trazê qui tánto lágri di margura.Esperánça di bom dia já vai fundo,Inguiçado pa um-cento diabura. Qui di ódio crecê na coraçámDi gente qui vivo dizesperadoNa unga mundo fêto di vilám,Co assi tánto pobre iscravizado.Nhu-nhum ta rico querê más riquéza,Nom-têm fim di olá saco inchido.Gente pobre sã morê na pobréza,Cavá passá su vida consumido.
F A L A R D E N Ó S - X I V157J O R G E A . H . R A N G E LTánto inocénte onçôm pagáPecado di nhu-nhum dismazelado.Qui vêlo, qui quiança já definhá,Na casa-casa qui nom-têm telado.Áno novo, lembrá trazê bom ventoPa pôde suprá mufinaze vai.Nunca-bom intrá co pê azarento,Pa fazê mundo tropeçá pê cai.Vêm co paz pa nôsso gente sofrido;Pa quim fome, ne-bom isquecê pám.Vêm co frescura di jardim florido,Vêm co amô pa tudo coraçám.Pa tud’alma qui ta vivo na treva,Sandê unchinho di luz pa lumiá.Pa tudo coraçám qui sã ta reva,Vêm passá páno mimoso limpá.Co graça di Ceu, vôs vêm raganhado,Pa ispalhá amô, paz co bondade.Vêm filiz, ficá justo, abençoado,Pa tudo coraçám di bô vontade.”Lidos devagar, estes versos não são, no essencial, difíceis de entender, sendo dispensável a “tradução”.
F A L A R D E N Ó S - X I V 158J O R G E A . H . R A N G E LMacau di tempo antigoO poema “Áno Vêlo, Áno Novo” (Ano Velho, Ano Novo), escrito no último dia do ano de 1984, integra o livro “Macau di tempo antigo” (edição do autor, 1985), que reúne trabalhos de Adé em prosa e poesia, apresentados no velho dialecto macaense, e junta no fim um útil vocabulário que o próprio autor preparou, com mais de 70 páginas, compreendendo muitas centenas de palavras, de A a Z, de “abéla-mestra” (sabichona, mulher que sabe tudo) a “zunidela” (zumbido).No mesmo volume ficaram uma chistosa novela (“Estória di Maria co Alféris Juám”), um cântico religioso (“Oraçám di Paixám, Mórti di Jesus”) e vários poemas (“Macau, beléza di passado”; “Áno Vêlo, Áno Novo”; “Unga Poéma, Iou-sua amor!”; “Aninha”; “Qui-cuza sã eunuco?” e “Raspá, raspá, kuat, kuat, kuat”, todos escritos de Dezembro de 1984 a Fevereiro de 1985. A novela configura uma gostosa crítica de costumes, centrada na vida duma família macaense no início do segundo quartel do século XIX, em tempo de Natal e em torno dum enlace matrimonial que uniu Maria, “filha da terra”, ao Alferes João, militar do Exército Português, “nacido unga pa ôtro”.O autor abre a sua breve nota introdutória com estas sentidas palavras que merecem reconhecimento e gratidão: “Este livro fala-nos duma terra e dum povo, ambos muito chegados ao nosso coração. A terra é a pequenina, bonita e querida Macau. O povo é a sua boa gente, o insigne povo macaense, aquele que, ao longo de mais de quatro séculos, de geração em geração, com desvelo, orgulho e firmeza, sempre deixou bem realçada a vontade irredutível de se conservar português e tudo fez por honrar e engrandecer Portugal, sua Pátria”. 3 de Janeiro de 2018
F A L A R D E N Ó S - X I V159J O R G E A . H . R A N G E LPrimeiro livro de Adé em patuá saiu do prelo há 50 anos Ao longo das décadas de 1950 e 1960, o poeta macaense José dos Santos Ferreira (Adé) foi divulgando os seus poemas em patuá (“patois”) no jornal da Diocese “O Clarim” e depois no diário “Gazeta Macaense”. Decidiu reuni-los, em 1967, num livro que teve por título “Macau Sã Assi” (Macau é assim), cuja composição e impressão foram concluídas há precisamente cinco décadas, a 2 de Janeiro de 1968, na tipografia da Missão do Padroado, conforme está indicado na última página. Conservo um exemplar desta primeira edição entre algumas “raridades bibliográficas” nas estantes de Macau da minha biblioteca, até porque tive a felicidade de o receber com uma simples e, para mim, simpática e significativa dedicatória que reza assim: “Ao valoroso estudante universitário Jorge Rangel, com os melhores cumprimentos of. o Autor”, seguindo-se a sua assinatura e a data (“Macau, 28.1.1968”). Com ela veio um cartão de visita, que está ainda apenso ao livro, com o seu nome, morada e número do telefone, que tinha então só quatro algarismos (4266). Tocou-me este gesto, por ele se ter lembrado de mim, apesar de ser ainda estudante e estar bem longe da terra. Adé, Poeta e AmigoConheci o nosso Adé quando eu era ainda muito miúdo no bairro do Tap-Seac, aglomerado de velhas casas de famílias macaenses onde passei alguns anos da minha meninice com os pais e a irmã mais velha e depois em casa dos avós, no casarão onde está hoje instalado o Arquivo Histórico de Macau (ou Arquivo de Macau, como parece chamar-se agora, por decisão de quem, estranhamente, tem medo da História e, por isso, passará sempre ao lado dela). O Poeta, então funcionário público e membro muito activo de diversas colectividades recreativas e desportivas, também era ali residente, sendo já reconhecido e respeitado como empenhado desportista e “Com a publicação deste despretensioso volume, pretende-se, acima de tudo, contribuir para que algo fique a lembrar o dialecto macaense. Ele ainda subsiste, se não falado publicamente, pelo menos no seio de algumas famílias antigas de Macau.”O Autor, na introdução de “Macau Sã Assi”, 1968
F A L A R D E N Ó S - X I V 160J O R G E A . H . R A N G E Ltalentoso animador cultural. A proximidade entre as pessoas permitiu criar ali relações sólidas de convívio e amizade. Mais tarde, tivemo-lo no Liceu, como competente chefe da secretaria e atento conselheiro de todos nós que ainda procurávamos caminhos de afirmação e de enriquecimento cultural. Foi ele quem, a par do meu pai, muito me animou a prosseguir os estudos em Portugal (a então Metrópole), num tempo em que estudar fora da terra era ainda um sonho acalentado por quase todos, mas de difícil realização. Muitos anos volvidos, não obstante a diferença de idade, pudemos manter um relacionamento marcado por expressiva cordialidade ao longo de todo o tempo em que ele foi secretário-geral da STDM e eu desempenhava funções públicas de algum relevo, nas áreas da cultura, do desporto e do turismo onde ele continuou a ter um papel interventor da maior utilidade para a nossa terra. Aquele livro acompanhou-me sempre e foi um dos poucos que seleccionei para levar comigo nas errâncias académicas europeias e nos anos da guerra do Ultramar, nas matas e bolanhas da Guiné e depois em Bissau. Os poemas de Adé foram-me chegando sempre e foi com enorme satisfação que vi mais livros dele publicados e novas edições asseguradas por organismos locais como os Serviços de Turismo, o Leal Senado, o Instituto Cultural de Macau, e a Fundação Macau, que tive a honra de tutelar enquanto membro do Governo. Também editaram obras suas a Fundação A-Má-Kók e a editora Livros do Oriente. Exactamente 50 anos após a primeira edição de “Macau Sã Assi” sair do prelo, deixo aqui este sentido testemunho pessoal que vale como homenagem singela a um profissional de elevadíssimo mérito, que soube ser um Amigo especial de muitos e uma personalidade incontornável da história cultural de Macau, um macaense de gema e um patriota que, em todas as circunstâncias, defendeu e dignificou Portugal. Em
F A L A R D E N Ó S - X I V161J O R G E A . H . R A N G E L1994, a Fundação Macau dedicou-lhe uma fotobiografia, criteriosamente organizada por outro seu grande amigo e admirador, o Arq.º Carlos Marreiros, consagrado artista macaense com respeitável dimensão cultural. A mesma Fundação quis também reeditar a sua obra completa na década de 1990, imediatamente após o falecimento. Macau Sã AssiFoi este o seu primeiro livro em patuá, mas não a sua primeira obra publicada. Esta foi “Escandinávia, Região de Encantos Mil” (Macau, edição do autor, 1960), um bom exemplo do que pode e deve ser a literatura de viagens, hoje tão generalizada e apreciada. Compreende as extensas reportagens que ele foi publicando como colaborador de “O Clarim”, na sequência duma viagem aos países escandinavos, a convite da companhia aérea SAS, que lhe proporcionou igualmente uma extensão até Lisboa onde se reencontrou comovidamente com bons e velhos amigos. Escrito em português vivo, escorreito e impecável, foi com este livro que o nosso Adé fez a sua estreia como escritor. Ainda aluno do Liceu, li-o apaixonadamente, depois de ter tido acesso a cada uma das reportagens nas páginas de “O Clarim”, jornal com presença regular na nossa casa.A primeira edição de “Macau Sã Assi”, que inclui uma breve introdução do autor e alguns desenhos de Leonel (Neko) Barros, outro saudoso artista e escritor macaense, que também morou no Tap-Seac, abre com o conhecidíssimo poema “Macau Sã Assi”, que continua a ser cantado nas festas macaenses ao redor do mundo, nas Casas de Macau, com música de “Assim é Lisboa”. O volume integra uma comédia em um acto (“Mui-Mui sua neto”), uma opereta em dois actos, para rir (“Cabo tamêm sã gente”), produzidas expressamente para inolvidáveis representações carnavalescas no Teatro D. Pedro V, e 19 poemas (“Vida ta caro”, “Na bôda di ôro”, “Quatro cáfri co unga môro”, “Sés-pique, sete-cavéra”, “Avó Bita co Lilita”, “Carnaval de agora”, “Macau jóvi”, “Clarim fichá ano”, “Dia de Portugal”, “Corida de carêta”, “Dia de Natal”, “Concurso
F A L A R D E N Ó S - X I V 162J O R G E A . H . R A N G E Lde atleta”, “Gazeta Macaense”, “Macau de agora”, “Dôs vêla pilizóna”, “Corida de cachôro”, “Caréta dôdo já vêm” e “Gente antigo vai Portugal”. Ocupam as páginas finais três interessantes textos, até então inéditos (“Merenda ai”, “Má-lingu co má-lingu” e “Mána-chai na Portugal”), que podem muito bem servir de base de apoio a aprendizes do patuá, e um vocabulário que o próprio Poeta organizou e que foi o ponto de partida para vocabulários posteriores mais extensos.Nas breves notas introdutórias, o Autor, revelando a modéstia que caracterizava o seu comportamento, explicou que os seus textos nasceram de momentos de ócio, “para passar o tempo e também para trazer à recordação o chiste” do patuá, e que “quando publicou na Imprensa os primeiros escritos seus no dialecto macaense, longe estava de imaginar que uns versos toscos, sem brilho nem valor literário, pudessem vir a ter aceitação.” “O certo, porém, foi que quantos leram e gostaram, mais pediram”. Foi “animado pelo bom acolhimento” que o autor foi produzindo mais, “e um dia lembrou-se de escrever duas pequenas comédias no dialecto antigo da sua terra, as quais, estreadas em Macau no Teatro D. Pedro V, por ocasião do Carnaval de 1960, alcançaram agradável sucesso”. Daí a ideia de “reunir em um só volume os seus escritos já publicados, nele incluindo outros originais acabados de produzir”. Um volume que, pelo êxito imediato que surpreendeu o próprio Autor, acabou por ser – e bem – apenas o primeiro de muitos mais. 8 de Janeiro de 2017.
F A L A R D E N Ó S - X I V163J O R G E A . H . R A N G E LPoemas do Nome de Deus, no 80.º aniversário de José Augusto Seabra José Augusto Seabra, professor catedrático, escritor, ensaísta, deputado e diplomata, discípulo de Roland Barthes e grande admirador de Camilo Pessanha e António Patrício, teria feito 80 anos em 2017 (nasceu em 1937, em Vilarouco, S. João da Pesqueira) se não tivesse abandonado prematuramente o nosso convívio em Maio de 2004. Foi enquanto Ministro da Educação (1983-85) e embaixador de Portugal junto da UNESCO, em Paris, que, pelas funções que eu exercia em Macau, mantive com ele um mais estreito relacionamento, que continuou na vida académica e quando ele preparava um número especial da revista “Nova Renascença”, de que era director literário, dedicado a Macau, que várias vezes visitou, “no rasto de um outro Oriente”. A “Nova Renascença” era órgão de um movimento cultural que propunha a defesa e irradiação da identidade e da universalidade da cultura portuguesa no mundo, cujas actividades, através dele, pude acompanhar. Em 1990, o Instituto Cultural de Macau publicou um livro de poemas de José Augusto Seabra escritos ou inspirados em Macau. Foi uma edição bilingue, com tradução para chinês assegurada por Lu Ping Yi. Eis alguns desses poemas, facilmente identificáveis com o seu marcante estilo que o leitor poderá ter já conhecido em obras anteriores como “Desmemória” (Porto, 1977), “O Anjo” (Porto, 1980) e “Fragmentos do Delírio” (Ponta Delgada, 1990): Da Gruta“Tal é o que em Macau se chama a Gruta de Camões” (Wenceslau de Moraes)Peregrinos das sombras divididasa desenhar os sonhos sobre as pedrasdoridas da memória, que feridasem bálsamo envolvemos, escondemos“De Macau neste livro se trata, sob o signo do Nome de Deus, não invocado em vão. É um livro de Amor, Terceira Pessoa da Trindade. Amor com todas as letras, elevado ao infinito, em rigor indizível: ‘perdida voz que de entre as mais se exila’, como escreveu Camilo Pessanha, a cujos manes o encomendo.” José Augusto Seabra, na abertura do livro
F A L A R D E N Ó S - X I V 164J O R G E A . H . R A N G E Lda luz amanhecida? Repartimoso perfume dos ramos já pendentesem cabelos de cinza no caminhomais secreto, por dentro do regresso.***Do Exílio“Só, incessante, um som de flauta chora” (Camilo Pessanha)Gemido de água,sombra doridade tempo ou mágoaesmaecida:flauta esquecidano som que calaquando se exilaa gotejarna clepsidra. ***Da RosaDa rosa do orientedeixaste-me o perfumee a cor evanescentedo sangue e do ciúme.
F A L A R D E N Ó S - X I V165J O R G E A . H . R A N G E LFicou só o momentode florir por enganonum verso muito lentode Camilo Pessanha.Num verso e no reversodo Cruzeiro do Sulescrito do avessodo sangue e do perfume,do norte e do oriente,da rosa e do ciúme. ***Das RuínasArde o infinitono altar de Paulopelo céu aflitoa rasar as chamasvoando num gritoda fachada alta:a última epístolalida pela almada pátria. Tão tardepara a eternidade?***
F A L A R D E N Ó S - X I V 166J O R G E A . H . R A N G E LDa Profecia“Um ancorar puríssimo, encantado, num Oriente mais anunciador…” (António Patrício)Quando só formosa vela altae diluídasem mastro nemflâmula ardendo,que âncora aindaanunciarána desmemóriaoutro Oriente?Sim, “um Oriente ao oriente do Oriente” (Álvaro de Campos), mas sempre um “Oriente mais anunciador” (António Patrício). A transcrição destes versos constitui, no 80.º aniversário do seu nascimento, uma saudosa homenagem a um intelectual e académico que também quis e soube buscar em Macau fontes de inspiração e estímulos para os seus eruditos exercícios poéticos. Guardo nas estantes vários dos seus livros, alguns com dedicatória pessoal, incluindo três dos seus mais notáveis ensaios sobre temática literária e cultural. 15 de Janeiro de 2018
F A L A R D E N Ó S - X I V167J O R G E A . H . R A N G E LEvocar Maria Ondina Braga, 15 anos depois “Descobrir Maria Ondina Braga” é o título duma oportuna exposição biográfica que a Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva do Museu Nogueira da Silva, em Braga, organizou no corrente mês (que é o do seu aniversário) para relembrar aquela escritora solitária e sóbria que cruzou culturas e percorreu espaços da memória lusa, flutuando entre o ocidente e o oriente e sentindo sempre o apelo da partida e o desencanto da chegada. Depois de Angola e da Índia (Goa), passou alguns anos entre nós, como professora do Colégio de Santa Rosa de Lima, na primeira metade da década de 1960. Também foi leitora de Português em Pequim e tradutora de obras marcantes de grandes vultos da literatura universal. Maria Ondina Braga (1932 – 2003) teria feito 85 anos em 2017 e em Março próximo completam-se 15 anos que embarcou na sua derradeira e definitiva viagem.Embora naturalmente muito reservada, ainda a conheci nesse tempo em Macau, quando frequentava os últimos anos do Liceu. Todavia, só em Lisboa, anos volvidos, já depois do lançamento dos seus primeiros livros (“Eu vim para ver a Terra”, 1965; “A China Fica ao Lado”, 1968; “Estátua de Sal”, 1969; e “Amor e Morte”, 1970) e quando ela regressou a Macau, em 1991, para assistir à apresentação da 4.ª edição de “A China Fica ao Lado” e da primeira edição em chinês deste seu livro de leitura indispensável, pudemos falar mais demoradamente, sobre a cidade ainda muito provinciana que ela aqui conheceu e uma China a sair do pesadelo comunista para entrar na modernidade. E foi-nos proporcionado um novo e último contacto quando saiu do prelo, no mesmo ano, “Nocturno em Macau”, obra que também merece uma versão chinesa, como muito bem lembrou António Aresta quando traçou a sua biografia (“Figuras de Jade”, Instituto Internacional de Macau, 2014). Testemunho de uma amigaAo escrever estas linhas, lembrei-me de procurar nas minhas estantes, entre milhares de papéis mal arrumados, uma sentida homenagem póstuma que lhe foi prestada por Ana Maria Amaro, minha saudosa professora de Geografia no Liceu de “... o que não faltava em Macau eram tesouras, tesouradas nas casacas.” Maria Ondina Braga, “Nocturno em Macau, 1991, p. 59)
F A L A R D E N Ó S - X I V 168J O R G E A . H . R A N G E LMacau e depois catedrática no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP), entretanto também falecida. Desse texto que ela me facultou (reformulado e publicado mais tarde no volume VII da série de “Estudos sobre a China” do ISCSP (2005), achei por bem reproduzir algumas passagens que contribuem para um melhor entendimento da personalidade da escritora:“Conheci a escritora Maria Ondina Braga em Macau. A década de 1960 ia no seu princípio quando ela chegou. Naquele pequeno meio, onde todos os portugueses europeus se conheciam, imediatamente se fez notar. Chegara alguém estranho à terra. Alguém que foi para ver a terra, tal como o registou no seu primeiro livro sobre aquele território, publicado poucos anos depois.Quem era? No círculo limitado das famílias de militares, chefes de serviço, meia dúzia de professores do Liceu, além de alguns membros da comunidade local de luso-descendentes, ninguém sabia. Chegara uma rapariga. Nova na terra. Morena, alta, bonita, cabelos lisos muito negros. Estava alojada no Colégio de Santa Rosa de Lima. Quem era? Donde viera? Fazer o quê? Ninguém sabia responder. Depressa, essa mulher sozinha fez algumas amizades. Seriam amizades? E deixou-se mergulhar naquela terra desconhecida, ainda nos anos 1960 exótica terra mestiça e feiticeira. Ela ia para ver a terra. E viu-a, em pouco tempo, como poucos a viram mesmo em muitos anos de estadia. Vivia no mundo austero das irmãs franciscanas onde as outras professoras, todas chinesas, comunicavam com ela em inglês. Fora desse mundo dava-se com outras jovens portuguesas, algumas delas professoras no Liceu local Infante D. Henrique. Eram minhas colegas naquele Liceu. E eram elas que comentavam as suas saídas nocturnas, as suas idas a Coloane, os flirts com os oficiais solteiros da guarnição. Aquele terrível malinguar de Macau.
F A L A R D E N Ó S - X I V169J O R G E A . H . R A N G E LMaria Ondina, porém, nunca se integrou nesse círculo de falsas amigas. Ouviu, sim, das colegas chinesas, histórias dum Macau profundo como a da casa assombrada: ‘a porta abriu-se, uma mão a abrir a porta, uma mão sem braços’ (Nocturno em Macau, p. 99). Também conheci essa casa; casa antiga, no ‘Largo das três luzes’, nos limites de Mong Há. Todos, ali, mudavam de passeio. Era uma ‘malissombrada’, um lugar ‘mofino’, no dizer da terra.Nos seus livros perpassam não só essas cenas, mas também muitas outras que preenchiam as conversas das pessoas desocupadas. Os tenentes da guarnição, o ‘Solmar’, os restaurantes chineses mais pequeninos são imagens que perpassam nas páginas desse seu livro.Aliás, neste livro, que a Maria Ondina me ofereceu, ela escreveu uma dedicatória onde o considera ‘modesto trabalho meu de ficção’. Eu, que vivi Macau nesse período, posso dizer que a ficção neste livro é apenas uma roupagem mais ou menos transparente que envolve um corpo bem real. Com nomes diferentes surgem nas suas páginas, personagens que eu conheci, tais como cenas e episódios a que assisti ou que ouvi contar. E no fundo de toda aquela fluída narração emerge a sua paixão pelo chá, a sua imensa solidão, a sua nostalgia e o seu desejo de encontrar o lugar certo para viver, que nunca era aquele onde ela se encontrava. (…)Reencontrámo-nos em Lisboa na Embaixada da República Popular da China nos finais da década de 1970. Foi uma redescoberta e o início duma sincera amizade. Maria Ondina, diante duma chávena de chá, (eram assim os nossos convites para as nossas tardes de conversa) falava da China, de Macau e dos livros mais recentes que haviam saído bem como dos seus autores preferidos.Alguns textos, pequenas crónicas dispersas, pouco conhecidos, são, aliás, o espelho da sua eterna melancolia de que nunca conseguiu libertar-se. Julgo que desistiu. Era a
F A L A R D E N Ó S - X I V 170J O R G E A . H . R A N G E Lescrever que procurava sofrer menos a sua angústia de se sentir tão só e por vezes tão mal compreendida e tão mal-amada. É habitual ouvir dizer que quem sofre traduz melhor em versos o que sente. E a Maria Ondina era uma poetisa sensível. Aliás, essa poesia reflecte-se em muitas páginas da sua obra em prosa. Mas também fez versos. Versos de que não gostava de falar por não os considerar ao nível da sua prosa. Recusava considerar-se poetisa. Apenas ficcionista. Mas a verdade é que é precisamente nesses seus poemas que toda a sua amargura se traduz, tal como nalguns textos inéditos que talvez não tenha querido nunca ver publicados. Como eu entendo esses textos! São conversas connosco, com memórias, com recordações dolorosas, com uma interrogação permanente. Numa busca de respostas nunca encontradas, com a angústia dum vazio que nada consegue preencher.”HomenagensMaria Ondina Braga foi distinguida com importantes prémios literários. Em 1994, a Câmara Municipal de Braga, sua terra natal, concedeu-lhe a Medalha de Ouro da Cidade e, em 2005, instituiu um prémio literário com o seu nome. O Museu Nogueira da Silva criou nas suas instalações o Espaço Maria Ondina Braga. Um colóquio internacional foi-lhe dedicado em 2016, de que resultou o volume de ensaios “Maria Ondina Braga. (Re)leituras de uma Obra”, coordenado por professores da Universidade Católica Portuguesa e da Universidade do Minho. Em 2017, uma semana do livro de Macau em Lisboa incluiu uma sessão dedicada à escritora na Biblioteca Nacional, muito bem protagonizada pelo advogado e escritor José António Barreiros. Chegou-nos, entretanto, a notícia de que está em preparação a reedição da sua obra completa. 22 de janeiro de 2018
F A L A R D E N Ó S - X I V171J O R G E A . H . R A N G E LNo centenário de José Silveira Machado – Um percurso de dedicação a Macau Não nasceu em Macau, mas esta foi a terra à qual dedicou maior amor e onde fez um longo percurso recheado de vivências inolvidáveis, deixando-nos definitivamente com 89 anos de idade. José Silveira Machado (1918–2007) é lembrado pelos livros e artigos que escreveu, pelos milhares de alunos que tiveram a felicidade de merecer o seu atento acompanhamento como professor, por gerações de desportistas desta terra e pelos amigos de todas as idades que aqui deixou. Conheci-o nas actividades juvenis que eram então promovidas pela Mocidade Portuguesa, de que foi dedicado e competente dirigente, e mantive com ele um relacionamento muito positivo ao longo de décadas, nos domínios da educação e do desporto e no seio de alguns organismos da sociedade civil.Dos Açores para MacauNatural de Velas (S. Jorge, Açores), chegou a Macau em 1933, ainda adolescente, para frequentar o Seminário de S. José, juntamente com mais cinco rapazes, dos quais apenas um se ordenou. Ali teve uma excelente formação, ministrada por reconhecidos mestres, muitos dos quais integraram aquela plêiade extraordinária de missionários que, no século XX, em diversificadas áreas, ajudaram a afirmar e a construir uma identidade para Macau. O gosto pela leitura e a propensão para a poesia revelaram-se-lhe cedo, como foi demonstrando pelos poemas que foi escrevendo e pela vasta cultura que lhe permitiu abraçar o jornalismo e a docência e ser um apreciado escritor.Concluído o curso do Seminário, duas vias eram naturalmente facultadas aos alunos portugueses: ou tinham vocação para o sacerdócio ou faziam o serviço militar obrigatório. Silveira Machado assentou praça, ingressando depois na função pública local, tendo realizado obra digna de apreço nos Serviços da Economia, chefiando a sua secção de Propaganda, que antecedeu a criação do Centro de Informação e Turismo. “Na sua obra, ele fez a síntese de dois universos, de duas vivências, das duas metades de Macau.” Luís Sá Cunha, Fevereiro de 2008
F A L A R D E N Ó S - X I V 172J O R G E A . H . R A N G E LConstituiu família em Macau e foi como professor que se tornou amplamente conhecido e respeitado, primeiro no Instituto Salesiano e no Colégio D. Bosco e depois na Escola Comercial Pedro Nolasco. Activamente ligado ao desporto e à cultura, distinguiu-se igualmente como presidente do Conselho de Educação Física e membro de diversos organismos desportivos e culturais. Também pertenceu ao Conselho das Comunidades Portuguesas.Além da assídua colaboração que deu a jornais como “O Clarim”, “A Voz de Macau” e “Renascimento” (jornal e revista), marcou presença em programas radiofónicos e deixou-nos os seguintes livros: “Macau, Sentinela do Passado”, “Rio das Pérolas”, “Macau, Mitos e Lendas”, “Duas Instituições Macaenses” (com o jornalista João Guedes), “Macau na Memória do Tempo” e “O Outro Lado da Vida”. Também coordenou, no âmbito da Fundação Macau, a reedição da obra completa de José dos Santos Ferreira (Adé), que foi seu dilecto amigo. O investigador António Aresta, na sucinta biografia que dele traçou (Figuras de Jade, Instituto Internacional de Macau, 2014), identificou as condecorações que lhe foram atribuídas: Medalhas de Mérito Desportivo e de Mérito Cultural do Governo de Macau e Oficial da Ordem de Instrução Pública, Comendador da Ordem do Mérito e Grande Oficial da Ordem da Instrução Pública, do Estado Português.No “Oriente/Ocidente”O órgão de comunicação do Instituto Internacional de Macau, “Oriente/Ocidente”, de Fevereiro de 2008, dedicou à memória de José Silveira Machado esta nota de homenagem, pela pena de Luís Sá Cunha:“Tinha 89 anos (nascido a 24 de Outubro de 1918) e chegou a Macau em 1933,
F A L A R D E N Ó S - X I V173J O R G E A . H . R A N G E Londe passou, quase sempre, toda a sua vida, um percurso de dedicação e amor à terra, vivido com as virtudes da alegria, da amizade, da dádiva – Amigo e referência para todos, deixou um vazio. Tinha dito em recente entrevista: ‘Toda a minha vida no Oriente sempre teve dois objectivos principais em que o primeiro foi prestigiar Portugal no Oriente’. Também confessara que ‘tinha medo da americanização de Macau’.Luís Sá Cunha apresentou a sua última obra ‘O outro lado da vida’ e prefaciara-a em premonição íntima de despedida. Era dia do seu 85.º aniversário: ‘O José Silveira Machado não é apenas uma grande memória de Macau. A sua funda vivência na cidade, durante tempos lentos que propiciam as géneses e as sínteses interiores, resultou nele operação de inclusão, de mimésis. Há qualquer coisa da Macau antiga que foi sendo nele incorporada; ele entranha-se na paisagem habitual: não passa frente ao cenário, ele é também o cenário.’ Assim o conservo sempre no meu imaginário (eu virtual realizador do meu filme de Macau), a registar a sua passagem em ‘travelling’ pelos cenários patrimoniais, o seu perfil sempre mimetizado aos fundos: a Igreja de S. Domingos, a fachada da Misericórdia, a Pharmacia Popular, os CTT, o ‘Vaquinha’… Mas onde o eternizo é a descer a inteira Almeira Ribeiro, o seu recorte, lá ao fundo, a esvair-se sob as arcadas…De formação cristã, o José Silveira Machado habita a ‘cidade cristã’, como se hospeda no ‘bazar’. Na sua vida, ele fez a síntese de dois universos e de duas vivências, das duas metades de Macau.…Vê-lo-ei sempre a desfilar entre a Almeida Ribeiro e a Rua da Felicidade, na aresta cúmplice da intensidade da vida não adiada. Em Macau, setenta anos de vida fruída e solar. Parabéns, José.”
F A L A R D E N Ó S - X I V 174J O R G E A . H . R A N G E LComo comemorar?Há dias, numa reunião da Comissão Asiática da Sociedade de Geografia de Lisboa, em que foi concluída a apreciação do seu plano de actividades para 2018, como unidade operacional daquela prestigiada e emblemática instituição a que estou ligado, como membro efectivo, há quase três décadas, propus que fosse organizada uma sessão comemorativa do centenário de José Silveira Machado entre Outubro e Dezembro do corrente ano, tendo em consideração a data do seu nascimento (24 de Outubro de 1918). A proposta foi aceite. Nessa reunião estiveram presentes personalidades relacionadas com Macau e que conheceram José Silveira Machado, como Celina Veiga de Oliveira, António Estácio, Carlos Piteira e João Pires. Preside empenhadamente a esta muito activa comissão o arquitecto Eduardo Kol de Carvalho, que foi adido cultural na Embaixada de Portugal em Tóquio e delegado da Fundação Oriente em Goa. Temos ainda muitos meses à nossa frente, mas é bom começarmos a preparar um programa local. Personalidades como Luís Sá Cunha e Carlos Marreiros têm uma palavra a dizer e diversas instituições podem e devem intervir. Seria certamente oportuno conseguir-se que a Fundação Macau e/ou o Instituto Cultural patrocinassem uma reedição das suas principais obras. Ficam, para já, lançadas estas sugestões. José Silveira Machado, português genuíno que tão bem “fez a síntese de dois universos, de duas vivências, das duas metades de Macau”, merece que a sua memória seja perpetuada e que as suas lições de vida e da cultura que connosco partilhou sejam mais amplamente divulgadas junto das novas gerações desta terra abençoada que foi também a sua principal e derradeira morada. 29 de Janeiro de 2018
F A L A R D E N Ó S - X I V175J O R G E A . H . R A N G E LO patuá em foco no “The Guardian” e um sentido adeus a Carlos CoelhoNo mesmo mês em que o influente diário britânico “The Guardian”, na sua edição de 10 de Janeiro, dedicou um oportuno e curioso artigo ao patuá, explicando a sua origem e situação presente, deixou definitivamente o nosso convívio Carlos Manuel Gracias Coelho, que foi, reconhecidamente, um dos mais qualificados e completos falantes do velho dialecto macaense. Esta “dóci papiaçám”, já muito pouco usada como instrumento de comunicação, tem merecido um renovado e genuíno interesse na sua preservação, suscitando até a atenção de algumas instituições de ensino locais. Artigo sobre o patuáO artigo, de Matthew Keegan, que tem por título “Lost language: how Macau gambled away its past”, surpreendeu agradavelmente a comunidade macaense, a ponto de, no próprio dia da sua publicação, já circularem dezenas de mensagens nas redes sociais, apenas dando a notícia ou já divulgando o texto na íntegra, acompanhado ou não de comentários generalizadamente positivos.O jornalista entrevistou três personalidades macaenses: aquela notável senhora, dona Aida de Jesus, que, com 102 anos de idade, continua a gerir o seu pequeno e muito frequentado restaurante, o famoso Riquexó, de autêntica comida macaense, cuja confecção continua a ser por ela diariamente orientada, o advogado Miguel de Senna Fernandes, presidente da Associação dos Macaenses e responsável pelo grupo “Dóci Papiaçám di Macau”, com muito importante obra realizada na valorização do patuá através das artes cénicas, e uma jovem doutranda universitária, Elisabela Larrea, coordenadora de um blog que promove o patuá. Os três foram unânimes na preocupação quanto ao futuro da “lingu maquista”, falado hoje por um número já muito reduzido de macaenses, residentes na terra-mãe ou em países onde a comunidade se foi instalando e constituindo uma significativa diáspora, enquadrada e apoiada pelas Casas de Macau e outras associações representativas espalhadas pelo mundo. “Patuá is a creole language that developed in Malacca, Portugal’s main base in south-east Asia, during the first half of the 16th century and made its way to Macau when the Portuguese settled there.”
F A L A R D E N Ó S - X I V 176J O R G E A . H . R A N G E LIdentificada pelo autor como língua crioula que se desenvolveu a partir de Malaca, onde Portugal teve a sua principal base de apoio no sudeste asiático nas primeiras décadas do século XVI, o patuá foi a língua materna da comunidade luso-descendente de Macau, pelo menos até meados do século XIX, perdendo importância quando se fizeram renovados esforços para uma maior divulgação da língua portuguesa nas escolas e no seio das famílias tradicionais macaenses, começando então o seu declínio, que se foi acentuando até aos nossos dias. O patuá permanece, porém, como referência da comunidade, como factor identitário. Daí o interesse na sua preservação, havendo em torno dele um certo revivalismo que não é puramente saudosista. Com as profundas mudanças operadas no território nas últimas décadas, a comunidade sentiu – e bem! – a necessidade de ver reforçada a sua identidade, para garantir a sua sobrevivência.Matthew Keegan recorda, no artigo, o crescimento de Macau e a sua transformação no maior centro de jogos de fortuna ou azar do mundo, cujo valor real representa cerca de 80% da sua economia, mas lamenta que esse desenvolvimento tenha contribuído pouco para a valorização das culturas locais, tendo as grandes operadoras e detentoras de licenças de jogo preferido copiar os enormes “resorts” de Las Vegas, com um único propósito: ganhar dinheiro fácil. Neste ponto, é corroborado por Miguel de Senna Fernandes, que considera desajustado construir aqui uma réplica da Torre Eiffel, um complexo hoteleiro veneziano ou uma mini-Londres turística, já em projecto, em vez de apostarem mais nas singularidades culturais locais.Elisabela Larrea, por sua vez, defende que esta promoção cultural não pode ficar dependente só do governo ou dos casinos, devendo a comunidade assumir empenhadamente esse papel. “We have to do it ourselves”, garantiu ela com convicção e firmeza, embora reconheça as dificuldades que a comunidade enfrenta, sabendo que 95% da população de Macau é chinesa e cerca de 28 milhões, dos quase 31 milhões de visitantes que Macau está a acolher anualmente, são oriundos do continente chinês.
F A L A R D E N Ó S - X I V177J O R G E A . H . R A N G E LNeste contexto, ela acredita que a comunidade macaense poderá desaparecer ao fim de três ou quatro gerações, mas Miguel de Senna Fernandes recorda que esta é uma comunidade que sobreviveu a muitas intempéries ao longo dos tempos, mostrando uma natural “resiliência”, fortalecida pela consciência da sua singularidade, marcada pelas suas origens culturais portuguesas. O artigo termina com uma expressão de optimismo deste activo presidente de diversos organismos macaenses: “How can you claim identity, if you don’t feel different from the rest? So, fortunately, I see that the new generation of Macanese is aware of this and they are holding on. At least for now, I am optimistic.” Carlos Coelho, adeusA notícia do inesperado falecimento de Carlos Coelho (1953–2018) correu célere e a todos entristeceu. Foi no passado dia 19 de Janeiro. Personalidade local muito conhecida, com serviços prestados como professor do ensino básico e membro de vários organismos macaenses, distinguiu-se na organização de alguns dos encontros das comunidades macaenses, em actividades da Igreja Católica e na promoção do folclore português. Sempre muito prestável e eficiente quando a sua colaboração era solicitada, também apoiou prontamente a minha família na preparação do funeral do meu pai em 2007, quando ele nos deixou no ano em que ia completar 90 primaveras bem vividas. Filho de militar português e mãe macaense, Carlos Manuel Gracias Coelho, que tinha apenas 64 anos quando partiu para a eternidade, era também um dos mais fluentes falantes do patuá. Também nos deixou textos escritos no dialecto macaense na forma de pequenas crónicas e apontamentos que foi partilhando com amigos no Facebook. Um amigo brasileiro, de nome Ozias Alves Jr., estudioso de crioulos de raiz portuguesa, que nunca o conheceu pessoalmente mas com quem trocou constantes
F A L A R D E N Ó S - X I V 178J O R G E A . H . R A N G E Lmensagens, compilou recentemente esses escritos de Carlos Coelho em patuá, de Março de 2012 a Dezembro de 2016. Ozias Alves Jr. reside em Biguaçu, Estado de Santa Catarina, sul do Brasil, e é editor do jornal “Biguaçu em Foco”. Este jornalista não só quis prestar, deste modo, uma homenagem póstuma a Carlos Coelho, como também lançou à comunidade macaense o desafio de, com base numa selecção de textos de Carlos Coelho, Mariazinha Carvalho, Miguel de Senna Fernandes e José dos Santos Ferreira (Adé), entre outros, se elaborar um manual para ensinar o patuá. “Vale lembrar que se trata de uma língua em vias de extinção, mas ainda é possível salvá-la e um dos caminhos é justamente elaborar um manual do idioma”. Oxalá seja possível conjugar os esforços necessários para que tal desiderato seja alcançado. Os “chistosos” escritos de Carlos Coelho em patuá contêm, com sentido de humor, recordações de um outro tempo de Macau, mais pacata, mais humana, sem as multidões de visitantes que invadem todos os dias a cidade e as grandes empresas que fizeram deste pequeno território o maior centro do jogo no mundo, suplantado largamente Las Vegas. E conclui sempre que “antigo Macau sã máis janóta qui istunga Macau moderno”. O último apontamento que partilhou com os seus leitores é datado de 31 de Dezembro de 2016, véspera do centenário das aparições de Nossa Senhora em Fátima: “Sióra di Fátima, istunga ano sã celébra 100 Ano qui vôs já vem riva di céu pâ fala di amor cô três quiança; lémbra tudo dia réza têrço pâ tem paz na terra. Sióra di Fátima, istunga Ano 2017, dâ pâ nosôtro tudo paz, amor cô bençám di Diós Papi qui tem na Céu. Fazê tudo guerra cába na terra, como Vôs jâ cába primero guerra di mundo”. Um apelo de Carlos Coelho à paz no mundo, que podemos todos converter num apelo à paz à sua alma, em eterno descanso. 5 de Fevereiro de 2018
F A L A R D E N Ó S - X I V179J O R G E A . H . R A N G E LUm relato do Ano Novo Chinês em Macau na década de 1950 Aproximam-se as festividades do Ano Novo Chinês, para as quais as famílias chinesas, associações locais, estabelecimentos comerciais, hotéis, restaurantes, agências de viagens e alguns organismos públicos se foram preparando afanosamente ao longo de vários meses.Para assinalar este importantíssimo acontecimento anualmente revivido com intensidade por toda a população de Macau, trouxe para este espaço que o JTM me faculta semanalmente este sugestivo relato de Ninélio Barreira, inicialmente inserido no “Sábado Popular”, suplemento do “Diário Popular”, em 1957, juntamente com outras crónicas do mesmo autor que aquele matutino lisboeta publicou entre Fevereiro e Junho desse ano:O Ano Novo Chinês“Por entre o estralejar ruidoso e constante dos panchões e estalinhos, a que se junta o natural alvoroço dos dias festivos, surgiu na noite de 23 para 24 do mês de Janeiro (1.ª lua) o Novo Ano Chinês. Em Macau, onde a população china não dorme durante dois dias e duas noites, a festa, com a maioria dos estabelecimentos comerciais encerrados, é tradicionalmente rija e cheia de colorido, decorrendo num ambiente de euforia difícil de descrever. Muita gente suspende o trabalho e, para alguns, é chegada a altura de receber o sonhado fau-hong – modesta compensação de um ano inteiro de labuta. Acertam-se as contas, pagam-se as dívidas, fazem-se compras, estreiam-se novas cabaias, visitam-se os parentes e amigos, trocam-se ofertas e os lai-si – pequenos sobrescritos vermelhos, simbólicos portadores da Felicidade, contendo alguns avos – andam de mão em mão. A todo o momento e por toda a parte, ouvem-se felicitações: – Kong-hei Fat-choi! E nesta frase usual, simples e expressiva, há um pequeno mundo de esperança e promessas. “... este ambiente festivo, de cor, aparato e movimento estende-se por toda a cidade, desde as grandes avenidas aos bairros mais humildes.”
F A L A R D E N Ó S - X I V 180J O R G E A . H . R A N G E LHá pelo menos, a ilusória mas sincera intenção de prognosticar auspiciosas riquezas e venturas perenes…Embora a China tenha adoptado o calendário gregoriano desde a implantação da República, em 1911, os chineses continuam tradicionalmente a festejar o San Nin ou Ano Novo, pela contagem das luas, e daí ser, também, designado por Ano Lunar. Durante os festejos, o chinês obsequeia faustosamente os seus deuses, invocando a sua protecção; procura afugentar os espíritos malignos que povoam todas as habitações, e amedrontar os seres perniciosos que, porventura, intentem realizar os seus malefícios; e celebra o culto dos antepassados, além de prestar submissão ao chefe de família. E tudo isto realizado sob a forma de cerimónias solenes a que assistem todos os parentes, findas as quais se queimam mais panchões, se acendem pivetes e explodem os petardos, num crepitar incessante e atroador.Depois, vem o abundante repasto, ofertado por intenção aos deuses e composto de mil e uma iguarias, que são saboreadas gulosamente e no meio do maior júbilo.Com o advento do Novo Ano, verifica-se o regresso do ‘Deus Fogão’ – ‘o espião que tudo vê’ e que, sete dias antes, partira do seu nicho, na cozinha, a fim de, junto do ‘Soberano dos Céus’ (o Imperador Jade) relatar quanto observara, em cada casa, durante um ano inteiro. Assim, para evitar a coscuvilhice daquela divindade, cada família procura cativar as suas graças e obter a sua indulgência, ofertando-lhe bolinhos, velas e pivetes e ‘batendo-lhe cabeça’, chegando alguns a oferecer-lhe mel para adoçar os beiços, ou bebidas alcoólicas para lhe entorpecer a memória e lograr, deste modo astucioso e pueril, a omissão de algumas faltas que pesam nas suas consciências e pelas quais recebem o castigo de ‘Iôk-Uóng’ – o soberano hierárquico do ‘Deus Fogão’…
F A L A R D E N Ó S - X I V181J O R G E A . H . R A N G E LO chinês tem nesta época festiva a preocupação de vestir as melhores cabaias, calçar sapatos novos e melhorar as próprias refeições. Por outro lado, é tradicional a permuta de ofertas com parentes e amigos e ainda, a visita recíproca entre eles. Nos pagodes e oratórios públicos, ardem pivetes, incenso e sândalo e, nesses dias, a afluência desusada dos devotos constitui um acontecimento espectacular, pelo movimento, diversidade e colorido das gentes. Ali encontramos um sortimento completo de acepipes, frutas, vinhos e carnes (ou simples punhados de arroz) votados às preclaras divindades e tendentes a aplacar as suas iras. Cumpridas as formalidades rituais, toda a gente vem para a rua, a passear e a divertir-se ruidosamente.Na Rua dos Mercadores e na das Estalagens, pululam os vendedores ambulantes das mais diversas e características prendas, não faltando os hon-pau, pequenos sobrescritos vermelhos, destinados a conter os lai-si e os calígrafos, vendendo os seus letreiros vermelhos de caracteres dourados com frases auspiciosas de prosperidade. Estes são colados nas paredes exteriores da habitação, nas portas e nos veículos, e as suas inscrições referem-se a votos de longa vida, mil e uma venturas, numerosa prole. Outras há que amaldiçoam os espíritos malignos. Uma nota pitoresca dos festejos do Novo Ano Chinês em Macau é a que se observa no Largo do Leal Senado onde a multidão se aglomera para a compra de flores e plantas. Há a convicção, entre os chineses, de que certas plantas têm o condão de atrair a Felicidade e, daí, a grande procura de determinadas espécies. Elegantes e graciosas chinesitas, vestidas a rigor nas suas cabaias estreitas e coloridas, de grandes aberturas laterais, passeiam e sorriem, por entre as bancadas
F A L A R D E N Ó S - X I V 182J O R G E A . H . R A N G E Lfloridas experimentando o odor perfumado dessas frágeis florinhas, tão frágeis e tão simples como elas.Mas este ambiente festivo, de cor, aparato e movimento, estende-se por toda a cidade, desde as grandes avenidas aos bairros mais humildes.No Porto Interior, os juncos e tancares – embarcações que constituem residência flutuante e permanente – ostentam rubras bandeiras, e numerosos e berrantes letreiros vermelhos, com caracteres dourados. Durante três dias, toda a frota piscatória deixa a faina do mar: os barcos aproximam-se do porto e aglomeram-se ali, aos milhares. E os seus habitantes largam o labor quotidiano e vêm passar o Ano Novo à cidade.É assim o povo chinês, levando uma vida árdua, de intenso labor, procura nesta época, tirar partido desse esforço, entregando-se exclusivamente à folia, na vã quimera de melhores dias.”Coisas de MacauEste texto, que é uma boa nota explicativa do significado do Ano Novo Chinês e contém uma sucinta descrição de alguns aspectos relevantes das festividades em Macau, constitui um capítulo do livro “Ou-Mun – coisas e tipos de Macau”, que o Instituto Cultural de Macau publicou em 1994, integrando-o na sua apreciada colecção “Rua Central”. O autor, Ninélio Barreira, que passou alguns anos entre nós no início da década de 1950, dedicou-o “ao grande mestre, professor Luís Gonzaga Gomes”, que muito o ajudou “a compreender e a decifrar alguns enigmas da pragmática chinesa” e às suas três filhas, que com ele “viveram e sentiram o fascínio da Macau”. 12 de Fevereiro de 2018
F A L A R D E N Ó S - X I V183J O R G E A . H . R A N G E LOu-Mun – coisas e tipos de Macau A propósito do Ano Novo Chinês, a festa maior das comunidades chinesas espalhadas pelo mundo e, por isso, também em Macau, escolhemos para este espaço, na semana passada, uma crónica de Ninélio Barreira, publicada em 1957 no “Diário Popular”, sobre a forma como ele testemunhou as festividades na década de cinquenta do século passado. As suas crónicas, escritas entre 1952 e 1955 e divulgadas de Fevereiro a Junho de 1957 através daquele já extinto vespertino lisboeta, foram mais tarde reunidas, após algumas convenientes adaptações, num volume intitulado “Ou-Mun – coisas e tipos de Macau”, que saiu do prelo em 1994 e foi integrado na colecção “Rua Central”, do Instituto Cultural de Macau. Juntou-se, desta feita, a outras obras muito apreciadas, como “Bom Dia, S’tora”, de Graciete Nogueira Batalha, “A China Fica ao Lado”, de Maria Ondina Braga, “Eu Estive em Macau Durante a Guerra”, de António de Andrade e Silva, “Amor e Dedinhos de Pé”, de Henrique de Senna Fernandes e “Figuras d’Outros Tempos”, de José de Carvalho e Rego, que foram os primeiros cinco títulos desta notável colecção. O autor dedicou o livro ao seu “grande mestre, professor Luís Gonzaga Gomes”, que muito o ajudou “a compreender e a decifrar alguns enigmas da pragmática chinesa”, e às três filhas que com ele “viveram e sentiram o fascínio de Macau”. Vivências e narrativas O livro tem duas partes, reunindo a primeira as crónicas respeitantes às vivências do autor e a segunda as que resultaram das suas observações pessoais dos exóticos usos e costumes locais, abrangendo figuras típicas (a tancareira, o barbeiro de rua, o narrador de histórias, o cule, os vendedores ambulantes e a cantadeira), templos chineses (Ma Kok Miu, Lei Tong Pan, Kun Iam Tong e Lin Fong Miu), festividades (as do Bolo Lunar e do Ano Novo Chinês), ritos e tradições (o casamento chinês e os funerais). No primeiro conjunto de crónicas, o autor recorda a sua chegada a Macau, explica a localização do território e relata as suas experiências na cidade, na vida do dia-a-dia, “... nem o tempo, nem a distância me fizeram esmorecer o carinho, a paixão e a saudade com que acompanho a vida de Macau, qual ente querido, cuja ausência se sofre e se lamenta.”
F A L A R D E N Ó S - X I V 184J O R G E A . H . R A N G E Lno Rádio Clube de Macau, no uso da língua chinesa, nos restaurantes, nos transportes, num passeio às ilhas da Taipa e de Coloane, no jogo e no teatro chinês, não deixando de expressar a sua admiração pelo “doce encanto da mulher oriental”. Curiosamente, até inclui um pequeno vocabulário português-cantonense. Machado, cujo centenário do nascimento ocorre em Outubro do corrente ano, deixou no verso da capa este bem redigido apontamento: “Crónicas de uma viagem no interior do tempo e na magia do espaço. Trazem, em pinceladas vivas e coloridas, o sortilégio e o fascínio da Macau romântica dos anos cinquenta. Enredado no feitiço de uma teia de sonhos e encantos, seduzido pelo exotismo e mistério, o autor descobriu, em percursos diversos, o verdadeiro rosto da cidade – coisas, e gentes, estórias e lendas, costumes e tradições, crenças e mitos, mulheres bonitas e figuras típicas.Crónicas de um passado, que penetra subtil nas lendas do presente, com o perfume da saudade.”A reprodução de um mapa do território (de 1966) e fotografias de figuras típicas, festividades, templos e um funeral chinês valorizam extraordinariamente a edição, cuja capa e direcção gráfica foram da responsabilidade do laureado designer macaense Victor Hugo Marreiros, que em todos os trabalhos deixa sempre uma marca visível da sua qualidade e invejável criatividade.Um tributo a MacauNinélio Barreira acolheu muito bem a decisão de reunir as suas crónicas em livro e
F A L A R D E N Ó S - X I V185J O R G E A . H . R A N G E Ldecidiu incluir uma nota de apresentação em que esclarece os seus propósitos quando as escreveu e fez publicar. A palavra, pois, para o autor:“A razão de ser deste volume surgiu recentemente de sugestões que me foram feitas, no sentido de reunir todas as crónicas escritas e publicadas em ‘Sábado Popular’ – suplemento do Diário Popular – no ano de 1957 de Fevereiro a Junho, isto é, dois anos após o meu regresso de Macau. Decidi fazê-lo, não tanto pelo valor dessas crónicas, breves apontamentos sobre as figuras típicas, os costumes e o exotismo chinês, mas pelo que tudo isso representa, pelos conhecimentos adquiridos in loco, pelo impacto que todas aquelas figuras, todos aqueles costumes, todo aquele sortilégio provocaram em mim, despertando não só a minha curiosidade como o interesse em pesquisar para entender, em decifrar para transmitir. Nos muitos dias ali passados, no dia a dia intensamente vivido, cada vez mais me sentia preso ao sortilégio emanado das coisas e das gentes e, de tal sorte que hoje, volvidos trinta e sete anos, nem o tempo, nem a distância me fizeram esmorecer o carinho, a paixão e a saudade com que acompanho a vida de Macau, qual ente querido, cuja ausência se sofre e se lamenta. Tendo percorrido algumas zonas de duas grandes partes do mundo, a Ásia e a África, tendo vivido em terras de costumes e falas diferentes das do continente em que nasci, nenhuma delas se enraizou mais em mim, nenhuma delas me provocou maior sedução, nem outra ficou mais presa à minha vida e aos meus sentimentos, do que essa encantadora e fulgurante terra de Macau. E de tal modo ela se arraigou, de tal maneira se prendeu que, ainda hoje, de vez em quando, sonho que estou em Macau. E a cada despertar corresponde uma triste desilusão...
F A L A R D E N Ó S - X I V 186J O R G E A . H . R A N G E LPublicar estas crónicas é, pois, não só um dever de divulgar as suas belezas, o seu encantamento e sortilégio, mas antes de mais, uma forma de retribuir um pouco do muito recebido. É este o meu tributo a Macau.”Um tributo justo que quantos aqui viveram e amaram esta terra agradecem, reconhecidos, revendo-se nestas positivas considerações e observações. Rua CentralRua Central foi o nome escolhido pelo Instituto Cultural de Macau para a colecção editorial que compreendeu obras que retratavam usos e costumes locais, convidando-nos a revisitar épocas passadas em que se foi fazendo a memória de Macau. A Rua Central foi a artéria principal da cidade até à abertura da Av. Almeida Ribeira (San Ma Lou). Ligando o bairro de S. Lourenço às cercarias da Sé e com vielas que irradiavam para a Praia Grande dos palacetes e mansões e para o Teatro D. Pedro V, Largo de Santo Agostinho e o Seminário de S. José, era ao longo da rua que se desenvolvia o comércio mais procurado, compreendendo joalharias, alfaiatarias, antiquários, livrarias e até pequenos restaurantes e as famosas lojas dos mouros onde se vendia de tudo um pouco, de chapéus a brinquedos. Aos domingos, a seguir à missa, toda a gente mais “janota” circulava por aí, para ver e ser vista, podendo também conhecer as últimas novidades dessas prósperas e movimentadas lojas. Palpitava por aí o coração da velha cidade cristã que espelhava ali a sua alma macaense no que tinha de mais genuíno. 26 de Fevereiro de 2018
F A L A R D E N Ó S - X I V187J O R G E A . H . R A N G E L“Famílias Macaenses” em LisboaAinda vamos a tempo de referir a muito concorrida sessão que o Albergue SCM levou a efeito em Lisboa, na Fundação Calouste Gulbenkian, em Janeiro, para proceder ao lançamento da segunda edição, revista e ampliada, da obra “Famílias Macaenses”, de Jorge Forjaz. Esta nova edição já tinha sido apresentada na Universidade de Macau e no Clube Lusitano de Hong Kong, no âmbito do último Encontro das Comunidades Macaenses, levado a efeito em Dezembro de 2016. A primeira edição havia sido em boa hora produzida pela Fundação Oriente em 1996. Na assistência viam-se entidades do sector público cultural e muitas personalidades ligadas a Macau, como o conselheiro cultural da República Popular da China, o ex-Governador Vasco Rocha Vieira, a coordenadora adjunta da Delegação Económica e Comercial de Macau, os presidentes do Centro Científico e Cultural de Macau, do Instituto Internacional de Macau, da comissão asiática da Sociedade de Geografia de Lisboa e da Associação Portuguesa de Marketing Directo, responsáveis da Fundação Casa de Macau, um director do Clube Militar de Macau, a directora da Organização de Estudos Ibero-americanos para a Educação, a Ciência e a Cultura, o director do Festival de Música de Mafra, o fundador e ex-presidente da Associação Wenceslau de Moraes, membros dos órgãos sociais das Fundações Oriente e Jorge Álvares e alguns ex-presidentes da Casa de Macau em Portugal. A presença destas individualidades deve ser entendida como uma expressão clara de apoio a este relevantíssimo projecto e ao seu autor. O evento contou com o patrocínio da Fundação Macau e o apoio institucional da Fundação Calouste Gulbenkian e da Delegação Económica e Comercial de Macau em Lisboa, além da colaboração da Bambu Sociedade de Artes Limitada, de Macau. “Após cinco árduos anos de trabalho, o resultado monumental está à vista, e ultrapassou largamente o que esperávamos do autor.”
F A L A R D E N Ó S - X I V 188J O R G E A . H . R A N G E LConteúdo e propósitosA todos os participantes foi distribuído um elegante folheto que resumiu deste modo o conteúdo e os propósitos da obra: “O lançamento da obra ‘Famílias Macaenses’ da autoria do Genealogista e Historiador Dr. Jorge Forjaz (Academia Portuguesa de História), pretende revisitar as circunstâncias da investigação que conduziu à publicação de ‘Famílias Macaenses’, o seu eco junto das comunidades estudadas, a interligação entre os diversos países ou territórios de língua portuguesa e a importância da preservação destas memórias familiares. Publicadas em 1996 as ‘Famílias Macaenses’ constituíram, sem que o autor então tivesse essa consciência, o início de uma mais vasta investigação sobre as famílias que ao longo de séculos povoaram o então império ultramarino português.Em 1996, durante o II Encontro das Comunidades Macaenses, a obra foi apresentada ao público e pela primeira vez era reunida toda a família macaense dispersa inicialmente pelo imenso território da China (Hong Kong, Cantão, Xangai, Harbin, etc.), Japão (Kobe, Nagasaki, Tóquio, etc.), Tailândia, Singapura, ou, mais tarde, pelo Brasil, Canadá, E.U.A., Austrália e Portugal.Em 2011, consciente da importância de tal obra para a preservação da memória macaense, o Albergue SCM, convidou o Dr. Jorge Forjaz, na passagem do 15.º aniversário da publicação das ‘Famílias Macaenses’, a vir a Macau partilhar uma reflexão sobre o seu trabalho e o impacto que teve na comunidade. Após a conferência, o Arq. Carlos Marreiros desafiou o Dr. Jorge Forjaz para uma nova etapa, ou seja, a revisão e actualização da 1.ª edição das ‘Famílias Macaenses’. Após cinco árduos anos de trabalho, o resultado monumental está à vista, e ultrapassou largamente o que esperávamos do autor.
F A L A R D E N Ó S - X I V189J O R G E A . H . R A N G E LA 2.ª edição das ‘Famílias Macaenses’ é uma revisão geral da obra, actualizada em quase todos os capítulos e sub-capítulos, acrescentada com 80 novos capítulos, e ilustrada com mais de 3000 fotografias, numa edição de 5.038 págs., em 5 volumes, mais um volume de índices, que incluirá todos os nomes citados ao longo da obra.”Podemos acrescentar que, em 2013, o Instituto Internacional de Macau patrocinou uma deslocação do autor ao território para dar a conhecer aos participantes no Encontro das Comunidades Macaenses nesse ano realizado os contornos do projecto, o que foi feito perante mais de 600 membros das Casas de Macau e de associações macaenses locais. Apresentação da obraCarlos Marreiros, arquitecto jubilado, professor, ex-presidente do Instituto Cultural de Macau e presidente do Albergue SCM, organismo cultural macaense que assumiu esta segunda edição do livro, e João de Deus Ramos, embaixador, com altos serviços prestados no âmbito das relações luso-chinesas, curador da Fundação Oriente e ex-membro do Governo de Macau com a tutela dos Assuntos da Transição, fizeram a apresentação da obra, enaltecendo o trabalho imensamente meritório do autor e o significado deste notável empreendimento, fundamental para a compreensão do legado humano e cultural de Macau ao longo de séculos. Carlos Marreiros também explicou as origens e o percurso dos “filhos da terra”, não deixando de realçar a forma positiva como a comunidade se adaptou aos novos tempos de Macau, como região especial da China.A seguir, e para fechar a sessão, o autor brindou a assistência com um sentido, vivo e bem humorado relato desta sua extraordinária experiência no contacto intenso que manteve com uma comunidade verdadeiramente singular, em Macau e junto das Casas de Macau que visitou em várias partes do mundo e com cujos responsáveis e
F A L A R D E N Ó S - X I V 190J O R G E A . H . R A N G E Lmembros pôde conviver ao longo dos anos em que teve este seu muito valioso projecto em persistente e empenhada execução. Durante a sua intervenção, descreveu episódios muito interessantes por ele vividos no cordial relacionamento que estabeleceu com os macaenses e revelou que o desafio de fazer esta nova edição lhe foi proposto num jantar em casa do General Rocha Vieira, no qual também participou o Arq.º Carlos Marreiros.Breve nota sobre o autor Jorge Forjaz nasceu nos Açores em 1944, sendo licenciado em História. Historiador e genealogista, foi arquivista no Arquivo Regional de Angra do Heroísmo (1984–88), director e fundador do Festival Internacional de Música dos Açores (1985–2000), secretário-geral do Festival Internacional de Música de Macau (1989–1991) e conselheiro cultural na Embaixada de Portugal em Rabat (Marrocos). Além de “Famílias Macaenses”, é autor de “Os Luso-descendentes da Índia Portuguesa” (3 vols.), “Genealogias de São Tomé e Príncipe”, “Famílias Portuguesas de Ceuta”, “Os Colaço de Tânger”, “Os Teixeira de Sampaio da Ilha Terceira” e “Dart – Uma Família Irlandesa nos Açores”, sendo co-autor de “Genealogias da Ilha Terceira” (10 vols.), “Genealogias das Quatro Ilhas – Faial, Pico, Flores e Corvo” (5 vols.) e “Tombo Heráldico dos Açores”. É grande oficial da Ordem do Mérito e sócio de mérito da Academia Portuguesa de História, mas a comunidade macaense ainda não lhe prestou a justa homenagem que lhe é devida. Na sessão cultural promovida pelo Instituto Internacional de Macau e integrada no Encontro das Comunidades Macaenses de 2016, propus publicamente que essa homenagem fosse oportunamente organizada pelo Conselho das Comunidades Macaenses, envolvendo todos os seus membros. A ocasião apropriada creio que será o próximo grande Encontro, a realizar desejavelmente em 2019, no 20.º aniversário da transição. 5 de Março de 2018
F A L A R D E N Ó S - X I V191J O R G E A . H . R A N G E LO jogo nos anos cinquenta visto por um portuguêsAté à construção do Hotel Estoril e do Hotel Lisboa pela nova empresa concessionária – a Sociedade de Turismo e Diversões de Macau (STDM) –, o centro principal dos jogos de fortuna ou azar residia no Hotel Central, situado a meio da Av. Almeida Ribeiro. Nem em dimensão nem em diversidade, esses jogos e os recintos onde eram praticados se assemelhavam aos actuais. E ninguém podia sequer imaginar o espantoso desenvolvimento que este sector de actividade iria alcançar décadas volvidasUm artigo de Ninélio Barreira publicado em 1957 num suplemento do Diário Popular e depois integrado no livro “Ou-Mun – coisas e tipos de Macau” (Instituto Cultural de Macau, 1994), que foi recentemente objecto de apreciação neste espaço, relata a sua experiência pessoal numa sala de jogo desse hotel, nos anos cinquenta do século passado. O artigo, intitulado “O jogo”, complementa um outro sobre os festejos do Ano Novo Lunar que achámos oportuno reproduzir aqui em vésperas do início do Ano do Cão, que todos desejamos que seja próspero para Macau e feliz para a sua população. Vejamos o que nos contou o autor: Jogar no Ano Novo Chinês“De entre as muitas festividades que se celebram em Macau, uma das mais curiosas e que desperta a atenção geral, nela participando chineses e europeus é, sem dúvida, a do Ano Novo, designada por Sân-Nin em chinês. As festas do Ano Novo são móveis, uma vez que a tradição manda respeitar o ano lunar, a despeito de a China ter adoptado o calendário gregoriano, após a implantação da República em 1911.Durante três dias Macau veste trajo de gala. Grandes arcos são erguidos nas ruas principais por onde tremulam bandeiras e largas faixas vermelhas com inscrições de grandes caracteres dourados. Os panchões estalam em longas fitas, enchendo o ar de fumo e cheiro a pólvora.“… durante três dias, muita gente havia que dali não arredava pé, se não para comer ou dormir.”
F A L A R D E N Ó S - X I V 192J O R G E A . H . R A N G E LToda a gente vem para a rua usando roupas novas e fazem-se muitas compras que se trocam entre si, como prendas. E ninguém deixa de adquirir os lai-si – rectângulos de papel vermelho, onde se inscrevem saudações e frases auspiciosas.Vamos apenas referir um outro aspecto que se integra nesta festividade e que diz respeito ao jogo. Note-se, todavia, que o jogo está de tal maneira enraizado nos hábitos chineses que é difícil encontrar outro povo que se assemelhe nesse aspecto. Desde o Mahá-jong – cujo batimento das pedras sobre as mesas que se ouve ao longo de todas as horas da noite, causando aos ouvidos do europeu recém-chegado um verdadeiro martírio que lhe perturba o sono das primeiras noites – o jogo das moedas que se lançam contra a parede, o das apostas dos caroços das tangerinas (muito da preferência dos vendedores e dos cules), o jogo das lotarias Pak-Kap-Piu, até dos jogos de casino – toda a gente joga, na rua, nas lojas, nos casinos e até nos templos os bonzos ocupam as suas horas de ócio… a jogar. O chinês joga por instinto atávico; como se diz entre nós, o jogo ‘está-lhes na massa do sangue’. Dizia-me o Professor Luís Gonzaga Gomes que o jogador chinês não tem idade: jogam as crianças, as mulheres, os jovens e os velhos. Só não jogam as criancinhas de peito porque lhes falta o discernimento. Mas é durante aqueles dias do Ano Novo que o jogo nos casinos é permitido a toda a gente sem distinção. Ao tempo, existiam apenas dois locais onde se praticava o jogo: o Hotel Central e uma casa na Rua da Felicidade. A elas, porém, não tinham acesso os magistrados, militares e para-militares e os funcionários públicos. Eram interditas também a pessoas de baixa condição social, como pescadores, vendedores ambulantes e mendigos. Mas nos dias festivos do Ano Novo tal interdição era suspensa. E para corresponder à invasão prevista, em vez das duas ou três salas habituais, armavam-se mesas de jogo
F A L A R D E N Ó S - X I V193J O R G E A . H . R A N G E Lem quase todos os andares do Hotel Central, ao tempo o mais alto edifício de Macau, com todos os seus pisos. Gente vinda de toda a parte, das ilhas, da frota piscatória, de Hong Kong e até da China, da qual, aliás, nos separa apenas a Porta do Cerco, no istmo que liga Macau ao continente – dirigia-se para aquele Hotel e, durante três dias, muita gente havia que dali não arredava pé, se não para comer ou dormitar. O Hotel era, assim, autenticamente invadido por uma população ávida e sequiosa e não existia uma sala, uma mesa de jogo, que não estivesse permanentemente repleta.”Jogos mais popularesFruto da sua atenta observação, o autor apontou estes dois jogos como sendo os mais populares: “Vários tipos de jogo são ali praticados, mas o mais procurado, o mais popular e talvez o mais emotivo é, sem dúvida, o glu-glu. Vejamos em que consiste e do que se compõe. Uma mesa grande, de cor esverdeada, em cujo tampo estão inscritos números que vão de 3 a 18. Um grosso traço divide os algarismos de 3 a 10 e de 11 a 18. Estas duas zonas são, respectivamente, o Siu (pequeno) e o Tai (grande). Uma campânula, três dados e uma campainha eléctrica. O processo mais simples de jogar (pois há muitos outros) consiste em apostar no ‘grande’ e no ‘pequeno’. Lançados os dados, a soma obtida decide a sorte. Quem apostou na parte que saiu, recebe a dobrar.
F A L A R D E N Ó S - X I V 194J O R G E A . H . R A N G E LQuem quiser pode arriscar exactamente um número, o que lhe dá menos probabilidades, como é óbvio, mas muito mais dinheiro… se acertar. Cada um dos dígitos tem prémios diferentes. Assim, se apostar no 3, no 7 ou no 18 – e isto são apenas exemplos, pois não tenho presente os prémios que correspondem a cada um deles isoladamente – receberá um valor bastante superior que, nalguns casos, vai até ao décuplo! Há ainda combinações de cores e uma determinada combinação que, quando sai, tudo o que está sobre a mesa fica para a ‘casa’. Um outro jogo que atrai igualmente os curiosos e muitos jogadores e que se resume a um monte de botões, uma campânula e uma vareta de bambu é o fan-tân. Os jogadores dispõem-se à roda do banqueiro ou vão para o andar superior, cujo sobrado é aberto em cercadura onde há um gradeamento de madeira, em forma de balcão. Daqui fazem as suas apostas, lançando-as num cestinho preso a um cordel que sobe e desce que é manobrado por um auxiliar da banca. Feitas as apostas em 1, 2, 3 ou 4, o banqueiro destapa a campânula e munido da vareta de bambu, conta os botões, separando-os em grupos de quatro. Conforme restarem 1, 2, 3 ou 4 botões, assim se decide a sorte dos que apostaram, pagando três vezes o valor de cada aposta, aos que tiverem tido melhor golpe de vista, palpite ou sorte.”Os jogos atrás identificados e explicados continuam a ser muito populares nos casinos de Macau, sendo o fan-tân, até pela sua surpreendente simplicidade, muito procurado por pescadores e operários. Jogos como estes dão aos nossos gigantescos, numerosos e modernos casinos a nota de exotismo e singularidade que os faz distinguir dos demais. 12 de Março de 2018
F A L A R D E N Ó S - X I V195J O R G E A . H . R A N G E LTentar a sorte nos anos cinquenta Uma das crónicas de Ninélio Barreira publicadas em 1957 no vespertino lisboeta Diário Popular, e depois reunidas em livro intitulado “Ou-Mun – Coisas e Tipos de Macau” (Instituto Cultural de Macau, 1994), foi sobre o jogo em Macau, cuja transcrição parcial já foi feita neste espaço do Jornal Tribuna de Macau. Nessa crónica, não só ele partilhou as suas observações sobre a forma como funcionavam os casinos na década de 1950 e identificou alguns dos jogos mais apreciados, como também nos deixou uma nota pessoal sobre a sua estreia numa mesa de jogo, em tempo festivo do Ano Novo Chinês. Vale a pena conhecer este pitoresco relato:Estreia em mesa de jogo“Nunca fui jogador, nunca até então entrara num casino, nunca me tinha sequer sentido seduzido por qualquer tipo de jogo de azar, inclusive o das cartas. Mas, perante o desenrolar do espectáculo que tinha na minha frente, quem seria capaz de não se deixar tentar? Decidi-me pelo glu-glu. Sobre a mesa, onde dificilmente conseguira um lugar, amontoavam-se notas de todos os valores, desde a ínfima nota de uma pataca, até às bonitas cédulas de 500 e até de mil. Dois grandes montes de notas estavam formados: um no ‘pequeno’, outro no ‘grande’. Enquanto as pessoas vão lançando as apostas, há uma campainha que não cessa de tinir, estridentemente. E o banqueiro, sentado a meio da grande mesa, com as duas mãos sobre a campânula negra, vai avisando: – Hói-há! Hói-há! (Vamos ver, vamos ver!)De súbito, a campainha deixa de tocar. Faz-se o silêncio. Mais ninguém pode apostar. É o momento cruciante que antecede a sorte… ou o azar. E o banqueiro, numa “Foi num desses momentos, vendo toda aquela gente a recolher o seu dinheiro em duplicado – ninguém repara nos que perderam –, que me dispus também a tentar a sorte.”
F A L A R D E N Ó S - X I V 196J O R G E A . H . R A N G E Lincitação ao ‘suspense’, repete ainda: Hói-há! Logo a seguir, levanta a campânula e anuncia o resultado dos dados: – Sâm, Sei, Ung! (Três, quatro, cinco) – Sap-I hô! – Tai! (Número doze, é grande)Uma onda de agitação e de murmúrios percorre toda a mesa, de que se fazem eco as pessoas que assistem por detrás. O croupier recolhe imediatamente todo o dinheiro que está no ‘pequeno’ e inicia o pagamento a todos os que apostaram no ‘grande’, pagando a dobrar. Foi num desses momentos, vendo toda aquela gente a recolher o seu dinheiro em duplicado – ninguém repara nos que perderam –, que me dispus também a tentar a sorte. E, cheio de emoção, coloquei uma nota de cinco patacas (trinta escudos, sensivelmente) no ‘grande’. Os lances foram-se amontoando, quer dum lado quer do outro. Campainha. Silêncio. Hôi-há. Anúncio. Treze! Saiu no treze, saiu no ‘grande’. Ganhei! O banqueiro entrega-me duas notas de cinco patacas e volto a repetir a proeza. Repito o mesmo lance e ganho outra vez. Continuava a ‘sair’ o ‘grande’. E pensei: ‘Três vezes seguidas o “grande” não é provável!’ Por isso, aposto no ‘pequeno’. Saiu ‘grande’ outra vez. Não me dei por vencido. Afinal, perdera somente as cinco patacas que ganhara. Arrisquei, cheio de entusiasmo, mas, desta vez, mais comedidamente, pataca a pataca. Joguei cinco vezes e cinco vezes perdi. Bolas para o cálculo das probabilidades!Retirei-me desiludido. Passei o dia a observar os outros. Mas, no dia seguinte estava lá de novo. Talvez recuperasse o que havia perdido – pensei, esperançadamente. Perdi e ganhei, ganhei e perdi e, no fim, acabei por lá deixar umas dezenas de patacas. Serviu-me de emenda. Ao terceiro (e último) dia, porém, voltei lá. Consegui resistir e quedei-me a observar, apenas. Excitante!”
F A L A R D E N Ó S - X I V197J O R G E A . H . R A N G E LGanhar e perder, sorte e azar“Há os que falam muito alto para disfarçar o nervosismo, outros fumam cigarros sobre cigarros, alguns escrevinham números e fazem cálculos. Há os calados e aparentemente calmos; os excitados. Há olhos inquietos, rostos fechados, mãos crispadas, unhas e dedos roídos, gestos e atitudes reveladoras da emoção insofismável, da emoção que por todos perpassa, da ansiedade que todos sentem, da esperança que renasce a cada instante.A minha atenção é despertada por uma rapariga, modestamente vestida, uma chinesa que pouco mais teria de 15 anos. Um tanto amedrontada, enrolava na mão uma nota de cinquenta avos (meia pataca) e olhava, ora para a mesa, ora para o banqueiro, ou à sua volta, como que em busca de algo ou de alguém. Parecia hesitante e, de facto, mal a campainha acabara de soar, ela atirou repentinamente a sua nota para a mesa. O banqueiro olhou-a de soslaio, numa reprovação e avisou: Hôi-há!Os olhos da rapariga estavam cravados na campânula. Imóveis. Silêncio. Foram segundos de ansiedade, longos e dolorosos. – Hôi-há! repetiu o banqueiro. E levantou a campânula: I, iat, lôk! Kau hô! Siu! (Dois, um, seis. Número nove! É ‘pequeno’). Saíra no ‘pequeno’! Havia luz nos olhos da moça. As suas mãos, abertas, estenderam-se para o dinheiro que o homem lhe lançou com indiferença: uma pataca!Logo a seguir, sem qualquer hesitação, colocou essa nota de novo no ‘pequeno’. A mesma ansiedade, a mesma longa espera. A campainha, a campânula negra, as mãos do banqueiro, o hói-há e eis, de novo, o ‘pequeno’! A chinesita estava radiante. Sorria. Agitava-se, nervosa, incapaz de controlar os seus movimentos. Enrolava nas mãos as diversas notas ganhas com a sua meia pataca e, mal a campainha iniciava o seu retinir, era já das primeiras a lançar o seu dinheiro para a mesa. Já não jogava uma nota só, como fizera, a medo, da primeira vez. Agora arriscava três notas.
F A L A R D E N Ó S - X I V 198J O R G E A . H . R A N G E LSaiu no grande. Perdeu. Insistiu e perdeu de novo. Numa derradeira esperança atirou febrilmente para a mesa a sua última nota. Saiu no ‘pequeno’, quando a sua (última) pataca estava no ‘grande’. Afastou-se lentamente, de olhos baixos, muda, derrotada. E desapareceu por entre a multidão que se acotovelava para se aproximar da banca. Ninguém reparara nela. A quem poderia interessar que uma rapariga, uma adolescente, tivesse perdido todo o seu dinheiro?De repente, dei por mim a descer as escadas. Nos andares inferiores, centenas de pessoas aglomeravam-se, excitadas, à volta das mesas. Campainhas soavam no ar, vozes, gritinhos, risos, murmúrios. Quando a vi já ela ia a transpor o átrio do hotel. Fiquei a olhá-la, caminhando rua abaixo, num passinho miúdo, mas apressado. Ao voltar a esquina, quase ia esbarrando com dois homens, dois europeus. Estes riram-se, chamaram-na – Eh, nui-tchai! – e ela voltou atrás. Não sei o que disseram. Ela tinha os olhos postos no chão e parecia ansiosa para se desembaraçar dos importunos. Depois, deixou-se enlear pelo braço de um deles e caminhou, insegura a seu lado. Olhei-os até os perder de vista, ao fundo da rua…” Feliz Ano NovoLá fora, os panchões, “esses endiabrados petardos que rebentam por toda a parte, a toda a hora”, explodem ruidosamente e “uma mole imensa passeia na noite que vai caindo”. Na memória do autor ficaram gravados “os cartazes coloridos contendo grandes caracteres dourados”, o cheiro a pólvora e a incenso, as flores e “um manancial de atractivos que deslumbram”. O Ano Novo Chinês já era e será sempre, em Macau, uma festa enorme e inolvidável! 19 de Março de 2018
F A L A R D E N Ó S - X I V199J O R G E A . H . R A N G E LBragança acolhe futuro Museu da Língua Portuguesa Foi com grande expectativa e satisfação que, juntamente com o General José Eduardo Garcia Leandro, presidente da Fundação Jorge Álvares e ex-Governador de Macau (1974–79), e o Dr. Manuel Coelho da Silva, administrador da mesma fundação e ex-director dos Serviços de Educação de Macau, que também foi professor e secretário-geral da Associação das Universidades de Língua Portuguesa e do Conselho Coordenador dos Institutos Superiores Politécnicos, participei num encontro, realizado há duas semanas em Lisboa, com os presidentes da Câmara Municipal de Bragança e do Instituto Politécnico da mesma cidade, para tomarmos conhecimento do projecto de criação do Museu da Língua Portuguesa (MLP) naquela dinâmica urbe transmontana onde o ensino e a cultura conheceram um notável desenvolvimento nas últimas décadas. São promotoras desta muito relevante iniciativa aquelas duas instituições bragantinas e a Academia das Ciências de Lisboa, que pretendem criar uma nova entidade de referência vocacionada para a valorização e difusão da Língua Portuguesa, como património cultural imaterial e “elemento fundamental da nossa cultura e enriquecedor, pela sua diversidade”, abrangendo também os dialectos herdeiros do galego-português e as diversas variedades da língua, bem como os crioulos lusos que se formaram, uns ainda usados como instrumentos vivos de comunicação e outros em vias de extinção.Já foi disponibilizado um espaço adequado à instalação do Museu, resultante da adaptação e requalificação dos antigos silos de Bragança, que “representam um património histórico e um excelente edifício para albergar o MLP pela dimensão e pelo espaço e acessibilidade”, a que se acrescentarão alguns anexos construídos de raiz. Está igualmente assegurada parte substancial das verbas necessárias, através de fundos comunitários e outros significativos apoios. “O Museu da Língua Portuguesa ambiciona ser a referência na valorização e preservação do grande património imaterial que é a Língua Portuguesa.” Da nota de apresentação do futuro Museu
F A L A R D E N Ó S - X I V 200J O R G E A . H . R A N G E LObjectivos fixadosNo estudo prévio do projecto do Museu, que conta, desde já, como parceiros, com a Academia Brasileira de Letras, a Academia de Engenharia, a Academia Galega da Língua Portuguesa, a Academia de Marinha, a Imamat Ismaiili e da Rede Aga Khan, o Movimento Internacional Lusófono, o Instituto D. João de Castro, o Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, a Academia Portuguesa de História, o Instituto Politécnico de Macau e o Banco Carregosa, são definidos os seguintes objectivos para o Museu: criar um espaço vivo para a Língua Portuguesa e identitário para todos os falantes lusófonos; apresentar a língua como o grande património imaterial da humanidade pertencente a todos e, por excelência, o factor fundamental de comunicação e elemento unificador de povos; dar a conhecer a história da língua: a sua origem, influências e evolução; reconhecer a riqueza da diversidade da língua e cultura portuguesas, com ênfase sobre as tradições locais e regionais e de todas as comunidades lusófonas; promover a segunda língua oficial portuguesa – o mirandês; reavivar tradições e falares caídos em esquecimento; realizar exposições temporárias (língua, literatura, tradições e costumes); promover tertúlias, debates, palestras, cursos, seminários e formações; proporcionar uma experiência inesquecível em que o visitante se identifique com o tema; desenvolver acções paralelas, sobretudo associadas ao turismo, para atrair o público; e dinamizar o espaço também como ponto fundamentalmente turístico de cariz pedagógico.Além das parcerias atrás referidas e das manifestações de interesse já expressas pela Presidência da República, pela Comunidade Intermunicipal das Terras de Trás-os-Montes, pela Direcção Regional de Cultura do Norte e pelo Turismo do Porto e Norte de Portugal, E.R., os promotores desejam envolver a Fundação Jorge Álvares e outros organismos ligados a Macau na caracterização dos crioulos portugueses do Oriente e no apoio à recolha de material neste âmbito para exposição no Museu, bem como livros
F A L A R D E N Ó S - X I V201J O R G E A . H . R A N G E Le documentação útil para os seus centros ou núcleos de estudos. A Fundação já aceitou incluir no seu programa de acção esta colaboração, que se estenderá, previsivelmente, por vários anos. Compromisso de BragançaA cidade tem sabido conjugar exemplarmente a preservação das tradições e costumes locais com a modernidade, afirmando uma identidade cultural própria e querendo projectá-la, com ambição, no futuro. A participação em actividades do seu Instituto Politécnico, aberto a estudantes de muitas origens, incluindo Macau, e do Conselho dos Institutos Superiores Politécnicos, bem como deslocações por outros motivos, permitiram-me constatar esta realidade e compreender os seus desígnios como zona de encontro linguístico. A região transmontana apresenta, efectivamente, um património rico e diferenciado enquanto lugar de confluência de línguas e dialectos, além de tradições bem conservadas e um legado arquitectónico, histórico e cultural muito considerável. Por outro lado, os problemas de acessibilidade estão, em larga medida, ultrapassados, sendo também justo reconhecer o compromisso firmemente abraçado pelos seus responsáveis na concretização duma obra com esta dimensão e extraordinário alcance, que reforça enormemente o propósito de abrir mais e mais Bragança ao mundo. Por isso, o Museu será “um espaço universal, acessível a todos, não apenas a académicos ou a especialistas”. Um espaço de excelência e de qualidade, marcado pelo rigor científico, mas “simultaneamente didáctico e lúdico, que atraia públicos de todos os graus académicos e pertencentes a todas as faixas etárias”.Pretende-se que uma visita ao MLP proporcione “um olhar individual sobre a própria língua colectiva” e deixe uma marca em todos os visitantes. “Deve ser vista
F A L A R D E N Ó S - X I V 202J O R G E A . H . R A N G E Le sentida como uma experiência enriquecedora e inesquecível, como uma viagem de descoberta de carácter não só pedagógico mas também lúdico”.Quanto a conteúdos, o estudo prévio elaborado, graficamente atraente e com os objectivos sinteticamente enunciados, servindo de guião muito positivo para a promoção e divulgação do projecto, anuncia a criação de salas dedicadas à diversidade linguística, abarcando todas as comunidades lusófonas e “as diferentes modalidades da língua (escrita vs. oralidade, a gíria e o calão, tradições, provérbios, ditos populares, lengalengas e as novas tendências – a escrita mobile)”; “informação sobre a história da Língua Portuguesa, cronologia, factos da história interna e história externa, percursos de alfabetização, de estabilização ortográfica, de expansão e de transumância”; sala dedicada às “tecnologias e indústrias da língua escrita, arte e artesanato linguístico, técnicas caligráficas, materiais de suporte, explosão tipográfica, tecnologias audiovisuais e digitais, tratamento automático, síntese da fala, tradução automática, robotização da língua”; e um “espólio sobre a memória escrita, memória literária, património arquivístico e bibliotecas, arte literária, formas e géneros literários, poesia, prosa discursiva e narrativa, jornalismo, teatro e cinema”. Em suma, um conjunto de linhas de força que orientarão a concepção e a materialização deste notável e aliciante projecto. Há, obviamente, ainda um longo caminho por percorrer, das intenções à realidade e da apresentação dos propósitos à viabilização e concretização da obra. Que o louvável esforço mobilizador já encetado seja compreendido em toda a extensão e plenamente correspondido, para que tenha consequência num prazo desejavelmente pouco dilatado e possamos conhecer novos avanços no sentido da sua cabal realização. 26 de Março de 2018
F A L A R D E N Ó S - X I V205J O R G E A . H . R A N G E LPresidente do Instituto Internacional de Macau desde Dezembro de 1999, Jorge Alberto Hagedorn Rangel desempenhou funções públicas em Macau, sua terra natal, durante quase 25 anos, treze dos quais como membro do Governo, tendo tutelado as áreas de Administração Pública, Educação, Cultura, Juventude, Desporto e Turismo, bem como o Gabinete Coordenador das Cerimónias de Transferência. Em várias ocasiões foi Encarregado do Governo de Macau, substituindo o Governador nas suas ausências.É casado e tem uma filha, vivendo a família, oriunda de Portugal, há dez gerações em Macau e noutras terras do Extremo Oriente.Fez os ensinos básico e secundário em Macau e os estudos superiores em Lisboa, Cambridge, Bonn e Navarra. Enquanto estudante, dedicou-se intensamente a actividades de juventude, desde as da Mocidade Portuguesa às de associações académicas, tendo participado também em encontros estudantis e juvenis no estrangeiro, e interessou-se pela comunicação social, tendo obtido a classificação de “óptimo” no I Curso Nacional de Jornalismo organizado pelo Sindicato Nacional de Jornalistas, além de ter feito o Curso de Ciências e Técnicas de Informação, em Pamplona (Espanha).Cumpriu o serviço militar nos Açores e na Guiné, onde, como Capitão Miliciano de Infantaria, comandou uma companhia em zona operacional, com vários louvores. Na fase final da comissão militar na Guiné, trabalhou junto do Governador e Comandante-Chefe.Foi eleito deputado à 1.a legislatura da Assembleia Legislativa de Macau (1976-80), onde presidiu às Comissões de Assuntos Constitucionais, NOTA BIOGRÁFICAJorge A. H. RangelPresidente do Instituto Internacional de Macau
F A L A R D E N Ó S - X I V 206J O R G E A . H . R A N G E LDireitos, Liberdades e Garantias e do Regimento e Mandatos e, entre outras funções públicas, foi também presidente da Fundação Macau e director do Turismo e da Comunicação Social. As suas últimas responsabilidades oficiais foram a coordenação da transferência das responsabilidades administrativas da Administração Portuguesa para o novo Governo da Região. Foi também membro do Conselho de Redacção da Lei Básica da Região Administrativa Especial de Macau.No âmbito académico, além de funções docentes, foi o presidente da comissão instaladora do Instituto Politécnico de Macau, de que é agora presidente honorário, e membro das comissões instaladoras do Curso de Administração Pública e da Faculdade de Ciências da Educação da Universidade de Macau. Também presidiu ao Conselho da Universidade de Macau e aos Conselhos de Educação, do Desporto e de Juventude e foi consultor da Universidade Aberta Internacional da Ásia. É professor convidado de várias instituições de ensino superior, sendo também director honorário do Centro de Estudos Comparativos de Culturas da Universidade de Soka (Tóquio). Foi conferencista no Instituto da Defesa Nacional de Portugal, ministrando a matéria “A Bacia do Pacífico, Situação Estratégica e Perspectivas de Evolução”, e integrou o corpo docente do curso de pós-graduação em China Moderna no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da então Universidade Técnica de Lisboa, dando idêntica colaboração docente no Curso de Estudos Chineses (China Moderna e Contemporânea) da Universidade de Aveiro, ocupando-se dos Estudos de Macau.Desenvolveu e mantém ainda uma actividade intensa em organismos internacionais, como a UNESCO, a EROPA (Eastern Regional Organization for Public Administration), de que é membro vitalício, a Universidade das Nações
F A L A R D E N Ó S - X I V207J O R G E A . H . R A N G E LUnidas e a Associação das Universidades de Língua Portuguesa (AULP). Foi presidente da EATA (East Asia Travel Association), com sede em Tóquio; presidente regional da PATA (Pacific Asia Travel Association), com sede em Banguecoque, de que é director vitalício, e membro do Conselho Executivo da Organização Mundial do Turismo, com sede em Madrid. Participa regularmente, como conferencista, em encontros internacionais, de que se destaca a Conferência Internacional sobre o Diálogo das Civilizações, que se realizou em Tóquio e Quioto, no âmbito das Nações Unidas, tendo presidido à sessão sobre “Multiculturalismo e Encontro de Culturas”.A actividade associativa ocupa parte importante do seu tempo, tendo sido presidente do Elos Internacional – Movimento da Comunidade Lusíada durante dois mandatos (eleito em São Paulo, Brasil, em 1999, e reeleito em Coimbra, em 2001), presidindo depois ao seu conselho superior. Foi presidente da assembleia geral da Associação Promotora da Instrução dos Macaenses e presidente dos conselhos consultivos da Associação de Gestão de Macau e do Conselho das Comunidades Macaenses, membro dos órgãos sociais do Observatório da Língua Portuguesa e presidente da Direcção Central e do Conselho Supremo da Sociedade Histórica da Independência de Portugal, além de dirigente ou membro de numerosas outras associações de natureza cultural, educativa e social. É académico honorário da Academia Portuguesa de História e membro da Comissão Temática da Língua Portuguesa da CPLP. O Instituto Internacional de Macau, de que é presidente e membro fundador, é uma organização não governamental, com a classificação oficial de organismo de utilidade pública. É também membro dos conselhos de curadores das Fundações Casa de Macau, Jorge Álvares, da Escola Portuguesa de Macau e do Santo Nome de Deus, todas ligadas a Macau, sendo também membro honorário de agremiações macaenses espalhadas pelo mundo.
F A L A R D E N Ó S - X I V 208J O R G E A . H . R A N G E LÉ autor de várias obras, com destaque para “Macau e a Comunidade Macaense”, com 16 volumes, dos quais 14 já publicados.Foi agraciado com condecorações e outras distinções nacionais e estrangeiras, entre as quais a Ordem Nacional do Infante D. Henrique (Grande Oficial em 1982 e Grã-Cruz em 1998), a Medalha de Valor (a mais alta distinção honorífica de Macau), a Medalha de Mérito Pedro Ernesto da Cidade do Rio de Janeiro, a Medalha de Mérito da Federação das Associações Portuguesas e Luso-Brasileiras do Brasil, os títulos de membro honorário do Liceu Literário Português e benemérito do Real Gabinete Português de Leitura do Rio de Janeiro, a Comenda Eduardo Dias Coelho, do Elos Internacional, a Medalha Machado de Assis, a Medalha Victor Hugo de Cultura e a Medalha de Mérito Min-On (Tóquio), tendo também recebido o Award of Excellence do Instituto de Filosofia e Estudos Orientais de Tóquio, o Paul Harris Fellow e o título de membro benemérito da organização rotária internacional, a medalha de mérito do Lions International e, ainda estudante, o troféu D. Quixote, do Conselho da Europa, nos Colóquios Internacionais sobre a Juventude e a Europa do Futuro, além de vários doutoramentos honoris causa.