• Jorge A. H. rAngelFAlAr De nÓS – XIIIJorge A. H. rAngelFAlAr De nÓS – XIIIMAcAu e A coMunIDADe MAcAenSe – acontecimentos, personalidades,instituições, diáspora, legado e futuro
  • FAlAr de nós - XIII
  • ediçãoInstituto Internacional de Macaupatrocínio da Fundação Jorge Álvaresapoio do Governo da RAEMFAlAr de nós – XIIIMAcAu e A coMunIdAde MAcAense– acontecimentos, personalidades,instituições, diáspora, legado e futuroSérie de crónicas e artigos publicados no “Jornal Tribuna de Macau”,de 22 de Fevereiro de 2016 a 20 de Março de 2017Jorge A. H. rAngelmacau, dezembro de 2019ficha técnicatítulo FALAR DE NÓS – XIII • subtítulo Macau e a Comunidade Macaense – acontecimentos, personalidades, instituições, diáspora, legado e futuro • autor Jorge Rangel • editor Instituto Internacional de Macau• Direcção e execução gráficas victor hugo design • Dactilografia Emília Guine • Tiragem 300 exemplares• Impressão e encadernação Tipografia Welfare Lda • ISBN 978-99965-59-37-2 • macau, dezembro de 2019Nota: Edição composta pela série de crónicas e artigos publicados no “Jornal Tribuna de Macau”, de 22 de Fevereiro de 2016 a 20 de março de 2017.
  • J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l ÍndIce013 Nota prévia014Sob o signo do Macaco22/02/16019Peças da Fundação Jorge Álvares no Museu de Macau em Lisboa29/02/16024Festival da Lusofonia em Goa contou com participação do IIM07/03/16029Falar de Macau em encontro de antigos estudantes de Coimbra14/03/16034Macau - Cidade, Território e Arquitecturas21/03/16039No IV Congresso da Cidadania Lusófona 11/04/16044O Mar e Macau na Revista Internacional da AULP18/04/16049Macau Confidencial - novo livro de João Guedes25/04/16054Macau e os Territórios Lusófonos – um catálogo indispensável09/05/16059Breve história duma notável colecção iconográfica07/05/16064Lanternas do Coelhinho expostas em Lisboa23/05/16069Recordando o pavilhão de Macau na Expo 201030/05/16074Estratégias e propósitos de um plano quinquenal para a RAEM07/06/16078Os grandes objectivos do primeiro plano quinquenal da RAEM13/06/16083Prémio Identidade atribuído à Casa de Macau em Portugal20/06/16088Estratégias de desenvolvimento estabelecidas no plano quinquenal27/06/16093Jubilosa comemoração do cinquentenário da Casa de Macau04/07/16098Filipe de Sousa homenageado no Festival de Música de Mafra11/07/16103Edição comemorativa do cinquentenário da Casa de Macau18/07/16108Testemunhos para a história da Casa de Macau25/07/16113Ocasiões para reflexão sobre o papel dos filhos da terra01/08/161188.º volume sobre o Delta do Rio das Pérolas: Zhaoqing e Huizhou08/08/16123A vocação de Huizhou no Delta do Rio das Pérolas15/08/16128Da Religião e Pátria à Confluência22/08/16
  • J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l 133Os extremos conciliam-se29/08/16138Transculturação criadora em Macau 05/09/16143As festas da Casa de Macau do Rio de Janeiro12/09/16148Breves relatos de duas festas macaenses no Rio de Janeiro19/09/16153Uma História Cultural26/09/16158António Guterres e a Escola Portuguesa de Macau26/09/16163Por uma escola de excelência24/10/16168Oriente/Ocidente - mais um número bem concebido31/10/16173“Territórios” - de António Conceição Júnior em Lisboa07/11/16178Um reencontro com Vasco Callixto quase 40 anos depois14/10/16183Macau – Roteiros de uma cidade aberta21/11/16188Filo-filo bom qui guardá Macau na coraçám28/11/16193Leng-lenga e cantilenas de Macau05/12/16198Valorizar a identidade - entidades distinguidas com o Prémio Identidade12/12/16202Recordar a transição, 18 anos após o estabelecimento da RAEM19/12/16207Macau – um suporte legislativo para uma região especial16/01/17212Cooperação multifacetada através de Macau23/01/17217Bispo D. Arquimínio da Costa em livro do IIM06/02/17222Testemunho do General Garcia Leandro sobre D. Arquimínio da Costa13/02/17227A situação da Igreja após a assinatura da Declaração Conjunta20/02/17232A diocese de Macau – um resumo do seu percurso27/02/17237Macau, da mudança de regime na China em 1911 à revolução de Abril03/03/17242Macau – o redespertar da prosperidade, nas últimas décadas13/03/17247Revista de Cultura homenageou Benjamim Videira Pires, S.J.20/03/17253Nota biográfica
  • J o r g e A . H . r A n g e l No vigésimo aniversário do estabelecimento da Região Administrativa Especial de Macau, dedico este volume à população de Macau, pela forma digna e serena como soube acompanhar os desafios da transição e contribuir, exemplarmente, para a construção do seu futuro.
  • 013 J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I Inota préviano ano do vigésimo aniversário da rAeMSemana após semana, os artigos e crónicas sucedem-se, sendo já treze os volumes concluídos desta continuada conversa com o leitor sobre diversificados assuntos relacionados com Macau, identificando acontecimentos e referindo personalidades, instituições, o legado, a diáspora e o futuro.Especial atenção tem sido dada, também, a livros, de ontem e de hoje, que têm Macau como tema central ou fonte de inspiração. É verdadeiramente notável a produção editorial em torno desta terra e das suas gentes, bem como da sua memória e da projecção que ela soube alcançar nas vertentes cultural e económica, favorecida pela conjugação feliz de circunstâncias positivas.Enquanto este volume sai do prelo, outro está já em fase de finalização, representando um contributo, modesto certamente, mas sentido e persistente, para uma melhor compreensão da dimensão humana, social e política de Macau, entreposto privilegiado que a História consagrou e que, como região especial da China, quer prolongar, no espaço e no tempo, a sua vocação de sempre.Neste ano da jubilosa comemoração do 20.º aniversário do estabelecimento formal da RAEM, sentimos reforçado o estímulo para continuarmos a escrever sobre Macau. Duas décadas volvidas, é tempo de apropriado balanço do percurso seguido. Novos temas deverão, por isso, integrar algumas das crónicas futuras, sempre com o propósito de apreciar, analisar e divulgar matérias que poderão interessar a todos nós.Macau, Setembro de 2019O autor
  • 014 015F A L A R D E N Ó S - X I I I J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I Isob o signo do Macaco“Símbolo de energia e inteligência, o Macaco foi recebido com entusiasmo e esperança, fazendo acreditar que 2016 poderá ser um ano auspicioso…” Nesta nossa Macau, sempre em festa, a chegada de mais um Ano Novo Chinês foi intensamente comemorada, de forma ruidosa, com o estralejar constante de panchões, e com impressionante movimento e transbordante alegria, partilhada pelas comunidades locais com as multidões de forasteiros que encheram animadamente os locais públicos da cidade e das ilhas. Assumiu-se na plenitude o esplendor duma riquíssima tradição milenar.Símbolo de energia e inteligência, o Macaco foi recebido com entusiasmo e esperança, fazendo acreditar que 2016 poderá ser um ano auspicioso, anunciando, em tempo de incerteza e dificuldade, resultados positivos na economia e na vida familiar. Para muitos, o Macaco é também sinónimo de oportunidade e de recompensa para aqueles que aceitam desafios e riscos. De acordo com a astrologia chinesa, este é o Macaco do Fogo.Foi assim na China e um pouco por todo o mundo, no seio da vastíssima diáspora chinesa, com dragões, leões, tambores, flores, lanternas, desfiles, danças, espectáculos, exposições, vistosas decorações, trocas de presentes, continuados convívios, suculentos repastos, envelopes vermelhos com “dinheiro da sorte”, homenagens aos antepassados e aos deuses, com muito incenso queimado nos templos, e o indispensável fogo-de-artifício. São, em regra, 15 dias seguidos de festa, em que o vermelho é a cor dominante, simbolizando o fogo que afasta os espíritos malignos e a alegria que a todos contagia. Na fase preparatória das festividades, as pessoas limpam as casas e os locais de trabalho, pagam as dívidas, cortam o cabelo e compram roupas novas para que o novo ano signifique mesmo renovação e traga sorte. Também em PortugalCom uma população de origem chinesa em célere crescimento, Lisboa teve festejos que, no corrente ano, suplantaram visivelmente os dos anos anteriores. Mais uma vez passei esta quadra com a família em Portugal e pude testemunhar a dimensão das celebrações, tendo como palco principal o Largo do Martim Moniz, onde decorreu um espectáculo folclórico-cultural de três horas, precedido de um desfile de associações, estudantes e grupos culturais chineses, incluindo os atletas da Escola de Kung Fu Hong Long (Dragão Vermelho), que apresentaram a dança do dragão e a do leão, ao longo da metade descendente da Av. Almirante Reis e da Rua da Palma, que se vai transformando, naturalmente, no núcleo central da “chinatown” lisboeta. Nas ruas transversais e no Largo do Intendente decorreram actividades desportivas para jovens e mostras de saberes e sabores chineses, com destaque para a gastronomia, o artesanato e a medicina tradicional chinesa, além de números de acrobacia e magia. Alguns grupos culturais vieram de propósito da China (Shaanxi e Zhongjing), e outros eram locais, merecendo referência os leões e o dragão da Escola She-Si do Porto, a Associação da Luz de Buda de Lisboa, a Associação Geral da União das Mulheres Chinesas e as crianças e professores da Escola Chinesa de Lisboa. Na Praça do Martim Moniz, actuaram também os alunos do Centro de Línguas e de Cultura Shu Min e puderam ser apreciados um solo feminino (“Deus da Fortuna vem a caminho”) por Ana Isabel Silva do Grupo Jasmim, actos acrobáticos, danças variadas, ópera de Sichuan e até o fado “Lisboa Antiga” interpretado
  • 016 017F A L A R D E N Ó S - X I I I J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I Ipela cantora chinesa Sun Yupi. Para muito do público ali presente, foi uma agradável surpresa todo aquele exotismo e imenso colorido, não regateando aplausos no final de cada número. outras actividadesNa Praça do Martim Moniz espalharam-se tendas e bancas com artesanato, flores, doces e frutos secos, calendários, livros, lembranças, jogos e roupa, que os visitantes foram percorrendo interessadamente, assistindo igualmente a demonstrações de caligrafia chinesa, recortes de papel e pintura de lanternas e de ideogramas. A Junta de Freguesia de Arroios aderiu a estas iniciativas, organizando exposições, espectáculos e um ciclo de cinema chinês no antigo Mercado do Forno do Tijolo, que se chama agora Mercado das Culturas. O Jardim da Estrela também teve um espectáculo no seu coreto, com as tradicionais danças do leão e do dragão e actuação de crianças da Escola Chinesa de Lisboa. Multiplicaram-se os convívios nos casinos, em sedes de associações e em restaurantes chineses, o melhor dos quais continua a ser o Mandarim do Estoril, onde a Casa de Macau em Portugal, que este ano comemora o cinquentenário da sua criação, reuniu os associados num almoço de confraternização. Os Institutos Confúcio em Portugal anunciaram, igualmente, sugestivos programas próprios e o Coliseu do Porto promoveu um espectáculo chinês de danças, cantares e acrobacias, com a colaboração da Liga dos Chineses de Portugal, que é presidida pelo empresário Y Ping Chow. Amizade reafirmadaComo é normal em ocasiões como esta, os procedimentos mais formais não faltaram. O novo embaixador da China em Lisboa, Cai Run, acompanhado de pessoal superior da Embaixada, bem como o Ministro da Cultura, João Soares, responsáveis municipais e presidentes de organismos da sociedade civil cumpriram as obrigações protocolares. No uso da palavra, o primeiro referiu o significado da efeméride, salientando que as relações entre a China e Portugal têm novas oportunidades de desenvolvimento, sendo “o intercâmbio cultural e os contactos entre os nossos povos parte indispensável das nossas relações bilaterais”; e o segundo leu a mensagem que o Primeiro-Ministro António Costa dirigira ao homólogo chinês, Li Keqiang, desejando-lhe saúde e felicidades e lembrando que “Portugal e a China são nações antigas com relações de amizade sólidas e duradouras que é minha intenção reforçar através de cada vez maior cooperação entre os nossos povos”. Teve também uma palavra de apreço pela forma como a comunidade chinesa em Portugal contribui positivamente para o desenvolvimento de Portugal. João Soares aproveitou para enaltecer a “relação fraterna de convivência entre a comunidade chinesa e a comunidade portuguesa” e “os valores que são comuns e que permitiram esse relacionamento que foi desde sempre fraterno e de cooperação entre dois países que entrosam a sua história na história do mundo e que têm nela uma relevância que é absolutamente indiscutível”. Outra intervenção importante foi a de Choi Man Hin, presidente da Associação de Comerciantes e Industriais Luso-Chinesa, que agradeceu a
  • 018 019F A L A R D E N Ó S - X I I I J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I Iparticipação dos grupos artísticos da China e das associações chinesas de Portugal, cujo empenhamento permitiu a realização das celebrações, e os apoios da Embaixada da República Popular da China e da Câmara Municipal de Lisboa, que estimularam a organização, fazendo “com que os chineses em Portugal possam sentir-se em casa, celebrando esta festa cultural e convidando com muito entusiasmo os amigos portugueses para partilharem a mesma alegria”.Votos de felicidadesÀ população e aos governantes da RAEM aproveito para desejar os maiores sucessos neste Ano do Macaco. A nova equipa de Secretários, que completou um ano em funções e teve nota globalmente positiva no debate das Linhas de Acção Governativa, pode agora realizar os programas apresentados. Cada um no seu estilo, uns mais exuberantes e outros mais comedidos, mas todos com o necessário sentido de missão, têm condições para merecerem a confiança da população que deles espera dedicação e competência, para que os objectivos propostos sejam integralmente correspondidos. Kung Hei Fat Choi!26 de Fevereiro de 2016Peças da Fundação Jorge Álvares no Museu de Macau em lisboa“A Fundação Jorge Álvares tem vindo a depositar nesta unidade museológica nacional um conjunto de valiosas peças pertencentes à sua colecção de arte oriental.” Desde o início do seu funcionamento, o Centro Científico e Cultural de Macau (CCCM) e o museu que nele se integra (Museu de Macau), criados em Lisboa por impulso do Governador Vasco Rocha Vieira em 1999, último ano da administração portuguesa, têm recebido significativos apoios da Fundação Jorge Álvares (FJA), que não só ajudaram a viabilizar o seu estável desenvolvimento, como também possibilitaram a realização de importantes conferências, seminários, exposições, edições e outros trabalhos de natureza académica e cultural, ao longo de década e meia de persistente e profícua actividade. Instituto público do Estado Português, que tem como director o Prof. Luís Filipe Barreto, catedrático da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e ex-director do Instituto de Estudos Portugueses da Universidade de Macau, o CCCM tem a sua sede na zona histórica da Junqueira, ocupando airosas instalações dotadas de adequados espaços museológicos, um auditório, áreas para exposições temporárias, centro de documentação e uma biblioteca que é um suporte fundamental de investigação sobre a China, a Ásia Oriental, Macau e as relações Europa-Ásia.Como instituto de investigação e cooperação, o CCCM mantém relações com dezenas de instituições universitárias e centros de estudos nacionais e estrangeiros, bem como embaixadas e fundações. Além de ter publicado mais de 50 trabalhos de investigação científica em várias línguas, importantes catálogos especializados sobre arte e património foram por ele produzidos. O Museu de Macau alberga uma excelente colecção de arte chinesa e peças relacionadas com este território e a presença de Portugal no Extremo Oriente. Quem já o visitou, ficou sempre com vontade de voltar a percorrer as suas galerias e reapreciar
  • 020 021F A L A R D E N Ó S - X I I I J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I Io seu muito relevante espólio. Coadjuva na sua promoção e divulgação uma Liga de Amigos que ganhou, recentemente, novas adesões e maior capacidade de intervenção. Peças da colecção da FJADesejando contribuir para a valorização desse singular espólio, a FJA, em consonância com a sua vocação estatutária, tem vindo a depositar nesta unidade museológica nacional um conjunto de valiosas peças pertencentes à sua colecção de arte oriental. Em conformidade com uma relação divulgada pela FJA, podemos identificar e caracterizar do seguinte modo essas obras de arte:garrafa dita de Jorge ÁlvaresUma bela peça de porcelana, conhecida entre os especialistas por garrafa dita de Jorge Álvares. Datada de 1552, contém uma legenda explícita que identifica quem a encomendou – o mercador Jorge Álvares: “ISTO MANDOU FAZER JORGE ALVRZ NA//A ERA DE 1552 REINA”.A garrafa integra uma série de porcelanas decoradas a azul-cobalto que constituem as mais antigas encomendas personalizadas conhecidas feitas por europeus a oleiros chineses. É este um dos mais interessantes e originais conjuntos de porcelanas destinadas ao comércio externo.Existem apenas nove dessas garrafas no mundo portadoras da legenda referida, a qual acaba bruscamente em REINA, uma palavra não terminada, cortando o final da frase e o sentido da inscrição, que, como observou Luís Keil, poderia ser REINANDO EM PORTUGAL EL REI D. JOÃO III.Pratos covos de porcelanaUm par de pratos covos, de porcelana branca decorada a azul-cobalto, com caldeira com bordo direito sobre pé curto inclinado para o interior. Constituem uma das cerca de centena e meia de peças de porcelana feitas na China, de 1520 até ao final da dinastia Ming (1644), especialmente para o mercado português. São apenas conhecidos no mundo mais oito exemplares semelhantes. Os pratos têm centros idênticos com um medalhão com um dragão rodeado por elementos budistas e flores de lótus estilizadas ou ondas de crista branca entrecortadas por espuma e chamas.A singularidade destas peças prende-se com o facto de ambas conterem símbolos reais de D. Manuel I: as armas reais e as esferas armilares. Pratos e caixa armoreadosDois pratos e caixa com tampa, em porcelana da China, da Companhia das Índias. A decoração é policromada com fundo adamascado, contendo as armas de Cosme Damião Pereira Pinto, fidalgo da Casa Real e Governador de Macau entre 1735-1738 e 1743-1747. Dinastia Qing, reinado Yangzheng, c. 1735.
  • 022 023F A L A R D E N Ó S - X I I I J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I Iraro jarro de porcelanaJarro de porcelana azul e branco encomendado para o Colégio de S. Paulo, em Macau, fundado pela Companhia de Jesus em 1594. Tem o corpo ovoide, decorado com elementos vegetalistas e duas faixas largas, uma com representação de paisagem oriental e outra com duas caras com colares, ladeadas por enrolamentos. Dinastia Ming, reinado Chongzhen, c. 1640.Travessa navio BrilhanteTravessa pertencente a um serviço mandado executar em 1840, de porcelana branca decorada com esmaltes azuis, de forma oval, com o navio Brilhante desenhado ao centro. O serviço foi encomendado pelo proprietário do navio, João António Alves, comerciante e capitão de navios, sediado em Macau, para oferecer ao tio de sua mulher, Miguel António de Sousa que, nos anos 20 ou 30 do séc. XIX, lhe emprestou o dinheiro para comprar o navio. Dinastia Qing, c. 1840.Tabuleiro e caixa armoreadosTabuleiro com as armas do Bispo de Macau ao centro e caixa de chá com decoração a ouro com paisagens orientais, ambos em madeira lacada a negro. Este conjunto pertenceu a D. Jerónimo José da Mata, Bispo da Diocese de Macau entre 1845 e 1862.conjunto em seda bordadaConjunto (casula, estolas, luvas e sapatilhas) em seda bordada a fio metálico dourado com flores e folhas. As luvas têm as insígnias da Companhia de Jesus. O conjunto pertenceu a D. Jerónimo José da Mata, Bispo da Diocese de Macau entre 1845 e 1862.réplica de globo terrestreRéplica do globo terrestre executado em 1623 pelos padres jesuítas Manuel Dias Júnior e Nicoló Longobardi, pertencente à British Library de Londres. Este globo pode considerar-se uma das mais importantes relíquias da primeira cartografia ocidental na China. O Museu de Macau, no CCCM (Rua da Junqueira, n.º 30, Lisboa), pode ser visitado de 3.ª a Domingo, das 10.00 às 18.00 horas. Informação sobre o CCCM e o Museu pode ser obtida em www.cccm.pt .29 de Fevereiro de 2016
  • 024 025F A L A R D E N Ó S - X I I I J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I IFestival da lusofonia em goa contou com participação do IIM“A Sociedade Lusófona de Goa tem como finalidade promover e apoiar a cultura lusófona em Goa, aprofundando as relações entre Goa e os países e regiões lusófonos e estabelecendo projetos relacionados com a língua portuguesa e cultura lusófona nas áreas de artes, sociais, educacionais, ciência e tecnologia.”Do site da Sociedade Lusófona de Goa Depois da primeira tentativa bem sucedida, levada a efeito em Fevereiro e Março de 2015, a Sociedade Lusófona de Goa, presidida por Aurobindo Xavier, acaba de realizar o seu 2.º Festival da Lusofonia, com o Instituto Internacional de Macau (IIM) a marcar uma presença muito bem acolhida da RAEM, através da exposição “Macau, Uma História de Sucesso”, preparada para assinalar o 15.º aniversário da transição e que está a fazer uma ampla itinerância por cidades de vários países.É propósito da Sociedade Lusófona de Goa (info@lusophonegoa.org) “abranger culturas de diversos países e regiões de cultura lusófona (pessoas falantes de português, regiões e países), particularmente as populações de Angola, Brasil, Cabo Verde, Timor Leste, Guiné-Bissau, do estado indiano de Goa e dos territórios indianos de Damão e Diu, da região autónoma de Macau, Moçambique, Portugal e São Tomé e Príncipe, considerando que a língua portuguesa é a sétima mais falada no mundo” e que “o conhecimento da cultura lusófona é essencial para a compreensão do mundo político, económico e social com que a Índia e particularmente Goa têm relações cada vez mais fortes”. Breve recordação do 1.º FestivalO Festival da Lusofonia Goa 2015 decorreu de 20 de Fevereiro a 20 de Março do ano passado, com diversos eventos ligados a regiões e países lusófonos, merecendo especial referência uma valiosa exposição de fotografias do século XIX, intitulada “Voyage to the East in the 19th Century” (“Viagem para o Oriente no século XIX”), apresentando vistas e motivos humanos e culturais de Lisboa a Timor, passando pelo Egipto, pela Índia, com imagens de Mumbai, Goa, Damão e Nagar-Aveli, por Sri Lanka e pela Indonésia. Esta exposição foi organizada pela Sociedade Lusófona de Goa, com a colaboração do Museu de Lamego e da Direcção Regional de Cultura do Norte (Portugal), dos Serviços de Arte e Cultura de Goa, do Departamento de Turismo de Goa e da Fundação Oriente. Outras actividades integradas no 1.º Festival foram uma demonstração prática de culinária brasileira, duas palestras sobre a preservação do património arquitectónico em Portugal e em Goa, pelos arquitectos Gerson Rei (de Coimbra) e Ketak Nachinokar (de Goa), exposições fotográficas de Angola e Timor Leste, uma sugestiva mostra alusiva a Macau de Margarida Fernandes (da Casa de Macau em Portugal) e um convívio em torno de “Feijoada e Samba”, com música e gastronomia, aberto ao público, com apresentação de iguarias típicas de vários países lusófonos, para comemoração do “Dia da Lusofonia”. Festival da lusofonia goa 2016O 2.º Festival da Lusofonia de Goa, realizado de 22 de Janeiro a 22 de Fevereiro, contou com um programa mais completo e variado, o qual incluiu seminários e palestras, com temas e oradores da União Europeia, Portugal, Brasil e Goa; exposições de fotografia (Macau, Moçambique e São Tomé e Príncipe); duas mostras bibliográficas, organizadas pela Universidade de Vigo, em colaboração com a Academia Galega da Língua Portuguesa e a Associação Galega da Língua, sobre “A Galiza (Espanha), uma comunidade autónoma lusófona”, e pela União Europeia (Centro de Informação Europeia Jacques Delors, Lisboa), sobre “A União Europeia – 30 anos de integração portuguesa”; concerto pelo grupo português Senza, um projecto musical de Catarina Duarte e Nuno Caldeira, criado após uma digressão de três meses pela Ásia; curso de
  • 026 027F A L A R D E N Ó S - X I I I J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I Iculinária brasileira e a animada festa “Feijoada e Samba”, com música e gastronomia lusófonas, no Clube Vasco da Gama, junto ao Jardim Municipal de Panjim. Muito interessantes e oportunos foram os temas abordados nas palestras, duas das quais respeitantes ao legado cultural goês, sobre os planos de preservação do património de Velha Goa, pelos arquitectos Joaquim Santos (da Universidade de Lisboa) e Edgar Ribeiro (de Goa), e sobre um projecto académico brasileiro de catalogação da produção literária e jornalística em língua portuguesa, em Goa, de inventariação da herança literária goesa de origem indo-portuguesa e de preparação de uma história da literatura em português, de Goa. As oportunidades de cooperação entre o Brasil e Goa foram identificadas num seminário promovido por entidades oficiais e universitárias do Brasil, tendo a União Europeia aproveitado, numa outra sessão, para divulgar o seu funcionamento, com especial enfoque na formação, na cooperação e no empreendedorismo. A presença macaenseDa RAEM esteve presente o IIM, com a exposição “Macau – Uma História de Sucesso”, que retrata a cidade e as ilhas, do património ao desenvolvimento físico, das gentes às festividades, da economia à educação, e que já foi apresentada, em 2015, em Lisboa, São Francisco e Oakland (EUA), Toronto (Canadá) e nas cidades brasileiras de Santos, Rio de Janeiro e Recife. Na Galeria de Artes da Biblioteca de Goa, foram também projectados dois excelentes vídeos sobre Macau, um de Sérgio Perez, com uma visualização aérea obtida através de um drone, e o outro, de Silvie Lai e James Jacinto, divulgando as variadas vertentes do território. Em representação do IIM, esteve presente António Rossano Monteiro, seu colaborador nas áreas de comunicação e projectos especiais, que estabeleceu contactos muito úteis com a Sociedade Lusófona de Goa e outras entidades culturais e associativas locais, além do Consulado-Geral de Portugal e a delegação da Fundação Oriente. Do seu relatório, realça-se a presença notável do público nesta actividade do IIM, com muita gente positivamente surpreendida com o crescimento da RAEM e com a preservação e valorização do legado luso. Também foram obtidas imagens e documentação de Goa para o arquivo do IIM e para divulgação, numa altura em que estão a ser lançadas iniciativas que visam uma maior aproximação cultural e comercial de Goa com Macau. Jogos da lusofonia em goaVale a pena recordar, neste contexto, que a terceira edição dos Jogos da Lusofonia, organizados pela ACOLOP – Associação dos Comités Olímpicos de Língua Oficial Portuguesa, ocorreu em Goa, entre 18 e 29 de Janeiro de 2014, envolvendo cerca de 800 atletas de todos os países de língua portuguesa e ainda da Índia, de Sri Lanka e de Macau, que teve a segunda maior representação (129 atletas) e o terceiro lugar na classificação final, com um total de 38 medalhas, das quais 15 de ouro. Dada a reduzida presença brasileira, ficaram nos dois primeiros lugares a Índia e Portugal, com 92 e 50 medalhas, respectivamente. Foi uma excelente oportunidade para reforçar, pela via desportiva, os laços de cooperação entre a Índia e o mundo lusófono. Próximo festivalO próximo Festival da Lusofonia de Goa já tem datas: decorrerá de 18 de Fevereiro
  • 028 029F A L A R D E N Ó S - X I I I J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I Ia 18 de Março de 2017. Esperamos que os esforços, a capacidade e a dedicação revelados pela Sociedade Lusófona de Goa sejam correspondidos. 7 de Março de 2016Quase vinte anos após a visita a Macau da Associação dos Antigos Estudantes de Coimbra em Lisboa (AAECL), quando, em representação do Governador Vasco Rocha Vieira, recebi os 104 membros que integraram a comitiva e lhes fiz uma exposição sobre o período de transição e os preparativos finais para o estabelecimento da nova região administrativa especial da China, quiseram os seus responsáveis convidar-me para proferir uma palestra sobre o legado, fazendo também um balanço da primeira década e meia do seu funcionamento. A ocasião foi a comemoração do 24.º aniversário da Associação, levada a efeito no dia 5 de Março em Lisboa, no Salão Nobre do Palácio da Independência, sede da Sociedade Histórica da Independência de Portugal. um exemplar convívio coimbrãoFoi uma longa e memorável tarde, que incluiu almoço, bem servido pelo restaurante daquele Palácio, o qual é gerido pela Fundação INATEL; tomada de posse dos órgãos sociais da AAECL; actuação do grupo coral “Ad-Hoc”, constituído por associados; a minha intervenção, intitulada “Macau – um legado valorizado”; apresentação do conjunto “Madre Christo” e do CD “Serenata a Coimbra”, do eternamente jovem Augusto Camacho, e uma serenata de Coimbra. Muitos dos mais de 120 participantes não arredaram pé, até ao F-R-A final, vigorosamente gritado por todos. O coro “Ad-Hoc” entoou bem conhecidas canções, entre as quais Edelweiss, do filme “Música no Coração”, Balada de Outono e Cantigas de Maio, de José Afonso, o espiritual negro Go Down Moses e o famoso Funiculi Funiculá que Luciano Pavarotti e outros tenores imortalizaram. O grupo “Madre Christo”, por seu lado, deliciou-nos com uma série de canções de Coimbra, a que se seguiu uma magistral exibição de acordeão.Falar de Macau em encontro de antigos estudantes de coimbra“Macau ficou, definitivamente, em nossos corações.”Maria de Fátima Lencastre, presidente da AAECL
  • 030 031F A L A R D E N Ó S - X I I I J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I IA serenata de Coimbra, a que todos os intervenientes deram o seu melhor, com sensibilidade e garra, fechou com chave de ouro este marcante encontro, merecendo a presidente da Associação e os seus colaboradores as mais calorosas felicitações. Registo com agrado a forma como o Juiz-Conselheiro Alcindo Costa, personalidade muito querida no seio da Associação e em outras instituições, pelo muito que deu a Portugal, foi homenageado neste encontro. Bom amigo e companheiro em actividades do mundo da lusofonia, com destaque para as do Elos Internacional da Comunidade Lusíada, com sede em Santos (Brasil), de que fomos ambos presidentes internacionais. Alcindo Costa é meu colega no Conselho Supremo da Sociedade Histórica. Na minha comunicação, procurei caracterizar o legado arquitectónico, cultural, institucional e humano de Macau, identificando as pedras da História e saudando as “pedras vivas” que souberam valorizar o património herdado e fazer funcionar o território que Portugal e os portugueses administraram ao longo de séculos e que, em momento julgado oportuno, retornou à soberania plena chinesa, mas mantendo um estatuto de autonomia, como região administrativa especial. Este é o tema de um trabalho que o Instituto Internacional de Macau publicará em Maio próximo. Aproveitei ainda para lembrar as ligações de Macau a Coimbra e para fazer uma pré-apresentação do livro “Macau-in-Coimbra”, coordenado pelos académicos Ming K. Chan, da Universidade de Stanford, e Carmen Mendes, da Universidade de Coimbra, e por mim, reunindo trabalhos apresentados na Conferência da Associação Europeia de Estudos Chineses, realizada em Coimbra, em 2014. E não deixei de evocar a memória de Carlos Assumpção, o único macaense que presidiu à Associação Académica de Coimbra.Visita ao oriente em 1997A Associação visitou o Oriente em Agosto de 1997, tendo estado em Banguecoque, Singapura, Malaca, Hong Kong, Zhuhai, Cantão e Macau. O seu boletim informativo “Capa e Batina”, de Outubro do mesmo ano, contém uma exaustiva crónica desta deslocação de duas semanas, cujo ponto mais alto foi precisamente Macau. Como então referiu a presidente da Associação, e agora de novo neste encontro, “Macau ficou, definitivamente, em nossos corações”.É interessante reler algumas passagens dessa crónica, na parte respeitante a Macau, cujo recorte ficou guardado no meu arquivo pessoal:“Prosseguindo a visita, apeámo-nos junto ao Jardim dos Passarinhos para fazer a indispensável romagem à Gruta de Camões e homenagear o nosso Vate, com as tradicionais fotos, junto ao seu busto e à primeira estrofe do Canto Primeiro da sua imortal Epopeia. Daqui, continuando a pé, fomos até à Igreja de Santo António, cujo interior visitámos, seguindo para as ruínas da Igreja de São Paulo, dedicada a Nossa Senhora, como pode ver-se da inscrição ‘MATER DEI’, por sobre a porta principal. Destruída por um incêndio em 26 de Janeiro de 1845, dela ficou de pé apenas a fachada, que é outro dos ex-libris da cidade. Descendo a monumental escadaria, passeámos pela Rua de São Paulo, seguindo pela Rua da Palha, e ao lado da Travessa dos Algibebes, pela Rua e Largo de São Domingos até ao Largo do Senado, de calçada portuguesa, no topo do qual fica o edifício do Leal Senado, datado do séc. XVI, com muita história,
  • 032 033F A L A R D E N Ó S - X I I I J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I Ionde funciona a Câmara Municipal, criada por um Decreto de 1586 do vice-rei da Índia. (...)À noite, teve lugar a anunciada recepção no belíssimo Palácio da Praia Grande, onde, em nome do Sr. Governador, ausente do território em serviço oficial, nos esperava o Senhor Coronel Raiano, que, mostrando-nos algumas das salas, nos deu explicações sobre o palácio e a sua utilização como sede do Governo, da Assembleia Legislativa e do Conselho Consultivo do Governador, recordando que fora construído em 1849 e pertença dos barões do Cercal, mas, devido aos problemas económicos desta família, fora arrematado pelo governo, em hasta pública, em 1881. Saídos do Palácio da Praia Grande, dirigimo-nos ao Museu do Vinho, tendo sido aqui recebidos pelo Sr. Dr. Jorge Rangel, Secretário-Adjunto para a Administração, Educação e Juventude, na qualidade de representante de Sua Excelência o Sr. Governador e do Governo, o qual, tendo a seu lado a Presidente da nossa Associação e o coimbrão Jorge Humberto (uma das antigas glórias da imortal Briosa e médico, há muitos anos, em Macau), nos fez uma desenvolvida exposição, de forma muito clara e muito brilhante, sobre a história e a vida actual do território, nas suas múltiplas vertentes económicas, sociais, educacionais, culturais, jurídicas e judiciárias e empresariais, enfatizando, particularmente, as preocupações e os esforços do actual Governo – a que preside, como referiu, mui dignamente e com muito sentido de Estado, o Sr. General Vasco Rocha Vieira – em deixar indelével, pelos séculos vindouros, a marca de Portugal neste território, que em 19 de Dezembro de 1999 passará a ser administrado, definitivamente, pela China, em conformidade com os compromissos assumidos na Declaração Conjunta Luso-Chinesa e na Lei Básica da Região Administrativa Especial de Macau, que deverá vigorar, pelo menos, até 2049. Tais compromissos tiveram e têm por base o respeito pelos valores culturais da portugalidade, caracterizada pela harmonia entre raças, religiões e sistemas diferentes, no respeito pelos direitos, liberdades e garantias individuais. Terminada a sessão, seguiu-se na sala de exposições do museu, por entre 1.050 marcas de vinhos portugueses e de outras origens, engarrafados, um opíparo jantar, oferecido pelo Governo do Território.” Palavras amigas de boa gente que Coimbra uniu e que ficou também indelevelmente ligada a Macau. 14 de Março de 2016.
  • 034 035F A L A R D E N Ó S - X I I I J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I IMacau – cidade, Território e Arquitecturas“Esta é uma obra que se pretende inovadora, dedicada à História do Urbanismo e da Arquitectura de Macau e do seu Território (península e ilhas). Nela se procura dar uma visão, em texto e imagem, documentada e informada, das profundas transformações que Macau sofreu ao longo da sua evolução secular, e com especial destaque para os últimos 40 anos.”O Instituto Internacional de Macau (IIM), na concretização do seu ambicioso plano editorial, acaba de nos oferecer mais um magnífico volume, que será de referência e consulta incontornáveis nos estudos futuros sobre o território, a sua história, o seu património e a evolução da arquitectura e do urbanismo deste espaço singular que os portugueses administraram até Dezembro de 1999 e onde se procurou, num contexto político diferente, manter e valorizar o legado que lhe deu uma identidade, a par de um estatuto próprio como região administrativa especial da China. “Macau – Cidade, Território e Arquitecturas” foi o título escolhido para este excelente trabalho, que reúne textos que são verdadeiras lições e apresenta uma criteriosa selecção de imagens que, eloquentemente, ilustram o conteúdo, além do enorme prazer visual que facultam ao leitor. José Manuel Fernandes, professor da Faculdade de Arquitectura da Universidade de Lisboa e insigne mestre, com muito valiosa obra publicada, coadjuvado por Maria de Lurdes Janeiro, arquitecta e investigadora de História da Arquitectura e do Urbanismo, e Maria João Janeiro, socióloga e estudiosa de temas ligados ao Oriente, são os nomes que tornaram possível esta edição que muito honra o IIM, sendo também de referir João Manuel de Almeida Loureiro, magistrado judicial aposentado e colaborador do IIM desde a primeira hora, cujos livros serviram de apoio à edição, Carlos Marreiros, laureado arquitecto e artista macaense, também ligado ao IIM, que redigiu o prefácio, e José Lobo do Amaral, vice-presidente do IIM, que coordenou a execução, confiada à MaisImagem. conteúdo da obraOs dois primeiros capítulos fazem o enquadramento histórico e explicam a evolução urbana de Macau, caracterizando as fases de crescimento da cidade, a evolução da urbe oitocentista até ao século XX, os novos aterros que permitiram uma rápida expansão, sendo identificadas as principais obras de arquitectura cívica, religiosa e militar dos séculos XVI a XVIII, bem como as arquitecturas e os equipamentos do dealbar do século XIX até aos anos 1920, o modernismo (dos anos 1920 aos anos 1960-70), incluindo a chamada “arquitectura do Estado Novo”, com referências oportunas aos arquitectos Licínio Cruz e Chorão Ramalho, a “renovação explosiva” dos anos 1980-90, o “caso” Manuel Vicente, Macau no quadro da dimensão qualificada da arquitectura moderna das cidades luso-descendentes e, finalmente, Macau com o seu novo estatuto de região administrativa especial da China e o seu centro histórico classificado como património da humanidade. O 3.º e último capítulo é um bem articulado ensaio histórico-arquitectónico-cultural sobre “Macau, a cidade do nome de Deus na China”, ou “Lin Fá Tou, a cidade do Lótus”, pondo em contraste a cidade cristã e a cidade chinesa e sublinhando a diversidade dos cultos nesta “cidade de deuses”, onde as festividades e as tradições são vividas intensamente pelas suas gentes.o prefácioCom o título “Um fato de puro corte ocidental vestia uma alma confucianamente chinesa”, o prefácio de Carlos Marreiros constitui um oportuníssimo enquadramento da temática tratada. É uma sábia explanação sobre o nascimento e o desenvolvimento da cidade e do território, que são também a sua cidade e o seu território, porque aqui nasceu e muito contribuiu para a sua valorização, como arquitecto a um tempo sóbrio e audaz, defensor lúcido e tenaz do legado, que soube dignificar, e homem de cultura identificado com as raízes e a história riquíssima deste lugar único onde gentes de
  • 036 037F A L A R D E N Ó S - X I I I J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I Imuitas origens se fixaram e que as circunstâncias e a vontade dos homens permitiram que fosse sempre entreposto privilegiado, comercial e cultural, ponto de encontro, local eterno de chegadas e de partidas e também mátria da comunidade macaense. São dele estas elucidativas considerações: “Os chineses já cá estavam, ao tempo da chegada das caravelas quinhentistas. E no estuário do Rio das Pérolas, os portugueses comerciavam com os locais. A pouco e pouco, com a permanência dos portugueses, as edificações tornaram-se menos perecíveis. As cabanas, as igrejas de tábuas, os templos de bambu, foram sendo substituídos por construções de alvenaria mista: pedra, cascalho, chunambo e mais tarde o tijolo.As rotas marítimas aumentaram de frequência porque as trocas comerciais prosperavam. Assim, não eram só os chineses quem comerciavam com os portugueses, mas, também, indianos, malaios, javaneses, filipinos, e outros povos do sudeste asiático, com religiões, etnias, estádios civilizacionais muito diferenciados. E das intensas trocas comerciais entre esses povos todos, e a crescente permanência dos portugueses na ‘Ilha de Macau’, ou ‘quase-ilha’ (presqu’île), resultaram igualmente permutas de conhecimento, sensibilidades, técnicas de construção, novos materiais. O intercâmbio de ideias e de conhecimentos, ao longo do tempo, criou aculturações numa primeira fase, depois miscigenação, com casamentos inter-raciais, mestiçagem de hábitos, formas de convivência, modos de construção. Era a primeira globalização. O conhecimento científico, artístico e político renascentista dos portugueses mestiçava-se com o conhecimento civilizacional da dinastia Ming, muito avançado naquela altura. Esta mestiçagem dinâmica era reforçada pelas contribuições de outras civilizações do Extremo Oriente, já atrás referidas. A sagração dos lugares da urbe – talvez de modo não muito perceptível aos fugazes comerciantes, em trânsito pela cosmopolita cidade portuária do Nome de Deus – ia acontecendo, misticamente, a contra-ponto dos negócios a troco do metal vil e sonante, em numerário ou espécie. ‘Todo o paraíso é descrito como um vergel, tendo ao meio ou uma árvore, ou uma montanha, ou uma fonte, que são em sentido cósmico a mesma realidade. A “ilha” de Macau, com sete colinas, teve, no “centro”, uma fonte. É a fonte do Nilau [Lilau], cujo relato místico é transmitido, a quem chega pela primeira vez, como comunicação oral de iniciação’. (Luís Sá Cunha, JL, suplemento especial sobre Macau, Ano XVI / N.º 687, Fevereiro de 1997, págs. 6-9).É assim que a urbe, em mestiçagem, vai crescendo e criando territórios ou territorialidades inter-culturais, sobre territórios físicos, também eles em mutação. Por conseguinte, a obra que prefacio poder-se-ia chamar ‘Macau, Cidade, Territórios e Arquitecturas’. No plural como em ‘Arquitecturas’ porque é disso mesmo que se trata: Macau que é hoje uma ‘Região Especial’, continua a ser uma Cidade com muitos territórios ou territorialidades e arquitecturas.”A obra foi lançada na semana passada, no auditório do Centro Científico e Cultural de Macau em Lisboa, na presença de professores, investigadores e número público, com destaque para o ex-Governador Vasco Rocha Vieira, as Dras. Ó Tin Lin e Gabriela César, coordenadora e adjunta da Delegação Económica e Comercial de Macau, o presidente do CCCM, Prof. Luís Filipe Barreto, o Almirante Nuno Vieira Matias, presidente do Conselho Supremo da Sociedade Histórica da Independência de
  • 038 039F A L A R D E N Ó S - X I I I J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I IPortugal e presidentes de outras instituições académicas e culturais. A apresentação foi feita pelo Prof. Arq.º Manuel Graça Dias. 21 de Março de 2016no IV congresso da cidadania lusófona“O IV Congresso reúne uma série de personalidades que, na teoria e na prática, muito se têm batido pelo reforço dos laços entre os países e regiões do espaço da Lusofonia…”Prof. Renato Epifânio, presidente do MILO MIL – Movimento Internacional Lusófono realizou o seu 4.º Congresso da Cidadania Lusófona no mês passado, com a participação de associações da sociedade civil de todos os países e regiões do espaço lusófono. Os locais escolhidos para as reuniões foram o Salão Algarve da Sociedade de Geografia de Lisboa e o Auditório Agostinho da Silva da Universidade Lusófona das Humanidades e Tecnologias. Como tem acontecido em muitos outros encontros académicos, coube mais uma vez ao Instituto Internacional de Macau (IIM) assegurar uma presença interventora e útil de Macau. cidadania lusófonaPara o presidente do MIL, Renato Epifânio, “cidadania lusófona” é um propósito e um valor em construção: “Quatro anos após termos lançado este novo conceito, ainda há muita gente, com efeito, que o estranha. Assumimo-nos, naturalmente, como cidadãos portugueses, por um lado, e como cidadãos do mundo, por outro. Assumimo-nos ainda, com a mesma naturalidade, como cidadãos europeus. Seguindo o célebre ‘slogan’ de quem assumiu como sua Pátria a língua portuguesa (falamos, claro está, de Fernando Pessoa, ‘primeiro estranha-se, depois entranha-se’). Chegará – estamos certos disso – o dia em que, naturalmente, nos assumiremos, todos, como cidadãos lusófonos”. Este IV Congresso reuniu uma série de instituições e personalidades que, “na teoria e na prática, muito se têm batido pelo reforço dos laços entre os países e regiões do espaço da Lusofonia – no plano cultural, desde logo, mas também nos planos social, económico e político”.
  • 040 041F A L A R D E N Ó S - X I I I J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I Ium balanço da cPlP“O Balanço da CPLP” foi o tema central deste congresso, duas décadas após a criação oficial da grande Comunidade dos Países de Língua Portuguesa. As expectativas e os resultados, o percurso e as prioridades, as opções e as realizações, os caminhos e os desafios do futuro foram amplamente debatidos, tendo o mote sido dado pelas intervenções de Adriano Moreira, Ângelo Cristóvão, Domingos Simões Pereira e Lauro Moreira, imediatamente a seguir às palavras de abertura de Luís Aires-Barros, presidente da Sociedade de Geografia de Lisboa, e representantes da CPLP e da Plataforma de Associações da Sociedade Civil, além de Renato Epifânio, em nome do MIL. Coube-me a responsabilidade de moderar o painel, apresentando os oradores e sintetizando as comunicações.Contribuíram também para o debate os representantes de uma grande diversidade de organizações: Liga Africana, Casa de Angola, Conselho de Representantes de Brasileiros no Exterior, Associação Caboverdeana, Associação Balodiren e Associação Posso (da Guiné-Bissau), Associação Fernando Pó (da Guiné Equatorial), Círculo de Escritores Moçambicanos na Diáspora, Associação do Idioma e Culturas em Português, Associação Pró-Cidadania Lusófona, Casa Internacional de São Tomé e Príncipe, MiL Timor-Leste, SAPO Timor-Leste, Associação Pró-Academia Galega de Língua Portuguesa, Associação Coração de Malaca (Korsang di Melaka), Sociedade Lusófona de Goa e Instituto Internacional de Macau. Moderaram as sessões finais e coordenaram as conclusões Abel de Lacerda Botelho, Alexandre da Fonseca, Guilherme d’Oliveira Martins, José Esteves Pereira, José Eduardo Garcia Leandro e Joaquim Rocha Afonso. O balanço do funcionamento da CPLP, não obstante as suas insuficiências, é, positivo. Reconhece-se que, se ela mais não fez em prol do caminho da convergência lusófona, “tal decorre não tanto por incapacidade própria, mas, sobretudo, por falta de empenho dos Governos, que, ao longo destas duas décadas, nunca apostaram suficientemente nesta plataforma político-diplomática”. Deve, assim, a sociedade civil contribuir para a afirmação e consolidação dos desígnios estratégicos neste contexto. Prémio Personalidade lusófonaO Prémio Personalidade Lusófona, instituído pelo MIL e que contemplou já distintas individualidades como Lauro Moreira, Adriano Moreira, Ximenes Belo, Domingos Simões Pereira, Ângelo Cristóvão e Gilvan Müller de Oliveira, foi este ano atribuído a D. Duarte de Bragança, “em reconhecimento de todo o seu incansável trabalho em prol da difusão do ideal da Lusofonia”. O IIM, em colaboração com o MIL, co-patrocinou uma vez mais este prémio.nova ÁguiaNeste IV Congresso assistiu-se também ao lançamento do n.º 17 da Nova Águia – Revista de Cultura para o Século XXI, que tem como tema central “A importância das diásporas para a Lusofonia”. Inclui um artigo de Alexandra Sofia Rangel sobre “Instituições macaenses de matriz portuguesa”. À semelhança dos anteriores, este número prima pela qualidade editorial e diversidade de colaboração. Publica inéditos de Agostinho da Silva, Teixeira de
  • 042 043F A L A R D E N Ó S - X I I I J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I IPascoais e José Enes, evoca mais de uma dezena de insignes figuras da cultura lusófona e apresenta importantes textos de J. Pinharanda Gomes, Adriano Moreira, Abel de Lacerda Botelho, Ximenes Belo, António Gentil Martins, José Eduardo Garcia Leandro, António Braz Teixeira, Manuel Ferreira Patrício e Renato Epifânio. E divulga um álbum fotográfico do 1.º Festival Literário de Fátima, além de uma síntese dos actos do 3.º Congresso da Cidadania Lusófona, levado a efeito em Março/Abril de 2015.outras actividadesPara os participantes foi uma excelente oportunidade para renovarem e reforçarem relações de cooperação. E merece registo e louvor a capacidade do MIL em congregar tantas organizações da sociedade civil em torno destes congressos e de outras importantes realizações. Além das atrás mencionadas, são de referir as seguintes: Academia Lusófona Luís de Camões, Associação dos Pupilos do Exército, Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias (CLEPUL), Centro Nacional de Cultura, Associação Internacional de Estudos Ibero-Eslavos, Fundação Lusíada, Instituto Europeu de Ciências da Cultura “Padre Manuel Antunes”, Instituto Fernando Pessoa (SHIP), Instituto de Filosofia Luso-Brasileira, Instituto dos Mares da Lusofonia, Revista Nova Águia, Observatório da Língua Portuguesa, Sociedade de Geografia de Lisboa, Sociedade Histórica da Independência de Portugal, Cidadania Activa e Fundação Calouste Gulbenkian. O encerramento do congresso foi assinalado com um jantar de convívio, com animação musical lusófona. Papel do IIMComo observador consultivo da CPLP, o IIM, que integra também a Comissão Temática da Língua Portuguesa e o Observatório da Língua Portuguesa, tem acompanhado estas e outras actividades no domínio da Lusofonia, levadas a efeito em vários países por iniciativa de entidades da sociedade civil ou da própria CPLP. 11 de Abril de 2016
  • 044 045F A L A R D E N Ó S - X I I I J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I Io Mar e Macau na revista Internacional da AulP“Sendo o mar um elemento comum a todos os países de língua oficial portuguesa e Macau, a AULP reúne nesta edição artigos que permitem conhecer as várias perspectivas sobre o mar que tem um papel fundamental para a difusão da língua portuguesa.”Da nota de apresentação O n.º 27 da Revista Internacional em Língua Portuguesa, publicada pela AULP – Associação das Universidades de Língua Portuguesa, saiu recentemente do prelo e tem como tema central o mar. Tive o prazer de receber alguns exemplares das mãos do seu director, Prof. Rui Martins, vice-reitor da Universidade de Macau, num encontro há poucas semanas realizado na sede da AULP, em Lisboa.Este número da revista contém artigos de colaboradores de todos os países de língua portuguesa, tendo sido, para mim, um prazer contribuir com um trabalho sobre Macau. os mares que nos unemRui Martins, Cristina Montalvão Sarmento e Pandora Guimarães ofereceram-nos uma bem sintetizada apresentação, sumariando os textos incluídos: “O mar representa 70% da superfície terreste. É um recurso hídrico, uma fonte de energia renovável e de biodiversidade marinha, com particularidades geográficas únicas que tornam o mar um tema relevante, complexo e com múltiplos focos de abordagem. Sendo o mar um elemento comum a todos os países de língua oficial portuguesa e Macau, a AULP reúne nesta edição artigos que permitem conhecer as várias perspectivas sobre o mar que tem um papel fundamental para a difusão da língua portuguesa.”Seguem-se referências aos artigos, sobre Angola no contexto integrado entre habitats e ecossistemas marinhos e costeiros, seus usos e serviços; as pequenas ilhas do arquipélago de Santa Catarina (Brasil); os corais em Cabo Verde, que são um património a proteger; as paisagens, pescas e pescadores no litoral da Guiné-Bissau; a biodiversidade marinha no norte de Moçambique no contexto da exploração do gás natural; um futuro regime de recursos genéticos marinhos no caso dos Açores; a comunidade marítima de São Tomé e Príncipe e o tratamento domiciliar da água; e a delimitação da plataforma continental no mar de Timor e o Tribunal Internacional de Justiça. Quanto a Macau, o propósito foi prestar uma justa homenagem à Marinha Portuguesa, recordando o seu papel multifacetado no século XX, que excedeu largamente as missões de soberania e de segurança. Enalteceu-se o inestimável apoio dado às populações, em funções técnicas, didácticas, humanitárias e administrativas. Presença de Macau“Navios e Marinheiros da Armada Portuguesa em Macau no Século XX – achegas para uma justa homenagem” foi o título que escolhi para o meu trabalho, que ocupa 25 páginas desta revista interdisciplinar, criada para funcionar como um espaço de intervenção aberto aos membros da grande comunidade de utilizadores do português no mundo, nas suas diversas formas de expressão e difusão. Nos artigos e crónicas que venho escrevendo, ao longo de mais de uma década, no Jornal Tribuna de Macau – e já reunidos em onze volumes publicados pelo Instituto Internacional de Macau –, tenho dedicado alguma atenção à memória da Armada Portuguesa em Macau, comentando e divulgando obras de vários autores sobre este
  • 046 047F A L A R D E N Ó S - X I I I J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I Itão aliciante tema ou recordando efemérides e personalidades ligadas à Marinha que deixaram marcas no território que Portugal e os portugueses administraram, ao longo de mais de quatro séculos, até Dezembro de 1999.Quando o Prof. Rui Paulo Martins, vice-reitor da Universidade de Macau, me desafiou a assegurar uma presença de Macau neste número dedicado ao mar, decidi corresponder de imediato, facultando algumas achegas para uma homenagem que é devida aos homens e aos navios que prestaram a Macau relevantíssimos serviços, estando a Marinha Portuguesa ligada, desde sempre, aos factos mais salientes da história da presença de Portugal no Oriente. Como muito bem referiu o Comandante Adelino Rodrigues da Costa (“A Marinha Portuguesa em Macau – Uma relação muito singular”, Capitania dos Portos de Macau, 1999), em todos os domínios, a Marinha esteve presente, “desde os tempos de ameaça da pirataria, das guerras do ópio e das guerras civis chinesas, até à II Guerra Mundial, à abertura da China às potências estrangeiras e à emigração dos ‘boat-people’ do Vietname, nos tempos mais recentes”. E “os seus navios e os seus marinheiros representaram Portugal e Macau nos países e portos da região, mantiveram-se neutrais perante os conflitos regionais, foram um ponto de apoio para a comunidade macaense, partilharam dificuldades e participaram nas suas festividades, mas também tiveram uma acção humanitária de relevo, na protecção das populações, na recolha de náufragos e na assistência a desalojados”.Por seu lado, António Miranda da Rocha (“A Reserva Naval em Macau – 1968/70”, AORN, Lisboa, 2013) lembrou que “a Armada tem sido considerada como serviço silencioso, porque actua, geralmente, em horizontes longínquos, muitas vezes em missões de que apenas há notícia nos arquivos reservados da Marinha”. “Existe, por assim dizer, uma verdadeira névoa que oculta as acções do homem do mar, ficando por este modo e, em grande parte, no esquecimento os seus trabalhos, as suas fadigas, sacrifícios e sofrimentos”. Foi esta, por isso, uma boa oportunidade para alguém que não foi marinheiro, mas que, como militar, nos Açores e na então Guiné Portuguesa, e membro do Governo de Macau, soube respeitar e reconhecer a magnífica obra dos nossos marinheiros, expressar publicamente esse reconhecimento, que é também uma afirmação de gratidão.São abundantes as fontes bibliográficas sobre a presença e a obra da Marinha Portuguesa em Macau. De entre os livros que tenho nas minhas estantes, recorri especialmente a quatro, que se revelaram da maior utilidade, pelos valiosos elementos de consulta neles contidos e pelos textos seleccionados para ilustrarem o artigo: “Navios da Armada Portuguesa na Grande Guerra”, do Comandante José Ferreira dos Santos, “Dicionário de Navios & Relação de Efemérides” e “A Marinha Portuguesa em Macau – Uma relação muito singular”, ambos do Comandante Adelino Rodrigues da Costa, e “A Reserva Naval em Macau – 1968/70”, de António Miranda da Rocha. Pela qualidade e poder de síntese, esses textos permitiram-me explicar a intervenção da Marinha no século XX em Macau, referindo também os marinheiros que mais se distinguiram na literatura, nas artes, no ensino e na administração pública, incluindo os que alcançaram o mais alto cargo (Governador) no território, e identificar o papel dos navios (canhoneiras, cruzadores, avisos e lanchas) e da aviação naval, sem olvidar a reserva naval. O legado, bem visível ainda em serviços
  • 048 049F A L A R D E N Ó S - X I I I J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I Ipúblicos, na formação profissional, na legislação e nos procedimentos, é, igualmente, identificado. Aos organismos competentes e aos investigadores especializados nesta área de estudos cabe agora promover a homenagem que falta fazer aos homens e aos navios da Armada pelas obras valorosas generosamente deixadas em Macau e nos mares da China. 18 de Abril de 2016Macau confidencial – novo livro de João guedes“Os textos, que integram este livro, receberam inicialmente guarida no prestigiado jornal macaense ‘Tribuna de Macau’, tendo sido posteriormente revistos e acrescidos de uma cuidadosa e rica bibliografia. Em boa hora. Neles perpassa a história viva, agitada e, por vezes, perigosa, de uma cidade que foi, e continua a ser, centro nevrálgico de encontros e desencontros de povos e de culturas.”António Leite da Costa, no prefácioO Clube Militar de Macau foi o ponto de encontro para o lançamento, no Sábado passado, de dois novos livros do jornalista João Guedes, ambos recentemente publicados pelo Instituto Internacional de Macau (IIM). Um deles – “Pe. Áureo Nunes e Castro – Missionário, músico e pedagogo” – foi já objecto de apreciação neste espaço do Jornal Tribuna de Macau. O outro – “Macau Confidencial” – reúne três dezenas de muito sugestivas crónicas que o autor foi inserindo semanalmente naquele diário macaense, ao longo de mais de dois anos. Para redigir o prefácio, foi convidado o antigo director da Casa da Cultura de Coimbra e investigador de temas históricos, António Leite da Costa, membro e colaborador do IIM, que teceu oportunas considerações sobre este conjunto de crónicas que descrevem situações e episódios, para muitos, mais ou menos desconhecidos da História de Macau dos últimos dois séculos:Pela mão do leitor “Há cidades cuja história nunca se esgota. Com uma localização geográfica privilegiada, abraçando ao longo de séculos povos e civilizações muito distantes no espaço, mas que os homens souberam unir numa simbiose perfeita, verdadeiramente singular no mundo que nos rodeia. Macau é uma cidade dona e senhora de um passado extraordinário que seria crime de lesa cultura deixar passar em claro, fazendo-o cair no esquecimento e apagando-o da memória, demasiado curta, dos apressados homens
  • 050 051F A L A R D E N Ó S - X I I I J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I Ido nosso tempo. Curiosamente sempre a fugir do tempo em que se criaram as cidades onde trabalham, se edificaram as casas em que nasceram ou vivem comodamente, se desenvolveram as instituições a que pertencem, se calcetaram as ruas que pisam diariamente. Mas o tempo, esse cobarde inimigo que ataca, fugindo, não escapou porém a João Guedes que subtilmente o aprisionou neste ‘Macau Confidencial’. Os textos, que integram este livro, receberam inicialmente guarida no prestigiado jornal macaense ‘Tribuna de Macau’, tendo sido posteriormente revistos e acrescidos de uma cuidadosa e rica bibliografia. Em boa hora. Neles perpassa a história viva, agitada e, por vezes, perigosa, de uma cidade que foi, e continua a ser, centro nevrálgico de encontros e desencontros de povos e de culturas.Imagine, pois, o leitor que este é um livro mágico. Não o leia, por isso, como se lê um livro vulgar, sentado comodamente na sua poltrona. Abra-o com cuidado e entre nele, de corpo e alma, como se fosse um livro que nos engole rapidamente e nos transporta para uma cidade plena, ao mesmo tempo, de mistério e de encanto. Tudo criado, não pela fantasia literária de quem o escreveu, mas pela própria realidade, ancorada embora no passado, mas que parece ainda pujante de vida, hoje e sempre, dia após dia e noite após noite. E, por favor, leve-me também consigo nesta aventura única. Aventura única, sedutora e verdadeiramente empolgante é a que palpita em muitas páginas, relatando factos ou lembrando episódios pouco conhecidos ou quase esquecidos, de profunda agitação política, de encontros secretos de espionagem e de contra-espionagem, lembrando por vezes, como diz o Autor, e bem, o inesquecível filme ‘Casablanca’, mas sempre dentro de uma harmonia quase perfeita e de um convívio correcto e saudável. A importância de Macau na formação do iberismo oitocentista, a difusão das ideias republicanas e a influência maçónica que nelas se fizeram sentir nos primórdios do século vinte, quando fervilhavam nesta cidade também ideais anarquistas e republicanos entre chineses, atentos às movimentações que grassavam no imenso império chinês, dão verdadeiramente o mote a uma série de pequenos estudos, mais do que simples crónicas, sobre o primeiro quartel do século passado. Este clima de conspiração, secretismo e aventura sai reforçado quando o Autor se debruça sobre a situação de Macau no período da II Grande Guerra, ou Guerra do Pacífico, conceito geopolítico que melhor se enquadra na peculiar situação geográfica da cidade do Rio das Pérolas. Tendo como política oficial uma clara neutralidade, face às forças em confronto directo, não foi naturalmente fácil exercê-la cabalmente, resvalando antes para uma neutralidade colaborante com as forças aliadas, neste caso concreto os ingleses, que viram Hong Kong ser ocupado pelas tropas japonesas. Esta situação deu origem a um conjunto de episódios que João Guedes relata com maestria, levando-nos – ao leitor e a mim próprio – a percorrer as velhas ruas de Macau, de olhar esperto e ouvido atento, sem saber, quando ‘um anel de ferro’ rodeava a cidade, se o vulto, que sorrateiro se cruzava connosco, pertencia à BAAG (British Army Aid Group) ou à ‘Coluna do Rio Leste’. Sem falar sequer no curioso desaparecimento de Fukui Yasumitsu e de John Reeves, vizinhos que emparedaram as casas para não se falarem... mas de quem todos falavam em Macau. ‘Macau Confidencial’ ajuda a melhor compreender a história de Macau do século passado e merece, por isso, uma atenção especial, ao mesmo tempo que a sua leitura
  • 052 053F A L A R D E N Ó S - X I I I J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I Inos seduz e entusiasma, como se dele fizéssemos parte integrante. Muito obrigado, pois, caro amigo leitor, por me ter levado consigo a ler este livro de João Guedes e a visitar, ou revisitar, Macau, cidade que se cola à pele, se entranha nos ossos, se dilui na alma e nunca mais se esquece.”Eis como um adequado prefácio pode fazer justiça a um bom livro e estimular a sua leitura. Propósito do autor João Guedes, respeitado jornalista e velho residente de Macau, explica, no prólogo, que “o que se visa não é elaborar qualquer tese académica, mas sim divulgar o passado de forma a chegar a um público mais vasto do que o das academias que por norma se encerram nas ‘Torres do Tombo’ e por lá ficam a ganhar pó”. “O que se publica são esparsos episódios, nalguns casos memórias vivas de pessoas, noutras interpretações pessoais do autor confrontado com testemunhos, documentos e bibliografia vária”. O seu propósito foi escrever para o grande público, para pessoas “cujo acesso às prateleiras das teses das universidades, por não saberem como, ou onde, ou pelas barreiras da burocracia, ou por falta de tempo e muitas vezes de interesse não procuraram saber de assuntos que depois de longamente ignorados lhes despertam a atenção quando os lêem num pequeno artigo de jornal”. Cremos que esse propósito foi muito bem conseguido. Apresentaram os dois livros o maestro Simão Barreto, que conheceu bem e colaborou com o sacerdote e mestre, e o jornalista José Rocha Dinis, director do Jornal Tribuna de Macau. Na sessão, actuou o Coro Perosi, que interpretou composições adaptadas pelo Pe. Áureo Nunes e Castro. Foi uma singela homenagem a um dos membros da plêiade extraordinária de missionários que, no século XX, ajudaram a fazer o século XXI de Macau. Parabéns, João Guedes, por mais este relevante contributo para melhor se conhecer a história e entender a alma de Macau. 25 de Abril de 2016
  • 054 055F A L A R D E N Ó S - X I I I J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I IMacau e os Territórios lusófonos – um catálogo indispensável“A recolha e colecção de tantos documentos iconográficos deve-se à apaixonada e pertinaz dedicação do Dr. João Loureiro, que durante quatro decénios os foi pesquisando e adquirindo, constituindo hoje um acervo de reconhecido valor, nas apreciações concordantes de vários especialistas.”Ung Vai Meng, presidente do Instituto Cultural Por decisão do Instituto Cultural, a velha mansão do Tap-Seac onde foi, em boa hora, instalado o Arquivo Histórico de Macau (agora apenas denominado Arquivo de Macau) acolheu, na tarde de 22 de Abril, a cerimónia de apresentação do álbum/catálogo “Macau e os Territórios Lusófonos – Colecção Iconográfica Única de Postais Fotográficos”, respeitante à colecção de cerca de dez mil postais ilustrados que João Manuel de Almeida Loureiro foi juntando ao longo de quatro décadas e que ficou agora definitivamente depositada em Macau. Personalidades da área cultural e amigos do coleccionador encheram o salão, onde usaram da palavra o presidente do Instituto Cultural, Guilherme Ung Vai Meng, o autor deste artigo, na qualidade de presidente do Instituto Internacional de Macau (IIM), e o próprio coleccionador e autor do catálogo, que desde jovem conheceu territórios portugueses de além-mar, como membro do Círculo de Estudos Ultramarinos, continuando a visitá-los na vida profissional, como magistrado, gestor e membro de organizações da sociedade civil, entre as quais o IIM, cujo órgão executivo integra. Macau e o cartão ilustradoGuilherme Ung Vai Meng enalteceu a qualidade e o mérito da colecção e anunciou a abertura “à consulta de historiadores, investigadores e curiosos essas imagens do nosso Arquivo, úteis fontes de pesquisa histórica, urbanística e antropológica e de românticas revisitações de paisagens, lugares e memórias de famílias que com aquelas geografias cruzaram destinos”, sendo também de justiça “relevar o árduo contributo da equipa de técnicos arquivistas do Arquivo de Macau à qual se deve o integral trabalho de catalogação e organização dos cerca de 10.000 cartões ilustrados do espólio, o que permite e facilita desde já a acessibilidade de todos os interessados a tão valiosa colecção iconográfica”.No prefácio do catálogo, o presidente do Instituto Cultural recordou também o percurso do cartão ilustrado em Macau: “Tendo sido uma das paisagens mais retratadas por artistas, Macau também acertou o passo pelos novos ritmos dos progressos tecnológicos emergentes da primeira era industrial, que incluiu no seu núcleo a reprodução da imagem.Com assinalável pioneirismo, Macau foi o lugar onde se anunciou na Ásia o nascente império da ‘civilização do cliché’, tendo sido aqui que pela primeira vez se deu a conhecer o daguerreótipo e as primeiras fotografias, pelo fotógrafo amador Jules Itier, funcionário das Alfândegas integrado na embaixada de Theodore Lagrené, a primeira embaixada francesa a vir à China a seguir à primeira Guerra do Ópio. Jules Itier tirou as primeiras fotografias em Macau e espantou Cantão com o novo invento. Macau também surge sintonizada com a nova ‘invenção’ dos cartões ilustrados em expansão pelo mundo ocidental, iniciada na Áustria em 1869 e publicitada na Exposição Mundial de Paris de 1889. Na China regista-se o primeiro cartão ilustrado em 1897, quando em Macau se dera a primeira emissão de um grupo de postais em 1885, logo seguida da segunda
  • 056 057F A L A R D E N Ó S - X I I I J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I Iemissão, em 1898, dedicada ao aniversário da chegada de Vasco da Gama à Índia. É nesta altura que editores de Hong Kong começam a divulgar e vender colecções de postais ilustradas com fotografias de Macau, em sintonia com o que começava a acontecer em geral pelo resto do mundo; não é de admirar esta atenção de profissionais de Hong Kong a Macau, sabendo-se do êxodo de tantos técnicos administrativos, intérpretes e tipógrafos macaenses para Hong Kong logo nos seus primórdios, com destaque para os profissionais de tipografia que mantiveram o monopólio das artes gráficas em Hong Kong por mais de um século. Mas a produção de colecções de cartões ilustrados com fotografias em Macau acontece simultaneamente com a emergência de estúdios e profissionais chineses de fotografia, e de técnicos em litografia e fotogravura desde finais do século XIX, respondendo às reclamantes exigências de reprodução de imagens dos novos tempos, e ao surto mundial do fenómeno turístico que também abordou Macau, cidade pequena mas entroncamento de todos os caminhos do mundo.”De facto, “a visão do Oriente, e principalmente da China, mais misteriosa porque grande civilização fechada ao resto do mundo, não era satisfeita através da literatura e da informação escrita”, tornando-se clara “a razão por que Macau foi sendo um dos lugares mais captados no traço de artistas ao longo da sua história, e sobretudo desde finais do século XVIII e primeira metade do século XIX: a China era avistável através da pequena janela macaense”. O advento da fotografia e os progressos nas técnicas de impressão ampliaram definitivamente a produção e a divulgação de imagens junto de públicos cada vez mais vastos. opiniões de especialistasJoão Loureiro, com palavras muito sentidas, contou a história desta preciosa colecção. E, na nota introdutória do catálogo, referiu algumas opiniões de especialistas que é justo e apropriado reproduzir aqui: “Um monumento único… o trabalho colossal de João Loureiro marca uma viragem capital na recolha de iconografia colonial, não só no antigo império português mas em todas as restantes colonizações… os oito grandes volumes publicados por João Loureiro constituem uma colecção iconográfica que não tem concorrência em todo o mundo, quer pelo número de páginas e de imagens apresentadas quer pela sua variedade e interesse documental” – René Pélissier, um dos maiores especialistas sobre a História da África de expressão portuguesa.“Uma colecção única cuja consulta João Loureiro tem tido a generosidade de facultar aos investigadores. Na nossa opinião é impossível trabalhar sobre as antigas colónias portuguesas nos séculos XIX e XX sem utilizar este acervo de imagens” – Francisco Bethencourt, professor do King’s College de Londres e ex-director do Centro da Fundação Gulbenkian em Paris.“João Loureiro oferece-nos mais um livro de imagens antigas do Ultramar Português. Na minha biblioteca, conto dezasseis livros publicados por ele ou com a sua colaboração. Tem uma esplêndida colecção de postais fotográficos… Ao tornar pública e acessível a sua colecção, João Loureiro presta um serviço ao seu país e aos
  • 058 059F A L A R D E N Ó S - X I I I J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I Inovos Estados africanos, assim como contribui para o conhecimento da sua História” – António Barreto, sociólogo e professor universitário.“Tal como os outros volumes, este é um registo único e de valia ímpar como fonte de pesquisa” – Malyn Newitt, professor do King’s College de Londres, ao receber o volume dedicado à Ilha de Moçambique e à Ilha do Ibo. “Com toda a sinceridade quero dar-te os parabéns por esta notável e preciosa saga a que lançaste mãos, e cujo resultado final é magnífico” – Miguel Sousa Tavares, jornalista, escritor e conhecido “opinion maker”.9 de Maio de 2016Breve história duma notável colecção iconográfica“Se excluir algumas dezenas de postais ilustrados que adquiri em diversas viagens aos antigos territórios ultramarinos, e sobretudo nas minhas colocações profissionais em Malanje e no Uíge nos primórdios dos anos setenta do século XX, posso considerar como ponto de partida de uma recolha sistemática o Verão de 1992, imediatamente após o regresso de uma visita a Macau.”João Loureiro, na nota introdutóriaEste espaço foi, na semana passada, dedicado à valiosa colecção iconográfica que João Manuel de Almeida Loureiro reuniu ao longo de quatro décadas e que ficou agora definitivamente depositada no Arquivo Histórico de Macau, devidamente organizada e preparada para ser consultada e utilizada por investigadores e outros interessados. O catálogo dessa colecção de cerca de dez mil postais fotográficos dos antigos territórios portugueses do Ultramar, publicado por aquele Arquivo, foi lançado no mês passado em bonita e sentida cerimónia que contou com a presença do presidente do Instituto Cultural do Governo da RAEM, responsáveis de organismos públicos e de instituições da sociedade civil e muitos amigos do coleccionador, que quiseram, em ocasião de tanto significado, testemunhar-lhe o seu apreço e admiração. uma história singularDepois do discurso protocolar do presidente do Instituto Cultural e da apresentação e saudação que me coube fazer, na qualidade de presidente do Instituto Internacional de Macau (IIM), o coleccionador recordou as origens e a influência determinante de Macau na sistematização e no desenvolvimento da colecção:“Todos nós na vida escrevemos postais, sobretudo quando não havia telemóveis e as chamadas telefónicas internacionais eram bastante onerosas. Por isso foi através de um postal ilustrado de Luanda, mostrando uma perspectiva nocturna da então
  • 060 061F A L A R D E N Ó S - X I I I J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I Imoderna Avenida dos Combatentes da Grande Guerra, que fiz saber aos meus Pais que tinha chegado pela primeira vez a Angola, em 14 de Março de 1970. Cinquenta anos antes, em 8 de Janeiro de 1920, uma jovem professora do ensino primário, ao chegar ao lado oposto da costa africana, escrevera ao seu Pai, na Ilha da Madeira, um postal com breves linhas em que assegurava ter sido boa a viagem e óptimas as primeiras impressões sobre a cidade da Beira. Essa jovem professora madeirense que, nos longínquos anos vinte, se iniciava profissionalmente na docência em território da Companhia de Moçambique, era minha Avó materna, Alice Carmo. Estes dois postais que afectuosamente guardo na minha ‘secção de reservados’ – o segundo dos quais me foi dado em Macau pela minha prima Maria João, que o recebera ainda em Moçambique das mãos da nossa querida Avó – se não foram, naturalmente, o ponto de partida de uma colecção que ultrapassou os dez mil exemplares, constituem ainda hoje as suas mais relevantes referências sentimentais. Se excluir algumas dezenas de postais ilustrados que adquiri em diversas viagens aos antigos territórios ultramarinos, e sobretudo nas minhas colocações profissionais em Malanje e no Uíge nos primórdios dos anos setenta do século XX, posso considerar como ponto de partida de uma recolha sistemática o Verão de 1992, imediatamente após o regresso de uma visita a Macau.Apercebi-me – e rapidamente o confirmei com pessoas altamente credenciadas nestas matérias – que eram muito escassas as fontes iconográficas sobre os territórios de África e do Oriente marcados pela presença humana e cultural portuguesa, designadamente em bibliotecas, arquivos históricos e instituições similares.” No Arquivo Histórico Ultramarino, João Loureiro apurou, em 1993, que só dispunham de cerca de 700 postais dos antigos territórios portugueses de África e do Oriente, dos quais 130 de Timor e 40 de Macau. Na Biblioteca Nacional, em Lisboa, estavam arquivados 26.000 postais ilustrados, mas apenas 1.039 diziam respeito ao Ultramar, sendo 54 de Cabo Verde, 29 da Guiné, 49 de S. Tomé e Príncipe, 498 de Angola, 181 de Moçambique, 15 do Estado da Índia, 100 de Macau e 113 de Timor. Também na Sociedade de Geografia de Lisboa, na Academia Portuguesa de História, na Biblioteca Municipal Central de Lisboa e em outras bibliotecas e centros de documentação o número de postais respeitantes aos territórios ultramarinos era pouco significativo. Maior foi, assim, o desafio que João Loureiro abraçou e persistentemente assumiu. A vasta colecção que ele reuniu tem como limite temporal o ano de 1975, quando se concluíram os processos de independência dos territórios portugueses de África. Em Macau, porém, estendeu-se até 1999, ano da passagem do exercício da soberania para a República Popular da China. Macau – exposição e primeiro livroEm 1994, a meu convite, enquanto membro do Governo com a tutela da Educação, Cultura e Turismo, e com o patrocínio da Fundação Macau, João Loureiro apresentou uma selecção de 400 postais da sua colecção numa mostra muito bem acolhida em Macau. Foi esse o pontapé de saída para mais ambiciosos projectos. Assim, logo no ano
  • 062 063F A L A R D E N Ó S - X I I I J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I Iseguinte, saía do prelo o seu primeiro álbum, intitulado “Postais Antigos de Macau”, cuja procura foi tão grande que se esgotou no ano seguinte, estimulando o rápido aparecimento duma segunda edição. Dez anos volvidos, com o patrocínio exclusivo da Fundação Jorge Álvares, foi facultada ao público uma terceira edição, enriquecida com a inserção de mais duas dúzias de postais. Seguiram-se, ao longo dos anos, mais 15 sugestivos volumes dedicados a todos os antigos territórios ultramarinos e a algumas cidades. A resposta do público, as reacções de académicos e os comentários de órgãos de comunicação social foram inegavelmente positivos. A maior parte da iconografia usada na série “Cidades, Territórios e Arquitecturas”, importantes obras do Prof. José Manuel Fernandes de que se publicaram já cinco volumes, é proveniente também daquela colecção. Magistrado de carreira, gestor empresarial na área da publicidade numa fase de opções diferentes na sua vida activa e membro desde a primeira hora do Instituto Internacional de Macau e de várias importantes instituições portuguesas da sociedade civil, João Loureiro soube fazer da sua colecção iconográfica uma história de sucesso, cujo último capítulo foi a sua entrega a uma entidade pública da RAEM – o agora denominado Arquivo de Macau – que fica doravante com a responsabilidade de a preservar e valorizar. uma reunião de cortesia e de trabalho Na tarde da apresentação do catálogo, os responsáveis do IIM tiveram uma reunião de cortesia e de trabalho com a directora do Arquivo de Macau, Lau Fong, e alguns dos seus colaboradores. Reforçaram-se as relações e perspectivaram-se parcerias futuras. E foi com satisfação que João Loureiro pôde ver como ficou bem acondicionada a sua colecção. Foi desta forma expressiva que a directora Lau salientou a cooperação estabelecida, desejando “agradecer a imensa amabilidade e colaboração do presidente do IIM na cerimónia” e acrescentando que “foi com muita honra e agrado que o recebemos no nosso Arquivo, sendo a sua presença primordial para o sucesso da cerimónia, devido a que é pessoa de grande mérito, reputado e com altas credenciais na história e cultura de Macau”. O mérito é de quantos fazem funcionar o IIM. 17 de Maio de 2016
  • 064 065F A L A R D E N Ó S - X I I I J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I I“Lanternas do Coelhinho, uma Exposição de Carlos Marreiros e Amigos” é o nome da exótica mostra que a Galeria Espaço Arte Livre, sita na Av. da Liberdade n.º 65, em Lisboa, acolheu na tarde de 5 de Maio, ali ficando patente até 5 de Junho. Cortaram a fita, à moda tradicional de Macau, perante numerosos convidados que lotaram o átrio do edifício, diversas individualidades, entre as quais dois antigos Governadores (Garcia Leandro e Rocha Vieira), a coordenadora da Delegação Económica e Comercial de Macau, Ó Tin Lin, o presidente da Ordem dos Arquitectos, o director daquela galeria, o ex-Ministro Augusto Mateus e eu próprio, na qualidade de presidente do Instituto Internacional de Macau, além de Carlos Marreiros e alguns dos artistas. Dez exposições, com um total de 130 obras de 85 artistas, foram já organizadas em diversos locais com o mesmo título. A presente mostra compreende uma selecção de apenas 38 desses trabalhos, desejando os organizadores que, mais tarde, possa ser escolhido um outro recinto que permita receber a totalidade das lanternas já produzidas, cuja concepção resultou, como bem explicou Carlos Marreiros, duma “combinação de técnicas tradicionais chinesas com a criatividade contemporânea”. Os artistas são de várias proveniências, nomeadamente de Macau, Hong Kong, República Popular da China, Filipinas, Tailândia, Portugal, Itália e Holanda, com formações e actividades profissionais diferentes. o significado das lanternasO significado das lanternas na cultura chinesa foi salientado por Carlos Marreiros lanternas do coelhinho expostas em lisboa“É com enorme satisfação que partilhamos com o público português esta mostra de 38 lanternas da autoria de 30 artistas, esperando que num futuro próximo se reúnam as condições para que a Exposição possa ser apresentada na sua totalidade.”Carlos Marreiros, presidente do Albergue SCMno sugestivo catálogo da exposição, que é um volume profusamente ilustrado, com mais de duzentas páginas graficamente bem trabalhadas: “As lanternas são parte integrante da cultura chinesa e segundo alguns historiadores representam os primeiros dispositivos de iluminação portáteis inventados pelo homem. A origem das lanternas chinesas remonta à Dinastia Han e tem cerca de 1800 anos. Antigamente, as lanternas eram construídas maioritariamente em bambu, ou madeira, cobertas de papel de seda ou papel de arroz e iluminadas no seu interior com uma vela. Havia grande variedade de formas, sendo a tradicional forma hexagonal a mais comum, com diversos protótipos, mas com modelações e técnicas diferentes, consoante as regiões. Actualmente as lanternas apresentam uma multiplicidade de formas e feitios; os materiais utilizados na sua construção são o plástico, o papel ou tecido e a estrutura interior, no geral, é feita em fio de arame ou em madeira. Os tipos e as cores das lanternas são variados e os motivos vão desde animais, a heróis de banda desenhada contemporâneos, formas geométricas, etc. Na China ancestral, as famílias penduravam, na entrada das casas, lanternas coloridas geralmente de cor vermelha, que assumiam a dupla função de iluminar e simbolizar a prosperidade da família. Algumas escreviam enigmas em pedaços de papel, e fixavam-nas nas lanternas. A resposta tinha de ser adivinhada, a partir de uma palavra, um poema ou uma frase. Hoje em dia, as lanternas passaram a ser um símbolo das grandes celebrações, na sociedade chinesa e de Macau. A mais popular
  • 066 067F A L A R D E N Ó S - X I I I J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I Ide todas é o ‘Festival das Lanternas’, que acontece no último dia de celebração do Ano Novo Chinês, no 15.º dia do primeiro mês lunar. Uma outra celebração simbólica, considerada a segunda maior festividade na China é a Festa de Celebração da Lua ou ‘Tun Yun Festival’, no qual as famílias passeiam as suas lanternas na rua, observam a lua e reúnem-se em jantares comemorativos. Nesse sentido, desde 2009 que o Albergue SCM comemora o Festival das Lanternas e o Festival do Bolo Lunar, em simultâneo com a inauguração da Exposição ‘Lanternas do Coelhinho, tradicionais e criativas, uma Exposição de Carlos Marreiros e Amigos’. (…)No sentido de perpetuar a técnica de construção de lanternas tradicionais, o Albergue SCM promove igualmente, desde 2009, workshops nos quais possibilita à população local e a todos os artistas interessados o ensino e a prática desta arte de construção tradicional.” como tudo começouA curiosidade de quantos marcaram presença na exposição foi satisfeita quando Carlos Marreiros referiu, cândida e sentidamente, a origem destas iniciativas em torno do Coelhinho: “Sempre gostei de lanternas de papel. Especialmente a do Coelhinho. O meu Avô materno dizia-me que quando era criança brincava com o lampião do coelhinho. Isto foi nos primeiros anos do século passado. A minha mãe em criança brincava também com a lanterna do coelhinho. Eu fiz o mesmo. A minha descendência também. Muitos anos depois, já adulto, voltei a brincar com o lampião do coelhinho. Desde 2008 que, todos os anos, brinco pelo menos duas vezes com essas lanternas. E como gosto de partilhar, fui brincando com os meus amigos, adultos e crianças, e depois com o público. E, assim, surgiu o convívio ‘Lanternas do Coelhinho, uma Exposição de Carlos Marreiros e Amigos’. E os artistas que comigo expõem, nem todos têm formação artística. Para além de artistas, gráficos, estilistas e arquitectos, são eles engenheiros, médicos, gestores, professores, escritores, empresários e até um general na reserva. E um outro arquitecto que se tornou num político cá da praça! Como dizia, muitos não têm formação artística, porém, todos têm atitude. E, sem nos apercebermos já lá vão oito redondos anos e dez exposições simples e luminosas. Estas mostras integram-se nas referidas celebrações, com convívios populares, onde os doces e outras delícias tradicionais chinesas se degustam juntamente com aperitivos macaenses e portugueses, e onde o chá e o vinho tinto português ajudam a iluminar os corações dos convivas, cheios de humanidade dentro deles. Lá fora, o materialismo fracturante esfuma a sua neblina que não deixa vislumbrar a lua cheia. Como é simples e belo festejar a lua e brincar com lampiões! Já nos ensinava Li Bai. E a brincar... não era Fernando Pessoa que dizia que nunca foi ele senão criança que brincava. Também eu.”Memória, etnografia, criatividade, inspiração, sentimento de partilha e sentido lúdico juntaram-se para dar corpo a este já vasto conjunto de iniciativas em torno de um tema tão simples, mas que foi marcante para gerações de crianças e adultos de Macau. A esses requisitos aliou-se também a admirável sensibilidade e a capacidade organizativa e de liderança de Carlos Marreiros, professor, arquitecto e artista plástico laureado de quem Macau e os macaenses se podem orgulhar.
  • 068 069F A L A R D E N Ó S - X I I I J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I Io coelho gigante da expo 2010No próximo artigo recordaremos o trabalho notabilíssimo de Carlos Marreiros na concepção do pavilhão de Macau – um coelho gigante – naquela que foi a maior exposição universal da história, a Expo 2010 de Xangai. 22 de Maio de 2016O artigo anterior, dedicado à “Exposição de Lanternas do Coelhinho” que está patente numa galeria de arte em Lisboa, suscitou a lembrança da lanterna gigante concebida por Carlos Marreiros, consagrado arquitecto e artista plástico macaense, para alojar a mostra representativa de Macau naquela que foi a maior e mais visitada exposição universal de sempre, realizada em 2010 em Xangai, vibrante capital económica da China que, nas últimas décadas, recuperou e superou o fulgor, a grandiosidade e a dinâmica que caracterizaram aquela cidade no dealbar do século XX.Quem teve a oportunidade de visitar essa imensa exposição, impressionante na dimensão e na diversidade, jamais se esquecerá da notável presença de Macau. Na opinião de muitos, esse foi mesmo o mais original pavilhão, honra partilhada com o de Portugal, totalmente modelado em cortiça, da autoria do arquitecto Carlos Macedo e Couto, residente em Macau há décadas. originalidade premiadaCarlos Marreiros participou no concurso público promovido pelo Governo da RAEM para a elaboração do projecto do pavilhão de Macau, cujo regulamento impunha a obrigatoriedade de o pavilhão reflectir a vivência intercultural de Macau, ao longo dos séculos e na actualidade, devendo também ser atraente e apelativo, além de se harmonizar, em termos arquitectónicos, com o pavilhão nacional da República Popular da China, vistosa e altaneiramente implantado na praça principal daquele vasto recinto. recordando o pavilhão de Macau na expo 2010“A minha maior alegria, devo-a à população de Macau, que se reviu naquela gigante Lanterna do Coelhinho, colorida, luminosa, espalhafatosa até. Mas sorridente e abanando a cabeçorra aos visitantes, que faziam filas infindáveis para a visitar por dentro.”Carlos Marreiros, arquitecto do pavilhão de Macau na Expo 2010, em Xangai
  • 070 071F A L A R D E N Ó S - X I I I J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I ICarlos Marreiros foi o justo vencedor desse concurso e concebeu rapidamente o pavilhão, inspirando-se nas lanternas do coelhinho dos anos da meninice, quando a pequenada transportava lanternas de formas variadas e arrastava as que tinham rodas pelas ruas, jardins e parques da cidade, nas noites de importantes festividades. As lanternas mais apreciadas eram sempre as do coelhinho, montadas sobre quatro rodas e puxadas por um fio. “Docemente assaltado por essas recordações” – lembrou Carlos Marreiros –, ele começou a esboçar o que viria a ser o pavilhão de Macau. O sucesso foi amplamente reconhecido e o arquitecto expressa desta forma a sua enorme satisfação: “Registo com muita gratidão a calorosa aceitação do público, local e internacional, pela ideia e resultado. Pela forma carinhosa e genuína de como gostaram do Pavilhão da Lanterna do Coelhinho, do edifício em si, da sua dinâmica e narrativa, dos multimédias e efeitos especiais. A minha alegria pelo mesmo ter sido agraciado com tantos prémios locais, nacionais e internacionais. Porém, acima de tudo, a minha maior alegria, devo-a à população de Macau, que se reviu naquela gigante Lanterna do Coelhinho, colorida, luminosa, espalhafatosa até. Mas sorridente e abanando a cabeçorra aos visitantes, que faziam filas infindáveis para a visitar por dentro. A alegria do arquitecto está na sua própria alegria de saber que promoveu alegria no seio daqueles para os quais o arquitecto destinou o seu esforço de concepção arquitectónica.” A lanterna gigante O catálogo da “Exposição das Lanternas do Coelhinho” insere um texto de Tiago Saldanha Quadros (de “24 Obras na Vida de Uma Exposição. Xangai 2010”, Porto, Edições Afrontamento, 2012), que vem a propósito transcrever parcialmente, até porque descreve muito bem a estrutura e o conteúdo do pavilhão: “A obra de Marreiros está implantada na zona central do recinto, num sector anexo ao pavilhão da China, reservado às representações de Macau, Hong Kong e Taiwan. Com o formato de uma lanterna de Coelho de Jade, o pavilhão de Macau recupera as populares lanternas que preenchem o imaginário de todos aqueles que no sul da China vivem as festividades, especialmente o Festival do Bolo Lunar. De acordo com Carlos Marreiros as lanternas ‘andaram nas mãos de toda a gente’. E acrescenta: ‘Era uma tradição do sul da China que, por conjunturas várias, foi desaparecendo, mantendo-se em Hong Kong e Macau. Chineses, portugueses e macaenses, todos brincavam com as lanternas’. O arquitecto espera que a simbologia que está na origem do pavilhão de Macau revitalize o artesanato local. A este propósito refere: ‘Há ainda dois artesãos na Rua da Palha que fabricam as tradicionais lanternas’. Revestido por uma dupla membrana de vidro e telas fluorescentes, a Lanterna do Coelhinho vai alternar de cor. Para gáudio dos visitantes da Exposição Universal, a cabeça do ‘coelho’, um balão insuflável com cerca de 10 metros de altura revela-se amovível. Mas o sentido lúdico do pavilhão estende-se até à cauda do ‘coelho’, que pode também ser movida para cima e para baixo.De lanterna na mão inicia-se a viagem. Uma rampa em espiral leva o visitante a cruzar o tempo do passado com o tempo do futuro. O pavilhão de Macau é concebido tendo por base dois grandes espaços para projecção de filmes: o anel interior (o primeiro anel), designado de ‘Anel do Tempo’ é um cinema de 360º, com cinco pisos, sistema
  • 072 073F A L A R D E N Ó S - X I I I J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I Isurround e dois lances de escadas rolantes. O anel exterior (o segundo anel), o ‘Anel da Harmonia’, é uma rampa de forma espiral, construída à volta do anel interior. Divide-se em quatro áreas: harmonia entre terra e mar, harmonia das culturas, harmonia entre tradição e modernidade e harmonia das energias. Em apenas vinte minutos, os espectadores atravessam o anel interior para chegarem ao cume do anel exterior e continuarem a descer pela rampa de forma espiral até saírem do pavilhão. (…)Acerca do debate que se tem gerado em torno do pavilhão de Macau Carlos Marreiros refere: ‘É um coelhinho estilizado, com pelinhos, quatro rodinhas de madeira, uma cabeça que treme e uma caudinha. Há ainda miúdos que a puxam. É amoroso, é simpático.’A componente multimédia, os hologramas, projecções de slogans e imagens permitem que se construa, em torno do pavilhão de Macau, a ideia de um acontecimento. Nesse sentido, não é a arquitectura que domina o espaço, mas o signo, com a sua forma escultural, a sua silhueta e os seus efeitos de luz.”uma visita inesquecívelAcompanhado de membros e colaboradores do Instituto Internacional de Macau, também me desloquei a Xangai para visitar a exposição universal. Sem o apoio e o acompanhamento oficial que nos foi proporcionado, teria sido impossível cumprir o programa expressamente preparado para nós, permitindo-nos, em cerca de sete horas, percorrer locais de interesse e diversos pavilhões, incluindo o da China, o mais imponente de todos, por onde transitavam, a todo o momento, multidões incontáveis de visitantes oriundos de muitas partes do país. Entre outros, estivemos também nos de Portugal, Hong Kong e Macau, que, além da lanterna gigante, teve outra interessante estrutura representativa, que foi uma reprodução da torre prestamista da Av. Almeida Ribeiro.Carlos Marreiros e quantos tiveram responsabilidades na concepção, organização e promoção da presença de Macau neste gigantesco evento merecem o nosso aplauso e o nosso reconhecimento. Pena foi que não tivesse sido possível implantar em Macau uma réplica daquele nosso singular pavilhão.30 de Maio de 2016
  • 074 075F A L A R D E N Ó S - X I I I J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I IEstá em apreciação pública o projecto do primeiro plano quinquenal (2016-2020) para a RAEM, anunciado pelo Chefe do Executivo quando apresentou à Assembleia Legislativa as Linhas de Acção Governativa para 2016. Aguardado com natural expectativa, ele está a ser objecto de ampla divulgação, com vista à recolha de opiniões de personalidades locais e do público interessado. Surpresa para muitos e encarado com desconfiança por alguns sectores políticos locais, o importante agora é que possam ser recebidos contributos positivos, ainda que críticos, com vista à elaboração do documento final. Conforme a nota de abertura, “o Governo está determinado em alargar a visão internacional, acompanhar as novas tendências, conhecer profundamente as mudanças complexas da conjuntura interna e externa, encarar com seriedade os desafios em consequência das questões superficiais e estruturais, aproveitar as oportunidades decorrentes da estratégia nacional da construção de uma sociedade razoavelmente próspera, da concretização do 13.º Plano Quinquenal Nacional e da implementação de ‘Uma Faixa, Uma Rota’, valorizar as vantagens das nossas características singulares, empenhando-se ainda em desenvolver a Plataforma de Serviços para a Cooperação Económica e Comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa (doravante designado por ‘Uma Plataforma’) e impulsionar para uma nova fase o desenvolvimento sócio-económico de Macau para garantir uma boa qualidade de vida para a população.” um enquadramento necessárioÉ apresentado, logo a seguir, um enquadramento conjuntural que é da maior utilidade para o entendimento correcto das estratégias e dos propósitos do plano quinquenal. Nele são salientados o desenvolvimento “estável e harmonioso” da RAEM, o profundo ajustamento da sua economia e “a oportunidade para planearmos, de estratégias e propósitos de um plano quinquenal para a rAeM“Orientados pelo cumprimento rigoroso da Constituição e da Lei Básica, temos de nos empenhar em governar segundo a lei. Numa perspectiva de salvaguardar a soberania, segurança e interesses no desenvolvimento do País, promovemos a estabilidade e prosperidade permanentes de Macau.”Do plano quinquenal (projecto)forma pragmática, o futuro desenvolvimento, valorizando as vantagens de ‘um País, dois sistemas’, e das nossas características singulares e posição regional.” Também se preconiza uma articulação do plano local com o 13.º Plano Quinquenal Nacional, dado que “os destinos de Macau e do País estão intimamente ligados”. Propósitos expressosOs propósitos gerais do plano estão identificados no texto seguinte: “A construção célere de ‘Um Centro’ e de ‘Uma Plataforma’ está conforme a implementação do grandioso princípio ‘um País, dois sistemas’ e a aspiração de uma vida melhor ansiada pela população. O desenvolvimento, a médio e longo prazo, do ‘Plano’, conjuntural e perspectivado para o futuro, é crucial para a definição de objectivos, o encorajamento, a uniformização de trabalhos, o aumento da eficácia e a concretização de metas o mais breve possível. Até 2020, acelerar a construção de ‘Um Centro’ é concretizar o objectivo geral do primeiro período quinquenal, um período de solidificação, orientado para tornar Macau numa cidade com condições ideais de vida, de trabalho, de mobilidade, de entretenimento e de recreação a nível internacional, e esperamos atingir resultados. Estamos confiantes de que o futuro desenvolvimento de Macau continuará a beneficiar do grande apoio facultado pela Pátria, Macau irá desenvolver-se e prosperar com a Pátria. Nos próximos cinco anos, as orientações para as acções governativas serão: persistir num desenvolvimento conjuntural estável, dar prioridade aos projectos relacionados
  • 076 077F A L A R D E N Ó S - X I I I J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I Icom a qualidade de vida da população e focar o equilíbrio e o desenvolvimento sócio-económico. Um desenvolvimento geral estável não é uma estagnação, pelo contrário, é um desenvolvimento qualitativo e inovador. Intensificar a promoção do Turismo e o desenvolvimento estável do Jogo representa um auto fortalecimento para voltar a crescer, para elevar a qualidade geral das indústrias. Incentivar a indústria do Jogo a alargar as suas componentes não associadas ao jogo permite aumentar a competitividade. Apostar na inovação permite crescer e promover o progresso e a modernização das indústrias. O primeiro plano quinquenal de desenvolvimento traçado pelo Governo, valoriza, por um lado, o planeamento global e o desenvolvimento conjunto, e por outro, o efeito regulador da economia de mercado, que, seguindo o ritmo do desenvolvimento, se promovem e articulam mutuamente. Realçar o efeito interactivo entre o mercado local e o mercado externo, uma maior integração na cooperação regional, o desenvolvimento de ‘Um Centro’ e a intensificação do intercâmbio internacional, permite promover o ajuste estrutural da indústria e o desenvolvimento adequado, designadamente da produção, do consumo, do investimento, e gera um ambiente com melhor qualidade de vida. O plano de construção de cinco anos é apenas o objectivo a atingir a médio prazo, uma fase intermédia do desenvolvimento. Este período é uma continuação do que tem sido feito e o ponto de partida para um futuro inovador. Estamos cientes de que o caminho que temos pela frente não é fácil, e no percurso do desenvolvimento esperam-nos muitas incertezas e desafios. O Governo irá assumir com coragem, reorganizar de modo atempado as disposições traçadas nos planos conforme as novas situações, suprir os seus pontos fracos, auto aperfeiçoar-se, aproveitar as novas oportunidades, resolver as novas questões, criar novas formas de resolução de problemas, atingir novos patamares, olhar para o futuro com base no presente, activar a sabedoria da sociedade e agregando as sinergias dos cidadãos, seguir os passos em direcção aos objectivos, garantir a segurança e o desenvolvimento nacional a longo prazo, envidar mais esforços e contributos, para, em conjunto, promover a prosperidade e a estabilidade.” objectivos principaisOs objectivos principais do plano podem ser deste modo sintetizados e enumerados:1. Desenvolvimento estável da economia global;2. Novos avanços na optimização da estrutura industrial;3. Formação gradual de um sector alargado de turismo de lazer;4. Elevação constante da qualidade de vida dos cidadãos;5. Desenvolvimento contínuo da cultura e da educação;6. Resultado manifesto na protecção ambiental;7. Elevação da eficiência de governação e reforço da construção do Estado de Direito. Apresentaremos brevemente um desenvolvimento destes objectivos que o Governo da RAEM se propõe alcançar, bem como as medidas mais significativas a incluir em futuros programas de acção. 7 de Junho de 2016
  • 078 079F A L A R D E N Ó S - X I I I J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I IApresentámos, no artigo anterior, os propósitos fundamentais do primeiro plano quinquenal da RAEM, presentemente em fase de consulta à população, e enumerámos os objectivos principais estabelecidos nesse plano. sete objectivosDepois de definir o princípio supremo do plano, e de preconizar que “o Governo e todos os cidadãos, nos próximos cinco anos, devem concertar todos os seus esforços para atingir sete objectivos principais”, estes são, resumidamente, explicados na secção III do capítulo I: 1. “Desenvolvimento estável da economia global. Empenhados na procura de recuperação económica, iremos estimular o Produto Interno Bruto, para que volte a ter um crescimento positivo, mantendo em baixo nível a taxa de desemprego; em cumprimento rigoroso do princípio de ‘manter as despesas dentro dos limites das receitas e o equilíbrio entre as receitas e as despesas’ traçado na Lei Básica da RAEM, iremos conservar a estabilidade financeira, criar o Fundo para o Desenvolvimento do Investimento da RAEM; fomentamos, com toda a energia, o empreendedorismo, o acesso ao emprego e o crescimento económico.2. Novos avanços na optimização da estrutura industrial. Procuramos o aumento do peso da receita das actividades não-jogo até 9% ou superior os grandes objectivos do primeiro plano quinquenal da rAeM“Estamos empenhados e firmes em assegurar a prossecução plena e precisa de ‘um País, dois sistemas’, e ‘Macau governado pelas suas gentes’ com alto grau de autonomia, estabelecendo uma interligação entre a concretização de ‘um País, dois sistemas’ e a materialização do sonho chinês do grandioso renascimento da Nação Chinesa.”Princípio supremo do plano quinquenal em relação ao rendimento bruto das operadoras de jogo; a elevação, passo a passo, da receita bruta das actividades não-jogo, nomeadamente, do comércio por grosso e a retalho, da hotelaria, da restauração e bebidas, do sector da construção e do sector financeiro, potencializando ainda melhor o efeito de sinergias das actividades relacionadas; iremos conservar os espaços das pequenas e médias empresas no desenvolvimento urbano, concretizando a modernização e transformação de algumas indústrias; fomentar as indústrias de convenções e exposições, culturais e criativas, e da medicina tradicional chinesa, entre outras indústrias emergentes que já obtiveram resultados iniciais, e efectuar pesquisas sobre actividades financeiras com características específicas. 3. Formação gradual de um sector alargado de turismo de lazer. O turismo cultural terá um novo desenvolvimento, os projectos turísticos de características abrangentes obterão resultados notáveis; a diversificação, a sofisticação e o nível de internacionalização do mercado turístico, das fontes turísticas e dos produtos turísticos, entre outros âmbitos, terão um progresso manifesto; os produtos turísticos inovadores, nomeadamente, o turismo cultural, turismo de lazer, turismo marítimo, turismo de saúde e turismo comunitário desenvolver-se-ão de forma contínua.4. Elevação constante da qualidade de vida dos cidadãos. A esperança média de vida continuará a ficar na frente do nível mundial, os recursos humanos e as condições dos equipamentos em saúde continuarão a ser aperfeiçoados; as condições de habitação da população serão melhoradas gradualmente, e a receita de trabalho continuará a crescer de forma adequada; será concluído
  • 080 081F A L A R D E N Ó S - X I I I J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I Io estabelecimento do regime de segurança social de dois níveis, para elevar a precisão na atribuição de apoios sociais, e para planear, de forma racional, os benefícios sociais; será formado um ambiente de gestão integrada de trânsito; a segurança pública será consolidada, para garantir a segurança da vida e propriedade dos cidadãos. Serão ordenadas, de forma activa, as informações relacionadas com a gestão integrada social e com a prestação de serviços públicos, serão optimizadas as novas infra-estruturas da Internet das Coisas e da Computação em Nuvem, para assim, impulsionar a construção da cidade inteligente de Macau. 5. Desenvolvimento contínuo da cultura e da educação. A rica cultura chinesa será melhor divulgada, o privilégio da coexistência da diversidade cultural será melhor potencializada; a qualidade educacional será ainda mais elevada; a taxa bruta de escolarização no ensino secundário complementar será elevada, a percentagem da população activa com nível de ensino superior concluído será elevada até ao nível das regiões desenvolvidas asiáticas; será concluído o planeamento de médio a longo prazo para o desenvolvimento do ensino superior, e concluída a revisão do ‘Regime do Ensino Superior’, será aperfeiçoado o regime de acreditação profissional; procuramos um desenvolvimento rápido do aperfeiçoamento contínuo e um crescimento gradual dos projectos de testes de avaliação técnica-profissional, continuando assim, a impulsionar a construção da cidade de aprendizagem contínua.6. Resultado manifesto na protecção ambiental. Iremos controlar, de forma eficaz, a intensidade de emissão de dióxido de carbono, impulsionar, de forma activa, os trabalhos legislativos das normas de emissão de gases de escape de veículos em circulação e normas relativas à gasolina sem chumbo e gasóleo leve para veículos, manter o valor-meta de PM2,5 de Macau em conformidade com a meta da Organização Mundial de Saúde, elevar, de forma contínua, a percentagem do número de dias com ar de boa qualidade em relação ao número de dias do ano; optimizar a capacidade de tratamento de águas residuais; com base na manutenção da capacidade actual de tratamento não nocivo de resíduos domésticos, iremos elevar a capacidade de tratamento de resíduos de outras categorias; a quantidade de árvores na arborização urbana será aumentada, criando, assim, um ambiente com condições mais habitáveis.7. Elevação da eficiência de governação e reforço da construção do Estado de Direito. Iremos aperfeiçoar o mecanismo de consulta, efectuar a racionalização de quadros e simplificação administrativa, para a subida da qualidade e o aumento da eficácia, elevar a qualidade global de serviços dos trabalhadores de serviços públicos, construir plenamente um Governo e uma sociedade baseados no Estado de Direito, e impulsionar o progresso ordenado e gradual da política democrática.”Estes são, de um modo geral, objectivos defensáveis para o futuro da RAEM, traduzindo propósitos positivos que merecem uma ampla difusão, para que sejam recolhidas contribuições úteis da população e, especialmente, de organizações da sociedade civil, cujo envolvimento na realização correcta e completa das políticas públicas é indispensável. E importa ter sempre em conta que das intenções à realidade pode haver um abismo, o qual será tanto maior quanto menores forem os meios
  • 082 083F A L A R D E N Ó S - X I I I J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I Ihumanos, materiais e financeiros disponíveis, bem como a capacidade e a vontade política para vencer renovados desafios, cuja dimensão e natureza não são, nesta altura, integralmente previsíveis. 13 de Junho de 2016No próximo Sábado, 25 de Junho, a Casa de Macau em Portugal comemora, jubilosamente, o seu 50.º aniversário, com uma sessão solene e o tradicional “chá gordo”, sempre imprescindível em ocasiões especiais como esta. O programa, divulgado pela Casa no seu boletim informativo “Qui-Nova?!...”, de 2 do corrente mês, e a levar a efeito na sua excelente sede, na Av. Almirante Gago Coutinho, 142, em Lisboa, é o seguinte:15h00 – Recepção aos convidados e Porto de Honra16h00 – Missa16h30 – Sessão solene, com: – Discurso de abertura– Entrega de prémios à Casa de Macau– Apresentação do livro sobre a história da Casa de Macau (com exibição de vídeo) – Apresentação da exposição de fotografia dos participantes no Curso de Fotografia da Casa de Macau– Apresentação da exposição de pintura de Zaida Estrela– Declamação de poesia em patuá– Dança tradicional chinesa pela Associação de Arte de Dança Luso-Chinesa de Macau18h00 – Tradicional Chá GordoPrémio IdentidadePor decisão unânime do júri, constituído pelos onze titulares dos órgãos sociais do Instituto Internacional de Macau (IIM), o Prémio Identidade de 2016 foi Prémio Identidade atribuído à casa de Macau em Portugal“Instituído pelo IIM em 2003, o Prémio Identidade já contemplou mais de uma dezena de personalidades e instituições que ajudaram a reforçar e valorizar a identidade de Macau…”
  • 084 085F A L A R D E N Ó S - X I I I J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I Iatribuído à Casa de Macau em Portugal, no momento em que comemora o seu 50.º aniversário.Instituído pelo IIM em 2003, o Prémio Identidade já contemplou mais de uma dezena de personalidades e instituições que ajudaram a reforçar e valorizar a identidade de Macau, entre as quais o Pe. Manuel Teixeira, o escritor Henrique de Senna Fernandes, o Prof. Eng. Luís de Guimarães Lobato, o Comendador Arnaldo de Oliveira Sales, a Diocese de Macau, a Santa Casa da Misericórdia de Macau, a Associação Promotora da Instrução dos Macaenses (APIM), a Universidade de Macau, a União Macaense Americana (UMA), o grupo de teatro Dóci Papiaçám di Macau, o Club Lusitano em Hong Kong, a Escola Portuguesa de Macau e o Jardim de Infância D. José da Costa Nunes. Numa missiva dirigida ao Presidente do IIM, a Direcção da Casa de Macau agradeceu a distinção: “Foi com enorme satisfação que recebemos a notícia da atribuição, à Casa de Macau, do Prémio Identidade de 2016, por parte do Instituto Internacional de Macau, a que V. Exa. preside. Sentimo-nos muito honrados com esta distinção, a que certamente não foi alheio o empenho de V. Exa. no reconhecimento do trabalho que sucessivas gerações de macaenses têm vindo a prestar em prol da continuidade dos objectivos que estiveram na origem da criação da Casa de Macau, preservando e divulgando a cultura macaense como forma de afirmar a sua identidade.”O prémio é constituído por um certificado e um troféu, devendo a entrega do certificado ser feita na sessão solene integrada na festa dos 50 anos da Casa. O troféu será posteriormente entregue em sessão cultural promovida pelo IIM durante o próximo Encontro das Comunidades Macaenses, a decorrer em Macau no final deste ano. A delegação da Casa de Macau em Portugal deverá partir de Lisboa no dia 25 de Novembro e regressar a 4 de Dezembro, via Dubai. um balanço positivoLigam-me à Casa de Macau em Portugal abundantes vivências e memórias que me permitem recuar até aos anos despreocupados da juventude, quando me foi proporcionado o privilégio de assistir ao arranque do seu funcionamento, podendo, ao longo de cinco décadas, acompanhar os seus momentos mais altos e também os de maior dificuldade. Ao olhar para a galeria fotográfica dos seus ilustres fundadores, patente no Salão Nobre da Casa, é com respeito e admiração que recordo a obra e o percurso de cada um. Através de alguns deles (Armando de Oliveira Hagatong, Carlos Estorninho, Mariano Tamagnini, Luís de Guimarães Lobato e Gerardo Rangel de Almeida), fiquei a conhecer os antecedentes e a generosa contribuição de muitos para que aquele relevante projecto, acalentado desde o tempo do Governador Tamagnini Barbosa, ganhasse consistência e o propósito se realizasse. A antiga sede da Casa, na Praça do Príncipe Real, acolheu inúmeras e inolvidáveis iniciativas, albergando agora a Fundação Casa de Macau, que completa 20 anos de actividade, e um bem apetrechado centro de documentação, constantemente enriquecido. A aquisição da moradia sita na Av. Almirante Gago Coutinho, com o apoio do Governador Vasco Rocha Vieira na fase final do período de transição de
  • 086 087F A L A R D E N Ó S - X I I I J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I IMacau, deu à Casa maior dimensão e alargadas oportunidades de diversificação dos seus programas de acção.Uma comemoração com tão alto significado suscita, inevitavelmente, um oportuno balanço. Não obstante os acidentes de percurso, que é possível identificar e que não interessa ignorar, esse balanço é francamente positivo. Foi com esta convicção que o júri do Prémio Identidade decidiu atribuir o galardão de 2016 à Casa de Macau em Portugal, como homenagem aos homens e mulheres que, ao longo de cinquenta anos, deram vida e corpo a este singular projecto de afirmação de Macau em Portugal. Este prémio traduz o reconhecimento do papel relevante que a Casa de Macau, em circunstâncias por vezes bastante adversas, quis e soube desempenhar, predominantemente nas vertentes cultural, recreativa e associativa, em conformidade com os seus objectivos estatutários. Desejamos que ele estimule a aceitação de novos desafios.Prendas de aniversárioAssociados e entidades ligadas à Casa quiseram oferecer-lhe prendas de aniversário. O seu último boletim informativo destaca a gentil doação, pela Sra. D. Julieta Nobre de Carvalho, esposa do antigo Governador, General José Manuel de Sousa e Faro Nobre de Carvalho (1966-1974), de um bonito par de leões em porcelana de cor verde que já orna o hall de entrada da moradia onde a Casa tem a sede. São peças que na cultura chinesa simbolizam força e coragem, sendo os leões os guardiões da sorte e da felicidade, protegendo os homens dos espíritos malignos. A revista “Macau”, de Abril de 2016, dedica à Casa de Macau em Portugal, um artigo de oito páginas, de Ana Marques Gonçalves (texto) e Paulo Cordeiro (fotografias), intitulado “Meio século a celebrar memórias” e “Uma casa que traz Macau no coração”. Parabéns à Casa e aos seus associados. Que os seus responsáveis saibam trazer sempre Macau no coração!20 de Junho de 2016
  • 088 089F A L A R D E N Ó S - X I I I J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I IJá vimos, em dois artigos anteriores, o essencial sobre os princípios orientadores, os propósitos e os grandes objectivos do Plano Quinquenal para o Desenvolvimento da RAEM (2016-2020), cujo projecto está em fase de consulta. Interessa conhecer também as linhas estratégicas estabelecidas, antes de fazermos uma apreciação crítica de duas missões fundamentais cometidas à RAEM: a da criação de um centro mundial de turismo e lazer e a do funcionamento como plataforma de cooperação com os países lusófonos e no contexto da área geográfica em que se insere. As estratégias, harmonizando o Plano Nacional com o 1.º Plano da RAEM, podem ser resumidas deste modo: 1. “Identificar o conceito de desenvolvimento por inovação e formar um esquema de cooperação para a inovação. Encorajar a inovação e o saber inovador, tornando a inovação o ponto de partida do desenvolvimento sócio-económico. Realçar a divulgação e sensibilização sobre as ciências e tecnologias, promover o desenvolvimento tecnológico e insistir na formação de talentos para servir de suportes inovadores. Formar um esquema de inovação com interligação entre a educação, a investigação científica e a indústria; a inovação constituirá a nova força motriz do desenvolvimento sócio-económico sustentável da RAEM.”2. “criar a nova imagem de ‘Macau cultural’ e elevar a competitividade da cidade. A cultura, o soft power de uma cidade, é onde se reflecte o espírito e a alma da cidade, e que tem vindo a tornar-se cada vez mais num factor importante da competitividade geral duma cidade. Com a vantagem de Macau ser um centro de fusão cultural entre o Oriente e o Ocidente, possuindo a grande cultura chinesa como a cultura principal, o Governo envida todos os estratégias de desenvolvimento estabelecidas no plano quinquenal“O 13.º Plano Quinquenal Nacional propõe a valorização do papel e das funções da RAEM no desenvolvimento da economia e na abertura do País, determinando o posicionamento de Macau em matéria de desenvolvimento nacional.”esforços para fortificar o soft power cultural, exibindo assim o encanto único da cultura de Macau. E também para impulsionar, com toda a energia, o desenvolvimento das indústrias culturais, divulgando os valores nucleares do amor pela pátria e amor por Macau, e elevando a capacidade inovadora da cultura, para criar uma nova imagem da cidade, que é a de ‘Macau cultural’.”3. “concretizar a estratégia de ‘prosperidade de Macau através da educação’ e de ‘construção de Macau com talentos’. O desenvolvimento de Macau depende da educação e o desenvolvimento da educação depende da inovação. O Governo tem insistido em dar prioridade ao desenvolvimento da educação e tem-se empenhado na construção de um sistema de educação moderno e de qualidade internacional, através da introdução de pensamentos inovadores e da optimização dos recursos educativos, a fim de servir de base para estabelecer a igualdade social através da igualdade no acesso à educação. A estratégia de desenvolvimento da formação de talentos visa estabelecer um sistema de formação profissional variado e aberto, a fim de aumentar o profissionalismo e capacidades de exercício técnico-profissionais da população, e desenvolver junto dos jovens um ambiente para viverem de forma sadia, segura e harmoniosa, de modo a obterem mais oportunidades e capacidades para os estudos, o trabalho e poderem servir a sociedade.”4. “Aperfeiçoamento do equipamento básico de software e de hardware e elevar a qualidade dos serviços da área do turismo. Um centro mundial de turismo e lazer não pode estar separado de equipamentos básicos de software e de hardware desenvolvidos. O Governo irá dar continuidade à integração
  • 090 091F A L A R D E N Ó S - X I I I J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I Ide recursos, ao aperfeiçoamento nas áreas do tráfego, das comunicações, financeiras, da segurança, entre outras infra-estruturas básicas públicas, à aceleração do fluxo de pessoas, da logística e de capitais, em direcção ao desenvolvimento da diversidade da indústria. O Governo vai ainda elevar o espírito de melhor servir junto dos trabalhadores da função pública, melhorar os procedimentos dos serviços públicos, aperfeiçoar a construção das vias e plataformas dos serviços públicos, sugerir e incentivar junto das empresas o conceito de se centrar nos seus clientes, elevando assim a qualidade do serviço.”5. “Acelerar a construção da cidade inteligente, promover a fusão entre a indústria e a internet. Iremos integrar as forças do Governo, das empresas, das organizações associativas e dos órgãos de consulta, tendo como referência as experiências na construção de cidades inteligentes, alargar a construção de instalações básicas de informações, promover a tecnologia informática nas diferentes indústrias, aumentar as capacidades do respectivo pessoal no domínio das principais tecnologias e das novas operações. Iremos promover a ligação entre a internet e as indústrias tradicionais e as emergentes, para que uma ganhe vitalidade e outra cresça com maior vigor.”6. “Melhoramento no sistema de políticas públicas, elevar a eficácia das políticas de macro perspectiva. A utilização de medidas de informatização para elevar a qualidade e a eficácia na definição e execução de políticas do Governo e assegurar um ambiente económico saudável e liberal. Melhorar o sistema estatístico da economia, e finalizar a criação do ‘Sistema de indicadores estatísticos sobre o desenvolvimento da diversificação adequada da economia de Macau’. Intensificar a coordenação e a articulação das políticas de finanças, fiscais e financeiras com as políticas das áreas do investimento, indústria, solos, protecção ambiental, entre outras. Manter de forma activa e pragmática a relação entre o desenvolvimento equilibrado da economia e o ajustamento estrutural da indústria, para que a qualidade e a eficácia do desenvolvimento económico de adequem.”7. “Aperfeiçoamento do mecanismo de gestão articulada, coordenar a construção do ‘centro’ e da ‘Plataforma’. Será maximizado o papel de gestão articulada da Comissão para a Construção do Centro Mundial de Turismo e Lazer e da Comissão para o Desenvolvimento da Plataforma de Serviços para a Cooperação Comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa, na construção de ‘Um Centro’ e ‘Uma Plataforma’, sendo coordenados tanto o andamento das respectivas construções, como a definição dos respectivos planeamentos, bem como a avaliação dos avanços alcançados.”8. “Implementação da estratégia de cooperação regional intensificada, e integração no desenvolvimento nacional. O desenvolvimento nacional é o mais forte suporte e a mais valiosa vantagem para o desenvolvimento de Macau. Nos próximos cinco anos, Macau irá, seguindo a missão e a responsabilidade imputadas no 13.º Plano Quinquenal Nacional, articular-se com as grandes estratégias de desenvolvimento nacional, elevando ainda mais a posição e a função que Macau desempenha no desenvolvimento nacional e na sua abertura ao exterior. Macau terá de revelar as suas vantagens próprias, ampliar e intensificar a cooperação regional com Guangdong e a Região do
  • 092 093F A L A R D E N Ó S - X I I I J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I IPan-Delta, para se complementarem e obterem proveitos e benefícios mútuos, para em conjunto estabelecerem a Grande Baía de Guangdong, Hong Kong e Macau, apoiando assim a concretização da estratégia nacional ‘Uma Faixa, Uma Rota’.”27 de Junho de 2016Algumas centenas de associados e convidados marcaram presença, na bonita tarde de 25 de Junho, em Lisboa, na jubilosa comemoração do cinquentenário da Casa de Macau em Portugal, a qual compreendeu um “porto de honra”; missa de acção de graças; sessão solene, abrilhantada com a atribuição de significativas distinções; apresentação de uma publicação comemorativa e de um medalhão em bronze alusivo à efeméride; leitura de mensagens; momento de dança chinesa; e um chistoso monólogo em patuá. Seguiu-se a inauguração de duas exposições, uma fotográfica, com trabalhos dos participantes no curso de fotografia organizado pela Casa de Macau, e outra de pintura, da autoria de Zaida Estrela, tendo por tema edifícios históricos de Macau. No fim, o tradicional “chá gordo”, com agradável convívio em torno da culinária macaense, reforçada com alguns pratos de comida portuguesa e chinesa.Entre os convidados, em lugares de destaque na sessão, distinguiam-se as coordenadora e coordenadora adjunta da Delegação Económica e Comercial de Macau, o conselheiro cultural da Embaixada da República Popular da China, os antigos governadores José Eduardo Garcia Leandro e Vasco Rocha Vieira, D. Julieta Nobre de Carvalho, o presidente do Conselho Executivo do Conselho das Comunidades Macaenses, o presidente do Instituto Internacional de Macau, o presidente da Confederação das Colectividades de Cultura, Recreio e Desporto, o presidente executivo da Sociedade Estoril-Sol, antigos presidentes da Casa de Macau e responsáveis da Fundação Casa de Macau. Jubilosa comemoração do cinquentenário da casa de Macau“A Casa de Macau foi fundada por um grupo de macaenses ilustres e dedicados tendo em vista promover um espaço de convívio e de divulgação da cultura macaense em Portugal. Aquele objectivo perdurou e reforçou-se no tempo…” Maria de Lurdes Vaz Albino, presidente da Direcção da Casa de Macau em Portugal
  • 094 095F A L A R D E N Ó S - X I I I J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I Iduas oportunas distinções Durante a sessão solene, e logo após a saudação de abertura proferida pela presidente da Direcção, Maria de Lurdes Vaz Albino, foram conferidas à Casa duas justas e oportunas distinções: o Prémio Identidade, criado pelo Instituto Internacional de Macau em 2003 e que já contemplou prestigiadas personalidades e instituições pelo seu contributo positivo para a valorização da identidade macaense, e a Medalha e Diploma de Mérito Associativo da Confederação Portuguesa das Colectividades de Cultura, Recreio e Desporto. Calorosos e prolongados aplausos acompanharam a entrega destes galardões à Casa, pelos presidentes das duas instituições. A Casa de Macau já tinha sido condecorada pelo Presidente da República com a Ordem do Mérito, em 1999, e foi oficialmente reconhecida, em 1988, como organismo de utilidade pública, em declaração publicada no Diário da República de 12 de Janeiro desse ano. uma síntese do percursoDa publicação comemorativa do cinquentenário, extraímos este testemunho do presidente da Mesa da Assembleia Geral da Casa de Macau, Vítor Serra de Almeida, que sintetiza bem o percurso feito:“A Casa de Macau, em Lisboa, completa no mês de Junho 50 anos de existência e, na minha qualidade de Presidente da Mesa da Assembleia Geral, bem como de associado desde os primeiros tempos, tenho de expressar o meu imenso regozijo com esse facto e felicitar a Direcção da Casa pelas acções que tomou para comemoração da data. É, com efeito, muito gratificante para nós, comunidade macaense em Portugal, ter erguido uma Casa onde a comunidade pudesse encontrar-se e manter vivo, em terras distantes, o sentimento de ‘macaensidade’ que nos une mas, sobretudo, ter conseguido mantê-la ao longo destes 50 anos, sempre ao serviço dos macaenses.Como é natural na vida de uma instituição desta natureza, a vida não foi fácil e a nossa Casa passou por vicissitudes várias, muitas delas muito difíceis mas que, felizmente, conseguiu sempre ultrapassar. Desde logo as dificuldades que se deparavam na altura da instituição (1966), a quem intentasse criar uma Associação como a nossa e, nesse capítulo, uma palavra de imensa admiração e gratidão pelo trabalho desenvolvido pelo Dr. Armando de Oliveira Hagatong tem de ficar expressa, dado que sem o seu esforço e dedicação, muito dificilmente a nossa Casa veria a sua instituição legalizada.Passados que foram os anos de estabilização e consolidação da Casa, ocorreram os incidentes relacionados com a invasão da nossa Sede, no Príncipe Real, em 1974, os quais levaram à sua paralisação até aos finais dos anos 70 e, uma vez mais, com a dedicação e a persistência de um grupo de associados foi possível reabrir a Casa que retomou as suas actividades. Esses responsáveis, verificando que era urgente o rejuvenescimento da associação, encetaram contactos com representantes das camadas etárias mais novas que, por motivos vários, se tinham afastado da Casa, os quais resultaram, nos finais dos anos 80 na entrada de novos sócios e a gradual ocupação de lugares nos Órgãos Sociais.Esses acontecimentos decorreram por todo o decénio de 90 em que a Casa teve um acréscimo notável de sócios e actividades, a que não é estranho o grande apoio
  • 096 097F A L A R D E N Ó S - X I I I J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I Irecebido do Governo de Macau, chefiado pelo General Vasco Rocha Vieira, período que culminou com a aquisição de novas instalações, sitas na Avenida Gago Coutinho o que aumentou a capacidade de respostas aos novos desafios que os tempos vinham impondo. De mencionar, também, o momento difícil que a Casa atravessou, com a acção de despejo lançada pelos então senhorios da nossa Sede, no Príncipe Real que, felizmente, teve desfecho favorável, continuando a Associação a dispor dos dois locais de actividade que permanecem na actualidade. Estes episódios e muitos mais que aqui não podem ser mencionados dado os condicionamentos de uma exposição como esta que se deseja breve, foram suplantados, uns da melhor forma, outros não tanto, mas sempre devido ao trabalho dedicado de todos, e sublinho, todos, associados, especialmente os que ocuparam lugares nos nossos Órgãos Sociais, desde os fundadores até aos actuais, a quem expresso o meu respeito e agradecimento. Todos eles colocaram tijolos na grande construção que é a nossa Casa e, pela minha parte, estou muito orgulhoso em ter, também, colocado alguns.”saudação do chefe do executivoO Chefe do Executivo da RAEM enviou à Casa uma simpática e muito expressiva saudação, de que destacamos a seguinte passagem: “É meu desejo que este abraço de Macau, plataforma entre a China e os países de língua portuguesa, e da Europa, através de um dos seus Estados, Portugal, se fortaleça em torno dos valores que desde séculos imemoriais os juntaram, e que a Casa de Macau no futuro continue o seu caminho de aproximação e de partilha, com novas gerações de mulheres e de homens que acreditam e vivem estes valores sempre novos.”Muitas outras mensagens foram recebidas, transmitindo à Casa de Macau calorosas felicitações e votos de renovados sucessos.4 de Julho de 2016
  • 098 099F A L A R D E N Ó S - X I I I J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I IDe 2 a 31 de Julho decorre o Festival de Música de Mafra “Filipe de Sousa”, cujo concerto inaugural se realizou no primeiro Sábado do mês num dos claustros do Palácio Nacional de Mafra, com uma bem conseguida actuação da Orquestra do Norte, dirigida pelo maestro José Ferreira Lobo e com Adriano Jordão ao piano. O público acompanhou deliciadamente a “Lusitânia”, suite de danças para orquestra, de Filipe de Sousa, a Abertura de “Coriolano” de Beethoven e o Concerto n.º 3 em dó menor, para piano e orquestra, também do genial compositor alemão. Os concertos seguintes, em Mafra e Ericeira, contam com Jeffrey Swann, Patrick Rodrigues, Jan Michiels e Teresa da Palma Ferreira, ao piano, interpretando trechos de Beethoven, Brahms, Chopin, Debussy, Dvorak, Liszt, Mendelssohn, Prokofieff e Schubert, e de novo com a Orquestra do Norte, no encerramento, com “Sinfonietta” de Filipe de Sousa, Abertura da ópera “Bodas de Fígaro” e Concerto K. 271 “Jeunehomme”, de Mozart.Apresentação do FestivalAdriano Jordão, director artístico do Festival, que resultou de uma parceria estabelecida entre a Câmara Municipal de Mafra e a Fundação Jorge Álvares, fez a sua apresentação nestes sugestivos termos:“Mafra é Música. Fiquei muito impressionado ao ouvir dos responsáveis autárquicos esta afirmação, tão pouco usual em Portugal… Ter a Música como prioridade teve Filipe de sousa homenageado no Festival de Música de Mafra“As minhas ligações a Macau são fortíssimas (‘inventei’ o Festival de Música de Macau que vai fazer 30 anos…) e com a Fundação Jorge Álvares de modo indirecto, pois na primeira vez que fui a Macau era Governador do Território o General Garcia Leandro, hoje Presidente da Fundação.” Adriano Jordão, director artístico do Festival para mim um choque tão positivo que não deixei de cada vez mais me aproximar do Presidente da Câmara e transmitir-lhe uma série de ideias musicais, para meu deleite sempre recebidas com entusiasmo e claríssima vontade de fazer!Entre as tantas que imaginei, e são tantas e tão variadas, surgiu a ideia de uma focalização no piano. E também a ideia de se homenagear o meu querido amigo Filipe de Sousa, um mafrense de coração, residente em Alcainça e que tanto me ajudou no início da minha carreira. Foi o Filipe quem me levou pela primeira vez à televisão, quer em programas de divulgação, quer em diretos dos estúdios da Tóbis, nos primórdios da RTP. E esta experiência serviu-me sempre no futuro quando fui chamado a outras cadeias e por outras partes do mundo! Mas aqui em Mafra não é o Filipe de Sousa homem de televisão que é homenageado, mas o compositor, o homem que deixou o seu legado artístico à terra que escolheu como sua – MAFRA. E a Fundação Jorge Álvares recebeu a sua casa e a sua obra, dedicando-se também hoje à sua divulgação. E, mais uma vez, os nossos destinos se cruzam. As minhas ligações a Macau são fortíssimas (‘inventei’ o Festival de Música de Macau que vai fazer 30 anos…) e com a Fundação Jorge Álvares de modo indirecto, pois na primeira vez que fui a Macau era Governador do Território o General Garcia Leandro, hoje Presidente da Fundação!”Também foram por ele sublinhadas as linhas orientadoras do Festival: a opção pela excelência artística, a divulgação da obra do compositor homenageado e uma especial conexão do Brasil, “prolongando a Estrada Real que nasce em Ouro Preto e acaba agora musicalmente em Mafra”.
  • 100 101 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I I F A L A R D E N Ó S - X I I IFilipe de sousa (1927-2006)Pianista, compositor, maestro e promotor cultural, Filipe de Sousa nasceu em Lourenço Marques em Fevereiro de 1927 e faleceu em Lisboa em Novembro de 2006. Foi professor do Conservatório Nacional de Lisboa, director do Serviço de Música da RTP e fundador do Conselho Português de Música, da Juventude Musical Portuguesa e do Grupo Português de Bailado. A Música também o ligou a Macau, que visitou muitas vezes e onde deixou bons amigos, com destaque para o Pe. Áureo de Castro, fundador e director da Academia de Música S. Pio X, e o maestro Simão Barreto. Por ocasião das comemorações do 25.º aniversário daquela Academia macaense, organizou em Macau uma exposição de manuscritos e edições musicais, patrocinada pelo Instituto Cultural de Macau. Esta foi apenas uma das valiosas colaborações que deu à Academia e a Macau. Integrou o Conselho Consultivo da Fundação Jorge Álvares, em cujo projecto acreditou, a ponto de doar à Fundação a sua propriedade em S. Miguel de Alcainça (Mafra), bem como a sua diversificada biblioteca, as suas colecções de arte, discos e manuscritos e o seu espólio musical. Por esse motivo recebeu o título de benemérito da Fundação, que assumiu a feliz iniciativa de honrar o seu legado e continuar a divulgar a sua obra. Adriano JordãoPianista consagrado, promotor e gestor cultural, Adriano Jordão nasceu em Angola e estudou piano em Portugal, nos Estados Unidos e em França, como bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian. Foi laureado em concursos nacionais e internacionais de piano e desenvolveu uma longa e brilhante carreira musical um pouco por todo o mundo, de Paris a Nova Iorque e Moscovo e do Rio de Janeiro a Tóquio e Pequim. Pertenceu-lhe a concepção e criação do Festival Internacional de Música de Macau, que dirigiu nos cinco primeiros anos e cujo 30.º aniversário é agora assinalado. Também dirigiu os Festivais de Lisboa, da Costa Verde e da Casa de Mateus, além dos de Maiorca e dos Açores. De 2004 a 2011 foi conselheiro cultural de Portugal no Brasil. orquestra do norteA Orquestra do Norte tem sede em Amarante e resultou do primeiro concurso nacional para a criação de orquestras regionais, instituído pelo Estado Português em 1992. Já realizou três mil apresentações em mais de uma centena de palcos em Portugal, Espanha, França e Alemanha, com obras representativas da história da música, do barroco ao presente, dando especial atenção à difusão de compositores portugueses. É seu fundador e director artístico o maestro José Ferreira Lobo. Valorização musicalNas palavras do presidente do município de Mafra, Hélder Sousa Silva, que defende uma ampla estratégia de valorização musical, assente em múltiplos vectores, este Festival de Mafra “é uma homenagem a um mafrense de adoção e uma prestigiada figura da cultura portuguesa, que é exemplo para as gerações vindouras; por outro lado, constitui uma oferta de qualidade e diferenciadora
  • 102 103 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I I F A L A R D E N Ó S - X I I Iem plena época estival, contribuindo para a educação artística de munícipes e visitantes”. O patrono escolhido para o Festival e o envolvimento da Fundação Jorge Álvares e de Adriano Jordão como director artístico fazem com que esta importante iniciativa fique também associada a Macau. Não foi por acaso que, entre a assistência, pudemos ver e cumprimentar muitas personalidades com ligações profissionais ou culturais ao território. 11 de Julho de 2016As edições comemorativas de grandes acontecimentos ou de momentos altos da vida das instituições são sempre da maior relevância para se fazer a sua história e promover um maior e melhor conhecimento do seu percurso, até com vista à consolidação do seu futuro. Merece, pois, o aplauso de todos a publicação do livro do cinquentenário da Casa de Macau em Portugal, lançado na sessão solene que assinalou, no mês passado, aquela efeméride de tanto significado para a comunidade macaense.Coordenado por João Botas, vice-presidente da Direcção da Casa de Macau, o livro contém um prefácio, nota preambular e uma introdução, breve cronologia, bosquejo histórico, das origens à actualidade, acompanhado de um excelente álbum fotográfico, apontamentos sobre as instalações da Casa na Praça do Príncipe Real e na Av. Almirante Gago Coutinho, sobre o centro de documentação e sobre as obras de arte que integram o seu espólio, selecção de recortes de imprensa, descrição sucinta das distinções que lhe foram atribuídas, relação completa dos titulares dos órgãos sociais desde 1966, listas com os nomes dos sócios fundadores, honorários e beneméritos, depoimentos e testemunhos recolhidos, a versão actual dos Estatutos e agradecimentos às entidades que patrocinaram o livro comemorativo. É uma boa compilação de elementos fundamentais para uma História da Casa de Macau em Portugal.os primeiros passosEmbora já se falasse da possível criação duma Casa de Macau em Portugal desde o tempo do Governador Tamagnini Barbosa, foi na década de 1960 que os passos decisivos foram dados nesse sentido. O livro, que merece ser adquirido e lido, descreve muito bem essas curiosas diligências iniciais: edição comemorativa do cinquentenário da casa de Macau“Este livro é uma homenagem aos fundadores da instituição, aos homens e mulheres que nos últimos 50 anos participaram nos órgãos sociais e a todos os associados cuja dedicação contribuiu para atingirmos hoje esta data memorável.” Do prefácio
  • 104 105 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I I F A L A R D E N Ó S - X I I I“Velha aspiração de várias gerações de macaenses e amigos de Macau seria no início da década de 1960 que seriam dados passos decisivos para o nascimento da Casa de Macau em Portugal. De acordo com Armando Hagatong (Boletim CM – ano I – n.º 4) foi ele que, juntamente com o seu primo, Geraldo Rangel de Almeida, mais Alberto Maria Alemão e Carlos Laborde Basto, puseram mãos à obra em Setembro de 1963. ‘Ao grupo inicial juntaram-se outros nossos conterrâneos e amigos de Macau sendo de salientar os nomes de José Maria Pinto Lello, Mariano Tamagnini Barbosa, Bernardo da Silva Vidigal, Horácio José Garcia, Augusto da Silva Nolasco, Henrique de Serpa Pimentel e Carlos Gonçalves Estorninho’.O grau de empenhamento deste grupo fundador foi de tal ordem que ‘suportaram as despesas da constituição da Casa e até das 10 primeiras mesas e das 40 cadeiras’ para a primeira sede. Sem mencionar quem, Armando Hagatong explicou que para ‘conseguirmos a aprovação dos Estatutos tivemos de suplantar inúmeras dificuldades, até que nos aconselharam a decalcar os mesmos dos então aprovados para a Casa de Moçambique’.A 13 de Setembro de 1965 é enviado para as autoridades portuguesas um primeiro esboço de Estatutos, documento que seria registado no Governo Civil de Lisboa como era prática na época. O pedido de criação da Casa de Macau em Portugal originou um processo que passou por vários gabinetes ministeriais, desde a Inspecção Superior de Administração Ultramarina (Ministério do Ultramar) à Direcção Geral dos Negócios Políticos e da Administração Interna (Ministério dos Negócios Estrangeiros), e até envolveu pareceres do Governo de Macau e do Consulado de Portugal em Hong Kong.No final de 1965, dando andamento ao processo (incluía um projecto de Estatutos), o Ministério dos Negócios Estrangeiros solicitou vários pareceres. Um deles foi ao Governo de Macau que respondeu através do ofício n.º 2060 a 6 de Dezembro de 1965. O outro parecer veio do Consulado de Portugal em Hong Kong (ofício n.º 366/66) a 12 de Fevereiro de 1966. Eduardo Condé, o cônsul português na então colónia britânica, fora consultado porque no projecto de Estatutos da CM constava ‘a criação naquela cidade de uma delegação da Casa de Macau’.Numa resposta de três páginas, escrita em Hong Kong a 12 de Fevereiro de 1966, o cônsul declara ao Ministro dos Negócios Estrangeiros português que ‘Lido o projecto e ouvida a opinião de algumas entidades, em Macau e Hong Kong, quanto à natureza e fins daquela Sociedade, cumpre-me informar V. Exa. de que este Consulado não só apoia a criação de uma Casa de Macau, em Lisboa, como considera de grande interesse que venha a ter delegações nesta colónia britânica e naquela Província, como previsto pelo artigo 41.º dos respectivos estatutos’.Eduardo Condé acrescenta ainda que espera que ‘não venha a faltar os meios necessários, incluindo o possível auxílio dos Governos Português e daquela Província’ e aproveita para fazer uma sugestão sobre formas de concretizar os ‘fins culturais e recreativos’ previstos no Artigo 3.º dos Estatutos. Tendo por base o facto da comunidade portuguesa em Hong Kong ser composta ‘por um grande número de naturais de Macau, de ambos os sexos, jovens na sua maioria’ o cônsul realça o facto de alguns não dominarem a língua portuguesa embora se sintam orgulhosos do seu ‘portuguesismo’. Para colmatar a deficiência ao nível do português e, ao mesmo tempo, serem ‘estimulados no sentido de conservarem a sua cultura portuguesa’, o cônsul sugere
  • 106 107 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I I F A L A R D E N Ó S - X I I Ique estes jovens devam ser estimulados, nomeadamente com a concessão de bolsas de estudo. ‘É aquele um dos campos em que a projectada Casa de Macau poderia, mesmo indirectamente, (…) realizar uma obra que se impõe para a assegurar a nossa secular presença nestas paragens do Extremo-Oriente’, conclui, ‘A Bem da Nação’ (como era prática na época) o Cônsul-Geral Eduardo Condé.Tendo por base os vários pareceres recebidos, o Director Geral dos Negócios Políticos e da Administração Interna, do MNE, dá conhecimento ao Ministério do Ultramar do seu parecer final a 17 de Março de 1966: ‘Tem a concordância desta Secretaria de Estado’. Na troca de correspondência relativa ao processo circulou em anexo o referido ‘projecto de Estatutos’ e é esse o nome de um dossier existente no Arquivo Histórico Diplomático (AHD) – ‘Projecto de Estatutos da Casa de Macau’. No entanto, o referido ‘projecto’ não está na pasta à guarda do AHD pelo que não foi possível a sua consulta. O mesmo se aplica ao ofício em que o Governo de Macau deu o seu parecer.Em suma, no espaço de poucos meses, estava dado o primeiro sinal claro de que a Casa de Macau em Portugal seria uma realidade a curto prazo. Neste processo foi decisivo, para além dos autores da ideia, o Governador de Macau, Lopes dos Santos, o Presidente da República, Américo Tomás, e o Ministro do Ultramar, Joaquim da Silva Cunha.”A instalação da Casa de Macau e o arranque do seu funcionamento são também relatados, bem como o essencial do seu percurso até aos nossos dias, permitindo conhecer as várias fases do seu funcionamento e crescimento, bem como as vicissitudes por que passou. Parabéns à Casa pela produção desta útil e digna publicação. 18 de Julho de 2016
  • 108 109 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I I F A L A R D E N Ó S - X I I IDa galeria de sócios honorários da Casa de Macau em Portugal constam os nomes de sete Governadores: Jaime Silvério Marques (1959-62), António Lopes dos Santos (1962-66), José Manuel Nobre de Carvalho (1966-74), José Eduardo Garcia Leandro (1974-79), Nuno Viriato de Melo Egídio (1979-81), Joaquim Pinto Machado (1986-87) e Vasco Rocha Vieira (1991-99). Uns mais do que outros, todos quiseram manter boas relações com a Casa e acompanhar o seu funcionamento, alguns nas fases de arranque e de consolidação e os demais no período pós-25 de Abril. Foram, por isso, homenageados pela Casa com aquela distinção, figurando os seus retratos no salão nobre, ao lado dos de 17 outras personalidades que, de modo visível, terão contribuído para o sucesso do seu desenvolvimento ao longo de décadas. Desse ilustre elenco de antigos Governadores de Macau, muitos dos quais já nos deixaram definitivamente, dois tiveram o ensejo de ajudar a procurar soluções em conjunturas difíceis da vida desta agremiação cultural, recreativa e social dos macaenses em Portugal. Garcia Leandro quis, com as partes em litígio, ultrapassar o impasse que resultou da ocupação das instalações da Casa num período extremado da revolução de Abril, e Rocha Vieira, ciente da necessidade de precaver o futuro de instituições macaenses após a transição, apoiou a criação da Fundação Casa de Macau e viabilizou a aquisição e adaptação da moradia que é agora a sede da Casa, sita na Av. Almirante Gago Coutinho, em Lisboa. Vale, pois, a pena observar os testemunhos de ambos, entre vinte que a Casa recolheu para o livro comemorativo do 50.º aniversário. Vejamos, em primeiro lugar, o de Garcia Leandro, que contém boas pistas para uma continuada e lúcida reflexão sobre o presente e o futuro das Casas de Macau: Testemunhos para a história da casa de Macau“Celebrar o cinquentenário de uma instituição de cariz histórico, cultural e humanitário como é a Casa de Macau, é reconhecer o esforço e o contributo de todos os que a constituíram e constituem, e é também lembrar sonhos e projectos que aproximaram dois povos e duas culturas...” Chui Sai On, Chefe do Executivo da RAEMuma oportuna reflexão“A Casa de Macau perfaz em 2016 cinquenta anos de vida o que não pode deixar de ser comemorado já que é um marco na vida das instituições associativas que não deve ser esquecido e que nem todas alcançam.A preparação do seu nascimento demorou algum tempo sendo de prestar a devida homenagem aos seus fundadores; desejavam estes criar um ponto de encontro e ligação entre todos os macaenses e pessoas ligadas a Macau em Portugal para reunião, tertúlias, mútuo apoio e também romagens de saudade a Macau que tiveram grande sucesso. Foram apoiados pelo Governo de Macau e de Lisboa, começando instalados num grande andar no centro de Lisboa, no Príncipe Real. Em 1974 sofreu uma grande crise no período do PREC tendo sido ocupada por estudantes ligados à extrema-esquerda durante largo período, ocorrendo que os próprios estudantes de Macau se queixavam de falta de apoio pondo em causa a Direcção de então. Foi uma difícil crise ligada à época vivida que demorou algum tempo a ser resolvida, tendo obrigado a uma alteração dos Estatutos. Ultrapassada que foi essa situação, embora com algumas feridas que o tempo foi sarando, a Casa de Macau voltou às suas actividades estatutárias procurando ser um ponto de ligação permanente entre todos aqueles que, de qualquer modo, estavam ligados a Macau. O apoio do Governo de Macau foi sempre importante, tendo no período do último Governador, Rocha Vieira, sido adquirida uma excelente moradia na Av. Gago Coutinho com mais espaço propiciando uma maior capacidade para as várias iniciativas
  • 110 111 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I I F A L A R D E N Ó S - X I I Ie actividades. Criou-se também em 1996 a Fundação Casa de Macau (FCM), no sentido de conseguir angariar e gerir fundos para apoio da Casa de Macau.É de lembrar que a relação com a terra mãe nunca se perdeu na comunidade macaense, tendo vindo a ser criadas outras Casas de Macau no Brasil, EUA, Canadá e Austrália, o que permite potenciar uma rede permanente de ligações entre a diáspora macaense e que deve ser reforçada. Com o final da Administração Portuguesa de Macau cortou-se o fluxo de portugueses que permanentemente reforçavam essa ligação com Macau e muitos macaenses também se instalaram, ao longo dos anos, noutros países. Assim, sendo a Casa de Macau um elo de ligação entre todos os macaenses sofre actualmente de dois problemas que obrigam a profunda reflexão: a sua capacidade financeira que as quotas pagas pelos associados não resolve e, o que é mais grave, a tendência para um envelhecimento da comunidade por falta de renovação etária. Enquanto que a primeira tem sido ultrapassada com uma gestão cuidadosa, alguns donativos e o apoio permanente da Fundação Casa de Macau, a segunda questão é estrutural e muito preocupante obrigando à necessidade da comunidade se juntar à volta dos responsáveis pela Casa de Macau e da FCM procurando encontrar soluções, tais como a integração dos estudantes chineses que se encontram em Portugal, criando redes para mais ligações e conseguindo iniciativas atractivas que possam congregar o interesse de todos. Em 2016, ano do seu cinquentenário, a Casa de Macau tem de se reinventar para garantir o futuro; e este não se consegue apenas com a saudade do passado, havendo que encontrar novas e imaginativas soluções. Sei que os responsáveis pela CM e pela FCM estão preocupados e a trabalhar no assunto, esperando que tenham sucesso. De todos os antigos territórios ultramarinos, nenhum tem hoje tantas instituições ligadas à sua história, comunidade e ligações regionais como Macau, pois além da CM e da FCM, existem o Centro Científico e Cultural de Macau (CCCM) e a Fundação Jorge Álvares (FJA), além de uma comunidade portuguesa em Macau que é política e culturalmente muito activa, sendo de realçar a existência de três jornais diários em português e ainda o semanário da Diocese, sem esquecer a TDM. Todos estes instrumentos e capacidades têm de ser utilizados aproveitando as sinergias que se podem criar. Festejando os seus cinquenta anos, aqui fica o meu voto para que em 2066 a CM possa comemorar o seu centenário.” desafios a vencerAquele testemunho identifica matérias e faculta contributos para consideração dos responsáveis sobre alguns dos desafios que se colocam à Casa, quer no que respeita à sua sustentabilidade, quer no que concerne à renovação da massa associativa, questões que são, afinal, sentidas em todas as demais Casas de Macau implantadas em várias partes do mundo. Importa, por outro lado, clarificar a sua ligação à RAEM, sendo plenamente justificada a concessão de apoios regulares ao seu funcionamento, como contrapartida por serviços diversificados que as Casas, em contextos e lugares diferentes, podem prestar
  • 112 113 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I I F A L A R D E N Ó S - X I I Ia Macau. É uma preocupação antiga que, infelizmente, ainda não obteve resposta adequada. Oxalá a muito positiva mensagem do Chefe do Executivo, endereçada à Casa de Macau em Portugal por ocasião do seu 50.º aniversário, permita que este desiderato seja de novo equacionado, sendo o próximo Encontro das Comunidades Macaenses, a realizar em Novembro/Dezembro do corrente ano, mais uma excelente oportunidade para o assunto ser tratado com a frontalidade necessária. 25 de Julho de 2016A edição comemorativa do cinquentenário da Casa de Macau em Portugal contém 20 testemunhos e saudações de personalidades que tiveram ou ainda mantêm uma relação directa com as associações macaenses da diáspora e, de forma especial, com aquela agremiação cultural, recreativa e social da comunidade macaense com sede em Lisboa, a qual promoveu no mês passado um encontro festivo para assinalar o seu 50.º aniversário.Pela oportunidade e tendo em conta o seu conteúdo incentivador de continuada e útil reflexão sobre o presente e o futuro das Casas de Macau, do papel das comunidades da diáspora macaense e do contributo, sempre considerado indispensável, dos filhos da terra residentes na RAEM para o seu correcto funcionamento e crescimento, decidimos transcrever os testemunhos de dois antigos Governadores de Macau que permanecem activamente empenhados no acompanhamento destas matérias: o do General José Eduardo Garcia Leandro, que reproduzimos no artigo anterior, e o do General Vasco Rocha Vieira, que incluímos nesta edição do Jornal Tribuna de Macau, merecendo ambos uma ampla divulgação junto das associações macaenses. Testemunho de Vasco rocha Vieira “Fundada em 1966 por um grupo de ilustres macaenses – de que destaco, pelo meu conhecimento e convivência pessoais, o excepcional empenho, dedicação à causa e perseverança de Armando Hagatong e Mariano Tamagnini Barbosa – com o objectivo de reforçar os laços de amizade e solidariedade entre os membros da comunidade macaense de matriz cultural portuguesa, aprofundar a sua ligação com as comunidades macaenses residentes em Macau e noutras partes do mundo e fomentar ocasiões para reflexão sobre o papel dos filhos da terra“Constituindo ocasiões únicas para reflexão sobre o papel que os filhos da terra devem ter na divulgação e no engrandecimento e prosperidade de Macau, os Encontros das Comunidades Macaenses, iniciados em 1993, e que de três em três anos a RAEM tem continuado a acolher, são prova viva desta vontade.” Vasco Rocha Vieira
  • 114 115 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I I F A L A R D E N Ó S - X I I Ia divulgação da cultura macaense em Portugal, a Casa de Macau em Portugal tem sabido desempenhar o importante papel que esteve na sua génese. As Casas de Macau espalhadas pelos quatro cantos do mundo, onde se inclui a Casa de Macau de Portugal, constituem legítimas representantes da herança viva da vocação dos portugueses se adaptarem a novas realidades e situações sem perda da sua personalidade própria, e assumem um papel insubstituível para a preservação da identidade macaense e para a manutenção intacta e viva dos sentimentos de ligação à terra mãe, papel que, face à contínua renovação das gerações, exige um constante, crescente e empenhado esforço. Igualmente importante neste desiderato é o papel das instituições de Macau de matriz essencialmente macaense, como a APIM – Associação Promotora da Instrução dos Macaenses e a ADM – Associação dos Macaenses, unidas num esforço de preservação das tradições, usos e costumes, como o do seu dialecto, o patois. A administração portuguesa de Macau, que dirigi nos seus últimos anos, no respeito e espírito das relações de amizade e cooperação entre Portugal e a China, fez todos os esforços para procurar garantir condições de continuidade da especificidade própria e singularidade de Macau e da sua população, de onde sobressaem as comunidades macaenses do exterior e, como tal, as suas legítimas representantes institucionais no mundo, as Casas de Macau. Saliento neste contexto o apoio dado à Casa de Macau em Portugal quer directamente quer através da criação da Fundação Casa de Macau, na consolidação da qual devo igualmente fazer sobressair, sem diminuir o mérito da actuação de todos os outros, o nome de um dos seus fundadores e seu primeiro Presidente, Luís de Guimarães Lobato. Tendo passado a assumir um papel ainda mais importante após a transferência da administração em Dezembro de 1999, congratulo-me pelo facto da diáspora macaense, através das Casas de Macau, poder contar com a actual Região Administrativa Especial de Macau da República Popular da China, a qual tem dado importantes sinais no apoio a esta comunidades que tem as suas mais profundas raízes no seu território. Constituindo ocasiões únicas para reflexão sobre o papel que os filhos da terra devem ter na divulgação e no engrandecimento e prosperidade de Macau, os Encontros das Comunidades Macaenses, iniciados em 1993, e que de três em três anos a RAEM tem continuado a acolher, são prova viva desta vontade. O empenhamento na preservação da identidade macaense encontra-se por outro lado hoje em dia alargado muito para além da ligação do sangue, devendo encarar-se um conceito alargado de comunidade macaense, onde se inserem, com relevante papel, as comunidades ligadas a Macau pela vivência e pelo afecto, designadamente as pessoas que viveram e trabalharam em Macau durante a administração portuguesa e aquelas que ainda lá vivem ou trabalham relativamente às quais é de ressaltar a instituição da Casa de Portugal em Macau.Termino desejando a continuação dos maiores sucessos a todas as Casas de Macau do mundo, em particular, nesta ocasião, à Casa de Macau de Portugal, no cumprimento do seu objectivo principal de apoiar e manter viva a identidade e singularidade das comunidades macaenses em Portugal, na RAEM e no mundo.” Estas palavras, sentidas e lúcidas, não só expressam um reconhecimento genuíno da obra realizada pelas Casas e outras associações macaenses, como também registam
  • 116 117 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I I F A L A R D E N Ó S - X I I Iexpectativas sobre o seu papel no seio da RAEM e no contexto da diáspora. Quanto aos Encontros das Comunidades Macaenses, para além dos intensos e agradáveis convívios que proporcionam e dos reencontros com a terra-mãe, familiares e amigos, eles devem ser, efectivamente, aproveitados como ocasiões para renovada reflexão sobre o presente e o futuro. Sob a liderança de José Luís de Sales Marques, presidente da comissão organizadora do próximo grande Encontro, que se realizará de 26 de Novembro a 2 de Dezembro, e também presidente do órgão executivo do Conselho das Comunidades Macaenses, cremos que, com a colaboração que se deseja de todos, este propósito poderá ser alcançado. Importa também, uma vez mais, fazer saber às autoridades da RAEM os serviços inestimáveis que as Casas de Macau podem prestar, na promoção e divulgação da RAEM e até no apoio a uma presença digna e eficaz da RAEM em actividades culturais, sociais e económicas levadas a efeito nos países e cidades onde elas funcionam. A sua disponibilidade e capacidade são mesmo enormes. Falta, porém, envolvê-las mais e proporcionar-lhes os meios necessários. Fundadores da casa de Macau em PortugalÉ justo, neste ano de comemoração dos 50 anos da Casa de Macau em Portugal, recordar os nomes dos seus 19 fundadores: Alberto Maria Alemão, António Maria da Silva, Armando Florêncio de Oliveira Hagatong, Augusto José Sousa Nolasco da Silva, Bernardo José da Silva Vidigal, Carlos Augusto Gonçalves Estorninho, Carlos José Cabral Duhau Laborde Basto, Edmundo Tércio da Silva, Eduardo de Almeida e Vasconcellos, Flávio José Álvares dos Santos, Gerardo Majella Rangel de Almeida, Henrique Ayala de Serpa Pimentel, Horácio José Garcia, João Pires Antas, José Maria Pinto Lello, Leopoldo Danilo Barreiros, Maria do Céu Saraiva Jorge Jacob, Mariano Alberto Tamagnini Barbosa e Raúl Vasco Garcia Cabral. Para todos eles vão as nossas homenagens. 8 de Agosto de 2016
  • 118 119 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I I F A L A R D E N Ó S - X I I IJá está publicado o 8.º volume da série de estudos produzidos pela Associação de Macau de Investigação do Delta do Rio das Pérolas e publicados pela agência MacauLink, com apoios da Fundação Macau e do Instituto Internacional de Macau. Em foco estão as cidades de Zhaoqing e Huizhou, a primeira situada a oeste de Guangzhou (Cantão) e a outra a leste desta grande metrópole do Delta e de Dongguan, outra urbe que conheceu uma impressionante expansão.Neste artigo falaremos de Zhaoqing, deixando para o próximo uma apreciação da situação actual de Huizhou. Escolhemos algumas passagens bastante elucidativas deste livro de Thomas Chan e Louise do Rosário: Zhaoqing, passado e presente “Zhaoqing é uma cidade/município com uma população de quatro milhões de pessoas que se situa na zona ocidental do Delta do Rio das Pérolas, na província de Guangdong. O Rio Xi, o principal afluente do Rio das Pérolas, atravessa a cidade e o município. O registo histórico da presença humana é um dos mais antigos da China, tendo a região servido como importante centro administrativo e militar ao longo da sua história. Em 1118, durante a Dinastia Song (960-1279), o Imperador Huizhong atribuiu à cidade o nome de Zhaoqing, que quer dizer ‘o início da sorte e da felicidade’. A sua história rica e repleta de acontecimentos notáveis deixou muitas relíquias, templos e monumentos, o que faz com que seja um dos destinos turísticos mais populares no sul da China.Durante o período das reformas económicas, a partir de 1978, a economia da cidade desenvolveu-se rapidamente à semelhança de outras do Delta do Rio das Pérolas, 8.º volume sobre o delta do rio das Pérolas: Zhaoqing e Huizhou“Durante o período de reformas económicas, a partir de 1978, a economia da cidade desenvolveu-se rapidamente à semelhança de outras do Delta do Rio das Pérolas, tendo a sua economia deixado de ter por base a agricultura para passar a estar centrada na indústria.” tendo deixado de ter por base a agricultura para passar a estar centrada na indústria. Esta evolução da cidade de Zhaoqing seguiu um modelo em tudo semelhante ao aplicado em outras cidades do Delta. A cidade conseguiu atrair investimento externo, em primeiro lugar de Hong Kong, Macau e dos chineses ultramarinos, particularmente daqueles que tinham laços com a cidade; e o sector privado foi encorajado, tendo-se tornado num factor chave da economia local. Mais tarde chegou o investimento estrangeiro. Mas a dimensão deste investimento foi sempre inferior ao das outras cidades da província de Guangdong, muito particularmente Cantão, Foshan, Shenzhen, Dongguan e Zhongshan. Em 2014, o PIB de Zhaoqing situava-se em 10.º lugar no conjunto das cidades de Guangdong. Há varias explicações para este facto: A primeira delas decorre do facto de Zhaoqing não ser uma Zona Económica Especial, não podendo, por isso, oferecer condições preferenciais aos investidores como existem noutras cidades que gozam deste estatuto. A segunda resulta de a cidade ser, de entre todas as do Delta, a que se encontra mais afastada do mar, pois está ligada ao Mar do Sul da China apenas através do Rio Xi, afluente do Rio das Pérolas. A terceira é explicada pelo facto de, nos primeiros anos do período de reformas económicas, a cidade dispor de uma rede de transportes de fraca qualidade e incapaz de movimentar grandes quantidades de produtos importados ou para exportação. A quarta está relacionada com a sua população ser diminuta e, por isso, não poder contar com uma base industrial abrangente. E, por fim, a quinta nota tem a ver com a zona central do distrito ser plana e as zonas envolventes estarem rodeadas de montanhas arborizadas. Por tudo isso, os investidores, tanto chineses como estrangeiros, preferiram cidades como Shenzhen e Cantão, com excelentes ligações rodoviárias, marítimas e aéreas com Hong Kong e com o resto do mundo e
  • 120 121 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I I F A L A R D E N Ó S - X I I Ique detêm uma rede de infra-estruturas sofisticadas. Foram precisamente estas cidades que acabaram por surgir como os expoentes máximos, em termos económicos, na zona do Delta. (…)A cidade fica localizada a ocidente de Foshan e de Cantão. A fim de garantir o seu desenvolvimento futuro, o governo provincial de Guangdong decidiu ligar Zhaoqing a estas duas cidades mais importantes. A ideia subjacente é fortalecer a cidade menos desenvolvida das três, através do estabelecimento de uma ligação às duas economias mais fortes. O governo provincial seleccionou três grupos de cidades semelhantes no seu plano para o período de 2010 a 2020: Guangzhou-Foshan-Zhaoqing, Shenzhen-Dongguan-Huizhou e Zhuhai-Zhongshan-Jiangmen. As autoridades provinciais designam tais associações como ‘círculos’, tendo por base o princípio de que as economias de cada grupo de três cidades cresçam em conjunto e de uma forma harmoniosa.”Zhaoqing em númerosOs números são esclarecedores, permitindo entender a dimensão do crescimento alcançado:“A cidade registou um Produto Interno Bruto de 184,5 mil milhões de yuans em 2014, um acréscimo anual de 10%. O sector primário atingiu 27,2 mil milhões de yuans (mais 4,3%), tendo sido responsável por 6,1% do crescimento do PIB. O produto do sector industrial atingiu 92,3 mil milhões de yuans, um acréscimo de 14% e representando 68,7% do crescimento do PIB; e o sector dos serviços atingiu um produto de 65 mil milhões de yuans, mais 7%, e responsável por 25,1% do aumento do PIB.Os seus principais produtos agrícolas são: cereais, cana-de-açúcar, fruta, chá, oleaginosas e vegetais. A produção de carne atingiu 428 mil toneladas em 2014, tendo a carne de porco aumentado 4,5% para 322 mil toneladas. A produção de pescado aumentou 6% para 401,7 mil toneladas. Os principais produtos dos diferentes sectores da indústria são: automóveis, máquinas eléctricas, têxteis e materiais de construção. Em 2014, as empresas privadas chinesas registaram o maior crescimento anual, com 16%, a que se seguiram as que têm capitais estrangeiros (mais 13,6%) e, por último, as empresas públicas, com um crescimento de 4,9%. As empresas com capitais estrangeiros incluem investidores de Hong Kong, Macau e Taiwan.O comércio externo ascendeu a 7.842 milhões de dólares em 2014, um acréscimo anual de 11,8%, do qual 4.617 milhões foram de exportações (menos 4,3%) e 3.225 milhões de dólares foram de importações, um acréscimo anual de 47,2%. Os principais produtos exportados foram máquinas eléctricas e produtos de alta tecnologia, com as empresas de capitais estrangeiros a chamarem a si 2.210 milhões de dólares e as empresas privadas locais 1.435 milhões de dólares. Os principais mercados de exportação foram Hong Kong, Estados Unidos e União Europeia. Ao longo de 2014, houve 107 projectos com investimento estrangeiro, uma queda homóloga de 17,1%, o investimento estrangeiro contratado atingiu 3,33 mil milhões de dólares (mais 7%) e o investimento estrangeiro realizado atingiu 1,33 mil milhões de dólares, ou seja, mais 7,3%. (...) Em 2014, o porto de Zhaoqing movimentou 30,71 milhões de toneladas de carga, um aumento de 4,4%, incluindo 728,4 mil contentores com um crescimento de mais
  • 122 123 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I I F A L A R D E N Ó S - X I I I5,2%. No final do ano a cidade contava com 265,4 mil automóveis, um aumento de 12,7% e, deste total, 234,8 mil eram automóveis particulares, número que cresceu 16,2% em termos anuais.”A proximidade de Macau recomenda que continuemos a acompanhar atentamente a evolução económica das outras cidades do Delta e interpretar as implicações e o sentido do seu desenvolvimento. 8 de Agosto de 2016O 8.º volume da série de estudos produzidos pela Associação de Macau de Investigação do Delta do Rio das Pérolas foi objecto de apreciação no nosso artigo anterior. Intitulado “Zhaoqing e Huizhou – Cidades rumo ao desenvolvimento”, os seus autores são Thomas Chan e Louise do Rosário, especialistas em temática relacionada com o desenvolvimento da China. Analisadas as potencialidades e a situação actual de Zhaoqing, vamos debruçar-nos agora sobre Huizhou, cidade portuária histórica que soube abraçar as novas tecnologias, sendo hoje um importante centro de produção de telefones móveis e das indústrias petroquímica e informática, a par de um destino turístico e porto fluvial em crescimento. O município tem presentemente cerca de 4,6 milhões de habitantes e dispõe de uma área de 10.655 quilómetros quadrados. centro de novas tecnologiasReconhecendo a sua relevância no Delta do Rio das Pérolas, que é uma das zonas de maior desenvolvimento físico, industrial e tecnológico em todo o mundo, o Governo central chinês classificou Huizhou, em 2015, como município histórico e cultural. A sua história data do período neolítico e a localidade começou a ganhar influência na dinastia Sui (581-618), como um dos centros políticos, económicos e culturais da Província de Guangdong. A vocação de Huizhou no delta do rio das Pérolas“Tendo chegado tarde ao ‘comboio da industrialização’ do Delta do Rio das Pérolas, Huizhou beneficiou da vantagem de poder fazer a sua própria escolha estratégica. Perdeu a primeira fase do desenvolvimento industrial voltado para a exportação, mas começou a desenvolver a sua economia na altura em que Shenzhen se estava a centrar no desenvolvimento dos computadores e das telecomunicações”
  • 124 125 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I I F A L A R D E N Ó S - X I I INos séculos XIX e XX, as guerras civis, conflitos internos, a ocupação japonesa e as primeiras décadas do regime comunista provocaram-lhe uma prolongada estagnação económica, até à abertura da China no fim da década de 1970, não tendo, porém, sido escolhida como cidade prioritária na fase inicial do desenvolvimento do Delta. Arrancou depois, quando as novas tecnologias ultrapassaram os têxteis e as indústrias tradicionais como núcleos principais do planeamento estratégico, e rapidamente apanhou o comboio do “milagre económico”, apostando na produção global de telemóveis, a ponto de concentrar nas suas fábricas cerca de 12% da produção mundial. Em 2014 foram ali produzidos 263 milhões de telemóveis e 298 milhões de pilhas de lítio. Grandes empresas instalaram em Huizhou os seus centros de formação e de pesquisa, atraindo quadros técnicos de elevada competência. O investimento em investigação e desenvolvimento representou, em 2015, o notável valor de 4,8% do PIB. A Zona de Desenvolvimento Industrial de Alta Tecnologia Zhong Kai (de Huizhou), onde se concentra a maior parte das empresas de alta tecnologia, tem uma produção correspondente a mais de 20% do PIB local. caracterização da economiaEm traços largos, é assim caracterizada, no livro, a situação económica: “Huizhou é muito semelhante a outras cidades no Delta do Rio das Pérolas. No período antes das reformas e da abertura da sua economia, em 1978, era fundamentalmente uma economia virada para a agricultura. Então, decidiu aproveitar as novas políticas para diversificar o seu planeamento económico. O governo local ofereceu terrenos a bons preços e importou mão-de-obra do interior do país a fim de atrair capital de Hong Kong, Macau e dos chineses ultramarinos. A estes seguiram-se investidores de Taiwan, Japão, América do Norte e Europa. O município concorria – e ainda concorre – de uma forma feroz com outras cidades de Guangdong e do resto da China para atrair investidores, tanto chineses como estrangeiros. As autoridades locais têm beneficiado de algumas vantagens nesta competição por atrair capital de fora. A mais importante dessas vantagens é a localização geográfica do município. Huizhou tem uma situação adjacente a Shenzhen, a maior e a mais bem-sucedida Zona Económica Especial (ZEE) da China. Tanto Huizhou como Dongguan, a outra cidade vizinha da ZEE, cresceram em parte devido a essa proximidade de Shenzhen. Além disso, tem 220 quilómetros de costa e fica localizada numa das margens da baía Daya, sendo que na outra margem fica Hong Kong. Nesta baía, em Shenzhen e não em Huizhou, encontra-se a central de energia nuclear da Baía Daya. Esta central tem dois reactores nucleares que produzem 944 megawatts de energia eléctrica que entraram em exploração comercial em 1993 e 1994, respectivamente. Esta central é controlada em 25% pela China Light & Power Holdings, empresa cotada na Bolsa de Valores de Hong Kong, e um dos fornecedores de energia eléctrica. A empresa compra 75% da produção da central nuclear a fim de abastecer a cidade de Hong Kong. Os restantes 75% são controlados pela Guangdong Nuclear Investment, uma subsidiária controlada a 100% pelo China General Nuclear Power Group.
  • 126 127 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I I F A L A R D E N Ó S - X I I IHuizhou dispõe igualmente de um dos melhores portos naturais no sul da China. Dispõe também de excelentes ligações rodoviárias e ferroviárias com Hong Kong e outras cidades.”Petroquímica e electrónicaThomas Chan e Louise do Rosário sintetizaram deste modo os sucessos alcançados em Huizhou nos sectores da petroquímica e da electrónica:“O desenvolvimento da indústria petroquímica tem sido um caso de sucesso. O sector atraiu investimento por parte de algumas das maiores empresas mundiais, tanto chinesas como estrangeiras. Em Novembro de 2002, Huizhou iniciou a construção do que era na altura considerado o maior projecto público-privado na China – a Nanhai Petrochemicals, uma parceria entre a Royal Dutch Shell e a China National Offshore Oil Company, envolvendo um investimento de 4,3 mil milhões de dólares. O complexo tem 11 unidades de processamento. (...)A electrónica provou igualmente ser um bom investimento. Algumas empresas em Huizhou, caso da TCL, a sua marca mais famosa, conseguiram acompanhar o rápido desenvolvimento do sector bem como a procura por parte dos consumidores e enfrentar a concorrência, tanto da Coreia do Sul como do Japão. O município conseguiu atrair algumas das empresas da lista da revista Fortune 500, como a General Electric, Sony, Panasonic, Samsung, LG e Philips, que ali montaram centros de produção ou de pesquisa e desenvolvimento. Um dos maiores investidores estrangeiros foi o grupo sul-coreano Samsung. Em 2014, este grupo produziu nas fábricas em Huizhou 180 milhões de telefones móveis, correspondente a 33% da produção total do grupo.” confiança no futuroAlém das indústrias e das empresas atrás identificadas, Huizhou soube atrair alguns dos maiores investidores do mundo, como a Desay Group, grande fabricante de componentes electrónicos para automóveis, comunicações móveis, novas energias e iluminação, a Viasystems, que produz placas para colocação de circuitos bem como outros componentes, a Walmart, que é o maior grupo retalhista mundial, e a Aeon, que é o maior retalhista da Ásia. Também ali estão unidades da Siemens, além de empresas chinesas ligadas às novas tecnologias. Os produtos exportados a partir de Huizhou atingiram valores elevados, tendo no ano passado ultrapassado os 20 mil milhões de dólares americanos. 15 de Agosto de 2016
  • 128 129 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I I F A L A R D E N Ó S - X I I IPor iniciativa do Instituto Internacional de Macau (IIM), foi dado início, logo em Janeiro, às comemorações do centenário do nascimento do Pe. Benjamim Videira Pires, S.J. (1916-1999), com uma singela e bonita sessão protagonizada pela professora e investigadora Beatriz Basto da Silva. Outras instituições locais, públicas e privadas, podiam complementar essa actividade com mais realizações, como sejam palestras, artigos e edições, sendo oportuníssima a republicação de algumas das suas obras mais emblemáticas e a compilação de trabalhos que ficaram dispersos por diversos jornais e revistas. Vamos a isso?Com referência constante ao livro “P. Benjamim Videira Pires, Meu Irmão”, do Pe. Francisco Videira Pires (IIM, Agosto de 2011), pudemos recordar, em artigos anteriores, o historiador, o missionário e o educador. Importa observar também uma faceta muito relevante da sua intervenção cívica e de apostolado, que foi o jornalismo, como instrumento de divulgação e informação e também de saudável e necessário combate por causas por ele assumidas com convicção e espírito de missão:religião e Pátria“Desde que nasceu, o jornal foi sempre instrumento privilegiado, para expandir ideias. Mais efémero que o livro, tem sobre este a vantagem do êxito imediato. Aí a razão por que as épocas revolucionárias o consideram arma principal de combate e triunfo. Conhecendo o primeiro grande surto com a Revolução Francesa, marca ela também o aparecimento do jornalismo em sentido moderno. (…) Ao fixar-se definitivamente em Macau, o P. Benjamim encontrou Religião e Pátria da religião e Pátria à confluência“A vastidão da sua cultura, que lhe permitia passar, com todo o à-vontade, da espiritualidade à teologia, à crítica literária e à história, vinha servida por um estilo corredio, do melhor talho camiliano.” Francisco Videira Pires, S.J.como revista semanal, fundada cerca de 40 anos antes pelos jesuítas portugueses que lá missionavam. Dirigia-a, na altura, o seu confrade P. António Bernardo Gonçalves, que não tardaria a substituir, quando este voltou como Superior para Goa, onde teria de passar, com outros, como o P. Rogério Frutuoso, S.J., doloroso calvário, por parte de jesuítas nativos, inflados de separatismo nacionalista. A 6 de Janeiro de 1955, assume a direcção, que manteria durante uma boa dúzia de anos. Órgão da Ordem, como veículo das suas obras apostólicas, nomeadamente o Apostolado da Oração, procurou rasgar-lhe abertas para toda a cultura universal, caldeada na frágua do Evangelho. Fugindo, porém, a tudo que rescendesse a incenso de sacristia. Cria secções novas. Com apanhados muitos completos do noticiário local e internacional, uma secção juvenil, outra recreativa, os seus fundos, variando entre problemas circunstanciais de religião e cultura geral, embora anónimos ou assinados apenas pela inicial B., impõem-se logo pela mestria pensante, como também pelo estilo muito limpo. Difícil encontrar documento que nos transmita, com tanta fidelidade, a sua maneira de ser, pensar e sentir. Nos poemas que vai publicando, nas referências a individualidades nacionais, internacionais ou locais, aplaudindo ou censurando ocorrências emergentes, doutrinando ou divertindo, com algum conto, pessoal ou adaptado, lemos, como por um livro, dentro da sua alma. Por isso, ao compulsar, agora, de novo, os números da sua direcção que a mãe religiosamente arquivava (faltam alguns, infelizmente), porque escrevia para leitores concretos, tinha a ilusão de que ele estava outra vez diante de mim, num ‘estilo falado’, como se classificou a prosa matinal de Fernão Lopes. (…)
  • 130 131 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I I F A L A R D E N Ó S - X I I IAssim, durante cerca de 12 anos. A vastidão da sua cultura, que lhe permitia passar, com todo o à-vontade, da espiritualidade à teologia, à crítica literária e à história, vinha servida por um estilo corredio, do melhor talho camiliano. Ensaios sobre literatura espanhola, chinesa, com a tradução pessoal de poemas admiráveis, e portuguesa, bem mereciam, na maior parte, publicação em volume.”confluênciaBenjamim Videira Pires ofereceu colaboração a diversos outros órgãos de imprensa, mas foi o quinzenário confluência que, durante dois anos, mereceu a sua intensa e obstinada intervenção:“O ‘Verão quente’ do 25 de Abril, que deu origem a esse jornal, abalou-o profundamente. Um abalo comedido pela convicção, dolorosamente vivida, de que a missão de padre não estava na política em acto exercido. Visitou-me, por esse tempo, em Petrópolis, em cuja Universidade Católica eu ensinava. Levei-o ao deslumbramento das ‘cidades históricas’ de Minas Gerais: Ouro Preto, Congonhas e Sabará. Chegámos à primeira, ao crepúsculo. Assomando à varanda do hotel, perante a cascata iluminada do casario, espraiado morros abaixo, exclamou: Se Portugal acabasse, gostaria de vir morrer a esta terra tão ‘portuguesa’. O Confluência revelou uma fase inédita do P. Benjamim, o humorista. Um humorismo diluído em símbolos e alegorias, que são, as mais delas, pequenas jóias literárias, sempre anónimas. Vejam só este parágrafo dum trecho intitulado O tocador de caixa: ‘A figura mais ridícula para a rapaziada, na banda de música de certa aldeia, era o tocador de caixa, de nome Elisário. Sobressaía um palmo, acima da cabeça dos companheiros, erguia as varetas com estilo e presunção, enquanto as suas pernas cambas iam desenhando, através das ruas, um X maiúsculo, que servia de cavalete ao instrumento monocórdico, no intervalo entre duas peças: ‘trapo, saca-trapo, saca-trapo’.Acompanhei de perto esses dois anos do jornal. Até porque lá vieram, com o pseudónimo de Carlos Azevedo, bastantes artigos meus, logo parcialmente refundidos na dura análise sociológica da ‘revolução dos cravos’ A manhã sobre a cidade (Lello, Porto 1979), que, em Portugal, foi best-seller. Acompanhei, por isso, de perto, em cartas quase semanais, essa fase da sua actividade jornalística. Reveladora, em muitos aspectos. E anónima ou com disfarces fáceis de identificar, porque alguma secção, como Calçada das verdades, lembrava lugares que lhe eram especialmente familiares, ou surgia assinada Maninho Fernandes, nome do avô materno. Esbatidas na bruma dos anos que lhe passaram em cima, muitas dessas páginas, particularmente as de estilo figurado, não perderam actualidade, e bem mereciam selecção cuidada, com alguns contarelos deliciosos, dispersos por Religião e Pátria, talvez com o título de Parábolas dum tempo sem tempo. Constituiria uma das homenagens mais perduráveis ao missionário que a Macau lusíada se deu, em alma inteira. Até pela exemplaridade da sua crítica. ‘Ridendo castigat mores’, aprendera ele com um velho satírico romano. Mais que gargalhar, com travo sarcástico, o P. Benjamim sorria dos disparates desses revolucionários da fancaria, que pensavam inventar o mundo, antes de aprenderem simplesmente a pensar, o que equivalia primariamente a pesar cada decisão. Sem gota de ódio, a escorrer duma só palavra. Antes amor ferido, procurando sempre salvar.”
  • 132 133 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I I F A L A R D E N Ó S - X I I INos alvores da revolução de Abril, na fase ainda muito confusa de afirmação do novo regime instaurado em Portugal em 1974, o jornal confluência travou com outro órgão político, intitulado democracia em Marcha, aquele que foi, certamente, um dos mais extremados despiques de que há memória neste território. Pertenciam, respectivamente, à Associação para a Defesa dos Interesses de Macau (ADIM) e ao Centro Democrático de Macau (CDM). 22 de Agosto de 2016O livro “Os extremos conciliam-se (transculturação em Macau)” é, na opinião de muitos, a obra mais importante e influente do Pe. Benjamim Videira Pires. Publicado em 1988 pelo Instituto Cultural de Macau, ela reúne um conjunto de ensaios histórico-antropológicos que condensam o pensamento e a visão do autor, suscitando uma continuada reflexão sobre o percurso e o papel de Macau, bem como o “rico e humaníssimo legado” que pertence à história e “projectar-se-á, por longos anos, no futuro”. Francisco Videira Pires, S.J., revela-nos em “P. Benjamim Videira Pires, Meu Irmão” (Instituto Internacional de Macau, 2011) como tomou contacto com este trabalho ainda manuscrito, numa das visitas que efectuou a Macau:uma surpresa inimaginável“No quarto dele, sobressaía logo, em cima da secretária, com obras preciosas de consulta constante, uma rima de papéis anotados e um manuscrito. Que ocultava surpresa inimaginável. Nada mais nada menos que Os extremos conciliam-se, à espera dos últimos retoques. Julgava conhecer bem meu irmão, com aquilo de que ele seria capaz. O que nunca suspeitaria era que ele escrevesse um livro de antropologia, e logo obra que, relativamente a Macau, me lembrou monografias de referência, como os clássicos The chrysanthemum and the sword, de Ruth Benedict, e Japanese society, de Chie Nakane. Tinha nas minhas mãos um manuscrito, que, dada a afinidade com o meu campo de estudos, meu irmão, com a humildade que o marcava, me pediu para ler, ‘corrigindo’ o que entendesse. os extremos conciliam-se“Bastava este livro para o relevar como uma referência incontornável no debate da sinologia portuguesa contemporânea, porque convoca para reflexão a filosofia e a religião, a ética, a moral e a antropologia.” António Aresta (“Figuras de Jade”, IIM, 2014)
  • 134 135 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I I F A L A R D E N Ó S - X I I IComecei de pé atrás. Mal terminara o primeiro capítulo, já uma vaga de espanto me ia dominando. Demais recordava eu o velho provérbio: ‘Quod natura non dat, Salamanca non praestat’ (Salamanca não fornece o que a natureza não dá). Mas fui-me lembrando da capacidade de intuição e da avidez cultural insaciável de meu irmão. E, chegando ao fim, compreendi como, sem nunca ter cursado antropologia, ele a adivinhara, na faceta mais legítima e actual. O termo aparece em 1501, dentro do pensamento humanista, para designar todo o tipo de saber respeitante ao homem. Mas só na segunda metade do século XIX se autonomiza como ciência, cobrindo-se logo de prestígio. Posteriormente, em meados do século passado, estendeu o interesse, já com o último Malinowski e sobretudo Norbert Elias, ao comparativismo das formas sociais da cultura. Nada mais legítimo. Nas últimas décadas, contudo, esqueceu que os arquivos de dados de institutos científicos norte-americanos guardam uma riqueza quase inesgotável de factos em bruto. Ora, na crise mortal de indefinição, que já Malinowski verificava (Malinowski, 1968, 176 segs.), como lucidamente observa um mestre, vem-se assemelhando, cada vez mais, a ‘uma sabedoria cujas vastas ambições de definição e de programa, encobrem uma acumulação desconexa de elementos a mais’. Perdendo o sentido indispensável dum objecto específico e exclusivo, descaracteriza-se, arriscando-se a converter-se em ideologia. O que Benjamim evita, sabiamente guiado pelo confronto aberto entre culturas muito diferenciadas. Comparativismo que foge tanto ao evolucionismo, como ao difusionismo. Sabendo que semelhança não envolve necessariamente dependência, preferiu mostrar como, passo a passo, duma interculturação lenta e continuada, no diálogo pacífico de séculos, surgiu o milagre duma transculturação, mais concreta que o lusotropicalismo de Gilberto Freyre. A perspectiva histórica abre o passo à exposição antropológica. A miscigenação (biológica, linguística, sapiencial e religiosa) efectiva-se, apoiada numa práxis portuguesa, que meu irmão chamava ‘política do bambu’, que dobra, aguenta ventos e marés, mas não quebra.” uma apreciação críticaFrancisco Videira Pires também nos faculta esta oportuna apreciação:“Os capítulos da obra obedecem a um verdadeiro processo hegeliano de afirmação, negação da afirmação e negação da negação. Para, assim, tudo resultar num mundo novo, que já não é chinês nem português, mas intensamente luso-chinês ou sino-lusíada, se preferem. Podem os actores em presença usar línguas muito diferentes. Uma realidade mais dinâmica sobreleva essa distância. É uma mundividência cultural de convívio, em que a plasticidade adaptativa do china e do luso cria uma capacidade de compreensão mútua, que acabou por superar todas as outras distâncias. Sempre me fez sorrir a estranheza, quase escândalo, do metropolitano arribadiço, ao censurar o reduzido número de gente de etnia oriental a falar português. A antropologia conhece, desde as origens, a explicação. A língua não é factor primário de fusão. Nem sequer de nação. Outras componentes culturais pesam mais que ela. E Os extremos conciliam-se classifica-as e salienta-as bem.
  • 136 137 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I I F A L A R D E N Ó S - X I I IPara não alongar este apartado, e porque a análise exaustiva da obra pediria quase um livro de dimensões iguais, saliento apenas três aspectos, que, na perspectiva antropológica, considero relevantes: um certo relativismo histórico, o bailado da toponímia e a interfusão de provérbios. Quem passe os olhos apenas pelo índice do livro, sabendo o conhecimento minucioso que o P. Benjamim tinha da historiografia de Macau, poderá incorrer na impressão redutora de estar diante duma síntese da vida do território, ao longo dos séculos. Nada menos exacto. O que surpreende, num homem que trazia na ponta dos dedos toda a bibliografia e documentação arquivística da terra, é a relativização com que incorpora os materiais genuinamente históricos, num trabalho que, explicando o fluir dos factos, em tempo e espaço, ultrapassa a unicidade e irrepetibilidade da historiografia, para captar e fixar o que vai permanecendo, para além de anos e séculos, cristalizado numa cultura inteiramente original. Mons. Manuel Teixeira, com a persistência beneditina que o caracteriza, dedicou à toponímia macaense uma encorpada monografia de 2 volumes compactos, que nos permite acompanhar as flutuações por que ela passou, nestes quinhentos anos de presença lusa no território. Por outro lado, possuímos um extenso repositório comparativo de provérbios chineses e portugueses, que nos levam a compreender como, para além do distanciamento linguístico, uma sintonização mental muito secreta possibilitava a conciliação de culturas aparentemente muito distanciadas. (…)Na sua contenção exemplar, equilibrando sempre a extensão do texto com o essencial da documentação de apoio, Benjamim não se alonga em pormenores laterais dessa documentação. Um número restrito de exemplos, tanto de topónimos como de provérbios, apoia cada ideia, no que importava estabelecer. Se a toponímia, em tempos e lugares mais expressivos da existência comunitária, lhe revelava a consolidação da hábitos de convivência radicada e perpetuada, a paremiologia patenteava-lhe a progressiva cristalização duma sabedoria, que, muito mais que expressão abstracta de cultura materializada por escrito, o metia dentro duma idiossincracia, tão viva como vivida.”É oportuno e desejável promover a republicação desta obra. 29 de Agosto de 2016
  • 138 139 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I I F A L A R D E N Ó S - X I I IPoucos anos após a sua criação, em 1982, o Instituto Cultural de Macau já se lançava numa intensa, diversificada e consequente acção em variados domínios, incluindo o da produção editorial. Neste contexto, em 1987/88 publicou três importantes obras do Pe. Benjamim Videira Pires, S.J., uma das personalidades mais marcantes do panorama cultural macaense da segunda metade do século XX. Esses livros foram “A Embaixada Mártir” (2.ª edição), “Portugal no Tecto do Mundo” e “Os Extremos Conciliam-se (Transculturação em Macau)”, sendo este último justamente considerado o seu mais influente e relevante trabalho, reunindo um conjunto notável de ensaios histórico-antropológicos, enquadrados por uma introdução e um epílogo que sintetizam o pensamento e a visão do autor sobre a “transculturação criadora” operada em Macau ao longo de séculos, “osmose contínua e sem datas, em corpo e alma, de tudo o que somos e temos, entre homens e povos que sabem conviver, com toda a abertura de espírito ecuménico”, representando “a síntese vivencial que este pedaço de história luso-chinesa plasmou solidamente, num tempo e espaço definidos.”Os ensaios inseridos neste precioso volume constituem fontes incontornáveis para investigadores da história, da memória e do legado de Macau. São estes os seus elucidativos títulos: “Panorâmica das relações sino-europeias até ao século XVI”, “Isolamento ou abertura da China Antiga ao mundo?”, “A China dos Mings, à data da chegada dos portugueses”, “A fundação de Macau”, “A ‘Mãe das Missões’ no Extremo Oriente”, “A alma da China”, “Tanta foi a tormenta e a vontade”, “Pontos de encontro do homem português com o chinês”, “A Fonte do Nilau ou Poço da Avó”, “Influências mútuas: sino-lusos e luso-chineses”, “O Foro do Chão”, “A Primeira Polícia de Macau”, Transculturação criadora em Macau“O Império da Grande Claridade acolheu, sem complexos e com extraordinário sentido pragmático, o hóspede que veio como ‘irmão de um dos quatro mares’ e com ele partilhou a terra, a comida, a cultura, a riqueza e o próprio sangue, recebendo, em contrapartida, tudo quanto possuíamos...” Da introdução a “Os Extremos Conciliam-se (Transculturação em Macau)” “Macau e Portugal antigos, vistos por olhos chineses”, “Terra e Mar cosmopolitas”, “Comerciantes estrangeiros, em Macau, nos séculos XVIII e XIX”, “D. Alexandre de Gouveia, os Padres da Missão e o regresso dos Jesuítas”, “Os Governadores e a vida de Macau, no século XIX”, “A ‘Cidade China’, há cem anos”, “Desenvolvimento moderno do Ensino” e “As ondas da imigração”. comemorar o centenárioJá o fizemos várias vezes e voltamos agora, a propósito da comemoração do centenário do nascimento do autor (1916-1999), a apelar à republicação das suas obras, ou pelo menos desta que, além de fundamental, continua a suscitar interesse académico.O Instituto Internacional de Macau, que enriqueceu a sua colecção “Missionários para o Século XXI”, em 2011, com o livro “P. Benjamim Videira Pires, Meu Irmão”, de Francisco Videira Pires, S.J., organizou, logo em Janeiro do corrente ano, uma memorável sessão evocativa da obra daquele sacerdote, pedagogo, historiador e escritor, a qual foi muito bem protagonizada pela professora e investigadora Beatriz Basto da Silva. Na ocasião, ela não deixou de reafirmar a “necessidade de reunir a obra dispersa do padre Videira, nomeadamente os artigos que escreveu na revista ‘Religião e Pátria’ e em todas as publicações em que colaborou”. Sabemos que a Revista de Cultura do agora denominado Instituto Cultural do Governo da Região Administrativa Especial de Macau vai ter, no próximo número da sua edição internacional, um amplo espaço, com contributos vários, dedicado ao centenário que merecia uma celebração muito mais completa.
  • 140 141 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I I F A L A R D E N Ó S - X I I IHumaníssimo legadoNo epílogo, Benjamim Videira Pires oferece-nos as suas conclusões, em esclarecedora síntese: “Sempre julguei apriorísticas e arbitrárias as duas divisões da história do mundo, em Oriente e Ocidente e em Norte e Sul. Com mais razão ainda, me oponho à sua polaridade e atitude conflitual”. “Não há, nem nos indivíduos nem muito menos nas nações, catalogações estanques e graficamente homogéneas. Todos os povos andarilharam livremente pelo orbe e conquistaram a autonomia política e cultural, como puderam. A vida do homem não estagna, nem pára. É um projecto, uma descoberta, em acção contínua, quando as suas mínimas particularidades nos escapam”. “Os mais de quatrocentos anos da história de Macau provam, à saciedade, que não há extremos antagónicos ou irreconciliáveis entre os homens, mesmo antípodas, desde que cada um seja para o seu semelhante o que deve ser: sempre igual a si mesmo, amigo, irmão.”Mais adiante, o autor explica lapidarmente o conceito de transculturação, em oposição a aculturação: “O fenómeno da transição de uma cultura para outra, com funda impregnação mútua e natural aproximação e convivência, no mesmo solo e ambiente, chama-se transculturação, processo mais completo que o da aculturação. Com efeito, aquela envolve não somente a ideia de aquisição de elementos novos (neoculturação), mas ainda a transfiguração dos anteriores e velhos, significando, portanto, renovação e actualização constantes (desculturação). Por outro lado, a aculturação anda ligada à socialização, isto é, à transmissão de características culturais de determinado grupo às gerações diferentes, o que não sucede na transculturação.”Assim, “se toda a cultura é sucessivamente recebida, assimilada e transformada, num caldeamento de componentes endógenos e exógenos (em rigor, não há culturas exclusivamente nativas, porque todas, mesmo as arcaicas, representam já uma síntese interna e externa, de antigo e novo), em constante superação, este processo dinâmico tende sempre a ir além do que está, aí e agora.” Foi o que o autor detectou, na transculturação de Macau, “em religião (o seu ponto mais alto), nos produtos de consumo, na arte, na ciência, na formação da sociedade luso-chinesa.” Ao estudar este fenómeno “na colonização, na miscigenação, no vestuário, na tecnologia, na linguagem, na arquitectura, nos jogos e divertimentos, na pintura, na alimentação, em quase tudo o que pertence à vida”, pôde concluir que “os chineses, também ‘filhos da terra’, não são como os da China nem os da Formosa ou os Wa-K’ius (emigrantes)” e que o macaense “é o tipo societário menos europeu, mas o mais específico e paciente dos portugueses. É o que vive mais longe de Lisboa e, todavia, o mais patriota; o que habita mais separado do espaço vocabular da saudade (Galiza e Norte de Portugal) e, contudo, o mais saudoso, porque o mais isolado. As solidões imensas dos oceanos, das planícies e viagens sem fim, o mistério da alma oriental, que o envolve, caldearam-lhe a alma.”A surpresa que temos em Macau, “no contexto de dois mundos que pareciam antagónicos” tem paralelo no “país de contrastes” que é o Brasil, “porque os aspectos mais inesperados e aparentemente inconciliáveis ali convivem, lado a lado, casando-se numa harmonia superior, que só a complexidade viva, na natureza e na sociedade, alcança quando os elementos em presença se aproximam e conciliam, ao longo do tempo e do espaço.” Em Macau, a memória permaneceu e os sinais da presença cultural do Ocidente são visíveis, apesar de todas as vicissitudes. E “os riscos, tantos e persistentes, foram o cadinho que lhe acrisolaram a alma inconfundível”.
  • 142 143 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I I F A L A R D E N Ó S - X I I IBenjamim Videira Pires conclui as suas sábias e cristalinas reflexões, lembrando que “o passado de Macau é glorioso e belo”. “Teve solavancos, mas não fatalidades. O seu rico e humaníssimo legado pertence à história e projectar-se-á, por longos e longos anos, no futuro”. Assim seja! 5 de Setembro de 2016Uma parceria recentemente estabelecida pelo Instituto Internacional de Macau (IIM) com o Real Gabinete Português de Leitura do Rio de Janeiro incentivou jovens investigadores brasileiros a realizarem trabalhos relacionados com Macau, a memória de Portugal no Oriente e as relações da China com o mundo lusófono. Um dos primeiros, já publicado conjuntamente por aquelas duas entidades que têm desenvolvido uma estreita cooperação há mais de uma década e meia, intitula-se “As Festas da Casa de Macau do Rio de Janeiro”. Trata-se de um ensaio antropológico de Paloma Rodrigues Augusto, já lançado na sede daquela agremiação macaense em Outubro de 2015. Principais festasTendo como referências fundamentais a página virtual da Casa de Macau (http://casademacaurj.com) e dois livros do IIM (“Macau somos nós: um mosaico da memória dos macaenses no Rio de Janeiro”, de Andréa Doré, Anita Almeida e Carlos Moura, 2001, e “Filhos da Terra: a comunidade macaense, ontem e hoje”, de Alexandra Sofia Rangel, 2012) a autora, bacharel em Ciências Sociais, conduziu numerosas entrevistas e, como pesquisa de campo, frequentou a sede da Casa de Macau ao longo de quase um ano, marcando presença em todas as suas principais festas e convívios e recolhendo material necessário à produção daquele estudo que teve bom acolhimento no seio da comunidade. Começando por enquadrar as suas pesquisas nas concepções e definições de antropólogos como Bronislaw Malinowski, Evans-Pritchard, Clifford Geertz, Roberto da Matta e Gilberto Velho, que lhe proporcionaram “um manancial de reflexões sobre a prática da observação participante”, dando-lhe o “aporte teórico para a investigação” As festas da casa de Macau do rio de Janeiro“A Casa de Macau do Rio de Janeiro é o resultado justamente do desejo dos macaenses, que já se encontravam uns com os outros para confraternizações em suas casas, de ter uma sede própria para realizar suas festas e seus encontros, e assim vivenciar o que eles chamam de cultura macaense.”
  • 144 145 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I I F A L A R D E N Ó S - X I I Ilevada a efeito, a autora procurou, seguidamente, identificar e caracterizar as festas da Casa de Macau, descrevendo-as “do modo mais abrangente – embora o menos extenuante possível – a fim de que o leitor possa conhecer como são essas festas e suas dinâmicas, tratando em seguida da importância dessas festas para seus sócios macaenses”. As ocasiões festivas relatadas foram as seguintes: Ano Novo Chinês, Páscoa, Dia das Mães, Aniversário da Casa de Macau, em que também se comemorou o Dia de Portugal, Festa Julhina, Dia dos Pais, Festival Lunar, Festa da Primavera, Dia das Crianças, Festa do Brasil e Natal, “além de festividades que chamam de ‘almoço típico’ em alguns meses do ano, estabelecendo uma sociabilidade entre eles, a par da manutenção de alguns aspectos da cultura macaense, como sua culinária”.depoimentos de macaensesUma boa selecção fotográfica enriquece o texto da autora, o qual é complementado por testemunhos de sócios. Destacamos parcialmente aqui os de três antigos presidentes da Casa: “Para José Pina, a importância das festas da CMRJ consiste no fato que é através das festas nessa Casa que os sócios podem ter contato com as tradições macaenses, principalmente a gastronomia. Segundo ele, ‘Uma das tradições macaenses é a gastronomia. Por causa da cultura portuguesa e chinesa, a mistura dessas culturas gerou uma gastronomia macaense e essas reuniões nossas têm também como objetivo preservar alguma coisa entre as pessoas que vivem aqui. Talvez em outros países, tenha um objetivo maior, de congregar em função da língua. Os macaenses foram para Canadá, Estados Unidos e outros países, e tiveram alguma dificuldade de se adaptar, mas se adaptaram. (...) Aqui no Brasil, em função da língua, todo mundo se integrou no Brasil, então não é tão forte essa necessidade de integração, porque já é natural.’Mario Carion acredita que a CMRJ é um local para se transmitir as tradições de Macau, mas também destaca, assim como Pina, a importância da culinária macaense para essa comunidade: ‘Em relação às festas, tudo isso começou com um grupo pequeno, começou com uma brincadeira, jogando carta na casa de um e de outro, até pra matar o tempo, buscar matar saudade dos jogos e começou a formar um grupo pequeno e esse grupo falou: porque não montamos um tipo de uma associação nossa, até pra gente resgatar as nossas culturas, pra gente passar o que nós aprendemos para os nossos filhos. O que podemos passar? Primeiro, a culinária, há uma certa miscigenação que nós tivemos a oportunidade de participar, que trouxe culturas diferenciadas que, de certa forma, se aglutinaram pelo lado mais positivo do que negativo, até porque a convivência do macaense em Macau com os chineses e com os portugueses e os comunistas foi sempre muito harmoniosa, considerada muito calma.’ (...)A mais jovem presidente das Casas de Macau existentes ao redor do mundo, Iana Assumpção, fala da importância das festas da CMRJ, e problematiza o que é ser macaense, já que, por ter nacionalidade brasileira, alguns macaenses não a consideram macaense legítima, e sim uma ‘macaísta’, que pode ser uma expressão que reserva distintos significados em um determinado contexto. O depoimento de Iana revela um pouco da tensão existente em torno do que se chama de etnicidade na Antropologia, com sua reivindicação da identidade macaense e uma concepção que pretende não lhe dar o direito de assumi-la, em detrimento de sua convicção a esse respeito. ‘Eu
  • 146 147 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I I F A L A R D E N Ó S - X I I Ientendo que se eu vivo Macau, eu entendo Macau, se no meu dia-a-dia eu fico vivendo a cultura macaense, eu sou macaense, entendeu? Independentemente de onde eu nasci. (...) Eu acho que quando uma pessoa vem aqui pra o Brasil e começa a viver como carioca, ela já começa a se sentir carioca. Por que eu não posso me sentir macaense se eu vivo a cultura, aqui, de Macau? E a minha família sempre foi muito adepta da cultura, a gastronomia, o idioma, apesar de eu não saber o cantonês, eu corri atrás do patuá, então, o que me fez ficar mais focada em Macau, porque era aqui que eu encontrava outras famílias. (...) Você vive aquela cultura, você não consegue quando é criança identificar se é brasileiro ou macaense, é o que você vive. Eu vinha pra cá e via outras pessoas vivendo as mesmas coisas que eu, então foi aqui nas festas da Casa de Macau que eu me interessei mais por Macau, por isso que eu acho que a festa é importante. Porque foi vindo aqui uma vez por mês – a festa sempre foi assim, uma vez por mês – que eu me interessei mais por Macau e comecei a tentar ajudar nas festas, entrei na diretoria, agora estou como presidente. (...) Eu fico triste quando pessoas de Macau acham que eu não sou macaense. (...) Ser macaense é sentir Macau no coração, entendeu? Se você pensa em Macau e você age como se você estivesse em Macau, você é macaense, não precisa ter nascido em Macau.’conclusõesDepois das suas próprias observações e análises e das conversas úteis e agradáveis que manteve com sócios da Casa, a autora extraiu as seguintes conclusões: “vemos que o significado das festas da Casa de Macau do Rio de Janeiro é um pouco distinto de acordo com a posição de cada sócio: a que geração pertence, qual a sua participação na administração da CMRJ, seu lugar de autoridade entre membros da comunidade macaense nesta cidade. Entretanto, todos concordam que essas festas permitem que os laços entre eles se reforcem, que vivenciem aspectos da cultura macaense que ainda se faz presente em suas memórias, esteja ou não preservada na Macau contemporânea, que possam conviver e viver a alegria de ser macaense com brincadeiras, jogos e competições, e manter a culinária que os remete à cultura macaense, à língua e às festas que conheceram em Macau, que podem ter correspondência com o português falado no Brasil e com festas do calendário brasileiro, mas não deixam em nenhum momento de serem constitutivas da cultura macaense.”12 de Setembro de 2016
  • 148 149 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I I F A L A R D E N Ó S - X I I INo artigo anterior, foi feita uma apreciação do volume XXXVIII da colecção “Mosaico”, do acervo editorial do Instituto Internacional de Macau (IIM), que tem por títutlo “As festas da Casa de Macau do Rio de Janeiro”, cuja autora é Paloma Rodrigues Augusto, jovem investigadora brasileira da área das ciências sociais que esteve presente em todas as principais festas daquela agremiação recreativa, social e cultural macaense durante quase um ano, convivendo com os seus associados, familiares e amigos.Complementando as considerações já feitas, pareceu-nos de interesse reproduzir os relatos sucintos de duas dessas festas, uma em que se comemorou o aniversário da criação da Casa e ao mesmo tempo o Dia de Portugal e das Comunidades Portuguesas, e a outra em que se homenageou o Brasil, nova pátria amada que soube acolher macaenses de várias gerações:Aniversário da casa e dia de Portugal“Antes desta festa, realizei mais uma entrevista com Iana Assumpção. Soube que o mês de junho é muito importante para a CMRJ, pois é este mês que reúne algumas das datas importantes para a comunidade macaense, como o Dia de Portugal, o Dia de Camões e o Dia das Comunidades Portuguesas, bem como o Aniversário da CMRJ. Nesta festa de aniversário e na festa de ano novo, a entrada é gratuita para os sócios, sequer sendo exigido pagamento da mensalidade, o que cria expectativa de maior público ao local.No dia da festa, 29 de junho, a decoração da Casa remetia a Portugal, todas as mesas estavam cobertas por toalhas vermelhas e verdes, cores que remetem à bandeira Breves relatos de duas festas macaenses no rio de Janeiro“Si tem gente batê pórta pôde entráVêm comê cô nos na mêsa”(trecho de “Unga Casa Macaísta”, adaptação de “Uma Casa Portuguesa”) portuguesa. Havia também bandeirinhas portuguesas nas mesas e uma grande bandeira de Portugal em umas das janelas. Iana e Silva D’Assumpção e Juliana e Ana Maria Nolasco, principais responsáveis pela organização da festa, foram as primeiras a chegar.Na cozinha, elas cuidavam dos últimos preparativos para servir o almoço. Pouco depois, chegou o sócio Leonardo Carion com equipamentos musicais, caixa de som, instrumentos e partituras e foi ajudado pelos outros sócios a descarregar os equipamentos. Ele havia combinado de realizar um show nesta festa. Léo Carion, como também é chamado, junto com seu irmão Mario Carion fizeram parte de uma banda musical chamada Os Selvagens na época da Jovem Guarda, movimento musical que existiu no Brasil na década de 1960, quando aqui chegaram. Duas crianças brincavam com as peças de Mahjong durante este início de festa.Por volta de 13h, a maioria dos sócios que participariam desta festa já tinham chegado e o almoço foi servido. Os pratos servidos foram um ‘Cozido Macaense’ preparado por Silvana D’Assumpção e uma ‘Dobrada à moda do Porto’ preparada por Acaio D’Assumpção. Como sobremesa, foi oferecido um ‘Pastel Folhado recheado com Ovos Moles’ e ‘Arroz Doce’. O pastel foi preparado por Isis D’Assumpção, filha de Silvana, irmã de Iana, neta de Acaio, e o arroz doce por Vera, atual esposa de Acaio. Todos esses pratos concorreram a melhor prato salgado ou a melhor sobremesa. Os pratos vencedores foram o cozido preparado por Silvana e o pastel de ovos moles preparado por Isis.Após o almoço, começou o show de Leonardo Carion. Por volta da segunda música, o sócio Antônio Mendonça se levantou de sua mesa com um chocalho de metal e se dirigiu para o local onde Leonardo executava seu show e começou a acompanhá-lo. Após
  • 150 151 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I I F A L A R D E N Ó S - X I I Icantar algumas canções em inglês das décadas de 1960 e 1970 (que talvez lhe remetam à Macau que conheceu, onde aprendeu o idioma), Léo Carion tocou algumas músicas famosas da cultura portuguesa, também em homenagem ao jornalista português da TDM, emissora de tevê de Macau, que realizava uma matéria sobre a CMRJ na ocasião.Durante o show ocorreu um concurso de declamação de poesias e um concurso de dança de casais. O concurso de declamação foi vencido por Luisa Carion, que não deve ter ainda seus 10 anos e leu um poema de Camões; e o concurso de dança pelos sócios Augusto ‘Magoo’ Carion e Julia Carion.Essa terceira festa, uma das festas mais alegres que acompanhei até então – talvez porque nesse dia esses macaenses celebrassem não só os 23 anos da Casa de Macau do Rio de Janeiro, mas também os mais de 23 anos da história que eles vêm construindo juntos uns com os outros – foi também uma comemoração carregada de sentido para aqueles que dela participavam.Digo isso porque a comunidade macaense possui uma forte identidade com a cultura portuguesa, como disse Augusto Carion, o ‘Magoo’, em seu depoimento registrado no livro Macau Somos Nós: ‘Sempre, até hoje, digo que sou português. Nasci em Xangai, mas sou português.’”A Festa do Brasil“A última festa do ano ocorrida na CMRJ foi a Festa do Brasil, que ocorreu no dia 30 de novembro. O cartaz de divulgação, promovido na página da Casa na rede social facebook, convidava os sócios para uma festa de ‘maravilhas brasileiras’, como churrasco, samba e cerveja.Na mesa, pratos típicos dos churrascos brasileiros: arroz, farofa, molho à campanha, além das carnes, é claro. Como sobremesa, foi servida uma tapioca doce. Os pratos foram preparados por Silvana Assumpção e a churrasqueira, localizada na parte externa da casa, foi comandada por Denny Carion e Eduardo Carion. Como bebida típica brasileira, ainda foi oferecida caipirinha.A Festa do Brasil foi a festa que mais reuniu jovens com idade na casa dos vinte anos, contando inclusive com um animado grupo de rapazes com instrumentos musicais, promovendo uma roda de samba ali. Porém, a maioria dos jovens presentes não eram sócios da CMRJ, mas amigos de outros jovens sócios da casa, o que demonstra que a casa está de fato sempre aberta para os convidados, brasileiros ou estrangeiros. Assim, a festa seguiu animada, com Léo e Mario Carion cantando junto com os outros rapazes.A Festa do Brasil foi caracterizada pelo esforço por parte dos organizadores da CMRJ, que são hoje, em sua maioria, jovens brasileiros descendentes de macaenses, de realizar uma festa com traços típicos da cultura brasileira, como é comum em algumas casas no Brasil aos finais de semana, reunindo amigos e familiares para um churrasco com música e cerveja.Foi também durante essa festa que Acaio Assumpção, também conhecido como Mestre Acaio, recebeu das mãos de Léo Carion uma homenagem por sua contribuição ao karatê. Foi ele o fundador da ‘Sei Go Kan’ de karatê no Rio de Janeiro. Seria a
  • 152 153 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I I F A L A R D E N Ó S - X I I Iúltima festa em que este grande macaense que viveu décadas no Rio de Janeiro estaria presente, tendo falecido em janeiro de 2015. Durante toda a festa, realizei ainda entrevistas com os membros da comunidade macaense no Rio de Janeiro, os sócios da CMRJ, a fim de saber deles qual a importância das festas da Casa de Macau do Rio de Janeiro. Foram realizadas ao todo nove entrevistas com diferentes gerações de macaenses e, através delas, pude obter diferentes perspectivas sobre o significado de ser macaense e a importância das festas da CMRJ.”É importante que relatos como estes, que gostaríamos de ver multiplicados pelas Casas de Macau, fiquem registados para a posteridade, para a memória e para a história das comunidades macaenses. 19 de Setembro de 2016Estávamos na fase final do período de transição de Macau, com os contornos claramente delineados da nova realidade política que iria despontar, quando dois professores e investigadores portugueses, Celina Veiga de Oliveira e António Aresta, que prestaram meritórios serviços em Macau, nas áreas da educação e da cultura, publicaram a obra Arquivos do Entendimento – Uma Visão Cultural da História de Macau. Este trabalho foi o suporte de uma importante série televisiva, concebida com intuitos vincadamente pedagógicos, visando recordar e interpretar o legado histórico e cultural que deu ao território uma identidade própria.A série, que a TDM – Teledifusão de Macau produziu, constituiu um excelente instrumento de comunicação com um público interessado e atento, ao mesmo tempo que estimulou nas novas gerações a curiosidade por um conhecimento maior de acontecimentos relevantes e dos homens que, ao longo de séculos, os protagonizaram, contribuindo para a afirmação e consolidação dessa identidade. Esta é, afinal, a razão de ser da ampla autonomia que foi formalmente garantida por acordo entre os dois Estados que podiam, legitimamente, definir as novas opções para este singularíssimo território. Foi em Macau que Portugal e a Europa tiveram o seu mais duradouro ponto de encontro com o Extremo Oriente. Temperando a coragem com a diplomacia e a ousadia com o entendimento, foi aqui construído, ao longo de quase meio milénio, um espaço vivencial marcado pela diferença. No decurso do tempo, uma sábia conjugação de interesses e de afectos permitiu que se fosse sempre mais longe, até à transferência do exercício da soberania, em Dezembro de 1999, efectuada sem sobressalto e com a maneira de viver da sua população salvaguardada. Também ficaram assegurados, na uma História cultural“… parece-nos que este livro – bem como a série televisiva a ele associada – pode constituir uma salvaguarda da memória portuguesa em Macau, preparando-nos para que o mundo globalizado que nos rege actualmente não apague o que tantos, e alguns tão bons e empenhados, foram contribuindo ao longo da sua história comum.” Da nota introdutória dos autores
  • 154 155 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I I F A L A R D E N Ó S - X I I ILei Básica da Região Administrativa Especial de Macau, os direitos, as liberdades e as garantias, anteriormente vigentes por força da aplicação da Constituição da República Portuguesa.Ao Governo de Macau coube a responsabilidade de assegurar a execução do acordo firmado e criar as condições para o correcto estabelecimento desta região especial. Tantos anos volvidos, é gratificante constatar que Macau mantém viva a sua vocação histórica, assumindo-se como plataforma de cooperação económica e comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa, e que a UNESCO classificou o centro histórico da cidade como património da humanidade.Em 2009, a Fundação Jorge Álvares achou oportuno oferecer aos interessados uma edição revista daquele livro, para o qual os autores escolheram um título talvez mais apelativo: Macau – Uma História Cultural. Fê-lo com a Editorial Inquérito, numa parceria útil estabelecida, ficando o livro incluído na colecção que tem o nome do primeiro português a aportar às costas da China e que é também o patrono daquela Fundação. A obra teve boa divulgação e foi procurada por muitos interessados, entre os quais professores e estudantes, além de continuar a ter a maior utilidade em cursos e seminários sobre a presença de Portugal no Oriente. A definição dos caminhos do futuro passa, necessariamente, por um melhor entendimento da História e pelo reconhecimento de uma memória povoada por uma rica diversidade de gentes e indelevelmente marcada por um intenso convívio de culturas que, na busca da harmonia, encontrou a chave do seu sucesso, evidente na sua perdurabilidade. um conteúdo estimulanteO livro contém 13 capítulos, com os seguintes títulos: “Mito e realidade”, “Lin Fa Tei – terra do lótus”, “O sortilégio do Oriente”, “A cidade cristã e a cidade chinesa”, “O poder repartido”, “A supremacia chinesa”, “Ritos e formulários”, “As grandes embaixadas”, “A afirmação da autoridade portuguesa”, “A imposição do domínio português”, “O reconhecimento formal da soberania” e “Uma folha lançada ao Oriente”. Através deles, conta-se a história fascinante de um pequeno território que, para muitos, foi um milagre reiterado de sobrevivência, hoje prosseguindo o seu percurso num contexto político diferente. Uma extensa bibliografia sobre Macau e a presença de Portugal no Extremo Oriente completa o trabalho e oferece a investigadores novas pistas para projectos académicos futuros. Também ali está uma relação completa dos governadores de Macau, de 1623 a 1999.Os autores dedicaram o livro ao Governador Vasco Rocha Vieira, “que tão bem soube honrar o nome de Portugal nos últimos anos da administração portuguesa de Macau” e, na nota introdutória, referiram os doze episódios da série televisiva apresentada “em Macau, em Portugal (RTP1, RTP2, RTP Internacional e RTP Memória) e na China (CCTV), da responsabilidade da TDM (Teledifusão de Macau) e da RTP”, bem como o livro que constituiu o suporte argumentativo dessa série e que, “com pequenas correcções e algumas actualizações”, mereceu esta segunda edição com a chancela da Fundação Jorge Álvares. Também fizeram questão de salientar – e bem – que “a perspectiva histórica defendida neste livro é portuguesa” e, “não
  • 156 157 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I I F A L A R D E N Ó S - X I I Iobstante o esforço de objectividade e de isenção que os norteou, são portugueses, como portuguesas são as referências, as fontes e as visões que os povoam”. “Mas esteve sempre presente a preocupação de se fazer uma leitura do passado histórico de Macau que fizesse justiça ao contributo dos actores em cena no território no decurso de tantos séculos”.No último capítulo, como conclusão, os autores perguntam “que balanço deve ser pedido à história daqueles tempos em que dois povos plasmaram num espaço comum hábitos e modos de vida com marcas de recíproca aceitação e convívio?” E “como lhes foi possível construir e cimentar em Macau uma ambiência universalmente reconhecida como singular e rara?” A resposta dada é, sucinta e lapidarmente, a seguinte:“A história aponta para uma responsabilidade dual dessa atmosfera peculiar, devendo-se tanto a chineses como a portugueses, como se o próprio chão do território impusesse a quem o habitava – temporária ou permanentemente – um comportamento, não totalmente português, não totalmente chinês, mas de Macau.Obra conjunta de dois povos, do que de melhor haverá a extrair de cada um deles, Macau será sempre para os portugueses que lá vivem, ou tiveram o privilégio de lá viver, um encontro com a força do passado histórico da nação, uma aprendizagem de convivência, uma certeza de futuro, uma folha por nós lançada ao Oriente.” De facto, “Macau é o testemunho vivo e privilegiado da coexistência, nem sempre pacífica, de duas comunidades que, neste lugar, foram deixando ao longo de séculos marcos culturais próprios, produto e circunstância de passados históricos distintos e diferenciados”. Este legado é, sem dúvida, a sua maior riqueza. É ele que, já no decurso da segunda década do século XXI, continua a projectar Macau no futuro. 26 de Setembro de 2016
  • 158 159 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I I F A L A R D E N Ó S - X I I IA propósito da recente escolha, por unanimidade, de António Guterres para Secretário-Geral da Organização das Nações Unidas, o que suscitou justificado júbilo em Portugal e nos países lusófonos, bem como em diversos círculos políticos internacionais e junto da diáspora lusa, fomos procurar no nosso arquivo alguma documentação respeitante às deslocações oficiais que aquele ex-Primeiro-Ministro fez a Macau. Nos últimos anos da administração portuguesa do território, António Guterres esteve cá em Abril de 1998 e nas cerimónias da transição, em Dezembro de 1999. No dia 18 de Abril de 1998, pertenceu-lhe a presidência da cerimónia de lançamento da primeira pedra de um novo edifício escolar, cuja construção o Governo de Macau assumiu de imediato, em terreno disponível da antiga Escola Comercial Pedro Nolasco. Esta cerimónia assinalou, publicamente, o nascimento da Escola Portuguesa de Macau. Alguns antecedentesO primeiro documento oficial visando a criação daquela Escola teve a forma de protocolo de cooperação, publicado no Boletim Oficial de Macau de 14 de Janeiro de 1991, o qual expressou nestes termos esse propósito: “… o Governo da República Portuguesa e o Governo de Macau manifestam, desde já, a sua disponibilidade para analisar as medidas necessárias à definição dos diferentes apoios ao funcionamento de uma Escola Portuguesa em Macau que, no período pós-1999, promova a educação infantil e ministre os ensinos básico e secundário, em termos idênticos aos dos estabelecimentos de educação e ensino públicos portugueses”.Ao longo de vários anos, o Governo de Macau, com o apoio técnico da Direcção dos António guterres e a escola Portuguesa de Macau“Aqui se cruzaram a cultura e a civilização do Ocidente e do Oriente, da China e de Portugal. E nós queremos que esta Escola seja a continuação dessa encruzilhada, desse encontro de culturas...” Serviços de Educação e Juventude, foi estudando e equacionando as várias alternativas possíveis, no que respeita à localização, ao modelo educativo e à titularidade, tendo em consideração outras experiências já realizadas neste domínio e as especificidades locais, cabendo ao Estado Português a decisão final. O próprio Ministro Eduardo Marçal Grilo esteve no território para conversações com as autoridades e outras entidades locais. Em Abril de 1998, foi publicado o Decreto-Lei n.º 89-B/98, da Presidência do Conselho de Ministros e dos Ministérios dos Negócios Estrangeiros, das Finanças e da Educação, que criou a Fundação Escola Portuguesa de Macau, definindo as entidades participantes, designadamente o Estado Português, através do Ministério da Educação, a Fundação Oriente e a Associação Promotora da Instrução dos Macaenses, assim como a sua organização e responsabilidades.Claro que outras opções defensáveis existiam, mas esta foi, ponderadas as circunstâncias, a escolha feita: a instalação da Escola no recinto da centenária Escola Comercial Pedro Nolasco, o que implicou a sua extinção e a necessidade da ampliação rápida das suas instalações, ao mesmo tempo que era também extinto o igualmente centenário Liceu de Macau, e a criação duma Fundação, envolvendo aquelas três entidades, como organismo titular. escola de excelência no orientePoucos dias volvidos, o Primeiro Ministro António Guterres marcava o arranque deste muito relevante projecto em Macau. Vale a pena recordar o discurso que então
  • 160 161 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I I F A L A R D E N Ó S - X I I Iproferiu, expressando a sua confiança na Escola e explicando o contexto que justificou o seu estabelecimento: “Como sabem, desde a primeira hora que temos afirmado que a escola é a paixão do meu Governo. As verdadeiras paixões resistem à distância. E por isso essa paixão tanto se manifesta em Portugal como se manifesta aqui em Macau.Daí a importância extraordinária que demos à criação da Escola Portuguesa de Macau. Porque ela é um elemento fundamental da afirmação de Portugal. Mas da afirmação de Portugal em sintonia com a sua estratégia e com a sua identidade, no contexto das relações internacionais do nosso país; da afirmação de Portugal, porque aqui se ensinará e aprenderá Português; porque as alunas e os alunos desta Escola terão o seu currículo reconhecido no sistema oficial de ensino português e terão o seu acesso às Universidades e aos Politécnicos Portugueses quando completarem o 12.º ano.Afirmação de Portugal no contexto da sua estratégia, porque esta não é uma Escola de vocação simplesmente portuguesa. É uma escola de vocação europeia, no momento em que Portugal se afirma no núcleo duro da construção da União Europeia. Mas afirmação de Portugal, também, no contexto da nossa identidade. E a identidade de Portugal é a identidade de um povo que se formou numa permanente encruzilhada de civilizações. Ora, um dos pontos dessa encruzilhada é em Macau. Aqui se cruzaram a cultura e a civilização do Ocidente e do Oriente, da China e de Portugal. E nós queremos que esta Escola seja a continuação dessa encruzilhada, desse encontro de culturas, de civilizações, do Ocidente e do Oriente, da China, de Portugal e da Europa. Queremos, acima de tudo, que esta Escola se torne conhecida, que esta Escola se prestigie, pela qualidade da sua gestão e, acima de tudo, pela excelência da sua capacidade pedagógica, tornando-se um marco, não só do sistema de ensino português, mas um marco do sistema educativo nesta parte do mundo. As minhas últimas palavras são para vocês, os mais pequenos, que estão aí, as meninas e os meninos desta Escola, para vos dizer que confiamos muito em vós e que a afirmação do nosso país depende muito daquilo que vocês forem capazes de fazer. Em primeiro lugar, estudando (numa escola tem que se estudar). Em segundo lugar, aproveitando a escola para desenvolverem um conjunto de actividades de relacionamento com o meio à vossa volta, com esta lindíssima cidade de Macau e com o seu povo, na sua diversidade cultural. E, finalmente, para que cada um de vós, no futuro, possa ser um instrumento da afirmação de Portugal no mundo, mas possa ser também um instrumento desse encontro de culturas e de civilizações que Macau tão bem representa e que esta Escola tão bem saberá afirmar.”No início de um novo ano lectivo, desejamos à Escola Portuguesa de Macau a continuação da história de sucesso que tem sabido escrever, vencendo exemplarmente dificuldades, indecisões e incompreensões, e ao futuro Secretário-Geral, cujo nome ficará indelevelmente gravado no livro de honra da Escola, as maiores felicidades no desempenho da elevada missão que vai brevemente abraçar, contribuindo decisiva e determinadamente para, nestes tempos muito conturbados, promover a construção
  • 162 163 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I I F A L A R D E N Ó S - X I I Ide um mundo melhor, espalhando sementes de paz mais duradoura, assegurando uma justiça social generalizada e genuína e fomentando um desenvolvimento correcto que proporcione aos povos do mundo um futuro muito mais promissor. 17 de Outubro de 2016O nosso artigo anterior, suscitado pela recente escolha de António Guterres para Secretário-Geral da Organização das Nações Unidas, foi dedicado à presença do antigo Primeiro-Ministro de Portugal na cerimónia que assinalou o lançamento da Escola Portuguesa de Macau, no dia 18 de Abril de 1998. As suas palavras de confiança neste relevantíssimo projecto traduziram bem o sentimento de júbilo que a todos tocou, quando foi formalmente criada uma instituição educativa fundamental para reforçar a presença de portugueses em Macau e para garantir a continuidade da difusão da língua portuguesa nestas paragens, após o retorno de Macau ao exercício pleno da soberania chinesa. Naquela ocasião festiva, acompanhada por altas entidades nacionais e locais e por professores, pais e estudantes, outros dois importantes discursos foram proferidos, pelo Ministro da Educação Eduardo Marçal Grilo e por Roberto Carneiro, personalidade a quem foi justamente confiada a presidência da Fundação Escola Portuguesa de Macau, instituída pelo Decreto-Lei n.º 89-B/98, de 9 de Abril, do Governo da República Portuguesa. Ao primeiro coube expressar os agradecimentos oficiais às entidades que se uniram para edificar a Fundação Escola Portuguesa de Macau, cuja constituição “foi uma operação delicada” mas que “é uma peça essencial da presença de Portugal em Macau e sobretudo um instrumento que vai permitir aprofundar a cooperação entre Portugal e a República Popular da China numa lógica de diálogo e de interacção culturais que não se esgotam com esta nossa iniciativa mas que se completa com a aproximação crescente que vem ocorrendo entre instituições portuguesas e chinesas da área educativa, seja ao nível do ensino superior, seja ao nível do ensino não-superior”. Também saudou o Governo de Macau, nas pessoas do Governador e do Secretário da Educação, pela Por uma escola de excelência“Uma futura Escola Portuguesa em Macau serve este nobilíssimo propósito: aprofundar e ampliar a mais valia do Território no contexto da confluência criativa entre dois mundos, apostando numa presença activa da língua e da cultura portuguesa bem como nas condições de um diálogo perene com as matrizes linguística e cultural chinesas.”
  • 164 165 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I I F A L A R D E N Ó S - X I I I“forma como se empenharam nesta iniciativa e o extremo cuidado com que sempre lidaram com questões que importava ultrapassar para se atingir o objectivo que a todos nos mobilizou e uniu”. Finalmente, agradeceu a Roberto Carneiro a aceitação da presidência da Fundação e manifestou justificado regozijo pela escolha de Maria Edith da Silva para dirigir a Escola. Quem esteve de algum modo envolvido na procura do melhor modelo para a Escola, tendo em conta as diversas alternativas equacionadas, pode confirmar a afirmação do Ministro quando, para surpresa de muitos, não quis deixar de salientar que se tratou de “uma operação delicada”, a qual exigiu negociações intensas e nem sempre fáceis até se alcançarem os consensos necessários. Feita a opção pelo Governo da República Portuguesa, todos se empenharam na afirmação e consolidação do projecto, tendo sido decisivas a intervenção do Governo de Macau, a persistência de Marçal Grilo e a abertura e compreensão da APIM – Associação Promotora da Instrução dos Macaenses, que acabou por integrar a entidade tutelar, juntamente com a Fundação Oriente e o Estado Português, através do Ministério da Educação. Ampliar a mais valia de MacauCom brilhantismo e fluência, Roberto Carneiro, antigo Ministro da Educação e personalidade com raízes profundas em Macau, apontou as linhas de rumo para a Escola: “Uma futura Escola Portuguesa de Macau serve este nobilíssimo propósito: aprofundar e ampliar a mais valia do Território no contexto da confluência criativa entre dois mundos, apostando numa presença activa da língua e da cultura portuguesa bem como nas condições de um diálogo perene com as matrizes linguística e cultural chinesas. Para a família e a cultura chinesas, a educação é a mãe de todas as oportunidades, a porta de abertura para o futuro. ‘A vida é limitada, mas o aprender é ilimitado’ como repetidamente ouvimos dizer na sempre fresca sabedoria confuciana. Do mesmo modo, para Portugal, os investimentos na promoção da sua língua e na valorização da sua cultura são o seu mais incontornável desígnio, um dever indeclinável para quem durante 500 anos vagueou pelo mundo, semeando os seus mistérios. Neste entendimento, a futura Escola Portuguesa de Macau serve um quíntuplo objectivo estratégico:1. Dar continuidade ao legado espiritual e intercultural de Macau, fortalecendo a indispensável contribuição da presença multissecular portuguesa no Território.2. Favorecer a afirmação dos traços diferenciadores de Macau e elaborar sobre as suas mais marcantes especificidades.3. Constituir-se como sede de um verdadeiro centro de excelência educativa dotado dos mais avançados meios pedagógicos e vocacionado para prestar serviços avançados em educação e em formação, para benefício de toda a região envolvente. 4. Ministrar o ensino da e em língua portuguesa, de natureza curricular e extracurricular, mediante uma cuidada articulação com outras instituições de referência no Território.
  • 166 167 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I I F A L A R D E N Ó S - X I I I5. Estabelecer pontes entre as línguas e culturas europeias de grande expressão internacional e a chinesa, por forma a potenciar a vantagem competitiva da população beneficiada e a permitir a emergência gradual de futuras gerações, no mínimo, trilingues (isto é fluentes nos idiomas chinês, português e inglês).”Na sua lúcida e vigorosa intervenção, Roberto Carneiro também quis integrar a criação da Escola no novo enquadramento político de Macau, já na fase derradeira do período de transição:“Macau enfrenta, neste virar de século, um novo ciclo da sua história. A mudança de Administração que terá lugar a 20 de Dezembro de 1999, feita de modo tranquilo e concertado, apresenta-se para o Território e para a sua população como uma extraordinária oportunidade.Num tempo de globalização os grandes espaços necessitam de pontes eficazes. Portugal e a Europa precisam de iniciar um novo período de abertura à grande pátria chinesa, do mesmo modo que a China vê em Portugal e na Europa um parceiro indispensável ao seu desenvolvimento.Só por acaso – um acaso que terá distado uns escassos 50 anos – os grandes navegadores coevos Cheng-Ho e Bartolomeu Dias não se encontraram em plena costa oriental africana. Por mero capricho do destino, um encontro para ter lugar no mar só viria a ter lugar em terras macaenses algumas décadas mais tarde.”Para concluir, o presidente da Fundação Escola Portuguesa de Macau sintetizou a conjuntura nesta frase lapidar: “China e Portugal entrelaçam-se num eterno abraço macaense”. E escolheu estes versos do grande poeta Li Bai: “O teu cavalo é baio / o meu cavalo é branco / Diferente a cor dos cavalos, / semelhante o coração dos amigos.”Tantos anos volvidos, aqueles objectivos e propósitos, expressos com tanta veemência e clareza, permanecem válidos. Maria Edith da Silva e Manuel Machado, com as respectivas equipas, professores, pais, funcionários e alunos, tudo fizeram para corresponder ao desígnio em boa hora traçado. 24 de Outubro de 2016
  • 168 169 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I I F A L A R D E N Ó S - X I I IJá está em distribuição o n.º 33/II série da revista Oriente/Ocidente do Instituto Internacional de Macau (IIM), com um rico e variado conteúdo. Este número é revelador de que a opção oportunamente feita pelo IIM foi correcta: publicar com regularidade e maior frequência os boletins informativos, em português, chinês e inglês, e produzir uma vez por ano uma revista que pudesse ser marcante, pela qualidade, bem como na forma e no conteúdo, como órgão de difusão cultural, cujo âmbito fosse a expressão dos próprios objectivos e propósitos que presidiram à sua criação e que justificaram o seu positivo funcionamento ao longo de 17 anos. As reacções e expressões de apreço que chegaram de variados quadrantes, especialmente de instituições académicas e culturais, muitas das quais estabeleceram parcerias úteis com o IIM, compensam plenamente o esforço feito por uma pequena equipa de colaboradores, coordenada pelo vice-presidente do IIM, José Ângelo Lobo do Amaral, e constituem incentivo bastante para que este projecto tenha a continuidade desejada. Temas e títulos dos artigosOs temas deste número são, tal como nos anteriores, muito diversificados, cobrindo matérias de natureza cultural, literária, jurídica, política e sociológica, com o enfoque em Macau, na China, na memória de Portugal no Oriente e nos valores da lusofonia. Foi dada especial atenção a um dos melhores parceiros – o Centro Científico e Cultural de Macau (CCCM) – e às principais realizações do IIM, de que se oferece um resumo, o qual é complementado com a apresentação de novas edições, sendo esta, sem oriente/ocidente – mais um número bem concebido“Os temas são muito diversificados, cobrindo matérias de natureza cultural, literária, jurídica, política e sociológica, com o enfoque em Macau, na China, na memória de Portugal no Oriente e nos valores da lusofonia.” dúvida, uma das áreas de intervenção de que o IIM se pode orgulhar, pelos resultados alcançados. O artigo sobre o CCCM, que sintetiza muito bem o seu percurso, tem a assinatura do respectivo presidente, Prof. Luís Filipe Barreto, professor da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. É também de salientar o valor das contribuições de vários novos colaboradores que vieram enriquecer o qualificado elenco que soube garantir eficazmente a feitura dos números anteriores. O sucesso deste projecto exige a preciosa colaboração de todos. Podemos juntar os artigos, alguns dos quais de alto nível académico, em vários grupos: os que são mais centrados em Macau, quer no que respeita à sua história, quer nos desafios do presente, os que se relacionam mais com a China, nas vertentes política, sociológica e literária, e outros que versam temas da presença de Portugal no Oriente ou que têm a ver com a lusofonia.De entre os primeiros, são de referir: “O universo da língua e cultura lusófona, a ‘Nova Mundialidade’ e o papel de Macau no intercâmbio sino-luso-brasileiro”, de Severino Cabral, presidente do IBECAP – Instituto Brasileiro de Estudos da China e Ásia-Pacífico; “Independência dos tribunais e dos juízes”, de António Santos Carvalho, juiz-conselheiro do Tribunal de Contas de Portugal; “Identidade macaense: retratos impressionistas de espaços e ambiências em ‘Os Dores’ de Senna Fernandes”, de Margarida Conde, mestre em Língua e Cultura Portuguesa pela Universidade de Macau; “Diáspora macaense”, de Celina Veiga de Oliveira, professora e investigadora, com vasta obra relacionada com Macau; “Instituições macaenses de matriz portuguesa”, de Alexandra Sofia Rangel, investigadora do IIM e autora do livro “Filhos da Terra –
  • 170 171 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I I F A L A R D E N Ó S - X I I IA Comunidade Macaense, ontem e hoje”; “Macau de 1557 a 2014: a coexistência de duas culturas e de duas civilizações”, de Ana Carolina Monteiro Fernandes, bolseira do Real Gabinete Português de Leitura e do IIM; e “António Manuel Couto Viana e Padre Manuel Teixeira: o Natal em verso”, de António Aresta, professor e investigador, também com obra meritória ligada a Macau.No que respeita à China, merecem menção os seguintes: “Álvaro Semedo – Relação da Grande Monarquia da China (Percursos de Uma Obra)”, de Maria Pinto Pereira Romana, doutorada em Sociologia; “O Sonho Chinês, o Novo Normal e Uma Faixa Uma Rota”, de Fernanda Ilhéu, professora universitária e coordenadora do China Logus; “Imagens na poesia clássica chinesa: um estudo de caso: Chang Hen Ge de Bai Juyi em português”, de Li Cong, docente universitária; “A (re)emergência da China na equação do poder mundial: considerações geopolíticas”, de Paulo Duarte, doutorando na Universidade de Lovaina e investigador convidado da Universidade de Cheng-chi (Taipé); e “Recordar a China: o duelo entre o Silêncio, a Nostalgia e a Utopia”, de Beatriz Hernández, investigadora da Universidade Católica Portuguesa.Sobre a lusofonia e a presença lusa no mundo, destacamos: “A questão da emigração chinesa via Macau nas páginas do Diário do Rio de Janeiro a partir da década de 1850”, de Julianna de Souza Cardoso Bonfim, bolseira do Real Gabinete Português de Leitura e do IIM; “O legado de Agostinho da Silva e o futuro da lusofonia”, de Renato Epifânio, presidente do Movimento Internacional Lusófono e professor universitário, que também redigiu um apontamento sobre a revista Nova Águia; “Os portugueses e a expansão da cultura neolatina pelo Oriente”, de António de Abreu Freire, professor universitário no Brasil e em Portugal (Aveiro); e “A Casa de Macau do Rio de Janeiro na XI Reunión de Antropologia del Mercosul em Montevidéu, Uruguai”, de Paloma Augusto, bolseira do Real Gabinete Português de Leitura e do IIM.edições novas do IIMNeste número da revista, é feita a apresentação sucinta de novas edições do IIM (de Janeiro a Dezembro de 2015): “Álvaro Semedo – A Educação na China Imperial”, de António Aresta; “Recife–Macau: duas cidades, duas histórias, relações e contrastes” (2.ª edição), de José Manuel Fernandes; “As Festas da Casa de Macau do Rio de Janeiro”, de Paloma Maria Rodrigues Augusto; “Momentos do Intercâmbio Comercial e Cultural com o Oriente”, de António de Abreu Freire; “Joaquim Guerra, S.J. (1908-1993) – Releitura universalizante dos Clássicos Chineses”, de António José Bezerra de Menezes Jr.; “Macau Confidencial”, de João Guedes; “Falar de Nós – Macau e a Comunidade Macaense” (10.º volume), de Jorge A. H. Rangel; “Pe. Áureo Nunes e Castro – Missionário, músico e pedagogo”, de João Guedes; “Macau-in-Coimbra – Highlights from the EACS ’14 Conference”, coordenação de Ming Chan, Jorge Rangel e Carmen Mendes; “Macau – Festas e Festividades”, produzida pela MacauLink; “Making Impressions – A Portuguese family in Macau and Hong Kong, 1700-1945”, de Stuart Braga; “Macaenses – The Portuguese in China”, de António M. Pacheco Jorge Silva; “O Livro de Receitas da minha Tia/Mãe Albertina” (2.ª edição), de Cíntia Conceição Serro; “Macau, Cidade, Território e Arquitecturas”, de José Manuel Fernandes, Lurdes Janeiro e Maria João Janeiro; e “Quando os jacarandás florescem connosco – Selecta dos Participantes no III Encontro de Poetas Chineses e Lusófonos”, de Yao Feng (edição conjunta do IIM com o Centro Nacional de Cultura e a Fundação Jorge Álvares). Também é divulgado o álbum “Sagres –
  • 172 173 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I I F A L A R D E N Ó S - X I I IA Nossa Barca”, de Joaquim Magalhães Castro, publicado com o apoio de várias entidades locais. Há pouco tempo, o Diário do Povo (“Renmin Ribao”) de Pequim, que deve ser o jornal com maior tiragem no mundo, surpreendeu o IIM com a ampla divulgação de um longo artigo em que se enaltece a acção do IIM ao serviço de Macau e na promoção de relações académicas e culturais com instituições do exterior. Gestos como esse, que podem ser entendidos como sendo de reconhecimento da obra realizada, devem fazer o IIM abraçar renovados desafios. 31 de Outubro de 2016Com apoio e organização do Instituto Internacional de Macau, o conceituado artista macaense António Conceição Júnior inaugurou no dia 20 de Outubro, no Centro Científico e Cultural de Macau (CCCM), em Lisboa, a sua exposição “Territórios”, anteriormente apresentada no Clube Militar de Macau. A abertura foi precedida de uma enriquecedora conversa com esta multifacetada personalidade, tão marcante na vida cultural de Macau, sobre a arte no mundo contemporâneo global na perspectiva de um laureado artista nascido neste pequeno território e sobre o seu percurso e projectos, perante uma interessada assistência que lotou o auditório daquela instituição pública portuguesa criada em 1999 por iniciativa do Governador Vasco Rocha Vieira. O CCCM é reconhecido como a entidade que, em Portugal, mais promove realizações no âmbito do intercâmbio luso-chinês, tanto na sua dimensão histórica como na actualidade, nas suas variadas vertentes. Até por isso, foi o local mais indicado para acolher esta exposição, integrada na celebração de quatro décadas de criatividade de António Conceição Júnior (ou de “cre-actividade”, como ele próprio prefere sublinhar), como pintor, ilustrador, designer, estilista, fotógrafo, autor de banda desenhada, escritor, professor, consultor e gestor cultural. Um simpático convívio, no fim, proporcionou aos participantes o ensejo de dialogarem com o artista e de tomarem conhecimento das actividades em curso no CCCM. O seu presidente, Prof. Luís Filipe Barreto, na saudação que dirigiu, reafirmou o empenho do CCCM na cooperação com Macau e as suas entidades públicas e privadas, referindo, entre elas, a Fundação Macau, o Instituto Cultural do Governo da RAEM, o Instituto Politécnico de Macau, a Universidade de Macau e o Instituto Internacional de Macau. “Territórios” de António conceição Júnior em lisboa“As imagens que as fotografias de António Conceição Júnior nos propõem parecem ser uma resposta a essa inquietação metafísica relacionada com a dimensão cósmica do ser humano, de seus territórios naturais e artificiais, o repositório dos seus deveres e das suas vaidades.”Carlos Morais José, no catálogo da exposição
  • 174 175 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I I F A L A R D E N Ó S - X I I ITerritóriosO catálogo da exposição abre com uma erudita e muito apropriada introdução do jornalista, antropólogo e escritor Carlos Morais José, de que destacamos estas passagens:“... na obra de António Conceição Júnior, a fotografia surge como um espaço de problematização do próprio acto artístico, do seu conteúdo técnico, metafísico e estético. Imagens produzidas por um olhar descentrado do quotidiano e avesso ao evento, propõem-se como índices, não como metáforas, de uma reflexão em forma de percurso por fímbrias do espaço, do tempo, do humano e do natural. Ali se inscreverão uma série interminável de trajectos, de possibilidades, diria mesmo de atentados ao senso comum e a uma percepção plana do real. Este, na sua factível inexistência, surge reconstruído na imagem, entabulando com o espectador uma imediata conversa, na qual a memória e a imaginação desempenham um papel fundamental. Não é, contudo, para a ideia ou a palavra, para um qualquer logos, que estas imagens remetem. Pelo contrário, escapando à tentação metafórica, estamos perante índices, sintomas, metonímias, que nos agarram por semelhança, num exercício mágico de codificação e contágio. Primeiro, a apreensão do detalhe invisível faz ver a fragmentação do mundo apreensível, do Umwelt, e a vigência de outro caminho para a percepção, outros territórios, mapas elaborados por um olhar nómada que uma demanda contagiou. A câmara está longe da realidade quotidiana, aparentemente divorciada do homem, do social, da cultura. Mas, porque num certo sentido a fotografia nunca poderá ser realmente abstracta, encontramo-nos aqui numa estranha fronteira entre percepção e imaginário, no sentido em que se tratam de imagens que, imediatamente, partindo de um distinto enquadramento do olhar, impelem a um percurso metonímico pela memória. E há então esses abismos de solicitações, encadeamentos, ramificações, rizomas, nervuras, estranhas baías, fragmentos de velhos mapas, continentes ignorados, pelos quais deambulamos na expectativa de uma resposta interna, do tal milagre – Borges assegura – que não se produzirá, mas onde o jogo de aproximação/distanciamento constitui a condição do sublime e da produção de um acto estético. As imagens que as fotografias de António Conceição Júnior nos propõem parecem ser uma resposta a essa inquietação metafísica relacionada com a dimensão cósmica do ser humano, de seus territórios naturais e artificiais, o repositório dos seus deveres e das suas vaidades. Caso se tratasse de uma genérica inquietação, próxima do conceito budista de dukkha (geralmente traduzido – mal – como sofrimento, mas que estará mais perto de ansiedade, insatisfação), ondularíamos na ordem da cura. Felizmente essa inquietação transmuta-se, na e pela arte, em interrogações nómadas, em afirmação territorial, no desempenho de uma absoluta liberdade. Cada imagem revela uma determinada ordem do olhar e murmura um território: lembra-nos que qualquer um de nós o poderia ter apreendido, que ele estava lá, que
  • 176 177 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I I F A L A R D E N Ó S - X I I Io universo se desmembra em mundos semelhantes, em dimensões aparentemente longínquas mas finalmente próximas, que um sentido de Unidade tudo permeia e equilibra. Mas, por outro lado, se o nomadismo é sintoma de liberdade e de inquietação, o que dizer de um olhar que define territórios, cria mundos, encontra semelhanças, propõe índices, um olhar que permanentemente oscila entre criação e transição?Que se inquieta enquanto não define um território outro e lhe proporciona visibilidade? Que esse parto é um instante de felicidade? Que este instante inevitavelmente se esgota e a viagem compulsiva se reinicia? A resposta é, claramente, afirmativa, pois é neste paradoxo, entre a criação de novos territórios e o seu abandono, que se desenvolve a demanda artística, nesta exposição de António Conceição Júnior.” Um enorme painel ostenta este estimulante texto logo à entrada do salão, dando as boas-vindas e, certamente, esclarecendo e orientando o visitante na descoberta de cada um dos “territórios” expostos. o artistaQuatro décadas de vasta, continuada, qualificada e muito diversificada actividade colocam, indubitavelmente, António Conceição Júnior entre os maiores vultos que Macau produziu no domínio da arte e da concepção e produção artísticas. Só a sua modéstia e a postura habitualmente reservada que revela podem impedir que ele mesmo o reconheça, além de saber que é a outros que caberá a responsabilidade de “avaliar” os resultados e o precioso legado que a terra natal e as suas gentes e instituições deverão saber merecer. Entretanto, ainda nos irá surpreender, nos anos próximos, com novos desafios à sua imensa criatividade. 7 de Novembro de 2016
  • 178 179 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I I F A L A R D E N Ó S - X I I IFoi por uma feliz circunstância que, quase quatro décadas volvidas, reencontrei em Lisboa Vasco Callixto, prolífico escritor que se dedicou, desde sempre, à literatura de viagens e tem vasta obra publicada neste domínio, incluindo um livro intitulado “Viagem a Macau”, muito apreciado num tempo em que se procurava promover o território no contexto da sua nova realidade política, na sequência da aprovação do Estatuto Orgânico de Macau, em 1976. Vasco Callixto, já nonagenário e conservando uma prodigiosa memória, recordou, de imediato, a sua visita, em Novembro de 1977, apoiada pelo Centro de Informação e Turismo do Governo de Macau. Era Governador o então Coronel José Eduardo Garcia Leandro, nomeado em 1974 para substituir o General José Manuel Nobre de Carvalho, que a Junta de Salvação Nacional manteve em funções até Outubro desse ano, tendo partido após a inauguração da ponte Macau – Taipa que ostenta o seu nome. crónica sobre MacauAlgumas semanas depois desse muito agradável encontro, no espaço que tem no semanário “O Diabo”, Vasco Callixto dedicou uma interessante crónica a Macau que, com a devida vénia, se transcreve:“Quando da minha primeira visita a Macau, que se prolongou por vinte dias, ao chegar ao Hotel Sintra, na madrugada de 3 de Novembro de 1977, aguardava-me na recepção um cartão de boas vindas do Dr. Jorge Rangel, então director do CIT – Centro de Informação e Turismo daquela ‘Relíquia de Portugal no Oriente’, como designei o território em subtítulo do livro que viria a publicar no ano seguinte. Tinha dado satisfação ao grande desejo de conhecer Macau; voara para ‘o outro lado do mundo’ um reencontro com Vasco callixto quase 40 anos depois “Quase quatro décadas volvidas, um reencontro em Lisboa faz recordar os 400 anos de presença portuguesa na ‘Relíquia do Oriente’.” numa viagem de cinco dias. Naquela época, quando ‘tudo o vento nos levara’ e só ficara Macau, mais Macau chamava por mim. Chegar a Macau, mesmo de madrugada, traduziu-se numa experiência extraordinária, que me fez despertar uma sensação estranha, uma sensação que tocou o coração. Pisar terra de Macau levou até a esquecer que tinha atravessado o mundo, pois, afinal, estava igualmente num mundo português, que há quatro séculos dera as mãos ao vizinho e imenso mundo chinês. A emoção de ontem continua presente, apesar de se ter verificado uma segunda visita, ainda sob o desfraldar da Bandeira Portuguesa, que, todavia, não tardou a ser arreada.O Hotel Sintra, sob a gerência de António Estorninho, era então ‘o mais moderno de Macau’, como escrevi. Situado em plena Baixa macaense, erguido em terrenos conquistados ao mar, foi daí que todos os dias parti à ‘descoberta’ do pequeno mundo luso-chinês das lonjuras do Oriente. Após um primeiro contacto com o jornalista César de Sá, do CIT, o Dr. Jorge Rangel recebeu-me da melhor forma, obsequiou-me com um almoço na ‘Pousada de Macau’ e dispensou-me múltiplas atenções. Por seu intermédio, em três semanas, Macau revelou-se-me, desde a ‘Cidade do Nome de Deus de Macau’ até às ilhas da Taipa e de Coloane. Ao Governador de Macau, Coronel José Eduardo Garcia Leandro, enderecei um bem devido ‘Muito Obrigado’ por todas as atenções igualmente dispensadas. E a Frederico Nolasco muito agradeci a cedência de um ‘Audi’, que me permitiu percorrer, pela esquerda, quase 300 km em terra continental e insular. Como não podia deixar de ser, assisti ao Grande Prémio de Macau e entrevistei o vencedor, o italiano Ricardo Patrese, que despertaria para a fama. No Centro de Relações Económicas, proferi uma conferência sob o título ‘O que eu vi de Portugal no Mundo e as primeiras viagens aéreas Lisboa-Macau’, o que levou o Governador
  • 180 181 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I I F A L A R D E N Ó S - X I I IGarcia Leandro a mandar emitir uma medalha comemorativa do 50.º aniversário da viagem efectuada em 1924, cuja feitura vim a acompanhar em Lisboa. Quatro meses depois, no Estoril, na galeria da então chamada Junta de Turismo da Costa do Sol, foi inaugurada uma exposição de fotografias da minha ‘Viagem a Macau’, o mesmo título do livro que viria a publicar, ‘com o patrocínio do CIT – Centro de Informação e Turismo de Macau’.”o reencontroNa segunda parte da crónica é mencionado o reencontro que o General José Baptista Pereira, presidente da Assembleia Geral da Sociedade Histórica da Independência de Portugal, nos proporcionou na bonita sala de azulejos do Palácio da Independência, onde estão penduradas as fotografias de todos os presidentes desta agremiação cultural e patriótica que tem quase 160 anos de existência: “Quase quatro décadas volvidas, foi-me deveras agradável um recente reencontro com o Dr. Jorge Rangel em Lisboa, na Sociedade Histórica da Independência de Portugal, à qual o ilustre macaense presidiu durante seis anos. E o Dr. Jorge Rangel deixou transparecer igual satisfação por nos voltarmos a encontrar frente a frente, recordando os passos em comum dados em Macau, a Macau bem diferente da actual, os contactos lá estabelecidos, entre os quais, além dos já citados, o igual bom acolhimento que me dispensaram o presidente do Leal Senado, Rogério Santos, o director da Biblioteca Nacional, Dr. Henrique Senna Fernandes, o conservador do Museu Luís de Camões, Luís Silveira do Amaral, os directores dos jornais ‘O Clarim’ e ‘Gazeta Macaense’, respectivamente, Padre José Barcelos Mendes e Leonel Borralho. Recordada foi também a simpática Maria Guilherme, funcionária da recepção do CIT, que uma vez, há anos, reencontrei em Lisboa, durante um evento sobre Macau. Actual presidente do Instituto Internacional de Macau, o Dr. Jorge Rangel, hoje como ontem, continua a propagandear Macau por todo o mundo, dando a saber que o português continua a ser língua oficial no território e que em Macau se publicam meia-dúzia de jornais em Português. A semente de 400 anos de presença portuguesa vence o tempo e transições. E os filhos de Macau, portugueses há sucessivas gerações, como a família Hagedorn Rangel, continuam a sentir-se portugueses, de amigável braço-dado com os seus conterrâneos chineses. Um agradecimento final. Obrigado, prezado amigo Tenente-General José Baptista Pereira, por ter trazido à minha presença o Dr. Jorge Rangel. Oxalá os nossos encontros se repitam. Sempre presentes, tenho também as duas conferências sobre o tema ‘Aviação’, que proferi na Casa de Macau em Lisboa, em 1973 e em 1998. E as duas vezes com casa cheia.”Vasco Callixto escolheu para título desta crónica “Reencontrar Jorge Rangel e recordar Macau” e abriu-a com a frase “Quase quatro décadas volvidas, um reencontro em Lisboa faz recordar os 400 anos de presença portuguesa na ‘Relíquia do Oriente’”. Para ilustrar a crónica, juntou duas fotografias, uma tirada à entrada do Palácio do Governo e a outra mostrando um triciclo, típico meio de transporte muito usado nesse tempo. Ao longo de três semanas, Vasco Callixto teve tempo, em Novembro de 1977, para descobrir a cidade e os recantos mais atraentes das ilhas, conhecer gente da terra a
  • 182 183 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I I F A L A R D E N Ó S - X I I Irecolher material importante para o livro que escreveu e que merece ser republicado. Regressou a Macau já quase no fim do período de transição. Encontrava-me ausente, pelo que não pude recebê-lo como gostaria. Personalidade simpática e correcta no trato com todos, foi fácil a Vasco Callixto granjear amizades e adaptar-se aos hábitos da terra que soube interpretar e divulgar. Quem o conheceu guardou dele positivas recordações. 14 de Novembro de 2016Acaba de sair do prelo uma muito interessante e útil obra intitulada “Macau – Roteiros de uma Cidade Aberta” (IIM, Outubro de 2016), devendo a sua primeira apresentação ser feita na sessão cultural integrada no Encontro das Comunidades Macaenses que vai decorrer de 27 de Novembro a 2 de Dezembro. Dois prestigiados académicos, Jorge Santos Alves e Rui Simões, com muito relevante obra publicada sobre Macau, quiseram brindar-nos com um conjunto coerente de roteiros temáticos desenhados especialmente para visitantes mais exigentes que queiram ver com outros olhos a cidade e que são também da maior utilidade para quem aqui nasceu ou escolheu o território para viver. A ligação intensa de ambos a Macau permitiu-lhes entender o legado, a terra e as gentes, que estudaram interessadamente nas suas variadas vertentes, descobrir caminhos, lugares e recantos de um espaço verdadeiramente singular e explicar o significado desta jóia que Portugal ajudou a talhar e a China assumiu o compromisso de continuar a valorizar.Este livro é, para os autores, “um agradecimento a Macau, à sua história e às suas gentes”. Escrito a dois, “foi pensado e repensado como se de um só se tratasse”, “graças a uma amizade que cresceu em Macau, abrigada pelos seus muros, resguardada nas suas baías e Porto Interior”.seis roteirosDa cultura aos sabores, do lazer e dos “vícios” aos negócios, da administração aos cultos, da maneira de viver à pujança da sociedade civil, de tudo um pouco os Macau – roteiros de uma cidade aberta“Este é um livro destinado a todos quantos queiram visitar Macau e melhor compreender, vivendo, a sua história (e seus grandes ciclos), as suas principais características e transformações (físicas, culturais, sociais, económicas, religiosas, etc.) enquanto cidade aberta ao mundo.” Do prefácio
  • 184 185 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I I F A L A R D E N Ó S - X I I Iautores partilham o conhecimento, facultando-nos seis roteiros muito bem traçados, assim identificados: o dos poderes, o dos negócios, o dos prazeres, o das confissões, o dos saberes e o das sociabilidades. A leitura dos textos, primorosamente elaborados, estimulam de imediato a vontade de fazer cada um dos percursos em conformidade com as indicações daqueles qualificadíssimos cicerones.Ruas, becos, avenidas, parques e jardins, igrejas e templos de diversificadas confissões que aqui sempre coexistiram em exemplar tolerância, estabelecimentos de toda a ordem e as pedras da história que mereceram a invejável classificação de “património da humanidade” são identificados em cada um dos percursos sugeridos. Cabe ao leitor fazer as pausas convenientes para admirar, ao seu ritmo, os monumentos e lugares, alguns bastante surpreendentes, em cada paragem.Conforme os autores, “o conceito de ‘roteiro’ invoca a ideia de um percurso, temático, à primeira vista com uma moldura geográfica”: “A ideia de um trajecto pontua-se aqui na perspectiva da leitura, do olhar e da continuidade temática que atravessa tanto o património edificado como as modalidades da sua utilização e apropriação.” Outro desafio foi “o de explorar estas dimensões temáticas no tempo, tanto pelo testemunho da História como na reificação pela memória, ou invocada no ritual ou nas sociabilidades, ora marcada no urbanismo e na edificação.” A informação prestada é correctamente doseada, despertando no visitante o prazer e a curiosidade de procurar saber mais. Estamos certos de que quem pegar neste livro-guia não o largará mais, até porque ele pode e deve ser lido antes de iniciar os percursos e consultado ao longo de cada um dos roteiros. Será um companheiro permanente na viagem encetada. História e bibliografiaUma tábua cronológica e uma concisa “História de Macau, Cidade Aberta”, enriquecem sobremaneira o livro. Neste capítulo estão caracterizados os cinco períodos fundamentais dessa História, na perspectiva dos autores: Antes do Porto Internacional (século XIV a 1555/57), o Porto Internacional (1555/57 a 1842), A Internacionalização Partilhada (1842 a 1911), Um Porto Adormecido (1911 à década de 1980) e o Redespertar da Prosperidade (década de 1980 a 2015). O Prof. Jorge Santos Alves tem trabalhos incontornáveis sobre esta matéria, de que é reconhecido especialista.Alguma bibliografia seleccionada aparece no fim, abrindo ao leitor adequadas pistas para prosseguir as suas leituras sobre este fascinante ponto de encontro entre o Oriente e o Ocidente, eterno porto de abrigo que foi um verdadeiro “milagre de sobrevivência” e que, no dealbar do século XXI, retomou com sucesso e estabilidade a sua vocação tradicional de entreposto privilegiado, assumindo-se agora como plataforma oficial de cooperação económica e comercial entre a China e os países de língua portuguesa. Cooperação que, por vontade de todas as partes intervenientes, se estende a outras amplas áreas, da cultura à saúde, da administração pública à educação, do desenvolvimento físico ao desporto. O Instituto Internacional de Macau (IIM) apoiou sem hesitação este projecto e
  • 186 187 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I I F A L A R D E N Ó S - X I I Idecidiu incluí-lo no seu programa editorial de 2016. É uma edição que enriquece, inquestionavelmente, o seu acervo. A execução foi entregue à MaisImagem, sob a orientação competente de Irene Henriques. A fotografia é de Miguel Santos Alves. os autoresJorge Santos Alves é professor auxiliar convidado da Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica Portuguesa, onde coordena o Instituto de Estudos Asiáticos. Desempenhou funções docentes na Universidade de Macau, de 1990 a 1996 e de 2003 a 2010, como professor convidado, e é um respeitado perito em História da Ásia Oriental, abarcando nos seus múltiplos trabalhos temas relacionados com Macau, a China, as relações luso-chinesas e o Sueste Asiático. Professor da Escola Superior de Comunicação Social do Instituto Politécnico de Lisboa, Rui Simões, licenciado em Antropologia e doutorado em Ciências da Educação pela Universidade Nova de Lisboa, exerceu actividade docente no Instituto Politécnico de Setúbal, no Instituto Politécnico de Macau e na Universidade de Macau. A sua investigação académica incide especialmente em matérias relacionadas com a Comunicação Intercultural, a Educação, os Soft Powers e os Jogos Tradicionais. Os Estudos de Macau mereceram de ambos constante atenção e dedicação e os trabalhos por eles publicados são de elevadíssimo mérito. Juntaram-se agora para nos oferecerem, reunidos num só volume, estes seis roteiros, que são “composições entre a materialidade do património, em suportes estáveis, mesmo que por períodos limitados, e a persistência de práticas, rituais religiosos ou laicos, consumos, expressões criativas e, também, investimentos, negócios, trabalho, argumentos de convívio, imprensa, etc.” São percursos que conduzem o leitor e o viajante interessado a um melhor conhecimento das várias dimensões de Macau como cidade sempre aberta ao mundo. 21 de Novembro de 2016
  • 188 189 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I I F A L A R D E N Ó S - X I I ILargas centenas de membros das Casas de Macau e de outras organizações da diáspora macaense encontram-se na terra-mãe para, com os seus conterrâneos aqui residentes, participarem em mais um grande Encontro das Comunidades Macaenses. De 27 de Novembro a 2 de Dezembro estarão ocupados em reuniões, cerimónias, convívios, visitas, sessões culturais e actividades lúdicas. Rever a terra amada, conhecer o seu desenvolvimento e situação presente e reforçar as raízes que os prenderão para sempre a Macau são outros propósitos fundamentais destes encontros que têm sido realizados de três em três anos, com apoios significativos do Governo de Macau, especialmente através da Fundação Macau, e de outras entidades públicas e privadas. Bem-vindos, irmãos! Desejamos que estas jornadas tenham os maiores sucessos e delas levem as melhores recordações. É uma vez mais com versos do nosso sempre lembrado Adé que a todos saudamos calorosamente: lóngi di su tera“Lóngi di tera amado,Su pensamento prendido ali…Vivo desconsolado,Qui di tristéza nádi senti;Onçôm olá su vidaAbandonado na solidám,Lóngi di su quirida,Co alma inchido di iscuridám.Filo-filo bom qui guardá Macau na coraçám“Quelê longi, quelê tánto tempo passado,Coraçám sã nádi mudá, Lôgo guardá esperánça,Vai di volta pa tera qui nôs divera querê.” Adé, “Lóngi di su tera” Sã sonho di tudo gente,Vai di volta pa tera únde nacê…Quim nádi assi sunhá?Tudo anôte na ora di vai durmi,Rezá inchido di fé,Pedi estunga grándi graça:Olá di nôvo nôs-sua tera,Olá Sol nacê pramicedo,Andá na lugar únde nôs otróra corê…Quelê longi, quelê tánto tempo passado,Coraçám sã nádi mudá, Lôgo guardá esperánça,Vai di volta pa tera qui nôs divera querê.Únde têm más pobrézaQui unga alma vazio di amôr?Mundo nom têm belézaQuelora vida perdê su côr.Sono entristecido,Sunhá co tera únde nacê,Su coraçám dorido,Mortificado di padecê.”
  • 190 191 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I I F A L A R D E N Ó S - X I I IA este poema, que todos conhecem, juntamos este outro, também do mesmo poeta macaense, muito apropriado nesta ocasião: casa Macaísta“Unga casa macaísta, vôs olá,Têm carinho na pobréza;Si têm gente batê porta, pôde intrá,Vêm comê co nôs na mésa.Gente pobre, gente rico sã gostáCativá tudo visita.Masqui-seza unga casita,Têm su chiste co alegria,Tudo ora, tudo dia.Mésa co toália bordado,Vaso di fula na chám;Pisunto-china bafado,Têm galinha, têm capám;Porco bal’chám tamarinho,Vaca chacháu margoso;Unga caneca co vinho,Quánto bebinga sabroso,Unga casa macaísta fazê vista,Sã fazê vista unga casa macaísta.Siara-siara sabe abri su coraçám,Lôgo ri pa tudo gente;Na janela sã cherá mangericám,Fazê vôs ficá contente.Têm biscoito co obrêa na frontám,Camalénga fêto dóci;Chá co sucre dóci-dóciTudo ora têm na mésa,Quim querê, fazê fineza.”Quem é o conterrâneo que lá longe, na Austrália, no Brasil, no Canadá, nos Estados Unidos da América, em Portugal e em vários outros países onde os macaenses se radicaram, nunca cantou ou não ouviu cantar, com saudade e fervor, esta “Casa Macaísta”, com música de “Casa Portuguesa” e nela inspirada? Cremos que todos o fizeram, nos imensos convívios de macaenses onde quer que se encontrem. Muitas vezes foram os versos do nosso Adé que fizeram exacerbar o amor à terra e as saudades de um tempo intensamente vivido, cujos hábitos e tradições os filhos da terra transportaram para outras paragens onde foram buscar oportunidades, bem-estar, tranquilidade e futuro. Lóngi di tera amado, tudo filo-filo querê Macau sã su casa di coraçám! Como diria Adé, no seu conhecido poema “Filo-filo di Macau”, “Quelora iou pensá sã lôgo vêm / Na lembrança qui tud’ora guardá, / Filo-filo bom qui Macau têm, / Qui tudo fazê, pa su tera honrá”.
  • 192 193 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I I F A L A R D E N Ó S - X I I Iresumo do programaUm convívio informal, com o tradicional “chá gordo”, organizado na Escola Portuguesa pela Confraria da Gastronomia Macaense, no dia 26 do corrente, antecede a sessão solene de abertura do Encontro no Hotel Sheraton Grand, às 18.30 do dia 27. Nesse mesmo dia haverá uma visita ao centro histórico da cidade e a projecção duma peça do Grupo Dóci Papiaçám di Macau. A reunião do Conselho das Comunidades Macaenses, uma “foto de família” na escadaria das Ruínas de S. Paulo e uma recepção na residência consular portuguesa preenchem o programa geral do dia 28. Sessões culturais na Universidade de Macau e no Centro de Ciência, organizada pelo Instituto Internacional de Macau, têm lugar, respectivamente, na tarde de 29 e manhã de 30, havendo ainda um encontro da Associação dos Jovens Macaenses no auditório do Consulado-Geral de Portugal. O dia 1 de Dezembro foi reservado para um passeio à cidade de Cantão (Guangzhou). Uma missa solene na Sé Catedral e uma festa na Torre de Macau assinalam o encerramento do Encontro no dia 2.28 de Novembro de 2016De entre os livros apresentados pelo Instituto Internacional de Macau (IIM) na sessão cultural realizada no Centro de Ciência de Macau no dia 30 de Novembro e integrada no Encontro das Comunidades Macaenses, despertou especial interesse dos participantes um opúsculo intitulado “O Cantar de Macau” (IIM, Outubro de 2016). Fazendo parte da colecção Mosaico, que já tem mais de 40 volumes, esta obra, coordenada por Rufino Ramos e que teve a colaboração de Frederic (Jim) Silva, da União Macaense Americana, Cristina Lam Lai Man, do IIM, Maria Xan, da Fundação Macau, Club Amigu di Macau (Toronto) e Alberto Botelho dos Santos, reúne um conjunto de cantilenas, “lenga-lenga” e algumas canções que fazem parte do folclore tradicional, musical e poético, que importa preservar e valorizar, como património imaterial de Macau.Conforme a nota introdutória, trata-se de “uma modesta contribuição do IIM, editando-as em português, chinês e inglês, para registar a memória colectiva da comunidade macaense mas também reavivar o interesse por aquelas cantilenas pelos quatro cantos do mundo”. O material agora publicado foi, em significativa medida, transcrito do “Ta-ssi-Yang Kuo” que João Feliciano Marques Pereira produziu em 1899/1900.lenga-lengaConforme Jim Silva, num apontamento incluído nesse opúsculo, “lenga-lenga” são versos em patuá de crítica de costumes, com muito “chiste” e sentido de humor, por vezes bastante atrevidos, que os nossos antepassados cantavam em convívios e outras reuniões sociais. Eis algumas das “lenga-lenga” escolhidas:lenga-lenga e cantilenas de Macau“Esta colecção, de cantilenas, lenga-lenga e canções originais, faz parte do rico legado macaense de que hoje poucos se lembram. Constitui, todavia, parte do precioso folclore tradicional, musical e poético, que nos foi deixado pelos que nos antecederam …” Da nota introdutória
  • 194 195 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I I F A L A R D E N Ó S - X I I I“Liu-liu lorcha vai CantãoBuscá seda fazê quimãoNovo-novo nhonha vesti(Novo-nova sã pra iou vesti)Vêlo-vêlo limpá chánRoto-roto caça marrôtoFino-fino pesca chumbinhoDom, dom, dom, domSinhô capitámEspada na cintaCom rota na mámAranha cô carrapatu(Pulga cô percebejo)Casamento já pidiCarrapatu que tinh’ dormidoCô cacada já erguiQuim já bebê águ de fonte de NilauÔ lô casá ô lô morê na MacauEstudantesTudo sã brejéroTodos a gozarQuando há dinhéroQuarta batêQuinta corêSexta chorâSábado alegrâDomingo emâSegunda… DesfazêBabálúa, babálúaVem fora comê arroz cruaChúa e solNavio hespanholSol e chúaNavio de GoaChúa e ventoNavio intrá dentro
  • 196 197 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I I F A L A R D E N Ó S - X I I IMadéra, madéraJá vai cavá chánQui di chán?Já vai simiá nêleQui de nêle?Galinha já picáQui di galinha?Já vai pusá ôvoQui di ôvo?Frade já bebêQui di bebê?Qui di frade?Já vai dizê missaQui di missa?Gato já uviQui di gato?Já vai panhá ratoQui di rato?Já intrá na buracoQui di buraco?Pedrêro já tapáQui di pedréro?Já vai CantãoQui di Cantão?Fogo já quimáQui di fogo?Águ já pagáQui di águ?Mar já levá”A muito concorrida a sessão do IIM, em que esta publicação foi apresentada, intitulou-se “O papel cultural da diáspora macaense. Ser macaense”. A ela dedicaremos uma das nossas próximas crónicas.5 de Dezembro de 2016
  • 198 199 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I I F A L A R D E N Ó S - X I I IO ponto mais alto da sessão cultural organizada pelo Instituto Internacional de Macau (IIM) e integrada no último Encontro das Comunidades Macaenses, que decorreu de 27 de Novembro a 2 de Dezembro, foi a entrega do troféu do Prémio Identidade à Casa de Macau em Portugal. Na mesma ocasião foi lançado o livro “Valorizar a identidade – entidades distinguidas com o Prémio Identidade”, de Alexandra Sofia Rangel (IIM, 2016). Esta obra constitui o volume XL da Colecção Mosaico.A valorização da identidade macaense tem constituído preocupação prioritária do IIM desde a elaboração do seu primeiro programa de actividades, em 1999/2000. O seu acervo editorial compreende bastantes obras em que tal preocupação é visível, incluindo uma que até tem por título “A Identidade Macaense – The Macanese Identity” (IIM, 2001), de Renelde Justo Bernardo da Silva, professor da então Escola Comercial Pedro Nolasco que se radicou nos Estados Unidos da América após a aposentação. Este livro, tal como “Maquista Chapado – vocabulário e expressões do crioulo português de Macau”, de Miguel Senna Fernandes e Alan Norman Baxter, e “Macau somos nós – Um mosaico da memória dos Macaenses no Rio de Janeiro”, de Andréa Doré, Anita Correia de Almeida e Carlos Francisco Moura, foi preparado pelo IIM especialmente para apresentação no “Encontro das Comunidades Macaenses do Novo Milénio – Macau 2001”, levado a efeito de 28 de Novembro a 5 de Dezembro de 2001. o Prémio Identidade Na reunião anual da assembleia geral do IIM, em 2002, foi aprovada a criação do “Prémio Identidade”, bem como o respectivo regulamento, estabelecendo como propósito primeiro do mesmo distinguir entidades que, “pela sua acção, obras e Valorizar a identidade – entidades distinguidas com o Prémio Identidade “Expressão genuína do espírito fundacional do IIM, o Prémio Identidade é assumido e atribuído pelo corpo universal dos seus órgãos dirigentes.” Do regulamento do Prémio Identidade exemplo, contribuam, activa e significativamente, para a identidade de Macau”. O Prémio “corporiza o mais nuclear espírito do IIM, consagrado nas suas vocação e finalidades estatutárias, e contempla aquelas personalidades individuais ou colectivas que, nos campos da Cultura em geral, nas Artes, no Pensamento, na Antropologia, nas Ciências Jurídicas e na Educação e Ensino venham contribuindo relevantemente para a substanciação dos factores da identidade de Macau”.O júri é constituído pelo corpo universal dos titulares dos órgãos sociais do IIM, sendo as suas propostas apresentadas de Janeiro a Março de cada ano e a deliberação tomada por ocasião da reunião da assembleia geral ordinária deste Instituto, normalmente realizada em Abril.Primeiras entidades distinguidasA primeira entidade distinguida, em 2003, foi o monsenhor Manuel Teixeira, sacerdote e historiador, uma das figuras mais notáveis da vida cultural macaense, que deixou definitivamente o nosso convívio com 91 anos de idade, poucos meses antes da data marcada para o prémio lhe ser formalmente entregue. Seguiram-se o escritor, advogado e professor macaense Henrique de Senna Fernandes (2004); o comendador Arnaldo de Oliveira Sales (2005), respeitada figura pública de Hong Kong, onde presidiu ao Urban Council, ao Club Lusitano e ao Comité Olímpico; o Prof. Luís de Guimarães Lobato (2006, ex-aequo), grande impulsionador da Casa de Macau em Portugal e presidente da Fundação Casa de Macau; a Universidade de Macau (2006, ex-aequo), pelo relevante papel que teve na formação e valorização de novos quadros locais para a administração de Macau; a Associação Promotora da Instrução dos Macaenses
  • 200 201 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I I F A L A R D E N Ó S - X I I I(2007), organismo centenário vocacionado para a educação da juventude macaense e promotor de vários encontros das comunidades macaenses; a Diocese de Macau (2008), cuja relevância, especialmente nas áreas da acção missionária, na educação e no apoio social, dispensa qualquer justificação; e a Santa Casa da Misericórdia (2009), entidade com existência plurissecular que se confunde com a História de Macau, continuando a funcionar no século XXI como importante instituição de solidariedade social. na segunda década da rAeMDe 2010 a 2016 foram contemplados dois relevantes projectos electrónicos e mais seis instituições: a União Macaense Americana (2010), organização da diáspora no cinquentenário da sua fundação na Califórnia (EUA); dois projectos electrónicos intitulados “Macanese Families” e “Projecto Memória Macaense” (2011, ex-aequo), ambos preservadores e divulgadores da memória e de valores macaenses, o primeiro lançado na Austrália e o outro no Brasil (São Paulo); o Club Lusitano de Hong Kong (2012), antiga e prestigiada agremiação cultural e social de Portugueses do Oriente; O Dóci Papiaçám di Macau (2013), grupo de teatro que, através das artes cénicas, vem contribuindo para preservar e dignificar o velho crioulo português de Macau, o patuá macaense; a Escola Portuguesa de Macau (2014), herdeira e continuadora de centenárias instituições de ensino, como a Escola Comercial Pedro Nolasco e o Liceu Nacional Infante D. Henrique, e instrumento fundamental para a manutenção do ensino da língua portuguesa e de um sistema de ensino tendo o Português como língua veicular; o Jardim de Infância D. José da Costa Nunes (2015), que deu formação de base a gerações de crianças de Macau e articula hoje com a Escola Portuguesa o ensino em língua portuguesa; e, finalmente, a Casa de Macau em Portugal (2016), por ocasião da jubilosa comemoração do seu 50.º aniversário. O respectivo certificado foi entregue a esta Casa de Macau numa sessão solene comemorativa do seu cinquentenário em Lisboa, e o troféu em Macau, no salão de actos do Centro de Ciência, na presença de altas entidades oficiais e associativas locais e representantes de todas as Casas de Macau e outras organizações da diáspora.A autora do livroA autora deste trabalho é Alexandra Sofia de Senna Fernandes Hagedorn Rangel, jovem investigadora académica e colaboradora do IIM. Escreveu “Filhos da Terra – A Comunidade Macaense, ontem e hoje”, que o IIM publicou em 2012 e integrou na sua colecção “Suma Oriental”. Macaense de 10.ª geração, descendente de duas velhas famílias portuguesas do Extremo Oriente, Alexandra Rangel licenciou-se em Ciências da Cultura (especialização em Comunicação e Cultura) e concluiu o mestrado na mesma área, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, tendo a sua tese sobre a comunidade macaense obtido 18 valores. O seu livro acima referido foi baseado nesta tese. Além de artigos publicados nas revistas “Nova Águia” e “Oriente/Ocidente”, Alexandra Rangel integrou painéis e apresentou comunicações sobre Macau e a comunidade macaense em conferências internacionais organizadas pela ICAS – International Convention of Asia Scholars e pela ERCS – European Association for Chinese Studies.12 de Dezembro de 2016
  • 202 203 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I I F A L A R D E N Ó S - X I I INa sessão cultural integrada no Encontro das Comunidades Macaenses, recentemente realizado, o Instituto Internacional de Macau procedeu ao lançamento de dez novas edições, uma das quais tem por título “O legado luso em Macau – um património valorizado”. Esta obra resultou da adaptação de várias intervenções por mim feitas em Portugal, nos últimos anos. Através deste trabalho, facultou-se, ainda que sinteticamente, uma informação genérica sobre a forma como se procurou respeitar e valorizar o legado cultural que deu a Macau uma singularidade própria, a qual justificou que lhe tivesse sido atribuído o estatuto de região administrativa especial da República Popular da China (RPC).Quase duas décadas após a transferência do exercício da soberania, de Portugal para a RPC, é justo realçar, não obstante algumas insuficiências, ou mesmo desvios, fáceis de identificar, a forma reconhecidamente positiva como o legado de Portugal foi amplamente respeitado e até, em certas áreas, valorizado.Em todos os períodos de mudança histórica, são inevitáveis as dúvidas, as inquietações e as incertezas, pelo que muitos poderão não ter acreditado que, decorrido o período de transição, o acordo firmado e ratificado pelos dois Estados, em 1987, sobre “a questão de Macau”, na forma duma declaração conjunta, pudesse alcançar tão significativa eficácia, espelhada no regular funcionamento da região administrativa especial que dele resultou. Os diversos capítulos, onde os textos são acompanhados de sugestivas ilustrações, tratam da transição político-administrativa, do estabelecimento da RAEM, do papel de Macau na cooperação no seio do mundo lusófono, da educação e formação de recordar a transição, 18 anos após o estabelecimento da rAeM“Este trabalho resultou da adaptação de duas comunicações apresentadas em Portugal, na Universidade de Aveiro e na Academia de Marinha, e de um artigo publicado na revista “Povos e Culturas”, da Universidade Católica Portuguesa.” quadros, da dimensão cultural do território e da classificação do centro histórico da cidade como património mundial, da comunicação social e publicações, e do legado arquitectónico às “pedras vivas”.A transiçãoVejamos, sumariamente, como foi operada a transição político-administrativa de Macau: No período de 1987 a 1999, foi o território transformado num imenso estaleiro, com múltiplas obras simultaneamente projectadas e lançadas, numa verdadeira corrida contra o tempo, visando dotá-lo das infra-estruturas necessárias, que comportavam um aeroporto internacional, velha aspiração de sucessivas gerações constantemente protelada, pontes e estradas, um renovado parque escolar, desportivo, cultural e social e planos urbanísticos consistentes.Os desafios eram enormes, em todos os domínios da actividade governativa e no seio da sociedade civil, quando se definiu o enquadramento político do processo de transição e se escolheu a data de 19 de Dezembro de 1999 para a sua conclusão, com o estabelecimento formal, no dia seguinte, da Região Administrativa Especial de Macau (RAEM), marcando o fim duma presença administrativa plurissecular de Portugal.Enquanto no foro diplomático prosseguiam os contactos regulares, no âmbito de um grupo de ligação conjunto, coube ao Governo de Macau a responsabilidade de pôr em execução um vastíssimo programa de realizações, que iam das infra-estruturas
  • 204 205 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I I F A L A R D E N Ó S - X I I Ià educação, da organização jurídica e judiciária à expansão dos serviços sociais e da estabilização financeira à consolidação das instituições. Todas estas medidas apontavam para o reforço do “segundo sistema”, no conceito “um país, dois sistemas” que inspirou a criação oficial das regiões administrativas especiais chinesas, dotadas de elevado grau de autonomia e com a maneira de viver das suas populações, bem como o respectivo sistema económico, salvaguardados.Ao mesmo tempo – e porque tudo era, afinal, prioritário – trabalhou-se, determinada e aceleradamente, na formação de quadros médios e superiores; na “localização” das leis e da língua chinesa, que se tornou oficial em 1992, a par da portuguesa; na reestruturação dos serviços públicos; no aumento dos apoios e estímulos ao associativismo; na “internacionalização” de Macau, reforçando as suas ligações à Europa e aos países lusófonos; nas complexas tarefas da produção legislativa e da tradução jurídica; no alargamento da participação cívica e política; no desenvolvimento dos sectores com maior impacto directo na vida da população, como a educação, a saúde, a habitação e a acção social, para os quais foram canalizados abundantes recursos; e, na fase final, na passagem das responsabilidades administrativas e na preparação da transferência de poderes. De salientar é também o facto de, durante todo o período de transição, o Governo de Macau ter abraçado o princípio do equilíbrio orçamental, ao mesmo tempo que, rejeitando o endividamento público, soube impulsionar o desenvolvimento sustentável através de investimentos correctamente dimensionados e de um sistema fiscal estável e atraente.Quando, naquela noite fria de 19 para 20 de Dezembro, numa cerimónia inolvidável pelo seu alto significado, uma bandeira era arriada e outra içada e os mais altos magistrados das duas nações selavam simbolicamente o compromisso com um histórico aperto de mãos perante 2500 convidados e entidades de muitos países e câmaras de televisão com cobertura mundial, tínhamos chegado ao fim de um tempo de Portugal no Oriente. O território iria, a partir dessa data, fixada na Declaração Conjunta Luso-Chinesa, enfrentar o futuro que para ele tinha sido traçado pelos dois Estados com legitimidade de intervenção na definição do seu novo figurino político.o estabelecimento da rAeMNa Declaração Conjunta havia sido acordado que os sistemas social e económico permaneceriam em vigor, mantendo-se também basicamente inalteradas as leis então vigentes, e que seriam assegurados “todos os direitos e liberdades dos habitantes e outros indivíduos em Macau”. A Declaração Conjunta estabeleceu, igualmente, que a região definiria, por si própria, as políticas de cultura, educação, ciência e tecnologia e protegeria o património cultural de Macau, podendo também ser mantidas as relações económicas e culturais e celebrados acordos com países, regiões e organizações interessadas. O estatuto de porto franco e território aduaneiro separado, para desenvolvimento de actividades económicas, seria também mantido, assim como o livre fluxo de capitais, a circulação de moeda própria (a pataca de Macau) e a sua convertibilidade, comprometendo-se o Governo Popular Central da China a não arrecadar quaisquer impostos na região, cuja independência financeira ficou, desta feita, contemplada.No quadro da sua autonomia, foram também atribuídos à região poderes executivo, legislativo e judicial próprios, incluindo o de julgamento em última
  • 206 207 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I I F A L A R D E N Ó S - X I I Iinstância, devendo os lugares de membros do Governo e do órgão legislativo ser ocupados por habitantes locais.Foi em consonância com estes parâmetros que se elaborou a Lei Básica da RAEM, cujo estabelecimento será objecto de apreciação no próximo artigo.19 de Dezembro de 2016A propósito do livro “O legado luso em Macau – um património valorizado” (IIM, Julho de 2016), apresentado no último Encontro das Comunidades Macaenses, recordámos, no artigo anterior, a forma como decorreu o período de transição, que culminou no estabelecimento da Região Administrativa Especial de Macau (RAEM), em Dezembro de 1999.Foi em consonância com os parâmetros acordados na Declaração Conjunta, firmada e ratificada por Portugal e pela República Popular da China (RPC) em 1987, que se procedeu à elaboração da Lei Básica da RAEM, aprovada em Março de 1993, na 1.ª sessão da 8.ª legislatura da Assembleia Popular Nacional da RPC, e promulgada na mesma data pelo Presidente Jiang Zemin. Ela incorporou as políticas fundamentais definidas na Declaração Conjunta e fixou a estrutura político-administrativa da RAEM.A feitura da Lei Básica foi da responsabilidade exclusiva da RPC, que quis envolver na sua preparação residentes permanentes de Macau, entre os quais o bispo católico de Macau, D. Domingos Lam, o presidente da Assembleia Legislativa, Dr. Carlos Paes d’Assumpção, e eu próprio, não obstante os altos cargos desempenhados ao serviço da Administração Portuguesa e a nossa nacionalidade portuguesa. Sentimos da parte das autoridades chinesas um interesse genuíno em se conseguir, com a colaboração de personalidades locais com formação, ligações e experiências diferentes, a melhor Lei possível. Em reuniões plenárias e, sobretudo, ao nível de comissões especializadas oportunamente constituídas, revelou-se da maior utilidade a participação dessas personalidades. Quando deixei o Conselho de Redacção da Lei Básica, por integrar a equipa governativa de Vasco Rocha Vieira, último Governador de Macau (1991-Macau – um suporte legislativo para uma região especial “Foi em consonância com os parâmetros acordados na Declaração Conjunta (…) que se procedeu à elaboração da Lei Básica da RAEM, aprovada em Março de 1993.”
  • 208 209 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I I F A L A R D E N Ó S - X I I I1999), fui substituído por Raimundo Arrais do Rosário, ex-director dos Serviços de Obras Públicas e Transportes e deputado, que viria a ser, já na vigência da RAEM, coordenador da Delegação Económica e Comercial de Macau em Portugal, sendo agora um competente membro do Governo. disposições fundamentais da leiTendo como referência a Lei Básica já aprovada para Hong Kong, a qual serviu de ponto de partida para um primeiro esboço do correspondente projecto de lei para a RAEM, foi possível avançar com estabilidade e segurança, com esse objectivo sempre presente e tendo em vista assegurar a continuidade desejada da legislação vigente no território e salvaguardar a maneira de viver da população. Foi, neste contexto, que se tornou desejável especificar no texto os direitos e liberdades dos habitantes da região, garantidos até 1999 pela Constituição da República Portuguesa. A Lei Básica visou, também, manter os sistemas social e económico e a independência financeira da região, como território aduaneiro separado, com livre fluxo de capitais e a circulação de moeda própria. Da maior relevância foi, ainda, a aprovação dos preceitos respeitantes à capacidade de a região definir, por si própria, as políticas de cultura, educação, ciência e tecnologia, e à sua responsabilidade na protecção do património cultural de Macau. De igual modo, foi facultada à região a possibilidade de manter relações económicas e culturais com países, regiões e organizações interessadas. No que respeita a Portugal, ficou expressa a possibilidade de a região desenvolver relações de benefício mútuo, ao mesmo tempo que se garantiu que os interesses dos habitantes de ascendência portuguesa seriam protegidos e os seus costumes e tradições respeitados. E, quanto à língua portuguesa, a Lei Básica, foi mais longe do que a Declaração Conjunta. Com efeito, o seu artigo 9.º dispõe que “além da língua chinesa, pode usar-se a língua portuguesa nos órgãos executivo, legislativo e judiciais da Região Administrativa Especial de Macau, sendo também o português língua oficial”.Para muitos, para além da história, da memória, da identidade e do património arquitectónico, cultural e humano, foram, indubitavelmente, os direitos, as liberdades e as garantias a melhor expressão viva do legado luso em Macau. Sem eles, o “segundo sistema”, no conceito “um país, dois sistemas” que inspirou a criação das regiões administrativas especiais, não teria razão de ser. Os propósitos de, no quadro da sua autonomia, serem atribuídos à região poderes executivo, legislativo e judicial próprios, incluindo o de julgamento em última instância, e de os lugares de membros do Governo e do órgão legislativo serem ocupados por habi-tantes locais foram também realizados. O primeiro Chefe do Executivo, Edmund Ho Hau Wah (1999-2009), e o actual, Fernando Chui Sai On (2009-) são ambos naturais de Macau, ligados a duas das mais influentes famílias locais. As estruturas judiciais funcionaram e as eleições para a Assembleia Legislativa fizeram-se em conformidade com a Lei.Sem ser perfeita (basta lembrar, por exemplo, que o seu preâmbulo contém uma verdadeira enormidade, quando afirma que Macau, “a partir de meados do século XVI, for gradualmente ocupado por Portugal”), a Lei Básica tem sido o suporte legislativo fundamental da RAEM. Vigorará até 2049, havendo já planos com medidas apontadas para a progressiva integração da região, à medida que se forem esbatendo as diferenças
  • 210 211 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I I F A L A R D E N Ó S - X I I Ique o princípio “um país, dois sistemas” permitiu. De harmonia com esse princípio, foi a própria Lei Básica que determinou que “não se aplicam em Macau o sistema e as políticas socialistas”. O seu artigo 5.º até oferece esta surpreendente redacção: “Na Região Administrativa Especial de Macau não se aplicam o sistema e as políticas socialistas, mantendo-se inalterados durante cinquenta anos o sistema capitalista e a maneira de viver anteriormente existentes”. Um capítulo inteiro da Lei Básica é dedicado aos “Direitos e deveres fundamentais dos residentes”. Além de clarificar o conceito de “residente permanente”, dispõe que “os residentes de Macau são iguais perante a lei, sem discriminação em razão de nacionalidade, ascendência, raça, sexo, língua, religião, convicções políticas ou ideológicas, instrução e situação económica ou condição social”. Quanto a órgãos municipais, preferindo ignorar a existência anterior de duas câmaras municipais, com experiências muito positivas no domínio da participação cívica, a Lei Básica apenas estabeleceu que a RAEM “pode dispor de órgãos municipais sem poder político” e que “estes são incumbidos pelo Governo de servir a população, designadamente nos domínios da cultura, recreio e salubridade pública, bem como de dar pareceres de carácter consultivo ao Governo da Região sobre as matérias acima referidas”. Num gesto de alguma pusilanimidade, que não podia merecer o apoio da população mais esclarecida, o primeiro Governo da RAEM optou pela extinção dos órgãos municipais e pela sua substituição por um instituto público sobredimensionado e com todos os seus responsáveis nomeados. Entretanto, parecendo reconhecer o erro, o Governo reestruturou recentemente esse instituto público e anunciou a intenção de voltar a criar órgãos municipais.Ao contrário de Hong Kong, onde a Lei Básica foi objecto de controversas interpretações de cariz político e as autoridades mereceram forte contestação popular, a Lei de Macau tem conhecido um percurso até agora razoavelmente pacífico. De um modo geral, ao entrar no seu 18.º ano de funcionamento, é justo reconhecer que a RAEM é uma “história de sucesso”, não obstante as insuficiências e os acidentes de percurso que prejudicaram o seu desenvolvimento. O 20.º aniversário será o momento adequado para uma cabal e profunda avaliação. 16 de Janeiro de 2017
  • 212 213 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I I F A L A R D E N Ó S - X I I IRecordámos, em dois artigos anteriores, a propósito do livro “O legado luso em Macau – um património valorizado” (IIM, Julho de 2016) e da celebração do 17.º aniversário da Região Administrativa Especial de Macau (RAEM), o período de transição, o estabelecimento da RAEM e os dois documentos fundamentais que regularam esse estabelecimento: a Declaração Conjunta, assinada em Abril de 1987, e a Lei Básica, aprovada e promulgada em Março de 1993. É agora oportuno referir o papel cometido à Região, em 2003, como plataforma de cooperação. Fórum para a cooperaçãoA RAEM ganhou uma nova dimensão nas suas relações com o exterior quando, em 2003, foi criado o Fórum para a Cooperação Económica e Comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa, com o secretariado e serviços de apoio ali permanentemente instalados.Esta decisão pragmática e politicamente coerente com a visão estratégica da China, na afirmação crescente do seu papel incontornável no mundo, representou também o reconhecimento definitivo da vocação histórica de Macau como entreposto privilegiado entre povos e culturas, agora com novos propósitos, assumindo-se a região como plataforma oficial de cooperação, inicialmente com objectivos predominantemente económicos e abrangendo, progressiva e estavelmente, outras áreas, à medida que as estruturas de suporte ao alargamento dessa cooperação, que foi produzindo resultados financeiros encorajadores para todas as partes envolvidas, se foram consolidando e a experiência na sua promoção e gestão foi sendo enriquecida.cooperação multifacetada através de Macau “Esta decisão (…) representou também o reconhecimento definitivo da vocação histórica de Macau como entreposto privilegiado entre povos e culturas, agora com novos propósitos, assumindo-se a região como plataforma oficial de cooperação…” A capacidade de resposta das autoridades e instituições locais a este oportuno desafio lançado pelo Governo Central da China tornou-se possível graças às condições criadas no período de transição, à forma suave e consensual como se processou a transferência de poderes e aos passos dados no início da nova fase do longo percurso deste minúsculo território, assolado por muitas tempestades naturais e políticas, mas que soube alimentar sempre uma ambição legítima muito maior do que a sua limitadíssima geografia. Recebendo há cinco séculos o primeiro abraço de Portugal, quis depois abraçar o mundo. E é hoje património da humanidade.A visita a Macau, em 2010, do Primeiro-Ministro Wen Jiabao constituiu um ponto de viragem nas atribuições, que se foram tornando mais extensas, do Fórum para a Cooperação, e o discurso lapidar que então proferiu, exaltando o valor da cooperação e a importância da língua portuguesa, como instrumento de comunicação no e com o mundo lusófono, deu um renovado impulso e incentivo à missão de Macau no exercício dessa plataforma de cooperação, não só económica, mas também, e cada vez mais, cultural e social. Assim, o 3.º Plano de Acção para a Cooperação, assinado em Novembro de 2010, pelos representantes dos países de língua portuguesa e da China, reunidos em Macau, ampliou as vertentes e as actividades, nos domínios da administração pública, agricultura, infra-estruturas, transportes e comunicações, turismo, saúde pública, educação e recursos humanos, ciência e tecnologia, cultura, rádio, cinema e televisão. Especial ênfase foi colocada na formação. Formação de quadrosMacau passou, assim, quase de imediato, a funcionar como um grande centro de formação contínua, por cujas instituições foram passando centenas de quadros
  • 214 215 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I I F A L A R D E N Ó S - X I I Imédios e superiores dos países lusófonos, para a frequência de cursos de variadíssima natureza, temática e duração.O Fórum para a Cooperação criou o seu próprio centro de formação, podendo também recorrer às instituições de ensino superior aqui existentes, públicas e privadas, e por diversos institutos técnicos, cobrindo uma gama significativa de necessidades e oferecendo alargadas oportunidades.No âmbito da formação em língua portuguesa, é indispensável referir, igualmente, duas instituições que têm um papel fulcral na promoção e difusão da língua portuguesa: a Escola Portuguesa de Macau (EPM) e a Fundação responsável pela sua gestão, instituída em 1998, e o Instituto Português do Oriente (IPOR), instituição portuguesa vocacionada para promover o ensino da língua, enquanto língua oficial consagrada na Lei Básica da RAEM, “assegurando o seu ensino não curricular como língua de trabalho em articulação com instituições representativas das actividades profissionais de Macau”. A EPM insere-se no sistema educativo de Macau como instituição educativa particular sem fins lucrativos e o IPOR tem a responsabilidade de interagir com entidades representativas do sistema de ensino da RAEM, no sentido de melhor promover o ensino do português como língua segunda ou língua estrangeira. Desde a sua criação, o IPOR tem mantido um papel relevante no apoio aos centros de estudos e leitorados de Português em universidades do Extremo Oriente, onde é crescente o interesse na aprendizagem da língua portuguesa. A Universidade de Macau e o Instituto Politécnico de Macau continuam a ser membros muito activos da Associação das Universidades de Língua Portuguesa e desenvolvem parcerias úteis com instituições de ensino superior de Portugal. Essa Universidade tem um Departamento de Português e o Instituto Politécnico uma Escola de Línguas e Tradução, com acções de intercâmbio e colaboração envolvendo instituições educativas de Portugal e da RPC, e criou um bem orientado Centro Pedagógico e Científico da Língua Portuguesa. O curso anual de Língua e Cultura Portuguesa da Universidade de Macau, levado a efeito todos os anos no período de férias escolares, propicia a estudantes e professores da vasta área geográfica em que Macau se insere oportunidades de encontro, aprendizagem e partilha de experiências pedagógicas.Os Serviços de Educação e Juventude também promovem o ensino da língua portuguesa em centros de formação e nas escolas luso-chinesas, havendo ainda um estabelecimento pré-escolar, o Jardim de Infância D. José da Costa Nunes, mantido pela Associação Promotora da Instrução dos Macaenses e cuja língua veicular é a portuguesa. novos desafios para o FórumEm Outubro passado, na 5.ª Conferência Ministerial do Fórum para a Cooperação, que contou com a presença do Primeiro-Ministro Li Keqiang e de altos responsáveis dos países de língua portuguesa, incluindo o Primeiro-Ministro de Portugal, foi aprovado num novo e mais ambicioso programa de acção, definindo as áreas prioritárias de cooperação e apontando dezoito medidas para a promoção da cooperação em cinco áreas principais: cooperação na capacidade produtiva, cooperação para o desenvolvimento, cooperação humana e cultural, cooperação no domínio do mar e cooperação no reforço de Macau como plataforma.
  • 216 217 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I I F A L A R D E N Ó S - X I I IAlém da aprovação de novos apoios financeiros, na forma de empréstimos, donativos, perdão de dívidas e bolsas de formação, foi decidido criar em Macau, no âmbito do Fórum, um complexo de prestação de serviços, uma base para a formação de profissionais bilingues, uma plataforma de serviços financeiros e um veículo para a cooperação no domínio da medicina tradicional chinesa. Reconhecendo a sua relevância, voltaremos a este assunto. 23 de Janeiro de 2017O Instituto Internacional de Macau (IIM) viu recentemente enriquecido o seu acervo editorial com a publicação de um livro do professor e investigador António Aresta dedicado a D. Arquimínio Rodrigues da Costa, Bispo emérito de Macau, falecido em Setembro do corrente ano na Candelária do Pico (Açores), sua terra natal, onde se recolhera após a resignação, em 1988, ao fim de doze anos como prelado da Diocese. Com o título “D. Arquimínio Rodrigues da Costa, Bispo de Macau (1976-1988)”, esta obra constitui o IX volume da colecção “Missionários para o Século XXI”, destinada a recordar vultos maiores da Igreja, todos eles “figuras excepcionais em Macau radicadas, grandes nas obras, como no quase anonimato de uma humildade que é a expressão de um verdadeiro sentido ancilar da vida e do destino”.Este trabalho, com mais de 80 páginas, contém o texto de António Aresta, uma adequada selecção fotográfica e cinco anexos: a bula da nomeação do bispo, datada de 20 de Janeiro de 1976; um artigo de D. Arquimínio sobre a Igreja e a Educação na óptica do II Concílio do Vaticano, inserido na revista dos Serviços de Educação de Macau, de Maio de 1986; uma entrevista concedida à revista “Além-Mar”, em Outubro de 1987, sobre a Igreja em Macau; um depoimento de homenagem ao monsenhor Manuel Teixeira, de Maio de 1998; e a homilia proferida no 35.º aniversário da sua ordenação episcopal, em Março de 2011. O volume, digno da memória do saudoso prelado, junta ainda três testemunhos: do antigo Governador José Eduardo Garcia Leandro (1974/79), de José Maria Bártolo, ex-seminarista e chefe de Divisão, aposentado, da então Imprensa Oficial de Macau (então denominada Imprensa Nacional de Macau) e de Simão Barreto, maestro e também ex-seminarista.Bispo d. Arquimínio da costa em livro do IIM“Nas palavras quase proféticas do cardeal D. José da Costa Nunes, ele próprio um antigo bispo de Macau, proferidas no dia 23 de Janeiro de 1976, o padre Arquimínio Rodrigues da Costa estaria condenado a ficar na História como o último Prelado do Padroado do Oriente.” Palavras de abertura do livro
  • 218 219 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I I F A L A R D E N Ó S - X I I Ido seminário à resignaçãoArquimínio Rodrigues da Costa nasceu na Ilha do Pico (Açores) a 8 de Julho de 1924 e rumou a Macau em 1938 para frequentar o prestigiado Seminário de S. José, onde fez a sua formação teológica e humanística, sendo ordenado sacerdote em Outubro de 1949, precisamente na altura da fundação da República Popular da China, após os anos atribuladíssimos da Guerra do Pacífico e da guerra civil chinesa que opôs nacionalistas e comunistas. Mais tarde, obtém a licenciatura em Direito Canónico na Universidade Gregoriana, em Roma. Foi professor e reitor do Seminário de S. José e vigário capitular da Diocese, sendo nomeado bispo em 1976. A sua resignação ocorreu em 1988, após o que D. Arquimínio da Costa retornou à terra natal, onde viveu até 12 de Setembro de 2016, data do seu falecimento. Tinha 92 anos de idade. As circunstâncias histórias e conjunturais que justificaram a resignação são explicadas no livro:“O tempo da transição chegara à Diocese, tendo sido entendido como um acto de sabedoria o seu voluntário afastamento. Informa a comunidade de Macau nestes precisos termos: ‘Como é do conhecimento geral, a Santa Sé adoptou, desde há muito, o princípio da localização das igrejas particulares fundadas em terras de missão. Em obediência a este critério, os Bispos passaram a ser escolhidos, na medida do possível, entre o clero autóctone, substituindo gradualmente os Prelados oriundos da Europa ou de outras regiões. Assim sucedeu, por exemplo, na vizinha diocese de Hong Kong, onde o Prelado actual já é o terceiro de etnia chinesa. Algo de semelhante se deu em Taiwan, na Coreia, no Japão, na Malásia, na Indonésia, etc. Até a diocese anglicana de Hong Kong e Macau adoptou a mesma linha de orientação, elegendo, há vários anos, o seu primeiro Bispo chinês. Neste contexto, Macau, devido aos seus condicionalismos, tem constituído um caso à parte. Tal situação, porém, em virtude das razões expostas e, sobretudo, da conjuntura histórica em que nos encontramos inseridos, não se podia prolongar indefinidamente. Deste modo, depois de a Sé Episcopal de Macau ter sido ocupada, durante mais de quatro séculos, por Bispos oriundos de Portugal, a Santa Sé julgou, em 1987, ter chegado o momento de se iniciar o processo de sucessão que culminaria com a minha substituição por um Bispo chinês. Tal decisão foi motivada, sobretudo, pelo facto de o Território ter entrado num período de transição, que tem, como ponto de mira, o ano de 1999. (…) Ao deixar a Sé Episcopal de Macau, levo dentro de mim apenas um pesar: o de não ter conseguido fazer mais e melhor por esta diocese. Perto ou longe, terei sempre presente na memória e no coração esta terra, para a qual vim, como seminarista, há 50 anos. E a minha maior alegria será constatar que ela floresce e progride, sobretudo no campo religioso, preparando-se para enfrentar, vitoriosamente, os desafios do futuro’. Recolhe-se, então, na Ilha do Pico, nos Açores. O seu sucessor foi D. Domingos Lam Ka Tseung.”Percurso recordado pelo próprioNo 35.º aniversário da sua ordenação episcopal, no dia 25 de Março de 2011, D. Arquimínio proferiu uma homilia na paróquia de S. Mateus, no Pico, onde sintetizou, com a humildade que sempre caracterizou a sua personalidade, o longo percurso que fez ao serviço da Igreja. Manifestou a gratidão a Deus e à Virgem Maria e recordou a sua ordenação episcopal e a resignação:
  • 220 221 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I I F A L A R D E N Ó S - X I I I“Depois de ter permanecido, durante 15 anos, à frente daquela diocese, incluindo três anos como Vigário Capitular, entendi ter chegado a hora de Macau ter, finalmente, o seu primeiro Bispo chinês. De facto, durante mais de quatro séculos, os Bispos de Macau tinham sido sempre portugueses, apesar de cerca de 95% da população ser de etnia chinesa. Além disso, quase todas as dioceses do Extremo Oriente já eram dirigidas, naquela altura, por Bispos autóctones.Lembro-me de um Bispo africano me ter perguntado quando é que Macau teria um Bispo chinês. Respondi que isso não dependia de mim, mas unicamente da Santa Sé. Da minha parte, eu estava disposto a renunciar em qualquer altura. Nas reuniões da Conferência Episcopal do Extremo Oriente, eu sentia-me deslocado por ser o único europeu entre Bispos asiáticos. Como é sabido, a Santa Sé quase nunca toma a iniciativa de sugerir a um Bispo a sua resignação. Portanto, no caso de Macau, ou eu tomava a iniciativa de renunciar ou então a situação prolongar-se-ia sabe Deus até quando… Naquele tempo, a Santa Sé, como regra, só nomeava para as terras de missão Bispos autóctones. Macau era um caso à parte, que em virtude da Concordata, saía fora da linha de orientação da Cúria Romana. E a prova está no facto de um Cardeal da Cúria Romana se ter deslocado, naquela altura, a Macau para obter informações, em primeira mão, acerca de quem devia ser o próximo Bispo daquela diocese.Para facilitar à Santa Sé a mudança que se impunha, apresentei a minha resignação, que foi aceite. O primeiro passo foi a nomeação, para Macau, dum Bispo auxiliar chinês com direito de sucessão. A Santa Sé fez-me saber que, depois de eu ter um Bispo auxiliar, dependeria de mim continuar à frente da diocese ou renunciar. Mantive-me ainda durante algum tempo no meu posto, a fim de dar tempo ao meu sucessor para ele se familiarizar com os problemas da diocese.”6 de Fevereiro de 2017
  • 222 223 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I I F A L A R D E N Ó S - X I I IEstava em fase final de preparação mais um volume da colecção “Missionários para o Século XXI”, do acervo editorial do Instituto Internacional de Macau, quando nos chegou a dolorosa notícia do falecimento do Bispo D. Arquimínio Rodrigues da Costa, em Setembro de 2016. Esse volume (o IX da colecção) era precisamente dedicado a este saudoso prelado da nossa Diocese. Com a anuência do autor, António Aresta, investigador com obra de elevado mérito sobre Macau, foram solicitados vários testemunhos de personalidades que, em variadas circunstâncias, conheceram aquela eminente figura da Igreja, para inclusão nesse volume, cujo título é “D. Arquimínio Rodrigues da Costa, Bispo de Macau (1976-1988). Um desses testemunhos foi prontamente submetido pelo General José Eduardo Garcia Leandro, que foi Governador de 1974 a 1979:“Conheci D. Arquimínio em princípios de Junho de 1974 quando estive em Macau em representação da Junta de Salvação Nacional e o fui cumprimentar desejando saber das suas preocupações relativamente ao Território. Ele era na altura o Vigário Capitular da Diocese e transmitiu-nos uma grande preocupação quanto ao facto de D. Paulo Tavares ter falecido, em Junho de 1973, e não ter ainda sido substituído como Bispo de Macau.Prometi-lhe tratar do assunto em Lisboa, o que fiz, mas quando cheguei a Macau, em 19 de Novembro desse ano, como Governador, a situação ainda era a mesma e, em 23 de Janeiro de 1976, comemorava-se o IV centenário da Diocese de Macau, não sendo aceitável que esta Diocese, tão importante na expansão da Igreja Católica, não contasse com um Bispo titular.Testemunho do general garcia leandro sobre d. Arquimínio da costa“Creio, sem receio de errar, que fui o Governador que teve uma relação pessoal e de trabalho mais próxima de D. Arquimínio.” Começou então uma relação de grande cooperação e entendimento que eu detalho no meu livro “Macau nos Anos da Revolução Portuguesa – 1974/79” (de 2011) que se desenvolveu e reforçou durante os mais de quatro anos em que governei Macau. Creio, sem receio de errar, que fui o Governador que teve uma relação pessoal e de trabalho mais próxima de D. Arquimínio.Depois de várias tentativas frustradas feitas através de Lisboa para a nomeação do novo Bispo, foi-me dada autorização para contactar o Núncio Apostólico em Taipé, o irlandês Monsenhor Thomas White que compreendeu a situação e ficou de a expor à Santa Sé. Em consequência visitou Macau o Cardeal Agnelo Rossi, brasileiro, responsável pela “Propaganda Fide” com quem tive uma longa reunião, em 28 de Julho de 1975. Esta conversa está muito detalhada no meu livro, que pode ser consultado, pelo que não a vou repetir. Mas, em conclusão, ficou assente que, até 23 de Janeiro de 1976, a Santa Sé anunciaria o novo Bispo, desejando o Cardeal saber qual o sentir da população relativamente à sua etnia. Relativamente à população portuguesa, não havia qualquer dúvida pelo que fiquei de consultar os representantes da Comunidade Chinesa. Curiosamente a resposta foi a mesma, consideravam ser mais adequado um português, o que transmiti por carta ao Cardeal Agnelo Rossi.Verdadeiramente as hipótese para a nomeação eram o Padre Arquimínio e o Padre Domingos Lam, de origem chinesa; nas conversas prévias que tive com ambos percebi que nenhum estava particularmente interessado na nomeação.
  • 224 225 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I I F A L A R D E N Ó S - X I I IPor carta de 2 de Janeiro de 1976, o Cardeal comunicou-me que poderia estar descansado, pois a nomeação seria feita atempadamente. Assim, em 21 de Janeiro, o nome do novo Bispo, D. Arquimínio, foi anunciado simultaneamente em Lisboa e no Vaticano, pondo-se assim um ponto final a um interregno de mais de um ano e meio. E agora passo a transcrever diretamente do meu livro:‘D. Arquimínio desejou ser sagrado Bispo em Macau, o que não acontecia há mais de 150 anos. A sagração ocorreu a 25 de Março, na Sé de Macau, com a presença de outros três Bispos católicos (John Baptista Wu de Hong Kong, Júlio Xavier Labayen da Diocese de Infanta nas Filipinas e Monsenhor Lemaire, Bispo resignatário da Manchúria, um francês residente em Hong Kong) e de John Baker, Bispo Anglicano de Hong Kong. (…) D. Arquimínio tinha espírito de missionário e de professor e nunca ambicionou qualquer chefia. Com alguma timidez e um olhar azul-transparente que era o espírito da sua alma foi um Bispo notável, sendo também senhor de enorme e diversificada cultura.’Cabe aqui dizer, também transcrito do meu livro, que a Diocese de Macau não era fácil de governar, pois: ‘A sua presença sentia-se por todo o lado. No ensino, na investigação histórica, nos hospitais, na assistência à infância e à terceira idade, na assistência aos leprosos, aos cegos, aos diminuídos físicos e mentais, na recuperação de delinquentes juvenis, na comunicação social, nos espectáculos culturais, nas organizações de jovens, no apoio aos refugiados, na construção de habitação social, etc.’Com tanta actividade a sua gestão não era fácil, sendo também de lembrar que ‘a Igreja reunia diversas congregações e contava com uma imensa mescla de nacionalidades entre os seus membros: portugueses, chineses, espanhóis, italianos, franceses, filipinos, malaios, mexicanos, irlandeses, alemães, ingleses, vietnamitas, goeses…’.Nesta difícil missão veio a ser ajudado por D. Domingos Lam, grande gestor, que lhe sucedeu em 1988 quando resignou e passou a viver na Ilha do Pico. Fizeram uma excelente dupla e fiquei amigo de ambos.Para terminar, apenas três apontamentos muito pessoais: • D. Arquimínio quando vinha a Lisboa teve sempre a atenção de me contactar e visitar; • Quando publiquei o meu livro já citado sobre Macau e lho enviei com uma dedicatória em que o tratava por Amigo, respondeu-me muito sensibilizado dizendo que fôra a primeira vez que um antigo Governador o tratava por Amigo, algo de que não se esqueceria; • Em 2014 estive com Minha Mulher na Ilha do Pico e fomos visitá-lo; já estava muito doente, mas ainda pudemos trocar umas palavras sobre o passado vivido em conjunto.Foi um grande missionário e professor, mas também grande como amigo e exemplar Bispo.Trata-se de alguém que ficará para sempre comigo!”Foi da maior importância este relacionamento muito positivo que o então jovem
  • 226 227 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I I F A L A R D E N Ó S - X I I IGovernador, que tinha apenas 34 anos quando foi nomeado, quis e soube manter com a Diocese de Macau e os seus mais lídimos responsáveis, num tempo em que as desconfianças em relação às mudanças políticas operadas em Portugal, agravadas pelo processo revolucionário que se seguiu, não eram facilmente ultrapassáveis. O Governador estava ciente da imprescindibilidade da colaboração da Igreja para o sucesso da espinhosa missão que abraçou e teve em D. Arquimínio Rodrigues da Costa o interlocutor certo, capaz de lhe assegurar o diálogo e o apoio necessários, naqueles anos de enormes dificuldades e incertezas que, felizmente para Macau, foram vencidas.13 de Fevereiro de 2017As negociações sino-britânicas e luso-chinesas que decorreram na década de 1980, visando o retorno de Hong Kong e de Macau à China, suscitaram inevitáveis apreensões e naturais interrogações no seio das comunidades cristãs locais. Todavia, o conteúdo das respectivas Declarações Conjuntas, assinadas em 1984 e em 1987, trouxeram de volta, em larga medida, a tranquilidade que todas as partes quiseram assegurar para o período de transição, cujo sucesso iria depender da vontade política dos responsáveis, por um lado, e da confiança das populações, por outro. uma importante entrevistaPouco depois da aprovação da Declaração Conjunta sobre a Questão de Macau, o Bispo D. Arquimínio Rodrigues da Costa concedeu à revista “Além-Mar”, de Outubro de 1987, uma importante entrevista em que expressa as preocupações da Igreja, mas revela as suas expectativas positivas em relação ao futuro. Essa entrevista havia sido reproduzida no livro “A Igreja Católica na China e em Macau no Contexto do Sudeste Asiático: que futuro?”, de António Carmo (Fundação Macau, Instituto Cultural de Macau e Instituto Português do Oriente, 1997) e foi recentemente escolhida por António Aresta para integrar, como um dos anexos, a sua obra “D. Arquimínio Rodrigues da Costa, Bispo de Macau (1976-1988)”, publicada em Novembro passado pelo Instituto Internacional de Macau. Dado o seu inegável interesse, dela extraímos as principais perguntas e respostas sobre a situação da Igreja em Macau na sequência da assinatura da Declaração Conjunta, que estabeleceu o enquadramento e as orientações para a transição política subsequente:“Pode dizer-nos alguma coisa sobre as relações com a chamada Igreja Patriótica Chinesa?A situação da Igreja após a assinatura da declaração conjunta “Uma vez que, segundo o Acordo Luso-Chinês, a legislação local se deve manter praticamente inalterada, é de esperar que os missionários oriundos de fora possam continuar a exercer as suas actividades em Macau.”
  • 228 229 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I I F A L A R D E N Ó S - X I I ISegundo o Acordo Luso-Chinês de 13 de Abril passado, tais relações ‘deverão basear-se no princípio de não subordinação mútua, de não ingerência nos assuntos internos de cada uma (das Igrejas) e de respeito mútuo’. Dentro desta orientação, já houve contactos entre elementos da comunidade católica local e elementos de algumas comunidades congéneres do interior. Em 1985, uma delegação da diocese de Macau visitou Pequim, Nanquim, Xangai e Cantão, tendo tido, naquelas cidades, vários encontros amigáveis com prelados, sacerdotes e outros elementos representativos daquelas dioceses. Posteriormente, alguns grupos de cristãos de Macau têm visitado, na ilha de Sanchoão, o local onde faleceu São Francisco Xavier, tendo tido contactos amigáveis com os irmãos daquela zona. Outros grupos têm visitado outros locais, incluindo leprosarias, podendo estabelecer um diálogo fraterno com diversos grupos de cristãos. Da parte da Igreja do interior, também têm vindo a Macau alguns elementos representativos, entre os quais merece especial menção o bispo auxiliar de Xangai.Pelo Acordo Luso-Chinês fica assegurado o património actual da diocese (escolas, casas de retiros, templos, etc.)?Segundo o dito acordo, ‘as escolas, hospitais e instituições de beneficência pertencentes a organizações religiosas poderão continuar a funcionar como anteriormente’. Estas palavras implicam que, pelo menos, os bens aqui mencionados e pertencentes à diocese de Macau continuarão a pertencer-lhe. Ainda segundo o referido acordo, ‘a Região Administrativa Especial de Macau assegurará … todos os direitos e liberdades dos habitantes e outros indivíduos em Macau, estipulados pelas leis previamente vigentes em Macau’. Entre os direitos, vem mencionado ‘o direito à propriedade privada’. Combinando os dois textos citados, vê-se claramente que os bens pertencentes à Igreja continuarão a pertencer-lhe, uma vez que é reconhecido o direito à propriedade privada. Reconhecemos, no entanto, que o acordo poderia ter sido mais explícito neste ponto, para maior segurança de todos. Da nossa parte, fizemos tudo o que estava ao nosso alcance para que assim fosse.Apesar dos esforços realizados, a percentagem do clero nativo parece longe de ser suficiente, obrigando ao recurso a missionários estrangeiros. Pensa que esta situação se prolongará, ou haverá forma de estimular novas vocações entre as comunidades chinesa e macaense?Uma vez que, segundo o Acordo Luso-Chinês, a legislação local se deve manter praticamente inalterada, é de esperar que os missionários oriundos de fora possam continuar e exercer as suas actividades em Macau. Isto não impede que a diocese procure, na medida do possível, tornar-se auto-suficiente em matéria de pessoal missionário. Para isso, muito há que fazer a diversos níveis. Como as vocações provêm da família cristã, torna-se necessário que esta se renove, de modo que o ambiente familiar seja propício ao florescimento e à maturação do ideal missionário. A propósito, diga-se que, de famílias de filho único ou de dois filhos, é praticamente impossível que surjam candidatos ao sacerdócio ou à vida religiosa. Funciona em Macau um Movimento Católico de Apoio à Família, com programas de planeamento natural da família, de educação para a vida de família e de ajuda pastoral e psicológica para os cônjuges, mas tudo isso parece ser apenas uma gota no oceano. Existe também uma associação de leigos (Serra Club), cujo fim específico é a promoção de vocações consagradas. No entanto, parece que os resultados não têm correspondido ao esforço dispendido. Os motivos serão muitos, entre eles, as solicitações negativas do ambiente citadino de Macau e o fraco nível cristão de muitas das nossas famílias. E aqui volta de novo o magno problema da renovação do agregado familiar em Macau.
  • 230 231 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I I F A L A R D E N Ó S - X I I IÉ lamentável que, havendo neste território um organismo católico criado para apoio à família e aos que para ela se preparam, sejam tão poucos os que se aproveitam dessa facilidade. Além disso, talvez a maneira como alguns de nós, pastores da Igreja, vivemos o nosso sacerdócio seja uma das causas da falta de vocações. Trata-se, portanto de um problema complexo, para cuja solução se torna necessário trabalhar, ao mesmo tempo, em muitas frentes e em diversos níveis. Para isso, temos de articular melhor a pastoral das vocações, fazendo convergir para este fim os esforços de toda a diocese. Para isso, torna-se necessário criar o conselho diocesano pastoral, já antes mencionado, que se debruce também sobre este assunto, procurando dar-lhe solução adequada.” Manter a estabilidadeNum gesto de abertura das autoridades chinesas, D. Arquimínio Rodrigues da Costa visitou o continente chinês em 1985, em “romagem de fraternidade humana”, que foi como ele próprio classificou esta deslocação. Apresentou a sua resignação, em 1988, “para facilitar à Santa Sé a mudança que se impunha”, sendo sucedido por D. Domingos Lam Ka Tseung. Em Julho de 1997, D. Arquimínio da Costa, numa entrevista ao jornal “O Dever” (Açores), não deixando de manifestar algumas naturais reservas em relação ao futuro da Igreja em Hong Kong e em Macau, mostrou acreditar que era possível assegurar a continuidade do seu longo percurso: “Como é do interesse da China manter a estabilidade social naqueles territórios em função dos objectivos políticos em vista, é de crer que Beijing não caia na tentação de cercear a liberdade religiosa nos dois enclaves, impondo-lhes a política que vigora no resto do país, onde a Igreja é controlada pela Associação Patriótica.” A Lei Básica da RAEM ofereceu as necessárias garantias para que a Diocese e as congregações religiosas pudessem permanecer e exercer em pleno as suas actividades em Macau, onde a acção da Igreja é reconhecidamente relevante, especialmente nas áreas da Educação, da Juventude e da Solidariedade Social. É absolutamente desejável que essa acção prossiga. 20 de Fevereiro de 2017
  • 232 233 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I I F A L A R D E N Ó S - X I I INa entrevista que deu à revista “Além-Mar” de Outubro de 1987 (referida no artigo anterior), D. Arquimínio Rodrigues da Costa, Bispo de Macau de 1976 a 1988, revelou legítimas preocupações, mas manifestou igualmente uma confiança realista no futuro da Igreja em Macau. Mãe de muitas diocesesAtravés dela, o saudoso prelado ofereceu também aos leitores uma síntese do percurso histórico da diocese local desde a sua fundação, no início do último quartel do século XVI: “Na data da sua fundação (23 de Janeiro de 1576) a diocese de Macau estendia-se desde a Indochina até ao Japão. Dela já foram desmembradas cerca de 600 novas dioceses. Nos primeiros séculos, o núcleo da diocese era o território de Macau, com a sua comunidade quase exclusivamente portuguesa dentro dos muros da cidade. Fora, os poucos chineses que aqui viviam tinham como chefe um mandarim. As congregações religiosas, sobretudo os jesuítas, exerciam a sua acção evangelizadora, provavelmente, fora dos limites territoriais de Macau. Nesta cidade, os jesuítas dedicavam-se, sobretudo, à formação de pessoal missionário nos seus colégios de S. Paulo e S. José. Assim, a acção da Igreja não se podia concentrar na evangelização directa deste território, aliás pouco povoado, que era quase só uma base logística de actividades missionárias no exterior. A diocese de Macau – um resumo do seu percurso“Não viemos para receber, mas para dar. Não viemos para destruir, mas para edificar. Não viemos para absorver, mas para elevar e dignificar. Não viemos para dominar, mas para servir. Viemos trazer a boa nova da fraternidade universal em Cristo.” D. Arquimínio da Costa, na inauguração do Ano Jubilar da Diocese de Macau, 1976 Entretanto, a diocese de Macau começou a ser desmembrada com a criação de novas dioceses: a de Funai (actualmente Oita), no Japão, em 1588; a de Tonquim, em 1658; as de Pequim e Nanquim, em 1690; a Prefeitura Apostólica de Cantão, em 1850, com as províncias de Kwangtung e Kwangshi. Em 1874, foi anexada à diocese de Macau a ilha de Hainan, o distrito e ilha de Heung-shan, as ilhas do distrito de Shan-vui e o território de Timor português. Em 1887, foram anexadas à diocese de Macau as paróquias de São José (em Singapura) e de São Pedro (em Malaca). Em 1903, trocámos Hainan por Shiu-hing, com 12 distritos, ficando, portanto, a nossa diocese com os territórios de Macau, Shiu-hing, Chong-shan, Timor português, além das referidas paróquias de Singapura e Malaca. Em 1941, Timor português separou-se de Macau, constituindo uma diocese independente. Ulteriores vicissitudes, às quais se deve juntar a transferência, em 1981, das paróquias de São José (em Singapura) e de São Pedro (em Malaca) para os prelados daqueles territórios reduziram a nossa diocese ao território de Macau. Só a partir da década de 1950, com a concentração em Macau do pessoal missionário vindo do interior da China, começou a intensificar-se a acção evangelizadora neste território. Multiplicaram-se as escolas e criaram-se alguns catecumenados. Teve grande incremento a acção social, graças aos padres jesuítas da Casa Ricci. Mesmo assim, as paróquias territoriais eram todas portuguesas, assistidas por sacerdotes que não dominavam o idioma chinês. Para os cristãos de expressão chinesa, funcionava uma única paróquia pessoal com sede em São Lázaro. Só na década de 1960 foi extinta a referida paróquia pessoal,
  • 234 235 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I I F A L A R D E N Ó S - X I I Ipassando as paróquias a serem todas territoriais. Na década anterior, fora estabelecida em Macau a Legião de Maria, que conheceu um período inicial de grande actividade e expansão. Com o decorrer dos anos, esta organização do apostolado laical entrou em declínio, estando hoje bastante reduzida. Entretanto, na década de 1970, criaram-se novos centros pastorais no âmbito da comunidade chinesa, destinados à intensificação da acção evangelizadora e à formação dos cristãos, sobretudo os mais jovens. Mas a contínua emigração da população de Macau não tem permitido o crescimento desejado da comunidade católica local.”É abundante a bibliografia sobre a Igreja em Macau, sendo incontornável a obra monumental do Pe. Manuel Teixeira, “Macau e a sua Diocese”. O livro “Macau, Mãe das Missões no Extremo Oriente”, do Pe. Eusébio Arnáiz, separata do Boletim Eclesiástico (1957), contém uma história concisa. Valorizar o laicado católicoD. Arquimínio da Costa estava ciente dos desafios da mudança histórica que Macau estava prestes a enfrentar, na sequência das negociações luso-chinesas sobre o futuro do território. Com recursos humanos limitados e um clero envelhecido, defendeu, na mesma entrevista, a valorização do laicado católico: “O caminho a seguir parece ser a valorização, a todos os níveis, dos leigos e a consequente transferência para eles de tarefas actualmente desempenhadas por sacerdotes e irmãs religiosas. Entre essas tarefas, estão as que se referem à educação, à acção social e a tudo o que são funções meramente administrativas ou organizativas. Também os apóstolos, há vinte séculos, sentiram a necessidade de distribuir funções, a fim de se poderem dedicar às actividades essenciais do seu ministério. Hoje será necessário avançar, mais e melhor, nessa linha, de modo que os leigos possam exercer as funções que, em virtude do Baptismo e da Confirmação, lhes competem.”Reforçando este propósito, apelou à criação de uma mentalidade nova no seio da comunidade eclesial, com vista a uma maior participação dos leigos:“Devemos reconhecer que, em geral, o laicado católico ainda está longe do ideal proposto pelo Vaticano II. Para muitos, a Igreja ainda são os padres e os membros das congregações religiosas. Há toda uma mentalidade nova a criar. Naturalmente, também a hierarquia é responsável por esta situação, na medida em que não conseguimos criar nos leigos uma consciência mais clara dos seus direitos e deveres no âmbito da comunidade eclesial. Tudo isto nos mostra que, desde o centro até à periferia da comunidade cristã local, há uma enorme tarefa de renovação e ‘conversão’ a realizar. Um primeiro passo nesse sentido deve ser o cumprimento de certas normas referentes a uma maior participação e corresponsabilidade dos leigos na vida da Igreja. Por exemplo, a criação, a nível paroquial, dos conselhos pastorais e económicos previstos pelo novo Código de Direito Canónico, e, a nível diocesano, do conselho do apostolado dos leigos, do conselho pastoral, etc. Estas e outras estruturas semelhantes têm por fim inserir mais activamente os leigos na vida e nos problemas da comunidade eclesial. Deste modo, eles sentirão que também são Igreja e não meros executores passivos de ordens vindas de cima.”D. Arquimínio da Costa identificou os problemas da diocese com lucidez e humildade e soube, com realismo e convicção, apontar caminhos de renovação, para
  • 236 237 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I I F A L A R D E N Ó S - X I I Ique a sua legítima intervenção em áreas fundamentais como a educação e a acção social pudesse ser ainda mais consolidada e fortalecida, a par da evangelização directa que constituiu permanente preocupação. O livro “D. Arquimínio Rodrigues da Costa, Bispo de Macau (1976-1988)”, de António Aresta, publicado pouco depois do seu falecimento em Setembro de 2016, é uma oportuna e modesta homenagem que o autor e o Instituto Internacional de Macau lhe quiseram prestar. 27 de Fevereiro de 2017O livro “Macau – Roteiros de uma Cidade Aberta”, de Jorge Santos Alves e Rui Simões (IIM, Outubro de 2016), recentemente lançado em Lisboa, depois de uma pré-apresentação no Encontro das Comunidades Macaenses, levado a efeito em Novembro passado, não só oferece seis bem elaborados roteiros a quem queira ver e entender a cidade numa perspectiva cultural mais completa e exigente, como também faculta ao leitor uma interessante síntese histórica de Macau. Seleccionámos dois dos textos que integram essa síntese, respeitantes ao período que vai da revolução republicana chinesa à primeira fase do funcionamento da RAEM. sete décadasNo primeiro desses textos, com o subtítulo “Um Porto Adormecido (1911 à década de 1980)”, os autores caracterizam sucintamente quase sete décadas de Macau, desde a mudança do regime político na China, em 1911, a qual produziu inevitáveis mudanças no relacionamento entre a China e o Ocidente e, naturalmente, entre a China e Portugal: “Em 1922, na sequência da Conferência de Washington, teve lugar a assinatura de um novo tratado no qual Portugal se comprometia a reconhecer a soberania e a autonomia político-administrativa do Governo chinês; contudo, em 1928 o Tratado Preliminar de Comércio e Amizade foi entendido por Portugal como não pondo em causa as bases do Tratado de 1887 e, na sequência do Acto Colonial de 1933, Macau foi oficialmente assumido como parcela do Império Colonial Português. Macau, da mudança de regime na china em 1911 à revolução de Abril “O activismo nacionalista chinês que contestava a dinastia Qing, eivado de um forte pendor republicano e animado pela figura de Sun Yat-Sen, afirmou-se sobretudo em Guangzhou/Cantão, no início do século XX, motivando a fuga para Macau de numerosos migrantes, politicamente engajados, que acompanharam a transição para a República (1911) – apenas um ano após a implantação da República em Portugal.”
  • 238 239 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I I F A L A R D E N Ó S - X I I INeste período, a adormecida vida económica de Macau assenta progressivamente no jogo e nas actividades turísticas a ele associadas, da hotelaria e da restauração à prostituição. A transferência para modelos de prestação de serviços gerou uma progressiva desproporção entre uma indústria residual, ligada aos têxteis e aos brinquedos, às indústrias tradicionais como a pirotecnia e a uma ténue ruralidade associada a uma actividade pesqueira cada vez mais distante da costa. Os exclusivos das companhias Hou Heng (Haoxing) e Tai Heng (Taixing) alteram a tipologia de jogos, substituindo esta última o fantan, o p’ai kao (paijiu) e o cussec e pela introdução do daxiao (‘grande e pequeno’). O exclusivo persistirá por um longo período nas mesmas famílias, apenas mudando de mãos na década de 1960. O período da Guerra do Pacífico (1941-1945) teve, na China e em Hong Kong, um impacto violento; um significativo número de população, oriunda de Macau e emigrada, sobretudo, em Hong Kong e Shanghai, procurou desesperadamente voltar para Macau. A esta vaga de retorno a Macau, juntou-se um elevado número de habitantes de Hong Kong, o que duplicou, praticamente, a população residente no território. Apesar da neutralidade portuguesa no conflito, a presença musculada das tropas japonesas desencadeou um período de enormes dificuldades na vida quotidiana da cidade, em particular na das populações deslocadas. Foram, então, encontradas soluções de recurso para o acolhimento dos deslocados, adaptando-se edifícios públicos e mobilizando a polícia para o seu enquadramento e para o controlo possível dum crescimento explosivo do mercado negro, em particular de produtos alimentares.Terminada a guerra, Macau viu partir grande parte dos migrantes e assistiu-se a uma célere regularização do abastecimento de bens de primeira necessidade. A própria vida económica e financeira do território progrediu, mesmo que a economia não tenha despertado completamente da sua letargia; normalizaram-se as taxas cambiais das várias moedas que circularam na cidade, tais como o US$, o HK$ e as diversas moedas chinesas emitidas pelos governos colaboracionista e nacionalista. Por seu turno, também muitas instituições locais, tais como as associações educativas, confessionais e de solidariedade, saíram do período de excepção e retomaram a sua actividade normal.A instauração da República Popular da China, em 1949, e a partida de Chiang Kai-Chek e dos seus apoiantes para Taiwan, trouxe Macau para a ribalta, graças ao seu papel de mediação política e comercial, acolhendo um contingente de cidadãos até então residentes em Shanghai e que aqui se estabeleceram com os seus capitais e famílias. A renegociação do Contrato de Jogos (em Março de 1962), pela mão do Governador Silvério Marques, marcará o perfil económico de Macau, com a transferência do exclusivo do jogo para a Sociedade de Turismo e Diversões de Macau, liderada pelo empresário Stanley Ho. Comprometendo-se a assegurar o transporte rápido para Hong Kong e assegurando um montante de contribuições mais elevado para a administração, foi instalado o primeiro casino num junco ao largo da cidade, depois outro no Hotel Estoril e foi, por fim, construída a ‘catedral’ do jogo em que se transformou o novo Hotel Lisboa, que entra em actividade em 1970. As sucessivas revisões do contrato de jogos tenderam a acompanhar os mandatos dos novos governadores, muito embora a última negociação, pela envergadura das
  • 240 241 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I I F A L A R D E N Ó S - X I I Isuas contrapartidas, tenha projectado as condições envolvidas até 2001. A despeito do Governo português apenas ter normalizado oficialmente as relações diplomáticas com a República Popular da China em 1979, o contexto do embargo internacional decretado à China tornou Macau uma plataforma crucial para algumas transações e negociações. Numa relação tensa, o Portugal do Estado Novo absteve-se inteligentemente de manifestações ostensivas de soberania e ultrapassou, em Janeiro de 1967, alguns meses de confronto entre estudantes pró-comunistas e as forças de segurança (episódio conhecido como ‘1, 2, 3’), num período concorrente ao prelúdio da Revolução Cultural Chinesa.”Vencer a letargiaOs autores procuraram identificar as enormes dificuldades experimentadas ao longo de cerca de sete décadas: radicais mudanças de sistema político, conflitos extremados que marcaram o período que se seguiu à revolução republicana, as guerras civis chinesas, a Guerra do Pacífico e a ocupação nipónica e os reflexos da chamada “revolução cultural”. Não obstante as profundas transformações que se foram verificando na vasta área geográfica em que se insere, Macau a todas as vicissitudes sobreviveu. Os períodos de paz e de relativo bem-estar nunca foram longos e estáveis, dado que as convulsões em seu redor foram demasiado abundantes, intensas e inevitavelmente perturbadoras, chegando mesmo a ameaçar a sua sobrevivência. A imagem do bambu, assolado por muitas tempestades e vergando-se aos ventos que o empurram em todas as direcções, nunca saiu do pensamento das suas gentes, para quem Macau foi sempre como esse bambu, cujas hastes, em tempo de bonança, voltam a crescer, viçosas, apontadas para o céu.No final da década de 1950, num tempo de relativa acalmia, o Governador Jaime Silvério Marques ousou mudar a concessionária dos jogos de fortuna e azar, abrindo novas perspectivas de desenvolvimento para Macau, mas na segunda metade da década seguinte os graves incidentes do chamado “1, 2, 3” quebraram a confiança recuperada, quando Nobre de Carvalho sucedeu a Lopes dos Santos e governou Macau durante oito anos, entre duas revoluções (a cultural chinesa e a portuguesa, dos “cravos vermelhos”). Foi depois, a partir de Garcia Leandro, que se rasgaram novos caminhos de autonomia e estabilidade que conduziram ao “redespertar da prosperidade”. 6 de Março de 2017
  • 242 243 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I I F A L A R D E N Ó S - X I I IQuisemos trazer para este espaço dois textos que fazem parte do enquadramento histórico apresentado no livro “Macau –Roteiros de uma Cidade Aberta”, de Jorge Santos Alves e Rui Simões (IIM, Outubro de 2016). O primeiro, já publicado na semana passada, foi sobre o período de 1911, ano da revolução republicana chinesa, até ao fim da década de 1970. A prosperidade restauradaO outro é sobre o período subsequente, cujo título, escolhido pelos autores, é “O Redespertar da Prosperidade (da década de 1980 a 2015): “As mudanças políticas em Portugal que, em 25 de Abril de 1974, conduziram às independências das colónias portuguesas em África e, de forma geral, ao fim do ciclo imperial português, foram acompanhadas do restabelecimento dos contactos diplomáticos entre Lisboa e Pequim. Do mesmo modo, o pós-25 de Abril coincidiu com o reforço da autonomia de Macau, através da publicação do seu Estatuto Orgânico em 1976, durante o mandato do governador Garcia Leandro. Sucessivos passos foram pequenos e sólidos passos na reaproximação entre Portugal e a República Popular da China, que haveriam de desaguar na negociação e assinatura da Declaração Conjunta Luso-Chinesa, em Pequim a 13 de Abril de 1987, pelos primeiros-ministros Zhao Ziyang e Cavaco Silva. A declaração fixava os termos, a data e a persistência, por 50 anos após essa data, dos direitos, liberdades e garantias da população de Macau. Este processo é enquadrado pela criação das Regiões Administrativas Especiais (sob o princípio de ‘Um País, Dois Sistemas’) – previstas na Constituição chinesa de 1982 – que veio a permitir a integração de Hong Kong e Macau. Esta nova política oficial chinesa tornou-se, Macau – o redespertar da prosperidade, nas últimas décadas“Com uma composição demográfica multicultural e um património arquitectónico, urbanístico, mas também intangível, de origens múltiplas e bem diferenciadas, a antecipação da integração definitiva de Macau na China desencadeia um processo de reflexão, local, sobre a sua própria identidade e especificidade.” também, o gerador da criação de duas zonas económicas especiais, limítrofes de Hong Kong e Macau, respectivamente Shenzhen e Zhuhai, que se constituem como prolongamentos de desenvolvimento urbanístico e económico que permite um enquadramento sociopolítico destas duas regiões. O tecido urbano reflecte, por seu turno, uma outra realidade: o crescimento demográfico, que no espaço de 30 anos, entre 1985 (290 mil) e 2015 (587 mil), mais que duplica a população residente registada e impõe à cidade um crescimento geométrico da construção em altura, particularmente nas zonas tomadas ao mar por aterro e em alguns edifícios do seu interior. O avolumar da construção torna-se exuberante na Taipa e, sobretudo, nos novos aterros que a consolidam a Coloane (Cotai). O crescimento urbano que respeita às necessidades de alojamento e de equipamentos para a prestação de serviços foi acompanhado não só por processos de recuperação e musealização de património edificado, já descritos, como também pela incorporação de novos equipamentos públicos, antes e depois da Transição, em 1999. Destacam-se, entre estes, a construção do Aeroporto Internacional de Macau e do Porto de Ka-Ho, em Coloane, a construção de duas novas pontes entre Macau e a Taipa, para além da já existente Ponte Nobre de Carvalho, concluída em 1974 – a Ponte da Amizade (concluída em 1994) e, já depois da transição, a Ponte de Sai Van (concluída em 2004) – a que se associou, de parceria com o município de Zhuhai, a construção da Ponte Flor de Lótus (1999), a ligar a ilha da Taipa e a ilha da Montanha (Hengqin). Empreendimentos bem mais discretos, mas infraestruturas fundamentais para suportar o crescimento de que temos vindo a falar, foram a Central de Incineração
  • 244 245 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I I F A L A R D E N Ó S - X I I Ide Resíduos Sólidos, na Taipa, e a cobertura das necessidades em matéria de Estações de Tratamento de Águas Residuais. Igualmente importante tem sido a cobertura da população por cuidados em Centros de Saúde. O ordenamento territorial tornou-se, pois, uma área crítica da governação, procurando equilibrar o licenciamento de nova construção com a preservação e recuperação das zonas classificadas, tanto mais que a esta população residente se associa uma massa diária de visitantes principalmente atraídos pela indústria do Jogo mas, de modo crescente, por um turismo patrimonial centrado, afinal, em alguns dos roteiros que desenvolvemos. Assinale-se que grande parte do crescimento populacional não resulta da reprodução interna, mas de uma constante incorporação de migrantes de primeira geração, fundamentalmente provenientes de outros territórios chineses da China continental e de Hong Kong, mas também de Portugal e das Filipinas, do Vietname e da Indonésia, com um acréscimo de população de origem norte-americana, associada ao desenvolvimento do Jogo. A pressão provocada pelo saldo de residentes e visitantes – desde 1999, mas de forma crescente, uma média mensal de mais de um milhão e setecentas pessoas – implica uma rede de transportes de e para Macau, uma estrutura alfandegária em constante actualização e agrava, em particular, os percursos de acesso aos casinos, tornando desesperante circular nas zonas históricas, em particular no intervalo entre o espaço do Senado e das Ruínas de São Paulo. Mas a verdadeira avaliação da superfície do território implicaria a sua multiplicação pelo número de pisos das áreas edificadas, que, além de relativizar a sua fraca superfície, altera definitivamente a sociabilidade face a face que Macau ainda manteve até aos anos 70 do século passado, tornando-se hoje alguns edifícios verdadeiras cidadelas, com espaços comerciais, escritórios, pequenas indústrias, residências e espaços lúdicos, dando um sentido bem diverso ao conceito de vizinhança. Com uma composição demográfica multicultural e um património arquitectónico, urbanístico, mas também intangível, de origens múltiplas e bem diferenciadas, a antecipação da integração definitiva de Macau na China desencadeia um processo de reflexão, local, sobre a sua própria identidade e especificidade. Multiplicaram-se à exaustão, pois, nas duas décadas anteriores à transição de soberania, debates, colóquios, edições, mostras e festivais que procuram manifestar, a traços fortes – e por maioria de razão numa cidade exposta ao mundo por um turismo em expansão – a invocação da sua história pela delimitação de zonas classificadas (consagradas pela Unesco) e a multiplicação de espaços de musealização e a reificação de um calendário de práticas culturais e festivas de múltiplas origens.” Mudanças históricasOs autores souberam, neste texto, sintetizar e caracterizar este período de notáveis mudanças históricas que proporcionaram a Macau a aprovação de um novo estatuto político-administrativo e condições para o seu impressionante crescimento. Da mudança de regime em Portugal e do fim da “revolução cultural” na China ao
  • 246 247 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I I F A L A R D E N Ó S - X I I Iestabelecimento e consolidação da RAEM, as últimas décadas de Macau foram sempre de continuado desenvolvimento.De Garcia Leandro (1974-1979) a Vasco Rocha Vieira (1981-1999), primeiro e último Governador de Macau no período em apreço, foram duas décadas e meia de grandes transformações e de preparação do território para os novos desafios que os dois Estados com legitimidade na definição do seu futuro lhe lançaram. Seguiu-se um período de transição bem sucedido, que culminou na criação da RAEM, dotada de ampla autonomia, em obediência ao princípio “um país, dois sistemas” e em conformidade com a Declaração Conjunta, firmada em 1987 por Portugal e pela República Popular da China, e com a Lei Básica da Região, aprovada em 1993. Este estatuto vigorará até 2049. 13 de Março de 2017Por ocasião do centenário do nascimento do Pe. Benjamim Videira Pires, S.J. (1916-1999), decidiu a Revista de Cultura, do Instituto Cultural do Governo da RAEM, dedicar-lhe um amplo espaço do número 53 da sua edição internacional, para o que convidou reputados investigadores, como Aureliano Barata, António Aresta, Ana Cristina Alves, Celina Veiga de Oliveira, Jorge de Abreu Arrimar, Jorge Bruxo e Maria de Lurdes Escaleira, a contribuírem com artigos sobre a vida, o pensamento e a obra deste missionário, pedagogo, historiador e escritor, que foi uma das mais marcantes personalidades da vida cultural e cívica de Macau na segunda metade do século XX. Os trabalhos apresentados, cujos títulos bem apelativos são “A Miscigenação de Benjamim Videira Pires”, “Padre Benjamim Videira Pires: Percurso de Um Educador e Historiador de Macau”, “A Identidade Cultural de Macau no Pensamento de Benjamim Videira Pires, S.J.”, “A Embaixada Mártir de Benjamim Videira Pires: O Cristianismo e a Sua Circunstância”, “Subindo no Céu do Oriente” e “Pensamento e Acção de Benjamim Videira Pires em Religião e Pátria”, permitem ao leitor abarcar, em larga medida, a dimensão excepcional que esta figura multifacetada alcançou e projectou através da sua intervenção persistente e consequente em variados domínios. Coube-me o privilégio de abrir esta série de qualificadas contribuições com um artigo intitulado “Benjamim Videira Pires, S.J. – Memória e Homenagem”. outros actos comemorativosPor iniciativa do Instituto Internacional de Macau (IIM), foi dado início, logo em Janeiro de 2016, às comemorações deste centenário, com uma bonita e bem participada revista de cultura homenageou Benjamim Videira Pires, s.J.“Assombrava-me como levou a cabo obra tão multiforme, desdobrando-se, com igual naturalidade, por iniciativas de apostolado, de alta cultura, de educação, de ensino...” Francisco Videira Pires, “P. Benjamim Videira Pires, Meu Irmão” (IIM, 2011)
  • 248 249 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I I F A L A R D E N Ó S - X I I Isessão, eloquentemente protagonizada pela professora e investigadora Beatriz Basto da Silva. Entretanto, o IIM havia publicado, em 2011, o livro “P. Benjamim Videira Pires, Meu Irmão”, de Francisco Videira Pires, ele próprio também sacerdote jesuíta e escritor, além de professor universitário e sociólogo, cujo testemunho é incontornável quando se pretende evocar o legado do seu irmão em Macau. Por isso, nas notas introdutórias que me foi solicitado que redigisse para abrir este capítulo da Revista de Cultura, para além de recorrer à memória que guardei do relacionamento que pudemos manter ao longo de muitos anos, fui buscar naquela oportuna biografia, que o IIM integrou na sua colecção “Missionários para o Século XXI”, os elementos necessários à correcta caracterização daquela notabilíssima personalidade nos diversos enquadramentos e facetas que importa destacar.Bom seria que as acções atrás referidas tivessem sido complementadas com mais realizações, na forma de palestras, artigos e edições, sendo desejável a republicação de algumas das obras mais emblemáticas de Benjamim Videira Pires e a compilação de trabalhos seus que ficaram dispersos por jornais e revistas. É um desafio que se lança de novo a instituições locais com óbvias responsabilidades nos sectores académico e cultural, em geral. notas biográficasO livro “Os Extremos Conciliam-se (Transculturação em Macau)” de Benjamim Videira Pires foi, para muitos, a sua obra mais exaltante, pela profundidade de interpretação do sentido da missão de Portugal no Oriente e do papel de Macau no contexto do prolongado encontro de culturas que aqui se produziu. Ela contém uma sucinta nota biográfica, referindo o seu nascimento em Torre de D. Chama, Mirandela, em 1916, e o seu ingresso na Companhia de Jesus em 1932, sendo ordenado sacerdote em Agosto de 1945. Completou a formação em Salamanca, foi professor e partiu para Macau em Novembro de 1948, “onde estudou chinês, tendo vindo a exercer funções docentes (Liceu Nacional Infante D. Henrique) e pastorais (capelão militar, etc.)”.Sobre as suas múltiplas actividades, aquele apontamento biográfico acrescentou ainda o seguinte: “É director, desde 1961, do Instituto D. Melchior Carneiro, de que também é fundador, pertencendo ainda a diversas associações de História (membro do Instituto Histórico Ultramarino, governador da International Association of Historians of Asia, etc.) e tendo representado Portugal e Macau em várias conferências e colóquios nacionais e internacionais.A sua obra literária encontra-se dispersa em várias publicações, particularmente, na revista ‘Religião e Pátria’ (1956-1968), tendo publicado também alguns livros, com destaque para ‘A Mulher Venceu’, ‘Pregai o Evangelho’, ‘Jardins Suspensos’ (poesia), ‘Espelho do Mar’ (poesia), ‘A Embaixada Mártir’ e ‘Portugal no Tecto no Mundo’.”Este livro saiu do prelo em 1988, sendo edição do Instituto Cultural de Macau. Dez anos depois, em Agosto de 1998, Benjamim Videira Pires, após um período dolorosamente atribulado neste território, partiria definitivamente para Portugal, já visivelmente debilitado, vindo a falecer no ano seguinte.
  • 250 251 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I I F A L A R D E N Ó S - X I I INinguém melhor do que o seu irmão e íntimo confidente, Francisco Videira Pires, podia ter feito a sua biografia. Na introdução, sintetizou deste modo a dimensão da personalidade do irmão, por quem nutriu “admiração superior à de qualquer outro membro da família”:“Quando, em começos de Janeiro de 1949, arriba a Macau, vindo de Hong-Kong, a bordo do Kuantung, ‘uma sucata velha, de chaminé alta como um charuto’, o P. Benjamim, no vigor dos 32 anos, longe andava de pensar que só regressaria definitivamente a Lisboa, em voo da TAP, às 6 da madrugada do dia 6 de Agosto de 1998, reduzido a uma ruína e em cadeira de rodas. Neste espaço de quase 50 anos, a sua vida confunde-se de tal modo com a da ‘Cidade do Santo Nome de Deus’, em apostolado sacerdotal e actividade cultural, que não soam a hipérbole as palavras do Prof. Doutor Veríssimo Serrão, na carta de pêsames que me escreveu, ao afirmar que, enquanto a herança portuguesa perdurar nesse território, o nome de meu irmão permaneceria também indelevelmente ligado a ele. Não é fácil escrever sobre um irmão que, para mais, em cartas e dedicatórias de livros, sempre me chamava ‘irmão duas vezes’ – pelo sangue e sacerdócio comuns. Ninguém, por isso, foi tanto seu confidente. A sintonia psicológica, percursos e ideais idênticos, longa e constantemente entrecruzados, permitiram-me viver com ele, em completa empatia, ano a ano e a despeito das distâncias geográficas, cada um dos seus grandes ou pequenos dramas. A carta e o telefone, quantas vezes madrugada alta, pontuavam ‘os trabalhos e os dias’ dum e doutro.”O título que escolheu foi “P. Benjamim Videira Pires, Meu irmão”. É preciso ler esta obra para melhor se entender o longo percurso e o período conturbado da sua vida nos últimos anos em Macau. António Aresta, professor e investigador, com extensa e valiosa obra dedicada a Macau, incluiu-o entre as 28 “figuras de jade”, portugueses que se notabilizaram pela sua ligação ou relação com o Extremo Oriente, cujas breves biografias foi publicando no Jornal Tribuna de Macau e reuniu depois em “Figuras de Jade – Os Portugueses no Extremo Oriente” (IIM, 2014).20 de Março de 2017
  • 253 J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I IPresidente do Instituto Internacional de Macau desde Dezembro de 1999, Jorge Alberto Hagedorn Rangel desempenhou funções públicas em Macau, sua terra natal, durante quase 25 anos, treze dos quais como membro do Governo, tendo tutelado as áreas de Administração Pública, Educação, Cultura, Juventude, Desporto e Turismo, bem como o Gabinete Coordenador das Cerimónias de Transferência. Em várias ocasiões foi Encarregado do Governo de Macau, substituindo o Governador nas suas ausências.É casado e tem uma filha, vivendo a família, oriunda de Portugal, há dez gerações em Macau e noutras terras do Extremo Oriente.Fez os ensinos básico e secundário em Macau e os estudos superiores em Lisboa, Cambridge, Bonn e Navarra. Enquanto estudante, dedicou-se intensamente a actividades de juventude, desde as da Mocidade Portuguesa às de associações académicas, tendo participado também em encontros estudantis e juvenis no estrangeiro, e interessou-se pela comunicação social, tendo obtido a classificação de “óptimo” no I Curso Nacional de Jornalismo organizado pelo Sindicato Nacional de Jornalistas, além de ter feito o Curso de Ciências e Técnicas de Informação, em Pamplona (Espanha).Cumpriu o serviço militar nos Açores e na Guiné, onde, como Capitão Miliciano de Infantaria, comandou uma companhia em zona operacional, com vários louvores em campanha, tendo também dirigido a instrução de tropas no seu comando operacional. Na fase final da comissão militar na Guiné, trabalhou junto do Governador e Comandante-Chefe.Foi eleito deputado à 1.a legislatura da Assembleia Legislativa de Macau (1976-80), onde presidiu às Comissões de Assuntos Constitucionais, Jorge A. H. rangel Presidente do Instituto Internacional de MacaunoTA BIogrÁFIcA
  • 254 255 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I I F A L A R D E N Ó S - X I I IDireitos, Liberdades e Garantias e do Regimento e Mandatos e, entre outras funções públicas, foi também presidente da Fundação Macau e director do Turismo e da Comunicação Social. As suas últimas responsabilidades oficiais foram a coordenação da transferência das responsabilidades administrativas da Administração Portuguesa para o novo Governo da Região e a tutela do Gabinete Coordenador das Cerimónias de Transferência. Foi também membro do Conselho de Redacção da Lei Básica da Região Administrativa Especial de Macau.No âmbito académico, além de funções docentes, foi o presidente da comissão instaladora do Instituto Politécnico de Macau, de que é agora presidente honorário, e membro das comissões instaladoras do Curso de Administração Pública e da Faculdade de Ciências da Educação da Universidade de Macau. Também presidiu ao Conselho da Universidade de Macau e aos Conselhos de Educação, do Desporto e de Juventude e foi consultor da Universidade Aberta Internacional da Ásia. É professor convidado de várias instituições de ensino superior, sendo também director honorário do Centro de Estudos Comparativos de Culturas da Universidade de Soka (Tóquio). Foi conferencista no Instituto da Defesa Nacional de Portugal, ministrando a matéria “A Bacia do Pacífico, Situação Estratégica e Perspectivas de Evolução”, e integrou o corpo docente do curso de pós-graduação em China Moderna no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade Técnica de Lisboa, dando idêntica colaboração docente no Curso de Estudos Chineses (China Moderna e Contemporânea) da Universidade de Aveiro, ocupando-se dos Estudos de Macau.Desenvolveu e mantém ainda uma actividade intensa em organismos internacionais, como a UNESCO, a EROPA (Eastern Regional Organization for Public Administration), de que é membro vitalício, a Universidade das Nações Unidas e a Associação das Universidades de Língua Portuguesa (AULP). Foi presidente da EATA (East Asia Travel Association), com sede em Tóquio; presidente regional da PATA (Pacific Asia Travel Association), com sede em Banguecoque, de que é director vitalício, e membro do Conselho Executivo da Organização Mundial do Turismo, com sede em Madrid. Participa regularmente, como conferencista, em encontros internacionais, de que se destaca a Conferência Internacional sobre o Diálogo das Civilizações, que se realizou em Tóquio e Quioto, no âmbito das Nações Unidas, tendo presidido à sessão sobre “Multiculturalismo e Encontro de Culturas”.A actividade associativa ocupa parte importante do seu tempo, tendo sido presidente do Elos Internacional – Movimento da Comunidade Lusíada durante dois mandatos (eleito em São Paulo, Brasil, em 1999, e reeleito em Coimbra, em 2001), presidindo depois ao seu conselho superior. Foi presidente da assembleia geral da Associação Promotora da Instrução dos Macaense e presidente dos conselhos consultivos da Associação de Gestão de Macau e do Conselho das Comunidades Macaenses. É académico honorário da Academia Portuguesa de História, académico da Academia Lusófona de Arte e Cultura, membro emérito da Comissão Temática de Língua Portuguesa da CPLP e do Observatório da Língua Portuguesa e presidente do Conselho Supremo da Sociedade Histórica da Independência de Portugal, além de dirigente ou membro de numerosas outras associações de natureza cultural, artística, educativa e social. O Instituto Internacional de Macau, de que é presidente e membro fundador, é uma organização não governamental, com a classificação oficial de organismo de utilidade pública. É também membro dos conselhos de curadores das Fundações Casa de Macau, Jorge Álvares e do Santo Nome de Deus, todas ligadas a Macau, sendo também membro honorário de agremiações macaenses espalhadas pelo mundo.
  • 256J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I IÉ autor de várias obras, com destaque para “Macau e a Comunidade Macaense”, com 12 volumes já publicados.Foi agraciado com condecorações e outras distinções nacionais e estrangeiras, entre as quais a Ordem Nacional do Infante D. Henrique (Grande Oficial em 1982 e a Grã-Cruz em 1998), a Medalha de Valor (a mais alta distinção honorífica de Macau), a Medalha de Mérito Pedro Ernesto da Cidade do Rio de Janeiro, a Medalha de Mérito da Federação das Associações Portuguesas e Luso-Brasileiras do Brasil, o título de membro honorário do Liceu Literário Português e benemérito do Real Gabinete Português de Leitura do Rio de Janeiro, a Comenda Eduardo Dias Coelho, do Elos Internacional, a Medalha Machado de Assis, a Medalha Victor Hugo de Cultura e a Medalha de Mérito Min-On (Tóquio), tendo também recebido o Award of Excellence do Instituto de Filosofia e Estudos Orientais de Tóquio, o Paul Harris Fellow e o título de membro benemérito da organização rotária internacional, a medalha de mérito do Lions International e, ainda estudante, o troféu D. Quixote, do Conselho da Europa, nos Colóquios Internacionais sobre a Juventude e a Europa do Futuro, além de vários doutoramentos honoris causa.
  • 258J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I I
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