• JORGE A. H. RANGELFALAR DE NÓS – XIIJORGE A. H. RANGELFALAR DE NÓS – XIIMACAU E A COMUNIDADE MACAENSE – ACONTECIMENTOS, PERSONALIDADES,INSTITUIÇÕES, DIÁSPORA, LEGADO E FUTURO
  • FAlAr de nós - XII
  • ediçãoInstituto Internacional de Macaupatrocínio da Fundação Jorge Álvaresapoio do Governo da RAEMFAlAr de nós – XIIMAcAu e A coMunIdAde MAcAense– acontecimentos, personalidades,instituições, diáspora, legado e futuroSérie de crónicas e artigos publicados no “Jornal Tribuna de Macau”,de 26 de Janeiro de 2015 a 15 de Fevereiro de 2016Jorge A. H. rAngelmacau, dezembro de 2018 ficha técnicatítulo FALAR DE NÓS – XII • subtítulo Macau e a Comunidade Macaense – acontecimentos, personalidades, instituições, diáspora, legado e futuro • autor Jorge Rangel • Editor Instituto Internacional de Macau• Direcção e execução gráficas victor hugo design • Dactilografia Emília Guine • Tiragem 500 exemplares• Impressão e encadernação Tipografia Welfare Lda • ISBN 978-99965-59-26-6• macau, dezembro de 2018Nota: Edição composta pela série de crónicas e artigos publicados no “Jornal Tribuna de Macau”, de 26 de Janeiro de 2015 a 15 de Fevereiro de 2016.
  • J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l ÍndIce013 Nota prévia014Principais realizações no período inicial da RAEM26/01/15018 O primeiro ano da RAEM – um percurso político suave e linear02/02/15023 Homenagem póstuma a Alberto Carlos Paes d’Assumpção 09/02/15028 O Ano Novo Lunar cantado em verso por J. J. Monteiro16/02/15033 O Porto Interior de Pedro Barreiros02/03/15038 Um jornal luso-chinês em Lisboa09/03/15042 Zhongshan, cidade de empresários, próxima de Macau16/03/15047 Oportunidades de cooperação entre Zhongshan e Macau23/03/15052 Sun Yat-sen e a sua terra natal, quase ao lado de nós30/03/15057 Jiangmen, o “portão do rio”, em contínuo crescimento13/04/15062 A ponte Hong Kong – Macau e os benefícios para as cidades do Delta20/04/15067 Torres de Kaiping, património mundial, aqui tão perto27/04/15072 Sobre Álvaro Semedo e a educação na China Imperial04/05/15077 O sistema de exames na China Imperial11/05/15082 O diálogo Portugal – China e a nova rota da seda18/05/15086 “Uma Faixa e Uma Rota” – cooperação chinesa para o século XXI01/06/15091 Mao, a China e os “Outros”08/06/15096 Um grande complexo temático ao pé de nós, em Hengqin15/06/15101 Poetas chineses e lusófonos encontraram-se em Lisboa29/06/15106 Macau - Uma História de Sucesso: Exposição simultânea em três cidades06/07/15111 Balanço positivo das comemorações dos 8 séculos da língua portuguesa13/07/15115 Festas e festividades de Macau20/07/15120 Uma cidade em festa27/07/15124 Grandes acontecimentos ao longo do ano03/08/15128 Por uma gestão eficaz e responsável dos recursos financeiros10/08/15133 Valores universais da boa governança17/08/15
  • J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l 137 Princípios caracterizadores da boa gestão pública24/08/15142 De Alcafache a Macau – um simpático cancioneiro31/08/15147 A “Bastiana” em concurso07/09/15152 Atenção ao centenário do Pe. Benjamim Videira Pires, em 201614/09/15157 Benjamim Videira Pires, o historiador21/09/15161 Benjamim Videira Pires, Poeta29/09/15166 Benjamim Videira Pires, pedagogo por excelência05/10/15171 Benjamim Videira Pires, missionário12/10/15176 Nos braços do Pai de todas as misericórdias19/10/15181 O primeiro livro do nosso Adé26/10/15186 Reacções de Adé a opiniões positivas e negativas sobre Macau03/11/15191 Doze dias de Adé em Lisboa, em 196009/11/15196Como Adé viu o I Grande Prémio de Macau16/11/15201 Reminiscências do I Grande Prémio de Macau23/11/15206 Foshan, de aldeia budista a centro de produção mundial no Delta30/11/15210 Foshan – um exemplo de cooperação estratégica para o desenvolvimento 07/12/15215 Foshan e o 13.º Plano Quinquenal da China14/12/15220 Prémio Identidade atribuído ao Jardim de Infância D. José da Costa Nunes28/12/15225 Pe. Áureo Nunes e Castro recordado em livro do IIM04/01/16230 Uma digníssima homenagem ao navio-escola Sagres11/01/16235 Tributos a Pessoa e a Macau18/01/16240 Áureo Castro - o músico e o pedagogo25/01/16244 Versos cantados no CD Tributo a Macau01/02/16249 IIM co-organizou importante seminário em Pequim15/02/16255Nota biográfica
  • J o r g e A . H . r A n g e l Às instituições da sociedade civil de Macau,pelo seu relevantíssimo contributo para assegurar o funcionamento do 2.º sistema, em conformidade com o princípio “um país, dois sistemas” que inspirou e viabilizou a criação das duas regiões administrativas especiais chinesas.
  • 012 013F A L A R D E N Ó S - X I I J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I Inota préviadoze volumes publicadosEste volume reúne mais um conjunto de crónicas e artigos semanalmente publicados no Jornal Tribuna de Macau, sobre diversificados assuntos relacionados com a nossa terra, relatando acontecimentos e referindo personalidades, instituições, o legado, a diáspora e o futuro.Especial atenção tem sido dada, também, a livros, de ontem e de hoje, que têm Macau como tema central ou fonte de inspiração. Continua a ser notável a produção editorial local, estando o Instituto Internacional de Macau na primeira linha deste esforço, estimulando novos estudos e trabalhos e assumindo a sua publicação e divulgação.Enquanto este volume sai do prelo, outro está já em fase de finalização, representando um contributo, modesto certamente, mas sentido e persistente, para uma melhor compreensão da dimensão humana, social e política de Macau, entreposto privilegiado que a História consagrou e que, como região administrativa especial da China, quer prolongar, no espaço e no tempo, a sua vocação de sempre.Macau, Novembro de 2018O autor
  • 014 015F A L A R D E N Ó S - X I I J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I INo domínio da Ciência Política, é sempre do maior interesse o acompanhamento, em períodos de mudança histórica, das realizações e dos acontecimentos mais marcantes da fase inicial dos novos regimes. Mais do que as directivas e os propósitos, quase sempre expressos em bem elaborados documentos de orientação política, são os actos, as decisões e os procedimentos que permitem entender o sentido e a eficácia das mudanças operadas. No artigo anterior, com recurso a recortes, à memória e aos meus próprios apontamentos, recordei os momentos mais significativos dos últimos dias da transição. Tentarei agora, também muito sucintamente, identificar as mais importantes realizações na fase de arranque da RAEM:os primeiros três mesesDepois da tomada de posse das novas autoridades, em formal cerimónia levada a efeito no Fórum de Macau, na madrugada de 20 de Dezembro de 1999, com a honrosa presença do Presidente e de outras altas entidades da República Popular da China, seguiram-se vários dias de festejos comemorativos do estabelecimento da RAEM e do retorno de Macau à China. Ainda no dia 20, são de registar a primeira reunião da Assembleia Legislativa, a entrada em Macau de um contingente militar do Exército Popular de Libertação, em missão de soberania, a inauguração do Comissariado dos Negócios Estrangeiros na RAEM e a primeira conferência de imprensa do Chefe do Executivo.Principais realizações no período inicial da rAeM“Acredito que a população de Macau tem capacidade para administrar e edificar o seu território, sob o princípio de ‘um país, dois sistemas’. Com a união de esforços de todos em torno da defesa dos interesses gerais do país e do território, estou convicto de que conseguiremos manter a prosperidade e a estabilidade construindo um futuro ainda melhor.” Mensagem do Chefe do Executivo Edmund Ho Hau Wah, Dezembro de 2000No primeiro dia de trabalho (23 de Dezembro) após os feriados, os Serviços de Identificação emitiram os primeiros passaportes da RAEM e os títulos de visita de residentes de Macau à Região Administrativa Especial de Hong Kong (RAEHK). Também se procedeu à despedida dos membros do Grupo de Ligação Conjunto. A 29, o Chefe do Executivo Ho Hau Wah deslocou-se a Hong Kong para uma festa comemorativa do retorno de Macau, integrada na 34.ª Feira Internacional da Indústria de Hong Kong, sendo obsequiado pelo seu homólogo Tung Chee-hwa com um almoço na residência oficial. Os primeiros meses de 2000 foram marcados por encontros e visitas protocolares do Chefe do Executivo e reuniões de trabalho dos novos responsáveis com os serviços e organismos públicos, transmitindo orientações e definindo formas de relacionamento e de actuação.Em Janeiro procedeu-se à criação do Gabinete de Ligação do Governo Central na RAEM, ao mesmo tempo que a delegação da Xinhua passou a dedicar-se exclusivamente à actividade noticiosa, e foram eleitos sete representantes da RAEM na 9.ª Assembleia Popular Nacional. No âmbito da administração pública, foi lançado o serviço “one-stop” para investimentos na RAEM, divulgou-se o primeiro relatório do estado do ambiente e o Gabinete de Apoio ao Ensino Superior fez saber que os diplomas de licenciatura emitidos em Portugal passavam a ficar sujeitos à confirmação daquele gabinete.Estreitaram-se as relações funcionais com Zhuhai em Fevereiro, através de visitas mútuas de altos responsáveis. No mesmo mês, o Tribunal de Última Instância produziu o primeiro acórdão em chinês, a Câmara Municipal Provisória iniciou o processo de substituição das cartas de condução e o Conselho Executivo estabeleceu três áreas
  • 016 017F A L A R D E N Ó S - X I I J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I Ide intervenção, com os respectivos grupos de trabalho (legislação e administração, educação e cultura e economia e desenvolvimento).No mês seguinte foi decidida a criação da Delegação da RAEM em Pequim e confirmado o reconhecimento da nova Universidade da Ciência e Tecnologia. O Chefe do Executivo e representantes da RAEM participaram nas reuniões da 9.ª Assembleia Popular Nacional, altura em que foram feitas referências oficiais positivas sobre a futura ponte Hong Kong – Macau. Mais visitas recíprocas de entidades de Macau e Hong Kong reforçaram as relações entre as duas regiões e foram apresentadas e debatidas as Linhas de Acção Governativa, em que se deu prioridade à consolidação das bases da RAEM e à promoção do seu progresso e bem-estar. Também se anunciou a fusão de duas fundações públicas.de Abril a JunhoAbril e Maio foram meses de muito visível actividade. Os principais acontecimentos foram: a deslocação de nove dias do Chefe do Executivo à Europa, com visitas a Portugal e à França, onde teve encontros ao mais elevado nível; as visitas a Macau do Chefe do Executivo da RAEHK e do Presidente da 54.ª Assembleia das Nações Unidas; o anúncio de medidas de combate ao desemprego que se aproximava dos 7%; a aprovação do orçamento do Governo da RAEM, no valor de 12.900 milhões de patacas; a adopção do processo de urgência na Assembleia Legislativa na revisão dos códigos Comercial, do Registo Comercial e do Notariado; a visita do Secretário para os Assuntos Sociais e Cultura a Pequim; a realização de um fórum de empresários de países de língua portuguesa; a celebração do contrato do Governo de Macau com o Banco Nacional Ultramarino e o Banco da China em Macau, para assumirem as funções de Caixa do Tesouro Público; a inauguração da nova sede da Cruz Vermelha de Macau; a aprovação de medidas de simplificação do processo de trâmites alfandegários das mercadorias em trânsito; a criação do Gabinete Coordenador da IV Edição dos Jogos da Ásia Oriental; e a realização do 2.º Encontro Eureka Meets Asia, com a participação de 400 empresas de 20 países da Europa e da Ásia, com a presença dos Ministros da Ciência e Tecnologia da China e de Portugal. Era evidente o esforço de manutenção das ligações da RAEM ao mundo, dando sequência a iniciativas anteriormente preparadas e promovendo novas relações institucionais.Várias manifestações de operários e desempregados foram um bom teste sobre a prática das liberdades cívicas consagradas na Lei Básica, chegando a haver alguns confrontos com a polícia. A resposta das autoridades foi considerada, de um modo geral, serena e adequada e as questões laborais foram ganhando nova dimensão. Com a RAEM já quase em velocidade de cruzeiro, Junho foi marcado por várias deslocações de Secretários do Governo, para reuniões internacionais ou encontros de trabalho, a Pequim, Guangdong, Banguecoque, Nova Iorque e Bruxelas. Vários órgãos consultivos e técnicos, nas áreas da Acção Social, da Educação e do Turismo tiveram as suas primeiras reuniões e foram criados os Gabinetes para o Desenvolvimento das Telecomunicações e Tecnologia e para o Desenvolvimento de Infra-estruturas.Foi assim que decorreu a fase de arranque da RAEM. Com estabilidade, segurança e natural ímpeto reformista. Um bom começo, portanto. Voltarei a este assunto.26 de Janeiro de 2015
  • 018 019F A L A R D E N Ó S - X I I J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I IRecordámos, no artigo anterior, os principais acontecimentos do primeiro semestre da RAEM, sendo agora apropriado concluir a nossa apreciação dos sucessos alcançados até à jubilosa comemoração do seu primeiro aniversário.Julho e AgostoO mês de Julho de 2000 abriu com mais uma manifestação de rua de desempregados, verificando-se confrontos com a Polícia, que foi obrigada a recorrer ao uso de gás lacrimogéneo. Com a colaboração da Associação Geral de Operários de Macau e de várias associações patronais, os Serviços de Trabalho e Emprego promoveram o Dia da Entrevista para o Emprego, no qual se conseguiu o preenchimento imediato de 43 postos de trabalho disponibilizados por 15 empresas. O desemprego aproximava-se dos 7%.Por despacho do Chefe do Executivo, foi criada uma comissão especial para a elaboração de um estudo sobre a evolução do sector dos jogos de fortuna ou azar, a par da definição de um modelo adequado de gestão e fiscalização. Outro despacho criou a comissão instaladora do Gabinete da RAEM em Pequim. Entretanto, prosseguiram as visitas de trabalho e de cortesia à capital e a outras cidades chinesas, envolvendo o Chefe do Executivo, o Procurador da RAEM e os Secretários para os Assuntos Sociais e Cultura e para a Administração e Justiça, enquanto outras altas entidades locais participavam em reuniões internacionais em Bruxelas e em Manila. Também se reforçaram relações oficiais com Hong Kong, cuja Secretária para a Justiça se deslocou o primeiro ano da rAeM – um percurso político suave e linear“Durante o primeiro ano da RAEM, com o total apoio do Governo Central e empenho das personalidades dos diversos sectores da sociedade, os princípios de ‘um país, dois sistemas’, ‘Macau gerido pelas suas gentes’ e ‘alto grau de autonomia’ foram postos em prática com sucesso no território onde vivemos.”Mensagem do Chefe do Executivo, Dezembro de 2000 à RAEM, na sequência da visita do Secretário para os Assuntos Constitucionais no mês anterior.Ainda em Julho, a Assembleia Legislativa aprovou a Lei de Bases das Ciências e Tecnologia, foi introduzida a televisão por cabo, o Conselho Económico apreciou a situação económica e as perspectivas positivas de crescimento, e o Centro Hospitalar Conde de S. Januário e o Hospital Kiang Wu firmaram um acordo visando a elevação da qualidade do serviço de saúde, ao mesmo tempo que a Autoridade Monetária de Macau assinou um memorando de entendimento com a sua congénere de Hong Kong. Foi também iniciada a construção da Piscina Olímpica, orçada em 120 milhões de patacas. Agosto, período de férias para muitos gestores e técnicos, foi um mês normal de trabalho para os órgãos do Governo. Foi criado o Gabinete Coordenador dos Jogos da Ásia Oriental, a realizar em Macau em 2005, entrou em vigor a Lei Orgânica do Comissariado Contra a Corrupção, divulgou-se o regulamento de concessão de licenças para o fornecimento de serviços da Internet, organizaram-se diversas acções de formação que abrangeram mais de 4.000 interessados e a Assembleia Legislativa promoveu uma primeira sessão de perguntas e respostas sobre o programa de acção do Governo, com o enfoque na área económica. O movimento do Aeroporto Internacional de Macau registou um aumento de 22% no primeiro semestre, com 1,53 milhões de passageiros e 30,6 mil toneladas de carga.No que respeita a Hong Kong, para além de mais visitas mútuas, foi alterado o Regime Geral de Entrada, Permanência e Fixação, passando os residentes da RAEHK
  • 020 021F A L A R D E N Ó S - X I I J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I Ia poder permanecer na RAEM pelo período de um ano, e aos titulares da carta de condução de Macau foi facultada a possibilidade de conduzirem em Hong Kong, desde que a sua permanência não excedesse igual período. Indo mais longe, Singapura foi o país escolhido para mais intensas relações, o que levou o Chefe do Executivo a ter encontros naquela cidade-estado com os seus mais altos responsáveis executivos, ao mesmo tempo que se fez ali uma semana de promoção turística de Macau, com uma delegação de 90 pessoas, a qual culminou com a assinatura de um memorando de entendimento que aproximou os Serviços de Turismo de Macau da Singapore Airlines, que é considerada uma das melhores companhias aéreas do mundo. E prosseguiram as deslocações ao exterior, com o Secretário das Obras Públicas e Transportes no Japão e em Hong Kong, oficiais das Forças de Segurança em Cantão e magistrados, liderados pelo Juiz-Presidente do Tribunal de Última Instância, também em Cantão. É ainda de referir a escolha da empresa internacional Arthur Anderson para elaborar um estudo sobre o futuro desenvolvimento e modelo de gestão do sector do jogo, prenunciando modificações decisivas neste domínio.setembro a novembro Os meses seguintes foram atravessados praticamente sem dificuldades notórias e em “velocidade de cruzeiro”. As deslocações e visitas ao exterior dos responsáveis prosseguiram, para representarem a RAEM em congressos, reuniões internacionais ou encontros de trabalho. Assim, o Chefe do Executivo esteve em Fujian para a 4.ª Feira de Investimento e de Comércio da China; no Japão, onde foi recebido pelo Primeiro Ministro e pelo Ministro dos Negócios Estrangeiros; e em Shenzen, na comemoração do 20.º aniversário da criação daquela zona económica especial. Os diversos Secretários do Governo e outros detentores dos principais cargos foram a Pequim e a outras partes da China, à África do Sul, às Filipinas, a Singapura, onde foi assinado um acordo para a formação técnica de funcionários públicos da RAEM, ao Japão, à Tailândia, à Nova Zelândia e aos Estados Unidos. A RAEM, por seu lado, recebeu as visitas de uma delegação do Ministério da Justiça do Governo Central e outra da Câmara de Comércio Norte-Americana, dos secretários-gerais das Comissões Nacionais para a Região da Ásia Oriental da ONU, do corpo diplomático acreditado em Hong Kong e Macau, da Federação Mundial de Empresários Portugueses, da Polícia Fronteiriça de Guangdong, da Associação da Secular Amizade Portugal – China, do Grupo de Assuntos da China do Parlamento Europeu, da Federação de Empresários da China, liderada por um dos vice-presidentes da Conferência Política Consultiva Nacional, e de uma deputação do Município de Pequim, chefiada pelo seu presidente. Estiveram, igualmente, na RAEM os atletas medalhados nos Jogos Olímpicos e altas entidades oficiais da Estónia e da República Checa. Para além dessas numerosas deslocações e visitas protocolares e de trabalho, as mais relevantes actividades do trimestre foram: a assinatura de protocolos de cooperação entre a Biblioteca Nacional e a Biblioteca Central de Macau e entre o Ministério da Saúde e o Hospital Central Conde de S. Januário; a realização do primeiro julgamento público do Tribunal de Última Instância; a fusão da Direcção dos Serviços de Justiça com o Gabinete de Tradução Jurídica; e a realização, em Macau, do 2.º seminário sobre a qualidade do ar nas cidades do Delta do Rio das Pérolas, da 23.ª assembleia da Federação dos Fretadores da ASEAN e do encontro anual dos administradores do
  • 022 023F A L A R D E N Ó S - X I I J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I IWorld Trade Center na Ásia. Foram anunciados crescimentos de 24% no movimento de visitantes e de 67% no valor das exportações. A população residente era de 536.000 pessoas e circulavam no território 112.576 viaturas, das quais 56.468 eram motociclos e 46.920 viaturas ligeiras. Quando, em Dezembro, a RAEM comemorou o seu 1.º aniversário, os discursos oficiais traduziram a satisfação com este percurso inicial positivo e a confiança num futuro promissor.2 de Fevereiro de 2015Homenagem póstuma a Alberto carlos Paes d’Assumpção“O maior ensinamento do meu pai foi que eu tivesse força para lutar em todas as situações da vida, mas nunca deixando de ter humildade, honestidade e respeito, além do amor pela família e pelo próximo.” Silvana Assumpção Alberto Carlos Corrêa Paes d’Assumpção, ex-presidente da Casa de Macau do Rio de Janeiro, deixou definitivamente, na madrugada de 24 de Janeiro, o convívio da família e dos amigos, após complicações pós-operatórias que surgiram na sequência de uma intervenção cirúrgica que, pelo menos aparentemente, até terá corrido bem. Faria 73 anos de idade em Setembro e era já o último dos irmãos Paes d’Assumpção (Carlos, António, Teresa, Lídia, Mário e Alberto Carlos).Companheiro em muitas lides nos anos de adolescência em Macau, foi um dos meus melhores amigos de sempre, não obstante a enorme distância que se instalou entre nós quando ele emigrou para o Brasil e eu fui continuar os estudos em Lisboa. Foi a sua personalidade irreverente e destemida que o fez abraçar iniciativas que requeriam audácia e determinação e o impeliu para longes terras, em busca de um futuro melhor que, tal como tantos outros macaenses, ele quis com o seu próprio esforço construir. Sempre me tratou como irmão mais novo, o que me foi agora de novo salientado pela família quando dela recebi a triste notícia. depoimentos recebidosPara a preparação desta singela homenagem, pedi a vários ex-presidentes da Casa de Macau daquela cidade brasileira, vários deles meus amigos dos tempos despreocupados da infância e da juventude, bem como a alguns familiares e ao presidente da Casa de Macau de São Paulo, breves depoimentos sobre o Alberto Carlos, que ficou entre todos nós mais conhecido por Acaio. Posso resumi-los do seguinte modo:Francisco Xavier Rodrigues recordou a relação de amizade que existiu entre eles
  • 024 025F A L A R D E N Ó S - X I I J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I Icuras de doenças da coluna, e como a maioria das pessoas sofria deste mal, pedimos-lhe muitas vezes que nas suas visitas à Casa de Macau de São Paulo oferecesse aquelas consultas e por vezes tratamento para atenuar o sofrimento de alguns de nossos associados. Sempre muito solícito, em suas oportunas visitas à Casa de Macau, ele não negava ajuda, e sempre se preocupou com os nossos associados. Alguns casos mais graves foram, por nós, encaminhados para a sua clínica em Resende. Além de tratar dessas pessoas, é importante ressaltar que, sem nenhum custo, ainda disponibilizava sua casa para acomodá-los.Além do seu conhecimento técnico nessa área de saúde, também era um especialista em gastronomia. Chegou a deslocar-se de Resende a São Paulo para uma demonstração de uma de suas especialidades no nosso Curso de Gastronomia. E numa ocasião, cozinhou só com a ajuda da Vera uma das suas especialidades: ‘Diabo’. Trouxe tudo de Resende, gratuitamente, de presente, os ingredientes e os condimentos necessários para o preparo do referido prato típico macaense, servindo mais de cem associados ‘paulistas’.”Da filha Silvana Assumpção e da neta Iana Assumpção, que preside agora à Casa do Rio de Janeiro, chegaram-me estes muito tocantes testemunhos:“O maior ensinamento do meu pai foi que eu tivesse força para lutar em todas as situações da vida, mas nunca deixando de ter humildade, honestidade e respeito, além do amor pela família e pelo próximo. Como pessoa e profissional ele era simplesmente incrível! Me sinto orgulhosa por ter tido a oportunidade de aprender tantas coisas com ele, principalmente curar as pessoas e cozinhar a gastronomia macaense.”desde a infância e que continuou pelos anos de juventude e na vida adulta, bem como os desentendimentos que tiveram, a par dos bons momentos vividos na Casa de Macau, de que “restam apenas saudades”. Também realçou a sua inteligência.José Augusto Pina e Pedro Almeida destacaram os dotes culinários de Acaio no que respeita a pratos tradicionais macaenses que preparou para as festas da Casa de Macau e pelos conhecimentos que partilhou com outros, bem como os esforços por ele desenvolvidos junto de autoridades de Macau para que a Casa tivesse sede própria, o que mereceu total apoio do Governador Rocha Vieira.Augusto Carion, por seu lado, frisou que “Acaio não foi Santo mas o tempo fez dele um grande ser humano”, tendo sido seu mestre no karaté e amigo desde criança. Também referiu a grande capacidade do Acaio como cozinheiro e a sua contribuição para a Casa de Macau, como associado e presidente.De Gilberto Quevedo da Silva, presidente da Casa de Macau de São Paulo e grande impulsionador da criação e do desenvolvimento deste organismo recreativo-cultural macaense, a que soube juntar uma componente social útil, recebi este contributo mais abrangente e elaborado:“Acaio vinha bastante à cidade de São Paulo, e visitava também a Casa de Macau em São Paulo, porque uma das suas filhas residia na cidade. Nessas suas vindas e visitas, sempre demonstrou o seu espírito fraternal e de solidariedade com os macaenses.Sabedores de que ele era um ‘mestre’ massagista-terapeuta especializado nas
  • 026 027F A L A R D E N Ó S - X I I J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I“Ele foi uma pessoa extremamente inteligente, visionária e humana, que curou várias pessoas. Como avô, me ensinou a amar Macau e a ser uma pessoa correta, que realizasse com perfeição tudo o que eu me propusesse a fazer. E foi assim que ele se tornou um Presidente correto e que, por amar tanto sua terra natal, promoveu durante todo o seu mandato o máximo possível da cultura macaense aos sócios, assim como sempre fez em casa.”Da esposa Vera, com quem falei longamente ao telefone, na manhã do falecimento, recolhi a expressão da dor que a atingiu e que é por todos os familiares e amigos partilhada. Por ela soube da vontade do Acaio de ter as cinzas depositadas, logo que possível, no espaço tumular da família em Macau. o método AcaioNão é a primeira vez que dedico um artigo ao Acaio. A edição de 9 de Março de 2009 do Jornal Tribuna de Macau inseriu uma apreciação que fiz do seu livro “Método Acaio – massagem para coluna”, a qual integra o 6.º volume da minha colectânea de crónicas e artigos que têm por título genérico “Falar de Nós – Macau e a comunidade macaense”, que já tem nove volumes publicados. Foi num convívio da Casa de Macau no Rio de Janeiro, na presença de associados e de amigos do Elos Internacional – Movimento da Comunidade Lusíada, que o Acaio, acabado de regressar do Canadá, onde estivera num encontro técnico-científico, mo ofereceu. Ele tinha recebido, entretanto, um convite da Universidade de São Paulo para fazer ali uma apresentação do livro e do método que, com reconhecido sucesso, tinha concebido.O livro, destinado especialmente a profissionais, é também útil a qualquer pessoa que queira saber mais sobre problemas da coluna, cada vez mais generalizados em todo o mundo. Dois curtos prefácios, muito elucidativos e cheios de ternura, escritos pelas filhas Sabrina e Silvana, ambas fisioterapeutas, abrem o livro e explicam o seu conteúdo, bem como as qualidades profissionais do autor.A família saberá, certamente, dar continuidade ao seu legado e ao método que ele soube tão bem aperfeiçoar. Honraremos a sua memória. 09 de Fevereiro de 2015
  • 028 029F A L A R D E N Ó S - X I I J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I IO Ano Novo Lunar ou Festa da Primavera é, sem dúvida, a mais colorida, ruidosa, pitoresca e participada de todas as imensas festividades tradicionais chinesas. Sobreviveu a guerras, cataclismos e mudanças de regimes políticos, sendo a sua comemoração ainda hoje praticamente universal. Onde está uma família chinesa, é essa a sua maior festa.Também em Macau, desde sempre, foram os festejos do Ano Novo Lunar os de maior significado e expressão.Ao desejarmos um Bom Ano do Carneiro (ou da Cabra) a todos, oferecemos ao leitor estes versos de J. J. Monteiro, saudoso e, por nós, sempre lembrado poeta popular de Macau, do seu livro “Macau vista por dentro”:“Uma das festas maioresSurge com o alvorecerDum Ano Novo Lunar,Ruidosamente aplaudidoQuando acaba de chegar,Com intermináveis fitasDe panchões a estralejar.São quinze dias de festa,De gozo e divertimentoPara todo o povo obreiro;Sejam pobres, sejam ricos,o Ano novo lunar cantado em verso por J. J. Monteiro“Por toda a parte se ouve:– Kong-hei fat-choi (Boas Festas),Uma frase toda cheiaDe promessas e esperanças…” Sempre aparece dinheiroPara olvidar as agrurasPassadas num ano inteiro.As casas comerciaisAcertam as suas contas.Fazem-se distribuiçõesDe esmolas a muitos pobres;E ainda dos seus patrõesRecebem os empregadosJustas remunerações.Trabalham, de noite e dia,Sem descanso, um ano inteiro,Mas, ao chegar esta altura,Recebem o seu fau-hong:Comem, bebem com fartura,Vestem-se todos de novo,Passam dias de ventura.Fazem as suas visitasAos amigos e parentes,Com prendas acompanhadasDo cartão de Boas-Festas;E, com alegres ‘entradas’,
  • 030 031F A L A R D E N Ó S - X I I J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I IVizinhos e conhecidos,Esquecem zangas passadas.Por toda a parte se ouve:– Kong-hei fat-choi (Boas Festas),Uma frase toda cheiaDe promessas e esperanças,E também jamais alheiaA riquezas e venturas,A tudo o que a gente anseia.Uma festa como há poucas,Ruidosa e ensurdecedora,Que dura de noite e dia.Comem-se bons acepipesE em sinal desta alegria,Dão-se às visitas que vêmPevides de melancia.Doces e bolos da época,Tudo isto acompanhadoDo ‘lai-si’, como expressãoDos desejos de ventura,Por todos, nesta ocasião,Aceites e reiteradosDo fundo do coração.Uma festa, uma alegria,Um descanso para todos,Para os que andam no marOu lidam nisto ou naquiloE que agora vão tentarA sua sorte no jogo,Onde não podem faltar.Hotéis, ‘cou-laus’, restaurantes,São centros de diversão,E o Largo do Leal Senado,No coração da cidade,Fica também transformadoNum exótico canteiroDe flores super-mercado.Ali se vêem expostas,Sobre as bancas de bambu,Flores de muito bom cheiro,Vasos com plantas frutíferas,Raminhos de pessegueiroE outros arbustos mais,Vendidos por bom dinheiro.
  • 032 033F A L A R D E N Ó S - X I I J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I ITerminados os festejosDo Ano Novo Chinês,Ao seu afã quotidianoTodos voltam novamenteCom o mesmo ardor insano,Na fé de quem bem começaVida nova e melhor ano.”Votos de alegres festejos e felicidades para toda a população e para os muitos forasteiros que, nestes dias auspiciosos, animam ainda mais a cidade e contribuem para a sua prosperidade. 16 de Fevereiro de 2015Uma exposição de Pedro Barreiros é sempre uma boa ocasião para juntar amigos, admiradores e pessoas de algum modo ligadas a Macau, a todos proporcionando condições para um agradável convívio em torno de trabalhos que aquele apreciado e respeitado artista, escritor e promotor cultural macaense de quando em quando nos apresenta. Mais uma vez, a galeria da Delegação Económica e Comercial de Macau, sita na Av. 5 de Outubro, n.º 115, em Lisboa, acolheu uma mostra sua, compreendendo vinte óleos, incluindo um vistoso tríptico cheio de simbolismo, com sugestivas marionetas orientais perfiladas junto de estantes repletas de livros com lombadas de muitas cores condensando saberes e histórias que alimentam o espírito. Essas marionetas e estantes ladeiam o Buda da Felicidade, gordo e sorridente, fazendo lembrar que “um bom almoço vale muita filosofia”, o que é reforçado pela presença de um vaso chinês azul e branco contendo os tradicionais pauzinhos ou “fai chi”.Toda a arte de Pedro Barreiros é, aliás, repleta de símbolos, merecendo cada quadro uma observação atenta e uma interpretação, que é um convite à descoberta, dos variados elementos nele contidos, que estão ali porque têm relação entre si, para além dos traços, das cores, da harmonia e daquele toque oriental muito característico que distingue e valoriza a sua pintura, que é a expressão autêntica da sensibilidade, da cultura, das vivências e dos percursos do artista.Foi um enorme prazer, em segunda visita, passar os olhos demoradamente por aqueles trabalhos, tentando compreender em toda a extensão o significado e a mensagem que irradiam. Nas suas próprias palavras, estas vinte obras “são pinturas banais, sem qualquer sequência”. Foram pensadas “nos meus espaços, olhando os meus ‘tesouros’, pintei-os no meu canto, olhando-me a mim mesmo”. Não. Quem conhece a o Porto Interior de Pedro Barreiros“São pois 20 naturezas mortas com alma estas imagens dos momentos que vivi intensamente nos diversos recantos do meu Porto Interior.”
  • 034 035F A L A R D E N Ó S - X I I J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I Ideliciosos que se lêem em cada esquina. O porto interior faz pensar na Macau que foi e rever interiormente tudo o que durante a nossa vida nos ligou a essa cidade única.Foi nessas deambulações pelo porto interior que fiz pela primeira vez o paralelismo entre ele mesmo e a carga do seu nome e as vidas que vivi e que ainda levo longe de Macau, na também minha Lisboa e na aldeia que me adoptou entre Sintra e a Ericeira chamada Godigana, deturpação saloia do árabe, ribeira farta. Das portas para fora, para a rua, para as ruas, fica o meu porto exterior de onde me chega o que vem de fora, de outras aldeias, de outras cidades muito perto ou mais ou menos longe. Dentro das casas fica o meu porto interior – recantos recheados de coisas que foram lá postas por mim e pela Graça com uma história de vida que vem desde que foram criadas por quem as fez até passarem a ser possuídas por nós, cada uma fazendo-nos lembrar o momento em que isso aconteceu e que sem ser por acaso estão arrumadas umas com as outras numa relação afectiva e lógica entre cada uma delas entre si e cada uma delas com cada um de nós.Passei muitas horas muitos dias a olhar para cada um dos recantos, ruelas, becos e pátios do meu porto interior e dialoguei em profundo silêncio com os seus moradores que foram lá postos por nós os dois com uma arrumação que só podia ser aquela sem que isso resultasse de um estudo prévio e baseado em qualquer relação ponderada e discutida. A ordem daquilo tudo saiu de dentro de nós de forma espontânea comum, cúmplice e íntima.Durante esse tempo de olhar as coisas e reflectir em diálogo mudo com elas, veio-me o desejo de as pintar, de fixar aqueles momentos com os meus pincéis e as minhas tintas dimensão do intelectual e da sua obra literária e artística sabe que os quadros encerram muitíssimo mais. Veja-se, por exemplo, aquele em que em primeiro plano ganha relevo a menina pioneira fardada tocando a corneta que desperta para uma nova ordem revolucionária, tendo num plano um pouco recuado o mandarim impávido e o menino serenamente instalado no dorso do búfalo, traduzindo um cenário bucólico e intemporal, ao lado de gigantescos cristais e porcelanas, “recordações inúteis” de um passado resistente à mudança. E aquele outro em que o amolador, que é “o pregão vivo que assobia a chuva”, iluminado por um candeeiro que finge que é o Sol, contrasta com papoilas secas do fim do estio enfiadas numa jarra cujo vermelho é o calor que lhes dá vida, ao lado de um búzio que contém o som do mar e da lonjura. Cada quadro espicaça a imaginação de quem o quer apreciar e estes vinte trabalhos são mesmo muito estimulantes, até pela variedade de objectos ali reproduzidos, todos representando de algum modo as escolhas e as recordações do pintor, bem como imagens que ficaram gravadas na sua memória. Porto InteriorNo texto introdutório do catálogo, o artista explica o que são os portos de Macau e a razão da escolha do nome Porto Interior para título da exposição:“Em toda a zona encostada a todo o comprimento do porto interior o clima é outro. Embora na larga avenida que separa o porto da cidade haja um quase sempre contínuo tráfico de automóveis, autocarros e motorizadas, andar a pé é possível e entrar pelo emaranhado de ruas e travessas, nos pátios e becos onde sempre vamos descobrindo coisas novas desde figueiras e papaieiras até pequenos templos e altares e os nomes
  • 036 037F A L A R D E N Ó S - X I I J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I– ia pois, pela primeira vez na minha vida, fazer o que classicamente se chama Naturezas Mortas. O termo sempre me arrepiou quando olhava para os girassóis nas jarras de Van Gogh ou nas maçãs de Cézane, que cheios de vida saltavam das telas e entravam em mim.Só coisas com alma entram nos receptáculos de emoções que são os pintores que por sua vez transmitem estas últimas para as obras que fazem. São pois 20 naturezas mortas com alma estas imagens dos momentos que vivi intensamente nos diversos recantos do meu Porto Interior.”A exposição, inaugurada no dia 23 de Fevereiro, estará aberta ao público até 10 de Abril.Breve biografiaPedro Manuel Pacheco Jorge Barreiros nasceu em Macau em 1943. Médico, fez carreira na Força Aérea Portuguesa onde atingiu o posto de Major General, tendo sido director de Saúde da Força Aérea e presidente do Conselho Coordenador de Saúde Militar. Além de trabalhos científicos apresentados em congressos médicos, publicou artigos em jornais e revistas de Medicina, Arte e Cultura e desenvolveu actividade intensa nestas áreas. Também foi docente universitário. Aprendeu a pintar em criança com um mestre chinês e fez a primeira exposição individual no Porto, em 1974, estando representado em colecções particulares e oficiais de vários países. A célebre frase de Leonardo da Vinci “A Pintura é a Poesia que se vê, a Poesia é a Pintura que se ouve” inspirou o seu percurso artístico-literário.Foi o comissário das Comemorações do 150.º Aniversário de Nascimento de Wenceslau de Moraes e sócio-fundador e presidente da Associação Wenceslau de Moraes, onde deixou obra reconhecidamente meritória.Escreveu o romance biográfico “Danilo no Teatro da Vida” (2010) e, em parceria com sua mulher Graça, “José Vicente Jorge – Macaense Ilustre” (2011), fotobiografia trilingue que inaugurou uma série dedicada a grande figuras da comunidade macaense. Também colaborou na produção de documentários, como “The Weekend of the Shogun”, da NHK de Tóquio (2001), e “Macau uma Paixão Oriental”, realizado por Francisco Manso e apresentado na RTP em Dezembro de 2012.2 de Março de 2015
  • 038 039F A L A R D E N Ó S - X I I J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I IO salão principal do elegante palacete anexo ao Hotel Tivoli, em Lisboa, acolheu em ambiente festivo, no dia 3 do mês passado, mais de 400 convidados ligados a diversificados sectores de actividade e de algum modo relacionados com projectos de cooperação e negócios entre a China e os países de língua portuguesa. O motivo do encontro, abrilhantado pela presença de altas entidades, entre as quais o vice-primeiro-ministro de Portugal, Paulo Portas, o embaixador da República Popular da China, Huang Songfu, deputados e presidentes de organismos públicos e privados, foi a apresentação do “Diário de Todos”, jornal quinzenal luso-chinês, publicado pela Quanribao Media e Publicidade, Lda. e dirigido por Helena da Cruz Mouro. Com 128 páginas, metade do jornal é em português e a outra metade em chinês, com conteúdos diferentes, sendo as páginas em português preenchidas com abundante informação sobre a China e vice-versa. Apenas as principais entrevistas e alguns textos de intervenção aparecem nas duas línguas. Informação económica e culturalFoi nestes termos que a directora justificou a criação do jornal, lançado por via electrónica e agora impresso:“Este projecto de informação económica e cultural percorreu há cerca de um ano o caminho inverso da tendência evolutiva dos meios de comunicação tradicionais, nasceu ‘on-line’ e em aplicações móveis em base diária e se fez papel, sinal este que considero de muito positivo para a contínua aposta no futuro da imprensa, do jornal em papel, situação que combina em perfeita harmonia a tradição e a modernidade.um jornal luso-chinês em lisboa“Este projecto de dimensão estratégica global vem juntar e materializar as vontades e visões há muito existentes nas sociedades portuguesa e chinesa mas também de todo o espaço de Línguas Portuguesa e Chinesa, incluindo as suas diásporas no mundo.” Helena da Cruz Mouro, directora do “Diário de Todos”A capacidade de entender as tendências e as oportunidades das economias nas diversas latitudes é hoje determinante e assim espero que o Diário de Todos surja neste momento e de forma pioneira para prestar um serviço público.A harmonia é um conceito muito em voga no Oriente, centrado no equilíbrio do meio ambiente e do mundo, não querendo significar conformismo, mas, pelo contrário, obriga a uma irreverência inteligente e construtiva onde uma das missões mais nobres e importantes entre os povos é a criação de pontes e de portas de entendimento, e assim, o Diário de Todos terá por missão fazer chegar aos seus leitores informação estratégica, fidedigna, rigorosa e isenta.O Diário de Todos assume uma postura independente, livre e plural no respeito pelas culturas orientais e ocidentais, promovendo construtivamente a aproximação e o entendimento entre os mundos de Língua Portuguesa e Chinesa.”Neste enquadramento e tendo em conta os propósitos expressos, é justo desejar ao novo jornal os maiores sucessos. Que saiba congregar as colaborações necessárias e possa realizar os objectivos que ditaram o seu aparecimento. Aplausos à iniciativaNas intervenções feitas, os principais convidados de honra não regatearam aplausos à iniciativa e aproveitaram para realçar as oportunidades de investimento e as áreas prioritárias de cooperação, descrevendo como exemplares as relações entre os dois países. Políticos, diplomatas, empresários e dirigentes de instituições da sociedade civil mostraram sintonia em torno daquelas preocupações.
  • 040 041F A L A R D E N Ó S - X I I J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I IA reacção dos participantes, a quem foi oferecido um exemplar do jornal logo à entrada, foi generalizadamente positiva. Elogios e manifestações de apoio foram abundantes. Os anfitriões, visivelmente satisfeitos, aceitaram-nos como importantes incentivos, considerando auspicioso este arranque bem conseguido.Durante o convívio ali realizado, com beberete e sorteio de dezenas de prémios, foi também anunciado um outro projecto mediático – a Global TV, que vai dar voz às comunidades imigrantes. Tendo como um dos seus mais destacados mentores o presidente da Liga dos Chineses em Portugal, Y Ping Chow, foi referido que este projecto “será um espaço inovador, onde as comunidades poderão fazer ouvir a sua voz”. A Global TV é um canal web online que deverá converter-se em breve num canal de sinal cabo, estando a decorrer negociações de parceria com canais congéneres na China. No dia 20 de Fevereiro foi feita a apresentação pública da Global TV na sede do Alto Comissariado para as Migrações, em Lisboa. Parceria estratégica realçadaNos seus discursos, Paulo Portas e Huang Songfu fizeram um balanço da parceria estratégica estabelecida entre os dois países, cujo 10.º aniversário é comemorado no corrente ano.No entender de Portas, a parceria “deve ser acarinhada dada a partilha de interesses comuns e convergentes”, e tendo em conta a amizade secular que une os dois países. Ao sublinhar a importância do desenvolvimento económico da China para o mundo, assinalou ainda o facto de a China ser, actualmente, um dos mais importantes mercados para as exportações nacionais, bem como “o maior emissor mundial de turistas, com uma classe média em ascensão, e com a ambição de se internacionalizar”. A sua experiência governativa permitiu-lhe “afirmar também que a China e as suas empresas depositaram confiança na economia portuguesa, na sua hora mais difícil; quando alguns investidores olharam com receio para o momento que Portugal vivia, a China soube ver o valor de Portugal”. “É este reconhecimento mútuo do valor que cada país tem como parceiro, juntamente com o pragmatismo que tem predominado na visão de ambos os Governos, que tem permitido ir solidificando uma relação que, a nível das grandes empresas, mas também dos pequenos investidores, é hoje já das mais fortes que temos”, concluiu o vice-primeiro-ministro.Na mesma linha, e também lembrando que 2015 marca o 10.º aniversário da parceria criada, são de realçar estas palavras de Huang Songfu: “Como Embaixador da China em Lisboa, é com muita satisfação que constato a importância especial dada pela comunicação social portuguesa às relações sino-portuguesas que obtiveram grandes avanços nos últimos anos. Os dois países têm mantido contactos frequentes de alto nível. Os crescentes investimentos das empresas chinesas aqui em Portugal, quer públicas, quer privadas, levaram as nossas cooperações económicas a alcançar um novo patamar”.O “Diário de Todos” pode, certamente, contribuir para aprofundar ainda mais esse bom relacionamento, como órgão de comunicação económica e cultural, aberto ao diálogo e à participação. 9 de Março de 2015
  • 042 043F A L A R D E N Ó S - X I I J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I IMais um volume, que já é o 6.º da série sobre o Delta do Rio das Pérolas, acaba de sair do prelo, oferecendo mais informação actualizada e bem estruturada sobre cidades que são verdadeiros motores do desenvolvimento daquela que é, provavelmente, a área geográfica de maior crescimento em todo o mundo. Este volume é dedicado a Zhongshan e Jiangmen, urbes próximas de Macau, e tem por título “Zhongshan, uma cidade de empresários”. Foi elaborada pela Associação de Macau de Investigação do Delta do Rio das Pérolas, com patrocínio da Fundação Macau e colaboração da agência MacauLink e do Instituto Internacional de Macau.Quase sempre apenas de passagem, na estrada que liga Macau a Cantão, ainda que por vezes com paragens mais prolongadas, pude acompanhar de perto, desde o final da década de 1970, o notável progresso verificado em Zhongshan, como zona industrial e cada vez mais como centro de serviços e de lazer. Com uma rede de transportes em constante modernização, os seus complexos habitacionais tornaram-se também muito atractivos como segunda habitação para residentes permanentes de Hong Kong e Macau, pelos custos mais acessíveis e pelo ambiente menos insalubre. As terras que circundam a cidade, profusamente atravessadas por cursos de água de variada dimensão, são de acentuada fertilidade, estimulando uma actividade agrícola também muito lucrativa.Pequeno tigre do deltaEste estudo, que teve, tal como os anteriores, a coordenação de Gonçalo César de Sá e Louise do Rosário e textos de Thomas Chan, Louise do Rosário e Mark O’Neill, caracteriza assim este município:Zhongshan, cidade de empresários, próxima de Macau“Muitas das indústrias locais tornaram-se líderes nacionais; a produção de artigos de ganga representa 40% da produção nacional e a de equipamento de iluminação 60%. Em conjunto com os centros industriais de alguns municípios vizinhos, Zhongshan alcançou o primeiro lugar no que se refere à produção de aparelhos eléctricos e pequenos utilitários domésticos tanto na China como no mundo.” “Zhongshan é a terra natal de Sun Yat-sen, fundador da república chinesa, bem como um dos ‘quatro pequenos tigres’ da província de Guangdong. Ao longo dos últimos trinta anos, a cidade cresceu a uma média anual superior a 8%. Zhongshan partilha o cognome de ‘pequeno tigre’ com Dongguan, Nanhai e Shunde, três outras cidades que sofreram uma profunda transformação desde 1978. A cidade beneficiou da sua proximidade a Macau e a Zhuhai, uma das quatro Zonas Económicas Especiais, bem como do facto de ser o lugar de nascimento de milhões de chineses espalhados pelo mundo. A cidade transformou-se num centro de fabrico de produtos industriais ligeiros para exportação.Com uma área terrestre de 1784 quilómetros quadrados e uma população de 3,17 milhões de pessoas, Zhongshan não tem, de acordo com padrões chineses, grande densidade populacional. É uma cidade com ruas largas, avenidas arborizadas e parques. Milhares de pessoas de Hong Kong e de Macau e chineses a residir no estrangeiro adquiriram residências na cidade, que funcionam como um lugar para onde ir durante feriados e fins-de-semana. Aqueles que a visitam apreciam o seu clima ameno, boa comida, campos de golfe e outros serviços. A verba que é necessária para se comprar um pequeno apartamento em Macau ou Hong Kong permite adquirir uma propriedade de maiores dimensões em Zhongshan. A cidade tem estado a ser promovida pelos seus dirigentes como um destino para os reformados tanto das zonas vizinhas como do norte da China.No decurso dos últimos três anos, Zhongshan passou a estar ligada à rede nacional de caminhos-de-ferro com a conclusão das primeiras linhas de passageiros e de carga na margem ocidental do Delta do Rio das Pérolas. Esta ligação vai permitir acelerar o desenvolvimento económico e social, fazendo com que os residentes e os produtos aí
  • 044 045F A L A R D E N Ó S - X I I J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I Ifabricados fiquem mais próximos de cidades como Cantão, Shenzhen, Macau e Hong Kong. Em 2016 uma nova ponte vai permitir a ligação directa entre as duas Regiões Administrativas Especiais, adicionando mais uma ligação de transporte a Zhongshan. A cidade registou um Produto Interno Bruto de 263,9 mil milhões de yuans em 2013, um acréscimo de 10% relativamente a 2012, o que permitiu ficar em quinto lugar a nível da província de Guangdong. Num índice competitivo de 287 cidades da China publicado em Maio de 2013, a Academia de Ciências Sociais da China colocou Zhongshan no 31.º lugar a nível nacional e no 5.º lugar na província de Guangdong, depois de Shenzhen, Cantão, Foshan e Dongguan.”Produção diversificadaCuriosa e eficaz foi a forma como se promoveu a diversificação da sua produção industrial:“Seis dos agregados populacionais que compõem a cidade especializaram-se num produto específico, como Dachong com mobiliário em mogno, Dongfeng em equipamento eléctrico doméstico e Guzhen com produtos de iluminação. A economia da cidade inclui tanto empresas nacionais como estrangeiras. Os principais produtos nela fabricados são têxteis, tecnologias de informação, maquinaria eléctrica, químicos e produtos metálicos. A cidade funciona como sede de grandes empresas privadas como Zhongshun Group, Vatti, Seaport Food Group e China Chant. O Zhongshun Group é um dos principais produtores de papel da China e a Vatti é um grande fabricante de equipamentos de cozinha.Cerca de metade dos 3,17 milhões de habitantes veio de fora, tendo chegado à cidade vindos de toda a China atraídos pelas oportunidades de emprego, um clima e uma vida melhor do que aquela que poderiam ter nas suas terras natais. A região de Zhongshan é igualmente conhecida pela sua desenvolvida agricultura, com a produção de arroz, lichias, bananas e cana-de-açúcar. O agregado populacional de Xiaolan é famoso em todo o sul da China pelos seus crisântemos. A região atrai milhares de turistas que pretendem aproveitar as suas estâncias termais, o museu de Sun Yat-sen na sua antiga residência, o Pagode Fufeng, a culinária cantonesa, além dos que se deslocam a Xiaolan para ver os crisântemos. A cidade tem estado a ser promovida como um local para reformados tanto de Macau como de Hong Kong e, igualmente, de chineses a residirem no estrangeiro para viverem o resto de suas vidas na região onde nasceram.A cidade de Zhongshan forneceu mais emigrantes do que qualquer outra da China e conseguiu promover-se como um local de segundas residências para o mesmo tipo de pessoas – de Macau, de Hong Kong e chineses residentes no estrangeiro. Aquilo que oferece são preços várias vezes inferiores aos praticados naquelas duas cidades e espaço e jardins que nos locais de residência não podem pagar. No primeiro semestre de 2014, o preço médio por metro quadrado era de 6147 yuans, um aumento de 2,88% relativamente ao período homólogo de 2013. As suas vantagens são um clima do sul da China com um Inverno moderado nas margens do Rio das Pérolas, um ambiente agradável com muitos espaços verdes e uma boa rede de transportes. Algumas famílias ou grupos de amigos de Hong Kong adquiriram conjuntos de habitações nos mesmos empreendimentos imobiliários, o que lhe permite manter o espírito de comunidade num espaço maior e mais barato.”
  • 046 047F A L A R D E N Ó S - X I I J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I IVeremos, no próximo artigo, as vantagens comparativas oferecidas por Zhongshan a Macau. 16 de Março de 2015Seis volumes foram já publicados contendo estudos muito importantes sobre o Delta do Rio das Pérolas, divulgando a sua história e explicando o seu estável processo de desenvolvimento nas últimas décadas, com crescimentos continuados que surpreenderam o mundo. Os títulos desses seis volumes são: “A história notável do Delta”, “Cantão: o renascer de uma metrópole”, “Shenzhen: uma cidade para todas as estações”, “Dongguan: uma nova fase de crescimento”, “Zhuhai – a cidade-jardim do Delta do Rio das Pérolas” e “Zhongshan: uma cidade de empresários”. A produção é da Associação de Macau de Investigação do Delta do Rio das Pérolas e os autores dos textos são Thomas M. H. Chan, Louise do Rosário e Mark O’Neill.Todos esses volumes foram objecto de apreciação em artigos inseridos neste espaço do Jornal Tribuna de Macau. O último serviu para identificar as realidades e potencialidades do município de Zhongshan, que teve, ao longo dos séculos, um relacionamento estreito com Macau, até pela proximidade e pela capacidade de adaptação dos seus habitantes que integraram relevantes correntes de emigração chinesa. Vantagens para MacauNesse volume, os autores identificaram vantagens comparativas oferecidas por Zhongshan a Macau:“Em Julho de 2014, o governo de Macau assinou um acordo-quadro com Zhongshan a fim de estabelecer uma zona de cooperação entre as duas cidades oportunidades de cooperação entre Zhongshan e Macau“Os residentes de Hong Kong e de Macau podem encontrar em Zhongshan muitas das características das suas velhas cidades e da vida social dos anos 50 e mesmo mais atrás e, além disso, o custo de vida é menor. É também fácil viajar para Hong Kong, Macau e Cantão, atendendo a que os transportes foram muito melhorados...”
  • 048 049F A L A R D E N Ó S - X I I J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I Ino bairro de Cuiheng, na zona sul da cidade. A zona situa-se a norte de Macau e cobre uma área de 5 quilómetros quadrados e dispõe de espaço para o estabelecimento de pequenas e médias empresas: de saúde, entretenimento, educativas, turísticas e culturais. Trata-se do primeiro acordo assinado entre Zhongshan e Macau.O rápido desenvolvimento de Macau nos últimos 12 anos fez com que a cidade ficasse rapidamente sem espaço. A alternativa mais prática é Hengqin, uma ilha da Zona Económica Especial de Zhuhai. Nela a Universidade de Macau criou um novo ‘campus’ num terreno com cerca de 1 quilómetro quadrado. Mas os terrenos em Hengqin são altamente procurados e o seu preço subiu acentuadamente. O governo da Região Administrativa Especial de Macau pretende arrendar mais 10 quilómetros quadrados em Hengqin; mas este espaço é terreno que tem de ser reclamado ao mar com a construção de um aterro. O terreno em Zhongshan, por seu turno, está disponível de imediato. Cuiheng é um dos bairros mais pobres da cidade, tendo-se esforçado o mais possível por atrair investimento externo. A nova zona fornecerá terreno para as pequenas e médias empresas de Macau que não têm capacidade financeira para o fazer na sede. O bairro dispõe de terreno para construir casas para reformados, sendo que a sua construção em Macau seria inviável quando considerados os custos dos terrenos e da mão-de-obra. Os cidadãos de Macau que vão viver para Zhongshan depois de reformados continuam a poder receber os generosos benefícios e pensões pagas pelo governo e, uma vez que os terrenos e a mão-de-obra têm custos mais baixos, a construção de habitações para estas pessoas é um negócio rentável.”novas acessibilidadesA verdadeira revolução operada nos transportes rodoviários e ferroviários na China meridional foi chegando a Zhongshan na última década, possibilitando ligações muito mais rápidas e intensas a outras cidades de Guangdong e também a Hong Kong e Macau, fazendo com que Zhongshan ganhasse mais vantagens competitivas e dispusesse de renovados factores de desenvolvimento:Nos primeiros anos do período de reformas e de abertura ao exterior, Zhongshan e outras cidades da margem ocidental do Delta do Rio das Pérolas deixaram-se atrasar relativamente a Shenzhen, Dongguan, Huizhou e outras cidades da margem oriental do rio. Esta situação ficou a dever-se ao facto de não disporem de ligações à rede ferroviária nacional, terem uma rede de estradas de baixa qualidade e de estarem ligados a Macau e não a Hong Kong. Macau é um centro de jogo e de turismo, não dispondo de uma indústria desenvolvida. Hong Kong, por outro lado, tem um dos maiores portos do mundo bem como um centro financeiro e comercial; o corredor entre Hong Kong e Cantão passou a ser ‘uma das fábricas do mundo’, com milhares de unidades industriais e uma densa rede de estradas e caminhos-de-ferro para transportar matérias-primas e, mais tarde, os produtos acabados para exportação para a Ásia, América do Norte e para o resto do mundo.
  • 050 051F A L A R D E N Ó S - X I I J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I IMas Zhongshan e as outras cidades da margem ocidental do Delta estão a aproximar-se, estão a reduzir esse afastamento. Em 2011, ficaram concluídas linhas de caminhos-de-ferro para passageiros e carga entre Zhongshan e Jiangmen. A linha para passageiros permite que os residentes nas duas cidades possam chegar a Cantão em 30 minutos e, aqui, apanhar comboios de alta velocidade para o resto da China. A linha para carga permite que os fabricantes enviem os seus produtos para os clientes a nível nacional e para os portos para posterior envio para o estrangeiro. Outro desenvolvimento importante será a conclusão, em 2016, da primeira ponte ligando Zhuhai e Macau a Hong Kong. Esta ponte permitirá que os fabricantes de Zhongshan e Jiangmen transportem as suas mercadorias por estrada para o aeroporto e para o porto de contentores de Hong Kong em apenas duas horas; esta nova realidade será particularmente importante para os fabricantes de produtos electrónicos e informáticos que precisam de enviar rapidamente os seus produtos para clientes no Japão, América do Norte e Europa. Outra ligação importante para Zhongshan é uma ponte no Rio das Pérolas permitindo a ligação a Shenzhen, com conclusão prevista para 2021 e um custo estimado em 4,83 mil milhões de dólares.”As cidades do Delta complementam-se na busca da prosperidade e cada uma delas tem um papel claramente definido pelas autoridades centrais chinesas. Macau beneficia amplamente da sua localização e da sua ligação antiga às urbes do Delta, até pelas relações comerciais historicamente consolidadas.Quando os portugueses se estabeleceram em Macau, foi na planície fértil de Zhongshan (então denominada Xiangshan) que encontraram imediatamente parceiros comerciais para o abastecimento do entreposto que foi conhecendo um célere desenvolvimento. Os habitantes das vilas e aldeias dessa planície nunca deixaram de ver em Macau oportunidades que souberam agarrar. Gente reconhecidamente empreendedora, foi ela que se foi fixando em atraentes eldorados que causaram às primeiras levas de emigrantes chineses incontáveis tragédias, mas também proporcionaram o acesso ao enriquecimento, abrindo o caminho ao estabelecimento duma influente e muito numerosa diáspora em muitas partes do globo.23 de Março de 2015
  • 052 053F A L A R D E N Ó S - X I I J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I Ida revolução de 1911 na China, que pôs termo a 2000 anos de poder imperial e que estabeleceu a primeira república democrática da Ásia.A principal atracção turística da cidade é o museu construído ao lado da casa onde Sun nasceu, na aldeia Cuiheng. O museu atrai todos os anos visitantes do continente, de Macau, Hong Kong e Taiwan e do estrangeiro. Fica localizado a 20 quilómetros do centro urbano de Zhongshan, a 30 quilómetros de Macau e a 90 quilómetros de Cantão. Foi inaugurado em 1956 e cobre actualmente uma área de 200 mil metros quadrados, dando emprego permanente a 135 pessoas.Foi naquela casa que Sun nasceu a 12 de Novembro de 1866 e onde passou a sua meninice. Os visitantes podem ver a cama onde dormiu, a cozinha onde a comida que ingeriu foi preparada e a biblioteca onde estudou. Após ter concluído os estudos, ali voltou para viver de 1892 a 1895 e exercer a profissão de médico. Sun desenhou e mandou construir um novo edifício de dois andares, com interiores ao estilo chinês e a fachada ao estilo ocidental. Foi nesta casa que permaneceu algum tempo depois de se ter demitido da presidência da república em 1912. Adjacente a estes dois edifícios existe uma sala de exposições que custou ao governo da cidade 40 milhões de yuans. Nela podem ser observados fotografias históricas e objectos relacionados com a vida de Sun com legendas em chinês e inglês.No local existem ainda casas que procuram reproduzir o modo de vida das diferentes classes sociais existentes na aldeia Cuiheng no final da Dinastia Qing e nos primeiros anos do período republicano. Existe igualmente uma exposição agrícola cobrindo cerca de 40 mil metros quadrados, incluindo um lote de terreno com 1650 sun Yat-sen e a sua terra natal, quase ao lado de nós“Macau foi a cidade onde o seu pai trabalhou durante muitos anos, onde Sun iniciou a prática médica e onde a sua família viveu durante muito tempo após a revolução.”Sun Yat-sen, o seu percurso político e a influência decisiva que exerceu na abertura da China à modernidade mereceram já muitos comentários neste espaço que o Jornal Tribuna de Macau me faculta todas as semanas há quase doze anos. E o Instituto Internacional de Macau tem publicado estudos importantes, em português, chinês e inglês, sobre a vida e a obra desta extraordinária personalidade que granjeou rara unanimidade na China de hoje e na sua vasta diáspora, não obstante as mudanças drásticas de regimes e de lideranças.Nasceu muito perto de nós, na localidade de Cuiheng, no município de Zhongshan. Visitei a casa pela primeira vez numa altura em que ainda se procedia à abertura da China a visitantes do exterior, imediatamente após a queda do chamado “bando dos quatro”, quando emergiu, vitorioso, para bem do país, o novo timoneiro decisivo que foi Deng Xiaoping. Após a abertura, aquela casa-museu foi durante quase uma década a maior atracção turística aqui ao lado, até aparecerem hotéis de qualidade, estâncias turísticas e parques temáticos. Como director dos Serviços de Turismo, pude acompanhar toda aquela fase de arranque, a ponto de até ser envolvido na apreciação dos planos de desenvolvimento então entusiasticamente traçados e realizados.O recente livro “Zhongshan, uma cidade de empresários”, que é o 6.º da série sobre o Delta do Rio das Pérolas, contém este interessante texto, que vale a pena parcialmente transcrever, sobre Cuiheng e sobre o seu mais ilustre filho:“O natural de Zhongshan mais conhecido e aquele que deu o seu nome à cidade é o médico Sun Yat-sen, também conhecido por Sun Zhong-shan. Questione qualquer chinês sobre a cidade e ele mencionará de imediato o nome de Sun. Ele foi o mentor
  • 054 055F A L A R D E N Ó S - X I I J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I Imetros quadrados que foi lavrado pelo pai de Sun. Nele se podem observar diferentes actividades agrícolas – o plantio do arroz, a criação de aves de capoeira e de peixe e respectivas alfaias.Foi em Hong Kong que Sun efectuou os estudos secundários e se licenciou em medicina, tendo servido ainda como uma das suas mais importantes bases revolucionárias. Macau foi a cidade onde o seu pai trabalhou durante muitos anos, onde Sun iniciou a prática médica e onde a sua família viveu durante muito tempo após a revolução. A sua antiga casa é actualmente um edifício em memória de Sun Yat-sen.‘A vivência em Hong Kong e Macau foi fundamental para o modo de pensar de Sun’, disse Ye Chun, um historiador de Hong Kong. ‘Um indivíduo da China rural viu-se confrontado com duas sociedades ordeiras e bem geridas e fê-lo pensar por que razões não conseguiam os chineses tratar dos seus próprios assuntos’. Num discurso proferido em Fevereiro de 1923 na associação de estudantes da Universidade de Hong Kong, Sun disse ter sido a corrupção existente na China e a ordem e o bom governo existentes em Hong Kong que o transformaram em revolucionário. Ambas as cidades, Macau e Hong Kong, têm parques em sua memória e em Hong Kong existe um museu – a Sala Kom Tung – que foi inaugurado em 1914. Em 2011 ambas as cidades organizaram diversas actividades para comemorar o 100.º aniversário da revolução Xinhai, que derrubou a Dinastia Qing e conduziu à fundação da República da China.Em 1849, o pai de Sun, Sun Dacheng, chegou a Macau e aí trabalhou como sapateiro durante 16 anos numa sapataria. No final desse período regressou à sua terra natal, a aldeia Cuiheng, a fim de trabalhar um pedaço de terra e casar com a senhora Yang. Seu filho, Sun Yat-sen, nasceu a 12 de Novembro de 1866. A aldeia ficava no município Xiangshan, redenominado Zhongshan em 1925, em honra de Sun Yat-sen, que também era conhecido como Sun Zhongshan. Em 1879, mãe e filho passaram por Macau a caminho de Hong Kong onde apanhou um vapor britânico que os levou ao Hawaii. Foi aqui que ele viveu com seu irmão, 15 anos mais velho, que ali tinha chegado como trabalhador braçal e tinha conseguido ser um mercador bem-sucedido. No Hawaii, Sun aprendeu inglês e fez estudos secundários. Em 1885, regressou à sua terra natal e casou-se com Lu Muzhen, a filha de um mercador chinês no Hawaii, um casamento arranjado entre as duas famílias, como era habitual na época. Mais tarde seguiu para Hong Kong para estudar naquela que é actualmente a Escola Diocesana Masculina, uma das mais famosas na antiga colónia, à época chamada a Escola da Rainha (Queen’s College). Os resultados excelentes que obteve permitiram-lhe estudar medicina naquela que veio a ser a Faculdade de Medicina da Universidade de Hong Kong; Sun foi um dos primeiros licenciados chineses, em 1892.Foi numa igreja evangélica em Hong Kong que, não obstante as reticências de seu irmão, recebeu o baptismo. Sun passou a fazer as suas orações na igreja da Rua Caine, ainda em actividade. Depois de Hong Kong mudou-se para Macau onde foi o primeiro chinês a praticar medicina ocidental. Trabalhou no Hospital Kiang Wu, constituído em 1871 como o primeiro hospital sem fins lucrativos estabelecido por e para chineses.”
  • 056 057F A L A R D E N Ó S - X I I J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I IComo já vimos em artigos anteriores, Macau e Hong Kong tiveram uma influência incontornável no percurso político de Sun Yat-sen, que nunca se esqueceu dos apoios obtidos em Macau, quer de comerciantes chineses abastados, quer de personalidades portuguesas, como o macaense Francisco Hermenegildo Fernandes e o próprio Governador Carlos da Maia. 30 de Março de 2015Quem acompanha o desenvolvimento espectacular do Delta do Rio das Pérolas e conhece o potencial de crescimento das suas principais cidades, todas elas impres-sionantemente dinâmicas, não menospreza o papel que a cidade de Jiangmen tem assumido neste contexto, agora que novas acessibilidades lhe foram asseguradas. Com uma área de 9.541 quilómetros quadrados e 3,93 milhões de habitantes, a cidade tem beneficiado da emigração. Estima-se em mais de três milhões as pessoas dali oriundas que se fixaram, desde 1978, no Sudeste Asiático, na Austrália e na América do Norte e sabe-se que muitos têm trazido de volta capital, conhecimento e novas tecnologias que foram determinantes para estimular a economia e o empreendedorismo. Por outro lado, está a ser feito ali um enorme investimento na indústria e na energia eólica e é ali que está instalada uma das maiores centrais nucleares do mundo, a de Taishan, “joint venture” da Guangdong Nuclear Power e da Electricité de France.O livro “Zhongshan, uma cidade de empresários” (MacauLink, Dezembro de 2014) oferece-nos uma descrição muito correcta e actualizada do potencial económico desta cidade do Delta, quase vizinha de Macau:crescimento rápido“A cidade tem muitas semelhanças com Zhongshan – uma economia baseada na indústria ligeira e dominada por investimento privado nacional e estrangeiro e um lugar que é a terra natal de milhões de emigrantes. A sua economia começou a crescer rapidamente no período pós-1978, quando conseguiu atrair investimento de Macau, Hong Kong, Taiwan e do estrangeiro; milhares de novos residentes afluíram à cidade para trabalhar nas fábricas, escritórios, estaleiros de construção, hotéis e restaurantes. Jiangmen, o “portão do rio”, em contínuo crescimento“Em Jiangmen existe uma das maiores centrais de energia nuclear do mundo. A central de Jiangmen é a terceira geração de centrais nucleares desenvolvidas em conjunto entre a China e a França.”
  • 058 059F A L A R D E N Ó S - X I I J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I IA cidade é um grande produtor de têxteis e vestuário, açúcar e outros produtos alimentares, maquinaria, electrónica e petroquímica. Dispõe do segundo maior porto fluvial de Guangdong, que facilita o comércio com outras cidades no interior da China e ainda com Hong Kong e Macau. O seu nome significa “portão do rio”, dado ficar situada na confluência dos rios Xihe e Peng. Tem um clima marítimo de monções, quente e húmido ao longo do ano, com tufões entre Julho e Setembro. Tem boas reservas de água doce, que representam 6,7% do total da província de Guangdong.Em 2013, a cidade registou um produto de 200 mil milhões de yuans, um acréscimo anual de 9,8%. À semelhança de Zhongshan, a agricultura representa uma percentagem cada vez menor da produção da cidade – 15,9 mil milhões de yuans, um crescimento anual de 3% mas menor do que os 8% registados pela cidade no seu todo. Em 2013 a área cultivada com cereais e produtos agrícolas de elevado rendimento caiu 1,9% e a produção de cereais reduziu-se em 4,4% para 927,7 mil toneladas.A produção industrial e da construção atingiram 101,3 mil milhões de yuans e 50,6% do total; o sector dos serviços contribuiu para o produto com 82,8 mil milhões de yuans, um aumento anual de 6,8% e 41,5% do total. O índice de preços no consumidor foi nesse ano de 1,8%.As exportações em 2013 cifraram-se em 14 mil milhões de dólares, mais 7,9%, e as importações 5,73 mil milhões de dólares, ou menos 1,2%. As empresas com capitais externos produziram 8,49 mil milhões de dólares das exportações e as sociedades por quotas 5,39 mil milhões de dólares; as empresas estatais exportaram apenas 120 milhões de dólares, menos 4,1%.”Principais indústrias“As principais indústrias de Jiangmen são os motores e peças sobressalentes para veículos automóveis, electrodomésticos, cerâmica e mobiliário. A cidade é um dos maiores centros de fabrico de motores da China. Os principais fabricantes incluem as empresas Grand River Group, Guangdong Tayo Motorcycle Technology, Heshan Guoji Nanlian Motorcycle e Jiangmen Dihao Motorcycle.A Grand River Group, constituída em 1992 em Jiangmen, é o mais importante centro de exportação da japonesa Suzuki Motor Corp. Nela são fundamentalmente produzidos motociclos das marcas Haojue e Suzuki. Há dez anos consecutivos que esta empresa lidera a lista dos maiores produtores de motociclos da China. As principais empresas nos outros ramos industriais incluem a Guangdong Xinhui Meida Nylon, Kaiping Chunhui e Jiangmen Sugarcane Chemical Factory (Group), todas cotadas em bolsa de valores.A Guangdong Xinhui Meida Nylon, fundada em 1984, é um dos principais fabricantes chineses do polímero poliamida-6, com uma capacidade de produção anual de 180 mil quilogramas. Os outros grandes sectores industriais são electrodomésticos, electrónica, papel, processamento de alimentos, fibras sintéticas bem como têxteis e produtos em aço inoxidável. Grandes marcas com fábricas em Jiangmen incluem a Jingling, ventoinhas e máquinas de lavar, papel higiénico Vinda, grupo ABB e Lee Kum Kee Foods.
  • 060 061F A L A R D E N Ó S - X I I J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I IA maquinaria eléctrica é uma das principais indústrias de Jiangmen, cidade que atraiu algumas das 500 maiores empresas mundiais como a Mitsubishi Heavy Industries, Panasonic, ABB Paper e Emerson Electric. Outros grandes grupos, como JEE, Sapa e Hyundai fizeram investimentos na cidade. A cidade tem o segundo maior porto fluvial da província de Guangdong. O governo local tem planos para desenvolver uma zona industrial junto do porto, para indústria pesada, como petroquímica e maquinaria, e uma economia baseada no mar. A cidade alberga uma das maiores empresas mundiais de fabricantes de díodos emissores de luz (LED), a Neo-Neon Holdings. Mais de 100 empresas existentes na cidade estão envolvidas na produção de aparelhos de iluminação por semicondutores, tendo obtido em 2011 uma produção combinada de 16,3 mil milhões de yuans. Em Jiangmen existe igualmente um centro de produção de material circulante para caminhos-de-ferro, com o projecto de reparação e construção de material circulante da China South Locomotive e Rolling Stock Corp de Guangdong. Quando a primeira fase deste projecto ficar concluída, a empresa terá capacidade para produzir 400 unidades múltiplas intercidades e fazer a manutenção de mais 100. A produção será vendida tanto no mercado doméstico como no estrangeiro.Em Jiangmen existe ainda o maior centro de produção de fibras têxteis da província de Guangdong. Nela laboram mais de 1500 empresas em têxteis e vestuário, incluindo Guangdong Xinhui Meida Nylon, Kaiping PET, Heshan Meiya e Guangdong Charming Co., Ltd. Os produtos que fabricam incluem cobertores em acrílico, calças de ganga, tecidos não fiados, poliamida e fio de poliéster.” O Parque Industrial de Energia Nuclear de Taishan tem uma área de 550 hectares e produz equipamentos para a indústria nuclear, além de prestar serviços de apoio ao equipamento auxiliar de centrais nucleares. Quanto à energia eólica, já funcionam em Jiangmen cinco grupos com 303 turbinas e uma capacidade de 257,6 megawatts, estando em curso novos investimentos neste sector. Jiangmen já é reconhecida como uma das cidades de maior expansão do Delta. 13 de Abril de 2015
  • 062 063F A L A R D E N Ó S - X I I J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I Iobra notável“A ponte é uma obra de engenharia notável. Está a ser construída através de um percurso marítimo dos mais movimentados do mundo e num rio com correntes fortes, ficando localizada numa região que é assolada anualmente por tufões e chuvas torrenciais. Estes factores colocam os mais complicados desafios técnicos aos arquitectos e engenheiros. O corpo principal da ponte tem 30 quilómetros de comprimento, com 23 quilómetros de viadutos com alturas entre 20 e 110 metros. O túnel tem uma extensão de quase 7 quilómetros, a uma profundidade de 27 metros, um dos mais compridos e de maior profundidade do mundo. A ponte terá seis faixas de rodagem, três em cada sentido, mas não terá linha de caminho-de-ferro. O túnel é necessário dado que a ponte atravessa o rio das Pérolas; todos os dias dezenas de navios de contentores e de carga geral atravessam-no desde Cantão e outros portos do delta rumo ao Oceano Pacífico e diversos destinos no planeta. O túnel exigiu 220 mil toneladas de cimento, ao passo que as duas ilhas artificiais precisaram de 100 mil toneladas. A ponte inclui três secções suspensas por cabos, com tabuleiros variando entre 280 e 460 metros; cada uma das secções tem uma ou mais torres, a partir das quais saem cabos que sustentam os tabuleiros. O desenho de duas das secções procura representar as duas velas de um junco chinês e a outra um arco tradicional chinês.Em cada uma das ilhas artificiais serão construídos grandes parques de estacionamento, serviços de retalho básicos e instalações de migração e de alfândega. A ponte Hong Kong – Macau e os benefícios para as cidades do delta“Esta estrutura notável, com 42 quilómetros de comprimento, será a maior ponte sobre água do mundo. Permitirá ligar Hong Kong a Macau e Zhuhai, com uma ilha artificial de grandes dimensões em cada um dos lados.” Quem faz regularmente, de barco ou helicóptero, a travessia da foz do Rio das Pérolas entre Macau e Hong Kong tem podido testemunhar, certamente com algum espanto, a rapidez com que têm sido colocadas as estacas e, agora, as plataformas, da notável obra de engenharia que é a ponte que vai ligar as duas cidades, com uma ramificação para Zhuhai. O que surpreende, verdadeiramente, é a azáfama que por aí vai, assegurando a celeridade da construção e, o mais possível, o cumprimento dos prazos, em flagrante contraste com a impressionante morosidade de tantas obras na RAEM. Aquele enorme empreendimento deverá estar quase concluído até princípios de 2017 e a sua entrada em funcionamento pleno poderá acontecer ainda nesse ano. Os trabalhos tiveram início em 2009 e o custo deverá ser superior a 80 mil milhões de yuans.A primeira grande vantagem desta ponte, com 42 quilómetros de comprimento, é o estabelecimento de uma ligação rodoviária permanente entre as margens ocidental e oriental do rio e entre as duas regiões administrativas especiais. O maior benefício, porém, será o incremento da cooperação entre as cidades de Guangdong e Hong Kong, em termos logísticos, financeiros, tecnológicos e comerciais, consolidando, a prazo, a integração e proporcionando uma ainda maior articulação funcional entre as suas mais importantes cidades, como pólos dinamizadores do crescimento, e as zonas vitais envolventes onde novos investimentos podem ser acolhidos.O estudo “Zhongshan, uma cidade de empresários” (MacauLink, Dezembro de 2014), da série em boa hora produzida pela Associação de Macau de Investigação do Delta do Rio das Pérolas e pela MacauLink, com a colaboração do Instituto Internacional de Macau e patrocínio da Fundação Macau, oferece-nos uma visão correcta do contributo desta ponte no contexto dos planos de desenvolvimento traçados:
  • 064 065F A L A R D E N Ó S - X I I J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I IA ilha situada a nordeste do aeroporto internacional de Hong Kong tem uma área de 130 hectares. O governo da região está a analisar a futura construção de hotéis e espaços comerciais naquele local. Devido à sua proximidade do aeroporto, os edifícios a serem construídos não podem exceder 50 metros de altura e não mais de 10 andares. Está igualmente prevista a construção de um centro comercial subterrâneo.A ilha junto a Macau e Zhuhai ficou pronta em Dezembro de 2013 e tem uma altura de 4,8 metros. Para a sua criação foi necessário despejar no local 20 milhões de metros cúbicos de areia, o que custou 2386 milhões de yuans. A ilha permite aguentar marés altas e tufões e dispõe de uma pista de aterragem. A ponte foi pensada para durar 120 anos. Trata-se de um projecto complicado que tem de respeitar as normas de desenho, de construção e ambientais de três jurisdições. As restrições em altura devido à sua localização próxima dos aeroportos de Hong Kong e de Macau também levantaram alguns desafios.”Impacto económicoQuanto ao impacto económico, são avançados os seguintes dados:“O objectivo económico para esta obra faraónica é a redução do percurso por estrada entre Hong Kong e a região ocidental do delta do rio das Pérolas de entre 3 a 4 horas para 30 a 45 minutos. Os grandes beneficiados serão as empresas e as fábricas de Zhuhai, Zhongshan, Jiangmen e outras cidades na região ocidental. Essas empresas poderão passar a enviar os seus produtos por via aérea e através do porto de Hong Kong mais rápido do que actualmente. Esta alteração será particularmente importante para os fabricantes de produtos perecíveis ou carga de elevado valor, como máquinas fotográficas e outros produtos de consumo electrónicos e peças que têm de ser enviadas o mais depressa possível para os compradores.A ponte terá igualmente como resultado fazer com que as cidades da região ocidental do delta fiquem mais atractivas para investidores externos, tanto nacionais como estrangeiros. Empresas em Cantão, Shenzhen e noutras cidades da zona oriental do delta poderão investir na zona ocidental a fim de beneficiarem dos salários e dos preços dos terrenos mais baixos. Hong Kong representa cerca de 75% do investimento externo realizado na província de Guangdong e é, além disso, o seu principal parceiro comercial.A ponte irá ter um grande impacto nos mercados imobiliários das três cidades, muito particularmente Zhuhai e Zhongshan, as cidades mais próximas de Macau e de Hong Kong. Milhares de residentes nestes dois territórios adquiriram apartamentos e casas nas duas cidades mas o seu nível de utilização é diminuto devido ao tempo necessário para lá chegar e ao facto de ser preciso passar por uma fronteira. As cidades de Zhuhai, Zhongshan e Jiangmen esperam que a ponte proporcione uma alteração radical, fazendo com que o imobiliário fique de tal forma acessível que os residentes de Hong Kong e de Macau ponderem a hipótese de mudar de local de residência, permitindo-lhes viver num local e trabalhar num outro. A ponte facilitará também a movimentação de turistas em ambos os sentidos. Actualmente os visitantes têm de efectuar uma viagem de barco para atravessar o delta do rio das Pérolas,
  • 066 067F A L A R D E N Ó S - X I I J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I Ium percurso que demora entre 60 a 70 minutos. Futuramente, a maior parte destas pessoas apanhará autocarros para turistas. Os apostadores podem chegar de avião ao aeroporto de Hong Kong e aqui apanhar um autocarro ou um automóvel rumo aos casinos de Macau.” Continuaremos a divulgar os benefícios e implicações desta gigantesca obra.20 de Abril de 2015Kaiping, ao pé de Jiangmen, na zona ocidental do Delta do Rio das Pérolas, a curta distância de Macau, foi o primeiro local da Província de Guangdong classificado pela UNESCO como património mundial. Ali estão as surpreendentes “torres da montanha dourada”, num total de 1833, que constituem a principal atracção turística daquele conjunto de aldeias implantadas numa área protegida, ainda predominantemente rural, proporcionando um ambiente bucólico que contrasta com o bulício incessante das áreas vizinhas, orientadas definitivamente para o espectacular desenvolvimento que, em poucas décadas, alterou drasticamente a geografia e os hábitos das gentes da região. Até por isso, vale a pena lá ir.O estudo “Zhongshan, uma cidade de empresários” (MacauLink, Dezembro de 2014), dedica várias páginas a estas construções verdadeiramente singulares, que as autoridades querem conservar a todo o custo: “Uma imagem de Fang Yun-wen, envergando um fato ocidental de três peças, saúda os visitantes à entrada da casa de seis pisos em Kaiping, na região ocidental de Guangdong. Junto a esta imagem encontram-se fotografias da suas três mulheres – uma senhora da terra, uma chinesa de Nova Iorque e a terceira de Hong Kong.A partir do telhado podem observar-se os pomares e os campos de arroz brilhando ao sol quente do Verão. A casa de Fang é uma das 1833 diao lou (torres) de Kaiping que a UNESCO declarou património da humanidade em Junho de 2007.A sua primeira mulher e os filhos viveram na torre, onde cada filho tinha direito a um andar com a sua cozinha autónoma. Fang visitava-os mas nunca ali residiu. Após a Torres de Kaiping, património mundial, aqui tão perto“Foi em Junho de 2007 que a UNESCO designou as torres Diao Lou e as aldeias de Kaiping como património mundial da humanidade.”
  • 068 069F A L A R D E N Ó S - X I I J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I Isua morte em Nova Iorque, em 1935, os restos mortais foram levantados para enterro na sua terra natal.O seu perfil é típico dos que mandaram construir estas estruturas imponentes. Nascido em 1878, deixou a China aos 11 anos de idade rumo a Nova Iorque, onde trabalhou no negócio da restauração. Naquela cidade ganhava o suficiente para mandar construir a torre e prover a três famílias que levavam uma vida confortável.As torres tinham três funções – como residência, como defesa contra bandidos e como protecção contra cheias.A partir da década de 60 do século XIX, milhares de pessoas abandonaram Kaiping para irem em busca de uma vida melhor no estrangeiro – construindo estradas e caminhos-de-ferro e pesquisando ouro nos Estados Unidos, Canadá e Austrália. Também foram para Hong Kong, Macau, Filipinas, Malásia e Reino Unido. Habitualmente iam trabalhar nos negócios da restauração, barbearias e lavandarias.No final do século XIX tinham começado a amealhar poupanças. No entanto, nos países de acolhimento não tinham conseguido alcançar o reconhecimento social que esperavam. Os Estados Unidos e o Canadá fizeram legislação restringindo ou mesmo proibindo a emigração chinesa. (…)Face às dificuldades muitos decidiram regressar às terras natais; regressaram para aí viver, casar com mulheres locais e construir as torres que representavam um sinal externo do seu sucesso. As torres foram construídas no meio de aldeias a fim de servir de local onde guardar objectos valiosos e de refúgio em caso de ataques de bandidos. Eram construídas em betão e aço, com paredes espessas e grades nas janelas, mais fortes e mais seguras do que as restantes casas no povoado. A casa que Fang mandou construir tinha uma porta feita de duas placas de aço alemão – a qualidade mais elevada existente à época. No telhado havia postos de vigia para ver a paisagem, com buracos para atirar pedras ou outros objectos contra os intrusos. A casa possuía igualmente uma passagem secreta através de uma parede nas traseiras; outras casas dispunham de túneis a partir das caves.Os arquitectos destas torres fundiram os estilos tradicionais chineses com os trazidos pelos retornados dos respectivos países de acolhimento. Estes estilos incluíam o grego, romano, barroco e bizantino. As pessoas diziam que Kaiping era um ‘museu da arquitectura moderna’ e nela havia tijolos de Itália, retretes da Alemanha e cinzeiros da Grã-Bretanha. A construção mais alta é a torre Ruishi, com nove andares, construída em 1923 com aço reforçado. O seu proprietário era Huang Bi-xiu, que fez fortuna na banca e no comércio de medicamentos chineses em Hong Kong. Huang construiu a torre para proteger a vida e os activos da família em Kaiping. (…)Entre 1900 e 1931 foram construídas 1648 torres. No mesmo período a maior parte das aldeias foi reconstruída e em apenas 30 anos dinheiro enviado do estrangeiro permitiu transformar a paisagem rural desta região da província de Guangdong. Este influxo de pessoas de posses atraiu a atenção dos bandidos que assaltavam, roubavam e raptavam pessoas. Entre 1912 e 1930 há o registo de 71 actos de banditismo. (…)
  • 070 071F A L A R D E N Ó S - X I I J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I IKaiping faz fronteira com três municípios – Enping, Taishan e Xinhui. Em conjunto são conhecidos como os ‘quatro municípios’, de onde saiu a maior parte dos emigrantes que rumou à América do Norte, Austrália e Sudeste Asiático. Kaiping tem, actualmente, uma população de 700 mil pessoas, enquanto existem 750 mil naturais espalhados por 69 países.A construção das torres atingiu o seu pico nos anos 20 e 30 do século XX, quando ali existiam mais de 3 mil. À medida que a segurança foi melhorando, este tipo de construção deixou de ser necessário.A depressão económica da década de 30 travou o envio de remessas, a que se seguiu a guerra com o Japão de 1937 a 1945. De 1943 a 1947 as restrições à imigrição nos Estados Unidos e no Canadá foram abolidas e, como resultado, muitos chineses foram para os Estados Unidos. A última torre foi construída em 1948.O estabelecimento da República Popular da China em 1949 pôs termo ao banditismo e o controlo de cheias foi melhorado. Estes dois factos representaram o fim do papel até aí desempenhado pelas torres.Durante a Revolução Cultural (1966-76), em que os guardas vermelhos foram encorajados a destruir o que fosse antigo e tradicional, cerca de mil torres foram destruídas.”A República Popular da China tem dedicado à classificação e protecção do seu património histórico e cultural a maior atenção e tem colaborado, especialmente nas últimas décadas, com a UNESCO na classificação de muito desse legado na lista do património mundial. Depois de conseguir a inclusão das torres de Kaiping nessa relação, foi necessário travar um enorme combate contra os especuladores de terrenos. Oxalá consiga vencê-los, em nome da cultura e da memória.27 de Abril de 2015
  • 072 073F A L A R D E N Ó S - X I I J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I Iuma apresentação oportunaConvidado a redigir uma nota introdutória, Rui Simões, professor da Escola Superior de Comunicação Social de Lisboa e também colaborador do IIM, com estudos de muito mérito sobre Macau e a China, além de explicar o sistema de exames praticado na China Imperial que tanto fascinou autores europeus que versaram sobre a China, do século XVII até ao presente, ofereceu-nos esta apreciação crítica do trabalho de António Aresta:“O valor testemunhal da obra do Pe. Álvaro Semedo, no contexto europeu, está patente tanto nas sucessivas edições que a obra conhece como na abundante presença de referências à Monarquia em abonações presentes nos trabalhos sobre a China, em particular ao longo do século XVII e, como fonte coeva, até aos nossos dias. Não havendo uma edição crítica que confronte a diversidade de versões conhecidas, integrais ou abreviadas, António Aresta teve a preocupação de arrolar diversas edições da obra, desde a 1.ª edição em castelhano de 1642, editada por Faria e Sousa, optando finalmente pela tradução da edição italiana de 1643 feita por Luís Gonzaga Gomes e, nesta, glosando sobretudo os Capítulos VI a X, em particular o sétimo, oitavo e nono, que tratam especificamente dos Exames Imperiais.Numa leitura minuciosa, António Aresta conduz-nos tanto para um inventário de detalhes sobre os conteúdos tratados e a sua comparência nos sucessivos níveis de progressão, como para a descrição da estrutura arquitectónica dos recintos em que estes decorrem e as disposições de segurança que os validam. Na abordagem destes relatos, o autor articula o duplo valor do testemunho, coevo, do Pe. Semedo, onde se sobre Álvaro semedo e a educação na china Imperial“É conhecido o fortíssimo impacto causado pela obra de Álvaro Semedo na Europa culta, sobretudo na fermentação ideológica de um iluminismo que se abria a uma cosmovisão asiática...”António Aresta, Março de 2015Pouco depois de nos brindar com o livro “Figuras de Jade – os Portugueses no Extremo Oriente” (Instituto Internacional de Macau, Lisboa, 2014), eis um novo trabalho deste docente e investigador, com vasta obra publicada sobre Macau, a China e a presença portuguesa no Oriente: “Álvaro Semedo – A Educação na China Imperial” (Instituto Internacional de Macau, Março de 2015).A Relação da Grande Monarquia da China, escrita pelo missionário jesuíta Álvaro Semedo (1585-1658) no segundo quartel do século XVII, é, sem dúvida, uma das maiores obras da sinologia europeia, alcançando, no seu tempo, uma ampla difusão internacional nas suas diversas versões (1642, em castelhano; 1643, 1653, 1667 e 1678, em italiano; 1645 e 1667, em francês; 1665, em inglês; e 1670, em holandês). A primeira edição conhecida na língua portuguesa é apenas de 1956, traduzida e publicada pelo sinólogo macaense Luís Gonzaga Gomes, a qual foi republicada em 1994 pela Direcção dos Serviços de Educação e Juventude e pela Fundação Macau, dois organismos que tive a honra de, nessa altura, tutelar, como membro do Governo de Macau. Em chinês, só apareceu uma versão integral em 1998, da Editora de Documentação Antiga de Xangai.Não é esta a primeira vez que António Aresta se debruça sobre a obra de Álvaro Semedo. O prefácio da edição de 1994 é de sua autoria e várias incontornáveis referências são por ele feitas a Semedo em artigos inseridos na revista Administração e na Revista de Cultura, ambas publicadas por serviços oficiais de Macau, e em diversos outros trabalhos. Também em “Figuras de Jade – os Portugueses no Extremo Oriente” encontramos uma sintética e bem elaborada biografia de Semedo.
  • 074 075F A L A R D E N Ó S - X I I J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I Iarticula uma informação presencial com a de testemunhos indirectos, colhidos graças ao seu conhecimento da língua chinesa, com a interpretação do posicionamento assumido por este na sua descrição e onde são sensíveis os efeitos de algum dogmatismo confessional do autor da Monarquia.António Aresta, com uma ampla produção de carácter biográfico sobre figuras centrais no processo educativo de matriz portuguesa na Ásia, escreve, sobretudo, sobre personagens que admira. Essa empatia manifesta-se no esforço em deixar patente as motivações e as precauções – e os preconceitos mais evidentes, também – das figuras que aborda. Manifesta-se, também, pela selecção judiciosa de passagens com as quais, sempre que possível, dá a palavra ao autor da Monarquia. A preocupação com esta figura da Companhia de Jesus e com a obra em questão não é, de facto, nova; na reedição da tradução da Monarquia para a Língua portuguesa, fixada por Luís Gonzaga Gomes em 1956 e reeditada em Macau pelos Serviços de Educação e Juventude, em 1994, encontramos a apresentação do conjunto da obra a cargo do autor, dando-se hoje forma à vontade, já então evidente, de aprofundar a reflexão sobre os Exames Imperiais.” Aurora da sinologiaAntónio Aresta, ao recordar, neste seu trabalho, que “os jesuítas estão ligados à aurora da sinologia científica”, reproduziu, pela sua importância, a carta de Allexandro Valignano a Teotónio de Bragança, bispo de Évora, datada de 23 de Dezembro de 1585, em que expressava a necessidade de os missionários que se encontravam em Macau estudarem a língua e os costumes dos chineses. Segundo o visitador da Província do Japão, a língua chinesa “parece a mais difícil que existe no mundo, sendo toda de vozes monossílabas, breves e muito equívocas e nesta dificuldade se encontram os padres sem mestres que os ensinassem e sem intérpretes que os explicassem, de forma que não entendiam nem eram entendidos, mas, à força de diligência e incansável trabalho, foram vencendo e conquistando o país e, se bem que nunca tivessem chegado à perfeição no falar e garbo no pronunciar, todavia descobriram os mistérios dessa linguagem e a puseram, de tal modo, em forma clara, que conquistaram a facilidade para aqueles que seguiriam depois. Ajuntaram-se ao trabalho do estudo das letras, as ocupações de suma fadiga sendo elas tantas e tão várias e, nessa missão, além do costume doutros, os padres estudavam tudo com tanta aplicação e diligência, que a aprenderam, escreveram bem e liam os livros chineses, compondo outros, tendo com efeito dado à luz muitos com grandíssimo proveito da cristandade”.Com a chegada de Ruggieri e Ricci, como se sabe, aquele propósito tornou-se irreversível. Só assim foi possível a consistente e persistente, ainda que reconhecidamente penosa, penetração nos confins do Império do Meio e junto da sua corte. Conhecendo a língua, a acção simultaneamente missionária e cultural foi ganhando notável eficácia.Como bem explicou António Aresta, “as relações da Europa com a China foram mediadas, invariavelmente, pelos jesuítas, autênticos embaixadores científicos e culturais, cujo estatuto preferencial não se revelou o bastante para os imunizar contra as perseguições de que foram vítimas.” O próprio Álvaro Semedo foi preso e publicamente humilhado em 1616, quando encarcerado numa gaiola de bambú e assim transportado, em condições degradantes, de Nanquim a Cantão, sendo dali enviado para Macau.
  • 076 077F A L A R D E N Ó S - X I I J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I IFoi a sua longa permanência na China, a par do conhecimento da língua e dos usos chineses que permitiu a Semedo escrever a Relação da Grande Monarquia da China, “uma das obras magnas do amanhecer da sinologia portuguesa e europeia”. Veremos, no próximo artigo, como Semedo descreveu o sistema dos exames imperiais, alicerce fundamental das estruturas administrativas do Império Chinês.4 de Maio de 2015Na nota de apresentação do mais recente trabalho de António Aresta, intitulado “Álvaro Semedo – A Educação na China Imperial” (Instituto Internacional de Macau, Março de 2015), Rui Simões, professor da Escola Superior de Comunicação Social de Lisboa, recorda-nos que “a temática dos exames imperiais consagrou-se como um dos temas de maior fascínio junto dos autores que versaram sobre a China, do século XVII para cá, e continua, para os investigadores, como um tema em permanente actualização”. Na verdade, “o interesse dos missionários, tanto dos que se aproximaram da Corte como dos que se dedicaram à missionação local, funda-se em boas razões: a observação do sistema permite-lhes a compreensão dos poderes vigentes expressos na figura dos administradores e magistrados mas, também, dos modelos mentais de quem zela pelos padrões ideológicos, morais e religiosos na China; em suma, das figuras que poderiam pautar o conforto ou desconforto da prática da missionação, como de resto o Pe. Álvaro Semedo experimentou na sistemática perseguição de que resultou a sua expulsão para Macau, em 1617”.o sistema imperial de examesSão de Rui Simões estas notas sobre o sistema de exames:“O sistema de exames praticado na China, consolidado nas Dinastias Sui e Tang, persistirá até ao ocaso da dinastia Qing, já no início do século XX, em 1905. Muito mais do que uma questão de educação, concretizam uma estratégia concreta de ordenamento do Império, nos planos ideológico, político, administrativo e jurídico.Objecto de lendas e moderadas revisões, os conteúdos examinados convergiram o sistema de exames na china Imperial“O sistema é um alicerce fundamental da própria centralidade imperial...”
  • 078 079F A L A R D E N Ó S - X I I J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I Ipara a exigência de um domínio dos Clássicos e da Língua, da composição literária e de um reduzido reportório científico mas afastaram-se definitivamente das áreas tecnológicas ou de aspectos práticos de gestão e administração. Marcados pela tradição confucionista, estabeleceram não só um ordenamento de saberes como a supremacia social da classe de letrados que aprovavam.As cotas de aprovação e o correspondente provimento de vagas constituiu-se, afinal, como uma forma eficaz do poder imperial, ultrapassada a unificação do império no período Han, se libertar de uma aristocracia com os títulos oriundos, sobretudo, da actividade militar, e criar uma administração do território, da justiça e da regulação da actividade económica própria, por si estruturada e independente de nomeações arbitradas por interesses locais e estruturas sucessórias.O sistema é, pois, um alicerce fundamental da própria centralidade imperial e só virá a ser posto em causa pela conjugação entre os movimentos reformistas chineses e a pressão das potências ocidentais, sobretudo na segunda metade do século XIX. Após uma primeira resposta dada pela criação de corpos de assessores com a formação obtida nos sistemas educativos emergentes, de matriz ocidental, adjacentes aos quadros do mandarinato (os mufu), o sistema é definitivamente abandonado em 1905. A compreensão da história política da China, no primeiro quartel do século XX, continuará, contudo, a considerar o papel de algumas figuras providas por estes exames, não só porque o seu estilo de vida e a sua influência terão persistido para lá dessa ruptura, mas também porque o sistema de ensino entretanto criado ficará ainda, nos anos que se lhe sucedem, refém do corpo de saberes constituído e do quadro de professores existente.A localização dos recintos de exame – cuja estrutura e funcionamento são detalhadamente descritos no relato do Pe. Semedo – recapitula a geografia política do Império. Com a aprovação nos exames preparatórios progride-se para os exames nas capitais de província e, posteriormente, para a capital, em provas gradualmente mais exigentes a que o Pe. Semedo, por analogia, designa pela terminologia da tradição universitária europeia, referindo-se ao título mais elevado como o de doutor.Os exames, cujas regras foram sendo alteradas ao longo dos anos, compreendem, em alguns períodos, a concessão dos seus graus iniciais, tanto por simples aquisição como, em determinadas situações, por privilégio hereditário. Contudo, se não considerarmos a disparidade de condições na preparação para a sua realização – questão, de resto, bem presente na educação contemporânea – aparecem como modelos de avaliação que buscam a isenção, tentando garantir o anonimato e supervisionando qualquer tipo de fraude ou favorecimento, cuidados patentes na configuração do espaço em que se realizam e nos modelos regulamentares por que se pautavam.”uma aristocracia intelectualÁlvaro Semedo, na “Relação da Grande Monarquia da China”, oferece-nos uma descrição pormenorizada deste “império examinocrático”, ao mesmo tempo que nos traça um panorama sobre a cultura chinesa, da língua à arte.Neste trabalho, António Aresta, depois de transcrever partes relevantes da obra de Semedo sobre a organização e funcionamento do sistema de exames, caracteriza o papel nuclear da educação na estrutura social da China Imperial: “Nela surgia uma
  • 080 081F A L A R D E N Ó S - X I I J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I Iaristocracia intelectual e letrada que após galgar os sucessivos exames imperiais tomava posse de todos os postos político-administrativos. A ligação, verdadeiramente incestuosa, dos estatutos sociais honrosos, prestigiantes e privilegiados com a obtenção de graus académicos explica, em boa medida, a longevidade e a blindagem do sistema”. Na verdade, “o mandarinato representava a elite política, cultural e militar da nação. Era uma posição com prestígio, com autoridade, poder e relevantes proventos económicos”. A história do sistema de exames imperial é assim sintetizada por Aresta:“O sistema público de exames teve o seu início formal na dinastia Tang (618-907), dando-se primazia aos filhos dos altos dignatários, um processo conhecido por privilégio da sombra; na dinastia Song (960-1279), acentuou-se o carácter obrigatório dos exames como a única via de acesso aos serviços da administração civil do reino ao mesmo tempo que as matérias objecto de estudo eram fortemente ideologizadas; com a dominação mongol (1206-1368), o sistema de exames foi interrompido, relaxado e fragilizado; com a dinastia Ming (1368-1644), deu-se um verdadeiro renascimento do sistema que foi acompanhado de uma grande liberalização no acesso, o que permitiu a entrada de camponeses, artesãos e mercadores, embaratecendo-se, igualmente, o custo dos livros que passaram a ser impressos em tabuinhas de madeira.Este sistema rígido e inibidor das capacidades criadoras entrou em colapso com o ocaso dos Ming não só porque os privilégios usufruídos fossem bastante superiores aos deveres administrativos, mas sobretudo porque o choque entre poderes, valores e saberes começava a criar fissuras na estrutura global da organização social. A linha de compromisso situava-se entre a tradição (Os Cinco Clássicos, compilados por Confúcio; Os Quatro Livros de Comentários, com as opiniões de Confúcio; O Livro Oficial das Dinastias Históricas; O Livro Antigo da Aritmética), e as exigências cada vez mais apelativas do universo das ciências experimentais e exactas. O que pode ser visto como a sublimação de uma sociedade estática e autoritária.”Portadores de novos saberes, da Matemática à Medicina, além de diferentes métodos didácticos e imbuídos de um outro espírito científico, cultural e filosófico, os missionários jesuítas tiveram uma influência decisiva nas modificações operadas. 11 de Maio de 2015
  • 082 083F A L A R D E N Ó S - X I I J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I Imembro do Governo de Macau no final de década de 1980, tendo colocado questões estimulantes aos oradores chineses, a quem se juntaram, no painel, os professores Fernanda Ilhéu e Viriato Soromenho-Marques, ambos da Universidade de Lisboa, que apresentaram excelentes comunicações sobre a futura cooperação nesta nova rota da seda do século XXI, onde existem caminhos convergentes tendo em conta as novas políticas públicas portuguesas que apontam o mar como desígnio nacional, e sobre as alterações climáticas como desafio comum para a paz internacional. Fernanda Ilhéu, além de competente investigadora e activa promotora de um sempre maior intercâmbio económico com a China, desempenhou durante 18 anos importantes cargos oficiais em Macau, na área económica.A participação do embaixador Huang Songfu, do reitor António Cruz Serra e do vereador Carlos Manuel Castro, abrilhantou o programa, tendo todos salientado, na sessão de abertura, a relevância do evento e a disponibilidade para se envolverem em mais realizações desta natureza. Entre a vasta assistência, é de registar a presença do secretário de Estado Castro Almeida, dos ex-governadores de Macau, Generais Vasco Rocha Vieira e José Eduardo Garcia Leandro, da presidente do Instituto Confúcio de Lisboa, Prof.ª Teresa Cid, do presidente da Fundação Oriente e de representantes da Delegação Económica e Comercial de Macau, das Fundações Casa de Macau e Jorge Álvares, da Casa de Macau, do Instituto Internacional de Macau e de diversas instituições universitárias e empresariais, além de órgãos de comunicação social. duas síntesesPodemos resumir assim a extensa comunicação de Gao Peiyong, inteiramente proferida em chinês e com os “slides” apresentados também só em chinês, o que o diálogo Portugal – china e a nova rota da seda“O espírito da Rota da Seda, alicerçado nomeadamente na paz e na cooperação, na abertura e na inclusão, na aprendizagem e benefícios mútuos, torna-se um símbolo da comunicação e cooperação entre o Oriente e o Ocidente, e património precioso da toda a humanidade.”Huang Songfu, embaixador da RPC em Lisboa Por iniciativa de diversas entidades, têm-se multiplicado, em Portugal, as conferências e os seminários dedicados à cooperação luso-chinesa, especialmente no domínio económico, comercial e empresarial, com uma crescente atenção dada também à vertente cultural. É de louvar este esforço e o renovado interesse verificado, numa altura em que se comemora o 10.º aniversário do estabelecimento da parceria estratégica entre os dois países.A mais recente destas acções foi a conferência “O Diálogo Portugal – China e a nova Rota da Seda”, conjuntamente organizada pelo Instituto Confúcio da Universidade de Lisboa e pela Câmara Municipal de Lisboa e levada a efeito na semana passada, no salão nobre municipal. Três reputados académicos de Pequim – Gao Peiyong, director da Academia Nacional de Estratégia Económica (Academia Chinesa de Ciências Sociais), He Huaihong, professor do Departamento de Filosofia da Universidade de Pequim e Shao Binhong, secretária-geral da Sociedade Chinesa para a Economia Mundial – dissertaram, respectivamente, sobre “China – reformas económicas no contexto da globalização”, “Perspectivas para a convivência internacional: a filosofia chinesa e a comunicação da China moderna com o mundo” e “Uma faixa e uma rota”, explicando os objectivos e os parâmetros do grande projecto de cooperação internacional lançado pela República Popular da China, reafirmando as tradições e apostando nas imensas potencialidades da Rota da Seda, nas suas vias marítima e continental. Portugal e Macau têm, certamente, um papel a desempenhar neste contexto.Seguiu-se uma bem estruturada mesa redonda, coordenada e moderada por Francisco Murteira Nabo, da Câmara de Comércio Portugal – China e “senior partner” da SAER – Sociedade de Avaliação Estratégica e Risco, que recordou a sua longa experiência empresarial e institucional nas ligações à China, desde o tempo em que foi
  • 084 085F A L A R D E N Ó S - X I I J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I Idificultou o acompanhamento da exposição feita, que teve uma interpretação simultânea demasiado sucinta, ficando longas passagens por traduzir: o processo de abertura da China, decidido na 3.ª sessão plenária do Comité Central do Partido Comunista da China, tem já 37 anos, podendo ser dividido em três etapas históricas, às quais podem ser atribuídas três designações oficiais – “a abertura da China no mundo”, “a integração acelerada da China no mundo” e “a China esforça-se por assumir a sua responsabilidade na ordem mundial”. O sucesso da reforma e abertura, com os resultados conhecidos no desenvolvimento económico, foi impulsionado por factores que surgiram da condição especial da China no contexto da globalização. Esses factores são:1. “Ser bom a estudar, absorvendo informação de todo o mundo.”2. “Ser bom a recolher todas as sugestões, para melhorar o nível de decisão tendo como base de apoio uma participação vasta.”3. “Promover a reforma pela abertura, tendo em conta a situação nacional da China e visando diminuir a distância com o mundo.”4. “Ser bom em captar as tendências, levando em consideração a situação no seu conjunto enquanto o país se foi integrando continuamente no sistema económico mundial.”Cumpridas estas etapas, e tendo em conta o crescimento e a situação presente da economia chinesa, entrou-se já na nova era em que se constrói a fase da abertura completa. Por seu lado, He Huaihong, que distribuiu uma versão integral da sua prelecção em inglês, teceu lúcidas considerações e análises no domínio da filosofia política, caracterizando o mundo moderno no contexto da globalização e das diversidades, da procura de consensos e da constatação das diferenças e dos antagonismos, explorando e procurando ultrapassar as aparentes contradições num tempo em que se exige a igualdade formal e em que se acentuam, por múltiplas vias, as diferenças. É neste contexto que, conforme o orador, devemos entender as buscas cada vez mais acentuadas de alargados consensos, podendo aqui aplicar-se o ideal confuciano de “harmonia e não uniformidade”. Interrogando-se sobre a possibilidade de se alcançarem consensos estáveis num mundo tão profundamente multicultural, este orador concluiu que os consensos fundamentais podem ser definidos e alcançados pela via política, mas em termos de substância o consenso será também moral e, apesar de os mais destacados pensadores políticos do nosso tempo dedicarem muita atenção à reflexão sobre a diversidade e o conflito, eles aceitam esse consenso moral, pelo que o entendimento não só é necessário como é também possível. Na política internacional “não há inimigos permanentes, nem amigos eternos”. Os consensos podem ser políticos, mas a sua substância deve ser moral. É essa a única forma de construir a paz e proteger as diversidades culturais. Um consenso político com substância moral representa um consenso sobre valores políticos com importância moral, universal e permanente. A filosofia política pode ser considerada um ramo da ética. O orador terminou, convidando os intelectuais a reflectirem mais sobre a procura destes consensos e sobre a sua extensão a toda a humanidade. A terceira conferencista explicou os contornos e os grandes objectivos do projecto da Rota da Seda, tema que voltará a ser brevemente abordado neste espaço do Jornal Tribuna de Macau. 18 de Maio de 2015
  • 086 087F A L A R D E N Ó S - X I I J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I“uma Faixa e uma rota” – cooperação chinesa para o século XXI“Visão e Ações sobre a Construção da Cintura Económica da Rota da Seda e da Rota Marítima da Seda do Século XXI” é o título do documento orientador do novo programa de cooperação internacional da China. No artigo anterior, a propósito da conferência “O Diálogo Portugal – China e a Nova Rota da Seda”, conjuntamente organizado pelo Instituto Confúcio da Universidade de Lisboa e pela Câmara Municipal de Lisboa, foram tecidas considerações sobre as novas estratégias de cooperação económica internacional da República Popular da China, identificadas no documento “Visão e Ações sobre a Construção da Cintura Económica da Rota da Seda e da Rota Marítima da Seda do Século XXI”. Estas orientações políticas têm sido intensamente promovidas pelo próprio Presidente Xi Jinping nas suas visitas de Estado.cooperação estratégicaTendo vários leitores mostrado interesse em conhecer essas linhas estratégicas de cooperação, decidi recorrer à apresentação feita em Lisboa pelo embaixador Huang Songfu, em fins de Março, transcrevendo algumas passagens fundamentais que permitem entender os objectivos propostos. Feito o enquadramento histórico das rotas da seda, continental e marítima, e reconhecida a sua importância na ligação do Oriente ao Ocidente, foram assim apontados os propósitos de intensificação da cooperação, com vista a “promover a prosperidade económica dos países envolvidos, reforçar os intercâmbios entre diferentes civilizações e fomentar o desenvolvimento pacífico do mundo”:“‘Uma Faixa e Uma Rota’ atravessa os continentes da Ásia, da Europa e de África, faz a ligação do círculo mais dinâmico da Ásia Oriental ao círculo mais desenvolvido da Europa e abrange vários países com enorme potencial para o desenvolvimento económico. A população destes espaços totaliza cerca de 4.4 mil milhões e reúne um volume económico de 21 mil milhões de dólares, o que faz representar, respectivamente, 63% e 29% do mundo inteiro.‘Uma Faixa’ liga principalmente a China, a Ásia Central, a Rússia e a Europa (o Mar Báltico) com o Golfo Pérsico e o Mar Mediterrâneo através da Ásia Central e do Oeste, bem como com o Sudeste e o Sul da Ásia e o Oceano Índico, enquanto ‘Uma Rota’ é projetada da costa chinesa à Europa através do Mar do Sul da China, do Oceano Índico e do Pacífico Sul, através do Mar do Sul da China. Sendo a continuação do espírito da Rota da Seda, ‘Uma Faixa e Uma Rota’ proporcionará ao mundo um caminho de cooperação de benefício mútuo na promoção do desenvolvimento comum, um caminho de paz e amizade na promoção de entendimento, confiança e intercâmbios. O Governo Chinês espera que, através desta iniciativa caracterizada pela confiança política mútua, integração económica e inclusão cultural, os países participantes possam realizar as cooperações pragmáticas em todas as áreas e construir uma comunidade de interesses, destino e responsabilidades compartilhadas. (…)É com muita satisfação que constatamos a grande atenção atribuída pela comunidade internacional. Mais de 60 países responderam de maneira positiva, sem falar das várias organizações internacionais importantes, tais como a Associação das Nações do Sudeste Asiático (ASEAN), a Associação da Ásia do Sul para a Cooperação Regional (SAARC), a Comissão Económica e Social para a Ásia e o Pacífico (CESAP), a Comunidade Económica Euroasiática (EurAsEC), entre outras, que demonstraram os seus apoios ou disponibilidade para promover a cooperação com a China. Com os esforços das partes, foi lançado em várias línguas a ‘Visão e Ações sobre a Construção Conjunta de Uma Faixa e Uma Rota’, um pacote de diretrizes sobre as futuras cooperações entre os países asiáticos e europeus neste quadro.A construção do Banco Asiático de Investimento em Infraestruturas (AIIB) deu
  • 088 089F A L A R D E N Ó S - X I I J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I Ipassos decisivos e o Fundo da Rota da Seda já entrou em funcionamento, oferecendo apoios financeiros fundamentais aos projetos de ‘Uma Faixa e Uma Rota’. Além disso, alguns projetos de construção de infraestruturas já estão em curso. ‘Uma Faixa e Uma Rota’ é, na sua natureza aberta e inclusiva, propícia para cooperações globais e não se limita à área da Rota da Seda antiga. Apelamos à participação de todos os países, organizações internacionais, empresas multinacionais, instituições financeiras e organizações não-governamentais, para que os nossos trabalhos beneficiem mais regiões. A União Europeia, por ser um parceiro estratégico importante da China, tem sido o maior parceiro comercial chinês nos últimos dez anos. Em 2014, o volume comercial entre as duas partes atingiu 615.1 mil milhões de dólares.”relações sino-europeiasSão deste modo caracterizadas as relações entre a China e a Europa:“As relações sino-europeias tornaram-se uma das mais importantes e dinâmicas relações bilaterais do mundo. Como sabemos, a União Europeia delineou a meta de construir uma zona de livre comércio euroasiática, altamente convergente com a iniciativa de ‘Uma Faixa e Uma Rota’. Portanto, temos muito prazer em observar o consenso entre as duas partes sobre a realização da iniciativa chinesa. Em Março de 2014, durante a visita do Presidente da República Popular da China, Xi Jinping, à Europa, as duas partes reconheceram o grande potencial da cooperação bilateral na área de transportes, e decidiram explorar conjuntamente a possibilidade de cooperação no quadro de ‘Uma Faixa e Uma Rota’. No último mês de Março, 18 países europeus, entre os quais o Reino Unido, a Alemanha, a França, a Itália e Portugal pediram a adesão à AIIB, revelando a aprovação europeia de ‘Uma Faixa e Uma Rota’, e a sua estratégia financeira. (...)O ano de 2015 marca o quadragésimo aniversário do estabelecimento das relações diplomáticas sino-europeias. Esperamos que as duas partes aproveitem as oportunidades e consigam ainda mais resultados positivos nas cooperações pragmáticas de ‘Uma Faixa e Uma Rota’, injetando continuamente o vigor na nossa parceria em aspetos de paz, crescimento, reforma e civilização. Um provérbio português diz ‘Duas cabeças pensam melhor do que uma.’ Na China, temos também um provérbio que diz ‘A chama ficará alta somente quando todos contribuem com a sua lenha.’ Ambos os países revelam a importância da cooperação. ‘Uma Faixa e Uma Rota’ não pode ser entendida como uma música a solo apresentada pela China, mas sim uma sinfonia que conta com a participação de todos os países. Esperamos fazer o bolo em conjunto com os outros e compartilhar o seu sabor delicioso.Portugal é um Estado-membro importante da União Europeia, e ao mesmo tempo um bom amigo e parceiro da China. Na história, Portugal tinha a tradição de navegação e os descobrimentos marítimos abriram o caminho marítimo ao Oriente, contribuindo assim para a conexão dos continentes e para a emergência da globalização. Realçamos que, neste período de tempo, Portugal sempre foi uma ponte importante dos intercâmbios comercial e cultural entre a China e a Europa, por introduzir os produtos chineses como o chá, a porcelana e a seda no continente europeu. Recentemente, Portugal aderiu oficialmente ao AIIB como membro fundador, revelando a sua confiança e apoio às cooperações sino-europeias e à construção de ‘Uma Faixa e Uma Rota’.
  • 090 091F A L A R D E N Ó S - X I I J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I IAcaba de sair do prelo mais um volume (o 11.º) da colecção “Suma Oriental”, do Instituto Internacional de Macau (IIM), que reúne trabalhos de investigação sobre temática oriental, especialmente no que tem a ver com Macau, as relações históricas entre a China e Portugal e a presença lusa no Extremo Oriente. Tese de mestrado em Estudos Orientais apresentada na Universidade Católica Portuguesa, foi por recomendação do Prof. Jorge Santos Alves, seu orientador, que o IIM incluiu este importante estudo intitulado Mao, China e los “Otros”, de Beatriz Hernandez, no seu plano de edições para 2014/2015.significado e relevânciaNo prefácio, aquele prestigiado académico, autor de vasta bibliografia sobre Macau e sobre os portugueses no Oriente, e colaborador do IIM há muitos anos, explica a oportunidade e o interesse desta obra:“Tenho a felicidade de acompanhar de muito perto o percurso académico de Beatriz Hernández, de ler os seus trabalhos e, agora, de prefaciar este livro. Um livro no qual se cruzam, de forma subtil e desafiante, os Estudos Asiáticos (e especialmente chineses) com a História, as Relações Internacionais e os Estudos de Cultura, neste caso mais apontados à Cultura Visual. Para o construir, Beatriz Hernández fez o levantamento e a leitura crítica da mais relevante e actualizada bibliografia produzida internacionalmente, sobre o tema e os problemas em estudo. Fê-lo através de uma procura activa do diálogo científico (através de várias viagens de trabalho pela Europa e pela China) com investigadores e coleccionadores de pósteres chineses de propaganda da época Mao. Foi isso que lhe permitiu recensear, ver pessoalmente e até resgatar Mao, a china e os “outros”“Não é todos os dias que temos a sorte de ler um livro assim.”Prof. Jorge Santos Alves, Dezembro de 2014Acreditamos que Portugal, posicionado no centro da rota marítima do Atlântico, poderá ter um papel imprescindível na realização de ‘Uma Faixa e Uma Rota na Europa’. É nossa esperança sincera que ‘Uma Faixa e Uma Rota’ seja construída conjuntamente por todos os países, incluindo Portugal, no sentido de beneficiar os seus povos na partilha dos frutos do desenvolvimento, contribuindo ainda mais para o progresso da civilização humana.” Será bom que em Portugal se entenda a dimensão deste desafio e que, em Macau, o Governo se prepare também para um envolvimento positivo e útil neste imenso programa de cooperação onde a RAEM pode ter um lugar relevante. 1 de Junho de 2015.
  • 092 093F A L A R D E N Ó S - X I I J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I Iobjectos visuais (pósteres de propaganda) que levou para o campo documental deste seu trabalho. Estes objectos visuais são em si mesmos fascinantes, mas não são apenas uma selecção de belos objectos visuais. Neste livro, eles foram postos a falar sobre o conjunto de imagens que projectam dos ocidentais (europeus e norte-americanos). Imagens que Beatriz Hernández desdobrou em sete frames, com inteligência, originalidade e enquadramento contextual; um muito bom enquadramento no panorama histórico, político-cultural e social da China durante a época de Mao Zedong.Mas Beatriz Hernández fez mais: convidou-nos a acompanhar a sua leitura dos objectos visuais (os pósteres de propaganda) na sua oficina multidisciplinar, coisa rara entre os cientistas sociais, abriu a porta ao leitor para a China durante o governo de Mao Zedong e para os seus jogos de relações internacionais com países amigos e inimigos. Jogos cheios de contradições, de avanços e de recuos conjunturais. Jogos que revelam, como bem mostra Beatriz Hernández, que uma vez mais, como tantas outras vezes (porventura sempre), os governantes chineses, de todas as dinastias, se interessam primordialmente pelo que pensam e como pensam os chineses sobre o seu país, a sua sociedade e o exercício do poder e do governo. Só depois, por vezes muito depois, se interessam pelo relacionamento da China com outros países e outros povos. Sejam eles da Ásia, África, Europa ou dos Estados Unidos.Beatriz Hernández compreende, através do seu conhecimento entusiasta, mas lúcido e informado, acerca da China e dos chineses, esta realidade. Como transparece neste livro, que já era um livro, mesmo quando ainda era uma tese de mestrado em Estudos Orientais pela Universidade Católica Portuguesa, em 2011.O caminho seguido por Beatriz Hernández, como investigadora e professora, mas também como pessoa, prenunciam que este livro é apenas o primeiro de outros. Inteligente, muito e bem pensado, bem escrito, bem documentado, este livro faz avançar o conhecimento sobre a China e os chineses e tem lugar marcado no quadro bibliográfico sobre a China contemporânea.”Jorge Santos Alves conclui, com evidente satisfação, que “não é todos os dias que temos a sorte de ler um livro assim.”estrutura e conteúdoO livro contém uma longa introdução em que a autora faz o enquadramento histórico da temática por ela escolhida e esclarece o significado visual e o simbolismo político dos cartazes de propaganda maoísta, produzidos segundo a dialéctica revolucionária marxista desenvolvida após o estabelecimento da República Popular da China, em Outubro de 1949. Especial atenção é dada à década da “revolução cultural”, sendo referidos também os seus reflexos em Macau, nos acontecimentos de Dezembro de 1966 que ficaram conhecidos como “1-2-3”.No que respeita à representação pictórica do Ocidente e do homem ocidental, são identificados os ensaios e teses conhecidos, bem como os abundantes sítios e blogues, sendo igualmente citado o “Aomen Jilue Jiaozhu” (Monografia de Macau), que Luís Gonzaga Gomes em boa hora traduziu.
  • 094 095F A L A R D E N Ó S - X I I J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I ISeguem-se dois distintos capítulos, intitulados “Marco Geoestratégico” e “Marco Documental”. O primeiro caracteriza a concepção maoísta do mundo e o discurso nacionalista na época de Mao, propagando um sentimento de humilhação e de sede de vingança. O segundo analisa a iconografia maoísta, o material gráfico e as técnicas utilizadas, sendo feita igualmente uma apreciação das formas de representação visual do “outro”, dos ocidentais, com enfoque nos gestos e características físicas, vestuário e cenários, sem olvidar o carácter “heróico” da luta contra o imperialismo, a dicotomia amigo-inimigo, os “monstros” e os “demónios”, a mulher como participante e os mitos do passado, em conformidade com a teoria maoísta das “contradições”.Nas conclusões, Beatriz Hernández, partindo dos esforços de “democratização da cultura” e de adopção do “realismo socialista”, com vista a proteger a continuidade dos ideais da luta de classes e manter uma sensação permanente de “urgência revolucionária”, atravessa as diversas etapas da construção da sociedade socialista na China, visíveis na evolução dos cartazes de propaganda, cujos arquétipos artísticos também evoluíam, embora se mantivesse, nas imagens, um acirrado ódio ao imperialismo e ao inimigo norte-americano até à surpreendente fase de abertura a amistosas relações. Interessante também é a narrativa visual das relações com a União Soviética.A produção de cartazes de propaganda foi perdendo relevância no final da década de 1970, com a morte de Mao, a clarificação da nova liderança política e a emergência da economia de mercado, que estimulou um notável desenvolvimento e uma viragem no país. Os cartazes passaram a ser, então, objecto da atenção de colecionadores e de investigadores académicos. O teatro da vida, orquestrado segundo os ditames de Mao e do seu Politburo, duma sociedade fechada no seu ardor revolucionário, com suas fábulas irreais estampadas naqueles imensos instrumentos de propaganda, tinham chegado ao fim! Foi um tempo que marcou indelevelmente duas gerações, dentro e fora da China, com as consequências que são sobejamente conhecidas. Uma extensa bibliografia e cerca de uma centena de ilustrações completam a obra, que foi lançada no passado dia 4 de Junho na Universidade Católica Portuguesa, em Lisboa. Realmente, “não é todos os dias que temos a sorte de ler um livro assim”.8 de Junho de 2015
  • 096 097F A L A R D E N Ó S - X I I J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I Idia 20 de Novembro de 2013, três mil espectadores encheram o novo auditório em Hengqin para assistirem ao primeiro festival internacional de circo da China, com a participação de 60 animais e 120 artistas de 18 países.No local existe o maior aquário do mundo, que faz parte do Reino Oceânico, que abriu oficialmente ao público a 4 de Abril de 2014, depois de mais de dois meses de testes e uma abertura experimental a 18 de Janeiro. Desenhado pela empresa PGAV Destinations, este Reino pretende imitar a cidade de Orlando, no Estado da Florida, Estados Unidos. O projecto inclui um hotel com 1888 quartos, o maior da China com temática aquática. A empresa designa-o como ‘o maior hotel ambiental da China’, em que os quartos, restaurantes e lojas estão rodeados por água. A Chimelong afirma que o Reino, que cobre uma área de 132 hectares, é o maior parque temático marinho do mundo. O Reino Oceânico contém sete áreas temáticas, com cada uma a representar um aspecto particular dos oceanos. Uma é a ‘Rua Principal dos Oceanos’, com comércio e uma cobertura com efeitos digitais procurando representar os oceanos. A ‘Gruta dos Golfinhos’ faz justiça ao nome, uma vez que tem um aquário com golfinhos e um anfiteatro para espectáculos com os animais. O ‘Amazonas Fantástico’ inclui um aquário de água doce e um percurso sobranceiro a uma floresta tropical. O ‘Aquário de Tubarões Baleias’ é o maior do mundo, nele existindo além dos animais que lhe deram o nome, raias, corais e polvos. Existe ainda a ‘Odisseia do Mar Profundo’, um percurso submarino que conduz ao aquário.um grande complexo temático ao pé de nós, em Hengqin“Este é mais um dos muitos empreendimentos arrojados no Delta do Rio das Pérolas, área que é, provavelmente, a de maior desenvolvimento em todo o mundo.” Na ilha de Hengqin, município de Zhuhai, mesmo ao lado de Macau, foi construído um enorme complexo recreativo, com parque temático e um hotel com 1888 quartos (como se sabe, o número 8 é, para os chineses, número de sorte, significando prosperidade), dispondo de variados restaurantes e instalações desportivas e de lazer. Visitei-o recentemente, durante uma reunião ali realizada com personalidades ligadas à promoção e ao desenvolvimento turístico, no âmbito da PATA – Pacific Asia Travel Association, a que estou ligado desde 1976 e de que sou director vitalício, e pude testemunhar o impressionante movimento de visitantes que não só enchem todos os espaços daquele complexo denominado “Reino Oceânico”, como também as áreas públicas da unidade hoteleira adjacente. Novos hotéis e mais atracções deverão ser acrescentados às estruturas já edificadas.o reino oceânicoO estudo intitulado “Zhuhai – A cidade-jardim do Delta do Rio das Pérolas” (MacauLink, 2014), publicado com o apoio da Fundação Macau e a colaboração do Instituto Internacional de Macau, descreve assim esta nova atracção turística:“Hengqin é o local da China com o maior projecto turístico – o Reino Oceânico, que representa um investimento de 20 mil milhões de yuans do Chimelong Group, uma empresa privada com sede em Cantão. O projecto cobre uma área de 132 hectares, tendo o primeiro parque temático sido aberto ao público a 28 de Janeiro de 2014, dia em que recebeu a visita de 28 mil pessoas.O complexo inclui uma cidade circense, uma das mais modernas do mundo. No
  • 098 099F A L A R D E N Ó S - X I I J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I IHá também o ‘Mundo da Água’, que inclui uma zona com raias e a ‘Zona das Ondas’, uma piscina com pequenos peixes e outras criaturas marinhas. O ‘Monte Morsa’ contém morsas, leões-marinhos e um anfiteatro para espectáculos com estes últimos animais.”um imenso aquárioSe tudo surpreende neste complexo, até pela dimensão e diversidade, ainda mais surpreendente é o aquário, que é o maior do mundo:“O aquário contém uma grande colecção de baleias, tubarões e peixes raros, tendo cinco recordes mundiais – o maior aquário com 48,75 milhões de litros de água, a maior piscina com uma capacidade de 22,7 milhões de litros, a maior placa em acrílico, com 39,6 metros por 8,3 metros, as maiores janelas de aquários com a mesma dimensão das placas em acrílico e a maior cúpula de observação com um diâmetro de 12 metros.Contém um conjunto de baleias, tubarões e animais raramente vistos, se alguma vez, em cativeiro na China. Com esta compra, os proprietários do Reino Oceânico pretendem proporcionar aos visitantes a possibilidade de ver de perto os animais, bem como uma melhor compreensão do seu habitat. A ideia subjacente à construção do Reino Oceânico é a de atrair 20 milhões de visitantes por ano e ultrapassar o parque que a Walt Disney Co. está a construir num terreno com 390 hectares no bairro Pudong de Xangai, num investimento total de 29 mil milhões de yuans. Este parque da Disney tem abertura prevista para Dezembro de 2015. Este é o mais ambicioso projecto turístico alguma vez desenvolvido por uma empresa chinesa. À semelhança da Disney em Xangai, pretende atrair milhões de visitantes não apenas da China mas também da Coreia do Sul, Japão, Índia, outros países asiáticos e países mesmo mais longínquos. Será algo inédito na Ásia – dez parques temáticos, 12 hotéis de luxo temáticos, 3 campos de golfe com 18 buracos, duas marinas, um centro de ciência, centros comerciais e um centro internacional de convenções. ‘O Reino Oceânico pretende servir não apenas de entretenimento e de aventura mas também de fonte de conhecimentos dos animais. Os ambientes temáticos construídos com recurso a altas tecnologias pretendem ajudar a reduzir o fosso existente entre os humanos e os seus vizinhos marinhos, proporcionando um conhecimento mais profundo dessas criaturas e pretendendo ser um apelo para que mais esforços de conservação tanto dos animais como dos seus habitats sejam desenvolvidos’, pode ler-se num comunicado da PGAV Destinations, a empresa com sede em St Louis, Missouri, que concebeu e desenvolveu o projecto.O plano inclui a ‘Grande Roda’ mais alta do mundo, com 120 metros, um percurso dentro de água concebido pela empresa alemã MACK e um outro percurso através de uma floresta tropical. Diversos anfiteatros proporcionarão espectáculos com baleias, golfinhos, leões-marinhos e morsas. Haverá ainda um teleférico que dará a volta completa ao recinto.”A escolha da ilha de Hengqin para a instalação deste ambicioso projecto turístico teve em conta a decisão do Conselho de Estado da R.P.C. de atribuir a esta ilha o estatuto de “bairro económico especial”, sendo o terceiro da China, depois de Pudong, em Xangai, e de Binhai, em Tianjin. Com mais de cem quilómetros quadrados (três vezes
  • 100 101 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I F A L A R D E N Ó S - X I Imais do que a área total de Macau), os seus espaços obedecem a um rigoroso plano de desenvolvimento, que inclui habitação, escritórios, comércio, serviços médicos, centros de estudos e de investigação, centros culturais e de indústrias criativas e áreas de lazer. O novo campus da Universidade de Macau também já está em funcionamento na ilha de Hengqin, sendo a ligação a Macau feita através de um túnel rodoviário. Aquele plano, cuja execução avança celeremente, visa criar condições de complementaridade para Macau, que se debate, permanentemente, com a falta de terrenos para viabilizar o seu próprio crescimento.15 de Junho de 2015Uma parceria útil e eficaz estabelecida em 2005, envolvendo o Centro Nacional de Cultura (de Portugal), a Fundação Jorge Álvares e o Instituto Internacional de Macau, possibilitou a realização de três encontros de poetas chineses e lusófonos, os dois primeiros em Macau, em 2006 e 2013, e o terceiro em Lisboa, de 1 a 4 do corrente mês de Junho.Coordenaram o Encontro os poetas Yao Feng (Yao Jingming) e Fernando Pinto do Amaral, ambos professores universitários, respectivamente em Macau e em Lisboa, os quais também se responsabilizaram pela constituição das respectivas delegações. Elas incluíram, do lado lusófono, Fernando Echevarria, Nuno Júdice, Inês Fonseca Santos, Filipa Leal, Ana Paula Tavares (Angola), Olinda Beja (S. Tomé e Príncipe) e José Luís Tavares (Cabo Verde) e, do lado chinês, Yan Li, Wang Jiaxin, Lam Kong-chuen, Huang Lihai, Lin Jiangquan, Ling Gu e Un Sio San, sendo este último natural de Macau.sessões de trabalhoAs sessões de trabalho tiveram lugar no Centro Nacional de Cultura, onde foi também inaugurada uma exposição de desenhos do arquitecto e poeta Lam Kong-chuen, intitulada “Paraquedista do Sonho – Arquitectura e Poesia”. Na sessão de abertura, além dois dois coordenadores, usaram da palavra os presidentes das três entidades organizadoras, Guilherme d’Oliveira Martins, Carlos Melancia e Jorge Rangel, que salientaram a importância e o significado deste evento cultural e reafirmaram os propósitos de manutenção desta colaboração com vista à realização Poetas chineses e lusófonos encontraram-se em lisboa“De cada encontro resultou um livro bilingue com poemas dos intervenientes. ‘Poetas e Poemas’, ‘Navegar e cantar’ e ‘Quando os jacarandás florescem connosco’ foram os títulos escolhidos.”
  • 102 103 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I F A L A R D E N Ó S - X I Ido próximo Encontro, daqui a dois anos, possivelmente em Cantão ou em Xangai. Também foi sugerido o Porto como cidade anfitriã. Os temas das sessões de trabalho foram “Um Oriente a Oriente do Oriente (Álvaro de Campos) / Visões simétricas do Oriente e do Ocidente”, “Para que servem os poetas no mundo contemporâneo”, e “Poesia – um valor de sempre!”, esta última levada a efeito na Universidade de Évora, onde os poetas se encontraram com professores e estudantes. Também foi feita, no último dia do Encontro, uma visita ao Palácio Nacional de Mafra, incluindo a sua monumental biblioteca, a que se seguiu um passeio por Sintra, Cabo da Roca e Cascais, com paragem na Casa das Histórias.O encerramento decorreu em Alcainça, em instalações da Fundação Jorge Álvares, com um convívio entre os participantes e um balanço final feito pelos presidentes dos três organismos promotores e pelos coordenadores do Encontro, unanimemente reconhecendo o sucesso destas significativas jornadas culturais que merecem ter continuidade.outras iniciativasAproveitando a presença dos poetas chineses em Lisboa, o Instituto Confúcio da Universidade de Lisboa e o Camões – Instituto da Cooperação e da Língua quiseram organizar sessões complementares, com a participação de professores, estudantes, escritores e investigadores. Muito bonita foi a conversa dos poetas no Instituto Confúcio, onde, além de um belo momento musical protagonizado por jovens de Almada, também se fez a evocação de alguns poetas ligados a Macau, como Camilo Pessanha, António Manuel Couto Viana, José Valle de Figueiredo, Alberto Estima de Oliveira e Jorge Arrimar, tendo sido declamados vários dos seus poemas. Jorge Arrimar, que esteve presente, pôde ouvir ali o seu conhecido poema “Saudade”, publicado em 1992 e já traduzido em chinês e inglês, respectivamente por Yao Feng e Frederick G. Williams.Um jantar no famoso restaurante Mandarim, do Casino do Estoril, gentilmente oferecido pela Sociedade Estoril Sol, marcou o fim do Encontro, cuja realização contou com apoios significativos do Instituto Cultural e da Fundação Macau, que patrocinou a deslocação dos poetas chineses a Lisboa. Nesse jantar, Guilherme Valente, em nome da Fundação Jorge Álvares, saudou os poetas e convidados, e Maria José Maya, presidente da associação 8 Séculos de Língua Portuguesa, leu poemas de Fernando Pessoa. dois poemasDa selecta distribuída na sessão de abertura do Encontro, intitulada “Quando os jacarandás florescem connosco”, contendo dois poemas de cada participante, escolhemos, para ilustrar este breve relato, um de Yao Feng e outro de Fernando Pinto do Amaral:
  • 104 105 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I F A L A R D E N Ó S - X I IPeixe SalgadoComo é que um peixe salgado retornaria à vida?Em busca daquela agulha de pratapercorreu todo o mar, prometeu amor,que só findaria, no caso de as montanhas despencaremou de o mar secar,e para ver o horizonte, saltou da água.Agora, pendurado sob o sol,deixa que a brisa o absorva até à última gota de mar.E o sal que o destino lhe impõesalga o tempo para além do mar.Não conseguiu no entanto fechar os olhosmesmo depois da morte.Vendo que a chuva cai do telhadopara os rios, o peixe sonha o seu regresso ao mar.(Yao Feng)GalvaniCada dia repetes a experiêncianesse laboratório Poderiasafirmar “Já não sofro” e como sabestalvez fosse verdademas basta uma palavra uma descargaeléctrica uma luzpara veres como logo se contrainum acto reflexoesse músculo sem vida isso que um diafoi o teu coração(Fernando Pinto do Amaral)As relações da China com o mundo lusófono também se reforçam pela via cultural. E a poesia é certamente uma área sólida e duradoura para que essas relações ganhem outro significado e profundidade. 29 de Junho de 2015
  • 106 107 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I F A L A R D E N Ó S - X I ITurismo de Macau, tendo as sessões de Toronto e S. Francisco contado com palestras do realizador macaense Sérgio Perez e do Prof. Ming K. Chan, da Universidade de Stanford. o conteúdo da exposiçãoA nota de apresentação da exposição, que integra um vistoso folheto informativo, explica o seu conteúdo e os seus propósitos. Eis uma síntese desse texto:A Região Administrativa Especial de Macau foi estabelecida em Dezembro de 1999, após uma presença portuguesa de mais de quatro séculos. Concluída a transição de forma estável e digna, a RAEM conheceu um período de notável crescimento, alcançando o território o 4.º lugar no mundo no que respeita ao rendimento per capita. Ao mesmo tempo que a economia cresceu, a população passou de 434 mil habitantes em 1999, para 614 mil em 2014, e a área total aumentou para 30 quilómetros quadrados no final de 2013, sendo Macau o território com a maior densidade populacional do mundo, com mais de 20 mil pessoas por quilómetro quadrado.A RAEM é um grande pólo de atracção turística, com cerca de 30 milhões de visitantes por ano, 20 milhões dos quais da China continental. As receitas dos 35 casinos que ali operam atingiram 44 mil milhões de dólares (sete vezes mais do que Las Vegas). Com uma taxa de desemprego que é das mais baixas do mundo (1,7%), os salários subiram significativamente nos últimos 15 anos, mas a especulação imobiliária fez disparar os preços e aumentou exageradamente as rendas, trazendo novos problemas e desafios. Macau – uma História de sucesso:exposição simultânea em três cidades “Esta cidade multicultural deve ser vista em todos os seus aspectos para se entender como, em 15 anos, pôde sofrer uma transformação tão profunda sem, no entanto, perder as suas raízes.”Da nota de apresentação da exposiçãoQuase em simultâneo, a exposição fotográfica “Macau – Uma História de Sucesso”, organizada pelo Instituto Internacional de Macau (IIM) para comemorar o 15.º aniversário da RAEM, foi inaugurada, nos últimos dias de Junho, em Lisboa, Toronto e S. Francisco, com muito boa participação e reacções positivas do público, tendo em conta a alta qualidade das 50 fotografias selecionadas. Elas mostram aspectos variados de Macau, do património ao desenvolvimento físico, das gentes às manifestações culturais, da economia à educação. Foi, ao mesmo tempo, lançado o livro “Macau – Festas e Festividades” (IIM, Maio de 2015), coordenado por Gonçalo César de Sá, o qual constitui um guião, profusamente ilustrado, das múltiplas festas e festividades integradas no calendário cultural anual da RAEM. lisboa, Toronto e s. FranciscoA entidade que acolheu a exposição em Lisboa foi o Centro Científico e Cultural de Macau, instituto público do Estado Português inaugurado quase no fim do período de transição, em 1999. Em Toronto e em S. Francisco, os locais escolhidos foram o Centro Comunitário de Angus Glen, de Markham, com a activa intervenção do Club Amigu di Macau, e o Centro Cultural de Macau (Macau Cultural Center), que é a sede recreativa e social de associações macaenses da Califórnia, como a União Macaense Americana, o Club Lusitano e a Casa de Macau (USA).Nas sessões de abertura, sempre com os auditórios lotados, foram projectados dois novos DVD de Macau, de Sérgio Perez e de Sylvie e James Jacinto, que mereceram prolongados aplausos. Em Lisboa foi também apresentado um DVD dos Serviços de
  • 108 109 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I F A L A R D E N Ó S - X I IO fim do monopólio da exploração dos jogos de fortuna ou azar, principal receita de Macau, atraiu novas e muito dinâmicas operadoras e com elas mais hotéis e outras estruturas turísticas. Em 2006, a UNESCO classificou como património mundial o centro histórico da cidade, produto único de um prolongado e fecundo intercâmbio cultural. Estes dois factos contribuíram decisivamente para uma nova imagem de Macau e para o seu renovado desenvolvimento. O visual da cidade foi transformado, mas a matriz de influência portuguesa foi preservada. Local privilegiado de coexistência de culturas, Macau é também palco de muitas festividades e de grandes eventos que preenchem o calendário anual de acontecimentos que atraem forasteiros e projectam a cidade no exterior. A decisão do governo chinês de conceder a Macau o estatuto de plataforma de ligação entre a China e os países de língua portuguesa deu ao território uma nova dimensão a nível internacional, ao mesmo tempo que se fez uma aposta firme no desenvolvimento do ensino superior e das artes e indústrias criativas.É esta história de sucesso que se pretende divulgar através das 50 fotografias que integram a exposição. Almoço de convívio em MafraTambém para comemorar o 15.º aniversário da transição de Macau, a Fundação Jorge Álvares, à semelhança do que havia feito por ocasião do 10.º aniversário, organizou um almoço de convívio em Mafra, na Escola das Armas (antiga Escola Prática de Infantaria), que reuniu cerca de 1.200 pessoas, que nasceram, trabalharam ou ficaram, de algum modo, ligadas a Macau, entre as quais centenas de quadros que aqui estiveram ao serviço da Administração Portuguesa. Também marcaram presença os antigos Governadores José Eduardo Garcia Leandro, Carlos Montez Melancia e Vasco Rocha Vieira.O ponto de encontro foi a esplanada da alameda adjacente ao antigo convento, onde foram servidos aperitivos, seguindo-se o almoço em instalações daquela escola militar por onde passaram milhares de jovens oficiais milicianos que estiveram na guerra do Ultramar. Ao longo do velho Refeitório dos Frades, da Sala de Profundis e da Sala das Bicas foram colocadas as mesas com um abundante e bem servido bufete, podendo os participantes circular livremente pelos amplos salões, claustros e impressionantemente longos corredores, abraçando amigos e conhecidos e recordando a terra que em todos deixou profundas saudades. O que mais agradou neste encontro foi precisamente a sua informalidade (nem sequer houve discursos), além da oportunidade que a todos foi em boa hora oferecida para um memorável convívio.Imediatamente antes do almoço, actuou o Coro Jasmim de Portugal, fundado em 2009 e constituído por alunos de nacionalidade não chinesa que frequentaram o curso de Mandarim lecionado na Delegação Económica e Comercial de Macau (antiga Missão de Macau) em Lisboa. O seu variado repertório inclui canções portuguesas e chinesas, com ou sem acompanhamento instrumental. O director artístico, também ele aluno do curso de Chinês, é Carlos Santos Silva, compositor, organista e maestro há mais de
  • 110 111 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I F A L A R D E N Ó S - X I I30 anos. Especialmente aplaudida foi a interpretação da conhecida canção macaense “Macau, terra minha”, de Rigoberto do Rosário, que a ninguém deixa indiferente.***Assim se comemorou o 15.º aniversário da transição e do estabelecimento da RAEM, em Lisboa, Toronto e S. Francisco. A exposição do IIM, que é patrocinada pela Fundação Macau, continuará até ao fim do ano a levar o nome de Macau a cidades de várias partes do mundo, prevendo-se que a sua itinerância possa estender-se ao longo de todo o próximo ano, para corresponder às solicitações já feitas por diversas instituições académicas, culturais e recreativas. 6 de Julho de 2015De 5 de Maio (Dia da Língua Portuguesa na CPLP) de 2014 a 4 de Julho de 2015, decorreram as comemorações dos 8 séculos da língua portuguesa, com múltiplas iniciativas de natureza cultural promovidas por entidades públicas e da sociedade civil, com destaque para a 8 Séculos de Língua Portuguesa – Associação. Um grande concerto no Centro Cultural de Belém (CCB), em Lisboa, protagonizado por Ana Laíns e artistas convidados de todos os países de língua portuguesa, entre músicos, poetas, actores e declamadores, marcou solenemente o encerramento dessas comemorações na noite de 4 de Julho. significado e propósitosSão de Maria José Maya, presidente da 8 Séculos de Língua Portuguesa – Associação estas notas que explicam o significado e os propósitos das comemorações em boa hora levadas a efeito:“As Comemorações dos 8 Séculos de Língua Portuguesa, promovidas pela 8 Séculos de Língua Portuguesa – Associação, tiveram início a 5 de maio de 2014, com o lançamento simbólico, na sede da CPLP, da emissão filatélica ‘8 Séculos de Língua Portuguesa’, pelos CTT – Correios de Portugal e chancelada pela AICEP – Associação Internacional de Comunicações de Expressão Portuguesa. Também, no mesmo dia, este selo foi emitido no Brasil e em Cabo-Verde, bem como na Galiza. Estas Comemorações tiveram como referência o Testamento de D. Afonso II, datado de 27 de junho de 1214, que avulta entre o conjunto de primeiros documentos escritos em língua portuguesa.Balanço positivo das comemorações dos 8 séculos da língua portuguesa“... também a Academia Cabo-Verdiana de Letras, a AEGUI – Associação de Escritores Guineenses, bem como o IIM – Instituto Internacional de Macau e a Academia Galega da Língua Portuguesa dinamizaram as comemorações nos seus países e regiões.” Maria José Maya, presidente da 8 Séculos de Língua Portuguesa – Associação
  • 112 113 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I F A L A R D E N Ó S - X I ICelebramos uma língua antiga, com muito mais de oitocentos anos, falada por mais de duzentos milhões de pessoas e que surge como a terceira língua europeia mais falada no mundo e a mais falada no hemisfério sul. Assinalamos os oito séculos dos seus documentos escritos mais antigos, como pretexto para promover estas Comemorações, realçando o valor de um património comum e imaterial – a língua oficial de nove países, Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Guiné-Equatorial, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe, Timor-Leste e da Região Administrativa Especial de Macau.As Comemorações desenrolaram-se em rede, em parceria e nas mais diversas geografias onde se fala português, num convite aberto a todos os cidadãos. Assim, para além do CNC – Centro Nacional de Cultura ser parceiro organizador das Comemorações, também a Academia Cabo-Verdiana de Letras, a AEGUI – Associação de Escritores Guineenses, bem como o IIM – Instituto Internacional de Macau e a Academia Galega da Língua Portuguesa dinamizaram as comemorações nos seus países e regiões.Sendo uma iniciativa da sociedade civil, as Comemorações dos 8 Séculos de Língua Portuguesa mereceram, em Portugal, o Alto Patrocínio do Presidente da República, o reconhecimento de interesse cultural do Secretário de Estado da Cultura, o apoio do Camões – Instituto da Cooperação e da Língua, do Ministério da Educação e Ciência e de muitas outras instituições prestigiadas, entre as quais, a INCM – Imprensa Nacional – Casa da Moeda, a Fundação Oriente, a Fundação Portugal-África, a UCCLA – União de Cidades Capitais da Língua Portuguesa e inúmeras Câmaras Municipais, Embaixadas de Países de Língua Portuguesa em Lisboa, no Brasil, da Universidade da Amazônia e da Universidade da Bahia, entre outras instituições noutros países, que muito prestigiaram estas Comemorações. (…) Celebrar 8 séculos de escrita em Língua Portuguesa é celebrar a diversidade nesta imensa língua de afetos! É celebrar a condição de uma comunidade vasta e rica que tem em comum este bem maior – a Língua Portuguesa!”em MacauCom o apoio do IIM, Maria José Maya também se deslocou a Macau, na primeira semana de Abril, no âmbito daquelas comemorações, tendo proferido duas conferências, uma no auditório do Consulado-Geral de Portugal, em sessão presidida pelo Cônsul-Geral Vítor Sereno, e a outra na Escola Portuguesa de Macau, complementada com declamação de poemas por alunos da escola. Também foram organizados encontros com professores, estudantes e responsáveis de instituições de ensino superior, como o Instituto Politécnico de Macau e a Universidade de S. José, além de entrevistas a órgãos de comunicação social locais.Como membro do Observatório da Língua Portuguesa e observador consultivo da CPLP, integrando a sua Comissão Temática da Língua Portuguesa, o IIM quis dar a estas actividades toda a colaboração ao seu alcance. Maria José Maya considerou muito positiva e útil esta visita a Macau e enalteceu o envolvimento do IIM.concerto de encerramentoCom o grande auditório do CCB lotado, Ana Laíns, como directora artística do concerto e embaixadora dessas comemorações, “viajou” pelo mundo lusófono, “ao
  • 114 115 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I F A L A R D E N Ó S - X I Iritmo do coração, em língua portuguesa, pelas suas histórias, identidades, poesia e música, através do Fado, Cante Alentejano, Morna, Samba, Semba, Marrabenta… sonoridades que espelham a alma de cada um dos países envolvidos, unidos com o intuito basilar de celebrar esta língua de afetos e maresia, que, glosando Pessoa, é ‘o som presente d’esse mar futuro’.”Os convidados em palco, nomes emblemáticos da cultura dos respectivos países, foram muito ovacionados pelo público: Aline Frazão (Angola), Ivan Lins, Luiz Avellar e Valéria Carvalho (Brasil), Celina Pereira (Cabo Verde), Karyna Gomes (Guiné-Bissau), Elsa de Noronha (Moçambique), Paulo de Carvalho, Joaquim de Almeida e os grupos Adufeiras da Idanha e A Moda Mãe (Portugal), Marta Dias e Olinda Beja (São Tomé e Príncipe) e Júlio Soares (Timor-Leste). Marcou presença, com muita dignidade e em nome de Macau, o poeta Jorge Arrimar, que, de forma muito expressiva, partilhou com a assistência um dos seus poemas orientais, primorosamente declamado por ele próprio.A direcção musical foi de Paulo Loureiro, que também integrou o conjunto, com ele próprio ao piano, Rolando Semedo (baixo), João Coelho (bateria e percussão), Iuri Oliveira (percussão), Miguel Veras (guitarra), Hugo Edgar Silva (guitarra portuguesa) e Carlos Lopes (acordeão), contribuindo para abrilhantar uma noite verdadeiramente memorável.Parabéns Maria José Maya, Ana Laíns e quantos contribuíram para o sucesso das comemorações.13 de Julho de 2015O livro “Macau – Festas e Festividades” (IIM, Maio de 2015), produzido pela MacauLink, foi lançado, simultaneamente, em Lisboa, Toronto e S. Francisco, nos últimos dias do mês de Junho, quando se procedeu à inauguração da exposição “Macau – Uma História de Sucesso”, organizada pelo Instituto Internacional de Macau.As principais celebrações de Macau estão identificadas neste livro, em toda a sua diversidade, cor e exotismo. Incluem-se tanto as festividades tradicionais chinesas como as que chegaram à cidade com a Igreja Católica e as que foram trazidas por gentes de muitas outras origens. Também ali estão os grandes acontecimentos internacionais e actividades diversas, de maior dimensão, que passaram a fazer parte do calendário anual de Macau.As imagens que foram seleccionadas para o livro serão posteriormente utilizadas numa mostra fotográfica que irá substituir uma outra, intitulada “Macau é um espectáculo – As artes nas ruas de Macau”, a qual tem estado patente, com enorme sucesso, em dezenas de cidades de Portugal e do Brasil, ao longo de cinco anos.Sob a coordenação de Gonçalo César de Sá, coadjuvado por Fernando Correia e Louise do Rosário, esta edição, que foi patrocinada pela Fundação Macau, recebeu contributos fotográficos de Alan Salas, António Sanmarful, Cheong Kam Ka, Leong Ka Tai, Leonor Rosário, Manuel Cardoso, Mércia Gonçalves, Agência de Notícias MacauLink, Centro da Ciência de Macau e Agência de Notícias Xinhua. O texto é de Maria João Janeiro. Estão apresentadas no livro as seguintes festividades:Festas e festividades de Macau“Macau continua a ser um local privilegiado de coexistência de diferentes culturas e a vida das comunidades aqui residentes é marcada, ao longo do ano, por dezenas de eventos e festividades…”Da nota introdutória ao livro
  • 116 117 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I F A L A R D E N Ó S - X I IJaneiro, Fevereiro e Março• O Ano Novo – Comemorado jubilosamente em todo o mundo e, naturalmente, também em Macau, com fogo de artifício, concertos e múltiplas festas de passagem do ano.• Festival Sinulog – A numerosa comunidade filipina não falta a esta festa antiga, anterior ao culto cristão mas por este assimilado e ao qual foi associado o Santo Niño de Cebu, cuja imagem terá sido para ali levada por Fernão de Magalhães. Ao som de tambores, dança-se o sinulog, que significa, em tagalog (filipino), o movimento das águas de um rio.• O Ano Novo Lunar – A festa por excelência do calendário chinês, sendo também a mais ruidosa e participada, envolvendo toda a população, assim como multidões de forasteiros. Lanternas coloridas, dísticos auspiciosos, danças do leão e do dragão, panchões, mercados de flores, gente janota, pivetes de culto, os bem recebidos “lai-si” e restaurantes e casinos lotados são as notas dominantes. • Kun Iam Tche Fu – No 26.º dia do primeiro mês lunar, a deusa da Misericórdia (Kun Iam) abre os seus cofres para que os devotos possam pedir-lhe empréstimos. Este evento, designado por Kun Iam Tche Fu, faz afluir aos templos dedicados a esta divindade, sobretudo ao Kun Iam Tong, muitos milhares de devotos, cujas dádivas incluem fruta e flores, e também pivetes e acessórios replicando dinheiro e lingotes de ouro ou de prata, para serem queimados como oferenda aos defuntos.• Festival de Tou Tei – É o espírito protector dos lugares, o deus da terra, divindade suprema na hierarquia dos deuses do lar, representado por um ancião de longas barbas brancas e ar benévolo. Os festejos, realizados no 2.º dia do 2.º mês lunar, incluem a dança do leão, rebentamento de panchões, a queima de pivetes e espectáculos de ópera chinesa. Vários templos de Macau estão consagrados a esta divindade.• Renascer da Natureza – Este evento, realizado no 19.º dia do primeiro mês lunar, assinala o fim do Inverno e o despertar da Primavera, sendo necessário afastar os maus espíritos, fazendo o “tá siu iân”, que consiste em bater, junto de altares de rua, com um sapato ou chinelo em figuras desenhadas em papel que representam os siu iân ou espíritos maus. AbrilAbril é um mês que compreende muitos festejos e relevantes celebrações:• Semana Santa – Importante ciclo de celebrações religiosas do mundo cristão, tem alto significado em Macau. Os momentos mais celebrados são a procissão do Senhor Bom Jesus dos Passos no primeiro Domingo de Quaresma, a missa da celebração da Paixão de Cristo, a procissão do Senhor Morto na Sexta-feira Santa e as festas religiosas e também vernáculas do Domingo de Páscoa, que se estendem a outros sectores da população.• Aniversário de Pak Tai – Segundo a tradição, Pak Tai, o soberano do Norte, foi um príncipe que alcançou a imortalidade, pela sua sabedoria e coragem. O seu
  • 118 119 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I F A L A R D E N Ó S - X I Ianiversário é comemorado no 3.º dia da 3.ª lua, com oferendas e espectáculos de ópera chinesa no largo fronteiro ao templo que lhe é dedicado na Taipa (Largo Camões).• A-Má, a deusa das gentes do mar – A-Má, deusa dos pescadores e de outros mareantes, é também conhecida por Tin Hau, a soberana do Céu. Segundo a lenda, que toda a população de Macau conhece, uma jovem salvou um barco de pesca durante uma forte tempestade, levando-o a bom porto. Já em terra, subiu ao topo de uma colina e desapareceu entre as nuvens. Os pescadores mandaram construir um templo em sua honra, o qual é um dos locais mais visitados por turistas e também de celebração religiosa. A festividade de A-Má é levada a efeito, sempre com ampla participação, no 23.º dia da 3.ª lua.• Thingyan, a Festa da Água – É a festa da comunidade birmanesa, a que também aderem os muitos tailandeses que residem em Macau e chineses. Comemora-se no último fim-de-semana de Abril. Thingyan significa passar de um ano para o outro com o espírito purificado pela água.• Cheng Ming – É a Festividade da Pura Claridade, assinalando o início do Verão. Celebra-se no 4.º dia da 3.ª lua e é o dia em que se recordam os mortos e se presta culto aos antepassados. Muitos milhares de pessoas enchem os cemitérios, com oferendas, como flores, presentes e comida. Estes presentes, que incluem sapatos, roupas, relógios, mobílias e carros, todos feitos de papel, são ali consumidos pelas chamas, pois é o fogo a via pela qual eles são enviados aos defuntos.Os próximos dois artigos darão continuidade a esta longa lista de festas e festividades de Macau. 20 de Julho de 2015
  • 120 121 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I F A L A R D E N Ó S - X I I• Dia de Buda – Esta festividade (Iok Fat Chit) tem lugar no 8.º dia do 4.º mês lunar, quando as imagens de Buda existentes em muitos templos de Macau são purificadas por monges, acompanhados por muitos crentes.• Procissão de Nossa Senhora de Fátima – É a maior procissão da Igreja Católica em Macau. A 13 de Maio, as congregações e escolas católicas mobilizam milhares de fiéis para esta muito bonita manifestação religiosa, seguindo a procissão da Igreja de S. Domingos até à Ermida da Penha. Católicos residentes em Hong Kong e em outros territórios e países deslocam-se propositadamente a Macau para nela tomarem parte.• Festival dos Barcos Dragão – Um dos festivais mais concorridos na China e em Macau, é organizado no 5.º dia do 5.º mês lunar. Disputam-se corridas entre grupos locais, havendo também competições internacionais. A festividade visa comemorar a morte do poeta Qu Yuan, também conselheiro da corte imperial, que se suicidou atirando-se ao rio Mi Luo, no ano de 278 a.C., angustiado com a corrupção e a intriga que reinavam na corte. Reza a tradição que os pescadores tentaram resgatar o seu corpo, agitando as águas com os remos e batendo tambores, para afugentarem os maus espíritos. • Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas (10 de Junho) – No conjunto de festejos, há uma cerimónia, singela e muito significativa, que se repete desde os anos 20, em que a comunidade portuguesa de Macau presta homenagem a Luís de Camões, no jardim que tem o seu nome. Estudantes e membros de organismos cívicos depositam flores junto do busto do Poeta. Associações de matriz portuguesa colaboram com o Consulado-Geral de Portugal na organização das actividades. uma cidade em festa“Estes acontecimentos contribuem para tornar Macau conhecido a nível mundial, fazendo com que milhares de pessoas se desloquem ao território a fim de neles participarem.”Da nota introdutória ao livro No âmbito da exposição comemorativa do 15.º aniversário da RAEM, organizada pelo Instituto Internacional de Macau (IIM), foi recentemente lançado o livro “Macau – Festas e Festividades” (IIM, Maio de 2015), em Lisboa, Toronto e S. Francisco. No artigo anterior, identificámos os principais festivais e celebrações levados a efeito de Janeiro a Abril. Prosseguimos agora com referências sucintas aos que têm lugar de Maio a Setembro de cada ano:Maio e Junho• Festival das Artes de Macau – Este muito apreciado festival compreende espectáculos de ópera chinesa, teatro macaense, concertos de música clássica e moderna e outras representações artísticas. É realizado em Maio, com um programa completo e variado.• Festividade do Dragão Embriagado (Tchoi Long) – Ocorre no 8.º dia do 4.º mês lunar. Diz a lenda que Buda terá travado uma luta de morte com um dragão, enquanto este se banhava num rio. A cabeça e a cauda do dragão seriam encontradas por um pescador embriagado. Nesta festividade, grupos de homens das lotas de pescado percorrem as ruas da cidade transportando apenas a cabeça e a cauda, em muito animadas danças em busca do corpo do dragão, e bebem vinho de arroz e cerveja até ficarem ébrios. • Tam Kung – É no 8.º dia do 4.º mês lunar que os habitantes da ilha de Coloane acolhem esta festa dedicada a Tam Kung, o deus menino protector das gentes ligadas à faina marítima. Cortejos, ópera chinesa em teatro improvisado de bambu e queimas de panchões e foguetes animam a vila de Coloane.
  • 122 123 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I F A L A R D E N Ó S - X I I• Festival da Flor de Lótus – Este festival realiza-se todos os anos no Verão, sendo escolhidos diversos locais, da cidade e das ilhas, para uma maior divulgação desta lindíssima flor, que a Lei Básica consagrou oficialmente como símbolo da RAEM. • Festa de Santo António – Tal como em Portugal, Santo António é muito venerado em Macau pela comunidade católica. No dia 13 de Junho, é organizada uma procissão que sai da Igreja de Santo António, depois de missas rezadas em português e chinês, até ao Jardim de Camões. Neste período de festas de santos populares, a comunidade macaense também celebra o dia de São João Baptista (24 de Junho), que foi o patrono da cidade no tempo da administração portuguesa. • Festa de Na Tcha – Nos dois templos dedicados ao deus menino Na Tcha, um dos quais mesmo ao lado das Ruínas de S. Paulo, festeja-se o seu aniversário no 18.º dia do 5.º mês lunar, com animadas procissões. Esta divindade protege as crianças dos espíritos malignos e de doenças. Julho, Agosto e setembro• Festa de São Roque – A procissão de São Roque é realizada no 2.º Domingo de Julho, no velho bairro de São Lázaro. São Roque é o protector dos leprosos e padroeiro dos inválidos e de profissões ligadas à medicina. • Grande Prémio Mundial de Vólei Feminino – Há duas décadas que o Fórum de Macau acolhe o Grande Prémio Mundial Feminino da Federação Internacional de Voleibol. É um evento desportivo de alta competição e muito apreciado pela sua espectacularidade, visto que põe em confronto algumas das melhores equipas femininas do mundo.• Festividade dos Espíritos Esfomeados – Esta festividade (Yu Lan Chit) visa apaziguar os espíritos errantes que vagueiam pela terra no 7.º mês lunar. A população procura mantê-los à distância e acalmá-los, oferecendo-lhes comida, roupas e dinheiro. Como são almas de estranhos e não de familiares, as oferendas são colocadas fora de casa, nos passeios ou nas bermas das estradas, onde são queimadas. • Festa da Lua e do Bolo Lunar (Tchong Chau Chit) – É a maior festividade chinesa, logo a seguir ao Ano Novo Lunar. Realiza-se no 15.º dia do 8.º mês lunar, assinalando o equinócio do Outono, razão por que é também conhecida por Festival do Meio Outono (Mid-Autumn Festival). É a festa das lanternas que crianças e adultos passeiam pelas ruas, parques, jardins e outros espaços abertos. É também a festa do famoso bolo lunar, consumido e amplamente oferecido nesta altura do ano. Segundo a tradição, este bolo teve origem na China, sendo usado para transportar no seu interior mensagens aos revoltosos contra a dinastia mongol. As actividades de Outubro a Dezembro serão referidas no próximo artigo. O livro “Macau – Festas e Festividades”, amplamente distribuído por ocasião da abertura da exposição “Macau – Uma História de Sucesso”, pode ser agora adquirido na Livraria Portuguesa e na secretaria do IIM. 27 de Julho de 2015
  • 124 125 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I F A L A R D E N Ó S - X I IMacau, visando também promover o investimento. Vai completar duas décadas, em constante crescimento. Além de estimular o comércio bilateral, é uma excelente mostra de produtos e serviços.• Macau Golf Open – Foi iniciado em 1998 e atrai centenas de profissionais provenientes, maioritariamente, da Ásia. A sua projecção no exterior foi crescendo e, a partir de 2011, passou a ser transmitido em directo pela televisão para todo o mundo.• Festival Internacional de Música – É um grande e prestigiado evento cultural que decorre nos meses de Outubro e Novembro, reunindo artistas de renome, com um variado programa que inclui música de orquestra e de câmara, ópera, música popular chinesa, jazz, musicais de Broadway e outras manifestações artísticas. Além do Centro Cultural de Macau, são usados espaços emblemáticos, classificados como património mundial, como palcos para os espectáculos.• Semana Cultural da China e dos Povos de Língua Portuguesa – Como plataforma de cooperação entre a China e os países de língua portuguesa, faz todo o sentido esta semana cultural em Macau. Compreende espectáculos, mostra gastronómica, feira de artesanato, exposições, muito folclore e convívios bem participados, em vários locais, com especial destaque para a zona das Casas-Museu da Taipa. novembro e dezembro• Festival do Buda de Quatro Faces – Budistas de Macau prestam homenagem a este Buda de Quatro Faces, situado na Taipa, fazendo ofertas, rogando favores e organizando danças em torno da estátua dourada com as faces viradas para os grandes acontecimentos ao longo do ano“Grandes acontecimentos ocorrem ao longo do ano, desde o já bem conhecido Grande Prémio de Macau, ao Festival Internacional de Música, ao Festival de Fogo de Artifício, à Festa Latina ou ao Festival Fringe de Macau, aos quais se juntam outros eventos como o Grande Prémio de Voleibol Feminino ou a Maratona Internacional de Macau...”Tão abundantes e relevantes são as grandes festas, os festivais e outros eventos de grande dimensão que se realizam anualmente em Macau que precisámos de três artigos para a sua sucinta identificação, em conformidade com o livro “Macau – Festas e Festividades” (IIM, Maio de 2015), recentemente lançado em Lisboa, Toronto e S. Francisco, na abertura da exposição “Macau – Uma História de Sucesso”, organizada pelo Instituto Internacional de Macau (IIM) para comemorar o 15.º aniversário da RAEM.Vamos agora ver as principais actividades do último trimestre:outubro• Dia Nacional da República Popular da China – Entidades oficiais e associações patrióticas promovem variadas cerimónias, a mais vistosa das quais é a concentração na Praça Flor de Lótus, onde são içadas, com pompa e ao som do Hino Nacional da China, a Bandeira Nacional e a da RAEM.• Concurso Internacional de Fogo de Artifício – Realiza-se entre meados de Setembro e o dia 1 de Outubro, Dia Nacional da China. Mais de cem empresas concorrentes de quinze países participaram já neste evento pirotécnico internacional.• Festival de A-Má em Coloane – No alto de Coloane foi edificado um santuário dedicado à deusa A-Má. Em fins de Outubro ou princípios de Novembro, é ali organizado um colorido festival, que prossegue na zona do Porto Interior da cidade de Macau com um desfile pelas ruas acompanhando a estátua de A-Má.• Feira Internacional de Macau – É o principal certame comercial e económico de
  • 126 127 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I F A L A R D E N Ó S - X I Iquatro pontos cardiais e com as mãos segurando vários objectos simbólicos, como rosários, concha, jarro para água, uma placa com os sutras e a roda do Dharma.• Festival Ua Kuong – É o deus do fogo e a divindade protectora dos actores. Os festejos têm lugar no 28.º dia da 9.ª lua, no templo de Lin Kai (templo do Regato do Lótus) e incluem espectáculos de ópera chinesa e um cortejo pelas ruas do bairro de San Kiu, onde o templo se situa. • Grande Prémio de Macau – É uma das mais conhecidas provas automobilísticas do mundo. Além do Grande Prémio de Fórmula 3, há uma variedade impressionante de outras corridas de carros e de motos. É visto por muitos como uma importante plataforma para o lançamento de jovens pilotos para a Fórmula 1 e é um dos últimos circuitos citadinos do mundo. A sua primeira edição foi em 1952.• Festival Fringe de Macau – Inclui workshops de arte, exposições e espectáculos de teatro, dança, música, mímica e marionetas. Uma excelente oportunidade para novos artistas se apresentarem ao público.• Maratona Internacional de Macau – Foi pela primeira vez realizada em 1981, continuando a atrair milhares de corredores de fundo locais e do exterior. O percurso abrange a passagem por ruas da cidade e por estradas das ilhas da Taipa e Coloane e a travessia de pontes. • Dia da RAEM – Celebra-se a 20 de Dezembro o dia do estabelecimento da Região Administrativa Especial de Macau. A 26 de Março de 1987, a China e Portugal assinaram a Declaração Conjunta Luso-Chinesa, que fixou aquela data para a transferência de poderes. Uma cerimónia pública na Praça da Flor de Lótus, espectáculos e sessões comemorativas assinalam a efeméride.• Desfile por Macau, Cidade Latina – Numerosos grupos artísticos da China, de Macau, de países de língua portuguesa e de outros países latinos desfilam pela cidade, das ruínas de São Paulo à praça do Tap Seac, culminando num grandioso espectáculo de luz, cor e música. Esta “parada latina” integra-se nas comemorações do estabelecimento da RAEM.• Natal – Grande festa dos cristãos, é hoje uma festa de toda a população de Macau. A cidade fica ricamente engalanada. Árvores de Natal, presépios, bonecos de neve e outras decorações desta quadra espalham-se por toda a cidade e nas ilhas. O profano e o sagrado misturam-se aqui harmoniosamente. As igrejas enchem-se de fiéis para a tradicional Missa do Galo e toda a gente comemora à sua maneira os festejos do Natal.Com esta relação de festas, festivais e relevantes eventos locais, fica concluída a apresentação do livro “Macau – Festas e Festividades” (IIM, Maio de 2015). Muito procurado desde o seu lançamento em várias cidades nos últimos dias de Junho, é uma excelente edição trilingue para servir de guião a quem queira conhecer melhor os principais acontecimentos do calendário anual de Macau e para promover a RAEM no exterior.3 de Agosto de 2015
  • 128 129 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I F A L A R D E N Ó S - X I Ineste domínio. O seu título é “O Comissariado da Auditoria como garante de uma gestão de recursos financeiros públicos transparente, eficiente, eficaz, ética e socialmente responsável (Comissariado da Auditoria da RAEM, Janeiro de 2015).É fácil confirmar a qualidade e a utilidade dessas intervenções, conhecendo o seu conteúdo. Escolhemos este texto para divulgação, dado o interesse que tem para quantos acompanham a gestão dos recursos financeiros públicos na RAEM:Princípios e práticas da auditoria em Macau“O Comissariado da Auditoria (CA) norteia a sua acção por um conjunto de princípios e boas práticas de auditoria que procuram ir ao encontro dos desafios e exigências que se colocam às Instituições Superiores de Controle (ISC) enquanto entidades indutoras da boa governança pública, através da prestação de um serviço independente nas auditorias à gestão e aplicação de dinheiros e valores públicos. A prestação do serviço de auditoria pública por parte do CA processa-se nomeadamente através do controlo financeiro e emissão de parecer sobre a Conta Geral da Região Administrativa Especial de Macau (RAEM) e da realização de diferentes tipos de auditorias operacionais (de resultados ou de desempenho), nomeadamente das dirigidas às práticas de gestão nos serviços e organismos públicos ‘sujeitos a auditoria’, aos grandes empreendimentos públicos ainda na sua fase de execução ou à eficiência na gestão dos contratos de concessão de exploração de serviços públicos ao sector privado.Dos princípios e das boas práticas que norteiam as actividades de auditoria do CA de Macau, destacamos, nomeadamente, os seguintes:Por uma gestão eficaz e responsável dos recursos financeiros“Compete ao Comissariado da Auditoria corresponder às expectativas dos cidadãos na promoção de uma rigorosa, eficiente e transparente gestão dos recursos financeiros públicos e de uma governança ética e socialmente responsável na prossecução de objectivos de um desenvolvimento sustentável nas dimensões económica, financeira, social e ambiental.”Comissário Ho Veng On, na nota préviaMuito numerosas são as deslocações em serviço ao exterior, para encontros, seminários, conferências ou simples visitas no âmbito da cooperação bilateral ou multilateral, mas pouco conhecidos são os resultados, as comunicações apresentadas e as intervenções feitas, para além de notícias, mesmo elas nem sempre suficientemente elucidativas, veiculadas através de órgãos de comunicação social.É, por isso, de saudar a recente publicação de um livro que reúne as intervenções do Comissário da Auditoria da RAEM, Ho Veng On, em seminários e assembleias gerais da Organização das Instituições Superiores de Controlo da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (OISC/CPLP), de 2010 a 2014. Além de muito oportunas e bem estruturadas, elas não só identificam e explicam, com objectividade e clareza, o papel do Comissariado da Auditoria da RAEM, como também sistematizam e disseminam doutrina subjacente à missão das instituições superiores de controlo num Estado de Direito, ao mesmo tempo que aponta as melhores práticas por elas adoptadas na área da auditoria.Os responsáveis das instituições similares dos países de língua portuguesa, entre os quais os Tribunais de Contas, acolheram muito bem este contributo reconhecidamente positivo do Comissário da Auditoria da RAEM e enalteceram o valor e a relevância técnica e pedagógica daquelas intervenções. O Instituto Internacional de Macau, como observador consultivo da CPLP, sabe que o livro foi muito bem aceite e é já generalizadamente tido como um instrumento incontornável em acções de formação
  • 130 131 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I F A L A R D E N Ó S - X I I• Princípios éticos e profissionais que servem de referência à actuação do CA e expressam-se por uma cultura de integridade, transparência, independência, responsabilidade, objectividade, compromisso, profissionalismo e inovação;• Elevado sentido de responsabilidade social no sentido de desempenhar as suas atribuições de uma forma informativa/formativa junto dos cidadãos e de garante da boa governança dos recursos públicos, levando a cabo uma comunicação aberta e oportuna das suas actividades e resultados de auditoria, através da publicação e divulgação dos relatórios de auditoria na comunicação social e no próprio website;• Qualidade dos processos de auditoria – A realização de auditorias tem por referência os padrões e normas de auditoria internacionalmente reconhecidas e provenientes da INTOSAI;• Elevada qualificação e especialização dos recursos humanos numa pluralidade de áreas do saber que possam responder aos desafios de auditoria e boa governança pública;• Existência de um adequado sistema de controlo de qualidade harmonizado com as normas emitidas pela INTOSAI;• Uso de sistemas e tecnologias de informação e de comunicação, nomea-damente na prestação electrónica das contas públicas e no controlo externo operacionalmente harmonizado com o controlo interno dos serviços e organismos públicos;• Cooperação multilateral ou bilateral com instituições congéneres de auditoria, nomeadamente do Interior da China, com a Região Administrativa Especial de Hong Kong, com os países de expressão portuguesa e a Organização das Instituições Superiores de Controlo da CPLP, entre outros, tendo em vista beneficiar de oportunidades de formação técnica especializada ou de intercâmbio de conhecimentos e actualização de saberes segundo princípios, normas e práticas de auditoria internacionalmente reconhecidas.Actualmente, o CA, a par das auditorias financeiras e das auditorias de resultados ou de desempenho, privilegia a realização de auditorias aos grandes empreendimentos públicos em curso de execução, os quais por envolverem a mobilização de consideráveis recursos públicos – financeiros, humanos e naturais, entre outros – exigem da auditoria pública uma particular atenção à eficiência e eficácia da sua gestão pública dado estarem em causa a aplicação plurianual de significativos recursos financeiros e a qualidade de vida da população no domínio das políticas de urbanismo e de transportes colectivos e do meio ambiente. Os resultados destas auditorias, cujos relatórios são divulgados aos cidadãos, constituem um contributo do CA para a boa governança pública na RAEM, nomeadamente através de um conjunto de sugestões dirigidas às entidades públicas gestionárias dos projectos no sentido de melhorarem os processos de gestão de controlo interno, de risco de derrapagens orçamentais, de incumprimento de prazos de execução ou de falta de qualidade dos empreendimentos. Na base de uma compreensão dos desafios actuais que se colocam à auditoria pública, o CA está pois firmemente empenhado em contribuir para a boa governança
  • 132 133 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I F A L A R D E N Ó S - X I Ipública, centrada nos cidadãos, na transparência e prestação de contas, eficiência na administração pública e sustentabilidade do desenvolvimento da Região.” O livro merece uma ampla divulgação e é certamente útil para dirigentes e técnicos de organismos públicos, assessores jurídicos e financeiros, magistrados e advogados. 10 de Agosto de 2015A propósito da recente publicação do livro “O Comissariado da Auditoria como garante de uma gestão dos recursos financeiros públicos transparente, eficiente, eficaz, ética e socialmente responsável” (Comissariado da Auditoria da RAEM, 2015), que reuniu intervenções do Comissário Ho Veng On em seminários e assembleias gerais da Organização das Instituições Superiores de Controle da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (OISC/CPLP), proferidas de 2010 a 2014, pudemos tecer considerações, no artigo anterior, sobre a gestão eficaz e responsável dos recursos financeiros públicos e sobre os princípios e práticas que caracterizam o funcionamento do Comissariado da Auditoria da RAEM.Num tempo em que esta é, cada vez mais, uma preocupação prioritária de todos – governantes e cidadãos –, parece-nos da maior relevância abordar estas questões, sendo justo saudar o envolvimento esclarecido do Comissário Ho Veng On em encontros da OISC/CPLP, bem como a sua postura sensata, serena e empenhada no cumprimento da sua elevada missão, de acompanhamento atento de toda a gestão pública e da respectiva execução orçamental.Identificados, sumariamente, no artigo precedente, os princípios e práticas da auditoria em Macau, importa igualmente conhecer os valores de uma boa governança a nível global, em conformidade com objectivos e propósitos amplamente difundidos no seio de organizações internacionais com os quais o Comissário da Auditoria se identifica no dia-a-dia da sua actuação. Esta consonância está muito bem expressa na comunicação do Comissário Ho Veng On à VIII Assembleia Geral do OISC/CPLP, que teve lugar em Brasília de 16 a 19 de Setembro de 2014. Dela destacamos algumas passagens fundamentais: Valores universais da boa governança“A boa governança pública tem subjacente que a Administração Pública esteja mais centrada na participação e nos interesses dos cidadãos, mais próxima do cidadão aquando da tomada de decisões públicas e mais exigente quanto à eficiência, prestação qualitativa e exemplaridade de relacionamento e de conduta ética dos servidores públicos perante as necessidades colectivas dos cidadãos.”Comissário Ho Veng On, na nota prévia
  • 134 135 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I F A L A R D E N Ó S - X I IPerspectivas de expansão da auditoria pública“Os recentes desenvolvimentos na actividade das instituições superiores de controlo externo têm sido marcados por uma expansão no âmbito de incidência das auditorias ou pelo desenvolvimento de estudos ou debates em grupos de trabalho nos mais variados domínios da auditoria pública, muitos deles sob a coordenação e iniciativa da INTOSAI e seus organismos regionais.Em parte, esta nova dinâmica na actividade das ISC surgiu em resposta aos desafios e ameaças da crise financeira de 2008, bem assim como dos apelos e resoluções das Nações Unidas e outras organizações internacionais a uma melhor governança nacional e global que coloque o desenvolvimento humano e sustentável no centro das atenções dos governantes e responsáveis pela condução das políticas públicas.Em particular, as falhas dos reguladores e das agências de notação de risco de crédito estão em grande parte na origem da grave crise bancária e financeira de 2008, a que acresce o agravamento dos fenómenos de corrupção, de evasão fiscal e movimentos ilícitos de capitais ainda não suficientemente combatidos e que em parte causam dificuldades orçamentais e de sustentabilidade financeira dos Estados modernos. (…)Os desafios que se colocam às ISC na promoção da boa governança no sector público são imensos, atentos os princípios definidores da boa governança pública propostos pela INTOSAI. Em particular, desenha-se o surgimento de novas orientações ou normas internacionais no campo da gestão pública nomeadamente em matéria de promoção da boa governança dos activos públicos que constitui um domínio relevante no universo da gestão dos recursos públicos (proposta da INTOSAI GOV 9160 – Enhancing Good Governance for Public Assets, Guiding Principles for Implementation).Face à nova definição de boa governança e provável aprovação dos respectivos princípios, perspectivam-se novas normas internacionais a definir pela INTOSAI a cobrir mais campos de actuação dos poderes públicos sujeitos a auditoria, à semelhança do proposto recentemente com a boa governança dos activos públicos.Acrescem ainda os desafios à auditoria pública na promoção de uma efectiva governança nacional, fundamental para acelerar os progressos das Metas do Desenvolvimento do Milénio (MDG’s), na Agenda Prospectiva do Pós-2015. Boa governança pública, acesso generalizado a serviços públicos básicos de qualidade, existência de instituições capazes de garantir o Estado de Direito, a transparência e prestação de contas e a participação dos cidadãos e um desenvolvimento humano inclusivo e sustentável constituem pedras basilares à condução do objectivo universal de ‘Uma Vida com Dignidade para Todos’ no Pós-2015.”A participação pública na boa governançaNeste contexto, preconiza-se um maior envolvimento das pessoas no exercício pleno da cidadania activa e um diálogo mais intenso entre os servidores públicos e os cidadãos: “Num novo ambiente institucional nacional e internacional, modelado pelos princípios de boa governança pública defendidos pelas Nações Unidas e pela INTOSAI, entre outras grandes organizações transnacionais ou relevantes instituições
  • 136 137 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I F A L A R D E N Ó S - X I Iinternacionais, a auditoria pública ganha uma valorização acrescida no que se refere a um novo paradigma de relacionamento entre os cidadãos e os governantes e na resposta pró-activa das ISC a uma participação dos cidadãos no controlo financeiro do Estado e na boa gestão pública a quem a mesma se destina.Na realidade, num Estado e governança pública responsáveis a participação do cidadão e de outras partes interessadas (stakeholders) nas decisões públicas será susceptível de ser incentivada pelos próprios governantes aquando da preparação, implementação e monitoramento das políticas públicas ou de programas públicos, competindo às ISC promover o exercício pró-activo dos direitos de cidadania.À luz da boa governança pública, num Estado responsável e num Governo aberto, os servidores públicos devem saber não só respeitar os critérios técnicos de boa gestão, como também saber dialogar, auscultar as opiniões e comunicar as decisões político-administrativas aos cidadãos, competindo às ISC promover uma cultura de cidadania pró-activa nas questões de administração pública.”***Estes textos, que merecem ponderada leitura, referem em várias passagens o papel da INTOSAI. Fundada em 1953, a INTOSAI – International Organisation of Supreme Audit Institutions tem hoje 192 membros efectivos e 5 associados. É um organismo autónomo com estatuto consultivo junto do Conselho Económico e Social das Nações Unidas. É de enaltecer a receptividade do Comissariado da Auditoria da RAEM às suas recomendações e orientações.17 de Agosto de 2015A propósito de um livro em boa hora publicado pelo Comissariado da Auditoria da RAEM, reunindo intervenções muito bem elaboradas do Comissário Ho Veng On em encontros da Organização das Instituições Superiores de Controlo da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (OISC/CPLP), levados a efeito de 2010 a 2014, pudemos tecer considerações, nos dois artigos anteriores, sobre o relevante papel cometido, universalmente, às instituições de auditoria da gestão dos recursos públicos, com vista a assegurar a desejada “boa governança”, isto é, o exercício correcto do poder ou da autoridade (política, económica ou administrativa) para gerir os recursos e os assuntos públicos. Aproveitámos, neste enquadramento, para enaltecer a discreta, competente e incisiva acção realizada pela entidade local que, nos termos da Lei Básica e da lei orgânica que a instituiu, tem essa responsabilidade e procura exercê-la em pleno, como órgão independente na estrutura política da RAEM. Quisemos, igualmente, realçar o significado da sintonia das práticas do Comissariado da Auditoria com os princípios definidos, neste contexto, por organizações internacionais vocacionadas para o aprofundamento destas matérias que têm implicações directas no funcionamento das sociedades e na vida dos cidadãos. Propósitos reafirmados ao mais alto nívelNo mês passado, a Organização das Nações Unidas promoveu mais uma amplamente participada conferência internacional sobre o financiamento para o Princípios caracterizadores da boa gestão pública“Num contexto de mudanças céleres e complexas nas sociedades e nos processos de governação pública ancorados num Estado de Direito, compete às instituições superiores de controle se adaptarem e se proporem exercer com maior abrangência as suas atribuições, de forma responsável, qualitativa, credível e pedagógica, em prol de uma eficiente administração dos dinheiros e valores públicos e de uma cultura de governação pública íntegra, transparente, prestadora de informação de desempenho e contas e com elevado sentido social.”Da intervenção do Comissário Ho Veng On em Díli (Timor), Junho de 2011
  • 138 139 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I F A L A R D E N Ó S - X I Idesenvolvimento (UN 3rd International Conference on Financing for Development). Altos representantes dos Estados membros, a que se juntaram muitos observadores, puderam debater, de 13 a 16 de Julho, em Adis Abeba (Etiópia), a nova agenda política para o desenvolvimento (UN Post-2015 Development Agenda), tendo produzido um extenso relatório com abrangentes conclusões, o qual será submetido à aprovação da Assembleia Geral das Nações Unidas em Setembro próximo. Contendo 39 páginas e 134 parágrafos, o combate à corrupção e o reforço dos mecanismos de controlo mereceram especial atenção. No parágrafo 30, por exemplo, ficaram bem expressos os propósitos neste domínio: “We will strengthen national control mechanisms, such as supreme audit institutions, along with other independent oversight institutions, as appropriate. We will increase transparency and equal participation in the budgetary process…”Quase ao mesmo tempo, de 3 a 11 de Julho, o Conselho Económico e Social das Nações Unidas realizou o seu High Level Political Forum em Nova Iorque, para analisar os objectivos do desenvolvimento sustentável para inclusão na Agenda Pós-2015. Um dos 17 objectivos definidos foi precisamente “build effective, accountable and inclusive institutions at all levels”.É, pois, muito encorajador poder concluir que, nas mais altas instâncias internacionais, as insistentes propostas de organismos como a INTOSAI (International Organisation of Supreme Audit Institutions) e a ASOSAI (Asian Organisation of Supreme Audit Institutions) vão tendo acolhimento positivo. A organização asiática teve, em Fevereiro do corrente ano, a sua assembleia geral e o encontro anual, tendo como tema central “Leveraging Technology to Enhance Audit Quality and Effectiveness”. O reconhecimento da missão das instituições superiores de controlo para garantir a boa governança é, felizmente, cada vez mais generalizado. E estas não deixam de ter em conta o uso das novas tecnologias no aperfeiçoamento constante da sua actuação. Para uma boa governançaA INTOSAI defende um conjunto de princípios-chave identificadores da boa governança (“good governance”), os quais podem ser assim resumidos:“Accountability” (assunção de responsabilidades e prestação de contas no sector público);• Abertura (transparência no funcionamento das instituições públicas);• Coerência (na gestão das políticas públicas e entre os diferentes níveis de autoridade pública);• Consenso-orientado (implica uma mediação entre diferentes interesses e sensibilidades da sociedade e uma visão do que é o melhor para o interesse geral numa perspectiva de longo prazo);• Eficiência (produção de resultados que vão ao encontro das necessidades da sociedade com o melhor uso possível dos recursos disponíveis, não descurando a protecção ambiental);
  • 140 141 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I F A L A R D E N Ó S - X I I• Equidade e inclusividade (exige-se que se reparta com equidade os benefícios da riqueza criada e que não se exclua ninguém das oportunidades de acesso a uma vida digna);• Participação (dos cidadãos, de organizações não-governamentais e dos representantes do sector laboral, entre outros stakeholders, na preparação, implementação e monitoramento das políticas públicas);• Capacidade de resposta (a boa governança exige uma tomada de decisões em tempo oportuno e no interesse colectivo); eEstado de Direito (a boa governança requer um enquadramento constitucional e legal justo e imparcial, com um poder judiciário independente e forças de ordem isentas e incorruptíveis).consequências para a administração públicaTendo em consideração aqueles princípios, o Comissário Ho Veng On, na comunicação que apresentou em Brasília, em Setembro de 2014, identificou as consequências directas duma boa governança na melhoria geral da administração pública no sentido de que se torna: “mais transparente e prestadora de contas; mais cuidada na definição e concertação das políticas públicas e na mediação de diferentes interesses sociais; mais próxima do cidadão e auscultadora da sociedade civil aquando da tomada de decisões públicas, sua implementação e monitoramento; mais ciente do dever de garantir a sustentabilidade das finanças públicas e dos sistemas de segurança social de modo a salvaguardar ou melhorar as oportunidades de desenvolvimento das gerações futuras (equidade intergeracional); mais atenta aos aspectos equitativos e qualitativos do desenvolvimento, nomeadamente de participação de todos na criação e benefícios da riqueza produzida e de integração e inclusividade dos grupos sociais mais vulneráveis; mais exigente quanto à eficiência e prestação qualitativa dos bens e serviços públicos e no combate à corrupção, evasão fiscal e branqueamento de capitais; mais responsável social e eticamente perante os cidadãos quanto às escolhas públicas, tomada de decisões e visão prospectiva de desenvolvimento humano e sustentável”. Eis um conjunto de acrescidos desafios que se colocam, hoje, ao gestor público da RAEM, de quem se exige rigor, transparência, integridade e eficiência, a par do dever de cidadania de prestar contas da gestão dos recursos públicos. 24 de Agosto de 2015
  • 142 143 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I F A L A R D E N Ó S - X I InanáDom, dom, dom,Sinhô capitàEspada na cintaCom ung-a rota na mãoChico chico tacoJá matá lagátoCaranguezo veloJá vai no buracoNom quero na vosso casaTem medo de suzá pêQuim querê trata cô vôs?Tché!... Lé cô lé, cré cô cré.Eu passá na vôsso pórta,Já tócá na fichadura,Vanda dentro respondê:Passá fóra criatura!Ingrata, ingrata,Coraçám de vidro:Sem nada, sem nada,Ficá mal cômigo!de Alcafache a Macau – um simpático cancioneiro“Junto ao rio Dão, bem no coração de Portugal, Alcafache foi o ponto de partida. Macau, no extremo Oriente, o de chegada.”Abel Moura, “De Alcafache a Macau”, 1987 “De Alcafache a Macau” (Instituto Cultural de Macau, 1987) é um simpático e útil cancioneiro publicado em Macau, na sequência do trabalho de pesquisa e recolha a que se entregou Abel Moura, professor de Educação Musical. No prefácio, o autor explicou que “os trechos foram escolhidos de modo a transmitir algumas das características regionais específicas da nossa música popular”, sendo “um instrumento de trabalho a utilizar para uma melhor compreensão e vivência do folclore português”, com música tradicional que se quer “tocada, cantada e bailada nas aldeias, em Lisboa ou em Macau, em família, nas escolas ou nos arraiais”.De entre as 28 canções seleccionadas, quatro foram integradas neste conjunto em Macau, duas das quais (“Ade Pidi Chuva” e “Atirei um Limão Verde”) foram recolhidas no albergue da Santa Casa da Misericórdia de Macau, em 1987, da voz de D. Alina Augusta Placé, sendo a primeira em patuá e a segunda em português, aprendida com a sua avó por volta de 1910, quando era ainda hábito as velhas famílias macaenses fazerem serões, com o avô ou o pai a tocar viola e os filhos e netos a cantarem. As outras duas são as muito conhecidas canções em patuá “Naná”, que o autor transcreveu do livro “Jogos, Brinquedos e Outras Diversões Populares de Macau” (Imprensa Nacional de Macau, 1972), de Ana Maria Amaro; e “Bastiana”, já referenciada desde meados do século XIX e que o autor encontrou no volume I, n.º 3 dos “Arquivos de Macau” (1929).Para satisfazer a curiosidade do leitor que toma contacto pela primeira vez com a música popular macaense, aqui está a letra da canção de embalar “Naná”:
  • 144 145 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I F A L A R D E N Ó S - X I IEu pra olá para vôs,Passá vanda hórta,Espinho chuchu pe,Sangui góta góta.Manga maduro,Móça já comê!Siára dáli móça,Móça já morê!Cad’hora, cad’hora,Mamã bótá fóra,Eu tan piquininoCusa lô fazê agora?Tico, tico, tico,Sium Policarpo,Caranguezo veloSai de buraco.Agu de samatra,Corê vai no mar,Lagri curto cumprido,Farto de churá!Chéra qual, chéra qual?Cherá rosa de PortugalChêrêso ou fedeTudo chêro san igual!Ficam também aqui registados os versos de “Bastiana”, que foi objecto de um concurso que o Instituto Internacional de Macau lançou recentemente junto da diáspora macaense: BastianaQuin quêrê amôr,Bastiana,Prêcisa considérá, Àmôr nunca sam brinco,Bastiana,Pêgá torná largá!Quin quêrê pâ iôo,Bastiana,Tánto ancusa lôgo dáApa, mútchi, côco,BastianaPipis, càtuapá.
  • 146 147 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I F A L A R D E N Ó S - X I IIôo quêrê pâ vôs,Bastiana,Vós quêrê pâ ôtro;Dêus lôgo càstigá,Bastiana,Fazê vosso ôlo tôrto.Árvrê di papaia,Bastiana,Pê já nàcê rabo,Vêlo, vêlo olá raparigaBastiana,Boca còrê babo.São canções que, em versões diferentes, foram sendo transmitidas pela via oral, de geração em geração, e que o tempo foi apagando da memória das gentes da nossa terra…31 de Agosto de 2015Fizemos referência, no artigo anterior, a um interessante cancioneiro de música tradicional portuguesa organizado por Abel Moura, professor de Educação Musical que prestou serviço docente em Macau, dedicando-se também à animação cultural. Esse cancioneiro – “De Alcafache a Macau” – foi publicado pelo Instituto Cultural de Macau em 1987 e incluiu algumas canções tradicionais macaenses, entre as quais a “Bastiana”, cuja música lembra outras de Malaca, sendo a letra extraída de “lenga-lengas maquistas”.Recentemente, o conjunto musical “Sete Lágrimas” juntou esta chistosa canção a outras do seu disco de música portuguesa, entre as quais alguns ritmos do antigo Ultramar. Também nos lembramos muito bem das interpretações do Coral Dinamene e de Isabel Tello Mexia (“Goa, Macau e Timor”, da TRADISOM), que ajudaram a divulgá-la.Querendo estimular a comunidade macaense no uso do patuá e na apresentação de novas sugestões para a letra da canção, o IIM promoveu, em 2014, um concurso aberto localmente e junto das organizações da diápora, tendo o Jornal Tribuna de Macau colaborado na sua publicitação ao longo de dois meses. Algumas das Casas de Macau também ajudaram a ampliar a sua divulgação.Os resultados foram publicamente anunciados no animado arraial de S. João, na noite de 21 de Junho, no Bairro de S. Lázaro, no meio de outras iniciativas que contaram com o activo envolvimento de associações de matriz portuguesa.Três conhecidas personalidades ligadas à cultura macaense e conhecedoras do patuá integraram o júri: José Cabral Júnior, Fausto Manhão e Filomeno Jorge. Os concorrentes seleccionados foram Rigoberto do Rosário, Virgílio Placé César, ambos de São Paulo, Carlos de Lemos, de Toronto, que foram os primeiros classificados, e ainda A “Bastiana” em concurso“Iou querê pa vos BastianaVos querê pa otroDeus lôgo castigá BastianaFazê vosso ôlo torto” Da letra da canção “Bastiana”
  • 148 149 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I F A L A R D E N Ó S - X I IGabriela Siqueira e Manuel Gomes, de Macau, Daniela Gomes e João Botas de Lisboa. A coordenação foi assegurada por Rufino Ramos, secretário-geral do IIM.Trabalhos premiadosForam estes os trabalhos premiados: 1.º classificado(Rigoberto do Rosário)Bastiana!Deus já castigá vôsFazê vôs sã ôlo ficá tortoNon sang só unga ôloMas dôsQuim mandá vôs querê pa ôtro.Ôlo tortoUide bom pã cozinháNon sang chiste que iou papiáUnga ôlo bispã peixeNa pratoOtrunga pôde vigiá gato.***2.º classificado(Virgílio Placé Júnior)Iou querê vos-sa amor,BastianaBejá, chipí, chapáSe vos non querê pa iou,BastianaAmui iou vai buscá.Amui-amui sã caro,BastianaIou qui nem sapeca temIou sãn pobre mas janota,BastianaNhonhônha corê corê vem.***3.º classificado(Carlos de Lemos)Iou num quéro vivê,BastianaOnçom sem vôs sâ amôr
  • 150 151 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I F A L A R D E N Ó S - X I IOndi iou vai incontrâBastianaAmôr qui nadi voltâIou sâ coraçãm,BastianaChorâ chamã pâ vôsNe bom deixa iou,BastianaVem azinha vem pâ iouA letra da canção original, referenciada desde o fim do século XIX, contém conselhos a uma jovem macaense, de nome Bastiana, a quem se recomenda que não brinque com o amor, devendo corresponder aos gestos de quem a ama de verdade, para que não seja castigada por Deus. Os versos foram variando nos contextos diferentes em que ela foi sendo cantada e transmitida, por via oral, no seio das velhas famílias.Iniciativas como esta continuam a interessar à comunidade, tendo eco positivo nas Casas de Macau, onde muitas das mais genuínas tradições macaenses permanecem vivas, na culinária, na música, nos convívios e nas diversões que vão regularmente organizando. O IIM mantém com muitas das organizações da diáspora macaense uma intensa cooperação, apoiando as suas actividades e contando com a sua prestimosa colaboração em eventos realizados no exterior, como está a acontecer com a exposição do 15.º aniversário da RAEM, que tem sido apresentada em diversos locais do estado de Ontario (Canadá) e na Califórnia (E.U.A.), devendo em Outubro ter início no Brasil.A Casa de Macau de Portugal anunciou, entretanto, que vai recomeçar os seus almoços semanais de comida macaense, assim como dois novos cursos, de Mandarim e de fotografia (níveis de iniciação e avançado).7 de Setembro de 2015
  • 152 153 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I F A L A R D E N Ó S - X I IMatemática) e obteve, em 1940, o bacharelato em Filosofia. Em Granada, Espanha, estudou quatro anos de Teologia na Faculdade de Cartuja. Aos 5 de Agosto de 1945, foi ordenado sacerdote, no Porto.Foi professor de Literatura Portuguesa no Seminário Menor dos Jesuítas, em Macieira de Cambra, completou a sua formação espiritual em Salamanca e, em Novembro de 1948, seguia para Macau, onde estudou chinês, tendo vindo a exercer funções docentes (Liceu Nacional Infante D. Henrique) e pastorais (capelão militar, etc.).É director, desde 1961, do Instituto D. Melchior Carneiro, de que também é fundador, pertencendo ainda a diversas associações de História (membro do Instituto Histórico Ultramarino, governador da International Association of Historians of Asia, etc.) e tendo representado Portugal e Macau em várias conferências e colóquios nacionais e internacionais.A sua obra literária encontra-se dispersa em várias publicações, particularmente, na revista ‘Religião e Pátria’ (1956-1968), tendo publicado também alguns livros, com destaque para ‘A Mulher Venceu’, ‘Pregai o Evangelho’, ‘Jardins Suspensos’ (poesia), ‘Espelho do Mar’ (poesia), ‘A Embaixada Mártir’ e ‘Portugal no Tecto no Mundo’.”Este livro saiu do prelo em 1988, sendo edição do Instituto Cultural de Macau. Dez anos depois, em Agosto de 1998, Benjamim Videira Pires, após um período muito atribulado neste território, partiria definitivamente para Portugal, vindo a falecer no ano seguinte. Atenção ao centenário do Pe. Benjamim Videira Pires, em 2016“Benjamim Videira Pires (1916-1999) foi inquestionavelmente uma das personalidades mais marcantes da vida cultural de Macau, na segunda metade do século vinte.” António Aresta, “Figuras de Jade” (2014)A memória de Benjadim Videira Pires, S.J., missionário, pedagogo e escritor, sem dúvida “uma das personalidades mais marcantes da vida cultural de Macau, na segunda metade do século vinte”, impõe que, no próximo ano, os responsáveis pela acção e divulgação cultural na RAEM se aliem a instituições da área educativa e a organismos associativos locais para uma comemoração digna do centenário do seu nascimento, para recordarmos a obra extraordinária que nesta terra realizou, ao longo de quase cinco décadas.uma nota biográficaO seu livro “Os extremos conciliam-se (transculturação em Macau)”, que, para muitos, foi a sua obra mais exaltante e notável, pela profundidade de interpretação do sentido da missão de Portugal no Oriente e do papel de Macau no contexto do prolongado e fecundo encontro de culturas que aqui se produziu, contém esta sucinta nota biográfica:“Benjamim António Videira Pires nasceu em Torre de D. Chama, Mirandela, a 30 de Outubro de 1916, onde também completou o Curso Primário, tendo ingressado no Seminário da Costa, em Guimarães, até terminar os preparatórios do Seminário Menor, equivalente ao Curso Geral Liceal.Em 1932, entrou na Companhia de Jesus e, em 1936, concluiu um Curso Superior de Humanidades Clássicas e de Literatura Portuguesa, oficialmente reconhecido, no mosteiro beneditino de Alpendurada, concelho de Marco de Canavezes. Na Faculdade de Filosofia de Braga, fez o primeiro ano de Questões Científicas (Física, Química e
  • 154 155 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I F A L A R D E N Ó S - X I IHomenagem do IIMO Instituto Internacional de Macau (IIM) dedicou-lhe um livro em 2011, sendo o 4.º volume da sua colecção “Missionários para o Século XXI”. Ninguém melhor do que o seu irmão e íntimo confidente, Francisco Videira Pires, também missionário e professor, além de sociólogo, podia escrevê-lo. Na nota introdutória, sintetiza deste modo o conteúdo do livro:“Quando, em começos de Janeiro de 1949, arriba a Macau, vindo de Hong-Kong, a bordo do Kuantung, ‘uma sucata velha, de chaminé alta como um charuto’ (Benjamim, 1953, 151), o P. Benjamim, no vigor dos 32 anos, longe andava de pensar que só regressaria definitivamente a Lisboa, em voo da TAP, às 6 da madrugada do dia 6 de Agosto de 1998, reduzido a uma ruína e em cadeira de rodas. Neste espaço de quase 50 anos, a sua vida confunde-se de tal modo com a da ‘Cidade do Santo Nome de Deus’, em apostolado sacerdotal e actividade cultural, que não soam a hipérbole as palavras do Prof. Doutor Veríssimo Serrão, na carta de pêsames que me escreveu, ao afirmar que, enquanto a herança portuguesa perdurar nesse território, o nome de meu irmão permaneceria também indelevelmente ligado a ele. Não é fácil escrever sobre um irmão que, para mais, em cartas e dedicatórias de livros, sempre me chamava ‘irmão duas vezes’ – pelo sangue e sacerdócio comuns. Ninguém, por isso, foi tanto seu confidente. A sintonia psicológica, percursos e ideais idênticos, longa e constantemente entrecruzados, permitiram-me viver com ele, em completa empatia, ano a ano e a despeito das distâncias geográficas, cada um dos seus grandes ou pequenos dramas. A carta e o telefone, quantas vezes madrugada alta, pontuavam ‘os trabalhos e os dias’ dum e doutro.Sempre nutri por ele admiração superior à de qualquer outro membro da família. Mais até que pelo sobrinho de escol Lucas Pires. Assombrava-me como, praticamente só com Deus, levou a cabo obra tão multiforme, desdobrando-se, com igual naturalidade, por iniciativas de apostolado, de alta cultura, de educação, de ensino, de construtor duma instituição escolar que hoje vale milhões, escrevendo sempre, para diversíssimos órgãos de imprensa e, mais ainda, livros de variados géneros literários. Com tempo de repartir pelas almas e pelos amigos, nunca suscitando neles a sensação de que estavam a estorvá-lo, como se a cada instante dispusesse da eternidade para cada um que o precisava.Nestas laudas, porventura longas, pelas páginas, mas sempre curtas, para a dimensão da sua personalidade, conto que ao menos um esboço fiel da sua alma venham encontrar quantos as lerem.”O título escolhido foi “P. Benjamim Videira Pires, Meu irmão”. É preciso ler esta obra para melhor se entender a personalidade, o percurso e o período complicado da sua vida nos últimos anos em Macau. Figura de JadeAntónio Aresta, professor e investigador, com extensa e valiosa obra dedicada a Macau, incluiu-o entre as 28 “figuras de jade”, portugueses que se notabilizaram pela sua ligação ou relação com o Extremo Oriente, cujas breves biografias foi publicando no Jornal Tribuna de Macau e reuniu depois em “Figuras de Jade – Os Portugueses no Extremo Oriente” (IIM, 2014).
  • 156 157 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I F A L A R D E N Ó S - X I INão obstante os trabalhos atrás referidos, cremos que muito mais é possível fazer. O centenário do seu nascimento é a melhor oportunidade para se criarem as necessárias sinergias para que novos estudos sobre a sua obra e o seu legado sejam realizados. 14 de Setembro de 2015.Fizemos, no artigo anterior, um apelo às entidades oficiais responsáveis pelo sector cultural para assumirem a liderança e se associarem a instituições da sociedade civil, com vista a uma comemoração digna do centenário do nascimento do Pe. Benjamim Videira Pires, S.J., cuja obra merece ser recordada, estudada e mais amplamente divulgada. Além do Instituto Internacional de Macau (IIM), sabemos que outras entidades estão disponíveis para colaborarem na organização de diversas iniciativas conjuntas que permitam alcançar aquele propósito.O livro “P. Benjamim Videira Pires, Meu irmão” (IIM, Agosto de 2011), integrado na colecção “Missionários para o Século XXI”, será certamente um trabalho de referência no contexto das celebrações. O seu autor, Francisco Videira Pires, irmão, confidente, e igualmente missionário e respeitada personalidade do mundo da cultura, entretanto também já falecido, relata, com sentidas e vigorosas palavras, o notável percurso daquele que foi um dos mais marcantes vultos de Macau da segunda metade do século passado. Do nascimento à morte, as diversas facetas da sua vida e obra são identificadas e explicadas, permitindo-nos conhecer o missionário, o educador, o investigador, o jornalista, o poeta, o antropólogo, o historiador e também o homem, devotado a Deus e à cultura.Historiador laureadoSobre o historiador, teceu Francisco Videira Pires, entre outras, as seguintes considerações:“Foi a história que mais projectou o nome do P. Benjamim. Por ela, tornou-se membro da Academia Portuguesa da História (nela conquistou vários prémios de investigação), da Academia de Marinha, do Instituto Histórico Ultramarino e da Benjamim Videira Pires, o historiador“Missionário, educador, um dos raros sinólogos portugueses e um historiador com créditos firmados, o P. Benjamim é, por isso, considerado um dos mais respeitados vultos da cultura portuguesa, no Oriente.” “O Clarim”, 19 de Março de 1999
  • 158 159 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I F A L A R D E N Ó S - X I IInternational Association of Historians of Asia, na categoria de governador. Em atenção aos seus méritos, principalmente neste campo, recebeu sucessivamente, diversas distinções honoríficas, a última das quais póstuma (Ordem Militar de Santiago da Espada grande colar de ‘Ciências, Letras e Artes’), que eu tive a alegria de receber, em nome da família, no salão nobre do Palácio do Governo, das mãos do Exmo. Senhor Presidente da República, Dr. Jorge Sampaio, a 18 de Março de 1999. (…)Tentar uma análise, sumária que fosse, de tudo quanto publicou, neste domínio, levar-me-ia demasiado longe, para os limites deste escrito. Basta recordar que vários desses trabalhos, como o dedicado à primeira polícia de Macau, ‘A viagem de comércio Macau – Manila, nos séculos XVI-XIX’, as revelações relativas ao ‘foro do chão’, entre muitos outros, mestres como Charles Boxer os citam por decisivos. Tal era a sua competência de investigador escrupuloso, que o catedrático alemão Rolf Dieter Cremer lhe pediu o capítulo referente às origens e história antiga de Macau, para a obra colectiva ‘Macau, city of commerce and culture’ da UEA Press, de Hong Kong, de 1987, que, apenas três anos volvidos, conheceria segunda edição.”Aspectos menos conhecidos“Dada, pois, a extensão e riqueza do tema, prefiro pôr em relevo aspectos mal conhecidos da personalidade do P. Benjamim, como historiador. A partir do modo como ordenava os materiais, para concretização dos projectos que ia concebendo. Se reparamos no que, neste ponto, deixou impresso, em livro ou na imprensa, tudo se ordena em torno da actividade de Portugal e da Igreja, por essas paragens remotas. Procurava sempre ir às fontes, que, à falta de fotocopiadoras, as mais das vezes transcrevia à mão, cotejando depois tudo, palavra a palavra, com o texto da obra, respeitando até a própria ortografia da época. Chegava a regressar ao mesmo arquivo, português ou estrangeiro, para de novo se certificar da exactidão dum texto já copiado, anos antes. Poucos, antes dele, num método que a nova historiografia da Universidade de Macau vem explorando com tanto êxito, se terão lembrado de vasculhar fontes e arquivos chineses, no que tocasse a Portugal. Mesmo em Pequim. Mas foram-lhe ciosamente fechados, por ser estrangeiro. Do pouco a que teve acesso, o seu domínio do chinês (cujos caracteres tinha sempre o cuidado de apor à versão portuguesa de nomes próprios, locativos ou até expressões correntes mais raras), permitia-lhe clarificar pormenores por que outros, antes dele, tinham passado intrigados. A epigrafia funerária, como complemento importante do livro ou do manuscrito, mereceu-lhe particular atenção, quem sabe se por inspiração do que, em tempos, aprendera na metodologia de Fernão Lopes. Estudou todos os cemitérios de Macau, em particular o dos cristãos parsis, que no território se refugiaram, para fugir à perseguição dos turcos, o que lhe valeu alta consideração, de parte da família Gulbenkian. Quando não conseguia fotografar as legendas das campas, com muita habilidade e exactidão, desenhava-as em folhas, de que guardo vários exemplares, anotando frequentemente, ali mesmo ao lado dos desenhos, particularidades mais relevantes.”Memória e conhecimento“A memória costuma apontar-se como qualidade indispensável ao historiador. Ele a possuía, em grau eminente. (…) À memória, pronta e fiel juntava-se, frequentemente, o conhecimento enciclopédico de muitos livros e documentos antigos. No Museu dos Mártires, de Nagasaki, quando lá fomos em romagem oferecer o antebraço de talha
  • 160 161 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I F A L A R D E N Ó S - X I Idoirada, com um osso do braço de S. Paulo Miki encastoado nele e protegido por um vidro (séc. XVII), o P. Diego Pacheco, S.J., criador desse acervo preciosíssimo, deu logo por um nome português, inscrito na peanha, precedido da palavra DONO, que ele interpretou pelo verbo espanhol ‘dono’ (doou, ofereceu). Sem hesitar, o P. Benjamim explicou tratar-se do nome dum jesuíta português coevo, que missionara em terras do Extremo Oriente. Citando fielmente, por datas e lugares, quanto dele se conhecia. O último catálogo de exposição da sua obra publicada refere 57 títulos, entre artigos e livros. Mas logo o cuidadoso Dr. Jorge Arrimar, no prefácio, adverte que, além de muitos artigos dispersos por diversos órgãos de imprensa, a que não conseguiu chegar, a ‘Enciclopédia luso-brasileira VERBO’ contém, nos seus volumes umas 200 entradas, algumas fundamentais, sem contar as centenas de estudos históricos não utilizados e que iam aparecendo na ‘Religião e Pátria’. Quando o Instituto Cultural publicou, em 1995, ‘Taprobana e mais além’, em declaração já escrita, projectava ainda uma obra em 2 volumes, sobre a Companhia de Jesus, no Extremo Oriente. Várias vezes me confidenciou essa empresa, que acarinhava muito, e em que reuniria, devidamente enquadrados, todos esses materiais, tão ricos, variados e reveladores.”Ficaram certamente manuscritos esquecidos e trabalhos por publicar, havendo outros que aguardam reedição. Naquele livro, é muito oportunamente lançado um repto a jovens mestres: “quanto antes, para bem da cultura lusa nessas paragens, urge reunir tudo o que o P. Benjamim deixou disperso, com documentação às vezes revelada em primeira mão, seja na VERBO, seja em órgãos de imprensa, local ou não.” Não podemos estar mais de acordo. Mãos à obra, pois!21 de Setembro de 2015Com recurso ao livro “P. Benjamim Videira Pires, Meu irmão” (IIM, Agosto de 2011), pudemos apreciar, no artigo anterior, os traços mais marcantes da sua personalidade como investigador e da obra publicada como historiador. Mais uma vez apoiados no autor, P. Francisco Videira Pires, seu irmão e confidente, importa observar outra das suas facetas mais reconhecidas – a de poeta:“A poética do P. Benjamim, pela sua alma profunda, cabe toda nestes versos dum dos seus autores predilectos, o Prémio Nobel Juán Ramón Jiménez, em pequenino poema intitulado poeta, da colectânea ‘Bonanza’, correspondente ao período de 1911-1912: ‘Cuando cojo este libro,/ subitamente se me pone limpio / el corazón, lo mismo / que un pomo cristalino’ (Jiménez, 1958, 248).Friedrich von Hardenberg, famoso romântico alemão celebrizado pelo pseudónimo Novalis, terá concluído que os melhores versos são aqueles que não se escrevem. Outra forma de considerar que ‘o poeta nasce’, e que as palavras que nos comunica não passam de um disfarce do mistério insondável dos abismos inexprimíveis da sua alma profunda.Seja o que for e para usar a linguagem clássica dos críticos, na poesia fundo, ou alma, e forma, ou expressão material da sensibilidade mais depurada, dissociam-se incessantemente, no contraponto cultural das épocas e do seu imaginário. Enquanto Benjamim Videira Pires, Poeta“Nesta hora, a Cidade iluminada é uma flor de nenúfar delicada, pairando sobre medos e cansaços…Senhora, não reveles o destino;Macau prefere a sorte dum meninoque dorme, confiado, nos teus braços.” Versos do soneto “Acto de Esperança”, in “Espelho do Mar” (ICM, 1986)
  • 162 163 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I F A L A R D E N Ó S - X I Ia alma perdura intacta, a instrumentação verbal por que ela procura chegar até nós, converte-se, de lugar para lugar e de escola para escola, num Proteu em permanente mudança. Mas o cerne da poesia reside, invariavelmente, no pathos individual que nos transmite, mesmo que a arquitectura formal já passasse de moda. Vejam a explosão barroca do ‘Cristo de Velázquez’, de Unamuno, pura obra-prima de lirismo genial, a contrastar com a produção dos seus pares espanhóis do tempo, de formalismo tão despojado. E todos nomes imortais da poética espanhola.Palavra nenhuma, por mais inspirada, traduz em plenitude o mistério recôndito da alma. Antero de Quental, mestre de Benjamim para a estrutura do soneto, exprime bem esse ‘tormento’, ao confessar: ‘Recebi o baptismo dos poetas,/ E, assentado entre as formas incompletas,/ Para sempre fiquei pálido e triste’ (Quental, s/d., 35). Outra não será a intenção de Fernando Pessoa, ao reconhecer, à entrada dum curto poema, significativamente intitulado autopsicografia: ‘O poeta é um fingidor’ (Pessoa, 1960, 97).Quando o P. Benjamim terminou o curso humanístico, da geração do ‘Orpheu’ só de Régio lhe chegavam os primeiros ecos. A obra de Fernando Pessoa, à excepção da ‘Mensagem’, tardaria a aparecer. Embora a tivesse lido, mais tarde. Não admira que os seus modelos, com os clássicos do Renascimento, fossem os poetas românticos e realistas, com Garrett, Antero e João de Deus a dominar. Viriam depois muitos outros, franceses como Paul Claudel, os espanhóis Giménez e Alberti, os brasileiros Jorge de Lima e Manuel Bandeira, com os chineses, dos antigos aos da ‘poesia nova’, de que traduziu, directamente dos originais, vários poemas, publicados em ‘Religião e Pátria’.Logo na sua primeira colectânea, ‘Jardins suspensos’, 1955, vertidos para japonês (facto porventura único, depois de Wenceslau de Morais), a sugestão garrettiana de ‘Asas brancas’ das ‘Flores sem frutos’, pressente-se no lindo poema ‘Aquele vestido’. Estamos ainda no que poderíamos designar pelo primeiro período, situado entre Macieira de Cambra, Braga e tempos de aclimatação a Macau.O individualismo radical de Rousseau passou a pesar em excesso, no nosso conceito de originalidade criadora, apesar da inversão que tentaram Ezra Pound e T.S. Eliot, incorporando, com soberba mestria, versos inteiros de Dante, como Camões de Petrarca, até nos ‘Lusíadas’. Perde alguma coisa de genialidade o soneto ‘Alma minha’, pelo facto de ser uma paráfrase do mestre italiano? É que o citado poema do P. Benjamim, embora à distância paire nele a sugestão esbatida de Garrett, não tem menos originalidade. E é tão belo como a possível fonte inspiradora.‘Descobrimento’ aparece 3 anos mais tarde. Benjamim nunca se considerou escritor, no sentido estritamente profissional. Os poemas surgiam esparsos, quando a alma lhos pedia, e em horas libertas de afazeres prementes. Como se percebe por este livro, já todo escrito em Macau, ou nas ilhas da Taipa e Coloane. Embora abra com um soneto, a forma vem toda mais solta, a reflectir os espanhóis da sua predilecção, mas com um colorido oriental marcado, no impressionismo de lugares e imagens, que sugerem mais que descrevem.Mas é em ‘Espelho do mar’ (1986), após silêncio poético de 28 anos, que o orientalismo da sua inspiração se afirma adulta, com liberdade e variedade de formas, antes pressentidas apenas. Considero-o uma das melhores criações da poética
  • 164 165 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I F A L A R D E N Ó S - X I Imacaense, não saindo envergonhado, junto à sombra de Camilo Pessanha. Algum dos poemas, escritos em Chôk Ván, evocam um dos eremitérios em que, na companhia dum empregado chinês e um mastim corpulento, gostava de se recolher, em silêncio, para o retiro anual de oito dias, a meditar.Sei que uma ilustre senhora prepara uma antologia de poetas macaenses, com algum poema do P. Benjamim. Nada mais justo. Aliás, o P. Abel Guerra, S.J., irmão do ilustre sinólogo e abnegado missionário nessas terras do Oriente, P. Joaquim Guerra, S.J., nas suas famosas selectas, para estudantes do ensino secundário, incluíra já algum poema do meu irmão. Raros saberão, contudo, de outro livrinho, a que chamou ‘Palavras-Poemas’, de 1994. A solidão espiritual adensava-se. Na ‘residência’ do Largo de S. Agostinho, 4, ninguém sintonizava já com a sua actividade cultural. Assim, esta ‘colecção/postais’, de não sei que ‘Edições Macau’, mal terá passado duma aventura de modesta centena de exemplares, para amigos escolhidos. Nem o escrupuloso Dr. Jorge Arrimar parece ter dado por ele, no minucioso catálogo da ‘exposição bibliográfica’, de 30 de Outubro de 1997. Trata-se de folhas avulsas, 6 ao todo, em redondilha menor, com os versos enquadrados entre duas vinhetas, tudo guardado num envelope aberto, com a assinatura autógrafa do autor na capa. O primeiro é um ‘Postal para Miguel Torga’. A quintilha inicial reza assim: ‘Sou dos lados da Sardosa,/ de Torre de Dona Chama,/ que foi Flâmula Rodrigues,/ castelã dura e saudosa,/ vassala de Mumadona’. Chama-se o último: ‘Deixo os olhos na paisagem’: Que termina: ‘Os olhos sem horizontes,/ O coração é um abismo,/ Fixo-me em vales e montes,/ Mas eu próprio paro e cismo’. Perto dos 80 anos, a chama não se apagara de todo, na solidão mortal dos tempos derradeiros, com o regresso, em saudade, ‘ao reino maravilhoso de Trás-os-Montes’, que imortalizou Miguel Torga, apesar da gralha que desfigura Sabrosa em Sardosa.”Oxalá a obra poética de Benjamim Videira Pires possa ser republicada em 2016, ano do centenário do seu nascimento. 29 de Setembro de 2015
  • 166 167 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I F A L A R D E N Ó S - X I Itão ligado connosco, o historiador Serafim Leite, S.J., na sua monumental História da Companhia de Jesus na Assistência do Brasil, documentou como toda a evangelização desse país imenso assentou, em grau maior, na catequese e na rede pedagógica, começada a montar por Nóbrega e Anchieta. Na linha que procedia do fundador, o famoso Ratio studiorum, um dos códigos de ensino mais sábios de sempre, respira, em todas as cláusulas, o perfume da alma de S. Inácio (Cfr, Revista Portuguesa de Filosofia, LV, 1993).Ao partir de Braga, para ser professor de língua e literatura portuguesas, acumulando o cargo de prefeito, o P. Benjamim estudara Max Scheler, que, na melhor das suas obras, O formalismo na Ética, lembra: ‘Nada no mundo atrai tão profunda, imediata e necessariamente uma pessoa para o bem, como a visão de um homem de bem, na prática do bem. (…) O bom exemplo, puro e sem mancha, ultrapassa de longe qualquer outro modo de fazer bem a outrem’ (Cit. De Hovre, 1952, 19).Antes, já os clássicos latinos lhe repetiam que ‘verba volant, exempla trahunt’. E a paideia grega, mais original e originária, mostrara-lhe que a personalidade resulta da lenta moldagem duma forma (morphè), que S. Paulo é o primeiro a identificar com Cristo. Se já para Platão, nas Leis (X 897 b), ‘Deus é o pedagogo do universo’, os Padres da Igreja grega, que tinham estudado nas melhores escolas de Atenas, retomam a ideia paulina e insistem em que a forma definitiva da humanidade é Cristo (Jaeger, 1991, 100 segs.). Benjamim punha todo o seu ardor nas suas aulas, pois aprendera até aí, com tantos dos seus professores experientes e modelares, que, mesmo a última aula que se Benjamim Videira Pires, pedagogo por excelência“Fixado em Macau, o ensino constituiu, desde a chegada, uma das suas ocupações predilectas. Tanto mais que a escola era, desde as origens missionárias da Companhia, um dos instrumentos preferidos de evangelização.”Nos dois artigos anteriores, com recurso ao texto do Pe. Francisco Videira Pires, no livro “P. Benjamim Videira Pires, Meu Irmão” (IIM, Agosto de 2011), pudemos apreciar a obra desta notável personalidade, nas suas facetas de historiador e de poeta. Não queremos deixar de referir também, em antecipação das comemorações do centenário do seu nascimento, aquelas que foram, afinal, as suas duas missões mais permanentes e absorventes: a de sacerdote, a par da de educador, absolutamente inseparáveis no percurso que escolheu. São do Pe. Francisco Videira Pires estes elucidativos apontamentos:A escola como missão“Formado em clássicas e filosofia, apoiadas num leque de ciências positivas, das matemáticas à química e à física, Benjamim inaugura, finalmente, outra prova para que a natureza o talhava: a educação da juventude.Semente imprescindível do futuro, S. Inácio, intuindo a transcendência da obra pedagógica, nessa viragem histórica da humanidade, nas Constituições da sua Companhia, consagra páginas sapientíssimas à organização das escolas de todos os níveis, que os jesuítas irão manter. Mesmo os textos que são letra do P. Polanco, seu secretário, veiculam todas o seu espírito (Loyola, 1952, 578 segs.).A epopeia educativa da Ordem, no passado e no presente, desde o ensino catequético e elementar ao universitário, através dos séculos e em todos os Continentes, constitui um dos seus melhores padrões de glória. Para citar apenas o caso do Brasil,
  • 168 169 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I F A L A R D E N Ó S - X I Idá, deve preparar-se, com tanto apuro como a primeira. Mas era a missão de prefeito que mais o seduzia. A disciplina era o menos. Ou melhor: devia brotar do exemplo e do amor. Conquistada a alma daquela rapaziada, mal precisaria de impor e corrigir. Faz a vida deles, no salão de estudo, nos campos de jogos, nos passeios esticados entre pinhais, na Serra da Gralheira. Ouve-os, antes de sugerir seja o que for. E cria a Milícia de Cristo Rei, cuja sétima e última ‘lei’ apontava para ‘um alto ideal’, a procurar ‘com alegria e entusiasmo’. Não admira, assim, que esses estudantes de preparatórios, entre os 12 e os 18 anos, o recordem, ainda hoje, com saudade, como um dos amigos que mais os marcaram para bem. A maioria acabava por verificar que a sua vocação não era o sacerdócio, mas o laicado. Formaram-se, algum chegou a catedrático eminente, acabando por constituir família. A estima pelo antigo professor e prefeito manteve-se, porém, intacta, a ponto de, nas suas vindas a Portugal, o visitarem e convidarem para suas casas, como se pertencesse ao círculo familiar de cada um deles. Fixado em Macau, o ensino constituiu, desde a chegada, uma das suas ocupações predilectas. Tanto mais que a escola era, desde as origens missionárias da Companhia, com S. Francisco Xavier, na Índia, em Malaca e no Japão (Schurhammer, II, III e IV), um dos instrumentos preferidos de evangelização. Do Liceu à Universidade local, medeiam dezenas de anos. Nesse intervalo, embora começasse pela responsabilidade duma das escolas que a Ordem já mantinha na cidade, não tardou a sonhar com um grande centro educativo, que prestasse, com o infantil e primário, todo o programa do ensino médio do território. Partiu do princípio, com uma escolinha para os mais pequeninos, em edifício de ocasião e emprestado. Até alcançar, com o Instituto Dom Melchior Carneiro, a plena realização da que sempre considerou a maior e melhor das suas obras.” Pedagogia pela comunicaçãoA sua faceta de educador por excelência fê-lo também servir-se de instrumentos de comunicação, como a revista “Religião e Pátria” e o jornal “Confluência”, para difusão doutrinária. São também do seu irmão Francisco estes comentários:“Ao fixar-se definitivamente em Macau, o P. Benjamim encontrou Religião e Pátria como revista semanal, fundada cerca de 40 anos antes pelos jesuítas portugueses que lá missionavam. Dirigia-a, na altura, o seu confrade P. António Bernardo Gonçalves, que não tardaria a substituir, quando este voltou como Superior para Goa, onde teria de passar, com outros, como o P. Rogério Frutuoso, S.J., doloroso calvário, por parte de jesuítas nativos, inflados de separatismo nacionalista.A 6 de Janeiro de 1955, assume a direcção, que manteria durante uma boa dúzia de anos. Órgão da Ordem, como veículo das suas obras apostólicas, nomeadamente o Apostolado da Oração, procurou rasgar-lhe abertas para toda a cultura universal, caldeada na frágua do Evangelho. Fugindo, porém, a tudo que rescendesse a incenso de sacristia. Cria secções novas. Com apanhados muito completos do noticiário local e internacional, uma secção juvenil, outra recreativa, os seus fundos, variando entre problemas circunstanciais de religião e cultura geral, embora anónimos ou assinados apenas pela inicial B., impõem-se logo pela mestria pensante, como também pelo estilo muito limpo.” Os diversos cargos públicos que desempenhei nas últimas três décadas da administração portuguesa proporcionaram-me o privilégio de acompanhar bastante
  • 170 171 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I F A L A R D E N Ó S - X I Ide perto o percurso do Pe. Benjamim Videira Pires, mormente como educador, escritor e historiador. Recebi-o várias vezes no meu gabinete, presidi a festas escolares realizadas no Instituto D. Melchior Carneiro, que ele fundou e dirigiu, convivemos e conversámos em encontros de professores e pude marcar presença em ocasiões especiais relacionadas com as justas homenagens que lhe foram prestadas. Na fase final, muito atribulada, da sua longa permanência em Macau, o acompanhamento foi quase diário, através dos Serviços de Educação e de outras entidades. 5 de Outubro de 2015Benjamim Videira Pires, missionário“…desde menino, Benjamim tomava sempre muito a sério o que, para ele, fosse fundamental na vida. E nada poderia comparar-se com a graça do sacerdócio.”Pe. Francisco Videira Pires, 2011 Recorrendo ao texto em boa hora produzido pelo seu irmão Francisco (“P. Benjamim Videira Pires, Meu Irmão”) e publicado em 2011 pelo Instituto Internacional de Macau, pudemos apreciar os traços marcantes da sua personalidade e do seu percurso como historiador, poeta e pedagogo, devotado à nobre causa da educação, bem assente nos valores que cultivou ao longo da vida. É também com o Pe. Francisco Videira Pires que vamos, agora, recordar a sua dedicação ao serviço de Deus, como missionário: cumprir o voto“Com 30 anos (caso raro, entre jesuítas, que normalmente só terminam a carreira com 32 a 33), só já pensa em cumprir o voto que, criança, fizera a S. Francisco Xavier, preferindo Macau, por ficar mais próximo de Sanchoão, onde o grande Apóstolo morrera.Respeitando embora a sua vocação, os superiores precisaram dele, por dois anos, primeiro na ‘residência’ da Covilhã. Logo o clero da região deu por ele. Chamavam-no para as mais diversas actividades pastorais, até para tríduo e festa de tanta responsabilidade como foi a inauguração da sede duma paróquia nova, a de Nossa Senhora de Fátima, agora a valer também de igreja da Universidade da Beira Interior. Por esse tempo, a despeito de tanta juventude, o seu Provincial não receou incumbi-lo de dirigir retiros ao clero secular.Os seus dotes de professor não andavam esquecidos. Faltara o mestre de história no Instituto Nun’Álvares, nas Caldas da Saúde (Santo Tirso). Escolhem Benjamim, para
  • 172 173 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I F A L A R D E N Ó S - X I Iem terras do oriente“Percebe-se bem, à medida que esse livro avança em páginas, a pressa de chegar à sua terra prometida. Aguardavam-no ‘irmãos’ jesuítas, amigos de velha guarda. Mas a demora por território macaense ia ser curta. Queria embeber-se todo, quanto antes, de cultura chinesa, a começar na língua. Ora, a ‘missão’ de Shiuhing, integrada na diocese de Macau, era o lugar ideal para este objectivo. A comunidade jesuítica da cidade, composta de padres e irmãos leigos, alguns deles nativos, mantinha um colégio e uma paróquia florescentes, além de outros centros missionários, todos activos, dispersos por esse enclave eclesiástico do que restava do Padroado português no Oriente. Logo tratou de aprender a língua, que acabou por dominar tão bem, que surpreendia os próprios naturais da terra. Até o nome achinesou, passando a ser conhecido por P’un-Sân-Fû.Missionou em vários postos confiados à sua Ordem. Criando raízes de sólida amizade entre os seus cristãos. Surpreendeu-o o triunfo definitivo do maoísmo. Sabendo que estava para ser encarcerado, os seus fiéis, sem olhar a riscos, passaram-no de barco, durante a noite, para território português. Identificara-se em tudo com eles, nos hábitos alimentares, dominando com destreza os pauzinhos, tomando banho com toalhas molhadas, cumprindo as vénias de estilo num banquete. A mãe, descobria, com uma ponta de humor, que até na fisionomia se ia tornando chinês.Se vinha à Europa, sempre a fugir, o seu pensamento ia a cada passo para essas terras, mesmo em circunstâncias que aparentemente nada tinham com elas. Na minha casa de S. Amaro de Oeiras, mostrei-lhe uma garrafa de porto com 150 anos e que, o lugar. Quem sabe se o seu destino de historiador e membro de várias Academias do ramo, não nasceria então. Sim ou não, foi por essa altura que se revelou, aos olhos dos superiores, como orador de largos recursos. Terminara a procissão solene da festa do Coração de Jesus, largamente concorrida de alunos e fiéis das localidades limítrofes. O Reitor do colégio pediu ao P. Benjamim que subisse à sacada da frontaria do edifício enorme e pregasse. No final, Reitor e mais padres, alguns com nome feito em púlpitos portugueses, correram a abraçá-lo, felicitando-o efusivamente.Veio o fim do ano escolar. E Benjamim entrega-se todo à preparação da partida para Macau. Despedidas da família e de amigos. Nesse tempo, a viagem por mar arrastava-se por dois meses, isolado do mundo em que se fizera, pois a bordo do modesto navio holandês Kertosono, de passageiros e carga, era quase impossível comunicar para a Pátria, mesmo através de carta retardada, escrita nalgum porto de escala.Contamos afortunadamente com Meia volta ao mundo, relato da viagem, que se tornou, sem que, ao redigir essas cartas, pensasse nisso, num retrato comovido da sua alma. Logo de entrada, evocando Camões, como, em muitas das outras páginas, citando os seus poetas, revela o ideal que o guia – a ânsia de dilatar ‘a Fé e o Império’. Ainda não tinham soprado sobre Portugal os ventos escaldantes do 25 de Abril, que, ao povoar-nos de mitos, fez de nós homens partidos. E perdidos da nossa mundividência multissecular. Ele ia de alma inteira, como procurará manter-se até ao fim, contra ventos e borrascas. Sem nunca se considerar ultrapassado. Até porque o ‘império’ que ajudaria a dilatar era de almas para Cristo, escudado na força indomável duma Fé vivida ‘até ao epigástrio’, como diria o Kierkegaard de O desespero humano.”
  • 174 175 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I F A L A R D E N Ó S - X I Iem parecer de entendidos, renderia, em leilão londrino, uns 200 contos. Pediu-ma de imediato, ‘para os meus chinesinhos’.Toda a sua actividade multiforme (capelão militar, pároco de S. António, professor do Liceu ou da Universidade locais, jornalista, historiador), traduzia, com naturalidade impressionante, a sua paixão missionária. Com sabedoria guiada pela prudência, não forçava ninguém. Considerava-se compensado de todos os sacrifícios, se baptizava um adulto. (…)Sabendo isso, na primeira vez que o visitei, em Macau, ao reparar que o corpo inteiro do Instituto Dom Melchior Carneiro, ainda a dar os primeiros passos independentes, assistiam à Missa solene, com respeito impressionante, mas com muito poucos a comungar, logo me explicou, ante a minha estranheza, que, se fosse a guiar-se pela simpatia pessoal, todos receberiam o baptismo. Não podia antecipar-se ao vento do Espírito, que sopra quando e como quer. Mas nas excursões culturais que, anualmente proporcionava aos professores, pelas maravilhas milenares da China continental e na Formosa, celebrava a Missa em chinês, para os católicos, com algum deles a fazer as leituras, distribuindo a comunhão aos que desejavam.Era duma fidelidade quase escrupulosa ao programa diário da vida espiritual: meditação matinal, Missa. Breviário e rosário completo. Entre as ‘recordações’ pessoais que me confiou, tudo muito pobre mas duma grande riqueza sobrenatural, figura uma agenda de 1986, em que, fiel à linha dum hábito jesuítico do noviciado, regista o seu dia-a-dia, com relevo preferencial para as actividades piedosas. Abrem sempre com quatro maiúsculas: O.J.T.P., precedidas por uma cruzinha, tudo a tinta vermelha. Para exprimir que segredo? Só encontro esta leitura: – ‘Ó Jesus, tem piedade’. (…)Nas estadias em minha casa de Oeiras, levantava-se muito cedo, tomava banho e recolhia-se, já vestido, a meditar e a rezar longamente. E, logo após o jantar, recolhia ao quarto, permanecendo umas duas horas, de luz acesa, em união com Deus.”O seu irmão Francisco considerou fundamentais estes pormenores, já que “omiti-los, realçando apenas a produção cultural, seria mutilar a sua personalidade.” Aliás, foi “na intensidade e fidelidade desta sua presença com Deus” que se podia explicar a sua impressionante actividade. “Porque amava Cristo sem reserva, é que entendia dever multiplicar-se por tudo e por todos.” 12 de Outubro de 2015
  • 176 177 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I F A L A R D E N Ó S - X I Ina maioria com uma enxurrada ignóbil de fantasias caluniosas, disparadas contra ele, mesmo quando pretendiam defendê-lo, e contra os superiores, religiosos ou diocesanos, em total deformação do que fundamentalmente estava em jogo. Escrever? As cartas nunca lhe chegavam às mãos. Telefonar? Recebia, invariavelmente, do lado de lá, a resposta sacramental: – ‘Father Benjamin is out’, ou então: – ‘is sleeping’, por muito que repetisse o apelo, distanciando horas. Amigos a que recorri o fossem ver, o segurança de serviço barrava-lhes a entrada. Com o desplante de ainda anotarem, numas folhas que guardo comigo, as palavras rituais: – ‘Tomei conhecimento’, assinadas compulsivamente: – ‘P. Benjamim’.”Impossibilitado de o contactar, o seu irmão Francisco decide deslocar-se a Macau para, com as autoridades locais e o inestimável apoio do Governador Vasco Rocha Vieira resolver o problema. Ao saberem da sua chegada, rapidamente os responsáveis da escola levaram o Pe. Benjamim para a cidade chinesa de Foshan, perto de Cantão, para que não pudesse ser encontrado. Depois de localizado, montou-se de imediato uma bem sucedida operação policial:“Tínhamos de transpor a fronteira, antes da meia-noite. Nunca me passara pela cabeça viver na pele um filme de James Bond, com a sirene do nosso carro, disparado, a atordoar as avenidas congestionadas de Macau, para logo arrancar, acompanhado pelo meu jovem pároco, com oficiais da INTERPOL chinesa e outro da macaense, a servir de intérprete.Já nos aguardava no Hotel, com a Marta e comparsa, detidos, um destacamento da INTERPOL chinesa, sempre amabilíssima connosco. O P. Benjamim dormitava (eram nos braços do Pai de todas as misericórdias“Nestas laudas, porventura longas, pelas páginas, mas sempre curtas, para a dimensão da sua personalidade, conto que ao menos um esboço fiel da sua alma venham encontrar quantos as lerem.” Da nota de apresentação do livro Com este artigo, concluímos a série que dedicámos à memória do Pe. Benjamim Videira Pires, com o propósito de incentivar os organismos culturais locais, oficiais e associativos, no sentido de se empenharem na comemoração do centenário do seu nascimento, em 2016.O livro “P. Benjamim Videira Pires, Meu Irmão” (IIM, Agosto de 2011) será indispensável para investigadores, jornalistas e quantos queiram tomar parte nas celebrações, que esperamos sejam inteiramente dignas da memória da alta estatura intelectual desta figura incontornável da vida cultural de Macau, da segunda metade do século XX.Apreciada, no essencial, a obra notável de Benjamim Videira Pires, nas dimensões literária, humanística, pedagógica, histórica e missionária, vem a propósito recordar a fase final do seu percurso, marcado por um grave conflito tornado público, respeitante à contenda pela legítima propriedade do Instituto D. Melchior Carneiro, que ele sempre considerara a sua maior realização material, fruto de imensa dedicação e perseverança. Ninguém melhor do que o seu irmão Francisco, que acompanhou angustiadamente aqueles anos derradeiros do Pe. Benjamim, podia relatar de forma mais sentida aquela feroz luta que culminou no regresso do sacerdote a Portugal, depois de resolvido aquele magno problema:“Custa chegar lá. Também porque se intrometem covardias inomináveis, que pontuam o nosso tempo de espera. Foi o que tanto me levou a hesitar, em três anos de angústia inimaginável, sem receber letra ou escutar palavra de meu irmão, que eu previa num martírio atroz, de onde a onde quebrado por jornais recebidos de Macau,
  • 178 179 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I F A L A R D E N Ó S - X I I3:30 da madrugada), reclinado na cabeceira da cama, respirando pesadamente. Toquei-lhe no ombro, chamando: – ‘Benjamim’. Abriu os olhos e sorriu-me, perguntando, assarapantado: – ‘És tu, Francisco?’ Mal lhe respondi: – ‘Sim, sou eu, não estás a ver nenhum fantasma.’ Logo inquiriu, sorrindo e brincando, enquanto apontava o Sr. P. Fernando Calado, meu companheiro, um pouco atrás de mim: – ‘E quem é esse homenzarrão?’Fomos para quartos magníficos, reservados pela polícia, até que, às 11 da manhã, com a Marta e o pseudo-enfermeiro presos, e eu com meu irmão na mesma ambulância, largámos para Macau, não sem que, antes, no átrio do hotel, ela se recusasse a pagar a conta do P. Benjamim. Nunca suspeitara que o meu VISA da CGD pudesse proporcionar-me tanto júbilo, nesse cabo do mundo. Mas foi lá que as minhas suspeitas se confirmaram, pelo que me comunicou a INTERPOL chinesa. Alguém informara a Marta ou a filha da minha ida a Macau, pelo que se apressaram a retirar meu irmão para longe, a fim de lá o forçarem a fazer-lhes testamento do colégio. O que o P. Benjamim recusou tenazmente.Esta a última batalha que urgia decidir, mesmo que, para tranquilidade de meu irmão, já para nada importasse. Até à última, tentaram apoderar-se do colégio. Ainda por 1996, a Doutora Fátima veio expressamente a Lisboa, para tentar que eu entrasse no jogo. Recusei-me a recebê-la. Ao P. Jaime Coelho teve a ousadia (ou insensatez?) de afirmar que, sendo o colégio propriedade de meu irmão, este poderia doá-lo a quem quisesse. Já com ele tranquilamente em Mong Há, assistido por um enfermeiro da obra social do bondoso P. Luís Ruiz, S.J., e sempre com dois polícias de vela, o grupelho de uns dez indivíduos, chefiados pela Fátima e um tal Rosa, a servir de intérprete para português, tentaram ainda encontrar-se com ele, o que eu impedi. O pobre argumento esgrimido pelos advogados era esse. E urgia destruir o sofisma que arrastava a questão, no tribunal. O Dr. Manuel Doutel, afilhado-advogado que fora comigo, teve, então, a ideia decisiva: – perguntar a meu irmão se, para acabar com malabarismos jurídicos, lhe parecia bem passar uma procuração, que, anulando quantas lhe tinham inventado, declarasse o Instituto propriedade da Companhia e, portanto, sem possibilidade de contestação posterior. Assentiu logo. Como eu já levava comigo, de Portugal, o nome dum excelente advogado de Macau, o Dr. Luís Gonzaga Cavaleiro de Ferreira, de uma distinta família amiga de Bragança, tudo ficou solucionado no dia seguinte.Tão vivo era no meu irmão ânsia de voltar, que todos os dias me perguntava, insistentemente: ‘Quando vamos para a Torre?’ Visitas dos seus amigos de sempre, desde a Senhora Dra. Anabela Ritchie à professora Dra. Beatriz Lee, acudiam constantemente, felizes por vê-lo de novo, e liberto. Mais que todos, o Senhor Governador (que, apenas reentrado nas ‘Portas do Cerco’, se demorou uns 20 minutos com ele, no Hospital de S. Januário, confessando-me, no final, que há 4 anos que não via o P. Benjamim ‘tão feliz’), diariamente se informava de que nada lhe faltasse. E acorreu à despedida, no aeroporto. Despedida de alegria irreprimível, para todo o grupo de íntimos que não quiseram faltar, para lhe dar o último abraço da vida.”O regresso a Portugal, em Agosto de 1998, proporcionou-lhe o retorno à tranquilidade, o reencontro consigo mesmo e a reconciliação com tudo e com todos. Foi alvo de justíssimas homenagens, incluindo a atribuição, pelo Presidente da República, da Grã-Cruz da Ordem de Sant’Iago da Espada. Pouco mais viveria. No momento do definitivo adeus, “no seu rosto, impressionavelmente sereno e dentro do olhar
  • 180 181 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I F A L A R D E N Ó S - X I Iausente, pairava uma Paz sobrenatural. Já não era deste mundo. O tempo conquistara a Eternidade, nos braços do Pai de todas as misericórdias”.Importa agora recordar e valorizar o seu relevantíssimo legado intelectual e republicar a sua vasta obra, desde intervenções doutrinárias a estudos históricos, sem olvidarmos a poesia e aquele que foi, para muitos, o seu livro mais marcante: “Os extremos conciliam-se (Transculturação em Macau)”, editado pelo Instituto Cultural de Macau em 1988. 19 de Outubro de 2015O nosso sempre recordado Adé, notável poeta macaense e incansável cultor e divulgador do patuá, escreveu o seu primeiro livro em prosa na sequência de uma viagem à Escandinávia, a convite da companhia aérea SAS, em Outubro de 1960. Era então chefe de redacção do jornal católico “O Clarim”. Juntamente com ele, seguiram nessa viagem promocional dois jornalistas de Hong Kong, dois da Índia, um da Indonésia, dois da Malásia, dois do Paquistão, dois australianos e, a partir de Tóquio, dez japoneses. As suas crónicas foram reunidas em livro que o próprio “O Clarim” publicou em 1961. Chamou-se “Escandinávia – Região de Encantos Mil”. Quando a Fundação Macau assumiu a responsabilidade de organizar a obra completa de José dos Santos Ferreira (Adé), saiu do prelo uma nova edição daquela obra em Março de 1994.Para além dos seus bem articulados relatos, que o próprio autor, modestamente, classificou como “um trabalho sem pretensões”, “podendo, quando muito, merecer o acolhimento duma gaveta, onde as pessoas, ordinariamente, guardam os objectos que os amigos lhes oferecem”, o livro reuniu consistentes apontamentos de viagem, contendo informação muito completa sobre cada um dos países escandinavos visitados, nas suas variadas vertentes, da política à social, e sobre a SAS e a rota polar, então inaugurada. Nado e criado em Macau, esta viagem foi, para Adé, um sonho realizado, dado que “nunca tinha saído deste Oriente longínquo, para ele banal, mas sempre misterioso para os espíritos ávidos de saber dos Ocidentais”. Porém, “para ele, o mistério continuava oculto nas regiões distantes da Europa”. “A sua ambição era, pois, efectuar uma viagem de recreio, o seu sonho doirado conhecer os encantos do Jardim da Europa à beira-mar plantado”.o primeiro livro do nosso Adé“Curiosamente, Adé era, também, um excelente prosador em português, com grande facilidade na escrita, enorme rigor e elegância, sendo o seu primeiro livro, precisamente, em prosa e em português.”Carlos Marreiros, “Adé dos Santos Ferreira, Fotobiografia”, Fundação Macau, 1994
  • 182 183 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I F A L A R D E N Ó S - X I IViagem inolvidávelFoi num quadrimotor da Thai International que os jornalistas de Hong Kong e Macau partiram do velho aeroporto de Kai Tak, em Kowloon, com apenas 24 passageiros, rumo a Tóquio, com paragem em Taipé. Às 13.00 horas de 11 de Outubro de 1960, o avião descolou, para chegar à capital nipónica só às 21.35, “após uma magnífica viagem”. Na noite seguinte, depois de um dia passado nesta deslumbrante metrópole, completamente recuperada dos horrores da II Grande Guerra, os convidados da SAS partiram para Copenhaga, com breve escala em Anchorage (Alasca), pela rota polar, num DC-8C, “gigantesco aparelho de quatro motores, propulsionado a jacto”, que fez a viagem em 14 horas e 35 minutos.“Era a nossa primeira experiência a bordo dum jacto e o nosso primeiro contacto com o espaço num colosso que não parava de subir e correr desenfreadamente, na ousada ânsia de alcançar a altitude de 40 mil pés e as 600 milhas horárias”, exclamou o autor numa das suas primeiras crónicas desta inolvidável e marcante viagem.O DC-8C aterrou em Copenhaga depois de terem servido o pequeno-almoço a bordo. “Era o segundo que tomávamos nesse dia – manhã ou noite, nem sabemos, tal a confusão de ver duas vezes nascer o Sol e duas vezes escurecer o tempo”. No aeroporto, receberam bilhetes para seguirem num Caravelle para Estocolmo, onde iriam iniciar o programa da digressão pelos países escandinavos. “Não queiram saber, estimados leitores, tomámos o nosso terceiro pequeno-almoço. Eram 9 horas da manhã e era essa a refeição que serviam a bordo àquela hora. Tudo por causa do avião, o demónio veloz, que fugia ao tempo, transtornando-nos a cabeça com uma salada russa de sóis-nascentes e noites escuras”.crónicas deliciosasSeguiram-se crónicas deliciosas, com elaboradas descrições entremeadas com tiradas de refinado humor. Para quem gosta de literatura de viagens, este é um daqueles livros que merecem ser lidos e relidos, como acabei de fazer depois de arrumar mais algumas estantes da minha biblioteca, na secção dedicada a Adé, onde estão alinhadas muitas das suas obras, incluindo as que a Fundação Macau reeditou na década de 1990, e a Fotobiografia que Carlos Marreiros, com o seu reconhecido talento e terna sensibilidade, lhe dedicou um ano após o seu passamento. Guardo dois exemplares desta preciosa fotobiografia, um oferecido pela Fundação Macau, que em boa hora assumiu a edição, e o outro pelo autor com estas simpáticas palavras: “Meus Caríssimos Maria João e Jorge Rangel, com o meu abraço amigo e genuinamente macaense, a minha homenagem e o meu elevado apreço”.É nessa fotobiografia que Carlos Marreiros nos lembra que “curiosamente, Adé era, também, um excelente prosador em português, com grande facilidade na escrita…” Isso é visível nestas crónicas de viagem e no muito que escreveu enquanto jornalista.Após um intenso périplo de nove dias por terras da Suécia, da Noruega e da Dinamarca, por especial deferência da SAS, o nosso Adé viu realizado outro dos seus maiores sonhos, acalentado desde os verdes anos da meninice, que se materializou num complemento para ele talvez ainda mais significativo do que toda aquela maravilhosa visita à Escandinávia, entretanto concluída: uma viagem de doze dias a Portugal. “A SAS levou a sua generosidade ao ponto de, sem olhar a despesas, nos proporcionar uma viagem gratuita a Lisboa, em 1.ª classe e com todas as honras e atenções devidas
  • 184 185 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I F A L A R D E N Ó S - X I Ia um convidado da Companhia”. A alegria de Adé ficou bem expressa na crónica que traduziu a sua satisfação por pisar caminhos da Pátria que, como Português do Oriente, tanto soube, quase sem limites, amar e honrar. Parte dessa crónica integrará um dos nossos próximos artigos, além de uma outra, também incluída no livro, sobre como Macau era bem ou mal conhecida fora de portas. o regresso a MacauNo momento da partida de Lisboa, no dia 4 de Novembro de 1960, no aeroporto da Portela, Adé viu-se rodeado de parentes e amigos, entre os quais “vários estudantes, antigos colegas e outros conterrâneos”. “Tanta gentileza e prova de amizade tornaram muito mais difícil a despedida que, a princípio, julgávamos simples e isenta do embaraço da comoção”, exclamou Adé na última crónica desta série relacionada com a viagem à Escandinávia e a Lisboa. “Mas os amigos são sempre amigos e só Deus sabe quanto custa, por vezes, afastarmo-nos deles para longe, com tão poucas esperanças – como é o caso de alguns – de os tornarmos a ver”.Saindo de Lisboa num aparelho da SAS, Adé ainda pernoitou em Genebra, na Suíça, e daí seguiu, no dia seguinte, num voo da Swissair para Zurique, onde um DC-7C da SAS o levou para o Extremo Oriente, com paragens em Roma, Abadan e Karachi, aterrando em Banguecoque, com nova pernoita, até voar, finalmente, para Hong Kong num quadrimotor da Thai International, sempre como convidado da SAS. Todos estes troços e paragens mereceram interessantes referências nas crónicas que Adé escreveu e que classificou como “toscas”, assim como nos seus apontamentos, que considerou “mal alinhavados por bem dizer de quanto vira e sentira”. E não deixou de manifestar o seu “profundo reconhecimento por tantas atenções e tão excelentes momentos” que lhe foram proporcionados. 26 de Outubro de 2015
  • 186 187 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I F A L A R D E N Ó S - X I Iesposa, a passar umas férias curtas e ambos saíram encantados com o que viram e puderam sentir na nossa acolhedora terrinha.Continuando, explicou-nos que se tinha feito um grande admirador de Macau, desde que começou a interessar-se pela sua História, tanto mais que tinha conhecimento de que a primeira obra sobre Macau escrita em língua inglesa era da autoria dum sueco que, segundo lhe haviam dito, morrera em Macau. Continuou a ler as obras de Jack Braga e a sua admiração por Macau foi de tal ordem que até o levou a conhecer pessoalmente a cidade.Enquanto Parkner assim falava, os outros estrangeiros que se encontravam à volta mostraram-se admirados, porquanto alguns nem sabiam da existência de Macau. Foi o próprio Parkner, então, que se encarregou de dizer aos outros o que era Macau, de quem era e onde se encontrava situada.Entretanto, entrou na conversa um outro cavalheiro já de certa idade, o Sr. Meinich, norueguês, se não estamos em erro, que também falou de Macau com simpatia, pois tinha lá vivido durante um ano (1938-1939) como funcionário das Alfândegas Chinesas. Citou vários nomes de pessoas conhecidas com quem havia, noutros tempos, travado conhecimento, mantendo com elas amistosas relações.E a conversa, durante grande parte do almoço, foi sobre Macau, acabando os Srs. Parkner e Meinich por convencer os restantes escandinavos residentes em Tóquio que não poderiam regressar às suas terras, sem primeiramente conhecer Macau. Houve, porém, um desses que nunca tinha estado em Macau, que nos perguntou se era reacções de Adé a opiniões positivas e negativas sobre Macau“Deixámos com imensas saudades os não poucos amigos dinamarqueses, suecos e noruegueses, de quem nos despedimos, não sem emoção e… com promessa de um dia voltar. Também eles, de tanto ouvirem falar da nossa querida Macau, nos prometeram aqui nos encontrar um dia.”Adé, “Escandinávia – Região de Encantos Mil”, 1961 Ao longo de toda a vida Adé foi sempre um acérrimo defensor e promotor de Macau, da sua história, do legado e do seu papel como ponto de encontro e porto de abrigo. Insurgia-se contra a ignorância dos que tinham opinião feita sobre esta terra sem a conhecerem e a má fé de pedantes estrangeiros, muitos dos quais residentes em Hong Kong, que, deslumbrados com o rápido crescimento da colónia britânica, apoucavam este seu mais antigo vizinho.conhecer ou não MacauNa viagem que fez, com um grupo de jornalistas à Escandinávia, deixou-nos este testemunho sobre “Como Macau é conhecida fora de portas”:“Macau é conhecida no estrangeiro, mas, duma maneira geral, muito deficientemente. Falam dela os japoneses, os noruegueses, etc., mas uns sem sequer saberem onde ela fica, e outros com conhecimentos adquiridos junto de fontes que não merecem confiança, ao sabor de sensacionalismo barato.Em Tóquio, travámos conhecimento, ou melhor, fomos procurados por um escandinavo chamado Carl Parkner que, na capital nipónica, desempenha as elevadas funções de ‘Reservations manager’ da Região da Ásia da SAS. Este simpático funcionário da SAS veio ao nosso encontro, no almoço oferecido pela companhia aos jornalistas que iriam participar no voo inaugural do ‘DC-8C’, porque vira, na lista dos convidados, o nome dum elemento de Macau.‘Macau, disse-nos Parkner, é para mim das cidades mais encantadoras que tenho conhecido.’ Na realidade, como explicou depois, tinha estado em Macau com sua
  • 188 189 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I F A L A R D E N Ó S - X I Iverdade que em Macau se comia crânio de macaco, se viam homens com trança, enfim, uma série de disparates que tinha lido não se recorda onde.Fora das reuniões, em conversa amena com colegas da Malaia, Singapura, Indonésia, etc., temos também ouvido perguntas disparatadas acerca de Macau. Alguns mais atrevidos chegam a experimentar a nossa reacção, com afirmações de carácter destrutivo e até desprestigiantes. Escusado será dizer que para cada um tivemos respostas adequadas – dadas com a maior presença de espírito – e perguntas – feitas com certa malícia – sobre as suas terras, tendo umas e outras efeitos de mordaça às bocas famintas de mal-dizer.”outras situações, na viagemAquelas conversas sobre Macau tiveram lugar em Tóquio, na véspera da partida para Copenhaga. Entretanto, em Estocolmo, Adé deu-nos conta da sua tentativa de contactar a representação diplomática portuguesa:“Pegámos no telefone e ligámos para o Consulado de Portugal. Desde que saímos de Hong Kong, ainda não tínhamos tido a oportunidade de conversar com quem quer que fosse, em português, e a ‘fome’ do idioma pátrio já vinha sendo grande. Atendeu-nos o próprio cônsul, mas – oh! desilusão – tivemos ainda de utilizar a língua inglesa. O nosso cônsul em Estocolmo, aliás cavalheiro muito gentil, muito amigo dos Portugueses e de vinhos portugueses, é sueco, fala, além das línguas escandinavas, o inglês e um pouco de espanhol e tem sempre muito gosto em receber portugueses no Consulado. Contudo, este prazer só lhe é proporcionado de quando em quando, porque a comunidade portuguesa da Suécia limita-se a uns poucos de operários e marinheiros, que não dão nenhum incómodo ao pessoal consular. Recebeu – disse-nos – há dois anos, a visita duma macaense, de cujo nome se não recordava, que a estas horas já é cidadã sueca, naturalizada.Por intermédio, então, do Sr. Gote Andersson – assim se chama o nosso simpático cônsul que uma hora depois nos recebia muito amavelmente no Consulado, – procurámos entrar em contacto com o nosso embaixador, no intuito de o ir cumprimentar e de falar e ouvir falar a nossa língua. O nosso embaixador, Sr. Augusto Patice, porém, não estava na Embaixada, mas sim em casa. O Sr. Andersson, sempre amável, ligou, então, para a sua residência, dizendo-lhe que estava no Consulado um português, vindo de Macau, que lhe queria falar pelo telefone e ser depois recebido. Resposta: ‘Diga-lhe que pode ser recebido amanhã às 11 horas, mas não há necessidade de falar pelo telefone.’ Bem se esforçou o simpático cônsul, insistindo na questão de nos passar o auscultador, para ouvirmos ‘duas palavras’ em português, mas não foi bem sucedido. Pediu-nos, por fim, imensas desculpas. E nós, mais uma vez desiludido, pedimos-lhe: ‘Diga-lhe, então, o Sr. cônsul, que passe muito bem e que está dispensado também da maçada de nos receber.’”Na mesma crónica, Adé referiu o seu encontro com o proprietário do Castelo de Rockelstad, conde Egil von Rosen, “pessoa muito viajada, que se mostrou particularmente interessada por Macau, de que ouvira falar mas que nunca tivera ocasião de conhecer” e a conversa com um norueguês que havia feito comentários pouco agradáveis sobre Macau e que lhe pediu desculpas quando soube que ele era macaense. A resposta que Adé lhe deu foi “Não é a nós que deve pedir desculpas, mas sim àqueles que tiveram o trabalho infeliz de vos dar uma ideia tão errada de Macau”.
  • 190 191 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I F A L A R D E N Ó S - X I INa Dinamarca, ao ser armado “cavaleiro da Ordem de Tuborg”, na sede daquela famosa cervejeira, juntamente com outros colegas, aproveitou a oportunidade para “dar aos presentes uma ideia geral sobre Macau, sua gente, seus costumes e sobre a acção dos Portugueses nestas paragens longínquas”. Quem com ele esteve nesta memorável viagem, terá certamente aprendido imenso sobre esta terra e sobre a presença de Portugal no Oriente.3 de Novembro de 2015Concluída uma visita de nove dias a países escandinavos, integrado num grupo de jornalistas da Ásia, José dos Santos Ferreira (Adé), que chefiava então o bissemanário macaense “O Clarim”, foi contemplado com uma viagem adicional, a Lisboa, vendo concretizado um velho sonho sempre adiado. Foi assim que resumiu as impressões que colheu da capital portuguesa e dos encontros com familiares e amigos: A viagem“O ‘Caravelle Jet’ da SAS, que nos levou de Copenhaga a Lisboa, está equipado com dois reactores ‘Rolls-Royce Avon’. Transportou 60 passageiros para a Alemanha Ocidental, França, Espanha e Portugal, à velocidade média de 515 milhas à hora, ou sejam 825 quilómetros, à altitude aproximada de 30 mil pés.Levantou voo do aeroporto de Copenhaga às 13.30 horas e às 15 horas aterrava em Stuttgart, na Alemanha Ocidental. Às 15.45 estava novamente em voo, com destino a Nice, onde aterrou às 17.10. Trinta e cinco minutos depois, lá estava outra vez descolado, aterrando em Madrid, às 19.35.O nosso coração batia aceleradamente, à medida que o ‘Caravelle’ se aproximava de Lisboa, cidade de encantos e maravilhas, conforme nos haviam descrito, mas que nunca víramos, apesar da grande ansiedade e do desejo irresistível de a conhecer. Mais 55 minutos de voo, partido de Madrid, e eis-nos no aeroporto da Portela, na velha e sempre nova Lisboa, no coração dessa mimosa ‘menina’, capital do Portugal Europeu.”doze dias de Adé em lisboa, em 1960“O nosso coração batia aceleradamente, à medida que o ‘Caravelle’ se aproximava de Lisboa, cidade de encantos e maravilhas, conforme nos haviam descrito, mas que nunca víramos, apesar da grande ansiedade e do desejo irresistível de a conhecer.”Adé, “Doze dias em Lisboa”, 1960
  • 192 193 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I F A L A R D E N Ó S - X I IFamiliares e amigos“Se grande foi a alegria de pisarmos pela primeira vez o solo da Pátria-Mãe, imensa foi também aquela que experimentámos ao vermos e abraçarmos parentes nossos, que já conhecíamos mas que nunca tínhamos visto, e amigos que há muitos anos não víamos.O nosso primeiro contacto com Lisboa registou-se imediatamente na noite da chegada, graças à gentileza do velho amigo José (Zézé) Sales da Silva que, no seu carro e em companhia do seu irmão, também nosso velho amigo Gustavo (Guta), nos levou a um passeio pela enorme e movimentada capital do Portugal Europeu.No dia imediato e nos dias que se lhe seguiram, não mais tivemos um momento de completa inactividade, tantos eram os amigos que nos quiseram cumular de atenções, levando-nos a agradáveis excursões e visitas a numerosos lugares históricos e centros de diversão, assim como a festas e suculentas refeições saídas da bela cozinha portuguesa.É-nos impossível citar nesta despretensiosa crónica nomes de tantos amigos e conterrâneos e doutras pessoas mais que, pronta e atenciosamente, nos proporcionaram momentos de gratíssimas recordações, durante os nossos escassos doze dias de permanência em Lisboa. Todavia, embora a todos nos confessamos igualmente gratos, não podemos deixar de aqui mencionar, além dos nossos estimados tios Luís e Hermínia dos Santos Ferreira, os irmãos Sales da Silva já atrás citados, os nossos amigos de infância Rogério Monção Leão e Raúl Adelino Mascarenhas, e suas esposas, os velhos amigos Francisco Freire Garcia e Sebastião Morais e os filhos deste, José e Virgínia, e os simpáticos casais Fernando e Lídia de Assunção Neves e Mr. And Mrs. S. Thomas.Ao Sr. Dr. João da Costa Freitas, chefe da Repartição Política do Ministério do Ultramar, ficámos também a dever atenções e gentilezas que jamais esqueceremos.”A cidade“Lisboa é, a nosso ver, uma grande cidade, onde se nota um surto de progresso maravilhoso, que a torna dia a dia mais moderna e atraente. O seu movimento de tráfego é intensíssimo, chegando a dar a impressão de que já não cabem nas ruas da capital portuguesa as numerosas viaturas automóveis que nelas circulam a toda a hora do dia e da noite.Achámos o custo de vida em Lisboa mais baixo que o doutras cidades europeias que visitámos, mas mais elevado que o de Macau, em determinados aspectos. Contudo, a vários residentes de Lisboa ouvimos queixar-se da carestia de vida que lá se vem fazendo sentir, lamúrias que não chegámos a ouvir nas capitais dos países escandinavos, quanto ao custo de vida de lá. A explicação desta diferença na maneira de encarar o custo de vida deve residir no facto de, na Escandinávia, os ordenados serem duma maneira geral compensadoramente elevados, a todos permitindo vida desafogada e os maiores confortos, a despeito da carestia, enquanto em Lisboa os ordenados, na sua maior parte, não são por forma a permitir larguezas nem, em certos casos, as comodidades essenciais à própria existência.
  • 194 195 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I F A L A R D E N Ó S - X I INo Solar da Hermínia, onde estivemos a convite do amigo Rogério Leão, tivemos o prazer de ouvir a exímia cantadeira do nosso fado, Hermínia da Silva, que levou a sua gentileza ao ponto de nos dedicar uma canção e de nos oferecer uma fotografia sua autografada.Assistimos a um encontro de futebol no campo de Alvalade, o Sporting contra o Baía, campeão brasileiro, que não chegou a impressionar-nos. Antes pelo contrário, guardámos deste encontro tristes recordações, pelas cenas de antidesportivismo em que foi fértil. Visitámos ainda Cascais e Estoril, e a célebre Boca do Inferno, assim como Sintra, e depois Setúbal, Sesimbra e Portinho da Arrábida, que são bocados de Portugal dignos de ser visitados, sobretudo o último.Adorámos o café de Lisboa, mas, confessamos, não nos agrada muito o ambiente dos Cafés. E se mais não vimos, não só da capital como de outros pontos interessantes da Metrópole, foi porque a oportunidade nos não sorriu, contentando-nos com aquilo que nos era dado apreciar, consoante as nossas possibilidades ou graças às gentilezas dos amigos.Lisboa, como todas as outras grandes cidades do Mundo, tem virtudes e também males e defeitos. Podendo qualquer visitante esquecer ou não dar atenção a estes, facilmente colocará Lisboa no rol das maiores capitais europeias, pois que muitos e bem grandes são os seus encantos. Partimos de Lisboa, com destino a Macau, no dia 4 de Novembro corrente, já com imensas saudades e pena de lá sair, depois de doze dias de ‘verdadeiras férias’ e precisamente quando tínhamos começado a conhecer melhor e a gostar muito da cidade.”Foi um relato assaz breve, mas esta deslocação a Lisboa ficou-lhe eternamente na memória e foi tema recorrente nas suas sempre agradáveis conversas e tertúlias com familiares e amigos.9 de Novembro de 2015
  • 196 197 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I F A L A R D E N Ó S - X I Ido certame, e Manuel Ferreira Cabrita, Horácio de Oliveira e Paul du Toit, pessoas que, desde sempre, mais de perto acompanharam os organizadores, a quem prestaram directa colaboração.”um emocionante relatoDepois de elogiar a colaboração dos serviços públicos e o apoio do Governador Marques Esparteiro e da sua esposa, que cortou a fita simbólica de abertura do circuito, Adé proporcionou aos seus leitores esta emocionante reportagem:“Aproximava-se, então, o momento da grande expectativa. Após os três sinais regulamentares dados pela sereia, Sua Exa. o Governador baixou a Bandeira Nacional para dar a partida. Os concorrentes encontravam-se de pé, frente aos carros respectivos, estes com a frente voltada para o mar. Ao sinal de largar, correram todos para os carros, uns saltando para dentro destes, outros abrindo rapidamente a portinhola, ao mesmo tempo que punham o motor a funcionar. Esta emocionante partida valeu por todo o resto da prova. Foi simplesmente extraordinária!Com uma rapidez de relâmpago, o corredor G. J. Bell, num ‘Morgan’ de 2088 c.c., em menos de 30 segundos já se encontrava no circuito. A seguir, largaram dois carros de turismo, depois o ‘Triumph TR 2’ do nosso conterrâneo Carvalho, seguido de mais dois outros da mesma marca. O ‘Austin Healey 100’, conduzido por R. I. Pennels, que era o carro mais potente da prova – 2660 c.c. – perdeu imenso tempo na largada, assim como o ‘MG Special’ do único corredor de Macau, Macedo Pinto, que, segundo nos constou depois, no meio da excitação, estava a insistir com o carro travado. como Adé viu o I grande Prémio de Macau“O nosso conterrâneo Eduardo Carvalho, depois de G. J. Bell, o infeliz condutor do ‘Morgan’, foi, sem dúvida, o volante que mais impressionou a assistência. Também ele foi o concorrente mais aplaudido...”A propósito do primeiro livro do nosso saudoso Adé, republicámos algumas das suas crónicas, reunidas no volume intitulado “Escandinávia – Região de Encantos Mil”. Em tempo de Grande Prémio, aproveitamos para relembrar um dos seus muitos artigos e reportagens respeitantes ao desporto macaense, sendo este, de 1954, dedicado ao 1.º Grande Prémio de Macau: “Quando, a 17 de Julho findo, se reuniram, pela primeira vez, no Riviera, com os jornalistas, a quem comunicaram a sua ideia de levar a efeito a realização de provas de automobilismo, longe estavam, certamente, os organizadores do GRANDE PRÉMIO DE MACAU de pensar que duma tão simples quão modesta iniciativa poderia advir tamanha grandiosidade e tão grada repercussão para a vida desta risonha e progressiva terra portuguesa. E porque o festival de automobilismo, em tão boa hora promovido por esse núcleo de entusiastas da modalidade concluído, no domingo passado, em tão grandioso sucesso, não pode deixar de ter conquistado, para si e para a modalidade, uma página gloriosa na história desportiva desta terra. (…)Cremos não haver exagero da nossa parte se dissermos que a história do Grande Prémio de Macau entrou, forçosamente, como assunto de todas as conversas nos meios desportivos das principais cidades do Oriente, mas quantos haverá que terão reconhecido o grande mérito de toda a organização e a inexcedível boa vontade e eficácia daqueles que tão prontamente colaboraram e, por conseguinte, contribuíram para o bom êxito do certame? Há nomes que não poderão ficar esquecidos, pelo muito que eles representam para a efectivação deste, digamos, ensaio automobilístico no nosso meio desportivo. São eles: Carlos Humberto da Silva, António Nolasco, João Pires Antas e Fernando Macedo Pinto, os principais responsáveis pela organização e sucesso
  • 198 199 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I F A L A R D E N Ó S - X I IEntraram ao todo 15 carros: na categoria de carros de desporto ou especiais, 3 ‘Triumph TR 2’, 1 ‘Morgan’, 1 ‘Austin Healey 100’ e 1 ‘MG Special’; na de carros de turismo, 3 ‘Fiat 1100’, 2 ‘Hillman’, 1 ‘Citröen’, 1 ‘Ford Zephyr’, 1 ‘Mercedes Benz 220’ e 1 ‘Riley 2 ½’. O ‘Morgan’, rapidíssimo, tomou logo a dianteira, fechando a primeira volta com quase um terço do percurso de avanço sobre o segundo. Porém, antes de fechar a 5.ª volta, ao passar junto da guarita que fica na curva do reservatório de água, para infelicidade do condutor, saiu-lhe uma roda no carro, vindo este a ficar inutilizado para o resto da prova. O motorista, contudo, não sofreu nada, pois que a viatura, apesar da velocidade que trazia, vinha encostada ao muro do Porto Exterior, tendo o condutor a presença de espírito de não largar o volante e conduzir o carro travando até parar completamente, mas já na rampa que desce para a água. A prova continua com o ‘Austin Healey’, de Pennels, na dianteira, seguido dos ‘Triumph’. Mais atrás seguem os carros de turismo, comandados pelo ‘Fiat 1100’ de Ritchie, e entre aqueles o ‘MG’ de Macedo Pinto. Contudo, à 8.ª volta já Macedo Pinto se achava à frente de todos os carros de turismo. À 11.ª volta, Pennels pára o seu ‘Austin Healey’, n.º 9, junto dos poços, para a substituição duma roda. Passa então a comandar o desfile o ‘Triumph’ com o n.º 5, de Eduardo Carvalho, seguido por Paul du Toit, n.º 8, e Reginaldo Rocha, n.º 14. Atrás, seguem Macedo Pinto, n.º 11, e Robert Ritchie, n.º 19, num ‘Fiat 1100’. Os restantes vêm mais atrasados, com Wen Lenard, n.º 4, na cauda. Tendo completado a 14.ª volta, o ‘Austin Healey’, n.º 9, de Pennels, sofre um acidente perto da ponte sita em frente ao quartel de S. Francisco e fica inutilizado para o resto da prova. Saliente-se aqui a admirável perícia do condutor que, com inexcedível presença de espírito, conseguiu, após manobras dificílimas, tirar o carro da direcção de uma área onde se encontravam dezenas de espectadores, acabando por embater com ele contra um poste.No circuito há agora 13 carros. Entre o n.º 5, de Carvalho, e o n.º 8, de P. du Toit, é travada luta tremenda para a conquista do posto de comando. O n.º 5 não larga a dianteira, nem o n.º 8 o seu intento de o ultrapassar. Esta luta mantém a assistência emocionada e mostra, ao mesmo tempo, a destreza de ambos os volantes. Entretanto, Macedo Pinto, n.º 11, caminha sereno e muito seguro, prosseguindo na prova com uma regularidade só comparada à dos melhores volantes. Muito menos seguro e perdendo sempre terreno, segue o ‘Triumph’ de Reginaldo Rocha, n.º 14. Atrás destes, vemos o ‘Fiat 1100’, de Ritchie, n.º 19, sempre fugindo dos restantes. Entre estes, salientam-se o ‘Fiat 1100’, de Astwood, n.º 20, e o ‘Hillman’, de Steane, n.º 26. A cerca de 2 horas da prova, o efectivo dos carros em competição baixou para 12, em virtude da desistência do n.º 25, um ‘Riley 2 ½’ conduzido por A. White, o qual teve uma avaria mecânica, depois de completadas 20 voltas. Até ao fim da prova não se registou mais nenhuma desistência nem acidente, à excepção duma ou outra ultrapassagem em circunstâncias dificílimas que bastaram para pôr os cabelos em pé a grande parte da assistência. De todos os carros, os únicos que não pararam junto dos poços vez nenhuma foram, precisamente, os três conduzidos pelos portugueses, Eduardo Carvalho, Reginaldo Rocha e Macedo Pinto.É chegado o fim da prova e os carros cortam a meta no meio dos animados aplausos dos espectadores. Em primeiro lugar, chega o ‘Triumph TR 2’, n.º 5, do volante
  • 200 201 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I F A L A R D E N Ó S - X I Iportuguês Eduardo Carvalho, classificado, portanto, vencedor absoluto da prova. Paul du Toit e Reginaldo Rocha, ambos em ‘Triumph TR 2’, classificam-se, respectivamente, em 2.º e 3.º lugares, pertencendo a Macedo Pinto, em ‘MG Special’, o 4.º lugar na classificação geral.” Esta reportagem é um testemunho precioso, que nos permite ver como a vontade de um punhado de carolas fez nascer um evento desportivo que se transformou num certame de relevância mundial no domínio do automobilismo de alta competição, projectando positivamente a imagem de Macau no exterior. 16 de Novembro de 2015Uma reportagem do nosso sempre lembrado Adé, de 1954, fez-nos recordar, no artigo anterior, os primórdios do Grande Prémio de Macau. Junto, agora, alguns apontamentos pessoais e parte de um texto de 1982 que muito bem descreveu o arranque desse notável certame que, rapidamente, se transformou no maior cartaz desportivo-turístico deste território. Memória pessoalÉramos ainda crianças, quando eu e os meus colegas e amigos mais chegados nos deixámos contagiar pelo ronco dos motores e pela surpreendente azáfama que viera abalar positivamente esta então muito pacata cidade. Desesperados com a nossa falta de atenção na escola, os professores, naqueles dias agitados que antecederam a realização do I Grande Prémio de Macau, optaram por deixar a miudagem sair mais cedo para, no improvisado circuito da Guia, ver passar os fantásticos bólides conduzidos por hábeis e destemidos ases do volante, convertidos em ídolos de todos nós. Sabíamos os seus nomes, bem como as marcas daquelas impressionantes máquinas. A vitória de Eduardo Carvalho (português de Hong Kong, de origem macaense), com outro português (Reginaldo da Rocha) no pódio, exacerbou ainda mais o nosso entusiasmo.Se as corridas ganharam, desde logo, foros de grande acontecimento, mobilizando recursos e apoios e projectando o território além-fronteiras, para nós o seu significado terá sido ainda maior. Passaram a ser o tema central das nossas conversas e, provavelmente, a nossa preocupação dominante, especialmente depois da chegada, às lojas de brinquedos, de lindíssimas miniaturas de automóveis dos mais variados modelos e marcas. Esgotavam-se logo, recaindo as preferências nos famosos e saudosos “Dinky reminiscências do I grande Prémio de Macau“Um dos grandes circuitos do Oriente e, sem dúvida, um dos mais espectaculares de todo o mundo, pelas suas condições invulgares..”
  • 202 203 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I F A L A R D E N Ó S - X I IToys” que, durante anos, fizeram a alegria da pequenada. Organizávamos as nossas próprias corridas, intensamente disputadas, com essas miniaturas, empurradas à mão em circuitos desenhados em espaços de recreio que tivessem o piso suficientemente suave.Coleccionávamos tudo o que se relacionava com as corridas e, em saudável emulação, mostrávamos uns aos outros os “preciosos” artigos reunidos, bem como os recortes de jornais, fotografias e desenhos feitos por cada um. Guardo das sucessivas edições do Grande Prémio as melhores recordações e foi um prazer integrar, muito mais tarde, a sua comissão organizadora e, em diversas situações, dar-lhe um contributo, ainda que muito modesto, para o seu sempre desejado sucesso. um arranque auspiciosoMuito se publicou já sobre o Grande Prémio, desde folhetos, revistas e livros a catálogos e álbuns fotográficos. De entre a abundante literatura disponível, apraz-me referir uma vez mais uma edição do Leal Senado, de 1982, com fotografias do meu amigo Eduardo Tomé e texto do jornalista Silva Pires, ambos do Diário de Notícias, a que se juntaram algumas fotos mais antigas facultadas por Fernando Macedo Pinto, um dos impulsionadores deste importante evento automobilístico. Nesta obra, intitulada “Grande Prémio de Macau – uma tradição no Oriente”, foram explicados os antecedentes desta marcante iniciativa: “Quando, numa tarde de 1954, durante uma conversa de café, quatro homens meteram ombros à tarefa de realizar uma prova de automóveis em Macau, estavam longe de supor que a ‘brincadeira’ que pretendiam levar a efeito pudesse algum dia ganhar a dimensão que hoje têm as provas no Circuito da Guia. De facto, foi de uma brincadeira que nasceu o Grande Prémio de Macau. E quem o diz é o eng.o Macedo Pinto, um dos quatro entusiastas responsáveis pelo facto de as corridas de automóveis terem ganho corpo neste território sob administração portuguesa. Macedo Pinto, Carlos Silva, Paulo Antas, capitão Cruz – são os nomes da primeira hora. Encontravam-se os quatro frequentemente, e um dia...‘Estávamos em 1954’ – conta Macedo Pinto – ‘e não havia em Macau mais do que 300 ou 400 automóveis. Uma tarde, em conversa no café, lembrámo-nos de organizar uma gincana, mas uma gincana com foros de coisa invulgar. O Carlos Silva recordou-se, então, de escrever para Hong Kong, para o clube de automóveis local, pedindo informações sobre a forma de organizar a prova, que, na nossa ideia, devia envolver toda a cidade.’Escreveram mesmo e a resposta não se fez esperar. Resposta, aliás, bem diferente daquela que aguardavam, já que surge em cena um homem de origem suíça, Paul Dutoit de seu nome, e que para Macedo Pinto merece as honras de ser considerado o ‘pai’ do Grande Prémio de Macau. Pois Paul Dutoit, em vez de escrever a enviar informações, resolveu deslocar-se a Macau. ‘Fomos recebê-lo e ele, indivíduo de um dinamismo fantástico, foi directo ao assunto e perguntou-nos o que queríamos fazer’, continua Macedo Pinto. E disseram-lhe que tinham um circuito...‘Pegámos num automóvel e fomos dar uma volta ao que é o actual Circuito da Guia, que era o percurso que já tínhamos delineado. E a nossa surpresa não pôde deixar de ser enorme quando vimos o Paul Dutoit aos pulos.’ ‘Isto não é uma gincana. O que vocês têm é o circuito para um Grande Prémio!’ ‘Era isto que ele nos dizia, enquanto olhávamos uns
  • 204 205 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I F A L A R D E N Ó S - X I Ipara os outros com aquele olhar que pode ter alguém que pura e simplesmente pensa que estão a brincar com ele.’Paul Dutoit, porém, com todo o seu dinamismo e uma capacidade invulgar para convencer as pessoas, fez-lhes ver que não estava a brincar. Insistia mesmo: ‘– Vocês têm um circuito que é melhor do que o do Mónaco. Nunca imaginei que pudesse haver em Macau uma coisa destas!’.E o certo é que os quatro decidiram que era de acompanhar aquele homem. Mesmo que se tratasse de um louco, tinha-os convencido. Do entusiasmo de Paul Dutoit nasceu, assim, o I Grande Prémio de Macau, que contou com um grande apoio do Hong Kong Motor Sports e mereceu o carinho das autoridades do Território.Construiu-se um ‘stand’ em bambu e os carros foram para a estrada. Uma mistura incrível de carros de todos os tipos, como recorda Macedo Pinto. Que lembra mais. Por exemplo, que o percurso entre a Casa Branca e o Ramal dos Mouros era em terra batida... Ele, além de organizador, também era concorrente e recorda-se ainda que naquele troço do circuito o pó obrigava a que os pilotos orientassem a sua condução pela copa das árvores! Para a história, todavia, ficam outros factos, como o da parte da pista se ter desfeito durante a prova. Mesmo fazendo essa constatação, os quatro entusiastas pensavam que se tinha organizado o I Grande Prémio de Macau – e o último... Mal a prova acabou, no entanto, Paul Dutoit não lhes deu tréguas, a exemplo, aliás, do que aconteceu com a imprensa de Hong Kong. O Grande Prémio de Macau deve continuar – era a palavra de ordem. E continuou mesmo!”Não obstante os crescentes transtornos (e já são muitos!) causados à população numa das zonas mais movimentadas da cidade, o Grande Prémio de Macau resistiu ao tempo, sendo credores da nossa admiração quantos tornaram possível o seu prolongamento até aos nossos dias. E já vão 62 edições!23 de Novembro de 2015
  • 206 207 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I F A L A R D E N Ó S - X I IInstituto Internacional de Macau, mais um volume (o 7.º) da série dedicada ao Delta, que é, reconhecidamente, uma das zonas de maior desenvolvimento em todo o mundo. Tem por título “Foshan, da Montanha de Buda a centro de produção mundial”, sendo seus autores Thomas Chan e Louise do Rosário, com coordenação de Gonçalo César de Sá.Além duma bem concebida síntese histórica, o livro caracteriza as notáveis transformações de Foshan e perspectiva os planos já elaborados para o crescimento da cidade nos próximos anos, em conformidade com o programa “Indústria Foshan 2025”, lançado em Março do corrente ano, visando a melhoria da capacidade tecnológica e da criatividade das empresas e a intensificação da cooperação sino-alemã no domínio da alta tecnologia. Pretende-se que se proceda ao uso generalizado de robôs e que Foshan passe a ser um mercado bilionário de máquinas inteligentes. Foshan já despende 2,6% do seu PIB em investigação e desenvolvimento e as suas grandes medidas industriais apostam vigorosamente na pesquisa e na formação especializada.comércio externo e investimentoVejamos o que o livro nos revela sobre algumas áreas prioritárias do investimento estrangeiro:“O investimento directo estrangeiro tem sido um elemento fundamental no sucesso económico da cidade. Em 2014 as exportações atingiram 46,72 mil milhões de dólares, um aumento anual de 9,9%. Deste total, as empresas com capital estrangeiro foram responsáveis por 21,79 mil milhões de dólares, um aumento de 2,7%, o que representa 47% do total. Foshan conseguiu atrair 59 das 500 maiores empresas mundiais que Foshan, de aldeia budista a centro de produção mundial no delta“Foshan pretende abandonar as indústrias poluentes com produtos de baixo custo para se abrir a novos sectores com maior valor acrescentado, tal como o imobiliário de luxo. Está a reduzir a centenária indústria cerâmica, em defesa de um ambiente mais limpo, e está a caminhar na direcção do desenvolvimento dos sectores de alta tecnologia, turismo, banca e outros serviços..” Visitei pela primeira vez Foshan, cidade muito próxima de Cantão, quando a fronteira de Macau com Zhuhai estava ainda fechada. Por iniciativa da Agência Nam Kwong, que representava os interesses da China Popular neste território, foi-me dirigido um convite para, com mais cinco personalidades locais ligadas à administração pública, percorrermos, durante uma semana, o lado oriental do Delta do Rio das Pérolas até Cantão (Guangzhou), capital da Província de Guangdong. A abertura da China ensaiava ainda os primeiros passos. De então para cá, pude acompanhar o impressionante crescimento de Foshan, até se transformar num centro industrial e de serviços de dimensão mundial.Historicamente, aquela localidade foi um importante centro religioso budista. Aliás, Foshan significa precisamente “montanha do Buda”, havendo ali, no decurso da dinastia Qing (1644-1911) mais de 160 templos e mosteiros budistas. Ao mesmo tempo, foi ganhando importância e prosperidade, desde a dinastia Ming (1368-1644), pela produção agrícola e actividades de comércio, artesanato e indústrias tradicionais. Distando apenas 20 quilómetros de Cantão, ficou, porém, pela proximidade e complementaridade, sujeita ao controle desta capital provincial que é, hoje, uma imensa metrópole.A cerâmica (de Shiwan), desde a dinastia Song, e a seda, desde o século XVI, foram as indústrias mais significativas de Foshan, permitindo-lhe uma crescente abertura comercial ao exterior. Seguiram-se períodos de estagnação e de renascimento industrial nos anos 80 do século passado, até aos nossos dias. A Agência MacauLink e a Associação de Macau de Investigação do Delta do Rio das Pérolas acabam de publicar, com apoio e colaboração da Fundação Macau e do
  • 208 209 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I F A L A R D E N Ó S - X I Iinvestiram em 110 projectos da cidade. Foshan estabeleceu três grandes zonas para atrair capital estrangeiro – a Zona de Alta Tecnologia Nacional de Foshan, a Zona de Serviços de Alta Tecnologia de Guangdong para as Instituições Financeiras e a Zona de Serviços Industriais Sino-Alemã de Foshan.Um dos sectores mais importantes para o investimento estrangeiro é o fabrico de equipamento, que teve uma produção no valor de 41,8 mil milhões de yuans em 2013. A cidade tem 192 instalações de produção em larga escala onde foram aplicados 88,5 mil milhões de yuans, de acordo com o presidente da câmara, Lu Yi. O investimento estrangeiro é um componente importante – 932 projectos com capital estrangeiro no montante de 11,54 mil milhões de dólares. Lu disse que a ‘produção do sector industrial deverá atingir 550 mil milhões de yuans em 2016. As empresas industriais são encorajadas a montarem centros tecnológicos, de pesquisa e desenvolvimento e de vendas em Foshan’, acrescentou.Um dos maiores investidores estrangeiros em Foshan é o fabricante alemão de automóveis Volkswagen AG (VW). Numa parceria com a First AutoWorks (FAW), a fábrica iniciou a produção em Setembro de 2013, com uma capacidade inicial de 360 mil veículos. A empresa pretende duplicar essa capacidade com a conclusão da segunda fase do projecto, que envolve um investimento de 1,6 mil milhões de euros. De acordo com a VW, a fábrica de Foshan é uma das mais modernas do sector na China. Em Junho de 2014 a fábrica tinha 4300 trabalhadores, 9% dos quais com funções de gestão. A idade média dos trabalhadores é de 24,8 anos e 93% deles têm menos de 30 anos. Do número total, 97% têm uma qualificação profissional escolar ou curso superior. Esta fábrica é a quarta da VW na China, tendo surgido depois das duas de Changchun e de uma em Chengdu, dando ao grupo uma base de produção localizada em três diferentes regiões da China. A fábrica de Foshan começou a produzir veículos do modelo Golf em Agosto de 2013, o Audi A3 desportivo em Fevereiro de 2014 e o Audi A3 em Junho de 2014. A assinatura dos documentos relacionados com este projecto teve lugar em Junho de 2010 e a colocação da primeira pedra em Dezembro de 2011.Chen Dapeng, director-geral da parceria, disse que a produção de veículos ajudaria a fomentar o desenvolvimento de outras unidades industriais, tais como as que produzem máquinas-ferramentas. ‘Foshan, enquanto uma das principais bases industriais na região ocidental do rio das Pérolas, vai tornar-se num grande centro industrial de máquinas-ferramentas no futuro próximo, atendendo ao número de grandes projectos já lançados’, disse. Os dois parceiros estão já a analisar uma futura expansão, atendendo ao facto de a procura estar a crescer muito depressa. A China pode vir a ser o principal mercado mundial de automóveis de luxo, de acordo com a empresa de consultoria McKinsey & Co. Cerca de 70% do mercado é dominado pelos três grandes da Alemanha – BMW AG, Audi e Daimler AG – com a Audi a ter a maior quota de mercado. No entanto, nos últimos anos houve uma série de concorrentes a entrar no mercado.”Estando Macau tão perto, as autoridades locais não podem deixar de conhecer bem toda esta enorme azáfama desenvolvimentista e tentar dela tirar o maior proveito possível. No próximo artigo, iremos “observar” a zona sino-alemã de Foshan e apreciar outros planos da cidade, coerente e ambiciosamente elaborados.30 de Novembro de 2015
  • 210 211 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I F A L A R D E N Ó S - X I Icomunicações, comerciais, financeiros e de apoio a negócios’. Nela ficarão reunidos serviços ligados à indústria de elevada qualidade de pesquisa e desenvolvimento, de realização de testes e certificação, novas tecnologias de informação, energias renováveis, convenções e exposições e formação profissional. A Zona pretende dar resposta à transformação industrial em curso em Foshan e na região do Delta do Rio das Pérolas.A Zona virá a ocupar 88 quilómetros quadrados e acolher não só projectos industriais da Europa, muito em particular da Alemanha, como pessoal com elevado nível de formação e conhecedores das regras e práticas internacionais. Stefan Gallon, cônsul-geral da Alemanha em Cantão, disse há algum tempo que, ‘graças à nova Zona, as empresas alemãs podem aprofundar a cooperação económica com a China, permitindo-lhes, além disso, ter acesso a um mercado em crescimento’.A página electrónica da Zona descreve este lugar como sendo muito apetecível para instalar sedes de empresas que desejam operar na China, nomeadamente nesta região. O grupo Steinberger Hotel está a construir no local um hospital internacional e um hotel de cinco estrelas, pretendendo os responsáveis da Zona criar uma atmosfera atractiva não apenas para os negócios, mas também para as pessoas que lá residem, tanto chineses como estrangeiros. A Zona dispõe de um parque, árvores de cerejeiras, um ringue de patinagem e uma zona húmida destinada a atrair pássaros. No parque existe uma praia artificial e um lago, ambos abertos ao público, onde cerca de duas mil pessoas podem banhar-se. A informação constante da página electrónica promete que irá haver uma zona cultural, um museu de arte, uma biblioteca, uma zona cultural e de desportos internacionais e um centro desportivo.”Foshan – um exemplo de cooperação estratégica para o desenvolvimento“A Zona dá corpo à visão que o governo da cidade tem para o futuro – não mais um agrupamento de chaminés de fábricas, mas sim um parque espaçoso e verde que obtém os seus proveitos através do trabalho de pessoas altamente qualificadas em centros de pesquisa e desenvolvimento e de empresas de serviços.”Foshan, cidade do Delta do Rio das Pérolas situada muito próxima de Cantão e mantendo com esta capital provincial uma estreita relação de complementaridade, destacou-se, nos últimos dois séculos, pela sua capacidade produtiva e pelas crescentes relações comerciais que soube estabelecer com o exterior. Depois de um período de estagnação, dos anos 50 a 70 do século passado, retomou determinadamente a sua vocação de grande centro de produção, abraçando corajosamente as novas tecnologias. No artigo anterior, vimos os sucessos por ela alcançados na indústria automóvel, tendo conseguido que uma das quatro fábricas da Volkswagen na China tivesse ficado ali instalada. Zona sino-alemãA colaboração com empresas alemãs ganhou dimensão também em outros domínios, conseguindo-se transferências de tecnologias de óbvio benefício mútuo:“A Zona de Serviços Industriais Sino-Alemã está dividida numa área central com 5,76 quilómetros quadrados e numa outra reservada a desenvolvimento. Em Agosto de 2012, foi indicado no comunicado conjunto emitido pelo Ministério do Comércio da China e pelo Ministério Federal da Economia e Tecnologia da Alemanha como sendo uma plataforma que merece todo o apoio ao mais alto nível dos dois governos. A Zona alberga a sede para a Ásia-Pacífico da Osram, a sede para o sul da China da companhia de seguros Allianz, a Fundação Steinbeis e a sede no sul da China da TUV Rheinland. A Zona vai albergar de futuro um instituto politécnico sino-alemão.O jornal oficial diário China Daily afirmou que a Zona pretende ser ‘uma cidade inteligente amiga do ambiente com serviços bem desenvolvidos de transportes,
  • 212 213 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I F A L A R D E N Ó S - X I IZona de serviços FinanceirosA área de serviços financeiros (banca, seguros e agências de fomento e investimento) foi outra das apostas bem sucedidas de Foshan:“Outra Zona, que a cidade entende como sendo importante para assegurar o futuro, fica localizada na zona oriental, estando ligada a Cantão por metropolitano. Trata-se da Zona de Serviços de Alta Tecnologia para as Instituições Financeiras de Guangdong, estabelecida em Julho de 2007. Esta Zona fornece serviços de arquivo de segurança à semelhança daqueles que New Jersey e Dublin fornecem a Nova Iorque e a Londres, respectivamente. A Zona cobre uma área de 18 km² no bairro Nanhai, apresentando como vantagens o custo de terrenos e da mão-de-obra mais baixos do que em Cantão.A Zona atraiu inúmeras empresas financeiras, que nela instalaram as suas operações, casos da American International Assurance (AIA), a base no sul do país da Companhia Popular de Seguros da China e o grupo Sun Kung Fai Financial de Hong Kong. Igualmente presentes na Zona estão a Fujitsu Technology Group, o centro subcontratado de processamento de negócios do grupo francês Capgemini, bem como um centro similar da IBM e o centro financeiro do Banco de Desenvolvimento de Guangdong. O HSBC também está presente na Zona, com o centro global de processamento de operações, garantindo serviços bancários e financeiros, incluindo cartões de crédito, empréstimos, seguros e gestão de recursos humanos. A AIA está a despender entre 70 a 80 milhões de dólares num edifício para albergar as vendas por telefone, o centro de formação e os serviços de apoio para as operações no sul da China. O banco Standard Chartered assinou já um acordo para abrir uma agência no parque, a primeira de uma instituição financeira estrangeira na cidade. A Zona dá corpo à visão que o governo da cidade tem para o futuro – não mais um agrupamento de chaminés de fábricas, mas sim um parque espaçoso e verde que obtém os seus proveitos através do trabalho de pessoas altamente qualificadas em centros de pesquisa e desenvolvimento e de empresas de serviços.”Moda de grande rotaçãoAs condições foram criadas também para a atracção de grandes empresas estrangeiras produtoras de “pronto-a-vestir”:“A Agência de Promoção do Investimento de Foshan (FIPA, na sigla em inglês) afirma que a cidade é ideal para as empresas de moda estrangeiras de grande rotação de stocks, tais como a espanhola Zara e a sueca H&M. ‘Em 2010, 16,9% da população da província de Guangdong tinha menos de 14 anos’, afirmava a agência num folheto para distribuição. ‘Em 2014, o alvo principal para produtos de moda de grande rotação era o grupo etário constituído por jovens profissionais e consumidores na casa dos 20 anos. Desde o ano 2000, que o rendimento disponível per capita em Guangdong tem estado a crescer de forma sustentada. Foshan surge na oitava posição no conjunto das cidades chinesas e os seus consumidores são em número elevado e estão predispostos a consumir’. No mesmo folheto afirmava-se que a indústria do vestuário de grande rotação tinha um futuro brilhante em Foshan, uma vez que havia muitas propostas para a construção de centros comerciais nos cinco bairros da cidade.”
  • 214 215 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I F A L A R D E N Ó S - X I IToda esta informação, bastante actualizada, está contida no 7.º volume da série de livros produzidos pela MacauLink, com o apoio da Fundação Macau e do Instituto Internacional de Macau com o enfoque no desenvolvimento do Delta do Rio das Pérolas. 7 de Dezembro de 2015Empreendedorismo, aposta decidida e decisiva na alta tecnologia, preocupação fundamental com a defesa do ambiente, formação técnica especializada, investimento seguro na investigação aplicada, qualidade de vida como objectivo final e visão estratégica caracterizam este notável esforço desenvolvido por Foshan no contexto do Delta do Rio das Pérolas, onde Macau tem também um papel a desempenhar. Por isso quisemos dedicar-lhe três artigos, a propósito da recente publicação do livro “Foshan, da Montanha do Buda a centro de produção mundial”. Vejamos como se articulou o conjunto de novos projectos de Foshan com o plano quinquenal nacional da China:2015 e o plano quinquenal“O ano de 2016 marcará o início do 13.º plano quinquenal da China e o governo da cidade está a preparar-se activamente para realizar com êxito o papel que lhe está destinado. Em Agosto de 2014, o governo provincial de Guangdong tomou a decisão estratégica de construir uma cintura industrial para equipamento avançado na região ocidental do rio das Pérolas, a fim de conseguir atingir uma produção de 2 biliões de yuans até 2020. Miao Wei, ministro da Indústria e das Tecnologias de Informação da China, manifestou mais tarde o seu apoio a este projecto e propôs a sua inclusão no 13.º plano quinquenal nacional. O projecto cobre Foshan, Zhongshan, Jiangmen, Yangjiang e Zhuhai. Zhou Zhitong, Chefe do Departamento de Comércio de Foshan, argumentou que ‘a cidade, enquanto centro industrial da região, deveria ter um papel Foshan e o 13.º Plano Quinquenal da china“Uma das razões pelas quais os promotores de Hong Kong estão a construir em Foshan é a existência de uma rede de metropolitano que liga a cidade à vizinha Cantão. A rede de metro abriu ao público em Novembro de 2010 e permite que as pessoas residam em Foshan e possam trabalhar em Cantão e vice-versa. (...) Além disso, há uma linha de alta velocidade, que atravessa Foshan e liga a cidade de um lado a Cantão e do outro a Zhuhai.”
  • 216 217 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I F A L A R D E N Ó S - X I Ide liderança na constituição dessa cintura’. Zhou afirmou ainda que ‘a cidade tem uma base sólida em termos industriais e dispõe igualmente de um ambiente de negócios capaz de atrair parceiros internacionais, como o provam projectos como a Zona de Serviços Industriais Sino-Alemã. O fabrico de equipamentos já faz parte da principal actividade industrial da cidade, com produção no valor de 418,3 mil milhões de yuans em 2013’. Foshan não divulgou quais são os planos da cidade para o período 2016/2020. No entanto, discursos proferidos pelos seus principais dirigentes têm dado uma indicação clara do seu pensamento e ambições. Num discurso proferido a 4 de Fevereiro de 2015, o Presidente da Câmara em exercício, Lu Yi, fez algumas reflexões sobre o ano que se tinha iniciado há pouco, prevendo um crescimento de 8,5% do PIB, com um crescimento de 15% da formação bruta de capital fixo e de 12% das vendas a retalho. A cidade deve acelerar a construção da segunda fase da fábrica da Volkswagen e das fábricas da empresa automóvel Futian, bem como da empresa Ludi Fangzhou que produz veículos movidos a energias renováveis. A actualização técnica é vital para aumentar a competitividade. Lu Yi disse que ‘nos próximos três anos a cidade irá despender 130 mil milhões de yuans nesse processo, e com essa despesa a aumentar 25% em cada ano. Este processo de actualização técnica incluirá o uso cada vez maior de robôs, tecnologias centradas na utilização da internet e outras funções inteligentes’. Lu disse igualmente que ‘o sector dos serviços será também um dos motores do desenvolvimento da economia da cidade, incluindo serviços financeiros, logística, exposições, design industrial e outros serviços relacionados com a actividade industrial’. A cidade dispõe de 145 projectos no sector dos serviços, incluindo a sede do grupo de medicina chinesa Guo Yao, no sul do país, a base operacional da Suning E-Commerce e o Projecto Citadino de Turismo Cultural dos Chineses Ultramarinos. A cultura é outro sector prioritário, incluindo o design criativo, cartoons e filmes de animação e a Zona Modelo de Indústria Cultural de Nível Nacional em Shiwan’.‘Outra das prioridades será procurar atrair mais investimento em maquinaria avançada, novas indústrias estratégicas e serviços modernos’. A cidade pretende projectos de alta tecnologia, com maquinaria de última geração e pessoal altamente especializado. Para isso, Foshan vai utilizar o potencial das empresas locais para aumentar a sua produtividade, promover a cooperação das principais empresas da cidade com grandes grupos internacionais produtores de maquinaria pesada e aumentar a produção de robôs. Lu disse, ainda, que ‘a cidade irá promover a Nova Área Nacional de Alta Tecnologia de Foshan, a Zona Industrial Sino-Alemã, a Zona Financeira de Guangdong e outros projectos-chave’. O Presidente em exercício disse também que ‘o conhecimento e a inovação são fundamentais para o futuro da cidade; por isso está a constuir novos centros técnicos e a promover os já existentes’. Estes últimos incluem o Instituto de Pesquisa Inovadora de Robôs Inteligentes do Sul da China, a Base de Testes de Maquinaria e Equipamento Electrodoméstico do Sul da China e o Centro Unido de Inovação em Iluminação e Semicondutores de Guangdong. O governo da cidade vai ainda acelerar a construção do Centro de Intercâmbio de Propriedade Intelectual de Foshan e os centros para proteger a propriedade intelectual em porcelana e equipamento eléctrico. Melhorar o sistema financeiro consta igualmente dos planos da cidade, a ser realizado através da atracção de capital privado para aplicação em empresas de ciência
  • 218 219 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I F A L A R D E N Ó S - X I Ie tecnologia baseadas no conhecimento. Das cidades chinesas, Foshan é uma das que têm um sector privado robusto e muito desenvolvido. Contudo as reformas no sistema bancário estão atrasadas relativamente às efectuadas em outros sectores; bancos estatais de grande dimensão e alguns pequenos privados de criação recente dominam o sector.Foshan tem, por outro lado, uma agenda bem preenchida no que respeita à construção de infra-estruturas. Os projectos incluem novas linhas de metropolitano Foshan-Cantão, uma linha entre a estação ocidental e o aeroporto internacional de Cantão e linhas de caminho-de-ferro até Zhuhai e Zhaoqing. Melhorias na rede de vias rápidas constam igualmente dos planos que incluem estradas até Cantão, Jiangmen e Zhongshan. A cidade pretende ainda aumentar a proporção de energias renováveis na produção total de energia. A cidade precisa igualmente de melhorar a qualidade do ambiente. Foshan é uma de muitas cidades da China que nos últimos 35 anos se industrializaram a uma velocidade raramente vista na história mundial. O crescimento económico e um PIB cada vez maior eram a prioridade; as cidades concorriam entre si para conseguir os dados estatísticos mais elevados. Mas, os responsáveis da cidade perceberam ser necessário dar mais atenção ao ambiente, ‘medir com exactidão os recursos que são consumidos e avançar no sentido de um modelo de desenvolvimento que seja mais verde, com menos emissões de carbono para a atmosfera e criando um ambiente mais sustentável’. Esta visão exigirá o estabelecimento de novas normas e um sistema de responsabilização a todos os níveis.”Depois de muitos excessos cometidos, resultantes do célere crescimento da região, é salutar registar estes louváveis propósitos, cada vez mais presentes nos novos planos de desenvolvimento. Oxalá outros responsáveis os entendam...14 de Dezembro de 2015
  • 220 221 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I F A L A R D E N Ó S - X I IExpressão genuína do espírito fundacional do IIM, o Prémio Identidade é assumido e atribuído pelo corpo universal dos seus órgãos dirigentes, sendo o júri por eles constituído, sob a coordenação do presidente do IIM, “que terá a faculdade do voto de qualidade em caso de empate”. O Prémio não tem, por princípio, natureza material ou pecuniária, sendo simbolizado e corporizado num diploma solene e num troféu memorial. “Procura-se, sobretudo, com a instituição do Prémio, homenagear publicamente e apontar como exemplo a figura a distinguir”. Esse troféu, elegante e singelo, foi concebido pelo designer macaense Victor Hugo Marreiros. O Prémio é, em princípio, indivisível, podendo, no entanto, ser atribuído ex-aequo, no caso de se verificar impasse decisório ou equilíbrio entre propostas. entidades distinguidas Foram as seguintes as personalidades e instituições distinguidas desde 2003, que foi o primeiro ano da sua atribuição: Monsenhor Manuel Teixeira (2003), escritor Henrique de Senna Fernandes (2004), Comendador Arnaldo de Oliveira Sales, presidente do Club Lusitano de Hong Kong (2005), Universidade de Macau e Prof. Luís de Guimarães Lobato, um dos fundadores da Casa de Macau de Portugal, ex-aequo (2006), Associação Promotora da Instrução dos Macaenses (2007), Diocese de Macau (2008), Santa Casa da Misericórdia de Macau (2009), União Macaense Americana, no seu 50.º aniversário (2010), Projectos Memória Macaense (São Paulo, Brasil) e Macanese Families (Sydney, Austrália), em 2011, Club Lusitano de Hong Kong, a mais antiga instituição da diáspora macaense (2012), Grupo de Teatro Dóci Papiaçám di Macau (2013), Escola Portuguesa de Macau (2014) e Jardim de Infância D. José da Costa Nunes (2015).Prémio Identidade atribuído ao Jardim de Infância d. José da costa nunes“... a distinção é concedida ao Jardim de Infância pelo seu papel activo na manutenção de um sistema educativo de matriz portuguesa, ao serviço da comunidade macaense e bem aceite por educandos de todas as etnias, e por desenvolver actividades que têm reforçado o valor da língua e cultura portuguesas, contribuindo de forma eficaz e persistente para a preservação da identidade macaense.”Do texto da deliberação do júri do Prémio Identidade Festa muito bonita foi a que se realizou no dia 7 de Dezembro no Jardim de Infância D. José da Costa Nunes, quando se procedeu à entrega do Prémio Identidade de 2015 àquela prestigiada instituição educativa. Responsáveis dos Serviços de Educação, do Consulado-Geral de Portugal, de escolas, da Associação dos Pais e Encarregados de Educação e de outras organizações da sociedade civil, como a Associação Promotora da Instrução dos Macaenses (APIM), a Associação dos Macaenses, a Casa de Portugal, a Casa de Macau em Portugal, a Confraria da Gastronomia Macaense, o Grupo Dóci Papiaçám di Macau, a Associação dos Jovens Macaenses e o Instituto Internacional de Macau, marcaram presença, juntamente com pais, educadores, crianças e pessoal do Jardim de Infância, apreciando as danças apresentadas, aplaudindo a entrega do Prémio Identidade e convivendo em torno de mais um “chá gordo”.o Prémio Identidade Criado pelo Instituto Internacional de Macau em 2002, o Prémio destina-se a distinguir personalidades ou instituições que, pela sua acção, obra e exemplo, contribuam, activa e significativamente, para a identidade de Macau. Conforme o seu regulamento “este Prémio corporiza o mais nuclear espírito do IIM, consagrado nas suas vocação e finalidade estatutárias, e contempla aquelas personalidades individuais ou colectivas que, nos campos da Cultura em geral, nas Artes, no Pensamento, na Antropologia, nas Ciências Jurídicas e na Educação e Ensino venham contribuindo relevantemente para a substanciação dos factores da identidade de Macau”.
  • 222 223 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I F A L A R D E N Ó S - X I IO IIM está a finalizar a preparação de um livro com capítulos dedicados a cada uma dessas personalidades e instituições.A sessão de entrega do PrémioUsaram da palavra o presidente do IIM, a directora do Jardim de Infância, Vera Gonçalves, e a presidente da Associação de Pais e Encarregados de Educação, Lurdes Sousa, todos enaltecendo a obra ali realizada e o significado do Prémio Identidade. Para a directora, foi “muito reconfortante” e “motivo de grande orgulho” este reconhecimento público.O presidente do IIM quis, na ocasião, referir os nomes de todos os educadores e agentes de ensino que ali prestam serviço: Vera Gonçalves, Ana Rute Gomes, Carmo Pires, Olinda Colaço Amaral, Marisa Peixoto, Vitória Filipe, Sofia Guerreiro, Alzira Lopes, Angeline Silva, Inês Vilhena, Lília Caetano, Lizete Veríssimo, Carolina Mira, Ivone Rodrigues, Sofia Moura, Sofia Pereira, Sandra Moreira e Cristina Leal. No momento solene da entrega do Prémio, o presidente do IIM convidou Maria Edith da Silva, presidente da Mesa da Assembleia Geral do IIM e ex-directora dos Serviços de Educação e Juventude, a depositar o diploma nas mãos de José Manuel de Oliveira Rodrigues, presidente da APIM, entidade gestora do Jardim de Infância, tendo ele próprio feito a entrega do troféu à directora Vera Gonçalves. Para recordar o patrono do Jardim de Infância, “uma das mais extraordinárias figuras da presença de Portugal no Oriente, educador por excelência, bispo de Macau, patriarca das Índias e cardeal vice-camerlengo da Santa Sé”, o IIM ofereceu às individualidades presentes duas das suas edições: “D. José da Costa Nunes, Cidadão Benemérito de Macau”, de Jorge Rangel, e “Um Apóstolo do Oriente – Aproximação à Vida e Obra do Cardeal Costa Nunes”, de José Valle de Figueiredo. 3.º colóquio da Associação dos MacaensesCom boa participação e intervenções oportunas de elementos mais jovens da comunidade, a Associação dos Macaenses organizou o seu 3.º Colóquio, também em Dezembro, sobre a identidade macaense, com o título “O testemunho para o futuro”. Discutir a identidade da comunidade e perceber as actuais condições e estratégias que poderão ser postas em prática para assegurar a sua continuidade, como corpo vivo e interventor na RAEM e na diáspora, foram alguns dos propósitos expressos. Foram também apresentados os resultados provisórios de um inquérito relativo à percepção que a comunidade tem da sua própria identidade. Até ao início do colóquio tinham sido obtidas 413 respostas vindas de 23 países e regiões. Quando se apurarem as conclusões finais, voltaremos ao tema. Passagem do testemunho na APIMNa Assembleia Geral da Asssociação Promotora da Instrução dos Macaenses (APIM), realizada na tarde de 18 de Dezembro, procedeu-se à passagem do testemunho, como primeiro responsável do órgão executivo, de José Manuel de Oliveira Rodrigues para Henrique Miguel de Senna Fernandes, que passou a ser o presidente da sua Comissão
  • 224 225 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I F A L A R D E N Ó S - X I IDirectora. Os presidentes dos outros órgãos são Rufino de Fátima Ramos, que me substituiu, a meu pedido, já no mandato anterior (Assembleia Geral), Alfredo Sales Ritchie (Conselho Fiscal) e José Luís de Sales Marques (Conselho Consultivo). Os novos titulares foram eleitos por aclamação. 28 de Dezembro de 2015Acaba de sair do prelo o volume VIII da colecção “Missionários para o Século XXI”, do Instituto Internacional de Macau (IIM). Escrito por João Guedes, este volume é dedicado ao Pe. Áureo Nunes e Castro, missionário, músico e pedagogo, que nasceu na Candelária do Pico (Açores) em Janeiro de 1917 e faleceu em Macau em Janeiro de 1993, tendo aqui passado a maior parte da sua vida dedicada à Igreja e à música, desenvolvendo uma acção notável neste domínio, como grande mestre de gerações de jovens, compositor e dinamizador cultural. João Guedes sintetizou, no 1.º capítulo, o percurso deste sacerdote, justificando plenamente a sua inclusão no escol de missionários que esta colecção editorial pretende recordar e homenagear, por integrarem aquela “geração de ouro, de tantas figuras excepcionais em Macau radicadas, grandes nas obras, como no quase anonimato de uma humildade que é a expressão de um verdadeiro sentido ancilar da vida e do destino”:“Fazer a história da vida do padre Áureo da Costa Nunes e Castro é contribuir para trazer à luz uma área da cultura de Macau ainda bem mal iluminada. Trata-se da memória da música, na sua área vulgarmente chamada clássica, ou erudita. Buscando na história, desde que a documentação existe preservada, o que corresponde essencialmente aos séculos XIX e XX as referências à música são muitas e variadas. A passagem por Macau dos seus intérpretes é conhecida e ficou assinalada, mas isto apenas quanto aos intérpretes, já que quanto aos compositores as referências são poucas e mais raras ainda as que dizem respeito a compositores clássicos que, pode dizer-se, quase não existem de todo. É pois neste contexto de raridade que avulta a Pe. Áureo nunes e castro recordado em livro do IIM“... entregou a sua vida inteiramente à música. No entanto todos os que com ele privaram são unânimes hoje em afirmar que, apesar da sua paixão pela arte, o que o impelia verdadeiramente era a missão. A música era o seu instrumento de apostolado.”
  • 226 227 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I F A L A R D E N Ó S - X I Ibiografia de Áureo Castro, autor que ‘só não foi uma figura que enfileirou com os grandes compositores apenas porque escreveu pouco’. Áureo Castro nasceu na ilha do Pico, nos Açores, um arquipélago que sempre contribuiu significativamente para engrossar as fileiras dos missionários católicos que partiam para o mundo. Note-se porém que de entre as ilhas do arquipélago é, em termos comparativos demográficos, o Pico que mais missionários entregou à igreja católica romana (12,3%) relativamente às restantes ilhas açorianas.Por outro lado Áureo Castro é originário de um arquipélago onde a generalidade da população possui propensão intrínseca para a música que se reflecte não só no seu característico folclore inspirador de vários géneros musicais em Portugal e não só, mas também na forma como o culto da música é acarinhado tanto institucionalmente quanto a nível privado pelas famílias. Por outro lado, ainda, Áureo Castro pertencia a um clan que produziu figuras eminentes da Igreja com destaque para seu tio, o cardeal D. José da Costa Nunes, bispo de Macau e de Goa que atingiria a dignidade de Camerlengo da Santa Sé, tendo sido um dos primeiros prelados a integrar o Concílio ‘Vaticano II’ por indicação expressa do Papa João XXIII. Apesar da conjuntura familiar e das origens, porém, Áureo Castro não estaria predestinado a atingir qualquer notoriedade não fora a sua formação ter sido ministrada no Seminário de S. José de Macau, colónia onde chegou a 15 de Setembro de 1931. Nessa data o seminário, pode dizer-se, que congregava em si o que de melhor se praticava em termos pedagógicos em Macau, desde o desporto à música, passando pelas ciências e pela educação física. (...)Áureo Castro revelou durante os seus anos de estudo boa aptidão escolar, mas também particular inclinação para a música que não deixaria de ser notada pelos seus professores e que viria a determinar o seu futuro como missionário. Concluído o curso seria ordenado em plena ‘Guerra do Pacífico’ (1943), ocupando as funções de pároco na Sé e em S. Lourenço. Simultaneamente leccionaria canto coral e religião e moral em várias escolas. A par de tudo isso encetou também carreira breve como jornalista no jornal católico ‘O Clarim’. Para além do jornalismo e da sua intervenção apostólica, Áureo Castro era um produto do seu tempo, dominado pelos nacionalismos crescentes e pela omnipresença do ‘Estado Novo’ de Salazar. Não admira por isso que tenha aderido à ‘União Nacional’, o partido único do regime. Esta adesão, porém, deve-se sem dúvida em grande parte senão inteiramente à influência tutelar de seu tio, o cardeal D. José da Costa Nunes, que em conferências, nos jornais e em livros proclamava a missão redentora de Salazar de reunir o estado e a igreja desavindos em Portugal para ressuscitar o nome de Portugal pelos quatro cantos do universo terrestre. (...) Todavia, era muito mais a música do que as ideologias políticas, ou filosóficas, que verdadeiramente o cativava, ingressando por isso com grande entusiasmo, ainda que com a apreensão de não conseguir fazer o melhor, que decorria da sua tendência para o perfeccionismo, que o fazia escrever e reescrever os seus trabalhos inúmeras vezes que em 1951 ingressa no Conservatório Nacional de Lisboa onde se formaria com distinção.
  • 228 229 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I F A L A R D E N Ó S - X I IO regresso a Macau em 1956 marca uma viragem profunda na sua vida quando a música passa verdadeiramente a constituir o centro das suas preocupações, primeiro com a fundação do Grupo Coral Polifónico, mas principalmente com a criação da Academia de Música S. Pio X de que seria o principal esteio e que durante décadas seria também a única instituição de ensino que preparava músicos para o ingresso no ensino superior não só em Portugal, mas também em vários outros países do mundo, com destaque para o mundo anglo-saxónico. No âmbito da Academia de Música S. Pio X organizou inúmeros concertos para os quais convidou músicos com carreira internacional.Em 1983, em colaboração com o compositor inglês Stuart Bonner, fundaria a Orquestra de Câmara de Macau com músicos amadores e professores da Academia que mais tarde seria incorporada no Instituto Cultural de Macau.Áureo Castro entregou a sua vida inteiramente à música. No entanto todos os que com ele privaram são unânimes hoje em afirmar que, apesar da sua paixão pela arte, o que o impelia verdadeiramente era a missão. A música era o seu instrumento de apostolado. (...) Neste âmbito compôs uma obra sólida mostrando-se precursor nomeadamente quando funde nalgumas composições a música ocidental e oriental. O seu espírito um tanto introvertido, que contrastava com o de outros missionários do seu tempo, fez que não conhecesse como eles tanta exposição mediática durante a vida, mas a sua obra não deixou de ser reconhecida através da condecoração que seria atribuída à sua Academia e a medalha de Mérito Cultural que pessoalmente lhe seria conferida. As condecorações valem o que valem, mas certo é que Áureo Castro, o missionário que veio da ilha do Pico nos Açores, se ergue como um dos grandes expoentes da cultura de Macau do século XX.”Por tudo isso, João Guedes conclui – e bem – que “vale a pena contar a sua história”. E assim, por iniciativa do IIM, nasceu mais um livro que destaca a acção de missionários que, ao longo do século XX, ajudaram a preparar Macau para os desafios de um tempo novo de mudança. 4 de Janeiro de 2016
  • 230 231 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I F A L A R D E N Ó S - X I Icomo nasceu e se realizou este projectoNinguém melhor do que o próprio autor nos pode relatar como este seu projecto nasceu e se desenvolveu: “O projecto ‘Sagres – A Nossa Barca’ surgiu no início de 2010 quando, casualmente, encontrei em Lisboa o actual director da Revista de Marinha, o Vice-Almirante Alexandre da Fonseca, que me sugeriu que fizesse uma reportagem a respeito da passagem da Sagres por Macau – longe se estava então dos episódios nebulosos que se viriam a desencadear e que impediriam a passagem da barca do Infante pelo antigo território administrado por Portugal. Alexandre da Fonseca, que eu entrevistara aqui há uns anos para a revista mensal Magazine Grande Informação, passara a ser um amigo. Por isso mesmo, não hesitei. Sugeri-lhe escrever não só sobre Macau mas também sobre uma parte significativa da viagem, precisamente o troço do Mar da China, o que traduziria, no fundo, o olhar de um civil a bordo do navio coqueluche da Marinha Portuguesa. A ideia cativou o militar. ‘O máximo que posso fazer é fornecer-lhe os contactos necessários e dar uma palavrinha a quem de direito’, disse-me ele na altura. A tarefa parecia difícil, mas o importante é que a semente estava lançada e só o tempo o diria se fruto algum germinaria dali ou não. As primeiras respostas não foram nada encorajadoras. Disseram-me que, nesse seu périplo, a Sagres só em casos muito pontuais admitia civis a bordo, mas eu não esmoreci. Voltei à carga. uma digníssima homenagem ao navio-escola sagres“Este livro é um retrato bastante actual da ‘Sagres’, com o texto e as fotografias de Joaquim Magalhães de Castro a fazerem jus ao navio e aos seus Marinheiros.”Comandante Nuno Sardinha Monteiro, na introdução ao livroJá o tinha na minha mesa de trabalho há alguns meses, ao lado de outros livros que aguardavam a oportunidade de serem lidos e apreciados. Quando se promoveu o seu lançamento, no auditório do Consulado-Geral de Portugal em Macau, encontrava-me ausente, no Brasil, em diversos encontros académicos, pelo que quem representou o Instituto Internacional de Macau na sessão foi o seu secretário-geral, Rufino Ramos, que procedeu, igualmente, à sua apresentação, juntamente com responsáveis do Banco Nacional Ultramarino, Fundação Oriente e Casa de Portugal em Macau. O Cônsul-Geral, Vítor Sereno, dirigiu também ao autor palavras de alto apreço e reconhecimento. Percorri agora, deliciadamente, por altura dos feriados do Natal, as mais de 280 páginas deste belíssimo álbum intitulado “Sagres, A Nossa Barca”, de Joaquim Magalhães de Castro, que constitui uma justa homenagem ao navio-escola que sempre teve um lugar no coração de cada português, como singular centro de formação digno da gesta marítima lusa e genuíno embaixador itinerante da Pátria em viagens pelo mundo. As 250 primorosas fotografias do autor, que já integraram uma exposição que o Instituto Internacional de Macau organizou e patrocinou, em Macau e no exterior, retratam muito bem a vida a bordo, com imagens das múltiplas actividades diariamente levadas a efeito e da relevante missão de representação que lhe foi atribuída, prestigiando Portugal em mares e portos distantes. O “nosso” Joaquim Magalhães de Castro é credor da nossa admiração e gratidão por mais este relevante serviço que presta a Portugal, como investigador da memória e do legado e seu muito persistente, empenhado e eficaz divulgador.
  • 232 233 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I F A L A R D E N Ó S - X I ISabendo do envolvimento da Fundação Jorge Álvares no projecto, decidi contactar com o Dr. Jorge Rangel, presidente do Instituto Internacional de Macau e ex-secretário adjunto do Governo de Macau durante a Administração Portuguesa, que de imediato fez chegar o meu pedido ao Conselho de Administração daquela instituição. Em finais de Setembro, e quando menos esperava, recebi um e-mail do Chefe do Estado-Maior da Armada informando-me que poderia embarcar no porto de Mormugão, em Goa, se ainda estivesse interessado em fazer a viagem. É claro que estava. Pelos vistos, as diligências efectuadas pela Fundação Jorge Álvares tinham surtido efeito (graças, soube-o mais tarde, à iniciativa do General Garcia Leandro, a quem deixo aqui um especial agradecimento), e, finalmente, iria ter oportunidade de sentir na pele um pouco daquilo que sentiram os marinheiros portugueses de antanho. Aberta a Rota da Índia, com a viagem pioneira de Vasco da Gama, em 1498, homens e mercadorias passariam a transitar do Oriente para o Ocidente, e vice-versa, com uma regularidade até então inimaginável. Convém lembrar que nessa época as viagens por terra eram muito mais difíceis e demoradas do que aquelas que a partir de então passariam a ser efectuadas pelo mar. A abertura das estradas oceânicas (feito lusitano) alteraria para sempre o conceito da viagem. Finalmente, iria concretizar um sonho antigo, e, no entanto, sentia-me algo retraído, como se fosse um intruso. Não conhecia pessoalmente quaisquer dos tripulantes e com o Comandante da barca, Pedro Proença Mendes, apenas tinha comunicado via e-mail. A contrapartida para esta oportunidade que a Marinha Portuguesa me estava a dar era a divulgação do último troço da viagem de circum-navegação, fosse através da publicação de algo da minha lavra (como foram várias crónicas e reportagens enviadas para a imprensa de Macau e Portugal), fosse pela apresentação de trabalhos mais elaborados em forma de livro, documentário ou exposição. E foi isso mesmo que fiz com a matéria-prima que ali fui recolhendo. No Verão de 2011 voltei a solicitar novo embarque, desta feita para acompanhar o treino dos cadetes na habitual viagem de instrução, que, nesse ano, teve como destino os arquipélagos da Madeira, Cabo Verde e Açores. Uma vez mais o meu pedido foi aceite e teria agora como anfitrião um novo Comandante da Sagres, Nuno Sardinha Monteiro, com quem voltaria a embarcar em 2012, para uma outra viagem de instrução que incluiu na sua agenda a participação numa das etapas da Regata de Grandes Veleiros 2012 (Tall Ships Race 2012), mais propriamente, a etapa entre as cidades de Lisboa e Cádiz. Foi uma experiência única presenciar do convés da Sagres o desfile de dezenas de outros grandes veleiros provenientes de vários países, entre quais constavam os nossos lugres Creoula e Santa Maria Manuela e a nossa caravela Vera Cruz, singrando nas águas, com o pano inteiramente desfraldado, à saída do Tejo e depois já em pleno Atlântico. (...) Este álbum fotográfico pretende ser um registo fidedigno e emotivo do intenso dia-a-dia a bordo protagonizado pelos diferentes membros de fantásticas e solidárias guarnições com quem muito aprendi e também uma forma de homenagem a quem tão bem me acolheu. Entrei no navio-escola Sagres como um desconhecido e saí como um membro de uma família firme, leal e solidária.
  • 234 235 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I F A L A R D E N Ó S - X I IQue um mar de feição e bons ventos continuem a acompanhar a Barca do Infante e quem nela embarca!”Estes calorosos votos do autor podem ser reiteradamente formulados por quantos, de algum modo, acompanharam e seguem ainda o percurso daquela nossa barca da memória que é motivo de orgulho para todos nós. 11 de Janeiro de 2016A convite da Casa de Portugal em Macau, tive o prazer de assistir ao segundo concerto do conjunto Sunny Side Up, no passado dia 27 de Novembro, no Teatro D. Pedro V. Organizado pela Casa de Portugal em Macau, contou com o patrocínio da Fundação Macau e apoios institucionais do Instituto Cultural do Governo da RAEM e da Direcção dos Serviços de Turismo.A poesia de Fernando Pessoa, com música de Felipe Fontenelle e Tomás Ramos de Deus, preencheu este agradável serão, com uma correspondência positiva do público. Os poemas de Pessoa, muito bem cantados, foram “O Amor quando se revela”, “No lugar dos palácios desertos e em ruínas”, “Isto”, “Gato que brinca na rua”, “Na véspera do nada”, “Se sou alegre ou sou triste”, “Contemplo o lago mudo”, “Quero ser o teu amor amigo”, “Eros e Psique”, “Autopsicografia”, “Como a noite é longa”, “A minha vida é um barco abandonado”, “Não sei quantas almas tenho” e “Tenho tanto sentimento”. O outro concerto – Tributo a Macau – teve lugar em Junho, por ocasião do Dia de Portugal e das Comunidades Portuguesas, e foi igualmente promovido pela Casa de Portugal. Com música de Felipe Fontenelle e Miguel Noronha Andrade, o conjunto Sunny Side Up partilhou com a assistência uma selecção feliz de poemas cujos autores nasceram ou viveram em Macau, como José Inocêncio dos Santos Ferreira – Adé (“Casarám antigo” e “Tocá música, vêm cantá”), Yao Feng (“Meus verbos estão cansados de ser tão conjugados”), António Manuel Couto Viana (“No templo de A-Má”), Carlos Marreiros (“Cântico de espumas”), Jorge Manuel de Abreu Arrimar (“Saudade”), Huang Xiao Feng (“Lua e Mar”), Feng Qing Cheng (“Solidão”), Leonel Alves (“Sabem quem sou?”), António Correia (“Quadro de Macau antigo”), Fernando Tributos a Pessoa e a Macau“Porque Macau não é apenas um ponto no mapa da grande China, mas a cidade com memória que sabe acolher, encantar e fazer-se gostar, é justo que este projecto inicial lhe faça uma homenagem através de alguns dos poetas que, tendo aqui nascido ou vivido, amaram Macau.”Maria Amélia António, Junho de 2015
  • 236 237 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I F A L A R D E N Ó S - X I ICorreia Marques (“Razões”) e Camilo Pessanha (“Estátua”). De registar que, além da composição musical, Felipe Fontenelle, que integra o grupo Sunny Side Up, contribuiu com dois poemas seus (“Na hora certa” e “Foi aqui”).um projecto bem realizadoPor iniciativa e produção da Casa de Portugal, dois discos acompanharam os concertos, perpetuando deste modo as actuações do conjunto em Macau. Foi um projecto que aquela agremiação cultural, recreativa e social abraçou e muito eficazmente concretizou. Como bem referiu a sua presidente, Maria Amélia António, “acrescentar a força, o encanto ou a doçura da música à palavra trabalhada pelos poetas para que mais rapidamente seja apreendida, exige criatividade, saber, sensibilidade, um grande espírito de equipa e muita dedicação de quantos lançam mãos à obra”, sendo “o trabalho aqui apresentado a expressão deste empenhamento colectivo que muito nos orgulha”.Quanto a Tributo a Macau, a justificação é clara: “Porque Macau não é apenas um ponto no mapa da grande China, mas a cidade com memória que sabe acolher, encantar e fazer-se gostar, é justo que este projecto inicial lhe faça uma homenagem através de alguns dos poetas que, tendo aqui nascido ou vivido, amaram Macau. Assim o sentiram os músicos que deram corpo e voz a este Tributo a Macau. Assim o sentiu a Casa de Portugal”. Particularmente significativa foi a sua divulgação no âmbito das comemorações locais do Dia de Portugal, sendo esta uma forma de se “dar testemunho da História com muitos afectos que nos liga indissoluvelmente a Macau”. Por outro lado, o concerto e o CD centrados na poesia de Pessoa, vulto maior da nossa literatura, contribui, “através da música e de outras formas de expressão para uma maior divulgação da língua portuguesa e dos seus poetas”. “Sonho e vontade partilhados pelos músicos que estão na gestação deste projecto e por toda a equipa envolvida na sua realização”, este segundo trabalho é inspirado no poeta que “a todos os falantes de português irmanou na expressão lapidar de que ‘a minha Pátria é a minha língua’.”os músicosO conjunto Sunny Side Up integra Felipe Fontenelle (voz, guitarra acústica, percussão, baixo e coros), Tomás Ramos de Deus (voz e coros) e Miguel Noronha Andrade (guitarra acústica e guitarra clássica), que também foi o responsável pela produção musical. Como convidados, participaram num só ou em ambos os concertos Jaume Pradas (bateria, percussão e coros), Diogo Santos (teclados), Paulo Pereira (saxofone alto), Diogo Duque (trompete e flauta transversal), Elmano Coelho (flauta transversal) e Qi Shen (erhu). letra de algumas cançõesPor serem menos conhecidos entre nós, escolhi para ilustrar este artigo os dois poemas de Felipe Fontenelle, ambos inspirados em Macau:
  • 238 239 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I F A L A R D E N Ó S - X I INa hora certaOnde você estavaQuando eu sempre precisei?A chuva ali molhavaQuis voltar para Fai Chi KeiVejo ao longe a luz quase a chegarParo ou corro?Continuo a andarVida sempre incertaMas a gente vive assimCheguei na hora certaIntempéries são assimVejo ao longe a luz quase a chegarParo ou corro?Continuo a andar ******Foi aquiFoi aqui que estivemosPor tantos anosFoi um pouco de nósQue aqui deixamosNuma esquina um nome,Um não sei quantosMais um rasto para trásA ecoar nos cantosA manhã teima em aparecerO teu sorriso é impossível de esquecerNos meus braços, junto ao peitoSó assim durmo direitoMais um dia vem e passaNuvens baixas, fumaçaO corpo sua, não é tardeA lembrança, já faz parte18 de Janeiro de 2016
  • 240 241 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I F A L A R D E N Ó S - X I I‘O Pe. Áureo era impulsivo e como era exigente consigo mesmo exigia aos outros. Muitas vezes não compreendia que nem todos tinham os dotes dele,’ lembra Eduardo Tavares que foi seu aluno no seminário. ‘Numa ocasião um estudante observou que a música de Bach era difícil. Ele acto contínuo levantou-se, dirigiu-se para o piano e começou a improvisar ao estilo de Bach para demonstrar quão simples podia ser aquele estilo de música.’As improvisações de Áureo de Castro decorriam do seu espírito impulsivo que o fazia reagir emocionalmente a uma conversa, numa aula, ou apenas porque o ambiente o predispunha, como lembra o compositor Richard Gamlen que entretinha longas conversas com ele no seu pequeno gabinete do Centro Católico, que lhe parecia sempre demasiado acanhado para conter a secretária, o piano e as estantes com livros. ‘Ali passávamos horas muito agradáveis com os nossos cachimbos, um ou dois copos de “chá da Escócia” discutindo música (naturalmente), política internacional e tantos outros assuntos. Por vezes o Pe. Áureo dirigia-se para o piano e começava a tocar peças da sua lavra marcadamente românticas. Tinha boa técnica adquirida primeiro no Seminário e mais tarde no Conservatório, sob a orientação de diversos professores. Estou a vê-lo, em camisa de algodão e suspensórios, levado pelas suas mãos vigorosas não sei em que voos de imaginação – era na verdade uma visão inspiradora.’‘O Pe. Áureo era introvertido e a certa altura da vida passou a recolher-se muito nas suas coisas. Era o contrário do Pe. Lancelote que, se as pessoas não iam ter com ele, ia ter com as pessoas.’ Mas apesar dessa sua faceta não tinha dificuldades em fazer amigos e talvez essa característica do seu carácter o tenha ajudado no trabalho Áureo castro – o músico e o pedagogo“Fazer a história da vida do padre Áureo da Costa Nunes e Castro é contribuir para trazer à luz uma área da cultura de Macau ainda bem mal iluminada. Trata-se da memória da música, na sua área vulgarmente chamada clássica, ou erudita.” João Guedes, Novembro de 2015Num dos artigos anteriores, dei nota da recente publicação do 8.º volume da colecção “Missionários para o Século XXI”, o qual, pela pena do jornalista João Guedes, foi dedicado ao Pe. Áureo Nunes e Castro, notável mestre que foi, para muitos e também para mim, um privilégio ter como professor de educação musical, além de respeitado amigo. Ao ler o livro, pude recordar o pedagogo e o músico que João Guedes muito bem soube retratar, com a colaboração de pessoas que com ele privaram:“A sua presença física contrastava em absoluto com a sua sensibilidade musical, a sua bondade e senso de humor. Alto, de porte atlético e cabelo hirsuto sobre a testa estreita dominava por si só um coro, ou uma orquestra. O seu ouvido apurado não deixava passar o menor deslize. ‘Quando o coro não correspondia, enfurecia-se atirando com os óculos em desespero, mas quando atendíamos os seus requisitos comovia-se e gesticulava alegremente,’ lembra Iao Ng que integrou o Coro Polifónico. A sua impulsividade notada nos ensaios de coros e orquestras era no entanto particularmente sentida na docência e principalmente nas aulas que ministrava no ensino secundário. Às vezes quando inquiria a turma sobre um qualquer assunto que tinha explicado e não vinha resposta pronta não era raro voar um livro pela sala fora. Nas aulas de latim, ou de moral que ministrava a par da música, era bem mais paciente para com os seus alunos e curiosamente o mesmo se passava com os seus alunos da Academia. Provavelmente, porque se encontravam já noutro patamar de ensino absorvendo com muito mais facilidade e rapidez os ensinamentos do mestre.
  • 242 243 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I F A L A R D E N Ó S - X I Isolitário que é o de compor. O Áureo Castro, diz o maestro Simão Barreto que foi seu aluno, só não foi um grande compositor porque escreveu pouco. Aliás para além dos seus trabalhos na área da polifonia coral, cantatas, sonatas e do seu Te Deum, este ‘um exemplo de música moderna para uso litúrgico’ como sublinha o maestro Veiga Jardim, as suas composições reflectem uma singular fusão de novas correntes da música contemporânea europeia nos primórdios do século XX e de elementos da música tradicional chinesa, como observa a professora Cecília I – Ian Long. Neste campo apresenta-se como um precursor capaz de introduzir um elemento novo de fusão entre o Ocidente e o Oriente na música clássica. (...)Nos últimos tempos de vida, a doença foi-se apoderando lentamente do seu corpo, impedindo-o de se mover e de continuar a escrever a música que era a razão de ser da sua vida. Áureo da Costa Nunes e Castro morre em Macau no dia 21 de Janeiro de 1993 e com ele se encerrou definitivamente um ciclo da cultura do Território de que foi iniludível protagonista, marcando definitivamente uma época. A cultura em geral e a música erudita em particular muito lhe devem e o estado reconheceu o seu papel atribuindo-lhe a Medalha de Mérito Cultural, condecoração que imporia também à sua Academia S. Pio X de que foi a alma inspiradora e a trave mestra.” uma colecção que vai prosseguirO Pe. Áureo Nunes e Castro é o nono sacerdote lembrado na colecção “Missionários para o Século XXI”, do Instituto Internacional de Macau, em oito volumes já publicados: “Padre Lancelote Rodrigues – Vida e Obra”, de Leonor Seabra; “Padre Joaquim Angélico Guerra, SJ – Um Globetrotter ao Serviço de Deus e da China”, do Padre Henrique de Jesus Rios, SJ; “Mário Acquistapace: Um Salesiano no Extremo Oriente”, de Mário Rodrigues Baptista; “P. Benjamim Videira Pires, Meu Irmão”, do Pe. Francisco Videira Pires; “Luigi Versiglia e Callisto Caravario, Mártires Salesianos na China”, de Luís Cunha; “Manuel Teixeira, de Menino a Monsenhor”, de José Teixeira; “Um Apóstolo do Oriente – Aproximação à Vida e Obra do Cardeal Costa Nunes”, de José Valle de Figueiredo e “Pe. Áureo Nunes e Castro, Missionário, Músico e Pedagogo”, de João Guedes. Na sessão comemorativa do centenário do nascimento do Pe. Benjamim Videira Pires, levada a efeito no auditório do Instituto Internacional de Macau, no dia 8 do corrente, foi confirmado que vários novos títulos da colecção estão já em preparação. Nesse encontro, protagonizado pela professora e investigadora Beatriz Basto da Silva, que apresentou uma excelente comunicação sobre a vida, personalidade e obra daquele sacerdote que deixou obra marcante como historiador, escritor e pedagogo, foram colhidas sugestões do público presente sobre outros missionários a contemplar em futuras edições. A colecção vai, pois, ter a desejada continuidade. 27 de Janeiro de 2016
  • 244 245 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I F A L A R D E N Ó S - X I IMacau di candarám antigonostreCubrido co télia vemêlo,Parece caiado,Varánda empolado...Únde têm vôs?Macau di quintal co pôço,Corda mará báldi,Báldi elá águ vêm riva.Horta co árvre di frutáziSemeado aqui-ali;Porta-trás pa sai lap-sap,Pa áma comprá som,Apô di cartá águ-fónti,Intrá-sai di casa. Únde têm vôs? ******Versos cantados no cd Tributo a Macau“... uma das formas de darmos testemunho da História com muitos afectos que nos ligam indissoluvelmente a Macau.” Maria Amélia António, presidente da Casa de Portugal em MacauJá fizemos aqui uma breve referência aos concertos do conjunto Sunny Side Up em Macau, em 2015, e aos dois discos (“Tributo a Macau” e “Pessoa”) que os acompanharam, ambos produzidos pela Casa de Portugal em Macau, um por ocasião das comemorações do Dia de Portugal e das Comunidades Portuguesas, em Junho, e o outro em Novembro, no Teatro D. Pedro V. Sendo muito interessante a selecção feita, vamos transcrever, com amável permissão da presidente da Casa de Portugal, alguns dos poemas que serviram de letra para as canções apresentadas:Casarám Antigo(de José Inocêncio dos Santos Ferreira)Macau di janéla verdeVeneziána di tabique;Macau di chám sobradado,Co enténa chuchú paredePa co-côi sobrado;Saguám pa lavá roupa,Teraço di chám di ladrilho.Lugar pa sugá rópa.
  • 246 247 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I F A L A R D E N Ó S - X I INo Templo de A-Má(de António Manuel Couto Viana)Detrás da franja que lhe vela o rosto,Com seus olhos de amêndoa, vela o porto interior,Onde veio parar, por um certo Sol-posto,O junco em que a trazia o pescador.E o pescador, tornado espanto e medo,Porque dela se evola o mistério que o invade,Ao vê-la diluir-se nas penhas, no arvoredo,Entende-lhe o desejo e a divindade.E na praia, ao abrigo dos tufões,O esplendor de um templo ergue a face encarnada,Encimado pelo ovo e os dragõesE o casal de leões a ladear-lhe a entrada.É assim que a A-Má, já satisfeito o gostoDa sagrada morada, para a prece e o louvor,Detrás da franja que lhe vela o rosto,Com seus olhos de amêndoa, vela o porto interior.É, no auge do dia que lhe é consagrado,Povoa-o de bandeiras de juncos e tancaresE ouve as orações de um azul perfumadoE o estrondo dos panchões, afogueando os ares. Afugenta, em redor, os demónios do céu,Faz o peixe pular para as redes da fomeE, por maior amor a terra que escolheu,Pôs-lhe um nome: o seu nome. ******Cântico de Espumas(de Carlos Marreiros)Cada gota de suor, uma pérolaE no oceano do teu corpoSolto as velas da tua velaNavego a plenitude numa conchaE vejo as ondas desfeitasNa cordilheira dos teus búzios******
  • 248 249 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I F A L A R D E N Ó S - X I ISaudade(de Jorge Manuel de Abreu Arrimar)Há uma saudadeSem dono pressentidaEm cada palavra anunciada,Em cada palavraQue não foi ditaApenas segredadaNo bálsamo do sono...Há um sabor(Des) conhecidoNa voz que despertaCom um sinal de fúria:O fogo iniciou jáO incêndio doloridoDa pele nua e submersaPorque tu vais chegarCom a brisa da ManchúriaÉ de saudar este meritório projecto da Casa de Portugal e incentivar a sua continuidade.1 de Fevereiro de 2016.Mais uma vez, o Instituto Internacional de Macau (IIM) co-organizou, em Dezembro passado, um importante seminário na capital chinesa, tendo como parceiros o Centro de Estudos dos Países de Língua Portuguesa (CEPLP) da Universidade de Economia e Negócios Internacionais de Pequim (UIBE) e o Instituto Brasileiro de Estudos da China e Ásia-Pacífico (IBECAP), com ampla participação de professores, estudantes, diplomatas, jornalistas, gestores, técnicos e profissionais de diversas áreas. Colaborou na organização o Clube do Livro Brasil-China. Os temas gerais foram “Construção de Macau como Plataforma de Negócios” e “Inovação do Modelo de Cooperação entre a China e os Países de Língua Portuguesa”, tendo as sessões sido conduzidas predominantemente na língua portuguesa, com apenas algumas comunicações de altos quadros chineses apresentadas em chinês, com tradução.A sessão de abertura contou com intervenções de Wang Cheng’an, director do CEPLP e ex-secretário-geral do Fórum para a Cooperação Económica e Comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa, Zhao Zhongxiu, vice-reitor do UIBE e Fong Tao, director-geral adjunto do Ministério dos Negócios Estrangeiros da República Popular da China, tendo os principais palestrantes sido Severino Cabral, director-presidente do IBECAP, Jorge Rangel, presidente do IIM, Zhon Zhiwei, director executivo do Centro de Estudos Brasileiros da Academia de Ciências Sociais da China (CASS), Liu Xueqin, pesquisadora do Instituto de Estudos do Ministério do Comércio da China, Zhao Rulin, do Departamento da Ásia Oriental e África do CASS, Wen Zhuojun, directora do Departamento de Português da Faculdade de Estudos Estrangeiros da UIBE, Augusto Batista de Castro, primeiro secretário da Embaixada do Brasil na China, Zhao Xuemei, vice-directora do CEPLP, José Lobo do Amaral, vice-presidente do IIM, Joana Sousa IIM co-organizou importante seminário em Pequim“O evento, que contou com o apoio do Instituto Brasileiro de Estudos da China e Ásia-Pacífico e do Instituto Internacional de Macau, debateu o papel de Macau como plataforma de negócios e a inovação no modelo de cooperação entre a China e os países de língua portuguesa.”Da reportagem do Diário do Povo
  • 250 251 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I F A L A R D E N Ó S - X I IFialho Pinheiro, primeira secretária da Embaixada de Portugal na China, Tang Qifang, do Instituto de Estudos Internacionais da China, e Lígia Liu, presidente do Clube do Livro Brasil-China.Os trabalhos foram permanentemente acompanhados por jornalistas da secção portuguesa do Diário de Povo e da Rádio Internacional de Pequim e por dirigentes e pesquisadores de diversos Ministérios e instituições académicas. Durante a permanência em Pequim, os responsáveis do IIM aproveitaram para renovar e reforçar relações de cooperação com entidades diversas, tendo ficado decidida a realização de novo seminário no fim do corrente ano, com ainda mais alargada participação, sendo unanimemente reconhecido o sucesso da série de seminários realizados nos últimos anos em Xangai e em Pequim.Estes eventos integraram-se num conjunto de encontros académicos levados a efeito em sete cidades de três continentes pelo IIM e pelo IBECAP, com o título genérico “O papel de Macau no intercâmbio sino-luso-brasileiro”. A palestra de encerramento foi proferida, em Macau, por Severino Cabral, director-presidente do IBECAP, na Fundação Rui Cunha, sendo subordinada ao tema “A Nova Mundialidade – A Emergência do Hemisfério Meridional”, com uma abordagem lúcida e corajosa de questões relacionadas com uma nova correlação de forças num mundo tendencialmente multipolar, com um papel de inquestionável relevância assumido pela China e por outras potências emergentes. Nesta última sessão, usou também da palavra, para relatar as suas longas vivências e experiências numa China em transformação, José Medeiros, professor de Português em Hangzhou. Pontos a assinalarFazendo um balanço positivo deste seminário em Pequim, bem como de outras actividades que o antecederam e complementaram, vale a pena referir alguns aspectos merecedores de registo, tendo em vista a realização de iniciativas similares no futuro próximo:1. O valor das parcerias estabelecidas entre entidades sediadas em partes diferentes (e distantes) do mundo, reforçando relações, partilhando recursos e assegurando a dimensão pluricontinental que se desejou para este conjunto coerente de encontros levados a efeito na América do Sul, na Europa e no Extremo Oriente.2. A importância da participação de instituições da sociedade civil em realizações desta natureza, pela sua flexibilidade, capacidade de decisão e autonomia de funcionamento. O IIM e o IBECAP, assim como outras entidades que se ligaram a este projecto, são de natureza associativa, sabendo cooperar com organismos públicos que, sozinhos, ficariam com um espaço de intervenção extremamente limitado.3. A possibilidade de a língua portuguesa ser cada vez mais usada nas intervenções e nos debates, mesmo em Pequim, o que foi para muitos surpreendente e é, especialmente para nós, motivo de enorme satisfação, pela importância que as autoridades chinesas dão ao ensino e ao uso mais generalizado da língua portuguesa. Foi, para nós, há três anos em Xangai e nos dois últimos anos em
  • 252 253 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I F A L A R D E N Ó S - X I IPequim, consolador constatar que muitos quadros chineses puderam e quiseram usar a língua portuguesa nas suas intervenções.4. O interesse crescente de serviços oficiais chineses no acompanhamento destas iniciativas. Este último seminário, pela diversidade e qualidade das comunicações apresentadas por representantes de organismos públicos, excedeu as nossas expectativas, até no que respeita ao conhecimento profundo que revelaram ter da situação económica de Macau.5. O mesmo se pode dizer de grandes órgãos de comunicação chineses, como o Diário do Povo e a Rádio Internacional de Pequim, que acompanharam, em permanência, todas as sessões do seminário, produzindo reportagens e elaborando súmulas das intervenções.6. A presença dos primeiros secretários das Embaixadas de Portugal e do Brasil em Pequim, ambos apresentando comunicações e contribuindo para ampliar o significado do encontro. Eram, afinal, Portugal e o Brasil que ali estavam oficialmente representados.7. Estão lançadas as bases para a consolidação de iniciativas como estas que foram aqui referidas. Autoridades e instituições chinesas compreenderam a sua relevância e quiseram apoiá-las. O mesmo sentimos no Brasil, onde o próprio Itamaraty (Ministério das Relações Exteriores) e outras prestigiadas entidades quiseram oferecer-nos colaboração. de mãos dadasA longa reportagem do Diário do Povo, depois de resumir as principais intervenções feitas e salientar o apoio de Pequim ao desenvolvimento do papel de Macau no mundo, caracterizou assim o IIM, no seu apontamento intitulado “China e Macau de mãos dadas”: “Macau esteve presente no evento através do Instituto Internacional de Macau (IIM). O IIM foi criado em 1999 com o objectivo de dar continuidade fidedigna à identidade e à vocação mais profundas de Macau, contribuindo com novas formas de projecção da RAEM no futuro. O IIM tem-se dedicado à promoção do intercâmbio, reforço da pesquisa académica e organização de seminários e conferências. O IIM é hoje a entidade com maior produção editorial em Macau, sendo também membro de várias organizações internacionais, além de ter o estatuto de observador consultivo da CPLP”. 15 de Fevereiro de 2016
  • 254 255 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I F A L A R D E N Ó S - X I IPresidente do Instituto Internacional de Macau desde Dezembro de 1999, Jorge Alberto Hagedorn Rangel desempenhou funções públicas em Macau, sua terra natal, durante quase 25 anos, treze dos quais como membro do Governo, tendo tutelado as áreas de Administração Pública, Educação, Cultura, Juventude, Desporto e Turismo, bem como o Gabinete Coordenador das Cerimónias de Transferência. Em várias ocasiões foi Encarregado do Governo de Macau, substituindo o Governador nas suas ausências.É casado e tem uma filha, vivendo a família, oriunda de Portugal, há dez gerações em Macau e noutras terras do Extremo Oriente.Fez os ensinos básico e secundário em Macau e os estudos superiores em Lisboa, Cambridge, Bonn e Navarra. Enquanto estudante, dedicou-se intensamente a actividades de juventude, desde as da Mocidade Portuguesa às de associações académicas, tendo participado também em encontros estudantis e juvenis no estrangeiro, e interessou-se pela comunicação social, tendo obtido a classificação de “óptimo” no I Curso Nacional de Jornalismo organizado pelo Sindicato Nacional de Jornalistas, além de ter feito o Curso de Ciências e Técnicas de Informação, em Pamplona (Espanha).Cumpriu o serviço militar nos Açores e na Guiné, onde, como Capitão Miliciano de Infantaria, comandou uma companhia em zona operacional, com vários louvores em campanha, tendo também dirigido a instrução de tropas no seu comando operacional. Na fase final da comissão militar na Guiné, trabalhou junto do Governador e Comandante-Chefe.Foi eleito deputado à 1.a legislatura da Assembleia Legislativa de Macau (1976-80), onde presidiu às Comissões de Assuntos Constitucionais, Jorge A. H. rangel Presidente do Instituto Internacional de MacaunoTA BIogrÁFIcA
  • 256 257 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I F A L A R D E N Ó S - X I IDireitos, Liberdades e Garantias e do Regimento e Mandatos e, entre outras funções públicas, foi também presidente da Fundação Macau e director do Turismo e da Comunicação Social. As suas últimas responsabilidades oficiais foram a coordenação da transferência das responsabilidades administrativas da Administração Portuguesa para o novo Governo da Região e a tutela do Gabinete Coordenador das Cerimónias de Transferência. Foi também membro do Conselho de Redacção da Lei Básica da Região Administrativa Especial de Macau.No âmbito académico, além de funções docentes, foi o presidente da comissão instaladora do Instituto Politécnico de Macau, de que é agora presidente honorário, e membro das comissões instaladoras do Curso de Administração Pública e da Faculdade de Ciências da Educação da Universidade de Macau. Também presidiu ao Conselho da Universidade de Macau e aos Conselhos de Educação, do Desporto e de Juventude e foi consultor da Universidade Aberta Internacional da Ásia. É professor convidado de várias instituições de ensino superior, sendo também director honorário do Centro de Estudos Comparativos de Culturas da Universidade de Soka (Tóquio). Foi conferencista no Instituto da Defesa Nacional de Portugal, ministrando a matéria “A Bacia do Pacífico, Situação Estratégica e Perspectivas de Evolução”, e integrou o corpo docente do curso de pós-graduação em China Moderna no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade Técnica de Lisboa, dando idêntica colaboração docente no Curso de Estudos Chineses (China Moderna e Contemporânea) da Universidade de Aveiro, ocupando-se dos Estudos de Macau.Desenvolveu e mantém ainda uma actividade intensa em organismos internacionais, como a UNESCO, a EROPA (Eastern Regional Organization for Public Administration), de que é membro vitalício, a Universidade das Nações Unidas e a Associação das Universidades de Língua Portuguesa (AULP). Foi presidente da EATA (East Asia Travel Association), com sede em Tóquio; presidente regional da PATA (Pacific Asia Travel Association), com sede em Banguecoque, de que é director vitalício, e membro do Conselho Executivo da Organização Mundial do Turismo, com sede em Madrid. Participa regularmente, como conferencista, em encontros internacionais, de que se destaca a Conferência Internacional sobre o Diálogo das Civilizações, que se realizou em Tóquio e Quioto, no âmbito das Nações Unidas, tendo presidido à sessão sobre “Multiculturalismo e Encontro de Culturas”.A actividade associativa ocupa parte importante do seu tempo, tendo sido presidente do Elos Internacional – Movimento da Comunidade Lusíada durante dois mandatos (eleito em São Paulo, Brasil, em 1999, e reeleito em Coimbra, em 2001), presidindo depois ao seu conselho superior. Foi presidente da assembleia geral da Associação Promotora da Instrução dos Macaense e presidente dos conselhos consultivos da Associação de Gestão de Macau e do Conselho das Comunidades Macaenses. É académico honorário da Academia Portuguesa de História, académico da Academia Lusófona de Arte e Cultura, membro emérito da Comissão Temática de Língua Portuguesa da CPLP e do Observatório da Língua Portuguesa e presidente do Conselho Supremo da Sociedade Histórica da Independência de Portugal, além de dirigente ou membro de numerosas outras associações de natureza cultural, artística, educativa e social. O Instituto Internacional de Macau, de que é presidente e membro fundador, é uma organização não governamental, com a classificação oficial de organismo de utilidade pública. É também membro dos conselhos de curadores das Fundações Casa de Macau, Jorge Álvares e do Santo Nome de Deus, todas ligadas a Macau, sendo também membro honorário de agremiações macaenses espalhadas pelo mundo.
  • 258 259 J o r g e A . H . r A n g e l J o r g e A . H . r A n g e l F A L A R D E N Ó S - X I I F A L A R D E N Ó S - X I IÉ autor de várias obras, com destaque para “Macau e a Comunidade Macaense”, com 12 volumes já publicados.Foi agraciado com condecorações e outras distinções nacionais e estrangeiras, entre as quais a Ordem Nacional do Infante D. Henrique (Grande Oficial em 1982 e a Grã-Cruz em 1998), a Medalha de Valor (a mais alta distinção honorífica de Macau), a Medalha de Mérito Pedro Ernesto da Cidade do Rio de Janeiro, a Medalha de Mérito da Federação das Associações Portuguesas e Luso-Brasileiras do Brasil, o título de membro honorário do Liceu Literário Português e benemérito do Real Gabinete Português de Leitura do Rio de Janeiro, a Comenda Eduardo Dias Coelho, do Elos Internacional, a Medalha Machado de Assis, a Medalha Victor Hugo de Cultura e a Medalha de Mérito Min-On (Tóquio), tendo também recebido o Award of Excellence do Instituto de Filosofia e Estudos Orientais de Tóquio, o Paul Harris Fellow e o título de membro benemérito da organização rotária internacional, a medalha de mérito do Lions International e, ainda estudante, o troféu D. Quixote, do Conselho da Europa, nos Colóquios Internacionais sobre a Juventude e a Europa do Futuro, além de vários doutoramentos honoris causa.
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