• Jorge A. H. rAngelFAlAr de nós – XIMAcAu e A coMunIdAde MAcAense – acontecimentos, personalidades,instituições, diáspora, legado e futuroJorge A. H. rAngelFAlAr de nós – XI
  • FALAR DE NÓS – XI
  • EdiçãoInstituto Internacional de MacauPatrocínio da Fundação Jorge ÁlvaresApoio do Governo da RAEMFALAR DE NÓS – XIMACAU E A COMUNIDADE MACAENSE– AcontEcimEntos, PErsonAlidAdEs,instituiçõEs, diásPorA, lEgAdo E futuroSérie de crónicas e artigos publicados no “Jornal Tribuna de Macau”,de 10 de Fevereiro de 2014 a 19 de Janeiro de 2015JORgE A. H. RANgELmacau, dezembro de 2015 ficha técnicatítulo FALAR DE NÓS – XI • subtítulo Macau e a Comunidade Macaense – acontecimentos, personalidades, instituições, diáspora, legado e futuro • Autor Jorge Rangel • Editor Instituto Internacional de Macau• direcção e execução gráficas victor hugo design • dactilografia Emília Guine • tiragem 500 exemplares• impressão e encadernação Tipografia Welfare Lda • ISBN 978-99937-45-91-4Nota: Edição composta pela série de crónicas e artigos publicados no “Jornal tribuna de macau”, de 10 de fevereiro de 2014 a 19 de Janeiro de 2015.
  • J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L ÍNDICE013Nota prévia – Onze volumes concluídos014Comunidade académica local com Cavaco Silva, há 20 anos10/02/14019Novo ano – linhas de acção e recados oportunos17/02/14024Construção de mecanismos eficientes de governação24/02/14029LAG - Preocupações sociais e com a qualidade de vida03/03/14034Exposição retrospectiva no centenário de Chui Tak Kei10/03/14039D. José Policarpo, fundador da Universidade Católica de Macau17/03/14044Festividades tradicionais portuguesas24/03/14049O Coronel Carlos Gomes Bessa e Macau31/03/14054Macau no período da união das coroas peninsulares08/04/14059Juramento de fidelidade e nascimento do Senado14/04/14064China e Portugal, Cinco centúrias de relacionamento22/04/14069Mariano Tamagnini - uma vida com Macau no coração28/04/14074Itinerários de Arlinda Frota05/05/14078Shenzhen uma cidade para todas as estações12/05/14083Recordando o enquadramento político de Macau em 1974-75 19/05/14088A questão da “devolução” de Macau à China nos anos da revolução de Abril26/05/14093CCM - Um espaço emblemático de afirmação cultural 03/06/140984.º livro sobre o Delta do Rio das Pérolas09/06/14103No 35.º aniversário das relações diplomáticas16/06/14108Com o coração em Malaca23/06/14113Legado de poeta popular de Macau enaltecido em Lisboa30/06/14117Curioso texto de Pedro Nolasco da Silva sobre o patuá07/07/14122Portugal – Macau: um património14/07/14126Macau, um sonho oriental21/07/14131Orquestra Chinesa de Macau abrilhantou festivais em Portugal28/07/14135Murtosa homenageia J. J. Monteiro, poeta popular de Macau04/08/14140Brasileiros nos extremos orientais do Império11/08/14
  • J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L 144Revista Oriente/Ocidente em novo e apelativo formato18/08/1414920.ª Conferência da EACS com significativa participação de Macau25/08/14154Roberto Carneiro em doutoramento honoris causa01/09/14159Arquivo Histórico de Macau acolheu valiosa colecção iconográfica08/09/14163Macau no intercâmbio sino-luso-brasileiro15/09/14168IIM homenageado no Brasil 22/09/14172Escritores macaenses apresentados em encontro no Brasil29/09/14176Três contos de escritores macaenses06/10/14181Zhuhai, a cidade vizinha de Macau no Delta13/10/14186Figuras de Jade - os Portugueses no Extremo Oriente20/10/14190Uma produtiva cooperação cultural27/10/14194Escrever Macau em Português04/11/14198Pintores lusófonos expõem em Macau10/11/14203Cores de Macau17/11/14208III Encontro de Poetas Lusófonos e Chineses em preparação24/11/14213Mais um relato sobre os efeitos da revolução cultural chinesa em Macau01/12/14217Macau, do 1-2-3 ao 25 de Abril09/12/14222Homenagens a Mio Pang Fei15/12/14227A Última Pérola - Macau21/12/14232Um texto sobre o Natal em Macau29/12/14237O espaço que Estima de Oliveira criou05/01/15242Importante edição do IIM sobre a China na I Guerra Mundial12/01/15246Os principais momentos dos dias finais da transição19/01/15251Nota biográfica
  • 011 J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – IXÀ Região Administrativa Especial de Macau,acompanhando o seu notável desenvolvimento e honrando o legado e a memória
  • 012 013F A L A R D E N Ó S – XI J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – XINota préviaOnze volumes concluídosSemana após semana, os artigos e crónicas sucedem-se, sendo já onze os volumes concluídos desta continuada conversa com o leitor sobre diversificados assuntos relacionados com Macau, identificando acontecimentos e referindo personalidades, instituições, o legado, a diáspora e o futuro.Especial atenção tem sido dada, também, a livros, de ontem e de hoje, que têm Macau como tema central ou fonte de inspiração. É verdadeiramente notável a produção editorial em torno desta terra e das suas gentes, bem como da sua memória e da projecção que ela soube alcançar nas vertentes cultural e económica, favorecida pela conjugação feliz de circunstâncias positivas.Enquanto este volume sai do prelo, outro está já em fase de finalização, representando um contributo, modesto certamente, mas sentido e persistente, para uma melhor compreensão da dimensão humana, social e política de Macau, entreposto privilegiado que a História consagrou e que, como região especial da China, quer prolongar, nestes tempos de mudança e de renovados desafios, a sua vocação de sempre.Macau, Dezembro de 2015O autor
  • 014 015F A L A R D E N Ó S – XI J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – XINa opinião de muitos dos que acompanharam de perto a visita oficial do então Primeiro-Ministro Aníbal Cavaco Silva a Macau, em 1994, o encontro que teve com a comunidade académica local foi o evento mais memorável do programa. Ele próprio ficou visivelmente comovido ao receber uma entusiástica ovação das autoridades académicas, professores e estudantes, quando deu entrada no grande auditório do Centro Cultural da Universidade de Macau, no dia 19 de Abril de 1994, acompanhado do Governador Vasco Rocha Vieira, do autor deste artigo, que era o Secretário para a Administração, Educação e Juventude, e dos principais responsáveis de instituições académicas locais. Quase duas décadas volvidas, vale a pena recordar a forma digna e calorosa como docentes e discentes acolheram, já em pleno período de transição, uma alta entidade do Estado Português, bem como as mensagens de grande confiança então expressas no futuro de Macau, na juventude e no papel da Universidade.Aposta na formaçãoO reitor Li Tianqing, na sua saudação, realçou a “missão histórica” cometida à Universidade de Macau e às demais instituições de ensino superior locais, “na preparação dos quadros qualificados necessários ao período de transição e à futura RAEM”, bem como na resolução de importantes questões, como a localização dos quadros e a oficialização da língua chinesa, querendo a Universidade ser uma “ponte de ligação para o intercâmbio cultural e académico entre o Oriente e o Ocidente”. Seguiu-se uma intervenção da directora dos Serviços de Educação e Juventude, Maria Edith da Silva, identificando as preocupações fundamentais em torno duma “educação para o progresso, para o desenvolvimento, mas também uma educação que salvaguarda os valores que deram a Macau a sua identidade”, “sendo cada vez mais significativo o investimento nos recursos humanos deste Território”. Em nome dos estudantes, falou Esmeralda Chu, aluna do Instituto Politécnico de Macau, para afirmar que a juventude de Macau “saberá honrar a herança que vamos receber e respeitar a identidade de Macau, nossa terra, onde queremos continuar a viver”, interpretando o gesto do Primeiro-Ministro, ao querer realizar aquele encontro, “como sinal de confiança na juventude de Macau e no seu futuro”, estando os jovens “conscientes da nossa responsabilidade de sermos continuadores do exemplo que recebemos, de convivência e tolerância, e também construtores de um futuro em que acreditamos e em que queremos participar”.Expressão de confiançaCom o auditório lotado, muitos estudantes ocuparam os corredores de acesso e as escadas, contribuindo, espontaneamente, para dar ainda maior significado àquele ambiente festivo, que surpreendeu o Primeiro-Ministro, levando-o a pronunciar, de improviso, estas palavras de satisfação e de confiança:“Estou verdadeiramente impressionado pela audiência que tenho diante de mim e particularmente tocado pelo colorido inesquecível desta cerimónia. E se não tivesse já, atrás de mim, a experiência de oito anos de Primeiro-Ministro sentir-me-ia até algo embaraçado e nervoso.É, para mim, uma grande honra visitar a Universidade de Macau. Quero agradecer as palavras de boas vindas que me foram dirigidas pelo Senhor Reitor e pela Senhora Directora dos Serviços de Educação e agradecer duma forma muito especial as palavras Comunidade académica local com Cavaco Silva, há 20 anos“Porque é no presente que se anuncia e se tece o futuro, a área da Educação tem merecido um grande esforço, sendo cada vez mais significativo o investimento nos recursos humanos deste Território.” Maria Edith da Silva, Abril de 1994
  • 016 017F A L A R D E N Ó S – XI J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – XIda representante dos estudantes, sublinhando o significado da visita do Primeiro--Ministro de Portugal à Universidade de Macau.Sei que estou a visitar uma jovem Universidade que já foi capaz, pelo número de cursos que oferece e pela qualidade destes mesmos cursos, de se afirmar não apenas em Macau mas também de se projectar nesta parte do mundo. À Universidade de Macau cabe um papel decisivo na formação dos recursos humanos para o Território. Esse papel é tanto mais importante quando está em curso um período de transição da administração portuguesa para a administração chinesa, em que se impõe avançar nos próximos anos na localização dos quadros na administração do Território.Mas, para além do contributo para a fixação de quadros na administração do Território, estou certo de que esta Universidade irá desempenhar, igualmente, um papel muito positivo no desenvolvimento desta região, através da formação de quadros qualificados com uma formação académica de nível superior adequada às necessidades de Macau.A Universidade prepara os jovens para o espaço em que eles próprios irão viver no futuro e o que desejamos é que desta Universidade saiam os dirigentes para a parte política, para a parte económica, social e todos os outros domínios, que irão orientar o futuro da Região Administrativa Especial de Macau. Com certeza que os jovens de Macau não desejariam que fossem outros, fora do Território, a dirigir os destinos de Macau.A Universidade de Macau é também importante para a afirmação da especificidade deste Território. A especificidade de Macau, a sua singularidade, a sua especial maneira de viver, é a sua grande riqueza em comparação com regiões vizinhas.Espero também que esta Universidade continue a ser um elo de amizade e de intercâmbio de culturas, culturas do Oriente e culturas do Ocidente. A Universidade de Macau, ao longo deste curto período da vida, já soube estabelecer os necessários contactos, não apenas com universidades portuguesas mas também com universidades de outros países. A Universidade de Macau é uma garantia de confiança no futuro do Território, uma garantia para a sua estabilidade, progresso e forte crescimento económico.Não apenas como Primeiro-Ministro mas também como Professor – sou professor universitário desde 1965 – e falando para uma audiência como esta, quero manifestar aqui a minha total confiança na juventude de Macau, o que significa a minha total confiança no futuro do Território. Por isso quis vir aqui afirmar, de forma muito clara, que o Governo Português apoia o desenvolvimento da Universidade de Macau.Faço votos para que ela continue a crescer, não apenas em quantidade mas também em qualidade, porque, nos dias de hoje, a qualidade é decisiva para o triunfo. E manifesto aqui, também, a minha confiança no desenvolvimento do Território e no contributo da Universidade de Macau para a sua estabilidade, para o seu desenvolvimento e para o seu progresso”.Prioridade para a EducaçãoEra esse um tempo acelerado de mudança e de realização dos propósitos fixados para a transição, com vista ao estabelecimento correcto da RAEM. Foi, por isso, também um período em que, finalmente, a Educação ganhou absoluta prioridade nas linhas de acção governativa, com um impulso decisivo dado ao ensino superior, à formação em
  • 018 019F A L A R D E N Ó S – XI J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – XItodos os domínios e à execução da lei-quadro da educação não-superior, acompanhada de ampla renovação do parque escolar. Preparava-se o futuro, num tempo de grandes desafios e justificada esperança ...10 de Fevereiro de 2014Depois das múltiplas e diversificadas festas e celebrações que marcaram a vida local nos últimos meses e dos feriados sobre feriados que forçadas tolerâncias de ponto permitiram prorrogar, é tempo de voltarmos à realidade, por maior que seja o desejo de algumas autoridades se manterem num mundo de fantasia que o dinheiro abundante permite vislumbrar, como se a população, em geral, vivesse num ambiente mágico, próprio de contos de fadas.Os geomantes e os adivinhos, muito procurados nesta altura do ano, já divulgaram as suas previsões, não totalmente coincidentes, com desgraças apontadas, mas também renovados sucessos garantidos. Não foi por acaso que um dos mais conceituados, Peter So, viu o seu livro “Your Fate in 2014, the Year of the Horse” (Hong Kong, Forms Publications, Outubro de 2013) alcançar o estatuto de “best seller”. Formulamos votos de que, na sequência da Serpente, que fez entremear alegrias com lágrimas, o Cavalo, forte, elegante e a galope rumo ao porvir, leve a sorte mais longe e ofereça a quantos vivem na nossa terra um ano cheio de realizações e situações positivas.Acção governativaFoi em mais um debate desnecessariamente extenso e pouco esclarecedor, dominado por intervenções que pouca relação tinham com as propostas do Executivo para 2014, que o órgão legislativo local aprovou um programa por muitos observadores e analistas considerado o menos ambicioso e o mais inócuo de quantos haviam sido concebidos na vigência da RAEM. Novo ano – linhas de acção e recados oportunos“Xi Jinping pediu ‘mais esforços’ ao Governo e à população da RAEM no sentido de, por um lado, manter um desenvolvimento ‘consistente’ e, por outro, melhorar e diversificar a estrutura económica do território.” Despacho da Agência Xinhua, 18-12-2013
  • 020 021F A L A R D E N Ó S – XI J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – XIJá por tradição, as chamadas Linhas de Acção Governativa costumam ser pouco mais do que uma fastidiosa e repetitiva enumeração de propósitos e boas intenções que, na globalidade, nem sequer merecem a atenção suficiente dos dirigentes da Administração Pública, cada um preocupado, em regra, apenas com as suas próprias obrigações sectoriais. A identificação clara dos magnos problemas da população, que é, afinal, o que verdadeiramente importa, nem chega a ser feita com o rigor necessário, como se eles, ao serem omitidos ou por terem as soluções sistematicamente proteladas, deixassem de existir.No programa para 2014 ressaltam, como objectivos prioritários, a “construção de mecanismos eficientes de governação a longo prazo”, o “desenvolvimento económico diversificado”, a “construção de uma cidade com condições ideais de vida” e a “elevação do desempenho da Administração Pública”, com conjuntos de medidas integradas em cada uma dessas grandes epígrafes, muitas das quais não são mais do que a continuidade da sua aplicação, já reafirmada sucessivas vezes ao longo dos anos anteriores. Daí que verbos como “prosseguir”, “acelerar”, “optimizar”, “aprofundar”, “aperfeiçoar”, “continuar”, “aumentar” e “reforçar” ganhem ali notória coerência.Especial relevo no programa para 2014 é dado à “formação de talentos”, orientada pelo conceito “construir Macau através da ‘formação de talentos’, colocando, como primeira prioridade da acção governativa, a formação de talentos locais”. Para o efeito, será “considerada a criação, sob a directa dependência do Chefe do Executivo, de uma comissão de desenvolvimento da formação de talentos, que terá como objectivo o planeamento científico da formação de talentos”. Também neste domínio, tudo é perspectivado a longo termo, em conformidade com um “planeamento científico” ainda por fazer.Recados políticosÉ normal o Chefe do Executivo rumar a Pequim em missão oficial, no fim de cada ano, para apresentar às mais altas entidades do Estado um balanço dos trabalhos do ano que finda e as linhas de acção para o novo ano. Na 3.ª semana de Dezembro foi levada a efeito a visita e foi bom ver o Presidente da República, bem como o Primeiro-Ministro, reafirmar o apoio total à RAEM e ao Chefe do Executivo, no cumprimento da sua alta missão.Os comunicados difundidos por agências noticiosas e pelo Gabinete de Comunicação Social do Governo da RAEM permitem-nos concluir que também houve lugar a alguns recados oportunos que poderão ser resumidos do seguinte modo: “o Presidente Xi Jinping pediu ‘mais esforços’ ao Governo e à população da RAEM no sentido de manter um desenvolvimento ‘consistente’ e melhorar e diversificar a estrutura económica do território”; “o Presidente pediu ao Governo da RAEM para tomar medidas práticas e inovadoras, com base no rápido desenvolvimento nos últimos anos, e explorar várias formas adequadas para progredir”; “Xi Jinping advertiu que Macau também deve estar preparada para a adversidade, pelo que deve aproveitar a fase de prosperidade para trabalhar em planos de longo prazo”; “o objectivo prioritário deve ser, agora, a melhoria da vida da população, promovendo a diversificação económica adequada e o desenvolvimento sustentável, para que Macau possa viver sempre em paz, harmonia e segurança”; “os dirigentes nacionais expressaram votos que a bonança da economia possa ser bem aproveitada, sem esquecer que é preciso estar preparado para eventuais tempestades”.
  • 022 023F A L A R D E N Ó S – XI J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – XIEm consonância com estas recomendações e orientações, o director do Gabinete de Ligação do Governo Popular Central, ao enaltecer, numa cerimónia comemorativa do 14.º aniversário da RAEM, o sucesso da aplicação do princípio “um país, dois sistemas” e ao elogiar a acção do Executivo, “num ano em que o ambiente externo mudou muito e as várias contradições da sociedade representaram grandes desafios”, exortou Macau a “insistir no caminho do desenvolvimento, por forma a colmatar as lacunas ainda existentes”, porque “a manutenção desta prosperidade e a resolução dos problemas e contradições profundas dependem também do desenvolvimento a longo prazo”, sendo objectivos “o aumento da capacidade de governação e a promoção da modernização do sistema de governação.”É difícil não haver concordância com as preocupações expressas. Novo mandatoA (re)eleição do Chefe do Executivo será o principal facto político do corrente ano, em torno do qual se agitam as forças vivas locais, mesmo sabendo que está fora de questão qualquer surpresa neste domínio.Necessário, porém, é que se renove, pelo menos parcialmente, uma equipa excessivamente desgastada, substituindo “veteranos”, cujo prazo de validade foi já ultrapassado, por verdadeiros “talentos locais”, mais preparados, académica e tecnicamente, para coadjuvarem o Chefe do Executivo na inadiável tarefa de enfrentar os maiores problemas que afectam a população, que são, entre outros, a habitação, a ganância dos especuladores imobiliários, a poluição, o trânsito citadino, os cuidados de saúde, o bem-estar social, a promiscuidade evidente entre interesses públicos e privados e a necessidade imperiosa de maior eficácia e operacionalidade na gestão pública. Imensos são, pois, os desafios, que só poderão ser vencidos com ambição, coragem e uma vontade inabalável de bem servir. 17 de Fevereiro de 2014
  • 024 025F A L A R D E N Ó S – XI J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – XIComplementando o artigo anterior, vamos apreciar os objectivos e medidas de política pública aprovados para o ano em curso e enquadrados em quatro grandes áreas de intervenção: “construção de mecanismos eficientes de governação de longo prazo”, “desenvolvimento económico diversificado”, “construção de uma cidade com condições ideais de vida” e “elevação do desempenho da Administração Pública”, visando “aumentar a capacidade global” e “promover o desenvolvimento sustentável”.Formação de talentosNo âmbito da construção de mecanismos eficientes de governação, é colocada, como primeira prioridade da acção governativa, a formação de talentos locais, sendo considerada a criação, sob a directa dependência do Chefe do Executivo, “de uma comissão de desenvolvimento da formação de talentos, que terá como objectivo o planeamento científico da formação de talentos”. Neste contexto, procurar-se-á “aperfeiçoar a base de dados de talentos e criar o sistema de avaliação de talentos; acelerar a implementação das acções sobre a acreditação profissional e a avaliação da capacidade profissional; construir um sistema de selecção de talentos, orientado pelos princípios da imparcialidade, da justiça e da transparência; optimizar o regime de incentivos e de prémios, de forma a favorecer a formação de talentos; equacionar a criação e implementação do ‘Programa da formação de elites’, do ‘Programa de estímulo aos quadros qualificados e especializados’, do ‘Programa de incentivo aos quadros técnico-profissionais’; promover o aumento da percentagem de trabalhadores locais em cargos de direcção nas grandes empresas; estudar a concessão de incentivos privilegiados para estimular o regresso dos talentos “Colocar, como primeira prioridade da acção governativa, a formação de talentos locais.” das Linhas de Acção Governativa para 2014Construção de mecanismos eficientes de governaçãolocais a Macau, para aqui desenvolverem a sua carreira profissional; e promover a formação de talentos para a sociedade e para o sector dos serviços públicos”. São de aplaudir estes propósitos, mas é imprescindível que a RAEM tenha também uma política consistente e realista de atracção de talentos do exterior, em todas as áreas profissionais em que a sua colaboração possa ser útil, sendo óbvia a sua necessidade também como formadores. O desenvolvimento do território não pode prescindir do recrutamento de recursos humanos qualificados de qualquer origem, pelo que é urgente a remoção de obstáculos incompreensivelmente colocados por serviços com intervenção directa nesta matéria. Nenhuma sociedade aberta, virada para o futuro, pode fechar as portas à colaboração de quadros especializados do exterior. Importa, por outro lado, que haja total coerência entre o estímulo ao regresso de talentos locais e o seu real e adequado aproveitamento, compatível com a sua formação e experiência. Oxalá o “planeamento científico” preconizado dê atenção a estas questões, para que haja uma correspondência efectiva entre o discurso político e a prática.No que respeita à formação, e com vista ao desenvolvimento educativo, as L.A.G. apontam ainda as seguintes medidas: “planear a construção, em Coloane, de um centro prático de ensino técnico-profissional em Seac Pai Van, e de um ‘centro de formação de línguas’, prevendo-se que ambos entrem em funcionamento em 2016; aumentar os apoios financeiros para o ensino especial, com vista a melhorar as condições de aprendizagem dos alunos e aumentar, significativamente, o número e o montante de
  • 026 027F A L A R D E N Ó S – XI J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – XIbolsas de mérito e proporcionar aos estudantes uma plataforma de serviços polivalentes através do recém-criado Centro dos Estudantes do Ensino Superior”. É absolutamente louvável o enorme esforço feito pelo Governo da RAEM no alargamento do acesso ao ensino superior e no seu constante desenvolvimento, na sequência da aposta segura assumida nas últimas décadas da administração portuguesa, mas é recomendável um acompanhamento mais atento da execução financeira das instituições de ensino superior, com maiores exigências de rigor, e um controlo mais eficaz do despesismo em que embarcou a principal universidade da RAEM, com desproporcionados encargos assumidos que poderão, a prazo, tornar-se incomportáveis em termos orçamentais. Funcionamento dos serviços públicosA elevação do desempenho da Administração Pública, em prol de um funcionamento mais eficiente, é outra das constantes prioridades expressas nas L.A.G. ao longo dos anos.Para 2014, dando continuidade a muitas medidas e planos de reforma anteriormente anunciados e incompletamente realizados, são identificados os projectos e propósitos a seguir mencionados: “acelerar a revisão da lei de enquadramento orçamental; manter a adopção de medidas complementares de apoio destinadas aos trabalhadores de base da Administração Pública, tais como a atribuição de abono para sobrevivência, e prosseguir os trabalhos que visam a melhoria das regalias de todos os trabalhadores da Administração; rever os diplomas relativos à organização e funcionamento do Instituto Cultural e do Instituto do Desporto no sentido de os adaptar à transferência de atribuições actualmente cometidas ao Instituto para os Assuntos Cívicos e Municipais, e aprofundar o ajustamento das atribuições do Instituto para os Assuntos Cívicos e Municipais noutras áreas; aprofundar e aperfeiçoar, ainda mais, o regime de apreciação do desempenho do pessoal de direcção e ponderar a criação de uma comissão especializada encarregue de coordenar e dirigir os respectivos trabalhos e rever as matérias relativas aos organismos consultivos existentes, e limitar o número de organismos consultivos para os quais a mesma pessoa pode ser nomeada como membro, regulamentar a duração dos mandatos, assim como aumentar a diversidade da sua composição e a transparência do seu funcionamento”.Numa área em que há ainda tanto por fazer, salta à vista que é francamente pouco o que se propõe. É de registar, todavia, que se procederá, finalmente, à revisão do funcionamento da impressionante multiplicidade de organismos consultivos e à alteração, plenamente justificada e há muito reclamada, das atribuições e competências do IACM, passando para o Instituto Cultural, para o Instituto do Desporto e para outros serviços responsabilidades que se enquadram muito melhor no âmbito de cada um deles. As reformas de fundo ficarão, contudo, para mais tarde, com base em estudos produzidos pelos SAFP e sob uma orientação tutelar mais esclarecida e consequente.As L.A.G. salientam, ainda, o papel de duas entidades cuja acção pode ser determinante para assegurar a integridade, a legalidade administrativa e a promoção duma gestão pública correcta, competente e justa: o Comissariado contra a Corrupção, que irá “optimizar a sua estrutura orgânica e a dotação do pessoal”, e o Comissariado da Auditoria, que continuará a “apoiar os trabalhos de gestão de desempenho do Governo”.
  • 028 029F A L A R D E N Ó S – XI J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – XIAs preocupações de natureza social e com a qualidade de vida da população serão objecto de análise no próximo artigo, com enfoque na segurança social, no aperfeiçoamento dos serviços médicos, no problema habitacional, na defesa dos interesses dos trabalhadores residentes, na protecção ambiental, na política demográfica, no trânsito e na segurança. Serão, igualmente, referidos os apoios ao desenvolvimento das indústrias e às pequenas e médias empresas, bem como as medidas de reforço da cooperação regional neste domínio. 24 de Fevereiro de 2014Este é o último artigo da série dedicada às Linhas de Acção Governativa aprovadas para 2014, cuja execução deverá conhecer, nos próximos meses, uma necessária aceleração, após semanas de muitas festas e actos comemorativos. Apreciados os principais propósitos e medidas no que concerne à “construção de mecanismos eficientes de governação de longo prazo”, com destaque para a formação de talentos e referências ao desenvolvimento educativo, bem como à “elevação do desempenho da Administração Pública”, vamos ver, agora, as prioridades nas políticas sociais e as que se relacionam com a promoção da qualidade de vida. Segurança social, saúde e habitaçãoAs linhas programáticas no domínio da segurança social, onde é justo reconhecer assinaláveis progressos alcançados, podem resumir-se do seguinte modo: “lançar uma consulta pública sobre o regime de previdência central não obrigatório; proceder ao enquadramento das políticas do sistema de segurança social para os idosos; definir o ‘Programa de desenvolvimento do serviço de apoio a idosos nos próximos dez anos’, de 2016 a 2025, e acelerar as obras de ampliação e construção de lares para idosos; e estabelecer um quadro político para o planeamento dos serviços de reabilitação para o próximo decénio”. O reforço dos apoios a idosos merece o aplauso de toda a população, propondo-se o Governo injectar, até 2016, mais 37 mil milhões de patacas no Fundo de Segurança Social. Nesta área, é de realçar as continuadas parcerias estabelecidas com instituições privadas de solidariedade social, o que é determinante para os sucessos conseguidos.LAg – Preocupações sociais e com a qualidade de vida“No limiar do novo Ano do Cavalo, continua forte a nossa convicção em relação à construção conjunta de Macau e partilha mútua dos frutos no futuro. Estamos atentos aos problemas existentes e ao desenvolvimento da conjuntura externa, mantendo-nos sempre preparados para as eventualidades.”Da mensagem do Ano Novo Lunar do Chefe do Executivo, Fevereiro de 2014
  • 030 031F A L A R D E N Ó S – XI J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – XINo “aperfeiçoamento dos serviços médicos”, área que a Administração quer que seja, tanto quanto possível, modelar, pretende-se “planear a criação de zonas de cuidados de saúde destinadas aos idosos em todos os centros de saúde de Macau”. Na sequência da entrada em vigor da legislação contra o tabagismo, o que implica também um maior controlo do fumo nos casinos, aguarda-se que no órgão legislativo local seja aprovado o “regime jurídico de tratamento de litígios decorrentes de erro médico”.Entrou recentemente em funcionamento o novo edifício dos Serviços de Urgência do Centro Hospitalar Conde de S. Januário, onde são disponibilizadas consultas externas de 24 horas e onde existe uma zona destinada exclusivamente a idosos. Pena é que, tanto tempo volvido, continue ainda a faltar o centro hospitalar das Ilhas, cuja necessidade é cada vez mais sentida.Na habitação, que está a ser um problema complicado para largas camadas da população, pela ganância aparentemente irreprimível de especuladores imobiliários e dada a inexistência de normas reguladoras do arrendamento, vai o Governo “acelerar a construção de instalações complementares nos novos complexos de habitação pública, destinadas a servir as novas comunidades; acelerar a construção de habitação pública; aumentar a reserva de terrenos para a construção de habitação pública e contemplar no planeamento dos novos aterros a reserva de terrenos destinados a habitação da população”, ao mesmo tempo que se estuda a “forma de proporcionar habitação sob o conceito de ‘terra de Macau destinada a residentes de Macau’ e é lançada a respectiva consulta pública”.Nas suas intervenções, o Chefe do Executivo tem colocado a tónica nos apoios sociais. Na mensagem de Ano Novo Lunar não deixou de o fazer uma vez mais, quando salientou que “neste momento de celebração do novo ano, devemos, mais do que nunca, ser solidários com as pessoas e famílias que mais necessitam de auxílio, dando-lhes apoio para que possam igualmente partilhar desta alegria festiva e sentir o calor humano”. Neste contexto, é desejável uma reapreciação das políticas de subsídios, para contemplar, de forma mais justa, os que deles mais necessitem. Qualidade de vidaSendo a “construção de uma cidade com condições ideais de vida” uma das preocupações fundamentais expressas nas LAG, e enquanto se finalizam os estudos da política demográfica de Macau, é intenção do Governo, no que respeita ao bem-estar da população, “acelerar a criação do regime de avaliação do impacto ambiental e desenvolver os respectivos trabalhos de consulta; optimizar a rede de itinerários dos autocarros e aperfeiçoar o mecanismo de fiscalização; conceder mais 200 alvarás de licenças de exploração de táxis; ponderar a adopção de um modelo diversificado de desenvolvimento do mercado dos serviços televisivos, assegurando que se usufrua de uma prestação de serviços de alta qualidade; e aprofundar o uso das tecnologias e intensificar o policiamento e a cooperação entre a polícia e a população para prevenir e combater a criminalidade.”É expectativa geral que medidas mais eficazes e corajosas possam ser tomadas na protecção ambiental e na promoção de valores ecológicos e que os problemas de trânsito, que vão crescendo de ano para ano, sejam encarados com soluções mais consequentes.
  • 032 033F A L A R D E N Ó S – XI J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – XIDiversificação económicaComo sustentáculo das políticas sociais e de desenvolvimento, é sempre indispensável dar uma atenção grande ao sector económico. Por isso, as LAG, reconhecendo a imprescindibilidade das abundantes receitas provenientes dos casinos, contêm medidas visando a diversificação económica, designadamente no apoio ao desenvolvimento das indústrias, sendo apontado o seguinte: “lançar o novo ‘Plano de Apoio às Convenções Internacionais e Exposições Profissionais’; lançar o novo projecto intitulado ‘Apoio às PMEs na criação de um website empresarial’; continuar a apoiar o projecto de preservação das características dos estabelecimentos de comidas de Macau; aumentar os montantes de apoio financeiro do ‘Plano de Apoio à Aquisição de Produtos e Equipamentos para a Protecção Ambiental e a Conservação Energética’; e pôr em pleno funcionamento o Fundo de Indústrias Culturais, destinado a apoiar os profissionais locais ligados às áreas da cultura e criatividade” que estão a merecer uma atenção maior das autoridades.Quanto ao reforço da cooperação regional, pretende-se criar no Parque Aquático de Chime-Long uma zona reservada à participação e operação das PMEs de Macau, executar as obras da primeira fase do projecto de construção da nova ligação entre Guangdong e Macau, e desenvolver estudos sobre novos modelos de controlo fronteiriço. Com vista a proteger os direitos e interesses dos trabalhadores residentes, é defendida nas LAG a fiscalização rigorosa da aplicação dos diplomas legais relativos ao trabalho e, no que respeita aos casinos, a cessação da importação de “croupiers” do exterior, assim como o reforço da formação de trabalhadores locais para ocuparem vagas e alcançarem mais fácil ascensão profissional nas concessionárias para a exploração de jogos de fortuna ou azar.Mãos à obra, pois, neste ano de renovadas expectativas e de alguma previsível mudança! 3 de Março de 2014
  • 034 035F A L A R D E N Ó S – XI J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – XIDe entre as mostras apresentadas no Museu de Arte de Macau em 2013, algumas de muita qualidade, uma merece especial referência pelo significado, singularidade e ampla participação de altas entidades e membros dos círculos culturais locais, que quiseram prestar uma sentida e merecida homenagem a um grande artista e promotor cultural desta terra, na comemoração do centenário do seu nascimento. Teve por título “Memórias do Papel de Arroz” e foi uma retrospectiva da obra de Chui Tak Kei (1912-2007), destacado filantropo, empresário e dirigente cívico e político, além de exímio pintor tradicional, de marcante sensibilidade. Assinalou-se também, na ocasião, o 60.º aniversário da Associação de Calígrafos e Pintores Chineses Yu Un, de que foi fundador e presidente. Exposição memorávelFoi muito agradável percorrer os salões do Museu e neles ter a rara oportunidade de apreciar 60 trabalhos de Chui Tak Kei, especialmente seleccionados para esta importante evocação, 24 dos quais executados em colaboração com outros conhecidos artistas, como Situ Qi, Chen Ziming, Chen Yi, Huang Haoming, Lin Jin, Li Xinzhai, Guan Wanli, Deng Feng, Tam Van Iao, presidente da associação artística a que estive mais intimamente ligado nas décadas de 70 e 80, e U Kuan Wai, que aqui estabeleceu, comigo como presidente da assembleia geral e sendo ele o presidente da direcção, a delegação da Associação Mundial de Arte e Cultura. Foi extremamente gratificante poder rever e abraçar, no dia da inauguração, tanta gente de alto valor no mundo das artes e com ela partilhar o privilégio de contemplar os quadros expostos.Este trabalho artístico em equipa foi assim caracterizado pelo director do Museu de Arte de Macau no catálogo: “Como é de regra, há nas obras poemas de Lin Jin, Exposição retrospectiva no centenário de Chui Tak Kei“O aspecto mais interessante desta exposição é que, para além de nos mostrar como Chui era exímio nas artes pictóricas, também nos oferece um vislumbre da sua liderança do círculo artístico de Macau.” Chan Hou Seng, director do Museu de Arte de Macaumostrando que havia não apenas colaboração entre pintura e caligrafia mas também uma sinergia das quatro artes maiores: composição poética, caligrafia, pintura e gravação de sinetes, o que representa um elevadíssimo nível de criatividade por parte destes artistas. Através de tal cooperação amigável, não havia rivalidades que causassem dissonâncias nos seus trabalhos. Pelo contrário, estavam à vontade para exprimir sentimentos pacíficos e harmoniosos através das suas obras, demonstrando que o seu espírito de cooperação atingira um elevado grau de excelência.”De facto, nesta exposição os visitantes puderam “apreciar não só as técnicas de pintura utilizadas mas também sentir profundamente a atitude nobre dos artistas a trabalhar em equipa”. Como humilde e talentoso discípulo de reconhecidos mestres, Chui Tak Kei recebeu deles valiosos ensinamentos e inspiração, projectando-se, ele próprio, como mestre de novas gerações de pintores, herdeiros da escola Lingnan.Personalidade multifacetadaNatural da aldeia de Xinhui (San Wui), muito perto de Macau, Chui Tak Kei frequentou o Seminário de S. José e depois o Instituto de Enfermagem de Cantão, mas foi nos sectores de engenharia e da construção civil que desenvolveu, de forma mais intensa, a sua actividade profissional, tendo sido um dos fundadores da Associação de Construtores Civis de Macau, de que se tornou depois presidente honorário vitalício. Distinguiu-se, igualmente, no campo da intervenção cívica e como filantropo, o que lhe grangeou elevado prestígio social. Neste contexto, presidiu, com eficácia, à Associação de Beneficência Tung Sin Tong, muito relevante no apoio social às camadas mais carenciadas
  • 036 037F A L A R D E N Ó S – XI J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – XIda população, ao mesmo tempo que foi vice-presidente da muito influente Associação Comercial de Macau e presidente da Associação de Conterrâneos de San Wui.Foi deputado e vice-presidente da Assembleia Legislativa de Macau, membro do Conselho Consultivo do Governador de Macau, membro da assembleia municipal e vice-presidente do Leal Senado da Câmara de Macau, membro do Conselho de Redacção da Lei Básica da RAEM, membro da Comissão Preparatória da RAEM, membro permanente do Comité Provincial de Guangdong da Conferência Política Consultiva do Povo Chinês e presidente do Comité Consultivo para a Lei Básica da RAEM.Numerosas distinções honoríficas foram-lhe atribuídas, destacando-se as Medalhas de Mérito Cultural e de Valor do Governo de Macau, a Grã-Cruz da Ordem Nacional do Infante D. Henrique e, já na vigência da RAEM, as Medalhas de Lótus de Ouro e de Grande Lótus.Faleceu com 95 anos de idade, estando a sua acção a ser continuada pelo filho, José Chui Sai Peng, actual presidente da Associação Yu Un, que recordou, na cerimónia de inauguração, o percurso do pai e da Associação que foi “desde a primeira hora um espaço privilegiado de reunião de artistas, promovendo um intercâmbio intenso entre artistas, pintores e calígrafos de Macau, do Interior da China e do estrangeiro”. Testemunho pessoalNão obstante a diferença enorme de idade (mais de três décadas), sempre considerei Chui Tak Kei um dos meus melhores amigos da comunidade chinesa. A sua sensibilidade, moderação e experiência fizeram dele um conselheiro constante e respeitado e, ao longo de toda a minha vida pública em Macau, pudemos conversar muitas vezes, tomando um chá ou jantando juntos.Quando os seus sobrinhos Chui Sai Cheong e Chui Sai On regressaram dos Estados Unidos, quis logo que eu os conhecesse, o mesmo acontecendo com o filho José, um dos quadros tecnicamente mais qualificados de Macau, a quem me ligam relações de amizade e confiança.Chui Tak Kei foi também meu colega na primeira legislatura da Assembleia Legislativa e no Conselho de Redacção da Lei Básica, duas situações que nos aproximaram ainda mais, sobretudo pelas longas jornadas de preparação da mini-constituição da RAEM, e numa viagem que fizemos a Lisboa, como deputados, para, em representação da Assembleia, explicarmos aos partidos políticos portugueses e a outras entidades nacionais as alterações ao Estatuto Orgânico de Macau. As deslocações proporcionaram-nos muitas horas de con-vívio e trabalho em comum.Na última década da administração portuguesa quis ouvi-lo algumas vezes sobre os processos de “localização” dos quadros e da língua, considerados prioritários no seio do Grupo de Ligação Conjunto. Apesar das suas permanências mais longas na aldeia natal, à medida que a idade avançava, mostrou disponibilidade para dar uma opinião, sempre segura e sensata.Também fui um admirador dos seus trabalhos artísticos, especialmente os seus elegantes bambus, bem como as amendoeiras em flor e as orquídeas, maravilhosamente estampados em papel de arroz.
  • 038 039F A L A R D E N Ó S – XI J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – XIA sua partida definitiva, em 2007, era esperada. Mesmo assim, causou consternação e a sua ausência determinou a saudade de um homem bom que muito deu a Macau e às suas gentes.10 de Março de 2014Encontrava-se em Fátima, num retiro de bispos portugueses, quando, na manhã do dia 12 de Março, D. José Policarpo, patriarca emérito de Lisboa, foi transportado de urgência para um hospital da capital, falecendo algumas horas depois, vítima de complicações provocadas por um aneurisma na aorta. Foi, de imediato, submetido a vários exames e levado ao bloco operatório, mas já não foi possível salvá-lo. Quatro cirurgiões vasculares quiseram colocar-lhe uma prótese, mas a situação já era demasiado grave. Deixou-nos com 78 anos de idade, com o seu ministério pastoral, em larga medida, realizado, mas ainda com muito para dar à Igreja, à sociedade e a Portugal, pelo seu testemunho e exemplo e pela sua amplamente reconhecida autoridade moral e intelectual. As exéquias fúnebres foram presididas pelo patriarca D. Manuel Clemente, na Sé de Lisboa, com a presença de altas entidades e muitos fiéis, seguindo depois o corpo para o Panteão dos Patriarcas, no Mosteiro de S. Vicente de Fora. Milhares de pessoas marcaram presença no velório e acompanharam as solenidades que assinalaram esta emocionada despedida.Expressões de pesar e múltiplas intervenções de variadas individualidades foram dadas a conhecer pela comunicação social, que dedicou amplos espaços ao marcante apostolado de D. José, ao serviço de Deus, da Igreja, do povo e das instituições a que presidiu, com destaque para a Universidade Católica Portuguesa e para a Conferência Episcopal.Vocação e devoçãoFilho de agricultores, D. José da Cruz Policarpo nasceu em Fevereiro de 1936 na localidade de Alvorninha, concelho de Caldas da Rainha, sendo o mais velho de nove D. José Policarpo, fundador da universidade católica de Macau“Mantém-se viva a feliz memória do seu trabalho e do muito que a Igreja de Lisboa e de Portugal deve à sua generosidade, à sua lucidez e à grande bondade com que exerceu o seu ministério.”D. Manuel Clemente, 12 de Março de 2014
  • 040 041F A L A R D E N Ó S – XI J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – XIirmãos. Cedo descobriu a sua vocação e, no dia em que foi crismado, já fazia saber que o seu sonho era ser padre, tendo como referência permanente o pároco que o baptizou e que era visita habitual da casa da família. Assim, por opção pessoal, ingressou no seminário logo após a instrução primária, com apenas dez anos de idade.Estudou Filosofia e Teologia nos Seminários de Santarém, Almada e Olivais (Lisboa) e, entre 1966 e 1970, esteve em Roma, onde se licenciou, na Pontifícia Universidade Gregoriana, em Teologia Dogmática. A sua dissertação final teve por título “Teologia das Religiões Não-Cristãs”. Ali defendeu também a tese de doutoramento, onde expressou a sua visão do papel da Igreja, que “deve estar atenta à história dos homens e captar nela sinais positivos do Reino de Deus, porque uma sociedade justa não está apenas presente na realidade explícita do Cristianismo, mas também na vida dos homens”.Rezou a primeira missa em 1961, com 25 anos de idade, na igreja paroquial da sua terra natal, e foi ordenado bispo em 1978, tendo sido coadjutor do então cardeal patriarca, D. António Ribeiro. Durante três décadas (1970-1997) dirigiu a formação dos padres saídos do Seminário dos Olivais e foi reitor (1988-1996) e notável impulsionador do desenvolvimento da Universidade Católica Portuguesa, além de ter chefiado o projecto inicial da TVI, como canal de comunicação da Igreja.Foi o 16.º patriarca de Lisboa (1998-2013), sendo nomeado cardeal em Janeiro de 2001 pelo Santo Padre João Paulo II. Protagonista da renovação cultural da Igreja, preconizando a abertura de “novos rumos pastorais”, tornou-se patriarca emérito, declarando-se disposto a entregar à diocese da capital o resto da sua vida, no momento em que resignou e foi substituído por D. Manuel Clemente, então bispo do Porto e ex-bispo auxiliar de Lisboa.Entre os momentos altos da vida eclesiástica de D. José Policarpo podemos identificar as visitas papais a Portugal e a sua participação nos conclaves que elegeram os dois últimos Papas, em 2005 (Bento XVI) e 2013 (Francisco).Personalidade de vasta cultura, D. José teve cerca de 50 obras publicadas e era sócio honorário da Academia das Ciências de Lisboa e académico de mérito da Academia Portuguesa de História.Ao receber a notícia do seu falecimento, o Papa Francisco destacou a “preciosa colaboração” por ele prestada e classificou-o como “pastor apaixonado pela busca da verdade”.Ligações a MacauO propósito de estabelecer uma ligação maior da Universidade Católica Portuguesa a Macau levou-o, na qualidade de reitor, a procurar as autoridades locais, tornando-se esse relacionamento mais estreito quando já estavam a ser definidos os contornos do projecto que conduziu à criação do então denominado Instituto Inter-Universitário de Macau (IIUM), agora Universidade de S. José. Encarado com desconfiança no seio do Grupo de Ligação Conjunto Luso-Chinês, as dificuldades só foram ultrapassadas graças à intervenção determinada do Governador Vasco Rocha Vieira, que autorizou a sua instalação e facultou os meios para o arranque do seu funcionamento.
  • 042 043F A L A R D E N Ó S – XI J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – XIFoi nessa altura que, pelas responsabilidades que tinha no Governo de Macau, tutelando a área da Educação, acompanhei de perto todas as fases deste processo e pude manter um diálogo útil e enriquecedor com D. José Policarpo, cuja persistência, rigor e firmeza nas convicções, a par da simpatia, cordialidade e abertura, pude apreciar. Parecia a quem não o conhecesse uma pessoa distante e reservada, mas este era apenas um sinal da sua simplicidade. Em algumas das nossas reuniões participou o então bispo de Macau, D. Domingos Lam, que teve também, juntamente com D. José, um papel decisivo na criação do IIUM. Foram os seus fundadores.Depois de um primeiro contacto, breve e de natureza mais formal, impressionou-me, nas ocasiões seguintes, a sua frontalidade, perspicácia e inteligência na abordagem profunda das mais variadas questões do tempo presente, no âmbito da religião, da vida, do homem, da educação, da economia, da política e do futuro, bem como o seu apuradíssimo sentido de humor, encarando com descontracção e sabedoria os escolhos iniciais que conheceu após a apresentação daquele projecto em que tanto se empenhou. Sabia que o Governador de Macau tudo iria fazer para que ele fosse concretizado ainda na vigência da administração portuguesa. Por outro lado, o seu propósito era firme e nobre. Tinha, pois, razões suficientes para acreditar que a Universidade Católica Portuguesa, que muitos apoios recebeu de Macau, iria estar mesmo presente no território.Ao longo das últimas décadas, pude encontrar-me várias vezes com ele, a última das quais em Fátima, numa via de acesso ao Santuário. Abraçou-me efusivamente e, como sempre, perguntou-me por Macau. Dele retenho estas palavras lapidares: “Estamos num tempo em que o grande desafio é de correcção de rota em termos de civilização”. É este o repto que hoje enfrentamos.Que a luz eterna o ilumine. 17 de Março de 2014
  • 044 045F A L A R D E N Ó S – XI J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – XICom a chegada da Primavera, multiplicam-se as festas, romarias e arraiais por todo o país, estendendo-se a recônditas vilas e aldeias. Se Macau é uma cidade sempre em festa, quem conhece Portugal sabe que é uma experiência enriquecedora estar presente nas suas inúmeras festividades tradicionais e poder apreciar o impressionante colorido e a exuberante animação que caracterizam muitas delas, com o povo nas suas manifestações mais genuínas, harmonizando o religioso com o profano. Como bem cantou J. J. Monteiro, poeta popular de Macau, “para uns, é uma festa, para outros, devoção”.Esta panóplia de festividades é complementada por dezenas de concertos e festivais de música, alguns de grande dimensão, envolvendo bandas e artistas, nacionais e estrangeiros, uns ainda estreantes e outros com nome feito, com destaque para os de “rock”. Um antigo aluno fez-me saber, recentemente, que volta a Portugal todos os anos, no Verão, com grupos de amigos para, de Lisboa ao Algarve e de Paredes de Coura a Zambujeira do Mar, percorrer o território nacional de lés-a-lés, fazendo o circuito dos concertos e festivais, em que aliam a participação nos alegres convívios que essas ocasiões tão bem proporcionam a passeios pelo campo e a longas permanências naquelas que são, provavelmente, as mais belas praias da Europa, em dias continuados de céu azul.Neste artigo, identifico algumas das mais conhecidas e significativas festas tradicionais. Em várias deslocações de associações macaenses a Portugal, pediram-me sugestões para visitas. Com base nelas, creio ser útil oferecer esta síntese, começando pelo entrudo, sempre com alargada adesão. Mesmo em tempos de crise financeira, e apesar de, oficialmente, não ter sido concedida “tolerância de ponto”, o Carnaval Festividades tradicionais portuguesas“Não há como as romarias / P’ra a gente se divertir, / Há foguetes e folias, / E promessas a cumprir.”“Gente nova não descansa, / O que quer é só bailar, / E a nova roda de dança / Está mesmo a convidar.”Quadras de J. J. Monteiro, “Romarias”, “Memórias do Romanceiro de Macau” (IIM, 2013)voltou a ser amplamente celebrado em muitas localidades, com apoio de câmaras municipais e juntas de freguesia.Sendo certo que muitas dessas festas, apresentando corsos, mascarados e escolas de samba, não passam de grosseiras imitações do Carnaval carioca, merecem referência, pela sua maior originalidade, o Entrudo de Lazarim (Lamego), o Enterro do Pai Velho, no Lindoso (Ponte da Barca), o Carnaval de Torres Vedras, por muitos considerado “o mais português”, com um vistoso desfile de carros alegóricos ostentando motivos de mordaz crítica social, o Carnaval de Ovar e o Carnaval de Loulé, com os seus já famosos e bem organizados cortejos. Também o Carnaval da Madeira tem atraído muitos forasteiros e a atenção dos órgãos de comunicação social.As solenidades da Semana Santa, que decorrem no corrente ano de 11 a 20 de Abril, contam com ampla e genuína participação das populações, nas vigílias pascais e nas procissões que se realizam por todo o país. Abril é também o mês da Festa das Cruzes, em Barcelos (de 25 de Abril a 4 de Maio), com ranchos folclóricos, cortejos etnográficos e arraial minhoto, e das Festas do Divino Espírito Santo, nos Açores, prolongando-se até meados de Junho. Também é a 30 de Abril que abre a Ovibeja, a principal mostra de actividades económicas do Baixo Alentejo, na qual têm participado empresários de Macau.Em Maio e Junho abundam as festas populares ligadas a santos padroeiros e ao culto mariano: Festas de Sta. Joana Princesa, em Aveiro (12 de Maio), a Festa do Senhor Santo Cristo dos Milagres, em Ponta Delgada (de 23 a 29 de Maio), altura em que voltam aos Açores muitos milhares de emigrantes, a Festa da Mãe Soberana,
  • 046 047F A L A R D E N Ó S – XI J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – XIem Loulé (nos primeiros dias de Maio), os desfiles e sardinhadas nas Festas de São João, no Porto (24 de Junho), de Santo António, em Lisboa (13 de Junho), e de São Pedro, no Montijo (29 de Junho), a Romaria de São gonçalo, em Amarante (de 6 a 8 de Junho), a Procissão da Senhora do Sameiro, em Braga (1.º Domingo de Junho), e as Sanjoaninas de Angra do Heroísmo (24 de Junho), com folclore, jogos tradicionais e touradas à corda. Merecem, igualmente, referência a Festa da Flor, no Funchal (de 1 a 7 de Maio), com tapetes floridos e mercado de flores, o Desfile das Maias em Portalegre (23 de Maio), com cortejos de crianças percorrendo a cidade, a Festa da Coca em Monção (10 de Junho), com a procissão do Santíssimo, que se realiza há seis séculos, e a Festa da Cereja, no Fundão (2.º fim-de-semana de Junho). A 13 de Maio, fiéis de todo o mundo encontram-se em Fátima para a maior peregrinação religiosa portuguesa, e, em Junho, temos as comemorações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas. A Feira Nacional da Agricultura, em Santarém, decorre de 7 a 15 de Junho.As romarias e feiras prosseguem nos meses de maior calor, que são também os que proporcionam maiores deslocações e visitas de emigrantes e turistas. Assim, para Julho e Agosto estão marcadas, como habitualmente, as Festas da Rainha Santa Isabel, em Coimbra (4, 10 e 13 de Julho), a Festa dos Tabuleiros, em Tomar, organizada de quatro em quatro anos e mencionada em muitos roteiros turísticos europeus, as Festas gualterianas, em Guimarães, em honra de S. Gualter (primeiro fim-de-semana de Agosto), a Festa do Colete Encarnado, em Vila Franca de Xira, com largadas de touros (de 4 a 6 de Julho), as Festas do Barrete Verde e das Salinas, em Alcochete (2.º fim-de-semana de Agosto), também com largadas e demonstrações de destreza dos campinos, o Festival do Marisco em Olhão (2.ª semana da Agosto), o Mercado Medieval de Óbidos (em Julho), as Feiras Medievais de Silves e Castro Marim (em Agosto), a Feira de São Mateus, em Viseu (com início a 14 de Agosto), a Festa de Nossa Senhora do Monte, no Funchal (14 e 15 de Agosto), e a Romaria da Senhora d’Agonia, em Viana do Castelo (3.º fim-de-semana de Agosto), grande festa do traje minhoto e da filigrana. Festas em Aljubarrota, Porto de Mós (S. Jorge), Ourém e na Batalha assinalam a vitória portuguesa na Batalha Real de 14 de Agosto de 1385.Setembro é marcado por Festas das Vindimas em várias regiões vinícolas, sendo também muito procuradas as Festas do Sítio, na Nazaré (dia 8), a Festa de Nossa Senhora dos Remédios, em Lamego (1.ª semana), e a Festa de Nossa Senhora da Boa Viagem, na Moita (de 12 a 21). O Festival Nacional de gastronomia é em Outubro/Novembro, em Santarém, sendo em Novembro a Feira Nacional do Cavalo, na Golegã, nos dois primeiros fins de semana.O Natal é, para a larga maioria dos portugueses, a maior festa do ano, com celebrações de cariz religioso em todas as igrejas e capelas do país e festas de família e em colectividades. Segue-se, como em todo o mundo, a comemoração da chegada do Ano Novo, com fogo de artifício em muitas cidades, bem decoradas para a quadra festiva. Seguem-se, em Janeiro, a Festa das Fogaceiras, em Santa Maria da Feira (dia 20) e a Feira do Fumeiro e Presunto de Barroso, em Montalegre (na última semana), e Fevereiro a Festa da Amendoeira em Flor, em Vila Flor e em Vila Nova de Foz Côa, ambas na última semana de Fevereiro e primeira de Março.
  • 048 049F A L A R D E N Ó S – XI J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – XICentenas de outras festas tradicionais existem, com procissões, desfiles populares, mostras de artesanato, gastronomia e espectáculos, sendo verdadeiramente surpreendente a actividade lúdica e a programação cultural disponibilizadas. Vale a pena conhecê-las de perto.24 de Março de 2014Na presença de altas patentes militares e de presidentes e membros de organizações da sociedade civil, familiares e amigos, a Sociedade Histórica da Independência de Portugal (SHIP) prestou, no mês passado, uma sentida homenagem póstuma ao Coronel Carlos Gomes Bessa, falecido no dia 1 de Novembro com 91 anos de idade, depois de uma vida intensa de trabalho no campo da investigação histórica, além da carreira militar exemplar que desenvolveu e do exercício de elevados cargos oficiais e no âmbito de instituições culturais.Usaram da palavra na sessão, presidida pelo General José Baptista Pereira e por mim moderada e coordenada, os Generais Vasco Rocha Vieira e Alexandre de Sousa Pinto, o Ten. Cor. João José Brandão Ferreira, os Drs. José Augusto Alarcão Troni, Eugénio Ribeiro Rosa, José Manuel Marques Palmeirim, Eugénio dos Santos Ramos, João Manuel de Almeida Loureiro, José Ângelo Lobo do Amaral e António Bernardino e Silva Gonçalves, todos ligados à SHIP, além dos filhos do homenageado, Drs. Susana e Miguel Gomes Bessa, dando testemunho da obra e evocando o percurso daquele “homem honrado e um português de rara fibra e qualidade”, “bom e corajoso em todas as fases da sua vida”, “autor de vasta bibliografia histórica, de grande mérito” e “um oficial completo com uma personalidade e formação, sólidas”, como muito bem o caracterizou o Ten. Cor. Brandão Ferreira, no seu “In Memoriam”, escrito imediatamente após o falecimento daquele saudoso e respeitado militar e académico.O Coronel Carlos gomes Bessa e Macau“Partiu um homem honrado e um português de rara fibra e qualidade.”Ten. Cor. J. J. Brandão Ferreira, “In Memoriam”, Novembro de 2013
  • 050 051F A L A R D E N Ó S – XI J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – XIMilitar e académicoDo seu vasto “curriculum vitae”, é de salientar o seguinte: Oficial de Artilharia, com os Cursos Geral e Complementar do Estado-Maior do Exército, foi Chefe do Estado-Maior na Guiné (1956-60) e Chefe de Gabinete do Governador-Geral de Angola (1960-61), passando depois a desempenhar funções no Gabinete do Chefe do Estado-Maior do Exército (1961-69). Serviu no Comando-Chefe das Forças Armadas de Angola (1970-72), chefiou repartições do Estado-Maior do Exército, comandou o Regimento de Artilharia da Serra do Pilar e foi escolhido pelo Conselho Superior do Exército para a frequência do Curso de Altos Comandos.Foi Comissário Nacional Adjunto para o Ultramar da Mocidade Portuguesa (1961-66), onde introduziu profundas reformas, incluindo a criação do Círculo de Estudos Ultramarinos e da Procuradoria dos Estudantes Ultramarinos, organismo que realizou importante acção no apoio social aos estudantes oriundos dos territórios ultramarinos, tendo sido escolhido para Comissário Nacional (1966-69), após a reestruturação daquela organização nacional da juventude. Nessa qualidade, chefiou as missões do Ministério da Educação Nacional a Paris e à Alemanha em 1967 e 1968. Foi membro e secretário-geral da Academia Portuguesa de História, membro da Academia das Ciências de Lisboa, do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, da Academia Luso-Brasileira de Letras, da Real Academia de História de Espanha, da Academia de História da Venezuela e da Academia de História Militar do Paraguai. Participou na criação da Comissão Portuguesa de História Militar, de que foi vice-presidente e secretário-geral. Foi ainda sócio de várias outras organizações culturais, como a SHIP, a cujo Conselho Supremo presidiu, a Sociedade de Geografia de Lisboa, o Círculo Eça de Queirós e o Instituto Internacional de Macau.Participou em inúmeros congressos, colóquios e seminários nacionais e internacionais, apresentando comunicações na maioria deles, e publicou um elevado número de trabalhos académicos, em Portugal e em vários países estrangeiros. Em 1994 foi secretário-geral do IV Congresso das Academias Iberoamericanas de História e em 1998 vice-presidente do XIV Congresso Internacional de História Militar. Também dirigiu a Revista Ultramar, de 1961 a 1970, e a Revista Militar durante vinte anos.Foi galardoado com dois Prémios de História Calouste Gulbenkian, distinções da Academia Portuguesa da História, o Prémio Angola e dois Prémios Almirante Augusto Osório, da Revista Militar. Recebeu altas condecorações nacionais e estrangeiras entre as quais as Medalhas de Serviços Distintos, sendo uma de Ouro e duas de Prata, uma delas com Palma, o Grande Oficialato da Ordem da Instrução Pública e a Medalha do Pacificador do Brasil.MacauCarlos Gomes Bessa nunca prestou serviço em Macau, mas visitou o território várias vezes, tendo aqui proferido conferências e participado em comemorações de datas nacionais. E Macau mereceu a sua atenção na valiosa bibliografia de que foi autor. Para além do volume de quase 600 páginas, que coordenou, sobre a “Presença Portuguesa no Oriente” e que constituiu um número especial da Revista Militar (Janeiro
  • 052 053F A L A R D E N Ó S – XI J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – XIde 1999), o qual contém relevantes estudos sobre a história de Macau e das relações entre Portugal e a China, podemos salientar, entre outros, os seguintes trabalhos que publicou: “Restauração em Macau – património e perspectivas do futuro de Portugal no Oriente”, “Macau do Santo Nome de Deus na China e a União das Coroas Peninsulares”, ambos da SHIP (1989 e 1999), “Aljubarrota – sua evocação em Macau” (Instituto Cultural de Macau, 1986) e “Macau e a Implantação da República da China – uma carta de Sun Yat-Sen para o Governador José Carlos da Maia”, uma oportuna e bem apresentada edição da Fundação Macau (1999). Estudou profundamente os reflexos da Guerra do Pacífico na vida das populações do Extremo Oriente e preparava-se para concluir uma obra, em elaboração há vários anos, sobre Macau nesse atribulado período, quando um lamentável acidente o impediu de prosseguir a sua produção intelectual.Quis ele que eu prefaciasse aquela edição da Fundação Macau, que teve também uma versão chinesa. Depois de tecer breves considerações sobre o tema, aproveitei para recordar, sucintamente, as longas relações de amizade e consideração que me ligaram, desde os anos de juventude, a este militar coerente e mestre em todas as “estações” da vida. A sua partida definitiva sugere-me que releia estas palavras que então lhe dediquei, estando certo de que muitos dos que o conheceram partilham os mesmos sentimentos:“Creio que será comum aos homens da minha geração um reservado desejo, gerado e vigorado nos tempos primaveris da juventude: o de poder um dia testemunhar a sua admiração aos mestres verdadeiros, que nos ajudaram a descobrir caminhos e, para sempre, concorreram à moldagem do nosso espírito e quiseram acompanhar os destinos de tantos de nós, que a vida dispersaria. Eram vultos de uma envergadura moral admirável, ostracizados às vias da extinção pelas crises dos tempos de mudança e pela velocidade que passou a cronometrar os ritmos obsessivos das sociedades modernas, onde o maior exercício de lucidez será o que nos compele permanentemente à distinção entre o que é verdadeiramente eminente e prioritário e toda a produção de acessórios que nos antepõem e propõem ao lugar dos valores inadiáveis.É o exemplo destes mestres verdadeiros, como o Coronel Carlos Gomes Bessa, que nos permite, em saudável militância interior, preservar e afirmar os valores que persistem em nós, na plenitude do seu significado.”O título do prefácio, que muito o comoveu, foi “Coronel Carlos Gomes Bessa, Mestre, Companheiro e Amigo”. Assim será por nós lembrado. 31 de Março de 2014
  • 054 055F A L A R D E N Ó S – XI J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – XIO artigo anterior publicado neste espaço constituiu uma justa homenagem ao Coronel Carlos Gomes Bessa, académico e historiador, falecido em Novembro do ano passado, em Lisboa, em cuja vasta obra podemos encontrar diversos estudos dedicados a Macau. Um deles, intitulado “Macau do Nome de Deus na China e a União das Coroas Peninsulares” (Sociedade Histórica da Independência de Portugal, 1999) caracteriza a situação de Macau no tempo em que, após o desastre de Alcácer-Quibir, onde milhares de portugueses pereceram, incluindo o Rei D. Sebastião, sem deixar descendência directa, se produziu a união das coroas peninsulares. Filipe II de Espanha foi aclamado Rei de Portugal nas Cortes de Tomar, enfraquecidas que estavam a oposição e a resistência organizadas em torno de D. António, Prior do Crato.Primeira instituição democráticaEm contraste com as dificuldades e incertezas vividas no Reino, Macau atravessava, nas últimas décadas do século XVI, uma fase de visível crescimento e prosperidade:“Enquanto o Reino sofria terríveis agruras e a Coroa de Portugal passava a pertencer ao Rei de Espanha, Macau crescia, prosperava e preparava-se para desempenhar papel de singular projecção no Extremo Oriente, iniciando o período áureo da História do território.A longa duração das viagens e o isolamento a que as circunstâncias votavam Macau originou a grande demora com que ali veio a receber-se notícia das desditas do Reino e das deliberações das Cortes de Tomar e, o que será para espantar mais, é que não provieram, nem de Lisboa, nem do Vice-Rei, mas de Manila, como veremos de seguida.Macau no período da união das coroas peninsulares“A década que se seguiu à criação do Senado da Câmara pode considerar-se a do apogeu da Cidade do Nome de Deus.”Carlos Gomes Bessa, “Macau do Nome de Deus na China e a União das Coroas Peninsulares”Este parêntese serve para ilustrar duas conclusões importantes. Em História nem sempre o verdadeiro se confunde com o verosímil, e o rigor exige que se atenda com escrúpulo ao contexto da época e do meio, sem o qual ela é falseada por incompetência ou má fé.A notícia da União das Coroas Peninsulares chegará a Macau em 31 de Maio de 1582. Trouxe-a de Manila o Padre Alonso Sanchez, a mando do Governador, D. Gonzalo Ronquillo. A viagem foi tormentosa, o navio do mensageiro naufragou, e este viu-se obrigado a acolher-se em Cantão.Daí escreveu ao Visitador, o Padre Valignano, na ocasião em Macau. Com grande prudência o último deu notícia às autoridades locais mais importantes, com as quais veio a reunir-se depois o Padre Gonzalez, que expôs a situação, embora omitindo a resistência de D. António Prior do Crato, e recomendou o reconhecimento por Macau do novo Rei, devido às muitas ameaças e cobiças que sobre o território pairavam.Convencidos os presentes, a revelação ao povo fez-se em pregações dos Padres Valignano, Domingos Álvares e Alonso Sanchez. Confirmada a notícia e recebida ordem do Vice-Rei, D. Francisco Mascarenhas, Macau prestou juramento de fidelidade a Filipe II, ao contrário do que alguns têm afirmado. No que não houve cedência foi em que lá continuasse a flutuar a Bandeira de Portugal, como aliás estipulavam as Cortes de Tomar.Contrariando as instruções muito claras de Filipe II, o Governo de Manila fez várias tentativas goradas para usurpar a autoridade portuguesa em Macau. Perante
  • 056 057F A L A R D E N Ó S – XI J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – XIessas ameaças, em 1583, o Bispo D. Lourenço de Sá reuniu os principais cidadãos para decidirem sobre a melhor forma de as acautelar. Inclinaram-se para estruturar a administração local de forma semelhante à das cidades do Reino e do Estado da Índia. Foi bem vista a solução porque as Cortes de Tomar atribuíram aos portugueses o exercício das respectivas funções. Elegeram juízes, vereadores, um procurador e um secretário. E deram-lhe o nome de Cidade do Nome de Deus, nome pela qual tinha sido conhecida até então. Em 1584 recebeu a designação de Senado da Câmara.Por decreto de 10 de Abril de 1586, o Vice-Rei D. Duarte de Meneses confirmou a deliberação e atribuiu os mesmos privilégios, liberdades, honras e preeminências que a cidade de Évora possuía em Portugal. Estava criada a primeira instituição democrática do Oriente.”Apogeu comercial e culturalCarlos Gomes Bessa concluiu, em consonância com outros investigadores da presença de Portugal no Oriente que “a década que se seguiu à criação do Senado da Câmara pode considerar-se a do apogeu da Cidade do Nome de Deus”.Muitos obstáculos e ameaças precisaram, todavia, de ser vencidos, alguns dos quais por decisão do próprio Filipe II, que se opôs firmemente às tentativas usurpatórias do Governador de Manila e às suas exigências de comércio directo das Filipinas e do México com a China. A firme posição assumida pelo Rei reforçou o monopólio de Macau, favorecendo os portugueses, numa altura em que o comércio ganhava uma expansão notável, não só com o Japão e a Europa, mas também com Malaca, Goa, Sião, Manila, Solor e Timor, Pegu, Guzarate e Ceilão, tornando-se Macau o centro do comércio da China com o exterior.Também nas vertentes cultural e religiosa, este diminuto entreposto ganhou uma impressionante dimensão, graças fundamentalmente à intervenção esclarecida da Companhia de Jesus. A sua instalação, a partir de Macau, junto da corte de Pequim, com o beneplácito do próprio Imperador, produziu, no dizer de Joseph Needham, “o mais extraordinário fenómeno de encontro de culturas registado na História”. Como bem lembrou Carlos Gomes Bessa, “note-se ter (Needham) falado em toda a História, sem qualquer delimitação de tempo ou de espaço, e ter sido Macau o pólo gerador e irradiador de tão transcendente fenómeno”.Neste contexto, é imprescindível referir também que, no dia 1 de Dezembro de 1594, a Escola dos Jesuítas passou a Colégio Universitário. “Criou-se naquelas longínquas terras a primeira universidade do tipo ocidental no Extremo Oriente”. Macau foi-se afirmando como grande centro impulsionador do comércio e da cultura e, ao mesmo tempo, como base sólida da acção missionária.As ambições de uma outra potência marítima de pendor marcadamente mercantil haviam começado, entretanto, a manifestar-se, ameaçando a hegemonia marítima portuguesa. Os primeiros navios holandeses chegaram a estas paragens na viragem do século, abrindo o caminho a sucessivas tentativas de ocupação de Macau a partir de 1601. Voltaremos a este tema no mês de Junho, por altura do Dia de S. João, com
  • 058 059F A L A R D E N Ó S – XI J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – XIoutro texto de Carlos Gomes Bessa, “autor de uma bibliografia altamente valiosa e de expressa qualidade”, como bem testemunhou o Prof. Joaquim Veríssimo Serrão, presidente da Academia Portuguesa de História, numa sessão de homenagem levada a efeito em Agosto de 2002.8 de Abril de 2014Em homenagem ao Coronel Carlos Gomes Bessa, académico e historiador, falecido em Novembro de 2013, seleccionámos um texto da sua obra “Macau do Nome de Deus na China e a União das Coroas Peninsulares” (Sociedade Histórica da Independência de Portugal, 1999) para publicação neste espaço, na semana passada. Nele é relatada, sucintamente, a forma como chegou a Macau a notícia da aclamação de Filipe II de Espanha como Rei de Portugal, a que se seguiu a prestação do juramento de fidelidade ao monarca, num tempo de apogeu comercial e cultural da cidade.Vejamos, agora, como o Pe. Manuel Teixeira (“Primórdios de Macau”) tratou o tema e explicou o nascimento do Senado da Câmara.Fidelidade a Filipe II“Tem-se aventado a lenda de que Macau nunca reconheceu a soberania espanhola e que, por isso, foi esta a única colónia onde a nossa Bandeira continuou sempre a flutuar.Bento da França, em Macau e seus habitantes (pág. 16), escreve: ‘Tendo-se recebido em Manila a notícia da união de Portugal e da Espanha, o governador das Filipinas mandou partir para Macau o Jesuíta Alonso Sanches, o qual ia promover ali a aclamação de D. Filipe. Este padre sofreu muitos contratempos na viagem, lutou com a má vontade dos chinas, e só chegou a Macau em Maio (1582), tendo partido em Janeiro. Foi muito mal recebido, e retirou sem ter conseguido cousa alguma: a bandeira portuguesa continuou hasteada em Macau.’Juramento de fidelidade e nascimento do Senado“Numa carta de 25 de Outubro de 1581 diz-se que D. Leonardo de Sá chegara nesse ano a Macau. Foi ele que presidiu à reunião de cidadãos em 1583, devendo, pois, ser considerado o fundador do Senado.”Pe. Manuel Teixeira, “Primórdios de Macau”, Instituto Cultural de Macau, 1990
  • 060 061F A L A R D E N Ó S – XI J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – XIInventaram-se até dois partidos, atirando um bispo contra o outro, como numa arena de gladiadores, segundo se lê no Resumo da História de Macau de Eudore de Colomban (pág. 14): ‘Alguns, porém, e entre eles o Bispo D. Melchior Carneiro, protestando serem bons patriotas também, puseram-se do lado prático da situação, fazendo ver as dificuldades que viriam de uma oposição sistemática à Metrópole. Dos dois partidos, o de Leonardo de Sá, que era o dos patriotas intransigentes, foi o que prevaleceu; e, para o interesse da Colónia, nunca a bandeira espanhola foi aí arvorada. Para conservar os chineses iludidos a respeito da situação política em Portugal, procurou-se, pouco a pouco, acalmar a agitação dos espíritos, de maneira que a Colónia nunca se revoltou propriamente contra a dominação castelhana, nem a ela se sujeitou’. Tudo isto é redondamente falso.O Conselho Real das Filipinas e o governador D. Gonçalo Ronquillo Peñalosa (1580-1583) enviaram a Macau, em 1582, o P. Alonso Sanchez, S.J., para anunciar a reunião das Coroas da Espanha e de Portugal sob Filipe II que se realizara em 1580.No seu livro A História e os Homens da Primeira República Democrática do Oriente (pág. 249), escreve o Dr. Almerindo Lessa: ‘A cidade vive inquieta durante o interregno filipino e se é certo que dentro dos próprios muros houve excitações e se esboçaram partidos a favor da Espanha, a verdade é que enquanto o Capitão Mor, alguns fidalgos, certos padres e o próprio bispo juraram obediência ao intruso, os moradores fechavam a boca, não se comprometiam’.Quanto à excitação e partidos, explica ele em nota: ‘As divergências suscitadas entre os cidadãos pelas lutas de 1580, não podem deixar de enquadrar-se na crise de consciência política que nessa ocasião tanto afectou os portugueses. Formaram-se até dois partidos: um lusófilo, chefiado pelo Bispo D. Leonardo de Sá, abertamente nacionalista, digamos francamente português; e outro, universalista, dominado por preocupações apenas de apostolado, comandado por D. Melchior Carneiro. E se o primeiro vence, é porque conta com o apoio dos chineses, que preferem a continuidade dum rei lusitano’. Tudo isto é pura fantasia. Em 1580 não houve aqui excitação alguma; a nova da perda da independência só chegou a Macau dois anos depois. Nem em Macau havia muros...Ele fala de ‘certos padres’ e cita apenas um tal P. António Ribeiro, que nunca existiu em Macau. O mesmo se diga de ‘alguns fidalgos’, que são inventados. Quanto ao ‘próprio bispo’, não foi um, mas dois – Carneiro e Sá – os quais prestaram ambos o juramento no mesmo dia. Quanto aos moradores, não fecharam a boca, mas foram representados pelos quatro regedores eleitos pelo povo.Eis o que realmente se deu: o Vice-Rei, D. Francisco Mascarenhas, ordenou a Macau que prestasse fidelidade a D. Filipe II. Todos obedeceram, incluindo o novo capitão-mor Aires Gonçalves de Miranda, e fez-se o juramento em 18 de Dezembro de 1582, segundo refere um cronista espanhol: ‘Os juramentos do Capitão-mor, Bispo e Nobreza de Macau foram pronunciados, depois de confirmada a nova pelo Sr. Conde Vice-rei da Índia, a 18 de Dezembro de 1582, no Colégio de S. Paulo da Companhia de Jesus, estando presente o Capitão-mor D. Gonçalves de Miranda, os Reverendíssimos D. Melchior Carneiro, Patriarca da Etiópia, D. Leonardo de Sá, Bispo da China, o P. Alexandre Valignano, Visitador Geral dos Padres da Companhia da Índia, China e Japão, o Ouvidor Gonçalves, Melchior Correia, Francisco Rodrigues, Inácio Moreira,
  • 062 063F A L A R D E N Ó S – XI J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – XIAmador da Cunha, Domingos Segurado e outros. A provisão do V. Rei foi lida pelo escrivão Rodrigo Mexias, sendo então feito o juramento de fidelidade a Filipe II’. A Bandeira das Quinas continuou a flutuar, pois, nas Cortes de Tomar fora estipulado que as colónias portuguesas continuassem com a nossa Bandeira e com administração própria. Era capitão-mor da Viagem do Japão D. João de Almeida, que então governava Macau; era Bispo efectivo D. Leonardo de Sá e Bispo resignatário D. Melchior Carneiro e Ouvidor Matias Panela’.”O Senado“Pouco depois de Macau ter prestado juramento de fidelidade a Filipe II, D. Leonardo de Sá, em 1583, convocou os cidadãos mais grados da Colónia, que resolveram formar uma Municipalidade ou Câmara, a que deram o nome de Senado. Já existia em 25 de Fevereiro de 1584, pois, nessa data, segundo refere Mateus Ricci no seu Diário, chegou a Nau da Prata ao Japão: ‘... chegada a nau do Japão a Macau, o P. Ruggieri regressou com bastante dinheiro que lhe havia dado de esmola a Câmara da Cidade e outros amigos.’A Câmara foi aprovada pelo Vice-Rei da Índia, D. Francisco Mascarenhas, Conde de Santa Cruz. Este partiu de Lisboa a 8 de Abril de 1581, chegou a Goa a 16 de Setembro e governou até 25 de Novembro de 1584. Portanto, ele aprovou a fundação da Câmara de Macau nesse ano de 1584, o que concorda inteiramente com o que nos diz o P. Ricci sobre a existência da Câmara nesse ano.”No ano seguinte, a povoação era elevada a cidade. É também do Pe. Manuel Teixeira esta assertiva conclusão: “Temos, pois: em 1557, uma povoação com casas de palha ou de ramos de árvores sem ‘ordem de governo’; em 1585, uma cidade com alvará e com uma organização perfeita de governo.”Os dois textos permitem ultrapassar alguns equívocos sobre a relação de Macau com o novo monarca e sobre a fundação do Senado.14 de Abril de 2014
  • 064 065F A L A R D E N Ó S – XI J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – XIReunindo comunicações apresentadas numa série de seminários realizados a título de preparação da viagem à República Popular da China, levada a efeito em Agosto/Setembro de 2013, pelo Centro Nacional de Cultura e pelo Centro de Estudos de Povos e Culturas de Expressão Portuguesa (CEPCEP), saiu recentemente do prelo o livro “China e Portugal, cinco centúrias de relacionamento: uma leitura académica”. A edição, coordenada por Roberto Carneiro e Guilherme d’Oliveira Martins, é da Universidade Católica Portuguesa.Razão de ser da obraO significado da obra ficou bem expresso no prefácio, da autoria de Roberto Carneiro, presidente do CEPCEP:“China e Portugal, cinco centúrias de relacionamento: uma leitura académica, apresenta-se, em essência, como um livro comemorativo, uma obra que celebra um extraordinário acontecimento: o encontro primeiro do Ocidente e do Oriente, evento esse cujos frutos resistem a todas as intempéries e conjunturas que fustigaram os tempos, e que foi arauto dos conceitos de globalização, e de interdependência, que fizeram caminho até à sua incontornável expressão contemporânea.Há seis centúrias, mais exactamente em 1415, teve início a extraordinária epopeia da expansão portuguesa, com a conquista de Ceuta. Numa sequência estonteante de aventuras marítimas, cerca de cem anos mais tarde, em 1513, o navegador português Jorge Álvares singrava por mares e litorais de Guangdong e acostava a essa província meridional do extenso continente chinês, maravilhando-China e Portugal, cinco centúrias de relacionamento“Gerou-se a partir desse encontro primordial uma das vertentes mais fecundas de relacionamento intercultural de que há memória no planeta.” Roberto Carneiro, no prefácio do livrose com um povo misterioso, cuja existência foi sendo cerzida ao longo de milénios de história e de poderes imperiais, avultando à época a poderosa dinastia Ming que governava Cathay.Gerou-se a partir desse encontro primordial uma das vertentes mais fecundas do relacionamento intercultural de que há memória no planeta. Este singular, e único, relacionamento perdurou em Macau – fundada cerca de 40 anos mais tarde – onde essa recíproca fecundação se tornou tangível e resistiu à erosão implacável do tempo, território minúsculo que serviu de entreposto à aproximação de povos e culturas, tão distantes quanto díspares.Macau é, inclusivamente, como bem o lembra o autor de um dos artigos de referência do presente livro, a plataforma na qual se sustenta um diálogo interreligioso complexo. É a partir desse choque filosófico e civilizacional que o próprio cristianismo de recorte ‘ocidental’ se vem afeiçoando aos formatos orientais de ver a vida, o outro e o mundo, dando lugar à emergência de novos entendimentos na maneira de compreender o transcendente, sem prejuízo da fidelidade à base doutrinal e vivencial em que ele se funda há dois milénios.Seguramente, a consciência do europeu, que integra uma matriz inequivocamente tributária do legado humanista e cristão, muito se ficou a dever a esse confronto multissecular de distintas cosmovisões, onde releva a rica mundividência sínica que os portugueses tiveram o privilégio de conhecer, em primeira mão, e de com ela estabelecer traços de união que perduraram para além das vicissitudes da política, da geografia da distância, e dos sobressaltos da história. (...)
  • 066 067F A L A R D E N Ó S – XI J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – XIO CEPCEP e o CNC, co-editores irmanados nesta publicação, ficam endividados para com os autores que generosamente contribuíram para a sua feitura, nela empenhando o melhor dos seus conhecimentos e das novidades decorrentes dos seus trabalhos de investigação.Para concluir, julgamos oportuno citar o vice-presidente e diretor executivo (CEO) do grupo chinês Fosun (recentemente entrado em Portugal com actividade no ramo segurador), Liang Xinjun. Afirmou ele recentemente: ‘Portugal é um país seguro e receptivo ao investimento chinês. Sentimo-nos muito confortáveis com Portugal por causa de Macau. Portugal manteve uma relação muito boa com o Governo e o povo da China’.O desafio de continuar a sementeira do entendimento num planeta repentinamente muito mais ‘pequeno’ do que outrora, mas feito de gentes diversas, é hoje, como nos cinco séculos decorridos, o destino do relacionamento Europa – China. Neste xadrez onde se joga a reinvenção do mundo, Portugal e os Portugueses são reconvocados a uma missão irrecusável, na redescoberta de uma vocação de interface dialogal, a qual só eles podem desempenhar cabalmente.”Organização e conteúdoOs doze trabalhos de reputados académicos e especialistas foram agrupados em quatro capítulos, o primeiro compreendendo o período de 1511 a 1515 (“Malaca, China, Ormuz e a Suma Oriental de Tomé Pires”), o segundo de 1541 a 1552 (“Xavier e o sonho de cristianização da China: o Padroado Português do Oriente”) e os outros dois perspectivando o século XXI (“Duas línguas de futuro no mundo: português e mandarim” e “O Império do Meio renasce para a economia global: oportunidades para intermediar e triangular”).Entre os autores, estão nomes incontornáveis como Luís Filipe Barreto, Rui Manuel Loureiro, Paulo Jorge de Sousa Pinto, João Paulo Oliveira e Costa, Guilherme d’Oliveira Martins, Joaquim Aguiar e José Félix Ribeiro, sendo também de registar a contribuição do deputado José Ribeiro e Castro, através de um artigo sobre “Português e Mandarim: as línguas portuguesa e chinesa como línguas globais”.Os seminários científicos organizados, a obra agora publicada e a visita à China, que incluiu uma permanência em Macau, quando foi levado a efeito o II Encontro de Poetas Lusófonos e Chineses, numa co-organização do Centro Nacional de Cultura, da Fundação Jorge Álvares e do Instituto Internacional de Macau, foram formas muito apropriadas de, num contexto e com propósitos marcadamente académicos, se celebrar o 5.º centenário do encontro de Portugal com a China.Outras celebraçõesNão tendo havido interesse político na organização de comemorações oficiais, coube a instituições académicas e culturais fazê-lo, com a dignidade que a efeméride merecia. Assim, além de universidades e das entidades atrás referidas, outras, como a Sociedade de Geografia de Lisboa, a Sociedade Histórica da Independência de Portugal e a Academia de Marinha, promoveram conferências e seminários, tendo sido particularmente relevante o Colóquio desta Academia que decorreu ao longo de
  • 068 069F A L A R D E N Ó S – XI J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – XItrês dias e cujo tema foi “Nos Mares da China”. A convite do seu presidente, Almirante Nuno Vieira Matias, proferiram as comunicações de abertura e de encerramento o Embaixador João de Deus Ramos e o autor deste artigo, na qualidade de presidente do Instituto Internacional de Macau. Também a Fundação Jorge Álvares se associou ao município de Freixo de Espada à Cinta para as celebrações promovidas naquele concelho e patrocinou o Prémio Jorge Álvares, da Academia das Ciências.22 de Abril de 2014Personalidade de fortes convicções e de sincera e contagiante afectividade, orgulhoso da memória dos seus pais – o Governador Arthur Tamagnini de Sousa Barbosa e a poetisa Maria Anna Acciaioli –, bem como da sua sempre enaltecida ligação a Macau, Mariano Alberto Acciaioli Tamagnini Barbosa, oficial da Força Aérea e presidente honorário da Fundação Casa de Macau, deixou definitivamente o convívio da família e dos amigos no dia 27 de Março, com quase 95 anos de idade. Para trás ficou uma vida intensa ao serviço de Portugal e das instituições e causas a que devotadamente se entregou.Bom contador de histórias, muitas delas relacionadas com Macau ou com as missões oficiais que lhe foram confiadas, foi sempre um prazer ouvi-lo, nas muitas ocasiões que nos foram proporcionadas quando os caminhos e os percursos se cruzaram, em actividades da Casa de Macau em Portugal, na Associação da Força Aérea, em tertúlias de amigos ou nas suas deslocações à terra onde nasceu. Não obstante a enorme diferença de idades, a sua admirável cordialidade permitiu que se estabelecesse entre nós uma relação de confiança, de respeito e de amizade.O seu berço foi o Palacete de Santa Sancha, residência dos Governadores de Macau, em 1919. Numa das três comissões de serviço do pai neste território, frequentou o Liceu de Macau e, concluído o ensino secundário em Lisboa, fez a formação universitária na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra e no então Instituto Superior de Estudos Ultramarinos.Mariano Tamagnini – uma vida com Macau no coração“Presidente honorário do Conselho de Curadores da Fundação Casa de Macau, brilhante oficial da Força Aérea Portuguesa, portador de altas condecorações, dedicou-se com muito empenho à causa macaense e ao movimento associativo da Força Aérea (...) Perdurará para sempre a memória deste distinto Macaense a quem tanto ficamos a dever e que agora partiu para a viagem eterna.”Do comunicado da Fundação Casa de Macau, Lisboa, 27 de Março de 2014
  • 070 071F A L A R D E N Ó S – XI J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – XICarreira militarCumpriu o serviço militar obrigatório nos Açores, numa fase decisiva da II Grande Guerra quando ali se instalaram as Forças Aliadas, como ajudante de campo do Comandante Militar da Ilha Terceira e do Comandante Militar dos Açores, na Ilha de São Miguel. Tal como os seus três irmãos, ingressou depois, definitivamente, na Força Aérea, tendo integrado o gabinete do Ministro da Defesa, como seu ajudante de campo e responsável pelo serviço de cifra da NATO/OTAN, além de oficial de ligação junto de altas patentes estrangeiras de visita a Portugal, como o General Dwight Eisenhower, os Marechais Geoffrey Bromett e Bryan Reynolds, da Royal Air Force, e o General Thomas D. White, Chefe do Estado Maior da United States Air Force. Também chefiou, já no posto de Major, o gabinete do Chefe de Estado Maior da Força Aérea Portuguesa.Entre outras missões, participou na 1.ª Conferência dos Estados Maiores da NATO/OTAN, em Paris, em Dezembro de 1954, e frequentou o Intelligence Staff Course na Base Aérea de Sheppard, no Texas, em 1960, onde obteve a 2.ª classificação mais elevada, entre dezenas de oficiais aliados estrangeiros. Em reconhecimento dos serviços que prestou, foi agraciado com a Ordem Militar de Avis e a Medalha de Bons Serviços, além da Medalha Aeronáutica Santos Dumont (Brasil) e a Medaille Militaire da Aviação Francesa.Devido às sequelas que resultaram de um acidente aéreo, esteve internado dois anos num hospital de Paris, continuando em tratamento ambulatório por igual período, findo o qual foi colocado no Comando da Zona Aérea dos Açores, como Tenente-Coronel Adjunto do Comando, em ligação com o Comando Americano na Base das Lajes.Na sociedade civilNa situação de licença sem vencimento, que solicitou para poder continuar os tratamentos das graves lesões que sofrera, esteve ligado a várias empresas públicas e privadas, tendo sido incumbido duma missão urgente e secreta, conduzida com êxito, que foi o transporte de milhões de novas notas de 500 patacas para a sucursal de Macau do Banco Nacional Ultramarino, por altura do Ano Novo Lunar de 1974, garantindo-se, assim, a liquidez necessária numa altura em que o movimento financeiro é consideravelmente acrescido.Co-fundador da Casa de Macau em Lisboa, em 1966, juntamente com um conjunto de personalidades ligadas à nossa terra, residentes em Portugal, todas já falecidas, ficou sempre empenhadamente associado ao seu desenvolvimento e aos múltiplos eventos que nela se realizaram. Desgastou-o imenso a ocupação, em 1975, da sede daquela agremiação macaense e os “desaforos revolucionários” dessa época fizeram-no deixar o país nesse ano, para residir em Marrocos, ali contribuindo para obter e canalizar apoios relevantes para empresas portuguesas que a instável conjuntura política havia colocado em situação difícil.Regressou a Portugal só em 1990, para abraçar um novo desafio, retornando ao convívio dos seus camaradas de armas, quando aceitou ser membro do órgão executivo da Associação da Força Aérea Portuguesa (AFAP), com o pelouro da Cultura, Relações
  • 072 073F A L A R D E N Ó S – XI J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – XIExteriores e Desportos. Nesse âmbito, organizou visitas a Macau, ao Brasil, aos E.U.A., ao Canadá, ao antigo Estado da Índia Portuguesa e a vários países do Norte de África e da Europa.Foi convidado, pelo Governador Vasco Rocha Vieira, para assistir à inauguração da Escola Tamagnini Barbosa e para as cerimónias solenes da transferência da administração. Vimo-lo recordar, com incontida emoção, o pai e patrono da escola, quando o seu busto foi descerrado no átrio, perante centenas de convidados, professores e alunos. Com igual emoção e irradiante simpatia, usou da palavra na sessão de lançamento da nova edição do livro de poesia de sua mãe, “Lin Tchi Fa – Flor de Lótus”, em 2006, no I Encontro de Poetas Lusófonos e Chineses. Esta obra, de 1927, foi republicada pela editora Tágide, com o apoio da Fundação Jorge Álvares.Quando foi criada a Fundação Casa de Macau, em 1996, foi chamado para fazer parte do seu primeiro conselho de curadores, passando a presidir ao mesmo em 2005, após o falecimento do seu muito estimado amigo Prof. Eng.º Luís de Guimarães Lobato, também co-fundador da Casa de Macau, a quem o Instituto Internacional de Macau havia concedido o Prémio Identidade. Por motivo de saúde, renunciou ao cargo, sendo agora presidente daquela Fundação o editor macaense Dr. Francisco da Conceição Espadinha, presidente da Presença, empresa editorial de sucesso em Portugal.Mariano Tamagnini foi também membro do conselho consultivo da Fundação Jorge Álvares e dedicou muito do seu tempo a conferências, à poesia e à colaboração em vários periódicos, com textos de natureza cultural ou de arguta crítica a formas de exercício do poder político, tão distantes da “nobre arte de saber realizar o bem-estar e a felicidade dos concidadãos”.É hoje, 2.ª feira, rezada em Lisboa, na Igreja dos Jerónimos, a missa do 30.º dia do seu passamento. Merece a paz eterna, dádiva suprema dos crentes.28 de Abril de 2014
  • 074 075F A L A R D E N Ó S – XI J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – XIEstá a decorrer, até 18 de Maio, na galeria de exposições temporárias do Museu do Oriente, em Lisboa, uma exposição de pintura sobre porcelana, de Arlinda Frota, médica e artista residente em Macau. Visitei-a três vezes para poder apreciar, em toda a extensão e pormenor, a qualidade e diversidade dos trabalhos apresentados, inspirados todos em temas extremo-orientais, muito bem assimilados pela artista nos seus percursos e vivências em terras da China, da Coreia do Sul e da Indonésia, acompanhando o marido, Embaixador Carlos Manuel Frota, nos postos diplomáticos que ocupou, em representação de Portugal.Nota de apresentaçãoVale a pena ler a nota de apresentação desta mostra, intitulada “Itinerários”, que sintetiza, eloquentemente, os caminhos de descoberta e de afirmação trilhados por quem soube expressar, nas formas artísticas que escolheu e aperfeiçoou, sentimentos, experiências, visões, tradições, exotismo, simbolismo e beleza:“Quando o artista vê a vida como um todo, e a arte como um dos elementos integrantes da vida – e não como um compartimento à parte – não choca o ecletismo das formas de expressão, porque a pluralidade faz parte do milagre de existir – e da expressão estética desse milagre.Arlinda Frota é uma artista eclética porque tem, dentro dela, a saudável ambição de querer atingir tudo. Tudo o que a vida a desafiou e a desafia a fazer. Tudo ou quase tudo o que a arte lhe ofereceu como possibilidade.Itinerários de Arlinda Frota“Foi estimulada, neste seu percurso de diálogo com as culturas, pelo Galardão da Paz, prémio anual que lhe conferiu, em 2004, o então secretário-geral das Nações Unidas, Kofi Annan...”Da nota de apresentação da exposiçãoMédica de profissão, mãe de quatro filhos, a sua existência tem sido marcada, desde logo, por esses três limites máximos da experiência humana: tratar na doença, assistir na morte mas, principalmente, criar ou transmitir a vida.Viajando pelo mundo nas últimas quatro décadas – mulher de diplomata – foi também no encontro de culturas e sensibilidades diferentes que foi formando o seu sentido estético, atenta à pluralidade das formas e à subtileza das diferenças.De uma sociabilidade natural e espontânea, não será inadequado referir, neste contexto, que a sua obra de arte mais intuitiva é construir amizades como quem pinta uma tela, cuidando dos matizes e das nuances que vislumbra nos seres humanos com quem se relacionou e relaciona durante mais de quarenta anos, em três continentes.Olhou para a porcelana, pela primeira vez, com olhos de artista, através da afectuosa guia que foi a sua mestra portuguesa em Macau.Mas enquanto aprendia a técnica, o seu olhar esvoaçava já pelos traços finos da pintura chinesa, da caligrafia chinesa, dos azuis e brancos que são cortinas suavíssimas para um mundo misterioso que a seduzia.Os seus trabalhos são mensagens de amizade e respeito por povos e culturas que admira, como uma das grandes riquezas da Humanidade.Não são trabalhos de “imitação” os seus. São, antes, o olhar possível de uma artista que, timidamente, bate à porta de um universo que não é o seu e pede licença para fazer um pedacinho do caminho que é o de outros.
  • 076 077F A L A R D E N Ó S – XI J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – XIFoi estimulada neste seu percurso de diálogo com as culturas, pelo Galardão da Paz, prémio anual que lhe conferiu, em 2004, o então secretário-geral das Nações Unidas, Kofi Annan, numa mostra de arte em Ansan, Coreia do Sul.A artista oferece nesta exposição, uma tela variada de muitas experiências e de muitas vivências. É uma espécie de viagem que a artista se propõe fazer consigo…”Percurso de beleza e corA actividade artística representa, para Arlinda Frota, uma descoberta, “descoberta de algo que sempre existiu”, mas que, dada a vida intensa e exigente que teve, só se desenvolveu a partir de Macau, pouco depois da transição político-administrativa verificada no território. Nesta iniciação, foi passando de acrílicos sobre papel, cartão e tela para a pintura em porcelana, cujas técnicas foi dominando com o apoio de vários mestres. Depois de Macau, experimentou, em Seul (de 2002 a 2006), a pintura em papel de arroz e a moldagem em barro, a que se seguiu (de 2009 a 2012) o estudo e produção do batik e da tecelagem e a transposição de motivos clássicos do batik para a porcelana, em Jacarta.A sua aventura artística mais gratificante acabou por ser mesmo a pintura sobre porcelana, podendo ser apreciados, naquela exposição, algumas dezenas dos seus melhores trabalhos. No seu conjunto, representam a “expressão do imaterial, simbolizado na delicadeza das formas e na harmonia de cores” e significando todo um percurso de vida em três continentes, imbuindo a artista “das culturas, das linguagens, das atmosferas, das tradições, até da diversidade das pessoas, do respeito pelo ser humano enquanto tal – enfim, tudo o que de tão diverso resultou numa experiência de vida”.Depois de ter vivido em Portugal, Angola, Reino Unido, França, Guiné-Bissau, S. Tomé e Príncipe, Macau, como território sob administração portuguesa e também já como região da China, Coreia e Indonésia, e tendo visitado outros países orientais, como Filipinas, Japão, Coreia do Norte, Timor-Leste, Singapura, Malásia, Brunei, Tailândia, Vietname e Camboja, o Extremo-Oriente acabou por constituir uma experiência decisiva que permitiu à artista adquirir distância em relação à sua própria matriz cultural europeia, tão extraordinariamente enriquecida nos contactos com povos e civilizações distantes, e absorveu formas artísticas de outras culturas que soube respeitar, deixando-se também influenciar fortemente por elas.Muitas das peças expostas foram pintadas com óleos vegetais aromáticos, pigmentos naturais em pó e ouro diluído. Pratos, bules, caixas, terrinas e outras peças de porcelana ali estão, primorosamente coloridos e graciosamente arrumados, para deleite do visitante. Os motivos são variados, predominando os pormenores de bordados, aves, flores, folhas, borboletas e figuras mitológicas. É sempre uma questão de gosto, sendo a escolha difícil, quando a qualidade é elevada, mas a minha preferência foi, especialmente, para os pratos de azul e branco. Esta é já a 38.ª exposição em que Arlinda Frota está representada, 17 das quais individuais, estando outras três em preparação, em Lisboa, Macau e Manila. Com amizade e admiração, desejo-lhe continuados sucessos e motivos renovados de inspiração, nestes seus ricos itinerários espirituais e culturais.5 de Maio de 2014
  • 078 079F A L A R D E N Ó S – XI J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – XIà progressiva integração de Hong Kong, ficamos a conhecer toda uma estratégia pragmática e cuidada de aproximação e de complementaridade no desenvolvimento sustentável.Pelo interesse especial que tem para nós, reproduzimos estes apontamentos e reflexões sobre Qianhai:“Em meados de 2012, o Conselho de Estado aprovou a criação da Zona de Cooperação Industrial Shenzhen/Hong Kong/Macau de Qianhai. Esta zona ocupa uma área de 15 quilómetros quadrados na zona ocidental de Shenzhen e nas proximidades da fronteira com Hong Kong. O governo central atribuiu à zona 12 políticas piloto, 8 das quais relacionadas com a inovação financeira. A zona centrará a sua actividade nos serviços financeiros, de logística e de informação.Em Junho de 2012, Zhang Xiaoqiang, vice-ministro da Comissão da Reforma e do Desenvolvimento Nacional, disse que a área passaria a ser uma zona de cooperação futura entre Hong Kong e o continente. ‘Os projectos-piloto a serem lançados em Qianhai foram preparados de forma cautelosa a fim de reflectir a posição única de Hong Kong no desenvolvimento da área considerando as opiniões da cidade no decurso do processo de tomada de decisões’, disse, para acrescentar que ‘os projectos-piloto cobrem os sectores financeiro, fiscal, legal, educativo e dos recursos humanos, medicina e telecomunicações.’Em Dezembro de 2012, Xi Jinping, que tinha sido eleito secretário-geral do Partido Comunista um mês antes, visitou a zona, dando-lhe total aprovação. Xi seguiu o Shenzhen: uma cidade para todas as estações“Em meados de 2012, o Conselho de Estado aprovou a criação da Zona de Cooperação Industrial Shenzhen/Hong Kong/Macau de Qinhai. Esta zona ocupa uma área de 15 quilómetros quadrados na zona ocidental de Shenzhen e nas proximidades da fronteira com Hong Kong.”Depois de “A história notável do Delta” (MacauLink, Dezembro de 2012) e “Cantão: a grande metrópole do Delta (MacauLink, Abril de 2013), já está disponível o 3.º volume da série intitulada “Delta do Rio das Pérolas”, produzida pela Associação de Macau de Investigação do Delta do Rio das Pérolas e pela agência MacauLink, sob a coordenação de Gonçalo César de Sá e Louise do Rosário, com apoio e colaboração do Instituto Internacional de Macau (IIM) e patrocínio da Fundação Macau. Trata-se de um conjunto de utilíssimos trabalhos, assinados por Thomas Chan, académico e economista, especializado em estudos sobre a China, com especial incidência no desenvolvimento do Delta do Rio das Pérolas, e pela conhecida jornalista Louise do Rosário, que foi correspondente das revistas Far Eastern Economic Review e The Banker e colaboradora da Economist Intelligence Unit. Ambos têm também dado colaboração à Revista Macau.Este novo volume – “Shenzhen: uma cidade para todas as estações” – analisa e interpreta a impressionante evolução de Shenzhen, desde a “pequena localidade poeirenta, rural e atrasada” que foi, até atingir o estatuto de metrópole em continuada expansão, paredes-meias com os Novos Territórios de Hong Kong. Tal como os anteriores, este trabalho é de leitura obrigatória para quantos queiram conhecer e manter-se actualizados sobre o presente e as perspectivas de futuro da próspera zona onde Hong Kong e Macau se inserem e onde se vem produzindo um dos mais espectaculares crescimentos da história económica mundial. Bem ilustrada com fotografias e gráficos e com textos bem elaborados, é de esperar que esta edição alcance o sucesso que justifica a sua continuidade, estendendo-se os próximos estudos a outras partes do Delta.Da criação da zona económica especial de Shenzhen e da sua rápida industrialização e urbanização à situação presente, como uma das cidades mais ricas da China, e
  • 080 081F A L A R D E N Ó S – XI J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – XImesmo caminho de Deng Xiaoping em 1992, com a sua famosa ‘digressão meridional’ que acelerou o processo de reforma económica e afirmou que Qianhai ‘seria um local para a renovação do sector dos serviços.’’Por favor avancem com as reformas de uma forma ousada, atendendo a que o governo central concedeu-vos um enquadramento particular’, disse Xi a responsáveis de Qianhai.As empresas autorizadas a instalarem-se na nova zona terão direito a uma taxa preferencial de 15% em sede de Imposto sobre o Rendimento das Pessoas Colectivas e as pessoas que nela trabalharem ficarão isentas de imposto sobre o rendimento. As autoridades centrais apoiarão o desenvolvimento de Qianhai como uma ‘zona experimental’ para negócios em yuans transfronteiriços. O governo central ajudará, ainda, as empresas estabelecidas naquela zona a procederem à emissão, em Hong Kong, de obrigações denominadas em yuans e na criação de um fundo de investimento em capital em Qianhai. ‘Atendendo a que as autoridades centrais pretendem caminhar de forma gradual rumo à convertibilidade total do yuan, Qianhai deverá ser um pioneiro neste percurso’, disse Zhang, que acrescentou que será encorajada a constituição em Qianhai de fundos estrangeiros de investimento em capital.A zona desempenhará um papel importante na internacionalização do renminbi. As pessoas e as empresas de Hong Kong dispõem de centenas de milhões de yuans depositados em contas bancárias na região administrativa; mas estão limitadas nas formas de investimento desses depósitos. Um dos papéis de Qianhai será o de servir de intermediário para emprestar esse dinheiro, através dos bancos de Hong Kong, a instituições no continente.Em Fevereiro de 2013, o presidente da câmara Xu Qin disse que a cidade iria aplicar 10 mil milhões de yuans em infra-estruturas em Qianhai ao longo do ano em curso. ‘Vamos introduzir este ano mais de 30 empresas da lista Fortune 500, utilizando investimento estrangeiro que excede 7 mil milhões de dólares’, disse Xu no decurso de uma reunião em Pequim da Comissão para a Reforma e Desenvolvimento Nacional. No final de 2012, a administração da área tinha assinado contratos com 52 empresas, incluindo 20 da lista Fortune 500.No final do ano, mais de 300 empresas com um capital realizado de 37,2 mil milhões de yuans tinham recebido autorização para se instalarem na zona. De entre os projectos em construção estão o hotel de 5 estrelas OTC Hotel Qianhai, desenhado pelo famoso arquitecto norte-americano John Portman, que incluirá além do hotel apartamentos com serviço incluído.O presidente da câmara prevê que o PIB da zona atinja 150 mil milhões de yuans em 2020, salientando que ‘a missão não é a de se sobrepor à de Hengqin, em Zhuhai, ou à de Nansha, em Cantão, uma vez que centrará a sua actividade em serviços financeiros inovadores, logística comercial de produtos electrónicos, pesquisa científica e tecnológica e outras actividades constitutivas do sector dos serviços.”Iniciativas ambiciosas como esta requerem audácia, determinação, organização e sentido de oportunidade e de risco. É, no processo de abertura económica da China, mais uma área experimental, visando agora a consolidação da moeda chinesa, tendo em conta a sua possível internacionalização e almejada convertibilidade plena. Valerá a pena, por isso, prestar às actividades centradas em Qianhai a maior das atenções ao
  • 082 083F A L A R D E N Ó S – XI J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – XIlongo de toda a próxima década. Oxalá alguns dos múltiplos gabinetes de estudos e “think tanks” ligados ao Governo da RAEM saibam fazê-lo e possam avaliar os resultados das experiências ali efectuadas, na perspectiva e no interesse de quem está do lado de cá do Delta. O IIM não deixará de contribuir para esse objectivo.12 de Maio de 2014É indispensável ler o livro “Macau nos Anos da Revolução Portuguesa 1974-1979” (Gradiva, Lisboa, 2011), do General José Eduardo Garcia Leandro, primeiro Governador de Macau designado após a revolução de Abril de 1974, para se poder compreender o enquadramento político em que, numa conjuntura dificílima, se inseria o território. Como bem lembrou António de Almeida Santos (“Quase Memórias”, 2.º volume), então Ministro da Coordenação Interterritorial, “Macau, sobretudo à época, era tudo menos fácil de governar, e Garcia Leandro, impecavelmente sério, reflectido e prudente, exerceu o cargo com sabedoria verdadeiramente chinesa”.Quatro décadas volvidas, vale a pena recordar um tempo de mudança que exigiu determinação, esforço e lucidez para garantir a estabilidade e a continuidade necessárias ao correcto desenvolvimento de Macau. Estas palavras do autor fazem parte da nota introdutória explicativa:Um modelo próprio para Macau“Como foi possível que eu e quem me acompanhou e ajudou tivéssemos conseguido conduzir Macau pelos melhores caminhos?Todo o enquadramento sociopolítico era indiscutivelmente mau. Desde o processo revolucionário em Portugal (e a descolonização consequente), passando pela situação na China — com a Revolução Cultural, o fim do maoísmo e a consequente luta pelo poder —, os últimos anos da Guerra do Vietname até à má situação da economia mundial, ainda não recuperada do choque petrolífero de 1973.Recordando o enquadramento político de Macau em 1974-75“A publicação deste livro tem como única finalidade deixar registado para actuais e vindouros interessados e investigadores o que foi a governação de Macau e muitas outras sensíveis questões associadas ao período tão difícil de 1974 a 1979, através do testemunho do seu primeiro responsável”. General Garcia Leandro, 2011
  • 084 085F A L A R D E N Ó S – XI J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – XIA isto, acrescia a própria (e permanente) fragilidade estrutural de Macau, ainda não totalmente reequilibrado após os incidentes do «1-2-3» de 1966. Sem esquecer a idade com que iniciei funções de Governo, o que, no início, criou alguma desconfiança (compreensível) em certos sectores mais conservadores. Também não podia contar com grande apoio de Lisboa, onde se viviam outras preocupações bem mais prementes e onde os problemas passavam por abordagens ideológicas muito marcantes e demasiado genéricas que não interessavam, nem se deviam aplicar em Macau.A instabilidade política nacional era muito grande. Basta lembrar que, durante o meu período de Macau, passaram por Portugal oito governos (do III ao VI Provisórios e do I ao IV Constitucionais) e cinco primeiros-ministros.Como Macau deveria ter um caminho próprio, não podia estar sujeito às consequências negativas de tanta mudança.Daí a minha visão política da questão: para controlar bem o que se ia passar em Macau, não poderia dar problemas a Lisboa, nem deixar que dali viessem instruções que pudessem prejudicar o futuro do Território. Havia, pois, que evitar a existência de poderes paralelos e, ao mesmo tempo, recusar a aplicação local de modelos desajustados. Macau não podia ser prejudicado pelo envolvimento no jogo dos partidos políticos nacionais.”A vontade de fazer bem“O meu Governo tinha vontade de fazer bem e de deixar um bom exemplo, trabalhando para todos os que ali viviam, sem discriminações. A população chinesa pugnava pela tranquilidade e a República Popular da China, a atravessar grandes dificuldades internas, não queria novas fontes de problemas em Hong Kong e em Macau.A consciência do momento difícil – se não único – que se vivia também foi sentida pelos responsáveis das comunidades locais e pelo Governo de Hong Kong. Recebi um apoio muito claro da comunidade chinesa e da Igreja Católica, e foram consolidados os mecanismos de coordenação e entendimento com o Governo da colónia britânica, ao mesmo tempo que se procurava diminuir o jugo económico que esta exercia sobre Macau.A evolução foi boa e o crescimento económico permanente. Mas a memória é curta e hoje, em Portugal, são poucas as pessoas que têm conhecimento da situação de Macau em 1974, pensando muitos que este sempre foi uma espécie de «árvore das patacas» onde nunca existiram dificuldades económicas, políticas ou sociais.Acresce que o conhecimento sobre Macau sempre foi reduzido em Portugal, mesmo entre muitos responsáveis da cultura e da política. Com o passar do tempo e a nossa saída de Macau, em finais de 1999, tal vazio de informação agravou-se.Encontro-me frequentemente com pessoas que assim pensam ou que tudo desconhecem, mas que têm ideias feitas sobre Macau. Fico perplexo com o desconhecimento com que deparo, por vezes com o desinteresse em conhecer a realidade, e com os erros de interpretação permanentes.
  • 086 087F A L A R D E N Ó S – XI J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – XIÉ também para deixar um testemunho factual que este livro é necessário! Mas sinto que também tenho responsabilidades por não o ter escrito mais cedo. Por tudo isto, não ficaria bem com a minha consciência e com a História se nada fizesse para ajudar a corrigir esta situação.Esta é a resposta à pergunta se vale a pena este trabalho mais de trinta anos depois. Crê-se que, desta forma, se contribui para um relato fiel e fundamentado da História. O tempo a todos vence, pela morte, pela mudança de gerações e pelo esquecimento, a menos que fiquem registos dos conceitos, das intenções e dos factos.E porque as pessoas envolvidas, com responsabilidades naquela época, têm vindo a morrer sem deixar registos, a memória vai desaparecendo. Daqui a dez anos, quase todos os testemunhos dessas experiências vividas terão desaparecido.Embora Macau já não esteja no centro de interesse dos portugueses, nem nas primeiras páginas dos jornais, este registo escrito é indispensável para quem queira compreender a evolução ocorrida a partir do 25 de Abril.”Um livro necessárioQuem chegou a Macau depois desse período instável e, para muitos, preocupante e potencialmente perturbador, poderá não ter entendido em toda a extensão o que esteve, verdadeiramente, em causa. Tendo acompanhado de perto o Governador no exercício da acção governativa, posso testemunhar o valor do seu trabalho e os resultados alcançados numa fase crucial do percurso histórico plurissecular de Macau.Até por isso, foi da maior utilidade a publicação deste livro, que a Gradiva, editora portuguesa de sucesso e reconhecida qualidade, em boa hora assumiu. Estão ali coerentemente identificados e explanados os momentos mais sensíveis e marcantes então vividos no território, bem como os objectivos e as prioridades que, não obstante as incertezas experimentadas, puderam ser definidos e realizados. É uma obra incontornável da história recente de Macau.19 de Maio de 2014
  • 088 089F A L A R D E N Ó S – XI J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – XIA “devolução” de Macau“Desde o início do processo de descolonização, tornou-se frequente alguns jornalistas afirmarem, nos seus artigos, que Portugal propôs a devolução de Macau à China. Enquanto governador, desmenti, sempre que tive oportunidade, esta afirmação. Após o meu regresso a Lisboa, quando tal acontecia, eu contactava o responsável pelo escrito procurando saber a origem ou o fundamento de tal iniciativa, nunca tendo obtido uma resposta concreta. Tratava-se, diziam-me, da simples repetição de algo que tinham lido, mas que não tinham investigado...A 27 de Maio de 2009, no Centro Científico e Cultural de Macau em Lisboa, durante uma conferência proferida pelo professor chinês Sonny Lo, da Universidade de Waterloo no Canadá, fiz-lhe a pergunta, na sua qualidade de especialista destas questões. Respondeu-me não saber se era verdade mas que, a ter acontecido, só poderia ter sido de modo informal na ONU.Não posso afirmar que não tenha acontecido, mas, a suceder, nunca partiu de entidades responsáveis em Portugal, antes e durante o meu tempo de Governo em Macau. Admito, no entanto, que, numa época com muitos aprendizes da política, com poucos conhecimentos históricos e entusiasmados com a voragem da descolonização, possa ter sido feita tal afirmação...Também, em princípios de Junho de 1974, tal declaração de entrega foi atribuída, pelo diário em língua inglesa ‘Hong Kong Standard’, a dois portugueses residentes em Macau (um ligado ao MFA — Movimento das Forças Armadas — e outro ao CDM — A questão da “devolução” de Macau à China nos anos da revolução de Abril“De facto, foi possível dar estabilidade política e social ao Território e arrancar para um desenvolvimento económico sempre em ascensão, sem cortar as ligações com o passado histórico que era património de todos os que ali viviam e, a meu ver, da humanidade”. Garcia Leandro, “Macau nos Anos da Revolução de Abril 1974-79”, Gradiva, 2011Recordámos, no artigo anterior, a conjuntura política pouquíssimo favorável quando o jovem Major de Artilharia José Eduardo Martinho Garcia Leandro (1974-79) assumiu as funções de Governador de Macau. Nas suas próprias palavras, “todo o enquadramento sociopolítico era indiscutivelmente mau”, não só tendo em conta o processo revolucionário em Portugal e a acelerada descolonização, mas também porque se viviam, na China, os anos finais da revolução cultural maoísta, com acentuadas lutas intestinas. Por outro lado, no cenário internacional, a economia mundial ainda não recuperara do terrível choque petrolífero de 1973.Não obstante a sua juventude (tinha ele apenas 34 anos quando aceitou tão grandes responsabilidades, num tempo em que, nestas paragens orientais, a idade era sinónimo de respeito e competência), nunca será de mais salientar a lucidez, a determinação e a coragem com que soube enfrentar e vencer enormes desafios, garantindo a Macau uma evolução estável.Um dos equívocos então gerados foi o da tentativa de entrega imediata de Macau às autoridades chinesas, tendo sido atribuída a vários responsáveis, entre os quais o próprio Governador, a autoria duma declaração, por ele nunca proferida, sobre uma proposta de “devolução” de Macau à China. Tendo um importante diário norte-americano referido que Garcia Leandro havia expressado tal propósito, outros aceitaram, imediatamente, como verídica uma notícia que nem cuidaram de confirmar. No livro “Macau nos Anos da Revolução Portuguesa 1974-79” (Gradiva, 2011), o autor procurou desfazer este incómodo equívoco, que alguns jornalistas e investigadores ajudaram a perpetuar:
  • 090 091F A L A R D E N Ó S – XI J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – XICentro Democrático de Macau). Meses depois, em Setembro, terá sido elaborado um documento, pelo MFA local, que, entre as várias hipóteses de futuro, terá admitido essa opção. Contudo, estes envolvidos não tinham quaisquer responsabilidades efectivas no futuro em preparação.Oficialmente, segundo o professor Veiga Simão, embaixador na ONU entre Maio de 1974 e Julho de 1975, tal questão nunca foi colocada. Nas reuniões da Comissão de Descolonização, a China repetiu a sua posição oficial (desde 1972) de que Macau e Hong Kong não eram matéria daquela comissão. Eram assuntos a tratar em devido tempo com Portugal e o Reino Unido. Portugal concordou.A nível bilateral, o embaixador da China garantiu ao nosso embaixador que a situação de Macau só seria tratada depois das conversações sobre a colónia britânica. Se Macau tivesse sido engolido pela tempestade da descolonização, teríamos deixado à China e ao mundo um mau exemplo e um território pouco desenvolvido. E Macau não era um caso de descolonização, como bem sabiam, em Lisboa, os responsáveis mais conscientes.”Uma jóia como herançaGarcia Leandro sintetizou, desta forma, o sucesso da transição:“Assim, em 1999, a China recebeu como herança uma jóia — em termos de infra-estruturas e de capacidade de prestação de serviços — bem como uma desafogada situação económica e financeira, com prestígio acrescido para Portugal. Em 25 anos foi feito mais que nos 400 anos anteriores, sendo de lembrar que Jorge Álvares chegou em 1513 e o estabelecimento dos portugueses data de 1557. Tal foi possível pela conjugação de cinco factores:– a promulgação do Estatuto Orgânico de Macau (Lei Constitucional 1/76 de 17 de Fevereiro, integrado posteriormente na Constituição da República de 25 de Abril de 1976), que deu aos órgãos de Governo próprio do Território verdadeira autonomia legislativa, administrativa, económica e financeira;– o elevado fluxo de capitais que se geram naquela região do globo;– a grande iniciativa privada ali existente, com propostas a que o Governo, com o novo Estatuto, passou a poder responder com rapidez;– as consequências programáticas da Declaração Conjunta Portugal-China, assinada a 13 de Abril de 1987 em Pequim, que iniciou nova fase histórica e política, enquadrando o futuro até finais de 1999 e obrigando a um permanente envolvimento da China;– a continuidade e coerência de objectivos e de orientação governativa que existiram entre os seis governadores que estiveram em funções de 1974 a 1999, independentemente da sua origem profissional, da conjuntura política nacional e internacional (que se foi alterando) e das dificuldades por que cada um passou. Depois de mim, o enquadramento e os meios existentes permitiram que a capacidade de intervenção governamental fosse sendo progressivamente maior.”
  • 092 093F A L A R D E N Ó S – XI J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – XIA leitura do livro de Garcia Leandro, que teve boas e muito concorridas sessões de apresentação em Lisboa e em Macau, é indispensável para um melhor conhecimento da história recente de Portugal em Macau.26 de Maio de 2014Solenemente inaugurado pelo Presidente da República Portuguesa, Jorge Sampaio, a 19 de Março de 1999, o Centro Cultural de Macau (CCM) completou quinze anos de pleno e positivo funcionamento, alcançando os objectivos que determinaram a sua criação. Foi uma das obras mais emblemáticas legadas pela administração portuguesa na fase final do período de transição.Conjunto arquitectónico de alto significado e arrojada concepção, o CCM deu ao território a dimensão que lhe faltava no contexto artístico-cultural, possibilitando a promoção, em condições adequadas, de grandes espectáculos, ao mesmo tempo que proporcionou a organização de múltiplos outros eventos, além de oferecer amplas áreas para fins museológicos, nas quais ficou muito bem instalado o Museu de Arte de Macau, cujas airosas galerias acolheram excelentes mostras, muitas das quais em resultado de parcerias estabelecidas com conhecidos museus e centros artísticos do exterior.Implantado num terreno com cerca de 45.000 m², situado numa extremidade dos Novos Aterros do Porto Exterior, agora parcialmente encoberto pelo complexo, mais recente, do Centro da Ciência, o CCM confina com um jardim público, à beira-rio, onde foi levada a efeito, num imponente pavilhão temporário gigante, com 6.000 m² e 20 metros de altura, a memorável cerimónia da transferência de poderes, na noite de 19 para 20 de Dezembro de 1999, com 2.500 convidados de muitos países e organizações internacionais. O CCM compreende dois enormes edifícios, harmoniosamente ligados entre si por um espaço aberto, configurando uma praça que desce em direcção ao rio.Várias escadarias, incluindo algumas rolantes, e uma passagem aérea pedonal garantem o acesso aos edifícios, um dos quais ocupado pelo Museu de Arte; o outro, CCM – Um espaço emblemático de afirmação cultural“... um espaço de afirmação cultural das comunidades, de reforço da tradição e do entendimento da história como elemento de coesão da colectividade e de defesa do que é autenticamente macaense.” Governador Vasco Rocha Vieira, 1999
  • 094 095F A L A R D E N Ó S – XI J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – XIencimado por uma elegante pala, integra dois auditórios, galerias, sala de conferências, camarins, estúdios de dança e de música, salão de ensaio de orquestra, sala VIP, restaurante, bar e um amplo “foyer” sobre o qual foi aberta uma vistosa clarabóia. O Museu de Arte, que reuniu as colecções do antigo Museu Luís de Camões e as peças que o então Leal Senado foi adquirindo para valorizar aquele acervo, tem os seus salões ligados por longas rampas que dão continuidade aos sucessivos andares, sendo de salientar a luminosidade que as paredes envidraçadas lhes proporcionam. No acervo permanente do Museu são muito apreciadas as suas notáveis colecções de quadros históricos, de cerâmicas de Shiwan e de pintura e caligrafia chinesa, maioritariamente da “escola de Cantão”. Diversos consórcios de arquitectura e engenharia projectaram a obra, sob a coordenação do laureado arquitecto Bruno Soares, radicado há décadas em Macau. Também foram envolvidos consultores externos, de afirmada competência, para a acústica, a cenografia, a museologia e a arquitectura paisagística, tendo a construção sido confiada à empresa portuguesa Soares da Costa, associada à chinesa Tong Lei. O investimento atingiu o valor de quase mil milhões de patacas, tendo os encargos sido assumidos, em partes iguais, pelo Governo de Macau e pela Sociedade de Turismo e Diversões de Macau, concessionária exclusiva dos jogos de fortuna ou azar. No espaço ajardinado contíguo, onde se levantaram várias pérgolas metálicas, sobre caminhos pedonais, canteiros, árvores, arbustos e lagos com fundo em seixo rolado, foi colocado um muito apreciado conjunto escultórico de João Cutileiro, em mármore negro de Estremoz, e, ao longo do passeio, em calçada portuguesa, da avenida que conduz à fachada principal, ficaram pequenos reservatórios com jogos de água, luz e cor. A passagem pedonal superior constitui também uma plataforma/miradouro com vista deslumbrante sobre o rio, a ilha da Taipa e parte daquele novo bairro habitacional e comercial, sendo um lugar privilegiado para apreciar e fotografar a estátua em bronze, com mais de 30 metros de altura, da deusa Kun Iam, da autoria da artista plástica portuguesa Cristina Leiria, assente sobre um centro ecuménico, também inaugurado na fase terminal da administração portuguesa e que é um dos locais mais visitados por excursionistas provenientes da China continental.Pelo seu valor estético e funcional, merece, igualmente, menção a forma como foram implantados os dois corpos do edifício do museu, com quatro e cinco pisos, e as fachadas planas e verticais, fazendo com que o espaço aberto entre eles se apresente como um imponente pórtico. No “foyer” e nos espaços públicos adjacentes, é agradável o contraste entre o mármore branco e o pavimento negro. Ali foram colocados sofás de Le Corbusier, em pele e aço, mobiliário variado de Mies van der Rohe e Eileen Grey, em metal, pele e vidro, e telas de Júlio Resende, Mio Pang Fei e Luís Demée, pintor macaense que foi professor da Escola Superior de Belas Artes. O Grande Auditório, com 1.200 lugares, visivelmente marcado pelo vermelho das suas cadeiras, prima pelas condições acústicas e ali têm sido realizados numerosos concertos, óperas, peças de teatro, bailados e, até, congressos e conferências. Por
  • 096 097F A L A R D E N Ó S – XI J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – XIseu lado, o Pequeno Auditório, com capacidade para 400 pessoas, permite múltiplas outras actividades, incluindo projecções cinematográficas. Ambos possuem sistema de legendagem e tradução simultânea. O Festival de Artes e o Festival de Música de Macau têm tirado pleno proveito destes óptimos espaços. A primeira grande mostra temporária foi “Tesouros de Portugal”, inaugurada a 9 de Junho de 1999. Fotografia, pintura, escultura, arte sacra e ourivesaria integraram esta surpreendente exposição que reuniu peças representativas do melhor da produção artística portuguesa dos últimos séculos. Nomes como Amadeu de Souza-Cardoso, Dórdio Gomes, Sousa Pinto, Henrique Pousão, Eduardo Luís, Júlio Resende, Clara Menéres, Manuel Casimiro, Eduardo Batarda, Graça Morais, Nadir Afonso, Nuno Barreto, Álvaro Lapa, Jorge Pinheiro e Franciso Laranjo, entre outros, valorizaram sobremaneira esta exposição inaugural, a que se seguiram muitas outras que projectaram Macau além-fronteiras, merecendo elogiosas referências de conceituados críticos e tanto de publicações generalistas como das mais especializadas.Naquelas instalações funciona também um centro de artes criativas que tem contribuído para a descoberta de talentos, para apoiar iniciativas de jovens artistas e estimular a criatividade e o gosto pela arte. Como bem salientou o Governador Vasco Rocha Vieira, sem dúvida o maior impulsionador deste projecto, “o Centro Cultural de Macau deve ser, por um lado, o exemplo da capacidade de realização de iniciativas que garantam dinamismo e autonomia culturais, coerentes com o princípio confucionista da vivência comunitária balizada pela cultura e pela tradição, e, por outro, o motor da valorização de Macau como cidade cultural, numa linha de orientação estratégica que perpetue a coexistência de diferentes conceitos e valores. Afinal, foi neste cruzamento de concepções de vida, a europeia e a oriental, que se modelou o carácter das gentes de Macau, criando uma maneira peculiar de olhar o mundo e de o construir culturalmente.”Parabéns ao CCM pelo seu 15.º aniversário. Que continue a ser, pelos anos fora, um símbolo da vitalidade cultural de Macau. 3 de Junho de 2014
  • 098 099F A L A R D E N Ó S – XI J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – XIMuitos dos artigos que se podem comprar no Wal-Mart ou no Carrefour, como computadores, brinquedos, calçado e electrónica de consumo, são produzidos em Dongguan, que é uma das cidades da China que mais exportam, depois de Shenzhen, Xangai e Suzhou. A cidade contém mais de 10 mil empresas constituídas com financiamento do exterior, a maior parte das quais com a produção orientada para a exportação. No primeiro semestre de 2013, Dongguan manteve um crescimento acelerado, com o respectivo PIB a crescer 9,2% para 243,4 mil milhões de yuans, superando em 0,7 pontos percentuais o PIB médio das cidades da província de Guangdong. Neste período de seis meses, as exportações cresceram 7% para 41,2 mil milhões de dólares. Comparativamente às outras cidades da província de Guangdong, Dongguan posicionou-se em quarto lugar em termos de PIB no primeiro semestre, sendo superada apenas por Cantão, com 705,2 mil milhões de yuans, Shenzhen com 601,4 mil milhões e Foshan com 325,9 mil milhões.Dongguan fabrica 30% da produção mundial de brinquedos e mais de 20% da produção mundial de cabeças magnéticas para discos rígidos e de digitalizadoras. A cidade é ainda o maior produtor mundial de peças e periféricos para computadores pessoais, albergando mais de 2.800 empresas de tecnologias de informação. Dongguan é um dos maiores produtores mundiais de telefones móveis bem como de mobiliário e de lanifícios. (...)A ascensão de Dongguan foi possível dado que se localiza junto a Shenzhen e à principal ligação ferroviária e rodoviária entre Hong Kong e Cantão, o corredor que 4.º trabalho sobre o Delta do Rio das Pérolas “A cidade de Dongguan é o produto notável das políticas reformistas e de abertura ao exterior dos últimos 30 anos. A actual cidade era anteriormente um conjunto de pequenos agrupados populacionais dispersos por uma área de 2.500 quilómetros quadrados do Delta do Rio das Pérolas, cujos terrenos estavam cobertos por pomares de lichias, fruto apreciado pelas senhoras da corte imperial.”Os estudos sobre o Delta do Rio das Pérolas, que é uma das zonas de maior desenvolvimento físico e económico em todo o mundo e onde Macau e Hong Kong se inserem, têm a maior relevância para a projecção e o planeamento destas duas regiões administrativas especiais da República Popular da China e para a atracção e consolidação de investimentos e projectos que foram contribuindo, determinantemente, para o espectacular crescimento de vastas áreas da província de Guangdong.Produzidos pela Associação de Macau de Investigação do Delta do Rio das Pérolas, com apoios da Agência Macaulink e do Instituto Internacional de Macau e patrocínio da Fundação Macau, os primeiros trabalhos, todos de Thomas M. H. Chan e Louise do Rosário, foram publicados em 2013, dedicados à extraordinária história do Delta, à imensa metrópole que é Cantão e a Shenzhen, a mais bem sucedida das zonas económicas especiais. O 4.º, já disponível e cujos autores são aqueles mesmos especialistas, tem por título “Dongguan: Uma nova fase de crescimento” e explica a impressionante conversão de aldeias agrícolas em fábricas do mundo, num espaço urbano que alcançou, em 2012, um PIB superior a 80 mil milhões de dólares americanos.Vale a pena ler estas passagens do livro, para se poder entender o sucesso das transformações operadas:“A cidade (de Dongguan) conseguiu atingir este nível ao ter-se transformado numa zona industrial de mão-de-obra intensiva para as empresas de Taiwan, Hong Kong e de outros locais. As suas principais indústrias são electrónica e tecnologias de informação, máquinas eléctricas, maquinaria diversa, têxteis e vestuário, mobiliário, brinquedos, papel, bebidas e produtos químicos.
  • 100 101 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – XI F A L A R D E N Ó S – XIse tornou num dos mais importantes centros industriais do mundo. A cidade dista 47 milhas náuticas de Hong Kong e 48 milhas náuticas de Macau e dispõe de um sistema de transportes bem estruturado, com vias rápidas para Shenzhen e Cantão e ligações por caminho-de-ferro a Hong Kong, Shenzhen, Shantou e Pequim.Embora não disponha de um aeroporto próprio, a cidade fica a menos de três horas por estrada de cinco aeroportos – Cantão, Shenzhen, Hong Kong, Foshan e Zhuhai. Os investidores estrangeiros têm sido atraídos por factores como baixo custo dos terrenos e da mão-de-obra e baixos impostos e uma atitude de laissez-faire, laissez-passer das autoridades municipais.Numa fase inicial, os investidores tinham de importar os materiais, as peças e os componentes que eram montados para exportação. Mas, gradualmente, as fábricas foram atraindo um número crescente de fornecedores, tanto domésticos como estrangeiros, conseguindo comprar localmente cada vez mais do que necessitavam para a produção. Estas unidades industriais formaram agrupamentos e atingiram um dinamismo e uma dimensão tais que mesmo os italianos foram a Dongguan tentar aprender o que podiam fazer para melhorar os seus próprios agrupamentos.A cidade atraiu grande quantidade de capital, técnicas avançadas de fabrico, equipamento de última geração e design industrial de elevada qualidade. Os serviços de apoio à produção industrial cresceram em paralelo, tendo a cidade construído um porto com terminal de contentores para facilitar as exportações.”Dongguan é, hoje, um dos quatro “dragões” da Província de Guangdong, juntamente com Zhongshan, Shunde e Nanhai, fazendo com que esta província seja o maior espaço de produção industrial avançada do mundo. Essa cidade, que tem uma área de 2.465 km2 e mais de oito milhões de habitantes, está dividida em quatro bairros e 32 subúrbios, cada um dos quais especializado em determinado produto industrial. Por exemplo, Humen é o grande centro de vestuário, com mais de mil empresas em laboração; Dalingshan é o principal produtor de mobiliário, integrando mais de 500 fábricas do sector; e Houjie é um dos maiores produtores de calçado da China, apoiado por um Centro Mundial de Calçado que visa promover a comercialização do calçado e de materiais para a sua produção, a par da organização de feiras comerciais e da pesquisa e desenvolvimento de novos materiais, técnicas, padrões e modelos. Tudo obedecendo a um rigoroso planeamento e beneficiando da, ainda, fácil obtenção de investimentos e financiamento.A prosperidade alcançada permite-lhe apostar numa melhor urbanização, na cultura, no lazer e na qualidade de vida. 17 parques florestais foram abertos, além de múltiplos parques citadinos. A cidade tem já seis campos de golf, 21 bibliotecas públicas, três museus e 145 salas de espectáculos. Os locais históricos e a famosa arte Lingnan, que nasceu em Dongguan, são oficialmente protegidos e valorizados. Também se investiu no imobiliário, para atrair habitantes de Hong Kong, Macau, Cantão e Shenzhen, que ali podem adquirir apartamentos a preços convidativos, em complexos especialmente concebidos para férias ou segunda residência. A crise financeira internacional afectou, inevitavelmente, as perspectivas de crescimento de toda esta extremamente dinâmica região, mas também representou um extraordinário desafio para os responsáveis dos seus principais centros industriais,
  • 102 103 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – XI F A L A R D E N Ó S – XIcuja capacidade de resposta poderá ser bem entendida nos próximos volumes desta série de estudos dedicados ao Delta do Rio das Pérolas.9 de Junho de 2014Um colóquio e uma exposição fotográfica, organizados pela Comissão de Negócios Estrangeiros e Comunidades Portuguesas e pelo Grupo Parlamentar de Amizade Portugal – China, assinalaram, na Assembleia da República Portuguesa, no dia 3 de Junho, a comemoração do 35.º aniversário das relações diplomáticas entre Portugal e a República Popular da China.Os temasO colóquio teve dois painéis: “35 anos de relações diplomáticas”, com sucintas exposições, sóbrias e apropriadas, do historiador Moisés Fernandes, autor de vários trabalhos de investigação sobre as relações luso-chinesas, do embaixador António Costa Lobo e dos antigos governadores Garcia Leandro, Rocha Vieira e Carlos Melancia, e “O presente e o futuro das relações entre Portugal e a República Popular da China”, em que usaram da palavra Carlos Monjardino, presidente da Fundação Oriente, embaixador Jorge Torres Pereira e representantes dos grupos parlamentares dos Partidos Social-Democrata, Socialista, Comunista e do Centro Democrático-Social. As sessões de abertura e de encerramento contaram com a participação de Huang Songfu, embaixador da RPC em Lisboa, e dos deputados Vitalino Canas e Sérgio Sousa Pinto, presidentes do Grupo Parlamentar de Amizade Portugal – China e da Comissão de Negócios Estrangeiros e Comunidades Portuguesas.A exposição, composta por meia centena de fotografias que testemunham os momentos altos do positivo relacionamento entre os dois países, de 1979 a 2013, foi conjuntamente preparada pelo Centro Científico e Cultural de Macau e pela Embaixada da República Popular da China em Portugal. Conforme o folheto de apresentação, No 35.º aniversário das relações diplomáticas“(...) soubemos, em conjunto, erigir uma relação sólida, alicerçada num entendimento e respeito mútuos que se tem vindo a consubstanciar num diálogo franco e profícuo.” Presidente Aníbal Cavaco Silva
  • 104 105 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – XI F A L A R D E N Ó S – XI“os 35 anos que agora se comemoram manifestam um progressivo clima de mútuo entendimento a partir de 8 de Fevereiro de 1979 com relacionamentos político e oficial mas, também, económico e entre empresas públicas e privadas, cultural e educativo, científico e tecnológico, turístico e entre comunidades de cidadãos chineses e portugueses”, com dois grandes ciclos, “o primeiro, de 1979 a 1999, centrado na questão de Macau como fronteira histórico-cultural comum e da sua transição com sucesso como Região Administrativa Especial para a República Popular da China, e o segundo, a partir de 1999, envolvendo crescentes relações económicas (mas, também em todas as outras dimensões) no quadro de uma parceria estratégica global que torna mais interdependentes a China, Macau/RAEM, Portugal e os restantes países de expressão oficial em língua portuguesa”.Duas cartasSintonizados nos propósitos, os dois Chefes de Estado trocaram, em Fevereiro passado, esta amigável e oportuna correspondência que vale a pena assinalar neste espaço:“Por ocasião do 35.º aniversário do estabelecimento de relações diplomáticas entre a República Popular da China e a República Portuguesa, gostaria de endereçar a Vossa Excelência, em nome do Governo Chinês e no meu próprio, e por seu alto intermédio ao povo português, calorosas felicitações e os melhores votos.Desde o estabelecimento das relações diplomáticas em 1979, através de esforços conjuntos, o relacionamento entre a China e Portugal tem-se desenvolvido de forma salutar e harmoniosa.Com o estabelecimento da Parceria Estratégica Global, em 2005, as relações bilaterais apresentam uma tendência de bom e rápido desenvolvimento. Nos últimos anos, ambos os países têm mantido uma estreita cooperação no sentido de enfrentar, de mãos dadas, os desafios da crise financeira internacional, vindo a obter resultados positivos.Considero de grande importância as relações sino-portuguesas e espero que ambas as partes continuem a envidar esforços, aproveitando o 35.º aniversário do estabelecimento destas relações, para fortalecer ainda mais a confiança política mútua, aprofundar a cooperação em diferentes áreas, estreitar contactos e intercâmbios culturais, no sentido de promover a Parceria Estratégica Global entre a China e Portugal, beneficiando assim os nossos países e os nossos povos.Vossa Excelência tem atribuído muita importância às relações bilaterais e tem-se dedicado a promover a causa da amizade entre os dois países. Tenho muito prazer em receber a sua Visita de Estado à China no corrente ano, numa data conveniente para ambas as partes.Faço votos pela longevidade da amizade sino-portuguesa.Xi Jinping, Presidente da República Popular da China***Por ocasião do 35.º aniversário do estabelecimento de relações diplomáticas entre os nossos dois países, muito me apraz assinalar a data de 8 de fevereiro de 1979 como
  • 106 107 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – XI F A L A R D E N Ó S – XImarco de um relacionamento fundado em laços históricos de amizade e cooperação e que Portugal e a China têm sabido continuamente aprofundar, consubstanciando-se hoje numa parceria estratégica global.Ao longo destes anos, soubemos, em conjunto, erigir uma relação sólida, alicerçada num entendimento e respeito mútuos que se tem vindo a consubstanciar num diálogo franco e profícuo. Neste contexto, não posso deixar de apontar o paradigmático exemplo que constitui a negociação que levámos a cabo e que culminou com a Declaração Conjunta, que, em representação de Portugal, tive a honra de assinar. 2014 marca também o ano do 15.º aniversário da Região Administrativa Especial de Macau, símbolo maior da nossa ligação estreita e compreensão mútuas.Mas mais do que permitir um balanço em relação ao passado, estas ocasiões comemorativas constituem motivos para gizar, com confiança e ambição, os contornos do futuro da nossa relação bilateral, na perspetiva de explorar plenamente o enorme potencial estratégico que encerra, com benefícios mútuos, especialmente nas vertentes política, económica e cultural. Reafirmo, pois, o meu forte empenho na prossecução deste desiderato.Gostaria, ainda, de realçar, nesta ocasião, de forma especial, o valioso contributo da comunidade chinesa residente em Portugal, fator adicional de aproximação entre os nossos dois povos.Nesta data tão importante para Portugal e a China e na grata expectativa de o conhecer em breve, peço-lhe que aceite, Senhor Presidente, as minhas calorosas felicitações e os votos que formulo pelo seu bem-estar pessoal e pela prosperidade e progresso do povo amigo da China.Aníbal Cavaco Silva, Presidente da República PortuguesaQue Macau possa e saiba continuar a ser a expressão mais concreta e o símbolo vivo da cooperação e da amizade reafirmadas nestas missivas.16 de Junho de 2014
  • 108 109 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – XI F A L A R D E N Ó S – XIA chegada ao bairro português foi plena de emoções. Era a alma da lusofonia. Uma realidade difícil de imaginar, ouvir o toque do sino (toká sinu di greza) anunciando a saída de um funeral, sinais tão iguais aos sinais da aldeia que me viu crescer, Amial, freguesia de Ramalhal, onde fui batizada. Sem arredar pé, olhei em volta com olhos de ver e de sentir que aquele lugar era, também, o mesmo lugar onde vivi. Questionei-me e, sem eu perguntar, disseram-me: mais um luso descendente que parte. No Bairro saudaram-me calorosamente ‘portuguesa de Portugal’ numa comparação de igualdade aos ‘portugueses de Malaca’. À volta, uma mistura de afetos, fotografias, vestuário, peças mostrando a presença de Portugal. Estava no museu – assim me informaram. Mais do que o museu, o valioso património humano está presente na comunidade através da religião, da cultura, das tradições e da língua que teimam em não deixar morrer, nem o crioulo de Malaca (português antigo), que tentam com dificuldade preservar para as gerações futuras.Argumentavam, com mágoa, que estavam esquecidos. Davam conta de muitas visitas oficiais de Portugal à Ásia, mas não a Malaca. Senti o desejo e a necessidade urgente de serem reconhecidos, pela persistência da continuação da nossa cultura e língua. Preocupações, também, com os mais novos que, aos poucos, vão deixando o bairro para procurar outras oportunidades. O sentimento de abandono agravado, após a saída do último padre, Manuel Pintado, missionário português de Freixo de Espada à Cinta, que mantinha uma presença conciliadora importante. Foi ele que nas suas pregações manteve o crioulo de Malaca (papiá português).As histórias contadas pelo meu pai prendiam-me… eram a continuação das que não teve tempo de contar nem tempo de me ouvir contar.Com o coração em Malaca“Este livro é uma preciosa contribuição para manter acesa essa luz de uma epopeia inspiradora nesta conjuntura de inquietação mundial.”Adriano Moreira, no prefácioHá anos que venho acompanhando os projectos e as realizações muito positivas da Associação Cultural Coração em Malaca, bem como a dedicação, os esforços e a capacidade de iniciativa da sua presidente, Luísa Timóteo, que trabalhou em Timor-Leste, de 2002 a 2005, ao serviço da cooperação portuguesa, ficando para sempre ligada ao país e às suas gentes. No seu livro “Por Malaca e Timor-Leste” (Editora de Prosa, Poesia e Teatro – Casa das Cenas, Sintra, Março de 2014), acabado de lançar em Lisboa, expressou, através destas sentidas palavras, a sua angústia na hora da despedida: “Como poderia ter coragem de lhes dizer que regressava a Portugal? Pensar que ia deixar tantos rostos que me sorriam diariamente, sorrisos contagiantes que justificavam a minha presença, o meu trabalho, o amor e afecto que dediquei a todos de igual modo, aos meus irmãos timorenses-portugueses, ao povo da jovem nação com passado, que Deus me concedeu o privilégio de conhecer”.Acalentava, porém, outro propósito que faltava realizar, que era visitar Malaca. “Sempre em mente Malaca, tão perto de Timor-Leste. Um dever ainda por cumprir”. Abraçou, então, uma nova causa: a de promover, em Portugal e no vasto mundo lusófono, um melhor conhecimento da comunidade luso-descendente, ainda tão intensamente identificada com a pátria das suas raízes. Foi assim que descreveu a primeira deslocação que fez a Malaca, na companhia de duas amigas portuguesas residentes na Malásia e do cônsul honorário de Portugal em Kuala Lumpur:Malaca 2005“Recuei no tempo e, por muito estranho que pareça, senti um bem-estar que me invadiu totalmente. (…)
  • 110 111 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – XI F A L A R D E N Ó S – XILamentos duma comunidade lusa que sente saudade, solidão e abandono de Portugal, ‘berço da sua nação’ afirmavam.Lamentos sinceros ficaram-me no coração, nascendo em mim a caminhada que teria que percorrer. As emoções, como o legado herdado, bateram forte na minha alma. Uma força se apoderou de mim e, sem sombra de dúvidas, prometi o reforço da amizade. Jurei que não seriam esquecidos. Deixei lá um compromisso: não os esquecer e divulgar o quanto nos estimam e esperam.Evocando Torga (1990): ‘Aqui começa a nova caminhada. / Se a levar ao fim, darei louvores a Deus, / Como meu Pai, ao despegar / Do dia ganho. / Não por haver chegado, / Mas ter acrescentado / Um palmo de ilusão ao meu tamanho.’Comentei com as minhas amigas este ardente sentimento, também por elas já amadurecido, o que me levou a sonhar com a constituição de uma Associação por Malaca, em defesa da comunidade, tradições, cultura e língua, citando o excerto do livro ‘O Bairro Português de Malaca’, publicado por Guimarães e Ferreira (1996): ‘Uma língua contém e define um modo de ser e de ver o mundo. Enquanto dura, um certo tipo de personalidade existe: com o seu desaparecimento é um certo homem que morre. A Língua tem relação intrínseca com todos os elementos que integram e dão rosto a uma cultura; ela é um dos pilares sobre que assenta a pertença ao grupo: Se falo tal língua encontro-me com os que a falam, distingo-me e distancio-me dos que a não falam. Para os luso-descendentes de Malaca a língua foi, e é, juntamente com a religião, carácter decisivo para a existência e definição do grupo.’ São palavras que caracterizam bem aquela comunidade”.Povos CruzadosRegressada a Portugal e animada pelas colaborações e adesões que soube congregar, aquele desígnio foi ganhando forma e, pouco depois, estavam criadas as condições para o arranque da Associação Cultural Coração em Malaca (Korsang di Melaka) e os projectos no seu âmbito começaram a concretizar-se, com apoios do Instituto Camões e de outras entidades. “Povos Cruzados” foi o nome dado a um conjunto de iniciativas, abarcando acções no âmbito do folclore, com especial atenção dada às danças e aos cantares, aulas de língua portuguesa, a colocação, ali, de uma bolseira qualificada, um registo do património, a criação de um centro documental, projectos de natureza social e a promoção de deslocações a Portugal de membros destacados daquela comunidade “que deseja ver garantida a sua aceitação na estrutura socio-política onde se insere com as suas diferenças culturais, que definiram um património de valores a preservar reconhecido pela UNESCO, que Portugal não deve esquecer nem abandonar”.Que não faltem as ajudas necessárias, porque o entusiasmo, a vontade e o conhecimento existem em alto grau. As Fundações Calouste Gulbenkian, Cidade de Lisboa, Macau e Oriente, assim como os Serviços de Turismo de Macau e o Instituto Cultural de Macau, além do Instituto Camões, viabilizaram projectos úteis, embora nem sempre com a indispensável continuidade. A Administração Portuguesa também concedeu bolsas a estudantes de Malaca para a frequência do ensino superior em Macau.
  • 112 113 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – XI F A L A R D E N Ó S – XIOxalá a Associação, em articulação com os homens bons do “Kampung Portugis”, possa agora avançar bastante mais. Aquela comunidade, da qual também guardo indeléveis recordações, merece-o plenamente.23 de Junho de 2014Sessão memorável e muito concorrida foi a que se realizou no Palácio da Independência, em Lisboa, no passado dia 19 do corrente, para apresentação dos livros “Meio Século em Macau” (em 2 volumes) e “Memórias do Romanceiro de Macau”, ambos da autoria de J. J. Monteiro, saudoso poeta popular de Macau, falecido em 1988, com 75 anos de idade. Constituiu também uma justa homenagem póstuma promovida pelo Instituto Internacional de Macau (IIM), editor daquelas obras, oportunamente lançadas em Macau e no Brasil.Foram oradores um dos filhos (Dr. José Joaquim Monteiro Júnior, médico) e uma neta (Dra. Maria de Fátima Monteiro Constâncio, jurista), ambos residentes em Lisboa, e o Prof. António de Abreu Freire, académico e escritor, que desenvolve as suas actividades universitárias e literárias em Portugal, no Brasil e no Canadá. Reputado especialista em estudos de literatura de cordel e poesia popular, este professor do ensino superior dedicou à obra de J. J. Monteiro especial atenção, enaltecendo a qualidade dos versos que nos legou, como poeta popular que “faz parte daquele elenco de artistas da palavra que continuam uma longa tradição, a da oralidade em verso, que nasceu nos primórdios da língua portuguesa e se prolongou por muitos séculos, estando ainda hoje viva e pujante no nordeste do Brasil, conhecida por literatura de cordel”.Depois das comovidas e bem estruturadas intervenções dos dois familiares do poeta, que realçaram os aspectos mais relevantes da sua riquíssima personalidade, vida e obra, merecendo prolongados aplausos da assistência, o Prof. Abreu Freire a todos deliciou com uma eloquente lição sobre as raízes da literatura de cordel, integrando a vasta obra de J. J. Monteiro neste contexto. Descreveu o percurso pessoal e poético deste português que, como tantos, peregrinou pelo mundo, sendo Macau o seu destino final e terra de eleição. Legado de poeta popular de Macau enaltecido em Lisboa“Que estas obras magníficas, em boa hora editadas pelo Instituto Internacional de Macau, se divulguem pelas instituições culturais e educativas em todo o espaço da língua portuguesa...”Prof. António de Abreu Freire, Junho de 2014
  • 114 115 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – XI F A L A R D E N Ó S – XIUma vida em versoVale a pena destacar estas passagens que resumem bem o conteúdo da sua comunicação:“A vida de José Joaquim Monteiro é a história de um emigrante português como milhões de outros sobre os quais já no século XVII o padre António Vieira, num célebre sermão pregado na igreja de Santo António dos Portugueses em Roma (em 1671) dizia: ‘Sem sair ninguém pode ser grande (...) Nascer pequeno e morrer grande é chegar a ser homem. Por isso nos deu Deus tão pouca terra para o nascimento e tantas para a sepultura. Para nascer, pouca terra; para morrer toda a terra: para nascer, Portugal; para morrer o mundo. Perguntai a vossos avós: quantos saíram e quão poucos tornaram? Mas estes são os ossos de que mais se deve prezar o vosso sangue.’ Ele mesmo, o grande Vieira, foi um emigrante e o santo a quem dedicava o sermão também fora um emigrante: santo António. J. J. Monteiro viveu ao ritmo das oportunidades que a vida lhe ofereceu, à medida das suas ambições e da sua coragem, por três continentes. Refletindo sobre ela viveu-a uma segunda vez através dos seus versos, partilhando-a assim com todos os peregrinos que encontram na palavra escrita um jeito generoso de acalentar a existência. Como muitos portugueses que fizeram do mundo inteiro o terreiro das leivas dos seus arados, ele cultivou uma arte de versejar que fazia parte do universo lúdico da sua infância e serviu-se desse instrumento para partilhar a história da sua vida e a da comunidade que o acolheu durante meio século. Seria banal se esta forma de comunicar não se inserisse numa longa história que faz parte da identidade dos povos de língua portuguesa desde tempos imemoriais, desde antes ainda da existência da própria nacionalidade. Ele não teve em Macau o apoio de outros poetas nem o ambiente competitivo que encontraria no nordeste brasileiro, não teve o ambiente da cantoria que caracteriza a peleja nordestina, mas desenvolveu com os seus próprios recursos e a sua inspiração a arte tão genuinamente portuguesa do verso popular.A literatura popular é hoje uma das mais poderosas manifestações da identidade cultural dos povos que falam a nossa língua, qualquer coisa como 230 milhões de criaturas espalhadas por cerca de 160 países do mundo – a terceira língua ocidental de maior relevo, depois do inglês e do espanhol. Em tempos a língua portuguesa já foi, durante mais de um século, o principal idioma comercial do planeta – uma saudade patriótica!Macau fica muito longe, nos antípodas da terra da infância do poeta. Foi lá que casou com Teresa Leong Monteiro (faleceu em 1973) com quem teve 6 filhos e estes o brindaram com 12 netos, deixando-lhes a mais valiosa das heranças: uma obra escrita, uma reflexão sobre a sua identidade. O seu segundo filho, Rogério Monteiro, também foi militar, beliscou a poesia e contribuiu para a ilustração da obra publicada. Tanto mais mérito é o percurso literário do poeta quanto o ambiente cultural português em Macau sem dúvida que em nada se poderia comparar com qualquer espaço do Brasil onde o verso popular tem vastíssimas plateias e competidores que apoiam, valorizam e divulgam a arte (...)”Divulgação do poetaFoi, para mim, um enorme prazer coordenar esta sessão e poder lembrar o poeta
  • 116 117 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – XI F A L A R D E N Ó S – XIe o homem que deixou, em quantos tiveram o privilégio de com ele privar, inolvidáveis recordações, e que fica para a eternidade pelos versos que, tão empenhadamente, escreveu. Ligam-me à família sólidas relações de amizade, tendo o filho mais velho de J. J. Monteiro, Américo da Silva Leong Monteiro, sido meu colega e bom companheiro na Escola Primária Oficial e no Liceu de Macau. Pude, por isso, conhecer, de perto, o poeta e apreciar, desde então, o seu invulgar talento. E registo, com enorme satisfação, este interesse em círculos académicos pela sua obra. Duas semanas antes desta sessão levada a efeito em Lisboa, o Prof. Abreu Freire fez uma ampla divulgação dos livros de J. J. Monteiro na Feira Panamazónica do Livro, em Belém (Pará), além de ter falado sobre o poeta no Grémio Literário Português daquela cidade brasileira e na Paratur, órgão oficial de promoção turística do Pará.Num outro evento no Brasil, na Universidade Federal de Pernambuco, Abreu Freire defendeu a ideia de que a literatura popular em verso (ou literatura de cordel) deveria ser reconhecida, por uma instância internacional como a UNESCO, como património imaterial da humanidade. Considerou agora que “estas obras magníficas, em boa hora editadas pelo Instituto Internacional de Macau, se divulguem pelas instituições culturais e educativas de todo o espaço da língua portuguesa e que sejam mais uma contribuição para que esta proposta se torne sem demora uma realidade”. Não deixaremos de dar a nossa colaboração para que este desiderato seja alcançado. 30 de Junho de 2014Personalidade muito influente, que foi presidente do Leal Senado e provedor da Santa Casa da Misericórdia de Macau, além de professor, escritor e sinólogo, tendo chefiado a então Repartição do Expediente Sínico, Pedro Nolasco da Silva foi, juntamente com outras altas individualidades, convidado a dar colaboração na feitura de um jornal dedicado às comemorações locais do 4.º centenário do descobrimento do caminho marítimo para a Índia. Concebido para ter um só número, chamou-se, por isso mesmo, Jornal Único. A contribuição de Pedro Nolasco da Silva traduziu-se num interessante e “chistoso” texto sobre o patuá, em que, usando o crioulo português de Macau, se explicou o significado daquela efeméride. O texto começa com esta nota explicativa introdutória:“Os primeiros habitantes de Macau, recrutados entre os marítimos portugueses, malaios, japoneses e chineses, produziram, como era de esperar, um dialecto em que vinham baralhadas palavras usadas por essas diversas nacionalidades. Mas a feição predominante desse dialecto era a construção gramatical copiada da língua chinesa, como se nota pela repetição duma mesma palavra para indicar plural, uso de termos auxiliares para indicar o tempo passado, e outras características próprias da estrutura gramatical chinesa.Durou este dialecto por muito tempo, até que com o desenvolvimento que tem tido a instrução pública em Macau, nestes últimos trinta anos, passou por uma grande transformação.Hoje as palavras usadas são todas portuguesas, e só não há completo rigor na observância das distinções de singular e plural, masculino e feminino e tempos dos verbos. É de crer que, modificado como está, desaparecerá também em breve, porque hoje, em Macau, mesmo no seio das famílias, e em todas as classes, fala-se o português.”Curioso texto de Pedro Nolasco da Silva sobre o patuá“Durou este dialecto por muito tempo, até que (…), nestes últimos trinta anos, passou por uma grande transformação.” Pedro Nolasco da Silva, 1898
  • 118 119 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – XI F A L A R D E N Ó S – XIPedro Nolasco da Silva referia-se, naturalmente, às famílias macaenses, no seio das quais o dialecto foi sofrendo transformações e caindo em desuso. Já era assim nas últimas décadas do século XIX, período a que o texto, escrito em 1898, se reporta.Correspondência entre sobrinha e tiaDepois destas sucintas considerações, é oferecida ao leitor, sob a forma epistolar, esta amostra muito curiosa e bem concebida do patuá:Hông-Kông, 1.º di Abril di 1898Titi Annica,Eu di qui tempo tá querê escrevê pra vôs, mas tem tanto ancusa qui fazê, qui nôm pôde pêgá penna.Nôs tudo tá bom, nom tem duença.Mas uvi; qui novidadi sam este? Macau vai fazê tantu festa; aqui tá fallá qui Macau lôgo tem quatru dia di festa.Vôsôtro na Macau túdu gente já ficá ricu? Tem tantu dinhero, pra sentá sentá, vai fazê quatru dia di festa? Qui foi? Eu tá uvi fallá qui sam centenario di India; mas, centenario di India sam qui cusa? Isplicá um pôco pra eu sábi; nunca bom priguiçá; contá tim tim pra tim tim pr’eu uvi.Vôsso subrinhaBéba.***(Resposta)Macau, 2 di Abril di 1898Minha Béba,Honti já achá vôsso carta. Mutu contente sabê qui vôsôtro tudu tá bom.Mas vôs divéra sam bura! Nun sábi qui cusa sam centenario di India?Vai iscóla prendê qui prendê, nun sábi nada; já basta iá, minha Béba.Agora sam paciencia: eu contá, vos uvi:Eu mútu priguiça papiá tanto; nadi contá lenga lenga, um pôco na mas, pra satisfazê vôsso crusidadi, já basta.Aquelle tempo, nôsso rê chomá Dom Manuel. Tudu gente sábi qui tem India, mas nun sábi quálu uña caminhu di mar pôde vai alli.Dom Manuel mandá Vasco di Gama vai busca acuñga caminho; já dá quatru naviu pr’elle.No mestê lembrá qui sam naviu grandi como vapor di mala inglez, di mala francez. N’aquelle tempo unde tem naviu assim grandi!Tudu quatru naviu sam piquinino; igual como lórcha china, como nôsso fatiáng qui vai vem Hông-Kông assim.Olá um pôco, qui animo, nung sam? Naviu piquininu; nung sábi caminhu, nom tem mappa; vai assim cego surdu; nunca mêdo vento; nunca mêdo mar; divéra sam corajoso acuñga Vasco di Gama!N’aquelle tempo tudu purtuguez purtuguez custumado fazê guéra co môro môro, ficá valente, rubustu, animoso, nunca mêdo pirigo; agora sua purtuguez undi tem
  • 120 121 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – XI F A L A R D E N Ó S – XIcomo antigo?! Tudo purtuguez, forte, rubustu cada uña, pôde aguentá travalo.Vasco di Gama sái di Lisbua na 8 di julio di 1497; chégá Calicut, na India, na 8 di Maio 1498. Sam 10 mez di viagi.Nom pôde isplicá pra vôs quiléia travalo elle já passá! Vento, mar, revuluçám di marinhero, traiçám di gente di téra, tudu láia di pirigu já passá, mas Vasco di Gama fallá qui elle lôgo morê, mas nadi voltá pra traz; até qui elle já vencê, atê qui já chegá India.Cavá discubri caminhu di India, nom pôde imaginá Purtugal qui ricu já ficá. Tudu négocio de India vai pra Lisbua.Nuncaçá fallá de ôtro parti iá; fallá di China; Purtuguez já vem Macau na 1557. Cavá nom tem niuñga ôtro naçam qui já vem pra China fazê negócio, cuza di 80 annu.Tudu chá, séda, lóça, cherám, vai di Macau pra Lisbua, di alli pra tudu téra de Éropa. Vôs lémbrá qui láia moda purtuguez nádi ficá ricu? Cavá 80 annu sam já vem hollandez, já vem inglez fazê negocio.Agora nunca uvi fallá mas qui inglez, allemám, francez, hollandez, italiano, dinamarquez, láia láia de gente; mas quim já insiná caminhu pra elôtrô vem pra India, pra China, sam purtuguez qui já abri porta, fazê caminhu pra tudo gente vem; purisso, agora querê fazê centenario di India, pra fazê recordá qui sam purtuguez antigu qui abri ôlo di tudu mundu, já insiná caminhu di India, já insiná fazê negocio, já trezê padri pregá nôsso riligiám, já fazê civilizá mundu.Agora vôs já sabi qui cusa sam centenario di India, qui foi fazê estuña festa. Azinha vem Macau iá, pra assisti festa; nunca bom faltá. Adeus.Vôsso titiAnnica.Eis uma descrição breve e bem humorada da viagem de Vasco da Gama em patuá. Lendo devagar, salvo em algumas palavras e frases, as duas cartas não são difíceis de entender. 7 de Julho de 2014
  • 122 123 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – XI F A L A R D E N Ó S – XIem 1993. O autor deste artigo e o antigo Ministro da Cultura, Pedro Roseta, teceram as considerações finais, salientando a relevância de Macau como entreposto comercial e cultural, ao longo da história e na actualidade, e a sua reafirmada missão como ponte e plataforma de cooperação entre a China e os países lusófonos.Conteúdo da revistaEste número da revista está dividido em quatro partes, a primeira reunindo trabalhos sobre Macau e a presença de Portugal no Extremo Oriente, a segunda divulgando as comunicações apresentadas no doutoramento honoris causa de Roberto Carneiro na Universidade Aberta, em Junho de 2013, a seguinte compreendendo vários estudos produzidos no âmbito do CEPCEP e ainda inéditos, e a última reproduzindo um texto de Carlos Alberto Moniz e José Jorge Letria, que constitui o guião do CD “Macau, um sonho oriental”.Os trabalhos sobre Macau são de José Eduardo Garcia Leandro, ex-Governador de Macau (“Macau e as grandes reformas que garantiram o futuro, 1974/1979”), Francisco Murteira Nabo, ex-Secretário-Adjunto para a Economia e Finanças do Governo de Macau (“Uma visão sobre a economia de Macau em 1990”), João de Deus Ramos, ex-membro do Governo de Macau e diplomata com larga experiência no âmbito das relações luso-chinesas (“Relações entre Portugal e a República Popular da China: um olhar retrospectivo”), Jorge A. H. Rangel, presidente do Instituto Internacional de Macau e ex-membro do Governo de Macau (“A preservação e valorização do legado luso em Macau”), Vasco Rocha Vieira, último Governador de Macau (“China, Portugal e a globalização competitiva”), António Vale, investigador académico (“A sociedade Portugal – Macau: um património“... a presença portuguesa no delta do Rio das Pérolas foi profundamente marcada pela história de mais de quatro séculos, feita de encontros e desencontros, mas sempre de uma amizade que, sabendo ultrapassar dificuldades, permitiu uma tão duradoira presença e motivar um tão vasto património cultural.”Da nota introdutória ao volume 17 de Povos e CulturasO Centro de Estudos dos Povos e Culturas de Expressão Portuguesa (CEPCEP), organismo científico da Universidade Católica Portuguesa, acaba de lançar o volume 17 da sua revista Povos e Culturas, o qual foi dedicado ao tema “Portugal – Macau: um património”, para assinalar, como é referido na sua nota introdutória, “os 500 anos da chegada dos Portugueses à China e, de um modo mais particular, lembrar alguns momentos ocorridos no território onde a presença portuguesa mais se fez sentir, ou seja, em Macau.” Desejou-se também “recordar aspectos do relacionamento de Portugal com a China e avaliar a dimensão do legado luso em Macau”.Nem todas as personalidades convidadas puderam corresponder à solicitação que lhes foi oportunamente feita, mas constituiu um “privilégio poder contar com a colaboração de autores que conceberam e executaram as grandes reformas de Macau no século passado e que possibilitaram uma passagem serena e tranquila daquele território, da administração portuguesa para a chinesa”. E “assim se preservou – valorizando-a até – a herança cultural portuguesa no Extremo Oriente”.A sessão decorreu em Lisboa, na tarde do dia 8 do corrente, no Salão Nobre do Palácio da Independência, sede da Sociedade Histórica da Independência de Portugal (SHIP), com intervenções de José Augusto Alarcão Troni, presidente da SHIP e ex-membro do Governo de Macau, Roberto Carneiro, presidente do CEPCEP, João de Deus Ramos, diplomata que reabriu a representação de Portugal em Pequim e foi Secretário-Adjunto para os Assuntos da Transição em Macau, Artur Teodoro de Matos, professor catedrático e director da revista, e Carlos Alberto Moniz, que apresentou o CD “Macau, um sonho oriental”, que integrou a revista e cuja primeira edição, patrocinada pelo IPOR – Instituto Português do Oriente, havia sido lançada em Macau
  • 124 125 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – XI F A L A R D E N Ó S – XImacaense no antigo regime”) e Rogério Miguel Puga, professor da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e coordenador do Seminário Permanente sobre Estudos de Macau (“Representações de paisagens histórico-etnográficas da Macau oitocentista no diário de Joseph Frye, 1853”).De entre os inéditos do CEPCEP, figuram dois estudos sobre Goa, de Artur Teodoro Matos (“Os ‘arbítrios’ de Diogo Pinho Teixeira para a reforma do governo económico do Senado da Câmara de Goa em 1728”) e de João Teles e Cunha (“O insólito no quotidiano goês: Santa Mónica e o Milagre da Cruz, 1636”). Ambos estão ligados ao Instituto de Estudos Orientais da Universidade Católica Portuguesa e ao Centro de História de Além-Mar da Universidade Nova de Lisboa e da Universidade dos Açores.Ficou, desta feita, disponibilizado mais um conjunto de contribuições que serão úteis a jovens investigadores numa altura em que, nas universidades, os temas relacionados com a memória de Portugal no Oriente têm merecido um renovado interesse académico, até no que concerne a dissertações de mestrado e teses de doutoramento.E foi, com inevitável emoção que, mais de duas décadas volvidas, pudemos reler – e, na sessão, de novo ouvir – os poemas e os cânticos de “Macau, um sonho oriental” que, de forma assaz expressiva, Carlos Alberto Moniz nos ofereceu, de todos grangeando uma prolongada ovação. “São respigos de costa a costa, do extremo ocidente ao extremo oriente, unidas em salgada nostalgia, feitos notas e palavras, gestos e mímica, representação e sugestão, que ecoam por um tempo intemporal e que ocupam um espaço indefinido”.Povos e CulturasA revista Povos e Culturas é o principal veículo de comunicação do CEPCEP, centro de estudos da Universidade Católica Portuguesa criado em 1983 e especialmente vocacionado para o “estudo da interacção cultural que a presença portuguesa gerou no seio dos povos dos vários continentes, fomentando, por esta via, a compreensão e a aproximação mútuas”. Neste contexto, promove a investigação, a formação pós-graduada e a difusão cultural, estimula o debate qualificado e assegura a publicação de estudos relacionados com as suas preocupações científicas, podendo também prestar serviços e estabelecer parcerias, visando a realização dos seus objectivos.O CEPCEP está estruturado por unidades científicas, organizadas em torno de cinco áreas fundamentais: Portugal, Brasil, África, Oriente e Comunidades Portuguesas. Integram o seu órgão executivo os professores e investigadores Roberto Carneiro, como presidente, Artur Teodoro de Matos, João Paulo Oliveira e Costa, Ana Claúdia Valente, Fernando Chau, José Maria Seruya e Verónica Policarpo, sendo acompanhado por um conselho geral constituído por destacadas individualidades de reconhecido mérito académico e cultural.Como revista universitária, Povos e Culturas pretende ser um espaço de convivência e de diálogo intercultural, forjado no pressuposto “de que é na produção cultural que reside a chave da vitalidade e da renovação dos povos”.Esta edição, datada de Maio de 2014 e respeitante ao ano de 2013, teve o apoio da Fundação Jorge Álvares.14 de Julho de 2014
  • 126 127 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – XI F A L A R D E N Ó S – XIOs vários quadros, em dois actos, caracterizam essa convidativa viagem que fazemos com aquele lobo do mar, como se fôssemos seus companheiros naquelas exóticas jornadas: “Não vás para o mar, homem”, “Rumando a Oriente”, “Aires Vicente, um marinheiro português”, “Os bens de Macau”, “Na Gruta de Camões”, “Luís Vaz de Camões”, “Frei Tomé de Jesus”, “O homem da ‘Peregrinação’”, “Com o Hai-Tu de Cantão (e Leonel de Sousa)”, “Um Leal Senado”, “Um homem vindo de longe (Sun Yat Sen)”, “Pessanha e Patrício”, “Bocage: o amargo riso”, “Venceslau de Morais” e “Regresso de Aires Vicente”. Enriquece o texto uma selecção feliz de poemas de Sophia de Mello Breyner, Roberto Carneiro, Han Yu, Antero de Quental, Miguel Torga, Li Bai, Qu Yuan e Camilo Pessanha, além de uma “chistosa” cantiga em patuá de autor anónimo e um brevíssimo extracto da “Peregrinação”.Para despertar o interesse do leitor que não teve acesso a este CD, transcrevemos, com a devida vénia, estas passagens dedicadas a Fernão Mendes Pinto:O homem da “Peregrinação”Coro:O seu nome é tão faladona história da literaturaque por vezes esquecemosque foi homem de aventuraMacau, um sonho oriental“Sonho-me às vezes Rei, nalguma ilhaMuito longe, nos mares do OrienteOnde a noite é balsâmica e pungenteE a lua cheia sobre as águas brilha” Antero de Quental, “Sonho Oriental”Foi em 1993 que o CD “Macau, um sonho oriental”, com texto de José Jorge Letria e música de Carlos Alberto Moniz, foi lançado pelo IPOR – Instituto Português do Oriente, tendo merecido uma nova e oportuna divulgação pública em Lisboa, no dia 8 do corrente, acompanhando a apresentação do volume 17 da revista Povos e Culturas, do CEPCEP – Centro de Estudos dos Povos e Culturas de Expressão Portuguesa, de que faz parte integrante, valorizando-o. Aquele notável trabalho continua a significar uma original homenagem à terra que conteve sempre “nas suas entranhas a magia inesgotável de gerar incessantemente fusões maravilhosas, infinitamente mais ricas e portentosas que os elementos iniciais em choque”, como eloquentemente a caracterizou Roberto Carneiro. Sendo “território de territórios, cultura de culturas, povo de povos, quotidiano de quotidianos, sortilégio de sortilégios, alegria de alegrias, Macau partiu de uma justaposição estranha de dois mundos distintos, a ocidente e a oriente, à semelhança dos braços envolventes do delta lodoso em que mergulha a sua existência física, para amadurecer, ao longo dos séculos, uma vincada personalidade própria, uma síntese original fruto de alquimia histórica cerzida na permanente encruzilhada de caminhos”.A viagem de Aires VicenteA narrativa é protagonizada por um marinheiro luso, de nome Aires Vicente, que parte de Lisboa e “revisita” o Oriente Extremo, “revive” momentos marcantes do percurso dos portugueses e “convive” com algumas das personalidades mais destacadas da sua história plurissecular. “Velejámos, navegámos / passámos rios a vau / e vogando nos mares da China / lançámos ferro em Macau”. No fim, retorna ao país de origem, já que “não podem durar para sempre / as viagens de aventura / que o sonho navegante / só é sonho enquanto dura”.
  • 128 129 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – XI F A L A R D E N Ó S – XIFernão Mendes Pinto:Da aventura e de viagemcom o sol por astrolábioaprendi, cruzando os maresque o medo também é sábioNão fui herói nem fui santoe se algum exemplo deifoi de uma vida sofridanas histórias que conteiCoro:Da memória que guardastedo sonho e da comoçãofizeste um livro andarilhochamado “Peregrinação”Fernão Mendes Pinto:Não me importo que me lembremquando falam de Macaué pôr um nome de ventona proa de uma nauNos tormentos desta vidaviajei de lés a lésdando asas navegantesao meu sonho portuguêsCoro:Da memória que guardastedo sonho e da comoçãofizeste um livro andarilhochamado “Peregrinação”Fernão Mendes Pinto:Numa carta que mandeiescrita a bordo de uma nauem que usei em letra forteo nome de Ama-CuauEsse nome que eu escrevilá nos confins da distânciatinha o sabor da magiados brinquedos da infânciaCoro:Da memória que guardastedo sonho e da comoçãofizeste um livro andarilhochamado “Peregrinação”
  • 130 131 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – XI F A L A R D E N Ó S – XIAlém de José Jorge Letria e Carlos Alberto Moniz, autores da letra e da música, deram voz e forma, enquadramento musical e arranjo instrumental na produção deste CD reputados artistas como Helena Vieira, Fernando Serafim, Lia Altavilla, Pedro Chaves, António Wagner Diniz, Alberto Lobo da Silva, Alberto Silveira, Paulo Bragança e Maria do Céu Guerra, que fez a narração, e mais de trinta outros músicos e colaboradores. Com eles “seguimos as rotas do mar / em galeões, caravelas / e lá fomos aportar / ao porto de sonho das velas”. Até Macau, que foi, no dizer de Torga, um sonho confuso de Portugal…21 de Julho de 2014Noite linda, recinto lotado, um público entusiasticamente participativo e uma orquestra que a todos encantou, assim podemos caracterizar as duas horas bem passadas no Largo de São Carlos, em Lisboa, no passado dia 16 do corrente. A Orquestra Chinesa de Macau, que já tinha estado várias vezes em Portugal, voltou agora para abrilhantar o programa do 6.º Festival ao Largo, que decorreu de 27 de Junho a 27 de Julho.A digressão prosseguiu, com êxito, por Setúbal, a 18, no Fórum Luísa Todi, Torres Vedras, a 19, no Teatro-Cine, e Coimbra, a 21, no Festival das Artes na Quinta das Lágrimas. Em Torres Vedras, o Instituto Cultural de Macau patrocinou a exposição fotográfica “Mapping – exposição colectiva de fotógrafos de Macau”, com trabalhos de oito artistas residentes em Macau: Carmo Correia, Chen Hin Lo, Lam Chung Kit, Frank Lei, João Ó, Lúcia Lemos, Tang Kuok Hou e Wong Chou Kit. Esta mostra, patente de 19 de Julho a 23 de Agosto na Galeria Municipal de Torres Vedras, contou também com o apoio dos Serviços de Turismo de Macau e da Creative Macau.Durante a sua permanência em Lisboa, o vice-presidente do Instituto Cultural, Yao Jing Ming, teve encontros de trabalho com diversas entidades, entre as quais a vereadora da Cultura da Câmara Municipal de Lisboa, o presidente do Centro Científico e Cultural de Macau, o presidente do Centro Nacional de Cultura, o embaixador da República Popular da China e os presidente e administrador do OPART – Organismo de Produção Artística, E.P.E., responsável pela coordenação e gestão de importantes instituições culturais oficiais, como o Teatro Nacional de São Carlos, o Coro do Teatro Nacional de São Carlos, a Orquestra Sinfónica Portuguesa e a Companhia Nacional de Bailado. Também tive o prazer de o receber no Palácio da Independência, sede da Sociedade Histórica da Independência de Portugal e onde também funciona a delegação do Instituto Internacional de Macau, Orquestra Chinesa de Macau abrilhantou festivais em Portugal“Mais uma vez teremos uma ligação ao Oriente com uma apresentação única em Lisboa, em colaboração com o Instituto Cultural de Macau, da Orquestra Chinesa de Macau, uma associação que faz parte da política do OPART, de abertura internacional e preparando voos futuros bem mais ambiciosos.”Adriano Jordão, no programa do 6.º Festival ao Largo, Lisboa
  • 132 133 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – XI F A L A R D E N Ó S – XIe participar com ele numa reunião com o Centro Nacional de Cultura e a Fundação Jorge Álvares para programação do 3.º Encontro de Poetas Lusófonos e Chineses, a realizar em Lisboa, possivelmente na última semana de Maio de 2015. Os dois primeiros desses encontros tiveram lugar em Macau, em 2006 e 2013.Precedendo o concerto, o Instituto Cultural promoveu um jantar de confraternização para o qual convidou personalidades ligadas ao mundo da arte e da cultura, incluindo antigos responsáveis daquele Instituto e o pianista e gestor cultural Adriano Jordão, primeiro director do Festival de Música de Macau. Foi uma inesquecível jornada de convívio, tendo os participantes sido presenteados com os CD “O Charme de Macau” e “Capricho de Macau”, da Orquestra Chinesa de Macau, ambos gravados em 2011 e editados em 2013.A OrquestraA Orquestra Chinesa de Macau, embaixadora cultural de Macau, foi fundada em 1987, funcionando na dependência directa do Instituto Cultural. Logo no ano seguinte fez uma digressão por terras lusas, abrindo um rol notável de actuações no exterior, várias das quais em Portugal, em ocasiões relevantes como as comemorações de Lisboa 94 – Capital Europeia da Cultura, a Expo 98, onde contou com a colaboração do cantor Rui Veloso e do guitarrista Pedro Caldeira Cabral, e o Ano do Diálogo Intercultural União Europeia – China, em 2012. Em 1999, o artista português Rão Kyao gravou o álbum “Junção” com aquela Orquestra.Além de ser uma presença regular no Festival Internacional de Música de Macau e no Festival de Artes de Macau, a Orquestra integrou o programa comemorativo da Transferência da Administração de Macau, em 1999, e tem sido convidada para eventos de alto nível realizados em cidades chinesas, como o Festival de Artes e Cultura de Chongqing, o Festival dos Jogos Olímpicos de Pequim, o Festival de Artes da Província de Guangdong, as comemorações do 60.º Aniversário da Implantação da República Popular da China, a Expo 2010, em Xangai, o Festival de Artes da China, em Cantão, e a Semana Cultural de Macau em Nanjing e Tianjin.O seu repertório é rico e variado, incorporando uma amplitude de géneros musicais, com especial incidência em melodias tradicionais e composições recentes chinesas, e abarcando expressões musicais estrangeiras, designadamente as portuguesas, o que tem facilitado a participação de artistas de Portugal nos seus concertos.O seu director musical e maestro principal, desde 2003, é Pang Ka Pang, membro permanente do Conselho da Associação de Músicos da China e da Sociedade da Orquestra das Nacionalidades da China, onde tem a categoria de maestro de primeira classe a nível nacional, sendo também director artístico do Teatro de Ópera e Dança da China e da Orquestra Chinesa da Radiodifusão da China. Graduado no Conservatório Central de Música da China, Pang teve acções complementares de formação na Holanda, na Ucrânia e na Áustria, tendo recebido prémios internacionais e sendo classificado, pelas autoridades chinesas, como um dos Dez Melhores Jovens Notáveis da China.O Festival ao LargoO Festival ao Largo teve início em 2008 e esta sua 6.ª edição incluiu o Coro do Teatro Nacional de São Carlos, que ali comemorou o seu 70.º aniversário, a Orquestra
  • 134 135 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – XI F A L A R D E N Ó S – XIMetropolitana de Lisboa, o Coro Juvenil de Lisboa, a Banda Sinfónica da Guarda Nacional Republicana, Poemas Sinfónicos pela Orquestra Sinfónica Portuguesa, a Orquestra de Sopros do Conservatório do Montijo, uma Noite Russa pela Orquestra Sinfónica Portuguesa, o French Swing Café, no âmbito da Semana de Paris em Lisboa, a Orquestra de Sopros do Conservatório Nacional, uma Homenagem à Soprano Elisabete Matos, nos seus 25 anos de carreira, pelo Coro do Teatro Nacional de São Carlos, a Companhia Nacional de Bailado, apresentando “Orfeu e Eurídice”, e a Orquestra Chinesa de Macau, cujo concerto contou, na 2.ª parte, com a fadista Maria Ana Bobone, que irradiou simpatia e empolgou a assistência.Os trechos musicais da Orquestra Chinesa de Macau foram “Abertura da festivida-de” (de Shi Wanchun), “Corrida de cavalos” (de Huang Huaihai), “Canção do barco do Lago Weishan para Sheng” (de Xiao Jiang e Mou Shan Ping), as canções tradicionais “Luar no Rio Primavera” e “Celebração das colheitas” (com arranjos de Peng Xiuwen), poema sinfónico “A emboscada” (de Zhao Yongshan e Liu Wenjin), “O dragão do Oriente” (de Liu Changyuan), e as canções portuguesas “Auto retrato”, “Fado Xuxu”, “José embala o menino”, “Meninas”, “Marião”, “Sra. Almortão” e “Marcha de Santo António”. Os aplausos prolongados do público coroaram esta actuação inolvidável e os responsáveis pelo Festival querem ver a Orquestra de novo em Lisboa. Parabéns a quantos tornaram possível a realização deste conjunto de iniciativas que deram visibilidade positiva a Macau.28 de Julho de 2014Ainda há pouco tempo, em Junho, havíamos dedicado, em Lisboa, uma memorável sessão ao nosso saudoso poeta popular J. J. Monteiro, promovida pelo Instituto Internacional de Macau (IIM). Procedeu-se, na ocasião, à apresentação das suas obras “Meio Século em Macau”, em dois volumes, e “Memórias do Romanceiro de Macau”, ambas publicadas pelo IIM, respectivamente, em Novembro de 2010 e Maio de 2013, ano do centenário do seu nascimento. Mês e meio depois, a 2 de Agosto, quis a Câmara Municipal da Murtosa prestar uma digna homenagem, nos Paços do Concelho, ao poeta que ligou aquelas lindas terras da Ria de Aveiro à longínqua Macau, sua cidade de eleição, onde constituiu família e viveu a maior parte da sua terrena existência, até que Deus o levou, em Fevereiro de 1988.A homenagem Muitos familiares do poeta marcaram presença naquele encontro evocativo, juntamente com numeroso público. Convidado pelo presidente da Câmara, também me desloquei, com a família, à Murtosa e integrei a mesa de honra, ao seu lado, juntamente com o filho mais novo do poeta, José Joaquim Monteiro Júnior, médico em Lisboa, e António de Abreu Freire, professor universitário, especialista em estudos sobre poesia popular e “literatura de cordel”, de que tem sido um notável divulgador. Ambos foram oradores na sessão que incluiu, igualmente, conhecidos trechos de música popular portuguesa e a leitura de alguns poemas do poeta-soldado de Macau.Murtosa homenageia J. J. Monteiro, poeta popular de Macau“Sempre soube transmitir alegria onde apenas podia haver tristeza, humildade como mais sábia resposta perante prepotências, humanidade junto de quem sofre, simplicidade independentemente de maior conhecimento ou condição social, e resignação cristã quando a ventura não nos acompanha.”José Joaquim Monteiro Júnior, no prólogo de “Memórias do Romanceiro de Macau”
  • 136 137 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – XI F A L A R D E N Ó S – XIUm animado jantar de convívio na Casa-Museu Custódio Prato, centro de etnografia regional situado no Bunheiro (freguesia do concelho da Murtosa), a cerca de 100 metros da casa onde J. J. Monteiro residiu, antecedeu aquela homenagem integrada na “Semana do Emigrante” que o município em boa hora vem patrocinando, para recordar e saudar os murtoseiros que se espalharam pelo mundo, com especial destaque para os Estados Unidos, o Brasil, a Venezuela e a Argentina, homens e mulheres, como tão bem caracterizou Teixeira de Pascoais, que levaram “a terra pegada ao coração”.Obras publicadasAlém de “Meio Século em Macau” e “Memórias do Romanceiro de Macau”, J. J. Monteiro escreveu as seguintes obras: “A Minha Viagem para Macau” (1939), “A História de um Soldado”, com quatro edições (1940, 1952, 1963 e 1983), “De Volta a Macau”, com duas edições (1957 e 1983), “Macau Vista por Dentro” (1983) e “Anedotas, Contos e Lendas” (1989).No prólogo de “Memórias do Romanceiro de Macau”, J. J. Monteiro Júnior lembra que homenagear o poeta “é honrar a sua memória, é dar a conhecer a sua pessoa, a sua vida e a sua obra”. Mais uma vez, naquela sessão, soube fazê-lo com emoção e devoção, não deixando de explicar a razão de ser, como já o havia feito naquele prólogo, do aparecimento deste último livro: “A presente obra relata em poemas muito sofridos os primeiros anos da vida do autor, uma vida nunca antes revelada aos seus leitores e amigos. Aliás, esta obra tinha como únicos destinatários os filhos, a quem o autor quis dedicar e deixar o testemunho do seu passado. Começou a escrever estas suas memórias quando tinha 53 anos de idade, e reconheceu, desde logo, que iria até onde a Divina Providência lhe permitisse, com a promessa de nada omitir, nem mesmo os seus erros e pecados. Tratando-se de um espólio tão soberbo em poesia, e com tão admirável elevação, seria injusto e de um reprovável egoísmo guardá-lo exclusivamente para nós, os filhos do autor. Por isso, procedemos à transcrição de uma parte dos seus manuscritos a que é dada à estampa para poder ser partilhada com quem o conheceu de perto, ou com quem sabe apreciar a sua arte.”O filho do poeta aproveitou para relatar episódios relevantes da sua vida: “Nesta retrospecção, começo por realçar a sua particularidade de, em todos os instantes mais duros da vida, ter sido sempre capaz de fazer apelo à sua força anímica no sentido de ser encontrada a melhor resposta aos problemas, sem nunca macular a sua índole pessoal. Assim, teve o mérito de legar aos seus descendentes a incomensurável herança do saber lutar e sobreviver às adversidades da vida com humildade, humanidade, simplicidade e resignação cristã, a par da sua façanha na conversão de tristezas em alegrias como só um grande artista é capaz. (...)Hoje compreendo melhor o pretérito da sua vida e várias passagens da nossa vida em comum, sobrepondo-as a este seu passado, do qual enfatizo as desgarradas em que participava com o seu grupo de amigos, saindo quase sempre vencedor pela sua extraordinária capacidade de improvisação e indesmentível talento no rimar; a criação de pombos, de galinhas e de coelhos e do pequeno jardim improvisado
  • 138 139 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – XI F A L A R D E N Ó S – XIno minúsculo quintal da nossa velha casinha, como forma de alimentar a nostalgia dos seus tempos idos de menino e moço; a música tradicional portuguesa da rádio à hora das refeições, com destaque para o fado e as canções populares, impondo a portugalidade no seio da família como expressão da sua alma sempre leal à Pátria; a companhia quase obrigatória de um filho seu, nos momentos lúdicos ou de trabalho, pelo seu pânico à solidão, nunca exteriorizado mas por mim sentido diversas vezes, naturalmente por recalcamentos na idade da sua inocência; as mal sucedidas pescarias que eu o via praticar, comprando ironicamente, no final do dia, o peixe pescado por outros e disfarçando em casa ser produto de uma habilidade que não detinha, e, bem assim, os passeios que fazíamos nos seus tempos livres, nas então lanchas de carreira para a praia ou em visita aos seus amigos, nas Ilhas, e o modo como eu o sentia vibrar nesses ambientes de sabor rural, como a manifestação certamente de saudade da sua remota vida no campo e na Torreira, terra e praia então de pescadores. Tudo isto, inequivocamente, para relembrar a sua pobre, mas, mesmo assim, feliz puerícia no Bunheiro. (...)A vida foi excessivamente cruel consigo! Nem mesmo, nos seus derradeiros momentos de vida, lhe foi concedido o ensejo de, ao menos, poder despedir-se dos seus filhos que tanto amava. (...) Tudo se passou num ápice, porque depressa mergulhou no seu estado comatoso, e assim permaneceu durante meio ano, sem nunca mais conseguir acordar da hemorragia cerebral de que foi vítima, nem que fosse somente para o último adeus. É com forte e enternecida emoção que revivo todos os momentos da minha vida ao seu lado. O percurso da sua vida constitui o exemplo de como, apesar da crueldade da vida, se podem ultrapassar todos os obstáculos, e vencê-los, com honestidade, e sobretudo com esperança e fé em Deus.”Numa perspectiva mais académica, com o seu reconhecido saber e apreciada eloquência, Abreu Freire enalteceu a obra do poeta, realçando que “os versos de J. J. Monteiro são um hino à vida, em verso popular.”4 de Agosto de 2014
  • 140 141 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – XI F A L A R D E N Ó S – XIA colecção “Suma Oriental”, do acervo editorial do Instituto Internacional de Macau (IIM), foi recentemente enriquecida com a publicação do seu volume 7, com o título “Brasileiros nos Extremos Orientais do Império (séculos XVI a XIX)”, de Carlos Francisco Moura, prolífico investigador residente no Rio de Janeiro, que já tinha contribuído com mais dois trabalhos seus para esta mesma colecção (“Liou She Shun – Plenipotenciário do Império da China – Viagem ao Brasil em 1909” e “Chineses e Chá no Brasil no Início do Século XIX”), sendo as três obras edições conjuntas do IIM e do Real Gabinete Português de Leitura do Rio de Janeiro.De governadores a degredados Neste último trabalho, que inclui uma nota de abertura do Comendador António Gomes da Costa, presidente do Real Gabinete e da Federação das Associações Portuguesas e Luso-Brasileiras do Brasil, o autor identifica governadores, magistrados, missionários, professores, marinheiros, soldados, funcionários, escritores e até degredados oriundos do Brasil que foram destacados para os confins orientais do Império Português, nos séculos XVI a XIX. “Trata-se de uma pesquisa global pioneira, que a alguns personagens já conhecidos e estudados, junta grande número de outros recuperados do esquecimento historiográfico”.De entre os mais destacados que serviram em Macau, temos António de Albuquerque Coelho, mestiço natural de Cametá, no Pará, que governou Macau de 30 de Maio de 1718 a 8 de Setembro de 1719, num período de assinalável progresso Brasileiros nos extremos orientais do Império“Carlos Francisco Moura é incansável nas pesquisas que faz há muitos anos sobre o passado luso-brasileiro. (…) Um dos aspectos que maior interesse tem despertado para as suas investigações e trabalhos é o que diz respeito à participação de brasileiros – como governadores e missionários, como tripulantes e militares, como bispos e sacerdotes, como marinheiros e funcionários públicos, como religiosos e expedicionários – nas carreiras do Oriente.”Comendador António Gomes da Costa, na nota de abertura económico, sendo depois governador de Solor e Timor, de 1722 a 1725, e de Pate, na África Oriental, em 1728; D. Alexandre da Silva Pedrosa Guimarães, natural da Bahia, que foi nomeado bispo de Macau em 1773, cargo a que renunciou em 1782, tendo exercido também, interinamente, as funções de governador de Macau, de 25 de Junho de 1777 a 1 de Agosto de 1778, em virtude de o governador nomeado, D. João de Castro, ter falecido na viagem; Lucas José de Alvarenga, natural de Sabará, Minas Gerais, que assumiu as rédeas da governação de Macau, de 26 de Dezembro de 1808 a 19 de Julho de 1810, numa fase conturbada da vida do território, ameaçado por piratas do mar da China e por tentativas britânicas de usurpação; António Pereira Santos, natural de Guarapiranga, Minas Gerais, que foi juiz no Maranhão, provedor das fazendas e capelas da cidade de Macau (1793) e provedor das fazendas e dos defuntos e ausentes da mesma cidade (1795); João Baptista Guimarães, natural de Pernambuco, que foi ouvidor durante alguns meses em Macau, em 1810; e José de Aquino Guimarães e Freitas, natural de Minas Gerais, tenente-coronel de Artilharia do Batalhão Príncipe Regente, de Macau (criado por decreto régio de Maio de 1810), que foi enviado a Lisboa em 1822 para, em representação do governador e do Leal Senado, saudar o rei D. João VI após o seu regresso a Portugal. Escritores e obrasConforme Carlos Francisco Moura, “de todos os escritores brasileiros no Oriente, o que mais se destacou foi sem dúvida o Pe. Francisco de Sousa”. Missionário jesuíta e professor, “nasceu em Salvador, em 1649, foi para Portugal com 14 anos, entrou para a Companhia em 1665 e, nesse mesmo ano, embarcou no galeão São Pedro de
  • 142 143 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – XI F A L A R D E N Ó S – XIAlcântara, chegando no ano seguinte à Índia, onde viveu o resto da vida”. A sua obra maior foi “Oriente Conquistado a Jesu Christo pelos Padres da Companhia de Jesus da Província de Goa”, publicada em Lisboa, em dois volumes, na Officina de Valentim da Costa Deslandes, em 1710, com uma 2.ª edição impressa em 1881 (1.º volume) e 1886 (2.º volume) na Typographia Examiner, de Bombaim. A terceira parte, finalizada em 1710, permaneceu manuscrita até hoje. Os outros foram Francisco José de Lacerda e Almeida, matemático e astrónomo, que esteve na África Oriental; João Baptista Vieira Godinho, natural de Mariana, Minas Gerais, coronel do Exército Português, que foi governador de Timor e Solor de 1784 a 1789, tendo deixado vários trabalhos sobre temas militares e económicos, incluindo quatro memórias dedicadas a Macau; José de Aquino Guimarães de Freitas (atrás referido), que escreveu a “Memória sobre Macau”, publicada pela Real Imprensa da Universidade de Coimbra em 1828, contendo informações sobre o território por ele próprio colhidas, e “Ellogio do Senhor Miguel de Arriaga Brum da Silveira”, publicado em Lisboa pela Typografia de António Rodrigues Galhardo, em 1826; Lucas José Alvarenga (também atrás referido), que escreveu três trabalhos defendendo a forma como exerceu o seu cargo em Macau (“Memória sobre a expedição do Governo de Macao em 1809, e 1810 em socorro ao Império da China contra os insurgentes piratas chinezes, principiada, e concluída em seis mezes pelo Governador e Capitão Geral daquella cidade”, “Artigo Addicional à Memória” e “Observações à Memória”, todos publicados no Rio de Janeiro, em 1828, 1828 e 1830, tendo também publicado uma novela dedicada à Imperatriz do Brasil (1826) e um livro de poemas “Poezias” (1830); Tomás António Gonzaga, poeta degredado para Moçambique, autor de “Marília de Dirceu” (Lisboa, 1792); e Manuel Xavier de Burgos, jesuíta, que foi um dos redactores da “Historia Persecutionis Societatis Iesu in Lusitania”, na parte respeitante a Goa.Os quatro trabalhos de João Baptista Vieira Godinho relacionados com Macau são: “Memória sobre a necessidade de estabelecer em Macau um adjunto da Fazenda Real”, “Memória sobre a necessidade de se pagar na Alfândega de Macau 1 até 1 ½ por cento de direitos de saúde”, “Memória sobre a autoridade régia que em grande parte se acha aniquilada em Macau” e “Memória sobre o anfião, que sendo o comércio livre em Macau, e de contrabando na China, tem sido a causa da ruína de alguns Governadores e de muitos moradores daquela cidade por intriga destes”.Como bem salientou António Gomes da Costa, na nota de abertura, a leitura desta obra suscita-nos duas reacções: “a primeira, de admiração e reconhecimento por este esmiuçar do passado, sábio e inteligente, e pelo empenho do autor em assentar em fontes várias e seguras e em documentação certa e dispersa todo o seu trabalho (...); a segunda, a partilha com brasileiros de muitos dos feitos e das realizações de que os portugueses foram responsáveis em terras do Oriente, desde o início do século XVI”.Entre a sua vasta bibliografia, além dos livros integrados na colecção “Suma Oriental” do IIM, Carlos Francisco Moura é autor de uma outra obra publicada pelo IIM: “António Albuquerque Coelho: Mestiço de Camutá no Grão-Pará: Governador de Macau, de Timor e de Pate; e Jornada de Goa a Macau em 1717 – 1718, descrita por Velles Guerreyro” (Rio de Janeiro, Real Gabinete Português de Leitura / Instituto Internacional de Macau, 2009).11 de Agosto de 2014
  • 144 145 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – XI F A L A R D E N Ó S – XIEste primeiro número da nova “Oriente/Ocidente” é um bom espelho da capacidade de afirmação do IIM e da sua vontade de transpor limites, aceitando acrescidos desafios. As primeiras reacções, muito positivas, permitem concluir que este novo formato é do agrado dos leitores e corresponde às justas expectativas criadas. Em vésperas da comemoração do seu 15.º aniversário, a par do da RAEM, é com satisfação que se regista a fixação de novas metas e se vê avançar mais este relevante empreendimento.Formato e conteúdo novosCom quase cem páginas, adequadas ilustrações, rico e diversificado conteúdo e algumas excelentes fotografias, este número da “Oriente/Ocidente”, em novo e apelativo formato, estimula o envolvimento de mais colaboradores qualificados em edições futuras. Pretende-se que a revista seja um instrumento vivo de diálogo intercultural, em correspondência com a própria vocação do IIM, como organismo cultural de matriz portuguesa, com sede permanente em Macau, identificado com o legado e o encontro plurissecular que lhe deu razão de ser, comprometido com as suas comunidades, pulsando solidariamente com as suas aspirações de desenvolvimento, e aberto ao mundo.Os trabalhos publicados são de Severino Cabral, presidente do Instituto Brasileiro de Estudos da China e Ásia-Pacífico (“Das covas de Viriato ao mundo global: o caminhar da Lusitanidade e o V Seminário sobre o papel de Macau no intercâmbio Sino-Luso-Brasileiro”); Jorge Santos Alves, professor da Universidade Católica Portuguesa e autor de vasta bibliografia sobre a presença histórica de Portugal no Oriente (“Choque ou entendimento entre Impérios? – O pensamento estratégico de Hilário de Santa Rosa, Revista Oriente/Ocidente em novo e apelativo formato“Este primeiro número da nova Oriente/Ocidente é um bom espelho da capacidade de afirmação do IIM e da sua vontade de transpor limites, aceitando acrescidos desafios.”O desenvolvimento estável do Instituto Internacional de Macau (IIM), a par da diversificação constante das suas múltiplas formas de intervenção, permitiu que este organismo de natureza associativa e fins culturais fosse ganhando qualificados colaboradores ligados a variadas áreas académicas. Foi graças ao seu empenhado envolvimento que os programas anuais aprovados, compreendendo conferências, seminários, palestras, debates, encontros, exposições, cursos, concursos, estudos, edições e acções de intercâmbio, puderam alcançar o sucesso que, desde a primeira hora, se desejou para o IIM, como instrumento útil de promoção de Macau, de relacionamento com instituições do exterior e de investigação aplicada.Com persistência e vencidas as dificuldades iniciais, o IIM foi ganhando reconhecimento e um espaço próprio no seio da sociedade civil. E, através de dezenas de parcerias em boa hora estabelecidas, foi-lhe possível marcar presença continuada e eficaz em muitas partes do mundo, projectando positivamente Macau em cidades de vários continentes.Através de boletins informativos, que tiveram formatos e dimensões diferentes, o IIM foi dando conta, com a regularidade possível, dos seus projectos e actividades, culminando numa publicação graficamente muito atraente que recebeu o nome “Oriente/Ocidente”. A partir da experiência feita e asseguradas as condições necessárias, deu-se, agora, um salto qualitativo, que consistiu na transformação da “Oriente/Ocidente” em revista de conteúdos, relacionados com a missão que o IIM determinadamente abraçou, ao mesmo tempo que vai, com maior periodicidade e por outros meios, divulgando as suas mais significativas realizações, em português, chinês e inglês.
  • 146 147 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – XI F A L A R D E N Ó S – XIBispo de Macau – 1739-1752”); Rui Simões, investigador e professor-adjunto da Escola Superior de Comunicação Social do Instituto Politécnico de Lisboa (“Para benefício de muitos dos filhos d’esta terra: os manuais de ensino de Chinês de Pedro Nolasco da Silva”); João Manuel Loureiro, magistrado e membro da Direcção do IIM (“Macau e os territórios lusófonos – uma colecção iconográfica única no Arquivo Histórico de Macau”); António Manuel Couto Viana, poeta laureado já falecido (“Camilo Pessanha recordado em Coimbra” – conferência proferida em Março de 2006, em sessão organizada pela Câmara Municipal de Coimbra e pelo IIM); António Aresta, investigador e professor (“Camilo Pessanha, homenagens no Parlamento”); Celina Veiga de Oliveira, professora, investigadora e escritora (“IV Encontro de Escritores de Língua Portuguesa – o conto na obra de três escritores macaenses”); José Medeiros da Silva, doutor em Ciência Política e coordenador do Departamento de Português da Rádio Internacional da China (“Brasil: a construção de uma nação solidária e autoconfiante”); Adalberto Tenreiro, arquitecto e artista residente em Macau (“Faces do Recife”); Ye Zhiliang, professor da Universidade de Estudos Estrangeiros de Pequim (“O Papel do Ensino da Língua Portuguesa na China para as Relações Sino-Lusófonas”); Jorge Tavares da Silva, professor do ISCIA (Aveiro) e presidente do Observatório de Comércio e Relações Internacionais (“O impulso reformador de Xi Jinping e o contexto de segurança e defesa regional”); Luís Cunha, doutor em Relações Internacionais e autor do livro “A Hora do Dragão – Política Externa da China” (“O impacto do tecno-nacionalismo chinês na era global”) e António Leite da Costa, historiador e ensaísta, ex-director da Casa da Cultura de Coimbra (“Os valores nacionais em Herculano”).A revista, coordenada pelo vice-presidente do IIM e delegado em Lisboa, José Lobo do Amaral, inclui também uma reportagem sobre a exposição “4 Artistas na Cidade”, conjuntamente organizada pelo IIM e pelo Albergue SCM, no Recife (Brasil), em Maio/Junho de 2013, apresentando 50 trabalhos de Carlos Marreiros, Guilherme Ung Vai Meng, Lio Man Cheong e Adalberto Tenreiro; uma breve história do Real Gabinete Português de Leitura do Rio de Janeiro, da autoria do seu presidente, Comendador António Gomes da Costa, com o propósito de divulgação de um dos parceiros mais constantes e emblemáticos do IIM; uma resenha das actividades realizadas pelo IIM em 2013; um apontamento sobre as edições do IIM em 2013; e um poema de José Valle de Figueiredo, membro e colaborador do IIM, que aproveitamos para transcrever, porque traduz, singela e simbolicamente, o encontro de Portugal com Macau e o contexto em que o IIM realiza os seus objectivos:De em Macau nos descobrirmosPor poemas tão navegadoschegou o canto à terra mais amada.Fez-se a viagem,e pelos versos descobertos,as palavras mais secretastornaram-se mais claras.De tão longa viagemnão regressámos sós,mas com nova linguagem.Descobria-nos,mas era jáuma nova poesiaque a nós própriosse abria.
  • 148 149 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – XI F A L A R D E N Ó S – XIA capa da revista contém uma vista nocturna da Ponte Sai Van e os versos da capa e da contra-capa apresentam duas lindíssimas fotografias de vistas nocturnas de Macau, de Allan Salas e Teng Pong Ung. O design e o trabalho gráfico são da responsabilidade da MaisImagem, que tem cooperado com o IIM na produção de edições suas em Portugal.18 de Agosto de 2014A 20.ª Conferência da EACS – European Association for Chinese Studies, criada em 1976, em Paris, para promover e desenvolver actividades relacionadas com os Estudos Chineses na Europa, realizou-se em Portugal, de 23 a 26 de Julho, em duas prestigiadas universidades – a do Minho e a de Coimbra –, com a participação de meio milhar de académicos de muitas partes do mundo, entre os quais cerca de 40 representantes de instituições de Macau.A EACS tem, presentemente, cerca de 450 membros, dedicados a múltiplas áreas de estudos, como Ciência Política, Relações Internacionais, Administração Pública, Direito, Economia, Filosofia, Religião, Comunicação Social, Artes, Antropologia, Sociologia, Linguística, Literatura e História. O seu actual presidente é Roger Greatrex, do Centro de Estudos Orientais de Lund (Suécia) e o seu órgão executivo incluiu já dois portugueses, o Embaixador João de Deus Ramos e a Prof.ª Carmen Amado Mendes, da Universidade de Coimbra, co-organizadora desta conferência, juntamente com a Prof.ª Sun Lam, directora do Instituto Confúcio da Universidade do Minho.Além da conferência, organizada de dois em dois anos, a EACS promove cursos de Verão, trabalhos de investigação e apoios à preparação de teses, publica um boletim informativo e mantém actualizado um portal com abundante informação sobre as suas iniciativas e sobre programas de Estudos Chineses.As duas fases da conferência tiveram como oradores principais o Embaixador João de Deus Ramos, reconhecido especialista na área das relações luso-chinesas e justo 20.ª Conferência da EACS com marcante participação de Macau“Besides being a China market portal and maritime Silk Road station, Macau was a soft power transmission belt for East – West cultural fusion and knowledge transfer that was vital to China’s early modernization. Macau being beyond Chinese jurisdiction yielded more freedom, public space, tolerance and opportunities for the inflow of Western learning, science and ideas.”Prof. Ming K. Chan, EACS, Coimbra
  • 150 151 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – XI F A L A R D E N Ó S – XIcontemplado com o Prémio Universidade de Coimbra de 2013, e o Prof. Ming K. Chan, do Centro de Estudos da Ásia Oriental da Universidade de Stanford e autor ou editor de importante bibliografia sobre a China e as regiões de Hong Kong e Macau. As suas comunicações, respectivamente em Braga e em Coimbra, tiveram por títulos “Regime change and Chinese studies: the Portuguese case” e “Reflections on Five Centuries of Sino-European Interface: Contrasting the Soft Power Dynamics in Macau and Hong Kong”.João de Deus Ramos abriu a Embaixada de Portugal em Pequim, foi membro do Governo de Macau e do Grupo de Ligação Conjunto Luso-Chinês, representante de Portugal na Fundação Europa-Ásia e administrador da Fundação Oriente. Ming K. Chan é professor em várias universidades e visita regularmente Portugal, tendo sido conferencista nos “Roteiros do Futuro”, promovidos pelo Presidente da República.Estudos de MacauCerca de 90 painéis em Braga e mais de 40 em Coimbra, muitos dos quais em funcionamento simultâneo, permitiram o tratamento de um elevado número de matérias, mas com dois óbvios inconvenientes: a dispersão das pessoas e a impossibilidade de acompanhamento presencial de outros temas que podiam interessar, sendo de encarar, em futuras edições, algumas possíveis alterações.Foi notada a participação de organismos da RAEM, especialmente em Coimbra, onde 12 painéis tinham a ver directamente com Macau, além de vários outros que contaram com oradores deste território. Esta concentração em Coimbra deveu-se à coordenação eficaz do Prof. Ming K. Chan e aos esforços de promoção da Prof.ª Carmen Amado Mendes junto de entidades locais.Sob a epígrafe “Macau Studies”, foram organizados os seguintes painéis: “The Transformation of the Casino and Tourism Industries in Macau and their Socio-Political Impacts on the Mode of Governance”, presidido pelo Prof. Eilo Yu, da Universidade de Macau, “Reinventing and Preserving Macau Cultural Heritage in New Millennium”, inteiramente constituído por membros da Associação de Embaixadores do Património de Macau (Heritage Ambassadors Association, Macau), “Macanese Identities, Heritages and Global Networks”, do Instituto Internacional de Macau (IIM), “Jesuit Studies in Today’s Macau”, com Artur Wardega, Liu Jingjing, Yves Camus e César Gillen-Nuñez, todos do Instituto Ricci de Macau, “Macau in its Regional Context”, moderado pelo Prof. Jorge Godinho, da Universidade de Macau, dois painéis sobre “Macau in its Present Connection in the Region”, com apresentação e debate em chinês, envolvendo professores da Universidade de Macau e da Universidade Chinesa de Hong Kong, “Evolution of Macau’s Identity in its External Relations”, orientado pelo Prof. Carlos André, do Instituto Politécnico de Macau (IPM), “History and impressions of Macau in the 1960’s: Perspectives from the Macau Polytechnic Institute”, e dois painéis sobre “The Teaching of Chinese-Portuguese Translation and Interpretation in Macau Polytechnic Institute”, sob a coordenação da vice-presidente do IPM, Prof.ª Yin Lei. Também integraram alguns painéis docentes da Universidade de S. José (Macau). Outras iniciativasO programa foi complementado com visitas, passeios, espectáculos, mostras de
  • 152 153 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – XI F A L A R D E N Ó S – XIlivros e convívios, tendo o banquete de encerramento sido realizado no Palácio de S. Marcos, nos arredores de Coimbra. O Festival de Música da Quinta das Lágrimas, onde actuou brilhantemente a Orquestra Chinesa de Macau, ainda decorria durante a conferência, pelo que os participantes puderam tirar proveito da sua realização. O IIM, além do seu painel (atrás referido), que incluiu comunicações de Celina Veiga de Oliveira (“Women in Macanese literature”), Alexandra Sofia Rangel (“The Macanese community: yesterday and today”) e uma da minha autoria sobre “The Macanese diaspora”, teve várias outras actividades que merecem ser aqui assinaladas: uma nova exposição fotográfica sobre “Macau – um caleidoscópio cultural”, na Casa da Lusofonia de Coimbra, e uma mostra de edições do Instituto Cultural da RAEM, da Associação de Embaixadores do Património de Macau e do próprio IIM, tendo o Reitor e o Vice-Reitor da Universidade de Coimbra, bem como o Prof. Ming K. Chan e a Prof.ª Carmen Amado Mendes, presidido ao respectivo acto inaugural, que foi acompanhado de um beberete. Procedi, na ocasião, à oferta simbólica de cerca de cem livros daquelas três instituições macaenses à Biblioteca da Universidade de Coimbra.A convite do Prof. Ming K. Chan, também integrei uma mesa redonda, que teve o seu patrocínio, intitulada “Expert Roundtable on the External Dimensions of Off-shore Chinese Soft Power: Endeavours of NGOs in Hong Kong and Macau”, juntamente com Man Cheuk-fei, ex-director do Hong Kong Economic Journal e fundador da Global Vision Media, Hong Kong.O balanço geral é positivo, salvo no que respeita a um insólito e inaceitável incidente, causado por uma entidade chinesa que, abusivamente, fez arrancar do programa distribuído em Braga uma página contendo um anúncio de uma fundação educativa de Taiwan que foi um dos patrocinadores desta conferência, provocando um visível mal-estar e o repúdio de muitos participantes. 25 de Agosto de 2014
  • 154 155 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – XI F A L A R D E N Ó S – XIGratidão do mesmo passo ao académico, ao académico da clássica academia que serviu, cuja autonomia consagrou em lei e que quis reformar com olhos de respeito histórico e visão prospectiva. Ao académico das novas academias, aquelas que enxertadas nas clássicas ou delas distintas buscam novas pesquisas, novas metodologias de aprendizagem, novos rumos de responsabilidade social, novos horizontes de geografia humana, novos patamares de afirmação da pessoa e das pessoas. Gratidão ao cidadão, ao batalhador pela democratização no autoritarismo. Ao defensor da imprensa estudantil, ao lutador por todas as causas da liberdade, da expressão de pensamento, da reunião, da associação, de ensino, de religião. Ao apóstolo do social nas IPSS, nas organizações não governamentais, nas organizações internacionais, na governação da sua e nossa pátria, do social feito de economia, de trabalho, de saúde e de segurança social justos e humanamente dignos e tanto ou mais do que isso, de educação imbuída de uma visão indefetivelmente personalista. (...) Gratidão ao educador, que o cidadão nunca o teria sido tão completo e mobilizador não fora o educador. O educador por educação, o educador por vocação, o educador por investigação, o educador por missão, o educador por culto das raízes, o educador por salutar dimensão universal. O educador que estudou, planeou, reformou, divulgou, assessorou cá dentro e por esse mundo fora e governou. E lidou com leis e com seres humanos. Doutrinou e aplicou no terreno. Viu a floresta e conheceu a árvore. O educador que começou e começa o seu testemunho na sua própria casa, aurindo a lição dos pais. E quem não recorda sua mãe, figura tutelar sempre mestra da vida e sempre ternamente embevecida perante a demonstração inequívoca da sua Roberto Carneiro em doutoramento honoris causa“A verdade é que, ao fim de quatro décadas e meia de ininterrupta actividade profissional concluo, em boa consciência, que nada fiz de extraordinário. Tão só procurei, obsessivamente, cumprir o propósito de servir o público interesse e de ajudar a melhorar as condições educacionais no meu país...”Roberto Carneiro, 21 de Junho de 2013A Universidade Aberta de Portugal, criada pelo D. L. n.º 444/88, de 2 de Dezembro, quando era Ministro da Educação o Prof. Roberto Carneiro, completou 25 anos de funcionamento em 2013 e, em sessão solene comemorativa, quis, muito justamente, homenagear este respeitado académico, tão intimamente ligado a Macau, concedendo-lhe o grau de Doutor honoris causa, a maior distinção que uma academia pode conferir a qualquer cidadão. Não tendo tido acesso, na ocasião, aos textos definitivos das comunicações apresentadas, trazemos com orgulho e pleno cabimento para este espaço, um ano volvido, as partes mais significativas das eloquentes palavras do Prof. Marcelo Rebelo de Sousa, convidado por aquela universidade para proferir o elogio do homenageado, que se traduziu em preito de gratidão a quem “sonhou e criou” aquela singular instituição, rompendo “com tradições poderosas, hábitos resistentes e inércias adversas”, e também “ao cientista, ao académico, ao cidadão, ao educador, ao homem Roberto Carneiro”.Cientista, cidadão, educadorMarcelo Rebelo de Sousa expressou desta forma o reconhecimento e a gratidão de todos os presentes:“Gratidão ao cientista que se formou nas engenharias e por causa delas e não à sua margem se abriu à economia, à sociologia, à psicologia social, à antropologia, à história, ao direito, à ciência política, às ciências da administração, às ciências da educação. Numa riqueza de intuições, de racionalizações, de vivências que fez e faz ecoar o espírito do verdadeiro enciclopedismo, vasto nos conhecimentos mas profundo nas crenças e nas reflexões.
  • 156 157 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – XI F A L A R D E N Ó S – XIexcelência educativa naquele filho e naquela família, passando o legado não aos 15 filhos sonhados pela Maria do Rosário mas aos 9, qual deles mais notável, e aos netos que vão crescendo como na Bíblia na graça do Senhor. Gratidão ao homem, a essa simbiose inextricável de oriental e de ocidental, superando as contradições de que falava Malraux na “Tentação do Ocidente”. Simbiose de cultura clássica e contemporânea, de cultura atenta à tecnologia e cultura artística, de cultura da academia e de cultura de vida. Simbiose assinalada pela probidade. Essa probidade que deu asas a uma inteligência invulgar, conferiu crédito a uma oratória pedagógica, garantiu respeito a uma lucidez penetrante. Essa probidade que reuniu à sua volta todos de todas as latitudes e longitudes, quando uma voz injusta tentou beliscar sem eco um trajecto de integridade irrepreensível. E para além de todos esses predicados, o sentido abnegado de missão na família, na amizade, no trabalho, na sociedade, na política, na vida. Um sentido de missão que é inseparável de um sentido de vida. De quem crê numa ética de máximos e não de mínimos, mas com um Deus pai infinitamente bom, mesmo quando a mensagem revelada por Deus filho é de uma exemplar radicalidade e a presença de Deus Espírito Santo através dos milénios representa um incessante chamamento à missão de evangelizar.”Marcelo Rebelo de Sousa concluiu o seu discurso agradecendo à Universidade Aberta “esse instante único” que lhe foi proporcionado para “dizer a Roberto Carneiro o que ele sabe, mas que aqui dito é mais forte e mais fundo: que outros atingiram poder, fama, dinheiro, audiência. Ele alcançou o essencial. A expressão mais elevada da afirmação da missão pessoal e comunitária e por isso bem pode considerar-se um dos mais realizados de todos nós”.Investir na formação e na inovaçãoAo receber o grau honorário, Roberto Carneiro, com a humildade que caracteriza aqueles que apenas querem cumprir, séria e abnegadamente, as missões que lhes são confiadas, agradeceu à Universidade e ao seu Conselho Científico “a forma extremamente generosa como entendeu avaliar” os seus méritos científicos e pedagógicos: “A verdade é que, ao fim de quatro décadas e meia de ininterrupta actividade profissional, concluo, em boa consciência, que nada fiz de extraordinário. Tão só procurei, obsessivamente, cumprir o propósito de servir o público interesse e de ajudar a melhorar as condições educacionais no meu país, contribuindo na medida das minhas capacidades restritas para vencer a chaga do atraso estrutural, em tão sensível quanto vital domínio de profundas implicações pessoais cuja responsabilidade cabe a uma geração inteira, já que o nosso atávico atraso educativo provém e mantém-se ao longo das últimas duas centúrias. E permito-me sublinhar que é em tempo de crise que uma nação é chamada a investir estrategicamente na inovação, nos saberes e na formação de qualidade do seu povo, por forma a apetrechar-se para liderar o tempo pós-crise que seguramente se lhe seguirá”. Não podemos estar mais de acordo.Roberto Carneiro aproveitou para referir os novos desafios do saber e do ensino superior “num tempo ditado pela urgência tecnológica”, recordou o nascimento e a fase de arranque dessa 14.ª universidade pública e ofereceu ao Reitor António Dias de
  • 158 159 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – XI F A L A R D E N Ó S – XIFigueiredo um fac-simile do manuscrito original do seu discurso, proferido aquando da tomada de posse do Prof. Armando da Rocha Trindade, como primeiro reitor, o qual, no exercício das suas funções, assegurou à Universidade Aberta Internacional da Ásia (Macau) uma gratificante colaboração, como parceiro útil na sua estruturação e no seu desenvolvimento.1 de Setembro de 2014A vasta colecção iconográfica que João Manuel de Almeida Loureiro foi reunindo ao longo de vinte anos e que o historiador René Pélissier classificou como “monumento único”, pela sua dimensão, diversidade e relevância, compreendendo 10.800 postais fotográficos do antigo império português, já se encontra definitivamente depositada no Arquivo Histórico de Macau, enriquecendo o seu acervo. No número 31 da revista Oriente/Ocidente, produzida pelo Instituto Internacional de Macau (IIM) e agora em novo formato, é contada, pelo próprio coleccionador, a história dessa colecção, que nos parece de interesse divulgar neste espaço:Origens da colecção“Quando em Outubro de 1970 visitei pela primeira vez Macau, ainda estudante do terceiro ano de Direito e no âmbito de uma viagem promovida pelo Círculo de Estudos Ultramarinos, estava longe de supor que a minha ligação ao território se iria prolongar de modo permanente e tão particularmente intenso nas duas últimas décadas.O ‘Notícias de Macau’ de 13 de Janeiro de 1971 publicou, na sequência dessa visita, um artigo meu denominado ‘Portugal no Extremo Oriente’, onde abordei a história do relacionamento multissecular luso-chinês na pequena península localizada nos mares do sul da China. Desde então não mais deixei de me interessar e de seguir os assuntos de Macau, com o mesmo gosto com que acompanhava a evolução e as perspectivas da então África portuguesa, em especial Angola, onde viria a iniciar a minha vida profissional dois anos mais tarde.Recém-formado concorri em 1972 ao Ministério Público ultramarino e fui colocado em Malanje, cidade atraente das terras férteis do planalto nordestino, e durante o Arquivo Histórico de Macau acolheu valiosa colecção iconográfica“Ficará assim no singular e fascinante território de Macau a colecção que criei e consolidei ao longo de duas décadas. Oxalá dela se possam aproveitar e beneficiar todos os que se interessam pelo passado e pelo futuro do mundo ímpar da lusofonia.”João M. Loureiro, Oriente/Ocidente, 2014
  • 160 161 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – XI F A L A R D E N Ó S – XIperíodo do serviço militar desempenhei, em acumulação, as mesmas funções na capital da província cafezeira do Uíge (então designada por cidade de Carmona). Aqui vivi os primeiros meses da guerra fraticida e anárquica que antecedeu a transição de Angola para a independência, com privações de toda a espécie, mas sobretudo com a incomensurável desilusão de conviver não só com mortes, desaparecimentos e êxodo, mas também com o ruir do sonho de um país livre, pacífico e multirracial.Regressado a Lisboa nos princípios de Novembro de 1975, compreendi poucos anos depois que em Portugal existia, de forma dispersa, uma valiosa e imprescindível fonte da história do nosso país e dos novos países de língua oficial portuguesa: os postais fotográficos que, desde os fins do século XIX, nos revelavam as imagens das cidades e das vilas, das actividades económicas, dos povos e das culturas das antigas províncias africanas e asiáticas.Nos alfarrabistas e feiras de coleccionismo de Lisboa e arredores apareciam, com bastante frequência, álbuns de postais antigos ou exemplares avulsos que testemunhavam, de forma significativa, e por vezes inédita, o passado recente de tais territórios. Comecei então a coleccionar, e com o tempo a pesquisa estendeu-se a outros mercados coleccionistas europeus, com especial destaque para uma notável ‘Carte Expo’ que se realiza duas vezes por ano em Paris, congregando coleccionadores e comerciantes de todo o mundo. Assim reuni uma vasta colecção sobre o Ultramar Português, que cedo superou em quantidade e abrangência as existentes nas bibliotecas e arquivos portugueses e lusófonos.”Influência de MacauComo bem explicou João Loureiro, Macau teve uma influência determinante na promoção e divulgação da colecção, bem como na decisão sobre o seu destino final:“A colecção teria permanecido encaixotada e desconhecida se não fosse Macau! Em 1995, um grande amigo dos tempos descomprometidos da juventude e então membro do governo do território, teve a iniciativa e a responsabilidade de promover a primeira exposição da minha colecção e, na sua sequência, patrocinar a edição do meu primeiro álbum ‘Postais Antigos de Macau’. Jorge Rangel, actualmente presidente do Instituto Internacional de Macau, foi portanto o grande impulsionador do posterior desenvolvimento da colecção e da notoriedade que viria a ter.Não é possível visualizar integralmente os espaços, os instrumentos e as personagens da história recente de Portugal em terras tropicais de África e do Oriente, que se concretizam e potenciam a partir dos finais de oitocentos, sem recorrer às imagens dos postais fotográficos.A colecção que reuni sobre os países e territórios que formaram o antigo ultramar, tem como limite temporal o ano de 1975, altura em que se completaram os processos de independência conferidos pela terceira república portuguesa. Só Macau ficou em aberto até Dezembro de 1999, data em que ocorreu a transferência da administração portuguesa para a República Popular da China.
  • 162 163 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – XI F A L A R D E N Ó S – XIAtravés dos exemplares que a integram é possível rever as cidades e as povoações, os edifícios públicos e religiosos, as plantações e as roças, as actividades comerciais e os mercados, as pontes e os caminhos-de-ferro, os tipos humanos e os costumes, e ainda revisitar acontecimentos de relevo, tais como as operações militares no sul de Angola no princípio do século XX ou a viagem do Príncipe D. Luís Filipe às colónias, a proclamação da República em Cabo Verde ou Moçambique e a primeira feira industrial de Macau em 1926.Afigura-se-me portanto que a dimensão e âmbito desta colecção a posicionam como uma importante fonte das histórias contemporâneas não só de Portugal mas também dos diversos países e territórios de língua oficial portuguesa. Esta mesma conclusão tem sido corroborada por diversos historiadores que a ela acederam, directa ou indirectamente através de exposições e edições dela derivadas.”O valor da colecçãoAlém de René Pélissier, também Francisco Bethencourt, professor do King’s College de Londres, considerou única esta colecção, “cuja consulta João Loureiro tem tido a generosidade de facultar aos investigadores”, sendo “impossível trabalhar sobre as antigas colónias portuguesas nos séculos XIX e XX sem utilizar este acervo de imagens”. Esta colecção cuja existência viabilizou a preparação de dezassete álbuns temáticos de João Loureiro e a realização de exposições em Macau, Lisboa, Rio de Janeiro, Paris, Goa e Maputo, ficou muito bem confiada à guarda do Arquivo Histórico de Macau, que prontamente a acolheu, num tempo em que a cooperação económica e cultural com o mundo lusófono se tornou prioridade no contexto das políticas públicas da RAEM.8 de Setembro de 2014Depois de cinco seminários realizados com sucesso, ao longo dos últimos anos, com reuniões de trabalho em cidades de três continentes, em resultado da parceria estabelecida entre o Instituto Internacional de Macau (IIM) e o Instituto Brasileiro de Estudos da China e Ásia-Pacífico (IBECAP), teve já início a 6.ª edição do seminário internacional sobre “O papel de Macau no intercâmbio sino-luso-brasileiro”, com sessões no Rio de Janeiro, São Paulo, Pequim, Macau, Lisboa, Aveiro e Porto, de Setembro a Novembro do corrente ano.Uma localização singularNum artigo publicado na revista Oriente/Ocidente n.º 31, de 2014, o Prof. Severino de Freitas Cabral, presidente do IBECAP, fez o enquadramento geopolítico de iniciativas como esta:“Entre as macrotendências que se apresentam no desenho da configuração do mundo do século XXI – a consolidação do mercado global e o surgimento do megaestado – parece lógico apontar a integração regional como um dos caminhos dos países médios e pequenos na busca de constituírem grandes mercados e grandes unidades políticas ativas. A integração não é empresa fácil, dada a complexidade dos elementos em jogo, mas pode ser bem mais fluida e orgânica, quando se leva em conta os fatores geopolíticos e geohistóricos que atuam na conjuntura a determinarem o destino das nações.Neste sentido, pois, se pode entender o alcance do processo de construção da Comunidade de Língua Portuguesa e seu protagonismo atual. Como uma ponte Macau no intercâmbio sino-luso-brasileiro“Duas instituições (…) – o IIM e o IBECAP – uniram-se para pensar as condições de cooperação e intercâmbio entre a China, o Brasil e o mundo lusófono mediado por Macau.”
  • 164 165 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – XI F A L A R D E N Ó S – XItranscultural e transcivilizacional unindo os continentes, os mares e os mercados do mundo; a dar, assim, cume à marcha encetada pelos navegadores ibéricos na aurora dos tempos modernos. E, como se apresenta em todos os horizontes, tem como um dos seus pontos de fixação de alcance mundial a pequena Macau, localizada no estuário do Rio das Pérolas, e que por quase quinhentos anos esteve sob administração portuguesa (1557-1999). Uma localização singular onde a língua e a cultura portuguesa estão ombreadas à língua e cultura chinesa.”Balanço positivoO presidente do IBECAP, distinto académico com obra de qualidade publicada sobre a China, identificou as mais importantes acções levadas a efeito nas primeiras edições deste seminário:“Como um lance do acaso, duas instituições estabelecidas em processos distintos, nos extremos da rota Oriente/Ocidente – o IIM e o IBECAP – uniram-se para pensar as condições de cooperação e intercâmbio entre a China, o Brasil e o mundo lusófono mediado por Macau. Tendo como eixos temáticos o aprofundamento do consenso estratégico Brasil – China no espaço mundial lusófono; a formulação de enfoque pragmático e inovador para a exploração do potencial da cooperação sino-luso-brasileira; e a intensificação dos laços culturais, acadêmicos e científicos voltados para ampliar o conhecimento mútuo sino-luso-brasileiro – as duas instituições organizaram, a partir do ano de 2009, o Seminário ‘Macau e o intercâmbio sino-luso-brasileiro’, sediando inicialmente os encontros no Rio e em Macau. O Rio de Janeiro tinha como instituições hospedeiras a Confederação Nacional do Comércio, Bens, Serviços e Turismo – CNC e o Real Gabinete Português de Leitura.Aos organizadores do Seminário pareceu lógico incluir Lisboa no roteiro do encontro a partir da III reunião (2011), aumentando o escopo do estudo e do debate para abranger toda a comunidade lusófona, desde a antiga metrópole portuguesa. Nada mais natural que a esta sequência se impusesse a entrada da China, representada por Beijing e Shanghai na IV rodada do seminário (2012). Ampliava-se o número de instituições participantes do evento como o Centro de Estudos dos Países de Língua Portuguesa do Instituto de Estudos Regionais, vinculado à Universidade de Comércio e Relações Internacionais de Beijing; a organização Profissionais Brasileiros na China – PBC, sediada em Shanghai; e o Instituto Superior de Ciências da Informação e da Administração – ISCIA, de Aveiro, Portugal.No ano de 2013, movendo-se na direção de sua inspiração maior de ser um campo institucional aberto ao debate e ao diálogo das culturas e civilizações lusitana e chinesa, no horizonte do mundo do século XXI, a mobilizar quadros da diplomacia, da administração superior do Estado, da academia e do mundo empresarial e político do Brasil, da China e dos países da comunidade de língua portuguesa, inseriu-se, na V série de seminários, como um marco significativo do seu escopo e abrangência, a cidade de Brasília.”O V SeminárioParticularmente relevante foi a edição levada a efeito em 2013:“A sessão inaugural do V Seminário, realizada no dia 16 de setembro no Palácio do Itamaraty, também sob os auspícios da Fundação Alexandre de Gusmão e do
  • 166 167 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – XI F A L A R D E N Ó S – XIDepartamento de Ásia do Leste, foi acrescida de importância por representar em tal circunstância mais uma instância de diálogo acadêmico entre o Brasil e a China. A sessão foi, assim, aberta pela fala do Embaixador Extraordinário e Plenipotenciário da República Popular da China no Brasil, Li Jinzhang, seguido pela Subsecretária Geral Política II, do Ministério das Relações Exteriores do Brasil, Embaixadora Edileuza Fontenele Reis. As duas intervenções foram publicadas numa edição bilingue (chinês e português) pelo IIM/IBECAP, e lançadas em Macau e Beijing.Na sequência tivemos continuidade com os encontros do Rio de Janeiro, 16 e 17 de outubro, na Confederação Nacional do Comércio e no Real Gabinete Português de Leitura, onde foram lançados pelo IIM os livros ‘China: uma visão brasileira’ e ‘Portugal e Indonésia: história do relacionamento político e diplomático (1509-1974)’. Este último uma importantíssima coletânea de textos de historiadores contemporâneos sobre a multissecular presença lusa na estratégica região do Sudeste da Ásia.A seguir tivemos a passagem por Portugal com o seminário realizado em Aveiro, 29 de outubro, no ISCIA, e Lisboa, 31 de outubro, no Centro Científico e Cultural de Macau. Participaram dessa etapa, além dos presidentes do IIM e IBECAP, o vice presidente do IIM, José Lobo do Amaral e o pesquisador e membro do Conselho de Notáveis do IBECAP, Bernardo Costa Ferreira.A etapa final do V seminário deu-se na China, em Macau e Beijing, nos dias 6 e 8 de novembro, com a participação do Jornalista Carlos Tavares de Oliveira, do Embaixador Murade Murargy, Secretário Executivo do CPLP, que presidiu a sessão de Macau do V seminário. Em Beijing, no dia 8 de novembro encerrou-se o périplo com uma sessão presidida pelo Dr. Wang Cheng An, diretor geral do Centro de Estudos dos Países de Língua Portuguesa. A sessão contou ainda com a participação do antigo Embaixador da China no Brasil, Chen Duqing, com um representante do Embaixador brasileiro Waldemar Carneiro Leão, e com o Dr. Ye Zhiliang, diretor do Departamento de Língua Portuguesa da Universidade de Estudos Estrangeiros de Beijing.”A primeira fase da 6.ª edição deste seminário está já a decorrer no Brasil.15 de Setembro de 2014.
  • 168 169 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – XI F A L A R D E N Ó S – XILogo nos primeiros anos após a sua fundação as diretorias passaram a adquirir milhares de obras, algumas raras, dos séculos XVI e XVII – e entre elas podemos mencionar um exemplar da edição ‘princeps’ de Os Lusíadas, que pertenceu à Companhia de Jesus de Setúbal; as Ordenações de D. Manuel, de Jacob Cromberger, editadas em 1521, e os Capitolos de Cortes e Leys que sobre alguns delles fizeram, publicados em 1539. O certo é que a ampliação da biblioteca obrigou à mudança da sede por várias vezes: da casa da rua de S. Pedro nº 83, foi para a rua da Quitanda nº 55 e desta, em 1850, para a rua dos Beneditinos nº 2. Para se ter uma idéia do crescimento do acervo bibliográfico basta mencionar que em 1872 a biblioteca já possuía 20.471 obras (ou 44.917 volumes).É por essa altura que os dirigentes começam a pensar em construir uma sede de maiores dimensões e condizente com a importância da instituição. Para esse fim, é adquirido um terreno na antiga rua da Lampadosa. E as comemorações do tricentenário da morte de Camões (1880) vão ser o grande pretexto para motivar a ‘colônia’ portuguesa e levar adiante o projeto. O projeto escolhido para o edifício da atual sede, foi o do arquiteto português Rafael da Silva e Castro, com seu traço em estilo neomanuelino, evocando a epopéia dos Descobrimentos portugueses. O edifício, cuja fachada é inspirada no Mosteiro dos Jerónimos de Lisboa, foi trabalhada por Germano José Salle em pedra de Lioz em Lisboa e trazida de navio para o Rio. As quatro estátuas que a adornam retratam o Infante D. Henrique, Luís de Camões, Pedro Álvares Cabral e Vasco da Gama, e os medalhões, os escritores Fernão Lopes, Gil Vicente, Alexandre Herculano e Almeida Garrett. O estilo neomanuelino também está presente nas portadas, estantes de madeira para os livros e monumentos comemorativos. O teto do Salão de Leitura tem uma belíssima clarabóia e IIM homenageado no Brasil“O Real Gabinete Português de Leitura colaborou desde a primeira hora e há-de colaborar sempre com o Instituto Internacional de Macau, com os seus objectivos e suas acções.” Comendador António Gomes da Costa, Rio de Janeiro, Setembro de 2014O Real Gabinete Português de Leitura, por muitos considerada a instituição cultural portuguesa mais emblemática do Brasil, acaba de homenagear o Instituto Internacional de Macau (IIM) em acto solene realizado na sua sede, no Rio de Janeiro, no dia 9 do corrente, atribuindo-lhe o título de Membro Honorário. Na presença de associados e convidados, o Comendador António Gomes da Costa, que é, simultaneamente, presidente do Real Gabinete e da Federação das Associações Portuguesas e Luso-Brasileiras do Brasil, enalteceu a intensa colaboração desenvolvida ao longo de mais de uma década entre as duas instituições e depositou nas mãos do vice-presidente do IIM, José Ângelo Lobo do Amaral, o respectivo diploma e a correspondente medalha.O Real Gabinete tem sido um dos mais eficazes e constantes parceiros do IIM em muitas realizações levadas a efeito no Brasil. Ali têm sido, todos os anos, organizadas sessões do IIM ou com o IIM, na forma de conferências, seminários, estudos, exposições e lançamentos ou apresentações de novas edições, algumas das quais de iniciativa conjunta.Uma excelsa instituiçãoÉ da autoria de António Gomes da Costa a resenha histórica deste centenário organismo, que prestou altíssimos serviços à cultura portuguesa:“Em 14 de Maio de 1837, um grupo de 43 emigrantes portugueses do Rio de Janeiro resolveu criar uma biblioteca para ampliar os conhecimentos de seus sócios e dar oportunidade aos portugueses residentes na então capital do Império de ilustrar o seu espírito. Foi a primeira associação desta comunidade na então capital do Império.
  • 170 171 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – XI F A L A R D E N Ó S – XIum lustre monumental. O interior desse salão contém uma estrutura de ferro, o primeiro exemplar desse tipo de arquitetura no Brasil, além de inúmeras obras de arte espalhadas por todo o prédio, desde bustos de escritores e personagens históricas, até uma coleção de pinturas de Eduardo Malta, Oswaldo Teixeira, José Malhoa e Carlos Reis. Na nova sede do Real Gabinete foram realizadas as cinco primeiras sessões solenes da Academia Brasileira de Letras, sob a presidência de Machado de Assis.Nas últimas décadas, e com o objetivo de dar mais dinamismo às suas atividades, o Real Gabinete criou um Centro de Estudos, que abriga um Polo de Pesquisa sobre Relações Luso-Brasileiras, promove sistematicamente cursos de extensão universitária sobre Literatura, Língua Portuguesa, História, Antropologia e Artes, colóquios e conferências, a cargo de professores universitários, e edita a revista Convergência Lusíada (semestral), que é distribuída a centenas de instituições culturais e universidades de todo o mundo. A programação dos cursos é divulgada no site da instituição e nas universidades.Atualmente a biblioteca, que conta com um quadro de 2.400 associados, tem um acervo de cerca de 400.000 volumes e está totalmente informatizada, podendo o seu catálogo ser acessado pela internet. Está aberta ao público de segunda a sexta-feira, de 9 às 18 horas. A entrada é franca e as consultas são grátis.”Este sucinto relato peca apenas pela modéstia, face à magnífica obra ali realizada, enchendo de orgulho quantos, pelo vasto mundo lusófono, estão ligados à língua e à cultura portuguesas. Visitei, em numerosas ocasiões, as suas modelares instalações para tomar parte em múltiplos eventos ali organizados.Distinção atribuídaFoi por decisão do Egrégio Conselho Deliberativo do Real Gabinete Português de Leitura, do Rio de Janeiro, que aquela distinção foi atribuída ao IIM. No acto de formalização, o Comendador Gomes da Costa afirmou que “devemos agradecer o trabalho e o empenho daqueles que de forma perseverante continuam a dar a sua inestimável colaboração para manter activas e fecundas as matrizes das relações e do conhecimento no quadrilátero constituído pelo Brasil, por Portugal, por Macau e pela China”, tendo mais adiante referido que “nunca é demais destacar o propósito daqueles que depois da integração do Território de Macau na China, já no crepúsculo do século passado, continuaram a manter e a desenvolver, entre teias de amizade e laços de cooperação, um relacionamento entre dois povos, que começou quando as primeiras naus portuguesas sulcaram os mares do Oriente”. A concluir, enalteceu assim a acção desenvolvida pelo IIM: “Passam os anos – e vemos alastrarem-se os resultados desse trabalho. Os governos parecem querer esquecer o passado; outras instituições, até com mais recursos, desviam interesses e reduzem os programas – e, por isso, quando vemos o Instituto Internacional de Macau desenvolver as suas actividades no Brasil, em Portugal, na China e em Macau (...) temos o dever não só de apoiar todas estas iniciativas e empreendimentos, mas também de manifestar a nossa gratidão aos seus responsáveis”. A cooperação encetada continuará a produzir bons resultados.22 de Setembro de 2014
  • 172 173 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – XI F A L A R D E N Ó S – XIComo muito bem lembrou a autora, 2013 foi o “ano do conto”, quando a Academia Sueca dignificou o seu estatuto, honrando com o Prémio Nobel a escritora Alice Munro, “uma das maiores cultoras actuais de short stories, ou contos”. “Comparado com o romance, o conto é um relato breve. Italo Calvino chamou-lhe ‘romance breve’, e essa dimensão económica da narrativa multiplica-se por outros elementos igualmente restritos. As personagens, a acção, o tempo, o espaço são categorias atingidas por uma necessária concentração, resultando, idealmente, numa narração mais intensa e produzindo um efeito de unidade. É este resultado que torna o conto um desafio”.Wu Zhiliang, presidente da Fundação Macau, foi co-autor, juntamente com Jin Guo Ping e Rui d’Ávila Lourido, de um interessante estudo comparativo de duas obras históricas da literatura mundial de viagens – a “Peregrinação”, de Fernão Mendes Pinto, e a “Crónica dos Mares”, de Xie Qinggao, mas não esteve fisicamente presente, quando o mesmo foi apresentado no Encontro de 2011.Três escritores macaensesRespondendo à pergunta “O que une estes três escritores?”, Celina Veiga de Oliveira procurou caracterizar estes três expoentes da literatura portuguesa de Macau, com recurso a alguns dos seus contos mais emblemáticos:“Todos nasceram em Macau nos princípios do século XX (1914, 1920, 1923, respectivamente). De esmerada educação, mostraram inclinação para as letras e foram observadores atentos da realidade dual que os rodeava.Escritores macaenses apresentados em encontro no Brasil“A consciência da importância que a diversidade das culturas dos países que se exprimem oficialmente na língua portuguesa assume, no século XXI, levou-nos a promover, juntamente com a Prefeitura Municipal de Natal, os Encontros de Escritores de Língua Portuguesa.”Miguel Anacoreta Correia, ex-secretário geral da UCCLA, Anais do II EncontroDesde 2010 que têm sido realizados os Encontros de Escritores de Língua Portuguesa na cidade de Natal, numa parceria da UCCLA – União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa com a prefeitura municipal daquela acolhedora urbe brasileira. Conforme expressou, num dos Encontros, Miguel Anacoreta Correia, que foi um competente e esclarecido secretário geral desta importante associação internacional, “a valorização da cultura e da literatura, o diálogo e a troca de experiências entre os escritores das literaturas dos diferentes países, e a sua partilha com a população”, permanecem como os principais objectivos definidos para estes Encontros. Como membro da UCCLA, o Instituto Internacional de Macau (IIM) tem dado aos organizadores destes Encontros a sua melhor colaboração, contribuindo para que neles haja uma presença mais significativa de Macau. Assim, depois de promover a participação, no Encontro de 2012, do investigador Carlos Francisco Moura, autor de relevantes estudos históricos sobre a presença de Portugal no Oriente e sobre as relações sino-luso-brasileiras, o IIM patrocinou a deslocação ao Brasil da professora e investigadora Celina Veiga de Oliveira, que apresentou, em Novembro de 2013, uma comunicação intitulada “O conto na obra de três escritores macaenses”, divulgando naquele fórum literário obras de Deolinda da Conceição, Maria Pacheco Borges e Henrique de Senna Fernandes, “três escritores macaenses que, através do conto, nos transportam para outras atmosferas civilizacionais e experiências, já muito apagadas pela tirania do tempo”, tendo como pano de fundo a cidade de Macau, “espaço cruzado de múltiplas e variadas gentes, tradições e crenças, que foi sempre alfobre de histórias para serem contadas ou escritas”.
  • 174 175 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – XI F A L A R D E N Ó S – XIDeolinda da Conceição, jornalista e professora, glorificou em Cheong-Sam, a Cabaia, a mulher, essa, na realidade, discreta ou ignorada outra metade do céu. Escolhendo a cabaia – traje de seda aberto de lado que modela a forma do corpo, muito usado em Macau – para título do seu livro, a escritora pretende valorizar a sensualidade e a elegância femininas.São jovens, na grande maioria, as suas mulheres chinesas, figurinhas de gazela assustadiça de falas brandas, de olhar tímido e sorriso indeciso, corpo bamboleante como haste leve de flor que o vento agita brandamente, de olhar tímido e sorriso indeciso.E tristes as histórias de que são protagonistas, como a da pobre operária Lin Fong, seduzida e abandonada por um português, do conto “O calvário de Lin Fong”:A tarde caía suavemente sobre Ou Mun (Macau), e aquela doce claridade que antecede o aparecimento das estrelas no céu azul, a bordejar o roxo dos crepúsculos orientais, deixava na alma de Lin Fong uma sensação acentuada de sofrimento que ela não sabia definir, mas que roubava aos seus dedos a agilidade com que costumava enrolar os panchões na sua pequena roda de madeira.Teria a deusa Kun Iam esquecido as suas preces, ela que tanto se curvara perante a sua imagem? Por que a abandonara? Nessa tarde Lin Fong não entrou no templo. Queria preservar ainda a ténue esperança de que de Sai Iong (Portugal) voltaria o amado para o seu regaço.Ao longo da marginal, lembrava-se do seu falar, estranho, a princípio, mas que ela se fora habituando a adivinhar, daqueles apertos de mão tão vigorosos que ele lhe dava, das vezes que se vira obrigada a esquivar-se aos seus abraços e aos seus beijos, coisas para ela desconhecidas até então. Ele prometera levá-la para esse país tão distante e essa promessa devia certamente significar um pedido de casamento.Lin Fong, confiante, apaixonou-se.Uma noite, porém, ela teve de lhe revelar o segredo que trazia no ventre e que a ambos pertencia. E a notícia da partida acabou por chegar, repentina e iminente… Lin Fong não tivera uma lágrima sequer. O horror da situação aniquilara-a completamente. Foi ao cais para o ver partir. ‘Ele’ parecia-lhe entristecido e isso deu-lhe uma certa consolação. Já a bordo, acenou-lhe com um lenço garrido que ela lhe oferecera. Talvez aquele gesto tivesse algum significado e ele ainda voltasse, pensou.E ao anoitecer, quando os juncos regressam da sua faina de pesca, Lin Fong segue direita à marginal a ver findar-se outro dia do seu calvário solitário e a calcular a distância desse Sai Iong que se escondia no horizonte.”No próximo artigo será concluída a transcrição das partes mais relevantes desta sugestiva comunicação de Celina Veiga de Oliveira sobre Deolinda da Conceição, Maria Pacheco Jorge e Henrique de Senna Fernandes, três escritores de que Macau e os macaenses se podem orgulhar e que ficaram, certamente, mais conhecidos através deste Encontro que reuniu dezenas de escritores, jornalistas e entidades oficiais e privadas do mundo lusófono, a que a comunidade macaense está, indissoluvelmente, ligada.29 de Setembro de 2014
  • 176 177 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – XI F A L A R D E N Ó S – XIflor de lótus, a flor da autocriação. E por a comparar a essa flor, símbolo da pureza, a velha dera-lhe o nome de Pak Lin, que significa Lótus Branco.A jovem chinesa estava prestes a casar com um desconhecido que a madrinha lhe arranjara. Como iria ser o seu futuro? Sujeitou-se, conformada, aos rituais das núpcias e das superstições. Escapou habilmente ao espírito da morte, chorando com tal intensidade que esse espírito, julgando ser um funeral, não lançou sobre ela terríveis malefícios.Conseguiu também fugir ao espírito da galinha dourada, o que a obrigou a suportar uma chuva de grãos de arroz destinados a atrair o ciumento animal e evitar, assim, que ele se atirasse aos seus tentadores olhos de noiva. E libertou-se por fim do espírito do tigre branco, por se haver colocado na porta do palanquim, que a transportava, um naco de toucinho para desviar dela a atenção da famigerada fera. A tudo se submeteu estoicamente.O noivo teve também de cumprir os ritos dos esponsais. E só mais tarde, finalmente a sós, puderam olhar-se, frente a frente, pela primeira vez. O marido contemplou-a, maravilhado. E Pak Lin, pura e bela como a flor da autocriação, vendo-se contemplada com tanta admiração sincera, baixou os olhos e sorriu pela primeira vez, sem ter sido a isso coagida pelo código de posturas do cerimonial de casamentos chineses…Como acontece em Cheong-Sam, a Cabaia, também se associa em A Chinesinha a beleza à bondade, à obediência, ao sofrimento e ao respeito pelas velhas tradições dos antepassados.Três contos de escritores macaenses“A expansão da língua portuguesa a todos os continentes e oceanos, veiculada pelos navegantes nas suas frágeis caravelas a partir do século XV, lançou a semente da lusofonia em novos e promissores espaços da Terra, miscigenando-se com múltiplas outras influências culturais e linguísticas ancestrais e mais recentes.”Rui d’Ávila Lourido, coordenador dos Encontros de EscritoresForam apontados, no artigo anterior, os objectivos dos Encontros de Escritores de Língua Portuguesa que a UCCLA – União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa tem organizado na cidade brasileira de Natal, bem como a colaboração que o Instituto Internacional de Macau tem prestado no sentido de estimular uma presença regular de Macau. Foi neste contexto que Celina Veiga de Oliveira, autora de muito significativa bibliografia sobre Macau, apresentou uma bem recebida comunicação, no IV Encontro, realizado em Novembro de 2013, sobre “O conto na obra de três escritores macaenses”.A mulher chinesa, no sofrimento e na luta quotidiana, num tempo de enormes dificuldades e carências em Macau, ficou bem retratada nos contos de “Cheong-Sam, a Cabaia”, de Deolinda da Conceição. O tema é retomado na apresentação de outra escritora macaense:“O feminino é também caro a outra macaense, Maria Pacheco Borges, que, no seu pequeno livro A Chinesinha, recupera o tema. O título é doce, como doce é a mulher aqui retratada, figurinha delicada, tez branca e negros cabelos de azeviche, com rosto de um oval perfeito, olhos pretos que pálpebras inchadas escondiam em parte, dando-lhes uma forma alongada e oblíqua, pequenina, como pequenino é o seu campo de intervenção num mundo comandado pelo poder do homem. Tudo lhe é imposto: as normas, as crenças, o casamento.E haverá correspondência entre esta beleza feminina e a felicidade? Por vezes há, como aquela registada no conto ‘O Casamento de Pak Lin’. Abandonada recém-nascida num monte de lixo, Pak Lin foi recolhida pela velha com quem vivia, no dia da
  • 178 179 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – XI F A L A R D E N Ó S – XISerão estes os temas dos contos de Henrique de Senna Fernandes? Podemos dizer que a temática senniana é mais caleidoscópica.O seu primeiro livro de ‘estórias’, Nam Van – Contos de Macau, contém o conto ‘A-Chan, a tancareira’, Prémio Fialho de Almeida, de 1950. A segunda colectânea, intitulada Mong-Há, contém, em meu entender, a ‘estória’ que melhor corresponde ao cânone de narrativa com final surpreendente, característico do conto. Chama-se ‘Yasmine’ e relata a história de John Bradley, um inglês radicado em Hong Kong, que ia com regularidade participar na corrida do ACP no Grande Prémio de Macau.Bradley era um dos muitos europeus que se tinham fascinado pelo Oriente e que, depois de largas deambulações, se fixara na vizinha colónia britânica. Coleccionador de garrafinhas de rapé da dinastia cheng, vinha por vezes a Macau comprar essas preciosidades trazidas clandestinamente da China.Com uma amizade crescente entre os dois, o autor passou a ser visita da casa do inglês, conhecendo-lhe então um dos seus gostos privados: a pintura. E foi aí que descobriu um quadro, ainda em esboço, duma mulher que devia ser muito linda. (…) Ainda em linhas cruas, o rosto era insofismavelmente duma indiana. O véu transparente ocultava parte dos cabelos abundantes. (…) Impressionantes os olhos que o gosto artístico de Bradley surpreendera e reproduzira num rasgo de génio que pode, de repente, iluminar a mão dum pintor, (…) uns olhos negros, profundos, de indizível melancolia, mas extraordinariamente belos.Bradley confessara ao amigo estar perdidamente apaixonado por Yasmine e revelara-lhe ser ela uma mulher de um perturbante pudor, ficando em pânico a qualquer tentativa de intimidade mais ousada. É simplesmente tocante esse receio que transparece em tudo o que se relacione com o sexo. Interrogado quanto às suas intenções, respondeu: – Casar-me com ela.Por Yasmine, ousou enfrentar a censura preconceituosa da sofisticada sociedade colonial de Hong Kong, o que era compreensível, uma vez que ela era uma mulher capaz de suscitar grandes paixões. E aquele corpo escondido, por debaixo de saris espampanantes, justamente por ser um mistério, produzia inconscientemente um frémito de volúpia.John Bradley organizou um cocktail para a apresentar à sociedade. Mas Yasmine desapareceu. O inglês, que a procurou sem descanso por toda a ilha, teve de encarar, por fim, a cruel realidade: o seu grande amor tinha partido para sempre. E foi o amigo de Macau quem teve o privilégio de conhecer as razões do desaparecimento: a formosíssima Yasmine, de olhos tristes e expressão melancólica, nascera desventuradamente… homem.Três histórias de três escritores macaenses, em que o erotismo é sugerido simplesmente pela elegância sensual da cabaia que modela o corpo da mulher, pelo sorriso tímido de uma jovem noiva ou pelo enredo de uma ‘estória’ com uma desconcertante finalização.”Foram estes os contos que Celina Veiga de Oliveira resumiu e apresentou aos escritores lusófonos congregados naquele IV Encontro. “Três contos que nos aproximam um pouco da mundividência de Macau. De um Macau difuso, que, cada vez mais,
  • 180 181 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – XI F A L A R D E N Ó S – XIapenas perdura num qualquer lugar suspenso entre a memória e a imaginação” dos que, como a autora, ali viveram, conhecendo e compreendendo a terra, as gentes, o legado e o seu novo percurso.6 de Outubro de 2014O 5.º volume, agora centrado em Zhuhai, da série de estudos dedicados ao Delta do Rio das Pérolas, acaba de sair do prelo, proporcionando a quantos acompanham o crescimento desta que é, provavelmente, a zona de maior desenvolvimento físico no mundo, abundante e actualizada informação e análises bem elaboradas da evolução histórica e das perspectivas de desenvolvimento económico e social da área geográfica adjacente à RAEM, com ela interagindo em regime de necessária complementaridade.Recuando um pouco no tempo, quando dirigia os serviços de Turismo do Governo de Macau, na segunda metade da década de 1970, com a revolução cultural chinesa a chegar ao fim e podendo testemunhar, com expectativa e entusiasmo, a primeira fase da abertura do país, abrangendo algumas zonas costeiras, quase nada havia do lado de lá. A fronteira estava ainda fechada e, quando me foi endereçado um convite por autoridades chinesas para efectuar uma visita, nem sabia verdadeiramente o que iria encontrar.Com permissão do Governador Garcia Leandro, um primeiro grupo de quadros locais ao serviço da administração portuguesa, constituído por mim e por Rufino Ramos, Philip Xavier, Américo Monteiro, Hermann Castilho e Constâncio Gracias, atravessou de carro o apertado posto de controle de Gongbei, em Setembro de 1977, para entrar num mundo predominantemente rural e de fardas maioritariamente azuis, milhões de bicicletas e generalizada pobreza. Durante uma semana, pudemos observar e facilmente concluir que as potencialidades eram enormes e foi um privilégio poder, nas diversas funções oficiais que desempenhei, aceder a importante informação e, até, intervir positivamente no pleno aproveitamento dessas potencialidades. O que ali aconteceu, ao longo de apenas três décadas e meia, foi verdadeiramente espectacular. Jamais a Zhuhai, a cidade vizinha de Macau, no Delta“A Zhuhai actual passou a cidade em 1979, um ano após o início da política de abertura e de reformas. Em 1980 foi designada como uma das quatro Zonas Económicas Especiais então criadas, juntamente com Shenzhen, Shantou e Xiamen. Na sua escolha esteve o facto de ser adjacente a Macau, à semelhança de Shenzhen e Hong Kong.”
  • 182 183 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – XI F A L A R D E N Ó S – XIhumanidade havia experimentado tão céleres transformações e tão impressionante crescimento em prazos tão reduzidos.É este, afinal, o objecto deste trabalho que tem por título “Zhuhai, a cidade-jardim do Delta do Rio das Pérolas” e que, tal como os quatro anteriores, foi produzido pela Associação de Macau de Investigação do Delta do Rio das Pérolas e publicado pela MacauLink, com o apoio e a colaboração da Fundação Macau e do Instituto Internacional de Macau. Os autores do estudo são Thomas M. H. Chan, economista, professor e conceituado investigador de assuntos da China, sendo o fundador e director do “China Business Centre” da Universidade Politécnica de Hong Kong, e Louise do Rosário, jornalista especializada em temas asiáticos e correspondente de várias influentes publicações. Ambos são também colaboradores do South China Morning Post e da Revista Macau. A coordenação de toda a série pertence a Gonçalo César de Sá.Zona económica especialVale a pena transcrever algumas passagens do referido estudo para se entender o crescimento e o papel de Zhuhai no contexto do Delta:“Zhuhai é a mais pequena zona económica especial criada pelo Governo da China no início da aplicação da política de abertura e de reformas económicas. Zhuhai é de pequena dimensão mas, como se encontra estrategicamente localizada, tem desempenhado para o governo funções geopolíticas e geoeconómicas indispensáveis; tal decorre do facto de ter sido seleccionada para servir de apoio e tampão a uma economia mais pequena e mais fraca, Macau, que se encontrava sob administração portuguesa e devia regressar à chinesa em 1999. (...)No início do processo de reformas era fácil perceber que tanto Guangdong, que nas décadas subsequentes se transformaria na fábrica do mundo, como Zhuhai estavam incluídas na lista das economias menos desenvolvidas em termos mundiais. Trinta anos mais tarde o PIB per capita da cidade cresceu para 96 725 yuans, em 2012, ou mais de 15 mil dólares; este valor coloca a economia da cidade no escalão médio-alto das economias mundiais e no primeiro lugar tanto no Delta como no resto da China.Não obstante um ligeiro arrefecimento nos anos mais recentes, o crescimento anual de 19% ao longo de 30 anos é impressionante, qualquer que seja o prisma por onde se olha. Juntamente com outras cidades de maior dimensão do Delta do Rio das Pérolas, Zhuhai ajudou a criar um milagre económico na China e para a China no mundo.”Proximidade de MacauTer Macau como vizinho foi determinante para o continuado sucesso de Zhuhai, desde o seu estabelecimento como zona económica especial:“O êxito obtido por Macau na modernização da sua indústria do jogo e na liberalização do acesso aos visitantes do continente deram à pequena Região Administrativa Especial um PIB per capita superior ao de Hong Kong. Em 2013 situou-se em 87 347 dólares, o terceiro mais elevado do mundo, tanto em termos nominais como em paridades do poder de compra. Este êxito assenta no influxo maciço de mais de 18 milhões de turistas
  • 184 185 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – XI F A L A R D E N Ó S – XI‘gastadores’ do continente apenas em 2013. Os principais pontos de entrada em Macau são as fronteiras terrestres de Gongbei e Hengqin em Zhuhai. O número médio de pessoas que diariamente passa pela fronteira de Gongbei ultrapassou 320 mil em 2013, tendo superado Lo Wu, entre Hong Kong e a China continental, como o posto fronteiriço mais movimentado do mundo.Atendendo a que Macau é uma península ligada a Zhuhai, a maior parte das pessoas que entra e sai de Macau fá-lo através de Zhuhai. Gongbei transformou-se na zona de passagem de e para Macau beneficiando dos fluxos de pessoas nos dois sentidos, tendo-se tornado numa zona comercial e turística e um centro modal de transportes para Macau e Zhuhai, muito em particular após a entrada em funcionamento, em 2011, do caminho-de-ferro intercidades Cantão-Zhuhai. O terminal desta linha fica localizado em Gongbei a alguns minutos da fronteira com Macau.O impacto em Zhuhai da prosperidade de Macau não se tem limitado às actividades comerciais e turísticas derivadas do fluxo de pessoas de e para Macau através de Zhuhai, tendo-se registado efeitos por simpatia. Entre estes efeitos contam-se o aumento dos preços de arrendamento de habitação e de bens de consumo diário, caso de produtos alimentares, em ambos os casos motivado pela procura criada por habitantes de Macau em busca de preços mais baixos. Alguns bairros de Zhuhai passaram a ser áreas de residência e de compras para Macau, situação que permitiu à população da Região Administrativa Especial o alargamento do espaço disponível para viver. (...)Actualmente, pode-se dizer que a cidade de Macau, com uma população de 600 mil pessoas, é apoiada pela actividade realizada em Zhuhai, que tem uma população quase três vezes superior à de Macau. Os benefícios para Zhuhai da sua contiguidade a Macau explicam de que forma foi aquela cidade capaz de, nas últimas três décadas, reduzir o fosso relativamente a Shenzhen em termos de Produto Interno Bruto (...)”Macau e Zhuhai complementam-se hoje, sendo visível a interdependência criada.13 de Outubro de 2014
  • 186 187 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – XI F A L A R D E N Ó S – XISão exactamente 39 as figuras retratadas, por ordem alfabética: Agustina Bessa Luís, um dos nomes maiores da literatura portuguesa contemporânea; Almerindo Lessa, médico, professor universitário e antropólogo; Álvaro Semedo, sinólogo e autor da obra “Relação da Grande Monarquia da China”; Armando Martins Janeira, diplomata, orientalista e grande divulgador da obra de Wenceslau de Moraes; Benjamim Videira Pires, sacerdote jesuíta e personalidade marcante da vida cultural de Macau na segunda metade do século XX; Camilo Pessanha, que Pessoa classificou como uma “fonte contínua de exaltação estética”; Carlos d’Assumpção, advogado, jurisconsulto e político, considerado por muitos o líder da comunidade macaense no último quartel do século XX; Charles Boxer, militar britânico e historiador; Eça de Queirós, um dos mais admirados romancistas portugueses; Eugénio de Andrade, consagrado e prolífico poeta; Fernando Lara Reis, militar, pedagogo e filantropo; Francisco Rondina, missionário jesuíta e professor; gabriel de Magalhães, sacerdote e outro grande vulto da sinologia portuguesa, autor da “Nova Relação da China”; graciete Batalha, exemplar pedagoga e uma mulher coerente que amou e honrou Macau; Henrique de Senna Fernandes, o contista e romancista macaense mais conceituado e professor que marcou gerações de jovens desta terra; João gomes Ferreira, reitor do Seminário de S. José, vigário-geral e superior das Missões de Timor e bispo de Cochim; João Rodrigues, missionário jesuíta e sábio linguista; Joaquim Angélico guerra, missionário jesuíta, professor e tradutor de clássicos chineses; Joaquim Afonso gonçalves, missionário e linguista, considerado o primeiro grande sinólogo português; José da Costa Nunes, bispo e cardeal, um dos mais ilustres portugueses no Oriente; José dos Santos Ferreira, poeta macaense, cultor do patuá e intérprete da “alma macaense”; José gomes da Silva, médico e primeiro reitor do Liceu de Macau; José Horta e Costa, director local das obras públicas, governador Figuras de Jade – os Portugueses no Extremo Oriente“Em ‘Figuras de Jade’ (agora publicado pelo Instituto Internacional de Macau, uma das instituições com maior visão estratégica do território) António Aresta trabalhou as ligações ao Oriente de variadas personalidades com a versatilidade dessa pedra ornamental de várias cores, que ‘dura e compacta’ necessita de muito trabalho de estudo e investigação.”José Rocha Dinis, director do Jornal Tribuna de Macau, Junho de 2014O livro “Figuras de Jade – os Portugueses no Extremo Oriente” é, conforme o seu autor, António Aresta, professor e investigador, com notável obra publicada sobre a memória de Portugal no Oriente, “um singelo roteiro de afinidades, saberes e sensibilidades dos portugueses no extremo oriente”. “Acolhidas inicialmente nas páginas do Jornal Tribuna de Macau, as Figuras de Jade encontram sob a chancela editorial do Instituto Internacional de Macau uma renovada via de difusão, mais acessível ao leitor comum e aos estudantes, potenciando o interesse, o conhecimento e o amor pela cultura e pela história de Macau”.Com efeito, foi uma conjugação feliz de vontades, aliada a uma sintonia nos propósitos, que permitiu a publicação deste livro que é uma homenagem digna a dezenas de individualidades que, por feitos valorosos, deixaram marcas da sua presença nestas terras distantes onde se afirmou uma identidade que permitiu e justificou que fosse atribuído a Macau o estatuto de região administrativa especial da China. “Todas as personalidades cuja vida e obra foram aqui esboçadas, representam o multiculturalismo cosmopolita que sempre caracterizou o espírito de Macau, para além de serem um símbolo maior da inteligência portuguesa expatriada, não obstante dois serem estrangeiros mas profundamente comprometidos com a história e a cultura portuguesas. Cada um à sua maneira é uma estrela cadente da macaulogia, esse pequeno cosmos de problematizações históricas, filosóficas, literárias, antropológicas ou religiosas, que recolocam Macau no terreno da cidade ideal, onde o Oriente interpela o Ocidente, maximizando conhecimentos e colocando questões com incisiva radicalidade”.
  • 188 189 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – XI F A L A R D E N Ó S – XIde Macau e governador-geral do Estado da Índia; José Joaquim Monteiro, o nosso poeta popular por excelência, profundo conhecedor de Macau, autodidacta com invulgares dotes intelectuais e poéticos; José Maria Braga, investigador da história dos portugueses em Macau e no Extremo Oriente; José Miranda e Lima, professor e poeta, “um homem de princípios e de causas”; José Silveira Machado, professor e escritor, com esclarecida intervenção cívica e cultural; Leôncio Alfredo Ferreira, “macaense de velha linhagem” e defensor persistente de valores éticos; Luís de Almeida, médico, mercador e missionário jesuíta em Macau e no Japão, no século XVI, ainda hoje recordado naquele país; Luís Fróis, missionário jesuíta, escritor e educador; Luís gonzaga gomes, professor, escritor e sinólogo, com vasta e consequente intervenção cultural e relevante obra publicada; Manuel da Silva Mendes, professor e reitor do Liceu de Macau, advogado, escritor e coleccionador de arte chinesa; Manuel Teixeira, sacerdote, professor e investigador, cujo legado tem uma dimensão e um valor que ultrapassam o homem e o seu tempo; Maria Anna Acciaioli Tamagnini, poetisa, autora de “Lin Chi Fá: Flor de Lótus”; Maria Ondina Braga, laureada escritora e professora; Martinho Montenegro, oficial da Marinha Portuguesa e governador de Macau e de Cabo Verde; Pedro Nolasco da Silva, distinto macaense que desempenhou altos cargos públicos e associativos, tendo presidido ao Leal Senado e à Associação Promotora da Instrução dos Macaenses, de que foi fundador; Vicente Nicolau de Mesquita, militar macaense que ficou conhecido como o “herói do Passaleão”; e Wenceslau de Moraes, oficial da Marinha Portuguesa, professor e escritor, que se notabilizou pela sua obra inspirada na cultura nipónica.Como escreveu o autor, “vivemos um tempo histórico conturbado onde o fim das ideologias parece querer apagar a memória do que fomos, do que somos e do que valemos, pelo que resgatar estas personalidades do esquecimento é um dever cultural, ético e cívico que devemos assumir com frontalidade perante as novas gerações”. É este, afinal, o contributo que o IIM quer dar através do seu plano editorial e em múltiplas outras iniciativas.No prefácio, José Rocha Dinis recorda que “por Macau passou todo o mundo”, “os destituídos de várias épocas e Pátrias, os aventureiros, os missionários, os degredados, os exilados da política e das guerras, os pensadores, os escritores e outros profissionais de vários misteres, uns mais reconhecidos que outros”. Esta bendita terra a todos acolheu, nas mais variadas circunstâncias. “Deu-lhes oportunidades de revelarem os seus talentos, aproveitou-os para ‘pintar’ de muitas cores as várias fases do seu desenvolvimento sócio-económico e cultural”, “numa versão sempre multifacetada, desta plataforma de culturas e civilizações que nunca se esgotou no celebrado encontro entre Portugal e a China. O leitor verá que “as figuras deste volume são portuguesas (por nascimento ou comprometimento cultural), mas através dele o Autor faz luz sobre importantes momentos da vida local, sempre imbricada com a da vizinha China”.Sabendo conciliar a docência com a investigação, António Aresta produziu já uma obra altamente meritória. Desejamos que possa continuar a brindar-nos com novos trabalhos que o IIM terá o maior interesse em apoiar, até porque muita dessa actividade intelectual e literária tem correspondência plena com os propósitos que estimularam a sua criação e que se mantiveram coerentes no seu percurso de década e meia ao serviço de Macau, da sua memória e do seu futuro.20 de Outubro de 2014
  • 190 191 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – XI F A L A R D E N Ó S – XILuís Gonzaga Gomes. Aliás, foi o próprio Agostinho da Silva quem, de Brasília, escreveu ao intelectual macaense informando-o dos trabalhos que Carlos Francisco Moura havia iniciado no Centro Brasileiro de Estudos Portugueses e que o levariam depois a Lisboa e a Évora, para pesquisar na Torre do Tombo, no Arquivo Histórico Ultramarino e na Biblioteca e Arquivo Distrital daquela histórica cidade alentejana, património da humanidade.Desenvolveu-se, logo de seguida, uma interessante e útil correspondência, como nos explica Carlos Francisco Moura:“Luís Gonzaga Gomes escreveu-me e solicitou que conseguisse microfilmes de documentos sobre Macau existentes em Évora, e também que escrevesse artigos para publicação no Boletim do Instituto Luís de Camões, do qual era presidente.Não havia, na Biblioteca de Évora, equipamentos para microfilmagem, e a contratação de um fotógrafo, mesmo não especializado, era muito cara.Mas, na época, estava pesquisando em Portugal a Prof.ª Maria de Lourdes Ribeiro, de Moçambique, e aprendi com ela a microfilmar com uma câmara Asahi Pentax, e realizei os trabalhos solicitados por Luís Gonzaga Gomes.Foi numerosa a correspondência que mantive durante vários anos com ele. Entretanto, em decorrência das sucessivas mudanças de residência, em Portugal e no Brasil, a maior parte dela se extraviou. Mantenho apenas cinco cartas de Luís Gonzaga, quatro datadas da Calçada do Monte, 8, Macau, China, e uma, do Instituto Luís de Camões, Largo de Sto. Agostinho, 3 – 2 Macau (Via Hongkong).Uma produtiva cooperação cultural“A pesquisa de espécimes bibliográficos dedicados a Macau e o meticuloso cuidado na transcrição das fontes, o cruzamento de ideias e o agitar de opiniões dão bem a imagem do valor desta correspondência intercontinental.”António Aresta, no “Prefácio”Acaba de ser lançada mais uma edição conjunta do Real Gabinete Português de Leitura do Rio de Janeiro e do Instituto Internacional de Macau (IIM), constituindo o 29.º volume da colecção “Mosaico”. O título é “Luís Gonzaga Gomes e uma produtiva cooperação cultural Macau – Portugal – Brasil”.O autor, Carlos Francisco Moura, investigador, escritor e colaborador do IIM há mais de uma década, manteve com Luís Gonzaga Gomes, personalidade incontornável da cultura e literatura macaenses, uma estimulante correspondência que lhe permitiu, no Rio de Janeiro, onde reside, aprofundar as suas pesquisas sobre a presença de Portugal no Oriente e assegurar a Macau uma regular e competente cooperação cultural.O prefácio, confiado a António Aresta, outro respeitado investigador e colaborador do IIM, resume bem o significado deste intercâmbio epistolar que “vem ajudar a fixar melhor o perfil intelectual de Luís Gonzaga Gomes, indiscutivelmente um dos grandes vultos da contemporaneidade de Macau”, que, “para além do seu trabalho de professor, fazia de tudo um pouco como os homens do Renascimento: estudava, pesquisava, traduzia, publicava e congregava vontades”. “Com sobriedade e modéstia, mas como notava a sua irmã Margarida Gomes, também com aquela fidalguia no trato que era apanágio das velhas famílias macaenses”. Fui testemunha e pude beneficiar dessa fidalguia nas muitas oportunidades de convívio, com ambos, que as circunstâncias da vida me proporcionaram desde tenra idade.Louvável colaboraçãoFoi por sugestão de Agostinho da Silva, um daqueles raros gigantes da cultura, cujo nome e obra se projectam para a eternidade, que Carlos Francisco Moura contactou
  • 192 193 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – XI F A L A R D E N Ó S – XINa mais antiga, de 20/4/1970, para meu endereço em Évora: Biblioteca – Parque Infantil, ele acusa o recebimento da última bobine de microfilmes de documentos que eu havia tirado e solicita microfilmes de outros documentos. E mais, microfilme de uma ‘História de Macau’, a que ele nunca tivera acesso e constava existir exemplar na Biblioteca de Évora. Também providenciei esse microfilme, e fascículos dessa obra foram publicados por Luís Gonzaga no Boletim do Instituto Luís de Camões. A datada de 26/12/1971 me é dirigida ao Rio de Janeiro, onde já me encontrava de volta. Agradece novamente os microfilmes que executei em Évora, e volta a pedir textos para o BILC, ‘principalmente o que respeita à primeira fortificação de Macau, que causará, certamente, grande sensação entre os que têm escrito sobre a história desta terra’.Na de 5/5/1973 agradece a remessa do microfilme do manuscrito do século XVIII que enviei, a ‘Relação da Viagem de Diogo Baduen à China’, e dá informações sobre a publicação de números do Boletim do Instituto Luís de Camões. Na de 21/5/1973 agradece novamente o envio do microfilme e informa que o está revelando. Fala também das separatas de meu estudo sobre Tristão Vaz da Veiga.Na carta de 11/6/1975 ele agradece os elogios a seu estudo ‘Macau na época de Filipe II’. Comenta a repercussão do 25 de Abril: ‘Em Macau tem com efeito havido certa comoção com a mudança da situação política na metrópole, mas encontra tudo serenado, procurando todos trabalhar para o progresso da terra’. E dá informações pessoais: ‘Eu encontro-me reformado e deixei de trabalhar na Emissora. Passo os dias em casa, com minha imensa colecção de cassetes e discos de gramofone, a ver a televisão (não a de cá, mas vê-se e colorido os quatro canais das duas estações de Hongkong com extraordinária nitidez o que me dispensa de sair para ir ao cinema), e a decifrar os documentos da Biblioteca de Évora, de que, há anos, me fez o inestimável favor de obter o respectivo microfilme’.Daqui do Brasil enviei a Luís Gonzaga microfilme de manuscrito do século XVIII com a descrição de uma viagem, à China. Não sei se ele chegou a publicar esse documento, ou se o deixou pronto para publicar, porque pouco tempo depois de seu falecimento deixei de receber exemplares do Boletim do Instituto Luís de Camões, e aqui no Rio de Janeiro não encontrei coleções completas desse periódico”.A História de Carvalho e SouzaA pedido de Luís Gonzaga Gomes, Carlos Francisco Moura também procurou no acervo da Biblioteca de Évora uma obra “extremamente rara”, a “História de Macao” de José Manoel de Carvalho e Souza, organizada em fascículos, três dos quais foram encontrados naquela biblioteca e posteriormente publicados no Boletim do Instituto Luís de Camões em 1973. Este periódico mereceu uma importante e valiosa colaboração de Carlos Francisco Moura.Foi com a maior satisfação que o IIM publicou este trabalho, que inclui também uma extensa relação de publicações do autor relacionadas com a História de Macau, da China e do Japão e uma adequada selecção de gravuras e reproduções de cartas, capas de livros e outros documentos.27 de Outubro de 2014
  • 194 195 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – XI F A L A R D E N Ó S – XIano, em colaboração com a Casa de Portugal em Macau, o Instituto Cultural realiza a Exposição de Retratos ‘Escrever Macau em Português’. Os critérios de participação são ‘estar vivo, escrever textos sobre Macau e ter livros publicados’. Os escritores de Macau que satisfazem estes critérios foram convidados a tirar uma fotografia. O objectivo é dar a conhecer ao público os escritores de língua portuguesa de Macau, fomentar o desenvolvimento da literatura portuguesa e promover a recolha de obras originais portuguesas de Macau.Convidámos mais de trinta escritores de língua portuguesa a participar na Expo-sição.”34 escritoresSão exactamente 34 os escritores escolhidos, com breves descrições da obra literária de cada um: Agustina Bessa Luís, Alice Vieira, Altino do Tojal, Ana Cristina Alves, Ana Maria Amaro, Ana Maria Magalhães, Ana Paula Laborinho, António Augusto Menano, António Conceição Júnior, António Correia, António Graça de Abreu, António Rebordão Navarro, Carlos Frota, Carlos Marreiros, Carlos Morais José, Carolina de Jesus, Cecília Jorge, Celina Veiga de Oliveira, Eduardo Ribeiro, Fernanda Dias, Fernando Sales Lopes, Isabel Alçada, Jorge Arrimar, Jorge Rangel, José Jorge Letria, Luís Sá Cunha, Manuel Afonso Costa, Maria Helena do Carmo, Miguel de Senna Fernandes, Pedro Barreiros, Rodrigo Leal de Carvalho, Rogério Beltrão Coelho, Rui Rocha e Tereza Sena.Alguns, porém, não foram contemplados, como José Valle de Figueiredo, Cândido do Carmo Azevedo, Leonor Diz de Seabra, Beatriz Basto da Silva, Amadeu Gomes de Araújo e António Aresta, por exemplo.Escrever Macau em Português“... a literatura de Macau em língua portuguesa continuará a crescer, a renovar-se e, sobretudo, a ser uma das mais representativas expressões artísticas da Região.”Maria Antónia Espadinha, vice-reitora da Universidade de S. JoséQuando o fotógrafo profissional e artista António Duarte Mil-Homens – ele próprio, poeta – quis tirar o retrato a dezenas de pessoas com obra publicada sobre temática macaense ou inspirada nesta abençoada terra, incentivadora, pela história e pelas suas gentes, de projectos literários, algumas delas terão estranhado tal propósito. Explicada a intenção de se organizar uma exposição, na sequência de uma outra levada a efeito em 2013, dedicada a escritores locais de língua chinesa, a anuência de quantos foram contactados viabilizou a mostra há poucas semanas inaugurada no edifício do antigo tribunal e futura sede da biblioteca central. Propósitos da mostraDois objectivos nos parecem óbvios: homenagear, por um lado, os escritores de Macau e, por outro, apelar à participação de outros – e tantos são! –que ainda não quiseram ou não puderam partilhar os seus testemunhos e publicar os seus trabalhos, não obstante a existência de meios para garantir as edições.A iniciativa partiu do Instituto Cultural, que contou com a esclarecida intervenção da Casa de Portugal. Guilherme Ung Vai Meng, presidente daquele Instituto, explicou, no acto de abertura, a razão de ser desta iniciativa incluída no seu programa de acção:“O Governo da Região Administrativa Especial de Macau anunciou, no Relatório das Linhas de Acção Governativa para 2012, a criação da Casa da Literatura de Macau, a qual tem, como objectivo a salvaguarda de obras literárias e documentos históricos de Macau, e a promoção e desenvolvimento da literatura sino-portuguesa. O Instituto Cultural realizou, no ano passado, a exposição ‘Caras da Literatura de Macau em Língua Chinesa 2013’, mostra que teve como alvo escritores chineses de Macau. Este
  • 196 197 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – XI F A L A R D E N Ó S – XILiteratura de MacauMas, o que é ou como se caracteriza a literatura de Macau em língua portuguesa? Maria Antónia Espadinha, professora emérita da Universidade de Macau e agora vice-reitora da Universidade de S. José, oferece-nos esta resposta:“Podemos dizer que literatura de Macau existe desde o momento em que alguém escreveu, em português, um poema, um conto, um ensaio tendo Macau como tema ou como cenário fosse qual fosse a origem do autor.Definir o que é ‘literatura de Macau em língua portuguesa’, circunscrevê-la, não é fácil. Nas últimas décadas tem havido alguma preocupação em definir o que é a literatura de Macau. Partir de uma ou de várias dessas definições, maioritariamente propostas por autores chineses a propósito da literatura em língua chinesa pode de algum modo, facilitar-nos a tarefa. Podemos, no entanto, ressalvar que qualquer dos critérios que têm sido utilizados não satisfaz a todos, ou porque é demasiado restrito, ou porque, pelo contrário, é demasiado abrangente. Quanto a nós, preferimos um critério muito abrangente, até por ser ele o que melhor reflecte a maneira de ser do Território, porto de abrigo para todos os que a ele acorreram, terra adoptiva de e adoptada por todos os que nela encontraram um lugar para viver.Fazemos nossos a opinião e o critério enunciados por Cheng Wai-Ming para a Literatura de Macau, e que tanto Yao Jing Ming (‘Em busca do habitável a partir da Antologia de Poesia Contemporânea de Macau’) e Ana Paula Laborinho (‘Macau na Escrita, Escritas de Macau’) referem e citam.Tomamos como ponto de referência as palavras de Cheng Wai-Ming, que considera ‘literatura de Macau’• ‘Quaisquer obras dos naturais de Macau’ ou• ‘as obras dos escritores titulares dos documentos de identidade de Macau’, ou ainda• ‘Todas as obras que falem de Macau ou tenham por temas a realidade de Macau, seja quem for o seu autor’.”Parece – e bem – a Maria Antónia Espadinha que se deve também integrar neste conceito a obra literária em patuá: “Se, à última definição proposta por Cheng Wai-Ming, acrescentarmos três pequenas palavras, estaremos a encontrar uma definição clara do objectivo que pretendemos. Diríamos então que a literatura portuguesa de Macau é constituída pelos textos literários escritos em português ou em patuá, o crioulo macaense de base portuguesa, e que tem Macau como tema ou como cenário.”O fotógrafoNatural de Lisboa e residente permanente de Macau, António Duarte Mil-Homens tem mais de 40 anos de experiência como fotógrafo profissional e artista, com 18 exposições individuais e trabalhos apresentados em 21 colectivas.Leccionou já dezenas de cursos de Fotografia, incluindo workshops de Fotografia Digital. Obras suas integram inúmeras colecções particulares. Este conjunto de retratos atesta bem a sua indiscutível qualidade.4 de Novembro de 2014
  • 198 199 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – XI F A L A R D E N Ó S – XICentro de Artes de Hong Kong. Começou então a sua experiência internacional como artista, tendo obras espalhadas pelo mundo, em colecções particulares e oficiais, principalmente em Macau, Hong Kong, Portugal, República Popular da China e Estados Unidos da América.Em 2008, foi convidado para, juntamente com artistas de mais de 80 países, integrar a Exposição de Artes Plásticas da Cidade Olímpica de Pequim. Memoráveis foram também as suas exposições na galeria dos Serviços de Turismo de Macau, nos hotéis Lisboa e Mandarin Oriental e no Palácio de Cristal, no Porto. Foram as suas verdadeiras “rampas de lançamento”.Conheço Eugénio Novikoff Sales desde a realização da sua primeira exposição, que, com muito gosto, pude apoiar, exortando-o a ir mais longe. Um dos seus quadros, de nítida influência africana, acompanhou-me ao longo dos anos em sucessivas mudanças de residência, estando hoje exposto numa sala da minha casa em Portugal. Pude depois acompanhar a sua carreira, sempre admirando a sua originalidade e criatividade, bem como o entusiasmo e a imaginação que cada obra sua espelha, como é visível nesta última mostra a que o artista chamou “Oh! Lusofonia – Repicando”.Numa apreciação crítica, outro consagrado artista macaense, António Conceição Júnior, escreveu que “os trabalhos de Eugénio Novikoff Sales valem sobretudo pelo dramatismo que os aproxima de uma Guernica colorida, cor que toma outra expressão, porventura dilacerante, decididamente dramática” e “a sua pintura transporta um fascínio que decorre do indizível da sua interioridade”.Pintores lusófonos expõem em Macau“A sua pintura transporta um fascínio que decorre do indizível da sua interioridade.”António Conceição Júnior, sobre a obra de Eugénio Novikoff SalesNo âmbito da Semana Cultural da China com os Países de Língua Portuguesa, levada a efeito no mês passado em Macau, três artistas lusófonos tiveram as exposições dos seus trabalhos mais recentes inauguradas quase em simultâneo: Eugénio Novikoff Sales, macaense, na Residência Consular de Portugal, Benjamim Sabby, de Angola, na galeria da Fundação Rui Cunha, e Sebastião Matsinhe, de Moçambique, no Salão Ho Yin do Clube Militar de Macau. Presidiram à tradicional cerimónia do “corte da fita” o secretário-geral e os secretários-gerais adjuntos do Fórum para a Cooperação Económica e Comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa, embaixadores acreditados em Pequim, o cônsul-geral de Portugal em Macau e Hong Kong e alguns presidentes de associações de matriz portuguesa.Foi uma boa oportunidade para, no domínio das artes plásticas, se estimular um maior diálogo cultural entre artistas do mundo lusófono, ficando criados os incentivos para uma participação mais alargada de pintores e escultores em edições futuras desta importante iniciativa promovida pelo Fórum para a Cooperação.Eugénio Novikoff SalesFilho de pai macaense e mãe russa, Eugénio Novikoff Sales nasceu em Macau, em Dezembro de 1960. Viveu em Moçambique e em Portugal e regressou à sua terra natal ainda adolescente. Aqui encontrou condições para desenvolver os seus talentos artísticos descobertos desde tenra idade.Fez a sua primeira exposição com apenas vinte anos de idade, no então Museu Luís de Camões, sendo a mesma acolhida, no ano seguinte (1981) pelo prestigiado
  • 200 201 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – XI F A L A R D E N Ó S – XIBenjamim Sabby“Mambos Urbanos” é o título da mostra de pintura, fotografia e algumas instalações deste artista natural de Luanda, onde nasceu em 1974. Estudou na Escola Nacional de Belas Artes de Angola, sendo presentemente professor de Educação Visual e Plástica e funcionário da Direcção Nacional de Formação Artística.Membro da União Nacional de Artistas Plásticos, Benjamim Sabby foi consultor e curador de importantes mostras apresentadas em Angola e integrou dezenas de exposições colectivas, além das sete individuais que protagonizou, de 1999 a 2014. Obras suas fazem parte de numerosas colecções particulares e de instituições angolanas e estrangeiras.Influenciado pela sua atenta observação da vida quotidiana na sua cidade natal, cuja sociologia urbana procurou interpretar e expressar, esta mostra é uma homenagem aos “novos heróis urbanos”, que são, no seu entender, os trabalhadores de rua das urbes angolanas, desde os ardinas e engraxadores aos lavadores e arrumadores de carros. O pulsar da cidade, em caótico desenvolvimento, e os movimentos surpreendentes das suas gentes na labuta diária são os grandes motivos inspiradores do laureado artista.Sebastião MatsinheOs acrílicos sobre cartão e sobre tela, com o enfoque em motivos predominantemente naturalistas, caracterizam esta exposição do pintor moçambicano, natural de Cambine, província de Inhambane, que cresceu e estudou na cidade de Maputo.Foi um desportista de eleição, praticando ginástica, basquetebol e atletismo, mas a sua carreira no desporto federado foi subitamente interrompida devido a uma condição médica grave que o fez reorientar os seus interesses e talento para as artes plásticas, como forma de expressão dos seus anseios de legítima afirmação nos quadrantes da vida.Depois de três exposições individuais, frequentou a Universidade do Cabo Ocidental (University of the Western Cape) onde obteve o bacharelato, a licenciatura e o mestrado em Artes. Os seus trabalhos foram apresentados em dezenas de exposições, doze das quais individuais.Sebastião Matsinhe dedica-se também à música e a acções de apoio a crianças desfavorecidas, bem como à valorização da artistas do seu país. O seu contributo para o desenvolvimento cultural e para a promoção do progresso de Moçambique é amplamente reconhecido.“O Beijo da Natureza” foi o título escolhido para esta mostra apresentada em Macau. Na opinião do seu antigo professor na África do Sul, Emile Boonzaier, “a arte de Sebastião é, sobretudo, uma reflexão da sua personalidade e experiência da vida”. “Alguns podem muito facilmente caracterizar o seu trabalho como arte ‘primitiva’, mas certamente falham o alvo. Eu sei que ele pensa profundamente acerca de cada uma das suas criações, muitas das quais falam e exibem uma compreensão sofisticada dos actuais problemas sociais e políticos”. De facto, as suas obras parecem “naif”, mas elas traduzem profundidade em relação aos desafios do homem na luta contra a adversidade e aos dons da natureza envolvente.
  • 202 203 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – XI F A L A R D E N Ó S – XITrês artistas em contraste de formas, estilos e cores na nossa cidade. De origens diferentes, mas tendo em comum a lusofonia como traço de união e projecto de futuro que o Fórum para a Cooperação promove e quer consolidar e alargar.10 de Novembro de 2014Nos anos derradeiros do território de Macau sob administração portuguesa, tal como aconteceu no período que se seguiu à transição, vários álbuns, de elevada qualidade e com motivos relacionados com o património, o desenvolvimento e aspectos gerais do quotidiano da cidade e da população, mereceram significativos apoios oficiais que viabilizaram a sua oportuna publicação. Um deles, com texto introdutório, legendas e uma nota final em três línguas (chinês, português e inglês), teve por título “Cores de Macau”, reunindo cerca de três centenas de sugestivas fotografias da autoria de qualificados membros da Sociedade Mundial de Fotógrafos Chineses (The Society of Worldwide Ethnic Chinese Photographers). Com o patrocínio da então Fundação para a Cooperação e Desenvolvimento de Macau, este livro, impresso em Hong Kong e amplamente distribuído em 1999, foi coordenado por Yang Shaoming, coadjuvado por Li Yuan, tendo a tradução para a língua portuguesa sido assegurada por Wu Zhiliang, João Reis e Cao Jinfeng.A excelente selecção fotográfica foi coerentemente arrumada em diferentes capítulos: Novos aterros, Recordando, Legados, Linhagem, Encontro de culturas, De geração para geração, Culto, Charme de uma pequena cidade, A meca dos turistas, Paleta do fotógrafo, Olhando o futuro e Sinfonia de Macau, terminando o livro com a lista completa dos 168 fotógrafos participantes.Curiosa visão da históriaUma equipa editorial com cerca de vinte membros, todos chineses, preparou os textos e as legendas, sendo assaz curiosa a sua visão deste território, em vésperas da transferência de poderes de Portugal para a República Popular da China. Quinze anos volvidos, é interessante reapreciar alguns desses textos:Cores de Macau“... os doze capítulos que compõem este álbum funcionam, em conjunto, como uma sinfonia, possibilitando, a nosso ver, aos leitores um conhecimento ainda mais profundo dos múltiplos aspectos de Macau.”
  • 204 205 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – XI F A L A R D E N Ó S – XI“Um banco de areia constitui um espaço de comunicação entre a península de Macau e a cidade de Zhuhai, da Província de Guangdong. Diariamente, um enorme fluxo de pessoas atravessa a linha de demarcação, conhecida por 'Guanzha', ou 'Portas do Cerco'. Navios de toda a espécie e tamanhos fazem constantes ligações entre as ilhas adjacentes. As fronteiras esmaecem.Há mais de quatrocentos anos, aventureiros portugueses fizeram, com sucesso, a passagem para o Oriente. Atingindo Macau, os seus navegadores e missionários trouxeram a cultura europeia ao limiar da cultura tradicional chinesa. Macau tornou-se, assim, o destino de muitas figuras históricas, incluindo Luís de Camões, Matteo Ricci, Lin Zexu, Wei Yuan, Zheng Guanying, Camilo Pessanha, Sun Yatsen, entre outros. Ao longo dos tempos, as duas culturas contrapunham-se, mas acabariam por se consensualizar. Povos de diferentes raças acabaram por viver em paz e prosperar.O estilo de vida dos marinheiros, e a indústria de jogo combinaram com a lúdica paisagem tropical, contribuindo todos para uma única e colorida cultura, que é a característica de Macau.No século XVI, a batalha pela supremacia dos mares entre a Inglaterra, Holanda e Espanha levaram os portugueses a lançarem os olhos para zonas mais afastadas do Globo. A partir de 1553, os portugueses ocuparam, gradualmente, Macau e fixaram a residência em terra, sob contrato de arrendamento a longo prazo. Estabeleceram postos de comércio, através dos quais organizaram um esquema de trocas de mercadorias com a Europa, via Índia, até se aventuraram a outras regiões do Pacífico. Era uma alternativa mais eficaz às rotas da seda e da prata.”Encontro de culturasMais adiante, os autores incidiram a atenção em Macau como ponto de encontro de culturas:“Condições favoráveis, tanto geográficas como culturais, permitiram aos portugueses aclimatarem-se bem em Macau. A imagem da Praia Grande recordava-lhes Lisboa, de onde eram oriundos. Os imigrantes portugueses, a maioria deles, marinheiros e pescadores, encontravam uma certa afinidade com o estilo de vida do Sul da China: A-Ma, a deusa-do-mar, oferecia conforto e bênção aos locais, assim como Nossa Senhora fazia com os portugueses; a dança de dragão tinha um modo aparentado com as procissões da sua religião; templos de divindades locais e paróquias católicas serviam os crentes lado a lado, harmoniosamente. Os portugueses trouxeram a Macau a sua cultura, arquitectura e o seu modo de vida. Hoje, portugueses nascidos em Macau encontram-se em todos os cantos do mundo, que, regularmente, regressam a esta terra para se reencontrarem na terra onde nasceram e de onde partiram.Em relação às particularidades do Território, e do seu passado, as cidades modernas que hoje são Hong Kong e Macau, constituem uma aleatória referência. Mas, com uma população de menos de meio milhão de pessoas, Macau é mais uma cidade histórica do que comercial. Desde o seu estabelecimento como porto marítimo, há mais de quatrocentos anos, Macau demonstra um complexo, muitas vezes, uma tendência para reviver o passado. Com a Revolução Industrial, a Espanha, Holanda, Inglaterra e os Estados Unidos, todos reconheceram a importância de Macau, como porta doirada para o Império do Meio. Lutaram entre si para marcarem presença em
  • 206 207 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – XI F A L A R D E N Ó S – XIMacau, e daqui para penetrarem na China, por meio de canhoneiras. Depois da Guerra do Ópio, Portugal assumiu o exercício da soberania sobre Macau.Ao longo dos séculos, missionários portugueses contribuíram muito para o intercâmbio cultural entre o Oriente e o Ocidente. Intelectuais chineses com visão estratégica, consideravam Macau uma janela, através da qual os chineses poderiam entrar em contacto com os europeus. Foi em Macau que Lin Zexu e Wei Yuan tiveram os primeiros conhecimentos da cultura europeia. O Dr. Sun Yatsen utilizou Macau como uma das suas bases para planear o derrube da Dinastia Manchu.”Uma nova eraÉ assim que o texto introdutório chama a atenção para a “chegada de uma nova era” e para perspectivas “brilhantes” no século XXI:“Um panfleto publicado pelo Governo de Macau afirma que ‘antes dos anos sessenta, a fisionomia de Macau mantinha-se essencialmente a mesma. Nos anos oitenta Macau desenvolveu-se, atingindo o seu auge nos anos noventa’. A abertura da China, e o desenvolvimento económico da Ásia provocaram rápidas mudanças em Macau. Zhuhai, um bem sucedido exemplo da zona económica especial da China, tornou-se um estímulo recíproco para o desenvolvimento do Território. Hoje em dia, o transporte de mercadorias da China, e o fluxo de residentes de Macau, através de ‘Guanzha’ (Portas do Cerco) revelam a imagem de uma vida dinâmica e renovada de Macau. Actualmente, o povo está à espera da chegada de uma nova era com a transferência dos poderes e criação de uma administração pelas gentes locais. Sem qualquer dúvida, Macau, com o apoio da Pátria, transformar-se-á, no século XXI, em símbolo de brilhantes confluências culturais.”Este álbum constitui um relevante registo de imagens de Macau no fim de um tempo e em vésperas de abraçar outros desafios, com o estatuto político oficialmente redefinido. 17 de Novembro de 2014
  • 208 209 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – XI F A L A R D E N Ó S – XIFernando Pinto do Amaral dedicou este poema a Li Shangyin, poeta chinês da dinastia Tang:“Quando me encontro contigosofro sempre ao separar-meSofro porque não consigoencontrar no que te digopalavra que nos desarmeJá sem força o vento lestefez murchar este jardime do amor que me destenão há lágrima que restenão há nada para mimO bicho-da-seda teceo seu fio até à mortee tudo o que me apeteceé que já nem regressee que nada mais importeNo espelho da triste auroratornou-se cinza o meu prantoe os teus cabelos agorasão nuvens que também choramesta saudade que canto”III Encontro de Poetas Lusófonos e Chineses em preparação“... esta colecção de poesia é publicada em três línguas. O que reflecte o hibridismo cultural de Macau.”Yao Feng, nota final de “Navegar ou Cantar” (IIM, FJA, CNC e Albergue SCM, 2013)As entidades promotoras dos dois primeiros Encontros de Poetas Lusófonos e Chineses – o Centro Nacional de Cultura, a Fundação Jorge Álvares e o Instituto Internacional de Macau – estão a preparar a realização da terceira edição deste importante e bem sucedido evento cultural, a qual deverá ter lugar em Lisboa no próximo ano. Os encontros anteriores foram organizados em Macau, com muito boa participação, tendo o segundo contado também com a empenhada adesão do Albergue SCM e do seu director-geral, Carlos Marreiros.Dois volumes reunindo contribuições dos poetas presentes, nas versões original e traduzida, foram apresentados logo no início dos respectivos encontros, em 2006 e 2013. Ambos tiveram a competente coordenação do poeta Yao Feng, cujo envolvimento foi fundamental para o êxito conseguido.Já fizemos referência, neste espaço, ao livro “Macau – Poetas e Poemas”. O do segundo Encontro chamou-se “Navegar ou Cantar – selecta de poemas dos participantes no II Encontro de Poetas Chineses e Lusófonos”.Navegar ou Cantar Poemas de 25 participantes (Bai Hua, Fernando Pinto do Amaral, Pan Wei, Christopher Kelen, Zheng Danyi, Inês Fonseca Santos, Huang Lihai, Un Sio San, Yang Zi, Chen Zhiyun, Lu Weiping, Manuel Afonso Costa, Manuel Tavares de Pinho, Rong Cong, Shu Dandan, Luís Quintais, Cheng Yishen, Diogo Vaz Pinto, Han Lili, Song Zijiang, Bruce Lou Kit-wa, Ling Gu, Sou Vai Keng, Gaaya Cheng e Yao Feng) integram esta selecta. Vários poetas residentes em Macau, entre os quais Carlos Frota, acompanharam de perto as sessões e os convívios realizados.
  • 210 211 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – XI F A L A R D E N Ó S – XIDe Zheng Danyi seleccionámos para este espaço o poema “Dias Melancólicos se encontram no Outono” (traduzido por Rui Cascais):“Como posso fazer-te acreditar que isto é o OutonoQuanto tudo aquiProva o oposto!Quando a melhor vista é um vazioQuando a mais fria água pega fogoQuem sabe – colo o meu ouvidoA um sino. Quem sabe – Encomendei uma rajada de vento! Num mêsAs folhas caíramO sino esgotou o seu repiqueComo pode ter sido vinhoA privar-me do meu desgosto!Como podes tu, caminhando sozinhoTer-te tornado escravo da tua almaComo podem os pássaros, mortos há muitoSubitamente reaparecer no céu?Outono. Dias indescritíveisDias em que o fogo extingue fogoNão, como posso fazer-te acreditarQue estes são dias em que electricidade sedobra em metalEstes são dias de apocalipse! Quando eu, para tiescancaro a porta da morte...Agora entra. Perplexas faces, gloriosas facesDias melancólicos se encontram no Outono!”
  • 212 213 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – XI F A L A R D E N Ó S – XIYao Feng (pseudónimo de Yao Jingming, professor do Departamento de Português da Universidade de Macau), escolheu o poema “Velho Cavalo” para a selecta:“O velho cavalo está habituado ao cocheiro, aos passantese aos veículos, o que significa já habituar-sea não galopar.A sua pele, tal como uma parte do crespúsculovê-se suja, frouxa, bem próxima da escuridão.As patas ferradas tornam o caminho sem relvamais prolongado aindaBebendo numa barulhenta taberna da vila,vi que o cavalo baixou a cabeça e puxou com toda a forçauma carroça carregada para a rampa,mas eu não sei como dizer em sua língua:Vem beber um copo comigo!”Estes são apenas três dos poemas que integram o volume intitulado “Navegar ou Cantar”. No III Encontro, cujas datas deverão ser escolhidas até ao fim do corrente ano, será certamente publicada mais uma selecta, como testemunho desta iniciativa singular que merece continuidade.24 de Novembro de 2014Trouxemos já para este espaço do Jornal Tribuna de Macau depoimentos vários sobre os gravíssimos incidentes que, em 1966/67, abalaram o território e subverteram os difíceis equilíbrios que caracterizavam a sua gestão política desde o estabelecimento formal da República Popular da China, em 1949.No livro “A Reserva Naval em Macau”, de António Miranda da Rocha (AORN, Junho de 2013), publicado em Lisboa com apoios da Comissão Cultural da Marinha, da Fundação Jorge Álvares e do Instituto Internacional de Macau, o autor, que prestou serviço neste território como oficial da Reserva Naval, oferece-nos um relato daqueles insólitos acontecimentos. Transcrevemo-lo, com a devida vénia, como forma de divulgar a obra e de proporcionar a um círculo mais alargado de leitores a oportunidade de melhor se conhecer um período de enormes incertezas sobre o futuro. Foi esse, sem dúvida, um dos mais violentos tufões políticos da história plurissecular de Macau.Tentativa de uma revolução cultural“Os acontecimentos de finais de 1966, em Macau, considerados como directamente relacionados com a revolução cultural, foram, em resumo, originados por um conflito entre sectores da população e forças policiais a pretexto do embargo de umas obras (transformação de um velho prédio na Ilha da Taipa em escola ligada à Associação de Moradores, de conotação comunista). Seguiu-se o desencadear de motins, em 15 de Novembro de 1966, intensamente explorados na imprensa chinesa, em especial através do jornal Ou Mun, pelas correntes mais radicais e extremistas, que transformaram Mais um relato sobre os efeitos da revolução cultural chinesa em Macau “Até ao início da revolução cultural, as relações entre Portugal e a China regem-se, desde 1 de Outubro de 1949 (data da proclamação da R.P.C.), por uma inteligente e hábil gestão de interesses mútuos, sempre com Macau em pano de fundo, através de apertadas relações informais...”António Miranda da Rocha, Junho de 2013
  • 214 215 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – XI F A L A R D E N Ó S – XIeste incidente parcial num caso político em que o tema central era: ‘os fascistas e os imperialistas portugueses contra a pacífica população chinesa’.Constituindo apenas os primeiros de uma série de incidentes que, no quadro da revolução cultural, viriam a eclodir fora das fronteiras da China comunista, envolveram confrontos violentos protagonizados por militantes e organizações maoístas radicais que procuravam espalhar o espírito da ‘Grande Revolução Cultural e Proletária’.Foi assim que, nos dias 30 de Novembro e 1, 2, e 3 de Dezembro de 1966, alunos guiados e incitados por professores ‘sob a direcção do pensamento de Mao’, ocuparam o Palácio da Praia Grande e ali ficaram a ler, em voz alta, os ‘ensinamentos’ constantes do famoso LIVRO VERMELHO, com as ‘Citações do Presidente Mao Tsé-Tung’, que havia sido publicado em chinês uns dias antes, em 25.11.1966, em Macau, e era a principal bandeira da revolução cultural.No dia 3, os ‘Hongs Wái Peng’ (Guardas Vermelhos) entraram de roldão no Palácio, subindo as escadas e partindo à sua passagem os grandes vasos antigos que decoravam o átrio e a escadaria de acesso ao primeiro andar. De punhos no ar, gritavam pensamentos de Mao contra os imperialistas, tigres de papel, e muitos vivas ao grande líder chinês. O Governador, Brigadeiro José Manuel de Sousa e Faro Nobre de Carvalho, que havia chegado a Macau há poucos dias, 25.11.1966, não teve outra solução senão mandar a polícia desalojar à força os manifestantes.Em frente do Palácio do Governo, a polícia sustinha a turba que enchia a Praia Grande até ao Palácio das Repartições. Os agitadores formaram cordões, dando-se as mãos. Passou um jipe da Polícia Marítima e Fiscal e foi derrubado; seguiram-se escaramuças graves. Apesar de tudo, são desalojados e, já da parte da tarde, seguem em direcção ao Edifício das Repartições Provinciais, que é apedrejado, e, na sequência, são partidas as janelas e portas e é quebrada a estátua da Justiça, dentro do mesmo edifício. Fora, é vandalizada a estátua de Jorge Álvares, que, segundo os manifestantes, foi um português ‘que há mais de 400 anos veio à China entregar-se a actividades agressivas’.Daqui passaram ao Leal Senado, onde cerca de quatro centenas de estudantes, durante três horas, destruíram livros, documentos, arquivos históricos, retratos dos governadores, alfaias e vidros, armas da cidade e automóveis dos empregados. A estátua do Coronel Mesquita (um ‘agressor com as mãos tintas de sangue do povo chinês’, segundo os maoístas) foi, depois de lhe tirarem a espada, derrubada do seu pedestal, no Largo do Senado. O mesmo vandalismo no Cartório Notarial, onde fizeram em pedaços todos os documentos e utensílios.Uma camioneta cheia de manifestantes sobe a Rua Central em direcção às instalações da Polícia de Segurança Pública, onde se encontrava armamento. O Major Vaz Antunes, 2.º Comandante da PSP, deu ordem de fogo; o motorista é ferido e há debandada geral. A situação estava a tornar-se insustentável, pois parecia esboçar-se uma certa anarquia e instalar-se um ambiente de terror na cidade. Foi, então, proclamado pela rádio o estado de emergência, proibindo-se a reunião de grupos e fixando-se a hora de recolher. Mas muitos não tinham rádio e outros não o ligaram; assim, quando a tropa saiu para a rua disposta a fazer fogo, havia lá muita gente que nada sabia sobre a proclamação do estado de emergência. Durante a semana que durou o estado de emergência, houve 8 mortos, 212 feridos e 62 detenções”.
  • 216 217 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – XI F A L A R D E N Ó S – XIProtestos e pressõesUm ambiente de enorme tensão envolveu rapidamente a cidade, afectando a população e alterando as suas rotinas diárias. Através de jornais e constantes e ruidosas manifestações, enérgicos protestos e advertências foram ganhando maior dimensão, ao mesmo tempo que diversas formas de pressão se foram tornando mais visíveis:• ancoragem de navios de guerra ao largo de Macau (quatro vedetas da R.P.C. patrulham continuamente as águas que rodeiam o enclave e, nos momentos mais críticos, fazem gala em violar as águas territoriais, penetrando no Porto Interior);• concentração, nas imediações da fronteira, de cerca de dez mil homens do Exército Popular de Libertação (nome oficial das Forças Armadas Chinesas), acompanhada da instalação de baterias de artilharia e morteiros, fazendo exercícios de camuflagem;• realização, nas proximidades do território da Província, de grandes manifestações dos Guardas Vermelhos, exibindo cartazes de conteúdo hostil;• boicote organizado à satisfação das necessidades básicas da população portuguesa, macaense e chinesa que trabalha para a Administração Portuguesa.”As exigências foram, então, subindo de tom, sendo matéria que ficará para o próximo artigo. Quase meio século volvido, vale a pena relembrar acontecimentos que podiam, num outro contexto político, ter prejudicado defintivamente o percurso histórico que nos levou até aos nossos dias e à criação da RAEM.1 de Dezembro de 2014No artigo anterior, pudemos apreciar o relato de António Miranda da Rocha (“A Reserva Naval em Macau”, AORN, 2013) sobre os incidentes que, nos primeiros dias de Dezembro de 1966, abalaram Macau. Seguiram-se fortíssimas pressões, também identificadas naquele relato. Exigências formuladasO autor resumiu desta forma as duras exigências então apresentadas e satisfeitas:“Mais tarde, ocorre a aceitação pelas Autoridades Portuguesas das condições impostas pelo Governo Provincial de Guangdong – através de O Cheng Peng – e por uma comissão de representantes localmente eleita, como única via realista para solucionar a crise (realce para: pagamento de cerca de dois milhões de patacas; exoneração de funções e regresso a Lisboa dos ‘principais culpados’, ou seja, do Comandante Militar Mota Cerveira, do Comandante da P.S.P. Galvão de Figueiredo, do Segundo Comandante da P.S.P. Vaz Antunes e do Administrador interino do Concelho das Ilhas, Rui de Andrade; entrega à R.P.C. de sete agentes nacionalistas da Formosa capturados em águas territoriais pela Marinha Portuguesa, através da Polícia Marítima e Fiscal, em Junho de 1963, acusados de utilizarem Macau como base para incursões armadas e sabotagens no interior da R.P.C.; encerramento da ‘Associação Geral dos Operários’ e da ‘Associação Geral dos Refugiados Chineses Residentes em Macau’, organizações dos nacionalistas da Formosa e do Partido Kuomintang de Chiang Kai-Check). Tudo isto configura uma situação de visível debilidade do poder exercido pelo Estado Português e de consequente reforço do papel desempenhado, directa e indirectamente, pelas insituições comunistas chinesas em Macau.Macau — do “1-2-3” ao 25 de Abril “O tempo a todos vence, pela morte, pela mudança de gerações e pelo esquecimento, a menos que fiquem registos dos conceitos, das intenções e dos factos”General Garcia Leandro, na introdução a “Macau nos Anos da Revolução Portuguesa (1974-1979)”
  • 218 219 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – XI F A L A R D E N Ó S – XINo entanto, o pragmatismo da posição portuguesa aliado à prudente paciência dos governantes e autoridades de Macau fizeram com que a bandeira portuguesa continuasse a flutuar no Território. Por fim, assinale-se que a crise de 1966/67, dando origem a poderosas movimentações de massas e envolvendo a intervenção de instâncias governamentais chinesas, prolongar-se-ia muito para além do final da década de sessenta, com consequências em larga medida irreversíveis.”Os acontecimentos na visão de garcia LeandroO General Garcia Leandro, que foi Governador de 1974 a 1979, também nos proporcionou, no seu livro “Macau nos Anos da Revolução Portuguesa (1974-1979)”, publicado pela Gradiva em Fevereiro de 2011, a sua visão sobre aqueles acontecimentos e seus reflexos na gestão pública do território:“As sucessivas revoluções internas que Mao foi desencadeando na China atingiram o seu zénite com a ‘Revolução Cultural’, com consequências graves e violentas em Hong Kong e Macau, em 1966 e 1967.A 25 de Novembro de 1966, chegou a Macau o governador Nobre de Carvalho. Poucos dias depois, viu-se envolvido na crise do ‘1-2-3’, a mais grave que abalou Macau no século XX e que foi, sem dúvida, o maior levantamento social jamais vivido no Território.Com o apoio político da China maoísta radical, os guardas vermelhos entraram em acção, manifestando-se contra a presença portuguesa e provocando distúrbios públicos, recorrendo à violência física e tentando ocupar edifícios oficiais. Em Hong Kong aconteceu o mesmo.O novo governador, sem qualquer responsabilidade no que se passara antes da sua chegada e no que veio a ocorrer, foi abandonado pelo Governo de Lisboa e teve de resolver sozinho a situação, tendo a Administração Portuguesa em Macau sido muito humilhada. De um modo que, hoje, é difícil de acreditar!Em Lisboa, os jornais iam preparando a opinião pública para o pior, chegando mesmo a noticiar «graves acontecimentos»... que não tinham ocorrido. Toda esta crise está bem explicada e detalhada no livro de José Pedro Castanheira ‘Os 58 Dias Que Abalaram Macau.’A autoridade da Administração só se começou a recompor, de forma difícil e lenta, a partir de 1970. Nobre de Carvalho, que foi ganhando a confiança da população local, teve o seu poder sempre muito condicionado pelos incidentes do ‘1-2-3’, em consequência deste imbróglio, criado pela situação política local e pelas dificuldades de gestão em Lisboa.Nobre de Carvalho viria a ser apoiado pelos empresários locais e de Hong Kong e concentrou todas as suas capacidades na construção da primeira ponte Macau-Taipa, inaugurada em Outubro de 1974. É ainda durante a sua Administração que se concretizam dois grandes investimentos privados, com muito significado na época: o Hotel Lisboa, da Sociedade de Turismo e Diversões de Macau, em 1970, e o Palácio da Pelota Basca (Jai Alai), em 1974.
  • 220 221 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – XI F A L A R D E N Ó S – XIQuase no final do mandato de Nobre de Carvalho, no segundo semestre de 1973, viria a ocorrer o ruir brusco e descontrolado da Bolsa de Hong Kong e, em Outubro do mesmo ano, Macau e Hong Kong seriam profundamente abalados pela primeira grande crise mundial do petróleo. Em 1974, a situação agravou-se com a revolução portuguesa de 25 de Abril, que veio pôr, novamente, tudo em causa. Os responsáveis locais e a população foram apanhados de surpresa e o Governo de Macau só veio a reconhecer a nova situação política de Portugal a 29 de Abril...Acontece que o Conselho Legislativo dera, em 22 de Abril, a sua concordância ao governador para ser enviada uma mensagem de apoio e confiança ao professor Marcelo Caetano. Com os acontececimentos do dia 25, caiu-se num impasse, não sendo fácil dar apoio à nova situação que contrariava completamente a linha de orientação anterior. No entanto, no dia 29, seguiria novo telegrama de apoio à revolução, contra a opinião coerente da dra. Graciete Batalha. (Este episódio é explicado num outro capítulo do livro).Logo nos primeiros dias, sucederam-se os escândalos, publicados diariamente na imprensa. A censura (nunca tinha existido para os jornais em língua chinesa) terminara para a comunicação social portuguesa. E levantaram-se, naturalmente, muitas dúvidas quanto ao futuro de Macau.”É indispensável a leitura do livro de Garcia Leandro para se conhecer a situação aqui vivida imediatamente antes e após o 25 de Abril de 1974, bem como os desafios enfrentados em circunstâncias extremamente difíceis.O General Nobre de Carvalho exerceu as altas funções de Governador ao longo de oito anos (1966-1974), entre duas revoluções cujos reflexos foram de todo inevitáveis no território: a “revolução cultural” na China e a revolução do 25 de Abril em Portugal. Nobre de Carvalho partiu após a inauguração da primeira ponte que ligou a cidade de Macau à ilha da Taipa, em Outubro de 1974, sendo escolhido para o substituir o jovem Major José Eduardo Garcia Leandro (1974-1979). Foi ele o primeiro dos seis governadores com quem trabalhei em Macau, ao longo dos últimos 25 anos da Administração Portuguesa. 9 de Dezembro de 2014
  • 222 223 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – XI F A L A R D E N Ó S – XI Mantenho com Mio Pang Fei relações que valem por serem antigas e imensamente positivas, construídas na admiração e respeito pela sua produção artística e pelo percurso de vida que teve. Acompanhei, até por isso, com muita satisfação, as significativas homenagens que lhe têm sido prestadas, a última das quais foi a produção e exibição do documentário “Mio Pang Fei” do realizador português Pedro Cardeira, centrado na vida e na obra de um dos maiores artistas plásticos de Macau e da própria China. Natural de Xangai (1936), reside em Macau, base permanente das suas actividades desde 1982.Um prefácio ainda oportunoEm Janeiro de 1999, sendo membro do Governo de Macau, assinei um dos textos de introdução ao livro “Mio Pang Fei”, publicado pelo Centro de Estudos de Arte e Cultura Oriental e Ocidental, com o apoio do Instituto Politécnico de Macau e da Fundação Macau. Associo-me a todas essas justíssimas homenagens, republicando aquele prefácio que, tantos anos volvidos, creio permanecer inteiramente actual e oportuno:“Se há palavra que emoldura a obra do Mestre Mio Pang Fei, ela é, seguramente, grandeza, porque nela está espelhada a alma de um artista verdadeiro, cuja dimensão o faz situar-se na universal genealogia intemporal da grande arte.Desde as memórias arqueológicas da China e os grandes frescos ou murais de outras antigas civilizações, tudo quanto pertenceu à longa cadeia deste diálogo eterno fascinou o olhar do Pintor, porque realizações eternas do espírito, a desafiar a usura Homenagens a Mio Pang Fei “Uma linguagem tão forte e tão expressionista — às vezes quase contundente — parece ultrapassar o âmbito da Pintura e de todas as Artes — e dos admiradores e coleccionadores dos belos objectos — para se transfigurar e se tornar num depoimento voraz sobre a humanidade e o seu tempo”.Luiz de Oliveira Dias, texto de introdução ao livro “Mio Pang Fei”, Janeiro de 1999letal dos tempos, em titânica escalada de imortalidade. Os ventos das fortes ambiências clássicas sempre estremeceram a sua alma.É, pois, espectacular surpreender o Artista na intimidade do seu trabalho, humilde figura ante painéis gigantescos, e ver como a sua forte presença entra pela pintura dentro.Num outro aspecto tem também Mio Pang Fei a marca que fatalmente assinala os homens superiores: o sofrimento da maldição. Também ele amaldiçoado, ou seja, sagrado. Mistério com que os deuses iniciam os que instigam por mais altos caminhos, ou para se humildarem no amor de todos ou para lhes esporear a busca constante e a chispa sagrada.Nunca saberemos o quanto Mio Pang Fei terá sido ciliciado com os sofrimentos das perseguições cruéis. Importa mais é saber-lhe a estirpe dos fortes, a que se enrijece nas provações, condenado a carregar centenas de quilos de ferro em brasa na fundição da comuna popular.E a fonte dessa força, que o fez triunfante nesse e noutros passos atormentados da sua vida, foi sempre a obsessiva polarização da alma na estrela final do seu destino. Exausto e exilado no meio de multidões que não podem compreender, ei-lo sempre na busca inquieta, a ver pintura num monte de sucata ou nos lodos pardos do rio, essas brutezas matéricas que a sua alquimia virá a iluminar em Arte. E, depois, em segredo, a pintar até esgotar a noite.
  • 224 225 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – XI F A L A R D E N Ó S – XIComo os grandes artífices da Arte que preferimos, ele é um ‘fabbro’, operário renascentista das obras artísticas. Equivoca-se, por superficial, quem o julgar na ligeireza gestualista; ele parte da concepção e do esboço geral, e aquelas manchas, escorrências, vórtices libérrimos das cores nos espaços enormes, tudo é controlado, castigado, contido.Gostamos nele da perseverança, da tenacidade, da profunda seriedade, com que encara e executa a sua arte. Regozijamos, quando ele no-la apresenta. Agradecemos-lha como uma dádiva, oferecida em perfeição que sempre nos surpreende e comove.Não sendo críticos de arte, não nos compete classificar a sua Pintura, sem avaliá-la no seu clacissismo sínico expresso no abstraccionismo de inspiração ocidental.Queremos sublinhar antes esta característica sua, a nosso ver a que mais o marca, e eleva, e singulariza de certo modo, no seu longo percurso: a dimensão universal a que se encaminha pela conjugação das heranças Chinesa e Ocidental. Mio Pang Fei começa apaixonadamente pelo estudo e prática de cada uma das principais correntes que tiveram registo na história das artes ocidentais desde o fim do século passado até aos anos mais recentes. Ele analisa, estuda, e depois executa com as técnicas próprias. E eis que, depois, faz o mesmo com as clássicas escolas da pintura chinesa.Ele, se calhar, já sabia de cór aquilo que mais tarde iria teorizar e propor com o nome de ‘neo-orientalismo’. Isto é, aprofundar e renovar a arte oriental (chinesa) pelo recurso às vias, explorações e linguagens da pintura ocidental do último século. Sempre assim foi, na História das culturas e das artes: quando uma entra na estagnação ou impasse, vai beber a outra os novos caminhos da salvação, da continuação, da renovação.Com isto se comprova a valia dos intercâmbios culturais. Mio Pang Fei é, sem dúvida, uma das mais notáveis aventuras singulares de interligação e interfluxo de universos culturais diversos, que denodadamente buscou e reflectidamente procurou realizar nos longos anos de dedicado labor.É, assim, que podemos dizer que genuinamente ele ‘pertence’ a Macau ou que Macau lhe ‘pertence’Se em Macau Mio Pang Fei encontrou finalmente mais espaço e ambiência de paz e liberdade para poder estar mais com o Mundo, é com ele (e com certeza com outros intelectuais e artistas) que Macau continua vivo, renovando a sua capacidade de gerar sempre novas sínteses culturais.E se à sua figura de criador artístico associamos aquela legenda de Almada Negreiros ‘estar sozinho em casa a dar à manivela do Mundo’ então reforça-se o nosso optimismo sobre Macau e as suas potencialidades de ser útil, à China e ao mundo, se souber preservar e afirmar a sua singularidade, continuar a oferecer um lugar próprio às manifestações do espírito e assumir-se sempre como local de encontro de povos e civilizações.”
  • 226 227 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – XI F A L A R D E N Ó S – XIMio Pang Fei é, de facto, enorme na qualidade artística e na dimensão humana. Macau tem sabido merecê-lo.15 de Dezembro de 2014Aguardado com grande interesse, o livro “A Última Pérola – Macau”, de José Maria Bártolo, acaba de ser lançado numa bonita sessão levada a efeito no auditório do Instituto Internacional de Macau (IIM). Nela, muito se falou da memória e do legado, numa altura em que as autoridades e as forças vivas locais comemoram o 15.º aniversário do estabelecimento desta região administrativa especial da China.Fruto de um labor intenso e admiravelmente persistente, esta obra, que demorou cerca de vinte anos a ser preparada, produzida e publicada, saiu em boa hora do prelo graças ao apoio que o IIM lhe concedeu, reconhecendo a sua qualidade e oportunidade. Fica ela, desta feita, ao alcance de quantos apreciam a História de Macau, agora contada em verso por um português erudito e cidadão exemplar, com quase sessenta anos de permanência continuada nesta terra abençoada que inexcedivelmente ama e admira.O propósito da obraInspirando-se no vate maior da literatura portuguesa e adoptando, arrojada e convictamente, a estrutura de “Os Lusíadas” para esta plurissecular narrativa em dez cantos, José Maria Bártolo oferece às novas gerações um notável poema épico em que relata e enaltece uma presença que se traduziu numa verdadeira gesta. Ele contém, igualmente, uma sentida e justa homenagem não só àqueles que “por obras valorosas se foram da lei da morte libertando”, mas também a gerações de portugueses que, ao lado de chineses e de gentes de outras origens, souberam, juntos, construir um território que resistiu a muitas ameaças e intempéries, naturais e políticas, e lhe asseguraram um destino singular.A Última Pérola – Macau“Este poema heróico só podia ser feito por quem passou em Macau a maior parte da sua vida e se apaixonou por esta pérola portuguesa da Ásia Extrema...”Monsenhor Manuel Teixeira, 1999
  • 228 229 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – XI F A L A R D E N Ó S – XIÉ certo que nem todos compreenderão a opção do Autor, não podendo, por isso, apreciar o mérito deste trabalho. Vem a propósito recordar aquela figura da mais elevada estatura intelectual que foi o Pe. Doutor Manuel Antunes, professor catedrático de Cultura Clássica na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e respeitado director da muito influente revista “Brotéria”, que várias vezes defendeu a intemporalidade e a universalidade de modelos e estruturas que nasceram na antiguidade e perduraram até ao nosso tempo. Voltou a fazê-lo no meu exame final, todo ele centrado no paralelismo entre a Eneida e a Ilíada. Foi também assim, afinal, que Camões, Poeta de Portugal com dimensão universal, foi buscar em Virgílio forma e sentido para o seu imortal poema. Aberto ao mundo e à modernidade, à inovação e à criatividade, mas rigoroso na preservação dos valores de sempre, aquele insigne mestre, como tantos outros que pude acompanhar, na actividade académica e nas veredas da vida, sabia distinguir e explicar, com inequívoca clareza e segurança, a diferença entre as novas e efémeras roupagens e os consolidados e consagrados modelos perenes. Neste enquadramento, o Autor é, pois, pelo seu bem conseguido esforço, credor do nosso apreço e reconhecimento.Opinião do MonsenhorEm vez de “A Última Pérola”, título escolhido pelo Autor, o nosso saudoso Monsenhor Manuel Teixeira, conforme a nota de apresentação que integra este volume, preferia “A Última Nau”, a derradeira das naus na epopeia dos descobrimentos, que zarparam do Tejo para o mundo e ao Tejo retornaram, séculos volvidos, no percurso final do império desfeito. Todavia, resistiu a tudo esta jóia valiosíssima que é Macau, a “última pérola”, que continua a afirmar no presente e a projectar no futuro uma memória e uma história. Quinze anos após a atribuição de um novo estatuto político-administrativo a Macau, essa história merece ser contada e cantada. José Maria Bártolo quis assumir, por inteiro, esse irrecusável desafio.Manuel Teixeira, nessa nota datada de 28 de Dezembro de 1999, louva o autor pelo “imenso labor” e “gigantesco esforço” que a obra demonstra, estando “José Bártolo de parabéns e Macau também”, e conclui que “este poema heróico só podia ser feito por quem passou em Macau a maior parte da sua vida e se apaixonou por esta pérola portuguesa da Ásia Extrema”.Duas palavras“Duas palavras...” e um oportuno prólogo (“Lá vai a Grande Barca, lá vai ela”) antecedem o poema. Nessas “breves palavras”, o autor explica a razão de ser do livro:“Não pretendo pairar, como poeta, na memória dos homens, mas sim, isso sim, que os homens se recordem da história (de encantar) de tão singular terra, que, embora minúscula, soube trilhar as veredas estreitas da vida, terçando armas contra adversários mais fortes, desenhando sonhos quase impossíveis de realizar, chorando desditas e desventuras em terra e no mar, erguendo a cabeça sempre que o infortúnio lhe batia à porta, relacionando-se sempre num equilíbrio são com quem, ao lado, com um simples sopro, podia deitar tudo a perder, enfim, mantendo a dignidade e o brio
  • 230 231 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – XI F A L A R D E N Ó S – XIdentro do raio de acção do que podia e não devia, sem nunca esticar a corda bamba que sustentava as pegadas do seu caminhar. Foi obra dos que nos antecederam, não apenas portugueses, mas também chineses, porque Macau é também obra sua; os naturais de Macau, todos sem excepção, dela se podem orgulhar.Tudo o que se possa dizer desta bendita terra é pouco, muito pouco. Não cabe nestas escassas páginas. Quem venha da estranja e deste espaço faça sua morada, que a aprecie. Entre esses me encontro, já que dela fiz meu canto predilecto desde a minha distante e tenra mocidade, mais concretamente, desde 21 de Fevereiro de 1955, dia e ano em que, após deixar a freguesia da Bemposta (vila por mais de 5 séculos), do concelho de Mogadouro que sobressai, com a sua torre de menagem, no planalto transmontano, aqui aportei a bordo do vapor Índia, para frequentar o Seminário de S. José de Macau, com destino ao sacerdócio, do qual desisti no último ano do curso de Teologia. Desde então, Macau nunca deixou de me enfeitiçar e, tanto, que não quero outra, pois tudo me deu: conhecimentos que serviram para triunfar na vida como cidadão comum, emprego na função pública, família...”Quanto à viagem simbólica da “Grande Barca”, depois de séculos sulcando as ondas do destino, o autor resume deste modo o seu novo e quiçá ainda não definitivo porvir:“O tempo, no seu constante passar, abraça o futuro. Para ele avança a passos estugados a Grande Barca. Tantas dificuldades, tantas lutas contra as vagas dos procelosos mares. É tempo de amainar as velas, de lançar à água a âncora e, descansadamente, enfrentar, os novos desafios do tempo e da história renovada nas velas, no cordame, nos apetrechos. Uma viagem é sempre uma nova viagem...” “E a Grande Barca, outra vez rica, lá vai, de velas pandas, sulcando o destino, governada por marujos que a não deixarão naufragar nas tempestades que o futuro lhe reserva”. Convidamos o leitor a ler o livro. Profusas notas acompanham cada estrofe e, no fim, é apresentada uma síntese geral de cada canto. É um esforço bem conseguido que merece o nosso apreço e admiração.21 de Dezembro de 2014
  • 232 233 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – XI F A L A R D E N Ó S – XILojas engalanadas e policrómicas nos seus vistosos ademanes de papel pejados de flores, de muitas flores artificiais de todos os tons, aliados à púrpura e aos estanhados a reflectir mil luzes.De quando em quando sobe no ar o som alegre do estralejar de panchões. Das casas europeias alcançam a rua cheiros adocicados a frituras, a açúcar queimado e a azeite a ferver.Nas casas macaenses estão já prontos fartes, coscorões e aluá, o famoso colchão do Menino Jesus com a sua mantazinha e a almofada. No forno cozem as empadas de garoupa desfiada, assadas nos pires, recheadas de ovo cozido, açafrão e pinhões de azeitonas chinesas.Sobre os velhos armários alinham-se laranjas de casca fina como pepitas de ouro a atrair felicidade e abastança. Tudo a postos para a consoada depois da Missa do Galo.E eis que no meio daquela atmosfera de festa, atmosfera difusa que mais se sente em cada coração saudoso de uma infância passada em Portugal do que no ambiente que nos envolve, surge um velho alquebrado, comendo enquanto avança míseros restos de comida recém-lançada na sua tigela estalada e envelhecida de tantas vezes ser estendida à caridade de quem passa.É um pobre. Esfrangalham-se as vestes sem cor mas têm mil cores os farrapos que traz atados aqui e além. Dobrado sobre o peito avança vergado pela fome e pela miséria impiedosa. É já velho e doente para guiar triciclo ou trabalhar nas hortas. Um texto sobre o Natal em Macau“De cada vez encontrávamos algo de novo em cada rua. O melhor espectáculo que vimos em Macau durante todos aqueles anos, era sempre renovado em cada passeio a pé pela cidade.”Ana Maria Amaro, no prefácio de “Aguarelas de Macau”, 1998A Comissão Territorial para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses e a Fundação Macau publicaram, em 1998, o livro “Aguarelas de Macau, 1960-1970 – Cenas de Rua e Histórias de Vida”, reunindo textos produzidos por Ana Maria Amaro durante a sua longa permanência neste território nas décadas de 60 e 70 do século passado. Um desses textos foi sobre o Natal, cuja transcrição é oportuna na quadra festiva que estamos a viver:Natal em Macau“A noite desceu, manto violáceo manchado de nuvens a semi-ocultar uma lua baça quase em plenilúneo. Uma aragem mais fria do que tépida levanta golas e desperta abafos dos seus recantos rescendentes a cânfora.As eufórbias vermelhas, de grandes brácteas como penas de asas de fenix em voo, oscilam numa cadência que a brisa embala. Pelo ar os acordes monótonos de instrumentos de corda e a voz lânguida duma cantatriz chinesa dobram a voz do vento em sons talvez só compreensíveis pelos Génios.Um vendilhão rasgou o lilás da fluorescência dos candeeiros que semeiam círculos pela rua enegrecida, apregoando jornais: – iat-pou! Um grupo barulhento, onde duas ou três raparigas de calças afusadas e reluzentes min-hap se confundem com outros tantos casacos ocidentais axadrezados, seguindo alguns homens de fatos de bom corte, passaram sobraçando malas, sacos e embrulhos. Recém-chegados de Hong Kong, por certo chineses cristãos, vinham passar a consoada com a família de Macau. Três pivetes pintalgam de rubro cendrado a borda dum passeio. Vindo de longe adivinha-se o movimento da cidade afadigada nas últimas compras.
  • 234 235 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – XI F A L A R D E N Ó S – XIFugiu da China há muito tempo. Recorda a sua Pátria com saudades e com terror. Onde estará a sua família? Dispersaram-se todos na altura da fuga. Foi o medo que os dispersou. Ele, o mais velho, o avô, conseguiu, um dia, chegar a Macau. O homem, como uma sombra avança pelo passeio. Pára aqui e espreita a greta de luz escoada duma porta. Ultrapassa os pivetes que ardem rua além e espera, ao frio, que outra porta se abra e mais alguns bagos de arroz caiam na sua tigela.Estralejam mais panchões na noite sem luz. Ouve-se um riso distante. Num riquexó, empunhando grandes balões de cor e alguns brinquedos coloridos, passa uma criança sentada ao lado da mãe.Além, numa janela, vêem-se acender e apagar ritmicamente as luzes coloridas duma árvore de Natal em plástico, onde as pratas fazem brilhar neve nos flocos de algodão que nos recordam quadros da infância passada.Em breve os sinos virão repicar chamando os fiéis para a Missa do Galo, onde irão beijar mais ou menos devotamente a imagem em marfim do Deus-Menino. Nasceu Jesus, Hossana!Véus pretos, trajos escuros, alguns casacos de peles vestidos pelas mulheres do Ocidente; min-hap de seda usados por algumas portuguesas de Macau, igrejas plenas de luz, missais abertos, círios tremulantes.Nasceu Jesus! Natal Bendito! Festeja-se o Rei dos Reis. O Pai dos humildes, o redentor da Humanidade.Caem algumas gotas duma chuva miudinha e fria e ouve-se o tilintar de alguns avos em pobres tigelas que nos degraus das igrejas se estendem.”Território cheio de contrastes, a autora conseguiu, em texto tão sucinto, caracterizar as comunidades em presença e os diversos estratos sociais, bem como os usos e costumes em quadra tão significativa, como é a natalícia, para alguns segmentos mais representativos da sociedade local. Obra meritóriaMinha professora de Geografia no Liceu, Ana Maria Amaro doutorou-se mais tarde em Lisboa, onde desenvolveu intensa carreira académica, chegando a catedrática no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP) da Universidade Técnica de Lisboa. Notabilizou-se pela sua competente e meritória dedicação ao desenvolvimento dos Estudos Chineses em Portugal e pela vasta obra publicada sobre Macau e a China, especialmente nas vertentes cultural, sociológica e etnográfica. Fundou o Centro de Estudos Chineses do ISCSP, o Instituto Português de Sinologia e a Revista Portuguesa de Estudos Chineses, além de ter promovido a organização de inúmeros seminários, colóquios, conferências e palestras, sobre essa crescentemente relevante área de estudos que nunca teve projecção bastante na generalidade das universidades portuguesas.A seu convite ou por iniciativa própria, participei em muitas dessas iniciativas e tenho quase todos os livros desta distinta professora na minha biblioteca, além de ter tido o gosto de acompanhar o seu percurso académico. Sei, por isso, que Macau e a comunidade macaense lhe devem muito. A Macau do seu tempo, nas suas próprias
  • 236 237 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – XI F A L A R D E N Ó S – XIpalavras, “era uma terra linda, uma terra mestiça com algo de magia que ultrapassa a atracção pelo exotismo”. Na sua memória, “cada imagem era uma aguarela de Macau”.29 de Dezembro de 2014Se ainda estivesse entre nós, Alberto Estima de Oliveira, poeta e amigo que ficará para sempre na memória de quem o conheceu, pela facilidade de comunicação, afabilidade e sensibilidade, traços fundamentais da sua rica personalidade, teria completado, recentemente, oito décadas de vida, que repartiu por três continentes. Por esse motivo, e em sua homenagem, recordo uma vez mais o seu percurso e a sua poesia.Tenho vários dos seus livros numa das estantes da minha biblioteca, com especial destaque para “Mesopotâmia – espaço que criei”, lançado em Março de 2003 pela Aríon Publicações, Lda. (Lisboa), reunindo a maior parte da sua obra poética e incorporando, na íntegra, quase todos os títulos anteriores. Além disso, incluiu uma oportuna apreciação crítica de Pedro Mexia.“Mesopotâmia – espaço que criei” é, pois, fundamental para a compreensão da mensagem do autor, construída através de múltiplas vivências em longas peregrinações pelo mundo lusófono, “entre o deslumbre, a revolta e a superação, quer no plano público quer no plano pessoal, ambos aliás relativamente cifrados” nos seus poemas, cada um dos quais, quase sempre muito sucintos, se constitui em metáfora carregada de simbolismo.Alberto Estima de Oliveira nasceu em Lisboa em 1934 e, ainda adolescente, começou a abraçar a poesia, como ávido leitor e já jovem e inspirado vate. Com o serviço militar cumprido, partiu para Angola em 1957, tendo vivido em Vila Sousa Lara, Benguela e Lobito até 1975, quando se tornou impossível ali continuar em resultado do processo de descolonização. Apenas dois anos volvidos, ei-lo de novo em África, desta vez na Guiné-Bissau, onde se fixou por três anos. Após outra curta permanência O espaço poético que Estima de Oliveira criou“é tempo de juntaras páginas dispersasdo livro de memóriasrecordar fábulas, lendasconjuntos de estórias...”
  • 238 239 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – XI F A L A R D E N Ó S – XIem Portugal, escolheu Macau como novo e pacífico destino, aqui ficando de 1982 a 2001, quando retornou definitivamente a Lisboa. Faleceu em Maio de 2008. Conheci-o, por mero acaso, no próprio dia da sua chegada a Macau, através de um amigo comum. Tinha combinado com antigos colegas do Liceu fazer, nessa noite, um churrasco no pátio traseiro da minha casa. Por sugestão desse amigo, o Alberto esteve também presente, adaptando-se sem qualquer dificuldade àquele ambiente tropical, descontraído e informal, que lhe lembrou noites africanas intensamente vividas. Logo ali granjeou amizades que quis e soube manter pelos anos fora.Quando, já na vigência da RAEM, me ofereceu um exemplar de “Mesopotâmia – espaço que criei”, juntou-lhe esta simpática dedicatória: “Ao querido Amigo Jorge Rangel, que faz parte integrante do ‘espaço que criei’ vivido em Macau, por todo o seu trabalho cultural e político como elemento do governo e como cidadão exemplar da terra que me ficou no coração.” Escusado será dizer que essas palavras, assim como imagens da sua presença entre nós e os seus poemas, também me ficaram no coração, para sempre.88 poemasAquele livro reuniu, por vontade do autor, atento ao simbolismo oriental dos números, oitenta e oito poemas, significando prosperidade ou fortuna, não certamente, para ele, com auspícios pecuniários, mas querendo “fazer do poema uma espécie de talismã, por vezes infalível, por vezes falível, contra a miséria da nossa condição, o que torna esta poesia, paradoxalmente, uma poesia útil ou, ao menos, com essa secreta esperança”. Aqui estão alguns dos que considero mais conseguidos, representando marcos biográficos do seu relacionamento íntimo com lugares e gentes que foi descobrindo, e que no livro tiveram os números 60, 69, 74 e 88:“aquela porta fechadatem peónias por dentroforrando um outro horizonteda densidade da vidaé uma janela abertano abismo da saudadelocal de encontrosque tive com a cidade”(restaurante Tai Sam Un)***“entre o imenso e o nadaexiste um traçode incalculável distânciaserá tempo ou semelhançatransformar a pedra nuaentre outro tempo de esperança.”***
  • 240 241 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – XI F A L A R D E N Ó S – XI“dos lugares vaziosfica o incensopurificando o espaçoexorcizando o mar.”Li-os vezes sem conta e, num dia em que alguns amigos quiseram evocar o poeta, não quis deixar de recitar, sentidamente, estes seus outros versos, simples e premonitórios, como que a anunciar um fim, um “silêncio intemporal e profundo”:“é um impacto neutrouma porta já abertae cai-senum silênciointemporale profundocomo sepor artes mágicasentrássemosnoutro mundo...algumas pancadas na porta grandea velha casa tremeusilêncio.”Como bem asseverou Pedro Mexia, “uma poesia não se faz apenas de poetas ‘maiores’, quer dizer, que balizam toda uma sensibilidade e o estilo de uma época, mas de uma pluralidade de vozes eminentemente pessoais, algumas vivendo à margem da poesia como modo de vida exterior e ‘profissional’, mas mantendo uma intensa relação privada com o dizer poético... (...) e é precisamente por essa cumulação de individualidade, alusão, pungência e necessidade que a obra de Alberto Estima de Oliveira, como a de outros poetas menos conhecidos, é importante, e por isso se justifica a sua descoberta”. 5 de Janeiro de 2015
  • 242 243 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – XI F A L A R D E N Ó S – XIAssim, importantes estudos foram, ao longo dos últimos anos, dados à estampa, na forma de artigos de jornais e revistas, de conteúdo generalista ou especializado, e ainda de livros que resultaram de trabalhos que aguardavam publicação, muitos deles apresentados em conferências recentemente organizadas. Foi o caso, por exemplo, de “Empires at War, 1911-1923” (Oxford University Press e Publicações D. Quixote), coordenado por Robert Gerwarth e Erez Manela, que reúne treze incontornáveis estudos de qualificados historiadores que permitem entender aquela sucessão de violentos conflitos num contexto cronológico e espacial muito mais lato, balizando a I Guerra Mundial entre a invasão italiana de territórios otomanos na África setentrional, em 1911, e a assinatura do Tratado de Lausanne, em 1923.A participação chinesaA referida obra, cujo título em português é “Impérios em Guerra, 1911-1923 – uma perspectiva inteiramente nova da Primeira Guerra Mundial”, contém um importante capítulo de Xu Guoqi, professor de História da Universidade de Hong Kong, sobre a revolução republicana chinesa de 1911, que fez reorientar a política externa do país no sentido da sua afirmação como moderno Estado empenhado num envolvimento real nas questões do mundo, com um papel digno na comunidade das nações e no desenvolvimento de um novo paradigma de relações com o Ocidente. Esta viragem histórica, impulsionada pelos propósitos de internacionalização e de renovação nacional, conduziu a China a entrar na Guerra, não com militares armados mas contribuindo com cerca de 140.000 trabalhadores, cujo intenso labor, na Europa, foi fundamental para assegurar o funcionamento da complexa logística das Forças Aliadas. Importante edição do IIM sobre a China na I guerra Mundial“O livro é fruto de um projecto que pretende trazer a público um dos episódios simultaneamente mais marcantes e esquecidos da China pós-imperial – a participação na Grande Guerra. O Instituto Internacional de Macau (IIM), prestigiado ‘think tank’ com o qual tenho o privilégio de colaborar regularmente, abraçou desde logo o meu propósito, de que resultou aquela que será a primeira obra original em língua portuguesa sobre esta fascinante temática.”Luís Cunha, “China na Grande Guerra” (IIM, Lisboa, Dezembro de 2014)A comemoração do centenário da Grande Guerra (1914-1918) suscitou, nos círculos académicos e na comunicação social, um renovado interesse por temática directa ou indirectamente relacionada com as terríveis confrontações que abalaram a Europa na 2.ª década do século XX, com diferentes abordagens das suas causas e consequências. Foi esse um período de enormes transformações políticas que tiveram como corolário inevitável a mudança drástica de regimes, a par do reequacionamento de alianças regionais e da redefinição de fronteiras nacionais, em resultado da capitulação de algumas das potências beligerantes. Na verdade, nem a queda do Império Romano nem a derrota de Napoleão são comparáveis, em extensão e significado, e pelo impacto na história, com o amplo reordenamento do mapa político da Europa e de territórios ultramarinos. Muito mais do que um alargado conflito entre Estados do espaço europeu, aquela foi, efectivamente, uma guerra sem tréguas entre impérios, alguns dos quais foram condenados ao desmoronamento, além do impressionante cataclismo humanitário que provocou.Abundante literatura sobre este período tão conturbado foi sendo produzida, sobretudo na fase imediatamente posterior ao armistício, quantas vezes estimulada pelo irreprimível triunfalismo dos vencedores, e ao longo do século passado, à medida que toda a documentação relevante foi ficando ao alcance dos investigadores. Verificou-se, contudo, que, afinal, muito mais tinha ficado por analisar em novas perspectivas e interpretações.
  • 244 245 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – XI F A L A R D E N Ó S – XIXu Guoqi é também autor de “Strangers on the Western Front: Chinese Workers in the Great War” (Harvard University Press, 2011), tema que Luís Cunha, autor de várias obras sobre a China, com destaque para “A Hora do Dragão – Política Externa da China” (Zebra Edições e Instituto Internacional de Macau, 2012), quis, em boa hora, também investigar e aprofundar. Os resultados dos seus esforços de pesquisa em arquivos, bibliotecas e centros de documentação de vários países estão materializados neste livro que o IIM integrou na sua prestigiada colecção “Suma Oriental”. A história, nem sempre suficientemente valorizada e reconhecida, desta participação chinesa na Grande Guerra fica, doravante, mais facilmente ao alcance dos leitores de língua portuguesa. “China na Grande Guerra – A Conquista da Nova Identidade Internacional” é também uma justa homenagem que o autor e o IIM prestam ao valioso contributo desses trabalhadores para a vitória que, inegavelmente, lhes foi também devida.Estrutura do livroSete bem elaborados capítulos integram este estudo de Luís Cunha (O Apocalipse Imperial, A Guerra no Oriente, A China na Grande Guerra, os Trabalhadores Chineses na Europa, A China na Conferência de Paz, A China Moderna nas Relações Internacionais e Conclusões), precedidos de uma excelente Introdução, em que o autor apresenta um oportuno enquadramento da conjuntura internacional que conduziu a essa primeira guerra global e explica o envolvimento da China, na nova fase do seu percurso político.“Em Junho de 1914 ninguém conseguiria adivinhar que uma bala assassina, disparada por um jovem sérvio na obscura Sarajevo, iria abater 10 milhões de homens de todos os cantos do mundo e derrubar vários impérios. (…) A epidemia viral desencadeada em Sarajevo deu lugar a um perigoso jogo de avaliação de poder entre potências, com o inevitável desajustamento ao nível das percepções mútuas. (…) Quando a máquina de guerra foi accionada a hecatombe tornou-se irreversível”. Assim se quebrou, na Europa, um longo e invejável período de paz e prosperidade, um verdadeiro ciclo de ouro construído pela globalização mercantil impulsionada pelas grandes potências marítimas.Quanto ao papel da China neste contexto, é indispensável lembrar que “exauridos e sujeitos a uma guerra de desgaste interminável, os Aliados foram obrigados a recorrer às forças armadas das dependências coloniais, bem como trabalhadores estrangeiros destinados a suportar o esforço de guerra, substituindo desse modo os homens chamados à linha da frente. O Império Britânico mobilizou australianos, canadianos, neo-zelandeses, indianos e sul-africanos, entre outros. Os franceses convocaram marroquinos, senegaleses e vietnamitas. (…) Mais curiosa, porquanto relativamente desconhecida, é a saga dos trabalhadores chineses que participaram activamente nos palcos europeus da Grande Guerra. Os cemitérios chineses, espalhados pelo norte de França e Bélgica, são testemunhos silenciosos da premeditada entrada em cena da China no sistema internacional e de um esforço que nunca seria devidamente reconhecido.”Uma extensa bibliografia e mais de cem fotografias e outras ilustrações, além de um prefácio que o autor quis que fosse por mim redigido, completam o livro. 12 de Janeiro de 2015
  • 246 247 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – XI F A L A R D E N Ó S – XImemorável um encontro no terreiro da Fortaleza do Monte com centenas de quadros médios e superiores da administração pública, a que se associaram os novos secretários do Governo.No GCCT trabalhava-se afanosamente na recepção dos convidados, no apoio a jornalistas, na credenciação dos participantes e nos preparativos finais dos vários eventos programados. Eu próprio me multipliquei em sucessivas entrevistas a grandes órgãos de comunicação, como a CNN, a Deutsche Welle, a TV5 e a NHK World, naquela ocasião em que a atenção do mundo estava também virada para Macau. O dia 18 começou com uma partida de golf em Coloane, a que se seguiu, nessa manhã desagradavelmente chuvosa e fria, uma homenagem a Camões, “Grande Poeta da Humanidade e Símbolo da Universalidade Portuguesa”, como consta da lápide na ocasião descerrada junto do busto do imortal vate. O Presidente e o Governador procederam depois à colocação, no jardim do Centro Cultural, de uma cápsula do tempo, para ser aberta a 18 de Dezembro de 2049, contendo a Declaração Conjunta Luso-Chinesa, a Lei Básica da RAEM e outra documentação pertinente, incluindo uma selecção de publicações sobre Macau.Três outras actividades do dia 18 merecem menção: a chegada ao Terminal Marítimo do Porto Exterior do Primeiro-Ministro António Guterres, a inauguração do Consulado-Geral de Portugal no edifício remodelado do antigo Hospital S. Rafael, que havia também sido sede da Autoridade Monetária, e a cerimónia solene de atribuição de condecorações no Grande Auditório do Centro Cultural, contemplando 29 personalidades locais.Os principais momentos dos dias finais da transição“Foi o início de uma nova era no percurso histórico plurissecular de Macau.”A Região Administrativa Especial de Macau (RAEM) acabou de celebrar, jubilosamente, o seu 15.º aniversário, sendo os factos mais relevantes desta importante efeméride, para além dos actos comemorativos oficiais e do amplo e bem participado programa festivo, a visita do Presidente Xi Jinping e a tomada de posse de novos membros do Governo, a quem toda a população deseja os maiores sucessos na promoção do desenvolvimento e da estabilidade da nossa terra e do bem-estar das suas gentes. Tendo tutelado, o Gabinete Coordenador das Cerimónias de Transferência (GCCT) e acompanhado muito de perto os preparativos, contactos e realizações nesse domínio, pareceu-me de interesse recordar e registar aqui, sucintamente, os principais momentos dos dias finais da transição, em Dezembro de 1999:17 e 18 de DezembroO Presidente Jorge Sampaio chegou ao Aeroporto Internacional de Macau, proveniente de Lisboa, às 16.20 do dia 17, sendo formalmente recebido pelo Governador Vasco Rocha Vieira e por outras entidades locais. Às 20.00, um jantar oficial, marcado pela emoção, juntou na mesma mesa o Presidente da República Portuguesa, o Governador de Macau e o Chefe do Executivo designado, Edmund Ho Hau-wah. Estiveram presentes no Palácio da Praia Grande os membros da administração cessante e os novos titulares dos mais altos cargos da região, bem como convidados locais e do exterior.Nos dias anteriores, o Governador havia concluído a sua longa ronda de despedidas oficiais a serviços, associações e outros organismos representativos, sendo especialmente
  • 248 249 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – XI F A L A R D E N Ó S – XIO dia derradeiro 19 de Dezembro foi o dia mais longo, repleto de grandes actos oficiais. Os fiéis lotaram a Sé Catedral nessa manhã, para a missa de acção de graças celebrada por D. Domingos Lam, acompanhado de todo o clero da Diocese. Pouco depois, às 12.10, chegava de Pequim o Presidente da República Popular da China, Jiang Zemin, acompanhado de vasta comitiva, sendo recebido pelo Ministro dos Negócios Estrangeiros Jaime Gama, pelo Governador Rocha Vieira e pelo Chefe do Executivo designado Edmund Ho.Às 12.30 desse dia, o chef Ah Seng serviu o último almoço ao Governador, família e convidados no Palacete de Santa Sancha, residência oficial dos Governadores de Macau e, a meio da tarde, todo o pessoal de apoio aguardou que o Governador, esposa e filhos saíssem da residência pela última vez, com eles partilhando momentos de muito comovida despedida. O acto mais marcante daqueles dias finais teria lugar logo a seguir, no Palácio da Praia Grande, na singela e muito digna cerimónia do arriar da Bandeira Portuguesa na sede do Governo. Na presença de autoridades e de muito público, a bandeira foi recolhida, cuidadosamente dobrada e entregue ao Governador, que a apertou de imediato ao coração, num gesto de profundo e tocante significado, cuja fotografia correu mundo e constituiu a imagem mais forte e duradoura do fim duma presença de mais de quatro séculos.Entidades de muitos países e de organizações internacionais foram recebidas pelos Presidentes Jorge Sampaio e Jiang Zemin durante a manhã e a tarde do dia 19. Às 18.00, quase dois mil e quinhentos convidados assistiram ao bem coreografado e muito aplaudido espectáculo cultural que assinalou a despedida de Portugal, o qual foi protagonizado por mais de 1.100 participantes, entre artistas profissionais e muita juventude. No momento da apoteose, com toda a assistência de pé, 442 crianças subiram ao palco cantando a “Celebração da Paz”, representando cada uma delas um dos 442 anos de permanência lusa.Numa tenda gigante, elegantemente decorada, teve início, às 21.00, o maior banquete oficial da história de Macau, onde os Ministros dos Negócios Estrangeiros de Portugal e da China expressaram propósitos firmes de ainda melhor cooperação futura, cumprido que estava o processo de transição.Às 22.00 foram abertas as portas do espectacular pavilhão temporário onde se desenrolaria a cerimónia principal da transição. Um breve encontro formal dos dois Presidentes antecedeu a entrada das duas delegações oficiais no recinto, ocupando os lugares de honra. Procedeu-se, exactamente à meia-noite, ao arriar das bandeiras de Portugal e da Cidade de Macau, ao mesmo tempo que eram içadas as da República Popular da China e da RAEM. Finda a cerimónia, transmitida em directo para todo o mundo, estava formalmente concluída a transferência do exercício da soberania. Foi o fim de um tempo e o início de uma nova era no percurso histórico plurissecular de Macau. O aperto de mãos dos dois Presidentes e o abraço do Governador ao Chefe do Executivo haviam selado para sempre a passagem do testemunho. Um Airbus A-320 da Air Macau já aguardava no aeroporto o Presidente Jorge Sampaio e a sua comitiva, a que se juntou o Governador Vasco Rocha Vieira. Um segundo avião transportaria os meus colegas do Governo e outras entidades e convidados
  • 250 251 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – XI F A L A R D E N Ó S – XIoficiais. Desloquei-me à sala VIP do aeroporto para me despedir pessoalmente de todos. Na madrugada do dia 20, ainda pude assistir à tomada de posse do Chefe do Executivo e dos titulares dos principais cargos da RAEM, nos domínios executivo, legislativo e judicial, no Fórum de Macau. Às 4 da manhã, a convite de José Alberto Carvalho, fiz para a RTP, em directo para Lisboa e para a RTP Internacional, um balanço das festividades e das cerimónias e um comentário sobre as expectativas em torno do funcionamento inicial da RAEM.Entretanto, a Assembleia Legislativa de Macau realizava a sua primeira reunião, às 2.30 da manhã. Ao meio-dia do dia 20, o Presidente Jiang Zemin deixava Macau, ao mesmo tempo que o primeiro contingente militar do Exército Popular de Libertação, com cerca de 500 homens, dava entrada no território, em missão de soberania, acolhido festivamente por milhares de pessoas. Esta quase “fita do tempo” resultou da memória, de recortes e de apontamentos pessoais.19 de Janeiro de 2015Presidente do Instituto Internacional de Macau desde Dezembro de 1999, Jorge Alberto Hagedorn Rangel desempenhou funções públicas em Macau, sua terra natal, durante quase 25 anos, treze dos quais como membro do Governo, tendo tutelado as áreas de Administração Pública, Educação, Cultura, Juventude, Desporto e Turismo, bem como o Gabinete Coordenador das Cerimónias de Transferência. Em várias ocasiões foi Encarregado do Governo de Macau, substituindo o Governador nas suas ausências.É casado e tem uma filha, vivendo a família, oriunda de Portugal, há dez gerações em Macau e noutras terras do Extremo Oriente.Fez os ensinos básico e secundário em Macau e os estudos superiores em Lisboa, Cambridge, Bonn e Navarra. Enquanto estudante, dedicou-se intensamente a actividades de juventude, desde as da Mocidade Portuguesa às de associações académicas, tendo participado também em encontros estudantis e juvenis no estrangeiro, e interessou-se pela comunicação social, tendo obtido a classificação de “óptimo” no I Curso Nacional de Jornalismo organizado pelo Sindicato Nacional de Jornalistas, além de ter feito o Curso de Ciências e Técnicas de Informação, na Escuela de Periodismo de Pamplona (Espanha).Cumpriu o serviço militar nos Açores e na Guiné, onde, como Capitão Miliciano de Infantaria, comandou uma companhia em zona operacional, com vários louvores em campanha, tendo também dirigido a instrução de tropas no seu comando operacional. Na fase final da comissão militar na Guiné, trabalhou junto dos Governadores e Comandantes-Chefes, Generais António de Spínola e José Manuel Bettencourt Rodrigues.Jorge A. H. Rangel Presidente do Instituto Internacional de MacauNOTA BIOgRÁFICA
  • 252 253 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – XI F A L A R D E N Ó S – XIFoi eleito deputado à 1.a legislatura da Assembleia Legislativa de Macau (1976-80), onde presidiu às Comissões de Assuntos Constitucionais, Direitos, Liberdades e Garantias e do Regimento e Mandatos e, entre outras funções públicas, foi presidente da Fundação Macau e director do Turismo e da Comunicação Social. As suas últimas responsabilidades oficiais foram a coordenação da transferência das responsabilidades administrativas da Administração Portuguesa para o novo Governo da Região. Foi também membro do Conselho de Redacção da Lei Básica da Região Administrativa Especial de Macau.No âmbito académico, além de funções docentes, foi o presidente da comissão instaladora do Instituto Politécnico de Macau, de que é agora presidente honorário, e membro das comissões instaladoras do Curso de Administração Pública e da Faculdade de Ciências da Educação da Universidade de Macau. Também presidiu ao Conselho da Universidade de Macau e aos Conselhos de Educação, do Desporto e de Juventude e foi consultor da Universidade Aberta Internacional da Ásia. É professor convidado de várias instituições de ensino superior, sendo também director honorário do Centro de Estudos Comparativos de Culturas da Universidade de Soka (Tóquio). Foi conferencista no Instituto da Defesa Nacional de Portugal, ministrando a matéria “A Bacia do Pacífico, Situação Estratégica e Perspectivas de Evolução”, e integrou o corpo docente do curso de pós-graduação em China Moderna no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade Técnica de Lisboa, dando idêntica colaboração docente no Curso de Estudos Chineses (China Moderna e Contemporânea) da Universidade de Aveiro, ocupando-se dos Estudos de Macau.Desenvolveu e mantém ainda uma actividade intensa em organismos internacionais, como a UNESCO, a EROPA (Eastern Regional Organization for Public Administration), de que é membro vitalício, a Universidade das Nações Unidas e a Associação das Universidades de Língua Portuguesa (AULP). Foi presidente da EATA (East Asia Travel Association), com sede em Tóquio; presidente regional da PATA (Pacific Asia Travel Association), com sede em Banguecoque, de que é director vitalício, e membro do Conselho Executivo da Organização Mundial do Turismo, com sede em Madrid. Participa regularmente, como conferencista, em encontros internacionais, de que se destaca a Conferência Internacional sobre o Diálogo das Civilizações, que se realizou em Tóquio e Quioto, no âmbito das Nações Unidas, tendo presidido à sessão sobre “Multiculturalismo e Encontro de Culturas”.A actividade associativa ocupa parte importante do seu tempo, tendo sido presidente do Elos Internacional – Movimento da Comunidade Lusíada durante dois mandatos (eleito em São Paulo, Brasil, em 1999, e reeleito em Coimbra, em 2001), presidindo depois ao seu conselho superior. Foi presidente da assembleia geral da APIM - Associação Promotora da Instrução dos Macaense e da Associação de Gestão de Macau, presidente do Conselho Consultivo das Comunidades Macaenses e membro do conselho de administração do Observatório da Língua Portuguesa. É presidente do Conselho Supremo da Sociedade Histórica da Independência de Portugal, membro da Comissão Temática da CPLP – Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, académico honorário da Academia Portuguesa de História e académico da Academia Lusófona de Arte e Cultura, além de dirigente ou membro de numerosas outras associações de natureza cultural, artística, educativa e social. O Instituto Internacional de Macau, de que é presidente e membro fundador, é uma organização não governamental, com a classificação oficial de organismo de utilidade pública. É também membro dos conselhos de curadores das Fundações Casa de Macau, Jorge Álvares e
  • 254 255 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – XI F A L A R D E N Ó S – XIdo Santo Nome de Deus, todas ligadas a Macau, sendo também membro honorário de agremiações locais e da diáspora macaense.É autor de várias obras, com destaque para “Macau e a Comunidade Macaense”, com 12 volumes, dos quais 10 já publicados.Foi agraciado com diversas condecorações e outras distinções nacionais e estrangeiras, de que se destacam a Ordem Nacional do Infante D. Henrique (Grande Oficial em 1982 e a Grã-Cruz em 1998), a Medalha de Valor (a mais alta distinção honorífica de Macau), a Medalha de Mérito Pedro Ernesto da Cidade do Rio de Janeiro, a Medalha de Mérito da Federação das Associações Portuguesas e Luso-Brasileiras do Brasil, o título de membro honorário do Liceu Literário Português e do Real Gabinete Português de Leitura do Rio de Janeiro, a Comenda Eduardo Dias Coelho, do Elos Internacional, a Medalha Machado de Assis, a Medalha Victor Hugo de Cultura e a Medalha de Mérito Min-On (Tóquio), tendo também recebido o Award of Excellence do Instituto de Filosofia e Estudos Orientais de Tóquio, o Paul Harris Fellow e o título de membro benemérito da organização rotária internacional e, ainda estudante, o troféu D. Quixote, do Conselho da Europa, nos Colóquios Internacionais sobre a Juventude e a Europa do Futuro, além de vários doutoramentos honoris causa.
  • 256J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – XI
  • 進階搜尋|全站搜尋