• Jorge A. H. rAngelFAlAr de nós – XMAcAu e A coMunidAde MAcAense – acontecimentos, personalidades,instituições, diáspora, legado e futuroJorge A. H. rAngelFAlAr de nós – X
  • FALAR DE NÓS – X
  • Nota: Edição composta pela série de crónicas e artigos publicados no “Jornal Tribuna de Macau”, de 28 de Janeiro de 2013 a 27 de Janeiro de 2014.EdiçãoInstituto Internacional de MacauPatrocínio da Fundação Jorge ÁlvaresApoio do Governo da RAEMMacau, Setembro de 2015 Ficha TécnicaTítulo FALAR DE NÓS – X • Subtítulo Macau e a Comunidade Macaense – acontecimentos, personalidades, instituições, diáspora, legado e futuro • Autor Jorge Rangel • Editor Instituto Internacional de Macau • Direcção e execução gráficas victor hugo design • Dactilografia Emília Guine • Tiragem 500 exemplares • Impressão e encadernação Tipografia Welfare Lda • ISBN 978-99937-45-84-6 • Macau, Setembro de 2015FALAR DE NÓS – XMACAU E A COMUNIDADE MACAENSE– AcoNTEcIMENToS, pErSoNAlIDADES,INSTITuIçõES, DIáSporA, lEgADo E fuTuroSérie de crónicas e artigos publicados no “Jornal Tribuna de Macau”,de 28 de Janeiro de 2013 a 27 de Janeiro de 2014JORgE A. H. RANgEL
  • J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L ÍNDICE013Nota prévia – Dez volumes concluídos015O almanaque chinês28/01/13020A maior festividade do povo chinês04/02/13026O ano novo lunar em tempo de guerra08/02/13032Saúde, harmonia e prosperidade no Ano da Serpente18/02/13038Camões em Macau – uma verdade histo-riográfica25/02/13043Em defesa do estanciamento de Camões em Macau04/03/13048Língua portuguesa – presença em dois importantes eventos em Lisboa11/03/13053O IIM e Timor18/03/13058Governadores de Macau25/03/13063A sociedade civil na promoção da língua portuguesa02/04/13068Direito Constitucional de Macau – estudos e reflexões08/04/13073Referências a Macau em conferência dos Roteiros do Futuro15/04/13078Por um renovado diálogo estratégico com o Oriente22/04/13083Cinco séculos da interface luso-asiática29/04/13088Também se falou de Macau na tertúlia “Imperii Finis”06/05/13093Quando no Liceu de Macau se organizaram jogos florais13/05/13098Integração de Macau no Delta do Rio das Pérolas20/05/13103Macau em mais um romance histórico27/05/13108O renascer de uma grande metrópole no Delta03/06/13113Mais um Dia de Portugal em Macau10/06/13118Recife-Macau, um projecto cultural em desenvolvimento17/06/13123Padre Lancelote Rodrigues, um coração de ouro24/06/13129Manuel Teixeira, de menino a Monsenhor01/07/13134Os últimos anos do Monsenhor em Chaves08/07/13139Manuel Teixeira, benemérito da Casa de Santa Marta de Chaves15/07/13144Pernambuco acolheu representativa mostra de quatro artistas de Macau22/07/13149Memórias da Reserva Naval em Macau29/07/13
  • J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L 154Duas cidades, dois mundos, relações e contrastes05/08/13159Um passeio por ruas da estrutura urbana histórica de Macau12/08/13164Listagem descritiva dos principais monumentos de Macau19/08/13169D. José da Costa Nunes – um apóstolo do Oriente26/08/13174O testamento espiritual de um prelado inesquecível02/09/13179Macau acolhe novo encontro de poetas09/09/13184Navegar ou cantar – a colectânea do encontro de poetas16/09/13190Macau fui eu que nasci24/09/13196Metades do Meu Dragão30/09/13202Mais um contributo do IIM para a memória lusa no Oriente07/10/13207Presença em duas importantes conferências no Algarve15/10/13212Edição do IIM lançada em seminário no Itamaraty, em Brasília21/10/13217China: uma visão brasileira28/10/13222Coordenadas fundamentais das relações sino-luso-brasileiras05/11/2013227As vantagens de Macau nas relações sino-lusófonas11/11/13232Prioridades nas relações da China com os países lusófonos18/11/13237Animado debate em português contou com universidades da China25/11/13242Filo-filo di Macau lóngi di su tera02/12/13247Vida e obra do Cardeal Costa Nunes em livro10/12/13251Memórias do Romanceiro de Macau16/12/13256Natal com a Orquestra de Macau26/12/13261Oportuna reflexão chinesa sobre o Fórum de Macau30/12/13265As Janeiras e os Reis com J. J. Monteiro06/01/2014268Eusébio e o Benfica em Macau, em 197013/01/14272Os dois jogos do Benfica em Macau20/01/14277Recepção calorosa ao Benfica 27/01/14281Nota biográfica
  • 010F A L A R D E N Ó S – XJ O R g E A . H . R A N g E L 011 J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – IXPor ocasião do 15º aniversário do estabelecimento da Região Administrativa Especial de Macau, este 10º volume da série “Falar de Nós – Macau e a Comunidade Macaense” é dedicado às instituições e às pessoas que souberam honrar o legado e a memória, ao mesmo tempo que contribuíram para o seu desenvolvimento num novo contexto político-administrativo.
  • 013 J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – X12J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – XSemana após semana, os artigos e crónicas sucedem-se, sendo já dez os volumes concluídos desta continuada conversa com o leitor sobre diversificados assuntos relacionados com Macau, identificando e relatando acontecimentos e referindo personalidades, instituições, o legado, a diáspora e o futuro.Especial atenção tem sido dada, também, a livros, de ontem e de hoje, que têm Macau como tema central ou fonte de inspiração. É verdadeiramente notável a produção editorial em torno desta terra e das suas gentes, bem como da sua memória e da projecção que ela soube alcançar nas vertentes cultural e económica, favorecida pela conjugação feliz de circunstâncias positivas.Enquanto este volume sai do prelo, outro está já em fase de finalização, representando um contributo, modesto certamente, mas sentido e persistente, para uma melhor compreensão da dimensão humana, social e política de Macau, entreposto privilegiado que a História consagrou e que, como região administrativa especial da China, quer prolongar, no espaço e no tempo, a sua vocação de sempre.Macau, Dezembro de 2014O autorNota préviaDez volumes concluídos
  • 015 J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – XNão foram muitos os diplomatas portugueses colocados em postos no Extremo Oriente que aceitaram publicar os seus estudos e vivências. Já referimos, neste espaço, os depoimentos de vários, uns mais relevantes do que outros, e, em vésperas de mais um Ano Novo Chinês, quisemos recordar uma obra muito interessante, intitulada “China de ontem, China de sempre”, de Luís Esteves Fernandes, que foi Encarregado de Negócios em Pequim e Ministro no Japão. Edição da Empresa Nacional de Publicidade, saiu do prelo em 1948, numa fase de profundas e vertiginosas transformações políticas na China, em vésperas da implantação do regime comunista.O livro abre com uma mensagem do Encarregado de Negócios da China em Lisboa, Hsien-Tseng Yang, datada de Maio de 1946, isto é, já terminada a Guerra do Pacífico e num período de intensos conflitos internos. Através dela, aquele diplomata saudou o autor, por dar a conhecer o seu país e os costumes do povo chinês aos portugueses, e o livro, onde é enaltecida a acção de Chiang Kai Shek, ali apontado como “inspirado chefe”, “credor do reconhecimento do seu povo e também da gratidão do mundo ocidental”.Um dos capítulos é dedicado ao almanaque chinês, cuja importância se mantém, em larga medida, na sociedade chinesa, mesmo nas comunidades da diáspora, como pude verificar desde os meus tempos de infância em Macau e nos contactos com entidades e famílias chinesas, no interior da China e noutras partes do mundo. Vale a pena conhecer esta apresentação do almanaque, com uma explicação clara das suas origens e do seu significado:“A vida em outras épocas no Império do Meio era fácil, pois todos os acontecimentos, desde os mais importantes aos mais insignificantes, estavam oficialmente regulados de conformidade com as indicações superiores dos elementos sobrenaturais.O almanaque chinês“Pessoa alguma ousaria realizar um casamento ou um baptizado, empreender uma viagem ou a construção de uma casa, sem antes consultar a sabedoria suprema do almanaque.”
  • 016 017F A L A R D E N Ó S – X J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – XO trabalho de elaborar um almanaque era das tarefas importantes pela sua futura função e pelo alcance do seu papel na vida nacional. Os astrólogos estudavam com cuidado os mais diversos fenómenos, tinham em conta as crenças e superstições, e, por fim, davam uma obra complexa, minuciosa, infalível, que, no primeiro do ano, havia de ser distribuída solenemente pelo filho do Céu aos mais grados funcionários do Império. Em nossos dias, o almanaque, embora tenha perdido o seu antigo carácter oficial, ´grosso modo´ continua desempenhando o mesmo papel que nos tempos idos.Com Huang Ti, o Imperador Amarelo, teve início a era chinesa (2637 anos antes de Cristo). Então, agruparam-se, pela primeira vez, os anos em ciclos de 50 e deu-se-lhes uma designação composta por dez caracteres chamados Tien Kan ou os dez ramos celestes, aos quais se juntaram doze outros caracteres denominados Ti Chih, ou os doze ramos terrestres. Estes últimos, que coincidiam com os doze signos do zodíaco chinês, tinham o nome de um animal e repetiam-se cinco vezes para perfazer o número desejado – sessenta. Essas duas classificações fundamentais aplicaram-se, também, mais tarde, aos segundos, minutos, horas, dias e meses, sinais do zodíaco, pontos de compasso, etc.Dois séculos decorridos, o imperador Yao ordenou aos seus astrónomos a factura dos calendários do Sol, da Lua, das Constelações e das Estrelas e indicou a Primavera, ao ver chegados os dias médios, e a constelação Niao, definindo-a como o momento em que o povo se dispersa e as aves se submetem ao jugo do amor. Com os dias maiores e a constelação Ho determinou o meado do Verão – nesse período o povo procura a sombra, as aves têm menos penas e os animais o pêlo mais curto. A diminuição dos dias e o aparecimento da constelação Hia permitiram-lhe fixar o meio do Outono – o ar refrescado consente ao povo respirar melhor, às aves nascem novas penas e os animais cobrem-se de pêlo abundante. Enfim, noticiou a brevidade dos dias e o surgir da constelação Mao, que marcam o meado do Inverno. No Inverno, o povo encerra-se em suas casas e os animais estão bem preparados para suportar o frio. Completava Yao as suas instruções acrescentando que o Tien supremo era digno do culto da nação e merecedor da todas as homenagens. (…)As quatro estações são representadas por animais e flores, cabendo à Primavera o dragão e a peónia; ao Verão, as aves e o lótus; ao Outono, o tigre e o crisântemo; ao Inverno, a tartaruga e a flor da ameixoeira. No quadro das cores, o Verão encontra o seu símbolo no vermelho; a Primavera, no azul e o Outono e Inverno, no branco e negro. (…)Pessoa alguma ousaria realizar um casamento ou um baptizado, empreender uma viagem ou a construção de uma casa, sem antes consultar a sabedoria suprema do almanaque. É que os dias podem ser amarelos ou negros, o que significa, respectivamente, datas de bom ou mau augúrio. Além de classificados como acabamos de expor, os dias dividem-se em doze partes – Tien chung –, as quais se acham subordinadas ao poder de um animal, e cada dupla hora é subdividida em oitavos – Kih –, iguais a 15 minutos. Por tal facto, e para efeitos da efectivação dos actos preponderantes da vida, é da maior importância averiguar a hora exacta de um nascimento, a fim de mais tarde se poder tirar com segurança o horoscópio.Assim, quando o Sol se esconde e um nascimento se aproxima, no quarto da parturiente, para se definir o signo, sob cuja influência vem ao mundo o novo ser,
  • 018 019F A L A R D E N Ó S – X J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – Xqueimam-se pavios de incenso em que as horas estão marcadas, ou alguém da família doba continuamente para contar e precisar as horas pelo número de meadas dobadas e, desse modo, evitar futuras desgraças. Com estes cuidados determinam-se os animais incompatíveis que, de futuro, é indispensável separar. O cavalo branco sempre odiou o boi negro, o carneiro não pode viver, um só dia, com o rato, o galo branco e o cão são inimigos figadais, o tigre, quando depara a serpente, desfá-la em pedaços, o dragão e a lebre não se podem ver, o porco teme, toda a vida, o macaco.Os anos são divididos em meses, também designados por nomes de animais, mas, ao lado dessa divisão, existe uma outra de 24 períodos de 15 dias cada, que se sucedem uns aos outros, de ano para ano, independentemente das intercalações lunares, e correspondem aos dias em que o Sol entra no 1.º e 15.º graus de cada signo do zodíaco. Os seus nomes derivam das estações e da diversidade de mudanças oferecidas pela natureza no decorrer do ano; daí as designações: início da Primavera, chuva para o arroz, pequeno calor, grande calor, começo das colheitas, orvalho frio, grande frio, pequena neve, etc.Os anos acham-se agrupados em ciclos de 12 e, estes, por ordem, estão subordinados ao galo, à lebre, ao tigre, ao macaco, ao porco, à serpente, ao dragão, ao cão, ao boi, ao carneiro, ao rato e ao cavalo. (…)Segundo o animal do mês do nascimento e atendendo aos que presidiram à hora, dia e ano, tira-se a data propícia para a efectivação de um casamento. Não surgindo obstáculos graves, aos meses subordinados ao galo e à lebre correspondem a primeira e a sétima lua; tigre e macaco, segunda e oitava; porco e serpente, terceira e nona; dragão e cão, quarta e décima; boi e carneiro, quinta e undécima; rato e cavalo, sexta e duodécima.No caso ainda de casamento, um dos exames a efectuar é a observação do ´pa-tzeul´, ou seja o estudo dos oito caracteres que indicam o ano, o mês, o dia e a hora exacta do nascimento. Além dos animais que influem no tempo dos nascimentos, há a considerar as ligações daqueles com os elementos naturais – metal, madeira, água, fogo e terra, que, por sua vez, também preponderam no futuro e boa sorte das pessoas. Mister é verificar se existem os ´elementos harmónicos´, porquanto, se porventura os elementos são destruidores em relação uns aos outros, como a terra e a madeira, a água e o fogo, o fogo e o metal, as negociações interrompem-se logo porque o destino assim o determina.O almanaque a tudo procura atender e difícil será descobrir qualquer problema da vida quotidiana que nele não seja tratado e para o qual não haja indicações mais ou menos precisas. No entanto, o facto de, com facilidade, se poder obter um exemplar desse ´vade mecum´, não quer dizer que a sua consulta seja tarefa simples e sem escolhos. Pertence mesmo aos adivinhos, aos astrólogos, o dedicarem-se ao estudo e interpretação dos preceitos estabelecidos, que, complexos, por vezes, não podem ser convenientemente decifrados por meros leigos.”Na comemoração desta quadra festiva, o próximo artigo conterá um texto do mesmo autor sobre o Ano Novo Chinês. 28 de Janeiro de 2013
  • 020 021F A L A R D E N Ó S – X J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – XTradição, veneração, cor, ruído, alegria, prazer, convívio, família, bom augúrio e renovação caracterizam aquela que é a maior festividade do povo chinês, contando com a plena adesão de jovens e adultos, crianças e idosos, homens e mulheres, ricos e pobres, na cidade, no campo ou no mar, no país e na imensa e sempre crescente diáspora. É o Ano Novo Chinês, intensa e entusiasticamente vivido.Depois do artigo sobre o almanaque chinês, fomos buscar mais um texto de Luís Esteves Fernandes, diplomata português que serviu em Pequim e em Tóquio, do seu livro “China de ontem, China de sempre” (Empresa Nacional de Publicidade, Lisboa, 1948). Foi desta forma que ele descreveu o Ano Novo Chinês, tal como o observou e viveu:“O facto de a República haver instituído o calendário gregoriano não implicava necessariamente o esquecimento do velho Ano Novo chinês. Vivazes tradições, enraizadas no íntimo dos Celestes, estão ligadas àquela data, pilar que fixa o princípio das maiores festividades nacionais e o único período de férias que eles se permitem. Não havia de ser com a publicação de uma lei que o povo, que a nação em peso abandonaria a série de superstições e de formalidades extravagantes que, na sua mente, desempenham o maior dos papéis na vida e felicidade familiares, para adoptar um processo original de contagem do tempo, desprovido de vantagens evidentes, imediatas, obra dos bárbaros do Ocidente.Necessário é relembrar que, mesmo depois de os astrónomos chineses estarem a par dos progressos da ciência astronómica europeia, quando se aproximava o momento de um eclipse, os mais altos funcionários do observatório, tal como o povo nas ruas, reuniam-se e tocavam com desespero em bombos, pratos de metal, nos mais A maior festividade do povo chinês“As habitações e as gentes sofrem uma renovação completa, tendente a transformá-las de molde a apresentarem-se dignas das venturas e benéficas influências…”extraordinários instrumentos, a fim de afugentar o dragão maléfico que diligenciava devorar o Sol ou a Lua!A quietude e silêncio da cidade são estrepitosamente interrompidos nesse período festivo. Durante 10 dias, com fragor, os Celestes entregam-se, de alma e coração, à comemoração da maior data do seu calendário.A sobriedade, compostura de maneiras, espírito de economia, desapareceram para dar lugar a um estado anormal, traduzido em manifestações de mil espécies, que vão desde o simbolismo tranquilo de queimar incenso em honra dos espíritos, ao lançamento ininterrupto de petardos, estrondeando, incessantes, em horas infindáveis de martírio, sem consentir um instante de alívio.Nos jardins, nos pátios, nas ruas, em todo Pequim, fogos de artifício, vistosos, fantásticos, deslumbram a retina e explicam o fim modesto atribuído pelos chineses à pólvora, a qual unicamente se transformaria em artigo destruidor graças aos ensinamentos dos jesuítas; nas lojas, grandes ou pequenas, ricas ou pobres, o pessoal reúne-se numa das salas e organiza uma orquestra infernal, em que as notas doces dos violinos morrem sufocadas pelos sons monstruosos tirados dos bombos tocados com força destruidora a ensurdecer o transeunte…Dez dias antes do Ano Novo, o prólogo, a bem dizer, da sua grande revista inaugura-se quando, pela meia-noite, no meio de aclamações, o deus da Cozinha é trazido para a rua e queimado. Então, o seu espírito sobe aos céus e dá conta ao Criador dos actos da família em que viveu.
  • 022 023F A L A R D E N Ó S – X J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – XPara que o deus agradecido só repita coisas agradáveis ou com o propósito de que fale pouco por ter a boca pegajosa, antes da largada para a grande viagem servem-se bolos adocicados em que o mel predomina.Entretanto, os preparativos vão num crescendo: as limpezas e lavagens das casas, dos móveis, acompanham a higiene individual, que é escrupulosamente cuidada por esta ocasião. As habitações e as gentes sofrem uma renovação completa, tendente a transformá-las de molde a apresentarem-se dignas das venturas e benéficas influências de que o Ano Novo será quiçá o mensageiro.Em consideração aos numerosos amigos que costumam acorrer nos primeiros dias de festa para cumprimentar e exprimir votos de prosperidade, os mais variados e abundantes manjares – não esquecendo o Chu po po, bolos de carne – foram com antecedência preparados, em virtude do descanso obrigatório que se segue e que, à uma, sem discrepância, é acatado.É uma azáfama constante, barulhenta, uma agitação que revolve a casa em todos os sentidos e faz perder a habitual tranquilidade e paz de alma dos Celestes…No último dia do ano, no 30.º do derradeiro mês lunar, as inscrições vermelhas apostas nos muros fronteiros às casas e nos umbrais das portas (…) são arrancadas, desprezadas e destruídas, depois de haverem cumprido com sucesso a missão de que eram encarregadas, e substituídas por outros dizeres semelhantes.Ao romper do novo ano, o deus da Cozinha – Tsao Wang – dedicado companheiro que não guarda rancores, entre estrondosos foguetes regressa, mais uma vez, disposto, com a sua presença, a conceder uma indicação de bom augúrio, uma promessa de amparo. À sua chegada, aumenta o número de fogos a queimar, a alegria intensifica-se, a festa atinge proporções de uma batalha: é preciso amedrontar e afugentar os maus espíritos, que, desleais e pérfidos, quisessem aproveitar-se do descuido geral para se implantar na casa e influenciar, perniciosamente, o destino e sorte da família, durante o decorrer do ano que desponta.Todos os cuidados são poucos; e, para salvaguarda maior, os cautos chineses preparam-se com astúcia e habilidade e colocam guerreiros armados à entrada das portas. Dois bravos generais, que remontam às idades passadas e usufruem um prestígio enriquecido pelo mérito demonstrado em séculos sucessivos, desde os Tangs, impedem o ingresso dos espíritos intrusos e malévolos. (…)De entre os personagens que ocupam funções de relevo no complicado desenrolar da feérica mágica que é o Ano Novo chinês, sobressai, pelo alcance da missão a cumprir, o deus da riqueza. Para ele são dirigidos os cuidados, as manifestações de respeito e gratidão desde que pouco ou nada se receia dos maus espíritos, das más influências que, em vista das precauções tomadas, se divisam como um perigo longínquo. Espera-se, agora, cativar o deus dos bens materiais, o generoso doador das riquezas: o sacrifício, por conseguinte, a oferecer deve estar em relação com os bens da família e proporcionado aos benefícios que se desejam obter. (…)Os celebrados ninhos de andorinhas, as deliciosas barbatanas de tubarão, os ovos de 100 anos, dezenas e dezenas de iguarias famosas e requintadas, servem-se em
  • 024 025F A L A R D E N Ó S – X J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – Xfamília, no meio de intermináveis partidas de mah-jong, bulhentas, onde o matraquear das cartas de bambu batidas na mesa faz como que parte do jogo e, até altas horas da noite, – predilecto passatempo –, serve de ocupação aos Celestes, que, encantados e absorvidos, nem se apercebem do correr das horas…Urge que fiquem saldadas as dívidas ao encerrar do ano; desculpas não são de admitir. Com o Ano Novo, vida nova. Todo aquele que tem uma existência difícil busca, ansioso, o meio de livrar-se de embaraços e, em último recurso, realiza um empréstimo, possivelmente em condições ruinosas, para saldar a antiga dívida. É uma questão de honra que tem de ser resolvida. Se a infelicidade teima em perseguir o indivíduo, se as contas não podem ser prestadas, a fuga impõe-se como solução.No entanto, o regozijo público é a lei que vigora: desgostos e mágoas devem ser abandonados para dar lugar ao ruído, ao prazer, à alegria. E, de facto, os caprichos luminosos dos fogos de artifício rasgando, esplêndidos, o firmamento sereno, em voos alucinados, as explosões repetidas dos mais violentos petardos a relembrar a cada instante a data festiva que se comemora, os sons extravagantes e estrondosos das orquestras improvisadas, expandindo-se com estampido nas ruas, – todo este bizarro e atraente conjunto tem o condão de formar uma atmosfera característica, singular, que consegue imprimir, no espírito de todos os que a presenciaram, uma recordação duradoura e rara, dificilmente extinguível.”No essencial, é assim a comemoração desta quadra festiva, na grande China e nas comunidades chinesas no estrangeiro. Em Macau, a celebração ganha sempre um especial colorido, com a cidade toda em festa contínua ao longo de vários dias.Deixa-nos o Dragão e vai entrar nas nossas vidas a Serpente. Aos leitores e a Macau aqui ficam os votos de Bom Ano. 4 de Fevereiro de 2013
  • 026 027F A L A R D E N Ó S – X J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – XMesmo em plena Guerra do Pacífico, com os japoneses já instalados em vastas áreas do território chinês, em Macau continuou a ser festivamente comemorado, ainda que sem o fulgor habitual, o ano novo lunar. Depois de um ataque rápido, Hong Kong capitulara no dia de Natal de 1941 e as dificuldades em Macau eram crescentes, agravadas pelo generalizado clima de incerteza sobre as intenções do temível exército nipónico, que muitos acreditavam estar prestes a invadir a cidade, não obstante a neutralidade portuguesa.No livro “Eu estive em Macau durante a Guerra”, de António de Andrade e Silva, escrito nos primeiros anos da década de 1940, mas só publicado em 1991, em edição conjunta do Instituto Cultural de Macau e do Museu e Centro de Estudos Marítimos de Macau, podemos encontrar um curioso relato romanceado daquela efeméride. O autor, que foi Capitão dos Portos de Macau, relatou as suas observações e experiências em torno das aventuras e desventuras de um protagonista por ele escolhido, o médico português Afonso Sequeira, solteirão oriundo da então denominada Metrópole, com a sua companheira chinesa Mary Wong:A maior das festividades“A festa tradicional que para os chineses se reveste de maior importância e animação, é a que levam a efeito pelo Ano Novo, conforme o seu velho calendário subordinado ao movimento da Lua.Antigamente, o início dos anos lunares variava segundo as dinastias reinantes, mas, cento e quatro anos antes de Cristo, foi fixado no dia da primeira Lua Nova a O ano novo lunar em tempo de guerra“Como esta festa deveria ser animada e interessante, se não estivéssemos em guerra e a miséria não fosse tanta!”seguir à entrada do Sol no Aquário, data que fica compreendida entre 21 de Janeiro e 19 de Fevereiro.O primeiro Governo da República, em 1912, decretou a abolição do Ano Chinês, estabelecendo a ´Festa da Primavera´ em substituição das cerimónias usuais por ocasião do Ano Novo, mas a tradição encontrava-se de tal maneira no espírito do povo que este, embora em alguns casos adoptasse o calendário ocidental, continuou a reger-se pelos anos lunares, mantendo as grandes solenidades do princípio do ano, que apresentam simultaneamente características religiosas, familiares e comerciais. Em Macau, já muitos dias antes o Porto Interior se começa a encher de embarcações chinesas, que paralisam todas as suas actividades para gozarem o único descanso de um ano de labuta; arrumam-se muito juntinhas, procurando agrupar-se com as dos parentes e formando longas fileiras separadas umas das outras por estreitos corredores aquáticos que semelham pequenas ruas de um estranha cidade flutuante com mais de sessenta mil habitantes!Na véspera do Ano Novo, bandeiras vermelhas são içadas nos mais elevados mastros das embarcações, enquanto os panchões estoiram ruidosamente no mar e em terra, afugentando apressadamente os espíritos malignos, que nestes dias festivos se vêem forçados a procurar esconderijo bem longe dos povoados…Pelas portas, janelas e paredes encontram-se afixados papéis vermelhos exprimindo votos de felicidade, e muitas lojas e residências ostentam ricos panos carmesim em
  • 028 029F A L A R D E N Ó S – X J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – Xvistosas decorações; nas ruas, numerosos chineses aproveitam a oportunidade para exibirem cabaias e fatos novos como prova da sua abastança.Sequeira, interessado pelo exotismo da festa que constitui o maior acontecimento da vida social chinesa, mas cujas solenidades particulares são absolutamente vedadas aos olhos de europeus, pediu à Mary Wong que fosse sua companheira naquela noite de desusada animação e o elucidasse sobre os milenários costumes da China em data tão solene. Lado a lado, como um casalinho de namorados, percorreram a Rua da Felicidade, ornamentada com inúmeros balões de feitios esquisitos e atapetada com os papéis vermelhos dos panchões que não cessaram de rebentar.– Como esta festa deveria ser animada e interessante – pensava o médico – se não estivéssemos em guerra e a miséria não fosse tanta!E, de facto, o que se passava em Macau constituía uma pálida amostra das comemorações dos anos anteriores. Não havia jogo pelas ruas nem iluminações no Bazar; apenas o Bairro da Felicidade, onde as ̀ pipa-chai´ são rainhas, pretendia mostrar ainda um pouco de alegria própria da mocidade.Numa rua do Mercado de S. Domingos, em numerosas barracas armadas propositadamente e com luz a jorros, os horticultores e floristas expunham à venda as plantas e flores tradicionais da época como símbolos de felicidade, tangerineiras anãs carregadas de frutos, ramos de pessegueiros, pereiras e ameixieiras a florescer, jacintos, dálias e crisântemos. Enorme multidão, sempre renovada, adquiria os seus perfumados e decorativos talismãs, que deviam enfeitar o lar antes de soar a meia-noite.Klu-klu e fan-tanAo entrar no Hotel Central, Sequeira encontrou o átrio repleto de chineses jogando o ´klu-klu´ em volta de duas mesas, ouvindo-se de vez em quando o grito convidativo do ´croupier´ berrando em altos sons ´hoi, hoi´ (abro, abro) enquanto acariciavam uma caixinha de base plana e circular, onde assentavam três dados fechados superiormente por uma cúpula de vidro, que uma tampa preta apropriada eximia à vista do público. Esperando um pouco, o banqueiro retirou a cobertura da redoma e surgiram os dados mostrando um 4, um 3 e um 2, no total de nove, ´pequeno´, que ele anunciou logo em voz cantante: ´Si, sâm, i, kao, sai´ (4, 3, 2, 9, pequeno).Todos os ́ pontos´ que tinham jogado naqueles números e no ́ pequeno´, receberam os seus lucros, depois do que, fechando de novo a caixa e agitando-a três vezes para revolver os dados, a pousou sobre a mesa aguardando que mais apostas fossem efectuadas.Sequeira verificou que os oleados colocados sobre as mesas e onde os jogadores dispunham o dinheiro que arriscavam, estavam divididos em numerosos rectângulos, com os números 4 a 17 escritos em fila e desenhos de combinações dos algarismos gravados em cada dado (1 a 6), além de dois espaços maiores, um para o ´grande´, números de 11 a 17, e outro para o ´pequeno´, de 4 a 10.Três dados iguais constituíam o ´partido´ da banca, mas os ´pontos´ também podiam tentar a sorte nesses números, o que não evitava que aquele jogo não deixasse de ser uma espécie de ´banca francesa´ em que o banqueiro tinha a colossal vantagem de ficar com seis ´partidos´…
  • 030 031F A L A R D E N Ó S – X J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – X– Que diabo – monologou o Sequeira – Nem doutra maneira se podia admitir que os concessionários do jogo pagassem anualmente de impostos à Colónia cerca de dois milhões de patacas, a brincadeira de mais de doze mil contos!Metendo-se no elevador com a Mary Wong, o médico parou no sexto andar, dirigindo-se para o cabaret onde duas orquestras tocavam alternadamente músicas de actualidade para baile. Em volta do recinto destinado à dança, numerosas ´taxi-girls´ aguardavam sentadas pelos fregueses que as levariam para o rodopio, enquanto na restante parte da sala à meia luz, numerosas mesas se encontravam apinhadas de frequentadores ansiosos por divertir-se.Não resistindo à tentação duma rumba sensual, Sequeira tomou nos braços a apetitosa bailarina e pretendeu executar alguns passos de dança, em breve reconhecendo que não estava dia para essas fantasias, pois os pares comprimiam-se de tal forma em recinto tão apertado que se via em sérios embaraços para não pisar o seu par ou os pés vizinhos.Foi então tomar conhecimento com outro jogo desconhecido, o ´fan-tan´, que se praticava numa sala ao lado e constituía uma espécie de jogo do ´monte´, mas sem cartas: sobre a mesa revestida de oleado escuro apenas se lobrigava um quadro metálico com os algarismos 1 a 4 escritos nos lados e uma grande quantidade de botões brancos, que o banqueiro separava em grupos de quatro manejando uma vareta. Terminada a jogada, o banqueiro pegou numa espécie de malga com a boca virada para baixo e cobriu repentinamente uma porção de botões, que desviou para o lado, indicando em seguida que podiam começar as apostas.”A segunda parte deste interessante relato, com Mary Wong a recordar com vivacidade a riqueza da comemoração do ano novo lunar no seio da sua família, será integrada no próximo artigo. 8 de Fevereiro de 2013
  • 032 033F A L A R D E N Ó S – X J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – XA chegada do Ano da Serpente foi celebrada animada e ruidosamente por toda a China e na ampla diáspora chinesa, com coloridos e intensamente participados festejos e espectáculos. Por muito que o mundo possa mudar – e aquele imenso país conheceu impressionantes transformações nas últimas décadas –, com avanços tecnológicos surpreendentes e novas formas de organização social, nada vencerá este genuíno apego a tradições tão vincadas na alma de um povo que continuarão a impor-se a quaisquer regimes políticos e a resistir a todos os ventos da história.Em Portugal, onde me encontro, também se multiplicaram as festas da crescente e laboriosa comunidade chinesa, em torno da sua Liga e de variadas outras associações. A Casa de Macau, por seu lado, reuniu os associados num almoço de convívio no Restaurante Mandarim do Casino Estoril, e o Centro Científico e Cultural de Macau organizou uma bonita sessão comemorativa, com a presença do novo Embaixador da República Popular da China, acabado de apresentar credenciais, antigos Governadores de Macau e muito público cada vez mais atraído por manifestações culturais chinesas.O artigo anterior incluiu um texto do livro “Eu estive em Macau durante a Guerra”, sobre a celebração do ano novo lunar nos tempos dificílimos da Guerra do Pacífico. Nele, o médico Afonso Sequeira, pela mão da sua companheira Mary Wong, estreava-se nas festividades e acabava de conhecer, no casino, o apreciadíssimo jogo de “fan-tan”, de marcante simplicidade, em que o “croupier” usa uma vareta para separar, de um monte de botões brancos, quatro de cada vez até se apurar o resultado final. Aquele interessante relato prossegue assim:Saúde, harmonia e prosperidade no Ano da Serpente“Como éramos felizes durante esses quatro dias do Ano Novo, porque não havia trabalho, em que tudo era festa!”“O dinheiro começou logo a cair junto dos quatro algarismos ou entre eles, e Mary Wong foi explicando a técnica do jogo: – Concluídas as apostas, o banqueiro procede à contagem dos botões separados, excluindo-os em grupos de quatro, ganhando o número correspondente à quantidade de marcas que restar no último grupo, que terá de ser quatro ou inferior. Se, por exemplo, este grupo contiver apenas dois botões, quem jogou no 2 recebe de lucros três vezes o que arriscou, e os que jogaram entre o 2 e o 1 ou entre o 2 e o 3, auferem quantia igual à depositada. – E acrescentou, cheia de convicção: – Olhe, Doutor, tenho o palpite de que agora vai sair o três…Sequeira não era jogador, mas quando se acompanha uma mulher bonita há que ser condescendente e galanteador e, por isso, colocou resignadamente vinte patacas no número palpitado. Então o banqueiro, com a perícia que um longo treino exercitara, começou agilmente a manejar a vareta mágica, separando rapidamente quatro marcas de cada vez; mas ainda no monte existiam numerosos botões e já Mary Wong, cuja vista arguta calculara as marcas que restavam, exclamava entusiasmada e alegre ao ouvido do médico: – Você ganhou, Doutor!E, de facto, o último grupo de botões só continha três! Sequeira, como era de esperar, pois se o perder nunca fez bom cabelo, o ganhar deu sempre alegria até ao mais sorumbático, recebeu satisfeitíssimo os seus inesperados proventos, prometendo ir gastá-los numa boa ceia, mas verificou que lhe devolveram menos do que as oitenta patacas que esperava, pelo que Mary lhe voltou a explicar: – A importância está certa, Doutor. Esqueci-me de o informar que todas as ´paradas´ ganhas sofrem um desconto de dez por cento para a casa. (…)
  • 034 035F A L A R D E N Ó S – X J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – XComo havia prometido, assim cumpriu, tanto mais que não lhe saía do bolso, pelo que, deixando o Central, Sequeira se dirigiu com a amante a um ´culau´ das proximidades, célebre pelos acepipes da época, constituídos na sua generalidade por doces de frutas e hortaliças. Comeram, beberam e conversaram, mas o médico não estava satisfeito com o que aprendera durante a noite: então era aquilo que presenciara, a grande festividade do Ano Novo chinês? Limitava-se esta raça de mais de quatrocentos milhões de indivíduos a queimar panchões, pôr ramos de pessegueiro em casa, enfeitar as salas com panos vermelhos e a comer ou jogar em comemoração de tão importante solenidade?Mary Wong acabara por entristecer, pobre flor gentil e perfumada que um vendaval de desventura arrancara do jardim familiar. Onde estariam agora o seu pai, os seus irmãos, todos os entes queridos que a sua leviandade obrigara a abandonar num momento de loucura e de invencível desejo de emancipação? E, melancolicamente, achegando-se com carinho para o Sequeira, que no momento constituía toda a sua família perdida, foi relatando como quem servia um sonho estranho, um sonho que fora toda a sua mocidade, que não voltaria mais:– Meu pai, Wong Pac, era um remediado agricultor que vivia nos Novos Territórios da Colónia de Hong Kong, arreigado às velhas tradições da China. Minha mãe, subordinada à autoridade despótica da sogra, minha avó Lai Sám, quase nem tinha o direito de olhar pela educação dos filhos, não comendo à mesa nem aparecendo em público com meu pai. Para meu irmão Wong Kao iam todas as solicitudes da família enquanto eu, que nesse tempo ainda não era Mary Wong, e minha irmã mais nova, Wong Si, pela nossa triste condição de mulheres, de que não éramos culpadas, nos encontrávamos votadas ao horrível abandono.Apesar de tudo, era este o nosso dia mais feliz em todo o ano. Ao chegar à meia-noite, meu pai acendia os pivetes no altar familiar e rendia culto aos antepassados, depois recebia as homenagens dos filhos, que se lhe dirigiam reverentemente agradecendo-lhe os sábios conselhos dispensados durante o ano findo e desejando-lhe longa vida, prosperidade e alegria.Vinham então os criados, submissos e respeitosos, ajoelhando-se e dobrando a cabeça até tocarem no chão, ao mesmo tempo que apresentavam a toda a família os melhores desejos de boa fortuna durante o ano que se iniciava, atenção que meu pai retribuía generosamente, entregando-lhes envelopes vermelhos contendo a habitual gratificação. (…)Nesse dia, todas as dívidas deviam ficar liquidadas e meu pai, que mais tinha para receber do que a pagar, melhorava na sua abastança; quem não podia satisfazer os seus compromissos evitava a desonra com o suicídio, que saldava todas as dívidas com a morte.No dia de Ano Novo, meu pai, levando pelo braço minha avó, que mal podia caminhar por ter os pés deformados pelo cruel hábito de perpetuar os ´lírios de oiro´, costume bárbaro de que eu e minha irmã nos livrámos por já ali ter chegado um pouco da civilização ocidental, ia visitar o Pagode e, acendendo pivetes e queimando papéis alusivos, agradecer a Buda as mercês recebidas e solicitar a continuação da sua indispensável protecção durante o ano que se encetava.Seguidamente, meu pai e meu irmão iam cumprimentar os parentes e os amigos, desejando-lhes com grandes vénias ´Kong Hei Fat Tsoi´ (auspicio-lhe prosperidades),
  • 036 037F A L A R D E N Ó S – X J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – Xao mesmo tempo que, em gestos que uma tradição milenária perpetuou, juntavam as duas mãos e as deslocavam para cima e para baixo entre a testa e os joelhos…Com a nossa ajuda, minha mãe passava o dia a preparar ofertas para os parentes e amigos, as quais se compunham de gengibre e frutas cristalizadas, amendoim torrado, pevides, laranjas, tangerinas e diversos bolos próprios da ocasião, recebendo nós também presentes semelhantes, que sempre saboreávamos com imensa alegria. Como éramos felizes durante esses quatro dias do Ano Novo, porque não havia trabalho, em que tudo era festa!Mas, um dia, um terrível dia que não mais esquecerei, meu pai pretendeu casar-me com um vizinho execrável e já idoso. De nada serviram os meus rogos nem as minhas lágrimas; a mulher, na antiga China, era uma escrava sem vontade própria. E eu, que já conhecia Hong Kong, que já nas escolas tivera contacto com a civilização que ensina a emancipar a mulher e lhe concede o direito de dispor do seu corpo, abandonei o lar dos meus pais só para não ser sua escrava, caindo afinal no que sou hoje, uma pobre escrava de você, depois de ter sido escrava de tantos outros…Sequeira, comovido e apaixonado, ficara a saber dos costumes da vida chinesa mais do que esperara e, nessa noite, para desmentir um pouco as palavras amargas e desoladas da sua pequena Mary Wong, quem foi escravo foi ele…” Voltarei, oportunamente, a este livro, cuja leitura se recomenda. Neste ambiente festivo que se prolonga, a todos os leitores e às gentes desta nossa querida Macau desejo saúde, harmonia, prosperidade e muitos dias felizes no novo ano auspiciosamente iniciado.18 de Fevereiro de 2013
  • 038 039F A L A R D E N Ó S – X J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – XApesar do tempo frio e chuvoso, numeroso público acorreu, na 4.ª feira passada, ao auditório do Centro Científico e Cultural de Macau (CCCM), em Lisboa, para assistir ao lançamento de “Camões em Macau – uma verdade historiográfica”, de Eduardo Ribeiro (Labirinto de Letras, 2012), que é a consagração de um persistente e consequente esforço de estudo e investigação sobre a realidade ou o mito da presença do imortal vate nas “partes da China” ou, mais especificamente, em Macau. Abriu e fechou a sessão o anfitrião, Prof. Luís Filipe Barreto, director daquele centro, e usaram também da palavra o editor, o autor da obra e eu próprio, amavelmente convidado para proceder à sua apresentação.Na sua intervenção inicial, Luís Filipe Barreto recordou a missão que abraçara em Macau, de coordenação dos Estudos Portugueses na Universidade de Macau, numa altura em que se procedia à sua consolidação após a conversão (de 1989 a 1991) de entidade privada, então denominada Universidade da Ásia Oriental, em instituição pública, e referiu o papel do CCCM, muito oportunamente criado em 1999, por iniciativa e impulso determinante do último Governador de Macau. Como organismo do Estado Português dedicado à promoção e valorização da memória de Macau e das relações culturais entre Portugal e a China, aquele centro era, sem dúvida, o local mais apropriado para a divulgação não só deste livro, mas de toda a vasta produção de Eduardo Ribeiro em torno da questão do estanciamento de Camões no Oriente Extremo. O seu actual director e colaboradores têm sabido atingir, de forma notável, os propósitos então fixados, dando continuidade ao meritório trabalho dos seus antecessores e ampliando, muito significativamente, a dimensão académica e científica que não pode deixar de marcar o seu programa de acção.Camões em Macau – uma verdade historiográfica“… a presença de Camões em Macau é histórica e é justamente daí que advém o ‘peso’ da ‘lenda’. E os testemunhos são tantos que, acompanhados da obra autobiográfica do próprio Poeta, têm um peso ensurdecedor e têm sido aceites por muitos, muitos, eu diria a grande maioria, dos historiadores e investigadores.”“Camões em Macau – uma verdade historiográfica”, pág. 363A ediçãoO editor, Dr. José António Barreiros, respeitado jurista e também escritor, recordou a sua passagem por Macau, a amizade que o liga ao autor do livro e a aposta que a editora Labirinto de Letras quis fazer ao incluir no seu programa editorial mais este trabalho, apenas um ano após o lançamento de “Camões no Oriente”, do mesmo autor. Conheci José António Barreiros quando ele desempenhou altas funções públicas em Macau na segunda metade da década de 80. Foi um período relativamente curto mas suficiente para aqui deixar uma imagem de seriedade e competência e, ao mesmo tempo, de correcção e cordialidade no trato.José António Barreiros e a Labirinto de Letras, assim como todas as editoras portuguesas, são credores da nossa admiração num tempo em que a produção editorial tem acrescidos riscos, quando experimentamos, em Portugal, um forçado e acelerado empobrecimento da classe média, o que se traduz numa drástica diminuição do poder de compra e na redução acentuada de condições de acesso a bens culturais essenciais – como o livro, que é a sua expressão mais singular –, a par de um verdadeiramente iníquo cerco aos aposentados e pensionistas, discriminadamente penalizados no contexto duma assustadora voracidade fiscal, inibidora do desenvolvimento e, portanto, estimuladora do desemprego, cerceadora do investimento e da criatividade e assassina dos sonhos da juventude e das legítimas aspirações de todas as gerações – colocadas em carência e até em conflito, por uma gritante insensibilidade política – em relação a um futuro para o qual é urgentíssimo rasgar novas janelas de esperança e de oportunidade. Nestas condições, só com redobrada determinação e muita coragem se pode avançar na concretização de novos projectos.
  • 040 041F A L A R D E N Ó S – X J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – XO autorSurpreendeu-me o convite do autor para apresentar este seu mais recente livro, que me disse ser já o definitivo no que respeita ao tema que, perseverantemente, investigou e tratou ao longo dos últimos sete anos. Não sendo especialista na complexa matéria camoniana, embora ela fizesse parte da minha formação, foi com alguma hesitação que aceitei a incumbência. Assumi-a pelo alto significado que o Poeta teve no meu próprio percurso pessoal e especialmente pelo privilégio que o autor me proporcionou, de poder acompanhar interessadamente os seus sucessivos trabalhos, apreciando os artigos que foi escrevendo e os livros que publicou, empenhado em pôr fim a uma celeuma nascida nos alvores do século XX e às dúvidas suscitadas sobre a permanência de Camões nestas paragens que me proporcionaram o berço e os primeiros caminhos de descoberta e de afirmação e onde o autor passou quase três décadas da sua multifacetada vida profissional, complementada com vivências extraordinárias de índole cultural e social.Eduardo Alberto Correia Ribeiro nasceu em Angola (Moçâmedes, actual Namibe) e fez a instrução primária em Angola e o liceu em Tomar, Cernache do Bonjardim, Vila Real, Lisboa, Lubango e Namibe. Depois de licenciado em Direito, em 1972, pela Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, exerceu em Angola a magistratura do Ministério Público e a magistratura judicial, de 1973 a 1978. Também foi advogado entre 1979 e 1982 em Luanda e desempenhou o cargo de director do Gabinete Jurídico do Ministério dos Petróleos de Angola. Prosseguiu o exercício da advocacia no Porto de 1982 a 1985, ano em que partiu para Macau.Entre 1985 e 1998, ainda na vigência da administração portuguesa, exerceu sucessivamente os seguintes cargos neste território: director da Inspecção dos Contratos de Jogos, director dos Serviços Prisionais e de Reinserção Social, coordenador do Gabinete de Prevenção e Tratamento da Toxicodependência, administrador da Imprensa Oficial e juíz substituto de vários tribunais. Após a transferência do exercício da soberania em Macau, foi, em Portugal, director de serviços de acordos, contratos e convenções na Direcção-Geral de Saúde em 1999 – 2000. Em Novembro de 2000, de novo em Macau, iniciou as funções de assessor do gabinete do presidente do Tribunal de Última Instância da RAEM.Todos estes cargos de responsabilidade, exercidos de forma reconhecidamente positiva, atestam inequivocamente, a sua competência e capacidade como jurista e gestor público. E a prova do seu mérito está também na feliz circunstância de desempenhar elevadas funções durante e após a administração portuguesa.Como diria Antoine de Saint-Exupéry, “aqueles que passam por nós, não vão sós, não nos deixam sós, deixam um pouco de si, levam um pouco de nós”. Eduardo Ribeiro deixou muito de si em Macau e levou a terra e as gentes no coração quando partiu. Tendo certamente bebido a água do Lilau, regressou e terá Macau eternamente na memória e no coração, ao lado de Portugal e da sua Angola, que lhe ofereceu as primeiras raízes que o prenderam definitivamente a vários mundos que são partes, afinal, de um só mundo quando entendido com o sentido da universalidade que marcou os portugueses nas sete partidas.A estes dados biográficos, é imprescindível acrescentar e realçar a sua admirável devoção a esta causa que tanto o entusiasmou e cujos resultados estão nos mais de
  • 042 043F A L A R D E N Ó S – X J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – Xvinte trabalhos que foi publicando, em torno de Camões no Oriente, na forma de artigo ou livro. Os seus artigos, o primeiro dos quais foi “Camões nas partes da China, obviamente em Macau”, foram saindo nos diários macaenses Ponto Final, Hoje Macau e Jornal Tribuna de Macau e na revista electrónica universitária brasileira Labirintos. Os livros são “Camões em Macau – Uma certeza histórica”, das Edições COD, Macau, de Novembro de 2007, e, como já foi atrás referido, “Camões no Oriente” e “Camões em Macau – uma verdade historiográfica”, ambos da Labirinto de Letras. Também o Dicionário da História de Macau, recentemente dado à estampa pela Universidade de Macau, inclui um verbete seu, precisamente sobre “Camões em Macau”.Falta ainda dizer uma palavra sobre a pessoa, para além da personalidade que desempenhou todos aqueles cargos, com rigor e dedicação à causa pública. Para os seus amigos, Eduardo Ribeiro é um homem determinado e com convicções, mas tolerante e aberto aos outros, cordial, simpático, leal, um verdadeiro amigo.Ao protagonizar mais uma memorável sessão pública de apresentação de um livro seu, Eduardo Ribeiro recebeu da assistência o merecido aplauso pela exaustiva investigação a que se entregou e que conduziu à conclusão baseada na verdade factual da presença do vate em Macau, situando-a entre 1562 e 1565. Voltarei ao livro, para referir o seu conteúdo e a sua importância para Macau e para Portugal. 25 de Fevereiro de 2013No seu livro “Camões em Macau – Uma verdade historiográfica” (Labirinto de Letras, 2012), o autor, Eduardo Ribeiro, revela uma investigação minuciosa e faz, consequentemente, uma defesa segura da presença de Camões nas “partes da China” e, mais precisamente, em Macau, rebatendo os argumentos e esclarecendo as dúvidas de quantos, só a partir da primeira década do século XX, começaram a pôr em causa o estanciamento do Poeta nestas paragens extremo-orientais.Ao fazer a apresentação do livro no mês passado, a convite do autor e do editor, procurei caracterizar a celeuma levantada a partir de uma tomada de posição eivada de erros históricos, avançada por um certo Gonçalo da Gama, sob o pseudónimo de João Frick, em 2 de Julho de 1907, no jornal “Portugal”. Frick, não só escreveu que “em 1557, Macau era um covil de piratas e em 1556 ainda não existia”, como assumiu esta impressionante enormidade: “Escutai mais: Camões morreu, com a espada na mão, ao lado de seu rei nos campos de Alcácer-Kibir”! Como referiu em 1940 o Padre Manuel Teixeira, no seu livro “Camões esteve em Macau” (republicado em 1980 pela Direcção dos Serviços de Educação e Juventude e em 1999 pelo Instituto Internacional de Macau), “os leitores engoliram os enormes dislates de Gonçalo da Gama”. E perguntou: “Se este homem nada percebia da história de Macau, como é que a sua tese, sem fundamento algum, pôde ter aceitação?”É normal, nestas circunstâncias, seguirem-se mais contestadores, julgando trazer alguma novidade e querendo ir mais longe do que o primeiro. Os mais incisivos foram Luís da Cunha Gonçalves, na obra “Camões não esteve em Macau” (Coimbra, 1928), e Charles Boxer, que apenas identifica as dúvidas suscitadas, no seu opúsculo “Was Em defesa do estanciamento de Camões em Macau“Camões foi testemunha dos alvores do que haveria de ser o principal e mais duradouro estabelecimento lusíada no Extremo Oriente”.Eduardo Ribeiro, “Camões em Macau – Uma verdade historiográfica
  • 044 045F A L A R D E N Ó S – X J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – XCamoens ever in Macau?” (separata da revista T’in Hsia Monthly, Xangai, Abril de 1940). Manuel Teixeira explica: “Boxer repete os argumentos de Gonçalves e este repisa os de Gonçalo da Gama. Com uma diferença: Boxer conhece bem a história de Macau, os outros não”. Manuel Teixeira escalpeliza o texto de Luís da Cunha Gonçalves e conclui: “Gonçalves dá 5 erros em 10 linhas. Daqui se pode ver o que sabe sobre Macau o homem que pretendeu demolir uma tradição plurissecular”. Claro que a dúvida estava semeada e assim persistiu até aos nossos dias.Foi a este trabalho de estudo e esclarecimento que se dedicou Eduardo Ribeiro ao longo dos últimos sete anos, analisando testemunhos coevos e documentação esclarecedora, o que lhe permitiu, sem mais hesitações, situar o estanciamento de Camões em Macau entre 1562 e 1565. A obra é extensa e merece uma leitura atenta de quantos se interessam pela temática camoniana ou que apenas desejam ver ultrapassadas as dúvidas que ficaram. Tem nove capítulos e preciosas anotações e vários índices, anexos e referências bibliográficas. Conclusões do autorSão de Eduardo Ribeiro estas conclusões: “Sobre a China e Camões, o que sabemos ou foi dito pelos biógrafos ou por quem o conheceu pessoalmente (comentador Correia e cronista Couto), ou consta de um inventário de bens do Colégio de S. Paulo, ou é referido em dois cancioneiros particulares (de Madrid e de Cristóvão Borges) e o que tudo isso atesta e abona é que Camões esteve na China. (…) Os argumentos de investigadores negacionistas (…) não têm a força conveniente e convincente para negar o óbvio. A nenhum reconheço força para rebater os indícios espalhados por biógrafos, cronista-mor da Ásia, etc, etc, que exaustivamente listámos e avaliámos e que são testemunhos que vêm da profundeza dos tempos, do tempo de Camões.Nem entendo como, para se defender a força da permanência da ‘lenda’, seu ‘peso’ e ‘perenidade’, se parta de uma premissa como esta: ‘Embora a mítica presença de Camões na gruta de Camões já tenha sido desmentida por factos históricos (…)’. Imobilizo-me boquiaberto. Como desmentida? Onde? Por que factos históricos? Não vi nenhuns, em lado nenhum. Bem pelo contrário!Sejamos claros: no pressuposto de que não passa tudo de uma ‘questão de opinião’, é injusto atribuir o mesmo peso aos que ‘acreditam’ e aos que ‘não acreditam’ que Camões esteve em Macau, pois há um esmagador consenso de que os indícios são retumbantes e esmagadores a favor da presença do vate em Macau, sobretudo depois dos contributos que este modesto autor submete à apreciação dos leitores de boa fé.A minha busca, que agora termina, indica-me precisamente o oposto: que a presença de Camões em Macau é histórica e é justamente daí que advém o ‘peso’ da ‘lenda’. E os testemunhos são tantos que, acompanhados da obra autobiográfica do próprio Poeta, têm um peso ensurdecedor e têm sido aceites por muitos, muitos, eu diria a grande maioria dos historiadores e investigadores. (…)Se comecei, de espírito aberto, em busca da verdade, e no sentido de passar a ter opinião própria, termino interrogando-me se o caso será mesmo uma questão
  • 046 047F A L A R D E N Ó S – X J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – Xde opinião. A demonstração dos factos e a probabilidade das hipóteses que neles encaixam são tão impressivas, que pugno evidentemente pela historicidade de Camões em Macau. De resto sempre foi esse o esteio constante ao longo dos séculos.O que surpreende é este empenho recente em desacreditar o que sempre se teve por certo. O que se não entranha é este rigor a desoras relativamente a um tempo em que nem tudo ficava lavrado em documento. E, como se viu, aquilo que se tinha por certo não surgiu do nada. Teve bases suficientemente credíveis porque firmado em certezas de muitos que o afirmaram e nisso acreditaram. Não é desses contos e crónicas que se faz a História?Camões esteve na China, nas ‘partes da China’, como afirmaram o anónimo de 1584 e Pedro de Mariz e Manuel Correia e Diogo do Couto e Cristóvão Borges e os jesuítas proprietários do chão do campo dos patanes.Diogo do Couto, como explicámos, chega mesmo a indicar o nome do capitão-mor com quem o nosso Poeta embarcou para a China (1562).China, para os portugueses, na altura em que Camões a visitou, já tinha deixado de ser Lampacau, já só era Macau. Como Severim de Faria, meticuloso, não deixou de lembrar em 1624. Por isso, obviamente, se Camões esteve na China, foi em Macau que esteve, aqui se mantendo, na memória do povo. (…)E a tradição, caros leitores, quando assim ‘recordada’, é documento. Já dava os primeiros passos em 1584, quatro anos depois da morte do Poeta. Mas estava consolidada e era já pacífica no século XVII, cerca de 70 anos depois de Camões ter passado por Macau, quando até já os documentos haviam consagrado essa ‘memória’ na própria Macau, de tal forma que já o Campo de Patane era referido em documento autêntico por Penedos de Camões, como documentalmente se comprovou. A tradição, associada à toponímia do ‘chão do campo dos patanes’, é documento de monta, mesmo que nada mais houvesse.Mas há, e muito, como vimos. (…)A aura da certeza de que Camões esteve em Macau resulta de muitos indícios que convoquei para estas páginas; tenha eu sabido traduzi-la em palavras e ‘arrumar o turbilhão disperso das informações num quadro inteligível’.” Com esta obra e outros trabalhos anteriores em torno do mesmo tema, Eduardo Ribeiro prestou um alto serviço a Portugal e a Macau, sendo merecedor da nossa homenagem e dos aplausos que lhe foram tributados na bonita sessão de lançamento que tivemos recentemente no Centro Científico e Cultural de Macau, em Lisboa. Como vem na Ilíada (canto VI, 146-149), “assim como a linhagem das folhas, assim é a dos homens. As folhas, atira-as o vento ao chão, mas a floresta no seu viço faz nascer outras, quando sobrevem a estação da primavera: assim nasce uma geração de homens e outra deixa de existir”. Podemos acrescentar: e aos homens pertence a missão indeclinável de honrar a memória e buscar a verdade. 4 de Março de 2013
  • 048 049F A L A R D E N Ó S – X J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – XNo período de um só mês, dois importantes encontros em torno da língua portuguesa tiveram lugar em Lisboa, um na Academia das Ciências e o outro na Universidade Lusíada, nos dias 31 de Janeiro e 27 e 28 de Fevereiro, respectivamente, ambos com a intervenção determinante do Observatório da Língua Portuguesa (OLP). A presença de Macau foi assegurada pelo Instituto Internacional de Macau (IIM), como instituição da sociedade civil que representa o OLP na RAEM e junto de organismos académicos e culturais de países e territórios do Extremo Oriente.Na Academia das Ciências“A Sociedade Civil no Plano de Acção de Brasília” foi o título da conferência coordenada pelo OLP e conjuntamente organizada com a APEDI – Associação dos Professores para a Educação Intercultural, a Associação Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, a Priberam, empresa especializada na concepção e desenvolvimento de software e conteúdos digitais no âmbito da língua portuguesa, e a Academia das Ciências de Lisboa, com o envolvimento de mais de 200 participantes inscritos e muitos convidados. As sessões, versando os temas “O ensino da língua portuguesa no mundo” (Carla Oliveira e Ana Martins), “A língua portuguesa na comunicação social” (José Pacheco Pereira e Afonso Camões), “A língua portuguesa nas organizações internacionais” (Francisco Seixas da Costa e Domingos Simões Pereira) e “A sociedade civil nas estratégias de afirmação da língua portuguesa” (Eduardo Marçal Grilo, João Guerreiro, Luís Carlos Patraquim, Pedro Krupenski e o autor deste artigo), realizaram-se todas no magnífico salão principal da Academia, que tem sede no antigo Convento de Jesus, com acompanhamento permanente de vários órgãos de comunicação social, com especial destaque para a Antena 1, que fez numerosas entrevistas e extensos relatos em directo.Língua portuguesa – presença em dois importantes eventos em Lisboa“Dado que os processos de globalização actuais ultrapassam em muito a vertente económica directa, possibilitando e acelerando as trocas a todos os níveis, a língua pode ser hoje, para Portugal, um activo valioso no contexto internacional a nível político, cultural e económico.”“O Valor da Língua Portuguesa: Uma perspectiva económica e comparativa” (IIM e OLP, 2012)Na sessão de abertura, usaram da palavra os presidentes do OLP, Embaixador Eugénio Anacoreta Correia, e da Academia das Ciências de Lisboa, Prof. Luís Aires-Barros, cabendo a João Bigotte Chorão fazer “Uma digressão sobre a língua portuguesa”, dando o mote aos trabalhos da conferência, cujas conclusões foram lidas na sessão de encerramento.O Presidente da República Portuguesa presidiu à Comissão de Honra, a qual integrou altas entidades do Estado, embaixadores de países de língua portuguesa e representantes permanentes junto da CPLP – Comunidade dos Países de Língua Portuguesa. Colaboraram na organização a AULP – Associação das Universidades de Língua Portuguesa, o Centro Português de Fundações e a Plataforma Portuguesa de ONG e apoiaram o evento o Instituto Nacional de Estatística de Portugal, a Sapo.pt e o IIM.Pretendeu-se, com esta conferência, sensibilizar a sociedade civil para o papel que lhe pertence na promoção, difusão e projecção da língua portuguesa e mobilizar as suas instituições para um contributo positivo na execução das medidas contidas no Plano de Acção de Brasília, aprovado em Conselho de Ministros da CPLP, reunido em Brasília em Março de 2010, e para a sua presença na “II Conferência Internacional sobre a Língua Portuguesa no Sistema Mundial”, a realizar em Lisboa ainda no corrente ano, em data a determinar. O Plano de Acção de Brasília definiu estratégias de implementação da língua portuguesa em organizações internacionais, bem como estratégias de promoção do ensino da língua portuguesa e formas de difusão pública da língua portuguesa, com a participação da sociedade civil.Os objectivos então definidos – “fomentar o apoio da sociedade civil à execução de acções previstas, inclusive pelo estabelecimento de parcerias entre instituições públicas
  • 050 051F A L A R D E N Ó S – X J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – Xe privadas”, “estabelecer formas de cooperação entre instituições públicas e privadas para a elaboração e difusão pública de programas educativos e profissionalizantes em língua portuguesa” e “contemplar, em projectos de cooperação técnica, parcerias com instituições da sociedade civil dos países da Comunidade para a difusão e valorização da língua portuguesa” – estiveram bem presentes nas comunicações apresentadas e nos debates subsequentes. No mesmo dia, a Academia das Ciências organizou uma das suas habituais tertúlias à hora do almoço, com membros e convidados, em que foi orador o presidente do OLP, cuja comunicação sobre “As perspectivas da língua portuguesa” estimulou outras intervenções, como as do presidente do Movimento Internacional Lusófono, Renato Epifânio, do académico Artur Anselmo e do autor deste artigo, sobre a crescente importância atribuída pela China à língua portuguesa.Na Universidade LusíadaA Universidade Lusíada de Lisboa e o OLP co-organizaram o I Congresso Internacional de Língua Portuguesa, levado a efeito ao longo de dois dias de comunicações e debates, protagonizados por um qualificado elenco de personalidades ligadas aos temas tratados, os quais foram distribuídos por cinco painéis: “Situação actual e perspectivas futuras da língua portuguesa” (Murade Isaac Murargy, Secretário-Executivo da CPLP, Luís Amado, ex-Ministro dos Negócios Estrangeiros e Pedro Pinto Coelho, representante do Brasil junto da CPLP), “Desafios e políticas” (Guilherme d’Oliveira Martins, presidente do Tribunal de Contas e presidente da Assembleia Geral do OLP, Pedro Lourtie, ex-Secretário de Estado do Ensino Superior, e José Paulo Esperança, professor do ISCTE – Instituto Universitário de Lisboa), “Implementação e desenvolvimento da língua portuguesa nas organizações internacionais” (Maria Eduarda Boal, membro do Conselho de Administração do OLP, Francisco Seixas da Costa, director do Centro Norte-Sul do Conselho da Europa e ex-Secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros, Maria Isabel Tavares, docente da Universidade Católica Portuguesa, António Monteiro, ex-Ministro dos Negócios Estrangeiros e das Comunidades Portuguesas, Marcello Duarte Mathias, Embaixador e coordenador do Conselho Consultivo do OLP, e Luís Cristina de Barros, Embaixador), “O ensino da língua portuguesa no mundo” (Manuel Brito-Semedo, vice-reitor da Universidade de Cabo Verde e ex-director executivo do Instituto Internacional da Língua Portuguesa, Ana Paula Laborinho, presidente do Camões – Instituto da Cooperação e da Língua, Maria Fernanda Pontífice, reitora da Universidade Lusíada de São Tomé e Príncipe, António Avelar, coordenador dos cursos de português para estrangeiros da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, e Nélia Alexandre, docente de Linguística da mesma Faculdade) e “Contribuições da sociedade civil na promoção internacional da língua portuguesa” (Carlos Motta, director da Faculdade de Ciências Humanas e Sociais da Universidade Lusíada de Lisboa, o autor deste artigo, na qualidade de presidente do IIM, e Cecília Anacoreta Correia, docente da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa.As sessões de abertura e de encerramento foram presididas, respectivamente, por Diamantino Durão, reitor da Universidade Lusíada e ex-Ministro da Educação, e por António Martins da Cruz, chanceler da Universidade Lusíada, e tiveram intervenções de Eugénio Anacoreta Correia e de Carlos Motta, expressando os objectivos do Congresso, identificando as conclusões e reafirmando propósitos de colaboração em novas iniciativas em torno da difusão e projecção da língua portuguesa, tarefa
  • 052 053F A L A R D E N Ó S – X J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – Xque incumbe aos Estados e também às instituições de ensino superior, organizações internacionais e organismos da sociedade civil. Este Congresso teve também o alto patrocínio do Presidente da República Portuguesa e incluiu na sua Comissão de Honra outras altas entidades do Estado Português, bem como autoridades académicas e distintas personalidades do mundo da cultura.Na minha comunicação, salientei a imprescindibilidade do envolvimento da sociedade civil na definição e execução de políticas públicas em todos os domínios e referi a relevante acção do OLP como exemplo da contribuição positiva da sociedade civil, sendo um organismo associativo suportado no seu funcionamento pelos seus próprios membros e pelas parcerias que soube estabelecer com outras entidades, entre as quais o IIM, com o qual promoveu actividades conjuntas e duas edições.Vale a pena registar a cooperação de entidades e personalidades muito diversificadas na organização e viabilização de iniciativas de tanta relevância, que contam cada vez menos com apoios governamentais e precisam de parcerias úteis e da partilha de recursos para alcançar os resultados almejados, sendo também importante a colaboração e a presença de Macau, que o IIM vem assegurando em múltiplas actividades realizadas em Portugal e noutros países.11 de Março de 2013Ao longo de todo o seu percurso de quase década e meia, o Instituto Internacional de Macau (IIM) deu justa atenção a Timor-Leste, acompanhando a sua evolução e desenvolvimento, colaborando na divulgação de documentos fundamentais, apoiando reportagens, promovendo edições, estabelecendo contactos com entidades e organizando palestras e debates em torno da problemática timorense.Especialmente significativas foram as visitas do Bispo de Baucau, D. Basílio do Nascimento, e de outras destacadas personalidades timorenses à sede do IIM, bem como a publicação de “Timor – Da Guerra do Pacífico à Desanexação”, excelente trabalho do jornalista Fernando Lima que constituiu o primeiro volume da colecção “Suma Oriental”, que reúne, desde 2002, trabalhos de investigação sobre o universo oriental, mormente no contexto das relações históricas de Portugal, através de Macau.O IIM também ajudou a viabilizar a publicação do extenso “Relatório dos Acontecimentos de Timor (1942 – 45)”, de Manuel de Abreu Ferreira de Carvalho, que foi Governador de Timor de 1940 a 1945, o que lhe permitiu descrever as agressões que marcaram aquele território nos anos da Guerra e da ocupação nipónica. Este livro é do Instituto da Defesa Nacional de Portugal e das Edições Cosmos e leva a chancela do IIM como patrocinador. Foi da maior importância a sua divulgação, como testemunho de um tempo de enormes sacrifícios, mal compreendido em Portugal. Também recordamos sempre, com saudade e admiração, o Pe. Francisco Fernandes, nosso estimado colaborador e empenhado lutador pela causa timorense, e a acção notável do Governo de Macau, a que tive a honra de pertencer, na continuada e eficaz ajuda a Timor-Leste em períodos de agravada dificuldade.O IIM e Timor“(…) o processo de negociações que culminou no Acordo de 5 de Maio de 1999 permitiu ao povo de Timor-Leste, ao fim de 24 anos, exercer de forma digna e corajosa, face a desafios e à intimidação, o seu direito à autodeterminação, algo que já muito poucos criam ainda ser possível (…)”Kofi Annan, Secretário-Geral das Nações Unidas (1997-2006)
  • 054 055F A L A R D E N Ó S – X J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – XTertúlia em LisboaPor tudo isso, foi com satisfação que aceitei o convite do deputado José Ribeiro e Castro para participar, no passado dia 12, em mais uma “tertúlia diplomática” por ele organizada e levada a efeito na Livraria Férin, em Lisboa, desta vez dedicada a Timor-Leste. Protagonizada pelo Embaixador Fernando Neves, apresentado como “um dos mais respeitados veteranos da história recente do nosso Ministério dos Negócios Estrangeiros”, a conversa com este diplomata, profundo conhecedor das questões timorenses, teve como ponto de partida a obra “Timor-Leste – Relato das Negociações para a Independência” de Jamsheed Marker, edição bilingue do Instituto Diplomático do MNE, publicado em Fevereiro de 2009. O original, em língua inglesa, saíra do prelo em 2005.O autor do livro, respeitado diplomata paquistanês, hoje com 90 anos de idade, é referido no Guinness Book of Records como tendo sido o “Embaixador colocado em mais postos diplomáticos do que qualquer outra pessoa” e ganhou também a distinção de “Embaixador mundial mais antigo”, isto é, aquele que mais anos serviu nessa qualidade. Além de representar o seu país, foi Subsecretário-Geral das Nações Unidas e conselheiro especial do ex-Secretário-Geral Kofi Annan. O seu papel no acompanhamento e resolução do conflito em Timor-Leste foi reconhecidamente relevante. Kofi Annan louvou-o pelo facto de ter conseguido “empatia de ambos os lados nas negociações”, tendo a parte portuguesa elogiado a sua “abordagem sofisticada e serenidade”, ao mesmo tempo que a Indonésia reconhecia que “o talento diplomático de Marker aplainou o caminho sempre que havia um bloqueio ou empecilho nas negociações”. Foi um serão muito esclarecedor, com boa participação do público presente, tendo o Embaixador Fernando Neves salientado o significado desta “vitória diplomática para Portugal” e o desfecho positivo para o povo timorense.Livros sobre TimorMuito foi, entretanto, escrito sobre Timor-Leste, mas aquelas três obras podem ser consideradas de leitura indispensável. A de Fernando Lima (IIM, Março de 2002) oferece-nos uma panorâmica bem traçada das conjunturas e dos factos mais relevantes da evolução da situação timorense desde os anos da Guerra do Pacífico até 1999, quando as forças indonésias saíram da Timor, pondo termo a 25 anos de ocupação, na sequência da aprovação, pelo Conselho de Segurança da ONU, da Resolução 1264, autorizando o estabelecimento de uma força de paz multinacional naquele território. Este livro contém também uma utilíssima cronologia, identificando os principais acontecimentos de 1941 a 1999.É também feito no livro um sucinto relato da “Cimeira de Macau”, realizada em Junho de 1975, como tentativa, que se revelou infrutífera, de resolução do problema timorense, procurando reunir os três partidos de Timor (UDT, FRETILIN e APODETI) para, com eles, se decidir o futuro do território. Mesmo sem a presença da FRETILIN, que reivindicava para si a posição de único interlocutor no processo de descolonização de Timor, o encontro realizar-se-ia nos dias 26 e 27 de Junho, sendo a delegação portuguesa chefiada pelo Major Vítor Alves, membro do Conselho da Revolução e integrando o Ministro da Coordenação Territorial, António Almeida Santos, o Secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros Jorge Campinos e alguns militares. Lideraram as representações da
  • 056 057F A L A R D E N Ó S – X J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – XAPODETI e da UDT José Osório Soares e Costa Mousinho. Para acompanhar mais de perto os trabalhos, o Governo indonésio instalou naqueles dias uma delegação em Hong Kong.Fernando Lima fez este enquadramento da Cimeira:“Mas a Indonésia não se ficava por aí, na sua ânsia de controlar o andamento do processo de Timor. Nos dias que antecederam o encontro de Macau, registou-se um recrudescimento da pressão indonésia, com o propósito de realçar o extremismo da FRETILIN e denunciar as ameaças dos seus militantes contra os simpatizantes da APODETI. Neste âmbito, era referido que, vítimas de perseguições movidas por gente da FRETILIN, muitos timorenses ter-se-iam visto na necessidade de fugir para Timor Oriental, ‘uma vez que o Exército português não garantia a sua protecção’. Também com proveniência de Jacarta era destacada uma declaração de John Naro, membro do parlamento indonésio, segundo a qual o governo do seu país não poderia ‘tolerar’ que Timor português se tornasse comunista, dada a sua importante situação geoestratégica. Naro salientava que a Indonésia não gostaria de ver Timor ‘tornar-se noutra Goa’. Dito desta maneira, os observadores viam aí uma velada alusão a que Jacarta poderia seguir o exemplo da União Indiana, em 1961, e tomar Timor pela força. No final da Cimeira foi distribuído um comunicado conjunto das três delegações, no qual lamentam a ausência da FRETILIN, dado que tal facto impedia a negociação do processo e o calendário da descolonização do território. Contudo, a nota assinala que ‘as conversações entre as três delegações decorreram num ambiente de construtiva cordialidade’ e, a dado momento, releva: ‘A delegação portuguesa reconhece que as delegações da APODETI e da UDT testemunharam compreensão pelas proposições da delegação portuguesa, tendo-se chegado a uma plataforma que salvaguarda, a um tempo, os interesses do Povo de Timor e do Povo português, e confirma os princípios políticos e os valores morais que caracterizam o processo de descolonização dos ex-territórios portugueses’. Outro ponto realçado pelo comunicado referia que, em função da plataforma a que se chegara, fora elaborado um projecto de diploma constitucional destinado a ser submetido ao Conselho da Revolução, ‘do qual se destaca a reafirmação do direito do Povo de Timor à autodeterminação, com todas as suas consequências, incluindo a independência, e do princípio de que, em consequência, é ao Povo de Timor e só ao Povo de Timor que compete definir o futuro político deste território.’ Para os observadores, ainda que salvaguardadas as aparências, o compromisso de Macau não podia ser mais frágil. Em privado, membros das duas delegações timorenses confessavam que a situação era extremamente delicada e estava à mercê do partido que tentasse fazer pender o território para a independência ou para a integração na Indonésia.”Na verdade, a radicalização crescente das posições dos contendores políticos inviabilizaria totalmente a aplicação da legislação portuguesa que estabeleceu as disposições relativas à descolonização de Timor. É evidente que, neste contexto, tiveram também responsabilidades as autoridades portuguesas. Seguir-se-ia o sangrento drama timorense que se arrastaria ao longo de demasiados anos. Se o resultado final, que garantiu a independência de Timor-Leste, foi uma ‘vitória da diplomacia portuguesa’, foi certamente muito mais uma vitória do heróico povo timorense. 18 de Março de 2013
  • 058 059F A L A R D E N Ó S – X J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – XEm preparação desde 1997, a obra Governadores de Macau (Livros do Oriente, Fevereiro de 2013) foi lançada no mês passado, em Lisboa, no Centro Científico e Cultural de Macau, numa amplamente concorrida sessão, presidida pelo General António Ramalho Eanes, ex-Presidente da República. Usaram da palavra o director do Centro, Prof. Luís Filipe Barreto, para saudar a vasta assistência e lembrar os objectivos e a razão de ser daquele instituto público do Estado Português, vocacionado para reforçar as relações culturais entre Portugal e a China e a memória de Macau; um dos coordenadores da obra, Prof. Jorge Santos Alves, que explicou a metodologia seguida na investigação e na elaboração dos textos; o editor, Rogério Beltrão Coelho, para realçar a importante produção editorial da Livros do Oriente e o significado deste trabalho no contexto das suas edições; e aquela alta entidade, que prestou uma justa homenagem aos homens que assumiram responsabilidades governativas e cumpriram a missão em nome de Portugal em terras do Oriente Extremo.Estive presente na sessão e, quase ao mesmo tempo, recebi um exemplar do livro, com uma gentil dedicatória pessoal do General Vasco Rocha Vieira, último governador de Macau, expressando o “testemunho reconhecido pela sua colaboração inteligente, leal e dedicada e pelo seu elevado contributo para o sucesso do processo de transição e bom nome de Portugal”. Um outro exemplar, oferecido pela Fundação Jorge Álvares ao Instituto Internacional de Macau, estará em breve disponível na biblioteca deste organismo associativo, em Macau, para leitura e consulta dos interessados.Fui lendo interessadamente o livro, especialmente nas partes respeitantes às últimas seis décadas, revendo os percursos dos seis governadores com quem trabalhei, de 1975 a 1999 (de José Eduardo Garcia Leandro a Vasco Rocha Vieira), acompanhando governadores de Macau“Aos que governaram esta cidade portuária coube a dificílima missão de conciliar interesses, defender direitos, exigir contrapartidas, assumir rupturas, promover desenvolvimento e proceder a reformas que, década após década, foram (re)construindo a cidade. É também dos seus governadores a História de Macau.”Da nota prévia de Governadores de Macaude muito perto alguns deles no dia-a-dia da acção governativa. E recuei no tempo até Albano Rodrigues de Oliveira (1947 – 1951), o primeiro que a minha memória registou, quando, ainda muito miúdo, o vi em casa dos meus avós, no bairro macaense do Tap-Siac, no edifício que alberga agora o Arquivo Histórico de Macau e onde passei alguns anos da minha infância, imediatamente após o falecimento da minha mãe. De todos os outros, a partir daí, já as lembranças são bem mais vivas.Durante a minha adolescência e enquanto estudante, do varandim da nossa casa na Av. da Praia Grande, pude ver, quase diariamente, cada um deles entrar e sair do Palácio do Governo, situado a poucos metros, e em festas escolares ou cerimónias públicas. Falei algumas vezes com Jaime Silvério Marques, António Lopes dos Santos e José Manuel Nobre de Carvalho, quando me encontrava nos últimos anos do Liceu de Macau e, depois, na Universidade de Lisboa. Quando regressei ao território, depois de cumprido o serviço militar na Guiné, já Garcia Leandro estava investido no cargo.Na fase terminal da administração portuguesa, conjugaram-se esforços e multiplicaram-se as iniciativas de entidades públicas e privadas para se dar especial relevo à publicação de novos trabalhos e à reedição de emblemáticas obras, algumas de já difícil acesso, conseguindo-se um notável acervo, pela sua qualidade e diversidade, utilíssimo para Macau e para Portugal. Os meios, felizmente, foram suficientemente abundantes para viabilizar numerosos projectos neste domínio.Foi assim que também mereceu o indispensável apoio o propósito de preparar e reunir num só volume as biografias dos representantes de Portugal em Macau. Três organismos públicos por mim tutelados, enquanto membro do Governo de Macau – a
  • 060 061F A L A R D E N Ó S – X J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – Xentão Fundação Macau, a Universidade de Macau e o Instituto Politécnico de Macau –, asseguraram, conjuntamente, o suporte financeiro para garantir a produção da obra.A editora Livros do Oriente envolveu dois prestigiados académicos, Jorge Santos Alves e António Vasconcelos de Saldanha, na sua coordenação, tendo a investigação e a feitura dos textos sido confiadas a Paulo Jorge de Sousa Pinto (século XVII), António Martins do Vale (século XVIII), Teresa Lopes da Silva (século XIX, de José Manuel Pinto Faria de Meneses a Isidoro Francisco Guimarães, e século XX, de Gabriel Maurício Teixeira a José Manuel Nobre de Carvalho) e Alfredo Gomes Dias (século XIX, de José Rodrigues Coelho do Amaral a Eduardo Augusto Rodrigues Galhardo, e século XX, do Conselho do Governo em 1900 a José Rodrigues Moutinho e de José Eduardo Garcia Leandro a Vasco Rocha Vieira). Dirigiu a edição Rogério Beltrão Coelho, sendo o design do Conceito Lilau e a capa de Gonçalo Viana e Conceito Lilau.O produto final corresponde a uma “obra de divulgação séria destinada a investi-gadores das mais diferentes origens científicas, que desejem dedicar os seus projectos de pesquisa à realidade política, económica e sociocultural de Macau, mas também ao grande público”, como ficou bem assinalado na sua nota prévia. “Ao longo das cinco centenas de páginas desta obra, desfilam, ordenadas cronologicamente, as biografias de todos os capitães-gerais, governadores, encarregados de governo, governadores--interinos e, ainda, conselhos de Governo, que assumiram nas suas mãos os destinos da administração portuguesa de Macau, desde o século XVII até ao final do século XX”.Cada uma das biografias pode ser lida autonomamente, mas elas completam-se, naturalmente, numa sequência própria, no decurso da evolução histórica e nos contextos políticos, alguns de enorme complexidade, que condicionaram a acção de cada governador. Por outro lado, foram muito diversas as conjunturas e a duração dos mandatos, alguns muito breves e outros que se estenderam ao longo de uma década. Essa terá sido uma das dificuldades encontradas na elaboração coerente dos textos, mas representou certamente um desafio que a equipa responsável soube vencer. A obra “não quer ser um somatório de fragmentos; quer ser antes uma interpretação globalizante de uma realidade social que se foi formando e desenvolvendo na península de Macau, no sul da China”.No ano 2000 estava concluído o trabalho de redacção até ao penúltimo governador. Entendeu-se, todavia, que se justificava um distanciamento temporal em relação ao período final do processo de transição que conduziu à transferência da administração. “Todos os governadores (em sentido lato) deixaram em Macau uma marca (nuns casos muito suave, noutros muito profunda) do seu empenhamento e capacidade. Porém, a História determinou que fosse o último governador a concluir projectos e estruturas novos ou herdados dos seus antecessores. As condições financeiras permitiram, em menos de 10 anos, atingir metas e concretizar objectivos de forma a transferir para a República Popular da China uma Macau rica em infra-estruturas e preparada para entrar no século XXI. Por estas razões o texto sobre este último governo resultou mais extenso do que a maioria dos anteriores”. Pessoalmente, por ter sido testemunha próxima dos acontecimentos e de decisões nas últimas duas décadas e meia da administração portuguesa, poderei sempre confirmar a forma como cada um, nesse período, com estilos, entendimentos, enquadramentos e prioridades diferentes, se empenhou no cumprimento, em nome de Portugal, da elevada missão que recebeu, podendo, pelas especiais circunstâncias da história recente de Macau, – e ninguém deverá levar a mal
  • 062 063F A L A R D E N Ó S – X J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – Xque o faça – destacar os governadores Garcia Leandro, pela serenidade, determinação, lucidez e coragem na condução do barco, segurando firmemente o leme num mar tremendamente proceloso, agitado por ameaçadores tufões políticos, e Rocha Vieira, pela sua extraordinária capacidade, visão política e exemplar sentido de Estado, na adequação do território para as mudanças acordadas por Portugal e pela República Popular da China.Ultrapassadas algumas dificuldades “que se prenderam com a instabilidade editorial em Macau após a transferência” e obtidos os patrocínios adicionais necessários, através do Banco Nacional Ultramarino e das Fundações Casa de Macau e Jorge Álvares, o livro saiu, em boa hora, do prelo. Não pretende ser uma História de Macau, “mas apresenta-se como um esforço de síntese de uma realidade histórica complexa como é a de Macau, onde se cruzam os tempos e os ritmos das mutações que foram ocorrendo na China, em Portugal e no seu império, e mais globalmente na Ásia Oriental”. Claro que será sempre fácil identificar desequilíbrios, especialmente nas biografias dos encarregados de Governo, algumas reduzidas a poucas linhas, ao lado de outras que ganharam uma dimensão porventura exagerada, ou até apontar eventuais imprecisões em algumas biografias. O que verdadeiramente importa, contudo, é que ficou agora disponível mais uma obra sobre Macau que será, provavelmente, de referência incontornável. 25 de Março de 2013No I Congresso Internacional de Língua Portuguesa, realizado a 27 e 28 de Fevereiro e organizado pela Universidade Lusíada de Lisboa e pelo Observatório da Língua Portuguesa, com o alto patrocínio da Presidência da República Portuguesa, coube-me a responsabilidade de, juntamente com Cecília Anacoreta Correia, docente da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, apresentar o tema “Contribuições da sociedade civil na promoção internacional da língua portuguesa” e estimular o debate com a interessada assistência, num painel moderado por Carlos Motta, director da Faculdade de Ciências Humanas e Sociais da Universidade Lusíada de Lisboa.Fizemo-lo em duas perspectivas diferentes, que se complementaram: aquela professora apontou exemplos da crescente importância da língua portuguesa no mundo, nos planos cultural, educativo, económico e jurídico, tendo colocado particular ênfase nesta útima vertente, ao destacar o ensino do Direito e a assessoria jurídica como realidades que “se integram no tipo de actividade em que a língua portuguesa, falada e escrita, tem uma utilização central” e “contribuem para que a língua portuguesa esteja a percorrer caminhos de consolidação como língua mundial”. Na minha comunicação, defendi a necessidade do envolvimento activo e empenhado das instituições da sociedade civil na definição e execução de políticas públicas e identifiquei o Observatório da Língua Portuguesa como uma história de sucesso no domínio da participação da sociedade civil na promoção internacional da língua portuguesa. O papel da sociedade civilFoi com especial satisfação que apresentei este tema, pela minha própria ligação intensa a organismos da sociedade civil, desde o Elos Internacional – Movimento da A sociedade civil na promoção da língua portuguesa“Incentivar a difusão e o enriquecimento da língua portuguesa de modo a assegurar a sua crescente afirmação internacional é um dos objectivos estratégicos da CPLP desde a sua génese, em 1996, reforçado em 1999 pela criação do Instituto Internacional de Língua Portuguesa.”Cecília Anacoreta Correia, Fevereiro de 2013
  • 064 065F A L A R D E N Ó S – X J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – XComunidade Lusíada ao Instituto Internacional de Macau, do Real Gabinete Português de Leitura do Rio de Janeiro à Sociedade de Geografia de Lisboa, da Associação de Turismo da Região Ásia-Pacífico à Sociedade Histórica da Independência de Portugal e do Movimento Festlatino à Associação Promotora da Instrução dos Macaenses e a numerosas outras entidades de natureza cultural, tendo presidido ou integrado os órgãos sociais de muitas. Acreditei sempre na indispensabilidade do contributo dessas instituições para o bom funcionamento dos Estados. São elas que garantem, afinal, a possibilidade e a eficácia duma permanente afirmação da cidadania.Ao fazê-lo, senti, todavia, algum inevitável embaraço, resultante da situação vivida presentemente em Portugal em que os organismos da sociedade civil dispõem de reduzidíssimos apoios e não são suficientemente envolvidos como parceiros úteis, estando muitas delas a travar dificílimas, para não dizer inglórias, lutas pela sobrevivência, podendo a sua paralização ou desaparecimento, ou a mera redução da sua capacidade de intervenção, representar perdas irreparáveis para o país.Nas últimas décadas do século XX, não só as grandes organizações internacionais mas também as autoridades nacionais deram corpo a novas políticas de relacionamento com os organismos da sociedade civil, nas mais diversas áreas de actividade, desejando envolvê-los não só no plano conceptual, na definição correcta de políticas públicas, mas também, e muito concretamente, no patamar funcional, isto é, na execução dessas políticas, no terreno, onde muitas vezes, e até em circunstâncias adversas, conseguem ser mais consequentes do que as instituições públicas, pela qualidade, disponibilidade e diversidade dos seus membros, pela sua autonomia e capacidade de decisão, pelo seu espírito de voluntariado e devoção a causas, pela rapidez no alcance de resultados e porque sempre souberam ir mais longe utilizando menos meios. Além disso, promovem, ao lado dos Estados, a solidariedade da cidadania. Criaram-se em muitos lugares situações de verdadeira e utilíssima responsabilidade partilhada entre os Estados e a sociedade civil na realização dos grandes objectivos nacionais em variadíssimos domínios. É inegável que uma sociedade civil forte e sã se afigura um requisito fundamental na construção e no correcto desenvolvimento de Estados modernos e um teste permanente à sensibilidade das sociedades nos mais variados domínios, particularmente naqueles que têm mais a ver com o bem-estar e as aspirações legítimas das populações. Houve e há experiências extraordinariamente bem sucedidas não só na Europa, mas até em territórios distantes do Oriente Extremo, podendo ser referido o caso de Macau, onde se criou uma relação positiva com a sociedade civil, ainda que os mecanismos de relacionamento e apoio possam ser aperfeiçoados.Além disso, é sempre justo, neste contexto, lembrar o notabilíssimo papel-chave das ONG – organizações não-governamentais como actores na cooperação para o desenvol-vimento, na educação para o desenvolvimento e na ajuda humanitária. Curiosamente, num documento do Estado Português intitulado “Uma visão estratégica para a coopera-ção portuguesa” é reconhecida a “mais-valia da sociedade civil, enquanto conjunto de associações, empresas e impulsos de natureza não-governamental, independente e au-tónoma, que constituem um espaço privilegiado para o exercício de uma cidadania acti-va e responsável”. Pena é que visão idêntica não exista em todas as entidades públicas.Foi, por isso, apropriado, aproveitar aquela oportunidade para, num congresso internacional dedicado à língua portuguesa, saudar as instituições da sociedade
  • 066 067F A L A R D E N Ó S – X J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – Xcivil de Portugal e dos outros países de língua portuguesa, desde as mais antigas e centenárias, muitas das quais também promovem intensamente actividades de difusão e valorização da língua portuguesa e de promoção do livro e da leitura, às mais recentes e interventoras, como o Observatório da Língua Portuguesa.Observatório da Língua PortuguesaOs tempos de maior dificuldade hão-de ser também tempos de maiores desafios para as pessoas e para as instituições. Vale, por isso, a pena sublinhar os resultados alcançados pelo Observatório da Língua Portuguesa, criado por vontade e impulso dum grupo de cidadãos de diversas origens, experiências e formação académica, unidos no propósito comum de promover e valorizar a língua portuguesa. Expressando o respeito e o reconhecimento que são devidos a muitos outros organismos, parece-me justo distinguir o Observatório quando temos em conta as contribuições da sociedade civil na promoção internacional da língua portuguesa, pelo valioso contributo que vem dando neste domínio, não obstante o seu curtíssimo período de vida e o facto de não receber apoios financeiros oficiais, funcionando com os meios disponibilizados pelos seus próprios associados e através de parcerias estabelecidas com outras instituições, com as quais pode partilhar recursos e oportunidades.Em muito pouco tempo (menos de quatro anos), foi possível assegurar o seu regular funcionamento, criar um portal com abundante e reconhecidamente útil informação sobre a língua portuguesa, estabelecer canais funcionais de ligação a instituições públicas e privadas, firmar protocolos de cooperação, organizar seminários e conferências, chegar a outros espaços da lusofonia, com destaque para o Brasil, Cabo Verde, Angola e até Macau, e iniciar contactos e relações nos outros países de língua portuguesa. O Observatório é membro da UCCLA e foi recentemente admitido pela CPLP, com o estatuto de observador consultivo, estando em vias de estabelecer no seio desta organização um núcleo dedicado à língua portuguesa, tendo como parceiros, entre outros, a AULP – Associação das Universidades de Língua Portuguesa e o Instituto Internacional de Macau (IIM).Em Macau, o protocolo assinado com o IIM permitiu-lhe realizar aqui dois seminários, com muito boa participação, um dos quais com o apoio do Instituto Politécnico de Macau, assegurar a atenção das autoridades locais e das representações consulares de vários países de língua portuguesa e publicar, em co-edição com o IIM, dois trabalhos, intitulados “Perspectivas actuais da língua portuguesa” e “O valor da língua portuguesa: uma perspectiva económica e comparativa”, também já com versão chinesa. Juntou-se ao texto de um dos opúsculos o “Plano de acção de Brasília para a promoção, a difusão e a projecção da língua portuguesa”, permitindo a sua ampla divulgação local e junto de instituições de ensino superior de Macau e da República Popular da China. O OLP também firmou um protocolo com a Escola Portuguesa de Macau, criando condições para o desenvolvimento de uma colaboração benéfica para ambas as partes.Eis um bom exemplo a seguir, pela capacidade de realização e pelos resultados conseguidos. 2 de Abril de 2013
  • 068 069F A L A R D E N Ó S – X J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – XO Centro Científico e Cultural de Macau (CCCM), em Lisboa, acolheu, na semana passada, a sessão de apresentação do livro “Direito Constitucional de Macau” (IDILP – Instituto do Direito de Língua Portuguesa, Lisboa, Setembro de 2012), que reúne um conjunto de muito relevantes textos doutrinários sobre o Direito Constitucional de Macau, escritos pelo Prof. Jorge Bacelar Gouveia, catedrático da Universidade Nova de Lisboa e da Universidade Autónoma de Lisboa, que tem participado em conferências e outras actividades académicas em Macau.Apresentados por ordem cronológica, os trabalhos incluídos neste volume são da maior utilidade para os cursos da Faculdade de Direito da Universidade de Macau e para quantos se dedicam ao estudo do ordenamento jurídico e do Direito Constitucional de Macau. Como bem refere o deputado Leonel Alves, no prefácio, “O Direito Local, como qualquer outro ordenamento jurídico, necessita de um respaldo doutrinário que permita um tratamento profundo, uma análise cuidada, um debate de vexatae quaestiones, uma divulgação junto da sociedade e um contributo especial para a concretização do Direito pelos tribunais mas também pelos poderes administrativos públicos. Estes vários desideratos devem estar sempre alicerçados em argumentação jurídica de elevado nível e de isenção académica. Ora, esta obra é precisamente um exemplo grado do que se acabou de afirmar”.Trabalhos incluídosOs trabalhos em boa hora compilados, compreendem os seguintes estudos: “A Lei Básica da Região Administrativa Especial de Macau: contributo para uma compreensão de Direito Constitucional” (palestra proferida em Macau, no âmbito do seminário comemorativo do 20.º aniversário da Universidade de Macau, subordinado ao tema Direito Constitucional de Macau – estudos e reflexões“A colecção de estudos de Direito Constitucional de Macau que aqui se reúne em livro constituirá doravante um valioso e incontornável instrumento académico e científico para o estudo do Direito Constitucional da Região Administrativa Especial de Macau da República Popular da China.”Deputado Leonel Alves, no prefáciogeral “O Direito de Macau no contexto da Lei Básica – evolução recente e perspectivas de futuro”, que teve lugar na Biblioteca Internacional da Universidade de Macau em Fevereiro de 2002); “Os Direitos Fundamentais em Macau” (comunicação feita em Macau, em Fevereiro de 2007, no painel 5 sobre “Os Direitos Fundamentais e a Interacção dos Sistemas Jurídicos”, integrado na conferência internacional sobre “Um país, dois sistemas, três ordens jurídicas – perspectivas de evolução”); e “Macau no Direito Constitucional de Língua Portuguesa” (conferência de abertura das III Jornadas de Direito e Cidadania da Assembleia Legislativa da Região Administrativa Especial de Macau, realizadas em Janeiro de 2011).Este último texto explica de forma bem sistematizada o sentido do Direito Constitucional Comparado de Língua Portuguesa e identifica as várias vagas desses Direitos Constitucionais, referindo o Brasil, os Estados Africanos Lusófonos e Timor-Leste e caracteriza o constitucionalismo de língua portuguesa, salientando os pontos de convergência e de divergência e traçando um modelo de Constitucionalismo de Língua Portuguesa. Explica depois, exaustivamente, a posição singular de Macau no Direito Constitucional de Língua Portuguesa, referindo a Lei Básica de Macau, os direitos fundamentais de Macau, a organização do poder político e as convergências (um Direito Constitucional legislado, codificado e estável e um sistema de direitos fundamentais abrangente e efectivo) e as divergências (um sistema de governo presidencial atípico e uma fiscalização mista da constitucionalidade) no Constitucionalismo de Língua Portuguesa. A sessão de apresentaçãoFoi muito bem recebida a exposição do autor no acto de apresentação do livro no auditório do CCCM, cativando a assistência, bastante heterogénea, na forma como
  • 070 071F A L A R D E N Ó S – X J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – Xsoube partilhar as suas reflexões e conclusões, ao explicar a singularidade de Macau no contexto do Direito Constitucional de Língua Portuguesa.No período de perguntas e respostas, o Embaixador Pedro Catarino, que foi o representante diplomático de Portugal na ONU e em Pequim, e também cônsul-geral em Hong Kong e membro do Grupo de Ligação Conjunto Luso-Chinês, e o autor deste artigo, como membro do Conselho de Redacção da Lei Básica e ex-membro do Governo de Macau, colocaram ao Prof. Jorge Bacelar Gouveia diversas questões sobre a feitura, aplicação e interpretação daquela Lei, definida como “lei de estabilidade temporal limitada”, porque cessa ao fim de 50 anos a garantia da imutabilidade do sistema político-social, “lei local”, aplicável somente na região de Macau, e “lei ordinária”, dimanada da Assembleia Popular Nacional da R.P.C.É de louvar a disponibilidade do CCCM para continuar a receber nas suas instalações importantes iniciativas como esta, e tantas outras que visam divulgar Macau, em todas as vertentes possíveis, e aproximar Portugal e a China no contexto cultural.O autorJorge Bacelar Gouveia é Doutor em Direito e exerce funções docentes na Universidade Nova de Lisboa e na Universidade Autónoma de Lisboa. Concluiu a Licenciatura em 1989 e o Mestrado em Direito em 1993 na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, tendo sido assistente durante 8 anos neste estabelecimento de ensino superior. Doutorou-se em 1999 e fez a agregação em 2007 na Universidade Nova de Lisboa. Jurisconsulto e advogado, é presidente do Instituto do Direito de Língua Portuguesa e do Instituto de Direito Público, tendo sido deputado à Assembleia da República na XI Legislatura e presidente do Conselho de Fiscalização do Sistema de Informações da República Portuguesa. A sua bibliografia é vasta, ultrapassando os 150 títulos publicados em teses, monografias, manuais, artigos e colectâneas, sendo de salientar: “O Estado de Excepção no Direito Constitucional”, com dois volumes, “Estudos de Direito Público de Língua Portuguesa”, “Manual de Direito Internacional Público”, “Direito Internacional Penal”, “Manual de Direito Constitucional”, “As Constituições dos Estados de Língua Portuguesa”, “Direito Constitucional de Timor-Leste” e “O Direito Constitucional de Língua Portuguesa”.Tem participado em actividades académicas em Macau, no âmbito da Universidade de Macau e de outros organismos da RAEM.Um acontecimento culturalAproveito o espaço ainda disponível para dedicar um breve comentário a um acontecimento cultural de extraordinário significado para o mundo lusófono: o lançamento dos dois primeiros dos trinta volumes da obra completa do Padre António Vieira, o “Imperador da Língua Portuguesa”, como lhe chamou Fernando Pessoa. A sessão foi realizada também na semana passada, na magnífica Aula Magna da Universidade de Lisboa, repleta de altas entidades, representantes de instituições da sociedade civil, professores, estudantes e convidados. Trata-se de uma obra abrangente, incluindo as cartas, os sermões, os textos proféticos, os escritos políticos, os escritos sobre os Judeus, os escritos sobre os Índios,
  • 072 073F A L A R D E N Ó S – X J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – Xpoesia e teatro, entre os quais diversos textos inéditos. Coordenam esta obra os Professores Pedro Calafate e José Eduardo Franco, meu colega no Conselho Supremo da Sociedade Histórica da Independência de Portugal. Colaboram na edição 52 especialistas portugueses e brasileiros, de áreas tão diversificadas como a Literatura, a História, a Filosofia, a Teologia, a Filologia, a Paleografia e o Direito. produzindo uma obra completa e plena de actualidade, da religião à política, passando pela economia e as relações humanas. Terá ao todo mais de 12000 páginas, das quais cerca de 3000 foram traduzidas directamente do latim. Como referiu o Reitor António Sampaio da Nóvoa, “em português as palavras são Vieira. Ninguém antes dele, ninguém depois dele, fez tanto com as palavras, fez tanto pelas palavras. Sem Vieira, não teríamos a língua que temos”. Por seu lado, José Eduardo Franco, para frisar a oportunidade da obra, lembra-nos: “Hoje, Vieira inspira-nos, com o vigor da sua acção determinada e com a sua palavra mobilizadora, em tempos de incerteza e de crise grave. Tendo enfrentado uma das mais graves crises da História de Portugal, que se libertava a custo do jugo de Espanha, acreditou e fez acreditar que Portugal era viável, acreditou e fez acreditar que era possível construir uma humanidade nova e unidade, um mundo onde reinasse a fraternidade entre os homens”. Este projecto editorial não deverá deixar ninguém indiferente.8 de Abril de 2013Mais uma importante conferência internacional integrada no ciclo “Roteiros do Futuro”, promovido pelo Presidente da República Portuguesa, reuniu um elevado número de individualidades da vida política, cultural, empresarial e académica no excelente auditório da Fundação Champalimaud, em Lisboa, no passado dia 12 de Abril, das 9.30 às 19.30 horas. Os objectivos deste ciclo centram-se na necessidade e na oportunidade de se estimular uma abordagem aprofundada e multidisciplinar sobre problemas relevantes da sociedade portuguesa, especialmente nesta conjuntura particularmente difícil do país. Todos os temas escolhidos revelam a preocupação de identificar questões estruturais, de variados domínios do saber, da investigação científica à reflexão filosófica, congregando personalidades e instituições preparadas para contribuírem para um conhecimento mais alargado dos grandes problemas nacionais e das respostas desejáveis e possíveis.Na Europa e no mundoO título escolhido para esta conferência internacional foi “Portugal na balança da Europa e do Mundo”. Através dela, procurou-se incentivar o debate público sobre os desafios que se colocam ao país no tempo presente e nas próximas décadas, quer no quadro das relações com a União Europeia, quer à escala global. Como foi salientado na ocasião, “Portugal dispõe de um capital de conhecimento e de experiência no relacionamento com todas as culturas e civilizações, consolidado através da língua, do património material e imaterial, bem como da presença das comunidades portuguesas no mundo. Este capital representa uma vantagem inestimável na afirmação do seu posicionamento estratégico”. Referências a Macau em conferência dos Roteiros do Futuro“A presença lusa proporcionou a Macau um rico legado ocidental (...). O fim da administração lusa em Macau em 1999 não deve ser encarado como mera recordação histórica, mas como um profícuo ponto de partida para um novo e intenso envolvimento de Portugal na Ásia.”Prof. Ming K. Chan, da Universidade de Stanford, na conferência “Portugal na balança da Europa e do Mundo”
  • 074 075F A L A R D E N Ó S – X J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – XA escolha dos oradores revelou este intuito de partilhar reflexões sobre as melhores soluções e alternativas para potenciar as oportunidades oferecidas “num mundo em tão rápido e profundo processo de reconfiguração económica, política e cultural”. A coordenação geral pertenceu a David Justino, ex-Ministro da Educação e consultor do Presidente da República, e a João Lobo Antunes, catedrático da Universidade de Coimbra e comissário das Conferências Roteiros do Futuro, tendo moderado e presidido às diversas sessões Rui Machete, advogado, ex-presidente da Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento e ex-Vice Primeiro-Ministro; Luís Amado, presidente do Conselho de Administração do BANIF e ex-Ministro dos Negócios Estrangeiros e da Defesa Nacional; Vasco Rocha Vieira, chanceler das Antigas Ordens Militares, ex-Chefe do Estado-Maior do Exército, ex-Ministro da República para os Açores e último Governador de Macau; Emílio Rui Vilar, ex-presidente da Fundação Calouste Gulbenkian, antigo membro do Governo e primeiro presidente da SEDES – Associação para o Desenvolvimento Económico e Social; e Jaime Gama, ex-Presidente da Assembleia da República e ex-Ministro do Estado, dos Negócios Estrangeiros e da Administração Interna. Proferiu a conferência de abertura Francisco Bethencourt, historiador emérito do mundo lusófono com a cátedra de Charles Boxer do King’s College de Londres, consultor do Conselho Europeu de Investigação e da Fundação para a Ciência e Tecnologia de Portugal e membro da Academia Europeia e de numerosos conselhos consultivos e académicos de prestigiadas universidades. Cada painel integrou dois oradores: Kenneth Maxwell, Professor de História da Universidade de Harvard, e Nuno Mota Pinto, director-executivo do Banco Mundial (Rota do Atlântico I); Francis Kornegay, investigador principal do Instituto de Diálogo Global da Universidade da África do Sul, em Pretória, e António Monteiro, embaixador e ex-Ministro dos Negócios Estrangeiros e actual presidente do Conselho de Administração do Millennium BCP (Rota do Atlântico II); Ming K. Chan, investigador da Hoover Institution e do Centro de Estudos Asiáticos da Universidade de Stanford, e Pedro Catarino, Representante da República para os Açores e embaixador, com longa carreira em postos e missões no Extremo Oriente e na ONU (Rota do Oriente); Amre Moussa, antigo Ministro dos Negócios Estrangeiros do Egipto e ex-presidente da Liga Árabe, e Álvaro Vasconcelos, presidente do Instituto de Estudos Estratégicos Internacionais e ex-director do Institute for Security Studies da União Europeia (Rota do Mediterrâneo e Médio-Oriente); e Maria João Rodrigues, docente da Universidade Livre de Bruxelas e do ISCTE – Instituto Universitário de Lisboa, ex-Ministra da Qualificação e do Emprego de Portugal e actual conselheira especial do presidente da Comissão Europeia, e Ana Palácio, deputada, ex-Ministra dos Negócios Estrangeiros de Espanha e actualmente membro do Conselho de Estado desse país (Rota Europeia). Foi, de facto, um elenco notável que garantiu a qualidade e o sucesso do evento, vendo-se na plateia dezenas de outras conhecidas personalidades das mais variadas áreas de actividade, algumas das quais aceitaram adicionar achegas e novas pistas para continuada reflexão, nas breves intervenções que fizeram, quando se abriu o diálogo com o público.Macau na Rota do OrienteO painel Rota do Oriente foi aberto pelo General Vasco Rocha Vieira, que apresentou os dois oradores e teceu considerações oportunas sobre a presença de Portugal no Oriente, nos contextos histórico, cultural e económico, e sobre as enormes potencialidades existentes na área geográfica de maior desenvolvimento do mundo.
  • 076 077F A L A R D E N Ó S – X J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – XO Embaixador Pedro Catarino desenvolveu amplamente este tema e recordou momentos altos da sua carreira diplomática em conjunturas importantes para a afirmação e defesa dos interesses de Portugal, quando representou o país em Washington e em Pequim. Foi também cônsul-geral em Hong Kong e acompanhou as conversações entre Portugal e a Indonésia sobre a questão de Timor-Leste. Também chefiou a parte portuguesa do Grupo de Ligação Conjunto sobre o futuro de Macau e presidiu à Comissão Interministerial sobre Macau. O seu profundo conhecimento e sólida e ampla visão do Oriente, proporcionados pela riquíssima experiência que teve em altas e variadas missões, continuam a constituir uma mais-valia para Portugal e para a adequação da política externa portuguesa nestes tempos de renovados desafios, em que Portugal procura novos mercados e acrescidas oportunidades.Muito bem recebida foi a intervenção do Prof. Ming K. Chan, da Universidade de Stanford. Doutorado em História da Ásia Oriental por aquela universidade norte-americana, ali integrou a Hoover Institution, coordenando o Arquivo Documental de Hong Kong. Especialista em história da China e da Ásia Oriental e nas relações China – Hong Kong e EUA – China, tem sido orador em muitas conferências internacionais. Foi também membro do Departamento de História da Universidade de Hong Kong, tendo sido eleito pela associação de estudantes, por duas vezes, “o melhor professor”. Autor e editor de vários livros, vai brevemente lançar a obra “China’s Macao Transformed – Challenge and Development in the 21st Century”, que coordenou com Eilo Yu, responsável do curso de Administração Pública da Universidade de Macau. É também, há vários anos, colaborador do Instituto Internacional de Macau.Com uma comunicação de sete páginas e com PowerPoint em português e em inglês, começou por realçar o “meio milénio da globalização luso-asiática” e o 5.º centenário da chegada de Jorge Álvares à China em 1513, “lançando as sementes para o crescente intercâmbio multidimensional sino-lusófono que se centrou e se desenvolveu a partir de Macau”, sendo esta ligação luso-chinesa através de Macau um caso único nas relações do Oriente com o Ocidente, com impactos globais. Salientou também a forma correcta, cordial e eficaz como se processou a transferência do exercício da soberania de Portugal para a República Popular da China, o que permitiu reforçar o relacionamento entre os dois países e dar a Macau missões específicas positivas no contexto do desenvolvimento da China e do seu crescente posicionamento global, neste tempo de “soft power”.Deixou um depoimento muito lúcido e prospectivo sobre a Região Administrativa Especial de Macau e sobre um possível reposicionamento luso no Oriente. Pela importância do seu conteúdo, o Instituto Internacional de Macau colaborará com aquele académico na divulgação e tradução da sua comunicação.Ao encerrar a conferência, o Presidente da República, que assistiu a todas as comunicações apresentadas, agradeceu as reflexões partilhadas, que considerou do maior significado e utilidade para o futuro de Portugal. Também quis referir o caso de Macau, o sucesso da transição e o seu papel presente.15 de Abril de 2013
  • 078 079F A L A R D E N Ó S – X J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – XComplementando o relato que foi feito, no artigo anterior, da conferência internacional “Portugal na balança da Europa e do mundo”, levada a efeito em Lisboa no dia 12 de Abril e integrada no ciclo “Roteiros do Futuro”, promovido pelo Presidente da República Portuguesa, são agora, pela relevância e oportunidade do seu conteúdo, feitas referências mais desenvolvidas à intervenção do General Vasco Rocha Vieira, que presidiu ao painel “Roteiro do Oriente”, cujos oradores foram o Embaixador Pedro Catarino, Representante da República para os Açores e diplomata com longa carreira no Extremo Oriente, e o Prof. Ming K. Chan, da Universidade de Stanford.Correntes da HistóriaFazendo um sucinto e bem estruturado enquadramento, como introdução ao tema do painel que coordenou, Vasco Rocha Vieira recordou, numa perspectiva estratégica, as correntes da História que levaram Portugal e a Europa ao Oriente e sublinhou a necessidade duma renovada reflexão sobre o longo ciclo da expansão europeia, mas à luz do futuro, num tempo de acentuada instabilidade e de afirmação e acelerada modernização das actuais sociedades emergentes:“Há 500 anos, os roteiros de Portugal levaram-nos à China nas nossas viagens pelo Oriente. Fomos levados pelas correntes e pelos ventos com a nossa arte de navegar, numa tarefa colectiva que exigia coragem e conhecimento, mas que não teria sido Por um renovado diálogo estratégico com o Oriente“Com a passagem do tempo e com a evolução das sociedades desenvolvidas para o seu actual estado de maturidade e de menor competitividade, ficou aberta a oportunidade para que se afirmassem as actuais sociedades emergentes, justificadamente empenhadas em recuperar do seu atraso anterior, mostrando determinação e capacidade para atingirem esse objectivo”.Vasco Rocha Vieira, na conferência “Portugal na balança da Europa e do mundo”possível sem organização e sem motivação, sem comando e sem disciplina, sem a confiança de que os objectivos propostos seriam atingidos. Nessas viagens pelos mares desconhecidos, em busca de terras e gentes, fomos levados pelas correntes da História. Cumprimos a missão.Abrimos a Europa ao Mundo, mas também contribuímos para que o Mundo permitisse o desenvolvimento da Europa até atingir o seu estatuto de centro de hegemonia. Depois dos portugueses e dos espanhóis, outros europeus partiram, mas já sabiam que os objectivos propostos pelos precursores tinham sido atingidos. Também seguiram as correntes e serviram-se dos ventos, encontraram perigos e obstáculos, mas já sabiam que os objectivos existiam. Não avançaram no desconhecido, tinham os mapas que os portugueses e espanhóis desenharam à medida que avançavam.Talvez tenham sido mais pragmáticos e mais competitivos no aproveitamento dos recursos das novas terras, mas não foram os descobridores, foram os que partiram depois das descobertas. Também chegaram, mas depois dos portugueses. Recordar estes factos, 500 anos depois, não tem uma intencionalidade simbólica, tem um conteúdo estratégico. Porque o que abriu o campo de possibilidades para a afirmação da hegemonia europeia foi a abertura de espaços e o acesso a recursos e mercados que libertaram os europeus dos seus constrangimentos continentais.Hoje, Portugal e a Europa têm de reflectir sobre o que foi o longo ciclo da expansão europeia, mas à luz do futuro que têm à frente. Porque este futuro é muito diferente do passado que têm na sua memória e nos registos que ficaram escritos nas correntes da História.”
  • 080 081F A L A R D E N Ó S – X J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – XDepois de salientar o período da “revolução industrial”, que se iniciou em Inglaterra na passagem do século XVIII para o século XIX e que foi fundamental para a consolidação da hegemonia europeia, Rocha Vieira caracterizou esse processo do seguinte modo:“Este processo não teria sido possível sem a abertura dos espaços e sem o acesso a recursos – matérias-primas, ouro e prata, mercados, rotas comerciais – que libertaram as economias europeias dos seus constrangimentos em fontes de energia, em mercados limitados e em população. Mas também não teria os efeitos que teve se, nessa mesma passagem do século XVIII para o século XIX, a China tivesse iniciado a sua própria Revolução Industrial, pois já tinha atingido um grau de desenvolvimento comparável com o que, nessa mesma época, se encontrava em Inglaterra.Foi nesse período que se iniciou o que se designa agora por Grande Divergência, com a Inglaterra e a Europa a seguirem uma trajectória muito diferente da que foi seguida pela China e pela Índia. Duas perspectivas diferentes sobre o futuro estiveram então em competição.De um lado, a perspectiva ocidental da abertura dos espaços e da utilização dos povos e recursos descobertos para alimentar e estimular o desenvolvimento das economias europeias. De outro lado, a perspectiva oriental, centrada nos equilíbrios internos, para assegurar a subsistência das suas populações em função dos recursos locais, sem ter a vocação ou a motivação de estender a captação de recursos no exterior.”Uma nova arquitectura institucionalEssas trajectórias opostas conduziram determinantemente à referida hegemonia que se estendeu por dois séculos, mas vamos assistindo ao nascimento e desenvolvimento de uma nova “grande divergência”, que poderá levar ou não ao aparecimento de uma nova arquitectura institucional que assegure, com equilíbrio, o crescimento e um relacionamento correcto e mutuamente gratificante entre o Ocidente e o Oriente:“O regime da globalização competitiva, que caracteriza as actuais relações económicas, corresponde a uma linha de tendência que começou com a nova ordem mundial nascida da Segunda Guerra Mundial e que teve uma aceleração pronunciada após o fim da União Soviética. É durante as últimas duas décadas que se formam assimetrias muito acentuadas no comércio mundial, com áreas económicas que acumulam excedentes e reservas monetárias, e outras áreas económicas que acumulam défices nas balanças comerciais e agravam os seus endividamentos quando não conseguem recuperar competitividade para os seus produtos.No fim da Segunda Guerra Mundial, os acordos que levaram à formação do Fundo Monetário Internacional tinham o objectivo central de evitar que se formassem estas assimetrias na economia mundial, por efeito de diferenças continuadas nos graus de competitividade. Com a passagem do tempo e com a evolução das sociedades desenvolvidas para o seu actual estado de maturidade e de menor competitividade, ficou aberta a oportunidade para que se afirmassem as actuais sociedades emergentes, justificadamente empenhadas em recuperar do seu atraso anterior, mostrando determinação e capacidade para atingirem esse objectivo.
  • 082 083F A L A R D E N Ó S – X J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – XÉ neste novo contexto que pode estar em formação uma nova Grande Divergência, agora com vantagem para o Oriente, mais dinâmico e competitivo do que o Ocidente e, pelo menos durante as próximas duas décadas, com maior vitalidade demográfica. Não surpreende que estes sejam tempos de grande instabilidade, que não favorece ninguém, mas que é ainda mais prejudicial para aqueles que estão agora a aproveitar a oportunidade para o seu crescimento rápido e para a modernização das suas sociedades e das suas instituições, o que só será possível, no curto prazo, se as sociedades maduras desenvolvidas continuarem a ser mercados dinâmicos.Para a cultura oriental, a harmonia é sempre mais positiva do que a instabilidade. Preparados para interpretar a propensão das coisas e seguir os caminhos de menor resistência e de menor conflitualidade, o seu contributo será decisivo para que estes tempos de instabilidade possam ser superados com a estruturação, corajosa e determinada, de uma nova arquitectura institucional que regularize a turbulência financeira dos movimentos de capitais, que canalize os excessos de endividamento e que preserve o potencial de crescimento que existe no Ocidente e no Oriente.”São úteis contributos para uma continuada reflexão e para um debate alargado, com sentido de futuro, sobre os renovados desafios que se colocam à humanidade nestes tempos de mudança histórica, tão mal compreendidos por tantos responsáveis políticos e económicos.22 de Abril de 2013Como já foi referido em dois artigos anteriores sobre a conferência internacional “Portugal na balança da Europa e do mundo”, levada a efeito há poucas semanas no auditório da Fundação Champalimaud, em Lisboa, e integrada no ciclo “Roteiros do Futuro”, promovido pelo Presidente da República Portuguesa, o painel “Roteiro do Oriente”, presidido pelo General Vasco Rocha Vieira, incluiu uma esclarecida e estimulante comunicação do Prof. Ming K. Chan, do Centro de Estudos da Ásia Oriental da Universidade de Stanford (EUA).Este académico, especializado em História da Ásia e em Ciência Política, tem sido uma presença constante e uma voz escutada em numerosos encontros internacionais, tendo também participado, nos últimos anos, em variadas actividades em Portugal e em Macau. Meu colega na comissão externa de acompanhamento do Instituto do Oriente (Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade Técnica de Lisboa), tem dado, igualmente, uma colaboração muito útil ao Instituto Internacional de Macau na sua projecção externa.Uma perspectiva histórica O título da sua comunicação foi “Three Oceans, Four Continents & Five Centuries of the Luso-Asian Interface: A TransPacific Perspective on Historical Portuguese Globalization Beyond 1513-2013”, na qual traçou um panorama positivo da longa permanência de Portugal no Oriente e explicou o significado do legado luso, analisando-o numa perspectiva estratégica, ao defender um possível reposicionamento de Portugal no Oriente no século XXI.Cinco séculos da interface luso-asiática: uma visão prospectiva“Portugal devolveu à China uma Macau moderna, com sólida economia, boas infra-estruturas, estado de direito, liberdade religiosa e órgãos políticos parcialmente eleitos. A presença portuguesa proporcionou a Macau um rico legado ocidental.”Prof. Ming K. Chan, da Universidade de Stanford, Abril de 2013
  • 084 085F A L A R D E N Ó S – X J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – XOs factores mais relevantes que fundamentam esta sua visão prospectiva são os seguintes: o meio milénio da globalização luso-asiática, desde a chegada de Vasco da Gama à Índia em 1498 até à transferência de poderes em Macau de Portugal para a China em 1999; o 5.º centenário da chegada de Jorge Álvares à China em 1513, lançando as sementes para o actual relacionamento intenso entre a China e o mundo lusófono, através de Macau; o duradouro legado luso; e os laços oficiais cordiais entre Lisboa e Pequim, permitindo que Macau, agora região administrativa especial da China, assumisse um reforçado papel e uma missão relevante no contexto do crescente envolvimento global da China, ao mesmo tempo constituindo mais-valias para o reposicionamento global de Portugal nesta era de “soft power”. Depois de um bem traçado bosquejo histórico, identificando os momentos marcantes da expansão portuguesa no Oriente e salientando a capacidade de Macau como entreposto privilegiado e a sua contribuição para a transformação e modernização da China, sintetizou assim a situação deste território e as perspectivas que se abrem a Portugal:“A possessão ultramarina de menor dimensão do império português foi o mais duradouro dos domínios ultramarinos portugueses na Ásia durante 447 anos, desde 1553 até 1999. Sendo o último território ultramarino que Lisboa entregou, Macau foi o palco do qual os portugueses fizeram a partida de forma mais cordial, mais digna e mais bem planeada, em profundo contraste com as involuntárias saídas da Ásia (Goa, 1961 e Timor-Leste, 1975) e a apressada retirada de África.A presença portuguesa em Macau, tolerante e moderada, e os laços amistosos sino-portugueses asseguraram a transição suave de Macau até à transferência em 1999, ao contrário do percurso conturbado de Hong Kong para o seu “handover”, numa visível discórdia sino-britânica. Portugal devolveu à China uma Macau moderna, com sólida economia, boas infra-estruturas, estado de direito, liberdade religiosa e órgãos políticos parcialmente eleitos. A presença portuguesa proporcionou a Macau um rico legado ocidental. Os museus, os monumentos e o património arquitectónico restaurado ajudaram a consolidar a riqueza cultural que traduz o encontro do Oriente com o Ocidente em Macau.Um legado português vital em Macau é a comunidade macaense de 20.000 pessoas de ascendência luso-chinesa/asiática, que foram funcionários em lugares-chave, quadros técnicos e profissionais, desempenhando o papel de intermediários bilingues entre os governantes portugueses e os residentes chineses locais.A amizade luso-chinesa criou um futuro promissor para a RAEM e para a cooperação da China com o mundo lusófono. A transformação de Macau no contexto da ascensão global da China acrescentou estimulantes páginas à nova edição da história de Macau depois do capítulo da despedida de Portugal. A desvinculação de Portugal das responsabilidades administrativas de Macau não deve ser apenas uma memória histórica mas tornar-se o ponto de partida para o reestabelecimento de uma relação privilegiada com a Ásia em todas as vertentes. O século XXI (o século da Ásia e do Pacífico) é um tempo oportuno para a nação portuguesa voltar a desenvolver uma interacção profícua e completa com a Ásia.A economia asiática que se expande como o motor do crescimento do mundo significa também uma oportunidade para Portugal. O factor asiático afirmado na interface histórica luso-asiática pode abrir novos caminhos para ajudar a revitalizar
  • 086 087F A L A R D E N Ó S – X J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – Xa economia portuguesa na actual recessão da zona Euro. Muito pode ser feito para tirar proveito da dimensão asiática no reposicionamento estratégico de Portugal numa posição privilegiada.” Medidas propostasPerante altas entidades do Estado Português e da sociedade civil, Ming Chan, em resultado da sua reflexão sobre os desafios que Portugal pode assumir no Oriente, preconizou a adopção das seguintes medidas:1. Tirar pleno proveito dos recursos humanos existentes, nomeadamente os macaenses, os imigrantes asiáticos/chineses e estudantes em Portugal, bem como os portugueses com experiência asiática.2. Ampliar sistematicamente o conhecimento das línguas, culturas e histórias, bem como do desenvolvimento actual do mundo asiático, e desenvolver acções de intercâmbio com instituições asiáticas, com vista ao estabelecimento de sólidas relações institucionais e interpessoais.3. Atrair os asiáticos para os cursos de língua portuguesa e acções de formação em escolas e universidades portuguesas.4. Divulgar com mais eficácia nos mercados asiáticos os produtos portugueses – mercadorias e serviços, bem como aptidões e conhecimentos, artes, design e criatividade.5. Promover intensiva e extensivamente o turismo português no sentido de atrair mais asiáticos para visitas ao continente português, com extensões à Madeira e aos Açores.6. Estabelecer ligações aéreas entre Lisboa e Macau com escalas em Pequim e Xangai.7. Informar os asiáticos dos laços sólidos que aproximam Portugal dos outros países lusófonos e da fácil ligação de Lisboa aos lugares-chave lusófonos na África e no Brasil.8. Abrir as portas a mais investimentos directos asiáticos em Portugal.No entender daquele académico, a China é a melhor escolha para um novo envolvimento de Portugal na Ásia, uma vez que é um gigante em termos de área geográfica, economia, reservas em divisas fortes, balança comercial, investimento estrangeiro directo e população. Além disso, Pequim está interessadíssima no desenvolvimento da cooperação com os países lusófonos, com especial incidência em Angola e no Brasil, sendo as relações luso-chinesas decisivas para a estratégia de Pequim em relação ao mundo lusófono, abrangendo oito países em quatro continentes, com uma área total de 10 milhões de quilómetros quadrados e uma população de mais de 240 milhões em todo o mundo.A longa permanência de Portugal em Macau permite-lhe afirmar-se como o entreposto e a plataforma de promoção, sustentação e aprofundamento da cooperação sino-lusófona. Parafraseando um artigo publicado no jornal China Daily (28/06/2010) em que se descreve Portugal como uma ponte da China para o mundo, Ming Chan terminou a sua comunicação frisando que “A China é a ponte de Portugal para a Ásia e Macau é a ponte de Portugal para a China”.29 de Abril de 2013
  • 088 089F A L A R D E N Ó S – X J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – XTive o prazer e o privilégio de, em representação da Sociedade Histórica da Independência de Portugal, na qualidade de presidente do seu Conselho Supremo, co-presidir, no mês passado, a mais um encontro (o 2.º do 9.º ciclo) da tertúlia “Imperii Finis”, juntamente com os generais Joaquim Chito Rodrigues e Alexandre de Sousa Pinto, presidentes, respectivamente, da Liga dos Combatentes e da Comissão Portuguesa de História Militar. Foi em Lisboa, no Palácio da Independência, sede da Sociedade Histórica, no auditório do Instituto D. Antão de Almada.Fim do impérioA tertúlia “Fim do Império” teve início em Janeiro de 2009, por iniciativa do núcleo de Oeiras e Cascais da Liga dos Combatentes, com o apoio da Câmara Municipal de Oeiras, sendo convidados, para cada sessão, o autor de uma obra literária sobre esse tema e uma personalidade para proceder à sua apresentação, cabendo à mesa conduzir o diálogo com a assistência, sempre numerosa.O 1.º ciclo, com o título “Escritor combatente”, integrou cinco sessões, em torno das obras “Caçador de Brumas”, do tenente-coronel João Sena, “Geração do Fim”, de 21 oficiais do curso de Infantaria de 1954/58, com coordenação do tenente-coronel Lomba Martins, “As Guerras do Capitão Agostinho”, do ex-capitão miliciano Carlos Gueifão, “Nó-cego”, do coronel Carlos Matos Gomes, e “Tempo Africano, aquelas longas horas em sete andamentos”, do coronel Manuel Barão da Cunha, que tem sido o grande animador destes encontros.Ao longo de quatro anos, foram organizados nove ciclos, cada um integrando várias sessões, sempre com muito boa participação e contando com a presença de Também se falou de Macau na tertúlia “Imperii Finis”“O êxito da iniciativa permitiu encarar o seu alargamento a outro espaço e audiência, agora numa parceria entre a Sociedade Histórica da Independência de Portugal, a Liga dos Combatentes e a Comissão Portuguesa de História Militar, sob a designação ‘Imperii Finis’.”Joaquim Chito Rodrigues, presidente da Liga dos Combatentesdestacadas personalidades militares, como o general Carlos Reis, chefe da Casa Militar do Presidente da República, representantes do chefe do Estado-Maior do Exército, o general António Ramalho Eanes, ex-Presidente da República, o general Vasco Rocha Vieira, chanceler das Antigas Ordens Militares e ex-Governador de Macau, o presidente da Liga dos Combatentes e o presidente da Comissão Portuguesa de História Militar, além de outros oficiais generais, como António Barrento, Brochado de Miranda, Jorge Teixeira, Tomé Pinto, Alcide d’Oliveira e Altino de Magalhães.Obras importantes foram apresentadas e apreciadas ao longo desta continuada tertúlia. Cito apenas algumas: “Diário da Guiné”, de Beja Santos, “Tempo Africano”, de Manuel Barão da Cunha, “Fim do Império, Kinda e outras histórias de uma guerra esquecida”, de Carlos Acabado, “Angola 1961, da Baixa do Cassange a Nambuangongo”, “Operações em Angola (1961-1964)”, prémio Ministro da Defesa Nacional 1999, e “Operações em Angola (1964-1974)”, do historiador militar António Pires Nunes, “Crónica dos Meus Últimos Dias de Timor e outras histórias de guerra”, de Rui Marcelino, “Arcanjos e Bons Demónios, crónicas da Guerra de África (1961-74)”, de Daniel Gouveia, e “Memórias do Oriente – Índia, Timor e Moçambique”, obra póstuma do coronel Luís Dias Antunes. Foi também criada uma colecção literária própria (da DG Edições) que já integra dez livros e dois cadernos, um dos quais já em segunda edição, contendo uma longa e muito útil bibliografia sobre o tema Fim do Império.Desde Outubro de 2011 que as sessões da tertúlia passaram a realizar-se no Palácio da Independência, em Lisboa, sob a nova designação “Imperii Finis”, com o envolvimento e apoio logístico da Sociedade História da Independência de Portugal.
  • 090 091F A L A R D E N Ó S – X J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – X9.º cicloO 9.º ciclo da tertúlia tem estado a decorrer desde Março do corrente ano, com três encontros, o primeiro sobre “A Mulher Portuguesa na Guerra e nas Forças Armadas”, coordenado pelo coronel Ribeiro Soares, o segundo em Abril passado, com a apresentação da obra poética do coronel José Caniné, pelos coronéis Manuel Bernardo e Luís Vilas Boas e a presença do autor, com incidência no seu livro “Inquietando”, estando marcado para 22 do corrente o 3.º, em que será prestada uma homenagem póstuma ao poeta coronel Joaquim Evónio de Vasconcelos (“A Palavra é uma Espada”), com intervenção do coronel Joaquim Repolho. Ainda estudante, conheci bem o então capitão Evónio de Vasconcelos em actividades da Mocidade Portuguesa e outras actividades juvenis e dele guardei muito positivas recordações. O livro de poemas “Inquietando” tem prefácio de António Manuel Couto Viana, um dos maiores poetas portugueses contemporâneos, cuja memória permanece viva entre nós. Também ele obteve inspiração para os seus versos em Macau, onde viveu e trabalhou durante dois anos, sabendo entender a terra e as suas gentes.Nesta sessão, que teve a presença do general Vasco Rocha Vieira, não só o general Joaquim Chito Rodrigues mencionou a sua passagem por Macau, mas também eu próprio, nas palavras de encerramento do encontro, aproveitei para recordar as obras que António Manuel Couto Viana dedicou a Macau e para anunciar que gostaria de acrescentar, até 2015, dois novos títulos às 50 páginas da bibliografia recolhida sobre o Fim do Império: dois trabalhos pessoais, um ainda em organização, sobre a história da companhia de caçadores 3476 (“Dos Arrifes a Canjambari e ao Dugal”), que tive a honra de comandar na Guiné, como capitão miliciano de Infantaria, e o outro, em avançada preparação, sobre “Os Macaenses na Guerra do Ultramar”. Algumas dezenas de jovens portugueses de Macau também estiveram nas três frentes de combate (em Angola, na Guiné e em Moçambique), como furriéis, alferes e capitães milicianos. É um testemunho que ainda não foi expresso e que importa concretizar para memória de uma participação digna num outro tempo de Portugal.SirocoHá poucos dias, outra bonita sessão foi levada a efeito, no Museu Militar, com o lançamento de mais um importante estudo (um volume com mais de 600 páginas) sobre a Guerra do Ultramar, da autoria do historiador militar e tenente-coronel de Artilharia, na situação de reforma, António Pires Nunes, que cumpriu quatro missões militares, três das quais em Angola. Com vasto currículo cultural e académico, é também membro da comissão científica da Comissão Portuguesa de História de Militar e membro de mérito da Sociedade Histórica da Independência de Portugal. O livro é “Siroco – os Comandos no Leste de Angola”, edição da Associação de Comandos, integrada na sua colecção “Mama Sume”. É um relato circunstanciado e intenso do nascimento dos Comandos e da sua actuação fundamental no leste de Angola, com destaque para o Agrupamento Siroco (1969, 1970 e 1971), o Agrupamento Raio (1972) e para as operações finais em 1973. É uma justa homenagem ao esforço Comando e à sua história, no 50.º aniversário da criação desta força militar especial que prestou e continua empenhadamente a prestar serviços relevantíssimos ao país, participando agora em missões de paz no âmbito das organizações internacionais.
  • 092 093F A L A R D E N Ó S – X J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – XA sessão foi presidida pelo general chefe do Estado-Maior do Exército e a obra foi apresentada pelo general comando Pinto Ramalho, ex-chefe do Estado-Maior do Exército, depois da saudação do presidente da Associação de Comandos, José Ângelo Lobo do Amaral. Foi também uma boa oportunidade para rever velhos amigos, muitos dos quais, como os coronéis Chung Su Sing, Raúl Folques e Reynolds Mendes, e o próprio general Pinto Ramalho, também prestaram serviço em Macau.A Associação de Comandos acaba de publicar a sua revista n.º 75, com especial enfoque nos 50 anos da criação dos Comandos. Contém uma saudação do Presidente da República, expressando a sua “gratidão a todos os Comandos que tombaram no campo da honra e deram a sua vida pela Pátria” e a sua admiração e homenagem aos “valorosos exemplos de bravura e coragem, bem expressos nos anais dos 50 anos de existência e nas mais altas condecorações que militares e unidades Comando ostentam, com orgulho e distinção”, uma mensagem do chefe do Estado-Maior do Exército, general Pina Monteiro, e amplas reportagens e artigos sobre as comemorações desse aniversário e sobre temas de interesse nacional. Contém também um artigo da minha autoria, intitulado “Macau – um legado a preservar”. Parabéns à Associação de Comandos e ao seu presidente, José Lobo do Amaral. 6 de Maio de 2013Muitos foram os professores que, no velho Liceu de Macau, incentivaram os alunos à boa leitura e à escrita. Camilo Pessanha, Wenceslau de Moraes, Luís Gonzaga Gomes, Manuel Teixeira, os irmãos Paço d’Arcos, Manuel da Silva Mendes, Graciete Batalha, António Maria da Conceição, Júlio Augusto Massa, José Gomes da Silva, Túlio Lopes Tomás, Beatriz Basto da Silva, são apenas alguns dos muitos nomes maiores ligados àquela escola que formou gerações dos mais qualificados quadros da nossa terra. No que respeita ao uso correcto da língua portuguesa, uma palavra especial é também devida a José Tertuliano Cabral, mestre rigoroso que foi nosso professor de Português e de Latim, além de vice-reitor e reitor, nas décadas de 50 e 60 do século passado.Em 1960, nas comemorações oficiais do V Centenário da Morte do Infante D. Henrique, entre outros actos incluídos no programa, o Liceu, que ostentava orgulhosamente o nome do Infante, seu patrono, promoveu um conjunto variado de iniciativas de exaltante patriotismo, incluindo uma alocução feita pelo nosso colega José Carlos Miranda Vieira, de quem nos lembramos como o excelente atleta que foi, sobre a “Acção do Infante D. Henrique”, uma sessão intitulada “Portugal pequenino e gigante”, com a exibição de danças regionais portuguesas e números de canto e poesia, a apresentação do Orfeão do Liceu, sob a regência da professora de Canto Coral Emília Amado Antunes, e o anúncio dos resultados dos I Jogos Florais do Liceu.Ao arrumar velhos papéis, recortes de jornais e publicações várias, encontrei o programa daquelas comemorações, bem como notícias e relatos que permitem, com fidelidade, recordar essa “primeira tentativa” de pequenos escritores, “para quem começam a abrir-se as portas do templo de beleza, que é a poesia”, como tão eloquentemente a eles se referiu a professora de Português e Inglês, Emília Cabrita da Quando no Liceu de Macau se organizaram jogos florais“Ela (esta primeira tentativa poética) marca uma pedra branca, imaculadamente branca na vida cultural destes pequenos escritores, para quem agora começam a abrir-se as portas do templo de beleza, que é a poesia.”Emília Cabrita da Silva, coordenadora dos Jogos Florais do Liceu em 1960
  • 094 095F A L A R D E N Ó S – X J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – XSilva, coordenadora e impulsionadora daqueles jogos florais, cujo sucesso foi enaltecido, não só pela qualidade dos trabalhos recebidos, mas também pelo seu elevado número (cerca de 30), ultrapassando as expectativas mais optimistas.Texto vencedorO vencedor foi Nuno Maria Roque Jorge, com um texto em prosa intitulado “A profecia”, breve narrativa da conquista de Ceuta e da profecia de um velho cativo de Fez anunciando ao Infante que “um príncipe ocidental rasgará a cortina de lendas e mistérios que cerca o Mar Tenebroso, será o propulsor do engrandecimento do seu País, os seus navios descobrirão terras e ilhas ignoradas, sulcarão os mares, dobrarão o Cabo Prasso, ligarão a Índia à Europa (...) E o mundo maravilhar-se-á! (...) Senhor, sinto que esse príncipe sois vós! Não fraquejeis; mandai as vossas caravelas em demanda do Desconhecido! Deus ajuda quem se ajuda a si próprio! (...) Daí em diante os Descobrimentos sucederiam sem cessar: a Cruz Rubra seria vistada pelos povos mais ignotos! Deste modo, quando o Infante faleceu, a África estava descoberta até Cabo Verde; e os seus sucessores, com este impulso, puderam continuar a sua obra. Não fora em vão que o Solitário de Sagres alongara a vista pelo horizonte e vigiara o regresso dos seus barcos no promontório estéril, seco, rochoso, batido de ventos, que é Sagres, – a Sentinela d’Além Mar!”PoesiaA poesia obedecia a um mote: “Caravelas, lenho leve / Num Mar revolto, gigante. / Mensageiras do poder, / Da Fé, do Ínclito Infante.” Os melhores trabalhos seleccionados foram os de Manuel Joaquim de Jesus Tomé, Maria Hermínia Pimentel da Costa, Maria Teresa Rodrigues da Silva, Nuno Maria Roque Jorge e Américo da Silva Leong Monteiro. De Manuel Tomé e Américo Monteiro, que usaram os pseudónimos Elmano e Morenito, transcrevo os poemas apresentados:“Poesia obrigada a Mote”MoteCaravelas, “Lenho leve”Num mar revolto, gigante,Mensageiras do poder,Da fé, do “Ínclito Infante”.Ó naus mil vezes gloriosas,Em cujas velas de neveDe Cristo o pendão flameja,Caravelas, “Lenho leve”,O Tenebroso rompestes,Rumo às terras do Levante,Perigos mil arrostandoNum mar revolto, gigante!
  • 096 097F A L A R D E N Ó S – X J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – XEm vós lusos heróis, santos,Cumprindo sacro dever,Ó de Portugal eternoMensageiras do poder,Repartiram pelo mundoPadrões e o facho ovanteDo luso amor, o EvangelhoDa fé, do “Ínclito Infante”.“Caravelas”MoteCaravelas, “lenho leve”Num mar revolto, giganteMensageiras do poderDa Fé, do Ínclito InfanteGlosaDesse Portugal bem visto (Negá-lo ninguém se atreve)Saíram as velas de CristoCaravelas, “lenho leve”.Partem as primeiras de SagresÀ vista do nobre InfanteE lá vão obrar milagresNum mar revolto, gigante.Cruz de Cristo, era o sinalDa Fé Santa e do DeverNessas naus de PortugalMensageiras do poder.Pátria de insignes varões,Farol dum povo possanteDas gigantescas MissõesDa Fé, do Ínclito InfanteNaquela memorável festa escolar, Américo Monteiro também encantou a assistência pelo sentimento e timbre da voz quando entoou a canção “Alentejo” e declamou o poema “D. Henrique”, enquanto muitos outros colegas integravam, animadamente, o grupo de dança, asseguravam o acompanhamento musical ou participavam num quadro vivo, representando o Infante, um pajem, Gil Eanes e um cartógrafo. Recordar é sempre reviver!13 de Maio de 2013
  • 098 099F A L A R D E N Ó S – X J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – XA MacauLink, com coordenação de Gonçalo César de Sá e Louise do Rosário e apoio da Fundação Macau e do Instituto Internacional de Macau, acaba de publicar um importante trabalho intitulado “Delta do Rio das Pérolas – A história notável do Delta”, que apresenta, de forma atraente e sucinta, a informação essencial e actualizada sobre a área geográfica de maior desenvolvimento do mundo, na qual Macau e Hong Kong se inserem. A produção é da Associação de Macau de Investigação do Delta do Rio das Pérolas, sendo a pesquisa e os textos da autoria de Thomas Chan, investigador conceituado e director da China Business Centre da Universidade Politécnica de Hong Kong, e Louise do Rosário, jornalista experiente, especializada em assuntos da Ásia Oriental, tendo trabalhado em Hong Kong, Pequim, Xangai, Taipé e Tóquio. A fotografia é de Eric Tam e o desenho gráfico de Soluções Criativas, Lda. Caracterização e planoEm mais de 90 páginas, que incluem bem seleccionadas ilustrações, é feita uma breve história do Delta, recuando dois milénios, sendo referidas as rotas da seda, as migrações, a chegada dos portugueses a Macau, a prosperidade e o desenvolvimento de Cantão, a Guerra do Ópio e suas consequências, o processo de industrialização do Delta, a guerra civil e a revolução comunista, os novos projectos do Delta no século XXI e as mudanças radicais a partir de 1978, os casos de sucesso de Shenzhen e de outras cidades do Delta, a reconquista da liderança por Cantão, as novas políticas e os novos pilares industriais e um plano consistente, em execução, para 2008-2020.Integração de Macau no Delta do Rio das Pérolas“O processo de integração com a China, e em particular com a região do Delta do Rio das Pérolas, compreende também a aproximação através do sistema de transportes. Está em construção a ponte que vai ligar Hong Kong a Macau e Zhuhai; este enorme projecto, que vai custar mais de 10 mil milhões de dólares americanos, deverá ficar concluído em 2016”.“Delta do Rio das Pérolas, A história notável do Delta”, Dezembro de 2012 São também apontados, sumariamente, os principais objectivos definidos para a região do Delta: modernização do modelo industrial, inovação, modernização das infra-estruturas, integração rural com desenvolvimento urbano, desenvolvimento regional, protecção ambiental e aplicação de políticas de abertura e cooperação, visando atrair mais investimento estrangeiro, agilizar e executar uma estratégia de “saída”, a adopção de práticas e regras internacionais, a melhoria das formas e canais de cooperação e coordenação com Hong Kong e Macau, especialmente nos domínios do planeamento urbano, dos transportes, das redes de informação, energia e abastecimento de água, o reforço da cooperação industrial e a edificação de uma comunidade com altos padrões de qualidade de vida, cooperando especialmente nas esferas da educação, saúde, segurança social, cultura, protecção civil e protecção dos direitos de propriedade intelectual, tornando mais fácil a inserção de residentes de Hong Kong e Macau que pretendam viver e trabalhar no interior. Neste contexto, propõe-se também promover a cooperação em áreas específicas, nomeadamente no controlo e prevenção de doenças e epidemias e em emergências médicas, bem como projectos conjuntos para a criação nessa vasta região de grandes espaços verdes com altos padrões de qualidade e mecanismos de prevenção e controlo da poluição e a protecção a reservatórios e a reservas naturais transfronteiriças.Também se preconiza a melhoria da cooperação com Taiwan e com os países da ASEAN, e são caracterizadas as principais cidades do Delta (Cantão, Shenzhen, Dongguan, Zhuhai, Macau, Zhongshan, Jiangmen, Foshan, Zhaoqing, Hong Kong e Huizhou), e explicados o papel e os projectos de desenvolvimento de cada uma, assim como os agrupamentos de cidades, com sistemas globais de transportes regionais, partilha de recursos energéticos e hídricos, melhoria da estrutura industrial, com o
  • 100 101 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – X F A L A R D E N Ó S – Xdesenvolvimento conjunto de projectos industriais e de plataformas logísticas, um planeamento urbano inteligente, com o propósito de estabelecer conjuntos de cidades de nível internacional e uma sociedade amiga do ambiente. Até 2020 a região do Delta deverá dispor de 8.300 km2 de zonas verdes e de um “sistema multifuncional extensivo de apoio ao ecossistema”.O crescimento de MacauDepois de referir o estabelecimento de Macau pelos portugueses, este trabalho caracteriza deste modo o rápido desenvolvimento de Macau:“...o jogo e o entretenimento passaram a ser as indústrias dominantes de Macau. Para além das corridas de cavalos e uma lotaria em Hong Kong, Macau é o único local da China onde o jogo está legalizado. Durante os últimos 37 anos da administração portuguesa e até 1999, apenas uma empresa, a Sociedade de Turismo e Diversões de Macau (STDM), detinha licença para explorar jogos de fortuna ou azar, pela qual pagava uma substancial renda anual ao governo do território. A 20 de Dezembro de 1999, Macau passou a Região Administrativa Especial (RAE) da China, segundo o modelo adoptado para Hong Kong de “um país, dois sistemas”. Macau tem duas línguas oficiais, chinês e português, e tal como Hong Kong mantém os sistemas jurídico e monetário do governo colonial, bem como a sua própria força policial.Em 2002, o Governo de Macau pôs termo ao monopólio do jogo, através da concessão de 6 licenças para operar casinos. Esta opção traduziu-se no aumento surpreendente da receita do jogo e do número de visitantes, transformando Macau no maior centro mundial de jogo, ultrapassando Las Vegas. Em 2011, a receita proveniente do jogo ascendeu a 268 mil milhões de patacas (25,8 mil milhões de euros), um aumento de 42% em relação a 2010 e cinco vezes mais os resultados obtidos em Las Vegas. Os impostos e taxas pagos pelos casinos e pelo sector da hotelaria representam mais de 70% das receitas públicas. Em 2011, Macau recebeu 28 milhões de visitantes, dos quais 16,2 milhões provenientes da China e 7,6 milhões de Hong Kong. Estes números levam Macau ao patamar das economias com maiores taxas de crescimento em todo o mundo, com o produto interno bruto a crescer 20%.Macau tem 35 casinos, dos quais 20 são operados pela STDM, 6 pela Galaxy Casino, quatro pelo Venetian Macao, três pela Melco Crown, 1 pelo Wynn Resorts e um pelo MGM Grand Paradise. A formação bruta de capital fixo, em 2011, aumentou 8,5% e deverá crescer 8,9% em 2012. Nos três primeiros trimestres de 2011, as vendas a retalho somaram 30,43 mil milhões de patacas, um aumento de 39%. Entre os produtos mais procurados contam-se relógios, jóias, artigos de cabedal e outros bens de luxo. O crescimento económico nos últimos 10 anos foi de tal modo acelerado que a mão-de-obra disponível na cidade revelou-se insuficiente, pelo que foi necessário recorrer a milhares de trabalhadores provenientes da China, do Nepal, das Filipinas e de outros países do Sudeste Asiático. Por outro lado, o crescimento económico traduziu-se numa pressão acentuada sobre os custos da habitação, colocando-a fora do alcance das jovens famílias da classe média. Se estas pretenderem adquirir habitação própria, têm de optar pela cidade vizinha de Zhuhai onde os preços são mais baixos.O governo propõe-se seguir o exemplo de Las Vegas e diversificar as suas fontes de rendimento, acrescentando aos sectores do jogo e do comércio o entretenimento,
  • 102 103 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – X F A L A R D E N Ó S – Xconcertos, eventos desportivos, conferências e actividades de lazer. Investiu fortemente nos museus, na música, nas artes e outros festivais, bem como em projectos de restauro e conservação, proporcionando aos turistas outros motivos para visitar Macau. Todavia, esta diversificação enfrenta alguns obstáculos, já que os chineses, que representam a esmagadora maioria dos visitantes, pretendem apenas jogar e fazer compras. (...)Com uma superfície de apenas 29,5 km2 e uma população de 544.000 residentes, Macau é um dos locais mais densamente povoados em todo o mundo. Para aumentar o espaço disponível colocam-se duas alternativas. Uma através da construção de 3,5 km2 de aterros nas águas circundantes – o equivalente a 12,3% da área actual – para estradas, equipamentos públicos e áreas comerciais e residenciais. Este trabalho deverá estar concluído até 2016. A outra alternativa prende-se com a utilização de espaços na ilha de Hengqin (Ilha da Montanha), pertencente ao vizinho município de Zhuhai que compreende uma área de 106 km2, três vezes maior do que a de Macau, mas com uma população residente de apenas 7000 pessoas...”Este trabalho da MacauLink será um livro de referência incontornável para um conhecimento correcto das perspectivas e realidades do desenvolvimento do Delta. Será da maior relevância para a RAEM o patrocínio à realização de mais trabalhos como este, sérios e independentes, pelas perspectivas que permitem desenhar sobre os planos de integração do Delta, que abrangem, necessária e inevitavelmente, Macau e a sua população, no decurso das próximas décadas. 20 de Maio de 2013Sessão bem bonita foi a que se realizou, na semana passada, no auditório do Instituto Internacional de Macau, quando se procedeu à apresentação, por Celina Veiga de Oliveira, do livro Mercadores do Ópio – Macau no Tempo de Quianlong.Não obstante o tempo ainda ameaçador, depois de dois dias de tempestade tropical e abundante chuva que inundou algumas artérias da cidade, numeroso público acorreu a este singelo acontecimento cultural, para conhecer melhor a obra e expressar o seu reconhecimento à autora, Maria Helena do Carmo, que ofereceu a quantos se interessam pela memória de Macau o seu segundo romance com esta cidade como pano de fundo dos palcos da história. O primeiro foi Uma Aristocrata Macaense no Macau do Século XVII – Nhónha Catarina de Noronha, publicado pela Fundação Jorge Álvares em 2006.Mercadores de Ópio – Macau no Tempo de Quianlong procura retratar as vivências e vicissitudes de quatro gerações contemporâneas do Imperador Quianlong, centrando-se o relato na família de Vicente Rosa, que se destacara no comércio e no contrabando de ópio. O contexto histórico revela-nos também aspectos pontuais da vida na corte imperial chinesa. A apresentação do livroEra difícil encontrar alguém que pudesse fazer uma melhor e mais completa e, ao mesmo tempo, sentida apresentação da obra do que Celina Veiga de Oliveira, personalidade sempre ligada a Macau e à sua história e literatura desde que aqui exerceu funções docentes e de assessoria cultural, sendo autora de vasta bibliografia Macau em mais um romance histórico“’Mercadores do Ópio – Macau no Tempo de Quianlong’, de Maria Helena do Carmo, é um romance que retrata o movimento mercantil portuário de Macau, as vivências ou imagens do quotidiano e as vicissitudes desta cidade durante o longo reinado de Quianlong, de 1735 a 1796, as últimas seis décadas do século XVIII”.
  • 104 105 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – X F A L A R D E N Ó S – Xsobre este território. São dela estes parágrafos de um muito bem articulado texto que serviu de base à apresentação que em boa hora aceitou fazer, como amiga e antiga colega da autora e responsável pela editora (Editorial Tágide) que publicou o livro, com apoios recebidos da Fundação Jorge Álvares, da Fundação Oriente e do Instituto Internacional de Macau:“’Mercadores do Ópio – Macau no Tempo de Quianlong’, de Maria Helena do Carmo, é um romance que retrata o movimento mercantil portuário de Macau, as vivências ou imagens do quotidiano e as vicissitudes desta cidade durante o longo reinado de Quianlong, de 1735 a 1796, as últimas seis décadas do século XVIII.Mas a narrativa estende-se também à corte imperial chinesa, em Pequim, às viagens pela China do imperador Quianlong até à longínqua Je-hol na Tartária, aos seus gostos, à sua sensibilidade artística, aos seus caprichos e até aos seus amores.Os episódios da paixão de Quianlong pela cativa de guerra Xiang Fei, a ‘Odorífera Concubina’, atingiram neste livro, em meu entender, a elevada dimensão da criação literária.Mito? Lenda? Realidade histórica? Pouco importa. Esse amor trágico entre o poderoso Quianlong e a rebelde cativa muçulmana, que acaba por se render às múltiplas provas de afecto do filho do céu, remete-nos para outros amores da história da Humanidade, como Pedro de Portugal e Inês de Castro, onde, como aqui, as razões de Estado se sobrepuseram aos ditames do coração, ou como o drama shakespeariano de Romeu e Julieta, persistente tema inspirador de poemas e de filmes.E conhecemos este amor imperial através de Mariazinha, jovem macaense que casou com o reinol Simão Vicente Rosa, numa união que, como todas as outras, deveria ser baseada em interesse recíproco – o reinol precisava de ser casado com uma jovem de Macau para ascender social e politicamente; e a jovem macaense precisava do reinol para ter alguém que lhe administrasse os bens. (...)Porém, é Macau o centro das atenções da escritora. Sempre Macau, aquele ‘milagre’ da história, a ‘Bíblia’ que deve servir de guia às relações entre povos, embora os séculos de convivência diária entre portugueses e chineses não tivessem sido imunes a desentendimentos e a mal-entendidos.Como passar para o leitor o quotidiano macaense do tempo de Quianlong? Há muitos processos mas a autora escolheu o diálogo entre as personagens como veículo de toda a informação histórica.Através destes diálogos que acompanham a acção romanesca, o leitor vai-se apercebendo dos momentos de alegria, das festas de família, como casamentos, baptizados e outras festividades religiosas; dos momentos difíceis – e alguns de aflição mesmo – como a aplicação em Macau do código de leis Qing, de litígios da cidade, dos excessos do Governador Teles de Menezes; da autoridade do Senado, da importância da Igreja, da embaixada de Francisco Assis Pacheco de Sampaio à corte de Pequim; do comércio do ópio, como solução para a crise económica que se abateu sobre os
  • 106 107 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – X F A L A R D E N Ó S – Xmercadores macaenses, do papel dos jesuítas em Macau e em Pequim, os grandes arquitectos da política do entendimento entre Portugal e a China; de uma nova geração de mercadores, que resultou do cruzamento de interesses entre as grandes famílias de Macau, da influência de Goa nos assuntos internos da cidade; da presença do poeta Bocage, da sua reputação como poeta e dos versos que compôs para deleite de damas da sociedade; da embaixada britânica de Lord MacCartney à corte de Pequim, em finais do século XVIII, que convenceu a ‘cínica Inglaterra’ como lhe chamou Guerra Junqueiro, de que a entrada no orgulhoso império nunca seria coisa fácil; tudo isto até ao epílogo final, com a abdicação de Quianlong, e com a continuidade da energia diária dos habitantes de Macau pela manutenção da presença portuguesa.Como tessitura de toda esta informação, Maria Helena do Carmo serve-se da distinta família de Manuel Vicente Rosa, reinol, que casa com uma senhora rica de Macau. Sem descendência directa, são os sobrinhos de Manuel Vicente Rosa, reinóis como ele, que vêm para Macau, casam com jovens senhoras da sociedade macaense e continuam a dinastia comercial herdada e desenvolvida pelo tio, sendo também importantes figuras daquele tempo. Simão, o mais velho, segue as pisadas políticas de Manuel Vicente Rosa e é um destacado membro do Senado da Câmara, um ‘Senado que a tudo é superior’, como o caracterizou o poeta Bocage”.A autoraMaria Helena do Carmo nasceu no Funchal em 1941 e ali permaneceu apenas até aos 3 anos de idade, quando terminou a comissão de serviço militar do pai, passando a residir nas Caldas da Rainha. Aos 12 anos partiu para Goa, onde estudou no Liceu, sendo mais tarde locutora na Emissora Oficial de Goa. Ali casou e foi mãe pela primeira vez, tendo regressado à então metrópole, como refugiada, em 1961, após a invasão pela União Indiana.No ano seguinte partiu para Luanda, ali retomando as funções de locutora na Rádio Ecclesia e na Voz de Luanda, assumindo depois a coordenação de programas na Emissora Oficial de Angola. Acompanhou o marido, em 1970, para Moçambique, ali ficando até 1973. Iniciou o curso de História na Universidade de Lourenço Marques, tendo regressado a Angola no termo da comissão de serviço do marido. Foi professora de História e Português, sendo obrigada a regressar a Portugal na condição de refugiada. Em Lisboa, concluiu a Licenciatura na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e foi professora no Liceu D. Pedro V.Em 1995 veio para Macau com o marido, assessor jurídico, sendo professora no Liceu e estudante na Universidade de Macau, onde concluiu o Mestrado em Língua e Cultura Portuguesa – variante História. A sua dissertação, intitulada “Os interesses dos Portugueses na primeira metade do século XVIII”, foi publicada pela Universidade de Macau. Regressou definitivamente a Portugal em 1999, retomando a sua actividade docente no Algarve, até à reforma em 2003. Passou a dedicar o tempo à leitura, à escrita e à pintura nas horas vagas. Frequenta, presentemente, a Academia Sénior de Lagoa como estudante e professora.27 de Maio de 2013
  • 108 109 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – X F A L A R D E N Ó S – XNo exercício de funções públicas e associativas e como residente local, tive a possibilidade de acompanhar, de perto e ao longo de três décadas e meia, o verdadeiramente espantoso desenvolvimento de todo o vasto – e agora imensamente dinâmico – Delta do Rio das Pérolas, desde o período imediatamente anterior à espectacular abertura económica da China, ainda nos anos 70 do século passado. Garcia Leandro era Governador de Macau (1974-1979) e eu director do Turismo, quando fiz uma primeira visita, classificada como semi-oficial, a Cantão, Zhongshan, Foshan e Chongfa, correspondendo a um convite então considerado surpreendente da representação chinesa em Macau, numa altura em que a fronteira de Gongbei ainda estava fechada. Seguiram-se centenas de outras deslocações. De enormes campos agrícolas que se estendiam muito para além do horizonte, entrecortados por rios e ribeiros com velhas aldeias semeadas nas suas margens e, aqui e ali, algumas cidades meio-adormecidas, até ser a região de maior crescimento no mundo, foi um percurso desafiador das mais optimistas previsões.Foi, por isso, que o Instituto Internacional de Macau (IIM) teve, como uma das suas primeiras edições, um trabalho sobre o Delta (“Macau and the Pearl River Delta”, IIM, Julho de 2000), o qual, além de profusamente ilustrado, foi acompanhado de uma magnífica fotografia de toda a área geográfica englobada. Esta fotografia, de grande dimensão e que fez sucesso no momento do seu lançamento, ainda hoje está exposta em universidades, serviços e gabinetes de entidades, sendo usada como mapa da região O renascer de uma grande metrópole no Delta“Até 2020, Cantão quer tornar-se numa metrópole dinâmica global, semelhante à Grande Tóquio ou à Grande Paris. A cidade propõe-se atingir este objectivo através de uma densa rede ferroviária que a ligará, pelo corredor oriental do rio das Pérolas, a Dongguan, Shenzen e Hong Kong e, pelo corredor ocidental, a Foshan, Zhongshan, Zhuhai e Macau.Esta rede vai colocar a cidade no centro de uma metrópole gigante que se estende e abarca Hong Kong e Macau.”(não havendo outro melhor), uma vez que ali ficaram claramente identificadas todas as principais localidades e zonas de expansão, estando também nitidamente referenciados os aeroportos de Hong Kong (Lantao) e de Macau, inaugurados na década de 1990.Foi em reconhecimento da necessidade de produção de mais estudos actualizados sobre o Delta que o IIM apoiou, sem hesitação, a produção de uma série de novos trabalhos sobre este relevante tema, o primeiro dos quais, já referido neste espaço do Jornal Tribuna de Macau, foi “A história notável do Delta” (MacauLink, Dezembro de 2012), tendo saído recentemente do prelo o número 2, com o título “Cantão: o renascer de uma metrópole” (MacauLink, Abril de 2013). Desde a história da cidade, com mais de dois mil anos, aos ambiciosos planos apontados, irrecusavelmente, para o futuro, Thomas Chan e Louise do Rosário, com a coordenação de Gonçalo César de Sá, oferecem-nos uma descrição objectiva e estimulante da vida, dos desafios e do crescimento desta grande metrópole, que cada vez mais irá assumindo o papel de centro aglutinador de todo o Delta.A expansão da cidadeQuem observou mais atentamente o impressionante desenvolvimento de Xangai na viragem do século, poderá não ter dado conta das profundas transformações operadas também em Cantão. Este livro é fundamental para se compreender a trajectória seguida:“A expansão de Cantão não pára nos limites da cidade e houve já tentativas de integrar as nove cidades do Delta do Rio das Pérolas. Em 2008, o ‘Plano de Reforma e
  • 110 111 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – X F A L A R D E N Ó S – XDesenvolvimento da Região do Delta do Rio das Pérolas’ refere-se ao projecto de integração com a região dividida em três: o centro liderado por Cantão, o este por Shenzhen e o oeste por Zhuhai. Cada uma destas subregiões irá integrar três cidades nos anos vindouros e, em 2020, será alcançada a integração regional. Este processo, liderado por Cantão que começou a fundir-se com Foshan em 2011, propõe-se implementar as políticas designadas de ‘mesma cidade’, eliminar as diferenças políticas e institucionais e melhorar a acessibilidade de transportes. Foshan é a terceira maior cidade na região do Delta do Rio das Pérolas. As franjas urbanas das duas cidades já se sobrepuseram. Ao fundir-se com Foshan, Cantão desenvolveu-se e igualou Hong Kong em termos de PIB e as suas vendas a retalho foram equivalentes ao total de Hong Kong e Shenzhen. As suas funções de cidade central dentro da região serão bastante mais realçadas. Com Foshan dominada pelas aglomerações industriais de pequenas e médias empresas que produzem sobretudo para o mercado doméstico, a fusão vai criar uma forte sinergia em termos de desenvolvimento industrial. Espera-se que também vá acelerar a disseminação das pequenas e médias empresas de Cantão para Foshan, deixando mais funções de venda por grosso em mercados tradicionais no centro da cidade.A fusão das cidades de Cantão e Foshan irá fortalecer ainda mais o esforço da metrópole de Cantão. Vai dar início a um processo de urbanização a partir das recém-construídas redes ferroviárias, locais e regionais, prolongando-se a Dongguan e a Zhongshan, as duas cidades mais próximas. Zhuhai é demasiado fraca para conseguir resistir à atracção de Cantão. Dongguan e Shenzhen estão em crise relativamente à sua transformação industrial. A maior cidade da região, Humen, será um grande eixo das redes ferroviárias e será seguramente puxada para Cantão e não para Shenzhen (...)Com uma região do Delta do Rio das Pérolas mais próspera, incluindo Hong Kong e Macau, a zona da grande Cantão da década de 2010 está a reemergir para desafiar Xangai como a maior metrópole da Ásia.”Um plano para o futuroVale a pena, tendo em consideração esses pressupostos, conhecer o plano director de Cantão para os próximos dez anos. Este trecho do livro sintetiza bem os objectivos propostos:“Em 2012, Cantão aprovou um plano director para a cidade a ser aplicado entre 2011 e 2020. Tem por objectivo tornar Cantão numa cidade com baixos níveis de carbono e com uma boa qualidade de vida e, também, fortalecer a sua competitividade em todos os sectores. Prevê-se que a população aumente para 18 milhões, acrescida de mais dois milhões. Cantão irá continuar a sua expansão do início do ano 2000 e desenvolver um centro metropolitano no distrito da antiga cidade, dois novos centros urbanos em Nansha e na periferia oriental e três subcentros nas cidades suburbanas de Huadu, Chongfa e Zhengchen. Toda a cidade irá ter um padrão unificado de serviços divididos pelas áreas urbanas e rurais, que irá tornar-se numa enorme área metropolitana. Infelizmente, as autoridades têm-se concentrado em indústrias dentro dos limites da cidade, com a região metropolitana especializada em serviços e rodeada por três aglomerações industriais no norte, este e sul. O plano director procura criar uma metrópole multicêntrica com diferentes funções urbanas e económicas espalhadas por diferentes localidades.
  • 112 113 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – X F A L A R D E N Ó S – XEm comparação com planeamentos anteriores, o novo plano director dá maior ênfase à conservação cultural e ecológica. No centro da cidade, uma área de 20,39 km2 é classificada como cidade histórica com controlo rigoroso e protecção de edifícios históricos e ruas. A cidade também vai construir amplas zonas verdes nas zonas urbanas e suburbanas e existem políticas para renovar os canais da região do delta. Representa uma mudança radical no planeamento e filosofia de desenvolvimento a qual, durante as últimas décadas de industrialização, provocou uma forte poluição, sobretudo a nível local nas zonas de processamento industrial orientadas para a exportação. (...)Uma leitura atenta à linha de conduta e debate da abordagem científica do governo chinês para o desenvolvimento revela várias semelhanças e imitação de práticas e políticas da União Europeia e de outros países. Este é um pensamento pós-moderno e contrasta de forma acentuada com a industrialização moderna empreendida pelas autoridades da cidade na viragem do século. Irão existir conflitos entre estes dois tipos de pensamento, como já se verificou em Xangai, motivados pela execução do plano director, pela ênfase na preservação e conservação cultural e ecológica e pela concentração de serviços no centro da cidade de Cantão, proporcionada pelos três níveis da rede ferroviária. Este plano aponta, inequivocamente, para uma crescente liderança de Cantão como a grande metrópole do Delta, cabendo às outras cidades funções de complementaridade num ambicioso projecto de desenvolvimento integrado, com prioridade colocada não apenas no comércio e na economia, mas também na qualidade de vida e na sustentabilidade, abrangendo também, a prazo, Hong Kong e Macau. 3 de Junho de 2013Mais uma vez se cumpre a tradição de, no Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, centenas de alunos de escolas locais e membros de associações de matriz portuguesa participarem na romagem que, desde os anos vinte, se faz, ininterruptamente, ao Jardim de Camões. Ali é prestada, todos os anos, ao vate que tão bem personifica a pátria portuguesa, uma singela e sentida homenagem que compreende exibições de danças folclóricas, declamação de poemas ou versos de “Os Lusíadas” por jovens da Escola Portuguesa de Macau e de uma das Luso-Chinesas e deposição de flores junto do busto do nosso poeta maior.Um diversificado conjunto de actividades integra o programa comemorativo, há dias anunciado: exposição da artista Madalena Fonseca na Casa Garden, no dia 6; concerto de Luís Represas no Teatro do Hotel Sands, às 20h00 do dia 7; missa pela comunidade portuguesa na Sé Catedral, no Domingo, dia 9, às 11 horas; hastear da Bandeira Nacional, às 9h30, no Consulado-Geral de Portugal, romagem à Gruta de Camões, às 10h30, e recepção na Residência Consular, às 18h00, no dia 10; encontro com Francisco José Viegas, no IPOR, às 18h30 do dia 11; sessão de autógrafos com Francisco José Viegas na Livraria Portuguesa, às 18h30 do dia 12; extensão do DocLisboa ’12 a Macau, no IPOR, nos dias 13, 14 e 15; recital de piano por Sequeira Costa, no Centro Cultural de Macau, às 20h00 do dia 15; e extensão do DocLisboa ’12 a Macau, no auditório da Casa Garden, às 18h15 dos dias 20, 21 e 22. O dia 8 foi reservado para um encontro, no Club Lusitano, dos portugueses de Hong Kong, a que se associaram personalidades de Macau, também convidadas para a abertura duma exposição da artista Arlinda Frota. Mais um Dia de Portugal em Macau“Mocidade, sentido! Olha a estânciaQue a passagem do poeta sagrou!Das idades que importa a distância?Aqui veio Camões e ficou.”Monsenhor Manuel Teixeira
  • 114 115 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – X F A L A R D E N Ó S – XIniciativa marcanteDe todas as actividades, a mais marcante para a juventude foi sempre a romagem à Gruta. Gerações de rapazes e raparigas jamais se esqueceram do dia em que desfilaram diante do busto e depositaram flores no pedestal. Muitos fizeram-no várias vezes ao longo da vida de estudante, o que os levou a retornar ao Jardim de Camões todos os anos, nesta data, para verem outros jovens repetir o ritual numa festa sempre bonita. Nem o calor, nem a chuva, mesmo torrencial, alguma vez impediu a sua realização.Foi o Governador Rodrigo José Rodrigues quem iniciou estas romagens, logo no primeiro ano do seu mandato, em 1923, tendo sido ele próprio o orador na cerimónia realizada. Formado em Medicina, foi Ministro do Interior num dos primeiros governos republicanos, em 1913-14, e era um fervoroso cultor de Camões. Profundamente emocionado, não pôde concluir a sua alocução, tendo o jornal “O Liberal”, de 17 de Junho de 1923, dado assim a notícia: “A convite de S. Exa. o Governador, os alunos dos diversos estabelecimentos escolares e a força armada foram esse dia, aniversário da morte de Luís de Camões, prestar, na Gruta de Camões, homenagem ao grande poeta. Falou ali S. Exa. que a certa altura interrompeu o seu discurso para chorar...”No ano seguinte (1924) as cerimónias ganharam maior dimensão e consistência. Dada a forma curiosa como foi relatado o acontecimento, transcrevemos a página 94 do Boletim Eclesiástico da Diocese, Ano XXII, nº 253, de Julho e Agosto de 1924: “O dia 10 de Junho foi verdadeiramente um dia de festa em Macau. A cidade vestiu-se de gala nesse dia e os seus habitantes cheios de entusiasmo e levados dos mais puros sentimentos de amor pátrio, acorreram pressurosos a cobrir de flores o busto do grande épico. Às dez horas da manhã, já a custo se rompia por entre a compacta multidão que enchia o Largo de Camões e que se espraiava pelo recinto da Gruta, toda engalanada e tendo diante do busto do imortal poeta sentinelas permanentes. Armada, exército, funcionalismo, escolas oficiais e particulares com as respectivas bandeiras, e muito povo enchiam literalmente o recinto quando se içou sobre a gruta a bandeira nacional, acompanhando este acto uma salva de 21 tiros na fortaleza do Monte. Durante todo o dia não cessou a romagem à gruta.” O mesmo Boletim Eclesiástico da Diocese, na página 95, descreve outra cerimónia integrada nas comemorações: “À noite, pelas 9 horas e trinta minutos, realizou-se a sessão solene no Leal Senado, orando S. Exas. o Sr. Presidente da Câmara, que abriu a sessão, Mrs. Fok, professora chinesa da Escola Normal de Cantão, Dr. Camilo Pessanha, Dr. António José Gomes, Governador do Bispado, e encerrado a sessão S. Exa. o Governador da Colónia, Sr. Rodrigo Rodrigues. Nos intervalos dos discursos alternavam-se o Orfeão e a Orquestra do Seminário, executando o Orfeão um “Hino a Camões”, letra do Mto. Rev. Dr. António José Gomes e música do Maestro Rev. Pe Fernando Malberini, Soneto “Alma minha gentil” de Camões com música do mesmo distinto Maestro e num motete polifónico de Palestrina; a Orquestra por sua vez executou o Hino Maria da Fonte, à chegada de S. Exa. o Sr. Governador, Marcha ‘Little Pierrot’, Serenade de Schubert e Hino Nacional”.Rodrigo Rodrigues, que aqui ficou conhecido como Róró e deu o nome à longa avenida que vai das traseiras do Hotel Lisboa até ao reservatório de água, deixou Macau pouco depois, mas a sua iniciativa perdurou, felizmente, até hoje.Nova dimensãoFoi em 1977 que o Governo da República Portuguesa determinou que, a partir de 10 de Junho desse ano, o dia de Camões fosse também dedicado às comunidades
  • 116 117 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – X F A L A R D E N Ó S – Xportuguesas espalhadas pelo mundo, dando uma nova dimensão às comemorações. Em Macau, o Governador Garcia Leandro nomeou uma comissão especial para organizar os festejos, que incluíram programas de rádio transmitidos através da Emissora de Radiodifusão de Macau (ainda não havia televisão no território), uma exposição bibliográfica sobre Camões na Biblioteca Central, outra exposição sobre a “Presença de Portugal em Macau” na Escola Comercial, um concerto pelo Grupo Coral Polifónico na Igreja de S. Lourenço, um festival gimno-desportivo, uma “Noite Portuguesa”, com recitação de poemas por Sophia de Mello Breyner e seu marido, Francisco Sousa Tavares, uma sessão solene, com a presença de Henrique de Barros, Ministro de Estado, com palestra de Aníbal Carneiro, professor do Liceu, sobre “Camões, Poeta de Hoje” e, naturalmente, a tradicional romagem ao Jardim e Gruta de Camões, com alocução de Júlio Pereira Dinis, também professor do Liceu, sobre “Camões – Poeta da Lusa Grei”. Na noite do dia 10 houve fogo de artifício junto da ponte Macau-Taipa e iluminação dos monumentos e fachadas dos edifícios públicos.Também em 1977 o nosso saudoso Padre Manuel Teixeira, que já tinha publicado, em 1940, por ocasião do Duplo Centenário da Independência e da Restauração de Portugal, um opúsculo intitulado “Camões em Macau”, apresentou a sua obra “A Gruta de Camões em Macau”, que teve uma reedição em 1999, por iniciativa conjunta da Fundação Macau e do Instituto Internacional de Macau, especialmente feita para o colóquio de “Homenagem a Luís de Camões – poeta universal”, da Organização Mundial de Poetas, em Junho de 1999. A quem queira saber mais sobre a Gruta de Camões, “santuário nacional pan-lusitano” como lhe chamou Camilo Pessanha, recomendamos esta obra, cuja primeira parte contém a História da Gruta, sendo a segunda uma antologia sobre a Gruta.Estão agora disponíveis, também entre nós, estudos mais recentes, publicados em Macau e em Lisboa, de Eduardo Ribeiro, sobre o estanciamento de Camões em Macau. Persistentemente, este autor procurou rebater, com sólidos fundamentos, as dúvidas que foram suscitadas a partir do século XIX sobre a presença do poeta nestas longínquas paragens orientais, onde terá escrito parte de “Os Lusíadas” junto dos “Penedos de Camões”, ali para os lados do Patane.Todos os Governadores de Macau dedicaram a estas comemorações a maior atenção, querendo cada um patrocinar programas variados de índole cultural que incluíram, normalmente, exposições e actuações de conhecidos artistas portugueses e, obviamente, a tradicional homenagem a Camões, muitas vezes contando com a presença de um membro do Governo da República Portuguesa, portador duma mensagem das mais altas autoridades do Estado.A romagem à Gruta de Camões, na 1.ª República, no Estado Novo e no regime saído do 25 de Abril, manteve-se como o ponto mais significativo das comemorações, sendo a festa da juventude e das associações portuguesas de Macau. Depois da transferência do exercício da soberania, em 1999, por vontade do Consulado-Geral de Portugal e de organismos de matriz portuguesa e com a colaboração das novas autoridades locais, a romagem continuou a realizar-se. Oxalá, com maior capacidade de mobilização e o empenhamento de todas as associações, muitos mais portugueses venham a participar, em cada novo 10 de Junho, nesta grande festa anual de Portugal em Macau. É um desafio que se lança, agora, ao novo Cônsul-Geral, Vítor Sereno, a quem desejamos os maiores sucessos no cumprimento da sua honrosa missão. 10 de Junho de 2013
  • 118 119 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – X F A L A R D E N Ó S – XO Instituto Internacional de Macau (IIM) está ligado à cidade do Recife (Brasil) praticamente desde a sua criação, em 1999, situando-se a Universidade Federal de Pernambuco e a Fundação Joaquim Nabuco entre os primeiros organismos com os quais firmou protocolos de cooperação, os quais tornaram possíveis projectos muito úteis como o levantamento das referências bibliográficas sobre as relações sino-brasileiras do século XIX até ao início do século XXI, existentes nos principais acervos bibliográficos do Brasil. Este importante trabalho de pesquisa de Lúcia Cunha e Lúcia Gaspar, bibliotecárias dos Institutos de Documentação e de Tropicologia daquela Fundação, foi publicado, em português e em chinês, pelo IIM, com o título A presença chinesa no Brasil, em Setembro de 2009.As parcerias estabelecidas foram, depois, abrangendo outras prestigiadas instituições brasileiras, algumas das quais tiveram com o IIM, ao longo da última década, múltiplas iniciativas conjuntas, na forma de seminários, conferências, estudos, edições, exposições e acções de intercâmbio académico e cultural. Neste âmbito, é indispensável referir, com justo destaque, o Real Gabinete Português de Leitura do Rio de Janeiro e o seu presidente, António Gomes da Costa, mas também o Liceu Literário Português, o Instituto Histórico e Geográfico do Brasil, a Federação das Associações Portuguesas e Luso-Brasileiras do Brasil, o Instituto Brasileiro de Estudos da China e Ásia-Pacífico, a Universidade de Cândido Mendes, o Centro de Estudos Fernando Recife – Macau: um projecto cultural em desenvolvimento“O Movimento Internacional de Culturas, Línguas e Literaturas Neolatinas – Festlatino, em parceria com o Instituto Internacional de Macau e com o apoio da Secretaria de Cultura do Estado de Pernambuco, desenvolve um esforço inaugural para aproximar a Região Administrativa Especial de Macau e o Estado de Pernambuco, a fim de promover um projecto cultural de largo alcance com a finalidade de divulgar a cultura macaense em nosso estado e apresentar a cultura pernambucana em Macau.”Prof. Humberto França, presidente do Movimento FestlatinoPessoa da Universidade de São Paulo, as Casas de Macau do Rio de Janeiro e de São Paulo e, mais recentemente, no Recife, o Gabinete Português de Leitura, onde o IIM apresentou já duas exposições, Macau é um espectáculo – As artes nas ruas de Macau e O Oriente de influência cultural portuguesa (Goa, Macau e Timor), e o Movimento Festival Internacional de Culturas, Línguas e Literaturas Neolatinas – Festlatino. A extensão deste movimento ao Extremo Oriente contou com a total colaboração do IIM, que se encarregou da sua afirmação e divulgação a partir de Macau, onde foi realizado um seminário em Setembro de 2011, com muito boa participação local. Aquelas mostras tiveram também lugar na Universidade Paula Frassinetti, no Recife, continuando agora a sua itinerância por outras cidades do Brasil.Em Outubro passado, por impulso do IIM, representantes de vários organismos locais, incluindo alguns quadros do gabinete do Secretário para os Assuntos Sociais e Cultura do Governo da RAEM, marcaram presença no VI Congresso do Movimento Festlatino, correspondendo ao convite que lhes foi oportunamente formulado por autoridades pernambucanas. O propósito foi estreitar as relações entre o Recife e Macau, cidades com raízes comuns resultantes da presença lusa no mundo e identificáveis pelo rico património histórico legado às novas gerações. Desses contactos resultaram já mais realizações nas duas cidades, geograficamente distantes, mas tão próximas, afinal, pela memória e pela identidade. Presença marcante em MaioFicou bem assinalada, no mês passado, uma presença cultural muito significativa de Macau, no Recife, merecendo uma ampla e interessada cobertura de meios de comunicação
  • 120 121 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – X F A L A R D E N Ó S – Xsocial, como o Diário de Pernambuco, o Jornal do Commercio e a Folha de Pernambuco, que acompanharam de perto os vários eventos programados, o principal dos quais foi uma muito bem acolhida exposição de artistas de Macau, conjuntamente organizada pelo IIM, pelo Centro Cultural Albergue SCM e pelo Movimento Festlatino. No âmbito da parceria estabelecida, quatro representativos artistas de Macau – Carlos Marreiros, Guilherme Ung Vai Meng, Lio Man Cheong e Adalberto Tenreiro – protagonizaram, no Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães, no Recife, uma mostra de alta qualidade, intitulada “Quatro Artistas na Cidade: Pernambuco – Macau nos caminhos da lusofonia”, a qual será depois apresentada em Caruaru, Garanhuns e Petrolina, nas modelares instalações do SDESC – Serviço Social do Comércio. É constituída por 22 obras usando técnicas e materiais variados, da aguarela e do desenho à tinta-da-china e colagens.É de esperar que alguns artistas do Recife possam marcar idêntica presença em Macau no próximo ano. Intercâmbios como este merecem, obviamente, o apoio das autoridades e de instituições da sociedade civil.Outras acções complementares foram: o colóquio internacional “Pernambuco – Macau, nos caminhos da lusofonia”, moderado por José Ângelo Lobo do Amaral, vice-presidente do IIM, e em que foram oradores Humberto França, presidente do Movimento Festlatino, sobre o projecto centrado nas relações culturais entre o Recife e Macau, Severino Cabral, presidente do IBECAP – Insituto Brasileiro de Estudos da China e Ásia-Pacífico e professor da Universidade de Cândido Mendes (“O Brasil e a China: sustentáculos da civilização mundial no século XXI”) e Dorilma Neves, professora do Departamento de Letras da Universidade Federal Rural de Pernambuco (“O Português e o Espanhol no diálogo neolatino”); a abertura da exposição “Macau é um espectáculo – As artes nas ruas de Macau”, reunindo 51 fotografias sobre a diversidade cultural de Macau, seleccionadas pelo IIM e pela Associação Fotográfica de Macau; e uma palestra de Adalberto Tenreiro, arquitecto e artista de Macau, sobre o tema “Macau, espaços do tempo – desenhos de vários autores, desenhos feitos no Brasil”. Foi também apresentado o ensaio “Recife – Macau: duas cidades, dois mundos, duas histórias, relações e contrastes”, de José Manuel Fernandes, catedrático de História da Arquitectura e do Urbanismo da Faculdade de Arquitectura da Universidade Técnica de Lisboa. A edição é do IIM, da Companhia Editora de Pernambuco e do Movimento Festlatino. O Prof. José Manuel Fernandes é autor de vasta obra no âmbito das suas especialidades académicas, incluindo os trabalhos “Arquitectura do Mundo Lusófono” (in “Camões – Revista de Letras e Culturas Lusófonas”, Dezembro de 2000), “Macau entre os séculos XIX e XX – Urbanismo e Infra-estruturas de 1820 a 1920” (in “Revista de Cultura”, dossier Macau Património II, 1998), “Macau, – Da Cidade Antiga à Arquitectura Recente” (in revista “Via Latina”, Maio de 1991 e revista “Arquitectura Portuguesa”, Janeiro de 1988), “Arquitectura Portuguesa – Uma Síntese” (Imprensa Nacional – Casa da Moeda, Lisboa, 1991, 2000, 2006), “Évora e as Cidades de Matriz Portuguesa no Mundo” (in revista “Monumentos – Revista Semestral de Edifícios e Monumentos”, Abril de 2007) e “Brasil, Braziu” (in jornal “Expresso”, 11 de Abril de 1987).No regresso do Recife, José Lobo do Amaral e Adalberto Tenreiro protagonizaram uma sessão no auditório do IIM, no dia 28 de Maio, sobre o desenvolvimento do projecto “Recife – Macau, nos caminhos da lusofonia” e sobre o tema da palestra proferida alguns dias antes naquela cidade brasileira desejosa de se abrir ao Oriente, tendo no IIM um interlocutor empenhado, aberto e consequente.
  • 122 123 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – X F A L A R D E N Ó S – XEm Outubro próximo, o IIM estará representado no Congresso do Movimento Festlatino, de novo no Recife, e terá, com os seus parceiros académicos do Rio de Janeiro, outro conjunto de realizações, entre as quais, o lançamento de algumas novas edições e o arranque do VI Seminário Internacional sobre o papel de Macau no intercâmbio sino-luso-brasileiro, que deverá ter, em Outubro e Novembro, sessões nas cidades do Rio de Janeiro, Recife, Lisboa, Aveiro, Macau, Pequim e Xangai. Como organização da sociedade civil, cujos objectivos estatutários indicam como prioridade a promoção de Macau no exterior, especialmente no amplo espaço da lusofonia, o IIM estará sempre na primeira linha dessas preocupações e quererá continuar a ser um interlocutor privilegiado no contexto dessas relações, em consonância com a vocação histórica do território, como multissecular entreposto comercial e cultural entre o Oriente e o Ocidente e, hoje, como útil plataforma, que a China aqui oficialmente estabeleceu, de cooperação com os países de Língua Portuguesa. Neste ano em que o Fórum para a Cooperação Económica e Comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa comemora o 10.º aniversário, o IIM oferecerá a esta entidade a sua melhor colaboração, na certeza de que nenhum organismo público poderá atingir os seus objectivos sem o envolvimento correcto e tão alargado quanto possível de instituições da sociedade civil, em quaisquer domínios da acção governativa. É, afinal, esta a forma de funcionamento que caracteriza o chamado “2.º sistema”, que marca, neste contexto histórico, geográfico e político, a actividade das regiões administrativas especiais da China. 17 de Junho de 2013“Macau deve orgulhar-se deste homem que tem o coração de ouro” – foi assim que terminei um artigo publicado na edição de 28 de Abril de 2008 do Jornal Tribuna de Macau, a propósito da homenagem que foi prestada ao Pe. Lancelote Rodrigues no Clube Militar, na noite de 3 de Abril do mesmo ano, quando se procedeu à apresentação do livro “Pe. Lancelote Rodrigues – vida e obra”, de Leonor Diaz de Seabra (IIM, 2008).Volvidos pouco mais de cinco anos, aquele sacerdote e filantropo, ligado a mil causas de solidariedade, deixou-nos definitivamente na tarde de 17 de Junho, com quase 90 anos de idade. Para quem o acompanhou em qualquer dessas nobres causas, Macau e a Igreja nunca mais serão as mesmas, sem a sua inspiradora presença e jovial personalidade. Um convívio inesquecívelLigam-me ao Pe. Lancelote relações longas de convívio e amizade que remontam aos meus tempos de criança. Amigo do meu pai, que também faleceu, há poucos anos, quando estava à beira das noventa primaveras, pude apreciar, desde cedo, os seus talentos, a sua contagiante alegria e os seus propósitos nobres. Mais tarde, na Governo, e em organizações da sociedade civil, tive o privilégio de com ele conversar e partilhar a mesa em memoráveis encontros. Era uma pessoa verdadeiramente extraordinária, exuberantemente comunicativa e um exemplo notável pelo seu envolvimento em causas que muito bem soube abraçar e comandar.Padre Lancelote Rodrigues, um coração de ouro“... grande homem, muito bondoso, que trabalhou para o bem de todos os habitantes de Macau e para os refugiados.”D. José Lai, Abril de 2008
  • 124 125 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – X F A L A R D E N Ó S – XQuando o Instituto Internacional de Macau lançou a colecção “Missionários para o Século XXI”, foi-lhe dedicado o primeiro volume. Mais cinco foram, entretanto, lançados, centrados na vida e obra dos sacerdotes Joaquim Angélico Guerra, Mário Acquistapace, Benjamim Videira Pires, Luigi Versiglia, Callisto Caravario e Manuel Teixeira. D. José da Costa Nunes será recordado no próximo.No dia em que se procedeu à apresentação do livro, 150 amigos do sacerdote encheram o salão Ho Yin do Clube Militar para lhe expressarem apreço e gratidão. Nenhum dos presentes se esquecerá da festa bonita que ali teve lugar naquela noite de Abril de 2008, organizada pelo IIM, com a pronta adesão e colaboração do Conselho das Comunidades Macaenses, da Associação Promotora da Instrução dos Macaenses e de membros de outras associações locais. Como convidados de honra, participaram D. José Lai, Bispo da Diocese, e o Cônsul-Geral Pedro Moitinho de Almeida. O Grupo Polifónico Perosi abriu a festa, encantando a assistência com uma selecção de canções portuguesas, seguindo-se uma breve apresentação, pela autora, do livro. Os momentos mais altos e memoráveis do animado convívio foram os trechos musicais protagonizados pelo próprio Pe. Lancelote Rodrigues e o seu emocionado discurso de agradecimento. Foi um desfiar de sentidas recordações de uma vida ao serviço dos outros. As Casas de Macau e outras associações da diáspora macaense enviaram mensagens de saudação, lidas por membros da APIM e do Conselho das Comunidades, e o artista macaense Victor Hugo Marreiros pintou um lindíssimo retrato do homenageado, entregue na ocasião juntamente com uma vistosa peça artística em cristal Atlantis. De mesa em mesa, ele cumprimentou pessoalmente cada um dos amigos, tendo para todos palavras de carinho e reconhecimento.No livro, lançado dias depois no auditório do IIM, Leonor Seabra, docente da Universidade de Macau, descreve o percurso do Pe. Lancelote Rodrigues, desde o seu nascimento em Malaca, em vésperas do Natal de 1923, até aos nossos dias, enaltecendo especialmente as missões a que se entregou e que marcaram toda a sua vida, ao serviço dos mais necessitados e da Igreja. São páginas que se lêem apaixonadamente, reforçando a admiração que todos sentimos por esta personalidade singular e pela obra extraordinária que realizou ao longo de décadas de intensa devoção a louváveis desígnios. A resenha biográfica, acompanhada de dezenas de bem escolhidas fotografias, é baseada na memória viva do retratado e em conversas com pessoas que com ele privaram, cujos testemunhos foram também importantes.Capelão dos refugiadosDe Malaca, Lancelote Rodrigues veio para Macau, para o Seminário Diocesano de S. José, com quase 12 anos de idade. Ali fez os estudos preparatórios e eclesiásticos. A língua portuguesa, que não falava, aprendeu-a no ensino formal e na convivência com amigos.Começaram a chegar, em 1948, os primeiros refugiados portugueses de Xangai, tendo o Pe. Lancelote sido designado pelo Bispo para cuidar deles, já que a maioria só falava inglês e ele dominava essa língua. Ordenado padre em Outubro de 1949, celebrou a sua primeira missa junto daqueles refugiados, com quem passou a residir nas bancadas do campo de futebol onde funciona agora o Canídromo. Mais refugiados de Xangai foram chegando com a implantação da República Popular da China, em Outubro de 1949.
  • 126 127 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – X F A L A R D E N Ó S – XVigário Cooperador da Paróquia de Santo António em 1949, o Pe. Lancelote Rodrigues foi encarregado da regência da Capela de Santa Cecília, do Seminário de S. José, de 1950 a 1951, sendo, ainda na década de 50, pároco (interino) da Igreja de Santo António. Ligado à “Catholic Relief Services” desde 1951/1952, tornou-se, em 1954, delegado deste organismo com sede nos EUA e representações em mais de 100 países e territórios. Através da CRS, foi encaminhando os refugiados para os EUA e para alguns outros países e cuidou de integrar os que ficaram em Macau na sociedade local, o que foi muito satisfatoriamente alcançado.Capelão dos Refugiados Portugueses de Xangai de 1949 a 1965, o Pe. Lancelote Rodrigues, graças às boas ligações que foi construindo, “estabeleceu uma teia de relações internacionais, que foram extremamente úteis para os refugiados de diversos países que, desde os anos 60, foram chegando a Macau”. Como lembra Leonor Seabra, “a partir de 1963 e até Julho de 1991 passaram por Macau milhares de refugiados da China, Indonésia, Birmânia (Myanmar), Malásia, Laos, Camboja e, principalmente, do Vietname”.Director dos serviços locais da CRS de 1962 a 1994, o Pe. Lancelote canalizou elevadas somas do exterior para obras de beneficência no âmbito da Diocese de Macau, cujo Secretariado dos Serviços de Assistência Social passou também a dirigir, ao mesmo tempo que era vogal do Instituto de Assistência Social do Governo de Macau, representante dos Serviços de Assistência dos Bispos da América do Norte e representante da Diocese de Macau junto da “Caritas” Internacional.Chegaram a estar em Macau quinze mil refugiados do Vietname alojados em três campos. O Pe. Lancelote Rodrigues assumiu a difícil responsabilidade de os acompanhar, alojar, apoiar e colocar em países de destino. E fê-lo com muita sabedoria e eficácia, através do excelente relacionamento que soube cultivar com os cônsules e outros responsáveis e graças à sua inquebrantável determinação.Ao contrário de Hong Kong, onde os refugiados estavam encarcerados e vigiados como prisioneiros em campos de concentração, em Macau estavam em liberdade, alojados em campos abertos. Eu próprio tive a oportunidade de participar em actividades de convívio no campo de Ká-Hó, encerrado definitivamente em 1991, podendo conhecer a exemplar acção do Pe. Lancelote Rodrigues, respeitado por todos pela humanidade no trato.Concluída a missão de apoio aos refugiados e com a crescente abertura da China, virou-se para o gigante vizinho, onde eram ainda enormes as carências na área social, não obstante o seu acelerado desenvolvimento económico. O apoio aos deficientes mentais, a construção de escolas e de instalações desportivas e recreativas para crianças, o abastecimento de água nas aldeias, a implantação de postos sanitários e a ajuda aos leprosos foram alguns dos mais prementes desafios que o Pe. Lancelote Rodrigues foi abraçando com o mesmo sentido de dever e de amor ao próximo.Como director da Academia de Música S. Pio X desde Fevereiro de 1993, cargo para que foi nomeado após o falecimento do Pe. Áureo Castro, o Pe. Lancelote Rodrigues continuou a dedicar-se também à música, que foi outra das suas paixões, tocando viola, piano, órgão e rabecão. Além disso, tinha uma excelente voz e qualidades de verdadeiro animador.
  • 128 129 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – X F A L A R D E N Ó S – XEm reconhecimento do seu mérito, recebeu altas condecorações e outras distinções. Até aos últimos dias, continuou a dar o melhor de si às causas humanitárias que integraram o seu programa de vida. Milhares de homens e mulheres radicados em muitos países de vários continentes saberão honrar a sua memória!24 de Junho de 2013Recordar Manuel Teixeira é buscar na memória mil momentos de convívio com ele que a vida me proporcionou, desde os anos da minha infância até vésperas da sua partida definitiva para Portugal, deixando para sempre esta terra que tanto amou e que sempre considerou sua.Foram incontáveis e inesquecíveis as vezes que falámos, de tudo um pouco, na rua, no Liceu, na minha casa, nas amplas salas do Seminário de S. José onde ia juntando vastíssima documentação, na Pousada de Mong-Há, sua residência nos anos derradeiros em Macau, em múltiplas actividades culturais, em cerimónias oficiais ou em simples momentos descontraídos de lazer.Recordar Manuel Teixeira é, para além do homem devotado a muitas causas, lembrar e valorizar a obra que nos legou. Ninguém, afinal, escreveu mais do que ele sobre Macau.CentenárioO centenário do seu nascimento, em 2012, foi o pretexto para a organização de diversas homenagens, aqui e em Portugal. O Instituto Internacional de Macau (IIM) também organizou uma, muito concorrida, na sua sede, que tive a honra e o prazer de coordenar e moderar. Juntando as comunicações apresentadas, de Eduardo Francisco Tavares e Fernando Vinhais Guedes, um poema de Dâmaso Barros e um trabalho de José Mário Teixeira, mestre em Línguas e Literaturas e jovem colaborador do IIM, com responsabilidades Manuel Teixeira, de menino a Monsenhor“Durante quase setenta anos, Monsenhor Manuel Teixeira dissecou Macau historicamente. Escreveu sobre homens, acontecimentos, ruas, edifícios e monumentos, tradições e lendas, sobre Deus e a igreja que serviu....”José Mário Teixeira, “Manuel Teixeira, de menino a Monsenhor”
  • 130 131 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – X F A L A R D E N Ó S – Xna área de projectos especiais, saiu recentemente do prelo o livro “Manuel Teixeira, de menino a Monsenhor” (IIM, Novembro de 2012), que é a extensão duradoura dessa homenagem em boa hora prestada. Nele ficou traçado um singelo retrato, ao lado de outros que foram ou poderão ser ainda produzidos por tantos escritores e agentes culturais que com ele lidaram em variadas circunstâncias.O livro é o 6.º volume da colecção “Missionários para o Século XXI”. Os cinco anteriores foram dedicados a Lancelote Miguel Rodrigues, Joaquim Angélico Guerra, Mário Acquistapace, Benjamim Videira Pires, Luigi Versiglia e Callisto Caravario, sendo D. José da Costa Nunes recordado no próximo. Esta colecção, que enriqueceu o acervo editorial do IIM, visou enaltecer uma plêiade de servidores da Igreja cuja acção e dedicação, no decurso do século XX, foram determinantes para a afirmação, consolidação e sobrevivência de Macau tal como a conhecemos hoje. Foram figuras excepcionais, pela grandeza dos princípios, pelo espírito de missão e pela obra relevantíssima legada. Foram, em variados domínios, construtores do novo século.Um percurso notávelO autor do livro ofereceu-nos um relato muito bem conseguido da vida e obra do saudoso Monsenhor. Imaginou-o numa travessia derradeira da ponte General Nobre de Carvalho a recordar todo o seu longo percurso, desde o nascimento na pequena vila trans-montana de Freixo de Espada à Cinta, até aos últimos dias vividos na sua terra de adopção.Eis uma passagem do livro que convidará e estimulará certamente o leitor a lê-lo na íntegra:“Os últimos anos passados no Seminário de S. José, entre livros e papéis incontáveis, foram os últimos anos de investigação histórica. Tinha dezasseis quartos à sua disposição, três dos quais repletos de caixas com livros e documentos, e uma confusão ordenada por ele, onde estavam anotadas todas as peças da sua pesquisa inacabada. Recorda como os quartos vazios, as camas de ferro com um ou outro objecto esquecido, um terço perdido no pó que se acumulava inevitavelmente, criavam um ambiente nostálgico. Pensa na sua imagem durante esse tempo como a de um fantasma que não seria apanhado facilmente. Todos os restantes padres que ali viviam com ele estavam à espera do último suspiro enquanto ele pensava que não tinha tempo para morrer, por estar demasiado ocupado.Pousa o “chá da Escócia” que o acompanhou durante uma grande parte da travessia e, poucos passos depois, lembra-se da entrada no Centro Hospitalar Conde de S. Januário, com uma paralisia facial periférica que exigiria dez meses de tratamento para lhe restaurar a vista e o movimento natural dos músculos faciais. No entanto, tinha acabado de celebrar a missa no Convento de Sta. Clara e a trabalhar nas crónicas, que começou a escrever ainda jovem, para uma série de jornais que se sucederam uns aos outros. Desde a saída do Seminário, tinha sido a única ocupação literária que guardara. Porque cada dia da sua vida dava ainda uma crónica, com um toque da sua opinião, ao qual, apesar de por vezes ferir susceptibilidades, ele sabia que tinha direito.Acabada a estadia no hospital que lhe tinha sabido a hotel, Manuel Teixeira mudou-se para a Pousada de Mong-Há, onde residiu numa existência calma durante uns anos. Foi agraciado com o título de Cidadão Benemérito de Macau, em 1998, o
  • 132 133 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – X F A L A R D E N Ó S – Xmesmo ano em que foi apresentada ao público a obra ‘A Igreja em Cantão’, da sua autoria, no Paço Episcopal.Sorri ao pensar no fim. (...)Chega ao fim da ponte e olha uma última vez para Macau. Ali, diante dele, onde estivera outrora a estátua de Ferreira do Amaral, levantam-se agora uns monstros de vidro e ferro. Olha para trás, vê a ponte na sua extensão total e pensa que, brevemente, ele próprio será substituído por ferro e vidro, carros e máquinas, que atravessarão a ponte em vez dele. Fecha os olhos e suspira, murmurando entre os dentes: – Está na hora de regressar a Trás-os-Montes.A 16 de Maio de 2001, regressou a Portugal definitivamente e foi acolhido na Casa de Santa Marta em Chaves, pelas Irmãzinhas e pelos seus Meninos menos novos. Aí foi abençoado com a companhia de amigos até à data da sua morte, a 15 de Setembro de 2003. Tinha 91 anos.Durante quase setenta anos, Monsenhor Manuel Teixeira dissecou Macau historicamente. Escreveu sobre homens, acontecimentos, ruas, edifícios e monumentos, tradições e lendas, sobre Deus e a igreja que serviu, mas também sobre deuses nos quais nunca acreditou, mas que, compreendeu, faziam parte da história deste pequeno pedaço de terra tão complexo e com tantos segredos. O património que deixou, por escrito, tem o tamanho da história da presença portuguesa no Oriente.Homo humus, fama fumus, finis cinis.Monsenhor Manuel Teixeira partiu em graça. Continua, através da sua obra, que lhe sobreviveu, a viver em graça.”Prémio IdentidadeQuando o IIM criou o Prémio Identidade, em 2003, para distinguir personalidades e instituições que tenham contribuído, de forma eficaz e continuada, para a dignificação e valorização da memória e da identidade de Macau, foi ele o primeiro contemplado, por decisão unânime do júri, constituído pelo corpo universal dos titulares dos órgãos sociais do IIM, inaugurando uma galeria que inclui, desde então, entidades como a Diocese de Macau, a Santa Casa da Misericórdia, a Associação Promotora da Instrução dos Macaenses, a Universidade de Macau, a União Macaense Americana e o Club Lusitano de Hong Kong, dois portais electrónicos (o Projecto Memória Macaense e “Famílias Macaenses – Macanese Families”), e algumas pessoas com altos serviços prestados, como o escritor Henrique de Senna Fernandes, o Prof. Eng.º Luís de Guimarães Lobato e o Comendador Arnaldo de Oliveira Sales, figuras de referência da diáspora macaense.Manuel Teixeira foi um gigante entre os vultos maiores da História de Macau. O IIM continuará a ter nele um inspirador permanente para os seus projectos e realizações.1 de Julho de 2013
  • 134 135 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – X F A L A R D E N Ó S – XQuando, no mês passado, se procedeu ao lançamento do livro “Manuel Teixeira, de menino a Monsenhor” (IIM, Novembro de 2012), em sessão que tive o prazer de coordenar, foi Fernando Vinhais Guedes, antigo chefe do Departamento da Juventude e Desporto e personalidade que acompanhou de perto o Monsenhor nos seus últimos anos de vida, o nosso convidado especial. Acompanhou-o quase diariamente em Chaves, na Casa de Santa Marta, e achámos oportuno que partilhasse com o público local as suas impressões e recordações, desenvolvendo o texto que tinha apresentado na sessão comemorativa do centenário do nascimento de Manuel Teixeira, realizada no auditório do IIM, a 18 de Abril de 2012. É dele este importante depoimento, sobre o período final de um dos vultos maiores da História de Macau:Na Casa de Santa Marta“Na Casa de Santa Marta, o padre Teixeira usufruía de uma suite, com casa de banho privativa, uma secretária e uma cadeira apropriada, uma estante para livros e uma sala anexa para receber visitas. Desfrutava das melhores instalações de uma instituição que fora concebida para albergar 65 idosos de cada sexo.Pouco tempo após a sua chegada a Chaves, o padre Teixeira foi operado às cataratas. Fui visitá-lo no dia seguinte. Estava admirado por ir deixar de usar óculos, pois o Dr. Batalha sempre lhe disse que teria de os usar para o resto da sua vida! ‘São as novas tecnologias, que permitem esta espécie de milagres’, comentei-lhe. Contudo, três meses depois de ter chegado de Macau, ainda não estava adaptado à sua nova forma de vida. Faltavam-lhe os amigos, muito embora eu fosse uma visita diária.Os últimos anos do Monsenhor em Chaves“A 16 de Maio de 2001, regressou a Portugal definitivamente e foi acolhido na Casa de Santa Marta em Chaves (...) Aí foi abençoado com a companhia de amigos até a data da sua morte, a 15 de Setembro de 2003. Tinha 91 anos.”José Mário Teixeira, “Manuel Teixeira, de menino a Monsenhor”A irmã Maria do Carmo contou-me, a propósito da operação às cataratas, que o padre Teixeira, depois de ter esperado mais de uma hora, perguntou ao médico: ‘O senhor por onde andou para chegar tão atrasado?’ O médico responde-lhe que tinha andado a operar outros doentes. ‘Pensei que nunca mais chegava’, respondeu-lhe o padre Teixeira.Depois, já deitado na marquesa, preparavam-se para lhe retirar os sapatos. Mas o paciente reagiu, com a sonoridade que lhe era característica: ‘Isso não, os sapatos ficam! Ou é assim ou nada feito!’ Pelo que lá ficou de sapatos calçados na mesa de operações.Para ele, quem não soubesse onde ficava Macau era um ignorante. Como a população da Casa de Santa Marta era composta, na sua maioria, por gente humilde e nada sabia das terras do Oriente, eram uns analfabetos! Contudo, com o decorrer do tempo, foi granjeando admiradores e admiradoras que o mimavam. Situação que tornava a existência mais feliz.Se o tempo de estadia lhe ia proporcionando momentos de prazer, respondendo a dezenas e dezenas de telefonemas e de cartas, vindas de todo o lado, algumas com dinheiro, que entregava imediatamente à Casa de Santa Marta, bem como inúmeras visitas, incluindo de ex-governadores de Macau e de outras figuras públicas, era também verdade que a sua relação com a freira com quem tinha que se relacionar, era cada vez mais difícil. Chegou mesmo a dizer-me que, ou saía ela ou teria ele de abandonar o lugar. ‘Não posso ver essa mulher’. As coisas chegaram a um ponto em que foi necessária a intervenção, calma e muito inteligente, da madre superiora.
  • 136 137 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – X F A L A R D E N Ó S – XComo não podia trocar de freira, a superiora, durante uma reunião à qual assisti, e com o padre Teixeira zangado como nunca o tinha visto, desenrolando todas as queixas e ameaçando que ‘ou eu ou ela’, acabou por ver o problema resolvido. A solução passou por se substituir a freira por uma senhora assalariada para tratar do padre. Com esta decisão sensata da madre superiora, o padre Teixeira viu-se finalmente livre dum problema que muito o apoquentava. ‘A senhora é uma santa’, dizia ele à madre.A ver melhor e com um pouco mais de mobilidade, o padre começou a ajudar à missa que se rezava diariamente, pela manhã, na capela da instituição. Quem presidia à cerimónia era o bispo D. António Cardoso Cunha, da diocese de Vila Real, que tam-bém vivia ali.Pessoa com idade já avançada, possuía, contudo, uma frescura notável de locomoção, mas já com muita falta de memória, ao ponto de não poder sair para a cidade porque se perdia com frequência. Um dia, o padre Teixeira, que costumava comentar as limitações do ‘coitadinho do bispo, que estava maluquinho e já não sabia o que fazia’, comentou com a irmã Maria do Carmo: ‘Se eu tivesse aquelas pernas... Ah!... se eu tivesse aquelas pernas!...’. A irmã respondeu-lhe: ‘Empreste-lhe o senhor padre a sua cabeça’. ‘Isso nunca, isso nunca!’, respondeu-lhe ele, em tom irado. (...)Nos nossos passeios de automóvel ainda lhe propus várias vezes levá-lo a Freixo, sua terra natal. Mas recusou, sempre com o mesmo argumento: ‘Não tenho lá nada. O que vou lá fazer?’.Já integrado na sua nova fase de vida, o padre Teixeira voltou a escrever. Agora para o Semanário Transmontano, com uma rubrica chamada ‘Coisas e Loisas’. Alguns dos seus artigos não chegaram a ser publicados por falta de tempo e de espaço no jornal.”Derradeiras homenagensVinhais Guedes também sintetizou muito bem as derradeiras homenagens prestadas ao Monsenhor nos últimos anos da sua vida. Foram duas:“A primeira ocorreu em Chaves e foi promovida pelo Semanário Transmontano, no dia 2 de Março de 2002. Esta grande homenagem dos transmontanos contou com a presença de 28 Câmaras de Trás-os-Montes e Alto Douro, dez escolas de Chaves, bispos e governadores civis dos distritos de Vila Real e de Bragança, Casa de Macau em Lisboa, Centro Cultural de Macau, Missão dos Assuntos de Macau em Lisboa, os ex-governadores de Macau, Almirante Almeida e Costa e professor Pinto Machado e respectivas esposas, e ainda algumas dezenas de pessoas de Macau que se deslocaram de Lisboa.Para assinalar este acontecimento foi mandada cunhar uma medalha alusiva. Para além da troca de recordações entre o homenageado e as entidades presentes, o padre Teixeira proferiu uma breve palestra sobre o papel dos missionários transmontanos no Extremo Oriente. Esta homenagem incluiu também uma exposição de parte da sua obra literária, com livros cedidos pelo Centro Cultural de Macau. Com esta homenagem, o padre Teixeira viveu um dos momentos mais felizes da sua vida. Ele foi o centro de todas as atenções, como sempre gostou de ser.
  • 138 139 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – X F A L A R D E N Ó S – XA segunda homenagem foi feita pelo clero do concelho de Chaves, que ofereceu um jantar em sua honra, no qual esteve presente o General Rocha Vieira e a sua esposa.Como visita praticamente diária, posso afirmar que o padre Teixeira, ao ir para a Casa de Santa Marta, em Chaves, escolheu uma instituição para a qual contribuiu com donativos de 77.069.065$00, correspondentes a mais de 385 mil euros ou 3,8 milhões de patacas, que lhe proporcionou uma qualidade de vida difícil de encontrar noutras instituições, quer fosse em Portugal ou no estrangeiro. Estou certo de que em Chaves voltou a viver momentos de grande felicidade.O padre Teixeira aparentava boa saúde, quando, a 15 de Setembro de 2003, pelas dez horas, fui surpreendido pelo telefonema da irmã Maria do Carmo a comunicar-me que o meu amigo tinha falecido.Como era seu hábito, depois de tomar o pequeno-almoço, costumava ‘bater uma soneca’ no seu confortável cadeirão. Porém, naquela manhã, o homem das longas barbas brancas, que tantas vezes esvoaçaram no delta do Rio das Pérolas, não mais acordou. Reconforta-me saber que partiu sem sofrimento.”Este depoimento, aqui apenas parcialmente transcrito, é indispensável para completar o muito que sobre o Monsenhor se escreveu, antes e depois da sua morte.8 de Julho de 2013Durante a sessão de lançamento do livro “Manuel Teixeira, de menino a Monsenhor”, levada a efeito no mês passado, no auditório do IIM, o orador principal, Fernando Vinhais Guedes, que relatou a fase final da vida daquele sacerdote que tão bem soube honrar o nome de Portugal em Macau, fez a entrega ao Instituto Internacional de Macau do livro “Casa Santa Marta de Chaves” (Chaves, 2009), de que foi portador, com uma simpática dedicatória da Irmã Maria do Carmo, co-autora do mesmo, em parceria com o Pe. Alípio Martins Afonso, escritor com vasta obra sobre temática cultural regional. Foi bom ver ali as palavras elogiosas dedicadas ao nosso saudoso Monsenhor, reconhecido como benemérito daquela modelar instituição de assistência aos idosos.Benemérito da CasaDepois de se identificarem as entidades que apoiaram a Casa de Santa Marta, entre as quais o Instituto de Assistência aos Inválidos (agora chamado da Família e da Acção Social), a Fundação Calouste Gulbenkian, Câmaras Municipais, o Centro Regional de Segurança Social de Vila Real, o Governo Civil, a Fundação D. Maria da Natividade Delgado, a Fundação Oriente, o bispo de Vila Real, D. António Cardoso Cunha, e o Pe. José da Silva Ferreira, radicado na Diocese de Boston, são feitas estas justas referências ao benemérito Monsenhor Manuel Teixeira:“Uma verba tão avultada que, só por si, suplantou o total de todas as anteriores oficiais e não oficiais, somadas conjuntamente, entre os anos oitenta e o fim do século. Setenta e sete milhões de escudos, arranjados por um só homem, em Macau, a favor da Casa de Santa Marta!Manuel Teixeira, benemérito da Casa de Santa Marta de Chaves“Setenta e sete milhões de escudos, arranjados por um só homem, em Macau, a favor da Casa de Santa Marta! (...) Monsenhor Teixeira bateu à porta das instituições e das pessoas certas e as instituições e as pessoas anuíram aos seus pedidos, sem exigirem qualquer justificação. Fizeram-no pelo respeito que lhes merecia este homem altruísta, invulgarmente culto, avesso ao dinheiro (...)”
  • 140 141 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – X F A L A R D E N Ó S – XDir-se-á que a colheita foi rendosa porque envolveu searas gradas: CTT de Macau, Fundação Oriente, Governadores e industriais e comerciantes chino/macaenses abastados. Assim foi de facto. Mas o seu grau de eficácia teve mais a haver com a qualidade da pessoa interveniente.Monsenhor Teixeira bateu à porta das instituições e das pessoas certas e as instituições e as pessoas anuíram aos seus pedidos, sem exigirem qualquer justificação. Fizeram-no pelo respeito que lhes merecia este homem altruísta, invulgarmente culto, avesso ao dinheiro e tão desprendido dos bens materiais como fora Job.Uma acção, que, do ponto de vista sócio/critão, espelha três situações altruístas invulgares, que merecem ser relembradas. A primeira e principal, prende-se com a personalidade única do Monsenhor – Homem de corpo franzino e pequeno mas de espírito grandioso.A segunda decorre da dinâmica das Religiosas de Santa Marta. O diálogo providencial das Irmãs com o Monsenhor aconteceu no decorrer das buscas biográficas sobre a vida e obra do Pe. Manuel Pita, em terras do Oriente, da iniciativa das mesmas Irmãs. Aqui o seu pedido foi encaminhado para o Director dos Arquivos de Macau, que era o próprio Pe. Manuel Teixeira. Como Director respondeu ao que lhe era solicitado e foi mais além. Chamou a si a elaboração da biografia do Pe. Pita, enquanto missionário no Oriente, (que veio a oferecer à Casa onde aguarda a elaboração do percurso posterior do homenageado para ser publicada) e envolveu-se directa e afincadamente nesta obra social, iniciada pelo seu colega e amigo, Pe. Manuel Pita.A terceira é uma espécie de fecho ideal ou chave de oiro que fundiu na mesma instituição modelar de assistência os dois grandes homens – a história recordá-los-á como dois grandes pilares – duas almas gémeas, doadas aos irmãos mais necessitados de aquém e de além mar.São muitas as afinidades entre os dois transmontanos, não obstante pertencerem a gerações distintas e terem exercido funções diversas. Ambos foram arrancados às próprias famílias na pré-adolescência e entregues a Institutos Religiosos Missionários no Oriente e por eles educados. Ambos vieram a ordenar-se e a exercer o ministério nesse âmbito missionário.O Pe. Manuel Pita deu à obra dos Anciãos Desamparados o que tinha e deu-se a si próprio, sem nada esperar em troca. O Pe. Manuel Teixeira escreveu a biografia do colega amigo e professor e deu o que tinha e que pôde angariar junto doutros para a Casa Santa Marta, também, sem nada esperar de volta.Nos últimos três anos de vida, o Pe. Manuel Pita aguardou a morte na modesta habitação do seu torrão natal, na comum humildade dos seus conterrâneos. Nem a força caritativa e amiga das Irmãs conseguiram demovê-lo a regressar ao Lar dos Anciãos.”O testamentoManuel Teixeira, porém, embora fosse seu desejo morrer em Macau, acabou por aceitar passar os seus últimos anos em Chaves, na Casa de Santa Marta. Ali deu a conhecer o seu testamento:
  • 142 143 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – X F A L A R D E N Ó S – X“Numa folha, à laia de testamento, escrito pela própria mão, a poucos dias da morte, esquece todas as honrarias e entrega-se nas mãos de Deus com a simplicidade dos grandes Santos. São, julgo eu, as suas últimas palavras escritas.‘Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Tudo o que tenho, de Deus o recebi e é a Ele que o quero dar na pessoa dos pobres. Creio que não devo nada a ninguém.Estou na Casa Santa Marta da Chaves há um ano. De Macau remeti para esta Casa (a minha pensão de) 60.000 patacas (queria dizer escudos) que devem chegar para as minhas despesas feitas e a fazer.Tenho algumas propriedades em Freixo de Espada à Cinta que lego aos pobres na pessoa do pároco de Freixo. Fica tudo para a paróquia, sendo o seu rendimento para os pobres.A batina branca que costumo usar, lego-a ao Pe. Albino Laje, capelão da casa. A imagem do Coração de Jesus, de prata, lego-a a minha irmã Benvinda Teixeira.Os Brasões dos Municípios Transmontanos, são para o Museu de Freixo de Espada à Cinta, incluindo o Brasão do Bispado de Bragança.Como nada trouxe para este mundo, também nada quero levar deste mundo. Irei, assim, mais leve para o Céu.’Na sequência da sua morte, alguns telegramas dirigidos às Irmãs, testemunham a dupla imagem pública de Homem de Fé e de Ciência, por si deixada no Oriente.O antigo Governador, Almirante V. Almeida Costa, chama-lhe – ‘Um dos homens de cultura e de fé, uma das figuras de referência mais notáveis de Macau, merecedor de admiração e de gratidão de todo o Portugal e da Igreja.’E o presidente da Academia Portuguesa de História, Prof. Veríssimo Serrão, faz-lhe idêntico elogio, por estoutras palavras: – ‘Nunca serão exagerados os elogios que se enderecem à memória do extinto, tanto pela obra de historiador com que enriqueceu a cultura portuguesa em Macau, como pelo exemplo de apostolado em que desdobrou a sua presença de 70 anos nas terras do Extremo Oriente.’” Estas passagens do livro permitem-nos conhecer mais alguns pormenores sobre os últimos anos de vida do Monsenhor. Para além dos apoios que deu à Casa de Santa Marta e dos poucos bens que quis legar a diversas entidades, foi a sua vasta obra o seu verdadeiro testamento. O valor dessa obra é inestimável!15 de Julho de 2013
  • 144 145 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – X F A L A R D E N Ó S – XO Instituto Internacional de Macau (IIM) tem contribuído, de forma continuada e consequente, para o reforço da cooperação entre o Recife e Macau, participando muito activamente em diversificadas iniciativas levadas a efeito naquela acolhedora e dinâmica cidade brasileira, capital do Estado de Pernambuco, e fazendo chegar até lá algumas sempre bem recebidas manifestações culturais macaenses.No âmbito da parceria estabelecida, pelo IIM, com o Movimento Festlatino e com o centro cultural Albergue SCM, quatro representativos artistas de Macau – Carlos Marreiros, Guilherme Ung Vai Meng, Lio Man Cheong e Adalberto Tenreiro – protagonizaram, nos últimos meses, no Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães, uma mostra de alta qualidade, que foi muito apreciada pelo público e ganhou referências muito lisonjeiras em órgãos locais de comunicação social. Ela foi depois apresentada em Caruaru, Garanhuns e Petrolina, nas modernas instalações do Serviço Social do Comércio, graciosamente disponibilizadas para a itinerância desta exposição.É de esperar que alguns artistas do Recife possam marcar idêntica presença em Macau no próximo ano. Intercâmbios como este merecem todo o apoio das autoridades e de instituições da sociedade civil, estando o IIM a coordenar o envolvimento das entidades interessadas.Estas relevantes iniciativas inserem-se no projecto “Pernambuco – Macau nos caminhos da lusofonia” que o Movimento Festlatino, o Albergue SCM e o IIM estão Pernambuco acolheu representativa mostra de artistas de Macau“... a presença dos notáveis artistas macaenses, Carlos Marreiros, Guilherme Ung Vai Meng, Lio Man Cheong e Adalberto Tenreiro no Recife, atesta, mediante a exposição que ora se inaugura no Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães – Mamam, um expressivo movimento cultural latino, o ‘Pernambuco – Macau’, que se ampliará no decurso dos próximos anos, aproximando duas cidades, Recife e Macau, tão distantes, mas culturalmente tão próximas.”Humberto França, Recife, Maio de 2013 a desenvolver, com o apoio de diversos organismos oficiais, num louvável esforço de aproximação de duas cidades geograficamente distantes mas muito próximas nas raízes e no coração.Intercâmbio culturalNa sessão de abertura, em Maio passado, o presidente do Movimento Festlatino, Humberto França, realçou deste modo o alto significado do intercâmbio cultural encetado:“Macau já consolidou a sua imagem de cidade latina. O intercâmbio cultural que ora se inaugura no Recife com a exposição ‘4 artistas na cidade: Pernambuco – Macau, nos caminhos da lusofonia’, sob os auspícios do Movimento Festlatino, centro cultural Albergue SCM, Instituto Internacional de Macau, Universidade Federal Rural de Pernambuco, Ministério da Cultura, Secretaria de Cultura do Estado de Pernambuco e Prefeitura do Recife, está inserido num projeto de longo alcance: ‘Movimento Festlatino no diálogo Pernambuco – Macau’.A formação histórica brasileira contém influências originárias da cultura chinesa. Em meio aos processos que alteraram o cenário internacional, a partir do século XVI, foram estabelecidas conexões entre o Brasil colonial e o mundo asiático. As naus que ligavam o Oriente à América Portuguesa de então, abarrotadas de produtos orientais, tão ao gosto dos primeiros brasileiros, trouxeram influências várias, que afetariam, conforme afirmou Gilberto Freyre, ... os modos de pensar... de um Brasil ainda em formação.Na atualidade, abrem-se caminhos novos, os da latinidade e da lusofonia, que ligam Macau ao Brasil, a Pernambuco e à América Latina. Portanto, a presença dos
  • 146 147 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – X F A L A R D E N Ó S – Xnotáveis artistas macaenses (...) atesta, mediante a exposição que ora se inaugura (...), um expressivo movimento cultural latino, o ‘Pernambuco – Macau’, que se ampliará no decurso dos próximos anos, aproximando duas cidades, Recife e Macau, tão distantes, mas culturalmente próximas.”Complementaram a inauguração da mostra, uma sessão pública de apresentação do projecto “Pernambuco – Macau nos caminhos da lusofonia”, por Humberto França e José Lobo do Amaral, vice-presidente do IIM, uma palestra de Adalberto Tenreiro na Universidade Federal Rural de Pernambuco e a realização, no Gabinete Português de Leitura do Recife, da exposição “O Oriente de Influência Cultural Portuguesa”, organizada pelo IIM com base numa selecção de postais ampliados da colecção de João Loureiro, membro da Direcção do IIM.Quatro artistasOs quatro artistas são destacadas personalidades do sector cultural de Macau e consagrados artistas cuja obra se projectou amplamente além-fronteiras.António Conceição Júnior, outro laureado artista macaense, traçou deles e dos seus trabalhos, em texto inserido no catálogo, estes sucintos e elucidativos “retratos”:“Pela janela que o papel é, assomam todos os virtuosismos e delírios saudáveis que temperam a genialidade dos desenhos de Carlos Marreiros.Desenhador, coleccionador, cronista e narrador compulsivo, os seus invulgares ‘lugares comuns’ fixados originalmente em pequenos blocos tornados livros de iluminuras e negro e branco, colagens apostas sinalizando momentos, tornadas peças mais que singulares. Elas narram peregrinações, nas quais o autor é narrador, iluminista dessas singularíssimas Viagens pela nossa Terra. (...)Olhar a obra de Carlos Marreiros é perceber a importância da utopia no projecto urbano, compreender o sonho que teria sido possível, entender o desejo de um bem-estar comum. A poesia encontra aqui, um ninho onde se projectar, imbuindo cada obra da sua carga.Assim, parece que nunca o desenho teve, neste primeiro quartel do século XXI, um significado tão lúcido e cuja completude nos deve fazer entender a importância do homem criativo no planeta Terra.”“Adalberto Tenreiro: Arquitecto no desenho, desenhador na arquitectura, viajante de espaços múltiplos e de diversas dimensionalidades, os seus desenhos são narrativas de uma poética onde a palavra não cabe por excessiva, mas onde a grafia fluente discorre narrativas imagéticas de urbanidades apostas sobre infinitos suportes, onde tudo se joga e compõe.”“Ung Vai Meng desenha obsessiva, compulsivamente, atraído pela gula do olhar que se comove perante as tentações que por todo o lado o assolam.Há como que uma (cali)grafia sínica nos desenhos deste autor que assim caligrafa os seus registos, eivados do seu próprio deslumbramento, que fascinam. Cada desenho
  • 148 149 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – X F A L A R D E N Ó S – Xé uma crónica inteligente, plena de emoção. É talvez nisso que reside como que uma inata latinidade neste autor que, sendo chinês, o é desta forma singular: a sua interpretação da Macau que abraça comovido.”“Na aguarela, Lio Man Cheong, ele também, humedece o papel com os afectos que se estendem pela vivência e pela memória desta cidade. A mesma cidade pela qual, todos nós, autores e escrevente, comungamos afeições profundas. Neste autor está patente a ocidentalização da pintura chinesa – shui mu – nascida da água e da tinta, suprema abstracção dos signos da realidade.Assim, com Carlos Marreiros e seus amigos, desdobra-se a diversidade e, com esta, uma outra iconografia indizível, que requer estranhamento e cumplicidade, e cuja conjugação, ao estranho, está interdita.Sobram assim palavras depois do discorrer sobre os autores. A palavra como mero intróito do muito que requer o sentido da vista e do olhar e para que, assim, se vislumbre a condição macaense dos autores que muito de tudo explica a circunstância colectiva.”Não podemos estar mais de acordo com tão expressiva apreciação, restando-nos manifestar o desejo de que o intercâmbio iniciado tenha a continuidade almejada e que as instituições intervenientes tão empenhadamente viabilizaram.22 de Julho de 2013Mais um livro de memórias da Marinha de Guerra Portuguesa em Macau foi lançado, há poucos dias, em Lisboa, em cerimónia realizada no Museu de Marinha e presidida pelo contra-almirante Bossa Dionísio, director da Comissão Cultural de Marinha. O título é “A Reserva Naval em Macau – 1968/1970”, constituindo um positivo testemunho de António Miranda da Rocha, que prestou serviço, durante dois anos, no Comando de Defesa Marítima e nos Serviços de Marinha de Macau, como subtenente e segundo-tenente. É esse período, ainda de grandes incertezas, em plena “revolução cultural chinesa”, que é descrito na obra, numa fase de empenhada recuperação da confiança, abalada pelos graves acontecimentos do chamado “1, 2, 3”, em Dezembro de 1966, que fizeram estremecer os alicerces políticos do território. Apoiaram e ajudaram a viabilizar a edição, que é da AORN – Associação dos Oficiais da Reserva Naval, a Comissão Cultural de Marinha, a Fundação Jorge Álvares e o Instituto Internacional de Macau, através da sua delegação em Lisboa. Tributo à MarinhaO autor quis que este livro fosse um tributo à Marinha de Guerra Portuguesa:“A Armada tem sido considerada como serviço silencioso, porque actua, geralmente, em horizontes longínquos, muitas vezes em missões de que apenas há notícia nos arquivos reservados da Marinha.Existe, por assim dizer, uma verdadeira névoa que oculta as acções do homem do mar, ficando por este modo e, em grande parte, no esquecimento os seus trabalhos, as suas fadigas, sacrifícios e sofrimentos.Memórias da Reserva Naval em Macau“Este trabalho é um valioso contributo para a História da Marinha em Macau, reforçando o prestígio da Marinha de Guerra Portuguesa e da sua Reserva Naval...”Do prefácio do livro
  • 150 151 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – X F A L A R D E N Ó S – XAté mesmo nas comissões mais ‘presas’ à terra, a projecção exterior daquilo que os homens do mar fazem sofre a influência da zona de silêncio em que normalmente trabalham. Não me parece, por isso, despropositado revelar o que registei sobre os Oficiais da Armada mencionados neste trabalho: hábeis profissionais de excepcionais faculdades de trabalho que, pela extensão dos seus conhecimentos e pelos seus dotes intelectuais, souberam valorizar, em contexto de graves dificuldades, a Marinha em Macau.E o enriquecimento da minha formação – que resultou do facto de ter sido inserido neste Quadro de Oficiais da Armada, num território onde coexistiam as civilizações ocidental e oriental – é motivo de inexprimível gratidão à Marinha de Guerra Portuguesa.”Estas palavras, que nos pareceu oportuno transcrever, traduzem um sentimento pessoal, mas podem ser facilmente adoptadas e inteiramente assumidas, como um justo reconhecimento, que é praticamente universal, de quantos conheceram e acompanharam a presença da Marinha Portuguesa em Macau, através dos seus navios e dos seus oficiais, sargentos e praças. Em funções militares ou civis, algumas das quais da mais alta responsabilidade política, o seu papel, ao longo de muitas gerações, na construção e modernização deste território, foi de inestimável valor.O prefácio, de José Augusto Pires de Lima, presidente da AORN, realça “o valioso contributo deste trabalho para a História da Marinha em Macau, reforçando o prestígio da Marinha de Guerra Portuguesa e da sua Reserva Naval”, e recorda uma notável alocução, de Março de 1959, do contra-almirante Manoel Maria Sarmento Rodrigues, comandante da Escola Naval, que, na qualidade de Ministro do Ultramar, visitara Macau em 1952, exortando os cadetes do 1.º Curso Especial de Oficiais da Reserva Naval ao cumprimento das suas futuras missões, depois de “temperado o seu carácter à luz do sentimento da obediência militar, do gosto das responsabilidades, do respeito pela dignidade humana, da isenção e integridade de carácter, do culto da honra, do amor à Marinha e às suas tradições”. Essa alocução, muitas vezes lembrada, foi um verdadeiro guião para a Reserva Naval, nos teatros de operações militares e em variadíssimas outras missões. Conteúdo da obraTrês capítulos e uma cronologia, além de uma curta relação bibliográfica, constituem a obra, sendo especialmente interessante o enquadramento político, militar e social que o autor traçou, para caracterizar os dois anos intensamente vividos da sua comissão. Uma adequada selecção de gravuras, recortes de jornais e fotografias, algumas inéditas e da sua colecção particular, ilustram o livro.Procurou-se explicar, nesse enquadramento, os efeitos e as motivações da “revolução cultural chinesa” em Macau, com um relato dos motins de Dezembro de 1966 e das suas nefastas consequências na vida do território, bem como os persistentes e consequentes esforços feitos pelas autoridades e pela sociedade civil, com particular destaque para os agentes económicos, com vista à retoma do desenvolvimento. É enfatizada, neste contexto, a intervenção dos principais empresários locais, à cabeça dos quais estava Ho Yin, apresentado como “o grande intérprete dos interesses de Macau”, e cujas palavras, proferidas em finais de 1968, estimularam fortemente a
  • 152 153 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – X F A L A R D E N Ó S – Xactividade económica: “... embora sem relações diplomáticas, o governo de Pequim sempre deu apoio à população de Macau. Existe, aliás, uma boa amizade entre as comunidades chinesa e portuguesa em Macau. É o que se pode chamar um ambiente fraternal. A China apoiará o desenvolvimento e a estabilidade de Macau”.Alguns dos outros nomes referidos são os de Stanley Ho, “conselheiro competente a todos os níveis económicos e políticos”; Henry Fok, “riquíssimo empresário chinês de Hong Kong, com grande influência em Pequim junto dos mais altos dignitários do regime, que financiou, em 1962, a criação da STDM, ficando, deste modo, fortemente interessado por Macau”; Ma Man Kei, vice-presidente da Associação Comercial de Macau; Peter Pan, “dinâmico promotor da industrialização de Macau”; Roque Choi, “personalidade de grande dedicação a Macau que, procurou, nas suas múltiplas funções públicas e empresariais, contribuir para o engrandecimento do território e boas relações com a RPC”; Susana Chau, “uma destacada industrial de Macau”; Alberto Dias Ferreira, um dos poucos industriais portugueses de Macau; e Teddy Yip, administrador da STDM.O autor enaltece a acção dos grandes empresários de Macau que davam “parte da sua fortuna para o bem comum, para fins caritativos e culturais e, portanto, para o proveito de Macau, sendo naturalmente, essas dádivas do conhecimento público”, pelo que eram vistos como benfeitores e promotores do bem público, andando “o mecenato e a ambição do lucro de mãos dadas tal como sucedia com os grandes empresários de Hong Kong com os quais os negociantes de Macau cooperavam estritamente”.Muito curiosa foi a estratégia definida nos Serviços de Marinha de Macau para intensificar as relações com os industriais e comerciantes, com base num plano de actuação assente em três pontos: melhorar a eficácia dos Serviços de Marinha e da Capitania dos Portos; contribuir para a pacificação da ordem pública, através da Polícia Marítima e Fiscal; e dar apoio, através dos Serviços de Marinha e dos Serviços Autónomos das Oficinas Navais à recuperação económica, por forma a cooperar na redução substancial dos riscos e prejuízos para os cidadãos de Macau e suas actividades. Desta feita, multiplicaram-se as iniciativas do pessoal da Armada com as comunidades locais, nomeadamente na “diplomacia do jogo da bolinha”, com jogos de futebol de 7, modalidade muito praticada em Macau, entre os Serviços de Marinha e as companhias de navegação locais, torneios de futebol entre os Serviços de Marinha e essas companhias, almoços e jantares com representantes das associações empresariais chinesas, encontros e convívios informais com Ho Yin, Roque Choi e quadros superiores das suas empresas, e também com o “estado-maior” da STDM, reuniões, reservadas, com O Cheng Peng, gerente da Sociedade Nam Kwong e representante local do Departamento dos Negócios Estrangeiros da província de Guangdong, e o fomento de laços de amizade com elementos destacados da sociedade civil de Macau.Entretanto, a política de desanuviamento prosseguida permitiu a realização da visita do N.R.P. “Comandante João Belo” a Macau entre 14 e 25 de Março de 1970. Ela foi muito relevante, pelo seu simbolismo, para ultrapassar o clima de inquietação política que tanto prejudicara Macau. O livro descreve, pormenorizadamente, os múltiplos eventos levados a efeito no âmbito desta memorável visita de um navio de guerra em plena “revolução cultural”. Vale, pois, a pena ler o livro, que deverá estar disponível em Macau no mês de Setembro.29 de Julho de 2013
  • 154 155 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – X F A L A R D E N Ó S – XNo âmbito do projecto cultural “Pernambuco – Macau, nos caminhos da Lusofonia”, que o Instituto Internacional de Macau (IIM) tem vindo a desenvolver com o Movimento Festlatino e com a colaboração e o apoio de diversas entidades públicas e privadas, com destaque para a Secretaria da Cultura do Estado de Pernambuco, foi solicitada ao Prof. Arq.º José Manuel Fernandes, catedrático de História da Arquitectura e do Urbanismo da Faculdade de Arquitectura da Universidade Técnica de Lisboa e uma das maiores autoridades em património de origem portuguesa, a produção de um estudo comparativo sobre o Recife, capital daquele estado do nordeste brasileiro, e Macau. Com o título “Recife – Macau, duas cidades, dois mundos, duas histórias, relações e contrastes”, o trabalho foi publicado em 2012, sendo edição conjunta do IIM, do Movimento Festlatino e da Companhia Editora de Pernambuco.A capa é ilustrada com um ampla vista actual de Macau e a contra-capa com uma fotografia da orla marítima do Recife. Um pequeno caderno iconográfico completa a obra. A qualidade do estudo justificava, porém, uma opção gráfica de maior dimensão, sendo este um reparo justo que não pode constituir melindre.Duas cidadesTem cinco partes este relevante trabalho: A – Uma introdução: a cidade de matriz portuguesa no mundo, seu modelo no Brasil e na Ásia; o modelo holandês; B – duas cidades, duas geografias e duas histórias; C – características iniciais, locativas, espaciais e de estrutura, das duas cidades: o urbanismo do Recife e de Macau na Idade Moderna; D – as principais arquitecturas das duas cidades; E – os tempos mais recentes e os significados do Urbanismo e da Arquitectura.Duas cidades, dois mundos, relações e contrastes“Macau, como conjunto urbano no Extremo Oriente, implantado no Mar do Sul da China, representa um exemplo único no mundo, resultante basicamente da ousada e pioneira transposição de um micro-sistema urbanístico de raízes ainda medievais, europeias, para um mundo e um quadrocultural de grande contraste.”Logo no início, o autor explica que as origens comuns permitem identificar as semelhanças entre as duas cidades, sendo também possível caracterizar as respectivas diferenças:“A possibilidade de comparar duas cidades geograficamente tão apartadas, como são o Recife, no nordeste do Brasil, e Macau, no sul da China, decorre da sua comum matriz de desenvolvimento histórico, em ambos os casos constituindo exemplos destacados dentro da cultura urbana portuguesa da Expansão. De facto, estas duas urbes, aparentemente tão diversas e distanciadas, possuem, se analisadas com alguma profundidade, muitos aspectos comuns que se podem e devem realçar: a sua localização e implantação, as suas principais características espaciais, o tipo de estrutura urbana e as múltiplas formas da sua expressão arquitectónica. E tais semelhanças decorrem claramente dessa comum matriz lusitana, nas fases mais ancestrais do seu crescimento.Com a sua área central originada num plano holandês do século XVII (a partir da ocupação neerlandesa em 1630-31, com o projecto urbano em 1637-39), a cidade do Recife pouco tempo se manteve na sua posse (24 anos), e logo se articulou com o ambiente urbano, onde existiam já ocupações de origem portuguesa, quer nas ilhas e linhas-península do Recife vizinhas, quer na costa próxima. (...)E, embora a proposta urbana lançada pelos Países Baixos assuma um inovador e patente significado cultural, a sua área urbana inicial foi-se progressivamente naturalizando no quadro da cultura urbana luso-brasileira, adaptando para tal tudo o que era necessário adaptar e/ou reconstruir.
  • 156 157 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – X F A L A R D E N Ó S – XO caso de Macau é diferente, neste aspecto: a fundação da urbe portuguesa, melhor dizendo, luso-chinesa, foi de raiz, e não de substituição ou sobreposição; mas, por outro lado, também teve que dialogar permanentemente com a cidade chinesa vizinha, e assumiu uma original disposição, traduzida na ocupação edificada de duas baías na sua área central, uma virada ao vasto Império do Meio, outra aberta ao mar e às rotas de ligação à Europa.Por isso, em ambas as cidades se pode falar de ‘diálogo de culturas urbanas’, e em miscigenação, ou pelo menos interacção, dessas mesmas culturas – no caso do Recife, apenas numa fase primeira e breve, mas, exprimindo-se em sobreposição, com consequências duradouras no plano material e físico; no caso de Macau, de modo mais distanciado, mas mantendo-se constante ao longo dos séculos seguintes.”Matriz lusaJosé Manuel Fernandes, sabendo que era propósito deste estudo torná-lo acessível a um público mais vasto, achou por bem explicar a matriz lusa original das estruturas urbanas edificadas além-mar, nos locais de fixação ao longo das rotas marítimas que deram dimensão e grandeza a Portugal no mundo:“No longo e paulatino processo das viagens marítimas de descoberta, exploração e colonização, encetado por Portugal a partir do primeiro quartel de Quatrocentos, o tipo das pequenas urbes criadas e instaladas, em ilhas e continentes, assumiu aspectos claramente repetitivos, seguindo tipos de implantação, localização, estrutura e expressão geral comuns, que se mantiveram relativamente constantes até ao século XVIII:– localização litoral, ou costeira, procurando a proximidade das águas frescas e das costas propiciatórias do comércio marítimo;– implantação em lugares de acidentada orografia, abrindo para baías ou enseadas abrigadas, com ocupação articulada de vales e colinas, gerando as ‘baixas’ comerciais e portuárias, e, em muitos casos, as ‘altas’ colinares, de vocação mais residencial e defensiva (e em contacto com os hinterland agrários e produtivos);– estrutura urbana e edificada de adaptação a cada sítio, à sua natureza e morfologia natural, numa resultante planeada mas de sentido orgânico e geometricamente irregular (a chamada ‘cidade de paisagem’);– primazia dada aos sistemas de arruamentos, que de modo curvilíneo se podiam facilmente lançar no terreno, definindo os principais percursos internos da urbe (abrindo e fechando, e articulando-se entre si, por meio de largos, adros, terreiros, rossios, etc.) em detrimento do tipo das malhas reticuladas rigorosas, com as vias rectas e as grandes praças regulares, mais dificilmente inseríveis neste tipo de ambiente geográfico a edificar;– concretização da edificação através de uma arquitectura de pequena escala, nos vários tipos funcionais (militar, religioso, civil, infra-estrutural), seguindo um desenho de base classicizante mas muito simplificado, adequado deste modo aos poucos recursos de cada lugar, à sua população escassa, aos poucos técnicos formados, e às enormes distâncias à terra-mãe.
  • 158 159 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – X F A L A R D E N Ó S – XEste tipo de micro-cidades, primeiro definido nas ilhas atlânticas (nos séculos XV e XVI), prosseguiu depois, nos amplos quadros de África, do Índico e do Oriente, a par do Brasil (nos séculos XVI e XVII).Actualmente, algumas dezenas de urbes persistem, seja como singelos testemunhos cristalizados, seja em vastos complexos com novos graus de crescimento, deste processo de ocupação urbana: nas Ilhas Atlânticas da Macaronésia (Funchal, na Madeira; Ponta Delgada e Angra, nos Açores; Cidade Velha, Praia e São Filipe em Cabo Verde; S. Tomé e Sto. António em São Tomé e Príncipe); nas áreas costeiras africanas (Cacheu na Guiné, Luanda em Angola, Ilha de Moçambique em Moçambique), nas longas faixas litorais do Industão e do Ceilão (Cochim, Goa, Bombaim/Mumbai, Diu, Colombo, Galle), seja ainda nos complexos arquipelágicos da Insulíndia e do Extremo Oriente (Malaca na Malásia, Díli em Timor, Macau na China, Nagasaki no Japão). Finalmente, no extenso litoral brasileiro, multiplicaram-se as obras urbanas portuguesas, do Equador ao sul do Trópico (Belém do Pará, São Luís do Maranhão, Olinda e Recife em Pernambuco, Salvador na Bahia, Rio de Janeiro e Santos no então ‘sul profundo’.”A velha Macau incorporou o essencial destas características no seu plurissecular percurso, mas representa, efectivamente, um exemplo único no mundo, pela harmonização das raízes e estruturas lusas, ousada e persistentemente implantadas, com todo um enquadramento cultural profundamente diferente, nas concepções, filosofias, usos e costumes.5 de Agosto de 2013No estudo “Recife – Macau, duas cidades, dois mundos, duas histórias, relações e contrastes” (Recife, 2012), conjuntamente publicado pelo Instituto Internacional de Macau (IIM), pelo Movimento Festlatino e pela Companhia Editora de Pernambuco, José Manuel Fernandes, catedrático de História da Arquitectura e do Urbanismo da Faculdade de Arquitectura da Universidade Técnica de Lisboa, no capítulo “Características iniciais, locativas, espaciais e de estrutura, das duas cidades: o urbanismo do Recife e de Macau na Idade Moderna”, caracteriza a velha estrutura urbana de Macau e convida-nos a passear com ele pelas suas ruas principais.Cidade lusa“Macau possui no seu tecido urbano, ainda hoje bem visível (e que veio a constituir, aliás, a base essencial para a classificação desta parte da cidade como Património da Humanidade pela Unesco em 2005) uma estrutura urbana provecta, de origem quinhentista, tão consolidada como preciosa, que traduz bem este tipo de malha urbana, que referimos e que se procurou caracterizar como o da ‘Cidade de Matriz Portuguesa da Expansão Marítima’, ou o ‘Modelo da Cidade Lusa no Mundo’ – malha orgânica, regrada, estruturante e orientadora, mas de feição adaptativa e irregular, que, implantada em Macau, é de tipo análogo à que no Recife se procurou reerguer após os meados de Seiscentos. Essa estrutura constitui como que um longo ‘cordão’, disposto no sentido sudoeste-nordeste, articulando as duas colinas principais Um passeio por ruas da estrutura urbana histórica de Macau“A troca é a fonte de vida de toda a cultura do mundo. Pernambuco – e o Brasil como um todo – sabe bem disso. Entende o significado que diferentes saberes e matrizes culturais dão à sua própria existência. Bem distante de nós, Macau também sabe. Compreende o sentido de ter um corpo aberto às influências de fora, sendo formado a partir disso. Um corpo cuja origem nos conecta, a milhares de quilómetros de distância, a um só nome: Portugal.”Nota introdutória ao estudo, da Secretaria da Cultura de Pernambuco, 2012
  • 160 161 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – X F A L A R D E N Ó S – Xe fortificadas (a da Barra–Penha à do Monte), enquadrada por elas, e tendo de permeio a curvilínea baía da Praia Grande (que hoje, após a sua abertura desde 1989-95), as silhuetas dos dois Nam Van Lakes souberam reinventar e visualmente preservar).”Itinerário sugeridoRetomando e actualizando um relato seu de há um quarto de século (“Macau – Da Cidade Antiga à Arquitectura Recente”, revista “Arquitectura Portuguesa”, Lisboa, 1987-88), o autor aponta-nos um percurso com início na Penha, podendo no cimo da colina “espreitar-se a baía da Praia Grande, de um lado, e a densa área de predominância e invenção chinesa conhecida como Porto Interior, do outro”. E prossegue, referindo os mais marcantes espaços, com as suas edificações monumentais:“Descendo, sentimos que a norte as ruas vão ‘escorregando’ para esse lado chinês (é a Rua do Quebra-Costas, por exemplo, que lá nos pode levar), enquanto para sul são o colonial Hotel Bela Vista, actual consulado português, e a romanticamente arborizada Avenida da Praia Grande que nos atraem a atenção. Decidimo-nos pelo meio, seguindo esse cordão umbilical que, entre vários nomes, denuncia o jeito que tem para ser rua direita, e desembocamos no Largo de Li-Lau, encantadora mistura de árvores, pórticos de arruinadas casas chinesas e pequenos almoços de chá e torradas ao ar livre e refrescante da manhã.Caminhando pela Rua Padre António, chega-se ao quarteirão formado pela Igreja de São Lourenço, onde uma primeira bifurcação importante nos fará optar ou pela Rua da Alfândega (resíduo toponímico da antiga área de desembarque e inspecção das mercadorias, quando a linha de costa ali chegava?), ou pela rua que, passando a Imprensa Nacional, derivava por sua vez para São Domingos e para a Sé...Entre as ruas de Inácio Baptista e de S. José, em frente à entrada para a igreja do Seminário, uma velha casa de dois pisos (...) – hoje provavelmente demolida – evoca claramente o solar urbano de raiz portuguesa – com o pormenor precioso dos vãos superiores possuírem ainda as lâminas feitas de conchas marinhas (que na Índia se chamam ‘karepas’, substâncias translúcidas que substituem o vidro nos caixilhos – e atestam a provável influência da arquitectura goesa nesta minúscula península) (...) o grandioso – embora desfigurado – conjunto arquitectónico do velho Colégio Jesuíta, cujo espaço conventual (...) integra igreja, zonas escolares, jardins e claustros (...) é ainda o maior conjunto de arquitectura religiosa existente em Macau, cuja centralidade e extensão em relação à malha urbana da cidade antiga atesta a importância tida noutros tempos.Pelas ruelas à nossa direita vão-se adivinhando as árvores da Avenida da Praia Grande, quando de repente iniciamos a subida da Calçada do Teatro (um romântico edifício que titula, bem a propósito, ‘de D. Pedro V’ e chegamos à Igreja de Santo Agostinho. A maior parte dos templos cristãos de Macau são como este: impecavelmente limpo, pintado e cuidado, se por um lado atesta na fachada os vestígios da sua fundação quinhentista ou seiscentista, por outro foi amplamente remodelado com gostos ecléticos (e com uma originalidade aparentemente muito ‘oriental’) desde Setecentos...Agora, descendo pela Calçada do Tronco Velho, é no Largo do Leal Senado que desembocamos; ou, voltando à Rua Central, e atravessando o ‘corte’ moderno
  • 162 163 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – X F A L A R D E N Ó S – Xintroduzido pela Rua-Avenida Almeida Ribeiro, atingiremos a Sé (a mais descaracterizada de todas as igrejas macaenses). Continuando por aqui, chegaremos ao ponto extremo nascente da baía (com a antiga linha de costa), onde se implantam os ‘restos’ da instalação franciscana que, como é da praxe, está o mais afastada possível dos Jesuítas e do bulício urbano (hoje rodeada por um gracioso jardim – e vem à memória idêntico destino, do edifício franciscano no Funchal) (...).O Largo do Leal Senado é, talvez, actualmente o espaço urbano com mais carácter e vivência, de entre todos os pertencentes à ‘cidade velha’. Tradicionalmente constituía o pólo civil e administrativo da urbe, por oposição à zona atrás referida (São Lourenço/Colégio/Agostinhos) e à que se lhe segue, no percurso que escolhemos (São Domingos e São Paulo), ambas com eminente sentido religioso.A Misericórdia e a Câmara, até 1999 designada por ‘Leal Senado’, actual ‘Instituto para os Assuntos Cívicos e Municipais’, são os seus dois elementos arquitectónicos principais, que dão o sentido funcional à praça, situada além disso no âmago da estrutura linear que descrevemos, o que aumenta ainda mais o seu significado. Os edifícios de acompanhamento, com características arcadas em três pisos, pintados em cores vivas, evocam indiscutivelmente o prédio do município de Margão, no território goês: essa analogia não será possivelmente obra do acaso, mas sim das relações entre Obras Públicas, serviço do Estado português, e seus autores, no quadro dos contactos Goa – Macau na transição do século XIX para o XX.Outra força deste largo provém de ter sido ‘rasgado’ pela nova avenida rectilínea e modernizante que foi a Almeida Ribeiro, e que o transformou num espaço aberto, de ligação entre o porto interior e os novos aterros da Praia Grande. (...) há que concluir o périplo iniciado; e regressando ao Leal Senado, já se vislumbra ao fundo a silhueta da Igreja de São Domingos, que abre para a rua do mesmo nome (outro núcleo comercial fervilhante) e para a Rua de São Paulo, que leva às famosas ruínas. (...)A seca escadaria que leva às ruínas, desinteressante e cheia de ‘hóóós!’ de turistas japoneses, era dantes ladeada por casinhas, com esquinas e beirais, como as gravuras oitocentistas de Chinnery deixam entrever; (...) Desenhos antigos reconstituem também as bolbosas torres que se erguiam para trás da portentosa fachada de dragões e caravelas (fruto de uma mistura artífice nipo-portuguesa que as idas quinhentistas ao país do Sol Nascente propiciaram), a qual é ainda hoje imagem longínqua que torna reconhecível o centro da cidade, para quem vem pelo mar...”É este, afinal, um passeio que muitos de nós já fizemos, duma só vez ou em momentos diferentes, e que podemos continuar a recomendar aos forasteiros, quando partem à descoberta da cidade antiga e da sua “poética estrutura”, que constitui, no dizer do autor – e estamos de acordo – “uma das mais interessantes obras colectivas urbanas e arquitectónicas”.12 de Agosto de 2013
  • 164 165 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – X F A L A R D E N Ó S – XConclui-se, agora, a série de três artigos dedicados ao estudo “Recife – Macau, duas cidades, dois mundos, duas histórias, relações e contrastes”, do Prof. Arqº José Manuel Fernandes, que o Instituto Internacional de Macau e o Movimento Festlatino promoveram e publicaram, no âmbito do projecto “Pernambuco – Macau, nos caminhos da lusofonia”.Como não podia deixar de ser, depois de caracterizar a matriz lusa dessas cidades e a evolução das suas estruturas urbanas, nos contextos diferentes em que se integraram e foram crescendo, o autor procedeu à identificação dos “grandes monumentos do Recife e de Macau que marcaram de modo determinante as duas cidades entre os séculos XVI e XVII, com obras dentro do classicismo, do maneirismo ‘chão’ e do barroco”.No que toca à arquitectura monumental de Macau, estudada nos planos militar, civil e religioso, o autor apresentou esta listagem descritiva:- o edifício do Leal Senado, obra maior de vocação cívica na cidade, pode ter tido origem em construções dos séculos XVI e XVII, dada a simplicidade da sua frontaria, e a expressa regularidade dos sequenciais vãos; uma edificação inicial foi erigida em 1583, mas não se conhece a sua feição exacta; a obra actual data de 1784 (atribuída a Frei Patrício de São José), com dois pisos, e remete para uma expressão original solarenga, classicizante – entretanto alterada pelas reconstruções de 1816 e de 1874 (após um tufão); desta última reforma deve datar o actual desenho neoclássico, com Listagem descritiva dos principais monumentos de Macau“Há pois que fazer ressaltar, entre a Recife das Américas e a Macau da China, os contrastes entre os dois modelos ideológico-culturais em que assentaram os seus respectivos processos históricos, urbanos e arquitectónicos, que finalmente foram responsáveis pela afirmação e consolidação de duas cidades de grande beleza e força plástica e cultural.”José Manuel Fernandes, 2012 a sequência dos quatro vãos de cada lado do corpo central, este com três séries de janelas e portas, e rematado por frontão triangular, em composição simétrica; sofreu um restauro oficial em 1939-40 (pelo engenheiro Valente de Carvalho); de destacar a escadaria, o salão nobre e a biblioteca; evoca, no estilo, função e gosto, o Palácio do Governo do Recife, aliás também com projecto de 1784;– a Igreja da Misericórdia, da Santa Casa assistencial, perto do Senado, foi erigida em 1569 e sofreu obras no século XVII, tendo novo edifício construído em 1747 pelo provedor Luís Coelho, dentro do gosto corrente desta tipologia. Tal imóvel está documentado nos desenhos de Chinnery de c. de 1833; o actual edifício foi remodelado em gosto neoclássico, cerca de 1905, em dois pisos, com um corpo de três vãos avançado, sobrepujado por frontão triangular, e galerias de arco perfeito, nos dois pisos, características das outras fachadas da época, na praça onde se situa;– a Igreja de São Domingos, edificada do lado oposto do Leal Senado, corresponde ao convento fundado em 1587, entretanto desaparecido, e teve várias construções, sendo a actual resultante da obra (nova ou de remodelação) de 1721 (visível nos desenhos de Chinnery de 100 anos depois); a frontaria tripartida, com colunas duplas adossadas, em três pisos, está rematada por frontão triangular, seguindo genericamente as formas tradicionais das obras desta ordem no ultramar lusitano; dotada de três naves internas, a fachada elegante foi enriquecida, mais recentemente, com ornamentação em estuque;– a Igreja da Sé teve dignidade catedralícia em 1576, mas o correspondente edifício foi totalmente reconstruído já no século XIX, em 1844-50, com risco pelo arquitecto
  • 166 167 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – X F A L A R D E N Ó S – Xlocal Tomás de Aquino. Teve novas obras em 1873 e em 1937; o seu desenho, dentro de um neoclássico austero, apresenta fachada com três vãos, em dois pisos, rematada por frontão triangular e ladeada por duas torres, de expressão geral atarracada; a sua base conceitual, com cinco séries de vãos e duas torres baixas, evoca na proporção o templo da Igreja da Madre de Deus, setecentista, do Recife;– a Igreja de São Paulo (dos jesuítas, os ‘paulistas’) é o monumento maior de Macau, pela qualidade da fábrica, sua dimensão e espectacular implantação; após os primeiros edifícios, os Jesuítas ergueram a obra actual, a Igreja da Assunção de Nossa Senhora, anexa ao seu Colégio da Madre de Deus, sobre uma plataforma artificial, acedida por grandiosa escadaria; o plano, de três naves, e a fachada, com três tramos e tripartida, é projecto do padre Carlo Spínola, com arranque da obra por 1602-03, e a erecção da frontaria a partir de 1636; esta, única parte que resistiu ao devastador incêndio de 1835, é uma monumental e complexa edificação, com sistemas agrupados e sobrepostos de colunas jónicas, coríntias e compósitas adossadas, e está rematada por frontão triangular, sendo dotada de densa decoração em relevo, de matriz simbólica, que se reporta tanto ao tratadismo clássico como à concepção cultural luso-nipo-chinesa;– a Igreja de Santo Agostinho, do convento desta ordem, foi erigida após 1591, numa elevação perto do Senado, com uma fachada sóbria, de gosto seiscentista (forma e proporção aquadradada, portal com janela sobrepujante, frontão superior triangular), a qual deve ter sido sucessivamente recuperada ou reconstruída, nas obras de 1872-87; reabriu ao culto em 1900, e recebeu obras em 1918, 1929, 1937; o desenho geral da frontaria evoca o da Igreja de N.S. do Pilar, no Recife, também seiscentista;– a Igreja de São Lourenço, com obra inicial pela Companhia de Jesus, em 1576, foi reconstruída em 1618, e depois em 1768 (pelo Senado), recebendo muitas obras profundas no século XIX (em 1844, por Tomás de Aquino, e restauros em 1897, 1937, 1954), que lhe alteraram muito a expressão, hoje em geral de feição clássico-ecléctica (duas torres e frontão central), com um interior em elegante e decorativa cobertura de madeira;– a Igreja do Seminário de São José foi erigida em 1746-58, pelos Jesuítas, passando a seminário diocesano em 1856; foi sucessivamente alterada e/ou restaurada, em 1903, 1931 e 1953; uma fachada de grande originalidade, com forte movimentação barroca, exibe cinco tramos, separados por seis sistemas de pilastras, integrando duas torres e o frontão contracurvado; o interior é de planta centrada, e inclui uma cúpula;– a Igreja de Santo António, de significado popular e feição modesta, é das mais antigas de Macau, com um primeiro edifício em 1558-60, sendo reconstruído em 1638, de novo em 1874, e com novas obras nos anos de 1930-50; apresenta uma feição neoclássica, com torre lateral;– o Forte de São Tiago da Barra, apontado ao porto interior e ao canal entre as ilhas, foi erguido em 1622-29, após o ataque holandês, recebeu obras em 1745, e depois no século XIX;– o Forte do Monte, o mais importante de Macau, implanta-se acima das ruínas de São Paulo, e está hoje articulado com o Museu da Cidade; foi erigido com o apoio dos Jesuítas, cujo colégio com ele confinava, cerca de 1625-26; apresenta quatro baluartes,
  • 168 169 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – X F A L A R D E N Ó S – Xe recebeu obras nos séculos XVIII e XIX; recorda claramente o Forte das Cinco Pontas do Recife, pela forma, e pela importância, imponência e destino;– o Teatro D. Pedro V foi uma iniciativa da comunidade macaense em 1857-59, erigido em gosto neoclássico, nos terrenos do Largo de Santo Agostinho, cerca dessa igreja; foi projecto do arquitecto Pedro Germano Marques; em 1872 recebeu um pórtico avançado (pelo Barão do Cercal), com colunas adossadas e frontão triangular, acentuando-lhe a presença, embora situado num espaço urbano desnivelado e irregular; evoca claramente as edificações neoclássicas do Recife, nomeadamente a do seu teatro oitocentista, erigido na década anterior.”Não foi incluído nesta listagem o Farol, com a capela de Nossa Senhora da Guia, bem como outras estruturas históricas da cidade. Contudo, o autor refere as construções “dotadas de extensas ‘fachadas-arcadas’ que ocorrem em Macau, desde a época tardo-oitocentista”, como os antigos hotéis Bela Vista e Riviera (já demolido) e todo o conjunto do Largo do Senado.19 de Agosto de 2013A colecção “Missionários para o Século XXI”, do Instituto Internacional de Macau (IIM), ficou enriquecida com a publicação de mais um volume, que já é o 7.º, dedicado agora ao insigne missionário que foi o cardeal D. José da Costa Nunes, bispo de Macau, patriarca das Índias Orientais e vice-camerlengo da Santa Sé. O título é “Um Apóstolo do Oriente – Aproximação à Vida e Obra do Cardeal Costa Nunes” (IIM, Março de 2013), sendo autor José Valle de Figueiredo, poeta e ensaísta, colaborador e associado do IIM, que foi presidente do Instituto Rainha D. Leonor e coordenador cultural do Fórum da Maia.Os volumes anteriores desta apreciada colecção, que constitui uma homenagem a figuras excepcionais da Igreja em Macau, contemplaram os percursos e os legados de Lancelote Rodrigues, Joaquim Angélico Guerra, Mário Acquistapace, Benjamim Videira Pires, Manuel Teixeira e D. Luís Versiglia, este último numa edição que consagrou também o mártir Callisto Caravario.José Valle de Figueiredo seleccionou textos de dois gigantes da literatura portuguesa – Joaquim Paço d’Arcos, que foi aluno do Liceu de Macau, e Vitorino Nemésio, patrício de D. José da Costa Nunes, para ilustrar o seu trabalho, não deixando também de transcrever a proclamação do Leal Senado da Câmara de Macau, que, em 1964, o fez “cidadão benemérito de Macau”, registando este documento, bastante objectiva e exaustivamente, o “cursus honorum” do prelado português, digno de figurar na galeria dos maiores evangelizadores lusos no mundo.D. José da Costa Nunes – um apóstolo do Oriente“Era homem de alto nível intelectual e moral; açoriano da Ilha do Pico, tinha uma bela figura e nobre presença; emoldurava-lhe a face de feições muito correctas, uma barba negra bem tratada. Tinha uma voz quente e persuasiva; era muito claro e lúcido na exposição; ensinava com bondade e grande interesse. (...) Era ele, de facto, o sacerdote mais notável de toda a diocese, pregador inspirado, conferencista cheio de interesse...”Joaquim Paço d’Arcos, “Memórias da Minha Vida e do Meu Tempo” (I vol., 1973)
  • 170 171 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – X F A L A R D E N Ó S – XProclamaçãoNa proclamação do Leal Senado, onde se salienta que “a evangelização do Oriente, desde Macau a Timor e de Timor à Índia, deve a sua Eminência os mais relevantes serviços”, pode ler-se:“D. José da Costa Nunes partiu então, para a Europa, com o propósito de apresentar à Santa Sé a resignação da dignidade episcopal. Forçado, porém, a aceitá-la, veio ao seu arquipélago natal, sendo sagrado bispo, na igreja matriz da cidade da Horta, no dia 20 de Novembro de 1921.No 4 de Junho do ano seguinte, fazia a sua entrada solene na diocese, Macau, realizando uma obra do mais notável apostolado. Ainda hoje, a sua acção de grande bispo missionário é recordada com a maior admiração, nesta nossa província do Oriente, a tal ponto que, muito depois da sua retirada de Macau para ir ocupar lugares de hierarquia eclesiástica mais alta, continuou sempre a ser ‘o nosso bispo’.Para enumerar apenas algumas das suas obras materiais mais importantes, o Sr. D. José restaurou o Colégio de Santa Rosa de Lima, confiando em 1932 a direcção deste estabelecimento às Franciscanas Missionárias de Maria; inaugurou a nova e artística igreja de Santa Clara; cuidou da abertura duma Escola Chinesa (P’ui-Ching) e melhorou a Escola Portuguesa, ambas anexas à Casa de Beneficência; em 22 de Maio de 1938, inaugurou a Sé Catedral de Macau, restaurada; inaugurou em 13 de Outubro de 1935 a nova igreja da Penha; restaurou o Paço Episcopal; o seu interesse por quanto se ligasse com matéria de instrução à juventude até se traduziu na leccionação de português em escolas laicas como fosse o Liceu de Macau. Deste seu interesse e do carinho que lhe mereciam as crianças nasceu o facto de uma das escolas da cidade, que era então uma escola municipal, vir a ser denominada ‘Escola Infantil D. José da Costa Nunes’.Reabriu em 1923 as Casas Canossianas de Timor; espalhou por toda esta ilha uma bem montada rede de catequistas e inúmeras igrejas, a principiar pela igreja matriz de Díli, inaugurada em 3 de Outubro de 1937; fundou o seminário menor de Nossa Senhora de Fátima, de Soibada; concluiu, em Singapura, os dois modernos edifícios, Medeiros e Nunes Buildings; construiu o grandioso edifício onde se acha instalada a Escola de Santo António, em Singapura; ergueu, na mesma cidade, uma boa residência e capela para as Irmãs Canossianas; mandou erigir, em Malaca, uma ampla escola; fundou, em Macau e Singapura, a Acção Católica e as Conferências de S. Vicente de Paulo; etc.Um dia, célere correu nesta terra a notícia de que Sua Eminência breve partiria destas plagas. De facto, em sucessão do Patriarca das Índias, D. Teotónio Vieira de Castro, o Sumo Pontífice Pio XII elegeu o Sr. D. José da Costa Nunes, em 11 de Dezembro de 1940, Arcebispo Metropolitano de Goa e Damão, Primaz do Oriente, Patriarca das Índias Orientais e Arcebispo titular de Cranganor. Tomou posse da sua arquidiocese em 18 de Janeiro de 1942.Durante 11 anos, D. José da Costa Nunes governou a histórica e gloriosa igreja metropolitana de Goa, realizando uma acção apostólica que encheu do maior prestígio o nome de Portugal no Oriente, rasgando à vida do Patriarcado das Índias Orientais as mais vastas perspectivas. Foi o grande impulsionador da causa de beatificação do
  • 172 173 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – X F A L A R D E N Ó S – Xapóstolo de Ceilão, Venerável Padre José Vaz, sacerdote goês, cuja causa de novo introduziu em Roma. O culto de S. Francisco Xavier teve também, durante o pontificado de D. José da Costa Nunes, um incremento valioso. O mesmo se pode dizer da forma como promoveu a educação e preparação do clero missionário. Tornaram-se célebres as suas Cartas à Juventude, publicadas no órgão oficial da arquidiocese.Em 1953, após meio século de intensa actividade apostólica no Oriente Português, o Patriarca D. José da Costa Nunes pediu a sua resignação. Em homenagem ao grande Prelado Missionário, que incarnava perfeitamente o espírito de dilatação da Fé da nossa Pátria, o Papa Pio XII concedeu a Rosa de Ouro à cidade de Goa, em Setembro de 1953 e foi ainda nesse ano de 1953, em Fevereiro, que Sua Eminência, talvez sentindo-se para sempre ligado a esta terra, onde afinal tivera passado quase 43 anos da sua vida missionária, aqui voltou em romagem de saudade. E aqui foi recebido com um alvoroço como até então não havia memória.Aos 16 de Dezembro desse mesmo ano, a Santa Sé aceitou-lhe a resignação e, conservando-lhe o título pessoal de Patriarca, elegeu-o Arcebispo de Odessa e Vice-Camerlengo da Santa Sé. Passou, por isso desde então, a residir na Cidade Eterna, vindo a ocupar, mais tarde, a presidência da Comissão Pontifícia para os Congressos Eucarísticos Internacionais.Posteriormente, foi nomeado Consultor das Sagradas Congregações Romanas da Disciplina dos Sacramentos, da do Concílio, da dos Religiosos, da Fé, e da dos Negócios Eclesiásticos Extraordinários. Também é membro da Comissão Central Preparatória da Concílio Ecuménico. Desde a sua chegada a Roma, o Sr. D. José da Costa Nunes fez-se rodear de tal prestígio pelo seu talento e dinâmicas qualidades de organizador, que, em todos os Consistórios, desde então efectuados, o seu nome esteve apontado para ascender à sagrada púrpura.”Outras referências D. José da Costa Nunes sentiu sempre uma paixão enorme por esta nossa terra, sendo Macau referida constantemente nos seus abundantes textos, em que revelou qualidades de grande prosador da língua portuguesa. Neste contexto o autor seleccionou passagens bem elucidativas de artigos publicados no Boletim Eclesiástico da Diocese de Macau, em 1932 e 1935. O livro contém também provisões e notas missionárias, uma das quais particularmente relevante e muito actual, sobre a missão dos catequistas, bem como o testamento espiritual daquele “príncipe” da Igreja e um poema laudatório do padre Manuel Teixeira, intitulado “Apóstolo do Oriente”, datado de 1 de Dezembro de 1964 e divulgado através do jornal Notícias de Macau, de 11 de Dezembro do mesmo ano.26 de Agosto de 2013
  • 174 175 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – X F A L A R D E N Ó S – XA propósito da recente publicação do 7.º volume da colecção “Missionários para o Século XXI”, intitulado “Um Apóstolo do Oriente – Aproximação à Vida e Obra do Cardeal Costa Nunes” (IIM, Março de 2013), fizemos, no artigo anterior, uma sucinta apreciação do seu conteúdo e do seu significado. Foi um contributo do Instituto Internacional de Macau para recordar um dos mais ilustres missionários lusos, com acção relevantíssima no Oriente e memória ainda viva em Macau.De entre os textos que o autor, José Valle de Figueiredo, seleccionou, quisemos, pela sua importância, singeleza e impressionante serenidade, transcrever o testamento espiritual daquele prelado exemplarmente devotado ao apelo do Senhor, escrito em Roma, a 16 de Março de 1970, quando, cumprida a sua elevada missão como apóstolo da Igreja, se aproximava do ocaso da vida. Além de ser uma rigorosa peça literária, resume, em poucas palavras, um longo e riquíssimo percurso ao serviço da evangelização, merecendo a continuada reflexão de quantos se revêem na Mensagem que iluminou o seu caminho:“Fiz ontem 90 anos. De joelhos agradeço a Deus os benefícios que me concedeu durante tão longa vida e peço-Lhe perdão das infidelidades sem conta que cometi e da suprema ingratidão com que correspondi às Suas graças.O testamento espiritual de um prelado inesquecível“China, Timor, Macau, Malásia e Goa Viram passar este astro refulgenteQue meio século brilhou no Oriente!Glória da Pátria, luminar da Igreja!Ao relembrar a centenária históriaDestas Missões de que foi Prelado,Macau saúda o Cardeal amado:– Salve! Bendito seja!”Pe. Manuel Teixeira, Dezembro de 1964 Tantas coisas que fiz e não devia ter feito!Quantas outras que não fiz e devia fazer!Confio, porém, na misericórdia divina, infinitamente maior do que as minhas misérias.Nascido no seio de uma família modesta mas rica de sentimentos religiosos, desejei desde criança ser padre. Para realizar esta aspiração, que meus Venerados Pais também alimentavam, alguns obstáculos tive de vencer.Ao aproximar-se a data da minha ordenação, o Reitor do meu seminário, eleito Bispo de Macau, convidou-me a acompanhá-lo como seu secretário. Foi assim que a minha vida eclesiástica se encaminhou para as Missões do Padroado Português do Oriente, onde exerci o meu ministério por espaço de 50 anos.Quando já a minha idade avançada aconselhava a retirar-me da vida activa, Sua Santidade Pio XII colocou-me na Cúria Romana. Penaliza-me ter sido um fraco elemento junto do Soberano Pontífice, pois afeito a assuntos missionários e em contacto permanente com o mundo asiático, sentia-me impreparado para o meio burocrático do Vaticano. Contudo, a bondade do Papa João XXIII quis distinguir-me com a nomeação de Cardeal.Quando olho para o meu passado, vejo traçada uma linha bem diversa da que eu pre-meditava. E foi essa que tive de percorrer. Considerando-a já totalmente percorrida, pois
  • 176 177 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – X F A L A R D E N Ó S – Xjulgo encerrado o ciclo da minha frágil actividade, peço ao Senhor me chame numa hora boa. Santo Arsénio, que morreu no deserto com 120 anos de grande penitência, tremia ao pensar nas contas a dar no Tribunal Divino. Eu não tremo, pois, não obstante tantas fra-quezas, confio plenamente na misericórdia do Senhor. Este meu sentir não é filho, creio, de condenável presunção, antes inspirado pela certeza de que Deus espera na eternidade, de braços abertos, todos os pecadores arrependidos e todos os que O amaram na vida.Tendo ocupado, quase desde o começo da minha vida sacerdotal, cargos de mando, terei cometido erros e magoado subordinados, mas sirva-me de conforto a ideia de ter procurado sempre cumprir o que me era imposto e nunca haver ofendido voluntariamente o pessoal eclesiástico ou não eclesiástico, que de mim dependia. De ninguém conservo má disposição e a todos peço me perdoem.O meu pensamento nesta hora volve-se para as Dioceses do Oriente, que pastoreei. Ligado a essas pessoas e instituições, nunca esqueci essas terras distantes, que ainda hoje vivem bem perto do meu coração e do meu espírito.Apaixonei-me pelas Missões, pelas obras de tantos Operários da Vinha, realizadas no campo do apostolado, e pelas recordações que os antigos portugueses deixaram nesses países longínquos. O tempo, que tudo gasta, vai respeitando muitas dessas tradições nacionais, marcadas quase todas por um cunho acentuadamente religioso.Ao percorrer em serviço das Missões essas regiões orientais, notava que ordinariamente as populações nativas viviam em relativa paz, mas hoje, em muitas delas, reina a desordem e predomina a violência. Que o Senhor traga a paz para esses povos e que a Igreja possa espalhar livremente, por tão vastas regiões, o Evangelho, única garantia de levantamento moral e material dessas populações oprimidas. Entre as poucas obras que saíram das minhas mãos, uma há que me merece muito cuidado especial: a Casa de S. José, fundada na minha terra natal. Quis assim perpetuar a memória de meus Saudosos Pais, que tantos exemplos de virtude deram em toda a sua vida. Quis também beneficiar o povo da Candelária, no meio do qual me orgulho de ter nascido.A Casa de S. José, em boa hora confiada às Beneméritas Franciscanas Hospitaleiras da Imaculada Conceição, muitos benefícios já espalhou e está espalhando entre os habitantes desta povoação e outras povoações da ilha do Pico.Não tendo outros bens a deixar, deixo esta instituição à gente da terra onde nasci, esperando que todos a amparem como obra de grande utilidade, sobretudo para as gerações novas.Ignoro o dia e local do meu passamento, contudo desejo ser sepultado na Igreja de Santo António dos Portugueses, em Roma, se falecer na Itália; no cemitério da Horta, junto de meus Pais, se morrer em Portugal.Ao terminar, o meu pensamento foge para junto do Santo Padre, que nesta hora grave dirige os destinos da Santa Igreja, com suma prudência e firmeza.Prestando-Lhe os meus sentimentos de submissão e amor filial, peço ao Senhor O ilumine e fortaleça, para que possa continuar no seu posto por largos anos, servindo
  • 178 179 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – X F A L A R D E N Ó S – Xa Causa de Deus e os interesses desta sociedade, que o Espírito do Mal agita e arrasta para a revolução e a morte.Recomendando-me às orações de todos, espero exalar o último suspiro sempre unido à Cátedra de Pedro e sempre esperando na bondade de Nosso Senhor Jesus Cristo, que veio ao mundo para salvar os pecadores, venit in hunc mundum peccatores salvos facere, no dizer de S. Paulo.”D. José da Costa Nunes faleceu em Roma na tarde de 29 de Novembro de 1976, ficando sepultado na Igreja de Santo António dos Portugueses. Vinte anos volvidos, a 27 de Junho de 1997, os seus restos mortais foram trasladados para a Igreja Paroquial de Nossa Senhora das Candeias, na Candelária do Pico (Açores), terra onde nasceu a 15 de Março de 1880. A casa, que foi por ele legada para ali funcionar um jardim de infância, é agora uma casa-museu dedicada à sua memória, podendo ser visitada pelos seus conterrâneos e por muitos que ali aportam, cientes da obra relevantíssima que deixou, sobretudo no Oriente, ao serviço da Igreja.Os 38 anos passados em intensa acção missionária em Macau ligaram-no definitivamente a esta terra. “Feiticeira cidade, esta, que tanto prende quem uma vez nela viveu! Pelo seu passado, pelo seu ar antigo e moderno, pela sua mescla de orientalismo e ocidentalismo, pelo que foi e pelo que é, Macau, de todas as nossas cidades coloniais, é a mais portuguesa, a mais rica em tradições, a mais pitoresca e interessante...”. Assim escreveu no Boletim Eclesiástico da Diocese de Macau de Novembro de 1932. Continuará também a ser por nós recordado. 2 de Setembro de 2013Depois de um jantar de boas-vindas, com ementa macaense, oferecido pela Fundação Macau, tem início hoje, 9 de Setembro, no auditório do Instituto Internacional de Macau (IIM), mais um encontro de poetas chineses e lusófonos. Além da sessão de abertura e do lançamento do livro “As metades do meu Dragão”, de Manuel Pinho, diversos temas serão ali tratados até ao fim da manhã: “Fernando Pessoa aos olhos de um poeta chinês”, por Cheng Yisheng, “Um esboço sobre a poesia portuguesa contemporânea”, por Inês Fonseca Santos, “Um esboço sobre a poesia chinesa contemporânea”, por Bai Hua, e “O orfanato português: Poesia como discurso da identidade e via para uma sensibilidade revolucionária”, por Diogo Vaz Pinto.Durante a tarde, sessões paralelas com professores e estudantes terão lugar no Instituto Politécnico de Macau, protagonizadas por Fernando Pinto do Amaral e Luís Quintais (“A poesia e a construção da identidade de um povo”) e por poetas da China e de Macau na Universidade Cidade de Macau, culminando o dia no Albergue SCM, onde se realizará um convívio, enriquecido com a apresentação de poemas e a abertura duma exposição de gravura de Wang Yi.O segundo dia é dedicado a uma visita organizada e patrocinada pelo Instituto Cultural da RAEM a museus e instituições culturais, incluindo uma deslocação ao Jardim e Gruta de Camões para uma homenagem ao Poeta. A Universidade de S. José será o local de encontro, ao fim da tarde, de todos os participantes, para assistirem a palestras sobre poesia, com intervenções de Manuel Afonso Costa e Huang Lihai. O encerramento deste Encontro de Poetas Chineses e Lusófonos será feito, seguidamente, num conhecido restaurante chinês.Macau acolhe novo encontro de poetas“Macau teve como destino o ver-se protagonista do primeiro movimento da unidade do mundo, entreposto do maior fenómeno de compenetração cultural alguma vez acontecido sob o sol do planeta. De novo aquela vocação se actualiza nos tempos históricos. De novo, Macau serve de ponte às ligações mais intensas entre a China e o universo da Lusofonia.”Do prefácio de “Poetas e Poemas”, 2006
  • 180 181 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – X F A L A R D E N Ó S – XUma delegação do Centro Nacional de Cultura (CNC), chefiada pelo seu presidente, Guilherme d’Oliveira Martins, está entre nós desde Sábado, sendo este organismo cultural de natureza associativa um dos co-organizadores do Encontro. Ela integra destacadas personalidades das áreas académica e cultural, entre as quais o Prof. Roberto Carneiro, professor universitário e ex-Ministro da Educação, e o escritor António Graça Abreu.O IIM, a Fundação Jorge Álvares (FJA), o Albergue SCM, o Instituto Cultural da RAEM, a Universidade de S. José, o Instituto Politécnico de Macau, a Direcção dos Serviços de Turismo e a Fundação Macau, que subsidiou o CNC na preparação deste relevante evento, ajudaram a viabilizar o Encontro, que será mais uma marcante realização, pelo seu alto significado e oportunidade. Uma palavra de especial apreço deve ser dirigida a Yao Jingming, professor universitário, vice-presidente do Instituto Cultural e, ele próprio, poeta de reconhecido mérito (Yao Feng), que prontamente assumiu a coordenação.É também de registar o envolvimento de outros poetas residentes em Macau, como Carlos Frota, Christopher (Kit) Kelen, Manuel Tavares de Pinho, Un Sio San, Gaaya Cheng, Sou Vai Keng, Ling Gu, Bruce Lou Kit-wa, Han Lili e Song Zijiang.O Encontro de 2006Vale a pena, nesta altura, recordar o I Encontro, levado a efeito em Outubro de 2006. Foram seus co-organizadores, como também agora aconteceu, o CNC, o IIM e a FJA, cujo apoio foi determinante. Outras entidades que então colaboraram foram a Fundação Calouste Gulbenkian, o Centro UNESCO de Macau e o Elos Clube de Macau. Poetas consagrados e outros mais jovens, mas com produção literária conhecida, vieram de várias partes da China e da diáspora chinesa, de Portugal, do Brasil, de Angola e de Moçambique, para aqui participarem em inolvidáveis jornadas de convívio literário e social, que incluíram sessões de declamação de poemas e de apresentação de livros, visitas a instituições, homenagens a Camões no Jardim e Gruta que têm o seu nome e a Camilo Pessanha no Cemitério de S. Miguel, exposições, diálogos com estudantes, ofertas de livros, trocas de experiências e comunicações sobre políticas editoriais e sobre a situação actual da poesia nos respectivos países e territórios de origem ou de residência. Também se procedeu ao lançamento da 3.ª edição de “Lin Tchi-Fá – Flor de Lótus”, muito apreciado livro de poemas de Maria Anna Acciaioli Tamagnini, e de um volume reunindo poemas dos participantes.O CNC seleccionou e convidou os poetas oriundos do mundo lusófono: Fernando Echevarria, Pedro Tamen, Gastão Cruz, Fernando Pinto do Amaral, Ana Luísa Amaral, Armando Silva Carvalho, Fernando Luís Sampaio, Ana Paula Tavares e António Cícero. O grupo chinês, por seu lado, foi constituído por Duo Duo, Duo Yu, Gu Xuen, Huang Lihai, Lan Lan, Lu Weiping, Shu Cai, Tian Yuan, Yin Lichuan, Xu Jian e Yu Xiang.Como actividades complementares, tivemos uma exposição fotográfica dos poetas Yao Feng e Yu Jian, no Centro UNESCO de Macau, e uma narrativa foto-bio-bibliográfica sobre Agostinho da Silva, organizada pelo Elos Clube de Macau. No último dia do Encontro, o Consulado-Geral de Portugal promoveu uma singela cerimónia de entrega da condecoração (Ordem de Santiago da Espada, grau de oficial) concedida pelo Presidente da República Portuguesa ao professor, poeta e tradutor Yao Jingming, por altos serviços prestados à cultura portuguesa.
  • 182 183 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – X F A L A R D E N Ó S – XCoordenaram este memorável evento cultural Luís Sá Cunha e Yao Jingming, cabendo ao autor deste artigo a responsabilidade de presidir às sessões plenárias e assumir as obrigações protocolares.Poetas e PoemasA cada um dos poetas inscritos no Encontro havia sido solicitado o envio de dois poe-mas da sua autoria. Para agradável surpresa de todos, na cerimónia inaugural do Encontro estava concluído o volume contendo todos os poemas nas duas línguas, com tradução de Yao Feng e Jenny Lao. Teve por título “Poetas e Poemas – Vozes Poéticas Contemporâneas da Lusofonia e da China”. Edição do IIM, FJA e CNC, coordenada por Luís Sá Cunha, foi a expressão duradoura de vozes poéticas de dois mundos em diálogo na nossa Macau.O prefácio explicou bem a razão de ser da colectânea: “Com positivo sentido de oportunidade, ocorreu a ideia desta edição: aproveitar a realização deste ´I Encontro de Poetas Lusófonos e Chineses – Macau 2006´ para, num livro impresso, deixar mais vasta e longa memória das vozes aqui convocadas. É também importante, para quem se dedica às coisas da Cultura em Macau, o valor simbólico das edições bilingues em Português e Chinês. São famosos e reconhecidos os nomes de todos estes poetas nos seus países e províncias – mas o que é raro é vê-los em conjunto, a conviver e a conhecer mais profundamente o Outro, a partilhar condição, sonhos, angústias, saudade e fascínio da diferença, ofício de numa palavra elevar a beleza do mundo.”No encerramento do I Encontro, expressámos o desejo de idêntica iniciativa ser organizada alguns anos volvidos, uma vez assegurados os apoios e conjugados os esforços necessários. Foi essa, afinal, a vontade generalizadamente manifestada pelos poetas e pelas entidades que permitiram a sua realização em Macau em 2006. Foi, contudo, preciso esperar sete anos, até estarem de novo criadas todas as condições para levarmos a efeito este relevante empreendimento.Entreposto privilegiado de comércio e cultura, Macau deve reassumir, em todas as vertentes, a sua vocação histórica. Foi ela que justificou a sua existência e lhe proporcionou uma identidade. Os parceiros neste projecto quererão, certamente, continuar a contribuir, empenhada e generosamente, para que este desiderato seja plenamente alcançado. Como bem referiu Guilherme d’Oliveira Martins, num texto então publicado, com o título “Diálogo de Poetas”, perante o fascínio do Oriente e a necessidade de um diálogo entre lugares e pessoas distantes, “somos levados, pela poesia e pelo sentimento dos poetas, à descoberta do outro lado de nós mesmos, que está nos outros, ainda que no longe e no além”. Mas – todos concordamos – “ainda temos um longo caminho a percorrer no diálogo e no conhecimento mútuo...”. 9 de Setembro de 2013
  • 184 185 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – X F A L A R D E N Ó S – XApós dois dias e meio de intenso convívio em torno da poesia, com declamações, palestras, uma exposição de xilogravuras, debates, apresentação de edições e visitas, terminou em ambiente de festa o II Encontro de Poetas Chineses e Lusófonos que Macau acolheu na semana passada, com organização do Centro Nacional de Cultura, Instituto Internacional de Macau, Fundação Jorge Álvares e Albergue SCM, e apoios da Fundação Macau, Instituto Cultural da RAEM, Direcção dos Serviços de Turismo, Universidade de S. José e Instituto Politécnico de Macau. A sessão de encerramento, marcada pela informalidade e que contou com a presença do Cônsul-Geral de Portugal e de diversas entidades locais, estimulou uma ampla participação, com a espontânea leitura de poemas, alguns escritos na ocasião, trocas de lembranças, breves homenagens e a entoação de canções regionais chinesas portuguesas, culminando num voto unânime: o de que idêntica iniciativa seja levada a efeito, logo que oportuno, novamente em Macau, ou, como alguns defenderam, em Lisboa.Nova colectâneaÀ semelhança do I Encontro, realizado em 2006, foi também lançada uma colectânea de poemas dos participantes, a que o coordenador, o poeta Yao Feng, chamou “Navegar ou Cantar”. Seleccionámos alguns para este espaço:Navegar ou cantar – a colectânea do encontro de poetas“Os tempos estão muito enganados.O país procurava as palavras.Sem saber procurava um verso,soluçando uns números, perdia-se,perdia a voz.E então chegou o tempo dos poetas.”Diogo Vaz Pinto, “Lobos”, in “Navegar ou Cantar”, Setembro de 2013De Fernando Pinto do AmaralVersão de Li ShangyinQuando me encontro contigosofro sempre ao separar-meSofro porque não consigoencontrar no que te digopalavra que nos desarme Já sem força o vento lestefez murchar este jardime do amor que me destenão há lágrima que restenão há nada para mimO bisho-da-seda teceo seu fio até à mortee tudo o que me apeteceé que já nem eu regressee que nada mais importeNo espelho da triste auroratornou-se cinza o meu prantoe os teus cabelos agorasão nuvens que também choramesta saudade que canto* poeta chinês da dinastia Tang
  • 186 187 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – X F A L A R D E N Ó S – XDe Zheng DanyiDias melancólicos se encontram no OutonoComo posso fazer-te acreditar que isto é o OutonoQuanto tudo aquiProva o oposto!Quando a melhor vista é um vazioQuando a mais fria água pega fogoQuem sabe – colo o meu ouvidoA um sino. Quem sabe – Encomendei uma rajada de vento! Num mêsAs folhas caíramO sino esgotou o seu repiqueComo pode ter sido vinhoA privar-me do meu desgosto!Como podes tu, caminhando sozinhoTer-te tornado escravo da tua almaComo podem os pássaros, mortos há muitoSubitamente reaparecer no céu?Outono. Dias indescritíveisDias em que o fogo extingue fogoNão, como posso fazer-te acreditarQue estes são dias em que electricidade sedobra em metal! Estes são dias de apocalipse! Quando eu,para tiEscancaro a porta da morte …Agora entra. Perplexas faces, gloriosasfaces Dias melancólicos se encontram no Outono!
  • 188 189 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – X F A L A R D E N Ó S – XDe Yao FengVelho cavaloO velho cavalo está habituado ao cocheiro,aos passantese aos veículos, o que significa já habituar-se a não galopar.A sua pele, tal como uma parte do crepúsculovê-se suja, frouxa, bem próxima daescuridão.As patas ferradas tornam o caminho sem relvamais prolongado ainda.Bebendo numa barulhenta taberna da vila,vi que o cavalo baixou a cabeça e puxou com toda a forçauma carroça carregada para a rampa,mas eu não sei como dizer em sua língua:Vem beber um copo comigo!Com apresentação do Carlos Ascenso André, professor do Instituto Politécnico de Macau (IPM) e ex-director da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, foi também lançado, na sessão de abertura do encontro, o livro “Metades do Meu Dragão”, reunindo poemas de Manuel Tavares de Pinho, igualmente docente do IPM. Voltaremos ao assunto.16 de Setembro de 2013
  • 190 191 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – X F A L A R D E N Ó S – XA galeria da Delegação Económica e Comercial de Macau em Lisboa acolheu recentemente mais uma exposição de pintura de Pedro Barreiros, com temas e motivos de Macau, sua terra natal, todos os anos revisitada e, com orgulho, saber e dedicação, por ele sempre lembrada e valorizada.Personalidade singularPersonalidade polifacetada, com uma dimensão cultural e humanista que muito admiramos e respeitamos, Pedro Manuel Pacheco Jorge Barreiros é médico, professor, artista plástico, escritor, dinamizador cultural, dirigente associativo e major-general da Força Aérea Portuguesa, onde dirigiu o Instituto de Saúde e chefiou o Serviço de Medicina do Hospital da Força Aérea, além de ter presidido ao Conselho Coordenador da Saúde Militar. Também foi o comissário das comemorações do 150.º Aniversário do Nascimento de Wenceslau de Moraes e é o fundador e presidente da Associação Wenceslau de Moraes.Como médico militar, fez uma comissão em Angola e foi cooperante técnico-militar em S. Tomé e Príncipe. Licenciado em Medicina pela Universidade de Lisboa, fez o Curso de Medicina Aeronáutica na Força Aérea Francesa, em Paris, bem como um Curso Avançado da mesma valência, na Noruega, no âmbito da NATO/OTAN, e o Curso Superior de Guerra do Instituto de Altos Estudos da Força Aérea. Obteve depois, através de concurso no Ministério da Saúde, o grau de consultor de Medicina Interna.No exercício da docência, leccionou a cadeira de Fisiologia da Escola de Serviço de Saúde Militar, foi assistente convidado da Faculdade de Ciências Médicas da Macau fui eu que nasci“O olhar de Pedro Barreiros tem tempo dentro. E um amor infinito a esse pequeno pedaço de infinito chamado Macau. Mesmo após décadas de deambulação, Macau continua a ser, na feliz expressão errada da criança Pedro, ‹Fui-eu-que-nasci›.”Rui Zink, no programa da exposiçãoUniversidade Nova de Lisboa, nas cadeiras de Patologia Médica e Clínica Médica, foi professor convidado da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, na cadeira da Iniciação à Clínica, e tem regido, desde 2004, a cadeira de Patologia Geral nos cursos de Saúde da Universidade Atlântica. Apresentou trabalhos científicos em congressos médicos realizados em vários países e publicou estudos e artigos em jornais e revistas de Medicina, Arte e Cultura.É autor do romance biográfico “Danilo no Teatro da Vida”, sobre o extraordinário percurso pessoal e profissional do seu pai, Danilo Barreiros, e em parceria com sua mulher, Graça Pacheco Jorge Barreiros, da obra “José Vicente Jorge – Macaense Ilustre”, fotobiografia trilingue dedicada ao avô e que é a primeira de uma série iniciada pelo Albergue SCM. Juntos escreveram também o guião do documentário da RTP “Macau, uma Paixão Oriental”, realizado por Francisco Manso. É também de Pedro Barreiros o capítulo introdutório de “Notas sobre a Arte Chinesa”, de José Vicente Jorge, cuja primeira edição saiu do prelo em 1940.Como pintor, fez a primeira exposição individual no Porto, em 1974, estando hoje representado em colecções particulares e oficiais, em Macau, Portugal, Angola, Brasil, Cabo Verde, S. Tomé e Príncipe, Estados Unidos, França, Itália e Vaticano.Inspirado por poetas e poemas e assumindo por inteiro a famosa frase de Leonardo da Vinci “a Pintura é a Poesia que se vê, a Poesia é a Pintura que se ouve”, fez sucessivas exposições com estes sugestivos títulos: “A Clepsydra de Camilo Pessanha" (Macau, 1990), “Dez Poemas de Fernando Pessoa” (Lisboa 1991 e Macau 1993), “Frases poéticas de Cesário Verde” (Lisboa 1996), “Substantivos” (quadros a óleo pintados em S. Tomé
  • 192 193 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – X F A L A R D E N Ó S – Xe Príncipe, 1998, Lisboa), “As elegias chinesas: tradução de Camilo Pessanha (Lisboa 1999), “Frederico Garcia Lorca – interpretação” (Lisboa 2002), “Memórias das Calçadas Portuguesas” (1997, Ponta Delgada e Praia), “Memórias Antigas de Macau” (Lisboa, 1995), “Percurso por diversas técnicas (Lisboa, 2003), “Hai-Kai – Poesia Japonesa” (Lisboa, 2004), “Cesário Verde – Poeta” (Lisboa, 2005), “A Pintura é a Poesia que se vê” (Lisboa, 2006), “20 Poemas Chineses” (Lisboa, 2011) e, agora, “Macau fui eu que nasci” (Lisboa, 2013), estas duas últimas apresentadas na Delegação Económica e Comercial de Macau.Fui eu que nasciEdifícios, paisagens, símbolos, cantos e recantos de Macau de ontem e de hoje são os motivos centrais desta exposição, cujas técnicas utilizadas foram ganhando maior projecção num estilo visivelmente influenciado pela arte chinesa, que o autor, por opção pessoal e por herança familiar, muito bem conheceu, interpretou e assimilou, numa perspectiva verdadeiramente cosmopolita.O opúsculo desta exposição vale mais do que um catálogo normal que guardamos como recordação após uma visita feita a qualquer mostra artística. É que ele contém, além de uma nota introdutória de Rui Zink, um relato pessoal, que é uma peça de grande valor literário, quando o autor descreve os caminhos e as vivências da sua infância e juventude, o seu afastamento físico de Macau por mais de 40 anos e o seu reencontro com a terra da qual nunca verdadeiramente se desligou. Como lembra nesse texto, “durante todos aqueles anos tinha construído em Lisboa, o meu Macau”. “ A construção criada durante esses mais de quarenta anos, alicerçada em descrições e histórias que nos tinham sido contadas, episódios repetidos que evocavam locais de interior e de rua com gente e com coisas e com sons com cheiros com sabores, e na enorme quantidade de livros e álbuns que lia e folheava numa curiosidade e interesse permanentes”.Só em 1990 voltou a pisar o solo de Macau e não mais deixou de revisitar a terra, sua e dos antepassados, confrontando o Macau imaginário com a realidade de uma cidade que se abriu para outras vertentes e para ambiciosos desafios que a modernidade e o progresso foram impondo, mas sabendo manter algo profundamente ligado à sua identidade, talvez ameaçada, mas sempre sobrevivente. Apesar de tudo, sentiu que, afinal, tinha vivido sempre em Macau:"Durante esses mais que quarenta anos vivi sempre em Macau, nessa cidade em que tinha nascido e que tinha, ao longo desses mesmos anos, construído dentro de mim e a que regressei em Outubro de 1990.Quando desembarquei do ´hovercraft´ de Hong Kong senti-me, como se nunca tivesse saído de Macau, envolvido pelo calor húmido do Outono pelos cheiros, pelo ruído permanente com a musicalidade do falar cantonense.Desde esse primeiro retorno, após os vinte e três anos que tinham passado, e nos que se seguiram, eu e a Graça vimos a metamorfose brusca que se deu em Macau cada vez que desembarcámos, sempre com uma emoção crescente.Quadriculámos centenas de vezes a cidade horas a fio por dia, encontrando nos nossos passeios os sinais que sabíamos da nossa cidade construída e sonhada, pelas nossas recordações, leituras, conversas e imaginação.
  • 194 195 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – X F A L A R D E N Ó S – XCom um bloco de papel e uma caneta ou um lápis, parava de vez em quando para desenhar, fixando alguns ângulos como tinha por costume fazer em todas viagens que fiz.Reproduzi inúmeras vezes as mesmas cenas, sobretudo em sítios em que me pudesse sentar ao ar livre a descansar um pouco dos quilómetros andados (o que cada vez, em Macau, se vai tornando cada vez mais difícil, mesmo a pé, sobretudo ao fim de semana e nas zonas mais centrais).Essa série de blocos de desenho a preto e branco, tornaram-se, quando de regresso a Lisboa, os pontos de partida para os regressos de todos os dias a Macau." Cita, depois, o jornalista António Lopes, cujo livro “A China e os Chineses”, publicado em 1937 pela Livraria Popular de Francisco Franco, também foi para mim um dos primeiros veículos de informação sobre este gigante portentoso aqui mesmo ao nosso lado e que, em larga medida, desconhecíamos até há bem pouco tempo:“A Ásia é a Pátria da cor. Se o leitor quiser ver cores lindas e maravilhosamente combinadas, qual sonho de luz e de alegria, meta-se num vapor e vá até ao Oriente, porque aí encontrará com certeza o que deseja, e ficará agradavelmente impressionado não apenas durante os dias da viagem mas toda a vida. (...) Tudo quanto a fantasia do homem poude inventar para embriagar as pessoas por meio das cores e suas combinações, tudo na Ásia se encontra em profusão, por toda a parte e em todos as coisas”.Foi tudo isto que levou o autor a desenhar e a pintar o seu Macau, o Macau a que sempre pertenceu desde o tempo em que, “sendo um redondo zero em gramática, tentava explicar às pessoas tudo isso dizendo: Macau fui eu que nasci”.24 de Setembro de 2013
  • 196 197 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – X F A L A R D E N Ó S – XManuel Tavares de Pinho, professor do Instituto Politécnico de Macau (IPM), com larga experiência docente na China, lançou o seu livro de poemas “Metades do Meu Dragão” na cerimónia de abertura do II Encontro de Poetas Chineses e Lusófonos, a que tive a honra de presidir, na qualidade de presidente do Instituto Internacional de Macau (IIM), conjuntamente com o presidente do Centro Nacional de Cultura, Guilherme d’Oliveira Martins. Coube a Carlos Ascenso André, do IPM e ex-director da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, que também escreveu o prefácio, apresentar a obra, fazendo-o de forma estimulante e eloquente, sabendo interessar a vasta assistência durante toda a sua bem elaborada intervenção. Foi esse, de resto, um momento marcante do Encontro, quando um poeta residente em Macau, e com mais de duas décadas de permanência na China, abriu as sessões com este livro que a todos surpreendeu pela elevada qualidade, com poemas inspiradas num percurso de vida e por ricas vivências extremo-orientais, justificando o agrupamento dos poemas em “Metades da Minha Metade”, “As Metades da Raiz”, “As Metades do Céu” e “As Metades do Dragão do Meio”.Carlos André identifica essas metades: “... as metades são como linhas paralelas; paralelas até ao infinito, pois nos afiança a crença antiga que nunca se encontram, posto que a mais moderna física nos garante que hão-de encontrar-se, sim, lá onde Metades do Meu Dragão“Os poemas, escritos, todos eles, em Macau, espelham sem ambiguidades uma raiz enraizada, se é consentida a redundância, no Oriente extremo. A luz que se entreabre difusa, nos versos que evocam a infância, os odores, o canto das aves, a magia das coisas, uma espécie de panteísmo próprio de toda a poesia lírica, tudo isso só é legível à luz de Macau, da China, onde o poeta deixou, pouco a pouco, afundar as suas raízes mais tardias.”Carlos Ascenso André, no prefácio do livro o horizonte se perde de vista, se é que esse ponto existe na cartografia por inventar. São assim estes poemas, assumidamente feitos de metades. De metades, acrescente-se, dispersos pelo mundo ou, se se preferir plagiar um outro poeta, pelo mundo em pedaços repartidos, o que é o mesmo. Porque este é um percurso de viagem, de errância, de desencontro. E é, desde logo, um livro de raízes. Não, não são, apenas, as raízes na infância, na pátria distante, nesse outrora que um dia ficou adormecido no tempo sem tempo de uma idade perdida. São essas raízes, é certo, que ali estão, logo no começo, mas também outras que nascem em meio da viagem poética e um pouco por todas as páginas desconjuntadas deste livro sem arrimo nem arrumo de datas e sem fio de prumo de cronologias”.Breve nota sobre o autorManuel Tavares de Pinho nasceu em Dornelas, aldeia do concelho de Sever do Vouga (Aveiro). A sua ligação profissional à China data de Fevereiro de 1991, quando, enviado pelo Instituto Camões, abriu o leitorado no Departamento de Português da Universidade de Estudos Internacionais de Xangai, ali ficando até Julho de 1997. A seguir, foi leitor de Português na Universidade de Línguas Estrangeiras de Pequim (entre Setembro de 1997 e Julho de 2003), retornando a Xangai entre 2004 e 2006. Nestas duas cidades chinesas desenvolveu intensa actividade cultural, a par do exercício de funções docentes, tendo sido o responsável pela abertura dos primeiros cursos livres de Português em regime pós-laboral e, entre outras realizações, foi membro da comissão organizadora do 1.º Seminário Internacional de Português no Oriente e organizador das Olimpíadas de Tradução em que participaram 16 universidades de Pequim, em 2001, Ano Europeu das Línguas.
  • 198 199 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – X F A L A R D E N Ó S – XEstá, desde Outubro de 1999, vinculado ao Instituto Politécnico de Macau, como leitor na Escola de Línguas e Tradução, intervindo na formação de leitores seleccionados pelo Instituto Confúcio e na docência do Curso de Tradução–Interpretação Português-Chinês, participando também na organização do Concurso de Declamação de Poesia em Português. A sua colaboração científica e pedagógica na produção de manuais e dicionários foi muito apreciada, sendo de destacar o “Manual de Correspondência e Documentação Administrativa e Comercial, da Prof.ª Zhang Li, e o “Dicionário Prático de Verbos e Suas Regências e Guia de Conversação”, do Prof. Wei Fushan. Também colaborou na tradução de várias obras, como “O Mandarim”, de Eça de Queiroz, “Na Margem do rio Pedra eu sentei e chorei” e “O Diário de um Mago”, de Paulo Coelho.Foi agraciado com a comenda de Ordem do Infante D. Henrique, em 1997, e recebeu vários certificados e medalhas de mérito de entidades académicas chinesas. Viu publicados alguns dos seus poemas numa antologia intitulada “Estórias da Primavera”, em 2011.Dois poemasRecomenda-se a leitura do livro, publicado pela Associação de Estórias de Macau, com o patrocínio do IPM. Dele, seleccionámos dois poemas que podemos considerar representativos da visão e dos sentimentos do poeta, navegando entre mundos diversos, em “metades” que se entrecruzam na sua memória e na sua postura:Rio das PérolasHá mil braçosde água e peles brilhantesno Sul do Cataioa espera de um cais Cardumesformigueiros de juncossobem e descem, apinhados de pérolas douradas,nas águas prateadasOuvem-se berros do homem do lemeenquanto a corda prende o mar à terra e a multidão, num voo de águia, rapina os frutos do mar em cestarias de bambuO cais move-se como uma bóia corpos arregaçados, olhos amendoados só têm um olhar: o peixe-dourado que anda por ali a saltitar de cesto em cesto
  • 200 201 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – X F A L A R D E N Ó S – XMarinheiroNunca navegou em águas doces. Lágrimas de sal mil vezesinvadiram o seu rosto. Deram-lhe o estibordo de um botepara vigiar o Tejo à noite. Sem ninfas, partiu para o Trópicode Capricórnio e aí foi mestiço nas areias finas, douradasda cidade de Paulo de Novais. Fizeram-no, à força, marinheiro de uma pátria movediça, herói de uniforme na sua terra natal,mas um dia abandonou o bote e só aportou nas águas barrentasdo Rio das Pérolas. Aí, teve tudo o que sonhou! Porém, desbaratoutudo o que não ganhou: o amor, a saudade. Ficou-lhe este poema para pagar a prestações a promessa à deusa A-Ma.Do bote, nunca mais se ouviu falar no infinito do oceano!*Ficaremos a aguardar a publicação de novos títulos depois do sucesso alcançado no II Encontro de Poetas Chineses e Lusófonos, levado a efeito em Macau, de 8 a 10 de Setembro. Foram seus co-organizadores o Centro Nacional de Cultura, o IIM, a Fundação Jorge Álvares e o Albergue SCM, com apoios de diversas entidades locais.30 de Setembro de 2013
  • 202 203 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – X F A L A R D E N Ó S – XNumeroso público, constituído maioritariamente por académicos e personalidades da área cultural, com destaque para os membros do Instituto Internacional de Macau (IIM), da Sociedade Histórica da Independência de Portugal (SHIP), do Centro Nacional de Cultura (CNC), do corpo diplomático e de instituições de ensino superior, acorreu, na semana passada, ao Salão Nobre do Palácio da Independência, em Lisboa, para assistir ao lançamento da obra “Portugal – Indonésia, História do Relacionamento Político-Diplomático (1509-1974)”, coordenada por Jorge Santos Alves, professor universitário e reputado investigador, especializado na História de Portugal no Oriente. Esta edição do IIM, produzida na MaisImagem, reúne contributos de mais de vinte investigadores, portugueses e estrangeiros, em dois volumes, cada um com cerca de 450 páginas, integrando a colecção “Suma Oriental”, dedicada à presença histórica de Portugal no mundo, com especial enfoque no universo oriental.Ocuparam os lugares na mesa, presidida pelo Secretário de Estado das Comunidades Portuguesas, José de Almeida Cesário, o autor deste artigo, que coordenou a sessão, na qualidade de presidente do IIM, o general José Baptista Pereira, presidente da Assembleia Geral da SHIP, o embaixador da República da Indonésia, Albert Matondang, o presidente da Associação Luso-Indonésia para a Amizade e Cooperação, Luciano Coelho da Silva, o apresentador da obra, Lourenço de Almeida, director do CNC, e o autor, Jorge Santos Alves, que mereceu prolongados aplausos pelo seu excelente trabalho.Mais um contributo do IIM para a memória lusa no Oriente“Num momento em que as relações políticas e diplomáticas entre Portugal e a Indonésia caminhavam para uma plena normalização, em 2004, decidiu o Instituto Internacional de Macau lançar um projecto de investigação dedicado ao relacionamento político-diplomático entre os dois países. (…) Foi objectivo inicial e principal deste projecto, agora finalmente materializado em livro, a investigação da história das relações políticas e diplomáticas entre Portugal e a Indonésia, entre os séculos XVI e XX.”Prof. Jorge Santos Alves, no prefácio O impulso do IIMA publicação desta importante obra resulta do esforço conjugado de diversas entidades, assumindo o IIM a responsabilidade pela sua feitura, desde o impulso decisivo para o seu arranque até à sua protelada conclusão, depois de vencidas dificuldades de vária ordem, algumas das quais completamente inesperadas.Um elenco de qualificados académicos de vários países deu-lhe conteúdo e forma, conseguindo-se um produto final de elevado nível científico. Cinco séculos após o encontro dos portugueses com povos do sudeste asiático, era imprescindível que trabalhos relevantes como este fossem apoiados e realizados, sendo este mais um contributo do IIM para a valorização da memória lusa no Oriente.A iniciativa, bem acolhida e incentivada pelo então Ministro dos Negócios Estrangeiros do Governo da República Portuguesa, embaixador António Martins da Cruz, que não quis deixar de marcar presença nesta sessão de lançamento, desenvolveu-se na imediata sequência de um protocolo de cooperação firmado pelo IIM com o Instituto Diplomático, em 2004. A respectiva cerimónia, presidida por aquele membro do Governo, teve lugar num dos lindíssimos salões do Ministério e contou com a presença de prestigiadas individualidades, entre as quais altos funcionários do Estado, o secretário-geral da Comissão Portuguesa de História Militar e presidente do Conselho Supremo da SHIP, coronel Carlos Gomes Bessa, e o último Governador de Macau, general Vasco Rocha Vieira, chanceler das Antigas Ordens Militares e membro do Conselho de Governadores, em representação de Portugal, da Fundação Europa-Ásia.
  • 204 205 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – X F A L A R D E N Ó S – XO apoio financeiro, então acordado apenas ficara parcialmente assegurado, quando o trabalho, séria, metódica e persistentemente conduzido, estava na fase final de elaboração, com os textos já produzidos e entregues. Este problema foi ultrapassado com a entrada de mais parceiros interessados, como a Associação Luso-Indonésia de Amizade e Cooperação e a Embaixada da República da Indonésia em Lisboa. Associando-se ao IIM, e obtido também um apoio da Fundação Macau, ficou garantido, definitivamente, o suporte financeiro necessário, podendo a obra sair agora do prelo.Compreendendo sete partes (Bibliografia do Relacionamento Político e Diplomático entre Portugal e a Indonésia, As Vias do Relacionamento, Agentes da Diplomacia, Os Instrumentos da Diplomacia, As Línguas da Diplomacia, A Circulação de Informações e a Representação Cultural e O Reverso da Diplomacia – Expansionismo e Conquista), aqui ficou mais um conjunto coerente de textos incontornáveis nos estudos e cursos sobre a História da Expansão Portuguesa e sobre a presença de Portugal no Oriente.Pela dimensão e qualidade científica, não será inapropriado classificar a obra como um monumento à amizade entre povos que se conhecem há quase cinco séculos e ao prolongado relacionamento político e diplomático, muito bem caracterizado nas mais de 900 páginas deste livro.Objectivos e metodologiaJorge Santos Alves identificou assim os objectivos e a metodologia fixados para este trabalho que aceitou, em boa hora, coordenar:“Foi objectivo inicial e principal deste projecto, agora finalmente materializado em livro, a investigação da história das relações políticas e diplomáticas entre Portugal e a Indonésia, entre os séculos XVI e XX. As balizas cronológicas foram colocadas em 1509, ano dos primeiros contactos político-diplomáticos portugueses com potentados do extremo norte de Samatra (Pasai e Pidie), parte do que hodiernamente chamamos Indonésia, e 1974, data que marcou não apenas a história de Portugal, como a do próprio relacionamento entre os dois países, mormente quanto à chamada ‘ questão de Timor’, despoletada efectivamente em Agosto de 1975.Os mais de 450 anos contidos entre os dois pilares cronológicos ficaram marcados por um conjunto de factos históricos, que importa enquadrar para além do estrito âmbito da história política e diplomática. Desde logo, procurando traçar a modulação do quadro geral da presença portuguesa na Ásia do Sueste e no Mar da China. Nas suas duas vertentes: a oficial e a dos privados, portugueses e luso-asiáticos. Em seguida, destacar o papel desempenhado pelos centros da presença oficial portuguesa (Pasai, Malaca, e Ternate) e pelos núcleos de presença privada, portuguesa e luso-asiática (como Solor, Makassar, Banjarmasin e, em certa medida, Macau). De igual modo, procurar acompanhar a par e passo os ritmos da geopolítica do que hoje é espaço territorial da Indonésia, muito marcada pela ascensão e queda de ‘impérios’ (Majapahit e Mataram), sultanatos (como Aceh, Pasai, Banten, Tidore, Makassar ou Banjarmasin) e chefaturas, mesmo durante o período de domínio colonial holandês. Por fim, acompanhar a erupção dos diversos casos de negação ou fracasso do entendimento diplomático, que deram origem a projectos de conquista territorial ou de instalação de posições fortificadas, que se foram desenhando, podemos dizê-lo, desde os primórdios do relacionamento luso-indonésio na segunda década do século XVI e até aos inícios do século XIX.
  • 206 207 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – X F A L A R D E N Ó S – XUm projecto deste tipo só deve ser encarado, nos dias de hoje, se a metodologia da investigação passar pelo cruzamento crítico das informações recolhidas nas fontes escritas portuguesas, e outras europeias, com as tiradas das fontes malaio-indonésias e outras fontes asiáticas.”Foi o que se procurou, com rigor, alcançar, abarcando-se múltiplos ângulos de análise e de visão, nas sete partes em que a obra foi estruturada. Uma coordenação eficaz e os contributos competentes dos autores convocados para partilharem o seu saber de excelência foram determinantes para os resultados alcançados.Todos os intervenientes na sessão de lançamento exaltaram a oportunidade e o significado desta obra, tendo o Secretário de Estado José Cesário felicitado os autores e o IIM por mais esta expressiva realização e reiterado os propósitos de, pessoalmente e através dos serviços do seu Ministério, acompanhar e apoiar novas iniciativas neste contexto.7 de Outubro de 2013O Elos Internacional – Movimento da Comunidade Lusíada, que tem sede em Santos (Brasil) e células (clubes) fundadas junto de comunidades lusófonas, realizou a sua XXIX Convenção Internacional na cidade algarvia de Olhão, de 3 a 6 do corrente, seguindo-se, na Universidade do Algarve, em Gambelas (Faro), no dia 11, a conferência “Língua Portuguesa, Sociedade Civil e CPLP”, a primeira grande actividade da recém-constituída Comissão Temática de Promoção e Difusão da Língua Portuguesa da CPLP – Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, com mais de 200 participantes ligados ao espaço lusófono, tendo a presença de Macau sido assegurada, uma vez mais, pelo Instituto Internacional de Macau (IIM).Elos em movimento“Elismo: modernização e posicionamento no mundo contemporâneo” foi o tema desta convenção elista que é levada a efeito de dois em dois anos, tendo as duas anteriores sido organizadas em Lisboa e São Bernardo do Campo (São Paulo, Brasil). Cerca de 100 representantes dos Elos Clubes, com o de Olhão como anfitrião, debateram ao longo de dois dias e meio os principais assuntos internos do movimento, promoveram acções de convívio e elegeram a sua nova directoria para 2013 – 2015.Depois das saudações da praxe proferidas pelas autoridades presentes e do cerimonial habitual das reuniões elistas, com a “entronização” das bandeiras nacionais e dos estandartes dos clubes e a oração elista, coube a Marcelo Rebelo de Sousa, conselheiro de Estado, professor catedrático da Faculdade de Direito de Lisboa e conhecido comentador político da TVI, a pronúncia da conferência magna da sessão de abertura, centrada na criação, no desenvolvimento e nos desafios actuais Presença em duas importantes conferências no Algarve“A consolidação de um espaço linguístico comum está dependente da prática e da utilização da língua nas diversas dimensões do quotidiano e já não se basta hoje apenas com a implementação das políticas públicas.” Da nota de apresentação da conferência na Universidade do Algarve
  • 208 209 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – X F A L A R D E N Ó S – Xcolocados ao movimento elista. No decurso da sua muito apreciada comunicação, foi recordada a devoção do seu saudoso pai, Baltazar Rebelo de Sousa, ex-presidente do Elos Internacional, a este movimento que tem entre os seus principais propósitos a promoção e defesa da língua portuguesa e da memória lusíada no mundo.Na qualidade de presidente do Conselho Superior do Elos Internacional, assumi a coordenação das sessões plenárias realizadas nos dias subsequentes, ao lado da presidente internacional, Maria Inês Botelho, do Brasil. Debateram-se os novos projectos de estatutos e regulamentos do Elos Internacional, foi escolhida a cidade de Santos para sede da próxima convenção, em 2015, e procedeu-se à eleição dos novos responsáveis do movimento, que são agora José Ângelo Lobo do Amaral, dos Elos Clubes de Lisboa e de Macau (presidente), Ramiro Cruz, de São Paulo (vice-presidente), e António Abraços, do Rio de Janeiro (secretário-geral). Acções complementares, como uma exposição de fotografias de actividades elistas, a apresentação do selo comemorativo da XXIX Convenção Internacional, uma homenagem aos companheiros elistas que “proporcionaram a construção sólida do movimento elista”, a divulgação de vídeos e uma exposição de livros de autores elistas, com destaque para Maria da Conceição e Deodato Pires, de Olhão, e Fernando Cardoso, professor da Universidade Autónoma de Lisboa e membro do Elos Clube de Lisboa, conhecido pela sua meritória obra dedicada a crianças.Também foi apresentado o livro “Fragmentos Poéticos”, de António Patrício, edição da COD (Macau), com apoio e colaboração do Elos Clube de Macau, prefácio de José Augusto Seabra e oportunos e bem elaborados textos complementares de Luís Sá Cunha, além duma tese sobre Fernando Pessoa. Foi decidido também reforçar o funcionamento do Centro de Documentação e Memória Elista em Santos.Como antigo presidente do Elos Internacional, conjuntamente proposto pelos Elos Clubes de Lisboa e de Macau (eleito em São Paulo em 1999 e reeleito em Coimbra em 2001), é com especial satisfação que vejo novamente escolhido para encabeçar este movimento um elista ligado aos clubes de Lisboa e de Macau.Conferência na UniversidadeQuanto à conferência na Universidade do Algarve, reconheceu-se nela que a função de afirmação e concretização diária do uso da língua portuguesa é, natural e eficazmente desenvolvida, pela sociedade civil, sendo determinante e insubstituível o papel de associações, empresas, órgãos de comunicação social, fundações e organizações não governamentais na consolidação da língua em todo o mundo onde é falada. Procurou-se, portanto, nesta conferência, “mobilizar todos os actores desse universo para assumirem o papel que lhes cabe na afirmação da nossa língua comum como idioma estratégico de comunicação global e sensibilizá-los para as oportunidades que se desenvolvem pela partilha de uma língua franca num espaço geográfico tão alargado”.Cumpriu-se também o propósito de chamar a atenção e abrir o caminho para a projecção da grande conferência que a CPLP vai organizar em Lisboa, nos próximos dias 28 e 29, sobre a língua portuguesa como idioma de comunicação internacional, em conformidade com o Plano de Acção de Brasília respeitante à promoção e difusão da língua, onde estão expressos objectivos e procedimentos claros visando ampliar o seu uso em organizações internacionais.
  • 210 211 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – X F A L A R D E N Ó S – XApós intervenções do reitor da Universidade do Algarve, Prof. João Guerreiro, do presidente do Observatório da Língua Portuguesa, Embaixador Eugénio Anacoreta Correia, do secretário-executivo da CPLP, Embaixador Murade Murargy, do Ministro do Ensino Superior, Ciência e Inovação de Cabo Verde, Prof. António Correia da Silva, e do representante do Ministro dos Negócios Estrangeiros de Moçambique, país que tem presentemente a presidência da CPLP, coube ao Dr. Guilherme d’Oliveira Martins, presidente da Assembleia Geral do Observatório da Língua Portuguesa e também presidente do Centro Nacional de Cultura, a apresentação da comunicação de abertura, subordinada ao tema “A Sociedade Civil no Espaço de Língua Portuguesa”, através da qual foram deixadas pistas para os trabalhos desenvolvidos nas várias sessões, conforme o programa traçado que foi integralmente cumprido.Três temas foram abordados por especialistas, com muito boa participação do público presente: “A Sociedade Civil e o Ensino da Língua Portugesa”, “A Sociedade Civil e a Difusão Pública da Língua Portuguesa” e “A Sociedade Civil e o Valor Económico da Língua Portuguesa”, em sessões coordenadas pela Dra. Fátima Fonseca, da Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento, pela Dra. Maria Helena Melim Borges, da Fundação Calouste Gulbenkian, e pelo autor deste artigo, na qualidade de presidente do IIM. Seguiu-se uma antevisão da “II Conferência Internacional sobre o Futuro da Língua Portuguesa no Sistema Mundial”, feita pela Prof. Ana Paula Laborinho, da Faculdade de Letras de Lisboa e presidente do Camões – Instituto de Cooperação e da Língua, sendo a sessão moderada pelo Prof. António Dias Farinha, representante do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, cabendo ao Prof. Júlio Pedrosa, ex-Ministro da Educação e ex-reitor da Universidade de Aveiro, elaborar as conclusões que serão agora submetidas às entidades competentes.Comissão TemáticaPor decisão do Secretariado Executivo da CPLP, que tem sede em Lisboa, a Comissão Temática da Língua Portuguesa ficou constituída pelos presidentes das seguintes instituições: o Observatório da Língua Portuguesa, que assumiu a coordenação, a AULP – Associação das Universidades de Língua Portuguesa, a Fundação Calouste Gulbenkian, a Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento, o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, a Confederação Empresarial da CPLP e o IIM, cabendo-lhe promover iniciativas que visem a maior difusão da língua portuguesa, colaborando com as estruturas da CPLP e os organismos oficiais dos países-membros na difusão e execução das políticas públicas neste domínio.Todas estas entidades têm o estatuto de observador consultivo junto da CPLP, sendo o IIM o único organismo com sede em Macau a quem foi atribuído este reconhecimento. O IIM é também o representante do Observatório da Língua Portuguesa em Macau e junto de organismos académicos e culturais de países e territórios do Extremo Oriente.Múltiplas outras entidades colaboraram na realização desta conferência, cujo sucesso foi largamente aplaudido, desde a Associação Internacional de Lusitanistas e o Elos Internacional às Associações Timorense e Coração em Malaca. 15 de Outubro de 2013
  • 212 213 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – X F A L A R D E N Ó S – XLançado no mês passado em Brasília e apresentado nos últimos dias em duas instituições no Rio de Janeiro, no âmbito da 5.ª edição do seminário internacional sobre “O papel de Macau no intercâmbio sino-luso-brasileiro”, conjuntamente organizado pelo Instituto Internacional de Macau (IIM) e pelo Instituto Brasileiro de Estudos da China e Ásia-Pacífico (IBECAP), o livro “China, uma visão brasileira” teve um acolhimento muito positivo junto de altas entidades brasileiras, diplomatas, empresários e responsáveis de organizações académicas e culturais. É o 10.º volume da colecção “Milénio Hoje”, do acervo editorial do IIM.Seguir-se-ão, nas próximas semanas, sessões em Lisboa, Aveiro, Macau e Pequim, cidades onde aquele seminário se desenvolverá, respectivamente, no Centro Científico e Cultural de Macau, no Instituto Superior de Ciências da Informação e Administração, na sede do IIM e na Universidade de Estudos Económicos e de Comércio Internacional. No Brasil, as sessões decorreram no próprio Itamaraty, com a presença de membros do Governo e altos quadros do Ministério das Relações Exteriores e do Embaixador da República Popular da China, bem como na Confederação Brasileira do Comércio, Turismo, Bens e Serviços e no Real Gabinete Português de Leitura, a mais emblemática instituição cultural lusa do Brasil, ligada ao IIM através de um muito eficaz protocolo de cooperação.Obra importante e oportunaAcompanhar o desenvolvimento da China e perspectivar o seu papel de crescente relevância na cena internacional, em todos os cenários possíveis e com as interrogações Edição do IIM lançada em seminário no Itamaraty, em Brasília“A publicação desta obra do Dr. Severino Cabral em Macau e em Portugal é um evento que nos agrada, pelo que gostaria de manifestar as minhas sinceras congratulações. Acredito que este livro não só contribuirá para o aprofundamento das relações de cooperação amistosa sino-luso-brasileira, como também constitui um grande presente à comemoração, no ano que vem, do 40.º aniversário do estabelecimento das relações entre a China e o Brasil.” Li Jingzhang, Embaixador da RPC no Brasil que é legítimo suscitar em relação ao seu percurso a médio e longo prazos, tem sido um dos mais apaixonantes desafios colocados à comunidade académica, especialmente nas áreas da Ciência Política e das Relações Internacionais.Neste contexto, é importante conhecer e divulgar as reflexões e intervenções que o Prof. Severino Cabral tem feito, ao longo de muitos anos, em instituições universitárias onde vem exercendo actividade docente e, mais recentemente, através do IBECAP, de que é presidente e fundador. Foi, por isso, que o IIM, no âmbito da parceria útil que estabeleceu com o IBECAP, decidiu incluir este livro no seu plano editorial para 2013, reunindo alguns textos considerados fundamentais do autor, sobre a China, o seu devir histórico e a sua evolução presente e futura, as relações sino-brasileiras, a cooperação da China com o mundo lusófono e a antevisão de um mundo multipolar onde o Brasil e a China se afirmarão como potências incontornáveis.Esta colaboração, coerentemente prosseguida pelo IBECAP e pelo IIM, reforçou consideravelmente a capacidade de análise e de pesquisa das duas entidades e tem viabilizado a realização de estudos e seminários conjuntos em várias partes do mundo, em torno da temática atrás identificada. Os sucessos alcançados constituíram poderosos incentivos para mais ambiciosos empreendimentos, merecendo destaque o seminário internacional sobre “O papel de Macau no intercâmbio sino-luso-brasileiro”, que decorre, no corrente ano e já em quinta edição, em seis cidades de três continentes, com a participação cada vez mais alargada de outras prestigiadas instituições de natureza académica, cultural e empresarial.Comemorando-se, agora, o 10.º aniversário da criação do Fórum para a Cooperação Económica e Comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa, também tem
  • 214 215 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – X F A L A R D E N Ó S – Xsido assegurada, em quase todos os eventos organizados, uma constante e sempre ampliada promoção da missão, das potencialidades e dos resultados alcançados por este singular instrumento económico-político de cooperação avançada, cujo secretariado permanente foi, em boa hora, instalado em Macau.O precioso contributo do Prof. Severino Cabral continuará a representar uma mais-valia na elaboração e execução das múltiplas iniciativas conjuntas relacionadas com a China, sendo desejável que se possa intensificar, até por isso, ainda mais o exemplar relacionamento entre o IBECAP e o IIM, com o indispensável apoio de organizações oficiais e privadas do Brasil, da China, de Macau, de Portugal e de alguns outros países e territórios, interessados no trabalho reconhecidamente positivo levado a efeito e que estimulará, certamente, o aparecimento de novos estudos e edições ao longo dos próximos anos.Opinião do EmbaixadorConvidado a escrever o prefácio, o Embaixador Extraordinário e Plenipotenciário da República Popular da China no Brasil, Li Jingzhang, realçou deste modo o contributo de Severino Cabral para o desenvolvimento dos estudos sobre as relações sino-brasileiras e o significado da publicação desta obra no ano do 20.º aniversário da criação da Parceria Estratégica dos dois países e em vésperas do 40.º aniversário do estabelecimento das relações diplomáticas entre a China e o Brasil:“O Dr. Severino Cabral é um dos poucos estudiosos brasileiros que se dedicam ao estudo sobre a China e as relações sino-brasileiras. Encontrámo-nos várias vezes após minha chegada ao Brasil, e me inspirei imenso nas suas observações sensatas e perspicazes sobre a China e as relações sino-brasileiras. Passámos a ser amigos muito rapidamente.Tenho constatado várias qualidades preciosas dum estudioso excelente, tais como visão estratégica, pensamento independente, pragmático e empreendedor. Nos anos 90 do século passado, os significados e as influências das relações sino-brasileiras não eram vistas serem tão importantes como hoje são, e era muito raro fazer pesquisas no Brasil sobre a China e as relações sino-brasileiras. Em dezembro de 1995, o Dr. Cabral acompanhou a visita do então Presidente Fernando Henrique Cardoso à China, que foi o seu primeiro contato estreito com a China. Foi mesmo através desta visita que ele notou com sensibilidade as influências significativas a serem descobertas pelo mundo, pelo desenvolvimento da China e das relações sino-brasileiras, e a partir de então ele começou a empenhar-se no estudo do mesmo tema, e publicou em janeiro do ano seguinte a sua primeira obra sobre a China. Essa decisão tomada naquela época, incompreensível e não vista com bons olhos, passou a ser hoje entendida como perspicácia.Ao longo dos últimos 17 anos, o Dr. Cabral viaja quase todos os anos à China, tendo publicado uma série de obras com pontos de vista peculiares e conteúdos ricos. O seu estudo sobre a China não segue as ideias dos outros, nem é superficial, mas contém análises e definições independentes e previdentes sobre questões de grande importância relacionadas com a China e as relações sino-brasileiras. Os artigos incluídos neste livro demonstram a previsão dele sobre os papéis importantes da China neste mundo multipolar, e o significado estratégico do desenvolvimento profundo
  • 216 217 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – X F A L A R D E N Ó S – Xe integral das relações entre a China e o Brasil, maiores países em desenvolvimento respetivamente no hemisfério oriental e ocidental, economias emergentes, e membros do BRICS.Faz o ano corrente 20 anos do estabelecimento da Parceria Estratégica dos dois países. Ao longo dos últimos 20 anos, registaram-se avanços rápidos e integrais das relações bilaterais, fortalecimento da confiança política mútua, ampliação da cooperação pragmática em diversos domínios, alargamento do intercâmbio humano e cultural, e aprofundamento da coordenação estratégica, o que tem beneficiado os dois países e povos, e influenciado o mundo de forma mais significativa. Hoje em dia, as relações dos dois países, com a elevação para a Parceria Estratégica Global, estão cada vez mais estreitas em comparação com qualquer outro momento na história, com maiores significados estratégicos e globais, tal como previstas pelo Dr. Cabral.”O Embaixador expressou também o seu agrado por ver Macau e Portugal envolvidos na produção e promoção desta obra do fundador do IBECAP e “pioneiro no estudo sobre a China”, acreditando que ela “contribuirá para o aprofundamento das relações de cooperação amistosa sino-luso-brasileira”. 21 de Outubro de 2013Foram salientados, no artigo anterior, o significado e a oportunidade do livro “China, uma visão brasileira” (colecção “Milénio Hoje”, IIM, 2013), lançado recentemente em Brasília e já apresentado, também, no Rio de Janeiro, como importante complemento do seminário internacional, já em 5.ª edição, sobre “O papel de Macau no intercâmbio sino-luso-brasileiro”, que se realiza em seis cidades de três continentes, tendo como etapas próximas Aveiro e Lisboa, a 29 e 31 do corrente, e terminando em Macau e em Pequim, nos dias 6 e 8 de Novembro. São parceiros na organização deste seminário o Instituto Internacional de Macau (IIM) e o Instituto Brasileiro de Estudos da China e Ásia-Pacífico (IBECAP).O livro, bem recebido no Ministério das Relações Exteriores do Brasil, pela Embaixada da República Popular da China naquele país de língua portuguesa e em círculos académicos e culturais, reúne intervenções sobre a China apresentadas por Severino Bezerra Cabral Filho, professor universitário e presidente do IBECAP, a partir de 2009, a que se juntou um inédito, produzido em 2012, após a Conferência das Nações Unidas Rio+20, quando o Primeiro-Ministro Wen Jiabao elevou a um novo patamar a parceria estratégica Brasil – China. Introdução do autorNa nota de introdução, o autor explica que é chegado o tempo de dar aos seus textos, elaborados para acompanhamento de seminários e simpósios dedicados aos estudos chineses, “certa arrumação, para que sinalizem um itinerário de pesquisa que encerra a continuada busca de uma visão e um pensamento brasileiro sobre a China”. Essa busca foi constante desde os anos de juventude do autor, na década de setenta China: uma visão brasileira“Tendo conhecido Macau ainda na administração portuguesa, e tendo depois retornado já com o governo vinculado à China, pude apreciar a transição, a mudança e a permanência dos traços peculiares da Região Administrativa Especial de Macau. Foi em Macau que pude completar o ciclo de construção de uma visão brasileira da China.” Severino Cabral, na introdução ao livro
  • 218 219 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – X F A L A R D E N Ó S – Xdo século passado, especialmente após a sua formação em História na Universidade Federal Fluminense, quando foi convidado para funções docentes e para pesquisar a China no Centro de Estudos Afro-Asiáticos da Universidade Cândido Mendes. No âmbito da História das Relações Internacionais Contemporâneas, foi-se especializando, cada vez mais, no campo específico do relacionamento sino-brasileiro, aprofundando os estudos sobre o seu impacto no sistema mundial de poder e acreditando firmemente que os dois países iriam ser pilares de uma nova ordem multipolar futura.Os trabalhos então incontornáveis de Joseph Needham, John K. Fairbank, Kenneth Lieberthal, Marcel Granet, Paul Demiéville, Léon Vandermeersch, Jacques Gernet e François Jullien, entre outros, deram-lhe as bases suficientes para os seus próprios estudos, enriquecidos em visitas efectuadas à China, na verificação directa do “extraordinário processo de crescimento que elevou a maior fração da população mundial, em pouco mais de uma geração, do estágio do subdesenvolvimento ao patamar de megapotência emergente do século XXI”. Desenvolveram-se, a partir daí, os seus “encontros com intelectuais brasileiros e estrangeiros engajados no estudo e na discussão sobre o fenómeno chinês”, que lhe permitiram “evoluir na percepção de aspectos até então desconhecidos ou simplesmente deixados de lado”. Foi esse diálogo intenso com professores, intelectuais, quadros governamentais ou simples homens do povo que lhe permitiram ir construindo uma visão brasileira da China, à medida que, concomitantemente, se foi alargando a parceria estratégica entre os dois gigantes, distantes geograficamente, mas geopoliticamente mais e mais próximos.O envolvimento do autor em programas da Escola Superior de Guerra, vindo a ser membro do corpo permanente desta prestigiada instituição de altos estudos estratégicos, ampliou-lhe a perspectiva estratégico-política desse relacionamento, permitindo-lhe um contacto permanente com peritos e militares de alta patente de ambos os países.Severino Cabral é, hoje, reconhecido como uma das maiores autoridades nestas matérias. O Embaixador Extraordinário e Plenipotenciário da China classificou-o como “o pioneiro no estudo sobre a China” e louvou o aparecimento deste livro, que, através do IIM, terá, certamente, novas edições e actualizações. O IIM também se orgulha de com ele contar como um dos seus mais qualificados colaboradores.O contributo de MacauCuriosas e pertinentes são as referências do autor ao contributo e à influência de Macau no desenvolvimento dos seus estudos:“Como na ordem dos acontecimentos muitas vezes a via do saber se faz pelo encontro casual na modalidade de uma tykhe aristotélica, tal podemos dizer foi o nosso encontro com a pequena, distinta e distante Macau. Uma vinheta de pura cultura portuguesa inserta de modo permanente na enormidade da cultura e da civilização chinesa. Tendo conhecido Macau ainda na administração portuguesa, e tendo depois retornado já com o governo vinculado à China, pude apreciar a transição, a mudança e a permanência dos traços peculiares da Região Administrativa Especial de Macau. Foi em Macau que pude completar o ciclo de construção de uma visão brasileira da China.Foi inspirado em Macau, e no seu papel especial no relacionamento sino-luso-brasileiro, que, em 2004, após ter regressado da China, onde estive como membro da
  • 220 221 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – X F A L A R D E N Ó S – Xcomitiva brasileira que acompanhou a visita de Estado do presidente Lula, concebi e dei início à criação do Instituto Brasileiro de Estudos da China e Ásia-Pacífico – IBECAP. Preparando-me assim para o encerramento de minha carreira de servidor público federal, intentava dar mais um passo na construção de um think tank capaz de gerar ideias e fórmulas a serviço da estratégia nacional de projeção do Brasil no mundo ásio-oriental do século XXI. Desde então pude desenvolver em cooperação com o Instituto Internacional de Macau – IIM vários ciclos de estudos voltados para a divulgação e exploração do espaço universal da língua portuguesa. O estatuto de idioma oficial de Macau, juntamente com o chinês, faz do português uma língua de cultura ocidental não somente presente no continente asiático, mas também, e muito especialmente, no país mais populoso do mundo.Devo aos amigos Jorge Rangel e José Lobo do Amaral, respectivamente Presidente e Vice-Presidente do Instituto Internacional de Macau – IIM, o estímulo para editar este livro ‘China: uma visão brasileira’, na coleção de obras editadas pelo IIM.” Estrutura e conteúdoComo foi atrás referido, o livro é uma compilação de textos de intervenção de Severino Cabral produzidos a partir de 2009, ano em que se tornou possível reenquadrar a conjuntura internacional após a crise de 2008, que tão fortemente abalou os seus fundamentos, sendo apresentados por ordem cronológica, salvo no que concerne ao texto de abertura, que é, precisamente, um estudo dessa conjuntura e dos seus impactos na ordem interna. Intitula-se “O novo momento da relação sino-brasileira e o seu significado estratégico global”.Os outros são “O Brasil no BRIC: uma comparação analítica”; “Macau e a presença da língua portuguesa na China”; “A presença da China no sistema internacional contemporâneo”; “O diálogo estratégico sino-brasileiro”; “As relações Brasil – China e os desafios do século XXI”; “China mega-estado: nova ordem mundial multipolar”; e “Estudar a China no Brasil”. Juntam-se o programa de Estudos da China e Ásia-Pacífico da Universidade Cândido Mendes e o relatório duma viagem académica à China apresentado ao Ministério das Relações Exteriores do Brasil. Cada capítulo é acompanhado de extensa e útil bibliografia.O autor presta também uma justa homenagem aos dignos representantes da diplomacia dos dois países, que “ao longo de quase quatro décadas trabalharam, e continuam a trabalhar, pelo adensamento e aprofundamento desse especial relacionamento sino-brasileiro”, reconhecendo que a dimensão e o inestimável valor do contributo desses agentes públicos está reflectido nas palavras com que Confúcio sabiamente definiu para o Príncipe de Lu a “conduta do letrado”: “Ele não considera como coisas preciosas o ouro nem as pedrarias, mas sim a sinceridade e a boa fé”. 28 de Outubro de 2013
  • 222 223 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – X F A L A R D E N Ó S – XO V seminário sobre “O papel de Macau no intercâmbio sino-luso-brasileiro”, que teve início em Brasília, em Setembro do corrente ano, no Ministério das Relações Exteriores da República Federativa do Brasil, e que já teve sessões no Rio de Janeiro, Aveiro e Lisboa, e continua, no dia 6, em Macau, terminando dois dias depois em Pequim, contou com duas muito importantes intervenções de fundo na cerimónia de abertura: a da Embaixadora Maria Edileuza Fontenele Reis, Subsecretária-Geral do Ministério das Relações Exteriores, e a do Embaixador Extraordinário e Plenipotenciário da República Popular da China, Li Jingzhang, ambas identificando os vectores e coordenadas fundamentais das respectivas políticas externas, no que respeita às relações sino-luso-brasileiras.No momento em que o Fórum para a Cooperação Económica e Comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa, cujo secretariado permanente e serviços de apoio têm sede em Macau, comemora jubilosamente o seu 10.º aniversário, vem a propósito destacar aquelas marcantes comunicações. O seminário, realizado em seis cidades de três continentes e organizado conjuntamente pelo Instituto Internacional de Macau (IIM) e pelo Instituto Brasileiro de Estudos da China e Ásia-Pacífico (IBECAP), complementado pela divulgação das publicações que dele resultaram, incluindo mais um número da colecção “Mosaico” que já reúne aquelas duas intervenções, constitui uma homenagem ao Fórum e a quantos nele colaboraram e acreditaram, estabelecendo-o, fazendo-o funcionar com a regularidade e a eficácia desejadas, obtendo resultados compensadores para todos os países intervenientes, ampliando com estabilidade o seu âmbito de intervenção e rasgando para ele novos caminhos de cooperação e de afirmação. Coordenadas fundamentais das relações sino-luso-brasileiras“O elo histórico entre o Brasil e os países de língua portuguesa já é amplamente conhecido e está refletido na constituição da própria Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, mas a história dos países de língua portuguesa tem também, em comum, vínculos muito fortes com a China. Isso, devemos a Portugal.” Embaixadora Maria Edileuza Fontenele Reis, Subsecretária-Geral do Ministério das Relações Exteriores do Brasil, Setembro de 2013Um importante mecanismo de cooperaçãoSão da Embaixadora Maria Edileuza Fontenele Reis estas palavras muito esclarecedoras sobre o papel do Brasil neste contexto:“O Brasil reconhece, no Fórum de Macau, um importante mecanismo de cooperação entre os países lusófonos e a China. O elo histórico entre o Brasil e os países de língua portuguesa já é amplamente conhecido e está refletido na constituição da própria Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, mas a história dos países de língua portuguesa tem também, em comum, vínculos muito fortes com a China. Isso, devemos a Portugal. Portugal talvez tenha sido o primeiro país ocidental a chegar à China e o último a sair – e não saiu ainda, como o professor Severino Cabral e eu tivemos a oportunidade de constatar, ainda nos anos 1990, quando juntos integrámos a primeira missão acadêmica brasileira à Ásia. Tivemos, naquela ocasião, a oportunidade de visitar Macau, quando constatámos, muito emocionados, os fortes laços que existem ainda – os sinais da presença portuguesa em Macau. Para nós, que compartilhamos a língua portuguesa, é um elo histórico muito comovente estar em um local tão distante, na China, e descer uma rua que se chama ‘Ladeira do Bispo’, chegar até ao edifício dos Correios e Telégrafos e encontrar lugares com belíssimos remanescentes da arquitetura colonial portuguesa, azulejos portugueses, e comer um bacalhau português autêntico.O Brasil tem uma relação extraordinariamente importante com Portugal – uma relação fraterna, de laços de sangue. Comemorámos, aqui, em 2008, os 200 anos da transferência da Corte portuguesa para o Brasil, um evento muito relevante para nosso país, porque, com a transferência da Corte, foram lançadas as bases administrativas
  • 224 225 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – X F A L A R D E N Ó S – Xque depois nos capacitaram para a própria independência do Brasil. Nossa relação com Portugal resultou em uma fraterna parceria, em uma relação construtiva e em um movimento pendular de populações entre os dois lados do Atlântico, que varia, somente, ao sabor de condicionamentos da economia. Compartilhamos laços que o Brasil valoriza muito: a cultura, o idioma, a história.O mesmo eu posso dizer dos nossos amigos do outro lado do Atlântico, no continente africano, os países de língua portuguesa da África. A África ocupa um lugar de elevada prioridade na política externa brasileira, e, nesse contexto, tem um destaque muito especial a relação do Brasil com os nossos irmãos africanos de língua portuguesa. Macau é exatamente o ponto de interseção de uma prioridade da política externa brasileira, no âmbito da comunidade dos países de língua portuguesa, com essa outra grande prioridade que é a nossa relação com a China.O Fórum de Macau é um mecanismo muito vocacionado para a promoção da cooperação sul-sul. Originalmente concebido para estimular as relações de comércio e investimento, caminha cada vez mais para sua consolidação como um foro de cooperação para a promoção do desenvolvimento. O Brasil está disposto a colaborar com as atividades do Foro, em sintonia com as suas atividades de cooperação com os países de língua portuguesa na África, não só no que diz respeito ao âmbito estritamente bilateral, mas também no contexto das Reuniões de Cúpula da ASA – América do Sul-Países Africanos.”Parceria EstratégicaQuanto às relações de cooperação com a China, foi salientado o seguinte:“Procurei assinalar a prioridade que nós conferimos à nossa relação com Portugal e à nossa relação com nossos irmãos na África, em especial no plano bilateral, em que desenvolvemos importantes atividades de cooperação, comércio e investimentos. Mas eu gostaria agora de deter-me um pouco sobre a nossa relação com a República Popular da China. É uma relação extremamente significativa. Neste ano, comemoramos 20 anos do lançamento da Parceria Estratégica entre o Brasil e a China. Essa foi a primeira relação de parceria estratégica que o Brasil estabeleceu com outro pais, ainda em 1993, num momento em que o mundo estava mudando rapidamente, depois da queda do muro de Berlim, com a dissolução do bloco soviético. O mundo mudava, não se sabia muito bem em que direção, muitos presumiam que em direção a uma unipolaridade capitaneada pelos Estados Unidos, mas, naquele momento, Brasil e China reconheceram o potencial futuro do desenvolvimento de sua relação, e essa foi uma visão muito sábia e de longo prazo.Hoje, nós temos uma parceria que foi elevada, no ano passado, à categoria de Parceria Estratégica Global, porque ela reflete não só o avanço da nossa relação bilateral, mas também a coordenação entre os dois países em defesa dos interesses, em especial dos países em desenvolvimento, em fóruns multilaterais. A China é o principal parceiro comercial do Brasil. (...)Mas nossa parceria transcende muito a área econômico-comercial, e eu faria uma referência, também, ao nosso intercâmbio na área de ciência, tecnologia e inovação. Recordo que, por ocasião da visita da Presidenta Dilma à China, em 2011, nós realizamos, pela primeira vez, um importante seminário sobre a cooperação em ciência e tecnologia. (...)
  • 226 227 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – X F A L A R D E N Ó S – XCompletaremos no ano que vem 40 anos do estabelecimento de relações diplomáticas com a China. Estamos trabalhando para que essa efeméride seja marcada no mais alto nível, com uma Visita de Estado ao Brasil do Presidente Xi Jingping. Ele virá também para participar da Cúpula do BRICS, que deve ser realizada no Brasil no próximo ano. Esperamos organizar uma visita bilateral no nível da importância que conferimos à nossa relação com a China.Considerando essas três elevadas prioridades da política externa brasileira: nossa tradicional relação com Portugal; nossa relação fraterna com todos os nossos amigos, países de língua portuguesa na África; e nossa relação com a China, cuja densidade e diversidade cresce a cada ano, eu só posso reiterar que o Fórum de Macau é um traço de união entre nós, é um verdadeiro ponto de interseção. O Brasil renova o seu interesse, e o seu compromisso, de continuar cooperando para que o Fórum venha a se consolidar, cada vez mais, não só como grande promotor de comércio e investimentos, mas como um mecanismo promotor da cooperação sul-sul.” Na próxima semana, iremos apreciar as linhas de política contidas na intervenção do Embaixador da RPC. 5 de Novembro de 2013Na abertura do V seminário “O papel de Macau no intercâmbio sino-luso-brasileiro”, que decorreu no Auditório Paulo Nogueira Baptista, do Itamaraty, em Brasília, no passado dia 17 de Setembro, foi muito bem acolhida a intervenção do Embaixador da República Popular da China, Li Jinzhang, sobre o desenvolvimento das relações da China com os países de língua portuguesa e sobre o papel atribuído a Macau neste contexto. Além disso, dissertou sobre a situação actual da economia chinesa e apontou previsões optimistas do seu crescimento nas próximas décadas.Este seminário, organizado na sequência duma parceria útil e muito funcional estabelecida entre o Instituto Internacional de Macau e o Instituto Brasileiro de Estudos da China e Ásia-Pacífico, teve, entretanto, ao longo das últimas semanas, sessões no Rio de Janeiro, Aveiro, Lisboa, Macau e Pequim, onde se realizou a sua cerimónia de encerramento, com muito boa participação de quadros superiores, técnicos, professores e estudantes, na Universidade de Economia e Negócios Internacionais, onde foi recentemente criado um centro de estudos lusófonos. As vantagens de MacauO Embaixador apontou estas como sendo as vantagens principais de Macau, como “ponte de intercâmbio cultural entre a China e o ocidente”“Com o objectivo de promover o conhecimento e a amizade entre a China e os países de língua portuguesa, o IBECAP e o IIM já organizaram, com sucesso e por As vantagens de Macau nas relações sino-lusófonas“Ao abordar o intercâmbio sino-lusófono, não posso deixar de mencionar Macau. Devido à sua localização geográfica e fatores históricos especiais, Macau tem sido desde sempre a ponte de intercâmbio cultural entre a China e o ocidente, incluindo naturalmente o intercâmbio cultural entre a China e os países lusófonos.” Li Jinzhang, Embaixador da RPC no Brasil, Setembro de 2013
  • 228 229 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – X F A L A R D E N Ó S – Xquatro vezes, o Seminário ‘O papel de Macau no intercâmbio Sino-Luso-Brasileiro’. Este ano, o seminário, que terá lugar consecutivamente em seis cidades do Brasil, Portugal e China, e no qual participarão membros dos respectivos governos, especialistas de renome e demais personalidades dos diversos setores da China e dos países lusófonos, promoverá, com certeza, o desenvolvimento das relações sino-lusófonas.Ao abordar o intercâmbio sino-lusófono, não posso deixar de mencionar Macau. Devido à sua localização geográfica e fatores históricos especiais, Macau tem sido desde sempre a ponte de intercâmbio cultural entre a China e o ocidente, incluindo naturalmente o intercâmbio cultural entre a China e os países lusófonos.Como é que Macau tem desempenhado o papel de ponte no intercâmbio entre a China e os países de língua portuguesa? Do meu ponto de vista, as vantagens principais são:Primeiro, as vantagens de língua e cultura. Devido aos seus fatores históricos especiais, existem em Macau muitas pessoas bilingues que falam simultaneamente chinês e português. Tanto quanto eu saiba, nos anos 60 do século passado, quando o Governo Chinês estava a preparar a receção de delegações lusófonas, não conseguiu encontrar em Beijing nenhum intérprete que falasse português e decidiu procurar intérpretes em Macau. A partir daí, o Governo Chinês começou a aproveitar a vantagem de em Macau se falar português de maneira a formar intérpretes chinês-português, e convidou em 1961 um professor de Macau para em Beijing dar aulas de português na então Faculdade de Línguas Estrangeiras de Beijing, que constituiu a primeira turma de língua portuguesa da nova China. Ao mesmo tempo, o Governo Chinês começou, também desde aquela época, a enviar estudantes para Macau para aprender português. Bastantes colegas meus do Ministério dos Negócios Estrangeiros da China estudavam português em Macau nos anos 60 e 70. Após o retorno à pátria, sendo as línguas chinesa e portuguesa ambas línguas oficiais da Região Administrativa Especial de Macau, a vantagem da língua no ensino chinês-português e no intercâmbio sino-lusófono está cada vez mais aproveitada.Sendo fruto da convivência com mais de 400 anos das culturas oriental e ocidental, encontram-se em Macau, em qualquer lugar, construções de estilo português. E também se pode provar pastéis de nata, comida portuguesa típica e apreciar shows artísticos lusófonos como o samba. Essas características não só elevam o charme de Macau como também fazem as pessoas dos países lusófonos sentir-se em casa.Segundo, as vantagens do conhecimento mútuo e do aproveitamento de talentos. Passados mais de 400 anos desde o início dos contactos entre Macau e os países lusófonos, Macau possui redes maduras de contactos comerciais e de recursos humanos, bem como pessoas especializadas em direito, finanças e consultoria que conhecem bem culturas, hábitos e atividades comerciais sino-lusófonas. Sendo porto livre, Macau tem beneficiado desde há muito do desenvolvimento do comércio e investimento globais. A simplicidade do ambiente comercial interno e a semelhança com a Europa Continental do sistema legislativo e administrativo ajudam os países lusófonos a conhecer e a entrar no interior da China, por intermédio de Macau.Terceiro e o mais importante, a vantagem de sistema baseado na política ‘um país, dois sistemas’, que faz Macau apresentar-se com um vigor sem precedentes. Ao longo
  • 230 231 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – X F A L A R D E N Ó S – Xde cerca de 14 anos, desde o retorno à China, os princípios de ‘um país, dois sistemas’, com Macau a ser governado por gente de Macau, e o alto grau de autonomia têm sido plenamente implementados. Macau tem vivido a estabilidade social e um rápido crescimento económico, com a taxa do aumento do PIB a atingir dois dígitos durante vários anos e situando-se o PIB per capita no topo das tabelas dos países da Ásia, com as trocas comerciais entre Macau e o exterior cada vez mais intensificadas.”O charme extraordinário de MacauCompletando estas suas considerações, o Embaixador Li referiu ainda o papel muito relevante do Fórum para a Cooperação Económica e Comercial e as especiais condições de Macau como plataforma de serviços e grande centro de turismo:“Após o retorno à China, o Governo Central Chinês tem prestado a maior importância ao papel de Macau como ponte do intercâmbio entre a China e os países lusófonos e tem fornecido os apoios necessários para tal. No ano 2003 foi inaugurado em Macau o Fórum para a Cooperação Económica e Comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa, que tem promovido, desde a sua criação e de forma ativa, o fortalecimento do intercâmbio e cooperação económica e comercial sino-lusófona, o desempenho de Macau como plataforma de comunicação sino-lusófona e a promoção do desenvolvimento comum da China, dos países lusófonos e de Macau. O fórum já organizou com sucesso três Conferências Ministeriais. Vai ser realizado em Macau em Novembro próximo a 4.ª Conferência Ministerial e comemorado o 10.º Aniversário do Fórum. Os líderes da China e dos países lusófonos vão chegar a Macau para testemunhar o evento, o que com certeza promoverá a cooperação sino-lusófona.O ‘Décimo-segundo Plano Quinquenal’ da China apontou para ‘construir Macau de forma acelerada para a plataforma de serviço da cooperação empresarial e comercial sino-lusófona’, evidenciando a orientação e os apoios dados pelo Governo Central a Macau. Situado no Delta do Rio das Pérolas, a região mais rica e aberta da China, Macau possui um mercado enorme e vantagem geográfica. Os chineses dizem sempre ‘momentos oportunos, conveniências geográficas e boas relações humanas’, o que reflete hoje exactamente a situação de Macau. Atualmente, adaptando-se às novas realidades e mudanças do desenvolvimento da China e dos países lusófonos, Macau está enfrentando, de forma segura, os novos desafios. Macau está destinado a ser um grande centro mundial de turismo e lazer. O ex-primeiro-ministro chinês Wen Jiabao disse durante a sua visita a Macau no ano passado que a beleza de Macau, ao lê-la, é um poema, e ao vê-la, é um quadro. Hoje, em Macau, as culturas oriental e ocidental reúnem-se, integram-se e convivem com harmonia e encanto extraordinário. Tanto quanto eu saiba, cidadãos dos países de língua portuguesa podem entrar em Macau dispensados de visto ou com visto à chegada. Espero que os amigos, se tiverem oportunidade, se desloquem a Macau para experimentar, por si próprios, o charme extraordinário deste território.” Parabéns ao Fórum pelo seu 10.º aniversário e pela realização, com sucesso, da sua 4.ª Conferência Ministerial em Macau.11 de Novembro de 2013
  • 232 233 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – X F A L A R D E N Ó S – XNo artigo anterior, identificámos, nas palavras judiciosas de Li Jinzhang, Embaixador Extraordinário e Plenipotenciário da República Popular da China no Brasil, as vantagens de Macau como entreposto privilegiado entre a China e os países de língua portuguesa. Essa sua comunicação foi feita na sessão de abertura do V seminário sobre “O papel de Macau no intercâmbio sino-luso-brasileiro”, realizada no Itamaraty, em Brasília, no dia 17 de Setembro.Quanto às prioridades definidas e aos progressos alcançados no desenvolvimento das relações sino-lusófonas, referiu ainda aquele diplomata, escutado com o maior interesse e atenção pelas altas entidades oficiais presentes naquele marcante encontro organizado pelo Instituto Internacional de Macau e pelo Instituto Brasileiro de Estudos da China e Ásia-Pacífico:Cooperação eficaz“Hoje em dia, as relações entre a China e os países lusófonos nas áreas da política, economia, cultura, entre outras, estão constantemente a aprofundar-se e as características de globalidade, de estratégia e de benefício mútuo da sua cooperação são cada vez mais evidenciadas.Primeiro, a China é o maior país em desenvolvimento e os países lusófonos espalham-se pelos quatro continentes do mundo. A nossa população total é mais de 1,5 biliões e a superfície total ultrapassa 20 milhões de quilómetros quadrados. São países de modelos diversificados e em fases de desenvolvimento diferentes. A cooperação entre a China e os países lusófonos é uma miniatura da cooperação sul-sul, Prioridades nas relações da China com os países lusófonos“Nos últimos anos, a cooperação económica entre a China e os países lusófonos tem conseguido êxitos notáveis. (...) Ao mesmo tempo, a cooperação entre a China e os países lusófonos nos campos humano e cultural, da ciência e tecnologia, e da educação, tem conquistado progressos consideráveis.” Embaixador da RPC no Brasil, Setembro de 2013e também faz parte da cooperação entre grandes países emergentes e do diálogo sul-norte. De certo ponto de vista, a cooperação entre a China e os países lusófonos pode gerar efeitos de multiplicação e oferecer uma experiência valiosa para a promoção do relacionamento entre a China e as regiões onde se localizam estes países. Na era da globalização, a característica de globalidade da cooperação tem um significado especial para ambas as partes.Segundo, no decurso da evolução do sistema internacional, não existem divergências fundamentais e contenciosos estratégicos entre a China e os países lusófonos. A resolução da questão de Macau através de negociações entre a China e Portugal tornou-se um exemplo da resolução pacífica das questões legadas pela história entre países. Sendo promotores ativos e forças construtivas da democratização das relações internacionais e do multilateralismo, a China e os países lusófonos compartilham muitas demandas iguais e vozes comuns nos assuntos internacionais. Na área multilateral internacional, a China e os países lusófonos têm estabelecido boas relações de cooperação nas importantes organizações internacionais, nomeadamente na ONU e OMC. A China e o Brasil têm mantido estreita comunicação e coordenação nas plataformas importantes, tais como BRICS, G20, BASIC. A nível regional, os países lusófonos são alvos importantes no desenvolvimento das relações entre a China e organizações regionais, tais como UE, Mercosul, ECOWAS, SADC.Terceiro, existe forte complementaridade económica e enorme potencialidade para a cooperação com benefício mútuo entre a China e os países lusófonos. Sendo a 2.ª maior economia mundial, a China dispõe de recursos naturais e humanos, capacidade de pesquisa, invenção e produção e o maior mercado de consumo do mundo. Os
  • 234 235 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – X F A L A R D E N Ó S – Xpaíses lusófonos, quer pequenos quer grandes, possuem as suas próprias vantagens de desenvolvimento. Mesmo que se encontrem em situações distintas e processos de desenvolvimento diferentes, a China e os países lusófonos enfrentam tarefas comuns de construir os seus países e melhorar o bem-estar dos povos, contando com vantagens que são complementares entre si e um vasto futuro na área da cooperação.Nos últimos anos, a cooperação económica entre a China e os países lusófonos tem conseguido êxitos notáveis. Em 2012, o volume do comércio somou US$128,5 biliões, representando um aumento de dez vezes do volume apresentado em 2003 quando o Fórum de Macau foi criado. O Brasil e Angola já são respectivamente os maiores parceiros comerciais da China na América Latina e África. Atualmente, café, caju, azeite e vinho de boa qualidade produzidos nos países lusófonos desfrutam de boa reputação no mercado chinês, enquanto os produtos chineses de consumo quotidiano com qualidade e bom preço também são muito populares entre os consumidores dos países lusófonos.Ao mesmo tempo, a cooperação entre a China e os países lusófonos nos campos humano e cultural, da ciência e tecnologia, e da educação, tem conquistado progressos consideráveis. A China e a maioria dos países lusófonos já estabeleceram mecanismos de coordenação nas áreas da ciência, tecnologia e cultura, realizando reuniões periódicas para estudar e elaborar planos de cooperação. A cooperação sino-brasileira nos projetos de alta tecnologia constitui um exemplo da cooperação sul-sul. (...)”China-BrasilNeste contexto, pela dimensão e importância, merece evidente destaque o relacionamento entre a China e o Brasil:“Quarto, a cooperação jentre a China e o Brasil, os maiores países em desenvolvimento respectivamente no hemisfério leste e oeste e grandes países emergentes, está a tornar-se um ponto brilhante da cooperação entre a China e os países lusófonos. Hoje em dia, as relações sino-brasileiras caracterizam-se pelo desenvolvimento abrangente e acelerado e estão na sua melhor fase da história, com os frequentes contactos de alto nível, o fomento da cooperação pragmática em todos os campos e a coordenação estratégica cada vez mais aprofundada. Com a elevação para a Parceria Estratégica Global, as relações bilaterais consolidam cada vez mais a sua influência estratégica e global. (...)Atualmente, a China é o maior parceiro comercial, maior destino das exportações e maior origem das importações do Brasil, enquanto o Brasil é o maior parceiro comercial da China na América Latina. Conforme estatísticas chinesas, o volume do comércio entre a China e o Brasil do ano passado atingiu a ordem de US$86 biliões, número maior do que o entre a China e alguns países vizinhos importantes. (...)Nos últimos anos, os investimentos chineses no Brasil testemunharam um aumento notável, com o volume total superior a US$20 biliões, cujas áreas abrangem energia, metalurgia, electrodomésticos, automóveis, agricultura, maquinaria, finanças, infra-estruturas, entre outras. Ao mesmo tempo, os investimentos brasileiros na China têm aumentado ano após ano, concentrando-se principalmente no fabrico de aviões, compressores, peças auto, têxteis e vestuário, etc. O Governo Chinês continuará a encorajar mais empresas fortes e de créditos firmados a investir e atuar no Brasil, e a realizar uma cooperação de benefício mútuo, enquanto acolhe com prazer empresas brasileiras na China.
  • 236 237 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – X F A L A R D E N Ó S – XOs intercâmbios humanos e culturais entre a China e o Brasil têm-se ampliado constantemente, com os dois povos procurando um conhecimento mútuo. A China já estabeleceu 5 Institutos Confúcio e 1 Aula de Confúcio no Brasil. Nos últimos anos foram realizados uma série de eventos culturais pela China no Brasil, tais como o festival cultural, exposição de antiguidades e obras artísticas, turnés comerciais, entre outros, enquanto o Brasil realizou a Exposição Nacional na China. (...)A China e o Brasil partilham amplos interesses comuns nos assuntos internacionais. Ambos cultivam um estreito relacionamento e cooperação multilateral, nomeadamente na ONU, no G20 e nos BRICS, sobre diversos temas críticos como questões candentes regionais, a crise económica e financeira mundial, as mudanças climáticas, entre outros, contribuindo assim para a salvaguarda dos interesses comuns dos países em desenvolvimento, a promoção do desenvolvimento da ordem internacional na direção mais justa, a manutenção da paz e estabilidade mundial e o impulso da prosperidade e desenvolvimento comum.”No 10.º aniversário do Fórum de Macau, é salutar registar este balanço positivo. 18 de Novembro de 2013Foram duas tardes bem passadas no auditório principal do Instituto Politécnico de Macau (IPM), onde 24 estudantes, representando a Universidade de Macau, o IPM e seis instituições de ensino superior da República Popular da China , duas das quais de Pequim e as demais de Xangai, Xian, Cantão e Tianjin, se envolveram num intenso e animado debate, totalmente em língua portuguesa, sobre temas relacionados com a educação e o ensino superior, centrando-se a fase final em questões da sociedade, numa perspectiva jurídica e de participação cívica. Tratou-se da 4.ª edição do Concurso de Debate do Ensino Superior em Português, co-organizado pelo Gabinete de Apoio ao Ensino Superior do Governo da RAEM e pelo IPM.Como bem referiu, na ocasião, o Prof. Choi Wai Hou, director da Escola de Línguas e Tradução do IPM, “no momento em que terminaram a 4.ª Conferência Ministerial do Fórum para a Cooperação Económica e Comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa e a comemoração do 10.º aniversário do estabelecimento do Fórum de Macau, a cooperação económica e comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa entrou num novo ciclo, enfrentando novas oportunidades”. Citando o Vice-Primeiro Ministro Wang Yang, do Conselho de Estado da China, lembrou depois que uma das oito novas medidas apresentadas nesse relevante evento consiste em “criar em Macau, através da cooperação, uma plataforma para a compartilha do pessoal bilingue qualificado em português e chinês e das informações sobre a cooperação empresarial”, pelo que se destacou, “o papel primordial de Macau enquanto ponte e plataforma entre a China e os Países de Língua Portuguesa, oferecendo-nos novas oportunidades para promover o ensino da língua portuguesa e reforçar a cooperação com as empresas que procuram tradutores e intérpretes de português, o que permite alargar o âmbito de empregabilidade dos nossos futuros graduados”.Animado debate em português contou com universidades da China“O IPM está decidido, em conjunto com todas as universidades chinesas que oferecem cursos de Português, em converter Macau numa plataforma de cooperação e intercâmbio na área do ensino da língua portuguesa no contexto da China.” Prof. Choi Wai Hou, do Instituto Politécnico de Macau
  • 238 239 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – X F A L A R D E N Ó S – XDe facto, ao longo de toda a última década, para satisfazer a procura crescente de tradutores e intérpretes, as instituições de ensino superior chinesas com cursos de língua portuguesa multiplicaram-se muito significativamente. Conforme o Prof. Ye Zhiliang, responsável pela coordenação dos Estudos Portugueses na Universidade de Línguas Estrangeiras de Pequim, numa comunicação apresentada no dia 8 do corrente, num seminário em Pequim em que também fui orador, até 1999 apenas duas universidades tinham cursos de língua portuguesa (a sua e a de Estudos Internacionais de Xangai), havendo agora 18, seis das quais em Pequim.Foi neste contexto que também o IPM “tem aproveitado a sua posição geopolítica e historicamente concedida pela tradição secular forjada durante o intercâmbio intercultural entre a China e Portugal na área de ensino da língua portuguesa no sentido de promover, por um lado, o intercâmbio e mobilidades entre os estudantes e docentes das instituições de ensino superior locais e do interior da China e, por outro, elevar a qualidade do ensino da língua portuguesa, não só em Macau como também no interior da China”. E é sua profunda convicção que a realização de actividades extracurriculares como estas permite aos estudantes “alargar os seus horizontes culturais e adquirir conhecimentos que não se aprendem nas aulas”.Concursos bem participadosDesde 2006 que o IPM vem organizando o Concurso de Declamação de Poesia em Português para estudantes locais, com oito edições já levadas a efeito, tendo sido agora concluída a quarta edição do Concurso de Debate do Ensino Superior em Língua Portuguesa, sempre com interessada e mais alargada participação. Estes concursos contribuíram, igualmente, para a promoção de um intercâmbio amistoso e útil entre os estudantes de Português das universidades chinesas, aproximando-as cada vez mais de Macau, estando elas empenhadas na promoção e divulgação da língua portuguesa e na formação de tradutores e intérpretes qualificados. Acredita-se, pois, que, também neste domínio, Macau pode assumir-se como plataforma eficaz de cooperação e intercâmbio, complementando outras importantes iniciativas de natureza comercial e cultural. Conforme o regulamento, foram objectivos do Concurso de Debate promover a língua e cultura portuguesas, desenvolver a capacidade de expressão oral dos candidatos, nomeadamente a capacidade de argumentação, e fomentar o intercâmbio entre estudantes de Português de instituições de ensino superior de Macau e da China Continental, tendo os candidatos sido integrados em grupos de 3 elementos, em representação das respectivas instituições.Constituíram o júri o presidente da Associação dos Advogados de Macau, Jorge Neto Valente, o presidente da Associação dos Macaenses, Henrique Miguel de Senna Fernandes e o autor deste artigo, na qualidade de presidente do Instituto Internacional de Macau (IIM). Apurados para a final os grupos do Instituto Politécnico de Macau e da Universidade de Línguas Estrangeiras de Pequim, foi atribuído o 1.º prémio ex-aequo às duas equipas, após difícil e demorada apreciação e deliberação, tendo ficado em 3.º lugar os representantes da Universidade de Comunicação da China. Os parâmetros de avaliação tiveram em conta a relevância do conteúdo, o espírito de equipa e as capacidades linguísticas, de raciocínio e de comunicação.
  • 240 241 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – X F A L A R D E N Ó S – XMuitos professores e estudantes marcaram presença e não quiseram ser meros espectadores, chegando a manifestar, exuberantemente, o apoio aos colegas no palco, incentivando-os. Também acompanharam atentamente os despiques travados, como convidados, o Cônsul-Geral de Portugal, o presidente do Instituto Português do Oriente, o presidente da Escola Portuguesa de Macau, a directora do Departamento de Estudos Portugueses da Universidade de Macau, a presidente da Casa de Portugal e outros responsáveis, fazendo saber que uma realização como esta, até pelos propósitos que a inspiraram, merece o seu estimulante reconhecimento.Está, portanto, de parabéns o IPM pelo sucesso de mais uma bem organizada acção formativa, sendo justo salientar o trabalho preparatório de um dedicado grupo de docentes e, muito especialmente, a eficiente coordenação confiada ao professor Carlos Alves.Um gratificante convívioEm conversa com os estudantes e alguns dos seus professores, no convívio que teve lugar no átrio do IPM, fiquei a saber quais as obras da literatura portuguesa que mais apreciam e até os temas das dissertações que estão a preparar, abrangendo estudos que vão de Camilo Pessanha a Lobo Antunes e das relações sino-brasileiras à linguística aplicada. E todos acham que valeu a pena terem optado por esta área de estudos porque – foi, sem hesitação, que o disseram – “a língua portuguesa é uma língua com futuro”.Depois de uma multiplicidade de compromissos, de natureza cultural e académica, ao longo de mais duas semanas frenéticas, foi bem gratificante este salutar convívio com estudantes e testemunhar, de forma interventiva, o seu admirável esforço de aprendizagem e o enorme interesse que dedicam ao estudo duma língua que passou a ser o seu novo instrumento de comunicação e de continuada valorização cultural, bem como da sua futura afirmação profissional. 25 de Novembro de 2013
  • 242 243 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – X F A L A R D E N Ó S – XCom um agradável convívio de boas-vindas na Escola Portuguesa de Macau, marcado por muita alegria e abraços comovidos de amigos que o tempo e a distância tinham afastado, e uma sessão solene de abertura, seguida de jantar de gala, com a presença de altas entidades da RAEM, teve início auspicioso, no passado fim-de-semana, o Encontro das Comunidades Macaenses de 2013, cujo interessante e diversificado programa se desenvolverá até 7 do corrente, compreendendo hoje, 2.ª feira, uma cerimónia junto do Monumento de Homenagem à Diáspora Macaense e um debate sobre a “Identidade Macaense”, a par de uma apresentação do papel de Macau como plataforma para a cooperação económica e comercial entre a China e os países de língua portuguesa.O dia 3 foi reservado para as reuniões de trabalho do Conselho das Comunidades Macaenses, com a eleição dos titulares dos órgãos sociais para o próximo triénio, podendo os demais participantes fazer uma visita guiada a locais de interesse histórico-cultural, sendo o dia 4 consagrado à cultura macaense, com uma sessão no Centro de Actividades Turísticas promovida pelo Instituto Internacional de Macau (IIM) e outra no Jardim de Infância D. José da Costa Nunes, em que se comemorarão o 142.º aniversário da Associação Promotora da Instrução dos Macaenses e os 90 anos de funcionamento daquele modelar estabelecimento educativo, por onde passaram gerações de macaenses.Um encontro na escadaria das Ruínas de S. Paulo, para fotografia de grupo, missa e Te-Deum na Sé Catedral e um convívio juvenil no Albergue da Santa Casa da Misericórdia preenchem a tarde de quinta-feira, dia 5, sendo o dia seguinte também dedicado aos jovens da diáspora, com um passeio e um convívio gastronómico Filo-filo di Macau lóngi di su tera“Sã sonho di tudo gente,Vai di volta pa tera únde nacê...Quim nádi assi sunhá?” Adé, “Lóngi di su tera”(“Cozinhaçám maquista pa jóvi-jóvi). A festa de encerramento será no salão principal de um dos modernos hotéis do Cotai, com muita música e variada “petisqueira”.Cultura macaenseA sessão organizada pelo IIM, com o título “O papel cultural da diáspora macaense”, incluirá a apresentação de novas edições, a entrega do Prémio Identidade ao grupo Dóci Papiaçám di Macau, a doação de um quadro a óleo de Marciano Baptista e a apresentação dos projectos “Memória de Macau”, da Fundação Macau, “Recovering the History of a Lost Culture”, de Roy Xavier, director do Portuguese-Macanese Studies Project da Universidade da Califórnia (Berkeley), e da revisão e reedição do livro “Famílias Macaenses”, de Jorge Forjaz.As novas edições são “Cardeal D. José da Costa Nunes, Apóstolo do Oriente”, “Memórias do Romanceiro de Macau”, “Em Homenagem a Francisco Hermenegildo Fernandes, Camarada de Sun Yatsen” e “Reminiscences of a Wartime Refugee”, de, respectivamente, José Valle de Figueiredo, J. J. Monteiro, Fok Kai Cheong, J. P. Braga e Barney Koo, e Frederich (Jim) Silva. Mais cinco importantes títulos a juntar à vasta bibliografia da memória macaense.Passagem do testemunhoAlgumas mudanças vão ocorrer nas reuniões do dia 3 de Dezembro, na constituição dos órgãos do Conselho das Comunidades Macaenses, uma das quais será a minha substituição como presidente do respectivo Conselho Consultivo, que exerci nos últimos
  • 244 245 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – X F A L A R D E N Ó S – Xanos, devendo, também a meu pedido, deixar a presidência da Assembleia Geral da APIM, no acto eleitoral de Dezembro, embora me mantenha disponível para prestar a ambos os organismos toda a colaboração ao meu alcance.Ao longo da última década e meia, ao retomar com intensidade a actividade associativa, fui desempenhando altos cargos em variadas instituições da sociedade civil de Macau, Portugal e Brasil, mas creio ser chegada a hora da passagem do testemunho. Comecei já a fazê-lo em muitas delas. Recordar o nosso AdéQue maneira melhor de saudar os conterrâneos da diáspora do que através de versos do nosso sempre lembrado Adé? Ele dedicou este poema “a todos os amigos que se encontram longe da sua terra amada”: Lóngi di su TeraLóngi di tera amado,Su pensamento prendido ali...Vivo disconsolado,Qui di tristéza nádi sentí;Onçôm olá su vidaAbandonado na solidám,Lóngi di su quirida,Co alma inchido di iscuridám.Sã sonho di tudo gente,Vai di volta pa tera únde nacê...Quim nádi assi sunhá?Tudo anôte na ora di vai durmí,Rezá inchido di fé,Pedí estunga grándi graça:Olá di nôvo nôs-sua tera,Olá Sol nacê pramicedo,Andá na lugar únde nôs ôtrora corê...Quelê longi, quelê tánto tempo passado,Coraçám sã nádi mudá,Lôgo guardá esperánça,Vai di volta pa tera qui nôs divera querê.Únde têm más pobrézaQui unga alma vazio di amôr?Mundo nom têm belézaQuelora vida perdê su côr.Sono entristecido,Sunhá co tera únde nacê,Su coraçám dorido,Mortificado di padecê.
  • 246 247 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – X F A L A R D E N Ó S – XSão palavras de muita ternura que todos os conterrâneos conhecem. Palavras de saudade, amor e amizade que desejo também aos que vieram e aos muitos que ficaram longe, continuando a ter Macau na memória e no coração.Bem-vindos Amigos!2 de Dezembro de 2013Um dos livros lançados na sessão cultural organizada pelo Instituto Internacional de Macau (IIM) e integrada no Encontro das Comunidades Macaenses de 2013 foi “Um Apóstolo do Oriente – Aproximação à Vida e Obra do Cardeal Costa Nunes”, da autoria do escritor e historiador José Valle de Figueiredo. Nessa mesma tarde (4 de Dezembro), o livro foi, também, apresentado na cerimónia comemorativa do 142.º aniversário da Associação Promotora da Instrução dos Macaenses e do 80.º aniversário do Jardim de Infância D. José da Costa Nunes.Esta figura excepcional da Igreja e da História de Macau foi, assim, justamente homenageada e recordada, sendo este trabalho o 7.º volume da colecção “Missionários para o Século XXI”, do acervo editorial do IIM, que havia contemplado, anteriormente, os notáveis sacerdotes que foram Lancelote Rodrigues, Joaquim Angélico Guerra, Mário Acquistapace, Benjamim Videira Pires, Manuel Teixeira e Luigi Versiglia, juntamente com Callisto Caravario e outros mártires salesianos na China.Os vários capítulos do livro referem a vida e obra do Cardeal, em Macau, Timor, Goa e no Vaticano, algumas viagens, provisões, homenagens e o seu testamento espiritual. Foi, efectivamente, uma personalidade de dimensão invulgar, permanentemente ao serviço de Deus, da Humanidade e da sua Pátria.Cidadão benemérito de Macau, por deliberação unânime dos membros do Leal Senado, foi sempre muito intensa a paixão sentida por esta terra. “Feiticeira cidade, esta, que tanto prende quem uma vez nela viveu!”, exclamou num texto publicado no Boletim Eclesiástico da Diocese de Macau (Novembro de 1932), no qual também fez este veemente apelo: “Macau, terra cristã! Que jamais apagues a Luz, que te fez grande!”Vida e obra do Cardeal Costa Nunes em livro“Macau haveria de ficar-lhe para sempre no coração. Mas não ficaria por aí a sua passagem pela Ásia que já fora portuguesa. Quis a Providência que fosse pisar as terras de Roma do Oriente e aí também deixasse a sua marca.” José Valle de Figueiredo
  • 248 249 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – X F A L A R D E N Ó S – XNum artigo anterior, tínhamos já salientado as marcas mais visíveis e consequentes da sua relevantíssima acção em Macau. O autor desta biografia sintetiza assim o seu rico percurso posterior:“Em plena Guerra Mundial, D. José da Costa Nunes aportaria a Goa e aí ficaria de 1941 a 1953, data em que iria para Roma para o lugar de Vice-Camerlengo, o que foi considerado, para além do seu mérito, uma compensação a Portugal por ter-lhe sido retirado o último pedaço que lhe ficara do benemérito Padroado do Oriente. Quis a política do Vaticano que assim fosse e soprando os novos ares, o que viria ser Cardeal Costa Nunes foi o protagonista dessa nova fase das relações de Portugal com a Santa Sé, impondo-se de tal forma nas suas novas funções e conquistando tal prestígio num ambiente que à partida não lhe seria o mais favorável, acabando o seu nome por constar na lista dos que poderiam vir a ocupar o Sólio Pontifício.Mas voltemos a Goa.A sua vinda, no escrever do prestigiado publicista goês Renato de Sá, ‘constituiu um acontecimento relevante na época e nesta antiga Roma do Oriente, onde há muito haviam chegado os ecos da sua acção como Prelado, Homem de Letras dos mais distintos e Orador Sacro’.Logo nos primeiros tempos, encarregar-se-ia de imprimir novo dinamismo à acção pastoral, pois ‘num golpe de vista’, abarcara a ‘essência das coisas e dos problemas que necessitavam de solução imediata’. (Renato de Sá)Concluiu a construção do indispensável seminário menor de Saligão, em Bardês, pôs termo à discriminação que existia em muitas das irmandades goesas que atendiam à origem de casta em prejuízo da condição de cristãos. Foi uma pequena revolução para a época e para o território.Intensificou extraordinariamente os contactos directos com os fiéis, percorrendo toda a Arquidiocese – visitou todas as cento e setenta e cinco paróquias! – estava sempre em contacto com os seminários, especialmente o de Rachol; as suas Homílias aos Domingos na capela do Paço Patriarcal de Pangim arrastavam multidões, ao mesmo tempo que contribuía para a formação do clero através das suas magníficas e sempre atentas ‘Cartas aos Sacerdotes’. A admiração tributada pelo povo goês não tinha medida, bem como a dos católicos das paróquias da Índia inglesa pertencentes à Arquidiocese e que também visitou uma a uma.Organizou as retumbantes festas do IV Centenário de S. Francisco Xavier, fundou o Convento das Carmelitas Contemplativas, a Escola de Artes e Ofícios dirigida pelos Padres Salesianos, as Conferências Vicentinas, o Montepio do Clero, a Casa dos Estudantes de Pangim, etc., etc.Promoveu a sagração episcopal de dois sacerdotes goeses: D. Altino Ribeiro de Santana, Bispo de Sá da Bandeira, e D. José Colaço, Bispo de Cabo Verde, para além de ter escolhido missionários de Goa para Timor, Angola, Moçambique, etc.Um ilustre goês, professor da Universidade de Bombaim, Jorge de Moraes, sintetizou deste modo a sua acção: ‘Na verdade, o Cardeal Costa Nunes foi um dos maiores homens da Igreja que Portugal mandou para o Oriente’.
  • 250 251 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – X F A L A R D E N Ó S – XEm 1953 é dado fim à sua permanência como Patriarca das Índias Orientais. Vai para Roma. O Papa Pio XII mantém-lhe o título pessoal de Patriarca, é nomeado Arcebispo titular de Odessa e Presidente das Comissões dos Congressos Eucarísticos, sendo também Consultor de Cinco Congregações Romanas.Em 19 de Março de 1962, o Papa João XXIII fá-lo Cardeal, com o título de Santa Prisca. Em 29 de Novembro de 1976, pelas 15h e 12m, o Cardeal D. José da Costa Nunes, em Roma, parte para o Céu.Conforme foi seu desejo, caso falecesse em Roma, ficou sepultado na Igreja de Santo António dos Portugueses.A 27 de Junho de 1997, os restos mortais do Cardeal foram solenemente trasladados para a Igreja Paroquial de Na. Sra. das Candeias, na Candelária, ilha do Pico, Açores. D. José nascera nessa localidade a 15 de Março de 1880 e deixou a sua casa para um jardim de infância que se encontra transformado em casa-museu, dedicada à sua memória.”O Cardeal Costa Nunes será perenemente lembrado em Macau no jardim de infância que ostenta orgulhosamente o seu nome e o tem como referência e patrono. Este livro permitirá a promoção mais alargada do conhecimento da sua obra e do seu exemplo para as novas gerações de Macau.10 de Dezembro de 2013Lançado em Setembro, no auditório do Instituto Internacional de Macau (IIM), o livro “Memórias do Romanceiro de Macau”, de J. J. Monteiro (IIM, Maio de 2013), voltou a ser apresentado, juntamente com quatro outras novas edições, numa concorrida sessão cultural integrada no Encontro das Comunidades Macaenses e levada a efeito no dia 4 de Dezembro, no Centro de Actividades Turísticas. Esta obra, que é a história do autor em verso, antes da sua partida, em 1939, para Macau, como soldado corneteiro do Exército Português, complementa uma outra, em dois volumes, intitulada “Meio Século em Macau” (IIM, Novembro de 2010), em que o mais insigne poeta popular de Macau relatou, também em verso, a sua pitoresca e intensa vida neste território que acabou por ser o seu lar permanente, aqui deixando o mundo dos vivos em Fevereiro de 1988.A publicação de “Memórias de um Romanceiro de Macau” e as duas sessões públicas organizadas, a primeira das quais marcada por uma memorável intervenção da escritora Beatriz Basto da Silva, constituíram uma justíssima homenagem ao poeta-soldado de Macau, no ano do centenário do seu nascimento.Uma oportuna evocaçãoUm dos seus filhos, José Joaquim Monteiro Júnior, médico em Lisboa, produziu, na ocasião, uma sentida e oportuna evocação, parte da qual é reproduzida neste espaço:“Foi há 25 anos, mais precisamente na fatídica manhã de 22FEV1988, que Deus quis pôr termo ao seu sofrimento, e suspender o silêncio da minha latente dor, longamente dissimulada por uma ingénua expectativa no poder milagroso da fraca Medicina. O Memórias do Romanceiro de Macau“Este folhoso caderno / Dedico aos meus bons filhinhos / Como eco sempre eterno / Dos meus cantos pobrezinhos.” J. J. Monteiro, “Memorial das minhas divagações poéticas”
  • 252 253 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – X F A L A R D E N Ó S – Xano de 2013 congrega o memorável marco do centenário do seu nascimento. Num momento tão carregado de significado é da mais sacramental justiça homenageá-lo de modo muito especial. Homenageá-lo é honrar a sua memória, é dar a conhecer a sua pessoa, a sua vida e a sua obra. Nunca é demais recordar as obras já publicadas da sua autoria: “A Minha Viagem para Macau”(editada em 1939), “A História de um Soldado” (com 4 edições, 1940, 1952, 1963 e 1983), “De Volta a Macau”(com 2 edições, 1957 e 1983), “Macau Vista por Dentro” (editada em Dezembro de 1983), “Anedotas, Contos e Lendas” (editada em Fevereiro de 1989) e “Meio Século em Macau” (editada em Novembro de 2010).A presente obra relata em poemas muito sofridos os primeiros anos da vida do autor, uma vida nunca antes revelada aos seus leitores e amigos. Aliás, esta obra tinha como únicos destinatários os filhos, a quem o autor quis-lhes dedicar, e deixar-lhes o testemunho do seu passado. Começou a escrever estas suas memórias quando tinha 53 anos de idade, e reconheceu, desde logo, que iria até onde a Divina Providência lhe permitisse, com a promessa de nada omitir, nem mesmo os seus erros e pecados. Tratando-se de um espólio tão soberbo em poesia, e com tão admirável elevação, seria injusto e de um reprovável egoísmo guardá-lo exclusivamente para nós, os filhos do autor. Por isso, procedemos à transcrição de uma parte dos seus manuscritos, a que será dada à estampa para poder ser partilhada com quem o conheceu de perto, ou com quem sabe apreciar a sua arte.Aproveito este momento para retratar alguns episódios da sua vida, e também, pelas reminiscências da minha memória, reviver, com emoção, a minha vida ao seu lado. Nesta retrospecção, começo por realçar a sua particularidade de, em todos os instantes mais duros da vida, ter sido sempre capaz de fazer apelo à sua força anímica no sentido de ser encontrada a melhor resposta aos problemas, sem nunca macular a sua índole pessoal. Assim, teve o mérito de legar aos seus descendentes a incomensurável herança do saber lutar e sobreviver às adversidades da vida com humildade, humanidade, simplicidade e resignação cristã, a par da sua façanha na conversão de tristezas em alegrias como só um grande artista é capaz. Viveu a sua infância privado do fundamental. O afecto das tias que mais o acarinhavam cedo perdeu, fatalmente atingidas pela peste. Ficou reduzido e entregue aos cuidados da sua avó Joana, que, a dada altura, passou a ser a sua única companheira na vida. Os momentos mais felizes desta sua curta infância viveu-os no Pará-Brasil, com o companheirismo e a amizade nunca esquecidos do seu único irmão.O seu regresso do Brasil, e subsequentemente o retorno ao Bunheiro, com cerca de 10 anos de idade, representou o fim da sua infância, e uma nova etapa na sua vida. Foi a aridez de uma vida campestre, numa luta feroz ao lado da sua avó Joana, onde quase tudo lhes faltava, e onde do pouco ou nada se remediavam para a sobrevivência de ambos. Frequentou a escola apenas durante um único trimestre lectivo, vendo-se obrigado a desistir para poder aplicar-se à lavoura e a ajudar a sua avó na criação de alguns escassos animais, limitados a um porco, umas poucas ovelhas e uma vaquinha. Acabou por ter que ir servir como moço de lavrador, no Monte da Murtosa. Aos 11 anos de idade foi mandado servir para Lisboa, começando por andar com cabazes e sacos às costas, como marçano de mercearia e moço de armazém. Trabalhou em casa de vinho, carvoaria e alfaiataria. Aos 17 anos entregou-se a uma vida mais libertina. Andou desempregado, dormiu em vãos de escadas, passou fome, e, nada mais havendo, oferecia ajuda às peixeiras da Ribeira Nova a troco de umas tecas de peixe que vendia
  • 254 255 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – X F A L A R D E N Ó S – Xpor uma bagatela. Foi vendilhão ambulante, vendeu cautelas, foi engraxador de rua em rua. Entendeu a fome como a melhor lição da sua vida, quando já não havia porta onde bater para repousar o corpo e comer uma bucha de pão, vendo sugadas todas as ilusões da sua vida. Acabou por assentar praça voluntariamente aos 19 anos de idade, numa tentativa de escape a tanta privação. Meu pai! Pecado seria, depois de conhecer melhor a história da sua vida, quedar-me nos seus erros e imperfeições, próprios de qualquer ente humano, e não o enaltecer publicamente por tão bem ter sabido rumar por caminhos de irrefutável nobreza humana, nunca se deixando perder por tentações mundanas. A grande lição que me deixou foi o exemplo da sua vida de persistente combate, pautada pela firmeza de um comportamento de honestidade e de invejável integridade moral, sem nunca olhar a facilitismos, mas antes à pureza da alma. (...)Sinto-me incapaz de enumerar exaustivamente todas as memórias e emoções que tive o privilégio de partilhar consigo, seja pela sua vestidão, seja por traiçoeira amnésia. Existe uma riqueza infinita de acontecimentos que só o viver pobre proporciona. Por maior que seja a vontade, a sua descrição não caberia em nenhum livro, por mais extensa que fosse a sua dimensão. Tenho em si a maior ligação da minha vida. Sempre soube transmitir alegria onde apenas podia haver tristeza, humildade como mais sábia resposta perante prepotências, humanidade junto de quem sofre, simplicidade independentemente de maior conhecimento ou condição social, e resignação cristã quando a ventura não nos acompanha. Nada na sua vida o pode envergonhar, nem a si, nem à sua família. Nada do que fez ou aprendi consigo carece de ser blindado, porque tudo em si foi sempre transparente, e tudo o engrandece. Apesar do seu corpo franzino, foi um acérrimo lutador em vida e até contra a morte, com provas dadas de grande bravura. Neste olhar retrospectivo, tudo em si me fascina. Sinto o maior orgulho e desmedidamente vaidoso por ser seu filho.”São palavras de ternura e reconhecimento que podem ser lidas, integralmente, no prólogo do livro, cujos versos surpreendem, tanto na forma como no conteúdo, revelando o talento e a sensibilidade do autor.16 de Dezembro de 2013
  • 256 257 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – X F A L A R D E N Ó S – XA quadra festiva tem sido marcada, como habitualmente, por numerosas festas particulares e de organismos associativos, escolas, serviços públicos e entidades empresariais, além de variadas sessões musicais e actividades religiosas que celebram a chegada do Deus Menino. Especialmente gratificante foi, neste contexto, o memorável Concerto de Natal da Orquestra de Macau, levado a efeito no Grande Auditório do Centro Cultural de Macau na noite de 17 de Dezembro, com boa adesão do público, no meio do qual era visível muita juventude.Com duas partes bem distintas, a primeira das quais integralmente instrumental, enriquecida com a participação do virtuoso artista convidado, Ryu Goto, que deliciou a assistência com os seus maviosos solos de violino, quatro coros locais actuaram conjuntamente após o intervalo, entoando cânticos de Natal do maestro e compositor britânico John Rutter, fundador e director dos famosos Cambridge Singers e amplamente reconhecido como o melhor compositor contemporâneo de música coral. Dele são os conhecidos “All Things Bright and Beautiful”, “For the Beauty of the Earth”, “Look at the World” e “Jesus Child”, muito bem interpretados na ocasião. Para corresponder aos aplausos da assistência, foi ainda cantado o “Joy to the World”. Parabéns aos coros do Instituto Politécnico e do Conservatório de Macau, ao Coro Juvenil de Macau e ao coro Dolce Voce pela muito agradável presença.Trechos da “Música para os Reais Fogos de Artifício”, imortal criação de Händel, especificamente composta para a celebração de um espectáculo de fogo de artifício realizado no Green Park de Londres no dia 27 de Abril de 1749, no reinado de George II de Inglaterra, abriram o concerto. Seguiram-se outros, de Camille Saint-Saëns – “Introdução e Rondo Caprichoso” para violino e orquestra em lá menor, Op. 28, de Natal com a Orquestra de Macau“Nos últimos vinte anos, a Orquestra tem desempenhado um importante papel no panorama musical de Macau. Desde 1989, participa anualmente no Festival Internacional de Música de Macau e no Festival de Artes de Macau.” Do programa do concerto de Natal1863, com a sua linha melódica e reflexiva e uma dramática transição, terminando com uma série sempre surpreendente de rápidas escalas e arpégios de altos e baixos de violino, levando a um final empolgante, e de Pablo de Sarasate – “Ares Ciganos”, Op. 20, de 1878, com as suas duas secções deslumbrantemente contrastantes, passando da introdução orquestral predominante para um floreado apaixonante assumido vigorosamente pelo violinista solista.Ryu goto e Francis KanRyu Goto foi, até por isso, uma excelente escolha e a expectativa do público foi completamente satisfeita, quando exibiu as suas variações brilhantes e arrebatadoras num Stradivarius de 1722, cedido pela Nippon Music Foundation. Apesar de ainda muito jovem, o seu talento é mundialmente reconhecido, tendo actuado em muitas das principais orquestras, como a London Phillarmonic, a Wiener Symphoniker, a European Union Youth Orchestra, a Hamburger Symphoniker, a Vancouver Symphony, a Sydney Symphony, a China National Symphony, a Shanghai Symphony, a China Phillarmonic, a Münchner Philarmoniker e a National Symphony Orchestra, e em salas emblemáticas como Carnegie Hall, Kennedy Center, Tokyo Suntory Hall, Sydney Opera House, Musikverein (Viena), Herkulessaal (Munique), Salão Nacional de Concertos de Taipé e Grande Teatro de Xangai. Grava, presentemente, para a Deutsche Grammophon em colaboração com a Universal Classics Japan.A presença deste artista entre nós foi uma excelente prenda de Natal. Nos ensaios, no palco do Teatro D. Pedro V, mostrou-se agradavelmente impressionado com a beleza daquele recinto que Austin Coates classificara como o “mais bonito pequeno
  • 258 259 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – X F A L A R D E N Ó S – Xteatro do mundo, ao lado de La Fenice”. E vai, certamente, levar de Macau as melhores recordações.Conduziu a Orquestra de Macau Francis Kan, seu maestro assistente, que é, simultaneamente, maestro da Orquestra do Conservatório de Macau, depois de ter colaborado com a Hong Kong Chamber Orchestra, a Hong Kong Sinfonietta, a Hong Kong City Chamber Orchestra e a Orquestra Sinfónica Pan-Asiática, além da Orquestra da Universidade de Hong Kong, como seu maestro principal.Formado na Hong Kong Academy for Performing Arts e na Guildhall School of Music and Drama de Londres, Francis Kan ganhou o Grande Prémio no Concurso Internacional para Jovens Directores de Orquestra em Portugal, tendo ficado ligado, como maestro, à Orquestra Metropolitana de Lisboa, à Orquestra Nacional da Rádio-Televisão da Roménia, à Orquestra Filarmónica de Bucareste e à British Columbia Chamber Orchestra, além da Orquestra Juvenil da Ásia, no âmbito duma digressão internacional pelo Oriente e pelos Estados Unidos. Foi bom voltar a vê-lo, seguro e confiante, competentemente à frente da Orquestra de Macau.20.º aniversárioFundada em 1983 na Academia de Música S. Pio X, por iniciativa do saudoso e sempre lembrado compositor Pe. Áureo Nunes de Castro, que também foi meu professor de Música e Canto Coral e um notável e consequente promotor de actividades musicais e criador do magnífico Grupo Coral Polifónico, a Orquestra de Macau integrou-se, logo no ano seguinte, no Instituto Cultural de Macau, pouco tempo antes instituído por Decreto-Lei do Governador Vasco de Almeida e Costa, na sequência de proposta que lhe apresentei na qualidade de membro do Governo com a tutela da Cultura.Lembro-me bem das conversas que mantive com o Pe. Áureo até se decidir que essa seria a melhor opção para garantir a estabilidade desejada na afirmação e no desenvolvimento duma orquestra que visava a profissionalização como factor de qualidade e permanência.Ao completar 20 anos, é justo recordar os seus directores e maestros principais: Stuart Bonner (1983-84), Doming Lam (1984-89), Veiga Jardim (1989-1995) e Yuan Fang (1995-2000). Depois da transição, os responsáveis foram En Shao e Lü Jia. Como única orquestra profissional de Macau, coube-lhe um papel relevante no panorama musical local, sendo presença constante no Festival de Música de Macau e no Festival de Artes de Macau, oferecendo ao público um vasto repertório sinfónico e coral. A partir de 2003, a Orquestra dividiu as suas temporadas em ciclos de concertos, apresentando programas de música clássica chinesa e estrangeira, com uma qualidade crescente.Músicos de renome internacional, como Lang Lang, Maria João Pires, Barry Douglas, Enrich Kunzel, Sarah Chang, Wang Jian, Leonidas Kavakos, Iván Martin, John Lill, Boris Berezovsky, Yundi Li e Joshua Bell, entre outros, têm actuado no seio da Orquestra, prestigiando-a e projectando-a além-fronteiras, tendo sido muito bem sucedidas as suas primeiras digressões ao exterior, primeiro a Chengdu, em Outubro de 1997, para participar no V Festival de Artes da República Popular da China, e depois, em Junho de 1999, último ano da Administração Portuguesa, a Portugal e a Espanha, apresentando-se em cinco cidades, e, em Outubro/Novembro do mesmo ano, a Pequim
  • 260 261 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – X F A L A R D E N Ó S – Xe a Xangai, para actuar no II Festival Internacional de Música de Pequim e no I Festival Internacional de Artes de Xangai.As digressões multiplicaram-se ao longo dos anos, sendo um motivo de orgulho para a RAEM e para todos nós.26 de Dezembro de 2013O Observatório da China em Lisboa, com a colaboração de várias outras entidades, promoveu um oportuno seminário em Lisboa, no dia 17 de Dezembro, sobre o 10.º aniversário do Fórum para a Cooperação Económica e Comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa, cuja 4.ª Conferência Ministerial teve lugar em Macau em Novembro passado. Foi uma boa ocasião para se estimular uma reflexão sobre os resultados alcançados num conjunto relevante de actividades que deram à RAEM uma acrescida dimensão no seu relacionamento com o exterior, ao mesmo tempo que se reforçou o seu factor de utilidade para a China, que soube, pragmaticamente, apostar no prolongamento da sua vocação histórica de entreposto.Para orador principal da sessão de abertura, foi convidado o presidente do Centro de Estudos dos Países de Língua Portuguesa da Universidade de Economia e Negócios Internacionais de Pequim, Wang Cheng’an, ex-secretário geral do Fórum de Macau. Ainda há pouco tempo estivemos com ele num seminário na capital chinesa e pudemos apreciar a sua capacidade de coordenação e comunicação.Com base na experiência e na visão prospectiva que tem do papel do Fórum, cujo percurso tem acompanhado, ofereceu-nos realistas considerações sobre o presente e o devir daquele instrumento político-económico de cooperação, cujo secretariado permanente e serviços de apoio têm a sede em Macau. Depois de recordar passagens do discurso do Vice-Primeiro-Ministro da República Popular da China, proferido na última Conferência Ministerial e de salientar que “o Fórum alcançou brilhantes sucessos”, mas existindo “ainda um grande espaço que fica por melhorar e desenvolver”, identificou os seguintes propósitos prioritários:Oportuna reflexão chinesa sobre o Fórum de Macau“Ouvi dizer que o termo ‘negócio da China’ significa, em português, bom negócio. Estou convicto de que com os esforços conjuntos de todas as partes o ‘negócio da China’ será cada vez mais próspero e o futuro da cooperação amistosa entre a China e os países de língua portuguesa ainda mais promissor.” Vice-Primeiro-Ministro Wang Yang
  • 262 263 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – X F A L A R D E N Ó S – X“Primeiro, o Fórum de Macau deve prosseguir com os seus esforços em prol de promover o equilíbrio comercial. O comércio entre a China e os países de língua portuguesa desenvolveu-se rapidamente. No entanto, verificou-se um desequilíbrio comercial. (...) Em 2012, o volume de comércio China-Brasil e China-Angola elevou-se a 122,980 mil milhões de dólares americanos, representando 95,6% do comércio entre a China e todos os países de língua portuguesa. Portugal mantém a terceira posição na parceria comercial. Em 2012, o volume de comércio entre a China e Portugal foi de 4,010 mil milhões de dólares americanos. Moçambique, com um comércio de 1,34 mil milhões de dólares americanos com a China, ocupa a quarta posição. As transacções entre a China e Timor-Leste, Cabo Verde e a Guiné-Bissau foram, respectivamente, de 631,790, de 57,491 e de 22,535 mil dólares americanos. (...)Segundo, o Fórum de Macau continua a promover o investimento recíproco, como sempre. A China e os países de língua portuguesa têm um potencial considerável para o investimento mútuo. Angola tem abundantes recursos de petróleo, gás e minerais, e tornou-se o maior parceiro comercial da China em África. O Brasil é o maior país da América Latina, com condições naturais favoráveis e com muita riqueza em recursos minerais. A China é o maior parceiro comercial do Brasil, o maior destino das suas exportações e a segunda maior fonte de importações. Cabo Verde fica localizado no Atlântico Norte, é uma ponte de comunicação entre os quatro grandes continentes, América, África, Europa e Ásia. A Guiné-Bissau é rica em recursos pesqueiros e os dois países têm um espaço amplo para a cooperação neste sector. Moçambique é rico em recursos naturais e, nos últimos anos, tornou-se gradualmente o ‘alvo de investimento’ das empresas chinesas. Portugal tem belas paisagens e monumentos por toda a parte. O turismo está bem desenvolvido em Portugal. É um dos principais produtores de vinho do mundo e, nos últimos anos, também se desenvolveu rapidamente no sector de serviços. Existem grandes perspectivas de investimento mútuo entre a China e Portugal. Timor-Leste está localizado numa zona tropical, com elevadas reservas de petróleo e gás nas águas em torno da costa e uma enorme quantidade de montanhas, lagos, fontes e praias no seu território, para um grande potencial do desenvolvimento de turismo. A China e Timor-Leste vão ampliar gradualmente a cooperação em matéria de infra-estruturas, petróleo e gás natural. (...)Terceiro, o Fórum de Macau, como sempre, coloca em execução o papel de plataforma de Macau. O programa do ‘décimo segundo plano quinquenal’ para o desenvolvimento económico e social da China formulou a necessidade de ‘apoiar a construção do Centro Internacional de Turismo e Lazer em Macau, e acelerar a construção de uma plataforma de serviços para a cooperação comercial entre a China e os países de língua portuguesa’. (...)Quarto, o Fórum tem boas perspectivas de evolução. Há mais instituições dos países de língua portuguesa a abrir escritórios em Macau, como por exemplo, a Associação Comercial Internacional para os Mercados Lusófonos (ACIML), Câmara de Comércio e Indústria Luso-Chinesa – Delegação de Macau, e outros. As vantagens exclusivas de Macau determinam o seu papel de intermediário para as empresas portuguesas nas suas actividades comerciais e económicas com vista aos mercados do interior da China e também a função como ponte para facilitar o acesso das empresas chinesas aos mercados da comunidade de expressão portuguesa, contribuindo para a comunicação entre ambos os lados, nos seus esforços de desencadear negócios transfronteiriços e outras cooperações relacionadas.”
  • 264 265 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – X F A L A R D E N Ó S – XCinco propostasConsiderando o “imenso potencial do Fórum de Macau”, Wang Cheng’an apresentou estas cinco propostas, apontadas para o futuro próximo:1. “estudar e elaborar um plano de acção do Fórum de Macau para os próximos 10 anos, com uma visão em perspectiva sobre as metas, políticas e medidas a formular, um plano que vai levar em consideração a concordância entre o desenvolvimento do Fórum e o dos países membros a longo prazo, fazendo tudo em prol dos povos”; 2. “definir as colaborações entre as empresas como sendo esforços a acentuar a curto prazo, tomando medidas com novas iniciativas a favor da formação e do relacionamento permanente, com colaboração empresarial apropriada ao aumento do comércio, e favorável à promoção massiva de investimento recíproco”; 3. “estabelecer mecanismos de prevenção e redução de riscos entre os participantes do Fórum, mecanismos que sejam capazes de enfrentar eventuais riscos financeiros e económicos no âmbito internacional e fortalecer a capacidade de devida reacção em conjunto”; 4. “aperfeiçoar o empenho no sector de recursos humanos e, com base nos seminários ou colóquios e cursos de formação de curto prazo de sempre, acrescentar gradualmente o item de educação formal no quadro do Fórum de Macau, com destaque para a preparação de quadros bilingues, de chinês e português, para atender à crescente necessidade do Fórum de Macau, e também da China e dos países lusófonos”; e 5. “dar mais passos para melhorar as estruturas do Fórum de Macau, para que seja uma organização executiva que funcione com alta eficiência, harmonia e pragmatismo e como um centro de coordenação, centro de informação, pólo de projectos e centro de cooperação de recursos humanos dos países membros do Fórum.”30 de Dezembro de 2013“São os Reis, mais as Janeiras,Tradições inda não mortasNesta terra onde, ligeiras,Cantam, a todas as portas,Crianças lindas, fagueiras.Assim é todos os anos,Os garotinhos em bandoLá vão, alegres, ufanos,De porta em porta, cantandoO bom Jano dos Romanos.Chamando boas pessoasA toda a gente do povo,Arranjam as suas ‘broas’,Porque, em dias de Ano Novo,Nunca faltam coisas boas.As Janeiras e os Reis com J. J. MonteiroNa quadra que agora termina, e porque também aqui se cantam as Janeiras, como tradição portuguesa que ficou, partilhamos com os leitores estes simples versos do nosso poeta-soldado J. J. Monteiro (Bunheiro 1913 – Macau 1988) do seu livro “Memórias do Romanceiro de Macau” (IIM, 2013), cujo centenário comemorámos em 2013: A cada porta, um chinfrimFaz a pequenina gente,Com ferrinhos, ‘tim-tim-tim’,Que tocam alegremente,Enquanto cantam assim:‘As Janeiras não se cantam,Nem aos Reis, nem cordados,Mas nós vimo-las cantar,Por ser anos melhorados.Os bons anos não se cantam,A quem, contra o tempo rude,Como vós, numera os passosPelos passos da virtude.Eu sou pastor de ovelhas,Meu rebanho vai sair,E eu, com este meu rebanho,As Janeiras vou florir.
  • 266 267 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – X F A L A R D E N Ó S – XVimos dar as Boas-Festas,E também cantar os Reis,Vamos ver os vossos brios,Que alguma coisa nos dês.Viva a senhora ‘Maria’,Raminho de salsa crua,Quando se põe à janelaAlumia toda a rua.Vimos da beira do rio,Com as bocas sequiosas,Dai-nos vinho, temos frio,Coisas boas, saborosas.Por ser vésp’ra dos ‘três’ Reis,Aqui os vimos cantar;Ora viva, os meus senhores,Pois os quero respeitar.Estes ‘três’ Reis que cantamos,O ‘primeiro’ é Gaspar,O ‘segundo’ é Belchior,E o ‘terceiro’ é Balthasar.Ora venha, se há-de vir,Não nos esteja a dilatar,Que somos de muito longe,E temos muito que andar.’Quando acabam de cantar,Como é uso e tradição,Logo que os mandam entrar,Dão-lhe vinho, carne e pão,Para os bem gratificar.Quando é pobre, o moradorPassa à frente, a garotada,Mas se for um lavradorAvaro, que não dê nada,Cantam esta, com rancor:‘Estes Reis que aqui cantam,Tornamos a descantar,Este ‘barbas’ de fareloNão tem nada que nos dar;Só tem uma arquinha velhaOnde os gatos vão sujar.’Porém, raro é o que se encobre,Geralmente, todos dão,Porque é isso uma acção nobre,Já porque as crianças sãoFilhas só de gente pobre.E é feliz a criancinha,Vendo os pais, que não têm meios,Bem contentes, à noitinha,Dando volta aos sacos cheiosQue ela trouxe, coitadinha.Sendo o Natal, Reis, JaneirasDias alegres do ano,Levam rombo as capoeiras,E há, no mais mísero escano,Um pouco das fartas eiras.Os que gozam de abastançasPraticam seus gestos nobres,P’ra que hajam brindes, lembranças,Festa nos lares mais pobres,E alegria nas crianças.E aqui tem, o povo inteiro,Como de ‘um’ ao dia ‘seis’Do lindo mês de Janeiro, As Janeiras, mais os Reis,Se festejam no Bunheiro.”6 de Janeiro de 2014
  • 268 269 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – X F A L A R D E N Ó S – XFoi com enorme alvoroço que Macau aguardou a chegada e acompanhou a visita do Benfica, quando aqui efectuou dois jogos em Agosto de 1970, ainda hoje recordados com emoção e saudade por quem os presenciou.O falecimento de Eusébio, com a consternação profunda que a partida definitiva desta grande glória de Portugal gerou, levou-me a procurar, no meu arquivo de recortes, notícias daqueles memoráveis dias vividos entre nós. As quarenta páginas que tenho sobre este assunto permitem-me reconstituir os momentos mais significativos desta deslocação, que mereceu uma atenção inusitada dos órgãos de comunicação social da área geográfica em que Macau se insere.Expectativa crescenteUma bonita fotografia do plantel, com a legenda “A gloriosa equipa de futebol do Sport Lisboa e Benfica, cuja visita a Macau, no dia 22 de Agosto próximo, é aguardada com vivo interesse” ilustrava, já na edição de 4 de Julho de 1970, a notícia de página inteira do “Notícias de Macau”, intitulada “Macau aguarda a visita do Benfica”, de que se destaca a seguinte passagem: “o glorioso Benfica – duas vezes vencedor da Taça da Europa e, na última época, vencedor da Taça de Portugal – deslocar-se-á ao Oriente no próximo mês de Agosto, sendo esta a primeira viagem duma equipa de futebol de Portugal Europeu a estas paragens, a fim de realizar uma série de jogos no Japão, na Coreia do Sul e em Macau”. Anunciava-se também que o Benfica viria “com a sua linha completa, incluindo o célebre Eusébio, num total de mais de 30 elementos, entre jogadores, dirigentes, treinador, médico e massagista”.Eusébio e o Benfica em Macau, em 1970“Em Macau existem adeptos de todos os clubes que disputam os campeonatos nacionais de futebol, mas neste dia, como bons portugueses, só para eles um clube existirá: o GLORIOSO SPORT LISBOA E BENFICA! Esses rapazes que hoje chegarão até nós trazem-nos um forte abraço da Mãe Pátria. Salvé, Eusébio, Torres e Simões, estrelas da maior grandeza do futebol português.” “Notícias de Macau”, 18-8-1970.À medida que a data da visita se aproximava, o evento ganhava espaços mais amplos naquele jornal. Assim, uma semana antes, no dia 11 de Agosto, confirmava-se a vinda, já com a indicação do voo (AZ-732) e da hora da chegada ao aeroporto de Kai Tak, em Hong Kong (17.55 horas do dia 18 de Agosto), com partida prevista para Macau nessa mesma noite. Juntamente com fotografias da equipa e individuais de Eusébio, Torres e Simões, publicava-se, nessa edição, o historial do clube, fundado em 28 de Fevereiro de 1904, com referências completas às suas sedes, aos campos de jogos que utilizou desde a primeira hora, ao Estádio da Luz, inaugurado em 1954 com capacidade para 60 mil espectadores, às múltiplas modalidades desportivas praticadas, à sua massa associativa, então já com 50 mil filiações, além de muitos milhares de adeptos espalhados pelo mundo, à sala de troféus, “que causa a admiração de todos quantos a visitam”, às altas condecorações e outras distinções honoríficas recebidas e, por fim, ao seu já invejável palmarés: dez Campeonatos de Lisboa, 17 Taças de Portugal, 17 Campeonatos Nacionais, 5 Taças de Honra, uma Taça Latina (1950) e duas Taças dos Clubes Campeões Europeus (1961 e 1962), além de ter sido finalista desta alta competição em 1963, 1965 e 1968.Nos dias seguintes, mais informações eram dadas: os hotéis já quase lotados, pelas reservas feitas por gente de Hong Kong que queria “ver os bi-campeões europeus em campo, e principalmente o célebre Eusébio, o maior goleador do Mundial de Futebol de 1966, realizado na Inglaterra”; a boa preparação da selecção de Macau, sob a orientação do treinador Victor Apresentação; os preços de admissão aos jogos (3 patacas para peão, 10 patacas para bancadas laterais, 20 patacas para bancadas centrais e 600 patacas para camarotes de 12 pessoas); os locais de venda dos bilhetes; a necessidade de ajustar as horas dos jogos com as das corridas de galgos, realizadas no mesmo recinto; a previsão de viagens extraordinárias da carreira Hong Kong – Macau nesses dias; e, citando a Agência noticiosa
  • 270 271 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – X F A L A R D E N Ó S – XLusitânia, o regresso do Benfica a Lisboa, após a digressão a Angola e Moçambique, com seis vitórias, conquistando a Taça Ultramar.A chegadaOs jornais de 18 e 19 de Agosto incluem calorosas saudações de boas-vindas ao Benfica e a lista dos membros da comitiva, bem como a confirmação da realização do segundo jogo, no dia 22, contra um misto de Hong Kong, “o onze mais forte que se pôde seleccionar”, e declarações do empresário macaense Alberto Dias Ferreira, promotor da vinda da equipa portuguesa, que fez saber que os bilhetes estavam a ter grande procura e que mais bancadas temporárias (de bambu) seriam erguidas para acomodar mais 500 interessados.A edição de 20 de Agosto do “Notícias de Macau” foi preenchida com uma extensa reportagem da chegada a Hong Kong, no voo da Alitalia, às 18.00 horas do dia 18, a que se seguiu a deslocação de autocarro para junto do vapor S.S. Chung Shan, que partiu às 21.00 horas e atracou na ponte-cais n.º 20 de Macau cerca da meia-noite. Entusiasticamente recebidos “por uma enorme multidão de adeptos do futebol e várias altas individualidades”, ficaram hospedados no Hotel Estoril.Na manhã seguinte, os jogadores fizeram um treino ligeiro no Campo da Caixa Escolar, situado mesmo em frente do hotel, enquanto os dirigentes eram recebidos, no Palácio da Praia Grande, pelo Encarregado do Governo, Alberto Eduardo da Silva, alto funcionário macaense, do antigo quadro da Administração Ultramarina, desempenhando as funções de Secretário-Geral do Governo de Macau. O Governador, brigadeiro José Manuel Nobre de Carvalho, encontrava-se de visita oficial ao Japão.Nessa tarde teve lugar no hotel a inevitável conferência de imprensa, dada pelo presidente do Benfica, Duarte Borges Coutinho, acompanhado dos directores Francisco Calado, Francisco Barreiros Campas e Joaquim Alexandre, do treinador Jimmy Hagan e do capitão da equipa, Simões. Solicitada a presença de Eusébio, ele respondeu a várias perguntas, entre as quais uma sobre os jogos mais inesquecíveis da sua carreira. Sem hesitação, referiu aquele em que o Benfica venceu o Real Madrid, em 1962, na final da Taça de Campeões Europeus, e o encontro com a Coreia do Norte, no Mundial de 1966, quando Portugal, estando a perder por 3-0, acabou por ganhar por 5-3, com quatro golos da sua autoria.O presidente Borges Coutinho declarou aos jornalistas que “era com muito gosto que trazia a sua equipa para jogar em Macau, essa longínqua terra portuguesa, afirmando que os seus jogadores, depois da digressão a África, se encontravam em boa forma, e observando que o Benfica, quando entra no campo, gosta sempre de ganhar”. James Hagan, por seu lado, recordou que já tinha estado em Hong Kong, em 1958, quando o Blackpool, em que alinhou, derrotou uma selecção da colónia britânica por 10-1. Quanto aos jogadores, frisou que todos sabiam honrar o bom nome do Benfica e que Eusébio, “já completamente recuperado duma intervenção a que fora submetido, era um jogador robusto, inteligente e muito rápido.”Será feito um relato sucinto dos dois jogos no próximo artigo.13 de Janeiro de 2014
  • 272 273 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – X F A L A R D E N Ó S – XOs jogos do Benfica, na visita a Macau em 1970, foram disputados a 20 e a 22 de Agosto no Campo Desportivo 28 de Maio, mais conhecido por Campo do Canídromo, por ali se realizarem também corridas de galgos, com apostas. Os adversários foram, primeiro, a selecção de Macau, treinada por Victor Apresentação, e um misto de Hong Kong que incluía alguns dos seus melhores jogadores de sempre. Os resultados foram, respectivamente, 4-0 e 7-0. Estiveram no recinto, em cada um dos jogos, nas bancadas e em zonas reservadas a peões, mais de dez mil espectadores, entusiasmados com a rara oportunidade de verem o grande Benfica defrontando os melhores futebolistas locais.Macau – BenficaA reportagem do “Notícias de Macau”, de 21 de Agosto, revelava alguma decepção com a forma como o Benfica realizou o primeiro jogo, sem grande esforço e sem exibir o seu poder de ataque, quando “todos sabem que a equipa continua a ter os melhores rematadores de Portugal e até da Europa”. A primeira parte terminou com o magro resultado de 1-0, com um belo remate de Artur Jorge, “após um perfeito centro executado por Néné, depois de conduzir a bola até à linha de cabeceira”.Após o intervalo, “o Benfica introduziu várias alterações na constituição da equipa, tendo melhorado consideravelmente a sua produção de jogo, ainda que distante da velocidade e perfeição técnica de que são capazes”. “As situações de golo foram surgindo e os seus avançados marcaram mais três bolas, duas por Artur Jorge e a outra por Eusébio.”Os jogadores que se destacaram na primeira parte foram Néné e Simões, “que organizaram a maioria das jogadas de ataque do Benfica, e também Matine e Adolfo Os dois jogos do Benfica em Macau, em 1970“O Sport Lisboa e Benfica não é só o campeão de futebol de Portugal, mas também, por duas vezes, campeão da Taça da Europa e mundialmente conhecido pela sua magnífica perícia (...) muitos habitantes de Hong Kong e de Macau sentem-se extraordinariamente regozijados por terem tido a oportunidade de apreciar a maravilhosa perícia dos valorosos futebolistas portugueses..” Ho Yin, no jantar de confraternizaçãoque se integraram muito bem nos movimentos de ataque pelo seu flanco”. “Na segunda parte, Néné e Simões mantiveram-se no mesmo nível da primeira, tendo-se notado as subidas de Artur Jorge, um autêntico perigo diante das balizas, e Eusébio mais activo, mas sem revelar o seu grande poder de remate”. Opiniões positivas foram também expressas sobre Torres, “que entrou a substituir Águas e mostrou que sabe jogar futebol e fabricou com a sua costumada categoria a jogada de que resultou o terceiro tento encarnado”, e Vítor Martins, “um jovem com bons pés e que corre o campo todo, podendo ir longe se continuar assim”. Uma referência especial foi feita a José Henrique, “que executou a única defesa difícil nas balizas benfiquistas, quase no fim do encontro, a desviar para o canto uma bola que mudara subitamente de direcção ao tocar nas pernas de um defesa da sua equipa”, e outra a Zeca, “o melhor tecnicamente” na defesa.Quanto à equipa de Macau, “lutou briosamente, sem desfalecimento, e saiu derrotada por quatro bolas a zero, resultado perfeitamente aceitável, dada a diferença de categoria entre as duas equipas”, sendo “de salientar a grande exibição do seu guarda-redes Souza, que foi o esteio da equipa, tendo defendido muito bem”.Falando aos jornalistas, Borges Coutinho e Jimmy Hagan tiveram palavras simpáticas para com a selecção macaense, mas queixaram-se do mau piso, e Eusébio e Simões do calor excessivo e da humidade, embora reconhecendo que “todos jogaram bem”.Receando dificuldades maiores no jogo contra o misto de Hong Kong, na mesma reportagem fazia-se a seguinte advertência: “Antes de finalizar estas apreciações à
  • 274 275 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – X F A L A R D E N Ó S – Xequipa do Benfica, queremos, desde já, avisar os seus responsáveis e jogadores que o adversário do próximo Sábado é muito diferente do grupo que ontem defrontaram. A selecção de Hong Kong é constituída por jogadores profissionais, melhor preparados técnica e fisicamente do que os de Macau”.Benfica – Hong KongAs duas notícias principais da edição de 21 de Agosto do mesmo jornal, ocupando amplos espaços da primeira página, foram a recondução do Governador Nobre de Carvalho, por resolução do Conselho de Ministros, mediante proposta do titular da pasta do Ultramar, e a convincente vitória do Benfica, com o título “O poder do futebol benfiquista esmagou e reduziu a zero a oposição da selecção de Hong Kong”.Conforme a reportagem, acompanhada de várias fotografias, “o desafio iniciou-se em grande velocidade, com os jogadores encarnados mostrando logo a disposição diferente da do jogo da passada quinta-feira, e os de Hong Kong jogando com determinação na defesa e partindo rapidamente para contra-ataque, dando a indicação que vinham mentalizados para uma vitória sobre os bi-campeões europeus”. “Mas, logo nos primeiros minutos do jogo, o Benfica conseguiu o primeiro tento e continuou a jogar com tal rapidez (...) que foi com naturalidade que se chegou ao intervalo com o Benfica a vencer por 5-0, com um golo de Néné, dois de Eusébio e dois de Artur Jorge.”A segunda parte foi menos impetuosa, com alguns jogadores de Hong Kong a evidenciar o mau perder, cometendo sucessivas faltas e até agressões. “Mesmo assim, a superioridade do onze benfiquista esteve sempre patente e puderam ainda marcar mais dois golos, um por Artur Jorge (...) e o outro por Vítor Martins.”Em conclusão, “a equipa do Benfica realizou um bom jogo, chegando a ser brilhante na primeira meia hora, em que esteve igual ao seu real valor, e deve ter deixado a quantos observaram o encontro, a impressão da sua real categoria e da diferença de nível existente entre o futebol europeu e o asiático”. O jornal referiu ter o Benfica “jogado como um bloco, em que sobressaíram, como não podia deixar de ser, devido à sua grande categoria, Simões, o maior de todos, Eusébio, que só lhe faltou estar feliz a rematar para ser o Eusébio do Mundial de 66, Artur Jorge, Néné e Torres”. Além disso “a defesa mostrou-se seguríssima, chegando e sobrando para as encomendas”, com “dobras bem efectuadas e bom poder de recuperação, sobretudo de Humberto”, e “José Henrique pouco teve que fazer, mas foi muito massacrado pelas entradas irregulares e maldosas de Chang Chi Wai”. Este jogador e o seu irmão Chang Chi Doy, que também alinhou, eram as estrelas maiores de futebol daquela antiga colónia britânica, mas ambos desiludiram o público com o seu repreensível comportamento.Eusébio e Torres resumiram assim este encontro: “bom jogo, o Benfica ganhou bem, fazendo grande exibição e obteve um grande resultado” e “o Benfica jogou bem na primeira parte marcando 5 bolas, mas, na segunda, quando verificou que os adversários vinham com entradas maldosas, retraiu-se”.No intervalo, foram leiloadas, para fins assistenciais, três bolas com as assinaturas dos jogadores, tendo sido arrematadas por Ho Yin, presidente da Associação Comercial
  • 276 277 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – X F A L A R D E N Ó S – Xe representante da comunidade chinesa no Conselho do Governo, Henry Fok, presidente da Associação de Futebol de Hong Kong, e Stanley Ho, através de um representante, rendendo o leilão trinta mil patacas.À noite, Ho Yin foi o anfitrião do jantar de confraternização e de homenagem à comitiva do Sport Lisboa e Benfica.20 de Janeiro de 2014Muito entusiástica e calorosa foi a recepção proporcionada ao Benfica na sua visita a Macau em 1970. Como pudemos ver nos dois artigos anteriores, a deslocação foi aguardada com ansiedade semanas antes dos jogos aqui disputados, contra a selecção de Macau (4-0) e um misto de Hong Kong, que reuniu os melhores jogadores da antiga colónia britânica (7-0). Durante toda a visita, desde o momento da chegada, na noite de 18 de Agosto, o público local acompanhou com o maior carinho a equipa, revelando especial curiosidade pelas estrelas maiores, como Simões, o capitão, e Eusébio, cuja fama tinha, naturalmente, chegado a estas longínquas paragens.Mesmo de Hong Kong veio muita gente, sendo invulgar a procura de alojamento nos hotéis e pensões da cidade, tendo as carreiras para Macau sido aumentadas nos dois dias dos jogos (20 e 22), quando até foi necessário condicionar os acessos ao Campo Desportivo 28 de Maio, num tempo em que circulavam ainda pouquíssimos carros naquelas longas e bem traçadas avenidas dos bairros novos adjacentes a Mong-Há. As autoridades locais, a começar pelo Encarregado do Governo Alberto Eduardo da Silva (o Governador estava ausente, em visita oficial ao Japão, por ocasião da Exposição de Osaca), quiseram receber e obsequiar tão distinta comitiva desportiva, comparecendo a todos os actos sociais o presidente do Benfica, Borges Coutinho, acompanhado dos demais dirigentes e quadros técnicos, mas dispensando os jogadores, em merecido repouso, alojados no Hotel Estoril. O melhor estabelecimento hoteleiro, o vetusto Lisboa, estava com o sistema de ar condicionado avariado e aguardava a Recepção calorosa ao Benfica“O Benfica, onde quer que apareça, encontra um ambiente carinhoso e simpático. Está sempre em sua casa, onde quer que se exibam as suas equipas. O mesmo, como era de esperar, sucede aqui, nesta terra de sonho que é Macau” .Borges Coutinho, presidente do Benfica, 1970
  • 278 279 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – X F A L A R D E N Ó S – Xchegada e instalação de novas peças para lhe restituir a operacionalidade. Eram, de facto, ainda muito precárias as estruturas de apoio ao turismo, que a STDM soube, em larga medida, revolucionar, quando ganhou a concessão da exploração dos jogos de fortuna ou azar.As quarenta páginas de recortes que tenho no meu arquivo pessoal, sobre esta visita do Benfica ao Extremo Oriente, permitiram-me recordar, em três artigos, os factos mais relevantes da memorável e bem sucedida deslocação.Homenagem de Ho YinCerca de 200 pessoas marcaram presença no jantar de confraternização que Ho Yin, representante da comunidade chinesa junto dos órgãos do Governo e prestigiado líder de muitas instituições cívicas e comerciais locais, ofereceu aos ilustres visitantes, após o jogo com Hong Kong. Nele participaram os dirigentes, técnicos e jogadores das três equipas, além do presidente do Leal Senado, Joaquim Morais Alves, do presidente do Conselho Provincial de Educação Física, João Horácio da Conceição, diversas individualidades ligadas ao desporto e jornalistas de Macau e de Hong Kong. As palavras do anfitrião resumem muito bem a satisfação de todos, na saudação dirigida ao Benfica, “que veio duma terra tão distante para nos visitar”:“O Sport Lisboa e Benfica não é só o campeão de Futebol de Portugal, mas também, por duas vezes campeão da Taça da Europa e mundialmente conhecido pela sua magnifíca perícia (...). Muitos habitantes de Hong Kong e de Macau sentem-se extraordinariamente regozijados por terem tido a oportunidade de apreciar a maravilhosa perícia dos valorosos futebolistas portugueses.O Campo Desportivo 28 de Maio esteve à cunha, sem precedente, durante os dois encontros, facto esse que comprova a grande estima que os adeptos do futebol de Hong Kong e de Macau dedicam ao ilustre grupo visitante”. Usaram também da palavra o presidente da Associação de Futebol de Hong Kong, Henry Fok, que felicitou os jogadores do Benfica “pela magnífica exibição efectuada, mostrando como se joga o futebol, esperando que os jogadores de Hong Kong tenham colhido algum fruto desta grande lição”, e o presidente do Benfica, Borges Coutinho, que enalteceu o palmarés do seu grande clube e agradeceu os apoios recebidos. Salientou que “o Benfica tem sócios nos quatro cantos do mundo” e “há muito ultrapassou as fronteiras nacionais”, pelo que “onde quer que apareça encontra um ambiente carinhoso e simpático”, estando “sempre em sua casa”. O ambiente vivido nesse jantar foi de grande alegria e cordialidade, tendo os convivas aplaudido, de pé, o Benfica quando o presidente do Leal Senado entregou a Simões a Taça da Cidade. Merece realce o simpático gesto do Benfica, ao oferecer bolas de futebol e outros equipamentos a grupos desportivos locais.Nessa mesma noite, a turma benfiquista partiu para Hong Kong, no vapor “S. S. Macau”, seguindo de avião, às 9.00 da manhã, com destino ao Japão e depois à Coreia do Sul, onde proporcionaram aos adeptos do desporto-rei desses dois paísesnotáveis exibições.
  • 280 281 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – X F A L A R D E N Ó S – XO adeus a EusébioComo tantos portugueses, vibrei com aqueles magníficos golos que projectaram o nosso país para o primeiro plano do futebol internacional e o nome de Eusébio em todo o mundo, como grande glória de Portugal.Nos meus anos de juventude, ele deliciou uma geração inteira com a sua perícia e presença espectacular em jogos inolvidáveis. Assisti, mais tarde, à inauguração da sua estátua no terreiro daquela imensa “catedral” do desporto-rei, na 2.ª Circular.Nas últimas décadas, deu-me enorme gosto poder falar com ele, no Estádio da Luz ou na Adega da Tia Matilde, seu restaurante favorito (e um dos meus também) em Lisboa, e admirar a sua simplicidade, lhaneza e cordialidade no trato com toda a gente. Sempre foram esses os traços marcantes da sua personalidade.Justas e tocantes foram as homenagens que as autoridades e o povo anónimo lhe quiseram prestar, chorando a morte deste ícone de Portugal e do futebol mundial. Nunca um português, na hora dolorosa do definitivo afastamento, havia merecido espaços tão dilatados e tão abundantes e positivas referências em órgãos de comunicação social de todas as latitudes do globo.Deixou-nos placidamente, após um período de abalada saúde, com dias melhores, alternados com outros menos risonhos. Ficará na memória e no coração de muitos como um dos melhores de todos nós. Eusébio, até sempre!27 de Janeiro de 2014Presidente do Instituto Internacional de Macau desde Dezembro de 1999, Jorge Alberto Hagedorn Rangel desempenhou funções públicas em Macau, sua terra natal, durante quase 25 anos, treze dos quais como membro do Governo, tendo tutelado as áreas de Administração Pública, Educação, Cultura, Juventude, Desporto e Turismo, bem como o Gabinete Coordenador das Cerimónias de Transferência. Em várias ocasiões foi Encarregado do Governo de Macau, substituindo o Governador nas suas ausências.É casado e tem uma filha, vivendo a família, oriunda de Portugal, há dez gerações em Macau e noutras terras do Extremo Oriente.Fez os ensinos básico e secundário em Macau e os estudos superiores em Lisboa, Cambridge, Bonn e Navarra. Enquanto estudante, dedicou-se intensamente a actividades de juventude, desde as da Mocidade Portuguesa às de associações académicas, tendo participado também em encontros estudantis e juvenis no estrangeiro, e interessou-se pela comunicação social, tendo obtido a classificação de “óptimo” no I Curso Nacional de Jornalismo organizado pelo Sindicato Nacional de Jornalistas, além de ter feito o Curso de Ciências e Técnicas de Informação, em Pamplona (Espanha).Cumpriu o serviço militar nos Açores e na Guiné, onde, como Capitão Miliciano de Infantaria, comandou uma companhia em zona operacional, com vários louvores em campanha, tendo também dirigido a instrução de tropas no seu comando operacional. Na fase final da comissão militar na Guiné, trabalhou junto do Governador e Comandante-Chefe.Foi eleito deputado à 1.a legislatura da Assembleia Legislativa de Macau (1976-80), onde presidiu às Comissões de Assuntos Constitucionais, Jorge A. H. Rangel Presidente do Instituto Internacional de MacauNOTA BIOgRÁFICA
  • 282 283 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – X F A L A R D E N Ó S – XDireitos, Liberdades e Garantias e do Regimento e Mandatos e, entre outras funções públicas, foi também presidente da Fundação Macau e director do Turismo e da Comunicação Social. As suas últimas responsabilidades oficiais foram a coordenação da transferência das responsabilidades administrativas da Administração Portuguesa para o novo Governo da Região. Foi também membro do Conselho de Redacção da Lei Básica da Região Administrativa Especial de Macau.No âmbito académico, além de funções docentes, foi o presidente da comissão instaladora do Instituto Politécnico de Macau, de que é agora presidente honorário, e membro das comissões instaladoras do Curso de Administração Pública e da Faculdade de Ciências da Educação da Universidade de Macau. Também presidiu ao Conselho da Universidade de Macau e aos Conselhos de Educação, do Desporto e de Juventude e foi consultor da Universidade Aberta Internacional da Ásia. É professor convidado de várias instituições de ensino superior, sendo também director honorário do Centro de Estudos Comparativos de Culturas da Universidade de Soka (Tóquio). Foi conferencista no Instituto da Defesa Nacional de Portugal, ministrando a matéria “A Bacia do Pacífico, Situação Estratégica e Perspectivas de Evolução”, e integrou o corpo docente do curso de pós-graduação em China Moderna no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade Técnica de Lisboa, dando idêntica colaboração docente no Curso de Estudos Chineses (China Moderna e Contemporânea) da Universidade de Aveiro, ocupando-se dos Estudos de Macau.Desenvolveu e mantém ainda uma actividade intensa em organismos internacionais, como a UNESCO, a EROPA (Eastern Regional Organization for Public Administration), de que é membro vitalício, a Universidade das Nações Unidas e a Associação das Universidades de Língua Portuguesa (AULP). Foi presidente da EATA (East Asia Travel Association), com sede em Tóquio; presidente regional da PATA (Pacific Asia Travel Association), com sede em Banguecoque, de que é director vitalício, e membro do Conselho Executivo da Organização Mundial do Turismo, com sede em Madrid. Participa regularmente, como conferencista, em encontros internacionais, de que se destaca a Conferência Internacional sobre o Diálogo das Civilizações, que se realizou em Tóquio e Quioto, no âmbito das Nações Unidas, tendo presidido à sessão sobre “Multiculturalismo e Encontro de Culturas”.A actividade associativa ocupa parte importante do seu tempo, tendo sido presidente do Elos Internacional – Movimento da Comunidade Lusíada durante dois mandatos (eleito em São Paulo, Brasil, em 1999, e reeleito em Coimbra, em 2001), presidindo depois ao seu conselho superior. Foi presidente da assembleia geral da Associação Promotora da Instrução dos Macaense e presidente dos conselhos consultivos da Associação de Gestão de Macau e do Conselho das Comunidades Macaenses. É académico honorário da Academia Portuguesa de História, académico da Academia Lusófona de Arte e Cultura, membro dos órgãos sociais do Observatório da Língua Portuguesa e presidente do Conselho Supremo da Sociedade Histórica da Independência de Portugal, além de dirigente ou membro de numerosas outras associações de natureza cultural, artística, educativa e social. O Instituto Internacional de Macau, de que é presidente e membro fundador, é uma organização não governamental, com a classificação oficial de organismo de utilidade pública. É também membro dos conselhos de curadores das Fundações Casa de Macau, Jorge Álvares e do Santo Nome de Deus, todas ligadas a Macau, sendo também membro honorário de agremiações macaenses espalhadas pelo mundo.
  • 284J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – XÉ autor de várias obras, com destaque para “Macau e a Comunidade Macaense”, com 12 volumes, dos quais 10 já publicados.Foi agraciado com condecorações e outras distinções nacionais e estrangeiras, entre as quais a Ordem Nacional do Infante D. Henrique (Grande Oficial em 1982 e a Grã-Cruz em 1998), a Medalha de Valor (a mais alta distinção honorífica de Macau), a Medalha de Mérito Pedro Ernesto da Cidade do Rio de Janeiro, a Medalha de Mérito da Federação das Associações Portuguesas e Luso-Brasileiras do Brasil, o título de membro honorário do Liceu Literário Português e benemérito do Real Gabinete Português de Leitura do Rio de Janeiro, a Comenda Eduardo Dias Coelho, do Elos Internacional, a Medalha Machado de Assis, a Medalha Victor Hugo de Cultura e a Medalha de Mérito Min-On (Tóquio), tendo também recebido o Award of Excellence do Instituto de Filosofia e Estudos Orientais de Tóquio, o Paul Harris Fellow e o título de membro benemérito da organização rotária internacional, a medalha de mérito do Lions International e, ainda estudante, o troféu D. Quixote, do Conselho da Europa, nos Colóquios Internacionais sobre a Juventude e a Europa do Futuro, além de vários doutoramentos honoris causa.
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