• Jorge A. H. rAngelFAlAr de nós – iXMAcAu e A coMunidAde MAcAense – acontecimentos, personalidades,instituições, diáspora, legado e futuroJorge A. H. rAngelFAlAr de nós – iX
  • FALAR DE NÓS – IX
  • Nota: Edição composta pela série de crónicas e artigos publicados no “Jornal Tribuna de Macau”, de 26 de Janeiro de 2012 a 21 de Janeiro de 2013.EdiçãoInstituto Internacional de MacauPatrocínio da Fundação Jorge ÁlvaresApoio do Governo da RAEMFALAR DE NÓS – IXMACAU E A COMUNIDADE MACAENSE– AconTEciMEnTos, PErsonAlidAdEs,insTiTuiçõEs, diásPorA, lEgAdo E fuTuroSérie de crónicas e artigos publicados no “Jornal Tribuna de Macau”,de 26 de Janeiro de 2012 a 21 de Janeiro de 2013JORgE A. H. RANgELMacau, dezembro de 2013 ficha TécnicaTítulo FALAR DE NÓS – IX • Subtítulo Macau e a Comunidade Macaense – acontecimentos, personalidades, instituições, diáspora, legado e futuro • Autor Jorge Rangel • Editor Instituto Internacional de Macau • Direcção e execução gráficas victor hugo design • Dactilografia Emília Guine • Tiragem 500 exemplares • Impressão e encadernação Tipografia Welfare Lda • ISBN 978-99937-45-71-6 • Macau, Dezembro de 2013
  • J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L ÍNDICE013Nota prévia – Nove volumes concluídos014Dragão - vitalidade, coragem, entusiasmo, determinação26/01/12019A lenda de A-Má contada por alunos da Escola Portuguesa30/01/12025Macau em múltiplas iniciativas em Portugal06/02/12030Uví, sã tempo di carnaval!13/02/12035“Olá Bôbo” – o Carnaval em verso20/02/12040Presença constante de Macau em terras lusas27/02/12045Como a Larousse via Macau há 30 anos05/03/12050Obras de Tomás Pereira reunidas em dois volumes12/03/12055À descoberta da China e dos países lusófonos19/03/12060Uma apreciação da obra sobre potencialidades turísticas26/03/12065O IIM em destaque em Toronto02/04/12070Um livro que valoriza a gastronomia macaense10/04/12075A comunidade macaense, ontem e hoje16/04/12080Desporto com palavras23/04/12085Os feriados nacionais e a produtividade07/05/12091A diáspora macaense – motivações e desenvolvimento14/05/12096Uma obra necessária sobre Macau nos anos da Guerra21/05/12101Ciclo sobre Macau e a China na Sociedade Histórica28/05/12106“MacauFotoBios” - nova colecção de fotobiografias04/06/12111Macaense ilustre, notável coleccionador de arte chinesa11/06/12116Jornadas brasileiras do IIM18/06/12121Um seminário do IIM em três continentes26/06/12126A propósito de “A Hora do Dragão – Política Externa Chinesa”02/07/12131Um livro obrigatório sobre a geopolítica da China09/07/12136Macau em três bonitas e significativas sessões em Lisboa16/07/12141Em Londres, com a PATA23/07/121461.º de Dezembro – Um movimento e dois manifestos30/07/12
  • J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L 151Inspiração e sabedoria na Rota da Seda06/08/12156Macau e a origem da pataca13/08/12161A evolução da pataca como moeda local21/08/12166A pataca nos últimos sessenta anos27/08/12171Uma visão de Macau da segunda década do século XX03/09/12176A economia de Macau há cem anos10/09/12181IIM – mais um intenso programa de acção17/09/12186Valor económico da língua portuguesa – um seminário e um estudo24/09/12191“A Hora do Dragão” – apresentação em Macau03/10/12196Língua Portuguesa - afirmação e valor08/10/12201Henrique e o cinema em Macau16/10/12206Obra completa de Henrique de Senna Fernandes22/10/12211Macau em importante encontro académico-político em Hong Kong30/10/12216Uma reflexão oportuna sobre a comunidade05/11/12221Portugal ligou a China ao Brasil através de Macau12/11/12226Gestão do ensino superior no espaço lusófono discutida em Macau19/11/12231Presença activa do IIM em encontros académicos em Portugal26/11/12236Uma saborosa vitória portuguesa03/12/12242Iguarias do livro de Cíntia Serro para a quadra festiva11/12/12247Novas jornadas do IIM no Brasil17/12/12252Ray Cordeiro - o mais duradouro DJ do mundo07/01/13257Ano novo, vida nova14/01/2013262Manuel Teixeira, de menino a monsenhor21/01/2013267Anexo: Entrevista ao n.º 0 da Revista do Ensino Superior de Macau281Nota biográfica
  • 011 J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – IXÀ Região Administrativa Especial de Macau,acompanhando o seu notável desenvolvimento e honrando o legado e a memória
  • 012 013F A L A R D E N Ó S – IX J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – IXSemana após semana, os artigos e crónicas sucedem-se, sendo já nove os volumes concluídos desta continuada conversa com o leitor sobre diversificados assuntos relacionados com Macau, identificando acontecimentos e referindo personalidades, instituições, o legado, a diáspora e o futuro.Especial atenção tem sido dada, também, a livros, de ontem e de hoje, que têm Macau como tema central ou fonte de inspiração. É verdadeiramente notável a produção editorial em torno desta terra e das suas gentes, bem como da sua memória e da projecção que ela soube alcançar nas vertentes cultural e económica, favorecida pela conjugação feliz de circunstâncias positivas.Enquanto este volume sai do prelo, outro está já em fase de finalização, representando um contributo, modesto certamente, mas sentido e persistente, para uma melhor compreensão da dimensão humana, social e política de Macau, entreposto privilegiado que a História consagrou e que, como região especial da China, quer prolongar, no espaço e no tempo, a sua vocação de sempre.Vamos prosseguir!Macau, Dezembro de 2013O autorNota Prévia Nove volumes concluídos
  • 014 015F A L A R D E N Ó S – IX J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – IXA cidade e a população estão a comemorar o seu maior e mais participado evento anual, a abertura do Ano Novo Lunar. Tradições milenares, mantidas ainda bem vivas e assumidas com autenticidade, uma oferta turística atraente e um ambiente exuberantemente festivo chamam ao território forasteiros em número impressionantemente elevado, que enchem por completo os hotéis, restaurantes, casinos e outros centros de diversão, juntando-se aos residentes nesta ruidosa, colorida e animadíssima celebração.É o Dragão que chega, anunciando um ano auspicioso, pleno de vitalidade e grandes realizações, mas que geomantes respeitados entendem que poderá ser também de fortes mudanças e algumas catástrofes, ao lado de novas experiências e boas oportunidades. Para uns, será um período de significativos sucessos e, para outros, de marcantes fracassos. Nesta altura, já muitos explicaram as suas previsões, nem sempre coincidentes, como é natural e normal, embora, de um modo geral, considerando mais favorecidos os signos do Rato, do Tigre, do Coelho, do Galo e do Macaco, e os mais prejudicados os do Búfalo e do Cão.O Dragão é o único signo do zodíaco chinês que corresponde a um animal mitológico, sendo caracterizado pelo estusiasmo, pelo orgulho, pela determinação e também pela extravagância. É ele o guardião da riqueza e do poder, pelo que foi escolhido para simbolizar o imperador, na plenitude da sua grandeza. O seu espírito indomável pode, contudo, fazer ultrapassar os limites da prudência e gerar conflitualidade, agravada pela intolerância e pela arrogância. O novo ano será, assim, de assinaláveis sucessos, mas os desaires terão uma dimensão e uma extensão equivalentes. E quem quer que exerça a autoridade, a qualquer nível, deverá esforçar-se na procura da contenção e da moderação, para vencer excessos de entusiasmo e de ambição.Dragão – vitalidade, coragem, entusiasmo, determinaçãoTal como fizemos há poucas semanas, quando entrámos no ano de 2012, é também com uma selecção de quadras do nosso saudoso Adé que saudamos a chegada do Dragão, com votos de “Kong Hei Fat Choi”:Áno-Nôvo-ChinaSã Áno-Nôvo-China qui ta chegáCo tudo su catá-cutí.‘Lai-si’ grôsso-grôsso nádi faltá,Pauchong barulento lôgo têm pa uví.Liám ‘tom-chám’ lôgo vêm fora,Dragám cumprido vai corê avenida.Tudo gente ta pedí agoraNôvo áno co sosségo na vida.Pa nôsso amigo china-china,Ilôtro-sa áno-nôvo sã festarám.Áno nunca chegá dobrá esquina,Tudo ta preparado pa ocasiám.Casa lôgo limpo-assiado,Rópa nôvo lôgo têm pa usá, Na cuzinha, panelám ta lavado,Um-cento pitisquéra têm pa cuzinhá.“ Chêro di nôsso Áno-Nôvo Nunca passá vai ramatá, Virá ôlo, más unga Áno-Nôvo Têm na trás di porta pa intrá.”Adé, “Áno-Nôvo-China”
  • 016 017F A L A R D E N Ó S – IX J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – IXQuim devê sapeca pa gente,Têm-qui corê vai pagá;Dívida pagado, tudo contente;Dívida isquecido, tudo festa lô estragá.Si têm ancuza impinhado,Azinha vai dizimpinhá.Sapato si ta isburacado,Sapato nôvo têm-qui comprá.Nhu-nhum na botica tá fichá cónta,Nho-nhónha comprá fula na bazar;Na porta-rua, di pónta-a-pónta,Têm papel vemêlo pa tirá azar.Quánto vaso inchido di ‘cat-chai’,Co dóci ’óng-ling-ngao’, ‘tóng-ling-chi’,‘Chin tôi’, ‘tái-lóng-kou’, ‘tóng-ma-t’ai’,Lôgo têm juntado co ‘cuá-chi’.Tempo antigo, na rua co travessaTêm ‘clu-clu’ pa gente jugá.Quim jugá qui perdê cabéça,Quim capaz, pôde ganhá.’óga, ióga! Sióla, Sium!’China di ‘clu-clu’ tá gritá!Siara pegá mám di su nhum,Tirá sapeca vai ariscá.‘Ióga, ióga! Sióla, Sium!Ióga muto, muto pôde ganhá!’Vovô perdê que ficá murúm,Sentí uví Chacha gurunhá.Agora, quim querê jugáTêm-qui corê vai casino.Bólso gordo na ora di intrá,Cavá jugá, sai fino qui fino.Áno-Nôvo quelora chegá,Tudo rôsto lô ficá raganhado.Nom-pôde pegá gente rabujá, Nom-pôde onçôm ficá geniado.Pauchong plim-plám tá quimá,Pa savaná mufinaze vai fora.Na pagóde, sandê pivete rezá,Batê cabéça co tudo pachora.
  • 018 019F A L A R D E N Ó S – IX J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – IXKong Hei Fat Choi sã palavra sagradoNa bóca di tudo gente.‘Lai-si’grôsso, ‘lai-si’ chapadoTêm pa tudo ficá contente.Um di Lua sã dia di familia,Tudo comê ‘chai’ qui enfastiá.Dôs di Lua começá floristia,Têm letám co galinha pa ravirá.”Nestes versos do poema “Áno-Nôvo-China”, Adé relata, com todo o chiste que o patuá permite, a azáfama que rodeia as festividades, em casa, na rua, nos templos, nos mercados, nas lojas e nos locais de diversão, e refere hábitos e tradições ancestrais, as inevitáveis danças do leão e do dragão, os petardos e o fogo de artifício, as saudações da época e o convívio intensamente partilhado.À nossa terra e às suas gentes desejamos um Ano Feliz, com um Dragão que traga fortuna, sorte, bem-estar e perspectivas de um futuro risonho.26 de Janeiro de 2012Ainda sob os auspícios do Ano Novo Chinês, vale a pena referir um livro muito interessante e de alto valor pedagógico que a Escola Portuguesa de Macau em boa hora publicou, com o título “Sob o véu do tempo”, reunindo velhos contos e lendas da China e de Macau, reescritos por alunos dos 6.º e 7.º anos, com o apoio e o acompanhamento das professoras Marinela Ferreira e Zélia Mieiro. Saiu do prelo em Novembro de 2010 e é uma edição que dignifica a Escola.São quatro os contos e lendas de Macau: “Amor Entrelaçado”, “A-Má, a Deusa Protectora”, “O Poço dos Ananases” e “O Remendão A-Pêng”. Todos conhecem a lenda da deusa A-Má, muito venerada pelos chineses e com especial significado para a nossa terra, sendo o templo que lhe é dedicado um dos locais de culto mais procurados na celebração do novo ano. Foi assim que os alunos da Escola Portuguesa de Macau recontaram essa linda história:A-Má, a deusa protectora“Quando os pescadores de Macau se sentem desamparados ou falhos de esperança porque a faina piscatória não está a correr da melhor maneira, é à deusa A-Má que eles se dirigem, pedindo protecção e ajuda, para que surja alguma prosperidade nas suas humildes existências ou, simplesmente, poderem matar a fome dos seus.Tudo começou em tempos muito, muito remotos e conta-se que, num porto, duma povoação do sul da China, onde viviam abastados comerciantes e abundantes proprietários de embarcações, certa ocasião, quando todos se preparavam para mais um dia de labuta e, nos barcos, a azáfama era ininterrupta, com as âncoras prestes a A lenda de A-Má contada por alunos da Escola Portuguesa“As lendas e os contos aqui reunidos pretendem ser representativos da imensa riqueza cultural latente na Grande China”
  • 020 021F A L A R D E N Ó S – IX J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – IXserem levantadas, surgiu, no cais, uma etérea donzela. Pele cor de marfim, cabelos negros, ondulando na suave brisa matinal, a jovem desesperada, corria de junco em junco, tentando convencer os patrões a levarem-na com eles.A-Má tivera um sonho – a sua felicidade estava numa povoação que ficava do outro lado do mar. Aí, a sua existência miserável acabaria e, no mínimo, teria uma enxerga para dormir e algo para saciar a fome, já que até ao presente momento, a vida fora demasiado impiedosa para ela. Não conhecera pai nem mãe, abandonada, rejeitada, empurrada constantemente de poiso em poiso, poucas vezes tivera motivo para sorrir. Porém, a esperança nunca a abandonara, era determinada e persistente e, mais uma vez, ia conseguir atingir o seu objectivo.Nessa noite, o seu olhar inocente acreditou, apreciando uma chuva de estrelas cadentes tão cintilantes e argênteas no firmamento, que lhe iria ser oferecida uma nova oportunidade, aquela que ela nunca vivera. Tinha de mudar e, por isso, ali estava de novo a forçar o destino... – Por amabilidade, meu senhor, leve-me consigo no seu barco! Eu não ocupo espaço nenhum, nem darão pela minha presença. É tão importante chegar hoje ao outro lado! Tenha piedade de mim! — implorou A-Má.– Sai daqui empecilho, só atrapalhas as nossas manobras. A-Chan, atira-lhe com essa tábua. Vê se a espantas daqui! — resmungou, grosseiramente, o dono do barco.E, A-Má dirigia-se para a embarcação seguinte com a mesma ladainha e o mesmo resultado, percorrendo todos os barcos atracados. Aí, apenas se pensava nos lucros chorudos que se iriam obter, graças aos preciosos carregamentos: porcelana de desenhos azuis sobre o branco acinzentado que faria as delícias de qualquer mandarim ou dona de casa abastada, folhas de chá estaladiças, prontas a serem usadas nas mais finas casas de chá, especiarias exóticas que tornariam os cozinhados mais afamados da casa de pasto que as pudesse adquirir, ou sedas multicolores, delicadas e lustrosas, verdadeiras honrarias que encheriam de vaidade as donzelas e as damas que as pudessem adquirir... Um rogo tão puro que a mesquinhez e o egoísmo humano impediam de atender...A rapariga, descorçoada, contemplava o céu que, suavemente, ia mudando de tonalidade e o sol, que nascera tão alegre, também ia entristecendo, sem que ninguém se apercebesse. As suas últimas esperanças estavam quase a desvanecer-se. Seria possível, ninguém atender o seu singelo pedido?‘Não, não vou desistir! Lá longe, está um pequeno junco que ainda não partiu!’, animou-se a pobre enjeitada da sorte.Então A-Má, que corria desesperadamente todo o cais, saltando por cima do cordame, das redes espalhadas, dos pedaços de madeira velha, das velas gastas e amontoadas... às tantas, perdeu um dos seus delicados sapatinhos. Todavia, não havia tempo para voltar atrás e correu alucinada até alcançar a pequena embarcação, a última a deixar o porto.– Mestre Zhu, não arranja um cantinho para mim? Qualquer buraquinho é suficiente! — suplicou ela pela derradeira vez.
  • 022 023F A L A R D E N Ó S – IX J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – IX– Entra rapariga, em barco de pobre, há sempre lugar para um necessitado — animou A-Zhu, reparando na inocente penúria da rapariga e na ausência de sapato no seu frágil pé esquerdo.E assim, lá foram tranquilamente, mar fora. Os juncos abarrotados de preciosas cargas navegavam juntos, para se protegerem e auxiliarem, em caso de necessidade, quiçá de ataques de piratas! Lá iam as esbeltas embarcações, de velas ufanas, inchadas pelo vento que soprava favoravelmente. Era um belo espectáculo, aquele, digno de ser apreciado! O velame açafrão recortado no azul-celeste do horizonte...Atrás, bem distante, seguia, sorrateiramente, o pequeno junco, sem pressas, porque os pobres têm todo o tempo do mundo.Mas, aquele tempo de prosperidade, dono de tanta arrogância, foi-se diluindo, quando os patrões dos juncos desconfiaram que um temporal se aproximava. E que temporal! A possibilidade de se abater sobre eles uma daquelas terríveis tempestades, que costumam varrer os mares do sul da China, aterrorizou-os e fê-los tomar as habituais precauções.Horas depois, o receio reinava em todas as mentes e o pânico foi-se instalando, gradualmente, quando o céu se começou a toldar e o horizonte a carregar-se de nuvens negras que, empurradas pelo vento sul, acorriam de todos os lados. As águas verdes e cinzentas engrossavam rapidamente e as espumas das ondas varriam o convés das embarcações, com um ímpeto cada vez mais violento. Ouvia-se os mastros gemer, num sofrimento abafado. De repente, começou a chover. Grossas bátegas de água provocavam um barulho ensurdecedor por entre as preciosas mercadorias e os objectos marinhos necessários à navegação. Vozes gritavam por todo o lado, mas sentiam-se impotentes perante o poder hercúleo da força das vagas que iam quebrando, tábua a tábua, os cascos e os mastros dos juncos, quais pequenas nozes no meio de uma aterrorizadora intempérie. Os marinheiros eram cuspidos para o mar como se se tratasse de trapos abandonados. Os deuses eram invocados, mas deviam estar adormecidos porque não houve nem vestígios de um assomo misericordioso, para com estes pobres mortais.Todas as providências tomadas se mostraram inúteis, infrutíferas e, um por um, todos os barcos se afundaram, carregados com as suas riquezas e as vidas humanas, indo tornar mais grandioso o fundo do oceano.Apenas uma pequena embarcação se mantinha indómita no seu percurso, era o humilde junco que, ileso, avançava, lentamente, por entre os destroços. Agarrada ao seu leme, A-Má, compenetrada da sua missão, conduzia-o, concentrada e destemidamente, levando-o ao bom porto, ou seja, ao destino tão ansiado.Chegados, sãos e salvos, o patrão da embarcação não sabia como recompensá-la pela sua façanha, oferecendo-lhe tudo o que ela desejasse, porém a rapariga recusou todas as oferendas e aproveitou para lhe agradecer a sua generosidade, pois fora o único a aceitar transportá-la.Despediu-se, graciosamente, e dirigiu-se para terra, começando a subir uma suave colina verdejante, sobranceira à baía onde tinham aportado. De repente, esfumou-se
  • 024 025F A L A R D E N Ó S – IX J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – IXa sua imagem para espanto do dono e dos tripulantes da embarcação, por entre um clarão circular que emitia uma luz, em várias tonalidades cintilantes, intensa, viva e ofuscante, quase divina, que eles jamais poderiam ter imaginado.Acorreram sôfregos ao local uma vez que, só neste momento, se aperceberam de que tiveram por companheira de viagem uma deusa e não a queriam perder.Contudo, no espaço onde A-Má desaparecera, depararam-se com uma frondosa árvore sagrada, inigualável pois, no sítio onde o tronco liga com o solo, a parte direita estava introduzida para se prolongar nas raízes e tinha o feitio de um delicado sapatinho feminino, mas, a parte esquerda, que também perfurava a terra, representava um gentil pé.A-Zhu, que habitava em Macau, imediatamente correu a espalhar a notícia e A-Má passou a ser venerada como a deusa protectora dos pescadores, tendo sido construído um bonito templo em sua honra, naquela colina, também conhecido pelo Templo da Barra, e é para ele que todos os homens do mar se voltam, ao entrar ou sair do porto.” O livro integra a “Colecção Jovens Escritores”. Há talento e vontade para mais. Parabéns, Escola Portuguesa de Macau por mais uma bem conseguida realização.30 de Janeiro de 2012Embora raramente merecendo a atenção dos órgãos de comunicação social portugueses, continuam significativas e abundantes, em Portugal, as actividades relacionadas com Macau.Podemos identificar algumas das mais relevantes, levadas a efeito nas últimas semanas: Ano Novo ChinêsComo habitualmente, a Casa de Macau em Portugal reuniu os seus associados num agradável almoço de celebração do ano novo lunar e da chegada do Dragão. Mais uma vez o local escolhido foi o muito apreciado restaurante “Mandarim” do Estoril, integrado no complexo do casino.A Associação Wenceslau de Moraes, por seu lado, organizou um jantar comemorativo no restaurante “Yum Cha”, em Oeiras, também muito procurado pela comunidade macaense.Outras associações e diversos grupos informais de macaenses, como o “Partido dos Comes e Bebes”, também promoveram animados encontros de convívio, vários dos quais nos restaurantes “Dim Sum”, no Cacém, e “Grande Palácio”, na Rua Pascoal de Melo, em Lisboa.Macau em múltiplas iniciativas em Portugal“Portugal e a China partilham singulares relações. Enquanto tempo, são as mais antigas relações regulares entre Ocidentais e Chineses existindo há mais de meio milénio (1509). Enquanto espaço, desenvolveram uma micro fronteira marítima comum (Macau/RAEM), uma zona internacional de serviços em rede que potencia através dos portugueses e de Portugal a dimensão internacional planetária da China”. Da Nota Prévia de “Tomás Pereira. Obras”
  • 026 027F A L A R D E N Ó S – IX J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – IXO Instituto Confúcio da Universidade de Lisboa e o Museu do Oriente prepararam diversas actividades comemorativas e foi inaugurada uma exposição alusiva ao novo ano no Centro Científico e Cultural de Macau, na Junqueira (Lisboa).Exposições“O vermelho na cultura chinesa” é o título da exposição fotográfica inaugurada no Centro Científico e Cultural de Macau, em Lisboa, no dia 18 de Janeiro, no âmbito da cooperação mantida com a Embaixada da República Popular da China. Patente no salão do auditório do Centro até 4 de Março, esta vistosa mostra divulga aspectos variados de tradições culturais e também imagens do dia-a-dia em que a cor vermelha é predominante em toda a sua forte dimensão simbólica, representando a alegria da vida, a felicidade e a riqueza. Surge, por isso, por todo o lado, nas festividades, em motivos decorativos e até na actual bandeira nacional chinesa, onde traduz também o entusiasmo revolucionário.No Centro permanece aberta ao público, até 30 de Abril, uma belíssima exposição de bronzes e jades da colecção de José de Guimarães, artista português com projecção universal, que alia esta qualidade à de criterioso coleccionador e admirador da arte chinesa. A exposição e o catálogo tiveram o apoio da Fundação Jorge Álvares.Entretanto, duas versões da exposição fotográfica “Macau é um espectáculo”, organizada pelo Instituto Internacional de Macau com a colaboração de associações fotográficas de Macau, mostrando cenas de actividades artísticas nas ruas e praças de Macau, continuam a fazer a sua itinerância por cidades portuguesas e brasileiras.Ciclo de ConferênciasA Sociedade Histórica da Independência de Portugal iniciou, no dia 19 de Janeiro, um novo ciclo de conferências, com a China como tema central e em que o papel de Macau alcança especial dimensão. Proferiu a palestra inaugural o Embaixador Eurico Paes, que dissertou sobre “A China e o futuro do Mundo”, debatendo, a seguir, com o numeroso público presente algumas das grandes questões relacionadas com o crescimento da China e a sua evolução futura.Caberá ao autor desta crónica, na qualidade de presidente do Instituto Internacional de Macau, apresentar, no dia 16 de Fevereiro, uma comunicação sobre “Macau, plataforma de cooperação da China com o mundo lusófono”. Protagonizarão as sessões seguintes os Generais Vasco Rocha Vieira e José Eduardo Garcia Leandro, antigos Governadores de Macau, e outras pesonalidades. “Um país, dois sistemas” e “Macau, património da humanidade” são alguns dos temas a tratar.Este ciclo integra-se numa evocação dos 500 anos da chegada dos Portugueses à China e ao Sudeste Asiático. Conversas do Chá e do CaféO auditório da Delegação Económica e Comercial de Macau em Portugal acolheu, no dia 6 de Janeiro, a sessão de apresentação do livro “Conversas do Chá e do Café”, de António Conceição Júnior, com a participação do autor e de Ana Paula Laborinho, presidente do Instituto Camões, que estimularam um diálogo apelativo com um público muito interessado que encheu o recinto.
  • 028 029F A L A R D E N Ó S – IX J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – IXO livro contém pequenas narrativas, “nas quais a acção perde para a ideia, o sentimento e a emoção estética”, como bem referiu Carlos Morais José, no prefácio. Nas suas páginas “o encontro entre Portugal e a China (Ocidente - Oriente) é tratado por dentro e não do ponto de vista de um observador distanciado e neutro”, porque “estamos perante um autor capaz de nos apresentar um universo de infinitas possibilidades, no qual a escrita literária se funde com o pensamento, a estética e a magia”. São, na verdade, “duas visões do mundo que se cruzam e se atraem”, deleitando-se no prazer da diferença e do inesperado.Parabéns, António Conceição Júnior, artista macaense consagrado, por esta inspiradora colecção de pequenos textos de agradável leitura e estimulante conteúdo.Na Delegação, a exposição de pintura de Pedro Barreiros foi, entretanto, substituída por outra, de Ana Morgado e Helena Lehrfeld, intitulada “Em Trilhos Orientais”.Tomás PereiraOs dois volumes de obras de Tomás Pereira, SJ, um dos mais notáveis missionários na corte de Kangxi, exercendo junto do Imperador as funções de professor de música, conselheiro diplomático, consultor político, astrónomo, matemático, arquitecto, geógrafo e artífice especializado em relógios e órgãos mecânicos, acabam de ser lançados no Centro Científico e Cultural de Macau, em muito concorrida cerimónia realizada do dia 1 de Fevereiro.O presidente daquele Centro, Prof. Luís Filipe Barreto, explicou que “esta edição permite avançar no estudo científico e na alta divulgação desta figura nuclear nas relações luso-chinesas dos finais de século XVII e inícios do século XVIII”, permitindo, também, conhecer melhor a Corte Imperial de Kangxi, bem como as diferentes relações da China Qing com os europeus e entre os europeus na China.“Tomás Pereira. Obras” é o resultado do trabalho de uma equipa de investigação, constituída naquele Centro, que, ao longo de cinco anos, foi levantando e recolhendo um vasto conjunto de fontes escritas, de arquivos de vários países, de ou sobre Tomás Pereira. “Pela primeira vez existe um sólido quadro documental das suas cartas e tratados, relatos e diários acompanhado de complementares documentos sobre a sua vida e família”.Iremos dando conta, neste espaço, das principais realizações relacionadas com Macau, em Portugal e nos círculos da diáspora macaense.6 de Fevereiro de 2012
  • 030 031F A L A R D E N Ó S – IX J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – IXAlém do Natal e do Ano Novo, o Carnaval foi a festividade tradicional macaense que mais atenção mereceu do nosso Adé, nos seus apreciados poemas “maquistas” e nas peças que talentosamente apresentou e ensaiou, em récitas inolvidáveis em que também participou, de alma e coração, como actor e encenador.Nesses poemas, como “Macau-sa Carnaval”, “Entrudo na Macau”, “Carnaval di Agora” e “Olá Bôbo”, Adé caracterizou fielmente o ambiente de folia e animação em que a comunidade macaense outrora alegremente mergulhava, com desfiles, ranchos de mascarados, actuações de tunas, “assaltos” carnavalescos, comédias, matinés especiais para crianças, com concursos dos melhores trajes, dançaricos em clubes e bailes de máscaras que se prolongavam até alta madrugada. Ainda era assim, com todo o fulgor, no segundo quartel do século passado, acentuando-se o seu declínio, progressivamente, nas décadas seguintes, não obstante os esforços de algumas agremiações recreativas e culturais para manterem viva uma benquista tradição.Alguns dos versos de Adé, alusivos ao Carnaval, visaram também a crítica social, como é evidente em “Macau-sa Carnaval”, quando o poeta faz saber que “Gente entretido co política, / Nom-tem vagar vestí bôbo. / Quim querê olá bôbo / Co um-cento babuzéra na bóca, / Nancassá isperá carnaval.” (“Gente entretida com a política, / Não tem pachorra para se mascarar. / Para se verem por aí bobos, / Com a boca cheia de baboseiras, / Não é preciso esperar pelo carnaval.”). Ou, no mesmo poema, quando se refere com sarcasmo ao carnaval de todos os dias: “ ‘Macau di agora únde têm carnaval?’ / Chacha, geniado, ta gurunhá! / ‘Querê olá bôbo? Têm pa olá / Tudo ora, na roda di áno, / Maz nunca sã bôbo di carnaval!’ ” ( “ ‘Macau de agora com carnaval?’ / Resmungava a Avozinha irritada. / ‘Querem ver bobos? Podem vê-los / A toda a hora, à roda do ano, / Mas não são esses do carnaval!’ ”)“ Uví, sã tempo di carnaval! Iou ta uví marcha di tuna, Atai-atai ta chomá ‘aqui bôbo Vosôtro azinha vêm olá!’”Adé, “Macau-sa Carnaval”Uví, sã tempo di carnaval!Para deleite dos cultores do patuá, aqui está um dos mais conhecidos poemas de Adé dedicados ao Carnaval:Carnaval di AgoraCarnaval já sai di casa,Co tudo su boboriça.Já vêm co calor di braza,Mostrá laia-laia parabiça.Cháqui-cháqui Carnaval,Nhu-nhum qui bom divertí:Olá nhónha na quintal,Sai mám azinha chubí.Nôs sentí qui nom têm chiste,Seléa mau carnaval;Quim más bôbo quim más triste,Quim murúm como pardal!Hoze em dia CarnavalNom têm sabôr nim amôr:Ramendá áde sim sal,Co chiquía di apô.
  • 032 033F A L A R D E N Ó S – IX J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – IXNon mestê nhónha pensáQui unga dia intéroLôgo têm bôbo pa olá,Co tuna di musiquéro.Carnaval di aquelora,Qui sã nádi más voltá.Mui-Mui, Marica, Teodora,Sã qui capaz pandegá.Unga dia Títi Bita,Pegá na quánto sobrinha,Botá dominó di chita,Usá bôbo azinha-azinha.Trêz galo-dôdo brejéro,Corê trás di bôbo fémea.Ilôtro fugí ligéro,Gritá “nôs nunca sã fémea”!Quánto más nhónha corê,Más acunga trêz seguíBôbo sua perna tremê,Chomá Bita decidí.Tremê como vára-vérde,Bita pegá saia erguíEmpê perto di parêde,Fingí ta fazê sisí.Galo-dôdo ficá triste,Virá costa sai di aliJá sentí que non têm chiste,Pegá nhu-nhum pa bulí.Nunca sã inventaçám,Estunga estória di bôbo.Gente antigo sã pimpám,Sã capaz bulí co bôbo.Bôbo-bôbo di agora,Nuncassá cubrí su rôsto;Máscra têm, cada unga ora,Cadacê com unga gôsto.Têm bôbo feo, têm chistoso, Na Carnaval di agora.Quim sã bicho venenoso,Quim sã diabo tudo ora.
  • 034 035F A L A R D E N Ó S – IX J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – IXNeste poema, Adé descreve cenas cómicas das festas carnavalescas, goza com o ridículo de certas situações picarescas, critica os verdadeiros bobos do seu tempo (“Bôbo-bôbo di agora, / Nuncassá cubri su rôsto”) e confirma que “Hoze em dia Carnaval / Nom têm sabôr nim amôr” (“Hoje em dia, o Carnaval / Não tem sabor nem amor”). São, de facto, outros os tempos e outros, bem diferentes, os hábitos e as vontades duma comunidade que se dispersou pelo mundo, levando consigo e revivendo, longe da terra amada, as suas mais genuínas tradições.No próximo artigo, vamos ver o poema “Olá Bôbo”, que todos os macaenses conhecem bem e muitos já cantaram. Esses versos constituem a letra de uma canção que a Tuna Macaense interpreta nas suas regulares actuações públicas.13 de Fevereiro de 2012Dando sequência ao artigo anterior e cumprindo o prometido, juntamos ao poema “Carnaval di Agora”, aqui inserido na semana passada, o famoso “Olá Bôbo”, do nosso Adé, que tão bem soube, na “língu maquista”, expressar os sentimentos e descrever as tradições e festas da comunidade macaense:Olá BôboCara limpo, cara suzo, Vestí bôbo tudo iscondê;Chacha véla lôgo oláSi pôde jóvi parecê.Dominó quelora suzo,Nina-nina sã nádi usá;Masquí seza Carnaval,Nho-nhónha nunca sã igual!Aqui bôbo, olá bôbo,Ta passá na basso di janela!Aqui bôbo, olá bôbo,Tirá máscra pa nôs olá!Nhónha jóvi, nhónha véla, Qui capaz vai junto pandegá;Bôbo tudo sã igual,Qui muchado, qui donzela,Vida sã unga Carnaval!“ Aqui bôbo, olá bôbo, Ta passá na basso di janela! Aqui bôbo, olá bôbo, Tirá máscra para nôs olá!”“Olá Bôbo” — o Carnaval em verso
  • 036 037F A L A R D E N Ó S – IX J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – IXGente pobre, gente rico,Vestí bôbo pa divertí;Chacha certo sabe olá Si vôs sã vêm pa chicurí.Tio Chai-Chai co Tico-Tico,Olá saia mám ta cuçá:Masquí seza Carnaval,Hóme-hóme nunca sã igual!Aqui bôbo, olá bôbo,Ta passá na basso di janela!Aqui bôbo, olá bôbo,Tirá máscra pa nôs olá!Nhónha jóvi, nhónha véla,Qui capaz vai junto pandegá;Bôbo tudo sã igual,Qui muchado, qui donzela,Vida sã unga Carnaval!Poucos são os macaenses que não conhecem este poema. Mesmo em terras distantes onde se radicaram membros da nossa comunidade, esses versos são cantados em ocasiões festivas.O Carnaval de MacauPara os leitores que não entendem o patuá, escolhemos algumas partes da versão portuguesa do poema “Macau-sa Carnaval” (“O Carnaval de Macau”), também da autoria de Adé:A nossa Avozinha, noutros tempos,Mascarava-se em todos os carnavais.Em grupinhos, com senhoras conhecidas,Deixando os maridinhos em casa,Elas adoravam sair à rua mascaradas,Perfiladas atrás da tuna musicalPara fazer toda a casta de diabrurasE dizer coisas com imensa piada.Recordar o carnaval doutros temposÉ para a Avozinha sentir saudades.Carnaval era tempo de ladú,Massa guisada e pudim de nabo.Havia hora para cantar e dançarE hora para os mascarados divertirem a gente.Ninguém dava cavaco,Quando eles se metiam com as pessoas.
  • 038 039F A L A R D E N Ó S – IX J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – IXUm mês antes do entrudo,A paródia começava em vários lugares.Os mascarados, acompanhados da tuna,‘Assaltavam’ casas de amigos,Para dançar, cantar e alegrar o coração.Os donos da casa não se preocupavam...Os ‘assaltantes’ que iam para se divertirLevavam consigo ceia farta.Chegado o carnaval, o Clube de Macau,Clube dos Sargentos e Grémio MilitarDavam animados bailes.A gentinha dançava até doer os pés,Desde a noitinha até ao amanhecer.Chegada a hora, serviam canja de galinhaE uma porção de iguarias,Que todos comiam até se fartar.Depois do carnaval, havia comédiasNo dialecto antigo de Macau,Para todos rirem às bandeiras despregadas.Passados uns dias, vinha a ‘micareme’,Com mais bailaricos nos clubes.A tuna tornava a sairCom os mascarados a fazer-lhe cauda,Para ‘assaltar’ mais alguns casarões.Agora, o carnaval, chegada a horaVem e depressa se vai embora,Ninguém sentindo a sua presença.Gente entretida com a políticaNão tem pachorra para se mascarar.Para se verem por aí bobos,Com a boca cheia de baboseiras,Não é preciso esperar pelo carnaval.”As festas de Carnaval foram perdendo importância e participação, sensivelmente, a partir de meados do século XX. José Silveira Machado (“Macau na Memória do Tempo”, 2002) deixou-nos este simpático relato: “Em épocas passadas, Macau ria a bandeiras despregadas. Vestia-se de fantasia e andava pelas ruas, cantando e galhofando, palhaçando, em gestos e atitudes de truão. Os sons alegres das tunas e os risos do rapazio explodiam em melodias ensaiadas durante muitas semanas e em gargalhadas estridentes, provocadas muitas vezes pela visão das máscaras, engraçadas e originais”.As festas, os “assaltos” e os desfiles quebravam a monotonia da cidade e estimulavam o convívio e a alegria de viver, no seio da comunidade. Outros tempos, outros hábitos...20 de Fevereiro de 2012
  • 040 041F A L A R D E N Ó S – IX J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – IXHá poucas semanas, identificámos as mais relevantes iniciativas ligadas a Macau organizadas em Portugal no início do novo ano. Tem sido uma presença constante, através de diversificadas instituições, públicas e privadas, sendo de realçar a qualidade e a variedade das actividades levadas a efeito.2011 foi um ano fértil em realizações conotadas com Macau, na forma de seminários, exposições, cursos, convívios e novas edições. Vale a pena recordar algumas das que tiveram maior significado nos últimos meses do ano e que não foram ainda referidas neste espaço dedicado especialmente à comunidade macaense:Formação de quadros chineses24 quadros técnicos pertencentes a organismos do Conselho de Estado da República Popular da China, muitos dos quais colocados no Gabinete de Ligação do Governo Central na RAEM, participaram num conjunto de acções de formação em Portugal, em regime intensivo, durante o mês de Setembro, visando um conhecimento maior da realidade portuguesa actual, nas vertentes política, jurídica, administrativa e económica. O Instituto Internacional de Macau (IIM) e o seu presidente receberam a incumbência de programar e coordenar essas acções, com a colaboração de instituições académicas, serviços públicos, empresas, organismos associativos e personalidades ligadas a diversas áreas especializadas. São de destacar um curso preparado expressamente pelo Instituto do Oriente (Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade Técnica de Lisboa), seminários no Palácio da Independência, sede da Sociedade Histórica da “... tendo sido local de inspiração da obra de autores maiores do nosso idioma comum, (Macau) eleva-se como uma jóia singular no património da Lusofonia.”“Perspectivas actuais da Língua Portuguesa”, Out. de 2011Presença constante de Macau em terras lusasIndependência de Portugal, onde o IIM tem a sua delegação em Lisboa, contactos directos com parques tecnológicos, serviços públicos, autarquias e associações empresariais e laborais, visitas à Presidência da República, à Assembleia da República, ao Ministério dos Negócios Estrangeiros, às Universidades de Aveiro e de Coimbra, às Câmaras Municipais de Guimarães, Porto e Coimbra, ao Centro de Formação de Tropas Comandos, onde são preparados militares para missões de paz no âmbito de organizações internacionais, a museus e a monumentos e a outros locais de interesse histórico, cultural e económico.A avaliação final feita pelos participantes e pelos organismos de que dependem foi muito positiva, podendo ser organizadas novas acções complementares de formação.ExposiçõesUma parceria estabelecida entre o Centro Científico e Cultural de Macau e a Embaixada da China tem permitido a realização regular de exposições conjuntas nos espaços para mostras temporárias existentes naquele organismo dependente do Ministério da Educação e Ciência do Governo da República Portuguesa. Assim, em Dezembro, mais uma exposição foi ali inaugurada, dedicada a Sun Yat-sen: “Um Século de Grandes Transformações — 100 Anos da Revolução Chinesa de 1911”. Foi uma forma digna de assinalar o centenário da implantação da República na China.Também merece menção a mostra “Dos Portos do Sião”, organizada para comemorar o 5.º centenário das relações luso-tailandesas. Foi comissariada pelo Prof.
  • 042 043F A L A R D E N Ó S – IX J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – IXAntónio Vasconcelos de Saldanha e inaugurada na Biblioteca Nacional de Portugal em Novembro.Entretanto, continuou a fazer a sua itinerância por cidades portuguesas a exposição “Macau é um espectáculo — as artes nas ruas de Macau”, organizada pelo IIM.Novas ediçõesO Prof. Adriano Moreira apresentou, em Dezembro, na Livraria Almedina Oriente, no Parque das Nações, em Lisboa, o livro “Portugal e a China. Uma relação com futuro”, de Luís Monteiro. Este estudo procura interpretar o rápido crescimento de algumas regiões asiáticas e analisar a economia chinesa, numa perspectiva de médio e longo prazos, apresentando também as oportunidades que se oferecem a Portugal neste contexto. O livro e a sessão tiveram o apoio da Fundação Jorge Álvares.No fim do ano foi também lançado no Museu do Oriente, em Lisboa, e apresentado depois na sede da Fundação Casa de Macau, o livro “As Quatro Estações — Memórias de um Portugal Maior”, do Juiz Conselheiro José Maria Rodrigues da Silva, que desempenhou funções em Macau na década de 90. É uma “ode à grandeza de Portugal que deu mundos ao mundo”. No dizer de Urbano Tavares Rodrigues, “é um romance epopeia, num tempo em que já não há epopeias”. A trama é narrada pelo personagem João Fonseca, o qual tinha três objectivos na vida: escrever, descobrir o mundo que os portugueses construíram e encontrar um sentido para a vida. São especialmente apelativas as descrições das suas peregrinações por Macau, Malaca, Goa, Nagasaki, Tanegashima e Brasil, descobrindo em todos os lugares que a marca que os portugueses deixaram se mantém viva. É da Âncora Editora.“Portuguese Books and their Readers in the Jesuit Mission of China (17th – 18th Centuries)”, de Noël Golvers foi mais um estudo histórico lançado no Centro Científico e Cultural de Macau, em Novembro, com o patrocínio da Fundação para a Ciência e Tecnologia de Portugal. Ciclo de conferênciasO Observatório da Língua Portuguesa organizou nos últimos meses do ano um ciclo de conferências sobre a Língua Portuguesa, de que se destacam as comunicações apresentadas sobre a internacionalização da Língua Portuguesa e sobre a sua importância económica. Os intervenientes, entre oradores e moderadores, foram destacadas personalidades relacionadas com esta temática, como o jornalista e editor José Carlos Vasconcelos, o professor Manuel Braga da Cruz, reitor da Universidade Católica Portuguesa, o embaixador Marcelo Mathias, o deputado José Ribeiro e Castro e a jornalista Ana Sousa Dias. Foram feitas referências a Macau e à sua posição como centro de relacionamento entre a China e os Países de Língua Portuguesa. Numa das sessões foi feita a apresentação do opúsculo “Perspectivas actuais da Língua Portuguesa”, publicado pelo Instituto Internacional de Macau em Outubro, contendo a palestra proferida em Macau pelo embaixador Eugénio Anacoreta Correia, presidente do Observatório da Língua Portuguesa, na abertura do seminário “A Língua Portuguesa no contexto do diálogo entre a China e o mundo lusófono”, o texto do protocolo de cooperação firmado entre o IIM e o Observatório e a Declaração de Brasília para a Promoção, a Difusão e a Projecção da Língua Portuguesa.
  • 044 045F A L A R D E N Ó S – IX J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – IXCasa de MacauA Casa de Macau de Portugal ofereceu aos seus associados, em Dezembro, mais uma edição do workshop de culinária macaense, na sua sede em Lisboa, sob a orientação de Graça Pacheco Jorge, confreira de mérito da Confraria da Gastronomia Macaense.Continuaremos a registar, neste espaço, as iniciativas de maior mérito e significado, relacionadas com Macau, levadas a efeito em Portugal. E aproveitamos para anunciar duas novas actividades, a realizar nos próximos dois dias, em Lisboa e no Porto:Macau na Assembleia da RepúblicaRita Santos, Jorge Braga de Macedo e o autor deste artigo serão os oradores num colóquio a realizar na Assembleia da República amanhã, 28 de Fevereiro, às 18 horas, sobre “Portugal e Macau na Lusofonia Global”.Homenagem a Pinto MachadoO Professor Joaquim Pinto Machado, antigo Govenador de Macau, falecido no ano passado, será homenageado numa sessão solene a realizar no dia 29 de Fevereiro, às 10 horas, na Aula Magna da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto.27 de Fevereiro de 2012A Librairie Larousse, de Paris, publicou em 1984 e 1985 uma série de fascículos dedicados à China milenar, incluídos na sua colecção “Des Pays et des Hommes”, enfatizando os usos e costumes, a cultura e as tradições. Compilados depois pelas Selecções do Reader’s Digest em volumes, um deles, dado à estampa em 1992, na versão portuguesa, reuniu os textos e as ilustrações respeitantes à China e à península da Coreia.Macau mereceu naquele interessante e útil trabalho de divulgação cultural apenas três páginas e quatro fotografias, sendo uma da fachada de S. Paulo e as outras três de aspectos pitorescos da cidade, mostrando um calígrafo chinês pintando, com pincel e tinta dourada, papéis votivos, a casa de penhores Tak Seng On, sita na Avenida Almeida Ribeiro, e um junco engalanado para a celebração do Ano Novo Lunar, no Porto Interior.Com o título “ Macau: no estuário do Rio das Pérolas”, aqui está parte substancial da caracterização feita, que pouco tem a ver com o impressionante desenvolvimento que o território conheceu nas últimas décadas, antes e após a transição:“Um punhado de garotos sobe a correr as majestosas escadarias da catedral de São Paulo. Têm a pele dourada, olhos amendoados e cabelos de um negro brilhante, mas, surpreendentemente, vestem meias e calções compridos, e ‘blazers’ azuis escuros com botões de metal. É o uniforme de um colégio católico português. Passam a gritar pelo grande portão, sem um olhar para a imponente fachada barroca – um enorme esqueleto de pedra cinzenta pesadamente trabalhada, o último resquício do edifício original. O histórico monumento bem pode ser a igreja mais fotografada de todo o “Macau é um casamento perfeito, uma coexistência natural, uma ligação social que dura há mais de quatro séculos”.Como a Larousse via Macau há 30 anos
  • 046 047F A L A R D E N Ó S – IX J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – IXSueste Asiático; nada disso interessa a este bando de diabretes. De momento, estão completamente absortos na observação de dois adolescentes, que de ‘jeans’ e ‘t-shirts’, com o nome de uma universidade americana jogam ‘jai alai’, uma espécie de pelota basca trazida da Espanha, via Filipinas. A catedral foi desenhada por um jesuíta italiano e construída por japoneses cristãos no princípio do século XVII, para maior glória da sua religião adoptiva. Desde então, tem tido uma história agitada. O marquês de Pombal, que expulsou os Jesuítas de todas as colónias portuguesas, destruindo-lhes o poder económico e político, transformou a basílica em quartel. Depois, o edifício foi consideravelmente danificado por um incêndio. Finalmente, em 1853, um tufão destruiu o resto. Agora, as ruínas são apenas um atractivo acessório para as máquinas fotográficas dos turistas.”Um lugar estranho“Macau é um lugar estranho. Não passa de um ponto no mapa da China, umas poucas linhas nos livros de História, alguns parágrafos no fim dos guias de viagens. Só lá se chega de barco, a partir de Hong Kong, e os turistas nunca ficam mais de algumas horas. Os visitantes regulares são na sua maioria cidadãos de Hong Kong, que aqui vêm nos fins-de-semana para escaparem à agitação frenética da sua própria cidade, visitar parentes ou jogar nos casinos.Ignorem-se as decorações chinesas e, por momentos, julgar-nos-emos num porto português, ou pelo menos em qualquer pequeno porto mediterrânico. Há o mesmo barulho, o mesmo lixo, as mesmas cores esbatidas, os mesmos cheiros a peixe seco e batatas fritas. A atmosfera é simultaneamente buliçosa e descontraída. Há aqui poucos contrastes, e muito poucos preconceitos raciais. Os rostos das pessoas revelam a velha estabilidade das relações entre as colónias portuguesa e chinesa. Macau é um casamento perfeito, uma coexistência natural, uma ligação social que dura há mais de quatro séculos. Por isso deve começar aqui a nossa viagem pela China insular.Se Macau, Hong Kong e Taiwan alguma vez forem simples notas de rodapé na História da China, Macau terá ao menos sido a que durou mais tempo. A cidade foi a chave que abriu as portas da China aos ‘gweilo’ – os diabos estrangeiros. Na primeira metade do século XVI, quando os Portugueses chegaram aos mares da China, a dinastia Ming estava em declínio. A China fechava-se sobre si mesma, como uma flor ao crepúsculo. Os nómadas galopavam em direcção a Beijing, os piratas assolavam a costa, o imperador tentava isolar-se e fechar as portas às influências do exterior.A Europa, pelo contrário, estava no auge da sua expansão marítima. O papa Alexandre VI dividira o mundo pagão em duas metades, ao traçar no Atlântico uma linha situada 2800 km a oeste de Cabo Verde, dando o Oriente a Portugal e o resto à Espanha, duas grandes potências marítimas dedicadas a trocar os benefícios da civilização cristã pelo ouro do Eldorado. A Europa expandia-se enquanto a China se retraía; eram as imagens reflexas uma da outra.Os portugueses contactaram a China marítima, uma parte do país que pouca relação tinha com a China camponesa do Reino do Meio e as suas grandes planícies. O litoral imenso e rochoso que se estende da foz do Chang Jiang até Guangzhou, no Sul, é recortado por inúmeras baías e salpicado por centenas de ilhas, minúsculas quase
  • 048 049F A L A R D E N Ó S – IX J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – IXtodas, grandes duas delas: Hainan e Taiwan. Toda a sua economia assenta no mar, e os seus produtos sempre foram muito diferentes dos do resto da China. A população é cosmopolita, embora as gentes tenham conservado os seus dialectos e tradições especiais.”Testa-de-ponte para a Europa“Quando os ataques dos piratas japoneses, os ‘wokou’, contra as costas chinesas levaram à quebra das relações diplomáticas e comerciais entre os dois países, o contrabando e a pirataria recrudesceram. A despeito dos tufões, dos recifes, dos bancos de areia e de uma concorrência literalmente assassina, os negócios iam de vento em popa. Não era, porém, vida para corações débeis. Um aventureiro português resumia assim a sua existência: ‘Feito escravo treze vezes, vendido dezassete, na Índia, na Arábia, na Tartária, em Madagáscar, em Sumatra e numa dúzia de outros reinos ou províncias do arquipélago oriental a que Chineses, Siameses, Goeses e Laocianos chamam as pestanas do mundo’.Como todos os outros bárbaros, os Portugueses não tinham o direito de estabelecer entrepostos comerciais na China. Os seus navios ancoraram pela primeira vez no estuário do Zhu Jian em 1513. Seguiram-se outras visitas em 1522, e o estabelecimento ilegal, em Macau, de uma base de que a administração central só teve conhecimento treze anos mais tarde. Passou-se muito tempo antes que os Chineses pudessem reconhecer esta afronta à sua dignidade sem ‘perderem a face’. A oportunidade só viria a surgir em 1554. Quando Leonel de Souza, comandante de uma frota de dezassete navios bem armados, entrou no estuário do Rio das Pérolas, uma enorme armada pirata ameaçava Guangzhou. Em desespero de causa, o governador da cidade pediu ajuda aos Portugueses, seguindo o velho provérbio chinês que aconselha: ‘Para te livrares dos bárbaros, deves recorrer aos bárbaros’. Os Portugueses eliminaram a oposição sem dificuldade e, em jeito de agradecimento, a sua presença na área foi reconhecida oficialmente, sendo-lhes concedida autorização para se instalarem numa pequena península a ocidente da foz do Rio das Pérolas. A Europa tinha a sua primeira testa-de-ponte na China.Macau transformou-se num trampolim para os Jesuítas, permitindo-lhes internarem-se no continente, e a cidade tornou-se também o centro do comércio português durante 100 anos.” Se os autores pudessem regressar a Hong Kong e a Macau agora, 30 anos volvidos, bem diferentes seriam os novos textos a apresentar!5 de Março de 2012
  • 050 051F A L A R D E N Ó S – IX J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – IXDurante cerca de cinco anos, uma equipa de investigação constituída no seio do Centro Científico e Cultural de Macau (CCCM), instituto público do Estado Português com sede em Lisboa, dedicou-se, paciente e persistentemente, à identificação da vasta obra do Padre Tomás Pereira, S.J. (1646-1708), umas das mais fascinantes e influentes personalidades estrangeiras na corte de Kangxi e figura central nas relações luso-chinesas do seu tempo. O resultado deste aturado trabalho de pesquisa, que levou à consulta de documentação existente em bibliotecas e arquivos de Portugal, e também de Roma, Rio de Janeiro e Madrid, foi a publicação de mais uma importante obra que muito dignifica aquele Centro, em boa hora criado para perpetuar a memória de Macau e das relações interculturais Portugal-China e promover a sua divulgação. O lançamento da obra, em dois volumes, teve lugar em Janeiro passado, perante numeroso público interessado. O primeiro reúne 11 documentos biográficos e 151 cartas de Tomás Pereira, tendo ficado no segundo dez documentos da sua autoria, incluindo um que apresentara ao imperador, em conjunto com Antoine Thomas, em 1692, e o “Tratado do Budismo Sínico”. No fim deste segundo volume está um índice remissivo que abarca as matérias dos dois volumes. Numa sucinta e esclarecedora nota prévia, o Professor Luís Filipe Barreto, director do CCCM, explica os propósitos e o âmbito deste projecto centrado em Tomás Pereira:“Portugal e a China partilham singulares relações. Enquanto tempo, são as mais antigas relações regulares entre Ocidentais e Chineses existindo há mais de meio milénio (1509). Enquanto espaço, desenvolveram uma micro fronteira marítima comum (Macau/RAEM), uma zona internacional de serviços em rede que potencia através dos portugueses e de Portugal a dimensão internacional planetária da China.“Com excepção dalgumas passagens de cartas, um tratado e um diário, o essencial da obra de Tomás Pereira estava, até hoje, ignorado”.Luís Filipe Barreto, “Tomás Pereira. Obras”, 2011Obras de Tomás Pereira reunidas em dois volumesO conhecimento rigoroso destes processos e realidades, a difusão desse saber nos espaços de línguas portuguesa e chinesa, a divulgação destes processos de relacionamento no presente mundo global estão, no entanto, ainda por alcançar. Estão muito longe de poder responder às necessidades e às possibilidades dos processos acumulados e desenvolvidos ao longo de mais de meio milénio de trocas entre as culturas e as sociedades, as gentes e as economias, portuguesa e chinesa.Nos anos 90 do século passado nasceu um projecto sistemático e institucional para superar este atraso no conhecimento. Criaram-se em Portugal e na China instituições de investigação, formação, publicação, cooperação. O Centro Científico e Cultural de Macau, em Lisboa, e o Centro de História das Ciências China-Portugal em Beijing nasceram, em 1999. Para fazer investigação científica implicada ao desenvolvimento das relações internacionais e interculturais Portugal-China. Acordaram em começar por investigar alguns dos temas e problemas chave no relacionamento intercultural Portugal-China nos períodos Ming e Qing. Nasceu assim, entre outros, o projecto de investigação ‘Tomás Pereira, S.J. (1646-1708). Vida, Obra, Época’. Em 2006 tornou-se possível criar uma direcção e uma equipa de investigação, no Centro Científico e Cultural de Macau, para levar a cabo o projecto Tomás Pereira. (...) Ao longo destes cinco anos esta equipa foi levantando, recolhendo, transcrevendo e anotando um vasto e plural conjunto de fontes escritas de, e algumas sobre, Tomás Pereira e a sua família. Fontes em línguas portuguesa e latina, traduzidas para português, que agora se editam em dois volumes de ‘Obras’ que contemplam a epistolografia e outros diversos textos do autor como tratados e diários. Neste período foi necessário começar por identificar os diferentes arquivos onde se encontram os materiais de e acerca
  • 052 053F A L A R D E N Ó S – IX J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – IXde Tomás Pereira. Não existia e não existe um guia de arquivos que forneça rigorosa informação sobre os traços sobreviventes neste tipo de autores. A pesquisa permitiu encontrar um vasto corpo de originais e de cópias, manuscritos e inéditos, apurar uma organização serial e cronológica da documentação o mais sistemática possível.O trabalho documental sistemático executado dá garantias de levantamento, o mais exaustivo possível, de originais e cópias dispersos por diversos arquivos na Europa, América e Ásia. No entanto, como é próprio de toda e qualquer investigação científica, no futuro, próximo ou distante, é possível que surjam mais alguns dados documentais complementares. Cópias ou mesmo originais desta ou daquela carta ou relato que agora sabemos ter existido mas que ainda não encontrámos o traço sobrevivente.A obra de Tomás Pereira/Xu Risheng tem um carácter paradoxal. No seu tempo ficou manuscrita em português e latim tendo, por isso, uma circulação restrita e controlada. Em língua chinesa, no entanto, surge impressa logo nos inícios do século XVIII. A obra em língua chinesa está a ser trabalhada por colegas chineses com vista a edição com tradução em língua inglesa.A presente edição destes textos, originalmente manuscritos em línguas portuguesa e latina, revela um panorama em larga medida ignorado. Com excepção dalgumas passagens de cartas, um tratado e um diário, o essencial da obra de Tomás Pereira estava, até hoje, ignorado.Agora, na segunda metade de 2011, surge, em dois volumes, esta edição crítica do CCCM das obras em português e latim (traduzido para português) de Tomás Pereira. Pela primeira vez existe um sólido quadro documental das suas cartas e tratados, relatos e diários acompanhado de complementares documentos sobre a sua vida e família. A comunidade académica de investigação e de ensino, nacional e internacional, tem ao seu dispor uma nova idade documental e problemática de mais e de melhor conhecimento rigoroso. Graças a esta equipa e projecto de investigação estão abertas portas de futuro para novas investigações históricas e antropológicas, de relações internacionais e relações interculturais, de religiões comparadas e fases de missionação, de sociologia histórica da cultura de corte imperial, entre outras áreas.Tomás Pereira, S.J. (1646-1708), de nome chinês Xu Risheng, é um dos europeus mais importantes na China de Kangxi, exercendo junto e para o Imperador da China Qing funções de professor de música, conselheiro diplomático, tradutor-intérprete para e da língua chinesa, matemático astrónomo, arquitecto e geógrafo, criador de grandes relógios e órgãos mecânicos, consultor político e missionário jesuíta. Esta edição permite avançar no estudo científico e na alta divulgação desta figura nuclear nas relações luso-chinesas dos finais do século XVII e inícios do século XVIII. Permite também, conhecer melhor a Corte Imperial de Kangxi, bem como as diferentes relações da China Qing com os europeus e entre os europeus na China.” A equipa que realizou este louvável projecto foi coordenada por Luís Filipe Barreto e integrou os investigadores Ana Cristina da Costa Gomes, Isabel Murta Pina e Pedro Lage Correia, tendo contado com a preciosa colaboração do Professor Arnaldo do Espírito Santo, do Centro de Estudos Clássicos da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, nas traduções de Latim para Português. O volume I é sobremaneira enriquecido com um texto introdutório deste professor, no qual se evidencia, com base nas cartas
  • 054 055F A L A R D E N Ó S – IX J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – IXde Tomás Pereira, a estratégia de evangelização, bem como o ambiente que se vivia na Missão Jesuíta da China na época de Kangxi. 12 de Março de 2012Lançado no Rio de Janeiro e já apresentado em Macau, o livro “À Descoberta da China e dos Países Lusófonos – Potencialidades Turísticas e Estratégias Promocionais” teve a sua sessão de divulgação pública em Lisboa, na passada 4.ª feira, 14 de Março, no auditório de Delegação Económica e Comercial de Macau. Com mais de 300 páginas, esta edição do Instituto Internacional de Macau (IIM), ricamente ilustrada, faz a identificação dos principais atractivos de cada um dos países lusófonos e das suas prioridades promocionais, a que se julgou correcto e oportuno juntar também os de Macau e da República Popular da China, num volume abrangente e coerentemente estruturado que mereceu já rasgados elogios na Confederação Brasileira do Comércio, no Rio de Janeiro, e em Macau, no âmbito do Fórum para a Cooperação Económica e Comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa. Contributos do IIM para a cooperaçãoElaborado por uma equipa de colaboradores da “Macaulink”, conhecedores dos respectivos mercados turísticos, assumiram a coordenação do trabalho o director-executivo daquela agência de comunicação, Gonçalo César de Sá, e o autor deste artigo, que também redigiu o prefácio, constituindo o produto final mais um contributo do IIM para um conhecimento amplo do mundo lusófono, nas suas mais relevantes vertentes e na perspectiva da cooperação que vem sendo realizada entre a China e os países lusófonos, através de Macau. Foi com este propósito que o IIM publicou vários números da sua revista “Macau Focus”, dedicados a “Macau no Delta do Rio das Pérolas”, “Macau, museu vivo numa cidade de cultura”, “A transição de Macau” e “Relações económicas com os Países À Descoberta da China e dos Países Lusófonos“... esta edição será da maior utilidade para divulgar, numa visão de conjunto, as imensas potencialidades turísticas de cada uma das parcelas do espaço lusófono e o essencial sobre as prioridades e os planos estratégicos de promoção e desenvolvimento neste domínio.”
  • 056 057F A L A R D E N Ó S – IX J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – IXde Língua Portuguesa”, bem como o livro “Tendências de Integração Económica no Sul da China: Desafios e Oportunidades” e a colecção “Novos Caminhos”, lançada em Outubro de 2009, cujo primeiro número foi “Macau e as relações económicas China/Países de Língua Portuguesa — 1999-2009 — dez anos de crescimento”, sendo o segundo esta obra apresentada agora em Lisboa. Está iniciado, entretanto, o terceiro volume, versando o tema do património histórico e cultural nos países lusófonos e na China, onde será dado também o devido destaque ao centro histórico de Macau, património da humanidade.Foi com inegável sucesso que este pequeno território, que o destino quis que fosse o mais duradouro ponto de encontro entre o ocidente e o oriente, assumiu, por opção e impulso das autoridades chinesas, o papel de plataforma de cooperação, em consonância com a sua vocação histórica de privilegiado entreposto comercial e cultural. Permanece, porém, algum desconhecimento das realidades presentes que algumas instituições académicas e associativas podem ajudar a resolver se as entidades oficiais souberem estimular e apoiar mais iniciativas como estas. O IIM, no cumprimento dos seus objectivos estatutários, não deixará de o fazer, até ao limite da sua capacidade.A sessão em LisboaFoi muito agradável e bem participada esta sessão, presidida pelo director da Delegação Económica e Comercial de Macau, Eng.º Raimundo do Rosário, que saudou o numeroso público presente e a realização desta actividade nas instalações da representação oficial da RAEM em Portugal, usando seguidamente da palavra o autor deste artigo, na qualidade de presidente do IIM, e o apresentador convidado, Dr. Maunel Coelho da Silva, presidente do Conselho de Opinião da RTP, ex-presidente do Instituto de Formação Turística e membro do Conselho Geral do Instituto Politécnico de Tomar, onde foi professor coordenador.No fim da sessão foi solicitado ao General Garcia Leandro, antigo Governador de Macau, que procedesse ao seu encerramento. Fê-lo com emoção, num improviso breve e memorável, recordando os desafios que se colocaram a Macau na década de 70 do século passado, as relações luso-chinesas e o percurso do território até à transição. Também salientou a importância da obra apresentada e louvou a multifacetada acção desenvolvida pelo IIM.Entre as individualidades presentes, podemos referir, além do General Garcia Leandro, deputados, autarcas, um representante do Secretário de Estado da Juventude e do Desporto, os presidentes da Lusa, Afonso Camões, da Associação Portuguesa de Imprensa, João Palmeiro, da Associação Portuguesa de Marketing Directo, João Novais de Paula, e da Casa de Macau, António Faria Fernandes, e muitos membros de organismos ligados à China e a Macau.Seguiu-se um beberete com petiscos de Macau, oferecido pela Delegação Económica e Comercial de Macau, proporcionando-se aos participantes uma boa jornada de convívio.Efeito multiplicador do turismoAo longo de quase quatro décadas, tive o ensejo de acompanhar, tão de perto quanto possível, os estudos, planos, projectos, processos legislativos e acções
  • 058 059F A L A R D E N Ó S – IX J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – IXpromocionais que determinaram o lançamento do turismo e o funcionamento das respectivas estruturas de coordenação, públicas e privadas, inicialmente nos territórios ultramarinos de Portugal, no âmbito dos Centros de Informação e Turismo e da Agência-Geral do Ultramar, e, depois, no Governo de Macau, onde dirigi os Serviços de Turismo e tive, como membro do Governo, a tutela desta área.Uma participação intensa em organismos internacionais e regionais do sector levou-me a assumir funções em alguns deles, como a Organização Mundial de Turismo, cujo Conselho Executivo integrei, em Madrid, a EATA ― East Asia Travel Association, com sede em Tóquio, de que fui presidente, e a PATA ― Pacific Asia Travel Association, a maior e a mais prestigiada associação de turismo da Ásia e do Pacífico, de que fui presidente regional e membro do conselho directivo, continuando presente, ainda hoje, na qualidade de membro vitalício, nas suas principais actividades. Nestes organismos, fazendo parte de numerosos grupos de trabalho especializados e em contacto com profissionais competentíssimos, pude avaliar a impressionante dimensão do turismo e a sua relevância e extensão como área decisiva para o desenvolvimento sustentável, a nível económico, social, cultural e ambiental.Correctamente estruturado e com lideranças esclarecidas e tecnicamente habilitadas, o turismo pode ser um sector vital da actividade económica, criando riqueza, promovendo o bem-estar social e incentivando o emprego, além de contribuir positivamente para reforçar a imagem externa do país e para valorizar o património cultural e natural, com impactos directos na qualidade de vida. O seu efeito multiplicador e indutor de inúmeras actividades com ele relacionadas é verdadeiramente notável.Foi, pois, com natural regozijo que vi este trabalho concluído e apresentado publicamente em três continentes, nas cidades de Lisboa, Macau e Rio de Janeiro. Não é um manual nem uma obra de referência e de consulta, mas esta edição será da maior utilidade para divulgar, numa visão de conjunto, as imensas potencialidades turísticas de cada uma das parcelas do espaço lusófono e o essencial sobre as prioridades e os planos estratégicos de promoção e desenvolvimento neste domínio. Tem também a vantagem de dar ao leitor um conhecimento geral, num único volume, de todo este amplo e diversificado espaço, bem como de atracções turísticas chinesas, num tempo em que a China conhece um rápido crescimento, ganha o lugar que é seu no contexto internacional e desenvolve com os países de língua portuguesa relações especiais de cooperação. A obra está disponível na Livraria Portuguesa, na secretaria do IIM e na Livraria de Macau em Lisboa.19 de Março de 2012
  • 060 061F A L A R D E N Ó S – IX J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – IXEste espaço foi dedicado, na semana passada, a uma nova edição do Instituto Internacional de Macau (IIM) intitulada “À Descoberta da China e dos Países Lusófonos — Potencialidades Turísticas e Estratégias Promocionais”, apresentada recentemente em Lisboa, na Delegação Económica e Comercial de Macau, após um lançamento muito concorrido no Rio de Janeiro, em sessão levada a efeito na sede da Confederação Brasileira do Comércio, e em Macau, no auditório do IIM.Fez a apresentação da obra o Dr. Manuel Coelho da Silva, ex-presidente do Instituto de Formação Turística de Portugal e ex-director dos Serviços de Educação e Juventude do Governo de Macau, sendo actualmente presidente do Conselho de Opinião da RTP — Radiotelevisão de Portugal e membro do Conselho Geral do Instituto Politécnico do Tomar, onde desempenhou funções docentes como professor coordenador. Dado o interesse da sua apreciação e pelos conceitos expressos sobre a relevância do Turismo como actividade económica com uma dimensão cultural única, transcrevem-se as partes mais substanciais do texto de apresentação: Preciosa mais-valia“Esta obra veio trazer-nos uma preciosa mais-valia: o inventário do património consolidado e dos potenciais recursos turísticos de Macau, da China, e dos Países Lusófonos, que, creio, é a primeira vez que é realizado.Sob a coordenação geral do Dr. Jorge Rangel, cuja experiência e conhecimentos em matéria de Turismo são sobejamente conhecidos e reconhecidos e a orientação de Gonçalo César de Sá que, enquanto jornalista, tem dedicado a Macau largos anos da Uma apreciação da obra sobre potencialidades turísticas“Este livro apresenta pistas que vão muito além das relações interculturais e podem influenciar e motivar a criação de um novo conceito de Turismo: o do Turismo da Memória.”sua vida, com uma rede de colaboradores com vivências em cada um dos Países, nesta obra procurou-se propiciar um ‘olhar’, ou melhor, ‘olhares’ sobre o que de mais belo a natureza nos proporciona, ou que o homem construiu, bem como as manifestações culturais, fruto do diálogo entre os povos, aquilo que hoje se designa por património imaterial.Numa análise sintética, mas colorida e até emotiva, País a País, monumento a monumento, procurou-se captar e capturar a essência do lugar. Para além disso, elencou-se a capacidade de alojamento e de outros meios que permitem poder usufruir desses activos. Os dados mais relevantes, no âmbito do Turismo, da História e da Cultura também não foram esquecidos. (...)Nós sabemos, ensinei isso a milhares de alunos, que o Turismo, enquanto actividade económica, não pode ser apenas e tão só vista do lado dos recursos. Precisamos de infra-estrutura, transportes e, principalmente, gente preparada para os desenvolver, pois, só assim, o recurso turístico se transforma em produto turístico.Mas, para além desses, há um outro desafio maior, e talvez por isso mais aliciante, a criação de uma rede de lugares que ligando o ocidente ao oriente, percorra o Mundo que os portugueses ajudaram a desbravar. Da Europa à África, da América à Ásia e à Oceânia, podemos promover visitas e diálogos, sem nunca deixarmos de pensar naqueles que, antes de nós, imprimiram uma indelével ‘pegada’ reflectida nas pedras e nos povos.É talvez chegado o momento de mobilizar a nossa capacidade de criar operações à escala global e que hoje os transportes nos permitem concretizar, numa espécie de
  • 062 063F A L A R D E N Ó S – IX J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – IX‘novas descobertas’. É este o desafio do Turismo, reconhecidamente uma actividade económica ímpar, fonte de conhecimento e aproximação dos Povos.Parafraseando e adaptando Francis Bacon, ‘nenhum império, nenhuma seita, nenhuma estrela parece ter exercido maior poder e influência sobre os assuntos humanos’, que o Turismo. Por isso, importa acreditar que é possível percorrer o mundo falando português e chegar à China que, desde os finais do século XIV, sempre preencheu o imaginário popular europeu.”O papel de Macau“Uma última reflexão que esta obra nos motivou: o papel de Macau neste seu extraordinário renascer como ponte da China para os Países Lusófonos.Para os mais desatentos pode parecer estranho que a China tenha mantido Macau em interacção com os Países Lusófonos. Mas, quem conhece o pragmatismo chinês, a sua visão política de longo prazo e o reconhecido respeito pela memória do passado, sabe que esta construção de uma rede de contactos comerciais, e outros, com o mundo dos países lusófonos, que se estende por todos os continentes, não é obra de um impulso momentâneo, mas sim uma reflectida opção de se criar, em conjunto, um ‘mundo’ em que as pessoas possam tecer uma teia de ligações e trocas, como nunca aconteceu, até hoje, com outros povos.O fragmento da memória histórica que Macau representa para a China revive e transforma-se num lugar de encontros repetidos com um mundo vivido por pessoas reais, onde brotam oportunidades e ligações, que vão muito para lá das diferenças políticas, e servem de âncora a projectos de desenvolvimento económico, cultural e social.Este livro ajuda-nos e apresenta, nesse sentido, pistas que vão muito além das relações interculturais e podem influenciar e motivar a criação de um novo conceito de Turismo: o do Turismo da Memória.Só por isso valeu a pena o esforço de todos os que colaboraram nesta obra e o do IIM que, vencendo as habituais dificuldades financeiras, a editou e promoveu, projectando os mais de setenta e cinco monumentos e lugares que, nos Países que fazem parte do inventário da Obra, foram consagrados pela Unesco, como Património da Humanidade.Também a partir daqui, outras potenciais candidaturas poderão surgir, desafiando os profissionais do Turismo e os responsáveis políticos a desencadearem novos roteiros que tragam riqueza e sustentabilidade futura.O Secretário-geral da Organização Mundial de Turismo (OMT) afirmou recentemente que, apesar da crise, os turistas a viajar em 2011 ultrapassaram os mil milhões, criando mais postos de trabalho e oportunidade de desenvolvimento económico no mundo.Por isso, lembramos, a finalizar, que esta obra ‘À Descoberta da China e dos Países Lusófonos’, com o subtítulo ‘Potencialidades Turísticas e Estratégias Promocionais’, convoca os profissionais do Turismo, enquanto actividade económica criadora de
  • 064 065F A L A R D E N Ó S – IX J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – IXemprego, riqueza e desenvolvimento económico e social, a olharem para os ‘espaços territoriais’ aqui trazidos, como detonadores de crises e fonte de oportunidades criadoras de esperança.”De facto, o Turismo tem um efeito multiplicador impressionante. Importa que se saiba tirar pleno proveito da sua dimensão económica, cultural e social e avaliar o binómio custo/benefício na promoção, o que tem muitas vezes falhado nos serviços nacionais do sector.O terceiro volume da colecção “Novos Caminhos”, já em preparação, será dedicado ao património arquitectónico nos países lusófonos, na China e em Macau.26 de Março de 2012O Instituto Internacional de Macau (IIM) teve quatro actividades relevantes em Toronto (Canadá) no passado mês de Março: a participação na Conferência Anual da Associação de Estudos Asiáticos, a co-organização de um simpósio académico com a Universidade de Toronto e a Universidade de Macau, sobre “A RAEM, doze anos depois”, a apresentação da exposição de fotografias de Joaquim Magalhães de Castro sobre o navio-escola Sagres e o lançamento, na Casa de Macau de Toronto, do “Livro de Receitas da Minha Tia/Mãe Albertina”, de Cíntia Conceição Serro, membro da Confraria da Gastronomia Macaense. Aproveitou-se esta deslocação para reforçar relações de cooperação com universidades, centros culturais e associações macaenses.O jornal luso-canadiano ABC, de larga difusão junto da comunidade lusófona do Ontário, dedicou, na sua edição de 26 de Março, amplos espaços a algumas dessas actividades, sendo interessante divulgar parte das suas reportagens sobre o livro de receitas macaenses e sobre a exposição realizada na Galeria Almada Negreiros, do Consulado de Portugal em Toronto. Receitas gastronómicas macaenses“Quando da estadia do Dr. Rufino Ramos, do Instituto Internacional de Macau, foi lançado um livro de culinária de autoria de Cíntia Serro, uma senhora da nossa comunidade. Chama-se ‘Livro de Receitas da Minha Tia/Mãe Albertina’.A autora do livro, Cíntia Conceição Serro, é natural de Macau. Reuniu em livro uma selecção de receitas da culinária macaense, pacientemente compiladas por D. Albertina O IIM em destaque em Toronto“É de saudar a actividade meritória do IIM e a sua presença de novo em Toronto”.Prof. Ming K. Chan, da Universidade de Stanford
  • 066 067F A L A R D E N Ó S – IX J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – IXCarvalho Borges, de 92 anos de idade, sua muito estimada tia (‘tia-mãe’, como afectivamente lhe chamou sempre). Tanto a autora como a sua tia vivem em Lagos, Algarve. A autora, porém, passa todos os anos algum tempo em Richmond Hill, Ontário, e em Macau, onde tem familiares.A cerimónia do lançamento do livro foi efectuada na sede da Casa de Macau em Toronto (www.casademacau.ca), cuja presidente, Mónica Alves, fez a apresentação da autora. Em seguida a autora discursou em português e inglês, declarando que o seu livro representava a culminação de um sonho. A autora explicou que quando fala da ‘gastronomia macaense’ se refere especificamente à comida que os macaenses ― naturais de Macau, descendentes de portugueses ― comem. A autora espera que o seu trabalho seja um contributo valioso para a promoção e divulgação da tão apreciada gastronomia macaense.A apresentação pública do livro na Casa de Macau representa a primeira de três apresentações. O segundo lançamento terá lugar em Macau, no mês de Maio de 2012, seguido do terceiro e mais importante lançamento em Lisboa.Para terminar, a autora declara que a publicação do livro foi possível graças ao apoio recebido não só de amigos e familiares, mas sobretudo do Instituto Internacional de Macau, na pessoa do seu presidente, Dr. Jorge Rangel, que se fez representar na cerimónia pelo secretário-geral do mesmo Instituto, Dr. Rufino Ramos. Agradeceu ainda a autora a presença de mais de meia centena de membros e convidados da Casa de Macau, entre os quais salientou o comendador Gustavo da Roza, de Vancouver, e o arquitecto António Jorge da Silva, da Califórnia.”Navio-escola Sagres“Na Galeria Almada Negreiros, no Consulado-Geral de Portugal, está patente uma interessante exposição de fotografias. Joaquim Magalhães de Castro, o artista-fotógrafo, revela, através das fotos, os 40 dias que passou a bordo do navio-escola Sagres, de Goa a Alexandria e Lisboa. No fundo, é a História a falar. A maioria dos presentes na cerimónia da inauguração eram oriundos (ou amigos, se quiserem...) daquela Região. Palavras de circunstância da parte do Cônsul-Geral de Portugal em Toronto, Júlio Vilela, um apaixonado por estas coisas da Arte, e o secretário-geral do Instituto Internacional de Macau, Rufino Ramos. Chama-se ‘Uma Aventura Marítima: Viagens no Navio-Escola Sagres’. É a mais recente exposição patente ao público na Galeria Almada Negreiros, no Consulado Geral de Portugal de Toronto. De autoria do fotógrafo, escritor, jornalista independente e investigador da História da Expansão Portuguesa, Joaquim Magalhães de Castro, esta mostra fotográfica composta de 50 fotografias — centrada sobre os 40 dias que ele passou a bordo do navio-escola Sagres, de Goa a Alexandria, e daí até Lisboa — está inserida num vasto programa de celebração do 50.º aniversário do navio-escola Sagres ao serviço da bandeira nacional, a ter lugar ao longo de todo o ano de 2012.A complementar a referida exposição, um vídeo que estará em exibição permanente e que pretende ser, acima de tudo, um registo fidedigno e emotivo do intenso dia-a-dia a bordo protagonizado por uma fantástica guarnição de 146 homens. Que, com muito pragmatismo e bravura, soube enfrentar a força dos elementos naturais, em particular na prolongada tempestade no Mediterrâneo, aquilo que tecnicamente se designa de temporal desfeito, com ondas de 12 metros e ventos de 120 km horários.
  • 068 069F A L A R D E N Ó S – IX J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – IXA organização do evento, no dia 19, da responsabilidade do Instituto Internacional de Macau, contou com o apoio local do Clube Amigu di Macau e com as presenças de Rufino Ramos, secretário-geral do já mencionado Instituto, bem como de alguns dos académicos que participaram no simpósio que teve lugar na Universidade de Toronto. Um simpósio realizado ao longo de todo o dia e que se debruçou aturadamente sobre a história dos macaenses, principalmente em Hong Kong, em Shangai e no Canadá. Rufino Ramos referiu que com o apoio dado pela comunidade macaense foi possível trazer a Toronto esta exposição itinerante — aberta até ao final do mês — que vai permitir à comunidade luso-canadiana conhecer um pouco da história. Segue-se depois a cidade de São Francisco, nos Estados Unidos da América e muito possivelmente a Austrália. (...)Para José Cordeiro, o dinâmico presidente do Clube Amigu di Macau, a exposição foi organizada pelo Instituto Internacional de Macau, para assinalar os 50 anos do navio-escola Sagres, sob a bandeira portuguesa. O Clube Amigu di Macau tem um protocolo com o Instituto e foi por isso que apoiou e apoia o Instituto em todas estas realizações. (...)No fundo, uma exposição de fotos cheia de significado. Para os Portugueses, naturalmente, e para muitos Macaenses que estavam presentes.”Conferência e SimpósioA Conferência da Associação de Estudos Asiáticos foi uma grande reunião académica, com 380 painéis e sessões, um dos quais, respeitante às Dinâmicas da Identidade, Educação e Património, teve a presidência confiada ao autor deste artigo.Seguiu-se o simpósio académico “China’s Macao SAR — 12 years of Breakthrough & Transformation”, coordenado pelo Prof. Ming K. Chan, da Universidade de Stanford, que saudou a actividade meritória do IIM e a sua presença de novo em Toronto, reforçando a cooperação académica. Participaram académicos das Universidades de Macau, Stanford (EUA), Surrey (Reino Unido), Sun Yatsen (Guangzhou, China), Lingnan (Hong Kong), York (Reino Unido), Coimbra (Portugal), Técnica de Lisboa (Portugal), Toronto (Canadá), Manitoba (Canadá), State University of New York (EUA), Institute of Policy Studies (Singapura) e Instituto Internacional de Macau. A primeira da longa série de comunicações foi a do autor deste artigo, intitulada “The Macao SAR: a Luso-Macanese Perspective”. Foi uma jornada académica utilíssima, devendo as comunicações ser agora reunidas em livro. 2 de Abril de 2012
  • 070 071F A L A R D E N Ó S – IX J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – IXCom excelente apresentação e grafismo, foi lançado em Março mais um livro de receitas da mais genuína culinária macaense. Edição do Instituto Internacional de Macau (IIM), com abundantes e bem seleccionadas ilustrações, o título da obra é “O Livro de Receitas da minha Tia/Mãe Albertina”, sendo sua autora Cíntia Conceição Serro, nossa conterrânea e membro da Confraria da Gastronomia Macaense.Boa concepçãoQuando se realizou o último Encontro das Comunidades Macaenses, em Novembro/Dezembro de 2010, a comissão organizadora decidiu incluir no programa uma conferência sobre gastronomia, como factor identitário da comunidade, tendo Cíntia Conceição Serro sido uma das quatro oradoras convidadas. A sua palestra, feita com profundo conhecimento do tema e louvável simplicidade e simpatia, correspondeu plenamente às expectativas, tendo-lhe sido, na altura, lançado um desafio que ela prontamente aceitou e dedicada e empenhadamente assumiu: o de reunir em livro uma selecção criteriosa das receitas pacientemente compiladas por D. Albertina Carvalho Borges, sua muito estimada tia (“tia-mãe”, como, afectivamente, lhe chamou sempre), e por ambas experimentadas em pratos que fizeram a delícia de familiares e amigos em muitos almoços e jantares organizados ao longo de várias décadas. Tive o privilégio de apreciar algumas dessas iguarias como grato conviva e amigo.Durante o último Congresso da Confederação das Confrarias Gastronómicas Europeias, realizado em Albufeira (Algarve), em Novembro passado, no qual Macau, através da Confraria da Gastronomia Macaense, teve uma representação muito digna Um livro que valoriza a gastronomia macaense“Estamos certos de que este livro será mais um utilíssimo instrumento de valorização e promoção da culinária macaense”.Do prefácio do livroe activa, um primeiro esboço deste trabalho foi mostrado aos interessados, de todos merecendo uma apreciação muito positiva e encorajadora. O produto final foi muito bem recebido e foi com satisfação que o IIM se entregou à sua publicação e divulgação. Colaboraram na sua elaboração vários membros da família e amigos mais chegados da autora, que é credora da nossa justa homenagem, juntamente com a tia Albertina, respeitável nonagenária, muito estimada na nossa comunidade e na cidade onde reside (Lagos, Algarve), a todos continuando a impressionar pela sua sabedoria, vivacidade e invejável “juventude”.A autoraO livro inclui um breve apontamento sobre o percurso da autora:“Cíntia de Carvalho Conceição Serro nasceu em Macau em Abril de 1943.Estudou em Macau no Colégio de Santa Rosa de Lima e no Liceu Nacional Infante D. Henrique.Fez toda a sua carreira profissional em Macau, tendo trabalhado em diversos organismos públicos, nomeadamente nos Serviços de Economia e Estatística Geral, Inspecção do Comércio Bancário, Serviços de Planeamento e Integração Económica, Direcção dos Serviços de Turismo e Comunicação Social, Gabinete dos Assuntos de Justiça, tendo ainda desempenhado o cargo de secretária do Secretário-Adjunto para a Educação, Cultura e Turismo.
  • 072 073F A L A R D E N Ó S – IX J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – IXEnquanto funcionária do Centro de Informação e Turismo, completou em Novembro de 1976, na Escola de Indústria Hoteleira de Macau (Macau School of Hotel Industry), o curso de Hotel Operations. Também frequentou um seminário Workshop PATA’77 no âmbito da Conferência da Pacific Area Travel Association em Macau, no ano de 1977. Depois de cerca de 30 anos de serviços prestados no Território de Macau, foi agraciada com a Medalha de Dedicação, pelo Governo de Macau, no dia 10 de Junho de 1989 (dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas).Após a aposentação, foi contratada para dar apoio no sector administrativo da Direcção dos Serviços de Justiça e na Secretaria do Curso de Direito da Universidade da Ásia Oriental.Durante a vivência em Macau, com a orientação e o apoio da tia/mãe Albertina Martins de Carvalho Borges, aprendeu a confeccionar a maioria dos pratos da culinária macaense. A autora está eternamente grata à tia/mãe Albertina, de quem herdou praticamente todos os seus cadernos de apontamentos e manuscritos, sem os quais não teria sido possível a elaboração deste livro.A convite dos órgãos da Direcção da Casa de Macau de Toronto, do ano 2007, foi representante dessa Casa na Confraria da Gastronomia Macaense, convite esse renovado pela Direcção da mesma Casa de Macau, dos anos 2009 e 2011.Foi convidada pela Comissão Executiva do Encontro das Comunidades Macaenses do ano 2010 para participar na Conferência sobre Gastronomia Macaense.Por tudo isto e pelos muitos apelos dos seus familiares e amigos, a autora compreende a necessidade de escrever este livro, reconhecendo a poderosa influência da boa comida na felicidade das famílias.A autora vive presentemente em três continentes, passando todos os anos algum tempo em Lagos (Algarve/ Portugal), em Richmond Hill (Ontário/ Canadá) e em Macau, sua terra natal.”80 receitasNa nota de apresentação, Cíntia Conceição Serro assevera que “cozinhar com paixão, amor e criatividade torna a comida mais apetitosa e especial”. “Desde os pratos simples aos mais requintados, é necessário ter alguma criatividade, especialmente quando confeccionados fora de Macau, devido à dificuldade na aquisição dos ingredientes e especiarias exigidas nas receitas macaenses.”Reconhecendo a importância da culinária como expressão cultural da comunidade, a autora salienta que “a nossa comida foi e será sempre marca singular da nossa identidade e é, sem dúvida, um chamariz nas festas e convívios entre gentes de Macau em qualquer parte do mundo”. “Não há nada mais agradável do que juntar a família e amigos num almoço de domingo, saboreando os principais pratos, acompanhados de um bom vinho português, ao mesmo tempo que nos vamos lembrando das nossas vivências e amizades. É o saudosismo herdado dos portugueses ...”
  • 074 075F A L A R D E N Ó S – IX J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – IXO livro apresenta mais de 80 receitas, entre as quais as respeitantes a apreciadíssimos pratos, como o arroz carregado, o arroz gordo, a galinha chau-chau parida, a capela, os camarões à moda de Macau, o caranguejo casquinha, o apabico, o chilicote frito, a bebinca de nabo, o chau chau pele, o minchi com batata frita, o chai (mistura de vegetais), o porco bafassá, o porco balichão tamarindo, a feijoada à moda de Macau, o diabo, o tacho, o porco de vinha-de-alho e o serrabulho, além de apetitosos e irrecusáveis doces, como o baji, o bolo menino, o bolo de côco, o bicho-bicho, o doce de camalenga, a batatada, o bolo cake, o bolo de chocolate, marcasotes e rebuçados de ovos. Estamos certos de que este livro será mais um utilíssimo instrumento de valorização e promoção da culinária macaense, estando prevista a sua ampla divulgação através de organismos ligados a Macau e junto das nossas associações da diáspora.10 de Abril de 2012O livro “Filhos da Terra — A Comunidade Macaense, Ontem e Hoje”, de Alexandra Sofia Rangel, foi apresentado no Sábado passado, na sessão realizada no Instituto Internacional de Macau (IIM), integrada no Encontro da Comunidade Juvenil Macaense, que teve lugar de 8 a 14 do corrente.Um olhar sobre a comunidadeAlexandra Sofia de Senna Fernandes Hagedorn Rangel nasceu em Macau em 1987, sendo descendente de duas antigas famílias portuguesas do Extremo Oriente. Fez a escolaridade básica e secundária na sua terra natal (Jardim de Infância D. José da Costa Nunes, Escola Comercial Pedro Nolasco e Escola Portuguesa de Macau) e o ensino superior em Portugal, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Licenciou-se em Ciências da Cultura (especialização em Comunicação e Cultura) em 2008 e concluiu o mestrado na mesma área de estudos em 2011.Escolheu para tema da sua dissertação final um estudo sobre a comunidade macaense, apresentando um breve enquadramento histórico sobre as suas origens e evolução, identificando os elementos que a caracterizam e a distinguem e explicando o seu papel e lugar face ao estatuto actual de Macau, não deixando também de perspectivar o seu futuro, na terra-mãe e na diáspora. O júri, constituído por dois professores catedráticos da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e um da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, deliberou atribuir-lhe uma alta classificação ― 18 valores — e recomendou-lhe que publicasse o trabalho, ao mesmo tempo que a incentivou a dedicar-se à investigação académica.A comunidade macaense, ontem e hoje“São eles os descendentes dos bons portugueses que aqui construíram o seu lar e honradamente criaram a sua prole; apenas não sabiam que Macau era só nossa por empréstimo e que um dia teríamos de a devolver, bonita e próspera”.José dos Santos Ferreira (Adé), 1996
  • 076 077F A L A R D E N Ó S – IX J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – IXPor isso, e atendendo ao inegável interesse e oportunidade do tema, o IIM decidiu assumir a edição, um ano após a defesa da dissertação, e promover a sua divulgação junto da comunidade macaense, tornando, igualmente, mais acessível a sua leitura por outros interessados, numa altura em que se verifica um renovado interesse por Macau, nos contextos histórico, sociológico, cultural, económico e político, nos círculos académicos portugueses e chineses e até em universidades de outros países.Objecto e âmbitoNa introdução, a autora explica o objecto e o âmbito desta sua dissertação:“Como comunidade, ainda que aberta ao mundo e às suas transformações e capaz de se adaptar a novas circunstâncias, temos o propósito de preservar e divulgar os nossos costumes e tradições e proteger os nossos legítimos interesses. Criámos associações, tanto em Macau como nos países que acolheram os macaenses da diáspora, que funcionam como centros de convívio e de afirmação e valorização da comunidade, através das quais também divulgamos Macau e os macaenses, o resultado vivo do encontro dos portugueses com povos do Extremo Oriente.Macau, constituído pela península de Macau e as ilhas da Taipa e de Coloane, num total de quase 30 quilómetros quadrados, já com as novas áreas resgatadas ao mar nas últimas décadas, é um território com mais de 400 anos de presença portuguesa que foi devolvido à China em 1999, ano em que se estabeleceu a Região Administrativa Especial de Macau da República Popular da China, ou seja, um território chinês mas com uma autonomia garantida pela Lei Básica da região, aprovada pela Assembleia Popular Nacional da R.P.C., em consonância com a Declaração Conjunta sobre a Questão de Macau, firmada em Abril de 1987 por Portugal e pela R.P.C. Esta Lei Básica assegurou a continuidade da ‘maneira de viver’ da população de Macau e garantiu aos residentes de ascendência portuguesa a necessária protecção, ao mesmo tempo que manteve a língua portuguesa como língua oficial, ao lado da chinesa. O legado histórico, cultural e arquitectónico, resultante de um prolongado encontro de culturas, que deu a Macau uma singularidade própria, foi respeitado pelas novas autoridades, a ponto de, com o apoio declarado da R.P.C., o centro histórico de Macau ter sido classificado pela UNESCO, em 2005, como património da humanidade.O objectivo da minha dissertação de Mestrado foi explicar quem são os macaenses, como surgiu esta comunidade e de que forma o seu lugar ficou assegurado na nova situação de Macau como Região Administrativa Especial da R.P.C., com todas as dúvidas e legítimas interrogações que se podem colocar quanto ao seu futuro, antes e depois de 2049. Tornou-se, por consequência, importante divulgar a comunidade, o seu percurso e a sua herança cultural. Fi-lo, numa perspectiva académica, aproveitando a oportunidade que me foi oferecida pela Faculdade de fazer este estudo no âmbito do meu Mestrado.Este estudo encontra-se dividido em três partes: no primeiro capítulo, apresento um breve enquadramento histórico, abordando a presença portuguesa na Ásia, a razão dos casamentos luso-indianos e luso-malaios e como estes resultaram nos antepassados dos macaenses, a fundação e a afirmação de Macau, terra que iria acolher os descendentes de portugueses após vicissitudes nos locais onde residiam, como Malaca e o Japão, e, por fim, a origem da comunidade macaense, o seu consequente isolamento devido à
  • 078 079F A L A R D E N Ó S – IX J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – IXdistância em que se encontrava de Portugal, destacando os matrimónios que foram reforçando a presença portuguesa.O segundo capítulo é dedicado aos elementos que podem caracterizar os macaenses como grupo: a culinária, o seu dialecto (o patuá, um crioulo do português), as festividades que comemoram, algumas figuras de referência na comunidade, as instituições macaenses e a diáspora, que engloba as associações macaenses no estrangeiro e justifica a realização, com regularidade, dos Encontros das Comunidades Macaenses.O terceiro e último capítulo abarca a entrega de Macau, na sequência de negociações entre Portugal e a República Popular da China, os desafios da transição, o novo estatuto de Macau como região administrativa especial da China, a importância da Lei Básica e o legado que os portugueses deixaram em Macau.Tive acesso a fontes diversificadas e recorri a vários autores neste estudo para conferir maior rigor à reflexão. Visitando a minha terra todos os anos, tenho podido observar o desenvolvimento de Macau e a participação da comunidade macaense, que vou acompanhando, igualmente, através dos jornais locais e nos contactos com antigos colegas e outras pessoas ali residentes. Tenho podido, por outro lado, participar em encontros, seminários e sessões de apresentação de novas edições relacionadas com Macau, em organismos existentes em Lisboa, como a Casa de Macau em Portugal, o Centro Científico e Cultural de Macau, a Delegação Económica e Comercial de Macau e a Delegação do Instituto Internacional de Macau.Fiz igualmente uma selecção de documentos visuais, que incluí como um complemento para ilustrar aspectos deste estudo.Incentivada pelos professores, na defesa da minha dissertação, a publicar este trabalho, fico muito grata a todos quantos me apoiaram na sua realização.”A sessão no IIMÉ de saudar esta edição e o estudo realizado por uma jovem macaense sobre a sua comunidade. Pela natureza do trabalho e pelo seu tema, a obra foi, naturalmente, integrada pelo IIM na colecção “Suma Oriental”.Além do lançamento desta obra, foram feitas referências a outras edições recentes do IIM, algumas das quais deverão ter, brevemente, sessões públicas de apresentação, em Macau, em Lisboa ou em cidades onde funcionam Casas de Macau. Aproveitou-se também a presença dos participantes no Encontro Juvenil Macaense para uma conversa sobre Macau, o legado histórico, cultural e humano e o papel actual da comunidade macaense.16 de Abril de 2012
  • 080 081F A L A R D E N Ó S – IX J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – IXDepois de “Desporto em Macau 1981 - 1985”, editado em 2009 pelo Jornal Tribuna de Macau, Fernando Vinhais Guedes acaba de lançar mais um livro, com o título “Desporto com palavras”, edição trilingue (em português, chinês e inglês) patrocinada pelo Instituto do Desporto e apoiada pelo Instituto Internacional de Macau e pelo C&C Club.O autor, qualificado técnico superior e gestor na área do desporto, responsável pela Repartição da Juventude e Desportos dos Serviços de Educação do Governo de Macau, de 1981 a 1985, e dinamizador e director do Fórum de Macau, de 1986 a 1988, apresentou, de forma original e com base nas vinte e seis letras do abecedário, vinte e seis sintéticos textos de opinião, abrangentes e transversais, estimuladores de reflexão sobre o fenómeno desportivo contemporâneo, numa perspectiva crítica e pedagógica. As palavras escolhidas, correspondentes à sequência do abecedário, são árbitro, bola, competição, desporto, estádios, faltas, ganhar, homenagens, indústria, jogo, karaté, líder, mortes, negócios, olimpismo, pódio, qualidade, religião, sociedade, trabalho, universo, violência, windsurf, xadrez, yoga e zangas. Prefácio de Manuel SérgioO respeitado filósofo e sociólogo do desporto, Manuel Sérgio, professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana da Universidade Técnica de Lisboa, redigiu um elucidativo prefácio, que enriquece a obra e no qual enaltece as qualidades do autor: “O livro ‘Desporto com Palavras’, da autoria do meu ilustre Amigo, Dr. Fernando Vinhais Guedes, busca levar para a Região Administrativa Especial de Macau (e afinal para quem o possa ler) um resumo de fácil consulta do que o desporto é e do que o Desporto com palavras“Como se vive numa sociedade onde valores e princípios são cada vez mais raros, seria paradoxal encontrá-los na alta competição desportiva.Convém ter presente que o desporto é uma espécie de espelho onde se reflectem e ampliam as misérias e as grandezas da sociedade donde ele emana”.Fernando Vinhais Guedes, “Desporto com palavras”desporto vale como forma superior de humanização. Sem esforço aparente, tantos são os anos que leva de educador pelo desporto, e sem exageros de expressão, dada a sua arte consumada de comunicador exímio – Fernando Vinhais Guedes faz, neste livro, o que tem feito durante toda a sua vida: mostrar que o desporto pode ser um contrapoder ao poder dos vícios dominantes, isto é, ao individualismo exacerbado, que permite a acumulação ilimitada de riqueza por alguns (poucos), enquanto milhares de milhões de outros seres humanos sobrevivem na miséria mais degradante, e ainda a globalização que, ao mundializar uma determinada cultura económica, esquece os valores da solidariedade, da generosidade, da justiça social. Há mais (muito mais) vida, para além do economicismo que nos governa... Ora, o desporto moderno nasceu em Inglaterra, na primeira metade do século XIX, com objetivos eminentemente educativos. O cónego Thomas Arnold, diretor do Colégio de Rugby, no ano de 1828, encontrou no desporto a melhor das práticas não só de desenvolvimento corporal, mas também de exercício daqueles valores sem os quais impossível se torna viver humanamente. E o desporto entrou de ser, naquele colégio universitário, uma disciplina de primordial importância, no currículo escolar. Jacques Ulmann, no seu livro De la Gymnastique aux Sports Modernes (Vrin, Paris) escreve, a propósito: ‘Arnold depressa viu no desporto um meio de formação, tanto corporal como moral’. De facto, acrescenta este autor: ‘Um ideal moral não é bem servido senão por homens fortes e corajosos. Formar homens bons não é tudo, se lhes falta a intrepidez, o denodo, a ousadia, na defesa dos grandes ideais (p. 327).’Na linha do que ensinou Thomas Arnold (e Pierre de Coubertin poderia aqui invocar-se também), Fernando Vinhais Guedes é um animador prestigioso, prodigioso de um desporto saudável, que se manifesta através de um rendimento onde o biológico se
  • 082 083F A L A R D E N Ó S – IX J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – IXrejuvenesça. Mas nele, sobre o mais, não esmorece a energia a cada instante sequiosa de transcender, sem os dispensar, os aspetos físicos, técnicos e táticos da prática desportiva. Fernando Vinhais Guedes pretende, pelo Desporto, concorrer ao nascimento de um mundo novo. E assim este livro (o livro de um especialista, na área do conhecimento onde o Desporto se integra) é também o livro de um cidadão que não abdica dos seus deveres de homem do nosso tempo. Por mim, que nutro por ele uma amizade verdadeiramente fraterna, quero realçar a envolvente ternura humana que dele irradia. Isto, para dizer, numa simples nota prévia, que o Dr. Fernando Vinhais Guedes, como estudioso, profissional e amigo, é uma pessoa admirável... com uma alma de infinita bondade!”ReflexõesEis algumas das reflexões contidas no livro que irão, certamente, estimular a sua leitura integral:“Muito se fala e muito se tem escrito sobre as arbitragens nas diferentes modalidades. Infelizmente, hoje há mais do que indícios relativamente a resultados desportivos falseados, por suborno e tráfico de influências, que minam a verdade da competição desportiva.Contudo, convém ter presente que, muitas vezes, as derrotas nada têm a ver com os alegados erros de arbitragem que não passam de desculpas de mau perdedor”.“A palavra desporto não tem o mesmo significado para todos quantos se interessam por este fenómeno vivido à escala planetária. Por isso, quando se fala de desporto, torna-se necessário, antes de mais, saber de que tipo de desporto se está a falar.Do que se faz por prazer, gratuito, usando os tempos livres, ou de um outro a que também chamam desporto, mas feito por profissionais bem pagos, cuja vida é treinarem”.“Vivemos numa época em que o espectáculo desportivo é de cada vez mais acompanhado e seguido por multidões, duma forma tão emocional e apaixonada, que quase o asfixiam. Os atletas mais dotados são tratados como as novas divindades, a quem se pede alegrias para os países que representam”.“O volume de negócios que o desporto, entendido no seu todo, gera directa e indirectamente é de uma dimensão tal, que se torna quase impossível quantificá-lo. Negócios, que têm como momentos altos os Jogos Olímpicos e os campeonatos do Mundo e da Europa, verdadeiras feiras onde se expõem e mostram os potenciais de cada país participante. Sempre que há eventos como os Jogos Olímpicos e os campeonatos do Mundo, prevêem-se recordes em milhões de euros nas receitas”.“Ganhar, em desporto como na vida, constitui um dos principais objectivos contra os quais nada há a opor.Contudo, nunca é demais lembrar que, principalmente no desporto de alta competição, onde estão em causa grandes interesses financeiros e até políticos, quem ganha nem sempre o faz de forma limpa e transparente!”
  • 084 085F A L A R D E N Ó S – IX J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – IXParabéns a Fernando Vinhais Guedes por mais este contributo relevante para o entendimento correcto do significado e da dimensão do desporto no nosso tempo e neste mundo globalizado.A apresentação do livro foi feita no salão do Clube Militar de Macau por José Rocha Dinis, director do Jornal Tribuna de Macau, na presença de muitos amigos do autor e personalidades ligadas ao desporto e a organismos associativos locais.23 de Abril de 2012Com louvável determinação e multiplicando-se em incisivas intervenções cívicas e políticas, no seio da Assembleia da República, no âmbito de organismos culturais e associativos, em tertúlias e debates públicos e através de órgãos de comunicação social, o deputado José Ribeiro e Castro vem defendendo uma causa justa, inesperadamente envolvida numa polémica provocada que só contribuiu para dividir os Portugueses: a da comemoração condigna e continuada do 1.° de Dezembro, Dia da Restauração da Independência de Portugal, data histórica de referência duma Pátria multissecular, orgulhosa da sua memória e da sua independência, o que justifica plenamente a manutenção do feriado correspondente e não a sua eliminação, falsamente preconizada em nome da produtividade e da competitividade da economia.Essas eloquentes e esclarecedoras intervenções foram agora reunidas em livro, recentemente lançado em Lisboa, na Livraria Férin, com pré-apresentação no Palácio da Independência, sede da Sociedade Histórica da Independência de Portugal. Juntaram-se-lhes os depoimentos de outras conhecidas personalidades, igualmente preocupadas com a aprovação duma decisão obviamente errada, desnecessária e que não tem a ver com as razões invocadas para a alteração oficialmente defendida. Foi-me solicitado que escrevesse o prefácio e prontamente correspondi, analisando a questão suscitada e expressando a José Ribeiro e Castro a minha solidariedade.Os contornos da criseNinguém ignora os esforços ingentes que esta conjuntura de crise impõe a Portugal e aos Portugueses e as limitações e obrigações duríssimas resultantes do acordo firmado com entidades externas. Durante décadas, os dirigentes europeus em geral deixaram-Os feriados nacionais e a produtividade“Os feriados não são responsáveis pela faltade produtividade e de competitividade. Colocar a questão nestes termos é apenas desviar a atenção dos verdadeiros problemas nacionais”
  • 086 087F A L A R D E N Ó S – IX J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – IXse embalar pelas miragens prometidas de unidade económica (o que deveria implicar uma extensa solidariedade que não foi assegurada), do dinheiro fácil, da nova moeda salvadora, da superioridade do seu modelo social, da dimensão crescente do seu espaço territorial e da sua poderosa influência política, para o que criaram gigantescas organizações supranacionais, mas não estabeleceram políticas financeiras comuns.Esqueceram-se, também, de assegurar a sustentabilidade das suas políticas e decisões, mergulhando os governos num processo de endividamento cada vez mais acentuado, não obstante os pesadíssimos encargos fiscais vigentes. Esses vícios de funcionamento estenderam-se às autarquias, aos mais diversificados organismos públicos autónomos, aos grupos económicos, às empresas, às famílias e às pessoas, numa espiral irresponsável que os bancos foram alimentando, ao mesmo tempo que apoiavam especuladores dos inefáveis “mercados”, perante quem esses dirigentes estão hoje acossados e de joelhos, depois de comprometerem o futuro das novas gerações.Chamemos com coragem as coisas pelos seus nomes. Especuladores são especuladores e não investidores. Enquanto os responsáveis políticos não se dispuserem a enfrentar esta realidade e os poderosíssimos grupos de interesses que a sustentam e prolongam no tempo, nenhuma solução duradoura haverá para a crise que nos esmaga e tornou nebuloso o porvir.Por outro lado, os sacrifícios exigidos aos Portugueses só terão justificação se conduzirem mesmo aos resultados pretendidos, se a sua distribuição for garantidamente equitativa, não afectando preferencialmente os funcionários, os aposentados e os pensionistas, e se forem, concomitantemente, acompanhados de políticas lúcidas e eficazes que estimulem o desenvolvimento, atraiam novos investimentos e reanimem a economia. É isto, infelizmente, que parece continuar a faltar. Os feriadosOs feriados não são responsáveis pela falta de produtividade e de competitividade. Colocar a questão nestes termos é apenas desviar a atenção dos verdadeiros problemas nacionais. Em todos os países do mundo os feriados foram fixados tendo em conta acontecimentos particularmente relevantes do seu percurso histórico ou por razões intimamente relacionadas com as tradições dos povos, para que esses acontecimentos possam ser celebrados e as tradições sejam genuinamente revividas. Essas datas são fixadas por legislação própria e, portanto, conhecidas com antecedência bastante, não trazendo prejuízo para os planos de funcionamento dos serviços, empresas e unidades fabris. O que poderá ter afectado esse planeamento foram as chamadas “pontes” e as “tolerâncias de ponto” que os governos aceitaram e arbitrariamente concederam, muitas vezes quase em cima da hora, quando podiam fazê-lo com meses de antecedência. Essa falta de rigor e as tardias decisões é que foram, evidentemente, prejudiciais à produtividade. Não se confundam, portanto, as coisas. Além disso, os feriados nunca foram matéria do foro da concertação social, para negociação entre os representantes dos patrões e dos trabalhadores. São, sim, uma questão eminentemente nacional, da competência exclusiva dos órgãos com legitimidade política. Só eles podem tomar decisões — e assumi-las por inteiro — neste contexto.
  • 088 089F A L A R D E N Ó S – IX J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – IXNo “Prós e Contras”Há algumas semanas, a eventual eliminação de feriados foi o tema central do apreciado e influente programa “Prós e Contras”, da RTP. Estive presente na bancada do público, como convidado. Todos puderam ver ali a solidez da posição assumida por José Ribeiro e Castro, em contraste com as de outros protagonistas. Explicou-a com veemência e defendeu-a com convicção. Quase no fim, a apresentadora, Fátima Campos Ferreira, quis dar-me, simpaticamente, a palavra. Apanhado de surpresa, agradeci a atenção e a oportunidade e deixei brotar da alma a minha indignação e, em duas sucintas intervenções, procurei explicar a minha posição sobre a questão debatida. Lamentei que estivessemos a discutir questões menores (e aquela ainda por cima dividia profundamente os portugueses), em vez de enfrentarmos os verdadeiros problemas nacionais directa ou indirectamente relacionados com a crise financeira. Como Português do Oriente, com dez gerações de continuada presença em terras distantes até onde a Pátria levou o seu abraço armilar, quis que soubessem que, desde tenra idade, como outras crianças da minha terra e da minha comunidade, me habituara a comemorar as grandes datas nacionais, continuando a fazê-lo em vários países estrangeiros, enquanto estudante e professor; no Brasil, onde vou todos os anos sentir a pujança de um país irmão ambiciosamente virado para o futuro e orgulhoso da sua história; em África, onde cumpri o serviço militar e compreendi o significado e o valor da lusofonia que nos une; e, naturalmente, em Portugal, onde tenho as minhas raízes mais profundas. Não fazia, portanto, sentido para mim que aquela questão pudesse ser debatida naqueles termos e fiz um apelo no sentido de olharem para um mundo muito maior do que a Europa, porque há, de facto, muito mundo para além da Europa, com histórias de sucesso no seu desenvolvimento económico e social. E Portugal pode e merece ser uma história de sucesso, porque tem condições e potencialidades para isso. Sendo um país europeu, precisa, porém, de se virar também para o mundo que ajudou a criar. É com esse mundo que pode construir o seu futuro e deve procurar outros modelos para o seu desenvolvimento e enfrentar renovados desafios.Os entraves ao crescimentoIdentifiquei, nessa ocasião, alguns dos verdadeiros entraves ao crescimento, responsáveis pela falta de competitividade do país: a assustadora voracidade fiscal instalada, que afugenta novos investimentos e é inibidora de qualquer desenvolvimento sustentável, os preços imoralmente excessivos que pagamos pelos combustíveis e pela electricidade que consumimos, relações laborais inadequadas, medidas económicas verdadeiramente suicidárias e uma banca arrogante que não apoia consistentemente as pequenas e médias empresas e que nos impingiu guarda-chuvas quando fazia sol e foi buscá-los nos dias de chuva, aplicando-nos uma penalização por termos ficado com eles. E muito mais ficou por dizer, por exemplo, sobre o descrédito da classe política...Por ter ouvido um dos protagonistas do programa dizer que estava ali para defender o direito ao lazer, achei por bem terminar a minha intervenção dizendo que compreendia bem esse direito, felizmente contemplado nas férias e no descanso
  • 090 091F A L A R D E N Ó S – IX J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – IXsemanal já consagrados, mas gostaria que estivessemos todos ali a defender o direito a uma Pátria com memória e com futuro. A ovação intensa e prolongada do público foi consoladoramente surpreendente. Dezenas de mensagens de apoio foram depois recebidas, o que significa apenas que os Portugueses querem que lhes seja dita a verdade e que lhes falem com frontalidade e objectividade. O livro, intitulado “1 de Dezembro, Dia de Portugal”, é da Editora Principia e está a ser apresentado com sucesso e elevada adesão em sucessivas sessões públicas.7 de Maio de 2012O livro “Filhos da Terra — A Comunidade Macaense, Ontem e Hoje”, de Alexandra Sofia Rangel, lançado em Abril numa das sessões integradas no 2.º Encontro da Comunidade Juvenil Macaense, contém no seu Capítulo II uma secção dedicada à diáspora macaense. É uma síntese esclarecedora da dispersão da comunidade por várias partes do mundo, bem como da constituição actual da diáspora que se criou. No contexto dos artigos e crónicas desta já longa série intitulada “Falar de Nós — Macau e a Comunidade Macaense”, tem pleno cabimento a transcrição das passagens mais significativas dessa secção, para se compreender o desenvolvimento da nossa diáspora: A diáspora macaense“Ao longo dos séculos, Macau, pela sua posição privilegiada na costa meridional da China, com um estatuto próprio, foi recebendo gente de muitas partes do mundo, atraída pelas amplas oportunidades comerciais oferecidas, pelo propósito de consolidar uma presença ligada a Portugal, para viabilizar a acção missionária da Igreja Católica e de várias igrejas protestantes, ou pelo acolhimento garantido a refugiados que, em tempos de crise, aqui sempre encontraram abrigo e protecção. Nos finais do século XIX, a partir da instalação de possessões de outras potências ocidentais na China, com especial relevo para Xangai, que teve um estatuto de cidade internacional, e Hong Kong, onde os ingleses se estabeleceram em 1841, muitos estrangeiros então residentes em Macau e famílias macaenses começaram a emigrar para esses locais, fixando-se, especialmente, em Hong Kong, Xangai e Singapura, onde tiveram uma presença muito activa e influente. Esta foi a primeira fase da diáspora macaense.A diáspora macaense – motivações e desenvolvimento“Quanto aos membros da comunidade que partiram e que engrossaram a diáspora macaense, as atitudes são também mistas, embora de grande abertura e de enorme vontade de verem mantidas as ligações às origens. Os Encontros das Comunidades Macaenses podem estimular o reforço desta ligação”.“Filhos da Terra - A Comunidade Macaense, Ontem e Hoje”
  • 092 093F A L A R D E N Ó S – IX J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – IXEm Hong Kong, tal como aconteceu em Xangai, os macaenses juntavam-se em bairros próprios. Mato Morro, Yaumatei, Tsimshatsui e Homantin eram zonas de Hong Kong densamente populadas por famílias macaenses que tinham os seus clubes recreativos, as suas equipas de desporto e até uma escola, a Escola Camões, para os seus filhos estudarem em português.Macau não foi ocupado pelos japoneses durante a 2.ª Guerra Mundial porque Portugal manteve um estatuto de neutralidade, mas a população passou por períodos muito difíceis, de fome, pobreza e doenças, situação agravada pela chegada de milhares de refugiados provenientes de terras vizinhas. A ocupação nipónica de vastas áreas da Ásia oriental provocou a saída de estrangeiros que ali residiam e muitas famílias macaenses regressaram à terra natal. No fim da guerra, muitos membros dessas famílias retornaram a Hong Kong e, dadas as incertezas da situação política da China, por causa da guerra civil que opunha os comunistas aos nacionalistas, que estavam no poder, e, sobretudo, após a implantação do novo regime em Pequim em 1949, começaram a emigrar em grande número para os Estados Unidos da América e depois também para o Canadá e para a Austrália, constituindo Portugal uma outra alternativa.Quanto às famílias macaenses residentes em Xangai, a opção que lhes restou foi a de voltarem para Macau numa situação de grande carência, o que obrigou as autoridades locais a um esforço extraordinário para as acolher, ainda no período da guerra, ou já depois da implantação do regime comunista na China, que fez afugentar quase toda a população estrangeira. No entanto, a falta de emprego e de perspectivas de vida, bem como o desejo de procurar outras oportunidades fizeram com que, nos finais dos anos 40 e durante as décadas de 50 e 60, os refugiados de Xangai e macaenses residentes em Macau emigrassem para a América do Norte e também para o Brasil, Austrália e Portugal. Muitos nunca mais voltaram à terra-mãe.”Associações macaenses no exterior“Os macaenses emigrados juntaram-se em associações sem fins lucrativos, como as Casas de Macau, centros recreativos onde são também promovidas iniciativas de divulgação de Macau e da comunidade macaense, como palestras, exposições, cursos e concursos de culinária, récitas em patuá, grupos corais, além dos ‘chás gordos’ em dias de festa. Estas associações têm revelado uma grande vitalidade no seu funcionamento e intensificaram as suas actividades a partir da década de 90 graças a apoios substanciais do Governo de Macau e de algumas fundações.Estas são as principais associações macaenses no estrangeiro: Casa de Macau Inc. Australia (Sydney); Casa de Macau de São Paulo, Brasil; Casa de Macau do Rio de Janeiro, Brasil; Casa de Macau no Canadá (Toronto); Casa de Macau de Vancouver, Canadá; Club Amigu di Macau (Toronto); Macao Club (Toronto); Macau Cultural Association of Western Canada (Vancouver); Casa de Macau USA (Inc.) (San Francisco); Lusitano Club of California (San Francisco); União Macaense Americana (Hillsborough, Califórnia), contemplada em 2010 com o Prémio Identidade do Instituto Internacional de Macau; Club Lusitano, Hong Kong; e Casa de Macau em Portugal (Lisboa).Como se pode ver, ‘esta impressionante diversidade traduz bem a riqueza da nossa diáspora e a pujança de comunidades que têm nas suas Casas e demais associações congéneres os seus centros de convívio e de solidariedade social e os seus organismos
  • 094 095F A L A R D E N Ó S – IX J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – IXaglutinadores e representativos’. As Casas de Macau podem ser ‘verdadeiras extensões de Macau’ através da prestação de ‘serviços valiosíssimos nos campos económico, cultural e social’, uma vez que muitos dos seus membros têm boa formação académica e profissional, podendo ser ‘os melhores e mais qualificados agentes de promoção de Macau’, colaborando na divulgação económica e turística do território e participando em eventos como feiras e exposições, encontros e conferências para ‘projectar Macau nas cidades e nos países onde se situam’. Algumas, por sua própria iniciativa, já o fazem, mas precisam de mais meios para continuar.”Os Encontros das Comunidades“A realização de Encontros das Comunidades Macaenses, organizados regularmente em Macau desde 1993, em parceria com instituições locais e com o apoio do Governo de Macau, promoveu uma ligação muito estreita entre essas associações e reforçou as suas relações com Macau. Nestes Encontros, além de actividades recreativas e sociais, são apresentadas récitas e outras iniciativas culturais, como lançamentos de livros, palestras e visitas. Verdadeiras romagens de saudade, os Encontros são importantes não só porque permitem aos macaenses emigrados visitar a terra que deixaram e fortalecer as raízes que os prendem à terra-mãe, mas também porque promovem reuniões de famílias e amigos, residentes locais e do exterior, em reencontros tocantes e cheios de alegria.Depois de 1999, os Encontros continuaram, sob a égide da Associação Promotora da Instrução dos Macaenses até ao início do funcionamento do Conselho das Comunidades Macaenses, em Novembro de 2004. Este Conselho é uma instituição de direito privado cujo objectivo principal consiste na integração dos interesses e anseios da comunidade macaense da diáspora e a sua articulação com organismos locais da mesma comunidade. O Conselho integra organizações macaenses não-governamentais da Região Administrativa Especial de Macau (RAEM) e as Casas de Macau e organismos similares no exterior. (...)Em Julho de 2009, teve lugar, em Macau, por iniciativa do Conselho das Comunidades Macaeneses, em conformidade com um dos seus objectivos estatutários, o primeiro Encontro da Comunidade Juvenil Macaense. Os jovens participantes foram cerca de 200, 54 dos quais oriundos das Casas de Macau no estrangeiro, e demonstraram entusiasmo em relação à divulgação das suas raízes. Este esforço de trazer os jovens da diáspora para Macau e para os fazer participar nas festividades da comunidade é, evidentemente, necessário. (...)Em Novembro e Dezembro de 2010 realizou-se mais um Encontro das Comunidades Macaenses, com a participação de mais de 1000 representantes da diáspora macaense. Em reconhecimento dos apoios dados à comunidade, na última década da administração portuguesa, foi convidado de honra o General Vasco Rocha Vieira, último Governador de Macau. Além do intenso convívio proporcionado, homenagearam-se personalidades e instituições e reforçaram-se as ligações a Macau e a confiança no seu futuro.”Este livro, que deverá ser apresentado, brevemente, em Lisboa e é o número 4 da colecção “Suma Oriental”, do Instituto Internacional de Macau, pode ser adquirido na Livraria Portuguesa e na secretaria do IIM. 14 de Maio de 2012
  • 096 097F A L A R D E N Ó S – IX J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – IXNão obstante o facto de ter sido um dos períodos mais conturbados de todo o percurso histórico de Macau, poucos trabalhos foram sobre ele produzidos, para além dos conhecidos testemunhos de Manuel Teixeira, António de Andrade e Silva, Leonel Barros, J. J. Monteiro e outros autores que nos deixaram crónicas e artigos ou meras referências em livros, revistas e jornais. Até por isso, o Instituto Internacional de Macau (IIM) acolheu, de imediato, a proposta de João F. O. Botas para a publicação de “Macau 1937-45 — Os Anos da Guerra”, um importante contributo para um melhor conhecimento da forma como aqueles anos duríssimos foram vividos pela população de Macau, bem como das políticas públicas então prosseguidas neste derradeiro reduto de paz, permanentemente ameaçado pela sangrenta presença nipónica em seu redor, provocando tremendas convulsões em vastas áreas do Extremo Oriente. Contributos do IIMFoi com idêntico propósito que o IIM assumiu a edição, em 2004, de “Porta do Cerco — a ténue fronteira no conflito sino-japonês de 1894 a 1945”, de Cândido do Carmo Azevedo, professor coordenador do Instituto Politécnico de Macau, e do livro-álbum, em dois volumes, intitulado “The Portuguese Community in Hong Kong — a Pictorial History”, com selecção fotográfica e texto de António M. Pacheco Jorge da Silva, arquitecto e investigador macaense radicado nos E.U.A., que contém, igualmente, informação útil sobre este tema. Saíram do prelo em 2007 e 2010, para apresentação nos dois últimos Encontros das Comunidades Macaenses, juntamente com outras obras que integram colecções muito significativas e diversificadas do acervo editorial Uma obra necessária sobre Macau nos anos da guerra“Na extrema geografia do Oriente a bandeira portuguesa era a única flâmula neutral. O Oriente era um sol nascente vermelho e branco. Macau era o único ponto geográfico onde se hasteava pelas seis, ou sete horas da manhã o vermelho, verde e amarelo e a pequena guarnição militar fazia sentido e se orgulhava de existir perante o azul das quinas pequeninas”.João Guedes, no prefácio do livro do IIM, que tem como uma das vertentes dos seus objectivos estatutários o estudo, a preservação e a valorização da memória macaense.Estudos de Carlos BessaDesta temática ocupou-se, igualmente, o Coronel Carlos Gomes Bessa, membro da Academia das Ciências de Lisboa e da Academia Portuguesa de História, de que foi secretário-geral, tendo sido também secretário-geral e vice-presidente da Comissão Portuguesa de História Militar e presidente do Conselho Supremo da Sociedade Histórica da Independência de Portugal (SHIP). Foi coordenador, em 1999, de um número especial da Revista Militar dedicado à presença de Portugal no Oriente e autor de vários estudos relacionados com Macau, de que se destacam “Macau e a implantação da República da China — Uma carta de Sun Yat-sen para o Governador José Carlos da Maia” (Fundação Macau, 1999), “Restauração em Macau — património e perspectivas do futuro de Portugal no Oriente” (1989) e “Macau do Nome de Deus na China e a União das Coroas Peninsulares” (1999), ambos publicados pela SHIP. Dedicou-se, entretanto, à investigação dos reflexos da Guerra do Pacífico em Macau, para o que foi reunindo bastante material relacionado com esse período histórico, mas problemas graves de saúde impediram-no, infelizmente, de prosseguir e concluir uma obra que era aguardada com justificada expectativa.Um trabalho sérioApesar de ser parca a documentação oficial disponível sobre este intrigante e penoso período, em que mais uma vez se pôs à prova a capacidade de resistência
  • 098 099F A L A R D E N Ó S – IX J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – IXe sobrevivência do território e das suas gentes, esperamos que este livro de João F. O. Botas, um “filho da terra adoptivo”, como afirma com compreensível satisfação e orgulho o autor, estimule mais investigadores — e muitos e academicamente bem preparados são eles — a debruçarem-se sobre Macau, nas perspectivas histórica, sociológica, cultural, económica e política. Com mais de 500 páginas, este meritório trabalho inclui uma oportuna introdução e um correcto enquadramento, sendo depois cuidadosamente caracterizado o contexto da situação vivida, sendo as pesquisas feitas enriquecidas com testemunhos vários. Juntou-se, no fim, uma bem elaborada cronologia e uma série de gráficos de fácil consulta e encerra a obra uma bibliografia muito útil, compreendendo os livros conhecidos e uma extensa relação de jornais, revistas, anúncios, catálogos, relatórios e outros documentos, sendo igualmente indicadas diversas fontes electrónicas. É de destacar, neste conjunto de documentos, o relatório da gerência do BNU de Macau de 1938-1945, com cerca de 250 páginas e muita informação relevante.“Macau 1937-45 — Os Anos da Guerra” é uma obra séria, abrangente e metodicamente organizada, merecendo figurar na colecção “Suma Oriental”, que congrega trabalhos de investigação sobre o universo oriental protagonizado especialmente pela presença lusa. O seu autor merece o nosso reconhecimento e esperamos que avance com novos trabalhos de investigação sobre Macau.Relato de Manuel TeixeiraO prefácio do jornalista João Guedes explica muito bem a ascensão do Japão entre as grandes potências mundiais e os condicionalismos naqueles anos dificílimos de Macau, num tempo de profundas mudanças históricas e num espaço assolado por terríveis tufões políticos. Neste contexto, não deixou de citar o Pe. Manuel Teixeira, que nos legou esta claríssima síntese: “O vendaval soprou violento por todo o Extremo Oriente, arrebatando na sua fúria todas as colónias europeias, ainda as mais prósperas. Poderosas e bem artilhadas, até mesmo aquelas que eram consideradas fortalezas inexpugnáveis (Singapura e Hong Kong). Macau a mais antiga de todas ficou de pé, e o glorioso pendão das quinas que havia sido o primeiro a desfraldar às brisas do Extremo-Oriente, foi, também, a única bandeira europeia que continua a flutuar nestas inóspitas plagas, lambidas pelas labaredas do mais violento incêndio que os séculos viram. No entanto, apesar de insulados nesta dentadinha de terra, à mercê do capricho de bandos sem lei nem consciência que, em completo desacordo entre si e os seus chefes apenas as entendiam num ponto – o ódio ao europeu; apesar de Macau haver sido cinco vezes bombardeada, de maneira que o simples roncar de um avião infundia pavor em todas as almas; apesar dos sobressaltos e da ansiedade em que vivemos, chegando a esperança a ser para muitos pura miragem e o optimismo sinónimo de inconsciência, apesar dos crimes sem conta perpetrados contra cidadãos pacíficos e inocentes. Estando muitos assinalados nas listas negras e todos incertos pelo dia de amanhã; apesar dos boatos alarmantes e das ameaças que, qual espada de Dâmocles, pairam durante muito tempo sobre as nossas cabeças, pondo-nos num estado de tensão contínua de nervos; apesar da negra fome... apesar de tudo isto e que a pena se recusa a registar, esta cidade saiu incólume do prélio gigantesco e bárbaro que convulsinou o Extremo Oriente”.Os interessados nestas matérias concordarão que este era mesmo um estudo necessário, sendo oportuna a sua publicação numa altura em que se tornou possível conjugar esforços e ampliar sinergias, aproximando mais os centros de estudos, os
  • 100 101 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – IX F A L A R D E N Ó S – IXorganismos com vocação editorial e as indispensáveis entidades financiadoras, nem sempre abertas ao patrocínio de propostas de investigação, mesmo quando é evidente a qualidade e a utilidade dos trabalhos produzidos. O lançamento do livro será feito no dia 18 de Junho em Macau, em sessão integrada nas comemorações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, devendo ser também apresentado em Lisboa no mesmo mês.21 de Maio de 2012Depois das intervenções do Embaixador Eurico Paes, da Dra. Celina Veiga de Oliveira, docente e investigadora da História de Macau, e do autor deste artigo, o ciclo dedicado a Macau e à China que a Sociedade Histórica da Independência de Portugal tem estado a organizar no Palácio da Independência, em Lisboa, prosseguiu na semana passada com uma palestra sobre “Macau, como Património da Humanidade”, proferida pelo General José Eduardo Garcia Leandro.O valor de MacauO ex-Governador começou por salientar que “o valor de Macau para a humanidade é mais alargado e profundo do que apenas a área edificada do Centro Histórico que foi classificada pela UNESCO em 2005”, tendo a componente imaterial “um valor incalculável, por vezes, incompletamente conhecido, que lhe permitiu a situação de caldo e cruzamento de culturas, de paz social e desenvolvimento que ali tem acontecido”. Fez depois o adequado enquadramento histórico de Macau, desde a chegada dos Portugueses à China, em 1513, até aos nossos dias, não deixando de pôr em evidência o período em que o território ganhou uma ampla autonomia após 25 de Abril de 1974. Esta viagem pela História era “ indispensável para compreender este caso singular”.Citando Austin CoatesNeste contexto, foi oportuno citar o escritor inglês Austin Coates, que foi alto funcionário britânico em Hong Kong, sobre quem Macau exerceu um enorme fascínio, sendo, simultaneamente, um apaixonado pela história e cultura portuguesas:Ciclo sobre Macau e a China na Sociedade Histórica“Tendo sido sempre um porto de abrigo face a todas as crises políticas, económicas e sociais que foram aparecendo na Ásia-Pacífico, Macau foi-se tornando também numa urbe muito diversificada de todas as nacionalidades, etnias e culturas.Macau já era então um desenho do futuro para que a humanidade caminha”.General Garcia Leandro, Maio de 2012
  • 102 103 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – IX F A L A R D E N Ó S – IX“Culturalmente nunca houve nada como Macau, onde, num pequeno lugar, tanto da China e tanto da Europa foram encastoados.Goa com toda a magnificência dos seus edifícios nunca alcançou isto. Goa é europeia; o elemento indiano perdeu-se. Só em Macau se experimenta a extraordinária sensação de estar num momento no Templo Ling Fong e dez minutos depois no Teatro D. Pedro V, cada qual constituíndo enfática expressão de civilizações díspares, sem contudo produzirem qualquer choque cultural.Tudo quanto têm de distinto se integra na suavidade do lugar criando no conjunto uma peculiar unidade cultural que é única.”Estas palavras são do livro “A Macao Narrative” (1978), que, na versão portuguesa, da Gradiva, se chamou “Macau — Calçadas da História”.O Papel de MacauGarcia Leandro lembrou, seguidamente, alguns momentos historicamente relevantes do percurso de Macau, especialmente nos primórdios: “ ... manteve-se até meados do século XVII o nosso império comercial do oriente com Goa, Malaca, e o Japão, sendo que este triângulo de tão grande necessitava de um ponto de apoio junto de Cantão, o que veio a dar importância ao pequeno espaço de Macau. Até 1841, data da instalação dos ingleses em Hong Kong, todo o estrangeiro que quisesse ir à China, raramente passando de Cantão para o norte, teria de entrar por Macau. A este respeito vale a pena ler o notável livro de Alain Peyreffite ‘L’Empire Imobille où le choc de mondes’ em que é contada ao pormenor a saga da Embaixada McCartney, enviada em finais do século XVIII pelo Rei de Inglaterra para contactar o Imperador da China, missão que correu mal tendo terminado na Guerra do Ópio e com a ocupação de Hong Kong. Macau, sendo frágil em todos os seus aspectos, teve assim um papel importante como elo de contacto com a China e como ponto de apoio indispensável ao nosso Império Comercial do Oriente. Chegados em 1513, instalados definitivamente em 1557, Macau estrutura-se como uma República de Comerciantes, tendo no seu Senado o principal órgão de governo, como bem explica Almerindo Lessa no seu livro ‘A história e os homens da primeira república democrática do oriente’ (1974).Só em 1623, depois do ataque holandês de 24 de Junho de 1622, Lisboa nomeia o primeiro Capitão Geral (Governador) para aquele pequeno território; as relações iniciais entre o Senado (depois Leal Senado) e o Governador foram bem difíceis. Mas o processo de instalação dos portugueses, uma pequena minoria, naquele território contém também aspectos notáveis em que a acção dos missionários foi essencial. Um facto que não pode ser esquecido tem a ver com a criação da Santa Casa da Misericórdia. Tendo a nossa instalação sido de 1557, a Santa Casa local nasce em 1569. Notável!
  • 104 105 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – IX F A L A R D E N Ó S – IXEm 1576 foi criada a Diocese de Macau, a terceira Diocese do Oriente, depois de Goa e Malaca. Quando da sua criação abarcava todo o espaço da China e do Japão onde com o decorrer do tempo se foi desdobrando em várias Dioceses.”Macau foi ganhando uma identidade e uma maneira de viver marcada pela abertura e pela diferença. Estatuto de autonomiaFoi, de facto, a autonomia garantida pelo Estatuto Orgânico, de Fevereiro de 1976, que permitiu a tomada de importantes decisões visando consolidar a singularidade do território. Aquele Estatuto criou órgãos de governo próprios, incluindo uma Assembleia Legislativa semi-eleita e não mais presidida pelo Governador e dotou o território de um alto grau de autonomia legislativa, administrativa, económica e financeira. As Forças Armadas Portuguesas deixaram definitivamente Macau em Dezembro de 1975 e a pataca passou a estar indexada ao dólar de Hong Kong e não ao escudo e a ficar regulada por uma autoridade monetária e cambial local. As medidas de política passaram a ser definidas e aprovadas no território. Em Agosto de 1976, na cerimónia de abertura da Assembleia Legislativa, Ho Yin, na qualidade de representante da Comunidade Chinesa, afirmaria: “A partir de agora é em Macau que se governa Macau.” O Estatuto Orgânico, vigente até 1999, facilitou o relacionamento com as autoridades chinesas e o processo de transição. Essa conjuntura também propiciou a adopção de medidas seguras e consistentes no domínio da preservação e valorização do património. Ainda em 1976 foi aprovado o Dec. Lei n.° 34/76/M, que criou a Comissão de Defesa do Património Urbanístico, Paisagístico e Cultural de Macau. Foi um marco decisivo na longa caminhada que culminou na consagração do centro histórico como património da humanidade. Criou-se, no início da década de 80, a Comissão Coordenadora da Acção Cultural (foi uma das minhas primeiras decisões como membro do Governo) e, logo a seguir, o Instituto Cultural de Macau (Dec. Lei n.° 43/82/M). Pouco depois, fez-se a reformulação, em 1984, da comissão de defesa do património, que passou a designar-se de Comissão de Defesa do Património Arquitectónico, Paisagístico e Cultural, com poderes alargados. Garcia Leandro recordou esses e outros passos que sucessivos Governadores deram nesta história de sucesso, em que as dificuldades e os obstáculos foram, por vezes, quase intransponíveis. Na parte final da sua comunicação identificou os monumentos classificados incluídos no centro histórico e terminou citando o autor deste artigo, num trabalho publicado na Revista Portuguesa de Estudos Chineses: “Nesses monumentos está espelhada uma História multissecular que caberá às novas gerações respeitar e assumir. A inclusão de Macau na Lista do Património Mundial constituiu também uma homenagem a essa História e representou para as autoridades locais a assunção de uma responsabilidade perante o mundo, de conservação do património deixado aos jovens de hoje, naturalmente apostados na edificação da sociedade do futuro, mas sabendo que não haverá porvir estável sem memória e sem reconhecimento.”28 de Maio de 2012
  • 106 107 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – IX F A L A R D E N Ó S – IXLançado em Macau, em Dezembro passado, o livro “José Vicente Jorge, Macaense Ilustre”, de Graça Pacheco Jorge e Pedro Barreiros, foi apresentado em Lisboa, na semana passada, em simpática sessão realizada no auditório da Delegação Económica e Comercial de Macau, com a presença dos autores, que são ambos netos da personalidade homenageada, outros familiares, amigos e numeroso público interessado. Raimundo do Rosário, coordenador da Delegação, saudou a publicação daquela obra e regozijou-se com a realização da sessão naquele local, que é a representação oficial da RAEM, onde está também patente uma exposição de desenhos do laureado artista Rogério Silva, inspirados na porcelana e em poemas chineses, cabendo a Pedro Barreiros evocar José Vicente Jorge, e realçar as facetas mais relevantes da sua vida, como tradutor e intérprete, professor, alto funcionário e notável coleccionador de arte chinesa. Ilustrou as suas palavras com a projecção de uma boa selecção de dispositivos alusivos ao tema. Nova colecçãoEste livro, que tem a marca de qualidade de Victor Hugo Design na direcção gráfica e excelente capa e orientação de Carlos Marreiros, é o primeiro número da colecção de fotobiografias que o Albergue SCM tomou a iniciativa de publicar, sobre macaenses que se distinguiram em diversificados ramos de actividade e contribuíram, significativa e eficazmente, para o progresso, o desenvolvimento e o reforço da singularidade de Macau. “MacauFotoBios” — nova colecção de fotobiografias“Aqui fica a sua biografia profusamente ilustrada e a revelação de um espólio fotográfico e iconográfico sobremaneira importante para a compreensão, estudo e preservação da memória de Macau, projecto em boa hora acolhido pelo Albergue da Santa Casa da Misericórdia, a quem se deve a edição da obra”.Tereza Sena, na introdução ao livro“José Vicente Jorge, Macaense Ilustre” Foi assim que Carlos Marreiros, director geral daquele organismo cultural macaense, caracterizou a nova colecção, cujo aparecimento se saúda e se apoia incondicionalmente:“MacauFotoBios é o título reduzido e a imagem gráfica da colecção de fotobiografias de personalidades marcantes da história e da sociocultura recentes de Macau. Figuras que nos mais vastos e distintos domínios do saber humano, pela sua contribuição para o bem comum, Macau tanto lhes deve.Cidadãos de uma Macau plural e tolerante, que independentemente das suas etnias e proveniências, antes e depois de 1999, ajudaram a esculpir o perfil identitário de Macau, dos últimos cem anos e cuja obra, ainda hoje e aqui, nos ajuda a compreender a Macau dos nossos dias, já integrada na República Popular da China como Região Administrativa Especial de Macau.Não obstante as incomensuráveis e sempre actualizantes tecnologias de informação, que nos integram na aldeia global, o quotidiano e as interacções das sociedades contemporâneas continuam muito complexos. A tirania do tempo na vida das pessoas e das instituições, a velocidade com que tudo acontece nos tempos que correm e os grandes êxitos globais mas efémeros, retiram sentido de eternidade a factos, obras e pessoas valorosos e valorizadores da nossa convivência colectiva. Já habitam nas nossas memórias colectivas, porém, os mais jovens nunca sequer ouviram falar deles.O que seria Macau agora sem Sun Yat Sen, Camilo Pessanha, Kou Ho Neng, Ho Yin ou Carlos d’Assumpção? É verdade que a figura e obra de Sun Yet Sen brilham muito
  • 108 109 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – IX F A L A R D E N Ó S – IXalém do pequeno firmamento de Macau, e influenciam a vida de muitos milhões de pessoas. A sua vida e obra são conhecidas e divulgadas em todo o mundo. A uma outra escala e no domínio da literatura, Camilo Pessanha é, também, conhecido e divulgado internacionalmente.É, por isso, que a Colecção ‘MacauFotoBios’ não se vai centrar nas figuras de Macau com bibliografias extensas e conhecidas, antes, porém, naquelas de cuja memória, falta ainda grafar o mínimo, o essencial, o possível, em suporte não perecível, para que venha a ser objecto de pesquisa aprofundada e ulterior.A Colecção ‘MacauFotoBios’ centrar-se-á em personalidades que nos deixaram não há muito tempo. Tempo pouco para que já sejam história, ao mesmo tempo, tempo demais para que ainda não tenham saído do limbo do esquecimento. E, entre esses tempos, no tempo presente, de fácil olvido, outros tempos hão-de vir, à velocidade da luz, para os quais nem a relojoaria das memórias colectivas terá tempo para elaborar e transmitir para gerações futuras.É, com este espírito e após maturada reflexão, que o Albergue SCM concebeu a Colecção ‘MacauFotoBios’, em edição trilingue, nas duas línguas oficiais e, também, em inglês para que o universo da sua utência e interactividade fosse mais largo. A ordem da paginação das três línguas é sempre, em primeiro lugar, a língua original do texto, seguidas das respectivas traduções.A Colecção ‘MacauFotoBios’ inicia-se com ‘José Vicente Jorge, Macaense Ilustre’ (1872-1948) da co-autoria de Graça Pacheco Jorge e Pedro Barreiros, seguindo-se ‘Carlos d’Assumpção, Um Homem de Valor’ (1929-1992) da autoria de Celina Veiga de Oliveira. A colecção é infindável e inclui Ho Yin, Adé dos Santos Ferreira, Chui Tak Kei, Monsenhor Manuel Teixeira, Roque Choi Lok Kei, entre tantos outros.O Albergue SCM tem a consciência que, com a publicação da ‘MacauFotoBios’ e actividades correlacionadas, contribuirá de forma singela mas objectiva, para a fixação das memórias colectivas recentes, sem as quais a historiografia contemporânea não poderá aprofundar, correlacionar e plasmar, em obras de muito maior fôlego, num amanhã que está à porta.”São claros e inteiramente consensuais os propósitos expressos, merecendo este projecto magnífico, que não tem limite temporal estabelecido, a estreita colaboração de todos os organismos cívicos e culturais macaenses, bem como o apoio generoso das entidades financiadoras, felizmente existentes aqui, ainda que nem sempre criteriosamente atribuído.O primeiro volumeEste primeiro volume não deixa dúvidas quanto à dimensão deste ambicioso projecto editorial. Com mais de 350 páginas, além de recordar um ilustre “filho da terra”, vale pela riqueza gráfica e iconográfica e pela qualidade dos textos. Inclui uma introdução de Tereza Sena, investigadora do Centro de Estudos das Culturas Sino-Ocidentais do Instituto Politécnico de Macau, que procura descrever, em traços largos, Macau e a China no tempo de José Vicente Jorge, das últimas décadas do século XIX ao fim da Guerra do Pacífico, uma “conturbada época de transição a nível mundial”, “da monarquia à república, da democracia à ditadura, da paz à guerra, do colonialismo ao
  • 110 111 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – IX F A L A R D E N Ó S – IXalvor dos nacionalismos, mas também de profunda e consternante alteração da vida quotidiana rumo à modernidade, o que num século de todas as mudanças, não deixou também de transformar a sua Macau”.São vários os capítulos: O nascimento, a família Jorge e Macau; a infância e formação; o casamento com Matilde Augusta Pacheco; a vida profissional; a família e os descendentes; o coleccionador de arte chinesa; Camilo Pessanha e José Vicente Jorge; o exílio e o fim; e memória de José Vicente Jorge. As versões chinesa e inglesa estão contidas no mesmo volume, mas com outras ilustrações, todas elas, aliás, legendadas nas três línguas, e, na parte final, está um belíssimo álbum, com fotos de pessoas, lugares, objectos, livros e documentos relacionados com a vida, a obra e o tempo de José Vicente Jorge, nesta cidade “orgulhosa da sua história mas, acima de tudo, da sua capacidade de sobrevivência ditada pela vontade das suas gentes”. Parabéns ao editor e aos autores por esta edição que assinala, muito positivamente, o arranque da colecção “MacauFotoBios”. 4 de Junho de 2012Como vimos no artigo anterior, a nova colecção “MacauFotoBios” arrancou, em Dezembro passado, com a obra “José Vicente Jorge, Macaense Ilustre – Fotobiografia”, de Graça Pacheco Jorge e Pedro Barreiros, netos da personalidade recordada e, desta feita, justamente homenageada.José Vicente Jorge nasceu em Macau no dia 27 de Dezembro de 1872, sendo neto e filho de dois influentes macaenses, respectivamente, José Vicente Caetano Jorge, próspero comerciante que foi vereador, procurador do concelho e provedor da Santa Casa da Misericórdia, e Câncio José Jorge, intérprete-tradutor, que também foi vereador e ainda vice-presidente e presidente do Leal Senado, cônsul-interino de Portugal no Sião e nos estabelecimentos britânicos dos estreitos de Singapura, Malaca e suas dependências, advogado provisionário, juíz substituto e delegado interino do procurador da Coroa.Após os estudos secundários, José Vicente Jorge fez o curso da escola de intérpretes da Repartição do Expediente Sínico, passando a integrar o quadro desse serviço público, a que dedicou a primeira fase da actividade profissional, ao mesmo tempo que dava colaboração nas áreas cultural, social e intelectual de Macau, e desempenhava funções docentes no Instituto Comercial, anexo ao Liceu de Macau.Esteve colocado na Legação de Portugal em Pequim, como secretário-intérprete, de Junho de 1908 a Março de 1911, tendo chefiado interinamente a Legação durante seis meses e contribuído eficazmente para assegurar o seu regular funcionamento no período de mudança do regime político em Portugal.Macaense ilustre, notável coleccionador de arte chinesa“… a (colecção) do Sr. Jorge é sem dúvida… a mais rica e a mais numerosa. O seu palacete é hoje um verdadeiro e valiosíssimo museu, pletórico de incalculáveis preciosidades…”Luís Gonzaga Gomes, Maio de 1943
  • 112 113 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – IX F A L A R D E N Ó S – IXRegressado a Macau e já subchefe da Repartição Técnica do Expediente Sínico, assumiu interinamente a chefia deste organismo, bem como a da Procuratura do Expediente Sínico, deslocando-se numerosas vezes a Cantão em comissões especiais, como delegado do Governador de Macau. Integrou também o Conselho da Província de Macau, a Comissão de Assistência Judiciária e a comissão directora do Colégio de Santa Rosa de Lima.Já aposentado, foi nomeado 2.° juíz substituto do Tribunal Privativo dos Chinas e vogal representante da comunidade chinesa no Conselho Legislativo, exercendo também a docência no Liceu Central de Macau e a actividade de solicitador. Integrou o Instituto de Macau, que reuniu os homens mais cultos da terra mas teve vida efémera, traduziu importantes obras sobre a cultura, usos e costumes chineses e foi agraciado pelo Estado Português com a comenda da Ordem Militar de Cristo. Faleceu em Lisboa em 22 de Novembro de 1948, para onde fora viver, com a família, imediatamente após os anos muito difíceis da Guerra do Pacífico.Notável coleccionadorO palacete de José Vicente Jorge, na Rua da Penha, era um verdadeiro museu, sendo muito valiosa a sua colecção de arte chinesa, de “cerca de 10.000 peças, representando os principais ramos de arte chinesa – cerâmica, bronze, jade, pintura, caligrafia, escultura, gravura, esmalte, laca, bordado e mobília”, conforme referiu no seu livro “Notas sobre a Arte Chinesa” (Macau, Tipografia Mercantil, 1940 – 1.ª ed.; Instituto Cultural de Macau, 1995 – 2.ª ed.). Asseverou modestamente o autor que “não é um tratado sobre cerâmica chinesa, pois a tanto não me abalançava”, mas “simples apontamentos, tirados de vários livros, de conversas com alguns coleccionadores chineses… e do que me foi possível observar, durante o longo período de 50 anos, em que tenho andado a coleccionar, pois que, no desempenho das minhas funções oficiais, tive a ocasião de visitar palácios de príncipes e reis, o Palácio Imperial, os museus do imperador e da imperatriz, tendo ficado maravilhado com as preciosidades que vi, tanto de arte cerâmica como das outras, todas de autenticidade absolutamente indiscutível”. E explicou que “quando alguém tenha conseguido vencer as dificuldades que a cerâmica chinesa apresenta e possa compreender os motivos empregados na decoração, achará o assunto tão absorvente e interessante que não lhe será preciso nenhum estímulo para procurar aprofundar o seu conhecimento”. Na revista Renascimento, de Maio de 1943, Luís Gonzaga Gomes publicou um bem elucidativo artigo sobre aquela colecção, com o título “Curiosidades Chinesas. O Museu do Senhor José Vicente Jorge”. Eis algumas passagens desse artigo que Graça Pacheco Jorge e Pedro Barreiros escolheram e transcreveram: “Nos tempos mais recentes podemos citar o nome de várias pessoas que se dedicaram a formar com paixão colecções de objectos de arte antiga, principalmente da arte chinesa, como Camilo Pessanha, Silva Mendes e o Sr. José Jorge. Dos novos apraz-nos lembrar o do Sr. Dr. José Ferreira de Castro, possuidor de uma interessantíssima colecção escolhida com delicado gosto e em que predominam os bronzes e o do Sr. Dr. Pedro Guimarães Lobato, cuja ecléctica colecção azul e branco, é constituída por peças meticulosamente seleccionadas. Pessanha, antes de falecer, oferecera as melhores peças da sua colecção ao Museu das Janelas Verdes de Lisboa. Da colecção de Silva Mendes, grande parte foi adquirida depois do seu falecimento, pelo Governo, para o Museu local.
  • 114 115 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – IX F A L A R D E N Ó S – IXA do Sr. Jorge é sem dúvida das três a mais rica e a mais numerosa. O seu palacete é hoje um verdadeiro e valiosíssimo museu, pletórico de incalculáveis preciosidades, que nenhum estrangeiro ilustre, de passagem por esta Colónia, deixa de visitar.Tivemos ainda há dias mais uma vez o prazer de ir deleitar os nossos olhos nesta admirável colecção, hoje devidamente inventariada e classificada. […] A formar o ambiente, as salas estão repletas de ricos móveis de pau preto, admiravelmente esculpidos e reluzentes por constantes bruniduras de encáustica.Para decoração dos interiores, foram inteligentemente aproveitados os belos frisos e lambrequins dos velhos tempos numa apoteose de estranhos rendilhados a oiro fulvo; e dos tectos pendem candelabros, lanternas ilustres de uma sumptuosidade ornamental de pasmar. Até as portas dos diversos compartimentos são autênticas portas antigas de casas chinesas, que se desfizeram, e onde se encontram encaixilhadas preciosas hialografias e vitrais com desenhos isentos de intervenção de ácidos. Logo no vestíbulo pode o visitante admirar dois manipanços em madeira doirada e esculpidos com notável perfeição, estando os mesmos assentes em dois artísticos escaparates prodigiosamente arrendilhados, na sua pompa de passarinhos, de folhas, de exóticos e enigmáticos símbolos.Na sala de espera, não saberá o visitante deter-se diante de qual objecto para o apreciar, tal a profusão de preciosas coisas ordenada e gracilmente distribuídas. O centro é ocupado por um gigantesco jarrão, raro quanto mais não seja pelo seu descomunal tamanho.Um par de aguarelas, executadas em duas enormes lápides de mármore e devidamente encaixilhadas em pau preto, ocupam a parede que fica à mão direita de quem sobe a escada. Por outras paredes estão afixados variados pratos, tabuletas com perfeitíssimos embutidos de bambu e delicadíssima factura, quadros notáveis pela harmoniosa distribuição das cores e, dispersos por vários cantos, em desordem ordenada, hastarias com nitentes lanças, bisarmas, partasanas, tridentes e gládios de antigos guerreiros chineses, em cobre finamente cinzelados. A vasta sala de jantar é ocupada ao centro por uma enorme mesa de nara, a preciosa madeira em que se talhavam as ricas mobílias das famílias abastadas do velho Macau, e estonteia o visitante a formidável profusão de travessas, salvas e pratos em azul e branco que reveste de alto a baixo todas as quatro paredes deste compartimento. […]”A viva descrição de Luís Gonzaga Gomes desenvolve-se ao longo das demais salas do palacete, referindo os quadros, as porcelanas, os bronzes, as mobílias e os ornamentos patentes em todas elas. Quem conheceu esta colecção sabe que ela foi verdadeiramente notável. Ela foi doada aos filhos e parcialmente vendida, em vésperas da partida de José Vicente Jorge para Lisboa. Quanto ao palacete, foi também vendido e transformado em convento, e depois alienado pelo Padroado em 1970 e demolido em 1973.11 de Junho de 2012
  • 116 117 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – IX F A L A R D E N Ó S – IXO Instituto Internacional de Macau (IIM) tem, desde o início do seu funcionamento, em 1999/2000, privilegiado as acções de cooperação com instituições brasileiras e luso-brasileiras, de natureza académica e cultural. Neste contexto, não só desenvolveu relações com prestigiadas entidades, como também realizou, no Brasil, importantes actividades, muitas das quais relacionadas com a promoção da RAEM, na forma de encontros, seminários, conferências, exposições, edições e acções de intercâmbio. Protocolos e parceriasAtravés de protocolos, o IIM alargou a sua esfera de intervenção e criou sinergias que permitiram a organização de muitas iniciativas conjuntas. De entre os organismos com os quais foram estabelecidas parcerias, merecem referência o Real Gabinete Português de Leitura e o Liceu Literário Português, duas emblemáticas instituições lusas com sede no Rio de Janeiro, a Federação das Associações Portuguesas e Luso-Brasileiras do Brasil, a Universidade Federal de Pernambuco, a Fundação Joaquim Nabuco, a Universidade de Cândido Mendes, o Centro de Estudos Fernando Pessoa da Universidade de São Paulo, o Elos Internacional — Movimento da Comunidade Lusíada, o Instituto Brasileiro de Estudos da China e Ásia-Pacífico (IBECAP), o Movimento Festlatino, o Gabinete Português de Leitura do Recife e, naturalmente, as Casas de Macau de São Paulo e do Rio de Janeiro. Quase todos esses protocolos conduziram à realização de múltiplos eventos do IIM no Brasil, muitos dos quais foram objecto de crónicas e artigos inseridos neste espaço do Jornal Tribuna de Macau. Faltou referir os mais recentes, levados a efeito nos últimos meses de 2011. Pela sua diversidade e relevância, e numa altura em que se finalizam Jornadas brasileiras do IIM“Nunca será de mais enaltecer o trabalho admirável que, a despeito das mutações políticas, das transformações económicas e do impacto nas estruturas administrativas do território e da própria China, tem sido desenvolvido pelo Instituto Internacional de Macau”.A. Gomes da Costa, presidente do Real Gabinete Português de Leitura, Rio de Janeiro, Outubro de 2011os preparativos para novas jornadas académicas, associativas e culturais no Brasil, a concretizar em Setembro e Outubro próximos, torna-se oportuno fazê-lo agora:3.º Seminário O 3.º seminário subordinado ao tema “O Papel de Macau no Intercâmbio Sino-Luso-Brasileiro”, organizado conjuntamente pelo IIM e pelo IBECAP, decorreu em três continentes, com sessões em Macau (na sede do IIM), em Lisboa (no Palácio da Independência) e no Rio de Janeiro (na Confederação Brasileira do Comércio e no Real Gabinete Português de Leitura). Este seminário tem tido crescente adesão e já conquistou o envolvimento de autoridades brasileiras, incluindo representantes do Itamaraty e destacados membros do corpo diplomático brasileiro, neles marcando também presença representantes diplomáticos chineses no Brasil. Num dos próximos artigos será dado maior destaque a estes encontros. ExposiçõesAs exposições “Macau é um espectáculo” e “O Oriente de Influência Cultural Portuguesa”, ambas organizadas pelo IIM, foram apresentadas em várias cidades brasileiras. A primeira, que contou com a colaboração de associações fotográficas locais, compreende 51 vistosas fotografias que retratam manifestações culturais, caracterizadas pelo exotismo, colorido e exuberância, nas ruas de Macau. Esteve em São Paulo, na Federação do Comércio; no Rio de Janeiro, no Real Gabinete Português de Leitura;
  • 118 119 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – IX F A L A R D E N Ó S – IXem Brasília, na Biblioteca Nacional; e no Recife, no Gabinete Português de Leitura e na Universidade de Paula Frassinetti, tendo sido depois escolhida para integrar a sessão de abertura da Convenção do Elos Internacional — Movimento da Comunidade Lusíada, em São Bernardo de Campo, no Estado de São Paulo.Através das várias versões desta exposição, que também tem feito itinerância em Portugal, no Canadá e nos E.U.A., o IIM tem procurado mostrar Macau ao mundo, como um centro cultural vivo, com as suas dimensões oriental e ocidental.A outra mostra contém uma selecção de 160 postais antigos da magnífica colecção de João Loureiro, referentes a Goa, Damão e Diu, Macau e Timor. Foi inaugurada no Clube Militar de Macau e esteve patente no Recife, no Gabinete Português de Leitura e na abertura da Conferência de 2011 do Movimento Festlatino. Ela põe em relevo a herança cultural lusa no Oriente, bem como aspectos da paisagem geográfica, arquitectónica, urbanística, cultural, social e humana desses territórios, sendo este um contributo do IIM para a comemoração dos 500 anos de Portugal no Oriente.FestlatinoO IIM marcou presença na Conferência do Movimento Festlatino, no Recife, capital do Estado de Pernambuco, com a apresentação daquela mostra de postais da colecção de João Loureiro, que também foi exibida na Universidade de Paula Frassinetti. Os eventos e congressos do Festlatino têm como objectivo disseminar e incentivar o estudo de línguas e literaturas neolatinas, com enfoque especial na Língua Portuguesa, assim como as manifestações culturais dos países de línguas neolatinas, formatando o diálogo entre os respectivos povos, através de palestras, seminários, conferências, estudos, cursos e eventos literários, musicais e de teatro, cinema e artes plásticas. Através do IIM, as iniciativas do Movimento Festlatino chegaram também a Macau em 2011.Encontro de escritoresPromovido pela Prefeitura Municipal de Natal, pela Fundação Cultural Capitania das Artes e pela UCCLA — União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa, realizou-se, na última semana de Novembro, o II Encontro de Escritores de Língua Portuguesa. Os principais temas das sessões foram “Poesia Escrita para Música”, “O Estado e a Evolução da Língua Portuguesa” e “Literatura de Viagens” e nelas participaram escritores, jornalistas, académicos e músicos dos países de Língua Portuguesa. Macau esteve presente através de Rui Lourido, historiador português e presidente do Observatório da China em Portugal, que apresentou o tema “A Viagem — Paradigma do Encontro: Percepções Portuguesas e Chinesas sobre Macau/China e o Brasil”, pesquisa que vem desenvolvendo com os investigadores Jin Guo Ping e Wu Zhiliang, presidente da Fundação Macau, e de Carlos Francisco Moura, investigador e colaborador do IIM no Rio de Janeiro, que apresentou o tema “A Jornada de António Albuquerque Coelho de Goa a Macau em 1717-1718”. Como membro da UCCLA, o IIM foi convidado a participar neste encontro.Na AcademiaFoi um momento alto para o IIM quando se consolidaram, há quase três anos, os contactos com a Academia Brasileira de Letras e, na qualidade de presidente do IIM, ali
  • 120 121 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – IX F A L A R D E N Ó S – IXapresentei uma comunicação sobre Macau e o legado cultural luso e recebi das mãos do então presidente da Academia, Cícero Sandroni, a Medalha Machado de Assis. Terminei a comunicação com a leitura de um poema de Adé, em patuá, dedicado ao Brasil e ali voltámos, em Outubro de 2011, para entregar à Academia esse poema com um enquadramento gráfico primorosamente executado pelo laureado designer macaense Victor Hugo Marreiros. Foi uma ocasião excelente para continuarmos a falar de Macau com os académicos e combinar novas acções naquela prestigiada instituição. Casas de MacauÉ sempre uma alegria voltar às Casas de Macau e conviver com os seus membros. Na de São Paulo aproveitámos para entregar o Prémio Identidade de 2011 a Rogério dos Passos Dias da Luz, pelo seu muito apreciado Projecto Memória Macaense. Recebeu-o visivelmente emocionado, acompanhado duma ovação de pé de todos os conterrâneos e convidados presentes. No Rio de Janeiro, o Cônsul-Geral interino da RPC, Wang Xian, acompanhou-nos na visita à Casa de Macau.É de felicitar os presidentes Gilberto Quevedo da Silva e Alberto Carlos Paes d’Assumpção pela acção muito positiva realizada nas duas Casas em prol de Macau e da comunidade macaense.18 de Junho de 2012Está em fase final de preparação o 4.º seminário subordinado ao tema “O papel de Macau no intercâmbio sino-luso-brasileiro”, conjuntamente organizado pelo Instituto Internacional de Macau (IIM) e pelo Instituto Brasileiro de Estudos da China e da Ásia-Pacífico (IBECAP). Inicialmente realizado em Macau e no Rio de Janeiro, passou também a integrar sessões em Lisboa e o próximo terá lugar em Xangai, traduzindo esta expansão a crescente adesão a este projecto académico em que se estudam e se analisam as relações entre a China e os países lusófonos, bem como o papel de Macau neste contexto, como plataforma de cooperação.As datas para o próximo seminário já estão acordadas: 11 e 12 de Setembro em Macau, 13 do mesmo mês em Xangai, terceira semana de Outubro no Rio de Janeiro e segunda semana de Novembro em Lisboa, estando os respectivos programas quase concluídos no que respeita ao elenco de oradores e aos temas das comunicações. É uma experiência rara um seminário decorrer em três continentes.3.º Seminário Teve boa participação a terceira edição do seminário, em Macau, em Lisboa e no Rio de Janeiro, respectivamente, a 6, 14 e 26 e 27 de Outubro de 2011. “Vivências no Brasil” e “O Diálogo Sino-Luso-Brasileiro e o seu papel na Nova Ordem Mundial Multipolar” foram os títulos das palestras proferidas por Lourenço Cheong, empresário e ex-quadro superior do IPIM — Instituto de Promoção do Comércio e do Investimento de Macau, e Severino Cabral, professor universitário e presidente do IBECAP, Um seminário do IIM em três continentes“Foi com muita satisfação que recebi o convite do Instituto Internacional de Macau para passar em revista, sob a perspectiva do Ministério das Relações Exteriores do Brasil, a cooperação entre a China e os Países de Língua Portuguesa, no âmbito do Fórum para a Cooperação Económica e Comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa, também conhecido como Fórum de Macau”.Embaixadora Maria Edileuza Reis,subsecretária-geral do Itamaraty
  • 122 123 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – IX F A L A R D E N Ó S – IXtendo moderado a sessão o autor deste artigo, na qualidade de presidente do IIM, que identificou os principais passos dados pelo Fórum para a Cooperação Económica e Comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa e os resultados já alcançados por este organismo cujo secretariado permanente e serviços de apoio têm a sede em Macau. A importância de Macau como plataforma de entendimento entre a China e o mundo lusófono foi relevada nas comunicações apresentadas e nos debates subsequentes, com a conclusão de que é necessário ampliar o fluxo de intercâmbio entre os países lusófonos e Macau e aumentar a consciência política e empresarial do potencial de Macau como porta de entrada na China. Os principais temas tratados em Lisboa, no Palácio da Independência, onde o IIM tem a sua delegação, foram “Vectores Estratégicos da Política Externa da China” e “Interesse Vital do Brasil no Atlântico Sul e Relacionamento Sino-Brasileiro: Desafios e Oportunidades”, por Luís Cunha, investigador doutorado em Relações Internacionais e autor de uma tese sobre a política externa da China, agora publicada com o título “A Hora do Dragão”, e por Severino Cabral, respectivamente. Maior impacto É no Rio de Janeiro que este seminário tem conhecido um impacto maior, pelo envolvimento de diversas entidades e pela participação de diplomatas brasileiros, chineses e portugueses. A terceira edição deste seminário teve sessões no Real Gabinete Português de Leitura e na Confederação Brasileira do Comércio, com larga, qualificada e diversificada participação. Foram oradores o cônsul-geral de Portugal, o cônsul-geral interino da República Popular da China, o jornalista Carlos Tavares de Oliveira, o professor Arno Wehlig, presidente do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, a embaixadora Maria Edileuza Fontenele Reis, subsecretária-geral para os assuntos políticos do Ministério das Relações Exteriores do Brasil, responsável pela área da Ásia-Pacífico, António Gomes da Costa, presidente do Real Gabinete Português de Leitura e da Federação das Associações Portuguesas e Luso-Brasileiras do Brasil, Severino Cabral e o autor deste artigo, em nome do IIM, como co-organizador.Novas ediçõesDurante as sessões, foram apresentadas variadas novas edições do IIM: “Macau e o Intercâmbio Sino-Luso-Brasileiro — Importância do Fórum de Macau para o Brasil”, da embaixadora Maria Edileuza Fontenele Reis, “Liou She-Shun, Plenipotenciário do Império da China — Viagem ao Brasil em 1909”, de Carlos Francisco Moura, investigador e colaborador do IIM no Rio de Janeiro, “Sun Yat-Sen e a fundação da República Chinesa vista de Portugal”, de António Vasconcelos de Saldanha, catedrático do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, e “À Descoberta da China e dos Países Lusófonos — Potencialidades Turísticas e Estratégias Promocionais”, obra coordenada por Gonçalo César de Sá e Jorge Rangel.Outras iniciativasNa sessão realizada em Lisboa foi também feita uma apresentação pela artista plástica e pesquisadora do IBECAP, Marilda Machado, do tema artístico “O Caminho do
  • 124 125 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – IX F A L A R D E N Ó S – IXVazio”, e no Rio de Janeiro quis o comendador António Gomes da Costa homenagear o IIM e os seus responsáveis que “com o seu trabalho e dedicação constantes, têm levantado e mantido pontes polivalentes a ligar o Oriente a Portugal e ao Brasil”. O cônsul-geral interino da RPC, Wang Xian, que integrou a parte chinesa do Grupo de Ligação Conjunto, organismo que acompanhou a transição de Macau, obsequiou a delegação do IIM com um jantar na sua residência oficial e acompanhou o IIM na visita à Casa de Macau no Rio de Janeiro, participando no convívio que ali foi organizado, mais um que os amigos macaenses sempre promoveram nas deslocações do IIM ao Brasil. Palavras oportunasAntónio Gomes da Costa, na homenagem que quis, publicamente, prestar ao IIM, pronunciou estas palavras de amizade e reconhecimento:“Nunca será de mais enaltecer o trabalho admirável que a despeito das mutações políticas, das transformações económicas e do impacto nas estruturas administrativas do território e da própria China, tem sido desenvolvido pelo Instituto Internacional de Macau. Desde as vertentes culturais e tecnológicas e científicas, ao apoio às ‘Casas de Macau’ espalhadas por diversos países; desde os estudos na área económica ao intercâmbio universitário; desde as exposições artísticas à edição de obras raras; desde a cooperação com outras instituições à recuperação de acervos históricos e literários de raíz lusíada em grande parte do Oriente, do antigo Estado Português da Índia a Mombaça e Malaca, desde a promoção do turismo à difluência dos valores macaenses pelo espaço da Língua Portuguesa, o Instituto e os seus dirigentes têm vindo a assumir um papel cada vez maior e um protagonismo cada vez mais activo que até as próprias autoridades chinesas e, obviamente, os países da lusofonia consideram ser de grande interesse e relevância.Macau foi ao correr da História um ponto de encontro do Ocidente com o Oriente. As transformações do mundo moderno e a integração do território na grande nação chinesa não lhe tiraram, como diz o Dr. Jorge Rangel, as imensas e inúmeras potencialidades de continuar a ser uma plataforma de diálogo e de cooperação entre a China continental e os povos de Língua Portuguesa. Por isso, não há-de faltar o nosso incentivo e a nossa admiração a todos aqueles que, no âmbito do Instituto Internacional de Macau, continuam a investir na construção de futuros e no destino da Região Administrativa Especial, sem que ao longo dessa construção e desse destino sejam perdidos os símbolos de uma presença e os legados de um percurso lusíada e o apagamento de um passado que foi ungido pela coragem, pela determinação e pelo talento do povo português.”São palavras de enorme incentivo e forte exortação para se ir ainda mais longe, não obstante os limitados meios disponíveis.26 de Junho de 2012
  • 126 127 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – IX F A L A R D E N Ó S – IXAcaba de sair do prelo, em Lisboa, um importante e bem elaborado livro sobre a China, intitulado “A Hora do Dragão — Política Externa Chinesa”, publicado pela Zebra Publicações, com a colaboração do Instituto Internacional de Macau (IIM). O lançamento terá lugar no dia 12 de Julho, no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas. Os diversos capítulos explicam a génese da política externa chinesa, o processo decisório e as respectivas dinâmicas e seus autores, o exercício do poder na China, os desafios da ascensão geoestratégica chinesa e as relações da China com as outras potências. O autor é Luís Cunha, quadro superior do Ministério dos Negócios Estrangeiros de Portugal, sendo o prefácio de Adriano Moreira e a nota de apresentação do autor deste artigo, na qualidade de presidente do IIM. O IIM e a ChinaO IIM, no âmbito dos seus objectivos estatutários, tem dedicado aos estudos sobre a China contemporânea a maior atenção, organizando conferências, seminários e colóquios centrados especialmente em temática relacionada com o espectacular desenvolvimento económico do país, as profundas mudanças ali operadas nas últimas décadas, a sua crescente afirmação como parceiro incontornável na ordem internacional e as relações cada vez mais intensas que vem consolidando com os países lusófonos. No contexto da diversificada actividade editorial do IIM, foi dada, igualmente, prioridade à publicação de trabalhos nesse âmbito, produzidos por iniciativa própria ou em regime de parceria com outras entidades, locais e do exterior, com as quais foram firmados A propósito de “A Hora do Dragão — Política Externa Chinesa”“... são oportunos, e claramente construtivos, trabalhos como o que vem assinado por Luís Cunha, que seguramente vai suscitar o interesse de todos os que se inquietam com a desordem do presente e não desistem de contribuir para uma reconstrução da ordem internacional”.Adriano Moreira, no prefácio da obraprotocolos de cooperação, visando a criação de sinergias, a partilha de recursos e o alargamento do seu espaço de intervenção. A título pessoal ou na qualidade de presidente do IIM, eu próprio tenho participado, como orador, em múltiplos encontros académicos promovidos por universidades e centros cívicos e culturais de muitos países. Debatem-se, por vezes, ali questões relevantes em torno da China, nas mais variadas perspectivas. Assim, de Lisboa a Pequim ou do Rio de Janeiro a Toronto, o IIM tem tido uma intervenção regular, assegurando, ao mesmo tempo, uma presença, que é desejada, da Região Administrativa Especial de Macau (RAEM), ainda que a título não oficial.Temos verificado que o acompanhamento da evolução da China, com todos os seus paradoxos e projectando cenários que podem ir dos mais optimistas aos inequivocamente catastróficos, constitui, hoje, uma das matérias mais aliciantes nas áreas da ciência política e das relações internacionais. E temos podido falar com personalidades de elevadíssima craveira intelectual, de diversa formação e com um conhecimento profundo da realidade chinesa actual, que não hesitam em concluir que problemas de impressionante grandeza, tão vastos quanto a dimensão do país e da sua população, porão à prova, já no futuro próximo, a capacidade dos governantes e da sociedade, não havendo resposta consensual para as soluções possíveis e para um desfecho que é, em larga medida, não completamente previsível.LusofoniaPor outro lado, tem sido preocupação permanente do IIM contribuir para o reforço do relacionamento entre Portugal e a República Popular da China, até porque
  • 128 129 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – IX F A L A R D E N Ó S – IXo acordo subscrito pelos dois países sobre a questão de Macau foi amplamente respeitado e a RAEM, com todas as suas reconhecidas insuficiências, é mesmo uma história de sucesso. É de realçar que o diálogo do IIM com autoridades e organismos chineses tem sido entabulado numa base de confiança, o que ficou bem expresso nas acções de formação que o IIM foi incumbido de preparar e coordenar, em Portugal, em Setembro do ano passado, para 24 quadros superiores chineses, para lhes proporcionar um conhecimento maior da realidade portuguesa, nas vertentes política, económica, administrativa, jurídica, social e cultural.O mesmo poderá ser dito sobre o Brasil, onde o IIM mantém, desde a primeira hora, contactos privilegiados com múltiplas instituições, desde o Real Gabinete Português de Leitura do Rio de Janeiro à Fundação Joaquim Nabuco e ao Movimento Festlatino, que têm sede no Recife, Pernambuco. E tem sido levado a efeito, anualmente, agora em quatro cidades (Macau, Lisboa, Rio de Janeiro e Xangai) um seminário genericamente intitulado “Macau e o intercâmbio sino-luso-brasileiro”, conjuntamente programado e executado pelo IIM e pelo IBECAP — Instituto Brasileiro de Estudos da China e Ásia- Pacífico, sendo enorme o interesse dos dois gigantes em rápida ascensão em se aproximarem cada vez mais.O facto de ter sido estabelecido em Macau o secretariado permanente do Fórum para a Cooperação Económica e Comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa tem um altíssimo significado e traduz uma vontade genuína de desenvolver com o mundo lusófono uma relação alargada e mutuamente gratificante. Este é outro domínio em que se justifica plenamente a intervenção do IIM.Apoio ao livroPor tudo isso, o IIM não podia deixar de se associar à publicação deste livro, quando foi solicitado o seu envolvimento. E fê-lo com gosto, pela certeza que tem da sua qualidade e oportunidade e pela ligação ao seu autor, Luís Cunha, investigador de mérito e especialista em Comunicação, com teses de mestrado e doutoramento brindadas com elevada classificação, sendo uma sobre Taiwan e a outra sobre a política externa chinesa. Ambas são, agora, de leitura indispensável, pela seriedade com que foram elaboradas e por conterem informação actualizada, muito bem tratada e apresentada.Num tempo em que ainda se publica pouco, em Portugal, sobre a China, é de saudar o esforço feito e o resultado final conseguido. O autor pode orgulhar-se do trabalho que, em boa hora, realizou, ficando a expectativa de que possa entregar-se mais ainda à investigação académica, para a qual tem inegável vocação.O prefácio do Prof. Adriano Moreira contém considerações judiciosas e lúcidas e um enquadramento que valoriza ainda mais esta obra, merecendo ser também referida a boa colaboração entre a editora e quantos contribuíram para o sucesso da edição.O autorLuís Cunha exerceu actividade profissional em Macau na área do jornalismo e comunicação social. Foi chefe de redacção do jornal Comércio de Macau e assessor no Gabinete de Comunicação Social do Governo de Macau, tendo publicado diversos trabalhos sobre temática macaense.
  • 130 131 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – IX F A L A R D E N Ó S – IXEsta sua ligação ao Extremo Oriente proporcionou-lhe um conhecimento mais profundo da evolução política e económica desta área geográfica e permitiu-lhe acompanhar o desenvolvimento geopolítico da China, tendo testemunhado as transferências de poderes em Hong Kong e em Macau, respectivamente, em 1997 e 1999. Tem artigos publicados sobre temas políticos e estratégicos da região Ásia-Pacífico, destacando-se o seu livro “China: Cooperação e Conflito na Questão de Taiwan” (Prefácio, Lisboa, 2008) e este outro que será, certamente, uma obra de referência. Além das funções que desempenha no Ministério dos Negócios Estrangeiros, em Lisboa, Luís Cunha é também investigador e colaborador do Instituto do Oriente (Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas) e do Instituto Internacional de Macau. 2 de Julho de 2012O artigo anterior, escrito a propósito do novo livro “A Hora do Dragão — Política Externa Chinesa”, de Luís Cunha, despertou algum interesse e várias pessoas fizeram saber que gostariam de o adquirir. Estando o lançamento marcado para o dia 12 do corrente, às 18 horas, no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade Técnica de Lisboa, o livro, da Zebra Publicações, está já em distribuição por livrarias e acessível ao público. Muito em breve estará, igualmente, disponível na secretaria do Instituto Internacional de Macau, que também colaborou na viabilização desta edição. Quem acompanha a evolução da China e quer conhecer a cultura estratégica e geopolítica da nova potência global, não pode deixar de ler este excelente trabalho sobre a política externa chinesa. Os objectivos, prioridades e paradigmas da diplomacia chinesa estão muito bem identificados, ao mesmo tempo que são explicados os desafios da ascensão da China como potência económica com vectores estratégicos próprios e uma crescente e incontornável capacidade de intervenção e influência em todas as latitudes, bem como as suas relações com outras potências, com especial destaque para os EUA, a União Europeia, o Japão, a Rússia e a Índia, e o seu forte envolvimento no continente africano.Estas judiciosas conclusões do autor são um estímulo e um convite à leitura integral desta importante obra:Um Estado singular“A China é um Estado singular. Não é comparável à Rússia e muito menos aos Estados Unidos da América. A especificidade da China — com todo o lastro cultural, Um livro obrigatório sobre a geopolítica da China“Em apenas três décadas, a China conquistou uma posição estratégica no centro da agenda global. Pode mesmo afirmar-se que nunca teve tanto poder ao longo da sua multimilenária História. É, por isso, finalmente, um genuíno actor mundial. Impõe-se, portanto, equacionar a questão de fundo: o que fará a China com todo o poder recém-conquistado?”Luís Cunha, “A Hora do Dragão - Política Externa da China”, 2012
  • 132 133 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – IX F A L A R D E N Ó S – IXpolítico, social e histórico — é o que a torna única e particularmente interessante para o domínio das relações internacionais. O excepcionalismo chinês é a marca de água do maior dos grandes regimes comunistas, transformado, por ironia e capricho da História, no salvador do capitalismo.O comportamento da China está a provocar uma alteração na dinâmica das relações internacionais — basta lembrar que a mais importante relação bilateral mundial gira em torno da mais poderosa democracia e da potência comunista sobrevivente. Importa sublinhar, porém, que a ascensão da China só foi possível pela validação do axioma que anima o sistema internacional desde a II Guerra Mundial. Mas, como se sabe, não há paradigmas eternos. A ascensão geopolítica da China está, indubitavelmente, a provocar um impacto significativo no modo como a História contemporânea está a ser escrita.A China — não é de mais salientar — conduz uma política externa distinta das outras nações. É composta por camadas sobrepostas, que dão corpo a uma estratégia nem sempre linear, mas, ainda assim, marcada pela coerência de objectivos, de que se destacam a protecção da soberania, a promoção do desenvolvimento económico e a conquista de um estatuto de primeira grandeza no restrito grupo das grandes potências mundiais. Aborda o sistema internacional com assinalável flexibilidade, não obstante a firmeza de princípios, o que lhe confere alargado espaço de manobra. Desvinculou-se, de facto, do marxismo/maoísmo ao mesmo tempo que instrumentaliza o capitalismo. É, desse modo, uma entidade político-económica híbrida. Uma potência mundial de primeira grandeza (a insuspeita revista ‘Forbes’ elegeu, em 2010, o presidente Hu Jintao como o homem mais poderoso do globo) com uma base social frágil (101.ª posição no índice de desenvolvimento humano da ONU). A China é uma potência incompleta.”Influência crescente“Mas se é verdade que o destino da China está mais interligado que nunca à comunidade internacional, não deixam de ser notórias as trepidações provocadas por um actor internacional ‘oversized’, estruturalmente leninista e pouco disposto a abrir mão de interesses nacionais sinocêntricos. O carácter instrumental da política externa chinesa revela-se amiúde, seja na política energética, nos investimentos em África, na aquisição de títulos do tesouro norte-americano ou no auxílio financeiro à Eurozona. A esfera de influência da China alastra diariamente, potenciada por vastas reservas de dólares, fruto das transacções assimétricas com os EUA, entre outros países. Assiste-se actualmente a uma redistribuição da riqueza mundial, sendo a China, provavelmente, a principal beneficiária desse novo mapeamento com implicações directas na balança de poderes. É sabido que o poder económico compra influência política e até ambições territoriais — os EUA, recorde-se, adquiriram mais de metade do seu actual território a vários países. Também a própria identidade da maior das potências asiáticas em ascensão é objecto de leituras e interpretações díspares consoante as latitudes. Para uns é uma nação em desenvolvimento, enquanto para outros é já uma potência de primeira ordem que, como tal, deverá assumir as responsabilidades condizentes com o seu novo estatuto. Até à data, a China não ensaiou derrubar os pilares do quadro normativo global ou minar as instituições geradas, e em grande parte geridas, pelo Ocidente. A abordagem que a liderança chinesa faz à política externa tem, invariavelmente, por objectivo
  • 134 135 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – IX F A L A R D E N Ó S – IXúltimo a estabilização da política interna. Sem o sucesso de uma, a outra colocará em causa o próprio regime. A estabilidade político-social depende exclusivamente da manutenção, sem quebras, do desenvolvimento económico da China. Enquanto o PCC conseguir assegurar a prosperidade económica da população, continuará a ter justificações para conter as convulsões sociais que coloquem em causa as contradições estruturais do regime. Esse é o maior dos desafios que se apresenta a Pequim, que já reconheceu expressamente a insustentabilidade do actual modelo de desenvolvimento. Uma tarefa hercúlea que recai agora sobre a quinta geração de líderes a tomar as rédeas do poder em Pequim. Como notámos, a contribuição da China para as teorias e normas que fazem girar o mundo globalizado tem sido insignificante. A opção estratégica de Pequim foi antes marcada pela máxima rentabilização do quadro normativo existente em prol do projecto de ascensão chinês. O grau de comprometimento da China nos areópagos internacionais está, em regra, condicionado às presumíveis vantagens dos ‘trade-offs’ em jogo. Nesse contexto, a entrada em cena da activa diplomacia chinesa, em todos os pólos do globo, está a implicar a reformulação das práticas habitualmente convencionadas na condução das relações internacionais e a influenciar, decisivamente, instituições e centros de decisão.”Quem acompanha a evolução surpreendente da China, desde a abertura corajosamente orientada por Deng Xiaoping, pode encontrar neste livro bem fundamentadas as razões deste espectacular desenvolvimento, caracterizado por um impressionante pragmatismo. De facto, como bem lembra o autor, a China conseguiu fazer, nestas três últimas décadas, “o maior truque de ilusionismo da História ao conseguir juntar à mesma mesa Marx, Lenine, Sun Yat Sen, Keynes, Adam Smith, Mao Tsé Tung e Deng Xiaoping”, trilhando agora, de forma assertiva, caminhos de afirmação e encenação do poder, para a construção da nova ordem internacional, depois de conseguir mitigar a ideologia que foi o sustentáculo do regime político. A obra de Luís Cunha é um contributo muito relevante para a compreensão desta nova China, eivada de contradições e sobre a qual pesam mais as interrogações do que as certezas. Imensos e gigantescos serão os desafios que se colocarão à quinta geração de líderes, prestes a assumir as rédeas da governação. Como referiu Adriano Moreira, no prefácio, “é um serviço importante que a inteligência portuguesa, como se passa com o autor deste livro, volte a reactivar os estudos sobre a China ...”. De facto, “o passado da relação de Portugal com a China, tão diferente, no teor e consistência até à retirada da bandeira, das que manteve com as grandes potências que lhe impuseram os ‘tratados desiguais’, e retiraram antes do acordo com Portugal, aconselha a olhar, avaliar, e decidir, com tranquilidade e esperança, o fortalecimento das relações novas com uma das potências que se vai revelando como sólido interventor na definição da nova ordem internacional que tarda”.9 de Julho de 2012
  • 136 137 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – IX F A L A R D E N Ó S – IXContinuam abundantes e de alto significado as actividades relacionadas com Macau levadas a efeito em Lisboa por variadas instituições. É uma presença constante e importante para todos nós, revelando o interesse, a capacidade e a pujança de organismos da sociedade civil na promoção de iniciativas úteis de divulgação de Macau, da sua memória, da sua situação presente e das suas potencialidades, a par de uma crescente atenção dedicada à China e ao seu papel incontornável no contexto das relações internacionais e na redefinição dos parâmetros da economia global.De entre tantas outras realizações recentes, permito-me salientar três, pela sua oportunidade e pela adesão do público: a palestra “Macau – Exemplo do Segundo Sistema”, a apresentação de novas edições do Instituto Internacional de Macau (IIM) e o lançamento do livro “A Hora do Dragão – Política Externa da China”.Exemplo do Segundo SistemaA Sociedade Histórica da Independência de Portugal (SHIP) tem estado a organizar, desde o início do ano, através do seu Centro de Estudos Internacionais, um ciclo de conferências dedicado à China, no âmbito dos 500 anos da chegada de Portugal ao Sudeste Asiático e ao Império do Meio. Estas conferências foram protagonizadas, até agora, pelo Embaixador Eurico Pais, coordenador daquele Centro, pelo General José Eduardo Garcia Leandro, antigo Governador de Macau e ex-Vice-Chefe do Estado-Maior do Exército, pela Dra. Celina Veiga de Oliveira, investigadora com importante obra publicada sobre temática macaense, e pelo autor deste artigo, na qualidade de presidente do IIM e ex-membro do Governo de Macau.Macau em três bonitas e significativas sessões em Lisboa“É verdadeiramente notável a acção realizada pelo Instituto Internacional de Macau, sendo também de realçar os seus estudos e edições.”Adriano Moreira, na apresentação de “A Hora do Dragão – Política Externa da China”, 12 de Julho de 2012Coube agora a vez ao General Vasco Rocha Vieira, último Governador de Macau, que apresentou, no dia 20 de Junho, o tema “Macau – Exemplo do Segundo Sistema”. Foi uma ocasião propícia para se fazer o enquadramento consistente de todo o período de transição de Macau e identificar os propósitos que presidiram à criação das regiões administrativas especiais da República Popular da China. As negociações luso-chinesas, a Declaração Conjunta, a Lei Básica, as prioridades e os desafios colocados à Administração Portuguesa, o papel do Grupo de Ligação Conjunto e da Comissão Preparatória da Região Administrativa Especial de Macau (RAEM), as dificuldades e os sucessos da transição, as responsabilidades cometidas ao Governo de Macau, os planos e as realizações, a transferência de poderes e o estabelecimento sereno e correcto da RAEM foram objectiva e esclarecedoramente explicados pelo último representante dos órgãos de soberania de Portugal em Macau.Seguiu-se uma animada e prolongada sessão de perguntas e respostas, moderada pelo presidente da Direcção da SHIP, Dr. José Augusto Alarcão Troni, que integrou a equipa governativa de Rocha Vieira na fase final do seu mandato, como Secretário-Adjunto para os Assuntos Sociais e Orçamento. Diversas intervenções enalteceram justamente a forma exemplar como o Governador cumpriu a sua missão em nome de Portugal.Este depoimento é imprescindível para um livro, que ainda falta fazer, sobre o período de transição de Macau e sobre o fecho de um importantíssimo ciclo histórico de Portugal. Duas novas ediçõesLançados, respectivamente, em Macau, por ocasião das comemorações do Dia de Portugal, e em Toronto, num convívio realizado na Casa de Macau daquela cidade
  • 138 139 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – IX F A L A R D E N Ó S – IXcanadiana, procedeu-se, no dia 11 de Julho, à apresentação, em Lisboa, dos livros “Filhos da Terra – A Comunidade Macaense, Ontem e Hoje”, de Alexandra Sofia Rangel, e “O Livro de Receitas da minha Tia/Mãe Albertina”, de Cíntia Conceição Serro. O Salão Nobre do Palácio da Independência, edifício histórico onde o IIM tem a sua delegação, através de um protocolo de cooperação firmado com a SHIP, foi pequeno para acolher tanta gente interessada, entre personalidades ligadas a instituições macaenses e a organismos culturais portugueses e largas dezenas de pessoas de Macau ou que viveram e trabalharam no território, fazendo desta sessão um verdadeiro “serão macaense”, que incluiu também um bem participado convívio em torno de algumas iguarias seleccionadas da culinária macaense. Fizeram a apresentação das autoras e das suas obras o Dr. Rui Simões, professor da Escola Superior de Comunicação Social de Lisboa e ex-docente da Universidade de Macau e do Instituto Politécnico de Macau, e o autor deste artigo.Em anteriores trabalhos inseridos neste espaço, foram já feitas amplas referências a estas duas edições do IIM, estando prevista a apresentação de várias outras até ao fim do ano.A Hora do DragãoFoi uma sessão bonita realizada na passada 5.ª feira, dia 12 de Julho, num dos auditórios do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP), e marcada pela presença sempre honrosa do Prof. Adriano Moreira, presidente da Academia das Ciências, mestre respeitado e pensador político amplamente escutado, pela sua experiência e lucidez e pela actualidade das suas profundas e incisivas reflexões sobre os meandros da política internacional e sobre as opções e os caminhos futuros. Como se esperava, brindou-nos com mais uma lição, desta vez sobre a China, a sua evolução recente e o seu lugar na definição duma nova ordem política e económica.Presentes na sala professores, estudantes e individualidades ligadas a Macau, com destaque para o presidente e catedráticos do ISCSP, o coordenador da Delegação Económica e Comercial de Macau e o presidente da Agência de Notícias Lusa, todos souberam corresponder à mensagem de Adriano Moreira, testemunhando-lhe o seu apreço através de uma calorosa ovação, extensiva também ao autor do livro “A Hora do Dragão – Política Externa da China”, Luís Cunha, doutorado em Relações Internacionais e licenciado em Comunicação Social.Co-edição da Zebra Publicações e do IIM, este livro será um instrumento insubstituível nos cursos sobre a China e de leitura obrigatória para quantos queiram aprofundar os seus conhecimentos sobre a China de hoje. Muito bem escrito e com abundante e bem tratada informação, este trabalho, que é baseado na tese de doutoramento do autor, explica a génese da política externa da China e o seu desenvolvimento, o processo decisório nos órgãos de poder, os desafios da ascensão geoestratégica chinesa e as relações da China com outras potências.No prefácio, Adriano Moreira salienta que “surpreendentemente, a China evoluiu no sentido de alcançar de novo as suas capacidades, mostrou a bandeira no mar, e avançou como credora internacional das chamadas dívidas soberanas” e que “é evidente que existe uma China marítima e uma China de interioridade, mas deixou de existir uma China dispensada pelos estrategas da ONU, ou ignorada pelos equivocados
  • 140 141 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – IX F A L A R D E N Ó S – IXeconomistas deste século”. Entende, por isso, que “é um serviço importante que a inteligência portuguesa, como se passa com o autor deste livro, volte a reactivar os estudos sobre a China, sobretudo pelo interesse que tem para conseguir um novo futuro português de desenvolvimento sustentado com dignidade”, sendo “oportunos, e claramente construtivos, trabalhos como o que vem assinado por Luís Cunha, que seguramente vai suscitar o interesse de todos os que se inquietam com a desordem do presente e não desistem de contribuir para uma reconstrução da ordem internacional”.Adriano Moreira referiu, na apresentação do livro, a “notável acção realizada pelo IIM”, bem como os seus estudos e publicações. Coube-me, na ocasião, dar conhecimento dos trabalhos realizados pelo IIM, respeitantes à China e a Macau, na forma de seminários, conferências e edições, não deixando de frisar que os estudos sobre a China e o papel de Macau no contexto das relações da China com o mundo continuarão a merecer a maior prioridade.16 de Julho de 2012Não obstante o tempo chuvoso e ainda relativamente frio, apesar de já estarmos em Julho, é sempre agradável voltar a Londres, uma das minhas cidades de eleição, que conheci nos anos de juventude e a que me mantive ligado, ao longo da vida, por razões de natureza profissional, académica e associativa, visitando-a, por isso, vezes sem conta. Ali voltei agora para uma reunião técnica da PATA – Pacific Asia Travel Association, uma das maiores organizações turísticas do globo, de que sou, desde 1992, membro vitalício, depois de nela ter desempenhado variadas funções, integrando o seu conselho directivo e presidindo ou pertencendo a algumas das suas comissões especializadas.City ForumEncontrando-me em Lisboa, foi fácil corresponder ao convite para participar no encontro “PATA Hub City Forum London”, levado a efeito no famoso e prestigiado Institute of Directors, situado numa vetusta mansão vitoriana em pleno Pall Mall, quase ao lado de Trafalgar Square.Moderado por uma conhecida personalidade da comunicação social internacional, Keshini Navaratnan, apresentadora da BBC World News, este encontro, destinado a debater e esclarecer questões relacionadas especialmente com os fluxos turísticos entre o Reino Unido e o Extremo Oriente, contou com a presença de destacadas individualidades ligadas a infra-estruturas e organismos de turismo, viagens e comunicações, como os directores executivos da British Airport Authority, Colin Matthews, e da United Kingdom Border Agency, Rob Whiteman, o enviado especial da Organização Mundial de Turismo, Carlos Vogeler, directores de serviços de turismo Em Londres, com a PATA“A PATA está, hoje, no epicentro da região que tem o maior crescimento turístico do mundo, e nós assumimos, por inteiro, as nossas responsabilidades na protecção de todos os parceiros da indústria turística e de viagens, na criação das melhores condições legislativas, económicas e ambientais, e no desenvolvimento de negócios e investimentos sustentáveis.”Martin J. Craigs, CEO da PATA
  • 142 143 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – IX F A L A R D E N Ó S – IXde vários países, representantes do WTTC – World Travel and Tourism Council, o CEO da PATA, Martin J. Craigs, o anterior vice-presidente executivo da PATA, Ken Chamberlain, responsáveis do capítulo da PATA do Reino Unido, e alguns membros vitalícios. Os principais temas, tratados com frontalidade e objectividade, foram as controversas taxas recentemente aplicadas pelo Governo Britânico aos passageiros de viagens aéreas, restrições impostas pelos serviços de fronteiras e de segurança, o funcionamento do aeroporto de Heathrow, a promoção da capacidade de resposta a crises, o impacto dos Jogos Olímpicos e de outros grandes eventos nas economias nacionais e as novas prioridades e acções da PATA, nas áreas da promoção, da formação, da cooperação e das novas tecnologias ao serviço do desenvolvimento turístico.Uma encorajadora mensagem de Lord Stephen Green, Ministro de Estado para o Comércio Externo e Investimentos, deu o mote para os trabalhos, tendo este membro do Governo Britânico recebido o CEO da PATA após o encontro, para conhecer melhor as opiniões expressas e as preocupações da PATA, aceite como organização estratégica do sector turístico, de âmbito e influência globais.Iniciativas idênticas têm sido realizadas, com grande impacto, pela PATA, desde Dezembro de 2011, noutras cidades, como Hong Kong, Banguecoque, Singapura e, em breve, Sydney e Wellington, para envolver responsáveis governamentais e do sector privado na identificação conjunta dos problemas existentes e sensibilizar as autoridades no sentido da sua correcta resolução. O formato escolhido para estas actividades mereceu uma ampla adesão, pelo pragmatismo, eficácia e participação.Novo impulsoCom a selecção de Martin J. Craigs para CEO da PATA, em Novembro passado, a organização conheceu um renovado e decisivo impulso. Com grande experiência anterior em multinacionais, como a Saab e a Airbus, e como consultor do grupo Economist, da APEC, da Air Asia e do Governo da Região de Hong Kong, este executivo teve a sua primeira grande exposição pública no seio da PATA, na conferência anual realizada em Kuala Lumpur em Abril passado. Na reunião do conselho directivo, que precedeu a conferência, soube apresentar de forma convincente e determinada medidas inovadoras e linhas de acção corajosas e claramente positivas para o correcto desenvolvimento do turismo na vasta região Ásia/Pacífico. Foi nesta reunião que o director dos Serviços de Turismo de Macau, João Manuel Costa Antunes, assumiu a presidência da PATA, podendo contar com um director executivo de notável qualidade, esclarecido no pensamento, perseverante na acção e capaz de criar e multiplicar sinergias e parcerias estratégicas. Foi muito honrosa para Macau a eleição de Costa Antunes para um mandato de dois anos no posto cimeiro da PATA, num momento de enormes expectativas sobre o futuro desta organização, que, com seis décadas de funcionamento, conheceu épocas esplendorosas e também horas menos felizes, experimentando agora uma ansiada revitalização. Macau tem tido ali uma presença que muitos consideram exemplar e beneficiou de serviços relevantíssimos por ela prestados.
  • 144 145 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – IX F A L A R D E N Ó S – IXO conselho directivo voltará a reunir em Setembro próximo, em Manila, juntamente com o Pacific Travel Mart (Mercado de Turismo do Pacífico), sendo oportuno proceder-se a um primeiro e útil balanço das novas opções e dos resultados alcançados.Jogos OlímpicosLondres, a cidade mais cosmopolita do mundo, a par de Nova Iorque, tem estado em festa. Depois das vistosas comemorações do Jubileu da Rainha, que congregaram centenas de milhares de pessoas de todo o mundo numa impressionante multiplicidade de realizações alusivas, a azáfama é enorme na conclusão dos preparativos para os Jogos Olímpicos. Descomunais medidas de segurança estão também a ser postas em prática nos acessos, nos aeroportos, nos recintos dos Jogos e nos lugares mais emblemáticos da cidade. Os órgãos de comunicação social dedicam, como é natural, amplos espaços a este que é o maior acontecimento desportivo mundial. Atletas, dirigentes, técnicos e demais pessoal de apoio vão chegando em grande número, aumentando ainda mais o colorido e a diversidade que a capital britânica sempre soube ostentar. Contrastando com outras cidades europeias, especialmente as do sul do continente europeu, a cidade está cheia de vida, com um movimento comercial intensíssimo, lojas abertas até tarde e nos fins-de-semana, espectáculos abundantes e sempre lotados e os transportes públicos com multidões até horas avançadas da noite.Os museus, na sua maioria agora com entrada gratuita, estão repletos de juventude, assim como os principais monumentos. Dá gosto ver uma cidade assim. Capital do maior império da história da humanidade, esta dinâmica cidade soube vencer todas as vicissitudes adversas e continuar a afirmar-se como local de visita incontornável. Mesmo em tempo de crise, com medidas de austeridade em curso, os seus responsáveis têm sabido e conseguido equilibrar essas medidas com outras que apontam claramente para o desenvolvimento.O escândalo BarclaysComo grande praça financeira que é, Londres também não escapa, de quando em quando, a escândalos na área financeira. Depois de tantos que no mundo ocidental se fizeram sentir nos últimos anos, chegou a vez da Barclays, uma das mais prestigiadas instituições financeiras britânicas. Acusada de manipular as taxas de juro, com evidente prejuízo para os seus clientes, os seus principais responsáveis demitiram-se e o seu prestígio ficou fortemente abalado. Aprendeu-se pouco, afinal, com as recentes crises. A ganância continuou a preponderar, pondo em causa a credibilidade de todo o sistema que tão negativamente afectou o público, as instituições e os países, alguns dos quais atravessam dificuldades que podiam ter sido evitadas.Muito mais, infelizmente, iremos ver neste domínio. A diferença é que, em alguns casos, vão sendo tomadas medidas apropriadas, ainda que tímidas, enquanto noutros impera a impunidade e a incapacidade para vencer os desafios que urge enfrentar. Estas matérias são também objecto de reflexão da PATA.23 de Julho de 2012
  • 146 147 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – IX F A L A R D E N Ó S – IXImpulsionado por um punhado de portugueses, mas conseguindo uma adesão rápida de muitos outros, foi formalmente lançado em Lisboa, no dia 12 de Julho, o Movimento 1.º de Dezembro, para responder ao inconformismo nacional contra a eliminação do feriado do dia 1 de Dezembro, determinado pela Lei n.º 23/2012, de 25 de Junho. A face mais visível e mediática do Movimento é o deputado José Ribeiro e Castro, que tem, coerente e persistentemente, promovido, com a colaboração estreita da Sociedade Histórica da Independência de Portugal (SHIP), uma série de acções visando reafirmar, junto das mais altas autoridades do Estado e do público em geral, a importância daquela data e da sua continuada e reforçada comemoração.Declaração de constituiçãoAdoptando como documentos de referência constitutivos o Manifesto de 1861 da, então, Comissão Central 1.º de Dezembro de 1640, que esteve na génese da SHIP, e o Manifesto de 5 de Março de 2012, aprovado em sessão extraordinária da Assembleia Geral da SHIP, o Movimento tem os seguintes fins:• Trabalhar pela defesa e pela restauração do feriado nacional do 1.º de Dezembro, mobilizando a sociedade portuguesa nesse sentido.• Celebrar, condignamente, o feriado nacional do 1.º de Dezembro, enraizando o seu significado e promovendo a sua projecção e adesão popular.• Apoiar a SHIP, representante histórica do espírito do 1.º de Dezembro de 1640.O Movimento constituiu-se como comissão especial, em conformidade com o Código Civil, sendo dirigido e dinamizado por uma comissão coordenadora. Como 1.º de Dezembro – Um movimento e dois manifestos“O 1.º de Dezembro não é moeda de troca de negociações financeiras ou laborais – para tudo isso, na delicada situação do país, é possível e necessário encontrar melhores alternativas. O 1.º de Dezembro é uma escolha patriótica e uma decisão nacional inapagável.”Do Manifesto da SHIP, de Março de 2012corpos de implantação social, disporá de um conselho dos municípios, integrado pelos presidentes de Câmaras e de Assembleias Municipais, que adiram ao espírito do Movimento e desejem descentralizar a sua movimentação, irradiando-a por todo o país, ao lado das populações; e um grande conselho, congregando académicos, militares, professores, diplomatas, empresários, intelectuais, juristas, homens de letras, historiadores, jornalistas e outras figuras da sociedade portuguesa sensíveis aos valores da liberdade e independência nacional e ao imperativo da salvaguarda e restabelecimento do respectivo feriado nacional. Para acções locais, o Movimento terá delegados e um enquadramento próprio destinado às gerações mais novas.Já se inscreveram no Movimento, nestas primeiras duas semanas, centenas de personalidades de variados quadrantes sociais e políticos, incluindo individualidades naturais ou residentes em Macau, identificadas com os seus propósitos. Manifesto de Março de 2012O Manifesto do 1.º de Dezembro, aprovado em Março passado, lembra aos portugueses que nada há mais importante para uma nação do que a sua independência e a sua liberdade, sendo, por isso, o 1.º de Dezembro “o mais importante de todos os feriados nacionais”, “sem o qual nenhum outro existiria”. Defende e divulga, por isso, a sua posição nestes termos:“Poderíamos festejar a independência e a liberdade com referência a um dos factos relevantes da fundação da nacionalidade no século XII ou com relação a alguns dos momentos críticos e dramáticos da crise do interregno no século XIV. Mas desde
  • 148 149 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – IX F A L A R D E N Ó S – IXhá seculo e meio que escolhemos colectivamente celebrá-las com referência à data em que recuperámos a independência pátria, ao fim de sessenta anos de a termos perdido: a Restauração de 1640.Por isso, o 1.º de Dezembro é o mais antigo dos nossos feriados civis e o mais alto dos feriados patrióticos. Consolidou-se como marco pacífico da nossa vivência nacional e do nosso convívio colectivo. Atravessou regimes e mudanças políticas e sociais. Estabeleceu-se como facto do mais alto significado, que não podemos interromper, nem quebrar.”Este Manifesto está, afinal, em perfeita consonância com um outro que, em 1861, quarenta patriotas, com Alexandre Herculano à cabeça da lista, lançaram à consciência nacional para empreender as primeiras comemorações solenes, a partir da Comissão Central 1.º de Dezembro de 1640, antecessora da SHIP. Ainda hoje, poderíamos escrever muitas das palavras que esses patriotas, também em momento difícil da vida nacional, subscreveram, por exemplo, quando salientaram a necessidade de “expor claramente a opinião unânime do povo portuguez, e assegurar aos homens e aos governos que se interessam no melhor regimento da família européa, que é ânimo e deliberação nossa defender a integridade do território que possuímos, não acceitando aggregações incongruentes com o caracter e tradições nacionais, e que nos empenhamos, quanto cabe em nossas faculdades e nol-o permittem os obstáculos da governação que todos os povos têm encontrado nos aperfeiçoamentos sociaes, por sermos dignos de fazer parceria com as nações civilisadas, tanto pelos nossos feitos passados como pela nossa vida contemporânea.”Mais adiante, o Manifesto de Março de 2012 desenvolve a sua posição:“… Ao preservarmos e valorizarmos o dia em que celebramos, com Portugal inteiro, a Independência Nacional, aproximamo-nos – não nos afastamos – da esmagadora maioria dos Estados que compõem a União Europeia. Dos vinte e sete Estados-membros, são dezoito aqueles cujo Dia Nacional – o feriado civil mais importante – assinala a respectiva independência ou fundação. Dos nove que restam: uns são monarquias, em que o Dia Nacional corresponde ao aniversário oficial do Rei ou Rainha, símbolo vivo da própria individualidade nacional; outros, trata-se de países que nunca tiveram aqueles marcos, porque foi outra a História da formação dos respectivos Estados, como Áustria, Espanha, França ou Itália; e, mesmo entre estes, outros feriados há que celebram datas de libertação nacional e, às vezes, em dobro, como é o caso de França, Itália e Holanda. A única excepção na UE-27 é a Irlanda, cujo Dia Nacional é religioso, o Saint Patrick’s, símbolo universal da identidade irlandesa. Se Portugal abolisse o feriado da independência, tornar-se-ia no único Estado-membro da União Europeia que, tendo conquistado a independência nacional e assinalando-a em feriado nacional, o apagaria da memória e do calendário oficiais. Pior seria impossível. O 1.º de Dezembro não é moeda de troca de negociações financeiras ou laborais – para tudo isso, na delicada situação do país, é possível e necessário encontrar melhores alternativas. O 1.º de Dezembro é uma escolha patriótica e uma decisão nacional inapagável.Acabar com o feriado do 1.º de Dezembro seria atacar da pior forma a independência nacional de Portugal: seria feri-la no seu próprio espírito. Quando alguns falam de que
  • 150 151 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – IX F A L A R D E N Ó S – IXPortugal caiu numa situação de ‘protectorado’ e o quadro de endividamento diminui a liberdade de decisão de Portugal, não é tempo de apagar o espírito, a vontade e o brio da independência nacional – bem ao contrário, é o tempo de o celebrar, exaltar e fortalecer.O dia em que assinalamos a nossa independência nacional, a data em que festejamos a nossa liberdade como povo liberto do jugo estrangeiro é o dia mais importante da nossa vida colectiva.Aqui, não somos de esquerda, nem de direita – somos portugueses. Não somos da República, nem da Monarquia – somos por Portugal. O 1.º de Dezembro a todos nos une e reúne. O 1.º de Dezembro convoca-nos.”No dia da apresentação do Movimento, foi firmado um protocolo de cooperação com a SHIP, que permite que o Movimento e a sua estrutura orgânica tenham sede no Palácio da Independência, em Lisboa, cabendo à SHIP designar a comissão organizadora das comemorações do 1.º de Dezembro e ser a promotora das respectivas celebrações oficiais, colaborando o Movimento na sua preparação e realização. Auguro, cá de longe, ao Movimento 1.º de Dezembro os maiores sucessos na promoção e divulgação dos seus propósitos e na defesa dos valores subjacentes à sua criação.30 de Julho de 2012“Rota da Seda ― O Rumo dos Pensamentos” é o título de uma mostra fotográfica de Rui Paiva, patente no Museu Machado de Castro, em Coimbra, até Setembro. As obras expostas são a preto e branco e a cor, recriando “um percurso e uma atmosfera civilizacional, numa geografia de movimentos de cariz comercial, feição religiosa e fonte de conhecimento Oriente ― Ocidente”, conforme a nota introdutória do bem concebido e muito atraente catálogo. “São sedas, especiarias, jade, que se movimentam num transporte de longa distância, muitas vezes por etapas, não raras vezes sem destino atingido”.Exótica viagemArtista plástico de apurada sensibilidade e ligado à China e a Macau desde que aqui desenvolveu uma parte importante do seu percurso profissional, como economista e assessor, Rui Paiva bebeu nas fontes dos caminhos extremo-orientais inspiração e sabedoria para uma obra artística representada, hoje, em mais de uma centena de colecções públicas e privadas, nomeadamente no Banco Millennium bcp, Fundação Oriente, Banco Português de Gestão, Grupo Caixa Geral de Depósitos, Instituto Internacional de Macau, Governo da RAEM, Wattis Fine Arts Gallery de Hong Kong, Academia/Museu de Belas Artes de Ho Chi Minh (Vietname) e Casa Museu Nogueira da Silva, em Braga. Escolhendo, desta vez, a fotografia como meio de expressão artística e de comunicação com o público, fazemos com ele uma exótica viagem imaginada. “Movendo-se por diversos caminhos, os monges, os cidadãos, as caravanas, ou os viajantes, constituem a Rota da Seda, na travessia dos desertos do desconhecido, Inspiração e sabedoria na Rota da Seda“É no Oriente e em especial no Extremo Oriente, que as coisas comuns da creação ou nos usos e costumes triviais da vida são suceptíveis de merecer um tal requinte de solemnidade e de praxes de rito, que constituíam um verdadeiro culto”.Wenceslau de Moraes, “O Culto do Chá”, Kobe, 1905
  • 152 153 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – IX F A L A R D E N Ó S – IXespelhando sampanas ou juncos rio acima, horizonte em linha, na procura do ‘longe’ que se não esquece, no sonho se encontra”. Chang’an e Xian, capitais de múltiplas dinastias, Boukhara, famoso centro religioso, Samarcanda, centro cultural e científico que Marco Polo imortalizou, Kucha, centro musical onde o budismo existia desde o século I, Tourfan, pérola brilhante daquela rota, Kotan, um dos maiores centros do budismo, conhecido pela qualidade da seda produzida, e Dunhuang, com as suas deslumbrantes grutas, foram etapas, ao longo de quase infinitos percursos onde “as areias dialogam na sua intensa dispersão, com as cintilações de estrelas alcandoradas bem acima dos movimentos”, “num crescendo de envolvimentos” e “de brilhos que se transludem na distância dos caminhos”.Fascínio do artistaNuma entrevista concedida a Emília Ferreira, curadora do projecto, o artista explicou que a sua vida “tem sido uma viagem, quase sempre fascinante, um percurso a várias velocidades, em várias dimensões, muito rica nos conteúdos, nas vivências. Uma aventura que se metamorfoseia em poema, em sucessivos actos de uma longa viagem, em que vou acompanhando as tonificações da natureza, os ritmos da mudança que me acompanha, procurando, por exemplo nas artes, a identidade própria, a diferença pela inovação e a contemporaneidade das obras. Vem então o encantamento pela viagem-vida, viagem-mundo, viagem-poesia (do conhecimento)”.Tendo vivido em vários continentes, a sua obra plástica expressa esse roteiro de vida que o levou de “um Sul do mundo, de uma África já Oriental”, visto que nasceu em Moçambique, à Europa (Portugal, Lisboa e Ilha da Madeira) e por três vezes ao Oriente. Os vinte anos de vida africana “trouxeram os aromas e a paleta de cor de um trópico de florestas densas e uma sede de dimensão de horizontes de cores fortes” que fascinaram a sua meninice, tendo a Europa reforçado depois a componente cultural. Foram, contudo, os treze anos passados em Macau e em Hong Kong e o convívio muito rico com artistas chineses e vietnamitas que lhe abriram outros caminhos e revelaram outras técnicas e materiais diferentes, como a valorização do papel de arroz, tudo contribuindo para uma pintura de fusão de expressões e de culturas.A percepção e o significado do tempo também começaram a ser entendidos por ele de outra maneira: “gosto de dizer que vivo dando espaço à sucessão de momentos, deixando fluir o tempo”! O tempo que é por ele compreendido de uma forma singular, bem diferente da lida por quem não conhece o Oriente, onde a dimensão do tempo é mesmo outra. Além disso, o seu enorme interesse pela civilização chinesa, que estuda e investiga nas suas vertentes filosófica, artística, social e económico-política, permite-lhe “viver essa viagem permanente num tempo-cultura muito especial”.Além da pintura, Rui Paiva tem procurado dedicar mais tempo à fotografia e também ao cinema. As 23 fotografias apresentadas nesta exposição foram seleccionadas de entre mais de 3.000. Elas “são representações dos fluxos, de movimentos, das interacções, de Povos”. O “Rumo dos Pensamentos” foi a fórmula encontrada “para mostrar essa dialéctica da Viagem”. Muitas pétalas estão dispersas sobre os fundos e as imagens fotografados. Conforme o autor, elas são sampanas, são pessoas, são monges, são pensamentos, são movimento, são “tempo”. Há, de facto, uma síntese de Vida que repousa nessas fotos!
  • 154 155 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – IX F A L A R D E N Ó S – IXPercurso pessoalRui Paiva licenciou-se pelo Instituto Superior de Economia, em Lisboa, onde foi monitor e assistente. O seu interesse pelo Oriente levou-o a fazer uma pós-graduação em China Moderna, ministrada pelo Instituto do Oriente (Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade Técnica de Lisboa). Também frequentou Cursos de Experiências Plásticas da Sociedade Nacional de Belas Artes. Passou 13 anos em Macau e em Hong Kong, como economista ao serviço do Governo de Macau, sendo assessor do Secretário-Adjunto para a Economia e Finanças, e em funções de gestão bancária.É, presentemente, curador da colecção e gestor do património artístico do Millennium bcp, sendo também presidente do Conselho Fiscal da Sociedade Nacional de Belas Artes, membro do Conselho Consultivo do Instituto Confúcio de Lisboa e investigador do Observatório de Relações Internacionais da Universidade Autónoma de Lisboa. Foi também presidente do Conselho Fiscal do Observatório da China em Portugal.No âmbito artístico-curatorial, foi o responsável pela organização e montagem da exposição do Mestre Júlio Rezende em Paris, em 2003, tendo sido, de 2008 a 2012, o curador, produtor e coordenador de 18 exposições de vulto em cidades portuguesas e no Luxemburgo, onde está a sede do Banco Europeu de Investimentos. Publicou um livro de desenhos seus em 2002 e ilustrou livros de ensaio e poesia, incluindo dois de escritores de Macau (Alberto Estima de Oliveira e José Silveira Machado) e um conto da escritora Helena Osório dedicado ao Oriente.Tem participado em palestras, conferências e debates sobre a China, apresentando comunicações, e continua a dedicar especial atenção à evolução da China e ao seu papel no mundo contemporâneo.Integrou exposições colectivas, de 1985 a 1993, em Lisboa, Porto, Estoril, Sabugal, Macau, Hong Kong, Kuala Lumpur, Amagasaki e Seul e protagonizou cerca de 20 exposições individuais de 1990 a 2012, as primeiras das quais em Macau, na Galeria Asiatrade, na Livraria Portuguesa, no restaurado edifício do Hospital S. Rafael e no pavilhão do Jardim de Lou Lim Ieoc.Como amigo e admirador da sua obra, tenho podido acompanhar, ao longo de mais de duas décadas, a sua variada e muito apreciada produção artística e desejo-lhe as maiores felicidades e sempre renovados sucessos. E, oxalá esta sua mais recente exposição, ou outra que venha a preparar no futuro próximo, possa ser apresentada também em Macau.6 de Agosto de 2012
  • 156 157 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – IX F A L A R D E N Ó S – IXAo procurar papéis do meu arquivo pessoal relacionados com os primeiros anos do funcionamento do Instituto Cultural de Macau (ICM), a propósito do 30.º aniversário deste organismo público, que ocorre em Setembro do corrente ano, encontrei o texto duma palestra proferida por Joaquim Marinho de Bastos, então director dos Serviços de Turismo de Macau, no dia 9 de Dezembro de 1983, sobre “Macau e a origem da pataca”. O ICM reuniu, mais tarde, em livro (“Presença Portuguesa no Extremo Oriente”, ICM, 1986), esta e outras palestras e conferências que se integraram num ciclo especialmente organizado no território, em ligação com a XVII Exposição Europeia de Arte, Ciência e Cultura que, subordinada ao tema “A Europa e os Descobrimentos Portugueses”, se realizou em Lisboa, em 1983. O ICM, cuja criação constituiu a maior prioridade das linhas de acção governativa, quando a respectiva tutela me foi confiada pelo Governador Vasco de Almeida e Costa, dava, então, passos seguros na sua intensa e diversificada actividade editorial, a par da sua multifacetada intervenção noutras áreas. Marinho de Bastos substituiu-me como director do Turismo, quando integrei a nova equipa governativa nomeada pelo Presidente Ramalho Eanes em 1981. Economista qualificado e competente, desempenhara antes as funções de inspector do Comércio Bancário e director dos Serviços de Finanças, sendo a pessoa mais preparada para, naquele ciclo, falar sobre um tema económico-financeiro num contexto histórico. Pelo seu inegável interesse e tendo pleno cabimento nesta série de artigos e crónicas sobre Macau e a comunidade macaense, achei por bem fazer referência a essa palestra e dela transcrever algumas das partes mais relevantes.Macau e a origem da pataca“Mal sabiam os comerciantes portugueses dos séculos passados, ao chamarem pataca a uma série de moedas que serviram de meio de pagamento nessas épocas e até fora de Macau, que tal designação viria a ser a unidade monetária deste território”.Joaquim Marinho de Bastos, conferência proferida em Dezembro de 1983O comércio da prataA sua bem elaborada comunicação começou com a apresentação do enquadra-mento histórico do comércio da prata no Oriente, antes e depois da chegada dos portugueses à costa meridional da China, após o que se tornou mais fácil o acesso à prata japonesa. Os primeiros barcos portugueses chegaram ao Japão (Kyu-shu) em 1543. Carregavam a pimenta de Sumatra e Java em Malaca e viajavam até à China para a trocar por sedas e outros produtos chineses, voltando depois à Índia. “Esta rota, juntamente com a das Molucas e a de Ormuz, no Golfo Pérsico, constituíam as ‘três grandes’ rotas de comércio mais rendosas que os portugueses desenvolveram no Oriente. O desafio era agora estender a teia ao Japão”.Em 96 anos da permanência portuguesa no Japão, nos séculos XVI e XVII, foram lá 54 naus do trato. Pelo relato de um holandês em Hirado, “a nau trazia normalmente 200 ou mais mercadores a bordo, que tomavam, cada um, sua casa em terra, com criados e escravos, gastando em 6 a 8 meses de estadia, 250 a 300 mil taéis, de que a população lucrava”. Esse comércio altamente lucrativo foi cessando nas segunda e terceira décadas do século XVII, quando os estrangeiros foram sendo expulsos do Japão, ao mesmo tempo que os barcos japoneses eram proibidos de sair do país, num novo período de isolamento que viu cortadas abruptamente as relações com a China e com as potências ocidentais que, para benefício mútuo, demandavam avidamente os seus portos.
  • 158 159 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – IX F A L A R D E N Ó S – IXAs antigas moedasO comércio com o Império do Meio foi, no entanto, crescendo rapidamente, à medida que, além dos portugueses, já estabelecidos em Macau, outros europeus foram chegando, sendo autorizados a construir armazéns junto do rio das Pérolas, em Cantão. Marinho de Bastos explica assim o uso da prata como instrumento de troca:“Excepto as moedas de cobre para uso diário no mercado, os chineses não tinham moeda corrente. O seu instrumento de troca era a prata como metal. A unidade de prata usada como moeda (ou instrumento de troca) era o tael, que significa em chinês uma onça chinesa de prata não amoedada. Um lingote de prata de certo toque e peso de cerca de 50 taéis era chamado «sycee». O comércio era conduzido pesando a prata e testando o respectivo toque. O tael de prata era o valor standard.Os espanhóis, quando entraram nas Filipinas, no século XVI negociavam com os comerciantes chineses nos postos das Filipinas ou em Macau, e eram pagos com duros espanhóis (grupos de oito). O «duro» espanhol não era reconhecido pelos chineses como moeda mas pelo seu valor em prata. Não era o nome da moeda que contava, mas o peso. Como o duro espanhol era cunhado de uma maneira segura e não havia incorrecções no montante de prata, era aceite pelos chineses e começou a ser largamente aceite nos portos do Extremo Oriente.Nos séculos XVIII e XIX o comércio com Cantão fazia-se assim. Usavam-se duros espanhóis ou «sycee» para pagar o chá e a seda exportada. Os bancos ou cambistas faziam as suas transacções em relação à prata. Os seus cofres continham lingotes de prata e duros espanhóis e pesos mexicanos para cobrir as necessidades que apareciam dos clientes que detinham as suas notas ou tinham depósitos. As letras de crédito eram pagas em prata aos clientes contra divisas que os bancos obtinham noutras praças.Isto funcionou perfeitamente até 1870 em que o valor da prata se manteve estável em relação ao ouro. Em 1873 com a descoberta na serra Nevada de minas de prata enormes que saturaram o mercado americano, muitos países foram para o «gold standard» e venderam as suas reservas em prata. Isto mesmo chegou a acontecer em Macau, tendo sido enviadas para Portugal grandes quantidades de prata. O valor da prata diminuiu vertiginosamente.Em Macau circulava então toda a espécie de moedas. Circulavam moedas chinesas de cobre, com um buraco quadrado no meio e que eram cunhadas em várias zonas da China. Deviam existir já desde tempo remoto, pois nos fins do século XVI os portugueses chamavam «sapeca», em Macau, a uma moeda ínfima da China, feita de liga de cobre, com estanho ou chumbo, correspondente à «caixa» da Índia. Note-se que no dialecto macaense ou «patois» a palavra sapeca sempre se associou a dinheiro. Nom tem sapeca – não tem dinheiro.Circulava o yen do Japão, o dólar da província de Kiang Nam, o dólar da República da China e o dólar da República Mexicana, conhecido este também por peso. Este peso mexicano teve curso em Timor e em Macau e dele nasceu a designação pataca.Os portugueses chamavam pataco a uma antiga moeda de bronze, do valor de 40 réis. Mas também aparecem referências na Índia portuguesa aos «patacões de prata»
  • 160 161 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – IX F A L A R D E N Ó S – IXque valiam aproximadamente seis tangas de prata ou um pardau. Também no Brasil, chegou a haver uma moeda de prata (séculos XVII e XVIII) que valia aproximadamente 320 réis e que se chamava pataca.Parece assim poder afirmar-se que na origem da designação pataca está o facto de os portugueses referirem esse termo a dinheiro ou moeda, e de prata quando no Oriente, o que sem dúvida no caso concreto de Macau eram o duro espanhol e o peso mexicano, mas certamente com maior expressão este último”. (...)No próximo artigo, ainda com base no trabalho de Marinho de Bastos, iremos ver a evolução da nossa moeda local, a pataca. 13 de Agosto de 2012Com Joaquim Marinho de Bastos, através da sua palestra “Macau e a origem da pataca”, proferida em 9 de Dezembro de 1983, no âmbito de um ciclo de conferências realizado em ligação com a XVII Exposição Europeia de Arte, Ciência e Cultura, pudemos ver, no artigo anterior, a origem da pataca como moeda local. Com base no mesmo trabalho, vamos agora acompanhar a sua evolução nas primeiras décadas do século XX:O significado de pataca“Após algumas considerações sobre as antigas moedas que circularam em Macau, não deixamos portanto de recapitular aquelas que serviram de ‘instrumentos de troca’ nas transacções comerciais, a fim de podermos apreciar devidamente as razões que levaram Macau a permitir a circulação de moedas de vários países, desde os tempos mais remotos até à actualidade, e compreender a situação de facto que não de direito.Em períodos mais afastados, o ‘tael’ foi a expressão adoptada para representar o peso de prata com que se adquiriam as mercadorias. Eram pois os preços da compra e venda expressos em ‘tael’ e os pagamentos efectuavam-se pelo valor atribuído a cada ‘tael’. O ‘duro espanhol’ e o ‘dólar mexicano’ (peso) também corriam em Macau e foram, por muito tempo, usados nas transacções comerciais. Do mesmo modo teve curso o ‘dólar chinês’ e as suas moedas divisionárias de prata chinesa. Igualmente existiam em circulação, em Macau, as moedas chinesas de cobre ‘avo’ e ‘sapeca’ que naqueles tempos tinham utilização e poder comprador. Em 1865/1866 entrou em circulação o ‘dólar de Hong Kong’, e, juntamente com este, as moedas divisionárias de prata e cobre.A evolução da pataca como moeda local“Parece assim poder afirmar-se que na origem da designação pataca está o facto de os portugueses referirem esse termo a dinheiro ou moeda, e de prata quando no Oriente, o que sem dúvida no caso concreto de Macau eram o duro espanhol e o peso mexicano ...”.
  • 162 163 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – IX F A L A R D E N Ó S – IXA designação ‘pataca’ derivou, portanto, do ‘duro espanhol’ que, tendo curso em Macau, se chamava ‘pataca’. Porém, com o decorrer do tempo, este nome dado à moeda então circulante, radicou-se de tal modo no hábito e uso da população, que as moedas metálicas e papel-moeda, com curso no Território, passaram a denominar-se ‘pataca’, sendo vulgar ouvir-se chamar ao dólar de Hong Kong ‘pataca de Hong Kong’, ao dólar da China ‘pataca da China’ e ao dólar ou peso mexicano ‘pataca mexicana’.”Um regime atribilário“Daqui se pode ajuizar da confusão em que Macau vivia, num regime monetário atribilário (de repercussão desfavorável) na economia local. Esta palavra atribilário provém de bílis, e significa extravagante ou colérico. Em 1901, por decreto de 29 de Agosto, foi concedido ao BNU o privilégio da emissão de notas, tentando-se regularizar, desta maneira, a situação em que Macau se encontrava, quanto ao seu sistema monetário, aliás mantida, através de longos anos de comércio.Apesar da criação da nova moeda privativa ‘pataca’, a sua aparição, contudo, não evitou que continuassem a existir em Macau outras moedas dos territórios vizinhos, designadamente ‘tai youngs’, ‘dólares de Hong Kong’, divisionárias de prata chinesa e até ‘certificados de prata’, circulando livremente, os quais eram pelo comércio e particulares recebidos e aceites, sem relutância, na satisfação de pagamentos. (...)A abundância e diversidade de moedas em circulação não demorou a criar enormes problemas, ocasionados pela liberdade da circulação fiduciária composta por diferentes tipos de moeda, e não pôde resistir à crise que o comércio veio a sofrer, pois dando preferência aos ‘certificados de prata’ que os cambistas chineses emitiam abusivamente, sem a necessária reserva monetária, chegou-se finalmente à conclusão que tais certificados não tinham cobertura. As falências dos cambistas chineses vieram então a demonstrar a impropriedade do regime monetário em vigor e reclamavam providências imediatas.A circulação dos ‘certificados de prata’ que se denominavam ‘pang tang’ foi abolida em Macau e proibida a circulação de outras moedas, pelo diploma legislativo n.º 840, de 26 de Fevereiro de 1944. A moeda com curso legal no Território passou a ser efectivamente a pataca. As moedas de prata chinesa de 20 avos foram recolhidas pelo Governo, contra cédulas de valor equivalente. Estabeleceu-se automaticamente uma reserva metálica pela emissão de cédulas que, em acto contínuo, entraram em circulação, com a garantia de 100% de valor.O BNU, no exercício da sua função emissora, valorizou as suas notas e procurou imprimir nelas confiança, oferecendo-lhes, a todo o tempo, convertibilidade, nas operações de transferência, em divisas estrangeiras, e créditos bancários. O regime monetário atribiliário desapareceu para dar lugar a um outro, que havia de vigorar até aos nossos dias, apenas com ligeiras modificações.”Irregularidades consentidasDe facto, até as autoridades e o BNU conseguirem estabelecer e fazer cumprir as normas oficiais para a circulação monetária, a situação era assaz complicada e permitia
  • 164 165 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – IX F A L A R D E N Ó S – IXabusos e irregularidades de vária ordem. Marinho de Bastos, neste seu trabalho, identificou os mais generalizados:“Os cambistas chineses, os bancos emissores de Hong Kong e o BNU faziam circular o seu papel moeda. É curioso o que se dava nessa altura em Macau, como em Hong Kong, como de resto em toda a China, com as moedas subsidiárias, que eram depreciadas às que lhe eram superiores em valor. Assim, uma pataca valia cem moedas de um avo, 20 de 5 avos, 10 de 10 avos, 5 de 20 avos, teoricamente. Mas, quando se trocava uma nota de uma pataca, por exemplo, em prata, recebia-se sempre alguma coisa a mais, que constituía o ágio da nota sobre a prata. Se fosse trocada uma moeda de prata por cobre, repetia-se o mesmo fenómeno, que se observava também quando se trocavam avos por sapecas, unidade de valor ínfimo, que só na China podia ter circulação.Um tal sistema conduzia, como era fácil de calcular, a uma série de transacções, com que muito lucravam aqueles que o sabiam explorar convenientemente. Por isso, o Governo tinha de vigiar apertadamente a moeda em que eram pagas as contribuições e impostos, a fim de evitar que os funcionários menos escrupulosos pudessem ganhar quantias importantes à custa do Governo, trocando em prata o dinheiro que recebiam em papel, ou em cobre o que recebiam em prata, pondo nos cofres a equivalência teórica e guardando o ágio para si.Apesar de estar determinado que os pagamentos ao Governo fossem feitos em notas, como as várias contribuições não apresentavam uma quantia fixa em patacas, mas tinham, na maior parte das vezes, fracções que só podiam ser pagas em prata ou em cobre, no ajuste de contas, era muito difícil saber-se ao certo as quantias que deviam existir em cada uma das espécies. Portanto, quem fosse um pouco hábil e conhecedor do assunto, para não proceder de forma a denunciar-se claramente, podia muito facilmente defraudar o Estado em seu proveito.O mesmo acontecia nas relações entre os empregados e patrões. É claro, que dado o regime apontado, toda a gente, que recebia os seus vencimentos em papel sobre a prata, e desta sobre o cobre, lucrava; bastava saber-se que cada 100 patacas em papel podiam render o ágio, por vezes, de 9 patacas”.Outro problema tinha a ver com o pagamento das remunerações dos funcionários públicos, que eram estipulados em réis, provocando oscilações que podiam prejudicá-los e provocar descontentamento. Assim foi até ao dealbar da República, quando os vencimentos foram definitivamente fixados em patacas, sendo os orçamentos feitos, também, na mesma moeda.Será referida, no próximo artigo, a evolução da pataca até aos nossos dias.21 de Agosto de 2012
  • 166 167 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – IX F A L A R D E N Ó S – IXEntramos hoje na terceira e última parte da série de três artigos sobre a origem e evolução da pataca, como moeda de Macau. Fazêmo-lo, ainda, com base na palestra proferida por Joaquim Marinho de Bastos em 9 de Dezembro de 1983, intitulada “Macau e a origem da pataca”, a qual integrou um ciclo de conferências organizado em ligação com a XVII Exposição Europeia de Arte, Ciência e Cultura, que teve por tema “A Europa e os Descobrimentos Portugueses”. Eis os parágrafos finais do texto apresentado:“A circulação, em 31 de Dezembro de 1952, elevava-se a 26 milhões de patacas e tinha a garanti-la uma reserva monetária de 16 milhões e 800 mil. Se alguém, por qualquer motivo, quisesse pôr em dúvida a estabilidade da pataca, pelo facto da insuficiência da garantia indicada e, se se satisfizesse unicamente com uma reserva monetária equivalente a 100%, não conseguiria sustentar as suas alegações de dúvida, ao verificar que além de 16 milhões e 800 mil, que constituíam a garantia da circulação de 26 milhões, existiam somas avultadas no activo do BNU, na designação de ‘garantia de liquidabilidade’, constituídas por divisas estrangeiras, reservas na sede e carteira de títulos, créditos exigíveis de pronto que ascendiam a 19 milhões de patacas, como se constata do balancete do BNU, inserto no Boletim Oficial n.º 5, de 31 de Janeiro de 1953.O regime monetário de Macau, pelos factos e números apontados, constituía, no dizer dos seus criadores, um dos mais fortes alicerces da sua economia. Se o regime monetário outro fosse, longe de constituir um elemento de estabilidade económica, seria, ao contrário, uma desagregação das actividades comerciais e dissolução das mais salutares normas da circulação fiduciária.A pataca nos últimos sessenta anos“A pataca, embora o sistema cambial do Território admita a circulação e utilização, como meio de pagamento, do dólar de Hong Kong, tem hoje uma reserva sólida, bem definida e sob efectivo controlo do Território”. Embora a circulação da pataca fosse de 26 milhões somente, o movimento do comércio era contudo de cerca 500/600 milhões por ano. Era sensível a elevada velocidade de circulação da moeda. Havia naturalmente dúvidas quanto à manifesta insuficiência da moeda em circulação, para o giro e volume comercial ― 200 vezes maior do que a circulação fiduciária.Esse fenómeno económico não deixou de igualmente manifestar-se na vida comercial de Macau, em que a rapidez das operações de compra e venda o explicava e, por si só, resolvia em parte a situação da restrição monetária, pois havia que contar ainda com os cheques e dólares de Hong Kong, utilizados pelo comércio na liquidação das suas transacções.Por consequência, o limite da circulação, em Janeiro de 1953, não embaraçava a vida comercial mas sim determinava a valorização da pataca e, com a sua escassez, provocava a sua procura, tornando-a forte e firme. E o valor e a estabilidade da pataca mais se acentuavam, quando se verificava também um equilíbrio orçamental, porquanto às receitas avaliadas e cobradas, no montante de 22 milhões de patacas, se contrapunham despesas de igual importância.Com efeito, as despesas gerais do Governo comportando-se nas receitas cobradas, em cada ano económico, sem qualquer recurso às emissões de papel-moeda inconvertível, ou de bilhetes de tesouro, remíveis a curto prazo, para acudir à posição deficitária, a circulação fiduciária desempenhava a função que pela economia lhe é atribuída e a pataca era ‘instrumento de troca’ que não se desviava do fim verdadeiro a que se destinava, porque preenchia as necessidades existentes. Era portanto de suma importância, para quem idealizou o sistema, o equilíbrio orçamental.
  • 168 169 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – IX F A L A R D E N Ó S – IXEm 1952 foram criadas e cunhadas as primeiras moedas metálicas privativas de Macau, mas a circulação delas não entrou logo no uso geral da população, havendo reacções psicológicas contrárias que se diluíram com o tempo”.O valor da patacaVejamos como evoluiu a paridade da pataca em relação ao escudo e ao dólar de Hong Kong:“Durante as décadas de 50 e 60 a pataca continuou intimamente ligada ao dólar de Hong Kong, fazendo este parte da zona do esterlino. Com a queda da libra e o abandono do padrão-ouro, o dólar de Hong Kong em 6 Julho de 1972 passou a estar ligado ao dólar americano.As alterações do valor do dólar de Hong Kong obrigavam a modificações de paridade entre a pataca e o escudo, pois Macau fazia legalmente parte da zona do escudo e estava integrada no sistema de pagamentos interterritoriais criado por Portugal em 1971. A participação de Macau na zona do escudo foi sempre marginal dado que em Macau sempre vigorou um sistema cambial livre, o que não era o caso de Portugal, Angola ou Moçambique. A participação era apenas sensível nas relações com Portugal e os seus territórios africanos.Após 1974, e com a desvalorização do escudo, a paridade pataca/escudo que, em 31 de Dezembro de 1976 era Esc. 5.015 = P. 1, teve de ser alterada. Em 9 de Abril de 1977, a pataca passou a estar ligada ao dólar de Hong Kong na base de P107.50 = HK$100.00 e, em 31 de Dezembro de 1982, P1.03875 = HK$1. A pataca abandonou assim a zona do escudo passando à posição dos nossos dias, que não cabe no âmbito deste estudo desenvolver.Mas tal só foi possível quando entre 1974 e 1976 se conseguiu, com alguma coragem, a criação de uma caixa central de reservas de divisas sob controlo governamental, pois as divisas eram drenadas para o exterior, pelos exportadores locais, não havendo uma reserva sólida e bem definida da pataca. Com base no controlo e dimensão que a pouco e pouco se foi então desenvolvendo à volta da caixa central de reserva de divisas tornou-se possível a fundação do Instituto Emissor de Macau.A pataca, embora o sistema cambial do Território admita a circulação e utilização, como meio de pagamento, do dólar de Hong Kong, tem hoje uma reserva sólida, bem definida e sob efectivo controlo do Território.Mal sabiam os comerciantes portugueses dos séculos passados, ao chamarem pataca a uma série de moedas que serviam de meio de pagamento nessas épocas e até fora de Macau, que tal designação viria a ser a unidade monetária deste Território”.Equilíbrio orçamentalFoi, de facto, um longo e acidentado percurso, até ser garantida a estabilidade da pataca e conseguida a sua consagração definitiva como moeda oficial. O período conturbado que se seguiu à revolução de 25 de Abril de 1974 em Portugal obrigou localmente à tomada de decisões arrojadas, firmes e realistas em
  • 170 171 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – IX F A L A R D E N Ó S – IXvários domínios, incluindo o monetário e o fiscal. Com o apoio técnico da Inspecção do Comércio Bancário e do próprio Banco Nacional Ultramarino, o Governador soube estar à altura da sua difícil missão, mandando pôr em execução medidas urgentes numa fase de incertezas e receios que afectavam os agentes económicos, os funcionários públicos e também a população em geral. A ligação da pataca ao dólar de Hong Kong foi a medida mais relevante, a par da plena aplicação do princípio do equilíbrio orçamental, vigente até aos nossos dias.Tendo sido atribuído ao BNU, em 1905, o direito de exclusividade da emissão de notas em patacas, a primeira emissão foi feita em Janeiro de 1906. Criado o Instituto Emissor de Macau, o Governo transferiu essa exclusividade, em 1980, para este novo organismo público, transformado depois em Autoridade Monetária e Cambial de Macau, cuja designação presente é apenas Autoridade Monetária de Macau, embora mantenha a sigla AMCM. O BNU manteve-se como instituição emissora até Outubro de 1995, quando o Banco da China passou a partilhar essa responsabilidade, como segundo banco emissor da pataca, a qual está a 100% coberta por reservas em moeda externa.O Regime Jurídico do Sistema Financeiro, publicado em 1993, é a base jurídica do sector financeiro de Macau, continuando esta região administrativa especial a permitir a livre circulação de capitais, sendo também livre o câmbio monetário. Ao Governo cabe garantir a manutenção da estabilidade monetária e cambial, através da AMCM.27 de Agosto de 2012Temos, de quando em quando, trazido para este espaço, com vista ao seu registo e divulgação, textos interessantes sobre Macau de épocas passadas, alguns ainda inéditos e outros inseridos em publicações esgotadas ou de difícil acesso. Escolhemos agora esta caracterização do território, preparada e publicada em 1929 para distribuição na Exposição Portuguesa de Sevilha.Duas grandes mostras foram organizadas nesse ano em Espanha: a Exposição Ibero-Americana em Sevilha e a Exposição de Barcelona, que visou revelar a pujança industrial do país e a sua inserção na Europa moderna. Mudado o regime político em Portugal, as novas autoridades empenharam-se numa participação marcante e, num tempo em que era importante celebrar os vínculos das metrópoles aos seus territórios ultramarinos, foi dada especial relevância à divulgação das realidades e potencialidades da mãe-pátria e do complemento de grandeza e sustentabilidade que esses territórios representavam no contexto nacional. Foi assim que surgiu a Exposição Portuguesa em Sevilha.MacauSobre Macau, foi dada, naquele certame, esta curiosa informação monográfica: “Fomos sem dúvida o povo do Ocidente que primeiro se fixou na China, onde, por serviços prestados na repressão da pirataria, nos foi dada na península de Ngáoman um ponto de apoio para o nosso comércio. Fixados aí, dentro de alguns anos, se criou uma colónia que ia prosperando gradualmente, até que por fim o direito consuetudinário e a nossa crescente acção tornou a colónia pertença da coroa portuguesa e domínio da Nação, como reconhece o tratado de 1887.Uma visão de Macau da segunda década do século XX“... Macau é a menos extensa colónia portuguesa, mas decerto a mais bela”. Ernesto de Vasconcellos, monografia sobre as colónias portuguesas, 1929
  • 172 173 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – IX F A L A R D E N Ó S – IXNão devemos fazer aqui a história de Macau, mas somente diremos que esta colónia se tornou florescente graças à sua situação geográfica na costa sueste da China.Como o nosso domínio estivesse firmado e o comércio por ali se fizesse com o sul da China, fomos os primeiros, para facilitar a navegação, que ali montámos um farol de costa, no local onde ainda se levanta o farol da Guia, que domina a Rada ou porto exterior de Macau. Pouco a pouco o estabelecimento de Macau foi crescendo, para se converter numa das mais belas cidades do distante Oriente.Rivalidades, ambições e intrigas alheias dificultavam, por vezes, a nossa acção em Macau, onde a jurisdição portuguesa se estendia por todo o porto interior e pelas ilhas vizinhas. Taipa, D. João, Coloane, Vongcam e encosta oriental da Lapa subordinavam-se à acção portuguesa, mas razões ocultas da ordem acima apontada, perante a China, sobretudo junto do Vice-Rei de Cantão, perturbavam constantemente a tranquilidade, de sorte que, ao fazer-se o tratado de 1887 com a China, não foi possível fixar-se positivamente a jurisdição de Macau, de sorte que a nossa ocupação efectiva reside na península, nas duas Taipas e Coloane, mantendo, porém, direito aos outros pequenos territórios, onde possuímos alguns estabelecimentos humanitários.Seja como fôr e apesar de tudo, Macau é a menos extensa colónia portuguesa, mas decerto a mais bela.Perante os nossos direitos seculares mantemos na China uma posição especial, sem por forma alguma termos quaisquer ambições que não sejam as do desenvolvimento crescente da nossa colónia, cuja posição geográfica, no complicado Delta do Tigris, é para Portugal uma garantia da nossa manutenção sem que nos intrometamos na política do Extremo Oriente, mas defendendo tam somente a nossa autonomia ali. Pena é que a jurisdição portuguesa de Macau não tenha sido ainda definida por instrumento diplomático bastante e que até perdêssemos uma oportunidade para o fazermos.”A geografia do território“É na Ilha Hianchang, entre o rio de Cantão e o de Oeste, na pequena península de Ngáoman, que está situada a nossa colónia de Macau, cujas coordenadas, referidas ao farol da Guia, são 22º 11’ 45’’ N. e 113º 33’ 24’’ E. Greenwich. As suas dependências, além do porto interior com a sua Ilha Verde, consistem nas duas Ilhas da Taipa e na de Coloane. Mantemos também direitos de soberania, como já aludimos, à parte oriental da Lapa, à Ilha de D. João e à parte norte de Vongcam, que reivindicamos perante a China, sendo questão que se pode considerar ainda pendente.A península de Macau tem de comprimento máximo 4.400 metros sobre 1.680 metros de largo e é toda ocupada pela cidade, capital da colónia. A superfície da parte ocupada da península com as Ilhas da Taipa e Coloane é de 10 quilómetros quadrados, dos quais 3k2,23 pertencem propriamente à cidade, onde existem bons edifícios e magníficas ruas. Alguns outeiros, que de permeio se levantam, são coroados por fortalezas para sua defesa.Hoje, porém, devido às grandes obras de construção do porto exterior, olhando sobre a vasta Rada, e pelos aterros e muros de cais que envolvem a pequena península, a superfície da colónia elevou-se cerca de um terço do que antes era, embora por
  • 174 175 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – IX F A L A R D E N Ó S – IXmeios artificiais. Regularizou-se a margem que olha para as obras empreendidas, conquistando-se terrenos que têm grande procura, não só para as instalações do porto, como para estabelecimentos industriais e depósitos de vária ordem.Os acontecimentos de Cantão e a guerra entre os sudistas e nordistas têm chamado a Macau um aumento da população, que de 83.984 que era em 1920, deve ser actualmente de mais de 100.000 habitantes, em que figuram cerca de mil portugueses da metrópole, sem contar a força militar.O porto de Macau é entre a cidade e a Ilha da Lapa a oeste, mas os envazamentos têm-no prejudicado. Os maiores fundos encontram-se do lado dos cais da cidade e formam aí como que uma cala de pequena largura. É muito frequentado pelos juncos da praça comercial de Macau e dos portos vizinhos. Entre a península e a Ilha da Taipa fica um vasto espaço que constitui o porto exterior, ou Rada de Macau, também bastante assoreada e onde actualmente se tem dragado um canal para facilitar o acesso ao porto acabado de construir. Como para a Índia, não há navegação regular nacional para Macau. As comunicações com esta colónia fazem-se, porém, facilmente por intermédio das companhias marítimas estrangeiras.Macau é servida por uma estação do cabo telegráfico submarino, que se liga a Hong Kong e consequentemente à rede geral do globo, e pela telegrafia sem fios.O regime atmosférico regula-se pelas monções de nordeste e de sudoeste, sendo nesta que caem as chuvas, abundantes de Maio a Agosto. Nos meses de Março a Maio é que a humidade mais se faz sentir. A temperatura média é de 22º,9 e a humidade 79º,2. Os meses mais quentes são Julho e Agosto.Os tufões do Mar da China afectam por vezes Macau, onde têm causado prejuízos. Caem ordinariamente nos meses de Junho a Outubro. A chuva média é de 2.000mm,6”.Estas considerações em torno de Macau fazem parte de um volume expressamente elaborado para a Exposição Portuguesa em Sevilha e publicado pela Imprensa Nacional de Lisboa em 1929. Com o título “Portugal ― As colónias”, foi seu autor Ernesto de Vasconcellos. O texto, escrito em 1928, contém também informação sobre a actividade económica do território, que apresentaremos no próximo artigo. Será esclarecedor, para o leitor, poder comparar a economia de há um século, impressionantemente limitada e rudimentar, com a de hoje, pujante e financeiramente abundante.3 de Setembro de 2012
  • 176 177 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – IX F A L A R D E N Ó S – IXNo artigo anterior, apresentámos um pequeno texto sobre Macau, da autoria de Ernesto de Vasconcellos, integrado numa publicação intitulada “Portugal ― As colónias”, expressamente preparada para a Exposição Portuguesa em Sevilha, levada a efeito com assinalável sucesso em 1929.Contendo uma introdução de carácter geral sobre as colónias portuguesas, onde se dá relevo ao novo porto exterior de Macau, então em fase de construção, augurando-se para ele um futuro promissor, “logo que esteja em completa eficiência”, como “porta de saída da parte meridional da província de Cantão, pelo menos”, são depois caracterizadas, individualmente, as colónias de Cabo Verde, Guiné, S. Tomé e Príncipe, com a dependência de S. João Baptista de Ajudá, Angola e Moçambique, “as duas grandes colónias portuguesas” e, na Ásia, “como padrões da nossa influência no Oriente, os territórios de Goa, Damão e Diu, bem como Macau”, e ainda o Timor português. Conclui-se daí que “a importância manifesta de todas estas colónias, em excelentes posições geográficas, sobrelevando a sua grande superfície, converte Portugal na terceira potência colonial”.A monografia sobre Macau, que contém um mapa não datado do território, em que estão já bem assinaladas novas zonas de aterros, bem como o porto exterior, inclui também uma descrição bastante completa da actividade económica local, então ainda impressionantemente limitada, num tempo de enormes dificuldades para a China, nas primeiras décadas do regime republicano, implantado em 1911, com inevitáveis reflexos em Macau:A economia de Macau há cem anos“Macau é uma colónia de comércio e mantém algumas pequenas indústrias”. Ernesto de Vasconcellos, “Portugal — As colónias”, 1929Actividade económica“Macau é uma colónia de comércio e mantém algumas pequenas indústrias. Importa ópio cru e exporta-o cozido. Prepara a folha do chá; descasca e mói o arroz; desfia o casulo de seda e fabrica alguns tecidos, esteiras e panchões. A sua maior indústria é a da pesca, salga e secagem do peixe.Pela sua situação geográfica faz grande comércio de trânsito devido à cabotagem favorecida pelos inúmeros canais que ligam os rios de Cantão e de Oeste, que foi um dos últimos abertos ao comércio, havendo os chamados portos de tratado, como Kongmun e Samshui, estando este servido pelo caminho de ferro de Cantão, que, por seu turno, está ligado a Cowloon, o que equivale dizer a Hong Kong, que é o porto que lhe dá serventia.A grande maioria das embarcações que frequentam Macau é constituída por pequenos barcos veleiros, dos vários tipos chineses, que tomam indistintivamente o nome de ‘juncos’. Não quer isto dizer que ao porto exterior não vão vapores de vária tonelagem, sobretudo agora que se construíu o porto, que está sendo devidamente apetrechado.As notas que abaixo seguem dão uma ideia, não só das quantidades e valores das principais mercadorias importadas e exportadas; mas examinaremos primeiro os valores totais da importação e exportação nos anos de 1926 e 1927 respectivamente:
  • 178 179 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – IX F A L A R D E N Ó S – IXEstes valores mostram bem o grau de desequilíbrio da balança comercial de Macau, mas estamos convencidos que isso desaparecerá logo que se estabeleça, não direi já um pequeno caminho de ferro regional para Siaki, mas pelo menos um serviço de camiões que tragam a Macau o comércio de trânsito de Siaki, que é muito importante.Siaki é como que o entreposto da Ilha de Hianchan, da qual Macau é uma península, como sabemos, constituindo actualmente um bom porto marítimo, pelas obras que ali empreendemos.Importação TotalValoresPatacasEm 1926 ............................................................... 24.661.886Em 1927. .............................................................. 24.831.894Exportação TotalEm 1926 ............................................................... 18.812.361Em 1927 ............................................................... 10.226.008COMéRCIO EXTERNOAs principais mercadorias em que se transaccionou foram como segue:ImportaçãoQuantidades ValoresQuilogramas PatacasAçúcar e jagra …………… { 1926…………………… 4.353.189 1.301.0001927…………………… 4.605.871 1.309.434Azeite…………………… { 1926…………………… 2.386.861 1.073.9821927…………………… 2.599.985 1.198.002Arroz……………………... { 1926…………………… 17.168.493 3.091.5001927…………………… 21.622.023 3.899.144Madeira………………….. { 1926…………………… 7.671.845 1.380.8141927…………………… 7.461.940 1.342.291Papel……………………… - 1927…………………… 763.881 1.880.137ExportaçãoQuantidades ValoresQuilogramas PatacasConservas………………... { 1926…………………… 1.738.204 677.6871927…………………… 1.709.359 623.236Peixe……………………… - 1927…………………… 4.177.209 1.274.029Panchões………………… - 1927…………………… 707.577 459.940Pivetes …………………… - 1927…………………… 1.375.274 633.247Óleo de Canela………….. - 1927…………………… 79.740 558.951
  • 180 181 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – IX F A L A R D E N Ó S – IXAlém destes produtos exporta ainda cimento da fábrica da Ilha Verde, ópio cozido e poucos mais artigos que não merecem indicação.”Quase um século volvido, é bom conhecer e compreender esse outro tempo de Macau, de muitas limitações e carências, e cotejá-lo com a realidade presente. Seguir-se-iam mais algumas décadas de grandes sacrifícios, num enquadramento vizinho de constante belicosidade: da guerra civil chinesa à invasão, ocupação e derrota japonesas. O território e as suas gentes souberam, contudo, adaptar-se às circunstâncias adversas e vencer enormes desafios, fazendo o seu percurso, com a estabilidade possível, até à chegada de dias mais promissores nas últimas décadas do século XX.10 de Setembro de 2012Passado o período de férias que provoca inevitáveis interrupções no funcionamento regular das instituições, o mês de Setembro é aproveitado, por muitos organismos de natureza associativa, para a apresentação de novos programas e para o lançamento de mais iniciativas consentâneas com os seus objectivos estatutários. Para o Instituto Internacional de Macau (IIM), a “rentrée” foi assinalada com mais uma edição do seminário “O papel de Macau no intercâmbio sino-luso-brasileiro”, seguindo-se, de imediato, um rol de significativas realizações académicas e culturais, algumas das quais envolvendo outras entidades.Macau em seminárioCom sessões levadas a efeito em Macau e em Xangai, nos dias 12 e 13 do corrente, o seminário sobre “O papel de Macau no intercâmbio sino-luso-brasileiro”, que já vai na 4.ª edição, prosseguirá agora em Pequim e, nos próximos dois meses, no Rio de Janeiro e em Lisboa.A primeira parte, levada a efeito no auditório do IIM, teve como oradores o jornalista brasileiro Carlos Tavares de Oliveira, autor de vasta bibliografia sobre a China, e o académico Severino Cabral, professor universitário e presidente do IBECAP, que dissertaram, respectivamente, sobre “China – o retorno à liderança mundial”, que é também o título do seu mais recente livro, e “A parceria estratégica global sino-luso-brasileira e o impacto na criação de uma nova realidade mundial”. Encerrou a sessão, que foi moderada pelo autor deste artigo, o Cônsul-Geral de Portugal em Macau e em Hong Kong, embaixador Manuel Carvalho, que salientou o legado de Portugal e as importantes responsabilidades de Macau, reconhecidas pela China, no contexto do tema tratado.IIM – mais um intenso programa de acção“Esta quarta edição do seminário sobre o papel de Macau no intercâmbio sino-luso-brasileiro assinala o reforço da parceria útil e eficaz estabelecida entre o IBECAP – Instituto Brasileiro de Estudos da China e Ásia/Pacífico e o Instituto Internacional de Macau.”Prof. Severino Cabral, presidente do IBECAP
  • 182 183 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – IX F A L A R D E N Ó S – IXProcedeu-se ainda, no decurso da sessão, ao lançamento de mais um volume integrado na colecção Suma Oriental, do IIM.Em XangaiA adesão em Xangai ao tema do seminário a todos surpreendeu agradavelmente. Graças à capacidade organizativa da associação Profissionais Brasileiros na China e da sua presidente, Fernanda Lomenso, cerca de 80 participantes (lotação máxima definida) inscreveram-se e, durante mais de três horas, acompanharam interessadamente, num salão do Hotel Jin Jiang, o debate sobre as matérias abordadas com os oradores em formato de mesa-redonda, sendo a todos proporcionada uma sessão muito viva, complementada com estimulantes intervenções da plateia. Eram em larga maioria brasileiros, entre empresários, outros profissionais de diversas áreas e estudantes, mas também lá estiveram portugueses e chineses.Os oradores foram o jornalista Carlos Tavares de Oliveira, o professor Severino Cabral, o gestor brasileiro Renato Goebel e o autor deste artigo, na qualidade de presidente do IIM, que colocou um enfoque no papel de Macau como entreposto comercial e cultural no contexto histórico e, hoje, como plataforma privilegiada de cooperação entre a China e o mundo lusófono.Abriu solenemente a sessão a embaixadora Ana Cândido Peres, Cônsul-Geral do Brasil em Xangai, tendo os trabalhos sido proficientemente coordenados por Ivan Quagio, profundo conhecedor da realidade chinesa actual e autor do livro “Olhos Abertos – A História da Nova China”, que tem como subtítulo “Da morte de Mao à crise económica” (editora Francis, São Paulo, 2009). Valeu a pena a inclusão, pela primeira vez, de Xangai no roteiro deste seminário, onde, mesmo com inscrições pagas, cujo valor e alguns patrocínios cobriram os encargos com a sua realização, se conseguiu um número muito elevado de participantes. A próxima etapa será Pequim, no Centro de Estudos de Países de Língua Portuguesa da Universidade de Economia e Negócios Internacionais.Chineses e cháLançado no passado dia 12, no auditório do IIM, o livro “Chineses e chá no Brasil no início do século XIX” é o 5.º volume da colecção Suma Oriental, do IIM, que reúne trabalhos de investigação sobre temas relacionados com os contactos havidos no âmbito da triangular relação histórica entre Portugal, a China e Macau. Edição do IIM e do Real Gabinete Português de Leitura do Rio de Janeiro, é seu autor Carlos Francisco Moura, investigador de temática histórica, também responsável por um outro trabalho integrado na mesma colecção, intitulado “Liou She Shun – Plenipotenciário do Império da China – Viagem ao Brasil em 1909”, que descreve a primeira visita de um representante do Celeste Império ao Brasil.Há muitos anos que Carlos Francisco Moura se dedica a estudos sobre Macau, tendo sido colaborador da Revista de Cultura do Instituto Cultural de Macau, estando agora ligado às duas entidades que fizeram esta edição. O tema escolhido aguardava há bastante tempo este tratamento aprofundado, que permite compreender a relevância da ligação estabelecida entre Macau e o Rio de Janeiro, a partir da instalação de D. João VI e da corte portuguesa no Brasil. Além da identificação dos factos mais significativos
  • 184 185 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – IX F A L A R D E N Ó S – IXda nova relação estabelecida, o livro inclui a reprodução facsimilada de documentação pertinente, bem como um pequeno glossário e uma extensa relação bibliográfica sobre aspectos parciais da temática escolhida.A Hora do DragãoLançado recentemente em Lisboa, o livro “A Hora do Dragão – política externa da China”, de Luís Cunha, edição conjunta do Instituto Internacional de Macau e da Zebra Publicações, será apresentado no dia 25 do corrente em Macau.Com prefácio de Adriano Moreira, que também fez a apresentação pública do livro em sessão muito concorrida realizada no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade Técnica de Lisboa, esta obra, muito bem recebida nos meios académicos e pela comunicação social, é já considerada uma obra de leitura obrigatória para todos os políticos, empresários e professores interessados na vasta problemática relacionada com o desenvolvimento da China contemporânea.Os diversos capítulos referem, com abundante e bem enquadrada informação, a génese da política externa da China, o processo decisório dos órgãos de poder, uma caracterização dos diversos poderes efectivos da China, os desafios da ascensão geoestratégica chinesa e o relacionamento da China com os outros grandes poderes, abrangendo, neste contexto, as relações com os Estados Unidos e a União Europeia, as sempre difíceis relações sino-japonesas, a aliança estratégica sino-russa, as crescentes relações sino-indianas, o regresso da China a África, novas parcerias com os países em desenvolvimento e a questão de Taiwan.Luís Cunha é doutorado em Relações Internacionais e licenciado em Comunicação Social. Desempenhou actividade profissional em Macau na área do jornalismo e comunicação social, tem vários livros publicados sobre temática macaense e um estudo sobre a questão de Taiwan e exerce presentemente funções no Ministério dos Negócios Estrangeiros de Portugal.Deslocação ao JapãoA convite da organização Soka Gakkai International, os principais responsáveis do IIM visitam, no decurso desta semana, instalações académicas e culturais em Osaca, Quioto e Tóquio. Integram a delegação macaense os presidente, vice-presidente e secretário-geral do IIM, bem como a presidente da mesa da assembleia geral, Maria Edith da Silva. O propósito é o reforço da cooperação com essas instituições, entre as quais se incluem a Universidade de Soka (Tóquio), o Instituto de Filosofia Oriental, o Museu de Arte Fuji, a Academia Min On, a editora Seikyo Press e a Escola Soka Gakuen.Língua PortuguesaNo final do corrente mês, mais outro seminário, envolvendo o IIM, o Instituto Politécnico de Macau e o Observatório da Língua Portuguesa, será aqui realizado. O tema, com especial interesse na conjuntura actual da RAEM, será “Língua Portuguesa – afirmação e valor”. Na mesma altura será lançado um novo volume da colecção Mosaico, do IIM, com o título “O valor da Língua Portuguesa: uma perspectiva económica e comparativa”. 17 de Setembro de 2012
  • 186 187 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – IX F A L A R D E N Ó S – IXMais duas importantes iniciativas do IIM terão lugar no corrente mês: um seminário no Instituto Politécnico de Macau, a realizar no dia 27 do corrente, às 15 horas, intitulado “Língua portuguesa – afirmação e valor”, em que serão oradores o Embaixador Eugénio Anacoreta Correia, presidente do Observatório da Língua Portuguesa (OLP), e o Prof. José Paulo Esperança, catedrático do ISCTE – Instituto Universitário de Lisboa, que apresentarão comunicações, respectivamente, sobre “Língua Portuguesa – o Plano de Ação de Brasília e a participação da sociedade civil” e “O valor da língua portuguesa”. Na ocasião será lançado o estudo “O valor da língua portuguesa: Uma perspectiva económica e comparativa”, de José Paulo Esperança, Luís Antero Reto, Mohamed Azzim Gulamhussen, Fernando Luís Machado e António Firmino da Costa. É uma edição conjunta do IIM e do Observatório da Língua Portuguesa, a qual constituirá o volume XXV da colecção Mosaico, do IIM.Entretanto, será lançado, no dia 25, às 18 horas, no auditório do IIM, o livro “A Hora do Dragão – política externa da China”, de Luís Cunha, edição conjunta do IIM e da Zebra Publicações. Trata-se de um estudo sobre o desenvolvimento das relações externas chinesas e a formulação de políticas públicas neste domínio na República Popular da China, que o Prof. Adriano Moreira, na sessão de lançamento em Lisboa, considerou uma obra fundamental para a compreensão da China contemporânea.Uma colaboração eficazCerca de um mês depois de firmado o protocolo de cooperação que ligou o IIM ao OLP, em Setembro de 2011, foi publicado um livro da colecção Mosaico, do IIM, que Valor económico da língua portuguesa – um seminário e um estudo“Se considerarmos o número de falantes de língua materna, o português surge como a quarta língua mundial, a seguir ao mandarim, espanhol e inglês. A língua portuguesa inspirou também uma comunidade – a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa – , que reúne todos os países de língua oficial portuguesa.”“O valor da língua portuguesa: Uma perspectiva económica e comparativa” permitiu uma ampla divulgação do conteúdo e do significado da parceria estabelecida, a que se juntou a palestra proferida pelo presidente do OLP, Embaixador Eugénio Anacoreta Correia, na sessão de abertura do seminário “A língua portuguesa no contexto do diálogo entre a China e o mundo lusófono”, conjuntamente organizado, na mesma altura, pelo IIM, pelo OLP e pelo Movimento Internacional de Culturas, Línguas e Literaturas Neo-Latinas (Festlatino). A oportuna inclusão do “Plano de Ação de Brasília para a promoção, a difusão e a projeção da língua portuguesa”, aprovado em Conselho de Ministros da CPLP, reunido no dia 31 de Março de 2010, valorizou, consideravelmente, esta muito procurada edição.Esse protocolo reconheceu as especiais responsabilidades assumidas pelo IIM nos propósitos e nos esforços de difusão e afirmação da língua portuguesa e confiou ao IIM a representação do OLP em Macau e junto de instituições académicas e culturais em países e territórios do Extremo Oriente.Um ano volvido, e complementando outras iniciativas úteis, novo seminário foi programado, com o título “Língua portuguesa: afirmação e valor”, desta vez envolvendo também o Instituto Politécnico de Macau, cujos responsáveis têm procurado dedicar à língua portuguesa a importância que lhe é oficialmente reconhecida pelas autoridades centrais chinesas e na Região Administrativa Especial de Macau. No momento em que este seminário é realizado, é lançada mais uma edição do IIM, contendo o estudo realizado por diversos professores sobre o valor económico da língua portuguesa. O conteúdo desta publicação será do maior interesse para quantos – professores, investigadores, estudantes, diplomatas, quadros empresariais e funcionários públicos – contribuem para uma maior promoção, difusão e valorização da língua portuguesa e para a sua adequada implantação em organizações internacionais.
  • 188 189 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – IX F A L A R D E N Ó S – IXDepois de Macau, este estudo será publicamente apresentado em Lisboa e no Rio de Janeiro, no contexto do 4.º seminário sobre “O papel de Macau no intercâmbio sino-luso-brasileiro”, a levar a efeito nos dias 16 e 17 de Outubro, na Confederação Brasileira do Comércio e no Real Gabinete Português de Leitura, bem como no Recife (Pernambuco), na conferência anual do Movimento Festlatino, marcada para 22 e 23 do mesmo mês. Um estudo oportunoO trabalho de investigação que agora se lança, sobre “O valor da língua portuguesa: Uma perspectiva económica e comparativa”, contém uma introdução, em que são apresentados o contexto, os objectivos e a organização do trabalho, e vários capítulos em que se procura posicionar a língua portuguesa no contexto das principais línguas mundiais, com base no barómetro de Calvet e na metodologia de Weber, apresentando também uma estimativa do peso dos falantes de português no quadro da população mundial e da sua riqueza relativa. Seguidamente, é feita uma síntese da investigação sobre o valor económico das línguas e o efeito de rede, reflectindo o contributo emergente dos economistas para o valor da língua e o estudo pioneiro de Municio (de 2003) sobre o valor económico da língua espanhola no PIB, sendo igualmente verificada a correlação positiva com o investimento directo estrangeiro em Portugal e o investimento directo estrangeiro de Portugal noutros países, com o comércio externo português, com os fluxos turísticos e com a emigração.Os dois últimos capítulos contêm os resultados de um inquérito feito junto dos alunos do Instituto Camões, abordando os objectivos de aprendizagem do português, o valor apurado no mercado de trabalho e nos negócios e a sua identificação de personalidades e marcas do espaço lusófono. Após uma síntese dos resultados, são também avançadas sugestões para estudos futuros, bem como propostas para a projecção da língua portuguesa como veículo de compreensão e facilitação de trocas e circulação de pessoas e ideias.O valor da línguaEis algumas das conclusões do trabalho: “A influência da língua portuguesa cresceu significativamente nas duas últimas décadas, o que se deve sobretudo ao crescimento económico do Brasil e dos países africanos de expressão portuguesa. O fim dos conflitos militares em Moçambique e Angola e a consolidação económica do Brasil, com a eliminação da hiperinflação, permitiram um forte crescimento económico, ancorado nos vastos recursos naturais e no desenvolvimento cultural e tecnológico do conjunto do espaço lusófono. Apesar da recente crise financeira da zona euro, a adesão de Portugal à União Europeia permitiu um elevado desenvolvimento económico e social, com destaque para os sistemas de saúde, educação e das infra-estruturas.A partilha de uma língua comum facilita as trocas comerciais, de investimento directo e a circulação de pessoas, em lazer ou em busca de oportunidades de trabalho. A análise da realidade portuguesa revela o peso elevado da língua na actividade económica, em consequência do crescimento do peso relativo do sector dos serviços. Confirma, por outro lado, que a proximidade linguística é mais importante ao nível das
  • 190 191 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – IX F A L A R D E N Ó S – IXmigrações e do investimento directo. Nos anos noventa, iniciou-se um forte volume de investimento português para os países de expressão portuguesa, com destaque para o Brasil e Angola. Na última década, este movimento manteve-se, mas registaram-se fortes investimentos de sentido oposto com investidores brasileiros e angolanos a adquirir posições significativas em empresas com sede em Portugal.Nas trocas comerciais, a proximidade linguística tem um peso maior nas exportações do que nas importações, reflectindo a diferente repartição por produtos dos dois fluxos. Enquanto o comércio de matérias-primas regista baixa sensibilidade à proximidade linguística, o comércio de produtos das indústrias culturais e criativas é facilitado pela capacidade de intercompreensão. (…)A expansão dos fluxos comerciais, financeiros e de investimento entre os países de expressão portuguesa e o sudeste asiático, a par da crescente concertação entre os países que integram os BRIC, reforçam o papel de Macau como ponte entre as duas culturas e pólo de difusão da língua portuguesa.”O IIM continuará a colaborar em trabalhos do OLP e de outras entidades que se ocupam destas matérias, proporcionando-lhes o seu contributo, ainda que modesto, para a sua eficaz realização e difusão, ao mesmo tempo que desenvolverá novas parcerias no sentido de realizar e divulgar estudos relacionados com o papel de Macau na área geográfica em que se insere.24 de Setembro de 2012Depois do bem sucedido lançamento em Lisboa, no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, em sessão presidida pelo Prof. Adriano Moreira, este importante trabalho de Luís Cunha foi agora apresentado em Macau, no auditório do Instituto Internacional de Macau (IIM), na semana passada.Co-editado pelo IIM e pela Zebra Publicações, “A Hora do Dragão – política externa da China” é um livro obrigatório para quem pretende conhecer a China de hoje e a forma como exerce uma influência crescente no contexto internacional. Escrita por Luís Cunha, que durante muitos anos trabalhou em Macau como jornalista e técnico de Comunicação Social e que é actualmente coordenador do Gabinete de Imprensa do Ministério dos Negócios Estrangeiros, a obra é prefaciada pelo Professor Adriano Moreira e é baseada na tese de doutoramento do autor, que obteve nota máxima no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP), e vê a sua importância bem reflectida nas palavras que Adriano Moreira lhe dedica no seu prefácio: “É um serviço importante que a inteligência portuguesa, como se passa com o autor deste livro, volte a reactivar os estudos sobre a China”.Tudo porque, em poucas décadas, a China se transformou na nação indispensável e cada vez mais interventora. Se até aos nossos dias nada era resolvido na ordem internacional sem o envolvimento dos EUA, o mesmo se aplica agora à mais influente das potências emergentes. A China quer ajustar contas com a História, exorcizando o “A Hora do Dragão” — apresentação em Macau“A projecção económica conquistada por Pequim trouxe consigo um peso político que o poder chinês começa a exercer através de um pragmatismo assertivo, combinando ‘soft’ e ‘hard power’ de forma inteligente. Do programa especial às reivindicações no Mar da China Meridional, até à conquista de posições estratégicas em matéria de recursos energéticos, a China traçou um ambicioso programa geopolítico”.“A Hora do Dragão — política externa da China”
  • 192 193 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – IX F A L A R D E N Ó S – IXseu “século de humilhações”. Na verdade, podemos dizer que, se há actor internacional com massa crítica capaz de colocar em causa a ordem internacional estabelecida desde o final da II Guerra Mundial, esse actor é, sem dúvida, o antigo Império do Meio. Este livro analisa a cultura estratégica colocada em campo pelas elites chinesas e o processo decisório subjacente, designadamente as grandes orientações da política externa chinesa. “A questão é saber se a China praticará, ou não, a hegemonia quando ficar mais desenvolvida”, disse profeticamente Deng Xiaoping no início das reformas que definiu e impulsionou e que projectaram o gigante adormecido à condição de nova potência global. Fez a apresentação do livro o Prof. António Vasconcelos de Saldanha, catedrático do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade Técnica de Lisboa, presentemente desempenhando funções docentes na Universidade de Macau. Vasconcelos de Saldanha tem vasta e muito relevante bibliografia publicada sobre as relações luso-chinesas, dirige a revista de Estudos Asiáticos do Instituto do Oriente e foi o orientador da tese de doutoramento do autor de “A Hora do Dragão – política externa da China”. Conhecedor profundo do trabalho e do tema, fez uma bem acolhida apresentação, salientando as qualidades do autor e a importância da obra publicada.Um Estado singularDepois de vários capítulos em que são explicadas a génese e o desenvolvimento da política externa da China, bem como o exercício do poder efectivo, os desafios da ascensão geoestratégica chinesa e o seu relacionamento com outros poderes, a China é, nas conclusões, caracterizada assim pelo autor desta obra:“A China é um Estado singular. Não é comparável à Rússia e muito menos aos Estados Unidos da América. A especificidade da China – com todo o lastro cultural, político, social e histórico – é o que a torna única e particularmente interessante para o domínio das relações internacionais. O excepcionalismo chinês é a marca de água do maior dos grandes regimes comunistas, transformado, por ironia e capricho da História, no salvador do capitalismo.O comportamento da China está a provocar uma alteração da dinâmica das relações internacionais – basta lembrar que a mais importante relação bilateral mundial gira em torno da mais poderosa democracia e da potência comunista sobrevivente. Importa sublinhar, porém, que a ascensão da China só foi possível pela validação do axioma que anima o sistema internacional desde a II Guerra Mundial. Mas, como se sabe, não há paradigmas eternos. A ascensão geopolítica da China está, indubitavelmente, a provocar um impacto significativo no modo como a História contemporânea está a ser escrita.A China – não é de mais salientar – conduz uma política externa distinta das outras nações. É composta por camadas sobrepostas, que dão corpo a uma estratégia nem sempre linear, mas, ainda assim, marcada pela coerência de objectivos, de que se destacam a protecção da soberania, a promoção do desenvolvimento económico e a conquista de um estatuto de primeira grandeza no restrito grupo das grandes potências mundiais. Aborda o sistema internacional com assinalável flexibilidade, não obstante a firmeza de princípios, o que lhe confere alargado espaço de manobra. Desvinculou-se, de facto, do marxismo/maoísmo ao mesmo tempo que instrumentaliza o capitalismo. É, desse modo, uma entidade político-económica híbrida. Uma potência mundial de primeira grandeza (a insuspeita revista ‘Forbes’ elegeu, em 2010, o presidente Hu Jintao
  • 194 195 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – IX F A L A R D E N Ó S – IXcomo o homem mais poderoso do globo) com uma base social frágil (101ª posição no índice de desenvolvimento humano da ONU). A China é uma potência incompleta.Mas se é verdade que o destino da China está mais interligado que nunca à comunidade internacional, não deixam de ser notórias as trepidações provocadas por um actor internacional ‘oversized’, estruturalmente leninista e pouco disposto a abrir mão de interesses nacionais sinocêntricos. O carácter instrumental da política externa chinesa revela-se amiúde, seja na política energética, nos investimentos em África, na aquisição de títulos do tesouro norte-americano ou no auxílio financeiro à Eurozona. A esfera de influência da China alastra diariamente, potenciada por vastas reservas de dólares, fruto das transacções assimétricas com os EUA, entre outros países. Assiste-se actualmente a uma redistribuição da riqueza mundial, sendo a China, provavelmente, a principal beneficiária desse novo mapeamento com implicações directas na balança de poderes. É sabido que o poder económico compra influência política e até ambições territoriais – os EUA recorde-se, adquiriram mais de metade do seu actual território a vários países.Também a própria identidade da maior das potências asiáticas em ascensão é objecto de leituras e interpretações díspares consoante as latitudes. Para uns é uma nação em desenvolvimento, enquanto para outros é já uma potência de primeira ordem que, como tal, deverá assumir as responsabilidades condizentes com o seu novo estatuto”.Uma nação forteDe entre as conclusões deste livro, que é de leitura obrigatória para quantos queiram saber mais sobre os caminhos que este gigante asiático trilha, é que “a China quer ser uma nação forte e reconhecida mundialmente, desiderato constitucionalmente assumido”. “A liderança sabe que esse é um projecto mobilizador do nacionalismo, a nova ideologia utilitária chinesa”. “A geração que está a chegar ao poder é ela própria intrinsecamente nacionalista, estando convencida de que a China tem sido vítima de uma perseguição com origem no exterior. Sabemos igualmente que a China possui os meios e a capacidade para alterar, em grau variável, normas de comportamento da vida internacional”.Parabéns a Luís Cunha por este excelente trabalho. 3 de Outubro de 2012
  • 196 197 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – IX F A L A R D E N Ó S – IXO Seminário “Língua Portuguesa ― afirmação e valor”, levado a efeito no dia 29 de Setembro, foi mais uma realização útil e bem acolhida do Instituto Internacional de Macau (IIM) e do Observatório da Língua Portuguesa (OLP), com a colaboração e o apoio do Instituto Politécnico de Macau (IPM).Protagonizaram as intervenções o Embaixador Eugénio Anacoreta Correia, presidente do OLP, e o Prof. José Paulo Esperança, catedrático do ISCTE ― Instituto Universitário de Lisboa, tendo moderado a sessão o autor deste artigo, na qualidade de presidente do IIM, depois de uma saudação de abertura feita, em nome do IPM, pelo Prof. James Lee. Os temasOs temas das duas comunicações e dos debates subsequentes foram “Língua Portuguesa ― o Plano de Acção de Brasília e a participação da sociedade civil” e “O valor da Língua Portuguesa”.Professores e estudantes acorreram ao anfiteatro n.º 1 do IPM, além de algumas distintas autoridades, como os Cônsules-Gerais de Portugal e de Angola, o administrador da Fundação Escola Portuguesa de Macau, a presidente da Direcção da mesma Escola e responsáveis de diversos organismos académicos e culturais locais, que acompanharam interessadamente a apresentação dos trabalhos.Eugénio Anacoreta Correia explicou o conteúdo e o significado do “Plano de Acção de Brasília para a Promoção, a Difusão e a Projecção da Língua Portuguesa”, Língua Portuguesa — afirmação e valor“Se, apesar da sua reduzida dimensão geográfica e populacional, o português está hoje entre as principais línguas do mundo, a questão que se coloca é muito simples: como aproveitar esse enorme potencial que mais nenhum outro país de pequena dimensão e reduzido poder económico possui?”“Potencial Económico da Língua Portuguesa”, Texto Editores, 2012aprovado em Conselho de Ministros da CPLP ― Comunidade de Países de Língua Portuguesa, reunido no dia 31 de Março de 2010. Documento subscrito por todos os países lusófonos, esse plano aponta consistentemente os objectivos a atingir e os caminhos a trilhar para se conseguir uma cada vez maior internacionalização da língua e o seu uso em organizações regionais e de dimensão mundial. O papel da sociedade civil neste contexto foi realçado, dada a sua capacidade, por vezes, muito maior do que a do Estado, para promover iniciativas com impacto directo nas sociedades onde operam, como é o caso do OLP, que funciona exclusivamente com receitas próprias e sem apoios financeiros governamentais. O OLP foi recentemente reconhecido oficialmente como ONG para o desenvolvimento e tem como parceiros privilegiados, entre outros, a Associação Internacional de Lusitanistas, o ELOS Internacional ― Movimento da Comunidade Lusíada, a Sociedade Histórica da Independência de Portugal, a Academia Galega da Língua Portuguesa, o Instituto Internacional da Língua Portuguesa, a Universidade de Cabo Verde, o Instituto Nacional de Estatística, a Agência Lusa, o Plano Nacional de Leitura, o Instituto Internacional de Macau e, a partir de agora, também a Escola Portuguesa de Macau, com a qual foi firmado um protocolo de cooperação.José Paulo Esperança, por seu lado, como reconhecido especialista na matéria tratada, pelos estudos em que tem estado envolvido e que começaram a ser recentemente publicados, sintetizou, através de quadros em “powerpoint”, os resultados desses estudos, divulgando a situação geral das línguas no mundo, as principais línguas mundiais, a população e a riqueza dos países lusófonos, os falantes de português no mundo, o português no barómetro de Calvet, o acesso à informática,
  • 198 199 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – IX F A L A R D E N Ó S – IXa relação entre línguas latinas, os estudos mais relevantes sobre o valor económico das línguas, tendo em consideração o comércio externo, os investimentos directos estrangeiros, os fluxos migratórios e o turismo, as motivações para a aprendizagem, os factores de valorização e a notoriedade. Em conclusão, apontou algumas acções estratégicas a desenvolver: aprofundar a intercompreensão entre os utilizadores do português, com destaque para o vocabulário científico e técnico, desenvolver a actividade editorial e de produção científica do português, privilegiar o ensino do português junto dos utilizadores do idioma hipercentral (inglês) e dos países falantes do espanhol, promover a aliança com a língua espanhola, incluindo a intercompreensão e a aproximação na área editorial.Estudos apresentadosO momento alto da sessão foi o lançamento e a distribuição a todos os participantes do estudo “O valor da Língua Portuguesa: Uma perspectiva económica e comparativa”, edição conjunta do IIM e do OLP, com apoio da Fundação Macau, da autoria dos professores do ISCTE José Paulo Esperança, Luís Antero Reto, Mohamed Azzim Gulamhussen, Fernando Luís Machado e António Firmino da Costa. Na ocasião, foi também promovida a divulgação de outro importante estudo, coordenado por Luís Reto, intitulado “Potencial Económico da Língua Portuguesa”. Este estudo, publicado já em 2012 pela Texto Editores, conclui que “a língua portuguesa é hoje uma das mais influentes do mundo, com tendência para o crescimento dos seus falantes, dos utilizadores como segunda língua e da sua afirmação como língua de cultura e ciência”. De facto “os cerca de 250 milhões de falantes do português representam 3,7% da população mundial e detêm aproximadamente 4% da riqueza total”. “Os oito países de língua oficial portuguesa ocupam uma superfície de cerca de 10,8 milhões de quilómetros quadrados”, equivalente a 7,25% da superfície continental da Terra. Nas conclusões, é também referido que “num mundo cada vez mais global, o português implantou-se como língua de comunicação internacional devido a três factores principais” : 1. crescimento económico muito acentuado na última década, com destaque para Angola e o Brasil, que empresta a sua inicial à primeira letra da sigla BRIC e dos cobiçados mercados emergentes, que inclui a Rússia, a Índia e a China;2. reconhecimento de boas práticas de governo em praticamente todo o universo dos países de expressão portuguesa, com destaque para Cabo Verde, cujo ex-presidente, Pedro Verona Pires, obteve em 2011 o prémio de ‘boas práticas de governo em África’ concedido pela fundação Mo Ibrahim;3. reconhecimento internacional de personalidades e instituições do espaço lusófono, com destaque para as Nações Unidas e União Europeia, em paralelo com a afirmação internacional de empresas multinacionais, principalmente com sede no Brasil, Portugal e Angola e de universidades brasileiras e portuguesas.Uma língua é sempre um activo intangível que beneficia da economia em rede.
  • 200 201 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – IX F A L A R D E N Ó S – IX“Quanto maior o número de utilizadores, maior o benefício que cada um extrai da sua partilha”.Por feliz coincidência, a influente revista “Monocle” publicou, na sua edição de Outubro, um longo e bem fundamentado artigo, do jornalista Steve Bloomfield, com chamada para a capa, com este sugestivo título: “Generation Lusophonia: Why Portuguese is the new language of power and trade”. Acabada de chegar a Hong Kong e a Macau, aproveitei, como moderador, para divulgar o seu conteúdo naquele seminário. Reconhece-se ali, pragmática e inequivocamente, a influência crescente do português como língua em expansão e com futuro.Os estudos divulgados e este trabalho da “Monocle” merecem uma leitura atenta.8 de Outubro de 2012Justas homenagensHenrique de Senna Fernandes, saudoso Mestre e Amigo, faria hoje, 15 de Outubro, 89 anos. E, no dia 4 do corrente mês, completaram-se dois anos da sua ausência definitiva, deixando em todos quantos o conheceram um sentimento de perda irreparável. Recordo-o, sempre, com emoção e saudade, como seu antigo aluno, amigo e familiar.A emissão de um selo pelos Correios de Macau, com a sua efígie, e o lançamento de uma obra inédita – “Os Dores”, bem como a reedição de “Amor e Dedinhos de Pé”, juntamente com o anúncio, pelo Instituto Cultural, da publicação da obra completa de Henrique de Senna Fernandes, são justas e aplaudidas homenagens. O seu filho Henrique Miguel fará a apresentação do escritor e da sua obra numa sessão que se realizará, hoje mesmo, na sede da Fundação Rui Cunha. O Instituto Internacional de Macau (IIM), que lhe havia concedido o Prémio Identidade, em 2004, e outras associações locais não deixarão de se associar a estas iniciativas e de também chamar a si outras neste contexto.O cinema em MacauVem, a propósito, referir agora, neste espaço, um dos seus últimos livros publicados, sobre um tema que lhe foi particularmente caro: o cinema. Nesta cidade, que chegou a ser, conforme as estatísticas da Organização das Nações Unidas, aquela onde, em todo o mundo, a população mais frequentava as salas de projecção pública de filmes, o cinema teve uma influência relevantíssima na população, como instrumento útil Henrique e o cinema em Macau“Ao tempo, poucas formas de diversões se ofereciam no dia-a-dia de Macau, e um bom filme era uma atracção irrecusável. Mesmo com o aparecimento da televisão, nada substituiu o prazer de ir ao cinema e ver uma boa película”.
  • 202 203 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – IX F A L A R D E N Ó S – IXde valorização cultural e, especialmente, como entretenimento generalizadamente procurado. Multiplicaram-se, por isso, na primeira metade do século XX, os cinemas e os cineteatros, alguns de grande dimensão, rivalizando-se uns com os outros na selecção de filmes, no número de lugares e na qualidade dos equipamentos utilizados. Ainda no meu tempo de criança era assim: íamos muito ao cinema, ao Império, muito próximo do antigo Hospital S. Rafael (agora Consulado-Geral de Portugal), impreterivelmente todos os Sábados, ao Capitol, na rua das Mariazinhas, ao Apolo, quase ao lado do Leal Senado, ao Vitória, no início da Rua dos Mercadores, ao Oriental, na Calçada do Tronco Velho, ao Roxy, ao Cheng Peng, ao Kam Seng e a outras casas de espectáculos que se espalhavam um pouco por toda esta urbe ainda muito pacata que nos serviu de berço.Lembro-me de ser frequente vermos nas estreias o nosso querido Professor Henrique, que, nas aulas e fora delas, nos explicava, com conhecimento e entusiasmo, o significado e o conteúdo dos melhores filmes e da obra dos grandes realizadores, ao mesmo tempo que nos lançava pistas para uma apreciação crítica da qualidade dessas películas, nas suas vertentes artísticas e na mensagem que podiam encerrar. Foi ele, afinal, quem nos ensinou, em primeiro lugar, a saber “ver” os filmes e a distinguir o bom cinema.O livro“Cinema em Macau, desde o início do século XX até à década de 30” é o título do livro, que reúne artigos de Henrique de Senna Fernandes compilados pela Revista de Cultura. Edição do IIM, saiu do prelo em Novembro de 2010. Reza assim o prefácio: “Os primeiros fascículos de ‘Cinema em Macau’ foram publicados na década de 70 do século passado, no jornal ‘Confluência’. Henrique de Senna Fernandes, figura de referência da comunidade e notável contador de histórias, soube cativar a atenção dos leitores, com a sua inigualável e prodigiosa habilidade de descrever a evolução da sétima arte, desde o seu aparecimento como cinema mudo, entremeando-a com acontecimentos sociais que marcaram uma época, muitos dos quais ele próprio viveu e nos revela primorosamente.Apesar de o tema central ser o cinema, o autor discorre sobre ocorrências relevantes na sociedade macaense, desde a instalação da iluminação pública até às primeiras décadas do século XX. Não só sobre os espectáculos e projecções de filmes que não deixaram ninguém indiferente, mas também sobre acontecimentos paralelos e a influência que tiveram na abordagem dessa arte visual, por parte dos habitantes do território. As referências às casas de espectáculos e aos seus proprietários, às projecções mais badaladas e às reacções do público, sempre acompanhadas de eloquentes recortes de jornais e boletins informativos da época, são de uma minúcia extraordinária. A exposição cronológica bem estruturada dos factos atribui ao texto características de documento histórico. Ao tempo, poucas formas de diversões se ofereciam no dia-a-dia de Macau, e um bom filme era uma atracção irrecusável. Mesmo com o aparecimento da televisão, nada substituiu o prazer de ir ao cinema e ver uma boa película.A série de artigos foi compilada pela Revista de Cultura que, na década de 90, iniciou a sua republicação, fazendo-a também em versão inglesa. Dado o evidente interesse e valor dessa obra, vem o IIM dar-lhe uma forma mais perene e memorável. Estamos certos de que o público a apreciará, tanto como nós.”
  • 204 205 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – IX F A L A R D E N Ó S – IXDe facto, é extremamente interessante e educativo ler este livro. Ali estão bem traduzidos costumes locais e apontados acontecimentos relevantes de uma fase de crescimento do território, na viragem do século XIX para o século XX. São também reproduzidos artigos de jornais e imensa documentação sobre os mais marcantes filmes aqui apresentados ao longo de três décadas.Conforme o autor, “Macau conheceu o cinema, já na primeira década do século passado, cerca de uma dúzia de anos depois de os irmãos Lumière, em 1895, inventarem a primeira máquina de projecção de fotografias em movimento. E isto só quando, na Cidade do Nome de Deus, foi instalada a iluminação eléctrica”.Não só foi polémica a instalação da electricidade, que não foi vista por todos como uma necessidade, como a própria introdução do cinema começou por ser recebida com desconfiança e algum desprezo, dado que, para a alta sociedade local, o que contavam eram as récitas e os concertos do Teatro D. Pedro V, “então muito activo, a que se ia de trajo de rigor, costume este que perdurou até ao advento da Segunda Guerra Mundial”.Com o tempo, porém, o cinema foi ganhando um espaço próprio, passando a fazer parte da vida da população de Macau, que foi acompanhando entusiasticamente os progressos crescentes da sétima arte.Um prémioDois anos após o falecimento do escritor, figura de referência incontornável da comunidade macaense, é tempo de avançarmos com a criação do Prémio Henrique de Senna Fernandes. António Estácio, velho residente de Macau, defendeu esta ideia numa intervenção sua numa conferência em Lisboa. Insistiu depois comigo para que, na hora oportuna, se lançasse esta sugestão. Faço-o agora, depois de ter conversado já sobre a mesma com Miguel de Senna Fernandes. Vamos avançar agora.16 de Outubro de 2012
  • 206 207 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – IX F A L A R D E N Ó S – IXEstão de parabéns o Instituto Cultural do Governo da RAEM e a família do saudoso e sempre lembrado escritor macaense pela feliz decisão de publicar a “Obra Completa de Henrique de Senna Fernandes”, assim como a Fundação Rui Cunha, em cujas aprazíveis e bem situadas instalações se procedeu à apresentação dos dois primeiros volumes desta nova colecção. São eles “Os Dores”, romance inacabado dado ao prelo pela primeira vez, e “Amor e Dedinhos de Pé”, apreciadíssimo romance que conhece agora a sua 5.ª edição. O 3.º volume será “A Trança Feiticeira”, outra consagrada obra, a que se seguirão compilações de textos avulsos e outros trabalhos, entre alguns já publicados e outros ainda inéditos. A cerimónia, muito agradável, concorrida e sentida, realizou-se precisamente na data (15 de Outubro) em que Henrique de Senna Fernandes completaria 89 anos de idade, tendo cabido ao filho Miguel a apresentação do escritor e da sua obra. Usaram também da palavra o presidente do Instituto Cultural, Guilherme Ung Vai Meng, e Rui Cunha, respeitado causídico e presidente daquela Fundação, seguindo-se breves e muito expressivas evocações feitas por seis grandes amigos e admiradores: Amélia António, Carlos Marreiros, Yao Jingming, Helena Vale, Leonor Seabra e Luís Machado. A apresentaçãoO prefácio, que é idêntico nesses dois primeiros volumes, sintetiza muito bem a apresentação que Miguel de Senna Fernandes fez, de improviso, na sessão:“(...) Henrique de Senna Fernandes revela-se na sua obra, que vai muito além do que os nossos olhos e convívios nos permitem aperceber. Ao ler Amor e Dedinhos de Obra completa de Henrique de Senna Fernandes“Continuo andando, embora com passos lentos,Mas o que vos legarei não é o meu vulto.O sol brilha tanto que iluminou todas as sombras.Ah! Ainda não gastei tudo o que me ilumina”.Yao JingmingPé, tive a sensação de ter desencantado um baú de experiências e de visões de que não se tem conto, mas guardadas à espera de serem descortinadas. (Re)descobri o meu pai, passei a olhar para ele com outros olhos. Surpreendeu-me uma personalidade complexa e multidimensional que se desenvencilhava das suas palavras, entre linhas. Exímio contador de histórias, Henrique de Senna Fernandes, vivia ao mesmo tempo uma miríade de pequenos grandes mundos, cada um com a sua nuance e individualidade muito próprias, sem se saber ao certo qual teria sido o prioritário.Certamente, não seria aqui a sede própria para os descrever. Irei tão-só partilhar algumas considerações sobre o que entendo ser do mais típico do universo de Henrique de Senna Fernandes.Primeiro, Macau é a razão de ser da sua escrita e a base da sua inspiração. “Cantar Macau é a minha paixão”, tantas vezes proferido em conversa informal e despretenciosa que tinha comigo ou com os seus amigos mais chegados. O que não surpreende. Na sua obra, qualquer canto de Macau, seja avenida, seja calçada, beco ou pátio, tem o seu encanto e respira de vida, como se dando voz activa na narração da história em causa. Esteja onde estiver o personagem retratado, há-de ele reportar-se a Macau, mais cedo ou mais tarde.Mas, a Macau de Henrique de Senna Fernandes, não é a cidade hodierna que conhecemos, fustigada pelos ventos da modernidade e órfã do seu âmago e das suas características seculares. O seu burgo é bem mais simples e de dimensões muito menores, onde todos se conhecem, onde reina a serenidade e se prezam os brandos costumes. É a Macau de céu imenso e de mar à porta, a Macau dos bairros, das tunas
  • 208 209 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – IX F A L A R D E N Ó S – IXe dos assaltos do Carnaval, a Macau das beatas, da chuchumequice e do mal-dizer, a Macau das fontes e dos poços, a Macau das tranças, da Felicidade, do cheong sam e das pi-pá-chai, Macau dos cúles, pregões e tin-tins.O leitor é irremediavelmente atraído por uma viagem no tempo e – como foi o meu caso – terá pena de lá sair, pelo fascínio de um mundo que deixou de existir, mas tão eloquentemente reavivado pelo autor.Porém, Henrique de Senna Fernandes não se limita apenas ao mero embevecimento pela sua terra. Esta é também feita de homens e mulheres cujas vidas se entrecruzam de milhentas formas, quantas vezes fora de quaisquer planos e expectativas. E aí intervém o que sempre o fascinou: o acaso e o fortuito. Caminhos que se trilham, sonhos que se desvanecem, vidas que se fazem e se desmantelam, por um simples gesto, uma palavra ou um mal entendido. A vida excita porque nada está predeterminado e porque estamos à mercê dos caprichos que a interacção humana ironicamente comporta. Em A Trança Feiticeira, por exemplo, a desfeita e humilhação do Belo Adozindo junto ao poço de Cheok Chai Un, despoletou a sua paixão pela aguadeira A-Leng, em sacrifício da sua família e de um futuro promissor.A vida é feita de contrariedades e o fortuito espreita a cada esquina. Se isto não é novidade para ninguém, Henrique de Senna Fernandes faz dele um ostensivo culto.Mas é no feminino que se descobre o eixo da sua obra. A Mulher tem nela um lugar privilegiado. Contudo, a nossa heroína não é a mais bela segundo os padrões de beleza comummente aceites. Não é uma deusa e, seguramente, não tem vida fácil. A Mulher de Henrique de Senna Fernandes, no seu caminho para a glória sofre, cai, experimenta a dor da rejeição, da solidão e da humilhação. Victorina, A-Leng e Leontina são exemplos bem ilustrativos.No entanto, a par da provação está uma personalidade determinada e resistente a todas as intempéries. Pode fraquejar, mas ela levanta-se sempre. Em contraste, o herói é formoso, quase perfeito, mundano, conquistador, adulado, inteligente, com os melhores atributos que se possam imaginar. Mas é fraco, condição que lhe valerá a brutalidade da sua queda. E no desespero de uma vida subcanina a que chega reencontra a Mulher com quem se resgata e se redime. Ela é a sua âncora, o norte do seu rumo perdido e o seu novo sentido de vida. No seu dom do perdão reside, pois, a sua mais sublime beleza.Ler Henrique de Senna Fernandes é ler Macau e as suas gentes, explorar a sua alma e evocar a sua memória.”Macau, uma paixãoUm vistoso folheto, contendo fotografias e uma nota biográfica do escritor, em português, chinês e inglês, resumindo um rico e apaixonante percurso, foi na altura distribuído. A comunidade macaense revê-se, com justificado orgulho, no trajecto de vida daquele que foi seu “decano” e, para muitos, o exemplo vivo duma identidade que, apesar de tudo, persiste e se enriquece.Como tão bem definiu o poeta e professor Yao Jingming, em versos que lhe dedicou no livro “O Olhar de Henrique de Senna Fernandes – Fragmentos” (Lúcia Lemos e
  • 210 211 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – IX F A L A R D E N Ó S – IXYao Jingming, Fundação Jorge Álvares e Instituto Internacional de Macau, 2004), o seu legado não é o seu vulto. “O sol brilha tanto que ilumina todas as sombras”. Como “filho da terra”, podemos todos exclamar com ele: “Escutem! O palpitar do meu coração / corresponde à alma desta terra”. Macau foi a sua maior paixão!22 de Outubro de 2012Sob a coordenação geral do Prof. Sonny Lo, director do Departamento de Ciências Sociais do Hong Kong Institute of Education, e com a orientação académica do Prof. Ming K. Chan, do Centro de Estudos da Ásia Oriental da Universidade de Stanford (EUA), uma importante conferência sobre “Trust-Building and Governance in Hong Kong and Macao” atraiu figuras de proa das estruturas políticas de Hong Kong para debaterem com professores e investigadores questões pertinentes relativas ao funcionamento e à capacidade de resposta dos governos das duas regiões administrativas especiais da China, bem como ao seu relacionamento com as respectivas populações. De Anson Chan, ex-secretária-chefe do Governo Britânico de Hong Kong e fundadora da Citizens’ Commission on Constitutional Development, um agrupamento cívico promotor da democracia, do sufrágio universal e de reformas constitucionais, a Regina Ip, membro do Conselho Legislativo, presidente do New People’s Party e ex-secretária para a Segurança do Governo da RAEHK, passando por Alan Lee, ex-membro dos Conselhos Legislativo e Executivo e antigo presidente do Liberal Party, Albert Ho, presidente do Hong Kong Democratic Party e membro do Conselho Legislativo, Andrew Wong, antigo presidente do Conselho Legislativo, Bruce Liu, presidente da Hong Kong Association for Democracy and People’s Livelihood e ex-membro do Conselho Legislativo Provisório, Leung Kwok Hung, membro do Conselho Legislativo e presidente da League of Social Democrats, Tam Yiu Chung, membro do Conselho Legislativo e presidente do partido pró-governamental Alliance for the Betterment and Progress of Hong Kong, e Margaret Ng, advogada, ex-membro do Conselho Legislativo e apreciada colunista do South China Morning Post, algumas das maiores estrelas do firmamento político da RAEHK desfilaram pelo salão do Conselho Académico daquela instituição de ensino superior, acompanhados por um batalhão de jornalistas da Macau em importante encontro académico-político em Hong Kong“Considerámos relevante, oportuno e muito significativo incluir um painel sobre a RAEM nesta conferência e convidámos para o integrarem alguns dos mais reconhecidos especialistas em assuntos de Macau”.Prof. Sonny Lo, coordenador da conferência
  • 212 213 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – IX F A L A R D E N Ó S – IXimprensa, rádio e televisão, que fizeram as suas reportagens e entrevistas nos espaços anexos, uma vez que a conferência foi realizada à porta fechada, com a participação exclusiva dos políticos e académicos convidados.Foi um exercício assaz enriquecedor, na medida em que se apreciaram em profundidade e com total abertura e liberdade assuntos político-administrativos de Hong Kong, tendo sido também organizados painéis próprios dedicados a Macau e a Taiwan.O programaVárias sessões preencheram os dois dias (19 e 20 de Outubro passado) escolhidos para a conferência, com muitas intervenções críticas, a primeira das quais com o enfoque no tema “Trust-Building and Governance in Hong Kong”, que envolveu académicos do Hong Kong Institute of Education e das Universidades de Stanford e Lingnan, além do antigo presidente do Conselho Legislativo, Andrew Wong, e o ex-secretário para a Função Pública do Governo da RAEHK, Joseph Wong, eles próprios igualmente professores do ensino superior.Professores das três maiores universidades da RAEHK (Universidade de Hong Kong, Universidade Chinesa de Hong Kong e Universidade da Ciência e Tecnologia) discutiram, na sessão seguinte, o tema “Beijing, the Basic Law and Trust-Building in Hong Kong” com Brian Fong, vice-presidente do “think-tank” SynergyNet e conhecido comentador político, e Margaret Ng, respeitada analista de assuntos jurídico-constitucionais. Duras críticas foram feitas ao Governo da RAEHK, pela erosão acentuada da confiança da população e pelas interferências, consideradas ilegítimas, das autoridades centrais na gestão pública, contrariando os princípios consignados na Lei Básica.Considerando que o programa era intenso, até o almoço foi preenchido com uma interessante, bem estruturada e viva comunicação sobre “To Trust or Not to Trust: That is the Question”, de George Cautherley, vice-presidente da Hong Kong Democratic Foundation, em que se confrontaram os conceitos de confiança, credibilidade, legitimidade, responsabilidade e governabilidade, no âmbito da gestão pública, merecendo o autor rasgados elogios e recebendo, de imediato, convites para repetir a mesma comunicação em diversos outros estabelecimentos de ensino superior.As sessões seguintes foram sobre “Public Opinion and Political Trust in Hong Kong”, com intervenções de professores do Hong Kong Institute of Education e das Universidades de Hong Kong, Baptista de Hong Kong, e Politécnica de Hong Kong, e sobre “Youth and Trust-Building in Hong Kong”, com comunicações de professores de algumas universidades já referidas. A opinião pública, a sua manipulação e a livre expressão, bem como as políticas de juventude, o individualismo e o paternalismo político foram alguns dos assuntos acesamente debatidos. Particularmente incisiva foi a pergunta (que foi o título de uma das comunicações) “Is C. Y. Leung Trustworthy?” (é C. Y. Leung, o Chefe do Executivo, confiável?), que provocou respostas diversas, algumas das quais contendo conclusões depreciativas, baseadas em estudos de opinião e em análises da prestação do Governo, especialmente a partir da tomada de posse do seu actual Chefe.É de registar – não obstante tantas queixas veiculadas na comunicação social – a enorme abertura com que questões sensíveis de natureza política continuam a poder ser tratadas no âmbito académico, sem provocar constrangimentos de qualquer origem.
  • 214 215 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – IX F A L A R D E N Ó S – IXPainel sobre MacauNa manhã seguinte, Anson Chan e Alan Lee foram o centro das atenções num diálogo de elevado cariz político sobre a evolução da RAEHK, e as demais personalidades políticas atrás referidas protagonizaram um fórum, com o formato de mesa redonda, moderado pelo Prof. Sonny Lo, sobre “Political Parties and Trust-Building in Hong Kong”. Juntaram-se-lhes, para o efeito, mais dois políticos (Raymond Wong, do People Power, e Gary Fan, do grupo New Democrats) e o jornalista Chris Yeung, do Hong Kong Economic Journal.Durante a tarde, tiveram lugar os painéis respeitantes a Macau e a Taiwan, ambos despertando bastante interesse dos presentes, sendo o segundo concentrado nas mudanças durante o processo de democratização e nos surpreendentes desenvolvimentos nas relações com a China continental.Coordenado pelo Prof. Jean-Pierre Cabestan, director do Departamento de Estudos Internacionais da Universidade Baptista de Hong Kong, a sessão sobre Macau foi aberta pelo autor deste artigo, na qualidade de presidente do Instituto Internacional de Macau (IIM), a quem fora solicitada uma exposição circunstanciada sobre o processo de transição de Macau, cujo título foi “A Political and Administrative Transition: The Macau Handover and Beyond”, em que foram identificadas as prioridades políticas desse período, bem como as condições alcançadas para uma passagem do testemunho suave e em plena conformidade com as decisões acordadas pelos dois Estados com legitimidade de intervenção neste contexto, sendo também explicado o início do funcionamento da RAEM.Seguiram-se intervenções de um professor da Universidade de S. José (Eric Sautedé, “Political Change in Macao: The Many Challenges of Complexity and Sophistication”) e de três professores da Universidade de Macau, todos do Departamento de Administração Pública (Bill Chou, Bruce Kwong e Newman Lam), que apresentaram, respectivamente, as seguintes comunicações: “Private Party as Usual: Public Sector Reform and Public Consultation in Macao”, “Cash Handout Policy of Macao and Hong Kong: Public Choice or No Easy Choice?”, e “The Impact of Macao’s Gaming Liberalization on the Government’s Performance Legitimacy”. Comentou estas comunicações o Prof. Herbert S. Yee, professor visitante da Universidade de Macau, que foi um dos pioneiros em estudos sobre Macau realizados no meio académico de Hong Kong, nas décadas de 80 e 90. Foram comunicações equilibradas, ainda que, em certa medida, críticas, sobre a evolução da RAEM, os desafios que se colocam ao seu desenvolvimento, tendo merecido grande atenção a análise sobre o impacto da liberalização do jogo no funcionamento do Governo de Macau, em todas as suas implicações positivas e negativas, e ainda o alcance e os critérios das recentes políticas de subsídios à população, tema que gerou alguma controvérsia.O Prof. Sonny Lo e o Prof. Ming K. Chan salientaram a importância desta presença de Macau num encontro com este significado e dimensão e expressaram o desejo de que esta presença volte a afirmar-se em iniciativas idênticas no futuro. São oportunidades que a RAEM não deve perder e que o IIM, pelas parcerias já estabelecidas, não deixará de suscitar.30 de Outubro de 2012
  • 216 217 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – IX F A L A R D E N Ó S – IXTrês painéis com um total de 16 palestrantes integraram o colóquio intitulado “Macaenses – um olhar colectivo sobre a comunidade”, levado a efeito nos dias 27 e 28 de Outubro, no auditório da Escola Portuguesa de Macau, gentilmente cedido para o efeito. Organizado pela Associação dos Macaenses e moderado pelo seu presidente, Miguel de Senna Fernandes, esta importante e oportuna iniciativa alcançou, na opinião de muitos dos que acompanharam a sua realização, o sucesso desejado e merecido, não só pelo elevado número de participantes, que chegaram a lotar aquele recinto, como também pela qualidade e diversidade das intervenções e pela vivacidade dos debates subsequentes. Desinibida e frontalmente, discutiu-se o presente e o futuro da comunidade macaense, podendo os resultados ser considerados muito positivos. Está, pois, de parabéns, a associação que o promoveu, sendo visível, no fim, a satisfação do seu presidente que, de imediato, prometeu mais encontros como este no futuro próximo.Economia e políticaNo painel dedicado à Economia, foram oradores Rita Santos, José Sales Marques, António J. Monteiro e Jorge Neto Valente (Filho), que apresentaram, respectivamente, as seguintes comunicações: “O Macaense na Concretização do Papel de Plataforma das Relações Económicas e Comerciais entre a China e os Países de Língua Portuguesa”, “Macaenses no séc. XXI, que perfil socio-económico?”, “O Macaense no contexto socio-económico de Macau” e “Híbridos no mundo económico: Macaenses em Macau”. A vocação de Macau como plataforma de cooperação da China com o mundo lusófono e as oportunidades que se abrem aos macaenses neste contexto, os desafios que se lhes colocam na RAEM, no âmbito profissional e económico, as dificuldades Uma reflexão oportuna sobre a comunidade“A resposta muito positiva da comunidade incentiva-nos a avançar para novas realizações como esta.”Miguel de Senna Fernandes, moderador do colóquioexperimentadas no acesso ao emprego e a uma melhor qualidade de vida e a inserção actual do macaense no mundo económico e as suas vantagens comparativas foram algumas das principais questões abordadas na manhã de Sábado, dia 27. No mesmo dia, durante toda a tarde, as atenções voltaram-se para a Política, tendo a primeira intervenção pertencido ao autor deste artigo, que procurou identificar as várias formas de participação cívica e política abertas a membros da comunidade, seguindo-se uma comunicação de Jorge Fão, lida por Frederico Cordeiro, em que se fez uma análise correcta da participação nas sucessivas eleições legislativas locais, ao mesmo tempo que se apontaram as vias mais convenientes para a comunidade macaense. Coube depois a vez a André Ritchie (“A cidade em transformação: ‘líder’, ‘união’ e ‘lista única’, conceitos necessários para o Macaense?”) e Fernando C. Gomes (“Comunidade Macaense sã assi mesmo?”), que fizeram lúcidas e estimulantes apreciações sobre as transformações físicas e humanas operadas em Macau e sobre os condicionalismos existentes no envolvimento da comunidade macaense na vida pública. Fechou o painel José Pereira Coutinho, que referiu, com base na sua própria experiência como deputado e presidente da Associação dos Trabalhadores da Função Pública, problemas, dificuldades e injustiças verificados na RAEM e defendeu uma maior capacidade de resposta da comunidade.IdentidadeComo já se esperava, a sessão sobre Identidade Macaense, que decorreu ao longo de mais de cinco horas no dia 28, Domingo, foi a que atraiu mais público e contou com maior número de intervenções.
  • 218 219 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – IX F A L A R D E N Ó S – IXHugo Silva, Jr. (“Nós, quem? – Uma conversa com a malta”), Cecília Jorge (“Sobrevivência e identidade”) e Sérgio Perez (“Macaense – a importância dessa definição”) quiseram, em intervenções muito bem acolhidas e sob perspectivas diversas, caracterizar a identidade macaense, hoje, no contexto duma RAEM em acelerado desenvolvimento e face às ameaças conhecidas de descaracterização. Oportuníssimo foi, logo a seguir, o apelo de Anabela Ritchie (“O uso e o domínio do português na Comunidade Macaense – uma chamada de atenção”) a uma valorização da língua portuguesa e ao seu maior uso no contexto familiar.“À mesa nos conhecemos: a Gastronomia na Identidade Macaense” foi o título que Luís Machado escolheu para o seu apontamento sobre as origens e a evolução histórica da gastronomia macaense e sobre a sua relevância como factor identitário, sendo atribuída ao autor deste artigo (“Ser Macaense, hoje”) e a Carlos Marreiros (“Macau-Filo, que amanhã?”) a responsabilidade de sintetizarem e complementarem as intervenções anteriores, definindo o macaense no presente e face aos renovados desafios que se lhe colocam no porvir.Muito animados foram os debates, todos moderados por Miguel de Senna Fernandes, que soube lançar novas interrogações à assistência, ampliando significativamente o seu envolvimento activo na sessão.Ser MacaenseNuma das comunicações que apresentei no colóquio, retomando uma entrevista que me foi feita em Novembro de 2004 pelo órgão informativo da Associação dos Macaenses, “A Voz”, achei por bem contribuir com uma definição do macaense: “Muito mais do que a natureza étnica ou até o local de nascimento, podemos, hoje, dizer que ser Macaense é um estado de alma. Macaense é alguém intrinsecamente ligado a Macau, sentindo esta terra como sua, amando-a e tendo-a no cerne das suas preocupações e como referência permanente. É alguém que se identifica com o património cultural que constitui nosso legado comum, reconhece aqui as suas raízes e tem na memória vivências de Macau. É alguém que tem um forte sentido de pertença aos dois mundos que aqui tiveram o seu ponto de encontro mais fecundo e duradouro. É alguém dotado de uma enorme capacidade de adaptação a todas as circunstâncias. Ser Macaense é compreender, sentir e assumir, por inteiro, esta jóia ímpar, física e humana, chamada Macau.”Quanto ao papel ou a importância do macaense na RAEM, nomeadamente na aplicação do princípio “um país, dois sistemas”, adiantei esta resposta:“Desnecessário será salientar o papel da comunidade ao longo da história de Macau. Todos o reconhecem e ninguém poderá negar a sua contribuição determinante para a construção do Macau dos nossos dias. O Macaense foi, ao longo de séculos, o sustentáculo humano da Administração de Macau e teve uma intervenção cívica relevantíssima em todas as áreas de actividade, fazendo funcionar as instituições locais e criando ou colaborando na criação de muitas delas.Nesta nova Macau, agora região administrativa especial da China, a sua permanência e a sua acção continuam a ser da maior importância para a afirmação e consolidação do segundo sistema, na aplicação plena do princípio ‘um país, dois sistemas’ que inspirou o estabelecimento da RAEM.”
  • 220 221 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – IX F A L A R D E N Ó S – IXA propósito das Casas de Macau, espalhadas por várias partes do mundo, foi-me perguntado se se pode falar de uma cultura comum, uma “cultura macaense”, e quais os traços mais marcantes dessa cultura. Expressei então esta opinião:“Sim, há traços comuns que são a expressão duma identidade cultural própria, nas raízes que prenderam para sempre as pessoas à terra-mãe; no rumor luso de um outro tempo da Pátria distante que trouxe até aqui o abraço que estendeu ao mundo; na forma de estar na vida; no espírito comunitário que torna possíveis as Casas de Macau e outras agremiações macaenses; nas memórias da juventude e dos caminhos percorridos com outros membros da mesma comunidade; na culinária, tão distinta e que resulta de um prolongado encontro de culturas; nos convívios e noutras manifestações sociais; no doce dialecto macaense que a maioria ainda conhece, embora já não utilize como instrumento de comunicação; na miscigenação naturalmente assumida; na adaptabilidade a novas circunstâncias e a outros lugares e outras gentes; nos valores cristãos que a maioria cultiva; e no forte sentido de pertença a mundos diferentes.”Lembrei também que os Macaenses sempre assumiram com orgulho a sua condição de portugueses, além de legalmente o serem. É este, aliás, um traço fundamental da sua personalidade e da sua identidade. Eis um contributo para uma definição e uma caracterização que, em próximos colóquios, poderá ser enriquecido com novas achegas neste espírito de abertura que marcou esta reflexão colectiva da comunidade sobre si própria.5 de Novembro de 2012O conhecido jornalista brasileiro Carlos Tavares de Oliveira, que muito tem escrito sobre a China ao longo das últimas décadas, facultando ao grande público um conhecimento actualizado sobre a evolução e rápida ascensão deste gigantesco país asiático, passou a incluir também Macau nos seus artigos e crónicas, depois de ter participado, como orador, em iniciativas conjuntas do Instituto Internacional de Macau (IIM), do Instituto Brasileiro de Estudos da China e Ásia-Pacífico (IBECAP) e da Confederação Nacional do Comércio (CNC) do Brasil. Em resultado da sua última deslocação, em Setembro, para a primeira parte do seminário “O papel de Macau no intercâmbio sino-luso-brasileiro”, este ano realizado em cinco cidades de três continentes, ofereceu-nos, através do último número da revista “Portos e Navios” (Novembro 2012), esta sua visão sobre a ligação histórica da China ao Brasil que Portugal viabilizou através de Macau:No IIM“Na primeira etapa desta nova visita à China, na antiga colônia portuguesa de Macau, em rápida pesquisa, tomei conhecimento de interessantes fatos históricos que deram origem às relações entre o Brasil e o gigante asiático. Inicialmente, devo informar que participei do 4º Seminário sobre o Intercâmbio Comercial Macau-China-Brasil, patrocinado, em conjunto, pelo Instituto Internacional de Macau (IIM), a Confederação Nacional do Comércio (CNC) e o Instituto Brasileiro de Estudos da China e Ásia-Pacífico (Ibecap). Como a língua portuguesa continuou como idioma oficial (junto com o mandarim/ chinês), tornaram-se fáceis não só as pesquisas como os debates, as palestras dadas pelo Portugal ligou a China ao Brasil através de Macau“Em 2014 essa rica região do delta terá novo estímulo para sua economia/turismo, devido à conclusão da ponte — a maior do mundo, com 50 km — que ligará as prósperas cidades de Macau, Hong Kong e Zhuhai”.
  • 222 223 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – IX F A L A R D E N Ó S – IXcolunista, e também as do cônsul geral de Portugal, Manuel Carvalho, e dos presidentes do IIM, Jorge Rangel, e do Ibecap, Severino Cabral. O Seminário realizou-se no auditório da ampla e bem estruturada sede do IIM, onde toda a equipe fala correntemente o português. Esse ótimo ponto de referência/informação para os empresários brasileiros situa-se na rua Berlim,204, email iim@iimacau.org.mo e tel 853 – 2875-1727.Brasil-ChinaCom seu extraordinário senso comercial, em 1557 – logo após o descobrimento do Brasil – os portugueses conseguiram autorização do imperador chinês para se instalarem em Macau, ao Sul, no delta do rio das Pérolas, perto das cidades de Cantão e Zhuhai. Ali começaram a negociar legalmente as preciosas porcelanas e sedas chinesas, além do chá, que trocavam por barras de prata (uma espécie de moeda internacional da época). Procedendo corretamente os portugueses logo conquistaram permanentemente a confiança e a simpatia dos chineses. Ao contrário dos ingleses que, depois, nos anos 1840/60 – insuflados pela Cia. Britânica das Índias Orientais e a Jardine Matheson – com auxílio de tropas francesas, alemãs e americanas, na deplorável Guerra do Ópio, invadiram Xangai para trocar aqueles valiosos produtos locais (principalmente as sedas e porcelanas) não por prata, mas pela droga, que envenenou milhões de chineses.Na realidade, a primeira notícia que se tem sobre as relações Brasil-China ficou registrada na carta de 6 de março de 1809, do governador de Macau, Brum da Silveira, ao príncipe regente D. João, que, um ano antes, chegando de Portugal a Salvador (Bahia) expediu a carta-régia da ‘abertura dos portos às nações amigas’. Naquela missiva, julgando a falta de suficientes braços para a criação da nova capital (no Rio), Brum da Silveira oferecia trabalhadores especializados, com a recomendação: ‘sendo conhecido quanto os chinas são ativos e industriosos’. Apesar da distância (vários meses de viagem) houve farta troca de correspondência da Corte, no Rio, a cargo do secretário de Estado, conde de Linhares, com o governador de Macau, entre 1809/14, tratando não só da vinda de trabalhadores especializados para a agricultura, carpinteiros/marceneiros para os estaleiros e a indústria de louças, recrutados em grandes centros chineses. Além da importação de mudas e sementes de chá que foram plantadas na encosta do Corcovado até a Lagoa, onde hoje situam-se os bairros de Botafogo, Jardim Botânico, e a Vista Chinesa, no Rio. Vieram também mudas de bambu, laranjeira, abacateiro, mangueira e outras. Naqueles primeiros anos, mais de 300 trabalhadores chineses qualificados entraram no Rio e em Salvador, recebendo bons ordenados. Os carpinteiros/marceneiros tinham salário mensal de 8 mil réis e os colonos agrícolas, com vantagem de casa/ comida, recebiam a metade, 4 mil réis. Essas e outras interessantes informações, que retificam não só dados sobre o verdadeiro início das relações com a China, mas também quanto à própria história nacional, como aprendemos na escola, estão contidas no livro ‘Chineses e Chá no Brasil’, do escritor Carlos Francisco Moura, lançado no Seminário. As cartas – evidentemente escritas à mão em bom português da época – são ali reproduzidas de forma nítida.Posteriormente, em setembro de 1880 foi assinado o primeiro tratado de comércio/navegação entre o Brasil e a China, com a criação do consulado brasileiro, em Xangai, em 1883.
  • 224 225 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – IX F A L A R D E N Ó S – IXCom essa considerável tradição, os empresários da cidade – devidamente reanexada à China em 1999 como Região Administrativa Especial de Macau (RAEM) – oferecem a trepidante metrópole ao Brasil como base de negócios de exportação/ importação/investimentos nessa importante área econômica do delta do rio das Pérolas.Macau hojeAlém da península de Macau, integram a RAEM as ilhas de Taipa e Coloane, com área total de 29 km2. Sensatamente, após a reanexação, o governo chinês continuou autorizando o jogo, que se expandiu oferecendo extraordinária movimentação ao turismo. Em pleno funcionamento, existem 33 casinos e 62 excelentes hotéis de 4 e 5 estrelas, servindo aos cerca de 30 milhões de turistas que anualmente chegam a Macau. Com os casinos faturando mais de US$ 30 bilhões – três vezes acima de Las Vegas – Macau é considerada a capital mundial do jogo e recebeu da UNESCO o título de Patrimônio Mundial da Humanidade.Evidentemente, com o jogo legalizado e fiscalizado pelo governo, não existem meliantes nem lavagem de dinheiro, destinando-se os respectivos tributos (34%) aos setores de educação e saúde. Vigorando plenamente a economia de mercado, como na vizinha Hong Kong, as grande multinacionais do jogo estão presentes, como a Four Seasons, a Winn e a Las Vegas Sands, que controla o imponente hotel-cassino Venetian, talvez o maior do mundo, com 3 mil luxuosas suítes. Como fruto da excelente situação econômica de Macau (com 560 mil habitantes) a renda per capita subiu a mais de US$ 40 mil, uma das maiores do planeta.Em 2014 essa rica região do delta terá novo estímulo para sua economia/turismo, devido à conclusão da ponte – a maior do mundo, com 50 km – que ligará as prósperas cidades de Macau, Hong Kong e Zhuhai. Esta última, centro de importante Zona Econômica Especial, dispondo de porto e várias indústrias instaladas, tem interesse em estabelecer negócios com o Brasil, possivelmente através de representações localizadas em Macau.A propósito, contatos e melhores informações sobre a região podem ser obtidos também no Instituto de Promoção do Comércio e Investimento de Macau – IPIM, na Avenida da Amizade, 818 – tel 853 – 2871-0300, e-mail ipim@ipim.gov.mo. E os empresários brasileiros não precisam levar seus ‘notebooks’, de vez que os principais hotéis de Macau – como os de outras grandes cidades chinesas – dispõem de computadores nos quartos, ou em salas especiais. E as TVs instaladas tem acesso – sem censura nem proibição – às redes internacionais, da Europa e Estados Unidos.Por último, em Macau mantive interessante entrevista com o ministro da Economia de Portugal, Álvaro Santos Pereira, comentando os objetivos do Seminário de estimular o intercâmbio do Brasil com a China através de Macau, onde, de fato, tiveram início as relações entre as duas nações.”Para que os leitores possam saber o que de positivo se escreve lá longe sobre nós, achei por bem inserir o trabalho de Carlos Tavares de Oliveira neste espaço, ao mesmo tempo que desejo a este respeitado jornalista e conselheiro comercial os maiores sucessos neste seu louvável esforço de divulgação da China e de Macau no Brasil.12 de Novembro de 2012
  • 226 227 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – IX F A L A R D E N Ó S – IXDepois de tantas actividades ligadas ao mundo lusófono realizadas em Macau nos últimos meses (seminários, cursos, palestras, mostras comerciais, exposições de arte e artesanato, provas de vinhos, jornadas de gastronomia, espectáculos, apresentação de edições, visitas e reuniões de entidades), também os gestores de instituições académicas escolheram esta região especial para a sua 2.ª Conferência no âmbito do Fórum da Gestão do Ensino Superior nos Países e Regiões de Língua Portuguesa, tendo como anfitrião o Instituto Politécnico de Macau (IPM).Ao longo de três dias de bem participadas reuniões, de 6 a 8 do corrente mês de Novembro, com comunicações de reconhecida qualidade e utilidade e debates vivos, esclarecedores e correctamente moderados, Macau foi palco de mais um importante encontro e soube contribuir para uma estimulante partilha de experiências e de opiniões sobre algumas das mais pertinentes questões ligadas ao funcionamento de universidades e centros de estudos, que são a sua gestão e sustentabilidade, face aos desafios do crescimento e à carência de recursos financeiros, a aposta reforçada na qualidade e na inovação e a avaliação continuada dos programas e das instituições.FORgESFoi, precisamente, com estas preocupações, comuns a todas as instituições de ensino superior, que foi criada a associação FORGES – Fórum da Gestão do Ensino Superior nos Países e Regiões de Língua Portuguesa, que entrou agora em fase decisiva de consolidação, depois de ter conseguido uma ampla adesão de universidades, institutos e centros de estudos e de investigação dos países de língua portuguesa.gestão do ensino superior no espaço lusófono discutida em Macau“Decorrendo da experiência reunida ao longo dos últimos anos, concluímos que havia – por parte das instituições de ensino superior do espaço lusófono – a necessidade de dispor de um fórum adequado às suas próprias condições e identidade.”No seu documento de apresentação, são assim justificados os propósitos que presidiram à sua criação:“Nas últimas décadas, o Ensino Superior tem conhecido uma expansão, quer qualitativa, quer principalmente quantitativa. Dados da UNESCO mostram que, a nível mundial, o número de estudantes no Ensino Superior cresceu de 65 milhões, em 1991, para 79 milhões em 2000 e em 2010 já eram mais de 150,6 milhões de matrículas.Este fenómeno é também observável nos Países e Regiões de Língua Portuguesa. Nestes, a tendência de expansão quantitativa justifica-se por vários factores, os quais podem divergir entre os diferentes países. Contudo, entre esses factores é de referir: o aumento demográfico em alguns países da lusofonia; o crescimento económico; a introdução de novas tecnologias; a subida na frequência do ensino obrigatório e médio; bem como, há que dizê-lo, a consciência crescente de que o desenvolvimento socioeconómico e cultural dos países e regiões, depende em grande medida da qualificação dos seus cidadãos e como tal relacionado com o investimento público e privado na educação.Perante este crescimento, um desafio central que se apresenta para os próximos anos é o de desenvolver e implementar políticas de qualidade na gestão das instituições de ensino superior, de modo a melhorar as condições de produção de ensino e de ciência, e o incremento da empregabilidade dos estudantes.Entretanto, observamos que as instituições, na busca de conciliar quantidade e qualidade, têm procurado realizar mudanças estruturais, sem, no entanto, produzirem,
  • 228 229 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – IX F A L A R D E N Ó S – IXainda, as correspondentes transformações conceptuais relacionadas com as diferentes dimensões que envolvem o Ensino Superior.Com a associação FORGES – Fórum da Gestão do Ensino Superior nos Países e Regiões de Língua Portuguesa – pretende-se consolidar uma rede, que articule e faça comunicar os membros dos órgãos de gestão nas instituições de ensino superior, técnicos e responsáveis da administração ligada ao sector, bem como os investigadores cujo objecto de estudo sejam as políticas do ensino superior principalmente no espaço dos países e regiões de língua portuguesa, que contribua para a realização qualificada daquelas transformações.” ObjectivosEm consonância com aqueles propósitos e procurando satisfazer as exigências dos membros do FORGES, reconhecida que foi “a necessidade de dispor de um fórum adequado às suas próprias condições e identidade”, foram fixados estes principais objectivos:• “criar uma rede – entre investigadores e académicos, dirigentes e técnicos com experiência e actividades de gestão universitária do ensino superior – que promova um intercâmbio de experiências a partir do estudo e investigação sobre esta área;• organizar uma conferência anual num dos países e regiões de língua portuguesa, para apresentação de trabalhos e discussão de temas relevantes para a gestão universitária;• editar um website com notícias, textos e artigos relevantes, que constitua um instrumento de partilha permanente entre os aderentes e os interessados nesta área;• editar uma revista electrónica com artigos originais sobre os conteúdos científicos ligados a esta área da gestão universitária;• editar uma Newsletter em princípio de periodicidade semestral;• promover estudos sobre o ensino superior, reunindo investigadores dos países de língua portuguesa;• promover e validar séries estatísticas sobre o ensino superior nos países de língua portuguesa (alunos, diplomados, docentes, investigadores, não docentes, orçamento, apoio social, etc.), com a publicação de um relatório anual com a informação recolhida;• organizar cursos de pós-graduação sobre a gestão universitária envolvendo diferentes instituições universitárias;• promover a realização de estágios e visitas de formação, favorecendo o intercâmbio entre os responsáveis da gestão das instituições interessadas e aderentes.”As sessõesAs linhas de força que traduzem aqueles objectivos alimentaram as actividades de três painéis principais, sobre “Políticas públicas de desenvolvimento e de reforma do ensino superior”, “Avaliação e qualidade do ensino superior” e “Financiamento e internacionalização do ensino superior no contexto da globalização”, complementados com múltiplas comunicações científicas apresentadas em sessões paralelas.
  • 230 231 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – IX F A L A R D E N Ó S – IXConvidado pelos organizadores, marquei presença nas sessões de abertura (presidida pelo Secretário para os Assuntos Sociais e Cultura, Cheung U, e com uma saudação, feita em nome da RAEM, pelo coordenador do Gabinete de Apoio ao Ensino Superior, Sou Chio Fai) e de encerramento e pude acompanhar os trabalhos, cuja temática muito tem a ver com responsabilidades governativas que exerci no Governo de Macau. E foi um enorme prazer reencontrar dezenas de personalidades académicas conhecidas, como o Prof. Barata Moura, ex-reitor da Universidade de Lisboa, o Prof. Sobrinho Teixeira, presidente do Instituto Politécnico de Bragança, e o Prof. António Almeida Costa, ex-Secretário de Estado no Ministério da Educação e um impulsionador consequente do ensino politécnico, que prestou a Macau relevantes serviços e tem um documento importante sobre o ensino superior neste território no período de transição, que merece ser agora publicado.Também se realizou a assembleia geral do FORGES e se procedeu à eleição dos titulares dos seus órgãos sociais, cabendo ao Prof. Lei Heong Iok, presidente do IPM, uma das vice-presidências do órgão executivo.É bom para Macau que reuniões como esta continuem a ter aqui lugar. Além do mais, é uma relação que se estreita com instituições prestigiadas dos países de língua portuguesa, o que tem correspondência plena com os desígnios que foram oficialmente estabelecidos para a RAEM. Será, contudo, necessário que, neste âmbito, as demais instituições de ensino superior também nelas participem mais activamente. 19 de Novembro de 2012Correspondendo aos muitos convites que lhe têm sido enviados, ou em resultado de acordos firmados, o Instituto Internacional de Macau (IIM) tem participado, crescentemente, em múltiplas conferências internacionais, sendo muitas vezes o único organismo de Macau presente em importantes actividades do foro universitário ou cultural em diversos países.Agora, numa só semana, o IIM teve um papel activo, neste mês de Novembro, em mais quatro eventos académicos em Portugal: a sessão final, em Lisboa, no dia 14 do corrente, no Palácio da Independência, do 4.º seminário sobre “O papel de Macau no intercâmbio sino-luso-brasileiro”, que se realizou este ano em Macau, Xangai, Pequim, Rio de Janeiro e Lisboa; um seminário sobre o papel do “novo Brasil”, no dia 15, em Aveiro, no Instituto Superior de Ciências da Informação e da Administração (ISCIA), com o qual foi assinado um protocolo de cooperação, com vista à realização de diversos projectos conjuntos nos próximos anos; o I Congresso de Turismo Cultural Lusófono, no Instituto Politécnico de Tomar, no dia 16; e a conferência sobre “Diplomacia Cultural” no dia 22, no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP) da Universidade Técnica de Lisboa.O autor deste artigo, na qualidade de presidente do IIM, moderou a sessão no Palácio da Independência, que teve como oradores Heitor Romana, professor do ISCSP, e Severino Cabral, presidente do Instituto Brasileiro de Estudos da China e Ásia-Pacífico (Rio de Janeiro), e foi orador nos outros três eventos, tendo integrado na conferência sobre “Diplomacia Cultural”, um painel com Ana Paula Laborinho, presidente do Camões – Instituto da Cooperação e da Língua, e Luís Amado, ex-Ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros e professor do ISCSP.Presença activa do IIM em encontros académicos em Portugal“Atribuímos a maior importância à parceria agora estabelecida com o Instituto Internacional de Macau. Ela irá certamente alargar o âmbito das nossas relações académicas com o exterior.”Prof. Armando Teixeira Carneiro, Director do ISCIA
  • 232 233 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – IX F A L A R D E N Ó S – IX4.º SeminárioApesar de ser dia de greve geral em Portugal, a sessão final do seminário “O papel de Macau no intercâmbio sino-luso-brasileiro” teve o auditório do Instituto D. Antão de Almada, no Palácio da Independência, em Lisboa, completamente lotado, com a presença de destacadas individualidades académicas e outras ligadas a Macau, à Sociedade Histórica da Independência de Portugal e ao IIM, além de estudantes universitários. Foi o culminar de uma série de sessões realizadas em cinco cidades de três continentes, podendo uma das próximas edições do seminário sobre este tema conhecer uma extensão a uma cidade africana.Heitor Romana e Severino Cabral, especialistas na temática do seminário, conseguiram manter a audiência interessada até ao fim da sessão, que foi muito participada, terminando com um debate e um convívio. Como moderador, aproveitei para fazer um balanço, obviamente positivo, deste conjunto de iniciativas que tem proporcionado a actualização anual das comunicações sobre as relações da China com os países de língua portuguesa e sobre o papel de Macau neste contexto.ISCIAO seminário no ISCIA foi aberto pelo seu director, Prof. Armando Teixeira Carneiro, que saudou os dois oradores, o autor deste artigo e Severino Cabral, que apresentaram, respectivamente, os temas “O IIM e o desenvolvimento de relações académicas no mundo lusófono” e “O papel do Brasil e do ´Novo Brasil´ no desbloqueio do cone austral africano”. Participaram neste seminário professores e alunos do ISCIA e diversos convidados de outras instituições académicas.Seguiu-se a assinatura de um protocolo de cooperação que marcou o início duma colaboração que se deseja eficaz entre o IIM e o ISCIA, abrangendo também algumas das suas unidades orgânicas de investigação e desenvolvimento, tais como o Centro Português de Geopolítica, o Observatório de Comércio e de Relações Internacionais e o Observatório de Segurança Marítima. A colaboração desenvolver-se-á em áreas e campos temáticos comuns às duas instituições, nomeadamente numa participação cruzada nos respectivos programas de acção, incluindo a troca de informações e dados nos domínios de interesse, a permuta e colaboração na produção e difusão de material técnico-científico, didáctico e informativo e publicações, colaboração especial na área do mundo virtual e dos cursos do tipo “blended learning” e apoio à circulação de docentes, especialistas e técnicos, tendo em vista fomentar actividades pedagógicas e/ou de investigação, fundamental ou aplicada.Novamente no uso da palavra, Armando Teixeira Carneiro salientou a relevância da parceria estabelecida, que poderá alargar o âmbito das relações académicas do ISCIA com o exterior. Turismo culturalÉ de saudar a capacidade revelada pelo Instituto Politécnico de Tomar, ao decidir organizar o I Congresso de Turismo Cultural Lusófono. Ao longo de dois dias, personalidades interessadas nesta importante temática, além de professores e estudantes, escutaram comunicações apresentadas por reconhecidos especialistas, em sucessivas sessões temáticas e mesas redondas, sobre “Destinos, regiões e autarquias”, “Roteirização, património natural e cultural”, “Formação em turismo”, “Espaços,
  • 234 235 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – IX F A L A R D E N Ó S – IXcomunicação, turismo e cultura: visão prospectiva”, “Turismo e desenvolvimento de base territorial: o papel das associações de desenvolvimento local”, “Planeamento, produtos, marcas e eventos”, “Geografia, turistificação e cidades criativas” e “Artes, turismo cultural e visitação”. O autor deste artigo integrou o elenco de oradores, que incluiu professores de várias universidades, o ex-Ministro de Economia Augusto Mateus, dirigentes de associações ligadas ao turismo ou ao desenvolvimento local e um representante da Confederação Nacional do Turismo (Brasil). Foi coordenador científico do congresso o Prof. Luís Matos Figueira, do Instituto Politécnico de Tomar.O sucesso desta iniciativa determinou a realização do II Congresso de Turismo Cultural Lusófono, cujo tema geral será “A formatação de produtos de turismo e a economia da cultura: que desafios?” Diplomacia culturalA conferência sobre “Diplomacia Cultural”, coordenada pelo Prof. Heitor Romana, foi uma bem acolhida realização do ISCSP, que proporcionou um espaço de reflexão sobre os caminhos e parâmetros da diplomacia para o século XXI, num tempo em que Portugal vive desafios que caracterizam uma mudança histórica. Esta conferência teve duas edições, uma no dia 23 de Maio, dedicada ao tema da diplomacia económica como vector estratégico da política externa, ao mesmo tempo que se lançou a interrogação sobre “Como fazer diplomacia económica?”.Agora o tema foi “A diplomacia cultural: um conceito em construção”, pretendendo-se apresentar e debater “A diplomacia cultural como vector estratégico da política externa” e “A operacionalização de uma diplomacia cultural”, dando lugar a dois painéis, o primeiro dos quais contou com a participação do autor deste artigo, através da comunicação “Macau, de plataforma económica e comercial a entreposto académico e cultural da China com os países de língua portuguesa”, na qual foi explicado o caso singular de Macau como instrumento privilegiado da política externa chinesa na sua ligação ao mundo lusófono.O IIM continuará a marcar e a reforçar uma presença interventora em eventos desta natureza nos anos próximos. 26 de Novembro de 2012
  • 236 237 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – IX F A L A R D E N Ó S – IXFoi uma enorme alegria para todos nós ver ganhar o Grande Prémio de Macau um jovem e muito promissor piloto português, de nome António Félix da Costa, e ouvir o hino nacional, cantado a plenos pulmões por centenas de portugueses, face a um erro da organização, que havia trocado os hinos, criando uma situação embaraçosa para o Chefe do Executivo da RAEM e para os membros da Comissão Organizadora.Por me encontrar em Lisboa, para diversas actividades de natureza académica, não me foi possível assistir às provas deste ano no circuito da Guia, mas tive acesso a toda a informação fornecida pelos órgãos de comunicação social de Portugal e de Macau, sendo grato verificar que este acontecimento mereceu um especial relevo em alguns jornais portugueses de maior tiragem.Félix da Costa havia participado, nesta temporada, nos campeonatos GP3 e World Series by Renault, conquistando sete vitórias e somando doze pódios. Além disso, venceu uma corrida de Fórmula 3, no circuito de Snetterton, em Inglaterra, antes desta muito convincente vitória em Macau. Integrando, desde Junho, o programa de jovens pilotos da equipa Red Bull, Félix da Costa está bem lançado agora, precisando de continuar a alcançar bons resultados, porque o seu talento para estar na Fórmula 1 começa a ser reconhecido. Numa entrevista concedida ao Expresso, este jovem piloto salientou a dificuldade que o circuito da Guia oferece: “Não imaginam o que é disputar o Grande Prémio de Macau. Um circuito citadino é complicadíssimo, ao mínimo deslize estamos nos ‘rails’. E é perigoso”. Também referiu a morte de Luís Carreira, nos treinos finais para as corridas de motorizadas: “Não o conheci, mas a morte dele carregou a atmosfera do Grande Prémio”. E explicou Uma saborosa vitória portuguesa“A vitória de António Félix da Costa no Grande Prémio de Macau, uma das montras do desporto automóvel internacional foi o corolário de uma época que coloca o piloto de 21 anos mais perto da Fórmula 1.”Correio da Manhã, 24 de Novembroque o seu objectivo é mesmo chegar agora à Fórmula 1: “É algo indescritível. Por mais que nos preparemos em simuladores, a realidade é completamente diferente. A aceleração, o peso, a capacidade de travagem, a velocidade. Aquilo é alucinante. Espero lá chegar um dia. Acredito nisso”. Vamos todos, certamente, torcer por ele.Vários jornais portugueses recordaram, a propósito desta vitória, os nomes de outros pilotos portugueses que chegaram longe, alcançando a Fórmula 1: Nicha Cabral (1959/60 e 1963/64), que foi o primeiro luso a lá chegar, realizando cinco corridas, estreando-se no Grande Prémio de Portugal em 1959, ainda no circuito de Monsanto; Pedro Matos Chaves (1991), que entrou na Fórmula 1 com a Coloni, embora nunca passando as sessões de qualificação em treze provas; Pedro Lamy (1993-1996), participando em 32 corridas, nas equipas Lótus e Minardi; e Tiago Monteiro (2005 e 2006), pela Jordan, tendo alcançado o terceiro lugar no Grande Prémio dos E.U.A.Legado luso no DireitoFernanda Palma, professora catedrática de Direito Penal e colunista do Correio da Manhã, dedicou a sua última crónica a Macau, onde se deslocou recentemente para fazer uma conferência sobre direitos fundamentais e reforma penal, dando realce à “força do Direito português (…) no seio de uma civilização milenar e de um país em crescimento económico acelerado, cuja população representa um quinto da humanidade, onde se sente uma influência efectiva do nosso Direito Penal”. Estas considerações foram tecidas a propósito da pena de morte, encarada como instrumento indispensável da política criminal pelas autoridades chinesas, mas
  • 238 239 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – IX F A L A R D E N Ó S – IXabsolutamente proibida na RAEM. Recordou que Portugal foi o primeiro país a abolir a pena de morte, na reforma penal de 1867, tendo a última execução em território nacional ocorrido 21 anos antes, em Lagos. De facto, esta decisão teve um impacto extraordinário na época, como se pode concluir destas judiciosas palavras de Victor Hugo: “Está, pois, a pena de morte abolida nesse nobre Portugal, pequeno povo que tem uma grande história. Felicito a vossa nação. Portugal dá o exemplo à Europa. Desfrutai de antemão essa imensa glória. A Europa imitará Portugal. Morte à morte! Guerra à guerra! Vida à vida! Ódio ao ódio!”A Constituição da República Portuguesa consagra claramente a inviolabilidade da vida humana e proíbe a pena de morte. Além disso, impede a extradição por crimes a que corresponda a pena de morte.Nos últimos tempos, têm sido várias as vozes autorizadas de reputados juristas da República Popular da China sobre esta matéria, fazendo saber que, nos círculos académicos, esta questão tem sido encarada com crescente abertura, com um apoio maior à abolição da pena de morte, e reconhecendo ser essa, de facto, a tendência dominante. Oxalá, neste domínio, Macau possa ser um exemplo e que o legado, que deu aos habitantes de Macau direitos, liberdades e garantias inexistentes no regime jurídico chinês, seja respeitado e emulado. Uma comemoração especialNo ano em que o Governo da República Portuguesa anunciou e decidiu o fim do feriado do 1.º de Dezembro, sem prever as reacções vigorosas contra tal iniciativa, a Sociedade Histórica da Independência de Portugal (SHIP), o recém-criado Movimento 1.º de Dezembro, a Câmara Municipal de Lisboa (CML) e diversas outras organizações da sociedade civil juntaram forças para a organização daquelas que foram, indubitavelmente, as comemorações mais participadas e completas das últimas décadas, ao mesmo tempo que foram recolhidas assinaturas numa petição que terá pelo menos 40 mil adesões, exigindo a reposição daquele feriado nacional, consagrado como tal há mais de um século e unanimemente aceite por todas as correntes e regimes políticos.Assim, no Sábado passado, dia de sol depois de um período de chuva e frio, conseguiu-se realizar, em Lisboa, um conjunto muito significativo de actos comemorativos, que compreenderam uma cerimónia do içar das bandeiras nacional, da Restauração e da Sociedade Histórica no Palácio da Independência, missa cantada de acção de graças na Igreja Paroquial de Santa Justa (S. Domingos), um dos templos mais emblemáticos da cidade, que se encheu de fiéis, um desfile de bandas de música oriundas de várias cidades, que desceram a Avenida da Liberdade, dando um cunho festivo e popular à efeméride, o que aconteceu pela primeira vez, a exibição dessas bandas na Praça dos Restauradores, a habitual cerimónia oficial diante do Monumento aos Restauradores, uma apresentação alegórica no Salão Nobre do Palácio da Independência de cenas históricas relacionadas com o 1.º de Dezembro, a assinatura do Livro de Honra da SHIP e uma actuação de tunas académicas no Largo de S. Domingos (Rossio) que se prolongou pela noite fora.O Presidente da República fez-se representar em todo este conjunto de cerimónias pelo General Vasco Rocha Vieira, último Governador de Macau e actual Chanceler
  • 240 241 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – IX F A L A R D E N Ó S – IXdas Antigas Ordens Militares, que usou da palavra na cerimónia que antecedeu a assinatura do Livro de Honra da SHIP, caracterizando o significado histórico do 1.º de Dezembro no contexto difícil da vida portuguesa actual. Por seu lado, a Presidente da Assembleia da República delegou a sua representação no deputado José Ribeiro e Castro, fundador e coordenador do Movimento 1.º de Dezembro, que tem estado a ganhar amplas adesões em todo o espaço nacional.Na cerimónia oficial, que contou com a presença de forças militares e militarizadas, alunos do Colégio Militar do Instituto dos Pupilos do Exército, Instituto D. Afonso (Odivelas), Academia Militar, Escola Naval, Academia da Força Aérea, Escola Superior da Polícia, Casa Pia de Lisboa, associações culturais e patrióticas, usaram da palavra o presidente da Direcção da SHIP, José Augusto Alarcão Troni, que me sucedeu neste cargo no ano passado, o deputado Ribeiro e Castro e António Costa, presidente da CML, há décadas parceira da SHIP na celebração desta grande data nacional. Todos os discursos exaltaram o espírito que presidiu à Restauração de Portugal, ao sentido patriótico do povo português e à necessidade de esta data ser lembrada como um dia de especial relevância para a pátria portuguesa. A tónica foi colocada nesta afirmação de Alarcão Troni: “Continuaremos a defender o legado dos Restauradores de 1640 e dos fundadores (da SHIP) de 1861 na sua e nossa luta pela independência, individualidade e identidade de Portugal, pela digna comemoração do dia 1.º de Dezembro – data ‘sine qua non’ – e pela repristinação do seu feriado, sem o qual não existiriam Portugal e os países de língua portuguesa, ou a própria CPLP – Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, enquanto a língua portuguesa e a portugalidade se teriam dissolvido na língua castelhana e na hispanidade.”Que este espírito, que expresso na qualidade de presidente do Conselho Supremo da SHIP, prevaleça e que as comemorações no próximo ano, conforme foi prometido, tenham ainda maior relevância, estendendo-se, gradualmente, a todo o espaço nacional.3 de Dezembro de 2012
  • 242 243 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – IX F A L A R D E N Ó S – IX“O Livro de Receitas da Minha Tia/Mãe Albertina”, de Cíntia Conceição Serro, publicado no corrente ano pelo Instituto Internacional de Macau (IIM), foi muito bem recebido pela comunidade macaense, constituindo mais uma obra de referência sobre a nossa apreciada culinária. Desde o seu lançamento, em sessão levada a efeito na Casa de Macau de Toronto, a que se seguiu uma apresentação em Lisboa, no Palácio da Independência, onde o IIM tem a sua delegação, com o Salão Nobre à cunha, a procura do livro tem sido grande, quer em Macau quer na diáspora macaense. Este interesse pela obra, que contém uma compilação de receitas reunidas ao longo da vida por D. Albertina Carvalho Borges, recentemente falecida, estimulou já a produção de uma versão em língua inglesa, agora no prelo.Nesta quadra festiva de tanto significado para todos nós, pareceu-nos oportuno trazer para este espaço as receitas de alguns pratos indispensáveis, como o ‘chau chau pele’, o ‘diabo’, o porco de vinha-de-alho e um dos doces caseiros que podem ser confeccionados nesta altura, para além dos coscorões, do aluar e dos fartes, mais conhecidos e sempre presentes nas mesas das velhas famílias macaenses.Como bem lembrou o saudoso escritor Henrique de Senna Fernandes, numa palestra (“Macau de Ontem”) proferida no dia 30 de Novembro de 1983, no âmbito do Encontro sobre a Presença Portuguesa no Extremo Oriente, promovido pelo Instituto Cultural de Macau e integrado na XVII Exposição Europeia de Arte, Ciência e Cultura, realizada em Lisboa, “a ‘missa de galo’ desse tempo, o jantar de Natal, o deslumbramento dos brinquedos, a mesa repleta de iguarias, onde se comia à tripa forra, a alacridade e as gargalhadas dos familiares, ainda se repercutem na minha Iguarias do livro de Cíntia Serro para a quadra festiva“O melhor tempo de Inverno ia de Dezembro até ao Carnaval e o Ano Novo Chinês. Era a época fria e dos grandes pitéus de culinária macaense como o ‘tacho’ e o ‘diabo’…”Henrique de Senna Fernandes, “Macau de Ontem”, conferência proferida em 30-11-1983saudade”. Na saudade, afinal, de quantos assimilaram os usos e costumes macaenses que perduraram ao longo de muitas gerações.Eis as receitas:Chau chau peleIngredientes: água e vinagre chinês – q.b.; alho – 4 ou 5 dentes; banha ou óleo – q.b.; carne de vaca – 600 g; cebola da Índia – 200 g; [tong-gu] – 6 a 8; galinha ou capão – 1; [láp áp pêi] – 5; [láp cheong] – 5 a 6 pares; [láp yôk] – 2 a 3 pedaços; mão de porco – 900 g; pele de porco seca – 90 g; repolho ou couve – 2; sal e pimenta – q.b.; tomate – 800 g.Preparação: Para tirar a gordura da mão de porco deixar ferver em água e vinagre por aproximadamente 15 minutos e deitar fora essa água e vinagre. Demolha-se a pele em água quente. Tiram-se todos os pêlos. Corta-se em pedaços triangulares. Se a pele vier muito suja e preta, lava-se primeiro com vinagre chinês antes de a demolhar em água. Corta-se em pedaços pequenos a galinha ou o capão, o chouriço chinês [láp cheong], a mão de porco, a carne entremeada de porco fumada [láp yôk], as pernas de pato salgado [láp áp pêi], e a carne de vaca. Demolham-se os cogumelos [tong-gu] em água fria, lavando bem primeiro. Lava-se o tomate. Corta-se ao meio e deita-se fora as grainhas. Pica-se bem o tomate. Corta-se a cebola em meias rodelas. Parte-se o repolho em 4 ou 6 pedaços. Põe-se banha ou óleo no tacho. Frita-se o alho. Quando este ficar queimado deita-se for a. Põe-se cebola da Índia. Frita-se e quando estiver cheiroso junta-se o tomate e continua a fritar. Põe-se a pimenta. Mistura-se bem e deixa-se a fritar. Deita-se a pele, a mão de porco, a galinha e a carne de vaca. Deita-se água por
  • 244 245 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – IX F A L A R D E N Ó S – IXcima de tudo (até quase cobrir). Deixa-se ferver por cerca de 60 minutos. Deitam-se então os cogumelos e as carnes secas fumadas [láp áp pêi], [láp cheong], e [láp yôk]. Quando as carnes estiverem quase cozidas é que se deita repolho e se põe sal. Se vir que a água está a evaporar pode-se acrescentar água fervida. Depois desta maratona está pronto a servir e a ser saboreado.DiaboIngredientes: caril de galinha/ou aba grossa – 500 g; [chá siu] e [siu yôk] – 250 g; costeletas de carneiro assado – 300 g; costeletas de porco panadas – 3 ou 4; galinha frita ou assada – ½; lombo de porco assado – 300 g; [siu áp] – 1 inteiro; perú assado – 300 g; pombo assado ou frito – ½; vaca estufada – 500 g; alho – 6 dentes; azeite – 1 colher de sopa; batatas – 600 g; cebola da Índia – 250 g; gengibre azedado – 200 g; gengibre fresco – 50 g; [kiu tau] – 200 g; Worcestershire – 250/300 ml; mostarda francesa – 1 colher de sopa; óleo/banha – 3 colheres de sopa; ovos cozidos – 3 ou 4; sal e pimenta – q.b.; tomate – 350 g; vinagre – 100 ml; vinho doce – 150 ml (Porto).Preparação: Põe-se um tacho grande ao lume com o óleo. Deita-se alho, gengibre fresco, cebola picada e tomate também picado. Depois põem-se todas as carnes, com os respectivos molhos; cobre-se o tacho, deixando cozer por aproximadamente dez minutos. Abre-se, remexem-se as carnes e deitam-se as batatas e um pouco de água conforme for a quantidade das carnes. Tapa-se outra vez; deixa-se cozer até quase secar a água, acrescenta-se o molho Worcestershire, o gengibre azedado e o [kiu-tau] cortados às fatias. Mistura-se numa tigela o vinagre, as gemas de ovo (esmagadas), o azeite e a mostarda e junta-se às carnes. Deixa-se ferver por cinco minutos, põem-se as claras de ovo (cozidas) cortadas aos bocadinhos e o vinho do Porto e retira-se para uma terrina. NB: Quanto maior a diversidade de carnes, melhor. É muito importante não omitir o pato assado [siu ap] e o molho de caril.Porco de vinha-de-alhoIngredientes: açafrão em pó – 3 colheres de sopa; alho – 12 dentes; chili em pó – 2 colheres de sopa; coentro em pó – 3 colheres de sopa; cominho em pó – 3 colheres de sopa; louro – 2 folhas; malaguetas vermelhas – 5 pisadas; óleo – 2 colheres de sopa; pimenta preta em grão – 1 colher de chá; perna de porco – 600 g; sal – q.b.; vinho chinês ou brandy – 250 ml.Preparação: Pica-se bem com um garfo e esfrega-se toda a carne com sal. Corta-se a carne em pedaços pequenos e coloca-se num recipiente a marinar com os alhos picados, o açafrão, o chili, o coentro, o cominho, as folhas de louro, as malaguetas pisadas, a pimenta em grão e o vinho, por dois ou três dias, tendo o cuidado de todos os dias voltar a carne e picá-la com um garfo. Numa caçarola com óleo quente, junta-se a carne de porco marinada e deixa-se refogar por cerca de 10 minutos. Acrescenta-se água suficiente para cozer a carne em lume brando por 20 a 30 minutos. genete de cornstarchIngredientes: açúcar – 7 oz; farinha cornstarch – 16 oz; farinha com fermento – 3 colheres de sopa; fermento em pó – 1 colher de chá rasa; manteiga – 8 oz; ovos – 6 gemas ou 5 gemas e 1 clara; sal fino – ¼ colher de chá.
  • 246 247 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – IX F A L A R D E N Ó S – IXPreparação: Bate-se a manteiga e o açúcar até ficar em creme, a seguir põem-se os ovos um a um, batendo sempre e, no fim, as farinhas aos poucos, peneiradas e já misturadas com o fermento em pó e sal. Amassa-se bem até ficar despegada das mãos. Sendo necessário pode-se juntar mais uma colher de farinha normal. Faz-se em tiras com máquina própria para cornstarch, e corta-se em pedaços pequenos em forma de bichos. Leva-se ao forno a fogo médio (150°C) num tabuleiro polvilhado de farinha durante 20 a 25 minutos.*D. Albertina Borges ainda teve a alegria de ver o livro publicado. Afastou-se definitivamente poucos meses volvidos, deixando em todos os que tiveram a felicidade de com ela conviver gratíssimas recordações.Cíntia Serro, exímia cozinheira e sua sobrinha dilecta, experimentou todas as receitas que integram o livro e incluiu nele fotografias de quase todos os pratos confeccionados.Tal como outras edições mais procuradas do IIM, também esta obra pode ser adquirida na Livraria Portuguesa de Macau ou na livraria da Delegação Económica e Comercial de Macau em Lisboa, estando igualmente disponível na secretaria do IIM e na sua delegação em Portugal. 11 de Dezembro de 2012O Instituto Internacional de Macau (IIM) tem mantido, praticamente desde o início do seu funcionamento, relações privilegiadas de cooperação com instituições do Brasil, com quem tem desenvolvido projectos importantes, na forma de seminários, conferências, exposições, estudos, edições e acções de intercâmbio. Foram firmados protocolos com variadas entidades e estabelecidas parcerias funcionais úteis com outras, sendo de destacar o Real Gabinete Português de Leitura (Rio de Janeiro), por muitos considerada a instituição cultural luso-brasileira mais emblemática, o Liceu Literário Português, o Gabinete Português de Leitura do Recife, a Federação das Associações Portuguesas e Luso-Brasileiras do Brasil, a Fundação Joaquim Nabuco, a Universidade Federal de Pernambuco, a Universidade de Cândido Mendes, o Centro de Estudos Fernando Pessoa da Universidade de São Paulo, o Instituto Brasileiro de Estudos da China e Ásia-Pacífico (IBECAP), o Movimento Festlatino, a Confederação Nacional do Comércio, de Bens, Serviços e Turismo, a Federação das Câmaras de Comércio Exterior, o Instituto Histórico e Geográfico do Brasil, o Elos Internacional – Movimento da Comunidade Lusíada, várias autarquias e as Casas de Macau de São Paulo e do Rio de Janeiro. O IIM também tem colaborado com a comissão organizadora do Encontro de Escritores Lusófonos, que tem sido realizado anualmente na cidade de Natal e foi acolhida pela prestigiada Academia Brasileira de Letras, criada sob inspiração de Machado de Assis, para levar a efeito actividades na sua sede.Em Outubro e Novembro passados, novos eventos tiveram a participação do IIM, no Recife e no Rio de Janeiro.Congresso do FestlatinoO Movimento Festlatino – Festival Internacional de Culturas, Línguas e Literaturas Neolatinas, que se tem expandido significativamente nos últimos anos, tendo já realizado Novas jornadas do IIM no Brasil“Queremos registar o nosso reconhecimento pelo trabalho persistente e importante do Instituto Internacional de Macau que acompanhamos desde antes da transferência da administração do território para a China e que de ano para ano ganha mais relevo…”António Gomes da Costa, 17 de Outubro de 2012
  • 248 249 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – IX F A L A R D E N Ó S – IXtambém iniciativas em Macau, teve o seu VI Congresso nos dias 22 e 23 de Outubro, sob o tema “A expansão das línguas neolatinas na África e na Ásia e o diálogo cultural Europa Latina – América Latina na contemporaneidade”.Este festival ultrapassou já o conceito de encontro literário, porquanto se tornou já um movimento envolvendo personalidades do mundo da cultura, autoridades governamentais, diplomatas, escritores, artistas e professores dos países que têm em comum as línguas neolatinas e onde se procura um diálogo intercultural, com enfoque na língua e nas literaturas, mas envolvendo também o cinema, o teatro, a música e as artes plásticas, com o intuito de aproximar os países e regiões.As sessões decorreram sempre com a presença de muito público, com particular destaque para professores e estudantes universitários, e entre os mais de 30 conferencistas contavam-se académicos e responsáveis culturais do Brasil, Portugal, Espanha, Cabo Verde, Senegal, Uruguai, Argentina, Bélgica e Roménia.O secretário-executivo da CPLP, Embaixador Murade Murargy, apresentou uma comunicação sobre “As perspectivas do diálogo América do Sul – Comunidade dos Países de Língua Portuguesa”, tendo sido também muito apreciada a intervenção do Embaixador de Cabo Verde no Brasil, Daniel António Pereira, sobre “A unificação ortográfica e a consolidação da democracia nos países africanos de expressão portuguesa”.Na sessão de abertura do Congresso, o vice-presidente do IIM, José Lobo do Amaral, fez a apresentação de várias novas edições do IIM e fez uma descrição dos objectivos e da acção desenvolvida pelo IIM. As edições apresentadas foram “Chineses e Chá no Brasil no início do século XIX”, “Filhos da Terra – A Comunidade Macaense, Ontem e Hoje”, “O Valor da Língua Portuguesa – Uma Perspectiva Económica e Comparativa” e “Recife – Macau, duas cidades, dois mundos, duas histórias, relações e contrastes”, lançada na ocasião.Depois de lida a mensagem da Ministra da Cultura do Brasil e feita a saudação inicial pelo Prof. Humberto França, presidente do Festlatino, foi entregue ao representante do Secretário para os Assuntos Sociais e Cultura do Governo da RAEM, Cheong U, o diploma de “Personalidade do Ano da Neolatinidade – 2012”.Em complemento do programa, foi inaugurada, no Gabinete Português de Leitura do Recife, a mostra “O Oriente de Influência Cultural Portuguesa”, organizada pelo IIM e constituída por 170 ampliações de postais antigos da colecção de João Loureiro e que já havia sido exposta em Macau.Seminário no Rio de JaneiroO IV seminário “O papel de Macau no intercâmbio sino-luso-brasileiro”, organizado pelo IIM e pelo IBECAP e iniciado em Macau em Setembro, com sessões também em Xangai e em Pequim, prosseguiu no Rio de Janeiro nos dias 15 e 16 de Novembro, na Confederação Nacional do Comércio e no Real Gabinete Português de Leitura.Na sessão de abertura, usou da palavra o Cônsul-Geral substituto da República Popular da China, Wang Xian, que destacou a importância do seminário e o facto de não constituir uma iniciativa isolada, mas antes um projecto que tem tido continuidade
  • 250 251 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – IX F A L A R D E N Ó S – IXe crescente projecção. Apresentaram também comunicações o Prof. Severino Cabral, presidente do IBECAP, José Lobo do Amaral, vice-presidente do IIM, e o Conselheiro Gustavo Rocha Menezes, chefe da Divisão da China e Mongólia do Ministério das Relações Exteriores, em representação da Embaixadora Edileuza Reis, Subsecretária de Política (China e Ásia), que por motivos de saúde não pôde estar presente, e ainda o jornalista Carlos Tavares, assessor daquela Confederação. Nessa sessão foi apresentado o livro “A Hora do Dragão – Política Externa da China”, de Luís Cunha (uma co-edição da Zebra Publicações com o IIM), tendo a sessão terminado com um animado debate com a assistência, constituída por diplomatas, empresários e estudantes.No Real Gabinete Português de Leitura, depois de uma oportuna intervenção do seu presidente, comendador António Gomes da Costa, foi feita a apresentação das obras editadas pelo IIM atrás referidas e ainda “O Livro de Receitas da Minha Tia/Mãe Albertina”. Estiveram presentes dirigentes e sócios da Casa de Macau do Rio de Janeiro, cujo presidente se encarregou da apreciação daquela obra de Cíntia Serro sobre a culinária macaense.Este seminário terminou em Lisboa no dia 14 de Novembro, no Palácio da Independência, com comunicações de Severino Cabral sobre “A parceria estratégica global sino-luso-brasileira e o seu impacto na criação de uma nova realidade mundial”, e de Heitor Romana, Professor de Estratégia e Relações Internacionais do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, sobre “Macau na triangulação China – Portugal – Brasil: Um possível ‘cluster’ científico?” Palavras oportunasNo seu discurso solene, António Gomes da Costa, que é também presidente da Federação das Associações Portuguesas e Luso-Brasileiras do Brasil, saudou este evento e referiu-se ao IIM do seguinte modo: “Queremos registar o nosso reconhecimento pelo trabalho persistente e importante do Instituto Internacional de Macau que acompanhamos desde antes da transferência da administração do território para a China e que de ano para ano ganha mais relevo, não só no âmbito da pesquisa histórica e sociológica da antiga possessão portuguesa, mas também no contexto actual, com Macau integrado na China, na mantença de estrias e interesses que envolvem o Oriente e o espaço da lusofonia e, de modo especial, o Brasil e Portugal.”Quanto à China, referiu o seguinte: “Na actual conjuntura mundial, cada vez mais a China ganha importância nos diversos domínios. Hoje as relações comerciais do Brasil com a China ganharam uma dimensão extraordinária. Com elas vêm também acertos políticos e variáveis culturais. E o Real Gabinete, possuindo em seu acervo bibliográfico tantas obras relacionadas com o Império do Oriente e estando ligado espiritualmente a Macau desde o século XVI, terá certamente muitas oportunidades para ser uma plataforma enriquecedora dos relacionamentos entre os dois países e os dois povos. Nesse sentido, estará sempre aberto às iniciativas dinamizadoras do IIM.”Novas iniciativas do IIM no Brasil estão a ser programadas para 2013.17 de Dezembro de 2012
  • 252 253 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – IX F A L A R D E N Ó S – IXReinaldo Maria Cordeiro, afectivamente conhecido pelos seus inúmeros amigos e admiradores como Uncle Ray, completou 88 anos em Dezembro passado (precisamente a 12/12/12) e continua em plena actividade, deliciando os ouvintes da Radio Television Hong Kong (RTHK) com o seu apreciadíssimo programa “All the Way with Ray”, transmitido todos os dias úteis, a partir das 22.00 horas. Sendo também amante do jazz, género musical que o lançou na sua longa e gratificante carreira, e demonstrando uma admirável determinação e vitalidade, iniciou recentemente o programa “Just Jazz with Uncle Ray”, emitido aos Domingos, das 23.00 às 24.00 horas. O seu primeiro programa, como DJ, há mais de seis décadas, na então Radio Rediffusion, fora precisamente “Progressive Jazz”. Para comemorar este auspicioso aniversário (o número 8 tem, como se sabe, um especial significado para chineses e macaenses, simbolizando a felicidade), aquela estação oficial de rádio organizou uma festa, no dia 17 de Dezembro, num dos melhores hotéis de Tsimshatsui (Kowloon), complementada com um espectáculo em que actuaram grandes nomes do panorama musical de Hong Kong, cuja receita reverteu a favor da Associação de Beneficência Lok Sin Tong, para acções de apoio a idosos carenciados. Uncle Ray, por seu lado, reuniu, no dia de anos, mais de 100 colaboradores e amigos, alguns vindos de longínquas paragens, num convívio no Kowloon Cricket Club, agremiação recreativa que é por ele considerada a sua segunda casa.O DJ mais duradouroUncle Ray é português de Hong Kong e figura no Guinness Book of World Records, desde o ano 2000, como o DJ mais duradouro do mundo e continua todas as noites a prolongar a validade deste título que ostenta com justificado orgulho.Ray Cordeiro – o mais duradouro DJ do mundo“Uncle Ray é português de Hong Kong e figura no Guinness Book of World Records, desde o ano 2000, como o DJ mais duradouro do mundo.”Iniciou a vida profissional como bancário, seguindo o exemplo do pai e do irmão, mas cedo abraçou a actividade radiofónica quando, em 1949, se candidatou a um lugar no Hong Kong Radio Rediffusion (hoje ATV), transferindo-se, em 1960, para a RTHK, então denominada Radio Hong Kong, ganhando ali elevado prestígio.Não obstante a sua avançada idade, não lhe falta disponibilidade para permanecer naquele organismo que tem nele um dos mais respeitados e queridos colaboradores permanentes. Numa recente entrevista concedida ao South China Morning Post, frisou que ainda não se vislumbra o fim da sua carreira: “Adoro partilhar a minha música com os ouvintes e aguardo todas as noites o meu ‘show’, que irá continuar para sempre, enquanto tiver vida”.No seio da minha família, os programas de Uncle Ray, evocando nostalgicamente os inolvidáveis sucessos dos nossos anos de juventude, preenchem horas do nosso lazer, sendo uma companhia quase indispensável. As emissões diárias e as gravações das suas excelentes selecções musicais fazem parte do nosso quotidiano. E é sempre agradável ouvi-lo saudar os ouvintes, todas as noites, também em português.Ao longo da sua vida, Uncle Ray entrevistou dezenas das maiores estrelas da canção, a partir de um estágio de três meses na BBC, quando teve um primeiro contacto com os Beatles, que com ele gravaram três conversas numa só semana, e quando falou com os Herman’s Hermits, The Dave Clark Five, The Hollies e Cilla Black. Da sua impressionante lista de entrevistados constam, entre outros, Frank Sinatra, Elton John, Cliff Richard, Robin Gibb (Bee Gees), Quincy Jones, Lionel Richie, Duke Ellington, Oscar Peterson, Patti Page, Donna Summer, Ella Fitzgerald e Sarah Vaughan.
  • 254 255 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – IX F A L A R D E N Ó S – IXMas, ele próprio protagonizou páginas de jornais e revistas (há pouco tempo figurou no Macau Closer), até porque não é apenas um DJ de invulgar sucesso. Quem o conhece, sabe que ele é uma verdadeira enciclopédia viva da música pop. Além disso, foi músico de jazz num conjunto, cantor, jornalista freelancer, actor (na comédia “The Last Message”, de Michael e Samuel Hui), apresentador de espectáculos, “embaixador cultural” de Hong Kong na Exposição Mundial de Osaka, em 1970, e promotor de jovens talentos, através de marcantes programas como “Talent Time”, “Rumpus Time” e “Lucky Dip”, que fizeram história décadas antes do “America’s Got Talent” e outros programas similares. E é um notável coleccionador, com mais de 30.000 discos de vinil, tendo a casa cheia desses discos arrumados ao longo das paredes.Interessado em estimular novas revelações, contribuiu decisivamente para o lançamento de Matt Monro, que foi militar em Hong Kong, Leslie Cheung, um dos maiores sucessos locais de sempre, que pôs fim à vida em 2003, Roman Tam e The Four Steps, The Fabulous Echoes, que tiveram enorme projecção em Honolulu durante 25 anos com o nome Society of Seven, Teddy Robin e The Playboys, Irene Ryder, Sam Hui e os portugueses Joe Junior (Rodrigues) e Michael Remedios. O primeiro disco de Joe Junior – “Here’s a Heart” – chegou a estar no topo da lista de discos mais vendidos em Hong Kong durante sete semanas.Estive há alguns anos, com a família, no memorável concerto de Engelbert Humperdinck, no Centro de Convenções de Hong Kong. Foi bonito ver este gigante da música, antes de nos mimosear com os seus maiores êxitos, como “Spanish Eyes”, “The Last Waltz”, “Release Me” e “A Man Without Love”, descer do palco para abraçar, comovidamente, Uncle Ray, que estava sentado na primeira fila do salão, recebendo da audiência uma estrondosa ovação. Ele soube sempre corresponder às manifestações de afecto que, repetidamente, recebeu de quantos com ele lidaram.Ligações a MacauFilho de Luiz e Lívia Cordeiro, portugueses de Hong Kong e de Macau, respectivamente, Reinaldo nasceu numa casa modesta da Wan Chai Road, em Dezembro de 1924. Como muitos outros jovens da comunidade lusa da vizinha colónia britânica, estudou no St. Joseph’s College, cuja língua veicular era a inglesa e onde o português era também ensinado. Cedo, porém, sentiu uma inclinação especial para a música, acompanhando o irmão Armando, que brilhou como clarinetista em Hong Kong e em Xangai, cidade internacional na costa da China onde chegou a viver uma numerosa comunidade portuguesa até aos anos da Guerra do Pacífico. Durante a ocupação japonesa de Hong Kong (1941 – 45), a família instalou-se em Macau num campo de refugiados. A mãe ficou encarregada da cozinha e o jovem Reinaldo, então com 17 anos, seu ajudante, preparou o arroz, todos os dias, para 140 pessoas. A neutralidade portuguesa foi respeitada pelo exército nipónico, sendo então Macau o único bastião de paz em todo o Extremo Oriente devastado por sangrentos conflitos. Foi um período dificílimo para todos, mas que Reinaldo Maria Cordeiro recorda com saudade e gratidão, pela forma como as autoridades de Macau se organizaram, com limitadíssimos meios, para acolher em condições adequadas milhares de refugiados, de muitas origens, e receber todos os portugueses daquela área geográfica que ali puderam viver com dignidade.
  • 256 257 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – IX F A L A R D E N Ó S – IXNo fim da guerra, regressou à terra natal, que rapidamente reiniciava o seu espectacular crescimento, transformando-se numa das maiores praças financeiras do mundo. Depois de quatro anos como empregado bancário, optou definitivamente pela música, integrando primeiro um trio de jazz, como baterista, que actuava regularmente no famoso restaurante Chantecler, muito frequentado por famílias portuguesas, e abraçando depois a vida de DJ.Em reconhecimento do seu exemplar percurso, foi distinguido, em 1987, pela Rainha Isabel II (Member of the British Empire) e em 2008 pelo Governo da Região de Hong Kong (Bronze Bauhinia Star). Recebeu, em 2012, o Honorary Fellowship da Hong Kong Academy for Performing Arts e, em 1997, o Lifetime Achievement Award da RTHK. Mas o título mais lisonjeiro será, certamente, o de “World’s Most Durable Radio DJ”, que deseja manter por muitos e muitos anos. Um problema de saúde, em 2010, obrigou-o a uma intervenção cirúrgica, que fez suspender temporariamente a sua intervenção directa na condução do programa. Uma vez recuperado, reduziu o número de horas desse programa de quatro para três, mas continuou empenhado na sua manutenção com o reconhecido brilho de sempre. Que continue, pois, nesta senda, partilhando com quantos o acompanham a sua música e uma enorme alegria de viver.7 de Janeiro de 2013O Natal é, indubitavelmente, a festividade tradicional mais significativa da comunidade macaense. Foram, assim, numerosos e muito participados os encontros comemorativos no seio das associações macaenses, locais e da diáspora, no mês de Dezembro. Também a Casa de Macau em Portugal teve o seu convívio de Natal, na forma de um bem servido chá gordo na sua sede, na Avenida Gago Coutinho, em Lisboa.Iniciado o novo ano, voltam as actividades directa ou indirectamente relacionadas com Macau. Encontrando-me em Lisboa, aproveito para mencionar algumas das que estão em fase final de preparação e para me associar ao quadragésimo aniversário da publicação do semanário Expresso, jornal de indiscutível relevância e influência política na sociedade portuguesa. No ambiente politicamente depressivo que se vive em Portugal, foi a comemoração desta efeméride o evento provavelmente mais visível e consensual do início do novo ano.Os 40 anos do ExpressoEstava a cumprir o serviço militar na Guiné quando, em Janeiro de 1973, saiu o primeiro número do Expresso. A expectativa que rodeou o seu aparecimento foi enorme na minha geração e não mais deixei de ser seu leitor assíduo até hoje, na Guiné, nos Açores, em Macau ou em Portugal, sem ter perdido um único número.Nas suas páginas está espelhada a história do país nas últimas décadas e foi ali feita a resenha dos mais relevantes acontecimentos internacionais. Macau mereceu também, pelas melhores ou piores razões, amplas referências.Ano novo, vida nova?“... a tentação de matar o mensageiro é eterna e, mesmo nos regimes democráticos, irrompe, por vezes, como parece acontecer agora em Portugal, com intuitos mal disfarçados e procedimentos pouco aconselháveis, esquecendo que, como já dizia o velho Jefferson, ‘sem jornais não há democracia’.”Francisco Pinto Balsemão, Expresso, 5/1/2013
  • 258 259 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – IX F A L A R D E N Ó S – IXOs actos comemorativos compreenderam uma edição especial do jornal, uma exposição retrospectiva na Praça do Rossio, aberta ao público até ao dia 15, um grande concerto no Centro Cultural de Belém, pela Orquestra Metropolitana de Lisboa, apresentando onze temas do período 1973-2013, interpretados por Pedro Caldeira Cabral, Carlos do Carmo, Sérgio Godinho, Paulo de Carvalho, Rui Pregal da Cunha, Tim, Camané, Jorge Palma, Carminho e Boss AC, e ainda a conferência “Portugal no mundo”, igualmente no Centro Cultural de Belém, com Francisco Pinto Balsemão, Mário Soares, Felipe Gonzalez, José Ramos-Horta, Joaquim Chissano, Celso Lafer, António Damásio, Miguel Poiares Maduro e Henrique de Castro. O Presidente da Comissão Europeia, José Manuel Durão Barroso, abriu a conferência, a qual foi encerrada pelo Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva.Faço minhas, como leitor atento e interessado, as palavras de Pinto Balsemão, fundador daquele jornal de referência, no longo artigo que escreveu: “O que sinceramente desejo é que, daqui a 40 anos, o Expresso esteja em boas mãos e comemore gloriosa e orgulhosamente o seu 80.º aniversário!”Seminário de estudos sobre MacauO Seminário Permanente de Estudos sobre Macau, feliz iniciativa académica do Prof. Rogério Puga, da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, prossegue no corrente mês com uma sessão no dia 21, protagonizada pelo investigador Alberto Baena Zapatero, colaborador do Centro de História de Além-Mar da Universidade Nova de Lisboa e da Universidade dos Açores. O tema é “De Macau para o Resto do Mundo: A Exportação Portuguesa de Biombos (séculos XVI-XVIII)”.Como se sabe, a expansão comercial portuguesa no Oriente fez com que chegassem produtos orientais à Europa, a partir do século XVI. O fascínio pelos produtos chineses e japoneses foi enorme, para além da natural curiosidade pelas manifestações artísticas e pela descoberta do “Outro”. A Europa acolheu com impressionante entusiasmo esses produtos e tomou conhecimento dessas manifestações. Esta comunicação visa explicar o significado dos biombos orientais exportados de Macau para Portugal, para as Filipinas e para a América.Workshop de língua chinesaA Casa de Macau em Portugal vai lançar, de 23 de Janeiro a 17 de Março, em dez sessões, o segundo módulo do seu workshop de iniciação à língua e cultura chinesas. Estão abertas as inscrições.FundaçõesNos termos da nova legislação reguladora da actividade das fundações, as várias Fundações ligadas a Macau (do Santo Nome de Deus, Oriente, Jorge Álvares, Casa de Macau e Melchior Carneiro) reformularam os seus estatutos, tendo algumas requerido a manutenção da classificação de utilidade pública anteriormente concedida.A Lei n.º 24/2012 de 9 de Julho, estabeleceu um prazo de 6 meses para essa revisão, em conformidade com as novas disposições fixadas. Esse prazo termina em Janeiro.
  • 260 261 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – IX F A L A R D E N Ó S – IXColóquio do CCCM O Centro Científico e Cultural de Macau (CCCM) promove, de 21 a 23 de Janeiro, na sua sede, na Rua da Junqueira n.º 30, em Lisboa, o colóquio “Património Cultural Chinês em Portugal”. Serão apresentados temas relevantes, como “A representação da China na cartografia portuguesa do século XVI”, “Salas chinesas: uma moda em palácios oitocentistas de Lisboa”, “Biombos chineses em colecções portuguesas”, “Móveis chineses ao gosto Romântico”, “A faiança de influência chinesa no contexto da produção cerâmica seiscentista em Portugal”, “A China na colecção do Museu de Artes Decorativas Portuguesas”, “Colecções de arte chinesa do Museu do CCCM”, “Instrumentos musicais chineses em Portugal”, “Raridades do coleccionismo de arte chinesa em Portugal”, “Ourivesaria religiosa antiga em Macau: principais obras, modelos e vias de influência”, “Reflexos dos pavilhões chineses em Portugal”, “A China e o mercado da arte português na actualidade” e “Património chinês nos museus da Baía, Rio de Janeiro e São Paulo”. A conferência de encerramento, de Vítor Serrão, será “Entre a China e Portugal: temas e outros fenómenos de miscigenação artística”. Na sessão de abertura será lançada a obra “Europe-China. Intercultural Encounters (Sixteenth-Eighteenth Centuries)”. Será também apresentada a garrafa de Jorge Álvares (1552), da colecção Fundação Jorge Álvares, depositada no Museu do CCCM.Observatório da LínguaO Instituto Internacional de Macau (IIM) vai associar-se ao Observatório da Língua Portuguesa (OLP), com o qual estabeleceu uma parceria que tem conduzido à realização de diversos seminários e edições, na organização da conferência “A Sociedade Civil no Plano de Acção de Brasília”, que decorrerá na Academia das Ciências de Lisboa no dia 31 de Janeiro. Os temas principais a tratar nesta conferência serão “O Ensino da Língua Portuguesa no Mundo”, “A Língua Portuguesa na Comunicação Social”, “A Língua Portuguesa nas Organizações Internacionais” e “A Sociedade Civil nas Estratégias de Afirmação da Língua Portuguesa”. Entre os oradores, destacam-se João Bigotte Chorão, José Pacheco Pereira, Eduardo Marçal Grilo, Domingos Simões Pereira, Secretário-Executivo da CPLP, Embaixadores Francisco Seixas da Costa e Eugénio Anacoreta Correia, Afonso Camões, Presidente da Agência Lusa, e João Guerreiro, reitor da Universidade do Algarve.O IIM representa o OLP em Macau e junto de organizações culturais dos países e territórios do Extremo Oriente.Feliz Ano NvoDesejo a todos os leitores um bom ano e às organizações da sociedade civil ligadas a Macau a realização muito positiva dos seus novos programas de acção.14 de Janeiro de 2013
  • 262 263 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – IX F A L A R D E N Ó S – IXAcaba de sair do prelo o livro “Manuel Teixeira, de menino a Monsenhor”, que é o sexto volume da colecção “Missionários para o Século XXI”, do Instituto Internacional de Macau (IIM). O trabalho é de José Mário Teixeira, colaborador do IIM, onde desempenhou as funções de coordenador de projectos especiais até se fixar, recentemente, em Bruxelas, por razões familiares e profissionais. Saudade e homenagemRecordar Manuel Teixeira é buscar na memória mil momentos de convívio com ele que a vida me proporcionou, desde os anos da minha infância até vésperas da sua partida definitiva para Portugal, deixando para sempre a terra que tanto amou e que sempre considerou também sua. Foram incontáveis e inesquecíveis as vezes que falámos, de tudo um pouco, na rua, no Liceu, na minha casa, nas amplas salas do Seminário de S. José, onde juntou vastíssima documentação, na Pousada de Mong-Há, sua residência nos anos derradeiros em Macau, em múltiplas actividades culturais, em cerimónias oficiais ou em simples momentos descontraídos de lazer.Recordar Manuel Teixeira é, para além do homem devotado a muitas causas, lembrar e valorizar a obra que nos legou. Ninguém, afinal, escreveu mais do que ele sobre Macau.O centenário do seu nascimento, em 2012, foi o pretexto para a organização de diversas homenagens, em Macau e em Portugal. O IIM também lhe dedicou uma, muita concorrida, na sua sede, na forma de “serão macaense”, que tive o prazer de coordenar e moderar. Manuel Teixeira, de menino a monsenhor“(…) Missionário, marinheiro, / nascido num berço de pedra, / Entalado entre o mar e as serras, / cumpre o destino de ser português, / Sonha outros horizontes / E de um modo natural / O menino nascido nos montes / Torna-se universal.” Dâmaso Barros, 15-4-98Juntando as comunicações apresentadas, de Eduardo Francisco Tavares e Fernando Vinhais Guedes, um poema de Dâmaso Barros e o inspirado trabalho de José Mário Teixeira, é agora publicado este livro, que é a extensão duradoura dessa homenagem em boa hora prestada. Ali está um singelo e vivo retrato, ao lado de outros que poderão ser produzidos por tantos escritores e agentes culturais que com ele lidaram em variadas circunstâncias.Quando o IIM criou o Prémio Identidade, em 2003, para distinguir personalidades e instituições que contribuíram, de forma eficaz e continuada, para a dignificação e valorização da memória e da identidade de Macau, foi Manuel Teixeira o primeiro contemplado, por decisão unânime do júri, constituído pelo corpo universal dos titulares dos órgãos sociais do IIM, inaugurando uma galeria que inclui, desde então, entidades como a Diocese de Macau, a Santa Casa da Misericórdia, a Associação Promotora da Instrução dos Macaenses, o Club Lusitano de Hong Kong, a União Macaense Americana, a Universidade de Macau, os portais electrónicos intitulados “Projecto Memória Macaense” e “Macanese Families” (Famílias Macaenses) e pessoas com altos serviços prestados, como o escritor Henrique de Senna Fernandes, o Prof. Eng.º Luís de Guimarães Lobato e o Comendador Arnaldo de Oliveira Sales, figuras de referência da diáspora macaense. O IIM continuará a ter em Manuel Teixeira um inspirador permanente para os seus projectos e realizações.Vida e obraAs duas comunicações atrás referidas, de Eduardo Tavares, proporcionando-nos um rico testemunho de um prolongado relacionamento pessoal, e a de Vinhais Guedes,
  • 264 265 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – IX F A L A R D E N Ó S – IXprecioso documento que relata o período final da vida do Monsenhor, enriquecem sobremaneira este volume, cuja peça central é a história de Manuel Teixeira contada por José Mário Teixeira. É um tributo a uma personalidade verdadeiramente invulgar e multifacetada, merecedora da gratidão de Portugal e de Macau.O epílogo do livro contém esta síntese da sua vida e obra: “Numa vida cheia e produtiva, Monsenhor Manuel Teixeira cruzou-se com muitos vultos que haviam de ficar na história de Macau, de Portugal e do Mundo. Conheceu pessoalmente dois Papas, João Paulo II e Pio XII. Desenvolveu uma relação de amizade com o cardeal Ratzinger, na altura número dois da Santa Sé, que viria a tornar-se, também ele, Papa. Viu passar por Santa Sancha duas dezenas de governadores, a muitos dos quais serviu como conselheiro. Deu a conhecer Macau a inúmeros ilustres de todas as nações e, tornado ele próprio, ícone turístico graças a um aspecto e a um carácter tão especial, casou gente de toda a parte, especialmente japoneses, que vinham bater-lhe à porta, depois de o verem na comunicação social ou em fotografias.Se o seu aspecto lhe dava as surpresas já referidas, o seu trabalho foi recompensado com uma série de títulos honoríficos:Oficial da Ordem do Império Colonial (1952); Comendador da Ordem do Infante D. Henrique (1974); Medalha de Valor (1985); Comendador da Ordem Militar de Santiago da Espada (1989); Grande-Oficial da Ordem do Infante D. Henrique (1996); Grã-Cruz da Ordem Militar de Santiago da Espada (1999); membro da Academia Portuguesa de História e da Associação Internacional de Historiadores da Ásia; sócio-correspondente da Sociedade de Geografia de Lisboa; sócio de número da Sociedade Científica Católica Portuguesa; vogal do Centro de Estudos Históricos Ultramarinos e do Conselho da Universidade da Ásia Oriental e Doutor Honoris Causa pela mesma universidade.Representou Macau e Portugal em muitos congressos (…).Foi assistente diocesano da Juventude Independente Católica Feminina (JICF); procurador interino dos Bens das Missões Portuguesas de Singapura e Malaca e procurador dos Bens das Missões Portuguesas na China. Organizou a Legião de Maria da Paróquia de S. José da Missão de Singapura, em 1949; reorganizou, em 1947, a Confraria de Nossa Senhora do Rosário, inactiva durante mais de cinquenta anos; criou a Ordem Terceira de S. Francisco e organizou a Acção Católica em 1953, ainda na mesma paróquia. Foi fundador das Conferências de S. Vicente de Paula, em Macau (1937) e em Singapura (1944) e foi Promotor da Justiça e Defensor do Vínculo do Tribunal Eclesiástico em Macau, entre 1936 e 1947.Algumas das suas obras foram traduzidas em várias línguas, e duas delas valeram-lhe o Prémio História da Fundação Calouste Gulbenkian ‘Presença de Portugal no Mundo’. As obras foram ‘Os Militares em Macau’, em 1981, e ‘Toponímia de Macau’, em 1983. Os prémios pecuniários, de dez mil escudos cada um, foram remetidos, o primeiro ao académico P. António da Silva Rego, com ordem de o remeter ao bispo de Bragança para o seu seminário, e o segundo, a D. António Rafael, ‘como um pequenino grão de areia para a construção da catedral de Bragança’.Colaborou em numerosos jornais e revistas portugueses e estrangeiros (…).
  • 266 267 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – IX F A L A R D E N Ó S – IXFoi proclamado ‘Figura do Ano em Macau’ em 1982, e considerado ‘um dos quatro anciãos mais activos do mundo’, num documentário norte-americano, e uma ‘Enciclopédia Viva’, pela National Geographic. Em 1984, foi narrador de dezasseis filmes históricos para a televisão de Macau e outro para a televisão coreana. Em 1989 participou num filme em Macau produzido pelo ‘Studio Hamburg’, com o actor Hardy Kruger. No mesmo ano, serviu de guia a quatro equipas de televisão vindas de Espanha, França, Hungria e Alemanha.A sua obra tem uma extensão que não pode ser resumida nestas páginas, por falta de espaço, mas que está disponível, na íntegra, na Biblioteca Central de Macau (BCM) que, em 1992, para comemorar o 80.º aniversário do Padre Manuel Teixeira, publicou um boletim bibliográfico intitulado ‘O Homem e a Obra’, onde é possível encontrar fotografias e a referência de todas as publicações de sua autoria então existentes na Biblioteca Central de Macau. Em 2001, antes do seu regresso a Portugal, Monsenhor Manuel Teixeira foi convidado pela BCM a assinar as suas obras que pertencem à Biblioteca. O seu espólio, conservado na Sala de Macau da BCM, inclui: 130 títulos, editados entre 1937 e 1999, 305 analíticos, referentes a diversas publicações periódicas e uma Bibliografia Passiva com 27 títulos.”O livro “Manuel Teixeira, de menino a Monsenhor” já está disponível na secretaria do IIM e na Livraria Portuguesa.21 de Janeiro de 2013Jorge Rangel, pelas funções que desempenhou no Governo de Macau e na área da Educação, acompanhou muito de perto todo o desenvolvimento do ensino superior em Macau, desde a criação da então Universidade da Ásia Oriental, e teve uma intervenção determinante na sua consolidação e crescimento. Passados 30 anos, Macau conta com dez instituições de ensino superior, nas quais estão registados mais de 30 mil estudantes.Até há pouco mais de 30 anos, Macau não tinha nenhuma instituição de ensino superior.Uma empresa privada de Hong Kong assinou, em 1979, um contrato com o governo de Macau para construir uma universidade. Porquê tanta demora?De facto, para além da notável acção dos Jesuítas, que deixaram aqui o embrião de uma primeira universidade na costa da China, com estudos avançados em variadas áreas do saber, só em 1981 começou aqui a funcionar a Universidade da Ásia Oriental. Com a expulsão dos Jesuítas de todo o antigo território ultramarino português, ficou uma terrível lacuna que levou imenso tempo a ser preenchida, não obstante algumas tentativas que não tiveram consistência nem continuidade.O facto de não haver uma instituição desse ensino até há poucas décadas prejudicou o desenvolvimento do território?Foi péssimo para a comunidade. Gerações de jovens não tiveram acesso ao ensino superior. Depois da Segunda Guerra (1939-1945), foi aumentando o número de jovens que puderam tirar licenciaturas, mormente em Portugal ou em Taiwan. Mesmo assim, Entrevista com Jorge Rangel,Ex-Secretário para a Administração,Educação e Juventude e Actual Presidentedo Instituto Internacional de Macau, à Revista do Ensino Superior de Macau (Novembro de 2012)
  • 268 269 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – IX F A L A R D E N Ó S – IXo número era reduzido e iam os que tinham dinheiro e uns quantos com bolsas de estudo, que eram prémios atribuidos aos melhores alunos. Eu fui um dos beneficiários dessas bolsas, mas já na década de 60. Os demais apenas faziam o ensino secundário e nem sequer tinham a opção da China continental, que estava completamente fechada. Em Hong Kong só havia duas universidades reconhecidas e, por não haver sequer vagas para os próprios residentes da então colónia britânica, elas não aceitavam alunos de fora. A frequência de universidades do exterior tornou-se mais intensa a partir da década de 80, quando se multiplicaram as bolsas de estudos e depois da China abrir as suas portas ao mundo.Quando é que finalmente se começou a desenhar um modelo universitário para Macau?O relançamento do ensino superior era já um propósito conhecido, quando no final da década de 70 um grupo privado de Hong Kong pediu autorização ao Governo de Macau para criar uma universidade no território. A proposta da empresa Ricci Island West, que incluia a concessão de terrenos para a construção da instituição, foi rapidamente apreciada. O Governador Garcia Leandro, que era ainda um jovem ― foi nomeado com apenas 34 anos ― com enorme entusiasmo, determinação e correcta visão, dispunha de automonia de decisão, especialmente após a publicação do Estatuto Orgânico de Macau, em Fevereiro de 1976. As decisões políticas já não tinham de passar por Lisboa. O Governador autorizou então a criação da universidade.Muitas dúvidas existiam em relação aos reais interesses dessa empresa de Hong Kong, mas ela cumpriu o contrato firmado.Mas o governador estava confiante de que Macau iria ganhar a sua primeira universidade...Estava. Havia o propósito firme de se criar confiança na era pós-25 de Abril de 1974, em que ainda não estava clara a posição de Portugal, face ao futuro de Macau. Qualquer novo projecto que viesse ajudar a desenvolver o território era muito bem visto pelo Governo, especialmente no outro lado da ponte, na Taipa. A primeira ponte foi inaugurada em Outubro de 1974 e vários projectos importantes surgiram. O Governador acreditou que este investimento externo iria elevar a confiança da população nas intenções de continuidade. Foi aquele um período decisivo da história recente de Macau em que se recuperou a sua estabilidade e se abriram novos caminhos para o futuro.Quando se materializou a proposta? O contrato entre o Governo e a Ricci Island West foi assinado em Fevereiro de 1979 e, dois anos mais tarde, para surpresa de muitos, era já inaugurado o primeiro edifício da Universidade da Asia Oriental, no cimo duma colina da Taipa. Rapidamente surgiram outros edifícios, que se levantaram graças a donativos de personalidades de Hong Kong e a alguns apoios locais.Mas havia um problema: a falta de docentes locais, já que havia poucas pessoas com estudos superiores. Como é que isso foi contornado? Exactamente. A universidade destinava-se, sobretudo, a absorver um universo de alunos que não conseguia ingressar nas instituições do território vizinho, mas tinha, naturalmente, as portas abertas a alunos de Macau. As propinas eram, porém,
  • 270 271 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – IX F A L A R D E N Ó S – IXbastante elevadas. O quadro docente veio de Hong Kong e de várias outras partes do mundo. No decurso do tempo, foram sendo admitidos docentes locais, um dos quais chegou à posição de reitor, na fase terminal da administração portuguesa, quando já estava consolidado o funcionamento da Universidade de Macau. Tudo correu sempre bem? Durante anos a instituição funcionou de forma autónoma, de acordo com as suas próprias regras. O Governo não impôs restrições ao seu funcionamento. Quando ela começou a crescer e precisou de mais apoios, ao mesmo tempo que começaram a escassear os subsídios externos, passou a haver uma ligação mais estreita com o Governo de Macau. Este decidiu apoiar a universidade, mas apresentando algumas novas obrigações. A universidade deveria estar cada vez mais identificada com Macau, oferecer cursos novos considerados prioritários para o território e passou a haver um delegado do Governo junto dela, o que significou uma preocupação do Governo em acompanhar mais de perto o funcionamento da instituição. Foi a partir de 1984 que a ligação entre o Governo e a universidade se tornou mais completa e funcionalmente útil, tendo a empresa proprietária correspondido positivamente aos propósitos do Governo em ter uma universidade preparada para acolher mais estudantes de Macau e formar quadros essenciais para o futuro. O governo não sentiu a necessidade de ter uma universidade pública? Em 1987, com a assinatura da Declaração Conjunta, que fixou a data de 20 de Dezembro de 1999 para a transferência do exercício da soberania, uma das maiores prioridades passou a ser a formação de quadros superiores qualificados e a sua permanente valorização. Era então urgente a criação de uma universidade pública, a par de uma multiplicação de outros organismos e centros de formação, em áreas diversificadas, que foram sendo estabelecidos. Uma das opções era a transformação da Universidade da Ásia Oriental. Apresentei ao Governador, a seu pedido, um relatório e um estudo sobre o funcionamento, os resultados alcançados e as suas potencialidades, face às novas exigências resultantes da assinatura da Declaração Conjunta. Como estava então estruturada a Universidade da Ásia Oriental?Seguia o modelo anglo-saxónico e estava dividida em colégios. Havia cinco colégios: pré-universitário, universitário, de graduação, aberto (para cursos à distância) e politécnico. Havia, sobretudo, cursos que não exigiam grandes equipamentos, laboratórios e meios técnicos mais sofisticados, como Gestão, que era a área mais procurada, Economia e Humanidades. Em que contexto a universidade passou para as mãos do governo, com o nome de Universidade de Macau?Enquanto secretário da Educação, de 1981 a 1986, pude acompanhar o crescimento e intervir nas transformações que foram sendo operadas na universidade. A decisão de adquirir a universidade foi feita pouco depois, quando era Governador o Eng. Carlos Melancia (1987-90). Como presidente da Fundação Macau, organismo que tinha então como objectivos desenvolver o sistema de ensino superior e atribuir bolsas de estudo e de investigação, coube-me um papel decisivo nesse processo. O Governo tinha na altura duas opções: construir uma universidade completamente de raiz ou comprar
  • 272 273 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – IX F A L A R D E N Ó S – IXa da Ásia Oriental e convertê-la. A empresa tinha também interesse num maior envolvimento do Governo. Sabíamos bem como é dificil mudar uma universidade, mas não podíamos perder mais tempo. Construir uma universidade de raiz, equipá-la e formar os quadros docentes iria levar muitos anos e não podíamos esperar tanto. Por isso, foi feita, depois de profunda ponderação, a opção que a todos os intervenientes pareceu ser a mais correcta, naquelas circunstâncias.E assim deu-se a compra... O Governador Carlos Melancia nomeou o director dos Serviços de Finanças para fazer uma avaliação da universidade, bem como da sua situação financeira. 0 Governo pagou então, por intermédio da Fundaçao Macau, 100 milhões de patacas — urn valor que não chegaria para construir uma pequena parte de um novo campus — e assumiu mais 20 milhões de patacas de dívidas. Creio que foi uma transacção vantajosa para ambas as partes. Assim nasceu a Universidade de Macau, em 1991, mas não se tratou apenas de uma mudança de nome. Deu-se então um processo de mudança acelerado, com alterações estruturais e na própria filosofia da instituição. Foi necessária uma enorme paciência e muita determinação para vencer dificuldades, resistências e incompreensões, mas essa mudança foi, felizmente, bem sucedida. Pude concluí-la rapidamente quando voltei a ser secretário da Educação (1991-99), contando com todo o apoio e a visão esclarecida do último Governador, General Vasco Rocha Vieira. Passámos a seguir o modelo europeu, com faculdades em vez de colégios, novos cursos foram lançados e quisemos escolher pessoas que tivessem uma ligação a Macau para estarem à frente da universidade. Não fazia, e pessoalmente acredito que ainda não faz sentido abrir aqui concursos internacionais para escolher reitores e directores sem nenhuma relação com Macau. Uma das prioridades de então era manter uma forte ligação com instituições portuguesas e outras europeias e também com instituições chinesas. Com a abertura crescente da R.P.C., as relações académicas intensificaram-se, a todos os níveis, com entidades chinesas, ao mesmo tempo que se estabeleceram novas ligações com universidades de vários países europeus e também desta area geográfica, reforçando-se a dimensão internacional da nossa unversidade. Mas a empresa proprietária da Universidade da Ásia Oriental continuou a operar aqui. A empresa proprietária da universidade mostrou intenção de continuar a trabalhar na área da Educação em Macau. O seu requerimento para criar uma universidade aberta foi apreciado e aprovado. Foi assim estabelecida a Universidade Aberta Internacional da Ásia (Macau), convertida recentemente em Universidade da Cidade de Macau. Foi nessa altura também que nasceu a Faculdade de Direito?Essa foi uma decisão tão urgente quanto complexa. Era imprescindível um curso de Direito, assim como um de Administração Pública. O Governo primeiramente contactou a Universidade de Lisboa para organizar o curso de Direito em Macau. Foi criado um gabinete no seio do Governo para levar a cabo essa tarefa. Houve divergências quanto à forma de o fazer, o que não deixou de ser salutar, na medida em que todas as alternativas foram equacionadas. Acabou por ser criada na universidade uma Faculdade de Direito com o apoio directo da Universidade de Coimbra e com professores de várias universidades portuguesas. Esse foi um dos trabalhos mais difíceis no contexto das mudanças operadas na universidade, e foi determinante para o sucesso da transição de Macau.
  • 274 275 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – IX F A L A R D E N Ó S – IXImporta que continuem a ser garantidas as condições mais correctas para a formação que se deseja nesta área e que os responsáveis por essa formação sejam conhecedores do Direito vigente em Macau. O gabinete de Apoio ao Ensino Superior (gAES) foi também criado nessa altura. Já se passaram muitos anos e o organismo continua a ter as mesmas funções de antes. é hora de uma mudança? O GAES foi criado, por proposta minha, como um organismo técnico de apoio, necessário para tratar da legislação pertinente, acompanhamento da execucão orçamental, preparação das portarias de aprovação de novos cursos e respectivos planos de estudos, etc. As suas responsabilidades eram, em larga rnedida, de natureza burocrática e técnica, mas o GAES também colaborou, eficazmente, para coordenar e harmonizar iniciativas novas das várias instituições e promover o diálogo entre elas, respeitando sempre a autonomia dessas instituições. Volvidos estes anos, a educação superior evoluiu e cresceu muito, pelo que o próprio organismo tem de evoluir. A sua transformação numa Direcção de Serviços do Ensino Superior merece ponderação. É uma questão pertinente, mas é uma decisão política que o Governo certamente tomará quando for julgado oportuno.Depois veio o Instituto Politécnico. Era uma fase propícia para o desenvolvimento do ensino superior? O Instituto Politécnico foi formalmente criado no mesmo dia em que o Governo publicou no Boletim Oficial a portaria da criação da Universidade de Macau, em Setembro de 1991. Fui o presidente da comissão instaladora do Instituto Politécnico de Macau e arrancámos com as suas actividades em 1991, após um curto período de preparação. Ficaram assim institucionalizadas as duas vertentes do ensino superior do sistema vigente. O IPM conheceu um rápido desenvolvimento. Continuo muito chegado a ele, como seu presidente honorário. Foi também na década de 90 que se aprovou a legislação reguladora do ensino superior. Essa foi, de facto, a grande década do ensino superior de Macau. A chegada de uma instituição de cunho católico não foi bem recebida... Algumas altas entidades nacionais portuguesas chegaram a defender que a gestão da Universidade de Macau fosse confiada à Universidade Católica Portuguesa, que estudava, então, a sua melhor forma de se instalar no território. A questão evoluiu e decidiu-se pela criação do Instituto Inter-Universitário, que hoje é a Universidade de São José. No Grupo de Ligação Conjunto, que acompanhava os assuntos da transição de Macau, com diplomatas portugueses e chineses, foram colocadas dúvidas e alguns entraves ao aparecimento desta nova instituição, mas estava no âmbito das competências do Governador autorizar que o projecto avançasse. E fê-lo com a convicção de que ela podia ser muito útil a Macau. As dúvidas e as dificuldades políticas iniciais estão hoje superadas e a instituição soube prestar serviços reconhecidos, ao mesmo tempo que foi projectando o seu desenvolvimento.Veio a seguir a Universidade da Ciência e Tecnologia. Não participei nesse processo. Esta nova instituição privada já foi criada na vigência da RAEM, recebendo inicialmente alunos da China continental em número considerável. A concessão de amplos terrenos e de avultados subsídios suscitou críticas.
  • 276 277 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – IX F A L A R D E N Ó S – IXO Governo da RAEM considerou importante, no contexto do desenvolvimento do ensino superior, o aparecimento de mais esta universidade. Trinta anos depois, há dez instituições de ensino superior em Macau. Afinal, havia espaço para mais? Cada uma tem objectivos próprios e a procura justificará a sua existência, funcionamento e desenvolvimento. Além das já referidas, temos ainda o Instituto do Milénio, a Escola de Enfermagem do Hospital Kiang Wu, o Instituto de Gestão de Macau, o Instituto de FormaçãoTurística - que se optou por não ser integrado nem na Universidade de Macau nem no Politécnico -, e a Escola Superior das Forças de Segurança de Macau. Estas duas últimas instituições, que são públicas, já existiam no tempo da administração portuguesa e prestaram serviços muito relevantes na formação de quadros para as respectivas áreas. Também surgiram universidades da China a oferecerem os seus cursos, sob diversas modalidades. Hoje em dia, há muitas oportunidades, sendo a oferta muito diversificada. Macau tem uma situacão invejável: só não estuda quem não quer. O Politécnico até criou cursos de formação de trabalhadores especializados para os casinos. Há uma oferta nunca antes vista e nem sequer então imaginável.Com uma oferta mais vasta de cursos, muitos deles passaram a ser leccionados em língua inglesa em vez de portuguesa ou chinesa. é uma evolução positiva? Desde o início que a maioria dos cursos foi leccionada em língua inglesa, tendo em consideração a natureza internacional da universidade, o seu corpo docente e o universo de alunos, muitos dos quais oriundos do exterior. Na fase de transformação da Universidade da Ásia Oriental em Universidade de Macau foram surgindo mais cursos em Português e Chinês. Mesmo a Universidade de S. José, que está intimamente ligada à Universidade Católica Portuguesa, tem privilegiado o uso da língua inglesa.Os cursos oferecidos são coerentes com as reais necessidades do mercado? Haverá lugar para novas faculdades? Sim, em larga medida, os cursos foram sendo criados de acordo com as necessidades do mercado e correspondendo à procura. É oportuno fazer agora uma avaliação da oferta nas várias instituições e resolver algumas duplicações desnecessárias. O funcionamento do ensino superior tem custos elevadíssimos, pelo que interessa também harmonizar a oferta no seio de cada uma delas. Num meio como o nosso, nenhuma instituição pode funcionar como se as outras não existissem. A Universidade de Macau, vencidas as resistências e as dificuldades iniciais — e muitas foram elas — cresceu com estabilidade e produziu resultados muito relevantes para Macau. O mesmo se pode dizer do Instituto Politécnico de Macau, bem como das outras instituições. A criação de novas faculdades ou departamentos dependerá, naturalmente, de novos cursos que venham a ser criados ou de uma eventual reestruturação interna das respectivas instituições. Falava-se recentemente numa mudança do Instituto Politécnico para universidade. Concorda?O Politécnico cumpre um papel muito importante no sistema local de educação. Oferece uma formação profissionalizante, e com um sentido prático, podendo recrutar
  • 278 279 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – IX F A L A R D E N Ó S – IXprofissionais competentes para as suas diversas áreas de formação. Essa mudança não pode implicar apenas uma alteração do nome, pode pôr em causa a estrutura, o corpo docente e até o próprio órgão de gestão. Sei que foi equacionada a hipótese de se anunciar, no 20.° aniversário do Politécnico, que se assinalou no ano passado, a mudança de instituto para universidade. Uma mudança destas deve ser muito bem ponderada, tendo em consideração todas as suas implicações. Há vantagens? Também há, certamente, inconvenientes. Por isso, não deve haver uma decisão precipitada. Há cada vez mais intercâmbios de estudantes, tanto de Macau para o estrangeiro como do estrangeiro para Macau. Isso é importante para fazer com que o ensino superior do território seja mais reconhecido além-fronteiras? Desde a década do 1980, o Governo tem atribuído muitas bolsas de estudo para quem queira estudar fora de Macau. Desde o início do funcionamento da Universidade da Ásia Oriental que Macau recebeu muitos estudantes de fora. Este intercâmbio é, obviamente, salutar. Apesar de Macau ter hoje muitas instituições de ensino superior, continua a ser defensável o envio de estudantes para fora, não só para fazerem cursos que não existem cá, como também para fazer pós-graduações em instituições prestigiadas. A sua visão do mundo e a sua experiência ficam muito mais alargadas e Macau só terá a ganhar com isso. Temos, felizmente, hoje uma juventude muito mais qualificada. A política de educação, desde o tempo da administração portuguesa, podia resumir-se nesta simples frase: dar aos nossos jovens todas as condições para irem o mais longe possível, de acordo com a sua vontade e capacidade. Este objectivo norteou todo o desenvolvimento que se desejou para o ensino superior. O próximo ano será de mudança para a Universidade de Macau, cujo novo campus na Ilha da Montanha (Hengqin) está quase concluído. é um sinal de que a educação superior está de boa saúde? Este novo campus corresponde a um desígnio político da própria República Popular da China em relação ao desenvolvimento do Delta do Rio das Pérolas e à progressiva integração da RAEM no mesmo. A dimensão e os objectivos estabelecidos para a universidade nesse novo campus ultrapassam, largamente, o papel actual da Universidade de Macau. Duas opções eram possíveis: manter a Universidade de Macau no seu actual campus e criar uma nova universidade na Ilha da Montanha (Hengqin) ou transferir a Universidade de Macau para esse novo campus. As duas opções eram defensáveis, mas a decisão está tomada. Espera-se que a universidade, nesse novo campus, conheça um desenvolvimento espectacular, podendo ser uma das maiores e mais importantes universidades nesta que é já uma das áreas geográficas de maior crescimento do mundo. Outro salto notório é o facto de haver cada vez mais interesse pela investigação. Há menos de uma década, eram raros os cursos de mestrado e doutoramento. Considera que a investigação é um dos caminhos para se elevar a reputação de uma instituição?A investigação é uma componente indispensável da actividade académica. Foram já dados passos importantíssimos nesse domínio, em áreas muito diversificadas. Também se foram multiplicando as pós-graduações, à medida que as instituições foram sendo consolidadas no seu funcionamento e conseguindo corpos docentes progressivamente
  • 280 281 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – IX F A L A R D E N Ó S – IXmais qualificados. Os resultados da investigação académica marcam decisivamente o prestígio da instituição.O que falta para o ensino superior de Macau elevar a sua reputação no campo internacional? Deve continuar a haver uma aposta constante na qualidade, sempre mais e mais. Consegue-se isso com docentes altamente qualificados, para o que será necessário criar condições para atrair os melhores e estabelecer critérios rigorosos de selecção e recrutamento. São necessários também bons equipamentos, bibliotecas de qualidade, centros de investigação de excelência, académicos que divulguem os seus trabalhos em publicações científicas de reconhecido prestígio e relações de cooperação com instituições de renome. Quanto mais o nome de Macau aparecer neste contexto, mais reputação e reconhecimento ganhamos.Presidente do Instituto Internacional de Macau desde Dezembro de 1999, Jorge Alberto Hagedorn Rangel desempenhou funções públicas em Macau, sua terra natal, durante quase 25 anos, treze dos quais como membro do Governo, tendo tutelado as áreas de Administração Pública, Educação, Cultura, Juventude, Desporto e Turismo, bem como o Gabinete Coordenador das Cerimónias de Transferência. Em várias ocasiões foi Encarregado do Governo de Macau, substituindo o Governador nas suas ausências.É casado e tem uma filha, vivendo a família, oriunda de Portugal, há dez gerações em Macau e noutras terras do Extremo Oriente.Fez os ensinos básico e secundário em Macau e os estudos superiores em Lisboa, Cambridge, Bonn e Navarra. Enquanto estudante, dedicou-se intensamente a actividades de juventude, tendo participado também em encontros estudantis e juvenis no estrangeiro, e interessou-se pela comunicação social, tendo obtido a classificação de “óptimo” no I Curso Nacional de Jornalismo organizado pelo Sindicato Nacional de Jornalistas, além de ter feito o Curso de Ciências e Técnicas de Informação, em Pamplona (Espanha).Cumpriu o serviço militar nos Açores e na Guiné, onde, como Capitão Miliciano de Infantaria, comandou uma companhia em zona operacional, com vários louvores em campanha, tendo também dirigido a instrução de tropas no seu comando operacional. Na fase final da comissão militar na Guiné, trabalhou junto do Governador e Comandante-Chefe.Foi eleito deputado à 1.a legislatura da Assembleia Legislativa de Macau (1976-80), onde presidiu às Comissões de Assuntos Constitucionais, Jorge A. H. Rangel Presidente do Instituto Internacional de MacauNOTA BIOgRÁFICA
  • 282 283 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – IX F A L A R D E N Ó S – IXDireitos, Liberdades e Garantias e do Regimento e Mandatos e, entre outras funções públicas, foi também presidente da Fundação Macau e director do Turismo e da Comunicação Social. As suas últimas responsabilidades oficiais foram a coordenação da transferência das responsabilidades administrativas da Administração Portuguesa para o novo Governo da Região. Foi também membro do Conselho de Redacção da Lei Básica da Região Administrativa Especial de Macau.No âmbito académico, além de funções docentes, foi o presidente da comissão instaladora do Instituto Politécnico de Macau, de que é agora presidente honorário, e membro das comissões instaladoras do Curso de Administração Pública e da Faculdade de Ciências da Educação da Universidade de Macau. Também presidiu ao Conselho da Universidade de Macau e aos Conselhos de Educação, do Desporto e de Juventude e foi consultor da Universidade Aberta Internacional da Ásia. É professor convidado de várias instituições de ensino superior, sendo também director honorário do Centro de Estudos Comparativos de Culturas da Universidade de Soka (Tóquio). Foi conferencista no Instituto da Defesa Nacional de Portugal, ministrando a matéria “A Bacia do Pacífico, Situação Estratégica e Perspectivas de Evolução”, e integrou o corpo docente do curso de pós-graduação em China Moderna no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade Técnica de Lisboa, dando idêntica colaboração docente no Curso de Estudos Chineses (China Moderna e Contemporânea) da Universidade de Aveiro, ocupando-se dos Estudos de Macau.Desenvolveu e mantém ainda uma actividade intensa em organismos internacionais, como a UNESCO, a EROPA (Eastern Regional Organization for Public Administration), de que é membro vitalício, a Universidade das Nações Unidas e a Associação das Universidades de Língua Portuguesa (AULP). Foi presidente da EATA (East Asia Travel Association), com sede em Tóquio; presidente regional da PATA (Pacific Asia Travel Association), com sede em Banguecoque, de que é director vitalício, e membro do Conselho Executivo da Organização Mundial do Turismo, com sede em Madrid. Participa regularmente, como conferencista, em encontros internacionais, de que se destaca a Conferência Internacional sobre o Diálogo das Civilizações, que se realizou em Tóquio e Quioto, no âmbito das Nações Unidas, tendo presidido à sessão sobre “Multiculturalismo e Encontro de Culturas”.A actividade associativa ocupa parte importante do seu tempo, tendo sido presidente do Elos Internacional – Movimento da Comunidade Lusíada durante dois mandatos (eleito em São Paulo, Brasil, em 1999, e reeleito em Coimbra, em 2001), presidindo depois ao seu conselho superior. É presidente da assembleia geral da Associação Promotora da Instrução dos Macaenses, presidente dos conselhos consultivos da Associação de Gestão de Macau e do Conselho das Comunidades Macaenses, académico honorário da Academia Portuguesa de História, académico da Academia Lusófona de Arte e Cultura, membro do conselho de administração do Observatório da Língua Portuguesa e presidente do Conselho Supremo da Sociedade Histórica da Independência de Portugal, além de dirigente ou membro de numerosas outras associações de natureza cultural, artística, educativa e social. O Instituto Internacional de Macau, de que é presidente e membro fundador, é uma organização não governamental, com a classificação oficial de organismo de utilidade pública. É também membro dos conselhos de curadores das Fundações Casa de Macau, Jorge Álvares e do Santo Nome de Deus, todas ligadas a Macau, sendo também membro honorário de agremiações macaenses espalhadas pelo mundo.
  • 284 285 J O R g E A . H . R A N g E L J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – IX F A L A R D E N Ó S – IXÉ autor de várias obras, com destaque para “Macau e a Comunidade Macaense”, com 10 volumes, dos quais 8 já publicados.Foi agraciado com diversas condecorações e outras distinções nacionais e estrangeiras, de que se destacam a Ordem Nacional do Infante D. Henrique (Grande Oficial em 1982 e a Grã-Cruz em 1998), a Medalha de Valor (a mais alta distinção honorífica de Macau), a Medalha de Mérito Pedro Ernesto da Cidade do Rio de Janeiro, a Medalha de Mérito da Federação das Associações Portuguesas e Luso-Brasileiras do Brasil, o título de membro honorário do Liceu Literário Português e do Real Gabinete Português de Leitura do Rio de Janeiro, a Comenda Eduardo Dias Coelho, do Elos Internacional, a Medalha Machado de Assis, a Medalha Victor Hugo de Cultura e a Medalha de Mérito Min-On (Tóquio), tendo também recebido o Award of Excellence do Instituto de Filosofia e Estudos Orientais de Tóquio, o Paul Harris Fellow e o título de membro benemérito da organização rotária internacional e, ainda estudante, o troféu D. Quixote, do Conselho da Europa, nos Colóquios Internacionais sobre a Juventude e a Europa do Futuro, além de vários doutoramentos honoris causa.
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