Jorge A. H. rAngelFAlAr de nós – VIIIMAcAu e A coMunIdAde MAcAense – acontecimentos, personalidades,instituições, diáspora, legado e futuro
FALAR DE NÓS – VIII
Ficha TécnicaTítulo FALAR DE NÓS – VIII • Subtítulo Macau e a Comunidade Macaense – acontecimentos, personalidades, instituições, diáspora, legado e futuro • Autor Jorge Rangel • Editor Instituto Internacional de Macau • Di recção e execução g rá f i ca s v ic tor hugo des ign • Dact i l og ra f i a Emí l ia Guine , Cheng Mei Ieng• Tiragem 500 exemplares • Impressão e encadernação Tipografia Welfare Lda • ISBN 978-99937-45-64-8• Macau, Dezembro de 2012Nota: Nota: Edição composta pela série de crónicas e artigos publicados no “Jornal Tribuna de Macau”, de 24 de Janeiro de 2011 a 16 de Janeiro de 2012.EdiçãoInstituto Internacional de MacauPatrocínio da Fundação Jorge ÁlvaresApoio do Governo da RAEM
FALAR DE NÓS – VIIIMACAU E A COMUNIDADE MACAENSE– acoNTEciMENTos, pErsoNaliDaDEs,iNsTiTuiçõEs, Diáspora, lEgaDo E fuTuroSérie de crónicas e artigos publicados no “Jornal Tribuna de Macau”,de 24 de Janeiro de 2011 a 16 de Janeiro de 2012JORgE A. H. RANgELMacau, Dezembro de 2012
J O R g E A . H . R A N g E L ÍNDICE011Nota prévia 012Colaboração de Danilo Barreiros na Revista Renascimento24/01/11018Preparativos tradicionais para o Novo Ano31/01/11024Rituais caseiros do Ano Novo07/02/11030Lisboa também deu as boas-vindas ao Ano do Coelho14/02/11035Meio século de J. J. Monteiro em Macau21/02/11040 Solidariedade com o povo da Madeira28/02/11046O Carnaval de outrora na nossa terra07/03/11051 Macau sempre presente em Lisboa14/03/11056 Personalidades que nos deixaram nos últimos meses21/03/11061 Sau-Seng, símbolo de longevidade28/03/11066 Consagração dos lares ao Imaculado Coração de Maria04/04/11071 O Oriente de Influência Cultural Portuguesa11/04/11076 Três significativas homenagens18/04/11081 Macau nos Anos da Revolução Portuguesa de Abril25/04/11
J O R g E A . H . R A N g E L 086 Culinária macaense — marca singular da nossa identidade02/05/11091 Uma exposição que dignificou a memória de Macau09/05/11096 Lusofonia — um colóquio e mais uma parceria útil16/05/11101 As negociações da Declaração Conjunta23/05/11107 O poeta-soldado recordado em serão macaense30/05/11113 Adivinhas populares maquistas06/06/11119 Presidente do IPM homenageado em encontro académico lusófono13/06/11125 Macau na feira do livro de Lisboa20/06/11130 Prémio Identidade contemplou projectos da memória macaense27/06/11135 O que foi que nos aconteceu?04/07/11140 Sun Yat Sen, Macau e a República11/07/11146 Oriente / Ocidente — vinte e seis números publicados18/07/11151 No 12.º aniversário do Centro Ecuménico Kun Iam25/07/11157 “Nha Bijagó”, de António Estácio01/08/11
J O R g E A . H . R A N g E L 163 Memória desta vida se consente08/08/11169Canhoneira “Pátria” – duas décadas ao serviço de Portugal em Macau15/08/11174Os serviços da lancha-canhoneira “Macau”22/08/11179A Marinha em Macau — canhoneiras, cruzadores e avisos29/08/11184 Três pares de navios-gémeos nas águas de Macau05/09/11190 Quando Macau teve aviação naval12/09/11196 Os marinheiros na história de Macau19/09/11202 Hinos patrióticos também cantados em Macau26/09/11208 Gastronomia em foco04/10/11213 Movimento Festlatino em Macau10/10/11219 A revolução republicana chinesa vista de Portugal17/10/11225 Importância do Fórum de Macau para o Brasil24/10/11231 Brasil, Macau, Lusofonia e Cooperação31/10/11237 A missão do Fórum de Macau num discurso lapidar07/11/11
J O R g E A . H . R A N g E L 243 Congresso do CEUCO e outras jornadas gastronómicas14/11/11248 S. Martinho em rota gastronómico-cultural no Vale do Sousa21/11/11253 Livro que é uma história de vida28/11/11259 Mais um depoimento recente sobre o “1, 2, 3”05/12/11264 O adeus ao General Melo Egídio12/12/11269 Melo Egídio e as prioridades da acção governativa19/12/11274 Melo Egídio e o bom relacionamento com as autoridades chinesas03/01/12279 Bô-Festa, Filiz Áno Nôvo09/01/12284 A poesia na pintura de Pedro Barreiros16/01/12289 Nota biográfica
010F A L A R D E N Ó S – VIIIJ O R g E A . H . R A N g E L
011 J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – VIIISemana após semana, os artigos e as crónicas foram saindo no Jornal Tribuna de Macau e reunidos, no início de cada novo ano, em mais um volume, sendo este já o 8.º desta série para a qual o título genérico escolhido foi “Falar de Nós – Macau e a Comunidade Macaense – Acontecimentos, Personalidades, Instituições, Diáspora, Legado e Futuro”.Festividades, tradições, obras que mereceram a adesão do público, algumas figuras marcantes da comunidade, os serviços prestados pela Marinha Portuguesa, um pouco de história e o papel de Macau como plataforma de cooperação são matérias tratadas neste volume, cuja publicação só foi possível graças aos apoios de várias entidades, ao interesse dos leitores e à colaboração da minha família e do pessoal do Instituto Internacional de Macau. A todos quero, por isso, saudar e expressar o meu sentido reconhecimento, deixando a promessa de que, em breve, estará no prelo o volume IX, ao mesmo tempo que a preparação do X estará iniciada.São testemunhos directa ou indirectamente relacionados com Macau e a comunidade macaense que ficam, desta feita, registados e compilados, como contributo, modesto certamente, mas positivo, para um melhor conhecimento desta terra e duma comunidade que foi, durante séculos, o sustentáculo humano da sua administração e do seu desenvolvimento cultural, permitindo-lhe, com ambição, ir muito para além da sua limitada geografia.Macau, Dezembro de 2012O autorNota Prévia
012F A L A R D E N Ó S – VIIIJ O R g E A . H . R A N g E L Quando, no artigo anterior, foram referidos o centenário do nascimento de Leopoldo Danilo Barreiros, ocorrido em Outubro passado, e a apresentação do romance biográfico “Danilo no Teatro da Vida”, de Pedro Barreiros, numa sessão organizada pelo Instituto Internacional de Macau, em Novembro de 2010, foi salientada a importante colaboração por ele prestada, desde a primeira hora, à revista “Renascimento”.O primeiro número daquela revista saiu em Janeiro de 1943, com o seguinte elenco de qualificados colaboradores: director e proprietário - Eduardo Reis; administrador - Luís Gonzaga Gomes; redactor principal - Francisco de Carvalho e Rêgo; redactores - José de Carvalho e Rêgo, José Maria Braga, Luís Gonzaga Gomes e Leopoldo Danilo Barreiros; director gráfico – Eugénio de Ferro Beça; colaboração – da União Nacional, de Eduardo Reis e do Major C. R. Boxer. A direcção e a propriedade foram assumidas, a partir do número 4, de Abril de 1943, pelo advogado D. João de Vila Franca, que lhe manteve a orientação editorial. A intervenção de Danilo BarreirosPedro Barreiros caracteriza deste modo a intervenção do pai: “Professor primário, director e professor do ‘Académico’, chefe de secretaria e tesoureiro do Rádio Clube de Macau, vogal e secretário da Cruz Vermelha Portuguesa. Todas estas funções eram desempenhadas com intensidade e dedicação total. À noite, escrevia para os jornais, a ‘Voz de Macau’, o ‘Boletim Eclesiástico’ (!) e, em 1943, começou a ser redactor da revista ‘Renascimento’ que durou até 1945. A sua colaboração, ao longo dos quase três anos que a revista durou, foi sobretudo importante pelo estudo que fez e nela publicou, sobre o dialecto português de Macau”.Colaboração de Danilo Barreiros na Revista Renascimento“A sua colaboração ao longo dos quase três anos que a revista durou, foi sobretudo importante pelo estudo que fez e nela publicou, sobre o dialecto português de Macau”.
013 J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – VIIISão também enaltecidas, no livro, as qualidades de outros colaboradores: “Luís Gonzaga Gomes, José Maria Braga e Charles Boxer eram, e são ainda considerados, grandes autoridades na história de Macau e dos Macaenses, e a sua importância e espírito de rigor investigativo davam, desde logo, seriedade à revista”. “Os irmãos Rêgo (...) eram muito ligados à literatura, ao teatro, à música, e entusiastas organizadores das mais diversas actividades e eventos culturais do território”. “Eugénio Beça, verdadeiro artista plástico e ‘designer’ é o responsável pelo seu aspecto gráfico e por uma quantidade de deliciosas vinhetas, que se espalham pelos sucessivos números da revista”.E ainda sobre Danilo: “... a colaboração do Danilo no ‘Renascimento’ obrigou-o a escrever sobre temas muito variados, usando diversos estilos. Desde o interessante, importante e pioneiro estudo sobre o dialecto português de Macau, a poemas, contos policiais e crónicas humorísticas, experimentou tudo e, com o balanço que escrever para a Revista lhe deu, fez muito mais, sobretudo sobre temas que tinham a ver com Macau: Wenceslau de Moraes, Camilo Pessanha, outras personalidades como João Vasco, Bocage e o próprio Santo António. Nunca permitiu que lhe chamassem escritor, e dizia, repetidamente, quando, à sua mesa de trabalho, atafulhada de livros, papéis e documentos: Nunca tive tempo para ser uma pessoa culta”. O “Horóscopo” de apresentaçãoOs propósitos da revista foram expressos na introdução ao primeiro número, de Janeiro de 1943, com o título “Horóscopo”. De acordo com Pedro Barreiros, “esta introdução aconselha os colaboradores a não usarem excesso de rigor científico, dá
014F A L A R D E N Ó S – VIIIJ O R g E A . H . R A N g E L ao director e editor a liberdade de alterar, em nome de várias virtudes os trechos dos autores mantendo-se tudo na família sem alardes exteriores” e “a colaboração da União Nacional deve ter sido sobretudo nesta função de controlo e vigilância”. Recorde-se, no entanto, que Luís Gonzaga Gomes integrou, por vontade própria, a comissão local da União Nacional. E não foi por acaso que a revista abriu com um artigo do presidente dessa comissão, Dr. Almeida Carneiro, em que assevera que “a imprensa portuguesa é hoje colaboradora inteligente do Governo Nacional e obreira da Política de Espírito criada e difundida pelo Estado Novo”, não faltando em vários números textos de pendor nacionalista e laudatórios do regime político e das suas instituições.Esse “Horóscopo” anunciou que “a presente revista incluirá nas suas páginas, além de investigações históricas, produções literárias, estudos científicos, parcelas de humorismo, possivelmente ilustrações, e tudo o mais que possa reunir-se no sincero desejo de satisfazer todas as predilecções do seu ambicionado largo círculo de leitores”. “Nas tradições quadrisseculares da colónia, que são sólido esteio da sua conservação e progresso, juntará a ardida e operosa redacção da Revista este novo e vigoroso pilar tendo como fundamento o bom gosto”. A revista nasceu porque “algumas pessoas das que exercem profissões mais destacadamente intelectuais no nosso meio tiveram a lembrança de aproveitar algumas sobras dos seus momentos de repouso, para sustentarem uma publicação periódica que pudesse servir de entretenimento a muitos e de instrução mesmo a alguns dos demais”.Nesse optimista “Horóscopo” vaticinou-se ainda que “tão benévolos presságios nem carecem que enverguemos as vestes de um arúspice para poder predizer o futuro
015 J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – VIIIe assegurar à revista uma dilatada e assaz proveitosa carreira”. Proveitosa foi ela, mas, infelizmente, pouco dilatada, já que cessaria a sua actividade menos de três anos volvidos, em Setembro de 1945.Um balanço quase no fimO número 1 do volume V, de Janeiro de 1945, terceiro e último ano de publicação, abriu com um editorial, da pena de Francisco Penajoia (pseudónimo de Francisco de Carvalho e Rêgo), à guisa de balanço do caminho percorrido, manifestando regozijo pelo sucesso alcançado, lamentando as dificuldades e incompreensões sentidas e afirmando a determinação de prosseguir. Destacam-se as seguintes passagens:“Não era nosso desejo elogiar a própria obra, porque bem sabemos que ‘o elogio em boca própria é vitupério’; porém, se é moda fazê-lo, se é costume a usança, digamos, também, sem receio de desmentido, que, guiados pelo mais são nacionalismo, viemos para servir... e servimos”.“Quando metemos ombros a tão arrojado empreendimento, solicitámos a colaboração de algumas pessoas de valor, e de outras de boa vontade, as quais julgámos não deslustrar com a nossa parceria, não por nossos méritos intelectuais mas apenas pela nossa sinceridade; porém, ora pela evasiva, ora pela falta de cumprimento da palavra dada, ora ainda pela fuga indelicada e inesperada, vimo-nos reduzidos a um pequeno número de redactores, entre os quais contamos, para honra nossa, alguns de grande valor”.
016F A L A R D E N Ó S – VIIIJ O R g E A . H . R A N g E L “Somos poucos, portanto, mas bastantes. Somos bastantes para continuar a vida desta Revista, bastantes para vencer as dificuldades que surjam”.“Falíveis, como somos, não vivemos na doce e estulta ilusão de que atacamos o erro dos outros, quando do próprio não podemos libertar-nos. Antes procuramos evitar ganhar em defeito o que nos forçam a perder em virtude”.“Servimos de pé, tendo o caminho, que seguimos, iluminado pela firmeza de carácter, de que não abdicamos. E, sempre que seja preciso, desceremos à liça, de corpo descoberto e face alevantada para nos desafrontarmos de quem quer que seja que procure molestar-nos, ou desrespeitar-nos, ainda que tenhamos, para tal, de usar de meios extremos”.Já no início do segundo ano de publicação, no número 1 do volume III, de Janeiro de 1944, uma nota da redacção fizera saber que a “Renascimento” tinha menos assinantes, mas registava “um número considerável de ‘críticos’, daqueles que são capazes de abalar os mais sólidos alicerces” e que, sendo a revista dos leitores, “deixará de existir quando não haja quem queira lê-la”.Reedição facsimiladaA vida da revista não foi longa, mas ali ficaram trabalhos muito importantes, sobre Macau, a cultura chinesa, a história de Portugal no Oriente Extremo, a música, a etnografia e a acção missionária. Também a poesia e outros textos literários tiveram lugar nas suas páginas, através de novas colaborações que foram despontando.
017 J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – VIIIPor isso, já no fim da década de 90 do século passado, quando a administração portuguesa se aproximava rapidamente do seu termo, foi decidida a reedição dos volumes publicados. Juntei no meu gabinete os primeiros responsáveis de vários organismos que tutelava como membro do Governo de Macau (a Fundação Macau, a Direcção dos Serviços de Educação e Juventude, a Universidade de Macau e o Instituto Politécnico de Macau) e, pouco depois, a colecção saía do prelo, em Março de 1998, com muito bom acolhimento, num período de impressionantemente intensa produção editorial no território.24 de Janeiro de 2011
018F A L A R D E N Ó S – VIIIJ O R g E A . H . R A N g E L Os dias correram vertiginosamente e eis-nos chegados uma vez mais à maior de todas as festividades chinesas, aquela que conta com o total envolvimento das suas comunidades espalhadas pelo mundo e de mais de mil milhões de pessoas que vivem no vasto continente e nas regiões especiais da China. Em Macau, ela também é a mais significativa e participada das muitas festas que preenchem o nosso rico calendário de efemérides locais.No número 6, volume III, da revista “Renascimento”, de Junho de 1944, Luís Gonzaga Gomes ofereceu aos leitores um pitoresco relato dos vários momentos deste relevantísimo evento anual. Depois de lembrar que “ficaram prescritas no velho calendário lunar várias festividades que são aproveitadas por toda a população” e que “dessas festividades existem seis principais que o povo obstina em respeitar” (“a do Ano Novo, a do Barco Dragão, a da Colheita, a da Pura Claridade, a de Todas as Almas e a Outonal”, sendo as três primeiras destinadas aos vivos e as três últimas aos espíritos), descreveu a azáfama que caracteriza a fase preparatória, fundamental para garantir a boa realização dos diversos actos comemorativos e a entrada auspiciosa no novo ano. Desse texto, transcrevemos algumas passagens mais significativas: “Ora, de todas, a mais prolongada, a mais ruidosa e, portanto, aquela que se celebra com mais entusiasmo é a da ‘Sân-Nin’ (Ano Novo), para a qual valem a pena todos os sacrifícios que se fizeram durante o ano para economizar aquilo que irá ser generosamente gasto nos três dias da grande solenidade, em que, a não ser os indigentes, todos têm de calçar um par de sapatos novos, exibir a sua cabaia de luzente seda, ter em casa o imprescindível para a realização do tríplice culto, bem como os mimos necessários para serem permutados com as pessoas das suas relações.Preparativos tradicionais para o Novo Ano“Ora, para o sucesso desse dia tão importante e festivo é necessário que os preparativos sejam iniciados com grande antecipação”.
019 J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – VIIIDe resto, o Ano Novo coincide com o ‘Lap-Tch’ân’ (Início da Primavera), período esse em que os princípios masculinos e femininos se plasmam homogeneamente com o fim de produzir a estabilidade do universo, em que as forças da natureza são renovadas e em que se inicia uma nova vida por terem sido saldadas todas as dívidas com o último dia do ano que passou. Que é de admirar, pois, que os (...) milhões de seres que povoam esta parte do globo se reúnam espiritualmente num frémito de mais vivo júbilo para acolherem o despontar do novo ano com o ensurdecedor estralejar de ‘p’áu-tchèong’ continuamente cortado pelos troantes estampidos de grandes cartuchos de pólvora e dos formidáveis estouros produzidos pelos fogos de artifício com que se remata a queima das intermináveis fitas desses estalos!Ora, para o sucesso desse dia tão importante e festivo é necessário que os preparativos sejam iniciados com grande antecipação. Assim, já no dia 20 da última lua, tanto as residências dos ricos como as humildes mansardas dos pobres são varridas e lavadas e ai de moça que se desleixe no varrer, pois, as partículas de pó que não forem removidas cegá-las-ão, infalivelmente, para castigo da sua negligência.Entretanto, nas moradas dos humildes, todos os membros da família se encontram atarefados. Uns consertam apressadamente os velhos trastes, outros ajeitam as desengonçadas portas e outros remendam os papéis que servem de vidraça.Nas dos ricos, os criados brunem com entusiasmo os paus-pretos, redoiram as talhas, reenvernizam o portão da entrada principal, enquanto que as donas de casa vão buscar às arcas as almofadas de juta, revestidas de seda de auspicioso vermelho, para as colocar sobre os duros assentos das cadeiras e dos bancos, bem como os admiráveis bordados de exóticos desenhos destinados a servirem de reposteiros.
020F A L A R D E N Ó S – VIIIJ O R g E A . H . R A N g E L Mas a azáfama não se limita ao asseio da casa. É ainda preciso que se vá ao mercado comprar as diversas farinhas, jagra e demais condimentos, para se prepararem as diversas guloseimas, tais como os ‘pak-kôu’, os ‘pák-tch’i’, os ‘tchin-tui’, os ‘lit-hâu-tchôu’, os ‘t’ai-lóng-kôu’ e os ‘t’óng-uán’, destinadas a serem enviadas às pessoas amigas, bem como os cristalizados para encherem as oito divisões dos ‘tch’ün-hâp’ — caixas em porcelana, vidro ou laca de formato quadrado, circular ou octogonal, com uma divisão circular no meio para os indivíduos que se servirem desses doces deitarem os seus ‘lâi-si’, isto é, algumas moedas ou notas embrulhadas em papel escarlate —, sendo também imprescindível a aquisição de pevides tostadas de melancia, e tangerinas para com eles se obsequiar também os conhecidos e os hóspedes.Chegado o dia 24 da última lua não há casa nenhuma que não celebre sacrifícios ao ‘Tchôu-Ká-P’ôu-Sát’ ou ‘Tchôu-Kuân’ (o Senhor do fogão), cuja imagem se encontra enegrecida pelo fumo e num nicho atrás do fogão. (...) Aqueles que não puderem dispender uns cobres para a compra desta imagem limitar-se-ão a aplicar na parede atrás do fogão uma folha de papel vermelho onde estão pincelados os caracteres correspondentes ao nome e aos respectivos títulos da divindade em questão, pois, sendo ele o agente de ligação entre os mortais e os celículas, o espia que tudo vê para ir relatar ao soberano do Céu, quem há que se atreva de lhe deixar de ‘bater a cabeça’, de lhe acender umas velas e de lhe oferecer alguns bolinhos? (...)À medida que se vai aproximando o dia festivo, vão-se animando as ruas. Em lugares mais frequentados organizam-se feiras, onde os negociantes improvisam as suas tendas repletas de artigos de louça e de todos os objectos adequados ao
021 J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – VIIIuso caseiro. Prosperam nesses dias os impressores ambulantes que não cessam de satisfazer os pedidos de numerosos clientes com vermelhos cartões de visita impressos em caracteres de fantasia. As mercearias regorgitam de fregueses que necessitam de fazer as suas provisões, pois, durante alguns dias, ninguém trabalhará na China e todas as lojas se conservarão encerradas. Há vendedores ambulantes que percorrem todas as ruas de lés a lés, com reduzidas miniaturas, em papelão, arcaicas alabardas, caixinhas recheadas de estalos, mealheiros de barro em forma de potes ou de porquinhos pintadinhos de vermelho e salpicados de prata, serviços completos de cozinha em tamanho reduzido e feitos de argila cozida, jogos de glória, enfim uma variedade infinita de tentadores objectos para seduzirem os petizes e que só custam uns cobres.Na véspera e na antevéspera do ano, em Macau, não há nenhum chinês que não se dirija à noite à Rua do Sul do Mercado de S. Domingos com o fim de comprar uns bolbos de junquilho e uns ramos de pessegueiro, especialmente tratados para florescerem nessa quadra festiva.Os que dispõem de dinheiro poderão escolher por entre a enorme variedade de flores e de arbustos de laranjeiras ou de tangerineiras artificialmente reduzidas, a planta que mais lhe agradar e que julgue mais decorativa para a sua residência, bem como um ou outro globo de vidro contendo peixes doirados. (...)Ao anoitecer, depois de ter saído o último freguês, cerram as lojas as suas portas e as contas dos ábacos deslizam rápidas pelas varetas que se prendem aos caixilhos e movidos pelos frementes dedos dos caixas. Se o resultado do negócio durante o ano fôr
022F A L A R D E N Ó S – VIIIJ O R g E A . H . R A N g E L positivo, o patrão sorri de satisfação e chalaça com os empregados, concedendo-lhes uma gratificação; se fôr negativo... com uns avozinhos se compra um boiãozinho de ópio que, ingerido com água, nunca traíu ninguém, nunca fez ‘perder a face’ a nenhum negociante insolvente. Outras vezes são os moradores que acordam sobressaltados durante a noite com o estridor de desabalados carros de incêndio que vão atalhar as chamas de uma loja que ardeu sem se saber como. Porém, no dia seguinte correrá à boca pequena que o seguro irá pagar a dívida de certo comerciante cuja falência já estava prevista.(...)Um dos assuntos que mais preocupa o chinês na véspera do ano é a substituição dos dísticos agoureiros que se encontram colados não só nos dois lados e em cima da porta principal como em quase todas as portas do interior da sua residência inclusivamente as da cozinha. Tais dísticos exprimem desejos de venturas, sucessos nos negócios, numerosa prole, descendência ininterrupta, longa vida, honrarias e riquezas, ocupando, porém, lugar proeminente o carácter ‘fôk’ (felicidade) elegantemente caligrafado, em grandes recortes de papel vermelho com o formato de losangos. (...)Além dos dísticos auspiciosos, os chineses costumam também colar nas suas portas, nessa ocasião, as efígies dos ‘mun-sân’ (deuses das portas), que foram, em época desconhecida, dois irmãos que viveram debaixo dum pessegueiro tão grande, que cinco mil homens de braços estendidos não conseguiram abraçar o seu adansonesco tronco. (...) Com o tempo as imagens dessas divindades passaram a ser gravadas em tabuínhas até que por último foram substituídas por gravuras em papel e, sendo fáceis de identificar por terem ao fundo em pessegueiro em flor”.
023 J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – VIIIEis alguns dos preparativos tradicionais que ainda hoje, em larga medida, permanecem. Concluiremos esta interessantíssima descrição no próximo artigo.31 de Janeiro de 2011
024F A L A R D E N Ó S – VIIIJ O R g E A . H . R A N g E L Pudemos acompanhar, no artigo anterior, o muito elucidativo relato que Luís Gonzaga Gomes (“A Festividade do Ano Novo Chinês”) fez no número 6, volume III, da revista “Renascimento”, sobre os preparativos tradicionais para o Ano Novo, descrevendo e explicando minuciosamente rituais e práticas ainda hoje bastante generalizadamente observados.Vimos já o que era costume fazer-se desde o dia 20 da última lua até à antevéspera da grande data. Prossigamos então:“Ora, salvaguardadas as habitações da invasão dos seres perniciosos com a aplicação de dísticos e de imagens, apresta-se, então, a família chinesa para ir cumprimentar os seus parentes que morem sob outros tectos, sendo praxe realizar-se tais visitas na antevéspera do dia do ano. Os jovens são também obrigados a visitar os seus mestres que, para os chineses, são as pessoas mais importantes, logo depois dos seus pais. Estas visitas são feitas com o fim de se despedirem do ano, e, antes de regressarem ao lar, os indivíduos de haveres costumam deambular pelas ruas, seguidos de um criado com dinheiro miúdo, para ser distribuído pelos necessitados. (...)Entretanto, em casa, são pela última vez limpos os móveis e vão-se buscar debaixo das camas uma série de caixas cilíndricas, feitas de folha de Flandres e de diversos tamanhos donde são extraídas, com grande cuidado, as mais preciosas porcelanas que nelas se encontravam guardadas, e envolvidas em algodão, para serem colocadas em lugares onde possam atrair bem a atenção das visitas. Pelas paredes dependuram-se também as pinturas que levam as assinaturas e os selos das mais afamadas e mais remotas celebridades. Sobre peanhas e mesinhas dispõem-se vistosas jarras com Rituais caseiros do Ano Novo“E, durante estes três efémeros dias de festa, entregam-se os chineses, desenfreadamente, a lautos banquetes e ao jogo...”
025 J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – VIIIramos de pessegueiro em flor, jardineiras com junquilhos seguros por alvos seixos, e fruteiras com romãs e cidras. Os cozinheiros, por sua vez, apressam-se no preparo de finas iguarias de soante e auspiciosa nomenclatura, como ‘sin-kâi’ (galinha de fadas); ‘kâm-tch’in-kâi’ (galinha de sapecas de ouro), etc. e, no caso de se terem esquecido de algum condimento, as mercearias condescendentes ainda venderão, através de um postigozinho, aquilo de que os retardatários necessitem. Finda a cozinhação, os poços são fechados, visto que os espíritos que os defendem também têm direito ao descanso. Não precisando ninguém mais de sair da casa, a porta principal é, por fim, selada com papel vermelho para impedir a fuga da felicidade e para obstar a entrada dos demónios. (...) Em certas províncias, antes de se selarem as portas, é costume espalhar-se pelo pátio ramos de pinheiro e de sésamo que denunciarão a aproximação dos demónios, pois estes seres, apesar da sua leveza, não conseguem evitar que os ramos se estalem traíndo a sua presença.A véspera do ano tem de ser passada em vigília, ‘sâu-sôi’ (vigiar o ano), e, com a aproximação da hora zero, os membros da família juntam-se em frente do altar para venerarem os Espíritos do Céu e da Terra, os Penates e as estelas ancestrais, ‘batendo-lhes a cabeça’, antes da meia noite, em sinal de despedida do ano que vai passar e logo à meia-noite para saudar o novo ano que desponta. Todas estas cerimónias são efectuadas pelo chefe da casa, o sumo-sacerdote, responsável perante as divindades e os seus avoengos do comportamento moral de todo o seu clan. Portanto, só ele poderá aproximar-se do altar dos sacrifícios, onde se encontram expostos vários pratos com montes de diversas frutas e bolos, duas velas pintadas de vermelho e fixas em dois altos
026F A L A R D E N Ó S – VIIIJ O R g E A . H . R A N g E L castiçais de estanho, um incensador, um molho de pivetes acesos, e um recipiente de madeira com fumegante arroz onde estão espetados cinco pares de pauzinhos, ‘fai-tchi’, tudo rodeado de flores e ramos de cedro. No norte da China, o arroz é substituído pelo sorgo e tal oferenda exprime a gratidão pelo sustento proporcionado durante o ano que transitou e a esperança de grande fartura para o ano vindouro.O ritual costuma ser realizado no pátio, sob a misteriosa luz das estrelas e dos lampeões-balões, sendo intensamente solene o momento em que o velho ancião chefe de família, envergando a sua mais rica garvaia de seda, se encaminha para o altar, vagaroso, hierático e ligeiramente curvado pela idade e pelo peso da responsabilidade de todo o seu clan, para se prostrar humildemente sobre uma pequena almofada com o fim de reverenciar os espíritos do Céu e da Terra, batendo três vezes o chão com a sua testa, acto esse que é saudado pelo alacre crepitar de várias fiadas de petardinhos. (...)Depois de ardidos os estalinhos, queima-se um monte de imitações, em papel, de lingotes de oiro e de prata, bem como um pacote de cem folhas de imagens de quase todas as divindades da mitologia chinesa. (...)Executado o ritual do culto pela natureza e venerados que sejam os Lares e os Penates, o chefe da família prostra-se diante das estelas dos seus avitos até à quinta geração, (...) depois de terem inscrito os nomes dos avoengos num rolo de papel que nessas ocasiões costuma encontrar-se dependurado atrás do altar de sacrifícios. Balbuciada uma improvisada oração em que exprimira o seu agradecimento por o terem procriado e pela protecção e benefícios que até então se dignaram dispensar a si e à sua prole, o ancião ofertar-lhes-á os diversos pratos de comida, mas só por
027 J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – VIIIintenção, pois que eles serão, em seguida, devorados pelos membros da família, como prescreve o arcaico código de etiqueta.Findo o ‘t’ün-nin’, lauto banquete de despedida do ano, e ao qual nenhum indivíduo estranho à família poderá tomar parte, e saudado que seja o ano que nasce, com a queima de ‘p’au-tchèong’ e fogos de artifício, os donos da casa dirigem-se para a sala de recepção e, assentados cada um na sua cadeira, esperam compenetrados e imperturbáveis os cumprimentos de todos os membros da família que lhes vêm ‘bater a cabeça’, um a um e segundo a ordem de ancianidade, ao mesmo tempo que murmuram: ‘iêng-tóng’ (eu devo), simples fórmula com que prestam o seu preito de obediência e de respeito.À hora do tigre, isto é, lá entre as três e cinco horas da madrugada, o chefe da casa encaminha-se para o portão principal da sua residência para arrancar os papéis com que fora selado na noite anterior e como existem, nada mais nada menos, que setenta e dois demónios que aguardam a sua entrada, não se descuidará de pronunciar um alto auspicioso, como por exemplo: que o novo ano nos traga grandes riquezas. Repete-se, em seguida, a liturgia do tríplice culto do Céu e da Terra, das divindades caseiras e dos antepassados e, como os espíritos dos últimos coabitam com os membros da sua família, durante duas semanas, são-lhes todos esses dias oferecidos: comida composta de cinco variedades e servida com cinco pares de ‘fái-tchi’, cinco taças de vinho, e toalhas humedecidas com água quente para os habilitar a limparem as faces, bem como um almanaque para se inteirarem das festividades e dias aziagos do ano em que deverão intervir em benefício dos seus descendentes.
028F A L A R D E N Ó S – VIIIJ O R g E A . H . R A N g E L E, durante estes três efémeros dias de festa, entregam-se os chineses, desenfreadamente, a lautos banquetes e ao jogo — ‘fantan’ e ‘kusêk’ nas tavolagens, ‘má-tchèok’ e ‘p’ái-kâu’ nos clubes, e o ‘clu-clu’ nas ruas. (...)Os chineses nesses dias comem o ‘tchái’, um prato vegetariano e certa espécie da amêijoas chamadas ‘fat-tch’ói-tái-hin’ (grande prosperidade), passando geralmente a manhã do ano com a sua família para cumprir devotamente os deveres do tríplice rito. Nas grandes cidades generalizou-se o costume de frequentarem os restaurantes e os salões de dança. (...) Passado o dia três, as ruas voltam à normalidade. Em casa, desmontam-se os altares, e arrecadam-se as alfaias. As lojas voltam a abrir, acendendo os seus donos vários pacotes de estalinhos, depois de terem propiciado o Deus da Divícia e feito libações de vinho em sua honra.É nesse dia então, que os chineses vão pái-nin, isto é, desejar aos seus parentes e amigos um bom ano, devendo, porém, ter o máximo cuidado em não se escorregarem, por isso ser de um azar extraordinário tanto para si como para as pessoas da casa que visitam.(...) As frases usadas para se desejar as boas entradas nessas ocasiões são geralmente ‘kông-hêi fát-tch’ói’, ou simplesmente ‘kông-hêi’, ou então ‘tchêng-ón’. (...)Por fim, para que as casas fiquem, durante o novo ano, completamente isentas das maquinações dos espíritos perniciosos, são convidados, entre as famílias mais supersticiosas, os bonzos tauístas para as exorcismarem”.
029 J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – VIIIEstas são práticas ancestrais que as novas gerações poderão ir perdendo, mas que importa sempre recordar, compreender e respeitar.7 de Fevereiro de 2011
030F A L A R D E N Ó S – VIIIJ O R g E A . H . R A N g E L Um pouco por todo o país, a cada vez mais numerosa e muito laboriosa comunidade chinesa residente em Portugal deu as boas-vindas ao Ano do Coelho, em convívios familiares e festas organizadas pelas suas associações, com especial destaque para a Liga dos Chineses de Portugal, liderada pelo empresário Y Ping Chow, que organizou o seu grande encontro anual no Casino da Póvoa de Varzim. As centenas de restaurantes chineses estiveram à cunha e os melhores viram-se em sérias dificuldades para acolher tantos convivas naqueles dias festivos.Também a Casa de Macau de Portugal e vários outros organismos promoveram actividades alusivas à efeméride.No CCCMCom a presença do Embaixador da República Popular da China e de muitas personalidades ligadas a Macau e à China, o Centro Científico e Cultural de Macau (CCCM) levou a efeito, nas suas modelares instalações na Rua da Junqueira, em Lisboa, um conjunto variado e muito apreciado de actividades no dia 1 de Fevereiro. Além do Coro Molihua, que interpretou cinco canções chinesas, e da leitura de versos de “Os Lusíadas” por alunas chinesas de cursos de Língua Portuguesa, foi projectado um documentário sobre as festividades tradicionais do Ano Novo Lunar e inaugurada a exposição itinerante “As Cem Maiores Descobertas Arqueológicas da China no Século XX”, preparada pelo Instituto de Arqueologia da Academia Chinesa das Ciências Sociais e promovida pelo Ministério da Cultura da RPC. Conforme o catálogo, distribuído na ocasião, “cada um dos painéis, com as suas vivas imagens, procura levar-nos, através das fronteiras do tempo e do espaço, ao passado remoto “O coelho é o símbolo da Lua, significando o início da noite. A Lua é ‘yin’, o ‘yin’ celestial neste caso, ou seja — magia”.Do folheto da sessão do ciclo “Sentir Macau”, dedicada ao Ano Novo Chinês, Fevereiro de 2011Lisboa também deu as boas-vindas ao Ano do Coelho
031 J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – VIIIde modo a sentir o esplendor e magnificência da Antiga Civilização Chinesa”, tendo a arqueologia na China vivido, “ao longo do século passado, um processo de emergência, desenvolvimento e maturação tendo alcançado um grande sucesso”, bem patente nesta elucidativa mostra.A China é, pela antiguidade da sua civilização, um dos países do mundo com mais abundantes recursos arqueológicos. O arco cronológico desta exposição vai desde o Homem de Yuanmou, de há cerca de 1.700.000 anos, ao Mausoléu Ding do Imperador Wan Li da dinastia Ming (inícios do século XVII). As importantes descobertas arqueológicas apresentadas são de alto valor para a investigação científica e tiveram grande impacto dentro e fora da China, merecendo das autoridades chinesas a maior atenção, especialmente nas décadas de 1970 e 1980, quando se alargaram de forma mais sistematizada os levantamentos arqueológicos em todo o país e a todos os períodos da sua rica história milenar.A estreita cooperação que o CCCM tem sabido manter com a Embaixada da RPC permitiu-lhe oferecer ao público português interessado um vasto e muito significativo conjunto de exposições de grande valor didáctico sobre a China, sendo de referir, entre elas, pela qualidade e pelo significado, as seguintes: “600 Anos das Navegações de Zheng He (1405-1433)”, “Sun Yat-Sen e o Contemporâneo Padrão de Vida na China”, “Os Tradicionais Instrumentos Musicais Chineses” e, mais recentemente, “Experimentar Shanghai, Abraçar o Mundo”, a propósito da Expo 2010, realizada de 1 de Maio a 31 de Outubro no dinâmico e inovador espaço urbano gigante que é Xangai. O director do CCCM, Prof. Luís Filipe Barreto, merece uma palavra de louvor pelos resultados muito positivos alcançados nesta parceria em boa hora estabelecida.
032F A L A R D E N Ó S – VIIIJ O R g E A . H . R A N g E L Na Delegação de MacauNo dia seguinte, 2 de Fevereiro, a Delegação Económica e Comercial de Macau, muito bem decorada, nos seus espaços públicos, com motivos próprios desta quadra festiva, acolheu mais uma sessão do ciclo “Sentir Macau”, que o Centro de Promoção e Informação Turística de Macau, em Portugal, tem estado a organizar. “Ano Novo Chinês — Celebrações e Curiosidades” foi o tema, que teve como oradores António Pedro Pires e Francisco Varatojo. Como habitualmente, Maria José Baião fez a apresentação e moderou habilmente a sessão.António Pedro Pires, licenciado e mestre em Ciências Antropológicas e Etnológicas, tem trabalhos e estudos de muito mérito sobre as tradições chinesas, o diálogo de culturas e problemáticas associadas à aculturação, igualdade e libertação da mulher e planeamento familiar. Trabalhou sete anos em Macau, onde chefiou os serviços culturais do Leal Senado, e desenvolveu intenso trabalho de campo na China profunda e em vários outros países da Ásia, de que resultaram obras publicadas como “O Chá na Vida Quotidiana dos Chineses”, “O Culto dos Antepassados entre os Chineses de Macau” e “Tribos das Terras Altas da Tailândia”. Francisco Varatojo é director do Instituto Macrobiótico de Portugal e colaborador regular da imprensa sobre temas macrobióticos, sendo também professor, consultor e conferencista. É autor de “Mente Sã — Corpo São”, “Pequeno Livro de Saúde Natural”, “Ki das 9 Estrelas”, “Arte de se Conhecer a Si e aos Outros”, “Remédios Caseiros” e “Fundamentos do Pensamento Oriental e Macrobiótico”.Depois de animado diálogo, fez-se uma prova de pitéus típicos macaenses, a que
033 J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – VIIIse juntaram algumas especialidades da ocasião, como os chilicotes do Ano Novo Chinês, o “chai chau min” e os bolinhos de sésamo.O próximo “Sentir Macau” será protagonizado, no dia 14 de Março, por Pedro Barreiros, major-general médico, artista, dinamizador cultural e fundador da Associação Wenceslau de Moraes.Casa de MacauO convívio da Casa de Macau foi no dia 5 de Fevereiro, no luxuoso “Mandarim” do Casino do Estoril, um dos melhores restaurantes chineses da Europa, completamente lotado. Entre os associados da Casa de Macau, distinguiam-se o seu membro honorário, general Vasco Rocha Vieira, e esposa. Bem servido e fazendo jus da sua fama, a ementa incluiu conhecidas iguarias como “chu-cheong-fan” recheado com gambas e espargos, “há-kau”, “siu-mai”, bolinhos de arroz glutinoso e frango em folha de lótus, bolinhos de lombo de porco assado, crepes à cantonês, bolos fritos de nabo chinês, combinação de quatro carnes assadas, “chau-min” com carne de porco e rebentos de soja, arroz “chau-chau”, espinafres com alho, castanha de água e leite frito.Visivelmente satisfeitos, os participantes alinharam também em sorteios e desejaram uns aos outros e à Casa de Macau um bom Ano do Coelho, que, conforme os entendidos, será propício a novos relacionamentos, especialmente no âmbito da família e da diplomacia e também nos negócios.
034F A L A R D E N Ó S – VIIIJ O R g E A . H . R A N g E L Outros eventos nesta quadraO Museu do Oriente, com a colaboração do Instituto Confúcio da Universidade do Minho, apresentou, no dia 6 de Fevereiro, um espectáculo de danças étnicas e folclóricas, pela prestigiada Academia de Dança de Pequim, o Instituto Confúcio da Universidade de Lisboa chamou a si várias iniciativas culturais e a Associação Wenceslau de Moraes reuniu, no dia 7, os seus associados e amigos num jantar de convívio num novo e já bastante apreciado restaurante chinês de Oeiras. Entretanto, no dia 3, embora à margem das celebrações, a Universidade Nova de Lisboa ofereceu mais uma sessão do “seminário permanente de estudos de Macau”, sob a coordenação do Prof. Rogério Puga e com o Dr. Arnaldo Gonçalves, professor do Instituto Politécnico de Macau, como orador convidado, o qual fez uma consistente apreciação crítica da evolução de Macau nas últimas três décadas.Como foi explicado no folheto da sessão do ciclo “Sentir Macau”, “o coelho é o símbolo da Lua, significando o início da noite”. “A Lua é ‘yin’, o ‘yin’ celestial neste caso, ou seja — magia”. “Sugere-se que em todas as noites de Lua cheia deste ano, vá ao jardim e observe a Lua, abrindo o seu corpo e espírito à luz da Lua, assim adquirindo amor e coragem e fortalecendo a sua energia interior (...)”.14 de Fevereiro de 2011
035 J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – VIIILigam-me à família de J. J. Monteiro relações de amizade que vêm dos anos despreocupados da meninice. Vizinhos, no bairro de S. Lourenço, um dos mais identificados com a história e a memória da comunidade macaense, fui também colega do seu filho mais velho, Américo, na Escola Primária Oficial Pedro Nolasco da Silva e no Liceu Nacional Infante D. Henrique, dois emblemáticos estabelecimentos de ensino que nos deram sólida formação e onde nos tornámos amigos até aos dias de hoje. No velho bairro e em actividades juvenis, abundantes e diversificadas naquele tempo, pude conviver com todos os irmãos. Foi, pois, com a maior satisfação que aceitei o privilégio de escrever o prefácio do livro “Meio Século em Macau” e recordar uma figura singularíssima, dotada de excepcional talento, que foi o maior poeta popular português de Macau.Gerações de jovens do nosso Liceu deliciaram-se com a facilidade com que J. J. Monteiro, que era ali funcionário, compunha quadras de sabor popular, com boa rima e correcta métrica. Personalidade jovial, de aparência modesta, corpo franzino e trato agradável, irradiava simpatia e a todos impressionava com a sua intuição poética, revelando, espontaneamente, a sua alma de artista.Homem de apurada sensibilidade, de pouca instrução formal, mas bem educado na “universidade da vida”, o que ainda mais realçava o seu valor, J. J. Monteiro foi um notável exemplo de grandeza escondida na simplicidade do comportamento e no relacionamento fácil com todos, jovens e adultos, portugueses e chineses. Observador atento e sagaz, e ávido leitor de tudo quanto às suas mãos chegou sobre a História de Macau ou relacionado com os usos e costumes chineses, deixou-nos alguns livros, cuja leitura se recomenda. Alguns conheceram várias edições e, mesmo assim, rapidamente “Mas um poeta nunca morre, nem tem de se despedir nunca, porque a sua presença é imortalizada pela sua obra e, fundamentalmente, no caso em apreço, pela perpetuidade da memória exemplar dos seus atributos de humildade, sensibilidade e fraternidade cristã”.José Joaquim Monteiro Júnior, nota explicativa de “Meio Século em Macau” (IIM, 2010)Meio século de J. J. Monteiro em Macau
036F A L A R D E N Ó S – VIIIJ O R g E A . H . R A N g E L se esgotaram, podendo, porém, ser encontrados em bibliotecas e em diversos organismos públicos locais.“A Minha Viagem para Macau” (1939), “A História De Um Soldado” (1940, 1952, 1963 e 1983), “De Volta a Macau” (1957 e 1983), “Macau Vista Por Dentro” (1983) e “Anedotas, Contos e Lendas” (1989) são os títulos dos seus livros, sendo, sem dúvida, “Macau Vista Por Dentro” a sua obra maior, revelando já um visível amadurecimento e um conhecimento profundo das origens e do percurso dos portugueses no Oriente, assim como de aspectos relevantes da cultura da China milenar. Dedicou-a à esposa, aos filhos e aos netos, e ainda aos “bons ‘filhos de Macau’, que viviam entre nós, quer em Hong Kong ou noutras partes do mundo, assim como àqueles que por aqui passaram e, com pena, partiram desta querida Terra do Santo Nome de Deus”.Agora, por vontade dos filhos e para surpresa de muitos, saiu do prelo “Meio Século em Macau”, com mais versos, e reunindo recortes, estampas, fotografias e até programas de actividades que coleccionou e legou à posteridade. Estão ali memórias de cinco décadas intensamente vividas em Macau por um homem bom que muito bem compreendeu e amou Macau e soube servir e dignificar Portugal.Mas, quem foi J. J. Monteiro? O primeiro dos dois volumes de “Meio Século em Macau” inclui uma nota biográfica, que recorda o seu nascimento, em Portugal, na freguesia do Pereiro, concelho de Tabuaço, distrito de Viseu, em 10 de Fevereiro de 1913, a infância e juventude difíceis e os pequenos e variados empregos a que se dedicou, até ingressar, como voluntário, no serviço militar, tendo estado colocado na
037 J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – VIIIMadeira e em Beja, antes de partir, por vontade própria, para Macau, como soldado corneteiro. Mais adiante, é referida a sua vida em Macau:“Nesta então Colónia de Macau, passou no exame do primeiro curso das escolas regimentais, onde se distinguiu, aquando do exame final da então 4ª classe, na réplica a uma pergunta rasteira do examinador acerca do motivo que teria levado D. Afonso Henriques ao Brasil, com a resposta interrogativa se não teria sido o mesmo motivo que teria levado D. Sancho I à Índia.Aqui enamorou-se das suas gentes e dos seus encantos, colaborou em revistas e jornais locais, nomeadamente a revista Religião e Pátria e os jornais A Voz de Macau e O Clarim, com os seus escritos, tendo-se celebrizado na poesia e nas charadas da sua autoria. Organizou e participou em récitas, nos Teatros Vitória, Capitol e D. Pedro V, no salão-teatro da Companhia de Metralhadoras no Quartel de S. Francisco, no Clube de Sargentos e no Instituto Salesiano da Imaculada Conceição, em benefício dos refugiados portugueses de Hong Kong e Xangai. Aqui ainda deu à estampa os livros da sua autoria, Minha Viagem para Macau, em 1939, e A História de um Soldado, em 1940. E aqui também constituiu família.Sempre como militar, e dados os seus dotes poéticos, ficou conhecido, em Macau, como o soldado-poeta.Terminada a Guerra, com a gangrena contraída no braço esquerdo e uma osteomielite, com ameaça de amputação do mesmo, embarcou, com a sua mulher e dois filhos, para Portugal Continental, em Janeiro de 1946, onde se submeteu a uma
038F A L A R D E N Ó S – VIIIJ O R g E A . H . R A N g E L intervenção cirúrgica com sucesso, sem perda do braço, acabando por se licenciar do serviço militar. Ficou, inicialmente, alojado na Colónia da FNAT, na Caparica, e mais tarde, com o subsídio do Socorro Social, arrendou uma habitação. A dificuldade de se empregar levou a que desse expressão a um seu velho sonho de trabalhar por conta própria, acabando por conseguir uma licença camarária de venda ambulante, vendendo fruta, molhos de alhos, objectos vários, tais como, candeeiros, calendários, pentes, atacadores, e ainda cautelas. Foi também, a dado momento, engraxador de rua em rua. A crise económica que se vivia no pós Guerra, com elevada taxa de desemprego, aliada à grande saudade de Macau, despertou-lhe o desejo de retorno. Em 1951, com a ajuda obtida de uma benemérita do então Ministério das Colónias, conseguiu o patrocínio das passagens de regresso a Macau, para si e toda a família, já então alargada com mais 3 filhas, nascidas em Lisboa. Chegado a Macau, em Junho de 1951, começou por se empregar na chamada SOTA, uma companhia de navegação em Macau e Timor, depois na padaria Sortes, e, finalmente, a partir de Dezembro desse mesmo ano, como contínuo do Liceu Nacional Infante D. Henrique, onde permaneceu até à sua aposentação, em 1972. Dois anos depois da sua chegada a Macau é reeditado o seu livro História de um Soldado, com mais 2 reedições em 1963 e 1983 e, em 1957, publica o seu 3.º livro de poesia De Volta a Macau, também reeditado em 1983. Nesse ano de 1983, a reedição das obras citadas é acompanhada da publicação do seu 4.º livro, a que deu o nome de Macau Vista por Dentro, obra esta já concluída vinte anos atrás, porém não editada por falta de patrocínio, e que exigira uma actualização porque versava sobre a toponímia de Macau, além dos usos e costumes locais.
039 J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – VIIIEm 1972, foi terrivelmente abalado pelo choque da perda da sua esposa, uma morte inesperada, porque precoce, e demasiado dolorosa. A poesia foi sempre o refúgio para as mágoas e pesares da sua vida. Manteve-se, assim, fiel às suas musas, cantando, através dos seus poemas, os encantos mil da Cidade do Santo Nome de Deus. Não obstante o abalo causado por esta sua irreparável perda, e, vivendo na companhia dos seus filhos, procurou sublimar a sua dor alimentando a alma com a poesia que ia transpondo para o papel. Dada a simplicidade, como sempre foi a sua vida, pouco bastava para o satisfazer, manifestando enorme alegria com um simples passeio a pé ou no carro de um dos seus filhos, pela cidade e ilhas, e a visita regular à campa da sua amada.Morreu, em Macau, a 22 de Fevereiro de 1988, o soldado-poeta, um homem que, ao longo da vida, sempre se revelou humilde, íntegro e sensível às vítimas do infortúnio. Além de ter deixado, em eterna saudade, os seus 6 filhos e 12 netos, deixou mais obras manuscritas, uma das quais dada à estampa um ano após o seu adeus, intitulada Anedotas, Contos e Lendas, editada em 1989, que, imediatamente, ficou esgotada. Os seus restos mortais jazem, actualmente, no Cemitério de Carnide, em Lisboa, unidos na mesma gaveta, aos restos mortais da sua saudosa companheira da vida.”O Instituto Internacional de Macau, que se associou à iniciativa da família, assumindo integralmente a edição, prestou ao maior poeta popular de Macau uma justa homenagem. Fevereiro foi o mês do seu nascimento e também da sua morte. É, pois, oportuno recordá-lo agora e referir esta obra póstuma digna do nosso apreço.21 de Fevereiro de 2011
040F A L A R D E N Ó S – VIIIJ O R g E A . H . R A N g E L Foi há pouco mais de um ano, a 20 de Fevereiro de 2010, que uma catástrofe sem precedentes na Madeira deixou na ilha terríveis rastos de destruição humana e material. Os números oficiais contabilizaram 42 mortos, 120 feridos e centenas de famílias desalojadas, atingindo os prejuízos causados pela água e toneladas de pedras e lama valores elevadíssimos. Seis pessoas continuam desaparecidas, tendo o Ministério Público iniciado o processo judicial para lhes ser reconhecido o óbito, uma vez que estão esgotadas as diligências de investigação.gestos de solidariedadeMilhões a fundo perdido foram já disponibilizados para o realojamento de mais de 500 famílias e outras avultadas quantias foram aplicadas na limpeza, reparações e reconstrução, sendo de mil e oitenta milhões de Euros o valor previsto até 2013 para as obras necessárias. Além dos encargos assumidos pelo Governo Regional e por autarquias da Região Autónoma, o Governo da República Portuguesa garantiu a parte mais substancial do financiamento, sendo também de referir a intervenção positiva de empresas e instituições de solidariedade social, com destaque para a Cruz Vermelha Portuguesa, através da sua delegação, que acabou de entregar as chaves de mais algumas dezenas de habitações a famílias que perderam os seus haveres.Quando visitei a Madeira dois meses depois da tragédia, já os serviços públicos e organizações da sociedade civil estavam a responder, pronta e solidariamente, ao desafio de normalizar o funcionamento da região. A dor foi imensa, mas a vida tinha de continuar e uma capacidade de resposta rápida e eficaz era exigida. A cidade Solidariedade com o povo da Madeira“Além do valor material da dádiva, registamos com muito apreço e gratidão o gesto de solidariedade (de pessoas e organismos de Macau) ...”
041 J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – VIIImostrava-se já limpa e as intervenções mais urgentes estavam feitas ou em curso, mas os sinais da devastação eram visíveis em muitos lugares.Participei, com alguns conterrâneos e confrades da Confraria da Gastronomia Macaense, no Grande Capítulo da Confraria Gastronómica da Madeira (Academia Madeirense das Carnes). Também ali estiveram presentes membros de confrarias de Portugal, de Espanha e de Cabo Verde, tendo sido afirmada, nos convívios e nas cerimónias realizadas, a solidariedade de todos para com o povo madeirense. Estava então prevista a entrega de um cheque à delegação da Cruz Vermelha, no valor de cinco mil Euros, resultante de uma colecta feita em Macau entre membros da APIM – Associação Promotora da Instrução dos Macaenses e da Confraria da Gastronomia Macaense. O cancelamento de vários voos europeus, por causa do fumo espesso expelido por um vulcão da Islândia, impediu que um nosso colega chegasse de Macau a tempo de integrar a delegação que se deslocou ao Funchal. Sendo ele o portador do cheque, a entrega foi adiada, sendo-me confiada mais tarde a responsabilidade de o fazer chegar ao destinatário. Esse gesto simbólico mereceu palavras de alto apreço do presidente da delegação da Madeira da Cruz Vermelha Portuguesa, coronel Ramiro Moura Nascimento, que me incumbiu de ser “porta-voz do testemunho do reconhecimento do povo madeirense e da direcção desta Delegação” junto dos organismos macaenses que tiveram a iniciativa e dos seus associados que contribuíram para a “significativa dádiva para ajuda àqueles que sofrem”. Na carta enviada, referiu ainda que “além do valor material da dávida, registamos com muito apreço e gratidão o gesto de solidariedade ...” Parabéns, pois, à APIM e à Confraria por mais este apoio,
042F A L A R D E N Ó S – VIIIJ O R g E A . H . R A N g E L entre outros que se tornaram conhecidos nos últimos anos, designadamente na ajuda a vítimas de catástrofes ocorridas na China, em que se envolveram também a Santa Casa da Misericórdia, a APOMAC, a ATFPM e a Associação dos Macaenses, entre outros organismos representativos da nossa comunidade.Mobilização de recursosAs imagens da devastação ocorrida correram mundo e afectaram o turismo, actividade económica fundamental daquela região que tem sido justamente promovida como a “Pérola do Atlântico”. Registaram-se em 2010 menos dormidas, menos receitas e uma quebra de cerca de 5% no movimento de passageiros no aeroporto do Funchal (2.335.811 em 2009 e 2.218.035 em 2010). Os estabelecimentos hoteleiros, por seu lado, tiveram, conforme os dados definitivos divulgados agora pelo Instituto Nacional de Estatística, uma variação negativa de 9,9%, o que recomenda um acrescido esforço promocional, especialmente orientado para turistas nacionais e para os provenientes de alguns outros países da União Europeia.O clima ameno, paisagens de exuberante beleza, a simpatia das pessoas, a variedade e o fácil acesso a lugares aprazíveis, usos e costumes típicos e um excelente parque hoteleiro são atractivos que fazem da Madeira um dos melhores destinos turísticos de Portugal. A própria cidade do Funchal, bonita e airosamente traçada, com bom comércio, restaurantes de qualidade e esplanadas convidativas, museus e galerias de arte, mercados e lojas de produtos regionais, parques e jardins e uma marginal encantadora, dá ao visitante razões seguras para ali passar o tempo e para querer voltar. A passagem do ano é mundialmente famosa pelo espectacular fogo de artifício
043 J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – VIIIe pelas festas e convívios que ali se realizam, além do Carnaval e de outras festividades de cunho mais tradicional.Conheci a Madeira quando, ainda estudante, integrei uma delegação do então Centro Universitário de Lisboa numa visita de estudo ao arquipélago. Sob a chefia do colega José Domingos Pereira Miguel, hoje prestigiado cardiologista e professor universitário, dividimo-nos em vários grupos de trabalho, um dos quais — o de Museologia — coordenei. Foram dias intensos de contactos com autoridades locais, visitas e reuniões. Fiquei a conhecer os responsáveis pelos organismos culturais e juvenis. Em todo o lado fomos recebidos e acompanhados com a maior das simpatias, incluindo personalidades locais que nos abriram as portas das suas casas e quiseram conversar connosco.Depois disso nunca mais fiquei desligado da Madeira e fui voltando mais vezes, não deixando também de recomendar aos familiares e aos amigos pelo menos uma deslocação em férias. Cheguei até a ajudá-los a preparar programas e itinerários, recomendando-lhes visitas aos Museus de Arte Sacra, de Arte Contemporânea, Etnográfico e de História Natural (Museu Municipal do Funchal), à “Madeira Story Centre”, à “Casa das Mudas” e ao Museu-Biblioteca Barbeito de Vasconcelos; às Igrejas da Sé, do Colégio dos Jesuítas, de S. Pedro, do Bom Jesus e do Monte, ao Convento de Santa Clara e à Capela da Encarnação; aos jardins Tropical e Botânico; ao Mercado dos Lavradores; aos Picos Ruivo e do Areeiro; a Santava, à Encumeada, ao Curral das Freiras, a Câmara de Lobos, à Ponta do Sol, ao Machico, ao Caniçal, à Eira do Serrado, ao Cabo Girão, à Calheta, à Ribeira Brava, às belas levadas de Ribeiro Frio e Portela, ao Rabaçal, ao Paúl da Serra e a tantos outros locais encantadores que eu próprio fui
044F A L A R D E N Ó S – VIIIJ O R g E A . H . R A N g E L descobrindo. E, claro, uma ida imprescindível ao Porto Santo. Tudo isso, com uma lista de bons restaurantes onde podiam experimentar desde fresquíssimo pescado às famosas espetadas. Quase sempre trouxeram de lá as melhores recordações e revelaram uma compreensível surpresa por haver, afinal, tanto para ver e fazer lá, incluindo passeios de barco e de catamarãs, e, para os mais jovens e ousados, safaris de jipe, percursos de bicicleta de montanha, motos, “karting”, “jet skis” e caminhadas deslumbrantes.Nas actividades académicas e juvenis e depois, na vida militar, fui conhecendo mais madeirenses de quem me tornei amigo, entre os quais o actual e mais antigo secretário regional do Governo da Madeira, Eduardo Brazão de Castro, que esteve comigo num dos Encontros Europeus de Juventude “Európolis”. Na residência de estudantes onde passei os meus primeiros anos em Lisboa tive como colega o Alberto João Jardim, presidente do Governo Regional, e o Fernando Oliveira, que também ali desempenhou altos cargos públicos. Quando cheguei à Guiné, no comando duma companhia de infantaria constituída maioritariamente por soldados de várias ilhas dos Açores, fui render, no mato, em Canjambari, uma companhia madeirense, com a qual fizemos um período de sobreposição.Por tudo isso e por tantas outras razões e recordações que não cabem neste espaço, desejo que o turismo madeirense recupere a sua pujança plena e que a região e o seu povo reencontrem a felicidade que merecem ter.Para além dos recursos que já foram mobilizados e do muito que já foi feito num ano, há ainda imenso trabalho pela frente. Alguns estudos técnicos de avalização do risco de aluviões estão concluídos, bem como a definição de princípios orientadores
045 J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – VIIIpara os planos e projectos de reconstrução e de edificação de novos empreendimentos, alguns dos quais podem não merecer amplos consensos e até suscitar críticas de grupos ambientalistas. Mas é preciso avançar, depois ouvir e atender o mais possível às opiniões fundamentadas de quem sabe e quer o melhor para a Madeira e para a sua população, tão afectada pela tragédia que há um ano sobre ela se abateu. Está, entretanto, prevista a instalação do primeiro radar meteorológico da Madeira, na ilha do Porto Santo, em 2012, o qual permitirá melhorar a vigilância e diminuir as incertezas na previsão dos valores da precipitação. É mais uma medida importante a registar.28 de Fevereiro de 2011
046F A L A R D E N Ó S – VIIIJ O R g E A . H . R A N g E L Conforme relatos de épocas passadas e testemunhos que foram sendo transmitidos até aos nossos dias, sabemos que o Carnaval foi das festas mais alegres e mais amplamente participadas da comunidade portuguesa de Macau. Os “assaltos”, os bailes, as tunas, as máscaras e as brincadeiras dos foliões quebravam completamente a rotina da vida citadina durante alguns dias, mas os preparativos eram feitos, pelo menos, com semanas de antecedência. Foi assim no dealbar e nas primeiras décadas do século XX, perdendo definitivamente a importância a partir da Guerra do Pacífico, não obstante os esforços feitos por agremiações várias para o revitalizar.Este curioso relato do Carnaval, cujo autor apenas utilizou a letra “Z” para se identificar, foi publicado na revista “Renascimento”, de Fevereiro de 1944, centrado nos festejos promovidos pelo vetusto Clube de Macau e pelo Grémio Militar (nome antigo do Clube Militar), onde se concentrava a alta sociedade local:“(...) Ora eu quero dizer-te, Leitor Amigo, (...), o que era esta época de festa, há muitos anos, quando eu era menino e moço, nesta cidade de Macau:No sábado gordo, grandes eram os preparativos para o ‘baile masquée’ que começava às 22 horas nos salões do Clube de Macau.Por volta da hora marcada começavam a chegar os convivas em ar festivo, exibindo os mais luxuosos trajes.O salão, primorosamente ornamentado, era um mar de luz: grandes caraças encimavam os espelhos onde, por mão de mestre, eram desenhadas figurinhas alusivas aos trajes dos grupos que, previamente anunciados, viriam exibir-se em danças de conjunto, à hora marcada, que nunca ia além das 24.O Carnaval de outrora na nossa terra“Ora, eu quero dizer-te, Leitor Amigo, (...), o que era esta época de festa, há muitos anos, quando eu era menino e moço, nesta cidade de Macau”.in “Renascimento”, Fevereiro de 1944
047 J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – VIIIO baile era obrigado a casaca ou a traje carnavalesco e, assim, as pessoas idosas apresentavam-se num rigor de ‘toilette’ impecável, capaz de dar assunto para um jornal de modas e ilustrar um manual de etiqueta.A gente nova cobria-se de brocados, sedas, cetins, tules, gases, crepes variados, em trajes estranhos e imprevistos, policromando o ambiente de modo estonteante.Uma numerosa orquestra, vinda expressamente de Hong Kong para tocar no chamado baile de gala, colocada a um canto do salão, oferecia aos bailarinos as mais alegres e variadas músicas de dança.Os decotes, ligeiramente atrevidos, descobriam colos de alabastro esculpidos por mão de grande artista.No bar, quatro grandes poncheiras de louça da China, ofereciam aos sequiosos os mais variados e primorosos ponches.As serpentinas e os ‘confetti’ polvilhavam o chão dum colorido estranho e perturbador.O baile decorria na maior animação até à 1 hora em que era servida na plateia do Teatro D. Pedro V uma admirável ceia.Um primoroso caldo era como que o rescaldo do incêndio que o bem provido bar provocara até aí. ‘Maionnaises’ de vários mariscos; ‘galantines de pâté de foie-gras’; carnes frias como capões, faisões, perús, carneiro, vaca, porco, fiambre, língua salgada, veado, caças variadas; croquetes de toda a espécie, pastéis de massa folhada com recheios variados; pastelinhos de massa fina recheados a primor; bolos, doces, pudins e cremes variados; vinho do Porto à descrição, etc.Ouvia-se então pelas mesas o desarrolhar das garrafas de ‘champagne’ ‘Pommerie’, ‘Mum’, ‘Coquelicot’, etc. e, nesse salão imenso, todo ornamentado a primor com ricas colchas de seda e brocados encantadores, a alegria reinava sem que a mais pequena nota discordante prejudicasse a distinção, que sempre caracterizava tão faustoso baile.
048F A L A R D E N Ó S – VIIIJ O R g E A . H . R A N g E L Finda a ceia, as senhoras, pelo braço dos cavalheiros, dirigiam-se ao salão, e o baile continuava até altas horas da madrugada.Domingo gordo rompia sempre alegre, como a noite da véspera.Tunas, organizadas por rapazes foliões, percorriam as ruas da cidade seguidas de mascarados, não sem que uma certa rivalidade existisse no capricho, em que se colocavam, de oferecer a melhor música em marchas escolhidas.Os mascarados, que seguiam as tunas, eram uma espécie de bonecos de trapos, empenhando-se cada qual em vestir o mais ridiculamente possível.Pequenos grupos isolados de mascarados percorriam as ruas da cidade cantando e brincando, sem que a ordem pública fosse ao de leve perturbada.As tunas invadiam então as casas das pessoas conhecidas, e tudo era pretexto para tocar, dançar, rir, comer e beber.Na noite desse gordo Domingo, realizava-se o baile de gala no Grémio Militar.Empenhava-se, então, a direcção do Grémio em oferecer aos sócios um baile tão animado e rico como o do Clube de Macau. Tal finalidade, porém, raras vezes era alcançada, e isto devido apenas à pequenez do salão e ao facto de não haver tão grande número de sócios.Era, no entanto, o baile do Grémio um rico baile de gala, ‘masquée’ também e — oh vaidade feminina! — não se via nele um único traje dos exibidos na véspera, apesar das senhoras serem as mesmas.Após a rica e opípara ceia, que era servida na sala de leitura, especialmente arranjada e decorada para esse fim, dançava-se até altas horas da madrugada, sempre na maior animação.
049 J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – VIIIQuer no Clube de Macau, quer no Grémio Militar, organizavam-se ‘matinées’ para crianças, festas que constituíam o encanto das mamãs e das crianças, que brincavam loucamente, rasgando e sujando os ricos trajes variados, que exibiam em manifesta competição, afim de alcançarem o lindo prémio, que era oferecido à criança mais bem vestida.E pelas ruas continuavam as tunas enchendo os ares dos trinados dos bandolins e a passo marcado pelo ferir violento dos bordões dos violões.A segunda-feira de Carnaval era reservada para os assaltos às várias casas particulares, que recebiam principescamente oferecendo aos convidados e aos assaltantes ricas e abundantes ceias regadas com os mais caros e variados vinhos.Nestas ceias familiares, ceias verdadeiramente pantagruélicas, apareciam sempre os doces próprios da época, à cabeça dos quais figuravam o ‘ladú’ e a ‘barba’.A alegria parecia não ter fim, e todos viviam felizes.Na terça-feira continuava a folia pelas ruas e as tunas tocavam sem cessar os seus vastos reportórios.À noite realizava-se no Clube de Macau a ‘soirée masquée’ de despedida, quase sempre por subscrição entre os sócios.Era esta a festa mais popular e menos cerimoniosa, sendo recebidas as tunas, que eram sempre acompanhadas de mascarados, na maioria muitíssimo desengraçados, ou então extremamente inconvenientes.Era, porém, pouco duradoura a sua passagem pela ‘soirée’, e a noite seguia alegre e despreocupada até o romper do dia.Bastante à vontade, os sócios apresentavam-se com trajes exóticos e extremamente ridículos, aparecendo alguns que focavam personalidades de destaque, que nunca se davam por achadas.
050F A L A R D E N Ó S – VIIIJ O R g E A . H . R A N g E L Geralmente era dada tolerância de ponto nas repartições públicas, na parte da manhã de quarta-feira, porque tanto os chefes como os subordinados não estavam em condições de poder trabalhar, devido ao cansaço. (...)”.Nas décadas de 50 e 60, nos clubes atrás referidos, em escolas e em algumas outras agremiações recreativas, com destaque para o já extinto Clube 1.º de Junho, que tinha boas instalações e localização privilegiada, entre a Rua do Campo e o Jardim de Vasco da Gama, ainda se organizavam animadas festas de Carnaval, mas o seu impacto na comunidade foi sendo, progressivamente, reduzido. Perduraram, porém, na memória de quantos nelas tomaram parte e nos relatos, escritos e orais, que foram sendo passados às novas gerações.7 de Março de 2011
051 J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – VIIIOs organismos directa ou indirectamente ligados a Macau, existentes em Lisboa, como o Centro Científico e Cultural de Macau, a Casa de Macau em Portugal, a Delegação Económica e Comercial de Macau, o Centro de Promoção e Informação Turística de Macau, o Museu do Oriente, a delegação do Instituto Internacional de Macau e algumas fundações e instituições académicas, culturais e associativas, continuam a dedicar grande atenção à nossa terra, o que é motivo de satisfação para todos nós. Só nestas últimas semanas pudemos registar, entre outras, as seguintes actividades: Livro do ex-governador garcia LeandroDepois de “Todos os Portos a que cheguei – Vasco Rocha Vieira”, obra do jornalista Pedro Vieira lançada no dia 19 de Dezembro passado, numa sessão muito concorrida no Centro Cultural de Belém, que se traduziu numa expressiva homenagem ao último Governador de Macau, coube agora a vez ao primeiro Governador nomeado após a revolução de 25 de Abril, General José Eduardo Garcia Leandro, de publicar o seu livro de memórias do período politicamente conturbado em que assumiu, com reconhecido sucesso, as rédeas da governação do território. A cerimónia de lançamento decorreu no auditório do Centro Científico e Cultural de Macau, a 10 de Março, sob a presidência do General António Ramalho Eanes, ex-Presidente da República, tendo a apresentação sido confiada ao Dr. António de Almeida Santos, ex-Ministro da Coordenação Interterritorial e ex-Presidente da Assembleia da República, que não deixou de caracterizar aquela fase dificílima da vida portuguesa e de realçar o perfil “sensato, sereno, inteligente e preparado” do jovem militar escolhido para assumir aquelas elevadas responsabilidades, o qual “exerceu o cargo com sabedoria verdadeiramente chinesa”, tendo sabido ser “impecavelmente sério, reflectido e prudente” numa época em que “Macau era tudo menos fácil de governar”.Macau sempre presente em Lisboa“Embora Macau já não esteja no centro de interesse dos portugueses, nem nas primeiras páginas dos jornais, este registo escrito é indispensável para quem queira compreender a evolução ocorrida a partir de 25 de Abril”.Garcia Leandro, “Macau nos Anos da Revolução Portuguesa 1974-1979”
052F A L A R D E N Ó S – VIIIJ O R g E A . H . R A N g E L Edição da Gradiva, tal como o outro livro atrás referido, é um trabalho fundamental para a compreensão dos reflexos da revolução portuguesa de 1974. “O autor transporta-nos (...) à sua vivência de mais de quatro anos pós-revolução de Abril, num Macau frágil e confuso (com ligação a Portugal e, no plano regional, à China e a Hong Kong), às suas muitas dificuldades políticas, sociais e económicas, ao emaranhado confronto de interesses que ali se moviam. Cada situação é enquadrada pelos seus antecedentes e, em muitos casos, relatado o respectivo desenvolvimento”.Baseado no relatório apresentado ao Presidente da República em 1979 e intitulado “Quatro anos vivendo e trabalhando por Macau”, este livro é um testemunho enriquecedor, indispensável para se entender os esforços feitos para dar a Macau a estabilidade necessária com vista a garantir-lhe um futuro digno num tempo de mudança histórica em Portugal e nos seus territórios ultramarinos. “Explica-se (...) como foi feita a reformulação local do Estado (Estatuto Orgânico) e da Administração e quais os caminhos seguidos no relançamento da economia (a dinâmica dos investimentos, a revisão do contrato dos jogos de fortuna e azar, etc.), no reforço das relações entre comunidades e na resolução dos problemas concretos da população. É-nos dito ainda como Portugal era encarado no Oriente – no Japão, na Malásia, nas Filipinas, na Índia (especialmente em Goa), e também na Austrália e na Indonésia, apresentando-se novos elementos sobre a crise de Timor. Em alguns capítulos somos surpreendidos por episódios envoltos em ambiente de grande tensão. Certos factos são chocantes; outros, comoventes – mas nenhum se esquece”.Além de altas autoridades, muito público assistiu a esta bonita sessão. Está prevista a apresentação do livro em Macau a meados de Abril, com a presença do autor.
053 J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – VIIIAdé e o Ano Novo LunarMuito agradável foi a tertúlia que a Fundação Casa de Macau e a Casa de Macau em Portugal organizaram, no dia 5 de Março, no seu centro de documentação sito na sua sede oficial, na Praça do Príncipe Real, em Lisboa. Foram lidos trabalhos e poemas do poeta macaense José dos Santos Ferreira (Adé) sobre o Ano Novo Lunar e conversou-se sobre o tema em torno de um chá servido aos participantes.No mesmo dia, na sede recreativa da Casa de Macau, que é uma linda vivenda na Av. Almirante Gago Coutinho, realizou-se mais um almoço macaense, com o espaço lotado. Os pratos do dia foram o “chu cheong fan”, o “minchi” e caril de galinha à moda de Macau, com o “baji” como sobremesa. Sob a orientação de dois excelentes cozinheiros — o Nando (Fernando Conceição) e o “Avô” (António Silva), com a colaboração das esposas, são servidas refeições macaenses todos os Sábados naquele aprazível local. Quatro “workshops” de culinária macaense vão ser, entretanto, ali realizados, de Março a Junho.Macau no Rotary Clube de LisboaNa última semana de Fevereiro, o Rotary Clube de Lisboa dedicou o seu jantar de convívio a Macau. O palestrante convidado foi o autor deste artigo e o tema teve por título “Macau, o percurso e o legado no início da segunda década como Região Administrativa Especial da China”. Seguiu-se um animado e bem participado debate.Como habitualmente (há quase cinco décadas que é assim), o encontro efectuou-se num salão do Hotel Tivoli, na Av. da Liberdade. O Rotary Clube de Lisboa, agora presidido
054F A L A R D E N Ó S – VIIIJ O R g E A . H . R A N g E L pelo Eng.º Pereira Gonçalves, é o mais antigo e prestigiado clube rotário português, integrando no seu seio, ao longo dos seus 80 anos de existência, personalidades de reconhecido mérito cultural e profissional ligadas a diversificadas áreas de actividade.Aproveitei para evocar a memória do intelectual macaense Carlos Estorninho, ex-presidente daquele clube e figura proeminente nos círculos culturais da capital portuguesa, e para lembrar que a minha primeira palestra, a seu convite, nessa agremiação tivera lugar há cerca de trinta anos, quando eu era presidente do Rotary Clube de Macau e ainda um jovem no início de um longo percurso na vida pública e na actividade académica.Mais uma tese sobre MacauNos últimos anos temos constatado nas universidades portuguesas o aparecimento de mais dissertações de pós-graduação centradas em Macau, algumas das quais, com as necessárias adaptações, já publicadas, como é o caso de “Fronteiras da Identidade — Macaenses em Portugal e em Macau”, de Francisco Lima da Costa, e, mais recentemente, “A Presença Inglesa e as Relações Anglo-Portuguesas em Macau (1635-1793)”, tese de doutoramento de Rogério Miguel Puga, docente da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e coordenador e impulsionador do Seminário Permanente sobre Estudos de Macau dessa Faculdade. Mais uma sessão deste seminário está marcada para 7 de Abril.Na última semana de Fevereiro, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, uma dissertação de Mestrado em Ciências da Cultura — especialização em Comunicação e Cultura, subordinada ao tema “Filhos da Terra: a Comunidade Macaense, Ontem
055 J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – VIIIe Hoje”, foi defendida, em sessão pública, por Alexandra Sofia de Senna Fernandes Hagedorn Rangel, estudante macaense e ex-aluna da Escola Portuguesa de Macau. O júri atribuiu-lhe a alta classificação de 18 valores. “Esta dissertação é sobre os macaenses, os “filhos da terra”, descendentes de gerações de cruzamentos de portugueses com orientais, resultando desta miscigenação uma comunidade com características próprias”. É feito um enquadramento histórico e explica-se o percurso da comunidade, sendo também “identificados os desafios que se lhe colocam, hoje, bem como o seu singular legado cultural”.Fórum e Revista de SinologiaTambém em Fevereiro, decorreu mais um Fórum Internacional de Sinologia, no auditório do Museu do Oriente, organizado pelo Instituto Português de Sinologia, presidido pela Prof.ª Ana Maria Amaro, catedrática jubilada do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade Técnica de Lisboa e ex-professora do Liceu de Macau. O tema central deste encontro académico e científico, que contou com a participação de reputados especialistas, foi a implantação da República na China em 1911, com o seu enquadramento político, social e económico. Em complemento deste importante evento, foi lançado, no dia 10 do corrente, na Delegação Económica e Comercial de Macau (representação oficial da RAEM em Portugal) o 6.º volume da Revista de Estudos Chineses. No mesmo local, realiza-se hoje, 14 de Março, mais uma sessão do ciclo “Sentir Macau”, com Pedro Barreiros, Major-General médico, natural de Macau, a propósito do seu livro “Danilo no Teatro da Vida”, romance biográfico sobre a vida e obra de Danilo Barreiros, cujo centenário se comemorou recentemente.14 de Março de 2011
056F A L A R D E N Ó S – VIIIJ O R g E A . H . R A N g E L Personalidades que nos deixaram nos últimos meses“ Tudo é nocturno e confuso No que entre nós aqui há. Projecções, fumo difuso Do lume que brilha ocluso Ao olhar que a vida dá. Mas um ou outro, um momento, Olhando bem, pode ver Na sombra o seu movimento Qual no outro mundo é o intento Do gesto que o faz viver.” Fernando PessoaMuitas foram as personalidades de ou ligadas a Macau que nos deixaram nos últimos meses. É a lei da vida que, inexoravelmente, faz cessar a relação do homem com um tempo e um espaço que, súbita e definitivamente, não são mais seus.Quero, sentidamente, evocar aqui seis dessas personalidades: Ernâni Lopes, Vítor Alves, Lídia Cunha, Serrano Pinto, Joaquim Pinto Machado e, no próximo artigo, Leonel Barros.Ernâni LopesGeneralizadamente reconhecido como um dos homens mais brilhantes da sua geração, Ernâni Rodrigues Lopes, como académico, diplomata, economista e político, esteve intimamente ligado a Macau ao longo de três décadas. Embaixador de Portugal junto da então CEE — Comunidade Económica Europeia e depois em Bona, capital da República Federal da Alemanha, revelou enorme disponibilidade para acompanhar os assuntos de Macau, dedicando ao território a maior atenção na altura em que Portugal se integrava no grande espaço político e económico que é, hoje, a União Europeia.
057 J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – VIIIDesempenhou funções docentes em Macau, em acções de pós-graduação, e o governo local beneficiou de importantes pareceres seus, de cariz económico.Bom amigo desde os anos de juventude, Macau esteve sempre presente nas nossas inúmeras conversas, até pouco antes do seu falecimento, após uma dura e corajosa luta contra o cancro que o vitimou. Tive o grato privilégio de, na qualidade de presidente da Sociedade Histórica da Independência de Portugal, lhe entregar, em Maio de 2009, em sessão solene no Palácio da Independência, em Lisboa, o Prémio Aboim Sande Lemos — Identidade Portuguesa, atribuído, por unanimidade, por um rigoroso júri. Disse então que, entre as numerosas condecorações e outras distinções que recebera, aquela tinha para ele um significado muito especial e fez, nessa inesquecível tarde, uma notável comunicação sobre o homem, a vida e os valores que devem ser as coordenadas da sua conduta. Ministro das Finanças do governo chefiado pelo Dr. Mário Soares, chegou a ser por este, quando Presidente da República, considerado para Governador de Macau, cargo que, devido a outros compromissos, mormente de natureza profissional, já não estava em condições de aceitar. Teve uma intensa e qualificada actividade cívica e académica, praticamente até ao momento em que a morte o levou, numa altura em que tinha muito para ainda dar a Portugal.Vítor AlvesVítor Manuel Rodrigues Alves, coronel de infantaria e um dos mais influentes “capitães de Abril”, teve uma relevante intervenção moderadora nas fases mais
058F A L A R D E N Ó S – VIIIJ O R g E A . H . R A N g E L extremadas da revolução portuguesa de 1974/75. Foi Ministro da Educação e presidiu à comissão organizadora do Dia de Portugal, situação que fez estreitar os seus laços com Macau, que visitou várias vezes, também por razões familiares. Chefiou a delegação portuguesa à Cimeira de Macau sobre o futuro de Timor, em Junho de 1975.Conheci o então Major Vítor Alves na Escola Prática de Infantaria, em Mafra, quando ali fiz o Curso de Oficiais Milicianos, em 1970. Foi o director do Curso e tive contactos estreitos com ele quando me designaram, juntamente com outro cadete, para coordenar o jornal daquela escola militar durante três meses. Voltei a vê-lo quando ali retornei para fazer o Curso de Comandantes de Companhia, após o que fui formar, na Ilha de S. Miguel (Açores), a companhia de infantaria que comandei, como capitão, na Guiné. Nem sempre foram convergentes as nossas opiniões sobre a realidade portuguesa, mas tive nele um interlocutor sereno, inteligente, cordial e de fino e agradável trato nas conversas que mantivemos.A sua filha, Ana Cristina Alves, passou anos da sua vida académica e profissional em Macau e na R.P.C. e doutorou-se com uma tese sobre a mulher na China. Desempenha funções técnicas no Centro Científico e Cultural de Macau, em Lisboa.Lídia CunhaLídia Lourdes da Cunha foi uma dedicada e competente funcionária da Administração Pública de Macau. Entre outros cargos, foi secretária do Governador Carlos Melancia e do Comissário Contra a Corrupção, Mendonça de Freitas. Chamei-a para trabalhar comigo quando foi colocado na minha tutela, como membro do
059 J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – VIIIGoverno de Macau, o Gabinete Coordenador das Cerimónias de Transferência, em 1998/1999. Desvinculada da Função Pública, foi um elemento de grande valia no Instituto Internacional de Macau, secretariando o órgão executivo e chefiando depois os sectores administrativo e financeiro.A sua proficiência e exemplar conduta granjearam-lhe o respeito e a admiração de quantos com ela trabalharam, deixando uma vaga muito difícil de preencher. Coerente com as suas crenças e a sua fé, também se dedicou a causas de solidariedade social.Serrano PintoManuel Serrano Pinto, académico esclarecido e competente, coordenou o Curso de Estudos Chineses na Universidade de Aveiro e visitou, em serviço, várias vezes Macau e a República Popular da China. A convite dele, integrei o corpo docente desse curso, ministrando parte substancial dos Estudos de Macau.Os seus projectos nessa área eram abundantes e sólidos. Foi para mim gratificante colaborar com ele e com aquela dinâmica universidade, identificada com a cidade e a região em que se insere, numa relação exemplar com a comunidade que serve e junto da qual se assume como motor do desenvolvimento e poderoso e eficaz dinamizador cultural.Além da cooperação académica, criámos, graças à sua disponibilidade, abertura de espírito e simplicidade no trato, uma relação de amizade. Apreciei muito as suas
060F A L A R D E N Ó S – VIIIJ O R g E A . H . R A N g E L qualidades de orientador académico e o seu interesse em estabelecer colaborações mais intensas com Macau. Joaquim Pinto MachadoJoaquim Germano Pinto Machado Correia da Silva, falecido há precisamente uma semana, com 80 anos de idade, vítima de doença prolongada, foi Governador de Macau em 1986/87, nomeado por Mário Soares, de quem foi mandatário no Porto, na campanha eleitoral para a Presidência da República.Professor universitário, médico, cientista e homem público, trouxe um novo discurso político para Macau, de pendor humanista. Reuniu as suas comunicações e intervenções num volume intitulado “Discurso e percurso”, mas o percurso foi inesperadamente breve.Voltarei a referir, oportunamente, a sua acção no território.Como tantas vezes lembrou Pessoa, “neste mundo em que esquecemos, somos sombras de quem somos e os gestos reais que temos no outro em que, almas, vivemos, são aqui esgares e assomos”, e “no fim tudo será silêncio...”. Ficam, porém, vultos, sentimentos e lembranças que se irão esbatendo na nossa memória. E, naturalmente, a obra que cada um quiser e souber legar.21 de Março de 2011
061 J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – VIIIComplementando as breves evocações feitas, no artigo anterior, de várias personalidades ligadas a Macau que, nos últimos meses, nos deixaram para sempre, quero agora recordar um “macaense de gema”, o Leonel Barros (Neco), que todos conheceram pela sua dedicação à terra natal e pela sua discreta mas polivalente e consequente intervenção na vida local, como funcionário público, membro de associações, artista plástico, músico, professor, tradutor, veterinário-assistente, técnico na área da zootecnia, cronista e estudioso das “coisas” de Macau.Não obstante a enorme diferença de idade, foi um amigo desde os meus anos de criança, quando vizinhos no velho bairro do Tap-Seac. Mesmo depois de mudar para o casarão da família, na Rua Central, e, mais tarde, para a Praia Grande, onde vivi nos últimos anos do Liceu, continuámos em contacto e conversávamos muito sobre a nossa terra. Pouco depois de partir para Portugal, para a universidade, ofereceu-me um go-kart que fez as delícias de amigos meus em Monsanto e na Cruz Quebrada, em circuitos improvisados de corridas. Encaixotou-o e fez-me a surpresa de o enviar num cargueiro para Lisboa. Não podendo utilizá-lo com mais frequência, na fase mais adiantada do curso, ofereci-o depois a uma escola técnica, para o seu centro de actividades circum-escolares. Continuámos amigos pelos anos fora.Leonel Zilhão Aires da Silva Barros nasceu em Agosto de 1924, na Freguesia de Santo António. Desde cedo revelou grande propensão para actividades artísticas, nas vertentes de desenho, aguarela, pintura a óleo, azulejaria e música, integrando diversos conjuntos musicais, como executante de viola, bateria e flauta. Um desses conjuntos — o “Six Rockers” — ganhou grande projecção local e em Hong Kong.Sau-Seng, símbolo de longevidade“A crença em Sau-Seng orienta e prolonga a vida”.Leonel Barros, “Macau — Coisas da Terra e do Céu”, 1999
062F A L A R D E N Ó S – VIIIJ O R g E A . H . R A N g E L A ciência médico-veterinária foi outra área que despertou o seu interesse, sendo reconhecida a sua competência neste domínio, a ponto de integrar o júri do popular programa “Animal Obedience”, da TVB de Hong Kong. Na vida profissional, foi funcionário público e da Companhia de Electricidade de Macau, além de, mais tarde, precioso colaborador do Museu Marítimo de Macau. Foi louvado e condecorado pelo governo do território com a Medalha de Mérito Cultural. Bom contador de histórias e profundo conhecedor da realidade local, participou em conferências e palestras e deu colaboração a órgãos de comunicação social. Especialmente nas últimas décadas da sua vida, dedicou-se apaixonadamente ao estudo e divulgação de usos e costumes locais e de tradições chinesas e macaenses, tendo publicado vários livros, o último dos quais lançado em Dezembro passado no Encontro das Comunidades Macaenses. O seu falecimento, no último dia de Janeiro, interrompeu este importante registo de memórias da comunidade e da terra com a qual se identificou completamente e que muito amou.Em sua homenagem, transcrevo de “Macau — Coisas da Terra e do Céu” (edição da Direcção dos Serviços de Educação e Juventude, Macau, 1999), que é por muitos considerada a sua melhor obra, este pequeno texto dedicado a Sau-Seng, o deus da longevidade:Sau-Seng, símbolo de longevidade“As mais conhecidas divindades da fé taoísta são, sem dúvida, os oito imortais a que os chineses chamaram de Pat-Tai-Sin.
063 J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – VIIIEste grupo de oito imortais é formado por sete homens e uma mulher representando diferentes condições de vida — masculina, feminina, aristocrata, plebeia, velhice, juventude, pobreza e riqueza. Todos eles conseguiram alcançar imortalidade absorvendo o elixir da vida.Desde que no século XIII foram reunidos em grupos, as suas aventuras favoreceram muito os escritores, pintores e artífices que não tinham mãos a medir, redigindo histórias, desenhando quadros e moldando figuras em barro, em louça, ou em marfim.Mas, as mais conhecidas e apreciadas dessas oito divindades são geralmente os chamados Deuses Estelares. São eles o Fôk-Iôk e o San, que correspondem respectivamente, aos Deuses da Felicidade, da Influência e da Longa Vida.Portanto, qualquer pessoa que esteja em Macau, e que num dos seus passeios pela cidade entre numa das tantas lojas onde se vende louça chinesa, dos mais variados feitios e cores, de certeza notará, entre tantos artigos à disposição do cliente, uma estatueta com cerca de quarenta centímetros de altura, representando um simpático velho risonho, de pé ou montado sobre um cavalo ou numa corça tendo numa das mãos um pêssego e na outra um rústico cajado, onde pende uma cabaça. É ele Sau-Seng que representa o Deus da Longevidade para os chineses. É relativamente recente tal representação antropomórfica dessa divindade.No céu está representado pela estrela da longevidade. Quando ela aparece, reina paz na terra e quando desaparece haverá guerra.O primeiro imperador que começou a prestar homenagens a Sau-Seng foi Ching-Si-Hang-Tai no ano 246 a.C. e desde então nunca mais Sau-Seng se tornou esquecido.Sob as dinastias Chao e Chin, Sau-Seng era, como todos os deuses do panteão chinês, somente representado por um símbolo geométrico.Quem é então Sau-Seng?
064F A L A R D E N Ó S – VIIIJ O R g E A . H . R A N g E L Ele é uma estrela do Velho, a estrela do Pólo Sul que está no firmamento a Sul das outras estrelas, pelos chineses conhecidas por Wu, que formam uma parte da constelação do Grande Cão e de Argo.Anima esta estrela um espírito divino, que é Sau-Seng, com o condão especial de poder dar felicidade e longa vida aos homens na Terra, e foi por alcançar estes dois bens que o imperador Ching sacrificou a este divino espírito: paz ao império, felicidade e longa vida.Os deuses chineses estão como os mortais, sujeitos a ingratidões e à perda de crédito.Há divindades consideradas de grande valor durante séculos que, por causas que às vezes não são conhecidas, perdem de um dia para outro a total reputação, vindo a cair no rol dos esquecidos.Quem viaja pela China, depara com templos em ruína que foram de homenagem a deuses que já se desacreditaram.O povo, porém, que nunca pôde compreender bem um deus representado em forma de tabuleta, deu-lhe forma humana tomando o feitio, como acabámos de relatar, de um bom velho sorridente, de testa alta e de pé.De Sau-Seng conta-se um milagre realizado no Templo dos Três Reinos que consagraram definitivamente o seu poder de alongar a vida. Foi o caso que, tendo o célebre adivinho fisionomista Kun Ló reconhecido que certo jovem não passaria dos vinte anos, aconselhou-o a que transportasse para um determinado sítio um barril de vinho e ali desse de beber a dois sujeitos que lá encontraria a jogar damas.Ouvindo os conselhos do bom velho, o rapaz foi e efectivamente encontrou lá os tais indivíduos a jogar: mas tão entretidos estavam eles, que esvaziaram o barril, copo após copo, sem darem pela presença do rapaz. Só no fim da jogada viram que o vinho
065 J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – VIIIque tinham bebido pertencia ao rapaz. Atrapalhados, pensaram os dois numa maneira de recompensá-lo.Um deles pegou num livro e viu que quanto à vida do rapaz ele dificilmente passaria dos dezanove anos. Pegou em seguida num pincel e trocou os algarismos, nove e um, e o rapaz viveu até aos noventa e um anos.Um dos jogadores era o espírito da Estrela do Sul, Sau-Seng. Foi este que trocou os algarismos e sucedeu que, em toda a China, cresceu a grande fama deste espírito e realmente não era para menos.Em toda a China, rara é a família que não tenha em sua casa, num local cuidadosamente escolhido, uma estatueta do velho Sau-Seng, para prolongar a vida das pessoas e guiar os seus destinos.”Como lembrou Leonel Barros, “A crença em Sau-Seng orienta e prolonga a vida”. Activo até que a morte o levou, com 87 anos de idade, dedicando-se à arte e aos seus estudos sobre Macau e sobre a cultura e tradições chinesas e macaenses, recordá-lo-emos com saudade. Foi mais um elemento bem representativo da comunidade que nos deixou definitivamente. A APIM e outros organismos locais saberão honrar a sua memória. 28 de Março de 2011
066F A L A R D E N Ó S – VIIIJ O R g E A . H . R A N g E L Por iniciativa de católicos portugueses do Grupo da Imaculada de Portugal, desde logo apoiada por personalidades residentes em Macau, como Maria Leonor Rocha Vieira, Anabela Ritchie, Carmen Machado e Maria João Rangel, mais um acto religioso começou a realizar-se anualmente na nossa cidade, desde 1996, a somar a tantas outras manifestações da Igreja, levadas a efeito pela Diocese, pelas paróquias, por variadas congregações e por outros organismos e núcleos de fiéis. Neste âmbito, foi colocada uma linda imagem de Nossa Senhora num nicho implantado sobre um pedestal erguido no largo fronteiro ao Seminário de S. José. Devoção à Mãe Imaculada O 15.º aniversário deste acto de afirmação da devoção à Mãe Imaculada, Mãe de Jesus, complementado pela consagração dos lares de Macau ao Seu Imaculado Coração, foi assinalado, no passado dia 25 de Março, com uma missa rezada pelo Bispo da Diocese, D. José Lai, na Igreja do Seminário, a que se seguiram a reza do Terço e uma procissão de velas, acompanhando aquela imagem até à sua recolocação no nicho, que a comunidade católica abraçou como mais um local de culto.No Santo Terço, foram evocados os 1.º, 3.º e 5.º Mistérios, respeitantes à Agonia de Jesus no Horto, à Coroação de Espinhos e à Crucificação e Morte de Jesus e, ao longo da missa e da procissão, a multidão de fiéis foi entoando conhecidos cânticos religiosos, como “Sobre os Braços da Azinheira”, “Nossa Senhora, Mãe de Jesus”, “Salve, Mãe Imaculada”, “Salve, Nobre Padroeira” e “A Treze de Maio”.Consagração dos lares ao Imaculado Coração de Maria“ ... nós, habitantes desta terra da Cidade de Macau e sua periferia, consagramos ao vosso Imaculado Coração os nossos lares ...”
067 J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – VIIIFoi também renovada a “Consagração dos Lares da Cidade de Macau ao Imaculado Coração de Maria”, nos seguintes termos:“Imaculado Coração de Maria, nós, habitantes desta terra da Cidade de Macau e sua periferia, consagramos ao vosso Imaculado Coração os nossos lares, cada um em particular, e as nossas vidas, pedindo a graça da Paz e da Alegria, iluminada pela Fé. Cobri com o Vosso Santíssimo Manto os nossos lares e esta terra da Cidade de Macau. Abrigai-nos no Vosso Maternal e Imaculado Coração”.Os Cânticos Correspondendo à vontade de fiéis que participaram nessa manifestação religiosa, com vista à sua maior divulgação, reproduzem-se aqui, parcialmente, os cânticos ali fervorosamente entoados:1. Sobre os Braços da Azinheira Sobre os braços da azinheira Tu vieste, ó Mãe clemente, Visitar a lusa gente De quem és a padroeira (bis) Coro: Ave! Ave! Ave! Ave! Mãe de Deus. Ave! Ave! Ave! Ave! Cantam filhos Teus.
068F A L A R D E N Ó S – VIIIJ O R g E A . H . R A N g E L 2. Nossa Senhora, Mãe de Jesus Nossa Senhora Mãe de Jesus Dá-nos a graça Da tua luz; Virgem Maria, Divina flor. Dá-nos a esmola, Do teu amor. Coro: Imaculada, Rainha da Paz! Sob o Teu manto tecido de luz, Faz com que a guerra se acabe na terra E haja entre os homens a paz de Jesus.
069 J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – VIII3. Salve, Mãe Imaculada Salve, Mãe Imaculada! Do cristão sois força e luz! Sois Filha de Deus amada, Pura Mãe do Bom Jesus. Coro: A Vossos pés estamos nós, Hoje clamando em alta voz: Oh! Maria! Oh! Mãe de Deus! Orai, orai, orai por nós. (bis)4. Salve, Nobre Padroeira Salve, Nobre Padroeira, Do povo, Teu protegido, Entre todos escolhido Para o povo do Senhor. Coro: Ó glória da nossa terra Que tens salvado mil vezes. Enquanto houver Portugueses, Tu serás o seu amor! Enquanto houver Portugueses, Tu serás o seu amor! O seu amor!
070F A L A R D E N Ó S – VIIIJ O R g E A . H . R A N g E L 5. A Treze de Maio A treze de Maio Na Cova da Iria Apar’ceu brilhando A Virgem Maria Ave! Ave! Ave Maria! (bis) A Virgem Maria Cercada de luz, Nossa Mãe bendita E Mãe de Jesus. Ave! Ave! Ave Maria! (bis)Iniciada como uma expressão da devoção de católicos portugueses, a adesão crescente de fiéis chineses fez com que a liturgia passasse, nesta cerimónia anual, a ser conduzida nas duas línguas oficiais de Macau, o mesmo acontecendo com alguns dos cânticos, já bilingues. Festa religiosa marcante pelo seu significado e singeleza, este evento ganhou já um lugar próprio no nosso calendário católico, situando-se temporalmente entre as duas maiores procissões de Macau, a do Senhor dos Passos e a do Treze de Maio, expressões vivas duma comunidade que contribuiu determinantemente para a afirmação, consolidação e desenvolvimento do território e para a salvaguarda de valores que lhe asseguraram uma singularidade própria.4 de Abril de 2011
071 J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – VIIIDepois da exposição “Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa — Uma memória de há 50 anos”, promovida pelo Instituto Internacional de Macau em Março de 2010, com imagens reproduzidas de postais da vasta colecção de João Loureiro, nova mostra foi agora inaugurada no Salão Ho Yin do Clube Militar, tendo por tema “O Oriente de Influência Cultural Portuguesa”. Estará aberta até 17 do corrente mês.A primeira reuniu 150 imagens (30 por cada país lusófono de África) e procurou contribuir para uma visão sucinta mas abrangente de uma década — a de sessenta do século passado — determinante para a evolução de Cabo Verde, da Guiné-Bissau, de S. Tomé e Príncipe, de Angola e de Moçambique. Foi esse um período de grandes transformações administrativas, sociais e económicas, antecedendo a ascenção desses territórios a Estados independentes. A que foi aberta no passado dia 6 de Abril congrega 170 postais fotográficos, datados dos finais do século XIX até aos anos sessenta e referem-se ao Estado da Índia (Goa, Damão e Diu), a Macau e a Timor, incluindo também “uma breve introdução com propósitos de contextualização histórica relativa aos testemunhos dos antigos Império e Padroado do Oriente”, conforme nota introdutória do autor, proprietário da maior colecção de postais e fotografias do antigo Ultramar Português, constituída por cerca de doze mil imagens que originaram a edição de 16 álbuns que tiveram invulgar sucesso junto do grande público, até por serem de conteúdo apelativo e graficamente muito vistosos.João Manuel de Almeida Loureiro nasceu em Lisboa (1949) e é magistrado judicial aposentado, tendo iniciado a carreira no quadro ultramarino, em Angola (Malanje, Uíge e Luanda). Foi gestor de um grupo multinacional de publicidade e comunicação e é presentemente administrador não executivo de uma empresa também do ramo da O Oriente de Influência Cultural Portuguesa“A presença portuguesa no Oriente estendeu-se… até aos confins do Pacífico, deixando aqui influências desde as ilhas indonésias ao Japão, passando pela Arábia, Golfo Pérsico, Malásia, Tailândia e China”. João Loureiro, na apresentação da exposição
072F A L A R D E N Ó S – VIIIJ O R g E A . H . R A N g E L comunicação. Membro efectivo da Sociedade de Geografia de Lisboa, é também vice-presidente da assembleia geral da Sociedade Histórica da Independência de Portugal e membro do órgão de gestão do Instituto Internacional de Macau. Viajou muito, desde o tempo de estudante, e continua, hoje, a visitar os antigos territórios ultramarinos, a que se sente profundamente ligado, pela memória e pelo seu significado no contexto da dimensão lusófona.Esta nova exposição tem vários módulos caracterizados do seguinte modo:A Viagem“Da Ilha de Moçambique à China e ao Japão — A Viagem” constitui a primeira parte. No folheto de apresentação, ficou explicado que “o Oriente que na era quinhentista começou a ser percorrido por navegadores, militares, comerciantes e missionários lusitanos, teve a sua matriz na mítica Ilha de Moçambique, por onde passaram, entre tantos outros vultos ilustres, Vasco da Gama, Afonso de Albuquerque, Camões e S. Francisco Xavier. Desde então e até ao último ano do século XX, quando ocorreu a transferência da administração de Macau para a China, decorreram cerca de cinco centúrias em que, a uma escala global, a língua e a influência cultural portuguesas chegaram a terras distantes do Índico e do Pacífico”.“Sofala, a Ilha de Moçambique, Mombaça e Quíloa, e as suas vetustas fortalezas. As missões católicas de S. Pedro, em Malaca, e de S. José, em Singapura, que prolongaram até aos nossos dias o legado ímpar do Padroado do Oriente. Os sinos e os canhões portugueses expostos em Jacarta, o Observatório Astronómico e o Cemitério dos
073 J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – VIIIJesuítas em Pequim e a estátua do Infante D. Henrique em Tanegashima. Todo este notável património histórico, que contextualiza de forma sucinta mas perfeita a presença secular de Portugal na Ásia e no Pacífico, merecem também acolhimento em muitos bilhetes postais, alguns dos quais agora expostos.”O Estado da Índia“A história do Estado da Índia, que compreendia os territórios de Goa, Damão, Diu, Dadrá e Nagar Aveli à data da invasão pela União Indiana, em Dezembro de 1961, constitui um dos mais fascinantes capítulos da aventura portuguesa no Oriente. Nos postais seleccionados merecem destaque os que mostram o esplendor do passado de Velha Goa, a Roma do Oriente, em particular a sua ampla Sé Catedral, o Convento de S. Francisco de Assis e a Igreja de Bom Jesus, onde se encontra o túmulo de S. Francisco Xavier que, missionando de Goa ao Japão, se tornou conhecido como o Apóstolo das Índias.A capital de Goa, a cidade de Pangim, pode ser revisitada através das imagens que contemplam o Palácio do Hidalcão, nas margens do Mandovi, a residência dos governadores no Palácio do Cabo, a Igreja Matriz, e as vizinhas fortalezas dos Reis Magos e da Aguada.Quisemos ainda salientar nesta exposição lembranças das praças do Norte — Damão e Diu – e vistas aéreas pouco conhecidas de centros urbanos goeses da iniciativa da pioneira Comissão Pró-Aviação”.
074F A L A R D E N Ó S – VIIIJ O R g E A . H . R A N g E L Macau “Duas magníficas visões panorâmicas de Macau há cento e dez anos, constantes de um conjunto de seis postais trípticos editados em Hong Kong, têm a virtualidade de permitir concluir como tudo mudou desde então até aos nossos dias. A cidade de Macau e a Região Administrativa Especial em que se integra desde Dezembro de 1999 são hoje percepcionadas, em simultâneo, como símbolos de um percurso histórico e cultural singular e como caso exemplar de modernidade e de desenvolvimento. As imagens escolhidas focam em especial sítios e edifícios que no presente se incluem nos roteiros patrimoniais classificados pela UNESCO, mas mostram-nos igualmente facetas pouco divulgadas tais como a feira industrial de 1926 ou cenas do funeral Lu Lim Ioc, um ano mais tarde.De salientar ainda o interesse histórico de que se revestem os postais editados nos meados da década de sessenta, enquanto testemunhos de uma paisagem urbanística e arquitectónica radicalmente alterada nas décadas imediatas”.Timor“São escassos os editores de postais ilustrados sobre o antigo Timor Português, como pouco abundantes são, na sua globalidade, as imagens produzidas sobre a terra e o seu povo antes da ocupação japonesa ocorrida em plena segunda guerra mundial.
075 J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – VIIIFoi todavia a ‘Missão’, nome por que era designada a Igreja Católica em Timor nos tempos que precederam a criação da respectiva diocese, que nos fins dos anos vinte – a Idade do Ouro do bilhete postal – nos proporcionou cerca de uma centena de postais numerados que, nos dias de hoje, são uma genuína fonte iconográfica para o conhecimento do território.São estes postais que, acrescendo às imagens de há precisamente cem anos de Díli e de Liquiçá, desempenham nesta exposição a função de nos revelar a paisagem rural e o limitado urbanismo de Timor anteriormente à ocupação nipónica.Já nos anos sessenta do século XX foram as edições promovidas pelo Comando Militar de Timor e pelo Movimento Nacional Feminino, com ‘clichés’ da autoria de militares em comissão de serviço, que nos transmitiram os traços marcantes da individualidade de Timor – montanhas deslumbrantes, praias de águas nítidas, areia branca e corais, folclore riquíssimo e um povo afável e acolhedor.”Visitar a exposição é fazer uma romagem por caminhos da história lusa e compreender uma herança cultural ímpar, nas suas vertentes arquitectónica, social e humana, preservada em imagens de bilhetes postais que, na sua singeleza, conseguem expressar a mensagem de um pequeno e corajoso povo que, impelido pela vontade de transpor limites, foi sempre mais longe e abraçou o mundo.11 de Abril de 2011
076F A L A R D E N Ó S – VIIIJ O R g E A . H . R A N g E L Três sessões de homenagem merecem especial menção neste espaço, uma promovida por um organismo macaense da sociedade civil, outra organizada pelo Estado Português e a terceira envolvendo doze universidades portuguesas numa distinção singular atribuída ao reitor da Universidade de Macau.Ordem do MéritoCom a Ordem do Mérito, graus de Grã-Cruz e de Comendador, respectivamente, o Presidente da República Portuguesa agraciou o primeiro Chefe do Executivo da RAEM, Edmund Ho, e a coordenadora do Gabinete de Apoio ao Secretariado do Fórum para a Cooperação Económica e Comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa, Rita Botelho dos Santos, recentemente nomeada secretária-geral adjunta do mesmo Fórum.Altas entidades da RAEM e responsáveis de organismos públicos e privados, além de representantes diplomáticos e consulares, testemunharam o acto que decorreu na Residência Consular de Portugal em Macau, no dia 30 de Março, tendo o Embaixador de Portugal em Pequim, José Tadeu Soares, representado o Chefe de Estado na sessão. No uso da palavra, exaltou os serviços prestados pelas duas personalidades homenageadas, referindo-se do seguinte modo a alguns pontos mais salientes da acção realizada por Edmund Ho, “em prol dos interesses de Macau e da sua população”:“Nascido em Macau, e após os seus estudos, o Sr. Edmund Ho teve uma participação activa e intensa na vida económica do território, quer no sector estritamente privado quer em empresas com largas repercussões na vida pública de Macau.Três significativas homenagensMacau ocupa na história de Portugal e no imaginário colectivo do povo português um lugar muito especial. É um lugar que demonstra diariamente que o contacto de civilizações e a convivência de culturas é possível para benefício de todos os povos intervenientes”. José Tadeu Soares, Embaixador de Portugal em Pequim
077 J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – VIIIDesde 1988, participou na vida política de Macau sendo deputado à Assembleia Legislativa e vice-presidente da mesma. Teve parte activa na preparação da Lei Básica da Região Administrativa Especial de Macau e nas negociações que levaram à transferência da administração do território. Foi assim, na sequência lógica deste percurso, que foi designado Chefe do Executivo em 20 de Dezembro de 1999, cargo para o qual viria a ser reconduzido 5 anos mais tarde.Tratava-se de um período particularmente sensível e difícil na vida de Macau. Ao desafio que se apresentava respondeu o Sr. Edmund Ho de uma forma particularmente brilhante e que marcou a diferença que a presente condecoração quer assinalar.Com prudência, sensibilidade e empenho, a acção governativa do Sr. Edmund Ho e dos seus colaboradores assegurou a prosperidade do território e a tranquilidade dos seus moradores.Macau ocupa na história de Portugal e no imaginário colectivo do povo português um lugar muito especial. É um lugar que demonstra diariamente que o contacto de civilizações e a convivência de culturas é possível para benefício de todos os povos intervenientes.O Sr. Edmund Ho assegurou, no período sensível de transição, que Macau continuaria a ser um exemplo de convivência multicultural e de prosperidade. Por isso, a República Portuguesa lhe está agradecida e decidiu distingui-lo”.Referiu, seguidamente, a contribuição muito positiva e empenhada de Rita Santos no apoio ao funcionamento do Fórum para a Cooperação e às importantes iniciativas levadas a efeito no seu âmbito. Visivelmente emocionada, a agraciada foi muito cumprimentada pelas individualidades presentes e foram particularmente expressivas as palavras, muito sentidas, que dirigiu aos órgãos de comunicação social, afirmando
078F A L A R D E N Ó S – VIIIJ O R g E A . H . R A N g E L ser aquele um momento muito relevante da sua vida profissional e que recebia com satisfação e orgulho aquela alta distinção. Muito notadas foram as manifestações genuínas de simpatia de familiares e amigos, entre os quais me incluo, também como seu ex-professor.Defesa do PatrimónioDe teor e enquadramento completamente distintos foi a sessão memorialista de homenagem a Francisco Figueira (1934-2009), arquitecto e pioneiro na defesa do património arquitectónico de Macau, no dia 16 de Março. Promovida pelo Albergue SCM, sob a competente orientação e coordenação do seu director-geral, Carlos Marreiros, aquela sessão foi complementada com uma exposição sobre a vida e obra do homenageado, ao mesmo tempo que era lançada uma petição para a atribuição do nome de Francisco Figueira a uma artéria de Macau. Carlos Marreiros justificou assim a iniciativa:“Francisco Figueira foi um defensor infatigável do Património Cultural, Arquitectónico, Urbanístico e Paisagístico de Macau. Essa luta foi iniciada por ele, desde os meados dos anos setenta do século passado até aos primórdios dos anos noventa, quando uma doença prolongada o afastou definitivamente das funções que exercia, no então Instituto Cultural de Macau. Homem culto e íntegro, frágil e pouco convencional na aparência, porém, com uma esclarecida e hercúlea determinação, e, com visão e pioneirismo, dedicou-se, de corpo e alma, a essa actividade preservacionista que é hoje reconhecida por todos os sectores de Macau. É, igualmente, do domínio público que,
079 J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – VIIIo sucesso da classificação de Macau como Património da Humanidade pela UNESCO, é em certa e justa medida, também, obra pioneira de Francisco Figueira”.Quando integrei a equipa governativa do Almirante Vasco de Almeida e Costa, como Secretário-Adjunto para a Educação, Cultura e Turismo (1981-1986), pude apreciar de perto o trabalho sério, competente e eficaz de Francisco Figueira. Não havendo ainda qualquer serviço oficial próprio na área cultural (existia apenas uma pequena e incipiente Divisão de Cultura nos Serviços de Educação e o Leal Senado promovia, no domínio das suas amplas atribuições, um conjunto útil de actividades culturais de âmbito municipal), decidi criar, com total apoio do Governador, a Comissão Coordenadora da Acção Cultural, embrião do Instituto Cultural de Macau, estabelecido pouco depois, após proposta que apresentei ao Governador, na sequência dos trabalhos preparatórios levados a cabo por aquela comissão, em articulação com pessoal do meu gabinete. O Eng.º João Rodrigues Calvão presidiu proficientemente àquela comissão e ao novo organismo e o Arq.º Figueira fez parte da comissão e foi por mim nomeado chefe do Departamento de Património. Com esta nova estrutura permanente, as políticas de defesa e valorização do património arquitectónico e cultural ganharam maior estabilidade, coerência e consistência, sendo justo destacar, neste contexto, o contributo de Francisco Figueira na definição dessas políticas e nas acções persistentemente levadas e efeito.Honoris CausaA Academia das Ciências de Lisboa, casa emblemática da ciência e da cultura, foi, também em Março, palco de outra homenagem, de natureza eminentemente
080F A L A R D E N Ó S – VIIIJ O R g E A . H . R A N g E L académica, quando doze universidades portuguesas se juntaram para atribuírem o doutoramento “honoris causa” ao Prof. Wei Zhao, prestigiado académico e reitor da Universidade de Macau apenas desde Novembro de 2008. Esta manifestação de apreço, singularíssima porque nunca anteriormente verificada com esta dimensão e abrangência, a muitos surpreendeu, pelo seu evidente exagero. Ela pode e deve, porém, ser entendida como um gesto expressivo de reconhecimento pela colaboração que a Universidade de Macau desenvolveu, ao longo de décadas, com as universidades portuguesas e que reitores anteriores, como Hsueh Shou Sheng, Mário do Nascimento Ferreira e Iu Vai Pan, com o apoio do vice-reitor Rui Martins, quiseram e souberam assegurar, além de constituir uma declaração inequívoca da vontade de continuarem a ter na Universidade de Macau um interlocutor privilegiado nas relações com o mundo académico chinês. Oxalá a Universidade de Macau entenda a generosidade e o pleno significado deste gesto e queira, não obstante as mudanças nela ocorridas, nem todas positivas e consistentes, preservar e consolidar esse relacionamento, que foi determinante para a sua afirmação e funcionamento, como a maior e a mais qualificada das instituições de ensino superior de Macau.18 de Abril de 2011
081 J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – VIIILançada recentemente em Lisboa, a obra “Macau nos Anos da Revolução Portuguesa 1974-1979” foi apresentada no Clube Militar, no passado dia 13 de Abril, em sessão muito concorrida e com a presença do autor, General José Eduardo Garcia Leandro, ex-Governador, de visita a Macau juntamente com o Eng.º Carlos Montez Melancia, outro antigo Governador, a convite do Chefe do Executivo da RAEM.O livroAguardado há muito tempo, este livro transporta-nos ao período (1974-1979) em que Garcia Leandro foi Governador, após a Revolução de Abril. Foram anos extremamente difíceis e politicamente confusos em Portugal, com reflexos inevitáveis e fortemente sentidos no território, até serem encontrados caminhos de maior serenidade e estabilidade. O autor conseguiu enquadrar muito bem as situações vividas localmente, ao mesmo tempo que apontou os respectivos desenvolvimentos.“Pai” do Estatuto Orgânico de Macau, peça fundamental para garantir a desejada estabilidade, Garcia Leandro explicou o processo da sua elaboração e aprovação, bem como os caminhos seguidos no relançamento da economia, abalada pelas incertezas políticas, e o enorme esforço feito no sentido de melhorar as relações entre as comunidades e na identificação e resolução dos problemas que mais afectavam a população.No contexto financeiro, foram adoptadas medidas eficazes para consolidar a moeda local (a pataca), para atrair de novo os investidores, apelando sobretudo ao investimento nas ilhas da Taipa e de Coloane, e fazendo a revisão do contrato de Macau nos Anos da Revolução Portuguesa de Abril“ ... em 1999, a China recebeu como herança uma jóia – em termos de infra-estruturas e de capacidade de prestação de serviços – bem como uma desafogada situação económica e financeira, com prestígio acrescido para Portugal”. Garcia Leandro, “Macau nos Anos da Revolução Portuguesa 1974 – 1979”
082F A L A R D E N Ó S – VIIIJ O R g E A . H . R A N g E L exploração dos jogos de fortuna e azar com a STDM, com vista a garantir mais avultados recursos para o território e aumentar as obrigações da concessionária.Também são relatadas algumas importantes viagens efectuadas na região e o trabalho realizado para melhorar a imagem de Portugal. Particularmente interessantes são as referências a Timor e à cimeira realizada em Macau sobre o futuro daquele martirizado território que Portugal administrou e que constituiu preocupação prioritária do Estado Português até estar assegurada a sua independência, depois de prolongado sofrimento.O leitor é surpreendido na parte final do livro com lúcidas reflexões sobre o presente e o futuro, com o autor a confessar a sua evidente frustração pelo Portugal de hoje: “O que nos tem vindo a acontecer, por erros estratégicos, falhas de liderança, incompetência executiva e comportamentos criticáveis, era claramente previsível e evitável!”Escrito na primeira pessoa, este livro, baseado no relatório apresentado ao Presidente da República no final do exercício das funções de Governador de Macau, é um testemunho fundamental para o estudo da nossa história contemporânea, ajudando a clarificar as opções feitas e a acção política desenvolvida, permitindo, concomitantemente, desfazer equívocos e resolver dúvidas que ainda persistiam em reportagens jornalísticas e em estudos académicos sobre Macau. E Garcia Leandro tem razões para fazer um balanço positivo do seu mandato: “Confesso ter um indisfarçável orgulho pelo que foi realizado no território durante os anos do meu governo, não só pela estabilidade político-social alcançada e pelo desenvolvimento iniciado, mas
083 J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – VIIIprincipalmente pelo envolvimento de todos os grupos sociais nos objectivos comuns daquela complexa sociedade”.O autorJosé Eduardo Garcia Leandro nasceu em Luanda em 1940, teve uma distinta carreira militar e a sua vida profissional fez-se largamente no antigo Ultramar (Angola, de 1962 a 1964 e de 1970 a 1972; Guiné, de 1965 a 1967; e Timor, de 1968 a 1970), tendo sido Governador de Macau entre 1974 e 1979.Além das comissões e cargos militares, inerentes ao seu percurso como oficial do Exército, desempenhou funções junto de organismos internacionais, como conselheiro militar da Delegação de Portugal na NATO/OTAN, de 1987 a 1990, comandante da componente militar da Minurso/ONU no Norte de África, em 1996, e foi director do Instituto de Altos Estudos Militares e do Instituto da Defesa Nacional, concluindo a carreira militar como Vice-Chefe do Estado Maior do Exército, no posto de Tenente-General.Além das funções docentes que exerceu no âmbito de organismos militares, continuou a ter uma intensa actividade académica em diversas instituições de ensino superior, como o Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade Técnica de Lisboa e o Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa. É também membro do Conselho Geral da Universidade Aberta, académico correspondente da Academia Internacional da Cultura Portuguesa, membro da Sociedade Histórica da Independência de Portugal e curador e administrador da Fundação Jorge Álvares.
084F A L A R D E N Ó S – VIIIJ O R g E A . H . R A N g E L Tem participado, como orador, em seminários e conferências e foi presidente do Observatório da Segurança, sendo especialista em matérias de estratégia e segurança.A sessãoCom o salão do Clube Militar lotado, abri a sessão, na qualidade de presidente do Instituto Internacional de Macau, entidade que organizou a cerimónia com a colaboração e o apoio daquela prestigiada agremiação, e convidei o Eng.º Carlos Melancia a fazer a apresentação do livro, após o que o autor recordou os momentos e os desafios mais relevantes da sua acção governativa, bem documentados em diversas partes do livro.Estas palavras do penúltimo capítulo traduzem bem a postura do Governador: “Cumprida, em Macau, esta missão de Governo e de diplomacia, é evidente que o cidadão e o militar, regressado em 1979, era já diferente daquele que começou a visitar o Território em Junho de 1974”. (...) “As circunstâncias e as responsabilidades em Macau tinham-me moldado. O assumir de responsabilidades muito elevadas ainda muito novo, querendo fazer bem em situações muito difíceis, pode ajudar a levar pessoas normais (que, de outro modo, passariam despercebidas) a excederem-se nas suas capacidades. Fica, assim, a explicação para um comportamento que julgo ter sido coerente — eventualmente com erros — , e que procurou dar o exemplo, servir as populações, facilitar as relações diárias com a China, honrar Portugal e a mim próprio”.Na mesma sessão, o Eng.o Carlos Melancia fez a apresentação sucinta de uma outra obra — “10.o Aniversário da Transferência da Administração de Macau”, edição
085 J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – VIIIda Fundação Jorge Álvares, de grande qualidade gráfica, reunindo toda a informação sobre as comemorações levadas a efeito em Lisboa, por iniciativa daquela Fundação, em cuja realização colaboraram organismos académicos e da sociedade civil, como a Sociedade de Geografia, o Centro Nacional de Cultura, a Casa de Macau (em Portugal), a Fundação Casa de Macau, o Instituto Internacional de Macau, o Instituto do Oriente (Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas) e a Fundação Calouste Gulbenkian, e na qual participaram o Presidente da República, o Embaixador da RPC e outras altas entidades. Foi oferecido um exemplar deste álbum comemorativo a todos os presentes.Houve ainda tempo para várias intervenções dos participantes e o serão terminou com um jantar de convívio e de homenagem aos dois antigos governadores.No dia seguinte, Garcia Leandro proferiu uma palestra no auditório do Instituto Internacional de Macau, sobre “Vinte Sinais Premonitórios da Mudança Histórica” e Carlos Melancia apresentou, na ocasião, o livro “Rumos de Macau nas Relações Luso-Chinesas”, publicado em Lisboa pelo Centro Científico e Cultural de Macau.25 de Abril de 2011
086F A L A R D E N Ó S – VIIIJ O R g E A . H . R A N g E L Continua sempre activa a Confraria da Gastronomia Macaense. A sua criação permitiu que, de forma concertada e consequente, se promovessem mais eficazes medidas visando a valorização e divulgação da nossa culinária. Assim, vão sendo preparados mais livros de receitas, algumas das quais foram sendo passadas ao longo de gerações, e também notas explicativas e estudos sobre as origens, as influências e o desenvolvimento deste importante legado.Recentemente, a Confraria decidiu, por unanimidade dos seus membros, reunidos em assembleia geral, conceder a distinção de “confrade de mérito”, a título póstumo, ao grande cozinheiro que foi Américo Ângelo, o “pai” da chamada galinha africana, prato por si só suficientemente atraente para encher o salão da antiga Pousada de Macau, por muitos considerado, no terceiro quartel do século XX, o melhor restaurante de Macau. Lembro-me bem dele, porque era amigo do meu pai, com quem convivia frequentemen-te, e a Pousada, na Praia Grande, junto do Palácio, ficava mesmo ao lado da nossa casa. No mês passado, num convívio no Instituto de Formação Turística e na presença de dois antigos governadores de Macau, de visita ao território, a Confraria entregou, em ceri-mónia singela e sentida, à viúva de Américo Ângelo as insígnias de membro de mérito.Sabemos que novos livros estão em preparação, um dos quais da autoria de Cíntia Conceição do Serro, “macaense de gema”, que vive em três continentes, passando todos os anos algum tempo em Lagos (Algarve), em Toronto (Canadá) e na sua terra natal. É reconhecida pela sua elevada competência nesta área. Quem já apreciou os pratos por ela confeccionados, sabe que são de chorar por mais! Há pouco tempo, no último Encontro das Comunidades Macaenses, foi uma das oradoras da sessão dedicada à culinária macaense.Culinária macaense — marca singular da nossa identidade“A nossa comida foi e será sempre marca singular da nossa identidade e é, sem dúvida, um chamariz nas festas e convívios entre gentes de Macau, em qualquer parte do mundo”.
087 J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – VIIIFalar da culinária macaenseVale a pena transcrever parte da sua muito bem acolhida e aplaudida comunicação:“Estou aqui para falar, resumidamente, sobre a “gastronomia macaense”.Não sou nenhuma especialista nesta área, mas apenas uma curiosa, fiel seguidora das receitas herdadas da minha tia/mãe Albertina, que por sua vez deve ter herdado dos seus antepassados de Macau. Como é do vosso conhecimento, gosto imenso de cozinhar, sobretudo pratos macaenses, não só pela comida em si, mas especialmente pelo seu significado e pelos sentimentos e recordações.Ora, o que entendemos por comida ou gastronomia macaense?Quando falo da gastronomia macaense refiro-me, especificamente, à comida que os macaenses – naturais de Macau, descendentes de portugueses — comem e não à comida que, na sua generalidade, é preparada e ingerida pelos habitantes de Macau.Qual a origem desta comida macaense?Podemos dizer que as origens da gastronomia macaense se perdem no tempo. Dificilmente se encontrará uma data cronológica para fixar o início de uma especialidade tão saborosa e diversificada como é a comida macaense.Se formos corajosos poderemos afirmar que os sabores de Macau são tão antigos como os próprios macaenses. Embora não tenhamos datas escritas sobre o assunto, podemos aliar a gastronomia à miscigenação, pois aí se iniciaram as trocas de relacionamentos, ideias e vivências e da confecção de alimentos.Julgo que muitos anos passaram e poucas pessoas deram importância à gastronomia macaense, não existindo qualquer preocupação em registar receitas tão preciosas. Ainda bem que hoje em dia se está a despertar para uma realidade que nos identifica.
088F A L A R D E N Ó S – VIIIJ O R g E A . H . R A N g E L Paralelamente ao desaparecimento das pessoas que conservavam na memória os ingredientes para confeccionar especialidades de alta qualidade, tem havido ultimamente, a vontade de perpetuar, em escritos e manuscritos, as receitas da comida macaense.Como é natural, com o progresso e o desenvolvimento, e até mesmo devido às transformações operadas nas sucessivas diásporas, mais se sente a necessidade de registar aquilo que não se deve deixar perder ou cair no esquecimento.Existem algumas publicações sobre esta matéria. Segundo algumas pesquisas que fiz, podemos concluir que a comida macaense “nasceu” no final do século XVI. Também tive a oportunidade de consultar anotações pessoais fornecidas pelos meus antepassados desde os anos 30, donde podemos concluir que a gastronomia macaense é uma especialidade antiga e uma mistura de sabores portugueses, chineses, indianos, malaios e ingleses, à semelhança da própria população macaense que deixa transparecer todas essas matrizes”.Receitas macaenses“Nos nossos tempos, a comida e as receitas macaenses, devido a factores externos, têm sido transformadas, algumas, quem sabe para melhor, e outras infelizmente para pior.Muitos cozinheiros dessa comida dizem que as suas receitas são genuínas; isto, porém, depende muito do ponto de vista de cada um. Na realidade, com o rodar dos tempos, os nossos paladares e sabores vão sofrendo modificações e alterações.Deixando para trás a conversa sobre as origens, vamos falar sobre alguns pratos mais populares da gastronomia macaense, tais como: minchi, diabo, tacho (chau chau
089 J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – VIIIpele), porco bafassá, porco balechão tamarindo, lacassá, galinha cogumelo, galinha com azeitonas, capela, chau chau parida, galinha parida, pato cabidela, arroz gordo, chatini de bacalhau, missó cristão, empada de peixe, etc.Como sobremesas posso salientar: coscurão, farte, aluar, ladu, bicho bicho, genete, cornstarch, bolo menino, batatada, marcazote, mamon, saransurável, favinhas de mel, pão de leite, bolo intaia, bolo de pinhão, fatias da China, etc.Antigamente não havia o costume de realizar festas nos restaurantes como acontece nos dias de hoje. Os aniversários e ocasiões especiais eram festejados nas próprias casas com o tradicional chá gordo, composto por iguarias preparadas com muita dedicação pelas senhoras macaenses e com a colaboração dos familiares e amigos.Nos casamentos, havia o cuidado de ter as mesas muito bem enfeitadas com adereços próprios e bolinhos especiais tais como tochas, rebuçados de ovos, de chocolate, de amêndoa, de anis e docinhos de coco, não podendo faltar o famoso “cake”, que era distribuído a todos os convidados. É com muito agrado que verificamos que ainda hoje se mantêm estas tradições nos casamentos de macaenses, mesmo estando a viver longe da sua terra natal.Quem não se lembra da azáfama na cozinha das nossas avós, em vésperas de Natal e Fim-do-Ano? Todos tentavam fugir aos trabalhos, mas quem gostava da arte de culinária ficava e aprendia todas as receitas macaenses, que foram transmitidas de geração em geração, mantendo-se viva a nossa gastronomia até à presente data.Cozinhar com paixão, amor e criatividade torna a comida mais apetitosa e especial ... acreditem! Desde os pratos simples aos mais requintados, é necessário ter alguma criatividade, especialmente quando confeccionados fora de Macau, devido à dificuldade na aquisição dos ingredientes e especiarias exigidas nas receitas macaenses.
090F A L A R D E N Ó S – VIIIJ O R g E A . H . R A N g E L A nossa comida foi e será sempre marca singular da nossa identidade e é, sem dúvida, um chamariz nas festas e convívios entre gentes de Macau, em qualquer parte do mundo. Não há nada mais agradável do que juntar a família e amigos num almoço de domingo saboreando os principais pratos atrás mencionados, acompanhados de um bom vinho português, ao mesmo tempo que se vai lembrando das nossas vivências e amizades.Agora que temos mais conhecimentos acerca da alimentação saudável, julgo que se pode introduzir pequenas alterações na qualidade de certos ingredientes, mas sempre com o cuidado de manter a fidelidade às nossas receitas tradicionais.Creio que a tradição da comida macaense vai ser mantida na diáspora.Para as futuras gerações que pouco tempo dispõem para a cozinha, sugiro que as Casas de Macau organizem mini-cursos de culinária macaense onde sejam integradas receitas práticas e deliciosas para o dia-a-dia. Deixo aqui este desafio às diversas Casas de Macau”.Como se vê, prefácio para o livro já há, bastando adaptar este texto. Falta seleccionar as receitas, confeccionar os pratos, fotografá-los e preparar a edição.2 de Maio de 2011
091 J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – VIIIO livro publicado pela Fundação Jorge Álvares, dedicado às comemorações, em Lisboa, do 10.º aniversário da transferência da Administração de Macau, e apresentado pelo ex-Governador Carlos Melancia no Clube Militar, no dia 13 de Abril, contém ampla informação sobre a exposição “Macau, Encontro de Culturas”, inaugurada na sede da Fundação Gulbenkian, em Lisboa, no dia 19 de Dezembro de 2009 e depois patente, em 2010, no Porto e em Leiria, com a colaboração das respectivas Câmaras Municipais.Concebida e produzida pelo Arq.º Carlos Bonina Moreno, que Macau bem conhece pelo muito que aqui deixou, com destaque para o Museu de Macau e para o Museu Marítimo de Macau, a vistosa e altamente significativa mostra foi organizada pela Fundação Jorge Álvares, com o apoio da Casa de Macau em Portugal, do Centro Nacional de Cultura, da Fundação Casa de Macau, do Instituto Internacional de Macau e da Sociedade de Geografia de Lisboa, visando abordar, de uma forma sintética mas abrangente, “a história da presença portuguesa em Macau e a harmoniosa simbiose de culturas que a mesma encerra”. Colaboraram na organização vários serviços públicos, empresas, personalidades ligadas a Macau e o Jornal Tribuna de Macau.O cartaz e os painéisO cartaz da exposição, projectando em grande plano a fachada da Igreja de S. Paulo, continha várias vistas esbatidas da cidade, uma flor de lótus e efígies de figuras ilustres, cujas breves notas biográficas ilustraram alguns dos painéis.Acompanhados de notas explicativas, seguiram-se os demais painéis e mostruários, dedicados às bandeiras da cidade de Macau e da Região Administrativa Especial Uma exposição que dignificou a memória de Macau“Continuo a pensar que a melhor forma de estarmos à altura do que soubemos construir no passado é projectando-o no futuro”.Presidente Aníbal Cavaco Silva, na sessão comemorativa que antecedeu a abertura da exposição
092F A L A R D E N Ó S – VIIIJ O R g E A . H . R A N g E L de Macau (RAEM); à identificação e caracterização da RAEM; aos primórdios do aglomerado urbano; ao crescimento do território; a Macau, como porto de comércio internacional; à coexistência religiosa; à fachada da Igreja de S. Paulo, “altar da cidade” e “um sermão em pedra”; à escultura de ídolos sagrados chineses; à porcelana chinesa de exportação; às trocas comerciais no Oriente; ao chá e à origem das pronúncias da palavra chá; ao Leal Senado; aos Governadores de Macau, com a longa lista dos seus nomes, de D. Francisco de Mascarenhas ao General Vasco Rocha Vieira; à Santa Casa da Misericórdia; aos Correios e selos de Macau; à presença portuguesa na RAEM; à presença económica; ao centro histórico, “património da humanidade”; a edifícios emblemáticos de Macau; ao quotidiano macaense; à árvore da longevidade; a uma sala macaense, reconstituindo-se o espaço por excelência onde, nas residências macaenses, se reunia a família e se recebiam os amigos; aos escritores de Macau; ao “patuá”, crioulo português de Macau; à comunicação social em língua portuguesa na RAEM; à organização judiciária e a documentos fundamentais da história de Macau (Estatuto Orgânico de Macau, Declaração Conjunta Luso-Chinesa sobre a Questão de Macau e Lei Básica da RAEM). Foi uma verdadeira lição sobre Macau, das origens aos nossos dias.Presença PortuguesaSobre a presença portuguesa foram divulgados vários textos nos respectivos painéis, sendo de destacar este respeitante a organismos de matriz portuguesa:“Durante o período de transição, foi possível consolidar o funcionamento de instituições de matriz portuguesa, que continuam nos dias de hoje vivas e interventivas, ao lado de outras entretanto criadas.
093 J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – VIIIO Consulado-Geral de Portugal assegura em Macau a representação oficial do Estado Português, ocupando o edifício onde no passado funcionou o Hospital S. Rafael, da Santa Casa da Misericórdia de Macau, e que foi depois sede da Autoridade Monetária de Macau. Neste edifício funciona também o Instituto Português do Oriente (IPOR) que, em ligação com o Instituto Camões, tem por missão a difusão da língua e da cultura portuguesas em Macau e noutras partes do Extremo Oriente.A Residência Consular de Portugal foi instalada numa das mais prestigiadas moradias de Macau, onde pernoitaram — quando aí funcionava o Hotel Bela Vista — os turistas mais exigentes que visitaram Macau, incluindo famosos escritores, como Ferreira de Castro, que nas suas amplas varandas, com vista para a baía da Praia Grande, buscaram inspiração.Como organismo de natureza associativa, merece especial referência a Casa de Portugal, criada já na vigência da RAEM. Esta associação desenvolve uma actividade muito intensa nas áreas cultural, recreativa e social, procurando congregar no seu seio a comunidade portuguesa residente em Macau.Mas a mais importante das instituições, porque sem ela não poderia ser assegurada a permanência de portugueses na RAEM, é sem dúvida a Escola Portuguesa de Macau, que depende de uma Fundação, onde participam o Estado Português, através do Ministério da Educação, a Fundação Oriente, que tem uma delegação em Macau, e a Associação Promotora da Instrução dos Macaenses (APIM), organismo centenário que manteve em funcionamento durante mais de um século a Escola Comercial Pedro Nolasco e, desde a fase final do período de transição, o Jardim de Infância D. José da Costa Nunes, o único neste nível educativo em que o Português é a língua veicular. A qualidade da Escola Portuguesa de Macau é reconhecida, ocupando o primeiro lugar no “ranking” das escolas portuguesas no estrangeiro e o 53.º a nível nacional entre os cerca de 1.500 estabelecimentos de ensino portugueses.
094F A L A R D E N Ó S – VIIIJ O R g E A . H . R A N g E L Outros organismos de cariz associativo que se identificaram sempre com a comunidade portuguesa são o Clube de Macau e o Clube Militar de Macau, o primeiro partilhando os seus espaços com o Teatro D. Pedro V, no histórico Largo de Santo Agostinho, ao lado da Biblioteca Sir Robert Ho Tung, da Casa dos Jesuítas Portugueses e do Seminário de S. José, e o segundo dispondo duma magnífica sede, no centro da cidade, estando-lhe associado o Ténis Militar, paredes-meias com o Ténis Civil, local privilegiado de convívio das elites macaenses ao longo de muitas décadas.Na área social, é indispensável mencionar a Santa Casa da Misericórdia, cuja história se confunde com a da própria cidade. Organizada à semelhança das velhas Misericórdias Portuguesas, ela continua a ter uma intervenção modelar no campo social. A sua sede fica no centro histórico, classificado pela UNESCO como património da humanidade, no Largo do Senado, muito próximo do emblemático edifício do Leal Senado da Câmara de Macau, convertido depois da transição em Instituto para os Assuntos Cívicos e Municipais, e da Igreja de S. Domingos, por muitos considerada a mais bonita igreja barroca de Macau.No âmbito juvenil, merecem particular destaque os Escuteiros Lusófonos, sempre com renovada adesão e prontos para servir a comunidade, e no desporto realça-se o Sport Clube Lusitânia, com um palmarés respeitável no hóquei em campo e no hóquei em patins, além dos dedicados núcleos representativos dos principais clubes nacionais, como o Benfica, o Sporting e o Futebol Clube do Porto.Na Universidade de Macau, onde o Português é uma das línguas de ensino e onde existe um Departamento de Português, funciona uma muito activa Sociedade de Português junto da sua Associação de Estudantes, enquanto o Instituto Politécnico de Macau está a instalar o seu Centro de Estudos Lusófonos, ao mesmo tempo que o Instituto Inter-Universitário de Macau vem mantendo, desde a primeira hora, uma
095 J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – VIIIrelação muito estreita com a Universidade Católica Portuguesa, sendo igualmente intensa a colaboração existente entre a Universidade Aberta Internacional da Ásia (Macau) e a Universidade Aberta de Portugal. Ainda no foro académico, importa salientar a acção do Instituto Internacional de Macau que, estatutariamente e nas suas realizações, se afirmou ao longo duma década de funcionamento como instituição de matriz portuguesa, com sede em Macau e aberta ao mundo, com privilegiada cooperação com o mundo lusófono, sendo também a única instituição de Macau com o estatuto de observador consultivo da CPLP — Comunidade dos Países de Língua Portuguesa.Foram também mencionados os órgãos de comunicação social de língua portuguesa e referidos os escritores de Macau, além dos organismos da área económica e os relacionados com o turismo, como o Grupo de Danças e Cantares e a Tuna Macaense.Sendo bilingue (Português/Chinês), este volume, contendo sucinta e variada informação sobre Macau, poderá continuar a ser da maior utilidade para divulgação geral do nosso legado histórico e cultural.9 de Maio de 2011
096F A L A R D E N Ó S – VIIIJ O R g E A . H . R A N g E L A AICL — Associação Internacional dos Colóquios da Lusofonia realizou em Macau, de 11 a 15 de Abril, o 15.º Colóquio da Lusofonia, juntamente com o 6.º Encontro Açoriano da Lusofonia, trazendo para esta região especial da China dezenas de académicos, investigadores, editores e escritores que, aqui, debateram questões relacionadas com o estado da lusofonia, a lusofonia e Macau, a dinamização de projectos no âmbito dos Colóquios da Lusofonia e a tradução de autores portugueses, ao mesmo tempo que foram homenageados autores lusófonos esquecidos e escritores de Macau.Foi seu parceiro directo nesta iniciativa o Instituto Politécnico de Macau (IPM), com a colaboração da Fundação Macau, do Instituto de Formação Turística, do Instituto Internacional de Macau (IIM), da Direcção dos Serviços de Turismo e do Fórum para a Cooperação Económica e Comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa. As sessões decorreram em auditórios do IPM e em diversos outros locais ligados aos organismos intervenientes, com boa participação.Missão da AICLA AICL é, conforme os seus estatutos, “um movimento cultural e cívico que visa mobilizar e representar a sociedade civil, para pensar e debater amplamente, de forma científica, a nossa fala comum: a Língua Portuguesa”, tendo por objecto “promover a investigação científica conducente ao reforço dos laços entre os lusofalantes — no plano linguístico, cultural, social, económico e político — na defesa, preservação, ensino e divulgação da língua portuguesa e todas as suas variantes, em qualquer país, região ou comunidade”.Lusofonia — um colóquio e mais uma parceria útil“A todos nós incumbe o dever de promover a defesa, a expansão e o prestígio da nossa língua comum, patrocinando a publicação, a tradução e a difusão por todo o mundo de obras literárias, científicas e artísticas, de autores de língua portuguesa”.Dos princípios e objectivos da AICL
097 J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – VIIIPara a consecução dos seus objectivos, a AICL compromete-se a promover encontros científicos anuais, o desenvolvimento dos estudos universitários e outras iniciativas, para ensino, divulgação, preservação e tradução da língua portuguesa, procurando o apoio de instituições nacionais e internacionais; desenvolver outras acções culturais, tais como colóquios, congressos, encontros e exposições, em estreita ligação com outras entidades; promover cursos e bolsas de estudo na área das Ciências da Cultura, em parceria com outras instituições universitárias e culturais; e criar grupos científicos ligados aos objectivos da Associação. Tudo isso, tendo em conta que “os valores essenciais da cultura lusófona constituem, com o seu humanismo universalista, uma vocação da luta por uma sociedade mais justa, da defesa dos valores humanos fundamentais e das causas humanitárias”. Em suma, a AICL defende que “a todos nós incumbe o dever de promover a defesa, a expansão e o prestígio da nossa língua comum, patrocinando a publicação, a tradução e a difusão por todo o mundo de obras literárias, científicas e artísticas, de autores de língua portuguesa.”O ColóquioAs personalidade mais marcantes deste Colóquio foram dois dos “pais” do Acordo Ortográfico: João Malaca Casteleiro e Evanildo Cavalcante Bechara, da Academia das Ciências de Lisboa e da Academia Brasileira de Letras, respectivamente. Integraram a sua comissão de honra e também a comissão científica, juntamente com Ângelo Cristóvão, da Academia Galega da Língua Portuguesa, Vasco Pereira da Costa, escritor e ex-director da Cultura, do Governo Regional dos Açores, Maria do Rosário Ribeiro dos Santos, do Departamento de Estudos Românicos da Universidade do Minho, Helena Chrystello, da Escola da Maia (S. Miguel, Açores), e Chrys Chrystello, presidente
098F A L A R D E N Ó S – VIIIJ O R g E A . H . R A N g E L da AICL e da comissão executiva dos Colóquios. A comissão institucional foi presidida por Lei Heong Iok, presidente do IPM, merecendo especial referência, pelo trabalho de coordenação realizado, Lurdes Escaleira, professora do IPM, Dina Martins, chefe do Gabinete de Relações Públicas do IPM, e ainda Choi Wai Hao e Li Changsen, também professores do IPM.De entre os temas e comunicações que mais interesse suscitaram, podemos referir as intervenções de Malaca Casteleiro e Evanildo Bechara (“28 anos de labuta pelo ensino do Português em Macau e na China” e “O Acordo Ortográfico de 1990”), “Uma querela com final feliz: a entrada em vigor do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa 1990”, de Rolf Kemmler, da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, “A construção da identidade de Macau através da literatura: ficção ou realidade”, de Ana Franco, doutoranda da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, “Aprender Português na RAEM: razões e outras representações”, de Perpétua Santos Silva, do ISCTE — Instituto Universitário de Lisboa, “O estado actual da língua na comunicação à escala europeia e mundial: em que posição estratégica se encontra e se enquadra o Português — visões e reflexões”, de Tiago Anacleto-Matias, do Parlamento Europeu (Bruxelas), “Antologia breve de autores macaenses”, de Lurdes Escaleira, do IPM, “A importância do livro na preservação das línguas no contexto da lusofonia”, de Francisco Madruga, da editora Calendário das Letras, e “Homenagem a Henrique de Senna Fernandes”, de Maria do Rosário Girão dos Santos, da Universidade do Minho.Sessões musicais e de declamação, convívios, visitas, apresentação de livros e um espectáculo (“Viagem pelo Mundo Lusófono”), coordenado por Cândido do Carmo Azevedo, professor do IPM, complementaram as reuniões de trabalho.
099 J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – VIIIProtocolo com o IIMUma sessão especial teve lugar no IIM, onde foram apresentados os objectivos e a missão desta instituição cultural e académica de natureza associativa, bem como os do Observatório da Língua Portuguesa, criado há dois anos em Portugal. No auditório do IIM, foram homenageados os Professores Malaca Casteleiro e Evanildo Bechara, e os participantes no Colóquio assistiram à palestra “Vinte Sinais Premonitórios da Mudança Histórica”, proferida pelo General Garcia Leandro, ex-Governador de Macau, e à apresentação do livro “Rumos de Macau e das Relações Portugal – China (1974-1999)”, reunindo as comunicações proferidas num seminário em Lisboa por quatro antigos Governadores, dois ex-Ministros dos Negócios Estrangeiros de Portugal e um ex-Embaixador de Portugal em Pequim, que também chefiou a parte portuguesa do Grupo da Ligação Conjunto Luso-Chinês numa fase crucial do período de transição.Na ocasião foi firmado um importante convénio, estabelecendo uma parceria útil entre a AICL e o IIM, com vista à “preparação de estudos, investigações, actividades de formação e divulgação, especialmente no que se refere à língua portuguesa e à lusofonia”; à “organização e execução de publicações, cursos, seminários, congressos, projectos de pesquisa e outras actuações de carácter científico ou de divulgação cultural, dentro do âmbito temático da colaboração”; e ao “intercâmbio de material bibliográfico e ligações hipertextuais nos portais virtuais das respectivas entidades”. Com estes propósitos, o IIM comprometeu-se a “incorporar na sua agenda de conferências os Colóquios da Lusofonia, apoiando a deslocação de representantes seus como oradores e assistentes, proceder à divulgação dos Colóquios e Encontros, por
100F A L A R D E N Ó S – VIIIJ O R g E A . H . R A N g E L todos os meios que tiver por convenientes” e “participar na organização conjunta de eventos e eventuais participações nos Colóquios da Lusofonia”.Além disso, o IIM colaborará em projectos actuais, no âmbito dos Colóquios da Lusofonia, como o estudo e investigação da Língua Portuguesa tal como é falada em todo o mundo, no contexto da Diciopédia Contrastativa da Língua Portuguesa; a divulgação, edição e tradução de escritores lusófonos; apoios à criação de uma cadeira de Estudos de Patuá e respectiva base de dados sobre o “Papiaçám di Macau” e o “Papiá Kristang de Malaca”; o apoio à criação de museus virtuais da lusofonia; e apoio ao ensino e preservação da Língua Portuguesa nas comunidades onde existam lusofalantes.Um “chá gordo” reuniu os participantes em animado convívio no terraço fronteiro à sede do IIM.A opinião generalizada dos participantes e dos coordenadores foi muito positiva, tendo o principal impulsionador do Colóquio, Chrys Chrystello, salientado que este poderá ter sido o melhor e o mais apoiado de sempre, garantindo-se a Macau um lugar especial nas futuras edições. 16 de Maio de 2011
101 J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – VIIINo fim da sessão de apresentação da obra “Macau nos Anos da Revolução Portuguesa 1974-1979”, do General Garcia Leandro, ex-governador de Macau, no passado dia 13 de Abril, um elemento do público, no período de perguntas e respostas, quis saber quando seria publicado o volume contendo as comunicações de antigos governadores feitas num seminário realizado em Lisboa, em Abril de 2009, ano do 10.º aniversário da transferência de Administração de Macau. A resposta foi bem acolhida: a obra já existia e, feito o seu lançamento em Lisboa, no Centro Científico e Cultural de Macau (CCM), ia ser apresentada já no dia seguinte, no auditório do Instituto Internacional de Macau, pelo Eng.º Carlos Melancia, também ex-governador de Macau.Com o salão lotado, foi, desta feita, posta à disposição do público local mais uma obra fundamental para a compreensão da acção política desenvolvida nas últimas décadas da Administração Portuguesa. O título é “Rumos de Macau e das Relações Portugal – China (1974-1999)” e integra as intervenções de dois ex-ministros dos Negócios Estrangeiros (José Medeiros Ferreira e Pedro Pires de Miranda), quatro ex-governadores (Garcia Leandro, Pinto Machado, Carlos Melancia e Vasco Rocha Vieira), um embaixador em Pequim, que também liderou a parte portuguesa do Grupo de Ligação Conjunto Luso-Chinês (Pedro Catarino) e dois académicos e investigadores (Luís Filipe Barreto e Moisés Silva Fernandes). Elas foram produzidas ao longo de três dias de reflexão e diálogo que aquele oportuno seminário do CCCM possibilitou.Todos esses depoimentos, cada um no seu estilo e uns mais completos e profundos do que outros, são, obviamente, importantes, mas, pelo interesse especial do tema, decidimos transcrever para este espaço parte da comunicação do Eng.º Pires de As negociações da Declaração Conjunta“Fizemos ver aos chineses que o acordo de Hong Kong não se podia aplicar a Macau. Era um problema diferente, porque a nossa presença não tinha resultado de ‘tratados‘ desiguais, guerras do ópio e de ocupações e coisas desse género”.Pedro Pires de Miranda, ex-MNE
102F A L A R D E N Ó S – VIIIJ O R g E A . H . R A N g E L Miranda, que explica o enquadramento das negociações que conduziram à assinatura da Declaração Conjunta, firmada e ratificada em 1987:“Fizemos ver aos chineses que o acordo de Hong Kong não se podia aplicar a Macau. Era um problema diferente, porque a nossa presença não tinha resultado de ‘tratados desiguais‘, guerras do ópio e de ocupações e coisas desse género. A nossa presença em Macau tinha sido consentida, havia quase 500 anos. Não era uma colónia, ao contrário de Hong Kong. Havia eleições, condicionadas é certo. E todas estas e outras especificidades tinham que ser consideradas. Aceitámos a ‘estrutura‘ do acordo de Hong Kong, mas só isso.A ‘Lei Básica‘ da nova região seria feita pelos chineses, mas os nossos pontos de vista tinham que ser nela considerados e incluídos na ‘Declaração Conjunta‘. Fizemos então um esquema das matérias e questões que nos interessava tratar e dos pontos de vista essenciais e daqueles em que poderíamos ter flexibilidade em ceder. Não nos interessavam preâmbulos de tratado que dissessem que no passado as relações eram más, com imposições coloniais, referências a tratados desiguais, etc.Teríamos apenas de dizer que queríamos resolver um problema que a História nos tinha legado. Queríamos que em Macau existisse um regime democrático, com os ingredientes conhecidos, adaptados às circunstâncias locais, devendo isto constar na lei. Queríamos que houvesse uma separação de poderes, com um ‘judicial independente‘, com recurso de última instância em Macau.Queríamos que a maneira de viver se mantivesse, usando o conceito de ‘um país, dois sistemas‘ e que os interesses específicos dos habitantes de Macau fossem acautelados. Nesta área de interesse específico incluíamos a liberdade religiosa e de prática de culto, o ensino livre, nomeadamente o católico, e a ligação da Igreja de Macau ao Vaticano.
103 J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – VIIIAcordámos os contornos essenciais da futura ʻLei Básicaʻ, assegurando o que nos pareceu essencial. Ficou estabelecido que a China não faria interferências em Macau, durante o período de transição até à transferência da Administração. Em anexos I e II fizeram-se os esclarecimentos sobre aspectos a constar na ʻLei Básicaʻ.Houve que fazer um trabalho de detalhe muito grande. Os chineses eram minuciosos e nós também. Havia que pôr certas matérias bem claras, outras menos. No caso da religião, um texto que fosse aceite e que mantivesse a liberdade de culto e a sua prática pública.E, finalmente, havia que encontrar uma solução para a questão da nacionalidade e para a data da transferência, ponto importantíssimo para os chineses, que queriam fazê-la coincidir com a de Hong Kong.Nas conversações com o Sr. Zhou Nan fiz-lhe ver que esta solução não era aceitável face às circunstâncias portuguesas, mas certamente que seríamos razoáveis. Desejávamos um período de transição, o mais longo possível, dentro do razoável.Havia uma corrente de opinião em Portugal que pretendia que a transferência se fizesse em data bem já dentro do século XXI, para que a nossa presença fosse de 500 anos. E esta ideia passou para a imprensa. Os chineses reagiram ferozmente. Mas eu expliquei à parte chinesa que o Governo não controlava os jornais e que a posição oficial portuguesa era diferente.O que se pretendia era obter uma transição que permitisse consolidar em Macau o sistema existente, modernizar e dinamizar o território de molde a assegurar um futuro próspero.Os chineses tinham pressa em acordar uma data, pois queriam no próximo Congresso do partido (que se reúne de três em três anos) tratar do assunto de Macau. Compreendi também que os chineses não aceitariam uma data muito distante da de Hong Kong.
104F A L A R D E N Ó S – VIIIJ O R g E A . H . R A N g E L Propusemos então que deveríamos dispor de um período de 12/13 anos para a transição, para realizar nos nossos planos para Macau. Sabíamos que para lá de Dezembro de 2000 os chineses não negociariam. Essa data limite servia os nossos propósitos. Depois de muitas e difíceis negociações, acordou-se para a data de passagem da Administração o dia 19 de Dezembro de 1999.Foi assim possível, tendo em atenção a pressa política dos chineses e os nossos interesses, chegar a este compromisso, aceitável para as duas partes: para eles, podiam aprovar em Congresso, em Março de 1987, o acordo que passava a Administração para a China, antes do fim do século; para nós, tínhamos obtido boas condições e tempo para as implementar.Antes da rubrica do Acordo fizeram-se as reuniões que se impunham. O Sr. Presidente da República convocou o Conselho de Estado, que deu o seu acordo ao negociado. Entretanto, o Sr. Primeiro-ministro e o Ministro dos Negócios Estrangeiros tiveram reuniões com os partidos políticos, que foram informados do andamento das negociações e das principais linhas que se tinham seguido.Alguns dos pontos acordados não constavam da Declaração Conjunta, nem nos Anexos, mas estavam registados nos ‘procés verbais‘, o que tem a validade que tem... Tratava-se da construção do Aeroporto, do caso do Banco Nacional Ultramarino, do Fundo de Pensões, etc.Mas, como quase sempre acontece em negociações (políticas ou comerciais), desta complexidade, surge no último momento uma complicação inesperada e insolúvel, que parece pôr tudo em causa. Foi o que sucedeu com o problema da nacionalidade, que só foi resolvido na véspera (durante a noite) da rubrica do Tratado.O problema foi resolvido pela introdução de declarações, anexas ao tratado, de ambas as partes, em que cada uma fez a interpretação possível, que lhe era
105 J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – VIIImais conveniente, esperando que, na prática, tudo corresse com bom senso. É que nós não podíamos dizer que todos os chineses que viviam em Macau eram portugueses, nem os chineses aceitavam que todos os habitantes com passaporte português fossem portugueses. Obteve-se uma solução ambígua, com que ambas as partes se satisfizeram e que, na prática, até agora, não tem tido dificuldades em ser usada.O acordo foi rubricado em Pequim, em Março de 1987, e a cerimónia da assinatura teve lugar em 13 de Abril de 1987, também em Pequim”.— · —As outras comunicações deste seminário foram: “Os Anos de Mudança 1974/1979”, de Garcia Leandro, “A Governação do Território durante as Conversações Luso-Chinesas sobre a Questão de Macau”, de Joaquim Pinto Machado, “Reflexões de Política Internacional”, de José Medeiros Ferreira, “Macau Visto de Quatro Ângulos em Quatro Momentos da sua História: de Macau, de Hong Kong, de Lisboa e de Pequim”, de Pedro Catarino, “Os Desafios da Transição”, de Carlos Melancia, “Macau e o Futuro”, de Vasco Rocha Vieira, “Teorias e Métodos de Investigação em História: Breve Reflexão”, de Luís Filipe Barreto, e “Teorias e Métodos de Investigação em Relações Internacionais”, de Moisés Silva Fernandes.As fontes primárias da história são o corpo documental existente nos arquivos. Mas o testemunho memorial dos intervenientes nos acontecimentos é de extrema relevância. Por isso, são bem-vindos depoimentos como estes que os investigadores não devem nem podem menosprezar.
106F A L A R D E N Ó S – VIIIJ O R g E A . H . R A N g E L Parabéns, pois, ao CCCM e ao seu director por mais esta contribuição de enorme importância para um conhecimento mais completo e coerente da história do período de transição, que os documentos existentes nos arquivos oficiais não permitem abarcar em toda a extensão, profundidade e complexidade.23 de Maio de 2011
107 J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – VIIIFoi mais uma sentida sessão memorialista a que tivemos no mês passado, quando se evocou a vida e a obra de J. J. Monteiro em mais um “serão macaense” promovido pelo Instituto Internacional de Macau. Familiares, amigos, admiradores, alguns curiosos e os habituais frequentadores de similares actividades marcaram presença para ouvirem o filho mais velho do poeta-soldado recordar, com afecto e sentido de humor, os livros, as lutas e o percurso daquele homem bom e extraordinariamente talentoso que cantou em verso Macau, a sua história, as comunidades aqui residentes e as suas tradições.O pretexto foi o seu livro póstumo “Meio Século em Macau”, lançado no último Encontro das Comunidades Macaenses e agora apresentado, como havia sido então prometido, ao público local.Américo da Silva Leong Monteiro esteve muito feliz no seu bem articulado e atraente improviso. Não havendo texto para publicação, socorremo-nos de parte da nota explicativa com que o seu irmão mais novo, José Joaquim Monteiro Júnior, médico, abriu o livro, para que o leitor destes artigos e crónicas possa saber mais sobre o homenageado: “Estava eu em Singapura, 13 de Agosto de 1987, a finalizar uma formação patrocinada pela Organização Mundial de Saúde, quando fui acometido, inexplicavelmente, de um impulso angustiante de regressar urgentemente a Macau, tudo fazendo com uma celeridade cega, inclusive o pagamento do valor da diferença para um lugar em 1ª classe no avião, mantendo-me mouco às vozes que me aconselhavam a aguardar por mais alguns dias, a fim de evitar despender ‘desnecessariamente‘ uma quantia O poeta-soldado recordado em serão macaense“... foi bem duro o seu combate na vida, de que os próprios filhos não são testemunhas fiéis por apenas disporem de uma muito pálida ideia”.José Joaquim Monteiro Júnior
108F A L A R D E N Ó S – VIIIJ O R g E A . H . R A N g E L exuberante. O eco que impulsionava a minha alma soou mais forte, e regressei no dia seguinte, chegando a tempo de ainda jantar em família, com a felicidade patente no brilho dos olhos do meu pai, autor desta obra que acaba de ser editada.A resposta à razão deste impulso surgiu-me na manhã de 15 de Agosto, quando, ainda dormitando, despertei sobressaltado aos gritos da nossa então empregada doméstica. Abro a porta do quarto e deparo com o olhar desesperado do meu pai, sentado num banco da sala, apoiado pela citada empregada, e com os braços estendidos para mim, como quem pede socorro e deseja transmitir aflitivamente algo de muito importante... Tudo decorreu em fracções de segundo, logo seguido do seu adormecimento estuporoso. Ainda o deitei na sua cama, enquanto telefonava ao meu irmão Rogério, dando-lhe conta da ocorrência e da conveniência de vir com o seu carro até à porta da minha morada, para conduzirmos o nosso pai, sem perda de tempo, para o Hospital.Tinha sido vítima de uma hemorragia cerebral, caindo rapidamente em coma profundo, e assim permaneceu até 22 de Fevereiro de 1988, não obstante ter sido submetido sem delongas a uma intervenção neurocirúrgica, no Hospital Kiang-Wu, para esvaziamento da compressão provocada pela contínua hemorragia. Aqui ficou confinado a uma cama, em quarto privado, debaixo do olhar incessante de esperança desesperante de todos os filhos no seu desejado e tão implorado acordar. Mas, para mágoa geral, Deus assim não quis, certamente por entender que já sofrera demasiado.Sem dúvida que o percurso da sua vida foi marcado por um período longo de sofrimento que somente, devido à sua extraordinária capacidade de aceitação, com
109 J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – VIIIhumildade e resignação cristã, dos desígnios de Deus lhe permitiu sublimar, tendo conseguido dar aos leitores das suas várias obras a imagem enganosa de uma vida de comédia quando, pela sua autobiografia nas várias obras já editadas, se percebe como foi bem duro o seu combate na vida, de que, os próprios filhos não são testemunhas fiéis por apenas disporem de uma muito pálida ideia. (...)Como o leitor pode verificar, parte da obra refere-se ao seu internamento no Hospital Queen Elizabeth, em Hong Kong.A fragilidade da sua saúde foi razão do abreviamento que imprimiu à sua obra, e do final com uma despedida pouco usual no autor, como sabem os leitores que já o conhecem.‘Um Soldado em Macau‘ tinha sido a obra inicialmente elaborada, conforme vem relatado na 3ª edição (1963) do seu livro ‘História dum Soldado‘, a par de uma outra, bem mais extensa, a ‘Macau vista por dentro‘.Por dificuldades financeiras para a sua edição, recebeu, na época, a promessa de patrocínio por parte do Dr. Pedro José Lobo para a obra ‘Macau vista por dentro’, pelo que o autor empenhou-se e priorizou a sua conclusão. Porém, lamentavelmente, o seu patrocinador faleceu em 01-10-1965, e com a sua morte, a edição da obra ficou seriamente comprometida. No meu regresso de Portugal, ocorrido em 1981, ao tomar conhecimento da situação, incuti no meu pai o estímulo de reactivar a obra, escrita mas abandonada
110F A L A R D E N Ó S – VIIIJ O R g E A . H . R A N g E L na prateleira, tendo-me empenhado em dactilografá-la, porquanto ainda permanecia manuscrita, e sugeri quanto à oportunidade da sua actualização, uma vez que 20 anos tinham sido já decorridos depois de ter estado concluída, e a toponímia de Macau tinha sido bastante modificada, pelo que foi-lhe adicionado um novo capítulo, designado ‘Macau Ontem e Hoje‘.Com o patrocínio da Direcção dos Serviços de Turismo, a cerimónia de lançamento do livro ‘Macau vista por dentro‘ realizou-se em 24-04-1984, tendo sido presidida pelo ilustre Secretário-Adjunto da Cultura de então, Dr. Jorge Rangel. No discurso de lançamento da obra, que teve como orador o já falecido Pe. Benjamim Videira Pires, foi lançado o repto ao autor para a publicação de um livro de anedotas, pois que, a dado passo, dizia o orador, ‘o J. J. Monteiro conhece anedotas que dão para um almanaque‘. Foi assim que nasceu a obra ‘Anedotas, Contos e Lendas‘, que, pelo seu volume, teve de ser desdobrado noutro ainda por editar com o título de ‘Vulgaridades Chinesas‘.E assim, após 50 anos de permanência do autor em Macau, ‘Um soldado em Macau‘passou a constituir um capítulo de uma obra mais vasta como é esta que acaba de vir à luz do dia: ‘Meio Século em Macau‘.Peço pelo autor as desculpas pela forma aparentemente inacabada da obra, cuja razão, lamentavelmente, se deveu à sua doença e, principalmente, ao adeus que não chegou a ter o ensejo de manifestar expressamente a ninguém, nem ao filho com quem coabitava.
111 J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – VIIIMas um poeta nunca morre, nem tem de se despedir nunca, porque a sua presença é imortalizada pela sua obra, e fundamentalmente, no caso em apreço, pela perpetuidade da memória exemplar dos seus atributos de humildade, sensibilidade e fraternidade cristã.O abalo causado por uma tão irreparável perda, com o desânimo suscitado, as vicissitudes da vida, o período conturbado de opção no período de transição que passou a viver-se em Macau, com o envio pelos filhos do autor de contentores para Portugal onde embarcaram também as últimas obras do autor, a prioridade da publicação da obra ‘Anedotas, Contos e Lendas‘ na forja e só lançada já depois do seu falecimento, foram alguns dos factores que condicionaram a publicação da presente obra e ainda de outras por editar, que o autor deixara como legado de valor inquestionável.Também, o desejo manifestado pelo autor de incorporar na obra ilustrações, fotografias, programas de récitas e recortes de jornais e revistas que tão religiosamente conservou ao longo dos anos, não obstante as longas viagens de ida e volta a Portugal, a par dos detalhes com que o seu filho Rogério quis dar à obra, juntando as suas achegas, após demoradas pesquisas e auscultação dos relatos dos velhos moradores, acerca das sucessivas transformações ocorridas em Macau, assim como dos acontecimentos reputados relevantes que foram marcando o pulsar desse meio século de vida do autor, e que, naturalmente, constituem um espólio a não se perder, tiveram como resultado uma ainda maior demora na sua edição.Hoje, passados 20 anos de nos ter deixado na alma o grito da eterna saudade, procuramos reviver a sua memória dando à estampa esta obra de inegável valor
112F A L A R D E N Ó S – VIIIJ O R g E A . H . R A N g E L histórico para Macau e as suas gentes, com os protestos, meu, de todos os filhos do autor e em nome do próprio autor, ao patrocinador desta obra, e ao nosso prezado e mui estimado amigo Dr. Jorge Rangel, do nosso BEM-HAJA!”J. J. Monteiro merecerá sempre a nossa homenagem e o IIM mais não fez do que contribuir para uma maior divulgação da sua obra e da sua memória. Este seu último livro pode ser adquirido na Livraria Portuguesa e na secretaria do IIM.30 de Maio de 2011
113 J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – VIIIOs membros da comunidade macaense ligados a famílias mais antigas hão-de lembrar-se das adivinhas populares que entravam, naturalmente, nas conversas “maquistas” dos nossos avós. Ainda muito miúdo, deleitava-me a ouvir a avó Paquita “papiar” com as amigas no casarão do Tap-Siac ou em casa da “tia” Bernardete, na Rua do Campo. Nesses círculos entravam poucos homens, entre os quais o Olímpio, filho da Bernardete, todos animados conversadores. As horas de ócio eram abundantes, estimulando aquelas amenas cavaqueiras, de que faziam parte adivinhas cheias de “chiste”, produzidas num contexto predominantemente lúdico.Danilo Barreiros, no seu estudo sobre o dialecto português de Macau, deu-se ao trabalho de reunir algumas dezenas dessas adivinhas, publicando-as, em 1943 e 1944, na revista Renascimento (n.º 6 do volume III e n.º 1 do volume IV), de que foi empenhado redactor desde o seu lançamento. Graciete Batalha e Ana Maria Amaro também contribuíram para a sua divulgação.Numa altura em que se fazem louváveis esforços para a valorização da “lingu maquista”, pareceu-me oportuno trazer para este espaço uma selecção dessas adivinhas, cuja grafia então usada também se respeita: Adivinhas populares maquistas“Ung-a ezercito de 56 soldado e 6 capitão,cô ung-a bandéra de cristão. Sã cuza?”1Filo dale mãiMãi berá.Sã cuza? Sã: sino
114F A L A R D E N Ó S – VIIIJ O R g E A . H . R A N g E L 2Mãi dale filoFilo dale mãi.Sã cuza? Sã: pilão3Eu cô vôs,Vôs cô eu, Bulí, bulíChuchú na mêo.Sã cuza? Sã: tranca4B – A – ba, primero letraL – I – li, divinhaçan;Quim querê sabê minha nomeBotá ôlo na chan.Sã cuza? Sã: balichan (balichão)5Ung-a lorchaTem cinco atai tá rémáSã cuza? Sã: pê cô sapatu (pé com sapato)
115 J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – VIII6Eu nacêMinha mãi morê.Se non quêro crêPreguntá cô minha tia.Sã cuza? Sã: figuéra (bananeira)7Cêo riva,Cêo basso,agu na mêo.Sã cuza? Sã: coco8Compadre vai,Compadre vem.Sã cuza? Sã: onda9Ung-a ancusaCabeludo,Abri pernaMetê tudo.Sã cuza? Sã: meia
116F A L A R D E N Ó S – VIIIJ O R g E A . H . R A N g E L 10Ung-a vêlo muito vêloTem tanto barba;Tudo dia cêdo cêdo sai fóraPassiá tudo casa casa,E vai escondê na canto cantoSã cuza? Sã: vassôra (vassoura)11NicoticoTem pêTem bico.Filo de NicoticoNon tem pê,Non tem bico.Sã cuza? Sã: galinha e ôvo (galinha e ovo)12Ung-a nhameTem sete buraco.Sã cuza? Sã: cara
117 J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – VIII13Eu nacê pra ficá princeza,Cô corôa de imperatriz;Ladrão rubá tambén pra mi,Já rubá tambén minha rubin.Sã cuza? Sã: romã14Metê seco,Tirá mulado,Branco, grossoE pendurado.Sã cuza? Sã: macaran (macarrão)15Quim fazê nada lográQuim lográ non pôde olá,Quim olá lôgo churá.Sã cuza? Sã: sepultura16Ung-a ezercitode 56 soldadoe 6 capitão,cô ung-a bandéra de cristão.Sã cuza? Sã: rosário
118F A L A R D E N Ó S – VIIIJ O R g E A . H . R A N g E L Mais adivinhas poderão ser divulgadas neste espaço. Peço a quem as tenha, herdadas dos avós, que mas faculte, dado o interesse na compilação de mais textos como estes do nosso patuá.6 de Junho de 2011
119 J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – VIIIMais de 400 reitores, presidentes e outros responsáveis de instituições de ensino superior e de investigação científica dos oito países lusófonos e de Macau juntaram-se em Bragança, de 6 a 9 de Junho, para o XXI Encontro da Associação das Universidades de Língua Portuguesa (AULP). Em torno do tema “Novas Formas de Cooperação: Espaços de Convergência nos Países Lusófonos”, debateram questões respeitantes à mobilidade académica, modalidades e programas de financiamento, creditação e múltipla titulação, transferência de conhecimento, parques tecnológicos, articulação entre projectos de inovação e empreendedorismo, formação docente e “e-learning”.Visitas a locais de interesse histórico e cultural, incluindo o Douro vinhateiro, património mundial, exposições, lançamentos de livros, um concerto, jornadas de convívio e uma feira de cooperação no âmbito do ensino superior complementaram as palestras, mesas redondas e reuniões de trabalho, integrando um programa bem elaborado pelo secretariado da AULP e pelo Instituto Politécnico de Bragança, digno anfitrião deste Encontro, que contou com a colaboração da Câmara Municipal e de outros organismos desta cidade do nordeste transmontano, capital de distrito.Mariano Gago, Ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior de Portugal, abriu o Encontro numa sessão que contou com intervenções de Clélio Diniz Campolina, reitor da Universidade Federal de Minas Gerais e presidente da AULP, João Sobrinho Teixeira, dinâmico presidente do Instituto Politécnico de Bragança e também presidente do Conselho Coordenador dos Institutos Superiores Politécnicos (CCISP), António Rendas, reitor da Universidade Nova de Lisboa e presidente do Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas, e Hélder Vaz, director-geral da CPLP – Comunidade Presidente do IPM homenageado em encontro académico lusófono
120F A L A R D E N Ó S – VIIIJ O R g E A . H . R A N g E L dos Países de Língua Portuguesa. A conferência de encerramento teve como orador convidado Joaquim Chissano, ex-Presidente da República de Moçambique.Medalha de Mérito do CCISPInstituída apenas em Abril do corrente ano, a Medalha de Ouro de Mérito do CCISP foi atribuída, por deliberação unanimemente aprovada no dia 10 de Maio por este Conselho, a Lei Heong Iok, presidente do Instituto Politécnico de Macau, sendo esta a primeira individualidade contemplada com tal distinção. O acto solene da entrega da medalha teve lugar a 6 de Junho, primeiro dia do Encontro, com a presença de altas individualidades académicas e políticas, tendo sido enaltecido pelo presidente do CCISP e por Adriano Moreira, vice-presidente da Academia das Ciências de Lisboa, o contributo relevante do homenageado para o fortalecimento das relações académicas entre Portugal e a Região Administrativa Especial de Macau e para a promoção e valorização da língua e cultura portuguesas através do Instituto Politécnico de Macau.O ex-presidente do Instituto Politécnico de Leiria, também ex-presidente do CCISP, Luciano de Almeida, com quem foram iniciadas importantes acções de cooperação e intercâmbio com Macau, apresentou uma resenha das iniciativas académicas e culturais que o Instituto Politécnico de Macau tem levado a efeito com uma multiplicidade de instituições do mundo lusófono, após o que o presidente do CCISP convidou o autor deste artigo, na qualidade de presidente do Instituto Internacional de Macau e ex-membro do Governo do território, para fazer o elogio do homenageado.
121 J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – VIIIO percurso do homenageadoAceitando com prazer a incumbência, acentuei deste modo alguns momentos do seu percurso académico e profissional: “A atribuição da Medalha de Ouro de Mérito ao Prof. Lei Heong Iok, presidente do Instituto Politécnico de Macau, é um gesto simbólico de alto significado que homenageia uma instituição macaense que tem querido e conseguido reforçar os laços de cooperação com instituições académicas e culturais portuguesas e de outros países lusófonos, mais de dez anos após a transição bem sucedida de Macau, ao mesmo tempo que distingue a personalidade que, pelo seu esforço, interesse, saber, lucidez e entusiasmo, tem sabido assumir este relevante projecto, dando-lhe forma e sentido muito antes das autoridades centrais chinesas terem definido as linhas mestras de orientação política para Macau, confiando ao território, hoje Região Administrativa Especial da República Popular da China, a responsabilidade de funcionar como plataforma de cooperação da China com os Países de Língua Portuguesa, permitindo-lhe retomar, com pragmatismo e de forma ainda mais vigorosa e consequente, a sua vocação histórica, no cumprimento duma missão singular que uma língua, raízes comuns e interesses estratégicos actuais determinaram irrecusavelmente.Ligam-me ao Prof. Lei relações de trabalho e de amizade que têm mais de três décadas. Julgo assim poder pôr de parte o seu currículo oficial de várias páginas que tenho aqui, para referir apenas dois conjuntos de circunstâncias, um de cariz político e o outro de natureza académica, para enaltecer o seu contributo e o seu percurso.
122F A L A R D E N Ó S – VIIIJ O R g E A . H . R A N g E L Foi na esfera política que o conheci quando ele, discreta e competentemente, desempenhava funções na Agência Noticiosa Nova China, que assegurava a representação das autoridades centrais chinesas em Macau, na vigência da administração portuguesa. Era eu membro do Governo Português de Macau, na década de 80, quando, numa visita oficial à RPC, foi ele designado por aquela agência para me acompanhar e à minha comitiva, que integrava o Dr. Manuel Coelho da Silva, que está hoje entre nós e que dirigia então e muito bem os Serviços de Educação e Juventude, uma das áreas que eu tutelava no Governo. Pudemos nessa visita apreciar as suas qualidades humanas, o seu saber e o seu profissionalismo. Ao longo dos meus anos no Governo de Macau pude compreender a relevância e delicadeza da sua actividade, assegurando como intérprete e tradutor qualificado a ligação das autoridades chinesas locais com governadores e outras altas entidades portuguesas. Num meio como aquele, esse papel era mesmo da maior importância, já que todos sabemos como é muitas vezes decisiva a actuação do intérprete em conversações e negociações...Como chefe adjunto do Gabinete de Assuntos Externos da Delegação em Macau da Agência Noticiosa Nova China e como oficial de ligação do Grupo de Terras Luso-Chinês, creio que o Prof. Lei cumpriu exemplarmente a sua missão.Retornou depois a Pequim, sua terra natal, onde tinha permanecido até concluir a licenciatura em Estudos Ingleses na Universidade de Línguas Estrangeiras, que teve a maior eficácia na formação de quadros superiores que permitiram à China estreitar relações diplomáticas, culturais e económicas com outros países.
123 J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – VIIITinha, entretanto, estudado português em Macau e depois em Lisboa, onde teve como mestres os Professores Malaca Casteleiro e Fernando Alves Cristóvão. E era professor de Língua Portuguesa na Universidade de Línguas Estrangeiras antes de desempenhar os cargos que há pouco referi. Retomou, assim, funções docentes na sua universidade, mas por pouco tempo porque as saudades de Macau eram enormes e para lá decidiu um dia retornar. Foi um processo algo atribulado que o Prof. Lei poderá um dia recordar no seu livro de memórias. Esclarecida a sua situação perante as autoridades chinesas e estando eu novamente no Governo, já na última década da administração portuguesa, obtive a concordância do Governador Vasco Rocha Vieira para aproveitar a experiência e o saber do Prof. Lei, colocando-o na Direcção dos Serviços de Educação e Juventude, como assessor da directora, Dra. Maria Edith da Silva, que dirige proficientemente, desde 1998, a Escola Portuguesa de Macau. Ao mesmo tempo, foi redactor-chefe e coordenador da edição chinesa do jornal ‘Educação e Juventude‘. Esteve nessas funções de 1994 a 1996, ano em que lhe lancei um novo desafio – o de assumir responsabilidades na Escola Superior de Línguas e Tradução do IPM, como subdirector. Doutorou-se, entretanto, na Universidade de Sun Yat Sen em História Moderna da China.Tive o privilégio de ser o presidente da comissão instaladora do IPM e, como tal, o seu primeiro presidente, sendo agora, por especial deferência dos seus responsáveis, o seu presidente honorário. Ligam-me, pois, ao IPM laços de grande afecto. À medida que nos aproximávamos do fim do período de transição, fomos escolhendo as pessoas para os cargos cimeiros nas instituições públicas de Macau e, no caso do IPM, fizemos uma aposta segura no Prof. Lei. No ano lectivo de 1998-99 foi vice-presidente e de
124F A L A R D E N Ó S – VIIIJ O R g E A . H . R A N g E L 1999 até ao presente é presidente e professor coordenador do IPM, sendo também professor honorário de vários outros institutos e universidades.Não abandonou, porém, completamente a actividade política. Foi membro da comissão eleitoral do Chefe do Executivo da RAEM e é membro da Conferência Consultiva Política do Povo Chinês e de diversos outros organismos consultivos.Tem obra publicada e recebeu prémios e outras distinções académicas.Para caracterizar a personalidade do Prof. Lei, posso recorrer àquelas sábias e conhecidas palavras de Lao Zi: ‘Não se expondo a si próprio, resplandece; não fazendo alarde dos seus méritos, é honrado; não se ufanando do que fez, tem carácter; não se vangloriando a si mesmo, é respeitado‘. Ou, como diria Confúcio: ‘O homem que é firme, paciente, simples, natural e tranquilo está próximo da virtude‘. Estas palavras aplicam-se por inteiro a Lei Heong Iok.”Parabéns ao IPM e a Lei Heong Iok por esta merecida distinção.13 de Junho de 2011
125 J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – VIIINos meses de Abril, Maio, Junho e Julho, organizam-se feiras do livro em muitas cidades de Portugal, a mais importante das quais é a de Lisboa, habitualmente realizada no Parque Eduardo VII, em Maio. Não obstante a crise financeira que afecta o país, a última edição conseguiu o sucesso pretendido, tendo a Associação Portuguesa de Editores e Livreiros (APEL) anunciado resultados muito satisfatórios, com milhares de visitantes a percorrerem os pavilhões ostentando sacos cheios de livros, ali disponibilizados com descontos especiais. A presença de autores já consagrados e de outros mais novos, em sessões de autógrafos, lançamentos de livros e actividades de índole cultural animaram o recinto, naquele belíssimo enquadramento de parque urbano airosamente traçado.A RAEM esteve uma vez mais presente, através do Centro de Informação e Promoção Turística de Macau, que teve o seu próprio “stand” com uma boa selecção de obras publicadas no território ou com ele relacionadas. Os seus responsáveis, à semelhança do formato aprovado em anos anteriores, também organizaram encontros com autores de livros expostos nos seus escaparates. Aquele Centro mantém em funcionamento, junto da Delegação Económica e Comercial de Macau (antiga Missão de Macau) em Lisboa, uma livraria.Durante a feira, foi homenageado pela APEL o conhecido editor Francisco da Conceição Espadinha, presidente e proprietário da Editorial Presença, que completou 50 anos de existência em 2010, sendo uma verdadeira história de sucesso. Francisco Espadinha, licenciado em Direiro, é natural de Macau e curador da Fundação Casa de Macau. Dá gosto visitar as magníficas instalações da Presença, nos arredores de Lisboa, verificar o profissionalismo do seu funcionamento e confirmar a qualidade e Macau na Feira do Livro de Lisboa“Joaquim Magalhães Castro, no âmbito da iniciativa ‘7 Maravilhas de Origem Portuguesa no Mundo‘, embarca numa viagem de reconhecimento ao encontro dos inúmeros ecos da presença lusa no globo”.
126F A L A R D E N Ó S – VIIIJ O R g E A . H . R A N g E L variedade das suas edições, sendo também um prazer falar com ele, pela abrangência de assuntos que sabe abordar, como homem culto que é.Nova obra de Joaquim CastroDepois de “Mar das Especiarias — a Viagem de um Português pela Indonésia ”(2009) e “Viagem ao Tecto do Mundo — o Tibete Desconhecido” (2010) a Presença acaba de publicar mais uma obra do nosso Joaquim Magalhães Castro, intitulada “No Mundo das Maravilhas — Viagem ao Património de Origem Portuguesa do Uruguai a Omã”.Joaquim Castro identifica-se como um “andarilho compulsivo” que tem percorrido o mundo, fotografando e escrevendo sobre os locais por onde os portugueses passaram e deixaram memórias e marcas visíveis. Colabora em diversos jornais e revistas e é autor dos seguintes livros, além dos atrás referidos: “Os Bayingys no Vale de Mu — Luso Descendentes na Birmânia” (2001) e “A Maravilha do Outro — No Rasto de Fernão Mendes Pinto” (2004). Dele são também os documentários “A Outra Face da Birmânia” (2001) e “Dund — Viagem à Mongólia” (2004). Outras obras suas estão no prelo ou em preparação. São, de facto, de louvar a sua disponibilidade, persistência e capacidade, viajando para lugares recônditos e relatando em prosa agradável as suas riquíssimas vivências. As suas máximas são “quem não insiste, desiste” e “podemos ser como somos e sermos fortes”.Estive presente na sessão de lançamento deste seu último livro, que li avidamente. Apresentou-o o comandante do navio-escola Sagres, em cuja viagem ao redor do
127 J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – VIIImundo Joaquim Castro participou, de Goa até Lisboa. Foi bom ouvir as referências positivas daquele oficial da armada portuguesa à forma como ele se integrou na tripulação e foi por ela acolhido. Conseguiu fazê-lo através da Fundação Jorge Álvares, que fez o pedido ao Estado-Maior da Armada. Dessa experiência há-de resultar mais um livro e, em breve, será apresentada em Macau uma exposição fotográfica, com o apoio do Instituto Internacional de Macau.No Mundo das MaravilhasNo verso da capa, é-nos lembrado que “desde o início da expansão marítima, os portugueses deixaram um riquíssimo legado pelos sítios por onde passaram, e que ainda hoje assume as mais diversas formas, podendo manifestar-se através de costumes, tradições, gastronomia, arquitectura ou expressões linguísticas”. “Com o intuito de documentar parte deste património, Joaquim Magalhães Castro, no âmbito da iniciativa ‘7 Maravilhas de Origem Portuguesa no Mundo‘, embarca numa viagem de reconhecimento ao encontro dos inúmeros ecos da presença lusa no globo”. “No Mundo das Maravilhas” leva-nos a conhecer lugares e histórias surpreendentes, ao longo de milhares de quilómetros que vão da América do Sul à costa leste africana, terminando no Golfo Pérsico, indo das pampas gaúchas ao Amazonas e do Sul de África às vizinhanças de Meca.O livro tem quinze capítulos, bem escritos e documentados. Podem, por isso, ser lidos duma assentada, como quem lê um romance e não quer perder o fio à meada. E cada um deles é uma lição sobre as pedras da História e sobre hábitos, costumes e tradições que venceram o tempo. Nestas viagens está sempre presente um certo rumor
128F A L A R D E N Ó S – VIIIJ O R g E A . H . R A N g E L luso de praias distantes e de épocas de aventura, de coragem e de glória, bem como do mar salgado onde se misturaram lágrimas imensas de Portugal. Com o autor visitamos a “cidade portuguesa” de Colónia de Sacramento, o único local distinguido pela UNESCO no Uruguai, Montevideu, capital do Uruguai, Porto Alegre, Belo Horizonte, Ouro Preto, Mariana, Congonhas, Rio de Janeiro, Salvador da Baía, Recife, Olinda e Porto Velho, no Brasil, e depois, na costa oriental de África, Maputo, Nampula, Ilha de Moçambique, Mocimba da Praia, Palma, Quíloa, Dar-es-Salam, Mombaça e Nairobi, e ainda Mascate (Omã) e o estado islâmico de Bahrein, no Golfo Pérsico.Património lusoNa introdução ao livro, Joaquim Castro explica-nos o seu envolvimento activo e interessado na realização deste projecto de conhecimento e divulgação do património luso no mundo:“Quando em Outubro de 2008 o então editor da UP (revista de bordo da TAP) João Macdonald me convidou a escrever sobre as Sete Maravilhas de Origem Portuguesa, soube que tinha de me agarrar ao projecto de corpo e alma, pois este é, afinal, o campo onde me tenho movido nos últimos anos e onde melhor me sinto. Profissionalmente, exerço aquilo que pode designar-se por jornalismo de investigação histórica, de resto, o que vai ao encontro da minha formação escolar. Sendo o meu objectivo a divulgação, junto do grande público, de algum do conhecimento que por norma se restringe aos círculos académicos, torna-se obrigatório viajar para os locais onde subsiste ainda a fonte desse conhecimento, de forma a conseguir uma observação directa que complemente o que se aprende nas bibliotecas e salas de aula.
129 J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – VIIIMesmo antes de partir para o terreno, munido com equipamento fotográfico apropriado, computador e um bom par de livros — entre os quais incluo a História da Expansão Portuguesa, de Jaime Cortesão, porventura a melhor síntese da epopeia dos Descobrimentos —, estava consciente da dificuldade em separar o trigo do joio num campo tão fértil como o que estava em jogo, ou melhor dizendo, a concurso. A realidade no terreno é sempre mais vasta do que a imaginada, surpreendente até para o mais bem preparado dos investigadores com espírito viandante.” E partiu assim à descoberta e com o propósito de divulgar, sabendo bem que é “desgraçado o povo que se contenta com meras lembranças”, porque “a implacável roda do tempo tende a apagá-las, por completo”. “Para que os vestígios da nossa presença, do nosso legado, não caiam no esquecimento, deveríamos actuar como se estivessemos perante um ente querido ou um amigo que não vemos há muito tempo e realizar visitas regulares a esses locais. Isto, enquanto desígnios mais altos não tomam a decisão de levar a cabo uma investigação séria no sentido de pesquisar e inventariar o património português presente noutras culturas”. De facto, há ainda muito a fazer neste domínio.O contributo extraordinário de Joaquim Castro, no que já fez e no que ainda quer e vai fazer, merece o reconhecimento e o aplauso de todos nós. Ficamos agora à espera do seu próximo livro.20 de Junho de 2011
130F A L A R D E N Ó S – VIIIJ O R g E A . H . R A N g E L O Prémio Identidade, criado pelo Instituto Internacional de Macau (IIM), tem sido entregue desde 2003, contemplando prestigiadas personalidades e instituições. Para o ano de 2011, o júri deste prémio, constituído pelo corpo universal dos titulares dos órgãos sociais do IIM, decidiu atribuí-lo, “ex-aequo”, a dois projectos ligados à memória da comunidade, um orientado pelo Prof. Henrique António d’Assumpção, intitulado “Macanese Families”, apresentado no último Encontro das Comunidades Macaenses, realizado em Novembro/Dezembro de 2010, e o outro concebido, organizado e permanentemente actualizado e enriquecido por Rogério Passos da Luz, denominado “Projecto Memória Macaense”.Individualidades e agremiações macaenses espalhadas pelo mundo acolheram, de forma muito positiva, esta notícia, enviando numerosas mensagens de felicitações, através das quais expressaram o seu regozijo e apoio.Famílias MacaensesO Prof. Henrique António d’Assumpção, mais conhecido por “Quito”, é natural de Macau e formou-se na Universidade de Adelaide (Austrália), em Engenharia Electrotécnica. Engenheiro e professor universitário, trabalhou para o governo australiano e na South Australia University, onde chefiou um centro de investigação, tendo ficado conhecido por um invento tecnológico seu, um sonar para submarinos. É “fellow” da Academia Australiana de Ciências Tecnológicas e de Engenharia e recebeu altas distinções académicas. A partir de informações que foi recolhendo de várias fontes, entre as quais a obra “Famílias Macaenses” de Jorge Forjaz, compilou na página electrónica “Macanese Families” (www.macanesefamilies.com) genealogias completas O Prémio Identidade é anualmente atribuído a personalidades ou instituições que tenham contribuído de forma continuada e eficaz para a preservação e valorização da identidade macaense.Prémio Identidade contemplou projectos da memória macaense
131 J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – VIIIdas famílias macaenses, que foi enriquecendo com elementos adicionais, de natureza cultural e histórica. Os participantes no último Encontro das Comunidades Macaenses puderam apreciar a apresentação dessa página digital numa sessão especialmente organizada para o efeito e integrada no respectivo programa. O projecto permite fazer a actualização permanente do registo das famílias macaenses, desde que a informação seja facultada ao administrador do projecto. “Existe mais nessa página electrónica do que genealogia; ali estão artigos sobre a história da comunidade macaense, cultura, culinária, patuá e mesmo peças de música e ligações a outros sítios digitais”, salientou o seu autor, que quis incutir nos leitores um sentimento de orgulho pelo património macaense, incentivar o interesse entre as novas gerações de macaenses pelas origens e raízes, ajudar a preservar registos culturais e históricos e criar condições para a continuidade deste trabalho, esperando desenvolvê-lo com a colaboração directa de um organismo académico local.Memória MacaenseO autor do outro projecto premiado, Rogério dos Passos Dias da Luz, também nasceu em Macau, tendo, ainda jovem, emigrado para o Brasil. Em 2003, foi dos primeiros a colocar no espaço cibernético uma página dedicada a Macau, sob o título “Projecto Memória Macaense”. Segundo ele, foi uma denominação dada a uma iniciativa pessoal e independente, visando, como o próprio nome diz, preservar a memória macaense. Foi seu propósito lembrar, pela palavra e pela imagem, aquela Macau com a qual se identifica, pelas suas origens, formação, vivência familiar e amizades criadas, bem como “pela saudade que bate no peito e faz chorar na recordação de belos tempos vividos, com muitas histórias que cada macaense tem para contar”.
132F A L A R D E N Ó S – VIIIJ O R g E A . H . R A N g E L Este projecto assenta na verdade que um povo sem memória é um povo inexistente e um povo sem saudade é um povo sem sentimento. Seguir sempre em frente, sem olhar o passado, é matar as raízes que sustentam a eternidade de um povo. É o que as gentes de Macau espalhadas pelo mundo não desejam. Sabendo que esta tarefa cabe a cada macaense, este portal é mais um contributo — e muito relevante é ele — numa altura em que idênticas iniciativas vão surgindo, em Macau e em outros países. De então para cá, Rogério da Luz tem actualizado e ampliado o espaço com fotografias de pessoas, lugares e acontecimentos, de velhos tempos e de efemérides mais recentes, constituindo-se um verdadeiro repositório da memória de muitas pessoas que viveram em Macau e quiseram manter-se a ela ligadas de alma e coração. Mais recentemente, introduziu um blogue pessoal, “Crónicas Macaenses”, e um crescente número de vídeos num site, também muito visitado pelo público, para melhor dar a conhecer Macau e os macaenses ao mundo. Os dois projectos contemplados com o Prémio Identidade são fruto da enorme dedicação dos seus autores, sem qualquer retribuição financeira. São serviços da maior utilidade prestadas à comunidade e a Macau, merecendo o nosso aplauso.Os anteriores premiadosMonsenhor Manuel Teixeira, prolífico historiador de Macau e autor de centenas de títulos publicados, cujos arquivos por ele pessoalmente mantidos ao longo de décadas ganharam relevância para trabalhos de investigação histórica, foi o primeiro
133 J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – VIIIcontemplado com este prémio, em 2003. A decisão do júri foi tomada poucos meses antes do seu falecimento.No ano seguinte, foi distinguido o Dr. Henrique Rodrigues de Senna Fernandes, escritor macaense, decano dos advogados de Macau e professor de gerações de jovens desta terra, que sempre o incluíram entre os seus melhores mestres. Duas das suas obras, “Amor e Dedinhos de Pé” e “Trança Feiticeira” tiveram versões cinematográficas.Em 2005, a atenção do júri virou-se para os portugueses de Hong Kong, cuja acção foi de enorme importância para o desenvolvimento e prosperidade daquela antiga colónia britânica. Foram, assim, justamente homenageados o Comendador Arnaldo de Oliveira Sales, que ali desempenhou altos cargos públicos e associativos, além de presidir a instituições de matriz portuguesa, e o Club Lusitano, a mais emblemática dessas instituições com sede em Hong Kong, uma verdadeira casa portuguesa e casa de Macau. O júri escolheu, em 2006, a Universidade de Macau, pelo seu papel na formação e valorização de quadros superiores e contribuição para o enriquecimento cultural do território, e o Prof. Eng.º Luís de Guimarães Lobato, prestigiada personalidade macaense residente em Portugal, onde exerceu altos cargos, entre os quais os de vice-presidente da Câmara Municipal de Lisboa e administrador da Fundação Calouste Gulbenkian, além de ter sido um dos fundadores da Casa de Macau e dirigente de organismos macaenses em Portugal.Por ocasião do Encontro das Comunidades Macaenses de 2007, foi entregue o prémio à Associação Promotora da Instrução dos Macaenses (APIM), por, ao longo de
134F A L A R D E N Ó S – VIIIJ O R g E A . H . R A N g E L mais de um século, ter contribuído para a formação da juventude macaense. Manteve em funcionamento a Escola Comercial Pedro Nolasco e tem agora a seu cargo o Jardim de Infância D. José da Costa Nunes, além de integrar a Fundação Escola Portuguesa de Macau.A Diocese de Macau foi a contemplada seguinte, em 2008, pela exemplar acção missionária e pelo seu contributo determinante para a caracterização da singularidade de Macau, sendo também um sustentáculo fundamental da comunidade macaense, ao longo de séculos. O prémio foi dado, em 2009, à Santa Casa da Misericórdia de Macau, a nossa mais velha e modelar instituição de solidariedade social, cuja existência se confunde com as próprias origens da cidade. O valor da sua obra de assistência e serviço social é inestimável.A UMA — União Macaense Americana, a mais antiga organização da diáspora macaense, com sede nos Estados Unidos da América, recebeu o prémio em 2010, depois de completar cinco décadas de regular e meritória actividade.27 de Junho de 2011
135 J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – VIIIVoávamos, no mês passado, de Lisboa para Bragança, num bimotor que fez escala em Vila Real, para participarmos no XXI Encontro da Associação das Universidades de Língua Portuguesa, quando Cândido do Carmo Azevedo, professor coordenador do Instituto Politécnico de Macau, sacou da sua pasta um livro acabado de sair do prelo e mo ofereceu com uma simpática dedicatória, “com a consideração, estima e amizade de sempre”. O título é “O que foi que nos aconteceu?” e o volume reúne 22 textos de opinião da sua autoria publicados no jornal “Correio do Ribatejo” em 2009 e 2010.Grato pela atenção, comecei a lê-lo de imediato, acabando-o logo na primeira noite da nossa permanência em Bragança, ainda antes de escrever o elogio que, a convite do presidente do Conselho Coordenador dos Institutos Politécnicos, me cabia preparar, para apresentar na sessão de homenagem a Lei Heong Iok, presidente do Instituto Politécnico de Macau, marcada para o dia seguinte. A leitura foi, de facto, de tal modo atraente e agradável que se me tornou impossível interrompê-la.Como bem referiu João Paulo Narciso, director daquele apreciado órgão da impresa regional, “Cândido Azevedo aviva-nos ‘lembranças de terras e gentes, da nossa diáspora oriental‘, a partir do século XV”, buscando “na narrativa histórica do nosso antigo império oriental semelhanças com o Portugal de hoje, com a sua governação, com aqueles que comem à mesa do Estado, com a sua Justiça, com os seus banqueiros de ambição desmedida”, sendo “cada texto uma analogia do nosso passado grandioso com um país que mais lhe parece ‘uma enxerga podre onde se assiste a um bacanal de percevejos‘, parafraseando Guerra Junqueiro”. “Estes textos são de uma clareza e objectividade históricas só possíveis a quem consegue ler o país à distância exacta, O que foi que nos aconteceu?“Cada texto é uma analogia do nosso passado grandioso, contrapondo-o com um país que mais lhe parece ‘uma enxerga podre onde se assiste a um bacanal de percevejos‘, parafraseando Guerra Junqueiro”.
136F A L A R D E N Ó S – VIIIJ O R g E A . H . R A N g E L ao apontar ‘tanta incompetência governativa e nepotismo, tanta corrupção, tantos escândalos silenciados, mordomias e regalias, ineficiências e má gestão‘ que lamenta neste livro ...”Para estimular o interesse de mais leitores e melhor poder divulgar esta obra de Cândido Azevedo, dedicada “ao povo português, certo de que na riqueza da sua História, será capaz de encontrar um novo rumo de esperança ...”, transcrevo, com a devida vénia, um desses textos, escrito em Macau, no dia 1 de Novembro de 2009:Os da Corte Imperial e não só ...“Nestes últimos anos, já após a passagem de Macau para a soberania chinesa, muitos jovens portugueses, num autêntico corrupio, após a sua formação superior em Portugal aqui chegam à procura de emprego. Aqui procuram eles, advogados, arquitectos, educadores de infância, professores, designers, etc., traçar um rumo à sua vida, algo que parece não ser possível em Portugal caso não tenham um ‘padrinho no Governo, ou o conhecimento e o dinheiro de um sucateiro‘ e que, segundo dizem, se tornou num país onde se nivela por baixo ‘... num país onde muita gente frustrada chega à governação; num país de muitos delatores, de muitos medíocres que agora falam de diploma em punho conseguido numa qualquer dependente universidade; do poder económico gerido por amigalhaços; num país alienado pelo futebol e telenovelas; num país que cada vez mais se perpetua na cauda da Europa; num país etc. etc.‘ (sic). Abismado ouço-os, embora para mim sejam já velhas e esperadas notícias, confirmando aquilo que há muito penso: a fatal propensão do povo português (acabada mais uma vez de demonstrar) de viver num mundo às avessas.
137 J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – VIIIEstes jovens ao decidirem emigrar para Macau — ontem chegaram mais dois que conheci quando crianças — entram num processo em que se predispõem a novas aprendizagens a começar por uma nova língua e inseridos numa cultura dominante que lhes é estranha. Trazem uma profunda motivação para mudar e se promoverem, e ao mesmo tempo contribuem para a tradição de Macau, enquanto cidade multicultural. E verifico que todos eles se têm afirmado localmente, tornando-se em excelentes profissionais, tal como tantos outros portugueses emigrados por esse mundo, que fora do seu país encontram abertura para a sua evolução e sucesso.Este tema recorda-me outros emigrantes portugueses aqui pelo Oriente, de há uns séculos atrás, que para aqui vieram com motivações idênticas, mas de outra natureza, a religiosa, e aqui em Macau conseguiram reconhecimento e sucesso graças à sua erudição e conhecimento das ciências. E o seu sucesso foi tanto que rapidamente Pequim deles ouviu falar, para lá se dirigindo a convite do imperador. Vieram aqueles a adquirir uma grande influência junto da corte imperial, ocupando lugares de relevo na sua hierarquia científica, mesmo após o édito imperial de 1724, que expulsava os cristãos da China. Vejamos alguns casos:– O padre jesuíta André Pereira (1689-1743), natural do Porto, que em 1724 se tornou astrónomo e matemático da corte e promovido pelo imperador a vice-presidente do Tribunal (Observatório) Astronómico; – O padre José de Espinha (1722-1788), natural de Lamego, que integrou o Tribunal das Matemáticas (organismo que regia a matemática, a geografia e a cartografia) e que recebeu do imperador a dignidade de Mandarim;
138F A L A R D E N Ó S – VIIIJ O R g E A . H . R A N g E L – O padre jesuíta Tomás Pereira (1645-1708), natural de São Martinho do Vale, Vila Nova de Famalicão, chamado a Pequim em 1672 pelo imperador Qing Kangxi, porque este soube dos seus dotes e qualidades de humanista, bem como da sua perícia e habilidade rara para a música. Para além de se tornar em conselheiro pessoal do imperador, veio a ser administrador do Calendário do Observatório Astronómico de Pequim.Ficaram estes padres, emigrantes de então, conhecidos como os ‘padres da Corte’, alcançando tal influência política junto do imperador que foram várias vezes decisivos na defesa das posições portuguesas em Macau, e, é bem possível que a nossa presença por aqui tenha sobrevivido graças à sua acção em Pequim.E o Portugal de hoje? Sobreviverá? É que é tamanho o desencanto, o desemprego, a ausência de convicções, a desmotivação, a corrupção, a realidade pungente, ... mas isto passa ao lado, pois como dizem os que nos governam (e os que ‘têm mesa na corte’) não são problemas ‘fracturantes‘!”A acção do padre jesuíta Tomás Pereira é destacada por Cândido Azevedo num outro artigo, ao qual deu o título “A boa música e a má música”:“Sabemos que muitos portugueses, por variadas razões, se destacaram no Oriente. Um caso raro e certamente desconhecido da maioria foi o do padre jesuíta Tomás Pereira, natural de São Martinho do Vale, em Vila Nova de Famalicão. Este jesuíta fez a sua formação religiosa em Goa e tornou-se numa figura marcante da sociedade da sua época. Em 1672, já em Macau, é chamado à cidade imperial, em
139 J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – VIIIPequim, pelo imperador Qing Kangxi (1654-1722), porque este veio a saber dos seus dotes e qualidades morais e, particularmente, pela sua perícia e habilidade rara para a ...música! O jovem religioso, a quem foi dado o nome chinês Xu Risheng, foi não só professor de música do imperador Kangxi e, porque com ele privou entre 1673 e 1708, foram-lhe atribuídas outras funções entre as quais a de intérprete-conselheiro no Tratado Sino-Russo de Nerchinsk (1688-1689) e a de administrador do Calendário do Observatório Astronómico de Pequim.Foi o padre Tomás Pereira responsável pela introdução da música europeia na China, tendo publicado em 1713, em língua chinesa, o primeiro tratado de música ocidental. No Palácio Imperial, para além de músico e conselheiro, foi também um inventor de ‘maquinetas’, pois construiu diversos relógios musicais, tendo feito para o imperador uma esfera celeste musical que com sinos tocava melodias chinesas”. (...)Para comemorar o 3.º centenário do falecimento deste invulgar sacerdote e músico, ele próprio exímio tocador de cravo, o Centro Científico e Cultural de Macau, em Lisboa, organizou, há poucos anos, uma excelente exposição sobre a sua vida e obra.Parabéns a Cândido Azevedo por mais este livro. Brevemente, farei uma apreciação de outra obra recente sua — “O Lúdico na História do Oriente Português”.4 de Julho de 2011
140F A L A R D E N Ó S – VIIIJ O R g E A . H . R A N g E L A propósito do centenário da revolução de Outubro de 1911 e da subsequente implantação da república na China, que teve como primeiro presidente o Dr. Sun Yat Sen, o Instituto Internacional de Macau (IIM) está a promover várias iniciativas, na forma de seminários e palestras, centradas na vida e obra daquela que é a mais prestigiada e respeitada referência política da história moderna e contemporânea da China e no papel que Macau teve na sua formação e actuação. Assim, no dia 22 de Junho, organizou um colóquio intitulado “Sun Yat Sen e a fundação da República na China e Macau”, no Palácio da Independência, sede da Sociedade Histórica da Independência de Portugal, em Lisboa. Comunicações apresentadas Dois conhecidos académicos, ambos ligados a Macau por funções aqui desempenhadas e por relevantes estudos efectuados, foram os palestrantes convidados: António Vasconcelos de Saldanha e Ming K. Chan, do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade Técnica de Lisboa e da Universidade de Stanford (Califórnia, EUA), respectivamente. A coordenação da sessão e a moderação do animado debate que se seguiu foram feitas pelo autor deste artigo, na qualidade de presidente do IIM. Na sua muito bem elaborada comunicação, que o IIM pretende incluir no seu plano anual de edições e que teve por título “Macau visto pelas duas Repúblicas”, Vasconcelos de Saldanha caracterizou o período histórico complexo que Macau atravessou no fim da monarquia e no advento da república em Portugal, com inevitáveis reflexos políticos no território, e, com base nos seus extensos e profundos trabalhos de investigação, Sun Yat Sen, Macau e a República“Muito mais do que derrubar a dinastia Qing, a revolução de 1911 pôs fim a três milénios de monarquia na China e fez nascer a primeira república na Ásia”Ming K. Chan, Universidade de Stanford
141 J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – VIIIexplicou a evolução de Macau num tempo em que se operavam também tremendas mudanças na própria China, com um processo revolucionário eivado de contradições e marcado por sangrentos confrontos e acesas disputas do poder.Além de professor catedrático, Vasconcelos de Saldanha é director da revista científica de estudos asiáticos “Daxiyangguo”, do Instituto do Oriente, de que é vice-presidente. De 2002 a 2005 foi presidente do Instituto Português do Oriente e Cônsul-Geral Adjunto de Portugal em Macau para os Assuntos Culturais. Tem meritória e numerosa obra publicada nos domínios das Relações Internacionais, Direito Internacional e História das Relações China-Europa, estando vários dos seus trabalhos traduzidos para chinês, nomeadamente uma grande compilação de documentação diplomática luso-chinesa em dez volumes, com a preciosa colaboração do académico e tradutor Jin Guoping.Feito este enquadramento histórico e político, através daquela muito aplaudida comunicação, coube a Ming K. Chan dissertar sobre Sun Yat Sen, que assumiu formalmente as funções de primeiro presidente da China no dia 1 de Janeiro de 1912, desta feita inaugurando uma nova era da sua história milenar, com uma clara afirmação de modernidade. Intitulada “The Luso-Macau Chinese Connections in Sun Yatsen’s Modern Chinese Revolution”, esta comunicação cobriu três tópicos fundamentais: a situação única de Macau, nos contextos geopolítico e sócio-cultural no Delta do Rio das Pérolas e na região de Guangdong-Lingnan, assim como as influências intercontinentais lusófonas que deram ao território características singulares como enclave intercultural e transnacional; a influência de Macau na vida, no pensamento e nas opções de Sun Yat Sen, como primeira janela aberta para ele ao mundo, berço de novas ideias e
142F A L A R D E N Ó S – VIIIJ O R g E A . H . R A N g E L valioso ponto de apoio para os seus intentos revolucionários; e o impacto da revolução republicana portuguesa de 1910 na campanha pela implantação da república na China e na afirmação de um ideário democrático-social de inspiração europeia.Ming K. Chan enfatizou o papel de Macau na formação e na ascensão política de Sun Yat Sen, primeiro pela proximidade da sua terra natal e pelas visitas feitas a familiares residentes no território, pela influência ocidental e cristã que recebeu, pela actividade profissional aqui exercida, como médico, pelas relações excelentes mantidas com intelectuais e profissionais locais e pelos importantes apoios aqui recebidos. Uma referência oportuna foi feita ao processo de implantação do regime republicano em Portugal e ao estímulo que este facto político, comemorado no território, representou para o sucesso das causas revolucionárias abraçadas por Sun. Mais do que uma cidade de matriz europeia na costa da China, Macau era um centro cultural vivo onde fervilhavam novas ideias e se desenvolviam redes de contactos, ao mesmo tempo que se mobilizavam recursos para a mudança de mentalidades e para profundas reformas sociais. Todo este ambiente foi da maior utilidade para Sun e para os movimentos que, interna e externamente, o sustentavam.Investigador do Centro de Estudos da Ásia Oriental da Universidade de Stanford e da Hoover Institution, onde dirigiu os arquivos documentais de Hong Kong, sua terra natal, Ming K. Chan obteve os três graus académicos nos EUA (Iowa - Ames, Wash - Seattle e Stanford), doutorando-se com apenas 25 anos de idade. Foi professor da Universidade de Hong Kong e professor visitante nas Universidades de Duke, California (UCLA), Mount Holyoke e El Colegio de Mexico. Esteve também ligado ao St. Anthony´s College de Oxford e às Universidades de Swathmore e Grinnell e, ao
143 J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – VIIIlongo da última década, tem participado regularmente em seminários, conferências e estudos de instituições de ensino superior de Macau, sendo igualmente qualificado colaborador académico do IIM. É autor ou editor de 13 volumes académicos e mais de 70 artigos publicados sobre a História da China, Relações Externas Chinesas, Hong Kong e Macau. No prelo tem “China’s Macao Transformed” e “The China Factor & Hong Kong External Links”. Breves notas sobre Sun Yat SenNasceu na povoação de Cuiheng (Tsui Hang), situada a 64 quilómetros de Macau, no distrito de Zongshan, no dia 14 de Novembro de 1866. Instalou-se em Macau em Novembro de 1894, e, no ano seguinte, fundou a Sociedade para a Regeneração da China, constituída maioritariamente por chineses ultramarinos, para instigar o derrube da dinastia manchu. Em Agosto de 1905, numa reunião em Tóquio, viu nascer a Aliança Revolucionária, organização politicamente mais consistente e eficaz, cuja presidência assumiu.Derrubada a dinastia Qing no dia 10 de Outubro de 1911, Sun Yat Sen foi proclamado presidente da nova república, cargo que exerceu apenas até 15 de Fevereiro do mesmo ano, quando entregou as responsabilidades ao general Yuan Shikai, o qual abandonou os princípios básicos de uma democracia constitucional e enveredou pelo caminho do poder autocrático. Seguiu-se um novo período turbulento em várias regiões da China, quando vários dos mais comprometidos seguidores de Sun se refugiaram em Macau, onde tiveram o apoio do governador José Carlos da Maia e de influentes personalidades locais.
144F A L A R D E N Ó S – VIIIJ O R g E A . H . R A N g E L No dia 23 de Junho de 1916, Sun Yat Sen escreveu uma carta de agradecimento ao governador de Macau pela protecção dada aos seus correlegionários, com os quais, numa base cada vez mais alargada, foi fortalecendo a sua frente unida nacionalista. No Congresso do Partido Nacionalista Chinês, que decorreu em Guangzhou, de 20 a 30 de Janeiro de 1924, Sun Yat Sen foi apoteoticamente aclamado como dirigente máximo, com direito a veto. Um ano depois preparou o seu testamento político e faleceu em Pequim no dia 12 de Março de 1925, vítima de doença prolongada.Macau foi, efectivamente, a porta de acesso de Sun ao ocidente, quando daqui partiu para Honolulu, onde o seu irmão Mei já residia. A sua primeira mulher morreu em Macau. O seu grande amigo macaense, Francisco Hermenegildo Fernandes, proprietário da Tipografia Mercantil e do jornal “Echo Macaense”, apoiou-o em momentos cruciais da sua vida. Impedido de exercer em Hong Kong, o Hospital Kiang Wu, de Macau, aceitou a sua colaboração como médico. Este território proporcionou-lhe boas condições para preparar e lançar a sua acção política. Teve aqui, no n.º 21 da Rua do Volong, a filial do seu movimento, responsável pela angariação de fundos. Três meses depois de abdicar da sua efémera presidência da nova república, voltou a Macau, onde foi recebido pelo governador Melo Machado, por Lou Lim Ioc, chinês riquíssimo residente em Macau, e por destacados membros da maçonaria local, de todos obtendo expressões claras de apoio. Visitou Macau pela última vez em Maio de 1913. Durante o seu exílio em Tóquio, Macau, como atrás foi salientado, acolheu os seus apoiantes, a quem foi sempre garantida a segurança pelo governador José Carlos da Maia, que assumiu funções no dia 10 de Junho de 1914.
145 J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – VIIIO centenário da mudança de regime na China é uma excelente oportunidade para que novos estudos sejam feitos e mais trabalhos sejam publicados sobre Sun Yat Sen e sobre as suas ligações a Macau. 11 de Julho de 2011
146F A L A R D E N Ó S – VIIIJ O R g E A . H . R A N g E L É sempre motivo de satisfação, para quem se dedica à preservação, valorização e divulgação da memória da sua terra e da sua comunidade, ver sair do prelo mais um livro, revista ou simples boletim informativo em que se fazem mais registos dessa memória e de acontecimentos e personalidades que dão sentido a uma comunidade viva, orgulhosa da sua história e parte activa na construção do futuro da terra onde nasceu ou onde vive e que foi o ponto de partida para a diáspora que as suas gentes laboriosamente criaram e consolidaram nos novos mundos que demandaram. Saúda-se, por isso, a publicação de mais um número da “Oriente / Ocidente”, revista do Instituto Internacional de Macau (IIM), ora em distribuição e cujo conteúdo é largamente dominado pelo último Encontro das Comunidades Macaenses, realizado em Novembro e Dezembro de 2010.Vinte e seis números foram já publicados neste seu presente formato, desde que, de pequena “newsletter”, foi tendo o seu conteúdo, dimensão e arranjo gráfico crescentemente melhorados. Inicialmente coordenada por Luís Sá Cunha, os responsáveis pela publicação são agora Rufino Ramos, como editor, e José Mário Teixeira, como adjunto.Os propósitos da revistaO editorial deste número explica bem os propósitos da revista:“Macau sempre foi uma cidade vanguardista no processo da mundialização. Há já cinco séculos que assumiu o papel de plataforma entre os universos oriental e ocidental Oriente / Ocidente – vinte e seis números publicados“É este património, tangível e intangível, do terreno da memória e do futuro, que o Instituto Internacional de Macau se propõe, desde a sua criação, proteger e promover, em Macau e no mundo.”Do editorial do n.º 26 da “Oriente / Ocidente”
147 J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – VIIIe, desde então, tem cumprido esse papel de uma forma única. Se bem que a sua localização geográfica foi, e é, um ponto importante neste processo, é certo que não foi exclusivamente graças a esse ponto, o sucesso alcançado pelo território. As gentes de Macau e as suas criações foram, indubitavelmente, a chave do êxito deste pequeno pedaço de terra. Gentes e criações que deram origem a um património identitário único no mundo, pela sua diversidade e harmonia. É este património, tangível e intangível, do terreno da memória e do futuro, que o Instituto Internacional de Macau se propõe, desde a data da sua criação, proteger e promover, em Macau e no mundo. Lado a lado com Macau, a história do IIM é, também, uma história de sucesso.A participação no Encontro das Comunidades Macaenses 2010 coroou um ano próspero do IIM, numa homenagem conjunta ao patuá, a personalidades, a instituições, a memórias... e a Macau. Nestes momentos de triunfo da comunidade sobre o esquecimento, criam-se espaços novos, num processo eterno de criação e manutenção da identidade macaense. Para cada pessoa que parte, criam-se também espaços de homenagem e de memória. Henrique de Senna Fernandes, Leonel Barros e Lídia Cunha foram peças no processo de criação de Macau e merecem, também, um destes espaços, na memória de cada um e na identidade de todos.Este número da ‘Oriente / Ocidente‘ é a prova disso.”
148F A L A R D E N Ó S – VIIIJ O R g E A . H . R A N g E L Um rico conteúdoVárias páginas foram, assim, dedicadas à memória de Henrique de Senna Fernandes, Leonel Barros (Neco) e Lídia Lourdes da Cunha. “Macau sempre foi terra produtora de grandes homens e grandes histórias. Aventureiros ou contadores de histórias, homens das ciências ou das letras, os filhos da terra deixaram a marca de água, uma identidade que pertence, agora, a todos os que partilham este pequeno espaço, portal entre as dimensões ocidentais e orientais”. Quando esses homens e mulheres nos deixam para sempre, quem fica sabe honrar a sua memória. Foi assim ao longo de muitas gerações.Os momentos mais significativos do Encontro das Comunidades Macaenses são evocados neste número, profusamente ilustrado com fotos dos acontecimentos mais marcantes, como a entrega do Prémio Identidade à União Macaense Americana e à Santa Casa da Misericórdia de Macau, a reunião do Conselho das Comunidades Macaenses, a recepção do Chefe do Executivo aos presidentes das Casas de Macau, a reabertura do espaço do velho edifício do Jardim de Infância D. José da Costa Nunes, totalmente remodelado, as sessões culturais e os animados convívios, sessões de lançamento de novos livros relacionados com Macau e a comunidade macaense e a simbólica oferta de uma aguarela do pintor russo Smirnoff ao Museu de Artes de Macau, intermediada pelo IIM e entregue pessoalmente pela sua proprietária, Cecilia Maria Yvanovich Burroughs. A aguarela é um retrato desta senhora, agora residente nos EUA, que Macau acolheu nos anos difíceis da Guerra do Pacífico e aqui residiu durante três anos. Visivelmente comovida, expressou a gratidão à terra que tão bem recebeu a sua família e tantos outros membros da comunidade portuguesa de Hong Kong e gentes de muitas origens.
149 J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – VIIIEste número da “Oriente / Ocidente” contém, também, um extenso artigo sobre novas edições do IIM e reportagens sobre algumas das mais relevantes actividades levadas a efeito recentemente, como a continuação da itinerância da exposição “Macau é um espectáculo”, sessões de divulgação do patuá nas Casas de Macau, seminários realizados em várias partes do mundo, o programa DOCTV da CPLP - Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, que o IIM ajudou a estender a Macau com a colaboração da TDM, a atribuição do prémio Jovem Investigador e de prémios do IIM a alunos da Escola Portuguesa de Macau, a assinatura do protocolo de cooperação que aproximou o IIM do Instituto Internacional da Língua Portuguesa, a sessão da AULP - Associação das Universidades de Língua Portuguesa realizada no auditório do IIM e a visita do Conselho Superior dos Institutos Politécnicos Portugueses a Malaca, organizada através do IIM.Notícias da diáspora macaense e de encontros realizados pelo IIM com entidades oficiais (Chefe do Executivo da RAEM, Secretário-Executivo da CPLP, Secretário-Geral do Fórum para a Cooperação Económica e Comercial da China com os Países de Língua Portuguesa, Presidente do Instituto Camões e responsáveis pela Expo Mundial de Xangai e do pavilhão de Portugal nesse certame) completam o conteúdo da revista.Testemunho de Cecilia YvanovichVale a pena ler o testemunho muito sentido de Cecilia Yvanovich:“(...) Os japoneses ocuparam Hong Kong em 25 de Dezembro de 1941. Sendo de cidadania portuguesa, a nossa família não foi encarcerada pelos japoneses. Não viemos para Macau como as outras famílias senão quase em finais de Outubro de 1942,
150F A L A R D E N Ó S – VIIIJ O R g E A . H . R A N g E L quando Hong Kong foi bombardeada pelos aviões americanos. Foi então quando o nosso pai decidiu que era tempo de a nossa família mudar-se para Macau. Meu pai e minha mãe, Vincente e Pureza Yvanovich, e os filhos, Teresa, Vincent Jr., Helen, Cecilia e John, embalámos o que foi possível e deixámos a nossa casa para virmos para Macau.A Administração Portuguesa de Macau recebeu os refugiados portugueses de Hong Kong. As famílias eram alojadas em centros de refugiados mas nós fomos muito afortunados por nos ser possível habitar numa bonita casa na Estrada da Vitória, durante a nossa estada em Macau. A guerra acabou em Agosto de 1945 e em Outubro nós regressámos a Hong Kong.São felizes as recordações que tenho desse três anos em Macau. As pessoas e a Administração não podiam ser mais hospitaleiras e amigáveis. Os residentes de Macau, com idade entre os 18 anos e os 30 e aqueles de Hong Kong, quase da mesma idade, rapidamente se tornaram amigos e muitas vezes se juntavam em festas, chás dançantes e outros eventos. George Smirnoff, que ensinou pintura a vários deles, juntava-se muitas vezes a nós. Foi através destas pessoas amigas de Macau que eu conheci George.Ficarei muito contente e honrada quando o meu retrato figurar juntamente com as outras bonitas aguarelas de Smirnoff, das muitas paisagens que ele pintou de Macau.”Em breve sairá a versão em chinês e inglês e o próximo número da edição portuguesa deverá ser distribuído no fim do ano.18 de Julho de 2011
151 J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – VIIIDoze anos passaram desde aquele dia auspicioso que marcou o início da Primavera de 1999, quando o Presidente Jorge Sampaio e o Governador Vasco Rocha Vieira procederam à inauguração do Centro Ecuménico Kun Iam, construído numa ilha artificial implantada nas águas da foz do Rio das Pérolas, junto dos novos aterros do Porto Exterior, área de urbanização recente da cidade de Macau. Para assinalar aquela efeméride, a sua autora, arquitecta Cristina Rocha Leiria, promoveu em Lisboa um significativo conjunto de actividades, compreendendo conferências, interpretações de temas musicais, exibições de documentários, apresentação de livros e uma exposição de trabalhos seus numa galeria de arte situada no alto da Rua do Século, à Praça do Príncipe Real, com boa participação do público. A Fundação Casa de Macau e o Instituto Internacional de Macau (IIM) colaboraram na sua realização, correspondendo ao desejo daquela conhecida e respeitada artista portuguesa.O programa comemorativoA exposição esteve aberta durante cerca de 50 dias e as conferências versaram temas variados, directa ou indirectamente relacionados com a concepção e os propósitos do Centro Ecuménico. A primeira, no dia 30 de Março, teve por título “Integração Urbanística, Arquitectura, Geometria da Construção de Catedrais e Feng Shui. Engenharia e Construção da Estátua” e foi complementada pela projecção de um vídeo sobre a evolução da obra até à inauguração. Os oradores foram Jorge Lipari Pinto, Luís Elye e a própria artista. No 12.º aniversário do Centro Ecuménico Kun Iam“Num mundo onde abundam os conflitos e onde grassa a destruição, Macau pode tornar-se no futuro um lugar de peregrinação pela originalidade do seu património e pela sua esplêndida tradição de hospitalidade, forjada em meio milénio de convivência.”Helena Vaz da Silva, 21 de Junho de 1999
152F A L A R D E N Ó S – VIIIJ O R g E A . H . R A N g E L Seguiram-se “Ecumenismo”, proferida por Fernando Baptista Pereira e acompanhada de uma cerimónia do chá; “A Cultura”, apresentada por Luís Elye e Cristina Leiria e ilustrada com a projecção de um documentário sobre Filosofia do Confucionismo, Taoismo e Budismo e uma apresentação de livros sobre o Centro Ecuménico; “O Ecumenismo e a Era do Aquário”, em que o conferencista foi Luís Resina; e “Saúde, Cura e Energia, Cura e Auto-Conhecimento, o Advento de uma Nova Cultura, Kun Iam Materialização da Imagem Feminina de Cura, no Oriente”, abordada com a profundidade que o tema impunha por Maria Flávia Monsaraz.Os temas musicais foram talentosamente interpretados pela violinista Natália Juskiewicz (prémio Revelação do Ano da Gala de Leiria, 2010) e por si própria criados para o fado “Um Violinista no Fado” e expressamente para acompanhar as esculturas de Cristina Leiria.As diversas sessões serviram também como jornadas de convívio, reunindo gente ligada às artes e ao Oriente. Na sessão de encerramento, foi servido um beberete, projectou-se um vídeo do Centro Ecuménico e a artista, depois de uma última visita guiada à exposição, fez um comovido e muito aplaudido discurso de agradecimento, após o que convidou o autor deste artigo, na qualidade de presidente do IIM, a fazer uma intervenção sobre Macau na sua segunda década como região administrativa especial da RPC. Foi bom ter reencontrado pessoas que dedicaram a Macau muito do seu saber e personalidades prestigiadas do sector cultural, entre as quais o realizador Jorge Listopad, com quem é sempre agradável e útil conversar.
153 J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – VIIIO Centro EcuménicoO Centro levou três anos a ser projectado e construído, sendo a última obra pública escultórica realizada com o patrocínio da Administração Portuguesa. Cristina Leiria realizou-a inspirada em Kun Iam, a deusa da misericórdia, que também consubstancia na sua imagem e mensagem o amor, além da compaixão e da solidariedade.A estátua da deusa, com 20 metros de altura, é de bronze e assenta numa cúpula de betão em forma de flor de lótus, por sua vez implantada numa ilha artificial ligada a terra por um istmo com 65 metros. Essa flor é uma referência na arte e na literatura chinesa e foi escolhida como símbolo desta região, figurando hoje no centro da sua bandeira de fundo verde. A cúpula, revestida de 16 pétalas, tem um perímetro circular com 19 metros de diâmetro. O Centro compreende uma zona lúdica e de lazer, onde se pode ler, ouvir música e adquirir livros e diverso material audio-visual relacionado com o local visitado e com o pensamento oriental, tendo o andar inferior sido concebido como área para projecções, palestras, exposições, pequenos espectáculos e actividades didácticas, tendo ao lado uma biblioteca e mediateca.Incluído nos roteiros das agências turísticas, o Centro é um dos locais mais visitados da cidade, sendo procurado por milhares de excursionistas chineses, todos os dias.Um percurso artísticoCristina Rocha Leiria nasceu em Lisboa no dia 25 de Abril de 1946 e passou a infância e a adolescência em Moçambique. Formou-se em arquitectura na Escola
154F A L A R D E N Ó S – VIIIJ O R g E A . H . R A N g E L Superior de Belas Artes de Lisboa e especializou-se em planeamento no University College de Londres, dedicando-se depois ao aprofundamento de estudos sobre “feng shui” em Macau, China e Japão e sobre electromagnetismo em França. A sua actividade profissional desenvolveu-se em Portugal, Reino Unido, Moçambique, África do Sul, Zimbabué e Macau. A par da arquitectura, devotou-se, a partir de 1992, à escultura, sendo os seus trabalhos concebidos a partir do barro e passados posteriomente para outras escalas, em diversos materiais (cristal, bronze, prata, estanho e pedra). O grupo Vista Alegre/Atlantis tem editado obras suas, desde 1995. Os temas que escolheu para as suas esculturas têm a ver com o amor, a vida, a família, o mar e o divino.Os seus trabalhos mais emblemáticos são o Centro Ecuménico Kun Iam (1999), “Elan de Mãe”, em pedra branco-mar, no Parque Marechal Carmona em Cascais (2003), “Vela ao Vento”, em bronze patinado, numa rotunda à entrada de Tavira (2003) e “Barco à Vela”, em bronze polido assente numa onda em mármore branco, na Marina de Cascais (2007). Uma reprodução, em bronze polido, com 2,70 m, da estátua de Kun Iam está colocada no jardim da Casa de Macau, em Lisboa, desde 2002.Uma mensagemHelena Vaz da Silva, saudosa presidente do Centro Nacional de Cultura, três meses após a inauguração do Centro Ecuménico Kun Iam, dedicou-lhe esta sugestiva mensagem:
155 J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – VIII “O centro ecuménico Kun Iam — ou Guan Yin como familiarmente se diz na maior parte da China — foi concebido por Cristina Leiria como um espaço que espelha e prolonga o encontro, entre todos histórico, do Oriente com o Ocidente feito pela mão dos portugueses, os primeiros dos europeus a chegarem à China, assim como chegaram ao Sião e ao Japão.Teriam os portugueses particulares razões para este pioneirismo na aproximação dos mundos? Se deixarmos de parte a pobreza congénita do território nacional de então e a sua natureza resistente e aventureira diríamos que não, em especial. Mas a verdade é que tal facto faz pesar sobre nós, hoje, particulares responsabilidades já que a globalização actual que aproxima física — e virtualmente — os povos nos obriga a nós, que a história fez desbravadores de caminhos, a saber uma vez mais apontar a rota, neste final de século.Qual rota? A do aprofundamento do progresso através do espírito e da promoção da paz através do conhecimento mútuo. A UNESCO proclama há anos a construção da paz através da educação e da cultura, insistindo que elas são a única forma de prevenção dos conflitos, A União Europeia acaba de reconhecer a urgência de melhorar a qualidade da sua política externa e de cooperação com outros países pelas mesmíssimas razões.É por isso de saudar esta iniciativa da Administração Portuguesa que coloca alta a ‘fasquia‘ para as futuras relações Luso-Chinesas, neste particular oásis intercultural que é Macau e que é, não só dever, mas também interesse dos futuros administradores do território preservar.
156F A L A R D E N Ó S – VIIIJ O R g E A . H . R A N g E L Num mundo onde abundam os conflitos e onde grassa a destruição, Macau pode tornar-se no futuro um lugar de quase peregrinação pela originalidade do seu património e pela sua esplêndida tradição de hospitalidade, forjada em meio milénio de convivência.”São palavras sábias e oportunas, cujo registo merece ficar para a posteridade. 25 de Julho de 2011
157 J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – VIIIAntónio Júlio Emerenciano Estácio presenteou-nos, no mês passado, com mais uma obra sua, fruto dos trabalhos de investigação a que se tem devotado e que continuam em bom ritmo após a aposentação como alto funcionário público da Administração de Macau. Lançada no Palácio da Independência, sede da Sociedade Histórica da Independência de Portugal, em Lisboa, numa bonita e concorrida sessão, este seu último livro chama-se “Nha Bijagó” e tem por subtítulo “Respeitada personalidade da Sociedade Guineense (1871-1959)”. Ilustrações bem escolhidas, incluindo postais da colecção de João Loureiro, enriquecem o livro.O livroAo longo de cerca de 150 páginas de agradável leitura, ficamos a conhecer a personalidade de “Nha Bijagó”, mulher muito influente e de rígidos princípios, que foi figura preponderante da sociedade guineense na primeira metade do século XX.No prefácio, Eduardo J. R. Fernandes, amigo do autor, refere que esta obra “é o resultado de um longo trabalho de pesquisa que António Júlio Estácio desenvolveu ao longo de vários anos, com uma enorme dedicação e até paixão, mas sempre com rigor e respeito pela verdade dos factos, a que já nos habituou”. “Compulsou milhares de documentos, não apenas relacionados com Leopoldina Ferreira, mas também relativos aos principais acontecimentos que tiveram lugar no período coevo da biografada”. “Registou dezenas de depoimentos e deslocou-se propositadamente à Guiné-Bissau, para in loco recolher mais informações, de modo a poder complementar, confirmar ou infirmar os elementos já recolhidos”.“Nha Bijagó”, de António Estácio“Mais um trabalho que António Júlio Estácio dá à estampa, tendo como objecto uma figura marcante da sociedade guineense, desta feita ‘Nha Bijagó‘, nome pelo qual ficou conhecida Leopoldina Ferreira”.Eduardo J. R. Fernandes, no prefácio do livro
158F A L A R D E N Ó S – VIIIJ O R g E A . H . R A N g E L O mesmo prefácio explica que “não estamos perante uma biografia no sentido clássico do termo, isto é, um género literário em que o autor narra a história da vida de uma pessoa ou de várias pessoas de forma mais ou menos objectiva, e muitas vezes romanceada”. “António Júlio Estácio preferiu manter-se ‘neutro‘ interferindo o mínimo possível na narrativa dos depoentes, limitando-se a clarificar aqui e acolá alguns aspectos contraditórios ou menos precisos e desse modo fornecer ao leitor um retrato tão fiel quanto possível dessa grande senhora que foi a ‘Nha Bijagó‘ feito através dos testemunhos daqueles que a conheceram e que com ela privaram, e ainda de documentos oficiais que atestam aspectos relevantes da sua vida”. O prefaciador destaca um aspecto particularmente interessante nesta obra, que é “a ligação cronológica entre importantes acontecimentos políticos, administrativos e militares, que tiveram lugar na então Guiné Portuguesa, e as diversas fases etárias da biografada, ainda que esses factos não tenham qualquer ligação directa com a personagem tratada neste livro!” O autor deu-nos, assim, a conhecer factos da história da então colónia/província da Guiné, que tiveram lugar entre 1870 e 1959, período que abarca a vida de “Nha Bijagó”, e, por esse motivo, “este trabalho biográfico, para além de nos dar a conhecer a vida de uma grande mulher guineense, fornece-nos importantes informações do mundo em que ela viveu!” Através dos depoimentos sobre “Nha Bijagó” recolhidos pelo autor, “ficamos a conhecer não apenas os aspectos essenciais da sua vida, mas também um pouco da vida social na então colónia da Guiné e muito particularmente em Bissau, na primeira metade do século XX.”De facto, este livro podia ser apenas mais uma interessante biografia, enriquecida com valiosos depoimentos de pessoas que conheceram a personalidade retratada.
159 J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – VIIIQuando o autor quis ir mais longe, fazendo uma resenha de acontecimentos relevantes na então Guiné Portuguesa, ao mesmo tempo que identificou os passos mais significativos do crescimento da cidade de Bissau, este seu mais recente trabalho ganhou maior dimensão e uma indiscutível importância, transcendendo o objecto inicial das suas pesquisas, que incluíram buscas em Boletins Oficiais da Guiné e em outras fontes, como a velha revista ilustrada “As Colónias Portuguezas” e o Anuário da Guiné. Ali ficou um resumo da história da cidade de Bissau, das últimas décadas do século XIX a meados do século XX.Um pouco de históriaA povoação, quando nasceu “Nha Bijagó”, em 1871, estava encravada entre a Fortaleza de S. José (Amura), dentro da qual se situavam a igreja e até o cemitério, e um muro de quatro metros de altura. O Concelho de Bissau, quando criado em Abril de 1877, tinha, na área murada, 573 habitantes, dos quais “391 nativos, 166 oriundos de Cabo Verde e, apenas, 16 europeus”.As ruas de Bissau passaram a ser iluminadas em 1872 e, em 1879, a sede do Governo foi transferida para Bolama. Pouco depois, a então Província da Guiné passou a ter quatro circunscrições (Bolama, Bissau, Cacheu e Bolola), mas as condições de salubridade eram tão más em Bissau que outros dos principais aglomerados urbanos foram acolhendo muito mais gente. Essas condições foram melhorando após a demolição do muro e à medida que a povoação se foi expandindo. Após as campanhas de pacificação de João Teixeira Pinto, Bissau teve um arrojado plano de urbanização, de acordo com o qual se rasgaram novas artérias, incluindo
160F A L A R D E N Ó S – VIIIJ O R g E A . H . R A N g E L algumas largas avenidas. O mercado, o hospital, o edifício da Alfândega, escolas, casas comerciais e outros edifícios públicos (Tribunal, Fazenda e Administração Civil) foram surgindo. A sede da comarca judicial passou de Bolama para Bissau em 1933 e, no ano seguinte, começou a ser construído o maior monumento de Bissau, dedicado ao “Esforço da Raça”, concluído e inaugurado em 1941.O abastecimento de água foi assegurado a partir de meados da década de quarenta, pouco depois de Bissau voltar a ser a capital, em Dezembro de 1941. Fizeram-se pouco depois o Palácio do Governo, as moradias do Bairro Portugal, o Bairro de Santa Luzia, a Catedral, o Museu e a Biblioteca e colocaram-se as estátuas de Nuno Tristão, Teixeira Pinto e Honório Barreto. A primeira via asfaltada (em 1953) foi a Rua Honório Barreto. Seguiram-se a inauguração da nova ponte cais, a construção do aeroporto, a visita do Presidente da República Craveiro Lopes e a inauguração da sede da Associação Comercial e Industrial da Guiné, na antiga Praça do Império. “Nha Bijagó” acompanhou e assistiu a tudo isso.Foi com um frémito de emoção e saudade que li este livro, pelas recordações que as suas páginas me proporcionaram. Ali passei, ainda jovem, alguns dos mais inolvidáveis momentos da minha vida, de 1970 a 1974, e pude conhecer aqueles edifícios e muitos outros lugares e gentes, das terras a norte do Cacheu a povoações da Guiné meridional e aos Bijagós, no desempenho de funções civis e militares.O autorO livro nada tem a ver com Macau, mas o autor tem, e muito, pois dedicou parte substancial da sua vida profissional a este território, aqui residindo ao longo de 26
161 J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – VIIIanos. Nasceu em Bissau e fez o Curso de Regente Agrícola na antiga Escola Nacional de Agricultura, em Coimbra, tendo sido, após o estágio na II Brigada Técnica do Instituto de Algodão de Angola, colocado na Brigada de Macau da Missão de Estudos Agronómicos do Ultramar.Como engenheiro técnico agrário, prestou relevantes serviços em vários organismos a que esteve ligado, como os Serviços Florestais e Agrícolas de Macau, que chefiou, e a Câmara Municipal das Ilhas, de que foi vice-presidente. Coordenou a “Semana Verde” e outras campanhas de sensibilização sobre a defesa e valorização das zonas verdes de Macau. Também integrou o Conselho Consultivo do Governador e o Conselho do Ambiente, de que foi secretário-geral, além de representar a Câmara das Ilhas em variados outros conselhos e comissões governamentais. Ainda no âmbito da sua especialidade técnica, foi colaborador do Museu de Macau; do Projecto Garcia da Orta, da Expo 98; da Editora Verbo, no tocante à flora de Macau; da Universidade de Macau, na elaboração do Dicionário de História de Macau; e da Comissão Territorial para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, como coordenador científico da exposição “A Aventura das Plantas e os Descobrimentos Portugueses”. Pelos serviços prestados, recebeu louvores e outras distinções oficiais. Em Macau, foi também presidente da Associação de Patinagem e vogal da direcção do Clube Militar.Para além de importante obra publicada no âmbito da sua formação e especialidade, escreveu vários livros de índole não técnica, sendo os mais recentes “Nha Carlota, figura esquecida da História Guineense (1871 - 1959)”, que saiu do prelo em 2010, e “Nha Bijagó”.
162F A L A R D E N Ó S – VIIIJ O R g E A . H . R A N g E L Como membro de numerosos organismos associativos e culturais, António Júlio Estácio, agora residente em Portugal, continua activo e a dar o melhor de si à comunidade. Dele podemos esperar mais trabalhos publicados nos próximos anos.1 de Agosto de 2011
163 J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – VIIIEste espaço semanal do Jornal Tribuna de Macau, dedicado especialmente à memória de Macau e da comunidade macaense, tem sido também, inevitável e correctamente, aproveitado para lembrar e homenagear aqueles que foram os melhores de nós e que, na marcha do tempo, nos foram deixando para sempre. Percursos, realizações, atitudes, comportamentos ou apenas pequenos gestos mais marcantes foram dando entrada no mundo das nossas gratas recordações, esbatendo-se paulatinamente. Familiares, amigos, colegas ou companheiros, nas mais diversas circunstâncias e encruzilhadas, que foram uns após outros partindo, encheram de saudade os corações dos que foram prosseguindo, aqui, as suas jornadas. A morte de qualquer um deixa uma comunidade mais pobre. A sociedade e as suas instituições criaram mecanismos e meios para perpetuar a memória dos que mais se distinguiram, embora nem sempre com critérios isentos, porque adulterados tantas vezes por razões de natureza política. O melhor reconhecimento será, todavia, o daqueles que com eles privaram e partilharam amizade e convívio, sabendo, honestamente, avaliar o seu contributo e a sua dávida.Padre Luiz Ruiz, S. J.É neste contexto que podemos entender o significado do afastamento do Padre Luiz Ruiz, mais um daqueles missionários de alma grande e propósitos nobilíssimos de que Macau beneficiou ao longo da sua história multissecular. Pertencendo àquela plêiade espantosa de servidores de Deus que herdaram de Santo Inácio de Loyola a mensagem, a sabedoria e a inquebrantável fé, consagrou-se inteiramente aos outros, trabalhando incansavelmente até ao fim da vida, quase centenária, em Memória desta vida se consente ...“Foi uma longa vida em que estivemos juntos em tudo o que de importante, bom ou mau, nos aconteceu — ou ao nosso país, ou à nossa família”Jaime Nogueira Pinto, Julho de 2011
164F A L A R D E N Ó S – VIIIJ O R g E A . H . R A N g E L todos os momentos pensando nos humildes, nos enjeitados, nos doentes, nos pobres, e dando-lhes tudo de si. Nesta terra abençoada e em lugares recônditos da China, será lembrado por milhares de pessoas, na sua maioria privadas de bens materiais, que nele encontraram amparo e vontade de viver com aquela dignidade que se alcança pela via do espírito.Conheci-o, ainda miúdo, quando a curiosidade me levou a visitar os locais onde ele realizava devotadamente a sua obra social, multiplicando-se em iniciativas, dia e noite, com uma impressionamte mobilidade e disponibilidade. Via-o, muitas vezes, na sua Vespa, em deslocações constantes entre esses vários locais. Reconhecendo-me, acenava sorridente. Esta foi a imagem que levei dele quando deixei Macau para estudar em Portugal e em outros países europeus. Muito mais tarde, já no desempenho de cargos públicos, foi-me gratificante contactá-lo e poder apreciar ainda mais o valor e a dimensão da sua obra missionária e social, inspirada no exemplo de Cristo Salvador. Ficou muito feliz quando, após intensas reuniões de trabalho com ele e com a saudosa irmã Mary Goisis, aprovei oficialmente o plano do curso de formação de assistentes sociais, ministrado através de um instituto privado católico, cujo despacho de reconhecimento também exarei, na qualidade de Secretário de Educação do Governo de Macau.Foi através dele que fiquei a conhecer o Paulo Pun, logo após o seu regresso ao território, concluídos os estudos nos Estados Unidos. O Paulo assumiu muito bem o papel de dilecto discípulo daquele mestre, sendo agora o mais destacado continuador dessa missão generosa que nunca acabará.
165 J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – VIIIMaria José Nogueira Pinto Faleceu em Julho e mereceu de todos os quadrantes políticos portugueses os maiores elogios pela forma séria, isenta, dedicada e competente como se entregou ao serviço público. Desempenhou altos cargos e o seu mérito foi consensualmente reconhecido. Era deputada, eleita pelo PSD, quando uma doença grave a obrigou a deixar a família, os amigos e os organismos onde deu um notável exemplo de bem servir.Muito se escreveu sobre ela em Portugal e até em Macau, nas últimas semanas. Mas o testemunho mais eloquente, porque mais sentido, foi certamente o do marido, Jaime Nogueira Pinto, um dos homens mais brilhantes da sua geração, na área da Ciência Política. Soube por ele, no dia 10 de Junho, quando nos encontrámos nas cerimónias de homenagem aos combatentes do Ultramar, junto ao Forte de Pedrouços, do estado de saúde da Maria José, a Zézinha como era afectivamente tratada pelos amigos.Achei por bem transcrever estas palavras do Jaime que, “mutatis mutandis”, podem aplicar-se perfeitamente a outras situações — e muitas são elas — idênticas a esta: “Não vos vou falar mais da Zézinha. Porque todos a conheceram e já muitos falaram dela nestes dias. E bem. Eu, aqui, vou falar-vos da Zézinha e de nós — de mim, dos meus filhos e da nossa família — nestes cinco últimos meses desde que soubemos da doença dela, num Sábado, 12 de Fevereiro, faz hoje precisamente cinco meses. Conheço bem as narrativas de aceitação cristã e resignada das provações que Deus manda — desde
166F A L A R D E N Ó S – VIIIJ O R g E A . H . R A N g E L o Livro de Job às histórias dos mártires e perseguidos de todos os tempos. Mas nunca tinha assistido, e vivido, de perto, e também na pele, essa experiência. Nesse dia no Hospital da Luz a Zézinha foi informada quase ao mesmo tempo que nós do que tinha e quais eram as perspectivas; e percebeu perfeitamente que tinha uma sentença de morte a curto prazo em cima da cabeça. Jantámos nessa noite com os nossos filhos e começámos, conscientes, uma longa e dolorosa noite das Oliveiras. Às quatro da manhã, vi que ela não estava no quatro e fui procurá-la. Estava na casa de jantar, a fumar um cigarro. Perguntou-me se queria também um chá, que ia fazer para ela. E assim ficámos até às seis, a beberricar um chá e a falar da nossa vida. Da nossa vida que tinha sido uma vida boa, mas que não tivera nada a ver com uma boa vida. Tinha sido uma vida difícil, muito rica de riscos e afectos, de grandes amizades e algumas desilusões. E ela agradeceu — e eu com ela — a Deus que nos tinha dado essa vida, e os nossos filhos, e os nossos netos, e toda a família. E os nossos amigos. Todos vós. Depois foi o princípio desta caminhada que acabou na semana passada: ela estava resignada mas, por nós — por mim e pelos filhos — aceitou lutar, com fé em Deus e respeito pelas ciências e artes dos homens.” (...) “Mas ela continuou a aceitar com simplicidade, com modéstia, com aquele seu sorriso que era a coisa mais luminosa do mundo, quase a pedir desculpa por estar doente, por nos preocupar, por nos mudar a vida. Uma ou duas vezes houve episódios positivos, animadores, que quase a perturbaram. A resignação é comovente, mas a esperança — sobretudo nos resignados — ainda é mais. Nela, a esperança guardou-a para outras coisas. Em nós houve sempre esperança quase até ao fim. Acreditamos num Deus que faz milagres, que ressuscita mortos, porque não havia de curar enfermos. Desta vez não curou. Há dez dias, mais ou menos, tudo se precipitou, vieram as más notícias do TAC de avaliação; já nos tínhamos apercebido que tudo estava pior, pois ela perdia mais e mais forças, os olhos perdiam o brilho, a
167 J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – VIIIvida ia desaparecendo. E só essa sua coragem e vontade de espírito a mantinham de pé. Conheci-a há mais de quarenta anos, no dia 12 de Março de 1970. Íamos fazer quarenta anos de casados no próximo mês de Janeiro e ela faria 60 anos em 23 de Março. A vida a dois é uma vida difícil, mas conseguimos chegar juntos até que a morte nos separou. Foi uma longa vida em que estivemos juntos em tudo o que de importante, bom ou mau, nos aconteceu — ou ao nosso país, ou à nossa família. Mas estes quase cinco meses finais na sua dor e esperança, mais que uma descida para um abismo — que também foram — transformaram-se numa escalada para além da dor, uma subida de um calvário muito particular. Um calvário de alguém que pela fé, pela entrega aos outros, pelo amor aos mais fracos, pela caridade evangélica, acabou por seguir como sempre aspirava, o caminho de Cristo. Sempre sem medo, nem da doença, nem da dor, nem do fim, porque ela acreditava que esse Cristo, esse Senhor era o seu pastor, e que por isso nada lhe faltaria ao atravessar o vale das trevas. Não faltou. Falta-nos ela a nós.”Vai fazer falta a todos: família, amigos e país.general Bettencourt RodriguesQuero referir, igualmente, alguns outros falecimentos recentes, entre os quais o do General José Manuel Bettencourt Rodrigues, meu Governador e Comandante-Chefe na então Guiné Portuguesa e tido por muitos como um dos mais competentes e respeitados generais das Forças Armadas Portuguesas. Foi Ministro do Exército e comandou com enorme sucesso a Zona Leste de Angola, a mais difícil naquele teatro de operações. Tive o privilégio de trabalhar directamente na sua dependência, depois
168F A L A R D E N Ó S – VIIIJ O R g E A . H . R A N g E L de ter servido, em similar posição, o General António de Spínola. Ao contrário de tantos, numa época de muitas tergiversações, soube manter a coerência e a lealdade aos valores em que acreditava até que a morte o levou. Robert da Costa e Elsa DiasTambém nos deixou um grande amigo, o Robert da Costa que foi presidente da UMA — União Macaense da América. Sereno, jovial, interventivo e de postura positiva, deu um contributo relevante para a afirmação da comunidade macaense na costa leste dos Estados Unidos. Acolheu com grande satisfação a notícia da atribuição do Prémio Identidade de 2010, pelo Instituto Internacional de Macau, ao organismo que chefiou e onde será recordado como um dos seus mais dedicados membros. Finalmente, uma palavra muito singela e de muita simpatia pela jornalista macaense Elsa Dias, a nossa Elsinha, de quem fui professor. Ainda não tinha tido a oportunidade de mencionar o seu tão precoce passamento. Quem poderá esquecer aquele sorriso tão lindo, imagem de simplicidade e ternura?8 de Agosto de 2011
169 J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – VIIITive o prazer de receber há alguns meses, em Lisboa, das mãos do Comandante José Ferreira dos Santos, investigador histórico-naval e meu colega na Sociedade Histórica da Independência de Portugal, um exemplar da sua obra “Navios da Armada Portuguesa na Grande Guerra”, publicada pela Academia de Marinha.Quando a Alemanha declarou guerra a Portugal em 1916, dezenas de navios de comércio e de pesca, a que se juntaram algumas embarcações de recreio, foram requisitados e artilhados para reforçarem a capacidade da Marinha de Guerra Portuguesa, que dispunha então de quatro cruzadores, três contratorpedeiros, um torpedeiro, quatro submersíveis, dois cruzadores-auxiliares, um aviso de 2.a classe, dois transportes de guerra, treze canhoneiras, quatro patrulhas de alto-mar, um lança-minas, um navio de salvamento, sete caça-minas, dezasseis patrulhas-auxiliares, um navio-escola de artilharia e um navio-escola de torpedos, além de um navio-hospital e vários outros navios de transporte e rebocadores. Aquela obra identifica e caracteriza cada um destes navios, sendo especialmente interessante, para nós, as referências feitas à canhoneira “Pátria” (1903-1931) e à lancha-canhoneira “Macau” (1909-1943), ambas colocadas ao serviço deste território.Por especial deferência do Comandante Ferreira dos Santos, é aqui reproduzida a descrição sumária do percurso da Canhoneira “Pátria”, que permaneceu em Macau e noutras partes do Extremo Oriente de Janeiro de 1909 a 4 de Março de 1931, acabando desactivada e vendida:“Construída, de aço, no Arsenal de Marinha de Lisboa, sob a direcção do engenheiro francês Cronneau, que chefiava aquele arsenal, foi o terceiro navio de construção Canhoneira “Pátria” – duas décadas ao serviço de Portugal em Macau“Rebaptizada ‘Fu Yu’, passou a pertencer à marinha de guerra da China.”
170F A L A R D E N Ó S – VIIIJ O R g E A . H . R A N g E L metálica ali construído. O assentamento da quilha verificou-se no dia 5 de Novembro de 1901 e o lançamento à água em 27 de Junho de 1903, tendo a cerimónia da benção do navio ocorrido na véspera. Custou 230.417$736 e foi paga com parte da quantia obtida pela subscrição efectuada, em 1890, entre os Portugueses residentes no Brasil. Eis as suas características principais: · Comprimento entre perpendiculares – 60,00 metros · Boca – 8,40 metros · Calado máximo – 2,57 metros · Deslocamento – 636 toneladasO aparelho propulsor era constituído por duas máquinas alternativas de vapor de tríplice expansão, verticais, com a potência total de 1.890 cavalos indicados que nas experiências lhe imprimiram a velocidade de 16,7 nós. Tinha duas caldeiras arquitubulares e dois hélices. Os paióis de carvão tinham capacidade para 210 toneladas que permitiam uma autonomia de 1.300 milhas à velocidade máxima. O armamento compunha-se de quatro peças de artilharia Schneider-Canet de 100 mm/45 calibres, 6 peças Hotchkiss de 47 mm/40 calibres e uma metralhadora Hotchkiss de 6,5 mm, instalada na gávea do mastro militar. Dispunha de dois projectores de 75 amperes com 60 cm de diâmetro. Uma portaria datada de 9 de Julho de 1903 aprovou a lotação de 160 homens, incluindo 12 oficiais. No dia 10 de Agosto de 1903 navegou pela primeira vez no Tejo, iniciando as experiências. Em 9 de Julho de 1904 passou ao estado de completo
171 J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – VIIIarmamento, tendo assumido o comando o capitão-tenente António Alfredo da Silva Ribeiro. Em 19 de Janeiro de 1905 zarpou para Angola para servir na Divisão Naval do Atlântico Sul. Depois de ter recebido munições de artilharia de 100 mm do cruzador ‘Rainha Dona Amélia’, que estava em Angola, a ‘Pátria’, em 29 de Julho de 1905, largou de Luanda para o Brasil para ser mostrada aos Portugueses que tinham pago a sua construção. Escalou Funchal, S. Vicente de Cabo Verde, Freetown e Kotonou. Partindo deste porto, os oficiais do navio foram visitar o enclave Português de S. João Baptista de Ajudá, escalando o navio seguidamente Lagos, na Nigéria, S. Tomé, Príncipe, Luanda, Ilha da Ascenção e Recife que foi o primeiro porto brasileiro visitado, onde teve uma recepção extremamente calorosa, que aliás se repetiu em todos os portos do Brasil, culminando em apoteose no Rio de Janeiro.Em Agosto de 1908 efectuou uma curta comissão a Málaga e em Setembro uma outra aos Açores em que visitou Horta e Ponta Delgada. Em 7 de Outubro do mesmo ano foi enviada para uma longa missão de soberania em águas do Extremo Oriente, tendo chegado a Macau em 8 de Janeiro de 1909.Por lá permaneceu durante vinte e cinco anos consecutivos, mas com maior permanência nas águas de Macau. Visitou numerosas vezes os portos chineses de Cantão, Xangai e outros e a colónia britânica de Hong Kong onde foi mais de cinco dezenas de vezes para se reabastecer de carvão e para ser submetida a fabricos. Teve uma actividade incessante e prestimosa de que se destacaram as acções contra os piratas que infestavam a região de Macau.
172F A L A R D E N Ó S – VIIIJ O R g E A . H . R A N g E L Em Janeiro de 1912 foi enviada a Timor para dominar uma rebelião de indígenas. Bombardeou o enclave de Ocussi com as Hotchkiss de 47 mm e desembarcou uma força apoiada pelo fogo das peças de artilharia principal (100mm). Estando a ordem aparentemente restabelecida, a canhoneira retirou no dia 1 de Abril deixando alguns homens da guarnição desembarcados. Porém, foi obrigada a voltar no dia 18 de Abril devido à instabilidade da situação.Em fins de Julho de 1915, tendo havido grandes inundações na região chinesa de Shiu-Hing, a ‘Pátria’ deu assistência às populações para as quais transportou cerca de cinquenta toneladas de alimentos. Em 28 de Setembro de 1920 foi enviada a Cantão para proteger a colónia Portuguesa ali residente cuja segurança perigava devido a uma revolta militar.Em 30 de Abril de 1922 zarpou para o Japão, tendo chegado a Nagasaqui e Moji depois de ter escalado vários portos do extremo-oriente. Em 2 de Setembro de 1924 foi enviada a Xangai para proteger os Portugueses que ali residiam, bem como os seus haveres, que se encontravam em perigo por motivo da guerra civil que tinha deflagrado no mês anterior. Foi desembarcada uma força militar comandada por um segundo-tenente.Em 4 de Maio de 1926 largou para o mar à procura de dois aviadores espanhóis cujo paradeiro era desconhecido, depois de terem voado de Manila rumo a Macau. No dia seguinte a ‘Pátria’ encontrou um navio chinês que tinha salvo os aviadores, os quais passaram para bordo da canhoneira que os conduziu a Macau. Em 24 de Julho de 1930, ao fugir de um tufão que assolava Macau, encalhou em fundo de lodo mas conseguiu desencalhar pelos próprios meios.
173 J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – VIIIEm 1931 teve lugar o desarmamento da ‘Pátria’. Perante a guarnição formada, com o navio surto diante da cidade de Macau, o comandante, capitão-tenente João António Correia Pereira, falou à sua guarnição. E ao pôr-do-sol de 4 de Março de 1931, a bandeira nacional, o jack e a flâmula foram arriados, pela última vez, a bordo da canhoneira ‘Pátria’ que prestara serviço durante vinte e oito anos.Foi comprada, por cinquenta mil patacas, por um cidadão chinês que a vendeu ao Governo da China que a modernizou e a rearmou. Rebaptizada ‘Fu Yu’, passou a pertencer à marinha de guerra da China.”— · —A presença da Marinha de Guerra Portuguesa em Macau constituía uma manifestação de soberania, para além da missão de segurança naval que lhe cumpria desempenhar. Da canhoneira “Pátria” ao aviso “Gonçalves Zarco”, vários foram os navios da nossa Armada que, no século XX, prestaram serviço em Macau, muitas vezes por longos períodos e em circunstâncias bem difíceis. Oficiais seus deixaram relatos muito importantes da sua passagem ou permanência nestas longínquas paragens extremo-orientais onde flutuava a bandeira de Portugal. São testemunhos valiosíssimos, não só para a História da Marinha, mas para a própria História de Macau. No próximo artigo, falaremos da lancha-canhoneira “Macau”.15 de Agosto de 2011
174F A L A R D E N Ó S – VIIIJ O R g E A . H . R A N g E L Transcrevendo um capítulo do livro “Navios da Armada Portuguesa na Grande Guerra” (Academia da Marinha, 2008), do Comandante José Ferreira dos Santos, traçámos no artigo anterior o percurso da canhoneira “Pátria”, realçando a sua prestação em terras do Oriente. Acompanhemos agora a longa vida de outro navio, a lancha-canhoneira “Macau”, em serviço neste território durante mais de três décadas:“Construída, de aço, pelos estaleiros Yarrow, em Glasgow, foi enviada para Hong Kong, a bordo do cargueiro britânico ‘Glenlochy‘, encaixotada. Destinava-se à província de Macau.As várias secções foram reunidas na firma Whampoa Dock, em Kowloon, por operários dos estaleiros Yarrow. Foi lançada à água no dia 7 de Julho de 1909.Eis as suas caraterísticas principais:• Comprimento: 36,51 metros• Boca: 6,04 metros• Pontal: 1,54 metros• Calado máximo: 0,64 metros• Deslocamento: 135 toneladasEstava equipada com duas máquinas alternativas de vapor de tríplice expansão com a potência total de 250 cavalos indicados que lhe imprimiram nas experiências a velocidade de 11,8 nós. Tinha uma caldeira aquitubular e dois hélices trabalhando cada um em seu túnel.Os serviços da lancha-canhoneira “Macau”“Teve a lancha-canhoneira ‘Macau’ uma vida muito longa e muito útil durante a qual desempenhou as mais variadas missões...”
175 J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – VIIIEstava armada com duas peças de artilharia Hotchkiss de 57 mm/40 calibres e com três metralhadoras de 6,5 mm também Hotchkiss.A guarnição era composta por dois oficiais, quatro sargentos e vinte e nove praças, sendo sete de contratação local.No dia 19 de Julho de 1909 passou ao estado de completo armamento tendo o primeiro-tenente Joaquim Anselmo da Mata Oliveira assumido o comando naquela data. No dia 21 largou de Hong Kong para Macau.Na iminência da passagem de um tufão, a lancha-canhoneira subiu o rio e demandou um fundeadouro onde amarrou com dois ferros. No dia 19 de Outubro de 1909 o vento fez o navio garrar, quase provocando a sua perda. No dia seguinte conseguiu voltar a Macau mas com várias avarias.Em 12 de Julho de 1910 foi a Coloane combater os piratas que detinham a posse de parte da vila. O bombardeamento empreendido pela ‘Macau’ provocou 150 baixas e a destruição de diversas casas pelo facto dos piratas não se quererem render. No dia 17 a canhoneira ‘Pátria’ coadjuvou o bombardeamento da ‘Macau’ e ambas conseguiram, com a colaboração de forças do nosso Exército, acabar com as acções da pirataria no território de Macau.Em Junho e Dezembro de 1913 e Junho de 1915 e Abril de 1916 foi a Hong Kong onde subiu o plano inclinado para beneficiação da carena aproveitando para efectuar outras pequenas reparações.
176F A L A R D E N Ó S – VIIIJ O R g E A . H . R A N g E L Em 3 de Agosto de 1913 foi a Cantão devido à alteração da ordem naquela cidade onde se verificou nutrido tiroteio, entre facções rivais, que provocou centenas de mortes. O comandante combinou com o cônsul de Portugal desembarcar uma pequena força com uma metralhadora mas não chegou a ser necessário. A ‘Macau’ estava pronta a receber mulheres e crianças mas também isso não foi preciso e em 19 de Agosto o navio largou para Macau depois de ter sido dispensado pelo cônsul.Teve a lancha-canhoneira ‘Macau’ uma vida muito longa e muito útil durante a qual desempenhou as mais variadas missões com relevância para as actividades de carácter militar e de presença naval.Durante o auge da segunda guerra mundial, apesar de Portugal ser país neutro, era o então todo poderoso império do sol nascente quem verdadeiramente mandava em Macau, aliás era quem mandava em quase toda a Ásia. Os japoneses cometiam toda a espécie de arbitrariedades, atropelos e desmandos. Em Macau, só entrava o arroz (e outros géneros), que eles permitiam que entrasse e assim conseguiam dobrar-nos pela fome. Foi por esse processo que nos obrigaram a entregar-lhes duas boas dragas que havia em Macau.Já há muito tempo que os nipónicos vinham cobiçando a nossa lancha-canhoneira e em 1943 a falta de arroz era tão premente que conseguiram que o Governo de Macau lhes entregasse o navio em troca de dez mil sacos de arroz, de sessenta quilogramas cada, o que perfez seiscentas toneladas de arroz no valor de um milhão de patacas.Desse modo em 15 de Agosto de 1943 a ‘Macau’ foi integrada na armada japonesa com o nome ‘Maiko’. No final da guerra a ‘Maiko’ rendeu-se, em Cantão, à armada
177 J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – VIIIchinesa, que, em 1946, a rebaptizou ‘Wu Feng’. Em 1949 foi capturada pela China comunista.”Com grande poder de síntese, o Comandante Ferreira dos Santos conseguiu dar-nos o perfil de dezenas de navios que estiveram ao serviço da Armada Portuguesa durante a I Grande Guerra e identificou as suas mais relevantes missões. Alguns desses navios, como a canhoneira “Pátria”, a lancha-canhoneira “Macau” e os cruzadores “Adamastor”, “Vasco da Gama”, “Rainha D. Amélia” e “República” estiveram entre nós, em missão de soberania.Capitão da marinha mercante, embarcado em diversos navios durante cerca de trinta anos, José Ferreira dos Santos tem dedicado muito do seu tempo à investigação histórico-naval, sendo também coleccionador de fotografias de navios. Membro da Academia de Marinha, é também membro de mérito da Sociedade Histórica da Independência de Portugal, onde tem organizado dezenas de exposições de fotografias de navios, abrangendo milhares de fotos da sua colecção particular, sendo de destacar as que tiveram por título “Os Brancos Cisnes dos Oceanos”, “Navios da Armada Portuguesa que participaram na Grande Guerra”, “Navios da Armada Portuguesa que participaram na Guerra do Ultramar”, “Os Submarinos na Armada Portuguesa”, “Veleiros Portugueses”, “Paquetes dos Sete Mares”, “Faróis da Costa de Portugal”, “Veleiros Famosos”, “Navios da Pesca do Bacalhau”, “Veleiros Ainda e Sempre”, “Navios de Vela e de Propulsão Mista da Armada Portuguesa”, “O Paquete Infante D. Henrique revisitado”, “Os Navios da Companhia Colonial de Navegação” e “O Restauro da Fragata D. Fernando II e Glória”.
178F A L A R D E N Ó S – VIIIJ O R g E A . H . R A N g E L Autor de dezenas de artigos publicados na Revista de Marinha e na Revista da Armada, José Ferreira dos Santos tem sido convidado para fazer palestras sobre assuntos marítimos e navais, tendo sido condecorado, em Junho de 2007, pelo Almirante Chefe do Estado-Maior da Armada com a Medalha da Cruz Naval de 1ª classe.A quantos queiram realizar investigação ou aprofundar estudos sobre a Marinha Portuguesa, recomendamos a Biblioteca Central de Marinha e a biblioteca da Academia de Marinha, onde existe vastíssima bibliografia, incluindo edições próprias de grande qualidade. O Museu Marítimo de Macau também possui um acervo bibliográfico muito útil e a Capitania dos Portos de Macau publicou, em 1999, um excelente trabalho intitulado “A Marinha Portuguesa em Macau: uma relação muito singular”, do Comandante Adelino Rodrigues da Costa.22 de Agosto de 2011
179 J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – VIIINos dois artigos anteriores, pudemos recordar, através de textos do Comandante José Ferreira dos Santos (“Navios da Armada Portuguesa na Grande Guerra”, Academia de Marinha, 2008), os serviços relevantes prestados pela canhoneira “Pátria” e pela lancha-canhoneira “Macau”. Além destas, que tiveram longa permanência no Extremo Oriente, outras canhoneiras fizeram comissões temporárias (“em estação”, como então se dizia) nas águas do território, na primeira década do século XX: “Zaire” (1900-1902), “Diu” (1902-1904) e “Rio Lima” (1905-1910). Também tivemos, entre nós, vários cruzadores e, mais tarde, avisos, em missão de soberania. O Comandante Adelino Rodrigues da Costa (“A Marinha Portuguesa em Macau”, Capitania dos Portos de Macau, 1999), sintetizou muito bem a presença de cruzadores e avisos neste território:Os cruzadores em Macau“Para além das canhoneiras que asseguravam uma presença naval de carácter permanente mas meramente simbólica, em situações de maior melindre político ou militar como as que ocorreram na região, foram destacadas para Macau outras unidades navais, nomeadamente os cruzadores ‘Adamastor‘, ‘Vasco da Gama‘, ‘Rainha D. Amélia‘ e ‘República‘.Alguns desses conflitos tiveram carácter regional e levaram as nações europeias a manter forças navais na área, mas a permanência dos cruzadores portugueses só podia ser entendida como uma afirmação de prestígio perante outras marinhas europeias e não como uma atitude de afrontamento.A Marinha em Macau — canhoneiras, cruzadores e avisos“A partir de 1945, quando a Guerra terminou, a Marinha Portuguesa retomou a sua tradição de manter regularmente uma unidade naval em Macau ...”
180F A L A R D E N Ó S – VIIIJ O R g E A . H . R A N g E L O cruzador ‘Adamastor‘, um dos mais emblemáticos navios do seu tempo, que tomou parte nas acções de implantação da República Portuguesa e em operações durante a I Guerra Mundial, esteve em estação em Macau por 5 vezes (1900-1901, 1904-1905, 1912-1913, 1927-1928 e 1930-1933), tendo sido o cruzador que permaneceu em Macau por mais tempo. Das suas guarnições fizeram parte destacadas figuras da Marinha Portuguesa como o guarda-marinha Carvalho Araújo (Comandante do caça-minas ‘Augusto de Carvalho‘ durante a I Guerra Mundial) e o guarda-marinha Albano Rodrigues de Oliveira (Governador de Macau).O cruzador ‘Vasco da Gama‘ esteve em Macau por duas vezes (1904-1905 e 1909-1910), tendo visitado o Japão e diversos portos chineses. O cruzador ‘Rainha D. Amélia‘ permaneceu em Macau entre Setembro de 1909 e Abril de 1911, tendo passado a chamar-se ‘República‘ em 1910, na sequência da implantação do regime republicano em Portugal.Alguns anos mais tarde, um outro cruzador com o nome de ‘República‘ foi deslocado para Macau desde Julho de 1925 a Setembro de 1927, tendo permanecido em Shanghai durante 4 meses e integrado as forças multinacionais de protecção aos ocidentais residentes na cidade, quando a guerra civil se instalou na região.Desempenhou as funções de navio-chefe das Forças Navais de Macau, então constituídas, que na época também incluíram o cruzador ‘Adamastor‘, as canhoneiras ‘Pátria‘ e ‘Macau‘, e os hidroaviões do Centro de Aviação Naval. Esta foi a maior concentração de meios navais que Portugal alguma vez colocou em Macau, só compreensível num quadro de afirmação portuguesa face às nações ocidentais que
181 J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – VIIIentão mantinham uma presença naval nos mares da China, mas cujo potencial militar era diminuto.”A era dos avisos“No início dos anos 30 e na sequência de um programa de modernização da sua esquadra que ficou conhecido como ‘Programa Magalhães Corrêa‘, a Marinha Portuguesa começou a dispor de um novo conjunto de navios designados por avisos, especialmente concebidos para operar por longos períodos no Ultramar.O vocábulo ‘estação‘ caiu então em desuso porque a mobilidade dos navios era maior e as comunicações navais se tinham desenvolvido, permitindo uma utilização em áreas mais diversificadas e de acordo com as necessidades. As ausências dos navios de guerra do porto de Lisboa passaram então a ser designadas por ‘comissões‘ e alguns dos avisos depressa passaram a permanecer em comissão em Macau, quer antes, quer depois da II Grande Guerra.O primeiro navio dessa série que visitou Macau foi o aviso de 2.ª classe ‘Gonçalves Zarco‘ que, estando em viagem pela China, Hong Kong e Japão em 1935, esteve em Macau durante alguns dias.Porém, o primeiro aviso que estacionou em comissão em Macau foi o aviso de 2.ª classe ‘Gonçalo Velho‘, que entrou no porto pela primeira vez no dia 18 de Setembro de 1937 e permaneceu na área durante cerca de 15 meses, regressando a Lisboa em Dezembro de 1938.
182F A L A R D E N Ó S – VIIIJ O R g E A . H . R A N g E L Três meses antes, no dia 4 de Setembro de 1938, também o ‘Gonçalves Zarco‘ iniciava a sua comissão em Macau, que terminou em Abril de 1939, tendo sido substituído pelo aviso da 2.ª classe ‘João de Lisboa‘, que permaneceu em Macau entre Abril e Novembro de 1939. O ‘Gonçalo Velho‘ chegou novamente a Macau para a sua segunda comissão no mês de Junho de 1940, permanecendo até Março de 1941.Em Maio de 1941, o ‘João de Lisboa‘ entrou de novo em Macau para iniciar a sua segunda comissão, que foi dada por finda em 15 de Maio de 1942, exactamente um ano depois. A II Guerra Mundial estendera-se ao Extremo Oriente e o Governo Português decidiu que o navio regressasse a Lisboa, como afirmação de neutralidade perante o conflito, tendo a viagem para Lisboa sido feita pelo oceano Pacífico.Durante a Guerra, depois da saída do ‘João de Lisboa‘ e da venda da canhoneira ‘Macau‘ aos japoneses, a Marinha Portuguesa não localizou quaisquer outros navios em Macau. O estatuto de neutralidade adoptado na Europa, estendia-se à Ásia e ao Pacífico.A partir de 1945, quando a Guerra terminou, a Marinha Portuguesa retomou a sua tradição de manter regularmente uma unidade naval em Macau, não só como instrumento de afirmação de soberania, mas também como elemento de apoio ao Governo de Macau, nomeadamente na área das comunicações.Os avisos de 1.ª classe ‘Afonso de Albuquerque‘ e ‘Bartolomeu Dias‘, que estiveram empenhados nas operações de reocupação de Timor, também estacionaram em Macau, mas foram sobretudo os avisos de 2.ª classe que mais regularmente aí permaneceram.
183 J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – VIIINunca se verificaram quaisquer incidentes significativos com esses navios, mesmo durante os tempos de instabilidade provocada pelas transformações políticas que levaram à proclamação da República Popular da China”. (...)Depois da Guerra, voltámos a receber em Macau o “Gonçalo Velho”, de Outubro de 1945 a Julho de 1946 e de Julho de 1950 a Setembro de 1954. Também estiveram aqui o “Afonso de Albuquerque”, em missão de soberania em Macau e Timor de Novembro de 1945 a Janeiro de 1947 e em visitas ocasionais em Janeiro de 1952 e Maio de 1960, o “Pedro Nunes”, de Abril de 1948 a Julho de 1950, o “Bartolomeu Dias” (que já estivera nas nossas águas de Outubro de 1937 a Abril de 1938), de Fevereiro a Agosto de 1946, e de novo o “João de Lisboa”, de Maio de 1949 a Junho de 1951 e de Janeiro a Setembro de 1956.Fechou este longo ciclo o “Gonçalves Zarco”, o primeiro aviso a entrar em Macau e também o último a sair, quando concluiu a sua missão nos mares do Extremo Oriente, numa comissão derradeira que ocorreu de Outubro de 1956 a Março de 1964. Depois, só ocasionalmente recebemos visitas de navios da Armada Portuguesa. 29 de Agosto de 2011
184F A L A R D E N Ó S – VIIIJ O R g E A . H . R A N g E L Com recurso a textos do Comandante José Ferreira dos Santos (“Navios da Armada Portuguesa na Grande Guerra”, Academia de Marinha, 2008) e do Comandante Adelino Rodrigues da Costa (“A Marinha Portuguesa em Macau — Uma relação muito singular”, Capitania dos Portos de Macau, 1999), pudemos recordar, nos últimos três artigos, a permanência de canhoneiras, cruzadores e avisos nas águas de Macau, em missão de soberania, no século XX.Desta longa série de navios da Armada Portuguesa, o último que esteve em comissão nestas paragens lusas do Extremo Oriente foi o “Gonçalves Zarco”, aviso de 2.ª classe, que deixou definitivamente Macau no dia 28 de Março de 1964, em ambiente festivo que ficou indelevelmente gravado na memória de muitos residentes.Depois dessa data, deixámos de contar com a permanência de navios da Marinha de Guerra Portuguesa, os quais só ocasionalmente visitaram o território, havendo registos da passagem das fragatas “D. Francisco de Almeida” e “Comandante João Belo”, em Fevereiro de 1966 e em Março de 1970; das corvetas “Afonso de Cerqueira” e “Oliveira e Carmo”, em Outubro de 1975 e em Maio de 1976; e do navio-escola “Sagres”, em 1978, 1983 e 1993 (duas vezes). Uma outra obra do Comandante Adelino Rodrigues da Costa, o “Dicionário de Navios & Relação de Efemérides” (Comissão Cultural da Marinha, 1996), permite-nos acompanhar o percurso dos navios que estiveram em permanência em Macau, os últimos dos quais foram os avisos de 2.ª classe “Gonçalo Velho”, “Gonçalves Zarco”, “Pedro Nunes” e “João de Lisboa”, e os avisos de 1.ª classe “Afonso de Albuquerque” e “Bartolomeu Dias”, três pares de navios-gémeos que prestigiaram Portugal no Oriente.Três pares de navios-gémeos nas águas de Macau“Quando o navio se começou a afastar do cais, rompeu uma verdadeira trovoada de panchões. A ‘arraia miúda’, de bordo e de terra, manifestava assim a sua emoção do momento”.Relato do comandante do “Gonçalves Zarco”, da partida derradeira do navio em 28 de Março de 1964
185 J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – VIIIAs características dos dois primeiros eram idênticas: deslocamento máximo — 1.413 toneladas; deslocamento standard — 1.155 toneladas; comprimento – 81,5 metros; boca — 10 metros; calado máximo – 3,3 metros; velocidade máxima – 16,5 nós; velocidade de cruzeiro — 11 nós; autonomia à velocidade de cruzeiro — 9.830 milhas; armamento — 3 peças “Vickers-Armstrong” de 120 mm e 2 peças “Pom-pom” de 40 mm; e lotação — 119 elementos.Aviso “gonçalo Velho” (1933 - 1961)“Foi construído nos estaleiros ‘Hawthorn, Leslie & Co’, de Newcastle, tendo sido lançado à água em 3-8-1932 e aumentado ao efectivo dos navios da Armada em 1-3-1933. Entrou em Lisboa pela primeira vez em 1-4-1933 e em 6-4-1933 iniciou a sua primeira missão na costa norte, tendo entrado a barra do Douro. Em 3-6-1933 iniciou uma viagem ao Algarve, Açores e Madeira. Em 27-6-1934 saíu para a primeira comissão de 6 meses em Angola, a que se seguiu um ano de permanência em Moçambique. Em 12-8-1937 saíu de Lisboa para uma comissão em Macau, de onde regressou em Fevereiro de 1939. Entre Setembro de 1939 e Fevereiro de 1940 esteve em missão de soberania nos Açores e em afirmação da neutralidade portuguesa na guerra. Em 5-5-1940 largou para uma comissão em Macau e Timor, onde permaneceu cerca de um ano. Entre Julho e Dezembro de 1942 efectuou uma comissão em Cabo Verde. Em 17-4-1943 saíu para uma comissão em Cabo Verde, mas seguiu quase de imediato para Moçambique, onde permaneceu cerca de um ano. Em 6-3-1945 iniciou nova comissão de serviço no Ultramar e Extremo Oriente, tendo permanecido cerca de 4 meses em Moçambique, 11 meses em Macau e 7 meses na Índia. Em 1948 entrou em grandes fabricos em Lisboa e em 26-12-1949 saíu para comissão no Extremo Oriente. Durante
186F A L A R D E N Ó S – VIIIJ O R g E A . H . R A N g E L esse longo período em que a guarnição foi substituída em Macau, permaneceu na Índia, em Macau e em Timor, regressando a Lisboa em 29-1-1955. Entre Abril e Outubro de 1955 manteve-se atracado em Vila Franca de Xira. Entre Novembro de 1955 e Fevereiro de 1956 efectuou uma viagem de instrução na costa ocidental de África. Efectuou depois outras viagens aos Açores e Madeira e, em Setembro de 1957, representou a Marinha nas Festas de N. S. das Angústias, em Ayamonte, de onde regressou em 12-9-1957. Não voltou a sair a barra do Tejo e em 19-6-1961 foi abatida ao efectivo dos navios da Armada”.Aviso “gonçalves Zarco” (1933 - 1964)“Navio-gémeo do ‘Gonçalo Velho’, foi também construído nos estaleiros ‘Hawthorn, Leslie & Co’, de Newcastle, e foi aumentado ao efectivo dos navios da Armada em 17-8-1933. Entrou em Lisboa pela primeira vez em 1-9-1933, isto é, 5 meses depois do ‘Gonçalo Velho’ e ainda nesse mês entrou a barra do Douro, tendo permanecido em Massarelos. Seguiu depois em viagem à Madeira e Açores. Em 28-2-1934 seguiu para a sua primeira comisssão, tendo permanecido em Moçambique até Janeiro de 1935. Seguiu depois para Timor e Macau, tendo regressado a Lisboa em 21-6-1935. Em Agosto de 1936 seguiu para a Madeira em apoio das forças militares e policiais que pretendiam anular algumas alterações da ordem pública. Em 8-10-1936 partiu para Angola onde permaneceu até Fevereiro de 1937, seguindo depois para Moçambique. Depois de uma estadia de 5 meses em Moçambique regressou a Angola e, passado um mês, voltou a Lisboa onde chegou em 9-10-1937. Em 12-1-1938 largou para outra comissão no Ultramar, tendo permanecido um mês em Angola e dois meses em Moçambique. Em 15-6-1938 saíu para Timor onde permaneceu um mês. Em 4-9-
187 J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – VIII1938 chegou a Macau onde permaneceu até Abril de 1939. Visitou os Açores em Julho e Outubro de 1939 e permaneceu no arquipélago entre Janeiro e Maio de 1940. Em 24-10-1940 saíu para Cabo Verde onde permaneceu até Março de 1941. Em 11-10-1941 largou de Lisboa para uma comissão no Ultramar, chegando a Lourenço Marques em 3-12-1941. Foi designado para comboiar o transporte de tropas ‘João Belo’ destinado a Timor mas, perante uma ameaçadora sugestão japonesa, os dois navios mantiveram-se no mar entre Colombo e Java, entre os dias 18-2-1942 e 15-3-1942, regressando a Colombo e depois a Mormugão.Em Maio voltou a Moçambique onde se manteve até Dezembro e recolheu naúfragos de navios torpeados por submarinos alemães, tendo regressado a Lisboa em 14-2-1944. Em 29-4-1944 saíu de novo para Moçambique, onde voltou a recolher naúfragos. Em 29-8-1945 partia para Timor escoltando o transporte de tropas ‘Angola’, com as forças que iam reocupar a ilha após a derrota japonesa. Juntou-se-lhe o aviso ‘Bartolomeu Dias’ e juntos chegaram a Díli em 27-9-1945. Permaneceu em Timor durante 72 dias e em 16-1-1946 entrou em Lisboa. Em 31-8-1946 saíu para a Índia, onde permaneceu até Abril de 1949. Entre 24-11-1949 e 31-3-1950 efectuou um périplo de África em viagem de instrução de cadetes. Efectuou depois outras viagens no Atlântico e no Mediterrâneo e em 1-8-1943 efectuou uma viagem aos Estado Unidos. Entre 15-11-1953 e 7-3-1954 efectuou uma viagem de instrução e participou nas comemorações do 4.º Centenário da Fundação da Cidade de S. Paulo. Em 1954 esteve por duas vezes em Vila Franca de Xira, para apoio à instrução da Escola de Mecânicos. Em 29-9-1955 saíu para uma das mais longas comissões feitas por navios portugueses. Esteve na Índia durante mais de um ano, seguindo depois para Macau onde esteve entre Outubro de 1955 e Maio de 1958. Em Maio de 1958 voltou à Índia, onde se manteve até 2-7-1959,
188F A L A R D E N Ó S – VIIIJ O R g E A . H . R A N g E L data em que saíu para Timor, onde permaneceu cerca de 4 meses. Voltou a Macau onde estacionou até 28-3-1964. Chegou a Lisboa em 10-5-1964, após mais de 8 anos de ausência. Em 21 anos fizera mais de 30.000 horas de navegação. Em 4-11-1964 foi abatido ao efectivo dos navios de Armada”.Estas transcrições, que achámos oportuno fazer, dão-nos a conhecer a extensão e a complexidade das importantes responsabilidades que foram confiadas aos dois avisos que mais tempo passaram nas nossas águas e que a população local soube acolher de forma muito positiva, sentindo mesmo a sua falta quando se ausentavam para cumprir outras missões.Os avisos de 2.ª classe “João de Lisboa” (1937-1961) e “Pedro Nunes” (1935-1956) foram construídos no Arsenal da Marinha, em Lisboa. Ambos, com uma lotação de 112 elementos, tiveram comissões de serviço nos Açores, na Madeira e no Ultramar, tendo passado alguns anos no Oriente (Índia, Macau e Timor o primeiro e só Índia e Macau o segundo). Depois de abatidos ao efectivo como avisos de 2.ª classe, foram classificados como navios hidrográficos, continuando ao serviço até 1966 e 1977, respectivamente.O “Afonso de Albuquerque” (1935-1962) e o “Bartolomeu Dias” (1935-1967), avisos de 1.ª classe, com uma lotação de 215 elementos e armamento composto por 4 peças “Vickers-Armstrong” de 120 mm, 2 peças de 76.2 mm, 4 peças de 40 mm, 4 morteiros “Thornycroft” e 2 calhas lança-bombas de profundidade, foram ambos construídos em Newcastle pela “Hawthorn, Leslie & Co”. Nas suas longas e meritórias folhas de serviço ficaram também incluídas algumas permanências neste território, o
189 J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – VIIIprimeiro em Novembro de 1945 e de Maio de 1946 a Janeiro de 1947, além de breves visitas em Janeiro de 1952 e Maio de 1960, e o segundo de Outubro de 1937 a Abril de 1938 e de Fevereiro a Agosto de 1946.5 de Setembro de 2011
190F A L A R D E N Ó S – VIIIJ O R g E A . H . R A N g E L Muito antes de Macau contar com o seu aeroporto, velha aspiração de gerações realizada só na década de 90 do século XX, quando o Aeroporto Internacional de Macau foi inaugurado na manhã de 8 de Dezembro de 1995, o território chegou a ter uma ligação área com Hong Kong, assegurada por uma empresa local — a Macao Aerial Transport Company (MATCO) — desde finais da década de 40 até princípios de 60, com longos períodos de interrupção, e a famosa e emblemática Pan American Airways havia também estabelecido uma carreira, com paragem em Macau, entre S. Francisco e Manila, com recurso a hidroaviões. O seu Philippine Clipper amarou nas águas do Porto Exterior pela primeira vez no dia 23 de Outubro de 1936, tendo esse promissor serviço durado apenas três anos. Pouco depois da II Grande Guerra, a paz e o novo impulso dado ao desenvolvimento fizeram acreditar na vantagem dessas ligações ao exterior, pelo que foi construída, em 1940, com a colaboração de técnicos da Cathay Pacific Airways, uma pista de 1.200 metros sobre o então hipódromo da Areia Preta. Ali aterrou desastradamente um robusto DC 3, em voo experimental destinado a abrir uma ligação regular com a colónia britânica. Esta tentativa frustrada fez adiar por meio século a hipótese de Macau ter, finalmente, carreiras aéreas regulares.A propósito do hipódromo da Areia Preta, é oportuno lembrar que já havia ali aterrado, em Novembro de 1934, o tenente aviador Humberto da Cruz e o sargento-mecânico Gonçalves Lobato, num arrojado raid Lisboa-Díli, uma década depois do raid dos pilotos Brito Pais e Sarmento de Beires de Vila Nova de Mil Fontes a Macau.Entretanto, sempre na vanguarda, a Marinha Portuguesa havia inaugurado um Centro de Aviação Naval na ilha da Taipa em Novembro de 1927! O Comandante Quando Macau teve aviação naval“Condicionado pelas circunstâncias da Guerra,foi curta a vida do Centro de Aviação Naval de Macau ...”
191 J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – VIIIAdelino Rodrigues da Costa em “A Marinha Portuguesa em Macau — uma relação muito singular” (Capitania dos Portos de Macau, 1999) relata-nos esta actividade pioneira a que a Guerra pôs termo:“Macau foi o primeiro território de soberania portuguesa onde se instalou um serviço de aviação e a iniciativa pertenceu à Marinha.Alguns incidentes graves acontecidos no Porto Interior em 1921, quando a canhoneira chinesa ‘Kwang-Tai‘ e um pequeno torpedeiro guarnecidos por elementos adversos ao governo de Cantão não acataram as instruções das autoridades marítimas portuguesas, revelaram as vantagens da existência de um serviço de aviação no território.Então, sob proposta da Capitão do Porto, capitão-de-fragata Magalhães Corrêa, e com o apoio do Governador comandante Henrique Correia da Silva, foi adquirido algum material à Macao Aerial Transport Co., nomeadamente dois aparelhos para treino do antigo tipo Aeromarine, chegando a montar-se uma escola e a contratar-se um instrutor americano. De seis alunos civis, só dois macaenses concluíram as provas e voaram desacompanhados, chegando também a especializar-se algumas praças da Armada. Porém, em 1923 o instrutor retirou-se, não foi substituído e a experiência caiu no esquecimento.Quando em 1927 se verificaram perturbações na China, sobretudo na região de Shanghai, algumas nações ocidentais concentraram forças na região para a protecção dos seus nacionais. O Governo Português também reforçou a sua Estação Naval de
192F A L A R D E N Ó S – VIIIJ O R g E A . H . R A N g E L Macau com os cruzadores ‘Adamastor‘ e ‘República‘, fazendo deslocar uma secção de 3 hidroaviões ‘Fairey III D‘ para Macau, entre os quais se incluía o histórico ‘Santa Cruz“ que concluíra em 1922 a primeira travessia aérea do Atlântico Sul. Os aparelhos foram transportados desde Lisboa no transporte ‘Pero de Alenquer‘ e desembarcados em Macau no dia 26 de Outubro de 1927.O objectivo da presença desta secção era o de assegurar rápidas ligações a Hong Kong e o de auxiliar a Polícia Marítima na fiscalização das águas do Rio das Pérolas, então cenário frequente de acções de pirataria e contrabando.Com os hidroaviões ‘Fairey 17‘, ‘Fairey 19‘ e ‘Fairey 20‘ seguiu o pessoal de apoio e os pilotos, respectivamente o 1.º tenente Marcos Vieira Garin e o 2.º tenente Neves Ferreira, a que se juntou depois o 1.º tenente José Cabral, para comandar aquela secção. Na costa sul da Ilha da Taipa foi improvisado e depois construído um hangar para os hidroaviões e algumas moradias para o pessoal deslocado no local.O primeiro voo realizou-se no 5 de Março de 1928. Porém, não foi intensa a actividade da secção estacionada em Macau e o ‘Fairey 17‘ pouco voou: tomou parte em pesquisas de aviões franceses e americanos perdidos no mar da China, colaborou com as autoridades francesas de Hanói e com as autoridades inglesas de Hong-Kong, tendo sobrevoado território chinês.Em 1929, tal como os navios, também os aviões receberam ordens para retirar para Lisboa. Estavam já encaixotados a bordo do transporte ‘Pero de Alenquer‘ para regressar a Lisboa, quando o Governo de Macau insistiu para que permanecessem no
193 J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – VIIIterritório. O ‘Fairey 19‘ e o ‘Fairey 20‘ foram desencaixotados mas, devido a pressões da Direcção da Aeronáutica Naval, foi decidido que o ‘Fairey 17’ regressasse a Lisboa, pelo que ainda hoje está no Museu de Marinha, constituindo uma das mais importantes peças do seu acervo.Em Março de 1932 o 1.º tenente José Cabral regressou a Lisboa e o Centro de Aviação Naval de Macau foi encerrado, vindo a ser extinto em 1933. Contudo, a Capitania dos Portos de Macau continuou a assegurar a conservação do hangar da Ilha da Taipa, nele se mantendo o ‘Fairey 19’ e o ‘Fairey 20’.A instabilidade por que passava a China, com a guerra civil e a invasão japonesa, levaram o Governo Português a destacar para Macau o aviso ‘Bartolomeu Dias’, que embarcou os hidroaviões ‘Ospray 71’ e ‘Ospray 72’, além dos pilotos 1.º tenente Aires de Sousa, 2.º tenente Cardoso Barata e 2.º tenente Rodrigo Silveirinha. O navio chegou a Macau no dia 25 de Outubro de 1937 e os dois aparelhos ‘Fairey’, que desde 1933 se mantinham no hangar da Ilha da Taipa, foram desmantelados para que os ‘Ospray’ pudessem ocupar os seus lugares no hangar, que foi ampliado para receber os novos aviões que tinham maiores dimensões.Por decreto de 8 de Dezembro de 1937 foi reactivado o Centro de Aviação Naval de Macau, primeiro sob o comando do 1.º tenente Namorado Júnior e, mais tarde, sob o comando do 2.º tenente Freitas Ribeiro. Logo em Maio de 1938 chegaram a Macau 4 novos ‘Ospray’, pelo que a Marinha passou a dispor de 6 hidroaviões em Macau, que nesse ano de 1938 foram integrados na Marinha privativa da colónia.
194F A L A R D E N Ó S – VIIIJ O R g E A . H . R A N g E L Em 1939 foi criada uma Escola de Aviação Naval e a actividade operacional do Centro de Aviação Naval era intensa, com uma média de quase uma hora de voo diário. (...)Quando o ‘Bartolomeu Dias’ regressou a Lisboa, deixou em Macau os seus hidroaviões, que foram integrados na esquadrilha de Macau e os pilotos destacaram para o ‘Gonçalo Velho’, que entretanto chegara ao território.A utilização da Ilha da Taipa era condicionada pelas marés e o uso do hangar era limitado pela escassez de espaço, que obrigava os aparelhos a dobrar as asas para nele entrar ou sair, factos que limitavam a sua utilização em casos de emergência. Além disso, havia as dificuldades na ligação entre a Taipa e Macau. Por isso, foi decidida a construção de um novo hangar nos aterros do Porto Exterior da península de Macau, que foi inaugurado em Março de 1941.Condicionado pelas circunstâncias da Guerra, foi curta a vida do Centro de Aviação Naval de Macau, que passou por dois momentos particularmente graves em Junho de 1942 e em Janeiro de 1945.No dia 26 de Junho de 1942, quando um ‘Ospray’ voava sobre Macau, teve uma avaria no motor e despenhou-se sobre o casario da rua do Tap Seac, explodindo e incendiando-se, tendo os seus ocupantes — 1.º tenente Rodrigo Silveirinha e 1.º sargento mecânico Macedo Girão — morrido carbonizados. O Centro de Aviação Naval foi extinto pouco tempo depois, mas o hangar foi mantido e nele conservados os 5 hidroaviões existentes.
195 J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – VIIINo dia 16 de Janeiro de 1945, quando já estava definido o resultado da Guerra, a aviação americana baseada no porta-aviões ‘Enterprise’ bombardeou o hangar do Centro de Aviação Naval de Macau, destruindo-o com bombas de 50 libras e tiros de metralhadora.”Existem relatos destes graves incidentes em jornais da época e em livros, entre os quais “Memórias do Oriente em Guerra”, de Leonel Barros (APIM, 2006).12 de Setembro de 2011
196F A L A R D E N Ó S – VIIIJ O R g E A . H . R A N g E L Esta já longa série de crónicas e artigos consagrados a Macau e à comunidade macaense ficaria irremediavelmente incompleta sem as referências que fizemos à presença da Marinha Portuguesa neste território. Para isso, foram da maior utilidade os textos que seleccionámos de obras dos Comandantes José Ferreira dos Santos (“Navios da Armada Portuguesa na Grande Guerra”) e Adelino Rodrigues da Costa (“Dicionário de Navios & Relação de Efemérides” e “A Marinha Portuguesa em Macau — Uma relação muito singular”).Pela qualidade e poder de síntese, traduzindo uma sentida e justíssima homenagem aos marinheiros que serviram Portugal em Macau e muito deram a este território, quisemos também enriquecer a série com a inclusão deste excelente texto que faz parte da introdução ao livro “A Marinha Portuguesa em Macau — Uma relação muito singular” (Capitania dos Portos de Macau, 1999), que é, hoje, uma obra de referência em qualquer biblioteca dedicada a Macau ou à presença de Portugal no Oriente:Os marinheiros em Macau“A presença dos Marinheiros portugueses na região de Macau coincide com a chegada das naus portuguesas às costas da China e com a própria fundação da cidade em meados do século XVI, nascida da necessidade de encontrarem um entreposto seguro para negociar na região de Cantão e para apoiar a rede marítimo-mercantil que tinham estabelecido entre a Índia, Malaca, a China e o Japão.Porém, ao longo dos séculos XVI e XVII as Marinhas eram ao mesmo tempo comerciantes e militares e os navios tanto serviam para as funções de comércio como Os marinheiros na história de Macau“Poder-se-á afirmar que, em todos os domínios, a Marinha esteve sempre ligada aos factos mais relevantes da história de Macau nos últimos dois séculos...”
197 J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – VIIIpara as de guerra, conforme as circunstâncias, e o pessoal servia indistintamente na terra ou no mar.Só em 1736 o Estado Português procedeu à reorganização dos serviços do Reino, criando a Secretaria de Estado dos Negócios da Marinha e Domínios Ultramarinos, mas a efectiva reorganização da Marinha só veio a acontecer a partir de 1770.A partir de então, foram criadas corporações de oficiais destinadas ao serviço naval, estabeleceram-se padrões de organização e disciplina, regulou-se a constituição das guarnições, criaram-se serviços de apoio administrativo e oficinal, além de diversas instituições destinadas ao ensino militar-naval.Alguns acontecimentos ocorridos na primeira metade do século XIX, designada-mente as guerras napoleónicas, o processo que conduziu à independência do Brasil e a guerra civil em Portugal, mantiveram a Marinha Portuguesa essencialmente activa no Atlântico mas, em meados do século, as viagens e as permanências no Oriente tornaram-se regulares, sobretudo na região de Macau.Depois, inclusive porque o poder central instalado em Lisboa procurava assumir algum controlo sobre o território, a influência da sua regular presença repercutiu-se em todas as áreas de actividade, designadamente no sector militar e na administração pública, mas também em áreas como a hidrografia, a meteorologia, a farolagem, o ensino náutico e muitas outras, tendo muitos oficiais de Marinha desempenhado funções no Governo e na administração pública de Macau.
198F A L A R D E N Ó S – VIIIJ O R g E A . H . R A N g E L Algumas das mais emblemáticas infraestruturas do território, desde as mais antigas até àquelas que as modernas tecnologias e as novas conjunturas permitiram concretizar, resultaram da iniciativa ou tiveram colaboração empenhada de Marinheiros.Da mesma forma, integrados na chamada Estação Naval de Macau ou sem assumir um carácter permanente, a Marinha manteve alguns dos seus navios baseados em Macau, essencialmente como factor de representação e de presença naval simbólica, nomeadamente em períodos de maior instabilidade nos territórios vizinhos.Esses períodos incluíam, frequentemente, estadias periódicas dos navios em Timor e viagens de natureza logística a Hong Kong e, ocasionalmente, algumas missões ao Japão, Sião, Filipinas, Singapura e Indonésia.Fundeados na Ilha da Taipa ou amarrados à bóia no Porto Interior, com a atenção sempre em cima da ameaça de tufões, a presença de navios de guerra nas águas de Macau traduzia-se num factor de confiança para a população macaense, quebrava a sua sensação de isolamento, animava o quotidiano do território e trazia algum acréscimo de dinamismo ao comércio local.Nesse tempo, a dimensão e a densidade populacional de Macau facilitavam um rápido relacionamento das guarnições com a população residente, quer macaense, quer mesmo da comunidade chinesa.Poder-se-á afirmar que, em todos os domínios, a Marinha esteve sempre ligada aos factos mais relevantes da história de Macau nos últimos dois séculos, desde os tempos
199 J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – VIIIde ameaça da pirataria, das guerras do ópio e das guerras civis chinesas deste século, até à II Guerra Mundial, à abertura da China às potências estrangeiras e à emigração dos ‘boat-people‘ do Vietname, nos tempos mais recentes.Os seus navios e os seus Marinheiros representaram Portugal e Macau nos países e portos da região, mantiveram-se neutrais perante os conflitos regionais, foram um ponto de apoio para a comunidade macaense, partilharam dificuldades e participaram nas suas festividades, mas também tiveram uma acção humanitária de relevo, na protecção de populações, na recolha de náufragos e na assistência a desalojados.As guarnições eram facilmente reconhecidas pela sua postura e correcção, estabeleciam relações de amizade e de convívio com a comunidade local, integravam-se frequentemente nas suas iniciativas e assimilavam novos factores culturais.Frequentemente isolado do mundo, o território de Macau passou por períodos de prosperidade e de dificuldade, mas encontrou sempre o apoio da Marinha e dos Marinheiros, muitos dos quais lhe ofereceram capacidades, entusiasmo e dedicação, quando não a própria vida. Os moradores de Macau souberam sempre receber e conviver com a Marinha Portuguesa, não deixando de lhe testemunhar frequentemente o seu apreço e admiração. Por outro lado, também os Marinheiros souberam respeitar as tradições e as culturas presentes em Macau, dando algum contributo para o progresso, partilhando sacrifícios e generosidades, afeiçoando-se à terra e às gentes, ligando-se a elas pelo convívio social e, frequentemente, pelo casamento.
200F A L A R D E N Ó S – VIIIJ O R g E A . H . R A N g E L Na actual realidade do território, marcado por um ritmo de desenvolvimento extremamente rápido em todos os domínios e pelo fim da sua absoluta dependência do mar, o território de Macau é uma memória que, neste final de milénio, permanece no coração da Marinha Portuguesa.”Não era fácil fazer melhor síntese do que foi esta presença altamente meritória e do que foram os serviços prestados pelos briosos marinheiros de Portugal no Oriente Extremo. O seu legado é ainda visível na Capitania dos Portos, na Escola de Pilotagem, na Escola Superior das Forças de Segurança e no Museu Marítimo de Macau, bem como na legislação, nas práticas introduzidas no funcionamento de instituições locais, na formação que foi feita, nos estudos técnicos e científicos que realizaram e no exemplo e memória que deixaram.Para além das responsabilidades específicas, inerentes à sua condição militar, muitos oficiais da Armada desempenharam altos cargos no território, tendo mais de 20 sido Governadores de Macau de meados do século XIX até ao fim da Administração Portuguesa: João Maria Ferreira do Amaral (1846 a 1849), Pedro Alexandrino da Cunha (1850), Francisco António Gonçalves Cardoso (1851), Isidoro Francisco Guimarães (1851 a 1863), José Rodrigues Coelho do Amaral (1863 a 1866), António Sérgio de Sousa (1868 a 1872), Januário Correia de Almeida (1872 a 1874), Carlos Eugénio Correia da Silva (1876 a 1879), Francisco Teixeira da Silva (1889 a 1890), Custódio Miguel de Borja (1890 a 1894), Martinho Pinto de Queirós Montenegro (1904 a 1907), Pedro de Azevedo Coutinho (1907 a 1908), Álvaro de Melo Machado (1910 a 1912), José Carlos da Maia (1914 a 1916), Henrique Monteiro Correia da Silva (1919 a 1922), Joaquim Anselmo da Mata Oliveira (1931 a 1932), Gabriel Maurício Teixeira (1940 a 1947), Albano Rodrigues
201 J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – VIIIde Oliveira (1947 a 1951), Joaquim Marques Esparteiro (1951 a 1957), Pedro Correia de Barros (1957 a 1959) e Vasco Fernando Leote de Almeida e Costa (1981 a 1986).19 de Setembro de 2011
202F A L A R D E N Ó S – VIIIJ O R g E A . H . R A N g E L Acompanhando os momentos altos dos regimes políticos que se foram sucedendo em Portugal, os hinos patrióticos que se difundiram pelo vasto Império Português também chegaram, inevitavelmente, até estas terras distantes extremo-orientais. Circunscrevendo-nos ao século XX, e consultando cancioneiros, jornais e revistas, são identificáveis alguns dos que tiveram maior significado entre nós.O Hino NacionalApós a implantação da República, a 5 de Outubro de 1910, “A Portuguesa”, hino composto em 1890 como reacção ao “ultimatum” inglês, passou a ser o novo Hino Nacional. Um decreto de 19 de Junho de 1911 consagrou-o definitivamente como tal, ao mesmo tempo que fixou a nova Bandeira Nacional. A versão integral de “A Portuguesa”, que muitos, mesmo em Portugal, já não conhecem, foi então amplamente divulgada:A PortuguesaHeróis do mar, nobre povoNação valente, imortal.Levantai hoje de novoO esplendor de Portugal!Entre as brumas da memória,Ó Pátria, sente-se a vozDos teus egrégios avós,Que há-de guiar-te à vitória!Hinos patrióticos também cantados em Macau“Afoitos a combater / com nobreza e valentia. / Vão a paragens distantes / ‘A ver os berços onde nasce o dia‘.”Do Hino-marcha da Expedição a Macau, 1946
203 J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – VIIIRefrão (cantado após cada estrofe):Às armas, às armas!Sobre a terra, sobre o mar.Às armas, às armas!Pela Pátria lutarContra os canhõesMarchar, marchar!Saudai o sol que despontaSobre um ridente porvir. Seja o eco de uma afrontaO sinal de ressurgir.Raios dessa aurora forteSão como beijos de MãeQue nos guardam, nos sustêm,Contra as injúrias da sorte.Desfralda a invicta bandeira,À luz viva do teu céu!Brade a Europa à Terra inteiraPortugal não pereceu!Beija o solo teu fecundo,O oceano, a rugir d‘amor,E o teu braço vencedorDeu mundos novos ao Mundo!
204F A L A R D E N Ó S – VIIIJ O R g E A . H . R A N g E L O maestro e pintor Alfredo Keil compôs a música marcial de “A Portuguesa”, sendo a letra de Henrique Lopes de Mendonça, oficial da Armada e escritor que ascendeu à presidência da Academia das Ciências de Lisboa. Também foi deles o Hino do Centenário do Infante D. Henrique (1894).O Hino Nacional foi cantado com orgulho por gerações de portugueses de Macau, continuando, na versão oficialmente aprovada em 1957, a ser ensinado nas escolas portuguesas.Marchas militaresAlém do Hino do Exército (Fernando S. R. Nogueira e Adolfo Simões Müller, 1945), outras marchas militares, como o Hino-Marcha de Homenagem ao Glorioso Exército Português (Custódio Rodrigues Gouveia e Adolfo Simões Müller, 1950), Canção do Soldado Português e Hino da Infantaria Portuguesa (ambos de Jaime Gonçalves Correia e Ramiro Guedes de Campos, 1947 e 1948), vieram até Macau através de unidades militares que aqui prestaram serviço, muitas das quais trouxeram também os hinos das suas unidades.Neste contexto, merece especial referência um hino produzido expressamente para a expedição a Macau de um batalhão constituído por militares mobilizados no Norte de Portugal, em 1946. A música e a letra são do compositor Manuel de Almeida:
205 J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – VIIIHino-Marcha da Expedição a MacauFoi a nós, CaçadoresDesta Pátria imortalDentre todos os melhoresSoldados de Portugal,Confiada uma missãoQue nos enche de alegriaSer os guardas da NaçãoDesses lugares sagradosOnde alguém cantou um dia“As armas e os barões assinalados”.Refrão (cantado após cada estrofe):Vamos Caçadores do Norte!Partir para o Oriente,Vamos, Caçadores leais!Que o nosso lema é“Pr’á frente”!Ó Porto, invicta cidadeE Chaves a gloriosa,Bragança da lealdadeE a Viana formosa,Terras que viram nascer
206F A L A R D E N Ó S – VIIIJ O R g E A . H . R A N g E L Esta Pátria de gigantes,Afoitos a combaterCom nobreza e valentiaVão a paragens distantes“A ver os berços onde nasce o dia”.E de volta aos nossos lares,Perdidos na serrania,Tão distantes dos lugaresDonde com galhardiaCumprimos nossa missão,Cada um dirá por fim:Ficou-me no coraçãoUma legenda gravada,Que p’ra sempre reza assim“Esta é a ditosa Pátria minha amada!”
207 J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – VIIIO Batalhão de Caçadores do Norte, com militares de unidades de Bragança, Chaves, Porto e Viana do Castelo, embarcou no paquete “Lourenço Marques” no dia 6 de Maio de 1946, com 28 oficiais, 60 sargentos e 618 praças, e chegou a este território numa data de grande simbolismo (24 de Junho, dia de S. João Baptista e também das cidades do Porto e de Macau).Marchas militares continuaram a ser cantadas em Macau para além da extinção do Comando Territorial Independente de Macau, em 1975, uma vez que permaneceram no território militares e ex-militares, os quais continuaram a realizar os seus encontros de convívio, sendo de destacar, neste âmbito, os levados a efeito por uma muito activa delegação da Associação de Comandos que, em todas as suas actividades, fez ecoar bem forte o seu grito “Mama Sumé!”26 de Setembro de 2011
208F A L A R D E N Ó S – VIIIJ O R g E A . H . R A N g E L Enquanto se ultimam os preparativos para o IX Congresso Europeu das Confrarias Vinícolas e Gastronómicas, que se realizará no Algarve a 5 e 6 de Novembro próximo, a RTP — Radiotelevisão de Portugal anunciou os vencedores do concurso “7 Maravilhas da Gastronomia de Portugal”. Entretanto, o Centro de Promoção e Informação Turística de Macau organizou, num restaurante do Atrium Saldanha, em Lisboa, uma divulgação de pratos macaenses, de 19 a 23 de Setembro, como parte integrante de um conjunto de acções de promoção da RAEM. Chegou-nos também a informação de que está em fase de conclusão um novo livro de receitas da culinária macaense, cujo lançamento poderá ter lugar no primeiro semestre de 2012.Maravilhas da gastronomiaAs donas de casa macaenses, habituadas a confeccionar os pratos tradicionais da nossa culinária, sempre se interessaram pela comida portuguesa. Foi, por isso, apenas natural que tivessem querido acompanhar o concurso “7 maravilhas da Gastronomia de Portugal”, através da RTP. Algumas terão mesmo assistido às várias fases do programa que a RTP Internacional fez chegar a todos os quadrantes do globo.A sessão final deste concurso decorreu na antiga Escola Prática de Cavalaria, em Santarém, com um espectáculo que contou com a presença dos artistas Rui Veloso, Ana Moura, Boss AC e o conjunto Zeca Sempre, composto pelos cantores Nuno Guerreiro, Olavo Bilac, Tozé Santos e Vítor Silva.Quase 900 mil votos do público deram entrada na RTP deste 7 de Maio, quando 21 pratos foram seleccionados por um painel de 21 personalidades — três por cada gastronomia em focoO presidente da Confraria da Gastronomia Macaense assumirá, em Novembro, a vice-presidência do Conselho Europeu das Confrarias (CEUCO).
209 J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – VIIIcategoria (entradas, sopa, marisco, peixe, carne, caça e doces) — e postos à votação até Setembro.As sete maravilhas escolhidas foram: alheira de Mirandela, queijo da Serra da Estrela, caldo verde, arroz de marisco, sardinha assada, leitão da Bairrada e pastel de Belém. Em apreciação estiveram também outros conhecidos pratos como açorda alentejana, sopa de pedra, amêijoas à Bulhão Pato, xarém com conquilhas, bacalhau à Gomes de Sá, polvo assado no forno, chanfana, tripas à moda do Porto, coelho à caçador, coelho à Porto Santo, perdiz de escabeche de Alpedrinha, pastel de Tentúgal e pudim Abade Priscos.Este bem disputado concurso veio na sequência de outros que tiveram amplo sucesso, como “Novas 7 Maravilhas do Mundo”, “7 Maravilhas de Portugal”, “7 Maravilhas de Origem Portuguesa no Mundo” e “7 Maravilhas Naturais de Portugal”.Congresso de gastronomiaUma delegação da Confraria da Gastronomia Macaense participará no IX Congresso Europeu das Confrarias Vinícolas e Gastronómicas, em Albufeira (Algarve), nos dias 5 e 6 de Novembro. A chegada a Lisboa está marcada para o dia 4, seguindo a comitiva directamente para o Algarve, juntamente com membros residentes em Portugal, entre os quais alguns gastrónomos de mérito. Terminado o congresso, o grupo macaense, cumprindo uma tradição, visitará Fátima. Durante o congresso, serão apresentados temas sobre a gastronomia europeia e os vinhos da Europa. Haverá também uma mostra de produtos agro-alimentares
210F A L A R D E N Ó S – VIIIJ O R g E A . H . R A N g E L de qualidade, sessões de degustação de produtos regionais, reuniões de convívio, recepções oficiais e um desfile das numerosas representações pelas ruas de Albufeira, com os respectivos trajes. Aproveitar-se-á a ocasião para se proceder à entrega dos prémios Aurum, que contemplam a excelência enogastronómica europeia, e à nomeação dos novos Embaixadores do Conselho Europeu das Confrarias (CEUCO).Toda a habitual exuberância destes encontros estará patente, animando a localidade com a colorida presença de delegações de confrarias de muitos países. Numa das sessões, o presidente da Confraria da Gastronomia Macaense, Luís Machado, assumirá a vice-presidência do CEUCO, em reconhecimento do papel interventor que a nossa confraria tem tido no seio deste Conselho.Culinária macaenseMais uma semana promocional de Macau teve lugar em Lisboa, de 19 a 23 de Setembro. O programa incluiu a divulgação da culinária macaense, no restaurante “Serra da Estrela”, situado no espaço comercial denominado Atrium Saldanha.Confeccionados por Graça Pacheco Jorge, confreira de mérito da Confraria da Gastronomia Macaense, os pratos apresentados foram galinha com nozes, peixe mandarim, carne de vaca com pimentos, peixe com molho sutate e galinha à portuguesa, acompanhados das seguintes sobremesas: creme de manga com iogurte, formigos, tarte impossível de coco, salada de laranja com chá e saransurave. Uma palestra sobre “O chá na China” foi também incluída no programa.
211 J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – VIIIMais promoções como esta são bem-vindas e oxalá a Casa de Macau de Portugal possa relançar os seus apreciados almoços macaenses, até há pouco tempo preparados por Fernando Conceição (Nando) e António Silva (Avô), e realizá-los com a regularidade desejável.Casa de MacauUm grupo de quadros superiores do Gabinete de Ligação do Governo Popular Central da RPC na RAEM, que esteve em Lisboa, em Setembro, num programa de formação coordenado pelo Instituto Internacional de Macau, iniciou a sua permanência de três semanas em Portugal com um agradável almoço de convívio nas instalações recreativas da Casa de Macau, na Av. Almirante Gago Coutinho, podendo apreciar várias iguarias macaenses preparadas por Graça Pacheco Jorge.Durante o repasto, o autor deste artigo, na qualidade de presidente do Instituto Internacional de Macau, e a vice-presidente daquela agremiação macaense, Edith Lopes, usaram da palavra para referir o papel da Casa de Macau e um pouco da história da comunidade macaense em Portugal, bem como o significado da sua culinária tradicional.Uma boa notícia foi também transmitida nesse dia aos visitantes: a da oportuna aquisição do amplo andar da Casa de Macau na Praça do Príncipe Real, pela Fundação Casa de Macau. Aquela foi, durante décadas, a sede emblemática da Casa, mas era uma propriedade alugada. Ali está instalado o centro de documentação da Casa de Macau e muito bem arrumado o seu espólio inicial. Nesse andar foram realizados muitos convívios macaenses e as primeiras grandes promoções da culinária macaense.
212F A L A R D E N Ó S – VIIIJ O R g E A . H . R A N g E L Livro de receitasOutra excelente notícia: o livro de receitas que a confreira de mérito Cíntia Conceição do Serro tem estado a organizar, reunindo receitas da sua tia Albertina, está em fase de conclusão. Será também uma enorme alegria para D. Albertina Borges, nonagenária macaense residente em Lagos (Portugal) que muito respeitamos e admiramos. Não obstante a idade, continua muito activa e a gozar de uma memória prodigiosa, sendo ainda capaz de recitar de cor alguns sonetos de Camões. É um verdadeiro prazer conversar com ela e ouvi-la discorrer sobre acontecimentos e vivências de Macau de outrora.Falta só decidir quem assumirá a edição e fazer o plano da sua publicação e posterior promoção. Cíntia Serro foi uma das conferencistas da sessão dedicada à culinária macaense no último Encontro das Comunidades Macaenses e a sua bem elaborada comunicação foi muito aplaudida pelos numerosos conterrâneos presentes. O seu envolvimento directo na organização deste livro de receitas é a melhor garantia de sucesso na sua publicação, prevendo-se que a obra tenha ampla procura.A sua decisão é também um exemplo para outras exímias cozinheiras da nossa comunidade avançarem com a divulgação pública das suas receitas em novos livros que diversos organismos macaenses não deixarão de apoiar.4 de Outubro de 2011
213 J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – VIIIO movimento cultural, literário e educacional Festlatino, que tem realizado conferências, seminários, exposições e divulgação de edições em países de quatro continentes, realizou as suas primeiras actividades em Macau, nos dias 28 a 30 de Setembro passado, com o apoio e parceria do Instituto Internacional de Macau e a presença do seu coordenador-geral, Prof. Humberto França, professor universtário, poeta, historiador e gestor de instituições culturais, e do Embaixador Eugénio Anacoreta Correia, presidente do Observatório da Língua Portuguesa. Com sede no Recife, capital do estado brasileiro de Pernambuco, o movimento Festlatino tem como presidente o Dr. Mário Soares, ex-presidente da República Portuguesa, sendo a sua principal missão promover as línguas neolatinas, com a finalidade de fomentar o diálogo cultural entre os países e regiões de línguas e culturas neolatinas da Europa, África, América e Ásia. Participam regularmente nas suas iniciativas escritores, filólogos, docentes universitários e do ensino secundário, artistas, políticos, diplomatas, gestores e dinamizadores culturais, jornalistas e estudantes, estando o seu próximo congresso anual marcado para 21 a 25 de Novembro, no Recife.Camões em MacauEsta primeira série de actividades do movimento Festlatino em Macau abriu com uma mesa redonda protagonizada pelo Dr. Eduardo Ribeiro, autor da obra “Camões em Macau — uma certeza histórica”, com quem se conversou animadamente sobre este tema, em torno do qual alguns investigadores causaram polémica, levantando dúvidas que aquela personalidade rebate com firmeza e de forma bem sustentada nos trabalhos que tem publicado e nas conferências que tem proferido.Movimento Festlatino em Macau“Macau desfruta de um posicionamento especial e paradigmático no universo da Língua Portuguesa”.“Macau é, simultaneamente, uma referência de passado histórico e um farol apontado a dilatados horizontes de futuro”.Embaixador Eugénio Anacoreta Correia, Presidente do Observatório da Língua Portuguesa
214F A L A R D E N Ó S – VIIIJ O R g E A . H . R A N g E L Seguiu-se uma romagem ao Jardim e Gruta de Camões, onde foram depositadas coroas de flores, homenageando-se simbolicamente o poeta universal e a figura maior das letras portuguesas, tão intimamente ligada a esta terra que tem sabido cultivar e honrar a sua memória.Uma visita às Ruínas de São Paulo e ao Museu de Macau e um convívio no restaurante Litoral, com uma prova de iguarias gastronómicas macaenses, a “comida das longas viagens dos portugueses até ao Oriente”, encerraram o programa do primeiro dia.Temática diversificadaIntervenções de Humberto França e do autor deste artigo, na qualidade de presidente do IIM, abriram o seminário “A Língua Portuguesa no contexto do diálogo entre a China e o Mundo Lusófono”, a que se seguiram a assinatura de um protocolo de cooperação e uma comunicação de fundo do presidente do Observatório da Língua Portuguesa sobre “Perspectivas actuais da Língua Portuguesa”.O mau tempo, provocado por um tufão que assolou estas paragens da costa meridional da China, fez adiar uma série de comunicações de personalidades locais, que serão apresentadas em Novembro, em simultâneo com o congresso do Festlatino no Recife. Os títulos dessas comunicações são “O Patuá de Macau — Memória e Identidade Macaense”, pelo Dr. Miguel Senna Fernandes, “Um breve esboço sobre a tradução de escritores de Língua Portuguesa para Chinês”, pelo Dr. Yao Jing Ming, “Desenvolver as vantagens culturais e linguísticas para converter a RAEM num centro de ensino e investigação da Língua Portuguesa na China”, pelo Prof. Choi Wai Hao, “Acordamos
215 J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – VIIIou não, Macau”, pela Prof.ª Maria Antónia Espadinha, e “Media de Macau — Um futuro com desafios”, pelo Dr. José Rocha Dinis. Protocolo oportunoO Observatório da Língua Portuguesa é uma associação sem fins lucrativos, com sede em Lisboa, que tem por objectivos “verificar o estatuto e projecção da Língua Portuguesa no Mundo, fomentar o desenvolvimento de iniciativas em prol da sua crescente afirmação e facilitar o acesso a todas as fontes de saber e de divulgação de conteúdos em Português”. É seu propósito contribuir para a formulação de políticas e decisões que concorram relevantemente para a afirmação da Língua Portuguesa como língua de comunicação internacional, cabendo-lhe também, nos termos estatutários, “desenvolver, por iniciativa própria ou em parceria com outras instituições, públicas e privadas, actividades que contribuam para que a Língua Portuguesa seja instrumento essencial de afirmação da identidade e soberania, de vitalidade cultural, científica, política e económica e de diálogo, solidariedade e cooperação entre os 250 milhões de falantes do idioma comum e, dessa forma, promova o reforço do alargamento dos laços de amizade e cooperação no seio da CPLP — Comunidade dos Países de Língua Portuguesa”.O protocolo firmado comete ao IIM a responsabilidade de representar o Observatório em Macau e junto de instituições académicas e culturais com sede em países e territórios do Extremo-Oriente e o Observatório colaborará com o IIM na concepção e produção de meios e recursos para o desenvolvimento de acções de promoção e valorização da Língua Portuguesa e fornecerá com actualidade útil
216F A L A R D E N Ó S – VIIIJ O R g E A . H . R A N g E L a informação de que disponha sobre programas, projectos e acções sobre a Língua Portuguesa a realizar em Portugal e nos outros Estados membros da CPLP.Perspectivas actuais da Língua PortuguesaNa sua comunicação, que o IIM irá publicar num opúsculo da colecção “Mosaico”, Eugénio Anacoreta Correia realçou o peso demográfico da Língua Portuguesa, o património cultural e civilizacional que lhe é ínsito e as potencialidades económicas do universo da CPLP, que “deveriam determinar um estatuto mais qualificado do que aquele que actualmente lhe é reconhecido, designadamente, nas principais instâncias onde decidem os destinos do mundo” e salientou a importância do “Plano de Acção de Brasília para a Promoção, a Difusão e a Projecção da Língua Portuguesa” adoptado em Julho de 2010 pela Cimeira de Chefes de Estado e de Governo da CPLP reunida em Luanda. Esse Plano “constitui actualmente um referencial estratégico exigente mas realista, ambicioso mas pragmático, que fixa objectivos, identifica responsáveis e estabelece prazos para a concretização dos 6 eixos de actuação definidos com o objectivo cimeiro de ser alcançado o desejado maior reconhecimento mundial da Língua Portuguesa.” É, efectivamente, essa a grande inovação desse Plano: “abordar o problema da internacionalização da Língua Portuguesa numa perspectiva que encara os desafios e as oportunidades proporcionados pela globalização, entendendo e assumindo que o que fez e faz as línguas serem transnacionais não são tanto razões linguísticas como, sobretudo, factores de ordem política, económica e civilizacional”. Eugénio Anacoreta Correia apontou três conclusões nesta sua comunicação: “a primeira é que a obtenção do efectivo reconhecimento do estatuto de ‘língua de comunicação global‘ depende essencialmente de nós próprios, ou seja, só será
217 J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – VIIIalcançado no contexto lusófono, usufruindo, neste momento, o Brasil — que é a 5ª economia mundial — das melhores condições para ser o ‘motor‘ desse processo. Amanhã poderá ser Angola, depois Moçambique mas cada um dos 8, segundo a sua projecção internacional, é, desde já, imprescindível nessa afirmação que a todos respeita”; a segunda conclusão, é que “a CPLP deve reforçar a sua acção em países com uma memória histórica favorável a Portugal e uma apetência real pela Língua Portuguesa. Não só nos que pretendem aderir à CPLP, como naqueles onde ainda se mantêm vivos crioulos de influência portuguesa, como, finalmente, naqueles que encontram na Lusofonia uma oportunidade de presença e influência internacional. E neste contexto a importância da acção a ser desenvolvida a partir de Macau é inquestionável e deveria suscitar a concentração de esforços porque pode ser determinante”; a terceira conclusão é que “a dimensão dos desafios e a incerteza das suas consequências aconselham a que, mantendo todo o nosso esforço nos dois desafios anteriormente referidos, se incremente a cooperação com o universo das línguas neolatinas e dos seus 800 milhões de falantes”, sendo bem sucedida a experiência do MERCOSUL, “que se está a traduzir num crescimento exponencial da aprendizagem do Português”, “o mesmo podendo ser dito de alguns países africanos, em particular de vizinhos dos PALOP”, devendo ser também assinalado “o interesse manifestado por países tão distintos como são o Senegal, Luxemburgo, Maurícia ou Ucrânia ao apresentarem candidaturas de adesão à CPLP ou ainda pela Austrália e Indonésia enviando delegações à reunião ministerial que recentemente teve lugar em Luanda”.Personalidades da neolatinidadeEste encontro do Festlatino em Macau integrou ainda um encontro com o Secretário para os Assuntos Sociais e Cultura, uma visita à Escola Portuguesa de Macau e uma
218F A L A R D E N Ó S – VIIIJ O R g E A . H . R A N g E L sessão final na Residência Consular de Portugal, onde, na presença do Cônsul-Geral, o Prof. Humberto França contemplou os oradores convidados locais com o título de “personalidades da neolatinidade”, assim como os presidentes da Escola Portuguesa, Dra. Edith Silva, e do Instituto Politécnico de Macau, Prof. Lei Heong Iok. Jornadas bem sucedidas, elas merecem continuidade.10 de Outubro de 2011
219 J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – VIIIUm pouco por toda a China, e através de embaixadas e centros culturais chineses no exterior, foram levados a efeito actos comemorativos do centenário da revolução republicana e exaltada a figura carismática de Sun Yat-sen, o primeiro Presidente provisório, eleito a 29 de Dezembro de 1911, numa altura em que o novo regime se confrontava com gravíssimos problemas internos e enfrentaria, nos anos subsequentes, verdadeiros cataclismos políticos e disputas de liderança. Foram décadas muito conturbadas, com a situação agravada pelo conflito sino-japonês e pela guerra civil que antecedeu a proclamação da República Popular da China em Outubro de 1949.Por iniciativa do Instituto Internacional de Macau (IIM) foi organizado em Lisboa, em Junho do corrente ano, no Palácio da Independência, um seminário sobre este relevante e oportuno tema, protagonizado pelo Prof. António Vasconcelos de Saldanha, catedrático do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade Técnica de Lisboa, e pelo Prof. Ming K. Chan, da Hoover Institution (Universidade de Stanford). A comunicação apresentada por Vasconcelos de Saldanha, intitulada “Sun Yat-sen e a fundação da República Chinesa vista de Portugal — Uma aproximação política e diplomática” foi agora publicada e apresentada na forma de opúsculo da colecção “Mosaico”, juntamente com outras edições, no seminário “Macau e o Intercâmbio Sino-Luso-Brasileiro”, realizado no dia 6 do corrente, no auditório do IIM.Recorrendo a fontes diplomáticas portuguesas, a partir de documentos existentes nos arquivos do Ministério dos Negócios Estrangeiros e também de testemunhos coevos vários, tornou-se possível, com este trabalho, compreender a posição de Portugal, partilhando apreensões e dúvidas comuns às de outras potências ocidentais, face aos avanços e recuos do processo revolucionário chinês, mas manifestando igualmente A revolução republicana chinesa vista de Portugal“... a 10 de Outubro, (os revolucionários) desencadearam, apoiados por elementos da guarnição local, uma rebelião em Wuchang, sede do vice-reino da China central e importante praça forte dos Manchús na margem sul do Yangtze.”
220F A L A R D E N Ó S – VIIIJ O R g E A . H . R A N g E L regozijo com a mudança de regime, um ano após a implantação da nova ordem política no país. Quem quiser estudar este período da história moderna da China e perceber o papel de Macau neste contexto, não poderá deixar de consultar os documentos (telegramas, ofícios e relatos) citados e acompanhar a análise arguta do autor, sendo apropriado transcrever algumas passagens para suscitar nos interessados a vontade de ler o trabalho integralmente:“O estado de desagregação e insatisfação generalizada não só permitiu que a maioria das guarnições imperiais do centro e do Sul se unissem aos revoltosos de Wuchang, mas que inclusivamente, em 20 de Outubro, fosse constituído um governo republicano provisório. Xangai iria também aderir, mercê de uma revolta popular que neutralizou as tropas e a administração imperial. Seguiu-se Hunan, através da quase pacífica acção dos notáveis da Assembleia provincial, e depois Cantão, onde, também por acção da Assembleia local, foi colocado à frente de um governo provisório Hu Hanmin, um velho companheiro de Sun Yat-sen. E assim, se em finais de Outubro de 1911, para terror e espanto do Governo Imperial, dois terços da China já apoiavam abertamente a República, a queda de Nanquim em 2 de Dezembro consolidou definitivamente o poder revolucionário.”Vários ofícios do Cônsul de Portugal em Cantão, Carlos d´Assumpção, canalizaram informação essencial para o correcto acompanhamento da situação. Ao longo do seu trabalho, Vasconcelos de Saldanha refere as partes mais elucidativas desses ofícios:“Não é demais sublinhar o importante papel catalizador da actividade revolucionária cantonense em todo o processo que conduziu à fundação da República.
221 J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – VIIITinha sido em Cantão que, enquanto Sun Yat-sen partia para o Ocidente em busca de apoios, o Tongmenghui se reorganizara e continuara a promover uma série de acções subversivas. De facto, a metrópole do Sul, era por excelência um centro de oposição aos Manchús, onde qualquer actividade subversiva levada nesse sentido poderia contar com o apoio das sociedades secretas legitimistas e com o sustento de vastas camadas tanto de uma burguesia como de uma ‘intelligentsia‘, revigoradas numa cidade aberta havia cem anos ao contacto com os estrangeiros, economicamente próspera e intelectualmente avançada. À frente das operações e na ausência de Sun Yat-sen, encontrava-se Hu Hanmin, um revolucionário cantonense da 1.ª linha, que, nas palavras do Cônsul de Portugal em Cantão, ‘mais de uma vez deu provas do seu heroísmo e acrisolado patriotismo e que tomou parte em dois assaltos temidos e arriscados: um contra o palácio imperial de Pequim, e outro contra o palácio da vice-realeza de Cantão. O partido político do qual ele é chefe compõe-se de filhos de famílias ricas que cursaram os seus estudos no estrangeiro e que são, como o seu chefe, destemidos e decididos a jogar a vida para levarem avante o seu ideal...‘.”As apreensões ocidentais eram visíveis no comportamento das chancelarias:“Apesar das garantias prontamente dadas aos diplomatas estrangeiros que a ordem pública não sofreria alterações, era-lhes difícil abstrair de todos os rumores que anunciavam a rebelião final para dali a poucos dias. Por uma questão de prudência, logo no dia 26 fundeavam no porto de Cantão oito canhoneiras estrangeiras, sendo 2 inglesas, 2 francesas, 2 americanas e 2 japonesas; a 27, a pedido do Cônsul de Portugal e com a concordância do Governador de Macau, arrancava também do território rumo a Cantão a lancha-canhoneira Macau, uma presença que se pretendia servisse, explicava
222F A L A R D E N Ó S – VIIIJ O R g E A . H . R A N g E L Carlos d‘Assumpção, ‘para incutir no ânimo dos Chins a impressão de que Portugal tem também interesses a defender e proteger na China‘.Num ambiente da maior tensão, os boatos redobravam de intensidade. Esses boatos — explicará depois o Cônsul — propalados pelos revolucionários, com o fim de ‘incutir na massa popular o espírito da independência, eram a dado passo destruídos pela ameaça das forças tártaras, que a nada cediam e que deixavam bem a descoberto o seu inveterado ódio contra os Chineses, os quais, por seu turno, queriam à viva força sacudir o jugo tártaro, de maneira que tudo fazia prever que entre as tropas fiéis ao Império e as que se uniram aos revolucionários abririam pelejas em que aquelas levariam a vantagem por estarem bem preparadas e na posse das fábricas de pólvora e do depósito de munições, ao passo que as últimas nem de armas nem de munições dispunham por terem sido bem cedo desprovidas do que lhes era preciso para a luta‘.Contudo, as sucessivas derrotas sofridas pelas tropas imperiais no vale do Yangtze, a paralisação das transacções comerciais ocasionada pelo êxodo de Cantão para Macau e Hong Kong, e a acção devastadora dos bandos de malfeitores no delta do Rio do Oeste, tanto eram factores de encorajamento para o redobro dos esforços dos revolucionários, como de erosão da ‘tenacidade das tropas imperiais, nas quais, insensivelmente, se criava e aumentava o desânimo‘.”Depois desta fase inicial muito confusa e instável, Sun Yat-sen seria eleito Presidente provisório da nova República, mas ficaria no poder por um período assaz curto, dado o protagonismo imediatamente assumido por Yuan Shikai, um dos nomes
223 J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – VIIImais eminentes da política chinesa, tido por muitos como mais consensual, não obstante a sua desmedida ambição. Yuan seria eleito Presidente no dia 14 de Fevereiro de 1912, um dia após Sun ter resignado ao cargo e dois dias depois de assinado o edito imperial anunciando a abdicação formal do Imperador. O Encarregado de Negócios de Portugal escreveria então que “a Imperatriz viúva, que em nome do Imperador menor assina o Edito, reconhece que a maioria da Nação se inclinava para a forma do Governo Republicano e que, por consequência, não podendo opor à vontade de milhões de pessoas a glória de uma família, cede em favor do Povo a sua Soberania e opta pela forma republicana do Governo Constitucional. A Imperatriz afirma que satisfazendo desta forma os desejos da Nação, que, cansada de anarquia, está ansiosa de ver restabelecida a paz, segue os passos dos Sábios da Antiguidade que consideraram o Trono como um depositário sagrado da Nação. Pelo mesmo Edito Yuan Shikai é investido de plenos poderes para organizar o Governo Provisório da República, mas nem uma palavra faz referência ou reconhece a existência do Governo Revolucionário que existe em Nanquim e do qual é Presidente Sun Yat Sen. O Edito diz unicamente que Yuan Shikai se entenda com o exército republicano. É evidente que foi o exército republicano quem fez a revolução e representa a força; mas é necessário não esquecer que no Sul existe um poder civil organizado, do qual depende todo o funcionamento da nova máquina republicana e que não quer ser ignorado. Com efeito, um telegrama de ontem de Nanquim dizia que tinha causado ali péssimo efeito que o Edito ignore completamente o Governo de Nanquim e que se receava que as negociações para a formação do Governo Provisório fossem interrompidas...”.Já se prenunciavam os tempos agitadíssimos que se seguiriam, sendo Sun Yat-sen reconhecido, hoje, como o “pai da China moderna” e a figura mais respeitada da
224F A L A R D E N Ó S – VIIIJ O R g E A . H . R A N g E L história da República, apesar das interpretações diversas sobre os propósitos por ele propugnados.17 de Outubro de 2011
225 J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – VIIIIndependentemente das relações bilaterais, que têm conhecido um notável desenvolvimento, entre o Brasil e a República Popular da China, dois dos países com maior crescimento económico na última década, é reconhecido o papel relevante do Fórum para a Cooperação Económica e Comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa, que tem sede em Macau, como plataforma de aproximação e relacionamento. Esta posição foi clara e expressivamente manifestada pela Embaixadora Maria Edileuza Fontenele Reis, Subsecretária-Geral do Ministério das Relações Exteriores do Brasil, num seminário organizado conjuntamente pelo Instituto Internacional de Macau (IIM) e pela Confederação Brasileira do Comércio, no Rio de Janeiro, em Novembro de 2010. A sua comunicação, na versão integral, foi agora publicada e apresentada na primeira parte da 3.ª série do seminário “Macau e o Intercâmbio Sino-Luso-Brasileiro”, que teve lugar no auditório do IIM, no dia 6 do corrente mês.Vale a pena fazer uma ampla divulgação dessa posição oficial, até porque alguns observadores e analistas referiram, no início da actividade do Fórum, que o empenhamento do Brasil no seu funcionamento seria limitado, dado que seriam sempre prioritários os contactos directos, pelas vias diplomática, comercial e empresarial:O Fórum de Macau“O Fórum de Macau foi criado com o objetivo de promover o comércio e os investimentos entre a China e os países da Comunidade dos Povos de Língua Portuguesa (CPLP), com a exceção de São Tomé e Príncipe, que não mantém relações diplomáticas com a República Popular da China. O Brasil reconhece o Fórum de Macau como um importante mecanismo de cooperação entre os países lusófonos e a China. O elo Importância do Fórum de Macau para o Brasil“Vemos o Fórum como importante plataforma de cooperação entre os países lusófonos e a China, com potencial e perspectivas significativas não apenas na área económico-comercial, mas também na cooperação para o desenvolvimento.”
226F A L A R D E N Ó S – VIIIJ O R g E A . H . R A N g E L histórico entre o Brasil e os países de língua portuguesa é amplamente conhecido, e está refletido na constituição da CPLP. Mas nossa história comum também nos vincula fortemente à China, por meio, por exemplo, do comércio e de movimentos migratórios, e por influências culturais recíprocas. Vemos o Fórum como importante plataforma de cooperação entre os países lusófonos e a China, com potencial e perspectivas significativas não apenas na área econômico-comercial, mas também na cooperação para o desenvolvimento. Essa avaliação positiva decorre das excelentes relações que o Brasil mantém tanto com a China quanto com os Países de Língua Portuguesa, bilateralmente e no âmbito da CPLP. Atribuímos grande importância às relações com os Países de Língua Portuguesa (PLPs) e ao papel de Macau como ponte entre os PLPs e a China. Desde o estabelecimento de relações em 1974, a agenda bilateral entre o Brasil e a China vem intensificando-se de forma expressiva, nos mais variados campos. Estabelecemos com a China em 1993 uma Parceria Estratégica que apresenta frutos muito concretos, nos planos bilateral e multilateral. A China é hoje o principal parceiro comercial do Brasil e vem também ganhando espaço no campo de investimentos diretos. Os dois países mantêm políticas macroeconômicas consistentes, que nos permitiram superar rapidamente os impactos da crise de 2008. Com os países lusófonos, o Brasil mantém relações de grande afinidade e importância. Ao lado de nossos vizinhos sul-americanos, os países de língua portuguesa são a principal prioridade dos programas brasileiros de cooperação técnica. Juntamente com Portugal, temos contribuído de forma determinada para a consolidação da lusofonia nos países africanos de expressão comum. O Brasil abriu,
227 J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – VIIInos últimos anos, 18 novas Embaixadas na África, o que eleva seu total para 34, neste momento - fora duas em processo de instalação. Muito em breve, teremos 36 Embaixadas residentes no continente africano. A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) instalou escritório em Gana. Pela via bilateral e por meio da CPLP, o Brasil tem participado muito estreitamente da obra de construção nacional e fortalecimento institucional dos países lusófonos africanos e de Timor-Leste.O Brasil acumulou importante experiência em projetos trilaterais de cooperação na África, tal como o que empreendemos com o Japão, na região de savana de Moçambique. Há também novas iniciativas trilaterais na África, em estágio adiantado de consideração, no setor de energias renováveis.”3.ª Conferência MinisterialA Embaixadora, na sua intervenção, fez também uma súmula dos resultados da 3.ª Conferência Ministerial do Fórum de Macau:“O Fórum de Macau tem favorecido de forma significativa o estreitamento das relações políticas entre a China e os PLPs. De acordo com dados do Secretariado Permanente do Fórum de Macau, em 2010 contabilizaram-se mais de 170 visitas oficiais de alto nível entre a China e os Países de Língua Portuguesa, representando um aumento de 54.5%. Destacam-se, entre estas visitas oficiais, 25 visitas e encontros bilaterais ou multilaterais em nível de Chefes de Estado, representando um aumento de 56.3%, fazendo de 2010 o ano em que se registrou a maior frequência de visitas de alto nível desde a criação do Fórum de Macau.
228F A L A R D E N Ó S – VIIIJ O R g E A . H . R A N g E L As Conferências Ministeriais constituem o principal foro de coordenação política das atividades do Fórum de Macau. A 3ª Conferência Ministerial do Fórum de Macau teve lugar em Macau nos dias 13 e 14 de Novembro de 2010. A Conferência reuniu mais de 1500 pessoas, entre delegados governamentais, empresários e representantes de instituições financeiras. O tema principal da 3ª Conferência Ministerial, “Cooperação Diversificada e Desenvolvimento Harmonioso”, bem ilustrou a expansão do escopo de cooperação desse mecanismo. De fato, temos notado, desde a criação do Fórum, certa tendência à ampliação de seu escopo original, de modo a incluir atividades de ajuda ao desenvolvimento. As economias menores, em particular, poderão auferir mais benefícios de um Fórum cujas ações venham a abranger o maior número possível de áreas de cooperação em prol do desenvolvimento, sem limitá-las à esfera dos negócios. Os principais resultados da Conferência foram o anúncio, pelo Primeiro Ministro da China, da criação do Fundo de Desenvolvimento do Fórum de Macau, no valor de US$ 1 bilhão de dólares, e a aprovação do Plano de Ação 2010-2013, o documento que norteia as atividades do Fórum nos próximos três anos. O Plano de Ação delineia o âmbito, os objetivos, o conteúdo e as formas de cooperação econômica e comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa. O Plano de Ação constitui, assim, o documento de referência e de orientação da futura cooperação econômica e comercial entre a China e os PLPs.O Fundo de Desenvolvimento deverá imprimir às atividades do Fórum o impacto requerido para que a organização se firme como um mecanismo concreto de
229 J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – VIIIcooperação entre a China e os PLPs. Sem prejuízo dos meritórios objetivos de natureza econômico-comercial que inspiraram a criação do Fórum, o Governo brasileiro vê com interesse a inclusão de novas áreas de cooperação, como educação e saúde. Nesse contexto, o Plano de Ação incentiva a ampliação do intercâmbio em outros setores e, por iniciativa brasileira, ressalta a importância de promovermos o ensino do português e do mandarim nos países membros, entre outras metas. No caso brasileiro, essa intensificação dos trabalhos do Fórum ocorre ao mesmo tempo em que nossas relações com a China se adensam, como demonstra a adoção no ano passado, pelos Presidentes do Brasil e da China, do Plano de Ação Conjunta 2010-2014, que fornece orientações abrangentes para o desenvolvimento da Parceria Estratégica bilateral. O Brasil considera significativa a ampliação dos objetivos do Fórum de Macau, e continuará prestando sua contribuição, com espírito construtivo, à materialização desses objetivos, com vistas a conferir ao Fórum papel cada vez mais relevante na cooperação entre os Países de Língua Portuguesa e a República Popular da China.”Esta afirmação de confiança no futuro do Fórum deve constituir motivo de regozijo para quantos intervêm na realização dos seus objectivos e na busca de novos desafios.A Embaixadora concluiu a sua comunicação assegurando que “o Brasil reconhece a importância do comprometimento da China com o Fórum de Macau, bem como os avanços alcançados na cooperação bilateral chinesa com os Países de Língua Portuguesa” e que “a expansão da economia chinesa consistiu, ainda, em importante apoio no combate à crise financeira internacional, também para os Países de Língua Portuguesa, por meio de um crescente volume de trocas comerciais e de investimentos”.
230F A L A R D E N Ó S – VIIIJ O R g E A . H . R A N g E L E recordou que o Brasil lançou, em conformidade com as Metas do Milénio definidas pela ONU, as iniciativas da Acção Global contra a Fome e a Pobreza. “O Brasil entende o desenvolvimento como um direito humano fundamental, assim como a paz, a saúde, a educação”. O Fórum de Macau, bem como outras iniciativas de aproximação entre os povos, não podem perder de vista este objectivo primordial.24 de Outubro de 2011
231 J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – VIIIAtravés da comunicação da Embaixadora Maria Edileuza Fontenele Reis, Subsecretária-Geral do Ministério das Relações Exteriores do Brasil, proferida num seminário organizado pelo Instituto Internacional de Macau (IIM), pudemos verificar, no artigo anterior, a posição oficial brasileira sobre o papel do Fórum para a Cooperação Económica e Comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa, sendo de realçar a opinião positiva do governo brasileiro sobre a utilidade desse organismo promotor da cooperação, cujo secretariado permanente está instalado em Macau. Na mesma comunicação, agora publicada pelo IIM, essa responsável do Itamaraty teceu também oportunas considerações sobre o incremento do comércio e sobre o valor da lusofonia:Comércio e investimentos“O avanço do intercâmbio comercial entre os países do Fórum de Macau é um claro e importante indício dos benefícios do Fórum. As trocas comerciais entre os integrantes do Fórum de Macau vêm-se ampliando sem cessar. Em 2010, o volume das trocas comerciais situou-se em 91,423 bilhões de dólares americanos, correspondendo a um aumento de 46%, quando comparado com o período homólogo de 2009. As importações da China provenientes dos Países de Língua Portuguesa atingiram 61,858 bilhões de dólares americanos, registrando um aumento de 42%; as exportações da China para os Países de Língua Portuguesa foram de 29,565 bilhões de dólares americanos, um aumento de 57%. Apesar dos efeitos da crise financeira internacional e considerando ainda o contexto de retomada lenta da economia mundial, o volume de trocas comerciais entre a China Brasil, Macau, Lusofonia e Cooperação“O Brasil reconhece a importância do comprometimento da China com o Fórum de Macau, bem como os avanços alcançados na cooperação bilateral chinesa com os Países de Língua Portuguesa”.Embaixadora Maria Edileuza Fontenele Reis
232F A L A R D E N Ó S – VIIIJ O R g E A . H . R A N g E L e os Países de Língua Portuguesa registrou um aumento rápido, mostrando que os seus produtos têm vantagens próprias e são de natureza complementar.Analisando os dados por países, verificamos que o comércio bilateral Brasil-China representou 68 por cento (US$62,5 bilhões) do total registrado em 2010. Angola posiciona-se em segundo lugar, representando aproximadamente 27 por cento; Portugal posicionou-se em terceiro lugar, representando aproximadamente 3.5 por cento, no mesmo período. Note-se, também, que existe grande potencial de investimentos entre a China e os Países de Língua Portuguesa.Até o momento, os PLPs instalaram na China mais de 700 empresas, em um investimento calculado em mais de 500 milhões de dólares americanos. Por outro lado, o volume dos investimentos da China nesses países excedeu US$ 1 bilhão. Esses investimentos incidem majoritariamente nas áreas de infra-estruturas, telecomunicações, energia, agricultura e exploração dos recursos naturais, e são realizados principalmente através de médias e grandes empresas. Os resultados foram igualmente visíveis na cooperação em termos financeiros. A sucursal em Macau do Banco da China assinou, respectivamente em 2006 e em 2009, com o Banco de Desenvolvimento de Angola e o Banco Internacional de Moçambique, cartas de intenções sobre as operações de transferências. Em março de 2010, o Banco da China estabeleceu a primeira filial no Brasil.Com o desenvolvimento contínuo da cooperação econômica e comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa, a divulgação das atividades do Fórum de Macau também se ampliou, captando cada vez mais a atenção dos governos, associações comerciais e empresas dos países participantes. Para incrementar a atuação do Fórum
233 J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – VIIIde Macau nos países participantes, o Secretariado Permanente procura estimular ativamente novas iniciativas.Em 2010, o Secretariado Permanente assinou um acordo de cooperação com o Centro de Comércio com o Exterior da China e o Instituto Internacional de Estudos dos Funcionários Comerciais do MOFCOM da China, com o objetivo de aumentar o intercâmbio e a troca de informações e intensificar a cooperação para a promoção comercial e a formação dos recursos humanos. Até o final de 2010, o Secretariado Permanente tinha assinado 4 outros protocolos de cooperação. Através do Grupo de Trabalho de Investimentos, o Secretariado Permanente fomenta a cooperação entre as agências para a promoção dos investimentos dos países participantes. No intuito de melhorar o conhecimento das empresas chinesas sobre o ambiente de investimentos dos Países de Língua Portuguesa, o Secretariado Permanente iniciou estudos com vistas à criação de base de dados de projetos e prepara, em cooperação com a Agência para a Promoção do Investimento do Ministério do Comércio da República Popular da China, a publicação do guia de investimentos de vários Países de Língua Portuguesa. O guia irá apresentar indústrias de potencial vantagem dos Países de Língua Portuguesa, os ambientes de investimento e novas oportunidades, promovendo o conhecimento dos PLPs entre empresas chinesas”. O valor da lusofoniaReconhecendo o valor da lusofonia como instrumento de integração, afirmação e cooperação, fortalecido como factor de unidade e de identidade, a Embaixadora
234F A L A R D E N Ó S – VIIIJ O R g E A . H . R A N g E L aproveitou a ocasião para sublinhar nestes termos a importância da Língua Portu-guesa:“A Língua Portuguesa forneceu a base cultural para a criação do Fórum de Macau. Ela é o principal instrumento de integração entre nossos países e, como tal, deve receber especial atenção. O Brasil defende o uso da lusofonia como instrumento essencial para o aprofundamento da cooperação entre os países do Fórum de Macau.A criação de mecanismos específicos para a promoção do ensino da Língua Portuguesa é um exemplo de como as “Novas Áreas de Cooperação” podem contribuir diretamente para a integração e o desenvolvimento harmonioso. Uma das principais propostas do Governo brasileiro na III Conferência Ministerial foi a de estimular universidades e institutos superiores a fomentarem o ensino da Língua Portuguesa, fortalecendo esta rede que abrange quatro continentes e mais de 240 milhões de pessoas. Essa vertente da cooperação também contempla a difusão do ensino do mandarim nos PLPs, de acordo com seus respectivos interesses. Mais do que a integração entre países, isso significa consolidar a integração entre os povos.”Cooperação TécnicaAvaliando os resultados e as potencialidades do Fórum, foi possível avançar com algumas importantes conclusões:
235 J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – VIII“O Fórum de Macau tende a consolidar-se como instrumento de transformação do sistema internacional, fortalecendo o modelo Sul-Sul de desenvolvimento e cooperação. O Fórum propiciou extraordinária ampliação do escopo da cooperação envolvendo os PLPs e a China, abrangendo o setor financeiro, o turismo, logística, saúde, tecnologia, recursos humanos, teledifusão e cultura, entre outros domínios.Os Países de Língua Portuguesa são o destino de mais de 70% da cooperação prestada pelo Brasil. Isso demonstra, na prática, sua prioridade para a política externa brasileira. A África, e em especial os países africanos de língua portuguesa, ocupam um lugar muito especial na diplomacia e na cooperação brasileira. Implantámos um escritório de pesquisas agrícolas em Gana; uma fábrica de medicamentos anti-retrovirais em Moçambique; e centros de formação profissional em diversos países africanos. Com comércio e investimentos, estaremos ajudando o continente africano a desenvolver sua enorme potencialidade. Com Timor-Leste, o Brasil mantém um de seus mais amplos programas de cooperação, abrangendo em especial as áreas de educação, formação profissional, agricultura, justiça e segurança. Além de 50 professores de português, o Brasil mantém nesse país um centro de formação de mão-de-obra básica para mais de 300 alunos, em áreas como panificação, construção civil, serviços elétricos e hidráulicos, entre outros.A cooperação que o Brasil promove e defende, num verdadeiro espírito Sul-Sul, privilegia a transferência de conhecimentos, a capacitação, o emprego da mão-de-
236F A L A R D E N Ó S – VIIIJ O R g E A . H . R A N g E L obra local e a concepção de projetos voltados para a realidade específica de cada país. A solidariedade que anima o relacionamento do Brasil com outros países em desenvolvimento é pilar fundamental de nossas ações de cooperação com os Países de Língua Portuguesa.”Como se vê, o Brasil tem uma agenda clara e propósitos seguros neste domínio, como potência emergente de crescente relevância no contexto internacional e no âmbito do mundo lusófono.31 de Outubro de 2011
237 J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – VIIINos dois últimos artigos, com base numa comunicação da Embaixadora Maria Edileuza Fontenele Reis, subsecretária-geral para assuntos políticos do Ministério das Relações Exteriores da República Federativa do Brasil, apresentada num seminário con-juntamente organizado no Rio de Janeiro pelo Instituto Internacional de Macau, pelo Instituto Brasileiro de Estudos da China e Ásia-Pacífico e pela Confederação Brasileira do Comércio, procurámos pôr em evidência a posição oficial muito positiva do maior país lusófono sobre o papel e o desenvolvimento do Fórum para a Cooperação Eco-nómica e Comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa, cujo secretariado permanente foi em boa hora instalado em Macau.Consolidado o seu funcionamento, vale a pena, um ano volvido, reapreciar o discurso do Primeiro-Ministro Wen Jiabao na cerimónia de abertura da 3.ª Conferência Ministerial do Fórum, pronunciado no dia 13 de Novembro de 2010. É um documento verdadeiramente lapidar, por conter directivas muito claras e por expressar expectativas quanto ao cumprimento da missão do Fórum e ao papel de Macau como plataforma privilegiada de cooperação. Foi também nessa importante reunião que os representantes dos oito governos aprovaram o plano de acção do Fórum para o período de 2010 a 2013, ao mesmo tempo que expressaram o seu apreço e reconhecimento pelo desempenho de Macau no “fortalecimento dos laços económicos e comerciais entre a China e os Países de Língua Portuguesa, bem como pela intensificação do seu papel como ponte de ligação entre os países participantes do Fórum de Macau”, e reiteraram “o desejo de que esse papel de Macau se mantenha e seja cada vez mais reforçado”.Um balanço construtivoA primeira parte do discurso de Wen Jiabao, que teve por título “Promover o A missão do Fórum de Macau num discurso lapidar“Os progressos alcançados demonstram que o Fórum, além de ser a ponte da cooperação, é ainda a ponte da amizade”. Primeiro-Ministro Wen Jiabao, Novembro de 2010
238F A L A R D E N Ó S – VIIIJ O R g E A . H . R A N g E L desenvolvimento comum através da cooperação diversificada”, contém um balanço da acção realizada desde a criação do Fórum, em 2003, o qual pode ser resumido nestes sete parágrafos:“O Fórum para a Cooperação Económica Comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa tem servido como uma plataforma e um elo de grande importância que visa desenvolver a cooperação amistosa e mutuamente benéfica entre a China e os países lusófonos. Com o pleno aproveitamento da vantagem única em ligar a China e os países lusófonos, o Fórum tem impulsionado o nosso intercâmbio e cooperação, focalizando sobretudo na economia e comércio”.Em 2003, quando o Fórum foi fundado, o fluxo comercial entre as duas partes registava apenas pouco mais de 10 biliões de USD. Em 2008 o volume subiu para 77 biliões de USD, ultrapassando o objectivo de 50 biliões de USD com um ano de antecedência. Nos primeiros três trimestres do ano corrente, o comércio entre a China e os países lusófonos chegou a 68.2 biliões de USD, registando um acréscimo homólogo de 57%”. (...) “A partir da fundação do Fórum, o investimento entre a China e os Países de Língua Portuguesa tem-se expandido rapidamente. Até aos finais de 2009, os países lusófonos instalaram mais de 700 empresas na China, investindo acima de 500 milhões de USD. Por outro lado, o investimento da China nestes países também não pára de aumentar, e o volume acumulado excedeu 1 bilião de USD” . (...)“A assistência da China a alguns países lusófonos em vias de desenvolvimento tem beneficiado as populações locais. A partir da fundação do Fórum, a China forneceu
239 J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – VIIIassistência no valor de 3,56 biliões de RMB a Angola, Cabo Verde, Moçambique e Timor Leste, e cancelou débitos no valor de 230 milhões de RMB, além da aprovação de uma linha de crédito governamental sem juros. Um conjunto de projectos marcantes que a China realizou, tais como a Barragem de Poilão em Cabo Verde, o Estádio Nacional em Moçambique, o Hospital de Amizade na Guiné-Bissau e o Edifício dos Gabinetes Governamentais em Timor Leste, vieram a ser símbolos da amizade entre a China e os Países de Língua Portuguesa e produziram retornos vantajosos económicos e sociais”.“A cooperação entre as duas partes tem-se extendido gradualmente da economia e comércio à educação, à cultura e a outras áreas. A nossa cooperação no desenvolvimento dos recursos humanos, em particular, tem sido reforçada. A China organizou mais de 200 cursos e seminários de todos os tipos, formando mais de 2.100 oficiais e técnicos para os Países de Língua Portuguesa, entre os quais 1.400 foram treinados nos últimos três anos, cumprindo os objectivos acertados na 2.ª Conferência Ministerial do Fórum”. “O que merece ser salientado é que, graças ao Fórum, o intercâmbio económico e comercial entre Macau e os países lusófonos tem sido reforçado também. Macau já assinou memorandos de cooperação na área financeira com a maioria dos países lusófonos. Empresas de Macau estão activas em todos os países lusófonos e mercadorias de Macau têm entrado em mercados da UE, América do Sul e África, através destes países. Algumas empresas dos países lusófonos instalaram fábricas em Macau, onde processam café importado do Brasil e Timor Leste e depois exportam os produtos finalizados para o Interior da China sob a égide da política preferencial (CEPA), conseguindo assim retornos satisfatórios. O governo da RAEM apoia plenamente o desenvolvimento do
240F A L A R D E N Ó S – VIIIJ O R g E A . H . R A N g E L Fórum, nomeadamente na organização de todos os tipos de actividades económicas e comerciais. Ele tem tomado medidas activas no sentido de treinar profissionais nas áreas da gestão financeira e do turismo, e aumentado continuamente as bolsas de estudo para os países lusófonos. Essas medidas foram muito bem acolhidas por esses países”. “Os processos alcançados demonstram que o Fórum, além de ser a ponte da cooperação, é ainda a ponte da amizade. Ele tem produzido não apenas benefícios económicos reais para todas as partes, como também aproximado ainda mais a China e os Países de Língua Portuguesa, aprofundando a amizade entre os povos e estreitando os laços amigáveis entre estes países”.Orientações e expectativasFeito o balanço, o Primeiro-Ministro da RPC, depois de afirmar que “as economias da China e dos países lusófonos são altamente complementares”, pelo que “devemos trabalhar de mãos dadas para enfrentar vários desafios da era pós-crise financeira e impulsionar a nova cooperação económica para uma dimensão mais vasta, para áreas ainda mais alargadas e para um patamar ainda mais elevado”, traçou orientações e expressou expectativas que podemos resumir da seguinte forma:1. Aumentar o comércio bilateral. “Devemos abrir ainda mais os nossos mercados entre nós, reduzir barreiras comerciais, reforçar a coordenação política, conjugar esforços na oposição ao proteccionismo comercial e trabalhar mais para aumentar o nosso fluxo comercial para 100 biliões de USD em 2013” .
241 J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – VIII2. Promover o investimento. “Devemos melhorar as leis e os regulamentos respeitantes ao investimento mútuo, remover barreiras no investimento, facilitar negociações sobre tratados bilaterais de protecção do investimento e acordos para evitar a dupla tributação, e multiplicar as actividades promocionais do investimento, de maneira que o investimento entre as partes consiga alcançar uma subida substancial com a maior brevidade”. Neste âmbito, apontou os investimentos nas áreas de infra-estruturas, telecomunicações, energia, agricultura e recursos humanos, além de encorajar as empresas de pequena e média dimensão a cooperarem ainda mais.3. Explorar activamente novas áreas de cooperação. “A cooperação entre a China e os países lusófonos não deve ser limitada a áreas tradicionais como a economia e o comércio, recursos humanos e infra-estruturas. Ela tem que ser expandida para novas áreas”. Essas novas áreas incluem o turismo, os transportes, as redes logísticas, a banca e outros serviços financeiros, a educação, a cultura, a saúde, o desporto e outros “programas com o fim de aprofundar o entendimento mútuo e a amizade entre os povos”.4. Macau deve desempenhar plenamente o papel de plataforma de cooperação. “Macau tem a vantagem única como ponto de encontro das culturas oriental e ocidental. Dispõe de infra-estruturas perfeitas, um sistema sofisticado de serviços financeiros, um ambiente livre e aberto para os negócios e uma reserva de profissionais bilingues Chinês-Português. Macau está a tornar-se uma plataforma importante para a cooperação económica e comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa”. (...) “O Governo da RAEM
242F A L A R D E N Ó S – VIIIJ O R g E A . H . R A N g E L deve continuar a desempenhar plenamente esse papel a fornecer serviços de qualidade para a implementação dos objectivos do Fórum como ponte para negócios e intercâmbios e cooperação amistosa entre a China e os Países de Língua Portuguesa”.O Plano de Acção para a Cooperação Económica e Comercial para 2010-2013, aprovado na 3.ª Conferência Ministerial, contém ambiciosos programas de cooperação em áreas diversificadas e reconhece o papel relevante atribuído à RAEM. Oxalá as entidades públicas a quem foram cometidas essas responsabilidades possam alcançar plenamente os objectivos propostos e saibam envolver empresas, associações e outras organizações da sociedade civil neste desiderato. O Fórum deu à RAEM uma nova dimensão no seu relacionamento com o exterior e assegurou-lhe uma projecção muito maior do que a sua limitada geografia.7 de Novembro de 2011
243 J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – VIIIA RAEM esteve condignamente representada no IX Congresso do Conselho Europeu de Confrarias Enogastronómicas (CEUCO), através da Confraria da Gastronomia Macaense, que nele inscreveu uma delegação de vinte participantes, entre os quais alguns dos seus confrades de mérito, incluindo o General Vasco Rocha Vieira, último Governador de Macau, que acompanhou integralmente os trabalhos e as outras actividades inseridas no programa, levado a efeito de 4 a 6 do corrente numa unidade hoteleira de luxo, em Albufeira, Algarve.O CongressoO Jornal Tribuna de Macau consagrou já amplos espaços a este evento, mas não quero deixar de lhe dedicar esta crónica integrada na série intitulada “Falar de Nós — Macau e a Comunidade Macaense”, para destacar o significado deste encontro e a presença, muito bem acolhida, de Macau, sendo de realçar que o presidente da nossa confraria, Luís Augusto Pimenta de Castro Machado, assumiu uma das nove vice-presidências do CEUCO, organismo criado em 2005 para promover e defender os produtos agro-alimentares e a gastronomia de qualidade da Europa, bem como as tradições, os valores culturais e as potencialidades turísticas regionais.“A rota das especiarias — a importância na gastronomia tradicional europeia — vinhos da Europa” foi o tema geral deste congresso que reuniu cerca de 600 membros e convidados de confrarias de nove países. A Confraria da Gastronomia Macaense, que tinha o estatuto de observador, passou a membro de pleno direito em 2010, em reconhecimento do seu activo e assíduo envolvimento, alargando o âmbito inicial do CEUCO, cujos responsáveis compreenderam bem a nova dimensão que a presença de Macau lhe permitiu assegurar.Congresso do CEUCO e outras jornadas gastronómicas“... os portugueses foram os primeiros a atravessar o Atlântico e a estabelecer a rota das especiarias, dando início a um processo de interacção inesgotável entre continentes”.José Manuel Alves, presidente da comissão organizadora do Congresso do CEUCO.
244F A L A R D E N Ó S – VIIIJ O R g E A . H . R A N g E L Além das sessões de trabalho, efectuaram-se visitas, jornadas de convívio, jantares e almoços, sempre bem servidos, mostras e degustação de produtos, provas de vinhos, exibições de ranchos folclóricos, missa na Igreja Matriz de Albufeira, com benção das confrarias, recepção na sede do município e o tradicional desfile dos confrades pelo centro da cidade, proporcionando a residentes e a turistas uma rara oportunidade para apreciar a exuberância e o colorido dos trajes. Em suma, foi um programa bem preenchido e do agrado da generalidade dos participantes.A representação de Macau esteve sempre bem visível em todas as actividades realizadas e foi objecto da atenção de órgãos de comunicação social e das entidades oficiais, merecendo referência, neste contexto, os gestos de simpatia do presidente do CEUCO, Carlos Martin Cosme, e do presidente da comissão organizadora do congresso, José Manuel Alves, sempre disponíveis para atender as nossas solicitações.Os responsáveis municipais e da Região de Turismo do Algarve aproveitaram a oportunidade para promoverem aquele que é um dos mais procurados e conhecidos destinos turísticos da Europa. Mostraram DVDs e locais de interesse, explicaram as estratégias promocionais e, mais do que tudo, foi a forma como souberam receber que ficará gravada na memória de todos. Na sua intervenção, na sessão de abertura, o presidente do Turimo do Algarve, António Ventura Pina, lembrou que um destino turístico pode afirmar-se de diversas formas: “pela beleza das suas paisagens, pela qualidade das suas infra-estruturas turísticas, pela diversidade da sua oferta, pela sua história e pela sua cultura”, sendo estes últimos “elementos diferenciadores únicos, que nos distinguem dos demais destinos turísticos do mundo”. “Na cultura destaca-se o património, não só o edificado, mas também aquele que é imaterial e que faz parte da
245 J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – VIIIcultura de um povo, como é a gastronomia que encerra em si o passado, o presente e o futuro”. Ora, o Algarve tem tudo isso e ainda um sol maravilhoso, um clima invejável, praias lindíssimas e uma diversidade impressionante de atractivos turísticos.Durante o congresso foram atribuídos os Prémios Aurum 2011, que distinguem a excelência gastronómica, tendo sido contempladas 18 personalidades e entidades, entre as quais 5 de Portugal (o Restaurante “O Fernando”, em Altura, Algarve) os ovos moles de Aveiro, o presunto de Barrancos DOP, Francisco Pinto Balsemão e o presidente da Câmara Municipal de Albufeira, Desidério Silva. Ao presidente do Turismo do Algarve e ao presidente da Comissão Organizadora deste IX Congresso foi concedido o “European Distinction Award”. Foram também designados os novos Embaixadores do CEUCO para 2011, ao mesmo tempo que foi escolhido o local do X Congresso, em 2012, a cidade de Tartu, na Estónia, velha cidade universitária e património mundial da UNESCO.Logo após o Congresso, a delegação macaense visitou Fátima, correspondendo ao desejo dos confrades e confreiras de Macau, e almoçou em Almeirim, onde conviveu com membros da Confraria de Almeirim. Além desta, as confrarias gastronómicas portuguesas que fazem parte do CEUCO são as da Broa de Avintes, do Ribatejo, da Pedra, do Azeite, do Queijo de S. Jorge, do Vinho de Carcavelos, dos Enófilos do Alentejo, do Algarve, do Minho, dos Milhos de Portugal, dos Ovos Moles de Aveiro, dos Saberes e Sabores no Lousal, do Alentejo e da Matança do Porco, tendo várias delas relações especiais de intercâmbio e cooperação com a Confraria Macaense.Numa reunião de convívio que antecedeu a abertura do congresso, a confreira Cíntia Serro apresentou aos colegas de Macau o seu livro de receitas da culinária
246F A L A R D E N Ó S – VIIIJ O R g E A . H . R A N g E L macaense, já em fase de conclusão, o qual será publicado em 2012 pelo Instituto Internacional de Macau, com a colaboração de outras agremiações macaenses. É aguardado com natural expectativa. Cíntia Serro, além de exímia cozinheira, orienta cursos de culinária e é depositária da preciosa colecção de receitas da tia Albertina Borges, macaense nonagenária, residente em Lagos (Algarve).Além do presidente Luís Machado e do General Rocha Vieira, integraram a representação macaense António Faria Fernandes, presidente da Casa de Macau em Portugal, Maria da Graça Pacheco Jorge Barreiros, Maria Luísa Rangel, Telmo da Silva Martins, Maria João Rangel, Maria Isabel Machado Fonseca, Cíntia Conceição do Serro, António do Serro, Margarida Faria Fernandes, Irene Filomena Osório Bastos Voi You, Ivone Maria Osório Bastos Yee, Ângela Teresa Osório Matias, Marina do Rosário Osório Matias Souza, Catarina da Silva Basílio, Maria Gabriela Atraca, Fátima Poupinho e o autor deste artigo.Sabores da Casa de MacauA Casa de Macau de Portugal organizou mais um animado magusto, no sábado passado, para assinalar o Dia de S. Martinho, com caldo verde, febras e castanhas assadas, seguido de palestra por Graça Pacheco Jorge, sobre “O chá na China”. Esta confreira de mérito da Confraria Macaense, residente em Lisboa, ministrou uma acção de formação na Escola de Turismo do Algarve, depois de encerrado o congresso do CEUCO, e vai orientar mais um "workshop" de cozinha macaense na sede da Casa de Macau, a 5 de Dezembro. Além disso, vai cozinhar um “tacho” (cozido macaense) para sócios, familiares e amigos da Casa de Macau no dia 26 do corrente, estando abertas as inscrições.
247 J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – VIIICom saudades dos almoços macaenses confeccionados semanalmente por Nando e Avô, muitos sócios da Casa de Macau têm perguntado quando poderão retomar este útil e apreciado serviço, subitamente interrompido. Entretanto, esta agremiação cultural e recreativa macaense marcou já o seu chá-gordo do Natal para 17 de Dezembro, data em que decorrerão as eleições para os seus órgãos sociais. Haverá ainda outra reunião da Assembleia Geral no dia 24 do corrente, para apreciação e votação do plano de actividades e orçamento para o ano de 2012 e para apreciação da proposta de alteração da sede oficial da Casa de Macau, da Praça do Príncipe Real, 25-1º, para a Av. Almirante Gago Coutinho, 142, em Lisboa, na sequência da aquisição do andar da Praça do Príncipe Real pela Fundação Casa de Macau.14 de Novembro de 2011
248F A L A R D E N Ó S – VIIIJ O R g E A . H . R A N g E L Depois do Congresso do Conselho Europeu de Confrarias Enogastronómicas (CEUCO), levado a efeito no Algarve de 4 a 6 de Novembro, com uma digna, activa e numerosa representação da Confraria da Gastronomia Macaense, a comemoração do Dia de S. Martinho deu-nos o feliz ensejo de prosseguirmos as nossas jornadas gastronómico-culturais por terras lusas. Escolhemos agora o Vale do Sousa e a rota do românico para participarmos nas respectivas festividades tradicionais, dando sequência à nossa constante descoberta de recantos maravilhosos do Portugal profundo, para saborear o melhor dos seus produtos e conhecer a riqueza do legado histórico-cultural de cada região. Foram já centenas os percursos gratificantemente realizados ao longo de mais de quatro décadas, sempre com algo de novo a sugerir, mesmo quando repetidos, porque motivações acrescidas convidam ao retorno. E tantos são ainda os caminhos e os lugares à espera que novas oportunidades nos façam lá chegar, perto ou longe, até aos confins raianos, aos montes e vales, praias e serras, onde abundam atractivos e não faltam estruturas turísticas adequadas, quer no que respeita ao alojamento, quer no que toca à restauração.Castanhas e bom vinhoQuando os sócios da Casa de Macau em Lisboa iniciavam o seu magusto, já me encontrava em pleno Vale do Sousa com os meus companheiros de viagem. Tínhamos saído cedo da capital e almoçado opiparamente em Paços de Ferreira. Visitámos vários monumentos, com destaque para a Igreja de S. Pedro de Ferreira, provavelmente a S. Martinho em rota gastronómico-cultural no Vale do Sousa“ A tua feira é rainha, S. Martinho, da Cidade... Que à luz baça da tardinha Se diz adeus com saudade!”(Vencedora do concurso de quadras populares de S. Martinho, Penafiel, 2011)
249 J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – VIIImais perfeita e equilibrada construção do nosso românico rural, e deleitámo-nos num reconfortante “chá das 5” na Casa de Juste, soberbo solar do século XIV, rodeado de jardins e campos agrícolas, dos quais cinco hectares são de vinha. Foram-nos facultados apenas produtos da quinta, do queijo ao vinho verde, das compotas às bolachas e bolos caseiros, primando tudo pela alta qualidade e fazendo jus à fama granjeada.Essa casa senhorial, com seiscentos anos de tradição, é um local perfeito para uma breve paragem, para degustação de produtos ou para uma visita guiada, podendo ser também ali servida uma refeição completa com base em receitas caseiras. Situada no concelho de Lousada e apetrechada para turismo de habitação, ela oferece igualmente boas condições para a vertente do relaxamento, com uma ou mais noites passadas em ambiente bucólico.A Igreja de S. Pedro de Ferreira remonta aos finais do século XII, sendo o seu grande átrio do século XIII. No exterior do corpo da igreja abrem-se três portais, sendo o principal único, pela sua originalidade, no românico português, salientando-se nele um corpo pentagonal, onde estão esculpidas cinco arquivoltas assentes em colunas e pilastras. No interior, é surpreendente a elevada altura das suas paredes, abrindo-se nelas doze frestas. Na nave, o tecto é de madeira, sendo de pedra na capela-mor. A construção é harmoniosa e o local propício ao recolhimento e à oração, merecendo uma visita. Quando lá estivemos, encontrava-se patente, à entrada, uma exposição de trabalhos em bronze, de diversos artistas, representando faces de Cristo.O jantar festivo foi no moderno Penafiel Park Hotel & Spa, com os seus dois grandes restaurantes lotados e com muita animação. Ali pernoitámos, continuando
250F A L A R D E N Ó S – VIIIJ O R g E A . H . R A N g E L estas jornadas gastronómico-culturais no dia seguinte, na Feira de S. Martinho. Castanhas e bom vinho foram uma presença irrecusável em todos os eventos em que participámos.PenafielDá gosto ver como a cidade e todo o concelho estão bem cuidados. O mesmo podemos dizer de quase todo o Vale do Sousa, que integra também os concelhos de Paredes, Paços de Ferreira (a “capital do móvel”), Castelo de Paiva, Felgueiras e Lousada. Paisagens, monumentos, gastronomia, expressões culturais vivas e uma boa oferta turística tornam a região especialmente convidativa. Seis dos 21 monumentos da rota do românico do Vale do Sousa estão no concelho de Penafiel: a Igreja de S. Pedro de Abragão, a Igreja do Salvador de Cabeça Santa, a Igreja de São Gens de Boelhe, o Mosteiro de Paço de Sousa, onde está sepultado o símbolo da lealdade portuguesa, Egas Moniz, aio de D. Afonso Henriques, a Igreja de S. Miguel de Entre-os-Rios e o Memorial da Ermida, na freguesia de Irivo. Outros monumentos ali existem, merecendo referência os vestígios históricos do Monte Mozinho, que remontam ao século I, o menir de Luzim, monólito megalítico que terá sido erigido alguns milénios antes de Cristo, a anta ou dólmen conhecido por Forno dos Mouros, que é um bonito exemplar do megalitismo, e o Aqueduto e Mosteiro de Bustelo, do século XI.As belezas naturais, românticos jardins, os equipamentos lúdicos e de lazer, as festividades, as boas gentes da região e o Museu de Penafiel são outras razões
251 J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – VIIIamplamente justificativas da visita a este rincão de Portugal. Eleito Museu Português do Ano, em 2010, pela Associação Portuguesa de Museologia, este museu municipal, criado em 1948, está presentemente instalado num palácio do século XVIII, a que se juntou um amplo anexo que foi a última grande obra do conhecido arquitecto Fernando Távora, continuado pelo seu filho, José Bernardo Távora. É constituído por cinco salões temáticos e uma área destinada a exposições temporárias. Foi-nos oferecida uma visita guiada por esses amplos espaços onde as novas tecnologias convivem bem com a história, a memória e a identidade. A finalidade didáctica deste museu está largamente alcançada e é uma mais-valia da cidade.Também formos à Feira de S. Martinho, evento anualmente realizado por ocasião das festas dedicadas ao Santo Padroeiro de Penafiel. É uma mostra muita variada, com especial destaque para produtos dos sectores de vestuário e calçado, têxteis, maquinaria agrícola, ferragens e produtos gastronómicos regionais. A castanha assada é, naturalmente, a “rainha” da festa. Outras importantes festividades e eventos tradicionais penafidelenses são a Festa do Corpo de Deus, marcada por uma majestosa procissão, cortejos e baile; as Endoenças, procissão e cerimónia nocturnas ímpares nas margens dos rios Douro e Tâmega, com mais de 300 anos de história, atraindo milhares de pessoas todos os anos na Quinta-Feira Santa; a Agrival, feira agrícola que tem lugar em Agosto de cada ano com a duração de nove dias, sendo igualmente um acontecimento gastronómico, cultural e recreativo; a Feira de S. Bartolomeu, também conhecida por feira das cebolas, no dia 24 de Agosto; a Festa do Caldo de Quintadona, famosa pela gastronomia e pelos jogos tradicionais, em Setembro; e a Escritaria, festival literário, em Outubro, organizado em torno de um grande escritor de língua portuguesa.
252F A L A R D E N Ó S – VIIIJ O R g E A . H . R A N g E L Finalmente, uma palavra sobre a gastronomia. Não faltam bons restaurantes e nesta aventura local de sabores estão incluídos pratos apetitosos e variados, como o cabrito assado no forno, o bazulaque (confeccionado com miúdos de cabrito), os rojões, a lampreia (à bordalesa ou o famoso arroz de lampreia), o arroz de cabidela e o bacalhau com broa. Quanto aos doces típicos, temos os bolinhos de amor e as tostas de S. Martinho, além do pão de ló, a sopa seca e o pão podre, iguarias que são verdadeiros desafios. E o vinho verde é outro “cartão de visita”. É ali que se situa a famosa Quinta de Aveleda.Foi mais um passeio memorável, que ainda deu tempo para acompanhar o fim do Concurso de Quadras Populares de São Martinho, promovido pelo jornal “Notícias de Penafiel”. Foi já a 48.ª edição e contou com 64 concorrentes e 286 trabalhos submetidos à apreciação de um júri rigoroso. Uma selecção das melhores quadras foi publicada no último número desse periódico regional.Recomendo à Confraria da Gastronomia Macaense e a outras associações locais que explorem estas e outras rotas nas suas deslocações a Portugal. São imensas e quase todas muito interessantes e verdadeiramente surpreendentes. O país, de que tantos se orgulham, mesmo em tempos de infortúnio, é mesmo muito bonito!21 de Novembro de 2011
253 J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – VIIIEncontrava-me no Brasil, em actividades académicas e associativas, quando, em Outubro, familiares, amigos e antigos alunos de Maria Manuel Pimenta de Castro Machado, inesquecível professora do Liceu de Macau, lhe prestaram uma justa e sentida homenagem nas instalações da Casa de Macau em Lisboa, a propósito do seu 90.º aniversário. Na ocasião, foi lançado o livro “Há Biscoitos no Armário”, de Jorge Pinheiro, “uma história de vida, uma vida que atravessa quase um século, uma vida que cruza a História e percorre o Mundo, uma vida feita de amor e de compreensão”. Muito mais do que as memórias, sempre gratificantes, da função docente, reconhecidamente bem desempenhada, está ali apresentada, em linguagem singela e emotiva, todo um rico e longo percurso de quem soube viver a vida com intensidade, devoção e amor, cultivou valores e soube transmiti-los às novas gerações.Acabado de chegar do Rio de Janeiro, juntei-me à delegação macaense que participou, no Algarve, no Congresso do Conselho Europeu de Confrarias Enogastronómicas e tive o prazer de receber, ainda no autocarro que nos transportou até Albufeira, um exemplar desse livro, com uma simpática dedicatória manuscrita por aquela “grande Senhora”, de “elegância extrema”, com “uma maneira de estar única” e “uma alegria contagiante”, dotada de “uma memória prodigiosa”, “uma frescura impressionante” e “uma vontade de viver arrebatadora”, como tão bem a caracterizou o autor da obra. Li-a deliciadamente nessa mesma noite, após o jantar de boas-vindas do congresso, e na tarde seguinte. E relacionei-a, de imediato, com o “Bom Dia, S‘tôra”, de Graciete Nogueira Batalha, uma das mais competentes e influentes professoras de Macau, e com o “Goodbye, Mr. Chips”, clássico de James Hilton, de leitura obrigatória no curso de Cultura Inglesa que fiz em Cambridge no final da década de 60.Livro que é uma história de vida“Este livro é uma homenagem a Maria Manuel Pimenta de Castro Machado. Uma homenagem que os quatro filhos, Isabel, Manuel, Margarida e Luís, lhe quiseram prestar por ocasião dos seus noventa anos.”
254F A L A R D E N Ó S – VIIIJ O R g E A . H . R A N g E L Bem escrito, nas páginas do livro descobrimos não só os episódios mais relevantes da vida da família, em Portugal, em Macau, por terras portuguesas de África e em viagens inolvidáveis, mas também o seu enquadramento nos acontecimentos mais marcantes da História de Portugal no século XX. Sobre a professora, que ficou conhecida, entre nós, por “Madame Machado” ou, simplesmente, “Madame”, fez o autor a seguinte descrição:Bonjour Madame“‘Bonjour Madame!‘ e os alunos entravam noutro mundo. Um mundo europeu e distante. Um mundo longínquo. Um mundo erudito, quase incompreensível. Uma língua de adultos. Uma língua fora de contexto. Uma língua curricular. Este era o desafio de Maria Manuel. Tornar acessível uma disciplina pouco apelativa. O francês fora importante em Macau no século XIX. Mas agora o inglês tudo dominava. Quem falava francês no oriente? Para que servia? Maria Manuel conseguiu desmistificar as dificuldades que se imaginavam na língua gaulesa. ‘Bonjour Madame!‘ A memória ficou para sempre nos alunos. Gerações que cantaram ‘Au clair de la lune‘, ‘Frère Jacques‘, ‘Sur le Pont d´Avignon‘. Êxitos populares. Melodias de sempre. Canções que ainda hoje lembram a ‘Madame‘. As aulas de Maria Manuel eram inesquecíveis. Os seus métodos inovadores cedo cativaram os alunos. Utilizava o gira-discos e os discos de vinil de 45 rotações. Nas aulas passava músicas e canções francesas da moda. Despertou o interesse por uma língua pouco utilizada naquelas paragens. Conquistou, rapidamente, a estima dos alunos. Tornou-se numa professora memorável. Ainda hoje todos sabem quem é a ‘Madame‘. Com ela, as aulas eram animadas. Corriam num ápice. ‘Madame‘ Machado não deixava ninguém desatendido. A sua
255 J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – VIIIvisão funcionava como um verdadeiro radar, detectando tudo e todos. Os alunos aprenderam a complicada conjugação dos verbos e a hermética gramática francesa. A pronúncia era tarefa mais difícil. Mais um desafio que se venceu. Maria Manuel deixou saudades, quando partiu em 1973. O Liceu ficou sem uma grande professora. Uma mulher com um enorme sentido humano. Alguém que olhava os alunos como filhos. Uma mulher inolvidável.Franzina, de aparência frágil, pele alva, cabelos negros. Boca larga e sorriso pronto. Olhar penetrante, lúcido e sagaz. Maria Manuel Machado possuía uma elegância e uma finura no trato que ressaltavam. Destacava-se das outras docentes. O volume da voz. O seu timbre. Tudo nela era diferente. Uma presença. Uma personalidade determinada e generosa. A sua elegância era natural. A sua conversa, espontânea. A sua alegria, contagiante. Se estava triste ou preocupada, não deixava transparecer. Tinha uma postura clássica. Simples, mas sempre muito arranjada. O penteado, a roupa, as jóias, o calçado, tudo era clássico. Tudo condizia maravilhosamente, de uma forma sóbria. Nada de modernices. Nada de coisas à chinesa. Muito feminina. Sempre chique. Sempre discreta. Sempre bem. Maria Manuel era muito imaginativa. Uma especial predilecção pelo trabalho de mãos. As aulas de apoio à Mocidade Portuguesa Feminina beneficiavam do seu talento. Com ela, a empatia era imediata. Um relacionamento que não se explica. Havia nela uma fé, uma crença, uma certeza, que tudo vencia. Uma força que se reconhecia. Um querer que tudo fazia.Maria Manuel sempre foi muito mais do que a mulher de um oficial do exército. Trilhou a sua carreira com competência e profissionalismo. Mais que uma professora, Maria Manuel é uma educadora. Uma educadora nata. O seu tom nunca
256F A L A R D E N Ó S – VIIIJ O R g E A . H . R A N g E L foi imperativo. Ensinar para ela é natural. Aprender com ela é um prazer. Nunca uma obrigação. Em Macau, durante a ‘primeira comissão‘, de 1954 a 1960, Maria Manuel dava aulas de francês na Escola Comercial Pedro Nolasco e no Liceu de Macau, o Liceu Nacional Infante D. Henrique, a funcionar ainda na zona de Tap Seac que, em cantonês, quer dizer Torre de Pedra. Tap Seac era uma várzea pantanosa, um foco de peste, onde os insectos proliferavam. No inicio do século XX, fez-se o aterro e iniciou-se o bairro, com edifícios de estilo neo-clássicos, tipicamente de arquitectura colonialista. Um bairro hoje classificado pela UNESCO. De 1924 a 1958 aqui funcionou o Liceu. Mais tarde, durante a ‘segunda comissão‘, de 1967 a 1973, o Liceu funcionava, então, ao lado do Hotel Lisboa. Um edifício que, na gíria, se chamava ‘Cinzento‘. As cores das paredes em ‘Shangai Plaster‘, muito ao estilo ‘Estado Novo‘. Ficava na antiga Avenida Oliveira Salazar (hoje Avenida Dr. Mário Soares). (...)Mais tarde, muito mais tarde, já em Lisboa, uma coisa que sempre emociona Maria Manuel é encontrar um antigo aluno de Macau. Nas ruas da Baixa, num eléctrico ou num autocarro. Reconhecem-na. Falam-lhe. Ela continua a ser uma referência. Um marco. Conversas intermináveis, feitas de respeito e nostalgia. Em 1996, a Associação dos Antigos Alunos do Liceu de Macau convidou Maria Manuel para o centenário do Liceu. Foi a última vez que foi a Macau. Uma comoção enorme. Estava tudo pago. Estadia e tudo. Maria Manuel comemorou lá os seus setenta e cinco anos, a 21 de Outubro de 1996. Os antigos alunos são, agora, respeitáveis senhores e senhoras de cinquenta anos. Todos em cargos importantes de empresas ou da Administração. Gente que nunca a esqueceu. Gente para quem nunca deixou de ser a ‘Madame‘.”
257 J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – VIIIO títuloO livro tem cerca de 150 páginas, incluindo uma boa selecção fotográfica que ocupa 12 delas, depoimentos plenos de ternura dos filhos e uma nota introdutória oportuna e muito afectiva de Beatriz Basto da Silva, boa amiga e ex-colega da homenageada no Liceu de Macau. O autor, licenciado em Direito, músico, artista plástico e escritor (escreveu, nos últimos anos, “Os Templários Revisitados”, “Turista Ocidental”, “Roberto Barbosa — Um Olhar de Fogo” e “João António Pinheiro — Os Desafios de Uma Vida”), explica-nos, quase no fim, a razão de ser do título “Há Biscoitos no Armário”:“Descemos a escada. Entramos de novo na sala. Em frente da porta, o ‘Armário‘. Um armário todo em madeira. Madeira preciosa. Um armário laboriosamente trabalhado por mãos chinesas. Castanho-escuro. Um armário que já viu mundo. Navegou por mares ignotos. Viu os anos passar. Guardou segredos. É parte da família. Aquele armário é o coração da casa. As portas abrem para o infinito. Um infinito feito de amor. Um amor sem fim. Quem o abrir encontra afectos. Sentimentos. Ternura. Encontra carinho. É um armário mágico. Desde cedo os netos se habituaram a abrir o armário. Era a primeira coisa que faziam. A primeira coisa que ainda hoje fazem. Entram e correm. Não é preciso pedir licença. Abrem as portas. Frascos de biscoitos. Todos os biscoitos do mundo. ‘Esses‘, ‘fidalgos‘, bolachas de manteiga. Biscoitos que Maria Manuel confeccionava. As ‘isaurinhas‘ e as ‘areias‘, compradas no Sr. Ferreira. Bolachas de chocolate, línguas de veado, línguas de gato. Biscoitos, muitos biscoitos. Todos os biscoitos do mundo. Os frascos estão sempre cheios. Maria Manuel tem o dom da adivinhação. Cada neto encontra os seus biscoitos preferidos. Estão sempre lá. Um caminho de afecto. Uma partilha total. O ‘Armário‘ é mágico.”
258F A L A R D E N Ó S – VIIIJ O R g E A . H . R A N g E L Ao amigo Luís Machado e à “Madame” agradeço a oferta deste livro que irá ocupar um lugar especial numa das minhas estantes destinadas predominantemente a obras respeitantes à memória macaense. Vale mesmo a pena lê-lo.28 de Novembro de 2011
259 J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – VIIIEste espaço foi já usado várias vezes para recordar os graves incidentes que ficaram localmente conhecidos por “1, 2, 3”, quando, no auge da revolução cultural chinesa, o fervor extremado do regime comunista se fez aqui sentir com inusitada força e de forma violenta, pondo tudo em causa, abalando a confiança da população e colocando em risco a própria manutenção da presença portuguesa no território. Diversos depoimentos foram aqui parcialmente reproduzidos e comentados, permitindo ao leitor conhecer perspectivas diferentes na apreciação dos conflitos provocados, bem como das suas causas e consequências. A recente publicação do livro “Há Biscoitos no Armário”, de Jorge Pinheiro (Outubro de 2011), uma “história de vida”, de homenagem à professora Maria Manuel Pimenta de Castro Machado, proporcionou-me o ensejo de partilhar com o leitor mais uma sucinta descrição desses fatídicos acontecimentos. Com a devida vénia, e também com o intuito de suscitar de novo a atenção para esta obra, que todos quantos se interessam por Macau e pela presença de Portugal no Oriente devem ler, transcrevo mais este depoimento, no 45.º aniversário daqueles incidentes que mudaram profundamente Macau: “Nesse ano de 1966 a Revolução Cultural chegou a Macau. Chegou sem que as autoridades portuguesas se tivessem apercebido. A Revolução Cultural Chinesa era imparável. Até aí ela não era evidente em Macau. Mas, inevitavelmente, tinha de chegar. Mais do que um protesto contra os portugueses, mais do que a intenção de integrar Macau na China (que nunca houve), os incidentes visavam, tão-somente, mostrar a Mao Tsé-tung que Macau também era revolucionário. Pretendiam mostrar o fervor das gentes de Macau, à causa da Revolução Cultural. Claro que o ‘incidente Mais um depoimento recente sobre o “1, 2, 3”“‘O incidente da Taipa‘ foi usado como pretexto. Durante 58 dias Macau foi afectado pelo tufão maoísta. Os Guardas Vermelhos impuseram a sua lei”.De “Há Biscoitos no Armário”, Outubro de 2011
260F A L A R D E N Ó S – VIIIJ O R g E A . H . R A N g E L da Taipa‘ podia ter sido evitado. Os portugueses, por manifesta inabilidade, caíram na armadilha. Mas se não fosse esse, seria qualquer outro pretexto. Macau tinha de ter os seus Guardas Vermelhos. Em Novembro, um grupo de residentes chineses da ilha da Taipa tentou obter uma licença para a construção (ou reconstrução) de uma escola de feição comunista. Na impossibilidade de obter a licença, começaram ilegalmente a edificação. Rui Andrade, o administrador interino das Ilhas saiu de casa. Passou pela escola. Insurgiu-se contra a construção. Resolveu intervir. Apelou à autoridade. E eis como um homem fraco pode fazer história, da pior forma. A 15 de Novembro, a Polícia prendeu, de forma violenta, os responsáveis pela iniciativa, operários de construção, residentes e jornalistas. Foi, obviamente, uma precipitação. Até porque o pedido de licença estava parado numa qualquer gaveta de um qualquer burocrata. Mais, a brutalidade da intervenção foi, manifestamente, desproporcionada, quando era o diálogo e a diplomacia que se exigiam. O 2.º Comandante da PSP, Vaz Antunes, que estava presente durante o incidente, assim não entendeu. A arrogância imperou. A imprensa chinesa, em especial o jornal Ou Mun, e as associações comunistas atacaram em força. De repente, a revolução cultural entrou em Macau. A partir daí, os chineses tiveram necessidade de se manifestar. De provar a Mao Tsé-tung que eram patriotas. Os protestos iniciaram-se e foram sempre em crescendo. Na cidade, os taxistas passaram o sinal. Eram, na sua maioria, indonésios, expulsos por Sukarno. Estavam revoltados contra tudo e contra todos. Buzinavam sem parar. Incendiaram o ambiente. As manifestações sucederam-se. Manifestações com mais de 15.000 pessoas, o que era muito, face à dimensão do território. Em Macau havia cerca de 50.000 estudantes chineses, a frequentarem escolas comunistas. Um potencial revolucionário impressionante. Os Guardas Vermelhos surgiram. O governo ficou debaixo de fogo. De crescendo em crescendo, a contestação aumentou e generalizou-se, provocando
261 J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – VIIIum sentimento de verdadeira revolta no seio da comunidade chinesa. Macau estava há alguns meses sem Governador. Lopes dos Santos, um homem ponderado e que conhecia bem o Oriente, tinha regressado à Metrópole, em Julho de 1966. Como Encarregado do Governo ficou Mota Cerveira. Um homem arrogante e militarista, que preferia a bravata à diplomacia. A arrogância ao diálogo. O Comandante da Polícia, o Tenente-Coronel Galvão de Figueiredo, pautava-se pelos mesmos valores. Não podia ter sido pior. Os dirigentes políticos e as forças de segurança de Macau actuaram com manifesta inabilidade e total ausência de sentido diplomático. Pior, usaram de arrogância colonialista. As tensões exacerbaram-se. As posições extremaram-se.No dia 3 de Dezembro de 1966 as manifestações iniciaram-se pelo meio-dia. As escolas estavam mobilizadas. Estudantes e professores invadiram o Largo do Leal Senado e as ruas circundantes. Uma camioneta carregada de pedregulhos avança pela rua onde se situava o Comando da Polícia. Atrás, protegidos pelo camião, manifestantes entoavam canções revolucionárias e gritavam palavras de ordem, empunhando o Livro Vermelho. Aproximavam-se cada vez mais da esquadra. Lá estavam guardadas armas e munições. Parecia evidente a intenção de tomar a esquadra de assalto. Vaz Antunes, o 2.º Comandante, dá ordem de fogo. Não havia outra solução. O condutor da camioneta é a primeira vítima. O carro segue descontrolado, até embater, com violência, no fundo da rua. A confusão é enorme. Debaixo de uma enorme pressão, os polícias, acantonados na esquadra, mantêm, nervosamente, o fogo. A multidão dispersa-se. Seguem-se perseguições na zona da Praia Grande. O recolher obrigatório é decretado às 16 horas. No dia seguinte ainda havia disparos dispersos por toda a cidade. No final dos dois dias, um saldo final de 8 mortos e cerca de 200 feridos, todos chineses. Foi necessária a mobilização de soldados para controlar a situação. A tensão,
262F A L A R D E N Ó S – VIIIJ O R g E A . H . R A N g E L no entanto, continuou a crescer. Várias famílias portuguesas começaram a preparar-se para abandonar Macau. O ‘1-2-3‘ é isso mesmo: mês 12, dia 3. E o futuro de Macau nunca mais seria o mesmo.A violência acabou. A repressão amainou. Começou, então, a pressão política. Uma pressão que assumiu proporções inenarráveis. As exigências não se fizeram esperar. Eram pesadas e inegociáveis. Os mortos de 3 e 4 de Dezembro mantinham-se nas urnas, por enterrar. E assim ficaram até à assinatura do acordo, a 29 de Janeiro de 1967. Todos os dias os chineses lembravam os mortos. Publicavam fotografias dos cadáveres. Uma pressão total. Em 25 de Novembro de 1966, chegou a Macau novo Governador, Nobre de Carvalho. Apenas ao aterrar em Hong Kong, o Governador toma conhecimento da situação em Macau. Até aí nada lhe tinha sido dito. Absolutamente extraordinário. Mal chega a Macau, Nobre de Carvalho tem de iniciar a complexa negociação com os chineses e com Lisboa. O Governo de Lisboa mantinha-se irredutível. Salazar envia um telegrama em que resumia a sua posição: ‘Confirmar que, em caso de necessidade, todos cumprirão o seu dever, mesmo com os maiores sacrifícios‘. Um telegrama em tudo semelhante ao enviado para a Índia Portuguesa, imediatamente antes da invasão das tropas de Nehru. Um telegrama que não auspiciava nada de bom. No dia 16 de Janeiro, a comunidade chinesa adoptou a ‘política dos três nãos‘: não entregar impostos; não prestar serviços ao Governo (incluindo abastecimento de água e electricidade); não vender produtos portugueses. Entretanto, emergiram figuras que, até aí, se tinham mantido na sombra. Ho Yin, o líder da comunidade chinesa, é relegado para segundo plano. Emergem dirigentes comunistas. (...). Em Macau, o Conselho de Defesa estava reunido quase em permanência, sob a presidência de Nobre de Carvalho. Eram reuniões contínuas até altas horas da noite. Alinhavam-se argumentos. Definiam-se
263 J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – VIIIestratégias. Tudo em vão. As tentativas de chegar a um texto de acordo aceitável pelas duas partes sucediam-se. As negociações eram chefiadas por Mesquita Borges, chefe de gabinete do Governador e integravam, ainda, o Dr. Assumpção, advogado macaense e representante de Macau junto da Câmara Corporativa, em Lisboa e Roque Choi, secretário e braço direito de Ho Yin. Entretanto, por imperativa exigência chinesa, tinham sido demitidos Mota Cerveira, Galvão de Figueiredo e Vaz Antunes. O Comando da Polícia passou a ser exercido, interinamente, pelo capitão Lages Ribeiro.Finalmente, a 29 de Janeiro, o Governo de Macau e as autoridades da República Popular da China, chegaram a um acordo, assinado na sede da Associação Comercial. Para Portugal, tudo foi humilhante naquele acordo. O local, o conteúdo, a forma. O Governo pediu desculpas à comunidade chinesa. Passou a ser proibido dar apoio ou asilo político aos nacionalistas do Kuomintang. Foram entregues à China cinco guerrilheiros nacionalistas, que foram imediatamente fuzilados. Procedeu-se à indemnização das famílias das vítimas. Ficou claramente marcada a posição da China. Portugal apenas estaria em Macau enquanto a China quisesse.” (...)A situação, embora continuasse tensa, foi voltando, paulatinamente, à normalidade, ao mesmo tempo que a confiança no futuro voltava a fazer-se sentir. Terra de muitos tufões, Macau sobreviveu também a essa enorme tempestade política. Nasceu e cresceu como o bambu, capaz de se vergar em todas as intempéries, para continuar viçoso, com as hastes apontadas para o céu. E foi fazendo o seu percurso histórico até se transformar, pacificamente, em região especial da China, em Dezembro de 1999.5 de Dezembro de 2011
264F A L A R D E N Ó S – VIIIJ O R g E A . H . R A N g E L A notícia do falecimento do General Nuno Viriato Tavares de Melo Egídio, ex-Governador de Macau (1979-81) e ex-Chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas (1981-84), na madrugada do passado dia 7 de Dezembro, não constituiu surpresa para amigos e antigos colaboradores, conhecedores dos problemas de saúde que o impediram de participar em actividades públicas e associativas nos últimos anos. Mesmo assim, ela não deixou de causar consternação em pessoas que dele guardam as melhores recordações e nele se habituaram a ver um dedicado servidor da Pátria e um homem extraordinariamente simples, não obstante a importância dos cargos, civis e militares, que desempenhou. Aceitou-os sempre com exemplar espírito de missão, por vezes em circunstâncias reconhecidamente difíceis, e pondo de parte conveniências pessoais, acreditando que em primeiro lugar estava o cumprimento do dever.Foi, para mim, um privilégio conhecê-lo de perto e trabalhar com ele durante dois anos, numa fase de normalização e consolidação da vida cívico-política de Macau. No exercício de diversas funções públicas, pude acompanhar as suas preocupações, o seu entusiasmo e a sua vontade de bem fazer e criar com ele uma relação de grande confiança, a ponto de desejar sempre saber a minha opinião pessoal, como “filho da terra”, sobre projectos, propósitos e prioridades, na elaboração e na execução das linhas de acção governativa. Em várias deslocações ao exterior, designadamente, a Hong Kong, para um primeiro encontro com o Governador da então colónia britânica, e ao Japão, quis que eu integrasse a comitiva oficial. Também estive com ele em Lisboa nos últimos dias do seu Governo, quando o Presidente António Ramalho Eanes anunciou a sua já aguardada nomeação para o cargo mais elevado das Forças Armadas Portuguesas, num tempo em que, por força da revolução de Abril, o titular desse cargo O adeus ao general Melo Egídio“Deng Xiaoping dava realmente uma importância extraordinária, mesmo prioritária, às relações culturais. Quando se abordou quais eram as consequências desse estabelecimento de relações, a troca de determinadas entidades, de embaixadores, de adidos militares, de embaixadas de carácter económico, ele disse-me que era tudo verdade e era importante, mas mais importante ainda era o intercâmbio entre as pessoas, porque as pessoas são difusoras de cultura”.General Melo Egídio, depoimento recolhido em 1999
265 J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – VIIIera equiparado a Primeiro-Ministro. Antes de deixar Macau, quis expressar-me o seu agradecimento, numa breve missiva manuscrita, em que, em palavras singelas, quis realçar “a lealdade e a competência de um colaborador directo e dilecto que, sem desfazer ninguém, foi o seu melhor director de Serviços”. Claro que era exagerado e porventura imerecido o elogio, mas sei que o produziu sincera e cordialmente, repetindo-o, mais tarde, em várias ocasiões públicas. Não houve lugar a embaraço, porque valeu como poderoso incentivo para ir mais longe e procurar fazer melhor. Recordá-lo-ei especialmente como o homem bom que quis e soube ser. E que, como outros homens bons, não teve o respeito e a consideração de todos quantos com ele lidaram.Vem agora a propósito reler as palavras que proferiu na série de entrevistas que, em 1999, os jornalistas Fernando Lima e Eduardo Cintra Torres fizeram a numerosas personalidades ligadas a Macau, a propósito da passagem do exercício da soberania para a RPC. Nelas o General Melo Egídio fez como que uma síntese do seu mandato como Governador:“O Presidente Ramalho Eanes convidou-me para desempenhar as funções de governador de Macau em Dezembro de 1978. Aceitei e comecei a preparar-me para o desempenho das funções. Ainda não sabia quando se realizaria a posse. O ministro dos Negócios Estrangeiros era então Freitas Cruz, que eu tinha conhecido em Moçambique e de quem era, aliás, muito amigo, e resolvi procurá-lo para fazer uma panorâmica da situação. As negociações para as relações diplomáticas decorriam lentamente em Paris ao nível dos dois embaixadores em França, de Portugal e da China, instruídos pelos respectivos governos.
266F A L A R D E N Ó S – VIIIJ O R g E A . H . R A N g E L Eu falava frequentemente com o general Eanes e mais ou menos assumimos um compromisso tácito de que aguardávamos que estivesse esclarecida a situação para depois tomar posse como governador de Macau.E assim foi. O estabelecimento das relações diplomáticas dá-se no dia 8 de Fevereiro de 1979 e eu tomo posse em Belém exactamente no dia imediato. Nas próprias palavras do Presidente na minha posse, o restabelecimento de relações que não se processavam já há muito tempo marcou o início de uma nova era na amizade multissecular entre Portugal e a China, mas, com a situação clarificada, poderia ter muito melhores resultados e poderiam obter-se os êxitos que ambos desejávamos, Portugal e a China, relativamente a Macau.A visita do governador de Macau à ChinaEu falo sempre com saudade da visita que fiz à China em Março e senti-me até distinguido, não por ser eu, mas por ser o chefe da administração portuguesa e também porque desde 1949 não havia visitas oficiais de governadores de Macau, visto não existir relacionamento diplomático.Fui convidado pelo ministro do Comércio Externo que me disse que eu podia ser acompanhado com comitiva que entendesse até um determinado limite e que iriam ser abordados assuntos de interesse recíproco.Acompanhado pelo secretário adjunto para os Assuntos Económicos e das Obras Públicas e Comunicações, iniciei a minha visita no mês de Março, estando programadas
267 J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – VIIIvárias visitas, fundamentalmente à capital, a Xangai e, já no regresso a Macau, a Cantão, onde, dada a proximidade, teria oportunidade de tratar de assuntos de interesse recíproco, com muita incidência em Macau.A visita decorreu de tal maneira bem, com cordialidade, cumprindo naturalmente o programa pré-estabelecido, que a certa altura um funcionário do Ministério dos Negócios Estrangeiros chinês perguntou-me se eu não teria interesse em contactar alguma outra entidade na China.«Assim de repente, de repente, gostaria muito de contactar um homem, mas ele tem uma estatura tão elevada, não estatura física, mas estatura mental e envergadura política, que é o primeiro homem forte da China, Deng Xiaoping. Gostaria muito de estar com ele, mas antevejo que isso seja muito difícil.» E ele disse: «vamos ver.»A resposta foi-me dada no mesmo dia à tarde e foi afirmativa. Eu tive um encontro com o vice-primeiro-ministro chinês no dia 18 de Março de 1980. O encontro teve uma duração de cerca de 20 minutos. Foram tratados variadíssimos assuntos a nível mundial. Ele era um perfeito conhecedor do que se passava no resto do mundo e obviamente que teve de se falar no estabelecimento de relações diplomáticas, nos efeitos desse estabelecimento de relações, relativamente às relações de Portugal com a China e da China com Portugal, com Macau.Ele tinha sabido através de órgãos de comunicação social que em Macau havia uma certa preocupação pela nova situação criada. Com um sorriso nos lábios, disse-me que não percebia bem essa preocupação, que achava que agora é que não deveria
268F A L A R D E N Ó S – VIIIJ O R g E A . H . R A N g E L haver preocupação nenhuma, porquanto existia uma situação clara, absolutamente definida e, portanto, fora encontrada com certeza a paz e a tranquilidade necessárias para o desenvolvimento económico e social do território que ele considerava que se ia mesmo dar. E não se enganou. Deng Xiaoping, o homem a quem a China muito deve, porque a abriu ao exterior, foi realmente o filósofo da teoria um país dois sistemas que permitiu o desenvolvimento da China. Mais uma vez ele teve razão.Deng Xiaoping dava realmente uma importância extraordinária, mesmo prioritária, às relações culturais. Quando se abordou quais eram as consequências desse estabelecimento de relações, a troca de determinadas entidades, de embaixadores, de adidos militares, de embaixadas de carácter económico, ele disse-me que era tudo verdade e era muito importante, mas mais importante ainda era o intercâmbio entre as pessoas, porque as pessoas são difusoras de cultura.Os chineses levam a cultura da China a Portugal e os portugueses trazem a cultura de Portugal à China. Para Deng Xiaoping os laços culturais eram os laços mais importantes que podem unir os homens e, afinal de contas, os laços culturais englobam tudo aquilo que possa depois vir”.Esta visita à China foi muito importante para Macau e Melo Egídio regressou ao território animado com a posição assumida pelo timoneiro da China. No próximo artigo, procederei à transcrição de outras partes deste depoimento que foi inserido na obra “Macau entre dois mundos” (2004), da colecção Jorge Álvares.12 de Dezembro de 2011
269 J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – VIIIAs mais altas entidades do Estado Português, designadamente o Presidente da República e o Primeiro-Ministro, teceram elogiosas considerações sobre a personalidade e o exemplo de bem servir do General Nuno Viriato de Melo Egídio, a propósito do seu falecimento no corrente mês, com 89 anos de idade. O patriotismo e a dedicação foram algumas das virtudes exaltadas. Governador de Macau de 1979 a 1981, desempenhou o cargo mais elevado das Forças Armadas Portuguesas, de 1981 a 1984, passando seguidamente à reserva, após longa carreira em funções militares e civis, sempre exercidas com notável sentido do dever e amor a Portugal.No seu depoimento sobre Macau, recolhido em 1999 e incluído na série televisiva intitulada “Macau entre dois mundos”, Melo Egídio sintetizou alguns dos aspectos mais relevantes do período em que assumiu as rédeas da governação deste território, que tinha passado por um período de incertezas e indefinições após a revolução de Abril, numa altura em que na China se chegava também ao fim da revolução cultural, com lutas intestinas, palacianas ou não, que afectaram gravemente o normal funcionamento das instituições, até emergir o novo timoneiro, Deng Xiaoping, arquitecto político das reformas que mudaram a face daquele enorme país. As entrevistas, conduzidas por Fernando Lima e Eduardo Cintra Torres, foram reunidas num volume com o mesmo título que a Fundação Jorge Álvares e a Editorial Inquérito publicaram em Fevereiro de 2004, sendo uma obra de referência incontornável sobre o território nas últimas décadas da administração portuguesa.Melo Egídio, no seu depoimento, recordou o momento da sua escolha para Governador, substituindo o então Coronel José Eduardo Garcia Leandro, que, com louvável moderação e firmeza, soube manter a tranquilidade no território e recuperar Melo Egídio e as prioridades da acção governativa“Macau era um território muito pequeno, tinha de manter boas relações com a China e também com Portugal e desenvolver-se economicamente o mais possível ...”General Melo Egídio, “Macau entre dois mundos”, F. J. A., 2004
270F A L A R D E N Ó S – VIIIJ O R g E A . H . R A N g E L a confiança abalada. Salientou também as rápidas mudanças na China, a criação das zonas económicas especiais, a primeira revisão do Estatuto Orgânico de Macau, as prioridades que definiu para o desenvolvimento de Macau, uma nova visita à China, já na qualidade de Chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas, e os contornos do conflito sino-soviético.Desenvolver MacauEstando, em larga medida, restaurada a confiança de investidores e da população no futuro de Macau, tornava-se de novo possível fazer planos consistentes. Esta foi, efectivamente, a par da melhoria das relações com as autoridades chinesas, uma das maiores preocupações de Melo Egídio:“Em 1974 foi nomeado um novo governador para Macau, o então graduado em coronel Garcia Leandro, hoje general. Ele encontra dificuldades sem fim, um período de uma transformação profunda e vive até à promulgação do Estatuto Orgânico de Macau numa situação como a que vinha do antecedente, quer dizer, sem autonomia; mas as estruturas modificam-se completamente, as de lá não têm qualquer conexão nem se ajustam às de cá. Ele encontra seriíssimas dificuldades. Mesmo assim, logo que sai o Estatuto, começa a aplicar a sua letra e o seu espírito.Nós verificámos que, embora sendo um homem novo, e que não tinha a experiência administrativa do antecedente, teve muito bom senso no caminho que encetou. Começou a desenvolver a economia, de uma maneira incipiente a princípio que foi decorrendo de uma forma muito lenta. Entretanto, deixa de ser governador
271 J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – VIIIe quando eu chego a Macau encontro a cidade ainda a pensar desta maneira, ainda sem sentir aquilo que se tinha passado de muita importância uns dias antes, que foi o estabelecimento das relações diplomáticas entre Portugal e a China no dia 7 de Fevereiro.Isso permitiu à minha administração (não há mérito pessoal, há o mérito das circunstâncias que propiciaram que ele pudesse ser dado) um arranque muito grande e que contribuiu muito para o crescimento do território.As estruturas estavam desajustadas. Havia falta de recursos humanos, designadamente técnicos, não tínhamos equipamento. Havia que delinear grandes coisas, mas para isso era preciso que tivessemos como base um plano. Havia um Plano Territorial. Em 1970 tinha-se começado a elaborar esse Plano Territorial no antigo Ministério do Ultramar e que só chegou a Macau já na parte final do governo de Leandro, em 1978. Obviamente, estava desajustado, quer dizer, o sistema era diferente, Macau era um território com autonomia, portanto não se aplicava grande parte daquilo que constava do Plano. Houve que actualizá-lo e adaptá-lo às circunstâncias então vigentes em Macau. Aproveitei esse facto para fazer com que fossem para Macau duas empresas portuguesas muito importantes: a Hidroprojecto e a Profabril. Fez-se um ordenamento com o Plano Territorial de Macau. Agora era preciso fazer a elaboração de uma estratégia para o Plano.Macau era um território muito pequeno, tinha de manter boas relações com a China e também com Portugal e desenvolver-se economicamente o mais possível, porque a comunidade macaense assim o exigia.
272F A L A R D E N Ó S – VIIIJ O R g E A . H . R A N g E L A economia do território estava fundamentalmente baseada na indústria têxtil, tinha uma ou outra indústria mais pequena; uma das preocupações foi também a diversificação industrial. O que se está a passar em Macau tem sido um caminho harmonioso de execução de ideias que se encadeiam umas nas outras e que não se alteraram, porque o Plano de Ordenamento do Território, publicado no Boletim Oficial em 1980, tem o planeamento todo nos vários sectores e prevê o aeroporto internacional de Macau, o porto de águas profundas, a diversificação dos serviços e da economia, a ampliação dos serviços, etc. O que se procurou fazer foi responder às facilidades que a autonomia do território nos dava e sabendo agora que, sem sombra de dúvida, teríamos todo o apoio da China, o território entrou naquilo a que eu chamo, um movimento de inércia imparável, no bom sentido do termo.”As prioridades governativas eram, pois, a estabilidade do território, após um período politicamente conturbado vivido em Portugal, as relações com a China, na sequência imediata do estabelecimento das relações diplomáticas, e o desenvolvimento económico, para o qual foi determinada a preparação de estudos e planos que foram da maior utilidade para o crescimento que se verificou na década de 80.A revisão do EOMO mandato de Melo Egídio foi curto e relativamente calmo. Apenas foram visíveis alguns conflitos com a Assembleia Legislativa, quando foi por ele rejeitada a nova legislação municipal e quando manifestou oposição ao projecto de revisão do Estatuto Orgânico de Macau. Explicou assim a sua posição:
273 J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – VIII“É claro que me chegou às mãos a versão do projecto de revisão do Estatuto. Embora não estivesse escrito no Estatuto, eu nunca poderia deixar de dar a minha opinião. Não tinha qualquer senso que eu, governador, em nome da administração portuguesa que representava, não pudesse dar a minha opinião quanto às propostas da alteração do Estatuto. Em colaboração com os meus conselheiros chegámos unanimemente à conclusão de que as alterações não serviam os interesses de Macau, nem de Portugal e, afinal de contas, nem da China.Pretendia-se que o governador do território passasse a depender do Primeiro-Ministro e não do Presidente da República. Havia outras alterações de somenos importância, mas esta era geradora de instabilidade, porque eu estive dois anos em Macau e durante esse tempo houve três governos e três primeiros-ministros em Portugal”.As posições extremaram-se e a revisão, nos termos preconizados acabou por não ser feita, quando se criou uma situação verdadeiramente insólita, com a Assembleia a não poder reunir em plenário, por falta de “quorum”, dada a ausência sistemática de um grupo de deputados, o que inviabilizou o seu funcionamento até ao fim da legislatura.19 de Dezembro de 2011
274F A L A R D E N Ó S – VIIIJ O R g E A . H . R A N g E L Como vimos nos dois artigos anteriores, uma das prioridades do Governador Melo Egídio foi o desenvolvimento de relações amistosas com as autoridades chinesas e com os seus representantes tradicionais em Macau. Tendo iniciado funções imediatamente após o estabelecimento de relações diplomáticas de Portugal com a República Popular da China, assumiu como uma das principais preocupações da acção governativa a utilização de Macau como instrumento privilegiado ao serviço da consolidação dessas relações, a par da estabilidade do terrritório, que dependia também do bom entendimento com organizações e personalidades chinesas locais.Assim, procurou manter um diálogo franco e intenso com Ho Yin, figura muito influente da comunidade chinesa local, e com O Cheng Peng, responsável pela Agência Nam Kwong, organismo que representava oficiosamente os interesses da China neste território. Foi nestes termos que descreveu os seus contactos com Ho Yin, na entrevista concedida a Fernando Lima e Eduardo Cintra Torres para a série televisiva "Macau entre dois mundos":A figura de Ho Yin“Falar de Ho Yin é simples, mas também difícil. Era um homem extraordinário. O Senhor Ho Yin, como lhe chamávamos, era bondoso, afável, pacífico, muito fumador, que irradiava simpatia logo ao primeiro contacto. Era um líder por natureza e era im-plicitamente reconhecido por toda a gente como o chefe da comunidade chinesa de Macau.Quando eu fui para Macau tinham acabado de ser estabelecidas relações diplomáticas com a China. Não estava ainda convenientemente definida a importância Melo Egídio e o bom relacionamento com as autoridades chinesas“(Ho Yin) era um declarado amigo dos portugueses e nas negociações, (...), até mesmo nos acontecimentos do 1-2-3, teve uma influência extraordinária, favorecendo o apaziguamento de hostilidades criadas ...”Melo Egídio, “Macau entre dois mundos”, F. J. A., 2004
275 J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – VIIIde um outro homem de quem fiquei amigo, que também foi muito importante para a China, para Macau e para Portugal, o O Cheng Peng. Era uma figura que estabelecia relações como que oficiosas e conversava periodicamente com o Governador de Macau. Antes dele, todo esse contacto era feito com Ho Yin. A partir do aparecimento de O Cheng Peng, a importância de Ho Yin não diminuiu socialmente. Continuou a organizar os jantares da Primavera, continuou muito preponderante na comunidade e devíamos-lhe esse apreço, porque era uma figura importante, desempenhou funções relevantíssimas. Era presidente da Associação Comercial de Macau, presidente do Banco Tai Fung, membro permanente da Assembleia Popular Nacional da China e foi, interinamente, presidente da Assembleia Legislativa até à eleição do Dr. Carlos Assumpção.Era um declarado amigo dos portugueses e nas negociações, nos acordos, que por vezes surgiram por conflitos fronteiriços, até mesmo nos acontecimentos do 1-2-3, teve uma influência extraordinária, favorecendo o apaziguamento de hostilidades criadas, sentidas entre os chineses e os portugueses. Contribuiu para desanuviar o ambiente, sempre com a mesma fleuma, a mesma maneira afável de tratar todos os assuntos.Posso dizer sem sombra de dúvida que o Ho Yin era um membro muito respeitado, muito querido da comunidade, no seu todo, chinesa e portuguesa, macaense e portuguesa, mesmo de residentes da metrópole em Macau, que o apreciavam imenso pelo bem que fazia e pelo amor que ele tinha a Portugal”.Para assegurar a eficácia do diálogo com essas entidades, Melo Egídio aconselhava-se muito junto de Roque Choi e de Joaquim Morais Alves. Também me envolveu em
276F A L A R D E N Ó S – VIIIJ O R g E A . H . R A N g E L várias iniciativas neste âmbito, pelo que posso confirmar o interesse genuíno do Governador na manutenção de um relacionamento correcto com os seus interlocutores chineses.A sua visita oficial à China e o encontro com Deng Xiaoping marcaram-no profundamente. Incentivou depois as deslocações de entidades portuguesas àquele país, à medida que a abertura se concretizava, e as de chineses a Portugal. Em 1980, apoiou uma visita de personalidades da comunidade chinesa de Macau a Portugal, as quais foram recebidas pelo Presidente da República, António Ramalho Eanes.Também acompanhou com entusiasmo a criação das zonas económicas especiais chinesas, acreditando no significado da sua implantação como sinal inteligente de abertura e de mudança. E lia toda a informação que lhe era preparada sobre a China, bem como as traduções da imprensa local elaboradas pelos Serviços de Assuntos Chineses.No processo de revisão do Estatuto Orgânico de Macau (E.O.M), que não mereceu a sua concordância, teve nos deputados chineses aliados decisivos. A posição por estes assumida inviabilizou essa primeira tentativa de revisão. Aprovado em Fevereiro de 1976, como Lei Constitucional, o E.O.M. devia ser revisto na vigência da primeira legislatura na parte respeitante à composição e ao funcionamento da Assembleia Legislativa. O projecto preparado avançava, porém, com outras modificações de fundo que o Governador recusava liminarmente, apontando sobretudo a forma preconizada de designação do Governador como geradora inevitável de instabilidade política. Escolhido pelo Presidente da República e dele dependente politicamente,
277 J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – VIIIdefendia-se no projecto de revisão que a nomeação passasse a pertencer ao Primeiro-Ministro. Até ao fim da administração portuguesa esta alteração nunca chegaria a ser feita.O encontro com Zhao ZiyangJá na qualidade de Chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas, Melo Egídio voltou à China, a convite das autoridades chinesas. Nessa visita, foi recebido por outra figura carismática, caída depois em desgraça na sequência dos incidentes de Tiananmen:“Mais tarde, depois de deixar Macau, era Chefe do Estado-Maior General e voltei à China. Apesar de eu então ter categoria de Primeiro-Ministro, não estava previsto o meu encontro com o Primeiro-Ministro Zhao Ziyang, porque era uma visita de âmbito militar e enquadrava-se no intercâmbio, também muito importante, numa retribuição de uma visita que uma delegação chinesa havia feito a Portugal a convite do Chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas.Fui recebido e contactei na China com chefes militares, com várias entidades militares. Visitei muitas instalações, algumas das quais soube que normalmente não eram abertas a visitas de entidades estrangeiras, e tive encontros também com entidades civis, como o Primeiro-Ministro e o Ministro da Defesa. Com o Primeiro-Ministro Zhao Ziyang eu tive realmente uma conversa muito in-teressante, de cerca de 45 minutos, num ambiente de muita cordialidade. Revelou-se
278F A L A R D E N Ó S – VIIIJ O R g E A . H . R A N g E L um homem profundamente conhecedor dos problemas a nível mundial e fundamen-talmente estratégicos.Disse-me que tinha um grande apreço pelo Presidente da República Portuguesa e que tinha tido apreço pela revolução feita em Portugal. Que considerava Portugal como um país amigo da China e que a situação criada pelo estabelecimento das relações diplomáticas estreitaria laços de amizade entre Portugal e a China e também entre Macau e a China e que considerava que Macau poderia ter um papel relevantíssimo como porta de entrada da China ou elo de ligação entre a China e Portugal, ampliando este conceito até entre a China e o Ocidente, não esquecendo que Portugal estava inserido na União Europeia.Zhao Ziyang era um homem com ideias muito abertas. E tão abertas que depois dos acontecimentos de Tiananmen foi afastado do poder, foi-lhe fixada residência em Pequim, mas é um homem por quem continuo a ter muito apreço. Considero-o inteligente e desassombrado.”Retirado de funções públicas, Melo Egídio continuou a acompanhar a evolução da China, como membro activo da Liga da Multissecular Amizade Portugal-China e através de diversos organismos ligados a Macau. E até ao fim da vida, em Dezembro passado, foi um promotor sincero e empenhado das relações luso-chinesas.3 de Janeiro de 2012
279 J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – VIIIFoi com versos em patuá do nosso sempre lembrado Adé que abrimos uma vez (9 de Janeiro de 2006) o novo ano neste espaço do Jornal Tribuna de Macau. Com outro poema seu, desejamos agora a todos os nossos leitores um auspicioso 2012, não obstante as nuvens negras que ainda ameaçam o horizonte de povos, famílias e empresas em muitas partes do mundo, depois das tempestades financeiras e cataclismos naturais que tanta dor provocaram no ano que agora chegou ao fim. “Ano Vêlo, Áno Nôvo” é o título de ambos os poemas, que podemos ler e reler no dealbar de cada novo ano no volume III (“Macau di Tempo Antigo”) das obras completas de José dos Santos Ferreira (Adé), publicadas pela Fundação Macau em 1996:Áno Vêlo, Áno NôvoUnga áno intremente ta sai, Lôgomente otrunga ta goelá.Áno vêlo ta virá costa vai, Áno nôvo qui azinha ta intrá.Vida azinha-azinha corê,Sã dia co mêz ligéro passá.Gente antigo, susto di morê, Pensá qui Mundo ta perto cavá.Pôde vai co diabo, bicho traquino,Áno oiténta quatro savanado.Lembrá rabixá um-cento mufinoPa azinha aguá co vôs juntado.Bô-Festa, Filiz Áno Nôvo“ Bom áno pa tudo vosôtro, Bom futuro pa tudo jóvi-jóvi. Bô-Festa, Filiz Áno Nôvo, Alegria co bénça di Sinhôr!”
280F A L A R D E N Ó S – VIIIJ O R g E A . H . R A N g E L Olá êle batê asa aguá,Nôs sintí qui mundo nádi saiám;Tudo pauchong qui gente lô quimá, Sã pa mundo nom têm consumiçám.Quim ta ánsia vai savaná azar,Quim ta sacudí vento-suzo mau;Ancuza galado, pinchá na mar,Pa tirá saván di nôsso Macau.Áno vêlo, vôs bêm di buliçoso,Já bulí co nôs na estunga vánda.Vôs já ficá unchinho mapeçoso,Sã merecê Chacha-sa sarabánda.Calisto, ispalhá fome na mundo,Trazê qui tánto lágri di margura.Esperánça di bom dia já vai fundo,Inguiçado pa um-cento diabura.Qui di ódio crecê na coraçámDi gente qui vivo dizesperadoNa unga nundo fêto di vilám,Co assi tánto pobre iscravizado.Nhu-nhum ta rico querê más riquéza,Nom-têm fim di olá saco inchido.Gente pobre sã morê na probréza,Cavá passá su vida consumido.
281 J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – VIIITánto inocente onçôm pagáPecado di nhu-nhum dismazelado.Qui vêlo, qui quiança já definhá,Na casa-casa qui nom-têm telado.Áno nôvo, lembrá trazê bom ventoPa pôde suprá mufinaze vai.Nunca-bom intrá co pê azarento,Pa fazê mundo tropeçá pê cai.Vêm co paz pa nôsso gente sofrido;Pa quim fome, ne-bom isquecê pám.Vêm co frescura di jardim florido,Vêm co amôr pa tudo coraçám.Pa tud’alma qui ta vivo na treva,Sandê unchinho di luz pa lumiá.Pa tudo coraçám qui sã ta reva,Vêm passá páno mimoso limpá.Co graça di Céu, vôs vêm raganhado,Pa ispaliá amôr, paz co bondade.Vêm filiz, ficá justo, abençoado,Pa tudo coraçám di bô vontade.
282F A L A R D E N Ó S – VIIIJ O R g E A . H . R A N g E L O nosso saudoso Adé, José Inocêncio dos Santos Ferreira (1919-1993) dedicou muitos versos ao Natal, festa de família por excelência de toda a comunidade, e ao Ano Novo, dia primeiro do calendário, prenúncio de renovadas esperanças e reforçada confiança no porvir. O próprio autor assumiu a edição de muitas das suas obras, como “Macau Sã Assi” (1968), “Qui-nova Chencho” (1974), “Papiá Cristãm di Macau” (1978), “Macau di Tempo Antigo” (1985), “Natal — Amor, Paz, Alegria” (1986), “Acunga Natal qui nôs já sunhá” (1988), “Sã Natal, Jesus já nascê” (1989), “Luz di Natal” (1990) e “Natal Cristãm” (1991). Outras foram publicadas por diversificadas entidades, como os Serviços de Turismo de Macau, a Fundação A-Má-Kók, o Instituto Cultural de Macau, a editora Livros do Oriente e a Fundação Macau, que teve o meritório propósito de reeditar as suas obras, numa colecção que teve vários volumes, sob a coordenação de José Silveira Machado, em 1996 e 1997.Neste poema, Adé despede-se do ano de 1984, que não terá deixado grandes saudades, e dá as boas-vindas ao novo ano. Olhando para o mundo, lamentou a fome, as lágrimas, os ódios, os seres humanos desprezados, os pobres escravizados, os ricos gananciosos e insaciáveis, em contraste com gente pobre morrendo abandonada, ino-centes que pagam pelos erros e incúria dos outros, velhos e crianças que definham em abrigos sem tecto. Pede, com votos de boas entradas, sem tropeções, que o novo ano traga bom vento para afastar os males que afligem a humanidade, juntamente com paz e pão, chegue com a frescura de um jardim florido e com amor para todos os cora-ções e acenda uma luz para a todos iluminar, espalhando, com a graça de Deus, amor, paz e bondade.São estes, afinal, os melhores votos que qualquer de nós pode formular, pensando neste vasto mundo sempre conturbado. A Portugal desejamos que encontre as
283 J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – VIIImelhores soluções para começar a vencer a crise que se instalou no país, à China que se prepare bem para as dificuldades que vão também bater à sua porta e a Macau que saiba manter a sua prosperidade e fazer as reformas estruturais inexplicavelmente adiadas. Feliz Ano Novo!9 de Janeiro de 2012
284F A L A R D E N Ó S – VIIIJ O R g E A . H . R A N g E L Já tinha tido a oportunidade de apreciar trabalhos artísticos de Pedro Barreiros em diversas exposições, mas esta, inaugurada em Outubro e ainda patente na Delegação Económica e Comercial de Macau em Lisboa, agradou-me muito especialmente, pela qualidade alcançada e pela forma subtil e visualmente atraente como o autor conseguiu traduzir poemas clássicos chineses em pintura, interpretando com o pincel e transpondo admiravelmente para a tela o melhor da expressão de grandes mestres da literatura.Olhar atentamente para cada um dos quadros e poder ler, ali mesmo, as respectivas frases poéticas foi, de facto, um exercício gratificante. “Nostalgia”, “Em viagem”, “Canções para peónias”, “Ressentimento da Primavera”, “A rosa vermelha”, “Canção das águas verdes”, “A orquídea solitária”, “Solidão”, “No pico dos Cinco Anciãos”, “Bebendo ao luar”, “Ode à Primavera”, “A cascata de Lushan”, “Na laguna das flores de lótus”, “A lua sobre o rio do Leste”, “A velha lua” e “Na montanha num dia de Verão” contam-se entre as obras expostas.Desde a sua primeira mostra individual, em 1974, que Pedro Barreiros vem revelando este talento, tocado pela conhecida máxima de Leonardo da Vinci “a poesia é a pintura que se ouve; a pintura é a poesia que se vê”. Assim, Camilo Pessanha, Fernando Pessoa, Cesário Verde e Frederico Garcia Lorca foram por ele interpretados em trabalhos que produziu e apresentou em sucessivas mostras muito apreciadas. E agora Li Bai (701-762) e Wang Wei (699-759), depois de, em 2004, ter feito uma exposição subordinada ao tema “Hai-Kai, Poesia Japonesa” e outra, em 2006, intitulada “A Pintura é a Poesia que se vê”, ambas em Lisboa. A poesia na pintura de Pedro Barreiros“Nos seus quadros sobre Li Bai, Pedro Barreiros, pela sua sensibilidade e entendimento pessoal, leva-nos até ao poeta, prolonga pela imaginação, pelo traço do pincel e pela cor, o movimento do poema e, imersos na sua pintura, deixa-nos caminhar serenos pela grande poesia de um dos maiores poetas não só da China mas de toda a literatura universal”.António Graça de Abreu, no catálogo da exposição
285 J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – VIIIEle próprio explicou esta relação que tão bem soube estabelecer entre a poesia e a pintura:A Pintura e a Poesia“Desde muito cedo como, penso, todas as crianças, comecei a desenhar e a pintar.Nos primeiros anos do Liceu conheci um pintor chinês que tinha vindo decorar as salas do Restaurante Macau, o primeiro, uma linda moradia na esquina da Barata Salgueiro com a Avenida da Liberdade. Fascinado a vê-lo pintar, aprendi com ele a desenhar com o pincel, e foram em estilo chinês os meus primeiros trabalhos de pintura...Em 1961 fiz a capa do livro do meu pai (Danilo Barreiros)‘O Testamento de Camilo Pessanha‘, assinando-a com o meu sinete chinês —‘Pa-Pei-Tak‘. Tinha nascido aqui a minha primeira ligação pintura e poesia. Pela voz da minha mãe ouvi as primeiras rimas da Clepsydra. Interiorizei-as, decorei os poemas quase todos, sentindo permanentemente o seu ritmo em longos passeios a pé por Lisboa.Leonardo da Vinci, no seu Tratado da Pintura, que começou a escrever em Florença em 1508, faz uma comparação crítica das duas artes dizendo: ‘A poesia é a pintura que se ouve; a pintura é a poesia que se vê‘.
286F A L A R D E N Ó S – VIIIJ O R g E A . H . R A N g E L Esta reflexão de uma das maiores e decerto a mais versátil figura do Renascimento foi muito marcante para mim desde que a li numa edição espanhola do tratado de 1956, comprada na Livraria Ecléctica, que ficava aqui perto na esquina da Calçada do Combro com a Travessa André Valente a alguns metros da casa em que morreu o poeta Bocage.Através daquela fórmula proposta pelo génio criador, pintor, escultor, arquitecto e inventor, comecei a ler e a ouvir a poesia em termos diferentes do que até aí. Passei a ver a poesia em forma de pintura. As frases poéticas passaram a entrar-me nos ouvidos e, simultaneamente, de forma fluída, a aparecer-me no espírito projecções plásticas correspondentes às mesmas.Este processo de tradução de poesia em pintura não é, porém, instantâneo, obedece a uma depuração gradual, a uma elaboração interior.Os quadros poéticos iniciam-se como que em manchas matizadas em movimento, um tanto disformes e imprecisas, quer na forma, quer na cor.As frases vão rebuscar imagens de vivências, antigas ou recentes, dos cenários envolventes — vão procurar nos ficheiros da memória experiências próprias que se misturam com as dos sons da poesia.Há pois, uma amálgama de imagens interpenetrando-se, em que cada elemento do poema vai procurar o seu lugar.
287 J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – VIIIAs imagens vão chegando ao ciclorama em que se inscrevem com um determinado ritmo — o ritmo do poema ou resultante da repetição incessante da mesma frase num único verso do poema.Cada imagem, quando surge, parece assumir a importância do todo.A cada instante, cada motivo é o central, à volta do qual gravitam, em movimentos síncronos, cada vez mais lentos, até que tudo, de repente, se suspende num arranjo harmonioso final.Ganhando as formas e as cores definitivas, a frase poética está, enfim, transformada em frase pictórica — a pintura está feita no meu espírito.O resto é simples: transportá-la para a tela, para a madeira, para o papel, usando tintas de óleo, ‘gouaches‘, aguarelas, lápis de cor...”Médico, pintor, escritorComo referiu, no catálogo da exposição, António Graça de Abreu, um dos maiores divulgadores da cultura chinesa em Portugal e tradutor daqueles clássicos (“Poemas de Li Bai”, 1996, e “Poemas de Wang Wei”, 1993, Instituto Cultural de Macau), “Pedro Barreiros, médico, pintor, escritor, conduz em si a marca indelével de ter nascido em Macau” e é “um cidadão singular num, tantas vezes exagerado mas único, encontro de civilizações e culturas que tem Macau por porto de desembarque e estância de abrigo”.
288F A L A R D E N Ó S – VIIIJ O R g E A . H . R A N g E L Foram a sua ligação íntima a Macau, a educação familiar e a sua apurada sensibilidade que o levaram, naturalmente, a interessar-se ainda mais pela cultura chinesa. “Pedro Barreiros, homem também das palavras, e de palavra, sensível diante da grande poesia chinesa, descobriu Li Bai (701-762) ou Li Po, talvez o maior de todos os poetas dos quarenta séculos de poesia chinesa. Agarrou nos seus pincéis, nos tubos de cor e decidiu recriar no papel, na tela, duas dezenas de poemas de Li Bai”. Esta temática foi também objecto da palestra (“Arte Médica, Arte Poética e Artes Plásticas”) que proferiu na Praia da Vitória (Terceira, Açores), em Outubro de 2010, e repetiu em Macau, em Abril de 2011.16 de Janeiro de 2012
289 J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – VIIIPresidente do Instituto Internacional de Macau desde Dezembro de 1999, Jorge Alberto Hagedorn Rangel desempenhou funções públicas em Macau, sua terra natal, durante quase 25 anos, treze dos quais como membro do Governo, tendo tutelado as áreas de Administração Pública, Educação e Juventude e também as da Cultura, do Desporto e do Turismo. Em muitas ocasiões foi Encarregado do Governo de Macau, substituindo o Governador nas suas ausências.É casado e tem uma filha, ambas também naturais de Macau, vivendo a sua família, oriunda de Portugal, há dez gerações em Macau e noutras terras do Extremo Oriente.Fez os ensinos básico e secundário em Macau e os estudos superiores em Lisboa, Cambridge, Bonn e Navarra. Enquanto estudante, dedicou-se intensamente a actividades de juventude, desde as da Mocidade Portuguesa às de associações de estudantes, tendo participado também em encontros juvenis no estrangeiro, e interessou-se pela comunicação social, tendo obtido a classificação de “óptimo” no I Curso Nacional de Jornalismo organizado pelo Sindicato Nacional de Jornalistas, além de ter feito o Curso de Ciências e Técnicas de Informação da Escuela de Periodismo, em Pamplona (Espanha).Cumpriu o serviço militar nos Açores e na Guiné, onde, como Capitão Miliciano de Infantaria, comandou uma companhia de caçadores em zona operacional, com vários louvores em campanha, tendo também dirigido a instrução de tropas no seu comando operacional. Na fase final da comissão militar na Guiné, trabalhou junto dos Governadores e Comandantes-Chefes, Generais António de Spínola e José Manuel Bettencourt Rodrigues.Jorge A. H. RangelNOTA BIOgRÁFICA
290F A L A R D E N Ó S – VIIIJ O R g E A . H . R A N g E L Foi eleito Deputado à 1.ª legislatura da Assembleia Legislativa de Macau (1976 -80 ) , onde presidiu às Comissões de Assuntos Constitucionais, Direitos, Liberdades e Garantias e do Regimento e Mandatos e, entre outras funções públicas, foi também presidente da Fundação Macau e director do Turismo e da Comunicação Social. As suas últimas responsabilidades oficiais foram a coordenação da transferência das responsabilidades administrativas da Administração Portuguesa para o Governo da Região Administrativa Especial de Macau, incluindo a tutela do Gabinete Coordenador das Cerimónias de Transferência. Foi também membro do Conselho de Redacção da Lei Básica da Região Administrativa Especial de Macau.No âmbito académico, além de funções docentes, foi o presidente da comissão instaladora do Instituto Politécnico de Macau, de que é agora presidente honorário, e membro das comissões instaladoras do Curso de Administração Pública e da Faculdade de Ciências da Educação da Universidade de Macau. Também presidiu ao Conselho da Universidade de Macau e aos Conselhos de Educação, do Desporto e de Juventude. É professor convidado de várias instituições de ensino superior, sendo também consultor da Universidade Aberta Internacional da Ásia e director honorário do Centro de Estudos Comparativos de Culturas da Universidade de Soka (Tóquio). Foi conferencista no Instituto da Defesa Nacional de Portugal, ministrando a matéria “A Bacia do Pacífico, Situação Estratégica e Perspectivas de Evolução” e integra o corpo docente do curso de pós-graduação em “China Moderna” no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade Técnica de Lisboa, desde o ano lectivo de 2001/2002, dando idêntica colaboração docente no Curso de Estudos Chineses (China Moderna e Contemporânea) da Universidade de Aveiro.
291 J O R g E A . H . R A N g E L F A L A R D E N Ó S – VIIIDesenvolveu e mantém ainda uma actividade intensa em organismos internacionais, como a UNESCO, a EROPA (Eastern Regional Organization for Public Administration), de que é membro vitalício, a Universidade das Nações Unidas e a Associação das Universidades de Língua Portuguesa (AULP). Foi presidente da EATA (East Asia Travel Association), com sede em Tóquio; presidente regional da PATA (Pacific Asia Travel Association), com sede em Banguecoque, de que é director vitalício, e membro do Conselho Executivo da Organização Mundial do Turismo, com sede em Madrid. Participa regularmente, como conferencista, em encontros internacionais, de que se destaca a Conferência Internacional sobre o Diálogo das Civilizações, que se realizou em Tóquio e Quioto, no âmbito das Nações Unidas, tendo presidido à sessão sobre “Multiculturalismo e Encontro de Culturas”.A actividade associativa ocupa parte importante do seu tempo, tendo sido presidente do Elos Internacional – Movimento da Comunidade Lusíada durante dois mandatos (eleito em São Paulo, Brasil, em 1999, e reeleito em Coimbra, em 2001). É presidente da Assembleia Geral da Associação Promotora da Instrução dos Macaenses, presidente do Conselho Consultivo da Associação de Gestão de Macau, académico honorário da Academia Portuguesa de História, académico da Academia Lusófona de Arte e Cultura, membro do Conselho de Administração do Observatório da Língua Portuguesa e presidente da Direcção Central e membro do Conselho Supremo da Sociedade Histórica da Independência de Portugal, além de dirigente ou membro de numerosas outras associações de natureza cultural, artística, educativa e social. O Instituto Internacional de Macau, de que é presidente e membro fundador, é uma ONG (organização não governamental), com a classificação oficial de organismo de utilidade pública. É também presidente do Conselho
292F A L A R D E N Ó S – VIIIJ O R g E A . H . R A N g E L Consultivo do Conselho das Comunidades Macaenses e membro dos Conselhos de Curadores das Fundações Casa de Macau, Jorge Álvares e do Santo Nome de Deus, todas ligadas a Macau, sendo ainda membro honorário de várias agremiações macaenses espalhadas pelo mundo.Foi agraciado com diversas condecorações nacionais e estrangeiras, de que se destacam o Grande Oficialato (1982) e a Grã-Cruz (1998) da Ordem do Infante D. Henrique, a Medalha de Valor (a mais alta distinção honorífica de Macau), a Medalha de Mérito da Cidade do Rio de Janeiro, a Medalha de Mérito, com o título de “benemérito”, da Federação das Associações Portuguesas e Luso-Brasileiras do Brasil, a Medalha de Mérito Eduardo Dias Coelho, do Elos Internacional, com o título de “grande benemérito” e a Medalha Victor Hugo de Cultura, tendo também recebido o Award of Excellence do Instituto de Estudos Orientais de Tóquio, o Paul Harris Fellow e o título de membro benemérito da organização rotária internacional, além de vários doutoramentos honoris causa e o troféu D. Quixote, do Conselho da Europa.
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