• Jorge A. H. rAngelFAlAr de nós – VIIMAcAu e A coMunIdAde MAcAense – acontecimentos, personalidades,instituições, diáspora, legado e futuro
  • FAlAr de nós – VII
  • ficha técnicatítulo FALAR DE NÓS – VI • subtítulo Macau e a Comunidade Macaense – acontecimentos, personalidades, instituições, diáspora, legado e futuro • autor Jorge Rangel • editor Instituto Internacional de Macau • direcção e execução gráficas victor hugo design • dacti lografia Emília Guine, Cheng Mei Ieng• tiragem 1000 exemplares • impressão e encadernação Tipografia Welfare Lda • isBn 973-?????-??-??-?Nota: edição composta pela série de crónicas e artigos publicados no “Jornal tribuna de macau”, de 18 de Janeiro de 2010 a 17 de Janeiro de 2011.ediçãoInstituto Internacional de Macaupatrocínio da Fundação Jorge Álvaresapoio do Governo da RAEM
  • FAlAr de nós – VIIMAcAu e A coMunIdAde MAcAense– acontecimentos, personalidades,instituições, diáspora, legado e futuroSérie de crónicas e artigos publicados no “Jornal Tribuna de Macau”, de 18 de Janeiro de 2010 a 17 de Janeiro de 2011Jorge A. H. rAngelmacau, Julho de 2011
  • J o r g e A . H . r A n g e l ÍndIce013Nota prévia – Sete volumes publicados015China – o “grande salto” para o mundo lusófono18/01/10020Cooperação com países lusófonos25/01/10026A participação chinesa no desenvolvimento de Timor-Leste01/02/10031Angola: relevantes projectos sino-angolanos em curso08/02/10036Como se divertia a comunidade macaense22/02/10041Jornadas académicas em Bragança com presença visível de Macau01/03/10046Homenagem de Portugal ao alto mérito de um académico chinês08/03/10051Um símbolo da vitalidade cultural de Macau15/03/10056Mar das Especiarias – fascinante livro de Joaquim Magalhães de Castro22/03/10061O 10.o aniversário da transição na óptica do Presidente da República29/03/10067A ascensão da China – acomodação pacífica?12/04/10072Retalhos de uma vida19/04/10077Os primórdios da Polícia Judiciária em Macau26/04/10
  • J o r g e A . H . r A n g e l 082Um Salesiano no Extremo Oriente03/05/10087Depoimentos sobre o Padre Mário Acquistapace10/05/10092Na visita do Santo Padre a Portugal17/05/10097Macau e os 150 anos do tratado luso-nipónico24/05/10102Presença de Macau nas luzes e sombras das relações luso-nipónicas31/05/10107Recordações de cinco continentes de Chen Ziying07/06/10112Apontamentos de Chen Ziying sobre a transição14/06/10117Macau no dia de Portugal e o adeus a Couto Viana21/06/10122Macau na 80.a edição da Feira do Livro de Lisboa28/06/10127A I Quinzena de Macau em Lisboa, há quase quatro décadas05/07/10132Receitas macaenses da I Quinzena de Macau em Lisboa12/07/10137Doçaria divulgada na I Quinzena de Macau em Lisboa19/07/10142Outros petiscos macaenses da I Quinzena de Macau em Lisboa26/07/10147Os cozinhados de Macau de D. Celestina02/08/10
  • J o r g e A . H . r A n g e l 152Gastronomia macaense: mais um livro e homenagem na Madeira09/08/10157Macau recordada no 50.º aniversário da Associação Portuguesa de Imprensa16/08/10162O adeus ao ex-Governador Vasco de Almeida e Costa (1932-2010)23/08/10167Almeida e Costa a as relações com a China30/08/10173Saudar a AULP em novo Encontro em Macau06/09/10178Visita que foi um marco nas relações Macau-Guangdong13/09/10183Governador convidado de honra no Festival Cabrilho (Califórnia)20/09/10188Os japoneses em Macau na Guerra do Pacífico27/09/10193Macau, porto de abrigo na guerra sino-japonesa04/10/10198O fim do mito da invencibilidade japonesa11/10/10203Livro sobre ciência da gestão com raízes em Macau18/10/10208Um apelo nos anos vinte à promoção turística25/10/10213Sugestões de Jaime do Inso para promover Macau01/11/10218Fragmentos do olhar de Henrique de Senna Fernandes08/11/10
  • J o r g e A . H . r A n g e l 223O escritor na primeira pessoa15/11/10228Poemas de Yao Jingming inspirados no escritor e na sua obra22/11/10234Bem-vindos, irmãos, à terra-mãe29/11/10240Novas edições do IIM apresentadas na abertura do Encontro06/12/10245Graciete Batalha – saudade e homenagem13/12/10250Reflexão de Adriano Moreira a propósito da transição de Macau20/12/10256O Natal macaense de antigamente27/12/10262Macau no primeiro número da revista Independência03/01/10268Encontros das Comunidades Macaenses registados em livro10/01/10274Centenário de Danilo Barreiros assinalado em Macau17/01/10280ApêndiceEntrevista a “O Clarim”293Nota biográfica
  • J o r g e A . H . r A n g e l Aos colegas, colaboradores e pessoal do Instituto Internacional de Macau, pela forma dedicada, empenhada e competente como me quiseram acompanhar, ao longo de mais de uma década, no cumprimento da nossa Missão.
  • 013 F A l A r d e n ó s – VII J o r g e A . H . r A n g e l Todas as semanas, ao longo de mais de sete anos, foram sendo produzidos artigos e crónicas para publicação no “Jornal Tribuna de Macau”, relacionados com Macau e a Comunidade Macaense, referindo acontecimentos, personalidades, instituições, a diáspora, o legado e os desafios e opções do presente e do futuno.No último Encontro das Comunidades Macaenses, realizado em Dezembro passado, foram apresentados numa memorável sessão cultural levada a efeito no emblemático teatro D. Pedro V, mais dois volumes, integrados num conjunto de novas e bem acolhidas edições.Sai agora do prelo o 7.º volume, numa altura em que o 8.º está em fase adiantada de preparação, permitindo-nos dar início ao 9.º em Janeiro do próximo ano.À minha família, aos colaboradores do Instituto Internacional de Macau, os leitores e ao director daquele diário macaense quero expressar o meu sentido reconhecimento, pela compreensão, pelo apoio e pelas constantes e animadoras palavras de incentivo.Macau, Julho de 2011. Jorge A. H. Rangelsete Volumes publicados
  • 015 F A l A r d e n ó s – VII J o r g e A . H . r A n g e l Complementando outra iniciativa do Instituto Internacional de Macau (IIM) em Lisboa, que foi a abertura, no corrente mês de Janeiro, da exposição “Macau é um espectáculo” no Espaço Fernando Pessoa do Palácio da Independência, foi lançado, na 5a feira passada, nas instalações do Instituto D. Antão de Almada da Sociedade Histórica da Independência de Portugal, no mesmo Palácio, o livro “Macau e as relações China / países de língua portuguesa – dez anos de crescimento”, publicado pelo IIM, sob a coordenação de Gonçalo César de Sá e com a colaboração de 14 jornalistas e especialistas nos temas tratados. Fizeram a apresentação pública da obra o presidente do IIM, que também escreveu o prefácio, e o secretário-geral do Conselho Empresarial da CPLP – Comunidade de Países de Língua Portuguesa, Francisco Mantero, personalidade muito conhecida nos meios empresariais e nos círculos de conferências e colóquios no mundo lusófono, até pelo seu activo envolvimento na ELO – Associação Portuguesa para o Desenvolvimento Económico e a Cooperação, de que é presidente.O desenvolvimento e as potencialidades da China têm merecido a atenção crescente de associações e universidades, podendo um livro como este, com informação actualizada e correctamente tratada, ser da maior utilidade para os interessados. Um dos capítulos do livro explica, precisamente, os propósitos e o significado da cooperação assumida, coerente e persistentemente, pela China e os parâmetros do seu continuado desenvolvimento:“Os anos 1980 e 1990 foram, grosso modo, de aproximação e estabelecimento de uma base de cooperação entre a China e a generalidade dos países lusófonos, processo nem sempre fácil em anos politicamente conturbados. Já na década até 2009 assistiu-se ao rápido aprofundamento, ou mesmo estabelecimento (Timor-Leste), de importantes relações económicas e comerciais.china – o “grande salto” para o mundo lusófono“Este trabalho, que o IIM agora publica, é especialmente dedicado ao papel da RAEM como plataforma económica e comercial entre a China e os países de língua portuguesa e às importantes realizações já conseguidas neste domínio”.Do prefácio do livro
  • 016F A l A r d e n ó s – VIIJ o r g e A . H . r A n g e l No que diz respeito ao volume das trocas comerciais com a China, Brasil e Angola aparecem à cabeça da lista. Os membros da Comunidade de Países de Língua Portuguesa passaram a ocupar um papel de destaque no comércio externo da China, que muitos vaticinam como a próxima superpotência económica global.Pela sua natureza, as trocas sino-lusófonas passaram também a ter importância estratégica: o petróleo angolano é já essencial para o cabaz energético chinês, as importações de matérias-primas agrícolas ou minerais brasileiras alimentam o tecido industrial da China, e o arroz comprado a Moçambique pode num futuro breve estar à mesa de muitas famílias chinesas.O crescimento das trocas comerciais entre a China e os países lusófonos continuou na última década. Entre 2003 e 2006, os fluxos de bens e serviços entre a China e os ‘oito’ mais do que triplicaram, para um total de 34 mil milhões de dólares no final de 2006. Este crescimento, ligado à intensificação das trocas mas também a uma subida do preço das matérias-primas, permitiu antecipar folgadamente em um ano o cumprimento da ambiciosa meta que estava traçada: transacções no valor de 50 mil milhões em 2009. Em 2008, as trocas cresceram 66 por cento, para 77.022 milhões de dólares, segundo dados dos Serviços da Alfândega da China. Superada a meta, está ainda por determinar o efeito do abrandamento económico global, sobre as trocas, onde têm grande peso matérias-primas como o petróleo ou a soja. No ano passado, as trocas com quase todos os parceiros lusófonos registaram aumentos de dois dígitos face ao período homólogo. A excepção esteve em Timor-Leste, além de Cabo Verde, com variações negativas. Angola e Brasil têm vindo continuamente a reforçar o seu peso como principais parceiros comerciais da China entre os ‘oito’. Em 2009 tiveram ambos aumentos em torno dos 100 por cento.
  • 017 F A l A r d e n ó s – VII J o r g e A . H . r A n g e l cooperação sino-brasileira Para o Embaixador do Brasil em Pequim, Clodoaldo Hugueney, ‘a China está a diversificar os seus investimentos no mundo’ e o actual cenário de recessão global pode até levar a uma maior aproximação ao Brasil. Os laços bilaterais ‘podem sair reforçados depois da crise passar’. ‘Ao aumentar a cooperação, fortalecemos os dois países, que são duas economias gigantescas com sectores industriais muito importantes, e duas economias que continuam a crescer”, diz o diplomata.A Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimento (Apex Brasil), que tem um escritório em Pequim, prevê para os próximos cinco anos uma duplicação das trocas comerciais entre os dois países, em que as matérias-primas brasileiras e os bens de consumo chineses têm grande peso. Além da concessão de um crédito de dez mil milhões de dólares à Petrobras, o Banco de Desenvolvimento da China estabeleceu em Maio um acordo com o Banco Nacional de Desenvolvimento Económico e Social do Brasil para uma extensão da linha de crédito entre os dois países. Brasília e Pequim nunca estiveram tão perto. O estreitar das relações comerciais nos últimos dez anos fizeram do Brasil o maior parceiro de negócios com a China na América Latina. O crescimento nas trocas comerciais foi, em média, cinquenta por cento ao ano nos últimos dez anos. ‘Conseguimos em 35 anos mais do que outros nem em cem anos conseguem’, disse o presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, em visita à China em Maio de 2009, que assinalou os 35 anos de relações diplomáticas. Hoje, soja, minério de ferro e petróleo compõem cerca de oitenta por cento do total das importações chinesas. A este valor juntam-se a pasta de papel e os produtos agrícolas (tabaco, algodão e madeira tropical), completando noventa por cento das exportações.
  • 018F A l A r d e n ó s – VIIJ o r g e A . H . r A n g e l No que se refere a produtos exportados para a China, o destaque vai para os aviões da Embraer que já tem cerca de 50 aviões produzidos no Brasil a voar em companhias aéreas chinesas. (...)o maior parceiro comercial africanoCom trocas bilateriais de 25,3 mil milhões de dólares, Angola tornou-se em 2008 no maior parceiro comercial da China em África. Disputa também com a Arábia Saudita e o Sudão o ‘título’ de principal fonte das importações petrolíferas da potência económica asiática. Segundo dados do Ministério do Comércio chinês (MOFCOM), em 2006 a importação chinesa de petróleo em rama de Angola ascendeu a 22,7 milhões de toneladas, subindo no ano seguinte para 25 milhões. Angola, que actualmente produz perto de 1,7 milhões de barris de petróleo por dia, tem na China o seu melhor cliente. O embaixador de Angola em Pequim, João Bernardo, não hesita ao considerar que ‘a cooperação com a China está num nível muito bom’. A presença chinesa, salienta, tem apoiado a reconstrução do país, que emergiu em 2002 de uma destruidora guerra civil que a afectou de forma quase ininterrupta desde a independência do país (1975). Para apoiar a reconstrução da economia, o governo chinês perdoou, em Maio de 2001, uma dívida de 67,38 milhões de yuan (cerca de 10 milhões de dólares). Para o rápido crescimento das trocas sino-angolanas foi decisiva a criação das multimilionárias linhas de crédito à reconstrução. A linha de crédito chinesa a Angola está estimada em cinco mil milhões de dólares. Li Ruobu, presidente do Eximbank, afirmou após encontro com o Presidente José Eduardo dos Santos, em 2008 em Pequim, que a instituição de crédito pretende aumentar o valor da linha de crédito. A primeira linha de crédito para Angola foi aberta em 2004 com o valor de dois mil milhões de
  • 019 F A l A r d e n ó s – VII J o r g e A . H . r A n g e l dólares. Em 2006 houve um novo aumento aquando da visita do primeiro-ministro Wen Jiabao a Angola. Em Angola estão algumas das maiores empresas de construção chinesas, como o grupo Sinohydro, que tem já setenta projectos a decorrer no país, empregando cerca de três mil angolanos. O vice-ministro do Comércio Chen Deming afirma que a China vai continuar a encorajar empresas chinesas a investir em Angola e alargar a cooperação em sectores como o agrícola, infra-estruturas, programas de reconstrução nacional e saúde. Este ano iniciaram-se as ligações directas entre Luanda e Pequim, através da companhia aérea Taag, que passou a aterrar no aeroporto da capital chinesa duas vezes por semana. Nos países africanos de língua portuguesa, a atitude do governo chinês tem sido a de incentivar os negócios feitos por chineses, mas também desenvolver em várias áreas projectos de apoio para o desenvolvimento destes países. (...)— · —O Brasil e Angola são, pela sua dimensão, os parceiros prioritários. No próximo artigo veremos as grandes linhas de cooperação com outros países lusófonos. Os vários capítulos do livro são dedicados à RAEM e a cada um dos países de língua portuguesa, no âmbito da cooperação económica com a China. Com o estatuto de “observador consultivo” da CPLP, o IIM presta, com a conclusão deste estudo e a publicação da obra, mais um serviço útil a esta organização e, simultaneamente, à RAEM. 18 de Janeiro de 2010
  • 020F A l A r d e n ó s – VIIJ o r g e A . H . r A n g e l A propósito da apresentacão, em Lisboa, do livro “Macau e as relações económicas China/países de língua portuguesa — dez anos de crescimento”, edição do Instituto Internacional de Macau cuja elaboração foi coordenada por Gonçalo César de Sá, transcrevemos, no artigo anterior, algumas passagens da obra em que se deu destaque às relações da R.P.C. com o Brasil e Angola, mercados prioritários tendo em conta a sua dimensão e o valor das trocas comerciais e dos investimentos realizados ou em curso. Concluímos agora as considerações genéricas que antecedem, no livro, as análises do movimento comercial com cada um dos países de língua portuguesa, referindo sucintamente as relações económicas com Moçambique, Cabo Verde, Guiné-Bissau, S. Tomé e Princípe e Timor-Leste:Moçambique“Vários produtos moçambicanos têm isenção de taxas para entrarem na China. Eram 190 produtos isentos e, depois do encontro de 2007 entre os presidentes Hu Jintao e Armando Guebuza, o número subiu para 442 produtos. A riqueza de recursos minerais como o carvão, sal, ouro, pedras preciosas e semi-preciosas, tem contribuído para o desenvolvimento da economia moçambicana. No que se refere a produtos agrícolas, o algodão e a cana-de-açúcar aparecem no topo da lista e a China tem a decorrer projectos de apoio ao cultivo do algodão. O envolvimento da China em Moçambique estende-se dos aspectos sociais aos económicos e à defesa. Na visita de Hu Jintao foi assinado um acordo para a concessão de um empréstimo preferencial de 120 milhões de euros. Os acordos de cooperação assinados em 2007 estão avaliados em cerca de 180 milhões de euros. Um dos destaques do encontro de há dois anos foi o perdão da dívida de Moçambique à China que ascendia a cerca de 15 milhões cooperação com países lusófonos“O sucesso das políticas definidas dependerá, em larga medida, da consistência das parcerias público-privadas que puderem ser estabelecidas e estendidas no espaço e no tempo entre os governos e as mais prestigiadas instituições da sociedade civil”.Do editorial do livro.
  • 021 F A l A r d e n ó s – VII J o r g e A . H . r A n g e l de dólares. Na mesma altura, abriu-se um crédito chinês de 31 milhões de dólares, concedido pelo China Eximbank. Em 2009, a companhia de capital chinês Sogecoa começou o processo de renovação do hotel mais luxuoso de Maputo. O projecto vai custar cerca de 24 milhões de dólares. A empresa estabelecida em Moçambique já realizou outros projectos, como a construção do Centro de Promoção de Investimentos, um edifício de dez andares na capital moçambicana. O investimento de construtoras chinesas tem vindo a crescer e desde o Estádio Nacional ao Aeroporto Internacional de Maputo há contratos com companhias chinesas.cabo VerdeSendo um país pequeno, em Cabo Verde o investimento chinês começou por ser feito por pequenos empreendedores que se estabeleceram com os primeiros negócios. Actualmente, a comunidade chinesa é a segunda maior entre as comunidades estrangeiras, a seguir à portuguesa.A nível de projectos de cooperação destacam-se várias áreas que vão da saúde, com a construção de dois edifícios para o hospital central, à educação, com a construção de mais três escolas secundárias. A acrescentar a estes, está em processo a ideia da construção de habitações sociais. Júlio Morais, embaixador em Pequim, foi inaugurar a presença diplomática de Cabo Verde na China, tendo os dois países relações diplomáticas desde 1976. No que se refere a projectos de infra-estruturas no arquipélago, a China tem-se destacado porque, como frisou o diplomata, a China “tem uma forma de cooperar que é mais rápida do que a de outros países”. Portugal ainda é o maior parceiro comercial de Cabo Verde, mas na Praia há um manifesto interesse em diversificar as relações bilaterais em particular com a China e o Brasil, dois pesos
  • 022F A l A r d e n ó s – VIIJ o r g e A . H . r A n g e l fortes na actual conjuntura económica mundial. Cabo Verde poderá vir a acolher uma das cinco zonas de cooperação chinesa em Africa. O nível de desenvolvimento do país, a estabilidade política, a posição geográfica estratégica e a abertura ao investimento estrangeiro, fazem que seja um forte candidato para o futuro da cooperação.Apesar de serem incipientes as importações do lado chinês, a exportação chinesa para Cabo Verde tem vindo a crescer, destacando-se um impulso de 94,6 por cento em 2006. Hoje empresas públicas e privadas chinesas estão ligadas a projectos de grandes dimensões no arquipélago, como o da primeira cimenteira, na ilha de Santiago.guiné-BissauAli ao lado, na Guiné-Bissau, foi colocada este ano a primeira pedra para a construção de um hospital militar que deve estar concluído no final de 2010, com financiamento da cooperação chinesa.Em 2006 foi estabelecido um acordo para o financiamento chinês também de uma barragem no rio Ceba, um grande projecto hidroeléctrico a duzentos quilómetros da capital Bissau. Com um custo estimado de 60 milhões de dólares, será a primeira hidroeléctrica do país. Outros projectos de infra-estruturas envolvendo a China são a construção do porto de águas profundas em Buba, que vai ser o maior no país, de duas auto-estradas principais e da ponte sobre o rio Farim. O acordo para o porto de águas profundas (2006) abre a porta para embarcações de pesca chinesas entrarem nesta Zona Económica Exclusiva.A Guiné-Bissau tem riquezas minerais identificadas, sobretudo fosfatos. Porém, a exploração dos recursos tem custos muito elevados num país que está ainda entre os mais pobres do mundo. A economia depende substancialmente da agricultura e da
  • 023 F A l A r d e n ó s – VII J o r g e A . H . r A n g e l pesca. A possibilidade de explorar as reservas de petróleo tem vindo a ser investigada desde há vários anos. No caso dos estudos se confirmarem, a exploração só poderá ser feita com a ajuda de parceiros estrangeiros.são Tomé e PríncipeO petróleo pode vir a abrir caminho nas relações da China com São Tomé e Príncipe, o único país de língua portuguesa que actualmente mantém relações diplomáticas com Taiwan.A Sinopec está a explorar um dos blocos petrolíferos da Zona de Desenvolvimento Conjunto são-tomense-nigeriana. E com a recente compra da Addax, passa a controlar mais um bloco e torna-se accionista dos outros dois. A China afirmou em 2008 que a porta está aberta para o arquipélago entrar no Fórum para a Cooperação Económica e Comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa.Timor-lesteA presença da Sinopec estende-se ainda a Timor-Leste, país que tem beneficiado de um grande incremento da cooperação chinesa. A China foi o primeiro país a estabelecer relações diplomáticas com o país, logo após a independência timorense, em 2002. Um dos países mais novos do mundo com uma população de cerca de 970 mil habitantes recebeu nos primeiros anos uma doação de cerca de 8,6 milhões de dólares pelo governo chinês para ajudar na reconstrução do país. A presença de investimentos chineses tem vindo a aumentar em áreas fundamentais para o desenvolvimento. Actualmente, mais de dois mil chineses trabalham no país.
  • 024F A l A r d e n ó s – VIIJ o r g e A . H . r A n g e l A China é o quarto maior parceiro comercial de Timor-Leste, a seguir à Indonésia, Singapura e Austrália. Uma das áreas em que a presença chinesa tem tido destaque é a da construção de edifícios governamentais. Em 2008, foi terminado o edifício do Ministério dos Negócios Estrangeiros, que custou sete milhões de dólares. No final de 2009 deve estar terminado o palácio presidencial construído com seis milhões de dólares de ajuda chinesa. Na saúde, educação e agricultura, o governo central chinês tem investido na formação de timorenses nos centros de educação e investigação chineses.No âmbito privado, em Maio de 2009, foi assinado em Díli um contrato para o fornecimento de equipamentos e serviços de terceira geração de telefonia móvel, envolvendo a ZTE Corporation e a Timor Telecom.— · —A sessão de apresentação, que decorreu no Salão Nobre do Palácio da Independência no dia 14 de Janeiro, proporcionou um debate vivo e amplamente participado e contou com a presença de representantes da Embaixada da R.P.C., da Delegação Económica e Comercial de Macau em Lisboa e da Fundação Casa de Macau, dos presidentes do Instituto de Investigação Científica Tropical, do Observatório da China e da Associação Portuguesa de Imprensa, professores universitários, empresários, membros do IIM e outras pessoas interessadas nesta temática relacionada com o desenvolvimento da China e o seu papel na construção duma nova ordem internacional multipolar. Coordenaram a sessão o presidente do IIM e o secretário-geral do Conselho Empresarial da CPLP – Comunidade de Países de Língua Portuguesa, Francisco Mantero. Vários dos jovens jornalistas da equipa coordenada por Gonçalo César de Sá na produção do livro também participaram na animada sessão.
  • 025 F A l A r d e n ó s – VII J o r g e A . H . r A n g e l Como ficou claramente expresso no prefácio da obra, “no âmbito das suas atribuições, o IIM não pode deixar de estar na primeira linha dessas preocupações, promovendo a plena realização dos grandes objectivos consensualmente assumidos e reforçando a articulação com a CPLP, no uso pleno do estatuto de observador consultivo que lhe foi oportunamente atribuído”.25 de Janeiro de 2010
  • 026F A l A r d e n ó s – VIIJ o r g e A . H . r A n g e l Nos dois artigos anteriores fizemos referências ao livro “Macau e as relações China / países de língua portuguesa – dez anos de crescimento”, edição do Instituto Internacional de Macau (2009). Tendo em conta a proximidade e as longas relações históricas com Macau, pareceu-nos oportuno divulgar algumas partes respeitantes a Timor-Leste, por alguns analistas políticos considerado “Estado falhado”, mas que tem potencialidades para se afirmar, consolidar a estabilidade e promover um desenvolvimento mais seguro e sustentável, contando para o efeito com relevantes apoios externos, com destaque para o envolvimento cada mais intenso e significativo da República Popular da China.Timor-Leste tem em comum com Macau o facto de ser um pedaço da Ásia onde o Português é também língua oficial. A capital é Dili, a moeda é o escudo timorense, tem cerca de 14.600 km2 de área, uma população de 1 milhão e cem mil e um PIB de 350 milhões de dólares americanos. A presença da China é visível, com incidência na economia, começando os interesses no sector energético e projectando-se depois nos das telecomunicações e das infra-estruturas.O fundo petrolífero de Timor-Leste terá atingido 4.000 milhões de dólares em 2008 e, segundo a revista “The Economist”, as três principais reservas petrolíferas (Sunset, Bayu-Udan e Elang-Kakatua) poderão conter um total previsível de 500 milhões de barris.Parceiros desde a primeira horaÉ crescente a participação da China no desenvolvimento de parcerias estáveis com Timor-Leste, como bem atesta este texto do livro:A participação chinesa no desenvolvimento de Timor-leste“O potencial de cooperação entre os dois países revelou-se, desde cedo, no sector da exploração de gás e petróleo, agricultura, pesca e telecomunicações”.“Macau e as relações China / países de língua portuguesa”
  • 027 F A l A r d e n ó s – VII J o r g e A . H . r A n g e l “Dois dias depois da independência, a 20 de Maio de 2002, a China foi o primeiro país a estabelecer relações diplomáticas com Timor-Leste. Nos anos anteriores, deu apoio diplomático e financeiro ao movimento de independência, sobretudo após o afastamento de Portugal, em 1975. O apoio foi reduzido durante o período de ocupação indonésia. Mas a partir do referendo de 1999 e retirada da Indonésia, a China voltou a estar mais presente. Ainda que a aproximação se tenha reforçado a partir de então, é desde 2002, com o estabelecimento de relações diplomáticas, que surgem acordos de cooperação em vários sectores. A crise militar debilitou a situação de Timor, sendo então um país pequeno e pobre, mas com ricos recursos naturais. O potencial de exploração desses recursos alimenta uma progressiva presença de parceiros estrangeiros, nomeadamente Austrália, Portugal, Itália, Coreia do Sul, Malásia, entre outros.Embora Timor-Leste não seja, ainda, um dos maiores parceiros da China, nos últimos sete anos as relações dos dois países têm-se intensificado. O potencial de cooperação entre os dois países revelou-se, desde cedo, no sector da exploração de gás e petróleo, agricultura, pescas e telecomunicações. Os acordos assinados permitiram ao governo de Timor receber apoios financeiros da China, bem como ver investimentos na construção de infra-estruturas. O palácio presidencial, uma das infra-estruturas construídas pela China, será passado ao governo de Timor-Leste este ano, tendo em 2008 sido aberto o edifício do Ministério dos Negócios Estrangeiros, também construído pela China. Somam-se projectos para os próximos anos, incluindo uma escola primária, o edifício do Ministério da Defesa e a sede das Forças de Defesa de Timor-Leste.O envio de equipas médicas e de medicamentos constitui outro tipo de intervenção do governo da China. As bolsas de estudo e a possibilidade de intercâmbio permitem aos estudantes timorenses estudar em universidades chinesas, normalmente nas áreas de agricultura, turismo e gestão. A possibilidade de obter formação na China não se
  • 028F A l A r d e n ó s – VIIJ o r g e A . H . r A n g e l reduz, no entanto, a estudantes. São também enviados funcionários públicos e militares para fazerem cursos em instituições chinesas. O embaixador da China em Timor-Leste, Sun Man, garantia em Abril de 2009 ir ser aumentado o número de bolsas de estudo atribuídas. O apoio do governo chinês a Timor-Leste privilegia, como afirmou Sun Man no Encontro de Parceiros para o Desenvolvimento, as infra-estruturas, o desenvolvimento rural e a construção de competências e capacidades humanas. O objectivo final, afirma o diplomata, é aumentar a taxa de emprego e eliminar os factores que causam instabilidade social.O embaixador da China tem apelado ao investimento de empresários da China, Hong Kong e Macau, podendo assim contribuir para o processo de desenvolvimento económico do país. Consciente do potencial de investimento e das vantagens que o próprio país pode retirar dessa intervenção externa, as tentativas de promover o investimento revelam-se claras, sobretudo através da TradeInvest Timor-Leste, uma agência de promoção do investimento. Promover o investimento passa por apresentar as vantagens que o país pode representar para o investidor. José Ramos Horta, presidente de Timor-Leste, por ocasião da Conferência do Investimento organizada pela TradeInvest em Novembro de 2008, enumerava as características do país, salientando a promoção de uma economia de mercado. Nela insere-se uma estratégia de investimento directo externo, o encorajamento de parcerias, assim como o incentivo para a intervenção de pequenas e médias empresas para desenvolver infra-estruturas económicas.Áreas de investimento e cooperaçãoAs áreas para potencial investimento são o petróleo e gás, a agro-indústria, as florestas, as pescas, o turismo, a indústria ligeira e as infra-estruturas. O investimento
  • 029 F A l A r d e n ó s – VII J o r g e A . H . r A n g e l no sector agrícola tem-se centrado ultimamente na plantação de arroz híbrido, inserido no projecto de aumentar a capacidade produtiva em Timor.O comércio entre Timor-Leste e a China cresceu mais de 13 vezes no ano passado. Timor-Leste é um dos países exportadores de café para o mercado chinês, sobretudo para a província de Guangdong, motor económico no sul da China, região fronteira a Macau e Hong Kong. Enquanto incentivo à exportação de produtos timorenses, o governo chinês concedeu, em Agosto de 2008, isenção de tarifas aduaneiras nas exportações para a China. Ainda que o café seja dos únicos produtos exportados para a China, o governo timorense espera conseguir começar a exportar peixe e outros alimentos, apostando nos projectos agrícolas voltados para o mercado externo. Na mesma altura, o presidente de Timor-Leste anunciava o projecto de compra à China de duas lanchas, para patrulha da costa, estimadas em 15 milhões de dólares cada. A costa timorense tem 873 Km e uma Zona Económica Exclusiva que, segundo o governo timorense, é alvo de pescas ilegais que trazem perdas anuais ao país. O governo alerta assim para a necessidade de fiscalização da costa, sendo para isso necessário investir na capacidade de patrulhamento.A cooperação militar entre os dois países surge não só baseada na tentativa de melhorar a componente naval timorense, como pela construção de instalações militares de alojamento e funcionamento das Forças de Defesa nacionais. Assegurar as condições básicas tem envolvido também projectos da China na produção de energia eléctrica, designadamente no investimento estimado em 370 milhões de dólares, a aplicar na construção de 10 sub-estações eléctricas nos próximos anos. O contrato foi assinado em 2008 com a China Nuclear Industry 22nd Construction Company (CNI22), visando a expansão da rede eléctrica com novas linhas de alta tensão, para além das duas grandes centrais eléctricas. É considerado o maior investimento chinês desde 2002. Na sequência de protestos da oposição e grupos ambientalistas, o governo ordenou um estudo de impacto ambiental.
  • 030F A l A r d e n ó s – VIIJ o r g e A . H . r A n g e l No sector das telecomunições, foi assinado já este ano um contrato entre a empresa chinesa ZTE Corporattion e a Timor Telecom. O acordo estabelece o fornecimento de equipamentos e prestação de serviços de telefonia móvel de terceira geração (3G). O projecto permite à Timor Telecom assegurar o acesso total à banda larga sem fios no território.”— · —Intensificar relações com países que possam apoiar o desenvolvimento económico de Timor-Leste é uma das prioridades da política externa timorense. Daí o interesse num ainda maior envolvimento da China e de empresas chinesas orientadas para a exploração de recursos naturais como o petróleo e o gás e também o mármore azul e o magnésio. O café, as pescas, as florestas, as infra-estruturas e o turismo são outras áreas particularmente relevantes. O tabaco e a cana de açúcar começam a merecer mais atenção de potenciais investidores.Quanto a Macau, as autoridades lembram sempre a cooperação em áreas como o turismo, a formação, o desporto, a cultura e a justiça e os apoios do governo de Macau à construção do Museu e Arquivos da Resistência e à participação de atletas timorenses nos Jogos da Lusofonia. E estarão sempre gratas pelo inestimável valor dos meios assegurados por Macau desde os anos dramáticos da luta pela independência nacional. A Administração Portuguesa e a sociedade civil muito fizeram, ao longo dos anos, para apoiar eficazmente a causa timorense.1 de Fevereiro de 2010
  • 031 F A l A r d e n ó s – VII J o r g e A . H . r A n g e l É sólida e em permanente desenvolvimento a parceria estratégica estabelecida entre a China e Angola, sendo verdadeiramente impressionante o número e a diversidade de projectos conjuntos, realizados ou em curso no maior país africano lusófono. O livro “Macau e as relações económicas China / países de língua portuguesa – dez anos de crescimento”, edição do Instituto Internacional de Macau (2009), elaborado sob a coordenação de Gonçalo César de Sá, permite-nos compreender a dimensão dessa cooperação intensa e mutuamente gratificante. São, resumidamente, estes os projectos merecedores de especial menção, nas diversas províncias angolanas, de norte a sul:Cabinda – Reconstrução de 70 km de estrada, com uma série de pontes, e construção do Instituto Politécnico de Cabinda.Uíge – Troço da estrada Zombo - Negage, arruamentos na cidade do Uíge, recuperação do aeródromo da Damba, Instituto Politécnico do Uíge, Instituto Agrário, uma escola secundária e rede de telecomunicações de nova geração.Bengo – Ponte Bengo - Kissama, projecto “Água para todos”, projecto habitacional Caxicane, ponte Cabala - Cumucua, parque industrial para 100 unidades fabris, desenvolvimento da rede eléctrica, 200 mil casas sociais no Ambriz, com escolas, postos de saúde e estabelecimentos comerciais, recuperação de fazendas abandonadas, 4.100 casas no município de Dande, mercados, reabilitação de escolas e vias públicas, restauro da Estrada Nacional 230 Maria Teresa-Saurimo (1.400 km), Instituto Politécnico e rede de telecomunicações de nova geração.Angola: relevantes projectos sino-angolanos em curso“A China tem acesso privilegiado aos recursos angolanos e Angola desfruta de condições para desenvolver diversas áreasda sua economia, desde a agricultura aos serviços, além de uma poderosa parceria na esfera internacional”.Do capítulo do livro dedicado a Angola
  • 032F A l A r d e n ó s – VIIJ o r g e A . H . r A n g e l Luanda – Reconstrução de mercados, auto-estrada Luanda - Soyo, rede de fornecimento de água (300 km), restauro dos caminhos-de-ferro, reparação de seis estradas principais, recuperação e expansão do porto de Luanda, restauro da rede eléctrica, quatro institutos politécnicos, três novas escolas secundárias, estrada Viana - Calumbo, 32 novas unidades hoteleiras, “campus” universitário, estádio, reconstrução das redes de saneamento e finalização do centro de produção da televisão pública.Kwanza Norte – Recuperação do Hotel Bragança, Palácio do Governo, Hospital Municipal, barragem, sistemas de irrigação para suporte agrícola, ampliação da Escola Superior Pedagógica e restauro da via ferroviária Luanda - Malanje.Malanje – Reconstrução da Estrada Massango - Kinguengue, incluindo duas pontes sobre os rios Kiquila e Massanga, reconstrução do Instituto Agrário de Quessua, duas escolas secundárias, três centros de saúde, reconstrução das redes eléctricas, projectos de irrigação agrícola, Hospital de Malanje e rede de telecomunicações de nova geração.Lunda Norte – Reconstrução do aeroporto do Dundo, recuperação das redes eléctricas e construção do Instituto Politécnico.Kwanza Sul – Restauro de vias no município do Wacu - Cungo, reposição da ponte sobre o rio Kwanza que une a província ao município de Kangandala (Malanje), projectos de irrigação agrícola e rede de telecomunicações de nova geração.Lunda Sul – Reconstrução dos mercados em Saurimo, recuperação das estradas do município de Saurimo, reconstrução das redes eléctricas e construção do Instituto Politécnico.
  • 033 F A l A r d e n ó s – VII J o r g e A . H . r A n g e l Bié – Construção da via Kuito - Kukema, programa “Água para todos”, quatro novos postos médicos, sistema de captação e tratamento de água (Kuito), apetrechamento do Instituto Agrário do Andulo, Instituto Politécnico do Bié e rede de telecomunicações de nova geração.Huambo – Complexo comercial na Quissala, com 300 bancas, 5 armazéns, matadouro, câmaras frigoríficas e fábrica de gelo, Universidade de Ciências Agrónomas, Hospital Central, Instituto Politécnico, Instituto de Administração e Gestão e rede de telecomunicações de nova geração.Moxico – Asfaltagem das ruas da cidade de Luena, construção da rede eléctrica (Luena), recuperação do complexo do Instituto Superior Politécnico, Casa da Juventude de Luena, novas infra-estruturas administrativas, projecto social nas Bundas, irrigação agrícola, Instituto de Administração e Gestão e rede de telecomunicações de nova geração.Benguela – Estádio de Benguela, reestruturação do Mercado do Lobito, estrada Benguela - Lobito, estrada Benguela - Dombe Grande - Namibe, estrada nacional Benguela - Huambo - Sonaref, Hospital de Benguela, Instituto de Administração e Gestão e rede de telecomunicações de nova geração.Huíla – Instituto Politécnico, várias escolas secundárias, caminho-de-ferro de Moçâmedes, Centro Regional de Acolhimento de Crianças, Hospital Regional de Lubango, Instituto de Formação de Professores e rede de telecomunicações de nova geração.Namibe – Hospital Municipal, arruamentos no Namibe e Tombwa, duas escolas secundárias, Instituto Politécnico de Namibe e Instituto de Administração e Gestão.
  • 034F A l A r d e n ó s – VIIJ o r g e A . H . r A n g e l Cuando-Cubango – Estrada Cuito Canavale - Menongue, 2.000 habitações sociais, escolas, hospital e centros de saúde, arruamentos, mercados, zonas administrativas, bibliotecas, Parque-Museu Cuito Canavale e Instituto de Administração e Gestão.Cunene – 22 projectos de recuperação social, incluindo residências, hospital e centros de saúde, escolas e mercado em Mucavelai, escola básica e hospital em Omandobe, Instituto de Administração e Gestão e rede de telecomunicações de nova geração.— · —O capítulo dedicado a Angola no referido livro realça o sucesso da parceria estabelecida, de troca de matérias primas por infra-estruturas, tendo a China acesso garantido aos recursos angolanos. É de salientar, neste contexto, que Angola já é o maior fornecedor de petróleo à China, ultrapassando a Arábia Saudita. Reconhecendo o enorme potencial de Angola, é previsível que o investimento continue ali a crescer, estando 50 empresas chinesas de grande e média dimensão a operar em território angolano, envolvidas em diversificadas áreas de actividade económica. Destacam-se, neste âmbito, a Sinopec, a CNOOC, a CITIC, a Sinohydro, a China Road and Bridge Corporation, a China Railway Construction Company, a SinoMach, a Wuhan Iron and Steel, a China General Machinery and Equipment Import and Export, a Jiangsu International, a Dongfeng Nissan e a China Ferrovia, estando algumas delas presentes em obras ou actividades em todas as dezoito províncias angolanas.
  • 035 F A l A r d e n ó s – VII J o r g e A . H . r A n g e l O livro refere que “para o Centro de Estudos Estratégicos de Angola, a necessidade de se desenvolver as províncias passa também pela pressa em se descongestionar Luanda”, devendo Benguela ser o centro logístico e Huambo a capital agrícola do país. É, neste sentido, que “são visíveis os esforços em desenvolver todo o território nacional”, estando “entre os projectos mais imponentes a reconstrução dos caminhos-de-ferro de Benguela, e posteriormente as linhas Luanda / Benguela / Moçâmedes, um projecto avaliado em quatro mil milhões de dólares. Os caminhos-de-ferro de Benguela ligam a cidade portuária ao interior do país e podem prosseguir para a República Democrática do Congo e Zâmbia, tornando-se portanto uma linha transcontinental”. Há, de facto, ambição e um forte sentido de urgência no desenvolvimento, que a recente crise internacional e os seus efeitos vieram atenuar, obrigando a reequacionar o lançamento de alguns novos projectos.No mesmo livro, realça-se o facto de “a extensa procura e pouca oferta fazer de Angola uma área fértil para o investimento privado”, continuando “os recursos naturais a ser o maior trunfo da economia angolana”, mas estando já a começar a “florescer outras áreas, da agro-pecuária às novas energias”.No âmbito do Fórum para a Cooperação Económica e Comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa, é da maior importância o acompanhamento deste assunto, pretendendo o Instituto Internacional de Macau continuar a dedicar-lhe a maior atenção nos seus estudos e trabalhos de investigação académica, produzindo documentação útil à própria CPLP – Comunidade de Países de Língua Portuguesa.8 de Fevereiro de 2010
  • 036F A l A r d e n ó s – VIIJ o r g e A . H . r A n g e l Terminada a quadra do Natal, tão relevante para todos nós, tiveram início, quase de imediato, os preparativos para as celebrações do novo ano lunar. Ontem, como hoje, Macau continua a ser uma cidade em festa.Num artigo anterior, apresentámos excertos duma palestra intitulada “Macau de Ontem”, proferida pelo escritor Henrique de Senna Fernandes em 30 de Novembro de 1983, em que é feito um relato das principais festas e festividades da comunidade macaense. No mesmo texto, o autor também refere a maneira como ela se divertia nesses bons tempos imediatamente anteriores à Guerra do Pacífico, com hábitos e tradições que se prolongaram pelas décadas seguintes:“Nessa época de rico convívio social e de ‘savoir vivre’ desconhecia-se a diferença entre ‘os portugueses de cá e os portugueses de lá’. Tal coisa não passava pela cabeça de ninguém, porque todos pertenciam à mesma comunidade, facto que constituía um dos maiores encantos de Macau. Os que vinham de longe, das bandas de Portugal e de outras colónias, se a princípio estranhavam, eram rapidamente integrados na sociedade e, em breve, participavam activamente nela. Isto deveu-se à hospitalidade aberta das grandes casas macaenses, à acção do Clube de Macau e do Ténis Civil, dum lado, e doutro lado, à do Grémio Militar, como então se chamava o Clube Militar, e do Ténis Naval e Militar, e à presença duma razoável guarnição, tanto de terra como de mar, que não gostava de viver isolada e compartimentada.”A vida clubista“Uma das características mais estupendas da ‘era patriarcal’ foi a vida clubista, então no apogeu. Sorrimos quando lemos crónicas do tempo, onde havia queixumes como se divertia a comunidade macaense“… a alegria de viver e a prática intensa de convivência social num mundo fácil e despreocupado não se encontravamsomente nos clubes, mas também nas residências particulares, onde havia salas para receber. E recebia-se muito”.
  • 037 F A l A r d e n ó s – VII J o r g e A . H . r A n g e l duma existência parada e monótona. Não nos parece, à luz da distância, que assim fosse. O Clube de Macau, o Grémio Militar e o Clube 1.o de Junho, mais conhecido pelo Clube Sargento, eram centros de convivência, conforme as categorias sociais, de frequência diária ideal. Para a rapaziada havia o Clube Desportivo Argonauta e, fora de portas, como um autêntico ‘country-club’, havia as instalações da União Recreativa, para os lados da Areia Preta, paredes meias com o hipódromo. E, numa área do mesmo hipódromo, erguiam-se as instalações do Clube de Caçadores de Tiro aos Pratos.Ao lado do hóquei e do futebol, outro desporto favorito era o ténis. Existiam vários campos da modalidade, como os do Ténis Civil, do Ténis Naval e Militar, do Ténis Harmonia e da União Recreativa. Os tenistas tinham a opção de escolher aqueles que melhor lhes dessem no gosto, com desafios renhidos entre as agremiações.”outros divertimentos“Se o cinema era o entretenimento número um, disputando a primazia da qualidade dos filmes, o Victória, o Capitol e o Apolo, então as três principais casas de espectáculos, nem por isso deixava de haver periodicamente concertos e representações cénicas no Teatro D. Pedro V, onde se ia, para cada um desses eventos, de vestidos de ‘soirée’, de ‘smoking’ ou ‘jaquetinha’, sobretudo enquanto perdurou a Academia de Amadores de Teatro e Música, não faltando elementos de reconhecido valor e dedicação para as coisas de arte. E recordo que, na primeira metade dos anos 30, veio de Portugal uma companhia de teatro que, durante seis meses, em Macau e em Hong Kong, para as duas comunidades portuguesas, levou à cena peças de impecável nível artístico.
  • 038F A l A r d e n ó s – VIIJ o r g e A . H . r A n g e l Mas a alegria de viver e a prática intensa de convivência social num mundo fácil e despreocupado não se encontravam somente nos clubes, mas também nas residências, onde havia salas para receber. E recebia-se muito. A cada passo surgiam festas de aniversário, baptizado e casamento e todo aquele que era convidado sentia-se na obrigação de retribuir. Daí que, ora se estava numa casa, ora noutra, em chás e jantares ou em simples reuniões para preencher o serão. Musicava-se e cantavam-se árias de ópera, velhas baladas inglesas e um ou outro faducho. A música era um pretexto para se organizarem os bailaricos e dançava-se ao som duma orquestra improvisada ou de grafonola, com os últimos discos dos filmes musicais, porque os possuidores de aparelhos de rádio eram muito poucos”. Depois da guerra, com a dispersão da comunidade e a alteração da situação económica de muitas das velhas famílias macaenses, modificaram-se os hábitos e os costumes, mas o essencial ficou, nos convívios tradicionais, nos chás-gordos e em algumas actividades clubistas e escolares, embora sem a pujança dos tempos áureos da “sociedade patriarcal”. Os velhos casarões, onde havia espaços amplos e condições adequadas para receber, foram desaparecendo, substituídos por edifícios em altura, na sua maioria, esteticamente reprováveis e ameaçadoramente descaracterizadores dos harmoniosos conjuntos arquitectónicos que deram à cidade uma identidade própria.Os macaenses, para além das suas festas e festividades tradicionais, religiosas ou laicas, também participavam em celebrações chinesas, com especial destaque para o ano novo lunar, sabendo partilhar com a outra comunidade as ocasiões festivas de maior significado. Ainda hoje é assim.
  • 039 F A l A r d e n ó s – VII J o r g e A . H . r A n g e l o Ano do TigreCom todo o colorido, exuberância e azáfama próprios do novo ano lunar, a população de Macau entrou jubilosamente no Ano do Tigre. As danças do dragão e do leão, as exibições de artes marciais, os convívios com manjares especiais da época, as exposições de flores, os “lai si”, as visitas de familiares e amigos, a procura da sorte em casinos e lotarias, o pagamento de dívidas, os variadíssimos espectáculos públicos e associativos, gente janota nas ruas, hotéis e restaurantes lotados e visitantes em número impressionante marcaram os dias festivos em que se disse adeus ao ano velho e se recebeu, com justificada alegria e esperança, o novo ano, para o qual os geomantes, em geral, fazem previsões moderadamente positivas.Este Ano do Tigre de Metal deverá ser um ano de muita actividade e de mudança, embora não isento de problemas e desastres naturais. Contudo, alguns dos mais sérios conflitos que afectam a humanidade poderão conhecer soluções aceitáveis, ao mesmo tempo que se verificarão alterações em lugares cimeiros nas estruturas políticas nacional e internacional. Nos mercados financeiros recomenda-se cuidado, já que os males que afectam as instituições, ainda que possam ser atenuados, deverão manter-se, com um persistente nervosismo, para não dizer hiper-sensibilidade, a prejudicar a desejada recuperação. Quanto a empresas e empresários, renovados desafios ser-lhes-ão colocados, com inesperadas oportunidades e inevitáveis falências, ficando à prova a capacidade de todos. No desporto, aguardam-se resultados espectaculares nos dois maiores eventos – os Jogos Olímpicos de Inverno em Vancouver e o Campeonato do Mundo de Futebol na África do Sul.
  • 040F A l A r d e n ó s – VIIJ o r g e A . H . r A n g e l Fazendo uma curta retrospectiva, é bom lembrar que foi em Anos do Tigre que grandes empreendimentos como o Canal do Panamá e a maior ponte suspensa do mundo, em Akashi (Japão) foram inaugurados, que se alcançaram sucessos surpreendentes nas novas tecnologias, quando o Google e o serviço da televisão digital foram lançados e que se alcançou a paz na Irlanda do Norte, mas foi também em Anos do Tigre que se consumou o desastre de Chernobyl, que começou a I Grande Guerra, as tropas chinesas entraram no Tibete e a crise dos mísseis em Cuba atingiu o seu ponto mais alto, que o Presidente Nixon se demitiu, na sequência do escândalo “Watergate”, e o Presidente Clinton enfrentou acusações duríssimas que podiam ter provocado a sua exoneração, e que se verificaram manifestações laborais intensíssimas, como a greve geral na Grã-Bretanha em 1926 e a greve de mineiros em 1974, para citar só alguns dos acontecimentos mais sentidos. Em todo o mundo, as comunidades chinesas estiveram em festa, o mesmo acontecendo às comunidades macaenses da diáspora. Em Portugal, a Casa de Macau realizou o seu habitual almoço de convívio no excelente Restaurante Mandarim, no Casino do Estoril, e a Liga dos Chineses de Portugal e outras associações da crescente comunidade chinesa residente no país organizaram festas em várias cidades. Merece ainda referência o programa levado a efeito pelo Centro Científico e Cultural de Macau, em Lisboa, que compreendeu uma conferência pela Prof.a Wang Suoying, sobre “O Ano Novo Chinês”, seguida da projecção do documentário “Spring Festival”, um ciclo de cinema chinês, de 11 a 19 de Fevereiro, com uma boa selecção de filmes chineses, e uma exposição fotográfica intitulada “China, Paralelo 30”. A todos os leitores destes artigos e crónicas desejo um óptimo Ano do Tigre. 22 de Fevereiro de 2010
  • 041 F A l A r d e n ó s – VII J o r g e A . H . r A n g e l Várias iniciativas académicas em Bragança, levadas a efeito nos últimos dias de Janeiro passado, fizeram com que a RAEM também tivesse uma presença visível, através do Instituto Politécnico de Macau e do Instituto Internacional de Macau, cujos presidentes assinaram, na ocasião, protocolos que reforçaram a cooperação futura com o Conselho Coordenador dos Institutos Superiores Politécnicos (CCISP) de Portugal. As cerimónias do Dia do Instituto Politécnico de Bragança; a tomada de posse do seu presidente, Prof. João Sobrinho Teixeira, eleito para novo mandato; uma reunião do CCISP; a homenagem aos presidentes cessantes dos Institutos Politécnicos; um seminário académico; a formalização de protocolos e a abertura da exposição “Macau é um espectáculo – as artes nas ruas de Macau” foram os pontos mais relevantes do programa geral.o Instituto Politécnico de Bragança28 de Janeiro é o Dia do Instituto Politécnico de Bragança (IPB), porque foi nessa data que tomou posse a sua primeira comissão instaladora, em 1983. Em 27 anos de história, é verdadeiramente notável a obra realizada, com um crescimento estável e áreas de ensino diversificadas, tendo produzido, até agora, mais de doze mil diplomados. Com um corpo docente qualificado e 7.100 estudantes no corrente ano lectivo, o IPB alargou a sua oferta formativa para 19 cursos de especialização tecnológica, 42 cursos de licenciatura e 36 cursos de mestrado, sendo, inegavelmente, uma instituição fundamental para o desenvolvimento da região em que se insere e um exemplo no contexto do ensino superior português.São seus objectivos actuais “a contribuição para o aumento da frequência do ensino superior, a aposta na aprendizagem ao longo da vida, a melhoria da qualidade e da relevância das suas formações, o fomento da mobilidade dos seus estudantes e Jornadas académicas em Bragança com presença visível de Macau“Constituem objectivos actuais do Instituto Politécnico a sua contribuição para o aumento da frequência do ensino superior, a aposta na aprendizagem ao longo da vida, a melhoria da qualidade e da relevância das suas formações, o fomento da mobilidade dos seus estudantes e diplomados e a internacionalização das suas formações, assim como a cooperação com os países da lusofonia”.
  • 042F A l A r d e n ó s – VIIJ o r g e A . H . r A n g e l diplomados e a internacionalização das suas formações, assim como a cooperação com os países da lusofonia”. É, pois, sua preocupação, o estabelecimento de parcerias com outras instituições nacionais e estrangeiras, visando o aumento da visibilidade e da qualidade das suas acções de formação e a oferta de graus conjuntos, nomeadamente no que respeita aos mestrados recentemente criados, envolvendo a Associação dos Institutos Politécnicos da Região Norte. O programa Erasmus tem, por outro lado, permitido um maior relacionamento com instituições do exterior, tendo o IPB conseguido ultrapassar os 500 estudantes e 100 docentes em intercâmbio por ano, na frequência de cursos, estágios de profissionalização e programas intensivos.A colaboração com o mundo lusófono é outra área prioritária, estando em curso um ambicioso e bem articulado programa de intercâmbio de estudantes e de colaboração com instituições de ensino superior africanas e brasileiras. Pretende-se que a RAEM fique também incorporada de forma eficaz neste programa, não só no âmbito do IPB mas no conjunto dos Institutos Politécnicos Portugueses, na sequência de acções consequentes iniciadas e consolidadas ainda na vigência da administração portuguesa em Macau.O número de estudantes provenientes da África lusófona tem aumentado e o IPB está envolvido pedagogicamente no desenvolvimento do ensino superior em Angola e em S. Tomé e Príncipe. Há planos seguros, objectivos claros e uma liderança reconhecidamente capaz e respeitada.A sessão soleneComeçou com o habitual cortejo académico, a que se seguiram um apontamento musical pela Real Tuna Universitária de Bragança, uma intervenção do presidente do
  • 043 F A l A r d e n ó s – VII J o r g e A . H . r A n g e l Conselho Geral e a tomada de posse do presidente e vice-presidentes do IPB. Aguardada com expectativa, a vigorosa e lúcida comunicação do presidente do IPB, Prof. Sobrinho Teixeira, que preside também o CCISP, traduziu bem o espírito empreendedor e a confiança da instituição nos desafios que tem sabido abraçar e vencer, rasgando renovadas perspectivas de crescimento e afirmação. Num tempo de tão grandes dificuldades, foi estimulante ouvir e compreender, em toda a sua extensão, a dimensão e o optimismo dos propósitos tão determinadamente expressos.Para proferir a oração da sapiência, foi convidado o Prof. João Paulo Borges Coelho, da Universidade Eduardo Mondlane, em Maputo, onde lecciona História Contemporânea de Moçambique e África Austral, sendo também professor convidado da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, no mestrado em História de África. Borges Coelho foi, em 2009, galardoado com o prémio Leya, com o romance “O Olho de Herzog”. Dissertou sobre alguns dos grandes desafios que se colocam à humanidade no tempo presente.Completaram o programa várias outras intervenções, uma homenagem à Real Tuna Universitária de Bragança, que acabou de fazer 18 anos de actividade, um tributo ao falecido Prof. Joaquim Lima Pereira, catedrático da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro e primeiro presidente do IPB, recentemente falecido com 83 anos de idade, e a entrega de prémios, diplomas e bolsas a alunos e medalhas comemorativas a funcionários.outras actividades Logo após a sessão solene, procedeu-se à abertura da exposição “Macau é um espectáculo – as artes nas ruas de Macau”, organizada pelo Instituto Internacional de Macau, com a colaboração da Associação Fotográfica de Macau. Esta exposição,
  • 044F A l A r d e n ó s – VIIJ o r g e A . H . r A n g e l que compreende mais de 50 fotografias que mostram o colorido e a diversidade das manifestações culturais de Macau, fará agora uma itinerância por instituições de ensino superior de Portugal, sendo Tomar e Portalegre as próximas etapas.No dia seguinte, com a presença do Ministro da Ciência e do Ensino Superior, Prof. Mariano Gago, prosseguiram as actividades, que incluíram uma reunião do CCISP, para tratamento de assuntos académicos no seu âmbito, um seminário sobre estudos agrários, a homenagem aos presidentes cessantes dos Institutos Politécnicos e a assinatura de protocolos de cooperação, do CCISP com o Instituto Politécnico de Macau, o Instituto Internacional de Macau, a Universidade Federal de Minas Gerais (Brasil) e a Caixa Geral de Depósitos. Visitas a monumentos e locais de interesse histórico e turístico em Bragança, Miranda do Douro e Mirandela, bem como algumas jornadas gastronómicas, foram actividades complementares muito bem recebidas pelos participantes provenientes de muitas instituições de Portugal e de outros países, merecendo o IPB o louvor de todos pela excelente organização.os protocolos com MacauO protocolo firmado com o Instituto Politécnico de Macau alargou o âmbito da colaboração que há muitos anos vem sendo intensificada nas relações bilaterais com vários Institutos Politécnicos de Portugal, quer em acções de formação, quer na realização de projectos especiais, continuando o Instituto Politécnico de Macau a tomar parte activa nos trabalhos do CCISP, mesmo depois da transição político-administrativa de Macau.Quanto ao Instituto Internacional de Macau, a cooperação visa a participação recíproca em programas, o intercâmbio de investigadores e técnicos, a realização de
  • 045 F A l A r d e n ó s – VII J o r g e A . H . r A n g e l conferências, colóquios e acções complementares de formação, a permuta de material técnico-científico e publicações e a disponibilização de contactos de intervenção activa no desenvolvimento de relações entre instituições de Portugal, Macau, República Popular da China e de outros Estados do Sueste Asiático, tendo sido já aprovado um plano de acção para 2010, que aponta como actividades prioritárias a colaboração na preparação, em Macau, de cursos de Português para alunos que pretendam estudar nos Institutos Politécnicos Portugueses, e na organização de cursos de curta duração, particularmente os de especialização tecnológica, destinados a residentes de Macau.No próximo Encontro da AULP – Associação das Universidades de Língua Portuguesa, a realizar em Macau, serão definitivamente organizadas as acções acordadas.1 de Março de 2010
  • 046F A l A r d e n ó s – VIIJ o r g e A . H . r A n g e l O Salão Nobre do Palácio da Independência, em Lisboa, sede da Sociedade Histórica da Independência de Portugal (SHIP), foi o local escolhido para a condecoração do Dr. Jin Guoping, académico chinês radicado em Portugal há mais de duas décadas, em vésperas do seu regresso a Pequim. Presidiu à sessão, em representação do Presidente da República Portuguesa, o deputado João Bosco Mota Amaral, chanceler das Ordens Nacionais, e saudaram o homenageado o Prof. António Vasconcelos de Saldanha, escolhido para lhe tecer o elogio, o Prof. Narana Coissoró, presidente do Instituto do Oriente (Universidade Técnica de Lisboa) e membro do Conselho das Ordens Nacionais, e o autor deste artigo, na qualidade de presidente da Direcção Central da SHIP. Visivelmente comovido, ao ostentar a comenda da Ordem do Infante D. Henrique, entregue na presença de entidades públicas, membros de instituições académicas e culturais, amigos e familiares, Jin Guoping recordou a sua antiga ligação à cultura portuguesa e o seu percurso no país que o acolheu e onde teve condições para desenvolver uma actividade de investigação académica de grande relevância e reconhecidamente meritória. Interpretando o sentimento de quantos conheceram e souberam admirar a obra do homenageado e lembrando que não é tarefa fácil “sintetizar em palavras breves uma carreira de mérito e o mérito duma carreira”, o Prof. Vasconcelos de Saldanha começou por evocar os anos já recuados, em que muito jovem o Dr. Jin Guoping foi encaminhado para o colégio anexo à prestigiada Universidade de Línguas Estrangeiras de Pequim, onde depois se licenciou em Linguística Hispânica e se pós-graduou em Língua Portuguesa e onde também leccionou no Departamento de Português incutindo em muitos o interesse e o amor pela cultura portuguesa”. Referiu depois, nestes termos, os caminhos percorridos por este respeitado e prolífico académico:Homenagem de Portugal ao alto mérito de um académico chinês“Um homem decente e bom; um homem sabedor; um homem generoso; um homem modesto. Um homem que nos trouxe ao convívio a palpabilidade daquilo que a milenária tradição cultural chinesa nos apresenta como modelo do ‘junzi’, o sábio de recto carácter”.Prof. António Vasconcelos de Saldanha, elogio no acto da condecoração
  • 047 F A l A r d e n ó s – VII J o r g e A . H . r A n g e l “Como muitos outros que beneficiaram do apoio que lhes era dado pelas instituições portuguesas de Macau, o amor à cultura lusa desenvolveu-o Jin Guoping na sua passagem pelo território. Também como tantos outros, reforçou-o depois na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, onde fez o Curso Superior de Cultura e Língua Portuguesa.Jin Guoping começou por se notabilizar pela excelência, pela sensibilidade e pelo saber posto na tradução e na assim exponenciada divulgação de autores portugueses no mundo chinês. Demonstra-o a tradução literária de português para chinês de autores tão variados como Fernão Mendes Pinto ou Fernando Pessoa, José Régio ou Jorge de Sena, Maria Ondina Braga ou Deolinda da Conceição.Mas não apenas a tradução literária. A tradução de preciosas fontes históricas chinesas para português, ou o inverso, é outra dívida para com o académico. Seja disso um bom símbolo a monumental colecção de 10 volumes de ‘Fontes Documentais Diplomáticas para a História das Relações entre Portugal e a China’, bem como outros documentos históricos dos nossos arquivos que, traduzidos e inventariados, são hoje fontes consagradas na historiografia chinesa.Aliás, deve dizer-se que a presença do Dr. Jin Guoping na academia portuguesa concretizou um anseio de mais de um século que foi o poder contar com o contributo sério e objectivo de académicos chineses no enorme esforço historiográfico que impunha e impõe a abordagem das seculares relações luso-chinesas. Poder-ser-á dizer sem exagero que não há memória de um historiador chinês que em simultâneo dominasse tão proficientemente a cultura histórica portuguesa, e que daí extraísse rumos e conclusões
  • 048F A l A r d e n ó s – VIIJ o r g e A . H . r A n g e l originais que, certamente, permanecerão válidas na historiografia luso-chinesa durante muito tempo. O seu inovador e monumental contributo para a história de Macau e para a história do estabelecimento dos Portugueses em Macau marcou profundamente um rumo historiográfico. Imprimiu-lhe objectividade, rigor e, sobretudo, abertura à discussão, à colaboração e à parceria científica e académica.Por tudo isso, já em 2005 o Instituto Português do Oriente decidiu pôr à disposição dos leitores portugueses numa das suas edições o que de melhor se produzia na China sobre a presença portuguesa em Macau, precisamente devido à pena dos Drs. Jin Guoping e Wu Zhiliang. Por tudo isso, não admira e muito nos regozija que a República Popular da China, no seu monumental projecto nacional de História da Dinastia Qing, entregasse recentemente a elaboração do capítulo relativo a Macau ao Dr. Jin Guoping. Como académico e como português, não posso deixar de acreditar que muito dificilmente ficaria em melhores mãos.Outros muitos exemplos do mérito do Dr. Jin Guoping podiam ser trazidos à colação: a contribuição do académico chinês nas eruditíssimas anotações à nova edição da ‘Peregrinação’ de Fernão Mendes Pinto, patrocinada pela Fundação Oriente, ou na também nova edição do ‘Aomen Jilue, a Monografia Abreviada de Macau’, a dar brevemente à estampa pelo Instituto Cultural de Macau; a colaboração em dicionários e enciclopédias chinesas com dezenas de entradas respeitantes a Portugal, à lusofonia ou à presença Portuguesa na Ásia; a participação em polémicas internacionais – como o das navegações chinesas apresentadas por aventureiros – onde os interesses históricos da China e de Portugal encontraram no Dr. Jin Guoping um defensor sábio, objectivo e destemido.
  • 049 F A l A r d e n ó s – VII J o r g e A . H . r A n g e l Recordo ainda que iniciativas de Estado de carácter cultural, realizadas aquando de visitas presidenciais a Macau e a Pequim, contaram com a colaboração preciosa do Dr. Jin Guoping tanto no campo da linguística como no do conselho na abordagem de complexos aspectos da história das relações luso-chinesas. Recordo a exposição das ‘chapas chinesas’ guardadas no Arquivo Nacional da Torre do Tombo e exibidas pela primeira vez em Macau por iniciativa do Instituto Português do Oriente. Recordo também a magnífica exposição sobre as relações entre Portugal e a China organizada pelo Instituto Camões no Museu do Milénio em Pequim, aquando da visita do Presidente Jorge Sampaio no ano de 2005.Finalmente, menos conhecido mas não menos digno de nota, lembro o discreto apoio do Dr. Jin Guoping a jovens investigadores que, graças a uma palavra sua ou à sua recomendação, puderam ter acesso a recursos e facilidades de estudo e investigação que de outro modo não alcançariam.”O Prof. Vasconcelos de Saldanha aproveitou também para lhe traçar o perfil humano:“A minha função nesta ocasião deveria terminar aqui. Contudo, abusarei da oportu-nidade que me foi dada para academicamente homenagear o agraciado. E isto porque de tudo é muito difícil dissociar outro aspecto do homenageado, que também é familiar aos seus colegas e aos seus amigos. Refiro-me ao lado humano do Dr. Jin Guoping.Quantos de nós não somos devedores ao Jin Guoping de gestos de disponibilidade, de atenção, de generosidade, de sincero regozijo nos momentos bons, e de amigo apoio
  • 050F A l A r d e n ó s – VIIJ o r g e A . H . r A n g e l nos momentos difíceis? Quantos de nós não admiraram no Dr. Jin Guoping a sinceridade de um amor grato às coisas portuguesas, mesmo quando esse amor em nós próprios parece esmorecer ou se abastarda?Um homem decente e bom; um homem sabedor; um homem generoso; um homem modesto. Um homem que nos trouxe ao convívio a palpabilidade daquilo que a milenária tradição cultural chinesa nos apresenta como o modelo de ‘junzi’, o sábio de recto carácter. Por tudo isto, os amigos do Jin Guoping já o condecoraram há muito tempo nos seus corações.”Estas judiciosas palavras traduzem, ainda que sinteticamente, o muito que Jin Guoping deu à cultura portuguesa e à história das relações entre Portugal e a China e respondem bem às dúvidas que, também neste caso, os semeadores de tempestades tentaram lançar. Orgulho-me de merecer a sua amizade desde que o conheci em Macau na década de 80. Regressou à China no dia 18 de Fevereiro e foi alvo de homenagens de colegas e amigos, a última das quais, na véspera da partida, organizada pelo Observatório da China. Esperamos todos voltar a vê-lo muitas vezes entre nós.8 de Março de 2010
  • 051 F A l A r d e n ó s – VII J o r g e A . H . r A n g e l Foi há onze anos, a 19 de Março de 1999, que, em cerimónia auspiciosa, presidida pelo Presidente da República Portuguesa, se procedeu, nos novos aterros do Porto Exterior, à inauguração do Centro Cultural de Macau, uma das mais emblemáticas obras da última fase do período de transição, sendo um espaço cultural que deu ao território uma nova dimensão e capacidade para acolher e promover manifestações artísticas e culturais com eficácia e dignidade.O projecto coordenado pelo arquitecto Bruno Soares, na sequência de um concurso internacional, envolveu uma multiplicidade de entidades especializadas, desde gabinetes de arquitectura a consultores projectistas, com a empreitada da construção adjudicada às empresas Soares da Costa e Tong Lei. O valor dos trabalhos, abrangendo a execução do empreendimento, o mobiliário e a decoração dos interiores, ascendeu a cerca de 960 milhões de patacas, os quais foram assumidos, em partes iguais, pelo Governo de Macau e pela STDM – Sociedade de Turismo e Diversões de Macau, que detinha, em exclusivo, a concessão da exploração dos jogos de fortuna ou azar no território. Para assegurar as melhores condições acústicas e cenográficas, foram contratadas a Xu Acoustique, de Paris, responsável pela acústica da Ópera da Bastilha e do Centro de Música de La Vilette, e a Babel Sarl, tendo a arquitectura paisagística sido confiada a Francisco Caldeira Cabral e a museologia a José M. Teixeira, ao mesmo tempo que se encomendou a João Cutileiro um conjunto escultórico para o jardim anexo em mármore negro de Estremoz.O complexo é constituído por dois edifícios, ocupando uma área coberta de 15.000 m2, ligados por uma praça, acessível pelo lado do jardim público e aberta para o lado do rio em forma de cascata de água. Num dos edifícios ficou instalado o Museu um símbolo da vitalidade cultural de Macau“… foi neste cruzamento de concepções de vida, a europeia e a oriental, que se modelou o carácter das gentes de Macau, criando uma maneira peculiar de olhar o mundo e de o construir culturalmente.”Mensagem do Governador, 1999
  • 052F A l A r d e n ó s – VIIJ o r g e A . H . r A n g e l de Arte, com exposições permanentes utilizando o espólio do antigo Museu Luís de Camões, enriquecido com aquisições feitas pelo Leal Senado da Câmara de Macau, que já tutelava este museu e ficou responsável pelo funcionamento do novo, até à sua extinção e substituição pelo Instituto para os Assuntos Cívicos e Municipais, no início da vigência da RAEM. Também ali existem, desde a abertura, amplos espaços para exposições temporárias, destacando-se as que, ao longo dos anos, foram chegando da China, integrando os tesouros imperiais. Longas rampas fazem a ligação entre os andares e as galerias de exposições.O outro edifício, encimado por uma vistosa pala, compreende dois auditórios , para 400 e 1.200 espectadores, um restaurante e bar, uma galeria para mostras temporárias, uma sala VIP, uma sala de conferências e as áreas de apoio aos espectáculos, como os camarins, um estúdio de dança, dois estúdios de música, uma sala para ensaios de orquestra e várias para outras actividades.No rés-do-chão do complexo, junto à entrada principal, foram criados espaços para lojas, tendo ficado ali colocados um posto dos CTT e, posteriormente, um centro de indústrias criativas, além de locais de atendimento e informação, havendo na cave um amplo espaço para estacionamento coberto. Era intenção dos projectistas que a implantação do Centro naquele local lhe desse visibilidade do exterior, proporcionando ao visitante que chegasse a Macau uma percepção clara e desimpedida do airoso e arrojado conjunto arquitectónico, à semelhança do que se fez noutras cidades onde o centro cultural se transformou no seu “ex-libris”. No decurso da última década, porém, outras estruturas edificadas, como o inefável complexo da Doca dos Pescadores e, mais recentemente, o Centro da Ciência, construído sobre um novo aterro mesmo ao lado,
  • 053 F A l A r d e n ó s – VII J o r g e A . H . r A n g e l destruíram quase completamente essa visibilidade e assassinaram os legítimos e correctos propósitos dos autores do projecto do Centro Cultural de Macau.A zona envolvente contém pavimentos com calçada à portuguesa, caminhos pedonais, pérgulas metálicas, pequenos lagos, com fundo em seixo rolado, canteiros de relva, árvores e arbustos, jactos de água e efeitos de luz e de cor em harmonia com o conjunto. Muito próximo, situa-se a estátua da deusa Kun Iam, assente sobre o Centro Ecuménico edificado numa pequena ilha artificial. Obra da artista Cristina Leiria, a estátua em bronze tem mais de trinta metros de altura e o Centro Ecuménico é um espaço aberto ao culto de todas as religiões, sendo já um dos locais mais visitados por turistas.Na hora da abertura, o Museu de Arte de Macau abrangia já os seguintes núcleos museológicos principais: “quadros históricos”, “pintura e caligrafia chinesa – pintores de Cantão” e “cerâmicas chinesas de Shiwan”. De entre os quadros históricos, destaca-se uma magnífica colecção de obras de George Chinnery e de outros pintores ocidentais e seus discípulos, além de retratos de Lamqua. Famosos pintores e calígrafos, especialmente de Cantão, ilustram a respectiva galeria, muito apreciada e visitada, contendo 49 obras seleccionadas do melhor da “escola” pictórica de Guangdong. Muito procurada pelos entendidos é a notável colecção de cerâmicas de Shiwan, com cerca de 300 peças, representando figuras humanas, pássaros, peixes, insectos e flores. Trabalhos de grandes oleiros como Pan Yushu, Chen Weiyan e Huang Bing estão ali expostos.Outros núcleos foram tomando forma e ganhando espaço no Museu, complementados por uma sucessão de exposições temporárias, algumas de alta qualidade, merecedoras de
  • 054F A l A r d e n ó s – VIIJ o r g e A . H . r A n g e l menção em revistas de arte e em periódicos de grande tiragem. Pouco depois da abertura do Centro Cultural, foi apresentada, em Junho de 1999, a mostra “Tesouros de Portugal”, com vários núcleos expositivos: “O Chão das Origens: um Olhar sobre o Norte”, “Arte Sacra e Ouriversaria Religiosa – o Maneirismo e o Barroco”, “Ouro e Prata nos Objectos de Arte Profana – Séculos XVIII e XIX” e “Pintores e Escultores do Norte de Portugal – do Naturalismo à Arte Contemporânea”. A sua dimensão e qualidade impressionaram o público que acorreu em grande número ao museu, sendo uma rara oportunidade para se poder apreciar o melhor da ourivesaria portuguesa, arte sacra e obras de Amadeu de Souza-Cardoso, Dórdio Gomes, Gerardo Burmester, Rui Pimental, Graça Morais, António Pedro, Sousa Pinto, Henrique Pousão, Júlio Resende, Manuel Casimiro, Alberto Carreiro, Clara Menéres, Armando Alves, Eduardo Batarda, Nuno Barreto, Sobral Centeno, Nadir Afonso, Francisco Laranjo, Luís Demée e outros grandes nomes no mesmo espaço, numa memorável manifestação artística inteiramente portuguesa.Voltando ao complexo do centro cultural, falta referir que no amplo e luminoso “foyer”, onde se constata um harmonioso contraste do mármore branco com o pavimento granítico negro, foram colocados móveis de Le Corbusier, Mies van der Rohe e Eileen Grey e pendurados quadros de Mio Pang Fei e Júlio Resende, estando um outro, do macaense Luís Demée, que foi professor da Escola de Belas Artes do Porto, junto do restaurante.Numa oportuna mensagem, a propósito da abertura do Centro Cultural de Macau, o governador Vasco Rocha Vieira lembrou que “Macau é um território composto de uma realidade civilizacional, portadora, pela presença portuguesa e chinesa, dos valores clássicos e da ética confucionista da China Antiga”, tendo por isso “a enorme
  • 055 F A l A r d e n ó s – VII J o r g e A . H . r A n g e l responsabilidade de continuar esta riqueza herdada do passado, de confirmar uma atitude respeitadora dos ideais de autonomia, agora reforçados no espírito da Declaração Conjunta e de vincar a importância da cultura como trave-mestra e suporte da sua identidade”, sendo neste contexto “que se tem de entender a existência do Centro Cultural de Macau, um espaço de afirmação cultural das comunidades, de reforço da tradição e do entendimento da história como elemento de coesão da colectividade e de defesa do que é autenticamente macaense”.De facto, como foi então salientado, “o Centro Cultural de Macau deve ser, por um lado, o exemplo da capacidade de realização de iniciativas que garantam dinamismo e autonomia culturais, coerentes com o princípio confucionista da vivência comunitária balizada pela cultura e pela tradição e, por outro, o motor da valorização de Macau como cidade cultural, numa linha de orientação estratégica que perpetue a coexistência de diferentes conceitos e valores”, porque “afinal, foi neste cruzamento de concepções da vida, a europeia e a oriental que se modelou o carácter das gentes de Macau, criando uma maneira peculiar de olhar o mundo e de o construir culturalmente.Desejámos todos, no acto da inauguração, que o Centro Cultural de Macau fosse, então e no futuro, “o símbolo da vitalidade cultural de Macau”. Onze anos volvidos, importa que o Centro continue a corresponder às expectativas e aos propósitos que justificaram a sua construção. 15 de Março de 2010
  • 056F A l A r d e n ó s – VIIJ o r g e A . H . r A n g e l Não obstante a tarde fria e chuvosa, a participação do público tornou acolhedora a sessão de apresentação do último livro de Joaquim Magalhães de Castro no Salão Nobre do Palácio da Independência, sede da Sociedade Histórica da Independência de Portugal, em Lisboa, no passado dia 4 de Fevereiro. Promoveram a sessão o Instituto Internacional de Macau e a Editorial Presença, que publicou o livro.em busca de raízes lusas“Mar das Especiarias – A viagem de um português pela Indonésia” é o título completo deste “livro fascinante que combina o melhor da narrativa de viagens com uma aventura em busca de uma herança com séculos de existência, embora há muito esquecida”, como vem muito bem referido na contra-capa. “Quase quinhentos anos depois de os primeiros portugueses terem chegado às ilhas Molucas, Joaquim Magalhães de Castro embarca numa viagem de contornos e sabores exóticos com o objectivo de seguir o rasto dos nossos antepassados no arquipélago indonésio. Os resultados da investigação são garantidamente surpreendentes. Contra todas as adversidades e imponderabilidades, a influência portuguesa enraizou-se ao longo de milhares de quilómetros de mar e ilhas e deixou as suas marcas residuais em domínios como a língua, a música, os trajes, as lendas ou a religião. A comprová-lo estão os depoimentos, entrevistas e fotografias recolhidas pelo autor e que constituem testemunhos inequívocos de um reencontro de culturas distantes, mas indubitavelmente partilhadas. ‘Mar das Especiarias’ é assim uma obra que assume verdadeira importância na divulgação do nosso património colectivo e que se lê com imensa curiosidade e prazer”.Mar das especiarias – fascinante livro de Joaquim Magalhães de castro“Magalhães de Castro torna o seu ‘Mar das Especiarias’ numimenso repositório do património dos saberes, vivências e quimeras deluso-asiáticos ou luso-descendentes em inícios do século XXI.”Prof. Jorge Santos Alves, Fevereiro de 2010
  • 057 F A l A r d e n ó s – VII J o r g e A . H . r A n g e l Escreveu o prefácio a eurodeputada Ana Gomes, ex-Embaixadora de Portugal em Jacarta, sendo a introdução do Embaixador António Pinto da França, autor de “Portuguese Influence in Indonesia” (Jacarta, 1970). Confessando-se “roída de saudades das paisagens e gentes da Indonésia”, Ana Gomes deliciou-se com “o relato do saltitar a que o autor se sujeitou, ao longo de quase sete mil quilómetros de mar e ilhas, transpondo inevitáveis e incontáveis dificuldades físicas e logísticas”, indo “muito além de anteriores cronistas, na insaciável curiosidade, na avidez de descobrir e na capacidade de registar”, facultando-nos hoje, “quando estão prestes a completar-se 500 anos após a chegada dos primeiros portugueses àquelas paragens, um extensivo trabalho de recolha, não só dos testemunhos vivos do nosso ancestral destemor do desconhecido, como da nossa vocação para reconhecer o Outro e para estabelecer pontes de partilha de saberes, experiências e interesses”.Pinto da Fra1nça, por seu lado, recordando a sua permanência na Indonésia de 1965 a 1970, como Encarregado de Negócios, e a “devastadora curiosidade” que o levara à descoberta das raízes portuguesas no arquipélago, louvou o esforço e a obra de Joaquim Magalhães de Castro que, “com notável espírito de aventura, se meteu a caminho através de longínquas regiões da Indonésia, onde ainda se viaja como em tempos remotos, na paixão de reencontrar os vestígios portugueses”, sendo o “texto construído de uma forma original, um misto de diário e entrevistas, que torna a obra muito viva e atraente”, tendo ela “o grande mérito de mais uma vez chamar a atenção dos portugueses para um património precioso que lamentavelmente anda tão esquecido”. Na mesma nota introdutória, lamentou que Portugal continue a ignorar e menosprezar “o prestígio de que ainda goza na Ásia, difícil de explicar para país tão pequeno e séculos decorridos após a nossa presença naquele continente”, “para além de nada fazermos para preservar
  • 058F A l A r d e n ó s – VIIJ o r g e A . H . r A n g e l também oportunidades e vantagens em termos económicos”. É uma voz autorizada e respeitada que merece ser mais escutada nos círculos do poder, tão ineficazes na definição e execução de políticas culturais e económicas no vasto Oriente onde ficou uma memória imensamente positiva de Portugal e onde se perderam estupidamente oportunidades de melhor relacionamento comercial, cultural e político que estiveram perfeitamente ao nosso alcance.Manual da arte de viajarA convite do Instituto Internacional de Macau, apresentou o livro o Prof. Jorge Santos Alves, Doutor em História da Expansão Portuguesa pela Universidade Nova de Lisboa e um dos mais prestigiados investigadores da História de Macau e da História das Relações entre Portugal e a China, bem como da História da Presença Portuguesa na Ásia e da História da Ásia do Sueste na Época Pré-Colonial. Actualmente Professor do Instituto de Estudos Orientais da Universidade Católica Portuguesa e Professor Convidado da Universidade de Macau, Jorge Santos Alves coordenou recentemente um projecto de investigação, que envolveu trinta académicos e peritos, sobre as relações históricas e diplomáticas entre Portugal e Indonésia, que resultou de um protocolo de cooperação firmado pelo IIM com o Instituto Diplomático do Ministério dos Negócios Estrangeiros de Portugal. O exaustivo trabalho, já concluído, aguarda a conjugação das condições que possam viabilizar a sua publicação até 2011.A propósito do livro de Joaquim Magalhães de Castro, Jorge Santos Alves recordou, na ocasião, a monumental obra de Armando Aguiar, “O Mundo que os Portugueses Criaram”, uma recolha de testemunhos materiais, culturais e humanos da diáspora portuguesa ao longo dos séculos, durante uma viagem à volta do mundo entre 1947 e
  • 059 F A l A r d e n ó s – VII J o r g e A . H . r A n g e l 1950, e a “Peregrinação” de Fernão Mendes Pinto, cujo “espírito e metodologia, muito para além de qualquer análise e desmontagem literária que se faça, estão bem vivos neste ‘Mar das Especiarias’, sendo ambos o produto excelente do cruzamento do intuído (a graduação do tempo e do espaço no mundo malaio-indonésio), do visto (a geografia física e humana), do sentido (a comida, os cheiros, a luz, as mulheres, por exemplo), com o lido (no caso de Magalhães de Castro, alguns dos mais importantes textos históricos portugueses do século XVI sobre a região e alguns manuscritos produzidos localmente, compilando a memória colectiva, com o verdadeiro gps para a presença histórica portuguesa na Indonésia que é o livro do Embaixador Pinto da França, ‘A Influência Portuguesa na Indonésia’) e interpretado, com o contado e ouvido contar”. O perfeito cruzamento do conhecimento livresco com o terreno.Recomendando entusiaticamente a leitura do livro, “até porque está bem escrito”, Jorge Santos Alves assegurou que ele é uma obra “para ler antes de qualquer partida para qualquer parte da Indonésia, diria até da Ásia do Sul e do Sueste”, sendo “um excelente manual da arte de bem viajar naquelas paragens, um guia para o olhar, o comunicar, para o comer, para ajustar aos tempos e modos asiáticos, das várias Ásias, uma vacina contra a irascibilidade tão portuguesa, para interpretar e acomodar as pequenas ou grandes contrariedades do viajante europeu, mal habituado ao conforto viciante das viagens organizadas e dos pacotes turísticos, mesmo que na Ásia”.o autor e a obraJoaquim Magalhães de Castro é natural das Caldas de S. Jorge (Santa Maria da Feira), sendo jornalista “freelancer”, fotógrafo e investigador da História da Expansão Portuguesa. Reside habitualmente em Macau, onde colabora assiduamente na imprensa
  • 060F A l A r d e n ó s – VIIJ o r g e A . H . r A n g e l local (especialmente em “O Clarim”), sendo também presença regular em revistas de Portugal, como “Tempo Livre”, “Notícias”, “Sábado”, “UP” e “Volta ao Mundo”. Além de “Mar das Especiarias”, é autor dos muito apreciados livros “Os Bayingis do Vale do Mu – Luso-Descendentes na Birmânia” (2001) e “A Maravilha do Outro – No Rasto de Fernão Mendes Pinto” (2004), e dos documentários televisivos “A Outra Face da Birmânia” (2001) e “Dund – Viagem à Mongólia” (2004).Quem conhece Joaquim Magalhães de Castro e a sua obra, não pode deixar de admirar o espírito de descoberta que o impele à realização de novas viagens, visitando locais remotos em busca de raízes lusas nas sete partidas. Recentemente, em consonância com o programa televisivo das “7 maravilhas do património luso no mundo”, deslocou-se a todas as terras com monumentos identificados na primeira selecção feita para esse concurso. Muitos artigos em revistas e, possivelmente, alguns livros poderão nascer destes contactos.Foi, para mim, um prazer presidir à sessão, fazer a apresentação do autor e felicitar a Editorial Presença, dirigida pelo editor de sucesso que é o Dr. Francisco da Conceição Espadinha, ex-presidente da Associação Portuguesa de Editores e Livreiros, natural de Macau e personalidade prestigiada ligada aos círculos macaenses em Portugal. Na véspera da sessão recebi uma mensagem de saudação do actual Embaixador de Portugal em Jacarta, Dr. Carlos Frota, primeiro Cônsul-Geral de Portugal em Macau. Seguiu já para ele um exemplar do livro que a Embaixada poderá ajudar a promover e divulgar.22 de Março de 2010
  • 061 F A l A r d e n ó s – VII J o r g e A . H . r A n g e l Ao mesmo tempo que se realizavam, na RAEM, as celebrações do 10.o aniversário do retorno de Macau à pátria chinesa, um conjunto diversificado de actividades assinalava em Lisboa, em Dezembro passado, o 10.o aniversário da transição, compreendendo um seminário subordinado ao tema “Um país, dois sistemas”, uma exposição intitulada “Macau: Encontro de Culturas”, um concerto protagonizado por Rão Kyao e Yanan e uma sessão solene levada a efeito na Fundação Calouste Gulbenkian, com o alto patrocínio do Presidente da República Portuguesa. A comissão organizadora destes eventos comemorativos integrou a Fundação Jorge Álvares, o Instituto do Oriente e a Sociedade de Geografia de Lisboa, tendo estado igualmente envolvidos o Centro Científico e Cultural de Macau, a Academia Internacional de Cultura Portuguesa, a Casa de Macau de Portugal, o Centro Nacional de Cultura, o Instituto Internacional de Macau, a Fundação Casa de Macau, a Fundação Calouste Gulbenkian e o Instituto Confúcio da Universidade de Lisboa.Em artigos anteriores fizemos já referências bastantes a estas actividades, todas com muito boa adesão e participação, mas ainda não tínhamos tido acesso ao texto completo da intervenção do Presidente da República no encerramento daquela sessão solene. Dada a sua relevância, como apreciação do legado e do cumprimento do acordo firmado, pareceu-nos adequado trazê-la, agora, para este espaço, para conhecimento dos leitores residentes em Macau. Transcrevem-se, assim, as partes mais significativas dessa oportuna comunicação:o legado de Portugal“No dia 20 de Dezembro de 1999, Portugal punha termo, de forma digna, em paz consigo e com a sua História, ao ciclo imperial que perdurara por mais de metade da o 10.º aniversário da transição na óptica do Presidente da república“Não me parece que haja dúvida de que ainda temos muito a fazer para que possamos falar de um relançamento da presença portuguesa no Oriente, tirando partido das vantagens que Macau oferece”.Aníbal Cavaco da Silva, 19 de Dezembro de 2009
  • 062F A l A r d e n ó s – VIIJ o r g e A . H . r A n g e l sua vida de Nação multissecular. Todos sabemos como era importante que assim fosse, até para que melhor pudéssemos reconciliar-nos com um período que tantos traumas nos deixara.A Administração Portuguesa deixava o Território justificadamente orgulhosa de um legado notável, assente numa organização administrativa capaz e respeitada e num corpo legislativo sólido e abrangente, em harmonia com as garantias que haviam sido dadas aos habitantes de Macau e com as expectativas que lhes haviam sido criadas. Um legado que incluía, ainda, um conjunto de infra-estruturas que permitiam ao Território olhar o futuro com confiança.A tudo presidira uma visão estratégica que soube reconhecer o potencial de Macau como plataforma privilegiada no quadro da política de abertura ao mundo que a China havia iniciado e como factor de aproximação entre Portugal e a China. A concretização deste último objectivo – fazer de Macau um factor de aproximação entre Portugal e a China – ficou a dever-se não apenas ao modo como se afirmou a presença portuguesa em Macau, mas também ao clima de respeito e amizade que caracterizou o processo negocial, fruto de uma preocupação, partilhada pelos dois Estados, em garantir as soluções que assegurassem o melhor futuro para o Território e para as suas gentes. E assim, caso raríssimo e exemplar, dois países, Portugal e a China, chamados a resolver uma questão bilateral complexa e delicada, de grande sensibilidade para ambos, concluíram-na muito mais próximos um do outro do que quando lhe haviam dado início. Uma proximidade que se reflectiu num relacionamento cada vez mais aprofundado, como bem atesta o estabelecimento, em 2005, de uma parceria estratégica entre os dois países.” (...)
  • 063 F A l A r d e n ó s – VII J o r g e A . H . r A n g e l Plataforma de cooperação“Quiseram as circunstâncias que tivesse cabido a um Governo a que presidi dar início às negociações que culminaram na Declaração Conjunta sobre Macau. Tal como me coube subscrevê-la, em nome do meu país, em 13 de Abril de 1987, em Pequim, por ocasião daquela que foi a primeira visita oficial de um Chefe de Governo de Portugal à República Popular da China. Foram tempos que não esqueço. Recordo-me bem de ter sublinhado, no discurso que pronunciei nessa ocasião, que há momentos em que temos a consciência de estar a ser escrita uma página da História. Foi precisamente isso que sucedeu. Continuo a pensar, no entanto, que a melhor forma de estarmos à altura do que soubemos construir no passado é projectando-o no futuro.Na comunicação que fiz ao País, em Março de 1987, quis chamar a atenção dos Portugueses para o facto de o acordo a que havíamos chegado representar ‘um grande capital de esperança’, pelo que abria de perspectivas ‘no nosso relacionamento com o Oriente e, em particular, com a China’. As características próprias do território de Macau, que o distinguem do resto da imensa China a que pertence, resultam da marca que ali deixou a secular presença portuguesa. Essas características conferem-lhe uma vocação natural para funcionar como plataforma no relacionamento da China com os países de língua oficial portuguesa. A China está bem ciente desta mais-valia de Macau e tem apostado, decisiva e inteligentemente, na sua valorização, como instrumento do reforço dos seus laços com os Estados-membros da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa. (...)Como tive a oportunidade de lembrar, numa intervenção, em 1987, na Associação Comercial de Macau, ‘Portugal tem tudo a lucrar no aproveitamento de Macau e do seu
  • 064F A l A r d e n ó s – VIIJ o r g e A . H . r A n g e l grande dinamismo económico e comercial para intensificar o relançamento da presença portuguesa no Oriente’. Um relançamento cuja necessidade se torna cada dia mais premente, perante a evidência do papel que a Ásia, em geral, e a China, em particular, são e serão crescentemente chamadas a desempenhar na cena internacional. Um papel que a crise financeira e económica que abalou o mundo, e cujos efeitos ainda sofremos, se encarregou de bem sublinhar.”uma aposta no futuro“Não me parece que haja dúvidas de que ainda temos muito a fazer para que possamos falar de um relançamento da presença portuguesa no Oriente, tirando partido das vantagens que Macau oferece. Apostar nessa via implica investir no reforço da nossa presença económica na Região, incluindo a localização, no seu território, de empresas que dela façam uma alavanca para a sua projecção noutros mercados, nomeadamente na China. Implica investir, igualmente, numa revigorada presença cultural, desde logo por via de um apoio determinado às instituições que promovem o ensino da nossa língua e a divulgação da nossa cultura. Mas também na promoção do intercâmbio entre instituições académicas, culturais, desportivas e de investigação. E, ainda, no estímulo dos fluxos turísticos e no incentivo à constituição de redes de contactos entre os cidadãos.Em 2010, terá lugar a Exposição Universal de Xangai, em que Portugal estará presente, e, no ano seguinte, assinalar-se-á o Ano de Portugal na China. São duas excelentes oportunidades para afirmar o relançamento da nossa presença no Oriente, que os nossos interesses estratégicos tão vivamente recomendam.
  • 065 F A l A r d e n ó s – VII J o r g e A . H . r A n g e l Em Abril de 1994, perante a Assembleia Legislativa de Macau, recordei que a solução que havíamos encontrado para Macau comportara um duplo alcance: por um lado, tínhamos pretendido garantir a estabilidade de Macau, o seu progresso económico e social e a confiança no futuro por parte da sua população; por outro lado, tínhamos querido encarar numa nova perspectiva o desenvolvimento das relações entre Portugal e a República Popular da China.Transcorridos dez anos desde o dia 20 de Dezembro de 1999, julgo que as circunstâncias vêm demonstrando o acerto destas linhas de orientação. O dinamismo económico e o progresso social de Macau são evidências que todos reconhecem, fruto de um clima de confiança no futuro que muito deve às condições que o processo de transição permitiu criar. E o nosso relacionamento com a China apresenta, nos dias de hoje, uma proximidade muito superior à que se registava antes da transição. Temos, seguramente, razões para celebrar.Muitos guardarão, tal como eu, a memória ainda viva daquele dia de sol e frio em que, num gesto comovente, o Governador Vasco Rocha Vieira apertou ao peito o símbolo maior de uma Nação reconciliada com a sua História e orgulhosa da sua obra. Naquele dia, naquele momento, ele foi um pouco de todos nós, irmanados na dignidade do seu gesto. Ficámos a dever esse momento a Macau. Jamais o esqueceremos.”— · —O Presidente da República, neste balanço justo e lúcido, felicitou as personalidades e instituições que quiseram juntar-se no apoio a essa importante iniciativa, a que
  • 066F A l A r d e n ó s – VIIJ o r g e A . H . r A n g e l entendeu conferir o seu alto patrocínio, “num gesto de reconhecimento perante a dimensão histórica de um processo de transição cujo sucesso engrandeceu o nome do nosso País”. E definiu claros e correctos objectivos para o futuro, no relacionamento com Macau e com a China.29 de Março de 2010
  • 067 F A l A r d e n ó s – VII J o r g e A . H . r A n g e l Não obstante o grande interesse de universidades portuguesas na inclusão de matérias relacionadas com a China de hoje em cursos de Economia, Sociologia, Ciência Política e Relações Internacionais, e até na criação de pós-graduações dedicadas à China moderna e contemporânea, como as ministradas na Universidade de Aveiro e no Instituto do Oriente (Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade Técnica de Lisboa), cujos corpos docentes tive o grato prazer de integrar, continua a ser surpreendentemente exíguo o número de estudos publicados em Portugal sobre esta importante temática. Saúda-se, por isso, o aparecimento da obra “A ascensão da China. Acomodação pacífica ou grande guerra?”, de Tiago Vasconcelos, coronel do Exército Português com o Curso de Promoção a Oficial General do Instituto de Estudos Superiores Militares, mestre em Estratégia e pós-graduado em China Moderna pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas. A editora é a prestigiada Almedina, de Coimbra, tendo a obra saído do prelo em Setembro de 2009, após o que se procedeu ao seu imediato lançamento numa muito concorrida sessão presidida pelo Prof. Narana Coissoró e com apresentação, altamente elogiosa, feita pelo General Cabral Couto.Tiago Maria Ramos Chaves de Almeida e Vasconcelos foi ajudante de campo e assessor do último Governador de Macau, General Vasco Rocha Vieira, de 1996 a 1999, tendo esta sua experiência profissional em Macau, bem como a observação em lugar privilegiado dos efeitos internacionais da transição de Hong Kong, em Julho de 1997, e algumas visitas que teve a oportunidade de fazer a diversas cidades e províncias da República Popular da China e a outros países da Ásia e do Pacífico, contribuído para lhe despertar a atenção para a problemática da ascensão da China. Consciente de que “a nível mundial há muitíssima literatura e estudos académicos sobre este decisivo facto histórico” e que existem, mesmo em Portugal, trabalhos sobre a problemática da A ascensão da china – acomodação pacífica?“A China está num processo dinâmico de expansão.Apesar de não contestar agressivamente as ‘regras do sistema’, começa a ter interesses cada vez mais alargados e sente-se com direito a fazer negócios de que precisa para alimentar o seu modelo de desenvolvimento.”in “A ascensão da China. Acomodação pacífica ou grande guerra?”, Almedina, 2009
  • 068F A l A r d e n ó s – VIIJ o r g e A . H . r A n g e l segurança na região Ásia-Pacífico, a modernização militar da China e os mecanismos do processo de decisão político-estratégico na China, mas que são normalmente estudos sectoriais que “não correspondem a uma análise sistemática e global de natureza estratégica”, o propósito principal deste livro é “tentar colmatar esta insuficiência”, apresentando, sistematizando e analisando a abundante informação fornecida.O primeiro capítulo “contém uma caracterização sucinta do sistema internacional contemporâneo, ou seja, o ‘pano de fundo’ em que se desenrola a ascensão da China”, procurando os capítulos seguintes (II a V) “retratar, de acordo com a metodologia habitual em estudos estratégicos, os principais factores do poder da China”, dos de natureza geográfica, como o meio físico, a demografia e os recursos naturais disponíveis, aos estruturais, como o factor económico-tecnológico, o factor político-cultural e o factor militar. No capítulo VI é apreciada “a forma como a dinâmica de evolução chinesa joga com outras dinâmicas em contextos regionais em que a China é automaticamente actor pela sua geografia e no contexto mundial”, sendo o capítulo VII dedicado ao estabelecimento de “cenários principais sobre as evoluções possíveis do processo da ‘ascensão da China’, discutindo os efeitos para a ordem internacional que decorrem de cada um deles”. Particularmente úteis são as conclusões – que merecem atenta reflexão pela abrangência de perspectivas – “sobre as possibilidades de minimizar os factores de risco que encerra um fenómeno como a ascensão da China, por forma a que a realidade se venha a aproximar o mais possível dos desfechos menos perigosos para a segurança internacional e para a estabilidade política mundial”.“Como é que se equilibra um colosso económico-militar com 1.300 milhões de habitantes? Um colosso que não é apenas mais um Estado: representa uma civilização,
  • 069 F A l A r d e n ó s – VII J o r g e A . H . r A n g e l outras matrizes culturais, filosóficas, morais e políticas. Qual o efeito que a entrada em cena de um tal colosso, com uma mundivisão muito própria, produz sobre uma ordem internacional que é, fundamentalmente, uma criação ocidental? Qual a possibilidade de choque com a prentensão do Ocidente de proselitamente impor valores de cuja bondade e universalismo está mais ou menos convencido? Como é que a China poderá afectar, ou já está a afectar, o sistema e como poderá o sistema afectar, ou já está a afectar, a China? Como é que estas interacções mútuas operam num momento de viragem tecnológico-civilizacional, de grande liberdade de circulação de pessoas, de bens e de ideias, mas, ao mesmo tempo, de algumas linhas de clivagem potencial entre algumas das diferentes culturas e civilizações que habitam o mundo? Que a China afecte o sistema parece mais ou menos inevitável. Mas, ao ‘importar’ as tecnologias e o ‘know-how’ do funcionamento do sistema, tenderá a China a absorver muitas das características deste?” Estas são questões que o autor identifica, explica e analisa, convidando o leitor a aprofundar com ele as reflexões aduzidas e concluindo que “a possibilidade da China passar de um posição que já é bastante importante no palco internacional, para emergir, fruto da modernização e do desenvolvimento da sua economia e das suas forças armadas, como o actor mais proeminente no leste asiático, um dos três ou quatro grandes actores de um sistema internacional multipolar, ou um dia, quem sabe, o principal actor num sistema internacional unipolar, ou seja, da ascensão da China poder polarizar em Pequim um poder suficientemente forte para alterar os equilíbrios de poder regionais e mundiais, é mais do que uma hipótese académica”. Torna-se, por isso, importante tentar perceber como é que o crescimento económico-militar da China está a produzir ou vai produzir no futuro alterações decisivas na situação estratégica mundial, na hierarquia e nas balanças dos poderes mundiais e regionais
  • 070F A l A r d e n ó s – VIIJ o r g e A . H . r A n g e l existentes e nos mecanismos reguladores da ordem no sistema internacional”, e se “essas alterações previsíveis tenderão ou não a provocar um grande conflito mundial (antecedido ou não de uma corrida aos armamentos por parte da China e, ou, de um conflito regional) ou se, pacificamente, conduzirão a uma ordem mundial mais estável e segura”. As interrogações são, de facto, múltiplas e a análise, sem preconceitos, de todos os cenários possíveis, constitui uma das tarefas mais aliciantes nos estudos estratégicos contemporâneos. A China tem crescido espectacularmente, mas tem muitos problemas internos, alguns graves, de ordem política, social, económica e ecológica.Na parte final do livro, Tiago de Vasconcelos sintetiza as suas reflexões e conclui que, estando a China num processo dinâmico de expansão, “apesar de não contestar agressivamente as ‘regras do sistema’, começa a ter interesses cada vez mais alargados e sente-se com direito a fazer os negócios de que precisa para alimentar o seu modelo de desenvolvimento”, estando ao mesmo tempo em curso “uma mudança de polaridade no sistema e, porventura, uma alteração, do Atlântico para o Pacífico, do ‘centro de gravidade’ do sistema, num momento em que, por um lado, o sistema ainda não absorveu completamente os efeitos da ruína da ordem que vigorou durante algumas décadas até ao fim da Guerra-Fria e, por outro, em que a superpotência sobrante não tem capacidade para, sozinha, garantir a paz e a estabilidade política mundiais”. Neste contexto, será bom compreender que “num processo que é dinâmico por natureza, as outras potências, algumas delas também em processos de expansão, poderão acomodar-se, mas também poderão resistir, ao aumento da influência chinesa regional e global, do mesmo modo que poderão respeitar ou não aquilo que a China vier a pretender que sejam as suas zonas de influência reservada ou zonas de segurança”, sendo então os choques praticamente inevitáveis. Sem pôr de parte outros cenários possíveis, com
  • 071 F A l A r d e n ó s – VII J o r g e A . H . r A n g e l sustentação teórica bem fundamentada, o autor termina com uma nota de algum optimismo, tendo em consideração que, “num sistema multipolar é maior o número de interacções primárias e, portanto, o cruzamento de interesses convergentes e divergentes”, podendo “a busca de compromisso em vez da radicalização propiciar uma maior estabilidade”. Um mundo multipolar tenderá a favorecer a acomodação geral, o que “não quer dizer que o sistema multipolar não contenha riscos”. Uma longa relação bibliográfica complementa o trabalho, sendo importante que os interessados nesta temática consultem outras obras que não estão ali referenciadas, como “China’s Ascent – Power, Security and the Future of International Politics”, coordenado por Robert S. Ross e Zhu Feng (Cornell University Press, 2008), “China Rises – How China’s Astonishing Growth Will Change the World”, de John Farndon (Virgin Books, 2007), “China: the balance sheet: what the world needs to know now about the emerging superpower”, de C. Fred Bergsten, Bates Gill, R. Lardy e Derek J. Mitchell (Center for Strategic and International Studies and the Peter G. Peterson Institute for International Economics, 2006), “China: Friend or Foe”, de Hugo de Burgh (Icon Books, 2006), “China Rising: Peace, Power and Order in East Asia”, de David C. Kang (Columbia University Press, 2007), “When China Rules the World”, de Martin Jacques (Allen Lane, Penguin, 2009), e tantas outras, de consulta obrigatória, que existem abundantemente em bibliotecas universitárias na Ásia, nos EUA e no Reino Unido, e até no Instituto Internacional de Macau, mas que são quase completamente inacessíveis, ou mesmo desconhecidas, em Portugal.12 de Abril de 2010
  • 072F A l A r d e n ó s – VIIJ o r g e A . H . r A n g e l A palestra que o Dr. Delfino Ribeiro fez, em Maio de 2006, no Instituto Internacional de Macau (IIM), integrada na série de “serões macaenses” levados a efeito, com boa adesão do público, ao longo de quase uma década, acaba de ser editada em forma de opúsculo da colecção “Mosaico”. “Retalhos de uma vida” é o título escolhido pelo próprio autor, reunindo memórias de um rico percurso desde a infância despreocupadamente vivida nesta então muito pacata cidade, até aos dias de hoje, quando dedica especial atenção à Fundação do Santo Nome de Deus, a cujo conselho de curadores preside, depois de intensa vida profissional e activa participação cívico-política em Macau e em Portugal.os verdes anos em MacauPara despertar o interesse dos leitores, transcrevemos algumas passagens da comunicação contida naquele opúsculo, já disponível na secretaria do IIM e na Livraria Portuguesa. Da vida de estudante, na meninice e adolescência em Macau, Delfino Ribeiro deu-nos este testemunho em que também recorda e homenageia os seus professores: “O meu primeiro contacto com as letras foi pela mão da Soror Arminda, na secção infantil do Colégio de Santa Rosa de Lima, das Irmãs Franciscanas Missionárias de Maria, e também através de Adelina Outeiro, que dava aulas na sua residência à Rua de Inácio Baptista.A primária, tive-a na Calçada de Bom Jesus, na Calçada do Gamboa, ou seja, no cimo da Calçada do Tronco Velho, perto da antiga Escola Comercial e, por fim, em Tap Seac, no estabelecimento que continua hoje a exercer o seu mister. Em relação aos professores, vêm-me à memória Celestina de Mello e Sena, Vera de Senna Fernandes, Luís Gonzaga Gomes, Danilo Barreiros e Francisco Carvalho e Rêgo.retalhos de uma vida“Manifesto o meu reconhecimento a quantos me quiseram vir escutar nesta sala que faz parte da vida cultural de uma instituição que, em muito boa hora criada, anda indissoluvelmente ligada à história contemporânea de Macau”.Defino Ribeiro, “Retalhos de uma vida”
  • 073 F A l A r d e n ó s – VII J o r g e A . H . r A n g e l Com excepção do 7.o ano, que frequentei no Monte Estoril, no Colégio João de Deus, cujo director e proprietário era o grande pedagogo João Dias Valente, fiz o liceu na Rua do Campo, em Tap Seac, no prédio onde está presentemente o Instituto Cultural.Conheci vários professores: Torquato Gomes, Artur de Almeida Carneiro, Rodrigues Lima, Craveiro Lopes, Humberto Rodrigues, Mariazinha de Sousa Afonso, Clement Braga, Guedes de Andrade, Mercedes Pacheco Jorge, Pedro Guimarães Lobato, Ferreira de Castro, Garcia da Silva, Padres Maciel, Manuel da Costa Nunes, Júlio Augusto Massa, Manuel Teixeira e Áureo da Costa Nunes e, ainda, em educação física, Fernando Homem da Costa, Veríssimo do Rosário e João dos Santos Ferreira – este último famoso hoquista, que foi meu vizinho quando regressei a Macau em 1961 e, depois, colega de foro.(...)De entre os docentes que citei, destaco o Padre Massa, que foi quem mais me impressionou, quer como pedagogo e humanista quer pela enorme influência que exerceu nos seus alunos, dentro e fora do liceu, com eles convivendo nos eventos desportivos, nos passeios, bailes e em outros actos da vida quotidiana.(...)Foi para mim uma elevada honra tê-lo como amigo e confidente durante mais de meio século e a ele devo em grande parte a minha formação, naquilo que porvenura tenha de bom. Doutorado em Filosofia pela Universidade de Salamanca depois de se licenciar pela Universidade Gregoriana de Roma, e com pós-graduação em Ciências Sociais no Instituto Leão XIII de Madrid, faleceu há perto de três anos em Lisboa, onde se encontrava há muito radicado. Purista na arte de escrever, deixou uma valiosa obra em prosa e verso, como grande pensador e magnífico poeta virado para o soneto (produziu 600!) – isto, segundo as suas próprias palavras, ‘pela sua concisão, pelo ritmo, pela música, a traduzir o pensamento, sobretudo filosófico’.A todos estes docentes que contribuíram em maior ou menor grau para a educação da minha geração, vai a minha respeitosa homenagem. Estava-se então na II Guerra
  • 074F A l A r d e n ó s – VIIJ o r g e A . H . r A n g e l Mundial, em que o número de refugiados, incluindo os membros da comunidade portuguesa de Hong Kong, aumentava assustadoramente e a falta de géneros alimentícios e outros de primeira necessidade se agravava, arrastando consigo a fome, a doença, os furtos, roubos, assaltos e outras sequelas nocivas ao bem estar das pessoas e à segurança dos bens.As incertezas sobre o devir eram enormes e, talvez por esta razão, apenas se podia contar com o presente, que se procurava aproveitar o melhor possível, preenchendo-o com reuniões sociais, culturais e desportivas e outras festas, o que dava à urbe um ambiente trepidante e aparentemente alegre e despreocupado, em contraste com a miséria que, de mãos dadas, grassava em todos os cantos e recantos.”graves conflitos locaisÀs recordações de Delfino Ribeiro do tempo de aluno do ensino primário e do Liceu de Macau e dos anos muito difíceis da Guerra do Pacífico, juntamos estas referências a alguns graves conflitos no período de 1939 a 1946:“Os que viveram nesta época devem estar lembrados do clima de tensão que pairava neste centro de espionagem em que actuavam, dum lado, os homens de Chiang Kai Cheak e das forças aliadas e, do outro, os nipónicos que dominavam toda esta região, sendo lugar comum e prato do dia os tiroteios, homicídios, assaltos, e outros incidentes e atropelos à lei e à ordem pública.A este propósito, em 10 de Julho de 1945, um tio meu, Fernando de Senna Fernandes Rodrigues ou simplesmente Fernando Rodrigues, conceituado comerciante que presidia à Cruz Vermelha, foi, à saída de um funeral no cemitério de S. Miguel, barbaramente
  • 075 F A l A r d e n ó s – VII J o r g e A . H . r A n g e l assassinado, a mando do sinistro comandante militar japonês Coronel Sauer, com vários tiros por um capanga do famigerado facínora e mercenário Vong Kon Kit (cujo fim acabaria posteriormente por ser também trágico), tendo as duas filhas do meu tio, que o acompanhavam, sido feridas.Este atentado foi como que o funesto desfecho de um litígio provocado pelo abastecimento de arroz, cujo acesso a Macau se fazia por dois canais marítimos: um controlado pelos japoneses, que cobravam uma taxa alfandegária que vinha onerar em muito o custo deste alimento de primeira necessidade, e outro que era utilizado pelos “contrabandistas” (assim classificados pelas autoridades nipónicas) que traziam o arroz, que era vendido a preço inferior, estimulados pelo meu tio, que, brigão e temerário, se mostrava indiferente a contínuas ameaças de represália.Ora, para minorar este estado de coisas, a PSP, com a aprovação do Governador Comandante Gabriel Maurício Teixeira (que, mais tarde, com a rendição das forças do eixo, viria a ser nomeado Governador-Geral de Moçambique), e sob o comando do capitão Carlos Alberto Rodrigues Ribeiro da Cunha, criou uma brigada especial dirigida por Sebastião Voltaire Pinto de Morais, que passou a ser alcunhada de “Spitfire”, devido talvez à presteza e precisão com que actuava nas suas missões, à semelhança dos aviões de caça britânicos do mesmo nome, que imenso terror provocaram na II Grande Guerra. Brigada que foi, em momentos tão conturbados, uma referência marcante da administração portuguesa.Todavia, instaurada a paz, o capitão Ribeiro da Cunha, o chefe Pinto de Morais e os seus subordinados subchefe José António David e guarda Alberto Cortiço Paz foram presos em 31 de Julho de 1946 e transferidos para Moçambique, sob a alegação de prática de vários crimes, tais como extorsão junto de fumatórios de ópio e de emissores clandestinos, roubo, homicídio, rapto e cárcere privado em que teriam sido vítimas alguns
  • 076F A l A r d e n ó s – VIIJ o r g e A . H . r A n g e l chineses (um dos quais Chan Va Ian, procurado por traição pelo General Van Ian Chek da China Nacionalista) e José Maria Alves, intérprete da Secção Especial do Exército Japonês, e sua companheira Rony, arrebatados da hospedaria ‘Aurora Portuguesa’ da Rua do Campo.Os arguidos, posteriormente enviados para a capital do nosso País, mantiveram-se escandalosamente presos durante 14 anos até Julho de 1960, quando foram julgados e absolvidos pelo Colectivo do 2.o Tribunal Militar Territorial de Lisboa.”Estes e outros “retalhos de uma vida” de um ilustre filho desta terra merecem a atenção de quantos amam Macau e procuram conhecer melhor o seu passado recente. Por isso, o IIM continuará a promover a realização de mais “serões macaenses” e publicará algumas das melhores comunicações neles apresentadas. 19 de Abril de 2010
  • 077 F A l A r d e n ó s – VII J o r g e A . H . r A n g e l No opúsculo “Retalhos de uma vida” (Instituto Internacional de Macau, colecção Mosaico, Dezembro de 2009), o Dr. Delfino Ribeiro, responsável pela instalação da Polícia Judiciária em Macau, achou por bem partilhar com o leitor uma experiência vivida há quase cinco décadas. Pelo interesse do depoimento, quisemos trazer para este espaço as suas recordações da forma como se criou e se desenvolveu aquele organismo cuja eficácia tem sido fundamental para o bom funcionamento da justiça e para a salvaguarda da segurança pública:os primeiros passos“Criada no nosso País em 28/10/1945 pelo Decreto-Lei n.o 35.042, a Polícia Judiciária chegou ao Ultramar 15 anos depois por via do Decreto-Lei no 43.125, de 19/8/1960. (...) No Ultramar as competências do Ministério da Justiça e do Procurador-Geral da República passaram para o Ministro do Ultramar quanto à superintendência e à orientação superior da acção desta Polícia.Criaram-se Directorias em Luanda, Lourenço Marques e Goa e a Inspecção em Macau, esta a cargo de um inspector-adjunto com atribuições de chefe de repartição provincial e com os mesmos direitos e regalias dos delegados do procurador da República, sendo, nas suas ausências ou impedimentos, substituído por magistrado do Ministério Público ou por quem o Governador designar. Ao mesmo tempo, e por força do mesmo Decreto-Lei, instituía-se, tal como em Luanda e Lourenço Marques, o Tribunal de Polícia de Macau, presidido pelo inspector-adjunto para o julgamento das infracções a que correspondia processo de transgressão ou sumário. (...)Com os estágios de registos e notariado, ministério público e advocacia, onde me foi dado o ensejo de aprender no escritório, sito no Chiado, do saudoso Fernando Pacheco, os primórdios da Polícia Judiciária em Macau“A PJ foi incontestavelmente uma ‘mais valia’ que veio ocupar em Macau o lugar que legalmente lhe pertencia…. “Delfino Ribeiro, “Retalhos de uma vida”
  • 078F A l A r d e n ó s – VIIJ o r g e A . H . r A n g e l natural de Macau e membro de uma ilustre família macaense e profissional do foro de muito prestígio no meio lisboeta (era admirado pela perfeição com que articulava), e após devida preparação na Directoria de Lisboa, vim para Macau com o objectivo de instalar e dirigir a Polícia Judiciária.Em 21 de Abril de 1961, uma semana após a chegada ao Território e com 31 anos de idade ainda incompletos, foi-me confirmada a posse pelo tenente-coronel, e mais tarde general, Jaime Silvério Marques, governante providencial, íntegro e de enorme visão que, contrariando ventos repentinamente adversos do Ocidente, com coragem e dignidade outorgou o contrato de concessão de jogos de fortuna e azar a favor da STDM e, desta forma, impulsionou Macau para uma era de prosperidade de que actualmente usufrui. Constituiu um privilégio ter eu feito parte da sua equipa de colaboradores directos.Historiar o que a Polícia Judiciária fez e não foi capaz de fazer, descrever, a par e passo, o repositório de dificuldades ou obstáculos que teve que superar, e salientar as alegrias que a animaram e as tristezas que por momentos a esmoreceram ou debilitaram, seria tarefa difícil para quem dela se afastou vai para 36 anos e talvez não isenta de parcialidade, porquanto seria obrigado a debruçar-me sobre uma significativa parte da minha vida e a jurisprudência das cautelas acertada e avisadamente ensina que um julgador raras vezes é bom juiz em causa própria. Todavia, creio não dever esquivar-me a registo ligeiro de algumas recordações, ainda que muitas de natureza mnemónica.Salvo o chefe de brigada que, oriundo da casa mãe de Lisboa, desembarcaria meses depois, o pessoal que vim encontrar era em número de 10, que sem a minha intervenção tinham transitado da PSP, sendo 4 agentes, 2 da secretaria, 2 condutores e 2 serventes. Começámos instalados provisoriamente na Rua Central, nuns compartimentos do 1.o andar da sede da PSP, onde o meu gabinete se situava num corredor e servia também de sala de audiências do Tribunal de Polícia.
  • 079 F A l A r d e n ó s – VII J o r g e A . H . r A n g e l Em 1963, com o gradativo recrutamento do pessoal e a acentuada tacanhez de instalações para os serviços que abarcavam funcionalmente a PJ, propriamente dita, o Tribunal de Polícia e o Arquivo do Registo Criminal e Policial, mudámo-nos em Maio, por arrendamento, para o prédio n.o 40-D da Avenida do Conselho Ferreira de Almeida. (...) E ali permaneceríamos até princípios de 1970, data em que nos foi entregue a nossa sede definitiva, na Rua Central.um organismo eficazEntrementes, e de molde a reduzir os inconvenientes da falta de espaço, o leccionamento teórico do curso de preparação era dado num dos estabelecimentos dos Serviços de Educação; no ginásio do Seminário de S. José ministravam-se o judo e a educação física; e utilizava-se na Ilha Verde a carreira de tiro do Comando Militar. De notar que o Curso de Preparação destinado ao pessoal de investigação (incluíndo o judo), a Obra Social e o Laboratório foram os primeiros a ser instituídos no Ultramar.No que toca ao Curso de Preparação, foi possível – nomeadamente com a colaboração do Juiz de Direito e do Delegado do Procurador da República, que eram os únicos magistrados que integravam o Tribunal de Comarca – constituir um corpo docente para leccionar as seguintes disciplinas: direito penal, direito processual penal, técnica e táctica de investigação, criminologia, psicologia judiciária, medicina legal, lofoscopia, tiro teórico e prático, educação física e defesa individual (judo).Os agentes mais classificados frequentavam em Lisboa, durante 3 anos contínuos, o Curso de Especialização, condição necessária para a admissão dos agentes de 1.a classe a concurso para chefe de brigada. E com imenso agrado recordo o bom aproveitamento
  • 080F A l A r d e n ó s – VIIJ o r g e A . H . r A n g e l dos nossos agentes seleccionados para a frequência do Curso em ambiente metropolitano por eles então desconhecido, sem apoio familiar e vivendo em modesta pensão.O Laboratório, dirigido por macaense habilitado com curso superior e com estágio no Laboratório da Polícia Científica da Directoria da PJ em Lisboa, incumbia-se de exames periciais afectos às secções de documentos, toxicologia, física, química, biologia, vestígios e fotografia.Por outro lado, e adentro da competência exclusiva na instrução preparatória dos crimes relativos a tráfico de estupefacientes, várias medidas foram tomadas, incluíndo um estreito contacto com organismos policiais e congéneres e outros ligados ao estudo desta problemática (como o International Institute for the Study of Drug Addiction, com sede em Nova Iorque, onde eu era o único membro de nacionalidade portuguesa).Isto, a par da PJ se ter feito representar em seminários internacionais realizados sob o patrocínio da Interpol e de, localmente, trabalhar de mãos dadas com os Serviços de Saúde e a PSP no Centro de Combate à Toxicomania, que dirigi vários anos em regime de alternância ou rotatividade.No domínio de medidas legislativas, a acrescer à regulamentação concernente ao Laboratório, Obra Social, Curso de Preparação e à fusão do Arquivo de Registo e Informações (ARI) da PJ com o Arquivo de Registo Criminal e Policial, realço a elaboração do projecto do Decreto n.o 46.371, de 08/06/1965, que, dimanado do Governo da República, consagrou uma tipificação ou descrição mais completa das infracções e uma melhor graduação de penas, em correspondência com a natureza e gravidade dos delitos perpetrados, ao mesmo tempo que fomentava o tratamento voluntário dos toxicómanos e estimulava a denúncia. Projecto que contou com a preciosa colaboração do meu saudoso primo e amigo Carlos Augusto Corrêa Paes d’Assumpção, notário e
  • 081 F A l A r d e n ó s – VII J o r g e A . H . r A n g e l advogado distintíssimo e figura de enorme relevo e indelével na história deste rincão que tanto amou. (...)A PJ foi incontestavelmente uma ‘mais valia’ que veio ocupar em Macau o lugar que legalmente lhe pertencia, colmatando o vazio que se fazia sentir numa área onde a investigação e a prevenção da criminalidade crónica ou habitual e os casos de competência exclusiva não eram feitos por organismo próprio.Ao fim de 9 anos, a dezena de elementos iniciais subiu para cerca de uma centena, como resultado da crescente implantação da PJ numa sociedade dinâmica que carecia de ambiente favorável ao seu desenvolvimento. Aumento mesmo assim insuficente mas digno de encómio, atentas as dificuldades financeiras e a modéstia orçamental com que deparava este Território. (...)Alegra-me saber que na RAEM o mesmo espírito de servir se mantém como lema da Polícia Judiciária, para orgulho dos que dela fazem parte e para segurança dos que nela confiam as suas pessoas e o seu património.”Depoimentos como este são da maior relevância para a história das instituições públicas de Macau. O Instituto Internacional de Macau vai, por isso, continuar a recolhê-los. 26 de Abril de 2010
  • 082F A l A r d e n ó s – VIIJ o r g e A . H . r A n g e l “Mário Acquistapace – Um Salesiano no Extremo Oriente”, de António Rodrigues Baptista, é o volume III da Colecção “Missionários para o Século XXI”, do Instituto Internacional de Macau (IIM) e foi recentemente apresentado em sessão pública no Clube Militar de Macau. É uma homenagem a mais um daqueles homens da Igreja entregues de corpo e alma à causa da missionação neste Oriente extremo.Para coordenar esta biografia, o IIM convidou António Rodrigues Baptista, ex-professor e investigador principal da Universidade de Macau (1990-2000) e fundador e professor da Universidade Sénior de Ourém. A importante acção de Mário Acquistapace fez-se mais sentir, principalmente em Macau, de modo particular em dois momentos cruciais: durante a Guerra do Pacífico e após o 25 de Abril de 1974. Sobre o período pós-Abril de 1974 escreveu o autor:na Missão de coloane“No regresso à Cidade do Nome de Deus, Mário Acquistapace foi nomeado pároco de Coloane. A igreja dedicada a S. Franciso Xavier fora construída em 1928. (...)Com a chegada do P.e Mário em 1974, a Diocese resolveu construir no terreno da Missão de Coloane um edifício de dois andares destinado a Escola Técnica. Deste modo, o Pe. Acquistapace transformou em Outubro deste ano a Escola Primária numa Escola com oficinas de mecânica e serralharia. Este conjunto formava a Escola Profissional de S. Francisco Xavier, com oficinas de mecânica, carpintaria, reparação de barcos, aulas de desenho, língua portuguesa e inglesa, salão de jogos e campos de futebol, vólei e basquetebol para toda a juventude de Macau.um salesiano no extremo oriente“Entre os incansáveis obreiros nas Missões da Ásia Extrema, a partir de Macau, sobressai a figurado Padre Mário Acquistapace”.António Rodrigues Baptista
  • 083 F A l A r d e n ó s – VII J o r g e A . H . r A n g e l Várias vezes por semana, o P.e Mário também dava aulas de Português (‘la lingua quasi madre’ – como afirmava), servindo habitualmente de intérprete e coordenando o trabalho dos vários professores e irmãos salesianos.Entretanto, a Escola seria transformada no Instituto Educacional de Menores, pois a autoridade civil começou a enviar para a Escola de Coloane rapazes da rua, com graves problemas de inserção e recuperação. Conservou-se, no entanto, ao Instituto o nome que tinha a escola: ‘Instituto Educacional de Menores de S. Francisco Xavier’.É de notar que o método usado para a regeneração dos rapazes era dado por Dom Bosco: ‘todos os rapazes são bons por dentro, e devem ser tratados como tais’.entrevista singularEm 1986, numa entrevista concedida ao ‘Boletim Salesiano’, aquando da passagem do P.e Acquistapace por Lisboa, a caminho dos Estados Unidos da América, o zeloso salesiano teve ocasião de relatar o trabalho que levava a efeito na Missão de S. Francisco Xavier, a seu cuidado desde 1974-75. Afirma o Pe. Mário para o jornalista:‘São centenas e centenas de rapazes. E olhe que 99,9% são pagãos! Todas as semanas vêm à igreja. Reúno-os num pequeno auditório e falo-lhes na religião, da virtude, dos mandamentos da lei de Deus, aprendem a cantar, a rezar e a ser melhores...’De facto, não se poderia dizer tanto, em tão breves palavras. Ao lado deste trabalho – refere o ‘Boletim Salesiano’ –, havia também ‘o clube, o centro juvenil de Nossa Senhora, com bilhar, matraquilhos, patins para atrair os jovens’.Mais adiante prossegue o Padre Mário:‘Imagine que eles (jovens da Missão de Coloane) já consideram a religião como parte da sua família, ainda que muitos não sejam cristãos!’
  • 084F A l A r d e n ó s – VIIJ o r g e A . H . r A n g e l Sobre o local da Missão, ou seja, o templo (ou santuário) de S. Francisco Xavier de Coloane, aonde acorrem ‘turistas e fiéis de muitas religiões’, acrescenta o Pe. Acquistapace:‘É corrente encontrar pelo chão pedaços de papel com dizeres como este: aqui tive a revelação da minha fé; aqui comecei uma outra vida’.Ora, tudo era devido, sem dúvida, ao modo de acolhimento e ao carisma especial do Padre Mário, que a todos sabia falar, não só na própria língua (pois ele falava fluentemente uma dezena de línguas!), mas sobretudo sabia falar às pessoas a ‘língua do coração’.Efectivamente, escutando esta ‘língua do coração’, o autor destas linhas, com sua família, tiveram ocasião de visitar a Escola da Missão de Coloane, em fins de Setembro de 1990. Aqui encontraram estas formas de trabalho do venerando sacerdote, sempre pronto para receber os visitantes e oferecer lembranças (como livros, crucifixos e medalhas de ‘Maria Auxiliadora’), na igreja de S. Francisco Xavier e oratório dos mártires do Oriente.Era assim, de facto, o P.e Mário: um ‘diplomata de Deus’, acolhendo e praticando o bem.culto à Virgem de FátimaUma das devoções que o P.e Mário alimentou durante a derradeira etapa de Macau, foi a devoção (especial) a Nossa Senhora de Fátima. Daí ter visitado o próprio Santuário de Fátima e o local das aparições na Cova da Iria, em Portugal. (...)Sem embargo, foi na Missão de Coloane que o P.e Mário veio a conceber, outrossim, a construção de um pequeno santuário dedicado à Virgem de Fátima. Precisamente
  • 085 F A l A r d e n ó s – VII J o r g e A . H . r A n g e l na extremidade do istmo Taipa-Coloane. (...) Tudo isto, na verdade – confessava o P.e Mário ao jornalista da Tribuna – tinha como finalidade iniciar ‘um grande apostolado’ em Coloane, dando assim ‘nova vida’ àquela Ilha!Através de notícias respigadas nalguns jornais da época e, além disso, por diferentes fotografias que possuímos sobre as primeiras manifestações públicas, verificamos não só o ar festivo do local e monumento a N.a S.a de Fátima (cuja inauguração teve lugar a 13 de Setembro de 1983), mas igualmente observamos a celebração do 1.o aniversário, sob a presidência do Bispo de Macau (D. Arquimínio da Costa). O mesmo podemos constatar aquando da procissão de velas a 12 de Maio de 1984, ostentando a primeira estátua da Virgem de Fátima, entronizada em Macau no ano distante de 1928.Em ‘carta-convite’ de 23 de Agosto de 1985, assinada pelo P.e Mário Acquistapace, este ‘mariano atrevido’ (como escreve), ao dar a notícia da conclusão da Via-Sacra, na rotunda do monumento, acrescenta com ênfase:‘É um complemento artístico, precioso e único no Extremo Oriente, que coloca o monumento de Nossa Senhora de Fátima na categoria dos grandes santuários, junto dos quais nunca falta a Via-Sacra’.A Via-Sacra seria inaugurada, com solenidade, em cerimónia presidida de novo por D. Arquimínio da Costa, em 30 de Agosto de 1985, justamente no 1.o dia da novena em honra de N.a S.a da Natividade, padroeira da Sé de Macau.Na mesma ‘carta-convite’ refere o Padre Mário que não só o monumento é visitado ou visto por milhares de pessoas que passam junto da rotunda no final do istmo (quando se dirigem designadamente no Verão para as praias de Cheoc Van ou Hac Sá), mas também por numerosos romeiros que aproveitam para visitar a ‘Relíquia de S. Francisco Xavier e as dos Mártires do Japão e Vietname, conservadas na Missão de Coloane’. Em todas estas notícias e manifestações de amor e fé, notamos sobremodo o entusiasmo
  • 086F A l A r d e n ó s – VIIJ o r g e A . H . r A n g e l e empenho constantes do P.e Acquistapace para nobilitar e engrandecer aquele rincão de Coloane.Para finalizar este apontamento, registemos que o Governo de Macau não deixou de apreciar nomeadamente o trabalho educacional do venerando missionário. Por tal motivo, o P.e Acquistapace veio a ser agraciado pelo Governo de Portugal em 1980, com o Grau de Comendador da Ordem de Mérito Civil de Benemerência, no mandato do Governador Melo Egídio.Notemos, ademais, que por estes anos, outros (dois) missionários salesianos seriam agraciados em Macau, com idêntica condecoração: os padres Caetano Nicosia (1973) e César Brianza (1981).Estas honras significavam, com verdade e justiça, o grande apreço que o Governo português nutria pela gesta missionária e humana, mormente no campo da educação e formação da juventude, à qual dedicava com zelo inexcedível a Família Salesiana.”É ao esforço notável deste e de outros homens de invulgar estatura intelectual, moral e de solidariedade humana que a colecção “Missionários para o Século XXI” é dedicada. Novos volumes deverão ser lançados nos próximos meses.3 de Maio de 2010
  • 087 F A l A r d e n ó s – VII J o r g e A . H . r A n g e l Complementando o artigo anterior sobre a publicação e apresentação do livro “Mário Acquistapace – Um Salesiano no Extremo Oriente”, de António Rodrigues Baptista (Instituto Internacional de Macau, colecção Mosaico, Dezembro de 2009), juntamos agora dois relevantes depoimentos remetidos para inclusão naquela obra, um do Bispo Emérito de Macau, D. Arquimínio Rodrigues da Costa, e o outro de ex-Governador José Eduardo Garcia Leandro, escritos, respectivamente, em Outubro de 2000 e Julho de 2001:depoimento de dom Arquimínio rodrigues da costa«Pedem-me um testemunho sobre o P.e Mário Aquistapace, Salesiano de Dom Bosco. Na falta de quaisquer documentos sobre a sua vida, actividades e virtudes, exporei apenas aquilo de que me recordo.Quando, no dia 8 de Dezembro de 1938, cheguei pela primeira vez a Macau, era ele o dinâmico director do Instituto Salesiano da Imaculada Conceição. Estou mesmo a vê-lo, com a sua barba ainda preta. Alegre, comunicativo, afável, irradiando simpatia, optimismo e boa disposição, atraía não só os jovens de quem era educador, mas também os adultos, sem excluir os pagãos. Nunca ouvi uma referência negativa acerca da sua pessoa. Todos eram unânimes em reconhecer a sua virtude, o seu humanismo, a sua bonomia, o seu zelo e dedicação ao bem da juventude desprotegida.Durante a guerra do Pacífico, o Instituto que ele dirigia deixou de receber os auxílios habituais provenientes do sector chinês da população de Macau. O P.e Mário, sem meios para manter o internato, passou horas bem amargas. Ao seu coração depoimentos sobre o Padre Mário Acquistapace“Descreviam-no como um homem que só pensava nos outros e só para eles vivia, sem se importar consigo”.D. Arquimínio Rodrigues da Costa“A sua vida foi totalmente dedicada aos outros e na procura de fazer o bem...”ex-Governador Garcia Leandro
  • 088F A l A r d e n ó s – VIIJ o r g e A . H . r A n g e l compassivo repugnava a ideia de fechar o instituto, mandando para a rua tantos jovens e adolescentes. Lembrou-se então de promover uma festa, convidando para ela não só as autoridades portuguesas, mas também os elementos mais representativos da comunidade chinesa. Diante deles, discursou longamente em Português e Chinês, expondo a situação desesperada do estabelecimento que dirigia, e apelando à generosidade de todos. Descreveu em pormenor o esforço dos internados, que trabalhavam em pequenas indústrias caseiras para poderem sobreviver. Explicou como eles preparavam graxa para o calçado. Mas faltavam as pequenas caixinhas para guardar o produto e colocá-lo à venda. Pediu, por isso, a todos os presentes que lhe dessem esses recipientes, em vez de os lançarem fora.Graças ao esforço do P.e Mário e à compreensão do público, o internato continuou a funcionar durante aqueles terríveis anos de guerra, em que todos os dias morria gente à beira dos caminhos. Devido à invasão de refugiados vindos do interior da China, a população de Macau triplicou, passando de menos de 200.000 habitantes para cerca de 600.000. Foi neste ambiente de miséria e sofrimento que o P.e Mário conseguiu manter o internato em funcionamento.No meio de tantas dificuldades, ele aparecia sempre de semblante risonho. Todos o admiravam. Todos o estimavam, incluindo o então Governador de Macau, Comandante Gabriel Teixeira, que com ele se aconselhava. Descreviam-no como um homem que só pensava nos outros e só para eles vivia, sem se importar consigo.Terminada a guerra, quando os Salesianos pensavam em abrir uma casa em Pequim, o indigitado para tão difícil missão foi precisamente o P.e Mário. Para lá se dirigiu,
  • 089 F A l A r d e n ó s – VII J o r g e A . H . r A n g e l fundando a primeira obra salesiana na capital do Celeste Império. Ali trabalhou até que a revolução comunista o forçou a abandonar a China.Posteriormente, quando se pensou em estender a acção salesiana ao Vietnão, de novo a escolha recaiu sobre o P.e Mário. E lá foi ele para aquele território, como pioneiro da Pia Sociedade Salesiana. Assim, ele, que já dominava o Português e o Chinês, viu-se obrigado a aprender mais uma língua: o Vietnamita. Depois de tantos trabalhos e méritos, era natural que assumisse maiores responsabilidades dentro da sua Congregação. E foi o que lhe sucedeu ao ser nomeado Provincial dos Salesianos, passando a residir em Hong Kong.Terminado o mandato, regressou a Macau. Mais tarde foi-lhe confiada a Missão de Coloane, onde exerceu a sua actividade junto de Portugueses e Chineses. Chamava os jovens pagãos para a igreja e ensinava-lhes cânticos religiosos e orações. Quando os rapazes não apareciam, ele ficava desolado. Parece que não podia viver sem eles.Desejava ardentemente viver e morrer nas Missões. O que mais temia era que os Superiores o mandassem regressar à Itália. E foi precisamente isso o que lhe sucedeu. Quando se começou a falar no assunto, ele ficou consternado e começou a fazer uma novena a Nossa Senhora para que tal não sucedesse. A meio da novena, porém, veio a ordem de seguir para a Itália. Os Superiores apenas desejavam proporcionar-lhe um período de repouso. Ele, porém, pensava que tudo era um estratagema para o retirarem do Oriente. Dizia amargurado: ‘E eu que desejava deixar os meus ossos na China’... Afinal, depois dumas férias na Itália, regressou a Macau, onde continuou o seu apostolado na ilha de Coloane, enquanto as forças e a saúde lho permitiram.”
  • 090F A l A r d e n ó s – VIIJ o r g e A . H . r A n g e l Testemunho do general garcia leandro e esposa«Tivemos, Minha Mulher e eu, o privilégio de conhecer bem e privar de amiúde com o Padre Mário que, quer como Pessoa, quer como Missionário, nos impressionou vivamente e de forma perene.A sua vida foi totalmente dedicada aos outros e na procura de fazer o bem àqueles que em zonas pobres, eram ainda os mais desprotegidos.Tendo nascido em 1906 na Província de Milão em Itália, já em 1926 se encontrava em Macau nunca mais tendo deixado o Oriente. Macau, Hong Kong, entre 1946 e 1958 em Pequim, onde chegou a Provincial dos Salesianos, depois no Vietnam entre 1958 e 1974 onde foi Director e Inspector Delegado dos Salesianos, até em 1974 ter regressado a Macau.Foi durante os meus anos de Governador de Macau (1974-79) que tivemos oportunidade de lidar com este Santo Homem, primeiro como Director da Escola de S. Francisco Xavier em Coloane e depois como Pároco também em Coloane.Convivemos já no período dos seus 70 anos, dando-nos simultaneamente a sua figura muito frágil e aparentemente cansada, depois de tantos anos e dificuldades na China e no Vietnam, ao lado de um entusiasmo transbordante por qualquer obra nova, que se reflectia no seu olhar vivo e no azul transparente dos seus olhos, e de uma energia quase inesgotável.
  • 091 F A l A r d e n ó s – VII J o r g e A . H . r A n g e l Por outro lado, para quem como nós em tal período também trabalhou com muitos problemas e dificuldades ter tido a possibilidade de acompanhar, conviver e ter o apoio e a amizade do Padre Mário foi um privilégio e até um incentivo moral que estas palavras nunca conseguirão fazer justiça na totalidade.” Para além de outros testemunhos recolhidos e do conhecimento pessoal do autor, estes dois depoimentos foram importantes para o Dr. António Rodrigues Baptista elaborar o seu trabalho sobre o P.e Mário, sacerdote que a todos impressionou pela sua bondade, devoção à causa da Igreja e dedicação aos outros e pelo seu contagiante entusiasmo, arrebatadora determinação e inabalável convicção.Tive o grato privilégio de merecer a sua amizade e de poder conversar muitas vezes com ele ao longo da vida. Quando uma intervenção cirúrgica me obrigou, em 1996, a ficar hospitalizado em Hong Kong durante cerca de três semanas, visitou-me todos os dias, ao raiar da aurora, levando-me imagens de Nossa Senhora e as suas preces, uma vez acompanhado de D. Ximenes Belo, Bispo de Timor. Essas imagens continuam próximas de mim, bem como uma fotografia que com ele tirei num almoço no Palacete de Santa Sancha. Olhando para ela e para aquelas imagens, recordo com saudade aquele homem de pequena estatura mas com alma grande que muito deu à juventude e a Macau. Foi um verdadeiro gigante na acção missionária, ao lado de outros vultos enormes da Igreja no Oriente. Após mais de seis décadas de intenso e devotado apostolado em terras do Extremo Oriente, faleceu em Hong Kong em Setembro de 2002.10 de Maio de 2010
  • 092F A l A r d e n ó s – VIIJ o r g e A . H . r A n g e l A visita a Portugal do Papa Bento XVI foi o acontecimento mais marcante no país, neste mês de Maio, pela participação de multidões de fiéis e peregrinos em Fátima, Lisboa e Porto, pelo espaço amplo que ocupou nos órgãos de comunicação social, pela mobilização extraordinária de recursos e serviços de apoio, pelas altas honras de Estado que lhe foram asseguradas, muito para além do que é normal e protocolar, e, sobretudo, pelo elevado significado da sua presença e mensagem em terras lusas.o 1.o dia em lisboaTendo deixado o aeroporto internacional de Leonardo da Vinci, em Roma, na manhã de 11 do corrente mês, o avião aterrou em Lisboa cerca das 11:00 horas, seguindo-se a cerimónia oficial de boas-vindas frente ao Mosteiro dos Jerónimos, a visita ao mosteiro e os cumprimentos de cortesia ao Presidente da República Portuguesa, no Palácio de Belém. Muita gente, ao longo de todo o trajecto, saudou efusivamente o Santo Padre.Às 18:15 foi rezada a Santa Missa na Praça do Comércio. Além da homilia papal, o Santo Padre proferiu uma mensagem comemorativa do 50.o aniversário da inauguração do Santuário do Cristo-Rei, em Almada. O altar ergueu-se junto do Tejo, com um cenário de rara beleza, tendo à distância o Cristo-Rei de braços abertos como que em sinal de agradecimento pela celebração. Telas gigantes foram colocadas na vasta Praça e em áreas adjacentes, para que os fiéis pudessem acompanhar mais de perto a cerimónia em que participaram as mais altas autoridades e na qual comungaram mais de 40 mil pessoas.À chegada aos pés do altar, o Santo Padre recebeu as “chaves da cidade” das mãos do presidente da Câmara Municipal e oferendas diversas, incluindo camisolas e outras lembranças dos três grandes clubes desportivos de Lisboa (Benfica, Sporting e na visita do santo Padre a Portugal“Glorioso é o lugar conquistado por Portugal entre as nações pelo serviço prestado à dilatação da fé”.Bento XVI, na visita a Portugal
  • 093 F A l A r d e n ó s – VII J o r g e A . H . r A n g e l Belenenses). O cardeal-patriarca, D. José Policarpo, deu as boas-vindas ao Papa, sendo rezada a missa logo a seguir, tendo Bento XVI, muito aplaudido na homilia, referido especialmente os santos de Lisboa, S. Veríssimo, Santa Máxima e Santa Júlia, martirizados na perseguição do imperador Diocleciano, no século III, e ainda S. Vicente, padroeiro do Patriarcado, Santo António e S. João de Brito, ambos nascidos na capital portuguesa, e S. Nuno de Santa Maria, há pouco mais de um ano canonizado em Roma. “Glorioso é o lugar conquistado por Portugal entre as nações pelo serviço prestado à dilatação da fé”, “de uma visão sábia sobre a vida e sobre o Mundo deriva o ordenamento justo da sociedade”, “a Igreja está aberta a colaborar com quem não marginaliza, nem privatiza a essencial consideração do sentido humano da vida” e “a resposta fundamental é a conversão permanente, penitência, oração e as três virtudes cardeais: fé, esperança e caridade”, foram algumas das memoráveis frases proferidas pelo chefe da Igreja Católica, ali presente como “peregrino de Nossa Senhora de Fátima, investido pelo alto na missão de confirmar os irmãos que avançam na sua peregrinação a caminho do céu”.À noite, e já extra-programa, centenas de jovens concentraram-se defronte da Nunciatura para dedicarem uma serenata ao Santo Padre, que agradeceu, comovido, esta inesperada manifestação de carinho.encontro com o mundo da culturaNo segundo dia da visita a Portugal, o Santo Padre teve um encontro com os principais responsáveis de organismos do sector cultural e com outras personalidades do mundo da cultura, no grande auditório do Centro Cultural de Belém, completamente lotado. Tive
  • 094F A l A r d e n ó s – VIIJ o r g e A . H . r A n g e l o privilégio de nele participar, a convite do Patriarcado, na qualidade de presidente da Sociedade Histórica da Independência de Portugal e membro de outras instituições, como a Academia Portuguesa de História, a Sociedade de Geografia de Lisboa, a Academia Lusófona de Arte e Património e o Observatório da Língua Portuguesa.Foi uma lindíssima sessão, abrilhantada pelo Coro Gulbenkian, que entoou excertos de cânticos religiosos dos séculos XVII e XVIII, dos compositores portugueses Francisco António de Almeida e Diogo Dias Melgás (“O quam suavis”, “Recordare Virgo” e “Magnificat”), e em que usaram da palavra, para saudarem o Papa, D. Manuel Clemente, bispo do Porto e presidente da Comissão Episcopal da Cultura, Bens Culturais e Comunicações Sociais, recentemente galardoado com o “Prémio Pessoa”, e o sempre jovem e mundialmente famoso cineasta Manuel de Oliveira, justamente apresentado como o “decano” das personalidades do mundo da cultura, com 101 anos de idade e ainda activo, estando o seu último filme (“O Estranho Caso de Angélica”) em exibição na 63.a edição do Festival Internacional de Cannes. Conduziu o coro o maestro Jorge Matta, doutorado em Musicologia Histórica pela Universidade Nova de Lisboa, onde ensina no Departamento de Ciências Musicais, e destacado investigador, editor e intérprete da música portuguesa, que já dirigiu o Teatro Nacional de S. Carlos e, entre outros agrupamentos, a Orquestra Gulbenkian, a Orquestra Metropolitana de Lisboa e a Orquestra de Câmara de Macau, além de ter participado em importantes festivais de música, portugueses e estrangeiros.Seguiu-se o discurso de Bento XVI, contendo reflexões sobre o papel da cultura nas sociedades modernas e a sua relação com os valores do cristianismo. Escutado atentamente, o Santo Padre foi entusiasticamente ovacionado por quantos tiveram
  • 095 F A l A r d e n ó s – VII J o r g e A . H . r A n g e l esta especial oportunidade de receberem em presença aquela lúcida e profunda mensagem.Depois de acolher a visita do Primeiro-Ministro José Sócrates e de alguns ministros do Governo da República, na Nunciatura Apostólica, o Santo Padre partiu para Fátima de helicóptero, às 16:40 horas, iniciando-se, logo após a chegada, as celebrações do 13 de Maio. Entretanto, no trajecto, fez um desvio para passar mesmo ao lado do Cristo-Rei, em Almada, onde muitos fiéis acenaram com lenços brancos.13 de Maio em FátimaDepois de sobrevoar o Santuário de Fátima a baixa altitude, para que os peregrinos pudessem ver o Papa, o helicóptero aterrou à hora marcada, seguindo o Santo Padre no “papamóvel”, imediatamente para a Capelinha das Aparições, saudado por peregrinos que se distribuíram ao longo dos três quilómetros do percurso. Por entre um mar de lenços e bandeirinhas, o carro chegou à Capelinha onde Bento XVI rezou à Virgem Maria, dirigindo-se depois aos fiéis para os cumprimentar e abençoar no local, como fizera em vários momentos em Lisboa, quebrando o protocolo.Na Capelinha, ofereceu a Nossa Senhora uma rosa de ouro, símbolo de beleza e solidariedade na Igreja Católica, como “homenagem de gratidão pelas maravilhas que o Omnipresente tem realizado no coração de tantos que peregrinam à Cova da Iria”.Dirigiu-se, seguidamente, à Igreja da Santíssima Trindade para a celebração das Vésperas, com mais de oito mil padres, freiras, diáconos e seminaristas, após o que
  • 096F A l A r d e n ó s – VIIJ o r g e A . H . r A n g e l presidiu à oração do Terço e à impressionante Procissão das Velas. Fidelidade, lealdade, castidade, pobreza e obediência foram os pedidos fundamentais do Santo Padre aos sacerdotes.Meio milhão de peregrinos encheram o vasto recinto do Santuário na manhã do dia 13, para a missa e para a Procissão do Adeus. Foram horas de indescritível emoção, religiosidade e beleza naquela imensa moldura humana marcada pela fé.Muitas famílias macaenses residentes em Portugal e algumas vindas do exterior marcaram presença neste conjunto de celebrações que terminaram na manhã do dia 14, no Porto, onde foi rezada missa na Avenida dos Aliados.O Santo Padre, Peregrino de Fátima, ficou definitivamente no coração dos fiéis portugueses.17 de Maio de 2010
  • 097 F A l A r d e n ó s – VII J o r g e A . H . r A n g e l Foi em Tanegaxima, no distante ano de 1543, que tiveram o seu primeiro registo os contactos entre Portugal e o Japão. Interrompidos em 1639, durante o longo período de isolamento imposto pelo xogunato Tokugawa, foram oficialmente reatados só em 1860, ano da assinatura do Tratado de Paz, Amizade e Comércio entre os dois países. É esta importante efeméride que organismos governamentais, academias e centros culturais estão a comemorar, com amplos e diversificados programas que incluem sessões solenes, conferências, seminários, acções de intercâmbio, espectáculos, exposições e edições.Coube ao então Governador de Macau, Isidoro Francisco Guimarães, nomeado ministro plenipotenciário de Portugal, a honrosa incumbência de negociar o tratado. Chegou a Edo (Tóquio) no dia 13 de Julho de 1860, a bordo da corveta portuguesa “D. João I”, sendo portador de uma carta de D. Pedro V dirigida ao imperador. Assinado a 3 de Agosto desse ano, o tratado foi ratificado em Abril de 1862.Com a reabertura do Japão ao mundo, grandes potências da época, como os Estados Unidos da América, a Grã-Bretanha, a Rússia, a França e a Holanda, firmaram acordos a partir de 1854, desenvolvendo relações de cooperação que se intensificaram rápida e solidamente, à medida que chegava ao fim o regime feudal do xogunato. Com uma presença plurissecular e interesses no Extremo Oriente, Portugal não perdeu tempo e obteve também as necessárias garantias de abertura de portos nipónicos ao comércio português, ficando os cidadãos portugueses autorizados a obter terrenos, construir casas, armazéns e locais de culto e praticar a religião católica. Portugal passou também a poder designar representantes diplomáticos e consulares, sendo José da Silva Loureiro nomeado cônsul em Nagasáqui em Maio de 1861, após o que, em Dezembro de 1862, foi o visconde da Praia Grande, governador de Macau, nomeado ministro de Portugal no Japão.Macau e os 150 anos do tratado luso-nipónico“São as luzes e as sombras das relações centenáriasentre Portugal e o Japão que celebram 150 anos desde queem 1860 reatámos os contactos interrompidos em 1639…”.Eduardo Kol de Carvalho, Maio de 2010
  • 098F A l A r d e n ó s – VIIJ o r g e A . H . r A n g e l Famílias macaenses no JapãoO comércio expandiu-se celeremente e criou um mundo novo de oportunidades, aliciando portugueses de Macau e de Xangai, que se foram radicando no Império do Sol Nascente, mormente em Nagasáqui e Iocoama, ligados às famílias Gordo, Couto, Sousa, Remédios, Aquino, Braga, Ritchie, Rangel, Silva, Barradas, Nunes, Maher, Santos, Xavier, Machado, Fonseca e outras. Algumas dessas famílias resistiram até ao nosso tempo, não obstante as enormes intempéries políticas que assolaram o Extremo Oriente, com efeitos devastadores nesta área geográfica, como foram a ocupação nipónica de vastos territórios asiáticos, a guerra do Pacífico, as bombas atómicas lançadas sobre Hiroxima e Nagasáqui e a rendição do Japão. Ainda jovem estudante, fiz uma viagem àquele país, onde passei umas férias inolvidáveis em casa do meu tio-avô Vicente Rangel, em Iocoama. Ele e a família viviam num casarão de madeira tipicamente japonês, com um jardim traseiro zen muito bem cuidado, ornado, nos cantos, com lindas pedras e plantas e, no dia-a-dia, em casa, vestiam confortáveis roupas e calçado japoneses. Falavam inglês e japonês e, com alguma dificuldade, o português. Todo o ambiente era japonês, assim como a mobília. A destoar, supreendentemente, na parede mais nobre da sala de estar estava emoldurada uma grande bandeira nacional portuguesa, marcando a diferença em relação às demais vivendas do bairro, além duma placa, à entrada, com o apelido da família em caracteres ocidentais, e livros e revistas em português e inglês na sala de leitura e escritório.Contaram-me histórias deliciosas duma comunidade que foi minguando, até desaparecer, quando muitos dos seus membros foram partindo para outras terras e com o falecimento dos últimos sobreviventes (entre os quais alguns membros da família
  • 099 F A l A r d e n ó s – VII J o r g e A . H . r A n g e l Gordo, meus primos, e os Couto, de Cobe). O velho Vicente Rangel e alguns dos seus familiares nunca mais deixaram o Japão, a sua segunda pátria, levando para a eternidade memórias que nunca foram escritas e partilhadas. Ficou, assim, imensamente dificultada a tarefa dos investigadores, dada a perda de referências e recursos fundamentais para estudos mais profundos sobre a presença de portugueses no Japão.um livro oportunoÉ neste contexto que se saúda o lançamento do livro “O Império da Imagem – Luzes e Sombras do Japão”, de Eduardo Kol de Carvalho, arquitecto formado pela Escola de Belas-Artes de Lisboa. Viveu quinze anos naquele país, tendo ali exercido as funções de conselheiro cultural na Embaixada de Portugal em Tóquio e de professor da Universidade de Estudos Estrangeiros de Quioto. É autor de extensa bibliografia nas áreas da arquitectura e do ensaio, cobrindo temas variados. Destacam-se as obras “Sushi Bar – Nós e os Japoneses” e “Sopa de Pedra – Trilhos do Património Português”, ambas da Editora Tágide, dirigida por Celina Veiga de Oliveira, que, além da actividade docente, desempenhou funções relevantes em Macau no sector cultural. A cerimónia decorreu na Sociedade de Geografia de Lisboa, no dia 4 de Maio, tendo apresentado a obra a Embaixadora Ana Gomes, que realçou a qualidade e o significado deste novo livro, um contributo actual muito relevante para um melhor conhecimento do Japão e das ligações de Portugal, que remontam ao século XVI, àquele exótico e próspero país que conseguiu ser uma das maiores economias do mundo.Em linguagem fluente e agradável, Eduardo Kol de Carvalho revela-nos “as luzes e sombras das relações centenárias entre Portugal e o Japão” e dá-nos informação bem tratada sobre “um país rico de valores e tradições que se habituou a conviver e a
  • 100F A l A r d e n ó s – VIIJ o r g e A . H . r A n g e l entender os portugueses, gente simples, mas nem sempre fácil”, não deixando de passar em revista uma série de acontecimentos marcantes registados entre Portugal e o Japão nos últimos 150 anos e que têm sido objecto da sua pesquisa mais recente, convocando para este reencontro com os leitores o presente e também o passado, não deixando de dar a sua visão do “fascinante mundo nipónico, o das cidades, mas também do campo, do frenesim dos bairros, mas igualmente da calma das montanhas, do caos dos sinais, mas também da ordem da sociedade, do enigma dos códigos e da cordialidade dos gestos, enfim um mundo de imagens”.Acontecimentos marcantesAo enumerar os factos e momentos mais importantes e significativos das relações entre os dois países desde a assinatura do tratado, ficou bem realçado o papel de Macau. Assim, o autor lembra os antecedentes históricos; as circunstâncias que levaram à assinatura do tratado; o contributo de portugueses do Oriente na modernização do Japão, após a restauração Meiji; as visitas a portos japoneses de vasos de guerra portugueses; a chegada, a obra e a fixação definitiva de Wenceslau de Moraes no Japão; a participação de Portugal na Exposição Internacional de Osaca, em 1903; a criação das primeiras casas comerciais e agremiações culturais e recreativas portuguesas, como a Associação Portuguesa de Macau, em 1918; o ensino da língua portuguesa no país; o terramoto de 1923 que destruiu parte de Tóquio, vitimando também 20 portugueses de Macau; a influência da Sociedade Luso-Nipónica; a inauguração, em 1927, de um monumento alusivo à introdução, pelos portugueses, da espingarda no Japão; as representações consulares honorárias em diversas cidades, além da legação em Tóquio; o expansionismo japonês; o acordo aéreo firmado em Outubro de 1941 que permitiu
  • 101 F A l A r d e n ó s – VII J o r g e A . H . r A n g e l a ligação entre Palau e Díli; a guerra do Pacífico e a manutenção do consulado e de uma agência do exército japonês em Macau durante todo esse período; a ocupação japonesa de Timor, sem ser denunciado o tratado; a nomeação, após a rendição do Japão, de Alberto Franco Nogueira como encarregado de negócios de Portugal em Tóquio; a organização, em 1949, da exposição comemorativa dos 400 anos da chegada de S. Francisco Xavier ao Japão; a participação portuguesa na Feira Internacional de Cobe, em 1950, a culminar o enorme esforço de reconstrução do Japão; a meritória acção do embaixador Armando Martins Janeira; a abertura de centros e departamentos de Estudos Luso-Brasileiros em universidades japonesas; os Jogos Olímpicos de Tóquio; a celebração, em 1966, de um acordo comercial; a refundação da Sociedade Luso-Nipónica, em 1968; a geminação de cidades portuguesas com cidades japonesas a partir de 1969; a presença de Portugal na Exposição Universal de Osaca, em 1970, com um imponente pavilhão e a maior embaixada cultural de sempre; a inauguração do Hospital Central de Oita, ao qual foi atribuído o nome de Luís de Almeida, missionário e médico português que introduziu a medicina ocidental no Japão; a intensificação das relações comerciais; e a primeira tradução de “Os Lusíadas”, em 1971. Não obstante os acidentes de percurso, que determinaram a definição de caminhos e opções políticas diferentes, houve um esforço sério e persistente de ambas as partes para reforçarem a amizade. No próximo artigo, serão mencionados os acontecimentos mais relevantes no âmbito das relações luso-nipónicas após a revolução de Abril em Portugal, sendo também incluído um apontamento sobre a participação na Expo de Osaca.24 de Maio de 2010
  • 102F A l A r d e n ó s – VIIJ o r g e A . H . r A n g e l A celebração, no corrente ano, do 150.o aniversário da assinatura do Tratado de Paz, Amizade e Comércio entre Portugal e o Japão e o lançamento oportuno do livro “O Império da Imagem – Luzes e Sombras do Japão” foram os temas centrais do artigo anterior. Apresentado na Sociedade de Geografia de Lisboa, no passado dia 4 de Maio, esta nova obra de Eduardo Kol de Carvalho, que a Editorial Tágide em boa hora publicou, antecipou-se às comemorações oficiais que estão em programação final e oferece informação valiosa a quantos vão estar nelas envolvidos. É uma análise lúcida de expressões culturais e sociais, no olhar crítico de um português que conheceu e compreendeu bem o Japão e os japoneses.Como vimos, no artigo anterior, o livro dedica também um capítulo às relações luso-nipónicas, identificando os factos e os momentos mais marcantes neste contexto. Nesse artigo, foram já identificadas, resumidamente, as principais efemérides até ao início da década de 70 do século passado.outros acontecimentos relevantesDepois do 25 de Abril, mereceram especial alusão, no livro, o apoio continuado do Japão à economia portuguesa; as visitas do navio-escola “Sagres”; novos espectáculos, muito apreciados, de Amália Rodrigues, depois de ali ter actuado pela primeira vez por ocasião da Expo de Osaca; a abertura de um escritório do Turismo de Portugal e da delegação da agência noticiosa Lusa em Tóquio, ambos com um período de funcionamento efémero; as actuações da pianista Maria João Pires; a visita de Mário Soares em 1984 e de Aníbal Cavaco Silva em 1990; a visita a Portugal, em 1985, dos príncipes Akihito e Michiko; a participação de Portugal na grande Exposição Presença de Macau nas luzes e sombras das relações luso-nipónicas“São mais luzes do que sombras as imagens quelhes quero trazer sobre um país rico de valores e tradiçõesque se habituou a entender os portugueses…”Eduardo Kol de Carvalho, Lisboa, Maio de 2010
  • 103 F A l A r d e n ó s – VII J o r g e A . H . r A n g e l Internacional de Tsukuba, uma impressionante mostra de alta tecnologia que tive a oportunidade de visitar, em 1985; a constituição, na Dieta Japonesa, da Liga Parlamentar de Amizade Japão-Portugal; a participação de Carlos Lopes e Rosa Mota na maratona de Tóquio; a assinatura de convénios entre universidades portuguesas e japonesas, a partir de 1986; a vitória do Futebol Clube do Porto na Toyota Cup em Tóquio, em Dezembro de 1987; a consagração do artista português José de Guimarães no Japão; a visita da lorcha “Macau”, em 1990; e as celebrações, já na década de 90, dos 450 anos da chegada dos portugueses ao Japão (1991), com outro significativo conjunto de manifestações culturais, incluindo exposições, um festival de cinema e actuações de artistas portugueses, bem como dos 400 anos da morte de Luís Fróis (1997) e dos 450 anos da chegada de S. Francisco Xavier ao Japão (1999), quando foi apresentada a exposição “Esplendores de Portugal”, visitada por mais de meio milhão de japoneses.Na rica resenha feita no livro, faltou, porém, incluir mais algumas iniciativas levadas a efeito a partir de Macau, como as importantes acções de intercâmbio promovidas pelos governadores Garcia Leandro e Melo Egídio ainda na década de 70 (acompanhei ambos nas deslocações ao Japão e nas acções realizadas, especialmente no Festival de Sakai), e ainda os apoios dados, através de Macau, aos leitorados, as relações académicas intensas estabelecidas através da Universidade de Macau, a colaboração da Universidade de Soka (Tóquio) no desenvolvimento dos Estudos Japoneses em Macau e o envolvimento de diversos organismos da sociedade civil de Macau na organização de actividades académicas, culturais e técnicas de alto nível com entidades académicas e associativas do Japão.
  • 104F A l A r d e n ó s – VIIJ o r g e A . H . r A n g e l Presença na expo de osacaParticularmente expressivo é o relato que o autor faz da presença de Portugal na grande Exposição Universal de Osaca, em 1970, descrevendo o pavilhão desenhado pelo arquitecto Frederico George, concebido como uma pirâmide octogonal, tendo, à entrada, uma réplica do monumento à espingarda introduzida pelos portugueses em Tanegaxima. Abarcava dois núcleos expositivos, um dedicado ao Portugal histórico, valorizando a presença portuguesa no Japão, e o outro divulgando o Portugal contemporâneo. Obras do Museu Nacional de Arte Antiga e de alguns outros museus foram expostas no recinto, que incluía também um restaurante, muito frequentado, cujo tecto era proveniente de um solar português do século XVIII.Os primeiros espectáculos, a que assistiram milhares de pessoas, foram protagonizados por Amália Rodrigues, acompanhada do guitarista Júlio Gomes, pelo grupo Verde Gaio, pelo Orfeão de Coimbra, pelo Duo Ouro Negro e pelo Teatro Gil Vicente. Seguiram-se o Ballet Gulbenkian, tendo como principais bailarinos Lígia Teles e José de Castro, e uma parada “namban” criada por Carlos Avilez, com coreografia de Magda Sena, música de Luís Filipe Pires e a participação do pintor Júlio Resende. Também esteve presente a equipa de futebol do Sport Lisboa e Benfica e actuou o Teatro Experimental de Cascais. Foi, realmente, a “grande embaixada cultural portuguesa da era moderna” e a maior manifestação cívico-cultural de sempre de Portugal no Japão.A Expo de Osaca decorreu de 15 de Março a 13 de Setembro de 1970, tendo o dia 24 de Agosto sido dedicado a Portugal. Estiveram presentes nas celebrações o ministro dos Negócios Estrangeiros, Rui Patrício, o governador de Macau, José Manuel Nobre
  • 105 F A l A r d e n ó s – VII J o r g e A . H . r A n g e l de Carvalho, e outras altas entidades. Além de assistir aos espectáculos, o ministro ofereceu uma recepção no pavilhão de Portugal e visitou oficialmente o pavilhão do Japão. As relações entre os dois países estavam no auge, não obstante a condescendência das autoridades japonesas em relação aos movimentos independentistas africanos, e nunca se tinha falado e escrito tanto sobre o Japão nos órgãos de comunicação social portugueses como nesse ano.Vivências partilhadasO que surpreende positivamente no livro de Eduardo Kol de Carvalho é a forma simples e atraente como o autor tão bem partilha com o leitor as suas vivências e experiências do Japão. Dos transportes e da habitação à labuta quotidiana e aos convívios e festas, estão no livro referências utilíssimas para quem queira visitar aquele país e contactar as suas gentes, cujos hábitos, comportamentos, padrões e perspectivas de futuro são muito diferentes dos dos europeus.Nos capítulos “o ciclo da vida”, “o monstro de aço” e “o espírito da floresta” vemos o japonês inserido no seu habitat, nas grandes metrópoles que enquadram as suas vivências no dia-a-dia, submetido às exigências do emprego e a rigorosos horários de trabalho, e também o seu apego à natureza, que marca o seu calendário cultural e social, de acordo com a sucessão das estações do ano, com início em Abril, no festival das cerejeiras em flor. As relações sociais e humanas “numa sociedade que privilegia o grupo, mas que não dispensa o calor da vizinhança, numa tradição de bem conviver” são caracterizadas no capítulo “curiosos, bisbilhoteiros e outras coisas”, e o gosto pela leitura e pela escrita deste povo muito culto é explicado em “escritores porque leitores”.
  • 106F A l A r d e n ó s – VIIJ o r g e A . H . r A n g e l Há ainda pequenos capítulos dedicados aos beatos mártires do Japão, à arte “namban”, a Nagasáqui – cidade maneirista da Ásia, a Wenceslau de Moraes e ao Japão visto por alguns escritores portugueses contemporâneos.Atenção às comemorações Portugal deve dar às comemorações dos 150 anos do Tratado de Paz, Amizade e Comércio a atenção e a relevância que elas merecem, mesmo nestes tempos de crise em que os meios vão sendo escassos. Apostar no desenvolvimento das relações luso-nipónicas é um investimento no futuro e deve constituir uma linha estratégica no esforço de recuperação económica. E, para que a eficácia se alcance, hão-de os responsáveis lembrar-se de Macau e da disponibilidade de instituições locais, públicas e privadas, para participarem nas acções em preparação. Em conversa, há poucas semanas, com a Prof.a Ana Paula Laborinho, nova presidente do Instituto Camões, num seminário em que ambos participámos, pude constatar o seu enorme interesse em dar às comemorações a dignidade e a dimensão que elas merecem. O seu conhecimento do Extremo Oriente e a experiência adquirida em Macau são garantias de sucesso. Importa que lhe assegurem os meios e os apoios para que possa cumprir este propósito cultural e politicamente relevantíssimo.31 de Maio de 2010
  • 107 F A l A r d e n ó s – VII J o r g e A . H . r A n g e l Edição conjunta do Centro Científico e Cultural de Macau e do Instituto Diplomático, organismos tutelados, respectivamente, pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior e pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros, de Portugal, a versão portuguesa do livro “Recordações de Cinco Continentes” (colecção Biblioteca Diplomática, Março de 2010), de Chen Ziying, ex-embaixador da República Popular da China (RPC) em Lisboa e ex-vice-director do Gabinete para os Assuntos de Hong Kong e Macau do Conselho de Estado da RPC, foi lançado em Lisboa no passado dia 26 de Maio, com apresentação feita pelo ex-embaixador de Portugal em Pequim, José Duarte de Jesus, docente universitário e membro do Instituto Diplomático, da Comissão Asiática da Sociedade de Geografia de Lisboa e do Conselho de Curadores da Fundação Jorge Álvares. A tradução, apoiada pela Fundação Jorge Álvares, é de Xu Yixing, Zhang Minfen e Wang Suoying.o percurso do autorChen Ziying nasceu em Pequim em 1923 e formou-se, em 1953, pela Faculdade de Línguas Estrangeiras da Universidade de Pequim, após o que trabalhou na Comissão do Povo Chinês para a Defesa da Paz Mundial e na Associação do Povo Chinês para a Amizade com os Países Estrangeiros. Ingressou no Ministério dos Negócios Estrangeiros do Governo Chinês em 1978, tendo sido 2.o secretário da Embaixada da China nos Países Baixos, 1.o secretário da Embaixada Chinesa no Reino Unido, quando fez parte do Grupo de Ligação Sino-Britânico, e embaixador da RPC em Portugal. Assumiu, sucessivamente, a partir de 1989, os cargos de vice-director e director do Gabinete para os Assuntos de Hong Kong e Macau do Ministério dos Negócios Estrangeiros, vice-director do Gabinete para os Assuntos de Hong Kong e Macau do Conselho de Estado, quando integrou a Comissão de Redacção da Lei Básica de Macau, vice-secretário-geral da Comissão recordações de cinco continentes de chen Ziying“Este livro de memórias é, na realidade, um perfeito aperitivo – um cálice de Porto que Chen Ziying diz ter aqui aprendido a gostar – que anuncia o Ano de Portugal na China 2011…”Embaixador Carlos Pais, Missão Comemorações Portugal-Ásia
  • 108F A l A r d e n ó s – VIIJ o r g e A . H . r A n g e l Preparatória da Região Administrativa Especial de Hong Kong e secretário-geral da Comissão Preparatória da Região Administrativa Especial de Macau. Foi membro da Comissão Nacional da 8.a Conferência Consultiva Política do Povo Chinês, deputado à 9.a Assembleia Popular Nacional e membro das Comissões das Leis Básicas das duas Regiões Administrativas Especiais, ambas subordinadas ao Comité Permanente da Assembleia Popular Nacional.Quer como membro da Comissão de Redacção da Lei Básica da RAEM, quer como membro do Governo de Macau, encontrei-me frequentemente com Chen Ziying e com ele almocei e jantei várias vezes em Pequim, nas minhas deslocações. Personalidade cordial, afável, atenta, serena e correctíssima no trato, foi sempre um enorme prazer conversar com ele, entre outros temas, sobre a transição de Macau, a evolução da China, recordações de Portugal e a filatelia, um dos seus “hobbies”. Foi, por isso, ainda com maior interesse que li este livro de memórias de viagens de quem, durante várias dezenas de anos, por diversas razões, esteve em cerca de 40 países espalhados por cinco continentes.Como explicou na nota prévia, já aposentado, depois de ter trabalhado durante 50 anos, “nas horas livres, ao recordar o passado, encontrei elementos que achei interessantes e tive a ideia de pegar na caneta para escrever algumas notas”. “Basicamente, não relembrei tantos assuntos de trabalho, mas, vieram-me à mente, impressões que me deixaram os países que percorri por razões profissionais”. “Recordei sobretudo o que vi e ouvi, assim como as experiências interessantes que vivi em 25 países”. “Registei-os por ordem cronológica, do mais distante ao mais recente, dando assim origem ao conteúdo deste livro”. Na mesma nota, pede “respeitosamente” ao leitor que lhe mande “críticas
  • 109 F A l A r d e n ó s – VII J o r g e A . H . r A n g e l e conselhos, dado que, sendo a distância temporal grande, “é inevitável que existam enganos no registo”. Esta atitude de modéstia e simplicidade realça ainda mais o valor do livro, que é de leitura muito agradável e enriquecedora, pelas preciosas informações transmitidas, estimulando o leitor a fazer idêntico percurso pelos lugares visitados.Os relatos e crónicas levam-nos às Américas, à Austrália, a vários países africanos e asiáticos e à Europa, sendo os capítulos dedicados a Portugal e à Inglaterra os mais longos e completos. “Lisboa, testemunha da História”, “Porto, coexistência harmoniosa de comércio e história”, “Coimbra, a cidade universitária”, “Algarve, lugar privilegiado para o lazer”, “O arquipélago da Madeira, Pérola do Atlântico” e “Uma prenda generosa do Mediterrâneo ocidental” são os títulos das crónicas portuguesas, a última das quais é sobre a “mundialmente famosa” cortiça portuguesa. O autor fornece-nos informação histórica de Portugal, descrições de locais visitados nos dois anos e meio passados no país, com relevo para os de maior interesse cultural e turístico e referências a usos e costumes e a algumas personalidades que conheceu, sendo especialmente apelativos os seus apontamentos sobre o fado, “uma forma de canto bem acolhida pelo povo português, mas não totalmente identificada como canto folclórico”; o vinho do Porto (“senti um aroma muito denso e um sabor doce agradável”); a Universidade de Coimbra, “uma das dez mais antigas da Europa”; o Algarve, “de clima mediterrânico e paisagem formosa”; a Madeira e o seu vinho, com “um sabor intenso, doce e delicioso, digno da sua reputação”, os bordados, que usam materiais “idênticos aos bordados de Shantou, e o Jardim Botânico, “um grande quadro de plantas preciosas de todo o mundo”, onde encontrou “o hibisco-da-síria, proveniente da China, com raízes profundas e ramos frondosos, em crescimento próspero”; e a cortiça, “uma prenda generosa do Mediterrâneo ocidental que a natureza oferece a Portugal”.
  • 110F A l A r d e n ó s – VIIJ o r g e A . H . r A n g e l notas sobre o livroNa nota de apresentação, Carlos Pais, coordenador da Missão Comemorações Portugal-Ásia, salientou que “é certamente apropriado que o lançamento do livro de memórias do embaixador Chen Ziying tenha lugar em 2010, um ano entalado entre, de um lado, os aniversários dos trinta anos de relações diplomáticas entre Portugal e a China e dos dez anos da Região Administrativa Especial de Macau em 2009 e, do outro lado, o Ano de Portugal na China 2011”, pelo que “este livro de memórias é, na realidade, um perfeito aperitivo – um cálice de Porto que Chen Ziying diz ter aqui aprendido a gostar – que anuncia o Ano de Portugal na China 2011, uma iniciativa assumida pelos Primeiros-Ministros de Portugal e da China em Pequim, há já três anos, e que estamos a preparar em conjunto, esperando poder apresentar aos nossos amigos chineses o que de melhor tem o Portugal do século XXI nas artes, na música, na tecnologia… não esquecendo como é óbvio um olhar sobre as nossas longas relações históricas”.Por seu lado, o director do Centro Científico e Cultural de Macau, Luís Filipe Barreto, realçou a importância da colaboração entre duas entidades públicas para a viabilização desta obra, em regime de co-edição, o que é “um positivo sinal dos tempos”, visto que “não existem, no plano nacional, capitais intelectual e financeiro suficientes para projectos isolados” e “o presente e o futuro implicam crescentes interdependência e complementaridade”, sendo “o funcionamento em rede, pública e privada, nacional e internacional, para a investigação, formação, divulgação e publicação a via a trilhar caso se deseje a contemporaneidade com o resto do mundo e a presença activa nos horizontes de conhecimento do século XXI”. Teceu também oportunas e correctas considerações sobre os desafios que se colocam à tradução, problema que enfrentamos todos os
  • 111 F A l A r d e n ó s – VII J o r g e A . H . r A n g e l dias em Macau: “a estrutura associativa e sentencial da língua chinesa implica, ao ser interpretada, ainda mais ao ser traduzida, uma exigente lógica de harmonia entre o original enunciado e o código do destinatário da tradução” e “os caracteres pictográficos possuem uma diferença que nenhuma tradução pode abolir sem falsificar o escrito pelo emissor”. Com efeito, “a matriz do pensamento chinês possui uma activa herança, de sentenças e ditados, que nenhuma tradução pode apagar sem desvio fundamental de sentido”. Saudou, por isso, o esforço de todos os que se envolveram nesta tradução. “A tradução é sempre trabalho de equipa, uma actividade de rigoroso equilíbrio de aproximação mantendo distanciamento, um diálogo plural feito da conjugação de múltiplos saberes e não menos bom senso”.No próximo artigo vamos ver o que é dito sobre a transição de Hong Kong e Macau neste livro em que “um diplomata chinês no mundo decide dar-nos a sua visão sobre outros espaços e gentes”. 7 de Junho de 2010
  • 112F A l A r d e n ó s – VIIJ o r g e A . H . r A n g e l No artigo anterior foi feita uma apreciação geral do livro ‘Recordações de Cinco Continentes’, do embaixador Chen Ziying, diplomata discreto e eficaz que teve papel relevante no acompanhamento dos processos de transição de Hong Kong e de Macau. Vejamos agora o que é dito no livro sobre esta matéria:o retorno de Hong Kong“Depois da missão na Holanda, fui colocado em 1982 na Embaixada da China em Inglaterra. Naquela altura, discutia-se como resolver os problemas de Hong Kong legados pela História e o seu impacto nas relações sino-inglesas. Em Setembro do mesmo ano, quando a primeira-ministra Margaret Thatcher visitou a China, o encarregado de negócios interino da Embaixada e eu fomos ao aeroporto de Heathrow de Londres despedirmo-nos dela. Naquela altura, a intenção da senhora Thatcher era manter ‘válidos’ os três tratados parciais, ou obter a administração e controlo contínuo de Hong Kong com a ‘soberania’ da ilha de Hong Kong. Em 24 de Setembro, o camarada Deng Xiaoping teve um encontro com a Senhora Thatcher, dizendo-lhe firmemente que ‘A questão de soberania não é uma questão discutível’, ‘Não há margem para actuar nesta questão da parte chinesa’, ‘A China vai recuperar Hong Kong em 1997’ , ‘não só os Novos Territórios, como também Kowloon e Hong Kong’, ‘ A China vai declarar oficialmente a decisão estratégica de recuperar Hong Kong no tempo máximo de um ou dois anos’. Dessa vez, a ‘Dama de Ferro’ encontrou-se com a ‘Companhia Siderúrgica’ (nome dado a Deng Xiaoping por Mao Zedong). Após o encontro, a senhora Thatcher tropeçou ao descer as escadas do salão onde o encontro se realizara. Ao verem esta cena, alguns jornalistas de Hong Kong e de Inglaterra aproveitaram imediatamente para especularem notícias sobre o que se teria passado no encontro capaz de causar aquele Apontamentos de chen Ziying sobre a transição“De um modo geral, a resolução da questão de Macau decorreu relativamente bem. Em menos de nove meses de negociações, à luz do princípio da cooperação amigável, as duas partes rubricaram a 26 de Março de 1987 a Declaração Conjunta sobre a Questão de Macau”.“Recordações de Cinco Continentes”, Março de 2010
  • 113 F A l A r d e n ó s – VII J o r g e A . H . r A n g e l desequilíbrio. Acabado o encontro, as duas partes concordaram que, em seguida, iriam iniciar conversações para resolver a questão de Hong Kong por via diplomática. Como diplomata responsável pelos assuntos de Hong Kong na Embaixada, estava firmemente convencido de que os nossos líderes, com determinação e sabedoria, iriam recuperar finalmente Hong Kong através de negociações sino-britânicas, tratando a questão sem crise.Dois anos depois, as conversações acabaram por chegar a um acordo em Setembro de 1984. Em Dezembro do mesmo ano, os chefes de Governo dos dois países assinaram oficialmente a ‘Declaração Conjunta Sobre a Questão de Hong Kong’ entre os dois Governos, da China e da Inglaterra, anunciando solenemente a todo o mundo: ‘A República Popular da China decidiu reexercer a soberania sobre Hong Kong a partir de 1 de Julho de 1997’, ‘o Governo do Reino Unido vai devolver Hong Kong à República Popular da China em 1 de Julho de 1997’. O camarada Deng Xiaoping disse: ‘A questão de Hong Kong pode ser bem resolvida não só devido à política básica de um país, dois sistemas, ou seja, a nossa estratégia é adequada, como também resulta dos esforços conjuntos de ambas as partes: da China e da Inglaterra’. A Senhora Thatcher elogiou: ‘A ideia de um país, dois sistemas proposta por Deng Xiaoping é uma obra-prima de génio’.Trabalhei na embaixada na Inglaterra mais de quatro anos. No início era primeiro-secretário, e depois assumi o cargo de conselheiro. Depois de ter entrado em vigor a Declaração Conjunta Sino-Britânica, em Maio de 1985, as duas partes estabeleceram um Grupo de Ligação Conjunto Sino-Britânico e fui nomeado como um dos representantes da parte chinesa”.
  • 114F A l A r d e n ó s – VIIJ o r g e A . H . r A n g e l A resolução da questão de Macau“Quando eu ainda estava a trabalhar em Londres, os jornais de Hong Kong e Macau revelaram, nos primeiros dias de Setembro de 1986, que na 17.ª sessão do Comité Permanente da 6.ª Assembleia Popular Nacional tinha sido aprovada a decisão de nomear Chen Ziying para embaixador da China em Portugal. Na altura, desconhecia esta nomeação. Em finais do mesmo ano fui chamado a Pequim. A entidade competente do Ministério dos Negócios Estrangeiros informou-me de que, conforme a decisão do Comité Permanente da Assembeia Popular Nacional, o presidente Li Xiannian me tinha nomeado embaixador plenipotenciário da China na República Portuguesa. A seguir, na conversa que tiveram comigo, os camaradas dirigentes informaram-me: ‘Começaram as negociações entre a China e Portugal sobre a questão de Macau, legada pela história. A questão de Macau, tal como a questão de Hong Kong, tem de ser resolvida conforme o princípio de um país, dois sistemas, apresentado pelo camarada Deng Xiaoping. Vocês em Lisboa, além de cumprirem todos os trabalhos diplomáticos promovendo a cooperação amistosa bilateral, têm actualmente como trabalho principal a coordenação com as negociações em Pequim, para que estas sejam bem sucedidas’. No início de 1987, logo após ter assumido o cargo, segui a orientação dada, fazendo todos os esforços, juntamente com os camaradas da Embaixada, a fim de levar o trabalho a bom termo.De um modo geral, a resolução da questão de Macau decorreu relativamente bem. Em menos de nove meses de negociações, à luz do princípio da cooperação amigável, as duas partes rubricaram a 26 de Março de 1987 a Declaração Conjunta sobre a Questão de Macau, entre o Governo Chinês e o Governo Português, que afirmava: ‘A região de Macau faz parte do território chinês e o Governo da República Popular da China voltará
  • 115 F A l A r d e n ó s – VII J o r g e A . H . r A n g e l a assumir o exercício da soberania sobre Macau a partir de 20 de Dezembro de 1999. No seguimento deste facto, o primeiro-ministro português Cavaco Silva preparava-se para visitar a China em Abril de 1987, para assinar oficialmente este acordo com o primeiro-ministro chinês. Mas ninguém imaginava que alguns dias depois da rubrica do documento, algo imprevisto acontecesse. O governo do Partido Social Democrata do primeiro-ministro Cavaco Silva caiu, em resultado de uma moção de censura apresentada no Parlamento por outros problemas internos do país. Nessas circunstâncias, poderia a Declaração Conjunta já rubricada ser oficialmente assinada a tempo? Eis um problema que chamou a atenção geral. Nestas circunstâncias, ficámos todos na Embaixada com muito trabalho durante algum tempo.Para resolver esta crise política, Portugal decidiu convocar eleições gerais em Julho do mesmo ano e, antes das eleições, Cavaco Silva continuava primeiro-ministro. O presidente Mário Soares declarou claramente que o primeiro-ministro Cavaco Silva visitaria a China na data prevista para assinar oficialmente a Declaração Conjunta, porque se tratava de ‘um dever que Portugal assumira e deve cumprir’. Assim, o primeiro-ministro Cavaco Silva visitou a China entre o dia 11 e o dia 17 de Abril, assinando oficialmente, com o primeiro-ministro Zhao Ziyang, a Declaração Conjunta Sino-Portuguesa. Eu tinha regressado mais cedo à China, a fim de acompanhar a visita.O primeiro-ministro Cavaco Silva foi o primeiro chefe do governo português a visitar a China e foi efusivamente acolhido. Na sua entrevista, o presidente Deng Xiaoping disse que essa visita se revestia de importante significado, em primeiro lugar, por ter resolvido uma importante questão da história dos nossos dois países, que era a questão de Macau e, em segundo lugar, porque abria um novo relacionamento entre os nossos
  • 116F A l A r d e n ó s – VIIJ o r g e A . H . r A n g e l dois países, encerrando um passado e caminhando para o futuro. Depois disso, o Partido Social Democrata venceu nas eleições gerais convocadas em Julho do mesmo ano e Cavaco Silva voltou a assumir o cargo de primeiro-ministro.Em meados de 1989, fui chamado de volta a Pequim, terminando assim os dez anos da carreira diplomática no estrangeiro. Logo depois fui nomeado vice-director e em seguida director do Gabinete dos Assuntos de Hong Kong e Macau do Ministério dos Negócios Estrangeiros.”Estes são curtos e importantes depoimentos que confirmam as diferentes posturas dos governos britânico e português nas negociações com a China, com vista à resolução das questões de Hong Kong e Macau, “legadas pela História”. Não é habitual um alto funcionário chinês partilhar as suas memórias com o grande público. Estes sucintos testemunhos aparecem apenas como introdução aos respectivos capítulos do livro, dedicados à Grã-Bretanha e a Portugal. Mesmo assim, vale a pena lê-los e divulgá-los mais amplamente.O Instituto Diplomático, o Centro Científico e Cultural de Macau e a Fundação Jorge Álvares estão de parabéns por terem contribuído para a viabilização da versão portuguesa deste livro de recordações de viagens de Chen Ziying. 14 de Junho de 2010
  • 117 F A l A r d e n ó s – VII J o r g e A . H . r A n g e l Um pouco por todo o mundo, através de representações diplomáticas, escolas e associações portuguesas, foi comemorado o Dia de Portugal, contando com a adesão de Casas de Macau e a participação de seus membros. Em Macau, com a presença de um Secretário de Estado do Governo da República, seguiu-se o modelo já consagrado, com o içar da bandeira no Consulado-Geral, a tradicional romagem à Gruta de Camões e a recepção oficial na Residência Consular, além de várias outras iniciativas promovidas por associações locais.A leitura de um poema do nosso saudoso Adé marcou uma presença digna de Macau numa das cerimónias do dia 10 de Junho em Portugal, data também assinalada pela despedida de António Manuel Couto Viana, um dos maiores poetas portugueses contemporâneos, intimamente ligado a Macau pelos versos que dedicou a esta terra que muito amou.As comemorações oficiaisAs mais altas autoridades do Estado estiveram em Faro, no Dia de Portugal, para as comemorações oficiais, que incluiram um desfile militar e a homenagem a dezenas de personalidades a quem foram atribuídas condecorações das antigas ordens militares e das várias ordens civis. O presidente da comissão organizadora, António Barreto, fez um discurso notável, analisando, lúcida e incisivamente, a situação económico-financeira dificílima que o país atravessa e os desafios que se lhe colocam no presente e na construção do futuro. Por seu lado, o Presidente da República apelou à coesão nacional e à repartição equitativa e justa dos sacrifícios, que devem ser melhor explicados aos portugueses para que a sociedade “se reveja no rumo da acção política”, sublinhando Macau no dia de Portugal e o adeus a couto Viana“…………………………Já tenho a mala aviada,Pra iniciar a viagemAo tudo a partir do nada.”António Manuel Couto Viana,9 de Maio de 2010
  • 118F A l A r d e n ó s – VIIJ o r g e A . H . r A n g e l também a necessidade de “valorizar o potencial do país em várias frentes, incluindo a militar, já que “a redução da capacidade das Forças Armadas tem historicamente coincidido com o aumento das vulnerabilidades nacionais e o esquecimento da voz de Portugal no concerto das nações, como Estado soberano e independente”. O discurso foi muito marcado pelas preocupações com a crise, nesta “situação insustentável” a que o país chegou.encontro dos combatentes Ao mesmo tempo que decorriam as cerimónias oficiais nacionais, tiveram lugar, em Lisboa, como tem acontecido nos últimos 17 anos, outros actos comemorativos, como a missa, no Mosteiro dos Jerónimos, em memória dos antigos combatentes falecidos, e o Encontro Nacional dos Combatentes, reunindo milhares de antigos combatentes no terreiro fronteiro ao Forte do Bom Sucesso, junto do Monumento aos Mortos na Guerra do Ultramar. As associações de combatentes, escolas militares e outros organismos cívicos e patrióticos marcaram presença, colocando flores naquele monumento, com todo o aparato habitual nas cerimónias militares. A oradora convidada foi a viúva do Comandante Jorge Oliveira e Carmo, morto em combate em Diu, em 1961, e condecorado, a título póstumo, com a ordem da Torre e Espada.sessão de poesia Por iniciativa conjunta da Sociedade Histórica da Independência de Portugal e do Guião – Centro de Estudos Portugueses, foi levada a efeito uma sessão de poesia, de homenagem a Camões, diante do seu túmulo no Mosteiro dos Jerónimos. Foram
  • 119 F A l A r d e n ó s – VII J o r g e A . H . r A n g e l declamados poemas de Miguel Torga, Eugénio Ribeiro Rosa, Eugénio Roque, Roberto Ferreira Durão e do próprio Camões, a que se juntou também este soneto, em patuá, do poeta macaense José dos Santos Ferreira (Adé), escrito em Julho de 2004:Camões – Grándi na NaçámPoeta qui onçom capaz cantá / Tudo estória di nôsso Portugal; / Poeta qui isquevê pá mundo olá / Grandeza d’alma, gente sim igual.Qui si miséria na vida passá / Atormentado pa sina fatal; / Poeta co talénto levantá / Fama di su quirido Portugal.Luis di Camões sã nómi esquivido / Co ternura na nosso coraçám / Lembrado co doçura na uvido.Na vida fuzi di persiguiçam, / Vôs quelora quelé disconhicido, / Agora sã qui Grándi na Naçám!Adé, 19 de Julho de 2004.o adeus a couto Viana Foi profundamente emotivo o adeus a António Manuel Couto Viana, arauto coerente do povo e da Pátria que tão bem soube cantar. Morreu no dia 8 de Junho, com 87 anos de idade e as cerimónias fúnebres foram realizadas no Dia de Portugal.
  • 120F A l A r d e n ó s – VIIJ o r g e A . H . r A n g e l No fim do velório e da missa, destacados artistas portugueses deram voz a alguns dos últimos poemas, ainda inéditos, do poeta, ensaísta, contista, dramaturgo, actor e encenador. Este foi um dos poemas lidos na ocasião, parecendo já adivinhar a sua próxima partida:Com os meus botões– Porque não chegas a velho, / Menino de mais de oitenta? / Nunca te vês ao espelho?/ Essa imagem não te assenta?– Não me assenta, na verdade. / Por dentro é que eu conto os anos. / Por fora o tempo e a saudade / Causam danos.– Porque não sentes que vem, / Com passo lento e fatal, / Alguém / Lembrar-te os oitenta e tal?– Sinto, sim! Mas com coragem: / Já tenho a mala aviada, / Pra iniciar a viagem / Ao tudo a partir do nada.Na bagagem, o menino: / Que a velhice é para os velhos / E não se alcança o destino / De joelhos.Não suporto nenhum se / (O coração não duvida) / E vou-me embora antes que / Me adiem mais a partidaAntónio Manuel Couto Viana, 9 de Maio de 2010.
  • 121 F A l A r d e n ó s – VII J o r g e A . H . r A n g e l A Sociedade Histórica da Independência de Portugal, com a colaboração de outros organismos da sociedade civil, entre os quais o Instituto Internacional de Macau, vai organizar uma sessão pública de homenagem, em Lisboa, a este Poeta de Portugal.21 de Junho de 2010
  • 122F A l A r d e n ó s – VIIJ o r g e A . H . r A n g e l Maio, Junho e Julho são os meses em que, em Portugal, se verifica uma maior profusão de feiras do livro um pouco por todo o país, continuando a maior e a mais importante a ser a de Lisboa, de novo implantada nas duas alas centrais do Parque Eduardo VII. Esta, que foi a sua 80.a edição, esteve, como se esperava, muito concorrida, não obstante o tempo incerto, com alguma chuva a prejudicar a afluência do público nas duas primeiras semanas. O encerramento estava previsto para 16 de Maio, mas a Associação Portuguesa de Editores e Livreiros (APEL) decidiu prorrogar o seu funcionamento por mais uma semana, dando àquele bonito e aprazível local um ambiente de festa, em torno do livro e da leitura, com muita gente a circular, até às 23.30 horas, pelos quase trezentos pavilhões mantidos por cerca de 130 editores, além de auditórios, palcos para espectáculos e espaços para atendimento, apresentação de novas obras e assinatura de autógrafos. As inevitáveis tendas de comes e bebes também se espalharam pelo vasto recinto.livraria de MacauMacau voltou a marcar presença nesta feira de livro, através da livraria gerida pelo Centro de Promoção e Informação Turística de Macau e instalada no r/c da Delegação Económica e Comercial de Macau em Lisboa. O seu pavilhão ficou muito próximo da área, muito visitada, destinada ao grupo Leya, que congrega diversas prestigiadas editoras.Uma boa selecção de obras relacionadas com Macau e com a China, publicadas por várias editoras públicas e privadas, foi disponibilizada aos leitores interessados. Aproveitei para comprar algumas que ainda não tinha na minha biblioteca, com especial destaque para “Revisitar os primórdios de Macau: para uma nova abordagem da História”, de Jin Guo Ping e Wu Zhiliang (Instituto Português do Oriente e Fundação Oriente, Setembro Macau na 80.ª edição da Feira do livro de lisboa“Os rostos de Macau são a escrita de uma história que tem como sinal perene a condição de porto/porta entre mundos”. Ana Paula Laborinho, prefácio de “Calçada Portuguesa de Macau”, 2010
  • 123 F A l A r d e n ó s – VII J o r g e A . H . r A n g e l de 2007), que contém treze relevantes estudos sobre as origens históricas de Macau, resultantes do acesso privilegiado que os autores tiveram, graças à sua capacidade e perfeito conhecimento das duas línguas, às historiografias chinesa e portuguesa. Estes académicos, através do seu intenso e qualificado labor intelectual, têm contribuído determinantemente para a criação de uma nova dinâmica no aprofundamento dos estudos históricos de Macau. Jin Guo Ping, que passou mais de duas décadas em Portugal, como professor, investigador e tradutor, regressou recentemente à China e Wu Zhiliang, administrador da Fundação Macau e, igualmente, professor e investigador, vai tomar posse, em Julho próximo, do cargo de presidente do Conselho de Administração desta fundação vocacionada para apoiar iniciativas académicas, culturais e sociais.calçada Portuguesa de MacauOutra obra adquirida nesta feira do livro é “Calçada Portuguesa de Macau”, de Ernesto Matos, recentemente publicada. Ela surpreende pela qualidade gráfica e pelo curioso e tecnicamente muito apreciável levantamento fotográfico do que de mais significativo existe nos locais, abundantes e diversificados, onde se privilegiou a calçada portuguesa em Macau. Também foram muito adequadamente escolhidos os textos, de Camões, Lao Zi, Confúcio, Maria Anna Acciaioli Tamagnini, Alberto Estima de Oliveira, Jorge Arrimar, António Correia, Pedro Miranda Albuquerque e do próprio autor, também responsável pelo design, e as reproduções de composições em cartolina recortada e gouache sobre papel, de Graça Pacheco Jorge.O prefácio é de Ana Paula Laborinho, presidente do Instituto Camões, que nos recorda que “a calçada portuguesa, tão descuidada no território da sua origem, foi adoptada por Macau e tornou-se numa arte local”. “Das artérias nobres foi progredindo
  • 124F A l A r d e n ó s – VIIJ o r g e A . H . r A n g e l para os bairros históricos, quer as antigas ruas da cidade cristã, quer as populares ruas do bairro chinês”. Realça ainda que este “tão belo e mágico livro” de Ernesto Matos “percorre as ruas da cidade fixando por meio da sua objectiva a beleza dos desenhos e os sinais de um quotidiano que enche de vida as pedras da calçada” e que, “para sublinhar a voz das pedras, as imagens cruzam-se com as palavras de poetas, quer se trate daqueles que miticamente estão ligados à cidade, como Luís de Camões, quer os contemporâneos de mais ou menos recente memória”.Para o autor, “a calçada portuguesa tornou-se um ícone”. “Os passeios de Macau desenvolveram-se para trazer um novo brilho a todo o território e muito especialmente às típicas e estreitas ruas do Centro Histórico, agora possuidor de um título reconhecido internacionalmente, como são exemplos o Largo da Sé, o Largo de São Domingos e o caso da Rua dos Ervanários, zona também denominada por rua dos tintins. As tonalidades de pastel das típicas fachadas coloniais ganham assim uma nova escala e as duas civilizações unem-se e saem à rua de mãos dadas para comemorarem as bodas dos 500 anos de uma coexistência, construída e fortificada através de um diálogo onde não são necessárias muitas palavras nem a descodificação de ambas as línguas maternas”.Edição trilíngue, esta obra promove bem Macau, pela afirmação de um legado assumido e enriquecido nos dias de hoje, merecendo uma ampla divulgação.Viagem ao Tecto do MundoDurante a 80.a Feira do Livro de Lisboa, tive o prazer de participar na sessão de lançamento de mais uma obra de Joaquim Magalhães de Castro, intitulada “Viagem ao
  • 125 F A l A r d e n ó s – VII J o r g e A . H . r A n g e l Tecto do Mundo – o Tibete Desconhecido”, um admirável relato duma viagem que o autor fez ao coração do Tibete. Conforme a nota de apresentação, “com início na capital, Lhasa, esta intrépida aventura durou cerca de mês e meio e atravessou, em direcção a oeste, quase dois mil quilómetros dalgumas das paisagens mais inóspitas, magníficas e sagradas do planeta”. “De mochila às costas, viajante clandestino em algumas regiões por onde passou e muitas vezes transportado nas caixas de camiões, o autor conheceu o Tibete mais recôndito e autêntico, o seu povo, a sua cultura, a grandiosidade dos seus palácios, templos e mosteiros, e a sua profunda religiosidade”.São também referidos alguns emblemáticos locais de peregrinação budista visitados no início do século XVII pelos missionários jesuítas António de Andrade, Francisco de Azevedo, João Cabral e Estevão Cacela, entre outros, pioneiros europeus nos Himalaias, todos portugueses, infelizmente pouco conhecidos mesmo nos círculos culturais mais avançados do nosso país. A divulgação dos nomes e feitos destes homens é outro dos méritos deste fascinante livro.A sessão de apresentação deste livro, que teve bom acolhimento do público e da comunicação social, proporcionou um animado debate sobre a causa tibetana e os condicionalismos e enquadramentos políticos e sociais da situação actual do Tibete.Residente permanente de Macau, Joaquim Magalhães de Castro deu-nos há pouco tempo outro excelente livro – “Mar das Especiarias” – e prepara-se para lançar mais um, em Setembro, sobre as maravilhas do património luso no mundo, depois de ter percorrido muitos milhares de quilómetros para ver e fotografar esses monumentos que são, no seu conjunto, um impressionante legado de Portugal em vários continentes.
  • 126F A l A r d e n ó s – VIIJ o r g e A . H . r A n g e l os 50 anos da PresençaAs obras atrás referidas, de Joaquim Magalhães de Castro, são da Presença, editora de sucesso criada e dirigida por um macaense, o Dr. Francisco da Conceição Espadinha, que também já presidiu à APEL. A Editorial Presença, que está a comemorar o seu 50.o aniversário, dispõe de instalações muito amplas, modernas e funcionais, e de um corpo qualificado de colaboradores. Cresceu com estabilidade e soube conquistar uma significativa quota do mercado livreiro, graças ao empenhamento pessoal e à competência reconhecida do seu primeiro responsável e das equipas que o apoiaram. Dá gosto ver aquelas modelares instalações, em Barcarena (Queluz de Baixo), e o profissionalismo que caracteriza o seu funcionamento.Para comemorar o 50.o aniversário, a Presença publicou um programa da sua participação na Feira do Livro, lançou um cartão de leitor, atribuiu prémios, organizou sessões de animação e de autógrafos e disponibilizou, em cada dia da feira, dez edições diferentes como “livros do dia”, com preços promocionais especiais.Para Francisco Espadinha e para a Presença vão saudações amigas, com votos de renovados e merecidos êxitos na sua importante e diversificada actividade editorial.28 de Junho de 2010
  • 127 F A l A r d e n ó s – VII J o r g e A . H . r A n g e l Com visível aparato publicitário por toda a cidade e em órgãos de comunicação social, acabou de se realizar, de 18 a 23 de Junho, mais uma grande acção promocional da RAEM, que foi a Semana de Macau em Lisboa, organizada pelos Serviços de Turismo de Macau para coincidir com a visita a Portugal do Chefe do Executivo da RAEM. Integraram o programa diversas manifestações culturais, danças do dragão e de leões, artes marciais, passeios de triciclo e gastronomia chinesa e macaense. Os principais locais escolhidos para estas actividades foram o Centro Colombo, o Rossio e o Hotel Ritz Four Seasons.Uma recepção, muito participada, no salão maior desse emblemático hotel, abriu solenemente a semana, com a tradicional cerimónia do corte de fita e vivificação do dragão e dos leões presidida pelo Chefe do Executivo, acompanhado do Ministro dos Negócios Estrangeiros do Governo Português, Embaixador da RPC em Lisboa, Secretário de Estado da Juventude e Desporto do Governo Português, Presidente da Assembleia Legislativa de Macau e Secretários do Governo da RAEM para a Economia e Finanças e para os Assuntos Sociais e Cultura. Foi uma excelente ocasião para reencontros de amigos e conhecidos de alguma forma ligados a Macau e para as altas entidades da Região e a sua numerosa comitiva oficial contactarem personalidades portuguesas de variados quadrantes políticos e sectores profissionais.Durante a visita do Chefe do Executivo, cujo balanço positivo foi já feito pela imprensa local, foi inaugurada, na Delegação Económica e Comercial de Macau, uma exposição comemorativa do 10.o aniversário da RAEM e, por inciativa conjunta da Associação Promotora da Instrução dos Macaenses, da Confraria da Gastronomia Macaense e da Casa de Macau de Portugal, foi oferecido um chá gordo, antecedido da assinatura de protocolos de cooperação com confrarias gastronómicas portuguesas.A I Quinzena de Macau em lisboa, há quase quatro décadas“A Direcção da Casa de Macau resolveu organizar a I Quinzena de Macau em Lisboa, com o objectivo de tornar a nossa querida terra natal mais conhecida, melhor compreendida nas suas peculiaridades e apreciada por todos os portugueses”.Armando de Oliveira Hagatong, Junho de 1971
  • 128F A l A r d e n ó s – VIIJ o r g e A . H . r A n g e l Levada a efeito esta Semana de Macau em Lisboa, com um cunho predominantemente oficial, pareceu-nos oportuno aproveitar o ensejo para recordar a primeira grande promoção do território feita por um organismo da sociedade civil representativo da comunidade macaense em Portugal.o programa da QuinzenaFoi há quase quatro décadas que, por iniciativa da Casa de Macau de Portugal, teve lugar a I Quinzena de Macau em Lisboa. Inicialmente prevista para o período de 26 de Maio a 9 de Junho de 1971, foi prorrogada até 24 de Junho, dia de S. João Baptista e da cidade de Macau e data do 2.o aniversário da inauguração da sede da Casa de Macau na Praça do Príncipe Real. Os pontos mais significativos do programa foram uma exposição de aguarelas e óleos, com motivos macaenses, do pintor Herculano Estorninho; um ciclo de sete conferências sobre a história e a conjuntura económica e turística do território, pronunciadas por autorizados especialistas, sempre perante numeroso e interessado auditório; um concurso de culinária macaense com intervenientes da mais alta qualidade; reuniões de convívio muito concorridas, nas quais foram projectados filmes e diapositivos; uma passagem de modelos no Hotel Ritz, facultada pela empresa macaense de confecções Macauknitters, demonstrando o nível do design e da execução dos produtos têxteis locais; e uma ampla divulgação de Macau, com boas reportagens na televisão e na imprensa de maior tiragem publicada na capital portuguesa. A exposição foi muito bem acolhida pelos visitantes e pelos críticos, tendo os quadros sido todos vendidos duas horas após a abertura. Num gesto louvável, o saudoso artista
  • 129 F A l A r d e n ó s – VII J o r g e A . H . r A n g e l Herculano Estorninho ofereceu à Casa de Macau o produto apurado da venda, com vista à aquisição de obras de arte para a decoração da sede.concurso de culináriaO concurso de culinária foi uma verdadeira revelação, pela novidade, variedade e riqueza dos pratos apresentados. Presidiu ao júri a directora da “Banquete – Revista Portuguesa de Culinária”, Maria Emília Cancella de Abreu, coadjuvada por duas especialistas da gastronomia macaense, Fátima Tamagnini de Oliveira e Amália Pacheco Jorge. Esta então muito apreciada revista fez uma ampla divulgação de receitas macaenses na sua edição n.o 143, de Janeiro de 1972, cuja capa foi ilustrada com uma grande fotografia duma mesa macaense em dia de festa, ostentando no primeiro plano um lindo tabuleiro tradicional de Macau, com três andares sobrepostos contendo iguarias várias e todo ornamentado com folhas de papel de seda recortados à mão, uma verdadeira obra de arte executada por uma senhora macaense, de nome Aurelina Maria Dias. Além das receitas, a revista mostrou vários centros de mesa, primorosamente preparados para o concurso por Laura Lobato Majer, com espelhos, paus de bambu, estatuetas, seixos, velas, flores, folhagem e outros elementos decorativos.Importância políticaA importância política atribuída a este conjunto de actividades foi tão elevada que o próprio Presidente da República, Almirante Américo Tomás, presidiu à sessão inaugural, acompanhado do Ministro do Ultramar, Prof. Joaquim da Silva Cunha, membros do Conselho Ultramarino, deputados, antigos governadores, magistrados, altas patentes
  • 130F A l A r d e n ó s – VIIJ o r g e A . H . r A n g e l das Forças Armadas, professores universitários e funcionários superiores de diversos ministérios. Durante a Quinzena, o Presidente do Conselho, Prof. Marcello Caetano, visitou a Casa de Macau e dirigiu palavras de grande incentivo aos seus dirigentes e de “muito apreço pelo arreigado patriotismo dos macaenses e dos portugueses do Extremo Oriente”.Na sessão de encerramento, que foi também de homenagem ao Governador de Macau, General José Manuel Nobre de Carvalho, o presidente da Casa de Macau, Dr. Armando de Oliveira Hagatong, realçou o sucesso da iniciativa, congratulou-se com os apoios recebidos, fez um relato das actividades e saudou os órgãos de comunicação social, pela sua “valiosa e completa cobertura”, merecendo “os mais sinceros agradecimentos pelo magnífico trabalho realizado”. Revelando total consonância com a política ultramarina prosseguida, Armando Hagatong afirmou ainda que “esta Quinzena constitui uma verdadeira consagração da clarividente e realista política tão engenhosamente traçada, com o mais perfeito conhecimento das peculiaridades de Macau, por Sua Excelência o Professor Marcello Caetano, sempre grato no coração dos Macaenses, política esta que Vossa Excelência, Senhor Governador, executou com tanto êxito, brilhantismo e dedicação, sob a superior orientação do dinâmico e inteligente Ministro do Ultramar, Prof. Silva Cunha, grande amigo desta Casa”. HomenagensArmando Hagatong, no seu discurso, enalteceu a acção política do Governador Nobre de Carvalho, numa altura em que se vivia em Macau “uma era do maior progresso, de grande desenvolvimento sócio-económico e da mais perfeita convivência pacífica das suas
  • 131 F A l A r d e n ó s – VII J o r g e A . H . r A n g e l gentes das mais diversas etnias”, apontando como exemplares os resultados alcançados na “gigantesca obra de assistência”, e no valor das exportações “que já ultrapassou o de Moçambique, ficando apenas aquém do de Angola”. Também elogiou o Banco Nacional Ultramarino, sócio benfeitor da Casa de Macau, e o Comendador Stanley Hó, presente na sessão, pelos “seus preciosos auxílios materiais” e pelos “elevados investimentos na indústria turística, que tanto têm contribuído para o progresso e prestígio da Província e para dar trabalho a centenas e centenas de jovens macaenses”.Com sede própria já adequadamente mobilada e equipada, instalada em zona nobre da cidade, o sucesso da I Quinzena de Macau deu aos titulares dos órgãos sociais da Casa de Macau um renovado alento nesse ano grande do seu funcionamento, quando foi também organizada, em Setembro, a I Romagem a Macau, com muito boa adesão dos sócios e excelente acolhimento local. Ainda ninguém adivinhava que, menos de três anos volvidos, tudo se alteraria drasticamente com a revolução de Abril de 1974 e o fim do Estado Novo, sendo a própria Casa de Macau assaltada e ocupada nas horas de maior radicalização da fase inicial do novo regime político. Nessa ocupação intervieram também jovens macaenses, integrados no processo revolucionário que se arrastou quase até do fim do ano de 1975, obrigando ao encerramento da Casa de Macau até ficar normalizada a situação e serem devolvidas as instalações aos seus legítimos proprietários e usufrutários.5 de Julho de 2010
  • 132F A l A r d e n ó s – VIIJ o r g e A . H . r A n g e l Vimos, no artigo anterior, como foi bem sucedida a realização da I Quinzena de Macau em Lisboa, em 1971, e a grande atenção que a “Banquete – Revista Portuguesa de Culinária”, de Janeiro de 1972, dedicou à gastronomia macaense. A sua directora, Maria Emília Cancella de Abreu, presidiu ao júri do concurso de culinária macaense integrado no programa da Quinzena, após o que inseriu nesse número da sua revista, que algumas velhas famílias macaenses guardaram até hoje, uma muito representativa selecção de receitas macaenses, apresentadas por várias senhoras macaenses residentes em Portugal ou transcritas do livro “Cozinhados de Macau”, de Celestina de Mello e Senna, exímia cozinheira e minha sempre lembrada professora na 1.a classe da Escola Primária Oficial de Macau.Em homenagem à Confraria da Gastronomia Macaense, em boa hora criada, e porque tive o privilégio de provar alguns dos pratos confeccionados por aquelas que foram algumas das maiores mestras da culinária macaense, trago para este espaço, para lhes garantir uma maior divulgação junto da comunidade, algumas dessas receitas:de laura lobato Majer• Carne de porco bafassá: Banhar em vinha-de-alhos durante 24 horas um lombo de porco previamente esfregado com sal e açafrão. Passado esse tempo, vai a assar com cebola cortada às rodelas, uma colher de banha e regado com a marinada. No fim de assada, tira-se a carne, corta-se em fatias finas e serve-se com o molho passado pelo “passé-vite”. Acompanhar com batatas e cebolas fritas.receitas macaenses da I Quinzena de Macau em lisboa“As conferências que se proferiram na Casa de Macau, em Lisboa, a exposição de quadros de Herculano Estorninho e as refeições macaístas, todas elas preparadas por senhoras de Macau ou que ali estiveram radicadas, serviram para nos ensinar a amar Macau”. Maria Emília Cancella de Abreu, “Banquete – Revista Portuguesa de Culinária”, Janeiro de 1972
  • 133 F A l A r d e n ó s – VII J o r g e A . H . r A n g e l • Diabo rico (para 25 pessoas): 100 g de banha / 1 dl de azeite / 1 kg de cebolas / 1 kg de tomate / 2 colheres de sopa de vinagre / 1 frasco pequeno de molho inglês “Lea & Perrins”/ 2 colheres de sopa de molho de soja (sutate) / 1 frasco pequeno de mostarda tipo Savora / 1 garrafa de vinho branco / 1 cálice de vinho do Porto / 2 gemas / carnes (1 kg de porco, 1 kg de leitão assado, 1 kg de costeletas de carneiro, 2 kg de carne de vaca estufada e 1 frango grande de caril)Refogar a cebola às rodelas e, depois, juntar os condimentos, excepto o Porto e as gemas.Refogar nesse molho as carnes cortadas em cubos. Depois de pronto, e enquanto quente, adicionar as gemas diluídas no Porto, sem voltar a levar ao lume.• Frango com molho de cogumelos: 1 lata de cogumelos chineses “tongku” / 1 lata de algas chinesas “van-y” / 1 frango / 4 cebolas picadas / 50 g de presunto picado / 1 colher de sopa de banha / 1 copo de vinho brancoCora-se a ave na banha e, depois de corada, retira-se da gordura e aloura-se aí a cebola. Estando loura, junta-se novamente a ave com o presunto e o vinho branco. Juntam-se, em seguida, os cogumelos cortados às tiras, depois de escaldados e o “van-y” (algas conhecidas por “orelhas de rato”), também escaldado. Tapa-se e deixa-se ferver em lume brando até o frango ficar tenro.Podem substituir-se os cogumelos chineses por champignons frescos, mas as algas são insubstituíveis.
  • 134F A l A r d e n ó s – VIIJ o r g e A . H . r A n g e l de Fátima Tamagnini Barbosa de oliveira• Casquinhas de santola: Coze-se a santola ou outro marisco. Depois de cozido, desfia-se a carne toda.Deita-se num tacho azeite do bom, açafrão, coentro em pó, cebola picadinha, sal, amêndoas finamente cortadas, queijo ralado e o marisco já desfiado, levando tudo a refogar um pouco. Tempera-se com pimenta e junta-se um pouco de miolo de pão embebido em leite. Enchem-se as cascas com este preparado, cobrem-se de gema de ovo, polvilham-se de pão ralado e levam-se ao forno para alourar.• Sopa de min: Fervem-se em conjunto 500 g de ossos de porco e 250 g de camaões, com a casca. Depois do camarão cozido passa-se a sopa pelo passador, tendo, em primeiro lugar, pisado o camarão com a casca.Faz-se um refogado com cebola picada, banha, pimenta e uma colher de sutate (molho de soja). Quando a cebola estiver apenas cozida, isto é, não refogada em demasia, junta-se o caldo e nele se coze o min, que é uma massa chinesa semelhante à aletria.• Peixe com molho de pinhões: Este prato faz-se com qualquer peixe frito ou cozido.Pisa-se em conjunto ½ chávena de amêndoas, ½ chávena de pinhões, ½ chávena de queijo ralado e ½ coco. Frita-se em bom azeite ½ colher de chá de pó de açafrão e de coentro e
  • 135 F A l A r d e n ó s – VII J o r g e A . H . r A n g e l um pouco de pimenta. Juntam-se, depois, à mistura anterior, leite de ½ coco, uma colher de molho de soja e meia de vinagre. Deixa-se ferver tudo em lume brando, mexendo sempre e, em estando bem apurado, junta-se o peixe, fervendo um pouco mais.de celestina de Mello e senna• Camarões panados: 1 kg de camarão grande / 1 chávena de farinha / 1 cebola verde / 1 dente de alho / sal e pimenta q.b. / 2 ou 3 ovos / pão ralado q.b. / banha de porco q.b.Lavam-se e descascam-se os camaões, o que se fará com cuidado para que se não quebrem as caudas. Com uma faca, cortam-se ao meio e lavam-se novamente. Temperam-se com sal, pimenta, 1 dente de alho picado, cebola verde muito bem picada, passam-se por farinha de trigo, ovo batido e pão ralado, novamente por ovo e pão ralado e fritam-se em banha. Se pretenderem que os camarões não fiquem enrolados, na ocasião de os fritar estiquem-nos, com o auxílio de uma palheta de bambu, da cauda à cabeça.• Caril de galinha: 1 galinha / sal e pimenta q.b. / molho de sutate (soja) / 2 colheres de chá de pó de caril / 2 cebolas da Índia / 1 cebola seca / ½ coco ralado e escaldado com 2 ou 3 chávenas de água fervida / batatas q.b.Corte a galinha em 8 pedaços e tempere-os de sal, pimenta, molho de sutate e uma colher de pó de caril.
  • 136F A l A r d e n ó s – VIIJ o r g e A . H . r A n g e l Deite numa caçarola um pouco de banha e refogue nela as cebolas da Índia e a cebola seca, muito picadinhas, e o restante pó de caril. Quando começar a exalar cheiro forte, junte os pedaços de galinha e mexa continuadamente para se não queimar o pó de caril.À parte, esborrache o coco ralado com uma colher antes de o coar. Feito isto, coe o leite e deite-o sobre a galinha, aproveitando somente o suco. Se este não for suficiente, pode juntar-se um pouco de água. Quando começar a ferver, deite as batatas cortadas em oito partes e, logo que estejam cozidas, retire-as. Quando o caril estiver pronto, junte novamente as batatas e deixe ferver um pouco só para aquecerem. Se o molho ficar muito ralo, reduza a puré um ou dois pedacinhos de batata.Também se pode seguir esta mesma receita empregando, em vez de galinha, caranguejo, ovos e camarões com nabos.Seguir-se-ão, no próximo artigo, as receitas de bolos e doces apresentadas na I Quinzena de Macau em Lisboa.12 de Julho de 2010
  • 137 F A l A r d e n ó s – VII J o r g e A . H . r A n g e l Foi apresentada, no artigo anterior, uma selecção de receitas divulgadas na I Quinzena de Macau em Lisboa, de conhecidos e muito apreciados pratos da culinária macaense, da autoria de três ilustres senhoras reconhecidas como especialistas neste domínio: Laura Lobato Majer, Fátima Tamagnini Barbosa de Oliveira e Maria Celestina de Mello e Senna. Deixámos para hoje a saborosa doçaria macaense:• Bolo menino ( receita de Laura Lobato Majer, com apresentação de Alice Hagatong):32 ovos / 300 g de pinhão torrado / 1 coco torrado / 400 g de amêndoa torrada / 600 g de açúcar / 600 g de bolachas de água e sal moídas ou pão ralado / 1 ½ colher de chá de fermentoBatem-se as gemas com o açúcar muito bem, juntam-se depois os restantes ingredientes e, por fim, as claras batidas em castelo. Leva-se ao forno em forma untada até cozer. Desenforma-se e polvilha-se com “icing-sugar”.• Bebinca de leite:1 chávena de maizena / 4 chávenas de leite / 2 chávenas de água de coco / 2 chávenas de açúcar / 6 gemas / 2 colheres de sopa de manteiga / ½ colher de chá de salBater as gemas com o açúcar, juntar depois os restantes ingredientes e, por fim, o leite aquecido. Levar ao lume para engrossar e depois vazar num “pyrex” e alourar no grelhador do forno.doçaria divulgada na I Quinzena de Macau em lisboa“O concurso de culinária e doçaria contribuiu para tornar mais conhecidos os nossos apetitosos pratos na Metrópole e salvar aquelas receitas, transmitidas de geração em geração”.Armando de Oliveira Hagatong, Junho de 1971
  • 138F A l A r d e n ó s – VIIJ o r g e A . H . r A n g e l Também pode vazar a bebinca enquanto quente numa forma untada de óleo e levar ao frigorífico, servindo-a desenformada. No Verão esta versão é mais agradável ainda do que a tradicional.• Doce de laranja torneada (apresentação de Aurelina Dias):2 kg de laranja / 2 kg de açúcar piléTornear as laranjas com um aparelho próprio e reservar as tiras da casca. Cortar as laranjas ao meio e pô-las de molho durante três dias, devendo mudar a água diariamente.Passado esse tempo, levar ao lume as laranjas, as tiras de casca e o açúcar, mantendo a fervura muito lenta até a calda ganhar ponto de geleia.Servir o doce frio como sobremesa.• Obreia (receita de Laura Lobato Majer):600 g de farinha / 300 g de açúcar / 16 gemas / 1 clara / 100 g de manteiga Bate-se muito bem o açúcar com as gemas e junta-se a farinha, a manteiga e a clara. Formam-se umas hóstias que se levam ao forno em tabuleiros polvilhados de farinha.• Rebuçados de ovos:Massa de ovos: 250 g de açúcar pilé / 15 gemasPara caramelizar: 125 g de açúcar pilé / 2,5 g de cremor tártaro
  • 139 F A l A r d e n ó s – VII J o r g e A . H . r A n g e l Primeiro, confeccione a massa de ovos pondo o açúcar num tacho com cerca de 1 dl de água. Deixe ferver sobre uma chama baixa, até atingir o ponto de bola mole. Conhece-se que atingiu esse ponto quando, ao mergulhar um pouco desta calda dentro de água, se consegue formar com ela uma bola maleável mas consistente.Fora da chama, deite a calda, pouco a pouco, sobre as gemas, devendo estas ter sido previamente batidas com uma faca e, depois, coadas por um passador de rede. Logo que a calda esteja toda incorporada, leve este preparado novamente à chama e deixe ferver lentamente, mexendo sempre com uma colher de pau, até a massa atingir o ponto de estrada. Nessa altura, deixe arrefecer sobre uma travessa. Uma vez fria, forme umas bolas bastante pequenas, que deve mergulhar na calda de açúcar em ponto de rebuçado e pôr a secar sobre a pedra da mesa, untada com óleo de amêndoa doce.Ponto de açúcar para caramelizar:Ponha a ferver o açúcar com cerca de um cálice de água e, quando a calda atingir o ponto de pérola, deite-lhe o cremor de tártaro desfeito numa pinga de água e deixe sobre a chama até atingir o ponto de bola dura. Este conhece-se procedendo como ficou indicado para conhecer o ponto de bola mole. Neste caso, porém, em vez de obter uma bola maleável, deve conseguir-se uma bola dura e quebradiça.• Batatada: 2 kg de batata-doce / 1 kg de açúcar / 150 g de manteiga / 1 coco ralado / leite de 1 coco / 1 colher de chá de banha de porco derretida / 125 g de amêndoas cortadas em falhas (facultativo)
  • 140F A l A r d e n ó s – VIIJ o r g e A . H . r A n g e l Coza as batatas com casca, descasque-as e passe-as pelo “passe-vite”. Mistura-se a este puré o açúcar, o coco ralado, o leite de coco e as amêndoas cortadas. Põe-se ao lume a cozer e, quando começar a secar um pouco, junte a banha de porco e vá mexendo com uma lada. Quando começar a despegar do tacho e a fazer estrada é que se adiciona a manteiga. Continua a cozer até se despegar completamente do tacho.Depois de pronto, deite numa taça e enfeite com amêndoa torrada ou coco ralado.• Genetes:200 g de manteiga / 200 g de açúcar / 5 gemas / 250 g de maizena / 1 colher de chá de fermento em póBate-se a manteiga com o açúcar até se obter uma mistura branca e juntam-se, depois, as gemas uma a uma, batendo sempre. Junta-se em seguida a farinha e o fermento previamente peneirados.Com o auxílio da seringa, formam-se os biscoitos num tabuleiro e levam-se ao forno para cozer.Eis alguns dos doces macaenses apresentados na I Quinzena de Macau em Lisboa, em 1971. Eles estão também presentes em ocasiões festivas da comunidade, nos chás-gordos, convívios familiares e encontros especiais de associações e clubes. Além destes, quem já provou e não gostou de outros, como bagi, barba, coqueira, chacha, doce de camalenga, celicário (selicária), fartes, fatias de ovos, geleia de pé de vaca, ladu, muchi, ondi-ondi, sarán-surave (sarán-surável), bolos de gengibre, bicho-bicho, dodol, fula-fula, macazotes, segredo e formigo, outrora tão abundantes e alguns cada vez mais raros
  • 141 F A l A r d e n ó s – VII J o r g e A . H . r A n g e l nas mesas macaenses? A Confraria da Gastronomia Macaense pode e deve continuar a promover a sua divulgação e realizar novos concursos envolvendo também activamente as Casas de Macau e outras associações da diáspora.Várias pessoas que leram o artigo anterior mostraram interesse na aquisição de exemplares do n.o 143 da “Banquete – Revista Portuguesa de Culinária”, de Janeiro de 1972. Esta revista, porém, editada pelo Instituto de Culinária da grande empresa que foi a CIDLA – Combustíveis Industriais e Domésticos, S.A.R.L., deixou há muito de ser publicada e números avulsos podem ser encontrados apenas em alfarrabistas, colecções particulares e bibliotecas especializadas.Algumas velhas famílias macaenses guardaram exemplares desse n.o 143, dedicado quase integralmente à culinária macaense, podendo brevemente ser facultado um à Confraria da Gastronomia Macaense, para a sua biblioteca/arquivo.19 de Julho de 2010
  • 142F A l A r d e n ó s – VIIJ o r g e A . H . r A n g e l Surpreendeu-nos a reacção positiva de leitores (especialmente leitoras) à publicação de alguns artigos sobre a culinária macaense. Por contacto directo ou através do correio electrónico, chegaram-nos pedidos de inserção de mais receitas. Para que os interessados possam ter acesso fácil às mais procuradas, decidimos trazer para este espaço mais algumas das que foram apresentadas e divulgadas durante a I Quinzena de Macau em Lisboa, organizada pela Casa de Macau de Portugal em 1971:• Tostas de queijo (“cheese toast”): 1 pão de forma pequeno, cortado em triângulos ou quadrados / 1 queijo pequeno de ovelha, ralado (substituível por igual porção de parmesão) / 2 colheres de sopa de manteiga / 2 ovosPasse o queijo pela máquina de ralar amêndoas e, em seguida, junte-lhe as gemas. Bata as claras em castelo e junte-as ao preparado anterior. Barre os quadrados ou triângulos de pão, primeiro com manteiga e depois com a mistura de queijo e ovos. Meta-os no forno até ficarem louros.• Bebinca de nabos: 225 g de porco / 115 g de carne salgada / sal e pimenta q.b. / 1,360 kg de nabos, cortados muito fininhos / 1 cebola verde / gergelim torrado q.b.Faz-se um guisado com a carne de porco já temperada de sal e pimenta, a carne salgada, os nabos, a cebola e deita-se água suficiente. Depois de cozido, retira-se do lume e outros petiscos macaenses da I Quinzena de Macau em lisboa“A Casa de Macau julga ter dado cumprimento, através da Quinzena, aos objectivos para que foi criada e agradece muito reconhecida a todos quantos colaboraram nesta iniciativa, contribuindo para o seu êxito”. Armando de Oliveira Hagatong, Junho de 1971.
  • 143 F A l A r d e n ó s – VII J o r g e A . H . r A n g e l procede-se da seguinte maneira: separa-se o molho do guisado e contam-se as chávenas de molho que contém; por cada chávena de molho junta-se uma chávena de farinha de arroz, que se desfaz no molho; junta-se, em seguida, o nabo. O segredo desta bebinca é o seguinte: a forma deverá estar quente quando se deitar a massa e o número de chávenas de caldo deverá ser igual ao número de chávenas de farinha de arroz.Põe-se um tacho com bastante água ao lume e, quando esta começar a ferver, põe-se a forma já com a massa onde esta cozerá durante uma hora. Por cima da massa põe-se cebola verde, camarões, chouriço cortado e uma colher de banha derretida. Quando estiver pronta, logo que se retire do lume convém borrifar com gergelim torrado.• Chilicotes fritos (receita oferecida por Laura Lobato Majer): Massa: 250 g de farinha / 2 ovos grandes / 1 colher de sopa de banha / 1 colher de sopa de água temperada de salAmassar bem todos os ingredientes e deixar repousar envolta num pano húmido durante 20 minutos. Dividir a massa em quatro partes, retirando uma e deixando as outras envoltas no pano para não secarem. Estender a massa até ficar transparente, cortar às rodelas, rechear e fritar.Recheio: 250 g de carne de porco / 50 g de presunto / 4 nabos / banha q.b. / 1 colher de molho de soja (sutate) Preparar um refogado com a banha e o nabo cortado em juliana, juntar as carnes picadas, deixar apurar e juntar o molho de soja.
  • 144F A l A r d e n ó s – VIIJ o r g e A . H . r A n g e l • Balichão: 6 kg de camarão / 2 kg de sal / 1 colher de sobremesa de salitre / 2 limões às rodelas / pimenta em grão q.b. / 20 folhas de louro / 1 garrafa de aguardente / 5 malaguetasEscolher o camarão, não o lavar, passá-lo em cru pela máquina e juntar-lhe os restantes ingredientes. Engarrafar e guardar pelo menos 15 dias antes de o utilizar.• Porco balichão tamarinho (ou tamarindo): 1 libra de carne de porco cortada em pedaços / sal e pimenta q.b. / sam-chau – sutate q.b. / banha q.b. / tamarinho / jagra raladaDeita-se num tacho uma colher de banha e outra de balichão e os bocados de carne já entalados por uma fervura. Quando já estiver a carne quase cozida, junta-se um quarto de chávena de tamarinho previamente molhado. Antes de retirar do lume, junta-se uma colher de jagra ralada.• Tacho macaense: Numa panela bastante grande deita-se água, sal, banha, carne de vaca ou porco, galinha, presunto, salpicão, tudo cortado em pequenos pedaços; couves, repolhos, nabos, cenouras, batatas, feijão-verde, ervilhas, partidos aos bocadinhos. Põe-se o tacho ao lume e deixa-se cozer muito bem. À parte coze-se arroz em água temperada de sal, de modo a que fique bem solto. Depois de tudo bem cozido põe-se o arroz em forma de
  • 145 F A l A r d e n ó s – VII J o r g e A . H . r A n g e l pirâmide num prato grande bastante fundo e deita-se por cima o conteúdo do tacho com o caldo. Com um garfo vai-se achatando a pirâmide.• Arroz chau-chau macaense: 50 g de arroz / 8 ovos / 120 g de manteiga / 250 g de carne de aves cozidas ou assadas / 150 g de carne de porco fresca frita / 50 g de presunto cru ou 100 g de fiambre / 20 nozes grandes e 20 amêndoas raladas sem pele / sal e pimenta q.b. / água, o dobro do volume do arroz / 3 colheres de sopa de leite / 1 ramo de salsaCoza o arroz no dobro do seu volume de água temperada de sal e não o mexa para ficar bem solto. Prepare-o de véspera e guarde-o em sítio fresco.Mexa os ovos com o leite e 30 g de manteiga e leve-os ao lume numa frigideira grande. Corte as carnes em bocados muito pequeninos e junte aos ovos mexidos, na frigideira, assim como o arroz, que já deve ter passado na restante manteiga para aquecer. Mexa tudo bem, misture as nozes e as amêndoas e sirva bem quente.• Capela:Este delicioso prato poucas pessoas o sabem preparar, não por ser difícil, mas por se desmanchar num instante. O segredo da “capela” é o seguinte: tem de ser preparada com porco que não tenha muita gordura.Ingredientes: 670 g de carne de porco / azeitonas picadas / 1 fatia de pão molhado em água e enxuto antes de se juntar ao picado / tiras de toucinho ligeiramente salmourado / 1 cebola da Índia picada / ½ cebola seca picada
  • 146F A l A r d e n ó s – VIIJ o r g e A . H . r A n g e l Deita-se num tacho banha suficiente para alourar as cebolas e, quando estiverem louras, junta-se o porco picado já temperado de sal e pimenta, deixa-se refogar um pouco mexendo sempre e depois junta-se o miolo de pão e as azeitonas picadas. Retira-se do lume e deita-se em forma de monte num “pyrex” redondo. Enquanto quente faz-se um buraco no meio com uma colher e devagar e, com auxílio de outra colher, vai-se comprimindo. Quando estiver morno, comprime-se com as mãos. Deita-se por cima pão ralado, queijo ralado e uma colher de banha derretida. Colocam-se, aqui e ali, tiras de gordura e leva-se ao forno forte. Quando o toucinho estiver cozido, a capela está pronta.Também se pode juntar à capela fiambre picado, chouriço ou qualquer carne salgada.Faremos ainda referência, nesta série de artigos sobre a culinária macaense, a alguns dos mais apreciados cozinhados de Macau de Maria Celestina de Mello e Senna, saudosa professora da Escola Primária Oficial Pedro Nolasco da Silva e profunda conhecedora dos segredos da nossa gastronomia tradicional, a cuja promoção e divulgação dedicou tempo, saber e entusiasmo.26 de Julho de 2010
  • 147 F A l A r d e n ó s – VII J o r g e A . H . r A n g e l Na grande promoção da culinária macaense, feita em Portugal pela Casa de Macau, em 1971, integrada na I Quinzena de Macau em Lisboa, era imprescindível a divulgação de alguns dos cozinhados de Macau de Maria Celestina de Mello e Senna, dedicada professora primária e excelente cozinheira, cujas receitas, que ela própria reuniu em livro, ainda hoje são usadas na confecção dos bons petiscos macaenses. A “Banquete – Revista Portuguesa de Culinária” seleccionou as seguintes para a sua edição n.o 143, de Janeiro de 1972:• Ovos recheados à moda de Macau:10 ovos / 125 g de fiambre ou presunto ou 50 g de chouriço de carne / sal e pimenta q.b. / hortelã ou coentros picados q.b. / 3 ovos / pão ralado q.b. / banha ou óleo q.b. para fritar.Cozem-se os ovos e depois de cozidos põem-se em água fria e descascam-se.Cortam-se os ovos ao meio no sentido do comprimento e retiram-se as gemas com cuidado para não ferir a clara.Esmigalha-se a gema e junta-se-lhe fiambre ou chouriço picado, tempera-se de sal, pimenta e hortelã picada. Enchem-se as cavidades das claras com este recheio, de tal forma que dê a aparência de um ovo inteiro. Passam-se depois por ovo batido, pão ralado, novamente ovo batido e pão ralado e fritam-se em banha. Podem-se passar por queijo ralado enquanto quentes. Para ornamentar este delicioso preparado, fritam-se batatas, finamente cortadas, e emprata-se numa travessa oval.Estes ovos também podem ser recheados com galinha assada ou sobras de outras carnes.os cozinhados de Macau de d. celestina“… com boa vontade, paciência e tenacidade, podem-sesuperar todas as dificuldades, conseguindo, desta forma, saborearesplêndidos petiscos desta nossa querida Macau”.Maria Celestina de Mello e Senna, “Bons Petiscos”, 3.a edição, 1983
  • 148F A l A r d e n ó s – VIIJ o r g e A . H . r A n g e l • Bifes recheados:800 g de carne de vaca ou vitela cortada em 8 bifes / 200 g de fiambre / 16 azeitonas descaroçadas / 1 ovo / farinha e pão ralado q.b. / 1 cebolinho / banha q.b. / sal e pimenta q.b.Depois de bem batidos e temperados com sal, pimenta e cebolinho verde bem picadinho, recheiam-se os bifes com azeitonas picadas e fiambre picado, tendo-se o cuidado de unir bem os bordos para o recheio não sair. Passam-se os bifes por farinha, depois por ovo e pão ralado e fritam-se em banha. Deve ter-se o cuidado de não pôr um lume forte para não ficarem crus por dentro. Estes bifes podem ser acompanhados de puré de batata ou esparregado de vegetais.• Iscas à moda de Macau:Depois de se terem tirado as veias e a película que cobre o fígado, corta-se em fatias muito finas 850 g de fígado de porco ou vitela e lava-se em água fria. Feito isto, tempera-se de sal, pimenta, 3 gotas de vinagre, 3 gotas de sutate, 3 gotas de molho inglês, 8 folhas de louro partidas aos bocadinhos, um pouco de noz moscada, ½ cebola seca picada finamente. Deixa-se neste tempero por uma hora tendo o cuidado de virar as fatias de vez em quando. Passado este tempo põe-se banha numa frigideira para estrugir a cebola da Índia cortada às rodelas. Quando estiverem coradas junta-se o fígado. Estando cozido acrescenta-se o molho a que se deverá adicionar uma pitada de farinha de trigo e meio cálice de vinho branco.Serve-se com batatas fritas.
  • 149 F A l A r d e n ó s – VII J o r g e A . H . r A n g e l • Galinha embriagada:1 galinha / 1 lata de champignons / 1 cebola da Índia / ½ cebola seca / 2 colheres de molho inglês / 4 gotas de sutateLavada a galinha e cortada em 8 pedaços, tempera-se com sal, pimenta, sutate e molho inglês. Deixa-se ficar neste tempero por algum tempo.Deita-se banha numa caçarola para estrugir a cebola da Índia e a cebola seca, picadinhas. Uma vez louras, juntam-se-lhes os bocados de galinha, que se vão estrugindo. Finalmente, junta-se o molho que ficou na travessa e depois acrescenta-se-lhe um ou dois copos de água e deixa-se ferver até o molho reduzir a duas colheres de sopa.Os cogumelos são cortados finamente e estrugidos à parte. Só se juntam à galinha mesmo antes de a retirar do lume. Nessa altura, enquanto está a ferver, adiciona-se um cálice de vinho do Porto e serve-se quente.• Lombo recheado:1,750 kg de lombo de porco / 6 a 8 rodelas de chouriço / algumas fatias de fiambre / 1 cebola seca / 1 fatia de pão molhado em água ou leite / sal e pimenta q.b. / um pouco de alho picadoLavado o lombo em água fria, corta-se com uma boa faca toda a carne, deixando-se os ossos para dar forma ao lombo. Tempera-se o lombo com sal e pimenta. Os ossos também devem ser temperados de sal e pimenta.Faz-se um estrugido com a cebola picada e junta-se um pouco de carne de porco picada e, depois de a mexer por algum tempo, acrescenta-se o miolo de pão enxuto.
  • 150F A l A r d e n ó s – VIIJ o r g e A . H . r A n g e l Antes de retirar do lume, misturam-se o chouriço e o fiambre picados e tempera-se de sal e pimenta. Enquanto quente, recheia-se de tal forma que dê o aspecto de lombo, comprimindo-se ao máximo para não cair o recheio.Com uma rede de banha embrulha-se o lombo, podendo segurá-lo com um palito. Leva-se ao forno durante cerca de uma hora e meia até ficar dourado.Acompanha-se com puré de batata.• Caldeirada à moda de Macau: 675 g de peixe nero ou garoupa, cortado às postas / 225 g de camarões descascados / 1 cebola da Índia / 1 caranguejo desfiado / 1 cebola seca / 450 g de tomates picados / 1 dente de alho / 1 pitada de açúcar / 6 a 8 fatias de pão.Lavadas e temperadas as postas de peixe, fregem-se em banha e põem-se à parte.Deita-se banha num tacho para fritar o dento de alho até ficar escuro. A seguir, aloura-se cebola da Índia e cebola seca e, depois de juntar tomates picados e uma pitada de açúcar, deixa-se ferver por muito tempo. Logo que estiver pronto, retira-se do lume e deita-se banha para estrugir os camarões descascados e o caranguejo desfiado, retirando-se logo do lume. Meia hora antes de servir, põe-se novamente ao lume o estrugido de cebola da Índia, de cebola seca e de tomates e deixa-se ferver; juntam-se as postas de peixe frito, podendo-se acrescentar 1 ou 2 colheres de azeite e 2 colheres de caldo. Por fim, os camarões e o caranguejo desfiado.Na travessa, deverão colocar-se, pelo menos, 6 a 8 fatias de pão frito. Depois de colocar as postas de peixe sobre o pão frito, deita-se o molho. Serve-se quente.
  • 151 F A l A r d e n ó s – VII J o r g e A . H . r A n g e l • Pães recheados:8 pães de leite / 500 g de carne picada / 50 g de chouriço / 1 cebola picada / 1 colher de banha / 1 colher de chá de sutate (molho de soja) / sal e pimenta q.b. / óleo q.b. para fritar.Refogue a cebola na banha e, quando loura, junte a carne e o chouriço picados, o sutate e tempere de sal e pimenta.Corte uma pequena tampa a cada pão, escave o miolo e recheie com o picado acabado de temperar. Coloque novamente a tampa, fixe esta com um fio ou palito e frite em óleo fervente.Serve como prato de entrada ou como salgado à merenda.Estas receitas fazem parte de um pequeno livro intitulado “Cozinhados de Macau por Celestina”, de Maria Celestina de Mello e Senna, que conheceu várias edições. Este livro integrou-se depois num volume mais completo, intitulado “Bons Petiscos”, cuja 3.a edição, da Direcção dos Serviços de Turismo de Macau, de Fevereiro de 1983, acabo de consultar, tendo um exemplar nas minhas estantes, ao lado de outra documentação respeitante à gastronomia macaense.Em futuros concursos de culinária macaense, sugiro à nossa confraria gastronómica que seja dado o nome desta talentosa e saudosa senhora a um dos principais prémios a atribuir. Fazê-lo é reconhecer o seu mérito, honrando a sua memória.2 de Agosto de 2010
  • 152F A l A r d e n ó s – VIIJ o r g e A . H . r A n g e l Durante a Semana de Macau em Lisboa, realizada de 18 a 23 de Junho, foram feitas promoções da culinária macaense nos restaurantes Varanda, do Hotel Ritz Four Seasons, e Serra da Estrela, no Centro Colombo. Mantiveram os seus cardápios habituais e acrescentaram alguns pratos macaenses. O Centro de Promoção e Informação Turística de Macau tem levado a efeito, com sucesso, acções idênticas em várias cidades de Portugal, sendo louvável a inclusão da nossa rica gastronomia nos seus programas promocionais.o livro e o autorFoi com o mesmo propósito de divulgação que a Direcção dos Serviços de Turismo de Macau publicou o livro “Culinária Macaense 100 Especialidades”, de João António Ferreira Lamas, bastante procurado na última Feira do Livro de Lisboa. Datado de Setembro de 2009, a edição tem excelente grafismo, ilustrações de alta qualidade e um formato atraente, sendo, como escreveu Anabela Ritchie, no prefácio, “um livro que vale a pena ter, oferecer e recomendar”. Estão ali cem receitas, em três línguas, das mais conhecidas e emblemáticas iguarias da gastronomia macaense.Todas as lindíssimas peças mostradas nas fotografias, entre loiças, pratas, cristais, talheres, objectos decorativos e móveis, pertencem ao autor e a seus filhos. Em apêndice, estão tabelas de equivalência de medidas usadas na culinária macaense e notas explicativas dos “pontos de açúcar” e dos “pontos de aquecimento”, havendo ainda dois índices das receitas, um por espécie e outra por ordem alfabética.gastronomia macaense – mais um livro e homenagem na Madeira“Deve ser um caso único no mundo a existência, num tão pequeno enclave inserido num gigantesco território, de uma minoria étnico-cultural que criou uma culinária própria, diferente da da maioria com que sempre coabitou ao longo dos séculos, mas também diferente da das suas próprias raízes”. João António Ferreira Lamas “Culinária Macaense 100 Especialidades”, 2009
  • 153 F A l A r d e n ó s – VII J o r g e A . H . r A n g e l A ligação do autor a Macau e ao Oriente é antiga. O seu trisavô paterno, António Gonçalves Lamas, comerciante de Lisboa, tinha negócios com o Oriente e deslocou-se a Macau em 1814 e 1815, em veleiro de sua propriedade, pela rota do Cabo, e abriu em Lisboa a primeira loja de venda de chá. Os objectos orientais, especialmente as peças chinesas, fascinaram o autor desde os verdes anos da adolescência. O seu interesse aumentou pelo casamento com Ercília Maria de Sousa Nolasco da Silva, natural de Macau e membro de uma velha e prestigiada família macaense. Bem integrado nos círculos macaenses da capital portuguesa, foi aperfeiçoando os seus conhecimentos da nossa culinária, tendo publicado o livro “A Culinária dos Macaenses”, que conheceu duas edições (Lello e Irmão Editores, Fevereiro de 1995, e Lello Editores, Setembro de 1997).O Eng.o João António Ferreira Lamas fez parte dos corpos directivos da Casa de Macau de Portugal, de que é sócio benemérito, sendo também membro do Conselho de Curadores da Fundação Casa de Macau. Deslocou-se muitas vezes a Macau, a última das quais para a apresentação de “Culinária Macaense 100 especialidades”, e a outras paragens orientais, como a China, a Índia, o Japão, a Malásia, o Nepal e a Tailândia. Três dos seus filhos residiram em Macau, onde nasceram três dos seus netos e um bisneto, vivendo actualmente no território dois outros netos.cem especialidadesAs receitas apresentadas respeitam, no que concerne a sopas, à açorda à moda de Macau, à canja de peixe, à canja de porco, à sopa assada, à sopa de aletria, à sopa de cebola, à sopa de frango com cogumelos, à sopa de lacassá, à sopa picante de porco com
  • 154F A l A r d e n ó s – VIIJ o r g e A . H . r A n g e l algas e à sopa seca. Quanto ao arroz, estão ali o arroz à espanhola, o arroz cachorro, o arroz gordo, o arroz “lap-mei” e o arroz mouro (môlo-kâi fan). Os legumes abrangem o bredo raba-raba, o chai-de-bonzo, o inhame com “lap-yôk”, o missô cristão e o sambal de carambolas.Nos pratos principais, temos, nos peixes e mariscos, o bacalhau dourado ou macaísta (“tchatini”), o bacalhau em couve lombarda, o bicho-do-mar (“hói-sam”), a caldeirada à macaense, os camarões em molho picante de tomate, os camarões fritos à macaense, as casquinhas de caranguejo (casquinhas temperadas), as empadas de peixe à moda de Macau, os pastéis de bacalhau à macaense, o peixe depenado e o peixe esmargal à moda de Macau. Nas aves, constam o adem (pato) de cabidela, o adem (pato) Santa Casa, o frango de caril à macaense, o frango vermelho com castanhas, a galantine de cordornizes, a galinha assada à moda de Macau, a galinha bafassá (bafá-assá), a galinha “chau-chau” parida, a galinha ou capão com molho de perdiz, a galinha embriagada, a galinha portuguesa (p’ou-kuok-kai”), o pato recheado e os pombos embriagados. As carnes abrangem a abafada de “chau-min”, o amargoso com carne (margoso lorcha), a bebinca (bebinga) de rábano (“ló-pák-cou”), o bife pó-bolacha (bife panado), as “bouletes”(roletes), a capela, o “chau-chau” de coração de porco, o cozido macaense, a “cria-cria”, o diabo, o furuso, as iscas à macaense, a lapa, o minchi, os ovos recheados à macaense, a pastelinha, o porco balichão (balchão) tamarindo (tamarinho), o tacho (“chau-chau de pele”) e o virado.As iguarias do chá gordo também ali estão: apa-bicos, chilicotes, genetes, pãezinhos recheados, patas-de-cavalo, tostas de queijo (“cheese toasts”) e toscais romaicas. Finalmente, a doçaria inclui esta extensa lista: aluá (aluar) – colchão do Menino Jesus,
  • 155 F A l A r d e n ó s – VII J o r g e A . H . r A n g e l bagi (baji), barba, batatada, bebinca (bebinga) de leite, bicho-bicho, bolo “mamon”, bolo menino, bolos de gengibre, celicário (selicária), chacha, coqueira, doce de camalenga (cambalenga), dodol, fartes – almofada do Menino Jesus, fatias de ovos (ovos fatia), folhar, formigo, fula-fula, geleia de pé de vaca ou de pés de galinha, genetes, ladu, macazotes (marquezotes), muchi (apa muchi coco), nata, ondi-ondi, sarán-surave (sarán-surável), segredo, tigelinhas-do-conde e tosquiado.Eis um verdadeiro inventário do que de melhor e mais representativo há na culinária macaense. Só é pena que não estejam incluídas fotografias de algumas destas cem apetitosas especialidades.Homenagem na MadeiraJá passaram alguns meses, mas ainda vamos a tempo de referir a atribuição do título de “Confrade de Honra” da Academia Madeirense das Carnes – Confraria da Gastronomia Madeirense à Confraria da Gastronomia Macaense. Foi em fins de Abril que a nossa confraria mereceu esta distinção nas cerimónias do Grande Capítulo da Confraria Madeirense.Representada pelo autor deste artigo, pelo presidente da Direcção da Casa de Macau de Portugal, Gustavo de Senna Fernandes, e por Edith Lopes, nossa confreira e colaboradora sempre prestável, conhecedora e entusiástica, em tudo quanto respeita a Macau, marcámos uma presença muito positiva nas actividades realizadas, que incluíram um desfile das confrarias no Estreito de Câmara de Lobos, missa cantada, concelebrada pelo respectivo pároco e pelo Pe. Victor Melícias, e sessão solene de proclamação e
  • 156F A l A r d e n ó s – VIIJ o r g e A . H . r A n g e l “entronização”, no moderno centro cívico daquela freguesia, em que me foi dado o ensejo de falar de Macau, do seu 10.o aniversário como região administrativa especial, do legado luso, do papel de plataforma de cooperação entre a China e o mundo lusófono e da gastronomia macaense. Também participámos em animados convívios, visitas a locais de interesse cultural e turístico e numa cerimónia de boas-vindas na Câmara Municipal do Funchal.Foi um prazer rever bons amigos, como o Eduardo Brazão de Castro, o mais antigo secretário-regional do Governo da Região Autónoma da Madeira, a quem me ligam laços de amizade que vêm do tempo de estudante, quanto participámos nos Encontros Europeus de Juventude (“Európolis”), em Cuenca (Espanha) e em Viena (Áustria), e muitos confrades de numerosas confrarias portuguesas e estrangeiras que estiveram presentes no Congresso Nacional da Federação das Confrarias Gastronómicas Portuguesas, realizado há dois anos em Ílhavo (Aveiro).Estas reuniões primam pela alegria e são convívio e faz muito bem a Confraria Macaense em estreitar as relações com muitas delas. Foram, entretanto, firmados protocolos de cooperação, em Junho, que viabilizarão uma colaboração ainda mais intensa no futuro.9 de Agosto de 2010
  • 157 F A l A r d e n ó s – VII J o r g e A . H . r A n g e l A história da Associação Portuguesa de Imprensa começou em Abril de 1960, quando se constituiu como Grémio Nacional da Imprensa Regional. Com a primeira alteração estatutária, em 1996, ficou a chamar-se apenas Grémio Nacional da Imprensa. Em 1975, transformou-se em AIND – Associação de Imprensa Não-Diária, passando, em 2000, a designar-se AIND – Associação Portuguesa de Imprensa. Finalmente, em 2004, no Dia Nacional da Imprensa, que se realizou no Centro de Congressos do Estoril, deixou cair a sigla AIND, ficando com o nome actual: Associação Portuguesa de Imprensa, também conhecida por APImprensa. Coube-lhe, ao longo de 50 anos de funcionamento, a responsabilidade de defender, como entidade patronal, os interesses da imprensa e promover a sua valorização e dignificação. Ampliando progressivamente a sua área de influência, abrange presentemente mais de 400 empresas associadas, responsáveis por cerca de 600 títulos de âmbito nacional, regional, técnico-profissional, especializado e digital.50 anos em comemoraçãoO programa comemorativo do seu cinquentenário começou no dia 10 de Maio com um jantar-conferência nos Paços do Concelho, oferecido pela Câmara Municipal de Lisboa, onde foi apresentado o “Jornal dos 50 anos”, com três mensagens na capa: do Presidente da República, saudando os órgãos de imprensa e felicitando a Associação “pelas iniciativas que vem desenvolvendo no sentido de fortalecer os laços que unem a imprensa do espaço da Lusofonia, assim promovendo a cada vez mais relevante posição que a Língua Portuguesa vem ocupando no mundo”, e dos presidentes da Mesa da Assembleia Geral e da Direcção, respectivamente, Natalino Vasconcelos e João Palmeiro, expressando o reconhecimento da Associação aos seus mais destacados colaboradores Macau recordada no 50.º aniversário da Associação Portuguesa de Imprensa“Em 1996, a Associação voltou-se para a Lusofonia e Macau foi o primeiro anfitrião. Naquele que foi um dos congressos mais participados da história da APImprensa, o tema que esteve em debate foi precisamente ‘A Imprensa Lusófona no Mundo’.” “Meios”- Jornal dos 50 anos, Maio de 2010
  • 158F A l A r d e n ó s – VIIJ o r g e A . H . r A n g e l e a confiança na sua capacidade para vencer renovados desafios: “fomos capazes de nos adaptar à realidade digital e continuamos expectantes em relação ao futuro, sem esquecer a Lusofonia, traço contínuo das preocupações e do serviço de utilidade pública que a Associação assumiu desde a sua fundação, há 50 anos”.Outras acções incluídas no programa são os “encontros de proximidade”, em várias capitais de distrito, envolvendo o maior número possível de publicações regionais; uma exposição evocativa dos 50 anos da APImprensa, em Setembro; um seminário internacional em Sintra, em Outubro/Novembro, tendo como orador principal uma figura de relevo da imprensa internacional; o Congresso da APImprensa em Novembro, provavelmente em Angola; o Dia Nacional da Imprensa em Dezembro, com debates de temas que mais possam interessar à imprensa na conjuntura actual; e uma sessão de encerramento em Abril de 2011, no Estoril, com o apoio da Câmara Municipal de Cascais.12 congressosOs congressos sobre os “media”, que foram as actividades de maior projecção da Associação nos últimos 25 anos, realizaram-se na seguintes cidades: Caldas da Rainha, em Maio de 1985, subordinado ao tema “Renovação e Progresso”; Funchal, em 1987 (“Aposta no Futuro”); Ponta Delgada, em 1989 (“Expandir e Modernizar”); Viana do Castelo, em 1991 (“A Imprensa e o Ambiente”); Macau, em 1996 (“A Imprensa Lusófona no Mundo”); Funchal, em 1998, em conjunto com a Associação de Imprensa Diária (“A Imprensa Primeiro”); Recife (Brasil), em 2000 (“500+500: Um Olhar no Passado, um Passo para o Futuro”), co-organizado com o Observatório da Imprensa; Newark (EUA), em 2001 (“A Empresa Jornalística no Contexto da Nova Economia”); Porto Seguro (Brasil),
  • 159 F A l A r d e n ó s – VII J o r g e A . H . r A n g e l em 2004 (“Concentração, Financiamento e Regulação”); novamente Macau, em 2005 (“Media e os Desafios da Sociedade da Informação”); e Maputo (Moçambique), em 2008 (“A Lusofonia e o Desporto”).1996, em MacauO “Jornal dos 50 anos” recorda que “em 1996, a Associação voltou-se para a Lusofonia e Macau foi o primeiro anfitrião”, “naquele que foi um dos congressos mais participados da história da APImprensa”. Foi desta forma lembrado esse evento:“A Imprensa Lusófona no Mundo foi o tema que serviu de mote ao Congresso da Associação Portuguesa de Imprensa que se realizou em Macau no mês de Fevereiro de 1996.“Este congresso reuniu num tempo em que a Imprensa enfrentava alterações estruturais decorrentes das novas tecnologias disponíveis para a recolha, tratamento e difusão da informação jornalística.A capacidade de aceder instantaneamente e em simultâneo aos acontecimentos, através dos então novos meios, fez com que nesse congresso de 1996 se questionasse a função e o lugar da imprensa no quadro dos sistemas globais de informação.Tendo as novas tecnologias como pano de fundo, um dos objectivos do Congresso de Macau foi reflectir sobre as condicionantes e as vantagens dos avanços das tecnologias e dos processos que moldam e flexibilizam a oferta da informação.
  • 160F A l A r d e n ó s – VIIJ o r g e A . H . r A n g e l Por outro lado, era também importante questionar o lado do consumidor e avaliar qual seria a sua reacção perante uma completa alteração dos sistemas de valores que, em última análise, seriam os responsáveis pela procura e selecção de informação.O local escolhido, o território de Macau, deveu-se ao facto de a Associação querer, desde sempre, manter e estreitar relações com o Mundo Lusófono, além do facto de ter a participação de representantes dos jornais editados em português e em que a língua portuguesa é veículo de comunicação em sistemas políticos, económicos e culturais”.Com efeito, quando se faz a retrospectiva da actividade positiva levada a efeito pela Associação, vem sempre à lembrança este congresso, oportunamente organizado na fase terminal da administração portuguesa e bem apoiado pelo Governo de Macau. A APImprensa continuou a acompanhar o desenvolvimento do território e, por isso, fez aqui um seminário, com a tónica na missão da imprensa desportiva, durante os I Jogos da Lusofonia, em Outubro de 2006, subordinado ao tema “Lusofonia, Media e Desporto”, e mais um congresso, já na vigência da RAEM, em 2005, podendo os seus associados tomar contacto directo com a nova realidade de Macau e verificar a prioridade dada pelas autoridades chinesas ao reforço das relações com o mundo lusófono e a manutenção da liberdade de informação, a par de todas as outras liberdades agora consignadas na Lei Básica da região.uma ampla missãoA APImprensa é uma pessoa colectiva de direito privado dotada de personalidade jurídica, sem fins lucrativos, que tem por objecto prestar serviços aos seus associados;
  • 161 F A l A r d e n ó s – VII J o r g e A . H . r A n g e l representá-los perante quaisquer entidades públicas ou privadas; promover e defender os respectivos interesses, exercendo a sua acção em todo o território nacional, junto das comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo, em países de expressão oficial portuguesa, nos países da União Europeia e em quaisquer outros locais onde se possa concretizar a sua finalidade específica. Compete-lhe ainda, entre outras atribuições, favorecer o bom entendimento e a solidariedade entre os seus associados; contribuir para a valorização da imprensa em geral, e particularmente da imprensa regional; promover a elaboração e difusão de estudos relativos ao sector e às políticas de desenvolvimento para as empresas associadas, quaisquer que sejam as suas formas e dimensões; colaborar com a Administração Pública na definição dos parâmetros orientadores da política nacional aplicável, nomeadamente em matéria de apoios e incentivos, de relações de trabalho, investigação, protecção do meio ambiente, crédito, investimento e comércio externo; apoiar a reestruturação e modernização das empresas e promover a revisão do condicionalismo legal em que as mesmas têm inscrita a sua actividade, com vista a revitalizar a sua actuação e a evidenciar o largo contributo que compete à iniciativa privada. É, de facto, uma ampla missão que os seus responsáveis têm sabido cumprir.Dada a excelente colaboração mantida pelo Instituto Internacional de Macau com a APImprensa, tive o ensejo de participar em várias das realizações mais relevantes da Associação e também na sessão de abertura das celebrações do seu 50.o aniversário. Conhecendo a utilidade e a importância da sua actuação, aproveito para desejar a todos os seus membros continuados sucessos.16 de Agosto de 2010
  • 162F A l A r d e n ó s – VIIJ o r g e A . H . r A n g e l Exactamente na véspera de completar 78 anos de idade, faleceu em Portugal, no dia 25 de Julho, o Contra-Almirante Vasco Leote de Almeida e Costa, que foi Governador de Macau de Junho de 1981 a Maio de 1986. Integrei a sua equipa governativa, juntamente com o Coronel Manuel Maria Amaral de Freitas, o Dr. José Roque Martins, o Dr. João da Costa Pinto, o Dr. Adelino do Amaral Lopes e o Brigadeiro Eng.º Almeida Viana, estes dois últimos depois substituídos pela Dra. Adelina Sá Carvalho e pelo Eng.º Amílcar Martins. As áreas que me foram delegadas foram as da Educação, da Cultura e do Turismo, tendo aquele sido um período de dificuldades políticas internas e, simultaneamente, caracterizado por um notável impulso ao desenvolvimento do território, numa altura em que a China acelerava a abertura ao mundo e se esboçavam as coordenadas para a transição de Hong Kong e, logo a seguir, de Macau, de acordo com o princípio “um país, dois sistemas”.O velório realizou-se na capela de S. Roque, no Arsenal da Marinha, onde foi rezada missa de corpo presente, seguida de funeral no Cemitério do Estoril. Altas patentes das Forças Armadas, incluindo o Chefe do Estado Maior da Armada, Almirante Melo Gomes, os Generais Ramalho Eanes e Rocha Vieira, o Director Nacional da Polícia de Segurança Pública, Superintendente-Geral Oliveira Pereira, antigos membros do Governo de Macau e quadros superiores que serviram a Administração Portuguesa, camaradas, amigos e familiares prestaram as derradeiras homenagens ao oficial da Marinha que, além de Governador de Macau, foi Ministro da Administração Interna, Primeiro-Ministro interino, membro do Conselho da Revolução e Presidente da Comissão Consultiva para as Regiões o adeus ao ex-governador Vasco de Almeida e costa (1932-2010)“O processo de reformas e transformações que no início da década de 80 estava a ocorrer, na RPC, desencadeou uma viva curiosidade no mundo ocidental. De algum modo, Macau era então, também, uma pequena janela pela qual se podia espreitar esse gigante agora a dar sinais promissores de poder abandonar a doutrina comunista e proporcionar excelentes oportunidades de negócios aos investidores internacionais”. Vasco de Almeida e Costa, depoimento recolhido para a série televisiva “Macau entre dois Mundos”, 1999.
  • 163 F A l A r d e n ó s – VII J o r g e A . H . r A n g e l Autónomas, após uma brilhante carreira como oficial da Marinha de Guerra Portuguesa, com numerosas condecorações e distinções, entre as quais a Cruz de Guerra de Primeira Classe, atribuída por serviços relevantes prestados no então Ultramar. A missa do sétimo dia foi rezada, na mesma capela, pelo P.e Victor Melícias, que enalteceu as qualidades e os altos serviços prestados ao país pelo falecido.Diversos órgãos de comunicação social portugueses fizeram referências mais ou menos extensas ao passamento do Contra-Almirante Vasco de Almeida e Costa, tendo o “Diário de Notícias” de 27 de Julho salientado que “a sua passagem pelo Oriente ficou marcada pelo lançamento de projectos importantes para o futuro do território chinês sob administração lusa”. O “Correio da Manhã”, por seu lado, numa página inteira da sua revista “Domingo”, de 1 de Agosto, lembrou que Almeida e Costa “foi Primeiro-Ministro quando Pinheiro de Azevedo adoeceu e governou Macau cinco anos, deixando obra”. De facto, vale a pena recordar, de entre os empreendimentos a que se lançou determinadamente, a resolução de um dos mais graves problemas de Macau, que era o da electricidade, a par da criação de infra-estruturas e de novas áreas para o desenvolvimento, bem como a consolidação da situação financeira, relevantes reformas na administração pública e uma aposta decisiva na educação e na acção cultural. Muitos dos seus maiores adversários de então reconhecem, hoje, a importância das políticas prosseguidas.A revisão do contrato de concessão dos jogos de fortuna e de azar, por ele conduzida tenazmente, deu ao território o suporte financeiro necessário à concretização das linhas de acção governativa. Foi assim que ele descreveu o esforço feito, no depoimento recolhido por Fernando Lima e Eduardo Cintra Torres, em 1999, para a série televisiva “Macau entre dois Mundos”:
  • 164F A l A r d e n ó s – VIIJ o r g e A . H . r A n g e l Mais recursos para obras fundamentais“Ainda antes de iniciar funções no Governo de Macau, sob a minha responsabilidade estabeleci com os elementos da equipa que constituí a estratégia da acção governativa para os primeiros quatros anos (81 a 85), a qual se estruturou em função do levantamento dos problemas do território e da análise das novas perspectivas que a política da RPC abria. Facilmente se concluiu que um dos principais estrangulamentos para essa acção residia na escassez de recursos financeiros do território e na inexistência ou absoluta degenerescência das infra-estruturas que servissem de suporte para o seu desenvolvimento. Particularmente grave era a situação no campo da electricidade.Era praticamente impossível aumentar os recursos pela via fiscal convencional. A tradição consistia precisamente em não haver, na prática, tributação alguma. O tecido industrial do território, nas mãos do empresariado chinês e fortemente imbricado no sistema produtivo de Guangdong, não aceitaria iniciativas da Administração que, a pretexto de adoptar melhorias materiais para benefício colectivo, introduzisse um sistema fiscal efectivo. De resto, as características do território só possibilitavam a existência de uma compensadora indústria têxtil na medida em que os impostos fossem ainda mais baixos do que em Hong Kong e porque existia um Acordo Multifibras patrocinado pelo GATT.Restava uma área onde tentar obter um reforço substancial dos recursos financeiros necessários ao desenvolvimento e modernização do território: o contrato de concessão dos jogos de fortuna e azar outorgado à STDM desde 1962. Para tal, no entanto, era necessário modificá-lo radicalmente, não só em relação ao montante dos valores
  • 165 F A l A r d e n ó s – VII J o r g e A . H . r A n g e l pagos, como no espírito ‘misericordioso’ que impregnava a concepção deste tipo de actividades.Está bem documentado pelos dois governadores que me antecederam que o problema da produção e distribuição da energia eléctrica era o grande cancro das finanças públicas do território. Todos os recursos públicos se esvaíam, sem êxito, nas frustradas tentativas de resolução do problema da Companhia de Electricidade de Macau. As primeiras medidas visaram, por isso, a revisão do contrato de concessão do jogo e o saneamento financeiro da CEM.Mas era dos resultados da revisão do contrato de jogo que dependia a margem de manobra do governo para levar a cabo o seu plano de acção. Para o efeito, foi desde logo constituída uma comissão para estudar e apoiar o governador nos trabalhos de revisão do contrato. Os pressupostos para essa revisão eram claros: uma vez que admitisse a prática dos jogos de fortuna e azar, a Administração devia, sem complexos, esforçar-se por obter os maiores proventos dessa actividade, cobrando aos concessionários percentagem significativa das receitas que se apurassem; estes deviam pagar um prémio suplementar para obter a prorrogação das licenças que lhes eram concedidas; as receitas seriam pagas em líquido pondo-se cobro às formas indirectas de pagamentos consignados como obras da mais diversa natureza: filantrópicas e culturais, construção das estradas, dragagem dos portos, e muitas outras que o concessionário rara ou parcialmente concretizava. Em consequência da revisão do contrato segundo esta nova modalidade, o valor pago à Administração pela STDM aumentou exponencialmente. Basta referir que a percentagem de imposto que incidia sobre as receitas brutas do jogo, passou de 11%
  • 166F A l A r d e n ó s – VIIJ o r g e A . H . r A n g e l para 25% no primeiro ano de vigência do novo contrato, aumentando um ponto nos anos seguintes até atingir 28%. Os recursos assim obtidos iriam constituir o grande volante financeiro que permitiu lançar a criação de novas infra-estruturas, a conquista de terrenos ao mar, o exemplarmente bem sucedido saneamento técnico e financeiro do sistema de produção e distribuição de energia eléctrica e muitos outros. Para além dos consistentes projectos de natureza social e cultural que melhoraram as condições de vida da população ou dos que valorizavam a identidade peculiar de Macau”.Este depoimento do ex-Governador realça também as relações com a China e alguns conflitos internos que conduziram à dissolução da Assembleia Legislativa em 1984. Referirei, oportunamente, estes e outros aspectos da sua acção governativa.23 de Agosto de 2010n.B. – Entre outros amigos, também faleceu recentemente, em Lisboa, o ex-director do Diário de Notícias, Mário Bettencourt Resendes. Conhecemo-nos nos anos de juventude, na mesma residência universitária, e, ao longo da vida, muitas vezes conversámos sobre Portugal e também sobre Macau, cuja evolução ele também gostava de acompanhar. Muita gente marcou presença no velório e no funeral, para um último adeus ao amigo e ao excelente profissional que Portugal e o jornalismo perderam.
  • 167 F A l A r d e n ó s – VII J o r g e A . H . r A n g e l Em todas as conversas que o Contra-Almirante Vasco de Almeida e Costa tivera comigo nas suas deslocações, em serviço oficial ao território, ainda antes de ser Governador de Macau, falámos sempre da abertura da República Popular da China ao mundo e das suas consequências, tema que ia ganhando cada vez maior atenção de organismos internacionais, embaixadas e consulados, universidades, órgãos de comunicação social e “think tanks” regionais, à medida que se multiplicavam os chamados “China watchers”, ávidos de notícias e desejosos de se instalarem em postos de observação mais privilegiados. Os serviços secretos dos países mais interessados e reputados analistas políticos e económicos produziram, nessa altura, abundante e útil informação sobre esta matéria, embora nem sempre suficientemente fiável, não conseguindo ultrapassar, por vezes, visões acentuadamente subjectivas e especulativas.Quando me convidou, em Junho de 1981, para integrar a sua equipa governativa, em formação em Lisboa logo após a sua nomeação, verifiquei que ele já tinha delineado um conjunto de medidas consistentes para consolidar o papel de Macau no reforço das relações luso-chinesas, na sequência do estabelecimento das relações diplomáticas em 1979. Era este um objectivo prioritário, definido em sintonia com as preocupações do Presidente da República, General António Ramalho Eanes, e com as iniciativas em curso no âmbito diplomático.Mostrava, por outro lado, ter uma percepção clara de que o sucesso da realização do seu ambicioso programa governativo iria depender também do beneplácito das autoridades chinesas, e já pressentia que algumas mudanças políticas em Hong Kong e em Macau podiam acontecer num prazo não muito dilatado. Por isso, acreditava na necessidade de uma maior participação cívica e política da população de Macau, numa Almeida e costa e as relações com a china“… quando assumi funções, não só os contornos do futuro de Macau eram mais perceptíveis como as reformas económicas de Deng Xiaoping estavam a ter crescente impacto no exterior”. Vasco de Almeida e Costa, depoimento obtido para a série televisiva “Macau entre dois Mundos”, 1999
  • 168F A l A r d e n ó s – VIIJ o r g e A . H . r A n g e l altura em que os chineses estavam ainda muito pouco envolvidos, desejando ao mesmo tempo uma colaboração eficaz das autoridades vizinhas.dia da china, feriado em MacauUma das suas primeiras iniciativas, de natureza eminentemente política, foi a oficialização, em Macau, do dia nacional da RPC, que passou a integrar a lista dos feriados. No depoimento obtido para a série “Macau entre dois Mundos” (1999), transmitida já várias vezes pela RTP, Vasco de Almeida e Costa explicou assim a sua decisão:“Ela constituía, por um lado, um sinal de identificação com a República Popular da China que o particular regime administrativo de Macau, ‘território sob administração portuguesa’, inteiramente justificava; por outro, era uma demonstração, de carácter programático, da vontade de querer intensificar as relações entre Macau e a China e teve repercussões muito positivas no domínio da cooperação e entendimento que o governo de Macau carecia para proceder à sua estratégia de desenvolvimento. Uma estratégia que tinha como pano de fundo, como era minha convicção, que a médio prazo Macau iria ser devolvido à China.De facto, em 1979, por ocasião do estabelecimento das relações diplomáticas entre Portugal e a China, ficara entendido que Macau seria devolvido à China quando uma das partes tomasse a iniciativa de pedir a abertura de negociações nesse sentido. Era de prever que a China não deixaria de tomar essa iniciativa desde que conseguisse controlar o complexo e multifacetado conjunto de interesses que convergiam para manter o ‘statu quo’ de Hong Kong. Era para mim óbvio que a solução em vigor na administração de Macau se mantinha por conveniências excluvisamente chinesas e que, assim sendo, o
  • 169 F A l A r d e n ó s – VII J o r g e A . H . r A n g e l seu governo tinha legitimidade para desenvolver a sua acção em prol dos interesses objectivos do território e da sua população. Deixaram de existir razões para inibições ou complexos na nossa relação com a República Popular da China, mesmo a respeito da transferência para a China da administração de Macau.O estabelecimento do dia 1 de Outubro como feriado no território quer-se, nesse sentido, como o primeiro símbolo de uma postura governativa que, entre 81 e 86, irá permitir a Macau conduzir uma política de desenvolvimento e modernização só possível com o aval tácito da RPC e a cooperação das autoridades de Guangdong e de Zhuhai”.Visitas oficiais a guangdong e a PequimDesde o início do seu mandato, Almeida e Costa deu continuidade aos esforços dos seus antecessores, Garcia Leandro e Melo Egídio, no sentido de tecer um bom relacionamento com as autoridades chinesas, podendo mesmo intensificá-las, uma vez que “não só os contornos do futuro de Macau eram mais perceptíveis como as reformas económicas de Deng Xiaoping estavam a ter crescente impacto no exterior.”Foram dirigidos convites a dirigentes vizinhos, gerando-se um fluxo intenso de deslocações oficiais de individualidades chinesas a Macau, tendo o Governador feito também visitas a Cantão e a outros pontos da província de Guangdong. “O Governo de Macau precisava que as autoridades chinesas estivessem receptivas às necessidades do processo de crescimento e desenvolvimento do território: conquista de terrenos ao mar, fornecimento de electricidade, abastecimento de água, controlo da imigração e segurança da fronteira, salubridade e muitos outros, próprios do dia-a-dia de uma
  • 170F A l A r d e n ó s – VIIJ o r g e A . H . r A n g e l cidade de dimensão média. Havia inúmeros domínios que requeriam uma resposta rápida e compreensiva por parte das autoridades da China. Como operações de relações públicas, estas visitas, mesmo quando não tinham resultados imediatos, representaram um importante contributo para estabelecer um frutuoso clima de entendimento pessoal que potenciou a abertura de vias para a solução dos diversos problemas que Macau tinha para resolver.”Em 1982, durante a visita oficial da Primeira-Ministra Margaret Thatcher a Pequim, foi anunciado que iriam ser abertas negociações com vista ao retorno de Hong Kong. Este facto fez aumentar ainda mais a atenção dos observdores e reforçar a curiosidade do mundo ocidental. “De algum modo, Macau era então, também uma pequena janela pela qual se podia espreitar esse gigante agora a dar sinais promissores de poder abandonar a doutrina comunista e proporcionar excelentes oportunidades de negócios aos investidores internacionais.” Por isso, também se intensificaram as visitas de políticos, diplomatas, académicos e homens de negócios de muitos países, com especial destaque para os da França, Inglaterra, Alemanha, EUA, Bélgica e Holanda. Até altas patentes da Esquadra Americana do Pacífico e o director da Agência Nova China em Hong Kong se avistaram com o Governador de Macau. “As autoridades chinesas com as quais ia contactando insistiam na confiança. A ideia chave a que as autoridades se atinham nos seus contactos com estrangeiros visava assegurar o princípio da manutenção da estabilidade e prosperidade de Hong Kong no quadro do sistema de economia ali vigente”.Pouco após a sua chegada a Macau em 1981, o representante local da RPC transmitiu ao Governador a sua disponibilidade para lhe proporcionar uma visital oficial a Pequim.
  • 171 F A l A r d e n ó s – VII J o r g e A . H . r A n g e l Por vontade do Governador, porém, ela só se realizou em Fevereiro de 1985, pouco antes da primeira visita de um Chefe do Estado Português à China. No mesmo depoimento, Almeida e Costa sintetizou a sua visita do seguinte modo:“Em Pequim, fui alvo de muitas distinções e beneficiei das desvanecedoras atenções em que os chineses são imbatíveis. Pude admirar a excepcional craveira dos seus altos dirigentes e a forma como estava organizado o Conselho de Estado. Porém, não vislumbrei nas conversas havidas quaisquer sinais que me permitissem concluir que se estavam a preparar para em breve pedir a abertura de negociações para a devolução de Macau à China. Explicitamente, não o fizeram.Ciente de os chineses falarem de forma elíptica e recorrerem muito a metáforas consultei muitas vezes o processo verbal dos encontros que tive e neles nada descobri que me esclarecesse. Recordo-me, no entanto, de que, comentando o tempo frio e seco que se fazia sentir (estava-se em Fevereiro e fazia muito frio em Pequim, 10 ou 15 graus negativos) o Presidente da China me disse estar para breve a chegada da Primavera e então se veriam os pássaros a voar alegremente. Ainda hoje me interrogo, em vão é certo, se a alusão poética do presidente chinês à chegada da Primavera não constituía o pré-anúncio do eventual surgimento de novidades quanto à questão de Macau”.Três meses volvidos, em Maio de 1985, o Presidente António Ramalho Eanes fazia a sua visita a Pequim e a Macau e o Primeiro-Ministro Zhao Ziyang anunciava oficialmente a intenção de abrir negociações para o retorno de Macau. Este processo avançou rapidamente, culminando na assinatura da Declaração Conjunta sobre a Questão de Macau, em 1987. Almeida e Costa deixou definitivamente o território em Janeiro de 1986, sendo substituído pelo Prof. Joaquim Pinto Machado, nomeado pelo novo
  • 172F A l A r d e n ó s – VIIJ o r g e A . H . r A n g e l Presidente da República, Dr. Mário Soares. Estava fixado o enquadramento político do período de transição.30 de Agosto de 2010
  • 173 F A l A r d e n ó s – VII J o r g e A . H . r A n g e l saudação e reconhecimentoÉ com natural regozijo que Macau acolhe uma vez mais o Encontro e a Assembleia Geral da AULP – Associação das Universidades de Língua Portuguesa. Mais de uma década após a transferência do exercício da soberania, este facto tem especial significado para nós, sendo uma evidência da continuidade das relações com o espaço lusófono no âmbito académico e cultural.Já quase no fim do período de transição, a AULP teve aqui, em 1998, o seu VIII Encontro, trazendo ao território os mais altos responsáveis de universidades e de outras instituições de ensino superior e centros de investigação dos Países de Língua Portuguesa. Era nosso propósito, em vésperas do estabelecimento da Região Administrativa Especial de Macau da República Popular da China, estreitar a cooperação e consolidar ligações para vigorarem para além da administração portuguesa.Na qualidade de Secretário para a Administração, Educação e Juventude e Encarregado do Governo, tive o privilégio de presidir à sessão de encerramento desse Encontro, proferindo um discurso, em representação do Governador Vasco Rocha Vieira, em que salientei a indispensabilidade da AULP na valorização cultural e intelectual do mundo lusófono e aproveitei para fazer algumas considerações oportunas sobre as políticas de educação e de juventude por nós prosseguidas, referindo ainda, em traços largos, os extraordinários desafios que o território enfrentava naqueles anos de mudança histórica. saudar a AulP em novo encontro em Macau“Todos quantos vivem neste pedaço do Extremo Oriente, alguns pertencentes a seculares gerações de macaenses, outros representando as novas gerações aqui nascidas ou radicadas, esperam renovar em vós um especial empenhamento neste desafio cada vez mais envolvente, de continuar a projecção de Macau para além dos limites do seu pequeno território e para além da nossa presença administrativa aqui.” Da saudação dirigida à AULP no seu VIII Encontro, em Macau, 1998
  • 174F A l A r d e n ó s – VIIJ o r g e A . H . r A n g e l Também expressei a convicção pessoal de que encontros como aquele podiam e deviam repetir-se na RAEM, o que, felizmente, veio a acontecer em 2003, 2006 e novamente agora, em Setembro de 2010. São merecedores do nosso aplauso a AULP e as instituições nela filiadas, pela decisão que foi em boa hora tomada, e quantos contribuíram para a sua realização, em condições dignas e úteis, nesta terra chinesa onde permanece viva a memória de Portugal e firme a vontade de se reforçarem os laços económicos e culturais com os Países de Língua Portuguesa. Ao Prof. Rui Martins, competente vice-reitor da Universidade de Macau e o impulsionador eficaz destes encontros em Macau, é devido o nosso reconhecimento, extensivo a todos os seus colaboradores.uma ambição legítimaNeste contexto, julgo de interesse, doze anos volvidos, recordar algumas das preocupações contidas no enquadramento político do período de transição que sinteticamente tracei naquele discurso de encerramento do Encontro de 1998: “A nossa memória civilizacional, altamente prestigiada no Oriente, inspira-nos para novos reencontros com a Europa e com o Mundo, na medida em que soubermos estreitar os laços da longa cadeia de instituições e comunidades lusófonas, que encontram em Macau um sustentáculo precioso para continuar uma vivência intercultural nesta vasta área, já fortemente apostada na tecnologia e na economia do séc. XXI, mas sempre carente duma mais enriquecedora presença humana que se consegue no convívio com outros povos e culturas. Ainda que o território apresente desarmonias e contradições provocadas pelo rápido desenvolvimento do espaço urbano, pelo crescimento económico
  • 175 F A l A r d e n ó s – VII J o r g e A . H . r A n g e l e até mesmo pela notória influência de Hong Kong, permanecem em Macau valores humanos e culturais que definem um projecto e caracterizam uma missão.Este ambicioso projecto, de assumir Macau como ponte de intercâmbio, entre a China e a Europa, entre a Ásia Oriental e o mundo latino, e esta multifacetada missão, de perpetuar um estabelecimento mundialmente respeitado e reconhecido, estarão ao nosso alcance se lhe quisermos dedicar não apenas uma reflexão momentânea mas uma disponibilidade para imediata e continuada actuação. O pioneirismo de intermediários dos portugueses e luso-descendentes pode mais uma vez superar as limitações geográficas. As capacidades de intercomunicação, de tolerância e de adaptação às condicionantes locais, que a comunidade lusófona sempre demonstrou, hão-de criar e desenvolver novos aspectos de intervenção social e ultrapassar inquietações ou incertezas.Todos quantos vivem neste pedaço do Extremo Oriente, alguns pertencentes a seculares gerações de macaenses, outros representando as novas gerações aqui nascidas ou radicadas, esperam renovar em vós um especial empenhamento neste desafio cada vez mais envolvente, de continuar a projecção de Macau para além dos limites do seu pequeno território e para além da nossa presença administrativa aqui. O desenvolvimento duma capacidade dinamizadora dos valores culturais, o intercâmbio de conhecimentos nos mais diversos e potenciais sectores e uma efectiva cooperação entre as instituições, possibilitam-nos partilhar toda a secular riqueza acumulada no património sócio-cultural que temos para oferecer uns aos outros.Longe fisicamente, mas sempre com Portugal no coração, chegámos ao limiar do novo milénio, depois de quase quatro séculos e meio de continuada presença. Presença
  • 176F A l A r d e n ó s – VIIJ o r g e A . H . r A n g e l que ajudou também a estabelecer e fortalecer o diálogo Ocidente/Oriente, que continua a ser de capital importância para o futuro da própria humanidade. Sem ignorarmos as dúvidas e inquietações, naturais e legítimas, nos períodos de mudança, cremos que não há grandes razões para se temer o dia de amanhã, se soubermos compreender o futuro que aqui se prepara. Confiamos e vamos prosseguir, com a lucidez, o pragmatismo e a determinação compatíveis com a importância dos desafios que nos são colocados nestes anos derradeiros da Administração Portuguesa, em que se constrói, para funcionar num contexto político-administrativo diferente, o Macau do século XXI”.Afirmar a AulPO tempo provou que estes nossos desafios de então estavam em perfeita consonância com a vocação que a RAEM quis e soube continuar a assumir em pleno. O sucesso deste esforço e a concretização desta vontade dependerão, contudo, da capacidade de resposta e do envolvimento activo e pragmático das mais relevantes instituições do mundo lusófono, entre as quais a AULP, em cujas actividades temos participado praticamente desde a primeira hora, acreditando nos objectivos que presidiram à sua criação.O programa aprovado para este XX Encontro da AULP, dedicado ao tema “A China, Macau e os Países de Língua Portuguesa”, vale pela diversidade e profundidade das comunicações incluídas. Aguarda-se com expectativa a sua apresentação e discussão, estando entre os oradores personalidades de elevado prestígio académico. Estão também previstas outras actividades, como a apresentação e mostra de edições, reuniões de trabalho, um encontro com representantes de universidades chinesas, eventos culturais e sociais e uma sessão especial no Instituto Internacional de Macau.
  • 177 F A l A r d e n ó s – VII J o r g e A . H . r A n g e l Merece, igualmente, menção a participação, neste Encontro, do Secretário Executivo da CPLP – Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, cujo papel é insubstituível no acompanhamento e na coordenação de iniciativas, em todas as áreas, no vasto espaço definido pela língua, raízes e interesses comuns. O Instituto Internacional de Macau, única entidade com sede na RAEM directamente ligada à CPLP, com o estatuto de “observador consultivo”, aceitou a missão de “observar” o seu funcionamento e junto dela marcar uma presença, ainda que não oficial, desta região especial chinesa que viu consagrado na sua Lei Básica o Português como uma das línguas oficiais. Só ganhará a CPLP se souber manter um relacionamento com Macau, respeitando os condicionalismos existentes, e se puder desenvolver uma parceria sólida com a AULP, instrumento precioso para o cumprimento da sua importantíssima missão.Também em 1998, expressei esta preocupação, que renovo agora, em relação ao papel e ao modo de funcionamento da AULP: importa que as actividades da Associação se desenvolvam com intensidade ao longo do ano e que cada novo Encontro seja apenas o momento alto da vida da Associação e a conclusão de um programa anual que se quer vasto e ambicioso, realizado em Lisboa e em todos os lugares onde os seus membros se situam, cabendo a cada um de nós afirmar a Associação nas comunidades, cidades e países onde funcionamos. Estará a AULP à altura deste desafio? Creio que no próximo Encontro, em Bragança, deverá ser dada a resposta adequada e convincente a esta questão.6 de Setembro de 2010
  • 178F A l A r d e n ó s – VIIJ o r g e A . H . r A n g e l Foram recordadas, recentemente, algumas das acções do governador Vasco de Almeida e Costa (1981-86) no reforço das relações com as autoridades chinesas, o que constituiu uma das maiores prioridades do seu programa governativo. No novo quadro político decorrente do estabelecimento, em 1979, das relações diplomáticas de Portugal com a República Popular da China, impunha-se que, sem dispensa da até então privilegiada e quase exclusiva ligação através de personalidades locais, os contactos fossem feitos cada vez mais directamente com os responsáveis provinciais e municipais vizinhos.Recorrendo a documentos oficiais e a relatos da época, para além dos meus apontamentos, bastante abundantes e úteis, é possível, com o distanciamento necessário, ter uma compreensão maior da relevância de medidas então tomadas e das suas repercussões na administração de Macau.Aceite o convite que lhe foi dirigido pelo governador, o presidente do Governo Popular da Província de Guangdong, Liang Ling Guang, personalidade prestigiada e influente junto das estruturas centrais do poder político chinês, passou quatro dias em Macau, em Agosto de 1983. Fez-se acompanhar de alguns altos responsáveis provinciais, nomeadamente o director do Gabinete de Assuntos Externos e o vice-presidente da Comissão de Assuntos Económicos, além do vice-presidente do Município de Zhuhai, cujos ambiciosos projectos começavam a tomar forma, paredes-meias com Macau. O presidente deste Município, Wu Jian Min, esteve em Macau, em Fevereiro do mesmo Visita que foi um marco nas relações Macau-guangdong“Nos últimos anos, tem sido boa a cooperação e a coordenação entre Guangdong e Macau. Especialmente, as visitas de autoridades, em que se trocaram directamente impressões, contribuíram muito positivamente para um maior entendimento e cooperação dos dois territórios”. Liang Ling Guang, presidente do Governo Provincial de Guangdong, Agosto de 1983
  • 179 F A l A r d e n ó s – VII J o r g e A . H . r A n g e l ano, a convite do governador Almeida e Costa, tendo assistido à cerimónia de assinatura do protocolo que definiu a execução dos novos aterros do Porto Exterior (NAPE).Alguns dias antes de Liang Ling Guang, era o próprio director da Agência Xinhua em Hong Kong, o mais alto representante do Governo Central na colónia britânica, que fazia uma visita de cortesia ao governador. Xu Jiatun deslocou-se a Macau com o subdirector da Agência, Li Chu Wen, tendo participado também no encontro O Cheng Peng, gerente-geral da firma Nam Kwong em Macau, e Cheang Wa, subgerente da mesma firma que representava então os interesses chineses no território. Um batalhão de jornalistas acompanhou esta visita, marcada pela cordialidade e pelo diálogo franco que se estabeleceu, tendo Vasco de Almeida e Costa aproveitado para dar aos ilustres visitantes uma panorâmica das linhas de acção do Governo quanto ao desenvolvimento do território e à intensificação da cooperação, num quadro de conjugação de esforços.Para os chamados “China watchers”, estas visitas de altas individualidades, uma após outra, foram vistas como sendo da maior importância política e um sinal claro do apoio da China às iniciativas governamentais locais. Esta opinião aparece reflectida em documentos produzidos em serviços diplomáticos de vários países e em artigos e notícias de incontornáveis órgãos de comunicação social, como o South China Morning Post e a Far Eastern Economic Review, ambos com informação reconhecidamente fidedigna e análises bem elaboradas sobre a evolução da China, em conformidade com as surpreendentes reformas impulsionadas por Deng Xiaoping.Recebido pelo governador nas Portas do Cerco e por ele acompanhado até a fronteira na hora da partida, respectivamente nos dias 22 e 25 de Agosto, Liang Ling Guang fez,
  • 180F A l A r d e n ó s – VIIJ o r g e A . H . r A n g e l em várias ocasiões, declarações que foram entendidas como manifestações de apoio das autoridades da República Popular da China ao modelo de desenvolvimento encontrado para o território e também aos projectos concretos que com esse desenvolvimento se relacionavam. De facto, sobretudo a partir de então, nunca mais surgiram dificuldades resultantes da falta de comunicação com os responsáveis provinciais, tornando-se constantes os encontros com eles de secretários-adjuntos, directores de serviços, assessores e técnicos superiores da Administração Pública de Macau. Eu próprio liderei várias delegações locais nessas deslocações, que se estenderam depois até Pequim, podendo testemunhar que o acesso facultado às entidades oficiais chinesas facilitou imenso a nossa acção governativa e o trabalho de empresários e investidores locais.Envergando ainda o uniforme à Mao no momento da chegada, Liang Ling Guang optou logo por um fato de bom corte e gravata a condizer (estes pormenores eram sempre observados com atenção e interpretados pelo significado) nos encontros com o governador e com outras entidades, públicas e privadas. Sempre sorridente e simples no trato, deixou em todos uma excelente impressão, conseguindo a sua bonomia e informalidade quebrar o distanciamento que a população local julgava existir em tão alta individualidade, o que também tornou menos árduo o trabalho das muitas dezenas de jornalistas que queriam fazer uma cobertura completa de todos os pontos do programa, que incluiu uma visita de cortesia ao governador e duas reuniões de trabalho com ele, uma das quais envolvendo também os secretários-adjuntos e onde foram abertamente colocadas todas as questões que podiam interessar às duas partes; visitas aos principais empreendimentos em curso, a locais de interesse cultural e turístico e às sedes da Associação Comercial e da Associação Geral dos Operários; jantar de boas-vindas no Palácio da Praia Grande, jantar oferecido pela Associação Comercial e, como último acto oficial, jantar de retribuição presidido por Liang Ling Guang, num hotel da cidade.
  • 181 F A l A r d e n ó s – VII J o r g e A . H . r A n g e l Cuidadoso nas suas declarações, foram particularmente expressivas as afirmações do dirigente chinês, como estas por ele proferidas no jantar de boas-vindas:“Nos últimos anos, tem sido boa a cooperação e a coordenação entre Guangdong e Macau. Especialmente, as visitas de autoridades, em que se trocaram directamente impressões, contribuíram muito positivamente para um maior entendimento e cooperação dos dois territórios. No campo económico, além do incremento incessante dos laços económicos tradicionais, Guangdong e Macau colaboram ainda na realização de muitos e novos empreendimentos, com a promoção ainda maior do desenvolvimento económico dos dois territórios. A história e a realidade demonstram plenamente que a existência de boas relações e cooperação entre Guangdong e Macau é sempre benéfica à prosperidade e estabilidade dos dois territórios. Acelerar a edificação económica de Guangdong é benéfico para Macau, enquanto uma situação próspera e estável em Macau é também vantajosa pra Guangdong. Gostamos de ver um Macau economicamente desenvolvido e socialmente estável. Estamos dispostos a promover constantemente as relações de amizade e de cooperação entre ambas as partes, esforçando-nos por levar a um nível ainda mais alto esta boa situação, que ambas as partes alcançaram”.E estas outras, à guisa de despedida, no jantar final:“Esta visita, apesar do tempo muito curto, deixou-nos muito belas e profundas impressões. (…) Macau tem obtido êxitos significativos no seu desenvolvimento económico, nas obras públicas e nos demais sectores, como o turismo, a cultura, a educação, a saúde e o bem-estar público. (…) Macau está em desenvolvimento e tem ainda muito que fazer. E, por nosso lado, daremos como sempre, e à medida das possibilidades, o nosso apoio e ajuda em tudo quanto favoreça uma maior prosperidade
  • 182F A l A r d e n ó s – VIIJ o r g e A . H . r A n g e l e estabilidade de Macau. (…) Macau e Guangdong são vizinhos e as suas relações têm sido construtivas, alcançando-se bons resultados. Os compatriotas chineses, que amam a Mãe-Pátria e a terra natal, têm prestado grande atenção e apoio ao crescimento de Guangdong. Daqui em diante, para acelerar a edificação económica da província, haverá entre Guangdong e Macau largos campos de cooperação, com belas perspectivas. (…) Em resumo, desejamos continuar a fortalecer as relações de amizade e de cooperação entre Guangdong e Macau, e estreitar todos os laços que sejam benéficos à promoção da prosperidade e progresso dos dois territórios”.Os resultados práticos desta visita foram, efectivamente, muito positivos, podendo ela ser classificada como um marco relevantíssimo no fortalecimento da cooperação de Macau com a Província de Guangdong e o Município de Zhuhai. Muito mais do que uma barreira alfandegária ou linha de separação fronteiriça, as Portas do Cerco passaram a ser cada vez mais um canal de intensa comunicação, abrangendo a cooperação estabelecida as mais diversificadas áreas, da segurança à educação, das obras públicas aos investimentos e do planeamento às relações comerciais, numa lógica de complementaridade de interesses.Nesse mesmo ano, em Dezembro, Ho Yin, o intermediário por excelência a quem Macau muito ficou a dever, falecia no hospital Queen Elizabeth, de Hong Kong. A sua missão estava cumprida.13 de Setembro de 2010
  • 183 F A l A r d e n ó s – VII J o r g e A . H . r A n g e l Se o fortalecimento das relações com as autoridades chinesas constituiu prioridade na acção política do Governador Vasco de Almeida e Costa, tendo desencadeado logo após a sua chegada, em 1981, um conjunto de iniciativas muito bem recebidas neste domínio, também os contactos com outros países desta área geográfica e com Hong Kong mereceram a sua maior atenção, estendendo-se eles, pouco depois, até à Europa e aos Estados Unidos da América. A presença de Macau em encontros, reuniões técnicas, feiras, exposições, festivais, congressos e conferências internacionais, estimulada e consolidada pelos seus antecessores, foi sendo rapidamente ampliada nos primeiros anos da década de 80 do século passado.Particularmente interessante foi o convite para o Governador de Macau se deslocar à costa ocidental dos E.U.A., em Setembro de 1983, para participar no Festival Cabrilho (Cabrillo Festival) em San Diego, como convidado de honra. Estando em preparação para essa altura uma grande promoção turística do território, fez-se a coordenação das datas e da sucessão dos eventos, por forma a garantir a sua presença em várias cidades norte-americanas. Acompanhei-o numa parte desta visita, juntamente com o então director dos Serviços de Turismo, Joaquim Marinho de Bastos.Honolulu, a primeira etapaEm Honolulu, primeira etapa da visita, Almeida e Costa foi obsequiado com uma recepção oficial pelo Governador do Estado do Havai, George Aryioshi, e foi recebido, com todas as honras protocolares, no navio-escola Sagres que, por feliz coincidência, se encontrava em Pearl Harbour, numa paragem da sua viagem à volta do mundo, sob o comando do Capitão de Fragata Homem de Gouveia. Também teve encontros com a governador convidado de honra no Festival cabrilho (califórnia)“Quanto aos macaenses dos Estados Unidos, considero que são um conjunto de portugueses de alta qualidade, superior aos padrões habituais da emigração portuguesa para aquele país. (…) no plano da sua posição social, da sua capacidade e preparação, é um grupo notável”. Vasco de Almeida e Costa, no regresso dos E.U.A.,1983
  • 184F A l A r d e n ó s – VIIJ o r g e A . H . r A n g e l “Mayor” de Honolulu, Eileen Anderson, e com o Cônsul Honorário de Portugal, John Henry Felix, personalidade inesquecível, descendente de imigrantes madeirenses, autor do livro “The Portuguese in Hawaii” e grande coleccionador de arte chinesa.Além duma conferência de imprensa em que o tema foi o desenvolvimento e o futuro de Macau, Almeida e Costa deu uma longa entrevista, em directo, num conhecido programa de rádio, e respondeu às perguntas dos ouvintes, tendo aproveitado para se dirigir à comunidade luso-americana, para realçar e elogiar os seus esforços na manutenção dos laços culturais e afectivos com Portugal. No encontro com jornalistas, Almeida e Costa referiu a situação económica estável de Macau, não obstante alguma crise de confiança em Hong Kong, e anunciou a instalação no território de, pelo menos, mais cinco bancos, voltados essencialmente para a área do “off-shore”. Sublinhou também a “prioridade concedida à dotação do território de novas infra-estruturas, questão condicionante do desenvolvimento”. no Festival cabrilho, em san diegoEm San Diego, o Festival Cabrilho, realizado anualmente para comemorar a chegada, em 1542, do navegador português João Rodrigues Cabrilho à costa da Califórnia, preencheu largamente o programa da visita do Governador de Macau. Depois do habitual desfile de grupos cívicos e culturais, Almeida e Costa foi convidado a usar da palavra no “Portuguese Hall”, onde se encerraram os actos comemorativos, na presença de autoridades representativas de Portugal, Espanha, México e Estados Unidos, além dos titulares dos órgãos sociais de muitas associações portuguesas e luso-americanas. Começou por transmitir uma saudação do Presidente da República Portuguesa, General
  • 185 F A l A r d e n ó s – VII J o r g e A . H . r A n g e l António Ramalho Eanes, e expressou “votos para que festas como aquela, na qual tantos portugueses estão envolvidos, sejam elos a unificar toda a comunidade”. Salientou, igualmente, o facto de Macau “ser um local onde os povos chinês e português vivem lado a lado, em paz e harmonia, há mais de 400 anos”. Também se dirigiu a cerca de 80 operadores turísticos, num encontro promovido pelos Serviços de Turismo de Macau, referindo as “condições já existentes no território para proporcionar alojamento moderno e de primeira classe aos visitantes que desejem ali permanecer” e chamando a atenção para “as potencialidades de Macau como destino turístico, onde quatro séculos de presença portuguesa lhe deram características únicas”. No Festival Cabrilho actuaram a Tuna Macaense e o Grupo Folclórico do Hotel Lisboa, que emprestaram aos festejos uma dimensão diferente, ao transmitirem uma imagem da presença portuguesa no Extremo Oriente.em são Francisco, com a uMAA etapa final foi São Francisco, onde a União Macaense Americana (UMA) aguardava o Governador de Macau, dele recebendo garantias de estabilidade e de desenvolvimento na terra-mãe, graças às circunstâncias favoráveis que lhe permitiram ver a taxa de crescimento das exportações situar-se nos vinte por cento relativamente ao ano anterior, em resultado também da recuperação económica dos E.U.A. e da “boa colaboração existente entre o Governo, os empresários, os trabalhadores e as próprias autoridades chinesas”. Neste âmbito, foi salientado “o clima de diálogo que caracteriza as relações entre Macau e a República Popular da China”. O convívio com a comunidade macaense da Califórnia foi muito agradável e bem participado, sentindo ela a satisfação de ver ao
  • 186F A l A r d e n ó s – VIIJ o r g e A . H . r A n g e l seu lado o primeiro responsável e representante dos órgãos de soberania de Portugal no território e dele ouvir palavras de confiança, numa altura em que se experimentavam dificuldades em Hong Kong, pelas dúvidas que se levantavam quanto à evolução da situação política face às intenções já expressas pelas autoridades chinesas. Por deliberação unânime do seu corpo directivo, Almeida e Costa foi proclamado membro honorário da UMA.Também em São Francisco houve um encontro com operadores turísticos. Foi exibido o filme “Destination Macau” e voltaram a actuar a Tuna Macaense e o Grupo Folclórico do Hotel Lisboa, tendo o Governador sublinhado as características e os atractivos do território e explicado o objectivo principal desta missão turística, que era o de informar o mercado norte-americano dos novos equipamentos turísticos de Macau, das melhorias nas ligações marítimas entre Hong Kong e Macau, da decisão por ele recentemente tomada de abolição de vistos de entrada para cidadãos norte-americanos e do crescimento do movimento turístico, registando-se, no ano anterior, a entrada de mais de sessenta mil visitantes dos Estados Unidos, o que representou um aumento de cerca de vinte por cento. Ainda em São Francisco, foi entregue ao Governador uma resolução do Senado estadual em que se enaltecia o trabalho da Administração de Macau em prol da vitalidade e progresso do território.Balanço oficial da visitaFazendo o balanço final da visita, no encontro que teve com jornalistas imediatamente após o regresso, o Governador de Macau referiu o sucesso das acções promocionais realizadas, “que deixaram, em toda a parte, a melhor das impressões”. Quanto aos
  • 187 F A l A r d e n ó s – VII J o r g e A . H . r A n g e l macaenses residentes nos E.U.A., revelou o seu alto apreço por eles, considerando que “são um conjunto de portugueses de alta qualidade, superior aos padrões habituais da emigração portuguesa para aquele país; sendo um grupo não muito numeroso, no plano da sua posição social, da sua capacidade e preparação, é um grupo notável; e tem os olhos sempre postos em Macau, sendo merecedor do nosso respeito e da nossa gratidão”.De facto, numa altura em que algumas nuvens negras cobriam os céus de Hong Kong, despertando angústias sobre o seu futuro, foi importante afirmar essa posição de confiança e desenvolver um conjunto coerente de iniciativas que visaram consolidar o estatuto de Macau e projectar a sua imagem correcta no exterior. Durante a visita, houve mesmo turbulências sérias nos mercados financeiros, que chegaram a provocar a queda do valor da moeda de Hong Kong, até se verificar uma intervenção mais determinada das autoridades da colónia britânica. Embora longe, Almeida e Costa acompanhou “pari passu” a situação, em articulação permanente com o Secretário-Adjunto João da Costa Pinto e com o Instituto Emissor de Macau, tomando as decisões convenientes para que a pataca não fosse afectada, por arrastamento, dada a relação estreita entre as duas moedas.20 de Setembro de 2010
  • 188F A l A r d e n ó s – VIIJ o r g e A . H . r A n g e l Foi há precisamente 70 anos que a Alemanha, a Itália e o Japão reforçaram a sua aliança, dando maior consistência e ímpeto decisivo às suas ambições territoriais. Vem, pois, a propósito, na sequência de outros artigos e crónicas inseridos neste espaço, referir de novo a presença japonesa em Macau durante a 2.a Guerra Mundial e o livro “Portas do Cerco – a ténue fronteira no conflito sino-japonês de 1894 a 1945”, edição do Instituto Internacional de Macau, de Junho de 2004. O seu autor, Cândido do Carmo Azevedo, professor coordenador do Instituto Politécnico de Macau, aborda o assunto e sintetiza o tema da seguinte forma:sérias ameaças“A partir dos finais dos anos trinta, Macau tornara-se num centro de refúgio para todos os alarmados chineses e portugueses das regiões limítrofes da China e para muitos de Hong Kong, ingleses incluídos, por considerarem inevitável uma próxima guerra entre japoneses e anglo-americanos. É que o Japão começara a alinhar com a Alemanha e Itália preparando-se para assinar o Pacto Tripartido, comprometendo-se todos a um mútuo apoio, ‘por todos os meios políticos, económicos e militares’, em caso de ataque por uma potência não envolvida na guerra europeia nem no conflito sino-japonês. Este acordo vem a ser assinado a 27 de Setembro de 1940.Portugal, pequeno país e com vastas colónias, consciente da sua fraqueza, optara por uma política de neutralidade. Ciente da impossibilidade de socorrer Macau, acompanhava, dizia-se, com apreensão o futuro desta pequena e longínqua colónia, único pedaço de terra neutral no Extremo Oriente. Comprovando a sua neutralidade permitira até a abertura de um consulado japonês.os japoneses em Macau na guerra do Pacífico“Macau vivia o período mais crítico da sua secular história. Foi o único porto de abrigo no teatro bélico do Extremo Oriente”. Cândido do Carmo Azevedo, “Portas do Cerco – a ténue fronteira no conflito sino-japonês de 1894 a 1945”
  • 189 F A l A r d e n ó s – VII J o r g e A . H . r A n g e l Desta forma, tornou-se Macau um porto de salvamento. Logo viu a sua população duplicada, provocando uma situação anormal e desusada, com a agravante da chegada da cólera e sem alojamentos suficientes. De imediato começam as campanhas de vacinação e crescem os centros de apoio aos refugiados, redobrando de trabalhos as organizações assistenciais. Não foi o suficiente. A fome e a desinteria começavam a ceifar dezenas de vidas por dia.O comércio vivia porém um momento extraordinário e rico, porque Macau havia-se transformado em porto distribuidor de fornecimentos para a China Livre. A cidade vivia inundada em dinheiro proveniente deste comércio.O prazer e a alegria continuavam a reinar, não só no Hotel Riviera, sempre com uma clientela mais seleccionada, mas também no casino e no ‘night-club’ do Hotel Central, local que mais atraía os japoneses e muitos refugiados estrangeiros endinheirados, e no Grand Hotel Kuoc Chai, porque próximo do porto, mais frequentado por uma clientela chinesa rica, mas de origem duvidosa. Todos ofereciam ‘empolgantes momentos de descontracção, com atraentes dançarinas ou bailarinas escolhidas, e o som dos mais belos trechos das últimas novidades em música de dança, executados por excelentes orquestras regidas por publicitados maestros’ como C. Amper, Eddie Guzman e outros. Todos estes grupos endinheirados frequentavam bons restaurantes, sendo o Fat Siu Lau e o Golden Gate os preferidos de então, onde bonitas damas chinesas eram vistas na companhia de oficiais japoneses.A Areia Preta voltava a animar-se com as corridas de cavalos e o tiro, pois estas práticas cativam grande parte dos refugiados. Também por aqui namoram e dançam os
  • 190F A l A r d e n ó s – VIIJ o r g e A . H . r A n g e l jovens macaenses, em festas organizadas no Clube Melco. Qual contradição esquecem as suas dificuldades ouvindo as músicas em voga: ‘Serenade, Moonlight, Because of you, May Be, ...’. Outros, cuidam da força e beleza do corpo na Escola de Educação Física Veríssimo do Rosário. Em 1940 os amantes do futebol vêem inaugurado o seu ‘Estádio 28 de Maio’. Um tanto esquecida da guerra, esta elite de diferentes nacionalidades, em são convívio, joga também o golf e, a 2 de Dezembro de 1942, o vencedor do torneio é ... o Senhor Fukui, o cônsul do Japão em Macau.Tudo isto contrariando a guerra feroz e sem quartel que se verificava para lá das Portas do Cerco e que ameaçava os países limítrofes, pois estava agora aberto o caminho para o petróleo, borracha, minérios e outras riquezas do Sudeste Asiático.Para agravamento desta preocupação, tropas australianas, inglesas e holandesas violam a neutralidade portuguesa em Timor ocupando esta ilha a 19 de Dezembro de 1941, o que levou a admitir a desagradável posssibilidade dos japoneses, como represália, ocuparem Macau, pois eram visíveis os sinais de o fazerem em Timor, o que veio a acontecer no início do ano seguinte.”Intranquilidade crescente“Serenamente, e sem grandes alarmes, o governo de Macau pouco a pouco preparava-se, caso houvesse necessidade, para uma certa resistência, criando nas Portas do Cerco e na Ilha Verde linhas de abrigos subterrâneos com posições para metralhadoras pesadas. (...)
  • 191 F A l A r d e n ó s – VII J o r g e A . H . r A n g e l Em boa verdade, para um pequeno território, com 19 Km2, não se poderia dizer que estivesse mal armado, mas seguramente ineficaz para enfrentar regimentos de um exército arrasador como o japonês.O estatuto de neutralidade, a desconfiança dos japoneses e a vida de prazeres fez com que pouco a pouco chefes militares e navais japoneses se instalassem à paisana em Macau, exercendo uma vigilância discreta sobre os anti-nipónicos e espiando o movimento comercial do porto, pois suspeitavam que este abastecia a China Livre. Prova disso eram os irreconhecíveis e mutilados corpos que de quando em vez apareciam nas águas barrentas do Porto Interior. Foram dias de grande ansiedade, num ambiente tenso.Com o ataque ao porto de Pearl Harbour, no Hawai, a 7 de Dezembro de 1941, o Japão iniciava a primeira fase da sua estratégia no Pacífico que incluía a ocupação da Tailândia, Malásia, Índias Orientais Holandesas e Filipinas, criando um perímetro defensivo desde as ilhas Curilas até à Birmânia, através do Pacífico Central. Assim, a 8 de Dezembro a cidade de Hong Kong é atacada. Os dois couraçados ingleses que viriam em seu socorro são afundados pela aviação nipónica ao largo da península de Malaca. Ao lado das reduzidas forças britânicas e canadianas batem-se muitos macaenses do Corpo de Voluntários. Numa batalha desigual dá-se a rendição no dia de Natal. Os japoneses estavam imparáveis.As forças militares e policiais de Macau entram em prevenção rigorosa no receio de que os japoneses avançassem pelas Portas do Cerco, para englobar Macau naquilo a que eles chamavam de ‘esfera da co-prosperidade da grande Ásia Oriental’. As ordens vindas de Lisboa eram claras: ‘defender, caindo com honra’.
  • 192F A l A r d e n ó s – VIIJ o r g e A . H . r A n g e l Em Macau instalava-se o terror. Entrariam os japoneses? Começava a corrida aos bens e géneros que, mesmo com preços 400% superiores, rapidamente desaparecem dos mercados. Intervém o Governo criando normas para a aquisição do pão e do arroz e vê-se na necessidade de fornecer aos funcionários públicos, através da Comissão Reguladora das Importações, os géneros mais indispensáveis a preços muito inferiores. Estes, pelas dificuldades que passavam, são autorizados a irem trabalhar para as suas repartições de... calções e chinelos.”Estes relatos das investidas bélicas nipónicas e da presença dos japoneses na China, em Hong Kong e em Macau, interessam ainda a muitos leitores de hoje, ávidos de melhor conhecerem a vida nestas paragens, num período de enormes dificuldades e incertezas para quantos viviam neste território abençoado por Deus e iluminado pelo farol da liberdade. Recomenda-se a leitura desta obra. 27 de Setembro de 2010
  • 193 F A l A r d e n ó s – VII J o r g e A . H . r A n g e l Retomamos o tema do artigo anterior, transcrevendo mais estes esclarecedores trechos do livro “Portas do Cerco – a ténue fronteira no conflito sino-japonês de 1894 a 1945”:Atitudes afrontosas e insuportáveis“Os navios portugueses que normalmente traziam do exterior produtos e carvão para a energia eléctrica, como o ‘Wing Wah’, o ‘Ching Cheong’ e o ‘Pérola’, vêem-se impedidos pelos japoneses de circularem em águas internacionais, com a desculpa da necessidade de impedir que a espionagem pudesse desvendar o movimento da armada e do exército nipónicos.Cessavam igualmente as exportações rentáveis para a China Livre. A entrada de géneros alimentícios reduz-se, entrando pelas carreiras marítimas permitidas de Hong Kong e Cantão ou via terrestre pelas Portas do Cerco, onde eram exageradamente colectados pelas tropas nipónicas, partidários chineses ou pelos guerrilheiros independentes.Foi inevitável a oscilação dos câmbios fazendo com que a moeda corrente, a pataca, mudasse de valor diversas vezes ao dia, dando a sua compra e venda origem a lucros fabulosos. Aqui circulava o dólar americano muito abaixo do seu valor, o dólar de Hong Kong, o dinheiro chinês ‘Fat Pai’, do Governo chinês pró-nipónico, o ‘Chio-Hun’ de prata do governo de Cantão e o ‘Tai-Iong’ do governo nacionalista.O Governador Gabriel Teixeira convocava muitas vezes o Cônsul do Japão ou o Adido Militar Japonês, entretanto aqui instalado, exercendo uma diplomacia de tolerância, Macau, porto de abrigo na guerra sino-japonesa“Com o correr do tempo foi cada vez maior a entrada dos japoneses, tornando-se as suas atitudes afrontosas e insuportáveis”. Cândido do Carmo Azevedo, “Portas do Cerco – a ténue fronteira no conflito sino-japonês de 1894 a 1945”
  • 194F A l A r d e n ó s – VIIJ o r g e A . H . r A n g e l como quem reconhecesse a sua impotência perante um país ameaçador e com ânsia de domínio. Desta forma remediava os pequenos conflitos que se geravam nas águas de Macau, onde pequenos navios a motor da Marinha de Guerra japonesa, disfarçados de barcos de recreio, provocavam algum mal-estar. As vedetas e lanchas da Polícia Marítima, que protegiam as pequenas sampanas de pesca contra indiscriminados actos de pirataria, foram impedidos pelo Governo de fazerem fogo, para não agravarem ainda mais uma situação já de si tão crítica.Com o correr do tempo foi cada vez maior a entrada dos japoneses, tornando-se as suas atitudes afrontosas e insuportáveis. Percorriam por vezes Macau fardados e armados, como se fosse terreno conquistado, onde impunham e exigiam como vencedores.Dia a dia as suas exigências aumentavam. Quando não satisfeitas pelas autoridades portuguesas, exerciam represálias. São exemplo disso o bloqueio marítimo imposto no canal da ilha da Lapa através de uma canhoneira chinesa pró-japonesa, ou a cedência de alguns canhões antigos que existiam na fortaleza da Guia, em troca da entrada de arroz para uma população faminta.A referida canhoneira chinesa pró-japonesa no canal da Lapa, não se limitava ao bloqueio marítimo mas desembarcava soldados armados que pilhavam as margens das ilhas da Taipa e Coloane, chegando a ameaçar as vedetas da Polícia Marítima. A sua afronta chegou ao ponto de atacar a pequena guarnição militar existente na Ilha da Lapa, onde faleceu com dois tiros um militar português africano, deixando os restantes feridos.
  • 195 F A l A r d e n ó s – VII J o r g e A . H . r A n g e l Com estes actos e bloqueios todo o comércio baseado com o exterior de Macau caía nas mãos dos japoneses. Pese embora toda a ameaça, um pequeno grupo de corajosos contrabandistas continuava a arriscar a vida sem o qual a situação económica e alimentar seria ainda pior. Com géneros insuficientes, a fome e a epidemia de cólera continuavam a ceifar diariamente dezenas de vidas. Depois seguiu-se a desenfreada miséria que trouxe aspectos de crueldade e repugnância.Agora, os únicos clientes do Hotel Central e dos seus famosos restaurantes Golden Gate e Golden City, eram os japoneses com a sua corte de admiradores e seguidores.”Porto de abrigo“Macau vivia o período mais crítico da sua secular história. Foi o único porto de abrigo no teatro bélico do Extremo Oriente. Náo só para os chineses de toda a espécie, partido e condição, como também para ingleses, americanos, alemães, japoneses, italianos, franceses e irlandeses, todos eles refugiados das comunidades estrangeiras de Hong Kong.Teatros, clubes, escolas vazias, e até um grande navio no Porto Interior, o Sai-On, abrigavam os fugitivos. Os mais miseráveis deitavam-se à beira dos passeios num estendal de miséria, expondo as crianças subalimentadas na tentativa de despertarem compaixão.Misturados na enorme multidão de gente pacífica, bandidos escondidos na noite aterrorizavam a população com assaltos à mão armada. A manutenção da ordem originou muitas vítimas à Polícia de Segurança Pública.
  • 196F A l A r d e n ó s – VIIJ o r g e A . H . r A n g e l A chegada de combustível destinado aos japoneses em Cantão, e a neutralidade pró-japonesa, no ponto de vista dos americanos, fez com que por cinco vezes Macau fosse bombardeada pelos aviões aliados, a famosa Task Force 38, pelo que o simples roncar de um avião infundia pavor instalando-se o caos.Apesar de todo este ambiente não eram poucos os concertos, récitas, rifas e subscrições para angariação de fundos para apoio aos refugiados ou para serem enviados para a comunidade portuguesa de Xangai que vivia em condições terríveis, mesmo com fome. Nos finais de 1943, esgotados os alojamentos, as corridas de cães deixam de se realizar, transformando-se o novo Canídromo na Casa dos Pobres, sendo construídas por baixo das bancadas instalações como dormitórios, cozinhas, refeitórios, etc.. Não foi ainda suficiente. Encerrou-se a fabrica de panchões Hin In no Bairro Tamagnini Barbosa que assim alojou mais alguns milhares.Por toda a cidade se montavam cozinhas económicas. Instituições como a Conferência de S. Vicente de Paulo, Associação da Imprensa de Macau, Acção Católica, Casa de Beneficência Tong Sin Tong, Associação da Mocidade, Associação de Senhoras de Macau, etc., desenvolviam as campanhas possíveis a favor dos pobres. A própria Polícia dedicava-se a obras de bem-fazer, criando três grandes obras: a Casa dos Pobres, o Asilo das Crianças abandonadas e o Refúgio dos Mendigos.Enquanto dezenas de milhares de cidadãos dependiam agora das senhas de racionamento, os japoneses continuavam a encher o Hotel Central, os seus restaurantes, casino e ‘night-club’, locais onde bastas vezes representantes japoneses e portugueses, destes últimos destacava-se Pedro José Lobo, num jogo mútuo de cedências, negociavam os passos do dia seguinte visando aliviar o sofrimento da população.
  • 197 F A l A r d e n ó s – VII J o r g e A . H . r A n g e l E eram tantos os japoneses que frequentavam o Território que pelas 21.30 o Rádio Clube de Macau fornecia um noticiário em japonês. (...)Este livro – de que já existem poucos exemplares – de Cândido do Carmo Azevedo, professor do Instituto Politécnico de Macau, publicado em 2004 pelo Instituto Internacional de Macau, é um contributo relevante para um melhor conhecimento de um dos mais difíceis períodos da história de Macau.4 de Outubro de 2010
  • 198F A l A r d e n ó s – VIIJ o r g e A . H . r A n g e l Procurámos, nos dois artigos anteriores, recordar, através de alguns trechos do livro “Portas do Cerco – a ténue fronteira no conflito sino-japonês” (de Cândido do Carmo Azevedo, Instituto Internacional de Macau, Junho de 2004), os efeitos, em Macau, da ocupação nipónica da China. O estatuto de neutralidade assumido por Portugal permitiu que Macau ficasse fora do plano geral de expansão do Império do Sol Nascente, mas aqueles tempos de enormes carências e constantes ameaças foram extremamente difíceis para as autoridades locais e para a população. Mesmo assim, e não obstante a sua reduzida dimensão e a insuficência de recursos, Macau cumpriu a sua vocação histórica e serviu de porto de abrigo e centro de acolhimento para quantos aqui vieram buscar refúgio e paz.O potencial bélico dos japoneses era tão impressionantemente assustador que muitos acreditaram, então, na sua invencibilidade e no seu inevitável domínio. Por isso, enquanto os povos desta área geográfica sentiam na carne e na alma os malefícios da ocupação, crescia o número de admiradores e apoiantes do grande projecto da Ásia Maior Oriental, cuja sustentabilidade parecia garantida, a longo prazo, pelas autoridades nipónicas. Foi, assim, com surpresa, que se assistiu ao fim desse mito de invencibilidade, que Cândido do Carmo Azevedo resumiu deste modo:“Os japoneses, em apenas oito meses, conquistaram toda a Ásia do Sudeste, até à Península Malaia. Ao Norte o seu domínio estendia-se às ilhas Curilas, a Este às ilhas Marshall e a Sul às ilhas do arquipélago de Salomão.Porém, ao tentar estender-se para Sul pretendendo conquistar Port Moresby na parte Sul de Papua a 4 de Maio de 1942, o Japão pela primeira vez vacila numa batalha o fim do mito da invencibilidade japonesa“A 15 de Agosto do mesmo ano (1945) o Japão rendia-se, assinando os termos da rendição a 2 de Setembro.Acabava aqui a ambição expansionista do Império do Sol Nascente”. Cândido do Carmo Azevedo, “Portas do Cerco – a ténue fronteira no conflito sino-japonês de 1894 a 1945”
  • 199 F A l A r d e n ó s – VII J o r g e A . H . r A n g e l naval que se quedou por um empate táctico, perdendo o porta-aviões Shoho e uma centena de aviões. Foi a batalha do Mar de Coral. Mas insistem em novos domínios e, protegidos agora pelos novos e arrasadores canhões T-92 de 105 mm, ocupam a Birmânia em Maio de 1942. A estrada da Birmânia, de acesso à China, é fechada nesta altura o que veio impedir o abastecimento ao Governo Chinês de Chunking. Tratando-se de um abastecimento importante para este governo, reiniciou-se através da Índia, primeiro, por uma ponte aérea de emergência de cerca de 800 Km de extensão, voando os C-47 por cima dos Himalaias e, depois, por estrada a partir da cidade de Ledo, na Índia.De 3 a 6 de Junho de 1942 trava-se uma nova batalha naval de grandes proporções onde os americanos impedem os japoneses de conquistar o arquipélago de Midway, a Noroeste de Havai, impedindo o controle nipónico do Pacífico Norte. Aqui o Almirante Isoroku Yamamoto sofre a primeira grande derrota e vê mais alguns dos seus porta-aviões serem destruídos, nomeadamente o Akagi, Kaga, Hiryu e Soryu. Estava arruinada a capacidade de ataque japonês a longa distância. Festejaram a vitória os americanos dos porta-aviões Hornett, Yorktown e Enterprise. O mito da invencibilidade japonesa sofria um rude golpe.A partir de 1942 os aliados criavam duas frentes no Pacífico, comandadas respectivamente pelo general Douglas MacArthur, a do Pacífico Sudeste, e pelo almirante William Halley, a do Pacífico Sul.A entrada dos Estados Unidos da América na guerra contra do Japão a 8 de Dezembro de 1941 dá um novo alento aos nacionalistas de Chiang Kai Shek. Através da Estrada da Birmânia os americanos recomeçam o apoio ao governo de Chunking
  • 200F A l A r d e n ó s – VIIJ o r g e A . H . r A n g e l com artilharia, tanques e aviões. Inclusive o general norte-americano Joseph Stilwell é nomeado para servir como conselheiro militar do Generalíssimo Chiang. As lutas são agora mais equilibradas, pese embora as estrondosas derrotas de generais chineses tais como o general Chen, Comandante da 8.a divisão do 27.o Corpo do Exército de Chunking, e do general Chuh Sin Chi, a 3 de Setembro de 1943, da 35.a formação de vanguarda do Exército de Chunking na região Oriental de Shandong.Com a 14.a Brigada Aérea Americana na China, chefiada pelo General Chennault em Guizhou, intensifica-se a partir de Maio de 1942 a guerra aérea, começando os aviões americanos P-40 (os famosos ‘flying tigers’), logo seguidos pelos B-25 e pelas superfortalezas B-29, a controlar os céus da China Central. Cidades como Cantão, Hankou e a área de Fukien são bombardeadas. Surgem os primeiros sintomas da incapacidade japonesa de manter o vasto território ocupado: é a retirada da zona Oeste da província de Zhejiang, do Lago Tong Ting e Hsiaofong.Assim, sentem necessidade de assinar, a 1 de Novembro de 1943, o Pacto de Aliança Sino-Nipónica com o governo chinês pró-japonês de Nanjing, onde é mencionado que a China colaborará com o Japão no estabelecimento da Ásia Maior Oriental sob bases de protecção e prosperidade. O pacto que entrou de imediato em vigor estipulava, no seu artigo primeiro, que o Japão se comprometia a retirar todas as suas tropas da China logo que a paz fosse restaurada e houvesse um entendimento conjunto entre os dois países.A 10 de Janeiro de 1944 os japoneses reforçavam as suas defesas no Sul da China. Destacavam-se os novos e enormes canhões T-M1 de 155 mm e os lança-morteiros
  • 201 F A l A r d e n ó s – VII J o r g e A . H . r A n g e l Howitzer de 70 mm. Entretanto o sempre precário acordo e tensas relações do Governo Nacionalista com o Governo Comunista sediado em Yanan rompia-se, acusando estes que Chiang Kai Shek poupava os seus homens e o seu melhorado armamento, recebido dos americanos, para um embate final com os comunistas, certo da inevitável derrota dos japoneses.Mas os japoneses, através do responsável pela Informação nipónica, Sr. Hori, diziam que ‘quanto mais tempo durasse a guerra mais enfraqueceria os inimigos e fortaleceria o Japão, que possuía bases inexpugnáveis e adquirira intermináveis recursos para a continuação da guerra’. Mas no terreno as coisas não corriam de feição. Realmente 1944 começava mal para os nipónicos, pois pouco a pouco dava-se a retirada da China: Hunan, Hubei, etc.A frota do almirante Chester Nimitz, que a partir de 1943 abrira uma nova frente no Pacífico Central, anula em 19 e 20 de Junho o poderio aéreo japonês na Batalha do Mar das Filipinas, destruindo cerca de 400 aviões e 4 porta-aviões japoneses.Entre 23 e 26 de Outubro do mesmo ano os americanos rompem o perímetro defensivo interior do Japão e desembarcam na ilha de Leyte nas Filipinas para uma batalha de dois meses com milhares de mortos, na ordem de 70 000 japoneses e 16 000 americanos. Foi nessa batalha do Golfo de Leyte que se verificaram os primeiros ataques suicidas japoneses, os famosos pilotos ‘Kamikaze’. Pouco a pouco perdiam os japoneses a sua superioridade naval e aérea. Eram agora senhores dos céus os aviões P-51 americanos. Iniciaria brevemente a retirada nipónica de quase todos os territórios da Ásia que anteriormente ocupara.
  • 202F A l A r d e n ó s – VIIJ o r g e A . H . r A n g e l A partir de 9 de Março de 1945 as fortalezas voadoras americanas B-29 já bombardeavam Tóquio. A 7 de Abril de 1945 estes atacavam Hong Kong despejando em três dias cerca de quatrocentas e cinquenta toneladas de bombas. Contudo, só foi possível obter a rendição após o lançamento das bombas atómicas, baptizadas de ‘Little Boy’ e ‘Fat Man’, nomeadamente a 6 de Agosto em Hiroshima, e a 9 em Nagasaki, pelo 509.o Grupo Misto da 20.a Esquadrilha da Força Aérea Americana.A 15 de Agosto do mesmo ano o Japão rendia-se, assinando os termos da rendição a 2 de Setembro. Acabava aqui a ambição expansionista do Império do Sol Nascente.”O Extremo Oriente respirou de alívio e seguiu-se um longo período de adaptação às novas circunstâncias, enquanto continuavam a deflagrar os conflitos aqui e ali e a guerra civil chinesa atingia o rubro, culminando na implantação do regime comunista em 1949.11 de Outubro de 2010
  • 203 F A l A r d e n ó s – VII J o r g e A . H . r A n g e l Com amável dedicatória dos autores, tive o prazer de receber e ler “O doce amanhecer da ciência da gestão: uma perspectiva filosófica”, de António Teixeira, Álvaro Rosa e Nelson António, professores do ISCTE – Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa (agora denominado Instituto Universitário de Lisboa), todos ligados intimamente a Macau por laços familiares, actividade profissional ou por nascimento. Co-financiado pela Unidade de Investigação em Desenvolvimento Empresarial (UNIDE) do ISCTE, o livro foi publicado por Edições Pedago, Lda., em Outubro de 2007, merecendo um acolhimento positivo em escolas de economia e gestão e em organismos e círculos empresariais.Autores ligados a MacauAntónio Francisco Nunes dos Santos Teixeira licenciou-se em Engenharia Civil pelo Instituto Superior Técnico e doutorou-se pelo ISCTE em Gestão Estratégica e Desenvolvimento Empresarial. Viveu 23 anos em Macau, tendo leccionado na Universidade de Macau e na Escola de Turismo e Indústria Hoteleira de Macau e integrado o grupo de investigadores do Instituto de Estudos Europeus de Macau. É professor auxiliar da ISCTE Business School, investigador da UNIDE/ISCTE e membro da American Society for Quality, da Sociedade Portuguesa de Estatística e da Sociedade Portuguesa de Matemática.Álvaro Augusto da Rosa, natural de Macau, é licenciado em Engenharia Electrotécnica pelo Instituto Superior Técnico e doutorado em Gestão pelo ISCTE. Desempenhou funções de direcção e chefia em várias instituições públicas de Macau, como o Leal Senado, a Universidade de Macau e o Instituto Politécnico de Macau, livro sobre ciência da gestão com raízes em Macau“As raízes deste livro encontram-se no Extremo Oriente,mais propriamente no que presentemente constitui a Região Administrativa Especial de Macau, na República Popular da China”. “O doce amanhecer da ciência de gestão: uma perspectiva filosófica” (Pedago, 2007)
  • 204F A l A r d e n ó s – VIIJ o r g e A . H . r A n g e l de que foi secretário-geral, tendo estado também ligado ao Instituto de Estudos Europeus de Macau, de que foi membro fundador. É presentemente professor auxiliar do Departamento de Métodos Quantitativos do ISCTE, investigador da UNIDE/ISCTE e membro-fundador do Asiânia – Centro de Estudos Asiáticos da ISCTE Business School. Aproveito para referir que também foi meu aluno em Macau e guardo boas recordações do estudante invulgarmente interessado e empenhado que foi, ao mesmo tempo que continuo a valorizar o relacionamento correcto que foi mantido e a amizade que se criou e perdurou até hoje.O terceiro autor e mais sénior na esfera académica é Nelson dos Santos António, professor catedrático do Departamento de Gestão do ISCTE e coordenador do Programa Doutoral em Gestão do ISCTE. Doutorado em Gestão pela Bergische Universität Wuppertal (Alemanha), desempenhou funções docentes na Universidade de Macau e desenvolveu uma acção reconhecidamente meritória no âmbito do ensino superior neste território então administrado por Portugal. Entre os seus principais interesses e áreas de investigação, contam-se a estratégia empresarial, a gestão da qualidade e as culturas asiáticas de gestão, sendo membro fundador do Asiânia – Centro de Estudos Asiáticos de Gestão da ISCTE Business School e autor ou co-autor de muitos trabalhos neste âmbito, de que é um dos maiores especialistas. Outros membros fundadores deste centro de estudos são os professores Mário Murteira e Virgínia Trigo, ambos com importante actividade docente realizada em Macau, tendo Virgínia Trigo presidido também ao Instituto de Formação Turística.Na introdução, os autores explicam que “as raízes deste livro encontram-se no Extremo Oriente, mais propriamente no que presentemente constitui e Região
  • 205 F A l A r d e n ó s – VII J o r g e A . H . r A n g e l Administrativa Especial de Macau, na República Popular da China”, porque “decorria o ano de 1994, quando um grupo de docentes da Faculdade de Gestão da Universidade de Macau decidiu criar um grupo dedicado à análise e discussão de questões ligadas à gestão da qualidade (Quality Research Group), nomeadamente a sua articulação com a gestão estratégica”. Pelas funções que eu desempenhava em Macau, tutelando, no governo, o ensino superior, lembro-me bem do trabalho persistente e coerentemente realizado por este grupo, cuja influência e resultados ultrapassaram o âmbito da universidade e chegaram à própria comunidade empresarial local. “Muito do que foi aí discutido influenciou fortemente a actividade de investigação dos membros do grupo, tendo dado origem à elaboração de livros, artigos e teses de mestrado e doutoramento”, tendo os debates levado “ao reconhecimento da necessidade de encontrar um modelo integrador de todos os aspectos ligados à vertente científica da gestão, de forma a conferir uma coerência conceptual ao tratamento integrado de aspectos relacionados com diversas disciplinas científicas que se estendem por um leque alargado de ‘grau de dureza’ no âmbito da ciência em geral, o que aconteceu igualmente no âmbito limitado de certas disciplinas, como por exemplo, a gestão estratégica, que possui em si mesma um leque de perspectivas geralmente associadas ao que se convencionou chamar de escolas do pensamento estratégico”.A gestão como ciênciaO assunto tratado neste livro “passou a ser um ponto fulcral no desenvolvimento da actividade do grupo, prolongando-se para além da sua dissolução, motivada pela dispersão geográfica dos seus membros verificada na altura”. O exercício da actividade docente e de investigação no mesmo estabelecimento de ensino superior permitiu,
  • 206F A l A r d e n ó s – VIIJ o r g e A . H . r A n g e l contudo, garantir a continuidade do debate e das edições resultantes do reforçado trabalho de grupo, fazendo sair do prelo mais uma obra utilíssima para a docência e para suscitar renovadas abordagens de um tema do maior interesse académico, no âmbito da ciência da gestão, especialmente importante agora, em tempos de crise financeira global, quando se fazem justificados apelos ao rigor e à exigência e se pôem em causa modelos consagrados de desenvolvimento, obrigando à reapreciação de conceitos e métodos e privilegiando de novo a perspectivação filosófica desta ciência.Os diversos capítulos tratam da gestão como ciência, apontando as bases de um modelo pluridisciplinar, da formação dos valores paradigmáticos na ciência da gestão e do papel da literatura neste contexto. São analisados os aspectos centrais das correntes de pensamento epistemológico contemporâneas, sendo apreciados o modelo de Popper, o caminho intermédio de Lakatos, o anti-método de Feyerabend, a evolução da filosofia da ciência, o positivismo, a natureza e limites do conhecimento, o ciclo de Deming e a definição de um modelo integrador para as diversas vertentes científicas presentes no pensamento e na prática da gestão. São também referidos o conceito de pragmatismo conceptual de Clarence Irving Lewis e o ciclo de conhecimento de James Dewey.Curiosamente, os autores escolheram algumas reflexões de Jorge Amado (em “Os Velhos Marinheiros”) para iniciar o livro:“Minha intenção, minha única intenção, acreditem!, é apenas restabelecer a verdade... ‘A verdade está no fundo de um poço’, li certa vez, não me lembro mais se num livro ou num artigo de jornal. Em todo o caso em letra de forma, e como duvidar de afirmação impressa?... E como isso não bastasse, várias pessoas gradas repetiram-
  • 207 F A l A r d e n ó s – VII J o r g e A . H . r A n g e l me a frase, não deixando sequer margem para um erro de revisão a retirar a verdade do poço, a situá-la em melhor abrigo: paço (‘a verdade está no paço real’) ou colo (‘a verdade se esconde no colo das mulheres belas’), pólo (‘a verdade fugiu para o pólo norte’) ou povo (‘a verdade está como o povo’). ... Não só a verdade está no fundo de um poço, mas lá se encontra inteiramente nua, sem nenhum véu a cobrir-lhe o corpo, sequer as partes vergonhosas. No fundo do poço e nua.”Fizeram-no para, “em concordância com ele, reconhecer que verdade é, em geral, algo de relativo, pelo que nunca foi pretensão nossa descobrir a verdade sobre um assunto em relação ao qual nos debruçámos, mas tão só desenvolver um modelo de apoio a uma actividade de investigação integrada e coerente que, no nosso caso, tem produzido efeitos positivos”. Oxalá, na mesma senda, possam dar continuidade a estes utilíssimos trabalhos, iniciados e consolidados em Macau e desenvolvidos, em equipa, ao longo das suas prestigiadas carreiras académicas. Este é mais um livro que os nossos gestores, públicos e privados, não devem deixar de ler, além de ser uma obra a usar pelos professores de Gestão e disciplinas conexas. Está incluída uma longa e útil bibliografia, abrangendo os conhecidos “gurus” destas matérias, de Barker, Drucker e Feyerabend a Popper, Stacey e Weber. 18 de Outubro de 2010
  • 208F A l A r d e n ó s – VIIJ o r g e A . H . r A n g e l Com o notável desenvolvimento que o turismo macaense conheceu, com condições e meios promocionais então inimagináveis, vale a pena reler o que, há mais de oito décadas, foi publicado sobre as potencialidades turísticas de Macau.Jaime do Inso, distinto oficial da Armada Portuguesa, deixou-nos trabalhos importantes sobre Macau, escritos durante e após a sua permanência, em comissão de serviço, nestas paragens do Extremo Oriente. Um deles chamou-se precisamente “O Turismo em Macau”, integrado num volume intitulado “Macau – a mais antiga colónia europeia no Extremo Oriente”, apresentado na Exposição de Sevilha, em 1929. Devido à sua extensão, dividimos o trabalho em duas partes, sendo a primeira sobre as belezas e os atractivos mais relevantes desta cidade: A jóia das terras do oriente“A China, apesar de todos os seus ‘dessous’, perigos e desilusões, tem, para quem saiba estudá-la, aquele encantamento próprio do Oriente. Macau, envolta na mesma atmosfera, num ambiente tantas vezes triste e enigmático como uma interrogação suspensa sobre a fatalidade do destino, participa e conserva uma parcela desse encantamento que a China tem. Bastava isto, se mais não houvesse, para lhe dar uma feição, uma qualidade muito apreciável e favorável para o turismo.Mas há mais, muito mais mesmo, que torna Macau, ‘a Cidade Santa’, a ‘Jóia das Terras do Oriente’ – como lhe chamou o escritor inglês Dyer Boll –, um verdadeiro mimo de beleza neste longínquo Oriente. (...) É que, na verdade, pela sua configuração orográfica, pela sua situação, pelos tons das suas edificações, pela pátina do tempo, impressa como um apelo nos anos vinte à promoção turística“É de admirar que Macau sendo tão pequenapossa apresentar à observação de quem a olhaos aspectos mais variados e surpreendentes”.Jaime do Inso, “O Turismo em Macau”, 1929.
  • 209 F A l A r d e n ó s – VII J o r g e A . H . r A n g e l um selo do nosso passado aventureiro, Macau oferece paisagens surpreendentes pela variedade com que se sucedem, encantadoras pela suavidade com que se desenham, e originais porque diferem muito das que oferecem as outras colónias europeias no Extremo-Oriente. Daí os encantos que a maior parte dos visitantes encontram neste pequeno torrão lusitano, onde cada pedra dos vetustos muros do antigo burgo português, como que por milagre posto à beira de Cathay, representa uma estrofe de epopeia e de visão.O jornalista americano Swift Kirtland, que, há pouco tempo, durante uma viagem de turismo à roda do mundo, esteve em Macau, declarou que o impressionara muito o panorama da cidade, que em nada se assemelhava ao que até então tinha visto pelo Japão e pelo resto do Oriente, vindo encontrar aqui construções, hábitos e outras características que demonstram bem a existência duma influência diferente da que existe nas outras colónias ou concessões estrangeiras na China. Impressionou-o ainda o sossego e o ambiente de paz que se sentia por toda a parte, e o facto dos chinas viverem aqui como em terra chinesa e dos europeus lidarem com eles como se não fossem de outra raça. Surpreendeu-o também não haver separação entre as moradias ou bairros chineses e europeus, bem como a limpeza das ruas, ainda mesmo daquelas onde predomina o elemento china, chegando Macau a parecer-lhe, em certos pontos, uma bela propriedade particular e cuidadosamente tratada. Muito o interessaram as velhas fortalezas, coevas algumas dos primeiros tempos da nossa ocupação, e foi motivo de grande admiração ver algumas lorchas armadas com antigas peças de artilharia. Tais são as impressões, que aquele turista levou de Macau e que traduzem, na verdade, muitos dos aspectos desta cidade.
  • 210F A l A r d e n ó s – VIIJ o r g e A . H . r A n g e l Sydney Greenbie, num artigo publicado na importante revista americana ‘Asia’, de 1925, a páginas 824-825, diz sobre Macau, entre outras coisas, o seguinte: ‘As suas casas apalaçadas, que se elevam sobre montes que tanto apanham as brisas do sudoeste como os furacões, chocam todos os visitantes ocidentais como a amostra de um paraíso’. Parece-nos que pouco mais se poderá dizer sobre a beleza duma cidade e que de poucas cidades se poderá dizer outro tanto”.Paisagens de Macau“Efectivamente, os aspectos de Macau são encantadores, e tornam esta cidade privilegiada pelos seus panoramas, tão variados e interessantes, tão típicos, caprichosos e originais, neste ambiente de paz, de quietação e de imensa suavidade, de português e chinês, com muito de antigo e moderno. É de admirar que Macau sendo tão pequena, uma minúscula mancha de casas na vastidão de Cheong-San, possa apresentar à observação de quem a olha os aspectos mais variados e surpreendentes.Só vendo certos cambiantes deste meio e deste céu, onde tanta vez paira um indecifrável véu de nostalgia, se pode avaliar bem o que Blasco Ibañez escreveu no segundo volume de ‘La Vuelta al Mundo de un Novelista’: ‘Si me preguntan cuál es la sensación más honda y duradera de mi viaje alrededor del mundo, tal vez afirme que el viaje de Macao á Hong-Kong, sobre un mar dormido como una laguna, bajo de la cúpula de una noche esplendorosa, con el incentivo de marchar en el misterio, costeando peligros y casi al ras de las aguas’. É, assim! Contemplar, por exemplo, do alto da Penha, a rada de Macau, numa noite de luar, é um espectáculo que dificilmente esquece. Beleza majestosa e calma que nos prende a fala
  • 211 F A l A r d e n ó s – VII J o r g e A . H . r A n g e l numa voz de silêncio; saudade imensa, indecisa, onde vemos uma interrogação figurada em cada mancha negra das lorchas, de largos braços abertos naquele imperturbável mar de prata. As paisagens de Macau! Tristes, nostálgicas como uma dor convulsa em fúria de tufão, ou, alacres, rubras de luz e de sol como um canto tropical, as paisagens de Macau são lindas e prendem; têm uma nota indefinível, indecifrável, que participa deste mistério, deste encantamento da China e que fala ao nosso sentimento pela voz da tradição. O ponto dominante das paisagens de Macau é a montanha da Guia, onde serpenteia uma estrada para automóveis. Passemos por lá, de relance. Durante o caminho, como que por encanto, paisagens lindas e variadas se sucedem. À medida que o sol vai descendo, a tarde vai-se tornando mais amena e calma! Um tosco banco de pedra à beira da estrada convida-nos a descansar. A nossos pés desdobra-se a cidade; e os montes altos da Lapa e doutras terras mais distantes mergulham já na meia penumbra da luz que morre, deixando no céu listas rubras.Os bairros de Tap-Siac e Patane, cujo casario é colorido, alegre, dão-nos um aspecto de terra de Portugal, a que o som de uns panchões que estralejam empresta a cor local, da China, que nos envolve nesta atmosfera de sonho e enigma que paira sobre nós.As verdejantes encostas da Guia vão abrigando os últimos pássaros que recolhem aos ninhos; arriam-se as bandeiras nos velhos fortes; tangem os sinos da nossa terra, num frémito de saudade! É a hora das Ave-Marias, calma e simples, como nos campos de Portugal! Há em tudo que nos rodeia como que uma unção impregnada da China, impregnada de mistério! Paisagens de Macau!”
  • 212F A l A r d e n ó s – VIIJ o r g e A . H . r A n g e l Na segunda parte deste trabalho, Jaime do Inso apresenta curiosas sugestões para a promoção turística de Macau, defendendo o aproveitamento adequado dos atractivos históricos, culturais e naturais deste território para fins turísticos, preconizando também a expansão dos jogos de fortuna ou azar, para além do “fan-tan”, e a introdução de transportes rápidos entre esta cidade e Hong Kong, para “valorizar as excepcionais condições de turismo” aqui existentes, podendo e devendo o “turismo tornar-se uma das mais importantes indústrias de Macau”. Décadas volvidas, o turismo, tendo o jogo como principal e determinante atractivo, acabaria mesmo por ser, de longe, a mais relevante fonte de receita e o motor do desenvolvimento do território. Oxalá, com políticas realistas e uma capacidade de previsão da volatilidade das conjunturas e dos ciclos económicos, possa continuar a sê-lo por muito tempo.25 de Outubro de 2010
  • 213 F A l A r d e n ó s – VII J o r g e A . H . r A n g e l Foi interessante ver, no artigo anterior, como Jaime do Inso muito bem soube interpretar o fascínio de Macau. Fez, no seu trabalho sobre “O Turismo em Macau”, publicado em 1929 (Tipografia do Orfanato da Imaculada Conceição, Macau), uma selecção de comentários positivos de escritores e jornalistas sobre as belezas e os atractivos desta terra e, ele próprio, descreveu os panoramas e os aspectos variados e surpreendentes desta linda cidade, nas primeiras décadas do século passado.Vejamos, nesta segunda parte do trabalho, as sugestões que ele já nesse tempo apresentava para promover Macau:Macau, terra de turismo“Mgr. Fourquet, Bispo de Cantão, escrevendo sobre Macau, ‘cujo nome evoca um passado de glória’, chama-lhe ‘um farol da mais bela cultura do mundo, uma opulenta relíquia do passado, à qual deve respeito, veneração, louvor e reconhecimento’. Sir John Bowring consagrou a Macau o nome de ‘Pérola do Extremo-Oriente’. Eudore de Colomban disse: ‘Macao! Mais c’est lénchantement dans la réalité, le rêve dans sa splendeur, le calme dans le mouvement, le silence dans la Majesté, l’isolement dans le passé!’ ‘Jamais il n’y eut, sous le ciel d’Asie, de cité plus êtrange!’ ‘Jamais on n’eu connut d’aussi historique, d’aussi pieuse et d’aussi attrayante’!E quantos outros visitantes de Macau não sentiram e pensaram como os que acabamos de citar, sem que tenham escrito as suas impressões! Cremos que, tudo isto que apontamos, basta para dar a Macau justificados foros de terra de turismo. Mas não são só os seus velhos pergaminhos e as suas lindas paisagens e exóticos costumes que dão a esta colónia verdadeiro motivo de reclame para o turismo. Há mais.sugestões de Jaime do Inso para promover Macau“O turismo pode e deve tornar-se uma das maisimportantes indústrias desta colónia.” Jaime do Inso, “O Turismo em Macau”, 1929.
  • 214F A l A r d e n ó s – VIIJ o r g e A . H . r A n g e l A vida do europeu no Oriente é uma vida intensa de trabalho e de esgotamento, que o clima auxilia e agrava. Na generalidade, os grandes centros onde vivem europeus, como Xangai, Hongkong, Cantão, Saigão, etc., são campos de luta activa, de movimento intenso onde as forças se depauperam, pelo que necessitam de repouso periódico.Macau, se bem que ofereça hoje actividades que há anos não tinha, ainda é um meio de grande quietação comparado com os outros empórios orientais, e tem um clima incomparavelmente melhor. O clima de Macau não pode comparar-se com o magnífico clima de Portugal! Mas comparado com o do norte da China, de Xangai, por exemplo, onde se sentem as temperaturas extremas, desde o intenso frio das ruas cobertas de neve ao calor tórrido que amolece o asfalto, ou com o da tropical Indo-China e até com os das tão vizinhas cidades de Cantão e Hongkong, o clima de Macau oferece uma superioridade tão manifesta e tão grande, que muito é de admirar que, em quase quatro séculos da nossa ocupação desta minúscula mas privilegiada península, não tivessemos ainda atentado devidamente nesta circunstância, com o que muito beneficiaria não só a colónia como todos os que neste clima pudessem e desejassem procurar descanso e encontrar alívio para os seus males. Macau é, pois, com todas as comodidades que os seus magníficos e modernos hotéis proporcionam, uma terra apropriada para uma estação de repouso e de cura dos europeus que no Oriente trabalham.A propósito vem citar mais uma passagem do artigo do autor já citado, Sydney Greenbie, a respeito de Macau: ‘Esta velha cidade verdejante tinha-se tornado o grande empório para o comércio europeu no Leste da Ásia, e era por meio dela que todos os estrangeiros no Oriente iam comerciar ou em busca de repouso e distracção’.
  • 215 F A l A r d e n ó s – VII J o r g e A . H . r A n g e l Isto é: desde há séculos que os estrangeiros procuravam Macau também como estação de repouso e de recreio.Sem que seja necessário um estudo comparativo entre os elementos climatológicos de Macau e doutros centros europeus importantes do Extremo Oriente, basta esta simples e insuspeitíssima indicação extraída do terceiro volume do ‘China Sea Pilot’, página 430, para confirmar o que deixamos exposto: ‘Durante a estação quente, Macau, ficando aberta à monção do Sudoeste, é mais agradável e salubre do que Hongkong, que fica apenas a 40 milhas de distância’. (...)”em defesa do turismo e do jogo“Esta nossa colónia tem, pois, condições climatéricas excepcionais para o estabelecimento de uma estação de repouso, com sanatórios, onde uma parte da população europeia, que labuta nestes climas exaustivos, podia, com toda a facilidade, encontrar o alívio que, em geral, com grandes sacrifícios tem de ir procurar ao seu país natal. Este assunto, deve notar-se, já foi considerado, e ainda ultimamente correu em Macau que uma empresa australiana viria explorar uma instalação de sanatórios na ilha da Taipa ou de Coloane, que oferecem, para aquele efeito, ainda melhores condições de salubridade do que Macau.Mas, entre outros, um óbice se levanta a uma realização desta natureza: o jogo. A instalação duma estação de repouco destinada a gente dispondo de meios de fortuna, necessariamente exige a existência de casinos e outros meios de diversão, e, portanto, o estabelecimento do jogo. Porém, o jogo em Macau constitui de há muito o ‘leitmotiv’
  • 216F A l A r d e n ó s – VIIJ o r g e A . H . r A n g e l de quantos pretendem denegrir a nossa acção colonizadora no Oriente, a ponto de se ter espalhado pelo mundo a blague insidiosa de que Macau é a ‘Mónaco do Oriente’. (No Guide Madrolle ‘Baie de Ha- Long’ de 1925, publicado pela casa Hachette, ainda se vai mais além: chama-se a Macau o ‘Monte Carlo Asiático’!)Os chineses são, por índole, essencialmente jogadores! Jogam com tudo, a propósito de tudo, tanto dentro de casa como no meio da rua, servindo-se até só dos dedos quando não têm outro instrumento para jogar: mas, de todos os jogos, o ‘Fan-Tan’ é o que mais os apaixona, jogo que nós, ‘bárbaros do ocidente’, não apreciamos tanto como eles. Na China inteira joga-se e em Macau permite-se só o ‘Fan-Tan’, que é frequentado quase exclusivamente por chineses e proibido aos funcionários da colónia. E nisto se resume o Monte Carlo do Oriente! Se o jogo é permitido em certos locais de luxo e de prazer, porque não há-de sê-lo também em Macau, devidamente regulamentado, como está em vários países da Europa, e até em Portugal?Macau tem muitas possibilidades comerciais e industriais, sendo de esperar que continuem a progredir; mas tem também condições turísticas de primeira ordem que seria um crime não aproveitar nem fomentar.(...)O turismo pode e deve, pois, tornar-se uma das mais importantes indústrias desta colónia, que hoje com a nova estrada para Seac-Ki, é uma porta aberta para a China, por Cheong-San. A criação de sanatórios nas ilhas, que tem todos os requisitos exigidos para estâncias modernas, onde os europeus que vivem no Extremo Oriente pudessem descansar e retemperar as suas forças, com que se poupariam, não só a eles mas aos próprios governos, frequentes e dispendiosas viagens à Europa, impõe-se por uma forma
  • 217 F A l A r d e n ó s – VII J o r g e A . H . r A n g e l tão clara ao nosso espírito que não vemos razão plausível que obrigue a retardar, por mais tempo, a execução de uma tão importante medida. As corridas de cavalos, feitas num dos campos melhores e mais bem situados do Extremo Oriente, subordinadas a um plano convenientemente organizado e seguido, poderiam contribuir para, em determinadas épocas, chamar a Macau grande quantidade de forasteiros, que viriam dar à colónia a vida que lhe falta, o que seria enormemente facilitado com o estabelecimento de comunicações bastante mais rápidas entre Hongkong e Macau. Mas também é preciso continuar a embelezar e a modernizar Macau, e a facultar-lhe todos os meios para o seu desenvolvimento.Muito há já feito em Macau para valorizar as suas excepcionais condições de turismo; mas muito falta ainda fazer para concluir o seu inteiro aproveitamento, e para manter esta colónia à altura do que representa: o expoente máximo da beleza do nosso passado de aventuras heróicas e nobres tradições”.— · —Curiosamente, nos anos vinte do século passado, já Jaime do Inso, com visão de futuro, compreendia bem as potencialidades turísticas de Macau. É verdadeiramente impressionante o quanto se avançou, entretanto, neste domínio, sendo, todavia, necessário que a RAEM se prepare para enfrentar situações menos favoráveis à prossecução deste surpreendente desenvolvimento. 1 de Novembro de 2010
  • 218F A l A r d e n ó s – VIIJ o r g e A . H . r A n g e l Há precisamente seis anos, em vésperas do Encontro das Comunidades Macaenses de 2004, ultimava-se, com redobrado esforço, a publicação de “O Olhar de Henrique de Senna Fernandes – Fragmentos”, para lançamento naquela grande reunião da comunidade que trouxe de novo à terra-mãe os representantes da diáspora macaense, ligados às Casas de Macau e a outras associações. Iniciativa de Lúcia Lemos, também autora das fotografias e do texto, Yao Jingming juntou-lhe poemas seus, Sofia Bobone assumiu a direcção e a concepção gráfica, a Fundação Jorge Álvares concedeu-lhe o patrocínio integral e o Instituto Internacional de Macau assumiu a edição. Foi uma original e justa homenagem prestada àquele ilustre macaense que era, por muitos, considerado o “patriarca” da comunidade.No fim do mês novo Encontro terá lugar em Macau, mas desta vez já sem a presença, a palavra e o conselho de Henrique de Senna Fernandes, falecido no passado dia 4 de Outubro. O seu nome e a sua obra serão, todavia, evocados no Encontro, que decorrerá, inevitavelmente, sob a sua inspiração.Vem, por isso, a propósito lembrar este livro, que começou com uma série de entrevistas que Lúcia Lemos fez ao escritor, desde o ano 2000. Na nota introdutória, explicou a autora que lhe movia “a vontade de conhecer aquele Macau místico, presente nas suas obras”, o Macau que julgara vir a encontrar quando aqui chegou em Dezembro de 1982, “alimentada por leituras e testemunhos que não retratavam a realidade daquele tempo”. À medida que a paciência e a generosidade do entrevistado a ajudavam a encontrar ou, talvez, a aproximar-se melhor, daquele Macau que imaginava, Fragmentos do olhar de Henrique de senna Fernandes“As palavras e as imagens que evocam Henrique de Senna Fernandes neste nosso trabalho singelo, fragmentos da sua vida pessoal e de escritor, dos principais lugares onde exerceu os seus misteres de advogado e de professor, de situações onde encontrou o fermento da sua escrita, não bastam decerto para documentar o seu percurso de mais de oitenta anos de uma vida intensa e ficcionável”.Lúcia Lemos, “O Olhar de Henrique de Senna Fernandes – Fragmentos” (2004).
  • 219 F A l A r d e n ó s – VII J o r g e A . H . r A n g e l “ele tornou-se na figura central desse exercício, dessa descoberta”. “Não era já só Macau, mas o Macau que bailava nos seus olhos quando contava as suas estórias, algo que o fazia tornar-se não só parte integrante mas personagem principal, algo que só a imagem pudesse transmitir”. Nessa nota introdutória, é-nos dito ainda que “as palavras e as imagens que evocam Henrique de Senna Fernandes neste nosso trabalho singelo, fragmentos da sua vida pessoal e de escritor, dos principais lugares onde exerceu os seus misteres de advogado e de professor, de situações onde encontrou o fermento da sua escrita, não bastam decerto para documentar o seu percurso de mais de oitenta anos de uma vida intensa e ficcionável. O caminho do escritor, interpretado através de algumas imagens e textos ambíguos, omitem o mundo interior e complexo do homem e da sua cidade, sempre presente nas suas obras, através de uma linguagem de cor, cheiros, sons e gente; gente que vive com dignidade, qualquer que seja a sua condição. É através do seu olhar e também dos seus gestos, gestos largos de narrador, que levantamos o véu que dissimula histórias verdadeiras, evoca sentimentos íntimos na descrição de itinerários múltiplos da cidade, disfarça o prazer com que apresenta o seu périplo gastronómico, a ternura com que descreve personagens multifacetadas incluídas das duas culturas maiores de Macau”. Duas culturas a que esteve intimamente ligado até ao fim da vida.Podemos, hoje, dizer que é preciso ler este livro, compreender os poemas e ver as fotografias, para se conhecer melhor Henrique de Senna Fernandes. Já quando, no ano passado, apresentámos duas edições brasileiras de obras suas na augusta Academia Brasileira de Letras, no Rio de Janeiro, citámos várias passagens do livro, para, na ternura
  • 220F A l A r d e n ó s – VIIJ o r g e A . H . r A n g e l e na exuberância das suas próprias palavras, identificarmos o escritor e o homem. Eis algumas passagens mais significativas das conversas recolhidas: “A minha mãe era macaense. Lembro-me de como foi importante para mim. Sou como ela, alegre e optimista!O meu pai era o oposto, mas como não havia de ser com tudo o que lhe aconteceu... azares da vida! Gostava de mim. Era um bom contador de histórias.O amor pelo Português foi-me incutido lá em casa. O meu pai era um patriota apesar de ter tido uma educação anglo-saxónica. Aquele orgulho de ser português, foi-nos transmitido de uma maneira natural pelo ambiente familiar. A língua portuguesa era o único veículo de comunicação.Gostava do cinema, leváva-nos ao Victoria, comprava-nos livros, ensinava-nos a apreciá-los”.“A minha mulher chamava-se Maria Teresa Ho Heong Süt, que significa em chinês ‘Neve Perfumada’.A minha mulher era uma rapariga encantadora. Seduziu-me com o seu encanto oriental. Apaixonei-me como um tonto. Casei com ela e amei-a. Deste encantamento nasceram os filhos do nosso amor.A mãe dos meus filhos fazia-se respeitar. Marcava bem a sua presença.A minha mulher gostava de Portugal... e de mim, comprámos lá casa. Era uma rapariga corajosa. Foi uma mulher que me acompanhou, na alegria e na adversidade”. “Descrevo o meu Macau, o meu património, o que eu conheci. Só me lembro desta terra como ela era há anos atrás. Falo dela mantendo-a intacta no meu imaginário.
  • 221 F A l A r d e n ó s – VII J o r g e A . H . r A n g e l Macau regia-se pelos seus padrões, pelos seus cânones. Escrevo Macau no aspecto positivo.A sociedade macaense era muito fechada. Macau sofreu um grande impacto quando recebeu os portugueses de Xangai e Hong Kong durante a II Guerra. Os seus hábitos, toda aquela gente, cuja vida e cultura eram diferentes, vieram alterar os costumes.Foi naquele hotel, à altura o melhor, que eu a conheci... para sempre. Rendi-me aos seus encantos”.“Vivi numa casa na Estrada de S. Francisco e costumava brincar lá no jardim.Os jardins, são lugares comuns dos poetas e escritores. Há algo de magnético que nos atrai aos jardins, em determinados estados de alma e de espírito. Os jardins são um lugar de encontro e de partilha. À tardinha, os homens iam admirar as meninas, perdiam-se na conversa e também apreciavam a música do coreto”.“O meu pai preocupava-se em incutir-nos o gosto pela leitura. Lembro-me que ele comprava as últimas novidades literárias na livraria ‘Oriente Comercial’, do Artur dos Anjos, na Av. Almeida Ribeiro.Havia várias livrarias que importavam livros portugueses tais como: ‘Pou Man Lau’ na Rua do Gamboa, a ‘Progresso’ na Rua do Campo, que também fornecia material escolar sobretudo para o Liceu. A livraria ‘Paulo’ estava situada numa travessa do Largo do Leal Senado. Todos os meses íamos gulosamente receber as novidades. Todo aquele material alimentava a nossa imaginação de crianças e adolescentes.O meu gosto pela leitura levava-me a passar noites a ler e a repetir as frases que gostava, para aprender bom Português. Na infância, foi Salgari e na adolescência Júlio Verne. No Liceu, havia a leitura obrigatória de escritores portugueses.
  • 222F A l A r d e n ó s – VIIJ o r g e A . H . r A n g e l Marcaram a minha juventude autores como Aquilino Ribeiro, Eça de Queirós, Jorge Amado e Camilo Castelo Branco, de quem eu gostava especialmente”. “NAM VAN é o nome chinês da Praia Grande... Nasci nas suas proximidades e grande parte da minha infância decorreu à sombra das suas árvores centenárias de ramagem restolhante.Já vivi nas imediações de S. Francisco, agora moro na Praia Grande, noutra casa onde a minha mulher plantou umas árvores. Todos os dias, à tardinha, fico na varanda a conversar com elas”.“Lá diz o ditado, quem bebeu a água do Lilau volta ou casa em Macau. Nós consideramo-nos de Portugal. Consideramos Portugal como Pátria e Macau como Mátria. É a razão de sermos diferentes. Macau representa todos os macaenses. Macau é a casa-Mãe para todos os macaenses espalhados pelo mundo”.Se o leitor gostou do que leu, está ainda a tempo de adquirir o livro, de que já restam poucos exemplares, na Livraria Portuguesa ou na secretaria do Instituto Internacional de Macau.8 de Novembro de 2010
  • 223 F A l A r d e n ó s – VII J o r g e A . H . r A n g e l Na sequência do artigo anterior, muitas pessoas quiseram adquirir o livro “O Olhar de Henrique de Senna Fernandes – Fragmentos”, de Lúcia Lemos e Yao Jingming, publicado pelo Instituto Internacional de Macau, em Novembro de 2004, com o patrocínio da Fundação Jorge Álvares, cujo apoio foi decisivo para viabilizar a edição.O interesse que despertou leva-nos a retomar o tema, pondo o escritor a falar de novo connosco, através de palavras suas, marcadas pela espontaneidade, pela sabedoria e pelo afecto, sobre esta que foi a sua vocação maior e que o projectará até à eternidade:“Escrevo todos os dias, em casa ou no escritório, de manhã e à tarde.Quando me ausento de Macau saboreio a paisagem e tudo o mais.Quando regresso é uma festa. Começo a sentir outra vez o ambiente e os lugares, a humidade, os cheiros, os sabores”. “Quando se escreve, a coisa principal é saber como começar... é preciso agarrar logo o leitor nas primeiras páginas”.“Quando escrevo, tento fazê-lo para o maior número possível de público. Tento arranjar uma linguagem fácil, para que a pessoa que me lê perceba o que lá está, encontre nos meus livros algumas horas de evasão ao cansaço do dia-a-dia.Os meus livros falam sobretudo do passado. Não posso dizer que ao falar do passado não tenha consciência do presente, porque tenho que viver nele, neste presente”.“No romance, o final tem que satisfazer o leitor. Deve ser bonito, fazer recordar o leitor, ainda que seja um final trágico. As últimas palavras têm que ser muito importantes.o escritor na primeira pessoa“Os meus romances têm partes autobiográficas, muitas delas vividas por mim. Existem determinadas cenas fortes e realistas porque foram vivenciadas na primeira pessoa”.
  • 224F A l A r d e n ó s – VIIJ o r g e A . H . r A n g e l No conto, a solução tem que ser de choque. Provocar um choque no leitor, um fim inesperado. No conto é mais difícil. Tem que haver uma história muito bem contada, em poucas palavras.‘Candy’ é o meu conto preferido, encheu-me de prazer escrevê-lo. Este conto tem um remate fantástico. Todas as vezes que o leio, vêm-me lágrimas aos olhos. Fui muito feliz no final”.“Fui director da Biblioteca Nacional (hoje Biblioteca Central de Macau) aproximadamente vinte anos. Aquele manancial de informação fazia as minhas delícias. Aconselhava livros a jovens que sentiam necessidade de estar em contacto com as ideias e a escrita de novos autores e, por esta via, adquirir novos rumos de leitura. Ia para a Biblioteca Sir Robert Ho Tung e desejava penetrar naqueles mundos de ficção”.“Neste pequeno mundo de Macau, criámos o patuá para conversar entre nós. Ninquém faz já ideia desse passado, gosto muito de me recordar nele, relembro-o inúmeras vezes. Escrevo sobre ele, mas para as pessoas de agora, para imaginarem o ontem”.“Dizem que, no pensamento, o momento de criação encontra-se entre o caos e o inferno.Nunca se sente que a obra está perfeita. O meu desgosto é não conseguir a palavra exacta para traduzir o que pretendo.É um sofrimento atroz. E não há maneira de encontrar aquela palavra para dizer uma frase inteira. Uma coisa é contar uma história, outra é o diálogo. As interjeições, as palavras, o discurso directo... num diálogo de amor, palavras simples: um sim... eu
  • 225 F A l A r d e n ó s – VII J o r g e A . H . r A n g e l sei... unh... oh, oh. A sugestão faz criar a nossa imaginação. Um romance é fruto da técnica do escritor.No ‘Amor e Dedinhos de Pé’ utilizei uma técnica pouco habitual. Quis escrever uma história de desencontros, ilustrar o fosso das classes sociais, que cruzam na geração seguinte. Saíu bem”.“Tenho necessidade de passar para o papel as minhas experiências, porque as pessoas de hoje não têm noção do Macau dos meados do século. É preciso legar às gerações futuras a vivência do Macau dos meus tempos. Cada tempo tem um tempo”.“Nos meus romances, é à mulher a quem dedico maior atenção”.“Fui a Cantão, nos meus 15 anos; em Shamine, naquela cidade inglesa, no White Swan, havia uma rapariga por quem me apaixonei, julgo eu, foi o meu maior deleite, tinha mais ou menos 18 anos. Chamava-se Mamiu. Mamiu, em português, significa gato. Tratava-me como um irmão mais novo. Nunca a beijei. Fui educado a respeitar as conveniências. Um dia disse-me que ia partir, o pai tinha-a vendido para Hong Kong. Com a ocupação de Hong Kong pelos japoneses, havia muito trabalho para as meninas bonitas de famílias necessitadas. O mundo desmoronou-se para mim. Tive um grande desgosto. Percebi a vulnerabilidade da mulher”“Quando ia para o Liceu, vi uma mulher em Cheoc Chai Un ou Horta da Mitra, com uma linda trança preta, que palmilhava a cidade cristã levando água fresca do poço. Foi assim que comecei a criar o romance a ‘Trança Feiticeira’.Foi essa mulher e outras que conheci, que me contaram as suas vidas e me ajudaram a construir as personagens das minhas obras”.
  • 226F A l A r d e n ó s – VIIJ o r g e A . H . r A n g e l “Quando regresso a casa, por volta das sete horas, costumo reparar na iluminação das ruas de Macau. Esta Almeida Ribeiro torna-se mágica, com os seus cartazes luminosos, as cores dos neons, absolutamente fascinante! São as cores de Macau!Nos fins dos anos 50, havia um desfile de riquexós pela Avenida Almeida Ribeiro... O erotismo que provocava o caminhar delas... hirtas e impedidas... de gestos largos, denunciadas nos vestidos justíssimos pelo rasgão que lhes mostrava a pele branca”.“Havia um lugar muito vivo, era a Rua da Felicidade. Hoje, os chineses de Hong Kong, vão ali comprar coisas que já não encontram nas redondezas, em lado algum.Este é um dos lugares dos meus contos, por ter sido o bairro do amor, onde elas dormiam de dia com os segredos da noite.Voltei a ler, após 10 anos, ‘Chá com Essência de Cereja’; confesso: gostei”.“À noite, todos os dias, deixo acesa a luz da varanda, para que a borboleta entre em casa e se sente na cadeira dela”.“Nos jardins, plantamos memórias antigas”.“O Jardim de Camões com as suas frondosas árvores... confessionário de tantos amores, tantos sentimentos contidos, lugar de libertação”.“Como advogado, faço este ano cinquenta anos no exercício da profissão. Resolvi mudar de escritório para a Praia Grande. Continuo a trabalhar e a escrever”.“Os meus romances têm partes autobiográficas, muitas delas vividas por mim. Existem determinadas cenas fortes e realistas porque foram vivenciadas na primeira
  • 227 F A l A r d e n ó s – VII J o r g e A . H . r A n g e l pessoa. Há partes que obviamente romanceei. Às vezes, achava que o romance ou o conto deveria ter aquele enredo, ou aquele desfecho.Há muito de autobiográfico, claro, claro que há...”Quem teve o privilégio de privar com o escritor, professor, parente e amigo, recordar-se-á de muitas outras palavras como estas, ditas em tertúlias, conferências, encontros, conversas informais ou reuniões familiares. A todos soube transmitir o encanto da sua presença e a riqueza da sua mensagem, caracterizada, mais do que tudo, pelo seu inultrapassável amor a Macau e pela lealdade a Portugal, Mátria e Pátria respectivamente. Far-nos-á imensa falta.Sucedem-se, agora, as homenagens. A presidente da direcção da Escola Portuguesa de Macau dedicou-lhe a maior parte do seu comovido discurso, na festa escolar há dias relizada, e está patente, no espaço central da escola, uma exposição das suas obras. Também em Lisboa, por iniciativa do Prof. Rogério Puga, da Universidade Nova de Lisboa, teve lugar, na Casa de Macau, um seminário evocativo, com dezenas de comunicações que serão reunidas num volume a publicar em 2011. Seguir-se-ão outras sessões e outros livros, um dos quais será lançado no Encontro das Comunidades Macaenses.15 de Novembro de 2010
  • 228F A l A r d e n ó s – VIIJ o r g e A . H . r A n g e l “O Olhar de Henrique de Senna Fernandes – Fragmentos” (Instituto Internacional de Macau, 2004) é, de facto, um livro bem conseguido, em que o texto e as fotografias de Lúcia Lemos e a concepção gráfica de Sofia Bobone são complementados e enriquecidos com poemas de Yao Jingming, inspirados na vida e na obra do escritor. Entre as novas edições apresentadas no Encontro das Comunidades Macaenses de 2004, esta foi, indiscutivelmente, a principal e a mais apreciada. A sensibilidade do poeta e a sua compreensão do significado dos contos e romances do escritor macaense, recentemente falecido, então patentes nestes versos que podem ser relidos vezes sem conta, porque têm a ver com todos nós:San Ma Lou, San Ma Louserá eternamente nova?Já anoitecendo, e eucontinuo andando, entre eles e elas,entre o hoje e o amanhã,contando as lanternas ainda acesas.San Ma Lou, ou Avenida Nova, é a Avenida Almeida Ribeiro, que já foi a principal artéria comercial da cidade, onde o escritor teve o seu escritório durante muitos anos e por onde gostou sempre de passear, sentindo ali e nas redondezas o palpitar mais autêntico da vida de Macau.Poemas de Yao Jingming inspirados no escritor e na sua obra“Continuo andando, embora com passos lentos.Mas o que vos legarei não é o meu vulto.(...)”
  • 229 F A l A r d e n ó s – VII J o r g e A . H . r A n g e l Esta terra é pequenina mas é terra.Esta terra é pequenina mas prolonga-se no caminho...Sou filho da terra, por isso caminho por esta terra.Não há nenhuma força que me pode mudar.Escutem! O palpitar do meu coraçãocorresponde à alma desta terra.Filho da terra, identificado com a memória e o legado de muitas gerações, Henrique de Senna Fernandes foi reconhecido como o “patriarca” da comunidade macaense. Portugal foi a sua Pátria, Macau a sua Mátria.Quanto tempo já passou como flechamas a minha mão direitacontinua direita,e a esquerda, esquerda continua.Estas vanguardas minhas,caminham sempre à frente de mimfiéis todos os dias ao seu lugar.Como disse Henrique, “falo para os outros com as minhas mãos. São o grande veículo do meu âmago”. Esse seu âmago também marcou a sua coerência no percurso da vida.
  • 230F A l A r d e n ó s – VIIJ o r g e A . H . r A n g e l Quantas flores floresceram e murcharam,quantos frutos amadureceram e caíram,quantas coisas passaram como nuvens pela minha alma,mas nunca consegui evitar assaltos de primavera.Nas minhas mãos ainda se guardam as sementes,tão cheias, tão redondas, como seios na escuridão.Que perfume! Percorre-me pelas impressões digitais.Ricas vivências marcaram o trajecto do escritor. Leu muito, lidou com gerações de jovens, o seu olhar atento perscrutou todos os horizontes, experimentou a saudade de um outro tempo de Macau e entendeu na plenitude o significado do amor.Olha! Esta trança é uma serpente,linda e fascinante,que me seduz a atravessar fronteirase me enrosca.Nós dois, unidos e inseparáveis.“A Trança Feiticeira” foi uma das suas mais apreciadas obras. Conheceu uma versão em língua inglesa, com o título “The Bewitching Braid” e foi adaptada ao cinema pelos produtores e realizadores chineses, Kai Brothers.
  • 231 F A l A r d e n ó s – VII J o r g e A . H . r A n g e l Há cada vez menos peixe e camarão no mare a terra, tão agressiva, esmagando as ondas.Oh! velha tancareira, já abandonou a barcasem ter outra escolha senão ganhar a vida na rua.E os dentes de ouro, que brilham na sua bocaserão a parte mais valiosa de toda a vida?Integrado no livro “Nam Van”, Contos de Macau, está “A-Chan, a Tancareira”, que recebeu o Prémio Fialho de Almeida, nos Jogos Florais da Queima das Fitas da Universidade de Coimbra, em 1950.Tenho de escrever estas palavras,porque o meu coração está cheio de amor.Quero que estas palavras e personagensacordem na tua leiturae vos abracem.Num abraço não há senão mais um abraço,nem a mínima distãncia.O amor e a mulher são presenças constantes na obra do escritor. Seduziu-o o encanto oriental, apaixonou-se e amou intensamente e desse encantamento nasceram os seus filhos.
  • 232F A l A r d e n ó s – VIIJ o r g e A . H . r A n g e l Chegaram os barcos, só para partirem de novo.No Porto Interior, armazém de encontros e de despedidas,quantos marinheiros portugueses desembarcaramà procura de embriaguês e de cola,quantas raparigas desesperadassecaram as lágrimas com o lenço do mar.O que a água turva não enterratenho de escrever e contar.Braços de ferro, não me quebrem a memória!Até à década de 60 do século passado, todo o movimento com o exterior era ainda feito através dos cais do vetusto e muito típico Porto Interior. Era ali que todos, forasteiros e residentes, desembarcavam. Era o ponto de partida e de chegada, lugar de muitos abraços, beijos e lágrimas.Na Rua da Felicidade, não caiu nenhuma folha,o que não significa que o tempo não passe.Já foram tapados pela tinta vermelhaaqueles rostos escondidos na maquilhagem,aquelas linhas do corpo esculpidas pela cabaia,aqueles sorrisos que anteciparam as lágrimas,mas num canto do coração ainda guardo uma folha,verde, linda, e tão triste como a minha memória.Enfim, esta não passa de mais uma folha caída.
  • 233 F A l A r d e n ó s – VII J o r g e A . H . r A n g e l A Rua da Felicidade era a espinha dorsal do “bairro do amor”, depositário de muitos segredos da noite. O seu fascínio perdurou na memória de quantos o conheceram ou dele receberam testemunhos dos seus anos de ouro. A Rua da Felicidade tem, por isso, um lugar especial na obra de Henrique de Senna Fernandes, escritor de Macau que os macaenes recordarão sempre com saudade, admiração e gratidão.22 de Novembro de 2010n B – também registo neste espaço o falecimento, em Portugal, de Vasco de Carvalho e Rego, macaense radicado em Lisboa desde os anos de juventude e bom amigo, e do menino Afonso Couto, com 7 breves primaveras apenas, filho do nosso André Couto, meu primo. Para as respectivas famílias, vão as minhas muito sentidas condolências.
  • 234F A l A r d e n ó s – VIIJ o r g e A . H . r A n g e l Vindos da vasta diáspora, ligados às Casas de Macau espalhadas por vários continentes ou provenientes de países onde não existem agremiações macaenses estabelecidas, a terra-mãe a todos acolhe para mais um Encontro das Comunidades Macaenses, que decorre de 27 de Novembro a 5 de Dezembro.Mais do que uma romagem de saudade, para um reencontro com a terra, familiares e amigos, estas reuniões, com uma multiplicidade e diversidade de actividades, têm contribuído para a afirmação e coesão da comunidade, para o reforço das raízes e para um conhecimento actualizado dos rumos seguidos por este território, agora oficialmente classificado como região administrativa especial da República Popular da China, bem como das suas perspectivas de desenvolvimento futuro, cujo sucesso dependerá, em larga medida, do respeito pelo legado que deu a Macau uma singularidade própria, razão de ser da ampla autonomia de que goza.Além disso, constituem jornadas inolvidáveis de são e alargado convívio, em torno de valores, memórias, hábitos e tradições que caracterizam uma comunidade que as vicissitudes da história marcaram indelevelmente. Com eles estarão os que ficaram ou para aqui regressaram, sabendo todos que é imenso o que nos liga, podendo, por isso, cada um partilhar com os outros recordações, vivências, anseios e propósitos comuns.Na qualidade de presidente do Conselho Consultivo do Conselho das Comunidades Macaenses e de presidente do Instituto Internacional de Macau, a todos desejo uma excelente participação no nosso Encontro e que ele seja, efectivamente, mais um momento alto do percurso da nossa comunidade, cuja acção continuada e persistente Bem-vindos, irmãos, à terra-mãe“Quelora iou pensá sã lôgo vêm,/ Na lembránça qui tud’ora guardá,/Filo-filo bom qui Macau têm,/ Qui tudo fazê, pa su tera honrá.Qui n’Eropa, qui na onçôm-sua tera, / Na Austrália, Brasil, Ongcông, Japám,/Na África, América, divera / Su Macau guardá na coraçám”.Adé, “Filo-Filo di Macau”
  • 235 F A l A r d e n ó s – VII J o r g e A . H . r A n g e l foi determinante para a criação desta jóia, com tanto amor talhada ao longo de séculos, chamada Macau.um intenso programaFoi com um convívio de boas vindas, na Escola Portuguesa de Macau, que o Encontro teve início, no Sábado passado. Muitos abraços, a alegria estampada nos rostos e grande animação deram o tom para o arranque deste importante evento que tem sido realizado de três em três anos.Seguiu-se, na manhã de Domingo, uma sessão de lançamento de novas edições relacionadas com Macau e a comunidade macaense. Nada menos do que 10 volumes foram apresentados nessa manhã cultural organizada pelo Instituto Internacional de Macau, em que também se prestou homenagem a Danilo Barreiros, no centenário do seu nascimento, e se procedeu à entrega do Prémio Identidade à Santa Casa da Misericórdia e à União Macaense Americana. Foi, logo no início da sessão, oferecido um quadro de Smirnoff ao Museu de Arte de Macau, por uma participante no Encontro, Cecilia Maria Yvanovich Burroughs, sua proprietária, lindamente retratada naquela aguarela do famoso pintor russo. Ao fim da tarde de Domingo, no “Ballroom” do “The Venetian Resort”, tivemos a cerimónia de abertura oficial do Encontro, presidida pelo Chefe do Executivo. Nos discursos, habituais em ocasiões solenes como esta, foi reafirmada a confiança na comunidade macaense e no seu envolvimento activo na edificação da RAEM.
  • 236F A l A r d e n ó s – VIIJ o r g e A . H . r A n g e l Hoje, dia 29, a manhã é ocupada com a reunião do Conselho Geral do Conselho das Comunidades Macaenses, com apreciação do relatório e contas e eleição dos corpos sociais para o novo triénio, havendo, para os demais participantes no Encontro, uma visita guiada por especialistas do Instituto Cultural a locais de interesse histórico. Uma fotografia de família, reunindo todos os participantes, será tirada, às 16.00 horas, na escadaria das Ruínas de S. Paulo, seguindo-se um jantar oferecido pelo Secretário para os Assuntos Sociais & Cultura do Governo da RAEM.Amanhã, terça-feira, será o Dia da Cultura Macaense, com uma conferência sobre o patuá e apresentação do portal “Macanese Families website”, no auditório do Instituto Politécnico de Macau. Serão oradores Henrique d’ Assumpção, Alan Baxter, Miguel de Senna Fernandes e Deolinda Adão. Seguir-se-á uma tarde de convívio e uma recepção na Residência Consular de Portugal a delegações das Casas de Macau e da comissão organizadora do Encontro.No dia 1 de Dezembro, comemorar-se-á o Dia da Senhora Padroeira das Comunidades Macaenses, com deposição, às 9.30 da manhã, de coroas de flores junto ao Monumento das Comunidades Macaenses, na Barra, e missa com Te-Deum na Sé Catedral, às 11.00 horas. Um chá gordo, com actuação de artistas locais e da diáspora, terá lugar, ao fim da tarde desse dia, no espaço renovado do Jardim de Infância D. José da Costa Nunes, onde serão também lançados os livros “Os três Encontros das Comunidades Macaenses sob os auspícios da RAEM” e “As Igrejas de Macau e Cerimónias Religiosas”.2 de Dezembro será o Dia da Gastronomia, preenchido, de manhã, com uma conferência sobre cultura gastronómica, no Instituto de Formação Turística, protagonizada
  • 237 F A l A r d e n ó s – VII J o r g e A . H . r A n g e l por Hugo Bandeira, Cíntia Serro, Maria da Graça Pacheco Jorge Barreiros e José Manuel Alves, e com uma cerimónia de proclamação de novos confrades de mérito da Confraria da Gastronomia Macaense, às 18.00 horas, no Hotel Grand Hyatt, seguida de jantar de ementa macaense e espectáculo de variedades. Os confrades envergarão os seus trajes de cerimónia.O dia seguinte, 3 de Dezembro, será dedicado à juventude. Do programa consta uma visita à Universidade da Ciência e Tecnologia, um torneio de bowling e uma festa e baile, com a actuação de artistas e conjuntos locais e da diáspora, na Torre de Macau.O dia 4 de Dezembro será livre, para que os participantes possam deslocar-se a Hong Kong ou a Zhuhai, ou, ainda, para promoverem encontros com familiares e amigos, sendo a festa de encerramento no dia 5, às 18.00 horas, na Doca dos Pescadores.Actividades complementaresÀ medida que foram chegando, nos dias que antecederam a abertura do Encontro, muitos das participantes aproveitaram o tempo para visitas às escolas que frequentaram e para repisarem caminhos de outrora, redescobrindo o que ficou dos tempos de meninice e juventude, depois do vertiginoso crescimento verificado nas últimas décadas. A rotina das famílias macaenses locais foi, de certo modo, quebrada, com mais convívios realizados e muitas horas dedicadas a amigos vindos de longes terras. Diversas associações macaenses organizaram reuniões e o Club Lusitano de Hong Kong receberá os participantes na sua magnífica sede, logo após o encerramento do Encontro.
  • 238F A l A r d e n ó s – VIIJ o r g e A . H . r A n g e l Os órgãos comunicação social têm dedicado amplos espaços a este evento e às Casas de Macau, entrevistando os seus membros mais destacados, e quem circulou pelo centro da cidade nestes dias, terá sentido, certamente, esta presença acrescida de macaenses no Largo do Senado, nas Mariazinhas e na Sé.convidado de HonraParticipa no Encontro, a convite da comissão organizadora, como membro da Comissão de Honra, o General Vasco Rocha Vieira, último Governador de Macau, que se encontra entre nós acompanhado da esposa. É a segunda vez que voltam a Macau depois da transferência do exercício da soberania, tendo a anterior visita, realizada em 2009, sido feita a convite das autoridades chinesas. Muito bem recebidos, foram alvo de justas homenagens.As agremiações da diásporaClassificadas como Casas de Macau, temos a UMA-União Macaense Americana, o Club Lusitano de Hong Kong, a Casa de Macau de Portugal, o Lusitano Club of California, a Casa de Macau (USA), a Casa de Macau de São Paulo, a Casa de Macau do Rio de Janeiro, a Casa de Macau da Austrália, a Casa de Macau no Canadá (Toronto), o Macau Club (Toronto), a Macau Cultural Association of Western Canada e a Casa de Macau de Vancouver. Além destas, estão ainda registados, nos respectivos países, os seguintes organismos: Amigu di Macau Club (Toronto), Portugal-Macau Institute of America e Macau Arts, Culture & Heritage Institute.
  • 239 F A l A r d e n ó s – VII J o r g e A . H . r A n g e l Macau, como sempre, recebe of “filhos da terra”, os seus familiares, amigos e convidados de braços abertos.29 de Novembro de 2010
  • 240F A l A r d e n ó s – VIIJ o r g e A . H . r A n g e l Nos Encontros das Comunidades Macaenses realizados após o estabelecimento da RAEM, o Instituto Internacional de Macau (IIM) assumiu a organização de sessões culturais, nas quais, entre outras actividades, foram apresentadas novas edições relacionadas com a vida e a memória da comunidade macaense. O mesmo aconteceu agora, quando dez novos volumes, saídos do prelo nas últimas semanas, foram lançados numa bonita e concorrida sessão levada a efeito no Teatro D. Pedro V, logo no primeiro dia do Encontro de 2010. Como foi referido na ocasião, são “obras que valorizam a memória e dignificam a comunidade”.São estes os livros, disponíveis já na Livraria Portuguesa e na secretaria do IIM:Páginas da História de Macau Reedição há muito desejada, esta compilação de artigos de Luís Gonzaga Gomes, que ele próprio reunira em livro da colecção “Notícias de Macau”, em 1966, vai ser um sucesso editorial. A primeira edição é uma raridade e muitos são os que querem ter acesso à obra, que contém relatos de ocorrências relevantes nesta Cidade do Nome de Deus e de algumas façanhas verdadeiramente épicas, incluindo histórias sobre os piratas que atribulavam os mares do Sul da China. As descrições de Luís Gonzaga Gomes permitem-nos conhecer e compreender a maneira de viver da população de Macau e factos determinantes da história do território.No centenário do nascimento de Luís Gonzaga Gomes, ocorrido há três anos, o IIM assumiu a liderança na promoção e coordenação das pertinentes celebrações e estimulou a publicação de trabalhos sobre a sua vida e obra, bem como a reedição dos seus livros. novas edições do IIM apresentadas na abertura do encontro“Na senda de iniciativas idênticas de Encontros anteriores, o IIM lança, agora, mais obras que valorizam a memória e dignificam a comunidade”. Palavras de apresentação na sessão realizada em 28/11/2010
  • 241 F A l A r d e n ó s – VII J o r g e A . H . r A n g e l As entidades oficiais alhearam-se, lamentavelmente, da efeméride, mas as organizações macenses e associações locais de matriz portuguesa responderam positivamente à chamada, prestando uma justíssima e oportuna homenagem ao professor, escritor e historiador macaense, reconhecido como o maior promotor do intercâmbio cultural luso-chinês. Esta reedição de “Páginas da História de Macau”, que tem mais de 350 páginas e uma vistosa capa da jovem designer macaense Ângela Canavarro Ramos, integra-se no espírito daquelas celebrações.A derrota dos Holandeses em 1622É o volume XVI da colecção “Mosaico”, do IIM, e um dos 36 artigos que fazem parte das “Páginas da História de Macau”, de Luís Gonzaga Gomes. Autonomizou-se este artigo em opúsculo próprio para corresponder a pedidos de Casas de Macau, de professores e de participantes nas festas de S. João Baptista, antigo Dia da Cidade, que os portugueses de Macau continuam a comemorar. Foi no dia 24 de Junho que a esquadra holandesa sofreu pesada derrota no seu terceiro e último ataque a Macau e Luís Gonzaga Gomes deixou-nos este relato assaz vivo e completo dos acontecimentos e do júbilo da população com tão significativa e decisiva vitória.A Professora graciete BatalhaMais um volume da colecção “Mosaico”, este trabalho do professor António Aresta, presentemente colocado na Escola Secundária de Paredes (Portugal), depois de longos anos passados em Macau, onde deixou obra muito meritória, e em Moçambique, ao serviço da Escola Portuguesa, permite-nos lembrar uma notável educadora, que
  • 242F A l A r d e n ó s – VIIJ o r g e A . H . r A n g e l se insere “na linhagem dos grandes professores que serviram no Liceu de Macau”, “gente de cultura, de educação, com intervenção cívica, obra publicada e enorme profissionalidade”.A família, os ex-colegas e os seus imensos antigos alunos receberão muito bem este trabalho que merece ampla divulgação na Escola Portuguesa de Macau e em instituições académicas e culturais, porque Graciete Batalha foi “uma das personalidade portuguesas mais marcantes no panorama da cultura contemporânea de Macau”.Falar de nós – Volumes V e VISão mais dois volumes de crónicas e artigos meus sobre Macau e a Comunidade Macaense, referindo acontecimentos, personalidades, instituições, a diáspora, o legado e as opções futuras. O 7.º volume está quase pronto e já há material preparado para o 8.º. Será o último?Quando iniciei esta série de crónicas e artigos, estava bem longe de prever que eles, sete anos volvidos, pudessem estar ainda a ser publicados todas as semanas, ininterruptamente, no Jornal Tribuna de Macau. Na verdade, quanto mais se escreve sobre Macau, fácil é constatar que mais e mais assuntos ficam por tratar. A fonte é mesmo imensa e quase inesgotável!cinema em MacauÉ uma edição graficamente de grande qualidade e o seu interessantíssimo conteúdo despertou a atenção e a curiosidade de todos, no dia do lançamento, após uma sentida
  • 243 F A l A r d e n ó s – VII J o r g e A . H . r A n g e l apresentação de Miguel de Senna Fernandes, que recordou o pai, recentemente falecido, e a sua grande paixão pelo cinema. Esta obra de Henrique de Senna Fernandes revela a sua prodigiosa habilidade de descrever a evolução da sétima arte, desde o seu aparecimento como cinema mudo, até à década de 30, entremeando-a com acontecimentos sociais que marcaram uma época, muitos dos quais ele próprio viveu. Com efeito, apesar de o tema central ser o cinema, o autor relata ocorrências relevantes na sociedade macaense, enquanto discorre sobre os espectáculos e projecções de filmes que tiveram uma influência enorme numa população que frequentava assiduamente os cine-teatros que abundavam na cidade.Este livro é uma compilação de artigos publicados na Revista de Cultura, na década de 90 do século passado.Things I rememberÉ outro opúsculo da colecção “Mosaico”, em que Frederico (Jim) Silva, destacada personalidade da diáspora e ex-presidente da UMA – União Macaense Americana, identifica com muito “chiste” algumas especificidades tipicamente macaenses no contexto das suas recordações.A primeira edição, do próprio autor, teve uma tiragem muito limitada e esta reedição faz jus à qualidade e ao inegável interesse deste trabalho.Meio século em MacauEste livro de memórias, em verso, de J. J. Monteiro, poeta popular de Macau, em dois volumes, profusamente ilustrados, proporcionou outra sentida apresentação, no palco
  • 244F A l A r d e n ó s – VIIJ o r g e A . H . r A n g e l do Teatro D. Pedro V, local emblemático e de profundo significado para a comunidade, pelo seu filho mais velho, Américo Monteiro, funcionário público aposentado.Estão reunidas, nestes dois volumes, memórias de cinco décadas intensamente vividas em Macau por um homem bom e invulgarmente talentoso que muito bem compreendeu e amou Macau e soube servir e dignificar Portugal.The Portuguese Community in Hong Kong – a Pictorial History (Volume II)O 1.º volume foi lançado, com invulgar sucesso, no Encontro das Comunidades Macaenses de 2007, tendo estimulado outras famílias a partilharem fotografias e mais elementos informativos que justificaram a elaboração do 2.º volume, sendo ambos da autoria do Arq.º António M. Pacheco Jorge da Silva. Ali está também uma história, muito bem eleborada e de agradável leitura, da comunidade pujante e interventora que foi a portuguesa de Hong Kong.A obra vai ser também apresentada, brevemente, no Club Lusitano de Hong Kong e em algumas Casas de Macau na América do Norte. O autor está a preparar um trabalho idêntico sobre a comunidade portuguesa de Xangai, para lançamento no Encontro de 2013. 6 de Dezembro de 2010
  • 245 F A l A r d e n ó s – VII J o r g e A . H . r A n g e l Como já esperávamos, o opúsculo dedicado a Graciete Batalha e integrado na colecção “Mosaico”, do Instituto Internacional de Macau, teve muito bom acolhimento junto dos seus antigos alunos e de muitas pessoas que com ela privaram, puderam conhecer e admirar os seus relevantes serviços prestados à Educação e a Macau e souberam respeitar a sua dedicação, competência, coragem e coerência.É seu autor António Aresta, professor e investigador, com importantes estudos publicados e exemplares prestações de serviço em Macau e em Moçambique. Neste seu trabalho, que constitui uma homenagem àquela professora, lembra-nos que Graciete Batalha se insere “na linhagem dos grandes professores que serviram no Liceu de Macau (gente de cultura, de educação, com intervenção cívica, obra publicada e uma enorme profissionalidade), uma tradição que remonta a Manuel da Silva Mendes, ele próprio professor no Liceu, pensador e intelectual, com múltiplos interesses e grande coleccionador de arte chinesa. Foram professores como esses que ajudaram a forjar uma poderosa identidade portuguesa em Macau, no contexto de um cadinho étnico multicultural, identidade essa cimentada numa velha amizade luso-chinesa, com cumplicidades, respeito, entendimento e tolerância que a sabedoria dos anos manteve e manterá como energia vital”.Da sua nota biobibliográfica, consta que Graciete Agostinho Nogueira Batalha nasceu na cidade de Leiria, a 30 de Janeiro de 1925 e efectuou os estudos liceais em Leiria e em Coimbra, frequentando de seguida a Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, licenciando-se em Filologia Clássica em 1949, ano em que se consorciou com José Marcos Batalha, jovem médico macaense, também formado em Coimbra. Rumaram, então, os dois a Macau.graciete Batalha – saudade e homenagem“Na história da educação em Macau, a Professora Graciete Batalha ocupa, naturalmente, um lugar de destaque”. António Aresta, “A Professora Graciete Batalha”, IIM, 2010
  • 246F A l A r d e n ó s – VIIJ o r g e A . H . r A n g e l Aqui, de 1949 a 1957, foi professora da Escola Primária Oficial, por não haver vaga no seu grupo de docência no Liceu. Na Universidade de Hong Kong regeu a disciplina de Língua Portuguesa, em 1958-1959. Desenvolveu depois a sua actividade docente no Liceu Nacional Infante D. Henrique, terminando a carreira no dia 15 de Julho de 1985. Leccionou igualmente na Escola do Magistério Primário de Macau, de que foi directora de 1967 a 1969.Professora e pedagoga, conferencista, investigadora e ensaísta, é reconhecida como “uma das personalidades mais marcantes no panorama da cultura contemporânea de Macau”.Foi membro do Conselho Legislativo de Macau, da Assembleia Legislativa de Macau e do Conselho Consultivo do Governador de Macau. Foi também membro da Sociedade de Geografia de Lisboa e membro fundador do Cenáculo Luís Gonzaga Gomes.Agraciada com a Ordem do Império (grau de Oficial), em 1973, e com a Medalha de Mérito Cultural, em 1984, recebeu também outras distinções, como o Prémio Camilo Pessanha, em 1991, atribuído pelo Instituto Português do Oriente.Faleceu em 1992, deixando importante obra publicada, entre artigos, estudos, crónicas e ensaios. Colaborou em publicações de Macau (Notícias de Macau, O Clarim, revista Mosaico, Boletim do Instituto Luís de Camões, Comércio de Macau, Revista da Educação, Revista de Cultura, Confluência, revista Macau, Jornal de Macau e Boletim Eclesiástico da Diocese de Macau), e de Portugal (Biblos, Revista Portuguesa de Filologia, Diário de Notícias, Diário Popular e O Mensageiro) e publicou os seguintes
  • 247 F A l A r d e n ó s – VII J o r g e A . H . r A n g e l trabalhos: “Relembrando Velhas Trovas Medievais” (1950), “Homenagem a Teixeira de Pascoaes” (1951), “Aspectos do Vocabulário Macaense” (1953), “Aspectos da Sintaxe Macaense” (1953), “As Inspiradoras da Lírica Camoniana à Luz da Crítica Moderna” (1954), “A Mulher na Obra de Júlio Dinis” (1956), “Para uma Interpretação do Topónimo Macau” (1958), “Língua de Macau: O que Foi e o que É” (1958), “Estado Actual do Dialecto Macaense” (1959), “A Escritora Han Suyin e o Euroasiático Intelectual” (1961), “Coincidência com o Dialecto de Macau em Dialectos Espanhóis das Ilhas Filipinas” (1961), “Instantâneos do Japão” (1963), “A Contribuição Malaia para o Dialecto Macaense” (1965), “Aspectos do Folclore de Macau” (1968), “A Instrução Literária e a Experiência Humana em Gil Vicente” (1969), “Camões Satírico” (1972), “Glossário do Dialecto Macaense” (1977), “Instantâneos de Manila” (1978), “Presença Actual de Camões em Goa” (1980), “O Inquérito Linguístico Boléo em Malaca” (1980), “O Chão de Padre e seus Moradores Portugueses” (1981), “Língua e Cultura Portuguesas em Goa: estado actual” (1982), “Situação e Perspectivas do Português e dos Crioulos de Origem Portuguesa na Ásia Oriental: Macau, Hong Kong, Malaca, Singapura, Indonésia” (1985), “Malaca: O Chão de Padre e seus Moradores Portugueses” (1986), “Sabedoria dos Jovens” (1986), “O Futuro da Língua Portuguesa no Extremo Oriente” (1986), “Este Nome de Macau” (1987), “Poesia Tradicional de Macau” (1987), “Suplemento ao Glossário do Dialecto Macaense” (1988), “Presença Portuguesa no ‘Mandó’ de Goa” (1988), “Bom Dia S’tora! Diário de uma Professora em Macau” (1991), talvez o seu livro mais lido e apreciado, “A Viragem do Século e o Escritor em Macau” (1991) e “Culinária Macaense: Um Retorno às Origens” (1992). Alguns destes estudos encontram-se vertidos nas línguas chinesa e inglesa e sobre a sua obra existe um catálogo bibliográfico editado pelo Instituto Cultural de Macau / Biblioteca Central de Macau, em 1995.
  • 248F A l A r d e n ó s – VIIJ o r g e A . H . r A n g e l Graciete Batalha também prefaciou e promoveu a edição de obras várias, interveio em programas radiofónicos e televisivos e organizou abundantes actividades escolares, na forma de récitas, concursos, representações teatrais, visitas de estudo e outras.Fui seu colega no Liceu de Macau, em dois momentos, em 1975, logo após o meu regresso a Macau, quando ali leccionei durante apenas dois meses, até tomar posse do cargo de director do Turismo, e depois, já nessa qualidade, quando coordenei o 1.º curso de Jornalismo, no final da década de 70, onde o meu melhor aluno foi o José Rodrigues dos Santos, que tem feito uma brilhante carreira como jornalista, pivô da RTP e escritor de sucesso. E, no Governo, pelas responsabilidades que tive na área da Educação, pude voltar a lidar de perto com Graciete Batalha e apreciar as suas altas qualidades morais e profissionais.De facto, como bem soube sintetizar Antonio Aresta, “na história da educação em Macau, a Professora Graciete Batalha ocupa, naturalmente, um lugar de destaque” , “ A sua pedagogia de interesse activo e os seus trabalhos de investigação constituem uma referência incontornável para a compreensão da matriz portuguesa que, em Macau, coexiste há séculos com a matriz chinesa. Pelos seus escritos podemos, na actualidade, revisitar a história da educação portuguesa em Macau, por vezes com uma espantosa minúcia e rigor factual, bem como a própria história do Território, cujos lances assomam, aqui ou além, com o pitoresco de quem protagonizou ou presenciou alguns episódios”.O opúsculo encerra com esta feliz referência de Celina Veiga de Oliveira: “Graciete Batalha, no panorama de Macau, constitui uma referência inultrapassável, pela
  • 249 F A l A r d e n ó s – VII J o r g e A . H . r A n g e l verticalidade com que assumiu as suas ideias políticas no Conselho Legislativo, pelo pioneirismo na investigação linguística e literária e pelas qualidades excepcionais como Professora que formou gerações sucessivas que ainda a recordam, com aqueles sentimentos indefectíveis de ternura e gratidão que se dedicam aos verdadeiros Mestres. São pessoas como Graciete Batalha, com o seu carácter e a sua integridade, que contribuem para que a ética e o desenvolvimento social e pessoal não sejam atropelados pelo mercantilismo hoje dominante na vida e nos valores”.O opúsculo foi apresentado no dia 28 de Novembro, primeiro dia do Encontro das Comunidades Macaenses de 2010, em sessão promovida e coordenada pelo Instituto Internacional de Macau, juntamente com várias outras edições sobre temática relacionada com Macau. Fazendo minhas as palavras de António Aresta, também acho que, sendo a Escola Portuguesa “de algum modo herdeira espiritual do Liceu de Macau e da Escola Comercial Pedro Nolasco”, bem poderia chamar a si a responsabilidade de organizar uma antologia da obra desta saudosa professora, “homenageando a investigadora e divulgando as áreas essenciais do seu labor científico”.13 de Dezembro de 2010
  • 250F A l A r d e n ó s – VIIJ o r g e A . H . r A n g e l Em 2009, quando se assinalou o 10.º aniversário da transferência de poderes e do estabelecimento da RAEM, numerosas cerimónias e outros actos evocativos foram realizados em Macau e no exterior. Em Lisboa, coube à Fundação Jorge Álvares a iniciativa de organizar uma sóbria e altamente significativa exposição, intitulada “Macau: Encontro de Culturas”, e uma sessão solene, no dia 19 de Dezembro de 2009, presidida pelo Presidente da República Portuguesa, com a presença de um Secretário de Estado do Ministério dos Negócios Estrangeiros, do Embaixador da República Popular da China, do ex-Presidente António Ramalho Eanes, do Chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas, de antigos Governadores de Macau e de outras autoridades.O orador convidado foi o Professor Adriano Moreira, presidente da Academia das Ciências e professor emérito da Universidade Técnica de Lisboa, uma das vozes mais escutadas e respeitadas nos círculos políticos e académicos. Quando se comemora mais um ano duma transição bem sucedida, vale a pena registar neste espaço algumas das partes mais relevantes da sua esclarecida intervenção, que constitui mais uma apreciação importante de um momento alto da história recente de Portugal:“No panorama da desordenada governança do globalismo, Macau emerge como um elo da ligação entre o Oriente e o Ocidente. Trata-se de um facto que merece atenção e desenvolvimento de perspectivas, a começar pelo crescente desafio respeitante à preservação dos ‘patrimónios imateriais’ das áreas culturais que hoje falam em liberdade usando a própria voz, mas todas convocadas a identificar e fortalecer o ‘património comum da humanidade’ que vive na ‘casa comum’ que é o planeta Terra, ameaçado na sua integridade pela acção e exploração ambiciosa de todas as comunidades e poderes políticos.reflexão de Adriano Moreira a propósito da transição de Macau“A cerimónia de transferência do poder foi organizada com uma dignidade inexcedível, e o comportamento do último governador português, o General Vasco Rocha Vieira, o gesto instintivo de receber e apertar ao coração a Bandeira Nacional, foi lido, ficará lido na história, como a proclamação de que Portugal retirava com a dignidade intacta. Isto não foi ainda inteiramente reconhecido ...”
  • 251 F A l A r d e n ó s – VII J o r g e A . H . r A n g e l Talvez seja útil, para abordar este tema com algum despertar de responsabilidades individuais, dos povos, e dos poderes políticos, recordar que o tema foi trazido à meditação mundial por iniciativa e insistência da UNESCO. Sem desconhecer a crise da ONU e os desafios tremendos que exigem a reforma da instituição para recuperar a esperança que acompanhou a sua fundação no fim da guerra de 1939-1945, deve salientar-se que o mundo estaria em muito piores circunstâncias se não existissem as organizações especializadas da ONU, nas quais não existe o direito de veto atribuído com escassa racionalidade a cinco membros do Conselho de Segurança. São organizações entre as quais se destaca a UNESCO, responsável e incansável no apelo aos valores que tendem para a erosão filiada no desenfreado relativismo que circula pelas redes da globalização dominada pelas desregradas ambições dos triunfos financeiros a qualquer preço, agora representadas pela catástrofe do sistema financeiro global, com os graves efeitos colaterais na economia real.................................................................................................................Na leitura actual de investigadores como Fareed Zakaria, o grande facto da nossa época é a ascensão da China, da Índia, e do Brasil acrescentando o programa de recuperação da Rússia e a consolidação da África do Sul. Considera que a China moderna, em consequência, está profundamente presente na mente dos americanos, parecendo-lhe que ‘o despertar da China está a moldar a paisagem económica e política, mas também está a ser moldada pelo mundo na qual se está a dar a sua ascenção’.É provável que o progresso económico, o aprofundamento do mercado, o inevitável aparecimento de uma classe média, venham a democratizar, no sentido ocidental, a
  • 252F A l A r d e n ó s – VIIJ o r g e A . H . r A n g e l posse e exercício do poder: mas a realidade mostra que a opção pelo ‘soft power’ é uma opção estratégica da sua relação com o globalismo, e que soube utilizar essa metodologia em relação à política destinada a extinguir os ‘tratados desiguais’, e seus derivados. É aqui que a ligação da China com o património imaterial português se torna importante e significativa.Não obstante os incidentes que se verificaram em relação a Macau durante a Revolução Cultural, foi sempre dificilmente explicável, pela observação internacional, a manutenção do pequeno território de Macau sob a soberania portuguesa. É certo que a China nunca reconheceu que se tratava de soberania portuguesa, mas o facto do poder era inegável, o conceito internacional da situação era inequívoco, a proclamação portuguesa era de soberania e de integração na unidade nacional proclamada pela Constituição de 1933.Consta da lenda, mas falta demonstrar, que quando, no período da Revolução de 1974, foi levado à China o anúncio da descolonização revolucionária que também incluía Macau na retirada portuguesa daquela área, a resposta terá sido que seria necessário esperar pela concordância chinesa sobre a devolução e a data dela.Nem para a China, nem para Portugal, naquela data, se tratava de uma posição valiosa a conservar, salvo pela história, o povoamento português era inexistente, a implantação da língua não tinha dimensão que fosse de sublinhar. O jogo tinha começado a ganhar relevância e fortunas para as concessionárias e para o território. A explicação que me pareceu mais razoável, no que respeita à manutenção da soberania portuguesa, encontro-a no orgulho nacional chinês: o salvar da face não
  • 253 F A l A r d e n ó s – VII J o r g e A . H . r A n g e l era compatível com a eliminação da presença de um pequeno Estado como Portugal, antes de ter conseguido expulsar o poderoso império britânico. Por outro lado, a maleabilidade que autorizou a diversidade de regimes no mesmo Estado, numa espécie de assimilação da metodologia regionalista ocidental em curso, consentiu a promulgação dos Estatutos de Hong Kong e de Macau, sem perda de face, antes pelo contrário, dos intervenientes soberanos. No caso de Portugal, o Estatuto foi altamente respeitador das especificidades da comunidade e dos valores que a soberania na retirada ambicionava deixar respeitados.A cerimónia de transferência do poder foi organizada com uma dignidade inexcedível, e o comportamento do último governador português, o General Vasco Rocha Vieira, o gesto instintivo de receber e apertar ao coração a Bandeira Nacional, foi lido, ficará lido na história, como o proclamação de que Portugal retirava com a dignidade intacta. Isto não foi ainda inteiramente reconhecido, e lembra um dito do Padre António Vieira: nós fazemos o que devemos, e a Pátria o que costuma.Uma dignidade que em 2005 receberia uma prova inequívoca, dada pelo Governo de Pequim, ao delegar no Governo de Macau a gestão das relações da China com os países de língua oficial portuguesa, para aproveitar, na sua expressão liberal, o legado português. Trata-se do ‘património imaterial’ que liga os países da CPLP, no qual se destaca a língua, que mal se fala em Macau, mas que é estrutural da identidade daqueles países. Nesta data é muito discutida a língua por causa do ‘Acordo Ortográfico’ que sofre contestações variadas, mas a importância do ‘património imaterial’ em que se inscreve tem uma relevância excepcional em relação a todos os outros problemas.
  • 254F A l A r d e n ó s – VIIJ o r g e A . H . r A n g e l No caso português, que apenas terá equivalente na língua inglesa, a situação parece-me poder sintetizar-se neste conceito: ‘a língua não é nossa, também é nossa’. O facto é que, falada em todas as latitudes, são diferentes, em cada lugar, o interesse que serve e os valores que soma: em Timor é corajosamente assumida como pilar de identidade contra um vizinho que foi cruel e com o qual o país tem de manter boas relações, mas obrigado a suprir a falta de escolaridade a que a população foi submetida por gerações; Moçambique pertence à Comunidade Britânica e alguma mestiçagem de valores é inevitável; o Brasil é fiel à formação cultural portuguesa, essencial, mas soma a participação de valores ameríndios, africanos, alemães, italianos; a China, finalmente, necessita de preparar uma elite capaz de exercer quer a negociação diplomática, quer a negociação económica, naqueles territórios.Os valores agregados enriquecem um património imaterial que desafia a capacidade do Estado Português no sentido de preservar e enriquecer um instrumento tão rico de valores agregados num trajecto de Lisboa a Lisboa ao redor da Terra, sem comparação do historial espanhol limitado à América Latina, nem do francês que foi importante nas áreas diplomática, cultural, e científica, mas com limitadíssimas fixações fora do seu território nacional. Talvez uma percepção do poder governativo vigente em Portugal, que limita a atenção que dispensa às humanidades, possa ser revista, quanto ao descuido, pelos estudos que vão mostrando a importância da língua no PIB nacional. Na esperança de que este interesse pela capacidade de retorno dos investimentos possa abrir espaço ao património imaterial em que a língua tem participação tão destacada, com largo retorno para a identidade das Nações que a falam, para a ‘posição de Portugal no mundo’, para reforço do conceito que considera que um país, para o ser, é um futuro com passado. Que Portugal, responsável pelo início da globalização, tenha agora no seu
  • 255 F A l A r d e n ó s – VII J o r g e A . H . r A n g e l património imaterial uma contribuição viva para a articulação pacífica entre o Oriente e o Ocidente, uma voz a ser escutada no reordenamento da governança que falta, uma pregação de interlocutor respeitado entre o Oriente que se assume na cena mundial e os poderes Ocidentais em processo de redefinição das políticas de contexto, obriga ao respeito pelos que, sendo tão poucos, construíram o passado que assegura o ânimo de responder com eficácia à necessária reinvenção do futuro.” São palavras judiciosas e oportunas que merecem uma ampla divulgação.20 de Dezembro de 2010
  • 256F A l A r d e n ó s – VIIJ o r g e A . H . r A n g e l No jantar de convívio final do Encontro das Comunidades Macaenses de 2010, juntamente com um álbum de fotografias dos três encontros anteriores realizados sob os auspícios da RAEM, cuja elaboração e produção foram coordenadas por José Rocha Dinis, director do Jornal Tribuna de Macau, foi lançado mais um livro do nosso Leonel Barros, publicado pela Associação Promotora da Instrução dos Macaenses e intitulado “Igrejas de Macau e Cerimónias Religiosas” (APIM, Novembro de 2010). Nesta quadra festiva de tão elevado significado para a nossa comunidade, torna-se oportuno transcrever desse livro um pequeno apontamento sobre “o Natal de antigamente”:“A quadra festiva do Natal era assinalada, como de costume, com a tradicional Missa do Galo nas igrejas, exposição de presépio e a presença de árvores de Natal nas escolas e instituições de caridade.As igrejas paroquiais de Macau e as restantes enchiam-se de fiéis, na noite de 24, para a tradicional Missa do Galo, umas cantadas e outras rezadas. As missas eram acompanhadas de cânticos próprios da quadra. (...) As congregações marianas concentravam-se na Igreja de São Domingos, onde assistiam à missa, que era acompanhada de cânticos. Nesta igreja, como nas restantes, havia uma grande afluência de fiéis à mesa da Comunhão e à cerimónia de ‘beijar o Menino Jesus’.Em várias escolas, oficiais e particulares, faziam-se festas de Natal, com distribuição de prendas aos seus alunos. Na escola infantil D. José da Costa Nunes havia também uma o natal macaense de antigamente“..................................................Alegrá co Jesus, alma cristám,Dessá luz di Natal vêm devolvêEsperánça pa tudo coraçám”.Adé, “Luz di Natal”
  • 257 F A l A r d e n ó s – VII J o r g e A . H . r A n g e l festa. As crianças desta escola levavam a efeito um engraçado programa de variedades, com cantorias e danças, todas vestidas com trajes regionais, e outros entretenimentos infantis de boa disposição e alegria.No dia 31 de Dezembro, o último dia do ano, era tradição cantar um Te Deum em quase todas as igrejas. O Te Deum dá graças ao Altíssimo por mais um ano que passou e implora ainda a bênção para o novo ano que vai começar e que, na vida da Humanidade, é incógnita difícil de prever ou de calcular.”Leonel Barros, carinhosamente tratado, pelos seus familiares e amigos por Neco, juntou também este poema do saudoso e sempre lembrado poeta macaense José dos Santos Ferreira (Adé), intitulado “Luz di Natal”:Sino ta rapicá na tudo gréza,/ N´altar, candia têm fôgo sandido.Alma crente, masquí sofrê tristéza,/Nádi sintí esp´ránça cai perdido.Sâ Natal, j´olá? Céu ficá luzido,/Istréla ta dá cor, mostrá grandezaDi unga dia nunca isquecido,/Di unga anôte inchido di beléza!Si têm fé, nádi lô iscurecê./Nôs sã já uví falá di salvaçám,Di tánto uví, qui certo logo crê./Alegrá co Jesus, alma cristám,Dessá luz di Natal vêm devolvê /Esperánça pa tudo coraçám.Através deste singelo poema em “maquista”, também desejo a todos os leitores e a quantos vivem em Macau, ou pertencem à diáspora macaense, que “a luz do Natal traga a esperança a todos os corações”.
  • 258F A l A r d e n ó s – VIIJ o r g e A . H . r A n g e l A Sé Catedral e as Igrejas de São Domingos, Santo António e São Lázaro eram as mais frequentadas pela comunidade macaense, na época natalícia. Leonel Barros caracteriza do seguinte modo a de São Domingos, uma das mais bonitas e mais visitadas, hoje, pelos turistas:“A Igreja de São Domingos está situada no largo com o mesmo nome, possuindo uma belíssima fachada. É visitada por dezenas de turistas que não deixam de tirar uma fotografia. Esta igreja também é conhecida como a Igreja de Nossa Senhora de Fátima. É dela que anualmente sai a procissão de Nossa Senhora de Fátima, no dia 13 de Maio, com um grande acompanhamento até à Ermida da Penha.Foi edificada pelos Dominicanos espanhóis – Padres António Arcediano, Eldefonso Delgado e Bartolomeu Lopes – que chegaram a Macau nos finais de 1587. Era a época de domínio dos Filipes. Os Dominicanos e os Agostinhos espanhóis tiveram de entregar os seu mosteiros aos missionários portugueses das mesmas ordens, por decisão do vice-rei da Índia. A Igreja e as suas dependências passaram então para as mãos de frades portugueses, provavelmente em 1595.Foi tal a influência destes missionários que, em 1614, o vigário de São Domingos tornou-se governador do Bispado, quando o Bispo foi chamado a Portugal. Frei António do Rosário chegou a governar muitos anos, sendo mais tarde nomeado Bispo de Malaca em 1637. Foi, nesse período, que a Ordem Dominicana mais floresceu. Foi então organizada a festa de Nossa Senhora do Rosário, aberta aos devotos. Foi fundada a Confraria do Rosário, de grande prestígio, e que continuava a celebrar anualmente esta festa.
  • 259 F A l A r d e n ó s – VII J o r g e A . H . r A n g e l Os Dominicanos desenvolveram uma grande acção nas missões da China. Mesmo assim, não se encontrou registos durante o séc. XVII. O primeiro acontecimento registou-se em Outubro de 1704: o estrangulamento do Frei Felipe da Cruz na sua cela, onde se encontrava doente. Seguidamente, em 1705, sofreu todas as consequências da questão dos ritos chineses. A igreja foi depois encerrada ao culto, por ordem do Bispo de Macau, através de um edital publicado em 1707.Em 1747 fizeram-se grandes festas nesta igreja em honra do Bispo Pedro Sanz (martirizado em 26 de Maio desse ano em Fuzhou) com missa solene e Te Deum. Isto para além da iluminação nocturna com candeeiros de papel colorido e fogo-de-artifício.Quando na casa dos Dominicanos residiam apenas dois religiosos, propôs-se a venda dos edifícios dos hospícios de São Domingos. O produto da venda reverteria para a construção de asilos para inválidos, órfãos e viúvas. Nada se decidiu sobre este assunto e os frades entraram em nova época de actividade.Foi criada, no Convento de São Domingos, uma escola de educação religiosa para cinco alunos que, após habilitados, iriam ser enviados às missões de Timor. No ano seguinte, o hospício serviu a muitos religiosos que seguiam para a missão de Timor e de Malaca. Foi precisamente aqui que apareceu pela primeira vez o jornal “Abelha da China”, editado pelo principal dos Dominicanos em Macau (1822).Com a ordem de extinção e encerramento de todos os conventos, posta em execução em Macau em 1835, foram leiloados quase todos os bens da Ordem Dominicana. Contudo, nem o convento nem a igreja foram postos à venda. Mais tarde, as autoridades
  • 260F A l A r d e n ó s – VIIJ o r g e A . H . r A n g e l eclesiásticas pediram autorização para a transferência da Sé Catedral provisoriamente para a Igreja de São Domingos, por o edifício da Sé se encontrar em muito mau estado, devido à passagem de um violento tufão. A autorização da transferência foi feita no dia 29 de Fevereiro de 1844 e, a partir daí, aberto o culto. O primeiro acto público efectuado na Igreja de São Domingos foi a consagração do Bispo São Jerónimo José da Mata, eleito em 19 de Junho de 1844. O Bispo das Filipinas, D. Thomas Badi, veio a Macau para o sagrar. Mas teve a infelicidade de morrer quando se encontrava a banhar-se na praia, que antigamente havia no Largo do Tarrafeiro. Foi sepultado nesta igreja, sendo dele a única lápide tumular que se encontrava na capela-mor.No largo fronteiriço à Igreja de São Domingos encontraram-se nas escavações numerosos esqueletos, talvez pertencentes ao velho cemitério que ali existia. O convento que se encontrava junto à igreja foi demolido há muitos anos. Ocupava uma enorme área, incluindo a actual Rua de São Domingos, Rua da Palha, Travessa de Algibebes e Rua dos Mercadores.Após a partida dos frades em 1835, os alojamentos destes ficaram vazios e totalmente abandonados durante muito tempo. Eventualmente serviram de aquartelamento dos soldados do Batalhão Nacional de Macau, sendo as cavalariças do batalhão instaladas por detrás da igreja. Ainda nestes edifícios do velho convento foi instalada a Direcção das Obras Públicas, o Corpo de Bombeiros e a Estação Central dos Telefones. Havia ainda, nesse convento, uma sala com vários objectos de valor conservados como relíquia, entre eles três sinos”.
  • 261 F A l A r d e n ó s – VII J o r g e A . H . r A n g e l O autor dedica “com grande alegria o livro a todos os bons filhos de Macau espalhados pelo mundo, assim como àqueles que por aqui passaram, deixando saudades”. Pequenos capítulos e secções explicam o aparecimento da Diocese de Macau e o seu desenvolvimento, bem como a acção missionária que irradiou a partir de Macau, identificando depois as igrejas e as principais festividades religiosas de Macau.27 de Dezembro de 2010
  • 262F A l A r d e n ó s – VIIJ o r g e A . H . r A n g e l A Sociedade Histórica da Independência de Portugal lançou, no passado dia 1 de Dezembro, Dia da Restauração da Independência de Portugal, a nova série da sua revista, com o título “Independência” e o subtítulo “Revista de Cultura Lusíada”. Deu-se, com este acto, início às celebrações do 150.º aniversário daquele organismo cívico-cultural fundado em 24 de Maio de 1861. Nascido no seio da sociedade civil para responder às inquietações históricas do momento, a SHIP mantém-se atenta e interventora, por Portugal, valorizando o legado e perspectivando o futuro.Colaboram neste primeiro número destacadas personalidades como o Prof. Adriano Moreira (“Desafios de Portugal”), o Almirante Nuno Vieira Matias (“União Europeia e direitos soberanos de Portugal nas águas marítimas”), o Comandante José Manuel Malhão-Pereira (“Portugal, o mar e o futuro”), o Ten-Cor. J. J. Brandão Ferreira (“A importância de comemorar Mouzinho no 150.º aniversário do seu nascimento”), o Coronel Victor Portugal Valente dos Santos (“O exemplo de D. Nuno Álvares Pereira”), o Prof. Doutor António Ferreira (“Saúde em África - mito e horizonte”), o Dr. António Gomes da Costa (“Os Portugueses no Brasil”), o Dr. António Leite da Costa (“Lembrar a Batalha”), o Embaixador Leonardo Mathias (“Uma perspectiva europeia”) e o Dr. João Abel da Fonseca (“Tapeçarias de Pastrana”).Além de noticiário sobre o 1.º de Dezembro e de outras actividades, como os protocolos firmados, o Prémio Aboim Sande Lemos - Identidade Portuguesa, o encontro do Santo Padre, em Lisboa, com o mundo da cultura, a sessão de homenagem a Camões no Dia de Portugal, a parceria estabelecida com o Observatório da Língua Portuguesa e o início da celebração do 150.º aniversário da Sociedade Histórica, a revista contém também um apontamento meu sobre Macau, que é uma breve balanço da primeira década após a transição:Macau no primeiro número da revista Independência“É, obviamente, importante que a SHIP e a sua revista acompanhem, tão de perto quanto possível, os marcos históricos e a presença viva de Portugal e dos Portugueses no mundo. Por isso, este primeiro número da nova série da nossa revista contém trabalhos sobre a África lusófona, o Brasil e Macau”.Nota de apresentação do artigo sobre Macau
  • 263 F A l A r d e n ó s – VII J o r g e A . H . r A n g e l “Mais de dez anos após a transição, é possível e justo fazer uma apreciação crítica positiva do percurso da nova região chinesa, formalmente estabelecida, por acordo com Portugal, no dia 20 de Dezembro de 1999.Um balanço correcto desta primeira década revelará, inequivocamente, o sucesso da aplicação do princípio ‘um país, dois sistemas’ e a solidez do trabalho realizado, pela administação portuguesa, no período de transição, quando se fez uma enorme aposta nas infra-estruturas, na consolidação das instituições da sociedade civil, no reforço da capacidade da administração pública, na economia, na acção social, na educação e na cultura.É também correcto reconhecer que o acordo firmado com Portugal, em 1987, foi respeitado, gozando a região, efectivamente, de ampla autonomia, sob o acompanhamento sempre atento das autoridades centrais chinesas. As instituições funcionaram e a maneira de viver da população foi mantida, sendo preservados os direitos, liberdades e garantias assegurados anteriormente pela Constituição da República Portuguesa e agora incorporados na Lei Básica da Região.Os resultados são muito positivos, registando-se um impressionante desenvolvimento económico e, consequentemente, um invejável desafogo financeiro, pese embora a excessiva dependência em relação às abundantes receitas geradas pelos jogos de fortuna ou azar, e não obstante alguns assinaláveis acidentes de percurso e visíveis desequilíbrios que não foram suficientemente acautelados e que resultaram, em especial, do rápido crescimento verificado. A sua correcção constitui, agora, a maior prioridade, e também o maior desafio, na acção governativa nos próximos anos,
  • 264F A l A r d e n ó s – VIIJ o r g e A . H . r A n g e l estando a atenção da população, mais exigente e interventora, muito insistentemente virada, também, para o reforço de medidas de combate à corrupção e à ilegalidade administrativa.Merece igualmente, menção a intensificação das relações com os Países de Língua Portuguesa, desejando a China que Macau utilize esta sua mais-valia, que é a ligação histórica, cultural e comercial ao mundo lusófono, cabendo também a Portugal saber tirar maior proveito deste desígnio pragmaticamente expresso e constantemente reafirmado. Foi ali que o governo chinês decidiu fazer funcionar, em permanência, o Fórum para a Cooperação Económica e Comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa, multiplicando-se, desde então, as iniciativas neste contexto, estendidas às mais diversas áreas, incluindo a académica e a cultural. Ainda agora, em Novembro de 2010, se realizou a 3.ª Conferência Ministerial, no âmbito deste Fórum, que contou com a presença de altas entidades dos respectivos Estados.Foi também em Macau que se realizaram os I Jogos da Lusofonia, ali reunindo em competição os melhores atletas dos países lusófonos. Fazendo uso pleno do seu modelar parque desportivo, Macau foi, em anos recentes, palco de outras relevantes competições, como os Jogos da Ásia Oriental e os Jogos Asiáticos em Recinto Coberto, para além do seu mundialmente famoso Grande Prémio e de vários outros eventos desportivos internacionais. Os II Jogos da Lusofonia realizaram-se em Lisboa, devendo os próximos ter lugar em Goa.A classificação, pela UNESCO, em 2005, do centro histórico da cidade como património mundial contribuiu, por outro lado, para garantir uma intervenção mais consequente
  • 265 F A l A r d e n ó s – VII J o r g e A . H . r A n g e l e correcta na preservação do legado histórico e arquitectónico, ainda mais importante agora face às ameaças de descaracterização que abundantes e desproporcionadas construções ligadas aos novos operadores dos casinos então a provocar. A proposta, preparada vinte anos antes pela administração portuguesa, foi reformulada e retomada após a transição e mereceu o apoio total da China.De acordo com um documento governamental central, estabelecendo directivas e metas económicas, até 2020, para todo o vasto delta do Rio das Pérolas, uma das zonas de mais espectacular desenvolvimento em todo o mundo e onde Macau se insere, privilegiam-se, para esta região especial, o papel de plataforma de cooperação com o mundo lusófono e o de grande e diversificado centro de turismo, valorizado pela existência, exclusiva em todo o território chinês, de modalidades diversas de jogos de fortuna ou azar e orientado, complementarmente, para congressos e convenções, incentivos e grandes espectáculos. Também se pretende que Macau se assuma como importante cento educativo regional, com a Universidade de Macau como pólo dinamizador, para o que foi já disponibilizado um amplo espaço, numa ilha chinesa vizinha, para a construção de um novo ‘campus’, que será maior do que o de qualquer universidade de Portugal. Estas novas instalações estão já em acelerada edificação.Para viabilizar o crescimento desejado, acaba de ser autorizado o alargamento da área de Macau em cerca de 12%, ao mesmo tempo que foi aprovada a construção da ponte, uma parceria público-privada, que ligará Hong Kong a Macau e que será uma das mais longas do mundo. Abrem-se, assim, aos interessados, locais e do exterior, renovadas e aliciantes oportunidades de participação e de investimento na próxima década.
  • 266F A l A r d e n ó s – VIIJ o r g e A . H . r A n g e l Recordando a história de sucesso que foi o percurso de Macau dez anos após a transferência de poderes de Portugal para a República Popular da China, vem-nos inevitavelmente à lembrança aquele momento profundamente sentido quando o governador Vasco Rocha Vieira recebeu a bandeira nacional e a apertou comovidamente ao coração. Aquela impressionante imagem que correu mundo, representou o fim de um tempo de Portugal, em cujo nome a missão fora exemplarmente cumprida. Estavam criadas as condições para o território trilhar, sem temor e em segurança, os novos caminhos que lhe foram traçados, ficando bem preparado para enfrentar e vencer os desafios que a sua nova situação político – administrativa lhe lançou, no dealbar do novo milénio.”A SHIP firmou um protocolo com o Instituto Internacional de Macau, através do qual têm sido realizadas iniciativas conjuntas, em Lisboa, na forma de seminários, palestras e cursos sobre Macau e a presença de Portugal no Oriente, além de sessões de promoção ou de lançamento de livros sobre a mesma temática. Também foi facultado ao Instituto o uso das suas excelentes instalações, mesmo no centro da cidade de Lisboa. A sede da SHIP é o Palácio da Independência, monumento nacional e antiga residência dos Condes de Almada, onde foi preparado e lançado o movimento que levou à restauração da independência, em 1640.A SHIP desenvolve parcerias com dezenas de outras entidades, públicas ou da sociedade civil, como o Observatório da Língua Portuguesa, o Instituto de Filosofia Luso-Brasileira, o Guião-Centro de Estudos Portugueses, o Comité Olímpico de Portugal, o Real Gabinete Português de Leitura do Rio de Janeiro, a Fundação Lusíada, o INATEL, a Comissão Portuguesa de História Militar, a Sociedade Hípica Portuguesa, o Instituto
  • 267 F A l A r d e n ó s – VII J o r g e A . H . r A n g e l Português dos Museus, o Instituto Português de Heráldica, a Associação Portuguesa de Imprensa e a Associação de Cultura Lusófona. Tem milhares de sócios, dos quais quinze residem em Macau.3 de Janeiro de 2011
  • 268F A l A r d e n ó s – VIIJ o r g e A . H . r A n g e l A melhor forma de perpetuar os acontecimentos mais marcantes está no seu registo em livro. Saúda-se, por isso, a iniciativa da comissão organizadora do Encontro das Comunidades Macaenses de 2010, de reunir em volume próprio a informação essencial sobre os Encontros de 2001, 2004 e 2007, com uma boa selecção fotográfica dos eventos neles incluídos. A tarefa foi confiada ao director do Jornal Tribuna de Macau, José Rocha Diniz, que acompanhou de perto os Encontros organizados na vigência da RAEM e também as realizações idênticas levadas a efeito no tempo da administração portuguesa, a todos garantindo extensa cobertura naquele diário macaense. No prefácio de “Os três Encontros das Comunidades Macaenses sob os auspícios da RAEM” (APIM, Novembro de 2010), José Manuel de Oliveira Rodrigues, presidente da comissão organizadora do IV Encontro e do Conselho Permanente do Conselho das Comunidades Macaenses, salientou os apoios da RAEM, assegurados desde a primeira hora pelo Chefe do Executivo, Edmund Ho, que “fez questão de manter e dar ainda maior dinamismo a estes Encontros”, tendo o Governo da RAEM incentivado e apoiado “a realização destas reuniões magnas das Comunidades Macaenses da Diáspora, que a pouco e pouco se solidificaram, quer com a criação do Conselho das Comunidades, quer com novas estratégias atribuídas às Casas de Macau espalhadas por todo o Mundo”. E, porque “para se compreender o presente é necessário conhecer o passado”, no mesmo prefácio são recordadas as romagens de saudade que tiveram lugar nos finais da década de 80 e “em especial os Encontros realizados durante os anos 90, com o apoio do último Governador de Macau, general Vasco Rocha Vieira”, que foi o convidado de honra deste último Encontro levado a efeito de 27 de Novembro a 5 de Dezembro de 2010.encontros das comunidades Macaenses registados em livro“Macau dá-vos sempre as boas-vindas e abraça-vos com todo o carinho”.Chui Sai On, Chefe do Executivo da RAEM
  • 269 F A l A r d e n ó s – VII J o r g e A . H . r A n g e l Ao ler as bem elaboradas sínteses, respeitantes a cada um dos três Encontros, e ao olhar para as abundantes fotografias, nelas reconhecendo as pessoas que deram forma e executaram as múltiplas actividades promovidas, desde sessões culturais a convívios, podemos concluir, sem hesitação, que valeu a pena produzir este trabalho, que é um repositório adequado das memórias destes acontecimentos relevantes, que foram momentos de afirmação da comunidade, reforçando a sua coesão e clarificando o seu papel na nova situação política de Macau.o encontro de 2001O primeiro Encontro sob os auspícios da RAEM teve início a 28 de Novembro de 2001 e subordinou-se ao tema genérico “Macau – nossa Terra, nossa Cidade, nossa Cultura”. Reuniu mais de 400 pessoas, estando representadas todas as 12 Casas de Macau. Particularmente expressivas foram as palavras de boas-vindas de Edmund Ho: “Para Vós, Macau não é uma terra desconhecida onde sois hóspedes, mas antes um grande lar repleto de calor e amor”. “Ao longo dos séculos, os macaenses sempre acompanharam Macau nos seus bons e maus momentos” e “após o estabelecimento da RAEM, os macaenses continuaram a manter o sentido de pertença a Macau”. No entender do primeiro Chefe do Executivo da RAEM, “hoje em dia, os macaenses passaram a constituir uma comunidade internacional com fortes laços de interligação, cuja coesão firme e valiosa (...) constitui uma ponte para estreitar a ligação entre Macau e a sociedade internaconal, promovendo e consolidando as suas relações com o estrangeiro”. Estava dado o mote e ficava, assim, clarificada a posição do novo poder político face à importância da comunidade.
  • 270F A l A r d e n ó s – VIIJ o r g e A . H . r A n g e l Durante o Encontro foi consagrada Nossa Senhora de Fátima como Padroeira dos Macaenses, tendo em consideração o culto e a devoção da comunidade a Nossa Senhora de Fátima, em Macau e na diáspora. Também foi forte a componente cultural, com uma expressiva sessão de apresentação de livros editados pelo Instituto Internacional de Macau, da colecção “Cidade Cristã”, intitulados “A Identidade Macaense”, “Macau Somos Nós” e “Maquista Chapado” (um vocabulário do crioulo português de Macau), além de uma exposição colectiva de artistas de Macau e uma mesa-redonda sobre “Memórias Colectivas”. Foi neste Encontro que foi lançada a ideia de levar a UNESCO a reconhecer o crioulo português de Macau como património intangível da humanidade e se defendeu a atribuição às Casas de Macau do papel de representação de Macau, como “verdadeiras delegações do turismo macaense”, o que ainda não foi concretizado.Outro momento alto foi a inauguração do monumento à diáspora macaense, um conjunto escultórico da autoria do arquitecto macaense José Maneiras, instalado junto à Fortaleza de São Tiago da Barra, à entrada do Porto Interior, “porto tradicional de chegada e de partida dos macaneses da diáspora”.Maria José Ritta, esposa do Presidente da República Portuguesa, participou, como convidada, neste Encontro.Macau 2004O Encontro de 2004 foi um marco na história da comunidade macaense, com a constituição do Conselho das Comunidades Macaenses, organismo aglutinador e
  • 271 F A l A r d e n ó s – VII J o r g e A . H . r A n g e l amplamente representativo, englobando as Casas de Macau e outras associações com sede em Macau ou no exterior.Mais uma vez Edmund Ho soube escolher as palavras certas, reiterando o seu apreço pelo contributo dado pelos macaenses: “ao longo dos tempos, gerações de macaenses nasceram, cresceram e desenvolveram-se nesta terra, tendo acompanhado e testemunhado o seu crescimento e as suas transformações”, reconhecendo que “foi o apego especial que sentem por Macau que constituiu a principal motivação que os levou a dedicar o seu melhor para sua construção”.Os convívios foram animados por um número variado de artistas macaenses, com destaque para Elsa Denton, Danny Dias e “Os Thunders”, famoso conjunto dos anos 60 cujos membros se juntaram de novo para a ocasião, quatro décadas volvidas. A actuação do grupo “Dóci Papiaçám di Macau” foi brilhante e, mais uma vez, os livros tiveram um lugar importante, merecendo especial referência “À mesa da Diáspora”, de Cecília Jorge, “O Olhar de Henrique de Senna Fernandes – fragmentos”, de Lúcia Lemos e Yao Jingming, e “Tradições e Costumes de Macau”, de Leonel Barros.2007 – o melhor de sempreAo fazer o balanço deste Encontro, que reuniu mais de mil participantes, José Manuel de Oliveira Rodrigues não hesitou em classificá-lo como “o melhor de sempre, incluindo os realizados durante a administração portuguesa”, realçando as vertentes económica, empresarial e comercial como os aspectos inovadores. E mais uma vez se preconizou para as Casas de Macau o papel de “centros de divulgação comercial e
  • 272F A l A r d e n ó s – VIIJ o r g e A . H . r A n g e l turística da RAEM nos diferentes países, solução em que a imagem da RAEM só ficará a ganhar”.No âmbito cultural, é de realçar o protocolo assinado com a Universidade de Macau com vista à elaboração do dossiê, para entrega à UNESCO, da candidatura do “maquista” a património intangível da humanidade. Uma maior presença de jovens neste Encontro foi outra nota positiva, abrindo-se o caminho à realização do I Encontro da Comunidade Juvenil Macaense.Durante o Encontro tomaram posse os corpos sociais da Confraria da Gastronomia Macaense e foi entregue à APIM o prémio Identidade, criado pelo Instituto Internacional de Macau para distinguir personalidades ou instituições que tenham contribuído de forma continuada e eficaz para a preservação e valorização da identidade macaense.O deputado e ex-presidente da Assembleia da República, Dr. João Bosco Mota Amaral, esteve presente no Encontro como enviado especial do Presidente da República Portuguesa.Jovens 2008O livro encerra como uma reportagem do I Encontro Juvenil Macaense, realizado em 2008. O Presidente da comissão organizadora, José Luís de Sales Marques, fez um balanço muito positivo deste importante evento que permitiu reforçar as raízes que devem continuar a prender os descendentes dos filhos da terra à terra-mãe e dar a conhecer aos jovens da diáspora a nova Macau, as suas realidades, potencialidades e oportunidades.
  • 273 F A l A r d e n ó s – VII J o r g e A . H . r A n g e l Convívios, visitas de estudo, seminários e debates fizeram parte do programa. Os jovens assistiram também à homenagem a Henrique de Senna Fernandes, com o descerramento do seu retrato após a sua proclamação como membro honorário da APIM.Ficamos à espera do livro respeitante ao Encontro realizado, com reconhecido sucesso, de 27 de Novembro a 5 de Dezembro de 2010, para lançamento no Encontro de 2013.10 de Janeiro de 2011
  • 274F A l A r d e n ó s – VIIJ o r g e A . H . r A n g e l Em sessão organizada pelo Instituto Internacional de Macau e integrada no Encontro das Comunidades Macaenses de 2010, foi prestada a devida homenagem ao escritor e estudioso das “coisas” de Macau que foi Danilo Barreiros, cujo centenário do nascimento ocorreu em Outubro passado. No palco do Teatro D. Pedro V, local de grande simbolismo para a comunidade, fez-se a evocação do homem e da sua obra e foi apresentado, pelo seu filho Pedro, major-general médico da Força Aérea Portuguesa, natural de Macau e também escritor, artista, e dinamizador cultural, o livro “Danilo no Teatro da Vida” (edição do autor, Outubro de 2010).Pedro Barreiros, autor do livro, também protagonizou dois encontros com professores e estudantes, no Departamento de Português da Universidade de Macau e na Escola Portuguesa de Macau, e foi entrevistado pela Rádio Macau e por jornais locais. Conseguiu-se, assim, uma divulgação oportuna de uma personalidade invulgar já bastante esquecida entre nós e ficou aberto o caminho para a reedição de algumas das suas obras. No prefácio, o Professor Paulo Franchetti, que conheceu Danilo Barreiros em 1989 e com ele falou longamente, várias vezes, revela-nos as impressões positivas que colheu deste livro: “Da leitura deste romance biográfico, saí com a impressão de que a vida aventurosa e rica de Danilo encontrou aqui o seu narrador ideal. E posso imaginar o quanto ele ficaria feliz ao se ver assim retratado, com tal fidelidade e afeição, pelo filho que lhe herdou os papéis e os livros e, por meio de ampla pesquisa e sistematização de informações, conseguiu compor à volta da vida do pai um vívido quadro da vida portuguesa no começo do século, aquém e além-mar. Especial relevo ganha, naturalmente, a segunda parte do livro, a partir do capítulo XIV, quando começa a aventurosa vida oriental de Danilo Barreiros, pois aí se juntam de modo mais harmónico a experiência do biografado e a vivência do biógrafo que, junto com Graça, centenário de danilo Barreiros assinalado em Macau“A melhor homenagem que Pedro Barreiros poderia ter feito ao seu pai era este seu retrato de corpo inteiro, movendo-se contra o pano de fundo de uma época tão próxima e diferente da nossa...”.Paulo Franchetti, no prefácio do livro
  • 275 F A l A r d e n ó s – VII J o r g e A . H . r A n g e l sua mulher, é dos maiores conhecedores e dos mais dedicados preservadores da cultura macaense em Portugal”.E vai ainda mais longe quando, convictamente, assevera que “a melhor homenagem que Pedro Barreiros poderia ter feito ao seu pai era este seu retrato de corpo inteiro, movendo-se contra o pano de fundo de uma época tão próxima e diferente da nossa, ainda capaz de se constituir em palco aberto à aventura e ao exercício triunfante da audácia criativa”. É que, como disse, “não é trivial juntar com equilíbrio e proveito o gesto afetivo, o olhar para dentro do ambiente familiar, a objetividade histórica e o interesse amplo na cultura geral”. “Por isso, se lhe é grata a memória do pai por este ato de preservação, também lhe serão gratos os leitores que, por meio deste volume, poderão ter o prazer de travar contato ou conviver de novo, por algumas horas, com essa personagem fascinante que foi – e agora, graças a este livro, continua sendo – Danilo Barreiros”. Danilo Barreiros nasceu em Lisboa na tarde de 11 de Outrubro de 1910, um dia após a implantação da República. O regicídio tivera lugar dois anos antes e a mudança de regime dera início a um novo tempo para Portugal, com acrescidas esperanças, muitas promessas que ficaram por cumprir e uma ainda mais acentuada instabilidade política.“Seus pais andavam na Vida do Teatro e o menino Néné cresceu sem eles em Lisboa que respirou os primeiros anos de República. Tinha nome de herói romântico e as suas aventuras no Teatro da Vida fazem dele o protagonista deste Romance biográfico, que celebra os 100 anos do seu nascimento. Leopoldo Danilo Barreiros,
  • 276F A l A r d e n ó s – VIIJ o r g e A . H . r A n g e l filho da Mouraria e Alcântara; menino de colégio interno, que odiava, e da vida alfacinha dos anos 20, que amava de paixão. Danilo: o aventureiro, que dançava o Tango em Paris, seduzia no Rio de Janeiro, percorria a Bélgica vestido de estudante e decide ir para o Grande Oriente por sugestão de ‘uma rajada de vento’; homem de grande coragem e inteligência, que cultivava a amizade e não fugia a qualquer desafio. Sempre com ‘ânsia da fuga’, navegando pelo ‘Mar Portuguez’, em aventuras pelos portos que levam a Macau, onde finalmente encontrou a estabilidade, o amor e novas paixões intelectuais e culturais”.Foi no dia 18 de Dezembro de 1930 que Danilo Barreiros embarcou num navio nipónico rumo ao Oriente. Com ele iam outros três portugueses, chineses repatriados da América do Sul e alguns sul-africanos, “boers” e ingleses, com destino à cidade do Cabo. Só a 16 de Fevereiro de 1931, o navio deu entrada no porto de Singapura. Seguiu-se Saigão e, finalmente, Macau, onde o barco atracou na manhã de 3 de Março. Foram três meses de viagem desde o Brasil! “Tinha lido muito sobre o Oriente e sentido o fascínio pelas gentes e epopeia dos portugueses, que as mostravam ao Mundo e de lá trouxeram tantas coisas e tantas ideias e sabedoria, totalmente novas na Europa e que vieram alterar todo o rumo do desenvolvimento do velho continente”.Em Macau desempenhou cargos variados e casou com “a linda Henriqueta, na altura com vinte e seis anos, culta, professora primária, adorada por toda a gente”. Era filha de José Vicente Jorge, personalidade influente e culta, além de grande coleccionador de arte chinesa. O casamento foi celebrado na Igreja de S. Lourenço, a cuja freguesia pertencia a noiva, no dia 23 de Abril de 1935. “Curiosamente, o Danilo, de 24 anos completados em Outubro do ano anterior, tinha nascido também
  • 277 F A l A r d e n ó s – VII J o r g e A . H . r A n g e l na freguesia de S. Lourenço, mas de Lisboa”. “O adro e a escadaria da Igreja estavam apinhados de convidados vestidos a rigor, pois o clima do mês de Abril ainda o permitia, e uma multidão de curiosos, grande parte da população do território, que se empurrava para arranjar um bom lugar, onde pudesse ver o cortejo da noiva, de bom ângulo”. “A casa da Rua da Penha engalanou-se como o não tinha feito desde as bodas de prata de José Jorge e Matilde Pacheco”.Em 1940, Danilo Barreiros, a convite de Henrique Galvão, comissário-geral da grande Exposição do Mundo Português, coordenou a representação de Macau naquele imponente certame, partindo para Lisboa em Março desse ano, com a esposa e oito colaboradores. As peripécias da participação de Macau são relatadas de forma muito apelativa no livro, que não deixa de realçar alguns aspectos mais insólitos. O lançamento da revista “Renascimento” e o envolvimento activo de Danilo Barreiros na sua produção são também explicados, assim como a ocupação japonesa de Hong Kong e a sua forte influência em Macau. Nem que seja só por isso, vale a pena ler este romance biográfico, de prosa fluente e atraente, integrando o leitor facilmente na sociedade macaense das décadas de 30 e 40 do século XX.“Terminada a guerra, começou, em Macau, a debandada. Estavam todos fartos das violências, crueldade, limitações, racionamentos e fome que tinham experimentado durante aquele tempo hostil”. Pouco depois também partia a família Barreiros: “Em Julho de 1946, para gozo de licença graciosa de quase seis meses, o Danilo, a Henriqueta, e seus filhos Manuel e Pedro, partiram de Macau, no navio ‘Lourenço Marques’. Chegaram a Lisboa com mais um rebento, o José Manuel, que, entretanto, nascera a 16 de Agosto à vista de Port-Said”.
  • 278F A l A r d e n ó s – VIIJ o r g e A . H . r A n g e l Após longa convalescença de um problema de saúde, Danilo Barreiros estudou Direito em Lisboa. “O êxito do primeiro ano fez com que decidisse terminar o curso. Para poder estudar, demitiu-se das suas funções em Macau, e arranjou emprego na Companhia dos Diamantes de Angola”. Foi depois, durante alguns anos, notário em São Tomé. No resto da vida foi advogado em Lisboa.“Coleccionou, em mais de trinta grandes livros de recortes (...) tudo o que tinha a ver com Macau e com a China. Acabava de jantar e enfiava-se no seu escritório, com resmas de papel ‘Almaço’, tesoura e cola e, durante horas, engrossava, volume após volume, as suas ‘coisas chinesas’. A biblioteca crescia, recheada de livros, revistas, opúsculos, manuscritos, que ia comprando por tudo o que era alfarrabista em Lisboa”.No epílogo, Pedro Barreiros diz-nos que “esta foi a história de Danilo que me foi contada por ele, nas longas conversas que tivemos ao longo da vida em comum, desde aquele dia 9 de Julho de 1946 em que deixámos Macau (...)”. “Nestes 48 anos, que correram velozes, nunca o Danilo, nem a Henriqueta voltaram a Macau. Perguntei-me muitas vezes porquê. Nunca lhes perguntei a eles. Sempre a nossa casa em Portugal, quer enquanto vivíamos com o avô, na Praceta Almirante Reis, quer depois da morte deste, foi um bocado de Macau, recheado de objectos, louças, mobílias, livros, álbuns de fotografias que, nunca, pessoalmente me deixaram ser, qualquer outra coisa, que não macaense”.Além dos trabalhos publicados na revista “Renascimento”, Danilo Barreiros distinguiu-se pelos estudos sobre Wenceslau de Moraes e Camilo Pessanha e sobre outros temas extremo-orientais relacionados com Macau e a China. Colaborou abundantemente
  • 279 F A l A r d e n ó s – VII J o r g e A . H . r A n g e l em jornais e revistas, como “A Voz de Macau”, “Diário de Notícias”, “O Dia”, “Diário da Manhã”, “Boletim Eclesiástico de Macau”, “A Voz de Olhão”, “A Capital”, “A Tarde”, “Século Ilustrado”, “Notícias de Lourenço Marques”, “A Noite” e “A Noite Ilustrada” (Rio de Janeiro), “Panorama”, “Persona” e “Mais Alto”, além da revista “Renascimento”, que durou quase três anos, de 1943 a 1945, e onde Danilo Barreiros publicou o seu estudo sobre o dialecto português de Macau.Em Lisboa, foi um dos fundadores da Casa de Macau e “viveu sempre com a cabeça em Macau, mas nunca mais lá foi ...”17 de Janeiro de 2011
  • 280F A l A r d e n ó s – VIIJ o r g e A . H . r A n g e l entrevista concedida ao seminário católico “o clarim” em outubro de 2010cl – É do conhecimento público que o doutor Jorge Rangel mantém relações com certas personalidades do poder central, em virtude do importante papel que desempenhou durante a transferência de soberania. Que opinião geral lhe transmitiram essas individualidades sobre o rumo político, económico e social da RAEM? J. r. – Liberto de responsabilidades políticas e administrativas, nunca deixei de acompanhar a evolução de Macau, neste novo contexto, como região especial da China. As relações que mantenho com entidades não são tão profundas como se pensa, mas suficientes para perceber as orientações, as prioridades e, também, as peocupações, os desvios e os acidentes de percurso. Creio que as autoridades chinesas têm razões bastantes para se sentirem satisfeitas com o percurso feito ao longo da primeira década, não obstante algumas situações menos conseguidas e alguns embaraços que se verificaram, com prejuízo para a imagem da RAEM, e que são sobejamente conhecidos. Todos quantos aqui vivem, tanto ou mais do que as autoridades, desejam que esta segunda década possa ser ainda melhor, com mais atenção e prioridade dadas à área social, a par do desenvolvimento económico estável da RAEM.cl – Para quando a democratização do sistema político no território?J. r. – Ela depende das autoridades centrais e do poder político local, mas também da o IIM e Macau — desafios presentes e opções futuras
  • 281 F A l A r d e n ó s – VII J o r g e A . H . r A n g e l população, no exercício mais esclarecido e participado dos direitos cívicos e políticos. Temos uma geração nova muito mais exigente e com mais formação, portanto, mais preparada. A abertura que se deseja passa também pela retirada de quem já está na cena pública há tempo suficiente. Em política, há um tempo de entrada (quando surgem as oportunidades) e um tempo de saída. E ninguém é insubstituível. É péssimo, em qualquer sociedade, a perpetuação de pessoas em lugares de responsabilidade política ou a sua retenção para além do “prazo de validade”. Isto aplica-se tanto ao órgão legislativo como ao executivo e aos organismos consultivos ligados à Administração Pública. Podem e devem ser dados passos seguros no sentido duma participação mais alargada, devendo ser revistas também as formas de eleição e designação de deputados. Quando será isso feito? Creio que ninguém tem a resposta neste momento, mas o poder político não pode encarar esta como uma questão secundária nas suas prioridades.cl – Que avaliação faz à governação dos últimos dez anos?J. r. – A avaliação é globalmente positiva. Os aspectos menos positivos foram já amplamente identificados pelos órgãos de comunicação social, por deputados e pelas pessoas mais interventoras da sociedade civil. Sendo verdade que nem todas as críticas têm sido justas, creio que se pode concordar bastante com a identificação feita.cl – E sobre as pastas que estiveram sobre a sua alçada quando desempenhou cargos na administração portuguesa?
  • 282F A l A r d e n ó s – VIIJ o r g e A . H . r A n g e l J. r. – Desempenhei cargos diversificados (de 1975 a 1999) e tive vários pelouros no Governo de Macau (Educação, Cultura, Turismo, Administração Pública, Juventude, Desporto e, na fase final, a articulação com a Comissão Preparatória, a tutela do Gabiente Coordenador das Cerimórias de Transferência e a preparação dos novos quadros superiores. Também fui Encarregado do Governo, em curtos períodos de ausência do Governador, deputado e membro da Comissão de Redacção da Lei Básica. Para além destas responsabilidades, os cargos que mais gostei de desempenhar foram os de director do Turismo e presidente do Fundação Macau. O período de transição foi repleto de desafios à nossa capacidade. Creio que, com algumas insuficiências, aqui e ali, os objectivos foram alcançados e os programas aprovados foram realizados, tendo sido asseguradas uma transição serena e a continuidade desejada na nova Administração. O sucesso da RAEM dependeu também do sucesso do período de transição.cl – É verdade que recebeu um convite de Edmund Ho para desempenhar um cargo de destaque após o estabelecimento da RAEM?J. r. – Não. De acordo com orientações do Governador, tive encontros de trabalho com o Chefe do Executivo indigitado quase todas as semanas, durante meses, em 1999. Esses encontros decorreram sempre em ambiente de cordialidade e informalidade. Foi no meu gabinete que ele escolheu o seu primeiro colaborador permanente, que no momento adequado foi nomeado chefe do seu gabinete, cumprindo muito bem esta missão até ao fim do seu 2.o mandato.
  • 283 F A l A r d e n ó s – VII J o r g e A . H . r A n g e l Nas conversas que tivemos, falámos, naturalmente, das estruturas e dos cargos da Administração. Por iniciativa e simpatia dele, chegaram a ser equacionadas várias formas de eu poder, eventualmente, continuar a colaborar. Era, porém, chegado o tempo de saída para mim. A mudança duma bandeira é muito mais do que a substituição de um pano colorido, por maior que seja a sua carga simbólica. Por outro lado, queria voltar à minha vida, retomar a actividade associativa interrompida e alguma actividade aadémica, como fiz, e regressar à família, o meu tesouro que nunca tivera o acompanhamento e o aconchego que sempre mereceu ter. Já em 1996, quando um problema grave, do foro oncológico, me fez baixar ao hospital e ali permaneci durante três semanas, tinha decidido com a minha mulher deixar o Governo, até porque ficara convencido da minha impossibilidade de assegurar a mesma disponibilidade e capacidade para exercer funções públicas. O Governador, porém, quando me visitou e soube da minha intenção, anunciou que ainda contava comigo e tinha novas responsabilidades para me atribuir, relacionadas com o processo de transição. Gostei imenso de trabalhar com ele e apreciei o seu alto sentido de missão. Não podendo sair em 1996, 1999 seria então a data limite. Vi chegar e partir Governadores (trabalhei com seis!) com as suas equipas e, em Dezembro de 1999, assiti à última partida. Retenho vivamente na memória aquela imagem lindíssima do Governador com a bandeira apertada ao coraçào e o momento em que ele, no aeroporto, se afastava, a caminho do avisão. Voltou para trás para me dar mais um abraço. Um outro avião levaria os meus colegas do Governo, altos funcionários e convidados que vieram às cerimónias. Fiquei e, do Governo cessante, fui o único a assistir à posse das novas autoridades no
  • 284F A l A r d e n ó s – VIIJ o r g e A . H . r A n g e l Fórum de Macau. Foi esse, não só para Macau, mas também para mim, o fim de um tempo. O fim de um tempo de Portugal na sua presença no Oriente Extremo. Era, até por isso, o fim do meu exercício de funções públicas. Era o tempo de saída.cl – O que tem a dizer sobre as futuras instalações da Escola Portuguesa de Macau?J. r. – Quem aqui ficou deseja à Escola Portuguesa o melhor possível, nos meios, nas estruturas, no acompanhamento pedagógico, nas instalações e nos resultados. Lamentei sempre que forças superiores às nossas não nos tivessem deixado dar-lhe condições de funcionamento mais adequadas e mais consentâneas com as expectativas da comunidade portuguesa local e com as necessidades da RAEM. Felizmente, apesar das incertezas criadas, ela funcionou bem. É desejável um maior envolvimento da RAEM no apoio ao seu funcionamento e desenvolvimento e que seja definitivamente esclarecida a questão das instalações. Depois deste percurso, por vezes um tanto agitado, porque não equacionar seriamente a possibilidade de ficar onde está, se for considerada esta a melhor alternativa possível?cl – Sente-se o líder da comunidade macaense?J. r. – Não, claro que não. Nenhuma comunidade inserida num contexto de livre participação cívica, no gozo pleno dos seus direitos, liberdades e garantias, precisa de um líder. As instituições da sociedade civil, sim. Têm os titulares dos
  • 285 F A l A r d e n ó s – VII J o r g e A . H . r A n g e l seus órgãos sociais escolhidos por eleição. Todos eles serão, de algum modo, os “líderes” da comunidade, enquanto desempenharem essas funções. O mesmo direi da participação política. Era eu ainda jovem quando fui eleito deputado em 1976 (veja só há quanto tempo isso foi!). Nessa que foi a 1.a legislatura da Assembleia Legislativa, presidi à comissão de Assuntos Constitucionais, Direitos, Liberdades e Garantias e à do Regimento e Mandatos. Apraz-me ver que outros estão, ainda hoje, na Assembleia e que membros de outras gerações da comunidade continuam interessados na participação cívico-política.cl – Qual a importância do Encontro das Comunidades Macaenses, que se realiza na RAEM, entre 27 de Novembro e 5 de Dezembro?J. r. – É muito importante. Os Encontros têm sido momentos altos de reencontro dos “filhos da terra” com a “terra-mãe”, permitindo o reforço das raízes, a revitalização das instituições locais e da diáspora e a consolidação dos factores caracterizadores da identidade macaense. A comissão organizadora está a finalizar os preparativos. Com o apoio do Governo e de instituições da RAEM, creio que o próximo Encontro terá o sucesso desejado. Como presidente do órgão consultivo do Conselho das Comunidades, também espero que este Conselho alcance, durante o Encontro, os objectivos que presidiram à sua criação, assumindo-se cono o verdadeiro organismo coordenador e impulsionador das Casas de Macau e de outras agremiações macaenses.
  • 286F A l A r d e n ó s – VIIJ o r g e A . H . r A n g e l cl – O patuá vai desaparecer?J. r. – Cresci em bairros genuinamente macaenses, como os do Tap-Siac e de S. Lourenço (na velha Rua Central e na Praia Grande). Num outro bairro macaense – o Lilau ou Nilau – tinha bons amigos de infância e juventude. Quando era miúdo, alguns familiares e pessoas mais chegadas, de mais idade, ainda chegaram a falar comigo em patuá. Nesse tempo, no Tap-Siac viviam o nosso poeta José dos Santos Ferreira (Adé), que tão bem cultivou e divulgou o patuá, e outras famílias macaenses orgulhosas das suas tradições. As relações interpessoais nesses bairros, de moradias térreas ou, no máximo, com dois ou três pisos, eram muito abertas e intensas. A comunidade convivia ali e todos conheciam todos os outros. Nas viagens, em contacto com elementos da diáspora macaense, continuei a ouvir conversas em patuá. Quase toda a comunidade, mesmo já não usando o patuá como instrumento de comunicação, reconhece nele uma das marcas caracterizadoras da identidade macaense. Os esforços feitos na sua preservação e valorização, num contexto cultural, e os estudos realizados, alguns bastante recentes, no domínio académico, são da maior relevância e devem, obviamente, continuar, com o apoio empenhado do Conselho das Comunidades Macaenses, das Casas de Macau e de outras agremiações macaenses, com relevo para o Grupo Dóci Papiaçam di Macau.cl – Quais os projectos que o IIM tem em carteira?J. r. – Lançamos há dias mais uma obra importante, com estudos sobre a delimitação
  • 287 F A l A r d e n ó s – VII J o r g e A . H . r A n g e l das fronteiras de Macau, num contexto histórico, publicada no âmbito da parceria estabelecida com o Instituto do Oriente (do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade Técnica de Lisboa). O IIM tem acordos de cooperação com dezenas de instituições do exterior, muitas das quais no mundo lusófono. Eles têm-nos possibilitado a realização de projectos conjuntos, na forma de seminários, conferências, exposições, estudos e edições. Concluiremos nas próximas semanas o plano de actividades para 2011 em que será privilegiada a vertente da investigação académica, de que resultarão mais estudos publicados. Nas vitrines da nossa sede, estão expostas as nossas múltiplas e diversificadas edições, que são um motivo de satisfação para quantos estão ligados ao IIM. Dentro de dias, virá um professor sino-americano acertar connosco a realização de um seminário sobre a vida e obra do Dr. Sun Yat Sen, o “pai” da República Chinesa, cujo centenário de implantação se comemorará em 2011. Teremos ainda outras actividades de grande significado em vários países, com destaque para o Brasil. Há poucos dias fomos recebidos pelo Chefe do Executivo, que expressou o seu reconhecimento pelo trabalho realizado pelo IIM. Procuraremos continuar a corresponder à confiança em nós depositada, como instituição de natureza associativa, de matriz portuguesa, aberta ao mundo e com sede em Macau.cl – Que balanço faz à exposição itinerante sobre o 10.o aniversário da RAEM, que foi organizada no ano passado pelo IIM?J. r. – O IIM fez, com o apoio e colaboração do Governo da RAEM e da Fundação Macau, uma grande exposição, de alta qualidade gráfica e estimulante conteúdo, sobre
  • 288F A l A r d e n ó s – VIIJ o r g e A . H . r A n g e l a primeira década da RAEM, em Lisboa, na Maia (Porto), no Rio de Janeiro, em São Paulo, em Toronto e em São Francisco. Foi uma mostra, nas suas versões portuguesa e inglesa, que dignificou a RAEM e divulgou correctamente a sua imagem junto do grande público, numa hora de balanço, ao fim de dez anos. Foi essa a responsabilidade que nos foi cometida, tendo o Governo de Macau assumido, por seu lado, a organização de uma outra exposição, em chinês, com meios financeiros e técnicos muito mais abundantes, em Pequim e em Macau. Em cada cidade onde a nossa exposição foi apresentada, fizeram-se seminários, com excelente participação e muito boa colaboração das Casas de Macau e de instituições académicas e culturais locais. Foram também lançadas novas edições do IIM. Iniciámos, ao mesmo tempo, a itinerância duma outra exposição, intitulada “Macau é um espectáculo”, montada com a estreita cooperação da Associação Fotográfica de Macau. Esta exposição vai continuar ao longo dos próximos anos, em Portugal, no Brasil e em alguns outros países.cl – O doutor Jorge Rangel passou, ultimamente, a maior parte do seu tempo fora de Macau. O IIM ficou prejudicado com a sua ausência?J.r. – Por razões familiares e académicas, foi-me necessário passar, nos últimos dois anos, mais tempo do que era habitual fora de Macau. Até por isso, considerei seriamente a hipótese de promover uma passagem do testemunho a outro membro fundador do IIM, o que não foi julgado ainda conveniente pelos nossos associados mas terá de acontecer um dia no futuro não muito distante. Procurei, mesmo longe, manter um contacto diário com o IIM e regressei várias
  • 289 F A l A r d e n ó s – VII J o r g e A . H . r A n g e l vezes a Macau, com permanências tão longas quanto essas razões permitiram. E várias das deslocações ao estrangeiro, especialmente em 2009, foram por causa do IIM, nas actividades que realizámos. Foi essa certamente uma fase mais difícil para o IIM e também para mim.cl – Como recorda os últimos dias em Macau antes da transferência de poderes?J.r. – Para mim, foram dias de imparável actividade, extremamente absorventes, de grandes preocupações e de noites sem sono. Tudo era urgentíssimo, por causa especialmente das cerimónias finais, com toda a complexidade e intensidade que se mantiveram mesmo até à hora derradeira. Aliás, todo o ano de preparação das cerimónias foi uma luta contra o tempo. Tivemos, no Gabinete Coordenador, uma equipa extraordinária, pela sua competência, dedicação e sentido do dever. À meia-noite, quando bandeira verde-rubra foi arriada, ao mesmo tempo que era içada a da RPC, sabíamos que tinhamos cumprido uma difícil missão. Felizmente, neste âmbito, correu tudo bem e com elevadíssima dignidade. Recordo isto com imenso regozijo, mas não recordo tudo o que se passou nos bastidores com idêntica satisfação. Ficou ainda muito por contar e por explicar. É que nem todos desejavam que tudo corresse e acabasse bem...cl – Tem alguma história curiosa para partilhar com os nossos leitores?J. r. – Há sempre histórias curiosas em situações como essa. As nossas dariam seguramente para um ou, até, dois volumes de grande dimensão, mesmo sem ilustrações!
  • 290F A l A r d e n ó s – VIIJ o r g e A . H . r A n g e l Lembro-me, por exemplo, do impressionante dispositivo que a segurança chinesa quis instalar, para protecção das mais altas entidades da RPC, em visível contraste com o à-vontade e a informalidade das principais autoridades portuguesas, e do susto que tivemos quando o Grupo de Ligação Conjunto decidiu, já em 1999, que teríamos 2.500 convidados em vez de 2.000, o que invibializou completamente o uso do recém-construído Centro Cultural, obrigando-nos a rapidamente recorrer à instalação urgente, nos terrenos envolventes, felizmente ainda disponíveis, de estruturas provisórias para a sessão cultural, para o banquete e para a cerimónia principal (a das bandeiras), o que foi, de facto, um desafio que chegámos a acreditar que seria impossível vencer. Lembro-me do banquete que ninguém aceitava organizar, porque nunca tinha havido, em Macau, un jantar de cerimónia, com tanta responsabilidade política e com tanta e tão importante gente, toda sentada, com refeição completa servida à mesa e com o tempo limitado e cronometrado, para que os convidados pudessem estar todos sentados, a seguir, no pavilhão ao lado, para a cerimónia das bandeiras. Isso implicou um esforço de mobilização e de coordenação que transcendeu largamente as nossas expectativas, com muitos episódios picarescos pelo meio. Lembro-me da forma ordeira como a delegação oficial chinesa entrou e se instalou na tribuna, no recinto da cerimónia das bandeiras, e da exasperante confusão que foi a organização, com um mínimo de ordem, da entrada da delegação portuguesa. Valeu uma vez mais a nossa proverbial capacidade de improvisão... Lembro-me ainda da curiosidade das pessoas quando nos viram colocar, no jardim do Centro Cultural, uma cápsula do tempo, contendo um conjunto de
  • 291 F A l A r d e n ó s – VII J o r g e A . H . r A n g e l documentos, para abrir em 2049. Dias depois, na rua, ainda fui abordado (e ainda hoje acontece!) por muitas pessoas que queriam saber o que continha essa cápsula. Vão ter de esperar até 2049! O tempo passa depressa e já só faltam 39 anos! Lembro-me também do encontro interessantíssimo e muito participado com a imprensa estrangeira, no Foreign Correspondents Club de Hong Kong, algumas semanas antes da data das cerimónias, quando, sem necessidade de tradução, o que os impressionou agradavelmente, pudemos aceitar as perguntas feitas em inglês, chinês (mandarim e dialecto cantonense), francês, italiano e alemão. Gerou-se um ambiente descontraído e útil para nós e, em contraste, numa conferência de imprensa por eles pedida, em Macau, na véspera das cerimónias, quase não estiveram participantes, porque os atractivos de Macau eram mais apelativos... Enfim, são muitas as histórias que não cabem no espaço limitado duma entrevista.cl – Pensa escrever um livro sobre esse período?J. r. – Continuarei a escrever artigos e crónicas sobre Macau e esse período não está excluído. Achei, contudo, que era necessário um maior distanciamento para esse tema poder ser tratado com a objectividade desejável. Vivi aqueles acontecimentos e momentos e todo o processo de transição com enorme intensidade, até pelas responsabilidades que me foram cometidas. Se o tempo e a saúde o permitirem, gostaria de deixar um testemunho sobre os quase 25 anos que passei ao serviço da Administração Portuguesa. Tive as
  • 292F A l A r d e n ó s – VIIJ o r g e A . H . r A n g e l vivências e tenho muito material, incluindo inúmeros apontamentos pessoais que fui fazendo de eventos, situações, reuniões e circunstâncias que enquadraram as decisões mais determinantes. Essas vivências foram verdadeiramente extraordinárias. Resta saber se valerá mesmo a pena partilhá-las agora. De qualquer forma, para salvaguarda da honra do Estado e ds instituições, algumas coisas creio que jamais contarei.
  • 293 F A l A r d e n ó s – VII J o r g e A . H . r A n g e l Presidente do Instituto Internacional de Macau desde Dezembro de 1999, Jorge Alberto Hagedorn Rangel desempenhou funções públicas em Macau, sua terra natal, durante quase 25 anos, treze dos quais como membro do Governo, tendo tutelado as áreas de Administração Pública, Educação e Juventude e também as da Cultura, do Desporto e do Turismo. Em muitas ocasiões foi Encarregado do Governo de Macau, substituindo o Governador nas suas ausências.É casado e tem uma filha, ambas também naturais de Macau, vivendo a sua família, oriunda de Portugal, há dez gerações em Macau e noutras terras do Extremo Oriente.Fez os ensinos básico e secundário em Macau e os estudos superiores em Lisboa, Cambridge, Bonn e Navarra. Enquanto estudante, dedicou-se intensamente a actividades de juventude, desde as da Mocidade Portuguesa às de associações de estudantes, tendo participado também em encontros juvenis no estrangeiro, e interessou-se pela comunicação social, tendo obtido a classificação de “óptimo” no I Curso Nacional de Jornalismo organizado pelo Sindicato Nacional de Jornalistas, além de ter feito o Curso de Ciências e Técnicas de Informação da Escuela de Periodismo, em Pamplona (Espanha).Cumpriu o serviço militar nos Açores e na Guiné, onde, como Capitão Miliciano de Infantaria, comandou uma companhia de caçadores em zona operacional, com vários louvores em campanha, tendo também dirigido a instrução de tropas no seu comando operacional. Na fase final da comissão militar na Guiné, trabalhou junto dos Governadores e Comandantes-Chefes, Generais António de Spínola e José Manuel Bettencourt Rodrigues.Jorge A. H. rangelnoTA BIogrÁFIcA
  • 294F A l A r d e n ó s – VIIJ o r g e A . H . r A n g e l Foi eleito Deputado à 1.ª legislatura da Assembleia Legislativa de Macau (1976-80), onde presidiu às Comissões de Assuntos Constitucionais, Direitos, Liberdades e Garantias e do Regimento e Mandatos e, entre outras funções públicas, foi também presidente da Fundação Macau e director do Turismo e da Comunicação Social. As suas últimas responsabilidades oficiais foram a coordenação da transferência das responsabilidades administrativas da Administração Portuguesa para o Governo da Região Administrativa Especial de Macau, incluindo a tutela do Gabinete Coordenador das Cerimónias de Transferência. Foi também membro do Conselho de Redacção da Lei Básica da Região Administrativa Especial de Macau.No âmbito académico, além de funções docentes, foi o presidente da comissão instaladora do Instituto Politécnico de Macau, de que é agora presidente honorário, e membro das comissões instaladoras do Curso de Administração Pública e da Faculdade de Ciências da Educação da Universidade de Macau. Também presidiu ao Conselho da Universidade de Macau e aos Conselhos de Educação, do Desporto e de Juventude. É professor convidado de várias instituições de ensino superior, sendo também consultor da Universidade Aberta Internacional da Ásia e director honorário do Centro de Estudos Comparativos de Culturas da Universidade de Soka (Tóquio). Foi conferencista no Instituto da Defesa Nacional de Portugal, ministrando a matéria “A Bacia do Pacífico, Situação Estratégica e Perspectivas de Evolução” e integra o corpo docente do curso de pós-graduação em “China Moderna” no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade Técnica de Lisboa, desde o ano lectivo de 2001/2002, dando idêntica colaboração docente no Curso de Estudos Chineses (China Moderna e Contemporânea) da Universidade de Aveiro.
  • 295 F A l A r d e n ó s – VII J o r g e A . H . r A n g e l Desenvolveu e mantém ainda uma actividade intensa em organismos internacionais, como a UNESCO, a EROPA (Eastern Regional Organization for Public Administration), de que é membro vitalício, a Universidade das Nações Unidas e a Associação das Universidades de Língua Portuguesa (AULP). Foi presidente da EATA (East Asia Travel Association), com sede em Tóquio; presidente regional da PATA (Pacific Asia Travel Association), com sede em Banguecoque, de que é director vitalício, e membro do Conselho Executivo da Organização Mundial do Turismo, com sede em Madrid. Participa regularmente, como conferencista, em encontros internacionais, de que se destaca a Conferência Internacional sobre o Diálogo das Civilizações, que se realizou em Tóquio e Quioto, no âmbito das Nações Unidas, tendo presidido à sessão sobre “Multiculturalismo e Encontro de Culturas”.A actividade associativa ocupa parte importante do seu tempo, tendo sido presidente do Elos Internacional – Movimento da Comunidade Lusíada durante dois mandatos (eleito em São Paulo, Brasil, em 1999, e reeleito em Coimbra, em 2001). É presidente da Assembleia Geral da Associação Promotora da Instrução dos Macaenses, presidente do Conselho Consultivo da Associação de Gestão de Macau, académico honorário da Academia Portuguesa de História, académico da Academia Lusófona de Arte e Cultura, membro do Conselho de Administração do Observatório da Língua Portuguesa e presidente da Direcção Central e membro do Conselho Supremo da Sociedade Histórica da Independência de Portugal, além de dirigente ou membro de numerosas outras associações de natureza cultural, artística, educativa e social. O Instituto Internacional de Macau, de que é presidente e membro fundador, é uma ONG (organização não governamental), com a classificação oficial de organismo de utilidade pública. É também presidente do Conselho
  • 296F A l A r d e n ó s – VIIJ o r g e A . H . r A n g e l Consultivo do Conselho das Comunidades Macaenses e membro dos Conselhos de Curadores das Fundações Casa de Macau, Jorge Álvares e do Santo Nome de Deus, todas ligadas a Macau, sendo ainda membro honorário de várias agremiações macaenses espalhadas pelo mundo.Foi agraciado com diversas condecorações nacionais e estrangeiras, de que se destacam o Grande Oficialato (1982) e a Grã-Cruz (1998) da Ordem do Infante D. Henrique, a Medalha de Valor (a mais alta distinção honorífica de Macau), a Medalha de Mérito da Cidade do Rio de Janeiro, a Medalha de Mérito, com o título de “benemérito”, da Federação das Associações Portuguesas e Luso-Brasileiras do Brasil, a Medalha de Mérito Eduardo Dias Coelho, do Elos Internacional, com o título de “grande benemérito” e a Medalha Victor Hugo de Cultura, tendo também recebido o Award of Excellence do Instituto de Estudos Orientais de Tóquio, o Paul Harris Fellow e o título de membro benemérito da organização rotária internacional, além de vários doutoramentos honoris causa e o troféu D. Quixote, do Conselho da Europa.
  • 297 F A l A r d e n ó s – VII J o r g e A . H . r A n g e l
  • 298F A l A r d e n ó s – VIIJ o r g e A . H . r A n g e l
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