VIAGEM A MACAU Uma relíquia de Portugal no Oriente (2ª. edição) VASCO CALLIXTO 2019
VIAGEM A MACAU VASCO CALLIXTO 2 EDIÇÃO Instituto Internacional de Macau TÍTULO Viagem a Macau – Uma Relíquia de Portugal no Oriente AUTOR Vasco Callixto FOTOGRAFIAS E ILUSTRAÇÕES Vasco Callixto REVISÃO Rufino Ramos GRAFIA Ângela Canavarro Ramos IMPRESSÃO Foshan Nanhai Baosheng Packing Factory (Baosheng Printing) 1ª. EDIÇÃO do Autor, 1978 TIRAGEM DA 2ª. EDIÇÃO 500 Exemplares APOIO FUNDAÇÃO MACAU Macau, Maio de 2019 ISBN – 978-99965-59-32-7
VIAGEM A MACAU VASCO CALLIXTO 3
VIAGEM A MACAU VASCO CALLIXTO 4
VIAGEM A MACAU VASCO CALLIXTO 5 CRÓNICAS DE UMA VIAGEM DE 31 DIAS (EM 1977) LISBOA – PARIS – BANGKOK – HONG KONG – MACAU – – HONG KONG – PARIS – GENEBRA – LISBOA 26751 KM DE AVIÃO 140 KM DE BARCO 285 KM DE AUTOMÓVEL EM MACAU
VIAGEM A MACAU VASCO CALLIXTO 6
VIAGEM A MACAU VASCO CALLIXTO 7 Nota de Apresentação Ao longo de muitos anos, o escritor Vasco Callixto foi produzindo sugestivas crónicas de viagens que o notabilizaram neste ramo da literatura, ainda insuficientemente valorizado entre nós. Nas suas andanças pelo mundo, não quis deixar de passar algumas semanas em Macau, tendo dedicado a este território, em 1978, um muito apreciado volume da sua vasta obra. Quatro décadas volvidas, o Instituto Internacional de Macau e o Autor, ainda muito activo e no gozo pleno das suas mais de noventa primaveras, acharam oportuno preparar uma reedição deste valioso trabalho, para recordarmos um outro tempo de Macau, em que se procurava obstinadamente assegurar a sua estabilidade e a segurança do seu desenvolvimento numa nova conjuntura política pouco antes iniciada. Felizmente, para todos nós, a estabilidade foi conseguida e o território foi seguindo o seu caminho de progresso até aos nossos dias, ultrapassadas que foram as vicissitudes que podiam ter prejudicado o seu percurso. Ao fazê-lo, proporcionamos aos leitores de hoje a possibilidade de conhecerem a série de crónicas e artigos reunidos nesse livro, há muito esgotado e, por isso, já pouco acessível, ao mesmo tempo que prestamos uma singela e justíssima homenagem ao Autor, grande e respeitado Amigo, cujo mérito merece ser amplamente reconhecido. Macau, 30 de Março de 2019 Jorge A. H. Rangel, Presidente do Instituto Internacional de Macau
VIAGEM A MACAU VASCO CALLIXTO 8
VIAGEM A MACAU VASCO CALLIXTO 9 PREFÁCIO O meu livro “Viagem a Macau”, publicado em 1978, relatando a visita, no ano anterior, a essa “Relíquia de Portugal no Oriente”, em edição do autor, com o patrocínio do Centro de Informação e Turismo de Macau, agora reeditado pelo Instituto Internacional de Macau, revelará às novas gerações as impressões da minha primeira viagem a terras orientais, compreendendo uma parcela da Tailândia, Hong Kong e a nossa querida Macau, uma permanência de vinte dias. Embora tenha voltado a Macau em 1992, num complemento de uma viagem à Austrália, a viagem de 1977 é a viagem inesquecível e o livro que deu origem, o mais representativo de quanto vi e apreciei em Macau. Entre a edição de há 42 anos e a presente há um elo. E esse elo foi estabelecido pelo prezado amigo Dr. Jorge Rangel, director do citado Centro de Informação e Turismo de Macau, em 1977 e actualmente dinâmico Presidente do Instituto Internacional de Macau, que leva o nome de Macau às cinco partes do Mundo. A minha satisfação por esta reedição, naturalmente, é plena. Os leitores de hoje recuarão quatro décadas e ficarão a conhecer a Macau de ontem, uma Macau saudosa cem por cento portuguesa, que transmitia orgulho e emoção a quantos portugueses pisavam a terra de Macau. Mesmo assim, com os ventos da História que “tudo o vento levou”, penso que o mesmo ainda acontecerá a muito boa gente de alma bem portuguesa. Os meus melhores agradecimentos ao Instituto Internacional de Macau e, particularmente, ao sr. Dr. Jorge Rangel por esta iniciativa. VASCO CALLIXTO 19 de Março de 2019
VIAGEM A MACAU VASCO CALLIXTO 10
VIAGEM A MACAU VASCO CALLIXTO 11 PREFÁCIO DA 1ª. EDIÇÃO Macau fica «no outro lado do Mundo», no mundo das lonjuras do Oriente, cujas imagens, muito especialmente através do cinema, chegam até nós envoltas numa mística plena de exotismo e de originalidade, revelando-nos terras e gentes de feição e usos e costumes bem diferentes dos que nos são familiares. Mas o Ocidente, afinal, também «está» no Oriente. E Macau, pequeníssimo território onde há mais de quatro séculos flutua a bandeira portuguesa, é bem um exemplo desta harmoniosa combinação Oriente-Ocidente. Quando chegamos a Macau, se, por um lado, algo nos diz que chegámos a um «outro mundo», algo há também que nos faz esquecer a enorme distância percorrida e nos faz sentir num complemento da nossa terra. Desde há muito, por razões que será desnecessário referir, que sentia o desejo de visitar Macau. E nos últimos tempos – quando «tudo o vento nos levou» e só ficou Macau – mais Macau me chamava. Como seria essa parcela mínima de terra luso-chinesa, «perdida» lá tão longe, paredes meias com uma China imensa e milenária? Tinha que conhecer Macau! Como se lembra num muito feliz e internacionalmente premiado cartaz de propaganda turística do território, «Macau esperava por mim há 400 anos». Como espera por um número cada vez maior de visitantes, das mais diversas proveniências. Viajeiro da estrada e amante da condução, com um «palmarés» distribuído pelas estradas da Europa, da África e da América – são as estradas, mais e melhor do que quaisquer outros caminhos, que nos revelam terras, povos e regiões – «sonhei» durante muito tempo em ir a Macau de automóvel. Seriam uns 20 mil quilómetros até lá, através de uma dúzia e meia de países de dois continentes; seria a «grande» continuação» de uma viagem já realizada até Istambul, que me permitiu pôr pela primeira vez um pé na Ásia, ao atravessar o Bósforo. E essa «grande continuação», perfeitamente realizável, suplantaria, sob todos os aspectos, quantas jornadas rodoviárias já efectuei. Mas quanta colaboração e quanto tempo não era necessário, para realizar tal viagem? A falta de tempo e a falta de uma indispensável colaboração em grande escala, terão contribuído para que o «sonho» não se tornasse realidade. Mas o grande desejo de conhecer Macau – mesmo que nada mais conhecesse – mantinha-se firme no meu espírito. Foi o que me levou a trocar a estrada pelos caminhos do ar. Com a mesma «companheira de equipa» de sempre – minha mulher – viajei muito, muitíssimo, e não vimos nada da maior parte dos países sobrevoados (Espanha, França, Suíça, Itália, Chipre, Israel, Jordânia, Iraque, Irão, União Indiana, Birmânia, Tailândia e Vietname) e vimos muito pouco das poucas regiões a que nos foi possível dar uma vista de
VIAGEM A MACAU VASCO CALLIXTO 12 olhos, quer para matar saudades, como foi o caso de Paris e de Genebra, quer para irmos à sua «descoberta», como sucedeu em Bangkok e em Hong Kong. Mas, mesmo assim, ambos voltámos mais ricos, mais conhecedores do Mundo e conhecedores, afinal, daquilo que desejávamos conhecer: Macau! Lamentámos, bastante mesmo – tanto mais que à nossa frente tínhamos uma estrada – que não se nos tivessem aberto as portas da China. Uma política de isolamento dificulta, na verdade, os contactos entre os povos e impede que se visitem vastas regiões do mundo ricas em potencial turístico da mais diversa natureza, que ao turismo mundial bem podiam ser oferecidas. É certo que só «sondámos» a questão da visita à China (mais propriamente à cidade de Cantão), uma vez chegados a Macau, embora prevíssemos que, para tal, seria necessário encetar diligências com meses de antecedência. Mas, francamente, tínhamos uma certa esperança numa excepção. Todavia, essa esperança logo se desvaneceu. E, claro está, mesmo com diligências encetadas a longo prazo, a desejada autorização para entrar na China poderia ser-nos concedida ou não. E, se o fosse, seria para atravessarmos a fronteira a pé, para utilizarmos depois transportes colectivos chineses. Assim ficou a China excluída do nosso «programa» e assim ficámos nós . . . em Macau! Restou-nos a consolação de todos os dias admirarmos a vasta e fascinante – e intrigante – panorâmica do território chinês que de Macau se avista, com as suas altas e majestosas serranias, que parecem esconder um mundo que teima em se ocultar. Principalmente para nós, portugueses, Macau merece, sem dúvida, o «sacrifício» de vinte e tantas horas de avião para lá se chegar. Todo o português que viaja de continente para continente, em viagem de turismo ou de negócios, devia conhecer Macau. Está ali um território pequeníssimo, é certo, mas onde a alma lusíada está fortemente enraizada. E não será o facto – que infelizmente se verifica – de a maior parte da população (que é chinesa) não falar português, que destruirá umas raízes de quatro séculos. Mas Macau é também um autêntico paraíso turístico, com as mais fascinantes paisagens de terra e mar, custando a crer como a Natureza soube ser tão pródiga para uma tão pequena área. Há paisagísticas lindíssimas em Macau! E há o seu interesse histórico, com os seus monumentos, evocadores de figuras e factos de um passado mais ou menos distante, há a Macau de hoje, a Macau moderna, que avança para o futuro, com os seus magníficos hotéis e os seus afamados casinos, os seus novos bairros, as novas estradas e essas obras admiráveis que são as ligações península-ilhas, por meio de ponte e istmo artificial, duas obras que beneficiaram extraordinariamente o território. E há ainda, e muito especialmente, a atracção da fisionomia luso-chinesa da cidade, essa
VIAGEM A MACAU VASCO CALLIXTO 13 harmoniosa combinação de dois mundos diferentes, que se completam, se compreendem e se entendem, hoje como ontem e como amanhã. Como já foi referido, em tão longa viagem, além de Macau – onde a agradável permanência se prolongou por vinte dias – apenas visitámos Bangkok e Hong Kong. Ambas grandes metrópoles dos nossos dias, cidades de milhões de habitantes, principalmente Bangkok, com os seus templos e palácios fabulosos e o modo de vida de uma grande parte da população, que vive na Bangkok de ontem, «disse-nos», realmente, que estávamos no Oriente, num mundo-novidade não nos tivessem permitido conhecer melhor Bangkok e conhecer a Tailândia, esse país de existência secular que nunca foi colónia do Ocidente. Quanto a Hong Kong, que os ingleses «fizeram» há pouco mais de cem anos, para se transformar numa cidade sempre em crescente e extraordinária expansão, facilmente nos transportou a Inglaterra, à Cidade do Cabo ou a qualquer grande cidade da América. Hong Kong, com efeito, tem muito pouco de oriental e tem tudo de ocidental. De mais oriental feição será Kowloon, a continuação da grande cidade, do outro lado do rio. A visita a Hong Kong teve porém, para nós, um momento alto, embora breve, por termos encontrado nessa grande metrópole britânica um centenário clube português, dos mais conceituados, o «Club Lusitano», em cuja frontaria figuram as caravelas de Quinhentos e onde se guarda uma valiosa relíquia da Aviação Portuguesa, um pedaço da hélice do avião que efectuou a segunda parte da primeira viagem aérea Lisboa-Macau, em 1924. * * * Porque a realização desta minha viagem a Macau só foi possível, mercê da colaboração que me foi prestada pelo Centro de Informação e Turismo de Macau e pela Agência de Viagens Meliá, aqui expresso os meus melhores agradecimentos às duas entidades que me permitiram satisfazer o grande desejo de conhecer Macau para agora dar a conhecer Macau através das páginas que se seguem, que constituirão um convite para o leitor ir também de abalada até àquele distante complemento da nossa terra, como já lhe chamei. E este meu duplo agradecimento é especialmente endereçado ao sr. dr. Jorge Rangel, director do CIT de Macau, e aos directores da «Meliá», que ditaram a «sorte» da minha grande jornada a terras do Oriente. Por outro lado, ao CIT de Macau cumpre-me agradecer ainda uma segunda colaboração, que me permitiu realizar a exposição de fotografias de Macau no Estoril, bem como o patrocínio dado à publicação deste livro. E ao Gabinete de Macau em Lisboa e à Junta de Turismo da Costa do Sol agradeço as facilidades concedidas para realizar aquela exposição.
VIAGEM A MACAU VASCO CALLIXTO 14 Mas o meu «Muito Obrigado», por todas as atenções dispensadas, é igualmente extensivo aos senhores Governador de Macau, cor. José Eduardo Garcia Leandro, bem como a sua esposa, que connosco foram de uma gentiliza extrema; major Luís Morais Santos, director do Gabinete de Macau em Lisboa; Frederico Nolasco da Silva, sócio-gerente de H. Nolasco & Cia., Lda., que nos permitiu percorrer Macau em «quatro rodas»; engº. Eduardo Tavares da Silva, director do Centro de Relações Económicas, onde realizei a conferência «O que eu vi de Portugal no Mundo»; dr. Rui Hugo do Rosário, director do Laboratório da Polícia Judiciária, e sua esposa; Rogério dos Santos, presidente do Leal Senado; César de Sá, jornalista ao serviço do CIT; cap. António Salavessa da Costa, director do Serviço de Trânsito da P.S.P.; José Cortiço Paz e António Silva Moura, funcionários do Leal Senado; Horácio Torres, rádio-amador CR9AJ, e sua esposa; Manuel J. Pinto, chefe dos Serviços de Planeamento; Fernando Correia Marques, delegado do A.C.P.; Maria Guilherme, funcionária da recepção do CIT; António Estorninho, gerente do Hotel Sintra; Daniel Loureiro, gerente da firma Kan Kan, Lda.; dr. Henrique Senna Fernandes, director da Biblioteca Nacional; Luís Silveira do Amaral, conservador-adjunto do Museu Luís de Camões; Leonel Borralho, director do jornal «Gazeta Macaense», e Pe. José Barcelos Mendes, então director do jornal «O Clarim», que noticiaram com relevo a minha visita e a conferência que realizei; e a hoje nossa prezada amiga Maria do Rosário Marques Gomes, que nos cumulou de gentilezas, quando, afinal, só em Macau nos conhecemos. Não foi, porém, só em Macau que nos dispensaram atenções dignas de agradecimento. Por isso, cumpre-me «dirigir» também o meu «Muito Obrigado» para Hong Kong e para Bangkok: dr. Francisco Reis Caldeira, cônsul de Portugal em Hong Kong; António Oliveira Sales, presidente do Município da grande colónia britânica; David Lewis, funcionário do mesmo município; Jane Maria Placé, funcionária do Consulado de Portugal em Hong Kong; dr. Borges de Pinho, cônsul da Tailândia em Portugal; Praobhana Pansomchit (Jolie), guia-intérprete da «World Travel Service» em Bangkok; Kusa Panyarachum, director da mesma agência de viagens; e Virakiart Angkatavanich, assistente do director-geral da «Tourist Organization of Thailand». Tendo realizado esta viagem incorporado no grupo que a Agência Meliá reuniu para ir a Macau, devo, por último, agradecer a boa camaradagem e o espírito de equipa demonstrado por todos os companheiros de viagem: D. Ilda Batista Rondão; Dra. Regina Elisa Ferreira; srs. José Batista; Ramiro Duarte Batista; dr. Mário Wilson Fernandes e sua esposa, D. Vitória Fernandes; Pedro da Silveira; Avelino Santos; José Francisco; José Teixeira; Tchen Ching e sua esposa, D. Manuela Tchen; e Li Pao Shing e sua esposa, D. Lai Chu Lan.
VIAGEM A MACAU VASCO CALLIXTO 15 I PARTE (LISBOA – PARIS – BANGKOK – HONG KONG – MACAU)
VIAGEM A MACAU VASCO CALLIXTO 16
VIAGEM A MACAU VASCO CALLIXTO 17 IR A MACAU! A viagem mais económica É evidente que uma viagem a Macau não é barata, dada a enorme distância que há a percorrer. E se pensarmos que, geralmente, em digressões turísticas, não se viaja sozinho, logo se terá que multiplicar, pelo menos, por dois, o custo da viagem, incluindo não só o transporte aéreo, mas também o alojamento e as refeições. E de tudo isto, multiplicado, ainda, por 15, 20 ou 30 dias, resulta, sem dúvida, uma despesa bastante apreciável, que ultrapassa a centena e meia de contos, pois só uma passagem aérea, de Lisboa a Hong Kong e volta, em viagem normal, importa em cerca de 65 contos. Claro está, é sem dúvida por esta razão «de peso», que não se verifica um maior intercâmbio turístico entre Portugal e Macau. Tratando-se de Macau, competiria às entidades oficiais proporcionar aos turistas nacionais as indispensáveis facilidades, mais concretamente, a obtenção de tarifas mais económicas, para se efectuar uma viagem até ao distante território. Mas as entidades oficiais nunca deram um passo neste sentido, situação que, todavia, talvez venha a modificar-se, dada a criação do Gabinete de Macau em Lisboa, que poderá vir a tornar tal iniciativa, em íntima colaboração com a Casa de Macau e com o Centro de Informação e Turismo local. E oxalá assim aconteça, para que Macau possa vir a receber um bem maior número de turistas portugueses. Desde há três anos, porém, que tem sido possível ir a Macau com muito menor dispêndio, importando a viagem aérea em menos de metade do preço da viagem normal. E essa deslocação inclui ainda uma noite em Paris e duas em Bangkok, uma breve visita a esta última cidade e a travessia marítima entre Hong Kong e Macau. Parecerá à primeira impressão, que se trata de muita «fartura», com algo «escondido». Mas o facto é que assim acontece. Com efeito, a «Viagem a Macau», que anualmente tem sido organizada pela Agência de Viagens Meliá, oferece a mais económica viagem a Macau e tem constituído a única «ponte aérea» turística entre Lisboa e o distante território do Oriente. E não são só os turistas que vão a Macau pela primeira vez, que têm utilizado esta viagem especial, mas também os macaenses e descendentes de macaenses residentes em Portugal, que aproveitam a oportunidade para ir de visita à sua terra ou à dos seus maiores, com muito
VIAGEM A MACAU VASCO CALLIXTO 18 menor dispêndio, tanto mais que estes, uma vez em Macau, não se acolhem aos hotéis, mas sim às casas de família. E até para quem queira ir ao Japão ou à Formosa, esta viagem é vantajosa, pois de Hong Kong lá é um pulo. Porque Macau, em Novembro, é cenário do maior acontecimento turístico-desportivo do ano, o «Grande Prémio Automóvel de Macau», que atrai milhares de visitantes – e este ano comemora as suas «Bodas de Ouro1» - e ainda porque o Outono é a melhor época para se visitar o território, a «Viagem a Macau», organizada pela Agência Meliá, tem-se realizado sempre de fins de Outubro a meados ou fins de Novembro. Tudo se conjugou, pois, para que optássemos por esta «Viagem». Íamos, finalmente, conhecer Macau, mais economicamente, revelar-se-nos-ia também Bangkok e Hong Kong e tínhamos ainda possibilidade de assistir à mais famosa corrida de automóveis do Oriente, matando assim saudades dos «saudosos» circuitos de Monsanto e da Boavista, que pertencem ao passado. A modalidade satisfez-nos e, principalmente os hotéis, com os quartos à nossa espera, foi um descanso. Claro está, vimo-nos cingidos ao «programa», o que nos impediu, por exemplo, de partir de Bangkok à «descoberta» dos diversos países sobrevoados. Mas as viagens especiais são assim, como toda a gente sabe. E esta «Viagem a Macau» da «Meliá», por 30.200$00 por pessoa, foi francamente barata. Oxalá que ela se realize de novo este ano e tenha sucessivas edições, para que um número cada vez maior de portugueses conheça Macau. 1 Nota da 2ª. edição:Devia ser Bodas de Prata, uma vez que o Grande Prémio de Macau apenas se iniciou em 1953.
VIAGEM A MACAU VASCO CALLIXTO 19 1ª ETAPA : LISBOA-PARIS EM DUAS HORAS Um «salto» nocturno à Praça da Ópera Dezasseis pessoas, ao começo da tarde de sábado 29 de Outubro de 1977, estavam no Aeroporto da Portela, em Lisboa, prontas a percorrer a longa rota aérea que separava o Ocidente do Oriente. Eram os participantes na «Viagem a Macau», organizada pela Agência Meliá, que ali estabeleceram os primeiros contactos entre si e durante 31 dias viriam a revelar-se excelentes companheiros de viagem. A «equipa» estava reunida. Carlos Leitão e a sua colega Zulmira, em nome dos organizadores da viagem, apresentaram-lhe cumprimentos de despedida; restava aguardar a chamada para o voo AF500, com destino a Paris, final da primeira etapa, voo que estava marcado para as 15,15 horas. Depois . . . adeus Lisboa, rumo a Macau! Como sempre acontece em viagens aéreas, a partida não foi à hora marcada, mas, desta vez, o atraso não foi grande, apenas meia-hora. Às 15,45 horas, o «nosso» primeiro «Boeing», um «727», elevou-se nos ares e «apontou» a nordeste, em direcção à capital francesa. Cá em baixo ficava a sempre bela panorâmica de Lisboa e o Tejo, «dizendo-nos» que, realmente, a cidade é grande e o rio e as suas margens têm um certo fascínio, mais ainda, talvez, quando se contemplam do ar. Quanto a nós, que sempre tínhamos voado para Ocidente e para o Sul, sobre as águas do Atlântico, íamos pela primeira vez sobrevoar terras da Europa e depois da Ásia. Em cerca de meia-hora, Portugal ficou para trás e começámos a atravessar o norte de Espanha. Mas, também como sempre acontece em viagens aéreas e não devia acontecer, a passagem da fronteira não foi anunciada e houve que recorrer a perguntas ao pessoal de bordo. Realmente, em viagens de avião, são escassíssimas as informações prestadas aos passageiros sobre as regiões que se sobrevoam. Impunha-se, com efeito, que fosse anunciada a «entrada» nos diversos países sobrevoados e a passagem sobre as principais cidades, ilhas, lagos, montanhas, etc., o que quebraria até a monotonia de uma longa viagem. Se uns tantos passageiros preferem dormir todo o caminho e não lhes interessa saber por onde andam, outros há que gostam de acompanhar o «avanço» da viagem e saber assim onde se encontram, mesmo lá nas alturas dos 10.000 metros. E, além do mais, não custa nada e só traduziria utilidade e amabilidade em relação aos passageiros.
VIAGEM A MACAU VASCO CALLIXTO 20 Vimos, entretanto, o mar por baixo de nós. Era o Golfo da Gasconha e, sem darmos por isso, já tínhamos dito adeus à Espanha. O tempo, aliás, não estava muito limpo, pelo que só de vez em quando se abriam «clareiras», que nos permitiam ver alguma coisa. Às 17 horas estávamos com a costa francesa à vista e – vimos pelo mapa – entrámos em França pela região de Nantes. Um quarto de hora depois era noite. E com mais vinte minutos de voo, estamos sobre a região de Paris. Aterrámos em Orly às 17,40. Uma distância de 1.441 quilómetros pelos caminhos do ar tinha sido percorrida em uma hora e 55 minutos. Em França eram já 18,40, dada a diferença horária entre os dois países. As formalidades de saída de aeroporto foram rápidas e, apenas meia-hora depois, os 16 elementos da «caravana» tomaram lugar em quatro táxis, que em 20 minutos os levaram ao Hotel Ibis, em Paris-Bagnolet, onde os quartos já estavam reservados. Claro está, de noite, em circulação veloz pelas pistas das auto-estradas que envolvem a capital francesa, nem víamos por onde íamos . . . nem vimos Paris! Só víamos auto-estradas com um trânsito intensíssimo. Quanto ao preço dos táxis . . . foi «bonito»! E foi ainda mais «bonito», porque os três primeiros que nos apareceram eram da categoria «grand-táxi» e pagámos por cada um, para percorrer cerca de 20 quilómetros, o melhor de 100 francos (890$00), enquanto o quarto táxi custou somente 40 francos (355$00). Foi, na verdade, um autêntico «barrete» . . . à francesa! Estas despesas de transportes, porém, foram por conta da agência organizadora da viagem. Mas, mesmo assim, claro está, «custaram-nos». Há quanto tempo não íamos a Paris! Há 13 anos! E, afinal, íamos somente dormir em Paris. Mas o escasso tempo disponível ainda nos permitiu dar um «salto» nocturno ao centro da grande metrópole, para matar saudades das visitas anteriores. Bagnolet fica a leste de Paris, mesmo junto à periferia da cidade, próximo da praça Gambeta e do conhecido Cemitério de Père Lachaise, sendo ainda servida por metropolitano. E o Hotel Ibis tem a dois passos a última estação da linha, Gallieni. Este hotel, de «duas estrelas», é uma nova unidade hoteleira, com 414 quartos, todos com casa de banho e telefone, despertador automático e termostato individual. Quanto a preços, tínhamos, em 1977, um quarto de casal por 106,00 francos (950$00) e o pequeno almoço por 7,50 francos (65$00). Com a planta de Paris e o plano do «metro» na mão, demos então o nosso breve «salto» nocturno ao centro da cidade, a partir da estação de Gallieni, até à estação final daquela linha, a da Praça da Ópera. Por volta das 21 horas, o «metro» registava pouco movimento.
VIAGEM A MACAU VASCO CALLIXTO 21 Passámos por nada menos de doze estações e a «viagem», ida e volta, importou em 3,40 francos (30$00) cada um, o que nos deu a saber que o «metro» de Paris custava então três vezes mais do que o de Lisboa. Mas ainda há mais preços a revelar . . . Foi com natural agrado que revimos a Praça da Ópera e suas imediações. Ali, sim, era Paris! Mas no dia seguinte já tínhamos que a deixar. Nem o sol de Paris veríamos . . . nem a Torre Eiffel! Passeámos um pouco pelo Boulevard des Capucines, Avenida da Ópera e Rua da Paz e fomos ainda até à histórica Praça Vendôme, onde Napoleão está nas alturas, no cimo da coluna que ali se ergue. Estranhámos, porém, ver esta praça fracamente iluminada. Naturalmente, fomos também vendo montras. E ficámos verdadeiramente pasmados, quando vimos os preços de certas peças de vestuário: sobretudos, 1800 francos (16 contos); fatos, 2600 francos (23 contos); calças, 490 francos (mais de 4 contos); camisas, 270 francos (mais de 2 contos); gravatas, 100 francos (890$00). É evidente que estávamos a ver montras de uma das áreas mais «chics» de Paris, onde, naturalmente, os preços são mais caros. Mas mesmo que noutras áreas haja peças de vestuário por metade daqueles preços, ainda será para pensar quanto têm que ganhar os franceses para se vestirem. Num «metro» quase deserto – ia para a meia-noite – voltámos ao Hotel Ibis. Antes, porém, de deixarmos a bela Praça da Ópera, «dissemos» a Paris que havíamos de lá voltar, para revermos realmente Paris.
VIAGEM A MACAU VASCO CALLIXTO 22 DA EUROPA À ÁSIA – PARIS-BANGKOK (Viajar muito e não ver nada) 18 horas e meia de avião No dia seguinte de manhã, domingo, foi a partida para a grande jornada que nos levou ao Oriente. Nunca tínhamos andado tanto de avião! Realmente, o mundo é grande e fomos, na verdade, até ao «outro lado do mundo». Mas viajámos muito, muitíssimo mesmo . . . e não vimos nada! Foram dezoito horas e meia de avião, para percorrer mais de 10.000 quilómetros pelos ares de dois continentes. E em voo estivemos 13 horas e meia, com três aterragens intermédias. Se esta grande jornada tivesse sido feita de automóvel, não em 18 horas, mas sim em 18 dias, o que não tínhamos visto, o que se não nos tinha revelado! Assim, lá pelas alturas vizinhas do céu, tivemos que nos contentar com as nuvens, com o muito pouco que as nuvens nos deixaram ver cá para baixo e, também, com a escuridão da noite, que começou pelas 4 horas da tarde, logo no termo da primeira etapa, uma noite de dez horas. Outra vez em quatro táxis, desta vez a 70 francos cada um (625$00), para cobrir um percurso de 24 horas quilómetros, a nossa «caravana» deixou o Hotel Ibis pelas 8 e meia da manhã, em direcção ao maior e mais moderno aeroporto de Paris, o Aeroporto Charles De Gaule, em Rossy, a nordeste da capital francesa. O «nosso» voo, que nos levaria a Bangkok, era o AF 192 e estava marcado para as dez horas. Deixámos Paris, a França e a Europa a bordo de um «Boeing» gigante, um «747», às 10,45. Iriamos ser hóspedes deste enorme «paquete» do ar durante um dia a uma noite, nós e mais trezentas e tantas pessoas. E iriamos começar a debater-nos com a «dança» das horas, dada a diferença horária que se verifica entre as diversas regiões do mundo que íamos atravessar (diferença que se acentua à medida que se avança para o Oriente) a tal ponto que, no fim desta longa jornada aérea, estávamos «atrasados» seis horas. E com os transbordos de aviões, começou também o «martírio» das malas, pesadas como chumbo, fazendo-nos suar e estafar, pelos corredores fora dos aeroportos e fora deles. Vinte quilos de uma mala e mais a tralha que se leva nas mãos, é realmente muito peso para uma pessoa só. E o «Boeing», como se aguenta, com tanta gente e tantíssimas e pesadíssimas malas no seu bojo? Quando pensávamos nisto . . . logo deixávamos de pensar! Não valia a pena . . .
VIAGEM A MACAU VASCO CALLIXTO 23 Nesta ligação Paris-Bangkok, mais ainda sentimos a falta de informações periódicas sobre as regiões sobrevoadas, como já atrás foi referido, pois numa viagem de 10 320 quilómetros, só duas ou três vezes tais informações foram dadas aos passageiros. Menos de uma hora depois de levantarmos voo, estávamos sobre os Alpes, com bastantes nuvens, e ao meio-dia começámos a «descer» a costa italiana, mas nem Roma nem Nápoles se viram. Fomos, porém, mais felizes depois. Sobre o mar, as nuvens «abriram» e vimos Creta mais ou menos bem, distinguindo até um barco num porto daquela ilha. Mais cerca de uma hora de voo sobre as águas de Mediterrâneo Oriental e antes das 3 horas da tarde (4-hora local) aterrámos em Israel, no Aeroporto Ben Gurion, de Tel Aviv. Tínhamos voado de Paris a Tel Aviv (3284 km) em 4 horas e dez minutos. Já estávamos na Ásia! Tendo visto apenas das alturas as terras de Israel, permanecemos o melhor de duas horas no aeroporto de Tel Aviv . . . sem nos deixarem sair do avião! Questões de segurança impostas pelas autoridades locais, terão impedido os passageiros de pôr pé em solo israelita. As duas horas de paragem foram, pois, passadas com uma conversa aqui e outra ali e umas espreitadelas pelas pequenas janelas do gigante do ar que nos transportava. Entretanto, pouco depois das 16 horas (ou 17 de Israel) começou a anoitecer e quando, por fim, às 16,55, o «Boeing» se elevou de novo nos ares, era noite escura. E o dia só voltaria na Índia. A segunda escala foi Teherão, a 1569 quilómetros de Tel Aviv. O voo foi de duas horas e 50 minutos e, claro está, a escuridão da noite nada nos deixou ver da região desértica que atravessámos. Teremos, talvez, passado sobre Bagdad, mas nem sequer valeu a pena «sonhar» com as «Mil e uma noites». E em Teherão . . . voltámos a não sair do avião! Aqui, disseram-nos, como o avião já ia atrasado, os passageiros não saíam, para não se perder mais tempo. Mas estivemos no Aeroporto de Teherão quase outras tantas duas horas. Na Pérsia, a diferença horária era já de três horas. Nós ainda não tínhamos jantado quando chegámos e pela hora local já ia para as 11 horas da noite. Deixámos Teherão às 21,30 (meia-noite e meia-hora local), em direcção à India. Mais 2550 quilómetros, cobertos em três horas, sobrevoando o Irão, o Paquistão e a India. Foi, entretanto, servido o jantar. E nesta terceira etapa de tão longa jornada, tivemos oportunidade de visitar a cabine do gigantesco avião em que viajávamos e de conversar durante uns momentos com o seu comandante. Deverá, porém, referir-se que a tripulação navegante não foi sempre a mesma até ao fim da viagem, como é aconselhável e como certamente se verifica em todas as viagens de longo curso.
VIAGEM A MACAU VASCO CALLIXTO 24 Levando connosco para Macau um mapa-cartaz da primeira viagem aérea Lisboa-Macau, efectuada em 1924 pelos aviadores portugueses Brito Paes, Sarmento de Beires e Manuel Gouveia, pensámos que o comandante do avião deveria ter interesse em apreciar o histórico documento. E uma vez posta a questão ao «chefe de cabine» Charles Gervais, e consultado telefonicamente o comandante, subimos ao piso superior do «Boeing», onde se situa o bar da 1ª classe, e daí passámos à cabine de comando, onde muito cordialmente fomos recebidos pelo comandante Hollinger, assim como pelo seu co-piloto e pelo rádio-telegrafista. O comandante Hollinger demonstrou, efectivamente, um vivo interesse pelo documento que lhe mostrámos, fazendo-nos sucessivas perguntas sobre os mais diversos pormenores da arrojada viagem dos pilotos portugueses de há meio século, que se desenvolveu mais ou menos pela mesma rota que seguíamos. E se foi com natural orgulho que lhe fomos respondendo, foi também com natural «espanto» que apreciámos o local onde nos encontrávamos. A cabine de comando de um «747» é, na verdade, qualquer coisa de fantástico e de impressionante, com mais de mil e um «botões» e luzinhas de controle a «forrar» as suas paredes, enquanto o amplo pára-brisas permite admirar uma larguíssima panorâmica do espaço em que se voa, em flagrante contraste com o pouco que os passageiros vêem pelas suas janelas. E no escuro da noite, o céu estrelado, apreciado através daquele pára-brisas (aeronauticamente, será assim chamado?), a 10.000 metros de altitude, surgiu-nos como uma autêntica visão de sonho e de conto de fadas. Ali, com aqueles três homens, não deixámos também de pensar que nas suas mãos estava o destino das trezentas e tantas pessoas que iam a bordo. Felizmente, porém, em todos os percursos desta longa viagem ao Oriente, quer na ida quer na volta, todos os voos foram excelentes, somente com uma ligeira «trepidação», uma vez por outra. Terminou esta terceira etapa em Nova Delhi, pela nossa hora, a hora de Paris, à meia-noite e meia-hora. Mas na Índia já eram 5 horas da manhã, ainda de noite. Mais uma vez os passageiros não foram autorizados a sair do avião, por causa do atraso, mas aqui, ao menos, ainda fomos pôr os pés em solo indiano. Com a porta aberta e a escada posta para as operações inerentes à escala ali efectuada, uma meia-dúzia de passageiros desceu a escada e nós descemos também com eles, para arejar um pouco, e a esta «fuga» não foi posto qualquer obstáculo. Mas, claro está, ninguém passou do fundo da escada, onde estavam vigilantes três soldados indianos de metralhadora ao ombro. A noite estava amena e um novo dia estava prestes a nascer na Índia. Às 2 horas, ou 6 e meia da manhã, hora local, já a amanhecer, iniciámos, finalmente, a quarta e última etapa desta longa ligação entre a Europa e o Sudeste da
VIAGEM A MACAU VASCO CALLIXTO 25 Ásia, primeira jornada da nossa viagem a Macau. Quando nos vimos no ar, era praticamente já de dia. Mas logo que chegámos às alturas dos nossos já «familiares» 10.000 metros de altitude, apagaram-se as luzes, fecharam-se as janelas e começou a sessão de cinema, que se prolongou por quase duas horas, com um filme de reduzido interesse, o que nos permitiu . . . passar um bocado pelo sono! Foi, realmente, uma hora bem imprópria para a projecção do filme, que deveria ter sido projectado a seguir ao jantar e não às tantas da manhã, quando a luz do dia já nos poderia ter deixado ver alguma coisa lá para baixo. Por fim, já com a sessão terminada, foi anunciado que estávamos a sobrevoar o Golfo de Bengala, entre a Índia e a Birmânia, descortinando-se mais ou menos bem a costa birmanesa. E por volta das 5 horas «entrámos» na Tailândia, aterrando vinte minutos depois no Aeroporto de Don Muang, em Bangkok. No velho Sião eram já nada menos de 11 e meia da manhã; a apreciável diferença horária, de seis horas, fazia-nos perder a preciosa metade de um dia. Dissemos adeus ao «nosso» 747 e preparámo-nos então para visitar Bangkok em um dia e meio, como estava previsto no programa da viagem. E logo no aeroporto sentimos o calor que, em pleno Outono, se fazia sentir na Tailândia. Depois de milhares de quilómetros sobre a Ásia, íamos finalmente conhecer uma cidade asiática.
VIAGEM A MACAU VASCO CALLIXTO 26 BREVE APRESENTAÇÃO DA TAILÂNDIA O único país do Sudeste Asiático que nunca foi colónia do Ocidente A Tailândia, o antigo Sião, faz parte do Sudeste Asiático, sendo o único país desta região do mundo que foi sempre independente, nunca tendo sido, portanto, uma colónia do Ocidente. Com uma superfície total de 518.000 quilómetros quadrados (mais ou menos o tamanho da França) e uma população de 40 milhões de habitantes, estende-se por 1600 quilómetros do norte ao sul e por 800 quilómetros de leste a oeste. Os países vizinhos, com os quais tem fronteiras, são a Birmânia, o Laos, o Cambodja e a Malásia. O Oceano Índico banha a costa ocidental tailandesa e o grande Golfo da Tailândia a oriental. Bangkok, a capital do país, tem cerca de 4 milhões de habitantes e é um ponto de encontro das rotas aéreas do Oriente, em cujo aeroporto operam 35 companhias internacionais de aviação. A língua oficial da Tailândia é o tailandês, mas fala-se também chinês e inglês. Sendo o budismo a religião nacional, há uma pequena minoria de população muçulmana e em Bangkok existem lugares de culto para a maior parte das religiões, entre as quais oito igrejas católicas. A moeda é o «baht», correspondendo 1 baht, mais ou menos, a 2$20. O clima é tropical muito húmido, com uma temperatura média de 28 graus, sendo a época mais quente entre Março e Maio, quando os termómetros sobem até à volta dos 40 graus. No primeiro dia de Novembro, porém, como atrás foi dito, estava ainda um calor muito respeitável. Cerca de 80 por cento da população da Tailândia vive da agricultura, da pesca e das florestas, que cobrem a maior parte da superfície do país. O arroz é a principal cultura, como é também a base da alimentação e a primeira exportação. A Tailândia possui uma rede de estradas que permite chegar de automóvel a todos os pontos do país. – Quanto lamentámos não ter percorrido essas estradas! – dispondo também duma eficiente rede ferroviária e de linhas aéreas internas. A circulação rodoviária é pela esquerda.
VIAGEM A MACAU VASCO CALLIXTO 27 O turismo, desenvolvido rapidamente nos últimos dez anos, encontra-se em terceiro lugar entre as actividades «produtoras» de divisas estrangeiras. No primeiro semestre de 1977, a Tailândia recebeu mais de meio milhão de visitantes, sendo os maiores contingentes provenientes do Japão, Estados Unidos, Alemanha Ocidental e Austrália. Curiosamente, poder-se-á referir que, naquele período, entraram na Tailândia 731 portugueses, 727 por via aérea e 4 por via terreste, enquanto em igual período do ano anterior tinham entrado 493. Para visitar a Tailândia, os portugueses necessitam de um «visto», que se obtém no Consulado da Tailândia em Lisboa. Monarquia constitucional desde 1932, sucessora de uma monarquia absoluta com sete séculos de existência, a Tailândia tem como soberano o ainda jovem rei Bhumipol Adulyadej, nono monarca da dinastia Chakri, que é o chefe espiritual do país. O rei, a bonita rainha da Tailândia e toda a família real, são profundamente venerados pelos tailandeses – quando se referem ao rei dizem sempre «o meu rei» - que não suportam a menor falta de respeito à realeza. Por outro lado, tudo o que se relaciona com a religião budista, como templos, estátuas de Buda, relíquias, etc., é sagrado e, como tal, com o maior respeito deve também ser tratado. O antigo nome da Tailândia, Sião, significa «verde» e uma tal designação deverá atribuir-se ao facto de o país ser coberto por uma extensa mancha verde, ou seja, por grandes áreas florestais, como já foi dito. O povo tailandês, ou simplesmente «tai», que significa «livre» ou «grande», é originário das vastas regiões do sudeste da China, proximidades do vale do Yang-Tzé, onde, no ano 650, tinham fundado um reino, que em 1253 foi conquistado pelas hostes de Koubilai-Khan, o que obrigou aquele povo a uma deslocação maciça para o sul, até se fixar no território mais tarde chamado Sião. Fundaram ali um novo reino e é desta primitiva época (1283) que data o alfabeto tai. Em quatro séculos o novo reino foi governado por 33 soberanos. No terceiro quartel do século XVIII, após uma desastrosa guerra com a Birmânia, o Sião foi invadido e a sua capital ficou arrasada, mas a recuperação do país operou-se em pouco mais de uma década, quando o rei Rama I, um antigo general, fundou a actual dinastia Chakri e estabeleceu a capital em Bangkok, em 1782, mandando construir entre outros templos e palácios, o «Grande Palácio» e o majestoso «Templo do Amanhecer». O rei Rama IV (1851-1868) – figura que Yul Bryner interpretou no famoso filme «O Rei e eu» – lançou as bases para fazer nascer a moderna Tailândia e seu filho, Rama V, que lhe sucedeu, aboliu a escravatura, melhorou os sistemas sociais e administrativos e foi cognominado «O Rei Amado», tendo uma bela estátua em frente da Assembleia Nacional, em Bangkok. O soberano actual reina desde 1946 e o país passou a chamar-se Tailândia em 1949.
VIAGEM A MACAU VASCO CALLIXTO 28 * * * Aguardava-nos no aeroporto de Bangkok a «World Travel Service», agência de viagens que colaborara com a Meliá nesta «Viagem a Macau», para proporcionar aos participantes uma breve visita à capital tailandesa. Muito simpática e agradável para todos, a guia-intérprete que aquela agência nos destinou, a Jôlie, diminutivo familiar de um nome deveras «complicado» para nós, Praobhana Pansomchit. Falando muito bem espanhol, a Jôlie foi, pois, a nossa excelente cicerone. Saímos do aeroporto num autocarro de pequena lotação, rumo à cidade. E para percorrer um pouco mais de 20 quilómetros, demorámos exactamente uma hora. Ao meio-dia, o trânsito era intenso nos dois sentidos, compreendendo automóveis, camionetas de carga e autocarros, que formavam longas «bichas». Mas não nos importámos com a marcha lenta a que forçosamente seguíamos; melhor podíamos apreciar a paisagem. Além disso, aquela estrada entre o aeroporto e a cidade, seria a única estrada da Tailândia que se nos revelaria, pelo que havia que «aproveitá-la». Umas certas pinceladas da paisagem, integrando o elemento humano, com os seus usos e costumes (vestuários, chapéus, etc.) «diziam-nos», realmente, que já estávamos no Oriente. Entrámos por fim em Bangkok. O trânsito citadino era ainda mais intenso, completado por grande número de scooters e pequenos táxis de três rodas, «derivados» das scooters. Mas porque nos encontrávamos na cidade moderna, as largas avenidas permitiam um mais fácil escoamento do tráfego. Entretanto, dobrámos uma esquina e chegámos ao «nosso» hotel, o Montien Hotel, esplêndida unidade hoteleira, com 600 quartos, piscina, salão de banquetes, clube nocturno, etc. E no quarto tínhamos uma agradável surpresa: um açafate com fruta do país, oferta da direcção do hotel, e um cesto com lindas flores naturais, oferta da «World Travel Service». Sem dúvida, uma maneira muito simpática de receber e, também, de cativar. A partir do Montien Hotel – um quarto de casal, 700 bahts (1.450$00) – íamos procurar «descobrir» Bangkok. Teríamos, porém, que vencer o forte calor que fazia, a tal ponto que, quando abríamos a janela do quarto, logo nos sentíamos envolvidos por uma baforada de ar quente.
VIAGEM A MACAU VASCO CALLIXTO 29 RÁPIDA VISITA A BANGKOK Fabulosos templos e palácios de ontem são os atractivos maiores de uma grande cidade de hoje Situada na região central do país, nas margens do rio Chao Phaya, a escassos 30 quilómetros do mar, Bangkok é uma mistura do passado e do presente, onde as antigas tradições do Oriente e a monumentalidade de fabulosos templos e palácios se fusionam com os modernos costumes e a moderna arquitectura do Ocidente. E são esses fabulosos templos e palácios de ontem, os atractivos maiores de uma grande cidade de hoje, com pitorescas ruas e travessas que estabelecem ligação entre largas avenidas e pequenas e modernas lojas que alternam com os mais luxuosos estabelecimentos. Nas «ondas» do trânsito citadino misturam-se os grandes modernos automóveis com os pequenos e originais táxis de três rodas, utilizados pelas pessoas de menores recursos e, também, pelos turistas. Há imensos cinemas que exibem filmes nacionais e estrangeiros, destacando-se nas suas fachadas enormes e vistosos cartazes. Actualmente, existe em Bangkok mais de 70 hotéis de primeira ordem, além de muitos outros menos luxuosos. Muito útil, a venda de selos de correio nos hotéis. A tarde do nosso primeiro dia em Bangkok passou-se num ápice, após algumas deambulações pela área vizinha do Montien Hotel, através da «Suriwongse Road», até à grande avenida de Rama IV, apreciando os usos e costumes da população e entrando em estabelecimentos. Foi o primeiro contacto com uma grande cidade, que, todavia, nesta área, pouco mostra ao visitante a sua feição asiática e oriental, dado que se trata, precisamente, da sua área mais moderna. Só algumas ruas, com características casas de comidas, e os vendedores ambulantes, que na rua vendem também comida, nos «diziam» que estávamos, realmente, num mundo diferente, bastante distante do nosso. No dia seguinte, às 8 horas da manhã, com a nossa simpática guia-intérprete, a Jôlie, iniciámos então a nossa visita ao que de mais pitoresco e fabuloso tem Bangkok, numa excursão incluída no programa da «Viagem a Macau», portanto, sem dispêndio para os participantes. E esta visita foi feita por via fluvial, pois consistiu num agradável passeio de barco pelo rio Chao Phaya, que se prolongou pela manhã inteira.
VIAGEM A MACAU VASCO CALLIXTO 30 Rio abaixo, num barco estreito e comprido, género galeota, preparado para estas visitas turísticas, foi-se-nos desbobinando todo o fascínio das margens do rio de Bangkok. Em certos sítios, mais parecia que navegávamos através da selva, com arvoredo denso de ambos os lados, de um verde maravilhoso. Noutros pontos, eram as curiosas habitações de madeira de quantos vivem na área do rio e dos seus canais, habitações assentes na água, curiosas é certo, e pitorescas também, mas bem reveladoras da forma de viver de um quinto da população desta cidade de 4 milhões de habitantes. E muitas destas casas humildes ostentavam nas paredes os retratos do rei e da rainha, bem provando assim que, efectivamente, os soberanos são venerados pela população. De vez em quando, apareciam-nos também templos e pagodes, construções ricas, de formas e cores diversas, contrastando flagrantemente com certas imagens vizinhas. Chegámos, entretanto, ao primeiro motivo de interesse digno de paragem. Desembarcámos no cais do «Mercado Flutuante» e ali nos detivemos, apreciando quanto ali se oferece ao visitante. É um local habilmente preparado para o efeito, com mil e uma coisas para comprar, tudo quanto há de mais típico e pitoresco na Tailândia, não faltando uma bonita tailandesa envergando o lindíssimo traje tradicional das bailarinas, que ali está para os turistas com ela se fotografarem, por 10 bahts (22$00) cada retrato. Mas o verdadeiro «mercado flutuante», claro está, é no rio e oferece a oportunidade de se contemplarem quadros originalíssimos da vida desta gente para quem aquela vida fluvial é a artéria vital. São homens e mulheres com enormes chapéus de palha na cabeça, que se transportam em pequenos barcos estreitos e compridos, que ali vão vender os seus produtos, como bananas, ananás, mangas e outros frutos exóticos, movimentando as suas embarcações com arte e com mestria. É realmente um espectáculo rico em cor local, que não esquece facilmente. Um quinto da população de Bangkok (cidade de 4 milhões de habitantes) vive na área do rio Chao Phaya, de que esta imagem apresenta um aspecto
VIAGEM A MACAU VASCO CALLIXTO 31 Entretanto, o passeio fluvial prosseguiu. De novo se nos desbobinaram bonitos trechos das margens do rio Chao Phaya, admirámos as fantasiosas construções de mais alguns templos, até que nos apareceu o majestoso Templo do Amanhecer, em cujo cais voltámos a desembarcar. Este templo, chamado de «Wat Arun», ergue-se imponente à beira do rio, de torres apontadas ao céu, a mais alta das quais, a torre central, tem 66 metros de altura. Os raios do sol, projectando-se sobre as esplêndidas incrustações de vidro e de porcelana chinesa que cobrem o templo, fazem brilhar nele mil e uma luzes multicolores, oferecendo ao visitante uma imagem deveras fascinante. Construção do século passado (1809-1851), erguida no local onde existia um antigo mosteiro, o Templo do Amanhecer é um dos principais motivos de interesse de Bangkok. Subir à torre central, por um labirinto de escadas e escadinhas que «trepam» pelas paredes acima, é uma experiência apaixonante. E lá das alturas, a visão sobre tudo em redor é soberba. Uma vez concluído este agradável passeio matinal pelo rio Chao Phaya, todo o grupo apoiou a sugestão da nossa guia, no sentido de acabarmos a manhã com uma visita ao «Grande Palácio», ou «Palácio Real», o maior conjunto de sumptuosas construções da capital tailandesa. Visita extra-programa da nossa viagem, não foi, realmente, nada barata, ou antes, foi excessivamente cara, 10 bahts (250$00) cada pessoa. Mas nem todos os dias se vai a Bangkok . . . E, na verdade, esta «Grande Palácio» é um autêntico deslumbramento, compreendendo uma imensidade de fabulosas e fantasiosas construções de pura e multicolor arquitectura tailandesa, que harmoniosamente se combina com o estilo italiano da Renascença. Como atractivo maior, o «Grande Palácio» apresenta a «Capela Real», onde se guarda a estátua sagrada do Buda de Esmeralda. Com uma área total de 218.400 metros quadrados, o «Grande Palácio» está rodeado de muralhas construídas em 1783, cujo comprimento atinge quase dois quilómetros. Foi o rei Rama I que o mandou construir e ali instalou a sua residência e diversas repartições oficiais. Quando se entra pelo grande portão duplo, encontramo-nos frente a frente com três grupos de edifícios, qual deles o mais sumptuoso. À esquerda situa-se o «Mahamontien», com a Sala de Audiências, a Sala da Coroação, onde se vê a figura simbólica do Sião, tradicionalmente invocada para que haja boa paz no país, e, noutra ala, destaca-se o quarto de cama real. No outro grupo de edifícios, o «Dusit», salienta-se uma outra Sala de Audiências com um trono de pérolas, sobre o qual pende um lustre branco de nove terços, um para cada rei da actual dinastia. No terceiro grupo de edifícios, o grupo «Cakri», destinado a recepções, admiram-se diversos quadros que assinalam encontros diplomáticos entre enviados especiais do rei do Sião com soberanos
VIAGEM A MACAU VASCO CALLIXTO 32 europeus, como a rainha Vitória, Luís XIV e Napoleão III. No conjunto chamado «Boromabiman», que foi residência do rei Rama VI, estão inscritas as dez virtudes reais, para que o monarca as observe: boa conduta, sacrifício pessoal, honestidade e liberdade de pretensões, gentileza e humildade, concentração de esforços, liberdade de malícia, paciência e não fazer mal. Bangkok, capital da Tailândia (o antigo Sião), possui templos, e palácios fabulosos. À esquerda, um pormenor das ornamentações do Palácio Real, com uma curiosa figura de guerreiro; à direita, o majestoso Templo do Amanhecer, que se ergue à beira do rio Chao Phaya Ao norte de «Mahamontien» fica a capela real do Buda de Esmeralda, com todas as características arquitectónicas de um mosteiro. O Buda de Esmeralda é uma peça única. Objecto de veneração nacional, está colocado no cimo de um altar de ouro. A sua efígie foi descoberta em 1464 e encontra-se na Capela Real desde a sua construção. Entre os múltiplos motivos de interesse desta capela, destacam-se os magníficos murais que apresentam a tradicional história da vida de Buda. Na Capela Real do Buda de Esmeralda não é permitido entrar com máquinas fotográficas e exige-se aos visitantes o maior respeito. Sempre apreciados pelos turistas, e constantemente fotografadas, são as inúmeras figuras mitológicas que se encontram espalhadas pela vasta área do «Grande Palácio», criadas pela imaginação de artistas e valorizadas pela sua inspiração estética. Um pequeno elefante, segundo a tradição, tem o condão de satisfazer o desejo que se manifesta, quando se coloca uma das mãos sobre a sua cabeça. E a cabeça deste elefante já está, realmente, bastante «gasta», tantas têm sido as mãos que ali têm sido colocadas.
VIAGEM A MACAU VASCO CALLIXTO 33 Com uma breve visita à sede da «Tourist Organization of Tailand», onde muito cordialmente fomos recebidos pelo assistente do Director-Geral, sr. Virakiart Angkatavanich, e por uma jovem funcionária que se exprimia muito bem em francês, a nossa segunda e última tarde em Bangkok completou-se. No regresso desta visita utilizámos um autocarro dos transportes colectivos, um velho e estafado autocarro, que percorreu meia cidade e nos deixou junto do Hotel Montien pela módica quantia de 1 baht (2$20) cada um. À noite, para despedida, revelou-se-nos todo o fascínio das danças clássicas tailandesas. Fomos jantar à «Baan Thai» (Casa Tailandesa), um restaurante primorosamente preparado para receber turistas, com uma decoração genuinamente tailandesa e um jardim lindíssimo, onde tudo nos dizia que estávamos realmente num outro mundo, bem diferente do nosso, mas deveras fascinante. Cheias de movimentos graciosos, as danças clássicas tailandesas traduzem uma das formas mais subtis da arte e cada movimento tem um significado e exprime um sentimento particular.
VIAGEM A MACAU VASCO CALLIXTO 34 FINALMENTE: CHEGADA A MACAU! Terceiro voo, de Bangkok a Hong Kong, uma grande cidade que visitaríamos no regresso Pouco depois das 8 horas da manhã do quinto dia de viagem, estávamos a dizer adeus ao Hotel Montien, preparando-nos para deixar Bangkok, rumo, finalmente, à «nossa» Macau, onde contávamos chegar ao fim da tarde. Afinal . . . chegámos a meio da madrugada! Mas chegar a Macau, seja a que horas for, é (ou deverá ser) uma experiência extraordinária para qualquer português. E mais ainda, quando se vai a Macau pela primeira vez. Quando se pisa terra de Macau, desdobram-se-nos as mais emotivas páginas da História Pátria e sentimos orgulho em ser portugueses. De novo foi um «caso sério» para o autocarro da «World Travel Service», que nos transportava, chegar ao aeroporto de Bangkok, pois o trânsito, tal como à chegada, era intenso, logo de manhã. Demorámos cerca de 50 minutos. E acabámos por passar a manhã inteira no aeroporto. A partida para Hong Kong, inicialmente prevista para as 12,20 horas, segundo nos foi comunicado no Hotel pela agência, tinha sido antecipada de uma hora, o que não deixámos de estranhar, dado que os aviões andam sempre atrasados e não adiantados. Por isso tínhamos ido mais cedo. Mas, afinal, claro está, partimos mais tarde. O «nosso» Boeing 747 só chegou por volta do meio dia e após todo aquele ror de tempo passado no aeroporto, levantámos voo, finalmente, às 13 horas. A grande viagem transcontinental ia terminar com esta terceira etapa. Já estávamos perto de Macau! No aeroporto de Bangkok pagámos «taxa de aeroporto», 40 bahts (85$00) por pessoa. Ao descolarmos de Bangkok, viram-se perfeitamente as inúmeras curvas e contracurvas do rio Chao Phaya, envolvendo a cidade. Entretanto, o avião rumou para sul, seguindo ao longo da costa do Cambodja, para dar a volta à península formada por este país e pelo Vietname, em vez de efectuar um voo directo a Hong Kong, sobre aqueles dois países. Segundo nos foi dito, o Vietname não autoriza que os aviões sobrevoem o seu território e daí a obrigatoriedade de dar a volta à península, perdendo-se mais tempo e gastando-se mais combustível. Esta circunstância fez-nos lembrar as viagens dos aviões portugueses para África, que também eram obrigados a seguir ao longo da costa, porque os países africanos não permitiam que sobrevoassem o seu território.
VIAGEM A MACAU VASCO CALLIXTO 35 Pouco mais de uma hora depois de sairmos de Bangkok estávamos com a costa sul do Vietname à vista, embora com bastantes nuvens, e daí a pouco foi anunciado que tínhamos à nossa esquerda o tão falado delta de Mekong. Mais cerca de meia-hora de viagem e a costa vietnamesa ficou para trás, apontando o «Boeing» directamente a Hong Kong, sobre o mar, o Mar da China Meridional. Foi uma última travessia de uma hora e vinte minutos e ainda quisémos ver se descortinávamos umas pequenas ilhas assinaladas no mapa, as ilhas de Xi Sha Qun Dao, mas as nuvens nada nos deixaram ver. Vimos bem, isso sim, foi Hong Kong. Com o avião a descer e a «fazer-se à pista», a grande cidade mostrou-se-nos do ar em toda a sua monumentalidade urbanística, dando-nos a sensação de que estávamos a chegar a uma cidade americana. A pista do aeroporto de Kaitak, o aeroporto de Hong Kong, assemelha-se a um grande porta-aviões ancorado no porto, fazendo até lembrar a da Madeira, por estar apontada ao mar, mas é muitíssimo mais comprida, pelo que ali aterram sem receios de maior todos os aviões. Eram 16 horas e 33 minutos quando aterrámos, completando assim uma longa viagem transcontinental de 18 horas e 53 minutos de voo. E, praticamente logo a seguir, anoiteceu. * * * Foi breve esta nossa passagem por Hong Kong, onde voltaríamos no regresso, para visitarmos então a grande cidade «feita» pelos ingleses na costa da China, há pouco mais de cem anos. Mas se o avião não tivesse chegado atrasado, a nossa passagem nocturna por Hong Kong ainda tinha sido mais breve, pois teríamos seguido logo para o cais, para apanharmos o barco para Macau, barco que acabámos por perder. E o resultado foi termos que ficar em Hong Kong até à meia-noite, para embarcarmos a essa hora no «ferry-boat». Ainda no aeroporto, muito simpaticamente, funcionárias da «Hong Kong Tourist Association» distribuiram-nos a nós e a todos os passageiros recém-chegados, uma planta da cidade e outros folhetos turísticos, o que, na verdade, nos foi muito útil, principalmente para sabermos onde estávamos e para onde tínhamos que ir, para seguir para Macau. E viemos assim a saber que nos encontrávamos, não em Hong Kong propriamente dita, mas sim em Kowloon, a cidade vizinha, que se situa na ponta da península do mesmo nome, no continente, enquanto Hong Kong-cidade fica na ilha de Hong Kong, havendo, portanto, que atravessar o canal que separa os dois territórios. Apesar de uma certa «partida» que nos pregou, valeu-nos, para orientar a nossa movimentação em Hong Kong, um nosso compatriota, Daniel Loureiro, comerciante em Macau, que no aeroporto aguardava três seus amigos e nossos companheiros de viagem.
VIAGEM A MACAU VASCO CALLIXTO 36 E foi ele o nosso «guia», durante as longas sete horas nocturnas que permanecemos em Hong Kong. Para se atravessar o canal que separa Kowloon de Hong Kong, pode optar-se por um «ferry-boat» que efectua a travessia em poucos minutos (como de Lisboa para Cacilhas) ou por um moderno túnel destinado à circulação automóvel. O nosso improvisado «guia», esquecendo-se, porém, que íamos carregados de malas de peso muito respeitável, aconselhou-nos a utilizar o «ferry-boat», por ser mais económico, visto os táxis estarem sujeitos a portagem para atravessar o túnel. E o resultado foi apanharmos uma estafa enorme com as malfadadas malas, pois os transbordos e as esperas pelos táxis sucederam-se, primeiro à saída do aeroporto, depois para se entrar e para se sair do «ferry-boat», ao longo de compridíssimos corredores e com o «ferry-boat» a abarrotar de gente, como foi ainda depois, para o hotel onde jantámos e daí, finalmente, para o cais de embarque para Macau. Foi, na verdade, uma movimentação estafante. Mas o Daniel Loureiro não fez por mal . . . Numa cidade enorme e completamente desconhecida, de noite, sem termos um meio de transporte próprio e onde os condutores de táxis só falam chinês, e nós todos «cheios» de malas, tendo que aguardar até à meia-noite pelo barco para Macau, o «problema» teria sido bem pior, se não tivéssemos connosco o Daniel Loureiro. Jantámos muitíssimo bem no «Harbour Hotel» por 30 dólares de Hong Kong cada um (270$00), tivemos tempo para cavaquear todos e por fim, por volta das 11 da noite, uma nova «caravana» de táxis levou-nos para o cais de embarque, situado no extremo da «Connaught Road Central», atravessando assim uma boa parte da zona baixa da cidade. E do cais, melhor tivemos então ocasião de apreciar o magnífico aspecto nocturno da grande metrópole, cuja área trepa por uma pronunciada encosta. Todo aquele imenso casario, todos os grandes arranha-céus, o vasto porto, com Kowloon do outro lado, todo aquele conjunto é admirável! As ligações marítimas Hong Kong-Macau-Hong Kong processam-se com três tipos de embarcações e são exploradas por duas empresas. O «ferry-boat», de grande lotação, pois transporta cerca de mil passageiros, havendo dois ao serviço, o «Lo Shan» e o «Nam Shan», efectua a travessia em duas horas e meia e os preços vão de 6 patacas (50$00) a 15 patacas (127$50), havendo também camarotes a 50 patacas (425$00). Os hidroplanadores, em grande número, pois são mais de uma dúzia, com muito simpáticos nomes, como «Guia», «Penha», «Taipa», «Cacilhas», «Rosa», etc., transportam entre 125 e 160 passageiros e fazem a viagem em uma hora e dez minutos. Mais rápidos ainda são os jactoplanadores, o «Madeira» e o «Santa Maria», que levam 280 passageiros e ligam
VIAGEM A MACAU VASCO CALLIXTO 37 as duas cidades em apenas 50 minutos. O preço por pessoa, nos hidroplanadores e nos jactoplanadores, é de 30 patacas (255$00). A viagem no sentido Hong Kong-Macau, em qualquer dos três tipos de embarcações, custa, porém, mais 8 dólares HK (70$00), por ter que se pagar esta importância como «taxa de cais». No «ferry-boat» da meia-noite, o «Lo Shan», com a lotação praticamente esgotada – parecia um nunca mais acabar de gente a entrar para o barco, na sua grande maioria chineses – largámos por fim de Hong Kong, rumo a Macau. Os nossos bilhetes eram de camarotes, situados no «fundo» do barco, ainda fomos até lá, mas como ninguém tinha vontade de dormir, acabámos por andar a girar de um lado para o outro, de sala em sala. Nas camaratas, porém, chineses e chinesas dormiam a bom dormir, enquanto, num dos salões, uns tantos viam televisão a cores. Apesar de termos feito esta ligação Hong Kong - Macau de madrugada, com uma noite bastante escura, a viagem passou-se bem, embora, claro está, nada víssemos pelo caminho, a não ser, de vez em quando, luzes, uma aqui e outra ali, que nem sabíamos se eram barcos ou ilhas. Navegámos ao longo da costa da China, do Norte para Sul, visto Macau se situar ao sul de Hong Kong. Por fim . . . as luzes de Macau estavam à vista! E à medida que o barco avançava, melhor «adivinhávamos» os contornos de Macau. Não tardou que avistássemos um edifício fora do vulgar, belamente iluminado. Era o «Hotel Lisboa», disseram-nos. E logo após «apareceu», iluminada também, a grande ponte Macau-Taipa, verdadeiro símbolo de Macau de hoje. Até que o «Lo Shan» entrou no Porto Exterior, atracou e nós desembarcámos. Verdade seja dita que o nosso «suspense» mais aumentou ainda, por termos estado a aguardar que quase todo aquele milhar de passageiros saísse, pois com as malfadadas malas era impossível «furar» pelo meio de tanta gente, gente que também transportava as mais variadas bagagens, compreendendo malas, cestos de diversas formas e feitios, embrulhos grandes e pequenos, meninos ao colo, etc. E logo ali se nos revelou uma maneira bastante prática de transportar dois volumes. O chinês, com efeito, pega numa vara, forte para não vergar muito, põe a vara ao ombro, segurando-se com uma das mãos, em cada ponta pendura um volume e ele aí vai ligeiro. Ao fim de cinco dias de viagem desde Lisboa, estávamos finalmente em Macau. Chegar a Macau, realmente – repito-o – é uma experiência extraordinária, é algo que desperta em nós uma sensação estranha, uma sensação que nos toca o coração. Quando pisámos terra de Macau, esquecemo-nos de que tínhamos atravessado o mundo, pois, afinal, estávamos num mundo português, que há 400 anos dá as mãos ao mundo chinês. Que este «milagre» da História perdure, pelo menos por outros 400 anos, são os votos de
VIAGEM A MACAU VASCO CALLIXTO 38 quem pisou com viva emoção o solo de Macau, pela primeira vez, na madrugada de 3 de Novembro de 1977. Uma vez em Macau, de novo o nosso já amigo Daniel Loureiro nos prestou a sua valiosa assistência, orientando a nossa deslocação desde o cais até aos hotéis onde tínhamios os quartos reservados e levando na sua «station» a bagagem de todos os componentes do grupo. Nós fomos para o Hotel Sintra, o mais moderno de Macau, onde através de um cartão que nos aguardava na recepção, o dr. Jorge Rangel, director do Centro de Informação e Turismo local, nos deu as boas vindas. No dia seguinte, ou antes, dentro de poucas horas, iríamos começar a «descobrir» Macau. O Palácio do Governo, mandado construir no século passado pelo Barão do Cercal, para sua residência
VIAGEM A MACAU VASCO CALLIXTO 39 II PARTE (21 DIAS EM MACAU)
VIAGEM A MACAU VASCO CALLIXTO 40
VIAGEM A MACAU VASCO CALLIXTO 41 MACAU – PORTUGAL NA ÁSIA Um pequeno mundo luso-chinês nas lonjuras do Oriente (Este capítulo de «apresentação» de Macau foi coligido com elementos e transcrições do Anuário de Macau – 1977 e do «Guia Prático» editado pelo Centro de Relações Económicas) Macau situa-se na costa meridional da China e o território é constituído por uma pequena península, inteiramente ocupada pela cidade de Macau, e pelas ilhas da Taipa e de Coloane, situadas a sul. A península está ligada por um estreito istmo – da Porta do Cerco ou de Ferreira do Amaral, com escassos 200 metros de largura – à grande ilha chinesa de Chung Shan, situada no delta comum do rio das Pérolas e do rio do Oeste. A oeste da península de Macau, e a curta distância, fica a ilha da Lapa e a oeste da Taipa e de Coloane, e também bastante próximas, ficam as ilhas de D. João e da Montanha. De Macau à grande cidade chinesa de Cantão, por estrada, distam apenas 157 quilómetros, enquanto Xangai está a uma distância de 1600 quilómetros de Macau. A superfície total do território de Macau é de 15,515 km2, o que representa uma superfície um pouco inferior à da ilha do Corvo, a mais pequena ilha dos Açores. Mas, mesmo assim, Macau é muito maior do que o principado do Mónaco, que é um país independente. A península de Macau, com 4 quilómetros de comprimento por pouco mais de 1 quilómetro e meio de largura, tem uma superfície de 5,422 km2. A ilha da Taipa, a mais pequena, tem 3,478 km2 e Coloane, maior do que a península, tem 6,615 km2. O ponto mais alto da península é o topo da colina da Guia, com 108 metros de altitude. Em Macau, a época climatologicamente mais favorável e suave, com céu pouco nublado, quase sem precipitação e temperatura amena, propícia, portanto, a visitas turísticas, é a de Outubro-Dezembro. Os meses mais frios são Janeiro e Fevereiro, com uma temperatura média da ordem dos 15 graus, enquanto os meses mais quentes são Julho e Agosto, com um valor médio aproximado dos 29 graus. A época de Março-Julho é a mais húmida e de Março a Setembro é a época das chuvas, com queda de aguaceiros fortes, coincidindo também com a data mais provável da ocorrência dos tufões. A população do território de Macau, segundo o censo de 1970, era de 248.636 habitantes, valor que em 1975 deve ter aumentado fisiológico é de cerca de 6,4%. A zona
VIAGEM A MACAU VASCO CALLIXTO 42 mais povoada, como é natural, é a península-cidade, onde a densidade se fixa em 42.758 habitantes/Km2. As ilhas da Taipa e de Coloane são fracamente povoadas, tendo somente 716 habitantes/km2, e a ilha maior, Coloane, é precisamente a menos povoada. A população é composta por cerca de 96% de cidadãos de nacionalidade chinesa, quase 4% de portugueses e cerca de 0,5% de outras nacionalidades. As religiões praticadas são predominantemente o budismo e o cristianismo, seguidos do islamismo. A circulação rodoviária em Macau processa-se pela esquerda (como em Hong Kong) e o trânsito na cidade bastante intenso. A taxa de analfabetização é bastante baixa, havendo uma proporção relativamente elevada de indivíduos que atingiram pelo menos o ensino secundário, o que não deverá causar admiração a quem visita Macau, pois Macau, bem poderá dizer-se, é uma cidade «cheia» de estudantes, que se vêem nas ruas constantemente, rapazes e raparigas, em geral em grupos. E em tão pequena cidade, há nada menos de 52 escolas infantis, 82 escolas primárias e 50 estabelecimentos de ensino secundário, compreendendo um total de cerca de 50.000 alunos. Depois dos produtos têxteis, o turismo é a segunda indústria mais importante de Macau, tendo o território recebido em 1977 quase 3 milhões de visitantes, dos quais 2 milhões e 200 mil foram chineses de Hong Kong. Excluindo estes, o maior mercado turístico de Macau é o Japão, com 245.784 turistas em 1977, seguido do Sudeste Asiático, com 97.728 turistas. Muito significativo também, o número de 48.032 norte-americanos que se deslocaram ao território no ano passado. Macau é filiada há mais de vinte anos na P.A.T.A. (Pacific Area Travel Association). Os citados produtos têxteis – artigos de vestuário e malhas de lã – como primeira indústria de Macau, compreendem mais de 75% da exportação total do território. Mas para além da indústria têxtil, há igualmente que salientar as indústrias de madeira e mobiliários, material óptico e fotográfico (há binóculos e máquinas fotográficas «Made in Macau»), pirogravura e porcelana e faianças. Na área industrial da Areia Preta encontram-se agrupadas mais de 80 fábricas, funcionando em vários ramos produtivos, como têxteis, plásticos, borracha e brinquedos. A quase totalidade dos produtos alimentares é importada, provindo a importação macaense, principalmente, da China e de Hong Kong. No entanto, cerca de 70% da exportação é absorvida pela Europa, nomeadamente pela França, Alemanha e Portugal. A unidade monetária de Macau é a «pataca», dividida em cem «avos», correspondendo uma pataca a cerca de 9$00. O dólar de Hong Kong é, porém, igualmente aceite no território, mais ou menos com o mesmo valor. Em relação a
VIAGEM A MACAU VASCO CALLIXTO 43 Portugal, a diferença horária é de mais 8 horas. Em Macau há televisão a cores, com cinco canais (TV de Hong Kong), mas, mau grado nosso, não há legendas em português, nem na televisão nem nos cinemas. O diário «Gazeta Macaense» e o bi-semanário «O Clarim» são os dois únicos jornais que se publicam em português. A fronteira chinesa está fechada e só se abre a muito raros portadores de autorizações especiais concedidas pelo Governo Chinês, após pedidos apresentados, com longos meses de antecedência. Com as suas tão reduzidas dimensões, «perdido» no «outro lado do Mundo», Macau é realmente um pequeno mundo luso-chinês nas lonjuras do Oriente, um pequeno mundo-milagre que resistiu a uma hecatombe. Quatro séculos de presença portuguesa «fizeram» Macau; «fizeram» uma cidade e um território que constituem uma harmoniosa aliança entre Portugal e a China. Ali, se é Oriente, é também Ocidente. E apesar de ser desgostante para o visitante português, o facto de a maior parte da população não falar, ou falar mal, português, compreendendo até melhor o inglês (ou não estivesse tão perto a «poderosa» Hong Kong), hoje como ontem, sente-se que Portugal está em Macau. Apesar de tudo, da distância, do rodar dos séculos e dos sopros dos «ventos da História». RESENHA HISTÓRICA Macau é terra de administração portuguesa há quatro séculos. O seu estabelecimento representa a concretização da ideia de um encontro entre duas partes do mundo que, até então, viviam uma existência em completo e mútuo desconhecimento: O Oriente e o Ocidente. Antes da chegada dos navegadores portugueses a terras do Oriente, registaram-se várias tentativas da parte de aventureiros ocidentais para o estabelecimento de relações com a China, mas os chineses, senhores duma cultura superior à dos povos vizinhos e apoiados num passado rico de tradições, não se mostraram muito dispostos a favorecer os pretendidos contactos. Logo que os portugueses estabeleceram o seu domínio em Goa, pensaram em alargar as suas relações a outros povos e países de que tinham algum conhecimento. Entre eles situava-se a China, com quem pretendiam comerciar.
VIAGEM A MACAU VASCO CALLIXTO 44 Foi Jorge Álvares o primeiro navegador português que alcançou os portos da China, em 1513, lançando ferro no ancoradouro de Tun-Mun, conhecido entre os portugueses pelo nome de Tamang. Este ancoradouro ficava entre a ilha de Lin Tin e a cidade de Nan Tau, sítio onde se permitia a entrada de barcos vindos de Malaca, Luzon, Bornéu e das ilhas de Liu Chiu. Jorge Álvares foi bem sucedido nesta sua viagem de pioneiro das relações entre Portugal e a China, conseguindo estabelecer amigáveis relações com este país, no mencionado centro comercial, na foz do Rio das Pérolas. A ele se seguiram outros comerciantes portugueses. Quatro anos mais tarde, Fernão Peres de Andrade, um dos mais notáveis heróis da ocupação de Malaca, foi encarregado do comando duma frota de sete navios que levava Tomé Pires, o primeiro enviado português ao Celeste Império, imprimindo assim carácter oficial aos contactos entre os dois povos. Tomé Pires desembarcou em Cantão, encontrando-se depois em Nanquim com o imperador Cheng Te, que pediu aos portugueses que se dirigissem a Pequim, a fim de serem recebidos em audiência oficial. A morte inopinada deste jovem imperador deu um golpe mortal na política das relações de amizade com os países estrangeiros. O partido anti-estrangeiro que dominou a seguir a corte imperial foi o responsável pela expulsão do país de todos os residentes estrangeiros. A despeito destes acontecimentos, foi enviada à China em 1521 nova embaixada, superintendida por Martim Afonso de Melo, mas os chineses não o receberam e os portos deste país ficaram fechados ao comércio português durante vários anos. Eventualmente, foi permitido o estabelecimento duma feitoria em Liampó, perto da embocadura do rio Ian-Tse-Kiang, na costa da província de Chekiang. O comércio prosperou até que, em 1548, o vice-rei da província ordenou a sua supressão. Os comerciantes de Cantão, porém, encorajavam os europeus a desviar as suas atenções para os portos da costa da província de Kuangtung, principalmente em Sangchuam e Lau Pak Kau. Foi assim que, em 1553, Leonel de Sousa conseguiu permissão para negociar nessas regiões da China. Uma das primeiras consequências desta autorização foi a utilização de Macau pelos portugueses. O lugar, com um excelente porto, era designado pelos chineses com o nome de Ho Keng ou Hoi Kiang, mas os portugueses fizeram derivar a designação de Macau do templo da deusa Leang Ma ou A-Má, como os marítimos chineses a apelidavam. Assim, a localidade ficou a chamar-se A-má-gao, ou porto de A-Má. Documentos que chegaram até nós, indicam que os portugueses ancoraram neste porto
VIAGEM A MACAU VASCO CALLIXTO 45 em 1555, embora os chineses digam que já em 1535 aqueles frequentavam este mesmo centro comercial. Tradicionalmente, porém, a ocupação europeia de Macau data de 1557, quando, segundo alguns documentos, um célebre pirata de nome Chang Tse-Lao foi desbaratado nestes mares, com a ajuda das armas portugueses. Macau ficava sendo, desta maneira, o primeiro entreposto entre o Ocidente e o Oriente; a princípio, puramente comercial e, no decurso dos anos, cultural e religioso. Em 1568, chega ao porto de Macau o seu primeiro chefe espiritual: o bispo D. Belchior Carneiro, homem de rara cultura, ao qual se deve a fundação da Santa Casa da Misericórdia e dos hospitais de S. Lázaro e S. Rafael. Uns anos depois, em 1575, era criada a diocese de Macau, sendo D. Leonardo de Sá o seu primeiro titular. Perdida a independência de Portugal a favor de Castela, nem por isso Macau deixou de continuar a hastear nos mastros das suas fortalezas a bandeira das Quinas. Uns alegam que esta atitude foi ditada pela necessidade de não deixar saber aos chineses que Macau passara a outra soberania; mas outros julgam ver nisto um sentimento de arreigado patriotismo da população. Devido à prosperidade que chegou a disfrutar e à situação naturalmente privilegiada do seu porto, Macau foi várias vezes vítima de cobiça dos holandeses, nesse tempo, inimigos de Portugal, por o serem de Espanha. Durante os anos de 1604, 1607, 1622 e 1627 tentaram apoderar-se de Macau, mas viram os seus esforços baldados pela teimosa resistência dos residentes. Pela atitude evidenciada em face da dominação espanhola e pela adesão que deu à Revolução de 1640, D. João IV mandou galardoar a cidade com o título de «Cidade do Nome de Deus, não há outra mais leal». No período que vai de 1675 a 1689, há a registar na História de Macau a gloriosa embaixada de Manuel Saldanha a Pequim, com a qual se conseguiu para a cidade um período de renascimento. Por essa altura, pretendiam os ingleses estabelecer uma feitoria em Cantão; porém, os chineses declararam-lhes que o comércio apenas ficaria nas mãos dos portugueses, que dele tinham monopólio. Nos anos seguintes, as relações de Macau com a China, se nem sempre foram muito amistosas, não chegaram contudo ao ponto de romper a boa harmonia que sempre se evidenciou entre os dois povos. O estabelecimento dos ingleses em Hong Kong, em 1841, contribuiu poderosamente para acentuar o declínio da prosperidade de Macau,
VIAGEM A MACAU VASCO CALLIXTO 46 que ficou numa posição subalterna no comércio entre os dois mundos. No entanto, continuou Macau a ser, ainda durante alguns anos, o porto de ligação entre a China e outros povos. Nos fins do século XIX começou a emigração dos portugueses de Macau em direcção a Hong Kong, Xangai e portos do Japão, onde o comércio oferecia melhores campos de acção. Em breve se formaram por essas terras núcleos de portugueses de certa envergadura, alguns dos quais se tornaram abastados comerciantes. Actualmente, só se mantém a comunidade portuguesa de Hong Kong, onde os seus mais representativos elementos ocupam lugares de destaque nos diversos ramos de actividade, tanto particular como oficial. Data de 1887 o tratado através do qual a China confirmou a perpétua ocupação e governo de Macau por Portugal. O primeiro governador de Macau D. Francisco Mascarenhas, foi nomeado em 1623. O actual Governador, coronel José Eduardo Garcia Leandro, tomou posse do cargo em 19 de Novembro de 1974. Macau adquiriu autonomia governativa em 17 de Fevereiro de 1976, com a aprovação em Lisboa do Estatuto Orgânico de Macau. A Avenida Almeida Ribeiro, primeira artéria comercial de Macau e «picadeiro» da população e dos turistas
VIAGEM A MACAU VASCO CALLIXTO 47 PRIMEIROS PASSOS EM MACAU A beleza paisagística da baía da Praia Grande, o Leal Senado, o fascínio oriental da Avenida Almeida Ribeiro, o Porto Interior e os monumentos da Avenida da Amizade Instalados no «Sintra», como já foi dito, o mais moderno e central hotel de Macau, situado em plena «Baixa» macaense – erguido em terrenos conquistados ao mar – foi daí que todos os dias partimos à «descoberta» do pequeno mundo luso-chinês das lonjuras do Oriente. E virá a propósito referir que os três principais hotéis de Macau são o «Lisboa», «Sintra» e o «Estoril», o que constitui, na verdade, umas muito felizes e simpáticas designações, como a propósito virá também prestar uma sempre útil informação sobre o custo do alojamento no território. Num bom hotel, um quarto de casal obtém-se por cerca de 100 patacas (850$00), enquanto numa «vila» (pensão residencial) custa à volta de 45 patacas (360$00). Nos restaurantes, as refeições, de sopa, um prato e café, variam entre 5 e 10 patacas (42$50 e 85$00) por pessoa. Cara é a fruta, que os restaurantes mais modestos geralmente não servem. Das janelas do «Sintra», do 12º andar, contemplámos a beleza paisagística da Baía da Praia Grande, de um dos extremos da qual foi «apontada» à ilha da Taipa a grande «Ponte Governador Nobre de Carvalho», que bem pode considerar-se um verdadeiro padrão de Macau moderno, como um símbolo de Macau moderno é igualmente o «Hotel Lisboa», considerado um dos mais luxuosos do Oriente, que à ponte fica fronteiro e nós tínhamos também à nossa frente, com a airosa cúpula à altura do andar onde nos encontrávamos. Mas tudo isto iríamos admirar mais de perto, tudo se nos revelaria em pormenor. Tínhamos cerca de vinte dias para «descobrir» Macau. Foi com o jornalista César de Sá, que no hotel nos deu as boas-vindas em nome do Centro de Informação e Turismo local, que estabelecemos o nosso primeiro contacto oficial, após o qual o dr. Jorge Rangel, director daquele «Centro» (CIT), nos obsequiou com um almoço na «Pousada de Macau», instalada num antigo edifício, vizinho do Palácio do Governo e fronteiro à baía. Depois . . . fomos «lançados» pelas ruas de Macau! E – ainda sem «quatro rodas» - o centro da cidade chamou por nós. Percorremo-lo de dia, percorremo-lo à noite e avançámos até demasiado por certa área, até a escuridão nos obrigar a retroceder. Que extraordinário e permanente fascínio oriental logo nos revelou Macau, no primeiro dia da nossa visita!
VIAGEM A MACAU VASCO CALLIXTO 48 Com o dr. Jorge Rangel, director do Centro de Informação e Turismo de Macau Quando saímos do hotel, logo fomos tentados pela primeira «experiência» macaense que se nos deparou. Fomos de «triciclo» até ao Largo do Senado! O «triciclo» é um meio de transporte popular em Macau e sucedeu ao tradicional «rickshaw», já completamente desaparecido. Enquanto este era puxado a braços por um homem, sentando-se dois passageiros à retaguarda e movendo-se o veículo sobre duas rodas traseiras, o «triciclo», como se depreende da sua designação, tem, de igual modo, duas rodas traseiras e mais uma à frente e o condutor, em vez de puxar, pedala. Claro está, por razões óbvias, estes «triciclos» – no capítulo seguinte são novamente referidos – circulam somente na área plana de Macau e neles se transportam, quer os turistas, quer a própria população chinesa da cidade. O preço do transporte varia conforme a distância percorrida e, também, conforme os passageiros. Recém-chegados como éramos, para irmos do Hotel Sintra ao Largo do Senado, uma distância curtíssima, pagámos o que nos foi pedido, 5 patacas (42$00), mais do dobro do que teríamos pago a um táxi. Mas o preço incluiu fotografia . . . Este curto trajecto pela Avenida Infante D. Henrique, não só nos levou ao coração da cidade, como nos deixou entre a sua gente, a gente chinesa, os homens com os seus fatos escuros muito «originais», blusa e calça pelo tornozelo, e as mulheres com os filhos às costas. No entanto, a gente nova já se veste como nós. Passámos pelo Banco Nacional Ultramarino e no Largo do Senado «encontrámos» três dos mais importantes edifícios de Macau, o Leal Senado, a Santa Casa de Misericórdia (a mais antiga instituição do género existente na Ásia, datando de meados do século XVI) e o edifício dos correios, este uma excelente e mais moderna construção. O edifício da Santa Casa da Misericórdia, de alva e
VIAGEM A MACAU VASCO CALLIXTO 49 interessante fachada, necessita, porém, de uma benéfica limpeza geral. No centro do largo, uma bonita fonte é todas as noites iluminada. O «triciclo», meio de transporte popular de Macau (que sucedeu ao «rickshaw»), é sempre «experimentado» pelos turistas. O edifício do Leal Senado data dos fins do século XVIII, com uma fachada de 1876, tendo toda a construção sido restaurada em 1939. No amplo «hall», sobre a escada que dá acesso ao primeiro andar, numa inscrição em português, lê-se: «Cidade do Nome de Deus, Não há outra mais Leal. Em nome de El-Rei D. João IV mandou o capitão-general desta praça, João de Sousa Pereira, pôr este letreiro, em fé da muita lealdade que conheceu nos cidadãos dela em 1654». Muito bonitas, as portas de ferro trabalhado que se encontram ao cimo da escada e dão para um pequeno jardim. No primeiro andar está instalada a Biblioteca Nacional, com numerosas e valiosas obras sobre o Extremo Oriente. Na Sala do Conselho figuram fotografias e retratos dos antigos governadores de Macau. O título de «Leal» foi concedido ao Senado de Macau em 1809, pelo Rei D. João VI, em recompensa pela vitória sobre os piratas de Kam Pau Sai. Do Largo do Senado «metemos» a pé pela Avenida Almeida Ribeiro. É a primeira artéria comercial de Macau e o «picadeiro» da população e dos turistas. Indo até ao Porto Interior, do outro lado da península (mas onde ela é mais estreita), esta artéria regista sempre um grande movimento de pessoas e de veículos. Com os seus estabelecimentos, dos mais variados ramos, mas abundando as ourivesarias e joalharias, carregadas de «tentações», as suas bancas de venda de jornais e revistas, as suas arcadas e os muitos letreiros redigidos em chinês e em português, a Avenida Almeida Ribeiro tem uma inconfundível e atraente feição luso-chinesa, que exerce um fascínio oriental muito
VIAGEM A MACAU VASCO CALLIXTO 50 especial sobre quem a percorre pela primeira vez. Ali se situa o Hotel Central, que há anos era o melhor da cidade. Quantas vezes voltámos a esta artéria? Raro foi o dia em que por ela não passámos. Além do mais, o factor comum montras-compras «puxava-nos» para a Avenida Almeida Ribeiro, como «puxa» todos os turistas que visitam Macau. A tarde declinava, quando alcançámos a vasta área do Porto Interior, onde desemboca a avenida. É uma zona portuária bastante extensa e muito característica, onde se vive em barcos e onde se destacam as antigas construções, muito curiosas e interessantes, mas, na sua grande maioria, em lamentável estado de ruína, impondo-se, por consequência, a sua restauração e «salvação» e, nunca, a sua demolição. Deste Porto Interior partem ainda barcos para as ilhas da Taipa e de Coloane e também para Hong Kong. Do outro lado das águas são terras da China, uma região de descampados e serranias, onde parece não haver vida. Voltámos para as bandas da Barra e logo deparámos com o «Casino Flutuante», um luxuoso barco-casino de ontem para a gente de hoje, que visitaríamos uns dias depois. E prosseguimos sempre pela zona portuária, apreciando todo o pitoresco da sua feição; fomos até à Fortaleza da Barra. Mas aqui só poderíamos avançar por uma área completamente às escuras, pois a noite tinha caído, o que nos levou a retroceder. Estávamos, porém, bastante longe do hotel. Valeu-nos um táxi, que providencialmente ali apareceu. No entanto, para nos fazermos compreender pelo jovem motorista, foi o cabo dos trabalhos. Era um indonésio (muitos condutores de táxi são indonésios), que não falava português nem inglês, nem conseguiu perceber que queríamos ir para o Hotel Sintra. A única solução foi ir-lhe ensinando o caminho por gestos. E quando chegámos ao hotel e lho indicámos, demonstrou bem o seu contentamento por nos ter levado onde desejávamos. No dia seguinte, perante os monumentos da Avenida da Amizade (tal como a dos hotéis, outra feliz designação, dada à Avenida marginal), evocámos figuras e factos da História de Macau. O primeiro monumento que se nos deparou foi o de Jorge Álvares, que se ergue na confluência daquela avenida com a Rua da Praia Grande, fronteiro ao edifício das Repartições Públicas. Tal como uma lápide colocada no monumento esclarece, Jorge Álvares foi «o primeiro navegador que aportou à China – Ilha de Lin-Tin em 1513.» Partindo de Malaca, então na posse dos portugueses, Jorge Álvares navegou num junco chinês até ao estuário do Rio das Pérolas e ancorou na ilha de Lin-Tin, uma das muitas ilhas que existem entre Macau e Hong Kong, tendo depois voltado diversas vezes a estas
VIAGEM A MACAU VASCO CALLIXTO 51 paragens. No monumento diz-se também que o navegador «faleceu na China - Ilha de Lin-Tin em 1512» e que o canteiro da obra foi J. Raimundo, de Pero Pinheiro. A propósito deste monumento de Jorge Álvares, deverá referir-se que ele não é único, pois existe outro, na transmontana Freixo-de-Espada-à-Cinta, terra natal do intrépido navegador. Apareceu-nos depois o Padrão Henriquino, erguido sobre uma placa com a Cruz de Cristo, em frente do Liceu Infante D. Henrique. Colocado neste local durante o «Ano Henriquino», ostenta as datas de 4 de Março e 13 de Novembro de 1960 – nascimento e morte do Infante, cinco séculos antes – datas que estão acompanhadas do significativo pensamento de Camões, expresso na sua obra imortal: «E se mais mundo houvera, lá chegara». Macau moderna — O Hotel Lisboa, um dos mais luxuosos do Oriente, e o monumento ao Governador João Maria Ferreira do Amaral O terceiro monumento da Avenida da Amizade é o de maior porte. Situa-se ao centro da rotunda fronteira ao Hotel Lisboa e à ponte Macau-Taipa, um bonito local que se apresenta muito bem cuidado. É o monumento de «Homenagem da Colónia ao Governador João Maria Ferreira do Amaral – 22 de Agosto de 1849», tal como nele se lê, dando-nos também a saber que «este monumento, erigido por subscrição pública e auxílio do Governo da Colónia, foi inaugurado em 24 de Junho de 1940, por ocasião das festas comemorativas do Duplo Centenário – Oferta do Leal Senado». O homenageado é apresentado a cavalo, com um chicote na sua mão esquerda, defendendo-se de atacantes chineses, que o procuram derrubar da montada.
VIAGEM A MACAU VASCO CALLIXTO 52 O Governador Ferreira do Amaral, que na sua juventude perdera o braço direito numa batalha naval em águas brasileiras, exerceu no século passado uma valorosa acção em Macau em defesa da soberania portuguesa, vindo, porém, a ser traiçoeiramente assassinado em 22 de Agosto de 1849, por um grupo de chineses, quando passeava tranquilamente a cavalo nas imediações da Porta do Cerco. Mas o seu repugnante assassínio não tardou a ser vingado, por um acto heróico, que reforçou e consolidou a posição de Portugal no território. Três dias depois, o jovem tenente Vicente Nicolau de Mesquita, com um punhado de bravos como ele, avançou para além da Porta do Cerco e, num inesperado e fulminante assalto, tomou a fortaleza chinesa de Passaleão. A Porta do Cerco ostenta hoje duas datas – 22 de Agosto de 1849 e 25 de Agosto de 1849 – que recordam o assassínio do Governador Ferreira do Amaral e a tomada de Passaleão, enquanto o istmo que liga o território de Macau à China tem o nome de «Istmo Ferreira do Amaral». O edifício do Leal Senado de Macau cuja fachada data de 1876
VIAGEM A MACAU VASCO CALLIXTO 53 QUANDO UM CONDUTOR DO OCIDENTE CONDUZ NO ORIENTE . . . PELA ESQUERDA ! Trânsito intenso, automóveis, triciclos, bicicletas . . . e chineses ! Apesar de Macau ser um território pequeno, para se conhecer a cidade e as ilhas, é indispensável um meio de transporte. E em Macau – como em toda a parte – o meio de transporte ideal é o automóvel, principalmente desde que o seu campo de acção se estendeu às ilhas, com a ligação destas à península. Necessitávamos, portanto, de um automóvel para conhecer Macau e o automóvel «desejado» foi-nos gentilmente cedido pelo sr. Frederico Nolasco, sócio-gerente da firma H. Nolasco & Cia., Lda., representantes locais das marcas «Audi», «Volkswagen» e «Porsche», que à nossa disposição pôs um esplêndido «Audi 100 LS», o M-88-36 . . . com volante à direita e mudanças à esquerda! Mas não houve «novidade». Como em anterior capítulo foi referido, a circulação em Macau processa-se pela esquerda, pelo que todos os veículos têm o volante à direita. Em Inglaterra, na Suécia, na África do Sul e em Moçambique, já tinha conduzido pela esquerda, mas com o meu «Volkswagen» de todos os dias, pelo que tinha na mesma as mudanças à minha mão direita. Agora, em Macau, com um carro que se me apresentou como um carro «enorme», para enfrentar um trânsito intenso e «cheio», além de automóveis, de triciclos, bicicletas e «montes» de chineses de todas as idades, que «aparecem» por todos os lados, as mudanças ficavam à mão esquerda. Quantas vezes procurei a alavanca com a mão direita! Ao fim e ao cabo, após a «rodagem» dos primeiros dias, a mão direita «esqueceu-se» das mudanças e a esquerda já estava habituada a elas. O condutor do Ocidente, atirado de repente para o imenso torvelinho do trânsito no Oriente, saiu-se bem da experiência. E além do mais, foi bastante agradável «matar saudades» do bom preço da gasolina, pois fazendo as contas aos galões e às patacas, chega-se á conclusão de que o preço da gasolina em Macau anda à volta de 12$50 o litro. E em Hong Kong ainda é um pouco mais barata. Com o «Audi», em voltas diárias pela cidade e ilhas, em 18 dias, percorremos 285 quilómetros. Restará acrescentar que o «Audi» tinha também conta-milhas em vez de conta-quilómetros, o que obrigava a constantes contas de multiplicar.
VIAGEM A MACAU VASCO CALLIXTO 54 * * * Quando nos «metemos» no trânsito macaense, havia no território (números respeitantes a 31 de Outubro de 1977) um total de 36.653 veículos, entre os quais 9.597 veículos automóveis. Os automóveis ligeiros de passageiros, particulares, eram em número de 7.091, havendo mais 452 táxis. Outros de aluguer, havia 82, enquanto os carros ligeiros de mercadorias ou mistos totalizavam 902. Entre os carros pesados, os de maior número, 696, eram os particulares de mercadorias. Particulares de passageiros havia 41, de turismo 147 e 69 autocarros, além de 117 de mercadorias de aluguer. São assim as mais pitorescas ruas de Macau, sempre pejadas de gente Quanto aos veículos não automóveis, as bicicletas ocupam, de longe, o primeiro lugar, com 17.537 unidades, seguidas dos motociclos, com 5.215, e os ciclomotores, com 3.852 unidades. Os populares triciclos – cujo número tem vindo a decrescer, pois tais veículos tendem a acabar – totalizavam 445. Tractores e outras máquinas industriais, havia apenas 7. Diversas firmas representam em Macau as seguintes marcas de automóveis e camiões: Alfa Romeo, Audi, Austin, BMW, Chrysler, Citroen, Daihatsu, Daimler, Datsun, Dodge, Fargo, Fiat, Ford, Fugi, Hillman, Honda, Humber, Isuzu, Jaguar, Lancia, Matra, Mazda, MG, Mistsubishi, Morris, Nissan, Oldsmobile, Opel, Peugeot, Plymouth, Pontiac, Porsche, Rolls-Royce, Rover, Saab, Simca, Subaru, Sunbeam, Triumph, Toyota, Valian, Volkswagen e Wolseley.
VIAGEM A MACAU VASCO CALLIXTO 55 Como último apontamento, no que respeita a veículos, deverá referir-se em Macau também se paga «licença de circulação» (equivalente no «nosso» selo para o párabrisas). Em 1977, por exemplo, um automóvel de passageiros até 1500 cc. pagava por ano 180 patacas (1.550$00) e um de 2500 a 3000 cc. pagava 340 patacas (2.900$00), enquanto a licença de circulação de um triciclo importava em 80 patacas (680$00). Coadunar-se-á com a índole deste capítulo uma breve informação sobre as estradas do território. A rede rodoviária de Macau totaliza actualmente cerca de 40 quilómetros e, uma vez que a península de Macau está hoje totalmente ocupada pela cidade, é evidente que, estradas, propriamente ditas, só se encontram nas ilhas. E por serem estradas de construção relativamente recente, sem terem sido descuidadas pelos serviços de reparação e conservação, apresentam-se em bom estado geral e dotadas de modernas características, largas e de bom piso, estabelecimento fáceis e cómodas ligações entre as povoações das duas ilhas. Em 1975, 1976 e 1977, os trabalhos de construção, pavimentação e reparação de estradas fizeram a rede rodoviária de Macau «crescer» quase 10 quilómetros e esses trabalhos importaram em cerca de 7 milhões e 650 mil patacas (65 mil contos), destacando-se, em 1976, a primeira fase da construção da estrada de acesso à grande praia de Hac Sá, na ilha de Coloane. Para 1978 estava prevista a construção de mais 3 quilómetros de estradas novas, incluindo a conclusão do acesso àquela praia, despendendo-se com estes trabalhos 2 milhões de patacas (17 mil contos). Por sua vez, a reparação e conservação deverá compreender a beneficiação de troços que totalizam entre 6 e 7 quilómetros. Na cidade, foi de cerca de 50.000 m2 a área das vias públicas pavimentadas em 1977. A ponte Macau-Taipa e o istmo Taipa-Coloane, que fazem parte da rede rodoviária de Macau, serão descritos noutro capítulo, quando o leitor for «levado» às ilhas.
VIAGEM A MACAU VASCO CALLIXTO 56 DA COLINA DA PENHA À GRUTA DE CAMÕES «A melhor vista sobre a China» Com «quatro rodas» à nossa disposição, bem mais fácil se tornou conhecer Macau. E o «Audi» começou por nos levar a um dos mais apreciados locais turísticos da cidade, a colina da Penha, no extremo sul da península, um ponto alto de excepcional interesse paisagístico, onde os turistas afluem «aos montes». No troço da Rua da Praia Grande que se debruça sobre a baía, melhor pudemos apreciar a atraente beleza cor-de-rosa do Palácio do Governo, no topo do qual flutua a bandeira portuguesa. É um elegante edifício com duas alas laterais avançadas e a ala central recuada, com varanda, mandado construir no século passado pelo Barão do Cercal, António Alexandrino de Melo, que ali teve a sua residência. À Rua da Praia Grande sucede a Rua da Praia do Bom Parto e, depois desta, é Avenida da República. Mas, ao fim e ao cabo, é toda uma artéria, é a avenida marginal que contorna o extremo da península de Macau, pela Barra. Foi nas imediações da Rua da Praia do Bom Parto que existiu a oficina de canhões e sinos do célebre construtor Manuel Tavares Bocarro, que construiu canhões para as fortalezas locais e sinos e estátuas para um grande número de igrejas. Virá a propósito referir que na Torre de Londres existe um velho canhão português, o «Canhão S. Lourenço», com os seguintes dizeres: «Da cidade do Nome de Deos da China – Manuel Tavares Bocarro o fez a 1627». Da Rua da Praia do Bom Parto subimos à Penha, cuja colina é uma das mais apreciadas zonas residenciais de Macau, com belas moradias, onde também se situa, entre encantador arvoredo, a residência do governador, outro bonito palácio cor-de-rosa. Num ápice alcançámos a Penha; fomos encontrar um local turístico-religioso de enorme valia. No alto da Penha ergue-se uma bonita igreja, construída em 1934-35, que substituiu uma primitiva capela edificada em 1622, pelos tripulantes do navio «S. Bartolomeu», por terem escapado a um ataque dos holandeses, perto da Formosa. O local, a partir de então, transformou-se num lugar de peregrinação e romagem para os marinheiros, antes de partirem para missões arriscadas no Oriente. Em 1837 a capela foi reedificada e serviu de tema a muitas obras do artista George Chinnery. A residência
VIAGEM A MACAU VASCO CALLIXTO 57 episcopal fica anexa e em frente da igreja abre-se um bonito recinto ajardinado, com escadarias e uma imagem da Virgem, protectora dos mareantes, ali existindo também uma réplica da «gruta» de Nossa Senhora de Lourdes. Da Penha contemplam-se duas belíssimas e maravilhosas panorâmicas; fica-se preso a este local de enorme interesse turístico. Antes de se subir ao jardim-miradouro da igreja, no largo onde se deixam os automóveis, oferece-se ao visitante «a melhor vista sobre a China», como «diz» (em inglês – e deveria «dizer» também em português) uma placa ali colocada. Com efeito, avistam-se da Penha as altas serranias do vizinho território chinês e toda a sua área baixa em redor, que fica do outro lado das águas e em frente do Porto Interior. Não se vislumbra, porém, qualquer povoação importante, mas, tão somente, casas isoladas. Mas é, sem dúvida, uma fascinante panorâmica, de cidade, mar e montanha. A ponte Macau-Taipa enquadrada no belo cenário dos jardins de Nossa Senhora da Penha E a outra panorâmica? É para o lado oposto, é deslumbramento paisagístico que se nos oferece, quando chegamos à igreja. Toda a vasta baía da Praia Grande se descobre! A bela ponte Macau-Taipa enquadra-se harmoniosamente nessa panorâmica admirável de mar e ilhas. Mas olhando para as bandas da cidade-península, o fascínio não é menor, com a verdejante colina da Guia a servir de lindíssimo coroamente ao casario. Na Penha, para qualquer lado que nos voltemos, bem se patenteia a grande valia paisagística de Macau.
VIAGEM A MACAU VASCO CALLIXTO 58 Descemos da Penha para a Avenida Almirante Sérgio, que se desenvolve ao longo do Porto Interior. E do turismo-paisagem, fomos ao encontro do turismo-história, que se nos revelou na «Gruta de Camões». Esta lendária «Gruta», onde se afirma que o nosso genial poeta escreveu uma grande parte de «Os Lusíadas», situa-se num ponto cimeiro de um vasto parque, o «Jardim de Camões», muito arborizado e bem cuidado. Ao lado do Parque, fica o «Museu Luís de Camões». É este um lugar muito preferido pela população, sendo também muito visitado pelos turistas. A «Gruta de Camões» é formada por três penhascos de grandes dimensões, dois ao alto e um terceiro sobre estes a servir de tecto. Entre os penhascos, está um monumento, encimado por um busto de bronze do poeta, da autoria de Bordalo Pinheiro, que ali foi colocado no último quartel do século passado. Na face do monumento estão inscritas duas estrofes de «Os Lusíadas» e, sob o busto, lê-se: «Nasceu 1524 – Luís de Camões – Morreo 1580». Poemas de outros poetas estrangeiros, consagrados a Camões, estão também inscritos na área da «Gruta», em penedos de menor porte. O visitante e aristocrata francês Louis de Rienzi, que a Camões chamou «O sábio por excelência», ali nos diz que «O seu talento e as suas virtudes ultrapassaram os dos homens. Por inveja passou dificuldades. Os seus extraordinários versos tiveram grande ressonância. Erigiu-se este monumento para que a sua fama fosse transmitida à posteridade». A inscrição destas palavras ficou a dever-se às Comemorações do IV Centenário de «Os Lusíadas». Terá também interesse a transcrição de uma significativa mensagem dos escoteiros de Macau, que neste local da «Gruta de Camões» se lê, em português e em chinês, em duas pétreas páginas de um livro aberto: «Luís de Camões, o Príncipe dos Poetas Portugueses, veio para Macau em 1556 e foi nesta gruta, segundo reza a tradição, que compôs parte do seu imortal poema – Os Lusíadas. Neste poema, obra máxima da literatura portuguesa, Camões não somente interpretou os sentimentos e aspirações de Portugal, como ainda nos revelou o seu nobre ideal, o seu patriotismo alevantado e o espírito de cavalaria que o dominava. Amigo da Humanidade, lutou sempre pelos fracos e desprotegidos, merecendo tão generosos sentimentos a nossa maior admiração. Por isso, nós, os Escoteiros de Macau – Portugueses e Chineses – irmanados no mesmo ideal de Fraternidade e amor ao Estudo, aqui vimos hoje prestar o nosso juramento perante esta estátua, num desejo sincero de, imitando o seu exemplo, servirmos o nosso País e a Humanidade com o mesmo espírito de abnegação e coragem. Em comemoração desta data, aqui colocamos esta lápide, preito de respeitosa homenagem à memória imortal do Grande Épico Lusitano. Macau, 10 de Junho de 1933».
VIAGEM A MACAU VASCO CALLIXTO 59 Fomos ao «Jardim de Camões» por mais de uma vez. É realmente um parque muito agradável, onde a «presença» de Camões é notória, embora se afirme que não há qualquer prova válida de que o grande poeta alguma vez tenha estado em Macau. Mas a tradição tem sido fácil vencedora da dúvida histórica e Camões, através dos tempos, «está» ali, como bem o vimos curiosamente retratado nas paredes do parque, em interessante e imaginativos desenhos pintados por crianças das escolas. A “Gruta de Camões”, com o busto do poeta. Visitámos também o Museu Luís de Camões. Não se trata, porém, de um museu consagrado ao poeta; apenas lhe foi dado o seu nome. Vizinho do Jardim, como já foi dito, este museu está instalado num elegante palacete oitocentista, que serviu de residência aos dirigentes da Companhia Inglesa das Índias Orientais, ali se tendo hospedado os primeiros embaixadores que a Inglaterra enviou à Corte Imperial da China, em fins do século XVIII e princípios do século XIX. No jardim do edifício, encontra-se uma estátua do comendador Bernardino de Sena Fernandes, figura muito apreciada pela comunidade chinesa de Macau, tendo a estátua sido «erigida por diversos negociantes chineses em testemunho de amizade e gratidão».
VIAGEM A MACAU VASCO CALLIXTO 60 É a arte chinesa, em valiosas colecções das suas mais representativas espécies, que, principalmente, se patenteia ao visitante no Museu Luís de Camões, aberto ao público, na sua fase actual, em 25 de Outubro de 1960, durante as comemorações Henriquinas. No vestíbulo e onze salas, admiram-se imagens, exemplares de estatuária em barro vidrado, fragmentos de louça arqueológica encontrada em Coloane, barros proto-históricos, louça imperial, porcelana, armas arcaicas, moedas primitivas, vasilhame, perfumadores, objectos de bronze, baixelas utilizadas noutras épocas, diversos exemplares de carabinas, espingardas e espadas que foram outrora utilizadas pela guarnição militar local. Numa sala consagrada à secção sacra, estão expostos velhos paramentos e a prata dos altares da Sé. Noutras salas apreciam-se obras dos mais famosos pintores chineses e macaenses do passado e do presente, bem como aguarelas do artista russo G. Smirnoff, que viveu em Macau durante a segunda guerra mundial, sendo muito profusa uma colecção de retratos a óleo de mandarins e suas esposas.
VIAGEM A MACAU VASCO CALLIXTO 61 AS RUÍNAS DE S. PAULO –– HISTÓRIA E TURISMO DE MACAU Nas alturas da Fortaleza do Monte Da «Gruta de Camões» às Ruínas de S. Paulo é um pulo. Aliás, em Macau é tudo mais ou menos perto; é a vantagem do território ser pequeno. Como seriam, ao vivo, essas históricas «Ruínas» que constituem o mais propagandeado cartaz histórico-turístico deste minúsculo mundo luso-chinês das lonjuras do Oriente? Dobrámos uma esquina e encontrámo-nos frente a uma fachada monumental, em grandeza e em riqueza arquitectónica, que se mantém milagrosamente de pé, sozinha, sem quaisquer outras paredes, no alto de uma enorme e desafogada escadaria. Que extraordinário e original monumento, Macau oferece aos visitantes! Que maravilha ali está, no seu singular isolamento mural! Por isso ali afluem turistas e mais turistas, das mais diversas proveniências orientais e ocidentais, emprestando cor, vida e agitação a um local onde a história e o turismo estão de braço-dado. As Ruínas de S. Paulo, apreciadas ao vivo, impressionam fortemente e, ao mesmo tempo, fascinam quem as contempla pela primeira vez. E o local, uma posição ampla e dominante sobre uma parte da cidade, embora tenha junto de si uma maior altura, é esplêndido para mostrar aos visitantes essa relíquia de incontestável valia que o passado legou ao presente e ao futuro, como um símbolo indestrutível. Quando subimos a escadaria das Ruínas de S. Paulo e chegámos junto daquela fachada monumental, encontrámo-nos perante a única parede de um vasto templo, que não ruiu, durante um demolidor incêndio ocorrido em 1835. Não sabíamos que mais apreciar. Se a beleza daquela «Ruína», se o milagre da sua salvação e conservação. Macau tem ali, com efeito, um monumento único no género. O grandioso templo que as chamas destruíram era a Igreja da Mãe de Deus. Foi erguido sob projecto de um jesuíta italiano, nos começos do século XVI, e para a sua construção contribuíram artistas cristãos japoneses, que tinham fugido às perseguições feudais em Nagasaki. Uma inscrição em pedra indica o ano de 1602 como data em que o templo começou a erguer-se. Após a sua conclusão, poucos anos depois, foi construída a escadaria. Estando virado para as antigas muralhas de Macau, afirma-se – só ironicamente, por certo – que durante a construção deste templo, os mandarins chineses recearam que se tratasse de uma fortaleza, que poderia ser usada numa tentativa para «invadir» a China. Uma vez completada, porém, a Igreja da Mãe de Deus passou a ser descrita como «o maior monumento do Cristianismo em todo o Oriente» e a sua
VIAGEM A MACAU VASCO CALLIXTO 62 magnificência terá dado origem a disputas entre os monarcas europeus, quanto aos mais valiosos presentes a ofertar ao grandioso templo. O incêndio que se verificou em 1835, ocorreu por ocasião de um desastroso tufão e só deixou de pé a fachada da igreja e alguns restos de paredes, que mais tarde foram demolidos. O enorme clarão provocado pelas chamas que destruíram a Igreja da Mãe de Deus, diz-se que contribuiu para a salvação de muita gente de Macau, que na escuridão da noite melhor pôde encontrar o caminho para os pontos mais altos da cidade, fugindo assim das áreas inundadas, próximas do mar. Nas ruínas de S. Paulo, o mais representativo cartaz histórico-turístico de Macau A maravilhosa fachada das Ruínas de S. Paulo – depois do incêndio assim passou a ser chamado o que restava da Igreja da Mãe de Deus, devido, por certo, à proximidade da Fortaleza de S. Paulo do Monte – é encimada pela Cruz de Jerusalém e toda ela apresenta colunas e nichos com estátuas. Na parte mais alta está uma figura que representa o Espírito Santo, rodeado pelo Sol, pela Lua e pelas Estrelas, e logo abaixo vê-se o menino Jesus e as diversas fases da crucificação. Mais ou menos a meio da fachada, figura uma estátua da Virgem Maria rodeada pelos anjos e duas espécies de flores, a peónia, representando a China, e o crisântemo, representando o Japão. À esquerda vê-se a «Fonte da Vida Eterna» e uma caravela portuguesa, enquanto à direita está a «Árvore da Vida» e um esqueleto a vitória sobre a morte. Ao nível do solo foram as três antigas portas do templo, lendo-se sobre a porta central as palavras «Mater Dei» (Mãe de Deus); as portas laterais são encimadas pelo símbolo de Jesus, «IHS». O característico pavimento em mosaico preto e branco, por trás da fachada, é de construção relativamente recente.
VIAGEM A MACAU VASCO CALLIXTO 63 * * * Das Ruínas de S. Paulo, subimos à Fortaleza do Monte, postada lá no cimo «do monte», que lhe deu o nome, na referida maior altura vizinha das «Ruínas». A pé, sobe-se facilmente a encosta, por um caminho preparado para o efeito e aberto entre agradável arvoredo. No entanto, a via de acesso principal, para veículos, uma íngreme ladeira de pavimento em pedra, processa-se pelo lado oposto. Quando se chega à entrada da Fortaleza, lêem-se, não sem uma certa emoção, os significativos dizeres gravados numa placa ali colocada: «Alto! Sentido! Recorda por uns instantes a História linda da nossa Pátria. Entra altivo e de cabeça erguida porque és soldado dessa Pátria». E uma vez transpostas as velhas muralhas e alcançado o altaneiro e vasto logradouro que as mesmas envolvem, descobre-se uma nova e surpreendente panorâmica de Macau. É outra vez, tal como da Penha, a cidade e uma maravilhosa paisagem de terra e mar que se contempla. Que belíssimas perspectivas paisagísticas Macau possui! Que extraordinário fascínio elas exercem sobre o visitante! Erguida no centro da península de Macau, a Fortaleza do Monte foi começada a construir pelos jesuítas, mais ou menos pela mesma altura da Igreja de S. Paulo, ou seja, nos primeiros anos do século XVI. Era o ponto forte da cidade antiga, que se prolongava para o lado ocidental, até ao lugar de Patane, e para o lado oriental, até ao actual hospital de S. Januário. Foi D. Francisco Mascarenhas, que veio a ser o primeiro governador de Macau, quem fez evacuar os jesuítas da Fortaleza do Monte e a adaptou a residência dos futuros governadores, apetrechando-a também militarmente. A Fortaleza do Monte desempenhou um papel preponderante na defesa de Macau em 1622, contra os ataques dos holandeses, que se tinham proposto conquistar a cidade. Com efeito, no dia 24 de Junho, dia de S. João Baptista, a frota holandesa, que se encontrava na baía, com 800 homens armados prontos a desembarcar, foi bombardeada e aniquilada pelos canhões da Fortaleza. S. João Baptista foi então aclamado padroeiro de Macau e ainda hoje se vê a sua imagem, num baixo-relevo, com a data de 1622, sobre a entrada principal da cidadela. Este notável feito dos defensores de Macau está perpetuado num monumento que depois se nos revelou, na parte baixa da cidade, num jardim situado próximo do Hotel Estoril e da Central da Polícia. É um obelisco onde se lê: «Para perpetuar na memória dos vindouros a vitória que os portugueses de Macau, por intercessão do bem aventurado S. João Baptista, a quem tomaram por padroeiro, alcançaram sobre 800
VIAGEM A MACAU VASCO CALLIXTO 64 holandeses armados, que de treze naus de guerra, capitaneados pelo almirante Roggers, desembarcaram na praia de Cacilhas, para tomarem esta cidade de Santo Nome de Deus de Macau, em 24 de Junho de 1622. – 26 de Março de 1871». Uma outra placa, esclarece que «No mesmo local onde uma pequena cruz de pedra comemorava a acção gloriosa dos portugueses, mandou o Leal Senado levantar este monumento no ano de 1864». Actualmente, num antigo e bonito edifício que se encontra ao centro do vasto logradouro da Fortaleza do Monte, estão instalados os Serviços Meteorológicos. Junto às muralhas, como testemunhos vivos mas silenciosos das acções bélicas de outrora, vêem-se velhos canhões, bem dignos de ser apreciados em pormenor. Estivemos por mais de uma vez nas alturas da Fortaleza do Monte, admirando a bela paisagem de terras de Macau e da China que dali se desfruta. É, sem dúvida, um local de excepcional valia turística, como são, porém, de igual modo, os restantes pontos altos da cidade. No entanto, na Fortaleza do Monte, ao interesse paisagístico, alia-se o interesse histórico e o respeito pelo passado. Uma vez construída a ponte Macau-Taipa, as carreiras de autocarros estenderam-se às ilhas Monumento a Jorge Álvares», «o primeiro navegador que aportou à China», em 1513
VIAGEM A MACAU VASCO CALLIXTO 65 NA «PORTA DO CERCO» - FRONTEIRA DA CHINA Uma volta à Ilha Verde, ao longo do Canal dos Patos Por ser o único posto fronteiriço entre Macau e a China, foi com natural e justificado interesse que nos dirigimos à famosa «Porta do Cerco». Mas quantos, pela mesma razão, não têm um interesse igual? Toda a gente que visita Macau, vai à «Porta do Cerco»! Quando ali chegámos, a meio da manhã, registava-se uma autêntica «invasão» turística. Os autocarros das agências de viagens todos os dias ali despejam turistas e mais turistas. E os comerciantes locais souberam aproveitar da melhor forma a situação, pois instalaram ali diversas tendas de venda das mais tentadoras recordações, a que os turistas não resistem. As patacas gastam-se, umas atrás das outras e, mais ainda, quando nos esquecemos de que a pataca vale cerca de nove vezes mais do que o escudo. Em contrapartida, as mãos vêm cheias de embrulhos, grandes e pequenos. Mas, ao fim e ao cabo, da «Porta», propriamente dita, ninguém se pode aproximar. Os visitantes ficam à distância de cerca de 100 metros, a «Porta» vê-se de longe e é expressamente proibido tirar fotografias no local. Os guardas da polícia impedem a aproximação e estão já acostumados àquela avalanche de turistas, que respeitam a determinação. São, aliás, guardas amáveis. Porque, levávamos connosco um binóculo – e sem desrespeitar o «aviso» ali colocado, pois um binóculo não é uma máquina fotográfica – logo o apontámos à fronteiriça «Porta», para melhor a podermos ver e melhor vermos o que havia para lá dela. Um guarda, porém, amavelmente, aconselhou-nos a baixar o binóculo, pois, de longe, a nossa atitude e posição poderiam não ser bem interpretadas pelas autoridades chinesas que estão do outro lado da «Porta», pelo que era melhor evitar aborrecimentos. Para quê, afinal, estas proibições, estas restrições? É um «mal» de muitas fronteiras, ou antes, de certas fronteiras. Mais incompreensível ainda, a circunstância de não nos ter sido permitido circular de automóvel pela avenida marginal que, a partir da «Porta do Cerco», circunda a área do antigo Hipódromo. A «Porta do Cerco», situada no extremo norte do estreito istmo que liga a península de Macau ao território chinês, é uma porta-monumento, semelhante a um «arco de triunfo». Para o lado de Macau, a toda a sua largura – e como bem pudemos ler
VIAGEM A MACAU VASCO CALLIXTO 66 com o binóculo – ostenta a patriótica e camoneana legenda «A Pátria honrai que a Pátria vos comtempla». Por sua vez, numa e noutra «perna» do monumento, estão duas placas, que mais não ostentam que duas datas, às quais já nos referimos, em capítulo anterior, quando descrevemos o monumento ao governador Ferreira do Amaral, na Avenida da Amizade, 22 de Agosto de 1849 e 25 de Agosto de 1849, datas que assinalam o traiçoeiro assassínio daquele governador e a consequente e heróica tomada do Forte de Passaleão por Vicente Nicolau de Mesquita. Sobre as placas, em círculos salientes, estão as armas militares e navais de Portugal. A bandeira portuguesa flutua no alto da «Porta», enquanto do lado oposto flutua a bandeira da China. Desta «Porta» até Cantão são apenas 157 quilómetros. E nós não pudemos lá ir! A actual «Porta do Cerco» datada de 1870 substituiu uma antiga «Porta» chinesa, em que figuravam os dizeres «Respeita a nossa grandeza e a nossa virtude», que foi demolida. Mesmo quando os muros da cidade se encontravam mais para o sul da península, este ponto marcou sempre os limites do território português e foi em tempos um lugar de mercado, onde os produtos do Oriente eram postos à venda por mercadores locais. Hoje em dia, o movimento, propriamente fronteiriço, pelo menos no que respeita a turistas, é praticamente nulo, devido às restrições impostas, vendo-se apenas, de vez em quando, entrar em Macau uma ou outra camioneta de carga vinda da China, com a curiosa particularidade de apresentarem duas chapas de matrícula, uma chinesa e outra portuguesa. Porque a citada acção de Vicente Nicolau de Mesquita foi vivida junto à «Porta do Cerco», oportuno será referir algo mais sobre esta controversa figura militar de macaense, cuja existência foi ensombrada por um tresloucado acto da sua vida particular. Após a acção heróica de 1849, aos 62 anos de idade, em 1880, quando já estava reformado no posto de coronel, Vicente Nicolau de Mesquita assassinou a mulher e um filho e feriu gravemente uma filha, suicidando-se em seguida. Sepultado sem honras militares, a sua memória veio, porém, a ser reabilitada em 1910 e em 28 de Agosto do mesmo ano os seus restos mortais foram transladados para o cemitério de S. Miguel, depois de se terem realizado exéquias por sua alma e inaugurado um retrato seu no gabinete militar, juntamente com o retrato do Governador Ferreira do Amaral. No cemitério de S. Miguel ergue-se actualmente um monumento a Vicente Nicolau de Mesquita, encimado pelo seu busto e com os seguintes dizeres: «Nasceu a 9-7-1818 – Tomou Passaleão em 25-8-1849 – Faleceu em 20-3-1880 – Foi transladado em 28-8-1910 – Teve nesse dia as honras Militares e Eclesiásticas». Uma das principais artérias da área setentrional da cidade é a Avenida Coronel Mesquita.
VIAGEM A MACAU VASCO CALLIXTO 67 * * * Próximo da «Porta do Cerco», para o lado ocidental, paredes meias com território chinês, situa-se a chamada «Ilha Verde», uma pequena ilha que hoje já deixou de o ser, por se encontrar ligada à península de Macau por terra firme, através da qual foram traçadas diversas ruas e uma avenida. Claro está, tivemos curiosidade em visitar esta «ilha» e na sua direcção «apontámos» o «Audi» M-88-36. Além do mais, queríamos ver se víamos a China mais de perto. A «Ilha Verde» foi primeiramente propriedade dos jesuítas, que ali construíram em 1604 uma capela, bem como alguns outros edifícios. Quando em 1762 os jesuítas foram expulsos, foi a ilha adquirida por um particular, mas em 1828 passou para a posse do Seminário de S. José, ao qual ainda pertence, existindo ali uma «Casa de Retiro» da Diocese de Macau. É uma área bastante arborizada, muito verde, e daí, por certo, a designação que foi dada à antiga e pequena ilha. A antiga «Porta do Cerco» - quadro existente no Museu Luís de Camões Quando chegámos, propriamente, à entrada da «Ilha Verde», deparámos com um caminho marginal em estado bem pouco recomendável, esburacado e poeirento, que ainda nos fez hesitar, tanto mais que não víamos por ali mais nenhum automóvel. E quase ninguém também. Fomos, porém, avançando e dando a volta à «ilha», em marcha forçosamente lenta, até que alcançámos o lado oposto, onde corre o chamado Canal dos
VIAGEM A MACAU VASCO CALLIXTO 68 Patos. Havia por ali quintas e quintais, viam-se capoeiras com criação e uma ou outra pessoa no amanho da terra. Era uma autêntica imagem campesina. Mas o «atractivo maior» – o que, na verdade, procurávamos – logo se nos revelou. Do outro lado do Canal dos Patos, bastante estreito por sinal, era terra da China. E nessa outra margem, que tínhamos tão perto de nós, estavam postadas guaritas, colocadas em altos pedestais formados por armações de ferro, de onde os soldados chineses nos olhavam, pensando, talvez, o que andaríamos por ali a fazer, de automóvel, «coisa» que na imensa e enigmática China não é permitido aos particulares terem. Pela nossa parte, também fomos «mirones» daqueles nossos «mirones». E não houve «novidade». Na mesma, por um caminho esburacado e poeirento, deixámos a «Ilha Verde», que bem merecia ser preparada para receber turistas . . . se a sua situação o permitisse! A «Porta do Cerco», fronteira entre Macau e a China, onde flutuam, lado a lado, as bandeiras portuguesa e chinesa
VIAGEM A MACAU VASCO CALLIXTO 69 NO FAROL DA GUIA EM CONTACTO COM PORTUGAL No ponto mais alto de Macau, onde existe o farol mais antigo da costa da China A Guia, em Macau, tem três particularidades, ou antes, quatro se lhe quisermos acrescentar uma outra, de mais recente criação, mas também de grande valia. É a Guia uma formosíssima colina; é o ponto mais alto de Macau (108 metros); possui o farol mais antigo da costa da China; deu o nome à mais famosa corrida de automóveis que se disputa no Extremo Oriente. E, para nós, uma quinta particularidade teve ainda a Guia. Foi nesse «último andar» de Macau que estivemos, por diversas vezes, em contacto directo com Portugal, através da rádio. No alto da Guia, contemplando a extensão e a beleza da fascinante paisagem circundante – a cidade a seus pés, o mar, as ilhas, as serranias da China e o litoral chinês – entregue a um silêncio total, próprio das alturas isoladas, e desdobrando ainda algumas páginas da secular história de Macau, facilmente o visitante se esquece de que mais mundo existe. A Guia, realmente, é um dos mais belos locais que temos conhecido. Subimos à Guia pela Estrada de S. Francisco e, do Hospital de S. Januário, estivemos a admirar a formosura daquela colina verde, que emerge do casario da cidade e se debruça maravilhosamente sobre a vasta zona baixa do Porto Exterior. O Hospital de S. Januário está instalado numa antiga fortaleza, a Fortaleza de S. Francisco, que, quando da sua construção, em 1629, se situava à beira-mar. Antes, porém, existiu ali uma bateria, que tomou parte activa na defesa da cidade contra o ataque dos holandeses, em 1622, tendo um dos seus canhões posto fora de combate um barco dos atacantes. A Fortaleza de S. Francisco, restaurada em 1864, veio a sofrer grandes destruições em 1874, quando um violento tufão assolou a região de Macau. O recinto fronteiro à entrada principal do actual hospital é um excelente miradouro. Passado o Hotel Matsuya e o cemitério dos Parses, a estrada «entra» propriamente na colina da Guia e é através de denso arvoredo que se galgam as ladeiras e se vencem as curvas, sendo este local, aliás, bem propício a tal, muito utilizado pelos carros de instrução de condução automóvel, que ali se chegam a ver aos quatro, aos
VIAGEM A MACAU VASCO CALLIXTO 70 cinco e aos seis. Quando lá chegámos ao alto, até onde foi possível ir de automóvel, e sempre com o arvoredo a cobrir-nos, encontrámo-nos frente à entrada principal da velha fortaleza da Guia. Por ela se processa o acesso ao ponto cimeiro da colina e ali se lê: «Este forte mandou fazer a cidade à sua custa pelo capitão d´artilharia António Ribeiro Raia Gomes. Comesou se en Setebro de 1637 acabou se en Março de 1638 sendo Geral da Câmara de Noronha». Uma vez alcançada a parte superior da fortaleza, estávamos no alto da Guia, onde se ergue uma bonita capela e, paredes meias, o histórico farol, havendo também diversas instalações dos Serviços de Marinha. E ali fomos gentilmente recebidos pelo sargento Horácio Torres, activo rádio-amador em permanente contacto com todo o mundo, que, com a sua esposa e filha, nos cumulou de atenções. Naturalmente, o alto da Guia vê-se de toda a parte, com as suas muralhas e torreões. O construtor da fortaleza, António Ribeiro Raia, era natural de Viseu e serviu na Índia. Passando depois a Macau, morreu no posto de sargento-mor e deixou um manuscrito dedicado a D. João IV. Ao tempo da construção da fortaleza, governava Macau o quinto governador, Domingos da Câmara de Noronha. A capela, com um tecto em abóbada, é no estilo das capelas portuguesas do século XVII. Tem escadaria e uma fachada simples, com duas colunas dóricas, laterais. À direita da capela, junto à muralha, para o lado do mar, admirámos com bastante interesse um grande sino, que ostenta a seguinte inscrição: «Este sino foi mandado fazer para uso desta capela de Nossa Senhora da Guia em 1707, sendo Governador desta cidade Diogo de Pinho Teixeira». No lado oposto, outra inscrição refere que o sino foi restaurado em 1824. O Farol da Guia, como foi dito, é o mais antigo da costa da China, tendo, porém, apenas pouco mais de cem anos de existência. Foi construído em 1865, pelo macaense Carlos Vicente da Rocha, e foi aceso pela primeira vez em 24 de Setembro daquele ano, não mais tendo deixado de operar. O equipamento original, que foi enviado para Lisboa, para figurar num museu, foi substituído em 1915 por mais moderna aparelhagem. O alcance da luz emitida pelo Farol da Guia é de 25 milhas e a torre é redonda, caiada de branco, com o topo pintado de vermelho. No alto da Guia – como nos outros pontos de Macau – quando se prevê a aproximação de tufões ou ventos fortes, são içados sinais, que constam do «Código Local de Sinais de Tufões». Felizmente, não vimos içar nenhum desses sinais. Mas vimo-los guardados no interior da fortaleza e, nunca tendo visto tal, não deixámos de os achar bastante curiosos.
VIAGEM A MACAU VASCO CALLIXTO 71 Não nos cansámos, como é evidente, de admirar a bela paisagem que se contempla do alto da Guia. Para um lado é o mar e as ilhas chinesas, umas mais perto e outras mais longe; para o outro lado é a costa, os braços de mar e as serras da China. E Macau, pequena, mas parecendo grande, estende-se por toda a área da «sua» península. Quantas vezes fomos à Guia, quantas vezes admirámos aquele vasto e extraordinário fascínio paisagístico! Há quem diga que, em certas ocasiões, avista-se dali Hong Kong. Mas outro factor nos fez ir à Guia por mais de uma vez. Foi o estabelecimento do contacto directo com Portugal, através da rádio, ouvindo o sargento Horácio Torres falar com diversos pontos do nosso País e escutando, muitíssimo bem, os rádio-amadores que com ele falavam. Tendo ali instalada a sua estação CR9AJ, quando em Macau eram 4 horas da tarde e em Portugal eram 8 horas da manhã, o sargento Horácio Torres estabelecia contacto com o nosso «familiar» CT1DW, dr. António Carlos Callixto, na Amadora, e assim se «aproximavam», pelas ondas hertzianas, duas tão distantes partes do mundo, permitindo agradáveis trocas de impressões. Uma vez houve que, por dificuldade momentânea em estabelecer o contacto directo, o contacto Macau-Amadora foi estabelecido através de outro rádio-amador, de um país africano. São os grandes «segredos» dos rádio-amadores, que demonstram também o grande espírito de colaboração e de solidariedade de que todos eles são animados, como se se tratasse da mais unida das famílias. E além da Amadora, ouvimos Tomar, a Outra Banda, a linha de Cascais e o Porto falar com Macau, como se nos revelaram também os pormenores do pedido de um medicamento urgente, que veio a ser despachado de Pequim para o Porto, via Macau. Deverá referir-se que o rádio-amador Horácio Torres encontra-se temporariamente em Macau, após outras estadias em Timor e em África, sempre o acompanhando a sua «estação». Actualmente, é ali o mais operativo rádio-amador, pois outro rádio-amador local (e mais nenhum há), CR9AK, Fernando Macedo Pinto, tem-se mantido mais afastado dos contactos.
VIAGEM A MACAU VASCO CALLIXTO 72 OS TEMPLOS CHINESES . . . e as ruas «chinesas» de Macau e os panchões! Em Macau, como é evidente, «sente-se», em toda a parte, a presença da China, na população, nas construções, nos estabelecimentos, nas mais características ruas, etc. E templos chineses, há imensos em Macau. Os mais importantes são sempre visitados pelos turistas. Quanto a nós, a primeira visita foi ao Templo de Kun Iam, que se situa na Avenida Coronel Mesquita, templo que foi testemunha de um importante facto histórico, que envolveu duas grandes nações separadas pelo Oceano Pacífico. As primeiras menções a este templo datam da época da dinastia Yuan (séculos XIII e XIV), embora a estrutura actual seja de 1627. É considerado o mais belo de Macau e ali se consagram à Deusa da Mercê os monges vegetarianos. À entrada estão três Budas, representando o passado, o presente e o futuro, e curioso será referir que todos os visitantes se inclinam perante estas figuras, como quem lhes faz uma vénia. É, porém, uma «vénia» que se faz sem se dar por isso, em virtude de uma das portas por onde se passa ser baixa, o que leva forçosamente as pessoas e inclinarem-se quando ali chegam, à vista dos Budas. Logo adiante encontra-se outro Buda, que simboliza a longevidade. Numa terceira e maior sala do templo está a Deusa da Mercê, flanqueada por nove Budas e dois queimadores de incenso, afirmando-se que a indumentária da Deusa é mudada todos os anos e o seu penteado é um símbolo da sua modéstia. Todo o templo é espaçoso e chega a parecer uma amálgama de portas e degraus, mas tudo muito bem disposto. Os telhados são em azulejo, embelezados com figuras em barro. No jardim está uma pequena mesa de pedra, com quatro bancos, também de pedra, à sua volta. É esta mesa a testemunha mais directa do facto histórico atrás apontado. Foi sobre ela que a China e os Estados Unidos da América assinaram o primeiro tratado comercial, em 3 de Jullho de 1844. Dada a importância desta mesa e destes bancos, e porque o acontecimento é sempre revelado aos turistas, é frequente verem-se visitantes a ser fotografados, sentados nos bancos onde se sentaram o vice-rei de Cantão, Ki Ying, e o enviado especial dos Estados Unidos, Caleb Cushing. Diz-se que Macau, por um curto lapso de tempo, enquanto esteve a ser negociado o tratado (Tratado de Wang Hsia), foi a cidade mais importante da China.
VIAGEM A MACAU VASCO CALLIXTO 73 O Templo de Kun lam, um dos muitos templos chineses de Macau, onde em 1844 foi assinado o primeiro tratado entre a China e os Estados Unidos da América. Neste mesmo jardim existe também uma árvore, a que os chineses chamam a «Árvore dos Namorados». Os namorados vão ali rezar para que nunca se separem, e encontrem um futuro fiel juntos, tal como os ramos daqueles troncos naturalmente formados, que nunca mais se separaram. Quando visitámos este templo estava a decorrer uma cerimónia religiosa numa das suas alas, em homenagem à memória de um membro de uma família, recentemente falecido. Ali estavam familiares e amigos do morto, em rezas e orações, após terem levado, para o morto, grandes quantidades de comida, que se via em vários sítios. Sem se importar com os visitantes, toda aquela gente se entregava à cerimónia, alheia ao que se passava em seu redor. Claro está, tudo isto se envolvia num estranho e impressionante ambiente, marcadamente oriental. Visitámos depois o templo de cuja denominação deriva o nome de Macau, considerado o mais antigo de todos. É o templo da Deusa A-Má, ou de Má Kok Miu, situado na base da colina da Barra, próximo do Porto Interior.
VIAGEM A MACAU VASCO CALLIXTO 74 De acordo com a lenda, A-Má era uma modesta rapariga da província de Fukien. Necessitando ir a Cantão, quando se encontrava no mar, uma violenta tempestade fez naufragar os barcos dos seus companheiros de viagem e só o barco em que seguia, chegou a salvo à região que é hoje Macau. A-Má subiu então ao alto da colina da Barra e daí ascendeu ao céu. O sítio ficou a chamar-se «A-Má-gao», o que significa «porto de A-Má». No primeiro pavilhão está uma estátua da deusa e por cima da porta figura uma inscrição em chinês, dizendo que o templo foi primitivamente construído durante o reinado do imperador Wan Li, da dinastia Ming, vindo a ser restaurado no segundo quartel do século XIX. Num baixo-relevo, está representada a embarcação que trouxe a salvo até Macau a que depois foi a deusa A-Má. Caminhos sinuosos, conduzem a outros pequenos pavilhões vizinhos e nos rochedos que os ladeiam figuram inscrições dedicadas à deusa. Durante três dias, em Março ou Abril, sendo a data concordante com o calendário chinês, o Templo de A-Má transforma-se num local de peregrinação para a população piscatória de Macau. Entrámos ainda em mais alguns templos chineses, uns de mais aparato e outros mais modestos. E num deles fomos encontrar uma figura muito curiosa. Foi num pequeno templo que se situa junto das Ruínas de S. Paulo, do lado esquerdo e um pouco mais para trás. Entre as figuras expostas, algumas das quais representam budas e deusas, está uma figura maior, que nos pareceu ser um macaco, vestido, a dar uma cambalhota. De mãos no chão e pés no ar, absolutamente na vertical, mas com a cabeça em posição normal, este «macaco» deverá por certo simbolizar algo que, todavia, não nos foi possível descobrir. * * * Há em Macau certas ruas, formando um bairro, que são ruas cem por cento «chinesas». E a dois passos do centro da cidade. Basta andar um pouco, quase nada mesmo, a partir do Largo do Senado, para o lado do Mercado de S. Domingos, que logo se encontram. Por elas nos «metemos», a pé e, incrivelmente, também ao volante do «Audi». Nessas ruas, mais do que em quaisquer outras, sentimo-nos, realmente, num mundo diferente, bastante distante do nosso mundo ocidental. Tudo ali é chinês, tudo ali é Oriente, místico, estranho e enigmático nos dias de hoje, O visitante do Ocidente tem a sensação de que retrocedeu no tempo e o tempo parou há muito, esquecido de avançar até à actualidade.
VIAGEM A MACAU VASCO CALLIXTO 75 Ruas, ruelas e travessas, estreitas e «cheias» de tudo um pouco, desde letreiros em chinês e alguns em chinês e português, toldos, mesas, bancos e cadeiras, até à mais diversa mercadoria, que se vê à venda por toda a parte, às portas dos estabelecimentos, tudo isto povoado por gente em constante movimento, a pé, de bicicleta e de triciclo, a par da gente que ali passa os dias, sem nada fazer ou entregue ao seu negócio, havendo até quem ali esteja a cortar o cabelo ou a fazer a barba em plena rua, em barbeiros ao ar livre. Na Rua dos Mercadores, na Rua das Estalagens, na Rua dos Faitiões e em tantas outras, são estas pitorescas e curiosas imagens, «feitas» pelos usos e costumes de uma população com séculos de tradições, que se oferecem ao visitante. Por quatro, cinco, seis vezes, ou mais, andámos por estas ruas. E nunca deixámos de as apreciar em pormenor, como bem merecem. Mas não era só o interesse pelo pitoresco que ali nos levava. Era também o interesse por compras por preços vantajosos e bastante tentadores. E numa casa «famosa», onde toda a gente vai e toda a gente conhece em Macau, fizemos as melhores compras. É o «Pataca», um armazém assim vulgarmente conhecido (porque noutro tempo vendia-se ali tudo a uma pataca), com montes de peças de vestuário, aos mais baixos preços, desde boas camisas a 6 patacas (50$00), boas calças a 10 patacas (85$00), jogos de bonitos lençóis a 30 patacas (255$00), boas gabardines a 35 patacas (300$00) e muito mais. É um nunca acabar de coisas e todos os fregueses procuram o que querem, à vontade, em montes de roupas. Depois, à porta, lá está o patrão - «patacas» para fazer as contas e receber. E numa ou noutra peça, ou conjunto de compras, ainda se consegue um preço inferior ao inicialmente pedido. * * * Neste capítulo «chinês», virá a propósito registar um facto a que assistimos e nos revelou outros usos e costumes de Macau, mais concretamente, o emprego dos característicos «panchões» (espécie de foguete que, ao estralejar, faz um barulho ensurdecedor) na inauguração de qualquer estabelecimento. Foi na inauguração de um novo restaurante, o Restaurante Fu Wah, na Baixa macaense, na Rua Pedro José Lobo, em frente do cinema Nam Van. Toda a área vizinha do novo restaurante foi embelezada com vistosas ornamentações, também muito características e garridas, uma espécie de grandes painéis ou cartazes vermelhos, enfeitados com diversos motivos, que constituem ofertas de pessoas amigas, que assim se associam à festa. No momento próprio, os panchões, dispostos na frontaria do edifício,
VIAGEM A MACAU VASCO CALLIXTO 76 começaram a estralejar até à rua e, entre fogo, fumo e um barulho enorme, que afastou os imensos «mirones» que ali estavam concentrados, o novo restaurante foi inaugurado. E todos quantos quiseram, entraram, tomaram parte no acto inaugural e comeram e beberam. Este «convite geral» para uma inauguração, ainda para mais de um restaurante, foi também para nós uma revelação. Com efeito, dias antes, os jornais publicaram anúncios da inauguração deste restaurante, indicando dia e hora do acontecimento. E além disso, e de se referir que a nova casa era especializada em «Comida chinesa das melhores especialidades», o anúncio concluía: «Convida-se o público em geral a participar na cerimónia da inauguração». Claro está, havia também convites normais, enviados a diversas entidades. E porque na véspera travámos conhecimento com o casal proprietário do restaurante (vestidos a rigor no dia festivo), foi com um cartão de convite que fomos à inauguração do “Fu Wah”.
VIAGEM A MACAU VASCO CALLIXTO 77 AUDIÊNCIA COM O GOVERNADOR DE MACAU O lindíssimo Jardim de Lou Lim Iok, a Casa-Museu do Dr. Sun Yat Sen e outros locais de interesse Sendo o Governador de Macau a primeira autoridade do território, tínhamos, naturalmente, agradecimentos a apresentar-lhe relativamente às facilidades concedidas para a nossa estadia, por intermédio do Centro de Informação e Turismo. Por isso lhe solicitámos uma audiência, que nos foi gentilmente concedida na tarde do dia 10 de Novembro. Acompanhados pelo dr. Jorge Rangel, recebeu-nos o sr. Coronel José Eduardo Garcia Leandro no seu gabinete de trabalho. Governador jovem, sem ter atingido ainda os 40 anos de idade, ia completar três anos no exercício do seu alto cargo, para que fora nomeado sete meses após a revolução do «25 de Abril», tendo sucedido ao general José Manuel Nobre de Carvalho. Afável e acolhedor, o Governador de Macau – com quem viríamos depois, por diversas vezes, a contactar mais informalmente – mostrou-se particularmente interessado em conhecer pormenores sobre o objectivo da nossa deslocação ao território – conhecer Macau para dar a conhecer Macau – e escutou atentamente as nossas primeiras impressões sobre o pequeno mundo luso-chinês que se nos estava a revelar. No dia 12, o jornal local, «Gazeta Macaense», na sua coluna «Recebidos pelo Governador», noticiou esta audiência: «O Governador, coronel Garcia Leandro, recebeu no dia 10 as seguintes entidades: . . . . . . .; Vasco Callixto, jornalista e escritor, que se encontra de vista ao território, acompanhando da esposa, que lhe foram apresentar cumprimentos; .. . . . . . ». * * * Macau-cidade tinha-nos revelado já os seus principais motivos de interesse. Faltava-nos, porém, conhecer outros, que poderemos designar por complementares, e à descoberta dos quais fomos, dia após dia, já absolutamente familiarizados com o trânsito local.
VIAGEM A MACAU VASCO CALLIXTO 78 Na área noroeste da cidade, nas imediações da Central da Polícia, visitámos um lindíssimo jardim chinês e a casa-museu do fundador da República Chinesa e «encontrámos» Vasco da Gama noutro jardim. Três motivos diversos; três locais que a arte oriental e a história – da China contemporânea e de Portugal de Quinhentos – ofereceu a Macau. Esse lindíssimo jardim chinês é o jardim de Lou Lim Iok. Como se lê, em português e em chinês, numa placa existente à entrada, «Este jardim foi adquirido pelo Governador da Província em 1973 e depois de reconstruído foi entregue à população da cidade em cerimónia pública estando presentes o Governador de Macau e senhora de Nobre de Carvalho e outras individualidades. – 28 de Setembro de 1974». Mal se sabia em Macau que, neste dia, viviam-se em Portugal horas bem difíceis . . . Um trecho do lindíssimo jardim chinês de Lou Lim-lok O cenário de um autêntico conto de fadas oriental, é a visão que se tem do que foi outrora a residência e o jardim de Lou Lim Iok. Ali está a casa que pertenceu a um rico financeiro, um edifício com todas as características de um palácio de Macau em estilo europeu. Sendo um exemplar monumental da arte vitoriana, apresenta colunas coríntias, esplêndidos arcos, varandas em ferro trabalhado e todo o conjunto está embelezado com motivos do Oriente e do Ocidente. Quanto ao jardim, afirma-se que terá sido modelado à semelhança dos famosos jardins de Soochow, na China. Logo à entrada encontra-se um caminho serpenteante entre «montanhas» ornamentais, tal como se se tratasse duma paisagem duma pintura chinesa. A seguir aparece um lago, com as águas cobertas de folhas de lótus, e um bonito pavilhão em estilo vitoriano, ao qual se chega
VIAGEM A MACAU VASCO CALLIXTO 79 através de pequenas pontes chinesas. O lago, por sua vez, é atravessado por uma interessantíssima ponte com nove curvas, que dá acesso a um elegante pagode ornamental. Uma vez neste jardim, o visitante sente-se atraído por ele e não tem pressa de o deixar. As pontes, os pavilhões, o lago, tudo ali nos diz que estamos num Oriente mágico, que parece irreal nos dias de hoje. Que maravilhoso jardim foi oferecido à panorâmica turística de Macau! Ali perto, visitámos depois a Casa-Museu do dr. Sun Yat Sen, o fundador, em 1910, da República na China. É um grande edifício, num estilo pesado e muito especial, com salas de tectos altos, que guarda e patenteia ao público uma vasta colecção de bandeiras e fotografias relacionadas com a agitada vida do dr. Sun Yat Sen, que viveu e exerceu clínica em Macau, após ter sido um dos primeiros médicos chineses a estagiar na Europa. Igualmente ali se vêem fotografias da juventude do generalíssimo Chiang Kai-Shek, que foi cunhado do dr. Sun Yat Sen. A primitiva casa do fundador da República Chinesa foi destruída por uma explosão há cerca de 40 anos, vindo a nova construção a ser erguida como uma homenagem ao dr. Sun Yat Sen, para recordar a sua estadia em Macau. Próximo do Hotel Estoril, situa-se um pequeno mas agradável jardim público. Foi onde «encontrámos» Vasco da Gama. O grande navegador tem ali um monumento, erguido em 1911, quando era governador de Macau o publicista e antigo oficial da Armada, Álvaro de Melo Machado. O monumento apresenta um busto de Vasco da Gama, obra do escultor Tomás Costa, condiscípulo de Teixeira Lopes, que foi autor, também, do monumento ao Infante D. Henrique, no Porto. O busto assenta num pedestal com um expressivo baixo-relevo em mármore, representando uma cena de «Os Lusíadas», o aparecimento do gigante Adamastor à frota do descobridor do caminho marítimo para a Índia no cabo que depois foi da Boa Esperança. Perante este monumento, de pequenas dimensões, é certo, bem nos lembrámos, mais uma vez, que Vasco da Gama, incompreensivelmente, não tem em Lisboa o monumento que devia ter, enquanto no porto alemão de Hamburgo se encontra uma sua estátua. E, com pesar, lembrámo-nos também do monumento de Vasco da Gama que existia em Inhambane, em Moçambique, e certamente já não existe. Não andámos muito para ir até outro jardim, o Jardim da Montanha Russa, próximo do colégio de D. Bosco, já na zona da Areia Preta. É um jardim interessante e original, com caminhos serpenteantes e bem cuidados, que se desenvolvem através de densa vegetação tropical e europeia. Sobe-se, entre bambus, até um ponto alto e aí se encontra uma curiosa rampa-monumento que se assemelha a uma «montanha russa», faltando-lhe somente uma figura a coroá-la.
VIAGEM A MACAU VASCO CALLIXTO 80 A partir da Avenida Coronel Mesquita, por uma artéria em rampa, que mais parece um caminho particular, subimos até à antiga Fortaleza de Mong-Há, de onde se contempla uma soberba panorâmica do istmo da Porta do Cerco e da região chinesa vizinha, litoral e serranias. Esta fortaleza, construída em 1868, foi então considerada um forte baluarte de defesa da península. Actualmente está em ruínas e mais ou menos abandonada. Considerando, porém, a grande valia paisagística do local, esta fortificação merecia ser restaurada e adaptada a fins turísticos. Quando voltámos à área central de Macau, da Estrada de Cacilhas, traçada pela costa sul da colina da Guia, melhor admirámos o grande reservatório de água, que se estende até à avenida marginal, como um vasto espelho líquido, vizinho das águas do mar. E fomos ainda até ao Miradouro D. Maria II, debruçado sobre a pitoresca zona piscatória de Macau Seac e da Areia Preta. No centro da cidade, visitámos a Sé. É uma rua estreita e de casas antigas, a partir das traseiras do edifício dos Correios, que dá acesso ao largo onde se situa o templo. Construída entre 1844 e 1850, e restaurada em 1938, a Sé de Macau foi erguida no mesmo local onde existia uma antiga igreja, que o tufão de 1836 danificou seriamente. Com duas sólidas torres e duas grandes portas, apresenta um interior com certa magnificência. Na capela do Santíssimo Sacramento estão depositados ossos de mártires japoneses, vítimas de perseguições nos começos do século XVII. Para o lado oposto, onde se encontram outros templos, como as igrejas de Santo Agostinho e de S. Lourenço, e o Instituto Salesiano, visitámos também, embora um pouco de fugida, o Seminário de S. José e tivemos ocasião de apreciar a nobre frontaria do Teatro D. Pedro V, construído em estilo neo-clássico, com bonitas colunas e arcadas. A sala deste antigo teatro comporta apenas 360 lugares. O Seminário de S. José foi fundado em 1728, com a finalidade de providenciar ao envio de missionário para a China, sendo hoje gerido pelos padres Diocesanos. Foi no Seminário de S. José que admirámos a maior árvore de Macau, uma árvore monumental, segundo nos foi dito, com mais de 400 anos de existência, que se ergue, imponente, num amplo terreiro. Já tínhamos visto em Macau outras árvores que, pelo seu grande porte, chamavam sempre a nossa atenção. Esta, porém, a todas suplanta. É uma autêntica arvore-gigante e secular.
VIAGEM A MACAU VASCO CALLIXTO 81 O GRANDE ESPECTÁCULO DO JOGO E DAS APOSTAS Os Casinos, o Canídromo e a «Pelota basca» Quem for a Macau e não for a um Casino, ao Canídromo e ao vasto «palácio» da «Pelota basca», não poderá apreciar como é fantástica a paixão da população, principalmente da população chinesa, pelo jogo e pelas apostas. Ver o entusiasmo extraordinário de toda aquela gente, a jogar e a apostar, é um «espectáculo» deveras fascinante, que contagia facilmente quem esteja apenas a assistir, sem entender, sequer, as regras do jogo. Aliás, o jogo, como paixão que é, pratica-se em toda a parte e praticam-no pessoas de todas as categorias sociais. Joga-se nos casinos, como se joga em qualquer modesto estabelecimento, nos intervalos em que não há freguesia para atender, como seja também na rua, quando uns tantos parceiros resolvem tentar a sorte sentados num passeio. E nos casinos, a jogar «forte», com volumosos rolos de dinheiro nas mãos, vêem-se pessoas que mais parecem necessitados da caridade pública. Mas o chinês é assim, alheado das aparências. Fomos uma noite ao «Casino Lisboa» e outra noite ao «Casino Flutuante», ou «Macau Palace», como geralmente é conhecido. O primeiro é o mais moderno, anexo ao sumptuoso Hotel Lisboa, na avenida marginal, junto à ponte Macau-Taipa. O segundo é o luxuoso navio de ontem, transformado em casino para a gente de hoje, já citado em capítulo anterior, que se encontra permanentemente ancorado no Porto Interior. Deverá referir-se que, em Macau, a entrada nos casinos é livre. Nada se paga e, como se depreenderá do que acima foi dito, pode-se entrar vestido de qualquer maneira. As salas de jogo, cheias de mesas, envolvidas num ambiente de luxo, estavam, num e noutro casino, cheias de gente. Mesas havia, que tinham a «lotação» esgotada e só por cima dos ombros de quantos se encontravam à volta delas, se podia procurar ver o que se passava no pano verde. Homens e mulheres jogavam, ganhavam e perdiam, com uma serenidade imperturbável. Eram chineses de Macau, chineses da China e, muito principalmente, chineses de Hong Kong, que vão a Macau, às «legiões», unicamente para jogar. E pelas salas e corredores girava sempre gente, mais os que deixavam uma mesa para ir jogar para outra, do que os que, como nós, andavam tão somente a apreciar o «espectáculo».
VIAGEM A MACAU VASCO CALLIXTO 82 Nos casinos de Macau joga-se o «baccarat», o «vinte-e-um», a «roleta» e outros jogos, mas um dos mais apreciados pelos chineses será o «fan-tan» um jogo chinês muito antigo, que se pode jogar a partir de 1 pataca. O «fan-tan» joga-se apostando num, em dois ou em três de quatro números, 1, 2, 3, e 4, sendo as pagas proporcionais à quantidade de números em que se jogou. Para determinar o número sorteado, o «croupier» forma com as fichas um montículo, que tapa com uma taça de prata invertida. Feitas as apostas, as fichas são retiradas do montículo em grupos de quatro, sobrando no final 1, 2, 3 ou 4, o que indica o número do prémio. Outro jogo chinês é o «grande-e-pequeno» («dai-siu») e as «slot machines» vêem-se também por todo o lado, operando umas a partir de meia pataca, enquanto outras só aceitam 1 dólar de Hong Kong. O «Casino Flutuante», um luxuoso navio de ontem para os turistas de hoje Num sábado à noite fomos ao Canídromo. Já conhecíamos hipódromos e autódromos; o canídromo foi para nós uma revelação. Recintos próprios para corridas de cães, não tínhamos ainda visto. E que recinto! Um autêntico e vasto estádio, com uma pista de corridas, onde os cães mal se vêem, e uma área de bancadas onde se concentram enormes multidões de espectadores, ou melhor, de apostadores, pois toda a gente ali vai, para apostar neste ou naquele cão, em cada uma das corridas que aqueles canídeos e forçados «corredores» disputam. Há corridas de cães nas noites de sábados, domingos, e feriados, a partir das 20 horas, e em cada noite disputam-se 14 corridas. Um bom bocado antes da primeira
VIAGEM A MACAU VASCO CALLIXTO 83 corrida, já as bancadas estavam cheias dos mais entusiastas apostadores. E quando, finalmente, os primeiros cães partiram à desfilada, atrás de uma «lebre» sem carne nem osso, ligada a um mecanismo eléctrico, que se estende ao longo da pista, toda aquela mole imensa de gente se manifestou, deixando expandir o seu entusiasmo e o seu nervosismo, ante a vitória ou a derrota, a boa ou a má classificação do cão em que tinha apostado. É, realmente, um «espectáculo», assistir à reacção destes espectadores-apostadores, perante o desenrolar das corridas dos cães. E, claro está, há quem ganhe bom dinheiro todas as noites. Noutra noite fomos à «Pelota basca». Foi outro «espectáculo» inédito para forasteiros como nós. E aqui, não resta dúvida, é também espectacular, por dentro e por fora, o edifício destinado a este jogo de apostas. É o «Macau Jai-Alai Palace», ou o «Palácio da Pelota Basca», uma moderna construção, de grandes proporções, situada na zona do Porto Exterior, em frente do cais dos hidroplanadores. A «Pelota basca», ou «Jai-Alai», é um jogo originário do norte de Espanha. Constitui um dos mais exaustivos e velozes exercícios e está considerado o «jogo mais rápido do mundo». Joga-se num recinto fechado de características especiais, a que em Macau chamam «Cancha», com 55 metros de comprimento, 16 metros de largura e 15 metros de altura, com duas paredes nos extremos, ligadas por uma terceira parede longitudinal, revestidas de chapas de mármore. No lado oposto, fronteiro à citada parede longitudinal, para o lado do público, está uma rede metálica, de protecção aos espectadores, permitindo-lhes, contudo, uma perfeita visão do campo de jogo. Na parte superior encontra-se instalado um quadro que exibe as apostas feitas nas diversas modalidades, os nomes dos jogadores, os resultados das partidas e os dividendos ou prémios das apostas vencedoras. O quadro exibidor do «Macau Jai-Alai Palace» é do mais moderno fabrico australiano e custou 3 milhões de patacas. Quanto ao jogo, em que se emprega uma espécie de cesta, um receptáculo encurvado e côncavo, que se adapta à mão de cada jogador para receber e devolver a bola, consiste em cada equipa lançar alternadamente a bola contra as paredes laterais, apanhada directamente ou depois do primeiro ressalto, perdendo pontos o jogador que não conseguir devolver a bola vinda do adversário, em condições regulamentares. Uma partida ganha-se pela soma dos pontos conseguidos até ao limite fixado antecipadamente. Os espectadores podem apostar em qualquer jogador ou numa equipa. E como nas corridas de cães, toda a gente vai ali para apostar. Assistir a este jogo, ou melhor, ver milhares de pessoas a assistir a sucessivas partidas de «Pelota basca», é deveras fascinante. A sala é enorme e na plateia, balcão e
VIAGEM A MACAU VASCO CALLIXTO 84 camarotes, comporta mais de 3 mil espectadores. O edifício está equipado com sistemas de ar condicionado, sonoro e luminoso, do último modelo, ouvindo-se música suave durante os intervalos. Em todos os andares há bilheteiras e pagadorias para atender os apostadores e no segundo andar funciona um excelente restaurante que serve comida chinesa e comida europeia, em ameno e confortável ambiente. Há sessões todas as noites e aos sábados e domingos começam à 1 hora e meia da tarde. A entrada neste sumptuoso «Jai-Alai Palace» custa apenas 1 pataca e, regra geral, a sala está sempre cheia ou quase cheia de entusiásticos apostadores, como estava quando ali fomos. Jogar e apostar, seja o que for e no que for, faz parte da vida de Macau.
VIAGEM A MACAU VASCO CALLIXTO 85 A PONTE MACAU-TAIPA Magnífico traço de união entre a península e as ilhas Indiscutivelmente, a grande ponte que estabelece ligação entre a península de Macau e a ilha da Taipa é o mais representativo símbolo de Macau de hoje. Empreendimento de grande vulto e projecção, que honra a engenharia portuguesa, é uma obra do mais elevado interesse para o desenvolvimento do território, nos seus múltiplos aspectos, especialmente turístico-industriais. E com a sua extensão e arrojada configuração – mercê da sua situação – enriqueceu, mais ainda, quer de dia quer de noite, a belíssima panorâmica de Macau. Quem demanda o porto, ou quem, da cidade, olha o mar, encontra na ponte um elemento harmoniosamente integrado na paisagística local. Foi esta ponte inaugurada em 5 de Outubro de 1974. Muito justamente, a ponte Macau-Taipa chama-se «Ponte Governador Nobre de Carvalho», prestando assim homenagem a quem dirigiu os destinos do território durante oito anos, de 1966 a 1974, o general José Manuel de Sousa e Faro Nobre de Carvalho, que, durante o seu duplo mandato, muito pugnou pela concretização do empreendimento, que se concluiu ainda durante a sua permanência em Macau. Outro nome, porém, ficou intimamente ligado à existência desta ponte monumental, como, aliás, se encontra ligado à existência de muitas outras pontes construídas em território nacional. É o nome do prof. engº Edgar Cardoso, autor do projecto. «Pai» da maior parte das nossas pontes, o prof. engº. Edgar Cardoso ofereceu a Macau uma das «suas» mais belas pontes. Quem hoje visita Macau pela primeira vez, não po.derá imaginar Macau sem a ponte Macau-Taipa. Antes da construção da ponte, as ilhas das Taipa e de Coloane viviam num semi-isolamento. Eram duas parcelas do território que as águas separavam da cidade, onde pouca gente vivia e onde pouca gente ia. Há pessoas que viveram uma dúzia de anos em Macau e mais, e nunca foram às ilhas. É certo que havia ligações marítimas, como ainda hoje há, para a Taipa e para Coloane, a partir do Porto Interior. Mas além de se perder um ror de tempo na travessia, estava-se sempre sujeito aos períodos das marés. E actualmente, só há duas carreiras por dia para a Taipa, uma de manhã e outra à tarde. A ponte, elo de ligação fácil e cómodo entre as duas partes do território, constituiu, pois, o melhor prémio que se poderia oferecer, quer às ilhas quer à
VIAGEM A MACAU VASCO CALLIXTO 86 cidade. E muito embora a cidade reúna condições excepcionais, sob todos os aspectos, para atrair o turista, não resta dúvida de que as ilhas, agora ligadas à península, oferecem um excelente campo de acção para o desenvolvimento turístico de Macau. Não só desenvolvimento turístico, mas também desenvolvimento industrial, que já não se pode operar na cidade, que está «cheia». Ligadas em 1968 as ilhas da Taipa e de Coloane por um istmo artificial – outra obra notável concluída durante o mandato do Governador Nobre de Carvalho – a ponte Macau-Taipa deu continuidade geográfica ao território de Macau, deixando livre passagem para a navegação. Apontada do ângulo da Avenida da Amizade, em Macau, à costa da ilha da Taipa, tem a ponte uma extensão total de quase 3 quilómetros e meio, 3450 metros, podendo referir-se, como termo de comparação, que tem mais 1173 metros do que a ponte sobre o Tejo em Lisboa. Ponte Macau-Taipa — faixas de rodagem que o presente oferece ao futuro. Ao fundo, a cidade moderna A obra-de-arte, no seu conjunto, apresenta, do lado de Macau, um aterro, encontro e pilar que totalizam 126 metros, e um viaduto com 282 metros, enquanto do lado da Taipa o aterro, encontro e pilar se prolongam por 791 metros, tendo o viaduto deste lado 1038 metros. A ponte propriamente dita perfaz 1213 metros. É constituída por uma estrutura contínua de betão armado, com um vão central de 73 metros e comprimento, deixando livre uma altura de 27 a 34 metros acima da máxima praia-mar.
VIAGEM A MACAU VASCO CALLIXTO 87 Este vão central é em betão pré-esforçado. Os viadutos de acesso têm uma estrutura análoga à da ponte, com vãos de 18 metros, para passagem de pequenas embarcações. O viaduto do lado de Macau apresenta uma pequena rampa e o viaduto do lado da Taipa tem igualmente uma inclinação em toda a sua extensão ascendente no sentido Taipa-Macau. Os pilares-encontros de betão armado, aos quais o tabuleiro da ponte está «amarrado», foram dimensionados para suportarem todas as solicitações horizontais mais desfavoráveis que se desenvolvam em todo o tabuleiro, particularmente as forças horizontais longitudinais de origem sísmica. As estacas de fundação são de betão armado e tubulares metálicas, cravadas a pilão, de modo a atingirem as camadas consistentes, havendo algumas de comprimento superior a 25 metros. Satisfazendo aos condicionamentos próprios da moderna circulação rodoviária, com trainéis de inclinação perfeitamente aceitável e devidamente concordados e permitindo a passagem franca de toda a espécie de navegação, dispõe a ponte Macau-Taipa de duas vias de rodagem, uma para cada sentido, com largura de 2 x 3,60 metros, ladeadas por passeios sobrelevados de 0,80 metros úteis. A beleza da obra-de-arte demonstra bem que o aspecto estético foi igualmente considerado pelos técnicos. Integrada harmoniosamente, como já foi dito, na paisagística local, é agora o maior atractivo que se oferece a quem chega a Macau. E se, de dia, a ponte prende as atenções gerais, de noite constitui um autêntico fascínio, com o conjunto de luzes dos seus candeeiros a definirem-lhe, em toda a sua extensão, numa curva graciosa, a sua parte superior, ao mesmo tempo que a escuridão fica cortada por linhas verticais, resultante da iluminação dos pilares. «Construída por Ho Yin e Empresa de Engenharia de Macau, Lda.» - como se lê numa placa existente no extremo da ponte, do lado de Macau, na qual figuram também a data da inauguração e o nome que foi dado à obra – o custo da ponte Macau-Taipa foi de cerca de 45 milhões de patacas (400 mil contos ao câmbio actual). A portagem, para os carros ligeiros, é de 5 patacas (45$00), ida e volta, só se cobrando no sentido Taipa-Macau. Este notável empreendimento foi em 1973 definido pelo General Nobre de Carvalho: «Para toda a população portuguesa e chinesa, a ponte Macau-Taipa é bem um símbolo do Futuro de Macau». Esse «Futuro» é hoje um concreto Presente.
VIAGEM A MACAU VASCO CALLIXTO 88 TAIPA E COLOANE – PROLONGAMENTO DE MACAU Dois domingos nas ilhas e uma festa tipicamente portuguesa no «outro Lado do Mundo» - o S. Martinho Uma primeira «volta» de 50 quilómetros no «Audi», levou-nos a conhecer a Taipa e Coloane, as duas ilhas que prolongam Macau. Foi num domingo, quando os macaenses que procuram fugir ao bulício da cidade, para ali vão também, passar uns agradáveis momentos de repouso em tão belos e atraentes paraísos turísticos, que agora estão a desabrochar no firmamento do turismo do território, como elementos de incontestável valia que são. E, por sinal, voltámos casualmente às ilhas noutro domingo, em segunda digressão pelas praias e campos de Macau. Uma terceira deslocação, nocturna, foi para participarmos, em Coloane, numa festa tipicamente portuguesa, a noite de S. Martinho. Como já foi referido em capítulo anterior, estas ilhas são fracamente povoadas e a Taipa é mais pequena do que a península de Macau, tendo apenas 3,478 km2 de superfície, enquanto Coloane tem quase o dobro, 6,615 km2, embora seja a de menor população. Mas desde que se abriu à circulação automóvel a ponte Macau-Taipa, o progresso e o desenvolvimento, em todos os campos, estão ali a assentar arraiais, como bem se patenteia ao visitante, que logo encontra nas modernas e bem traçadas estradas das ilhas um flagrante testemunho do arranque que o presente está a oferecer ao futuro. Cemitério chinês da Taipa
VIAGEM A MACAU VASCO CALLIXTO 89 São a Taipa e Coloane ilhas bastante acidentadas e arborizadas e com magníficas e apetecíveis praias. A Taipa é formada por duas antigas ilhas, que se chamaram Taipa Grande e Taipa Pequena. De terrenos conquistados ao mar, resultou, porém, a ligação dessas duas ilhas e a formação de uma só ilha. Os seus pontos mais altos alcançam 113 e 161 metros, enquanto Coloane, com um pico de 173 metros, possui a maior altitude do território de Macau. As costas das suas ilhas, em certos pontos, são abruptas e há riachos ocasionais. Na Taipa esteve noutros tempos instalado um posto da alfândega chinesa, para controle dos barcos que se dirigiam à China, através de Macau. * * * Em marcha lenta, para melhor podermos apreciar uma bela paisagem e uma admirável obra-de-arte, atravessámos a ponte Macau-Taipa. Do meio da ponte, as panorâmicas de Macau constituem autênticas maravilhas paisagísticas. Seja o centro da cidade, com os seus modernos edifícios da beira-mar e a verdejante colina da Guia por trás deles, sejam as colinas da Barra e da Penha, com as altas serranias da China como pano de fundo, seja ainda o belo espectáculo de mar e ilhas que para o lado contrário se contempla, tudo isto é um desbobinar de paisagens de um fascínio extraordinário. Uma vez chegados à Taipa, paradoxalmente, a primeira visita que fizemos foi a um cemitério. Mas a um cemitério que é um verdadeiro atractivo turístico, pelo aparato e magnificência das figuras e das construções que o ornamentam, como também pela sua excepcional situação. É o «Cemitério Chinês da Associação Unida Confucionista, Budista e Tauista», recentemente construído na costa norte da ilha, voltado para Macau, num local em pronunciado declive. Com estrada de acesso a partir da estrada principal, este cemitério é dominado por uma enorme figura de um Buda, de manto amarelo e
VIAGEM A MACAU VASCO CALLIXTO 90 grandes barbas brancas. Tudo o mais, portas, alpendres, parapeitos, escadarias, tudo é caracteristicamente chinês, tudo parece feito, mais para agradar aos vivos do que aos mortos. A estrada da ilha levou-nos depois à vila da Taipa, na outra costa, mas a pouco mais de 2 km de distância. É uma povoação de aspecto tranquilo e piscatório, com fábricas de «panchões» e estaleiros de construção e reparação de barcos chineses, dois ou três templos chineses, uma igreja portuguesa e, junto da esquadra da Polícia, na área do porto, um agradável jardim público, debruçado para o mar. Saímos da vila da Taipa e logo chegámos ao istmo artificial que estabelece ligação com Coloane. Tem este istmo artificial 2,150 km de extensão e 7,20 metros de plataforma de rodagem e, numa placa ali existente, é dado a saber que «Aos 26 de Maio de 1968 foi esta estrada de ligação Taipa-Coloane solenemente inaugurada por Sua Excelência o Governador da Província, brigadeiro José Manuel Nobre de Carvalho». Foi, realmente, uma importante obra, que permitiu uma maior aproximação entre as duas ilhas, sendo agora o indispensável complemento da ponte Macau-Taipa. Em Coloane, visitámos primeiro a região nordeste da ilha, onde se situa uma povoação hoje chamada Vila de Nossa Senhora, no local onde existiu uma antiga leprosaria. Numa área ajardinada, muito bem cuidada, ergue-se aí uma bonita e moderna igreja. No regresso desta região, conhecemos a primeira praia de Coloane, por sinal, talvez a menos frequentada. Fomos à praia de Ká Ho, junto da Central Térmica. É uma praia em «concha», com bastantes rochedos e arvoredo até às areias, uma praia agradável, que estava deserta, por volta do meio dia de um óptimo domingo de sol de Novembro. Ká Ho é a pequena povoação próxima, que dá o nome à praia. Pela mesma estrada do interior da ilha, pelo chamado «Vale dos Piratas», muito arborizado, voltámos à estrada do litoral sudoeste, uma bela estrada marginal que nos levou à vila de Coloane. Foram apenas 5 quilómetros. Coloane é uma povoação muito pitoresca, com uma feição meio chinesa, meio portuguesa, que se situa à beira-mar, frente a águas e terras da China, ali se vendo, no seu pequeno porto, os característicos barcos chineses, como se viam também, homens e mulheres, entregues a trabalhos preparatórios da faina piscatória. Mas além do atractivo desta sua feição, Coloane tem também outros motivos de interesse.
VIAGEM A MACAU VASCO CALLIXTO 91 Ao fundo de um pequeno largo ajardinado, o Jardim Eduardo Marques, que dá para a avenida marginal, uma espaçosa artéria que é a melhor da povoação, encontra-se a bonita igreja de S. Francisco Xavier, construída em 1928. Ali nos recebeu, com extrema cortesia, o missionário italiano Frei Mário, da Missão do grande Apóstolo do Oriente, que naquela igreja tem a sua sede. Frei Mário, um simpático e idoso sacerdote, de barbas e cabelos brancos, há muito radicado em terras orientais, com todo o orgulho de zeloso guardião, mostrou-nos então o «Precioso Tesouro» depositado em Coloane, diversas caixas contendo relíquias de mártires do Japão e do Vietname, do século XVII, que depois de terem permanecido na Sé de Macau, foram transportadas em 1976 para este pequeno templo. Igreja de S. Francisco Xavier, em Coloane, e monumento comemorativo dos combates contra os piratas, em 1910 Em frente da igreja de S. Francisco Xavier ergue-se um monumento evocativo dos «Combates de Coloane», em 12 e 13 de Julho de 1910, como se lê numa placa ali existente. Estes combates foram travados entre as tropas portuguesas de Macau e um grande número de piratas chineses que se tinham instalado em Coloane e aí tinham raptado homens, mulheres e crianças, exigindo depois avultados resgates. Sem ter sido necessário aceitar o auxílio, em homens e material, que o Governo Chinês oferecera, as tropas portuguesas, sob a orientação do governador Eduardo Marques, após renhidos combates, derrotaram completamente os aguerridos piratas, muitos dos quais foram aprisionados e condenados a degredo em Moçambique, sendo libertados os reféns.
VIAGEM A MACAU VASCO CALLIXTO 92 Portugal obteve assim uma expressiva vitória militar e, também, uma vitória política, uma vez que, com a acção das nossas tropas sobre os piratas, consolidou-se a soberania portuguesa nesta ilha. Um terceiro motivo de interesse da vila de Coloane é o templo chinês de Tam Chim (Kung), que se encontra ao fundo da avenida marginal, junto de uma antiga pousada. Mereceu, claro está, a nossa visita, embora seja mais modesto do que outros já visitados. Templo chinês na vila de Coloane Saímos da vila por um troço de estrada que se desenvolve pelo interior, sempre com o arvoredo e acompanhar-nos, vencemos uma encosta e em cinco minutos chegámos à primeira praia de Macau, a praia de Cheoc Van, sobre a qual se debruça, em magnífica posição cimeira, a Pousada de Coloane. Com mais um restaurante, em plano inferior, esta praia, de boa e convidativa areia, situa-se numa abrigada enseada e é a praia preferida por uma grande parte da população de Macau, que ali encontra um excelente local de bem-estar e repouso. A Pousada é um moderno estabelecimento hoteleiro, com uma varanda-terraço de onde se contempla uma fascinante panorâmica de mar e terra, com as ilhas chinesas ao fundo. Restará referir a praia mais vasta e de frequência mais popular, a praia de Hac Sá, na costa leste de Coloane, servida por uma boa estrada. É uma praia de areia negra, de grande extensão, ao longo de uma bonita baía. Sobre a praia há uma agradável área
VIAGEM A MACAU VASCO CALLIXTO 93 arborizada e junto aos parques de estacionamento estão instaladas modestas casas de comidas, que servem diversas espécies da tradicional comida chinesa. Foi uma delas que almoçámos . . . nem sabemos bem o quê! É nesta ilha, de grande valia para o turismo, mercê das suas belezas naturais, que está projectada a construção de um grande e moderno complexo turístico, compreendendo um hotel de luxo com 250 quartos, dois clubes, campos de golf, etc. * * * Porque, em Macau, as ilhas «chamam» pelo visitante, principalmente quando se dispõe de automóvel, voltámos às ilhas, por sinal, como já foi dito, noutro domingo. Foi então uma «volta» diferente, embora mais ou menos com o mesmo percurso, pois outro não se oferece ao automobilista. Já não fomos descobrir as ilhas, mas sim, «viver» melhor certos sítios, que são, na verdade, autênticos paraísos turísticos. A praia de Hac Sá, em Coloane, numa imagem que também permite apreciar a excelência das estradas do território Foi assim, depois de termos voltado a apreciar o interesse piscatório das duas vilas das ilhas, e após uma nova visita a Hac Sá, que passámos uma tarde agradabilíssima na Pousada de Coloane. Ali almoçámos (por 37 patacas – 310$00), ali estivemos
VIAGEM A MACAU VASCO CALLIXTO 94 maravilhados com o encanto da paisagem circundante, tomámos café com amigos nossos e amigos desses nossos amigos que também ali estiveram, e acabámos por ficar em amigável conversação com o sr. Governador e sua esposa. E tanto o sr. Coronel Garcia Leandro como a sra. D. Maria da Graça Leandro, revelaram-se-nos de uma extrema simpatia e de grande simplicidade. Naturalmente, Macau, sob diversos aspectos, foi o tema dominante da conversação. Despedimo-nos da Taipa e de Coloane, mais propriamente de Coloane, na noite de S. Marinho, na companhia de muitos outros portugueses, todos num portuguesíssimo ambiente, numa festa tipicamente portuguesa. E tudo isto nas lonjuras do «outro lado do Mundo», na Pousada de Coloane, em Macau. A «Grande Noite de S. Marinho» foi organizada por uma Comissão para o efeito constituída (de que Carlos Silva foi um dos mais dinâmicos elementos), que contou com a colaboração e o patrocínio do Centro de Informação e Turismo, da Agência de Viagens «Turismo Macau» e outras entidades oficiais e particulares. Anunciando uma ementa de «caldo verde, chouriço assado à lavrador, leitão à Bairrada, frango de churrasco, febras à Pélé, castanhas assadas à Polidor, vinho tinto e branco da região demarcada da Taipa e Coloane» e variedades com «danças regionais portuguesas, músicas populares portuguesas por um afamado conjunto de cordas, fados e guitarradas por consagrados artistas da canção nacional», além de proporcionar transporte gratuito em autocarro, de Macau para a Pousada de Coloane, esta festa reuniu centenas de portugueses, entre os quais o governador Garcia Leandro e sua esposa. E a Comissão Organizadora não deixou de aconselhar a cada um: «Esqueça a flutuação do escudo e divirta-se na Grande Noite de S. Martinho». Realmente, toda a gente se divertiu . . . embora tenha havido um certo «desastre» enquanto foram servidos os petiscos! Melhor será dizer, enquanto cada um serviu a si próprio os petiscos, pois com tanta gente e perante a demora que se verificava, começaram as «corridas» para a cozinha e de lá passaram os mais apressados a trazer os pratos cheios. Mas tudo se processou com alegria e boa disposição. E quando acabou a comida, começou a música: Tuna Macaense, Rancho Folclórico Portas do Sol, fados por Milá Tavares da Silva, Ruby Maria, inspector Manuel Araújo, Carlos Silva e Madalena Marques Ferreira. Por fim, extra-programa, também foi cantado «O Malhão», pelo dr. Minhós Reis, e o «Fado Monetário», pelo Director do Banco Nacional Ultramarino, Abílio Dengucho. Esta noite de S. Martinho vivida em Macau foi, sem dúvida, uma noite bem portuguesa.
VIAGEM A MACAU VASCO CALLIXTO 95 UMA CONFERÊNCIA EM MACAU «O que eu vi de Portugal no Mundo» e as primeiras viagens aéreas Lisboa-Macau «É esta a minha primeira visita a Macau. E não estou aqui de passagem para qualquer outro lado. Percorri, precisamente, 15187 quilómetros de avião desde Lisboa, para vir conhecer esta tão antiga terra luso-chinesa. E o meu propósito não foi somente conhecer Macau e guardar para mim esse conhecimento. Vim conhecer Macau, para dar a conhecer Macau aos portugueses – a velha e a nova Macau – através de crónicas, de uma exposição de fotografias e de um novo livro. Depois de ter visitado algumas partes do mundo – bem pouco, afinal – onde sempre, com infinito prazer, procurei e encontrei as mais significativas presenças do nosso querido Portugal, foi com viva emoção que desembarquei em Macau. Porquê? Será preciso dizer porquê? Qual o português, que sente orgulho em ser português, que não se emociona, ao encontrar, cá tão longe, este pequeno território onde a alma lusíada está tão fortemente enraizada? Quem não se emocionar ao pisar este solo, que nos é familiar desde os bancos da escola, não será certamente um bom português! Todos os portugueses que viajam, deviam vir conhecer Macau!» Foi com estas palavras que iniciei uma conferência que proferi em Macau com o patrocínio do Centro de Informação e Turismo local, e se realizou no dia 14 de Novembro de 1977, às 21,30 horas, no Salão do Centro de Relações Económicas, amavelmente cedido para o efeito. O tema abordado foi «O que eu vi de Portugal no Mundo». Antes, porém, desenvolvi um preâmbulo aeronáutico, sobre as duas viagens aéreas Lisboa-Macau, levadas a efeito por aviadores portugueses, nos tempos heróicos do pioneirismo da nossa Aviação. Dignaram-se assistir a esta conferência o Governador de Macau, coronel Garcia Leandro, o Director do Centro de Informação e Turismo, dr. Jorge Rangel, o Director do Centro de Relações Económicas, engº Eduardo Tavares da Silva, o prof. Dr. Almerindo Lessa, que se encontrava igualmente de visita a Macau, e outras entidades locais, além – e muito gostosamente o registo – dos nossos companheiros de viagem. Nas paredes e em escaparates, estiveram expostos um cartaz com as reproduções das capas dos meus livros de viagens, alguns desses livros, a revista «Rodoviária», que dirijo, o meu opúsculo sobre a história da aviação na Amadora, o mapa ilustrado da 1ª viagem aérea Lisboa-Macau e o programa das comemorações do seu 50º aniversário, e o programa da viagem da «Meliá», em que fomos integrados.
VIAGEM A MACAU VASCO CALLIXTO 96 Depois de revelar à assistência a minha satisfação por ter contribuído para que, em Abril de 1974, a Câmara Municipal de Oeiras comemorasse na Amadora o 50º aniversário da gloriosa viagem aérea Lisboa-Macau, efectuada em 1924 por Brito Paes, Sarmento de Beires e Manuel Gouveia, foi com prazer e orgulho que li uma mensagem de que fui portador, dirigida à população de Macau pelo major Humberto da Cruz, o primeiro aviador português que aterrou em Macau, em 1934, no seu regresso de Timor, durante a mais longa cavalgada heróica da Aviação Portuguesa: «Peço-lhe que leve consigo para Macau a minha saudade por essa terra que nunca esquecerei. O acolhimento que me dispensaram é valor espiritual e sentimental que se radica na nossa gratidão. Muitos ainda o poderão recordar, muitos dos ainda vivos, que oxalá muitos sejam. Para todos, vão as minhas recordações de alegres e luminosos dias que passei em Macau, acolhido pelo carinho da sua boa gente, no regresso da minha caminhada aérea de Timor para Lisboa». Entrando seguidamente no tema anunciado, relatei o meu «encontro» com quantas presenças de Portugal no Mundo se me depararam no decurso das viagens que tenho realizado, na Europa, em África e na América do Norte. Desde um busto de Camões em Vigo e o túmulo do nosso rei D. Sancho II na catedral de Toledo, todas as «presenças» portuguesas encontradas, foram reveladas: as ruas de diversas cidades estrangeiras com nomes de Portugal, de vultos da nossa História e de cidades do nosso País; o Instituto de Santo António dos Portugueses, em Roma, e a Basílica de Santo António em Pádua; o monumento ao Soldado Português, em La Couture e o Cemitério Militar Português, próximo de Lille, no norte de França; a estátua de Vasco da Gama, em Hamburgo; o túmulo do rei D. Miguel, que então se encontrava num mosteiro do vale do Meno, na Alemanha, o castelo de Sigmaringen, onde casou o rei D. Manuel II, e o castelo Hohenzollern, onde se revela ao visitante a presença da princesa D. Leonor, filha de D. Duarte, que foi imperatriz da Alemanha; dois velhos canhões portugueses que estão na Torre de Londres, um dos quais feito em Macau; retratos de D. Catarina de Bragança, que foi rainha de Inglaterra, no castelo de Windsor; um monumento ao Duque de Wellington, em Dublin, nele estando inscritos os nomes das batalhas travadas em Portugal por aquele cabo de guerra; e, na Holanda, uma povoação chamada «Poortugaal». Passando a África, desbobinei à assistência toda a minha deambulação por terras marroquinas, onde as imagens de Portugal de Quinhentos se encontram ao longo de toda a costa atlântica. E os testemunhos vivos da presença lusa, as velhas fortalezas ali erguidas pelos portugueses de antanho, foram apontadas; Ceuta, Arzila, Mazagão, que se orgulha da sua «Cité Portugaise», Safi, Mogador e Agadir. Depois foi o relato por terras da África do Sul: a histórica baía de Santa Helena, com um monumento a Vasco da Gama;
VIAGEM A MACAU VASCO CALLIXTO 97 Saldanha, a vila marinheira que conserva o nome do navegador António de Saldanha; o emotivo Cabo da Boa Esperança, com monumentos a Bartolomeu Dias e a Vasco da Gama; a presença destes e de outros navegadores portugueses em museus da Cidade do Cabo; a histórica e significativa «Árvore do Correio», o monumento que se ergueu junto dela e uma réplica de um Padrão português, em Mossel Bay, a antiga Aguada de S. Brás; uma réplica de outro Padrão na praça principal de Port Elizabeth; retratos, desenhos, dados biográficos e mapas relativos ao «Período Português», em museus de Pretória. Sobre a minha viagem por uma pequena parcela dos Estados Unidos da América e do Canadá, dei a saber como me senti em Nova Bedford como se estivesse em Portugal, numa região onde 60% da população é de origem portuguesa; e como assisti com emoção, em Bristol, no Estado de Rhode Island, ao desfile do «4 de Julho», comemorativo da independência dos Estados Unidos, vendo nesse desfile carros alegóricos portugueses, bandas de música portuguesas, e a bandeira portuguesa. Mas mais me alonguei ainda, quando relatei a minha visita ao histórico «Rochedo de Dighton», próximo de Fall River, o glorioso testemunho da presença dos heróicos navegadores portugueses, dos irmãos Corte Real, em terras da América, testemunho esse que já levou os historiadores a considerar Miguel Corte Real o descobridor dos Estados Unidos. E ainda quando à América, concluí com a descrição das minhas visitas ao Santuário de Nossa Senhora de Fátima, em Niagara, e a uma pequena povoação rural com o nome de «Lisbon», em Maryland. Terminei a minha palestra com uma referência à forma acolhedora como sempre fui recebido em toda a parte, nomeadamente, na Finlândia, pelo Grupo «Amigos de Portugal», e manifestei a minha imensa satisfação por contar, nos meus arquivos de viagem, com mais uma notabilíssima presença de Portugal no Mundo: Macau! No final da conferência, o Governador de Macau mostrou-se interessado pelo que havia revelado sobre a 1ª viagem aérea Lisboa-Macau e admitiu a hipótese de o Governo do território vir a emitir uma medalha comemorativa do seu 50º aniversário, embora com um atraso de quatro anos. Esta troca de impressões levou-me a lembrar que Macau deveria também erguer um monumento alusivo às duas viagens aéreas de aviadores portugueses a Macau e, sobre o tema que desenvolvi, o coronel Garcia Leandro lembrou que a presença de Portugal na Ásia é tanto ou ainda mais notória, indicando factos concretos que a sua experiência já o levou a constatar, da influência de Portugal na Malásia, Tailândia, Índia, Singapura, Filipinas, China e Japão, aconselhando-me, portanto a visitar essas regiões.
VIAGEM A MACAU VASCO CALLIXTO 98 O «GRANDE PRÉMIO DE MACAU» A «Feira Musical – Macau 77» No fim-de-semana de 19-20 de Novembro assistimos em Macau à sua «festa» maior de desporto e turismo: disputou-se o Grande Prémio de Macau, a mais famosa corrida de automóveis que se realiza no Oriente. Foi o 24º Grande Prémio. E Macau, como todos os anos, «encheu-se», transbordou de uma multidão vinda de todos os pontos das vizinhanças, desde Hong Kong, de onde vêm autênticas legiões de entusiastas, das Filipinas e do Sudeste Asiático, ao Japão à Austrália, vindo até gente da América. Além disso, assentou ali arraiais todo o imenso «estado maior» que acompanha as equipas concorrentes, com pilotos e carros, técnicos e mecânicos, dirigentes, jornalistas, fotógrafos, cineastas, etc. Sendo o mais importante acontecimento desportivo que tem lugar no território, o Grande Prémio é, realmente, o mais propagandeado e benéfico cartaz turístico de Macau. Honra seja feita ao desporto motorizado, que assim serve da melhor forma o turismo.
VIAGEM A MACAU VASCO CALLIXTO 99 Vinte e três anos separam estas duas imagens. Na página anterior, os carros de hoje, na linha de partida para o Grande Prémio de Macau-1977; em baixo, o vencedor do I Grande Prémio, em 1954 (Eduardo Carvalho), corta a meta isolado Disputam-se as corridas de Macau no «circuito» da Guia, um «circuito» maravilhosamente traçado através da encosta sul da colina da Guia e da área baixa que lhe é fronteira e se debruça para o mar. É um cenário magnífico! E sob o ponto de vista desportivo, o Circuito da Guia é considerado «o circuito do verdadeiro condutor», sendo actualmente o Grande Prémio de Macau e o Grande Prémio de Mónaco os únicos «Grandes Prémios» do mundo que se realizam nas vias públicas. Todos os anos, nos dias das corridas, desde 5ª feira, quando começam os treinos, até domingo, os milhares de forasteiros e uma grande parte da população «correm» para o Circuito da Guia, atraídos pelo fascínio diabólico dos automóveis e das motos em competição. Foi em 1954 que um grupo de entusiastas pelo automobilismo «lançou» o Grande Prémio de Macau. E entre esses entusiastas, justo será destacar o dr. Carlos Humberto da Silva, Fernando Macedo Pinto, dr. António Nolasco da Silva, Júlio Augusto da Cruz e João Pires Antas, aos quais se juntou um experiente grupo de Hong Kong, encabeçado por Paul du Toit, que já organizara diversos ralis naquela colónia britânica. O circuito da Guia logo foi considerado excelente, o Governo de Macau, sendo Governador o almirante Marques Esparteiro, acolheu da melhor maneira a iniciativa e o Automóvel Club de Portugal logo prestou também a sua indispensável colaboração, vindo o Grande Prémio de Macau a ser corrido sempre sob a égide do A.C.P., através do qual veio a ser reconhecido oficialmente pela Federação Internacional de Automobilismo.
VIAGEM A MACAU VASCO CALLIXTO 100 Disputada em 1954 a primeira corrida, nunca mais, desde então, se deixou de disputar o Grande Prémio de Macau. E foi um português de Hong Kong, Eduardo de Carvalho, agora radicado na Austrália, o vencedor do I Grande Prémio, num «Triumph TR2», enquanto Paul du Toit e Reginaldo da Rocha se classificaram, respectivamente, em 2º e 3º lugar. Pouco a pouco começaram a afluir corredores de Hong Kong, a maior parte, de Singapura, Malásia, Tailândia, Filipinas, Japão e Austrália e até alguns da Europa, firmando-se rapidamente o Grande Prémio de Macau na panorâmica desportiva do Oriente. Os automobilistas de Macau, porém, cedo deixaram de competir com os estrangeiros na corrida principal, no Grande Prémio propriamente dito, limitando-se participar nas corridas complementares e, mesmo nestas, com escasso número de presenças e sempre sem grandes aspirações. Lopes da Costa e Fernando Macedo Pinto foram os que obtiveram melhores classificações no Grande Prémio, em 1956, com um 2º e 3º lugar, respectivamente. Quanto a portugueses metropolitanos, somente se registou uma única presença, a de Filipe Nogueira, que, todavia, não foi feliz, por ter sido obrigado a desistir logo nas primeiras voltas. Com três corridas de automóveis e três corridas de motos, antecedidas de eliminatórias, o XXIV Grande Prémio de Macau constituiu uma excelente jornada de desporto motorizado, que decorreu da melhor forma, sob organização do Leal Senado. O italiano Ricardo Patrese, em «Chevron» (actualmente em piloto de Fórmula 1), foi o magnífico vencedor do Grande Prémio. Realizando uma prova brilhantíssima, impôs-se a todos os seus adversários, muitos dos quais já com créditos firmados em Macau, enquanto ele ali correu pela primeira vez, para conquistar também uma das primeiras vitórias da sua carreira. Tendo colidido com Alan Jones na 2ª volta, colisão que levou este à desistência, Patrese «desapareceu» dos postos dianteiros, mas mercê de uma recuperação fantástica firmou-se no 1º lugar à 15ª volta e não mais deixou o comando, vindo a ser o único concorrente que completou as 40 voltas. O neo-zelandês Steve Millen, em «Chevron» também, foi o 2º classificado. Deverá referir-se que, entre os espectadores, figurava um conhecido piloto das grandes jornadas mundiais de Fórmula 1, o suiço Clay Regazzoni, um dos menos jovens, pois conta cerca de 40 anos. Com ele tivemos ensejo de trocar algumas impressões, afirmando-nos Regazzoni que considerava o Circuito da Guia um belíssimo circuito. Quanto a correr em Portugal, não admitiu a concretização de tal hipótese, por não se disputarem em Portugal corridas de Fórmula 1.
VIAGEM A MACAU VASCO CALLIXTO 101 Com o piloto italiano Ricardo Patrese, vencedor do XXIV Grande Prémio de Macau Na prova «Guia 200» (200 milhas no Circuito da Guia) triunfou um piloto de Hong Kong, Peter Chow, em «Celica», registando-se nesta corrida a presença de um português de Macau, Fernando Lúcio, que completou apenas 18 das 40 voltas. A terceira prova de automóveis foi o «Troféu ACP», ganho por Pierre Lo, em «BMW 2002, T II», em que também participou um macaense, Loureiro Francisco, que abandonou à 7ª volta. O Grande Prémio de Motos foi o XI da série e, com 36 concorrentes, «pertenceu» inteiramente a um piloto, o inglês Mick Grant, em «Kawasaki 750», que se manteve no 1º lugar da primeira à última volta. Sempre firme no comando, a actuação desde piloto causou verdadeiros arrepios à assistência, pela forma como executava as curvas e a velocidade vertiginosa com que passava em frente do público. Homem e máquina formavam um conjunto fantástico. As duas restantes corridas de motos destinaram-se a «juniores» e a «seniores» e constituíram ambas um êxito para a «Yamaha» que, em ambas as provas, conquistou os três primeiros lugares. Na noite de domingo, no «auditorium» de Santa Rosa de Lima - com entrada livre e uma sala cheia – procedeu-se à distribuição dos prémios, a que se seguiu um jantar
VIAGEM A MACAU VASCO CALLIXTO 102 volante no restaurante «Riviera», à beira-mar, na Avenida da Amizade, assim se encerrando esta excelente jornada internacional de desporto motorizado vivida em Macau. * * * Durante a semana do Grande Prémio, decorreu em Macau a «Feira Musical – Macau 77», a cuja inauguração assistimos, ao fim da tarde de segunda-feira 14 de Novembro, prolongando-se até domingo. Instalada no centro da cidade, no Jardim de S. Francisco, ocupando quase toda a sua área, constituiu um êxito, como agradável complemento de diversão para os milhares de visitantes que as corridas levaram a Macau e, também, para a população local. Contando numerosas barracas de petiscos, portugueses e chineses, os apreciados manjares da cozinha macaense e tradicionais guloseimas, a «Feira Musical» foi também um elucidativo mostruário de produtos de Portugal e de Macau, tendo o comércio local apresentado ao público a indústria que em Macau se tem desenvolvido. A Tuna Macaense e os seus vocalistas, as danças folclóricas, portuguesas e chinesas, e o teatro chinês, com uma sessão diária de «Ópera Chinesa», davam uma nova de viva alegria a par da feérica iluminação do recinto. Na churrasqueira, os visitantes encontravam os mais apetecíveis assados, que acompanhavam com bom vinho português, servido da torneira, ao natural ou gelado. Passámos, realmente, um fim de dia agradável nesta simpática «Feira» luso-chinesa. E, com os nossos companheiros de viagem, foi na barraca do «Tico-Tacho» que mais tempo nos detivemos, saboreando os «petiscos» da «comesaina di Macau». No dia seguinte, assistimos também ao Concerto dos «Pequenos Cantores» do Colégio de D. Bosco, no ginásio da Escola Comercial Pedro Nolasco, que comemorava o seu 99º aniversário, manifestação que se integrava no programa das festas. Este grupo de «Pequenos Cantores» já adquiriu foros de internacional, pois já se deslocou ao Japão e às Filipinas, além de ter actuado por diversas vezes em Hong Kong. As peças do bem elaborado e variado reportório foram apresentadas pelo Revdº Pedro António Teixeira Águeda, Director do Colégio de D. Bosco, que nas breves introduções fez a aplicação da natureza literário-musical das peças à História, vida e sentimentos do Povo Português. Muito aplaudidos, os «Pequenos Cantores» brindaram no final a assistência com mais duas peças extra-programa.
VIAGEM A MACAU VASCO CALLIXTO 103 DESPEDIDA DE MACAU Voltaremos um dia . . . para atravessar a «Porta do Cerco» ? Durante três dias, após o fim-de-semana do Grande Prémio, andámos a dizer adeus a Macau. A estadia de 21 dias estava a terminar; o dia da partida aproximava-se. Naturalmente, impressionara-nos bastante a trágica catástrofe aérea que ocorrera na Madeira com um «Boeing» da TAP, da qual tivemos conhecimento através da rádio, quando nos encontrávamos nas corridas, dando depois o jornal local mais algumas informações, além de a televisão de Hong Kong ter igualmente noticiado o acontecimento e dado imagens do desastre. Pensámos, claro está, no nosso regresso, na longa viagem aérea que íamos outra vez realizar. Confiámos, porém, que uma «boa estrela» nos continuasse a acompanhar, agora no sentido Oriente-Ocidente. A pé e no «Audi», percorremos artérias e áreas de Macau que já nos eram familiares . . . bem como o trânsito pela esquerda e as mudanças à esquerda! A Avenida da Amizade, o Largo do Senado e a Avenida Almeida Ribeiro foram «passeadas» diversas vezes e uma última vez subimos ao Farol da Guia, para vermos e ouvirmos CR9AJ estabelecer um último contacto com Portugal e com a Amadora. As lojas, quer da baixa macaense, quer das pitorescas e sempre atraentes ruas «chinesas», sem esquecer o já tão nosso conhecido «Pataca», receberam mais algumas nossas visitas e mais umas tantas patacas lá ficaram. Na Biblioteca Nacional do Leal Senado, consultámos algumas obras e jornais antigos, enter os quais os de 1924 e 1934, que noticiaram desenvolvidamente as viagens aéreas a Macau, realizadas naqueles anos. Fomos uma vez ao cinema, ao «Nam Van», mesmo ali ao pé do Hotel Sintra, por sinal o cinema de maior lotação, com 1603 lugares, enquanto a lotação dos restantes seis cinemas de Macau varia entre 869 e 1342 lugares. Quanto ao filme, «A Super-Mulher Polícia», um filme de acção e aventuras, será «curioso» referir que se tratava de um filme italiano, falado em inglês, com legendas em chinês. Também muito «curioso», o facto de se verem no cinema mulheres com os filhos pequenos escarranchados às costas, sentadas nas cadeiras, sem, evidentemente, se encostarem. Um bilhete de balcão custou 4 patacas e meia (38$00). Na ante-véspera da partida, o «Audi», que tão excelente serviço nos prestara, foi devolvido ao sr. Frederico Nolasco com um «cortejo» de agradecimentos.
VIAGEM A MACAU VASCO CALLIXTO 104 Quis o sr. Governador de Macau obsequiar-nos, a nós e aos nossos companheiros de viagem, com um almoço de despedida, que se realizou na «Pousada de Macau», no último dia da nossa estadia. Além do sr. Coronel Garcia Leandro e esposa, compareceram também o dr. Jorge Rangel e o capitão Caldeira e esposa, servindo este almoço de pretexto para uma agradável troca de impressões sobre Macau e a nossa visita. O decano dos nossos companheiros de viagem, sr. José Batista, que em Macau vivera há meio século, ali tendo nascido seus filhos, Ilda e Ramiro, que estavam presentes, revelou factos e figuras de Macau de ontem, quando Macau era bem diferente do que é hoje. E, naturalmente, todos nos mostrámos sensibilizados perante a atenção com que fomos distinguidos pelo sr. Governador. Almoço oferecido aos participantes na «Viagem a Macau» pelo Governador Garcia Leandro (na imagem, à direita e, em frente, sua esposa) Para «fecho» da nossa estadia em Macau, de novo nos reunimos, à noite, com os nossos companheiros de viagem, e também com a nossa amiga macaense Maria do Rosário Marques Gomes, no restaurante «Fat Siu Lau», na Rua da Felicidade. Quando regressámos ao Hotel Sintra, dissémos o último adeus à Avenida Almeida Ribeiro, ao Largo do Senado, Rua da Praia Grande, Avenida Infante D. Henrique.
VIAGEM A MACAU VASCO CALLIXTO 105 Voltaremos um dia a Macau . . . para atravessar a «Porta do Cerco» ? Foi esta «porta fechada», que não se nos abriu, o único senão desta nossa digressão ao «outro lado do mundo». Se a visita a Macau constituiu para nós uma extraordinária experiência - «encontrar» Portugal nas lonjuras do Oriente – a deslocação que poderíamos ter efectuado à região da China, vizinha de Macau, nomeadamente a Cantão, teria sido o digno complemento desta nossa longa viagem. Certas políticas são, realmente, avessas a um mais íntimo contacto entre os povos. E quem quer, tão somente, conhecer o mundo, conhecer outras terras e outras gentes, é vítima dessas políticas. Foi o que nos aconteceu a nós em Macau, em relação à China. Mas oxalá a «Porta do Cerco» se abra em breve à normal circulação de turistas. Macau e a China só terão a lucrar com uma tal medida. Panorâmica da Baía da Praia Grande que se contempla do Miradouro da Penha
VIAGEM A MACAU VASCO CALLIXTO 106
VIAGEM A MACAU VASCO CALLIXTO 107 III PARTE (MACAU – HONG KONG – PARIS – GENEBRA –LISBOA)
VIAGEM A MACAU VASCO CALLIXTO 108
VIAGEM A MACAU VASCO CALLIXTO 109 MACAU – HONG KONG EM HIDROPLANADOR Almoço no Club Lusitano com o cônsul de Portugal (onde está exposta a hélice do «Pátria») Às 7 horas da manhã de 24 de Novembro (27º dia de viagem), estávamos no cais do Porto Exterior de Macau . . . a dizer adeus a Macau! Ia começar o regresso, com uma escala de dois dias em Hong Kong. Os nossos companheiros de viagem viriam dois dias mais tarde, para de novo nos juntarmos no aeroporto. Como de costume, fomos das primeiras pessoas a chegar. Mas não tardou que mais gente chegasse, quase tudo gente chinesa. No entanto, apesar de logo engrossar ali uma «bicha», a aglomeração não se comparou de maneira nenhuma com a avalanche de gente com que nos tínhamos debatido à ida para Macau. Simplesmente, porque para Macau fomos num «ferry-boat» que transporta cerca de 1000 passageiros e agora íamos deixar Macau num hidroplanador cuja lotação é apenas de uma centena de meia de lugares. Num carrinho próprio, um bagageiro levou-nos as malas (ainda mais pesadas) e protestou por pretender mais do que as três patacas (26$00) que lhe demos pelo curto trajecto cais-barco, quando, do hotel ao cais, de táxi, tínhamos pago 5 patacas. Por fim, quando faltavam dez minutos para as 8 horas, a bordo do hidroplanador «Guia», deixámos Macau. Toda a gente foi para os seus lugares, no interior do barco, de onde quase nada se vê cá para fora; só nós ficámos no exterior. E foi com uma certa emoção que, daqui sim, de bordo do «Guia», dissémos o último adeus a Macau, ao cais, com o Casino Jai-Alai lá atrás, à verdejante colina da Guia, depois às guardas-avançadas do porto e ao resto da cidade, já lá mais longe, e, também, a essa magnífica obra que é a ponte Macau-Taipa, que agora víamos sob outro ângulo. A ilha da Taipa em breve se confundiu com as ilhas vizinhas e Macau foi-se transformando num ponto que fixámos, cada vez mais pequeno. O binóculo já não «ajudava»; Macau, com muita saudade nossa, pertencia ao passado das nossas viagens. Só restava recordar uma agradável estadia neste pequeno mundo luso-chinês, onde os portugueses de antanho chegaram há quatro séculos e onde os portugueses de hoje tão bem nos tinham recebido. * * *
VIAGEM A MACAU VASCO CALLIXTO 110 O hidroplanador vencia a boa velocidade as águas do Mar da China, mais ou menos sempre com ilhas à vista, ora mais perto ora mais longe. Não tivemos, porém, sorte com o tempo, pois o sol estava encoberto por um céu carrancudo e negro, a ameaçar chuva. Cruzámo-nos com outros barcos e um cargueiro alemão passou até bem perto de nós. E quanto vimos, em sentido inverso, outro hidroplanador, a caminho de Macau, melhor pudemos apreciar o rápido andamento deste tipo de embarcações. Entretanto, fomo-nos aproximando de Hong Kong. Apareceram ilhas maiores, de relevo acidentado e praticamente desertas ou com poucos vestígios de povoamento, talvez ainda chinesas, talvez já inglesas. Mas daí a pouco – disseram-nos – estávamos então a navegar já em águas britânicas de Hong Kong, começando a ver mais sinais de vida e de povoamento nas ilhas que iam «passando». E avistámos Hong Kong! Do ar, já tínhamos apreciado a grandiosa e magnífica perspectiva urbanística de Hong Kong. Mas agora, do mar, a grande metrópole aparecia-nos em toda a sua vastidão, excelentemente situada, com as suas modernas construções apontadas ao céu e a trepar pela pronunciada encosta vizinha. Tínhamos diante de nós, realmente, uma cidade fabulosa, um autêntico «milagre britânico» na Costa da China, com pouco mais de um século de existência e extraordinariamente desenvolvida nos últimos anos. Foi debaixo de uma grande bátega de água, uma chuva forte mas felizmente passageira, que tinha começado a cair quando já estávamos próximo do cais, que desembarcámos em Hong Kong, onde, três semanas antes, tínhamos embarcado para Macau. Eram 9 horas da manhã. As formalidades alfandegárias foram simples e rápidas e, de malas na mão e a chover a potes, vimo-nos à saída da estação marítima. Tínhamos este dia e o seguinte para «descobrir» um pouco do muito que Hong Kong tem para mostrar ao visitante. * * * Durante a nossa breve estadia em Hong Kong, estivemos alojados nas instalações da «Y.W.C.A.» – Young Women´s Christian Association, uma associação que dispõe duma unidade hoteleira para senhoras e casais em Hong Kong, havendo na cidade vizinha, Kowloon, instalações idênticas, da «Y.M.C.A.» – Young Men´s Christian Association, para homens e casais. Perante a «dotação esgotada» dos hotéis locais e, perante também, os elevados preços dos hotéis mais luxuosos, que poderiam ter algum quarto vago – a cerca de 2.500$00 por dia, só para dormir – o Centro de Informação e Turismo de Macau conseguira reservar-nos, com alguns dias de antecedência, um quarto da «Y.W.C.A.», por 55 dols. HK (cerca de 500$00) por dia. Por sinal, tinham-nos dado a escolher a reserva,
VIAGEM A MACAU VASCO CALLIXTO 111 em Hong Kong ou em Kowloon. Por nos parecer mais indicado, para ficarmos mais próximo do centro da cidade-mãe, escolhemos Hong Kong. Afinal arrependemo-nos, como adiante se verá. E as instalações de Kowloon eram melhores e mais modernas. No cais, já com menos chuva e o sol a querer aparecer, conseguimos apanhar um táxi para nos levar a «Y.M.C.A.», na MacDonnell Road, nº 1, próximo do Jardim Botânico. O condutor, rapaz novo, «china», falando alguma coisa de inglês, sempre muito amável, a partir do centro da cidade, meteu por uma larga avenida em pronunciada rampa e deixou-nos no nosso destino em pouco mais de cinco minutos. Como nos tinha dito que eram 15 dols. HK (140$00), o que já não achámos nada barato para tão curto trajecto, demos-lhe duas notas de 10 dols. JK e percebemos ele dizer que «ia ali trocar», por haver ali um a estação de serviço. Afinal . . . adeus troco! E disseram-nos depois que o preço normal, para o percurso feito, era de 5 a 7 dols. HK. Pagámos, pois, bem cara, a «amabilidade» do esperto «china». Lá como cá, como em toda a parte, há sempre quem se aproveite da natural ignorância dos recém-chegados. Porque o tempo era pouco, havia que aproveitá-lo da melhor forma. Largámos as malas no quarto e, de gabardine e chapéu de chuva, logo fomos à «descoberta» de Hong Kong, mais exactamente, do Consulado de Portugal, cujo cônsul estava avisado da nossa chegada, por intermédio do Centro de Informação e Turismo de Macau. E vimos então melhor onde estávamos, na MacDonnel Road, nas alturas da cidade que trepou pela encosta que conduz ao «Peak», o ponto mais alto da montanha sobranceira a Hong Kong. Mas, a descer, era perto da área central, o «Central District». O pior . . . era para voltar ao quarto! Por isso, a subir não sei quantas vezes aquelas rampas, nos arrependemos de nos termos ali instalado. Com a planta da cidade na mão, e com uma ou outra pergunta, fomos por ali abaixo e breve nos vimos no coração da grande metrópole, com os seus altos arranha-céus, mais nos parecendo que estávamos na América. Nas ruas, gente, muita gente, muitos estabelecimentos, muito trânsito. E na Queen´s Road, num dos seus «gigantes», o «Central Building», encontrámos o Consulado de Portugal. Atendidos pela Jane Maria Placé, jovem funcionária do Consulado, portuguesa de Macau com apelido francês, fomos depois recebidos pelo cônsul, dr. Francisco Reis Caldeira, que nos dispensou o melhor dos acolhimentos. E aceitando com inteiro agrado o convite do dr. Reis Caldeira, fomos almoçar ao Club Lusitano, que tínhamos todo o interesse em conhecer, como é natural, por se tratar de um conceituado clube português, existente há mais de cem anos em Hong Kong. Além disso, havia um segundo interesse:
VIAGEM A MACAU VASCO CALLIXTO 112 ver ali exposta uma valiosa relíquia da Aviação Portuguesa, um pedaço da hélice do «Pátria II», o avião que efectuou a segunda parte da primeira viagem aérea Lisboa-Macau, em 1924. * * * O Club Lusitano situa-se a dois passos do «Central Building», no nº 16 da Ice House Street, uma rua que se desenvolve pela baixa citadina e trepa depois, por sinal, para os lados onde estávamos a «morar». Instalado em mais de um andar de um moderno edifício de doze andares, de sua propriedade, o Club Lusitano apresenta na fachada do imóvel, sobre a porta principal, um quadro colorido de grandes dimensões, com uma expressiva alegoria à nossa epopeia dos Descobrimentos. Apresentando em fundo um mapa-mundo, com as rotas dos navegadores portugueses, é este sobreposto por uma grande caravela portuguesa a navegar em mar revolto, enquanto, em primeiro plano, figuram o rei D. Manuel I, à esquerda, e o navegador Jorge Álvares, à direita, com a data de 1513, ano da sua chegada à China. Perante tão emotivo «quadro» na fachada de um edifício da grande cidade britânica do Oriente, algum português pode ficar indiferente? Certamente que não! Painel da fachada principal do edifício do Clube Lusitano, em Hong Kong
VIAGEM A MACAU VASCO CALLIXTO 113 Uma valiosa relíquia da Aviação Portuguesa — a hélice do “Pátria”, que se encontra no Club O Club Lusitano foi fundado pela comunidade portuguesa de Hong Kong em 17 de Dezembro de 1866, instalando-se então num edifício vitoriano da Shelley Street, com um vasto salão de baile, um teatro e muitas outras salas, passando a ser o centro de convívio dos portugueses ali residentes. Desenvolvendo também uma fecunda actividade desportiva e impondo-se em diversas modalidades, nomeadamente nas corridas de cavalos, foi o seu crescente prestígio que levou à criação da «Taça Lusitano», uma das mais disputadas de Hong Kong durante muitos anos. Em 1920, o Club Lusitano, para ficar numa área mais central, decidiu mudar-se para a Ice House Street, tendo-se procedido à colocação da primeira pedra para construção do novo edifício em 17 de Dezembro daquele ano, no 54º aniversário do club, durante uma cerimónia a que assistiram os governadores de Macau e de Hong Kong, respectivamente, Com. Henrique Monteiro Correia da Silva e sir Reginald Stubbs. Quando os japoneses invadiram Hong Kong, em 1941, o Club Lusitano passou a ser um centro de refúgio para muita gente da Resistência, que contava com duas companhias de portugueses. Mas os invasores fizeram muitas visitas de rotina ao clube e alguns dos seus membros foram aprisionados e mortos. Depois da guerra a colectividade retomou a sua vida normal, acolheu em 1949 muitos refugiados portugueses de Xangai e nesse ano foi o Club Lusitano agraciado pelo Governo Português com o grau de Oficial da Ordem Militar de Cristo, em reconhecimento pelos serviços prestados à comunidade portuguesa.
VIAGEM A MACAU VASCO CALLIXTO 114 Entretanto, após uma certa «guerra fria» entre os sócios mais antigos e mais idosos e os sócios mais novos, defendendo estes a construção, no mesmo local, de um novo e moderno edifício, enquanto aqueles pretendiam conservar o imóvel de 1920, a juventude acabou por ganhar por maioria. Em 1965, a segunda sede do Club Lusitano foi demolida, construindo-se então o actual edifício, cuja primeira pedra foi colocada em 17 de Dezembro daquele ano, pelo respectivo presidente, cor. Barros Botelho, no dia em que o clube completou 99 anos de existência. Quando em 17 de Dezembro de 1976 foi comemorado 120.º aniversário, mais de 200 sócios e suas esposas receberam no salão principal o Governador de Macau, cor. Garcia Leandro, e sua esposa, e outras entidades macaenses. Hoje como ontem ao serviço dos portugueses de Hong Kong, proporcionando-lhes diversas regalias, nomeadamente auxílio aos mais necessitados, o Club Lusitano tem actualmente como presidente o nosso compatriota António de Oliveira Sales, presidente do município local. A hélice do «Pátria II» está exposta numa das paredes do Bar. É metade da hélice, com a outra metade partida pela base. Ostenta uma placa com os seguintes dizeres: «Voo épico do «Pátria» Lisboa-Macau – ínclitos aviadores Cap. António Jacinto da Silva Brito Paes, ten. José Manuel Sarmento de Beires, sarg.-mec. Manuel Gouveia – Aterragem forçada em Hong Kong – 20 de Junho de 1924». A existência em Hong Kong desta valiosa relíquia da Aviação Portuguesa, merecia, sem dúvida, ser revelada aos visitantes do Museu do Ar, em Alverca. Virá a propósito referir que um único senão se nos deparou no Club Lusitano, certamente por retrógrada influência inglesa. Com efeito, o citado Bar onde se encontra a hélice do «Pátria» . . . é só para homens! Porquê, só para homens, um bar? Nos dias de hoje, tal não tem razão de ser.
VIAGEM A MACAU VASCO CALLIXTO 115 APRESENTAÇÃO DE HONG KONG Onde vivem cerca de 4 mil portugueses O território de Hong Kong, com uma superfície de 650 km2 – um pouco mais pequeno do que a ilha da Madeira – é composto pela ilha de Hong Kong (46 km2), a península de Kowloon (7 km2) e os Novos Territórios (597 km2), que compreendem uma parte continental, até à fronteira da China, e 235 ilhas, a maior parte das quais são pequenas e desabitadas, sendo a de Lantau a maior de todas as ilhas do território (142 km2). Todas estas ilhas foram noutros tempos conhecidas por ilhas dos «Ladrões», por serem abrigo de piratas que infestavam os mares da China. A ilha de Hong Kong foi cedida pela China à Grã-Bretanha pelo Tratado de Nanquim, em 1841. A cedência da península de Kowloon, fronteira à ilha de Hong Kong, verificou-se em 1860. Os Novos Territórios, por sua vez, foram arrendados em 1898, por 99 anos, pelo que o prazo de arrendamento expira dentro de 19 anos, em 1997. Hong Kong-cidade situa-se na costa norte da ilha do mesmo nome e, até ainda não há muito tempo, era conhecida por cidade de Vitória, em homenagem, cremo-lo, à rainha Vitória. Actualmente, porém, esta designação caiu em desuso e a população passou a chamar-lhe Hong Kong. É a grande metrópole comercial, das grandes empresas, dos negócios, dos bancos, dos hotéis, dois luxuosos estabelecimentos, das agências de viagens e das belas áreas residenciais afastadas do centro da cidade, compreendendo o «Central District» e os bairros de Wanchai, Causeway Bay e Mid-Levels. É uma cidade de feição acentuadamente britânica. Na ilha de Hong Kong, há óptimas praias. Kowloon, em frente de Hong Kong, separada pelas águas do porto, é uma cidade mais «chinesa», embora também muito comercial e com muitos hotéis, mas com mais centros de diversão, cinemas, boites, bares, etc., dando-nos mais a impressão da região do mundo em que se situa. Os Novos Territórios, quer a parte continental quer as ilhas, com um relevo bastante acidentado, começando agora a instalar-se ali diversas indústrias, apresentam os aspectos mais tradicionais da vida chinesa, que não foram ainda perturbados pelo bulício das cidades próximas. A população desta colónia britânica é de cerca de 4 milhões e meio de habitantes, verificando-se um crescimento populacional de 22 por cento nos últimos dez anos. A
VIAGEM A MACAU VASCO CALLIXTO 116 área mais populosa são os Novos Territórios, com mais de 2 milhões de habitantes, enquanto a ilha de Hong Kong caminha para o milhão e meio e a península de Kowloon terá já ultrapassado o milhão. Porém, a maior parte desta população, cerca de 98%, é de origem chinesa. Naturalmente, quanto a outras nacionalidades, os britânicos ocupam a primeira posição, com mais de 20 mil habitantes, seguindo-se os indianos (8.000), americanos (7,000), australianos (5.000), malaios (5.000), portugueses (3.844 em 1976), paquistaneses (3.500), filipinos (3.000), etc. Hong Kong situa-se imediatamente a sul do Trópico de Câncer, à mesma latitude da área central do deserto do Sahará, de Cuba e de Hawaii. O porto, abrangendo 37 km2, é um dos melhores portos naturais do mundo. Sob as suas águas, entre Hong Kong e Kowloon, foi construído um túnel para o tráfego rodoviário, com duas faixas de rodagem em cada sentido e 2 quilómetros de comprimento, que importou em 320 milhões de dólares HK. Foi aberto à circulação em 2 de Agosto de 1972 e a portagem, para um automóvel, é de 5 dólares HK (45$00). Há, porém, constantes ligações por «ferry-boat» entre Hong Kong e Kowloon, a 20 cêntimos (1$80) por pessoa, o que contribui para que, nos folhetos turísticos, o turista seja convidado a experimentar «o mais barato e mais excitante passeio de barco do mundo». E é realmente excitante, devido à enorme massa de gente que estes «ferry-boat» sempre transportam. O aeroporto internacional de Kai Tak, em Kowloon, fica a menos de 30 minutos de automóvel do centro de Hong Kong. As companhias europeias que servem Hong Kong são a Air France, Alitalia, British Airways, Lufthansa, Sabena e Swissair. Também há caminho de ferro em Hong Kong, entre Kowloon e a fronteira chinesa, numa distância de 35 quilómetros, com oito estações. A viagem demora uma hora e custa 3,20 dols. HK (30$00) em 1ª classe e metade na classe geral, havendo cerca de vinte ligações diárias em cada sentido. Os passageiros que, com uma autorização especial, pretendam seguir para a China, desembarcam do comboio britânico na última estação, Lo Wu, atravessam a pé a fronteira, pela ponte sobre o rio Shumchum (275 m), e tomam um comboio chinês para Cantão na estação fronteiriça, Shumchum. Só os passageiros que seguem para a China estão autorizados a viajar até à estação de Lo Wu, pelo que, para a maior parte das pessoas, a viagem termina na estação anterior. Quando a fronteira funcionava normalmente, a linha férrea não estava interrompida e podia-se viajar de comboio desde Hong Kong até à Europa.
VIAGEM A MACAU VASCO CALLIXTO 117 Quanto a transportes urbanos, há autocarros, mini-autocarros, eléctricos e táxis e um comboio de cremalheira para o «Victoria Peak». O tradicional «rickshaw» ainda se vê em Hong Kong, mas quase exclusivamente para os turistas tirarem fotografias. Está em construção um «metropolitano», cuja primeira fase deverá estar concluída em Setembro de 1979, esperando-se que o total da linha, com 15 km de extensão, se conclua em Março de 1980. A capacidade de transporte será de cerca de um milhão de passageiros por dia. O nome de Hong Kong deriva do chinês «Heung Kong», que significa «Porto Maravilhoso». O nome de Kowloon significa «Nove Dragões» e deriva de um facto ocorrido há 800 anos, quando o jovem imperador chinês Ping contou à sua volta oito colinas e pensou que devia haver ali oito dragões, devido à antiga crença de que havia um dragão a viver em cada colina. O seu primeiro-ministro, porém, disse-lhe que não eram oito, mas sim nove dragões («Kowloon»), pois havia outra crença que dizia que o imperador também era um dragão.
VIAGEM A MACAU VASCO CALLIXTO 118 BREVE VISITA A HONG KONG Um português na presidência do Município duma colónia britânica Após o almoço no Club Lusitano, a segunda metade do nosso primeiro dia em Hong Kong foi passada na baixa citadina e zona portuária, subindo à noite a esse magnífico balcão panorâmico que é o «Victoria Peak», de onde se contempla uma visão nocturna maravilhosa desta grande cidade. No dia seguinte daríamos uma volta pela ilha de Hong Kong. E o resto, um resto muito grande, que daria bem para uma semana? Os Novos Territórios, a região vizinha da fronteira da China, as ilhas, mesmo o resto da ilha de Hong Kong e da própria cidade? Numa visita tão breve, não era possível ver mais do que vimos. A pé, pelo «Central District», Hong Kong revelou-nos, porém, toda a sua majestade urbanística e revelou-nos também que é uma das cidades mais limpas do mundo, pois, nas ruas, não se vê, sequer, uma ponta de cigarro no chão. Há recipientes para se deitar as pontas de cigarro e quem as deitar para o chão é multado. Os mais modernos e gigantes edifícios, com 40 e mais andares, destinados a bancos, hotéis, repartições oficiais e escritórios, estão ali apontados ao céu, deixando a perder de vista as antigas construções, que ainda se mantêm de pé num ou noutro sítio, datando algumas do século passado, como sucede com a elegante «Supreme Court House». À sua volta estão o «Prince´s Building», o «China Bank», o «Hong Kong and Shangai Bank», o «Furama Hotel», o «Mandarin Hotel» e outros edifícios monumentais, para um pouco mais junto à zona portuária se erguer o maior de todos, o «Connaught Centre», uma «torre» com 56 andares, num dos quais, no 35.º, está instalada a «Hong Kong Tourist Association». Surpreendentemente, foram-nos dados nesta repartição de turismo folhetos turísticos em português, uma colecção de meia-dúzia de folhetos sobre tudo o que há para ver no território de Hong Kong. Naturalmente, não pudemos deixar de dar os nossos sinceros parabéns à funcionária que nos atendeu, pois, no estrangeiro, é raríssimo encontrar-se qualquer folheto turístico na nossa língua. E em território britânico, a maior parte das vezes nem em francês há. Subimos ao último andar do «Connaught Centre», para vermos a vista lá do alto. Mas não vimos nada, porque, embora muito delicadamente, o acesso não nos foi permitido. Bem dissémos que era só para ver a vista, mas o funcionário não se «comoveu».
VIAGEM A MACAU VASCO CALLIXTO 119 As largas artérias de sentido único, as modernas passagens inferiores e superiores que se oferecem à circulação, o trânsito intenso mas bem ordenado e a processar-se com facilidade, a imagem do passado que o «velho» carro eléctrico representa em tão flagrante mundo de hoje, tudo isto nos mostrou também Hong Kong numa tarde que afastara completamente a chuva da manhã. Um aspecto de Hong Kong, a grande cidade britânica do Oriente À noite, como já foi dito, fomos ao «Victoria Peak». O comboio de cremalheira que dá acesso a este «Pico» começou a circular há 90 anos, em 1888, sem se ter registado qualquer acidente até agora. Enquanto uma cabine sobe, a outra desce e cada uma delas transporta 72 passageiros. A passagem custa 3 dols. HK, ida e volta (27$00). Mesmo para quem já seja familiar este ripo de transporte, as subidas e descidas em comboio de cremalheira são sempre emotivas, principalmente quando se vê que o comboio vai quase a pique. Foi o que aconteceu connosco, quando nos vimos a «trepar» por ali acima, com o comboio «agarrado» à pronunciada encosta. E quando lá chegámos acima, a 400 metros de altitude, Hong Kong ofereceu-nos um autêntico deslumbramento de luzes e águas, de cidade e mar iluminados. É uma imagem de um fascínio extraordinário, quer de dia quer de noite. Ali funciona um restaurante giratório, há também estrada de acesso e há imensos caminhos para passeios de peões, belamente traçados no alto da encosta, com agradáveis locais para repouso. E magníficas residências, vêem-se espalhadas por toda aquela verdejante área.
VIAGEM A MACAU VASCO CALLIXTO 120 * * * No dia seguinte, logo pela manhã, acompanhados pelo «Council´s Principal Information Officer», sr. David Lewis, fomos recebidos na «City Hall» pelo presidente do Município de Hong Kong, o nosso compatriota sr. António de Oliveira Sales, que nos acolheu com extrema cordialidade, lamentando que não nos pudéssemos demorar mais tempo no território. Há muito radicado em Hong Kong, António de Oliveira Sales, embora estrangeiro, pois mantém a nacionalidade portuguesa, ascendeu ao alto cargo que ocupa nesta colónia britânica, devido aos seus comprovados méritos e ao seu profundo conhecimento da vida da grande metrópole. É realmente consolador, encontrar um português à frente dos destinos duma cidade estrangeira. Após uma rápida visita às modernas instalações da «City Hall», o nosso compatriota António de Oliveira Sales proporcionou-nos um agradável passeio de automóvel pela ilha de Hong Kong, acompanhados pelo sr. David Lewis e pela já nossa conhecida Jane Maria Placé, do Consulado de Portugal. Foi uma volta de 38 quilómetros, da costa norte à costa sul da ilha, com regresso pela região ocidental. Da cidade, agora de automóvel, voltámos a subir ao «Victoria Peak», para vermos de dia a surpreendente e vasta panorâmica que na véspera tínhamos visto de noite, podendo então avaliar a grandeza do porto de Hong Kong e apreciar como a beleza desta fascinante paisagística se estende até às serranias e montanhas do Novos Territórios. É uma maravilha! Um «rickshaw» de Hong Kong
VIAGEM A MACAU VASCO CALLIXTO 121 Repulse Bay, a mais famosa praia da ilha de Hong Kong A «Deusa do Mar», na mesma praia Por boas estradas que vencem o dorso da ilha e se desenvolvem por bonitas e atraentes regiões arborizadas – e tudo muito bem tratado, muito bem cuidado – descemos para a costa sul e fizemos alto em Repulse Bay. É a primeira praia de Hong
VIAGEM A MACAU VASCO CALLIXTO 122 Kong. Situada numa abrigada baía, com bela areia, muito arvoredo em redor, do qual emergem muitos e modernos grandes edifícios, Repulse Bay tem ainda a sempre atraente presença da velha China, em templos, em deuses e outras figuras, entre as quais se destaca uma enorme «Deusa do Mar», erguida sobre a própria praia. Almoçámos muitíssimo bem no «Repulse Bay Hotel», pelo interessante sistema de cada um ir a uma vasta sala buscar o que mais lhe agradar. Ainda na costa sul, visitámos um vastíssimo e recém-inaugurado parque de atracções, o «Ocean Park», que se estende pelas alturas da Colina de Brick e cujo acesso à área principal é feito pro funicular. Com mil e um motivos de interesse e de diversão, tendo todos como base o mar e os animais que nele vivem, este «parque» possui como atractivo maior um grande «Ocean Theatre», onde assistimos, com lotação esgotada, a fantasiosas e acrobáticas exibições de focas e golfinhos. Seguiu-se, por fim, uma breve visita a Aberdeen, o maior centro piscatório de Hong Kong, onde cerca de 20 mil pessoas vivem e 3 mil característicos barcos chineses, no porto desta povoação. Junto ao cais, porém, onde começa a imensidade destas modestas «habitações» de gente humilde, está permanentemente acorado um luxuoso casino-flutuante. São os contrastes que o mundo oferece . . . Por outro lado, a povoação também já não é somente o centro de pescadores de outrora, não lhe faltando os bairros modernos e o aspecto de pequena cidade dos nossos dias. E como há sempre turistas, a gente chinesa dos barcos tira proveito da situação, convidando os turistas a visitar a sua «casa» ou a dar um passeio nela, claro está, a troco de alguns dólares. Regressados a Hong Kong-cidade ao fim da tarde, quisemos ainda ir conhecer um pouco de Kowloon e assim, como dizem os folhetos turísticos, fomos dar «o mais barato e mais excitante passeio de barco do mundo», indo no «ferry-boat» até à cidade fronteiriça. E desta vez fomos libertos de malas, e não carregados com elas, como sucedeu quando chegámos a Hong Kong, a caminho de Macau. Kowloon, com as suas ruas pejadas de estabelecimentos, de letreiros luminosos, de cartazes, de cinemas, boites e clubes nocturnos e também de magníficos hotéis, entre os quais se destaca o sumptuoso «Península Hotel», pareceu-nos, realmente, uma cidade de feição mais chinesa, mais misto de Oriente e Ocidente. A nossa brevíssima visita a Hong Kong estava terminada. E nós estávamos tão «moídos», que nem tivémos coragem para aceitar um amável convite recebido da «City Hall», para assistirmos naquela noite a um recital que ali se realizava. No dia seguinte . . . adeus Oriente!
VIAGEM A MACAU VASCO CALLIXTO 123 REGRESSO AO OCIDENTE Hong Kong-Paris em 20 horas de viagem numa longa noite de 18 horas Deixámos Hong Kong, deixámos o Oriente, ao começo da noite de sábado 26 de Novembro. Iriamos viver nos ares, sobre dois continentes, uma longa noite de 18 horas, numa viagem que se prolongou por mais de 20 horas, apenas com três aterragens e daus saídas do avião, a primeira com um calor apreciável e a segunda com um certo frio, para concluirmos a jornada em Paris, onde a temperatura era de zero graus. Em Hong Kong, aproveitámos ainda a manhã para voltarmos ao centro da cidade e voltámos também ao Club Lusitano, para oferecer a esta «velho» clube português um pequeno mapa ilustrado da primeira viagem aérea Lisboa-Macau, que assim poderá ficar junto da valiosa relíquia da Aviação Portuguesa que o clube possui. Com umas voltas pela Queen´s Road e imediações, com uma última compra – boas gravatas compradas na rua a 5 dols. HK (45$00) – e com uma última e estafante subida das rampas que conduzem ao local onde estávamos instalados, a manhã passou-se. O último adeus a Hong Kong foi dado do táxi que nos levou para o aeroporto, pelas 2 horas da tarde. E cerca de 15 quilómetros, num óptimo «Mercedes», custaram 30 dols. HK (270$00). Pelos bairros de Wanchai e Causeway Bay, fomos enfiar no túnel sob as águas do porto, um belíssimo túnel iluminado, que permite alcançar Kowloon num instante. O aeroporto de Kai Tak esperava por nós! De novo reunidos todos os companheiros de viagem, e reunido também um montão de ainda mais pesadas malas, passámos a tarde na movimentada gare do aeroporto e logo tivemos uma notícia que nos deixou em «suspense», quanto ao prosseguimento da viagem de Paris para Lisboa. A Air France, a «nossa» Companhia, estava em greve nos dias seguintes, pelo que os voos iniciados no sábado seriam completados, mas depois não havia voos. Tínhamos garantida, portanto, a viagem para Paris, mas não sabíamos como e quando poderíamos ir para Lisboa. No entanto, as funcionárias locais, bastante amáveis, disseram-nos que certamente, em Paris, a Air France cuidaria de nós e resolveria concerteza o problema. Só restava confiar. Regularizados os bilhetes, despachada toda a bagagem e tendo cada um pago 15 dols. HK (135$00) de taxa de aeroporto, a hora da partida chegou finalmente e às 18,56,
VIAGEM A MACAU VASCO CALLIXTO 124 de novo a bordo de um «gigante» do ar, um «Boeing 747», levantámos voo. Agora, não do «Victoria Peak», mas sim do avião, voltámos a admirar o maravilhoso espectáculo de Hong Kong iluminada. Mas Hong Kong logo desapareceu; a viagem de regresso ao Ocidente estava iniciada. * * * Apontando ao sul do Vietname, para dar a nossa já conhecida volta pela costa, o avião atravessou na escuridão da noite o golfo de Tonkin e depois, com um bem aparecido luar e sem nuvens, vimos durante algum tempo, mais ou menos bem, o litoral, ilhas e luzes. Entretanto, foi servido o primeiro jantar, pois nesta longa jornada houve dois jantares. E pouco depois das 22 horas estávamos a aterrar em Bangkok, com um calor muito respeitável, que já bem conhecíamos. A paragem foi de uma hora e meia e aqui, onde não tínhamos grande interesse em sair do avião, não só por já conhecermos o aeroporto, com por termos ainda há pouco iniciado a viagem, fomos convidados a sair e «depositados» momentaneamente na aerogare, no autocarro da pista. Por sinal, ainda fizemos duas compras, agora em dólares americanos, uma boneca chinesa e uma bonita blusa arrendada. E ficámos a pensar que a ida à aerogare foi só para os passageiros serem tentados a fazer compras e a deixar mais divisas na Tailândia. Seguiu-se, quase à meia-noite, uma etapa de outras tantas 3 horas e meia, com o segundo jantar à meia-noite e meia-hora. Nos aviões, realmente, ninguém passa fome; as refeições sucedem-se. Pelas 3 horas da madrugada avistámos uma grande área iluminada. Era Nova Delhi. Nova aterragem e na capital da Índia a escala foi de pouco mais de uma hora, sem sairmos do avião. Principalmente a partir daqui, tal como à ida para o Oriente, recomeçou a «dança» das horas e começou a noite a crescer. Tendo partido de Nova Delhi às 4 e meia, quando chegámos a Teherão, três horas e meia depois . . . eram 4 e meia na capital do Irão! Pela «nossa» hora, a da partida de Hong Kong, eram 8 horas de uma manhã que não aparecia, pois a noite mantinha-se. Em Teherão fomos outra vez convidados a sair do avião e a ir até à aerogare e aqui agradou-nos o convite, não só para arejar, como para pisarmos pela primeira vez o solo da velha Pérsia. Estava era um certo frio, coisa que não sentíamos há muito tempo.
VIAGEM A MACAU VASCO CALLIXTO 125 No aeroporto, o Aeroporto de Nehrabad, de mais modesto aspecto, pudemos apreciar três grandes retratos que ali estão expostos, do Xá, da imperatriz Farah Diba e do príncipe herdeiro, o que nos levou a pensar o que será feito da bonita e infeliz princesa Soraya, que não deu filhos ao Xá. Nas restantes paredes, e como «consolação» por estarmos no Irão e não vermos nada do Irão, fomos vendo fotografias de grande formato com aspectos pitorescos de antigas aldeias persas, ali figurando também um grande monumento de Teherão, em forma de «arco de triunfo» monumental, que, por sinal, tinhamos avistado do avião, no meio da área iluminada, quando estávamos prestes a aterrar. Ainda noite escura, às 6 horas da manhã, hora local, e quase 10 horas pela «nossa» hora, deixámos Teherão, para iniciar o último voo desta jornada de regresso do Oriente e o mais longo de toda a viagem, um voo directo de Teherão a Paris. Não houve, assim, escala em Israel, como à ida, e o voo foi de cinco horas e meia, para cobrir um percurso de 4198 quilómetros. Vinte minutos depois de estarmos novamente no ar, apagaram-se as luzes e começou o cinema, com projecção de um filme que durou quase duas horas. E como estes filmes «aéreos» nunca têm grande interesse, empregámos melhor aquelas duas horas a passar pelo sono, do que estávamos bem necessitados. Quando as luzes se voltaram a acender e se abriram as janelas, começava finalmente a amanhecer. Já não era sem tempo! E «era» meio-dia! O pequeno almoço foi servido daí a pouco, quando anunciaram que estávamos a voar sobre as imediações de Istambul, portanto, a deixar a Ásia e a entrar na Europa. Mas lá para baixo, pouco ou nada se via, só nuvens. Ainda foi anunciado que voávamos sobre Salzburgo, cerca de uma hora depois, e por fim, quando em França começava um novo dia, eram 8 horas da manhã e os nossos relógios marcavam 15 horas, o «Boeing» começou a descer para Paris. Fez-se ao Aeroporto Charles De Gaulle e assim concluímos uma viagem aérea de 20 horas e 14 minutos. Estava, como já foi dito, um frio de gelar, zero graus, e íamos voltar ao «suspense» que rodeava a nossa ida para Lisboa, por causa da greve. Mas já estávamos perto. O Oriente ficara lá bem longe.
VIAGEM A MACAU VASCO CALLIXTO 126 UMA GREVE LEVOU-NOS À SUIÇA (sete horas em Genebra) E, por fim, Lisboa . . . Segundo o programa da viagem, após a nossa chegada a Paris, ao Aeroporto Charles De Gaulle, no domingo 27 de Novembro, deveríamos vir para Lisboa nesse mesmo dia, à tarde, concluindo assim a nossa grande jornada ao Oriente, com mais uma curta etapa de duas horas. Mas a greve da Air France alterou este plano final e acabámos por ficar uma noite em França, para virmos para Lisboa só no dia seguinte. E, inesperadamente, essa greve levou-nos à Suiça, onde fomos matar saudades de Genebra . . . ainda com mais frio do que estava em Paris! Logo que saímos do avião e concluímos a travessia dos compridos corredores entaipados que dão acesso às salas do aeroporto, aguardava o nosso grupo uma gentilíssima funcionária da Air France, que estava encarregada de nos «pôr» em Lisboa da melhor forma, perante a greve do pessoal de voo daquela Companhia. Realmente, Companhia e funcionária foram de uma eficiência extraordinária, face às circunstâncias. Nunca esperámos que tudo corresse tão bem, embora não tivesse sido possível continuar a viagem no mesmo dia, por falta de um avião em que pudéssemos vir. E a melhor forma que se arranjou, foi ficarmos naquela noite em Paris, por conta da Air France, irmos no dia seguinte de manhã para Genebra num avião da Swissair e virmos à tarde para Lisboa num avião da TAP, depois de almoçarmos em Genebra, também por conta da Air France. Todos demos acordo ao plano que nos foi apresentado e todos pensámos quanto, só pela parte do nosso grupo, ia a greve custar à Air France. Embora muito, certamente uma ninharia, em comparação com o prejuízo total de tal greve. Havendo toda a conveniência em ficarmos perto do outro aeroporto parisiense, o de Orly, de onde partiríamos na manhã seguinte para a Suiça, foi-nos indicado um hotel das imediações, o Hotel Frantel, e posto à nossa disposição um mini-autocarro para lá nos levar. Assim, uma vez mais passámos por Paris com a «Grande Paris» à distância, avistando ao longe a Torre Eiffel, o Sacré Coeur e outras conhecidas imagens da capital francesa. Uma secessão de movimentadas auto-estradas levou-nos ao sul da cidade e o autocarro da Air France deixou-nos na região de Rungis, num autêntico descampado, onde, em tão vasto isolamento, se ergue o moderno Hotel Frantel, um bloco rectangular
VIAGEM A MACAU VASCO CALLIXTO 127 com 15 andares e 206 quartos, todos com casa de banho, televisão, rádio, telefone e refrigerador. Para servir os passageiros que embarcam e desembarcam no aeroporto de Orly, que fica próximo, e para quem queira repousar longe da cidade, não há dúvida que este hotel é ideal. Dispondo de todo o resto do dia, e apesar de estar um frio medonho e uma brisa algo cortante, pensámos ir a Paris, tanto mais que uma nossa companheira de viagem não conhecia Paris e gostava de conhecer, mesmo uma amostra que fosse. Mas ali, naquele gélido descampado, já não havia «metro» e os autocarros de carreira, que diziam servir a região, não eram muito frequentes ao domingo e nem chegámos a ver nenhum. Um táxi, chamá-lo ali, levar-nos a Paris e depois trazer-nos, claro está, era uma «fortuna». Tivemos que nos render à evidência e desistir. Limitámo-nos a dar uma volta pela área que circunda o hotel e fomos até outra auto-estrada, do lado contrário. Mas como nada havia de interesse e o frio era de respeito, optámos por passar o resto do tempo no ambiente mais acolhedor do hotel, onde, naturalmente, todos almoçámos e jantámos. * * * No dia seguinte de manhã, outra vez de mini-autocarro, fomos para o Aeroporto de Orly e às 9,20 h., num «Douglas DC-9» da Swissair, com lotação para 120 passageiros, levantámos voo de Paris, em direcção à Suiça. Foi uma curta viagem, apenas 45 minutos. O dia estava bom, sem nuvens. Fomos a ver atraentes panoramas por baixo de nós, com grandes extensões, planas e acidentadas, tudo coberto de neve. Pouco depois das 10 horas aterrámos em Genebra. Estava a 2 graus abaixo de zero. Mas havia sol. Novo «dilema» se nos apresentou: o que fazer em Genebra, uma vez que o avião para Lisboa era só às 5 horas da tarde? Resolvemos . . . ir rever Genebra! E aproveitámos, de imediato, o resto da manhã. O aeroporto fica muito próximo da cidade e os autocarros para o «centre-ville» são frequentes. Fomos num deles e, francamente, ficámos «espantados» com o preço, mais, talvez, por há muito tempo, não irmos à Suiça. O pequeno percurso aeroporto-centro da cidade, uns 4 ou 5 quilómetros, custou 3,50 frs. s. cada pessoa, o que, na altura, correspondia a 70$00 e actualmente ainda corresponde a mais. Ir matar saudades de Genebra custou-nos, assim, quase 300$00. Mas foi melhor do que passar o dia inteiro no aeroporto.
VIAGEM A MACAU VASCO CALLIXTO 128 O frio e o pouco tempo de que dispúnhamos antes de almoço, não nos deixaram dar mais do que uma pequena volta no centro de Genebra. A partir do local onde nos deixou o autocarro, próximo da «Place de Cornavin» e da estação ferroviária do mesmo nome, fomos pela «Rue du Mont-Blanc» até à margem do Lago Léman e do Ródano e atravessámos para a margem oposta pela grande ponte do coração da cidade. Bem nos lembrávamos do conhecido «Repuxo» que, no lago, lança as águas a 130 metros de altura e identifica Genebra em todos os cartazes de turismo. Íamos com desejo de o ver e de o mostrar aos nossos companheiros de viagem que não conheciam Genebra. Mas, afinal, o «Repuxo» não estava lá, talvez só funcione durante o Verão. Estivemos a admirar o Monumento Nacional, que se ergue no extremo da ponte, comemorativo da união de Genebra à Suiça, voltámos à outra margem pela ponte da «Ille Rousseau», fomos vendo montras e vimos a «Notre Dame» e, enregelados com os 2 ou 3 graus abaixo de zero, resolvemos voltar para o aeroporto e ir almoçar, claro está, o almoço que a Air France nos ofereceu. Habituados como já estávamos a aeroportos, não nos custou passar o resto da tarde no aeroporto de Genebra. Não saímos da Suiça quase às 5 horas, como estava no horário, mas sim quase às 6 horas, pois, como de costume, o «nosso» avião estava atrasado. Foi no 727 «Açores», da TAP, que efectuámos no último voo, de Genebra para Lisboa, mais um voo nocturno, um bom voo, como foram todos os desta longa viagem. Os 1497 quilómetros que separam as duas cidades foram percorridos em 2 horas e 3 minutos e às 8 horas da noite estávamos de novo em Portugal. E estávamos mais ricos; tínhamos conhecido essa valiosa relíquia de Portugal do Oriente que é Macau. F I M
VIAGEM A MACAU VASCO CALLIXTO 129 A IMPRENSA NOTICIOU UMA VISITA E UMA CONFERÊNCIA
VIAGEM A MACAU VASCO CALLIXTO 130 «CLARIM» - 6/Novembro/1977 (bissemanário de Macau) VASCO CALLIXTO Acompanhado de sua esposa, deu-nos ontem o prazer da sua visita o escritor e jornalista, sr. Vasco Callixto, que integrado num grupo de 12 metropolitanos, se encontra de visita a Macau. Vasco Callixto é proprietário e director da Revista Rodoviária, de Turismo e Automobilismo, fundada há 22 anos pelo falecido Manuel de Oliveira Santos. É a única revista mensal de Turismo e a mais antiga, em Portugal, de Automobilismo. Vasco Callixto colabora desde longa data em vários jornais, versando temas ligados ao turismo, automobilismo, aviação etc. Desde 1961 que encetou uma série de viagens tanto a terras portuguesas ou que o foram, como ao estrangeiro. Como fruto dessas viagens tem publicado livros, cuja finalidade é dar conhecer aos leitores terras para muitos desconhecidas. Um simples elenco dos títulos dos seus livros nos comprova quão largamente tem viajado: (relação de livros publicados) Da sua viagem a Macau tenciona ele escrever livro análogo, no que lhe desejamos o êxito que naturalmente ambiciona. Ao sr. Vasco Callixto e a sua esposa desejamos uma agradável estadia em Macau e muitas felicidades, ao mesmo tempo que agradecemos a gentileza da sua visita. «O CLARIM» - 13/Novembro/1977 JORNALISTA VASCO CALLIXTO O jornalista e escritor Vasco Callixto, que se encontra de visita a este território, realizará amanhã, pelas 21,30 horas, no Centro de Relações Económicas, uma conferência subordinada ao tema «O que eu vi de Portugal no Mundo». «O CLARIM» - 10/Novembro/1977 ACTUALMENTE - EM LISBOA - APENAS UMA AGÊNCIA DE VIAGENS (A MELIÁ) TRAZ TURISTAS PORTUGUESES A MACAU - DISSE-NOS VASCO CALLIXTO (entrevista sobre o intercâmbio turístico entre Portugal e Macau, focando a necessidade de promover uma maior aproximação, por intermédio do Centro de Informação e Turismo de Macau e a Direcção-Geral do Turismo e a Casa de Macau, e pugnando por uma maior propaganda de Macau em Portugal) «GAZETA MACAENSE» - 12/Novembro/1977 (jornal diário de Macau) RECIBIDOS PELO GOVERNADOR (pág. 3) Vasco Callixto jornalista e escritor, que se encontra de visita ao território, acompanhado da esposa, que lhe foram apresentar cumprimentos. VASCO CALLIXTO (pág. 5) O jornalista e escritor Vasco Callixto, que se encontra de visita a este território, realizará no dia 14 do corrente, pelas 21,30 horas, uma conferência subordinada ao tema - «O que eu vi de Portugal no Mundo». Vasco Callixto é autor de 11 obras essencialmente de literatura de viagens e encontra-se a reunir elementos para a publicação do seu próximo livro, a que dará o título de «Viagem a Macau». Também consagrará a Macau um dos próximos números da Revista «Rodoviária», que dirige, e fará para a Revista «Motor», de Lisboa, uma reportagem sobre o 24.º Grande Prémio de Macau. A entrada para a conferência é livre.
VIAGEM A MACAU VASCO CALLIXTO 131 «GAZETA MACAENSE» - 17/Novembro/1977 e «O CLARIM» - 27/Novembro/1977 CONFERÊNCIAS DE VASCO CALLIXTO (desenvolvida notícia, a três colunas, sobre e conferências subordinada ao tema «O que eu vi de Portugal no Mundo», destacando as referências ao preâmbulo aeronáutico sobre a primeira viagem aérea Lisboa-Macau e a hipótese considera Governador Garcia Leandro de emitir uma medalha comemorativa do 50º aniversário dessa viagem) «DIÁRIO DE NOTÍCIAS» - 17/Novembro/1977 e «O DIA» - 19/Novembro/1977 MEDALHA COMEMORATIVA DOS 50 ANOS DA VIAGEM AÉREA LISBOA-MACAU O Governador de Macau, Garcia Leandro, admitiu a hipótese de ainda vir a emitir-se uma medalha comemorativa dos cinquenta anos da viagem aérea Lisboa-Macau, levada a efeito em 1924, por Brito Paes e Sarmento Beires, coadjuvados por Manuel Gouveia. Esta ideia surgiu durante uma conferência dada naquele território por Vasco Callixto, que dirige a revista «Rodoviária», e que foi subordinada ao tema «O que eu vi de Portugal no Mundo». Durante a conferência, Vasco Callixto recordou as comemorações, realizadas na Amadora, dos cinquenta anos da primeira viagem aérea de Lisboa-Macau, que viria a terminar junto deste território, quando o avião dos pilotos se despenhou na China, tendo lamentado que nessa altura não se tivesse chegado a concretizar a ideia de emitir uma medalha comemorativa da data. Na sequência das suas palavras, o governador Garcia Leandro, que assistia à palestra, anunciou que a medalha poderá ser emitida, apesar do atraso de cerca de três anos, na medida em que «é uma data de grande significado para Macau» e que exactamente por isso merece ser perpetuada. Entretanto, Vasco Callixto, homem da informação ligado essencialmente ao sector turístico, pretende escrever um livro sobre esta sua curta deslocação a Macau, que se juntará às suas obras, essencialmente de literatura de viagens, já publicadas quando se deslocou à Europa. África e Américas.
VIAGEM A MACAU VASCO CALLIXTO 132
VIAGEM A MACAU VASCO CALLIXTO 133 MACAU EM EXPOSIÇÃO FOTOGRÁFICA NO ESTORIL (Promoção do Gabinete de Macau em Lisboa com o patrocínio da Junta de Turismo da Costa do Sol)
VIAGEM A MACAU VASCO CALLIXTO 134 A EXPOSIÇÃO FOTOGRÁFICA «VIAGEM A MACAU» foi noticiada pelos seguintes Órgãos de Comunicação Social: 3-Março-78 Diário de Notícias - «Imagens de Macau na Galeria da Costa do Sol» 4-Março-78 Diário Popular - «Vasco Callixto expõe no Estoril» O Dia - «Exposição de fotografias de Macau no Estoril» A Capital - «Macau» A Nossa Terra - «Exposiçaõ de fotografias de Macau no Estoril» 6-Março-78 A Luta - «Novas exposições» 9-Março-78 Jornal Novo - «Fotografias de Macau» Motor - «Macau no Estoril» Tempo - «Macau» 10-Março-78 Diário Popular - «Fotografias de Macau» O Dia - «Na Junta de Turismo da Costa do Sol-Viagem a Macau, de Vasco Callixto Diário de Lisboa – Vasco Callixto expõe fotografias de Macau» Jornal de Sintra - «Exposição de fotografias de Macau no Estoril» O País - «Fotografias de Macau no Estoril» Correio do Ribatejo - «Exposição de fotografias de Vasco Callixto» The Anglo Portuguese News – Macau Photographic Exhibition» 11-Março-78 Jornal Novo - «Exposição de fotografias de Macau hoje no Estoril» A Capital - «Uma exposição de fotografias de Macau» 12 a 29-Março-78 A Luta – notícia diária na sessão «Exposições» 13-Março-78 Diário de Notícias – Fotografias de Macau no Estoril» (com foto do acto inaugural) Jornal de Notícias - «Macau em exposição fotográfica» 14-Março-78 O Dia – Viagem a Macau, na Junta de Turismo da Costa do Sol» 15-Março-78 Radiotelevisão Portuguesa (telejornal-23h) - imagens das fotografias expostas e aspectos da assistência Publituris - «Imagens de Macau na Galeria da Costa do Sol» 16-Março-78 Mundo Motorizado - «Exposição de fotografias de Macau» 17-Março-78 Jornal de Sintra - «Vasco Callixto expõe fotografias de Macau» 18-Março-78 A Nossa Sintra - «Fotografias de Vasco Callixto» Abril-78 Rodoviária - «Turismo macaense no
VIAGEM A MACAU VASCO CALLIXTO 135 Estoril - Uma exposição de fotografias de Macau, da autoria de Vasco Callixto, esteve patente ao público na Junta de Turismo da Costa do Sul» (com foto do acto inaugural) Jornal de Queluz - «Exposição de fotografias de Macau no Estoril» Ecos de Belém - «Exposição de fotografias de Macau no Estoril» Jornal de Amizade - «Gabinete de Macau em Lisboa» Maio-78 Jornal de Turismo - «Exposição fotográfica de Vasco Callixto sobre motivos turísticos de Macau» (com reprodução de uma das fotografias expostas) Radiodifusão Portuguesa e Rádio Renascença – diversas referências em diferentes datas Durante o acto inaugural da exposição (11-3-1978), o Governador de Macau, coronel Garcia Leandro, e o presidente da Junta de Turismo de Costa do Sol, dr. Licínio Cunha, acompanhados do autor dos trabalhos, apreciam algumas das fotografias expostas (foto de Álvaro Campeão)
VIAGEM A MACAU VASCO CALLIXTO 136
VIAGEM A MACAU VASCO CALLIXTO 137 A VIAGEM (AÉREA, MARÍTIMA E TERRESTRE) EM NÚMEROS A VIAGEM AÉREA (do Ocidente ao Oriente e volta) Percuros Quilómetragem Tempo de voo Parcial Total Lisboa-Paris Paris-Tel Aviv Tel Aviv-Teherão Theerão-Nova Delhi Nova Delhi-Bangkok Bangkok-Hong Kong 3284 1569 2550 2917 1441 10320 1713 1,h55 4,h10 2,h50 3,h05 3,h25 3,h28 Total (Lisboa Hong Kong): 13474 km 18,h53 Hong Kong-Bangkok Bangkok-Nova Delhi Nova Delhi-Teherão Teherão-Paris Paris-Genebra Genebra-Lisboa 1713 2917 2550 4198 11378 402 1497 3,h22 3,h32 3,h35 5,h25 0,h45 2,h03 Total (Hong Kong-Lisboa) : 13277 18,h42 A VIAGEM MARÍTIMA (no Mar da China) Percurso Quilometragem Tempo Hong Kong-Macau (ferry-boat «Lo Shan») Macau-Hong Kong (hidroplanador «Guia») 70 70 140 km 2,h20 1,h10 3,h30
VIAGEM A MACAU VASCO CALLIXTO 138 A VIAGEM TERRESTRE (em Paris, Bangkok, Hong Kong, Macau e Genebra)______________________________________________________ Em Macau (e ilhas da Taipa e Coloane) . . . . . . . . . . . 285 km Em Paris (ligações aos aeroportos) . . . . . . . . . . . . . . . 79 km Em Hong Kong (ligações ao aeroporto e volta à ilha de Hong Kong . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 53 km Em Bangkok (ligações ao aeroporto) . . . . . . . . . . . . . . 46 km Em Genebra (aeroporto-centro da cidade e volta . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 8 km 471km
VIAGEM A MACAU VASCO CALLIXTO 139 Í N D I C E Nota de Apresentação . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 7 Prefácio ……………………………………………………………………………………………….. 9 Prefácio da 1ª. Edição . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 11 I PARTE (Lisboa – Paris – Bankok – Hong Kong – Macau) IR A MACAU — A viagem mais económica . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 17 1ª ETAPA : LISBOA-PARIS EM DUAS HORAS – Um «salto» nocturno à Praça da Ópera . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 19 DA EUROPA À ÁSIA – PARIS-BANBKOK (viajar muito e não ver nada) – 18 horas e meia de avião . . . . . . . . . . . . .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 22 BREVE APRESENTAÇÃO DA TAILÂNDIA – O único país do Sudeste Asiático que nunca foi colónia do Ocidente . . . . . . . . . . . . . . 26 RÁPIDA VISITA A BANGKOK – Fabulosos templos e palácios de ontem são os atractivos maiores de uma grande cidade de hoje . . 29 FINALMENTE CHEGADA A MACAU – Terceiro voo, de Bangkok a Hong Kong uma cidade imensa que visitaríamos no regresso . . . . . . . . 34
VIAGEM A MACAU VASCO CALLIXTO 140 II PARTE (21 dias em Macau) MACAU – PORTUGAL NA ÁSIA – Um pequeno mundo luso-chinês nas lonjuras do Oriente . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 41 PRIMEIROS PASSOS DE MACAU – A beleza paisagística da baía de Praia Grande, o Leal Senado, o fascínio oriental da Avenida Almeida Ribeiro, o Porto Interior e os monumentos da Avenida da Amizade . . . 47 QUANDO UM CONDUTOR DO OCIDENTE CONDUZ NO ORIENTE . . .PELA ESQUEDA! - Trânsito imenso, automóveis, triciclos, bicicletas . . . e chineses! . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 53 DA COLINA DA PENHA À GRUTA DE CAMÕES – «A melhor vista sobre a China» . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 56 AS RUÍNAS DE S. PAULO – HISTÓRIA E TURISMO DE MACAU – Nas alturas de Fortaleza do Monte» . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 61 NA PORTA DO CERCO – FRONTEIRA DA CHINA – Uma volta à Ilha Verde, ao longo do Canal dos Patos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 65 NO FAROL DA GUIA, EM CONTACTO COM PORTUGAL – No ponto mais alto de Macau, onde existe o farol mais antigo da costa da China . . 69 OS TEMPLOS CHINESES . . . e as ruas «chinesas» de Macau e os panchões! . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 72 AUDIÊNCIA COM O GOVERNADOR DE MACAU – O lindíssimo Jardim de Lou Lim Iok, a Casa-Museu do Dr. Sun Yat Sen e outros locais de interesse. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 77 O GRANDE «ESPECTÁCULO» DO JOGO E DAS APOSTAS – Os Casinos, o Canídrome e a pelota basca . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 81 A PONTE MACAU-TAIPA – Magnífico traço de união sobre a península e as ilhas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 85
VIAGEM A MACAU VASCO CALLIXTO 141 TAIPA E COLOANE – PROLONGAMENTO DE MACAU – Dos domingos nas ilhas e uma festa tipicamente portuguesa no «outro lado do Mundo», o S. Martinho . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 88 UMA CONFERÊNCIA EM MACAU - «O que eu vi de Portugal no Mundo» e as primeiras viagens aéreas Lisboa-Macau . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 95 O «GRANDE PRÉMIO DE MACAU» - A «Feira Musica l – Macau 77» . . . . . . 98 DESPEDIDA DE MACAU – Voltaremos um dia . . . para atravessar a Porta do Cerco ? . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 103 III PARTE (Macau-Hong Kong-Paris-Genebra-Lisboa) MACAU-HONG KONG EM HIDROPLANADOR – Almoço no Club Lusitano com o cônsul de Portugal (onde está exposta a hélice do «Pátria». . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 109 APRESENTAÇÃO DE HONG KONG – Onde vivem cerca de 4 mil portugueses . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 115 BREVE VISITA A HONG KONG – Um português na presidência do Município duma colónia britânica . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 118 REGRESSO AO OCIDENTE – Hong Kong-Paris em 20 horas de viagem numa longa noite de 18 horas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 123 UMA GREVE LEVOU-NOS À SUIÇA (sete horas em Genebra) E, por fim, Lisboa . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . . . 126 A imprensa noticiou uma conferência . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 129 Macau em exposição fotográfica no Estoril . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 133
VIAGEM A MACAU VASCO CALLIXTO 142 A viagem (aérea, marítima e terrestre) em números . . . . . . . . . . . . . . . . 137 OBRAS DO MESMO AUTOR «FALA A VELHA GUARDA» – Subsídios para a história do automobilismo em Portugal – I Volume (1962); II Volume (1963) «PELAS ESTRADAS DA EUROPA» – 21 565 km através de treze países (1965) «VIAGEM ÀS TERRAS DO SOL DA MEIA-NOITE» – Lisboa-Cabo Norte-Lisboa em automóvel» (1966) «VIAGEM AO LESTE DA EUROPA – Lisboa-Moscovo-Lisboa em automóvel» (1967) «AS RODAS DA CAPITAL – História dos meios de transporte da cidade de Lisboa» - Edição da Junta Distrital de Lisboa (1967) «PELAS ESTRADAS DE MARROCOS – De Lisboa às portas do Sahará» (1968) «VIAGEM ATÉ ÀS PORTAS DA ÁSIA – Lisboa-Istambul-Lisboa em automóvel» (1969) «DUAS VIAGENS – Ilhas Britânicas – Lisboa-Praga-Lisboa pelas estradas mais altas da Europa» (1970) «PRIMEIRO ARRANQUE – O desporto automóvel 1902-1940 – Subsídios para a história do automobilismo em Portugal» (1971) «VIAGEM TRANSAFRICANA – Angola-Moçambique em automóvel» (1972) «PELAS ESTRADAS DOS AÇORES – 2 milhares de quilómetros através de 9 ilhas» (1973) «A AVIAÇÃO NA AMADORA – Um quarto de século de epopeias aeronáuticas» - Edição da Câmara Municipal de Oeiras (1974) «VIAGEM A CABO VERDE – 1798 quilómetros através de 9 ilhas» (1974) «JORNADA AMERICANA – Estados Unidos-Candaná-5000 km» (1976) «PELAS ESTRADAS DA MADEIRA E DE PORTO SANTO – Ilhas maravilhosas do Atlântico» (1977)
VIAGEM A MACAU VASCO CALLIXTO 143 «PELAS ESTRADAS DA EUROPA» «VIAGEM ÀS TERRAS DO SOL DA MEIA-NOITE» «VIAGEM AO LESTE DA EUROPA» «PELAS ESTRADAS DE MARROCOS» «VIAGEM ATÉ ÀS PORTAS DA ÁSIA» «DUAS VIAGENS» «VIAGEM TRANSAFRICANA» «PELAS ESTRADAS DOS AÇORES» «VIAGEM A CABO VERDE» «JORNADA AMERICANA» «PELAS ESTRADAS DA MADEIRA E DE PORTO SANTO» «VIAGEM A MACAU» descrevem 15 viagens através dos seguintes países, territórios e ilhas: EUROPA – PORTUGAL, ESPANHA, FRANÇA, BÉLGICA, REPÚBLICA FEDERAL DA ALEMANHA, REPÚBLICA DEMOCRÁTICA ALEMÃ, SUIÇA, MÓNACO, ITÁLIA, ÁUSTRIA, HOLANDA, DINAMARCA, LEICHTENSTEIN, ANDORRA, LUXEMBURGO, SUÉCIA; NORUEGA, FINLÂNDIA, POLÓNIA, UNIÃO SOVIÉTICA, HUNGRIA, SANTA SÉ, GRÉCIA, TURQUIA, BULGÁRCIA, ROMÉNIA, JUGOSLÁVIA, SAN MARINO, IRLANDA, GRÃ-BRETANHA, CHECOSLOVÁQUIA, AÇORES, MADEIRA E PORTO SANTO ÁFRICA – MARROCOS, ANGOLA, SUDOESTE AFRICANO, REPÚBLICA DA ÁFRICA DO SUL, MOÇAMBIQUE E CABO VERDE AMÉRICA – ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA E CANADÁ ÁSIA – TAILÂNDIA, HONG KONG E MACAU 103.012 KM PELAS ESTRADAS DE QUATRO CONTINENTES