• Severino Bezerra Cabral FilhoO Professor Doutor Severino Sabral é natural de Vitória, ES, Brasil. Graduado em História pela Universidade Federal Fluminense - UFF, Doutor em Ciências pela Universidade de São Paulo - USP e diplomado em Altos Estudos de Política e Estratégia pela Escola Superior de Guerra - ESG.Servidor federal do quadro permanente do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE, fundação pertencente ao Ministério do Planejamento, encontra-se atualmente cedido à Escola Superior de Guerra, instituição de ensino e pesquisa vinculada ao Ministério da Defesa do Brasil, onde ensina Geopolítica e Teoria das Relações Internacionais, na Divisão de Geopolítica e Relações Internacionais - DAGRI.Professor e pesquisador em Teoria e História das Relações Internacionais, com especialidade em Estudos de China Contemporênea, coordenou o Programa de Estudos de China e Ásia-Pacífico da Universidade Candido Mendes de 1994 a 2004. Na atualidade é diretor-presidente do Instituto Brasileiro de Estudos de China e Ásia-Pacífico - IBECAP. Tem publicado ensaios e artigos sobre a relação sino-brasileira em revistas especializadas no Brasil e no exterior. É autor dos seguintes livros: “Brasil megaestado: nova ordem mundial multipolar” (2004); “O Brasil e a China: relações de cooperação no século XXI” (2005); “As relações Brasil-China e os desafios do século XXI” (2009). Organizou o livro “5 décadas em questão: 50 anos da livraria Leonardo da Vinci” (2004).01China – uma percepção Euro-Portuguesa por Jaime Nogueira Pinto (Edição em Português)02 Ciber Crime e Ciber Castigo – uso e abuso da autoestrada global de informação por Nuno Rogeiro (Edição em Português)03 A Segurança e a Estabilidadena Ásia Orientalpor Luís Leitão Tomé(Edição em Português)04Protecção e Prevenção de Perdas por José Luís Andrade (Edição em Inglês)05China – uma percepção Euro-Portuguesapor Jaime Nogueira Pinto (Edição em Chinês)06A Segurança e a Estabilidadena Ásia Orientalpor Luís Leitão Tomé(Edição em Chinês)07 Prospectos da Grande China no Século 21 como se vê em Macaupor Gary Ngai(Edição em Inglês)08As Relações Brasil-China e os desafios do Século XXIpor Severino Cabral(Edição em Português)09As Relações Brasil-China e os desafios do Século XXIpor Severino Cabral(Edição em Chinês)Colecçãomiléniohoje10China: uma visão brasileirapor Severino Cabral(Edição em Português)Assim surge identificada esta nova Colecção, onde irão emparelhar-se tantos títulos a vir, diversos mas partilhando algumas características: serão textos originais, de vocação interventiva, perspectivando – dos pontos de vista da Política, da Sociedade, da Ciência Jurídica, das Ciências da Educação e das Novas Tecnologias – os novos desafios, problemas e respostas das sociedades em mudança, neste começo de Milénio.Será também forma de darmos caminho editorial à série de conferências e intervenções em seminários, feitos no âmbito das actividades do IIM, deles dando divulgação a públicos mais vastos e interessados.(O programa editorial desta Colecção decorre das actividades do Centro de Estudos Estratégicos da Região Ásia/Pacífico do Instituto Internacional de Macau).miléniohojeSeverino CabralCHINAbrasileirauma visãomiléniocolecção102013 hoje9 7 8 9 8 9 9 8 1 4 6 1 5ISBN 989-98146-1-5
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  • 5CHINA: UMA VISÃO BRASILEIRApor Severino Cabral10miléniohoje2013colecçãomilenio_hoje_10:Layout 1 20-08-2013 17:23 Page 5
  • C H I N A : U M A V I S Ã O B R A S I L E I R A6Ficha TécnicaTítulo China: uma visão brasileiraAutor Severino CabralCo-edição Instituto Internacional de Macau (IIM)Instituto Brasileiro de Estudos da China e Ásia-Pacífico (IBECAP)Colecção Milénio/Hoje(Edição em Português)Volume Número 10Produção gráfica Maisimagem II - Comunicação GlobalImpressão e encadernação Gráfica MaiadouroTiragem 500 exemplaresDepósito legal 363235/13ISBN 978-989-98146-1-5IIM - Instituto Internacional de MacauRua de Berlim, Edifício Nam Hong,2.º andar (NAPE), MacauTelefone (853) 28751727 / (853) 28751767Fax (853) 28751797E-mail iim@macau.org.moNota: Nos textos respeitou-se a grafia usada pelo Autor.milenio_hoje_10:Layout 1 20-08-2013 17:23 Page 6
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  • S E V E R I N O C A B R A L9APRESENTAÇÃOAcompanhar o desenvolvimento da China e perspectivar o seu papel de crescente relevância na cena internacional, em todos oscenários possíveis e com as interrogações que é legítimo suscitar em relação ao seu percurso nas próximas décadas, tem sido um dos mais apaixonantes desafios colocados à comunidade académica, especialmente nas áreas da Ciência Política e das RelaçõesInternacionais.Neste contexto, é importante conhecer e divulgar as reflexões eintervenções que o Prof. Severino Cabral tem feito, ao longo de muitosanos, em instituições universitárias onde vem exercendo atividadedocente e, mais recentemente, através do Instituto Brasileiro de Estudosda China e Ásia/Pacífico (IBECAP), de que é presidente e fundador. Foi,por isso, que o Instituto Internacional de Macau (IIM), no âmbito daparceria útil e eficaz que estabeleceu com o IBECAP, decidiu incluir estelivro no seu plano editorial para 2013, reunindo alguns textosconsiderados fundamentais do autor, sobre a China, o seu devir históricoe a sua evolução presente e futura, as relações sino-brasileiras, acooperação da China com o mundo lusófono e a antevisão de um mundomultipolar onde o Brasil e a China se afirmarão como potênciasincontornáveis.milenio_hoje_10:Layout 1 22-08-2013 12:14 Page 9
  • Esta colaboração, coerentemente prosseguida pelo IBECAP e pelo IIM,reforçou consideravelmente a capacidade de análise e de pesquisa dasduas entidades e tem viabilizado a realização de estudos e semináriosconjuntos em várias partes do mundo, em torno da temática atrásidentificada. Os sucessos alcançados constituíram poderosos incentivospara mais ambiciosos empreendimentos, merecendo destaque oseminário internacional sobre “O papel de Macau no intercâmbio sino--luso-brasileiro”, que decorre, no corrente ano e já em quinta edição, emsete cidades de três continentes, com a participação cada vez maisalargada de outras prestigiadas instituições de natureza académica,cultural e empresarial.Comemorando-se, agora, o 10.º aniversário da criação do Fórum para aCooperação Económica e Comercial entre a China e os Países de LínguaPortuguesa, também tem sido assegurada, em quase todos os eventosorganizados, uma constante e sempre ampliada promoção da missão,das potencialidades e dos resultados alcançados por este singularinstrumento económico-político de cooperação avançada, cujosecretariado permanente foi, em boa hora, instalado em Macau.O precioso contributo do Prof. Severino Cabral continuará a representaruma mais-valia, na elaboração e execução das nossas múltiplasiniciativas relacionadas com a China, e esperamos poder intensificar, atépor isso, ainda mais o exemplar relacionamento entre o IBECAP e o IIM,com o indispensável apoio e o desejado envolvimento de organizaçõesoficiais e privadas do Brasil, da China, de Macau, de Portugal e de algunsoutros países e territórios interessados no trabalho reconhecidamentepositivo levado a efeito e que estimulará, certamente, o aparecimento denovos estudos e edições nos próximos anos.Macau, Agosto de 2013.Jorge A. H. RangelPresidente do Instituto Internacional de MacauC H I N A : U M A V I S Ã O B R A S I L E I R A10milenio_hoje_10:Layout 1 20-08-2013 17:23 Page 10
  • S E V E R I N O C A B R A L11PREFÁCIOO Dr. Severino Cabral é um dos poucos estudiosos brasileiros que se dedicam ao estudo sobre a China e as relações sino-brasileiras.Encontrámo-nos várias vezes após minha chegada ao Brasil, e me inspireiimenso nas suas observações sensatas e perspicazes sobre a China e asrelações sino-brasileiras. Passámos a ser amigos muito rapidamente.Tenho constatado várias qualidades preciosas dum estudioso excelente,tais como visão estratégica, pensamento independente, pragmático e empreendedor. Nos anos 90 do século passado, os significados e as influências das relações sino-brasileiras não eram vistas serem tãoimportantes como hoje são, e era muito raro fazer pesquisas no Brasilsobre a China e as relações sino-brasileiras. Em dezembro de 1995, o Dr. Cabral acompanhou a visita do então Presidente Fernando Henrique Cardoso à China, que foi o seu primeiro contato estreito com a China. Foi mesmo através desta visita que ele notou com sensibilidade as influências significativas a serem descobertas pelo mundo, pelodesenvolvimento da China e das relações sino-brasileiras, e a partir de então ele começou a empenhar-se no estudo do mesmo tema, epublicou em janeiro do ano seguinte a sua primeira obra sobre a China.Essa decisão tomada naquela época, incompreensível e não vista combons olhos, passou a ser hoje entendida como perspicácia.milenio_hoje_10:Layout 1 20-08-2013 17:23 Page 11
  • C H I N A : U M A V I S Ã O B R A S I L E I R A12Ao longo dos últimos 17 anos, Dr. Cabral viaja quase todos os anos àChina, tendo publicado uma série de obras com pontos de vistapeculiares e conteúdos ricos. O seu estudo sobre a China não segue as ideias dos outros, nem é superficial, mas contém análises e definiçõesindependentes e previdentes sobre questões de grande importânciarelacionadas com a China e as relações sino-brasileiras. Os artigosincluídos neste livro demonstram a previsão dele sobre os papéisimportantes da China neste mundo multipolar, e o significado estratégico do desenvolvimento profundo e integral das relações entre aChina e o Brasil, maiores países em desenvolvimento respetivamente no hemisfério oriental e ocidental, economias emergentes, e membros do BRICS.Faz o ano corrente 20 anos do estabelecimento da Parceria Estratégicados dois países. Ao longo dos últimos 20 anos, registaram-se avanços rápidos e integrais das relações bilaterais, fortalecimento da confiançapolítica mútua, ampliação da cooperação pragmática em diversosdomínios, alargamento do intercâmbio humano e cultural, e aprofundamentoda coordenação estratégica, o que tem beneficiado os dois países epovos, e influenciado o mundo de forma mais significativa. Hoje em dia,as relações dos dois países, com a elevação para a Parceria EstratégicaGlobal, estão cada vez mais estreitas em comparação com qualquer outromomento na história, com maiores significados estratégicos e globais, talcomo previstas pelo Dr. Cabral.É de salientar que, sendo fundador do Instituto Brasileiro de Estudos deChina e Ásia-Pacífico (IBECAP), Dr. Cabral não só conseguiu sucessos extraordinários no seu estudo, mas também promoveu o intercâmbio ecooperação sobre a China e relações sino-brasileiras, além de dar aulas,organizar fóruns (como fórum de Macau e a Cooperação Sino-Luso--Brasileira por várias vezes) e debates para aprofundar o conhecimentomútuo e amizade sino-lusófona, o que tem trazido influências relevantesno Brasil e nos outros países lusófonos. Constato com satisfação de que, hoje em dia, cada vez mais estudiosos lusófonos começaram aacompanhar com atenção e estudar a China, as relações sino-brasileiras,e o desenvolvimento das relações sino-lusófonas. Creio que, Dr. Cabral,como o pioneiro no estudo sobre a China, encontrará outra Primavera nasua carreira acadêmica.A publicação desta obra do Dr. Severino Cabral em Macau e em Portugalé um evento que nos agrada, pelo que gostaria de manifestar as minhassinceras congratulações. Acredito que este livro não só contribuirá parao aprofundamento das relações de cooperação amistosa sino-luso-milenio_hoje_10:Layout 1 20-08-2013 17:23 Page 12
  • S E V E R I N O C A B R A L13-brasileiras, como também constitui um grande presente à comemoraçãono ano que vem, do 40º aniversário do estabelecimento das relaçõesdiplomáticas entre a China e o Brasil. Faço votos pelo maior sucesso doDr. Cabral e pela elevação para uma nova etapa das relações sino--brasileiras.Li JinzhangEmbaixador Extraordinário e Plenipotenciário da República Popular da China no Brasilmilenio_hoje_10:Layout 1 20-08-2013 17:23 Page 13
  • C H I N A : U M A V I S Ã O B R A S I L E I R A14milenio_hoje_10:Layout 1 20-08-2013 17:23 Page 14
  • S E V E R I N O C A B R A L15BREVE INTRODUÇÃO DO AUTORIDesde alguns anos tenho projetado reunir numa coletânea de textos osescritos elaborados em acompanhamento das intervenções minhas emseminários e simpósios dedicados aos estudos chineses no Brasil. Comoesse projeto veio sendo retardado pelos meus compromissos de trabalho,os textos foram se acumulando e sendo relegados a crítica de leitores diligentes que os acessavam ora na rede, ora nas páginas de publicaçõesde instituições diversas, ou em coletâneas organizadas de outros autores.É chegado o tempo, pois, de dar-lhes certa arrumação, para que sinalizemum itinerário de pesquisa que encerra a continuada busca de uma visãoe um pensamento brasileiro sobre a China.Uma busca que me acompanha desde os tempos de minha juventudenos anos setenta do século passado. Pois logo depois de graduar-me emHistória pela Universidade Federal Fluminense fui convidado a dar aulase a pesquisar a China pelo Vice-Diretor do Centro de Estudos Afro--Asiáticos-CEAA da Universidade Candido Mendes. Esse fato algoaleatório como que me designou uma área de estudos – a História dasRelações Internacionais Contemporâneas – e um campo de questõesmilenio_hoje_10:Layout 1 20-08-2013 17:23 Page 15
  • C H I N A : U M A V I S Ã O B R A S I L E I R A16específico sobre o relacionamento sino-brasileiro e seu impacto nosistema mundial de poder.Durante anos a minha formação teórica como especialista em Relações Internacionais e estudos chineses se processou em contato com a vastaliteratura ocidental dedicada ao assunto, sobretudo a de origem anglo--francesa. Como mestres de pensamento ocidental sobre a China, dequem pude haurir muitos ensinamentos encontram-se: os historiadoresanglo-americanos Joseph Needham, John K. Fairbank, Kenneth Lieberthal;como os representantes da grande escola sinólogica francesa: MarcelGranet, Paul Demiéville, Léon Vandermeersch, Etiemble, Jacques Gernete François Jullien.Paralelamente a esta formação, o interesse estrito sobre a história e acultura chinesa crescia e fazia com que dedicássemos maior atenção aos autores chineses clássicos e contemporâneos. Com isto aumentávamoso diálogo com a China clássica e recolhíamos outra tradição de estudodo mundo asiático. O pequeníssimo, quase nenhum, conhecimento dalíngua clássica e moderna que tínhamos não se transformou em obstáculoimpeditivo maior para esse estudo, porque a tradição chinesa e orientalestava ao alcance de nós, por meio de traduções em português, inglês,francês, alemão, espanhol, italiano, – até mesmo latim. Por todos essesanos eu não me afastava dos estudos chineses e estudava a China numaótica em que o Brasil aparecia como a segunda face de uma e mesmamoeda: os dois me pareciam ser os pilares de uma nova ordem mundialmultipolar por vir.A oportunidade que me foi oferecida de visitar pela primeira vez a Chinaem missão organizada pelo Ministério das Relações Exteriores do Brasilpermitiu-me ter uma primeira impressão da realidade chinesa até entãoconhecida apenas pela leitura e pela reflexão abstrata. A partir dela pudeestabelecer novos crivos teórico-práticos e ampliar meu conhecimentosobre o ser nacional chinês. E mais ainda: em sucessivas viagens à China,ora promovidas pelo Itamaraty, ora pela Universidade Candido Mendes,pude acompanhar um pouco de perto o extraordinário processo decrescimento que elevou a maior fração da população do mundial, empouco mais de uma geração, do estágio do subdesenvolvimento aopatamar de megapotência emergente do século XXI.Nessa trajetória não foram poucos os encontros com intelectuaisbrasileiros e estrangeiros engajados no estudo e na discussão sobre ofenômeno chinês e que me permitiram evoluir na percepção de aspectosaté então desconhecidos ou simplesmente deixados de lado pelamilenio_hoje_10:Layout 1 20-08-2013 17:23 Page 16
  • S E V E R I N O C A B R A L17limitação da minha análise. Mas foi o diálogo permanente comprofessores, intelectuais, altos quadros administrativos do Estado chinês,ou simples homens do povo, que me levou pouco a pouco a estabelecero que denominei de uma visão brasileira da China.Ao longo de toda a primeira década do novo século tenho ampliado o debate dentro de uma linha de pesquisa que inclui o relacionamento sino--brasileiro e seu impacto na ordem mundial em transição pós Guerra Fria.Neste eixo de preocupação a visão brasileira da China busca identificaralgumas tendências gerais no sistema internacional que deverãoinfluenciar a estrutura de poder mundial nos próximos decênios. Baseadateoricamente no exercício da reflexão geopolítica e na avaliação dopotencial da China e do Brasil, ela busca visualizar a dimensão mundialda parceria estratégica sino-brasileira.A geopolítica como elemento teórico presente na estrutura dopensamento estratégico brasileiro foi um tema de minha tese doutoral econduziu-me a cursar a Escola Superior de Guerra, vindo a seguir a sermembro do Corpo Permanente daquela instituição de altos estudos estratégicos. Lá dei continuidade aos meus estudos sobre a relação sino--brasileira numa clave estritamente estratégica. Por conta do intercâmbioda ESG com instituições chinesas congêneres estive em visita à Chinaem três ocasiões, acompanhando Comandantes e oficiais generais emvisita de estudo à China.Como na ordem dos acontecimentos muitas vezes a via do saber se fazpelo encontro casual na modalidade de uma tykhe aristotélica, talpodemos dizer foi o nosso encontro com a pequena, distinta e distanteMacau. Uma vinheta de pura cultura portuguesa inserta de modopermanente na enormidade da cultura e da civilização chinesa. Tendoconhecido Macau ainda na administração portuguesa, e tendo depoisretornado já com o governo vinculado à China, pude apreciar a transição,a mudança e a permanência dos traços peculiares da Região AdministrativaEspecial de Macau. Foi em Macau que pude completar o ciclo deconstrução de uma visão brasileira da China. Foi inspirado em Macau, e no seu papel especial no relacionamento sino--luso-brasileiro, que, em 2004, após ter regressado da China, onde estivecomo membro da comitiva brasileira que acompanhou a visita de Estadodo presidente Lula, concebi e dei início à criação do Instituto Brasileirode Estudos de China e Ásia-Pacífico-IBECAP. Preparando-me assim parao encerramento de minha carreira de servidor público federal, intentavadar mais um passo na construção de um think tank capaz de gerar ideiasmilenio_hoje_10:Layout 1 20-08-2013 17:23 Page 17
  • e fórmulas a serviço da estratégia nacional de projeção do Brasil nomundo ásio-oriental do século XXI. Desde então pude desenvolver emcooperação com o Instituto Internacional de Macau-IIM vários ciclos deestudos voltados para a divulgação e exploração do espaço universal dalíngua portuguesa. O estatuto de idioma oficial de Macau, juntamente como chinês, faz do português uma língua de cultura ocidental não somentepresente no continente asiático, mas também, e muito especialmente, nopaís mais populoso do mundo.IIDevo aos amigos Jorge Rangel e José Lobo do Amaral, respectivamentePresidente e Vice-Presidente do Instituto Internacional de Macau-IIM, oestímulo para editar este livro “China: uma visão brasileira”, na coleçãode obras editadas pelo IIM. Algumas palavras sobre como foi concebidoe construído.O livro é uma reunião de textos que compreende o conjunto dasintervenções realizadas pelo autor depois de 2009. Decidi por excluir ostextos anteriores a 2009 por não estarem marcados pela crise de 2008,que tão fortemente tem determinado a conjuntura internacional. Elesseguem uma ordem cronológica, com uma exceção: o texto de aberturada coletânea escrito em 2012. O primeiro texto apresentado como primeiro capítulo do livro é inédito efoi gerado após a realização da Conferência das Nações Unidas Rio+20.Suscitado pela declaração do Chefe de Governo chinês, o Primeiro Ministro, Wen Jiabao, sobre a elevação a um novo patamar da parceriaestratégica Brasil-China, a sua redação data de agosto de 2012. É um estudo da conjuntura internacional marcada pela crise financeira mundiale os seus impactos na ordem interna.Um segundo capítulo do livro reproduz texto selecionado por ter sidousado nos encontros em Berlim e Munique de novembro de 2009,promovidos pela Embaixada do Brasil e o Consulado Geral sobre o temado Brasil entre os BRICs. O terceiro foi o tema da conferência dada emMacau sobre o estatuto universal da língua portuguesa e sua crescenteimportância como língua de cultura presente em todos os continentes. O seminário “O papel de Macau no intercâmbio sino-luso-brasileiro” tevelugar em Macau no mês de setembro de 2009.C H I N A : U M A V I S Ã O B R A S I L E I R A18milenio_hoje_10:Layout 1 20-08-2013 17:23 Page 18
  • S E V E R I N O C A B R A L19Como quarto capítulo do livro encontra-se texto extraído do Semináriosobre “Segurança Internacional: perspectivas brasileiras”, promovido peloMinistério da Defesa em cooperação com a FGV, no ano de 2010.Apresento-o nesta coletânea sem modificação, tal como foi editado, coma autorização das autoridades do MD, a quem agradeço especialmentena pessoa de Sua Excelência, Maj-Brig do Ar Pompeu Brasil.Na sequência tivemos em 2011 o seminário da FUNAG/IPRI “Brasil eChina no reordenamento das Relações Internacionais: Desafios eoportunidades”, onde foi apresentado o quinto texto a compor estacoletânea: “O dialogo estratégico sino-brasileiro”. Também reproduzidotal como foi editado pelo Ministério das Relações Exteriores, compermissão autorizada por Sua Excelência Embaixador José Vicente de SáPimentel, a quem agradeço especialmente.Os três últimos textos são inéditos e foram elaborados para discussões internas voltadas para a elucidação de aspectos da conjunturainternacional; uma pesquisa sobre a estrutura do poder mundial; e, porfim, um rápido exame do estado atual do estudo sobre a cultura da Chinano Brasil.Como gostaria de dar uma visão do caminho por mim percorrido atéagora acrescentei dois anexos: o primeiro reproduz o texto de apresentaçãodo “Programa de estudos de China e Ásia-Pacífico” da UniversidadeCandido Mendes; e o segundo reproduz cópia do autor do “Relatório deViagem”, enviado à Chefia do Departamento de Ásia e Oceânia doItamaraty. Ambos estão datados do ano de 1994. Ano em que secomemorou o vigésimo aniversário do estabelecimento das relaçõesdiplomáticas entre a República Federativa do Brasil e a República Popularda China. Com estes dois documentos se fecha o livro “China: uma visãobrasileira”.IIIAntes de encerrar esta introdução, dirijo especial agradecimento a SuaExcelência Senhor Embaixador Li Jinzhang, por suas generosas eamigáveis palavras endereçadas ao autor do livro no prefácio a estaedição. Sinto-me honrado e agradecido por sua atenção e pelapreciosa lição que encerra suas palavras sobre o relacionamento sino--brasileiro.milenio_hoje_10:Layout 1 20-08-2013 17:23 Page 19
  • Também gostaria de registrar a amizade e a cooperação de SuaExcelência Embaixadora Maria Edileuza Fontenele Reis, que à frente daSecretaria Geral Política II tem recepcionado as iniciativas do IBECAP--IIM no sentido da construção do relacionamento sino-brasileiro.Na figura desses dignos representantes da diplomacia dos dois paísesquero prestar uma justa homenagem aos serviços prestados por todosos funcionários e homens de Estado que ao longo de quase quatrodécadas trabalharam, e continuam a trabalhar pelo adensamento eaprofundamento desse especial relacionamento sino-brasileiro.A real dimensão desse trabalho e seu inestimável valor talvez sejamrefletidos nas palavras com que Confúcio sabiamente define para oPríncipe de Lu a “Conduta do Letrado”: – “Ele não considera como coisaspreciosas o ouro nem as pedrarias, mas sim a sinceridade e a boa fé”(Literattus non pretiosum ducit aurum nec gemmas, sed sinceritatem acfidem ducit pretiosas).Severino CabralC H I N A : U M A V I S Ã O B R A S I L E I R A20milenio_hoje_10:Layout 1 20-08-2013 17:23 Page 20
  • S E V E R I N O C A B R A L21O NOVO MOMENTO DA RELAÇÃOSINO-BRASILEIRA E O SEU SIGNIFICADOESTRATÉGICO GLOBAL“A Presidenta Dilma Rousseff e o Primeiro-Ministro Wen Jiabao anunciarama elevação do relacionamento sino-brasileiro ao patamar de Parceria Estratégica Global. Assinalaram que essa decisão atesta o reconhecimentoda crescente influência estratégica global dos dois países, cuja cooperaçãoserá cada vez mais abrangente, numa conjuntura internacional marcadapor mudanças profundas.” Extraído do Comunicado Conjunto entre Brasile China-Rio de Janeiro, 21 de junho de 2012. Tais palavras registradas no item quatro do Comunicado Conjuntomarcaram a histórica visita do Primeiro-Ministro Wen Jiabao ao Brasil,sinalizando para a importância crucial de que se reveste hoje a parceriaestratégica sino-brasileira. Neste ano de 2012, sobretudo, a partir da realização em Brasília da II Sessão da Comissão Sino-Brasileira de AltoNível de Concertação e Cooperação-COSBAN, presidida pelo lado brasileiro pelo Vice-Presidente da República, Michel Temer, e pelo ladochinês, Vice-Primeiro Ministro, Wang Qishan, seguida da Quarta Cúpulados BRICS, em Nova Delhi, quando a Presidenta Dilma Roussef encontroumais uma vez o Presidente Hu Jintao, acelerou-se o processo de elevaçãoda parceria estratégica a um novo e significativo patamar de impacto global.milenio_hoje_10:Layout 1 20-08-2013 17:23 Page 21
  • C H I N A : U M A V I S Ã O B R A S I L E I R A22A continuidade do esforço de cooperação estratégica veio a se completarcom a visita oficial ao Brasil do Chefe do Conselho de Estado da RPChina, momento em que se visualizou a nova situação com a elevaçãodo patamar da relação estratégica a nível global, anunciado pela presidentaDilma Rousseff e o Primeiro-Ministro Wen Jiabao, no ComunicadoConjunto entre o Brasil e China de 21 de junho de 2012, numa decisãoque reconhece “a crescente influência estratégica global dos dois países”.O Comunicado estabelece um novo e superior grau no relacionamentoentre os dois países. Desde o estabelecimento da Parceria Estratégicaem 1993, passando pela criação da COSBAN e o início do DiálogoEstratégico em 2004, chega-se, portanto, em 2012, a este novo patamar:Parceria Estratégica Global.Além do Comunicado Conjunto, durante a visita do Primeiro-Ministrochinês, foi assinado o “Plano Decenal de Cooperação (2012-2021)”,importante documento que veio somar-se ao “Plano de Ação Conjuntapara os anos 2010-2014”, na “promoção de avanços substanciais nacooperação pragmática bilateral e no fortalecimento do conteúdoestratégico das relações sino-brasileiras”. O documento enfatiza um novoenfoque pragmático e inovador para explorar nos próximos dez anos aspotencialidades da cooperação sino-brasileira nas áreas de ciência, tecnologia,inovação e cooperação espacial; energia, mineração, infra-estrutura,transportes e investimentos; parcerias industriais, cooperação financeirae econômica comercial; adensamento do intercâmbio educacional ecultural visando o aumento do relacionamento entre os dois países noscampos de atividade acadêmica, científica, artística e esportiva.Numa conjuntura marcada por fortes e profundos câmbios na situação política e econômica mundial, o estreitamento dos laços de cooperaçãoentre o Brasil e a China assume um caráter peculiar por se tratar de um relacionamento de grande potencial na modificação das estruturaseconômicas e financeiras reinantes desde a segunda guerra mundial. Nacondição de países emergentes, membros do BRICS e do G-20, parceirosna OMC no Banco Mundial e FMI, China e Brasil são, respectivamente, a segunda economia e a sexta economia do planeta, constituindo-seambos nos dois maiores gigantes do mundo em desenvolvimento nohemisfério oriental e ocidental.As fortes pressões geradas pela crise financeira mundial que vemafetando a economia do mundo desenvolvido apresentam-se como umdesafio comum aos dois países no sentido de defender a continuidadedo processo de crescimento econômico e a elevação do padrão de vidae bem estar de suas respectivas populações. Sendo assim, a cooperaçãomilenio_hoje_10:Layout 1 20-08-2013 17:23 Page 22
  • S E V E R I N O C A B R A L23bilateral assume um papel cardeal na defesa de interesses de ambas aseconomias, mas também da economia mundial em seu conjunto.Entre os grandes desafios para os quais a relação bilateral sino-brasileirapode e deve atuar no sentido de melhorar os termos de troca e decomércio internacional está o campo do comércio bilateral que deve serincrementado baseado no princípio do ganho mútuo e recíproco. O comérciobilateral do Brasil com a China que já beira os 100 bilhões de dólaresapresenta um potencial de crescimento crescente e permanente que seelevará na presente década a um nível dos mais altos do comércio mundial.O Brasil apresenta um perfil de supremo produtor mundial de alimentos eenergia e a China é a grande manufatura do mundo. A sinergia que podegerar essa gigantesca complementaridade deverá influenciar os rumosda economia mundial nas próximas décadas. A sinergia sino-brasileira transcenderá as fronteiras do Brasil ao incluir não só o conjunto da regiãosul-americana como também parte da África subsaariana (principalmenteo subconjunto da África Austral) no processo de integração da grandeplanta econômica, financeira, industrial e comercial meridional do planeta.O outro grande setor de crescimento da cooperação estratégica sino--brasileira de alcance mundial é o da alta tecnologia, sobretudo no campoaeroespacial, cibernético, biotecnológico e de energia renovável. Emtodas essas áreas grandes iniciativas estão programadas no PlanoDecenal (2012-2021). Alguns projetos já vêm sendo desenvolvidos faztempo, como o CBERS, e outros mais recentes estão sendo empreendidosna área de energia renovável, nanotecnologia, biotecnologia e tecnologiada informação.Contudo para avançar nesses e outros campos de atuação há queaprofundar a relação bilateral através do mútuo conhecimento que será baseado numa troca cultural e educacional mais intensa do que a queexiste na atualidade. Neste sentido, o Plano Decenal contempla váriosprogramas de criação de bolsas de estudo em todos os níveis e defundação de centros de pesquisa cultural da China no Brasil e do Brasilna China, para incentivar o estudo da língua chinesa e portuguesa,visando sua maior aproximação e compreensão mútua. No entanto todo esse esforço comum deve apoiar-se no relacionamentoeconômico e financeiro, que só será factível através de reforma dosistema financeiro mundial a ser promovida passo a passo pelos doispaíses, em conjunto com os demais membros da comunidade formadapelos países em desenvolvimento, em necessário diálogo com os paísesmilenio_hoje_10:Layout 1 20-08-2013 17:23 Page 23
  • C H I N A : U M A V I S Ã O B R A S I L E I R A24desenvolvidos. E um desses passos estratégicos vem de ser dadoquando da visita de Wen Jiabao ao Brasil com o estabelecimento deimportante acordo de cooperação financeira entre o Brasil e a China tendoem vista a troca comercial bilateral em moedas locais, ou seja, atravésdo intercâmbio do Reminbi com o Real. Foi acertado que os respectivos,Banco Central do Brasil, e Banco do Povo da China, terão um mecanismobilateral de acordo no valor máximo de 60 bilhões de Reais e 190 bilhõesde Yuans. No Plano Decenal aprovado pelos dois governos, a cooperaçãofinanceira se amplia e se adensa com instalação de instituições financeirasem ambos os países com vista a aumentar as áreas de investimento.Tratam também de promover esforços na direção da reforma do sistemade quotas e governança mundial com a revisão prevista do Banco Mundialpara o ano de 2015, sobretudo aprofundando a cooperação e suaparticipação no âmbito do BRICS e no G-20.O significado principal desse acordo bilateral sino-brasileiro na áreafinanceira é que ele faz avançar o processo da internacionalização doRMB, já em curso como uma das respostas chinesas à crise mundial, nadireção de uma parceria crescente com a economia sul-americana (quetem no gigante brasileiro o mais importante parceiro regional da China) –como um sustentáculo da nova ordem mundial multipolar no terreno daconstrução de uma nova ordem econômica e financeira internacional. O conhecimento mais amplo e detalhado da situação econômica e políticacomplexa em que vive o mundo atual imprime ao relacionamento sino--brasileiro um caráter estratégico pela natureza e o peso dos dois estadose das duas economias. A sua cooperação cada vez maior influenciará aconjuntura no sentido positivo de equilibrar, estabilizar e fazer prosperara economia global. Espera-se, assim, que o cumprimento do Plano Decenal 2012-2020 e os outros acordos assinados pelos dois governosaprofundem a parceria estratégica global tornando o relacionamento sino-brasileiro um dos sustentáculos da nova ordem multipolar queemerge nesta segunda década do século XXI.A extrema complexidade da situação internacional do começo do séculoe do milênio aponta para o desenvolvimento de tendências ora centralizadorasora descentralizadoras no processo de globalização que se disseminoulogo após o fim da Guerra Fria e da bipolaridade. De tal modo que, emtodas as sociedades, tanto ocidentais como orientais, os fenômenos detransgressão da lei e de ameaça anárquica insurrecional tornaram-se comuns, ampliados que foram pela expansão dos meios de comunicaçãoe informação de massa. O casamento do satélite de comunicação com ocomputador, muito além do que os pensadores da primeira metade domilenio_hoje_10:Layout 1 20-08-2013 17:23 Page 24
  • S E V E R I N O C A B R A L25século XX imaginavam, subverteu todos os consensos e desencadeou oque se pode denominar de uma mudança de “pele” da humanidade. Taltendência está a exigir das autoridades e dos governos de todos osquadrantes uma arte de governar cada vez mais flexível, dúctil, mas queseja capaz de resistir a toda força desconstrutora que ameace a soberaniados Estados. Tal como à época da Guerra Fria e do equilíbrio do terror nuclear seexercitava a “chantagem nuclear” em nossa época se pratica o que sepoderia chamar de “chantagem climática e ambiental”. Em nome docombate ao desenvolvimento predatório e dissipador de recursos se tenta pura e simplesmente impedir o desenvolvimento. De um lado, oconservadorismo ambientalista irmanado com o ativismo militante erguebarreiras ao crescimento e a geração de riqueza, de outro, os organismosinternacionais praticam o protecionismo a favor dos países desenvolvidoscriando óbices a políticas que favoreçam o mundo em desenvolvimento.Eis porque o Brasil e os demais países do BRICS devem liderar o esforçomundial para a superação desses limites tendo em vista sua crescentepresença na cena internacional e o seu papel protagonizante no campodas práticas econômicas que deverão orientar o ritmo do crescimento daeconomia mundial nas próximas décadas. Nos recentes e importantesencontros dos chefes de Estado desses países algo neste sentidocomeçou a tomar vulto. Os textos e documentos divulgados pelos sitesdos Ministérios de Relações Exteriores falam por si quanto ao significadoda concertação estratégica entre os gigantes do mundo emergente doséculo XXI.Megapotências do século XXI, os quatros países estão desafiados amanter o crescimento das suas economias para atingir novos degraus nabusca do desenvolvimento sustentável e harmonioso. O que implica quese tornem uma força conjunta a trabalhar para a reativação da economiamundial e conseqüente retomada dos mais altos níveis de crescimento edesenvolvimento.O exame da questão do relacionamento do Brasil com as demais potênciasmundiais nos leva a pensar e a tentar minimamente definir o que sedenomina nos tempos de hoje de Potência Global.Em primeiro lugar, deve-se constatar que a Potência Global difereessencialmente das Grandes Potências do século passado, que disputaramem guerras sucessivas o poder mundial. Difere, sobretudo, porque ela éum resultado da imensa transformação operada pela civilização industriale urbana no sistema internacional, a partir da segunda metade do século XX.milenio_hoje_10:Layout 1 20-08-2013 17:23 Page 25
  • C H I N A : U M A V I S Ã O B R A S I L E I R A26Em segundo lugar, o significado maior dessa transformação é a criaçãode um mercado universal (dito Global) e a decorrente medição de forçaem torno da economia e das finanças produzida por esse sistema; e, deoutro lado, a sua inserção numa vasta estrutura científica e técnica quesustenta as relações entre todas as potências supergrandes, grandes,médias e pequenas que formam parte da estrutura mundial de poder. Oaparecimento da Potência Global anuncia, pois, o surgimento da Era doMegaestado e do mundo multipolar.Em terceiro lugar, tal como no início do século XX Halford Mackinderpodia prever a disputa pelo poder no mundo pós-Colombiano, com aampliação da era dos descobrimentos e a criação do mercadouniversal, mais recentemente, em seu livro de 1997 sobre o sistemamundial pós-Guerra Fria, Zbigniew Brzezinski veio a definir os EstadosUnidos como a “primeira, a única e a última Superpotência Global”.Assinalando assim o começo de uma era em que não apenas oscontinentes e os espaços marítimos, mas todo o planeta e o espaçocósmico que envolve a terra podem ser alvos de disputa de poder e debusca de hegemonia por parte das potências globais. Porém, aocaracterizar os EUA como a “última superpotência global”, o autor jánotava a natureza limitada no tempo da liderança americana e anecessidade de uma abertura para novas e desafiadoras realidades doséculo XXI. Em quarto lugar se constata que o crescimento das potências emergentesas elevam à condição de potências ditas globais, na medida em quepodem funcionar como parte de todos os cenários econômicos, político--estratégicos mundiais em que se disputam recursos naturais, mercadose conhecimento técnico-científico. O que faz com que as questões ligadasà defesa e segurança nacional da Potência Global sejam decisivas parao seu desenvolvimento, obrigando assim a transcender o seu espaçoregional e a tornar-se uma Potência Militar Global. O que equivale, talvez,a dizer que a Potência Global, ao ascender à condição de Potência MilitarGlobal, estará em condição de competir com a Superpotência Global peloPoder Mundial. Resta saber se as condições em que se desenvolvem asrelações internacionais contemporâneas marcharão nessa direçãonecessariamente.Em decorrência desses fenômenos vemos que o início do século XXIapresenta o mundo em grande e rápida transformação. A extraordináriarevolução na ciência e na técnica habilita a humanidade a alcançar novosgraus de desenvolvimento na arte de criar riqueza e gerar prosperidade.A comunicação via satélite e os meios de transporte aéreo praticamentemilenio_hoje_10:Layout 1 20-08-2013 17:23 Page 26
  • S E V E R I N O C A B R A L27uniram o mundo inteiro. Indivíduos e nações se aproximam e serelacionam cada vez mais em todos os horizontes do planeta. Pouco epouco se estrutura uma nova ordem mundial baseada no entendimento ena cooperação de todos os países do mundo, baseada na independênciae autodeterminação dos povos. Por outro lado esta nova ordempressupõe o rápido crescimento econômico e social de países que seencontram em diferentes estágios de desenvolvimento. O que se traduztambém por tensão e instabilidade, por vezes geradoras de crises econflitos. Desde que um relatório da firma Goldman & Sachs, de Londres, despertoua atenção de analistas de todo mundo, ao prever para o ano de 2050 aemergência do BRIC, assistiu-se a grandes mudanças na estrutura do sistema internacional. Na antecipação dos autores do relatório, por voltade metade do século XXI a estrutura do sistema mundial de poder estaráapoiada na economia dos países cujas iniciais formam o acróstico: Brasil,Rússia, Índia e China. Esses países, por essa altura, se situariam no topodo sistema mundial. O relatório serviu para atrair a atenção para aexistência de macrotendências do sistema mundial no século e milênioque ora se inicia.A primeira tendência que se anuncia é a de que só os grandes países domundo de hoje, que sejam dotados de considerável espaço territorial, população e força econômica autônoma, podem aspirar constituir umpólo de poder mundial na forma de um megaestado. Neste sentido, aunidade e a integração européia servem de balizamento para tornar-seao bloco europeu uma unidade política ativa do mundo contemporâneo:o seu êxito ou fracasso determinará a existência futura da Europa comogrande centro mundial de poder. Como também é observável, que osprincipais obstáculos no caminho do BRIC para o topo da ordem mundial relacionam-se à capacidade de cada um deles manter, ampliar e atémesmo recuperar espaço, população e base econômica. Em suma, a característica principal do processo em curso, a contrario sensu da fragmentação da “primeira onda globalizante”, é a da constituição dosmegaestados, que serão amanhã os sustentáculos da mundialização.A segunda e decorrente tendência é que o ambiente internacional deveráser profundamente alterado em relação ao que era ao final da Guerra Fria,sobretudo o sistema que sucedeu a bipolaridade, e que se denominou a“Nova Ordem Mundial”. Contudo, acontecimentos como as duas guerrasdo Golfo e o incidente do dia 11 de setembro de 2001 são sintomas daprofunda e dramática instabilidade da ordem internacional gerada pelaunipolaridade, vale dizer, a política de força de uma única potência. Amilenio_hoje_10:Layout 1 20-08-2013 17:23 Page 27
  • C H I N A : U M A V I S Ã O B R A S I L E I R A28superação desse estado de coisas só ocorrerá com a emergência de umanova ordem mundial mais democrática e mais legítima baseada num novoequilíbrio de forças entre as nações. O advento de uma ordem multipolarserá positivo para a criação de uma situação internacional menos tensae mais direcionada para a elevação do nível de vida das populações domundo em desenvolvimento.A terceira tendência cada vez mais visível no horizonte internacional é opapel da Ásia do Leste como um dos pilares do mundo multipolar emgestação. O mega desenvolvimento da China (que já adquire a forma deum megaestado), em seguida ao do Japão e da Coréia, transformou omundo ásio-oriental na vanguarda do sistema internacional. Trata-se deuma região de importância cada vez maior no jogo de equilíbrio do podermundial, conseqüentemente para a paz e o desenvolvimento do mundo.Esta a razão porque, neste começo de século e de milênio, a China e aÁsia Oriental encontram-se no centro do processo da construção de umdos pilares de sustentação do sistema internacional multipolar de amanhã.Como quarta tendência, é possível constatar a ressurgência dascivilizações afetadas em seu destino histórico pelo mundo euro-ocidentale pela ciência e técnica moderna. O mundo que assistiu no pós-SegundaGuerra ao processo de industrialização e assimilação da técnica e daciência, despertou importantes forças irradiantes e insurgentes, com adescolonização da África, Ásia e do mundo árabe-muçulmano. Esteúltimo fenômeno, sinalizado pela ressurgência do Islamismo comoprotagonista da cena internacional, tem impressionado observadores detodo o mundo, a ponto de ser interpretada como o desafio maior do pósGuerra Fria.Uma quinta tendência influenciará de forma decisiva a configuração domundo de amanhã. Trata-se da emergência do mundo latino, cujoprotagonismo possível encontra no futuro megaestado brasileiro seuprincipal ator. Embora a Europa meridional seja parte fundadora domundo latino, o emergente bloco reunirá, sobretudo, o conjunto dospaíses da América Latina. O novo mundo latino-americano integrará umagrande área econômica capaz de impulsionar a criação de uma novaordem mundial multipolar.Essas cinco macrotendências desenham uma linha central que aproximae faz convergir, em graus e intensidades variadas, as estratégias dosgrandes países do mundo emergente. Observa-se nesse processo que aChina tenta consolidar o seu processo de industrialização, e ampliar suaparticipação no sistema internacional, apoiada na defesa de uma ordemmilenio_hoje_10:Layout 1 20-08-2013 17:23 Page 28
  • S E V E R I N O C A B R A L29mundial estável. No caso do Brasil – que é o maior país em desenvolvimentodo hemisfério ocidental, detentor de recursos naturais imensos, e de umagrande população, desejosa de contribuir para a elevação do bem estarmaterial e espiritual de todos os povos – essas macrotendênciaspresentes na cena internacional fazem-no cada vez mais interessado,num esforço conjunto com a China, Rússia e Índia, numa pauta comumem defesa do desenvolvimento pacífico e sustentável. Compreendido este último como uma resposta ao desafio gerado pelo aparecimento deuma economia globalizada e as ameaças dela resultante: ampliaçãoda diferença de renda entre ricos e pobres, degradação ambiental,aumento do hiato financeiro, científico e técnico existente entre os paísesindustrializados e o mundo em desenvolvimento.Ao visualizar essas macrotendências globais, em meio ao tumulto geradopela crise dos mercados financeiros mundiais, não se deve perder de vistaas contratendências presentes na conjuntura internacional. A principaldelas pode definir-se como o advento de uma “segunda onda globalizante”,que se anuncia fortemente vinculada a questões políticas suscitadaspelas chamadas ameaças climáticas e ambientais. Nela a medição deforça no campo econômico e financeiro bem como científico tecnológicotornar-se-á fator decisivo para a continuidade do desenvolvimentomundial.Assim que – para “navegar nessa nova onda global”, que desafia todosos países e ameaça a humanidade com o duplo flagelo do aquecimentodo planeta acoplado ao desaquecimento econômico mundial – a estratégiaa ser seguida por cada ator da cena mundial deverá estabelecer a“sobrevida dentro do ciclo” como a sua principal meta. O que resultará éclaro num reforço da proteção dos recursos naturais e humanos de cadaunidade política ativa do sistema internacional. Esta reação de autodefesapode vir a desatar uma corrente protecionista entre as economias industriaise acarretar uma deterioração do comércio mundial, aprofundando oprocesso de crise da economia mundial e trazendo sérios entraves parao desenvolvimento dos países emergentes.Outra contratendência evidencia o risco que correm as unidades políticasnacionais com o aumento de tensões separatistas geradas por movimentossociais radicais de fundo político-ideológico, étnicos e religiosos. Na outraponta dos movimentos de “capitais desregulados” que provocam adesestabilização econômica mundial, esses movimentos sociais radicaistambém atuam para aprofundar a crise sistêmica e ameaçar a unidade ea integridade dos Estados. Neste sentido visualiza-se uma crescenteinstabilidade nas diversas regiões do mundo, notadamente naquela quemilenio_hoje_10:Layout 1 20-08-2013 17:23 Page 29
  • C H I N A : U M A V I S Ã O B R A S I L E I R A30se situa no epicentro da crise mundial, estendendo-se do Norte da Áfricae do Médio Oriente ao Centro e Sul da Ásia.Em que pese essas contratendências e a vasta crise financeira global agerar incertezas permanece a tendência principal de emergência de novoscentros de poder mundial e do surgimento da multipolaridade como umanova configuração da estrutura do sistema internacional.Creio que levando em conta tal panorama das questões relacionadas àsituação internacional contemporânea é justo pensar que o Brasil assimcomo as grandes unidades políticas emergentes busquem ampliar sua influência e determinar os rumos da política internacional global por meiodos meios que dispõem, sejam eles: econômicos, políticos, culturais,diplomáticos e estratégicos.Sendo assim, podemos visualizar de modo sintético algumas questõescruciais: o planejamento estratégico do Estado brasileiro; a relação coma China os centros mundiais de poder; as relações do Brasil com a Chinae os demais países emergentes e a situação atual; sua presença nosfóruns multilaterais e por último, mas não em último, seu pleito de umaassento permanente no Conselho de Segurança da ONU.Na tradição brasileira o Estado Nacional tem sido um indutor depolíticas, mais do que um executor. Em algumas conjunturas especiais,porém, adotou por um tempo a dupla função de garantidor e deplanejador. No momento atual o Estado brasileiro está retomando, emface da conjuntura internacional, o papel de planejador e, neste sentido, o Plano de Ação Conjunta e o Plano Decenal de Cooperaçãocom a China é exemplar, por constituir um conjunto de medidas que, do lado brasileiro, devem reforçar a necessidade de planejamento deEstado de longo prazo como inevitável instrumento de política deEstado.Por todas as razões conhecidas a conjuntura internacional após a GuerraFria tem induzido à interdependência das grandes potências, no esforçocomum de manter a estabilidade, a prosperidade, e a segurança das nações. O Brasil, tal como a China, é um grande país emergente, e eledeve inserir-se na cena internacional de forma responsável buscando odiálogo na solução das controvérsias e na obtenção de suas metas dedesenvolvimento.A expectativa geral é de que o diálogo e a cooperação venham aprevalecer sobre a disputa e a confrontação entre a China e os EUA.milenio_hoje_10:Layout 1 20-08-2013 17:23 Page 30
  • S E V E R I N O C A B R A L31Da parte brasileira espera-se desenvolver uma cooperação cada vezmaior com a China no âmbito dos BRICS, do G-20, do BASIC, e, noplano bilateral, dar uma dimensão global à parceria estratégica sino--brasileira.Nos fóruns multilaterais o Brasil se propõe ser uma fonte de diálogo ecooperação, na sua condição de grande potência emergente, emascensão pacifica, para desempenhar papéis cruciais na construção deuma ordem internacional multipolar.O Brasil foi um dos construtores do sistema das Nações Unidas comoum dos vencedores da Segunda Guerra Mundial, tendo participado dosgrandes combates travados no teatro de batalha europeu da guerra aolado dos três grandes aliados EUA, URSS e Grã-Bretanha. Por umaquestão de peso, na negociação, deixou por pouco de fazer parte doConselho de Segurança das Nações Unidas, constituído pelos atuaisocupantes.Desde então reclama sua participação como membro permanente doCS. Suas razões são as do senso comum e da lógica. Sendo a quintaextensão territorial do planeta, a quinta população, a quinta reservafinanceira e o sexto produto industrial bruto, o Brasil se assume comoum dos grandes poderes continentais e marítimos do sistemainternacional, que dispõe de recursos naturais e humanos e ocupa uma posição importante e estratégica para atuar na defesa daestabilidade e do desenvolvimento mundial. Os desafios mundiais quese apresentam diante de todos os países do mundo desenvolvido e emdesenvolvimento são crescentes e variáveis: desde os problemas demeio ambiente, a crise económica e financeira, a conflitos internacionaise ações terroristas engendrados pelos radicalismos políticos, étnicos ereligiosos. Eles se multiplicam ameaçando a soberania, a independênciae a integridade dos Estados que formam a comunidade das nações.Nesse contexto é que a ONU e a diplomacia multilateral tende adesempenhar um papel nuclear no sistema internacional, daí resultandoa necessidade da reforma abrangente da organização, incluindo o seuConselho de Segurança, para assegurar maior eficácia, eficiência erepresentatividade, de modo a enfrentar os desafios globais que põemem risco a paz e o desenvolvimento. Diante de tal quadro internacionalo Brasil deve pretender, junto com os países do BRICS, desempenharum papel decisivo na reforma das Nações Unidas.São estas, em síntese, algumas visões do momento atual e dos desafiosque o Brasil e a China enfrentam na companhia dos demais países domilenio_hoje_10:Layout 1 20-08-2013 17:23 Page 31
  • mundo em desenvolvimento e que justificam uma ação conjunta para estabilizar o sistema, superar a crise e promover o retorno do crescimentoe do desenvolvimento sino-brasileiro.Rio de Janeiro, agosto de 2012.C H I N A : U M A V I S Ã O B R A S I L E I R A32milenio_hoje_10:Layout 1 20-08-2013 17:23 Page 32
  • S E V E R I N O C A B R A L33O BRASIL NO BRIC: UMA COMPARAÇÃO ANALÍTICAO Brasil e o mundo no século XXI“Sabendo reconhecer as prioridades, estarás ao alcance da via”. Daxue“Or le monde du XXIe Siècle se caractérise par des changements fondamentaux d’acteurs,en raison de leur diversification et surtout de l’émergence de nouveaux géants – Chine, Inde, Brésil...”. Éric de la Maisonneuve“Brazil is South America’s magnet, attracting labor and investment from all sides. (...) and Latin America’s geopolitical ambitions in turn depend almost entirely on Brazil.” Parag KhannaO início do século XXI apresenta o mundo em grande e rápida transformação.A extraordinária revolução na ciência e na técnica habilita a humanidadea alcançar novos graus de desenvolvimento na arte de criar riqueza egerar prosperidade. A comunicação via satélite e os meios de transporteaéreo praticamente uniram o mundo inteiro. Indivíduos e nações seaproximam e se relacionam cada vez mais em todos os horizontes doplaneta. Pouco e pouco se estrutura uma nova ordem mundial baseadano entendimento e na cooperação de todos os países do mundo, baseadana independência e autodeterminação dos povos. Por outro lado estanova ordem pressupõe o rápido crescimento econômico e social depaíses que se encontram em diferentes estágios de desenvolvimento. Omilenio_hoje_10:Layout 1 20-08-2013 17:23 Page 33
  • C H I N A : U M A V I S Ã O B R A S I L E I R A34que se traduz também por tensão e instabilidade, por vezes geradoras decrises e conflitos. Faz pouco tempo um relatório da firma Goldman & Sachs, de Londres,despertou a atenção de analistas de todo mundo, ao prever para o ano de2050 a emergência do BRIC. Na antecipação dos autores do relatório, porvolta de metade do século XXI a estrutura do sistema mundial de poderestará apoiada na economia dos países cujas iniciais formam o acróstico:Brasil, Rússia, Índia e China. Esses países, por essa altura, se situariam no topodo sistema mundial. O relatório serviu para atrair a atenção para a existênciade macrotendências do sistema mundial no século e milênio que ora se inicia.A primeira tendência que se anuncia é a de que só os grandes países domundo de hoje, que sejam dotados de considerável espaço territorial, população e força econômica autônoma, podem aspirar constituir umpólo de poder mundial. Neste sentido, a unidade e a integração européiaservem de balizamento para tornar-se ao bloco europeu uma unidade política ativa do mundo contemporâneo: o seu êxito ou fracassodeterminará a existência futura da Europa como grande centro mundialde poder. Como também é observável, que os principais obstáculos no caminho do BRIC para o topo da ordem mundial relacionam-se àcapacidade de cada um deles manter, ampliar e até mesmo recuperarespaço, população e base econômica. Em suma, a característica principaldo processo em curso, a contrario sensu da fragmentação da “primeiraonda globalizante”, é a da constituição dos megaestados, que serãoamanhã os sustentáculos da mundialização.A segunda e decorrente tendência é que o ambiente internacional deveráser profundamente alterado em relação ao que era ao final da Guerra Fria,sobretudo o sistema que sucedeu a bipolaridade, e que se denominou a“Nova Ordem Mundial”. Contudo, acontecimentos como as duas guerrasdo Golfo e o incidente do dia 11 de setembro de 2001 são sintomas daprofunda e dramática instabilidade da ordem internacional gerada pelaunipolaridade, vale dizer, a política de força de uma única potência. A superação desse estado de coisas só ocorrerá com a emergência deuma nova ordem mundial mais democrática e mais legítima baseada numnovo equilíbrio de forças entre as nações. O advento de uma ordemmultipolar será positivo para a criação de uma situação internacionalmenos tensa e mais direcionada para a elevação do nível de vida daspopulações do mundo em desenvolvimento.A terceira tendência cada vez mais visível no horizonte internacional é opapel da Ásia do Leste como um dos pilares do mundo multipolar emmilenio_hoje_10:Layout 1 20-08-2013 17:23 Page 34
  • S E V E R I N O C A B R A L35gestação. O mega desenvolvimento da China (que já adquire a forma deum megaestado), em seguida ao do Japão e da Coréia, transformou omundo ásio-oriental na vanguarda do sistema internacional. Trata-se deuma região de importância cada vez maior no jogo de equilíbrio do podermundial, conseqüentemente para a paz e o desenvolvimento do mundo.Esta a razão porque, neste começo de século e de milênio, a China e aÁsia Oriental encontram-se no centro do processo da construção de umdos pilares de sustentação do sistema internacional multipolar deamanhã.Como quarta tendência, é possível constatar a ressurgência dascivilizações afetadas em seu destino histórico pelo mundo euro-ocidentale pela ciência e técnica moderna. O mundo que assistiu no pós SegundaGuerra ao processo de industrialização e assimilação da técnica e daciência, despertou importantes forças irradiantes e insurgentes, com adescolonização da África, Ásia e do mundo árabe-muçulmano. Esteúltimo fenômeno, sinalizado pela ressurgência do Islamismo comoprotagonista da cena internacional, tem impressionado observadores detodo o mundo, a ponto de ser interpretada como o desafio maior do pósGuerra Fria. Uma quinta tendência influenciará de forma decisiva a configuração domundo de amanhã. Trata-se da emergência do mundo latino, cujoprotagonismo possível encontra no futuro megaestado brasileiro seuprincipal ator. Embora a Europa meridional seja parte fundadora domundo latino, o emergente bloco reunirá, sobretudo, o conjunto dospaíses da América Latina. O novo mundo latino-americano integrará umagrande área econômica capaz de impulsionar a criação de uma novaordem mundial multipolar.Essas cinco macrotendências desenham uma linha central que aproximae fazem convergir, em graus e intensidades variadas, as estratégias dosgrandes países do mundo emergente. Observa-se nesse processo que aChina tenta consolidar o seu processo de industrialização, e ampliar suaparticipação no sistema internacional, apoiada na defesa de uma ordemmundial estável. No caso do Brasil – que é o maior país em desenvolvimentodo hemisfério ocidental, detentor de recursos naturais imensos, e de umagrande população, desejosa de contribuir para a elevação do bem estarmaterial e espiritual de todos os povos – essas macrotendênciaspresentes na cena internacional fazem-no cada vez mais interessado,num esforço conjunto com a China, Rússia e Índia, numa pauta comumem defesa do desenvolvimento pacifico e sustentável. Compreendido esteúltimo como uma resposta ao desafio gerado pelo aparecimento de umamilenio_hoje_10:Layout 1 20-08-2013 17:23 Page 35
  • C H I N A : U M A V I S Ã O B R A S I L E I R A36economia globalizada e as ameaças dela resultante: ampliação dadiferença de renda entre ricos e pobres, degradação ambiental, aumentodo hiato financeiro, científico e técnico existente entre os paísesindustrializados e o mundo em desenvolvimento. Ao visualizar essas macrotendências globais, em meio ao tumulto geradopela crise dos mercados financeiros mundiais, não se deve perder de vistaas contratendências presentes na conjuntura internacional. A principaldelas pode definir-se como o advento de uma “segunda onda globalizante”,que se anuncia fortemente vinculada a questões políticas suscitadaspelas chamadas ameaças climáticas e ambientais. Na “segunda ondaglobalizante” a medição de força no campo econômico e financeiro bemcomo científico tecnológico tornar-se-á fator decisivo para a continuidadedo desenvolvimento mundial. Assim que – para “navegar nessa nova onda global”, que desafia todosos países e ameaça a humanidade com o duplo flagelo do aquecimentodo planeta acoplado ao desaquecimento econômico mundial – aestratégia a ser seguida por cada ator deverá estabelecer a “sobrevidadentro do ciclo” como a sua principal meta. O que resultará, é claro, numreforço da proteção dos recursos naturais e humanos de cada unidadepolítica ativa do sistema internacional. Esta reação de autodefesa podevir a desatar uma corrente protecionista entre as economias industriais e acarretar uma deterioração do comércio mundial, aprofundando oprocesso de crise da economia mundial e trazendo sérios entraves parao desenvolvimento dos países emergentes.Outra contratendência evidencia o risco que correm as unidades políticasnacionais com o aumento de tensões separatistas geradas pormovimentos sociais radicais de fundo político-ideológico, étnicos ereligiosos. Na outra ponta dos movimentos de “capitais desregulados”que provocam a desestabilização econômica mundial, esses movimentossociais radicais também atuam para aprofundar a crise sistêmica eameaçar a unidade e a integridade dos Estados. Neste sentido visualiza--se uma crescente instabilidade nas diversas regiões do mundo,notadamente naquela que se situa no epicentro da crise mundial,estendendo-se do Norte da África e do Médio Oriente ao Centro e Sul da Ásia.Em que pese essas contratendências e a vasta crise financeira global agerar incertezas permanece a tendência principal de emergência de novoscentros de poder mundial e do surgimento da multipolaridade como umanova configuração da estrutura do sistema internacional. Sistema que semilenio_hoje_10:Layout 1 20-08-2013 17:23 Page 36
  • S E V E R I N O C A B R A L37apresenta em seus principais contornos nesse início de século XXImarcado essencialmente pela presença dos países que constituem oBRIC – Brasil, Rússia, Índia e China – mega estruturas de poder por suaindústria, população, extensão territorial e recursos naturais.Megapotências do século XXI, os quatros países estão desafiados amanter o crescimento das suas economias para atingir novos degraus nabusca do desenvolvimento sustentável e harmonioso. O que implica quese tornem uma força conjunta a trabalhar para a reativação da economiamundial e conseqüente retomada dos mais altos níveis de crescimento edesenvolvimento.Neste cenário global se destaca a América do Sul, como parte de umconjunto maior latino-americano que compreende o México, AméricaCentral e Caribe. Situada no hemisfério ocidental em relação à EuropaOcidental, a região sul-americana se apresenta como uma regiãoamplamente dominada pela colonização ibérica à exceção de uma partedo norte da Amazônia – as Guianas – administrada na época colonial porInglaterra, Holanda e França, sendo que esta última ainda mantém o seudomínio local. A integração econômica, política e cultural da América doSul, no entanto, progride e rapidamente se criam instrumentos coletivospara consolidar o processo em curso.A União das Nações Sul-Americanas (UNASUL) (última desses instrumentosconstruídos) já tem a sua constituição votada pelos chefes de Estado ede Governo da região, e se constitui assim numa das grandes unidadespolíticas do mundo atual. Tendo o Brasil, por sua dimensão e pesoeconômico, como o Estado central dessa União, a sua evolução estarádeterminada pela possibilidade de criação de uma sociedade integradae voltada para a elevação do bem estar geral e um desenvolvimentoequilibrado e socialmente harmnico inter e intra-regional. Uma sociedadecapaz de não só influenciar a evolução do sistema de poder mundial, bemcomo de sustentar o relacionamento pacífico entre os países e povos detodos os quadrantes do mundo.O ano de 2008 assistiu à consolidação não só do bloco sul-americanocomo também à irrupção na cena internacional da concertação políticados países emergentes reunidos na sigla BRIC. Depois da reunião doschanceleres do Brasil, Rússia, Índia e China na cidade russa deEcaterimburgo, os presidentes desses países vieram a se encontrar nareunião anual do G-8, em Tóquio, acompanhados do México e África doSul, onde praticamente lançaram as bases de um entendimento maiorsobre os rumos da política internacional. A continuidade da crisemilenio_hoje_10:Layout 1 20-08-2013 17:23 Page 37
  • C H I N A : U M A V I S Ã O B R A S I L E I R A38financeira, contudo, levou-os a se encontrar mais uma vez na estruturaampliada do G-20, a discutir a nova arquitetónica financeira internacionalcom o conjunto dos países industrializados.No entanto, a questão chave para o equilíbrio de força mundial pós GuerraFria continua a ser a constituição de uma aliança estratégica entre osmaiores países do mundo que emergem para a cena internacional nessecomeço de século e de milênio. A estrutura do poder mundial, herdeirade uma evolução multissecular, só poderá vir a ser alterada de maneirapositiva – sem quebra maior da unidade alcançada com o final do processode colonização centralizada na Europa e que resultou no aparecimentode duas centenas de nações soberanas – com a emergência de novossuportes da estabilidade da ordem internacional. A extrema complexidade da situação internacional do começo do séculoe do milênio aponta para o desenvolvimento de tendências oracentralizadoras ora descentralizadoras no processo de globalização quesedisseminou logo após o fim da Guerra Fria e da bipolaridade. De talmodo que, em todas as sociedades, tanto ocidentais como orientais, osfenômenos de transgressão da lei e de ameaça anárquica insurrecional tornaram-se comuns, ampliados que foram pela expansão dos meios decomunicação e informação de massa. O casamento do satélite decomunicação com o computador, muito além do que os pensadores daprimeira metade do século XX imaginavam, subverteu todos osconsensos e desencadeou o que se pode denominar de uma mudançade “pele” da humanidade. Tal tendência está a exigir das autoridades e dos governos de todos os quadrantes uma arte de governar cada vez mais flexível, dúctil, mas que seja capaz de resistir a toda forçadesconstrutora que ameace a soberania dos Estados.Tal como à época da Guerra Fria e do equilíbrio do terror nuclear seexercitava a “chantagem nuclear” em nossa época se pratica o que se poderia chamar de “chantagem climática e ambiental”. Em nome docombate ao desenvolvimento predatório e dissipador de recursos se tentapura e simplesmente impedir o desenvolvimento. De um lado, oconservadorismo ambientalista irmanado com o ativismo militante erguebarreiras ao crescimento e a geração de riqueza, de outro, os organismosinternacionais praticam o protecionismo a favor dos países desenvolvidoscriando óbices a políticas que favoreçam o mundo em desenvolvimento.Eis porque o Brasil e os demais países do BRIC devem liderar o esforçomundial para a superação desses limites tendo em vista sua crescentepresença na cena internacional e o seu protagonismo no campo daspráticas econômicas que deverão orientar o ritmo do crescimento damilenio_hoje_10:Layout 1 20-08-2013 17:23 Page 38
  • S E V E R I N O C A B R A L39economia mundial nas próximas décadas. Nos recentes e importantesencontros dos chefes de Estado desses países algo neste sentidocomeçou a tomar vulto. Os textos e documentos divulgados pelos sitesdos Ministérios de Relações Exteriores falam por si quanto ao significadodessa concertação estratégica entre os gigantes do mundo emergentedo século XXI.A primeira Cúpula do BRIC, que reuniu em junho deste ano os chefes deEstado e de Governo do Brasil, Rússia, Índia e China, na cidade russa deEcaterimburgo, viu o mundo começar a se familiarizar com a sigla etambém com o que ela significa para a ordem mundial multipolar que se está a criar num ambiente internacional ainda marcado pelosacontecimentos que geraram as Guerras do Golfo e o incidente de 11 desetembro de 2001. Esses países devem ampliar o consenso em torno deseus interesses comuns e coordenar seus esforços na contenção dosefeitos da crise econômica global ao mesmo tempo em que propõem areforma do sistema financeiro internacional no sentido de favorecer umamelhor administração da crise em benefício de todos os membros dacomunidade internacional. A negociação política que encabeçam nãoameaça a nenhum país ou bloco de países, mas tem o caráter de resguardaros interesses dos países e povos do mundo em desenvolvimento.Como prioridade de sua política externa inscrita na própria constituiçãodo Brasil a integração latino-americana é um sonho nacional acalentadopor uma antiga nostalgia do momento em que a Ibero-América era umasó terra submetida a um só rei. Determinado pelas suas circunstânciasgeográficas sul-americanas, porém, o Brasil está realmente envolvido coma integração econômica do subcontinente. Basicamente essa integraçãoreúne os países do MERCOSUL – Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai,mais Bolívia e Chile – em fase de expansão para o mundo andino eamazônico. A tridimensionalidade da integração sul-americana diz bemdo desafio de criar um novo e importante pólo de poder econômicomeridional. A Cúpula dos Presidentes da União de Nações Sul-Americanasveio a dar uma configuração recente ao futuro do bloco meridional.A ordem mundial que se anuncia para o século XXI será democrática erepresentará um novo momento do sistema internacional. Certamente estará baseada nas regras institucionais que hoje balizam a vida políticainternacional cada vez mais interligada pelo conhecimento e peloentendimento entre os povos de todos os continentes. Claro está que os fatores que levam da competição ao conflito existem e devem serconhecidos e combatidos no que venham a ferir o bem comum daspopulações e das sociedades. O que deve ser posto em prática é amilenio_hoje_10:Layout 1 20-08-2013 17:23 Page 39
  • C H I N A : U M A V I S Ã O B R A S I L E I R A40transigência e a busca da harmonia dentro da diversidade, e a diferençae convergência de interesses representados pelo BRIC pode representarum princípio cultural e civilizacional com valor universal capaz de sustentara nova ordem mundial multipolar e democrática.Seminário de Relações Internacionais, Embaixada do Brasil na Alemanha.Berlim, 3 de novembro de 2009.BIBLIOGRAFIAChina, 20 anos de relações (1974-1994). Rio de Janeiro: Conjunto Universitário CandidoMendes, 1994.AZEREDO DA SILVEIRA, A. F. Discurso em Brasília, 15 de agosto de 1974: Brasil.BRZEZINSKI, Zbigniew. The Grand Chessboard: American Primacy and its GeostrategicImperatives. New York: Basic Books, 1997.BRZEZINSKI, Zbigniew. The Choice: Domination or Leadership. New York: Basic Books,2004.BRZEZINSKI, Zbigniew. Second Chance: Three Presidents and the Crisis of American Superpower. New York: Basic Books, 2007.CABRAL, Severino. Encontro entre Brasil e China: cooperação para o século XXI.Brasília: Revista Brasileira de Política Internacional, ano 43, n.1, 2000.CABRAL, Severino. Brasil Megaestado: nova ordem mundial multipolar. Rio de Janeiro:Contraponto, 2004.CABRAL, Severino. O Brasil e a China: relações de cooperação no século XXI. Macau:Instituto Internacional de Macau, 2005.CESARIN, Sergio & MONETA, Carlos. China y America Latina: nuevos enfoques sobrecooperación y desarrollo. Buenos Aires: BID/INTAL, 2005.CHINA FOREIGN AFFAIRS, 2007 EDITION. Beijing: World Affairs Press, 2007.FAIRBANK, J.K., REISHAUER, E.O, CRAIG, A.M.. East Asia; Tradition and Transformation’’.Tokyo: Houghton & Mifflin, 1976.GARCIA, Eugenio Vargas (Org.). Diplomacia brasileira e politica externa: documentoshistóricos-1493-2008. Rio de Janeiro: Contraponto, 2008.GARY NGAI (Org.). Macau – puente entre China y America Latina. Macau: MAPEAL/IIM,2006.GODEMENT, François. La Renaissance de l’Asie. Paris: Éditions Odile Jacob, 1993.milenio_hoje_10:Layout 1 20-08-2013 17:23 Page 40
  • S E V E R I N O C A B R A L41GOLDMAN & SACHS. GLOBAL ECONOMICS PAPER N. 99: Dreaming with BRICs: thePath to 2050, October 2003.GUIMARÃES, Samuel Pinheiro (Org.). Brasil e China: multipolaridade. Brasília: IPRI//FUNAG, 2003.HACHIGIAN, Nina & SUTPHEN, Mona. The Next American Century: How the U.S. Thriveas Other Powers Rise. New York: Simon & Shuster, 2008.HU JINTAO. Que creemos juntos una nueva perspectiva de la amistad entre China yAmerica Latina y el Caribe. Discurso del Presidente de la RP China ante el Congreso deBrasil, 12 de noviembre de 2004.HUNTINGTON, Samuel P. The Clash of Civilizations and the Remaking of World Order.New York: Simon & Schuster, 1996.JIANG ZEMIN. Reforma e construção da China. Rio de Janeiro: Record Editora, 2002.KHANNA, Parag. The Second World: Empires and Influence in the New Global Order.New York: Random House, 2008.KISSINGER, Henry. Diplomacy. New York: Simon & Shuster, 1994.KISSINGER, Henry. Does America Need a Foreign Policy? Toward a Diplomacy for the21st Century. New York: Simon & Schuster, 2001. MAISONNEUVE, Eric de La. Stratégie, Crise et Chaos. Paris: Econômica, 2005.MONTBRIAL, Thierry de. L´Action et le Système du Monde. Paris: PUF, 2002. NADOULEK, Bernard. L ´Épopée des Civilisations. Paris: Eyrolles, 2005.RAMESH, Jairam. Making Sense of Chindia: Reflection on China and India. New Delhi:India Research Press, 2005.milenio_hoje_10:Layout 1 20-08-2013 17:23 Page 41
  • C H I N A : U M A V I S Ã O B R A S I L E I R A42milenio_hoje_10:Layout 1 20-08-2013 17:23 Page 42
  • S E V E R I N O C A B R A L43DIÁLOGO CULTURAL SINO-LUSO-BRASILEIROMacau e a presença da língua portuguesa na China: algumas idéias sobre o intercâmbio Sino-Luso-Brasileiro“Deve haver alguma coisa de semelhante entre o Brasil e a velha mas sempre moça civilização chinesa, com a qual os portugueses estabeleceram, em Macau, profunda aliança, baseada não na força, mas no amor fraternal, não no poder imperial de uns sobre os outros, mas na compreensão recíproca.Deve haver alguma coisa de semelhante entre a China por assim dizer eterna e o jovem eainda verde Brasil”. Gilberto Freyre, “Agradecimento à comunidade chinesade Sofala e Manica” in “Um Brasileiro em Terras Portuguesas”.“El verdadero siglo de Ásia y el Pacífico, o de Asia, solo llegará cuando China, India y losdemás países vecinos suyos se hayan desarrollado.Así lo es al igual que no habrá ningún siglo de América Latina sin eldesarrollo del Brasil. Por ello, debemos enfocar el problema del desarrollo elevándolo a laaltura de toda humanidad, y observarlo y resolverlo partiendo de esta altura”.Deng Xiaoping, “Tomar Como Norma los Cinco Pincípios de Coexistência Pacífica para Establecer un Nuevo Orden Internacional”, in “Textos Escogidos, tomo III”.Por-se-ia, como hipótese, que o Brasil, apesar de todos os seus recursos, ainda não se deu a trabalho que o valesse, não por obstáculos internos ou externos, mas simplesmente porque o não concebeu suficientemente claro. E, se algum trabalho tem, é esse de ajudar a sair de suas indeterminações os povos domundo que não encontram, nas grandes nações, guia algum que valha a pena seguir;primeiro, a África”. Agostinho da Silva, “A missão do Brasil” in “Convergência Lusíada:Centenário de Agostinho da Silva”. milenio_hoje_10:Layout 1 20-08-2013 17:23 Page 43
  • C H I N A : U M A V I S Ã O B R A S I L E I R A44O DIÁLOGO CULTURAL SINO-LUSO-BRASILEIRO, promovido anualmentepelo Instituto Brasileiro de Estudos de China e Ásia-Pacifico - IBECAP,em cooperação com o Instituto Internacional de Macau - IIM, visa debateraspectos essenciais vinculados ao extraordinário desenvolvimento atualda China e do Brasil, os dois gigantes do mundo em desenvolvimento,como também da existência de florescente Comunidade de Países deLíngua Portuguesa. Diálogo este que apresenta características transculturais e transcivilizacionais,e tem-se desenvolvido em ciclos de seminários que se realizam a cadaano, sempre obedecendo a um objetivo temático: mostrar como Macau,por sua história única, pode ser uma plataforma de intercâmbio ecooperação entre a China, o Brasil e o mundo lusofônico.A natureza da língua portuguesa (originária da romanização de um extremoponto no Ocidente Ibérico), que se faz presente em Macau, no extremoda Ásia Sínica (de língua e cultura chinesa), cuja importância está em seruma língua de cultura capaz de expressar as nuanças do pensamentofilosófico e científico contemporâneo – é instrumento essencial à construçãodo diálogo acadêmico sino-luso-brasileiro.Pois é fato que o debate político-estratégico, assim como econômico,comercial e financeiro, não se desprende da ciência e da técnicacontemporânea. Como também é fato que as linguagens em que ele seformula – nas línguas de cultura do Ocidente e do Oriente – podem sercabalmente conhecidas, traduzidas e transmitidas, em português e suasvariantes: brasileira, africana e asiática.O começo do século XXI e do Terceiro Milênio parece configurar uma novae complexa ordem mundial. Nela, a China aparece cada vez mais comoo ator mais relevante do sistema mundial, acontecimento que está àsvésperas de transformar a realidade internacional, enquanto o Brasilsegue sendo o maior país em desenvolvimento e a mais importanteeconomia do hemisfério sul do globo.Neste contexto o Brasil e a China aparecem como mega-regiões, auto--satisfeitas territorialmente, desafiadas a desenvolver-se para atingirpadrões mais altos de riqueza e poderio nacional. Como futuros mega-estados, encontram-se inseridos num processo de mudanças globais, noqual algumas tendências parecem ser ameaçadoras para os objetivoscomuns de sustentação de seus projetos econômicos de desenvolvimento,projetos que visam gerar mais harmonia social, estabilidade e unidadepolítica.milenio_hoje_10:Layout 1 20-08-2013 17:23 Page 44
  • S E V E R I N O C A B R A L45Os acontecimentos deste começo de século e de milênio – sobretudo ossérios abalos causados à economia global pela crise financeira que seapoderou dos mercados dos países desenvolvidos – apontam para a necessidade de uma nova pauta mundial. Os caminhos complexos e orelacionamento sino-brasileiro deverão situar-se como um ponto decisivopara configurar uma nova ordem política internacional multipolar. Umanova ordem que significa transformar a atual estrutura econômica epolítica internacional. Essa é uma das razões que solicitam aos estadistase diplomatas dos dois países um esforço concertado para criarinstrumentos que levem à concretização dessa nova pauta mundial.Para tanto, diferentemente da interpretação de que o mundo pós-GuerraFria se defrontaria de modo inexorável com o conflito entre as civilizações,o novo mundo que se desenha poderá ser construído em torno do diálogoentre civilizações, com a aceitação do princípio da harmonia do nãoidêntico, inspirado em formulações clássicas do ensino confuciano. Talconcepção pode ser entendida como a possibilidade mesma de que osdois extremos do Ocidente e do Oriente, independente do fato de seencontrarem separados por uma grande distância geográfica e cultural,venham a encontrar-se numa cooperação omnidirecionada.O Brasil e a China podem vir a estabelecer um grau de complementaridadee de integração nova e inesperada. De maneira que se pode anteciparque o século XXI talvez venha assistir ao Brasil – por efeito de umaconcertação política maior: o conjunto da América Latina – e, por umalógica associação com o passado luso-afro-brasileiro, projetar-se de umlado a outro do Atlântico Sul – cooperando com o processo de construçãoda China e da Ásia-Pacífico. Neste caso a parceria estratégica sino-brasileira de dimensão globaltransformar-se-á num dos eixos da concertação internacional do milênio.Desse modo o diálogo intercivilizacional e a cooperação cultural maisdensa e próxima ajudarão a fazer com que a relação sino-luso-brasileirase transforme num dos pilares da ordem mundial multipolar pós--hegemônica.Eixos temáticos do seminário Macau e o intercâmbioSino-Luso-Brasileiro1- Aprofundar o consenso estratégico e fortalecer a confiança entre oBrasil, a China e o espaço mundial lusófono.milenio_hoje_10:Layout 1 20-08-2013 17:23 Page 45
  • C H I N A : U M A V I S Ã O B R A S I L E I R A462- Fornecer um novo enfoque pragmático e inovador para explorar as potencialidades da cooperação brasileiro-luso-chinesa.3- Intensificar os laços culturais e científicos e ampliar o conhecimentomútuo sino-luso-brasileiro.BIBLIOGRAFIA DE REFERÊNCIADENG, Xiaoping. Textos Escogidos, v.III. Beijing, Ediciones em Lenguas Extranjeras,1994.FREYRE, Gilberto. Um Brasileiro em Terras Portuguesas. Rio de Janeiro, Livraria JoséOlympio Editora, 1953.SILVA, Agostinho da. Convergência Lusíada: Centenário de Agostinho da Silva. Rio deJaneiro, Real Gabinete Português de Leitura do Rio de Janeiro, 2007.milenio_hoje_10:Layout 1 20-08-2013 17:23 Page 46
  • S E V E R I N O C A B R A L47A PRESENÇA DA CHINA NO SISTEMAINTERNACIONAL: DESAFIOS, OPORTUNIDADESE AMEAÇAS PARA O BRASILI - O mundo e os desafios do século XXI“Sabendo reconhecer as prioridades, estarás ao alcance da via”. DaxueO exame da questão proposta para este seminário nos leva a pensar e atentar minimamente definir o que se denomina nos tempos de hoje de Potência Global.Em primeiro lugar, deve-se constatar que a Potência Global difereessencialmente das Grandes Potências do século passado, quedisputaram em guerras sucessivas o poder mundial. Difere, sobretudo,porque ela é um resultado da imensa transformação operada pelacivilização industrial e urbana no sistema internacional, a partir dasegunda metade do século XX. Em segundo lugar, o significado maior dessa transformação é a criaçãode um mercado universal (dito Global) e a decorrente medição de forçaem torno da economia e das finanças produzida por esse sistema; e, demilenio_hoje_10:Layout 1 20-08-2013 17:23 Page 47
  • C H I N A : U M A V I S Ã O B R A S I L E I R A48outro lado, a sua inserção numa vasta estrutura científica e técnica quesustenta as relações entre todas as potencias supergrandes, grandes,médias e pequenas que formam parte da estrutura mundial de poder. O aparecimento da Potência Global anuncia, pois, o surgimento da Erado Megaestado e do mundo multipolar.Em terceiro lugar, tal como no início do século XX, Halford Mackinderpodia prever a disputa pelo poder no mundo pós-Colombiano, com aampliação da era dos descobrimentos e a criação do mercado universal,mais recentemente, em seu livro de 1997 sobre o sistema mundial pós--Guerra Fria, Zbigniew Brzezinski veio a definir os Estados Unidos comoa “primeira, a única e a última Superpotência Global”. Assinalando assimo começo de uma era em que não apenas os continentes e os espaçosmarítimos, mas todo o planeta e o espaço cósmico que envolve a terrapodem ser alvos de disputa de poder e de busca de hegemonia por partedas potências globais. Porém, ao caracterizar os EUA como a “últimasuperpotência global”, o autor já notava a natureza limitada no tempo daliderança americana e a necessidade de uma abertura para novas edesafiadoras realidades do século XXI. Em quarto lugar se constata que o crescimento das potências emergentesas elevam à condição de potências ditas globais, na medida em quepodem funcionar como parte de todos os cenários econômicos, político--estratégicos mundiais em que se disputam recursos naturais, mercadose conhecimento técnico-científico. O que faz com que as questões ligadasà defesa e segurança nacional da Potência Global sejam decisivas parao seu desenvolvimento, obrigando assim a transcender o seu espaçoregional e a tornar-se uma Potência Militar Global. O que equivale, talvez,a dizer que a Potência Global, ao ascender à condição de Potência MilitarGlobal, estará em condição de competir com a Superpotência Global pelo Poder Mundial. Resta saber se as condições em que se desenvolvemas relações internacionais contemporâneas marcharão nessa direçãonecessariamente.Em decorrência desses fenômenos vemos que o início do século XXIapresenta o mundo em grande e rápida transformação. A extraordináriarevolução na ciência e na técnica habilita a humanidade a alcançar novosgraus de desenvolvimento na arte de criar riqueza e gerar prosperidade.A comunicação via satélite e os meios de transporte aéreo praticamenteuniram o mundo inteiro. Indivíduos e nações se aproximam e serelacionam cada vez mais em todos os horizontes do planeta. Pouco epouco se estrutura uma nova ordem mundial baseada no entendimento ena cooperação de todos os países do mundo, baseada na independênciamilenio_hoje_10:Layout 1 20-08-2013 17:23 Page 48
  • S E V E R I N O C A B R A L49e autodeterminação dos povos. Por outro lado esta nova ordem pressupõeo rápido crescimento econômico e social de países que em diferentesestágios de desenvolvimento. O que se traduz também por tensão einstabilidade, por vezes geradoras de crises e conflitos.Desde que um relatório da firma Goldman & Sachs, de Londres, despertoua atenção de analistas de todo mundo, ao prever para o ano de 2050 aemergência do BRIC, assistiu-se a grandes mudanças na estrutura dosistema internacional. Na antecipação dos autores do relatório, por voltade metade do século XXI a estrutura do sistema mundial de poder estaráapoiada na economia dos países cujas iniciais formam o acróstico: Brasil,Rússia, Índia e China. Esses países, por essa altura, se situariam no topo dosistema mundial. O relatório serviu para atrair a atenção para a existência demacrotendências do sistema mundial no século e milênio que ora se inicia.A primeira tendência que se anuncia é a de que só os grandes países domundo de hoje, que sejam dotados de considerável espaço territorial, população e força econômica autônoma, podem aspirar constituir umpólo de poder mundial na forma de um megaestado. Neste sentido, aunidade e a integração européia servem de balizamento para tornar-seao bloco europeu uma unidade política ativa do mundo contemporâneo:o seu êxito ou fracasso determinará a existência futura da Europa comogrande centro mundial de poder. Como também é observável, que osprincipais obstáculos no caminho do BRIC para o topo da ordem mundialrelacionam-se à capacidade de cada um deles manter, ampliar e atémesmo recuperar espaço, população e base econômica. Em suma, acaracterística principal do processo em curso, a contrario sensu dafragmentação da “primeira onda globalizante”, é a da constituição dosmegaestados, que serão amanhã os sustentáculos da mundialização.A segunda e decorrente tendência é que o ambiente internacional deveráser profundamente alterado em relação ao que era ao final da Guerra Fria,sobretudo o sistema que sucedeu a bipolaridade, e que se denominou a“Nova Ordem Mundial”. Contudo, acontecimentos como as duas guerrasdo Golfo e o incidente do dia 11 de setembro de 2001 são sintomas daprofunda e dramática instabilidade da ordem internacional gerada pelaunipolaridade, vale dizer, a política de força de uma única potência. A superação desse estado de coisas só ocorrerá com a emergência deuma nova ordem mundial mais democrática e mais legítima baseada numnovo equilíbrio de forças entre as nações. O advento de uma ordemmultipolar será positivo para a criação de uma situação internacionalmenos tensa e mais direcionada para a elevação do nível de vida daspopulações do mundo em desenvolvimento.milenio_hoje_10:Layout 1 20-08-2013 17:23 Page 49
  • C H I N A : U M A V I S Ã O B R A S I L E I R A50A terceira tendência cada vez mais visível no horizonte internacional é opapel da Ásia do Leste como um dos pilares do mundo multipolar emgestação. O mega desenvolvimento da China (que já adquire a forma deum megaestado), em seguida ao do Japão e da Coréia, transformou omundo ásio-oriental na vanguarda do sistema internacional. Trata-se deuma região de importância cada vez maior no jogo de equilíbrio do podermundial, conseqüentemente para a paz e o desenvolvimento do mundo.Esta a razão porque, neste começo de século e de milênio, a China e aÁsia Oriental encontram-se no centro do processo da construção de umdos pilares de sustentação do sistema internacional multipolar deamanhã.Como quarta tendência, é possível constatar a ressurgência dascivilizações afetadas em seu destino histórico pelo mundo euro-ocidentale pela ciência e técnica moderna. O mundo que assistiu no pós-SegundaGuerra, ao processo de industrialização e assimilação da técnica e daciência, despertou importantes forças irradiantes e insurgentes, com adescolonização da África, Ásia e do mundo árabe-muçulmano. Esteúltimo fenômeno, sinalizado pela ressurgência do Islamismo comoprotagonista da cena internacional, tem impressionado observadores detodo o mundo, a ponto de ser interpretada como o desafio maior do pós--Guerra Fria.Uma quinta tendência influenciará de forma decisiva a configuração domundo de amanhã. Trata-se da emergência do mundo latino, cujoprotagonismo possível encontra no futuro megaestado brasileiro seuprincipal ator. Embora a Europa meridional seja parte fundadora domundo latino, o emergente bloco reunirá, sobretudo, o conjunto dospaíses da América Latina. O novo mundo latino-americano integrará umagrande área econômica capaz de impulsionar a criação de uma novaordem mundial multipolar.Essas cinco macrotendências desenham uma linha central que aproximae fazem convergir, em graus e intensidades variadas, as estratégias dosgrandes países do mundo emergente. Observa-se nesse processo que aChina tenta consolidar o seu processo de industrialização, e ampliar sua participação no sistema internacional, apoiada na defesa de uma ordem mundial estável. No caso do Brasil – que é o maior país emdesenvolvimento do hemisfério ocidental, detentor de recursos naturaisimensos, e de uma grande população, desejosa de contribuir para aelevação do bem estar material e espiritual de todos os povos – essasmacrotendências presentes na cena internacional fazem-no cada vezmais interessado, num esforço conjunto com a China, Rússia e Índia,milenio_hoje_10:Layout 1 20-08-2013 17:23 Page 50
  • S E V E R I N O C A B R A L51numa pauta comum em defesa do desenvolvimento pacífico e sustentável.Compreendido este último como uma resposta ao desafio gerado peloaparecimento de uma economia globalizada e as ameaças dela resultante:ampliação da diferença de renda entre ricos e pobres, degradaçãoambiental, aumento do hiato financeiro, científico e técnico existente entreos países industrializados e o mundo em desenvolvimento. Ao visualizar essas macrotendências globais, em meio ao tumulto geradopela crise dos mercados financeiros mundiais, não se deve perder de vista as contratendências presentes na conjuntura internacional. A principal delas pode definir-se como o advento de uma “segunda ondaglobalizante”, que se anuncia fortemente vinculada a questões políticassuscitadas pelas chamadas ameaças climáticas e ambientais. Nela a medição de força no campo econômico e financeiro bem comocientífico tecnológico tornar-se-á fator decisivo para a continuidadedo desenvolvimento mundial. Assim que – para “navegar nessa nova onda global”, que desafia todosos países e ameaça a humanidade com o duplo flagelo do aquecimentodo planeta acoplado ao desaquecimento econômico mundial – aestratégia a ser seguida por cada ator da cena mundial deverá estabelecera “sobrevida dentro do ciclo” como a sua principal meta. O que resultaráé claro num reforço da proteção dos recursos naturais e humanos de cadaunidade política ativa do sistema internacional. Esta reação de autodefesapode vir a desatar uma corrente protecionista entre as economiasindustriais e acarretar uma deterioração do comércio mundial, aprofundandoo processo de crise da economia mundial e trazendo sérios entraves parao desenvolvimento dos países emergentes. Outra contratendência evidencia o risco que correm as unidades políticasnacionais com o aumento de tensões separatistas geradas pormovimentos sociais radicais de fundo político-ideológico, étnicos ereligiosos. Na outra ponta dos movimentos de “capitais desregulados”que provocam a desestabilização econômica mundial, esses movimentossociais radicais também atuam para aprofundar a crise sistêmica eameaçar a unidade e a integridade dos Estados. Neste sentido visualiza-seuma crescente instabilidade nas diversas regiões do mundo, notadamentenaquela que se situa no epicentro da crise mundial, estendendo-se doNorte da África e do Médio Oriente ao Centro e Sul da Ásia.Em que pese essas contratendências e a vasta crise financeira global agerar incertezas permanece a tendência principal de emergência de novoscentros de poder mundial e do surgimento da multipolaridade como umamilenio_hoje_10:Layout 1 20-08-2013 17:23 Page 51
  • C H I N A : U M A V I S Ã O B R A S I L E I R A52nova configuração da estrutura do sistema internacional. Sistema que seapresenta em seus principais contornos nesse início de século XXImarcado essencialmente pela presença dos países que constituem oBRIC – Brasil, Rússia, Índia e China – mega estruturas de poder por suaindústria, população, extensão territorial e recursos naturais.Megapotências do século XXI, os quatros países estão desafiados amanter o crescimento das suas economias para atingir novos degraus nabusca do desenvolvimento sustentável e harmonioso. O que implica quese tornem uma força conjunta a trabalhar para a reativação da economiamundial e conseqüente retomada dos mais altos níveis de crescimento edesenvolvimento.Neste cenário global se destaca a América do Sul, como parte de umconjunto maior latino-americano que compreende o México, AméricaCentral e Caribe. Situada no hemisfério ocidental em relação à EuropaOcidental, a região sul-americana se apresenta como uma regiãoamplamente dominada pela colonização ibérica à exceção de uma partedo norte da Amazônia – as Guianas – administrada na época colonial porInglaterra, Holanda e França, sendo que esta última ainda mantém o seudomínio local. A integração econômica, política e cultural da América doSul, no entanto, progride e rapidamente se criam instrumentos coletivospara consolidar o processo em curso.A União das Nações Sul-Americanas (UNASUL) (última desses instrumentosconstruídos) já tem a sua constituição votada pelos chefes de Estado ede Governo da região, e se constitui assim numa das grandes unidadespolíticas do mundo atual. Tendo o Brasil, por sua dimensão e pesoeconômico, como o Estado central dessa União, a sua evolução estarádeterminada pela possibilidade de criação de uma sociedade integradae voltada para a elevação do bem estar geral e um desenvolvimentoequilibrado e socialmente harmônico inter e intra-regional. Uma sociedadecapaz de não só influenciar a evolução do sistema de poder mundial, bemcomo de sustentar o relacionamento pacífico entre os países e povos detodos os quadrantes do mundo.O ano de 2008 assistiu à consolidação não só do bloco sul-americanocomo também à irrupção na cena internacional da concertação políticados países emergentes reunidos na sigla BRIC. Depois da reunião doschanceleres do Brasil, Rússia, Índia e China na cidade russa deEcaterimburgo, os presidentes desses países vieram a se encontrar nareunião anual do G-8, em Tóquio, acompanhados do México e África doSul, onde praticamente lançaram as bases de um entendimento maiormilenio_hoje_10:Layout 1 20-08-2013 17:23 Page 52
  • S E V E R I N O C A B R A L53sobre os rumos da política internacional. A continuidade da crisefinanceira, contudo, levou-os a se encontrar mais uma vez na estruturaampliada do G-20, a discutir a nova arquitetónica financeira internacionalcom o conjunto dos países industrializados.No entanto, a questão chave para o equilíbrio de força mundial pós GuerraFria continua a ser a constituição de uma aliança estratégica entre osmaiores países do mundo que emergem para a cena internacional nessecomeço de século e de milênio. A estrutura do poder mundial, herdeirade uma evolução multissecular, só poderá vir a ser alterada de maneirapositiva – sem quebra maior da unidade alcançada com o final doprocesso de colonização centralizada na Europa e que resultou noaparecimento de duas centenas de nações soberanas – com a emergênciade novos suportes da estabilidade da ordem internacional. A extrema complexidade da situação internacional do começo do séculoe do milênio aponta para o desenvolvimento de tendências oracentralizadoras ora descentralizadoras no processo de globalização quese disseminou logo após o fim da Guerra Fria e da bipolaridade. De talmodo que, em todas as sociedades, tanto ocidentais como orientais, osfenômenos de transgressão da lei e de ameaça anárquica insurrecionaltornaram-se comuns, ampliados que foram pela expansão dos meios decomunicação e informação de massa. O casamento do satélite decomunicação com o computador, muito além do que os pensadores daprimeira metade do século XX imaginavam, subverteu todos os consensose desencadeou o que se pode denominar de uma mudança de “pele” dahumanidade. Tal tendência está a exigir das autoridades e dos governosde todos os quadrantes uma arte de governar cada vez mais flexível,dúctil, mas que seja capaz de resistir a toda força desconstrutora queameace a soberania dos Estados. O estudo de autores contemporâneos(como Kissinger e Brzezinski) que analisam essa problemática, familiarizaaquele que estuda o macro clima internacional com algumas questõescandentes da hora atual.Tal como à época da Guerra Fria e do equilíbrio do terror nuclear seexercitava a “chantagem nuclear” em nossa época se pratica o que sepoderia chamar de “chantagem climática e ambiental”. Em nome docombate ao desenvolvimento predatório e dissipador de recursos se tenta pura e simplesmente impedir o desenvolvimento. De um lado, oconservadorismo ambientalista irmanado com o ativismo militante erguebarreiras ao crescimento e a geração de riqueza, de outro, os organismosinternacionais praticam o protecionismo a favor dos países desenvolvidoscriando óbices a políticas que favoreçam o mundo em desenvolvimento.milenio_hoje_10:Layout 1 20-08-2013 17:23 Page 53
  • C H I N A : U M A V I S Ã O B R A S I L E I R A54A primeira Cúpula do BRIC, na cidade russa de Ecaterimburgo, viu omundo começar a se familiarizar com a sigla e também com o que elasignifica para a ordem mundial multipolar que se está a criar numambiente internacional ainda marcado pelos acontecimentos que geraramas Guerras do Golfo e o incidente de 11 de setembro de 2001. Essespaíses juntos somam 42% da população mundial, 14,6% do PIB e 12,8%do comércio mundial em números de 2008.A mais recente Cúpula dos chefes de Estado e de Governo do BRICS,que contou com a participação de seu novo membro sul-africano,realizada em Nova Delhi, viu ampliar-se o consenso em torno dosinteresses comuns dos países emergentes e também a crescentecoordenação de esforços na contenção dos efeitos da crise econômicaglobal. Na preparação de ações coordenadas foram examinadaspropostas de reforma do sistema financeiro internacional, no sentido defavorecer melhor administração da crise em benefício de todos osmembros da comunidade internacional. A negociação política queencabeçam não ameaça a nenhum país ou bloco de países, mas tem ocaráter de resguardar os interesses dos países e povos do mundo emdesenvolvimento.II - A China, o Brasil e os desafios do século XXI“Or le monde du XXIe Siècle se caractérise par des changements fondamentaux d’acteurs,en raison de leur diversification et surtout de l’émergence de nouveaux géants – Chine,Inde, Brésil...”. Éric de la MaisonneuveVisto o panorama estratégico mundial à luz dessa avaliação da conjunturainternacional passemos ao exame teórico geral da questão de se, quandoe como a China tornar-se-á uma potência militar global. Para tantoanalisemos as visões de alguns militares chineses que formularamquestões de ordem teórica e prática sobre a estratégia de defesa nacionalchinesa.O primeiro deles é o General Peng Guangqian, que no livro de sua autoriasobre a Defesa Nacional da China define a política de defesa nacionalchinesa como sendo baseada em três princípios reitores: independência, autodefesa e postura defensiva. Apresenta ainda um “novo conceito de segurança” que se propõe como regra estabelecer a confiança mútua, obenefício mútuo, a igualdade e a cooperação com as demais nações. Otexto do General Peng Guangqian data de 2004 e se introduz no ambientede extraordinário desenvolvimento vivido pela China contemporânea.milenio_hoje_10:Layout 1 20-08-2013 17:23 Page 54
  • S E V E R I N O C A B R A L55Esse momento vivido pela China desde os começos da primeira décadado século XXI se faz refletir no conceito desenvolvido por Zheng Bijian(apresentado em grande estilo na revista Foreign Affairs) sobre a“ascensão da China como Potência Global pacífica”. Dada a enormerepercussão dessa tese percebida como a intenção declarada da Chinade ser uma potência global, a liderança chinesa introduziu uma fórmulaconceitual mais apropriada que pretende buscar o desenvolvimentocientífico, pacífico, e voltado para a construção de um mundo harmonioso.O livro do General Peng Guangqian, “Defensa Nacional de China”, procura,portanto, responder aos desafios da defesa chinesa na época atual. Eledesenvolve uma visão dos aspectos mais amplos da política de defesa esegurança nacional da China segundo os objetivos da geração de lídereschineses capitaneada pelo presidente Hu Jintao.O segundo importante estudo é desenvolvido pelo General Xiong Guangkaiem seu livro publicado em 2009 e intitulado: “A Situação Internacional ea Estratégia de Segurança”. Nele o General Xiong Guangkai desenvolveargumentos, analisa e avalia a conjuntura internacional sob a ótica donovo conceito de segurança que privilegia o diálogo a cooperação entreas nações. Porém se mostra atento às novas condições de segurançaque surgem no mundo pós 11 de setembro. Ao examinar o “novo conceitode segurança” proposto pela China, o General enfatiza: a confiança mútuaé o fundamento do novo conceito; o benefício mútuo o objetivo; a igualdadea garantia; e a cooperação e coordenação de esforços o modus operandi.O terceiro objeto de exame é uma intervenção do General Ma Xiaotian,Chefe-Adjunto do Estado Maior das FFAA chinesas, no 8º Encontro de Cúpulade Segurança promovido pelo International Institute for StrategicStudies-IISS, realizado no dia 05 de junho, em Singapura, (Shangri-La Dialogue) sobre o tema “As Grandes Potências e a segurança da Ásia”. O General Ma Xiaotian dirigindo-se a um auditório onde se encontravamos representantes da área de segurança de toda a Ásia, e na presençado Secretário de Defesa dos Estados Unidos, Robert Gates, abordou aquestão das suspeitas daqueles que vêem o desenvolvimento da Chinacomo ameaça, preocupados em que ao tornar-se a China rica e fortevenha a buscar a expansão e a hegemonia. Fez ver que é do interessechinês a manutenção da segurança na região da Ásia-Pacífico e que asmetas estratégicas da China são as que seguem: 1) salvaguardar a segurança e o desenvolvimento da própria China; 2) manutenção da paz e da comum prosperidade na região da Ásia-Pacífico; 3) construiruma harmoniosa comunidade na Ásia-Pacífico.milenio_hoje_10:Layout 1 20-08-2013 17:23 Page 55
  • C H I N A : U M A V I S Ã O B R A S I L E I R A56Essas metas, ainda segundo o General Ma Xiaotian, deverão seratingidas através da criação de uma concepção de segurança integrale de amplas parcerias voltadas para a cooperação; de um conceito desegurança comum e que se baseie na igualdade dos parceiros; numasegurança inclusiva baseada no consenso e na confiança mútua dosparceiros; uma segurança cooperativa que sirva a todos os parceiros,na criação de novas parcerias em função da diversidade e da evoluçãoda situação e sua acomodação histórica, com paciência e visãohistórica.Depois de ler os argumentos dos líderes militares chineses pode-seargüir a dúvida de se elas seriam sérias e realmente bem fundadas,essas teses que orientam a estratégia de defesa nacional chinesa nosentido de uma política defensiva e de longo prazo voltada para amanutenção de um ambiente de estabilidade e o desenvolvimento naÁsia e no mundo.Por isso buscamos um outro ângulo de visão sustentado pela análise de umespecialista norte-americano, M. Taylor Fravel. Em um paper apresentadoem Tóquio e publicado pelo Washington Quaterly do verão de 2008, como titulo “China’s Search for Military Power” ele mostra o que é principalna estratégia chinesa de modernização de sua defesa nacional. Na suaanálise ele enfatiza o fato de que há uma diversidade de desafios desegurança para a China, pois ela deve assegurar-se a defesa de um paísde dimensões continentais, com um regime político altamente concentrado,com crescentes interesses marítimos e questões de disputas territoriaisirresolvidas, notadamente Taiwan. Daí que as cinco metas estratégicas por ele examinadas contemplem: 1) a manutenção do monopólio políticodo Partido Comunista; 2) a defesa do seu vasto território de ameaçasexternas; 3) a meta da busca da unidade nacional com a reunificação deTaiwan; 4) a segurança e a defesa dos seus direitos e interesses marítimos;e, por fim, 5) a manutenção da estabilidade regional, que é de extremaimportância para a continuidade do crescimento da economia chinesa. Sãometas conservadoras do status quo mais do que desestabilizadoras dasegurança regional.Por último, uma leitura dos documentos de defesa e estratégia desegurança norte-americana mostra a preocupação da superpotênciaglobal com a crescente e difusa distribuição do poder econômico,político e militar global. A ascensão da China e também da Índia sãovistas como perturbadoras para a ordem internacional. No entanto odocumento que apresenta a Estratégia de Segurança Nacional dogoverno Obama demonstra uma inclinação realista para conviver commilenio_hoje_10:Layout 1 20-08-2013 17:23 Page 56
  • S E V E R I N O C A B R A L57a nova situação estratégica global, ao preconizar uma positiva,construtiva, pragmática e efetiva relação dos EUA com a China paraenfrentar os desafios do século XXI.Talvez possa situar com maior clareza a estratégia de defesa chinesatraçando um paralelo com o que pensava o General Meira Mattos sobre a estratégia de defesa nacional brasileira para o século XXI: “Notocante ao Brasil, apreciando-se os antagonismos que possam a vircomprometer nossa postura política, não encontramos, presentemente,nenhum capaz de gerar uma pressão dominante, incontornável, quejustifique o uso da força. Nesta quadra de nossa existência política, no cenário das relações internacionais, vivemos isentos de qualquer tipo de pressão maior que possa representar ameaça física imediata,razão porque nossa Estratégia militar deve ser preventiva, de atitudedefensiva”. A ordem mundial que se anuncia para o século XXI baseada na multipolaridade representará um novo momento do sistemainternacional. Certamente estará apoiada nas regras institucionais quehoje balizam a vida política internacional cada vez mais interligada peloconhecimento e pelo entendimento entre os povos de todos oscontinentes. Claro está que os fatores que levam da competição ao conflito existem e devem ser conhecidos e combatidos no quevenham a ferir o bem comum das populações e das sociedades. O quedeve ser posto em prática é a transigência e a busca da harmonia dentro da diversidade, onde a diferença e convergência de interessesrepresentados pelos países emergentes – os novos gigantes da cenainternacional – possam vir a representar um princípio cultural ecivilizacional com valor universal, capaz de sustentar a nova ordemmundial multipolar.Nesse sentido a estratégia de defesa nacional desenvolvida pelaliderança chinesa de não confrontar-se nem buscar a confrontação coma superpotência solitária tem-se revelado desde o final da Guerra Friamuito eficaz e positiva para o objetivo maior de alcançar até meados do século XXI sua realização num país moderno, alcançando um nível de prosperidade médio para toda a sua imensa população.Basicamente ela se desenvolve como uma estratégia militar deindependência e autodefesa para um país continental e marítimo degrande população.2.º Encontro Temático do Campus Brasília: “O Brasil e os Desafios do Século XXI”.milenio_hoje_10:Layout 1 20-08-2013 17:23 Page 57
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  • S E V E R I N O C A B R A L61O DIÁLOGO ESTRATÉGICO SINO-BRASILEIRODesafios e oportunidades“Nossos Governos têm enfoques distintos para a condução dos seus respectivos destinos nacionais. Ambos consideramos, no entanto, que é um direito inalienável de cada povo o de escolher o seu próprio destino.O que é fundamental, sim, é que nas suas relações internacionais os Governos estejamdispostos a, efetivamente, respeitar esse direito.O Brasil e a República Popular da China convergem nesse propósito.Fundamos nosso relacionamento nos princípios de respeito mútuo à soberania e de não-intervenção nos assuntos internos do outro país.Estes são os alicerces da nossa amizade. O Comunicado Conjunto que acabamos de assinar, onde estes e outros princípios estão inscritos, não é apenas uma declaraçãode intenção, mas o retrato da convicção que nos anima a ambos sobre estas questões.Fiéis a esse espírito é que reconhecemos no Governo da República Popular da China a legitimidade da representação de toda a China. Ao povo chinês, em sua totalidade,desejamos paz e prosperidade”. A.F. AZEREDO DA SILVEIRA.Discurso, Palácio do Itamaraty, em 15 de agosto de 1974.“Nos assuntos internacionais cooperamos estreitamente e nos apoiamos mutuamentepara promover a implantação de uma nova ordem política e econômica internacional queseja justa e racional; e com a nossa pujante e próspera cooperação econômica, China eBrasil se converteram nos sócios comerciais mais importantes das suas respectivas regiões.” HU JINTAO, Brasília, Congresso Nacional, 12 de novembro de 2004.“O mundo do século XXI, senhoras e senhores, requer criatividade para forjar novos laçosentre regiões e continentes. A Ásia e a América Latina podem e devem estreitar seusvínculos, seus laços, seus negócios e suas parcerias, reduzindo distâncias físicas, aproximando visões de mundo, integrando povos e culturas”. DILMA ROUSSEFF.Discurso de abertura do Fórum BOAO, Hainan/China, 15 de abril de 2011.milenio_hoje_10:Layout 1 20-08-2013 17:23 Page 61
  • C H I N A : U M A V I S Ã O B R A S I L E I R A62O DIÁLOGO ESTRATÉGICO SINO-BRASILEIRO visa especialmente refletire avaliar sob vários aspectos o extraordinário desenvolvimento atual daChina e do Brasil como países emergentes, bem como acentuar aimportância estratégica do relacionamento cultural e acadêmico sino--brasileiro em meio às transformações da cena internacional na primeiradécada do século XXI.O começo do século XXI e do Terceiro Milênio parece configurar umanova e complexa ordem mundial. Nela, a China aparece cada vez maiscomo o ator mais relevante do sistema mundial, acontecimento que estáàs vésperas de transformar a realidade internacional, enquanto o Brasilsegue sendo o maior país em desenvolvimento e a mais importanteeconomia do hemisfério sul do globo.Neste contexto o Brasil e a China aparecem como megaregiões, auto--satisfeitas territorialmente, desafiadas a desenvolver-se para atingirpadrões mais altos de riqueza e poderio nacional. Como futuros megaestados, encontram-se inseridos num processo de mudanças globais, no qual algumas tendências parecem ser ameaçadoras para osobjetivos comuns de sustentação de seus projetos econômicos dedesenvolvimento, os quais visam gerar mais harmonia social, estabilidadee unidade política.Os acontecimentos deste começo de século e de milênio – sobretudo ossérios abalos causados à economia global pela crise financeira que se apoderou dos mercados dos países desenvolvidos – apontam para a necessidade de uma nova pauta mundial. Os caminhos complexos e orelacionamento sino-brasileiro deverão situar-se como um ponto decisivopara configurar uma nova ordem política internacional multipolar. Umanova ordem que significa transformar a atual estrutura econômica epolítica internacional. Essa é uma das razões que solicitam aos estadistase diplomatas dos dois países um esforço concertado para criarinstrumentos que levem à concretização dessa nova pauta mundial.Para tanto, diferentemente da interpretação de que o mundo do pós--Guerra Fria se defrontaria de modo inexorável com o conflito entre ascivilizações, o novo mundo que se desenha poderá ser construído emtorno do diálogo entre civilizações, com a aceitação do princípio daharmonia do não idêntico, inspirado em formulações clássicas do ensinoconfuciano. Tal concepção pode ser entendida como a possibilidademesma de que os dois extremos do Ocidente e do Oriente, independentedo fato de se encontrarem separados por uma grande distância geográficae cultural, venham a encontrar-se numa cooperação omnidirecionada.milenio_hoje_10:Layout 1 22-08-2013 12:14 Page 62
  • S E V E R I N O C A B R A L63O Brasil e a China podem vir a estabelecer um grau de complementação,de tal maneira que se pode antecipar que o século XXI talvez venhaassistir à integração do Brasil – e por efeito de uma concertação políticamaior: o conjunto da América Latina – ao processo de construção daÁsia-Pacífico, assegurando uma cooperação bilateral que setransformará num dos eixos da concertação internacional do milênio.Desse modo, o diálogo intercivilizacional e a cooperação cultural maisdensa e próxima ajudarão a fazer com que a relação sino-brasileira se transforme num dos pilares da ordem mundial multipolar pós-hegemônica. Neste sentido, alguns passos podem ser vistos como decisivos nadireção de maior cooperação estratégica sino-brasileira. O primeirodeles é o adensamento da relação, com aumento de confiança mútua,a partir de um consenso de base na avaliação do panorama estratégicomundial por parte de ambos os parceiros; o segundo é o desenvolvimentode um novo enfoque mais pragmático e inovador para explorar aspotencialidades do relacionamento brasileiro-chinês; o terceiro, aintensificação dos laços culturais e científicos por meio da maioraproximação das instituições acadêmicas de ambos os países, tendocomo resultado a formação de uma sólida e criativa comunidade deestudos chineses no Brasil e, no mesmo sentido de reciprocidade, deestudos brasileiros na China.Primeiro passo: adensar o consenso estratégico e fortalecera confiança mútua entre a China e o Brasil.O início do século XXI apresenta o mundo em grande e rápidatransformação. A extraordinária revolução na ciência e na técnica habilitaa humanidade a alcançar novos graus de desenvolvimento na arte de criarriqueza e gerar prosperidade. A comunicação via satélite e os meios detransporte aéreo praticamente uniram o mundo inteiro. Indivíduos enações se aproximam e se relacionam cada vez mais em todos oshorizontes do planeta. Pouco e pouco se estrutura uma nova ordemmundial baseada no entendimento e na cooperação de todos os paísesdo mundo, baseada na independência e autodeterminação dos povos.Por outro lado esta nova ordem pressupõe o rápido crescimentoeconômico e social de países que se encontram em diferentes estágiosde desenvolvimento. O que se traduz também por tensão e instabilidade,por vezes geradoras de crises e conflitos. milenio_hoje_10:Layout 1 20-08-2013 17:23 Page 63
  • C H I N A : U M A V I S Ã O B R A S I L E I R A64Faz pouco tempo um relatório da firma Goldman & Sachs, de Londres,despertou a atenção de analistas de todo mundo, ao prever para o anode 2050 a emergência do BRIC. Na antecipação dos autores do relatório,por volta de metade do século XXI a estrutura do sistema mundial depoder estará apoiada na economia dos países cujas iniciais formam oacróstico: Brasil, Rússia, Índia e China. Esses países, por essa altura, sesituariam no topo do sistema mundial. O relatório serviu para atrair aatenção para a existência de tendências determinantes do sistemamundial no século e milênio que ora se inicia.Essas tendências desenham uma linha central que aproxima e fazconvergir, em graus e intensidades variadas, as estratégias dos grandespaíses do mundo emergente. Observa-se nesse processo que a Chinatenta consolidar o seu processo de industrialização, e ampliar suaparticipação no sistema internacional, apoiada na defesa de uma ordemmundial estável. No caso do Brasil – que é o maior país em desenvolvimentodo hemisfério ocidental, detentor de recursos naturais imensos, e de umagrande população, desejosa de contribuir para a elevação do bem estarmaterial e espiritual de todos os povos – essas tendências presentes nacena internacional fazem-no cada vez mais interessado, num esforçoconjunto com a China, Rússia e Índia – a partir da III cúpula do BRIC,realizada em China: a África do Sul – numa pauta comum em defesa dodesenvolvimento pacifico e sustentável. Compreendido este últimocomo uma resposta ao desafio gerado pelo aparecimento de umaeconomia globalizada e as ameaças dela resultante: ampliação dadiferença de renda entre ricos e pobres, degradação ambiental, aumentodo hiato financeiro, científico e técnico existente entre os paísesindustrializados e o mundo em desenvolvimento. Assim que – para “navegar nessa nova onda global”, que desafia todosos países e ameaça a humanidade com o duplo flagelo do aquecimentodo planeta acoplado ao desaquecimento econômico mundial – aestratégia a ser seguida por cada ator da cena mundial deverá estabelecera “sobrevida dentro do ciclo” como a sua principal meta. O que resultaráé claro num reforço da proteção dos recursos naturais e humanos de cadaunidade política ativa do sistema internacional. Esta reação de autodefesapode vir a desatar uma corrente protecionista entre as economiasindustriais e acarretar uma deterioração do comércio mundial, aprofundandoo processo de crise da economia mundial e trazendo sérios entravés parao desenvolvimento dos países emergentes. Outra tendência evidencia o risco que correm as unidades políticasnacionais com o aumento de tensões separatistas geradas pormilenio_hoje_10:Layout 1 20-08-2013 17:23 Page 64
  • S E V E R I N O C A B R A L65movimentos sociais radicais de fundo político-ideológico, étnicos ereligiosos. Na outra ponta dos movimentos de “capitais desregulados”que provocam a desestabilização econômica mundial, esses movimentossociais radicais também atuam para aprofundar a crise sistêmica e ameaçar a unidade e a integridade dos Estados. Neste sentidovisualiza-se uma crescente instabilidade nas diversas regiões domundo, notadamente naquela que se situa no epicentro da crise mundial,estendendo-se do Norte da África e do Médio Oriente ao Centro e Sulda Ásia.Em que, pese essas tendências e a vasta crise financeira global a gerar incertezas, permanece a tendência principal de emergência de novoscentros de poder mundial e do surgimento da multipolaridade como umanova configuração da estrutura do sistema internacional. Sistema que seapresenta em seus principais contornos nesse início de século XXImarcado essencialmente pela presença dos países emergentes – Brasil,Rússia, Índia, China e África do Sul – que, em seu conjunto, apresentamuma grande estrutura de poder por sua indústria, população, extensãoterritorial e recursos naturais. Megapotências do século XXI, esses países estão desafiados a manter ocrescimento das suas economias para atingir novos degraus na busca dodesenvolvimento sustentável e harmonioso. O que implica que se tornemuma força conjunta a trabalhar para a reativação da economia mundial e conseqüente retomada dos mais altos níveis de crescimento edesenvolvimento.O ano de 2010 assistiu à irrupção na cena internacional da concertaçãopolítica dos países emergentes reunidos na sigla BRIC. Depois dareunião do Brasil, Rússia, Índia e China na capital brasileira, os presidentesdesses países vieram a se encontrar na reunião anual do G-20, em Seul,onde mais uma vez puderam debater com as demais potências globais as bases de um entendimento maior sobre os rumos da políticainternacional.A continuidade da crise financeira, pois, levou-os a discutir a novaarquitetônica financeira internacional com o conjunto dos paísesindustrializados.A questão chave para o equilíbrio de força mundial pós-Guerra Friacontinua a ser a constituição de uma aliança estratégica entre os maiorespaíses do mundo que emergem para a cena internacional nesse começode século e de milênio. A estrutura do poder mundial, herdeira de umamilenio_hoje_10:Layout 1 20-08-2013 17:23 Page 65
  • C H I N A : U M A V I S Ã O B R A S I L E I R A66evolução multissecular, só poderá vir a ser alterada de maneira positiva –sem quebra maior da unidade alcançada com o final do processo decolonização centralizada na Europa e que resultou no aparecimento deduas centenas de nações soberanas – com a emergência de novossuportes da estabilidade da ordem internacional. Tal como à época da Guerra Fria e do equilíbrio do terror nuclear seexercitava a “chantagem nuclear” em nossa época se pratica o que sepoderia chamar de “chantagem climática e ambiental”. Em nome do combateao desenvolvimento predatório e dissipador de recursos se tenta pura esimplesmente impedir o desenvolvimento. De um lado, o conservadorismoambientalista irmanado com o ativismo militante ergue barreiras aocrescimento e a geração de riqueza, de outro, os organismos internacionaispraticam o protecionismo a favor dos países desenvolvidos criandoóbices a políticas que favoreçam o mundo em desenvolvimento.Eis porque o Brasil e os demais países do BRICS devem liderar o esforçomundial para a superação desses limites. Tendo em vista a crescentepresença na cena internacional e sua ascensão no campo das relaçõeseconômicas, os gigantes emergentes deverão orientar o ritmo do crescimentoda economia mundial nas próximas décadas. Nos recentes e importantesencontros dos chefes de Estado desses países algo neste sentido começoua tomar vulto. Os textos e documentos divulgados pelos sites dosMinistérios de Relações Exteriores falam por si quanto ao significado daconcertação estratégica entre os gigantes do mundo emergente do século XXI.A Cúpula do BRICS, que reuniu em abril deste ano os chefes de Estadoe de Governo do Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, em Sanya//China, viu o mundo começar a se familiarizar com a sigla e também como que ela significa para a ordem mundial multipolar que se está a criarnum ambiente internacional ainda marcado pelos acontecimentos que geraram as Guerras do Golfo e o incidente de 11 de setembro de 2001.O encontro dos chefes de Estado e de Governo do BRICS, com a entradada África do Sul no grupo, gerou a expectativa de que a partir daí se amplie o consenso em torno de seus interesses comuns e se coordeneesforços na contenção dos efeitos da crise econômica global.Ao mesmo tempo em que propõem a reforma do sistema financeiro internacional no sentido de favorecer uma melhor administração da criseem benefício de todos os membros da comunidade internacional, anegociação política que encabeçam não ameaça a nenhum país ou bloco de países, mas tem o caráter de resguardar os interesses dospaíses e povos do mundo em desenvolvimento.milenio_hoje_10:Layout 1 22-08-2013 12:14 Page 66
  • S E V E R I N O C A B R A L67A ordem mundial que se anuncia para o século XXI será democrática erepresentará um novo momento do sistema internacional. Certamente estará baseada nas regras institucionais que hoje balizam a vida políticainternacional cada vez mais interligada pelo conhecimento e peloentendimento entre os povos de todos os continentes. Claro está que osfatores que levam da competição ao conflito existem e devem serconhecidos e combatidos no que venham a ferir o bem comum daspopulações e das sociedades. O que deve ser posto em prática é atransigência e a busca da harmonia dentro da diversidade, e, nestesentido, a diferença e convergência de interesses representados pelo BRICSpode representar um princípio cultural e civilizacional com valor universalcapaz de sustentar a nova ordem mundial multipolar e democrática.Segundo passo: fornecer um novo enfoque pragmáticoe inovador para explorar as potencialidades da cooperação brasileiro-chinesa.Ao enunciar no Fórum Boao que o mundo do século XXI requercriatividade para ser devidamente compreendido e para ser posto aoserviço do desenvolvimento dos países e dos povos que compõem acomunidade das nações, Dilma Rousseff estabeleceu uma base conceitualpreliminar para que novo enfoque pragmático, inovador, venha orientar aexploração de todas as potencialidades da cooperação brasileiro-chinesa.Um novo enfoque que traduz o amadurecimento do processo em cursode cooperação brasileiro-chinesa, como testemunha o importantedocumento elaborado pela Comissão Sino-Brasileira de Alto Nível deConcertação e Cooperação-COSBAN, que propõe um conjunto deorientações estratégicas e abrangentes para o desenvolvimento daparceria e da cooperação em áreas relevantes para os dois países. Baseado no espírito de igualdade, pragmatismo e reciprocidade naobtenção de resultados positivos que deve nortear o relacionamentobilateral, e no intuito de ampliar a cooperação em todas as áreas, o documento do COSBAN, solicitado a existir por deliberação dos Chefesde Estado do Brasil e da China, estabelece um Plano de Ação Conjuntapara os anos 2010-2011 baseado nos seguintes objetivos gerais:Fortalecer as consultas políticas sobre temas bilaterais e multilateraisde interesse mútuo, com base nos princípios de igualdade, confiançamútua, solidificando desse modo a base política da Parceria Estratégica;milenio_hoje_10:Layout 1 20-08-2013 17:23 Page 67
  • C H I N A : U M A V I S Ã O B R A S I L E I R A68Ampliar e aprofundar as relações bilaterais em todas as áreas;Aprimorar a coordenação das iniciativas de cooperação em todas asáreas da Parceria Estratégica Brasil-China, bem como de todos seusmecanismos institucionais;Estabelecer metas precisas e objetivas para cada uma das áreas decooperação com base em iniciativas específicas;Monitorar e avaliar as metas estabelecidas e as atividades empreendidaspelos vários organismos envolvidos; Promover o intercâmbio de experiências nacionais em áreas deinteresse mútuo;Adotar visão estratégica das relações bilaterais, a médio e longo prazo,considerando os desenvolvimentos do cenário internacional. Vislumbra-se, pois, a partir destes objetivos gerais um quadro amplo deações necessárias para que se concretize a Parceria Estratégica Brasil--China, dado que os desafios do presente estão a exigir novosprocedimentos e respostas aos extraordinários acontecimentos do iníciode século e de milênio. No entanto, devem essas ações, procedimentose respostas refletir o principio maior de respeito mútuo à soberanianacional e de não-intervenção nos assuntos internos de cada país,adaptado ao desafio de atuar num contexto internacional de amplasmudanças em que se insere a cooperação brasileiro-chinesa no campoda construção de nova ordem mundial multipolar.É neste sentido que deve ser compreendido o apelo da Chefia do Executivobrasileiro à inovação e criatividade para explorar as potencialidades dorelacionamento sino-brasileiro. Sobretudo na ampliação dos laços comerciaise no desenvolvimento de novas áreas de cooperação no terreno da produçãode alta tecnologia, com vista a maximizar a cooperação econômica efinanceira e elevar o nível da parceria estratégica sino-brasileira.A inovação e a criatividade devem ser vistas pelas autoridades máximasdo Brasil e da China como recursos para a efetivação dos principaisacordos de cooperação elaborados por representantes de diversossetores de ponta da economia, das finanças, e da ciência e tecnologiasino-brasileira, mas também como desafio à imaginação da sualiderança política e estratégica. Ao examinarem-se alguns dos acordosassinados por Dilma Rousseff e Hu Jintao, em abril de 2011, voltadospara a cooperação em áreas como energia e recursos minerais,milenio_hoje_10:Layout 1 20-08-2013 17:23 Page 68
  • S E V E R I N O C A B R A L69tecnologias energéticas, agro-negócio e alimento, infra-estrutura,transporte, aeronáutica, telecomunicações e novas tecnologias deinformação, constata-se que eles apontam para a elevação do conteúdoestratégico e o significado global da parceria sino-brasileira, cominevitável repercussão nos rumos da política exterior e de defesa dosdois grandes países.Desse modo pode ser criativo e inovador passar da discussão interminávelsobre os efeitos negativos da chamada “guerra cambial” para umapositiva pauta de intercâmbio industrial na área da defesa. Dado que ascaracterísticas que presidem a nossa estratégia nacional de defesa,orientada para responder ao duplo desafio da segurança e dodesenvolvimento, são similares às da estratégia nacional chinesa tal comoexpostas no Livro Branco de Defesa da RP China, nomeadamente no quetange a desenvolver tecnologias no campo do nuclear, do aeroespacial,da informática e da nanotecnologia, é visível a existência de uma área deatuação onde pode e deve prosperar o desenvolvimento comum.Sobretudo no capítulo da transferência de tecnologia sobre qual o mundoindustrial desenvolvido cria barreiras e obstáculos crescentes, o Brasil ea China poderiam desenvolver setores industriais inteiros, baseando-seno intercâmbio dos fatores favoráveis de mercado e mão de obramobilizada pelos dois países. Há uma outra dimensão em que o enfoque pragmático, inovador, devaser aplicado para explorar as potencialidades da cooperação sino--brasileira. O projeto brasileiro de construção de uma base física para aintegração sul-americana (transporte, infra-estrutura e telecomunicações)abre a possibilidade de uma participação chinesa em projetos associadoscom as empresas nacionais e dos demais países da região. Investimentoe co-participação serão possíveis desde que baseados no princípio dareciprocidade e do benefício mútuo. E nessa direção estratégica apontada pelo Plano de Ação Conjunta,elaborado pelo COSBAN, alguns interesses comuns aparecem comovitais tanto à China como ao Brasil: a salvaguarda da segurança edesenvolvimento de ambos os países; a manutenção da paz e dodesenvolvimento regional; a construção de dois blocos de forçasharmoniosos (na Ásia Oriental e na América do Sul), sustentados nacooperação Sul-Sul, capazes de perseguir um mesmo fim no plano global– a criação de uma nova ordem mundial multipolar.Avançar na direção de tal objetivo pressupõe o desenvolvimento doconhecimento mútuo entre as concepções dominantes nas duasmilenio_hoje_10:Layout 1 20-08-2013 17:23 Page 69
  • C H I N A : U M A V I S Ã O B R A S I L E I R A70sociedades o que implica na criação de instituições acadêmicas ecientíficas que promovam o maior intercâmbio cultural entre a China e oBrasil. Para tanto devemos dar um terceiro passo que nos leve a maiorintensificação dos laços culturais e científicos bem como venha a ampliaro conhecimento mútuo sino-brasileiro.Terceiro passo: aumentar o intercambio culturalentre os dois países passa pela maior presença da Chinano Brasil bem como do Brasil na China em todos os camposda atividade acadêmica, científica, artística e cultural.É um fato da vida que todo aquele que busca o conhecimento da Chinano Brasil, qualquer que seja sua formação acadêmica, acaba por sertornar parte da relação sino-brasileira. Não se prende apenas acircunstância de ser o Brasil um país geograficamente distante da Chinae dotado de uma cultura tão diferente, que o brasileiro que se volta parao estudo da China se revele um descobridor de paragens humanas quasedesconhecidas. Os europeus desde sempre expressaram em grausdiversos essa perplexidade, fascínio e por vezes inquietude diante dofenômeno chinês – tal como retrata Étiemble em seu estudo sobre a“Europa Chinesa”. Talvez não haja um mais real sintoma desse sentimentodo que a interrogação que se fez Pascal, um dia, ao anotar em seus“Pensamentos”: “Qual o mais digno de crédito: Moisés ou a China?”.Do outro lado do mundo, o maior país em desenvolvimento do hemisférioocidental, engajado num processo civilizacional – ao mesmo tempopolítico, econômico, científico-técnico, social e cultural, que visa integrara América do Sul e assim transformá-la num pólo de poder mundial – épor vezes singularizado por ser um país mestiço e de expressãoportuguesa, o que desperta interrogações e questionamentos por partedos descendentes dos contestadores de Tordesilhas sobre sua identidadecomo membro da civilização Ocidental. Em grande parte isto decorre dofato antropológico e cultural de que o Brasil, como fruto da epopéia lusade descobrimento das rotas oceânicas mundiais, amalgamou três raçasoriundas de três continentes para constituir no Novo Mundo sua primeiraforma de ser e estar integrado na corrente histórica universal.No processo de mundialização que se acelera nesse início de século ede milênio, melhor compreendido, de extensão da civilização industrial e urbana gerada pelas revoluções do século XVII e XVIII a todos os rincõesdo planeta, passamos a viver o momento em que a China, o “País domilenio_hoje_10:Layout 1 20-08-2013 17:23 Page 70
  • S E V E R I N O C A B R A L71Meio”, está a reunir e a reintegrar o Extremo Oriente – enquanto o Brasil,o “Colosso do Sul”, se posiciona como o estado âncora do processo decriação (ou recriação) do Extremo Ocidente.Por isso deve-se pensar que a parceria estratégica sino-brasileira deveatuar no campo cultural e civilizacional buscando meios e modos deaproximar e aumentar o conhecimento recíproco dos dois grandes atoresda cena internacional. Neste sentido podemos saudar os recentesencontros de cúpula presidencial Brasil China que tem promovido novosinstrumentos de ação diplomática para uso de brasileiros e chinesesestabelecidos na academia, na mídia, no meio do entretenimento e dolazer, e do comércio cultural.Assim parece ter sido inspirado o documento assinado pelos presidentesLuis Inácio Lula da Silva e Hu Jintao em 15 de abril de 2010 e quepropunha um Programa Executivo de Cooperação Cultural entre oGoverno da República Federativa do Brasil e o Governo da RepúblicaPopular da China para os anos de 2010 e 2012. Nele se visualiza acooperação no campo cultural como instrumento de aproximação eadensamento das relações bilaterais e também como uma contribuiçãocomum ao patrimônio cultural da humanidade pela difusão dos elementosmelhores e mais representativos das duas culturas nacionais.Tanto o Programa Executivo de Cooperação Cultural como o Plano deAção Conjunta fornecem orientações estratégicas e de grande alcancepara os pesquisadores que queiram participar dessa aventura intelectual.Há, portanto, que desenvolver o interesse entre os jovens pesquisadorese pós-graduandos nas disciplinas de História e Ciências Sociais, comotambém na Filosofia e nos estudos lingüísticos sino-brasileiros. Com acooperação dos órgãos de apoio e fomento como CNPq, a CAPES, aFINEP, e as fundações estaduais de apoio à Pesquisa, poder-se-áimplantar no Brasil um campo de estudos chineses que muito auxiliaria oesforço do diálogo estratégico sino-brasileiro. Talvez se pudesse criaralgo como o Pró-Ásia que, através do MEC, ajudaria na implantação decursos de história, cultura e língua chinesa nas universidades brasileiras.Vendo também o outro lado da cooperação, deve-se estimular o estudopelos pesquisadores chineses da língua, da cultura e da história do Brasil.Isto pode ser feito em contato com as universidades e instituiçõesacadêmicas chinesas que possuem departamentos de estudos brasileirose que devem ser apoiadas com auxílio das instituições sino-brasileirasengajadas no intercâmbio cultural e acadêmico.milenio_hoje_10:Layout 1 22-08-2013 12:14 Page 71
  • C H I N A : U M A V I S Ã O B R A S I L E I R A72Um campo que deveria florescer seria o das edições bilíngües e de umalinha editorial que publicasse os clássicos chineses em cuidadosaspublicações críticas filológicas capazes de elevar o padrão deconhecimento em português da língua de cultura milenar chinesa, berçoda humanidade oriental e que se constitui num dos patrimônios culturaisuniversais da humanidade. Neste sentido é preciso enfatizar a idéia da reciprocidade e da necessidadede um apoio mútuo e decidido no campo da cooperação cultural a maisalta no plano da língua e da academia. É reconhecido o fato de que oportuguês falado no Brasil e que abrange uma comunidade de 200milhões de falantes, a qual juntamente com os demais países de línguaportuguesa eleva o idioma luso à condição de terceira mais falada línguade cultura do Ocidente. Alem dessa extensão somente ultrapassada noOcidente pelo inglês e o espanhol, o português se excele por constituirum dos mais ricos patrimônios da literatura universal. Por isso uma dasmais importantes iniciativas nesta área também prevista no PAC é aparticipação da Academia Brasileira de Letras na divulgação do idiomapátrio junto aos escritores e usuários do idioma chinês.Há pouco mais de um século Ernest Fenollosa, em famoso ensaioelaborado entre 1897 e 1900 no Japão, e publicado postumamente porEzra Pound sob o título “Os caracteres da escrita chinesa comoinstrumento de poesia”, vaticinava:“Este século XX não somente vira uma nova página do livro do mundocomo também dá início a outro espantoso capítulo. Desdobram-se parao homem panoramas de estranhos futuros, de outras culturas universaisa que a Europa não está muito afeita, de responsabilidades ainda nãoimaginadas para as nações e as raças. O problema chinês, de per si, já é tão vasto que nenhuma nação se pode permitir ignorá-lo. Nósparticularmente, na América, devemos enfrentá-lo através do Pacífico, edominá-lo para não sermos por ele dominados. E a única maneira dedominá-lo será esforçando-nos com paciente simpatia por compreenderos elementos melhores, mais promissores e mais humanos nele contidos.”Num outro hemisfério e noutro tempo, em seu livro “Novo Mundo nosTrópicos”, editado em Lisboa, no ano de 1972, Gilberto Freyre assimdiscorria sobre a “China Tropical”:“Alguns desses estudiosos entendem essa civilização – própria do Brasil,no Hemisfério Ocidental, singularidade que não implica ausência de afinidades com outras repúblicas da América – como uma civilização luso-milenio_hoje_10:Layout 1 20-08-2013 17:23 Page 72
  • S E V E R I N O C A B R A L73-tropical que, se reconhecida como tal, seria uma vasta civilização aindamais extensa que a da China – na América, na África, no Oriente, nas ilhasdo Atlântico, e na própria Europa, ocupando espaços tropicais ou quasetropicais. Se uma civilização assim unificada está realmente sendodesenvolvida, então o Brasil pode ser considerado como o líder empotencial de um dos sistemas de civilização mais significativos do mundomoderno. Uma China tropical cuja extensão é considerável e cuja língua– a portuguesa – é hoje falada por mais de cem milhões de bocas.”Foi no mesmo sentido em que esses grandes pensadores do passadocomo que anteciparam o futuro, que, em sua fala, a presidenta DilmaRousseff, em Hainan/China abordou a questão essencial do que deve sera resposta dos países emergentes ao desafio do desenvolvimento.Desafio que irá cada vez mais exigir criatividade na diminuição dasdistâncias entre os povos e as culturas, para que novos laços, novosnegócios e novas parcerias venham a estabelecer de forma perene entrea Ásia e a nossa América importante, sinérgica, estratégica cooperaçãopara a construção de uma nova ordenação internacional para o século XXI.Seminário Internacional Brasil-China, no Reordenamento das Relações Internacionais.Palácio Itamaraty, Rio de Janeiro, 16 e 17 de junho de 2011.BIBLIOGRAFIAAZEREDO DA SILVEIRA, A. F. Discurso quando da assinatura do Comunicado Conjuntosobre o Estabelecimento das Relações Diplomáticas entre o Brasil e a China, no Paláciodo Itamaraty, em 15 de agosto de 1974, in Brasil-China 20 anos de Relações (1974-1994).Rio de Janeiro, Conjunto Universitário Candido Mendes / Centro de Estudos Norte--Americanos / Programa de Estudos China-Ásia-Pacífico, 1974.CABRAL, Severino. China e Brasil: duas maneiras diferentes de enfrentar desafios, inCésar Benjamim et alii: Visões da Crise, Rio de Janeiro, Contraponto, 1998.CABRAL, Severino. Encontro entre Brasil e China: cooperação para o século XXI, inBrasília: Revista Brasileira de Política Internacional, ano 43, n.º 1, 2000.CABRAL, Severino. Nova Agenda Mundial e Mundo Multipolar, Aldo Rebelo (Org.) in SeminárioPolítica Externa do Brasil para o século XXI. Brasília: Câmara dos Deputados, 2004.CABRAL, Severino. Brasil e China – aliança e cooperação para o novo milênio, in SamuelP. Guimarães (Org.). Seminários IPRI: Brasil e China – Multipolaridade. Brasília,IPRI/FUNAG, 2003.FENOLLOSA, Ernest. Os caracteres da escrita chinesa como instrumento para a poesia,In Haroldo de Campos (Org.). Ideograma, lógica, poesia e linguagem. São Paulo, EDUSP,1994.milenio_hoje_10:Layout 1 22-08-2013 12:14 Page 73
  • C H I N A : U M A V I S Ã O B R A S I L E I R A74FREYRE, Gilberto. China tropical. São Paulo, UNB, 2003.FREYRE, Gilberto. Um brasileiro em terras portuguesas. Rio de Janeiro, José Olympio,1953.HU JINTAO. Discurso Del Presidente de la Republica Popular China ante el Congresode Brasil, 12 de noviembre de 2004. Documento publicado pela Embaixada da RP China.HU JINTAO. President Hu Jintao´s interview with American Press, January 17, 2011.Ministry of Foreign Affairs of the People´s Republic of China.JIANG ZEMIN. Discurso de Brasília, 23 de novembro de 1993. Documento de arquivodo Itamaraty.KISSINGER, Henry. The China Challenge. In The Wall Street Journal, May 14, 2011.OBAMA, B.H.. Remarks by the President to Parliament in London, UK, May 25, 2011.The White House. ROUSSEFF, Dilma. Discurso de abertura do Fórum BOAO / Ilha de Hainan, China em 15de abril de 2011. Presidência da República Federativa do Brasil. ZHU RONGJI. A reforma e abertura da China e as relações entre a China e AméricaLatina. Palestra em 31 de maio de 1993, sede da Federação das Indústrias do Estadode São Paulo-FIESP.DOCUMENTOS PUBLICADOS PELO MINISTÉRIO DAS RELAÇÕES EXTERIORESDO BRASILPLANO DE AÇÃO CONJUNTA ENTRE O GOVERNO DA REPUBLICA FEDERATIVA DOBRASIL E O GOVERNO DA REPÚBLICA POPULAR DA CHINA, 2010-2014.ATOS ASSINADOS POR OCASIÃO DA VISITA DO PRESIDENTE DA REPÚBLICAPOPULAR DA CHINA, HU JINTAO – BRASÍLIA, 14 E 15 DE ABRIL DE 2010.COMUNICADO CONJUNTO ENTRE A REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL E AREPÚBLICA POPULAR DA CHINA – PEQUIM, 12 DE ABRIL DE 2011.DECLARAÇÃO DE SANYA – REUNIÃO DE LÍDERES DO BRICS, SANYA, CHINA, 14 DEABRIL DE 2011.milenio_hoje_10:Layout 1 20-08-2013 17:23 Page 74
  • S E V E R I N O C A B R A L75AS RELAÇÕES BRASIL-CHINA E OS DESAFIOSDO SÉCULO XXIO Brasil e o mundo no século XXI“Sabendo reconhecer as prioridades, estarás ao alcance da via”. DaxueO início do século XXI apresenta o mundo em grande e rápida transformação.A extraordinária revolução na ciência e na técnica habilita a humanidadea alcançar novos graus de desenvolvimento na arte de criar riqueza egerar prosperidade. A comunicação via satélite e os meios de transporteaéreo praticamente uniram o mundo inteiro. Indivíduos e nações seaproximam e se relacionam cada vez mais em todos os horizontes doplaneta. Pouco e pouco se estrutura uma nova ordem mundial baseadano entendimento e na cooperação de todos os países do mundo, baseadana independência e autodeterminação dos povos. Por outro lado esta novaordem pressupõe o rápido crescimento econômico e social de países quese encontram em diferentes estágios de desenvolvimento. O que se traduztambém por tensão e instabilidade, por vezes geradoras de crises e conflitos. Faz pouco tempo um relatório da firma Goldman & Sachs, de Londres,despertou a atenção de analistas de todo mundo, ao prever para o anomilenio_hoje_10:Layout 1 20-08-2013 17:23 Page 75
  • C H I N A : U M A V I S Ã O B R A S I L E I R A76de 2050 a emergência do BRIC. Na antecipação dos autores do relatório,por volta de metade do século XXI a estrutura do sistema mundial depoder estará apoiada na economia dos países cujas iniciais formam oacróstico: Brasil, Rússia, Índia e China. Esses países, por essa altura, sesituariam no topo do sistema mundial. O relatório serviu para atrair aatenção para a existência de macrotendências do sistema mundial noséculo e milênio que ora se inicia.A primeira tendência que se anuncia é a de que só os grandes países domundo de hoje, que sejam dotados de considerável espaço territorial, população e força econômica autônoma, podem aspirar constituir umpólo de poder mundial. Neste sentido, a unidade e a integração européiaserve de balizamento para tornar-se uma unidade política ativa do mundocontemporâneo: o seu êxito ou fracasso determinará a existência futurada Europa como grande centro mundial de poder. Como também éobservável, que os principais obstáculos no caminho do BRIC para o topoda ordem mundial relacionam-se à capacidade de cada um deles manter, ampliar e até mesmo recuperar espaço, população e base econômica.Em suma, a característica principal do processo em curso, a contrariosensu da fragmentação da “primeira onda da globalização”, é a daconstituição dos megaestados, que serão amanhã os sustentáculos damundialização.A segunda e decorrente tendência é que o ambiente internacional deveráser profundamente alterado em relação ao que era ao final da Guerra Fria,sobretudo o sistema que sucedeu a bipolaridade, e que se denominou a“Nova Ordem Mundial”. Contudo, acontecimentos como as duas guerrasdo Golfo e o atentado de 11 de setembro de 2001 são sintomas daprofunda e dramática instabilidade da ordem internacional gerada pelaunipolaridade, vale dizer, a política de força de uma única potência. A superação desse estado de coisas só ocorrerá com a emergência deuma nova ordem mundial mais democrática e mais legítima baseada numnovo equilíbrio de forças entre as nações. O advento de uma ordemmultipolar será positivo para a criação de uma situação internacionalmenos tensa e mais direcionada para a elevação do nível de vida daspopulações do mundo em desenvolvimento.A terceira tendência cada vez mais visível no horizonte internacional é o papel da Ásia do Leste como um dos pilares do mundo multipolar emgestação. O mega desenvolvimento da China (que já adquire a forma deum megaestado), em seguida ao do Japão e da Coréia, transformou omundo ásio-oriental na vanguarda do sistema internacional. Trata-se deuma região de importância cada vez maior no jogo de equilíbrio do podermilenio_hoje_10:Layout 1 20-08-2013 17:23 Page 76
  • S E V E R I N O C A B R A L77mundial, conseqüentemente para a paz e o desenvolvimento do mundo.Esta a razão porque, neste começo de século e de milênio, a China e aÁsia Oriental encontram-se no centro do processo da construção de umdos pilares de sustentação do sistema internacional multipolar deamanhã.Como quarta tendência, é possível constatar a ressurgência das civilizaçõesafetadas em seu destino histórico pelo mundo euro-ocidental e pelaciência e técnica moderna. O mundo que assistiu no pós-SegundaGuerra, ao processo de industrialização e assimilação da técnica e daciência, despertou importantes forças irradiantes e insurgentes, com adescolonização da África, Ásia e do mundo árabe-muçulmano. Este último fenômeno, sinalizado pela ressurgência do Islamismo comoprotagonista da cena internacional, tem impressionado observadores de todo o mundo, a ponto de ser interpretado como o desafio maior do pós--Guerra Fria.Uma quinta tendência influenciará de forma decisiva a configuração domundo de amanhã. Trata-se da emergência do mundo latino, cujoprotagonismo possível no século XXI encontra no futuro megaestadobrasileiro seu principal ator. Embora a Europa meridional seja partefundadora do mundo latino, o emergente bloco reunirá, sobretudo, oconjunto dos países da América Latina. O novo mundo latino-americanointegrará uma grande área econômica capaz de impulsionar a criação deuma nova ordem mundial multipolar. Essas cinco macrotendências desenham uma linha central que aproximae fazem convergir, em graus e intensidades variadas, as estratégias dosgrandes países do mundo emergente. Observa-se nesse processo que aChina tenta consolidar o seu processo de industrialização, e ampliar suaparticipação no sistema internacional, apoiada na defesa de uma ordemmundial estável. No caso do Brasil – que é o maior país em desenvolvimentodo hemisfério ocidental, detentor de recursos naturais imensos, e de umagrande população, desejosa de contribuir para a elevação do bem estarmaterial e espiritual de todos os povos – essas macrotendênciaspresentes na cena internacional fazem-no cada vez mais interessado,num esforço conjunto com a China, Rússia e Índia, numa pauta comumem defesa do desenvolvimento pacífico e sustentável. Compreendido esteúltimo como uma resposta ao desafio gerado pelo aparecimento de umaeconomia globalizada e as ameaças dela resultante: ampliação dadiferença de renda entre ricos e pobres, degradação ambiental, aumentodo hiato financeiro, científico e técnico existente entre os paísesindustrializados e o mundo em desenvolvimento. milenio_hoje_10:Layout 1 20-08-2013 17:23 Page 77
  • C H I N A : U M A V I S Ã O B R A S I L E I R A78A emergência da China no século XXI “Embora Zhou seja um antigo Estado o seu Mandato é atual”. ShijingNo dia 15 de outubro de 2003 o mundo assistiu a um extraordinárioacontecimento com o lançamento ao espaço do primeiro astronautachinês. Este grande êxito da China veio coroar 45 anos de ingentesesforços empreendidos desde o amanhecer da inauguração pelo Sputnikda Era Espacial. A façanha do tenente-coronel Yang Liwei ao tripular aShenzhou V, bem assim a dos cientistas e técnicos chineses querealizaram com sucesso a tarefa de suceder aos russos e norte--americanos na conquista do espaço, deve ser creditada em grandemedida à visão do pai da Astronáutica chinesa, Qian Xuesen, cujadeterminação foi capaz de convencer as altas lideranças chinesas,representadas pelo Presidente Mao Zedong, de que “a China tambémdeveria lançar satélites artificiais”.Neste começo de século XXI, que é também o de um novo milênio,grandes desafios se erguem diante dos países e povos em todos oscontinentes e em todas as partes do mundo civilizado. Mas nenhumdesafio tem sobrepujado o de garantir a paz e a estabilidade internacional.O mundo do pós-Guerra Fria não eliminou os elementos que levam àbusca da hegemonia e a aplicação da política de força das grandespotências, fatores que levam a novas guerras e novos enfrentamentos.Sobretudo não revelou disposição por parte do mundo industrializado edesenvolvido de alterar no sentido positivo as expectativas de maiorcrescimento econômico e de desenvolvimento presentes na grandemaioria do ecúmeno humano. Os acontecimentos gerados pelo atentado de 11 de setembro de 2001têm despertado inquietações sobre a segurança que afetam a todos ospaíses, que podem ser ameaçados em escala maior ou menor peloterrorismo, pelo separatismo e pelo extremismo político, étnico e religioso.Essas ameaças estimulam respostas que transgridem a lei internacionale violam a soberania e a integridade territorial dos Estados nacionais. A superação desses perigosos fatores de guerra presentes na conjunturainternacional exige crescente atenção e cooperação baseada naconfiança, nos benefícios mútuos e recíprocos, e no respeito ao princípioda igualdade entre os estados e nações.O segundo desafio, que pressiona a pauta do sistema das relaçõesinternacionais, é o futuro das nações em desenvolvimento, destacadamenteaquelas que como o Brasil e a China possuem recursos e escala suficientesmilenio_hoje_10:Layout 1 20-08-2013 17:23 Page 78
  • S E V E R I N O C A B R A L79para elevá-las à condição de um megaestado do século XXI. A estaturados dois países impõe à liderança política um esforço supremo paraimprimir um ritmo de crescimento econômico que não só aumente o bem-estar da sua população como também faça o poderio nacionalintegrado atingir o seu ponto mais alto. Realizar esse objetivo pressupõe enfrentar e superar obstáculos internose externos crescentes em função do processo de medição de força emcurso no sistema internacional. Esse processo de reconfiguração dopoder mundial pós-Guerra Fria passa essencialmente pela competiçãointernacional que supõe na visão chinesa “uma medição de forças emtermos de poderio nacional baseado nos recursos econômicos, científicose tecnológicos de cada nação”.O desafio da economia contemporânea tem sido enfrentado e vencidopela China num grau e numa intensidade que desperta a atenção deeconomistas, políticos e homens de Estado de todo o mundo. Numaépoca que se define pela empresa da globalização econômica financeira,o estado chinês vem conseguindo manter uma alta performance, comoestado nacional-desenvolvimentista, sem cair no desequilíbrio e no caosinflacionário.O fenômeno chinês tem sido visto e compreendido de modo geral comouma conseqüência da generalização dos efeitos decorrentes docrescimento das economias do Leste asiático. Essas economias,lideradas pelo Japão, geraram a vaga da industrialização dos “pequenosdragões” (Coréia do Sul, Taiwan, Hong Kong e Singapura), que elevou arenda nacional desses países ao mesmo nível dos grandes estadosindustrializados do Ocidente.A questão que desafia as análises e as predições no instável pós-GuerraFria, é a de definir as condições em que o gigante chinês, a República Popular da China, tendo dado os seus primeiros passos na direção deuma política de crescimento acelerado, sustentará ao longo do séculoXXI o projeto reformista, de abertura e de intercâmbio com o mundo.Esse projeto, que revoluciona a sua estrutura anterior, dá início a umaexperiência singular de construção de uma economia nacional comcaracterísticas particulares. Na autodefinição chinesa, tratar-se-ia deuma economia de mercado socialista a caminho de tornar-se umaaltamente progressista sociedade socialista. O idealizador dessaconcepção política, o líder da segunda geração de dirigentes do estadochinês, Deng Xiaoping, a denominou de “socialismo com característicaschinesas”.milenio_hoje_10:Layout 1 20-08-2013 17:23 Page 79
  • C H I N A : U M A V I S Ã O B R A S I L E I R A80A via seguida pelo desenvolvimento da China desde o acontecimento de1949 foi sinuosa e marcada por rupturas e descontinuidades. A principalruptura, conhecida por sua ampla incidência sobre a conjunturainternacional, conduziu ao rompimento sino-soviético nos tumultuadosanos 60. Essa decisão, emanada da liderança do presidente Mao, levouo País a viver um certo isolamento, com o fim da aliança com a URSS ea comunidade de países socialistas do leste europeu. Mas terminou comuma reviravolta nos rumos da política internacional: pois, ao buscarinserir-se no sistema internacional, a China teve que se aproximar do seuprincipal antagonista: os Estados Unidos da América. A inserção do maior país do Oriente na estrutura das Nações Unidas(1971) foi seguida da viagem de Nixon-Kissinger a Beijing/Shanghai(1972), restabelecendo o diálogo sino-estadonidense. Desses encontros,que marcaram um momento decisivo na história do conflito Leste-Oeste,resultaram entre outros efeitos: a détente e os primeiros lances dodesenvolvimento contemporâneo chinês.Encerrado o ciclo comandado pelos Pais-Fundadores do regime (1976) -presidente Mao Zedong, primeiro-ministro Zhou Enlai, e o criador doExército, Marechal Zhou De — deu-se outro momento de ruptura dasituação chinesa e mundial, quando, sob a liderança de Deng Xiaoping,teve início a reforma e abertura chinesa.O Arquiteto Geral da reforma e abertura da China Deng Xiaoping, umremanescente da direção histórica do Partido Comunista Chinês, iniciouuma nova longa marcha, ao obter no III Pleno do XI Congresso do PartidoComunista da China, realizado em dezembro de 1978, a mudança geralda linha política, ao direcionar os esforços de toda a China para aconstrução da sua economia nacional, baseada no programa das quatrograndes modernizações: a agricultura, a indústria, a ciência-técnica e adefesa nacional.A partir dessa decisão o estado chinês reencontrou o ritmo dedesenvolvimento atingido nos anos 50, e redirecionou seu esforço nosentido de criar um sistema industrial avançado, acompanhando oacelerado processo de crescimento das economias do Leste asiático. Acomeçar pela reforma do sistema agrícola, com a criação do sistema deresponsabilidade familiar em substituição às comunas populares,elevando a produtividade no campo chinês a ponto de permitir umaprodução de mais de 400 milhões de toneladas métricas anuais. Emseguida foram criadas as Zonas Econômicas Especiais, gerando um surtode industrialização no delta do rio Pérola junto a Hong Kong e Macau e,milenio_hoje_10:Layout 1 20-08-2013 17:23 Page 80
  • S E V E R I N O C A B R A L81mais acima na província de Fujian, diante do Estreito de Taiwan. A criaçãodessas zonas, sobretudo quando implantadas na ilha de Hainan, e na áreade Pudong em Shanghai, permitiu à China iniciar sua extraordináriaperformance em disputa pelos mercados mundiais, como também setornar um imenso recipiendário de investimentos diretos estrangeiros; e,principalmente, permitiu à sua poderosa e rica diáspora vir a participarintensamente do esforço de construção econômica da megapotênciachinesa.O êxito que marcou esta política nesses últimos decênios concretizou-senum concentrado e extraordinário ciclo de crescimento industrial.Crescendo a uma taxa média anual de 10%, a China alçou-se à condiçãode um dos líderes da economia mundial neste começo de século e demilênio.Esta rememoração de alguns dos acontecimentos que marcaram a Chinae sua inserção contemporânea incita a fazer uma reflexão, mesmo queparcial e breve, sobre os desafios e oportunidades geradas pelo processode modernização e abertura chinesa. E tentar compreender por que aeconomia chinesa é hoje a locomotiva da economia mundial, responsávelpor intenso intercâmbio e trocas comerciais e financeiras com aseconomias industrializadas do Ocidente. Em conseqüência, observar esseperfil e buscar as razões da situação atual do comércio sino-brasileiro e,bem assim, rastrear as possíveis tendências de incremento e crescimentodo intercâmbio entre os dois maiores países do mundo em desenvolvimento.Por fim, uma avaliação do estado do relacionamento sino-brasileirorevelará a possibilidade de a China e o Brasil contribuírem para aconstrução de uma nova ordem econômica internacional e de uma novaordem política internacional.Muito já foi dito sobre o fim do conflito que dividiu o mundo no após Segunda Guerra. Só resta constatar que o desmantelamento do sistemasoviético implicou na conclusão da Guerra Fria, transformando aconfiguração do poder político mundial. O término da confrontação Leste--Oeste abriu um novo período da História, pondo fim ao confronto entreas duas superpotências mundiais. Os Estados Unidos emergiram comoa única superpotência global, estabelecendo-se o cenário do unipolarismo.Nesta nova cena mundial a China apresenta-se como um ator cada vezmais relevante na visão de Henry Kissinger, um dos avaliadores daconjuntura internacional pós-Guerra Fria. A China para o mundo do séculoXXI se projeta como um gigantesco parceiro, que se encontra a meiocaminho entre o mundo industrializado e o mundo em desenvolvimento.milenio_hoje_10:Layout 1 20-08-2013 17:23 Page 81
  • C H I N A : U M A V I S Ã O B R A S I L E I R A82Sendo, portanto, uma força interessada tanto na mudança das regras docomércio mundial como na reforma do sistema internacional, no sentidoda multipolaridade.Além do gigantismo populacional (um bilhão e trezentos milhões dehabitantes), da extensão continental (nove milhões e meio de quilômetrosquadrados), a China apresenta ainda a mais rica e continua tradiçãohistórico-cultural acumulada pela humanidade. Uma evolução civilizacionalmultimilenar que, em pleno século XXI, ainda apresenta o mesmo ímpetoinovador com que no começo de nossa era transformou umaconfederação, constituída de inumeráveis reinos munidos de uma mesmacultura sínica, num vasto Império. Não foi por acaso que o filosofo e estetanorte-americano Ernest Fenollosa, intuiu em sua passagem pelo ExtremoOriente no começo do século XX, ser: “O problema chinês, de per se, jáe tão vasto que nenhuma nação pode se permitir ignorá-lo”.É possível que a unificação contemporânea da humanidade chinesa, quese processa nos dias que correm como um dos macrofenômenos globaisimpulsionados pela intensificação da presença dos meios eletrônicos decomunicação de massa no mundo contemporâneo, traga repercussõestão profundas para a civilização mundial quanto as que ocorreram com aunificação do ecúmeno e da escrita chinesa empreendida por Qin ShiHuangdi. A unificação da escrita ideográfica chinesa permitiu não só oextraordinário desenvolvimento da língua literária do povo Han, comotambém serviu de base aos sistemas escritos de toda a Ásia Oriental(Coréia, Japão, Vietnã). O sistema cultural da China clássica permaneceucomo um equivalente ásio-oriental da herança greco-latina: uma línguade letrados, enquanto a fala do povo se apresentava diferenciada emvários falares regionais.A revolução do século XX, com o aparecimento do rádio e da televisão,veio finalmente permitir a unificação do chinês falado, hoje, em toda aparte em que se encontra uma comunidade chinesa – China continental,Taiwan, Hong Kong, Macau, Singapura – a prevalência da pronúnciaStandard culta do Putonghua (o chinês Mandarim), unificando a quasetotalidade do universo linguageiro da humanidade chinesa; e bem assim,dos demais usuários dessa que é a língua de cultura mais falada nomundo.Esse macrofenômeno da era da globalização, associado ao crescimentoda economia chinesa, tal como havia antecipado Ernest Fenollosa, torna imperativo para todos os países que queiram aproximar-se domundo chinês, e mesmo de sua extensa área de irradiação cultural, amilenio_hoje_10:Layout 1 20-08-2013 17:23 Page 82
  • S E V E R I N O C A B R A L83intensificação dos estudos universitários de língua, história e culturachinesa.No mundo da comunicação instantânea e da globalização os estadosnacionais são interpelados a responder ao desafio de construir umconsenso nacional básico em suporte ao projeto de desenvolvimento doPaís. Razão pela qual os governantes chineses apresentam ao mundo aimperiosa necessidade de concentrar-se na construção de sua economia nacional, o que implica na defesa e sustentação da estabilidade e unidadedo País.Por isso, baseados na concepção desenvolvida pelo arquiteto geral da reforma e abertura, Deng Xiaoping, os dirigentes da terceira geração de lideres chineses, encabeçados por Jiang Zemin, enfrentaram os desafiosapresentados pelo quadro internacional, deixando um legado de conquistasno que tange a estabilidade e o desenvolvimento para a atual, a quartageração, encabeçada pelo Presidente Hu Jintao.No contexto da recente crise da economia mundial, em que estagnaçãoe recessão ameaçam o conjunto dos países industrializados e tambémos países emergentes, observadores e analistas da conjuntura mundialregistraram como um sinal positivo, em meio ao tumulto da cenainternacional, o anúncio feito pelo diretor do Bureau Nacional deEstatísticas da China, Zhu Zhixin, de que a economia chinesa cresceraneste ano à taxa de 7,3 %, tendo o seu Produto Nacional Bruto se elevadoà quantia de 9.85 trilhões de Yuan (US$ 1.19 trilhões). Com este resultadoa China veio a ultrapassar a Itália, situando-se entre as 6 maioreseconomias do globo, superada apenas pelos EUA, Japão, Alemanha, Grã-Bretanha e França.Num tempo marcado pela depressão que ronda as economiasindustrializadas dos Estados Unidos, União Européia e Japão, e pelacrescente tensão político-militar decorrente dos atentados do 11 desetembro, e das guerras em sucessão no Afeganistão e no Golfo Pérsico,o crescimento da economia chinesa a uma taxa acima de 7%corresponde não só à exigência do desenvolvimento chinês e mundialcomo acena com a possibilidade de alguma estabilização no quadropolítico internacional.Este não foi o único sinal emitido por Beijing, dando conta do fenômenode um desenvolvimento econômico impressionante, associado a umacrescente liderança regional e mundial. O êxito da reunião dos líderes daÁsia-Pacífico, realizada em Shanghai, onde o presidente George Bushmilenio_hoje_10:Layout 1 20-08-2013 17:23 Page 83
  • C H I N A : U M A V I S Ã O B R A S I L E I R A84pela primeira vez desde o 11 de setembro viajou para o exterior, paraencontrar-se com Jiang Zemin e demais chefes de Estado pertencentesa APEC, permitiu à China dar mais um passo para posicionar-se entre osgigantes políticos e econômicos do mundo pós-Guerra Fria.Logo depois deste encontro, ocorreria, em Doha, a reunião da OrganizaçãoMundial de Comércio, ocasião em que a China seria aceite comoparticipante da principal instituição reguladora do comércio internacional,vindo a ser integrada plenamente em dezembro último, confirmando-seo fato de ter-se convertido no motor da economia mundial. Depois de 15 anos de negociação, sustentada por zelosos e eficientes funcionárioschineses como Long Yongtu, do Ministério de Comércio e CooperaçãoEconômica com o Exterior, com personagens como Charlene Barchevskye Lawrence Summers, novos desafios devem assediar a economiachinesa em sua longa marcha em direção à condição de grande parceiroda economia global. A nova administração republicana liderada pelopresidente George Bush renova os desafios ao introduzir novos elementos,como Robert Zoellick e Paul Neill, na sucessão dos antigos negociadores.A continuidade do desafio de sustentar o desenvolvimento baseado numacelerado ritmo de crescimento econômico passou para a nova liderançachinesa constituída pela quarta geração de líderes do Partido Comunistachinês, nucleada em torno da figura do novo Secretário Geral e novoPresidente da República, Hu Jintao, reafirma a convicção dos atuaislíderes de que a estabilidade e a unidade é a chave para a realização deseus objetivos de desenvolvimento e afirmação nacional.Em sua primeira participação como país membro da Organização Mundialde Comércio, na conferência ministerial realizada em Cancun, México, emsetembro de 2003, a China, representada pelo Ministro do Comércio, LuFuyan, empenhou-se em defender o princípio de que se faz necessárioconstruir uma nova ordem econômica internacional justa e razoável. Emsua fala sublinhou o fato de que o protecionismo dos países desenvolvidoscontraria profundamente os interesses conjuntos dos países emdesenvolvimento. A relação dos Estados Unidos com a China é universalmente consideradacomo vital para a estabilidade e a paz mundial. Apesar dos altos e baixoscom que tem se apresentado no decênio pós-Guerra Fria, em função dacontínua disputa americano chinesa por seus conceitos e interpretaçõesantagônicas no terreno dos direitos humanos, o relacionamentoeconômico e financeiro norte-americano com a área econômica chinesatem-se mantido, com os dois lados mantendo os seus objetivosmilenio_hoje_10:Layout 1 20-08-2013 17:23 Page 84
  • S E V E R I N O C A B R A L85estratégicos de sempre, dentro da concepção de que a ideologia nãodeve inibir os negócios.A economia mundial neste começo de século XXI parece encontrar-se assediada pelos mesmos problemas de sempre. Crise e desenvolvimento alternam-se na expectativa de nações e povos do mundo inteiro. Para aChina, como para o conjunto dos países do mundo, os próximos cincoanos representarão um período crucial para a expectativa de seudesenvolvimento futuro. O diálogo e a cooperação Brasil-China“O verdadeiro século da Ásia-Pacífico, ou da Ásia, só chegará quando China, Índia e os demais países vizinhos tenham-se desenvolvido. Igualmente não haveránenhum século da América Latina sem o desenvolvimento do Brasil”. Deng XiaopingA China desde sempre propõe como norma de aplicação às relaçõesinterestatais, que deveriam reger o sistema internacional, os famosos“Cinco Princípios da Coexistência”: respeito à soberania e integridadeterritorial, não agressão, não intervenção nos assuntos internos, igualdadee benefícios recíprocos e coexistência pacífica. A política externabrasileira por sua vez sempre pautou sua conduta pelos princípios dasoberania nacional, independência, autodeterminação, não intervenção eigualdade entre os estados.O grave conflito ideológico que dividia o mundo em blocos opostospermitia a afirmação de uma política comum em defesa da autonomia e independência dos países dos dois lados do contencioso. Principalmenteporque existia entre Brasil e China um grande paralelismo no esforço que ambos empreendiam na construção de um projeto nacional dedesenvolvimento. É sintomático que os contatos entre os dois países tenha-se originado deuma iniciativa do empresário Horácio Coimbra, que, em 1970, visitou atítulo privado a Feira de Cantão. Dessa iniciativa pioneira surgiram negociações que culminariam no ato de estabelecimento de relações diplomáticas em 1974. Foram empresários brasileiros, que buscavamnovos mercados para os seus produtos, que deram os passos iniciais,trazendo para o primeiro plano a necessidade de os governos chinês ebrasileiro estabelecerem relações políticas, malgrado os distanciamentosentre os regimes políticos, orientados por concepções antagônicas, emplena disputa da Guerra Fria. milenio_hoje_10:Layout 1 20-08-2013 17:23 Page 85
  • C H I N A : U M A V I S Ã O B R A S I L E I R A86Em 15 de agosto de 2007 o Brasil e a China comemoraram 33 anos de estabelecimento de relações diplomáticas. Nestas pouco mais de três décadas, transcendentais transformações ocorreram no mundo: a GuerraFria acabou e a bipolaridade chegou ao fim enquanto os Estados Unidosda América emergiram como a única e solitária superpotência global. Noentanto, em que pese todas as mudanças operadas na Ordem Mundial,a cooperação nos planos político, econômico, científico-técnico e cultural,o perfeito entendimento e a confiança mútua e recíproca, não cessaramde consolidar e adensar as relações entre o Brasil e a China.Esta continuidade do relacionamento sino-brasileiro deve-se aos esforçosmútuos de representantes de ambos os países, que mantiveram asgrandes linhas do relacionamento tal como fixadas de forma perene peloChanceler Antônio Azeredo da Silveira: “O Brasil e a República Popularda China convergem nesse propósito. Fundamos nosso relacionamentonos princípios de respeito mútuo e de não intervenção nos assuntosinternos do outro país. Estes são os alicerces da nossa amizade”.Desde a formalização das relações diplomáticas em 1974 o Brasil e aChina têm assinalado a vontade de cooperarem para a paz e a estabilidadena medida em que um ambiente de concórdia internacional favoreceambos os projetos nacionais de desenvolvimento. Através do conhecimentode suas principais lideranças puderam logo estabelecer uma pautabaseada em princípios e ações que, nas palavras pronunciadas peloPresidente João Figueiredo (em 1984, quando da primeira visita de umchefe de Estado brasileiro à China), apresentavam “convergências noplano mais alto da política internacional”.Em plena Guerra Fria, apenas amenizada pelos acordos da détente, osdois maiores países do mundo em desenvolvimento davam-se conta dofato de que seus regimes políticos e socioeconômicos diferentes não osimpediam de basearem a sua política internacional em princípios e açõesconvergentes. Desde então as relações sino-brasileiras têm avançado emtodas as frentes no passo moderado, mas consistente, que lhe haviaaugurado o Chanceler Azeredo da Silveira.Desde então os dois países edificaram uma relação equilibrada e, emmuitos e decisivos pontos da pauta internacional, bastante próxima. Nadefesa da soberania e independência nacional, da integridade territorial,não interferência nos assuntos internos de cada país e defesa daestabilidade e segurança internacional, chineses e brasileiros têm-seextremado na ação diplomática em organismos internacionais e nasações bilaterais de cooperação e intercâmbio.milenio_hoje_10:Layout 1 20-08-2013 17:23 Page 86
  • S E V E R I N O C A B R A L87Esta aproximação entre os dois estados se afirma em uma grandeunidade de vistas sobre vários itens da pauta mundial. Em todos osorganismos internacionais o voto brasileiro e chinês é visto como umaposição de consenso para uma grande parte da comunidade dos estadose nações do mundo em desenvolvimento. O diálogo e a cooperação entreos dois países cada vez mais adensam e aproximam os governantes e asociedade brasileira e chinesa. E se desenvolve não apenas no planopolítico, mas também no campo científico e técnico, acadêmico e cultural.O ano de 1999 marcou significativamente o aniversário dos 25 anos do estabelecimento de relações diplomáticas entre o Brasil e China com olançamento do satélite sino-brasileiro de levantamento de recursos daterra (Chinese-Brasilian Earth Resources-CBERS), primeiro granderesultado da cooperação científica entre os dois maiores países emdesenvolvimento. Neste ano, em que a China comemorava o cinqüentenáriode fundação da República Popular, foi realizado no Rio de Janeiro ogrande seminário Brasil China, organizado pelo Instituto de Pesquisa emRelações Internacionais-IPRI e que reuniu especialistas de varias áreasde atividades para discutir o destino da cooperação brasileiro-chinesa.A importância do diálogo Brasil China se faz cada vez mais sentir nos inúmeros e decisivos desafios da nova ordem mundial. Desde a primeiravisita presidencial brasileira que se gerou a concepção de uma concertaçãopolítica entre os dois maiores países do mundo em desenvolvimento.O Brasil e a China são dois países de dimensões continentais, submetidosao mesmo desafio de desenvolver-se para atingir padrões mais altos de riqueza e poderio nacional. A maturidade desse desenvolvimento deveráimpor uma decisiva mutação no sistema econômico e político internacional.Por deter essa possibilidade é que os dois países são vistos como umaameaça potencial ao status quo. Por um mínimo cálculo se pode perceberque ambos estão destinados a operar uma transformação na tendênciasecular de domínio dos países setentrionais sobre os países meridionais. Assegurar a cooperação sino-brasileira para fazer frente à globalização éo que se anuncia como a grande parceria estratégica que fará destarelação um dos eixos de concertação política do próximo milênio. Estaparceria diferencia-se das concertadas com outros países na medida emque não se trata de construir apenas uma convivência pacifica, mas simedificar uma nova ordem mundial baseada na igualdade entre as nações. A possibilidade entrevista pelas lideranças maiores dos dois países foi antecipada pela intuição de um grande sociólogo brasileiro: Gilbertomilenio_hoje_10:Layout 1 20-08-2013 17:23 Page 87
  • C H I N A : U M A V I S Ã O B R A S I L E I R A88Freyre um dia vislumbrou o fato de que o Brasil era a China da Ásia. Noentanto, a concertação política entre os dois países tem uma dimensãoque deve ser especialmente analisada e conhecida.É que o mundo globalizado do pós-Guerra Fria impõe às nações, como objetivo de medição de força, o universo inteiro da ciência-técnica e domundo econômico e financeiro, tanto quanto o mundo das armas. Dissodecorre, quase como uma lei, que os países em desenvolvimentoexperimentem um crescente hiato em relação ao mundo industrializado,sendo submetidos a intensas pressões inibidoras do crescimento ealtamente lesivas à soberania e até mesmo ameaçadoras à integridadeterritorial e patrimonial.Daí que a parceria estratégica brasileira chinesa possa ser compreendida segundo alguns parâmetros. O primeiro, político, resulta do fato de queambos os países possuem peso específico nos dois lados do mundo, porserem os maiores países do mundo em desenvolvimento, capazes deagregar consensos nos foros internacionais; o segundo é o domíniocientífico e técnico onde podem explorar juntos alguns dos umbrais datecnologia como no exemplo do lançamento do CBERS, ou na tecnologiada informação em que as duas nações fazem hoje um grande esforçopara desenvolver sua capacidade.Nos domínios econômicos, comerciais e financeiros como no acadêmicoe cultural, apresentam-se alguns problemas e afirma-se um potencialpouco explorado. Embora o nível das trocas econômicas e comerciaisentre o Brasil e a China constitua o mais importante entre qualquer dospaíses latino-americanos e a grande potência asiática, parece fácilconstatar que se encontram muito aquém do desejável.Não há como negar que as idas e vindas, as oscilações da economia, ea competição com os pesos pesados da economia global explicamparcialmente as dificuldades encontradas para elevar o relacionamentoeconômico entre os dois gigantes da economia em desenvolvimento. Noentanto, constata-se que um importante obstáculo que se interpõe nocaminho do entendimento econômico e mesmo político. É um óbice denatureza estrutural e civilizacional, condicionado pelo distanciamentocultural e lingüístico existente entre o mundo latino ibérico e o universocultural sínico. Ocorre que uma parte dessas dificuldades também está presente no outroprocesso de aproximação encetado pelo Brasil e a China. Trata-se do mútuoconhecimento e o do incremento do intercâmbio cultural e acadêmico.milenio_hoje_10:Layout 1 20-08-2013 17:23 Page 88
  • S E V E R I N O C A B R A L89Essa dimensão do relacionamento sino-brasileiro se situa em nível abaixodo seu potencial de crescimento.Neste campo ainda não nos dotamos os brasileiros dos meios necessáriospara o conhecimento mais intenso e extenso da realidade chinesa. Como éreconhecido contemporaneamente o esforço de gerações de pesquisadoresnorte-americanos – de Ernest Fenollosa a John K. Fairbank – desenvolveue implantou uma área de estudos chineses nas universidades americanas,que os fez alcançarem e ultrapassar em quantidade os centros de estudossinológicos da Europa. Por iniciativa de lideranças políticas americanascriaram-se programas de intercâmbio e cooperação universitários quedesempenham um papel crucial na mais importante relação políticaestratégica do pós-Guerra Fria.Muito embora o estado brasileiro não disponha dos mesmos recursos que onorte-americano, é crescente a demanda por estímulos e iniciativas no domíniodos estudos brasileiros sobre a China. Nas condições que caracterizama economia mundial e a interpenetração de fatores políticos, culturais,científico-técnico e militar-estratégicos que dominam a cena internacionalcontemporânea, a parceria estratégica Brasil China impõe a crescenteaproximação e o maior conhecimento mútuo sino-brasileiro. Neste sentido,é de se esperar que sob a liderança do Presidente Luiz Ignácio Lula da Silvahaja uma inflexão positiva que resulte em aumentar o ritmo e a intensidadedas relações comerciais, culturais e científicas entre os dois países.O diálogo das civilizações“Estar em harmonia sem ser idêntico”. Tang YijieA China aparece cada vez mais como ator relevante do sistema internacional.Mantidas as condições atuais alcançará dentro de uma geração, oupouco mais, o patamar dos países industrializados do Ocidente. Esteacontecimento deverá transformar a realidade internacional e a própriaestrutura contemporânea do “País do Meio”.Novas e antigas ameaças desenham no horizonte uma ordem mundialcada vez mais complexa. O começo do século XXI e do Terceiro Milênioparece configurar um mundo de polaridades difusas sob a égide dosEstados Unidos da América.Neste contexto o Brasil e a China aparecem como verdadeiras pan-regiõesauto-satisfeitas territorialmente, desafiadas a desenvolver-se para atingirmilenio_hoje_10:Layout 1 20-08-2013 17:23 Page 89
  • C H I N A : U M A V I S Ã O B R A S I L E I R A90padrões mais altos de riqueza e poderio nacional. Como megaestados doséculo XXI, encontram-se inseridos num processo de mudanças globais,no qual algumas tendências parecem ser ameaçadoras para os objetivoscomuns de sustentação de projetos econômicos de desenvolvimento,geradoras de harmonia social, estabilidade e unidade política.Os graves acontecimentos deste século e milênio apontam para anecessidade de uma nova pauta mundial. Os caminhos complexos dorelacionamento sino-brasileiro devem situar-se como um ponto decisivopara configurar uma nova ordem política internacional multipolar. Umanova ordem que significa transformar a atual estrutura econômica epolítica internacional. Essa é uma das razões que solicitam aos estadistase diplomatas dos dois países um esforço concertado para criarinstrumentos que levem à concretização dessa nova pauta mundial.Para tanto, diferentemente da interpretação desenvolvida pelo cientista político norte-americano Samuel Huntington, de que o pós-Guerra Fria sedefrontaria de modo inexorável com o conflito entre as civilizações, o novomundo que se desenha pode ser construído em torno do diálogo entrecivilizações, com a aceitação do princípio da harmonia do não idêntico,proposto pelo professor Tang Yijie, inspirado em formulações clássicasdos ensinamentos confucianos. Sua concepção pode ser entendida comoa possibilidade mesma de que os dois extremos do Ocidente e doOriente, independente do fato de se encontrarem separados por umagrande distância geográfica e cultural, venham a encontrar-se numacooperação ominidirecionada.Na era da comunicação eletrônica de massa os dois países podemestabelecer um grau de complementaridade e de integração, de maneiraque se pode antecipar que o século XXI talvez venha a integrar o Brasil,e a América Latina, ao processo de construção da Ásia-Pacífico,assegurando uma cooperação bilateral que se transformará num doseixos da concertação internacional do milênio. O diálogo intercivilizacionale a cooperação farão com que a relação sino-brasileira se transforme num dos pilares da ordem mundial multipolar pós-hegemônica abrindoquiçá uma nova época para o mundo. Mundo que deverá basear-se em grande parte num princípio inspirado na cultura clássica confuciana,de que a harmonia só existe entre os não-idênticos. Tal concepção pode e deve ser entendida como a possibilidade mesma de que osextremos – Ocidental e Oriental – do mundo encontrem-se, dialoguem ecooperem de forma ominidirecionada. E nesse sentido é que o diálogointercivilizacional e a cooperação em prol do desenvolvimento comumpode e deve ser um dos socles a sustentar a ordem mundial multipolarmilenio_hoje_10:Layout 1 20-08-2013 17:23 Page 90
  • S E V E R I N O C A B R A L91pós-hegemônica que as nações e os povos aspiram, as sociedadesdemandam e os estados devem garantir para o século XXI.BIBLIOGRAFIAAZEREDO DA SILVEIRA, Antonio Francisco. Discurso em Brasília, 15 de agosto de 1974.Brasil China, 20 anos de relações (1974-1994). Rio de Janeiro, Universidade CandidoMendes, 1994.BRZEZINSKI, Zbigniew. The great chessboard: american primacy and its geostrategicimperatives. New York, Basic Books, 1997.CABRAL, Severino. Conhecer a China hoje. Tempo Brasileiro, Rio de Janeiro,137:5/8,abr.-jun., 1999.CABRAL, Severino. Encontro entre Brasil e China: cooperação para o século XXI.Brasília, Revista Brasileira de Política Internacional, ano 43, n 1, 2000.CABRAL, Severino. A Sinologia no Brasil: perspectivas para o século XXI. Beijing,Simpósio Internacional de Sinologistas. Universidade de Estudos Estrangeiros deBeijing, 2001.CABRAL, Severino. Cultural dialogue and Sinology in Brazil: a work in progress. WorldForum on China Studies. Shanghai Academy of Social Sciences, 2003.CAMPOS, Haroldo(Org.). Ideograma: lógica, poesia, linguagem. São Paulo, EDUSP,1994.DENG, Xiaoping. Escritos escogidos. Beijing, Ediciones em Lenguas Extrangeras,1994.FAIRBANK, John K. Chinabound: a fifty-year memoir. New York, Harper & Row, 1983.FIGUEIREDO, João. Discurso em Beijing, 17 de maio de 1984. Documento de arquivodo Itamaraty.HUNTINGTON, Samuel P.. The clash of civilizations and the remaking of world order.New york, Simon & Shuster, 1996. JIANG, Zemin. Discurso em Brasília, 23 de novembro de 1993. Documento de arquivodo Itamaraty.JIANG, Zemin. Reforma e construção da China. Rio de Janeiro, Editora Record, 2002.KISSINGER, Henry. Diplomacy. New York, Simon & Shuster, 1994.LEGGE, James. The Chinese Classics, vol.1. Simon Publications, USA.MINISTRY OF FOREIGN AFFAIRS P.R.CHINA. China’s Foreign Affairs-2005 Edition.Beijing, World Affairs Press, 2005.milenio_hoje_10:Layout 1 20-08-2013 17:23 Page 91
  • TANG, Yijie. Valeur du principe: “Être en harmonie sans être identiques”. Paris,Alliage/Dialogue Transculturel n. 1, 2001.ZHU, Rongji. A reforma e abertura da China e as relações entre a China e a AméricaLatina. Palestra em 31 de maio de 1993. São Paulo, Federação das Industrias do Estadode São Paulo-FIESP.C H I N A : U M A V I S Ã O B R A S I L E I R A92milenio_hoje_10:Layout 1 20-08-2013 17:23 Page 92
  • S E V E R I N O C A B R A L93CHINA MEGAESTADO:NOVA ORDEM MUNDIAL MULTIPOLARProjeto de pós-doutoramento séniorem estudos chineses e internacionaisResumo do ProjetoO estudo da China como um megaestado, à luz da estrutura e dodesenvolvimento do sistema mundial de poder contemporâneo,apresentará um quadro teórico geral com definições e conceitos aptosa definir tendências “macrohistóricas” presentes na constituição dosistema internacional pós-Guerra Fria, e que deverão influenciar os rumosda política internacional do século XXI. O estudo deverá também examinaraspectos conceituais e práticos que regem a parceria estratégica sino--brasileira e seu impacto possível na ordem mundial multipolar emconstrução, sobretudo a partir da consolidação do processo políticoestratégico desencadeado com a formação do mecanismo coletivodenominado BRICS. Pretende ser uma contribuição teórica à construçãona universidade brasileira de um pensamento estratégico sobre a Chinae o sistema internacional.milenio_hoje_10:Layout 1 20-08-2013 17:23 Page 93
  • C H I N A : U M A V I S Ã O B R A S I L E I R A94Parte I“Embora Zhou seja um Antigo Reino”,“O seu Mandato é atual”. Shi Jing “As nações todas são mysterios”.“Cada uma é todo o mundo a sós”. Fernando Pessoa, Mensagem.Estudar a China de hoje na perspectiva mais ajustada ao momentohistórico vivido pelo Brasil e o mundo atual parece responder a um desafiode natureza teórica e política fundamental: conhecer a estrutura e a fisiologiado sistema de poder mundial. Duplo desafio, porque ele exige não sóreconhecer a característica básica que singulariza o desenvolvimentoexcepcional da China contemporânea como também, num mesmomovimento, aquele que deve determinar o singular destino do Brasilno século XXI.Entretanto, conhecer a natureza do sistema de poder mundial implicaessencialmente dispor de uma concepção teórica capaz de enunciarnoções e conceitos de validade universal. O que significa elaborar asíntese filosófica de alguns autores e escolas de pensamento de hoje ede ontem, com incidência positiva – teórica e prática – na política exteriordos países tomados como unidades políticas ativas, soberanas, insertasna totalidade orgânica do sistema internacional contemporâneo. Talconhecimento para não se formalizar ou esquematizar-se, ou simplificar--se em demasia em sua análise, necessita de paralelo e crítico estudohistórico dessas unidades políticas ativas que são os estados nacionais,cuja origem no tempo e a evolução de sua estrutura apresentam-sesempre de forma singular e concreta.Assim que, para enfrentar o primeiro desafio de analisar e dimensionaro fenômeno chinês na conjuntura internacional, há que passar demaneira incontornável pelo enfrentamento de questões históricasdecisivas sobre o destino de uma nação cuja história praticamenteacompanha a história da humanidade desde os seus primórdios. E, portanto, significa refletir sobre o conjunto da história universal. Vale dizer também que, o domínio da “Macrohistória” – inaugurado porautores como Hegel, Comte, Marx e Weber no sistema de pensamentoocidental – introduziu conceitos tanto teóricos como práticos paraanalisar o poder mundial.Nesta reflexão ampla observamos o processo pelo qual a teoria dahistória, auxiliada pela geopolítica (compreendida esta como a disciplinaque estuda a estratégia nacional de um país a partir de sua circunstânciamilenio_hoje_10:Layout 1 20-08-2013 17:23 Page 94
  • S E V E R I N O C A B R A L95geográfica), geraram uma ordem disciplinar de grande influência napercepção e no direcionamento das políticas das grandes potências quemarcaram todo o Novecento. É neste campo epistêmico e político queemerge nas primeiras décadas do século XX um macro esquema deinterpretação da ordem mundial submetida ao conceito de “imperialismo– como etapa suprema do capitalismo”, sistema de pensamento quefundamentou a via da Revolução de Outubro e serviu de base teórica para a criação da URSS e do sistema de Estados Socialistas que rivalizou por quase todo o século com o sistema de EstadosCapitalistas. Também assistiu a maturidade da formação cultural ecivilizacional dos Estados Unidos da América representada na obraseminal de Reinhold Niebuhr e na construção da pedra angular da teoriarealista por Hans Morgenthau. Esta época foi marcada pela irrupção deguerras mundiais e revoluções de alcance mundial que mudaram osrumos da história e deslocaram o eixo do poder mundial estabelecendoo fim do colonialismo europeu, a bipolaridade e a disputa ideológicaentre os dois sistemas econômicos, políticos e culturais – o liberal e osocialista – gerados pela civilização herdeira da tríplice revolução doséculo XVIII: científica e industrial inglesa, anticolonial americana epolítica francesa.O destino singular da China, de certo modo, encontra-se determinadoexatamente pela sua entrada abrupta nesta ordem mundial nascida daexpansão marítima e comercial européia, já em sua fase industrial eurbana, no alvorecer do século XIX. Desde as “Guerras do Ópio”, queinstauram na China o chamado “século das humilhações” (1840-1949),levando ao colapso o Império unificado de mais de dois mil anos, eabrindo assim o caminho para acontecimentos inéditos que abalaram omundo na passagem do século, tal como a emergência da “CadeiaDominante das Grandes Potências” (e neste conjunto um ex-tributário doImpério – o Japão Meiji). A revolução chinesa mudará o destino da Chinae a introduzirá no mundo contemporâneo: Sun Yatsen, Chiang Kai-sheke Mao Tsetung são as lideranças principais do processo que resultará nosoerguimento da China e que acompanha a vitória dos aliados (URSS,EUA e Reino Unido) na Segunda Guerra Mundial. Os últimos trinta anosdo século XX, no entanto, assistiram o emergir do inusitado fenômeno dehoje, algo pouco visto na historia mundial: – da “revolução à reforma eabertura da China” assistiu-se ao renascer de uma grande unidadepolítica até ontem ameaçada em sua existência pela ordem industrial ecientífica gerada no mundo ocidental. Longe de ter o destino de outrascivilizações e grandes estados do passado a China, ao se inserir nosistema internacional pós-bipolar, renasce como uma fênix e surge comoa grande sociedade da primeira década do século XXI.milenio_hoje_10:Layout 1 20-08-2013 17:23 Page 95
  • C H I N A : U M A V I S Ã O B R A S I L E I R A96Parte II“From the present time forth, in the post-Columbian age, we shall again have to deal witha closed political system, and none the less that it will be one of world-wide scope”. H. J. Mackinder, 1904.“From a Chinese point of view, so far as international politics is concerned, the history ofour world in the present and immediately preceding centuries looks like as a repetition ofthe China history of the Chun Chiu and Chun Kuo periods”. Fung Yu-Lan, 1948.Ao examinar a estrutura do poder mundial, algumas questões básicas seapresentam ao observador engajado em tentar pensar e minimamente definir o que se denomina nos tempos de hoje de Mundo Global.Em primeiro lugar, deve-se constatar que o Mundo Global diferequalitativamente do mundo bipolar das Superpotências do séculopassado, que disputaram em guerras sucessivas o poder mundial. Difere,sobretudo, porque ela é um resultado da imensa transformação operadapela civilização industrial e urbana no sistema internacional, a partir dasegunda metade do século XX.Em segundo lugar, o significado maior dessa transformação é a criaçãode um mercado universal (dito Global) e a decorrente medição de forçaem torno da economia e das finanças produzida por esse sistema; e, deoutro lado, a sua inserção numa vasta estrutura científica e técnica quesustenta as relações entre todas as potências supergrandes, grandes,médias e pequenas que formam parte da estrutura mundial de poder. O aparecimento, pois, no horizonte da nossa época do fenômeno do Megaestado e a emergência de um mundo multipolar são dois fatoscruciais que determinam e configuram o sistema internacional nesteprimeiro quartel do século XXI.Em terceiro lugar, tal como no início do século XX, Halford Mackinderpodia prever a disputa pelo poder no mundo pós-Colombiano, com a ampliação da era dos descobrimentos e a criação do mercado universal,mais recentemente, em seu livro de 1997 sobre o sistema mundial pós--Guerra Fria, Zbigniew Brzezinski veio a definir os Estados Unidos comoa “primeira, a única e a última Superpotência Global”. Assinalando assimo começo de uma era em que não apenas os continentes e os espaços marítimos, mas todo o planeta e o espaço cósmico que envolve a terrapodem ser alvos de disputa de poder e de busca de hegemonia por partedas potências globais. Porém, ao caracterizar os EUA como a “última superpotência global”, o autor já notava a natureza limitada no tempo daliderança americana e a necessidade de uma abertura para novas edesafiadoras realidades do século XXI.milenio_hoje_10:Layout 1 20-08-2013 17:23 Page 96
  • S E V E R I N O C A B R A L97Em quarto lugar se constata que o crescimento das potências emergentesas elevam à condição de megapotências globais, na medida em quepodem funcionar como parte de todos os cenários econômicos, político--estratégicos mundiais em que se disputam recursos naturais, mercadose conhecimento técnico-científico. Fazendo com que as questões ligadasà defesa e segurança nacional das megapotências emergentes venhamtranscender o seu espaço regional. O que equivale a dizer que, aoascender à condição de Megaestado Global, estarão quiçá em condiçãode competirem com a Superpotência Global pelo Poder Mundial. Restasaber se as condições em que se desenvolvem as relações internacionaiscontemporâneas marcharão nessa direção necessariamente.Em decorrência desses fenômenos vemos que o início do século XXIapresenta o mundo em grande e rápida transformação. A extraordináriarevolução na ciência e na técnica habilita a humanidade a alcançar novosgraus de desenvolvimento na arte de criar riqueza e gerar prosperidade.A comunicação via satélite e os meios de transporte aéreo praticamenteuniram o mundo inteiro. Indivíduos e nações se aproximam e se relacionamcada vez mais em todos os horizontes do planeta. Pouco e pouco seestrutura uma nova ordem mundial baseada no entendimento e nacooperação de todos os países do mundo, baseada na independência eautodeterminação dos povos. Por outro lado esta nova ordem pressupõeo rápido crescimento econômico e social de países que em diferentesestágios de desenvolvimento. O que se traduz também por tensão einstabilidade, por vezes geradoras de crises e conflitos.Desde que um relatório da firma Goldman & Sachs, de Londres, despertoua atenção de analistas de todo mundo, ao prever para o ano de 2050 aemergência do BRIC, assistiu-se a grandes mudanças na estrutura dosistema internacional. Na antecipação dos autores do relatório, por voltade metade do século XXI a estrutura do sistema mundial de poder estaráapoiada na economia dos países cujas iniciais formam o acróstico: Brasil,Rússia, Índia e China. Esses países, por essa altura, se situariam no topodo sistema mundial. O relatório serviu para atrair a atenção para aexistência de macrotendências do sistema mundial no século e milênioque ora se inicia.A primeira tendência que se anuncia é a de que só os grandes países domundo de hoje, que sejam dotados de considerável espaço territorial, população e força econômica autônoma, podem aspirar constituir umpólo de poder mundial na forma de um megaestado. Neste sentido, aunidade e a integração européia servem de balizamento para tornar-se obloco europeu uma unidade política ativa do mundo contemporâneo: omilenio_hoje_10:Layout 1 20-08-2013 17:23 Page 97
  • C H I N A : U M A V I S Ã O B R A S I L E I R A98seu êxito ou fracasso determinará a existência futura da Europa comogrande centro mundial de poder. Como também é observável, que osprincipais obstáculos no caminho do BRIC para o topo da ordem mundialrelacionam-se à capacidade de cada um deles manter, ampliar e atémesmo recuperar espaço, população e base econômica. Em suma, acaracterística principal do processo em curso, a contrario sensu dafragmentação da “primeira onda globalizante”, é a da constituição dosmegaestados, que serão amanhã os sustentáculos da mundialização.A segunda e decorrente tendência é que o ambiente internacional deveráser profundamente alterado em relação ao que era ao final da Guerra Fria,sobretudo o sistema que sucedeu a bipolaridade, e que se denominou a“Nova Ordem Mundial”. Acontecimentos como as duas guerras do Golfoe o incidente do dia 11 de setembro de 2001 são sintomas da profunda edramática instabilidade da ordem internacional gerada pela unipolaridade,vale dizer, a política de força de uma única potência. A superação desseestado de coisas só ocorrerá com a emergência de uma nova ordemmundial mais democrática e mais legítima baseada num novo equilíbriode forças entre as nações. O advento de uma ordem multipolar serápositivo para a criação de uma situação internacional menos tensa e maisdirecionada para a elevação do nível de vida das populações do mundoem desenvolvimento.A terceira tendência cada vez mais visível no horizonte internacional é opapel da Ásia do Leste como um dos pilares do mundo multipolar emgestação. O mega desenvolvimento da China (que já adquire a forma deum megaestado), em seguida ao do Japão e da Coréia, transformou omundo ásio-oriental na vanguarda do sistema internacional. Trata-se deuma região de importância cada vez maior no jogo de equilíbrio do podermundial, conseqüentemente para a paz e o desenvolvimento do mundo.Esta a razão porque, neste começo de século e de milênio, a China e aÁsia Oriental encontram-se no centro do processo da construção de umdos pilares de sustentação do sistema internacional multipolar deamanhã.Como quarta tendência, é possível constatar a ressurgência dascivilizações afetadas em seu destino histórico pelo mundo euro-ocidentale pela ciência e técnica moderna. O mundo que assistiu no pós-SegundaGuerra, ao processo de industrialização e assimilação da técnica e daciência, despertou importantes forças irradiantes e insurgentes, com adescolonização da África, Ásia e do mundo árabe-muçulmano. Esteúltimo fenômeno, sinalizado pela ressurgência do Islamismo comoprotagonista da cena internacional, tem impressionado observadores demilenio_hoje_10:Layout 1 20-08-2013 17:23 Page 98
  • S E V E R I N O C A B R A L99todo o mundo, a ponto de ser interpretada como o desafio maior do pós--Guerra Fria.Uma quinta tendência influenciará de forma decisiva a configuração domundo de amanhã. Trata-se da emergência do mundo latino, cujoprotagonismo possível encontra no futuro megaestado brasileiro seuprincipal ator. Embora a Europa meridional seja parte fundadora domundo latino, o emergente bloco reunirá, sobretudo, o conjunto dospaíses da América Latina. O novo mundo latino-americano integrará umagrande área econômica capaz de impulsionar a criação da nova ordemmundial multipolar do século XXI.Essas cinco macrotendências desenham uma linha central que aproximae fazem convergir, em graus e intensidades variadas, as estratégias dosgrandes países do mundo emergente. Observa-se nesse processo que a China tenta consolidar o seu processo de industrialização, e ampliar sua participação no sistema internacional, apoiada na defesa de umaordem mundial estável. No caso do Brasil – que é o maior país emdesenvolvimento do hemisfério ocidental, detentor de recursos naturaisimensos, e de uma grande população, desejosa de contribuir para aelevação do bem estar material e espiritual de todos os povos – essasmacrotendências presentes na cena internacional fazem-no cada vezmais interessado, num esforço conjunto com a China, Rússia e Índia,numa pauta comum em defesa do desenvolvimento pacífico e sustentável.Compreendido este último como uma resposta ao desafio gerado peloaparecimento de uma economia globalizada e as ameaças dela resultante:ampliação da diferença de renda entre ricos e pobres, degradaçãoambiental, aumento do hiato financeiro, científico e técnico existente entreos países industrializados e o mundo em desenvolvimento.Ao visualizar essas macrotendências globais, em meio ao tumulto geradopela crise dos mercados financeiros mundiais, não se deve perder de vistaas contratendências presentes na conjuntura internacional. A principaldelas pode definir-se como o advento de uma “segunda onda globalizante”,que se anuncia fortemente vinculada a questões políticas suscitadaspelas chamadas ameaças climáticas e ambientais. Nela a medição deforça no campo econômico e financeiro bem como científico tecnológicotornar-se-á fator decisivo para a continuidade do desenvolvimentomundial.Assim que – para “navegar nessa nova onda global”, que desafia todosos países e ameaça a humanidade com o duplo flagelo do aquecimentodo planeta acoplado ao desaquecimento econômico mundial – a estratégiamilenio_hoje_10:Layout 1 20-08-2013 17:23 Page 99
  • C H I N A : U M A V I S Ã O B R A S I L E I R A100a ser seguida por cada ator da cena mundial deverá estabelecer a“sobrevida dentro do ciclo” como a sua principal meta. O que resultará éclaro num reforço da proteção dos recursos naturais e humanos de cadaunidade política ativa do sistema internacional. Esta reação de autodefesapode vir a desatar uma corrente protecionista entre as economias industriaise acarretar uma deterioração do comércio mundial, aprofundando oprocesso de crise da economia mundial e trazendo sérios entraves parao desenvolvimento dos países emergentes.Outra contratendência evidencia o risco que correm as unidades políticasnacionais com o aumento de tensões separatistas geradas por movimentossociais radicais de fundo político-ideológico, étnicos e religiosos. Na outraponta dos movimentos de “capitais desregulados” que provocam adesestabilização econômica mundial, esses movimentos sociais radicaistambém atuam para aprofundar a crise sistêmica e ameaçar a unidade ea integridade dos Estados. Neste sentido visualiza-se uma crescenteinstabilidade nas diversas regiões do mundo, notadamente naquela quese situa no epicentro da crise mundial, estendendo-se do Norte da Áfricae do Médio Oriente ao Centro e Sul da Ásia.Em que pese essas contratendências e a vasta crise financeira global agerar incertezas permanece a tendência principal de emergência de novoscentros de poder mundial e do surgimento da multipolaridade como umanova configuração da estrutura do sistema internacional. Sistema que seapresenta em seus principais contornos nesse início de século XXImarcado essencialmente pela presença dos países que constituem oBRIC – Brasil, Rússia, Índia e China – mega estruturas de poder por suaindústria, população, extensão territorial e recursos naturais.Megapotências do século XXI, os quatros países estão desafiados amanter o crescimento das suas economias para atingir novos degraus nabusca do desenvolvimento sustentável e harmonioso. O que implica quese tornem uma força conjunta a trabalhar para a reativação da economiamundial e conseqüente retomada dos mais altos níveis de crescimento edesenvolvimento.Neste cenário global se destaca a América do Sul, como parte de umconjunto maior latino-americano que compreende o México, AméricaCentral e Caribe. Situada no hemisfério ocidental em relação à EuropaOcidental, a região sul-americana se apresenta como uma regiãoamplamente dominada pela colonização ibérica à exceção de uma partedo norte da Amazônia – as Guianas – administrada na época colonial porInglaterra, Holanda e França, sendo que esta última ainda mantém o seumilenio_hoje_10:Layout 1 20-08-2013 17:23 Page 100
  • S E V E R I N O C A B R A L101domínio local. A integração econômica, política e cultural da América doSul, no entanto, progride e rapidamente se criam instrumentos coletivospara consolidar o processo em curso.A União das Nações Sul-Americanas (UNASUL) (última desses instrumentosconstruídos) já tem a sua constituição votada pelos chefes de Estado ede Governo da região, e se constitui assim numa das grandes unidadespolíticas do mundo atual. Tendo o Brasil, por sua dimensão e pesoeconômico, como o Estado central dessa União, a sua evolução serádado possivelmente com a criação de uma sociedade integrada e voltadapara a elevação do bem estar geral e um desenvolvimento equilibrado esocialmente harmônico inter e intra-regional. Uma sociedade capaz denão só influenciar a evolução do sistema de poder mundial, bem comode sustentar o relacionamento pacífico entre os países e povos de todosos quadrantes do mundo.No entanto, a questão chave para o equilíbrio de força mundial pós GuerraFria continua a ser a constituição de uma aliança estratégica entre osmaiores países do mundo que emergem para a cena internacional nessecomeço de século e de milênio. A estrutura do poder mundial, herdeirade uma evolução multissecular, só poderá vir a ser alterada de maneirapositiva – sem quebra maior da unidade alcançada com o final do processode colonização centralizada na Europa e que resultou no aparecimentode duas centenas de nações soberanas – com a emergência de novossuportes da estabilidade da ordem internacional.A extrema complexidade da situação internacional do começo do século edo milênio aponta para o desenvolvimento de tendências ora centralizadorasora descentralizadoras no processo de globalização que se disseminoulogo após o fim da Guerra Fria e da bipolaridade. De tal modo que, emtodas as sociedades, tanto ocidentais como orientais, os fenômenos detransgressão da lei e de ameaça anárquica insurrecional tornaram-secomuns, ampliados que foram pela expansão dos meios de comunicaçãoe informação de massa. O casamento do satélite de comunicação com ocomputador, muito além do que os pensadores da primeira metade doséculo XX imaginavam, subverteu todos os consensos e desencadeou oque se pode denominar de uma mudança de “pele” da humanidade. Taltendência está a exigir das autoridades e dos governos de todos osquadrantes uma arte de governar cada vez mais flexível, dúctil, mas queseja capaz de resistir a toda força desconstrutora que ameace a soberaniados Estados. O estudo de autores contemporâneos (como Kissinger eBrzezinski) que analisam essa problemática familiariza aquele que estudao macro clima internacional com algumas questões candentes da hora atual.milenio_hoje_10:Layout 1 20-08-2013 17:23 Page 101
  • C H I N A : U M A V I S Ã O B R A S I L E I R A102Tal como à época da Guerra Fria e do equilíbrio do terror nuclear seexercitava a “chantagem nuclear” em nossa época se pratica o que sepoderia chamar de “chantagem climática e ambiental”. Em nome docombate ao desenvolvimento predatório e dissipador de recursos se tenta pura e simplesmente impedir o desenvolvimento. De um lado, oconservadorismo ambientalista irmanado com o ativismo militante erguebarreiras ao crescimento e a geração de riqueza, de outro, os organismosinternacionais praticam o protecionismo a favor dos países desenvolvidoscriando óbices a políticas que favoreçam o mundo em desenvolvimento.A primeira Cúpula do BRIC, na cidade russa de Ecaterimburgo, viu omundo começar a se familiarizar com a sigla e também com o que elasignifica para a ordem mundial multipolar que se está a criar numambiente internacional ainda marcado pelos acontecimentos que geraramas Guerras do Golfo e o incidente de 11 de setembro de 2001. Essespaíses juntos somam 42% da população mundial, 14,6% do PIB e 12,8%do comércio mundial em números de 2008.A segunda Cúpula dos chefes de Estado e de Governo do BRIC, realizadaem Brasília, viu ampliar-se o consenso em torno de seus interesses comuns, e coordenar-se seus esforços na contenção dos efeitos da criseeconômica global ao mesmo tempo em que foi proposta a reforma do sistema financeiro internacional, no sentido de favorecer uma melhor administração da crise em benefício de todos os membros da comunidadeinternacional. A negociação política que encabeçam não ameaça anenhum país ou bloco de países, mas tem o caráter de resguardar osinteresses dos países e povos do mundo em desenvolvimento. A terceiraCúpula dos chefes de Estado e de Governo realizada em Sanyia/Chinaem abril de 2011 assistiu a integração da África do Sul ao grupo doBRICS, apresentando a nova configuração da cooperação estratégicaSul-Sul.Objectivos do estudo“Sabendo reconhecer as prioridades estarás ao alcance da Via”. DaxueO estudo “China megaestado: nova ordem mundial multipolar” temcomo seu primeiro objetivo conhecer a natureza do fenômeno chinês eseu impacto na ordem mundial contemporânea. Para tanto deveráesclarecer aspectos essenciais da formação social e política da Chinaatual, levando em conta o contexto histórico e civilizacional em que sesitua o grande país do Oriente.milenio_hoje_10:Layout 1 20-08-2013 17:23 Page 102
  • S E V E R I N O C A B R A L103O segundo objetivo a que se propõe é o de examinar o caráter estratégicoda relação sino-brasileira na situação mundial marcada pela emergênciado Brasil e da China como megapotências do sistema multipolar emconstrução. Neste sentido o projeto explorará noções e conceitosvinculados à tese da existência in nuce de megaestados como a marcaprincipal do mundo pós-Guerra Fria. Numa vertente teórica “realista”, atese interpreta – a contrario sensu da “doxa neoliberal” – a essência do fenômeno da “globalização” como sendo o prelúdio da era domegaestado.Como um terceiro objetivo, busca-se inserir no debate acadêmiconacional os estudos teóricos chineses numa relação chave com o campodos estudos internacionais e estratégicos. Pretende, pois, ser umacontribuição ao campo de estudos da China e do mundo chinês, com umviés estratégico, a ressaltar no debate acadêmico brasileiro a importânciadessa área cultural e política para a formulação de políticas e estratégiasnacionais, que venham a ser adaptadas ao desafio dos novos temposvividos pelo sistema internacional.Metas e resultados esperados”Quando a Via a seguir é claramente definida não se encontra obstáculos”. ZhongyongA fim de realizar as metas deste estudo, baseado num programa deestudos da China e Ásia-Pacifico desenvolvido ao longo das últimasdécadas, são pressupostos da pesquisa teórica a ser empreendida oconhecimento bibliográfico de escolas e de “scholars” que atuamessencialmente nas linhas de trabalho seguintes:1) Estudo histórico da área cultural do mundo Sínico;2) Análise das relações mundiais de poder no após Guerra Fria;3) Exame das orientações da política exterior brasileira em sua relaçãocom a China e o sistema internacional contemporâneo.1 - O estudo histórico do mundo de cultura e civilização chinesa foiinaugurado, desde os séculos 17 e 18, pelos Jesuítas, que, aotraduzirem os clássicos chineses para o Latim e as línguas européias,introduziram a “Sinologia” como disciplina acadêmica no universocultural do Ocidente. Nos países do Novo Mundo, sobretudo ondemais tem se desenvolvido – nos Estados Unidos da América –, oestudo sinológico é um fenômeno universitário recente. No entanto,milenio_hoje_10:Layout 1 20-08-2013 17:23 Page 103
  • C H I N A : U M A V I S Ã O B R A S I L E I R A104sem um razoável conhecimento de certos textos seminais de autoresocidentais, é difícil para um estudioso no Brasil caminhar nestasdifíceis sendas do saber. A pesquisa ora empreendida porta as marcasda influência desses autores, nomeadamente os seguintes: – Franceses:Marcel Granet, Etiemble, Jacques Gernet e François Jullien; – Anglo--Americanos: Joseph Needham, John K. Fairbank, Wolfram Eberharde Kenneth Lieberthal. Suas obras consultadas assim como de autoreschineses clássicos e contemporâneos encontram-se na bibliografialistada em fontes e referências bibliográficas.2 - Analisar as relações mundiais de poder no após Guerra Fria remete aoestudo da escola realista norte-americana como fonte principal desaber sobre o tema em questão, bem como de suas implicaçõesteóricas e conceituais para todos os campos de pesquisa em relações internacionais contemporâneas. Porém ela em si não se basta, e necessita, para a elucidação do essencial da problemática do poder mundial, de elementos de conhecimento advindos da tradiçãode estudo da Geopolítica e da teoria geral da Estratégia. Aí tambémse encontra uma dupla tradição formada de autores clássicos e contemporâneos. Na tradição realista de Reinhold Niebuhr, Hans J. Morgenthau e Raymond Aron, acompanhados de autores relevantesda Geopolítica anglo-saxônica, como Alfred Mahan, Halford Mackindere Nicholas Spykman. O campo da estratégia é dominado pelas figurasclássicas de Sunzi, Clausewitz, Jomini, Lênin, Mao, Beaufre; e, maismodernamente: Deng Xiaoping, Henry Kissinger e Zbigniew Brzezinski.3 - O exame da política exterior do Brasil no que diz respeito ao tema doprojeto também projeta uma bibliografia específica e relevante parapensar a extensão e o campo do pensamento estratégico brasileiro.Sobretudo, este lado da pesquisa requer o estudo dos documentosda política exterior do Brasil publicados pelo Itamaraty, que são fontesvivas desse pensamento em ação, e, bem assim, as diretrizesemanadas dos Estados Maiores das Forças Armadas brasileiras.Todo esse material está compreendido no processo histórico queabrange o período inicial da República, os dois governos de GetulioVargas, os governos militares e a reestruturação do estado brasileirono período contemporâneo.Cada uma dessas linhas de trabalho embasou no passado a pesquisa doautor que resultou em sua tese doutoral sobre o pensamento estratégicobrasileiro. São agora parcialmente retomadas para finalizar o processoque deverá levar a uma interpretação e análise da China contemporânea.Trata-se de uma obra em progresso ao longo dos últimos 30 anos emilenio_hoje_10:Layout 1 20-08-2013 17:23 Page 104
  • S E V E R I N O C A B R A L105pontua etapas recentes da evolução da China no quadro mundial do finaldo século XX e começo do século XXI.Razões do estudo“O problema chinês, de per si, já é tão vasto que nenhuma nação se podepermitir ignorá-lo”. Ernest Fenollosa, “Os caracteres da escrita chinesa como instrumento para a poesia”.Tal como Fenollosa antecipou no começo do século XX tornou-se um imperativo da atualidade o conhecimento da realidade chinesa e suairradiação mundial. No momento em que a China adquire o estatuto desegunda maior potência econômica, caminhando celeremente paratornar-se a maior nas próximas décadas, não se pode designar outra áreaprioritária para o estudo internacional estratégico que o Leste da Ásia.Particularmente para o Brasil que tem na China não só um parceiroestratégico, mas também o principal parceiro econômico, comercial – edentro em pouco o maior investidor.Encontra-se a universidade e academia brasileira, em sua função de produzir conhecimento e disseminá-lo, desafiada a sustentar a demandapor um mais amplo estudo da China, que se distingue por ser ummegaestado nacional enraizado numa cultura e civilização multimilenarnotadamente diferente do mundo clássico grego-romano e judaico-cristão,que forma a base da herança cultural do conjunto dos países do Ocidente.Justifica-se, pois, toda a tentativa de pensar o mundo chinês, decompreendê-lo em sua singularidade e atualidade, e de correlacioná-loaos desafios com que se defronta o Brasil no rumo empreendido para setornar – tal como a China – uma das megapotências do século XXI.BIBLIOGRAFIA GERAL, FONTES E DOCUMENTOSBIBLIOGRAFIA GERALBAI SHOUYI. An Outline History of China. Beijing, Foreign Languages Press, 2010.BALAZS, Étienne. La Bureaucratie Céleste; recherches sur l´économie et la société dela Chine traditionelle. Paris, TEL Gallimard, 1988.BLOUET, Brian W. (Ed.). Global Strategy: Mackinder and the Defence of the West.London, Frank Cass, 2005.milenio_hoje_10:Layout 1 22-08-2013 12:14 Page 105
  • C H I N A : U M A V I S Ã O B R A S I L E I R A106BRZEZINSKI, Zbigniew. “The Grand Chessboard: American Primacy and its GeostrategicImperatives’’. New York, Basic Books, 1997.BRZEZINSKI, Zbigniew. “The Choice. Domination or Leadership’’. New York, BasicBooks, 2004.BRZEZINSKI, Zbigniew. “Second Chance: Three Presidents and the Crisis of AmericanSuperpower’’. New York, Basic Books, 2007.BRZEZINSKI, Zbigniew. “Strategic Vision: America and the Crisis of Global Power”. NewYork, Basic Books, 2012.EBERHARD, Wolfram. A history of China. Berkeley, University of California Press, 1960.FAIRBANK, J.K. “CHINA: A New History”. Cambridge, Massachusetts, The BelknapPress of Harvard University Press, 1992.FAIRBANK, J.K., REISHAUER, E.O, CRAIG, A.M.. “East Asia; Tradition and Transformation’’.Tokyo, Houghton & Mifflin, 1976.GERNET, Jacques. O mundo chinês: uma civilização e uma história. Lisboa, EdiçõesCosmo, 1975.HACHIGIAN, Nina & SUTPHEN, Mona. “The Next American Century: How the U.S. Thriveas Other Powers Rise’’. New York, Simon & Shuster, 2008.HUNTINGTON, Samuel P. “The Clash of Civilizations and the Remaking of World Order’’.New York, Simon & Schuster, 1996.KHANNA, Parag. “The Second World: Empires and Influence in the New Global Order’’.New York, Random House, 2008.KISSINGER, Henry. “Diplomacy’’. New York, Simon & Shuster, 1994.KISSINGER, Henry. “Does America Need a Foreign Policy? Toward a Diplomacy for the21st Century”. New York, Simon & Schuster, 2001.KISSINGER, Henry. “On China”. London, Allen Lane/Penguin Books, 2010.LIEBERTHAL, Kenneth. Governing China: From Revolution Through Reform. New York,Norton, 1995.M. TAYLOR FRAVEL: China´s Search for Military Power. The Washington Quarterly 31:3pp.125-141, Summer 2008.MAHBUBANI, Kishore. The New Hemisphere: The Irresistible Shift of Global Powers tothe East. New York, Public Affairs, 2008.MAISONNEUVE, Eric de La. “Stratégie, Crise et Chaos’’. Paris, Econômica, 2005.MEIRA MATTOS, Carlos de. Estratégias militares dominantes. Rio de Janeiro, Bibliex,1986.MONTBRIAL, Thierry de. “L´Action et le Système du Monde”. Paris, PUF, 2002.NADOULEK, Bernard. L ´Épopée des Civilisations. Paris, Eyrolles, 2005. PISCHEL, EnricaCollotti. Historia da Revolução chinesa. Lisboa, Publicações Europa América, 1976.ROSS, Robert S. & ZHU FENG (orgs.). China´s Ascent: Power, Security, and the Futureof International Politics. New York, Cornell University Press, 2008.milenio_hoje_10:Layout 1 20-08-2013 17:23 Page 106
  • S E V E R I N O C A B R A L107SHAMBAUGH, David et alii. Power Shift: China and Asia´s New Dynamics. Berkeley,University of California Press, 2005.FONTES E DOCUMENTOSAZEREDO DA SILVEIRA, A. F. Discurso em Brasília, 15 de agosto de 1974. Brasil-China,20 anos de relações (1974-1994). Rio de Janeiro, Conjunto Universitário CandidoMendes, 1994.CABRAL, Severino. Encontro entre Brasil e China: cooperação para o século XXI.Brasília: Revista Brasileira de Política Internacional, ano 43, n.1, 2000.CABRAL, Severino. Brasil Megaestado: nova ordem mundial multipolar. Rio de Janeiro,Contraponto, 2004.CABRAL, Severino. “O Brasil e a China: relações de cooperação no século XXI”.Macau/China, Instituto Internacional de Macau, 2005.CABRAL, Severino. Brasil-China: desafios e oportunidades no século XXI, in MACAU –PUENTE ENTRE CHINA Y AMERICA LATINA. Macau/China, MAPEAL, 2007.CABRAL, Severino. A Pax Sinica e o desafio do século XXI, in “Ordens e Pacis:abordagem comparativa das relações internacionais”. Rio de Janeiro, Mauad, 2008.CABRAL, Severino. As relações Brasil-China e os desafios do século XXI. Macau/China,Instituto Internacional de Macau, 2009.CABRAL, Severino. A China como potência militar global: se, quando e como? InSegurança Internacional: perspectivas brasileiras. Brasília, FGV/MD, 2010.CABRAL, Severino. O diálogo estratégico sino-brasileiro, in Brasil e China noReordenamento das Relações Internacionais: Desafios e Oportunidades. Brasilia:FUNAG/IPRI, 2011.CAMPOS, Haroldo de (Org.). Ideograma, lógica, poesia e linguagem. São Paulo, EDUSP,1977.CHINA FOREIGN AFFAIRS, 2007 EDITION. Beijing, World Affairs Press, 2007.DENG XIAOPING. Escritos Escogidos. Beijing, Ediciones en Lenguas Extranjeras, 1994.ESTRATÉGIA NACIONAL DE DEFESA: Paz e Segurança para o Brasil. Brasília, Ministérioda Defesa, 2008.GOLDMAN & SACHS. GLOBAL ECONOMICS PAPER N. 99: “Dreaming with BRICs: thePath to 2050’’, October 2003.GARCIA, Eugenio Vargas (Org.) “Diplomacia brasileira e política externa: documentoshistóricos-1493-2008’’. Rio de Janeiro, Contraponto, 2008.GUIMARÃES, Samuel Pinheiro (Org.). “Brasil e China: multipolaridade’’. Brasília,IPRI/FUNAG, 2003.HU JINTAO. Discurso del Presidente de la RP China ante el Congreso de Brasil, 12 denoviembre de 2004.milenio_hoje_10:Layout 1 20-08-2013 17:23 Page 107
  • C H I N A : U M A V I S Ã O B R A S I L E I R A108HU JINTAO. Informe presentado ante el XVII Congreso Nacional del Partido Comunistade China (15 de octubre de 2007).HUANG ZU´ AN. Enfasis de la paz en la estratégia militar China. Beijing, Ediciones enLenguas Extranjeras, 2007.INTRODUCTION TO THE SCIENTIFIC OUTLOOK ON DEVELOPMENT. Beijing, CentralCompilation & Translation Press, 2006.JIANG ZEMIN. Reforma e construção da China. Rio de Janeiro, Record Editora, 2002.LEGGE, James. The Chinese Classics, Vol. 1. Harbor, FL, Simon Publications.MA XIAOTIAN: New Dimensions of Security. Speech at the Shangri-La Dialogue byGeneral Ma Xiaotian, Deputy Chief of General Staff Chinese Peple's Liberation Army, The9th IISS ASIAN SECURITY SUMMIT, 05 June 2010.MAO TSETUNG. Obras Escolhidas. Pequim, Edições em Línguas Estrangeiras, 1976.MAO TSETUNG. Diplomacy. Beijing, Foreign Languages Press, 1998. QIAO LIANG & WANG XIANGSUI. La guerre hors limites. Paris, Bibliothèque Rivages,2003.PENG GUANGQIAN. Defensa Nacional de China. Beijing, China Intercontinental Press,2004.PHILOSOPHES CONFUCIANISTES. Paris, Bibliothèque de la Pléiade/NRF, 2009.WANG JISI: China’s Search for Stability With America. New York, Foreign Affairs,Sep./Oct. 2005, Volume 85, number 5, pp. 39-48.XIONG GUANGKAI. International Situation and Security Strategy. Beijing, ForeignLanguage Press, 2009.ZHENG BIJIAN: China’s “Peaceful Rise” to Great-Power Status. New York, ForeignAffairs, Sep./Oct 2005, volume.85, number 5, pp. 18-24.ZHOU ENLAI. Obras Escogidas. Beijing, Ediciones en Lenguas Extranjeras, 1989.milenio_hoje_10:Layout 1 20-08-2013 17:24 Page 108
  • S E V E R I N O C A B R A L109ESTUDAR A CHINA NO BRASIL“Things have their roots and their branches. Affairs have their end and their beginning. To know what is first and what is last will lead near to what is taught in the Great Learning”.DaxueNo começo do século XX, Ernst Fenollosa, pensador e orientalista norte--americano (1853-1908), em famoso ensaio intitulado “The ChineseWritten Character as a Médium for Poetry”, sobre os fundamentos daestética poética chinesa, afirmou ter percebido que o problema chinêsera tão vasto que nenhuma nação poderia permitir-se ignorá-lo e que: “aúnica maneira de dominá-lo será esforçando-nos com paciente simpatiapor compreender os elementos melhores, mais promissores e maishumanos nele contidos”. Meio século depois dele, outro importantepensador norte-americano, F.S.C. Northrop, designaria como horizonteinsuperável de nossa época o encontro Ocidente e Oriente.Nada fácil é a tarefa do estudioso ocidental da história e da culturamultimilenar chinesa, como mostra a leitura do livro de John K. Fairbank,“Chinabound: a Fifty-Year Memoir”, no qual revela os obstáculos e asdificuldades enfrentados pela geração de estudiosos norte-americanosque, motivados por sua determinada e obstinada busca de conhecimentoem língua e cultura chinesa, destinaram o melhor do seu tempo apromover o conhecimento da China na América e a aproximar os chinesesdo universo mental anglo-americano.milenio_hoje_10:Layout 1 20-08-2013 17:24 Page 109
  • C H I N A : U M A V I S Ã O B R A S I L E I R A110Ao longo do século passado é possível também reconhecer emintelectuais e pensadores brasileiros a sensibilidade teórica para ofenômeno chinês. O que veio gerar uma percepção brasileira da importânciada China no mundo e do caráter estratégico do relacionamento sino--brasileiro.O mais importante autor brasileiro neste sentido é Gilberto Freyre, oprodigioso intérprete da formação sociocultural brasileira. Quando nasegunda década do século XX, após os anos de preparação acadêmicaem Columbia, entrou em contato com a comunidade chinesa, eleformulou algumas concepções instigantes sobre similitudes de naturezaantropo-cultural que lhe chamavam atenção e lhe permitiram visualizarno Brasil a “China da América”, como neste discurso de agradecimentoà comunidade chinesa de Sofala e Manica: “Deve haver alguma coisa desemelhante entre o Brasil e a velha, mas sempre moça civilização chinesa,com a qual os portugueses estabeleceram, em Macau, profunda aliança,baseada não na força, mas no amor fraternal, não no poder imperial deuns sobre os outros, mas na compreensão recíproca. Deve haver algumacoisa de semelhante entre a China por assim dizer eterna e o jovem eainda verde Brasil”.Também no antológico livro organizado por Edson Nery da Fonseca,como parte das Comemorações do Centenário de Nascimento de GilbertoFreyre – “China Tropical e outros escritos sobre a influência do Oriente nacultura luso-brasileira” – encontra-se o melhor da obra gilbertianasobre o tema da importância dos valores asiáticos absorvidos pelosportugueses e presentes na cultura nacional brasileira. Nesses escritosgilbertianos compilados amplia-se o tema do encontro do Ocidente como Oriente numa deriva luso-brasílica tropical.Assim, podemos ao longo de toda a obra de Gilberto Freyre ver perpassaro sopro de uma interpretação antropológica que valoriza o dialogotranscultural e transcivilizacional. Outro grande pensador de língua e cultura portuguesa, Agostinho daSilva, notabilizou-se nos anos 50 e 60 do século passado por pensar auniversalidade da cultura luso-brasílica e o papel de ponte entre Ocidentee Oriente. Sua influência na universidade e na política exterior brasileirada época ficou marcada pelo caráter de avant-garde de propostasancoradas numa visão permeada pela concepção lusitana da fraternidadedo Quinto Império. Idéia cuja complexidade essencial ele sabia traduzirnum aforismo: “Não sou do ortodoxo nem do heterodoxo; cada um delessó exprime metade da vida; sou do paradoxo que a contém no total”.milenio_hoje_10:Layout 1 20-08-2013 17:24 Page 110
  • S E V E R I N O C A B R A L111Sob a influência dessas ideias e das mudanças na conjuntura internacional,o final dos anos 50 do século XX assistiu a profunda mudança nos rumosda política exterior do Brasil. Essas mudanças sustentaram uma nova visãoe um novo paradigma que se cristalizou em torno do que ficou conhecidopor “Política Externa Independente”. Elas ampliaram o relacionamento doBrasil com o mundo exterior dando foros de universalidade à presençade uma cultura luso-americana, distinguindo o “Colosso do Sul” com uma“necessária e inescapável missão”: abrir-se à realidade africana e asiáticacomo continuidade da epopéia do descobrimento. Criados no começo dos sessenta, o Instituto Brasileiro de Estudos Afro--Asiáticos-IBEAA, vinculado à Presidência da República e sob a liderançade Candido Mendes e Eduardo Portela, e o Centro de Estudos Orientaisda Universidade da Bahia, inspirado no ensinamento de Agostinho daSilva, consolidaram essa visão e abriram caminho para o desenvolvimentode estudos dos mundos ásio-africanos no Brasil. Esses empreendimentos sofreram as vicissitudes de uma era tumultuada e polarizada pela GuerraFria – e se retraíram por um tempo. Ao início dos anos 70 restauram-se esses institutos em sua acepção básicaquando o Reitor Candido Mendes, tendo como assistente o professorJosé Maria Nunes Pereira, fundou, em 1973, o Centro de Estudos Afro--Asiáticos-CEAA. Os estudos e as pesquisas do CEAA seriam orientadospara entendimento do significado político estratégico para o Brasil doreconhecimento das independências das novas nações africanas delíngua portuguesa, como também do estabelecimento das relações coma República Popular da China. Dentro desse modelo teórico-prático seconstruíram relações acadêmicas culturais com os países africanos(sobretudo os de língua portuguesa) e asiáticos (sobretudo a China).Nesta época não havia estudos sobre a China e Ásia contemporâneas nauniversidade, mesmo assim a temática atraía a atenção do universo dospesquisadores numa época em que não havia o estudo regular dasRelações Internacionais nas universidades nacionais. Em 1977 estreavacomo disciplina o estudo da China contemporânea inserido no programade cursos do CEAA daquele ano, sob o título de “Ásia Contemporânea I– China e Indochina”, ministrado pelo Prof. Severino Bezerra Cabral Filho.Pouco depois era criado, no mesmo Centro de Estudos, o curso de“Introdução ao Estudo da Língua e da Cultura Chinesa”, ministrado pelosprofessores Ricardo Joppert e Simone Morea.Paralelo ao desenvolvimento dos estudos sobre a China contemporâneaaparecia obras de estudos da China clássica e se desenvolvia umamilenio_hoje_10:Layout 1 20-08-2013 17:24 Page 111
  • C H I N A : U M A V I S Ã O B R A S I L E I R A112sinologia com características brasileiras. Autores como Ricardo Jopperte Jesualdo Oliveira, no Rio de Janeiro, e Mário Sproviero, na Universidadede São Paulo, se aprofundaram no estudo dos pensadores clássicoschineses, aportando estudos, comentários e traduções do original chinêsque serviram de primeiro alicerce para os demais estudiosos da língua eda cultura chinesa no Brasil.Nos anos noventa do século passado, novos importantes acontecimentostrouxeram para um novo patamar o relacionamento sino-brasileiro e ampliaram os laços políticos, acadêmicos e culturais entre Brasil e China.Mais ainda, em decorrência das transformações da situação internacionalpós-Guerra Fria, novas instituições foram criadas e assim, naUniversidade Candido Mendes, originou-se a partir do Centro de EstudosNorte-Americanos, o Programa de Estudos de China e Ásia-Pacífico,coordenado pelo Prof. Severino Cabral. Para uma nova época mundialuma nova e desafiadora missão: aproximar as concepções de vida sino-brasileiras com o fim de gerar mecanismos de diálogo e deinterlocução entre acadêmicos e formadores de opinião no mundopolítico e diplomático.Neste sentido e nesta direção foram organizados eventos como acomemoração dos vinte anos do estabelecimento das relações sino--brasileiras em 1994, na Universidade Candido Mendes, a primeira MissãoAcadêmica à Ásia organizada pelo Itamaraty, e vários Semináriosrealizados no Brasil e na China. Desde então muitas universidades noBrasil e na China intercambiaram professores e alunos, e instituiçõesestatais de ambos os países também promoveram no Brasil encontrosque reuniram personalidades do mundo acadêmico chinês.Alguns nomes de intelectuais chineses que visitaram o Brasil, por sua estatura intelectual e acadêmica, são destacáveis: Qin Yaqing, professornotável da Foreign Affairs University, em 1995, no II Encontro Nacional deEstudos Estratégicos realizado no Campus da USP, os professores epesquisadores WangYizhou e Yu Yongding do Institute of World Economyand Politics, Chinese Academy of Social Sciences, e Liu Liping, Editor daContemporary International Relations, publicação do China Institutes ofContemporary International Relations-CICIR, no III Encontro Nacional deEstudos Estratégicos realizado em 1996 no Rio de Janeiro. Ainda nessamesma época tivemos a vinda ao Brasil a convite da coordenação doPrograma de Estudos de China e Ásia-Pacífico os eminentes intelectuaise acadêmicos chineses Wang Renzhi, Vice-Presidente da ChineseAcademy of Social Sciences, e Zheng Bijian, então Vice-Presidente daCentral Party School, em 1998.milenio_hoje_10:Layout 1 20-08-2013 17:24 Page 112
  • S E V E R I N O C A B R A L113Todos esses acontecimentos se situaram no final do século XX eanunciaram os novos tempos que viriam com acelerado crescimento daeconomia chinesa e o seu impacto na relação com o mundo. A relaçãosino-brasileira também se elevaria a ponto de se tornar uma parceria estratégica de nível global. O diálogo intelectual e acadêmico entre osdois países e as duas sociedades também se amplia. Novos instrumentosse criaram e alguns sofreram reajustes para responder aos novos tempos.Assim o Programa de Estudos de China e Ásia-Pacífico, vinculado àUniversidade Candido Mendes, ganhou autonomia e transformou-se noInstituto Brasileiro de Estudos de China e Ásia-Pacífico-IBECAP, mantendoas mesmas finalidades do programa: cooperação e intercâmbio acadêmicoe cultural com o mundo chinês, para desenvolver a interlocução entre osdois parceiros estratégicos.Mais recentemente a China empreendeu a criação e o desenvolvimentodo sistema de Institutos Confúcio, o que veio elevar a um novo patamara projeção e a difusão da cultura chinesa no mundo contemporâneo. NoBrasil já temos vários institutos funcionando em Brasília, São Paulo e Riode Janeiro em convênio com as universidades de Brasília, Estadual deSão Paulo e a PUC do Rio de Janeiro. Os cursos de língua chinesatambém proliferam e acompanham o momento de grande interesse ecuriosidade pelo desenvolvimento da China.Cresce em todo mundo o interesse pela China: sua realidade atual,marcada pelo seu extraordinário crescimento econômico, tecnológico,político e social. A China emerge, nesta segunda década do século XXI,como o maior país do mundo por sua população, como a segunda e amais dinâmica economia do planeta. É natural, portanto, que desperteatenção de todos os países e por toda parte se ponham a estudar não sóa língua, mas a cultura e a história chinesa.O século XXI, na sua segunda década, com seu ritmo intenso, enérgicode mudanças e rápidas transformações na vida das pessoas, dos povose dos países, parece exigir que o caminho do diálogo entre as línguas eas culturas seja uma passagem inevitável e incontornável de descobrimentoda possibilidade de construção de um mundo novo baseado nacontinuidade e diversidade das civilizações. É provável que uma dasbases da interlocução entre Ocidente e Oriente que emerge, no que vaide século, venha assentar-se em dois pilares postos nos antípodas umdo outro: a China no Extremo Oriente e o Brasil no Extremo Ocidente.Esse acontecimento nunca antes pressentido pode ser vislumbradoquando se reconhece que o processo de “globalização”, em curso nestemilenio_hoje_10:Layout 1 20-08-2013 17:24 Page 113
  • C H I N A : U M A V I S à O B R A S I L E I R A114início de século e de milênio, pode ser definido como sendo a extensãoda civilização industrial e urbana – originada pela revolução científica eindustrial dos séculos XVII e XVIII – a sua generalização a todas as partesdo planeta. O momento vivido neste segundo decênio do século XXI, portanto, é“globalmente” caracterizado pela emergência da China e do Brasil comosustentáculos da extensão simultânea do processo de “globalização” ao “Extremo Ocidente” e ao “Extremo Oriente”. Disso decorre o fatoanunciado, quando da realização da conferência internacional da RIO+20,pela Presidente Dilma Rousseff e pelo então Primeiro Ministro Wen Jiabao,de que a parceria estratégica sino-brasileira adquiriu uma dimensãoglobal.Fato reafirmado há pouco na primeira entrevista a jornalistas representantesdos BRICS, concedida aos 19 de março de 2013, pelo Presidente XiJinping, antes de efetuar sua primeira viagem ao estrangeiro na condiçãode Chefe de Estado chinês, e vir a participar da V Cúpula Presidencial doBRICS, em Durban, África do Sul.Na ocasião, o líder máximo chinês assim se expressou para os meios decomunicação social dos BRICS: “China and Brazil are the biggestdeveloping countries in the eastern and western hemispheres respectively,and the both are emerging markets. China values its friendship andcooperation with Brazil. Twenty years ago, Brazil became the firstdeveloping country to establish strategic partnership with China. Sincethen, China-Brazil relations have come a long way, bringing huge benefitsto the two countries and peoples, creating opportunities for each other’sdevelopment and contributing to the building of a more just and equitableinternational order and international system”. A realidade dessa parceria estratégica está, pois, a determinar crescentecooperação e intercâmbio cultural sino-brasileiro. Necessária para que os dois povos e as duas nações amigas possam intensificar seuconhecimento mútuo e recíproco, estabelecendo novos campos deestudo e criando novas instituições, para formar os pesquisadores de hojee de amanhã. As cúpulas presidenciais e os mecanismos de concertaçãoe cooperação entre os dois gigantes do mundo em desenvolvimento tem produzido planos e projetos que já delineiam o espaço para odesenvolvimento do conhecimento da China no Brasil e do Brasil na China. É preciso enfatizar a reciprocidade e o apoio, mútuo e decidido, no campoda cooperação cultural sino-brasileira. No Brasil, o apoio dos órgãos de milenio_hoje_10:Layout 1 20-08-2013 17:24 Page 114
  • S E V E R I N O C A B R A L115fomento à pesquisa como o CNPq, a CAPES e a FINEP é fundamentalpara sustentar a pesquisa não só no campo das inovações tecnológicase científicas, mas também no das humanidades, fazendo desenvolverem--se talentos brasileiros no domínio da língua e da cultura chinesa.Nessa direção, torna-se uma evidência que instituições como a AcademiaBrasileira de Letras, o Instituto Internacional da Língua Portuguesa – eoutras mais que venham a ter o mesmo papel na divulgação e promoçãodo Português no mundo –, poderão muito contribuir para o diálogocultural e civilizacional sino-brasileiro. Sobretudo acompanhando eapoiando os eruditos e trabalhosos processos nacionais de “transcriaçãovernacular” de obras clássicas de valor universal que compõem othesauru da literatura em língua chinesa.Para nós parece ser desejável que a Academia Chinesa de CiênciasSociais e o seu “Centro de Estudos Brasileiros”, assim como o “Centrode Estudos de Países de Língua Portuguesa” da Universidade de ComércioExterior e Relações Internacionais de Beijing, e os Departamentos deEstudo da Língua Portuguesa das Universidades chinesas – participemdesse esforço de difusão da língua portuguesa no mundo chinês.Exemplar de novo estágio de desenvolvimento de estudos da China noBrasil é o lançamento recente (2012) da monumental edição em línguaportuguesa, em tradução direta do idioma chinês, de “Os Analectos”(Lunyu), de Confúcio. Numa rigorosa edição crítica, acompanhada decomentários e notas, realizada pelo sinólogo e diplomata brasileiro GiorgioSinedino, a editora da Unesp apresentou ao público leitor brasileiroimportante instrumento de conhecimento da cultura clássica chinesa.Trata-se de acontecimento relevante para o maior conhecimento brasileiroda cultura clássica chinesa. E por sua vez deverá despertar o interessepela tradução de outras obras da filosofia e do pensamento chinês.É de esperar que o “Livro de Mêncio” (Mengzi), mais os textos extraídosdo “Memorial dos Ritos” (Li Ki) – o “Grande Aprendizado” (Daxue) e o “Invariável Caminho do Meio” (Zhongyong) – que, ao lado dos Analectos(Lunyu), compõem os “Quatro Livros” (Xi Shu) da tradição do LetradoConfuciano sejam também traduzidos e postos à disposição do leitorbrasileiro em trabalhos de igual erudição e valor acadêmico.Deve-se registrar que o professor Mario Bruno Sproviero, professor delíngua e literatura chinesa da Universidade de São Paulo, já nos haviapropiciado bela e documentada tradução do clássico taoísta, “Dao Demilenio_hoje_10:Layout 1 20-08-2013 17:24 Page 115
  • C H I N A : U M A V I S Ã O B R A S I L E I R A116Jing”, como base da tese de Livre-Docência, “Laozi e a Reversão doReino do Homem”, por ele apresentada em 1996 ao Departamento deLetras Orientais da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas.Vemos, pois, por essa breve referência, que os dois mais conhecidosnomes da filosofia clássica chinesa – Confúcio e Laozi – estão hojeacessíveis ao leitor brasileiro, em traduções diretas do original chinês, quesão bastante reconhecidas por sua erudita transliteração do chinêsclássico para o idioma português no Brasil contemporâneo.Não se devem olvidar os esforços desenvolvidos pela Escola SinológicaPortuguesa, que nos deixou obras numerosas de autores como Álvaro Semedo, Gabriel de Magalhães, Pedro Nolasco da Silva, Joaquim Guerrae Luís Gonzaga Gomes. Certamente elas – traduções, comentários e interpretações – constituem parte do imenso patrimônio da línguaportuguesa e são peças ainda hoje vitais para aprofundar o diálogocultural multissecular sino-luso-brasileiro. Por isso acreditamos que a realização, no segundo semestre deste ano,do “V Seminário Macau e o intercâmbio sino-luso-brasileiro”, patrocinadopelo Instituto Brasileiro de Estudos de China e Ásia Pacifico-IBECAP epelo Instituto Internacional de Macau-IMM, deverá marcar mais um passopositivo na construção de um diálogo transcontinental de, não apenasduas línguas de cultura, mas também de duas civilizações: uma no Extremo Ocidente, e outra no Extremo Oriente. “Let the states ofequilibrium and harmony exist in perfection, and a happy order will prevailthroughout heaven and earth, and all things will be nourished andflourish.” In The Doctrine of the Mean (Zhongyong). BIBLIOGRAFIACAMPOS, Haroldo de. “Ideograma: Lógica, Poesia, Linguagem”. São Paulo, EDUSP, 1994.CONFÚCIO. “Os Analectos; tradução, comentários e notas de Giorgio Sinedino”. SãoPaulo, UNESP, 2012.FAIRBANK, John K.. “Chinabound; a Fifty-Year Memoir”. New York, Harper & Row, 1982.FREYRE, Gilberto. “Um brasileiro em terras portuguesas”. Rio de Janeiro, José Olympio,1953.FREYRE, Gilberto & FONSECA, Edson Nery da. “China Tropical e outros escritos sobrea influência do Oriente na cultura brasileira”. Brasília, UNB, 2003.milenio_hoje_10:Layout 1 20-08-2013 17:24 Page 116
  • S E V E R I N O C A B R A L117LAOZI. “Dao De Jing; tradução do original chinês e organização de Mario BrunoSproviero”. São Paulo, Hedra, 2002.LEGGE, James. “The Chinese Classics, Vol.1”. Hong Kong, Simon Publications.NORTHROP, F. S. C. “The Meeting of East and West. An Inquiry Concerning WorldUnderstanding”. New York, Macmillan, 1946.SILVA, Agostinho da. Revista Convergência Lusíada, 23. “Número Especial Centenáriode Agostinho da Silva (1906-2006)”. Rio de Janeiro, Real Gabinete Português de Leiturado Rio de Janeiro, 2007.XI JINPING. “President Xi Jinping Gives Joint Interview To Media from BRICS Countries”,2013/03/19. {www.fmprc.gov.cn}milenio_hoje_10:Layout 1 20-08-2013 17:24 Page 117
  • C H I N A : U M A V I S Ã O B R A S I L E I R A118milenio_hoje_10:Layout 1 20-08-2013 17:24 Page 118
  • S E V E R I N O C A B R A L119ANEXOSAnexo I (Programa)Apresentação do Programa de Estudos da China e Ásia Pacífico daUniversidade Candido Mendes inserta no livreto dedicado a homenagearos vinte anos de relações Brasil-China, publicado em 15 de agosto de 1994.Anexo II (Viagem)Relatório de Viagem acadêmica à China apresentado ao Departamentode Ásia e Oceânia-DAO (atual Departamento de Ásia do Leste-DAL) do Ministério das Relações Exteriores do Brasil, datado de 12 de outubrode 1994.milenio_hoje_10:Layout 1 20-08-2013 17:24 Page 119
  • C H I N A : U M A V I S Ã O B R A S I L E I R A120Anexo I (Programa)milenio_hoje_10:Layout 1 20-08-2013 17:24 Page 120
  • S E V E R I N O C A B R A L121Anexo II (Viagem)milenio_hoje_10:Layout 1 20-08-2013 17:24 Page 121
  • C H I N A : U M A V I S Ã O B R A S I L E I R A122Cont. Anexo IImilenio_hoje_10:Layout 1 20-08-2013 17:24 Page 122
  • S E V E R I N O C A B R A L123Cont. Anexo IImilenio_hoje_10:Layout 1 20-08-2013 17:24 Page 123
  • C H I N A : U M A V I S Ã O B R A S I L E I R A124Cont. Anexo IImilenio_hoje_10:Layout 1 20-08-2013 17:24 Page 124
  • S E V E R I N O C A B R A L125Cont. Anexo IImilenio_hoje_10:Layout 1 20-08-2013 17:24 Page 125
  • C H I N A : U M A V I S Ã O B R A S I L E I R A126Cont. Anexo IImilenio_hoje_10:Layout 1 20-08-2013 17:24 Page 126
  • S E V E R I N O C A B R A L127Cont. Anexo IImilenio_hoje_10:Layout 1 20-08-2013 17:24 Page 127
  • C H I N A : U M A V I S Ã O B R A S I L E I R A128Cont. Anexo IImilenio_hoje_10:Layout 1 20-08-2013 17:24 Page 128
  • S E V E R I N O C A B R A L129Cont. Anexo IImilenio_hoje_10:Layout 1 20-08-2013 17:24 Page 129
  • C H I N A : U M A V I S Ã O B R A S I L E I R A130Cont. Anexo IImilenio_hoje_10:Layout 1 20-08-2013 17:24 Page 130
  • S E V E R I N O C A B R A L131Cont. Anexo IImilenio_hoje_10:Layout 1 20-08-2013 17:24 Page 131
  • C H I N A : U M A V I S Ã O B R A S I L E I R A132Cont. Anexo IImilenio_hoje_10:Layout 1 20-08-2013 17:24 Page 132
  • S E V E R I N O C A B R A L133ÍNDICE09 Apresentação11 Prefácio15 Breve introdução do Autor21 O novo momento da relação sino-brasileira e seu significado estratégico globalTexto inédito datado de agosto de 2012; escrito logo após o encontro dapresidenta brasileira e do primeiro-ministro chinês quando da realização daconferência Rio+20.33 O Brasil no BRIC: uma comparação analíticaTexto apresentado ao Simpósio “O Brasil entre os países do BRIC” promovidopela Embaixada do Brasil na Alemanha, realizado em Berlim, no dia 03 de novembro de 2009.43 Macau e a presença da língua portuguesa na ChinaResumo da apresentação feita em setembro de 2009, na sede do InstitutoInternacional de Macau, quando da realização do I Ciclo de Seminários Macaue o Intercâmbio Sino-Luso-Brasileiro.milenio_hoje_10:Layout 1 20-08-2013 17:24 Page 133
  • C H I N A : U M A V I S Ã O B R A S I L E I R A13447 A presença da China no sistema internacional contemporâneoTexto apresentado em junho de 2010, em Brasília, no I Ciclo de Seminários sobre“Segurança Internacional: perspectivas brasileiras”, patrocinado pelo Ministérioda Defesa em parceria com instituições públicas e privadas. Foi editado pelaEditora da FGV na obra coletiva “Segurança Internacional: perspectivasbrasileiras”, em 2010, sob o título: “A China como potência mundial global: se,quando e como?”61 O diálogo estratégico sino-brasileiroTexto apresentado no Seminário “Brasil e China no Reordenamento dasRelações Internacionais: Desafios e Oportunidades”, patrocinado pelo Institutode Pesquisa de Relações Internacionais IPRI, e pela Fundação Alexandre deGusmão, foi realizado em 16 e 17 de junho de 2011, no Palácio Itamaraty no Riode Janeiro. Publicado o texto em obra coletiva editada pela FUNAG, em 2011.75 As relações Brasil-China e os desafios do século XXIInédito como publicação, o seu conteúdo tem sido apresentado em instituiçõesde pesquisa na China e no Brasil nos últimos anos do decênio 2001-2011.93 China megaestado: nova ordem mundial multipolarTexto de apresentação de um projeto de estudo formulado em 2012, que analisaa nova ordem mundial multipolar e a emergência da China. Inédito sob a formade livro.109 Estudar a China no BrasilTexto inédito escrito em maio de 2013 sobre o desenvolvimento do estudo daChina no Brasil e o intercâmbio entre intelectuais brasileiros e chineses.120 Anexo I (Programa)Apresentação do Programa de Estudos da China e Ásia-Pacífico da UniversidadeCandido Mendes inserta no livreto dedicado a homenagear os vinte anos de relações Brasil-China, publicado em 15 de agosto de 1994.121 Anexo II (Viagem)Relatório de Viagem acadêmica à China apresentado ao Departamento de Ásiae Oceânia-DAO (atual Departamento de Ásia do Leste-DAL) do Ministério dasRelações Exteriores do Brasil, datado de 12 de outubro de 1994.milenio_hoje_10:Layout 1 20-08-2013 17:24 Page 134
  • Severino Bezerra Cabral FilhoO Professor Doutor Severino Sabral é natural de Vitória, ES, Brasil. Graduado em História pela Universidade Federal Fluminense - UFF, Doutor em Ciências pela Universidade de São Paulo - USP e diplomado em Altos Estudos de Política e Estratégia pela Escola Superior de Guerra - ESG.Servidor federal do quadro permanente do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE, fundação pertencente ao Ministério do Planejamento, encontra-se atualmente cedido à Escola Superior de Guerra, instituição de ensino e pesquisa vinculada ao Ministério da Defesa do Brasil, onde ensina Geopolítica e Teoria das Relações Internacionais, na Divisão de Geopolítica e Relações Internacionais - DAGRI.Professor e pesquisador em Teoria e História das Relações Internacionais, com especialidade em Estudos de China Contemporênea, coordenou o Programa de Estudos de China e Ásia-Pacífico da Universidade Candido Mendes de 1994 a 2004. Na atualidade é diretor-presidente do Instituto Brasileiro de Estudos de China e Ásia-Pacífico - IBECAP. Tem publicado ensaios e artigos sobre a relação sino-brasileira em revistas especializadas no Brasil e no exterior. É autor dos seguintes livros: “Brasil megaestado: nova ordem mundial multipolar” (2004); “O Brasil e a China: relações de cooperação no século XXI” (2005); “As relações Brasil-China e os desafios do século XXI” (2009). Organizou o livro “5 décadas em questão: 50 anos da livraria Leonardo da Vinci” (2004).01China – uma percepção Euro-Portuguesa por Jaime Nogueira Pinto (Edição em Português)02 Ciber Crime e Ciber Castigo – uso e abuso da autoestrada global de informação por Nuno Rogeiro (Edição em Português)03 A Segurança e a Estabilidadena Ásia Orientalpor Luís Leitão Tomé(Edição em Português)04Protecção e Prevenção de Perdas por José Luís Andrade (Edição em Inglês)05China – uma percepção Euro-Portuguesapor Jaime Nogueira Pinto (Edição em Chinês)06A Segurança e a Estabilidadena Ásia Orientalpor Luís Leitão Tomé(Edição em Chinês)07 Prospectos da Grande China no Século 21 como se vê em Macaupor Gary Ngai(Edição em Inglês)08As Relações Brasil-China e os desafios do Século XXIpor Severino Cabral(Edição em Português)09As Relações Brasil-China e os desafios do Século XXIpor Severino Cabral(Edição em Chinês)Colecçãomiléniohoje10China: uma visão brasileirapor Severino Cabral(Edição em Português)Assim surge identificada esta nova Colecção, onde irão emparelhar-se tantos títulos a vir, diversos mas partilhando algumas características: serão textos originais, de vocação interventiva, perspectivando – dos pontos de vista da Política, da Sociedade, da Ciência Jurídica, das Ciências da Educação e das Novas Tecnologias – os novos desafios, problemas e respostas das sociedades em mudança, neste começo de Milénio.Será também forma de darmos caminho editorial à série de conferências e intervenções em seminários, feitos no âmbito das actividades do IIM, deles dando divulgação a públicos mais vastos e interessados.(O programa editorial desta Colecção decorre das actividades do Centro de Estudos Estratégicos da Região Ásia/Pacífico do Instituto Internacional de Macau).miléniohojeSeverino CabralCHINAbrasileirauma visãomiléniocolecção102013 hoje9 7 8 9 8 9 9 8 1 4 6 1 5ISBN 989-98146-1-5
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