DL 1 k f[V. 1596*127311 ÁLVARO SEMEDO, S.J. RELAÇÃO DA GRANDE MONARQUIA DA CHINA Traduzido do italiano por Luís Gonzaga Gomes !|» Direcção dos Serviços de Educação e Juventude Fundação Macau 1994
/>v Título original: Relação da Grande Monarquia da China Autor: Pe. Álvaro Semedo SJ. Tradutor da versão italiana: Luis Gonzaga Gomes Edição: DSEJ/FM (Macau, co-edição) DIRECÇÃO DOS SERVIÇOS DE EDUCAÇÃO E JUVENTUDE de Macau Rua da Praia Grande, 68 — Macau. Telef.: 3972613 • Fax (853) 317307 FUNDAÇÃO MACAU Rua da Praia Grande, Edif. Si Toi, 13.°, Macau. Telef. 345977 • Fax: 345979 Coordenação, capa, revisão e notas do editor: António Carmo Fotocomposição/paginação: Rigor Texto, Lda. — Macau Impressão e acabamento: Tipografia Macau Hung Heng Lda. Tiragem: 1 000 exemplares Data: Novembro de 1994. Na presente edição utilizou-se o texto da edição de 1956 de notícias de macau, hoje completamente esgotada (2 vol., de 406 e 193 pgs., respectivamente, em formato 13 x 18 cm) ISBN 972-8091-13-3
ÍNDICE Nota dos Editores 5 Introdução da presente edição 7 Introdução de Luís Gonzaga Gomes à sua tradução editada em 1956 ... 13 Introdução do autor 19 PRIMEIRA PARTE DO ESTADO TEMPORAL DA CHINA I - Do reino em comun ».. 23 II - Das províncias em particular, mas, principalmente, as do sul.. 35 III - Das províncias do norte 47 IV - Dos chineses, da sua natureza, engenho e inclinações 59 V - Do modo de vestir 69 VI - Da língua e letras 73 VII - Do modo de estudar, escrever e ser admitido ao exame 81 VIII - Como se fazem os exames e se conferem os graus 89 IX - Do grau de doutor 97 X - Dos livros e das ciências dos chineses 101 XI - Das ciências e, em especial, das artes liberais 107 XII - Da cortesia dos chineses 119 XIII - Dos banquetes 131 XIV - Dos jogos que usam os chineses 135 XV - Dos casamentos dos chineses 139 XVI - Dos funerais e das sepulturas dos chineses 145 XVII - Do enterro da rainha-máe 153 XVIII - Das seitas da China 165 XIX - Das superstições e sacrifícios da China 175 XX - Da milícia e das armas dos chineses 181 XXI - Da guerra que os tártaros moveram contra a China 187 XXII - Do rei e da rainha da China e dos eunucos 195 XXIII - Como se casa o rei da China 215 XXIV - Da nobreza chinesa 219 XXV - Do governo chinês e das suas autoridades 223 XXVI - Do governo das treze províncias 231 XXVII - Das insígnias dos mandarins 237 XXVIII - Dos cárceres, das sentenças e dos castigos dos chineses 243 XXIX - De algumas coisas que facilitam e ajustam o governo da China 255 XXX - Dos mouros, judeus e outros povos que existem na China... 267 XXXI - Da Cristandade que muitos séculos antes entrou na China e de uma pedra antiquíssima descoberta de fresco, testemunho disso 271 3
SEGUNDA PARTE NA QUAL SE TRATA DA CRISTANDADE DA CHINA I - Do princípio da pregação evangélica na China 289 II - Dos primeiros progressos e das perseguições dos Padres até à chegada a Nankim 297 III - Das coisas sucedidas até à entrada dos padres em Pekim 305 IV - Entram os padres em Pekim onde permanecem 313 V - Dos progressos e fim da casa de Xaocheu 321 VI - Dos progressos nas residências de Nancham e Nankim e da morte do Padre Matteo Ricci 329 VII - Da sepultura concedida pelo rei e dos progressos < até à perseguição de Nankim 337 VIII - Move-se uma terrível perseguição contra os cristãos em Nankim 349 IX - Progressos da perseguição e expulsão dos nossos da China.... 361 X - Como se restabeleceram as coisas depois da perseguição e se fizeram muitas residências 371 XI - Da segunda perseguição de Nankim e do martírio de um cristão chamado André 379 XII - Abonançaram-se as coisas e os padres são chamados para regressarem à corte por ordem dos mandarins 387 XIII - Vida e morte do doutor Leão. Última conclusão 399 índice geral 4
Nota dos editores Inicialmente tínhamos pensado em editar apenas os cinco capí- tulos sobre os exames e os graus correspondentes, a que daríamos o título de "A Educação na China Imperial". • * Atendendo, porém, à enorme importância da obra e seu relativo desconhecimento, mesmo entre especialistas contemporâneos, devido ao facto de a edição portuguesa se ter esgotado há mais de 30 anos — sem falar já da raridade das antigas edições noutras línguas — entende- mos que não deveríamos mutilar esta verdadeira jóia da sinologia por- tuguesa, e lançámos mãos à obra. Ao fazê-lo, pretendemos prestar aqui uma quádrupla homena- gem: Ao autor, em primeiro lugar, tão injustamente esquecido, que foi uma personalidade multifacetada de sinólogo brilhante, missionário sacrificado, antropólogo, escritor e tradutor (a ele se deve, por exem- plo, a primeira tradução das inscrições da famosa estela dos Cristãos Nestorianos, que se encontra no museu de Xi'an). Um raro conjunto de qualidades, alicerçado num sólido carácter de cristão coerente e ani- mado por uma fé viva, o qual, apesar das humilhações e maus tratos que sofreu (e não foram poucos!), soube sempre distinguir o trigo do joio, manifestando grande admiração pela cultura e civilização chine- sas, e profunda estima pelo seu povo, com quem compartilhou 22 anos de vida. Homenagem também à sinologia portuguesa, que teve tantos valo- res no passado, muitos dos quais hoje ignorados, e está agora felizmente a despertar de um longo sono, com o aparecimento de investigadores de bom nível — embora ainda em número insuficiente, pelo que o estudo cuidadoso desta obra poderá constituir um bom estímulo. 5
À memória do tradutor, Luís Gonzaga Gomes, também ele uma figura de múltiplos talentos (escritor, professor, músico, desportista, linguista, etc.), sem dúvida o mais ilustre dos sinólogos macaenses deste século, queremos deixar aqui também expresso o nosso louvor. Homenagem, finalmente, aos missionários da Companhia de Je- sus que criaram e mantiveram o famoso Colégio de São Paulo, a primei- ra Universidade de tipo ocidental no Extremo-Oriente, cujo 4.° cente- nário (1594-1994) se comemora este ano. Foi justamente por nos pre- tendermos associar, de algum modo, a este importante acontecimento, que surgiu a ideia e a oportunidade desta reedição. É possível que algumas "gralhas" impertinentes tenham conseguido escapar, apesar de todo o cuidado da equipa que o produziu, o que certamente os leitores nos relevarão. Se bem que, aqui e além, tenhamos actualizado a ortografia, mantivémos todavia intacta a forma do texto da tradução que Gonzaga Gomes fez do italiano, pesem embora algumas estranhas concordâncias e bizarra pontuação, que são certamente o produto do estilo do autor (é bom não esquecer que o manuscrito original tem mais de três séculos e meio), conjugado com o do tradutor italiano. Gonzaga Gomes, na sua introdução, relembra o aforismo "traduttore, traditore", e nós não nos dispensamos de chamar a atenção para o facto, não menos paradoxal, de se tratar de uma tradução portuguesa de uma versão italiana, a qual, por sua vez, traduz um texto original português... De vez em quando introduzimos pequenas notas, sempre que se nos afigurou necessário corrigir alguma deficiência de informação (como a época em que viveu Confúcio, por exemplo), ou acrescentar informa- ções úteis para os estudiosos, nomeadamente na romanização de al- guns nomes chineses, a que o autor procedeu à sua maneira e o tradu- tor escreveu em chinês, em notas de pé de página, acrescentando-lhes a grafia ocidental, segundo o sistema de romanização Wade-Gilles, en- tão em vigor. Anotámos alguns desses nomes — como de Paulo Xu Guangqi, por exemplo — no sistema Pinyin de romanização, que é hoje o oficialmente adoptado na República Popular da China. Pensamos, desta forma, ter prestado mais um serviço, como nos compete, oferecendo agora esta reedição aos leitores de língua portu- guesa. Um presente que irão certamente apreciar e divulgar, já que, como dissemos a princípio, se trata de uma autêntica joia da literatura portuguesa setecentista e da sinologia de todos os tempos. Maria Edith Silva António Rodrigues Júnior Directora dos Serviços Presidente da de Educação e Juventude Fundação Macau Macau 6
Introdução à presente edição A Relação da Grande Monarquia da China, de Alvaro Semedo (1586-1658), é justamente considerada uma das obras magnas do amanhecer da sinologia europeia visto que se inscreve num quadro mental de grande abertura que se recusa a encarar o conhecimento pluridimensional da civili- zação chinesa mediante os prismas europeus em voga. O manuscrito da Relação da Grande Monarquia da Chi- na ficou concluído em 1637, conhecendo a primeira edição em castelhano (1642), sendo igualmente vertido e editado em italiano (1643,1653,1667 e 1678), em holandês (1670), em francês (1645,1667) e em inglês (1665). Admite-se que pos- sam existir outras edições em outros tantos idiomas, mas não há, por ora, um levantamento editorial exaustivo. Em Lisboa, sairia dos prelos da Officina Herreriana, em 1731, uma edi- ção sintética da responsabilidade de Manoel de Faria e Sousa. Três séculos depois, em 1956 e em Macau, foi a Rela- ção da Grande Monarquia da China pela primeira vez inte- gralmente editada na língua ... portuguesa, mercê do interes- se e do labor de Luís Gonzaga Gomes, um dos grandes sinólogos portugueses contemporâneos. A extraordinária difusão internacional desta obra deve-se essencialmente à seriedade e ao rigor com que o Celeste Império é descrito e analisado. E na história da sinologia é feita essa jus- tiça a Alvaro Semedo que, embora tivesse estudado em Évora e em Goa, se pode classificar como um espírito estrangeirado. 7
Todo o seu conhecimento da China, da civilização chi- nesa, é proveniente de uma continuada vivência, "tenho es- tado a ver as coisas da China, no decurso de vinte e dois anos, terei decerto visto o que escrevi, bem como o que os outros escreveram de coisas que não viram, e falarei, necessaria- mente, com mais acerto, posto que com menos elegância". As relações da Europa com a China foram mediadas, in- variavelmente, pelos jesuítas, autênticos embaixadores cien- tíficos e culturais, cujo estatuto preferencial não se revelou o bastante para os imunizar contra as perseguições de que fo- ram vítimas. Semedo foi encarcerado em 1616, por determi- nação de um letrado confuciano, Shen Ts'ui, sendo posteri- ormente transportado dentro de uma gaiola de bambú de Nanquim para Cantão, uma viagem superior a trinta dias em condições terríveis e humilhantes. Dali foi enviado para Ma- cau, com os padres de Pequim que se lhe juntaram. E conhecido, de resto, o fortíssimo impacto causado pela obra de Alvaro Semedo na Europa culta, sobretudo na fermentação ideológica de um iluminismo que se abria a uma cosmovisão asiática, como o demonstraram Virgílio Pinot e Benard-Henri Maitre, apontando a contribuição da China na formação do espírito filosófico europeu e nas relações do confucionismo com o cristianismo. Entre o confucionismo e o iluminismo cruzam-se pen- sadores como Voltaire, Wolff, Montesquieu, Descartes ou Montaigne. Está, aliás, conservado na Biblioteca Nacional de Paris, o exemplar da Relação da Grande Monarquia da China que pertenceu a Montaigne, sendo, ainda, legíveis as copio- sas anotações que foi apondo ao texto, o que denota um estu- do metódico e uma leitura interessada. Alguns dos raros chineses que demandaram a Europa, tais como Yang Te Wang e Kao Lei Szu, serviram como inestimável ponte de ligação entre o ocidente e o oriente. Um outro, Arcádio Huang, serviu como intérprete chinês o rei Luís XTV. Assiste-se ao nascimento da chinoiserie, bem como às contradições entre os movimentos sinófilos e sinófobos com largas repercussões em França e na Alemanha. Os jesuítas estão ligados ao amanhecer da sinologia ci- entífica. Tudo terá começado com uma providência de 8 i
Allexandro Valignano, Visitador da Província do Japão que endereçou de Goa, em 23 de Dezembro de 1585, uma carta ao Bispo de Évora, D. Teotónio de Bragança, dando-lhe conta da necessidade imperiosa de os missionários estacionados em Macau aprenderem a língua chinesa e estudarem os seus cos- tumes e usos. Pouco tempo depois chegavam a Macau Michelle Ruggieri e Matteo Ricci, tornando-se imparável esse desiderato. E não deixa de ser curioso, no mínimo, reter esta notável contradição. Galileu foi preso e condenado pela Inquisição em 1633, os seus livros foram objecto de discussão científica em Pequim em 1614 e levados pelos jesuítas que ofereceram o telescópio ao Imperador em 1634, um ano após a condena- ção do sistema heliocêntrico. O pragmatismo das relações internacionais superou quase sempre a estreiteza dos dogmas. A Relação da Grande Monarquia da China divide-se em duas partes. A primeira tem por título, Do Estado Temporal da China que é um impressivo fresco da civilização chinesa, atendo-se particularmente na culturavna língua, na educa- ção, nas ciências e nas artes liberais; na segunda, Da Cristan- dade da China, é um verdadeiro repositório da história atri- bulada do cristianismo na China. Ao longo da obra podem surpreender-se algumas informações preciosas para a histó- ria de Macau assim como alguns traços psico-sociológicos do povo chinês. Há observações de uma espantosa argúcia por parte de quem procura compreender as diferenças não dei- xando jamais vir ao de cima qualquer dogmatismo eurocêntrico. A descrição pormenorizada daquilo a que hoje apelida- ríamos de sistema educativo chinês é notável. É um docu- mento único e pioneiro na história da educação setecentista e no panorama da história das ideias educativas portuguesas. E uma verdadeira viagem ao interior de um império examinocrático, como muito bem lhe chamou Ernest Renan. A primeira descrição sumária do funcionamento do modelo educativo chinês encontra-se na obra De Missione Legatorum Iaponensium ad Romanam Curiam, editada em Macau em 1590, da autoria de Duarte de Sande. Richard 9
Hakluyt autonomizou o capítulo Um Excelente Tratado do Reino da China e de seu Estado e Governo, fazendo-o verter para a língua inglesa em 1599. A descrição exaustiva que Semedo nos legou tem ainda o mérito de posicionar a educação no contexto da complexi- dade social setecentista chinesa. A educação, na China Imperial, ocupava um papel nu- clear na estrutura social porque dela surgia uma aristocracia intelectual e letrada que após galgar os sucessivos exames imperiais tomava posse de todos os postos político-adminis- trativos. A ligação verdadeiramente incestuosa dos estatutos sociais honrosos, prestigiantes e privilegiados com a obten- ção de graus académicos explica, em parte, a longevidade do sistema. O sistema público de exames teve o seu início formal na dinastia Tang (618-907), dando-se primazia aos filhos dos altos dignatários, um processo conhecido por privilégio da sombra; na dinastia Song (960-1279), acentuou-se o carácter obrigatório dos exames como a única via de acesso aos servi- ços da administração civil do reino ao mesmo tempo que as matérias objecto de estudo eram fortemente ideologizadas; com a dominação mongol (1206-1368), o sistema de exames foi interrompido, relaxado e fragilizado; com a dinastia Ming (1368-1644), deu-se um verdadeiro renascimento do sistema que foi acompanhado de uma grande liberalização no acesso, o que permitiu a entrada de camponeses, artesãos e mercado- res, embaratecendo-se, igualmente, o custo dos livros que passaram a ser impressos em tabuinhas de madeira. Este sistema rígido e inibidor das capacidades criadoras entrou em colapso com o ocaso dos Ming não só porque os privilégios usufruídos fossem bastante superiores aos deve- res administrativos, mas sobretudo porque o choque entre poderes, valores e saberes começava a criar fissuras na estru- tura global da organização social. A linha de compromisso situava-se entre a Tradição (Os Cinco Clássicos, compilados por Confúcio; Os Quatro Livros de Comentários, com as opi- niões de Confúcio; O Livro Oficial das Dinastias Históricas; O Livro Antigo da Aritmética), e as exigências cada vez mais apelativas do universo das ciências experimentais e exactas. 10
O que pode ser visto como a sublimação de uma sociedade estática e autoritária. E os jesuítas, na qualidade de mensageiros de um outro espírito científico, humanista, artístico, filosófico e cultural, contribuíram eficazmente para o princípio do fim do império examinocrático. Álvaro Semedo dizia que é coisa raríssima ter alguém fama de douto sem muita fadiga. Estaria ele a referir-se a Zhu Xi, o filósofo que requintadamente complexificou todo o sis- tema de exames imperiais ? Um enigma por desvendar. Fica doravante acessível aos estudiosos a Relação da Grande Monarquia da China, uma obra rara e apenas dispo- nível em escassas bibliotecas públicas. É uma edição que permanecerá simbolicamente associ- ada às comemorações do IV Centenário da fundação do Colé- gio Universitário de S. Paulo, justamente considerado como tendo sido a primeira universidade ocidental no extremo-ori- ente. Talvez possa contribuir para o renascimento da sinologia portuguesa assim como dos estudos orientais neste fim de século que rasgará um novo milénio. António Aresta (Licenciado em Filosofia, pela Faculdade de Letras do Porto. Professor do Liceu de Macau) 11
O Pe. Alvaro Semedo S.J., autor deste livro,
Introdução de Luís Gonzaga Gomes à sua tradução, editada em 1956 pela extinta editora Notícias de Macau O motivo que nos levou a traduzir a presente obra do Pe. Alvaro Semedo foi devido apenas ao facto de pretender- mos torná-la acessível àqueles que têm desejado conhecer esta importante "Relação da Grande Monarquia da China", tão citada por quantos têm escrito sobre os primeiros tempos do estabelecimento das relações luso-chinesas, mas sem pos- sibilidade de conseguirem o seu intento, porquanto, esta obra, tanto na versão italiana, em que primeiramente apare- ceu publicada, como nas subsequentes traduções, em espa- nhol, francês ou inglês, constitui uma raridade bibliográfica de quase impossível aquisição, tão elevado é o preço exigido pelos alfarrabistas, quando acontece aparecer à venda qual- quer exemplar. Ao que consta, o original em português desta obra nun- ca chegou a ser publicado. O autor viveu longos anos na China, em íntimo contacto com todas as camadas sociais, desde os representantes das classes mais elevadas até os mais humildes elementos do povo, no ardoroso desempenho da sua tarefa de cristianização, conseguindo fundar numerosas cristandades. Natural de Niza, diocese de Portalegre, onde veio ao mundo, no ano de 1585, Álvaro Semedo ingressara na Com- panhia de Jesus apenas com 17 anos de idade. Em 1608, con- tando 23 anos, seguiu para a índia e, depois de ter completa- 13
do os seus estudos teológicos em Goa, foi enviado, em 1613, para a China, onde, adoptando o nome nativo de Sé Mou-Iôk !§íí§i]í|, se fixou em Nanquim, principiando, então, a dedicar- se ao estudo da língua chinesa, cujo conhecimento lhe era indispensável, para poder ser bem sucedido, no seu trabalho de catequização. Em consequência da inexorável perseguição de 1616, que enfrentara na companhia do padre Vagnoni, com admi- rável coragem e espírito de sacrifício, foi exilado para Macau, mas, quatro anos depois, isto é, em 1620, alterando o seu nome chinês para Lui Tâk-chiu conseguiu entrar, no- vamente, na China, passando a residir, na província de Chequião (Tchit-Kóng ftfrtQ, principalmente, em Hangchow (Hóng-Tchâu ta'Jtl, onde desenvolveu uma intensa activida- de missionária. Teve, nessa ocasião, oportunidade de visitar as cristandades de várias outras províncias e, em 1628, foi enviado para Sâi-On-Fu depois de ter residido em Ka- Teng e Xangai. Nestas andanças pôde conhecer bem a China e a contí- nua privança com os nativos aliada ao seu penetrante espíri- to de observação e de curiosidade, que nada deixava escapar, forneceram-lhe preciosos elementos para a elaboração desta desenvolvida "Relação da Grande Monarquia da China", que deveria ter concluído, antes da sua partida para Roma, para onde fora enviado, pelo padre visitador Manuel Dias (sénior), em 1637, como Procurador da Vice-Província da China, pois, assevera Pfister, que dera os últimos retoques à sua obra, quando passara por Goa. Nesta sua viagem, o Pe. Álvaro Semedo esteve em Por- tugal, em 1640, e, dois anos depois, chegava a Roma. Em 1644, regressara à China, onde desempenhou, durante al- gum tempo, o cargo de Vice-provincial das missões, tendo conseguido escapar, milagrosamente, da morte, quando, em Dezembro de 1651, se encontrava, em Cantão, pela segunda vez saqueada e conquistada pelos tártaros. O Pe. Álvaro Semedo só veio a falecer, em paz e sossego, sete anos depois, em 18 de Junho de 1658, na provecta idade de 73 anos, quase que inteiramente consagrados à obra da conversão dos chi- neses. 14
Ora foi, em 1642, no ano em que chegara a Roma, que apa- receu publicada, por P. Craesbeck, a "Breve Recopilação dos princípios, continuação e estado da christandade da China" que, segundo afirma Paul Pelliot, no seu comentário à Sino- Portuguese trade from 1514 to 1644" de T ien Tsè Chang, intitulado "Un ouvrage sur les premiers temps de Macao", pg. 81, não deverá ser senão um extracto da presente Relação. Assevera, peremptoriamente, Pelliot: "Nul n 'a jamais vu une édition portugaise de Relação de quelque date qu'elle soit, et I. Fr. da Silva (Diccion. bibliogr. portuguez, I, 49-50; cf. aussi VIII, 51-52) nie qu'elle ait existé". Faria e Sousa deveria, porém, ter possuído uma cópia completa do manuscrito da Relação, que traduziu para espa- nhol, mas apenas a primeira parte e mesmo assim com mui- tas interpolações e observações, algumas bem descabidas, da sua lavra, tradução esta que publicou, em Madrid, também, no ano de 1642, com o título de Império de Ia China. Esta adaptação espanhola de Faria e Sousa foi reeditada, nesse mesmo ano de 1642, e, desta segunda edição, se fez uma reimpressão em Lisboa, em 1731. • Em 1643, quando Semedo se encontrava ainda em Roma, pois só regressara à China, no ano seguinte, apareceu a sua Relatione delia grande Monorchia delia Cina, que, segundo afir- mam os padres de Backer, na sua Bibliothèque des écrivains de la Compagnie de Jésus, foi traduzida pelo padre Giattini. Esclarece Pelliot que esta tradução italiana foi feita do texto português levado para Roma, pelo autor, onde foi publicada, em 1643, e reimpressa, em Bolonha, em 1678. A edição francesa de 1645, feita por L. Coulon, e publicada em Paris foi, certamente, baseada na edição italia- na, porquanto diz, em subtítulo, "Composée en italien par le P. Alvarez Semedo Portugais". Esta versão foi publicada com o título de Histoire Universelle du grand royaume de la Chine. Em 1667 foi editada, em Lião, uma outra versão francesa com o seguinte título Histoire Universelle de la Chine par le P. Alvarez Semedo, Portugais, existindo, também, uma tradução da Recopilação que foi publicada, em Ruão, em 1643, com o título Recueil des commencements, progrez, et estat modeme de la chrestienté de la Chine. Traduit du Portugais. 15
A obra de Semedo mereceu ser, igualmente, traduzida para inglês, sendo publicada, em Londres, em 1655, com o seguinte título The History of that Great and Renowned Monarchy of China... Lately written in Italian by F. Alvarez Semedo, a Portuguese... Now put into English by a Person of quality... to satisfy the curious, and advance the trade of Great Britain. Como se vê a presente obra do Pe. Álvaro Semedo teve, na sua época, grande voga, sendo publicada em várias lín- guas estrangeiras, mas, em português, só foi editado um resu- mo, em 1642. A edição italiana, que utilizámos para fazer a presente tradução, foi dedicada pelo autor ao Eminente e Reverendo Príncipe Francesco Barberino da Santa Igreja Romana, Cardial Vice-cancelário, sendo o imprimatur de Pier-Batista Borghi dado, no dia 8 de Dezembro de 1642. Este nosso trabalho está muito longe de ser perfeito, de resto, lá diz o aforismo traduttore, traditore. O tradutor 16
If,-1 hi . ELATION E ELLA GRAN' MONARCHIA DELLA CINA | DEL. |P- ALVARO |i SEMEDO POB.TVCHE5E í! DELLA CQMPAGNIA 1 Dl CiESV. con riuvUECio. ff+l ). J1 'x>r|j i/Jf ál S-i >4 » I;;pclxul rJil< A_S|k»<
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Relação da Grande Monarquia da China O escrever sobre coisas remotas traz sempre consigo a inconveniência de muitos e não pequenos defeitos. Disto resul- ta haver numerosos livros, cujos autores, pela categoria das suas pessoas, mereceriam que dessem maior crédito às suas obras. Dos que têm escrito acerca da China verifico que alguns, deixando quase todas as verdades no olvido, se entretém ape- nas com coisas que andam afastadas da veracidade, pois que, encontrando-se esse reino longínquo e, tendo sempre esqui- vado, com todo o empenho, à comunicação com o estrangei- ro, além de guardar para si, com particular cuidado, as suas coisas como se as guardasse até de si mesmo, resultou que, fora dele, só se conhece aquilo que deixa escorrer, como por excesso, pelas faldas da região de Cantão, parte desse Impé- rio aonde chegaram os portugueses. Destarte, o mais recôndi- to e o mais secreto ficaram reservados, ou para os naturais do país, que bem sabem zelá-los, ou para aqueles que, com o fim de os descobrir na melhor das intenções, quase se esquece- ram do seu próprio ser, da sua língua, dos seus costumes e do seu modo de viver, transformando-se em naturais desse país. Para isso, recaiu a sorte, por soberano desígnio, nos reli- giosos da Companhia de Jesus que, não obstante terem che- gado mais tarde para a cultura da Igreja, conseguiram, no entanto, ser os primeiros, depois do Apóstolo S. Tomé, a cul- tivar a religião, no confim do mundo. 19
PE. Alvaro semedo Já se passaram cinquenta e oito anos, desde que princi- piaram a trabalhar neste remotíssimo clima, onde, dedicando todos os seus cuidados e esforços à conversão das almas, consideram manifesto furto qualquer tempo que não seja empregado numa obra tão devida ao Céu e tão importante para a eterna saúde dos homens. Por isso, nunca nenhum deles se ocupou, nem tão pouco a algum foi permitido ocu- par-se em escrever sobre as coisas deste reino, a não ser o padre Nicolau Trigault que, depois de desembaraçado da cultura da Igreja na China, se passou à nossa Europa. Na presente ocasião apresento, também, uma breve rela- ção suficiente para elucidar aqueles que desejem uma verdadei- ra notícia dessas coisas. Deixarei, por ora, uma relação mais de- senvolvida, ficando por isso para outra oportunidade, que será quando regressar àquele vastíssimo país com novos obreiros e em tão grande número, que alguns dos mais experimentados e autorizados hão-de poder pegar na pena, com descanso e como- didade de tempo para fazerem uma relação perfeita. Entretanto, abreviando o mais possível estas notícias, sem contudo tornar confusas as informações que se preten- dem, dividirei este tratado em duas partes: a primeira conterá o estado material do reino, isto é, as províncias, as terras e os seus produtos e, para assim dizer, ainda o estado formal, isto é, as letras e os costumes; a segunda, o princípio da Cristan- dade, os seus progressos e as perseguições sofridas nela e, finalmente, o estado em que ela se encontrava, ao tempo da minha partida. Espero que este trabalho merecerá, talvez alguma esti- ma e crédito, se não pela grandeza da sua apresentação ao menos pela segurança da realidade, tendo eu colhido o que escrevi de o ter testemunhado com os olhos que, mesmo que fossem de pouca vista, sempre puderam observar repetidas vezes, pois, se aquele que olha por longo espaço de tempo, embora vendo pouco, consegue ver mais do que aquele que, com melhor vista, olhe, apressadamente, eu, que tenho esta- do a ver as coisas da China, no decurso de vinte e dois anos, terei decerto visto o que escrevi bem como o que os outros escreveram de coisas que não viram, e falarei, necessaria- mente, com mais acerto, posto que com menor elegância. 20
PRIMEIRA PARTE DO ESTADO TEMPORAL DA CHINA
CAPÍTULO I Do reino em comum A China é, no principal, um grande trato contínuo de terra sem coisa que o divida. Tomando, pela altura de Haynam, que não dista muito do continente e está em 19 graus, corre por 24 graus para o levante e, terminando em 34 graus, forma um círculo tanto mais vasto quanto as costas extremas dela descrevem, em desigual proporção, várias cur- vas, vindo a constituir um reino, único em grandeza e quase igual a toda a nossa Europa.1 Encontram-se, na parte do poente,2 muitas ilhas pequenas, porém, tão chegadas ao con- tinente que quase que parecem formar, no todo, um só corpo. Divide-se esta monarquia em quinze províncias3 e cada uma delas é um reino que basta a si mesmo e assim o foram, O extremo norte da China fica a 53°54' Lat. N., na Mongólia Exterior, e o extremo sul, a 18°15' N., na ponta meridional da Ilha de Ainão. Para oeste estende-se, na província de Sinkiang, até 73°30' Long. E. e para oeste, na pro- víncia de Kirin, atinge 135°5' Long. E. (Vidé The Chinese Year Book, J 940- -1941). 2 Deve ser do sul. Até ao advento do novo regime, a China estava dividida em 30 provín- cias. A área da China, segundo a publicação oficial The Chinese Year Book de 1940-41, é de 11.608.860 quilómetros quadrados. 23
PE. ÁLVARO SEMEDO antigamente, tendo os seus próprios reis. Das nove, que cha- mam austrais, a maior parte é cortada por rios caudalosíssimos alguns dos quais com tanta abundância de água que, em certos sítios, perde-se de vista a margem oposta e noutros, mal se dis- tingue o que surge. São todos navegáveis e, de facto, navegados por tão grande concurso de variadas embarcações que não seria crível o que nesta matéria se poderia dizer. Digo apenas que nisto excedem todos os outros rios do mundo. Num braço do rio Nanquim, que, com limitada largura, corre até Hamcheu,1 me detive oito dias, para encontrar passagem, por entre aquele ma- ravilhoso concurso de embarcações. No espaço de uma hora de relógio de areia2 contei eu trezentas, só das que nos vinham ao encontro. É coisa de maravilhar que, sobre serem tantas, sejam para as mercadorias bem cómodas e para os passageiros comodíssimas, todas cobertas, todas limpas e algumas tão visto- sas, pela variedade de decorações e pinturas, que mais parecem fabricadas para recreio do que para o tráfico mercantil. É notável o modo como as governam, pois que a tripulação encontra-se toda fora do sítio onde estão os passageiros, ficando no exterior, para poder ocorrer à direcção do barco sem os inco- modar, os quais, por este motivo, gozam de tranquilíssimo sos- sego. Nisto, são superiores as da província de Hamcheu. As seis províncias mais boreais, como estão próximas da nossa latitude, são mais semelhantes ao nosso clima, sen- do vantajosamente secas e saudáveis. Em todas se vive, pou- co mais ou menos, sem ausência de longas e felizes existênci- as, pois, encontram-se numerosos e vigorosos indivíduos de provecta idade. Digamos alguma coisa em particular É tão abundante este reino de toda a espécie de agrega- dos populacionais que se vêem não somente aldeias como cidades e, em algumas partes onde os rios são mais frequen- 'tattl Hangchow, no dialecto pequinense, e na romanização inglesa. Em cantonense, Hóng-Tchâu. 2 Ampulheta. 24
DO ESTADO TEMPORAL DA CHINA tados, quase que seguem contínuos os lugares habitados. Destes há quatro espécies: cidades maiores a que chamam fu\ menores a que chamam ceu e a estas se referiram alguns escritores de modo diverso; vilas a que chamam hien; e cas- telos a que chamam cin.4 Além destes, há aldeias e povoados quase inumeráveis, sendo guardados, dia e noite, e defendi- dos por muralhas com sentinelas divididas por quartos e ao som de sinetas, até mesmo nas regiões mais remotas do reino, como se estivessem comummente em guerra, ensinando-nos que, para uma hora em que poderá surgir o perigo menos pre- visto, se há-de velar toda a vida, porque, geralmente, todos os desaires inesperados resultam duma confiança demasiada. As ruas são guardadas por corpos de guarda e sentine- las, com tanto rigor que, se estas forem encontradas a dormir ou descuidadas no seu posto ou pouco prontas em acudir, são condenadas a serem bastonadas e imedi- atamente executadas, no próprio local. As portas das muralhas são todas as noites fechadas com cuidado e, aconteça o que acontecer não as abrem sem se informa- rem do sucedido. No ano de 1634, na cidade de Kiamsi, trinta ladrões forçaram o cárcere e, depois de inutiliza- rem os guardas, ferindo-os e matando-os, puseram-se em liberdade. Divulgado o acontecido e suspensa a abertura das portas da cidade, segundo o costume inviolável, antes da noite seguinte, foram presos os malfeitores sem que os pudesse ocultar a vastidão da cidade. Este reino é tão excessivamente povoado que, tendo eu ali residido vinte e dois anos, continuei tão admirado, tanto no fim como no princípio, com a imensidade de gente, sendo certo sobrelevar a verdade a todo o exagero. Não só nas cida- des, vilas e lugares públicos, onde em alguns deles se não caminha sem grande violência de encontrões e empurrões, 1 ffà fu, prefeitura. 2 #1 tchâu, departamento. 3 $r. un, distrito. * seng, cidadela. 25
PE. ÁLVARO SEMEDO mas também nas jornadas, a afluência de gente é tão grande como, entre nós, nos ajuntamentos em assinalado festejo ou festa pública. E se desejarmos reportar aos livros, onde se re- gistam e arrolam apenas os varões populares, sem nelas figu- rarem mulheres, crianças, eunucos e mestres de armas e de letras, cujo número é quase infinito, verificaremos que exis- tem 58.550.080 habitantes.1 As casas onde os chineses residem não são tão sumptu- osas e duráveis como as nossas. São, todavia, mais cómodas, pela sua boa distribuição, e mais fáceis para a limpeza. Em- pregam nelas o charão, esplêndido verniz, e a pintura, com grande primor. Não costumam construi-las muito altas, apre- ciando, por mais cómodas, as baixas, tanto para as habitarem como para serem bem servidos. Nas de gente mais educada há páteos ou ânditos com flores ou árvores pequenas e, no norte, costuma haver árvores frutíferas. Do mesmo modo, se as propriedades forem espaçosas, povoam-nas com árvores maiores e ainda de montanhas artificiais para o que fazem vir rochas de grandes distâncias e ali criam aves, como grous, cisnes e outras de bela aparência e ainda animais selvagens como veados e corças, construindo também tanques, onde se vêem a nadar peixes coloridos com escamas doiradas, bem como outras coisas curiosas e com gosto. A forma como constroem as casas é deste modo: fazem primeiro toda a armação do telhado muito ajustadamente e assentam-na depois, sobre colunas de madeira que, quanto mais grossas forem mais as apreciam. Vão erigindo depois as paredes com tijolos ou outro material equivalente. É tradição que, antigamente, faziam as suas construções com propor- ção, medida e regras perfeitíssimas. Tal arte continua ainda a ser livremente praticada mais só se verifica nos palácios reais e noutras obras públicas, como nas torres das cidades e vilas, 1 Tem actualmente cerca de 550.000.000 de habitantes. Nota dos editores: O leitor deverá recordar-se que a tradução de Luís Gonzaga Gomes data de 1956. O último censo realizado na R. P. da China, em 1990, registou 1.133.682.501, dos quais 91 milhões pertencem às chamadas minorias étnicas nacionais. 26
DO ESTADO TEMPORAL DA CHINA vendo-se com formas muito diversas, redondas, quadradas, octangulares e lindíssimas, com escada comum ou em espi- ral e varanda, na parte exterior. São pródigos nos móveis da casa, sendo estes bastante curiosos, servindo-se muito do referido charão, espécie de verniz, que se extrai de árvore oriunda desse país e dos circunvizinhos. É na realidade uma coisa excelente, tanto pela perfeição da substância, como se verifica nas peças que vêm de lá, como pela facilidade da sua aplicação, tanto em coisas novas como na reparação das velhas, que ficam resti- tuídas à sua primitiva beleza. Quanto à abundância, como este reino se dilata muito, participando de latitudes e climas diversos, é tanta a varie- dade de fruta que produz e de que goza, que parece ter a natureza ali acumulado aquilo que repartira pelo resto do mundo. A dentro das suas portas existe tudo quanto é neces- sário para a vida humana e ainda toda a abundância de delí- cias, motivo por que não somente lhe não é preciso pedir esmola aos estranhos como o que lhe sobra, que é muito e bom, chega para saciar as suas necessidades, dos seus vizi- nhos e de povos distantes, que anelam sempre por vê-lo e desfrutá-lo. O seu principal alimento e o mais utilizado sob todas as formas é o trigo como também o arroz, servindo-se deste umas regiões e outras daquele. Tanto um como outro produzem-se na China com tal fertilidade que um pico de qualquer um deles (um pico tem cento e vinte e cinco libras nossas) custa, geralmente, cinco reais e, se chega a sete e meio, é carestia. As províncias boreais utilizam como alimento o trigo, a cevada e o milho, servindo-se com raridade do arroz, tal como nós. Deixam-no para as províncias austrais, que, posto que tenham trigo em grande abundância, consomem-no com a mesma moderação com que nós consumimos o arroz e ou- tras espécies de frutas. Há legumes de várias espécies, remé- dio de gente mais pobre e pasto comum de cavalgaduras, em lugar da cevada. Fazem grande uso de hortaliça que usam como sustento popular em quase todo o ano, constituindo as plantas o único cabedal das suas boticas porque nelas basei- am a sua medicina que é segura. Falta-lhes a chicórea bem 27
PE. ÁLVARO SEMEDO como o cardo mas, em compensação, têm outras plantas que nos faltam. Há grande quantidade de carne mesmo na mais pequena terreola, sendo a mais comum, em todo o ano, a do porco. A da vaca vende-se sem osso algum. A caça é em menor quanti- dade como javalis, veados, corças e lebres, mas não coelhos. Os chineses não são, porém, tão apaixonados desta diversão que aqui tanto nos diverte. De aves há grande abundância e das nossas quase todas e em grande cópia. Há duas espécies de perdizes, uma das quais não se diferencia da nossa senão na língua, cantando diversamente. Não acontece o mesmo com os rouxinóis que, com serem maiores que os nossos, têm a mesma voz e igual modo de cantar. Outras há que não te- mos e são de grande estima, tanto para os olhos, pela sua beleza, como para o paladar, pela macieza da sua carne. Das outras aves que vemos pintadas nos seus trabalhos que vêm à Europa, existem sem dúvida a maior parte delas, favorecen- do sempre a arte à natureza ou alterando-a um pouco. Na cria de aves domésticas são exímios e têm-nas de todas as espéci- es e em número incontável. Os patos e os gansos são em tão grande quantidade que os pastoreiam i^os campos em nume- rosos bandos. Aquilo que se conta de recolherem os ovos para a indústria é coisa certa, mas, somente, na primavera, e os que não precisam de mãe. Feras indómitas como tigres e lobos abundam em todo o reino mas são pouco prejudiciais. Vêem-se sempre elefantes na corte, mas mandam-nos vir de fora. Dos animais domésti- cos têm todos os nossos para a carga (sem empregarem bois para isso como em toda a índia) e também para a cultura de terras, na qual se servem deles. Os búfalos, nas regiões meri- dionais, suportam o principal trabalho. Há muitos cavalos, mas sem fogosidade e servindo para pouco. Os carros já ali estiveram muito em uso. Tendo terminado na China a sua voga, adoptámo-los nós, introduzindo-os, na Itália e Espanha, o que aconteceu, no ano de 1546. Os chineses lan- çaram, então, mão de cadeirinhas, sendo estas de menos pompa e dispêndio mas de maior comodidade, motivo por que, hoje, para as viagens, todos se servem de liteiras com machos, ou de cadeirinhas transportadas por quatro, seis ou 28
DO ESTADO TEMPORAL DA CHINA oito homens, conforme a categoria das pessoas. As cadeiri- nhas são mais usadas nas cidades sendo o seu formato seme- lhante às que empregamos para transportar mulheres, mas maiores, mais cómodas e mais variadas. O modo de as trans- portar é, porém, diferente. Nas duas cidades de Pequim e Nanquim, por haver nelas o maior concurso de gente de toda a espécie, encontra-se em todos os lugares públicos, boa quantidade de jumentos muito bem aparelhados, com selas e freios e à espera de pessoas que, com maior facilidade e me- nor despesa, desejem percorrer a cidade. Quanto a peixes existem poucos nas províncias setentri- onais, excepto na Corte que, por ser tal, nada falta. Isso é de- vido ao facto de não haver ali muitos rios. Os peixes vêm, porém, das províncias meridionais (onde são pescados, em grande quantidade, nas costas marítimas, lagos e tanques), secos, preparados de várias maneiras e em número suficien- te. Do rio de Nanquim vai o pescado, todos os anos, para o rei e, quando o fornecimento, que para este efeito se fez, estiver prestes a esgotar, proibe-se, com todo o rigor, às pessoas, de pescar. Não obstante a viagem levar 45 a 60 dias, os peixes chegam, no entanto, fresquinhos, sem necessidade de se lhes ajuntar sal. Dão-lhes apenas raminhos ou pedacinhos de ve- getais com os quais, de vez em quando, os vão alimentando. Os chineses não estimam a truta tanto quanto nós a aprecia- mos. O solho sirft, mas se bem que seja de grande preço, não excede 5 baiocos a libra, donde se pode avaliar a barateza de todas as outras coisas. Quanto a frutas não são apreciadas as cerejas e as amo- ras por serem insípidas. Têm a maior parte das que temos na Europa, porém, não são semelhantes, nem em quantidade nem em qualidade, a não ser as laranjas de Cantão, que, facil- mente, se podem considerar rainhas das nossas, pois, algu- mas são apreciadas não tanto como laranjas mas como uvas moscatéis disfarçadas daquela forma. As províncias meridionais participam das melhores fru- tas da índia, principalmente a de Cantão, onde há ananazes, mangas, bananas, jacas, jambos e sobretudo algumas origina- riamente suas e de particular excelência. Tais são, em Can- tão, as ljchias (assim chamam os portugueses à fruta que os 29
PE. ÁLVARO SEMEDO chineses designam por liei),1 que são, exteriormente, de cor alaranjada e, quando maduras, enfeitam muito as árvores. São semelhante a medronhos, tendo a forma de coração. Ti- rada a casca, que apenas lhe está contígua, aparece o fruto como uma pérola, agradável à vista, pela sua cor, mas mais ao paladar. Há, igualmente, o longan,2 assim chamado do chinês lumyen, olhos de dragão. São como avelãs, na aparência e no tamanho. Tem pouca polpa, que fica entre a casca e o caroço, mas é agradável e saudável. Encontra-se, em Cantão e Fukien. Em todo o reino abundam figos encarnados, nome que lhe foi dado pelos portugueses, mas que, na própria língua se dizem suzú.1 É fruta muito diferente do figo, na cor, aparên- cia e sabor. Por fora, a cor é encarnada e, por dentro, dourada. O tamanho é, mais ou menos, duma laranja, grande ou pe- quena, da mesma forma como varia o tamanho dos figos en- tre nós. A casca é delgadíssima e o seu sabor tão extraordiná- rio, que julgo ser a melhor fruta do mundo. Tem uma ou duas sementes parecidas com a amêndoa descascada, sendo os melhores os das regiões frias. As províncias de Honam,"1 Xiansi,5 Xensi6 e Xantura7 são detentoras das melhores quali- dades e em grande quantidade, e secam-nos em tão grande '3S tí lâi-tchi—Nephelium /jch(sapindácea). 2 SI BR lông-ngán — Nephelium tonga/f sapindácea) 3É o diospiro, conhecido no dialecto macaense, por fígo-kaki. Kaki é o nome desta fruta, em japonês. Na China, há quatro variedades principais: Si if nám-tch'i , isto é, o diospyros kaki, ou seja o diospiro vulgar; o ffí'Lvfli kâi-sâm- tch'i , isto é, o diospyros vaccinoides, conhecida, no dialecto de Macau, por figo- kaki chupadeiro; o Tjcfrfi sôi-tch'i, isto é, o diospyros lobata, conhecido no dia- lecto macaense, por figo-kaki duro; e o WMi pei-tch'i, isto é, o diospyros glutinifera. Esta espécie é glutinosa e não comestível. O óleo que dela se extrai é empregado para verniz. 4 íuMiHó-Nám (Honan) 5 li® Sán-Sâi (Shansi) r'K£|Aj Sim-Sâi (Shensi) 1 Uií Sán-Tông (Shantung) 30
DO ESTADO TEMPORAL DA CHINA abundância que chegam para abastecer todo o reino. Quando secos ficam melhores que os nosso figos passados com os quais têm alguma semelhança. A província de Hamcheu produz uma fruta especial que se chama iammoi/ grande como uma ameixa, redonda, e de cor, gosto e sabor os mais excelentes, mas a planta é muito diferente. Os pêssegos só se encontram na província de Xensi sen- do de notável tamanho. Alguns são encarnados por fora e por dentro; outros de cor amarela, com o mesmo aspecto e sabor dos nossos. Há por toda a parte melões, em grande abundância, mas os melhores não se comparam com os nossos bons. O mesmo não acontece com as melancias que há muitas e muito boas. Das uvas, com excepção da província de Xensi, onde são abundantes e fazem delas passas, em quantidade, há poucas e somente em parreiras. Não fazem com elas vinho senão com a cevada e arroz, nas regiões do norte, onde fa- zem-no ainda com maçãs, e, com arrpz, só nas do sul, se bem que este arroz não seja o comum, mas duma certa espécie, que somente serve para fabricar o licor, preparado de diver- sas formas. Fazem o vinagre da mesma forma que o vinho e, nas pro- víncias ocidentais, com o milho, sendo picante e de bom sabor. 0 vinho comum do povo, se bem que embriaga, é de pouco vigor e duração. Fazem-no todo o ano, mas o melhor só no inverno. É agradabilíssimo à vista, por sua cor; para o olfacto, pelo seu cheiro; para o paladar, pelo seu gosto; e, para todas as ocasiões de grande entusiasmo, nas quais não faltam ébrios, mas sem o duro tributo da vergonha, porque não o puseram em tal consideração. No Verão e no Inverno bebem-no sempre quente. As flores são por este povo singularmente estimadas e existem algumas muito belas e diferentes das nossas, que também não lhes faltam. Há cravos aromáticos que são cân- didos e inodoros. Os chineses procuram ter flores nos seus 1 tèSfói ièong-mui, isto é, a myrica sapida 31
PE. Alvaro semedo jardins, que são muito curiosos, durante todo o ano. Há neles flores que, em duração, ultrapassam o hábito comum da na- tureza, sendo, igualmente, isentas do peso e do vulgar tributo da brevidade da vida, porquanto, quando as plantam, não retêm a humidade para a conservação das folhas e, expostas ao frio, se despojam destas, brotando, então, as mesmas flo- res e as mais aromáticas, na maior inclemência da neve e da geada. Chama-se estas lamui que são mais agradáveis ao ol- facto do que à vista, sendo a sua cor semelhante à da cera. Outras há como os lírios chamados tiaohoa, que se têm em casa, pois que, arrancando-as, cuidadosamente, com as suas raízes inteiras e limpas de terra, vivem e florescem no ar. A vestimenta deste povo e os paramentos dos quartos e das casas são feitos de lã, linho, seda e algodão, que empre- gam em abundância e tecem-nos de bela e variada forma. E admirável a riqueza deste país, pois que, além da terra ser tão fértil em víveres e de tudo que é necessário à vida humana, como se pode ver por aquilo que já se disse, ainda proporciona ao estrangeiro os mais belos e melhores produ- tos de todo o Oriente como são o oiro em fio, compacto ou em pães, rubins, safiras, pérolas miúdas, almíscar compacto, cru ou preparado, prata viva, cobre, estanho, tutenaga, que é uma espécie de metal mais fino mas da qualidade igual à do estanho, vermelhão, salitre, enxofre, açúcar e outras coisas de menos importância. Os seus trabalhos de oiro em joalheria, adornos e jóias para senhoras, tanto para o uso necessário como para curiosi- dade, são conhecidos em todo o mundo. Não saem por uma porta mas por muitas, amplíssimas e de grande e perpétuo comércio. Com toda esta abundante preciosidade da terra, da in- dústria dos habitantes, de artes e meios de ganhar a vida em excessiva cópia não desperdiçam coisa alguma que possa igualmente trazer-lhes lucro, não obstante a existência de tão grande afluência de nobres matérias, pois que até se industriam em obterem proveito de ossos de vacas, de cerdas de porcos e do mais insignificante trapo que se lança na rua. Reina entre eles aquele único garante da duração dos Impéri- os que é: ser rico o público e não ser rico o particular. Não há 32
DO ESTADO TEMPORAL DA CHINA ricaços como na Europa nem tantos que a seu modo possam ter tal nome. Nem os pobres de cá são tantos ou tão pobres como os de lá. A gente é infinita. Não pode haver capital que chegue para tantos nem dinheiro que encha tantas bolsas, do que resulta que, repartido por aqueles, o muito chega para poucos, o mediano para não muitos, e o pouco para um nú- mero quase infinito. É por sobrar o dinheiro que se pode per- ceber o preço das coisas, do salário dos servidores, da paga das obras e do estipêndio dos ministros, de modo que até hoje, pelo menos em várias regiões, se vive como antigamen- te em Portugal, quando com um maravedi, que vale um ceitil e meio, dividido em seis brancos, se compravam seis coisas. Assim era também, em Castela, não só em tempo antiquíssimo, mas no tempo do rei D. João I de quem exis- tem documentos vivos, temperanças e felicidades mortas. Donde se vê, claramente, quando esta admirável perseveran- ça do Império Chinês depende somente das suas leis e costu- mes antiquíssimos, sem alargar jamais os rendimentos, a fim de os grandes poderem parecer maiofes e os pequenos gran- des, no luxo de vestir e excesso de mesa, que são a irreparável ruína da república. Vale uma libra de carneiro quatro ceitis e ceitil e meio um borracho. O salário dum homem, por um ano, é de duzentos ceitis mais o sustento, mas há grande diferença entre um lugar e outro, pois, no sul, como primam no comércio assim exce- dem em dinheiro e no preço das coisas, que vai aumentando sempre como experimentamos diariamente. Porém, hoje, vai moderadamente. 33
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CAPÍTULO II Das províncias em particular mas, principalmente, as do sul Divide-se este reino em duas partes, a austral e a boreal, sendo ambas repartidas em quinze prôvíncias, como mencio- námos atrás. A esta parte austral pertencem nove que são Cantão, Quansi,1 Yunnam/ Fukien,3 Kiamsi,4 Suchuem, Utquam,6 Chekiam,7 Nankim.8 Trataremos destas neste capí- tulo e as restantes noutro, e, a fim de se proceder com clare- za, referiremos a elas, segundo a ordem que citámos. Cantão é a primeira e encontra-se na parte do sul, pro- priamente chamada Quantum.'' 1 UlffiKuóng-Sâi (Kwangsi) 2 Stá Uân-Nám (Yunnan) 3 íÍ4|Fôk-Kin (Fukien) 4 Kóng-Sâi (Kiangsi) 5 E3J11 Si-Tch'iin (Szechwan). 8 $|í$ U-Kuóng (Hukwang). Esta província era formada pela região em volta do lago ÍHIíl Tông-T'eng, isto é, pela parte sul da actual província de U-Pâkffl4b e norte de U-Nám ®j|$í 7 $T?I Tchit-Kóng (Chekiam) Nám-Keng (Nankin) 0 f$ítí Kuóng-Tông (Kwangtung) 35
PE. ÁLVARO SEMEDO Está na latitude de vinte e três graus. É grande, rica e abundante de grãos e arroz e este reproduz-se duas vezes ao ano e, se bem que no resto seja o comum, é de bagos diferen- tes. Tem muito açúcar como também ferro, cobre e estanho, materiais que se vêem trabalhados com variedade, em inu- meráveis vasos, bem como objectos feitos com charão, exce- lente verniz, e com doirados, que são trazidos para a nossa Europa. A Companhia de Jesus já possuía nesta província duas residências com as suas igrejas e oficinas, que foram destruídas em consequência de várias perseguições como depois se verá. A gente é hábil de mão e, posto que de pouca invenção, imita, excelentemente, tudo que se encontra inventado. A cidade, também chamada Cantão, pois o seu próprio nome é Guamcheufu,1 vão os portugueses, duas vezes ao ano, com as suas mercadorias. Fica distante de Macau2105 milhas e esta dista das primeiras ilhas 54 milhas. É das maiores cida- des desse Império. Tem de circunferência umas boas quinze milhas. E grande ali o concurso de mercadores, sendo, por- tanto, mais populosa que muitas outras. Ali vão ter o mais e o melhor que se encontram em todo o reino por ser a sua mais importante e franca escala. E para não falar das mercadorias dos seis reinos vizinhos, que em tão grande quantidade são transportadas para lá, tanto nativas como estrangeiras, só as que os portugueses levam para a índia, Japão e Manila, im- portam, num ano, em cerca de cinco mil e trezentos caixotes de vários tecidos de seda, incluindo, em cada um deles, cen- tenas de mais valor, como veludos, damascos e cetins; os mais modestos como damasquilhos e tafetás pintados e sim- ples até duzentos e cinquenta; dois mil e duzentos pães de oiro, de doze onças de peso cada um; sete picos de almíscar, que são mais de trinta e cinco arrobas, pesando cada arroba vinte e cinco libras de dezasseis onças cada, além de pérolas miúdas, açúcar, porcelana, pau da China, ruibarbo, curiosos 1 Kuóng-Tchâu-Fu. Em 23° 11' Lat. N. e 113° 14' Long. E. 2 Está situado em 23° 12' Lat. N. e 113° 34' Long. E. 36
DO ESTADO TEMPORAL DA CHINA trabalhos doirados e muitas outras coisas de somenos impor- tância, difíceis de citar mesmo numa extensa relação. Pertence a esta província a ilha de Aynan, onde se pesca a pérola em grande abundância. E suficientemente povoada, tendo uma cidade e várias vilas na parte norte. No sul existe um povo inculto que só tolera os chineses para comércio mais sem domínio algum destes. Produz o precioso pau d'Áquila' e aquela aromática que os portugueses chamam de rosa e os natu- rais hoalimo/ além, doutras coisas de menor importância. Ao lado de Cantão para o norte, estende-se a província de Quamsi, em vinte e cinco graus. Goza do mesmo clima sem diferença de considerações. Não há nela coisa notavel- mente particular, sendo apenas a segunda em importância. A terceira é Yunnam, que está situada em 24 graus de latitude, e vem a ser a mais distante do centro da China. A sua área é grande mas tem pouca mercadoria, a não ser aque- la com a qual se fazem as esferas das coroas, que em Portugal se chama "alambra" e em castelhano "ambar" e é como o âmbar que se julga ser bom contra o óatarro. Extrai-se de mi- nas e algumas vezes em grandes pedaços. E mais encarnado que o nosso, mas não tão límpido. Nesta província transgri- de-se o costume de todo o reino, que é de não sairem as mulhe- res para a compra ou venda, como noutros países do mundo. Do outro lado de Cantão, para noroeste, fica a quarta província dita de Fukiem, ou, por outro nome, Chincheo, em 26 graus de latitude. É, na sua maior parte, montanhosa e, por isso, pouco cultivada. Contra as leis do reino, os naturais 1 íÊisfMât-hèong ou ~{}V& tchãm-hèong (Aquilaria agallochas). É empre- gado pelos chineses como medicamento sendo considerado como tónico, esti- mulante, carminativo, afrodisíaco e diurético. D. G. Dalgado diz na Classifica- ção Botânica das Plantas e Drogas Descriptas nos Coloquios da índia, Bomba- im, 1894, que a planta descrita por Garcia d'Orta sob o nome de linaloes é a aquilaria malaccensis, que foi muito usada na Europa para o tratamento da gota, reumatismo, diarreia, etc. Ver também Depositário de Noções de Botânica Applicada e Productos Vegetaes mais conhecidos e usados na China, Hong Kong, 1904, por João Maria António da Silva. 2 ÍÊSSík fá-lei-môk (Convolvulus scopariu) 37
PE. ÁLVARO SEMEDO desta província, entre os quais existem muitos marítimos, saem para os países mais vizinhos. Produz oiro e bom, muito açúcar, bons panos de cânhamo, pois que os de linho não há na China. Fabrica-se o papel de várias espécies, o qual, em quantidade, qualidade e barateza, é coisa notável. Trabalham na impressão com não menos perfeição e, ao que parece, com mai- or antiguidade que na Europa, posto que não da mesma forma, pois, sendo a de aqui em moldes, que se desmancham depois de impressa cada folha, a de lá (as letras) são gravadas em tábuas de forma que os livros se conservem permanentemente vivos nas próprias oficinas, podendo, assim, imprimir-se sem nova despe- sa de composição, sempre que seja necessário. E região marítima e outra porta distinta, por onde saem do reino infinitas mercadorias transportadas pelos naturais dessa mesma região, industriosos e activos, para Manila, Ja- pão e, particularmente, para a ilha da Formosa, que lhe fica à vista, porque estando o vento próspero, a viagem apenas ex- cede 24 horas, e onde traficam com os holandeses. Temos ali duas casas e igrejas da nossa Companhia das quais provém e é formado grande número de bons cristãos. Estes têm nas redondezas dez igrejas que, com toda a solici- tude, visitei em devido tempo. As duas principais estão na cidade de Fuchau,1 que é a metrópole; outra na cidade de Cieumcheu2 e outra na cidade (de Fukien). Além disso há muitos oratórios particulares. A ilha da Formosa, que está na altura de 22 graus, fica entre o reino da China e do Japão. Antes que se chegue lá é preciso passar pela ilha chamada Liqueu,3 que são muitas. O seu comprimento é de 150 milhas e a largura de 75. Encon- tra-se ali uma torre que os holandeses construiram, num vale arenoso, sob a qual está o porto, cercado por todos os lados de recifes cobertos, os quais se não estivessem assinalados por grossos troncos de madeira, seria difícil o ingresso, a não 1 íMttl Fok-Tchâu (Foochow). 2 Jft'W Tch'iin-Tchâu (Chuanchowfu), actual Tchân-Kóng 3$it& Lâu-K'âu. São as Léquias, também designadas por Loochoos e por Ryu-Kyu, cuja ilha principal é Oquinava. 38
DO ESTADO TEMPORAL DA CHINA ser para os nativos. Numa outra parte da ilha, para o levante, existe uma fortaleza dos espanhóis, distante da dos holande- ses, ao que dizem, quase 90 milhas por mar, e 45 milhas por terra. O solo desta ilha é muito fértil, pois, produz ervas de 9 a 10 palmos de altura. Pastam ali os rebanhos dos holande- ses. A abundância de veados é tão grande que parece inacreditável para quem não tenha visto. Conta o padre Alberto Miceschi, que ali viveu como escravo, que andando a cavalo com licença do governador, na selva vizinha, para co- lher plantas medicinais, vira pelo caminho tanta multidão de veados, que julgou serem antes rebanhos pertencentes aos habitantes da ilha que andassem dispersos pelos campos, se a vista, ao aproximar-se, mais vizinha deles, lhe não tivesse mostrado o contrário. Há ainda muitos animais chamados alces que eu até agora julgava que nasciam somente na Lituânia e países seus vizinhos. Há também animais total- mente diferentes dos nossos e por nós não conhecidos. E o país mais parecido com a nossa Europa para quantos vêm ter à índia. Goza de ar saudável e é frió como o nosso. Produz alguns aromáticos mas não em grande abundância, como a pimenta na selva, o cinamomo nas montanhas, a madeira de cânfora de grandeza notável, a raiz da quina e a salsaparilha em grande quantidade. Abunda também o oiro, mal extraído, não estando ainda explorado pelos holandeses. A gente do país não usa nenhuma espécie de vestimenta. Nem os homens nem as mulheres se cobrem, ao passo que, em toda a índia, costumam cobrir-se, quanto mais não seja, por advertência da natureza. Vivem em casas re- dondas feitas de juncos de várias cores e que são bonitas vistas de longe. O seu alimento é ordinariamente a carne de veado, tão gorda como a do porco, e arroz com o qual fazem esplêndido vinho. Muitos converteram-se, mas à fé calvinista, induzidos pelos ministros holandeses, e vivem virtuosamente. São altos e bem conformados de corpo e tão lestos na corrida que, na caça, mantêm-se atrás dos próprios veados. Os seus senhores trazem uma coroa de crâneos de mortos atacados juntos e abatidos com setas, sendo estes os inimigos dos seus mortos. O seu rei usa duas asas de várias penas na cabeça. Outros coroam-se com tomates; outros fa- 39
PE. ÁLVARO SEMEDO zem uma coroa de certa forragem tecida com pelos de búfalo e cingem-na no meio com uma cinta de junco bem tecida. Trazem ao peito duas (carapaças de) tartaruga com um martelinho de madeira que lhes servem para dar sinal em vez de tambor. Existe, igualmente, uma ilha vizinha habitada por homens ferozes que matam quem vive. O referido padre Miceschi viu um, capturado pelos holandeses, que tinha, ao que lhe pareceu, quinze palmos de altura. Damos o quinto lugar à província de Kiamsi, contígua à de Cantão pela parte do norte, em 29 graus de latitude. Prin- cipia por uma costa de muitas montanhas que se acumulam nos confins de Cantão. Elas originam dois rios, um que corre para o sul, inesperadamente navegável, e outro para o norte, que depois de haver banhado uma boa parte dessa província, recolhe um outro bem caudaloso da província de Huquam, deslizando depois com o nome do célebre Nankim. Tornam estes dois rios notáveis as faldas dessas montanhas , unidas por boa cidade, muito cómodas para o trânsito das pessoas e condução de mercadorias que, pela maior parte, são trans- portadas aos ombros de homens e rapazes, conforme pode cada um, os quais aprendem cedo tal mistér, que é o mais vulgar nesse país. A jornada é quase de um dia, havendo muito que ver nesta travessia, pois que, não se encontrando outra ponte e sendo esses rios as vias mais frequentadas pelo tráfico na China, são incríveis o concurso de gente e a multi- dão de mercadorias que entram e saem sem qualquer inter- rupção. Deixando tudo numa pousada, recebem-no a peso, numa outra a que se tenha acolhido, com tanta exactidão que não se torna necessário estar presente o seu dono, porquanto os hospedeiros são obrigados ao cumprimento daquilo que faltar, no caso de qualquer extravio. Costuma ainda o dono da hospedaria fornecer a todos os hóspedes de categoria ou aos mercadores duas refeições ou pelo menos uma bem como ainda aos seus servidores, e, se os hóspedes não ficarem sa- tisfeitos, estes advertem-no, interpelam-no e ameaçam-no, dando-lhe a entender que deixarão de frequentar a sua pou- sada, pois que não faltam outras. Assim é este o procedimento com o que torna esplên- dida a avareza duma pousada. Os estalajadeiros são tam- 40
DO ESTADO TEMPORAL DA CHINA bém obrigados, depois de embarcado o hóspede (porque para os que seguem por terra cessa tal privilégio) a envi- ar-lhe um presente de duas coisas ou pelo menos de uma, como fruta, dois peixes, um pouco de carne ou um par de galinhas e isto sem receber pagamento como acontece ainda com a entrada, a estadia e a saída, pois que nem pelo quarto nem pela cama se paga coisa alguma. Digo cama que é o madeiramento do leito, a qual não é fornecida aos hóspe- des, sendo cada pessoa que viaja obrigada a trazê-la às costas, quando não possa fazer doutro modo, e isto é pos- sível, porquanto as camas não são tão grandes como as nossas e são mais leves. O ganho consiste em tanto por cento que cobram aos barqueiros, por aqueles que vêm por via terrestre. Como é grande a afluência de viajantes o ganho não pode ser pequeno. Todas as coisas passam por abonadores e, se acontece faltar qualquer coisa, estes remedeiam, repondo-a. Na alfândega (existe aqui uma notável) não fazem tanta honra màs mais favores. Não" existe nenhuma casa onde se deponha, pese ou reviste as mercadorias nem es- tas são retiradas do barco, pagando-se tudo, moderada- mente, apenas segundo os livros de contas dessas merca- dorias. Se o passageiro não for negociante, apesar de via- jar sozinho num barco com os seus criados e leve quatro a seis arcas e várias coisas que precisam de ser transpor- tadas duma localidade para outra, nada disto lhe é revis- tado nem aberto, nem pago tão pouco qualquer direito. Exemplo para as alfândegas da Europa onde despojam, impudicamente, um pobre viandante, não chegando tudo quanto este traz para o que lhe exigem. Quanto aos navios estrangeiros que entram no porto de Macau, logo que alguém chegue, descarrega este a sua merca- doria como bem entende, sem qualquer impedimento, e quando se apresentam os empregados da alfândega, paga-se- lhes segundo a arqueação do barco sem que eles inquiram acerca da qualidade da mercadoria. Mas voltando à província de Kiamsi da qual estávamos tratando, ela é particularmente abundante em arroz e pesca- do e sobretudo de gente, de forma que os chineses lhe cha- 41
PE. ÁLVARO SEMEDO mam laochu que quer dizer ratinhos, no que temos um caso idêntico, em Portugal, onde a região entre os rios Douro e Minho, que confina com a Galiza, por haver tão grande mul- tidão de gente, se lhe dá o mesmo nome, se bem que os ho- mens doutos o derivem de Rates, parte antiga dessa região. A sua gente, espalha-se por todo o reino como enxames, ocupando-se em vários misteres aos quais se aplica, mas a maior parte entrega-se a uma vida miserável. Como são somíticos, avarentos e parcos na oferta de presentes figuram em ridículos provérbios doutras províncias. Esta província é célebre pelos solhos enormíssimos e ainda mais pela sua porcelana (na verdade única no seu género) que se encontra apenas numa sua vila,2 de forma que, quanta se consome no reino e se distribui por todo o mundo, provém desse lugar. Não se encontra, porém, nela o barro com a qual é feita, vindo este doutro sítio, mas existe a água com que precisamente é fabricada para se conseguir a sua perfeição, pois que, se for feita com outra, o trabalho não adquire tanto brilho. Não existem neste trabalho, nem na substância nem na forma, nem tão pouco no modo de mani- pular, os mistérios que se contam. É simplesmente feita de barro, porém, duma qualidade pura e excelente. Fazem-se em tempo igual e da mesma forma que os nossos vasos de barro. Apenas fabricam-na com mais diligência e primor. O azul com que pintam a porcelana é o anil que abunda. Algu- mas são pintadas de vermelho e, para o rei, de amarelo. Esta província e as de Chincheo e Cantão, que são confinantes em várias partes, unem-se nas extremidades, quase que como em ângulo, com muitas montanhas no meio, entre as quais, existe um pequeno reino com rei próprio e governo particular, sem sujeição alguma aos chineses contra os quais se defendem se estes pretenderem assaltá-lo. Nem lhe é difícil a defesa, pois só existe uma entrada. Aceitam médicos para a cura das suas enfermidades mas de forma al- guma os letrados no seu governo. Se a safra for escassa e se 1 -ÊH lou-sú. Keng-Tâk-Tchân. 42
DO ESTADO TEMPORAL DA CHINA surge a carestia vão roubar em som de guerra e ordem militar. Assim, no ano de 1632, não foram poucas as atribulações nesta província de Kiamsi. Seja a última informação destinada à cristandade que tem sido bem sucedida, pois encontra-se beneficiada com duas igrejas e casas que possuímos nesta província; uma, na cidade de Nanchan,1 que é a metrópole e a outra, na cidade de Nanhium.2 A sexta província é dita de Suchuen. Está situada no mesmo paralelo que a de Kiamsi e na mesma latitude de 29 graus. Nada ocorre de particular nesta província que seja dig- no de narrar. A província de Huquam, a sétima na ordem, está mais para o norte, na altura de trinta e um graus. Em abundância de arroz supera todas as outras do reino. Dizem os chineses que todo o reino não dá para fazer uma refeição com excep- ção de Huquam que provê para todo o ano. Tem muito azeite e não menos peixe devido aos rios dos quais se beneficia e aos lagos que mais se parecem com mares. Na metrópole des- ta província, deu-se princípio a uma residência, na ocasião da minha vinda. ' A província de Chekiam, que é a oitava, fica situada em trinta graus. E, em grande parte, marítima, fértil, plana e qua- se toda atravessada de vários rios, alguns dos quais são tão plácidos no seu comportamento que entram nas cidades e vilas. Quanto à riqueza, avulta-se, extraordinariamente, como fonte das melhores mercadorias de toda esta monar- quia. É única em seda, que distribui por toda a parte, quer crua quer preparada, ou fiada ou em pano. É dela toda a que vai para fora do reino, por qualquer via que seja, porque se bem que toda a China goze do benefício do bicho da seda, de modo algum chega toda a seda que produz, para lenços. O nome da metrópole é Hancheu. Tivemos ali duas casas que, por melhor consideração, foram reduzidas a uma. Cultiva-se 'S S Nám-Tchèong(Nanchang) 2 Si H Nám-Hông (Nanhsiung) 25° 16' Lat. Nei 14° 04' Long. E. (?) 3 Do regresso do autor à Europa. 43
PE. ÁLVARO SEMEDO ali uma numerosa e boa cristandade e, em grande parte, res- peitável, por ser seguida por muita gente digna. Esta província é finalmente célebre por muitas coisas, mas principalmente por três. Em primeiro lugar, o lago chamado Sihu,1 que no seu género, é o mais raro do mundo. Tem de cir- cunferência trinta lis que são seis milhas. Circundam-no palá- cios bem lavrados, rodeados de montes ameníssimos, cobertos de erva, plantas e árvores. A água é sempre viva, pois entra, por um lado, uma corrente, que sai por outro. É coisa de estimar e que convida a demorar-se com sumo deleite, vendo-se, no fun- do, os mais minúsculos grãos de areia. Atravessam-no pontes calcetadas de pedra, que proporcionam passagem para os vian- dantes, curiosos, e outros, a fim de andarem nelas e descobrirem tudo. Há barcos à disposição, alguns dos quais são de considerá- vel tamanho bem como os que foram construídos para recreio e banquetes. A cozinha está instalada na proa ou na popa e o es- paço do meio serve de sala para as mesas. Na parte superior, há um lugar mais elevado para mulheres, vedado com redes para elas não serem vistas. Estes barcos são pintados e doirados de modo curioso e variado e providos com a maior abundância de todo o necessário para a navegação, que é curta e livre de qual- quer naufrágio de água mas não de vinho, como sucede muitas vezes, naufragando-se, igualmente, não poucas vezes as fortu- nas, pois não existe ninguém em todo o reino que possuindo riquezas não venha dissipá-las, ou em parte ou em todo, neste prazer e, às vezes, mais do que comporta o capital. A segunda excelência é a seda, quer pela mencionada abundância quer pela beleza de arte com a qual trabalham uma boa parte, ornamentando-a com preciosos e lindos tra- balhos em oiro. Esta, por ser exclusivamente a seu modo e gosto, não a tecem para estrangeiros, pois, como obra singu- lar que é, reservam-na para os palácios do rei, que leva daqui, todos os anos, tudo quanto se tece neste género. A terceira é o culto de ídolos, no que particularmente se apuram, donde resulta a construção dos seus templos, sem dúvida famosos. 'B88 Sâi-U 44
DO ESTADO TEMPORAL DA CHINA A última província destas nove austrais é Nankim, situada em trinta e dois graus, sendo das melhores do reino e a perfeição de todas. Não envia as suas mercadorias ou trabalhos de impor- tância para nenhuma parte como se as outras fossem incapazes de lograr tal perfeição, que, na realidade, em toda a espécie de variedades é raríssima e excedendo de tal forma a todas as ou- tras que, cada qual, para facilitar a venda das suas mercadorias, as faz passar como sendo de Nankim, conseguindo, deste modo, permutá-las por melhor preço. A parte mais inclinada para o poente é a de maior rique- za e tem tanto algodão que os do país afirmam que, só na vila de Xanhai1 e seus arredores que são extensos, existem duzen- tos mil teares para fiação deste artigo, motivo por que só este distrito vende ao rei cento e cinquenta mil escudo^. Numa só casa cabem muitos, porque são estreitos, por causa dos panos. Ocupam-se neste trabalho quase todas as mulheres. A corte residiu muito tempo nesta província e ainda hoje se conservam todos os tribunais e seus privilégios, na cidade de Nankim, cujo nome próprio é Ymthienfu.2 Por isso me parece a melhor e maior de todo o reino, tanto pelo feitio dos edifícios, disposição e largura das ruas, trato da gente e abundância de coisas como pela perfeição de tudo. Possui excelentes lugares de diversão e é tão povoado nos seus confins que as aldeias sucedem-se uma às outras, quase de três em três milhas. Todavia, hoje em dia, por faltar- lhe a presença do rei, se encontra menos povoada. Mesmo assim, em várias partes, é ainda difícil caminhar, devido ao tropel de muita gente que se encontra. Tornam-na notável muitos palácios, templos, torres e pontes. Rasgam a sua mu- ralha doze portas travejadas de ferro e guarnecidas de artilha- ria. Pelo lado de fora, por largo espaço, corre uma outra mu- ralha com não poucas ruínas. O seu perímetro, para quem deseje conhecer a sua medida, requer dois dias de caminha- 1 -h$5 Xangai (Shanghai) 2 Ieng-T'in-Fu, nome dado na dinastia Sông. Antes e depois desta dinastia, teve outros nomes. (Vidé 45
PE. ÁLVARO SEMEDO da a cavalo para o percorrer completamente, sendo o da mu- ralha interior de dezoito milhas. Entre uma e outra muralhas, encontram-se várias povoações, hortas e campos que são la- vrados, e cujo pão se destina à soldadesca que se encontra lá dentro em número de quarenta mil. Num sítio ergue-se um monte, onde se vê uma esfera material que não está armada, apesar dos círculos se encon- trarem colocados na altura desta mesma cidade, que vem a ser de trinta e dois graus. A respeito de grandes frios, há pou- co, sendo frequentes os grandes calores que sofre. A máquina desta esfera é, indubitavelmente, de notável tamanho, sendo uma obra absolutamente perfeita. Há mais uma torre dividida em sete andares e de singu- lar beleza, pelas obras que ostenta. E toda coberta de figuras e trabalhada em porcelana. Um edifício que se pode comparar com os mais célebres da antiga Roma. Chega o rio a beijar-lhe os pés e a avançar com alguns dos seus barcos para dentro. O rio chama-se Yamchukiam,1 que quer dizer filho do mar, e não em vão, pois que é um dos mais abundantes em água que se sabe existir no mundo, motivo por que se encontra nele grande abundância de peixe. Temos quatro igrejas nesta província. A primeira em Namkin com casa e padres. E a mais antiga e exercitada cris- tandade, tendo sofrido quatro perseguições, mas renascendo cada vez mais vigorosa. A segunda, na aldeia de Xamhai,2 com grande número de fiéis; a terceira, na cidade de Sumkiam;3 e a quarta na vila de Kiatim.4 Além dessas igrejas há muitos oratórios. E isto basta, quanto às nove províncias do sul. ' SirPil Ièong-Tchi-Kóng (Yang-Tze-Kiang) 2 TiísSèong-Hói (Shanghai) 2 tME Tch'ông-Kóng (Sung-Kiang) 4 Há! Ká-Teng (Chiating) 46
DO ESTADO TEMPORAL DA CHINA CAPÍTULO III Das províncias do norte São seis as províncias que se chamam boreais, sendo seus nomes Honam,1 Xemsi,2 Kiansi,3 Xantum,4 Pekim,5 e Leaotum.6 A primeira encontra-se em trinta e cinco graus de altura, quase no centro do reino, e produz os mais saborosos frutos, tanto os que são próprios do país como os nossos europeus. E notável a sua barateza. Disseram-me que com um ceitil e meio se adquirem oitenta e oito damascos. Não há outras coi- sas notáveis com excepção de um infante, filho do rei, cha- mado Fovam, ser o mais moderno daqueles que sairam do palácio. Vive com o mesmo aparato e autoridade de rei só lhe faltando para tal a liberdade e a jurisdição. Em Caifum7, a metrópole desta província, temos igreja e casa, de há poucos anos para cá, mas já com grande número de cristãos. 1 Mlí Hón-Nám (Honan) * Sim-Sâi (Shensi) 3 ÍCB Kóng-Sâi (Kiangi) 4li|^ Sán-Tông (Shantung) s itSt Pâk-Keng (Pekim) 8aSS Liu-Tông (Leaotung) ' Hói-Fông (Kaifeng) 47
PE. Alvaro semedo A segunda que é Xemsi está em trinta e seis graus mais para o ocidente. É muito grande, porém, seca pela escassez de água como as outras três vizinhas. E, todavia, abundantíssima em trigo, cevada e milho, mas não de arroz que há pouco. Dão, durante todo o inverno, o trigo ao gado, que é abundante, principalmente ovelhas, sendo estas tos- quiadas três vezes ao ano, uma na Primavera, outra no Verão e outra no Outono. A primeira tosquia é, porém, a melhor. Dessa província vem toda a lã com a qual se fabricam, tanto nela como noutras, o feltro e outras coisas. Não fazem com a lã nenhum tecido, porquanto não costumam fiá-la, mas sim com o pelo da cabra com o qual fabricam certos estofos para a ornamentação de aposentos, com tanta perfei- ção que os ordinários são superiores aos nossos e os melho- res mais apreciados que a seda mais preciosa. Fabricam, igualmente, com o mesmo, um feltro delicadíssimo a que chamam lum, que serve para fazer roupa. Não empregam para isso qualquer pelo de cabra, mas apenas uns pelinhos que se encontram por baixo dos primeiros. Arrancam-nos com grande cuidado e juntam-nos em pacotes do tamanho de um pão comum, trabalhado-os, depois, com particular primor. Tem por próprio o almíscar e, uma vez que se discute sobre o modo como se produz este agradável perfume, direi sem receio de contradita, por ter feito nisto diligente investi- gação, que é o umbigo dum animal semelhante a um peque- no veado, cuja carne serve também de alimento como a dos outros animais. E somente da mencionada parte, que se ex- trai essa preciosa substância, mas a verdade é que nem todos os bolsinhos que nos trazem são umbigos puros e genuínos, pois que, os chineses, ao extrai-los, falsificam-nos, arrancan- do-lhes toda a pele e suprindo o que falta com almíscar já viciado e misturado com outras substâncias. Obtem-se ainda o oiro não em minas (que, se bem que tenham oiro e prata, não permite o rei que as explorem) mas nos rios e nas praias e, posto que seja encontrado em partícu- las minúsculas, conseguem ajuntá-las em grande quantida- de, sendo inumeráveis os adultos e as crianças que as vão procurar. 48
DO ESTADO TEMPORAL DA CHINA O ruibarbo é perfume que não se encontra noutras par- tes. O que vem da Pérsia não parece que seja originário de lá, pois que de quantos a têm visitado, vindo desde a índia por terra, não há ninguém que desse razão de ter visto nesse país esta saudável planta. É de alto porte e de folhas largas, maio- res que as de couve. Não é selvático como têm julgado, pois cultivam-no com grande cuidado em hortas domésticas. Nesta província abre-se a terceira porta que, como atrás se disse, é escala de muita mercadoria, porque nos seus con- fins existem duas cidades, Cancheu1 e Sucheu2, a oeste, (as- sim como Macau, na província de Cantão, ao sul), donde vêm caravanas tão numerosas que ultrapassam mil homens de várias nações e províncias, sendo, porém, mouros, na sua maioria. Aqui chegou o nosso irmão Benedito Goes, à procu- ra do reino de Cataio, que outro não é senão a própria China, a cuja viagem nos vamos referir. Na quaresma do ano de 1603, por ordem dos seus supe- riores da índia, partiu ele para investigar o que constava ser o reino de Cataio, do reino de Mogor e da cidade real chamada de Laor, em traje de arménio, levando mercadorias, tanto para poder sustentar-se como para mais facilmente conseguir passar. A caravana era composta ao todo de cinquenta pesso- as, sendo na sua maioria sarracenos, que costumam ir, todos os anos, desta cidade real para uma outra, num outro reino chamado Cascar. Findo um mês de viagem, alcançou a cida- de chamada de Athu, na mesma província de Laor; dois me- ses e meio depois, a Passaur e, passado um outro mês e meio de viagem e repouso, chegou à cidade de Ghideli, onde pou- co faltou serem todos mortos pelos ladrões. Finalmente, de- corridos mais vinte dias, entrou na cidade de Cabul, nobre empório da terra sujeito ao reino de Mogor, donde, após al- gum descanso, se passou a Parvam, última cidade de Mogor. Daqui, caminhando através de altíssimas montanhas, duran- te vinte dias, atingiu a Cálcia, país de gente loura e, vinte e cinco dias depois, a Chemám, onde foi preciso demorar um ' HlWKông-Tchâu (Kanchow) 2 Sou-Tchâu (Souchow) 49
PE. ÁLVARO SEMEDO mês, devido a distúrbios civis e, após muitos sofrimentos e perigos de rebeldes e assassinos, atravessou muitos países do rei de Samarkan, visitou o país de Tengo, e, por fim, alcançou a cidade metrópole do reino de Cascar, propriamente, Tangriesar, no mês de Novembro desse mesmo ano. Nesta cidade, nobilíssima escala desse reino, termina a ca- ravana dos mercadores que vêm de Cabul e ali se faz novo ajun- tamento, para as caravanas que vão para a China. O nosso irmão foi obrigado a demorar-se, durante muitos meses, à espera de tempo oportuno , e, tendo contraído amizade com o rei do país, obteve cartas de favor para todos. Donde, ao seu tempo, se par- tiu, com dez cavalos para si, para o seu companheiro e para a bagagem, na companhia de toda a caravana, para a viagem de Cataio, isto é, da China, no mês de Novembro do ano seguinte, e, passados vinte e cinco dias de viagem difícil, através de pedre- gulhos e areia, chegou a cidade de Aesu, sujeita ao reino de Cascar. Atravessou, depois, o deserto dito de Caracathai, isto é Terra Negra, e, tendo avistado muitas cidades, chegou à de Cialis, no mesmo reino de Cascar. Aqui, enquanto se preparava para a viagem, chegaram os mercadores que regressavam da China, pelos quais o ir- mão Benedito teve notícia da cidade de Pekim e dos nossos padres, que ali foram vistos pelos mercadores sarracenos, es- clarecendo-se, então, que o Cataio outro não era senão a Chi- na e a cidade real, conhecida entre os sarracenos por Cambalu, era a de Pequim. De cá partiu, pois, Benedito com poucos companheiros, chegando vinte dias depois a Pucian e, seguidamente, a Turphan, Aramuth e Camula, última cida- de do reino de Cialis. De Camul, após nova jornada, chegou à muralha da China, no lugar chamado Chiaicuon e, assim, teve ingresso na China, que demandava sob o nome de Cataio. Venceu-se, então, a distância de onze jornadas, sendo a região povoada de tártaros e o resto da viagem efectuado através das terras dos mouros.1 Agora, para tornar à nossa história. Vieram com esta ca- ravana embaixadores que os príncipes mouros enviam ao rei 'Ver Eduardo Brazâo Em demanda do Cataio, Lisboa, 1954. 50
DO ESTADO TEMPORAL DA CHINA da China, pois, faz-se, todos os três anos, uma embaixada, pequena em pessoas e presentes, e, todos os cinco anos, uma grande. Fica a maior parte nas duas cidades já ditas, que es- tão na fronteira, negociando com as suas mercadorias. Os outros vão cumprir a sua missão e entregar o presente em nome de cinco reis que são os de Rume, dos Árabes, de Camul, Samarcan e Turfan dos quais os quatro primeiros não contribuem coisa alguma para tal embaixada. O quinto, não obstante ser isso do seu conhecimento, também não contri- bui com nenhum presente nem envia ninguém para tal em- baixada, aproveitando-se apenas da sua utilidade e nomean- do os seus chefes. Os mercadores quotizam-se para adquirir os presentes e, uma vez chegados, o Vicerei daquelas partes dá aviso ao Rei, por meio de uma folha de papel a que cha- mam memorial. Despachado este pela corte e depois de te- rem sido arrolados os seus nomes, partem quarenta, ou cin- quenta, muitos juntos, os quais, por entrarem no reino para negociarem e comerem à custa do rei, dá cada um de subor- no, ao capitão, cento e vinte escudos. Acompanha a todos um mandarim que os hospeda liberalissimamente enquanto via- jam e se interrompem a viagem (como tem acontecido na metrópole desta província, por espaço de mais de três meses) cessa a despesa real mas não o proveito do trato, pois, prosse- guem eles sempre com o seu negócio. As mercadorias que trazem são o sal amoníaco, o azul fino, tecidos delicados, tapetes, uvas passadas, cutelos e ou- tras coisas miúdas. A mais abundante e melhor é uma certa pedra a que chamam Yaca,1 que extraem no reino de Yarken." A cor da ordinária tira para o branco e a mais fina é verde, tendo já tido grande preço na China, alcançando, porém, ain- da bom valor. Fazem com ela várias jóias para o ornamento da cabeça, sendo muito empregada nos palácios. O cinto com que o rei presenteia os colaos é guarnecido com a mais bela dessas pedras motivo por que nada mais se pode aplicar nes- te ornamento. O que levam em troca do que deixam são a 13£ Iôk, jade 2 Yarkand 51
PE. ÁLVARO SEMEDO porcelana, rubins, almíscar, seda em fio e panos, várias miu- dezas curiosas e outras coisas medicinais como o ruibarbo, que julgo ser o que nos trazem, por via da Pérsia, para esta banda. Chegados os embaixadores à presença do rei, oferecem- lhe os seus presentes, que constam dessa pedra preciosa de que acabamos de falar, em quantidade de mil arrobas, que são mil trezentas trinta e três libras italianas, das quais tre- zentas são da mais fina; trezentos e quarenta cavalos, que ficam, imediatamente, nessa fronteira; trezentas pontas de diamantes muito pequenos; doze cates, que perfazem aproxi- madamente cem libras italianas, de azul fino; seiscentos cutelos e outras tantas limas. Por me parecer ser este último presente despropositado para se oferecer a um rei, perguntei de que serviam elas para o soberano e não encontrei quem me soubesse responder. Somente me disse um capitão que era coisa antiquíssima ser o presente composto dessas coisas e com tanta infabilidade que não se atreviam a fazer qualquer alteração. Quanto à restante mercadoria que trazem, se o rei pretende alguma coisa, manda ver e comprar. O rei remune- ra, em troco, por cada cavalo, com duas peças de brocado de oiro; trinta de seda amarela, trinta libras de chá, dez de almíscar, cinquenta de um medicamento chamado teienyo e outras tantas de prata. Disseram-me esses sarracenos que o presente que davam ao rei não custava mais de sete mil escu- dos na sua terra, ao passo que, por tal embaixada e viagem, o que o rei lhes vinha a dar não era inferior a cinquenta mil. Bom lucro na verdade mas o mais ordinário para príncipes. Desta mesma província sai uma outra caravana para o poderoso reino de Tibete, que leva várias coisas, principal- mente, panos de seda, porcelana e chá, que é a folha de um arbusto parecido com o do mirto e, em algumas províncias, do tamanho do de manjericão e, noutras, como o de peque- nas romanzeiras. Secam-na sob o fogo em tachos de ferro, onde se encorpa. Há muitos modos de a preparar, para a vari- ar, sendo as folhas que ficam em cima superiores em finura às outras, propriedade de quase todas as plantas. Uma libra chega a custar um escudo e vai diminuindo até quatro ceitis, segundo a sua qualidade, tantas são elas. Assim seca, lança- 52
DO ESTADO TEMPORAL DA CHINA -se na água quente, tomando cor, aroma e sabor, desagradá- vel à primeira vez, mas, com o uso, torna-se agradável, sendo frequente na China e no Japão, onde não somente serve de bebida vulgar, em lugar da água, como de regalo para os hós- pedes, nas visitas, tal como o vinho nas bandas do norte, sen- do julgado, em todos esses reinos, sovinice o dar apenas pala- vras a quem entra em casa doutrem, ainda que seja um estra- nho, pois, ao menos se lhe há-de dar o chá e, se a visita se prolongar, acrescentam qualquer coisa doce ou fruta. As ve- zes põem mesa para isso e, quando não, colocam-nas em dois pratos sobre uma bandeja quadrada. Na realidade é saudável não sendo conhecido na China e Japão o mal da pedra nem tão pouco o conhecem de nome, donde se pode inferir ser preservativo para tal mal o uso desta bebida. É igualmente certo que liberta, eficazmente, a opressão do sono a quem deseje velar, ou por necessidade ou por gosto, pois que, aba- tendo os vapores, aligeira a cabeça sem moléstia alguma. E, finalmente, do conhecimento e de admirável consolo para os estudiosos. Quanto ao resto não tenho tanta certeza que me arrisque a afirmá-lo. Encontra-se, finalmente, nesta província, um evidentíssimo vestígio de antiga cristandade que existia nela como diremos em seu lugar. Na sua grande metrópole temos igreja e casa com bem fundado e abundante fruto de cristãos, os quais frequentam muitos oratórios particulares. É Kiansi a terceira província destas seis boreais de que estamos tratando. Fica em trinta e oito graus de latitude. Tem muitas montanhas que a tornam pobre de messes. Há pouco trigo, falta o arroz, existindo, porém, o milho mais que todos os outros. A uva é coisa tão abundante que provê o reino de passas, chegando o vinho para si mesma como acontece na residência que temos, onde se prepara não somente o bastan- te para as missas como enviam-no ainda o suficiente para as residências mais vizinhas. Tem poços de fogo para o uso do- méstico como os de água, entre nós, na Europa, e, como pare- ce ter por baixo minas de enxofre aceso, basta abrir-se-lhes um pouco a boca, que não precisa ser larga, para que forne- çam tanto calor que chega para cozer aquilo que necessita de 53
PE. ÁLVARO SEMEDO ser cozido. A sua lenha mais vulgar, como em quase todos os seus arredores, são pedras não pequenas como em alguns dos nossos países, mas de tamanho muito considerável. Tem mi- nas abundantíssimas desta matéria que arde com facilidade. Em algumas partes, como em Pequim e Honam, dispõem de modo que o fogo não cessa, nem de dia nem de noite, se as- sim o desejam. Costumam acender antecipadamente. Temos uma igreja e casa, na cidade de Kiamcheu, uma outra na de Pucheu,1 que, a seu tempo são visitadas, e uma ou outra boa e numerosa cristandade no meio da qual se en- contra muita gente nobre, não lhe faltando oratórios como noutras províncias, com os quais vão suprindo a escassez das igrejas. A quarta que é Xantum, em vinte e três graus de latitu- de, situada entre Nankim e Pequim, é pobre. Sofre muitas vezes da aborrecida e maligna praga de gafanhotos e, por conseguinte, do terrível horror da fome. No ano de 1616 valia mais um cão comprado para comer do que um moçozinho vendido para servir. Nesta província abundam animais e fruta como a nossa, como grandes pêras, muitas e boas. Produz-se ainda, nesta província, em grandíssimo nú- mero e variedade, um fruto que a alguns dos nossos parecia ser pêra de boa raça, e, em tão grande abundância, que, saci- ando o reino, inunda-o até Macau, não obstante encontrar-se esta tão longe, pois ficam de permeio três províncias muito extensas. Pekim é a quinta província situada na altura de quaren- ta graus. A maior parte da corte encontra-se, actualmente, na cidade do mesmo nome, que, propriamente, se chama Xunthienfu.2 Os sarracenos chamam-lhe Cambalud. Veio- lhe esta fortuna, se assim se lhe pode chamar, de, quando morto Humú,3 um seu sobrinho chamado Vunlo,4 que habita- 1 SSftlFu-Tchâu 'RIRlfí Sân Tin Fu 3 Hông-Mou (1368-1399 A.D.) 4^Ueng-Lók (1403-1425 A.D.) 54
DO ESTADO TEMPORAL DA CHINA va nessa província e era muito poderoso, ter usurpado, vio- lentamente, a coroa ao filho herdeiro. E assim, confiando mais naqueles com os quais sempre convivera como ainda para poder melhor fazer frente aos tártaros confinantes, mu- dou a corte de Nankim, implantando-a aqui.1 A gente é me- nos habilidosa como toda a do norte, mas a mais activa para o trabalho e para a guerra. O solo é extremamente seco e favorável à saúde mas es- téril de frutos para o sustento comum. Supre, porém, a falta disso com a prerrogativa geral das cortes de chamar tudo para si, vencendo, desta forma, a sua própria natureza. Há milho e trigo mas pouco arroz, que se destina para o uso da gente do palácio, que é muito numerosa, pois, são aos milha- res os mandarins e os soldados. Tem o rei, por aqueles rios, mil embarcações, rasas por baixo, pois são de pouco fundo, destinando-se apenas ao transporte de mantimentos para a corte que os faz vir completamente do sul. Para o rei semeia- se, especialmente, um certo arroz, em Nankim, de tal quali- dade que, cozido em água, sem outro ingrediente, constitui um prato saboroso. A cidade não é tão grande como Nankim mas, em gente e bulício, supera-a em muito. De resto, é corte de um príncipe poderosíssimo. As suas muralhas são tão largas que nelas podem passear doze cavalos a par. São guardadas, noite e dia, tanto em tempo de paz como se estivessem em guerra. Nas suas portas têm guardas permanentes, sendo isso provei- to dos eunucos, que lhes dá a rainha, de mês a mês, auferindo eles bons escudos desta profissão porque todos os que en- tram e trazem qualquer coisa pagam alcavalas, sendo os de Cantão tratados com mais rigor, tal como acontece com os espanhóis nas hospedarias de França. Não sei a causa disso a não ser um certo desprezo que por eles têm. Os magistrados desta corte são ao invés dos das outras coroas e repúblicas do mundo, acontecendo, por isso, o mes- mo com a rectidão da justiça, que deve existir em todas. Refi- ro-me ao fausto e pompa das suas pessoas que são ' No ano de 1421 de nossa era 55
PE. ÁLVARO SEMEDO moderadíssimas. Não podem andar de liteira senão alguns de particular dignidade. A maior parte anda a cavalo e, como não são grandes cavaleiros, são mantidos, dum e doutro lado, por dois servidores, para que não caiam. Todos os juízes das vilas usam fora da corte de maior aparato que os mais notáveis ministros desta. Vão pelas ruas com o rosto velado não só por causa da poeira que é muita como ainda por comodidade e para se esquivarem a despesas e cortesias com os mandarins, pois que, não sabendo assim que eles são, vão-se disfarçando, ficando sempre certos de que, com os menos conhecidos, poderão manter seguros a sua comodidade e prazer. O frio que esta terra padece é bastante maior do que de- veria permitir a sua altura de quarenta graus. Gelam os lagos e os rios tão compactamente que os carros são puxados sobre eles com toda a segurança. Usam de estufas não tão compli- cadas como as nossas nem de tanto fogo e o calor corre por condutos inferiores. Assim, dentro delas, goza-se uma agra- dável primavera no meio do inverno. Este mesmo calor supre o do sol e, por meio dele, as árvores revestem-se, prematura- mente, de flores. Na corte temos igreja bem capaz, a nosso modo, e com casa, na qual, estão quatro padres com licença do rei, sendo tidos em muita estima por todos os magistrados. Além de todas as igrejas que temos nos lugares referi- dos, a maior parte das quais se encontra em cidades grandes, há muitas outras povoações de cristãos com os seus oratórios, que são visitados a seu tempo, sendo catequizados e baptizados novos cristãos e conferidos e administrados os santíssimos sacramentos às pessoas idosas. A sexta e a última província de Leaotum termina, no norte, sendo afamada por uma raiz que produz e de tanto apreço que, na ocasião da minha partida, o seu preço ultra- passava duas vezes o seu peso em prata. E remédio de tanta eficácia que, tomando-o uma pessoa sã, dá-lhe novo alento e notável energia e se o toma um enfermo, conforta-o à maravi- lha; chama-se ginsemA "Á0 Iâm-sâm, raiz da panax ginseny 56
DO ESTADO TEMPORAL DA CHINA Por confinar com os tártaros, esta província é muito de- vastada, sendo até, em parte dominada por estes. Quem diria, vendo esta muralha tão afamada, que corre pelo espaço de novecentas milhas, com mais renome que eficácia, pois que, sem que impeçam a sua grandeza e capacidade, o inimigo a tem reduzida em mísero estado. 57
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CAPÍTULO IV Dos chineses, da sua natureza, engenho e inclinações A gente da China é branca como a nossa da Europa, se bem que, na província de Cantão, por estar um tanto no tró- pico, se encontra de cor um pouco morena, pincipalmente, nas ilhas vizinhas da terra firme. E como os que por cá pas- sam são somente das terras confinantes com Macau, centro dessas ilhas, vai daí o persuadirem-se alguns de se não en- contrar nesse reino gente muito branca, sendo, porém, certo que, excepto nos confins de Cantão, onde se encontram al- guns um tanto morenos, os restantes são brancos não dessemelhantes em brancura da nossa gente e, quanto mais se caminha para o norte são, como o vulgar, de maior brancu- ra. Tanto os homens como as mulheres deixam crescer os cabelos da cabeça que, por serem em todos negros, procedeu o nome por que, entre outros, é conhecido este reino, isto é, o Reino do Povo de Cabelos Negros. Os olhos são, igualmente, negros e pequenos; o nariz, pequeno, mas nem alto nem lar- go, como acontece entre nós, o que não vêem com bons olhos, considerando isso uma deformidade. A maioria tem pouca barba não se folgando com tê-la muita, se bem que alguns a tenham. Gostam de tê-la negra que é a mais vulgar e em poucos se vê loura que, não sendo detestada por todos como entre os tebanos, não consegue, no entanto, alcançar a 59
PE. Alvaro semedo estima de alguns. Não a frisam com ferro, deixando-a ao arbí- trio da natureza. Teriam menos pesar se lhes faltasse todo o pelo do rosto do que um só fio de cabelo na cabeça e, se bem que o arranjo do cabelo seja usança comum noutras nações, eles excedem, porém, no seu arranjo e apuro. Têm, por isso, muitíssimos barbeiros que, com toda a propriedade, se pode afirmar que usurpam tal nome, pois que, sendo este derivado da palavra barba, eles nunca chegam a tocá-la, reduzindo-se a sua profissão a pentear o cabelo e a polir, com grande dili- gência, a cabeça. Entre a gente nova notam-se melhores proporções das partes e agradáveis feições de harmoniosa beleza, principal- mente, nas províncias do sul. Em alguns lugares, porém, do mesmo reino são nisso, uns superiores aos outros como acon- tece, na província de Nankim, com a cidade de Nancheu, onde as mulheres consideram como primeira vaidade a sua beleza tal como acontece em Portugal com as da ilustre vila de Guimarães. Daqui se provêm de concubinas os ricos e os magistrados e, por esse motivo, tal dom de natureza vem a parecer maior, em consequência de serem eles os mais pode- rosos do mundo. Com a idade vão decaindo e, depois dos vinte e cinco a trinta anos, não só perdem muito da vivacida- de da cor como também a harmonia das feições, tornando-se geralmente feios. Têm bom físico e grande robustez. São muito diligentes motivo por que, sendo o seu solo boa terra, se esforçam com arte, para o tornarem mais fecundo e, havendo alguma parte cansada, por pouca que seja (não há palmo de terra que não pretendam), à força de indústria, tornam-na fértil. Passando por Honum vi lavrar com arado de três ferros, de forma que, duma só caminhada faziam três sulcos e por ser a terra boa para os grãos que cá se chamam feijões, são estes colocados num como que alqueire ou alguidar quadra- do e fechado, instalado na parte superior do arado, de forma que, com o movimento do arado, espalham-se, a pouco e pouco, pela terra como o trigo que cai sobre a mó do moinho. Assim, ao mesmo tempo que a terra é lavrada, se espalha a esperança do fruto futuro. Semeiam o trigo, a cevada e o mi- lho como nós outros, sendo muito frequente o indivíduo que 60
DO ESTADO TEMPORAL DA CHINA guie uma besta carregada ir também carregado, pois que nin- guém anda ocioso. São muito meticulosos em aproveitar-se de todas as coi- sas como em não deixarem desperdiçar coisa alguma por inútil que seja. Acontece muitas vezes encontrarem-se num rio muitas embarcações que transportam apenas pavios para lanternas, feitos inteiramente de coração de junco, que extra- em com extraordinária facilidade e destreza. Outras que não transportam outra coisa senão papel (seja-me permitido dizê- lo, sendo tudo vivo argumento de previdência e para de- monstrar a aplicação que dão ao uso das coisas) para se lim- parem, nos lugares comuns de todas as casas, o qual vende-se nas ruas bem como nas lojas, não podendo de forma alguma ser usado para nele se escrever, visto que, entre eles, tendo nele escrita qualquer letra, é sacrilégio utilizá-lo para tal fim. No entanto, com tudo isso, como a gente é muita, não faltam ociosos e vagabundos, peste comum e irreparável. São, por propensão natural,.negociantes, sendo inacreditável o trato que fazem não só entre uma província e outra, com evidente lucro (de modo que aqueles que negoceiam com porcelana dentro do próprio reino, não obstante venderem-na apenas de uma para outra província, ganham trinta por cento duas vezes ao ano) mas ainda na própria cidade, pois que quase tudo que se encontra reunido nas lojas se vende, também, pelas ruas, em menor quantidade, dedicando-se a isso, até os rapazes, no que podem, como ven- dendo frutas, plantas, sabões, linhas e coisas semelhantes. Os negociantes ricos gozam de grande crédito e são mui- to pontuais como os portugueses têm experimentado muitos anos. É simples o seu modo de negociar mas o mais astucioso que se pode encontrar no mundo. Como os estrangeiros não podem entrar no interior do país são obrigados a comparti- lhar com os chineses do seguinte modo: tratam, primeira- mente, da espécie de mercadoria que cada um pretende, seja oiro, seda, porcelana ou qualquer outra coisa e, ajustado o preço, os portugueses entregam, imediatamente, o dinheiro, sejam quinze, vinte mil ou mais escudos. Os chineses vão, então, com esse dinheiro às regiões do reino, onde se encon- tra a mercadoria encomendada e voltam com ela para Can- 61
PE. Alvaro semedo tão, onde os esperam os portugueses. Esta maneira de negoci- ar tem estado em prática durante muitos anos sem logro ne- nhum, tendo, actualmente, diminuído o crédito, segundo jul- go, por culpa de ambas as partes. Todavia, a natureza da gente e a inclinação do povo, tanto nos que vendem como nos que compram, estimam as traças do logro que põem em execução com admirável subti- leza. Extrair a carne do peito duma perdiz, encher o vão com outra coisa e cerzir a rotura donde ela foi tirada, é feita com tal mestria que, se o comprador não for um Argo, quando dá pelo logro já não tem remédio, encontrando-se somente com penas e ossos. Quanto aos pernis, é vulgar disfarçarem-nos de modo tão variado que, sendo de madeira parecem à vista semelhantes aos verdadeiros. Engordar um cavalo velho, remoçá-lo, pintando nele manchas graciosas, e vendê-lo como novo, passando as suas cores por naturais e escolhendo para a venda o tempo mais duvidoso do crepúsculo do dia para que se não distinga tanto o artifício, é logro que já aconteceu em Macau, com comprador experimentado e muito ladino. Corre por todo o mundo a diabólica tentação de se pro- duzirem elementos até com pedras estéreis e metais duríssimos. São os chineses grandes apaixonados da arte de alquimia, estando convencidos de que quem descobrir o pro- cesso de fazer a prata terá encontrado a receita para viver muitos anos. Mas quando é que os mortais deixarão de dar crédito a tudo que eles dizem a respeito de se conseguirem estas duas coisas tão desejadas mas tão instáveis? Porém, muitos dos que se entregam a essa tarefa, perdem muito e lucram pouco, ao invés do que lhes acontece com outras ocu- pações em que do pouco fazem muito. Finalmente, ou enganam-se a si mesmos ou se deixam lograr pelos mestres dessa ciência que, na verdade, segundo algumas informa- ções, deve ser certa mas muito incerto o acertá-la. No entan- to, há muitos que a ela se entregam, fiados no engano, porque sabem bem que não podem fiar-se no saber. Desse houve um que, em Pekim, se dirigiu a um magis- trado, prometendo-lhe grande fruto desta experiência. Crêem facilmente todos os avaros. Deu-lhe, assim, o magistrado al- guma coisa para a compra de ingredientes que ele misturou 62
DO ESTADO TEMPORAL DA CHINA com um pouco de prata, que para esse fim trazia escondida, confessando, assim, a si mesmo, a sua ignorância aliada à sua astúcia. Ao ministro, ignorante do facto, agradava o fruto, que julgava ser filho verdadeiro da arte. Então, o artista, pretextando a necessidade de ir a um outro sítio, pediu licen- ça ao magistrado, que lhe foi concedida apenas por poucos dias, porque a cupidez do magistrado, espevitada pela expe- riência já feita, tomava por mal aquela ausência. O artista, como tivesse ido lançar, no mar doutras hidropisias de prata, o logro daquelas redes com as quais andava mais a entreter, a pouco e pouco, do que trazendo qualquer utilidade, tardou três anos e, quando regressou a esse lugar, fingiu que ignora- va a casa deste seu admirador, embora lhe fosse rondar, algu- mas vezes, a porta. Tendo sido reconhecido, chamaram-no. Apresentou-se, então, simulando de nada ter conhecimento. Falaram-lhe na arte que ele ali havia praticado. Confessou conhecê-la mas não se recordava de a ter exercido nessa casa, alegando como desculpa que, como a tinha praticado em muitos sítios, lhe não era possível recordar todas as casas. Não se fez, porém, de rogado, em se oferecer para a repetir. Deu-lhe aquela autoridade cinquenta escudos para ingredientes e ele sem pedir, como doutra vez, licença desa- pareceu com eles para nunca mais reaparecer. Não bastam, porém, tais experiências para fazer com que não hajam ambi- ciosos que desejem enriquecer-se por meio de tal arte. Voltando aos nossos chineses. São afáveis, corteses e muito tratáveis. Portanto, neste particular, não se deve acre- ditar nos nossos que somente viveram em Macau e Cantão, pois que estão ali sempre como que em guerra, devido às con- tínuas questões que existem entre os moços1 dos portugueses e os chineses e onde o vender e o revender produzem desgos- tos. E se estes em Macau suportam por não poderem mais, é sempre com a esperança de que aqueles os hão-de pagar nos interesses de Cantão, quando para lá forem nas ocasiões das feiras. Desta forma, o tráfico entre uns e outros não pode ser sincero e benevolente, mas em termos quase hostis. 1 escravos 63
PE. ÁLVARO SEMEDO Porém, como dissemos, nas outras províncias e regiões do interior do reino, conversam connosco com tanto respeito e decoro que, em qualquer reunião com eles, dão-nos o pri- meiro lugar, sem outro título, mais que o de sermos forastei- ros ou como eles dizem, hóspedes de climas remotos. Em ca- sos de necessidade, como muitas vezes temos experimenta- do, emprestam aquilo que pedimos, posto que sob penhores, o que é infalível, mas isso sem interesses. Não há sociedade de pior gente que a dos cárceres por- que ali vai dar a escória de toda a república. Todavia temos experimentado urbanidade até por parte dessa péssima raça que, por ser desumana, vem parar a tais lugares. Na ocasião da perseguição que sofremos, no ano de 1616, encontraram os nossos religiosos entre os presos muito respeito e auxílio mútuo. Como os carcereiros, com receio do tirano, apertas- sem, algumas vezes, os nossos, com maus tratos, o que sem- pre se fez com grande pena dos presos, estes, não podendo sofrer em os ver angustiados com o tormento das algemas colocadas nos pulsos dos seus braços, tornavam-nas mais folgadas, desgastando a parte de dentro com ferro em brasa, pois eram de madeira. Passado muito tempo, os ditos religiosos duma dessas prisões foram postos em liberdade. Os presos trataram, en- tão, de lhes fazer uma despedida com uma amável surpresa e, cotizando todos com o que lhes foi possível, regalaram-nos com um banquete o que levou esses padres a ficarem muito reconhecidos por verem tanta humanidade e delicadeza para com estrangeiros, por parte de gentios que estavam naquele lugar a depurar a estranheza dos seus costumes e por terem saboreado um bom festim. Isto mostra, com abundância, a natural urbanidade desta nação. Entre os chineses são abomináveis todos os actos de crueldade. Assim, para os castigos dos seus delitos não apli- cam, de ordinário, as mesmas atrocidades que entre nós, como o esquartejamento, o atenazamento ou o arrastamento. Aquele que merecer a morte, ou é degolado ou garrotado. No ano de 1614, na cidade de Nankim, um homem co- mum aspirou, com ardor mais que ordinário, assenhorear-se do reino. Já tinha aliciado muitas pessoas e distribuído entre 64
DO ESTADO TEMPORAL DA CHINA elas os cargos, com ordem de deceparem a cabeça a todos os mandarins, num dia em que viessem a reunir-se, quando se descobriu a conjura, devido a um indivíduo que ficara des- contente com a sua nomeação. Foi encarcerada, por este mo- tivo, quase infinita gente, descoberta pelo próprio livro do tirano, que continha a lista dos conjurados. Avisado o rei, ordenou este, com a primeira ordem, que não se prosseguisse com a prisão; e, com a segunda, que dos mais culpados ficas- sem na prisão apenas trinta, pelo espaço de trinta dias, meti- dos em cangas que lhes comprimiam o pescoço e que aqueles que, que ao fim de trinta dias, continuassem vivos, não fos- sem mortos. Escaparam somente dois, de forma que, para tão enorme perversidade, não foi maior o castigo. Tendo muitos sido condenados à morte, ficaram na pri- são até o Visitador da Província os chamar à sua presença e nas listas deles ia-se marcando até cinco, seis ou sete, para serem justiçados. Excedendo este número, chamavam-no cruel. Os restantes foram reenviados para o cárcere. São os chineses inclinados à virtude. Não digo que se- jam isentos de vícios, próprios de todos os gentios e ainda de todos os mortais, mas têm em apreço aqueles que fazem pro- fissão de virtuosos, especialmente de certas virtudes que, entre outros gentios são desprezadas, como seja a humildade, a virgindade e a castidade, sendo esta de tanta estima que, se uma donzela ou jovem viúva viver em celibato, com prudência e ou- tras virtudes que se lhe vão juntar, mandam erigir arcos triun- fais e celebram-na com públicos e esplendorosos louvores. O seu modo de tratar é tão cerimonioso em cortesias que estas parecem não ter fim, sendo mais próprias para o culto divino do que para o comércio humano. Entende-se isto com as visitas e com os encontros de respeito, pois que, entre pa- rentes e amigos, se usa de toda a lhaneza. São moderados e compostos no exterior, de modo que entre a gente de qualida- de não sucede caso que leve a descompor-se uma pessoa com a outra, não obstante encontrarem-se ambos cheios de agra- vos e ressentimentos. Assim, vão juntos aos banquetes ou a outras reuniões, em inimizade capital, porém, sem a mínima demonstração que seja de inimizade, que dissimulam destra e valorosamente com termos corteses. 65
PE. ÁLVARO SEMEDO Exageram com grande liberalidade o que tem de virtuo- so nas acções dos seus vizinhos e recalcam com ânimo e emulação, que em quase todas as outras nações não deixa que cada um aprecie os outros senão a si mesmo. Qualquer objecto da Europa que vejam, mesmo que seja de pouco enge- nho ou arte, é especialmente encomiado com aplauso por eles, acrescentando, algumas vezes: "Isto sim e não como en- tre nós que somos inábeis e nos falta completamente o que é bom", posto que se tratem de coisas feitas no seu reino das quais, pela sua vastidão, se não têm notícia de que são traba- lhadas nele, dizendo não poder ser obra de lá senão que trazidas da Europa. É modéstia, verdade digna de ser inveja- da, tratando-se de gente que prima muito em habilidade, para confusão daqueles que não têm olhos para ver por esta- rem infectos de desdém por aquilo que vêm. São de tão engenhosas mãos quando demonstram os tra- balhos que de lá vêm, sem virem, porém, todos os que são produzidos pelos mais excelentes artifícios. Nos trabalhos de marfim, ébano e âmbar são primoro- sos, principalmente, em brincos de orelhas e adornos de oiro e prata para mulheres. Trabalham a maravilha em cordões. Levaram um para Goa, que tendo trezentas malhas, pesava apenas três onças de oiro, sendo tão delicado o trabalho que as malhas desapareciam da vista. Deixaram completamente à Europa o uso de baixela de prata porque entre eles só há um vaso de prata de considerável tamanho e nem mesmo no pa- lácio a usam, contentando-se em comer em porcelanas que, na verdade, são únicas e de encantador brilho. O seu fio de ouro é de menos porte que os nossos, porém, o torcer o papel, para o fazerem parecer verdadeiro, é grande artifício. Os relógios de roda, obra nossa das mais admiradas por eles, já os fazem muito bons para se porem sobre a mesa. Po- deriam tê-los dos mais pequenos se a paga igualasse à nossa. No entanto, fazem muitas coisas para as quais, se quisésse- mos mandá-las fazer, não bastariam as nossas liberais remu- nerações. Todavia, na mecânica, avantajamos-lhes, no geral, muito, exceptuando no charão, em que de resto são únicos. Não se lhes pode negar uma singularíssima perspicácia, podendo aplicar-se-lhes, merecidamente, o que Aristóteles 66
DO ESTADO TEMPORAL DA CHINA acordou, liberalmente, aos asiáticos, dizendo que a Ásia su- pera em engenho à Europa, mas esta supera-a em valor, o que é corroborado pela experiência. Ainda hoje há muitos que chamam bárbaros aos chine- ses como se falassem de negros da Guiné ou dos tapuyi do Brasil. Tenho-me sentido envergonhado de ouvir dizer isso a alguns, pois ensinou-me o contrário, a peregrinação de mui- tos anos, e a fama e as actividades da China seriam também suficientes para poderem ensinar, havendo já muitos anos que ouvimos aquela e vemos estas. E certamente bem lasti- mável e, se bem que nesta relação se encontrem coisas que bem comprovam esta subtileza do seu engenho, quero, igual- mente, apresentar aqui um exemplo, com o caso seguinte: Encontrando-se um chayuen (é este o visitador duma província, cargo dos mais importantes do reino) de visita, depois de estar poucos dias na localidade, cerrou as portas ao expediente bem como às visitas, desculpando-se estar doen- te. Como a sua enfermidade se prolongasse, isto deu que pen- sar a um mandarim seu amigo, que fez tanta insistência para que o deixassem falar com ele que, finalmente, conseguiu o seu intento. Admitido, advertiu-o do descontentamento que corria pela cidade por ele não dar expediente aos negócios. Respondeu-lhe aquele com a mesma desculpa da sua enfer- midade. — Sinais disso eu não os vejo. Diga-me a verdadeira causa e auxiliá-lo-ei no que me for possível com a afeição de quem estima de coração. — Saiba, então, — respondeu o visitador — que me rou- baram o selo real do cofrezinho, onde costumo guardá-lo, deixando-o fechado como se nele não o tivessem tocado. Se quiser dar audiência não tenho com que autenticar os despa- chos. Se revelar o descuido havido com o selo, perderei, já o sabe, o cargo e a vida. Desta forma não sei que possa fazer se não estar-me nesta indecisão, que me é de pouquíssimo re- médio, sentindo eu mais que eles a dilação dos seus pleitos. , Bem compreendeu o mandarim, seu amigo, quão terrí- vel era o motivo daquele isolamento, e, exercendo subita- mente o valor do engenho, perguntou-lhe se tinha algum ini- migo nessa cidade. 67
PE. ÁLVARO SEMEDO Respondeu-lhe o visitador que sim, sendo ele a sua au- toridade principal, isto é, o chifu ou governador que, desde há muito, dissimuladamente, o olhava com mau olhar. — Sendo assim — disse excitadamente o mandarim — mande V. Sr.a reunir todos os seus haveres na parte mais se- gura do palácio e lançar fogo à parte despejada, ordenando que gritam socorro em consequência do incêndio, sendo, no entanto, necessário que, entre os primeiros, apareça o gover- nador, pela maior obrigação do seu ofício. Logo que tenha aparecido gente, deverá chamá-lo em voz alta e entregar-lhe o cofrezinhò fechado tal como está, para que em seu poder fique seguro do perigo do fogo, porque se for ele quem rou- bou o selo, fará bem em repô-lo no seu lugar, ao restituir o cofrezinho. Se não fizer isso, V. Sr.a lançar-lhe-á a culpa de o ter mal guardado e com o ficar V. Sr.a livre desse dissabor, vingar-se-á ainda do seu inimigo. Seguiu o visitador o conselho e foi tão bem sucedido que, na manhã seguinte à noite do incêndio, o governador lhe apresentou o cofrezinho com o selo. E guardaram ambos silêncio das suas respectivas culpas, por convir, igualmente, à conservação de ambas as partes. Ora, se com este exemplo os chineses são bárbaros como pretendem os que me obriga- ram a contá-lo, serão, então, certamente, com o mesmo fun- damento com que os outros têm dito de Moisés. 68
CAPÍTULO V Do modo de vestir Os materiais com os quais os chineses fazem vários pa- nos para seu uso pessoal, roupa para camas e outros orna- mentos da casa são a lã, o cânhamo (visto que não têm o li- nho como já dissemos atrás), a seda e o algodão, dos quais existem todos em suma abundância. Duzentos anos antes da nossa redenção usavam traje de mangas curtas como usam hoje os japoneses, que copiaram e conservam tal vestimenta. Este modo de trajar manteve-se até à dinastia Hoan, tendo este rei sido muito célebre entre eles. Quatrocentos anos de- pois de se ter implantado esta dinastia alterou-se tal traje, tanto entre o povo como entre as autoridades, da forma como hoje se vê, sendo ele uniforme para todo o reino, não obstante ser este formado por tantas e tão grandes províncias. Os chineses não podem modificar como nós os seus principais costumes, sem ordem especial do rei, porque este povo, que consideramos bárbaro, acabou por verificar que o mudar a gente duma província os seus costumes, por desejar os dos estranhos, é augúrio desta dever mudar-se para outra, quando é certo que está presa a ela pelo seu modo de vestir. Podemos comprovar isso, citando alguns exemplos parti- culares. Esse traje tem sido conservado, desde há muitos anos, sob a mesma forma, comprido, desde a garganta até aos pés, e aberto, em frente, de alto abaixo. Os que se usam por 69
PE. Alvaro semedo dentro são também assim, sendo mais ajustado ao corpo, pois, por fora, trajam vestes mais largas e de roda mais ampla. Os extremos da parte da frente, como não têm botões, sobre- põem-se um ao outro tal como acontece entre nós com as ves- tes clericais. As mangas são bastante largas sem qualquer guarnição. Serve de gola um pedaço de pano branco de com- primento duma mão; logo que fique sujo tiram-no e usam um outro novo. Isto refere-se somente aos letrados e gente educada, por quanto o povo não o pode usar. Os jovens usam qualquer cor, pois as pessoas idosas re- servam para si as mais modestas. O povo, na sua maior parte, veste-se de preto bem como toda a espécie de criados, com a obrigação de não poderem mudar de cor. Os que governam ou que governaram, trajam, nas ocasi- ões festivas, de encarnado, que é mais elegante. Nas quatro estações do ano, os abastados mudam de traje; os humildes (se bem que pobres), em duas, a do Verão e Inverno; e, para isso, muitos empenham aquilo que usaram numa estação para vestirem na outra. Como no cabelo está a sua principal elegância vamos falar sobre isso. Os jovens até os dezassete anos deixam solta a parte mais curta dos cabelos; a outra, juntam-na no alto da cabeça, onde a deixam atada. Passada esta idade, usam uma rede de cerda de cavalo, que corresponde à nossa coifa, den- tro da qual recolhem todo o cabelo de forma a que nem um só fio deva ficar de fora. Sobre tudo isso põem um barrete, qua- drado para os letrados e redondo para o povo, sendo ambos de seda ou igualmente da mesma cerda, que é mais cara que a outra, devido tanto ao trabalho como ao material. Têm de ser sempre de cor preta a não ser no Inverno, quando usam-no de feltro, que, algumas vezes, é de cor parda ou da cor da lã natural. Esta mudança de passarem a usar, pela primeira vez, a rede é efectuada com festa e particular solenidade da mesma forma como fazíamos, antigamente, quando usávamos, pela primeira vez, a capa ou a espada. Não conhecem outro material para sapatos senão a seda de toda a espécie e de qualquer cor para os ricos e o algodão para os pobres. No formato são diferentes dos nossos e, no 70
DO ESTADO TEMPORAL DA CHINA trabalho, mais complicados, por serem muito trabalhados. O cabedal é apenas usado para botas que raras vezes se vêem. As meias, nas pessoas importantes e nos indivíduos mais abastados do povo, são de damasco liso ou de qualquer outra seda branca; para os restantes, de algodão também branco. Tanto os homens como as mulheres usam calças. E esta a indumentária de um reino tão amplo como quase toda a Europa, sendo adoptada, com certa estabilidade, em todos os distritos das suas províncias. As mulheres vestem-se, decentemente, com a referida túnica, chamemos-lhe assim, fechada até à gola, sendo geral- mente de seda, até mesmo entre o vulgo. Arranjam bem o cabelo, ornamentando-o com flores na- turais ou artificiais e nisso a arte rivaliza com a natureza, ilu- dindo muito, pela variedade das cores e pela sua forma e fei- tio, do mesmo modo como as uvas de Zeuxis engodaram os pássaros ou, para ser mais explícito,* a cortina de Parrásio enganara Zeuxis. As mulheres de categoria mais elevada usam-nas de oiro e prata. As públicas, pertencentes a qualquer estado, não po- dem ostentá-las, sendo notório sinal das que as são o não or- namentarem a cabeça com coisa alguma (ao contrário do que acontece noutros países) e o não terem casa dentro da mura- lha. A restante roupa do interior é idêntica tanto para ho- mens como para mulheres. Somente os sapatos das mulheres são tão pequenos que, com razão se duvida se pés tão dimi- nutos pertencerão a corpo humano já adulto. Isto é devido ao facto de, desde os primeiros dias da sua infância os enfaixarem, apertadamente, para que não cresçam e não, como se diz, para que não andem. No entanto, não obstante a opinião geral de que faz parte da beleza o ter pés pequenos, os chineses mais instruídos consideram esta galanteria uma insensatez. A sua origem foi devida a uma das suas rainhas que, por ter os pés mal conformados, pretendera corrigir o defeito na- tural, tentando dar-lhes melhor forma e, assim, aquilo que para ela foi uma necessidade (se for necessidade corrigir os 71
PE. Alvaro semedo pés que podem servir sem correcção) passou a ser em todas uma galanteria o imitá-la. Ora, os príncipes devem evitar de se fazerem autores de novidades ridículas. É grande o recato das mulheres. Assim, não se vê nem uma na rua, mesmo de idade madura e inocente e, tão pouco, podem ser visitadas em casa por homens. O compartimento onde vivem é como um lugar sagrado. Basta dizer, a quem nele penetre por inadvertência, que ali se encontram mulhe- res, para que suste, imediatamente, o passo. Os criados só lá entram, quando são crianças muito pe- quenas. No quarto, onde elas precisamente vivem, não en- tram nem sequer os próprios parentes se não forem mais no- vos que o marido, nem tão pouco o sogro, pois é tão grande o rigor que, se por qualquer motivo especial o pai pretender castigar o filho (não obstante este estar casado é castigado pelo pai se assim convier), este recolhe-se ao quarto da mu- lher, por ser refúgio inviolável, onde o pai não pode entrar. Quando as mulheres tiverem de sair de visita a seus pais vão sempre de cadeirinha fechada e assim procede qualquer mulher por mais comum que seja. Se tiverem de ir a qualquer peregrinação dos seus ídolos, sendo necessário andarem a pé por algum espaço de tempo, velam o rosto. Se viajarem em barco com seus pais e parentes (como precisamente vi, uma vez, mais de duzentas juntas, na ocasião, também, duma pe- regrinação) passam umas diantes doutros sem dizerem uma palavra. Os chineses sabem, perfeitamente, que com respeito a mulheres, um orifício por mais pequeno que se faça para conversar é uma porta amplíssima que se abre para o perigo. Isto que poderia parecer rigor é transformado em suavidade, pelo hábito, que tudo aplana tanto para o sossego como para a paz e concórdia. Todavia, como a China se dilata tão extensamente, este costume não é igualmente observado em todas as regiões, pois, como já dissemos, as mulheres do povo saem, tal como é costume entre nós, mas as de classe elevada vivem sempre de conformidade com este estilo de recolhimento. 72
CAPÍTULO VI Da língua e letras A língua falada na China é de tão remota antiguidade que muitos julgam ser ela uma das setenta e duas da Torre de Babilónia. Consta, pelo menos, nos seus livros, que há mais de 3.700 anos que está em uso. É variada porque são diversos os reinos que, actualmente, fazem parte desta coroa e que não lhe pertenciam, pois, estavam na posse de bárbaros como todas as províncias austrais e algumas setentrionais. Apesar disso, a língua chinesa vem a ser só uma a que cha- mam quonhoa1 ou língua de mandarins porque estes, ao mesmo tempo que introduziam o seu governo noutros reinos introduziam, também, a sua língua, que hoje é falada em todo o país como o latim, em toda a Europa e, apesar de ser mais universal, no entanto, cada uma das regiões conserva sempre o seu próprio idioma. A língua chinesa é, porém, muito restrita e assim como na abundância de letras sobreleva a todas é, também, a me- nos opulenta, devido à escassez de vocábulos de que dispõe, pelo que fica a grande distância doutras, pois não tem, ao todo, mais de 326 vocábulos e 1.228 palavras que, na realida- de, são as mesmas, variando apenas na entoação e aspiração. 1 ISIS kún-uá [kuan-huá, dialecto mandarim ou pequinense) 73
PE. Alvaro semedo Quase todas acabam em vogal e as poucas que não ter- minam em vogal acabam em m ou n. São todas monossilábicas e indeclináveis, tanto os verbos como os no- mes, mas tão adequadas ao seu uso que, muitas vezes, o ver- bo serve de nome e o nome de verbo e ainda de advérbio se assim for preciso, o que para estudo, torna esta língua mais fácil que a latina, cuja gramática só, nos leva os anos da ju- ventude. A brevidade desta língua torna-a equívoca e, pelo mesmo motivo, concisa. Isto que para alguns seria aborreci- mento, apraz muito aos chineses, que estimam, extraordina- riamente, a brevidade no falar, sendo assim sequazes ou adeptos dos lacedemónios. Os sons são mais suaves que ásperos e, quando se fala com perfeição, como geralmente se ouve em Nankim, agrada ao ouvido. Para exprimirem alguma coisa com respeito e humilda- de, ou para elogiarem o mérito de alguém, empregam nume- rosos e excelentes termos, sendo tudo isto propriedade do nosso falar português. Por esta língua ser assim limitada é tão suave que quase supera todas as outras que conhecemos. Entre nós, para exprimirmos o modo de pegar uma coisa, ou com toda a mão ou apenas com certos dedos, temos sempre de repetir o verbo pegar, mas entre eles não, pois, cada pala- vra representa já tanto o verbo como a maneira de pegar. As- sim, nien significa pegar com dois dedos; teó2 pegar com de- dos; chuá, com toda a mão até baixo; e tchie,4 com a mão aberta até cima. O mesmo acontece com o verbo estar. Assim, nós dize- mos está comendo ou está dormindo. Os chineses têm, po- rém, palavras que, por si só, exprimem já a ideia de estar bem como do modo como se está. Para nos referirmos ao pé do homem, da ave ou doutro animal, temos de especificar sempre o vocábulo pé, ao passo que os chineses exprimem com uma só palavra, como kio,5 't&nim (niem) pegar 2 IS (?) tch 'ôi (tchú) tomar 3 fé tchá (c/ia), pegar 4 fê tchip (tchié), receber 5 IP kèok (tchiáo) pé 74
DO ESTADO TEMPORAL DA CHINA pé humano, chuá,1 pé de ave, e thi,2 pata de qualquer animal. Na escrita, o estilo é muito diferente, não obstante as palavras serem as mesmas. Assim, em pegando no pincel é necessário levantá-lo, imediatamente, e será objecto de riso se se escrever aquilo que se diz na conversa vulgar, motivo por que, quando lêem, discursam, discorrem e persuadem, quer pública quer particularmente, exercitam-se, primeira- mente, com o pincel. Os caracteres que empregam parecem ser tão antigos como a própria gente porque, segundo as suas memórias his- tóricas, conhecem-nos desde há mais de 3.700 anos até este de 1640, em que escrevemos esta Relação. Ouso dizer que isto é das coisas mais maravilhosas des- te reino, pois não obstante serem esses caracteres numero- sos, quase todos os conhecem um pouco, pelo menos, o sufi- ciente para o exercício dos seus misteres e, com serem pecu- liares da China, são também comuns aos reinos circunvizinhos, dando-lhes, porém, cada um, os sons da sua própria língua, tal como fazemos nós com os algarismos dos números e com os nomes dos astros, que são os mesmos em todas as línguas europeias, sendo, porém, enunciados com diferente pronunciação. Isto é muito conveniente para as embaixadas, documentos e livros, pois que, não obstante a existência de reinos com línguas diversas são comuns e com- preendidos por todos como se estivessem escritos na língua particular de cada um. Dizem que o autor dessas letras foi Fohi,3 um dos seus primeiros reis. Ao princípio eram menos, mais simples e, de certo modo, semelhantes às coisas, que com elas se enuncia- vam, pois que aquela que se pronuncia ge4 e quer significar sol, se escrevia com um círculo e uma linha diametral. De- pois variaram-lhe a forma, alterando o círculo para um quase quadrado com o mesmo traço e continuando a significar, do 1 /Tl tcháu (tcháu) garra t'âi (t'i ) pata 3 Fôk-hei (Fu-ei) 2852 A.C. 4 Biâf (jih) sol 75
PE. Alvaro semedo mesmo modo sol.. Com essas variações vieram a compor qua- tro espécies de letras. A primeira é antiga, encontrando-se ainda nos seus arquivos. E compreendida por todos os letra- dos, se bem que já não seja usada, a não ser para alguns títu- los e selos, que empregam em vez de brasões. A segunda, conhecida por chincu é a mais corrente tanto nos manuscri- tos como na impressão. A terceira, a que dão o nome de taipie, corresponde à nossa cursiva dos notários públicos, sendo, porém, pouco usada a não ser em documentos, le- ques, dísticos e coisas semelhantes. A quarta é tão diferente das outras, tanto pelas abreviaturas, que são numerosas, como pelos diferentes rasgos, que torna necessário um estu- do especial para as aprender. A palavra sie,1 que significa agradecer, escreve-se de três maneiras muito dessemelhantes. Existem 60.000 letras registadas no seu vocabulário chamado Haipien, que bem pode chamar-se Mare magnum. Têm outros mais resumidos, porque, para ler, escrever, com- por e compreender muito bem, bastam 8 a 10.000 e, se topam com alguma das que chamam letra fria, recorrem ao vocabu- lário, tal como procedemos com qualquer palavra latina que não percebemos. Donde se conclui, evidentemente, que ali não é mais letrado aquele que conheça mais letras como não é cá aquele que esteja mais exercitado no Calepino.2 Para formarem toda esta multidão de letras empregam apenas nove rasgos. Porém, como estes não bastam para um tão grande sistema, foram juntando sinais ou letras já perfei- tas e significativas, umas às outras, com as quais formaram outras diferentes e de significação diversa. Assim, este traço — significa um; atravessado por um outro em cruz ~h4, signi- fica dez; colocando um outro, transversalmente, e na extre- 1D) tché (hsié) agradecer 2 Ambrósio Calepino, sábio religioso italiano que nasceu em Bérgamo (1435-1511). Foi autor dum dicionário latino-italiano, donde veio o nome de calepino dado a um livro de lembranças ou caderno de notas. 3 — iât (yi), um " Tsóp (xi), dez 76
DO ESTADO TEMPORAL DA CHINA midade inferior significa terra;1 traçando outra linha em cima, na extremidade superior,2 significa rei; acrescentando- lhe um ponto à direita, entre a primeira e a segunda extremi- dades,3 significa pedra preciosa; e se pusermos diante certas outras linhas,4 significa pérola. Aquela figurará em todas as letras que representem pedras preciosas ou semi-preciosas, da mesma forma que todas as letras respeitantes a árvores hão-de ter consigo a que significa madeira, e a de metal, as que significam ferro, cobre e aço. Isto, porém, não é uma re- gra infalível. Tomaram também em conta, na composição das letras, as significações. Assim o símbolo quase quadrado, que disse- mos atrás que significava o sol, junto a outro, pouco diferen- te, que significa a lua, se chama min5 e representa claridade. Um, que se assemelha com uma cancela, chamado mun e significa porta, e outro, que significa coração,' que, de certo modo, imita, colocados entre as duas linhas perpendiculares que formam a cancela,8 significa aflição, tristeza, isto é, o co- ração entre a angústia das portas, e todos os caracteres que exprimem tristeza trarão consigo a letra que representa o co- ração. Aqueles que escrevem bem são tidos em grande estima. Dão tão grande apreço a uma boa caligrafia como a uma boa pintura e não hesitam em dar muito dinheiro por quadros de letras antigas bem formadas. As letras, além de estimadas, são reverenciadas, pois que não toleram ver no chão um papel escrito. Apanham-no, imediatamente e, nas escolas para rapazes, vê-se um lugar destinado a guardá-lo, para ser queimado em tempo devido, *;htou(t'ii ), terra 2 EEuóng (uáng), rei 3 31 (iú), jade, pedra preciosa 4$c tchti [tchu), pérola 5HJ] meng (meng), claridade 'Plmun (môii), porta 1 'ú sâm (s/n), coração mun (mân), tristeza 77
PE. ÁLVARO SEMEDO não por religião como fazem os turcos mas, somente, por res- peito às letras. A maneira de escrever é de cima para baixo e da direita para a esquerda como os hebreus e todos os orientais. Já se utilizaram de cascas de algumas árvores, para pa- pel, como nas outras nações. Para estilete ou caneta serviam- se de certas hastes de ferro com as quais iam gravando, des- tramente, as letras. Escreviam, também, muitas coisas em lâ- minas e vasos de metais fundidos, dos quais restam, ainda hoje, alguns com não pouca estima dos seus donos e de quem os admira. Desde há 1.800 anos que se servem da invenção do papel. Este é de tantas espécies e em tão grande abundân- cia que me vou persuadindo que só a China ultrapassa nisto o resto do mundo e, quanto à sua boa qualidade, não há país nenhum que a sobreleve. O mais abundante e o mais usado nas impressões é fabricado com a polpa de uma árvore, que na índia se chama bambu e os chineses cio,1 sendo produzido da mesma forma que o nosso. O melhor e o mais branco é feito de trapos e também de algodão. Em vez de penas servem-se de pincéis feitos de pelos de vários animais. Os melhores são feitos de pelos de lebre. São mais macios e mais cómodos para escrever do que as penas. Os ordinários custam de três a cinco ceitis cada um, mas os de qualidade superior chegam a custar um júlio. Os tinteiros são de pedra de vários feitios, redondos ou quadrados, sendo na sua maioria lavrados com perfeição e geralmente de pou- co custo. Há-os, também, de vinte a trinta escudos. Dilui-se neles a tinta que é feita em pães pequenos e rijos. A melhor é de fumo de óleo, que escolhem com artifício. A vulgar vende- se por pouco preço; a razoável por um escudo e quinze júlios a libra; e a de qualidade superior, dez a vinte escudos. Os artistas que a fazem não são considerados operários, tão no- bre julgam esta arte. Empregam, também, a tinta encarnada, principalmente, nas anotações de livros e, algumas vezes, mas poucas, escrevem com ela. Procuram ter todos estes ob- jectos dos mais preciosos, bem acabados e perfeitos, com o "Yítchôk(tch'u ), bambu 78
DO ESTADO TEMPORAL DA CHINA mesmo apreço que, entre nós, tem o mais meticuloso capitão ou soldado pelo uso das suas armas. Na impressão parece que a China ocupa o primeiro lu- gar, porque, conforme os seus livros, fazem uso dela, desde o ano 1600. Não procedem, como dissemos atrás, da mesma forma como entre nós. As suas letras são gravadas em tábuas. Indica o autor do livro o formato que deseja, grande, pequeno ou médio, ou, para melhor dizer, entrega a sua obra em ma- nuscrito ao gravador, que faz as tábuas do tamanho das fo- lhas que lhe entregam e, coladas estas sobre as tábuas volta- das do avesso, vai o mesmo entalhando as letras que encon- tra, com enorme facilidade e exactidão e sem qualquer emba- raço, porquanto grava as letras não numa e noutra página do papel como se usa entre nós, mas numa só. O facto de os seus livros parecerem que estão impressos em ambas as páginas duma folha provém de a parte em branco ficar do lado de dentro da dobra. Procedem da mesma forma com blocos de pedra, com a diferença de que, ao imprimir-se, fica negro o papel e bran- cos os caracteres, porque passa-se a tinta sobre a superfície da pedra, a qual não preenche o entalho. Este último proces- so de imprimir é empregado somente na reprodução de epitá- fios, pinturas, árvores, montanhas e coisas semelhantes das quais pretendem deixar lembrança durável e existem muitas dessas reproduções. As pedras empregadas para este fim são precisamente adequadas e especiais. As impressões feitas com madeira são, porém, melhores. Qualquer obra que se imprima (e faz-se em grande número) fica sempre com a gra- vação completa nas tábuas, para se poder imprimir, nova- mente, todas as vezes que se deseje, sem nova despesa de composição como acontece com as nossas impressões. Cada um imprime aquilo que lhe apraz, sem necessidade de vistos, censuras ou de qualquer licença e Gom tão pouca despesa que, por cada cento de letras gravadas de modo tão perfeito como se disse, se não dão mais que dezoito ceitis, não obstante todas essas letras constarem de muitos traços. 79
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CAPÍTULO VII Do modo de estudar, escrever e ser admitido ao exame Os chineses dedicam-se ao estudo, desde idade muito tenra. Para os principais existem alguns livros simples com textos respeitantes às virtudes, bons costumes e obediência aos pais e às pessoas idosas, e outros assuntos semelhantes. Passados poucos meses dão-lhes obras dos clássicos, que es- tudam de cor, texto e glosa juntos, como se fossem a Avé Maria. Vêm depois as explicações do mestre. As lições são, igualmente reproduzidas de cor pelos alunos e de costas vol- tadas para o professor e, assim que chegam à banca deste, deixam lá ficar o livro aberto. E por este método que dão as lições, não sendo usado entre eles outro a não ser este de poixu,1 que quer dizer "voltar as costas ao livro". Procedem assim para que se não socorram com os olhos da ajuda do compêndio. Estudam com tanto rigor, mesmo os mais peque- nos, que a ninguém é permitido qualquer entretenimento ou recreio. » Escrevem todos os dias qualquer coisa. Colocam o mo- delo dado pelo mestre, debaixo do papel, tal como fazemos com a pauta falsa e, como o papel é fino e transparente, pui-sii (pei-xu), de costas voltadas para o livro 81
PE. ÁLVARO SEMEDO vêem-se as letras, de forma que o rapaz que anda a aprender, vai facilmente decalcando as letras que vê. Depois de exerci- tar alguns dias, fica o aluno com a mão ajeitada ao estilo do mestre, que vai desta forma arremedando. Por isso, depois de praticar este exercício durante algum tempo, escreve uma li- nha, sobre o modelo sotoposto do mestre e outra, na parte em branco, que lhe fica ao lado, pois, como dissemos, as linhas são dispostas de alto a baixo, até que, imitando já bem o mo- delo do mestre, deixa de escrever sobre ele. Finalmente, es- forçam-se imenso por conseguirem boa mão na escrita, por- que, nos exames, onde não se copiam composições, basta verem letra malfeita para reprovarem sem lerem. Na verdade não se convencem que possa haver quem, sabendo muito, escreva e leia mal, se bem que haja exemplos ao contrário, pois dizem que o excelente doutor Navarro escrevia mal e o nosso Bartolomeu Filipe, homem singular, de tal forma, que, com dor universal dos doutos, se perderam as suas doutíssimas obras, por não haver quem as soubesse ler, sen- do elas muitas, diversas e admiráveis, como atestam as que conseguiram escapar deste perniciosíssimo caos. Ora os chineses, depois de terem aprendido tão grande quantidade de letras e de adquirirem conhecimento dos li- vros, são industriados nas regras de composição. Entregam- lhes, primeiramente, algumas desordenadas para as irem pondo em ordem, depois abreviadas, e, na devida ocasião, apenas o ponto ou tema, como se faz nos exames. E, como de três em três anos se imprimem as composições daqueles que tomaram grau, exercitam-se muito com elas, decorando-as quanto podem. Não têm universidades onde estudem juntos, porém, to- dos aqueles que podem tomam mestre para ensinar em casa os seus filhos, tendo às vezes dois, se as idades destes foram muito diferentes. Os mestres acompanham-nos sem inter- rupção e ensinam-nos não somente as letras e as ciências como também tudo quanto diga respeito à polícia civil, bons costumes morais e a forma de se proceder em todas as coisas. Tratando-se de gente de categoria, o aluno nunca sai sem o seu mestre, que serve para o instruir nas cerimónias e boas maneiras, particularmente, nas visitas, onde, por serem 82
DO ESTADO TEMPORAL DA CHINA actos de cerimónia em que são muito exigentes, é coisa fácil de errar se o mestre o não ajudar. E não há dúvida que este modo é o mais honesto para a reputação, mais estável para o estudo e menos sujeito a conversas e companhias venenosas, muito férteis de costumes que destroem o decoro dum cava- lheiro e ainda mais na China, onde quem gozar de má fama nisso, não pode ser admitido ao exame. Para os rapazes há muitas escolas, porém, só para a gen- te ordinária. Há também boas escolas, onde os mestres não recebem mais que os que são suficientes, para que os alunos não fujam como se não tivessem vindo, conforme sucede na Europa, onde cada mestre se esforça por ter muitos, a fim de obter mais proventos, em vez de se comunicar com todos para melhor os ensinar, porque, no fim de contas, um ho- mem, por mais hábil que seja, é somente um, donde resulta conhecerem alguns a escola sem que esta os conheça. Tal dano é evitado na China. Cada um aceita o cargo que pode de- sempenhar e assim o mestre aceita tantos alunos quantos consi- ga ensiná-los bem. Acompanha-os com gravidade todo o dia e eles não se afastam do mestre senão para comer e, se alguns dos alunos moram longe, trazem-lhes de comer para a escola. Os dias de férias são somente quinze; na entrada do ano novo e alguns poucos, na quinta e sétima lua. E como não têm dias de guarda, todo o resto do ano é uma aplicação ininterrupta ao estudo, tão grande é o conhecimento que têm de que é necessário trabalhar para saber. E, na verdade, é coi- sa raríssima ter alguém fama de douto sem muita fadiga. Quando já são mais crescidos e tenham saído desses ru- dimentos, não podendo os seus pais dar-lhes mestres parti- culares, juntam-se alguns parentes e vizinhos para contrata- rem um mestre, que come cada dia em casa de cada um, co- brando, porém, de todos o salário, que não é muito, sendo, mais ou menos, conforme as terras, com o que vem a ter, por ano, dez a vinte escudos, aos quais se acrescentam os mimos e dádivas que recebe em dias de festa e que corresponde aos nossos presentes de Natal, tais como meias, calçados e coisas semelhantes. O comer, se bem que seja em casa de pessoas muito gra- ves, há-de ser com o pai do aluno ou, quando menos, com o 83
PE. ÁLVARO SEMEDO próprio aluno. Muitas vezes os alunos não estudam em casa dos pais, havendo outras excelentes para o estudo, ou dentro ou fora da cidade, mas não longe; e, quando podem fogem das suas, sabendo bem que a multidão de gente e o respeito pelo estado da casa são inimigos capitais do estudo, donde resulta, noutros reinos, ficarem muitos filhos de nobres e se- nhores grandíssimos ignorantes, como se a maior grandeza não consistisse no maior saber. São inumeráveis os mestres vulgares porque como são muitos os que pretendem o grau e poucos os que conseguem alcançá-lo, adoptam a maioria a profissão de mestres de forma que as aulas do ano vindouro têm de ser contratadas no princí- pio do decorrente. Porém, nas casas principais, geralmente, só são mestres os graduados em bacharéis que, continuam entre- tanto, estudando e pretendendo outro grau mais elevado. Depois de terem conseguido o grau, não obstante ser apenas de bacharel, deixam de reconhecer mais mestres. For- mam, então, entre eles umas espécies de academias, onde se reúnem, algumas vezes, cada mês. Um deles abre um livro e apresenta um ponto, que é composto por todos, conferindo, depois, entre si, as suas composições. Se bem que não tenham universidades e escolas parti- culares, têm-nas todavia gerais, espaçosíssimas e sumptuo- sas, com todos os petrechos e equipamentos para os exami- nadores e examinados, os quais formam uma multidão admi- rável. São as que existem nas cidades e vilas, pois as que são próprias e excelentes encontram-se nas metrópoles das pro- víncias, onde se fazem os exames dos licenciados. Estas estão instaladas em edifícios de grandeza proporcionada à multi- dão de gente que concorre a esses exames. A disposição de quase todas é a mesma. As de Cantão não são grandes, pois que nesta província não dão grau senão a 80 indivíduos, ao passo que noutras se confere a 100 até 115, o que constitui grande diferença. Todo o edifício é rodeado de uma muralha e, para o sul, existe uma grande e sumptuosa porta, que fica à testa duma ampla rua, para a gente que ali se junta. Tem de largura 150 passos geométricos de cinco pés. Não existem ali casas, mas apenas alpendres com bancos para capitães e soldados, que 84
DO ESTADO TEMPORAL DA CHINA têm de estar presentes, durante todo o tempo do exame, para fazerem guarda. Na primeira entrada aparece um grande pá- tio, onde se encontram os mandarins de primeira categoria com gente de guarda na parte interna. Segue-se, imediata- mente, um outro muro com uma porta, que, tal como nas nossas igrejas, se abre e fecha em duas peças, por não ser conveniente abri-la toda. Estando aberta, vê-se um grande espaço e nele um tanque de água, que vai dum lado a outro, sendo atravessado por uma ponte de pedra de arquitectura perfeita e que termina numa outra entrada, cuja porta é guar- dada por capitães, que não deixam entrar ou sair pessoa algu- ma sem ordem expressa dos oficiais. Sucede-se a esta porta um outro espaço enorme; tendo dum e doutro lado casinhotos para os examinandos, situados a oeste e a leste. Cada fileira tem cerca de 150 casinhotos, com três palmos e meio de largura cada um e quatro e meio de comprimento. A sua altura é da estatura de um homem. São cobertos por um terraço, em vez de telhas, tendo, em cada um, duas tábuas, uma fixa para servir de banco e outra móvel para mesa de escrever. Esta, depois de ter sido usada para escrever, serve, a seu tempo, para nela se tomarem as refeições. Entra-se nesses casinhotos e sai-se por uma ruazinha tão estreita que não cabe mais de uma pessoa e, mesmo assim, muito incomoda- mente. As portas desses casinhotos duma fileira dão para o tardoz doutros. Na ocasião dos exames, encontra-se um soldado em cada um dos casinhotos, assentado por baixo da mesazinha, para guardar e servir o examinando e dizem que com um pau entalado na boca para que não fale e incomode, porquanto se tal remédio estivesse ao seu arbítrio não é crível que cumpra inteiramente a sua obrigação. Na extremidade daquela larga rua de que falámos, er- gue-se, sobre quatro arcos, uma torre com balaustradas exte- riores por todos os lados, tendo, dentro, um salão, onde se encontram algumas autoridades e pessoas de respeito, que ali estão para darem conta do que se passa em todos os casinhotos que lhe ficam diante dos olhos. Nos quatro ângulos, têm quatro torreões com os seus si- nos ou tambores, que são tocados se houver qualquer novida- 85
PE. Alvaro semedo de ou desordem, para que apareçam aqueles a quem compete aparecer. Seguem-se a esta torre outros edifícios com uma sala maior, guarnecida de bancos, mesas e todos outros equi- pamentos necessários para o fim que nela se efectua, que é a primeira mão ou o primeiro exame de composições, ao qual assistem as autoridades mais ordinárias, que ocupam aque- les assentos. Entrando nesta estância, pelas portas que dão para o norte, encontra-se um pátio e, a seguir, outra sala da mesma forma, sendo, porém, os seus adornos mais preciosos e desti- nando-se ao presidente e às autoridades mais importantes. Seguem-se, igualmente, outros aposentos para estas mesmas personagens e para todas as outras autoridades e examinado- res. Cada aposento tem uma sala com mesas e assentos, para conversar e comer; um compartimento com cama coberta com o seu docel de seda e outras peças de mobí- lia caseira feitas para o fim a que se destinam. Tem ainda um pátio com quintalinhos e árvores pequenas, que está ligado a outras vivendas mais pequenas, para notários, secretários, pagens e outras autoridades e suas famílias. Há além disso compartimentos para mandarins e minis- tros inferiores e outros comuns para a multidão restante, estando, porém, tudo bem disposto e maravilhosamente bem ordenado. Antigamente não se admitiam os cavalheiros e pa- rentes do rei, em qualquer espécie de cargo, nem aos exa- mes, aqueles que estudavam para se graduarem. De vinte anos para cá, após muitas instâncias suas e oposições dos mais, concedeu-se-lhes o privilégio de serem admitidos a todos os exames, sendo obrigação dos examinadores dar o grau a alguns mas poucos. Admite-se nos exames toda a gente do povo de qualquer espécie e ocupação que seja, excepto os infamados como são os criados dos mandarins, não os da sua casa mas os que servem nos tribunais, os esbirros, os farfantes, os verdugos e os guardiões de mu- lheres públicas, chamados vamos. Não são similarmente admitidos os tachados de maus costumes enquanto não constar a sua emenda. 86
DO ESTADO TEMPORAL DA CHINA São três os graus: sieucai,1 kiugin,2 e cinfu3 e, para com- preendermos, podemos dizer que a seu modo correspondem aos nossos de bacharéis, licenciados e doutores. Cada um tem as suas insígnias adequadas. Dos simples estudantes sem graus não se faz caso nem têm qualquer privilégio senão o de serem tratados como nobres e assim os respeita o povo •como lustre das suas terras, tão estimado é o saber entre eles, que sabem apreciar aqueles que merecem a verdadeira esti- ma. sâu-tch'ói (siu-tch'ái ), bacharel 2 íPÀkói-iân (ichu-jên), licenciado 3iS± tchân-si (tchin-xi), doutor 87
CAPÍTULO VIII Como se fazem os exames e se conferem os graus É curioso o modo como entre essa gente se fazem os exa- mes. É necessário supor que esses exames, desde o primeiro dos simples estudantes até ao último dos doutores, são a coi- sa de maior importância desse reino, porque deles dependem os graus; destes, os cargos públicos; e, dos cargos públicos, as honrarias e os proventos, único objectivo almejado com suma atenção pelos mortais. Comecemos do princípio, isto é, desde os que prestam os meros ou simples estudantes. Antes de se realizarem os exames divulga-se a notícia de que eles se vão efectuar até que, por fim, tornam pública a sua realização, pois, como os graus que se dão são poucos e muitos os concorrentes, não convém admitir tão grande mul- tidão no exame para cancelários e, para que não sejam admi- tidos, juntamente, os aptos e os inaptos, há ordem na provín- cia para que se habilitem aqueles que hão-de lograr a admis- são, em dois exames preliminares, na cidade ou na vila. Des- te modo, cada magistrado, na sua povoação, anuncia, publi- camente, a realização dos exames e marca um dia para se reunirem os estudantes do seu distrito e, como, às vezes, o lugar geral da universidade não é suficiente para reunir nele tanta gente, enchem o campo de bancos e mesas e ali se habi- litam para os exames. O magistrado dá o ponto sobre o qual 89
PE. Alvaro semedo os examinandos hão-de compor e as provas principiam a ser prestadas, pela manhã, podendo durar até à tarde. Fazem so- mente uma composição e à medida que vão acabando vão-na entregando à autoridade própria que, depois de todas juntas, examina-ás, demoradamente e com diligência. Escolhidas as melhores, os nomes dos seus autores são inscritos numa lista que é afixada na parede do palácio do magistrado e é por ela que se vem a saber aqueles que ficaram habilitados a prestar exame supremo. A esta habilitação se chama "ter o nome na vila". Os que não estão mencionados nesta lista regressam a suas casas. O magistrado leva, pessoalmente, ao governador da ci- dade, as composições que mereceram aprovação e assim pro- cedem todos os magistrados do país, cada um na sua jurisdi- ção e nas vilas de cada cidade, pois, cada cidade se divide em duas vilas com os seus magistrados particulares, além do go- vernador da cidade. Estando juntos todos os estudantes já habilitados das vizinhanças, entram estes, no lugar geral da cidade, para serem novamente examinados pelo seu governa- dor, que lhes dá novo ponto, da mesma forma como se proce- deu na vila, com a diferença de que é feito com maior aten- ção, rigor e vigilância e menos intercessões que, por destorcerem a verdade, se encontram por toda a parte. Destas provas escolhe o governador até duzentas e entrega-as ao cancelário que, submetendo os examinandos, pela terceira vez, à mesma experiência e quase nos mesmos termos, esco- lhe entre 20 e 25, para lhes dar o grau. Joeirados, assim, mui- tos, por esses três crivos e, de cada vez, mais apertadamente, acaba por restar poucos. Ali lhes dão as insígnias, os privilé- gios e as advertências da sujeição em que ficam não somente do cancelário mas ainda dos prefeitos dos quais existem dois em cada cidade e se chamam hioquonisto é, mandarins de ciência. O seu ofício é de espiar o procedimento de cada um e castigar os que se portam mal. Além disso, todas as vezes que desejam, examinam, novamente, podendo-o fazer em parti- cular e fazem-no. 1 háu-kun [tchiau-kuán], autoridade de instrução 90
DO ESTADO TEMPORAL DA CHINA O cancelário é obrigado, por dever do seu cargo, a per- correr toda a província e a convocar, nas cidades, todos os bacharéis antigos e examiná-los, para verificar se estudam ou se entregam a coisas alheias à sua profissão. Premeia os que são aplicados e castiga os ociosos desta forma: reunidos no palácio geral, dá-se-lhes o ponto para a composição, e, uma vez terminada, dividem-se os papéis em cinco decúrias ou classes. Os da primeira recebem louvores e prémios; os da segunda, a mesma coisa ou pouco mais ou menos; os da ter- ceira são passados em silêncio; os da quarta, castigados; e os da quinta, despojados do grau, insígnias e privilégios, fican- do como simples populares, porém, com a faculdade de vol- tarem ao exame. De entre os da primeira seleccionam-se os mais aptos, em número de 40, em cada cidade e 20, em cada vila, e, se bem que não chegue a custar oito escudos cada um, custa ao rei, pelo menos, trezentos mil, em todo o reino. Este trabalho é quase imenso, pois que são 444 cidades e mais de 1.150 vilas. Isto é o que obriga o grau de bacharel, já para o conseguir, já para se sustentar e já para ser reconhecido. Tra- temos agora dos licenciados. O exame destes é feito todos os três anos, na metrópole da província e, no mesmo dia, em todo o reino, que vem a ser a 8.a Lua, a qual recai, geralmente, no fim do nosso mês de Setembro e princípio de Outubro. O exame dura 25 a 30 dias, se bem que os examinados se submetem a ele apenas três dias, isto é, em 9, 12 e 15. Os principais examinadores são as autoridades superiores de toda a província, que têm muitas outras do distrito para aju- dantes, sendo, porém, superentendidos pelo presidente, que sai da corte para ir à sua província. Todos estes são os primei- ros a congregarem-se no palácio geral e, com eles, os seus secretários, escreventes e outra gente de guarda e de serviço, bem como médicos, para o que possa acontecer, pois que, enquanto dura este acto não é permitida a entrada ou a saída a pessoa alguma. Da parte de fora fica um magistrado de vigia, para prover com o que de dentro se pede. Disso só está isento o cancelário, por ser o mestre comum de todos os bacharéis. Alguns são tão infalíveis no seu saber que, em Kiamsi, houve um que, depois 91
PE. ÁLVARO SEMEDO de os examinandos terem ficado encerrados, fez uma lista da- queles que haveriam de alcançar o grau e, tendo-a afixado em público, só errou em 6 dos 115 que foram seleccionados. Encontrando-se já reunidas as autoridades, apresentam- se os examinandos que, nas províncias e nas grandes univer- sidades, excedem 7.000, às nove da manhã, com ordem e não à porfia, como às vezes acontece nos exames de bacharéis com acidentes descompostos e indecorosos e até mortes, como presenciei na cidade de Sumkiam, na província de Nankim e na de Kiamsi. São todos revistados pelo que trazem consigo e por qual- quer papel que encontrem em algum deles o mesmo é excluído. Para que não seja fastidiosa a busca, são todos obrigados a traze- rem o cabelo solto até baixo, as pernas nuas, com sapatos feitos de corda, o fato sem simulações ou pregas de qualquer espécie, ao pescoço os pincéis (já dissemos que são estes as suas canetas) e o tinteiro. Uma vez entrados, recolhem-se àqueles casinhotos de que falámos atrás, cada um no seu, com o tal soldado seu guarda, que fica a seus pés debaixo da banca. Fecham-se, então as portas, dispõe-se a gente da guarda e os soldados, por dentro e por fora, com tanto rigor que, enquanto dura o exame, nin- guém pode passar por aquela rua. Expõem-se, imediatamente, os pontos que o presidente redigira, previamente, com caracteres muito grandes, em tá- buas brancas de charão, as quais são penduradas, publica- mente, nos quatro cantos da encruzilhada dos casinhotos, de forma a poderem ser vistas por cada um dos examinandos do seu próprio cubículo. Os pontos são sete; quatro dos quatro livros do seu filó- sofo,1 sendo estes pontos comuns para todos e três de cada kim,2 ou seja de todas as partes, aplicando-se, porém, cada examinando, apenas numa só. Kôn-Fu-Tchi (Confúcio). 552-480 A.C.. Os quatro livros (Si-su E3 ff) sáo: Discursos e Diálogos; Suprema Educação; Meio Constante; e Mêncio. Ver "As Quatro Obras", tradução directa do chinês, por L. G. Gomes, Macau, 1945. 2 Kun (tchuen), volume ou secção 92
DO ESTADO TEMPORAL DA CHINA Sobre cada ponto o examinando terá de redigir breve, elegante e sentenciosamente, e assim, cada um acaba por fa- zer sete composições com letra muito clara, bem formada e sem abreviaturas. Se emendou nelas qualquer coisa, anota em baixo que, em tal coluna, existe tal emenda. Os examinandos são obrigados a fazer duas cópias, sen- do uma firmada com o seu próprio nome e os apelidos do pai e do avô, acompanhados de um pseudónimo que cada um escolhe, bem como os anos da sua idade. Esta cópia é fecha- da, escrevendo-se, na parte de fora, apenas o pseudónimo. As cópias abertas são imediatamente entregues às autoridades que, para este fim, foram nomeadas e que vão saindo. As fe- chadas são guardadas, segundo a sua ordem numérica, em lugar determinado e as abertas entregues aos escreventes, que as copiam com letra encarnada, para que a própria não seja reconhecida, sendo confiadas aos examinadores que re- partem-nas entre si para verem e examinarem, nos dois dias seguintes, com tão grande rigor, que qualquer erro é motivo de reprovação, dando, assim, com isso, um notável exemplo. De entre as suas letras existe uma chamada md,1 que quer dizer cavalo, sendo composta de uma linha perpendicu- lar, atravessada por outras três, e tendo, por baixo, um traço, que termina com um rabisco semelhante ao nosso S. Nesse rabisco figuram quatro pontos, um seguidos doutros. No caso de se pretender abreviar, são esses pontos substituídos por uma linha. Deste último modo empregou um examinando, na sua composição, que, não obstante estar óptima, só pelo facto de ter deixado de escrever essa letra da primeira forma, o examinador despachou-a com os seguintes dizeres: O cava- lo sem as quatro patas não pode andar. Depois desses dias aparece uma grande lista na parede exterior, a qual contém os nomes daqueles que cometeram qualquer erro nas suas composições, servindo de aviso para que voltem para as suas casas, o que não demoram a cumprir, em parte, por vergonha e, em parte, porque não podem fazer os outros exames que se seguem. 1 íl má (md), cavalo 93
PE. Alvaro semedo Fazem, pela segunda vez, o exame, aos doze do mês e com este se procede da mesma forma que no anterior, com a excepção de que dão apenas três pontos acerca das dúvidas que podem ocorrer em matéria de governação, para compre- enderem o modo como deverão proceder nelas e aconselhar o rei. Também, depois de bem examinadas as composições deste exame, se excluem muitos, dispensando-os do terceiro exame, que é efectuado em quinze do mês, sendo, igualmente, apresen- tados três pontos respeitantes às leis e estatutos do reino. Recolhidas as composições deste último exame, o palá- cio geral é encerrado, durante quinze dias, pouco mais ou menos. Entretanto, as provas são revistas e seleccionadas as melhores, sendo recolhidas somente aquelas que, na realida- de, merecem o grau, as quais são entregues ao presidente, que faz o último escrutínio e as dispõe por ordem, conforme os lugares, por existir grande diferença em serem as primei- ras, tanto por prestígio como para o provimento. Terminada esta última diligência, que é feita com as có- pias das composições, abrem-se, imediatamente, as que esta- vam fechadas, sendo postas de parte para se conferirem os pseudónimos com os nomes dos autores, os quais se vão es- crevendo conforme a sua ordem e classe. Esta lista é exposta aos olhos de incontável gente, que já se encontra esperando, quer pelos filhos ou irmãos, quer pelos parentes ou amigos, quer pelos seus patrões ou parciais ou quer, simplesmente, por gosto de um tal espectáculo. Na ocasião em que esses nomes, escritos de alto a baixo com enormes caracteres, num papel espesso de dois palmos de largura, estão sendo expostos, já se vêem prontos, na par- te de fora fronteira aos portões, tantos quantos cavalos, que deverão servir aqueles que hão-de receber o grau de licenci- ado, trazendo os seus números de primeiro, segundo, etc. e, a cada criado dos que têm cavalo, se vão distribuindo fichas com os nomes dos graduados e os números dos lugares que lhes cabem. Este partem correndo a buscá-los não sendo fá- cil encontrá-los, porque se estão todos escondidos, mas os criados indicam-lhos e pedem gratificações, ficando ao seu serviço, enquanto eles não partem para frequentarem a cor- te. 94
DO ESTADO TEMPORAL DA CHINA Avisados os que alcançaram o grau, vêm todos a cavalo ao palácio geral, segundo a sua ordem, onde o provedor e o ministro da câmara real os estão aguardando com as insígni- as das suas dignidades, barrete, toga, borla e botas, que cal- çam, solenemente, e assim paramentados vão, imediatamen- te, apresentar os seus agradecimentos ao presidente dos exa- mes, que os recebe de pé e os trata já como seus iguais, sendo, porém, ainda seu mestre, pois, eles continuam a ficar-lhe tão dependentes e com respeito tão extraordinário, que é coisa inacreditável. Tudo se encontra desta forma tão de acordo entre eles como se fossem irmãos e, assim, denominam-se irmãos de exame e como tais se respeitam uns aos outros. Seguem-se depois vários cerimónias e a elas vários con- vites feitos pelas autoridades todas juntas. Se bem me recor- do são três, todos esplendorosos, sendo, porém, o terceiro, proveitoso, porque põem, para cada um, três mesas, a primei- ra com vários manjares, a segunda com galinha, caça e outras carnes, mas tudo cru; e a terceira com frutas secas e enviam tudo isso para as suas casas, para que o consumam e gozem a seu prazer. Depois desses indivíduos terem alcançado o grau ficam, imediatamente, importantes, honrados e ainda venerados, e, não sei como, logo ricos. Já não põem mais o pé em terra, pois que, se lhes faltarem cavalos, sobram-lhes as liteiras. E não somente o graduado mas toda a sua família muda de situa- ção, pensando em comprar as vizinhas e erigir palácios. Cau- sará maior admiração a quem souber que muitos vêm das suas terras a pé para estes exames e com o traje, que hão-de usar na cidade, às costas, tendo, talvez, acabado de limpar os dedos do barro com que estavam reparando as suas modestíssimas casas, como vi alguns em Nankim. Acabadas essas solenidades tratam os graduados de pas- sar logo para o corte para se doutorarem e, se quiserem gover- nar, são logo providos. Porém, se aceitam o governo, perdem o direito ao exame de doutor, motivo por que, não há nin- guém que o não faça primeiro e se não forem bem sucedidos e já idosos e quiserem passar à frente, aceitam o cargo, ape- nas com o título de licenciado, sendo raro chegarem a postos mais elevados, se bem que já se tenha visto alcançarem al- 95
PE. Alvaro semedo guns o cargo de vice-rei devido à sua forma de governar. Para esta jornada que fazem à corte dá-se a cada um, da câmara real, oitenta escudos, para ajuda de custo, sendo coi- sa certa, conforme me afirmaram chineses dignos de fé, que todas as despesas juntas, que o rei faz com um novo licencia- do até o pôr na sua corte, montam a mil escudos, o que, para todo o reino, segundo o meu cálculo, perfaz um milhão e meio de escudos. É quanto custa a um príncipe formar ho- mens sapientes e capazes para o governo da sua coroa. É es- tes o prémio que se lhes concede para que aspirem suficiente doutrina. Os que de novo se fazem em todas as províncias, de três em três anos, são pouco mais ou menos mil e quinhentos. Não é isto um grande número relativamente aos que procu- ram alcançar o grau em todos os palácios gerais. No de Can- tão, que é dos mais pequenos, onde não existem mais que 7.050 casinhotos, as composições do primeiro dia montam a 96.148, donde se pode inferir quão admirável é o número dos pretendentes. Dedicamos agora um capítulo particular para o grau superior. 96
CAPÍTULO IX Do grau de doutor O grau de doutor é concedido, somente, na corte, na 2.® Lua do ano, que vem a ser o nosso mês de Março. Procede-se nisso da mesma forma como se observa no do licenciado com a excepção de que as insígnias são diversas e os examinado- res de maior reputação, pois que os examinadores principais são do Colégio Real, que chamam de Hanlin,1 sendo o presi- dente sempre um colao2, a maior dignidade deste império depois do rei, posto que, nesta presidência, se procede de modo diverso, visto que, neste acto os membros do Colégio Real têm voto definitivo, isto é, repartem entre eles as com- posições, depois da primeira selecção e as que tiverem sido escolhidas e aprovadas por eles, ficam aprovadas, de modo que o presidente as não pode reprovar. São admitidos neste exame todos os licenciados do reino, tanto os antigos como os modernos. Antigamente não precedia exame para se habi- litarem porque bastava serem licenciados para serem admiti- dos nos exames de doutores. Porém, como entre as suas com- posições se encontravam muitas com as quais se perdia o tempo sem fruto, motivo porque tornava as composições in- 1 ón Làm Un (Hânlin). 2 fStí Kók-lou (Kó-láu), Alto Secretário do Gabinete. 97
PE. Alvaro semedo capazes não só para o grau de doutor como também para o aspirar, há menos de quinze anos, introduziram-se os exa- mes de habilitação e assim se efectuam, presentemente, re- sultando disso que muitos não são admitidos, com grande vergonha e sentimento, servindo-lhes, porém, de útil lição, para não desperdiçarem o tempo em diversões e banquetes. Neste exame apuram-se 350 examinandos aos quais se conferem o grau. As suas insígnias, com a excepção das bo- tas, que para todos são iguais, diferem muito das dos licenci- ados, tanto no valor como na decoração, tendo a mais uma cinta. Eles servem sempre, no governo que vão conseguindo, e a cinta vai aumentando de preço quanto ao material, à me- dida que eles vão avançando de posto. Recebido o grau e conferidas as insígnias acorrem todos ao palácio real e. numa sala para este efeito preparada, são outra vez examinados com uma só composição, cujo ponto diz respeito ao governo ou provisões que hão-de passar. Antigamente o rei assistia, em pessoa, a este exame, porém, hoje, comparece apenas um colao em seu nome. Concluído o exame passam a outra sala, onde se encon- tra o rei, no seu trono, ao qual os novos doutores fazem, ao entrar, as suas devidas reverências, apresentando-lhe, logo, os colaos os três primeiros classificados. O rei, com as suas próprias mãos, entrega um prémio a cada um e o primeiro a quem dá fica sendo o principal de todos, com um título particular, como também o terão o se- gundo e o terceiro. A aquele chamam-no chuam yuen a este, pham yuen2 e a essoutro thoanboa.1 São de tanto apreço e fama que, depois do exame, em poucos dias não existe, em todo o reino, pessoa alguma que não os conheça por esses títulos e não saiba, ao mesmo tempo, os nomes de seus pais e da sua terra, o que é coisa maravilhosa, num país de tão gran- de vastidão. A honra é tão grande que corresponde à dos nos- sos duques e marqueses, já pelo respeito com que são tidos 1 tchóng-iin (tchuang-iuan). 2fflRip'óng-ngán (peng-ián). 3$c/k t'ám-fá (t'án-huá ). 98
DO ESTADO TEMPORAL DA CHINA em todo o reino como pelos lugares para os quais são nomea- dos para governar, sendo os mesmos que, antigamente, ocu- pavam os senhores, cuja autoridade correspondia, por outro estilo, a esta que está hoje em vigor. Terminadas estas cerimónias, há ainda um outro exa- me, mas voluntário, sendo, todavia, raros os que a ele se sub- metem. Dá-se-lhes um novo ponto; fazem as suas composi- ções e por elas se apuram os que hâo-de ser admitidos no Colégio Real. Escolhem-se, somente, trinta dos melhores e despedem-se cinco que, só pelo facto de terem entrado nesse número, são providos, vantajosamente, com cargos de gover- no. Os vinte e cinco que ficam, para os quais há palácios es- peciais, onde se alojam, passam a ser alunos sob o magistério de um colao que, quase todos os dias, os obriga a fazer com- posições e a exercitar-se em tudo tocante às suas letras e ao governo especulativo. Dura isto até outros exames mediante os quais entram novas pessoas, saindo as velhas, e, pelos seus graus e antiguidade vão alcançando postos mais impor- tantes na corte, pois que, fora dela, a não ser que sejam presi- dentes de exames ou exerçam, por ordem do rei, alguma ocu- pação especial e de pouca duração, não saem nem sequer para vice-reis, por tal cargo ser inferior para eles. Só os que pertencem a este Colégio podem ter acesso à dignidade de colao. Todos os doutores novos são empregados nesse ano se lhes não faltar a idade. Serve para prover tão grande multi- dão de empregos o efectuar nesse mesmo ano uma visita ge- ral a todo o reino o que obriga a pôr fora muitos mandarins velhos que, para os novos, se abrem muitos lugares. Como este grau é de enorme importância são incríveis as visitas, as congratulações, as festas, os presentes, que em tais ocasiões se fazem. As recompensas para a primeira notícia atingem, muitas vezes, duzentos até quinhentos escudos. Sendo no- meado entre os primeiros, isto é, entre os três referidos, os parentes ou amigos fazem erigir, na sua cidade ou vila, arcos triunfais não de madeira revestida de colmo ou cartão mais de mármore puro, sumptuosamente lavrado, lendo-se no frontão o nome do indivíduo a quem são dedicados, o posto que alcançou e o ano de doutoramento. Em suma, o mundo 99
PE. Alvaro semedo no substancial é em toda a parte o mesmo, sendo ilusório pensar que aquele que não for poderoso há-de ser admirado, escutado ou recebido com aplausos, pois, ou o será por zelo à verdade ou por lisonja, com interesse. 100
CAPÍTULO X Dos livros e das ciências dos chineses Das ciências chinesas não se pode falar com muita dis- tinção e clareza, porque, na realidade, os chineses não têm sido tão felizes como Platão, Aristóteles e outros filósofos e sábios que as trataram por suas classes, divisões e títulos. Das muitas ciências e artes liberais, os chineses de nada ou de muito pouco têm tratado; doutras, principalmente, as que dizem respeito ao bom governo, têm escrito e dito superfici- almente. Desde o princípio tiveram sempre em mira encontrar a boa forma de governar. Os seus três primeiros reis Fohi1, Xinum,2 e Hoamti3 entregaram-se, de início, à ciência moral e especulativa, por meio de números místicos, pares e ímpares e doutros símbolos e sinais, dando leis à sua república, que, de mão em mão, foram transmitidas aos reis, que eram os sábios daqueles tempos, e, por meio delas, foram governando o reino até à monarquia de Tchâu,4 que principiou em 1123 anos, antes da vinda do Salvador, ocasião essa em que 1 Fôk Hei (Fu Si), 2852 A.C. Sân Nông (Xen-Nông), 2737 A.C 3 Kit Uóng Tái (Uáng-Ti), 2697 A.C. 4 If Tchâu (Tchâu), 1122-255 A,
PE. ÁLVARO SEMEDO Venvam1 e Chevuam,2 seu filho menor, explicaram esses nú- meros e sinais antigos e fizeram com eles o livro intitulado Yekim,3 dando, ao mesmo tempo, muitos ensinamentos mo- rais e ordens para todo o reino e, seguindo na traça de outros seus filósofos que viviam na Estóica, tiveram sempre grande cuidado no governo e bem comum, até à época de Confúcio, que ordenou cinco livros por eles chamados Ukim,4 que hoje são considerados sagrados, e compôs ainda outros. Das suas sentenças e máximas se fizeram mais. Floresceu este filósofo 150 anos antes da vinda de Cristo.' Era homem de boa índole, muito inclinado à virtude, prudente, sentencioso e amigo do bem comum. Teve muitos discípulos que o seguiam e andava pensando em reformar o mundo, que já, então, estava perdendo aquela sinceridade, veracidade e antigo modo de viver, com a introdução de cos- tumes modernos. E assim governou em vários estados, pois que, quando via que num, se não caminhava conforme os seus ditames e conselhos, passava para outro, o que foi nota- do por muitos outros filósofos daquele tempo, que vendo o mau caminho que as coisas tomavam, se retiraram para as suas terras e fizeram-se lavradores, cultivando eles mesmos, pessoalmente. Passando, uma vez, Confúcio, por uma estra- da e, tendo de atravessar um rio cujo vau desconhecia, man- dou a um seu discípulo perguntar a um homem, que andava lavrando ali próximo e que era filósofo. Desejou este saber quem era que lhe fazia a pergunta e, tendo o homem respon- dido que era discípulo de Confúcio, que estava na carroça à espera da resposta, lhe disse o filósofo-lavrador: Ide em boa hora. Ele sabe bem o caminho e não necessita de guia — que- rendo com isso significar, que Confúcio andava de estado em 1 ££ Mân Uóng (Uen Uáng) 2 Tchâu Kông (Tcheu Kông) Iek Keng [li Keng) * Efé? Ung Keng (U Keng) 5 Nota do editor: Como se sabe, Confúcio terá vivido entre 551 e 479 aC. É erro do autor, como se verifica três parágrafos adiante, quando refere que se "passaram 1800 anos" (o autor escrevia, recorde-se, em 1640). 102
DO ESTADO TEMPORAL DA CHINA estado, à procura de bom governo, numa época imprópria para os filósofos governarem. Este homem caiu, a todos os respeitos, nos tempos sub- sequentes, em tanta graça e apreço dos chineses e tão grande crédito alcançaram os livros que compôs e os ditos e as sen- tenças por ele deixados, que não somente o têm por santo, mestre e doutor do reino como o que dele se cita é estimado como coisa sagrada, além de existir, em todas as cidades do reino, templos, públicos, onde é reverenciado, com muitas cerimónias em dias marcados e, nos anos dos exames, uma das principais cerimónias é irem os novos graduados todos juntos prestar-lhe reverência e reconhecê-lo por mestre. O mais chegado dos seus descendentes tem rendimen- tos adequados e o título de chu heu,x que equivale ao de marquês ou duque. O governador da cidade onde nasceu é, ainda por respeito que se lhe tem e por mercê particular, um membro da sua família. Finalmente, todos os da sua es- tirpe, logo que nascem, gozam de especiais privilégios do rei, sendo respeitados, devido à virtude de Confúcio. Esta usança é ainda hoje observada. Não obstante terem já pas- sado 1.800 anos. Voltando agora aos livros que ele deu à luz:2 o primeiro, chamado Yekim,3 trata da filosofia natural, geração e corrup- ção das coisas; do destino ou prognósticos judiciários, dou- tras coisas e dos princípios naturais, filosofando por meio de números, sinais e símbolos e aplicando tudo à moral e bom governo. O segundo, chamado Xukim,4 é composto de cróni- cas, tratando dos reis da antiguidade e do seu bom governo. O terceiro Xikim,5 de poesia antiga, toda sob metáforas e figu- ras poéticas, disserta sobre as inclinações e a natureza huma- ' SHtíèTchú-háu (lehu-hou). 2 Os clássicos chineses, incluindo toda a obra atribuído a Confúcio, foram Troduzidor para Português pelo Pe. Joaquim A. de Jesus Guerra, S.J., sinólogo recentemente falecidos pelo Instituto Cultural de Macau (Nota do editor) 3 %hMlek Keng [li Keng), Livro de Mutações. 4 lííi Sii Keng (Xu Keng), Livro de História. 5 ffí®S/ Keng [Xi Keng), Livro de Odes. 103
PE. ÁLVARO SEMEDO nas e ainda sobre vários costumes. O quarto, chamado LikimS trata dos ritos e cerimónias civis dos antigos e ainda das coisas referentes ao culto divino e à religião. O quinto, chamado Chumchou,1 trata também da crónica do país e con- tém a narração de exemplos de vários reis da antiguidade, bons e maus, para serem imitados ou evitados. Há ainda mais quatro livros que são de Confúcio e de um outro filósofo, chamado Mensiu3 e assim, nestes nove li- vros, está toda a doutrina física e moral, que todo o reino estuda e donde extraem os pontos que são lidos ou sobre os quais se fazem as composições nos exames do grau. Têm sobre esses livros vários comentários e glosas, que são observados como leis do reino, não se podendo ir contra eles em actos públicos, pois têm a força de texto. Esses nove livros são como que sagrados e neles, nas suas glosas e comentários, se concentra todo o esforço do estudo, sendo sabidos de cor, compreendidos e interpretados com apli- cação à própria pessoa, sobre como se há-de actuar por meio de virtudes, e ao reino, como governar por meio de bons ditames. Sendo os exames muito rigorosos sem que seja permitido levar para eles livros ou qualquer folha de papel, por mais pequena que seja, e, também, porque não é coisa fácil estar bem prepara- do em todos esses livros, o primeiro exame de bacharel é feito, por lei, sobre os últimos quatro livros e o dos licenciados sobre estes e uma das outras cinco matérias, mas o examinando não é obrigado senão a saber uma das que declare conhecer, sendo só sobre esta que se lhe há-de dar o ponto. Falando, agora, mais clara e distintamente acerca dos seus ditos, se bem que nos seus livros não estejam formula- dos com muita clareza e distinção, digo que eles consideram no Universo três coisas: o Céu, a Terra e o Homem. Assim, dividem a sua ciência em três classes, isto é, a do Céu, a da Terra e a do Homem, incluindo, nas duas primeiras, toda a Ciência Natural e, na terceira, a Moral. Na ciência do Céu, tratam do princípio de todas as coi- 1 ifuí® Lâi Keng (Li Keng), Livro de Ritos. 2$%k.Tch'ônTch'âu (Tch'iin Tch'ou ), Anais de Primavera e do Outono. 3 ãtT Mâng Tchi (Meng Tsu), Meneio. 104
DO ESTADO TEMPORAL DA CHINA sas naturais, da produção do Universo e do próprio Homem, das causas universais, gerações e corrupções, elementos, qualidades elementares correspondente aos planetas, movi- mentos e revoluções celestes, as quatro estações, as estrelas e planetas, a astrologia judiciária, os espíritos bons e maus e outras matérias semelhantes. Na ciência da Terra, tratam da variedade que nela se verifica, durante as quatro estações do ano, da produção das coisas e sua diversidade, dos campos, herdades e suas divi- sões com respeito à agricultura, das quatro partes universais e particulares do mundo e suas situações para construção e escolha de cemitérios dos seus defuntos no que têm grandes superstições. Na ciência que trata do Homem, incluem toda a moral e aquilo que o homem espera quanto ao sociável e político, o qual, imitando a ordem, o procedimento e a propriedade do Céu e da Terra, como sendo os pais universais, vive em co- munidade com a observância das suas cinco virtudes morais, que são a Piedade, a Justiça, a Polícia, a Prudência e a Fideli- dade. Tratam ainda das coisas morais e do respeito que têm às cinco classes de pessoas, em que dividem a sua república, isto é, o pai e o filho, o marido e a mulher, o rei e o vassalo, o irmão maior e o menor, e os amigos entre si. Dividem todos os seus tratados morais em duas classes universais: a primeira de moral divina, que só trata de cerimónias, ritos e sacrifícios que se fazem ao céu, terra, pla- netas, partes do mundo, espíritos bons e maus, e do céu, da terra, dos montes e dos rios, espíritos tutelares, almas dos mortos, homens insignes, etc.; a segunda de moral política e civil, que trata dos ritos humanos. Esta divide-se em ética, que regula os costumes e as acções humanas consideradas segundo a própria pessoa; económica, segundo o governo da própria família; e política, segundo o governo da república, bem comum e conservação do reino. O governo da própria pessoa regula o bom governo da família, e o da família, o do reino. Por exemplo o pai que não governa bem a sua casa, como poderá governar a cidade ou a província? E aquele que não sabe corrigir a si mesmo conforme o que deve à sua pes- soa, como poderá regular a sua família? Assim vão lançando 105
PE. ÁLVARO SEMEDO quase que o primeiro fundamento da moralidade nos bons costumes próprios de cada pessoa, donde procedem as famí- lias bem governadas e os governos públicos bem administra- dos. Esta mesma classe da ciência humana compreende ain- da as artes liberais e, de todas as outras que pertencem à pes- soa, família e monarquia, faremos capítulo especial. 106
CAPÍTULO XI Das ciências e, em especial, das artes liberais A Gramática, porta das outras ciências, se a tivéssemos de reduzir aos únicos termos da língua, como a reduziu Cornélio Nepos e outros autores sérios, é pouquíssima apre- ciada pelos chineses, pois como todas as palavras são monossilábicas e indeclináveis não exige muito trabalho a sua composição. Porém, apesar disso, há grande dificuldade na redacção, que consiste na inserção de advérbios e certos termos não significativos. Mas, se devemos alargar a gramáti- ca tanto quanto a alargou Ângelo Policiano, ela é, então, por eles muito apreciada, pois as letras humanas são muito vas- tas, havendo nelas poucas fábulas ou mistérios mas muitas histórias, ditos, sentenças e apogtemas de que se servem para ornamento das composições. Da Lógica ou Dialéctica não têm outras regras senão aquelas que lhes dá a luz da natureza. A Retórica é frequentemente usada por eles, porém, não formulam qualquer regra. Empregam-na a mais das vezes, por via de imitação, observando com a prática aquilo que descobrem de bom noutras composições. A Aritmética é por eles apreciada, sendo perfeita, no to- cante às suas quatro espécies, com demonstrações e figuras, como vi nos seus livros. Da Álgebra, ignoram-na, completa- mente, não tendo grande prática da comum. O processo vul- 107
PE. ÁLVARO SEMEDO gar de contar em todo o reino e ainda nos vizinhos é por meio de um instrumento chamado gina pelos portugueses e suon- puonpelos chineses, isto é, a tábua de contar; é como um quadrozinho, dividido em dez partes com algumas varetas de cobre, cada uma das quais tem enfiadas sete esferas ou con- tas como as da coroa.2 As cinco das de baixo (porque a vareta está dividida em duas partes) representam as unidades e as duas das de cima, das dezenas. Com este instrumento, mo- vendo as contas, efectuam as operações com grande facilida- de e rapidez. Da Geometria conhecem bastante, pois, se bem que, por desconhecimento dos países e reinos mais remotos, não ti- vessem conseguido dividir os seus termos nem distinguir e assinalar bem os confins, têm, porém, muito bem dividido e distinto o seu próprio país, do qual possuem mapas muito perfeitos. Ajunte-se a isto que, antigamente, toda a sua terra se dividia por medidas muito exactas, porque o rei não cobra- va os seus rendimentos como hoje, em que as terras pagam um tanto, mas cada um dividia o seu terreno em dez partes iguais e uma dessas partes, que vinha a ser do meio, era cul- tivada e semeada, em proveito do rei. Ainda agora, na com- pra e venda de terras, as medem, quando é necessário. A medida que usam para isso, como também para medir todas as outras quantidades contínuas, divide-se da seguinte forma: a menor de todas chama-se hufuen,3 que faz três grãos de trigo; dez destas fazem a segunda medida chamada huzun;4 dez huzun fazem um che;5 e dez che fazem a sua maior medida chamada hucham,f' que excede uma braça. Desta medida, que tem-na dividida, perfeitamente, do modo como se disse, se valem todos os oficiais como ainda os alfai- ates para talhar fatos, tomando com ela a medida, como na 1 WIS siin-p'un (suán-páng), ábaco. 2flosário. 3 —fr iat-fân (i-fen). 4—\f iat-tch'ún (i-tch'iin ) s—Riat-tch'èak (i-tchi) 3t iat-tchèong (i-tchâng). 108
DO ESTADO TEMPORAL DA CHINA Europa com o fio. Da mesma se servem os carpinteiros que fazem uma casa, por maior que seja, com todas as suas colu- nas, traves, barrotes, acabamentos, etc., sem, primeiramente, experimentar, onde deverá ficar colocada um pedaço de ma- deira sequer, e só, por meio das suas medidas. Feita a casa em peças, erigem-na logo, em breve tempo, sem errarem um ponto. Medem as distâncias, contando por passos, porém, se- gundo a mesma medida, sendo um passo geométrico equiva- lente a seis che e trezentos passos a um li;1 cem lis, um está- dio ou jornada, de modo que, de norte a sul, parece que 250 lis fazem um grau, porque fazemos para cada légua quinze lis e dezassete léguas para cada grau. Para medirem o grão, arroz, legumes e coisas idênticas, a medida maior é aquela que os portugueses chamam pico e os chineses tan,2 sendo esta subdividida em outras mais pe- quenas. A menor é quanto pode caber na palma duma mão côncova ou funda. Dez destas medidas fazem um xim3 (a do arroz é vulgarmente a ração diária de um homem); dez xim fazem um teu;* e dez teu fazem um tan, que, de peso, vem a ter cem cates que são 125 libras portuguesas de 16 onças cada uma. O terceiro modo de medir, que é por peso, vem a dividir- -se quase da mesma forma. Começam com um háo,5 que é a décima parte da moeda, a que os portugueses chamam caixa, de forma que dez háos são uma caixa ou, propriamente, um li,6 como a denominam os chineses, o qual corresponde a meio júlio; dez lis são um condorim; dez condorins um mas; dez mases um tael; e 16 taéis, um cate, que é a sua libra, porém, de mais valor que a nossa, porque os seus 16 taéis são vinte dos nossos. Cem cates são um pico ou como o chamam um tan. 1S lei [li], 2ítf tám (tán), 60,453 quilogramas. 3 4 seng (xeng), 1,031 litro. 4 4 tâu (ton), 10,31 litros. 5 4 hou (háu). "miei (li) 109
PE. ÁLVARO SEMEDO Para pesarem não empregam a balança com a lingueta mas balanças romanas, tanto para pesos grandes como pe- quenos. Para os grandes não empregam braços de ferro mas de madeira divididos em partes com pontos de cobre amare- lo, ou brancos, de prata viva. Para a prata, oiro, medicamen- tos e coisas semelhantes servem-se de certas balanças peque- nas com um braço de osso branco, dividido por pontos negros. Fazem estas balanças com muita perfeição e de várias maneiras. A média tem três ordens de pontos e três fios para a corda mais próxima do centro; a primeira ordem de pontos ex- prime o peso de três até cinco onças, a segunda, mais fora, pesa até dez onças; e a ultima, vinte. As balanças maiores pesam mais, e menos. As mais pequenas são divididas tão minuscula- mente que, não obstante as dez partes em que se divide um li de prata, não costumam dividir em moedas de cobre das quais so- mente usam em forma e feitio de moedas batidas, mas, no peso da prata, distinguem-no e dividem-no exactamente. Para melhor compreensão há-de-se supor que, em todo o reino da China, excepto na província de Yunnan, não em- pregam outra moeda a não ser a de cobre. A de prata é toda por peso, de modo que, se eu quiser dar um escudo, dou pra- ta equivalente ao peso de um escudo, o mesmo acontecendo com o júlio, o meio-júlio, etc., e, para isso, há infinitos fundidores bem como muitas casas de moedas de prata. Para comprar alguma coisa, particularmente pequena, basta a pra- ta baixa e tão baixa que, em algumas províncias de um júlio fazem oito ou dez e ainda lucram muito. As outras coisas não podem ser compradas senão com a prata fina. Deste modo a pobre prata há-de andar sempre ao fogo. São muito curiosos de toda a Matemática, mas de um modo geral têm poucos conhecimentos dela, não podendo estudá-la para profissão senão as pessoas que se aplicam a este estudo por ordem do rei, existindo apenas duas em todo o reino: uma na corte de Pekim, e outra, na de Nankim, com o aparato e serviço de mandarins e de matemáticos do rei, os quais não ensinam ninguém, a não ser apenas aos seus filhos, que lhes sucedem por gerações. Sabem, moderadamente, tendo, porém, muitos livros antigos desta ciência, não so- mente sobre o curso das estrelas, planetas e outras coisas di- 110
DO ESTADO TEMPORAL DA CHINA versas, mas ainda respeitantes à astrologia e horóscopos, aos quais são muito inclinados. Por meio deles calculam os eclip- ses do sol e da lua e têm mapas das estrelas se não muito perfeitos pelo menos bons. Contam maior número de estrelas que nós. Reconhecem cinco elementos que são a água, o me- tal, o fogo, a madeira e a terra que correlacionam com os cin- co planetas predominantes: a água com Mercúrio, o metal com Vénus, o fogo com Marte, a madeira com Júpiter e a terra com Saturno. São muito observadores dos movimentos do céu, lua e estrelas. Dividem as estações do ano, segundo os equinócios e solstícios e o zodíaco, em vinte e quatro signos, duas vezes mais que o nosso número. Formam o ano com 12 luas e 354 dias, tendo 6 luas de 30 dias e .6 de 29 e, se o ano for bissexto, o que acontece todos os três anos, constará de 13 luas e 383 dias. Principiam o ano com a Lua mais próxima do nosso Fe- vereiro. Das observações do Céu e dos seus movimentos pas- sam para a astrologia, inferindo vários casos das conjunções de planetas e de aparições celestes, que observam meticulo- samente. E se surge alguma aparição ou sinal novo, dirigem logo um memorial ao rei. Para este fim, numa e noutra corte, existe um lugar eminente com vários instrumentos matemá- ticos, ao qual chamam Quon Siam Thai, isto é, lugar para observar as estrelas. Aos de Nankim já me referi quando falei dessa cidade. Em Pekim, os principais instrumentos são uma esfera como a de Nakim com todos os seus círculos, equador, zodíaco, tró- picos, etc., de metal fundido, sendo tudo obra perfeita e um outro instrumento do mesmo tamanho com 24 pés de circun- ferência, dividido em vários círculos, uns fixos e outros mó- veis, tendo no meio um ponteiro com buracos, de onde em onde, para observar as estrelas, calcujar os graus e a elevação do pólo, etc.. Há ali um globo celeste de bronze do mesmo tamanho, dividido em graus, com as suas constelações, das quais usam apenas 28. Tem um ponteiro de bronze muito grande, dividido, proporcionalmente, com o qual medem a sombra das quatro estações do ano, isto é, os equinócios e os solstícios. Existem ainda outros instrumentos móveis de bronze, para vários fins, os quais demonstram bem a curiosi- 111
PE. ÁLVARO SEMEDO dade dos seus antepassados e como estes foram mais inteli- gentes e diligentes. A música foi, antigamente, tão estimada na China que uma das coisas que o seu filósofo Confúcio usava muito, no estado onde governava, era ensinar e cultivar a músi- ca. Hoje, os chineses dizem e lamentam que estejam per- didas as suas verdadeiras regras e quase todos os livros antigos que tratavam delas. Assim, a música que, presen- temente, pratica não é apreciada pela gente nobre, sendo mais empregada no teatro. Há ainda músicos particulares que são chamados para as festas, casamentos, nascimen- tos e coisas semelhantes. Das músicas tocadas nessas oca- siões há algumas que se podem ouvir. Não faltam os que cantam pelas ruas e nos domicílios e, como todos os chi- neses celebram o dia do nascimento, eles sabem de cor todos os dias natalícios das pessoas principais, aparecen- do-lhes nas suas residências sem nunca se enganarem, para cantar. Praticam ainda a música os bonzos, nos ofícios e funerais, cujo canto é muito semelhante ao nosso canto firme, não o tendo em forma, nem firme, nem de órgão, por- que não alteiam nem abaixam a voz de tom ou de semitom, mas alteiam ou abaixam, imediatamente, uma terça, quinta ou oitava, coisa que os chineses gostam muito. Têm 12 tons, 6 para altear, a que chamam hue,1 e seis para abaixar, a que chamam liu.2 Têm, igualmente, notas, en- toando como nós dó, ré, mi, sendo cinco, entrando neles o nosso dó. Para aprenderem música não se servem de sinais ou das junturas das mãos, nem linhas da pauta para compor como acontece connosco. Supõe-se que nas suas consonân- cias não existe música formada de tons diversos. Se bem que cantem muito é tudo uníssono como acontece em quase toda a Ásia. Por isso, a sua música só é agradável aos naturais do país, de forma que o seu melhor género de canto é para uma voz com instrumentos. Eles não gostam da nossa música ple- na mas muito lhes agrada a duma só voz. 1»lát (la). 2 Slui (lú). 112
DO ESTADO TEMPORAL DA CHINA Empregam o compasso ou medida de tempo, mas não sabem dizer quantas diversidades existem e assim, quando cantam canções antigas ou modernas sobre árias antigas, sa- bem os tempos em que hão-de cantar ou fazer pausas. Quanto aos instrumentos dizem que, além da voz hu- mana, existem sete variedades de tons de conformidade com os quais fabricaram os seus instrumentos musicais. Os pri- meiros são de metal, consistindo em sinos, campainhas, guizos, sistros e outros que usam. Os segundos são de pedra. Fazem um instrumento de jade com o feitio dos nossos esquadros, exceptuando a ponta inferior que é muito larga e é tocado estando pendente. Os terceiros são de pele, no qual estão incluídos os tam- bores como os nossos vulgares e os atabales, que fazem de vários formatos, sendo alguns tão grandes que não podem ser tocados senão, quando colocados sobre suportes de madeira. Os quartos são de seda com a qual fazem cordas para ins- trumentos tal como as cordas de tripa dos alaúdes. Dos instru- mentos de corda têm a viola parecida com a nossa, porém, ape- nas com três cordas, sendo o instrumento mais vulgar dos cegos. Usam ainda violino de três cordas com o seu arco. Têm, igual- mente, um outro, com uma só corda que fazem soar da mesma forma como a nossa viola de arco. O maior instrumento que possuem desta espécie tem sete cordas, sendo muito apreciado por eles. Se o executante for destro, tolera-se. Os quintos são de madeira. São feitos com algumas tabuinhas largas que são tocadas conjuntamente e do mesmo modo que os guizos. Têm ainda um pedaço de madeira, que é tocado, muito a compasso, apenas, por bonzos. Os sextos são constituídos por aqueles que soam com a boca como flautas de que têm duas ou três espécies e que tocam excelentemente. Têm também um instrumento como a gaita, do mesmo feitio e proporção que o nosso órgão. É, porém, pequeno e traz-se na mão. Soam-no com a boca, sen- do bela a sua consonância. Ora, todos estes instrumentos são, às vezes, tocados conjuntamente e com arte, produzindo uma bela harmonia. A poesia foi sempre muito apreciada na China. No tem- po em que havia muitos reis feudatários, quando estes vi- 113
PE. Alvaro semedo nham prestar obediência ao imperador, o que acontecia to- dos os três anos, eram obrigados a trazer, cada um, poesias e coplas, que então estavam em voga nos seus reinos, para, por meio deles, se ajuizarem dos seus costumes, pois, na verda- de, parece que muitos deles são revelados nessas composi- ções. Os chineses primam nisso com grande superioridade, porque são muito recatados em tudo quanto escrevem e, rara- mente, se encontram palavras descompostas nos seus versos e, ainda mais, nem tão pouco têm letras para exprimir as par- tes naturais, nem elas se encontram escritas nos seus livros, nem em parte alguma. Têm muita variedade de versos e fazem uso de conso- nâncias, como nos sonetos, romanças, canções e madrigais da Europa. A correspondência da rima é feita, também, no fim de tantos e tantos versos como nos nossos sonetos e oita- vas, havendo nisso muita variedade. Compõem, igualmente, versos, segundo o número de sílabas, a que chamam palavras, visto que, sendo estas, na sua língua, todas monossilábicas, tanto é sílaba como pala- vra, sendo cada palavra representada por uma só letra, que, do mesmo modo, se pronuncia monossilabicamente. Como todas as letras são assim, a quantidade do verso é constituí- da pelo número delas, de modo que, da mesma forma como quem compõe versos de cinco, sete e onze sílabas, assim os chineses compõem, também, os seus, só com cinco, sete e mais letras. Donde resulta que, podendo entre nós, duas pa- lavras e, às vezes, uma só, conter todas as sílabas de um verso, o mesmo não pode acontecer com os chineses, por- que todas as suas palavras são de uma letra monossílaba. Não têm versos que correspondam aos nossos latinos com pés dáctilos ou espondeus, etc., pois, quase todos são como sonetos, canções e outros versos em rima, nos quais empre- gam várias formas e maneiras de compor. Os principais são oito e basta mencionar aqui um, para dar alguma notícia dele. Nesta espécie de poesia os versos têm de ser oito, cada um de cinco letras com a consonância em cada dois versos, desta forma: o primeiro pode tê-la ou não, como bem enten- derem, o segundo há-de, porém, corresponder ao quarto; o 114
DO ESTADO TEMPORAL DA CHINA quinto ao sexto; o sétimo ao oitavo. O terceiro, quinto e séti- mo não têm consonâncias mas as letras hão-de corresponder entre si de modo que os versos que observam juntos a conso- nância hão-de ainda ter as suas letras correspondentes, a pri- meira à primeira, a segunda à segunda, etc.. Esta correspon- dência não consiste na consonância mas na significação, donde, se a primeira letra do segundo verso significa monte, água, fogo ou o que quer que seja, a primeira do quarto há-de, igualmente, significar a mesma coisa, o que se observa, na segunda e nas seguintes letras de todo o verso. É este um modo artificioso mas difícil. Os conceitos dos versos e as figuras com as quais os ex- primem vêm a ser quase os mesmos da nossa Europa. Existe um outro género de verso de menor estima, como acontece com as rimas vulgares, que se empregam em toda a parte. A gente nobre e particularmente os cavaleiros de sangue e pa- rentes do rei são, porém, muito dados aos oito géneros acima referidos dos quais fazem muitas e várias poesias, principal- mente, em louvor dos amigos, de homens insignes, de defun- tos, da virtude, etc.. Na pintura têm mais curiosidade que perfeição. Na arte não sabem empregar a sombra nem o óleo. Pintam, por isso, a figura humana sem graça alguma; mas as árvores, as flores, as aves e coisas semelhantes são pintadas com muita naturali- dade. Actualmente, alguns, industriados pelos nossos, em- pregam o óleo e fazem pinturas perfeitas. A medicina encontra-se em elevadíssimo plano na Chi- na, porque têm bons livros, em abundância e antigos, todos de seus autores e com os quais os nossos não se equiparam. Não extraem o sangue nem empregam ventosas nem usam xaropes, nem purgas e pílulas e tão pouco fazem uso de cautérios, remédio de grande ajuda. São simplicistas, empre- gando somente ervas, raízes, frutas, sementes, etc. tudo seco e, para maior comodidade, aquelas que não existem em algu- mas províncias, procuram-nas em outras, havendo assim fei- ras só de medicamentos; e, nas vilas e cidades, boticas muito bem providas, onde se fornecem, mas, sem serem em frascos nem em vidros. Mais do que ninguém se provêm os médicos visto que eles não passam receitas, pois, ministram os medi- 115
PE. Alvaro semedo camentos aos enfermos que visitam, preparando tudo, du- rante as visitas, motivo por que o médico leva sempre consi- go um moço com a caixa de drogas, que consiste em um escrínio de cinco gavetas, cada uma dividida em mais de quarenta compartimentos, todos providos de medicamentos triturados e preparados. São exímios em conhecer o pulso. Não perguntam ja- mais ao enfermo se lhe dói a cabeça, as costas ou o corpo, etc. Tomam-lhes apenas o pulso de ambos os braços repousados sobre uma almofada ou outra coisa e observam-no, durante um bom pedaço de tempo, dizendo, depois, do que padece o enfermo. Não afirmo que acertem em todas as coisas em qualquer enfermo, nem tão pouco todos os médicos, pois muitos existem que não estudam e sabem pouco, mas os bons e os doutos acertam. Tivemos um padre enfermo na província de Kiamsi com agudas pontadas. O médico com o apalpamento do pulso soube dizer se este aumentava ou fal- tava e todas as mutações e alterações pelas quais passava o enfermo, tendo eu ouvido a vários portugueses confirmarem o mesmo, em outros casos. Tacteado o pulso, compõem, ime- diatamente, o remédio. Se for para o rei ou príncipe fazem quatro composições, duas para lhe darem e duas que conser- vam, todas iguais, em número e quantidade, dos mesmos medicamentos. As duas que conservam são guardadas até que eles de todo se restabeleçam. Para os outros, fazem duas, uma para a manhã e outra para a noite. Escrevem nas recei- tas, em baixo, a quantidade de água com que hão-de cozê-las, como e quando hão-de tomá-las, produzindo, frequentemen- te, essas composições resultados muito eficazes. Direi o que aconteceu com um padre que adoeceu, no cárcere da cidade de Nankim. Desde o começo da enfermida- de que chamaram, imediatamente, um médico e, não vendo efeito nos seus remédios, chamaram um outro e, como os medicamentos do segundo andassem pela mesma via e a en- fermidade piorava, os cristãos procuraram, então, um médi- co de renome, que, não obstante a relutância em vir até um tal lugar, o fez, contudo, a instâncias de muitos rogos. Viu o enfermo, apalpou-lhe o pulso e fez as suas cerimónias ordi- nárias entre as quais lhe descobriu o peito, que estava cheio 116
DO ESTADO TEMPORAL DA CHINA de manchas, sendo em verdade, vermelhidão de febre perni- ciosa. Fez, imediatamente, três composições de remédios. A primeira tomou-a o enfermo pela manhã; a segunda, uma hora depois do meio dia (eram elas uma espécie de pílulas com as quais fez quatro poções); e à noite, tomou a terceira. Apesar disso o mal ia aumentando e o padre viu-se em tais apuros, nessa noite, que perdeu a palavra e todos julga- vam que morreria. Seja lá como for, o enfermo chegou à manhã seguinte, melhorando de tal forma que, vindo o médi- co e tomando-lhe o pulso, o encontrou sem febre e disse que estava são e que tivesse apenas cuidado em comer, modera- damente, durante a convalescença. E assim foi, porque o pa- dre, em breve, se refez completamente. Não proíbem a água, porém, ela há-de ser cozida, quan- do não tomam o chá. Proíbem também o comer, de modo que, se o enfermo tiver fome não instam que coma. Dizem que, estando o corpo enfermo, o estômago não executa bem a sua função e assim a concocção, que, então, se faz, é toda maligna contra a saúde. Pelas suas visitas são pagos com re- muneração muito moderada. Não voltam se não os chamam, ficando assim os enfermos com a liberdade de mudarem de médico e chamarem outros, como muitas vezes sucede, no caso de, até ao terceiro e quarto dias, não verem efeito com os remédios tomados. 117
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CAPÍTULO XII Da cortesia dos chineses Entre os chineses o descobrir a cabeça e o arrastar os pés não são, de forma alguma, apreciados como cortesia. São an- tes contra este costume de uma pessoa descobrir a cabeça; mas o curvar o corpo e a cabeça, quando mais se não possa fazer, têm-no por termo de boa cortesia. Falando dum modo geral, as suas cortesias são, primeiramente, profundas mesuras até ao chão, sendo esta a que usam, ordinariamente nos encontros e visitas. Chamam-na ye ou coye. Em segundo lugar executam esta mesma reverência, pondo-se acto contínuo de joelhos e, nesta atitude, fazem a mesma mesura, curvando a cabeça até ao chão. Em alguns casos tornam a levantar-se e repe- tem a mesma cerimónia, pelo menos três vezes, sendo esta a cortesia menor; quatro, para a comum, e nove, o mais a que se é obrigado, só se executa para com o rei. Algumas vezes abrevi- am-na fazendo a primeira reverência de pé e, genuflectindo-se, executam, depois, de joelhos, as três seguintes. A cortesia das mulheres é a mesma que se usa entre nós. Existe apenas alguns casos em que elas se prostram, a mais, de joelhos, e fazem assim a reverência, inclinando a cabeça até ao chão, três ou quatro vezes, conforme for exigido pela natureza da cortesia. Para efeito das cortesias os chineses têm trajes especiais que não são usados pela gente vulgar. É certo que, entre ami- 119
PE. ÁLVARO SEMEDO gos, não são usados, mas usam-nos sempre para com outras pessoas, e ninguém se atreve a visitar um indivíduo de cate- goria sem esse traje. Se, por acaso, se encontram (não na rua, pois que, de tais encontros evitam com diligência) e se ambos estiverem vestidos com o mencionado traje, que entre eles se chama tai um e outro são dispensados da cerimónia de cum- primentos. Mas se um o trouxer vestido e o outro não, este deve logo usar o seu que, com este fim, é geralmente trazido pelo serviçal e, se por acaso não o traz, apesar de importuna- do com as insistências do que traz vestido o referido traje, não deverá assentir em aceitar a cortesia, mas antes escusá- la, sentando-se e conversando. Se alguém for visitar uma pessoa a casa deve esperar na sala até que esta se vista; mas se for um amigo, aparecerá, imediatamente, posto que não se encontre devidamente tra- jado, e, depois de obsequiar o hóspede, retira-se para se ves- tir. O traje de cerimónia daqueles que têm grau é a própria insígnia do seu grau, e daqueles que governam ou já tenham governado, a insígnia do seu cargo. Os nobres de sangue tra- zem para este efeito, a insígnia e o traje de doutores, se bem que não saibam nada. Para os nobres e letrados que não têm grau há um traje amplo e largo, muito diferente do ordinário. Os súbditos ou os subalternos dos magistrados supremos, quando em qualquer tribunal se encontre presente o presi- dente, adoptam a cortesia de tirarem a insígnia do peito e usarem somente cinto de pouco preço, o que fazem apenas em alguns dias do ano, em que lhe vão prestar obediência. Os jovens de pouca idade, se não têm grau, não usam senão o traje ordinário. A cortesia entre o vulgo consiste em juntar as mãos uma sobre a outra e alçá-las até à cabeça. O mesmo fazem os ami- gos e parentes entre si. Quando se tratam de homens de bem e se são iguais, fazem ambos, simultaneamente, e uma só vez esta mesma reverência, ficando a vantagem para aquele que estiver à mão direita, como entre nós, ser o último a tirar o chapéu, se bem que ambos o tirem. Entre pessoas de respeito, a cortesia comum durante as visitas, convites, encontros, etc. é ficar de pé e inclinar-se até ao chão sem mais nada. Os fi- 120
DO ESTADO TEMPORAL DA CHINA lhos para com os pais, em alguns dias como no do Ano Novo e do nascimento dos seus progenitores ou noutras festas se- melhantes, praticam a segunda cortesia de quatro mesuras em pé e quatro de joelhos, recebendo-as assentados aqueles a quem são feitas, e o mesmo fazem os estudantes para com os seus mestres que, porém, para a receberam, se põem em pé. Procedem da mesma forma para com os magistrados, os mandarins inferiores; os gentios para com os ídolos, e os mandarins para com o rei, com a excepção de, na ocasião em que a executam, colocam diante do rosto uma placa de mar- fim de um palmo e meio de comprimento e de quatro dedos de largura. Finalmente, o rei procede de forma idêntica, nos templos e para com a sua mãe, e, quando executa a reverên- cia, fá-lo, igualmente, com a referida placa de marfim. Quando se vêem pela primeira vez, sendo pessoas de igual categoria, aquele que cumprimentar ou for cumprimen- tado, se quiser mostrar mais afeição e respeito, manda vir um tapete e, depois da cortesia comum, excecutam ambos u se- gunda, genuflectindo-se, simultaneamente, quatro vezes. Quando se encontram nas ruas, esquivam-se, como já se dis- se, sempre que lhes seja possível. Se não puderem esquivar- se e se os mandarins forem de igual categoria, saúdam das suas cadeirinhas, reciprocamente, erguendo o braço em arco até à cabeça e, tendo começado pelo menos vinte passos an- tes, vão fazendo sempre o mesmo, muito repetidamente, até passar o encontro. Se um deles for de categoria inferior e vai de cadeirinha, fá-la-à abaixar até ao chão; e se anda a cavalo, desmonta, ficando de pé, e, ao passar o outro, faz-lhe uma profunda reverência até ao chão. Se não forem mandarins, executam entre si a cortesia comum . Se forem homens de povo, levantam as mãos e passam. Os criados das casas de reputação, não podem fazer re- verência alguma, senão em determinados casos e ocasiões como, quando eles ou os seus senhores vêm de fora ou no princípio do ano, etc. Põem-se, então, de joelhos com a testa até ao chão, uma ou três vezes. A cortesia que executam diante dos seus senhores e amos é conservarem-se aprumados com os braços pendentes. A gente dos tribunais e os criados dos mandarins falam to- 121
PE. Alvaro semedo dos, em público, com estes, de joelhos. Da mesma forma pro- cedem os litigantes e os réus, mas estes sem barrete. Entre pessoas de igual categoria, entregar ou receber qualquer coisa com uma só mão, é pouco delicado e, se isso se fizer de inferior para superior é descortesia. Finalmente, são exagerados nas cortesias e boas maneiras, que praticari- am muito mais a propósito, para o culto divino que para o político. Ser cortês, apresentar-se exteriormente com com- postura e fazer as coisas com ponderação, circunspecção, comedimento e propriedade são considerados como virtudes de maior estima, sendo todas essas coisas expressas com a única palavra li \ que abrange, ao mesmo tempo, as circuns- tâncias de momento, o traje e o thie 2, que são usados em tais ocasiões. O thie é um bilhete ou livrete com dobraduras, dentro e fora, de largura de uma mão e mais de um palmo de compri- mento. Há três espécies: o grande tem seis folhas; o médio, três; e o pequeno, uma. Todos os três são usados, segundo os costumes das províncias e das pessoas que visitam ou são visitadas. Os colaus raramente usam outros a não ser o pe- queno. O empregado nas visitas ordinárias é branco com uma tarja encarnada de igual comprimento e dois dedos de largu- ra na parte exterior. Se se destina à beijamão ou festas é com- pletamente encarnado; se a condolências, por falecimentos, é condizente com o luto. Se for de quem esteja de luto, as letras são azuis bem como a tarja de fora, mas o papel é branco, porém, muito diferente do vulgar, pois é usado somente para este efeito. Este thie não tem mais que uma linha de letras, que fica na margem. Se o indivíduo for amigo ou deseje mostrar-se tal, escreve, completamente; se não for, deixa as primeiras duas letras e começa com a terceira a seguir; e se quiser de- monstrar circunspecção, além das duas primeiras, deixa ain- da a quarta, começando com a terceira e seguindo com as 1X lâi (li), cortesia. 2X t'ip (t'ié), bilhete. 122
DO ESTADO TEMPORAL DA CHINA outras que nunca poderão faltar. O escrito quer dizer: O Ami- go intrínseco de V. Sra e discípulo perpétuo de sua doutrina, fulano, vem beijar-lhe a mão e fazer-lhe reverência. Este thie é entregue ao porteiro que, ao apresentá-lo, anuncia o hóspede ao patrão e diz quem ele é. As vezes este recebe a visita mas não o thie, ficando desobrigado de a retri- buir. Acontece o contrário, quando fica com o thie, pois, se bem que este foi apenas entregue ao porteiro, por não estar o senhor em casa ou por este não querer receber a visita, ele terá de a retribuir. Os inferiores, como soldados para com os seus capitães, mandarins inferiores para com os superiores e pessoas identicamente inferiores, não podem servir-se do thie, mas usam uma outra coisa semelhante na forma, mas muito diferente no papel e estilo. Não podem usar tarja por fora nem dizer que vão fazer visita; dizem apenas quem são, que cargo ocupam e o que pretendem, sendo quase como que uma petição a que chamam pimthiéisto é, bilhete de aviso. Indivíduos de maior categoria, como são os colaus, vice-reis e idênticas personagens, muitas vezes nem vão visitar nem fazem visitas, pessoalmente enviando apenas, da sua casa ou quando passam pela porta, um thie. Nas visitas procedem com tanto à vontade, mesmo para com gente estranha, como nós procedemos com os amigos. Porém, com a mesma facilidade com que vão visitar se escu- sam, bastando dizer que não estão em casa, se não forem pes- soas de muito respeito, mas se as visitas se repetem, então, com dificuldade lhes negam a entrada. Quanto mais circuns- pectas forem as pessoas com mais dificuldade recebem as vi- sitas e algumas, para se livrarem delas e escusarem o traba- lho destas cerimónias, escrevem um papel com letras bran- cas e fixam-no à porta, o qual diz: encontra-se recolhido na casa do campo onde desculpa todo o fastio da cortesia. A visita há-de-se fazer como a do médico, pela manhã. Pela tarde não é de tanta civilidade, nem se há-de fazer a visi- ta, de caminho, quando se dirige para outra herdade, pois, se assim acontece, desculpam-se, dizendo que empregarão ou- 1 IlíWi pân-t'ip (pin-t'ié), petição. 123
PE. ÁLVARO SEMEDO tra ocasião, para satisfazerem, propositadamente, a sua obri- gação. Para as visitas ordinárias não há ocasiões marcadas. Há, no entanto, ocasiões em que são obrigatórias para os conheci- dos, amigos e parentes. A primeira e principal é o primeiro dia do Ano Novo, em que se deseja a entrada do ano; nessa ocasião é grande a multidão de palanquins, cavalos e gente nas ruas, sendo então, frequentíssimas as visitas. Às vezes não entram mas entregam o thie e passam adiante e, se en- tram, obrigam-nas a comer e beber, posto que pouco. A segunda ocasião é em quinze do mesmo mês. São menos as visitas mas mais as festas por ser como que a con- clusão daqueles quinze dias. Chamam-lhe a Festa das Lanter- nas, pois, expõem-nas muitas nas ruas, portas e janelas, sen- do algumas de grande preço e muito bonitas. A terceira é no terceiro dia da 3.1 lua, que recai em Mar- ço e chama-se cimnin.1 Vão todos às sepulturas dos seus, para fazerem sacrifícios e cerimónias e, posto que chorem pelos mortos, é certo que os vivos se banqueteiam entre si. A quarta é no quinto dia da 5.a lua e se chama tuonu.2 Faz o povo festa pelas ruas e pelos rios, onde os há, se bem que, às vezes, se proíbem nestes, por causa dos desastres que acontecem ali. A quinta é no sétimo dia da 7.a lua, na qual se roga habi- lidade à Lua, o que fazem ainda, no nono dia da 9.® lua. Visi- tam-se entre si, e mandam presentes; e, para todas estas fes- tas têm mimos adequados que enviam. Além destas festas visitam-se nas ocasiões de falecimentos, mudanças de residência, desposórios, nascimentos de filhos, pro- moções de grau e de posto ou a dignidades mais elevadas. Quando se ausentam, bem como no dia do seu aniversário e, principalmente, se entra no 60° ano, as visitas não se hão-de fazer, nestes casos, seca- mente, pois deve-se enviar, sempre, qualquer presente. Quando alguém parte para longe, todos os amigos o vi- sitam e enviam-lhe presentes. Porém, quando regressa, há- 1 fSlã tch'eng-meng (tch'eng-meng), pura claridade. 1 $Kp tíin-ung (tuan-u), centro celestial. É a festividade dos barcos-diagões. 124
DO ESTADO TEMPORAL DA CHINA de ele visitar e presentear aqueles que lhe fizeram essas ofer- tas. Aos enfermos também se visitam, porém, somente de fora, pois raras vezes admitem dentro a visita, a não ser se for pessoa muito amiga. Nessas visitas são muito rigorosos, os filhos para com os pais, os estudantes para com os mestres, os súbditos para com os superiores e todo o reino para com o rei. Assim, no dia do nascimento deste, nas quatro estações do ano e nas festas principais, o vice-rei, com todos os magistrados da pro- víncia, envia, em nome de toda esta, embaixadores à corte, para cumprimentar o rei. Aqueles que residem na corte, como os letrados e os militares, vão, pessoalmente, nesse mesmo dia, ao palácio, para cumprirem a sua obrigação. Para essas visitas têm salas muito apropriadas. A pri- meira é comum para todos. O hóspede pode entrar e assen- tar-se sem aviso algum, quando não encontre porteiro que o introduza. Têm um outro compartimento interior a que cha- mam sala privativa. Nesta entram os parentes e os amigos íntimos. Não se vai mais além, para se não chegar à parte da casa chamada hui, que é o aposento das mulheres, onde nem os criados podem entrar, a não ser que sejam muito peque- nos. Na sala exterior ficam os hóspedes e, depois de terem executado a cortesia comum, o dono da casa, com as própri- as mãos, conduz e ajusta o assento para se sentar e, se forem muitos, ajusta para todos. Todos estes acomodam, depois, a do hospedeiro. Deixa-se a cada um escolher o lugar que lhe convém assentar e, se não houver respeito particular pela dignidade, os filhos, os sobrinhos, os estudantes, etc., prece- dem conforme a idade, que se pergunta, se se ignora. O dono da casa toma sempre para si o último lugar. Depois de se encontrarem assentados, vem logo a bebida chamada chá, que se toma, também, segundo a mesma ordem de precedên- cia. Em algumas províncias, o servir-se, repetidamente, tal bebida, é considerada como a maior honra, porém, na de Hamcheu, se se repetir, pela terceira vez, quer dizer ao hós- pede que se retire. Se o hóspede for um amigo, e se demorar, põe-se logo mesa com doces ou frutas. De resto nunca uma 125
PE. ÁLVARO SEMEDO visita é feita, secamente, o que é costume em quase toda a Ásia, ao contrário da Europa. Segundo a sua cortesia, ou seja o filho diante do pai ou o estudante diante do mestre, são estes de ordinário mais ou- vintes que faladores, não se adiantando nunca os jovens no falar. Os termos que empregam na conversação são muito honrosos para outrem, e humildes, quando se referem a si mesmos. Assim, como aqui não é de boa educação dizer "tu", também, entre eles, não fica bem dizer "eu", pois que jamais empregam esta palavra mas outro termo, como por exemplo, o aluno, o discípulo, etc. O filho, em vez de dizer "eu", dirá ao falar com o pai, "o pequeno filho", não obstante ser o pri- mogénito e estar já casado. Os criados aos patrões dizem siaovej1 os menores ou mais pequenos siaoti.2 As partes nos tribunais dizem "os delinquentes"; os cristãos nas confissões "os pecadores". As mulheres do palácio, excepto a rainha, e os eunucos, falando com o rei, dizem nupor3 "escravo de vos- sa majestade". Todos os restantes, perante o rei, denominam- -se chin4 "vassalos". Se alguém não falar de si, mas dos seus, deve ainda empregar termos modestos. Assim, o pai diz "o meu pequeno filho"; o mestre "o meu pequeno discípulo" e o filho, falando do pai, refere-se-lhe, dizendo "o pai da casa"; o criado refere-se ao patrão, dizendo "o senhor da casa". Falando com outras pessoas empregam sempre designa- ções honoríficas como, entre nós, Vossa Senhoria, Vossa Se- nhoria Ilustríssima, etc. Além disso, mesmo tratando-se de gente ordinária e baixa, costumam empregar títulos de dis- tinção como ao estalajadeiro chiu gin kia5 isto é, o homem senhor da casa; ao barqueiro "o maioral da casa"; aos muleteiros "o grande açoite", mas, se quiserem agastá-lo, chama-lo-ão, pelo seu nome vulgar de cankio6, isto é, "per- ' 'm siu-ié (xau-iê), jovem senhor, seu filho. 2 'hsfc siu-tâi (siáu-li), pequeno irmão, eu. 2 íífSi nou-pôk (nu-p'u), escravo. 4í5san (tchên), vassalos. 5 ÍÍÀsjc tchu-iân ka (tchu-ien tchiá). iftlSãl kân-kèok (Ken-tchiáu), seguir os pés. 126
DO ESTADO TEMPORAL DA CHINA seguidores dos pés". Aos criados, se forem homens circuns- pectos, "os mordomos", aos funcionários dos tribunais e aos que acompanham os mandarins — "homens a cavalo" ou "cavaleiros", posto que estes andem sempre a pé. Se falam com mulheres, se bem que não sejam seus parentes, cha- mam-lhes tasao,4 isto é, "cunhadas"; porém, acontece algu- mas vezes às pessoas que não conhecem bem a língua cha- marem-lhes, por equívoco do termo, "vassouras", em vez de "cunhadas". Ainda, referindo-se às pessoas de família de quem está a ouvir, se deve também fazer com termos especiais. Assim se se lhe referem ao filho, não hão-de dizer "o filho de vossa senhoria" mas limlam,2 "o nobre filho", se se lhe referem à filha, dizem limgai,3 "o precioso amor"; e, deste modo, a ou- tros. Finalmente, na enfermidade, náo hão-de dizer simples- mente: como está da sua doença? mas quei gam,4 isto é, da sua "nobre indisposição." Entre a genta baixa, que não tem estes preconceitos, se não se conhecem, tratam-se por hium,5 irmãos, mas, se forem conhecidos, por eu e tu, como bem entenderem e sem mais cerimónias. Assim como são escrupulosos e excessivos, no modo de se tratarem e se chamarem, são-nos também, nos nomes di- versos que têm e vão adoptando conforme a idade, os quais são de cinco espécies: O primeiro é o sobrenome que adoptam, infalivelmente, do pai. Porém, da mãe e do pai da mãe não costumam adoptá- lo nunca, antes a mãe adopta o do marido. O segundo é um nome que chamam "nome pequeno" que é dado pelo pai, quando pequenos, sendo de animais, flores ou dias, etc., e, por este nome, só o pai ou a mãe os podem chamar, pois que os criados somente, pelo primeiro, segundo, terceiro, etc., como já se disse. 1 tái-sou (tá-sáu), cunhada. 2<^SP leng-lóng (leng-lóng), seu excelente filho 3 leng-ói (leng-ái), seu excelente amor. 4#n§ kuâi-ièong (kuei-iaung), sua doença. 5 51 heng (siung), irmão. 127
PE. ÁLVARO SEMEDO O terceiro é quando vai para a escola, porque o mestre dá-lhe um outro nome que, junto com o sobrenome, forma um novo nome, pelo qual é chamado, pelo mestre e pelos condiscípulos. O quarto, quando põe na cabeça a rede ou o barrete de que falámos atrás, o que acontece entre os dezasseis e os de- zoito anos e, também, e em especial, se tomar mulher, adopta novo nome, que chamam "letra". Por este nome podem todos chamá-lo com a excepção dos criados. O quinto, quando já passada a adolescência, adopta um outro nome, que chamam hao,1 "nome grande", e, por este nome, podem todos ainda chamá-lo, com a excepção dele mesmo e do seu pai. Agora, regressando à sala, onde deixámos os hóspedes a conversar, à partida, estes executam todos juntos a reverên- cia comum para com o dono da casa, agradecendo o bom aco- lhimento que lhes foi feito. Este acompanha-os até à rua, onde, se vieram a pé, fazem, tanto o dono da casa como os hóspedes, uma reverencia comum e separam-se; se vieram a cavalo, de palanquim ou de coche fazem, então, três reverên- cias, sendo a terceira feita à porta, onde, logo que o dono da casa reentra, os hóspedes montam, porque o subir para o ca- valo, antes disso, é descortesia. Depois de estarem a cavalo ou nos palanquins, o dono da casa volta a sair, despede-se, caminha alguns passos e enviam, mutuamente, criados com presentes to pai xam e recomendações. Sendo a primeira vez que se faz uma visita e tratando-se de pessoa de respeito, de ordinário, seguem-se, imediata- mente, à presença, os presentes, que, na China, são geral- mente muito comuns e frequentes, constando de panos, or- namentos para senhoras, coisas de uso comum, como sapa- tos, meias, toalhas de mão, porcelanas, tintas, pincéis e co- mestíveis, procurando, porém, geralmente, do melhor para presentearem. Entre amigos, os presentes, se foram coisas de comer, hão-de ser de quatro, seis ou oito coisas ou ainda mais. Com " hou [háu), epíteto, cognome. 128
DO ESTADO TEMPORAL DA CHINA o presente remete-se, ao mesmo tempo, um thie ou bilhete de visita, onde está escrito aquilo que envia. O não aceitar não é descortesia como também não é o ficar com parte e devolver o restante; deve-se, porém, responder com um thie, agrade- cendo e escusando-se por o não receber ou, se recebe parte, há-de escrever aquilo com que ficou e o que devolve. Entre as pessoas de maior categoria e que desejam mostrar respeito ao indivíduo, sem fazer muito dano à bolsa, escrevem, primeira- mente, as coisas que pretendem enviar e remetem o thie, an- tes de mandarem o presente, que, como consiste, ordinaria- mente, de muitas coisas, se não há-de ficar com todas. Assim, o destinatário do presente marca no thie as coisas com que deseja ficar então, aquele que presenteia compra somente os objectos indicados, pondo de parte os restantes; se o destina- tário pretender receber tudo, tem de se comprar e enviar-lhe tudo. Há alguns presentes que são hipotéticos, pois aquele que os oferece está certo de que com nada ou pouco se há-de ficar. Constam de muitas coisas, chegando em número, às vezes, a trinta e quarenta, sendo de elevado preço, pela sua qualidade, como peças de damasco e outras fazendas de seda, meias de seda, muitos comestíveis, galinhas, gansos, etc. Estas coisas tomam-se, às vezes, como de aluguel, por- que quem as recebe, paga-as, devolvendo, com algum lucro, o resto, ao indivíduo que as presenteou. A lei para quem recebe um presente obriga-o a retribuir com outro equivalente. Entre amigos, constituem excepções as coisas de comer e aquilo que uma pessoa traz, quando vem de fora da região e do país, donde são originárias essas coisas, e também se não remuneram os presentes chamados de de- pendência isto é, os dos inferiores para os superiores, dos estudantes para os mestres e dos pretendentes. É ainda costume dar-se ao moço ou ao criado que traz o presente dinheiro, mais ou menos consoante à qualidade do presente, como mostra de muito respeito para quem o enviou. Os de Kiamsi, como mais versados em despesas e avisa- dos na sovinice são nisso muito subtis. Para o presente que vale um escudo dizem que deve dar-se ao criado um júlio e assim, proporcionalmente, com o restante. 129
CAPÍTULO XIII Dos banquetes Muito tempo e bens se consomem nos banquetes dos chineses, por serem eles constantes. Não há encontros, che- gadas, partidas ou quaisquer acontecimentos prósperos de amigos ou parentes que não festejem com banquetes, nem acidentes e desgostos que, igualmente, se não consolem com os mesmos, nem negócios de importância que com eles se não tratem, nem obra que com eles se não iniciem, nem construções que com os mesmos se não terminem. Efectu- am-se ainda muitos outros, sem outro motivo que não seja o de comedamus & bibamus, eras enim moríemur. E muito frequente entre a gente vulgar e, em particular, entre os oficiais do mesmo ofício, constituírem-se em confrarias às quais dão o nome do mês. Os confrades são trinta, conforme o número dos dias deste e, por rotação, cabe todos os dias a cada um dar o banquete, principiando depois, novamente, tal como os filhos de Job. Se houver falta de comodidades em suas casas, têm-nas óptimas nas alheias, havendo, hoje, muitas que são pú- blicas e bem providas de todas as coisas. Se quiserem dar ban- quete em suas casas, mas sem incómodos, indicam o número de mesas, a quantidade de pratos e a espécie de comida que desejam, as quais serão enviadas para suas casas, muito bem preparadas. Os do norte são muito diferentes dos do sul, porquanto os meridionais são mais rigorosos e meticulosos na 131
PE. Alvaro semedo cerimónia dos banquetes, sendo considerados mais corteses e delicados, e são-nos, na realidade. Põem nos seus banquetes mais solicitude na variedade e bom preparo que na quantidade de comida e banqueteiam-se mais para conversarem e para discutirem juntos do que para comerem e beberem, se bem que pratiquem, bastantemente, tanto uma coisa como outra. Bebem ao princípio e vão conti- nuando com o vinho e a comida, sem pão nem arroz, até que os convivas digam: basta de vinho. Então, vem logo o arroz e põem de parte as bebidas, pois não se bebe mais. Nas terras do norte, procede-se ao invés. Poucas cerimónias, mesas bem providas, pratos grandes e cheios; e feitas as cortesias comuns e as mais vulgares de todo o reino principiam com as viandas. Cada um toma aquilo que mais gosta e quanto mais pode. E na realidade, um incêndio que não se apaga nem com a água nem com o vinho, porque não bebem nem um nem outro e que acaba com o arroz. Levanta- das as mesas, conversam cerca duma hora e não se entretém senão com coisas salgadas como presunto, língua salgada e coisas semelhantes a que chamam "guias", isto é, do vinho, e bebem então. Falando dum modo geral, em todo o reino não se bebe vinho, nem ao almoço, que se efectua, pela manhã, cinco horas antes do meio dia, nem ao jantar, que tem lugar quatro horas, depois do meio-dia. Mas de noite, antes de irem para a cama, fazem uso do salame, como já se disse. Por este moti- vo, os banquetes são mais usuais à noite, servindo-se da luz do dia para o estudo e seus negócios, a qual suprem, durante a noite, com velas de que têm enorme quantidade, sendo fei- tas de certo óleo que, no inverno, coalha com pouca cera, deixando, para o verão, as de cera, que são de três espécies: uma de abelhas, outra de certa espécie de insectos, sendo muito melhor e sem qualquer tratamento, mais branca; e a terceira, de árvores cujo fruto é como a avelã, sendo branca a sua polpa e se não tão boa como a nossa cera, porém, certa- mente, melhor que a de sebo. Derrete-se e dá uma luz muito boa. A gente mais importante dá banquetes com o maior aparato porque tem casas de recreio para este fim, na própria 132
DO ESTADO TEMPORAL DA CHINA cidade ou nas vizinhanças, sendo edificadas com abundân- cia de muitas pinturas e coisas curiosas. Se o convidado for uma autoridade ou pessoa de grande respeito, não obstante ser, na China, muito raro o uso da tapeçaria nas casas, ex- põem-na, contudo, de modo muito curioso, para este efeito, até ao tecto. Além disso o número de mesas postas para co- mer revela bem a pompa do banquete. Uma mesa para quatro pessoas ou uma para duas é o costume. Mas para os de maior categoria, põem uma para cada pessoa e às vezes duas, sendo uma para comer e outra para irem colocando nela os pratos. As mesas destes banquetes têm todas panos de seda ou frontais na frente. Não usam toalhas nem guardanapos sendo as mesas revestidas apenas de charão, verniz muito brilhante e limpo. Não utilizam facas, vindo tudo trinchado da cozi- nha, nem garfos, porquanto, usam dois pauzinhos com os quais comem muito destramente, nem fazem uso de sal, pi- menta ou vinagre mas de muita mostarda e doutros temperos que os têm muitos e muito bons. Num mesmo banquete há carne e peixe, cozidos, assados, fritos e preparados de mistu- ra ou outras viandas diversas, mas cozinhadas a seu modo. Servem-se muito de caldos que nunca vêm sem carne, peixe ou massa. Antigamente não usavam mesas nem cadeiras, pois, como é costume na maior parte da Ásia e África, assentavam- se e comiam sobre o pavimento coberto de esteiras e, assim, ainda agora, nos seus escritos e livros, quando se referem a mesas, empregam como letra representativa de mesa aquela que significa esteira. Os japoneses, como a maioria dos povos circunvizinhos, conservam, ainda hoje, o uso antigo de se sentarem e comerem no chão, mas os chineses, desde o tem- po da dinastia Han que se servem de cadeiras e mesas, tendo- as muito belas e de diversos feitios. Na preparação dos banquetes, cortesias e tratamento são exagerados, tanto antes como no começo, prosseguimento e fim dos banquetes. Ao dar início ao comer ou beber, o dono da casa convida todos. A cerca da metade do festim os recipi- entes pequenos são trocados por outros maiores. Não forçam a que se beba, mas convidam com modéstia a isso. As ocasi- ões em que de ordinário e infalivelmente dão os banquetes 133
PE. Alvaro semedo são nos dias das suas festividades, ou se^a no do ano ou nos dias de festa particulares de cada um, como nos casamentos, etc., além de noutras infinitas ocasiões atrás referidas. A partida ou o regresso de outras terras, de pessoas im- portantes, são celebrados com banquetes, acontecendo mui- tas vezes que, num mesmo dia, se tenha de ir a sete ou oito, só para comprazer os amigos. Alguns dias antes do banquete, havendo oportunidade para isso, envia-se o thie com o qual se faz o convite, pedindo que aceitem. Se não quiserem acei- tar, escusam-se com outro thie. Porém, se aceitam, no dia do festim, enviam-lhe um outro thie, chamado thie de solicita- ção. Chegada a ocasião do banquete, esperam, geralmente, que todos se encontrem reunidos, conversando na sala exte- rior. Já reunidos, entram na sala do banquete e o dono da casa faz cortesia a todos, tanto no assentar como na colocação dos recipientes e pauzinhos. Executadas essas cerimónias, todos se assentam, segundo a sua ordem, tendo o dono da casa o cuidado constante de convidar a beber e a comer. Duram os banquetes muito tempo, no qual conversam, mas, o mais co- mum, é ouvirem música e comédias, sendo os comediantes obrigados a representar aquilo que lhes mandam os convida- dos. O festim termina, finalmente, a instância dos convida- dos, resistindo, porém, sempre, aquele que convida. No dia seguinte ao festim, todos os convidados enviam-lhe um thie, em parte, elogiando o banquete e tudo quanto nele houve e, em parte, agradecendo aquele que o deu. 134
CAPÍTULO XIV Dos jogos que usam os chineses O jogo de cartas, sendo estas semelhantes às nossas, no formato e figuras, se bem que todas pretas e sem cores, pene- trou, também, nesta última parte, sendo próprio da gente plebeia, pois que os nobres não se entregam a ele. O jogo para a nobreza e gente séria, tanto para passar o tempo como para ganhar lucrando, é o xadrez, que não é de todo desigual ao nosso. O seu rei não foge mais que quatro casas mais próxi- mas de si, o que fazem ainda os dois delfins. Não têm rainha mas outras duas peças, muito engenhosas, às quais chamam "vasos de pólvora". Estas ficam em frente de dois cavalos e diante destes estão peões, que os precedem em uma casa, na ordem e na fila das outras. Estas peças deslocam-se como os nossos roques ou torres mas não ameaçam o rei contrário, senão, quando entre uma delas e o rei se interpõe, imediata- mente, uma outra peça, ou própria ou do inimigo, podendo, porém, o rei evitar, de três modos, a ofensiva, ou deslocando- se para uma casa vizinha ou opondo uma outra peça, ou co- mendo aquela que está entre si e o inimigo, que por se ter deixado desapossar, fica ele defendido. E ainda importantíssima espécie de jogo entre os chine- ses o seguinte: um tabuleiro do trezentas casas, jogam com duzentas peças, umas brancas e outras negras, a fim de pode- rem assenhorear-se das outras casas. Por último, quem tiver 135
PE. ÁLVARO SEMEDO mais casas ocupadas ganha o jogo. Neste jogo ocupam-se com grande deleite as autoridades que, frequentemente, gas- tam nele boa parte do dia, pois que, entre gente perita, conso- me-se uma hora, numa partida. Os que se mostram hábeis são estimados apenas por este título, sendo, por este motivo, frequentemente, chamados e considerados como mestres deste jogo em todas as cerimónias. Existe ainda entre os chineses o jogo de dados os quais são do mesmo formato e têm os mesmos pontos que os nos- sos sem qualquer diferença. Entre a gente ordinária está muito em uso o jogo da mor- ra, que é jogado com mãos e dedos. Mais que em outras ocasi- ões é jogado nos banquetes, entre dois indivíduos, para ve- rem quem há-de beber, ganhando o beber aquele que perde. A gente nobre emprega, ordinariamente, para este feito, um tambor, que está fora da sala onde se come, e, dando-se nele pancadas, se principia a contar com o primeiro golpe da baqueta. Quando o tambor pára, aquele que falhou ao toque é obrigado a beber. Na cidade de Nankim há outro jogo entre a gente plebeia. Compram um par de capões, os melhores que encon- tram, quando não peixes, porcelanas ou qualquer outra coi- sa, tendo a peito que, no seu género, sejam excelentes, a fim de excitar o desejo de os ganhar. Um dos jogadores tem na sua mão dez moedas suas com letras numa face e lisa a outra. Oferecem-se essas moedas a quem queira lançá-las e lançam- -nas dez vezes. Se em algumas das vezes caírem as moedas, mostrando todas as mesma face, quer com letras quer sem letras, leva-se o prémio, no caso contrário, perdem-se dois ceitis. Não falta na China o jogo de galos como é corrente em toda a índia, os quais são propositadamente criados, para este fim. Antes do desafio, colocam nos pés, próximo do es- porão, uma navalha. Aquele que ficar em campo ou tiver obrigado o outro a fugir, quando não cái, vence e ganha o outro galo bem como o que foi posto para prémio. Como mui- tas vezes acontece que ambos ataquem, ao mesmo tempo, caindo tanto um como o outro, aquele que, tendo caido, pro- cura, no entanto, investir contra o outro que já não canta, fica 136
DO ESTADO TEMPORAL DA CHINA vitorioso. Fazem, igualmente, combater os codornizes e, para este fim, criam geralmente, os machos, com muito cuidado. É jogo particular dos parentes do rei e dos eunucos do palácio, que despendem, para isso, muito dinheiro nas aves, que lu- tam, desesperadamente, e para o pior. Jogam, igualmente, com grilos e muito, na primavera. Para os criar têm casinhas de argila feitas, engenhosamente, para este fim. Para jogar tiram cada um o seu e põe-no, num alguidar ou num vaso limpo e, com uma haste, vão excitan- do-os. Quando estão próximos um do outro de forma a pode- rem atacar, fazem-no com tanta fúria que, algumas vezes, fi- cam com uma perna mutilada. Aquele que vence canta logo, ganhando o jogo. Joga-se muito disso, principalmente, entre os eunucos, que despendem muito dinheiro neste jogo. Às crianças que estudam não é permitido nenhum jogo. As mais crescidas têm jogos próprios, da sua idade, muitos dos quais são idênticos aos nossos. Os jogos de cartas e de dados são proibidos e se os ocul- tam ou são disso acusados, castigam-nos e condenam-nos a pena pecuniária. Alguns são presos tão somente por assisti- rem demasiado aos jogos, sendo assim mal vistos e apodados de íu-pó,1 que quer dizer "apaixonados do jogo", como por qualquer outro vício que detestam. 1 Stí ftÇ tou-pôk (tu-pó), batoteiro. 137
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CAPÍTULO XV Dos casamentos dos chineses No reino da China, como consta claramente dos seus li- vros, há mais de 2.840 anos, que fora formalmente adoptado o matrimónio, por contrato indissolúvel e, já em tão remota antiguidade, os chineses se ufanavam de cerimónias muito especiais para o celebrar, existindo entre elas uma, que é a de se darem as mãos. Como o tempo tudo altera, algumas foram removidas e acrescentadas muitas. Houve sempre, desde esses tempos, dois modos de casa- mento. Um por contrato matrimonial para toda a vida, entre uma e a outra parte, sendo a esta, a quem chamam a verda- deira mulher, tratada como tal e recebida com cerimónias particulares. O segundo é o concubinato, permitido pelas suas leis, na falta de filhos, mas agora, tornou-se tão fácil que, se bem que alguns mais observantes se contenham, é, porém, muito comum entre homens ricos tomarem concubinas, não obstante terem filhos. O modo é muito diverso do primeiro contrato e legítimo, porque, conquanto contratem de certo modo com o pai da jovem e se tratem como parentes, ela, na verdade, é comparada, e, muitas vezes, vendida por pessoas que nada lhe são, a não ser o facto de a terem criado para este fim; e, assim, existem muitas pessoas, na China, que criam raparigas e ensinam-nas a tocar, a cantar e outras misteres 139
PE. ÁLVARO SEMEDO domésticos, somente, para as dar depois como concubinas, vendidas por muito bom preço. Seja como for não é casamen- to nem tem a solenidade do matrimónio nem a obrigação de perpetuidade, podendo ela separar-se e casar com um outro, pois, não há lei que a proiba, uma vez que ela se tenha apar- tado do primeiro. O modo como estas mulheres são tratadas é também muito diferente. Comem, separadamente, nos seus aposen- tos, estando sujeitas à verdadeira mulher, que servem, em algumas coisas, como se fossem suas criadas. Os filhos nasci- dos delas não lhes fazem as cortesias e as reverências devidas a uma mãe; devem, porém, fazê-las para a verdadeira mu- lher, que tratam com o nome de mãe. Donde, quando morre a concubina, aqueles que ela deu à luz não são obrigados ao luto de três anos nem a privar-se de concorrer aos exames nem, se estiverem a governar, a abandonar os seus cargos, o que, como diremos, se observa, na morte do progenitor. Mes- mo que seja filho único não é obrigado a tais observâncias, a não ser, quando morre a verdadeira mulher do pai, apesar desta não ser sua mãe. Morto o marido, a mulher legítima e os filhos, ou seus ou os da concubina, ficam com o governo da casa. Morrendo, porém, a mulher legítima, fica a concubina com os seus filhos se os tiver. Acontece, algumas vezes, que se tome uma concubina, mantendo-a tão somente para ter filhos varões, porquanto, se a mulher legítima a não tolerar, logo depois de feito o filho, despedem-na ou a casam com outro homem, e o filho que ficar não saberá quem o deu à luz reconhecendo apenas como mãe a verdadeira mulher do seu pai. Acontece, ainda muitas vezes que o homem se afeiçoe, excessivamente, à concubina e, então, todas as coisas se passam ao contrário, com a excepção daquilo que, exteriormente, não se pode mudar. As viúvas podem casar se quiserem. Geralmente, as mulheres honradas abstêm-se, se bem que não tenham filhos ou sejam ainda jovens. Devem sempre ficar em casa do sogro e, por este motivo, são muito estimadas. No verdadeiro matrimónio, atende-se, ordinariamente, à igualdade de estirpe, estado e pessoas. Nas concubinas só se olha aos dotes naturais sem atenderem a mais nada. Não 140
DO ESTADO TEMPORAL DA CHINA podem casar com os parentes do pai de nenhum grau nem com pessoas do mesmo apelido. Podem, porém, com os pa- rentes da mãe se forem de grau remoto, mas não se observa isso com grande exactidão. Uma donzela jovem dificilmente casa com um viúvo e, se casa, chamam a isso "restaurar a casa e o leito". Não se casam nunca sem ser por meio de intermediári- os, não obstante serem muito amigos. Para isso escolhem aquele que desejam, para este fim, não obstante haver ho- mens bem como mulheres que exercem esta profissão. O es- poso não vê nunca a esposa se não quando esta entra pela porta, para a tomar para mulher. Os pais casam os filhos, or- dinariamente, com pouca idade e prometem-nos, também, em crianças e, às vezes, antes de terem nascido, promessa esta que cumprem depois, pontualmente, não obstante os pais morrerem antes de tempo ou um dos pais perder o cargo, as honrarias, a fortuna, etc., excepto se ambas as partes acor- darem em desfazer o contrato. Se por acaso, o filho, por qual- quer motivo, não quiser sujeitar-se ao contrato feito pelo pai, constrangem-no, por via da justiça, ao seu cumprimento. Fixados os dotes, não os dão, na China, nem aos filhos nem às filhas, antes da morte dos pais. Porém, entre os ple- beus, o costume não é comprar, absolutamente, a mulher, como dizem alguns, mas o marido entrega uma certa quanti- dade de dinheiro ao pai da rapariga para lhe fazer enxoval e alguns adornos de cabeça, conforme a sua categoria, o que sempre se procede com largueza. Os pais apertam e poupam, no entanto, esse dinheiro, o mais que podem, ficando com o que sobeja. Disso resultou dizerem alguns que os chineses compram as suas mulheres, não faltando fundamento para que acreditem nisso, porque hoje ajusta-se com o pai de uma rapariga, por uma certa quantia, e, se não lha entregarem, não dá ele a filha. Entre a gente nobre não se fala em dar dinheiro e dote mas o pai da noiva é obrigado a cumprir o que ordenam o estilo e os costumes do reino, cada um conforme as suas pos- sibilidades, e, geralmente, aquilo que dá é todo o aparato ne- cessário, desde a porta da casa até o interior, com a excepção do leito que, não obstante ser coisa barata no país, chega às 141
PE. Alvaro semedo vezes a custar 50 escudos. Dá, ainda, duas ou quatro rapari- gas, para o serviço e algum dinheiro e tudo isso, mais ou me- nos, conforme as suas possibilidades. Terras ou títulos, raríssimamente, ou quase nunca dá, a não ser que o pai da noiva seja muito rico ou se quiser ombrear com alguma pes- soa importante e, no caso de não ter filhos varões. Celebrado o contrato entre os pais dos noivos, seguem- se vários cumprimentos e cerimónias a algumas das quais me referirei. A primeira é a do esposo enviar logo à noiva um presente de coisas de comer, carne, vinho e fruta. A segunda, a da escolha do dia dos desposórios, que é determinado por astrólogos e adivinhos, sendo feita com grandes cerimónias. A terceira, a do pedido do nome da noiva. A quarta, a do envio de jóias pelo noivo à noiva, como sejam anéis, brincos de orelhas, etc.. No dia anterior ao do recebimento da esposa, envia-se da casa da noiva as peças de mobiliário, organizando-se com elas um cortejo que tem de ser efectuado ao meio-dia, para que todos as vejam. Vão os homens que as transportam, dois a dois, levando cada um a sua peça de recheio, semelhante à que leva o seu companheiro, isto é, mesas, arcas, cortinas, leitos ou outras coisas. No dia seguinte, em algumas províncias, vai o noivo em pessoa, com o seu pai e os parentes mais próximos, a cavalo, buscar a noiva, que é transportada num palanquim com grande pompa e aparato. Noutras províncias, principalmen- te, nas do sul, o noivo envia, com o cair da noite, o palanquim (que é feito com muita perfeição e propositadamente para este fim, com a sua porta que se pode fechar por fora, sendo muito ornamentado com sedas), e gente para acompanhar a noiva, e muitas luzes, fixadas em paus semelhantes a lanter- nas. A mãe, depois de a noiva ter feito os devidos cumpri- mentos de despedida, instala-a, no palanquim, que fecha, enviando à frente a chave, para a sogra, e assim parte a noiva com acompanhamento que vai adiante, indo ao lado as rapa- rigas que o pai lhe deu para o seu serviço. Chegada à casa do noivo, a sogra abre o palanquim e traz para fora a noiva, que entrega ao noivo e ambos vão juntos ao Oratório dos ídolos, onde se encontram, igualmente as 142
DO ESTADO TEMPORAL DA CHINA imagens e os nomes dos seus antepassados. Executam aqui as reverências ordinárias de quatro genuflexões e logo se di- rigem para a sala interior, onde os seus pais se encontram sentados numa cadeira, aos quais fazem a mesma reverência. Em seguida, a noiva retira-se com a sogra, donzelas de servi- ço e a casamenteira, para o compartimento de mulheres, onde tem o seu aposento particular e para o seu marido, no qual, como se disse acima, nenhum homem pode entrar, nem o pai nem o irmão maior, de modo que, se o pai quiser casti- gar o filho, por qualquer falta, (o que é muito vulgar fazerem os pais aos filhos, se bem que estes estejam casados), conse- guindo este acolher-se ao aposento da mulher, ficará seguro, porque o pai não pode ali entrar nem falar com a nora, excepto em alguns casos dispensados, tão escrupulosa é a custódia da preciosa jóia da honestidade. Se o noivo, se não retirar, fica com o pai, parentes e amigos, etc. sempre em fes- tins, nos quais consomem muitos dias. Passado um mês, tor- na a noiva à sua casa, o que se chama queinim, isto é, regres- sar ao repouso. O suceder na herança cabe apenas, igualmente, aos fi- lhos varões, apesar destes serem apenas meios-irmãos e não à mulher legítima, porque procedem nisso, atendendo, somen- te, ao pai. A irmã nada leva, além do que trouxe consigo no seu casamento. Se os pais morrerem, antes de terem casado as filhas, os irmãos são obrigados a casá-las, e os filhos já casados, se o pai repartiu em vida os bens, são obrigados a sustentá-las. Entretanto existem na China algumas famílias como as titulares, cujos primogénitos herdam o morgadio e assim acontece, não obstante terem outros irmãos, como são os in- fantes Que cum, Chuhui, Heupé, Chihei. 143
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CAPÍTULO XVI Dos funerais e das sepulturas dos chineses Nâo obstante, em muitas coisas que respeitem à vida, terem os chinas pensado como os filósofos europeus, diver- gem, porém, muito no que respeita à morte, pois que, en- quanto estes pouco ou nada trataram da sepultura do corpo, não há coisa que aqueles estimem mais do que isso, fazendo, assim, em vida toda a diligência, para a deixar em ordem e os filhos demonstram toda a sua piedade e obediência para a pôr em execução, após a sua morte. É costume geral em todo o reino não sepultar, imediata- mente, na terra, mesmo que se trate duma criança de dois dias. Há-de cada um ter o seu caixão, conforme a sua catego- ria e possibilidades. Não obstante os chineses serem parcos, os ricos, porém, excedem nisso todos os extremos, procuran- do a madeira de maior estima e preço que puderem. A este respeito, ultrapassam os eunucos que, por não te- rem herdeiros, chegam a dar quinhentos ou mil escudos para as tábuas do seu ataúde, se bem que, na realidade, não valham muitas vezes tanto. Assim, acontece que, algumas vezes, vão ter com um negociante desse material. Este faz o preço, pedindo 500 ou 600 escudos e acrescenta: Se quiser das de mil não as tenho, presentemente, mas há muito que as espero, podendo chegar de um dia para outro. Se V. Sr.a não tiver pressa, pergun- te, por elas, alguns dias depois, que será servido. 145
PE. ÁLVARO SEMEDO O negociante nada mais faz senão mudar nessas tábuas o papel que nelas está colado e com ele o preço. Quando o eunuco voltar, encontrará já a madeira do preço que lhe ser- ve. Feito o ataúde com toda a espécie de arrebiques e orna- mentos por fora, com oiro, charão e outros lavores, os chine- ses guardam-no em casa, e, muitas vezes, no próprio quarto, com grande aprazimento seu, dando-se o contrário, se for já idoso e ainda não o tiver pronto, pelo que andarão, então, sempre desgostosos e, certamente, grande pesar sentirão os filhos, se os seus pais já estiverem velhos e não puderem ter ainda prontos os seus caixões fúnebres. E esta a forma como, geralmente, se procede em todo o reino. No entanto, como adoptaram a lei dos Pagodes da índia, adoptaram, igualmente, algumas coisas desses pago- des e, assim, sepultam de três maneiras: em terra, na água e pelo fogo e, ainda, sem terem morrido como ainda hoje fazem no Japão, ou colocando alguns em lugares altíssimos ou afo- gando outros nos rios, com pedras atadas ao pescoço e por outros modos que não falamos. Os chineses não são de si de grande valentia, enquanto vivos, mas, quando morrem, se forem tão pobres que não lhes possam fazer o caixão, quei- mam-nos e enterram-lhes as cinzas. Na província de Sucheu, queimam o cadáver e colocam as cinzas em jarras bem fecha- das que lançam nos rios. Depois de tratarem do caixão segue a escolha do sítio da sepultura, que cada um tem para si e para os seus descenden- tes, fora da muralha, não sendo permitida dentro dela. A tais sítios dão eles muita importância. Alguns têm-nos para estes casos muito cómodos, sendo cercados por fora e estando, por dentro, cheios de ciprestes que são ali usados, geralmente, bem como outras árvores apropriadas ao local. Valem às ve- zes pouco, quanto à extensão de terreno, no entanto, são comprados por muito dinheiro, se os prognosticadores os va- ticinam como sendo lugares prósperos e muito venturosos para a família, motivo por que ninguém os escolhe sem a sua opinião. No enterrar, seguem a ordem, colocando à cabeça o che- fe da família e os outros a seguir, de um e outro lado, segundo a sua precedência. Em cima dos túmulos, colocam ornamen- 146
DO ESTADO TEMPORAL DA CHINA tos de pedra lavrados e, à frente das sepulturas, estátuas em pedra, de animais, veados, elefantes, leões e sobretudo epitá- fios e lápides erectas com elegantes composições em louvor dos defuntos. Os mais poderosos, particularmente os eunucos, empregam um outro modo mais dispendioso, pois fazem construir, em tais sítios, palácios sumptuosos com sa- las em baixo com criptas, onde se encontram nichos muito bem arranjados para alojar os caixões dos defuntos. Servem estes palácios para quando forem lá, nos dias dos mortos, em que se reúne ali toda a família para fazer os sacrifícios e cerimónias. Para a gente mais pobre, que não pode ter sítio próprio para sepultura, existe, geralmente, em toda as cida- des, um lugar comum para fazer o enterramento. O sepultar alguém, no próprio local da sua sepultura, é infalível, por mais distante que seja o lugar onde faleceu, como de ordinário acontece com as autoridades que, gover- nando em diversas regiões do reino, são muitas vezes força- das a falecer fora da sua terra natal, sendo, então, os parentes obrigados a fazer vir os seus cadáveres, para os sepultar no próprio local da sua sepultura. Tal costume não anda, porém, fora da razão, pois, primeiramente, Jacob e, depois, José fize- ram a mesma diligência. Quando morrer alguém, a primeira cerimónia é, antes de o moribundo expirar, trazê-lo, numa tábua rasa, para a sala de fora, onde há-de soltar o último suspiro. Não sei a razão disso nem é tão pouco geral para todos, porque se for pessoa de qualidade, fica, no seu leito, e, em expirando, o mais velho dos filhos tira, imediatamente, da cabeça, a rede e o barrete e, desgrenhado, chega ao leito e sem ordem alguma arranca as sanefas e o cortinado e, em parte, rasgando e, em parte, rompendo, faz vir abaixo todas as coisas com as quais o cadáver se encontra coberto. Se for mulher, ficam as mulheres e, se for homem, os homens pro- curam lavá-lo conforme o seu costume. Lavado, envolvem- no com um finíssimo pano, se houver, e se não houver, com um pedaço de seda. Vestem-no depois assim com o melhor fato que possui, colocando sobre eles as insígnias do seu car- go e grau e, desta forma, paramentado, colocam-no no ataú- de feito de tábuas muito grossas que se ajustam apertadamente. Dão-lhe duas camadas de betume e uma 147
PE. Alvaro semedo última de charão, deixando, assim, de existir qualquer perigo de mau cheiro. Este ataúde é colocado na sala exterior, que está toda armada em luto, e, à cabeça do ataúde, colocam o retrato do defunto, feito de tamanho natural, com as insígnias, tal como se encontra fechado. Na parte da frente põem uma mesa e um tapete; na extremidade do ataúde algumas cortinas, dentro das quais ficam as mulheres. Dum e doutro lado do ataúde estão os filhos e os netos assentados, na palha, com luto mui- to carregado. Na tribuna que se encontra diante da sala, de uma e outra parte, estão as trombetas e, na porta grande do palácio, na parte interior do átrio, dois tambores; fora da por- ta, na rua, um grande feixe de pedaço de papel que chega até ao chão e pendurado duma vara é sinal que se está de luto e se admitem visitas. Avisam-se, depois, todos os amigos e pa- rentes, enviando-se-lhes um thie de luto, no qual, com pala- vras de muita aflição e humildade, os informam da sua pro- vação. Começam logo as visitas de condolências, que são feitas do seguinte modo: o hóspede, ao entrar no primeiro pátio, enverga, imediatamente, o traje de luto que traz consigo. O tamboril dá, então, sinal e, enquanto ele vai caminhando pelo pátio, soam as trombetas. Chegado à sala, as mulheres que se encontram dentro do cortinado começam a chorar. Aproxima-se, então, da mesa, onde deixa ali um sobrescrito de papel com dinheiro até dois ou três júlios, que serve para ajudar as despesas, e um pouco de coisas odoríferas e, sobre o tapete, faz quatro reverências, parte de joelhos e, parte, de pé. Terminando isso, levantam-se logo os filhos do sítio onde estão e vão colocar-se à esquerda do hóspede, fazendo, em parte ajoelhados e em parte de pé, as mesmas reverências. Nesta ocasião eles hão-de chorar ou mostrar que choram e, acabado isso, sem dizerem coisa alguma, regressam ao seu lugar. Entretanto, os hóspedes vêm entrando e logo um dos parentes mais remotos e de luto mais ligeiro os vem receber e conduzi-los a outro compartimento, onde, postos a assentar, vêm incontinente o chá com frutas secas e coisas doces, po- rém, secas, que, geralmente, não se comem, mas tomam-nas um pouco, metendo-as na manga da veste e despedem-se. 148
DO ESTADO TEMPORAL DA CHINA Esta cortesia é tão obrigatória, que não será omitida pe- los amigos presentes. Quanto aos ausentes, se residem em cidades vizinhas, vêm em pessoa; se se encontram muito lon- ge, enviam uma pessoa da sua casa para os representar. Isso dura, geralmente, oito a dez dias, porém, os que residem lon- ge podem vir ou mandar cumpri-la, em qualquer ocasião. Passadas estas visitas, o filho maior é obrigado a andar e a ir às residências de todos da mesma cidade que vieram à casa apresentar-lhe as condolências, mas não fará mais que chegar à porta, onde, estende um tapete sobre o qual faz a sua reverência, e segue adiante, depois de deixar um thie. Em seguida, trata, imediatamente da sepultura, se pu- der, o que demanda muita despesa; se não puder, deixa estar o ataúde do morto em casa, até que surja uma possibilidade, tendo, para isso, de esperar, às vezes, anos inteiros. Avisa-se, então, os amigos, cada um com um thie, tal como se fez, ante- riormente, os quais, reunidos, vêm logo, em primeiro lugar. Antes de tudo, vão os aprestos do cortejo fúnebre, que são constituídos por diversos bonecos de grande tamanho, de homens, cavalos, elefantes, leões, tigres, etc., sendo todos de papel pintado, ornado de oiro. Vão ainda muitos outros aprestos diversos como carros triunfais, pirâmides e coisas semelhantes, sendo tudo ornado de seda com vários lavores e rosas de mesmo material e tudo se queima, ao enterrar o cai- xão, se se trata de pessoa de elevada categoria, pois, entre o vulgo, todas as coisas são alugadas e nada se queima. Atrás destes aprestos segue a multidão do povo que concorre para ver. Vêm depois os amigos todos vestidos de luto; a seguir a estes, os bonzos, cantando as suas orações e soando sistros; em seguida, uma outra espécie de bonzos, que deixam crescer a barba e o cabelo e vivem em celibato e em comunidade, tocando vários instrumentos musicais. A estes segue uma outra classe de bonzos trajados de seda di- versa mas lisa, que caminham, recitando também. Depois, os amigos mais íntimos e, logo a seguir, todos os parentes. Os filhos e os netos do morto seguem trajados de luto muito pe- sado, descalços e com umas varetas na mão tão curtas que mal excedem dois palmos, e vão caminhando com a cabeça pendente. 149
PE. ÁLVARO SEMEDO Segue contíguo a eles o ataúde do morto, que, se for de madeira preciosa, vai descoberto, para que a vejam, se não for, é pintado a oiro e envernizado com charão e ricamente ornamentado. Vai colocado num catafalco muito grande, conduzido às vezes por 30, 40 ou 50 homens, constituindo aparatoso espectáculo, por serem muitos. Sobre ele está liga- do um baldaquino que o cobre todo com os seus frocos e la- ços ricamente feitos e, dum e doutro lado, estão muitas luzes fixas em grandes paus a modo de lanternas. Atrás do ataúde vão as mulheres chorando, em cadeiri- nhas fechadas e todas vestidas de luto e da mesma forma acompanham os parentes e as amigas. Chegados ao lugar da sepultura efectuam várias cerimónias, antes e depois de se- pultarem o ataúde, não sendo entre tais cerimónias a pior um lauto banquete para todos aquele que acompanharam e, para isso, serve o haver ali boas casas. Regressam depois à casa, seguindo-se o período de luto e de cerimónias que, em tais ocasiões se observam e que são as seguintes: a primeira e universal é o vestir-se de luto muito pesado e grosseiro. A cor é branca não somente neste reino mas ainda no Japão, Coreia e em muitos reinos circunvizinhos. Julgo que não foi escolhida, ao princípio, a cor branca por eles mesmos, tendo este costume surgido, de- pois, porque eles mesmos explicam o motivo por que a esco- lheram os seus antepassados. Por outro lado, sabem que é uma cor alegre e, como tal, vestem-se desta cor noutras ocasi- ões. Parece-me, pois, que isto foi devido ao facto de na China se não tecerem serão panos de algodão, seda e cânhamo. Da seda e algodão não se pode fazer coisa grosseira mas sim do cânhamo que, de certo modo mete medo; e porque a sua cor natural, sem tingidura alguma é mais feia e grosseira, assim a escolheram. Donde, sendo naturalmente branco, veio, em consequência, a ser a cor branca a própria do luto. Dura este luto três anos inteiro, durante os quais, os filhos não se as- sentam em cadeiras mas em bancos cobertos de luto; não co- mem à mesa, não chegam às janelas e colocam o leito no pa- vimento; não bebem vinho nem comem carne, nem tomam banho, que entre eles é coisa comum; nem vão aos festins, nem saem fora, se não em cadeirinhas fechadas e de luto. 150
DO ESTADO TEMPORAL DA CHINA Abstêm-se das próprias mulheres (assim o dizem) e não con- correm aos exames se se realizam; nem podem exercer qual- quer cargo público e, quando o estão exercendo, se lhes mor- re o pai ou a mãe, não obstante serem vice-reis ou colaos de- verão abandonar o cargo e assistir ao enterramento e fazer exéquias. Acabado o luto, regressam aos seus cargos ou pas- sam a exercer outros mais importantes. Este tempo é considerado tão sagrado que não admitem nenhuma dispensa, a não ser, se se tratarem de capitães de guerra e, porque houve um da província de Cantão, que pare- cia mais desejoso de governar que observar o luto, tendo ele depois de feitas as contas, pretendido incluir o tempo da via- gem no que lhe faltava para os três anos completos, ao chegar à corte para voltar a ocupar o seu cargo, lhe disseram que este já se encontrava provido e que regressasse para a sua casa, a fim de cumprir inteiramente o tempo de luto, devendo tornar depois, novamente, à corte, para fazer o seu pedido. Dizem que o tempo de três anos se destina a render gra- ças aos pais pelos três anos de infância que andaram mais nos seus braços do que por si mesmos e assim, nesses três anos, em sinal de reverência, não podem alterar, em casa, nada da ordem que o pai conservara nela. O luto para a mulher é de um ano. Há luto mais ligeiro de cinco meses ou três dias, conforme o parentesco. De ami- gos para amigos, observam-se três dias, tendo todos prontos os fatos de luto, por haver muitas ocasiões para os usar. São estas as formas de se observar o luto e fazer o enterramento das pessoas mais categorizadas, aumentando ou diminuindo elas de rigor, conforme a categoria das pesso- as. Com as pessoas reais, as cerimónias são mais importantes e, para sua melhor compreensão, deporei aqui o que se fez, no ano de 1614, no funeral da rainha-mãe, encontrando-me eu ali presente. 151
CAPÍTULO XVII Do enterro da rainha-mãe Faleceu a rainha-mãe, aos nove da 2.a lua, último dia do nosso Março de 1614. Vestiram-se, imediatamente, de luto toda a corte bem como a nobreza e o povo e, particularmente, as autoridades, e os ministros régios, que apartaram-se de parte das insígnias das suas dignidades, as quais são a sua autoridade e lustre, para as substituir por outras de luto e dor, como a preciosíssima cinta que costumam usar, por uma grossa corda de cânhamo, e o barrete de crepe preto, por um pano ordinário de luto, bem como o resto. Desta forma anda- ram, durante quatro meses, até o tempo das exéquias. A gen- te do povo usou barrete de luto, apenas durante 24 dias, mas com tanto rigor, que aquele que transgredisse era castigado. O rei, no segundo dia, abandonando os palácios em que residia, passou para os da mãe defunta, os quais, se bem que estejam dentro da mesma muralha, se encontram um tanto afastados. Vestiram ricamente, de branco, o corpo da morta, e, todos os dias, antes de a colocarem no esquife, o rei, ia vê- la, pessoalmente, com toda a gente do palácio, para lhe fazer reverências e cumprimentos comuns de filhos para com os pais, deitando incensos e coisas aromáticas num perfumador, colocado em frente, e o mesmo faziam, com toda a solenidade, as damas, filhos e netos e ainda alguns dos principais eunucos do palácio. Imediatamente, por ordem do 153
PE. ÁLVARO SEMEDO rei, se queimaram os fatos, o leito e outras coisas que a rainha usava, sendo julgado indigno que isso fosse parar às mãos e para o uso de pessoas de menos categoria. No terceiro dia, colocaram o corpo da defunta no ataúde em que deveria ser sepultada. A excelência do material pode- se avaliar muito bem pelo que já se disse, pois, como vimos, o preço dos ataúdes de pessoas categorizadas chega a mil escu- dos. As tábuas eram muito grossas e o ataúde bastante folga- do. O próprio rei, em pessoa, colocou nele o cadáver sobre um colchão e almofadas, que tinham sido feitas, previamen- te, espalhando por cima mais de 70.000 escudos em pérolas e pedras preciosas e, pelos lados, 50 pães de oiro e 50 de prata que, de certo, poderiam sustentar qualquer homem de bem. Encerrou-se o ataúde e o rei e as restantes personagens fize- ram as reverências da praxe. No quarto dia, prosseguiram as cerimónias, vestindo-se todos de luto mais rude e grosseiro, para fazerem sacrifícios, que, na realidade não os são, mas apenas oferendas e cerimónias simples. Estava o ataúde colocado num terreiro muito espaçoso sobre como que um elevado trono, tendo em volta 15 mesas, a primeira das quais, que estava em frente, era destinada ao rei e as restantes às suas mulheres, filhos e eunucos principais que, segundo a sua ordem e depois do rei, fizeram as suas oferendas com incensos e reverências. No quinto dia, que foi destinado para os de fora do palá- cio, reuniram-se nele todos os titulares a quem chamam que cum, cheu-cheu, heupè, que sucedem-se todos, por heredita- riedade. Seguiram a estes todos os que são aparentados com o rei, isto é, casados com suas filhas ou sombrinhas. Depois, os magistrados dos seus tribunais e, atrás destes, vieram as mulheres das autoridades superiores que exercem jurisdição em todo o reino, como são os dos seis tribunais, cada um naquele que lhes diz respeito, de fazenda ou de milícia ou outra coisa. Todos estes executaram, segundo a sua hierar- quia, as cerimónias acima referidas e, assim, se deu fim à primeira parte das cerimónias que se efectuaram no palácio, antes do enterramento, mas, fora dele, foram ordenadas vári- as coisas, por meio de diversos éditos afixados em público, com os quais se intimaram: 154
DO ESTADO TEMPORAL DA CHINA 1.° — Que todos os mandarins, letrados ou de armas, fossem, no dia seguinte, ao palácio, para chorar pela rainha defunta e, depois disso, sem regressarem às suas casas, se dirigissem, directamente, aos seus tribunais, onde permane- ceriam, jejuando, três dias, sem comerem carne, ovos ou pei- xe, nem beberem vinho. Feito isto, que, durante o espaço de três outros dias, viessem todos até à porta do palácio e, se- gundo a sua hierarquia deveriam aproximar-se, um a um, para executarem quatro reverências comuns com alguns si- nais exteriores de pesar, podendo, depois disto, regressar às suas casas. 2.° — Que todas as mulheres dos mandarins, desde o primeiro até ao do quarto grau, vestidas de luto carregado, desde os sapatos até à cabeça, se encontrassem, por espaço de três dias, no mesmo sítio, para prantearem dessa mesma forma; e que, por 27 dias, não pudessem usar, em suas casas, jóias, ornamentos, etc.. • 3.°— Que os do Conselho Real, chamado Hanlin, fizes- sem todos poesias, versos e composições, em louvor da rai- nha defunta. 4.° — Que os do Quam lo su, isto é, os ministros das rendas e da fazenda real, provessem, com toda a diligência e liberalidade, de todo o necessário, para os sacrifícios e para os gastos do funeral. 5.° — Que todos os bonzos e ministros de ídolos tocas- sem sinos, por espaço bem longo, em sinal de pesar e dor. 6.° — Que por espaço de 13 dias se não abatessem nem vendessem carne e que todos jejuassem com o rei que, nos primeiros três dias, comeu apenas um pouco de arroz cozido em água simples, sendo o resto somente legumes. 7.° — Que o Presidente do Conselho de Ritos e da Câ- mara fornecessem trajes de luto a todos os embaixadores re- sidentes na corte e que, conduzidos ao palácio, fizessem, por uma vez, as cerimónias e os cumprimentos como os naturais do país. 8.° — Que todos os mandarins que tivessem terminado os seus cargos e os novos pretendentes viessem ao palácio, para executar, durante três dias, as mesmas reverências e cerimónias. 155
PE. ÁLVARO SEMEDO 9.° — Que o povo fizesse a mesma coisa, por uma sema- na, pela manhã e pela tarde, no palácio do governador da cidade. Escreveu-se ainda a todos os mandarins espalhados pe- las províncias e cidades do reino, para que, chegada a nova do falecimento da rainha-mãe, dessem aviso e ordens, no sentido de todos os parentes de sangue por linha masculina, com as suas mulheres e filhos, fazerem, ajoelhados, três reve- rências comuns e outras cerimónias e trajarem, imediata- mente, de luto, durante 27 dias. Tal ordem foi dada a todos os mandarins do reino, tanto para os que estavam governando como para os que já governaram bem como aos letrados de qualquer grau e, também, aos que não tinham grau. Aos homens do povo foi, porém, ordenado que usassem barrete de luto, durante 13 dias. Ordenou-se mais que, tanto nos palácios dos mandarins como nas casas destinadas às viagens e nos pequenos luga- res, onde, a expensas do rei, se albergam os que viajam, não houvesse música de vozes nem de qualquer instrumento musical. Esta ordem foi intimada, por meio de mandarins especiais e só para este fim. Encontrava-me na corte de Nankim, quando ali chegou um deles. Foram recebê-lo ao rio todas as autoridades, tanto letrados como militares, trajadas de luto até nos guarda-sóis e, em procissão, desfilaram em muito boa ordem, por toda a cidade, até ao Tribunal dos Ri- tos, onde o presidente colocou a ordem escrita num lugar ele- vado e eminente e todos lhe fizeram reverências. Depois pe- gando na carta, abriu-a e intimou a ordem, não faltando coisa alguma para a sua execução, se não o facto de o povo não ter ainda os barretes de luto. Estas foram as cerimónias que precederam às exéquias e, concluídas elas, deram-se ordens ao matemático principal ou adivinho da corte de Pekim, para escolher o dia ou dias, nos quais se deveriam celebrá-las. Este depois de feito as suas diligências, designou o 9.° dia da 7.a lua, quatro meses completos após o falecimento da rainha, para levarem para fora do palácio o ataúde, e o 15.° da mesma lua, para ela ser sepultada. Chegada a ocasião, deram-se ordens para as exé- quias da forma seguinte: 156
DO ESTADO TEMPORAL DA CHINA 1.° — Que todos os mandarins da corte e magistrados dos seis tribunais, seis dias antes, deixassem as suas casas para se alojarem nos seus tribunais, e, durante três dias, jeju- assem como se disse. 2.° — Que os ministros do património real preparassem tudo quanto que, para tal acto fosse necessário, isto é, grande quantidade de círios, incensos, coisas aromáticas, numero- sas figuras fantásticas e de homens, cavalos, leões e elefantes e parasóis de seda, tudo bem ornamentado para se queimar no local da sepultura. Dizem que nisso se despenderam aci- ma de 30.000 escudos. Eu não duvido nada que tivessem gas- to tanto dinheiro em tais despesas mas, como depois de tudo queimado se não podem obter provas, é possível que tenham exagerado. 3.° — Que os do Cólegio Hanlin compusessem, nova- mente, vários versos adequados às exéquias. 4.° — Como o rei deveria acompanhar o ataúde até à sepultura, que distava 12 milhas da corte, nomeou-se uma personagem que, em seu lugar, fizesse todos os cumprimen- tos e cerimónias necessários. 5.° — Ordenou-se aos capitães e gente de guerra que guardassem a cidade, o lugar da sepultura e que acompa- nhassem o cadáver, durante o trajecto, da seguinte forma: em cada porta da cidade, que são nove, ficariam mil homens; desde a porta pela qual deveria sair o ataúde da cidade até à sepultura, ficariam postadas duas fileiras de soldados — três mil para transportar, alternadamente, o ataúde e dez mil a cavalo, para o acompanhar — e, para a guarda da sepultura real, enquanto durassem as exéquias, quarenta mil. 6.° — Foi mandada consertar a estrada do palácio até à sepultura, construindo-se estacadas dum e doutro lado, para que ninguém a pudesse atravessar e, de cada vinte passos, foi colocado um cesto de terra amarela, para se espalhar pelo chão, à passagem do ataúde, e armaram-se tendas e pavi- lhões, em alguns lugares, para descanso daqueles que acom- panhassem o cadáver. 7.° — Ordenou-se a todos os ministros de fazenda que provessem com muita pontualidade e liberalidade de todo o necessário para o sustento dos mandarins, eunucos, capitães, 157
PE. Alvaro semedo soldados e todos os outros que com algum título acompa- nhassem a pompa fúnebre. 8.° — Que, por três dias, antes das exéquias, se repetis- sem o pranto, as reverências e os sacrifícios como já foi dito no princípio. 9.° — Ordenou-se que, desde os 7, isto é, dois dias antes de principiar as exéquias até aos 20 dias dessa lua, se não abrisse o açougue nem de forma alguma se vendesse carne ou peixe nem fosse ouvido nenhum instrumento musical ou de alegria. Preparadas todas as coisas para as exéquias, aos 7 da 6.a lua, o rei e o príncipe com todas as autoridades transferiram- se para o templo dos seus antepassados, que está no meio dos palácios reais, onde o rei, trajado de luto e postado em frente da imagem do fundador da sua família, lhe fez uma profunda vénia. Depois, ofereceu à defunta, cuja imagem se encontra- va também ali, muitos fatos de seda, vinho e outras coisas e ordenou que fosse lida uma das composições em louvor da mesma. Feitas várias vénias e cerimónias regressaram, e, por ordem especial do rei, todos aqueles fatos, poesias e outras coisas foram queimados. Aos 8, fizeram-se sacrifícios ao Céu, Terra, Planetas, montes e rios com grande solenidade e, terminados estes, or- denou o rei que se executassem esses mesmos sacrifícios, nas nove portas do palácio, por onde deveria passar o cadáver da defunta, ou aos espíritos tutelares dessas portas, e que fizes- sem o mesmo nas seis pontes do rio que atravessa o palácio, oferecendo-se, em todos estes lugares, animais, vinho aromá- tico feito com misturas e várias coisas perfumadas. Era o caixão, no qual jazia a defunta, da mais cara e pre- ciosa madeira que naquele reino se podia encontrar, sendo fechado com todo o cuidado e terminando as junturas e os cantos com dragões de prata. Não empregaram nem oiro nem charão no resto da madeira que, por ser das mais preciosas, deixaram-na nua, à vista. Este caixão estava colocado num carro triunfal muito trabalhado e de grande preço com as suas cortinas de seda, bordadas e recamadas de oiro, todo ornado com lâminas de prata e decorado com figuras de leões e dragões e vários outros trabalhos esculpidos, obra feita com 158
DO ESTADO TEMPORAL DA CHINA todo o cuidado e perfeição. Em volta do caixão estavam mui- tas lanternas, perfumadores e incensadores. Chegado o quinto dia fixado pelo matemático para se dever levar para fora do palácio o cadáver, o rei, com as suas mulheres, filhos e eunucos do palácio, dirigiu-se ao lugar, onde se encontrava o carro com o caixão e aqui, depois de terem, novamente, pranteado pela morta, efectuaram sacrifí- cios ao referido carro ou ao deus génio deste, para que a via- gem fosse bem sucedida como para que o corpo partisse com tranquilidade e segurança e esparzindo sobre ele águas per- fumadas fizeram-lhe as últimas vénias e reverências. Imediatamente os eunucos (pois outra gente não era ad- mitida) se puseram a puxar o carro, acompanhando-o o rei com toda a sua família e gente do palácio até à última porta deste, que é a oitava, onde, com novos prantos, cerimónias e reverências, se despediram da defunta. Já se encontravam prontos, na parte exterior mas para o lado de dentro da primeira porta, aqueles que deveriam rece- ber o cadáver e, em nome e em lugar do rei, acompanhá-lo e fazer-lhe os sacrifícios e cerimónias em algumas paragens. Imediatamente, se iniciou o cortejo com tanta ordem, soleni- dade e silêncio que causavam admiração. Não chegaram nes- se dia mais que a um sítio fora da muralha e vizinho do local, no qual se encontrava um tabernáculo preparado e bem orna- mentado, onde puseram o carro. Colocadas de modo seme- lhante as mesas, fizeram-se sacrifícios, queimaram-se incensos e efectuaram-se outras cerimónias e reverências e, por último, renovaram os prantos. Foi logo enviado daqui um eunuco a informar e dar conhecimento ao rei de aonde e como se chegou e de quanto se fez. No dia seguinte, principiaram com as cerimónias e outros ofícios fúnebres com os quais se terminou o dia anterior, e, pros- seguiu-se a jornada com tanta multidão de gente, tanto da guar- da das vizinhanças como de longe e de gente curiosa de ver, que não havia número. Devido aos sacrifícios, cerimónias e para- gens que se fizeram no trajecto, durou a viagem três dias, antes de chegarem ao Monte das Sepulturas Régias. Assim que chegaram, transportaram, imediatamente, o ataúde, com muitas cerimónias, do carro onde estava para 159
PE. ÁLVARO SEMEDO um outro mais triunfal, que se encontrava preparado e de não menor custo que o primeiro. Fez-se depois o sacrifício de um touro e ofereceram vinho aromático, muitos incensos e ves- tes à Terra, implorando ao espírito tutelar, que recebesse aquele corpo com piedade, o guardasse, o amparasse, etc.. Ao mesmo tempo, nove mandarins, nomeados pelo pró- prio rei, executaram as mesmas cerimónias e sacrifícios, a todos os reis predecessores que estavam ali sepultos. Chega- do o dia do enterramento, que era o 15.° da 6.a lua, fizeram-se muitos sacrifícios e, assim, deram fim ao funeral e, desemba- raçados, deram conta ao rei, conta esta que lhe foi dada sem- pre, a cada passo, durante o percurso. Ele mostrou-se muito liberal para com todos aqueles que neste trabalho se afadiga- ram. Assim, para se mostrar pio e solícito, pelo que devia à sua mãe mesmo depois de morta, ordenou que, por respeito a ela, fossem postos em liberdade os prisioneiros que não ti- vessem parte contrária ou cometido delitos muito cruéis. Or- denou, também, que, nas províncias, onde houvesse escassez de víveres, se relaxassem os tributos ordinários e se fizessem ainda esmolas às pessoas mais necessitadas. Ordenou ainda que os direitos das alfândegas e a porta- gem que, por qualquer motivo tivessem sido novamente im- postos, fossem abolidos e ele mesmo, com as suas próprias mãos, fez muitos milhares de peçazinhas de prata, que em- brulhou, em papel, conforme o costume chinês, para as dis- tribuir, por alma da defunta. Certamente que não existe coisa tão digna de ser imitada na China, por qualquer cristão, como a piedade que eles têm para com os seus pais e, tendo Deus abençoado dado a esta na- ção uma tal inclinação e conhecimento da virtude, é grande lás- tima que só lhe falte o fundamento da fé. Donde se vê com quan- to fruto se poderia pregar neste reino. De resto, por bondade do Senhor, já se prega, como se dirá em seu lugar. Não ficará fora de propósito acrescentar aqui, breve- mente, alguma coisa sobre a morte do rei Vanlio1, filho dessa rainha, a qual ocorreu, em fins de Agosto do ano de 1620, na 1 MM Mán-Lek, (Vân-Li), (1573-1620). 160
DO ESTADO TEMPORAL DA CHINA 7.® lua deles. Não me referirei, porém, às cerimónias fúne- bres, por serem idênticas às já ditas. Adoeceu ele, em fins de Junho do mesmo ano, com disenteria, dores de estômago, tumefacção dos pés e outras dores. Durou tal enfermidade, com várias alternativas, dois meses, terminados os quais, vendo-se perto do fim, nomeou seu filho herdeiro do trono com outros três irmãos, aos quais deu bons conselhos, acusando-se a si mesmo de demasiada negligência e incapacidade, e deles se despediu pela derra- deira vez. Fez depois o testamento cujo conteúdo é como segue mais abaixo. Quando o rei se desesperou dos médicos, os colaos estiveram, como devia ser, mais juntos do Príncipe que dos eunucos. O primeiro presidente do palácio, chamado Sulikien foi ter com o rei para procurar arrancar-lhe da boca a sua última vontade e o resumo do testamento. Foi, depois, procurar, secretamente, o príncipe herdeiro do reino e com este conferenciou sobre tudo para que se não fizessem coisas contra a vontade daquele que ia logo tomar posse do reino. Entendidos um e outro, puseram em forma o testamento e levaram-no ao rei para que o aprovasse. Em seguida apre- sentaram-no aos senadores do Colégio Real, chamado Hanli yuen, a quem pertence pôr em bom estilo as coisas régias. Feito isso, fechou-se o testamento com o selo do rei e guardaram-no, no arquivo do Colégio Real, enquanto o rei sobrevivia ainda. Morto ele, levaram-no ao Tribunal dos Ri- tos a quem pertencia publicá-lo em todo o reino e fazer executá-lo pontualissimamente. O texto deste testamento, copiado fidelíssimamente e traduzido da língua chinesa para a nossa, diz o seguinte: Testamento do nosso Imperador Vanlio, o qual, obedecendo ao Céu, depôs o seu Império nas mãos dos pósteros Eu, desde criança que assumi o governo desta Monar- quia, recebendo-o das mãos dos meus maiores e conservei-o durante 48 anos, tempo assaz longo. Não há, por isso, motivo para me lamentarem, por agora ter de o deixar. Logo que fui 161
PE. ÁLVARO SEMEDO elevado a imperador me dispus pretender governar bem e imi- tar os meus predecessores assim como procurei, também, pro- ceder com toda a exactidão. Porém, impedido por várias en- fermidades, durante muitos anos, tive de procurar quem fizes- se os costumados sacrifícios aos Céu e à Terra, mas não deixei de celebrar os devidos ofícios à memória dos meus maiores. Raríssimas vezes me assentei no trono para ponderar as coi- sas do reino. Demoraram-se os memoriais que me foram apre- sentados sem o despachar. Não me ocupou o pensamento no- mear, segundo as necessidades, os magistrados do reino. Sei, porém, agora, que existem alguns de menos. Abri novas minas de oiro e prata; acrescentei e multipliquei os impostos; pertur- bei a paz pública com tumultos de guerra dos quais resulta- ram agravos para o povo e discórdias com os príncipes vizi- nhos. Pensando a toda hora, dia e noite, nestas coisas, só pude sofrer a dor de alma que detesta todas as culpas passa- das, e, assim, principiei, finalmente, a ter melhores pensa- mentos, mas caí nesta enfermidade, que vai aumentando tan- to, que me faz crer dever perder, rapidamente, a vida. Portanto, resta-me a única esperança de que os meus fi- lhos e sobrinhos hão-de emendar as minhas faltas, levando uma vida melhor. Vós, pois, herdeiro do reino, já que não vos faltais enge- nho nem boa índole e porque até agora não tivestes nunca esquecido o exercício da piedade, obediência e outras virtu- des, tende grande ânimo. É vossa a herança do Império Chi- nês. Tende, por objectivo principal, o compor a vida e os vos- sos costumes. Aplicai-vos com toda a diligência, ao bom go- verno do reino. Amai os bons; não recusai os conselhos; não tomai por mal os avisos para que possais suportar bem o gran- de peso deste império. Esforçai por que o vosso filho e os meus sobrinhos se apliquem aos estudos com toda a diligência. Querei bem aos vossos três irmãos; destinai-lhes comparti- mentos cómodos e provede bons rendimentos a cada um e mesas honradas. Fazei diligência para que todos os vossos súbditos, nobres e ignóbeis, andem em paz e amem a concór- dia. Tomai, logo, em mente, fazer colaos a outros supremos magistrados, porque verifico ter esquecido dois nomes, na de- vida ocasião, e não esquecei de eleger os administradores ré- 162
DO ESTADO TEMPORAL DA CHINA gios. Estas coisas vos recomendo para que diligencieis pôr, quanto antes, em execução. Aboli, de qualquer modo e imediatamente, os novos im- postos de pontes, campos, seda, panos, vasos de argila e ou- tras coisas que eu introduzi, recentemente. Fazei que despa- chem com diligência juízes escolhidos para todas as causas que se encontram nos tribunais e libertai os inocentes. Nos confins da Tartária faltam provisões para os soldados; supri- -lhes, imediatamente, da tesouraria imperial (dizem que esta última coisa foi acrescentada pelo príncipe ao testamento do pai). Que sejam recomendados os soldados e os capitães que morreram na última guerra. Honrai os seus sepulcros e as suas almas com novos títulos; subvencionai as suas famílias com as pagas devidas. Tudo isto sumariamente vos ordeno que procureis efec- tuar quanto antes possível. Quanto ao meu funeral fazei que se observem as cerimónias do reino. É verdade que, por meu gosto, estimaria que, em lugar de durar, segundo o costume, 27 meses, dure, somente, outros tantos dias. Todos os magistrados, vice-reis, visitadores, capitães de guerra terão necessidade de assistir aos seus governos e administrações; não permiti que sejam chamados, por causa do meu funeral. Bastará que cada um, quando receber a notícia da minha morte, faça com que se observe, onde se encontre e durante três dias, aquilo que se há-de fazer no funeral do corpo dum rei. As pastilhas e outros perfumes que costumam enviar-se em semelhantes ocasiões poderão ser trazidas por autoridades inferiores em nome das superiores. Porém, os magistrados eleitos pelo governo para as fortalezas e presídios das cidades e das terras não virão de forma alguma. São ainda escusados os tributários estrangei- ros do reino. Ordeno que esta minha última vontade seja publicada em todo o reino e que chegue aos ouvidos de todos. Este o testamento que para todos foi publicado. Não es- crevo acerca doutras cerimónias porque coincidem com as já ditas. 163
CAPÍTULO XVIII Das seitas da China Os chineses são, geralmente, pouco inclinados às seitas com o que, em grande parte, não se comparam com os japoneses. Têm, porém, três seitas e, não obstante se- rem diversas, para não errarem em alguma, ou, para me- lhor dizer, para errarem mais, concordam com todas. Duas delas são oriundas da China; a terceira, a dos ídolos, é adventícia da índia. A primeira é a dos letrados e mais antiga do que pensam alguns, que lhe dão por autor Confúcio. Não adoram pago- des,1 mas reconhecem um ente superior ou Senhor que pode castigar e fazer o bem. Porém, não têm chefe, nem aonde o adorem, nem ofícios que se lhe façam, nem orações a recitar, nem sacerdotes ou ministros que lhe prestem o culto. Falam e escrevem, honorificamente, deste Senhor, nos seus livros, como de coisa divina. Não lhe imputam ou atribuem coisa alguma indecente como os nossos antepassados aos seus deuses; mas como não conhecem distintamente o verdadeiro Deus, vieram a adorar três coisas das mais célebres, podero- 1 Diz Mons. S. R. Dalgado, no Glossário Luso-Asiático, Vol. II, Coimbra 1921, pág. 130: "Pagode é ídolo indiano, imagem de deuses ou santos asiáticos. Actualmente é pouco usado nesta acepção..." 165
PE. ÁLVARO SEMEDO sas e úteis do mundo, a que chamam sari cai,' isto é, o Céu, a Terra e o Homem. Existem, só para o Céu e para a Terra, nas cortes de Nankim e Pekim, templos sumptuosíssimos, porém, únicos e exclusivamente do rei, nos quais só este sacrifica, pessoal- mente, sendo ele o ministro do sacrifício e, na sua ausência e por ordem sua, o Magistrado dos Ritos. Na cidade, há templos para os espíritos tutelares aos quais sacrificam os mandarins como ainda aos outros espíri- tos dos rios, montes e das quatros partes do mundo, etc. Há ainda templos de homens insignes, benfeitores do público, onde se encontram as suas imagens. Prestam a mes- ma homenagem aos seus antepassados até ao quarto grau para cima. Para a alma na outra vida, não esperam nem pedem coi- sa alguma. No entanto, rogam ajuda temporal, boa sorte e a imitação das suas obras e os seus feitos. Pretendem introduzir no povo certo estímulo pela reli- gião, para que este, vendo como o Céu e a Terra são honrados como pais universais, honrem, também, os seus; vendo como os insignes antepassados são honrados, se esforcem, igual- mente, por os imitar; e vendo como os avós defuntos são ser- vidos, aprendam como devem servir os vivos. Em suma, en- caminham todas as coisas para o bom governo, para a con- córdia e sossego da família, e para o exercício da virtude. A segunda seita é a dos tausi,2 também originária da China. Foi seu fundador um filósofo chamado Lausu,3 de quem inven- tam que esteve oito anos no ventre da sua mãe, tendo existido, aproximadamente, na época de Confúcio. Os seus sequazes são ainda hoje muitos. Vivem juntos, não tomam mulheres, deixam crescer a barba e o cabelo, e, no vestir, não se diferençam das outras pessoas a não ser na ocasião em que oficiam em qualquer coisa. Em vez de barrete usam como que uma pequena coroa, 1Hti sám-i (san-i), os Três Princípios: Á;t'in (t'ien) céu; ífe tei (ti) terra; e À iân (ien), homem. sám-kái (sán-tchié), os Três Mundos. 2iS± tou-si (táu-si), sacerdote tauista. Lou-tchi (Lau-lsz), Láucio. 166
DO ESTADO TEMPORAL DA CHINA que apanha um único grupo de cabelos. Têm por último objecti- vo o corpo, com o fim de alcançarem vida quieta e tranquila, sem trabalhos nem moléstias. Reconhece esta seita um Deus maior e outros menores, todos corporais. Dão Glória e Inferno; a Glória juntamente com o corpo não só na outra vida mas também nesta, enga- nando que, por meio de certos exercícios e meditações, uma pessoa pode tornar-se criança e jovem e outros transformar- se em xin sien,* isto é, bem-aventurados na Terra, que têm aquilo que desejam e deslocam-se dum sítio para o outro, apesar de muito distantes, com rapidez e facilidade, e outras patranhas semelhantes. Têm música e bons instrumentos, sendo sempre chama- dos para as exéquias e sacrifícios e servem e assistem nos dos rei e mandarins. Fazem-se de adivinhos e prometem chuva, expulsão dos demónios dos lugares possessos mas nada obram e, às vezes, são os próprios demónios que os expulsam vergonhosamente. Nas estiagens prometem chuva e, às ve- zes, impetram-na por tão longo tempo que acaba por chegar o tempo das chuvas. Em Pekim, no ano de 1622, ocorreu um acontecimento engraçado se bem que aborrecido. Veio uma grande seca. Fi- zeram-se orações, jejuns e penitências, mas tudo debalde. Por fim, certos tausi ofereceram-se, por conseguir, impreterivelmente, a chuva e indicaram a ocasião e a hora precisas em que ela cairia. Foi aceite a sua oferta com aplau- so, alegria e grande esperança pelo acontecimento. Os tausi construiram, então, um grande estrado com mesas e, como houvesse muitas iguais, em altura e largura, foram colocando umas sobre outras, principiando com muitas e aumentando, a pouco e pouco, com menos, até terminarem a sua obra, de belas proporções e razoável altura, com uma só. Nesta última e a mais alta se instalou o mais categorizado deles, orando e suplicando, e os outros, faziam o mesmo, como os profetas de Baal (se bem que diferissem, porquanto tiveram muito cuida- do nisto, pois, não impetravam sangue mas água). '#íli| Sân-sin (Xan-hsién), génio. 167
PE. ÁLVARO SEMEDO Estavam os circunstantes esperando o resultado e os ministros, notando tão grande auditório, que era quase infi- nito, redobravam as orações, os assobios e as cerimónias. Quando chegaram o dia e a hora marcados, o céu principiou a toldar-se com densíssimas nuvens, causando alegria em to- dos e crédito para os ministros que tinham prometido feliz cumprimento da sua promessa e, assim, esperou-se a todo o momento que caísse a chuva, mas, eis que (o Senhor nos li- vre) abalou o céu, despejando uma fúria de calhaus tão gran- des como ovos e alguns ainda maiores, arruinando as semen- teiras, hortas e jardins e causando a morte de algumas pesso- as que tinham inventado tal coisa. Escreveram-me os padres de lá que se pensou que se acabava o mundo tão grande foi a confusão e o fragor das pedras que caíam. Os profetas, por castigo de terem dado pe- dras em vez de água, foram todos bastonados. A terceira seita dos pagodes é da índia, das partes do Indostão. Chamam-na Xaca,1 por ter sido este o seu autor que, segundo contam, foi concebido pela sua mãe Maia2, so- mente por ter visto em sonho um elefante branco; e, para maior asseio, pariu de uma das ilhargas, morrendo, porém, imediatamente, com dezanove anos. Vendo que a morte da sua mãe fora causada pelo seu nascimento, Xaca resolveu abandonar o mundo e fazer penitência no Monte Nevoso, onde teve quatro mestres com quem estudou, durante doze anos, estando aos trinta já consumado na ciência do Primei- ro Princípio. Tomou, então, o nome de Xe Kia3 ou Xacca. En- sinou a sua doutrina durante o espaço de 49 anos. Teve mui- tos alunos que, depois da sua morte, reuniram os seus escri- tos e divulgaram a sua doutrina pela maior parte da Ásia. Esta seita entrou na China no ano 73 do Redentor, ten- do sido mandado buscar pelo imperador Hanmim,4 em consequência de um sonho que teve, segundo contam os chi- 1 Nome do Buda, em japonês. 2t(BÍP Mo-Ié (Mo-Iê), a Santa Mãe. 3 Sek-ka (Xi-tchiã), Sáquia. 4 8W! Hón Meng (Han Meng), 58-76 A.D. 168
DO ESTADO TEMPORAL DA CHINA neses nos seus livros. Foram os pregadores desta seita, os bonzos, bem recebidos pelo imperador, tendo sido muito poderosos e estimados pelos seus princípios e em tão grande número que dizem ter chegado a três milhões. Mas, com res- peito a este número, são hoje muito poucos e, ou porque se fiaram em ser muitos ou porque confiaram no facto de se en- contrarem no valimento do rei, provocaram tumultos consi- deráveis e, ainda, o que é mais certo, pelo mal que acontece a muitos reis, após a sua entrada, foram caindo de importância e, a não ser nos ofícios e actos do culto ou sacros, os chineses deixaram, mais tarde, de lhes ligar qualquer importância. Os seus sacerdotes andam com barba e cabeça rapadas. O barrete é diferente, mas o resto do seu traje é como dos outros. Adoram ídolos que premeiam e castigam na outra vida. Não tomam mulheres. Vivem em conventos, em núme- ro de 300 a 500 e ainda mais. Recebem moderado sustento do rei. Todavia, cada um vai ganhando a vida como pode, esmolando, recitando orações, cantando e celebrando ofícios contra incêndio, tempestades, infortúnios e sobretudo para os mortos, em cujas funções envergam vestes sacerdotais, manto como os nossos e asperges, sem diferença alguma. Não comem carne, peixe, ovos nem bebem vinho. Têm clausura mas muito vasta. Vivem dentro dum re- cinto muralhado muito amplo, onde há ruas direitas como numa vila e, em todas as casas, habitam 3 ou 4, isto é, um mestre, sendo os restantes escolares, tendo nelas comodida- des para todas as coisas. Aquilo que o rei lhes dá, repartem, igualmente, por essas casas. Têm ainda um superior de to- dos, que os governa mas frouxamente porque somente aten- de os casos que lhe forem submetidos, pois que, de resto, cada um governa a sua casa. Faz ele a distribuição dos cargos, reparte e designa aqueles que hão-de receber os forasteiros. Em chegando qualquer autoridade ao seu convento ou varela, que é o mesmo que templo, toca-se logo um tambor, que está à porta, sendo obrigados a aparecer, em número de trinta, com os seus trajes de cerimónia. Chegado o magistra- do à porta, fazem-lhe uma profunda vénia e logo caminham à frente, acompanhando-o até ao lugar para onde ele se dirige e lhe assistem de pé, na mesma forma, até que se retira. São 169
PE. ÁLVARO SEMEDO propriamente sujeitos ao Conselho dos Ritos, que os governa, mas que, em castigá-los, quando há motivo, é mais indulgen- te que para com os seculares. Há ainda outros que vivem em cavernas, penhascos e grutas e outros fazem penitências que lhes são próprias. Al- guns constroem, em público, casinhotos muito estreitos de madeira, cheios de pregos que estão todos com as ponta de fora, na parte interior da habitação, e ali se metem por espaço de um mês sem se poderem apoiar em qualquer coisa. Dizem que eles nada comem lá dentro, bebendo apenas chá. Os es- pertos afirmam, porém, que eles fazem grandes bolas de car- ne de vaca bem cozida, triturada e seca ao sol, de forma que, quando lhes dão o chá muito quente, deitam-nas dentro, des- fazendo-se, se bem que tal alimento não seja muito forte é, no entanto, suficiente para poderem passar bem e sustentarem o logro de que vivem sem comer. Há alguns que não pertencem a nenhum convento ou varela nem são filhos de qualquer mosteiro, não sendo admi- tidos neles como hóspedes mais que por um dia. Chamam- -nos vagabundos e entre eles encontram-se, muitas vezes, fa- cínoras, malvados e, particularmente, ladrões. A maior parte desses bonzos não dão escândalos, sendo muito pacientes, dóceis e reverentes, provindo isso ou do hábito que os humilha ou da pouca estima que os mantém rebaixados. Nem tão pouco deles se contam histórias, posto que, muitas vezes, de muitas delas se fazem menção. No espaço de 22 anos, falando das que se tornaram públicas, soube ape- nas de duas, uma das quais não contaria a quem quer que seja. Na cidade de Hancheu encontrei, uma manhã, um bonzo amarrado a uma árvore e maltratado com punhaladas daquele a quem fizera má justiça. Na aldeia de Xhan hay, na província de Nankim, ao tem- po em que eu ali residia, um bonzo foi chamado por uma viúva, para recitar, em casa, alguma coisa, pela alma do de- funto marido, mas parece que se fez mais comemoração dos vivos que do morto. Conhecido o facto, expuseram-no à ver- gonha (pois que castigaram-no muito bem), durante um mês 170
DO ESTADO TEMPORAL DA CHINA inteiro, com um tábua grande e quadrada ao pescoço, na qual estava escrita em grandes letras o motivo da sua penitência. Ora, isto, durante o tempo de 22 anos da minha estadia, pare- ce ser muito pouco. Não me faltaria, porém, que dizer, mas melhor é calar-me do que falar. Há, ainda, na China monjas que vivem da mesma for- ma, rapando a cabeça. São, porém, poucas e não guardam clausura. O fim de todas estas seitas de bonzos é fazer penitência nesta vida, para serem melhor providos na outra. Crêem na transmigração pitagórica e na ida da alma para os infernos dos quais admitem a existência de nove. Depois de terem percorrido todos, aqueles que encontraram melhor sorte, re- nascem homens. Outros, que tiveram sorte medíocre, renas- cem animais semelhantes aos homens. A pior desventura é daqueles que renascem aves, pois não podem esperar, na pri- meira transmigração, tornam-se homens, mas numa outra, depois de terem renascido, uma vez, sob a forma de qualquer outro animal. Esta é a crença vulgar não só do povo, sendo inacreditável quão arraigados se encontram estes erros nele, mas ainda de pessoas de maior categoria. Os mais cultos ou os mais dados ao ateísmo abandonam, porém, esta via, que chamam exterior, seguindo uma interior e secreta, só para eles, pondo todo o seu intento no conhecimento do Primeiro Princípio (o que é propriamente a doutrina de Xaca) que crê- em ser o mesmo para todas as coisas, sendo todas as coisas o mesmo para com ele, sem distinção alguma essencial, obran- do, somente, pelas qualidades extrínsecas que a ele se sujei- tam, como a cera trabalhada em várias figuras que se liquefaz e derrete, ficando apenas a própria cera. Segundo este seu modo, dividem os homens em dez classes. Os das quatro primeiras são boas, isto é, os principi- antes, os proficientes, os veteranos e os consumados. Destes os das três primeiras caminham bem, mas encontram-se ain- da na via; os da quarta, porém, já alcançaram a perfeição, por meio da contemplação do Primeiro Princípio e pela mortifi- cação das paixões que os inquietavam com perturbações e escrúpulos, e gozam já de tal quietação e paz interior da alma que nenhuma coisa lhe causa pena nem remorso algum de 171
PE. ÁLVARO SEMEDO quanto pensam, dizem e obram, estando assegurada a sua consciência. Depois da morte, não esperam recompensas nem temem castigos, pois todas as coisas voltarão ao seu princípio como dantes. Para as outras seis classes de pessoas, destinam seis in- fernos. O primeiro e o mais brando, para crianças que ainda não tenham experiência de paixões nem dificuldades, parti- cularmente, de avareza, ira, etc.. O segundo é para aqueles que, postos na polícia do mundo, se entregam a todas as vai- dades deste. O terceiro, para aqueles que, como animais bru- tos, seguem as suas paixões e apetites desordenados. O quar- to, para aqueles que roubam, ferem, assaltam e matam. O quinto, para aqueles que padecem fome, sede, misérias e tra- balhos, exteriormente, do corpo e, interiormente, da alma. O sexto, para aqueles que executam trabalhos voluntários como os bonzos, penitentes que jejuam, servindo-lhes esta sua vida exterior de disposições para a interior e, uma vez alcançada esta, aquela de nada mais lhe serve, tal como o arco da abóbada que, dispensa este, quando estiver concluída. Ora consideram assim os infernos e, quando se trata da transmigração para animais, dizem que ela ocorre nesta mes- ma vida. Assim, se uma pessoa for dada à cortesia e gentile- zas humanas, dizem que regressou à forma humana; se iracundo, em leão; se cruel, em tigre; se luxurioso, em porco; se ladrão, em ave de rapina, donde resulta existir entre eles uma bela máxima que diz: ti you thien than ti yeu sin vai, que quer dizer: a glória e o inferno estão dentro do coração. Estas são as três seitas mais célebres da China das quais procedem muitas outras que ali existem. Acham que podem concordar com todas sem detrimen- to da sua observância. Existe entre eles uma sentença que diz: san chiãoye tao,1 isto é, a doutrina são três, a razão delas é só uma, pois que, conquanto o culto, a adoração e o exercí- cio sejam diferentes, contudo, o fim a que todas chegam é o mesmo cum hiu — Nada. 1 —jfi sám-káu iât-tou (sám-tchiáu i-táo), três religiões mas uma dou- trina. 172
DO ESTADO TEMPORAL DA CHINA Os letrados da primeira seita, imitando o Céu e a Terra, atribuem tudo ao governo do reino, da família e da pessoa, mas só nesta vida, pois nada pretendem depois. Os tausi, da segunda classe, sem qualquer respeito pela família ou gover- no, cuidam, somente, do corpo; os da Xaca, da terceira, sem respeito pelo corpo, tratam somente do espírito, da paz inte- rior e do sossego da consciência; donde nasceu a máxima que empregam: iu chi que tau chi xin, xe chi siri, isto é, os letrados governam o reino, os tausi o corpo, os bonzos, o coração. Além destas três, que admitem todas e publicamente se professam no reino, há uma outra que não é pública nem se permite, antes se proíbe. Apesar disso, tem muitos adeptos. Chama-se Pe Lien Areo,1 odiada pelos chineses, principal- mente pelas autoridades, por os seus sequazes andarem mui- to encobertos, fazendo todas as coisas de noite com muito segredo. Considera-se, commumente, que o seu intento é assenhorear-se do reino e, na verdade, sabe-se que os ho- mens perversos desta profissão tentaram isso. Afirmou-me um chinês de crédito que existem na China muitos milhares destes. Têm o seu chefe ou rei com os seus oficiais, que distanciam-no nas suas cartas, reverenciando com respeito tal pessoa; e os presentes, quando existe a opor- tunidade de os reunir, honram-no com servilidade, cortesia e esplendor, dignos de real majestade. Eles conhecem-se bem entre si. No ano de 1622, na província de Xantum, que fica entre as de Nankim e Pekim, foi reconhecido um deles, que era chefe e prenderam-no. E porque os mandarins não procura- vam, somente, a sua pessoa, mas ainda aqueles que seguiam a mesma seita, interrogaram-no sobre os seus correlegionários. Como não quisesse confessar, submeteram- no, de vez em quando, a tormentos. Sabendo isto, ou porque fossem levados pela dedicação a este seu chefe ou pelo receio de que ele fosse constrangido a confessar, descobrindo-os, resolveram os seus partidários andar sobre os mandarins armata manu e à força de armas libertá-lo, como acabaram 1 ÉdSSfc pák-lin káu [pai-lien tchiáu), a Religião do Loto Branco. 173
PE. ÁLVARO SEMEDO por fazer inesperadamente, não tendo sido possível resistir- -lhes nem escapar. Morreram muitos mandarins e tão atemo- rizados ficaram os restantes que soltaram o companheiro. Os sectários formaram, então, um exército e começaram a conquistar a província. Ao princípio o seu número não era apreciável mas, em breve, se lhes juntaram tantos, parte seus partidários e parte vagabundos, que chegaram a muitos mi- lhares e, assim, sem encontrarem resistência, prosseguiram na conquista de pequenas terras até que tomaram duas aldei- as muralhadas, onde se fortificaram, saindo de ali para assal- tarem o inimigo. Esta notícia deu muito que pensar à corte, encontrando- se os rebeldes muito próximos. Com a diligência que se fez, remediou-se finalmente tudo, porque foi enviado de Pequim numeroso socorro e, não obstante, terem-se travado, ao prin- cípio, muitas batalhas com variados êxitos duma e doutra parte, por fim, os de Pequim ficaram vencedores, o exército rebelde desbaratado e o seu príncipe preso. Este, denominan- do-se rei, conservou este título tão tenazmente que, antes de chegar à corte, tendo sido alojado por uma personagem do reino, não lhe fez reverência alguma e, avisado para que se curvasse e lhe fizesse vénia, respondeu com sobranceria, di- zendo que um rei não reverenciava ninguém. Chegado à cor- te, foi condenado à morte e decapitado. Foi esta a coroa que mereceu. O rei ordenou, depois, que aquietasse tudo e fosse perdoada a rebelião à maior parte. 174
CAPÍTULO XIX Das superstições e sacrifícios da China A superstição é companheira inseparável do paganis- mo, e, na China, Japão, Coreia e reinos vizinhos, manifesta-se em grande excesso. Dá não pouca ocasião para estas supersti- ções, o matemático do rei, porque das impressões do ar, cores do céu, tempestades, trovões extemporâneos, aspectos do sol, dos quais têm descritos 22 aspectos diferentes e das vári- as aparências da lua, que chegam a ser 16, deduz os prognós- ticos, principalmente, sobre se haverá paz no reino, carestia, mortes, mutações, perturbações, e coisas semelhantes. Para este fim faz o almanaque para todo o ano, dividido em luas, e as luas, em dias calculados e declarados faustos e infaustos, a fim de se fazer ou deixar de se fazer qualquer coisa, construir para os vivos e outras ocorrências semelhan- tes, pelo que os chineses, em todos os seus negócios, obser- vam de tal forma essas rubricas que, somente para as não infringir, acertam, dilatam, ou adiam os seus negócios. Deste modo, se o almanaque disser que se deve fazer um tal negó- cio em tal dia, não obstante todos os elementos conjurarem contra isso, ninguém o protelará ou deixará de o fazer. Além deste almanaque, cujos exemplares são tantos que não há casa que o não tenha, estão as praças e as ruas cheias de adivinhos e áugures, com loja aberta e mesa em ordem, somente para lerem a sina daqueles que lhes pedem que 175
PE. ÁLVARO SEMEDO dêem a sua opinião, ficando, porém, a maior parte das vezes enganados. São porém, tantos os que acorrem, que não obstante serem infinitos esses adivinhos, conseguem, no en- tanto, viver e sustentar a sua família com esta arte. Alguns professam adivinhar por via de números pares ou ímpares e com figuras negras ou brancas, fazendo com elas 64 mutações, que explicam conforme bem lhes parece. Outros consideram o tempo de nascimento, no que os chineses fazem grande diligência, para conhecerem a hora, o ponto e a conjuntura em que nascem os seus filhos; outros, a quem chamam ti/i,1 pretendem, por meio da localização do terreno e da sua correspondência com o céu e partes dele, adivinhar determinando quais os lugares prósperos ou azia- gos, onde deverão edificar casas ou sepultar os mortos e o próspero prosseguimento dum negócio com boa fortuna para a família ou ao contrário, ou com enfermidade, pobreza, má fortuna, desgraça e outros males, existindo, para este fim, mestres muito exercitados aos quais se paga muito dinheiro mas sem utilidade alguma; outros fazem adivinhações, lendo a fisionomia do rosto; outros as linhas e os traços das mãos e outros explicam os sonhos. Encontrando-me eu, em Nankim, houve quem tivesse ido consultar o seu sonho. Tinha essa pessoa visto um cha- péu de sol. Perguntou-lhe o mestre se tinha alguma questão no tribunal. Respondeu que sim. Disse, imediatamente, o mestre: — Bem, sari,2 quer dizer chapéu de sol e sari,3 quer dizer também desvanecer. Portanto, o seu sonho significa que tudo se há-de desfazer, por isso, nada lhe há-de aconte- cer de mau. A pessoa que o consultou ficou, então, contente com o adivinho mas, chamado ao tribunal, recebeu 30 bastonadas, dadas por boas mãos. O mísero, encolerizado com o castigo do qual nada receava, andou a altercar com o mestre, que lhe respondeu: — Ah!, esqueci-me de lhe per- guntar se o chapéu de sol que viu era novo ou velho. 1 llaTEI tei-lei (ti-li), geomantes. 2&sán [sân], guarda-sol. 3 sán (sen), dispersar, desfazer. 176
DO ESTADO TEMPORAL DA CHINA Era novo — respondeu o néscio. Acrescentou, então, o mestre: — Ora, faça de conta que comece agora a ter cautela. Outros adivinham só por meio do tacto e são cegos. No ano de 1530, veio à metrópole de Kiamsi um cego, homem já velho. Abriu uma loja, que era frequentada por muita gente nobre. Dizia tantas coisas acertadas que um gentil cidadão duma das quatro casas principais dessa cidade veio contar- me o que se passava, por me conhecer e por ser sabedor da minha opinião sobre este assunto. Contou-me muitos casos particulares de coisas já acontecidas e conhecidas daquele que predizia o futuro e instou comigo para que fosse, em pes- soa, fazer a experiência. Fui, tão somente, para o desenganar. Pôs-me diante do cego, que me tocou nas mãos e me disse que falasse. Falei. O cego começou, então, a dizer que eu era casado, tinha já dois filhos, um razoável, mas o outro, desen- freado e pouco obediente, que a minha mulher era imperti- nente e descontente, em suma, que toda a família estava a sossobrar, mas que, em me doutorando, tudo havia de se con- sertar. Acudiu o meu amigo: Mas já está doutorado. — Aon- de? — perguntou o cego. Noutra província, lhe respondeu aquele. Retirou-se, então, o cego, vendo bem sem olhos que tinha errado. Além destes indivíduos que são consultados há, nos templos, várias sortes e um livro que as explica, sendo tão frequente em ir tirá-las como elas em sair ao contrário. Observam, igualmente, e aceitam o prognóstico do can- to dos pássaros e doutros uivos de animais e se, ao saírem, logo pela manhã, encontrarem à porta um homem vestido de luto, um bonzo ou coisa semelhante, tomam por mau augú- rio. Dizem ainda que alguns têm adivinhos familiares a quem consultam frequentemente. Destes não conheci nenhum. Antigamente, no tempo dos tártaros, havia muitos e muito proficientes em tal arte e, conforme o que conta Marco Veneto, obravam muitas maravilhas. Porém, hoje, não há nis- so coisa segura. Conservam, contudo, uma casa, que é sem- pre transmitida por sucessão com renda particular do rei e o seu superior tem o nome de Mago, sendo o feiticeiro-mor e o chefe desta seita. Algumas vezes é chamado pelo próprio rei. Eu, por mim, creio que os demónios têm mais poder sobre 177
PE. ÁLVARO SEMEDO eles do que eles sobre os demónios. Quanto aos sacrifícios são estes frequentíssimos na Chi- na, tanto os maiores como os menores, e cada um encomenda aquele que deseja, ou, para melhor dizer, que pode, conforme o seu estado e possibilidades. Sacrificam em quatro épocas do ano: ao Céu, Sol, Lua, à maior parte dos Planetas e das Estrelas, à Terra, montanhas, às quatro partes do mundo, ao mar, aos rios, lagos e outras coisas. Parece, porém, que, na realidade, sacrificam aos espíritos dessas coisas e que, ape- nas materialmente falando, dizem sacrificar à Terra, aos montes, etc., o que se verifica em muitos outros sacrifícios que fazem, como nos sacrifícios da casa, cozinha, barcos, es- tandartes, quando vão para a guerra, e coisas semelhantes, nos quais não falam em sacrificar se não aos espíritos tutela- res dessas coisas. Sacrificam ainda aos ídolos e homens insignes aos quais, quando os reconhecem como tais, mandam edificar templos e colocar as suas imagens, por serviços prestados ou por benefícios recebidos pelo reino. Isto foi, ao princípio, e ainda agora é uma espécie de agradecimento e comemoração, e, propriamente, não se lhes fazem sacrifícios mas somente oferendas e cerimónias. O povo, rude como é, vai com o tempo adorando-os como san- tos, fazendo-lhes orações e outras honras semelhantes. Fazem tais oferendas aos seus antepassados de quem têm, ordinariamente, retratos e imagens ou, pelo menos, os nomes escritos nessas oferendas e cerimónias. Deles só fa- zem menção de seis, isto é, do primeiro cepo da família, do tetravô, trisavô, bisavô, avô e do pai. Quando morre aquele que governa a casa, inscrevem o que entra de novo, substitu- indo o tetravô, com o que ficam assim sempre seis e não mais. Estas oferendas e cerimónias não são propriamente sa- crifícios feitos aos seus pais, pois não acreditam que os seus pais e antepassados sejam todos deuses ou santos. É, sim- plesmente, uma demonstração de gratidão e reverência, que consideram uma obrigação para com aqueles de quem rece- beram o ser. Aquilo que sacrificam são alguns animais, como cabras, porcos e bois. Isto é o mais comum. Das aves as mais utiliza- 178
DO ESTADO TEMPORAL DA CHINA das são galos, galinhas, peixe e aquilo que quiserem. Sacrifi- cam ainda peças de carne e, mais vulgarmente, a cabeça, ar- roz, legumes e vinho. Se é o rei quem sacrifica, grande parte dessas coisas vai para os mandarins; se é gente de categoria, como chefes de família, repartem-nas pelos parentes. A gente ordinária, depois de ter feito a oferta (aquilo que se oferece apresenta-se, de ordinário, cozido), torna a recolher todas as coisas, recoze-as e prepara-as muito bem, para fazer com elas banquetes. Sacrificam várias outras coisas como bandeiras e cha- péus de sol, tudo de seda ornamentada de prata e ouro, folhas de ouropel e grande quantidade de dinheiro feito de papel cortado. Tudo isto é vendido já feito por vários artífices nas lojas da praça e tudo se queima. Sacrificam, indiferentemente, todos, não havendo para tal acto ministros expressos para este fim, como, na realida- de, os não têm para outras coisás, como ofícios e enterramentos e para cantar e oficiar neles com todo o rigor. O sacrificar ao Céu, Terra, Sol, Lua, Planetas e Estrelas pertence só ao rei e se outros o fizerem, solenemente, cairão em grave delito. Para este fim, existem nas duas cortes sumptuosíssimos templos, onde o rei sacrifica em pessoa, nas quatro estações do ano, Primavera, Verão, Outono e In- verno e, se não puder, envia alguma personagem em seu lu- gar. Os senhores e os titulares sacrificam aos montes, lagos, etc.. Os nobres e as autoridades às quatro estações do ano e às partes especiais da Terra, como montanhas e coisas seme- lhantes. Aos restantes, como aos ídolos, deuses dos lares, génios, etc., sacrificam todos aqueles que quiserem, havendo, para isso, datas marcadas e lugares particulares, com a excepção de que, algumas vezes, se acomodam às ocasiões e lugares. Assim, se tiverem de navegar, farão os sacrifícios, no dia em que partirem e no mesmo barco ou ribeira vizinha. 179
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CAPÍTULO XX Da milícia e das armas dos chineses A ciência militar entre os chineses é coisa muito antiga, conforme consta na sua história e livros, sendo certo que fi- zeram guerras e conquistas muito insignes com vários reinos. Admite-se, geralmente, que conquistaram Ceilão e, ali próxi- mo, na cidade de Nagapatão, se vê, ainda hoje, uma constru- ção a que chamam Pagode dos Chineses. E tradição da gente dessa terra que fora edificada pelos chineses e não é obra indigna de quantas se vêem neste reino. Contudo, os seus livros não lhe fazem menção alguma, mas isso não é motivo suficiente para se pôr, totalmente de parte, esta tradição, porque também não existe nos seus livros refe- rências à antiga Cristandade, sendo, no entanto, certíssimo que ela existiu e até muito dilatada. Como quer que seja, consta que tiveram como tributários 114 reinos mas, presen- temente, são-nos somente os mais vizinhos, todavia, estes não são muitos visto que uma parte se libertou negando-lhes o seu tributo e outra parte foi abandonada pelos próprios chi- neses, que julgaram melhor retirar-se para o seu reino e suas terras e gozá-las antes, em paz e repouso, do que andar sem- pre em guerras e trabalhos para conquistarem ou manterem as doutrem. Além das conquistas e guerras feitas com os reinos es- trangeiros, tiveram outras, no próprio, por muitos anos. Entre 181
PE. ÁLVARO SEMEDO os muitos livros que tratam delas, têm uma colecção de dez tomos, que fala somente de guerras desse tempo, de capitães, do modo de guerrear, de batalhas, vitórias e outros assuntos, onde se lêem coisas muito notáveis, que demonstram, clara- mente, terem sido gente belicosa e de valor, se bem que haja hoje muito pouca. As causas de terem ficado assim enfraque- cidos são grandes como abaixo se dirá. Agora, o que existe de valor no reino é a enorme multi- dão de gente, pois que além da soldadesca, que existe na fronteira dos tártaros e nas armadas do litoral, todas as pro- víncias e, nelas, todas as cidades e aldeias do reino têm a sua própria, sempre paga e comandada pelos seus capitães. No caso de qualquer província necessitar de gente, serve-se da soldadesca das suas cidades e vilas que, por ordem do vice- rei, facilmente se reúne. E se a emergência surgir na fronteira ou noutro lugar do reino, por ordem do rei ou do seu conse- lho de guerra, se reúnem, ainda, os soldados das outras pro- víncias, pouco mais ou menos, conforme a necessidade e a possibilidade de cada uma, por não serem todas iguais no número de soldados. O efectivo dessa tropa está sempre completo, pois que, faltando ou morrendo um, logo se apresentam muitos preten- dentes da praça que vaga, se bem que esta seja bastante limi- tada, sendo, imediatamente, provido um. Dizem que, na cidade de Nankim, existem 40.000 sol- dados, na de Pekim 80.000 e, por todo o reino, conforme afirma o padre Mateus Ricci, que esteve muitos anos na China e teve grande conhecimento desta, mais dum mi- lhão. O padre João Rodrigues, que andou também, muito pela China e viu os principais lugares, tendo sido muito curioso, disse ter encontrado, por diligência feita nos seus livros, que, no corpo do reino, com todas as suas vilas e cidade, se encontram 594.000 e, na Grande Muralha, que confina com os tártaros 682.888, não incluindo nesse nú- mero os soldados da armada marítima. Este número não deve parecer excessivo, se considerarmos que a China, além de ser bastante povoada, é tão grande que pode abar- car a Espanha, a França, a Itália, a Alemanha Alta e Baixa e a Inglaterra com todas as suas ilhas. 182
DO ESTADO TEMPORAL DA CHINA Não há dúvida de que, em toda a multidão, existe algum valor, se nos referirmos, principalmente, àqueles que estão nas fronteiras, pois, têm, às vezes, repelido, com bravura, os tártaros. No ano de 1598, quando os japoneses, depois de atravessarem todo o reino de Coreia sem resistência alguma, quiseram entrar na China com o propósito de a conquistar, os chineses repeliram-nos, de forma que, tendo perdido muita gente sua sem conseguirem nada, tiveram de regressar com a maior parte do saque. Semelhantemente os da armada marí- tima travaram batalhas das quais saíram vitoriosos. Mas, falando daqueles que estão nas cidades e vilas do reino, são de pouco valor e nulos e não se há-de julgar que sejam apenas soldados e não façam outro mister, pois, são residentes e naturais dos próprios lugares, sendo alfaiates, sapateiros, remendões, etc. Estão à ordem, para acompanha- rem e viajarem e para todo o serviço do rei, abandonando as casas e andando em guerra, quando chega a ordem real. São ainda obrigados a comparecer na revista, durante os três me- ses de Primavera e os três do Outono, a qual se efectua, infa- livelmente, todos os dias, nas cidades grandes, dividindo-se os soldados em terços, e, nas vilas, de dias a dias, reunindo- se todos. O modo como se procede nessa milícia é assim: toda a soldadesca, quer seja de pé ou a cavalo, está sempre comple- ta, e, faltando um, é substituído por outro. No lugar e posto em que uma vez foram admitidos ficarão quase para sempre ou com pouco melhoramento. Disse quase sempre porque, nas fronteiras, se algum soldado se distinguir, pelo valor ou estratagema, promovem-no, algumas vezes, a capitão e vai subindo de posto sem ser examinado. É, porém, coisa que raras vezes acontece. Para fazer capitães, cabos e lugares-tenentes, etc., há exames e neles se conferem dois graus, que, para melhor compreensão lhes chamaremos licenciado em armas e dou- tor em armas. O primeiro exame faz-se nas capitais das pro- víncias, reunindo-se os pretendentes, nas mesmas universi- dades ou palácios gerais daqueles que estudam, sendo ali examinados. Dão para ponto dos exames perguntas sobre as- suntos de guerra, às quais respondem com o pincel, fazendo 183
PE. ÁLVARO SEMEDO as suas dissertações e composições. Finda a prova especulativa, efectua-se a prática, devendo desferir nove se- tas a pé firme e outras nove, correndo a cavalo, contra um grande alvo, e, de entre aqueles que se portarem melhor, tan- to nos exames de composição como no de desfechar as setas, são escolhidos alguns aos quais conferem o primeiro grau, tendo, também as suas insígnias. O segundo grau é conferido na corte, no mesmo ano. São convocados todos aqueles que já alcançaram o primeiro grau para prestarem da mesma forma o exame. Só há a mais as perguntas sobre coisas de guerra. As insígnias são as mesmas das dos doutores em letras, quando estão nas cida- des, e se desfruta a paz, mas, na guerra ou em actos públicos, aos quais assistem como militares, têm as suas insígnias par- ticulares de capitães. Os graduados são colocados, no mesmo ano, nos postos de capitães, e vão neles ascendendo até che- garem a ser capitães gerais, apesar de não haver guerra. Aqueles que alcançarem somente o primeiro grau são provi- dos em cargos inferiores e ordinários da milícia, mas sempre do governo. Quanto às armas direi, primeiramente, que o emprego da pólvora é muito antigo na China e, nos fogos de artifício que fazem com muita perfeição, consomem-na tanta que mais gastam em festas num ano do que em suas armas, em cinco. Parece que, antigamente, se serviam mais dela para a guerra, pois que, ainda hoje, se vêem bombardas de bronze, curtas sim, mas perfeitas e com os seus reforços, nas portas da cidade de Nankim, dum e doutro lado, donde se conclui que estiveram em uso. Agora não se servem delas e têm-nas como simples ornamento. Estão, porém, em algum uso, as espingardas, poucas e más. Empregam mais os morteiros de dois palmos com balas de mosquetes que encaixam três e, às vezes, quatro num pau e disparam-nas, simultaneamente. Nos vasos de guerra levam peças, mas muito pequenas e não sabem atirar por mira. Presentemente, depois que, em Ma- cau, as autoridades chinesas fizeram muitas armas de fogo, por intermédio dos portugueses, vão já entrando na China os mosquetes. Porém, as armas de que se servem mais são os arcos e flechas, lanças e cimatarras. 184
DO ESTADO TEMPORAL DA CHINA No ano de 1621, a cidade de Macau enviou de presente ao rei três bombardas grandes e, com elas, bombardeiros para fazerem demonstração do seu uso, como fizeram, em Pekim, com espanto de muitos mandarins que quiseram estar pre- sentes, para ver como é que as disparavam, no que aconteceu uma desgraça, pois, tendo rebatido, violentamente, uma de- las, causou a morte de um português e de três ou quatro chi- neses, com o que ficaram muito amedrontados. Foram de grande estima e levaram-nas para a fronteira dos tártaros que, desconhecendo aquelas novas máquinas e aproximando-se muitos juntamente, unidos, sofreram tais estragos com um tiro de peça de ferro, que não somente se puseram em fuga como andaram depois sempre com mais cautela. Como armas defensivas usam malhas circulares, capa- cetes e umas lâminas de ferro de largura de três dedos, sobre- postas umas às outras, que trazem à frente, no peito, e atrás, nas costas. São pouco resistentes e só servem para aparar os embates das setas. Falando de modo absoluto, tanto as armas como os sol- dados são, presentemente, de pouco valor e força. As razões disso são muitas. A primeira é a muita ociosidade, na qual têm estado há muitos anos, sem qualquer guerra no reino. A segunda, o muito caso que fazem das letras e pouco das ar- mas, a tal ponto que qualquer magistrado tem mais ascen- dência que um capitão de armas, por mais valente que seja. A terceira, o modo de escolher os capitães por meio de exames, como se disse, sendo todos militares novos, que nada fazem de coisas de guerra. A quarta, porque os soldados, ou hão-de ser de natureza animosos e valorosos, ou estimulados para empresas pela nobreza do sangue, ou acicatados pela educa- ção dos seus capitães. Aos da China faltam estes motivos, porque, falando de um modo geral, a coragem é pouca, a no- breza, menos e a instrução ainda menos, pois, bastonam um soldado, por qualquer erro como a uma criança na escola. A quinta, porque acima dos capitães, não obstante serem gene- rais, manda um generalíssimo oficial de letras, que anda sempre afastado do nervo do exército e do lugar da batalha, pelo menos, uma jornada de caminho. Deste modo, para dar ordens, encontra-se afastado, mas para fugir, em qualquer 185
PE. ÁLVARO SEMEDO caso de perigo, está preparadíssimo. A sexta, nos conselhos de guerra (dos quais há dois, um na corte de Nankim e outro na de Pequim, tendo ambos o seu presidente, dois colaterais e oito a nove colegas), não há um que seja soldado ou capitão ou que tenha jamais visto uma guerra, porém, não obstante isso, toda a milícia do reino lhes está sujeita, particularmente a de Pekim. Só se poderá responder, ao que se disse de os chineses fazerem exibições e exercícios de guerra, durante três meses da primavera e três do outono, todos os anos, que não podem deixar de os fazer com proveito visto que se exercitam em atirar setas de mira e as atiram bem. Porém, a verdade é que é a coisa mais ridícula do mundo esses exercícios. Assim, divi- dem a gente em esquadrões, parte simula ser o inimigo e par- te chineses, como entre nós as crianças fingem de moiros e cristãos. Aquele vem de longe como que para guerrear com estes, os quais mandam espias e enviam correios aos mandarins (que estão sob docéis ou parasóis de seda), avi- sando-os que se encontram em tal parte e que o inimigo che- gou a tal sítio. Mandam, então, os chineses soldados ao en- contro. Encontrando-se, tocam com as suas lanças e espadas, tal como se procede numa comédia; nem se faz, mais ou me- nos, pouco mais do que isto. 186
CAP. XXI Da guerra que os tártaros moveram contra a China Quando Humun,1 chefe da actual família real, expulsou fora do reino os tártaros, que sujeitaram, por 90 anos, toda a China, não só recuperou todo o reino como dominou os dos outros, subjugando os mais vizinhos da parte do norte, e obrigando-os a pagar-lhe tributo. Estes ficaram como reinos, pois o mesmo Humun os dividiu em 160 famílias ou estados, dando-lhes diversas dignidades e ofícios. Desenvolveram-se, depois, de tal forma, que se dividiram, entre si, em três rei- nos; um ao ocidente, outro ao norte e o terceiro ao oriente. Os dois primeiros subtrairam-se, imediatamente, à obediência dos chineses, ficando seu amigo só o do oriente, que tratava com eles e cumpria para com eles as suas obrigações. Durou isto muitos anos até que os chineses, vendo que esse reino ou porque crescia muito ou por razão de estado ou por qualquer motivo particular, determinaram oprimi-lo e abafá-lo. Os tártaros, acicatados pelo desespero, resolveram, então, sair em guerra, mais uma vez. Ora é este o resultado mais comum das extorsões e tiranias dos que querem mais dos povos do que eles podem, motivo por que aquele rei dos lacedemónios, Teopompo, tendo-lhe dito a mulher que ele, 1 &Ã Hông-Mou [Hung-Mu), 1368-1399. 187
PE. ÁLVARO SEMEDO por ter aliviado o reino de muitos tributos, o deixava mais pobre ao seu filho do que quando o recebera do seu pai, res- pondera: relinquo sed dirturnius. Os tártaros reuniram, secretamente, gente e, inesperadamente, atacaram uma forta- leza da província de Leaotum, que tomaram, efectuando, de- pois, muitos outros assaltos, com êxito para si e dano para os chineses. Os tártaros ocidentais e do norte, ou fosse por amor da pátria ou por interesse, o que é mais certo, armaram os seus homens e vieram em socorro dos orientais e, a pouco e pou- co, reuniram tantos combatentes que, no ano de 1618, dois enormes exércitos, um chinês e o outro tártaro, travaram uma batalha campal, na qual foram vencidos e desbaratados os chineses com perda de muita gente. Mas, para melhor en- tendimento desse estado de coisas incluo aqui um memorial que o Presidente do Conselho de Guerra submeteu ao rei so- bre 'este assunto, o qual trasladei, então, e enviei de lá, por novidade, e agora, aqui, encontrei impresso dizendo assim: Memorial do Presidente do Conselho de Guerra ao Rei Neste ano quadragésimo sexto do Vosso Reinado, na 6° Lua (que foi o ano de 1618, no mês de Agosto) o Presidente do Conselho de Guerra vos oferece este Memorial como ao nosso Rei e Senhor, na ocasião em que os tártaros entraram adentro da muralha, da parte do norte, no qual peço-vos, humilde- mente, que queirais atender a este assunto e abrir, imediata- mente, os tesouros para ajudar esta guerra com gente e vitualhas. Porque a verdade é que, neste mês, recebi novas dos capitães, que residem na provinda da muralha do norte, com as quais me dão aviso, que em toda a parte daquela pro- víncia foram afixados éditos, que diziam que os tártaros se juntaram para conquistar este mundo da China; e me avisa- ram do dia fixado para a batalha, a que com efeito se travou, nessa ocasião, com grande esforço e multidão de gente. En- trando na muralha, capturaram alguns dos nossos para os sacrificar. No primeiro dia da batalha, libaram sacrifícios com grandes aclamações ao seu rei, aclamando-o já rei de 188
DO ESTADO TEMPORAL DA CHINA Pekim. Traziam consigo muitas centenas de milhares de sol- dados e cada um várias espécies de armas. Os nossos, que se reuniram para ir de encontro e repeli-los, eram dois capitães generais, 96 capitães ordinários e 300.000 homens de guerra. Travou-se a batalha e, no primeiro encontro, mataram-nos 38 capitães, entre os quais se encontrava um general. Os outros mortos eram sem número. Capturaram mais de alguns milha- res e, na retirada, com o tropel da confusão mataram os nos- sos a si mesmos mais de 1.000 pessoas. A gente das cidades e doutras vilas fugiu. Donde, no mesmo dia da batalha, se apo- deraram de três cidades. Reuni com este aviso o Conselho, os colaus e os outros mandarins desta corte para, em coisa de tanta importância, tratarmos de qualquer bom expediente. Na verdade, parece que o Céu favorece o inimigo, pois, doutra forma não podiam ter feito tantos estragos na nossa gente em um só dia e tomar três cidades. E assim parece que o Cén se encontra irritado como ainda provam os prodígios que ainda, há pouco tempo, todos presenciaram. Na província de Pekim, no ano passado, não choveu nada e os homens andavam como mortos; na de Xankim, houve tão grande escassez e fome que os homens comiam uns aos outros. Em Nankim, passou aquela multidão de ratos sem se saber donde veio tal flagelo. Nos palácios re- ais, de cinco partes o fogo consumiu duas, e o vento derrubou cinco torres dessa cidade. Chegámos a ver dois sóis juntos, eclipsando-se um ao outro. Todas estas coisas são maus prog- nósticos mas sobretudo vimos entrar um homem nos palácios reais, resolvido a matar o príncipe e tê-lo-ia feito se não tives- se sido impedido (isto aconteceu, quando o rei quis constituir herdeiro do reino o segundo filho, o qual fora proposto por obra e arte aos eunucos e, então, entrou esse homem para matar o primo, mas com medo aterrou-se e as damas socorre- ram o príncipe). O pior é que um mandarim, por ter falado um tanto alto, mostrando nisso a sua fidelidade, Vós Senhor, de fiel o fizeste rebelde, ordenando que fosse preso e, por muito que nós procurássemos libertá-lo, mostrando que era inocen- te, não destes nunca ouvido. (Este aprisionamento foi quando o rei mostrou aos mandarins, na sala real, o primeiro filho, que aqueles pretendiam para herdeiro do reino e o rei não 189
PE. Alvaro semedo queria e um deles, por desejar falar e dar razão ao verdadeiro príncipe, foi mandado pelo rei para a prisão). Muitas vezes os mandarins vos dirigiram memoriais, nos quais se referiram à miséria do povo, pedindo que fossem re- duzidos os impostos, coisa digna de muita consideração, mas, nem por isso, fizestes caso. Nós os mandarins desta corte vos pedimos várias vezes que saísseis em público para dardes audiência, como os vossos antepassados haviam feito até ago- ra, para que o governo se conforme com o do Céu, como con- vém. Destes, umas vezes, por resposta que estáveis enfermo, outras, que fazia tempo frio e áspero e que escolhessmos um outro dia. Esperamos até à época da primavera, princípio de verão, para o propósito daquilo que se pretendia e não somen- te não destes resposta ao segundo memorial como o mandastes queimar. Desta forma tendes estado retirado no palácio, sem fazer caso do que mais importa. Por isso a miséria é tanta e as guerras nos perseguem. Falta a paz e pa- rece que faltará, pois que chegámos a ver correr rios de san- gue e sobretudo, na terceira lua passada, vieram os da provín- cia de Xensi contar que nela apareceu um homem vestido de amarelo com um barrete verde na cabeça, na mão um leque de penas, que disse: "Vamlie (é este o nome do rei) não gover- na. Há muito que reina. Está sempre a dormir. O reino está a perder-se e o povo a morrer de fome. Os capitães morrem atra- vessados pelas lanças." Dito isto, desapareceu. Os mandarins ficaram apavorados. O vice-rei fez grande diligência por sa- ber que homem era aquele mas não foi possível encontrá-lo. Vendo agora as calamidades, a fome, a guerra e outros males que padecem o reino concordamos serem eles prognósticos dessas coisas. Donde tornamos de novo, a pedir que queirais, em breve, abrir os vossos tesouros de prata, para levantar, novamente, a gente e dar remédio a tantos males. É este o memorial do ano 1618. Continuaram, depois, os tártaros, no verão (que no inverno, por ser muito frio, nada se pode fazer), com assaltos de consideração, ganhando, geral- mente, com perda dos chineses, até que, no ano de 1622, dois mandarins principais da fortaleza de Quamsi, que é a princi- pal e, por isso, nela reside o vice-rei dessa província, ou fosse 190
DO ESTADO TEMPORAL DA CHINA porque estivessem descontentes ou por quererem melhorar a sua situação, acordaram, secretamente, com os tártaros, em lhes entregar a fortaleza como de facto entregaram, pois que, vindo os tártaros pela banda por eles indicada, ao começar o combate, foi facilmente tomada, devido à perfídia urdida e postos em fuga todos aqueles que do dolo nada sabiam, os quais juntos com o vice-rei se refugiaram em Xamhai, a der- radeira fortaleza dessa província, antes de Pequim, a chave e fortaleza de todo o reino. Recebida a nova desta última perda na corte, se pertur- baram em extremo o rei e os grandes, tratando de se muda- rem de residência e passarem para Nankim, por ficar mais longe do perigo e isto teria acontecido, se um mandarim prin- cipal (que sempre há algum que cuida do bem público) não tivesse entregue um memorial ao rei, no qual mostrava ser aquela mudança o melhor e o mais breve caminho para per- der todo o reino ou a maior parte pelo menos, por despojar, assim, de forças, a córte e a província de Pequim, tão vizinha da outra que estava a perder-se. O memorial teve o efeito de desfazer o desígnio de fugir e de buscar uma outra nova residência bem como de se orde- nar o reforço de Nankim. Para este efeito publicou-se um édito que proibia, sob graves penas, a saída da corte não so- mente aos mandarins e gente de categoria mas ainda à ordi- nária e aos populares. Com isto se andou aquietando a gente, particularmente quando viram que a corte se reforçava com novos presídios, guardas, sentinelas e rigor nas portas. Aten- deu-se com suma diligência à fortificação do passo de Xam hai quan,1 que, como se disse, termina na província de Leaotum,2 já perdida, e principia na de Pekim, e que, por ser uma passagem estreita nas montanhas, é inexpugnável. En- viaram para ali bastantes munições e novos soldados, em tão grande número, que se afirmava encontrar-se, só nesse posto, 80.000 combatentes. O rei enviou, igualmente, novos capi- tães com amplos poderes, o que teria obtido melhor efeito, se 1 lll&IJB Sán Héi Kuán {Xán Hái Kuán). 2 j®j|l Liu Tông (Lião Tông). 191
PE. Alvaro semedo eles tivessem podido ainda dar nos tártaros. Ora, vendo estes que não era possível a entrada por aquele lugar, em parte, por ser fácil de defender e, em parte, por estar tão bem fortificada de gente, contornaram a Coreia, pela banda do levante, dei- xando de avançar sobre Pekim, mas, se o tivessem feito com exército tão potente e vitorioso, teriam exposto a corte ao maior perigo e temor de quantos jamais experimentados. Os chineses foram ao seu encontro, não longe da corte, e travou- se uma batalha campal tão violenta que, de uma e outra par- te, morreu muita gente, ficando, porém, vitoriosos os chine- ses, pois que, de resto, é grande vantagem o defender a pró- pria casa. Pouco depois disso chegou à corte de Pekim um portu- guês chamado Gonçalo Teixeira,1 vindo com embaixada e presente da cidade de Macau, o qual, vendo a insolência dos tártaros e o temor dos chineses, e julgando prestar serviço ao reino de Portugal e favor a si, por qualquer coisa que lhe pu- desse fazer o rei da China, ofereceu aos mandarins, em nome da cidade, alguns portugueses para auxílio contra os tártaros. A oferta agradou. Entregou-se um memorial ao rei, que logo deu provisão favorável. O Conselho de Guerra despachou, então, um padre da Companhia2 a Macau, o qual já andava com os embaixadores a negociar este socorro com muitas or- dens para as autoridades de Cantão para que dessem despa- cho a este negócio, com liberalidade e comodidade de gente que lhes fosse requerida. Prepararam-se, em Macau, 400 pessoas, sendo 200 sol- dados, entre eles muitos portugueses de cá e outros de lá. A maioria era gente do país, mas, não obstante chineses, nasce- ram, em Macau, e foram criados, a seu modo, entre portugue- ses, sendo portanto bons soldados e grandes atiradores de espingardas. A cada soldado foi dado um moço para lhe ser- vir, comprado com o dinheiro do rei e ainda larga paga com a qual os soldados se vestiram ricamente e se proveram de ar- mas, ficando ainda ricos. 1 Gonçalves Teixeira. 2 Pe. João Rodrigues. 192
DO ESTADO TEMPORAL DA CHINA Partiu esta soldadesta de Macau com dois capitães, cha- mando-se um Pedro Cordeiro, o outro António Rodrigues do Cabo,1 com os seus alferes e outros oficiais. Chegados a Can- tão, deram mostras de si com tanta galhardia, fazendo várias salvas de mosquetes, que os chineses ficaram estupefactos. Aqui tiveram barcos para navegar no rio e com eles visi- taram, com muita comodidade, toda a província, sendo rega- lados pelos magistrados, quando chegavam às suas cidades ou aldeias, enviando-lhes estes fartos abastecimentos de gali- nhas, vaca, fruta, vinho, arroz, etc. Passaram o monte que divide a província de Cantão da de Kiamsi (sendo menos duma jornada de caminho até ao outro rio) todos a cavalo, até os seus servidores. Na outra banda imediatamente embarcaram de novo e, no segundo rio, atravessaram da mesma forma quase toda a província de Kiamsi até à sua metrópole, na qual me encontrava, então, e tinha uma boa cristandade. Demoraram-se somente para ver a cidade e para serem bem vistos por ela. Foram convidados por muitos senhores para poderem admirar o seu modo de vestir e outras coisas para eles estranhas. Trataram-nos com toda a espécie de cortesia. Todos os admiravam e os louva- vam, com a excepção dos golpes e cortes dos seus trajes, pois, não podiam compreender porque retalhavam um pano intei- ro, em vários lugares só para o embelezarem. Visitada a cida- de, regressou esta gente sem outro resultado se não o de des- pesa e grande perda para os chineses, que lhes foi infligida pelos tártaros em vários encontros, por estarem privados des- te socorro. O motivo do seu regresso foi devido aos chineses de Cantão, que negoceiam com os portugueses e são corretores nos seus negócios dos quais auferem grandes lucros, terem advertido que com esta entrada e o seu êxito, de que não du- vidavam, seria fácil aos portugueses alcançarem licença para entrarem no reino e fazerem, por si, os seus negócios e tran- sacções, com o que perderiam os seus lucros. Assim, antes 'António Rodriguez dei Campo, segundo C. R. Boxer, Expedições Milita- res Portuguesas em Auxílio dos Mings contra os Manchus, Macau — Pg. 12. 193
PE. Alvaro semedo que os portugueses partissem, fizeram todas as diligências para os embaraçar, apresentando muitos contras e, como por último, respondessem os magistrados que não podiam fazer outra coisa, por ter já sido pago dinheiro e feitas as pagas não somente as ordinárias como ainda as adiantadas, ofereceram- se, então, para pagarem do seu bolso todo aquele dinheiro ao rei. Vendo, porém, que, assim, podiam conseguir, disseram- lhes os magistrados que, se fizessem passar pela corte o di- nheiro que pretendiam dar e apresentando-o aos mandarins, seria possível fazer com que estes mesmos, que tinham pro- posto a vinda dos portugueses ao rei, para prestarem socorro, tornassem a fazer um outro memorial, dizendo não serem eles precisos. Respondeu o rei e eu vi a resposta real: Não há muito que propusestes que esses homens entrassem no reino e nos ajudassem contra os tártaros; agora dizeis não serem já ne- cessários. Quando propuserdes qualquer coisa é bom pensardes melhor. Porém, se não são necessários que regres- sem. Assim terminou essa expedição sem utilidade alguma para o reino mas muita para os soldados quanto mais não fosse por terem visitado uma boa parte da China. Os tártaros continuaram com a guerra sempre da mesma forma e até ago- ra ainda continuam, tendo obrigado o reino de Coreia a pa- gar-lhes tributo como pagava à China, pagando-o ainda aos chineses como antigamente. 194
CAPÍTULO XXII Do rei e da rainha da China e dos eunucos Posto que os chineses tenham sido tão diligentes nas suas crónicas, há mais de três mil anos, sofreram, de todas as formas, grandes perdas e danos de notícias de muitas coisas nelas contidas, devido ao incêndio dos seus livros, os quais são chamados Histórias por eles, mas na realidade a coisa passou-se desta forma. Um rei chamado Tein, ou fosse como alguns pensam, por ódio que tinha às letras, ou, como outros julgam e me- lhor, para extinguir a memória dos seus maiores e deixar aos pósteros apenas a sua, exceptuando somente os livros de medicina como sendo necessários para a república, ordenou, por lei rigorosíssima, que os restantes livros fossem queima- dos, com tanto rigor, como se cada volume fosse réu de lesa majestade, e com penas tão graves para quem os escondesse que, de facto, fez queimar quarenta letrados juntamente com os livros que foram encontrados escondidos por estes. Durou esta perseguição o espaço de quarenta anos, de- pois do qual, principiaram a reconstituir as crónicas antigas, por meio de alguns livros e fragmentos que escaparam, uns enterrados outros guardados dentro das paredes e, depois de muitos anos e de grande diligência, se reconstituíram as coi- sas principais, faltando, porém, algumas coisas e ainda mui- tas acerca dos primeiros reis e príncipes deste reino. 195
PE. ÁLVARO SEMEDO Sabe-se ao certo que o primeiro governo dos chineses era por meio da família, governando cada um a sua como antigamente os patriarcas. O segundo foi monárquico, mas não consta como tivesse começado, nada havendo de seguro sobre este princípio. Enganam-se nas épocas da sua cronologia com erros notáveis porque o imperador Yao,1 com o qual come- çam a dar crédito nas suas histórias, segundo o cômputo mais favorável da criação do mundo até Noé, dão-no por nascido doze anos antes do Dilúvio. Deste modo, se bem que haja erros nas épocas da história desses imperadores e seguintes, é certo que as coisas vão coerentes nas suas sucessões. Ora este imperador Yao sem se importar com a sucessão natural e legítima do seu filho, deixou o império a Xun,1 seu genro, somente, por ter descoberto nele justiça e virtude para governar. Xun passou, igualmente, pelo mesmo motivo, o império, a Yu,3 que nada lhe era. Estes três imperadores são considerados pelos chineses como homens santos e deles se contam muitas coisas, não havendo dúvida que foram filóso- fos muito dedicados às virtudes morais. Atribuem ao último dos três, chamado Yu, grandes mé- ritos, pela regularização das águas (como dizem eles), das quais se encontrava farto o reino que, nesse tempo, estava cheio de lagos e lugares paludosos e que, por isso, em muitas partes, não podia ser cultivado. Esse rei, trabalhando, pesso- almente, e rompendo as terras (no que consumiu muitos anos), deu saída àquela quantidade de água, com o que mui- tas terras se tornaram aráveis e de grande utilidade. Pensam alguns que essa água era a que restava do Dilúvio. Os chine- ses, se bem que nos seus livros fazem longa referência a essas águas, sua regularização e o benefício que a sua correcção trouxe ao reino, não mencionam, porém, qualquer motivo e origem das referidas águas. Depois desses três imperadores já ditos, seguiu-se o im- pério sempre por sucessão, não numa mesma família, por- 1lu (/ao). 2&Sôn (Xán). 3S í/(/u). 196
DO ESTADO TEMPORAL DA CHINA que, como havia muitos príncipes e senhores, não obstante sujeitos ao imperador, algumas vezes, por motivos particula- res, outras, sob o pretexto de mau governo e tirania, faziam guerras, conspirações e desordens, com as quais, ou inquie- tavam a monarquia ou a dividiam ou assenhoreavam-se com- pletamente dela, de forma que, apesar de algumas famílias se terem conservado muitos anos (como a de Tham,1 que durou quatrocentos anos) mas outras menos, se passou a monar- quia para outras famílias vinte e duas vezes até ao presente. Mantiveram-se os senhores dos estados particulares na China mais de dois mil anos, até que, no ano 1206 da nossa salvação, os tártaros, que possuíam, então, um outro país, começaram a assenhorear-se da China e tanto avançaram, a pouco e pouco, que a subjugaram toda, dominando-a até 1368, no qual ano Hum vu, chefe da família que ao presente reina, vendo que ao poder do Tártaro faltava a força mas cres- cia-lhe a tirania e que os povos sê encontravam tão desgostosos dele quanto dispostos a libertarem-se e sacudi- rem o jugo, reuniu um exército com tão bom êxito, que não somente desbaratou os tártaros e os expulsou fora do reino como ainda entrou no seu país, conquistando uma boa parte. Regressando o reino ao seu estado normal e vendo-se Hum vu senhor absoluto de todo o território, instituiu um admirável governo, em parte diferente de todas as outras monarquias, a ponto de já se terem passado quase trezentos anos que se conserva com tanta união, sujeição e dependên- cia do seu chefe que, por ser uma tão grande organização pa- rece uma religião observante. Este rei fez, em primeiro lugar, muitas mercês a todos, pois, a liberalidade é uma das maiores demonstrações do ânimo real. Nomeou novas autoridades e conservou algumas antigas como diremos em seu lugar. Aos primeiros e principais capitães atribuiu copiosas rendas; aos segundos, adequadas, e aos terceiros, suficientes. Tirou a todos os príncipes e senhores os vassalos não lhes deixando nem sequer um. Proibiu, por leis rigorosas, que ninguém da família real, nem durante a guerra, nem em paz, 1 Jf T'óng (Teng), (618-880). 197
PE. ÁLVARO SEMEDO nem em caso algum poderia exercer cargos na república, quer civis, quer criminais, quer na milícia, e nem lhes era permitido prestar exame para tomar grau (esta última proibi- ção, como se disse, na devida altura, foi ultimamente, suspensa, em parte). Entregou toda a administração aos letra- dos, que são feitos por meio de concursos como se disse quando se tratou dos exames, sem dependência alguma dos magistrados até do próprio rei, mas somente do seu saber, boa linhagem e virtudes. Não anulou as leis antigas respeitantes ao bom governo e não impediu o seu objectivo que era somente de perpetuar a monarquia nos seus descen- dentes. Introduziu, porém, muitas coisas novas e pôs a repúbli- ca e o seu governo na situação que hoje se encontra, não obstante em tantos anos e em tão vasta monarquia se não ter podido fazer até então, pois que não admitiam qualquer mu- dança nem sequer das coisas essenciais. O rei denomina-se com vários nomes motivo por que se há-de saber que, na sua coroação, existem treze coisas notá- veis. A primeira é mudar-se a contagem dos anos, começan- do a contar-se de novo, desde o tempo do novo rei e isso não apenas na conversa ordinária mas em todos os documentos, despachos, provisões, escrituras, etc. A segunda, cunhar-se, imediatamente, nova moeda com as letras do seu nome, con- tinuando, porém, a estar em curso a antiga. A terceira, coroar a sua mulher legítima, fazendo-a imperatriz. A quarta, dar nome de rainhas às suas concubinas. A quinta, fazer grandes sacrifícios ao Céu, Terra, Espíritos, etc. A sexta, distribuir muitas esmolas aos pobres. A sétima, abrir os cárceres para todos os prisioneiros que não se encontrem em prejuízo de terceiros. A oitava, oferecer sumptuosos banquetes aos ma- gistrados. A nona, saírem do palácio todas as mulheres que foram damas. A décima, prover, novamente os palácios, que são quatro, onde estavam essas damas, procurando outras mulheres novas, escolhidas em todo o reino; na ocasião des- sa busca, fazem-se muitos casamentos, diligenciando cada um por livrar as suas filhas dessa sujeição. A undécima, os senhores de sangue mandam não a cada um mas a todos aqueles de todas as cidades prestar obediência ao rei e 198
DO ESTADO TEMPORAL DA CHINA reconhecê-lo como tal; o mesmo fazem todos os titulares que não puderam fazer em pessoa. A duodécima, todas as autori- dades, desde o vice-rei até aos ínfimos juízes das vilas, vão em pessoa à corte, prestar a mesma submissão, por parte das suas províncias, cidades e vilas. A última, muda-se o nome do rei como fazemos entre nós com o Sumo Pontífice, sendo este o que há-de figurar nas escrituras, moedas, etc. É nome de pessoa particular, mas real como do avô do actual sobera- no, que era Vam Lie;1 do pai, Thai Cham;2 do irmão, que rei- nou, primeiramente, Thien Khi3 e deste, Thum Chim.4 Há mais três nomes que significam rei: o primeiro Kium,5 sendo com este que os estrangeiros designam o rei; o segundo Vam6 e com este o denominam os infantes. Juntando Kium com Vam fazem um nome com o qual podem chamar ao seu rei. O principal é, porém, Hoam ti,7 que quer dizer imperador. No palácio, as mulheres, os eunucos e demais pessoas chamam-no Chu,8 que significa senhor. Chamam-no também Thien zu,'J isto é, filho do Céu, não porque crêem em tal mas porque consideram o império como dado pelo Céu e ainda para tornar sagrado o respeito devido à pessoa real. É, na rea- lidade, uma reverência com a qual o homenageiam, porém, mais coisa divina que humana e o modo como a observam, presentemente, é mais de coisa sagrada em sacrário que de profana em palácio. Disse, presentemente, porque não foi assim ao princí- pio. O trato do rei chinês era como o da maior parte dos ou- tros príncipes do mundo. Saíam, conversavam, andavam à 1 MM Mán Lek (Vân Li), 1573-1620 A.D. 2$S T'ái Tchèong (Tái Tch'ang), 1620-1621 A.D. T'in-K'ai (T'ien-Tchi), 1621-1628 A.D. 4 Sông-Tcheng (Tch'âng-Tcheng], 1628. 5H Kuân (Tchun). 9 3í Uóng (Uông). 7 ÉLW Uóng-Tâi (Huâng-ti). Tchtt (Chu). 8 T'in-tchi (Tien-tzu). 199
PE. Alvaro semedo caça e, às vezes, entusiasmavam-se tanto por esta diversão que houve um que passava meses inteiros caçando sem re- gressar à corte e atender às coisas do governo, sendo substi- tuído pelo seu filho. Os imperadores visitavam, em pessoa, todo o reino, acontecendo aquela história tão célebre na Chi- na que merece a pena ser conhecida, também, na Europa. Andando o imperador em tal visita, encontrou, numa estrada, um grupo de homens que levava alguns presos. Fez parar o carro e perguntou-lhes o motivo e, inteirado, chorou. Aqueles que o acompanhavam, consolaram-no e houve um que lhe disse — "Senhor, que na república haja castigos é coisa inevitável, nem tão pouco se pode impedi-los; assim ordenaram os reis, assim dispuseram as leis e assim exige o bom governo." Respondeu, então, o rei: — "Eu não choro por ver estes homens presos nem por os ver punidos; bem sei que não é sem prémio que os bons hão-de melhorar nem sem cas- tigo que os maus se hão-de moderar e, assim, é tão necessário o castigo no reino para o governar como o pão para o susten- tar. Mas choro, porque este meu tempo não é tão feliz como os antigos em que a virtude dos príncipes era tanta que servia de freio ao povo e bastava o seu exemplo para que o reino caminhasse bem, sem castigo." E, todavia, este rei era pagão. Quem não vê quanta razão temos para invejar esses pagãos que, não obstante ficarem atrás de nós a respeito das coisas da fé, se adiantam, no entanto, nas das virtudes morais? De acordo com isso os reis antigos assistiam, pessoal- mente, ao governo, dando muito facilmente audiências, mui- to amiúde e a todos. No tempo do rei Tahm, houve um colau que, tendo sido seu mestre, era poderoso e atendia mais a falar ao gosto do rei, para se conservar em graça e favor, do que a dizer-lhe a verdade para ajustar o governo, o que é coi- sa bem abominável. Os chineses, como a sua dignidade era grande, e a graça do rei muita, dissimulavam todos. Não dei- xavam, porém, de falar e de censurar as adulações do colau. Tratando-se um dia deste assunto, no palácio, entre al- guns capitães da guarda, um deles encolerizara-se e, abando- nando a beleza da compostura, entrou na sala, onde então se encontrava o rei, e pôs-se de joelhos. Perguntando-lhe o rei que coisa queria, respondeu-lhe: — "Licença para cortar a 200
DO ESTADO TEMPORAL DA CHINA cabeça a um vassalo adulador". Respondeu-lhe o rei: — "E quem é ele?" retorquiu aquele: — "Um tal que está ali." Irri- tou-se o rei e disse: — "Ao meu mestre e na minha presença? Prendam este homem e decepem-lhe a cabeça." Agarrado, o capitão deu de mão numa grade de madeira e como eram muitos os que o atacavam e ele tinha muita força, rompeu-se um balaustre. Nessa altura, tendo-lhe já passado a cólera, o rei ordenou que o perdoassem e que fosse arranjada a grade mas não se fez um novo balaustre para que a sua falta servis- se de sinal do facto e para lembrança de um vassalo que não teve receio de avisar um rei sobre o que lhe convinha. Esta era a facilidade com a qual se entendiam com o rei não somente as autoridades mas ainda qualquer pessoa do povo, tanto que, dentro da primeira porta do palácio, antes da segunda, encontrava-se sempre um sino, um tambor e uma tábua revestida de carvão branco como se disséssemos engessada. Assim, aqueles que não desejavam falar, pessoal- mente ao rei, escreviam nela a sua queixa, que era imediata- mente levada ao soberano. Quem desejasse falar-lhe, tocava o sino ou o tambor e, imediatamente, eram-lhe concedidas a entrada e a audiência. Até ao presente ainda se costuma usar o tambor, mas parece-me mais que por lembrança do passado que para uso dos presentes, porque, em vinte e dois anos, não sei que hou- vesse tocado mais duma vez e com multa que imediatamente foi preciso pagar com açoites, por se ter inquietado o rei, que dali se encontrava afastado meia légua. Cumprida a pena, foi esse indivíduo ouvido e despachado não porque tivesse fala- do ou visto o rei mas por intermédio do estilo ordinário dos memoriais, tal como ainda hoje se procede. O facto de os reis se terem mudado, conservado tão retirados e afastados do povo e, por assim dizer, divinizados e recolhidos nos seus palácios, deu azo a que nos reinos estrangeiros julguem que o rei da China nunca se deixa ver, que está sempre envidraça- do (dentro duma redoma), que mostra somente um pé e coi- sas semelhantes. O primeiro que adoptou esta forma foi Van lie, avô do monarca reinante. Teve alguns motivos para proceder, as- sim, porque era tão gordo que lhexausava grande aflição e
PE. ÁLVARO SEMEDO incómodo o estar em público com a gravidade e majestade reais que convinham e, assim se dispensou totalmente desse trabalho. Não dava audiências, não ia celebrar os sacrifícios e deixou de se apresentar em público. Era, no entanto, uma pessoa de cabeça e prudência a governar, estimando os mandarins mas por estes pouco estimado. Costumava dizer, muitas vezes, quando alguém insistia com repetidos memoriais, no que são excessivos: — "Quando essa pessoa nasceu já eu era rei e governava. Quererá ela ensinar-me?". O filho que o sucedeu mudou, imediatamente, a praxe, como também os que o seguiram, aparecendo em público, porém, tão moderadamente que só sai para dar audiências reais, algumas vezes ao mês e quatro vezes ao ano, uma das quais fora dos palácios e da cidade, e para sacrificar às quatro estações, ao Céu e à Terra, num templo para este fim edificado fora da muralha da cidade. O templo é majestoso tanto na sua grandiosidade como na perfeição da obra. E de formato circular com três ordens de cercos um sobre o outro, pois que está num monte ou num terrapleno, sendo circundado, em toda a volta, por eles. As paredes do templo começam depois da terceira ordem. Tem quatro escadas que dão, exteriormente, para os quatro ven- tos, todas de mármore branco e bem lavradas. O de Nankim é obra perfeita e primorosa. Tem cinco naves com colunas de madeira. Estas não têm pintura nem qualquer ornamento a não ser nos pedestais, para que pos- sam ver que são duma só peça de madeira. São certamente os mais belos troncos, dos mais grossos, altos, uniformes e iguais (se bem que sejam muitos) que se possam imaginar. E quanto a mim, é das coisas mais notáveis que vi na China porque parece que todo o mundo não é muito para se pode- rem encontrar tais árvores com aquela uniformidade e bele- za. O tecto é todo doirado e, não obstante ser obra de mais de duzentos anos e afastada dos olhos do rei, sem se fazer nele os sacrifícios, que só se efectuam na corte onde reside o sobe- rano, ainda conserva o seu esplendor. No meio erguem-se dois tronos de mármore precioso. Num assentava-se o rei, quando vinha sacrificar; o outro ficava vago para o Espírito a quem se oferecia o sacrifício. As portas são todas ornadas 202
DO ESTADO TEMPORAL DA CHINA com lâminas de bronze, com vários lavores e bicos, tudo doirado. Fora do templo encontram-se muitos altares com as estátuas do Sol, da Lua, dos Planetas, dos Espíritos, dos Mon- tes, Rios, etc.. Em volta do templo existem muitas celas e di- zem que serviam, antigamente, de termas, onde se lavava o rei que devia sacrificar e os outros ministros. O bosque, que existe no resto do campo, é formado por várias árvores, sendo a maior parte pinheiros. Não se pode cortá-las, nem sequer um ramo, sob pena gravíssima. A muralha circunjacente é toda coberta de telhas vidradas, umas de cor amarela, outras verdes. O seu perímetro é de doze milhas. Para este templo vem, como se disse, o rei, e, quando sai fecham-se as estradas intermediárias, deixando livre apenas aquela pela qual há-de passar o rei, que traz consigo tantos eunucos que o rodeiam, tantas autoridades que o acompa- nham e tantos soldados que lhe fazem guarda, que é total- mente impossível avistá-lo, tanto mais que viaja transporta- do num palanquim. Isto só acontece nas ocasiões em que o rei aparece ou sai. De resto, está no palácio como o rei das abelhas, sem ver nem ser visto. Muitos gostam duma tal vida não de rei mas de celerado preso em cárcere perpétuo. Como quer que seja pa- rece-me ser coisa extraordinária que um homem, sem ser vis- to pelo seu povo, seja o mais reverenciado, mais obedecido e mais temido de quantos reis existem no mundo. E quanto à prisão, se desejarmos chamar, assim, ao seu palácio, ela é as- saz vasta e suficiente para a ser, sendo voluntária e com liber- dade de se poder sair dela sempre que se deseje. As casas que habita são tão cómodas e repletas de tantos entretenimentos que, para aprazimento e recreio, não necessita de qualquer saída e liberdade. Julgo que os palácios, considerando em conjunto todas as coisas que neles estão incluídas, são os melhores que se podem encontrar no mundo. Os de Nankim são maiores, ten- do cinco milhas de contorno. Os de Pekim são algum tanto menores mas bastante melhores. Não formam um palácio único mas muitos, distanciados uns dos outros, o do rei, da rainha, dos filhos pequenos, do príncipe, do infante já casa- do, e da segunda e terceira rainhas. Para as damas existem 203
PE. ÁLVARO SEMEDO quatro, nos quatro ângulos1 com os quais se denominam. Existem alguns para os velhos e penitenciados a que chamam lemcun,2 isto é, palácios frios. Além disso há colégios para os eunucos, letrados, sacerdotes, cantores, comediantes, etc., e inúmeras habitações para tantos ofícios quantos existem lá dentro e para tanta gente que lá vive, que chega a ser pelo menos de 17.000 pessoas. As decorações dos palácios são perfeitas com muitas coisas semelhantes ao nosso modo, como arcos, balaustres, colunas e coisas idênticas, de mármore excelentemente la- vrado, e com curiosos pormenores e ornatos, como figuras em relevo, tão salientes que parecem estar destacadas. Algu- mas são de madeira completamente envernizada com o seu charão e primorosamente pintadas e doiradas. Nas salas, posto que não sejam, como se conta, uma de ouro, outra de prata e outra de pedra preciosa, não empregam paramentos, pois, com os ornamentos de lavores e pinturas, suprem tudo. Os terreiros são bem entrecruzados e muito amplos. Seguem-se depois hortas muito frescas e um rio que corre por entre os palácios, serpeando com muitas curvas. Existem montes, aves e animais esquisitos mas artificiais, e muitos jardins feitos com grande esmero e com toda a espé- cie de coisas curiosas. Ali esteve qualquer rei que, desgostoso com o estrago causado, pelo inverno, nas árvores, que o pri- vara, simultaneamente, das sombras e flores, deu ordens para que os fizessem artificiais, com grande trabalho e despe- sa e pouca satisfação dos magistrados que muito o blasfema- vam. Toda esta fábrica é circundada por duas muralhas com quatro portas nos quatro ventos — levante, poente, norte e sul — constituindo a última, que é a principal, uma belíssima e vistosíssima fachada para os palácios. Em todas as portas estão, de noite, cinco elefantes, não nascidos no país mas vindos de fora, com seus soldados, sen- do a muralha, por eles cercada, a toda a volta. 1 Pontos cardials. 2*pÍI láng-kun (íeng-kuán). 204
DO ESTADO TEMPORAL DA CHINA Do lado interior desta porta encontra-se um terreiro, onde cabem trinta mil pessoas, encontrando-se ali sempre três mil guardas. No extremo deste terreiro encontram-se cinco portas pelas quais se entra para uma sala do palácio bastante gran- de, onde, no centro, está um trono real vago, a que chamam de cortesias, porque a ele as fazem todos que vêem de fora, como diremos mais adiante. Quanto às mulheres, só uma é a verdadeira mulher do rei com nome de hoam heu,l que significa imperatriz e como tal é tratada com assento ao lado do rei. Há, ainda, outras seis com nome de rainhas por ele também estimadas. Nos paláci- os de Nankim, que por estarem desocupados se podem visi- tar mais facilmente, há um sólio real para o qual se sobe pelos seus degraus, com o seu baldaquino e duas cadeiras reais, uma para o rei e outra para a rainha. Em baixo, mas atrás, estão outras seis, três dum lado e três doutro, para as seis rainhas. Tem o rei ainda outras até trinta, honradas e respeitadas. As outras damas do palácio, que dizem chegar a três mil, estão distribuídas pelos quatro palácios já ditos, sendo donzelas formosas, propositadamente procuradas em todo o reino e ali instaladas. A elas vão o rei, quando lhe agrade e para a qual mais lhe agrada. Do rei actual se diz que é casto, apodando-o de pecucum, que quer dizer: Não vai aos palácios. Tem havido mais alguns semelhantes, sendo, porém, muito elogiados na sua história, bem como outros, que, ao contrário, têm sido muito censurados. Assim, houve um que, não lhe bastando o apetite bestial, para determinar qual o palácio ou qual parte des- te deveria ir, se determinava, por meio de bestas, pois possuía um carro pequeno puxado por cabras, com o qual percorria os palácios e, onde estas entravam e paravam, ali ficava. Um outro, para se poupar ao trabalho de andar pelos palácios, fazia com que as damas se retratassem e, olhando para os retratos, as mandava buscar, ficando ao arbítrio do pintor a beleza de cada uma, pois das suas mãos saía mais ' Ê.la Uóng-háu (huang-hou). 205
PE. ÁLVARO SEMEDO bela a que ele queria, sendo sempre aquela de quem recebia maior gratificação. Falando agora dos filhos, se a imperatriz for mulher legí- tima do rei e tiver filho, em qualquer ocasião que nasça, pre- cede sempre; porém, se ela não o tiver, precede o primeiro filho de qualquer dama, ainda que o rei deseje outro. Assim aconteceu com Vam lie, avô do rei actual que, não tendo filho da imperatriz, mulher legítima, tinha no entanto, dois; um de uma donzela de serviço e era o mais velho e o outro, o mais novo, de uma das rainhas concubinas, mas muito estimado, a quem o rei, por todos os motivos e por particular amor que lhe dedicava, queria deixar o reino, dizendo que a nenhum deles era obrigado, por não serem de mulheres legítimas, per- tencendo-lhe, portanto, a escolha daquele que ele quisesse; e como o mais velho era filho duma serva, preferia deixar ao outro. Nem por isso deixaram todas as autoridades da corte de lhe fazer, valorosamente, resistência, dizendo que, tendo o rei tido comércio com aquela serva, ficara ela como que elevada a uma categoria superior, por ser, o seu filho, o pri- meiro, devendo por isso ser-lhe dado o reino. Foi uma tragé- dia com vários actos de mau gosto, porque o rei persistia em levar avante o seu intento e as autoridades em resistir-lhe, com o que muitos perderam os seus cargos, por o rei lhos ter tirado e outros de espontânea vontade se demitiram, rejeitan- do as insígnias e dependurando-as na porta do palácio ou se retiraram para as suas casas, desprezando honras e benefíci- os e, duma só vez, a dignidade e as rendas dela, somente, para defenderem a razão e as leis ou pelo menos os costumes do reino. Valor digno de ser imitado se não em todas as cau- sas profanas pelo menos nas divinas. Finalmente, não poden- do o rei resistir, teve necessidade, fora do seu costume, de efectuar uma audiência régia. Pegando, então, no filho mais velho já como príncipe, colocou-o ao seu lado, e, mostrando- o aos mandarins, recomendou-lhes que atendessem lá fora, para restaurar a calma, pois que, dentro, tudo se encontrava sossegado e anunciou que Tchai Cham1 (era este o nome do 1 Tai Tchèong (7"ai Tch 'âng). 206
DO ESTADO TEMPORAL DA CHINA príncipe presente), como mais velho, sucederia, sem dúvida, no reino, como de facto aconteceu, tanto podem a razão e a constância dos senadores, mesmo contra reis poderosos. Os eunucos têm a mais numerosa família nesta comuni- dade. No ano de 1626 contavam-se doze mil e tantos são, ou pouco mais ou menos, todos distribuídos pelos seus paláci- os, colégios, classes, tribunais e ocupações, pois que, dentro do palácio, há tantos tribunais para decidir as causas de den- tro quantos lá fora, sem falar os das mulheres que pertencem a outro foro. Há entre elas quem governe, julgue e decida as suas causas e condene e castigue se for necessário. O primeiro e principal colégio dos eunucos chama-se Suli Kien e é composto pelo secretário-mor de puridade, chanceler interno e muitos colegas que, no mesmo colégio, com os seus exames vão sendo promovidos. Aquele acompa- nha sempre a pessoa real, em lugar mais próximo do rei, mes- mo quando este sai. Pode entrar sem ser chamado e sendo o modo de governar do rei por via de memoriais e rescritos, todas as coisas passam pelas suas mãos. Segue, imediatamente, a esse, o colégio a que cha- mam Thun Cham Fu. É como um Supremo Tribunal de Justiça para todos os eunucos. Faz prender, sentencia e castiga não somente os eunucos como, em casos graves como pessoas de muita autoridade, se remetem para eles as causas. É tribunal de maior rigor de quantos há na Chi- na. O seu presidente é ao mesmo tempo capitão da guar- da do rei, a qual é composta de 9.000 homens, 6.000 a pé e 3.000 a cavalo. Se ocorrem casos de guerra que aper- tam, participa no Conselho de Guerra, tendo nele lugar proeminente. Há, igualmente, outros colégios, tribunais e vários te- soureiros como o do tesouro de jóias, de coisas de maior apre- ço, fatos, celeiros, etc. Há ainda o Colégio de Matemáticos Judiciários, que ob- servam as estrelas e os movimentos do Céu, e que, conjunta- mente com o matemático-mor, que é um mandarim de fora, fazem o almanaque do ano. Há um de sacerdotes particulares, chamado Tau su (pois que não são admitidos os bonzos, que não podem entrar nos 207
PE. ÁLVARO SEMEDO palácios do rei), a cargo do qual estão o culto divino, as cape- las, os ofícios, os funerais, etc.. Há ainda um de músicos, tangedores, comediantes, pin- tores e ourives, exercendo cada um o seu ofício, o que é re- querido numa província bem ordenada e provida. Fora do palácio, há muitos cargos de prefeitos de obras, de guardas nocturnos do palácio, das sepulturas régias, da cobrança de impostos e doutras ocupações com as quais se tornam muito ricos e, como não têm filhos, se bem que ordi- nariamente sejam casados, gastam largamente. Possuem vi- las excelentes fora da cidade e, no interior, palácios cheios de toda a abundância de delícias e de serviçais. As suas sepultu- ras são as mais ricas. Eles mais que ninguém crêem na transmigração da alma e, para que saiam bem servidos, na segunda imagem, são devotíssimos dos ídolos. São os eunucos independentes dos mandarins e das cor- tesias que os outros lhes são obrigados a fazer como desmon- tar do cavalo ou abaixar-se a cadeirinha quando se encon- tram. Na corte não lhes é permitido grande acompanhamento nem fausto e poucos podem utilizar a cadeirinha, pois quase todos andam a cavalo. Quando no palácio não houver eunuco favorito do rei são os eunucos que estão fora do palácio obrigados a fazer cortesia aos mandarins e a emprestar-lhes as suas casas, que têm-nas bem cómodas e belas, pois procuram granjear-lhes a simpatia com obséquios. Mas se por acaso, algum eunuco for favorito do rei, como algumas vezes acontece, logo se se tor- na insolente. Entra no governo e domina tudo. O último rei teve um eunuco chamado Gu-ei-cum, que alcançou todas as graças e favores do rei que se podem imaginar. Governava com tão grande insolência e tirania, que prendia, castigava e matava homens importantes. Tocá-lo, mesmo que em pensamento, era crime de lesa majestade. E se bem que os chineses sejam muito livres e audazes em di- zer a verdade, mesmo ao rei, no entanto, ninguém se atrevia a falar. Tomou o assunto para si o infante que agora é rei. Falou ao soberano, dizendo-lhe, somente, que vassalos de muita importância e mérito estavam sendo maltratados. Isto foi 208
DO ESTADO TEMPORAL DA CHINA bastante para que pusessem fora do palácio o eunuco que, por último, acabou, miseravelmente, pois que, morto o rei, tomou veneno com o qual deu fim tanto às graças como à vida mas náo ao ódio do povo que, embora assim morto, o assaltou na estrada e o fez em pedaços. Todos os seus bens foram confiscados pelo rei, os quais eram muitos, pois não havia ninguém que não o presenteasse e com o melhor. So- mente de pérolas encontraram dois caixões. Diziam que eram do tesouro real. As obras magníficas que por todo o rei- no estavam sendo feitas ou andavam a fazer-se, como tem- plos para instalar a sua imagem (os quais são chamados tem- plos dos vivos e só se fazem para pessoas insignes e benemé- ritos do reino e do povo), palácios, arcos triunfais, e seme- lhantes construções, foram todas destruídas sem delas ficar outra lembrança a não ser uma comédia, que foi imediata- mente composta e agora se representa, sobre a sua expulsão do palácio e a sua queda. Ora, porque estes eunucos, uns são aposentados, outros envelhecem e muitos falecem, faz-se, de tempos a tempos, uma escolha dos de pouca idade, para o que vêm à corte qua- se infinitos, feitos pelos seus próprios progenitores, ou por interesse de dinheiro que com eles ganham, pois que são to- dos comprados, ou porque esperam benefícios que advirão do seu estado. Todas as vezes que se faz a selecção, escolhem-se cerca de três mil e nessa selecção são considerados, a idade, a boa disposição, o aspecto exterior, a boa pronúncia na conversa, e, principalmente, que lhes falte totalmente aquilo que se pretende que não tenham, devendo ser eunucos absoluta- mente castrados. Passados quatro anos faz-se uma revista para que coisa alguma renasça. Feita a selecção, manda-se embora da corte os restantes e os escolhidos são distribuídos pelos compartimentos, ocu- pações e misteres em que se hão-de aplicar. Isto é feito quase como manda o destino, pois que, sem serem examinados mais que uns poucos de dias, destinam alguns ao estudo, indo para os colégios de mais crédito, honras e benefícios. Outros são escolhidos para sacerdotes, cantores, comedian- tes, etc, outros para a cozinha e ainda outros para ocupações 209
PE. ÁLVARO SEMEDO mais vis e trabalhosas. Estes são os que vivem no palácio dentro das portas, ao passo que aqueles que pertencem ao rei, são do seu serviço. Os que vivem fora, são ainda muito particulares e com tanto rigor, respeito e temor, que superam todo o exagero. Apesar de ser um reino tão vasto, no entanto, não é suficiente para esconder um delinquente que pretenda escapar, pois nem as próprias árvores se atrevem a dar-lhe sombra. Se houver de prender uma pessoa de categoria, enviam-lhe beleguins da corte, que não terão de fazer outra coisa senão lançar a corda ou a corrente aos seus pés, porque ela mesma a há-de pôr ao pescoço como se fosse de oiro. Basta só o nome de aguazil para infundir terror. Na cidade de Sucheu, província de Nankim, encontra- va-se aposentado um mandarim, pessoa circunspecta que exerceu cargos dos melhores no reino, com grande satisfação e contentamento do povo. Passava-se no tempo daquele po- deroso eunuco de quem falámos atrás. Tendo nova de que lhe iam ser enviados esses beleguins, não esperou que che- gassem. Deu um banquete aos parentes e amigos e, saindo no fim como para tratar de qualquer coisa, lançou-se duma va- randa para um tanque e morreu. Procurando-o os outros, por- que ele tardava, encontraram numa mesinha uma carta escri- ta por sua mão, contendo as seguintes palavras: — "Regressa- do aos palácios reais, só devo reverência ao meu rei, a quem sempre me esforcei por servir com ânimo de vassalo fiel. Não convém, agora, que, pela mão dum eunuco, eu padeça a afronta de homem vil e delinquente." Bastam somente duas letras do rei, colocadas em qual- quer lugar para que se fique como sob encantamento. Deste modo, se no palácio se deseja alguma coisa como chá, frutas, etc, basta enviar uma autoridade à terra, onde há as coisas que se pretendem, dar aviso e apor as duas letras Xim-chi isto é, Vontade do Rei, para que logo todas as coisas se encontrem prontas e ninguém se atreverá a mexer numa folha. Isto acon- tece, quando se pretende qualquer coisa extraordinária e que possa surgir dificuldades, porque basta aparecer as duas mencionadas letras para que toda a oposição desapareça, como sucedeu quando o rei deu aos nossos, para sepultura, a 210
DO ESTADO TEMPORAL DA CHINA propriedade dum eunuco preso, apondo-lhe as mesmas le- tras. Em todas as cidades do reino, todos os meses no primei- ro dia da lua, se reúnem os magistrados, nos tribunais dos governadores, diante dum trono, no qual estão colocadas as insígnias reais e executam aqui as reverências como se esti- vesse presente o próprio rei. E, assim, procedem, igualmente, no dia do seu aniversário. No princípio de cada ano, todas as províncias mandam um embaixador cumprimentar o rei e todas as vezes que lhe escrevem cartas, não as enviam por via de correios, pois são levadas por um dos principais mandarins, mas, os memoriais são enviados pelos correios. De três em três anos vão todos os mandarins grandes do reino prestar obediência ao rei. Nos palácios reais ninguém vestido de luto pode entrar, nem que seja pela primeira porta, nem se vai, também, fazer reverência com o vestido ordinário mas com o extraordinário das cortesias e os magistrados com o vestido encarnado. Diante da porta do palácio pessoa alguma de qualquer condição pode passar a cavalo, de palanquim ou doutro modo, a não ser a pé, ainda que se trate de mulheres e quanto mais importante for o indivíduo que passa tanto mais longe se deve apear ou sair. Todas as autoridades ou pessoas de qualidade que en- tram na corte são, imediatamente, conduzidas, ou pela manhã, muito cedo, se vêm, ou, à hora tardia, se parte, para o Kien chao, isto é, um recinto que chamam de cerimónia como acima se disse para executarem cortesias diante do trono real, que está numa sala sem estar o rei, pois que, nessa oca- sião está ele, a mais das vezes, no leito. Quando estão já jun- tos os da manhã (não havendo nenhuma em que não haja um bom número), aparece o mestre de cerimónias que, em voz alta, vai dizendo as cortesias que cada um deve fazer e, as- sim, vão todos executando-as. Se, por infelicidade, algum cometer uma falta ou fizer um gesto menos reverente, cabe ao mestre de cerimónias informar o rei, por meio dum memorial. O culpado faz a mesma coisa, acusando-se a si mesmo e pedindo castigo. Isto faz-se por mera cerimónia não fazendo o rei nenhum caso disso. 211
PE. Alvaro semedo A essas cortesias são igualmente obrigados os embaixa- dores, quando entram na corte e partem desta, sendo os mesmos alojados num dos palácios, que, se encontram sem- pre em ordem, dentro duma cerca da muralha bastante vasta, perto do palácio real, no qual são tratados regiamente e com grandes despesas mas sem poderem sair dessa cerca. Se qui- serem alguma coisa da cidade é-lhes trazida para esse lugar. Não falam nem avistam o rei, sendo despachados pelo Con- selho dos Ritos com quem tratam, por ordem do soberano. Os portugueses, que duas vezes foram enviados pela ci- dade de Macau, não somente foram tratados com magnificência e liberalidade extraordinária mas ainda, por privilégio particular, instalaram-se fora desse recinto. Os pri- meiros viram o rei Thienkhi,1 irmão deste que reina, presen- temente, que era de pouca idade, e que, por curiosidade de ver gente estrangeira, os fez vir ao palácio, e, se bem que de longe, viu-os e foi por eles visto claramente. Todos falam ajoelhados, na presença do rei. Se este está na sala real com os magistrados, sai primeiro antes destes se levantarem. Se estiver doente e o visitam, falam-lhe da mes- ma forma e, antes de se levantarem, hão-de pôr no meio uma cortina ou, então, o rei voltar-se-á para o outro lado. Durante o tempo que lhe falarem, hão-de segurar com a mão, diante da boca, uma tabuleta de marfim de um palmo e meio de comprimento e três ou quatro de largura. É cerimónia antiga, porque nesse tempo, como se falava com o rei com mais fa- miliaridade, por reverência, era necessário haver de permeio alguma separação, para que o hálito não chegasse ao rei e ainda como tratavam de muitos negócios, traziam-nos escri- tos nela para se não esquecerem. Agora que se fala ao rei de longe e não por tanto tempo era escusada essa cerimónia, se não fosse o querer manter-se a usança. As vestes reais não se diferençam em nada doutras, no feitio, mas no material, que é muito rico e em certos dragões que são tecidos e bordados nelas, os quais pessoa alguma pode trazer excepto o rei ou aqueles que o assistem como 1 Jzfô T'in-Kai (Tien-Tchi). 212
DO ESTADO TEMPORAL DA CHINA senhores de sangue. Usam tais vestes, particularmente, as damas e ainda os eunucos da casa real mas com alguma dife- rença. A cor é amarela, não que no palácio se não possa usar doutra, pois que usam das mais alegres e de todas as espéci- es, mas por ela ser própria do rei e das coisas régias, sem que outrem a possam usar. 213
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CAPÍTULO XXIII Como se casa o rei da China No tempo em que na China existiam vários reis e senho- res, tomavam uns, para mulheres, as filhas dos outros, como se fazem na Europa. Porém, depois que aqueles se acabaram e a monarquia se reduziu a um só senhor, não tomando eles jamais mulheres de fora do reino, necessário se tornou que casassem com uma mulher do seu país, filha dum seu vassalo. As pessoas de qualidade não querem dar ao rei as suas filhas, pois, como é necessário que sejam examinadas numa prova e rejeitadas se não agradarem, nenhuma pessoa séria deseja mostrar a sua filha, para, depois de examinada, ser rejeitada, tanto mais que o exame e a prova passam mais além do que aquilo que se vê no primeiro frontispício. O so- berano de forma alguma casa nem pode casar com as suas parentes de qualquer grau que seja e, assim, procura-se, em todo o reino, uma donzela de doze a catorze anos, de feições perfeitas, de boa disposição e muito inclinada à virtude, que se requer numa rainha, tal como, antigamente, se buscou Sulamita para David, e Ester para Assuero. Procede-se, as- sim, sem excepção de pessoas, acontecendo ser a rainha, as mais das vezes, a filha de qualquer artífice. Encontrada a que se pretende, entregam-na aos cuida- dos de duas velhas matronas que vêem assim tudo aquilo que outros não podem ver e, não havendo mancha ou mácula al- 215
PE. ÁLVARO SEMEDO guma no corpo, fazem-na ainda correr, a fim de poderem exa- minar os suores, para que não haja alguma coisa desagradá- vel. Satisfeitas estas matronas com as diligências emprega- das, a donzela é levada para a corte, com acompanhamento de mulheres e homens e todo o aparato de pessoa que perten- ce ao rei, para ser apresentada, no palácio, ao soberano. Fei- tos os cumprimentos, dá-se por mulher ao príncipe e esta será, depois, a verdadeira rainha. Dentro do palácio desti- nam-lhe damas virtuosas, de saber e prudência, a fim de a amestrarem tanto na virtude como nas cortesias, segundo o estilo do palácio, procurando ensiná-la de forma a que possa depois merecer o nome da rainha, a que chamam ordinaria- mente que mu,* isto é, a Mãe do Reino, e, segundo as suas crónicas, têm havido muitas de grande valor. O serem piedo- sas e esmoleres é vulgar em todas; o serem prudentes e virtu- osas têm-se visto em muitas. Assim, aconteceu com uma que, sendo filha de um pedrei- ro, depois de ser rainha, trazia sempre consigo uma colher de ferro de pedreiro, e quando o filho do príncipe ousava, algumas vezes, desdenhar ou ensoberbecer-se mais do que devia, man- dava-lhe mostrar aquele instrumento com o qual o seu avô rebo- cava as paredes, o que levava-o a compor-se. Nos tempos mais antigos em que os reis gostavam que lhe corrigissem os erros, o rei Yu,2 tinha um colau que, nas audiências reais, lhe falava sem respeito algum. Um dia, ou porque fosse mais culpa do rei ou por maior excesso da parte do colau, terminada a audiência, o rei entrou no palácio, as- saz aborrecido, dizendo que queria decepar a cabeça a um impertinente. Perguntou-lhe a rainha a causa do seu desgos- to. Respondeu o rei: — "Um ruim vilão gosta de falar, sem cessar, dos meus defeitos e em público. Quero mandar dece- par-lhe a cabeça". A rainha dissimulou, retirando-se aos seus aposentos, e envergando um trajo muito especial, próprio de festas e para felicitações, apresentou-se, assim vestida, ao rei, que admirado desta novidade, lhe perguntou o motivo. Res- 1 BIS kuók-mou (kuó-mu). 2$ÈIu (lau). 216
DO ESTADO TEMPORAL DA CHINA pondeu-lhe a rainha: — "Senhor, venho felicitar Vossa Ma- jestade." "Porquê?", — interpelou o rei. "Porque dissestes existir um vassalo que não receia observar no vossa presença as vossas faltas e porque a confiança do vassalo em falar não poderia existir se não estivesse fundada na virtude e na gran- deza de ânimo do príncipe em escutá-la". Várias se têm por- tado ainda, de modo igual a esta rainha. Os pais da donzela são subitamente elevados para dife- rentes cargos. A sua casa passa a ser rica e importante e quan- to mais a rainha progride no interior do palácio mais eles se elevam cá fora. No casamento dos infantes procede-se da mesma forma. Só não se emprega tanta diligência na escolha da esposa, pois buscam-na, geralmente, na própria corte e ali a encontram. O casamento das infantas é assaz diferente. Procuram-se doze jovens de dezassete e dezoito anos, os mais galhardos e garbosos que se podem encontrar, sendo conduzidos para o palácio, para um lugar donde possam ser vistos pela infanta mas sem serem vistos. Esta, depois de os ter bem visto, escolhe dois que são apresentados ao rei. Este não escolherá senão um, que ficará sendo o seu genro. Vam Li, avô do monarca reinante, num acto idêntico, vendo um dos dois muito bem vestido e o outro asseado sim, mas pobremente, perguntou-lhe porque não tinha vindo tão bem trajado como o outro. Respondeu o jovem: — "Senhor, meu pai é pobre, não me pode dar mais." — "Então a vós que sois pobre — disse o rei — quero eu para genro." E assim escolhido, ficou, merecidamente, digno do louvor. Na verda- de, um jovem não se deve envergonhar de ser pobre, nem um rei de o escolher para seu genro. Aos outros, despediu-os, mas ficaram nobres, somente, por terem sido trazidos para essa escolha. Aos fu-ma, 'assim se chamam os genros do rei, dão logo mestres de fora, dois mandarins dos mais categorizados que se encontram na corte, para lhes ensinar as suas letras, boas maneiras e costumes, etc.. E enquanto a mulher não tiver dado à luz, o príncipe é obrigado a fazer-lhe todos os dias as 'lífU/u-ma [fu-ma). 217
PE. Alvaro semedo quatro reverências ordinárias de genuflexãos. Logo que ela tenha dado à luz, cessa esta obrigação mas não os outros aborrecimentos que existem sempre no palácio, motivo por que nenhum homem de qualidade deseja ser genro do rei, e por que foi acabada a cerimónia ordinária da escolha de doze pretendentes. Se o rei convidar, determinadamente, uma pessoa de nome ou letrado de fama para ser seu genro (como já tem acontecido) raramente se escusa. Porém se a infanta se desgosta do marido, como frequentemente acontece, dão-lhe trabalhos para toda a vida. 218
CAPÍTULO XXIV Da Nobreza Chinesa A nobreza chinesa é, hoje em dia, muito diferente da que foi antigamente, quando, por haver muitos reis e senho- res, se aparentavam uns com os outros e os mesmos reis fazi- am titulares e os empregavam bem, como aos parentes mais próximos, nos cargos de maior importância. E, assim, as fa- mílias conservaram-se por muitos anos. Hoje, a maioria da nobreza é formada nas letras e, por meio delas, homens artífi- ces e de baixa fortuna ascendem a senhores, enquanto que por falta delas, os de melhor estirpe vão caindo na decadên- cia e acabando, de forma que rara é a família que chega à quinta geração, porque os primeiros, estimulados pela neces- sidade e pelo desejo de passarem adiante, estudam e afadi- gam-se para conseguirem grau, governo e outras preeminên- cias, ao passo que os segundos, nascidos já ricos, educados no mimo e divertindo-se em passatempos e vícios que os acompanham, estudam pouco e despendem muito, com o que, em breve, se encontram nas condições dos primeiros dos seus antepassados. Existe, porém, alguma semelhança da passada nobreza, podendo ela reduzir-se a cinco ordens, sem incluir a gente do povo, que não entra na conta. A primeira nobreza é a do rei, príncipe, infantes e toda a família real, que se conserva desta forma: o príncipe sucede no reino do modo já acima referido. 219
PE. ÁLVARO SEMEDO Aos infantes dão-se-lhes casas fora da corte, numa pro- víncia ou numa cidade que o rei determina, com palácios, aparato e serviço reais, e com rendimentos muito competen- tes, adquiridos e cobrados na própria terra. O da província de Xensi, onde estive algum tempo, dizi- am que tinha de proventos 370.000 escudos e o título de rei, sendo as autoridades obrigadas a respeitá-lo, como tal, moti- vo por que, em todos os primeiro e décimo quinto dia de lua, iam prestar-lhe reverências como fazem na corte ao rei, não lhe faltando outra coisa para o ser senão a jurisdição de que não tem nenhuma, nem sobre o povo nem no governo, pois o rei chama-a toda para si, como tão pouco a liberdade de po- der sair da cidade e do seu distrito. No estado e nos bens dos pais, sucede o filho primogéni- to. Quanto aos outros, casam e fazem várias casas de menor importância, se bem que grandes. O rei dá-lhes a parte que lhes compete e, assim como vão, a pouco e pouco, afastando do grau de consanguinidade, relativamente ao rei, assim vai igualmente diminuindo o estipêndio até chegar a 80 escudos por ano, que é o mínimo, não havendo ninguém tão afastado do trono real que não tenha pelo menos este citado provento. Porém, tudo isso se entende, se os ditos descendentes tive- rem certas condições, pois que, se estas faltarem, não se lhes dá coisa nenhuma. A primeira condição é que sejam varões, pois, se forem mulheres não se lhes liga nenhuma importância; o pai casa- as com quem desejar e quando lhe agradar. Não acontece, porém, com os senhores de sangue. Assim, não obstante se- rem filhos varões, estes não podem casar senão com mulhe- res de outras famílias e com os seus bens se farão as despe- sas. A segunda, hão-de ser filhos legítimos da verdadeira mulher, pois excluem-se não somente os espúrios mas ainda os das concubinas se os tiverem. A terceira, logo que nasce um filho se há-de comunicar por memorial ao rei, para que este lhe dê o nome e o inscreva no rol. A quarta, chegando à idade dos catorze anos, se deve apresentar outro memorial ao rei, pedindo-lhe que seja dada 220
DO ESTADO TEMPORAL DA CHINA a metade da parte e, depois, anualmente, em tempo devido. A quinta, atingindo a idade de casar, se apresenta outro memorial ao rei, no qual se lhe pede licença para casar e, então, se lhe concederá o complemento dos provimentos estabeleci- dos. Os senhores de sangue são os descendentes do rei pela li- nha direita masculina. Não se encontram nas duas cortes de Pekim e Nankim nem em todas as províncias mas somente em algumas e nestas são tantos em número que se calcula chega- rem, presentemente, a 70.000, sendo todos mantidos pelo rei, segundo a forma já citada. Podem, também, ajudar-se com a sua indústria, comprando mercadorias e realizando negócios. Para o seu governo, a fim de apresentar os seus memoriais ao rei, decidir as suas causas e castigá-los se for necessário, há um mandarim, especialmente para eles. Mas, se tiverem demandos com outros que não sejam puros senhores de sangue, tais causas são sujeitas ao mandarim ordinário, que poderá repreendê-los mas não castigá-los, motivo por que, se alguns deles praticarem excessos de consideração, se informa o rei que, para tais casos, possui como que um castelo na província de Kiamsi, com muralhas muito altas e amplo terreno circunjacente, onde os encarcera para toda a vida. A segunda ordem de nobreza é a dos titulares. São, po- rém, somente, uma sombra do que foram antigamente. Divi- dem-se em quatro classes. A primeira chama-se Quecum,' tí- tulo novo, mas só quatro famílias foram elevadas a esta cate- goria, sendo descendentes dos quatro capitães mais insignes que auxiliaram o rei Humu contra os tártaros. São como du- ques e capitães gerais de guerra e assistem como tais a alguns actos militares de maior importância, quando se efectuam na cidade onde habitam mas não vão nunca para a guerra. A segunda são os Heus.2 A terceira os Pe. ' A quarta os Chi ho e;',4 sendo todos títulos antigos. Têm ofício na milícia com 1 & Kông (Kung) ^ Háu(Hou). 3 ÍÈPák (Po). 4-p Tchi (Tzu). 221
PE. Alvaro semedo estipêndios competentes e todos sucedem-se, por heredita- riedade, no poder, autoridade e comando. São inferiores a muitas autoridades letradas. Porém, se se efectuam reuniões na sala real, eles precedem nos lugares, a todos. A terceira classe é constituída por todos os que adminis- tram ou já administraram o governo do reino, ou oficiais de guerra, como generais e capitães, ou da política, ou civil, quer supremos, como são os colaus, que os inferiores como os mandarins, tanto os da corte como os das outras cidades e até das mais pequenas terreolas e aldeia. Nesta classe não são excluídos aqueles que, se bem que não governem, governa- ram já ou estão para entrar no governo, visto que são todos graduados, isto é, doutores, licenciados e bacharéis. Em resu- mo, toda esta classe é constituída por letrados. A quarta é a dos estudantes que apesar de não terem ainda alcançado o grau, só pelo facto de serem estudantes e estarem em via de poderem alcançá-lo, são tratados como nobres, se bem que sem privilégios nem qualquer foro. A quinta é a de gente a que chamamos "limpa", que vive de negócios e dos seus rendimentos, e, quando estes são mui- tos, as honras não são poucas, posto que sem letras não tenha tanta influência como entre nós. É porém, em todo o caso, respeitada pelo povo. 222
CAPÍTULO XXV Do governo chinês e das suas autoridades O principal governo da China, que abarca toda a monar- quia, divide-se em seis conselhos a que chamam Pu.1 Estes não só governam nas duas cortes, onde têm as suas sedes, mas deles, como organismos principais, depende o resto do governo. Os indivíduos, as causas e os assuntos, conforme pertencem a cada um deles, estão-lhes todos sujeitos, com subordinação e obediência inacreditáveis. Todos estes conselhos têm o seu presidente a que cha- mam Cham Xu,2 com dois assessores; um da mão esquerda que é primeiro e chamado Co xilam; 3 e o outro, da mão direi- ta, chamado Yeu xilam.4 Estes são os cargos superiores e os mais vantajosos de todo o reino, excepto os dos colaus de quem falaremos mais adiante. Um vice-rei de qualquer pro- víncia, mesmo das mais importantes, que por ter dado boa conta do seu cargo, for promovido, considera-se bem provi- do, se for nomeado presidente desses conselhos ou mesmo um dos assessores, da mão esquerda ou da mão direita. 'SBPou (Pu) 2 fAííf Sèong-sii {Xáng-xu). 3 fefíSP Tcho-tchi-lóng (Tso-xi-Iáng). 4 Iau-tchi-lóng (lu-xi-láng). 223
PE. Alvaro semedo Além destes, que são os altos dignitários do conselho, há ainda mais dez, em cada um desses tribunais, com pouca diferença de dignidades entre eles, distribuídos por várias ocupações e ofícios. Existem, também, outras autoridades maiores e menores como notários, escrivães, ministros, capi- tães de justiça e outras, em número infinito, que não citamos aqui. O primeiro conselho, de maior autoridade e proventos, é do estado e chama-se Lipu.1 A este pertence propor os mandarins de todo o reino para os cargos, sua transferência e promoção, porque depois da primeira nomeação vão ascen- dendo a cargos mais elevados. Não são excluídos do governo se não por falta cometida por eles mesmos ou pelos seus de- pendentes, como filhos, parentes próximos e semelhantes, pois são-lhes imputadas as faltas destes. A este tribunal per- tence ainda reintegrar os que são demitidos, pois um mandarim que, por qualquer percalço, tenha perdido o seu cargo, facilmente o reintegram no mesmo, motivo por que são infinitas e avultadas as peitas que se fazem. O segundo é o Conselho de Guerra, dito Pim pu.'A este como ao do estado, pertencem todos os magistrados, tanto os de letras como os outros oficiais de guerra e tudo quanto res- peita à milícia, sendo de grande utilidade. O terceiro é o Conselho dos Ritos, chamado Li pu.3 Este, se bem que não tenha tanta autoridade e tantos proventos, nem por isso deixa de ser o mais importante, pois, os seus mandarins são os do Real Colégio de Han Lin, donde saem para serem colaus, a suprema dignidade na China. Perten- cem a este conselho todos os actos literários, os templos, as cerimónias, os sacrifícios, os bonzos, os forasteiros, os em- baixadores e coisas semelhantes. O quarto é o Conselho do Património Régio, chamado Hu pu, o qual trata de todos os rendimentos régios, impostos, tributos e daquilo que pertence ao Património Régio. 1 sfe'® Lei-pou [Li-Pu). 2 ft® Peng- Pou (Ping-Pu). 3 Í8® Lâi-Pou (Li-Pu). 224
DO ESTADO TEMPORAL DA CHINA O quinto chama-se Cum pu.1 Preside às obras públicas, principalmente as régias, como as do palácio real, dos infantes e das autoridades, às portas, calçadas, pontes, limpesa, rios e àquilo que respeita a barcos tanto para o serviço comum e do rei como da armada. O sexto trata de assuntos criminais e para aplicar casti- gos. Chama-se Him pu.2A este pertencem as causas criminais mais graves e outras coisas com elas relacionadas. Além destes seis conselhos, que são os principais da corte, há ainda nove tribunais, chamados Kicu Kim,3 com vá- rios cargos particularmente respeitantes à casa real. O primeiro chama-se Thai lisu4 (a grande razão). É como uma chancelaria-mór do reino. Examina em último recurso as sentenças dos tribunais da corte e para ele vão os casos de maior importância. É composto de treze mandarins, um pre- sidente, dois colaterais e dez colegas. O segundo chama-se Quan lo zu.5 É como uma mordo- mia-mor e a ele pertence o provimento da mesa do rei, da rainha, damas e eunucos e de toda a despesa do Palácio, bem como o pagamento dos salários aos funcionários da corte e a todos os outros que aparecem com negócios públicos, aos embaixadores que vêm de fora e a outras pessoas semelhan- tes. Tem um presidente, dois assessores e sete colégios. O terceiro é Thai pou zu.6 E como uma coudelaria-mor do rei, pois não trata somente dos cavalos do serviço real como os de todos os postos que pertencem, em número infi- nito, ao serviço público do reino. Tem um presidente e sete colegas. O quarto é o Mestre de Cerimónias e Cortesias da Corte. A este compete assistir a todas as cerimónias que se execu- tam em qualquer acto público régio, quaisquer festas em 'Ig(i Kông-Pou (Kung-Pu) "JPJoB Ieng-Pu (Seng-Pu). 10 A®P Kâu-Heng (Tchiu-Tch'eng). # Tai-Lei-Tchi (Ta-Li-Su). Kuóng-Lôk-Tchi (Kuáng-Lu-Su). 13 £01# Tái-Pôk-Tchi (ro/-P'u-Su). 225
PE. ÁLVARO SEMEDO tempo e ocasiões que surgirem e ainda às cerimónias quotidi- anas que todas as manhãs se efectuam no palácio, quando se entra ou quando se sai, como já atrás nos referimos. Tem um presidente, dois assessores e sete colegas. O quinto é dos ritos e sobre coisas mais particulares, sendo, assim, diferente do primeiro. A sua constituição é, porém, idêntica, com os seus assessores. Cuida dos sacrifíci- os, das sepulturas régias, dos montes, bosques e de tudo que com eles se relaciona como cantores, instrumentos, animais para sacrifícios, etc. A China tem a mais ainda um outro tribunal que somen- te trata dos memoriais que se submetem ao rei, o qual é como que uma espécie de chancelaria de memoriais, de forma que os que não são aprovados por este tribunal não se apresen- tam ao rei. Este tribunal foi causa de, na perseguição da cris- tandade, no ano de 1616, desejando nós explicar as razões da lei que pregávamos e das coisas que nos imputavam, não aprovar os nossos memoriais, reprovando-os sempre. Do mesmo modo há mais três com vários cargos e ofíci- os. Além dos tribunais acima mencionados, há ainda outros dois: um chamado Qholi e outro Tau//.1 Estes se bem que atendam a várias províncias, cada um aos negócios que lhes pertence, contudo a sua precisa ocupação e principal função é tratar dos erros e desordens do reino e avisar tanto o rei sobre os seus defeitos, se houver, como os dos mandarins e do seu governo. E como o falar das faltas doutrem não é difí- cil, para este é, em particular, muito fácil e fazem-no com grande liberdade e, às vezes, com pouca justiça. A forma como procedem é redigir um memorial e submetê-lo ao rei (pois que os destes dois tribunais não pas- sam pela chancelaria dos memoriais) e logo fazem um trasla- do, enviando uma cópia aos escrivães, sendo muitos os que são destacados para este fim. Estes tiram numerosas cópias que são enviadas com os primeiros correios da corte para todo o reino, de forma que, por toda a parte, se sabe, imedia- tamente, que foi feito memorial, de quem e contra quem e de 'iiáíTou-lei (Táu-Ii). 226
DO ESTADO TEMPORAL DA CHINA todo o mal que nele se contém de qualquer espécie que seja. Publicado o memorial, que se chama puem,1 imediatamente, o réu ou o magistrado contra quem se passou, é obrigado a fazer duas coisas, com vontade ou sem ela, como acontece geralmente. A primeira é apresentar um outro memorial não em sua defesa, pois que, se o fizesse seria pouca humildade mas dizendo nele que o Tauli tem muita razão, que ele come- teu erros e tem culpas, merecendo a punição e que, com a máxima sujeição, aceitará todos os castigos que lhe forem impostos. A segunda, retirar-se, imediatamente, abandonan- do o seu tribunal e, assim, fica suspenso toda a função judici- al, sem audiências nem provimento das partes, nem anda- mento das causas, até que o rei proveja com um memorial e declare a sua vontade que, às vezes, é a favor e, então, conti- nua no seu cargo, mas, outras vezes, contra, sendo pouco mais ou menos de conformidade com as suas culpas. Deste modo se cumpre com razão e "boa consciência, indubitavelmente, em favor da justiça e do bom governo, mas, ao mesmo tempo, é porta pela qual podem entrar mui- tos aborrecimentos injustos. Está, muitas vezes, um mandarim exercitando o seu cargo e para o exercer bem, se- gundo a sua obrigação, desgosta quem o merece. Este, se for pessoa que esteja ligada por interesses a alguns dos tribunais, como parentes, amigos, etc., participam à corte e, então, o memorial já vai voando e Deus acuda ao pobre mandarim. Quando se trata de mandarins inferiores como juízes, com- panheiros dos governadores ou mandarins de armas, com um só golpe os derrubam. Se forem mandarins superiores, a dificuldade é maior, mas se encontram onde o possam atacar e se os tauli ou quoli os apanham entre as unhas, não param, sem os apearem, a ponto de nem o próprio rei poder servir- -lhes de ajuda. Uma tal coisa aconteceu a Xin, o tirano que, no ano de 1626, sendo xi Iam, em Nankim movera perseguição contra a cristandade e baniu os padres, como se dirá em seu lugar. Tendo sido promovido à dignidade de colau, colocou, na par- 15 $ pún (Púan). 227
PE. Alvaro semedo te exterior do seu palácio, nos quatro lados, quatro bandeiras (estava eu ainda presente na mesma cidade que é Hamcheu) e fez outras demonstrações de alegria. Mas, ou porque os se- nhores o quisessem castigar ou pelos pecados seus que mere- ciam castigo junto dos homens, ou por uma ou outra coisa, ao chegar a provisão antes que partisse para a corte, fizeram um memorial contra ele tão cruel que me asseverou um mandarim cristão não haver possibilidade dele levantar a ca- beça. Assim, arriou, imediatamente, as bandeiras e acabou com as cerimónias ordinárias. Era, porém, sagaz, e, dentro do palácio, havia favores comprados com dinheiro, tanto das damas como dos eunucos, os quais não fazem senão por bom preço. Estes não só conseguiram que fosse expedido um memorial em seu favor como solicitada a sua vinda à corte. Ali andou, mas, depois de poucos meses, enviaram outro memorial e, seguidamente, tantos que chegaram a vinte e sete, de forma que o rei não o pôde ajudar, sendo-lhe neces- sário deixar o governo e recolher-se à casa. Além desses dois tribunais existe um, superior a todos, sendo a suprema dignidade do reino e ao qual ascendem so- mente os do Colégio Real, que chamam Hanlin, depois de terem governado muito tempo, dada boa satisfação, e de nun- ca ter sido passado nenhum memorial contra eles. Chamam - no Colau. A este tribunal pertencem todos aqueles que de- vem ser, mas sem passarem de seis. Ordinariamente são ape- nas quatro. O velho rei avô do actual, não proveu mais que um di- zendo que mais são supérfluos. Eles não exercem cargos par- ticulares mas assistem ao governo de todo o reino. Podemos dizer que são como presidentes supremos de todos os conse- lhos e de todo o governo e, se bem que não participem neles, auxiliam o rei na provisão dos negócios e agora que o rei não assiste em pessoa, andam eles sempre nos palácios para aten- derem aos negócios que são infinitos e aos memoriais que diariamente lhes são submetidos. Estes com as suas respos- tas são depois enviados ao rei que lança o último despacho. Estes colaus são muito respeitados por todos os magis- trados que, em certas ocasiões, lhes fazem reverências como a superiores em sala pública. Os colaus ficam, então, de pé e 228
DO ESTADO TEMPORAL DA CHINA todas as autoridades da corte vão desfilando, segundo a sua ordem, diante deles e prestando-lhes respeito, voltando-se e executando uma reverência até ao chão. Chamam a esta cerimónia quo tham\ isto é, atravessar a sala. As suas insíg- nias são diferentes das de todos os outros, sendo a sua cinta da pedra preciosa a que chamam yu xe2, que só pode ser usa- da por eles, e que lhes é conferida pelo rei, tal como na Euro- pa um soberano agracia os cavaleiros com o tosão. Se adoe- cem, o rei manda e só a eles visitá-los com mimos do palácio e eles gratificam com largueza os eunucos que lhos levam, sendo o mínimo que dão cinquenta escudos, o que nesse país representa mais que duzentos cá. Além destes governadores supremos e universais da corte que não somente a governam mas como a todo o reino, há ainda os particulares e comuns das cidades como os podestás, juizes, etc., e tanto nas cidades e nas vilas doutras províncias como ainda nas de Pekim e Nankim, onde estão as cortes, se observa o mesmo modo de governar como acima dissemos. 'jliS kuó-t'óng [Kuo-t'ángj. 2 55 iôk-séak (Iii-xe). 229
CAPÍTULO XXVI Do governo das treze províncias Temos falado acerca do governo geral de todo o reino, o qual reside nas duas cortes. Segue agora o regional das pro- víncias, que formam todas um reino muito grande. Esses go- vernos têm, geralmente, a sua sede nas metrópoles das pro- víncias. Em cada uma encontram-se cinco tribunais com mando geral sobre toda a província e com funções distintas entre eles. Desses cinco tribunais há dois supremos sob os quais estão todos os outros, tanto os da cidade como os das aldeias, sem subordinação alguma entre eles, pois são imedi- atamente sujeitos ao rei e aos tribunais régios. Constam esses tribunais de um só presidente ou juiz sem assessores nem conselhos se bem que tenham muitos outros funcionários. O primeiro dos dois é o vicerei da província a que chamam lu tham1 ou kiun muen. Tem poderes sobre todos os magistra- dos da província e sua população. Governa durante três anos, tem correios contínuos que vão e vêm da corte em data fixa, devendo dar conta do que se passa na sua província. É rece- bido na cidade com grande pompa e aparato e, assim que parte para a corte, muitos dos funcionários do seu tribunal vão lá para o receberem, outros até a um bom pedaço de ca- 1 tou-t'ong (tu-t'áng). 231
PE. ÁLVARO SEMEDO minho, no qual, de cidade em cidade, se lhe fornecem ho- mens de armas, a pé e a cavalo e, antes de chegar a três mi- lhas dela, vão recebê-lo alguns capitães com três mil solda- dos, seguindo-se a estes todos os magistrados e, depois, inu- merável povo. O segundo cargo é, também, absoluto e chama-se cha yuen} Não temos nós cargo que o corresponda. E como Visitador de Província. Dura somente um ano. E de grande rigor e muito temido. Tem a faculdade de conhecer todas as causas quer criminais quer civis, da milícia, do património régio, enfim, de todos os assuntos. Visita, inquire e informa- se até do próprio vice-rei. De mandarins até juízes, pode puni-los e privá-los do cargo. De outros mandarins superio- res, faz memoriais que, chegados à corte, é suficiente para, imediatamente, suspender o culpado, do governo, até que venha da mesma corte a resposta sobre o caso. Cabe-lhe despachar as sentenças de morte já passadas, para toda a província, e, assim, determina os meses e dias em que os condenados da mesma deverão ser conduzidos para a cidade. Presente a lista destes, pega no pincel e aponta cinco até sete nomes (pois se apontar mais é considerado cruel), sendo os condenados, imediatamente, justiçados. Os restan- tes voltam para os cárceres. Pertence-lhe, igualmente, visitar as muralhas, os castelos, os lugares públicos, etc., saindo com grande aparato e homens de armas, ostentando bandei- ras e outros insígnias de rigor e majestade. Isso é coisa co- mum durante todo o ano. Existe um outro extraordinário do mesmo nome. Este é procurado pela rainha, de tempos a tempos. Tem grandes facul- dades e poderes mas somente em favor da piedade e misericór- dia. Visita todas as prisões da província, liberta todos os encarcerados por culpas ligeiras que não tenham parte em con- trário e todos os miseráveis que não sabem como libertar-se, toma sob a sua protecção as causas rejeitadas e as partes em desfavor, revoga as sentenças mal dadas, e favorece os pobres, dedicando-se, em suma, a todas as obras de misericórdia. ' Sfêc tch'át-un (tch'a-iiián). 232
DO ESTADO TEMPORAL DA CHINA O terceiro ofício é o do tesoureiro. Dirige o património régio de toda a província, sendo subordinado ao Conselho Patrimonial da corte. Tem dois assessores, um da mão direita e outro da mão esquerda. Cada um destes tem dentro do mes- mo recinto dos palácios do tesoureiro, os seus tribunais, onde se encontram 26 mandarins menores com diversos car- gos e ocupações e outras autoridades superiores e inferiores, as quais são infinitas neste tribunal. A ele pertencem todas as alfândegas, impostos e direitos régios de qualquer qualidade que seja, a aferição de medidas e pesos, toda a espécie de pleitos, controvérsias, castigos e sentenças respeitantes ao Património Régio ou pelo menos, remete-los aos tribunais, fazendo, além disso, os pagamentos comuns a todos os magistrados, aos parentes do rei, aos capi- tães e soldados, as despesas para os exames, concedendo ain- da insígnias a todos os graduados, e fornecendo dinheiro para as obras públicas, como para pontes, estradas, palácios de mandarins, barcos para a armada, etc. Em suma, superintende aquilo que se gasta ou recebe do Património Régio. Cobra este tribunal as receitas régias directamente aos juízes, governadores e taulis, cada um do seu distrito, por pequeno que seja, em prata fina e, confirmada a sua exacti- dão pelo tesoureiro, esta é novamente fundida em grandes pães de cinquenta escudos com o cunho régio e o nome do fundidor, para no caso de ter sido falsificada alguma se saber o autor, sendo desta forma que a arrecadam no tesouro. As receitas das províncias dividem-se em três partes; uma deposita-se no tesouro da cidade, para as despesas ex- traordinárias; a outra, no do tesoureiro, para as despesas or- dinárias. Este tesouro, além das suas portas e fechaduras, é bastante seguro e guardado de noite sob a contínua vigia da soldadesca. A terceira é enviada para a corte com boa guarda, mas publicamente. Esta prata vai dentro de cilindros de madeira, serrados ao meio sobre o comprido e escavados por dentro, sendo de- pois apertados com aros de ferro e as extremidades fechadas com lâminas também de ferro. Dentro de cada um destes ci- lindros de maneira, mete-se tanta prata quanto chegue para ser carregada por dois homens. 233
PE. ÁLVARO SEMEDO As receitas de todo o reino, segundo as investigações feitas pelo padre Mateus Ricci, que esteve muitos anos na China, e constantes no livro impresso em 1621, chega a 150 milhões. O padre João Rodrigues, que também andou pela China e foi mui- to diligente, num seu escrito sobre as quatro coisas notáveis da China, diz chegar a 50 milhões, com estas palavras somente: "As que pertencem ao rei chegam, &." Creio que as receitas todas montam em 150 milhões como diz o padre Ricci, ficando so- mente para a corte 55, conforme afirma o padre Rodrigues e o restante, para as províncias, como se disse. Eu não fiz investiga- ções sobre este assunto, por isso não ajunto nada meu. O quarto tribunal chama-se Gan cha si1. É como o tribu- nal de crimes. Tem assessores, colegas no ofício e taulis. Como as províncias, conforme as cidades que têm, se divi- dem em distritos, compete a esses taulis visitá-los para fazer justiça às partes, castigando os malfeitores e exercitando a sua jurisdição, que se estende ainda sobre os militares e so- bre as coisas do mar, se a província for marítima. O quinto tribunal é literário, para examinar e conferir o grau e coisas semelhantes mas, particularmente, a todos aque- les que têm graus de bacharéis (os doutores estão isentos desta sujeição). Há um chanceler de toda a província que, na devida ocasião, visita todas as cidades e vilas, efectuando exames e procurando informações a respeito da forma como cada um se porta e, conforme o que averiguar, repreende, pune, e, às vezes, destitui-os de grau, podendo, no entanto, como se disse atrás, voltar a serem novamente examinados. Há ainda em todas as cidades dois magistrados que se chamam mandarins de ciência hio quon,2 os quais perten- cem a esse mesmo tribunal. A sua jurisdição não se estende mais que aos bacharéis da sua cidade e seu distritos. Não lhes podem dar nem retirar-lhes o grau mas sim puni-los. São, porém, os que mais os molestam, estando sempre na mesma cidade, chamando-os, examinando-os, sendo como prefeitos de estudo. 1 On-tch'át-si (An-Tch 'a-Xi) 2 hók-kun (hsuê-kuán). 234
DO ESTADO TEMPORAL DA CHINA Todos estes são cargos que se estendem sobre toda a província e sobre todas as suas cidades, aldeias ou lugares. As cidades e os seus distritos têm, porém, o seu governo particular como entre nós. Existem, em todas as cidades, quatro mandarins principais: um é presidente, que se chama chifu1; é como governador da cidade; os outros são colaterais e, segundo a sua ordem, chamam-se thum chi,2 thum puon,3 chiu quon,4 tendo todos os seus tribunais separados com au- toridades superiores e inferiores. Há, além disso, em todas as cidades, 19 magistrados in- feriores para vários ofícios subordinados ao principal. Dois • desses tribunais são constituídos por um presidente e quatro colegas; nove, por um só com um ajudante; e os outros oito, por um só indivíduo, tendo, porém, todos os seus funcionári- os, ministros e convenientes servidores. As aldeias têm um juiz e três colegas. O juiz chama-se chi hien6 O primeiro assessor hien chim.6 O segundo chu pu.7 O terceiro tien su,6 todos com os seus palácios e tribunais independentes, tendo, também, seus oficiais subordinados, secretários, escrivães e outros serventuários. O juiz pode pas- sar sentença de morte mas não pode executá-la. Além desses mandarins, que existem nas cidades e al- deias, há outros que não podem castigar nem condenar mas somente referir, sendo como que referendários. Há-os ainda nos castelos, se forem grandes e distantes das aldei- as e das cidades, sendo os seus mandarins pequenos, de ordinário escrivães inferiores de tribunais porque os supe- riores são providos, a mais das vezes, como colegas dos jui- zes de aldeias. 1 ftllfí tchi-fu (tchi-fu). 2 ("Jftlt'ong tchi (t'ông-tchi). 3 li#! t'ông-p'un (t'ông-p'án). 4 ftl'fN tchi-tchâu (tchi-tchou). 5 £fll$ tchi-iin (tchi-sien). 6 un-tcheng (sien-tch'eng). 7 Í3# tchii-pók (tchi-pu). 6 tin-si (tíen-xi). 235
PE. Alvaro semedo Deve-se, porém, advertir que os oficiais superiores e in- feriores não dispõem de tanta autoridade como os nossos. Além disso, todos os lugarejos dos quais existem cópia infinta, não ficando nenhum lavrador nas cidades nem nas aldeias mas todos nos campos, têm um chefe chamado licham. As casas são divididas de dez em dez, como decúrias, com o seu chefe, tornando, assim, o governo mais fácil e os impostos, que são exigidos, mais seguros. 236
CAPÍTULO XXVII Das insígnias dos mandarins Todas as autoridades, em activo ou aposentadas, têm as suas insígnias com que se distinguem não somente do povo mas ainda doutros, como dos letrados e de senhores doutra categoria. Estas consistem em cinco coisas, isto é, o barrete, o hábito, para assim dizer, a cinta, as botas e a toga. O barrete é de escumilha negra, forrada por dentro com uma entretela, muito rija. E uniforme para todos. Somente nos colaus existe certa diferença. Chama-se, em chinês xa mao. O hábito, chamo-lhe assim porque não temos coisa que o corresponda, é um quadrado que trazem sobre o peito, rica- mente bordado em toda a volta, no meio do qual está a divisa do seu cargo e dignidade. Como estes divergem são também diversos os emblemas. Chama-se phu cu. Nos magistrados das letras são águias, garças, aves de sol e semelhantes. Nos das armas são panteras, tigres, unicórnios, leões, etc.. O cinto, que não se destina a apertar o traje, pois é muito mais folgado, precisa de ser seguro nos flancos para o suster. Chama-se quon thai. É largo de quatro dedos, dividido em pequenos quadradinhos com saliências, sendo seguro, à frente, se for rico, com fivelas de prata e oiro de largura de nove dedos. São de nove espécies, isto é, de corno de búfalo, ou de rinoceronte, de marfim, de tartaruga, de pau d'áquila, 237
PE. ÁLVARO SEMEDO de calambé, de prata, de oiro, e de pedras preciosas, que não podem ser usadas a capricho mas conforme o grau de cada magistrado. O último cinto é de uma pedra preciosa chamada yu xe, que é dada pelo próprio rei aos colaus, quando entram no cargo. Não o podem ter ou usar as outras pessoas. As botas que chamam hiue, não são ordinárias mas de certa espécie particular, inteiramente negras e guarnecidas. A veste ou toga traz-se sobre o vestido ordinário sendo inteiramente da mesma forma, ampla, solta e de bela aparên- cia. A cor é segundo o desejo de cada um mas de ordinário modesta. Nas festas é, porém, carmesim. São estas as insígnias de um indivíduo com as quais se adorna, quando aparece ou está em público, pois que, em casa, põe-nas todas de parte, andando apenas com o traje or- dinário de letrados. Com este vão ainda, entre amigos, aos banquetes e lugares de recreio, principalmente, se fizer calor. As insígnias exteriores, quando saem, são a cadeirinha ou liteira, incrustada de marfim e guarnecida de oiro, inteira- mente descoberta e sem qualquer resguardo por cima, de for- ma que vê-se toda a pessoa da autoridade que vai nela. Há de dois, quatro e seis liteireiros e ainda de oito conforme a digni- dade do mandarim. Sendo de seis ou oito, só quatro é que transportam. Os outros quatro vão de um e outro lado, para se revezarem. Levam consigo mais ou menos acompanha- mento, conforme a dignidade. Os de mais gravidade fazem andar à frente, em fileira, dois homens bem distanciados, com vara na mão mais comprida que um homem, meramente para amedrontar (pois só os reis é que podem bater com um pau), os quais vão gritando sempre. Seguem, depois, outros dois com tábuas prateadas, nas quais vai escrito em grandes caracteres o título da sua dignidade. Seguidamente, outros quatro ou seis que arrastam canas de bambu, que são as usa- das para açoitar. Depois outros com cadeias na mão e outros instrumentos de torturas. Junto à cadeirinha mas adiante, na mesma fila, um pára-sol e algumas vezes dois, mas então um mais afastado. São de seda e tão grandes como três dos nos- sos. Vizinho à cadeirinha, a um lado e empunhado por um homem, um leque doirado tão grande que dá trabalho para o levar e com o qual se tapa o sol, pois que os pára-sóis servem 238
DO ESTADO TEMPORAL DA CHINA apenas para o aparato. Logo à frente da cadeirinha vai o selo real, colocado numa caixa doirada, sobre um andor idêntico aos que usamos nas nossas províncias para levar imagens ou relíquias de santos, com quatro colunazinhas e sobre elas uma cúpula, sendo transportado por dois homens. Atrás da cadeira vão os pagens e gente a pé e a cavalo. Quando seguem pela rua, se nas janelas houver qual- quer coisa mal composta como panos a secar ou coisas tais, recolhem-nos imediatamente. Se deparam com traquitanas e aprestos que figuram nos funerais, apeam-nos imediatamen- te. As pessoas graves desviam-se da estrada; os que vão a ca- valo, desmontam; os que vão de cadeirinha, fazem-na baixar; e o povo fica à espera, de um e outro lado -da estrada. Se o mandarim for importante faz-se silêncio entre toda a gente que fica admirando-o. Ele vai com tanta solenidade e com- postura na cadeirinha que nem sequer mexe os olhos, pois se olhar para um e outro lado, isso seria considerado uma falta notável. Quando vai, novamente, a qualquer cidade ou vila, além do acompanhamento de soldados que lhe é fornecido, duran- te todo o caminho, pelas vilas e cidades por onde passa, e da gente do seu tribunal que, após extensas jornadas o vai rece- ber e dos soldados do seu governo que, igualmente, marcham muitas milhas para irem ao seu encontro e de todos os mandarins inferiores que saem da cidade para este fim, nas portas da muralha estão todos os velhos da vila e da cidade, em enorme número, todos de barba branca, os quais lhe apre- sentam, de joelhos, as boas vindas, em nome de todo o povo. As mães e as mulheres das autoridades, à medida que estas vão subindo e avançando nos cargos, vão aquelas con- seguindo do rei certas insígnias, para a vestimenta e títulos para o tratamento, tal como entre nós seria o de Vossa Exce- lência, não que seja precisamente a mesma, mas tem, mais ou menos, certa equivalência. Quando morre alguém de dignidade superior manda- lhe o rei fazer exéquias e envia, propositadamente, da corte, para este efeito, um mandarim, não só até ao confim do reino, se a sua sepultura for nesse lugar, mas até ainda fora, como à ilha de Hainan, que foi o que aconteceu, no ano de 1617, 239
PE. Alvaro semedo tendo eu conversado com esse enviado que pelo rei foi man- dado tão somente para este fim. Provê ainda o rei um filho ou neto do morto com um mandarinato e se o defunto for colau, todos os seus filhos ou netôs que tiverem dado boa conta de si no governo, vão sen- do promovidos até chegarem a ser governadores de cidades. Os palácios onde residem são espaçosos, cómodos e austeros. O aparato dos seus tribunais é grande e com grande número de servidores. Na cidade de Nankim, entre outros muitos, existem cinco tribunais; quatro dos quatro ventos que assim se denominam, estando, portanto, situados ao nor- te, sul, etc., e o quinto, no meio da cidade. São tribunais pe- quenos porque cada um tem um presidente e dois colaterais e o presidente não é mais que doutor, sendo os outros dois bacharéis ou saídos do ofício de escrivães. A verdade é que nas causas ordinárias e pequenas são estes os pés e as mãos dos mandarins, grandes e diligentes executores daquilo que eles lhes recomendam. Há em cada um destes tribunais, não obstante serem assim pequenos, mais de trezentos homens ao serviço, entre escrivães e esbirros. Alguns para prende- rem, outros para açoitarem, e muitos para levarem cartas e documentos escritos e outros assuntos. Não servem, porém, todos ao mesmo tempo, mas apenas quando lhes toca a vez. Já que tratei dos tribunais pequenos, falarei de um gran- de que será o do vice-rei de Cantão, o qual, por certo motivo, tive ocasião de visitar, pormenorizadamente, bem como mui- tos outros. O tribunal, no qual o vice-rei julga, está conjunto com os palácios onde habita. Tem este, primeiramente, um pátio muito grande, qua- drado, voltado para o sul, sem porta alguma em frente, no primeiro plano da muralha, mas com duas portas nos lados. Nos quatro ângulos deste pátio estão quatro árvores de barca muito altas, cada uma das quais tem a sua bandeira branca, na qual estão escritas duas letras tão grandes que ocupam-na toda e significam kun-muen, isto é, vice-rei. Em volta, dentro do pátio, encontram-se aposentos para escrivães, autoridades superiores e inferiores e muitos mandarins de baixa catego- ria, os quais estão ali, constantemente, ao primeiro aceno do 240
DO ESTADO TEMPORAL DA CHINA vice-rei. No meio, encontra-se uma plataforma de pedra com os seus degraus e coberta em cima, onde estão tambores, flautas, gaitas e certas conchas de cobre. Todos estes instru- mentos, antes de o vice-rei sair e dar audiência, são soados com intervalos e, espaçadamente, três vezes, no fim de cada qual se dão três salvas de bombarda. Na terceira e última abrem-se as portas e, para este primeiro pátio, entram todos os que têm coisas a tratar. Na parte do norte, que corresponde à frente que não tem porta, está um grande portal que dá entrada a um outro pátio quadrangular mais sobre o comprido que largo. Tem este portal três portas como nas igrejas, sendo a do meio maior e as outras duas menores. Em todas as portas corresponde um caminho que se ergue três ou quatro palmos acima do solo, tendo sete a oito palmos de largura, sendo, porém, a do meio mais larga. Em cada caminho estão duas filas de soldados com armas na mão, e, por entre eles, os negociantes vão en- trando pela porta da direita e saindo pela da esquerda, pois que, pela do meio, ninguém entra nem sai a não ser o vice-rei e aqueles que o visitam ou o acompanham. No extremo deste átrio encontra-se o lugar do vice-rei, que não é sala, nem al- pendre ou varanda mas um compartimento que participa de ambos. Tem alguma coisa de sala visto que tem a sua forma e de alpendre porque não tem portas. Nela encontra-se uma mesa com o seu frontal de seda sobre a qual está o selo real, tinta encarnada e preta, pedra para a moer, pincéis para es- crever e principalmente o cheucu, isto é, uma jarrinha dentro da qual se encontram algumas longas hastes de bambu cada uma das quais equivale a cinco zurziduras. Se o vice-rei tira duas, são dez açoites; se tira seis, são trinta; e assim por dian- te. Próximos do assento do vice-rei, encontram-se, aqui e ali, doze capitães com os seus capacetes na cabeça, cimatarras ao colo e ricamente vestidos. Atrás ficam dois pagens com ventarolas na mão para fazerem vento se estiver quente. No inverno não são usadas. Não são todos os tribunais assim, porém, muitas coisas são comuns a todos. Os restantes vari- am segundo a sua maior ou menor dignidade. 241
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CAPÍTULO XXVIII Dos cárceres, das sentenças e dos castigos dos chineses As cadeias para os malfeitores são mais cómodas e têm maior desafogo que os nossos. Quase as de todo o reino são idên- ticas, com pouca diferença, por isso, tratando duma falamos de todas. Estão de ordinário adjacentes ou não muito distantes dos palácios e tribunais dos mandarins aos quais pertencem. Não têm grades para a praça. Depois da primeira porta que está mais para o exterior, segue-se uma passagem e logo aparece a segun- da porta, depois da qual se encontra um pátio maior ou menor, segundo a exigência dos encarceramentos. Segue depois a ter- ceira porta, onde se encontram os aposentos dos guardas da ca- deia, os quais são ordinariamente três. Vem depois uma outra porta que dá para um pátio grande e quadrado. Aqui, nos quatro lados, encontram-se longas casas da mesma extensão do pátio, as quais não têm paredes para o pátio mas, em lugar delas, gros- sas colunas de madeira que substituem as grades. Não têm por- tas de tábuas, mas uma cancela de madeira, sendo todas as coi- sas expostas ao ar livre. Estes alpendres ou casas são os cárceres das prisões ordinárias. No extremo de uma dessas casas encon- tra-se a secreta ou cárcere para a prisão dos criminosos de maior gravidade, a qual chamam chum kien,1 isto é, cárcere pesado, de 'M tch'ông-kám (tch'ung-tchien). 243
PE. Alvaro semedo forma que, depois de se entrar no cárcere comum, segue-se ou- tra gradaria idêntica à primeira e, para o interior desta, estão os segredos, ou cárceres mais estreitos, onde vivem os mais facinorosos, que estão sempre encarcerados. Os outros cárceres abrem-se de dia e os prisioneiros vão dum cárcere para o outro e para os pátios para conversarem. Todas as tardes se reúnem os prisioneiros para ver se falta algum, fazendo para este fim sair todos para o pátio ex- terior e um carcereiro, com a lista na mão, vai-os chamando, um a um, e eles avançam recolhendo-se, cada um, ao seu cárcere, onde ficam fechados. Os da secreta, se bem que não saem dela (o que sucede se não tiverem influência porque se a tiverem saem quando querem e são colocados onde mais lhes agrade), encontram- se, porém, de dia, livres, mas de noite, colocam-nos no segu- ro da seguinte forma: Há um tablado onde dormem. Sobre ele corre, na parte onde ficam os pés dos presos, um grosso pau com fechos suficientes para prender os pés que são metidos neles e assim os prendem, e nas mãos colocam-se as alge- mas. Quanto ao resto, são colocados entre duas argolas de ferro presas ao tablado, à primeira das quais está ligada uma cadeia de ferro bem grossa que é enfiada por entre essas argo- las, passando pela cintura de cada um, do lado direito para o esquerdo. Se apertam a cadeia um pouco mais (o que depen- de da amabilidade dos carcereiros) os pobres prisioneiros não podem voltar-se, ficando ligados as mãos e os pés e todo o corpo. É esta a precaução adoptada durante a noite. No meio do pátio dos compartimentos já referidos en- contra-se uma espécie de guarita, onde vela a guarda de noi- te, revezando-se aos quartos. Se nos cárceres acontece haver qualquer rumor, movimento ou coisa suspeita, mesmo que seja o extinguir-se a luz, que se conserva acesa toda a noite, dão, imediatamente, sinal aos carcereiros, que acodem pres- surosamente. Todos os meses os presos são visitados por um mandarim daqueles que tratam das prisões. Este assenta-se no primeiro pátio e manda vir à sua presença todos os conde- nados à morte. Apresentam-se muito miseráveis, com o cabe- lo desgrenhado, cara suja, o pescoço entortado e quase a 244
DO ESTADO TEMPORAL DA CHINA cairem, mas recolhidos e fora da vista do mandarim, dão qua- tro pulos, sãos como um peixe. A razão deste fingimento é porque, se o mandarim os encontra gordos e saudáveis, fá-los bastonar, o que se chama tafei ti,1 isto é, sovar os gordos, pois diz que se os têm ali é para fazerem penitência, emagrecerem e morrerem e não para engordarem e passarem bem o tempo. Os prisioneiros recolhem-se, depois, um a um. O mandarim pergunta aos carcereiros como se portam e vai atribuindo os prémios de bastonadas aos incomodativos, irrequietos e joga- dores. Visita depois os compartimentos de todas as prisões não permitindo neles nenhuma comodidade. Se encontra cadei- ras, mesas, leitos e outras coisas idênticas, ordena que as le- vem imediatamente. Querem que tal religião seja muito estri- ta, não servindo os cárceres, como entre nós, somente para encarcerar, mas para castigar. Os presos são obrigados não somente ao encar- ceramento como ainda a muitos tributos. Em primeiro lugar, ninguém entra num cárcere sem um bilhete de identidade. Têm os mandarins uma tabuinha pintada de branco e nela se escrevem o nome do preso e o motivo da sua prisão. Entrega- se essa tabuinha ao oficial que com ela leva o preso para o cárcere, o qual tem de pagar, imediatamente, a condução, a que chamam o dinheiro da tabuinha. Entrando pela segunda porta, aparece o escrivão geral dos compartimentos da pri- são, que pode ser um dos presos e é, como entre nós, o dono da casa. Tem a sua mesa e cadeira (são somente estas e onde come), pergunta ao preso o nome e a causa da prisão, o que assenta no livro da cadeia, exigindo, imediatamente, dinhei- ro pelo assentamento do nome. Fica ali o preso às ordens dos chefes dos cárceres e dos carcereiros ou de alguns destes e se os presos forem muitos fazem a sua distribuição. Se for um só dizem-lhe que vá ao cárcere do norte ou do sul e o chefe des- se cárcere exige-lhe logo algumas moedas. Chegado ao seu cárcere, aparece-lhe outro escriba que, por privilégio, lhe pergunta apenas o seu nome, que escreve numa tábua especi- ' fJTO tá-fei-ti (ta-fei-ti) 245
PE. ÁLVARO SEMEDO al desse cárcere que lá se encontra sempre pendurada e aqui terá ainda de pagar o registo. Depois surge um outro, isto é o varredor que lhe diz: "Para que o senhor não viva sem limpe- za é mister varrer, limpar, fazer fogo, etc. o que não se pode fazer se não abrir, primeiramente, a bolsa." Vem, entretanto, um dos encarcerados com algumas algemas de ferro das mais apertadas que encontra e colocam-nas no preso; passada meia-hora regressa com outras mais largas e diz: "Irmão, es- tas algemas são muito apertadas; por favor e amabilidade, mudo-as por estas mais largas, mas terá de me dar uma grati- ficação." E se não tiver, o condenado terá de lhe dar o barrete ou alguma peça do vestuário. São estas as pequenas despesas com as quais esfolam a bolsa. Seguem os carcereiros que, como parte graúda, necessi- ta de mais tempo. Vão dissimulando, após o encarceramento, durante dois dias, e se não se lhes dá, entretanto, qualquer coisa, causam incómodos ao preso todas as noites que não lhe pagar. Esta paga não tem limites. Está à discrição dos car- cereiros, que procuram arrancar quanto podem; muito, da- queles que têm muito e, pouco, dos mais pobres. Se for um preso tão miserável que nada tem, nada lhe tiram. Cumprida esta obrigação resta ainda a última que se destina aos sacrifícios do ídolo ou pagode da cadeia, pois que em todas elas há uma ou duas capelinhas e todos os meses os carcereiros fazem-lhe sacrifícios, em um e quinze de lua, com um galo ou uma cabeça de porco, dois peixes, pães, fruta e outras coisas. Dão ao galo um bolo ensopado em água e mal cozido para que o animal possa ficar direito. Põe-no numa mesa que está em frente do pagode, como o resto, tudo colo- cado com muita ordem e compostura, e, depois de estar ali uma hora, tornam a recolher tudo, recozem de novo a carne ou o peixe e o que precisa de ser cozido, preparam-no muito bem e fazem um banquete. Para toda esta despesa os prisioneiros novos terão de con- tribuir da seguinte forma: os que entram dão o dinheiro para este sacrifício, e, para o seguinte, que se realiza daí a quinze dias, os que entrarem de novo, ficando aqueles livres de pagar. Essas capelas de ídolos, além dos sacrifícios que os pri- sioneiros efectuam nelas, servem ainda para outros usos 246
DO ESTADO TEMPORAL DA CHINA mais comuns, isto é, para os prisioneiros fazerem os seus votos e tirarem as sortes, se bem que com resultados infelizes, pois que prometendo-lhes, muitas vezes, a sorte, a liberdade e bom êxito, recebem no entanto, nos tribunais, bastonadas e tormentos. Estive, uma vez, presente, junto dum pobre gentio, que as tirava, de joelhos, com muita devoção e, como não soubes- se ler, chamou um outro para o informar sobre o que dizia um folheto, que, para tal fim, existe nestas capelinhas. Tira- da a sorte, perguntou aquele pobre homem: — "Pois bem, que temos? Passarei por trabalhos no tribunal?" O outro, len- do o folheto, respondeu-lhe: "Alegres não; mas, está bem, a sorte é boa." — "Atormentar-me-ão?" — indagou o infeliz que temia isso e esperava tormento assaz grande. "Não receie — lhe disse o intérprete — não acontecerá nada." Foi julgado, naquela manhã, aquele pobre gentio que, na realidade, estava inocente, tendo o delito, por que fora preso, sido cometido pelo seu irmão, que recebia furtos em casa, mas que fugira, ao saber que fora descoberto, e, assim, foi este infeliz preso em seu lugar. Interrogado, o mandarim, descontente com a resposta, ordenou que lhe fossem infligi- dos tormentos. O preso opôs resistência, sendo necessário empregar a força e, como fosse jovem e robusto, dez ou doze esbirros não conseguiram subjugá-lo, tendo de andar com ele às voltas, dum para o outro lado e, como ele atacassse os que lhe apareciam pela frente, foi por acaso, de encontro à mesa do mandarim, lançando, com isso, ao chão, tudo quanto nela se encontrava, o qual, por este motivo, se irritou. Os esbirros mais enraivecidos, depois de o prenderem bem, aplicaram- lhe tormentos tão atrozes, que voltou para a prisão nos bra- ços doutros e com os ossos dos calcanhares partidos. No dia seguinte, tendo mitigado as dores e, como ele já falasse a pro- pósito, visitei-o, compadecendo-me .dos seus sofrimentos. Contou-me ele, minuciosamente, a história. Toquei-lhe no ponto daquelas sortes e suas explicações, dizendo-lhe: "Que coisa fez o vosso ídolo" — "Que o diabo leve o ídolo e as suas sortes, pois estas são tais como aquele", me disse ele e outras coisas que não devo escrever aqui. No verão os prisioneiros passam bem, mas, no inverno, como os frios são rigorosos e o comer é com frequência pou- 247
PE. Alvaro semedo co, padecem muito, tanto mais que os mandarins abusam dos pobres prisioneiros, castigando-os e mudando os castigos para penas pecuniárias. Os ladrões, ao serem presos, são abandonados dos amigos e parentes, não tendo quem os reconheça, morrendo assim mui- tos. Vi algumas vezes levar para fora seis ou sete cadáveres. Têm uma notável superstição a respeito dos mortos, não devendo sair o cadáver pela porta através da qual entrara com vida e, para resolverem esta dificuldade existe, no pátio exterior que mencionámos, um postigo ou buraco, por onde o levam. Se for pessoa de qualidade, procura-se sempre a per- missão para a levarem antes que ela morra, a fim de não se- rem obrigados a fazer sair o cadáver pelo referido buraco, pois consideram isso uma grande desgraça, motivo por que uma das piores imprecações que existe neste reino é la laoti, isto é, transportado através do buraco do cárcere. Como estes cárceres não têm grades exteriores aqueles que querem falar ou visitar qualquer prisioneiro têm de en- trar neles e é costume infalível que ninguém há-de visitar os presos sem lhes levar qualquer coisa de comer, muito ou pouco, conforme o que puder. Se, por qualquer motivo, lhes não leva, vituperam como se fosse um delito contra um cos- tume tão aceite. Perguntou-me alguém como conheço tão bem este assunto. A verdade é que esta ciência custou-me não poucos sofrimentos se bem que de pouca importância. As sentenças diferem poucas das nossas com a excep- ção de que as dilações não são tantas o mesmo acontecendo com as réplicas. Todas as coisas se fazem por meio de peti- ções ou memoriais e neles cada um diz o que deseja, segundo os seus termos judiciários. Há alguns indivíduos que vivem, somente, de fazer esses escritos. Não os aceitamos para bap- tismo se não renunciarem tal ofício porque são tantas as mentiras que dizem neles que se torna necessário aos mandarins muita prática e discreção para extrair alguma ver- dade entre tantas falsidades. Para isso providenciam, às ve- zes, com imediata provisão de bastonadas, se se tratam de grandes crimes. Na cidade de Nankim, o vice-rei desta cidade, que era amigo dos padres, e, se bem que gentio, estimava a lei cristã e 248
DO ESTADO TEMPORAL DA CHINA entendia-a, contou-me o seguinte caso: — "Estando eu — dis- se ele — a dar audiência no meu tribunal e a prover as partes, entre outros delitos, encontrava-se um memorial. Peguei nele e li-o. Estava cheio de maledicências contra a lei cristã e con- tra os cristãos chineses dessa cidade, dizendo de ambos bas- tante mal. Interroguei, então, o seu autor: — Conhece essa lei e essa gente? — Respondeu, sobranceiramente, que era uma nova lei, tortuosa, etc. Ora se ele dizia mal na petição, limita- va-se a papaguear com palavras. Lancei, então, imediatamen- te, mão das fichas e tirei seis. Deram-lhe trinta bastonadas (e as dos grandes tribunais são todas de boa têmpera). Depois dele se ter levantado e composto, disse-lhe: Não vejo bem redigida esta petição. O assunto é de peso; retire-se, faça boa consideração e diligência, averigue melhor e volte-me a in- formar. Não voltou mais." A petição é apresentada pela parte ou por alguém que a represente da seguinte forma: O pátio dianteiro do tribunal costuma estar cheio de gente de ambas as partes do pleito, mas o caminho do meio, que vai direito ao mandarim, encon- tra-se desocupado e sem multidão. Aquele que precisa de entregar a petição, em chegando a ocasião, mete-se nesse ca- minho do meio, ajoelhando-se, com a petição nas mãos erguidas até à testa. Manda o mandarim buscá-la e se tiver de interrogar, interroga. Se a aceita, pega nele e deixa-a na mesa; se não, rejeita-a, imediatamente; e, se por qualquer motivo, a considera impropriamente redigida, ordena que lhe dêem bastonadas, como já disse e, muitas vezes, tão somente por- que se encontrava irritado, não obstante aquele que as leva seja a própria parte. Isto sucedeu com um bonzo, pois estes são sujeitos ao foro secular, estando eu presente, sem outro motivo senão pelo facto de o mandarim se encontrar irritado. Executou o bonzo a sua cerimónia ordinária com a sua petição, e a provisão foi voltar-se o mandarim para a mesa, lançar ao ar duas fichas e, acto contínuo precipitarem-se so- bre o bonzo um esbirro aos seus pés e outro à cabeça, os quais, tendo-o estendido no chão, subjugaram-no, fortemen- te, e tendo-lhe desprendido as calças, que caíram até aos cal- canhares, vibraram-lhe dez bastonadas tão prestamente que, antes de ser possível pensar, ficou tudo concluído. 249
PE. ÁLVARO SEMEDO As condenações são pecuniárias, poucos desterros ou exílios, e as galés ou o parecido com isso, porque, na verdade, não as têm, mas os sofrimentos são iguais. Trabalham nos rios, nos barcos do rei, puxam embarcações e fazem outros serviços, andando dois a dois, presos por uma cadeia. A morte, geralmente, por estrangulamento ou decepan- do a cabeça, são condenados aqueles que falsificam moedas e que assassinam. Se os culpados forem muitos só dão morte a um só. Aos restantes, outros castigos. Os assassinos são todos castigados, se se provar o delito. Aos ladrões que roubarem, pela primeira vez, e coisa de pouca monta, dão-lhes bastonadas e encerram-nos; pela segunda, o mesmo com al- guma coisa mais ou escrevem-lhes duas letras nos braços, na parte exterior, za tao1 que significam ladrão. Gravam estas letras, muito bem, num pedaço de madeira, e, depois de as molhar em tinta, imprimem-nas na carne. Em seguida, com um outro, onde estão bem colocadas quatro agulhas, vão fu- rando a parte impressa e como faz sangue, batem com a mão, fazendo penetrar a tinta que fica, então, para sempre. Aos adúlteros punem bem, mas não com a morte. É com bastonadas, além do resto, que carregam muito bem. Às mu- lheres, se estiverem ainda honradas, batem, também, mas ti- rando-lhes as calças, para as envergonhar mais, e, às vezes, açoitam-nas nas vias públicas; porém, se já estiverem deson- radas, por terem já perdido a vergonha, sovam-lhes sobre as calças. Às vezes matam a bastonadas, se os delinquentes forem merecedores e se desejam abreviar o caso, pois que, se derem setenta ou oitenta bastonadas, como nos casos que perten- cem aos tribunais grandes, não pode um homem viver. No ano de 1617, na cidade de Nankim, existia uma como que confraternidade de 50 homens da seita chamada Thien Cam, que, sob pacto feito entre eles, se ajudavam mutuamente. O agravo feito a um era vingado por todos e faziam mil insolên- cias. Cairam-lhes em cima, prenderam quase todos e dividi- ram-nos pelas várias prisões da cidade, onde se encontravam 'MS tch'ák-t'âu (tchei-t'ou). 250
DO ESTADO TEMPORAL DA CHINA catorze ou quinze. A primeira coisa que fizeram foi pôr-lhes ao pescoço um kia hao1 (do qual logo falarei), tão pesado que, onde o punham ali ficava, e, quando um deles tinha de sair para a praça, eram necessários dois homens para o levanta- rem juntamente com essa coisa. O governador da cidade cha- mou a si o caso e fez-lhes dar setenta golpes a cada um e todos morreram. Para os delitos ordinários empregam um castigo que não usamos e que se chama kiao hao. E uma tábua bastante gros- sa, quadrada, de quatro a cinco palmos, aberta ao meio, e ten- do, no centro, um buraco de tamanho suficiente para poder apertar o pescoço. Os dois pedaços dessa tábua são colocados ao pescoço e bem unidos. Colam, depois, neles, atravessadamente, duas tiras de papel de largura duma mão, nas quais escrevem o delito e o motivo do castigo. Apertam, em seguida, os dois pedaços de forma a não poderem abri-los e com essa tábua ao pescoço, são os réus levados para fora, todos os dias, para serem expostos à vergonha ou ao pelourinho nas ruas, durante quinze, vinte ou trinta dias, conforme a sentença, cujo rigor está em não se tirar essa tá- bua do pescoço, durante todo esse tempo, nem de dia nem de noite, sendo, é claro, tudo isto feito, depois das bastonadas, pois estas não faltam nunca, visto que, na China, não existe sentença, a não ser a pecuniária, sem esta prévia obrigação, motivo por que para as darem não é necessário fazer-se men- ção delas na condenação, pois sabe-se, sempre, serem elas o primeiro prato, como circunstância necessária, se bem que acessória. Segue-se depois a sentença como substância pri- mária. E a verdade é que, como se costuma dizer dos japone- ses, que não podem governar sem catana, isto é, a espada, porque, por serem sanguinários, só sabem decepar, se deve dizer dos chineses que, sem bambu, que é o açoite que usam para sovar, não poderão reger. Para se poder compreender melhor isto, explicarei, em breve, o seu emprego. Em todos os tribunais da China, quando o mandarim dá audiência, estão próximos da sua mesa e de ambos os lados, 1 ttlSt ká-hou (tchiá-háu). 251
PE. ÁLVARO SEMEDO dez ou doze homens, geralmente, de pé e com esses bambus na mão, dirigidos para o chão e, se pretendem impor terror, põem mais de quarenta como fizeram aos padres que, por causa da Fé, foram submetidos ao julgamento. Têm esses bambus sete palmos de altura e uma mão de largura, sendo lisos e mais delgados na extremidade superior, a fim de pode- rem ser comodamente segurados com ambas as mãos. Esses bambus têm certa semelhança com a cana, sendo, porém, ocos por dentro e nodosos. São, no entanto, diferentes, por serem grossos, resisten- tes, pesados e muito rijos. Na mesa do mandarim está a tal jarrinha com as fichas de madeira a qual já me referi. Cada ficha representa cinco bastonadas. Assim, quando o mandarim quer mandar bastonar, lança tantas fichas quantas as bastonadas que de- seja que sejam aplicadas. Cada um desses upos'jassim cha- mam os portugueses aos que seguram os bastões) trata de segurar o seu bastão e os restantes preparam-se, deitando por terra, o paciente. Deitados os calções abaixo, imediata- mente, um upo aplica-lhe na carne desnuda cinco bastonadas, segundo a sua ficha e retira-se. Vêm depois outros, sempre frescos de mão. Quando o mandarim tira aquelas fichas da jarrinha, não se discute nem se deve pe- dir, pois executa-se, imediatamente, a sentença. Somente em alguns casos mais leves se pode obter com dinheiro que sejam menos atrozes. Isto acontece, quando o mandarim se encontra nos tri- bunais, pois que, em outro lugar, não emprega essas fichas mas serve-se sempre dos bastões e porque esses são de uso ordinário eles acompanham sempre os mandarins que os fa- zem funcionar em todos os lugares e para todos os casos. Bas- ta que não se apeie quem vá a cavalo, quando o encontre ou lhe atravesse na rua. Por ser este um motivo insignificante, castiga-se com cinco ou dez bastonadas. Isso pode fazer o ' Upo, espécie de aguazil, esbirro ou quadrilheiro. Desta palavra derivou o termo upada, empregada no dialecto de Macau, para designar as pancadas violentas que se aplicam nas nádegas. 252
DO ESTADO TEMPORAL DA CHINA mandarim, não somente na cidade ou vilas da sua jurisdição como ainda fora delas, em qualquer lugar. Antes de eu abandonar a cidade de Nancham, metrópo- le da província de Kiamsi, onde tínhamos casa, igreja e boa cristandade, apareceu um mandarim, juiz duma dessas vilas, que aconteceu passar pela nossa rua, que é a mais pública da cidade. Encontrava-se, num remoto canto dessa via, um adi- vinho, daqueles que predizem a boa sorte, assentado no seu banco, com a sua mesa, livros e outras coisas. Transitou aquele mandarim, uma vez, por cima e, outra vez, por baixo e o suon mim, assim chamam aos adivinhos, nem da primeira nem da segunda vez, se moveu. Passadas algumas horas, o mandarim teve necessidade de tornar a passar pela mesma rua. Chegado à praçazinha, no canto do qual se encontrava o inditoso adivinho, disse-lhe: "Com que então não sabes diferençar os homens, nem respeitas os mandarins do rei? Sovem-no, depressa." Imediatamente, na rua, diante da sua liteira, lhe deram dez bastonadas. — "Vai-te embora, agora — disse o mandarim — e sê bem-criado e estuda melhor essa tua arte já que não soubeste adivinhar este trabalhinho por que passaste." E assim com esta facilidade que se dão as bastonadas. Elas não entram em conta; no entanto, sempre as dão, contando. Todos as dão, todos as levam; todas as sentem e ninguém as estranha nem se tem por agravado. Os patrões e os senhores castigam, assim, os seus serventuários mas, ge- ralmente, sem lhes deitar abaixo as' calças. O mesmo fazem os mestres nas escolas com os seus alunos, qualquer que seja a sua qualidade e, igualmente, com calças. Não os estende no chão mas sobre um banco. Assim se procede, também, para com as crianças, porque não usam açoites nem disciplinas e até os detestam, admirando-se como nós castigamos as crian- ças com açoite, dizendo muito admirados que batemos com cordas, o que consideram coisa muito cruel. As crianças, por- que o açoite as esfolam mais e lhes são dados sobre a pele, preferem antes o bambu. E para que nada falte, existem na China indivíduos que, nos tribunais compram as bastonadas, ou para exprimir me- lhor, se vendem para as levar em lugar doutrem, em alguns casos leves, pois noutros nem podem nem querem. Nos casos 253
PE. Alvaro semedo em que o podem fazer, entram de acordo com as partes por um tanto por cada bastonada, e comparecem, em lugar dos réus, diante do mandarim para levar as bastonadas por ele. Empregam as torturas em casos necessários; não sei que existam mais de duas espécies; para os pés e para as mãos. Para os pés empregam um instrumento chamado kia quon. São três pedaços de madeira, colocados em mão travessa: a do meio fixa, as outras duas móveis. Entre estas colocam os pés e de tal forma os apertam que fazem desconjuntar os cal- canhares. Para as mãos empregam, também alguns pedaços de madeira chamados tean zu. Apertam depois bem os dedos com eles e selam este instrumento com papéis, deixando-o assim, durante algum espaço de tempo. 254
CAPÍTULO XXIX De algumas coisas que facilitam e ajustam o governo da China • A primeira é que o rei provê as despesas dos mandarins, tirando-lhes as oportunidades de, por falta de dinheiro, se empenharem ou se carregarem com dívidas, e a fim de os obrigar a observar e a fazer observar bem as leis e manter, rectamente, a justiça. Uma vez que o doutor, licenciado, ou quem quer que sejam tenha sido provido pela corte e segue para o seu cargo, todas as despesas da sua pessoa, do seu serviço e da sua famí- lia assim como da viagem pelos rios ou por terra, quer em navios, carros ou cavalgaduras bem como dos carregadores e doutras coisas são feitas à custa do rei. Não se hospeda, durante a viagem, nas hospedarias, pois que, nas vilas e cidades, existem palácios preparados para o albergarem e onde é provido de todo o necessário. Manda sempre adiante um homem para que, quando chegue, todas as coisas estejam em ordem. Ao meio do dia se, como acontece algumas vezes, não puder chegar a um lugar gran- de, existem, em alguns sítios, pousadas reais chamadas xili, construídas para este fim com todas as coisas devidamente arranjadas. O pior é que como constitui propriedade do rei sempre se gasta com maior liberalidade. Se o mandarim tiver gente sua que necessite de dez cavalos diz que tem quinze ou 255
PE. ÁLVARO SEMEDO vinte pessoas e para todos se fornecem provisões para a via- gem, sendo a maior parte dada em prata. A coisa não acaba aqui mas passemos adiante. Alguns não se preocupam muito com o crédito e reputação mas mais com a sua bolsa. Como é necessário servir certa quantidade de viandas de espécies já fixadas, eles ordenam que ponham menos na mesa para que lhes seja entregue o dinheiro do res- tante. São, porém, poucos os que ousam praticar tal sovinice. O rei não somente gasta com as suas pessoas, para seu esplendor e dignidade, como lhes fornece gente de cavalo e a pé que as acompanha para onde vão e passam. Isto faz-se de uma vila ou cidade para outra, etc.. A segunda. Nos lugares onde os mandarins tenham de governar dão-lhes palácios para habitar como ainda as prin- cipais peças de mobiliário, todo o serviço de gente, desde o das portas para dentro (se não tiveram gente própria) como o das portas para fora até aos pagens e isso não é de pouca monta, pois que a um magistrado de vila bem pequena forne- cem, pelo menos oito a dez, os quais não servem todos jun- tos, senão quando o mandarim os manda em particular. A terceira. O mandarim, no trato com os seus súbditos, porta-se com grande circunspecção e respeito. Não fala nem trata com nenhum em segredo, mas publicamente, para que ninguém possa testemunhar contra eles. O palácio está sem- pre fechado por dentro e por fora. Depois de ter dado audiên- cia (o que se faz todos os dias e, muitas vezes, pela manhã e pela tarde, e sempre há que fazer) retira-se e fecha o palácio, por dentro, para os mandarins e, por fora, para os funcionári- os; e se bem que o abra todas as vezes que deseje sair, não o faz, privadamente, mas tocando um tambor no interior ao qual responde um outro de fora. Aparecem, imediatamente, os funcionários que o hão-de acompanhar e outra gente, os quais reunidos se abre o palácio e sai o mandarim. A quarta. Nenhuma pessoa de casa, filhos, primos ou servidores, que esteja com ele, pode sair para visitar, conver- sar ou tratar coisa alguma, para que não receba suborno ou dinheiro. Ao comprador, quer de fora quer do próprio tribu- nal, bem como aos outros funcionários, entrega-se-lhes todos os dias, no interior do palácio, a lista daquilo que tiverem de 256
DO ESTADO TEMPORAL DA CHINA comprar e porque, para essas coisas insignificantes, não fica bem que se abram nem se podem abrir as portas do palácio, têm todos uma roda pela qual entra e sai o que for preciso. A quinta. Governam num lugar apenas durante três anos para que não lancem profundas raízes e não contraiam íntimas amizades. Ninguém governa a própria terra com a excepção dos capitães, os quais com maior afecto e esforço devem guardar e defender o torrão natal, em surgindo a ocasião. A sexta. Entre os mandarins existe grande subordinação entre uns e outros. Os inferiores respeitam com toda a reve- rência e obediência os superiores e visitam-nos, também, cortesmente, apresentando-se em tempo devido. A sétima. Vigia-se muito o governo, pois que além dos Tauli e dos Quoli, que têm por ofício informar de tudo e avi- sar o Rei, há em todas as províncias, um visitador, não com muitos anos de serviço em tal cargo mas novo todos os anos, para que possa exercer com rigor o seii cargo e castigue ou dar parte daquele que não procede bem. A oitava. Todos os três anos se procede a uma inspecção geral de todos os mandarins do reino, em parte por meio das informações dos visitadores, em parte por averiguações se- cretas, conduzidas no mesmo ano em que de todo o reino vão os mandarins prestar obediência ao rei em Pequim. Assim, a realização dessa inspecção efectua-se na própria corte, casti- gando-se ou abafando-se uns e destituindo-se do cargo ou- tros. Os principais motivos para a aplicação dos castigos são os seguintes: Primeiro — Se vende a justiça, recebendo peitas, perde, então, o cargo, voltando para a sua casa. Segundo — Se for rigoroso e cruel, excedendo-se nos castigos, é destituído do seu cargo e foro, ficando reduzido a simples popular. » Terceiro — Se for negligente na governação ou pouco meticuloso, perde o cargo mas conserva as insígnias. Quarto — Se for precipitado e pouco avisado nas sen- tenças, baixa de posto como de governador para juiz ou coisa semelhante. Quinto — Se for muito jovem e o seu procedimento levi- ano, baixa, igualmente, de posto. 257
PE. ÁLVARO SEMEDO Sexto — Se for velho e não puder resistir à fadiga das audiências e do serviço do rei, mandam-no repousar para a casa e, embora não tenha culpa disso, pois é uma falta natu- ral, no entanto, é a pior de todas, porquanto, não podendo emendá-la, visto que se vai agravando com o tempo, fica im- possibilitado de voltar a exercer o seu cargo. Sétimo — Se for pouco diligente no desvelo e governo das suas casas e família, quer daquela onde está residindo quer da que está na sua terra natal, que continua a ser gover- nada por ele e cujos servidores, parentes e filhos lhe obede- cem rigorosamente (o que não é difícil devido à grande auto- ridade dos pais), perde, também, o cargo. A nona coisa que contribui para o bom governo é que o rei ouve o que lhe dizem os mandarins, se bem que contra o seu gosto e, os mandarins falam-lhe, livremente, embora sob risco seu. Assim, tanto uma coisa como a outra são admirá- veis; nos mandarins, a liberdade de aconselharem e nos mo- narcas a disposição de os ouvirem. Aqueles, por zelarem a justiça e o bom governo e estes, pela sinceridade e desejo de acertarem. Disso há muitos exemplos na sua história. Cito dois ou três. De certa província enviaram ao rei uma donzela como coisa extraordinária e rara, nas formas e maneiras. Já o seu antecessor fora envolvido numa coisa idêntica da qual resul- tou grave dano para o reino (pois que tais pessoas não sabem raciocinar muito bem), e receava-se que o mesmo aconteces- se com o caso presente. Um colau tomou, então, sobre si o caso e quis falar, pessoalmente, ao rei. Foi levado à sua pre- sença e falou com tal eficácia que o rei respondeu-lhe que, em se recolhendo ao palácio, a despediria. "Agora, imediata- mente — disse o mandarim — deve V. Majestade ordenar que seja despedida, porque depois de se recolher e de a ter visto, ela há-de falar-lhe, e lhe tremerão as mãos, pois que as mulheres, mesmo sem feitiçarias, têm virtudes para encantar e nem eu sairei por porta alguma do palácio sem que ela saia, primeiramente, por outra." E, assim, se fez. Houve um rei que gostava tanto de aves que ordenara que se buscassem nas selvas de todo o reino as mais curiosas e graciosas. Como o desejo dum rei é ordem para os seus súb- 258
DO ESTADO TEMPORAL DA CHINA ditos, trataram de efectuar a busca, com^pandes dificuldades e opressão para o povo, particularmente numa província, onde a caça se fazia, continuamente, de forma que os lavra- dores não podiam entregar-se às suas culturas, com o que sofreram grandes necessidades. Aconteceu passar por essa província um mandarim, vindo de uma outra, o qual tinha mais a peito o zelo e a compaixão que aqueles que a governa- vam. Chegado à corte, submeteu um memorial ao rei e soube pintar tão vivamente a pouca importância da caça e as afli- ções que ela causava ao povo, que o rei não somente acabou com este seu prazer, ordenando que abandonassem a caça e de apanharem mais aves como mandou que abrissem as por- tas das gaiolas e deixassem em liberdade aquelas que se en- contravam presas no aviário do palácio. Na cidade de Pekim, nos palácios duma filha do rei, que se chamava Gun chu, havia um servidor insolente, que co- metera alguns delitos e uma morte. Os mandarins bramavam que o prenderiam mas não o podiam fazer nos palácios. O servidor não saía não acompanhando a infanta. Um mandarim estava resolvido a prendê-lo de qualquer forma e, assim, saindo a infanta, colocou-se ele com a sua gente dian- te do carro, fazendo-o parar. Pôs, então, as mãos naquele ho- mem e prendeu-o. A infanta, sentindo o agravo que lhe fazi- am, correu para o palácio tão encolerizada que, sem esperar que o rei saísse da audiência que estava dando, lhe foi quei- xar-se. Mandou-se chamar o mandarim que estava prepara- do, pois já se contava com isso. Apresentou-se, então, ao rei que o admoestou. Respondeu o mandarim: — "Senhor, eu fiz aquilo que Vossa Majestade ordena e a lei dispõe." — "Devíeis — disse o rei — buscar outro tempo ou ocasião" — "Bem o procurei — replicou o mandarim - mas não o conse- gui encontrar". "Pedi, então, perdão à infanta — disse o rei — e batei-lhe a cabeça". O mandarim respondeu: "Não havendo erro, não há perdão. Não peço perdão por ter cumprido o meu dever". Ordenou o rei a dois mandarins que lhe abaixas- sem, à força, a cabeça até ao chão, mas ele deitou-se de tal maneira que não foi possível de forma que o rei o mandou embora. Daí a poucos dias, o rei deu ordens para que fosse melhorado o seu cargo, satisfeito com a sua integridade. 259
PE. Alvaro semedo Para confirmação disso, deixo de citar muitos casos que poderia aduzir. A décima é a grande vigia que se faz nas cidades, vilas e povoados. Em todas as ruas há um homem e, sendo longa, dois ou mais, a cujo cargo pertencem todas as desordens que nela ocorrem. Na mesma existe um cárcere chamado lempu isto é, loja fria, onde num caso súbito, podem prender o de- linquente até se avisar qualquer magistrado. A undécima — Cerram-se, infalivelmente, todas as noi- tes as portas da cidade como já dissemos, e fecham, ainda, as ruas com uma grade feita, propositadamente, para este fim, porém, não se procede sempre deste modo nem em todas mas sim nalgumas e em certas ocorrências. A duodécima — Entre a gente de autoridade respeitam- se muito uns aos outros, bem como entre gente honrada e constituiria grande escândalo se perdessem a compostura entre eles, motivo por que, quando tiverem ocasião de se des- gostarem ou odiarem, observam sempre, exteriormente, o decoro e evitam os encontros para não estarem juntos. A décima terceira — Não trazem armas a não ser os sol- dados e estes somente nas ocasiões de revista ou nos acom- panhamentos de mandarins. A gente do povo, que, ao invés, perdem, uns com os outros, facilmente, a compostura, se so- corre dos punhos e aquele que for o primeiro a agarrar os cabelos do outro vence a briga. Se acontece terem na mão alguma coisa que possa fazer sangue como um cajado, uma vara, um pedaço de ferro ou coisa semelhante, põe-na, imedi- atamente, de parte, para se agredirem com os braços e as mãos. A décima quarta — as meretrizes, por quem se originam muitas desordens, vivem todas fora da muralha não sendo permitida a nenhuma ficar dentro. Não têm casas particula- res mas comuns de muitas com um homem que toma cuida- do delas e informa sobre qualquer desordem que ocorra. A décima quinta — Proíbem dentro do reino todo o co- mércio com o estrangeiro, que pode corromper-lhe os costu- 1 tô&S láng-p'ou (Iertg-p'u). 260
DO ESTADO TEMPORAL DA CHINA mes e perturbar o seu modo de governar, lei esta que foi, em parte observada pelos lacedemónios pelo mesmo motivo. Não rejeitam, porém, os embaixadores doutros reinos e assim têm entrado muitos dos estados vizinhos. Obrigam-nos, tão somente, a que, em chegando à primeira cidade do reino, se deixem permanecer nela, onde os magistrados os tratarão com todas as honras e avisarão o rei, de quem virá a licença para passarem à corte, mas sem a qual não poderão seguir. Chegados à corte ficam alojados em palácios particulares dos quais não poderão sair a não ser da forma como já nos referi- mos. Acima de tudo existem as suas leis, estatutos e ordens pelos quais se governam, bem como o reino. São eles de duas espécies: a primeira consiste de ritos, costumes e cerimónias antigas, comuns a todo o reino, os quais se encontram em cinco livros aos quais chamam Doutrinas e são como que sa- grados; a segunda são as leis do reino pelas quais observam e mantêm a justiça nos casos particulares respeitantes ao civil e criminal de tudo aquilo que se há-de observar e a sua exe- cução. São igualmente antigas e todas fundadas nas cinco virtudes muito estimadas pelos antigos e ainda hoje muito célebres entre eles, isto é, gin,ly,2li,3 chi* sin — piedade, jus- tiça, polícia, prudência e fidelidade. Gin, dizem eles, significa piedade, humanidade, carida- de, reverência, amor e compaixão, o que abrange também o pospor-se a outrem, ser afável, socorrer os aflitos, ajudar os necessitados, ter coração pio e compassivo, ser benevolente para com todos, devendo praticar tudo isso para com os pais, sustentando-os, quando sãos, curando-os se enfermos, ser- vindo-lhes se vivos e fazendo-lhes exéquias, se mortos. Y. Significa justiça, igualdade, inteireza, condescendên- cia nas coisas razoáveis e justas. Desta.forma, o juiz deve dar 1 i Jân (ien) 2mnn 2miânii) 4 @ tchi (tchi) 5 fit sàn (s/d) 261
PE. ÁLVARO SEMEDO a cada um o que lhe pertence; o rico não se ensoberbecer e, se tiver grande fortuna, compartilhá-la com os pobres, adorar o Céu, respeitar a Terra, não contender nem ser pertinaz, e ce- der naquilo que for justo de conformidade com a razão. Li. Dizem que é polícia, cortesia, honrar e reverenciar os outros como convém, o que consiste na reverência recí- proca de uns para com os outros, meticulosidade e circuns- pecção nos negócios, modéstia externa, obediência aos ido- sos, afabilidade para com os jovens e respeito para com os velhos. Chi. Significa prudência e sapiência, consistindo isso em ler livros, aprender as ciências, ser perfeito nas artes libe- rais, douto em antiguidades, prático nas coisa modernas, ob- servar o passado para ordenar bem o presente, regular o futu- ro e distinguir o justo do injusto, e o verdadeiro do falso. Sin. Dizem que é fidelidade e verdade. Consiste em ter um coração íntegro e intenção verdadeira, fazer somente o que for bom, imitar o justo e agir de acordo com a palavra, quer interior quer exteriormente. Segundo esta divisão de doutrina, reduzem a sua repú- blica a cinco ordens de pessoas correlativas entre elas, no que toca à observância e obrigação de cada uma, isto é, o rei com o vassalo, o pai com o filho, o marido com a mulher, o irmão mais velho com o mais novo, e os amigos entre si. O rei há-de observar para com os vassalos vigilância, amor e clemência; os vassalos com o rei, lealdade, reverên- cia, e obediência; o pai com os filhos, amor e compaixão; es- tes com os pais, obediência e piedade; o marido com a mu- lher, amor e união; esta com o marido, fidelidade, respeito e brandura; os irmãos mais velhos com os mais novos, amor e ensinamento; os mais novos com os mais velhos, isto é, toda a gente para com os mais idosos, obediência e respeito, e os amigos entre si, fidelidade, verdade e sinceridade. Era este o modo de viver que se observava nos tempos antigos e na idade de oiro, quando as leis eram poucas e mui- tos os que as cumpriam, e em que todas as coisas eram base- adas na luz da natureza e seus princípios, o que ainda hoje se verifica nos seus livros, quase com as mesmas palavras que se encontram nos nossos, e quando os homens não gostavam 262
DO ESTADO TEMPORAL DA CHINA de governar, preferindo retirar-se da corte e abandonavam o governo se viam que com a sua autoridade e exemplo, o povo não tirava proveito nem com as suas admoestações o rei se moderava, recolhendo-se, assim, para as suas propriedades que cultivavam com as suas próprias mãos, como já me referi em outro lugar. Porém, depois que a ambição e a avareza sobrepujaram a virtude e o interesse cegou a honra e a generosidade, pas- sou sempre a falhar esse modo de viver e a aumentar as leis, alterando-as alguns príncipes novos, moderando-as outros e muitos acrescentando-as, particularmente Humu, cepo da família actualmente reinante, o qual, como encontrou o reino dominado pelos tártaros durante alguns anos e, portanto, com costumes estrangeiros já introduzidos, mudou total- mente o modo de governo e esse reino, que primitivamente estava dividido por muitos príncipes, ficou reduzido a quin- ze províncias com uma só cabeça, sendo-lhe necessário fazer leis novas, mas tendo sempre respeito pelas antigas. Os chineses têm ainda os seus mandamentos e, nalgu- mas províncias, afixam-nos muito bem nas ombreiras das portas, da parte de fora. Creio que são nove e correspondem, mais ou menos, aos nossos, como não matar, não roubar, não mentir e honrar pai e mãe. Nisto de honrar os pais, temos muito que aprender com os chineses, bem como todas as ou- tras nações que julgam ser em tudo superiores à China. Mui- tas coisas boas dos antigos sobre honrar os pais andam, hoje em dia, esquecidas entre eles, não no falar e no escrever mas na prática, que descuidam. Se bem que tal observância já ti- vesse gozado, antigamente, de melhor apreço, continua, no entanto, actualmente, a estar em vigor, sendo cumprida, com toda a precisão, pelo rei até ao mais ínfimo popular, pois, não só sustentam os pais, provendo-os, acarinhando-os e tendo para com eles extremos cuidados, tanto maiores quanto mais idosos forem, como os respeitam ainda com inacreditável re- verência e submissão, verificando-se isso em qualquer grau, idade ou estado em que se encontrem os filhos. O próprio rei, em alguns dias do ano, visita sua mãe, que está assentada num trono, fazendo-lhe profundas reverênci- as, quatro vezes ajoelhado, curvando a cabeça até ao chão. A 263
PE. ÁLVARO SEMEDO maior parte do reino observa o mesmo estilo. Se, por acaso, alguém se descuidar ou cometer faltas para com os seus pro- genitores e se estes se lamentarem junto dos magistrados, é castigado com muito rigor. Não é menor o respeito que têm para com os mestres e já Alexandre dizia que se deve mais aos mestres que ensinam que aos pais que procriam, mas só na China é que tal dívida é compreendida e se paga como convém, pois que, além do res- peito que lhes têm durante toda a vida, não lhes faltam, em tempo devido, com presentes e, quando passam de grau e são promovidos a cargos mais elevados, fazem-lhes favores e be- nefícios importantes. Têm ainda o seu lugar neste reino, os velhos, não os honrando os chineses menos do que, antigamente, os estima- ram os lacedemónios. Quando entre eles se reúnem, se bem que alguns sejam muito nobres, os velhos, que se não tiverem dignidade têm sempre o seu lugar, gozam de precedência e os jovens em todas as ocorrências os reverenciam. Os magistrados hon- ram-nos, publicamente, não só pela idade, sendo velhos, como ainda pela virtude e modo de proceder e por viverem sem nota nem escândalo e, ainda, em particular, se nunca foram autores ou réus, isto é, se nunca estiveram em juízo nem foram acusadores, o que entre eles é muito apreciado, por ser notável sinal de bondade, donde veio o provérbio que diz xin pu kien quon zieu xita pao, que quer dizer, "a pessoa que nunca viu um mandarim (isto é, nunca esteve em juízo) é uma pedra preciosa". Os magistrados oférecem-lhes, todos os anos, um ban- quete público à custa do rei, com magnificência real e cerimónias de grande honra, mostrando o que se deve às cãs, tornadas veneráveis não só pelos anos mas ainda pela virtu- de. Finalmente, os chineses têm os seus livros cheios de sentenças e bons conselhos. Assim, observam-nos tal como se encontram neles. Citarei apenas alguns, que me vêm à memória, como: No servir os mestres e os mais velhos, o principal é a reverência e a cortesia. 264
DO ESTADO TEMPORAL DA CHINA Encobrir-se-ão os males dos outros e não se revelarão os próprios bens. No governo universal não hão-de haver paixões particu- lares. Não se há-de fazer nunca o mal, por ser pequeno, nem se há-de deixar de fazer o bem, por não ser grande. Aos virtuosos, mesmo que sejam jovens, devem-se hon- rar; os viciosos, mesmo que sejam velhos, devem-se evitar. 265
CAPÍTULO XXX Dos mouros, judeus e outros povos que existem na China Tendo dito do reino da China, sua gente e costumes, brevemente e do que tenho podido, estando eu fora, desse país e sem os seus livros dos quais poderia extrair muitas coisas curiosas e dignas. Já que não posso falar de todas as coisas, é bom referir-me a alguns particulares de todas. As- sim, direi das outras gentes que se encontram nesse reino. Falando da província de Cantão, disse que, como a ilha de Hainam, que é grande e toda pertencente à China, estava dividida em duas partes: a primeira mais vizinha do reino, pela parte do norte e habitada pelos chineses e por estes go- vernada: a outra, que fica para o sul, para a costa da Cochinchina, é habitada por gente bárbara com língua pró- pria, que governa por si mesma sem se relacionar com os chi- neses a não ser em algumas coisas de comércio. Disse ainda que entre as províncias de Chin cheo, Can- tão e Kiamsi se encontram alguns montes que as unem como, na Catalunha, o Monserrato une aquela com Aragão e como no meio delas existe um reinozito, que, igualmente, se gover- na por si mesmo sem querer outra coisa dos chineses a não ser médicos, medicamentos e algum trato. Além desses, na província de Yuannan, que é muito grande e situada ao sul, na altura de 24 graus, existem algu- 267
PE. ÁLVARO SEMEDO mas terras muito vastas, habitadas por uma gente particular doutro língua e costumes. Tem o seu régulo escolhido pelos chineses, thu quo,1 isto é, "mandarim da terra", paga tributo ao da China, negoceia, faz comércio domesticamente, e vive em paz. O mesmo se disse da província de Que Cheu. Tem nos seus confins povos com o seu chefe particular, sem outra de- pendência dos chineses, a não ser a investidura do título com o qual são denominados. Há a mais, na China, moiros em grande quantidade, mas não em todas as províncias nem em todas as cidades. Encon- tram-se, porém, nas melhores e falam a própria língua do país, pois da sua, com a excepção de algumas palavras, nada sabem. Conhecem, também, muitas coisas da sagrada Escri- tura. Em Nankim encontrei um, nascido e criado nessa cida- de, que disse David, Abrão e Isaac, tão distintamente como eu. As suas feições são totalmente chinesas. São mercadores e médicos; exercem cargos nos tribunais; estudam, concor- rem aos exames e chegam a ser mandarins, mas não dos mais importantes, pois, geralmente, param no grau de licenciado. Encontram-se, geralmente, onde habitam os carniceiros de vacas, pois que não comem porco e, onde estão, matam va- cas. Parece-me que isto seja a maior utilidade que trazem para o país, porque nas terras onde eles se não encontram, não se vende ordinariamente a sua carne. Têm as mesquitas públicas, que lhe foram concedidas pelo rei. Não observam com muito rigor as suas leis. Aqueles que chegam a alcançar o grau de literato ou dignidades oficiais não se preocupam muito em progredir. Conservam-se, casando entre si, mas também, casam com mulheres chinesas, porém, nunca dão as suas filhas em casamento a filhos de chineses. A razão disso é porque, na China, a mulher segue o marido, indo para a casa do sogro, onde fica e reside, seguindo a sua lei. Assim, vindo uma gentia para a casa de mouros, faz-se moura e, indo '±111 t'ou-kun (tu-kuán) 268
DO ESTADO TEMPORAL DA CHINA uma moura para a casa de gentios, torna-se, infalivelmen- te, gentia. Os chineses desprezam-nos, considerando-òs estrangei- ros e chamam-lhes hoeitou/ hoei hoei. A letra com a qual escrevem o seu nome não tem outra significação senão pró- pria de tal gente, mas eles ficam magoados se se lhes chamam assim. O nome de que se prezam é kiao muen,L que quer di- zer "porta de ensinamento". Sendo desprezados pelos chine- ses, eles desprezam-nos ainda mais, por estes adorarem ído- los e serem gentios e assim nada devem uns aos outros. Tem na cidade de Nankim uma espécie de Monte de Piedade com o qual socorrem, somente, os da sua raça mas não os prisio- neiros, em consequência dos seus delitos e perversidades. Entraram na China, há setecentos anos, tendo sido cha- mados do Turquestão, pelo rei desse tempo, para o ajudarem nas dissenssões que havia no reino, com êxito tão próspero que aqueles que quiseram permanecer nele ficaram a ter os mesmos privilégios dos naturais do país e foram-se multipli- cando de forma que, hoje, atingem muitos milhares. Mais tar- de, na guerra que Hum Vu fez contra os tártaros, há trezentos anos, eles colocaram-se do lado deste, ajudando-o e, tendo este rei saído vencedor, ficaram desfrutando ainda de maior estima, sendo admitidos na governança. Já falei da sua entrada trienal e quienal na China, com embaixada e presentes para o rei, e destes, se bem que sejam todos moiros, pertencem, no entanto, a vários países e reinos, sendo raríssimos os que se deixam ficar na China. Existem, também, judeus na China, se bem que, actual- mente, não em grande número. Não sei quando e como é que entraram. Antigamente eram mais numerosos, mas, a pouco e pouco, foram escasseando, tornando-se alguns mouros. Mais que em outro lugar, encontram-se em Cai fum fu,3 me- trópole da província de Honan. Têm ali a sua sinagoga, bem arranjada e limpa, como uma grande capela, onde oram com 1EOÍÈ ui-tou (hui-t'u). 2 f£í"j káu-mun (tchiau-mân) 3f5ílíbfí Hói- Fông-Fu (Kai-Feng-Fu) 269
PE. ÁLVARO SEMEDO as suas cortinas. Dizem que têm uma antiquíssima Bíblia. O Pe. Giulio Alieni da nossa Companhia esteve com eles duran- te algum tempo. Mostraram-lhe a sinagoga, mas nunca quise- ram afastar as cortinas nem mostrar-lhe a Bíblia. O Pe. Matteo Ricci afirmava que, conforme o que lhe disseram de- les em Pekim, esses judeus não são diferentes dos nossos. Não têm qualquer conhecimento de Cristo, ou porque a en- trada deles na China foi anterior à sua vinda ao mundo ou, então, perderam a memória da sua existência. É, por isso, de grande importância, ver a sua Bíblia, pois, talvez, não esteja adulterada, como fizeram os hebreus, para ocultarem a gló- ria do nosso Redentor. Estes judeus, como não existem muitos, dificilmente se poderão conservar. Os que falaram na Corte, com os nossos padres, lamentavam-se de estarem a extinguir-se devido à ausência da língua hebraica e do pouco conhecimento da Lei. Diziam que dentro de pouco tempo, se tornariam todos mouros ou gentios; que o seu arqui-sinagogo já estava decrépito; que o filho que lhe sucederia no cargo era jovem e desconhecedor das coisas da Lei; e que entre eles, poucos zelavam por ela. Além disso, esses judeus mostravam-se já aborrecidos por os gentios vituperarem algumas cerimónias da sua Lei, sinal de que não gozam de muita simpatia, como o não come- rem pouco, não tocarem em animal morto por mãos de genti- os e, principalmente, o circuncidarem as crianças no oitavo dia, dizendo as suas mulheres e parentes chineses que isso é coisa bárbara e cruel. Ora nessa cidade de Cai fum fu temos casa e igreja e, quando saí desse reino, aquela cristandade andava crescen- do, com a esperança de que, não obstante aqueles judeus, haveria de frutificar, pois eles estão prontos a mudar de Lei e, assim facilmente, aceitarão a verdade, por ser mais conforme à sua. 270
CAPÍTULO XXXI Da Cristandade que muitos séculos antes entrou na China e de uma pedra antiquíssima descoberta de fresco testemunha disso Foi sempre opinião bem fundada que, desde tempos muito remotos, existia o cristianismo na China. Paolo Veneto, tratando das coisas de lá (sendo certo que andou muitos dias pelas terras do Tártaro) afirmava que existia, en- tão, naquele império, muitos cristãos com templos sumptu- osos, citando a cidade onde esteve. Escreveu verdades, pois que, de tudo quanto anotara resta, hoje, muitas coisas e dou- tras se vêem as ruínas. Ajunta-se a isso a autoridade de outros autores sérios, nos quais se lê que a pregação do Evangelho penetrou na China, por intermédio do apóstolo S. Tomé e dos seus discí- pulos. Entre os escritos, onde é possível encontrar-se a con- firmação, não são de pouco peso os livros caldaicos da cris- tandade indiana, cultivada por meio do mesmo Apóstolo, os quais, se conservam, actualmente, no Arcebispado de Cranganor ou da Serra (isto é, da Montanha) como vulgar- mente é conhecido, traduzidos daquela língua, por ordem do seu arcebispo Francesco Ros, por obra dum padre nosso mui- to versado em tal língua. A tradução é em latim, mas, para ser mais comummente compreendida, verteremos, no vulgar, o que citarmos. 271
PE. Alvaro semedo Um desses livros é um breviário, no qual, numa lição do segundo Nocturno, diz assim: Por intermédio de S. Tomé desfizeram-se todos os erros da idolatria dos indianos. Por intermédio de S. Tomé os chine- ses e os etíopes foram convertidos à verdade. Por intermédio de S. Tomé mereceram a virtude do baptismo e a adopção de filhos. Por intermédio de S. Tomé acreditaram no Pai, Filho e Espírito Santo. Por intermédio de S. Tomé observaram a um Deus a fé abraçada. Por intermédio de S. Tomé nasceram em toda a índia os raios da doutrina da vida. Por intermédio de S. Tomé voou e entrou na China o Reino dos Céus. E, logo, diz, assim, numa antífona: Os indianos, os chineses, os persas e os outros ilhéus da Síria, Arménia, Grécia e Roménia, em comemoração de S. Tomé, oferecem adoração ao vosso Santo Nome. Na Suma das Constituições Sinodais, parte 2.a, Cap. 19, sobre os bispos e metropolitanos, existe um cânon do Patriar- ca Teodósio com as seguintes palavras: Assim, igualmente, os bispos da grande província como são a maior parte os metropolitanos da China. Depois da entrada dos portugueses em Cochim, o gover- nador dos Montes de Malabar (chamava-se D. Diogo) intitulava-se o Metropolitano da índia e da China e, do mes- mo modo, D. José, que morreu em Roma. Esses eram títulos antigos daquela Igreja e, todos juntos, constituem grande ar- gumento de que na China existiu a cristandade. Foram estes os motivos eficazes pelos quais, depois de termos entrado na China, andámos com sumo ardor à procu- ra de alguma ruína ou vestígio dessa cristandade. Nas crónicas desse reino, que lemos com cuidado, não encontrámos nenhuma informação sobre isso, com muita admiração nossa, pois sabemos quão diligentes e inquisidores são os chineses das suas coisas com o fim de as registarem para a eterna memória. Tivemos também informa- ções de que existiam alguns naquelas bandas, os quais adora- vam a Cruz e a faziam sobre a comida com outras cerimónias sem conhecerem a razão. Estava eu, na metrópole de Kiamsi, quando soube por um cristão que, na terriola vizinha de Tamo xan, se encontravam alguns que, quando saíam da 272
DO ESTADO TEMPORAL DA CHINA casa, assinalavam com a cruz a sua fronte. Interrogados sobre esta usança, declararam tê-la aprendido com os seus maiores. Na corte de Pekim, visitando os nossos padres um ju- deu, referiu-se este ao assunto mais claramente, nomeando os lugares e as famílias, onde estavam em uso a Cruz. Enviá- mos um irmão nosso com esta informação mas, não obstante toda a boa diligência que empregara, não encontrou coisa al- guma daquilo que buscava, ou porque suspeitavam da sua pessoa ou, porque, realmente, estivessem já todos extintos. Apesar disso afirmava o judeu que existiam, antigamente, mui- tos desses que adoravam a Cruz, principalmente, nas províncias do norte e que, prosperando muito em letras e armas, causaram grande suspeita nos chineses com o que entraram em grande receio. Assim, alguns dispersaram-se por vários lugares, outros permaneceram mas dissimulando a Lei que tinham, e outros tornaram-se mouros ou judeus. Desta forma, foram-se extin- guindo. Isto dizia o judeu, o que ocorreu, há sessenta anos, e já se passaram trinta, desde que ele assim falou. Nesses trinta anos percorremos toda a China, fundando casas, em diversos lugares dos maiores, plantando o cristianis- mo, dedicando todo o esforço para descobrir tal verdade, sem, porém, ter podido conseguir o intento em coisa alguma. E certo que encontrámos uma campainha daquelas que se servem para a missa com letras gregas em volta e uma cruz bem esculpida, mas elas podiam ter entrado, modernamente, trazidas de outras partes, em qualquer ocasião das muitas que produz a variedade dos acontecimentos, como pôde entrar o livro das Fábulas de Esopo, em latim, encadernado à nossa maneira, como vi na pro- víncia de Nankim.1 Considerando, pois, de uma parte, tanta es- cassez de sinais evidentes de uma coisa tão importante, e corro- 1 Esta sineta, um cálice, uma Bíblia latina e uma pedra tumular (esta última encontrada em 1951 na cidade de Yangzhou, à beira do Grande Canal, durante os trabalhos de demolição da muralha da cidade) são os únicos vestí- gios materiais conhecidos da presença dos Franciscanos na China, durante a dinastia Mongol — além, evidentemente, dos relatos escritos de Carpini, Rubrouck, João de Montecorvino, Odrorico de Pordenone, Jean Marignolli, Marco Polo e outros (nota do editor). 273
PE. ÁLVARO SEMEDO borada por tantas fadigas e poderosas razões, não é de admirar que estejamos em dúvida e perplexidade, e, de outra, tendo-a por infalível, como na realidade é, recorremos a outras notícias, para atribuir qualquer outra razão e motivo à ausência de indíci- os manifestos, diferentes daqueles que dizia o judeu, discorren- do da seguinte forma: Quando o tártaro se assenhoreou da China, existiam nela muitos cristãos com sumptuosas igrejas, encontrando-se favorecidos por ele, como se colhe da relação de Veneto. De- pois que Humu tratou de reconquistar o reino e fez guerra ao Tártaro, os mouros colocaram-se do lado dos chineses, auxi- liando-os na reconquista e vitória que alcançaram, ficando com o prémio de poderem permanecer na China com liberda- de e com as suas mesquitas. Os cristãos inclinaram-se para o lado do Tártaro, e como este foi vencido, inferiorizou-se a sua condição, morrendo uns, mudando de religião outros, e, re- fugiando-se em lugares secretos, desapareceram, dentro de pouco tempo, todos os indícios e informações da nossa Fé, de forma que já não é possível investigar coisa alguma, não obstante toda a diligência por nós empregada. Estávamos, assim, desconsolados, com tanta treva, quando a única fonte de luz se dignou brotar dessa obscuri- dade com claríssimo testemunho de que a Lei Evangélica flo- rescera, resplandecentemente, há muitos séculos, nesse país. Isso aconteceu da forma seguinte: No ano de 1625, quando estavam escavando uma fossa para certa construção vizinha à cidade de Signanfu,1 metró- pole da província de Xemsi, encontraram os cavadores uma laje de pedra de mais de nove palmos de comprimento, de quatro e tal de largura e um de grossura. A cabeça, isto é, uma das extremidades do comprimento, rematava em forma pira- midal com mais de dois palmos de altura e acima de um de base. Na superfície dessa pirâmide estava uma cruz bem for- mada, cujas extremidades terminavam como em flores de lis da mesma forma como aquela que dizem ter sido encontrada em Meliapor, esculpida na sepultura do Apóstolo S. Tomé e 1 iSírlíf Sôi-On-Fu (Si-Ari-Fu). 274
DO ESTADO TEMPORAL DA CHINA como, antigamente, se usava na Europa, cruzes essas que ainda hoje se vêem algumas. Essa cruz está cingida por qualquer coisa parecida com nuvens e, na base, vêem-se três linhas de través, cada uma com três letras grandes, todas usadas na China e nitidamente esculpidas. Da mesma forma aparecem letras esculpidas em toda a superfície da laje, as quais são, porém, diferentes das restantes, pois que algumas são forasteiras, sendo desconhe- cidas na ocasião em que fora encontrada esta estela. Mal os chineses a limparam e reconheceram tão notável antigualha e, passada a sua natural curiosidade, correram à procura do governador, que, muito alvoroçado com tal aviso, foi vê-la e, imediatamente, a mandou colocar sobre um pe- destal bem trabalhado, sob um arcozinho, apoiado nos lados e aberto adiante, para, ao mesmo tempo que ficava defendida das injúrias do tempo, poder ser admirada a sua venerável antiguidade. Quis ainda que essa laje fosse colocada dentro do recinto de um templo de bonzos não longe do lugar onde fora encontrada. Muita gente acorreu a ver essa pedra, em parte pela sua antiguidade em parte pela novidade dos caracteres estrangei- ros que se viam nela e, como a notícia da nossa lei anda como hoje, na China, muito espalhada, um gentio,1 muito amigo de um grande mandarim cristão, chamado Leão,2 achando-se in- teirado do mistério daquela escritura, julgou ser coisa agra- dável ao amigo o enviar-lhe uma cópia daquelas legendas, não obstante a distância de um mês e meio de viagem, pois o mandarim vivia na cidade de Hamcheu, donde quase todos os nossos padres se retiraram, por motivo da anterior perse- guição da qual nos referiremos no seu devido lugar. Foi rece- bida com júbilo espiritual e demonstrações exteriores de ale- 1 Tratava-se de um discípulo cristão de Mateus Ricci, chamado Zhang Gengyu (nota do editor). 2 Era o Dr. Leão Li Zhicao (a quem o autor dedica o último capítulo desta obra), um dos três grandes pilares do catolicismo chinês, juntamente com Pau- lo Xu Guangqi e Miguel Yang Tingyun, todos cientistas e letrados, discípulos de Ricci (nota do editor). 275
PE. ÁLVARO SEMEDO gria aquela cópia, testemunha irrefragável da antiga cristan- dade chinesa, tão desejada e procurada. O texto dessa inscrição, é como diremos. Daí a três anos, em 1628, passaram alguns padres por aquela província, encontrando-se ali, nessa ocasião, um mandarim cristão chamado Filipe. Edificaram casa e igreja na metrópole, porque a Deus bendito, que quis que fosse des- coberta uma tão bela memória da existência da sua divina lei naquele país, foi, também, servido que se facilitasse o nosso restabelecimento naquele mesmo lugar. Coube-me a mim ser dos primeiros e senti-me feliz por ir àquela localidade, pela ocasião que se me oferecia de ver aquela pedra, e, assim que cheguei, não me importei de outra coisa. Vi-a, li-a, tornei a lê- la e a admirá-la com vagar e longamente, e, considerando a sua antiguidade, admirei como estivesse assim inteira e ti- vesse as letras tão clara e nitidamente esculpidas. Existem, na sua mor parte, muitas letras chinesas com muitos nomes de sacerdotes e bispos daquele tempo. Há muitas outras desconhecidas naquela ocasião porque nem eram hebraicas nem gregas e, ao que julgo, representam os mesmos nomes, para que, por acaso, se algum estrangeiro não souber ler as do país, as puder, talvez, perceber. Passando por Cochim, cheguei a Cangranor, residência do Arcebispo da Costa, para consultar, acerca dessas letras, com o Pe. António Fernandes da nossa Companhia, versadíssimo em letras daquela cristandade de S. Tomé. Dis- se-me que as letras eram siríacas e das que são usadas ali. Mas passemos, enfim, à inscrição do nosso mármore, que sem mais nada tinha excitado o desejo de ser lida. Aquelas três linhas, que estão no pé da Cruz, como disse- mos, cada uma com três letras, fielmente traduzidas como será todo o resto e o mais ajustadamente possível, dizem o seguinte: Padrão de louvores e de eterna memória de como a lei da luz e da verdade, vinda da Judeia foi promulgada na China. Corre a inscrição pela superfície plana dessa pedra com as mesmas letras em linhas de alto abaixo, segundo o uso chinês. A primeira, que é mais curta, diz assim: 276
DO ESTADO TEMPORAL DA CHINA I — Prólogo feito pelo sacerdote do reino de Judeia cha- mado Kim Lim. Toda a inscrição, em magnífico estilo, diz o seguinte: II — Ó quão verdadeiro e profundo é o Eterno e Incompreensível Espiritualíssimo! Falando do tempo passa- do, é sem princípio; do que está para vir, é sem fim, e sempre na mesma perfeição. Tomou o nada com ele fez tudo. É o prin- cípio Trino, Uno sem o verdadeiro princípio. Senhor Olooyu. Em figura de Cruz fez as quatro partes do mundo. Moveu o caos e fez os dois princípios. Houve mutação no abismo e apa- receu o Céu e a Terra. A natureza era ao princípio pura e despida de paixões desordenadas; o coração limpo, sem de- sordem de apetites. III — Vie/o depois o homem a cair nos enganos de Satã que, encobrindo com palavras o mal que pretendia, perverteu a inocência do primeiro homem. Desse princípio nasceram 365 seitas que, por serem tantas, umas expulsavam as outras e de todas se fez uma rede com a qual se prendeu o mundo. Alguns escolheram as criaturas e a essas apropriaram a Di- vindade. Outros saturaram-se no erro de pensar que tudo é nada e em nada acaba. Uns fazem sacrifícios para chamar a fortuna: outros simulam a virtude para enganar o mundo. O entendimento preso de erros e a vontade de paixões vãs total- mente escurecidos. Os homens caminham sem chegar; ardia o mundo num miserável incêndio. Multiplicou o homem as trevas e, perdendo o caminho, andou errando muito tempo sem encontrar o verdadeiro. Então o Messias, uma das Três Pessoas, encobriu a sua verdadeira majestade e, fazendo-se homem, apareceu no mundo. Veio um anjo manifestar o mistério e uma virgem deu à luz o Santo. Apareceu uma estrela que deu aviso do seu nascimento e os do reino Pozu vieram oferecer-lhe tributo, tudo conforme haviam dito os 24 santos. Propôs ao mundo a puríssima lei; purificou os costumes; rectificou a fé; limpou o mundo; aperfeiçoou a virtude; e fundou nele as três virtudes; abriu o caminho à vida e fechou o da morte; manifestou o dia claro e baniu as trevas obscuras; debelou o escuro assento (fi- 277
PE. ÁLVARO SEMEDO cou então o demónio totalmente destruído) e acudiu com mi- sericórdia o mundo náufrago, isto é, saíram os homens bons para os assentos claros. Depois de aperfeiçoar a sua obra, ao meio dia, subiu aos céus. Ficaram 27 livros das santas escritu- ras. Abriu-se a porta à conversão por meio da água, que limpa e purifica. Os seus ministros serviam-se da Santa Cruz. Não se demoravam mais numa parte que noutras, para poder ilu- minar todo o mundo. Reduziu este à união, com o seu exem- plo caminhavam os homens e, assim, abriram o caminho da vida e da glória. Deixavam crescer a barba, demonstrando, no exterior, ser nisso como os outros homens. Cortavam, até à raiz, o ca- belo, no alto da cabeça, e com isso demonstravam que não tinham afectos interiores. Não tinham criados. Não existia distinção entre os nobres e os inferiores. Não se apossavam das riquezas dos homens. Davam aos pobres o que tinham. Jejuavam e velavam para sujeitar a carne ao espírito. Ofereci- am sete vezes sacrifícios de louvor com que ajudavam os vivos e os mortos. De sete em sete dias faziam oferecimentos e puri- ficavam o coração para tomar a santa inocência. A verdadei- ra lei não tem nome que lhe quadre bem e que possa explicar a sua excelência. Por isso, já que lhe falta outro nome, chamá- la-emos a Lei da Clareza. A lei não sendo santa não se pode chamar grande e a santidade, se não corresponde ao que en- sina a lei, não pode ter tal nome. Porém nessa lei, a santidade corresponde à lei e a lei à santidade. VI — Se não houver pessoas reais, não se propaga a lei; se elas a não receberem, não engrandecem; quando aquelas e esta concordam, o mundo fica logo ilustrado. Por isso, no tem- po em que governava com ilustre prudência e santidade o rei chamado Tai zum Venhoam, veio da Judeia um homem de virtude superior de nome Olupuen que, guiado pelas nuvens, trouxe a verdadeira doutrina. E, no ano de Chin quom, Kiensu chegou à corte. Ordenou o rei ao colau Fam Kizulin que fosse recebê-lo a ocidente e o tratasse como hóspede com toda a espécie de agasalhos. Fez traduzir a doutrina no palácio e, vendo que a lei era verdadeira, ordenou, eficazmente, que fos- se divulgada por todo o reino. Publicou, depois, uma Cédula Real que continha o seguinte: 278
DO ESTADO TEMPORAL DA CHINA A verdadeira lei não tem nome determinado. Os seus ministros correm por toda a parte para a ensinarem ao mun- do, tendo apenas em mira serem úteis aos viventes desse reino de Tacin. Este Olopuen de grande virtude trouxe de tão longe doutrinas e imagens, vindo depositá-las no nosso reino. Ten- do examinado bem o que propunha, encontramo-lo excelente e sem fracasso exterior e que desde a criação do mundo tem o seu fundamento principal. A sua doutrina é breve e não ba- seia na superfície a sua verdade; traz consigo a salvação e proveito para os homens, portanto, convém que se publique no nosso império. Ordeno aos mandarins desta corte de Ninfan que façam nela uma grande igreja com 21 ministros. Enfraquecendo a monarquia de Cheu olau su, chefe da seita de Tauzu, foi-se esta no carro negro até ao ocidente. Porém, o grande Tam, esclarecido com o Tao, veio à China com o Santo Evangelho e, dentro de pouco tempo, ordenou o rei que pin- tassem a sua imagem nas paredes do templo onde resplande- cia e a sua memória resplandecerá sempre no mundo. VII — Conforme as memórias dos reinados de Han e Guei, o reino Tacin confina, ao sul, com o Mar Roxo; ao norte, com os Montes das Pérolas; ao ocidente com a selva das Flores para os Santos; e ao oriente, com este lugar Cham fam e com a água morta. A terra produz canga de fogo, bálsamo, pérolas e carbúnculos. Não tem ladrões e vive em alegre paz. No reino só se admite o Evangelho e as dignidades não se dão senão aos virtuosos. As casas são grandes e todo o reino esclarecido e ordenado, sendo bons os costumes. VIII — O grande imperador Caozum, filho de Tai zum, continuou com as coisas do seu pai, pois que ordenou que em todas as províncias se fizessem igrejas e prestassem honras a Olopuen, dando-lhe o título de Bispo da Grande Lei, com a qual governou o reino da China em grande paz e as igrejas o encheram da prosperidade da pregação. IX— No ano Xim li, os bonzos da seita dos pagodes, empre- gando a sua violência, blasfemaram esta nova e santa lei neste lugar de Turn cheu e, no ano Sien Tien, alguns homens particula- res, em Sigam, com risos e desprezos, se mofavam dela. X— Então, um chefe dos sacerdotes, chamado João e um outro de grandes virtudes, chamado Kie tie, com alguns da sua 279
PE. ÁLVARO SEMEDO terra, sacerdotes de grande fama, alheias das coisas mundanas, tornaram a pegar na excelente rede, prosseguindo com o fio que estava roto. O rei Hi ven zum Chi tao, ordenou a cinco régulos que viessem, em pessoa, à feliz casa, e levantassem altares. En- tão, no ano de Tien Pao, a coluna da lei a um tempo abatida, tomou a engrandecer. Ordenou o rei Taciam Kium a Caolie sie, que pusesse nas igrejas os retratos de cinco reis, seus avôs, com cem presentes, pam festejar esta solenidade. Ás gmndes barbas do Dragão se bem que estivessem longe, bem podiam tocar com as mãos os seus arcos e as suas espadas. A claridade que resulta desses retratos faz parecer que estão ali presentes. No terceiro ano de Tien Pao fu, na índia, o sacerdote Kiebo, guiado pelas estrelas, veio à China e, mirando o sol, chegou até ao impemdor. Este ordenou que se juntasse com João e Paulo e outros sacerdo- tes para exercerem obras santas em Him Kim, lugar dentro do palácio. Então estavam nas tábuas das igrejas as letras reais ri- camente ornamentadas por ordem, de cores encarnada e azul e o penacho real enchia o vazio, saía e abatia o Sol. Os seus favo- res e dádivas comparavam-se com os cumes do Monte do Sul e a abundância dos seus benefícios igualava o fundo do Mar Orien- tal. A mzão não reprovava. Não havia coisas que os santos não fizessem e aquilo que faziam era digno de memória. Por isso, o rei Sozum Ven Mim ordenou que nesse Limuu e em cinco cida- des se erguessem igrejas. Tinha este um feito excelente e abriu a prosperidade comum e do reino com o que voltaram as coisas do império a prosperar. XI — O rei Tai zum Venvu fez regressar os bons tempos, obrando as coisas sem trabalho. Sempre , na natividade de Cristo, mandava incensos celestiais às igrejas reais, para honrar os ministros desta santa lei. Na verdade o Céu dá be- leza e utilidade ao mundo e, por isso, produz, liberalmente, as coisas. Este rei imitou o Céu e por isso soube sustentar os seus. XII — O rei Kien chum Xim Xin Venvu empregou oito modos de governo, para prémio dos bons e castigo dos maus e nove para renovar o estado do Evangelho. Rogamos a Deus por ele sem nos envergonharmos disso. Era ele homem de muita virtude, humilde, solícito de paz e de perdoar o próximo e de acudir a todos com caridade. São estes os degraus da 280
DO ESTADO TEMPORAL DA CHINA nossa santa lei: fazer com que os ventos e as chuvas se retirem a seu tempo; que o mundo esteja quieto, os homens bem go- vernados, as coisas bem postas, os vivos procedendo bem, os mortos tenham alegria. Tudo nasce da nossa fé. XIII— O rei deu muitos títulos honoríficos, na sua corte, ao sacerdote Y su, grande pregador da lei, e um traje de cor encarnada, por ser pacífico e gostava de fazer bem a todos. De longe veio à China, do lugar Vamxe chi chim. A sua virtude excedia à das três famosas famílias. Dilatou as outras ciênci- as perfeitamente. Serviu ao rei no palácio e teve depois o seu nome no livro real. O régulo de Fuen yam, com o título de Chum Xulim e que se chamava Cozuy, serviu ao princípio nas coisas de guerra, nessas partes de Sofam. O rei Sozum orde- nou a Y su que ajudasse, vantajosamente, a Cozui, sobre os demais e não por ele alterou o seu estilo ordinário, sendo unhas e dentes da república, olhos e orelhas do exército. Sou- be repartir os seus rendimentos; não poupava coisa alguma; ofereceu um precioso mimo, chamado po li à igreja, desse lu- gar Lintiguen, e deu tapetes de oiro à de Cie Kie. Restaurou as igrejas velhas e estabeleceu a Casa da Lei, ornamentando as estâncias e os corredores resplandecentes como os faróis que voam. Afadigava-se com todos os esforços nas coisas de cari- dade. Todos os anos reunia os sacerdotes das quatro igrejas, servindo os de coração e com bom sustento por espaço de cin- quenta dias. Dava de comer aos famintos, vestia os nus, cura- va os enfermos e sepultava os mortos. XIV — No tempo de Ta fo, com toda a sua parcimónia, não se viu tal bondade. Porém, no desta lei, vemos tais ho- mens com semelhantes obras. Por isso esculpi esta pedra para as tornar públicas. Digo, pois, que o verdadeiro Deus não teve princípio, mas que, puro e quieto, foi sempre assim. Foi o primeiro artífi- ce da criação; abriu a terra, levantou o Céu. Uma das três pessoas se fez homem para a salvação eterna. Subiu como o sol ao alto e desfez o tenebroso. Em todas as coisas verificou a profunda verdade. XV — O ilustre rei, realmente o primeiro dos primeiros, servindo-se da oportunidade, impediu as invenções. Dilatou- se o Céu e dilatou-se a terra. E claríssima a nossa lei que, 281
PE. ÁLVARO SEMEDO vindo Tam ao reino e traduzindo a doutrina e edificando igre- jas, serviu de barco para os vivos e para os mortos, e deu re- pouso a todo o mundo. XVI — Cao zum, prosseguindo no ânimo do seu avô, fez novas igrejas. Os belos templos da paz encheram toda a terra. A verdadeira lei ficou esclarecida. Deu título ao bispo; os ho- mens tiveram repouso. XVII— O sábio rei Hi vin zum seguiu o verdadeiro cami- nho. As tábuas reais eram ilustres; nelas resplandeciam as letras reais. /Is imagens dos reis resplandeciam, venerando- as, altamente, todo o povo e todos viviam na alegria. XVIII—Reinando Sozum, veio este em pessoa à igreja. O santo sol resplandeceu; as nuvens felizes varreram a obscuri- dade da noite; concentrou-se a prosperidade na casa real, cessaram as coisas más; parou o fermento das turbulências; deu paz aos bulícios e renovou o nosso império. XIX — O rei Tai zum fu foi obediente, igual, na virtude, ao Céu e à Terra. Deu vida ao povo e vitalidade às coisas. Exercitou obras de caridade e ofereceu incensos à igreja. O sol e a lua reuniram-se na sua pessoa. XX — Reinando o rei Kien chum, ilustrou este a clara virtude e com armas estabeleceu a paz nos quatro mares; com as letras pacificou dez mil confins. Como uma tocha iluminou o segredo dos homens; via todas as coisas como num espelho. Ressuscitou os bárbaros que todos tomaram dele a regra. XXI1 —A lei grande e perfeita como é, estende-se a todas as coisas. Querendo eu usar de algum nome, chamei-lhe a Lei Divina. Os reis souberam fazer as suas coisas. Os vassalos fizeram recitá-las nesta rica pedra, para louvar a grande feli- cidade. XXII — No reinado do grande Tam, ano segundo de Kienchum e sétimo dia do mês de outono foi levantada esta pedra, sendo bispo Nin ciu, que governava a Igreja da China. O mandarim chamado Liu Sicuyen deste título Chaoulam, ' Na tradução de Luís Gonzaga Gomes este número é o XXIII, não haven- do XXII, certamente por gralha tipográfica, como se verifica adiante no comen- tário, em que o ano de Kien chum se inclui no n.° XXII (nota do editor). 282
DO ESTADO TEMPORAL DA CHINA sendo antes deste cargo Tai cheu fu sic em Zankiun, escreveu esta pedra com a sua própria mão. Tal é a interpretação dessa inscrição tanto quanto mais fielmente se pôde trasladar das frases chinesas. Será bom fazer agora algumas anotações acerca do con- teúdo, tendo-se deixado, propositadamente, de fazer nos seus lugares, para se não interromper o fio e, assim, seguire- mos pela ordem dos números, apontando as palavras que explicamos com algumas advertências. I —Judeia. Está exactamente assim a palavra, que se lê sem outra diferença senão a dos caracteres, que são chineses. Da mesma forma se patenteia nas palavras ou nomes de Satã e Missa, as quais se encontram nos números III e IV. II — Oloeyu. Lê-se esta palavra tal qual como é represen- tada pelas suas letras e que parecem querer significar Eloi, Nome de Deus. Os dois princípios, referidos consecutiva- mente, são a matéria e a forma, segundo a sua filosofia. III — O reino de Pozu. Nos mapas chineses está a oriente da Judeia. Os vinte e quatro santos, podem bem ser os quatro Profetas Maiores, os doze Menores, Abrão, Isaque, Jacob, Job, Moisés, José, David e Zacarias, o padre de Baptista, os quais correspondem a esse número e são aqueles que mais clara- mente falaram da vinda de Cristo. Débil o escuro assento. Parece que fala de quando o mes- mo Redentor desceu ao inferno. Vinte e sete livros. Talvez possam ser o Novo Testamen- to, isto é, os quatro Evangelhos, Actos dos Apóstolos, as ca- torze Epístolas de São Paulo, uma de S. Jaime, duas de São Pedro, três de São João, uma de São Tadeu e o Apocalipse. IV — Sete vezes ofereciam. Parece que se refere às sete horas canónicas. De sete em sete dias significa o sacrifício de missa, que se celebrava todos os domingos. VI — O ano de Chin, quon &. Feito o cômputo do tempo segundo as suas crónicas, vem a ser o ano 636 da nossa salva- ção. Enfraquecendo a monarquia. Esta cláusula é um elogio posto pelo autor da inscrição a esse príncipe. 283
PE. Alvaro semedo Seguiu no carro negro até ao ocidente. Denota que saiu da China.1 VIII — Caozum. Consta nos seus livros ter reinado no ano 651 de Cristo. IX — Ximlie. Segundo os nossos anos foi em 699. Tumcheu. Diz o tradutor que parece ser uma localidade da província de Honam. Sien tien é o ano de 612. Sicam. Actualmente diz-se Sigam. Era a antiga corte na província de Xensi. X — O rei Hi ven zun &. Começou a reinar no ano 714. Tien Pao. Foi no ano 754. Cao lie sic. Era um eunuco muito poderoso junto desse rei. As barbas &. Esta cláusula é outro elogio feito pelo autor a esses reis. O dragão &. Diz o intérprete que isso refere-se a uma história antiga desse reino que supõe que um seu rei tinha corrido pelo ar montado nessa fera, que carregava de armas os vassalos que andavam com o rei; porém, aqueles que o seguiam seguraram as barbas do dragão e tiraram-lhe algu- mas armas, para que estas ficassem como lembrança do seu príncipe que imaginavam presente nesses penhores. Esta fá- bula pode proceder do uso que têm esses reis de porem dese- nhos de dragões nas suas vestes e noutras coisas que lhes pertencem. Ano terceiro de Tien Pao &. Pela nossa conta recai no ano 764. Sozum ven mim. Reinou no ano 757. XI — Tai zun Vemun. Começou a reinar no ano 764. XII — Kien chum xim. Foi rei no ano 781. 1 O carro negro, como sublinha Jean Charbonnier (Histoire des Chrétiens de Chine, ed. Desclée/Bégédis, Paris, 1992, pgs. 22 e 23) "evoca uma outra gran- de Escola de sabedoria, a de Laozi" (Lao-Tze). E acrescenta Charbonnier: "Os soberanos Tang consideravam Laozi como seu antepassado. O padre Jiangjing nota que o carro de Laozi se afastou para o Ocidente e que a religião luminosa veio do Ocidente. Não é isto sugerir que o cristianismo é uma nova incarnação do Dao?" (Tao) — nota do editor. 284
DO ESTADO TEMPORAL DA CHINA XIII — Vam xe chi chim. É lugar da terra dos pagodes e significa "terra remota". Poli. Diz o intérprete que corresponde a coisa de vidro. XIV — Tafo. Era um bonzo da seita dos pagodes, que para tratar dela, convocou uma grande reunião de bonzos e tinha o encargo de os albergar provendo a todos do necessá- rio.- XIX — O sol e a lua &. Quer dizer que tudo obedeceu àquele rei. XXII — Kien chum. Vem a ser o ano de 782. Dos outros números dos quais não fizemos notas, não ocorre coisa alguma digna de advertir. Resta, finalmente, manifesto com evidência dessa vene- rável antiguidade, como a religião cristã se plantou na China pelos meios referidos, desde o ano 631 do nascimento de Cristo. Mas não se há-de presumir por isso que não tivesse entrado ali desde as pregações e vozes dos apóstolos espalha- dos por toda a terra como diz a Sagrada Escritura, porquanto, depois de ter sido uma vez promulgada por eles em vários outros países, se perdera e, deçois, com suma indústria foi restaurada. Assim, sucedeu na índia, onde, tendo-a pregado o apóstolo S. Tomé e tendo-se perdido, surgiu cerca do ano 800, na cidade de Mogodouen ou Patane, um rico arménio cristão, chamado Tomé Cananeo, que renovou a antiga reli- gião, restaurando as igrejas construídas pelo Santo Apóstolo e erigindo outras, dando ocasião para se crer, pela semelhan- ça dos nomes, que foram todas fábricas do primeiro Tomé. Desta forma pôde acontecer na China, que recebendo a Lei Evangélica, logo que se começou a publicar no mundo e perden- do-a depois, veio a recebê-la, pela segunda vez, que será esta de que fala a inscrição e, pela terceira vez, ultimamente,1 da qual 1 O Pe. Álvaro Semedo passa, assim, em claro, o século dos Franciscanos durante a dinastia Mongol, certamente por falta de informação. Quanto à pre- gação na China pelo Apóstolo S. Tomé ou seus discípulos directos, é hipótese hoje posta de parte pelos sinólogos e especialistas da História da Igreja na Chi- na, por falta de provas (nota do editor). 285
PE. Alvaro semedo trataremos na segunda parte, parte que é necessário assim discorrer para não derrogar o crédito desses graves testemu- nhos aos quais acima nos referimos, como o do Apóstolo S. Tomé ter pregado na China e de a ter reduzido à verdadei- ra fé. O tempo no qual se perde a memória das pregações do Santo Apóstolo não é muito desigual, em ambas as partes, índia e China, porque, segundo vários indícios, consta que Tomé Cananeo a renovou na índia, cerca do ano 800 de Cris- to e, por esta pedra, se vê claramente que corria o ano 700, pregando ele na China e, assim, sem grande escrúpulo se pode crer que esta não foi a primeira fundação da fé mas a recuperação da que se perdeu. 286
CAPÍTULO I Do princípio da Pregação Evangélica na China Por, igualmente, injusto, devia ser da mesma forma con- denado, segundo a sentença de Sócrates, tanto aquele que falasse contra o Sol como aquele que lhe negasse a beleza do esplendor com o qual faz o dia de cujo fruto, como fala Tertuliano, aquele é flor. Não terá menos culpa mas até mui- to maior aquele que, tratando da conversão da China, negas- se a S. Francisco Xavier, que tivesse sido a flor do dia da gra- ça, a qual, depois de tantos séculos despendidos nela, rebrilha, novamente, para os gentios dessa monarquia. Foi ele o primeiro que chegou à Porta com o Tesouro Sacro do Evangelho, depois de o ter comunicado a tantos e tão diver- sos reinos e províncias. De S. Pedro Apóstolo, dizia o glorioso Pontífice S. Leão: Jam populos, qui in circuncisione crediderunt, erudierat; jam Antiochenam Ecclesian fundaverat; jam Pontum, Galatiam, Cappadociam, Asiam, atque Bithyniam, legibus Evangelicae praedicationis impleverat; nec aut dubius de provectu opens, aut de spatio suae ignarus aetatis, Tropheum Crucis Christi fíomanis Arcibus inferebat. Não se confessa menos acerca do seu gran- de Apóstolo, toda a índia, cujos termos de todo o Oriente, se bem que muito mais amplos, foram muito augustos, encon- trando-se já bem instruídas as suas principais cidades, Goa e Cochim; fundada a fé na Costa da Pescaria; convertida a de 289
PE. Alvaro semedo Travancor; doutrinada a Cambaia; divulgada a pregação em Malaca; dilatada a Fé em Macassar e nas Malucas; e, final- mente, convertido o reino de Bungo, no Japão, e repleto todo esse reino de conhecimentos sobre a Lei de Cristo. Mas o ar- dente desejo de messe mais ampla e de proveito para outras nações não o deixaram aquietar-se. Studiam proficiendi aliis, otii ilium impatientem reddidit, como Roberto Abbate disse doutro ministro evangélico, donde nec aut dubius de provectu opens, aut de spatio suae ignarus aetatis, Tropheum Crucis Christi, Sinicis Arcibus inferebat. Essa era a mira, esses os desejos e as esperanças com os quais partiu para a China, quando, chegado a Sancião, onde a morte e a Divina Providência o esperavam, sendo certo o que disse Tertuliano: Deus omnium conditor, nil non ratione providit, disposuit, ordinavit; e dando-se o Senhor por satis- feitos a vontade do seu servo e o desejo que o inflamava de sacrificar nessa empresa a vida, como Abrão de sacrificar a do seu filho Isaque, fê-lo ir ao Monte Sanchuão, como um outro Moisés à do Nabot, depois de lhe ter mostrado a terra que tanto desejava conquistar, mortuus est jubent Deo. Mor- reu o Santo, por vontade do Céu, vendo e mostrando aos seus filhos aquela terra, que com o arco da sua vontade e com as setas dos seus desejos (como um Jacob em Coifesso) a tinha ganho, deixando aos outros, por herança, a conquista com um espírito hereditário tão seu, que, tendo sido os seus filhos e sequazes recebidos, nessa parte, assaltaram o posto, ali en- traram e são já 58 anos que os mantêm com muitos trabalhos, perseguições, encarceramentos, bastonadas e, finalmente, egentes, angustiati, offlicti, sendo estas armas com as quais se arvora o estandarte da Fé Cristã nos reinos dos gentios e por meio das quais com a Divina graça se tem já feito tanta cris- tandade quanta se verá nesta relação, no seu devido lugar. Tendo eu já regressado à Europa e sendo conhecida a minha intenção de buscar gente e procurar trabalhadores para esta vinha, foram tantos os pretendentes com memoriais eficacíssimos, que quase não houve província da Companhia da qual eu não tivesse recebido muitas cartas de padres, nas quais, não somente se ofereciam mas me pediam, instantissimamente, que os aceitassem para soldados da em- 290
NA QUAL SE TRATA DA CRISTANDADE DA CHINA presa, como se os trabalhos de viagens tão longas e as perse- guições tão certas em tal exercício fossem para esse empreen- dimento o que são os espinhos para as rosas, das quais disse St.° Ambrósio que eram amatoria quaedam illectamenta. E na província de Portugal, por ser mais vizinha da viagem, só nos dois colégios de Coimbra e Évora figuravam na lista mais de 90 indivíduos, prontos para viajarem e desejosos de traba- lharem nessa missão e muitos deles, não contentes de expli- carem só com palavras, papéis e tinta, me têm escrito acerca da sua santa pretensão cartas bem longas, todas redigidas e assinadas com o seu próprio sangue, dando assim testemu- nho de que não se acobardavam perante a ameaça do martí- rio, e oferecendo, desta forma, prontamente, ao Senhor, aquele pouco sangue, como prova do grande desejo que ti- nham de o derramar todo, por seu amor. Ora quem poderá duvidar de que fossem estes os efeitos maravilhosos daquele espírito e calor que S. Francisco Xavier lhes comunicara, causando, interiormente, no peito de cada um deles, aquilo que, pouco tempo depois, faria, ex- teriormente, o grande campeão Marcello Spinello, mandado ao Japão, onde com sangue coroou a gloriosa empresa. É Sanchuão uma das muitas ilhas que daquela banda dão princípio ao reino da China. É um monte alto, verdejante, de árvores selváticas e agradáveis, mas desabitado. Ao princípio, quando os portugueses encetaram o comércio com a China, essa ilha servia de seu porto. Nela fizeram casas, semelhantes a cabanas e palheiros, das quais serviam-se, somente, pelo tempo que negociavam e espera- vam as mercadorias e, assim que elas chegavam, cessavam as habitações e, desfraldadas as velas ao vento, regressavam à índia. Dali a 54 milhas para dentro do reino existe uma outra ilha chamada pelos chineses Gau xan,1 e pelos portugueses Macau, pequena e tão cheia de rochas que se torna muito fácil defendê-la sendo própria para o reduto de ladrões como era, exactamente, até então, acolhendo-se ali muitos, os quais infestavam toda aquela ilha. Trataram os chineses de 1 ftlil Ou-Sán (Au-Xán) 291
PE. ÁLVARO SEMEDO se providenciarem mas, ou fosse por não se atreverem ou para o fazerem com menor risco e a expensas doutrem, co- nhecendo o valor dos portugueses, cometeram-lhes essa em- presa e prometeram-lhes que, se expulsassem da ilha os la- drões, a concederiam para habitação. Aceitaram estes a proposta com gosto e contento seus e, não obstante serem poucos e em número muito menor que os ladrões, sendo, porém, mais hábeis na arte militar, apronta- ram-se e atacaram-nos de forma que, sem perda alguma sua e com muita daqueles, em breve, se viram senhores do campo e da ilha. Começaram, imediatamente, a construir, ocupando cada um o local e o campo que quisesse mas aquilo que agora tomavam sem preço algum veio depois a valer muito dinhei- ro e tanto que não se pode acreditar, facilmente, quanto custa qualquer pedaço de terreno na cidade, para edificar, porque faltando a índia em todas as partes, esta vai sempre aumen- tando e enriquecendo-se, de forma que provocou a ambição dos holandeses desejarem este lugar e a pretenderem-no com efeito. Em Junho de 1622 surgiram nesse porto 14 barcos seus, com tanta resolução e certeza de tomar aquela cidade que já entre eles tinham dividido os melhores sítios, vindo só para este fim naquela armada, muitos capitães e soldados vetera- nos para que fossem desta forma recompensados os seus ser- viços e pudessem restabelecer-se nesse lugar dos seus traba- lhos passados. Desembarcaram, na tarde de S. João, 700 homens, 300 dos quais ficaram na praia, acompanhando as peças das bate- rias e 400 seguiram, formados em esquadrões, para o monte de Nossa Senhora da Guia, marchando para a cidade com tanta ordem e alegria que pareciam ter certa a vitória. Chegaram à vista do monte S. Paulo donde foram repeli- dos com dois ou três tiros de artilharia tão certeiros que per- deram toda aquela fúria. Abandonaram o caminho direito à cidade e tomaram, à mão esquerda, o monte de Nossa Senho- ra e como, no alto do qual, se encontrava a guarnição, afasta- ram-se dois tiros de mosquete, fortalecendo-se nas costas da Igreja de St.a Maria. Porém, os portugueses deram neles tão a tempo e com tal valor e galhardia que os puseram em fuga e 292
NA QUAL SE TRATA DA CRISTANDADE DA CHINA os fizeram retroceder pelo monte abaixo para o mar, onde estavam outro soldados com barcos. Fugiram em tanta desor- dem e confusão que, não obstante encontrarem-se ali mais de 300 com artilharia, que os socorreram com gente fresca e os animaram a voltar o rosto, não lhes foi, porém, possível e, assim, uns e outros foram forçados a embarcar com água até à barba. Estes estiveram melhor porque muitos andavam no fundo e uma barca, devido aos tumultos da ocasião do em- barque e peso excessivo de gente, se afundou. Morreram, as- sim, mais de 400 homens. Dos feridos não se soube o núme- ro, não podendo porém ser pequeno, porque, quando embar- cavam, a nossa mosquetaria, que estava a cavaleiro do Mon- te, os seguiu continuamente. Dos nossos morreram três ou quatro e alguns criados. Os holandeses, descontentes com este desaire, fizeram imediatamente de vela e nunca mais se arriscaram a uma semelhante empresa. Nessa ocasião fortificou-se a cidade de Macau e foi construída a sua muralha em volta com os seus baluartes, os quais já são seis: o de São Paulo, dominando a cidade com 15 peças grandes, corpo de guarda e seu castelão; o do Porto, com quatro ordens de peças, entre as quais seis grandes de balas de 50 libras com um outro corpo de guarda; o terceiro, de Nossa Senhora do Bom Porto, com oito peças; o quarto, de S. Francisco, dando para o monte, com outras oito peças; o quinto, de S. Pedro, com cinco peças e o sexto, o de S. João, com três peças. E porque o Monte de Nossa Senhora de Guia fica a cavaleiro do de S. Paulo e da cidade, se guarneceu, no ano de 1637, de tal forma como o das penedias de Charil.1 Tem dez peças grandes de bronze. A cidade não é grande. Terá 900 a 1.000 portugueses, gente rica e muito luzida. Tem muitos chineses cristãos os 1 "A fortaleza da Guia, construída em 1637 sobre o monte chamado Charil, que fica a leste da cidade. No tempo em que os Hollandezes tentaram invadir esta cidade, em 24 de Junho de 1622, existia n'esse sitio uma Capella, a qual foi provavelmente convertida na actual ermida, que se acha dentro da fortaleza". Compendio de Geografia Elementar, por José Vicente de Jesus, 2.® ed., Macau, 1888 pg. 51. 293
PE. ÁLVARO SEMEDO quais vestem-se e vivem à maneira dos portugueses. Os chi- neses gentios que se vestem e vivem a seu modo são os artífi- ces de toda a cidade, lojistas, adeleiros, mercadores e chegam a cinco e seis mil. Reside nessa cidade um ouvidor ali colocado, por Sua Majestade, sobre todos os negócios e fazendas. A navegação do Japão (sem falar da de Manila que ainda rende muito) ren- de de direitos, todos os anos, a dez por cento para Sua Majes- tade, muitos milhares de escudos por ano. Em 1635 rendeu 114.000 taéis, que são mais que escudos. Despende a cidade, de um ano a outro, tirando dos seus livros das despesas, em artilharia, pólvora, muralha e outras coisas pertencentes à milícia, acima de 40.000 escudos. A feira de Cantão, a seis e sete por cento, importa de direitos 40 a 50.000 escudos. Custa a navegação para o Japão com os presentes que se mandam ao rei e outros presentes para os tonos dessa ilha 20 a 25.000 escudos. Gasta com a Casa de Misericórdia, todos os anos, 8 a 9.000 escudos. Man- tém dois hospitais, três paróquias, cinco mosteiros, quatro de religiosos e um de religiosas, além de contínuas esmolas que se fazem em toda aquela cristandade e, muito particularmen- te, na da China, pois, como a esmola ordinária que Sua Ma- jestade lhe dá em Goa não tem sido paga há 19 anos, se vai remediando com a de Macau. Não duvido, por isso, que o Senhor não deixe de favorecer essa cidade, pelas muitas es- molas que faz e pelo cuidado que tem do culto divino. É finalmente, essa cidade de Macau um seminário per- manente, onde se educam e acabam de se educar muitos in- divíduos que são os que cultivam não só na China e no Japão mas como ainda em todas as cristandades do reino circunvizinhos, sendo ainda a âncora e o lugar de refúgio e salvação, nos tempos turbulentos das perseguições, onde to- dos se recuperam. É como um outro Moab. Em todos os casos é Refugium à facie vastatoris. Um dos conventos que tem essa cidade é o colégio da nossa Companhia. Encontram-se ali, ordinariamente, 60 a 80 pessoas, mais ou menos, conforme para lá mandam ou trans- portam, porque, provendo com eles todas essas missões, tor- na-se necessário que o número de gente seja vário. Há nesse 294
NA QUAL SE TRATA DA CRISTANDADE DA CHINA colégio duas aulas de Teologia, uma de Casos, um curso de estudos superiores, duas classes de Latim, uma escola para crianças, tão numerosa, que, na sua média inferior, tem mais de 90 filhos de portugueses e desse país. Dessa casa que, ao princípio, era muito pequena e limi- tada e muito poucos os seus operários, saíram os soldados desta empresa. Era visitador o Pe. Alexandre Valignano de boa memória. Tratou de colocar na China alguns padres para converter à Lei de Cristo esse reino tão vasto e, logo nesse mesmo colégio começaram as dificuldades, prognóstico evi- dente de muitas que deveriam vir no progresso da obra e exe- cução da empresa, porque a alguns padres, por conhecimen- to e experiência que tinham do reino chinês, lhes parecia a empresa não somente difícil mas ainda temerária, onde dis- suadiram o Pe. Visitador de aplicar o ânimo nela, mas Nosso Senhor, que de frágeis princípios e muitos trabalhos tira efei- tos admiráveis, quis que se pusesse em execução. Foi nomeado, primeiro que qualquer outro, o Pe. Michel Roggiero para tal conquista. Este foi depois seguido dos pa- dres Francisco Passio, Matteo Ricci, António de Almeida Duarte e outros, os quais andaram seguindo sempre juntos e ajudando a obra e, como primeiras pedras desse edifício, aguentaram o peso inicial dele bem como as maiores dificul- dades e trabalhos que jamais experimentou missão alguma da nossa Companhia, porque as dificuldades de línguas, cos- tumes, trato, alimentos, etc., nas novas missões de reinos tão remotos e separados da nossa Europa, não são vulgares nem podem ser poucas. Porém, nas da China, são sobretudo enor- mes. A língua parece a mais difícil que existe no mundo, sen- do toda de vozes monossílabas, breves e muito equívocas e nesta dificuldade se encontraram os padres sem mestres que os ensinassem e sem intérpretes que bs explicassem, de for- ma que não entendiam nem eram entendidos, mas, à força de diligência e incansável trabalho, foram vencendo e conquis- tando o país e, se bem que nunca tivessem chegado à perfei- ção no falar e garbo no pronunciar, todavia descobriram os mistérios dessa linguagem e a puseram, de tal modo, em for- ma clara, que conquistaram a facilidade para aqueles que se- guiriam depois. Ajuntaram-se ao trabalho do estudo das le- 295
PE. ÁLVARO SEMEDO tras, as ocupações de suma fadiga sendo elas tantas e tão vá- rias, e, nessa missão, além do costume doutros, os padres es- tudavam tudo com tanta aplicação e diligência, que aprende- ram, escreveram bem e liam os livros chineses, compondo outros, tendo com efeito dado à luz muitos com grandíssimo proveito da cristandade. Na verdade, os padres da China bem merecem louvores, pois sendo tal língua tão difícil estudan- do ainda as letras que não são fáceis, falavam absolutamente melhor que as de todas as outras missões, pois que sozinhos catequizavam, pregavam, discutiam e conversavam com os maiores mandarins do reino e falavam com o rei, se fosse preciso, sem se servirem de qualquer língua se não da pró- pria, sendo, certamente, um estudo extraordinário que não se pratica noutras partes. Nosso Senhor, com particular provi- dência, facilitou tudo com alegria e gosto, transmitidos por amor seu, para esta fadiga, que era não somente suportada mas até desejada. Havia ainda a necessidade de alterar com- pletamente o resto do corpo, a barba e os cabelos, trazendo- os compridos segundo o seu costume, o modo de vestir, a maneira de tratar, os costumes e todas outras coisas, que quanto mais afastadas das nossas são tanto mais diversas. Além de todas essas dificuldades ordinárias e que pou- co mais ou menos se encontram em todas as missões, não se pode acreditar quão áspera guerra havia movido o demónio contra esta. Parece que, à viva força das dificuldades e perse- guições, tinha querido forçar-nos a desistir dessa empresa e chegou a tal ponto que o visitador Pe. Valignano, vendo os graves obstáculos em todas as coisas, a suma dificuldade em penetrar, a muita fadiga em permanecer, o pouco que se fa- zia, e o muito que se padecia, resolveu mandar regressar os padres a Macau, para servirem noutras missões de menos tra- balho e maior proveito de ânimo e já com este fim tinha escri- to cartas, mas o Senhor Deus, que outra coisa tinha determi- nado em favor dos seus eleitos, não permitiu que os operários partissem e abandonassem a obra encetada naquele reino, onde deviam alcançar óptimos progressos. 296
CAPÍTULO II Dos primeiros progressos e das perseguições dos Padres até à chegada a Nankim Perseveraram os padres na empresa já começada de entrar e firmar-se na China e, assim, no mesmo ano, três vezes, com toda a diligência, tentaram a entrada, porém, outras tantas fo- ram expulsos do reino com sentimento e dor que se podem cal- cular, ao verem que se extinguiam todas as centelhas de espe- rança, com dificuldades tão graves que experimentavam, devi- das à grandíssima aversão dos chineses em admitir forasteiros. Contaram-me, nesse tempo, que o Pe. Valignano, estan- do a uma janela do Colégio de Macau, que dá para a terra, exclamava o bom velho, em alta voz, com toda a convicção íntima do seu coração, referindo-se à China: "O rocha, rocha, quando te abrirás rocha?" Mas como non est consilium contra Deum, que vê e conhece os momentos e as ocasiões dos seus divinos conselhos, quando a entrada parecia mais cerrada que nunca e mais cercada de dificuldades, e baldados todos os esforços e decisões, e de os padres que tentavam aquela empresa terem sido despedidos com ásperas palavras pelo vice-rei de Cantão e com públicas provisões recambiados para Macau, nisto, por meios que não se podiam prever, abriu Deus Nosso Senhor a porta. Não se passaram sete dias depois de os padres, desespe- rados do negócio, terem sido reenviados para Macau, quando 297
PE. ÁLVARO SEMEDO chegou um homem enviado pelo governador de Cantão, de nome Chi fu, com cartas do vice-rei, chamando os padres para Xaokim, a metrópole de Cantão, oferecendo-lhes lugar para igreja e casa. Nessa cidade reside o próprio vice-rei das províncias de Cantão e Quansi. Entraram os nossos, em Xaokim, em 10 de Setembro, no ano de 1583, com aquela alegria que todos podem imaginar, vendo finalmente chegados a um sítio, onde com tantas difi- culdades não tinham nunca podido firmar os pés. Fizeram casa e igreja e deram princípio ao seu intento, trasladando para a língua chinesa, como melhor podiam, os Dez Manda- mentos e explicando a necessidade da sua observância. Era a virtude dos padres na cidade mais admirada pelas suas obras e pela santidade da sua vida do que pelas suas palavras por- quanto não sabiam ainda falar, suficientemente, aquela lín- gua, porém, não lhes faltaram trabalhos e perseguições quase contínuas. Da torre vizinha, por insolência do povo, apedre- jaram os tectos dos nossos de maneira a correrem grande ris- co de vida e porque um servidor de casa tivesse agarrado um rapaz e o ameaçasse de o querer acusar, a multidão acusou os nossos de terem maltratado aquele cidadão, resultando vão, pela evidência do facto. Surgiu, subitamente, outra calúnia, a de acusar de adúltero o Pe. Ruggiero, que foi declarado ino- cente, estando longe, a mais de dois meses de viagem do lu- gar onde se dizia ter cometido o delito. Os de Xao kim volta- ram com as pedradas com as quais maltrataram de tal manei- ra a casa que, pouco faltou, para que não ficassem mortos os nossos. Aquela situação parecia um mar tempestuoso. Po- rém, entre tantas tribulações e perigos dava Deus Nosso Se- nhor alguns dias serenos e tranquilos e entre tantos espinhos se recolhiam algumas rosas e alguns frutos dos trabalhos, o que era motivo para que aqueles não parecessem coisas gra- ves nem que fossem suportados senão com gosto e alegria, esperando-se ainda maiores progressos com a bonança dese- jada. Não cessavam os nossos, particularmente, o Padre Matteo Ricci com as ciências de Matemática e principalmen- te com a descrição do mundo, num novo mapa-mundo, de dar crédito às coisas d'Europa e fazer amizade com pessoas de categoria, quando, eis com a vinda do novo vice-rei, se 298
NA QUAL SE TRATA DA CRISTANDADE DA CHINA levantou tão terrível borrasca que, não obstante todas as dili- gências e tentativas feitas tanto da nossa parte como dos ami- gos, não foi possível encontrar nenhum remédio ou dilação para a sentença fulminada por esse vice-rei contra os padres, que regressaram todos a Macau sem que pudessem demorar- se ou ir para outras localidades, tendo de partir, imediata- mente e de permanecer, precisamente, em Macau. Foi neces- sário obedecê-la e, assim, deixando em poder dos amigos al- gumas coisas da casa, outras levando-as consigo, depois de terem feito breves orações ao Senhor, recomendando-lhe aquela pequena igreja que deixavam sem pastores entre os lobos, e depois de terem exercitado a cristandade nas faldas da Fé nas quais durante sete anos completos estiveram ensi- nando, se partiram pela corrente do rio, chorando, tanto os cristãos que ficavam como os nossos que partiam, e entregan- do-se uns e outros à divina providência. Chegados à metrópole de Cantão não encontraram o haitao, general do mar, que lhes devia fazer conduzir a Ma- cau. Demorando-se, então, aqui, escreveram ao Visitador em Macau, dizendo que, há dois ou três dias, foram expulsos, por ordem do vice-rei, quando, mal tinha passado um dia, viram vir uma barca enviada com toda a presteza pelo vice- rei com a qual chamava, novamente, os padres para voltarem a Xao Kim. Pareceu-lhes que regressavam da morte para a vida com esta inopinada chamada se bem que soubessem que eram convidados para novos trabalhos não menores que os passados. Regressados a Xao Kim, o vice-rei queria pagar aos padres algum dinheiro pela despesa feita com a edificação da sua igreja e casa, mas estes recusaram-no, ter- minantemente, e, depois de várias insistências, impetraram licença para poderem ir para uma outra cidade, a de Xaocheu. Partiram os padres de Xao Kim com esta boa provisão, no ano de 1589, a 15 de Agosto, e chegados, poucos dias de- pois, a Xaocheu, tiveram de escusar o alojamento que lhes ofereceram num mosteiro de bonzos. Finalmente, com a aju- da divina, foram levados para a cidade e bem vistos pelos magistrados. Construíram casa e igreja e principiaram a exer- citar a pregação do Santo Evangelho com todo o esforço, po- 299
PE. ÁLVARO SEMEDO rém, sempre acompanhados de perseguições, oposições e ca- lúnias que, na verdade, não podiam ser corroboradas por se tratarem de coisas inacreditáveis. Eu tomei nota disso por curiosidade e, assim, com as que foram narradas na história do Pe. Trigault e outras que não foram nela incluídas até as de Nankim encontrei 54 a mais, parte das quais tiveram prin- cípio na província de Cantão que, como passagem para as outras, se pode chamar o promontório das tormentas, de for- ma que sempre que se volta a falar dela, encontramos novos dissabores e tormentas. Os nossos servidores foram muitas vezes presos e bastonados sem outro motivo senão o de se terem defendido contra as agressões dos insolentes e, mais uma vez, o irmão Sebastião Fernandes, que fora defender esses inocentes, ou com razão ou com rogos, foi exposto à vergonha. Pior foi a perseguição que padeceu o irmão Francisco Martins, por le- viana suspeita de andar a tratar de uma revolta contra a Chi- na e de ser mágico, motivo por que foi muitas vezes sovado e torturado e, depois de pesado encarceramento e do último suplício de violenta pancadaria, reconduzido à prisão, onde morreu de morte tão gloriosa quanto foi suportada com indi- zível paciência e por motivo tão santo como era o de procurar a salvação daquela gente. Padeceu ainda muito o irmão Fran- cisco Mendes, que se encontrava na metrópole de Cantão para negócios e por ajudar um nosso servidor que tinham na prisão. Chegado à cadeia, o carcereiro pôs-lhe as mãos em cima e, duvidando que fosse sacerdote, tirou-lhe a gorra e tratou de ver, com toda a diligência, se tinha coroa na cabeça. Como não a tivesse nem mostrasse sinal algum pelo qual o pudesse atacar, só por ser cristão e atinente aos padres, não saiu da prisão senão depois de muitas e cruéis bastonadas. Semelhantemente dois padres que seguiram de Cantão para o interior, isto é, o Pe. Giulio Alessi e um outro padre, foram presos e postos em liberdade, depois de enormes padecimen- tos. Já na casa de Xaocheu se estava a produzir algum fruto como, igualmente, numa localidade vizinha, chamada Namnim, onde passara o Pe. Mateus Ricci, reduzindo ao aprisco de Cristo alguns gentios. Era, porém, negócio tão 300
NA QUAL SE TRATA DA CRISTANDADE DA CHINA cheio de dificuldades e padecimentos que o irmão Sebastião Fernandes, se bem que chinês de nação mas educado em Macau pelos padres cristãos, que entrou na Companhia, ho- mem já feito, mercador rico e que serviu muitos anos nela até à morte, com grandes trabalhos e exemplos naquela cristan- dade, disse ao padre que deveríamos ir para o Japão, onde Nosso Senhor favorecia esse reino com tantas conversões e baptismos, e consumar ali a nossa vida com frutos abundan- tes dos nossos trabalhos, porém, o padre tinha a mais viva fé e a esperança mais enraizada para, com o espírito de profe- cia, lhe responder o que depois viria acontecer, dando-lhe esperança de fruto mais copioso, como veremos. Então, qua- tro anos depois, durante os quais se cultivou aquela vinha, se bem que entre tantas tribulações, se fez boa colheita de mui- tos cristãos, pois que, às vezes, entre essas turbulências se conseguem os melhores. Houve alguns de muita considera- ção, dos quais falarei e tratarei mais adiante e me pareciam cristãos da primitiva igreja. Com o tempo se fizeram ainda muitos mais. Entretanto, cerca do ano de 1594, passaram nessa casa para melhor vida dois indivíduos, pois que, se a gente desta terra não era muito boa, os ares eram muito piores. Anda- vam, enfim, nesse tempo os padres, quanto a aspecto exteri- or, tal como tinham entrado, com a barba rapada, coroa na cabeça e cabelos curtos, conforme usavam e usam os bonzos, sacerdotes dos seus ídolos, que, nesse reino, contra o costu- me doutros, são tidos em vil conceito. Conhecidas as coisas mais profundamente, parece que teria sido melhor, tanto para o prestígio da nossa Lei como para os pregadores dela, se tivéssemos tomado hábito diferente, mudando o aspecto ex- terior tão diferentemente quanto somos no interior, princi- palmente, por aquele primitivo aspecto exterior constituir um grande impedimento para se poder tratar com decoro e familiaridade com gente de maior importância e as autorida- des, as quais não admitem, de forma alguma, no seu trato familiar, pessoas que não enverguem vestes de cortesia ou trajes de letrados. Assim, abandonámos aquelas vestes de culto exterior, preferindo a dos letrados, com grande aplauso dos cristãos e amigos, antigos magistrados, e, apesar de não
PE. ÁLVARO SEMEDO termos, nas suas letras, grau algum, fomos e ainda hoje so- mos estimados como letrados de Europa com muito bons re- sultados. No Maio do ano seguinte, o Pe. Matteo passou para a cidade de Nankim, devido ao obséquio de um mandarim amigo e pessoa importantíssima, que exercia ali o cargo de capitão, em consequência da guerra motiva pelos japoneses contra o reino da Coreia. Não lhe faltou trabalhos pelo cami- nho, até o de sofrer um perigosíssimo naufrágio, tendo-se voltado o navio em que seguia, o que obrigou o padre a andar no meio do rio com a água até ao pescoço, sem saber nadar e sem esperança de vida. Mas o Senhor ajudou-o com a sua paterna providência porque, sem saber como, encontrou à mão uma corda do navio com a qual veio à superfície com perda, porém, do companheiro, que arrastado pela fúria da água, não apareceu mais. Alcançou, finalmente, Nankim, mas não tinha chegado ainda a hora para essa célebre cidade, onde, apesar de alguns amigos desejarem favorecê-lo, houve, porém, um com quem ele tinha contraído amizade em Cantão e de quem esperava favores, que lhe faltou, completamente, e, mudou-se até de tal forma, que colocou o padre em grande perigo, tendo sido a causa deste ter sido ignominiosamente expulso da cidade, por temer que dissessem ser sua a culpa da vinda do padre, contra a lei da China. Partiu Matteo de Nankim para a província de Kiamsi, que fica entre a de Nankim e a de Cantão. Foi recebido na metrópole chamada Nanchum e tratado com simpatia parti- cular pela gente de categoria, especialmente, por um grande senhor, parente muito próximo do rei, chamado Kien gam vam. Foi, também, tratado, muito benignamente e com de- monstrações de cortesia, pelo vice-rei, o que foi razão não pequena para que nessa cidade se fundasse uma residência. Diligenciava, então, o Padre Ricci por restabelecer a casa, quando de Macau o providenciou Deus Nosso Senhor, muito a propósito, com um companheiro chamado Jaime Soeiro, para permanecer nela. E, assim, compraram casa, nessa cida- de, se bem que muito acanhada e não sem alterações e oposi- ções costumadas da vizinhança e ainda doutras bandas, as 302
NA QUAL SE TRATA DA CRISTANDADE DA CHINA quais, no decurso do tempo, se intensificaram de maneira que bem pode essa casa competir com a de Xaocheu em per- seguições, porque se a gente dessa cidade é má, certo é que a desta não é muito boa. Foram os padres afligidos, algumas vezes, pelos letrados e, outras, pelos nobres, muito dos quais residiam nessa cidade, padecendo ainda tribulações do povo, pois, às vezes, mesmo entre os cristãos não deixava de haver um Judas, no meio doutros bons, para causar aflições. Não faltaram, de modo algum, para que aquela casa e cristandade florescessem e para fazer cristãos, pessoas de categoria, parti- cularmente, os parentes próximos do rei com toda a sua casa e família, com grandes progressos na virtude. Aqueles que faltavam filhos, sendo gentios, depois de se tornarem cris- tãos, pediam a Deus Nosso Senhor que lhes não fossem con- cedidos muitos. Converteram-se, igualmente, muitos outros casados, os quais, se bem que não se encontrassem em situação tão van- tajosa, quanto ao sangue, não cediam, porém, na piedade cristã. Depois que o Pe. Matteo teve companheiros, com os quais podia deixar provida aquela casa, se preparou, nova- mente, para a empresa de Nankim e ofereceu-lhe boa ocasião um mandarim, seu amigo, que o levou em sua companhia. Chegou com comodidade a essa cidade, no ano 1598. E, por se estar no princípio da guerra que, então, moviam os japone- ses contra a Coreia, ameaçando a China, houve grandes difi- culdades em ser admitido (pois que aquela acompanha sem- pre estas), porém, aplanaram-se depois, com bom sucesso e amizade de gente de importância e do próprio vice-rei, ensi- nando sempre a Divina Providência o caminho que conhecia ser o mais seguro. 303
CAPÍTULO III Das coisas sucedidas até à entrada dos padres em Pekim O Pe. Matteo Ricci não cessava, porém, de tentar o último estabelecimento da Igreja nesse reino, diligenciando- se todo por conseguir a entrada dos nossos na cidade régia de Pekim, onde residia o rei com a corte maior e, assim, tentou vários meios e por fim, resolveu-se a andar na companhia desse mesmo mandarim amigo com o qual foi a Nankim, sem tratar, então, de tomar casa nessa cidade. Partiu, com o Pe. Lazzaro Cattaneo, seu companheiro, e dois irmãos chine- ses, seguindo por via fluvial, o que levava mais de um mês, e o mandarim, mais rapidamente, por terra. Chegados, finalmente, sem impedimentos ou quaisquer distúrbios a Pekim, foram, imediatamente, cumprimentar o amigo que lhes tinha feito vir e que chegara antes deles. Rece- beu-os este com muitas amabilidades e procurou favorecer-lhes em todas as coisas, principalmente, junto dum eunuco seu ami- go. Traziam os padres algumas coisas dè Europa para presente- arem o rei, isto é, duas belíssimas imagens pintadas em tela, uma do Salvador e outra da Santíssima Virgem, um clavicórdio, coisa que, até então, ainda se não tinha ouvido na China, um relógio de rodas nunca visto ali e alguns vidros triangulares.1 3 Prismas de cristal. 305
PE. Alvaro semedo Tudo isso agradou ao eunuco, mas não encontrando nos pa- dres proveito pecuniário, única coisa que procurava, escu- sou-se de propor o presente ao rei, no meio da turbulência da guerra movida pelos japoneses na Coreia, que era sentida to- dos os dias na China, alegando não ser ocasião oportuna para tratar com rei de coisas dos estrangeiros. O mesmo pensou aquele mandarim amigo, que regressando a Nankim, para onde fora nomeado, quis levar consigo os padres. Porém, a eles pareceu melhor não perder tão depressa as esperanças concebidas, desprezando tantos trabalhos e tantas despesas. Assim, deixaram-se ficar em Pequim, mais de um mês, de- pois da partida do mandarim, envidando todos os esforços e procurando todas as formas para ver se podiam alcançar o seu intento. Todas as diligências foram em vão, pois que, ten- do partido o mandarim, todos os outros se retrairam e ne- nhum mandarim da corte os quis receber nem para simples visita. Sendo, então, as dificuldades tão grandes e não encon- trando meio algum de as vencer, viram-se os padres obriga- dos a regressar às terras onde eram mais conhecidos e foram melhor recebidos e, assim, voltaram a Nankim, mas não acharam a facilidade que buscavam, porque, sobrevindo o inverno para a viagem e gelando os rios, houve necessidade de se invernarem. O Padre Matteo Ricci, para não perder a oportunidade, deixou os companheiros no barco, e seguiu por terra, fugin- do, assim, à moléstia da invernada, mas não aos frios da via- gem que, por serem excessivos, muitas vezes o impediram de prosseguir. Chegou, vencendo todas as dificuldades, à cida- de de Sucheu. E esta cidade a mais deliciosa de quantas exis- tem em toda a China, donde se diz por provérbio que o que no Céu é estância de beatos, na terra encontra-se na cidade de Sucheu e Hancheu. Está situada num rio aprazível de água doce como Veneza no mar. Tem o maior tráfico de todo o reino e para lá vão as mercadorias de Macau, onde compar- tilham com outras partes. O padre encontrou aqui Quitaizo, seu antigo amigo da província de Cantão, que o acolheu com toda a benevolência e o apresentou e o acreditou junto de todas as pessoas da 306
NA QUAL SE TRATA DA CRISTANDADE DA CHINA cidade e, como era filho de um mandarim importantíssimo, foi-lhe de muita ajuda na aquisição de diversas amizades com os mandarins de grande categoria, motivo por que e por outros benefícios feitos em Cantão e outros lugares e, em es- pecial, em Nankim, merece louvores não pequenos. Deu-lhe o padre um vidro triangular, que o mesmo estimava como jóia preciosíssima e o revestiu de prata, mandando colocar ornamentos de oiro nas extremidades, vendendo-o depois por mais de 50 escudos. Este indivíduo desejava muito que o padre se demorasse naquela cidade e fizesse ali casa, poden- do ele, assim, ajudá-lo e provê-lo com maiores comodidades, alegando as muitas dificuldades que impediam a residência dos padres em Nankim. Com tudo isto, ponderadas melhor as coisas e, tomando a resolução mais a propósito, partiram ambos para Nankim, no ano de 1599, onde encontraram as coisas de forma muito diferente do que da outra vez. A cidade já se encontrava sossegada e em paz, e, tendo os japoneses sido repelidos, o amigo mandarim apreciou a vinda do padre e fez-lhe favores singulares, tendo-lhe presta- do, também, muitos outros, quer magistrados quer homens de importância e de categoria dessa cidade, principalmente, um colau com ofício de censor ou síndico real, chamado Choxelim, motivo por que o padre, não só por opinião deles como ainda pela sua persuasão, se resolveu tratar da questão de habitações estáveis e de fundar casa naquela cidade tão nobre e segunda do reino. Demorando-se aqui, o padre deu grande prova de fé e das ciências europeias, principalmente da matemática. Fez uma nova carta de cosmografia com explicações em língua e caracteres chineses, o que conciliou enorme crédito não só para o autor como para toda a Europa, tendo-a visto a nobre- za da cidade e as multidões do reino, motivo por que o pró- prio Quitai po e outros se consideraram, com solenes cerimónias, discípulos do padre Ricci. Nem menor foi a auto- ridade que o padre alcançou, em discussões públicas feitas sobre a matéria da religião, nas quais, com admiração de to- dos os conselhos, alcançou sempre a vitória, o que fez au- mentar a estima pelo padre, de forma que passou a ser cele- brado por muitos letrados com epigramas e eulogios. 307
PE. Alvaro semedo Chegaram, entretanto, os companheiros do Padre Ricci, depois de terem invernado na viagem e se bem que tivessem padecido muitos sofrimentos e trabalhos, encontraram o pa- dre nessa cidade, da qual, pouco antes, não somente não fora recebido como ignominiosamente expulso, agora, com tanto crédito e aplauso e com tantos amigos que o favoreciam que se esqueceram de todas as fadigas suportadas, assim, rende- ram graças particulares a Deus Nosso Senhor pelos favores presentes. Trataram, imediatamente, de comprar casa, por- que aquela que habitavam era de aluguel. Muitas foram-lhes oferecidas sendo, porém, pouco cómodas, entre as quais uma bastante capaz, mas infestada de demónios e fantasmas, de forma que ninguém se atrevia a habitá-la, motivo por que se encontrava abandonada. Este inconveniente costuma ser, ge- ralmente, útil, porque, não temendo os nossos esses espíri- tos, que ao primeiro gesto desapareciam, todos costumam dar aquela casa, por pouco preço. Foi isto, exactamente, o que aconteceu com o Pe. Ricci e, concluída a compra, vie- ram, em pouco tempo, os padres a habitar aquela casa com muito sossego, sem perturbações nem desacato nenhum des- ses espíritos. Logo que os padres tiveram casa e igreja não faltou quem as frequentasse. O primeiro que nessa cidade se bapti- zou foi um velho de 70 anos, pessoa nobre e com cargo de chi hoei, ao qual nos referimos, quando tratámos da nobreza e que sucede por via de sangue. Seguiu-se-lhe, imediatamente, o filho, já homem letrado, que foi depois mandarim muito importante e ainda a família toda, sobrinhos, noras, etc., os quais vim depois a conhecer durante muitos anos, com grandíssimo proveito na virtude e na piedade cristã, sendo dignos de lembrança com casos muito singulares dos quais faremos menção no seu devido lugar. Esta família foi seguida doutra, aumentando sempre o número dos cristãos e o fervor no bem obrar, particularmente, depois da perseguição, da qual nos referiremos, podendo-se, portanto, dizer, ser ela a melhor cristandade da China, não obstante a mais persegui- da e atribulada. Caminhando, prosperamente, as coisas de Nankim e, vendo por estes bons princípios que aquela casa deveria per- 308
NA QUAL SE TRATA DA CRISTANDADE DA CHINA durar e até prosperar, mandou o Pe. Ricci um dos compa- nheiros, o Pe. Lazzaro Cataneo, a Macau, para informar os superiores sobre o que se fez, e, em parte, a fim de conseguir algumas coisas de Europa para presentear e buscar novos companheiros para os trabalhos da copiosa messe. Chegou o padre a Macau com essas alegres novas, que foram recebidas com a alegria que convinha e, em breve, ten- do conseguido alguns presentes para o rei e com novos refor- ços doutros padres, regressou a Nankim, onde o Pe. Ricci o esperava, o qual, por arder em desejos de seguir para Pekim, assim que recebeu os novos companheiros e presentes, não duvidou de encetar, pela segunda vez, a viagem para Pekim, tendo a seu favor não somente o parecer mas até a ajuda pro- pícia de importantes mandarins. Estava-se no dia 16 de Maio do ano de 1600, quando os padres Matteo Ricci, Diego Pantoja e o irmão Sebastião Fernandes partiram, pela segunda vez, para a corte e, da mes- ma forma que a primeira, por via fluvial, acomodados na embarcação de um eunuco que quanto mais tratava com os padres mais se tomava de afeição por eles. Passada já a província nankinense e chegados à de Xantum, na cidade onde reside o seu vice-rei, foi o Pe. Matteo recebido com honras extraordinárias por este. Foi vi- sitado na embarcação, presenteado e acarinhado. Refez-lhe, dando-lhe melhor forma, o memorial, que o padre devia apresentar ao rei, e, finalmente, com muitas cartas, o reco- mendou aos mandarins de Pekim. Tinha este vice-rei recebi- do notícias acerca do Padre Matteo, por meio de um seu fi- lho, que, em Nankim, havia conversado, intimamente, com o Padre, tendo-se inteirado de muitas coisas da nossa Lei, o que levou-o a fazer todas essas invulgares amabilidades para com o Padre. Seguiu a navegação, felizmente, sem estorvos de consi- deração, até que chegaram a uma cidade, onde se encontrava um eunuco chamado Mathan, administrador dos direitos do rei e dos tortos, que muitos se faziam, sendo tido por homem soturno e cruel. Foram, muitas vezes, visitado, por aquele eunuco com quem os nossos andavam com as mãos bem munidas de presentes, mas nunca foram qdmitidos, por não 309
PE. Alvaro semedo corresponderem os mimos à avidez dessa harpia e, como se avizinhava o tempo em que, se ele não fosse à corte, correri- am perigo os seus bens e até a sua vida, resolveu trair os pa- dres para se livrar, e, assim deu a entender o eunuco que aqueles forasteiros traziam presentes para o rei que este já tinha visto, acrescentando ser possível que houvesse ainda outras coisas de maior preço, que podiam trazer grande pro- veito para ele Mathan. Correram, por isso, os padres um enormíssimo perigo, não somente de perderem tudo aquilo que tinham, mas ainda serem mortos, estando nas mãos da- quele homem tão avarento e cruel. Andavam, justamente, a preparar as coisas, quando o eunuco Mathan, que, ao princí- pio, mostrava certa cortesia, em breve, revelou o que lhe ia na alma. Primeiramente, tratou de ver os objectos que os padres lhe mostraram com toda a cortesia e respeito; depois tomou a seu cargo o entregá-los ao rei; e, numa outra vez, levou-os para o seu palácio, depois que o rei respondera ao seu memorial, dizendo-lhe que descrevesse os objectos que vi- nham como presente. Finalmente, veio Mathan armata manu, com mais de 200 homens, que eram mais exactamente ladrões, sendo ele seu capitão e, sem termos alguns de corte- sia, antes pelo contrário, com desprezo de aparências, levou todos os objectos e, com grande fúria, mandou pôr de parte aquilo que mais lhe agradava. Quando via coisa que não lhe satisfazia a vista, gritava como se tivesse sido roubado e fez, particularmente, horrendo escarcéu, ao ver uma imagem do Crucifixo, dizendo que ele servia para encantamentos e esconjuros, para com eles matarem o rei, ao que os padres lhe responderam com toda a humildade, explicando-lhe o misté- rio daquela sagrada imagem, mas o eunuco, não admitia ex- plicação alguma, gritando que deviam ser castigados tais impostores. Em suma, levou o que lhe agradou, pondo-o na lista doutros presentes para o rei e mandou todas as coisas juntamente com os padres, para a fortaleza com guardas per- manentes. Ficaram os padres confusos com tal acontecimen- to, temendo perder, num instante, quanto até então, se tinha conseguido, com tanto suor. Não perderam, porém, a confiança na ajuda Divina, que tantas vezes já experimentaram e, assim, vendo-se privados 310
NA QUAL SE TRATA DA CRISTANDADE DA CHINA de todo o remédio humano, entregaram-se, totalmente, nos braços da Divina Providência e, com orações e penitências, fizeram instantes súplicas à divina misericórdia, para que se dignasse volver os olhos para a saúde de tanto ânimo resgata- do com o precioso sangue de Cristo, de quem parecia que dependia, em absoluto, o sucesso daquela expedição. Envia- ram, então, um criado à cidade com cartas para um outro eunuco, nas quais lhe pediam o favor de procurar coisas que pudessem presentear o rei, julgado que, como fosse assunto em que ele poderia alcançar mérito e mercês junto do sobera- no, o eunuco de boa vontade o empreenderia, porém, ou fos- se por medo de Mathan ou por ter sido prevenido por este, a resposta foi maltratar com palavras e pancadas o criado. Esperaram ainda um outro mês para verem se consegui- am sair daquela miséria e escreveram a um mandarim, que se tinha mostrado seu amigo, antes dessa .tribulação, e que, na realidade, lhes tinha feito favores em algumas ocorrências, mas este, igualmente, vendo a carta, temeu aceitá-la e nem sequer quis responder. Falou, todavia, secretamente, ao nos- so criado, avisando-o do estado em que se encontravam as coisas dos padres, que era o pior que podia ser, pois que maquinavam, com malícia, matá-los, dizendo muitas coisas contra eles para os desacreditar e fazer crer na sua impostura, motivo por que vissem se, de qualquer modo, podiam fugir para Cantão e que considerassem como ganho, contra a perda total de todas as coisas, o escaparem da morte que pairava sobre eles, sob as mãos de eunuco tão cruel, e, se não conse- guiam isso ou não o julgavam bem, que vissem ao menos se podiam fazer chegar às mãos do rei o memorial, por intermé- dio de qualquer mandarim da corte, seu amigo. Bem se pode compreender como ficaram os padres com tal resposta e como ficaram conhecendo o perigo em que se encontravam. Não aceitaram o primeiro conselho, para que os não julgassem culpados com a fuga, estando eles inocentes, achando menor mal padecer por justiça do que dar motivo, àqueles que não os conheciam, de alguma proba- bilidade das coisas que lhes imputava o eunuco. Preferiram, então, o segundo conselho e, assim, enviaram, imediatamen- te, para a corte, o irmão Sebastião Fernandes, com cartas para 311
PE. ÁLVARO SEMEDO os amigos, contando-lhes o estado em que se encontravam, mas, como em casos semelhantes, são poucos os amigos, não houve um que lhes tivesse trazido socorro, motivo porque o irmão regressou, sem ter conseguido coisa alguma. Então, os padres, reconhecendo não haver mais remédio, no próprio engenho, nos amigos e nos conselhos humanos, renunciaram tentar outro meio, e, entregues, inteiramente, à vontade divi- na, ficaram satisfeitos, aguardando o êxito deste assunto con- forme mais aprouvesse ao Senhor. Estiveram os padres seis meses naquela prisão, esperan- do a ajuda divina, com a qual só podiam ser socorridos, quando, fora de todo o pensamento, sem saberem como, veio um decreto do rei, chamando-os para a corte com os presen- tes. Dizem que o rei, um dia, sem que ninguém lhe tivesse dito nenhuma palavra, lembrando-se do memorial do eunuco, disse: "Onde está aquela campainha que soa por si e da qual me disseram que foi trazida por um forasteiro?" Ao que respondeu o eunuco, que sempre o acompanha: "Não veio ainda à corte, por que Vossa Majestade não deu ordem para que viesse". Assim, o rei deu, imediatamente, ordem, com a qual Mathan foi obrigado, mau grado seu, a enviar os padres com os presentes e com todos os objectos. Estes respi- raram, então, e esquecidos de todos os trabalhos passados, puseram-se a caminho que, por não poder ser por via fluvial, pois que os rios se encontravam ainda gelados, o fizeram por terra, recebendo dos mandarins todo o necessário, a expensas do rei, tanto para as suas pessoas como para o transporte das suas coisas. 312
CAPÍTULO IV Entram os padres em Pekim onde permanecem • Entraram os nossos em Pekim, aos 4 de Janeiro do ano de 1601, onde foram bem recebidos e acarinhados, tendo um eunuco posto, à sua disposição, um palácio seu. Puseram os padres em ordem os objectos do presente, que, no dia seguin- te, com grande acompanhamento e aparato, foram levados pelos eunucos para o palácio e apresentados ao rei. Este apre- ciou muito todas as coisas, venerou a imagem do Salvador e da Santíssima Virgem, admirou o relógio e o clavicórdio e deu, imediatamente, ordem, para que alguns eunucos o aprendessem a tocar. Ao ver o relógio, que era uma máquina de muito trabalho e artifício e desconhecida dos chineses, por que sabia que por si mesmo dava horas e, como não fun- cionava, mandou chamar, imediatamente, os nossos ao palá- cio para o consertar. Foram, assim, os padres chamados, apressadamente e, levados para dentro da segunda muralha (pois que, dentro da terceira e da quarta ninguém pode en- trar, a não ser os eunucos e os soldados da guarda), onde, por ordem do rei, transmitida a um eunuco principal, foram os nossos recebidos e tratados com toda a magnificência e corte- sia. Demoraram-se ali três dias, em parte, ajustando o reló- gio, para servir, temporariamente, pois que, para o instala- rem, se fez, depois, propositadamente, uma torre de madeira 313
PE. ÁLVARO SEMEDO muito trabalhada e de grande custo, em parte, ensinando a quatro eunucos a maneira de o consertar e, em parte, satisfa- zendo às perguntas sobre o que era a Europa, que reinos, que gente, que costumes havia e outras mil minúcias, sendo, to- das essas coisas, depois referidas ao rei, que mostrou grande aprazimento, ficando satisfeito com todas as coisas. O rei de- sejou, muito, ver os padres, mas, para não sair da praxe e do posto em que estava de não ser visto, fê-los retratar, em tama- nho natural, segundo a sua estatura, contentando-se com ver, somente, as figuras de quem não podia ser visto. Andavam as coisas, prosperamente, devido à muita sa- tisfação que todos os do palácio tinham dos padres e, princi- palmente, pelo prazer que o rei mostrava ter de todas as coi- sas e pela alegria com a qual recebia aqueles presentes, pare- cendo, assim, que tudo se encontrava seguro e nada mais res- tava a temer. Porém, como não existe segurança nem bonan- ça de longa duração nesta vida, em breve, se viram os padres em novos trabalhos. Foi motivo disso um mandarim do tribu- nal Lipu, que, segundo as suas funções, devia levar o presen- te, que, só por seu intermédio, podia ser entregue ao rei, cui- dando ele das embaixadas e dos presentes reais, o qual to- mou a mal o facto de os padres, que nada disso podiam saber, terem-no entregue ao rei, por via dos eunucos, contra a praxe usual, e sem fazer menção alguma desse funcionário. Ata- cando, então, a parte mais fraca, mandou ele prender os pa- dres, pondo-os na casa dos estrangeiros, no contorno das muralhas, com modos menos corteses daqueles que se lhes deviam, tendo empregado esbirros para os prender, e, maior insolência daquela que, porventura, tinha sido ordenada, foi o serem, novamente, sujeitos a julgamento e interrogados em tribunal público, se bem que com as respostas que deram, o caso tivesse ficado mais justificado e o juiz mais moderado. Não passaram ainda três dias que os padres tinham sido encerrados entre aqueles muros, quando foram novamente chamados para o palácio para executar as cortesias ordinári- as, no Pavilhão das Cortesias, do qual falámos, na primeira parte. Nesse mesmo dia foram de novo examinados por notá- rios públicos, por ordem do mesmo presidente, acerca de muitas coisas. A principal na qual mais insistiam foi com que 314
NA QUAL SE TRATA DA CRISTANDADE DA CHINA fim vieram à China, que intento tinham e que coisas preten- diam com o presente que deram ao rei. Acautelaram-se os padres, respondendo, claramente e em forma, e, assim, disse- ram, que vinham pregar a Lei do verdadeiro Deus, Governa- dor e Senhor do Céu e da Terra, que tinham trazido aquele presente ao rei não por que pretendessem coisa alguma, nem ofícios, nem dignidades nem recompensas mas como teste- munho da obediência que lhes deviam como residentes que eram de há tantos anos do reino e que, somente, desejavam que lhes fosse permitido viver naquela corte e de morrer nela ou em qualquer outra parte do reino que o rei quisesse, pois que, já tinham vivido muitos anos. Com esta resposta se foram os notários ao presidente, o qual, depois de a examinar, e considerar, redigiu o seu memorial ao rei, em parte a favor dos padres e, em parte, con- tra, mas como o rei andava bem disposto, não deu resposta que é o mesmo que não dar despacho. Souberam, então, os padres, por via dos eunucos, que o rei se aborreceu, quando soube que os nossos estavam prisioneiros nas casas destina- das aos estrangeiros. Vendo o mandarim que o seu memorial não merecera despacho, entendeu que isso fosse para favorecer os estran- geiros e, assim, reconheceu que devia mudar de atitude para com estes, tratando-os com cortesia e benevolência, motivo por que ordenou que fossem bem providos de todas as coisas, mais que a todos os estrangeiros que ali se encontravam, e, contra o costume e lei daquele restrito lugar, deu-lhes licença para sairem para a cidade, tratarem das suas coisas e visita- rem os seus amigos. Fez, imediatamente, um segundo memorial ao rei acerca dos padres, no qual, não somente nada dizia contra eles, mas, louvava, positivamente, as suas pessoas, os seus bons termos e modo de proceder, havendo só de mal que, de qualquer forma, deviam ser enviados para fora de Pekim, por as leis serem contrárias à residência per- manente de estrangeiros na corte. Mas, porque os eunucos, a cujo cargo estava o relógio, temiam tal afastamento dos pa- dres de quem dependia a regularidade daquele instrumento e o rei, por seu lado, gostava que eles se demorassem, este se- gundo memorial ficou também sem resposta. 315
PE. Alvaro semedo Entretanto, como os padres tinham licença para sair da- quele recinto, visitaram, livremente, os mandarins, fazendo novos amigos e tratando com os do Conselho dos Ritos, cha- mado Lipu, em cujas mãos estava o seu caso, para que infor- massem, nos seus memoriais, que achavam bem que eles fi- cassem em Pekim, parecendo muito verosímil que, por este motivo, se demorasse a resposta aos seus memoriais. Os des- te Conselho opuseram-se, porém, obstinadamente, neste ponto, e, assim, no terceiro e noutros muitos memoriais que apresentaram acerca dos nossos padres, embora lhes fossem favoráveis em tudo ou na maior parte, mantiveram-se porém, sempre firmes no que respeitava à sua permanência na corte, aguardando sempre a resposta régia, mas nunca mais se pu- blicou decreto algum, nem pró nem contra. Ora, percebendo os padres o motivo desta longa dilação e donde provinha, desejaram tratar de sair daquele recinto destinado aos forasteiros. Procuraram, assim, por via dos mandarins amigos, ser libertados daquele lugar, enquanto se .esperava pela resposta aos memoriais já submetidos, e alugar casas. Era isso coisa nova e em tudo diferente dos costumes chineses, por isso, tanto mais difícil, quanto mais se conside- rava impossível sem ordens especiais do rei. Mas, quando Deus Bendito o quer, tudo se torna fácil e, assim, se obteve tal permissão mais como coisa concedida pelo Céu do que alcançada por indústria humana na terra. Tiveram os padres faculdade de sairem absolutamente, daquele lugar muralhado. Tomaram, então, casa e principiaram a viver nela como se fosse do país. Vendo-se, pois, os padres naquela situação, que era a melhor que se podia alcançar, por então, negociaram, imedi- atamente, com suma eficácia a garantia da sua estadia naque- la corte, de forma a não poderem vir depois, a ser molestados em tal matéria, pois compreendiam, muito bem, quanto im- portava, para a segurança das outras casas, a sua permanên- cia pessoal naquela corte. Apesar de todas as diligências em- pregadas por eles mesmos e por vários mandarins amigos, não conseguiram, porém, alcançar um decreto para este efei- to. E bem verdade que foram assegurados pelos eunucos que o rei tinha dito que habitassem tranquilos na corte e que de 316
NA QUAL SE TRATA DA CRISTANDADE DA CHINA forma alguma tratassem de voltar para as províncias do sul, porque, com isso, teria desgosto. Era bastante suficiente tal resposta, dada com autorida- de, em nome do rei, em lugar de um decreto que assegurasse, absolutamente, a sua permanência, e, a este favor, ajuntou-se um outro com o qual mais o confirmava, sendo este o de se destinarem para os padres, por ordem do mesmo rei, à custa do erário público, provisões adequadas para a sua manuten- ção e de quatro criados, sendo as mesmas recebidas de três em três meses. Com estes favores e com a amizade familiar dos eunucos do palácio e de alguns mandarins superiores tornou-se a estadia dos nossos não somente segura mas acre- ditada de forma que todos os dias lhes aumentavam amigos e acorria gente à nossa casa, frequentando-a constantemente, já para ver os estrangeiros, já para admirar alguma coisa das nossas ciências e já para compreender a verdade da nossa Santa Lei, sendo esta a prática de maior gosto para os padres e de maior proveito para os chineses. Entre os mandarins principais que, neste princípio, pre- feriram a amizade dos padres houve um chamado Ligo zun.1 Era ele natural de Ham cheu, homem de grande talento e en- genho e por tal conhecido em todo o reino, o qual, nos exa- mes de doutores, nos quais se dão grau a cerca de trezentos, alcançara o quinto lugar, o que entre eles é de grande reputa- ção. Era sobremodo curioso e, assim, ajudado pelo seu bom engenho e pela amizade do Pe. Matteo Ricci, aprendeu mui- tas coisas curiosas de Matemática. Traduziu para chinês li- vros vários do Padre e, sendo muito amável, pôs o catecismo em excelente estilo. Conta-se dele que, enquanto estava com- pondo, vendo tão eficazes as razões que aquele livro trazia para prova da nossa Santa Lei, sem a ter ainda por verdadei- ra, dizia: "Ó como esta obra está bem feita e exacta". Entre- tanto, tratou de aprofundar, cada vez mais, com o tempo, e finalmente, considerando-a verdadeira, quis fazer-se cristão, mas não podendo, então, realizar tal desejo, pela inconveniência de ter muitas mulheres (estorvo ordinário na 1 Trata-se do doutor Leão Li Zhicao, atrás referido (nota do editor) 317
PE. ÁLVARO SEMEDO China entre os homens dessa qualidade) quis, absolutamen- te, que todos os da sua casa e família se baptizassem e, deste modo, depois de ajustadas as coisas como convinha, se bapti- zou, por sua vez e se chamou Leão, sendo frequentemente citado nas letras pelo seu zelo e virtude e por ser uma das colunas daquela cristandade. Procedeu de tal maneira que, com o tempo e persuasão, ganhou para a Santa Fé muitos perdões de qualidade entre os quais o de um indivíduo im- portante, chamado Miguel, muitas vezes citado nas cartas anuais de quem falarei, no devido lugar. Já cristão, governou, em vários lugares do reino, sempre em observância que devia à Lei que professava. Entre outros, desempenhou o cargo de tauli, que é importante e útil, na cidade de Caoyeu da província de Nankim, onde encontrou, nos palácios, uma capela cheia de ídolos, que a curiosidade ou devoção dos seus antecessores tinham conservado muito bem tratados e dourados com extraordinárias despesas. Não pareceu conveniente ao bom Leão que, nos palácios onde habitava, se suportasse tão indecorosa companhia. Mandou chamar homens com machados, aos quais ordenou que ape- assem dos altares os ídolos, os fizessem em pedaços e os en- tregassem depois ao fogo para os acabar de consumir com todo o oiro que tinham. A gente dos tribunais, oficiais, escri- vões, esbirros e outros ficaram atónitos e, olhando uns para os outros, diziam: "Parece que o nosso gaoyè (chamam assim aos seus mandarins) perdeu a cabeça", sem compreenderem que ele mais se manifestava neste particular que em qualquer outro. Depois de ter servido muitos anos ao rei da Terra lhe pareceu conveniente retirar-se, para mais a propósito servir ao do Céu. Regressou, então, para a sua casa, na cidade de Ham cheu, onde se entregou de todo o coração às coisas da sua salvação. Fez uma nova igreja e casa para os padres, mui- to necessárias numa cidade tão vasta e povoada, se bem que tivéssemos, na mesma cidade, uma outra. Estava, assim, esta contígua à sua casa, o que lhe proporcionava contínuas oca- siões para tratar frequentíssimamente com os padres, sendo isto do seu inteiro gosto e, para se empregar, completamente, ao serviço da cristandade, entregou-se à tradução dos nossos 318
NA QUAL SE TRATA DA CRISTANDADE DA CHINA livros, em forma singularíssima, para fazer compreender as nossas ciências e neles a notícia da nossa Santa Lei. Para este efeito, pediu um padre para se aplicar, exclusivamente, neste mister. Demos-lhe o Pe. Francisco Furtado com quem fez, imediatamente, os livros do Céu e imprimiu-os por sua con- ta, com aplauso geral de todos os chineses. Aplicou-se depois à Lógica e já estava tudo concluído e revisto para se dar à estampa, quando o Senhor, querendo dar-lhe o prémio do seu bom zelo, lhe fez a graça de o chamar para melhor vida, com todos os sacramentos e com muito sentimento de Deus e sinais da sua salvação. Tornando, agora, aos padres que deixámos na corte, onde todas as suas coisas iam melhorando, cada vez mais, andava Deus bendito a consolá-los, fazendo-lhes ver o fruto das suas fadigas, pois a nossa Santa Lei progredia, sempre mais, na boa estima e apreço dos gentios, fazendo muitos cristãos e diminuindo a crença nos ídolos, pois que, em mui- tas disputas travadas com os mestres das suas seitas, não so- mente estes ficavam vencidos como ainda confundidos. 319
CAPÍTULO V Dos progressos e fim da casa de Xaocheu • Enquanto as coisas da corte se encaminhavam para uma boa situação e os padres empregavam suma diligência nos assuntos dessa residência, nesse mesmo tempo, nas casas doutras províncias, os padres que ali residiam não descuravam de promover, com bom fruto, as pregações do Santo Evangelho. O inimigo comum cessou de mostrar quan- to se ressentia com ver arrebatadas das suas mãos tantas al- mas e de inventar novos distúrbios e trabalhos. Na província de Cantão, na cidade de Xaocheu, na casa que tínhamos aumentava todos os dias, o número de novos cristãos, com notáveis conversões de pessoas de considera- ção, entre as quais três mandarins, e o modo de proceder com exemplos de virtude mais que de neófitos. Enfim, abria-se uma grande porta mas, ao mesmo tempo, surgiam muitos adversários. Estava ocupado nesta conversão o Pe. Nícolo Longobardo e, quando com o maior fervor se entregava à ex- pulsão de ídolos das casas dos gentios, eis que entrou um indivíduo em sua casa, seguido atrás de homens, que faziam parte de uma procissão, com grande reboliço e algazarra, pe- dindo esmola para a edificação de um templo que ali estavam edificando. Viram todos o perigo de tal pedido, mas o seu valor cristão, exposto a todos os acontecimentos, denodada- 321
PE. ÁLVARO SEMEDO mente o rebateu e, posto que o barulho fosse muito, o pedido animoso e as vozes chegassem até ao Céu, todavia, como o Senhor não permitiu que fizessem quaisquer violências, fo- ram-se embora. Nas aldeias, os letrados andavam todos enraivecidos contra os cristãos. Na cidade, espalhara-se, entre todas, a notícia de que, na viagem a Pekim, os padres que andavam na corte se encontravam vivos ou pelo menos sem gravíssimo castigo. E como o demónio, de todas as coisas se socorre, ajuntou-se a este boato um outro pior, por ser mais próximo de verdade, isto é, que os nossos tinham sido banidos da ci- dade de Kao Kim e que, de novo, prenderam e castigaram todos aqueles que se fizeram cristãos. Não se pode calcular como este boato perturbou a gente e o trabalho dos padres, tanto mais que a notícia tinha, em parte, algum fundamento. Mas como a verdade tem o seu lugar, não duraram muito tais tribulações, para darem lugar a uma outra dificuldade que, de novo, andavam preparando. Havia naquele ano grande seca. Os gentios fizeram, muitas vezes, sempre sem proveito, as suas diligências e ora- ções aos seus pagodes, e, não sabendo que meio mais podiam empregar, pediram o parecer a uma velha (que costumava responder por maus caminhos), sobre porque não chovia e por que motivo não eram atendidas as suas justas orações aos pagodes, nesta necessidade comum? Respondeu: "Porque a Con him (é o nome de um ídolo de mulher)1 muito lhe quei- mavam as costas", querendo significar que aqueles que se fa- ziam cristãos queimavam os ídolos que antes adoravam nas suas casas. Com esta reposta, por ser dada por um oráculo, não se pode imaginar quão grande foi o furor que se apossou dos gentios. O não terem posto fogo à casa dos cristãos foi somente por temor dos mandarins. Juraram, porém, matar os padres, se voltassem. Os bonzos, não podendo suportar nem dissimular mais a raiva que contra os padres tinham concebido, nem ver o 1 Deve tratar-se de Guan Yin (Kun Iam), deusa da misericórdia, venerada em toda a China (nota do editor) 322
NA QUAL SE TRATA DA CRISTANDADE DA CHINA fumo dos ídolos que todos os dias se queimavam daqueles que se convertiam, conspirando com outros muitos secula- res, determinaram acabar de uma vez com este assunto. Re- digiram um memorial diabólico, referindo-se a tais pontos, que podiam amedrontar qualquer magistrado, tanto mais que algumas coisas que diziam eram verdadeiras, pelo menos, em parte, como não era possível negar que os padres eram estrangeiros, que estes faziam com que o povo vivesse a nos- so modo e segundo a nossa lei, e que reuniam a gente em grande número, coisa perigosa na China, por causa de suble- vações. A isso acrescentaram outras coisas para sustentarem o seu argumento. Submetido este memorial às autoridades, não foi recebido de má vontade, porém, o Senhor, que assiste aos seus e como a divina Providência os ajuda nos maiores apertos, tinha à ordem um vento galhardo para dissipar esta nuvem. Era ele um grave mandarim que exercia o cargo de tauli naquela cidade, o qual empreendeu a nossa defesa, aquietan- do tudo com uma fala que fez aos mandarins e ao povo sobre a bondade dos padres, do seu bom modo de tratar e viver e da confiança que tinha neles. Tanto pode a autoridade dos que governam em todas as coisas, mas, nisto, particularmente, no qual parecia, segundo o seu governo, que devia ser o mais contrário, fez Deus Nosso Senhor que, por seu meio, cessas- sem todas as turbulências de forma que das próprias tenta- ções se extraíram frutos. Andaram, assim, as coisas que pertencem a esta casa, entre a tempestade e a bonança. Só contarei, porém, duas coisas mais notáveis. Nesse tempo, os holandeses infestavam a índia e tinham chegado à China com o desígnio de tomarem porto neste rei- no e, ainda, de assaltarem Macau, o que depois tentaram, como já nos referimos atrás. Nessa ocasião, tratou aquela ci- dade de se fortificar como depois fez e se bem que nâo tivesse surtido resultado o intento dos holandeses, bastaram esses princípios e disposições de guerra para que os chineses, de natureza tímidos, julgassem que os portugueses estivessem fazendo preparativos contra eles. Fez aumentar a sua convic- ção o facto de nessa mesma ocasião se encontrar, em Macau, 323
PE. ÁLVARO SEMEDO o padre Lazzaro Cataneo, vindo da China, homem de sua na- tureza corpulento, de elevada estatura e exteriormente exu- berante, que se tornava mais respeitável ainda pela sua longa barba e, quem o não conhecia, parecia mais apto a manobrar um chuço do que a pegar um Breviário. Persuadiram-se os chineses que este padre procurava apoderar-se do seu reino e que os portugueses o tinham já escolhido para seu capitão nesta empresa, tanto pela sua pessoa como pela prática que tinha dos caminhos e por ter estado em ambas as cortes, acrescentando que, em breve, viriam duas armadas em auxí- lio, uma, da índia, de portugueses, e outra, do Japão, de japo- neses, que tinham por inimigos, e que os padres, companhei- ros do padre Lazzaro, já estavam dentro do reino, em parte espiando, em parte sublevando gente para este efeito. Que trama mais diabólica se poderia inventar para destruir um reino inteiro, apenas com quatro pobres religiosos e uns pou- cos de cristãos! Começou este rumor, a pouco e pouco, e foi-se desen- volvendo como costuma acontecer, assumindo, em breve, tal força entre os chineses que, aqueles que moravam em Macau, ou mercadores ou residentes, fugiram todos para Cantão. Com isso, os da Província de Cantão se julgaram meio perdidos, ficando cheios de susto e terror e tendo o as- sunto como certo. Chegou a nova ao vice-rei, que, por mar e por terra, mobilizava gente com celeridade. Na metrópole da província lançaram à terra quantas casas se encontravam ao longo das muralhas da parte de fora, que eram muitíssimas, com excessivos prejuízos para o povo. As portas que davam para Macau foram fechadas com pedra e cal e sobre a mura- lha puseram sentinelas permanentes de noite e dia. Publi- cou-se um bando, que sob graves penas proibiam todo o co- mércio com Macau e para que não fosse admitido nenhum estrangeiro, em particular, o padre Cataneo, que era aquele que devia ser feito rei. Deste modo ardia a metrópole em azá- fama militar e as cidades vizinhas estavam cheias de medo. Quem poderia duvidar que um incêndio tão mal atalha- do deixaria de alastrar até à nossa residência de Xao cheu, cidade da mesma província, pouco distante da metrópole e não devorasse quanto nela se encontrava e com ela todas as 324
NA QUAL SE TRATA DA CRISTANDADE DA CHINA outras do reino? Caíram, então, repentinamente, sobre essa casa com toda aquela fúria que se pode imaginar; fizeram uma busca minuciosíssima, revolvendo todas as coisas para ver ser encontravam armas e, não tendo achado coisa alguma da que buscavam, pois tinham julgado que fosse ali um arse- nal, se foi aquietando o tumulto, saindo a gente da casa mas sem deixarem de pôr guardas à volta dela, para maior segu- rança; e, assim, se começou a abater o incêndio. Já o vice-rei tinha cometido ao capitão geral daquela província, que se chamava Turn Pim, para com toda a força da soldadesca atacar Macau e destrui-la, mas, este, como ho- mem prudente não quis meter-se em empresa tão arriscada (pois que os portugueses não se deixariam tão facilmente destruir como depois demonstraram com os holandeses, gen- te doutro valor) sem ter informações seguras e certas. Enviou espias a Macau, que podiam andar, livremente, por todos os sítios, pois que aquela cidade estava sem qualquer borborinho, tendo, por toda a parte, as passagens abertas. Demoraram-se os espiões em Macau, livremente e a seu gos- to, e retornaram com seguros avisos de que, em Macau, não havia desígnio algum de guerra, nem azáfama de soldados, nem tão pouco sinais alguns dos boatos que se espalharam e que em tudo reinavam paz e quietação com a excepção de a cidade se encontrar dividida em duas facções, por alguns motivos particulares seus. Sustaram-se com este aviso as ordens do vice-rei, entre- tanto, as coisas foram-se aclarando, cada vez mais, surgindo a verdade. A cidade de Cantão reabriu as portas e aquietou- se, tendo contribuído muito para isso a vinda de um mandarim de quem fizemos menção atrás, que aquietou um outro tumulto contra os padres, na cidade de Xaocheu. An- dara ele na corte e regressara bem provido e promovido no cargo. Pelos conhecimentos que tinha dos nossos e muito mais pela nova amizade com os padres de Pekim, com os quais tinha estreita e grande familiaridade, acabou por desfa- zer todos os rumores, por enquanto, pois que esta província é como um mar turbulento, onde não faltam nunca tempesta- des, sucedendo umas às outras, sem causarem, porém, a última ruína à casa de Xaocheu. 325
PE. ÁLVARO SEMEDO Estávamos no ano da nossa salvação de 1613, quando a gente dessa cidade, depois de muitas disputas, ou por seus pecados, não merecendo tanto bem quanto o Senhor lhe queria dar, ou porque o Senhor quisesse beneficiar os pa- dres com uma estância mais segura e quieta, conspirou de tal maneira contra os nossos que os mandarins, não poden- do resistir à fúria dos letrados, dos bonzos e do povo, que unidamente gritavam contra os forasteiros, por sentença pública os dispersou, não sendo, porém, felizmente, o ban- do para fora do país, como se receava, mas antes para o interior do reino. Pilharam as multidões as casas e fizeram outras inso- lências que costumam surgir com semelhantes sentenças e com tais pessoas. Puseram sobre a porta uma lápide em sinal da sua vitória com longos dizeres contra os padres e a nossa Santa Lei. Entretanto, quando a coisa se esfriou, trataram os cristãos, uma noite, de picar de tal modo a lápide, que não pudesse jamais ser lida. Partiram os padres, expulsos daquela cidade, com grande satisfação dos gentios e pezar profundo dos cristãos, chorando todos, sinceramente, e, andando contra a corrente, pelo rio, para o norte, em pouco dias, alcançaram a sua nas- cente, o Monte Muilin, donde nasce, e ao pé do qual se en- contra a cidade de Namhium, no extremo daquela província. Quis Deus bendito que se firmasse a barca como a do Noé sobre as montanhas da Arménia e sem tratarem de licença alguma nem falarem com os mandarins, confiando apenas no Senhor, alugaram casas, que facilmente encontraram dentro da cidade, sem que ninguém opusesse qualquer difi- culdade, pois, quando é beneplácito do Senhor, todas as coi- sas, sem indústria e trabalhos, se tornam fáceis. Residiram aqui com aquele pouco que puderam salvar do naufrágio de Xaocheu. Fizeram a sua igreja e como começou a espalhar-se a fama dos estrangeiros principiaram, igualmente, a curiosi- dade e o concurso da gente e as visitas e com eles a pregação do Evangelho, de forma que o padre Gaspar Ferreira, que se encontrava nesses trabalhos, encetou imediatamente, o bap- tismo de alguns e, no ano seguinte, quando passei por este lugar, a caminho de Nankim, já lá existia uma grande cris- 326
NA QUAL SE TRATA DA CRISTANDADE DA CHINA tandade, se não muito numerosa, mas de-certo boa e bem instruída, gozando paz e quietação, até ao ano de 1616, em que foi destruída pela perseguição de Nankim, da qual fala- rei depois. 327
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CAPÍTULO VI Dos progressos nas residências de Nancham e Nankim e da morte do Pe. Matteo Ricci Na residência de Nancham, metrópole da província de Kiamsi, afadigavam-se os padres Manuel Dias e João Soeiro com fruto e, se bem que a maior parte dos cristãos fosse gente do povo, havia, porém, alguns nobres parentes do rei, que se baptizaram e se portavam com exemplos e edificações para todos. Conheci, assim, alguns, que viviam com grande fruto dessa cristandade, e , quando parti, vivia ainda D. Pedro, tão citado nas cartas anuais, por se ter sempre portado como óptimo cristão em todas as ocorrências e com grande cons- tância, não obstante os tormentos, tendo a sua casa servido de asilo aos padres, durante muito tempo, e de igreja para os cristãos que, ordinariamente, a frequentavam, durante as tur- bulências das perseguições, que não faltavam, com fruto or- dinário na nova cristandade. Habitavam essa cidade muitos parentes do rei, geral- mente insolentes, devido em parte, à autoridade do seu san- gue e, em parte, à adversão que gozavam. Molestaram eles, às vezes, os padres e, uma ocasião, tentaram confiscar as casas que habitavam e teriam conseguido o seu intento se não fosse o facto de se ter mudado o governador da cidade, que termi- nara o seu cargo, vindo um outro, novo no ofício mas não no conhecimento dos nossos, o qual, se não fosse isso, facilmen- 329
PE. ÁLVARO SEMEDO te poderia ter caído no logro, conseguindo eles, sem dúvida, o seu intento. Os letrados (entre os quais se encontram, somente, os do primeiro grau ou bacharéis, sendo uma outra classe de gente estudiosa) tinham igualmente, tomado a peito oporem-se à Lei Cristã e molestar os seus pregadores, como fizeram mui- tas vezes e, numa particular, conjuraram muitos dos seus para elaborarem um memorial, com o fim de extirparem aquela má semente, como a chamavam, no qual, citando al- guns padres pelos seus nomes, afirmavam serem eles traiço- eiros ao rei, encontrando-se espalhados por cinco províncias; que exerciam entre si comércio perpétuo e correspondência; que andavam roubando e assassinando pelos rios; que ensinavam a não reverenciar as imagens dos antepassados e a não adorar os pagodes, antes as rasgavam e as queimavam; que enganavam o povo rude; que faziam adorar uma imagem de um moiro (assim chamavam nessa província aos europeus), dizendo ser o verdadeiro Deus; e que efectuavam reuniões e per- turbavam a gente nas suas ocupações. Toda a cidade se encon- trava agitada. Ao princípio eram eles poucos, mas, agora, che- gam a vinte mil e diziam tantas outras coisas que soavam tão mal, que ninguém duvidava que fossem para exterminar, total- mente, os padres, sendo, tanto mais, os adversários muitos, num corpo só, sabendo os letrados servir-se muito bem da pena, além de serem, geralmente, mais experimentados. Apresentaram o memorial aos magistrados, o qual foi aceite, sendo os padres citados em juízo e inquiridos de vita, & moribus & de doctrina que pregavam. Interrogaram-no so- bre as razões da fé e foram, assim, bem ouvidos. Levaram os padres consigo a Doutrina Cristã que ensinavam, impressa em língua chinesa e apresentaram-na aos mandarins, em vez de um memorial. Foi tão bem vista que não somente admira- ram nela o fundamento de todas as virtudes como elogiaram grandemente os preceitos do decálogo. Por fim, a coisa resul- tou o contrário do que pensavam e esperavam os adversários e tanto em favor dos padres que a Lei de Deus foi publica- mente elogiada e aprovada pelos mesmos gentios e a estadia dos padres naquela cidade, confirmada por sentença pública e por escritura, o que, até então, se não tinha podido conse- 330
NA QUAL SE TRATA DA CRISTANDADE DA CHINA guir, triunfando a cruz de Cristo, mau grado todo o Inferno. Daí em diante os cristãos já podiam proceder com toda a liberdade e fazer, novamente, aquilo que quisessem, sem ne- nhum cuidado, com casos e exemplos de muita edificação, os quais se bem que serviriam para um belo estudo, para me não alongar, referir-me-ei, apenas a um só dessa mesma casa, por me ter contado o citado cristão, pouco antes de eu regres- sar à Europa. Encontrava-me nessa metrópole e igreja que tínhamos, quando vi entrar nela um homem para orar.e, como não o conhecesse, esperei que saísse. Perguntei-lhe, então, quem era. Respondeu-me: "Padre, eu sou cristão e natural desta ci- dade. Sou mercador em Nankim e, de tempos a tempos, ve- nho ver os meus pais e, também, à igreja, segundo a minha obrigação." "Quem te baptizou?" — perguntei-lhe. Respon- deu-me: "O Padre João da Rocha e foi deste modo: estava en- fermo, há já alguns anos, e tinha gasto com os médicos toda a minha pobreza sem qualquer utilidade. Visitaram-me os amigos e, entre eles, dois cristãos, os quais, um dia, movidos pela compaixão, me disseram: "Porque não te fazes cristão? Pode ser que, assim, Nosso Senhor te conceda a saúde". Eu respondi-lhes: "Se o vosso Deus me der saúde, far-me-ei cris- tão." Foram logo ter com o padre para lhe pedirem um pouco de água benta, para me darem de beber , esperando que pro- duziria bom resultado. O padre disse-lhes porém: "Se ele qui- ser fazer-se cristão que faça e Nosso Senhor lhe dará a saúde, se assim for servido; e, se não der, pelo menos, a da alma é sempre certa e mais necessária. O milagre, o Senhor fá-lo-á, quando lhe aprouver mas, se nesta ocasião o não fizer, ficaria aquele gentio a julgar menos da nossa Lei". Voltaram eles, desconsolados, para junto de mim e eu fiquei ainda muito mais com esta resposta. Dali a dois dias, encontrando-se pre- sentes os mesmos, veio um outro cristão, chamado Pedro (co- nheci também este, tendo sido cristão de grande fervor e nome). Contaram-lhe o que se passou com o padre mas ele respondeu: "Que necessidade têm de padre para este fim? Não temos água benta na nossa casa? Dêem-ma que Nosso Senhor lhe há-de conceder a saúde." Foram logo à casa e trouxeram uma tigelinha com água. Deram-ma, eu bebi e re- 331
PE. ÁLVARO SEMEDO cobrei a saúde. O que não puderam fazer em tantos anos os muitos medicamentos fez a água santa num instante. Fui, logo, à igreja render graças ao Senhor e, bem catequizado e instruído nas coisas da nossa Santa Fé, baptizei-me". Fiz estima particular deste exemplo, por me ter sido contado pela própria pessoa a quem sucedeu. Não faltam, porém, outros semelhantes com os quais o Senhor favorece aquela igreja, anima os cristãos e consola os seus pregadores. Gozava-se, entretanto, grande paz na residência de Nankim e progrediam o crédito e a estima pelos padres, em grande parte devido à amizade de vários mandarins que os favoreciam. Crescia, conseguintemente, a multidão e a devo- ção dos fiéis, todos os dias, e, para seu maior auxílio, se fun- dou uma Congregação da Beatíssima Virgem, com resultados e frutos que se costumam colher disso. Apareceram, novamente, para o santo baptismo, pesso- as de consideração, entre as quais, Kui tai zo, merecedor de toda a espécie de louvores, pelo muito que trabalhou, nesta cidade, para os padres e, pelo muito, que se lucrou com a sua autoridade. Este, não obstante ser tão amigo e tão íntimo, per- sistia, no entanto, ainda no seu paganismo. Encomiava a nos- sa Santa Lei, considerava-a indubitável e verdadeira, mas aborrecia observá-la como acontece com muitos. Por fim, vencidas todas as dificuldades, a si mesmo se baptizou, cha- mando-se Ignácio, fazendo confissão pública, tão resoluta e devota, que consolou os padres e animou os fiéis. Não se con- tentou, somente, em recitá-la, mas deu-a por escrito, como penhor da sua resoluta vontade, a qual para edificação co- mum me parece bem transcrever aqui. Dizia assim: Kui Ignácio, no ano que chamam Gieu, nascido, na se- gunda Lua (que recai no ano 1549, no mês de Março), na cidade de Ciancieu do país de Sucieu da Província de Nan Kim, no reino de Tamin (assim chamam ao reino da China). Eu, levado por toda a reverência e com íntima dor dos meus pecados, desejo pedir perdão a Deus, para que me dê a sua água salvadora, a fim de os obliterar e de me conceder graça abundante para entrar na sua Santa Lei. Ponderei que, tendo eu já cinquenta e sete anos, há muito tempo que possuo olhos, mas nunca os fixei na divina Lei; há muito que tenho ouvidos 332
NA QUAL SE TRATA DA CRISTANDADE DA CHINA mas não tenho ouvido o Nome Divino, tendo, pelo contrário, seguido a seita de Scebia (nome dum grandíssimo ídolo), se bem que soubesse que ela repugnava à razão e a verdade. Distendi, largamente, o que é minha enormíssima culpa, esse imenso pecado, merecendo, sem dúvida, a íntima profundi- dade do báratro. No ano passado, por minha boa sorte, en- contrei os mestres da verdade, que vieram do grande Ociden- te, Matteo Ricci e Lazzaro Cataneo, com o seu companheiro Sebastião Fernandes. Foram estes os primeiros que me revela- ram as coisas divinas e, agora, encontrei-me com João da Ro- cha e o seu companheiro Francisco Martins. Estes confirma- ram-me as coisas já compreendidas e, por meio desses mes- tres, aprendi que o Céu e a Terra, todos os mortais e outras coisas foram feitas por Deus, sendo necessário que ao Mesmo fiquem sujeitos; que nenhuma outra seita e lei correspondem à verdade; que os pecados só podem ser perdoados por Deus, por intermédio dos seus ministros; que, igualmente, só por Ele se confere a glória do Céu àqueles que experimentam verda- deiro e eficaz pesar pelos pecados; e, porque creio que o ho- mem com estes meios pode impetrar a graça de Deus e outros benefícios, peço a Deus que me sacie desta verdade, para que eu possa pô-la em execução com obras e, com ânimo constan- te e firme, venerar a sua Divindidade, e me conforme com os seus santos preceitos e costumes. Pelo que, no mesmo dia, re- cebo a fonte do baptismo, que expurga toda a sujidade da alma, prometo, no futuro, extirpar totalmente do ânimo a sei- ta dos deuses vãos e os seus dogmas, que repugnam à razão, e observar que o pensamento e os desejos deforma nenhuma se deixem dominar pelo extremo desejo da raiva, da vaidade deste mundo, das coisas falsas e estultas. Obedecerei ao Pai Supremo, seguindo pela recta estrada da sua Lei, com uma nova precaução dos sentidos, para què em tudo me seja possí- vel ver, ao prístino esplendor, a luz da razão dada por Deus, principiando por mim mesmo e derivando para outros a utili- dade dos bens recebidos. Quanto ao que se espera dos capítulos da fé, se bem que não compreenda bem a grandeza de cada um dos mistérios, de todo o coração me submeto e creio em tudo aquilo que ne- les se encerra e peço ao Espírito Santo que queira ilustrar-me 333
PE. Alvaro semedo com a sua luz. Ora, pois, por que comecei a crer, o meu cora- ção é à guisa duma espiga tenra e frágil, motivo por que supli- co à Rainha Mãe de Deus, que não queira desdenhar de me conceder ânimo e vigor, intercedendo junto do seu Filho Deus e que faça que este propósito do meu ânimo seja constante e firme e jamais vacilante, que abra o poder de minha alma e suplique para mim um coração limpo e claro, e que abra a minha boca para divulgar em todo o nosso reino a divina Lei, para que não haja ninguém que não conheça a Lei do verda- deiro Deus e que a ela se não submeta. E este o escrito de Ignácio.1 Baptizou-se, igualmente, nessa casa, pela mão do padre João da Rocha, que nela era superior, o doutor Paulo,2 cuja vida será tratada, nesta Rela- ção no seu devido lugar, e mais extensamente, podendo, cha- mar-se-lhe, com razão, a Coluna da Cristandade Chinesa, tendo sido tão celebrado nas Cartas Anuais, tão proeminente em dignidades, pois teve a suprema do reino, que é a do colau, tão zelante da Lei de Cristo, tão rigorosa na observân- cia desta, tão humilde e tão virtuoso e santo, que dele se pode dizer todas as grandes coisas. Não era somente a cidade de Nankim que continha a semente do Santo Evangelho, pois espalhara-se pela provín- cia do mesmo nome, porque com a morte do pai do doutor Paulo, sendo este já cristão, fizeram-se exéquias em Scianhai.3 Para lá foi o padre Lazzaro Cataneo, já para o visi- tar já para ver qual a disposição daquela região de receber a palavra de Deus. Esta visita foi tão bem sucedida que, logo depois da missa, foram baptizados cinquenta e, nos dois anos seguines, subiu o número para 200, sendo de grande eficácia o exemplo de Paulo. Sucederam-se ainda casos miraculosos como da expul- são de demónios, cura de enfermos e coisas semelhantes com 1 K'ôi T'ái-Sou. (Qu Taisu, o letrado que aconselhou Ricci a trocar o hábito de monge budista pelas vestes de letrado e que veio depois a prefaciar o "Tratado da Amizade", escrito por Mateus Ricci em Nanchang — nota do editor) 2 Tch'ôi Kuóng-Kái. (Xu Guangqi) 4 Xangai (sèong-hói) 334
NA QUAL SE TRATA DA CRISTANDADE DA CHINA as quais aquela nova cristande se andava limpando e dispon- do a terra para maiores frutos, como depois se colherem e colhem, hoje em dia, com uma casa que se fundou naquela vila, sendo agora das melhores cristandades que existe na China. Enquanto trabalhávamos dessa forma e padeciam os pa- dres das três residências meridionais, o padre Matteo Ricci não andava ocioso na de Pekim. Estava, muito pelo contrário, tão ocupado, que quase não tinha tempo para respirar, em parte com as visitas dos chineses, sendo ele obrigado a retri- bui-las, o que não podia deixar de fazer sem ofensa e descor- tesia; em parte com os cristãos e os catecúmenos; e, em parte, na composição de livros muito apreciados pelos chineses. Andavam, porém, aumentando a estima de todos pela nossa Santa Lei e o número de cristãos, com casos raros e maravi- lhosos. Assim, um dos neófitos foi livrado da morte, para a qual tinha sido injustamente condenado, com o aparecer de noite ao juiz que devia confirmar a sentença, um homem se- melhante à imagem do Salvador, que lhe fez lembrar daquele miserável, e outros dois, foram salvos da próxima morte, por graça da Santíssima Virgem, que visivelmente lhes apareceu, falou e consolou. Não interrompia, porém, o padre Matteo as outras ocu- pações da casa, pois, era o Superior e cuidava de todas as missões com grande cuidado, prudência e caridade. Com tais trabalhos tão contínuos e porque o Senhor queria livrar o seu servo dos incómodos desta vida e conceder-lhe o prémio de- vido aos seus méritos, se enfermou, e, se bem que tivessem procurados todos os remédios humanos e fizessem todas as diligências possíveis, nada surtiu efeito. Pediu e recebeu, en- tão, o padre, os santos sacramentos com devoção e grande sentimento. Rogaram os padres a sua bênção e perguntaram- lhe muitas coisas às quais a todas respondeu. Entre outras, a uma que dizia por que os deixava, numa ocasião em que ti- nham tão grande precisão da sua companhia, respondeu: "Deixo já a porta aberta para grandíssimos méritos, os quais, porém, não se hão-de conseguir sem iguais fadigas". E, assim, falando quase sempre, ora com os padres ora com os cristãos, ora fazendo colóquios com o Céu, colocado no leito, sem 335
PE. Alvaro semedo movimento algum do corpo, fechando os olhos como se prin- cipiasse um suave sono, entregou a alma ao Senhor, com pe- sar universal não somente dos membros da casa e dos cris- tãos mas ainda dos gentios, chamando-os todos Homem Per- feito, Santo e Apostólico, de quem, por brevidade, não falarei mais, estando a sua vida descrita na história do Padre Trigault. 336
CAPÍTULO VII Da sepultura concedida pelo rei e dos progressos até à perseguição de Nankim É costume dos chineses, como já dissemos atrás, terem antecipadamente, um lugar determinado, para a sua sepultu- ra. Os nossos, como então mal tinham casa, para poderem viver, muito menos dispunham de sítio para poderem sepul- tar, motivo por que se encontravam em grande hesitação e perplexidade, sem saberem aonde deveriam enterrar o padre. Mas Deus Nosso Senhor, que guia os seus e queria honrar os seus servos, moveu-os a tentar uma coisa tanto mais difícil quanto se apartava dos costumes chineses e que seria mesmo impossível, sem a ajuda do Céu. Era isso o tratar com o rei, pedindo-lhe a mercê de dar, com ordem sua, um lugar, para a sepultura do defunto e, como era o Senhor quem incitava esta pretensão sem a considerar grande dificuldade, para que pudessem proceder, redigiram, imediatamente, um memorial, para ser entregue ao rei, no qual expuseram as ra- zões do pedido que faziam. Somente o fazer passar este memorial, segundo o estilo que se deve observar, parecia coisa impossível, de forma que até ao mesmo colau, que era amigo, parecia empresa difícil. Com tudo isso, recomendada a coisa ao Senhor, se submeteu o memorial ao mandarim competente, e o Senhor fez com que esta primeira dificuldade da chancelaria, a maior no 337
PE. Alvaro semedo princípio, fosse vencida sem trabalhos. Chegado às mãos do rei, aquele que tinha nas mãos o seu coração, levou-o, sem dúvida, a inclinar-se e a favorecer, recordando-lhe os nossos pelos presentes passados e pelo relógio que sempre tinha presente e, assim, com muitas palavras o remeteu ao colau, segundo o seu uso, e este, por sua vez, ao Conselho dos Ritos, por ser coisa de estrangeiros, que, por isso, lhe competia. Apreciado, porém, neste conselho, o caso, acharam que, tra- tando-se de uma mercê que fazia o rei, tal assunto pertencia ao Conselho do Património Régio, para onde foi remetido o memorial. Os padres, não tendo amigos nesse conselho de quem pudessem esperar qualquer favor e sem os quais, em todos os lugares, nada se alcança, conseguiram, porém, por via doutros amigos que não somente fosse remetido, nova- mente, o memorial ao Conselho dos Ritos, onde tinham ami- gos, como ainda que o aceitassem e respondessem, favoravel- mente, o que fizeram da seguinte forma: Ordenou Vossa Majestade que o conselho deliberasse neste assunto ao qual pertence e, tendo vindo às nossas mãos, vimos a constituição e as leis do nosso reino e encontrámos uma que diz assim: "Se algum estrangeiro, que costuma vir a este reino, morrer pelo caminho e se for vassalo (vêm algumas vezes reis e príncipes) e não tiver ainda chegado à nossa cor- te, o nosso tesoureiro da província, onde ele tiver morrido, destinar-lhe-á um lugar para sepultura, na qual se porá uma inscrição esculpida em pedra, dizendo quem era e o motivo da sua vinda." Diz mais uma outra lei: "Se o estrangeiro que vier a este reino morrer depois de ter entrado na corte, e se não recebeu ainda a remuneração régia, como é costume, o governador da cidade proverá toda a despesa do seu enterramento. Mas se já foi remunerado fará, por si, a sua despesa". De conformidade com estas duas leis (as quais, na reali- dade, não vejo, agora, como se podia deduzir argumento que provasse e favorecesse a causa, porque os padres já tinham sido remunerados), o mandarim soube enfeitar as coisas de tal forma e encontrar tantas razões e conveniências para que fosse deferida a graça, que o padre Giacomo Pantoja pedira a 338
NA QUAL SE TRATA DA CRISTANDADE DA CHINA sua majestade de uma sepultura para o seu companheiro morto, que, chegando o memorial às mãos do rei, este, imedi- atamente, o despachou, enviando-o ao colau, para que res- pondesse e desse o seu parecer. Deu-lhe forma o colau, di- zendo que lhe parecia conveniente que se concedesse a mercê aos estrangeiros que a pediam, e, assim, voltou, nova- mente, o memorial para o rei que, com a sua própria máo, firmou e apôs o FIAT. Foi o memorial despachado com esta resposta ficando, assim, concluído todo o caso, não cessando os padres de ren- der as devidas graças ao Senhor, pelo benefício claramente reconhecido como seu, de tanta importância para a residên- cia dos padres naquela corte e no resto do reino, servindo aquela mercê do rei não somente para a sepultura dos mortos mas de permissão para os vivos, porque, concedendo-lhes um lugar para permanecerem, quando morrerem, no seu rei- no, era evidente que lhes permitia, também, lá estar em vida. A provisão era de sepultar o Pe. Ricci e os seus companheiros e, de facto, aqueles que agora morrem na corte são ali sepul- tados. Vencida, sem trabalho, antes com facilidade, a primeira parte deste assunto, que era a mais difícil, restava a segunda, a de a pôr em prática, a qual não podia deixar de haver dispu- tas, mas com ter muitos mandarins amigos e com procurar-se a benevolência doutros com alguns relógios solares de mar- fim (que os chineses apreciam muito e o Pe. Pantoja os fazia primorosamente), não podendo a nossa pobreza estender-se a outras coisas, se venceu a dificuldade, que era pequena, tornando-se mais fácil a execução, particularmente, por os padres terem a seu favor o colau que fez tudo e que estava bem disposto quanto a este assunto que, tendo o padre Pantoja ido visitá-lo, pela segunda vez, para lhe reavivar a memória, temendo que entre tantos assuntos se tivesse es- quecido, antes que o padre abrisse a boca, pegou-lhe o colau na mão, dizendo-lhe: "Não me esqueci do vosso caso, pelo contrário, temendo que se prolongasse, chamei-o a mim e re- meti-o ao governador, recomendando-lho ainda, se bem que não fosse necessário, porque está bem disposto e procedi da mesma forma, quanto aos outros, por cujas mãos deverá pas- 339
PE. Alvaro semedo sar. Com as recomendações de pessoas tão qualificadas, não somente foi aceite mas ainda apreciado. Deram logo ordens aos oficiais inferiores, por intermédio de quem deveria cami- nhar o caso, para que procurassem, imediatamente, o lugar e como estes dependiam muito dos superiores e sabiam da ur- gência que eles tinham, procederam excelentemente. Tendo encontrado quatro e como todos lhes pareciam convenientes foram à casa dos padres, pedindo-lhes que fossem ver e esco- lher aquele que mais lhes agradasse, por assim ter determina- do o rei. Entre esses quatro locais havia um, vizinho à muralha da cidade, com grande casa e de preço e uma porção de horta, que foi jardim de um dos principais eunucos do palácio, que, não sei por que delito, fora condenado à morte, encontrando- -se ainda na prisão. Esse eunuco, antes de ser condenado, vendo mal parados os seus negócios e que tudo quanto lhe pertencia havia de cair nas mãos do fisco, julgou que aquele jardim se salvaria, por se encontrar perto da igreja, onde fez mudar a porta, transformando-a em habitação de bonzos e consagrando a sala maior para templo de ídolos com um títu- lo muito honroso que dizia Templo da Ciência de Bondade. Era local muito apropriado e só tinha um bonzo a servi-lo, pelo que parecia quase devoluto. Com pouca dificuldade po- deria ser adaptado, não tendo os padres conhecimento de que vivia ainda o eunuco, pois, quando souberam, já não houve tempo para falarem acerca doutro local. Designado, portanto, e escolhido aquele local, não faltou um mandarim que, com mira a alguma peita, tratou de o mandar avaliar, mas também não faltou quem lhe respondesse que em mer- cês régias não se olhava a preço nem se faziam avaliações e, avisado o governador da diligência feita e de se ter já encon- trado local, fez-se o despacho da seguinte forma: "O Templo da Ciência de Bondade, por ser do eunuco condenado à mor- te pelo rei, não precisa de ser comprado com dinheiro. O bonzo que nele habita, que seja licenciado, e entreguem, ime- diatamente, o templo ao Pe. Giacomo Pantoja e seus compa- nheiros". Executou-se este mandato, em forma de sentença, mas, como os padres pensavam que o bonzo poria dificuldades, 340
NA QUAL SE TRATA DA CRISTANDADE DA CHINA pediram a intercessão do governador, para o fazer vir à sua presença e obrigá-lo a sair do templo. O governador expediu, imediatamente, dois homens que conduziram o bonzo, mui- to surpreendido e temeroso do que lhe podia acontecer, pelo muito perigo que em tal chamada ocorria. Ordenou-lhe o go- vernador que deixasse aquela habitação e procurasse uma outra sem réplica alguma. O bonzo obedeceu de muito boa vontade, por ver que o caso não tinha pior fim, como descon- fiava, e, no mesmo dia, os nossos, em companhia de alguns cristãos, tomaram posse do templo, casa e campo que ali ha- via, rendendo graças ao Senhor, pelo bom sucesso, que julga- vam já concluído, sem poderem prever as contestações que iriam surgir. O segredo e a brevidade com que trataram deste caso não deram tempo a que chegasse aos ouvidos do eunuco pri- sioneiro o que fizeram do templo, que ele ainda julgava seu. Porém, quando se soube que já fora concedido aos estrangei- ros, não se podem crer o ressentimento, as queixas, e as dis- cussões que os parentes, amigos e discípulos do eunuco pro- vocaram e todos, quer por uma via, quer por outra, tomaram a peito antagonizar e fazer todo o possível para desfazer tudo o que já estava feito. Em primeiro lugar, um grupo de eunucos principais foi ao templo, onde estava apenas um irmão. Falaram com este, longamente, opondo-se a que houvesse ali alfaias e coisas do serviço da casa, por não estarem compreendidas na mercê que fez o rei. Finalmente, despacharam-se, com vários coló- quios com o ídolo, dizendo-lhe adeus, para sempre adeus, porque já não podiam, a seu gosto, entrar naquela sala. Hou- ve um que disse, raivosamente: "Massa de esterco e de lodo (pois que era de argila doirada aquele ídolo) se não tiveste força bastante para te defenderes a ti mesmo, que auxílio pos- so eu esperar de ti? Não és digno de qualquer honra, nem te mostrarei qualquer sinal de gratidão e de recordação." Outro disse: "Esta estátua teve, primeiramente, o nome de um outro ídolo, mudaram-no, depois, para outro. Eis que agora se vin- ga daquele que o usurpou.". Mas os eunucos de maior autoridade não deixaram de tentar todos os meios. Ajudaram-se com qs eunucos princi- 341
PE. Alvaro semedo pais do palácio, com os mandarins de fora e com outras pes- soas poderosas, para conseguirem o seu desígnio. Não alcan- çaram pouco, porque conseguiram interpor a autoridade do Culikien, que é o secretário chamado de Puridade, chefe de todos os eunucos e a quem cabe o governo mais imediato, depois do rei, o qual, compreendendo, porém, ser ordem real, logo se aquietou. Não restava outra pessoa de maior autoridade senão a própria mãe do rei, devotíssima dos ídolos. Diligenciaram, então, por tal via, conseguir o seu desígnio, sendo particular- mente, o agente principal desta resolução, um eunuco muito seii favorito, que lhe falou, lamentando-se de terem roubado um templo dos seus deuses, que valia muitos milhares de escudos, para o darem a alguns estrangeiros que não somente os não adoravam nem os respeitavam como os destruiram, tendo-os, assim feito em pedaços e queimado, motivo por que pedia muito à sua majestade que quisesse, sobre isso, dizer uma palavra ao rei. Este não admitiu o pedido e soube- se depois, que respondeu assim: "Embora tal templo seja de valor, que dizei, que coisa é, por respeito à magnificência do rei? O falar de tal negócio e da mercê já concedida, se os fo- rasteiros intentassem depois querela, faria acabar a vida ao eunuco prisioneiro e condenado." Por fim, não obstante to- dos os esforços empregados por poderosos opositores e de se terem utilizado todos os recursos, o caso terminou em favor dos pobres estrangeiros, protegidos pela divina Providência e, assim, superados todos os obstáculos, foram os padres ao Palácio, na forma que se usa, para render graças ao rei. Esse local, que foi concedido, dista um terço de milha da porta da cidade. O edifício é de tijolos polidos, duradou- ros e novos, não tendo mais que 30 anos. Dizem que custou 14.000 escudos, preço enormíssimo entre os chineses. Para ele foi transportado, pela manhã, o corpo do Pe. Matteo, já colocado no seu caixão, bem fechado e envernizado, segundo o uso chinês. Acompanhou-o grande número de cristãos no- vos com velas acesas, seguindo a cruz que precedia, ricamen- te ornamentada, sendo o caixão colocado, por então, num compartimento vizinho do lado da capela, para proporcionar comodidade na efectivação de cerimónias, segundo a usança 342
NA QUAL SE TRATA DA CRISTANDADE DA CHINA chinesa. Foi, depois, transferido para o cemitério já designa- do. Na extremidade do jardim, havia uma capela de seis la- dos, feita de tijolos e, dos lados, saiam duas paredes, forman- do um semicírculo. Ora, este espaço foi escolhido para cemi- tério dos nossos. No meio dele havia quatro ciprestes, árvores consideradas funestas pelos chineses. Parecia que estavam ali plantados para abrigarem o túmulo do Pe. Matteo, que foi construído com tijolos, servindo de cal o ídolo principal des- feito, para que, embora morto, o padre triunfasse na destrui- ção dos ídolos. A capela dos ídolos foi expurgada e consagra- da a Cristo Salvador. Estava na sala um altar bem feito e so- bre ela o ídolo principal, todo de cabeça aos pés dourado, de grande porte e pelos chineses chamado Ticam, pretendendo que ele presidia à terra e aos tesouros, sendo, exactamente, um Plutão, com o ceptro na mão e coroa na cabeça, à guisa dos nossos reis. Num e noutro lugar estavam quatro minis- tros do mesmo material, e, entre ambos os lados da sala, esta- vam duas grandes mesas, sobre cada uma das quais se encon- travam cinco reis menores do inferno. Cá e lá via-se pintado nas paredes o mesmo rei, assentado em tribunal, condenan- do os réus às penas infernais, vendo-se, também, horríveis demónios com instrumentos de suplício, como nós os pinta- mos, e, igualmente, diversas espécies de tormentos que se aplicavam aos míseros condenados, e cavernas cheias de chamas, serpentes e demónios horribilíssimos. Estava ainda pintada uma grande balança e, num lado, distinguia-se um homem carregado de maldades e, no outro, o livro das ora- ções da sua seita, que prevalecia sobre todos os pecados, li- bertando aqueles que o tivessem recitado. Tinha, depois, um rio de fogo que tragava muitos e sobre o qual havia duas pon- tes, uma de oiro e outra de prata, por onde eram conduzidos os homens dos ministros dos ídolos para belos e deliciosos sítios. Via-se ainda alguns bonzos que, não obstante os de- mónios, arrancavam da fome e dos tormentos os seus pais e outras coisas semelhantes, o que concilia grande crédito para os seus ministros. Para toda a espécie de penas lia-se a se- guinte inscrição: "Aquele que invocar mil vezes o nome de tal ídolo será liberto de tal espécie de tormento." Tudo isso foi, porém, apeado e destruído com grande emulação dos 343
PE. Alvaro semedo nossos servidores. Os chineses costumam pôr, no ventre dos ídolos, dinheiro, medalhas e até jóias. As paredes foram caia- das e sobre um altar novo se colocou a imagem do Salvador. No dia de Todos os Santos, celebrou-se, ali, a primeira missa, com a maior solenidade possível, soando o órgão e outros instrumentos. Concorreram todos os cristãos e, feita uma breve exortação, o caixão do Pe. Matteo Ricci foi trans- portado pelos principais cristãos, para o local da sepultura, acompanhado por todos, particularmente pelo doutor Paulo, que o amava como pai e, ali, com as cerimónias de igreja, foi sepultado, tendo-se colocado, primeiramente, na capela, uma outra imagem do Salvador. Fizeram ainda os padres uma outra capelinha à beatíssima Virgem, num lugar a pro- pósito, à qual se haviam obrigado por voto, quando principi- aram a tratar deste negócio. Finalmente, sobre a primeira porta, puseram, em dois caracteres chineses, esta inscrição: por régla liberdade, o que entre eles era da maior honra que se pode imaginar. Muitos acorreram para ver o acomodamento feito e por todos foi lou- vado e admirado, pois, certamente, não deve parecer pouco que, em face da corte e do próprio rei, altares e ídolos tives- sem sido derrubados pelos pobres estrangeiros e, ainda por cima, com a aprovação das autoridades superiores. Divul- gou-se, rapidamente, esta mercê real, concedida, em Pekim, dando grande força às nossas coisas. As casas passaram a ser mais livremente frequentadas, os padres mais bem vistos e os frutos aumentavam todos os dias. Nessa ocasião, que era no ano de 1610, tinhamos, so- mente, quatro residências, distribuídas de forma que abarca- vam todo o reino do sul ao norte, por via directa de Cantão a Pekim, mas, desejando, depois, os padres ter o curso, de pólo a pólo e seguindo, ainda, a viagem do sol, erguer a luz do Santo Evangelho nas partes do levante e poente, onde se en- contram famosíssimas cidades, ofereceu-lhes tal oportunida- de o doutor Leão,1 o qual, tendo-lhe morrido o pai, foi obriga- do a abandonar o governo e voltar para a sua terra, a fim de o 14*£MLei-Tchi-Tch'ou (Li-Chih-Tsao). 344
NA QUAL SE TRATA DA CRISTANDADE DA CHINA sepultar e observar o luto, segundo o uso do país. Chamou, assim, os padres para irem consigo, em parte para seu conso- lo, a fim de exortarem os cristãos da sua casa e baptizarem alguns, e, em parte, para tentarem fundar uma casa, naquela sua terra de Hamcheu. Nesta, o primeiro encontro foi com o doutor Yam, chamado, depois do baptismo, Miguel, tão céle- bre nas Cartas Anuais.1 Era ele parente do Leão e mandarim de importância, tendo sido, sete anos, cancelário de toda a província de Nankim, cargo importantíssimo. Era muito rico, de grande família, e das principais casas da cidade, e, sobre- tudo, devotíssimo dos pagodes, motivo por que, nos seus pa- lácios, havia um templo com bonzos que ele sustentava. Fa- zia isto por ignorância mais que por malícia, motivo por que conseguiu o auxílio Divino. Visitou, imediatamente, os pa- dres e, porque era tão dedicado às coisas da Lei, travou dis- cussões com zelo mais que ordinário sobre a sua seita. Conti- nuou, no dia seguinte e, depois, no terceiro e, por nove dias inteiros, sempre com dificuldades e argumentos novos, cujo fim não era de querer impugnar mas sim de descobrir a ver- dade. Ao nono dia, rendeu-se, dizendo: "Verdadeiro Deus, verdadeira Lei, verdadeira Doutrina." E, depois de ter sido catequizado com muita diligência, foi baptizado com grande consolação dos padres e do doutor Leão, que rejubilava, mas com singular pesar dos bonzos, que foram, imediatamente, expulsos da casa, transformando ele o seu templo em igreja do Salvador. Viam-se já nestes dois heróis, duas colunas estáveis e firmes, sobre os quais se apoiava aquela nova igreja, com cer- ta esperança de que muitos outros seguiriam o seu exemplo, na lei de Cristo e se fundaria uma florida cristandade naquela metrópole tão povoada e, segundo julgo, a mais rica de mer- cadorias, de templos e de delícias que existe na China, mas que, para o próprio corpo, era a menos disposta para receber a nossa Santa Lei. Ou fosse por este motivo ou por não ter ainda chegado a ocasião, que demandava melhor disposição, fazia-se nela tão pouco fruto, por então, que os padres julga- 1 Trata-se do letrado Yang Tingyun (noto do editor) 345
PE. ÁLVARO SEMEDO ram ser melhor dar lugar ao tempo e, por aquela vez, deixar aquela estância e procurar outra terra, onde se fizesse melhor semente com fruto mais copioso. Chegaram a propor a sua intenção ao padre superior da missão, Nícolo Longobardo, e, este, posto que não aprovava, também não reprovava, mas remeteu o assunto à casa de Nankim, onde me encontrava e, por graça do Senhor, éramos então nove da Companhia. Dis- cutiu-se o assunto e, de comum parecer, foi resolvido que, conforme o que havia ensinado a experiência, com longanimidade e paciência, se seguisse avante, pois, foram assim vencidas outras dificuldades maiores. Deste modo, sem mais tratarem de mudar, ficaram os padres afadigando nessa cidade, desconhecendo os bens que Deus Nosso Se- nhor aqui lhes estava preparando, como depois se verifica- ram com o tempo, não somente com a fundação de uma igre- ja das mais copiosas e melhores que hoje existe na China como veio aquela casa a ser um porto seguro, na tempestade e refúgio, durante as perseguições, como depois se verá. Progredia, também, muito a cristandade de Xanhai, ter- ra do doutor Paulo, onde foram baptizados o seu pai, a gente da sua casa e muita outra gente daquele lugar e, se bem que não tivéssemos casa estável, havia, porém, uma igreja e, to- dos os anos, eram os cristãos visitados com proveito dos ve- lhos e aumento dos novos. Nas quatro casas antigas se trabalhava, dizia a missa, pregava e se exercitavam os mistérios da nossa Santa Fé, com sossego e sem distúrbio algum. Os cristãos cumpriam as suas devoções e muitos gentios procuravam o modo e a via da Sal- vação. Via-se, todos os dias, florescer, cada vez mais, a Lei de Cristo, com abundante número de novas conversões e tam- bém de novos operários, os quais eram subministrados de Macau, onde se instruíam, primeiramente, nas coisas do país. Éramos, entretanto, chamados de muitas partes e de várias pessoas, para que fôssemos às suas terras e lhes pre- gássemos o Evangelho. Da cidade de Vamcheu, vizinho de Nankim, fomos cha- mados, com tão ardorosa paixão pelas coisas da nossa Santa Fé, que os letrados dessa cidade escreveram uma carta ao padre Afonso Vagone em Nankim, onde era, então, superior, 346
NA QUAL SE TRATA DA CRISTANDADE DA CHINA na qual carta subscreveram quarenta, chamando o padre com muitos pedidos e rogando-lhe, eficazmente, que não diferisse a sua vinda e o bem que tanto desejavam. O mesmo fizeram outros lugares, onde, ou por livros que os padres tinham im- primido ou pela fama "espalhada pelos gentios que, às vezes, serviam de guia aos outros e eu tinha um que me ajudava a catequizar, ou pela conversa com os próprios cristãos, tinha chegado a notícia da nossa Santa Lei e se fazia com tanto fervor, que, na realidade, parecia ter chegado a ocasião de, depois das tempestades e tribulações passadas, ter passado o inverno e aparecido a primavera com flores dignas da vista do Celeste Jardineiro, ou, para dizer melhor, a messe estava sazonada, esperando-se a feliz colheita. Com estes animado- res sucessos, os padres estavam muito contentes com as mui- tas oportunidades que se lhes ofereciam e não poupavam de se aproveitarem bem disso, esperando que fossem sempre para maior aumento. Mas quem pode compreender os juízos do Senhor aut quis consiliarius ejus fuit? Enquanto as coisas iam correndo, assim, tão prósperas, fosse pelos pecados da- quele reino, ou pelos nossos, ou porque o Senhor quisesse experimentar os seus servos, ocorreu, em Nankim, onde aquela casa foi fundada com extraordinário sossego e prosse- guia com maior tranquilidade que as outras, a seguinte perse- guição. 347
CAPÍTULO VIII Moveu-se uma terrível perseguição contra os cristãos em Nankim Principiou esta perseguição, a mais terrível de quantas tínhamos sofrido, no ano de 1615, com os acontecimentos que vou narrar. Foi, nesse ano, enviado de Pekim para Nankim, para colateral do terceiro tribunal chamada Lipu, que superintende os ritos, seitas, estrangeiros e coisas semelhan- tes, um mandarim chamado Quio Xin. Era ele de ânimo severíssimo para com a nossa Santa Fé e para com os nossos, ao passo que, ao contrário, era dedicadíssimo, no culto dos ídolos, estando incitado por várias coisas e de maior ódio contra nós, primeiramente, por um livro escrito por um bonzo, seu íntimo amigo, contra a Santa Fé, o qual foi tão bem impugnado pelo doutor Paulo, que o bonzo, aflito, em breve morreu. Foi ainda acicatado pelos bonzos de Nankim, com donativos calculados em dez mil escudos, a expulsar os nossos e com eles aquela nova chama que se tinha acendido contra os seus deuses. Juntaram-se então, as ferroadas que, em Pekim, teve do doutor Paulo e, em Cechian, do doutor Miguel, os quais despedaçaram, com argumentos tão efica- zes, os seus livros e os seus reverenciados ídolos, que não soube que responder e, assim, a confusão se converteu toda em veneno e o silêncio em raiva. Creio que, o seu despeito 349
PE. ÁLVARO SEMEDO aumentou ainda mais, quando soube que tinham sido apre- sentados dois memoriais ao rei, de dois importantíssimos mandarins com quem convivia, sobre o facto de os nossos padres terem traduzido para a língua chinesa os livros euro- peus, para aumento das ciências naquele reino e de estarem a trabalhar na reforma do calendário, não podendo Xin sofrer que tanto apreço houvesse pelos estrangeiros contrários à sua seita, com manifesto perigo da sua ruína. Finalmente, instigava-o, galhardamente para esta empresa, a ambição de pretender ser colau, julgando que com este zelo pelos antigos ritos e religião paterna, poderia avançar na dignidade, espe- rando, portanto, o ofício da vigia de tais assuntos. Maquinou, assim com outras coisas pertencentes ao seu cargo, uma péssima informação contra os padres, mostrando com razões falsas e aparentes, que se devia expulsá-los do reino. Dizia que os padres se introduziram, na China, sem licença, servindo-se, para prova disso, de um memorial feito, como assinalámos atrás, pelos escolares de Nankim, no qual pediam aos mandarins para expulsar os nossos do país, por sermos pessoas muito capazes de tramar contra o reino, e, se assim não fosse, com que fim tínhamos vindo, com tanto ar- dor, para um outro mundo, abandonando as nossas casas e bens? Outro testemunho que aduziram, eram idênticas falsi- dades dum nosso vizinho de Nankim: que no decurso do ano, em muitas noites, sob a forma de solenidades e culto divino, se faziam na nossa casa reuniões repletas de milhares de ho- mens e mulheres (mentira grosseiríssima) e, antes da madru- gada todos se sumiam; que a todos os cristãos que se faziam de novo dávamos cinco ducados, arrolando-os todos, dando- lhes nomes peregrinos e ensinando-os a assinalarem-se, na fronte, com o sinal da Cruz, para servir de divisa em tempo de rebelião; e que tínhamos as casas cheias de armas e outras patranhas semelhantes bem coloridas. Com todas essas razões fizeram um memorial que apre- sentaram ao rei, no mês de Maio de 1616, cuja substância era a entrada furtiva no reino, a propagação de uma lei contrária aos ídolos e aos seus antepassados, a concorrência dos títulos sublimes do nosso Deus com o rei e do nosso Ocidente com o seu Oriente, a corrupção dos amigos, a destruição da astrolo- 350
NA QUAL SE TRATA DA CRISTANDADE DA CHINA gia chinesa por falsa e errónea, motivada pelo dano da Euro- pa e coisas semelhantes. Concluíam ser necessário para o bem comum que se fizesse uma geral occisão dos padres e de todos os cristãos, antes de ganharem mais força contra o reino. A este memorial, submetido secretíssimamente ao rei, não foi dada resposta alguma, no tempo preciso para se res- ponder. Como quer que seja, teve notícia desse memorial o senhor Miguel, por meio dum mandarim seu amigo e do Xin. Avisou ele, imediatamente, os padres com instruções sobre o que deveriam fazer. Escreveu, ainda, muitas cartas a vários mandarins em nosso favor e uma directa a Xin, no qual, sem revelar o que sabia, refutava todas as suas razões contra a Divina Lei e os padres. Finalmente, convidou os nossos a re- colherem-se, na cidade de Hancheo, à sua casa, até que sere- nasse o mar. Entretanto, os nossos trataram de procurar a aju- da divina com redobradas penitências e rações. Foram ter com o doutor Leão, a dois dias de distância, para lhe mostra- rem a apologia feito pelo doutor Miguel, para ajuda e conse- lho. Acrescentou ele um prólogo, para maior louvor da nossa Santa Lei e dos padres, e espalhou com as suas mãos muitos avisos e advertências, necessários em tal ocasião, por toda a cidade, não deixando os padres de exercer com calorosas exortações, o ofício de bons pastores, animando e afervorando todos a padecerem em defesa da honra divina e da Santa Fé. Os fiéis emulavam-se em se prepararem para a borrasca, frequentando, mais do que nunca, a nossa casa e os santíssimos sacramentos e recebendo conselho para se porta- rem bem em caso de perseguição. Houve, entre outras, uma pessoa prudente e douta, chamada João Yao, que preparou quatro bandeiras pequenas, nas quais escreveu o seu nome, cognome, a sua terra de naturalidade e a sua cristandade, para servirem de insígnias do que professava em tempo de perseguição. Não cessava de apregoar que era cristão e de exortar os outros à constante confissão de fé. Passados já três meses após o primeiro memorial sem que houvesse resposta do rei, apresentou o mesmo Xin um outro, no mesmo tom, por intermédio de Xamxu, Lipu do ter- ceiro tribunal em Pekim, persuadindo-o , ao mesmo tempo, com toda a eficácia possível, para que compusesse, também, 351
PE. ÁLVARO SEMEDO um e o apresentasse juntamente com o dele. Soube da trama o matemático que instigara os nossos a emendar o calendário e, imediatamente, tirou cópias, que deu aos padres e ao se- nhor Paulo. Este, numa noite, fez a apologia para ser apresen- tada pelos nossos ao rei, quando fosse necessário, e enviou um mandarim, seu discípulo, homem prático na corte, ao presidente do Lipu, para se inteirar da verdade e diligenciar, junto do mesmo Lipu, para não favorecer o Xin. Este presi- dente disfarçou, com belas palavras, o veneno, mas, de facto, fez um memorial violentíssimo, dizendo que o que pedia Xin era tão justo e necessário para a conservação do reino, que achava, por bem expedir, sem mais licença régia e por obriga- ção do seu ofício, ordens para todas as províncias, para que os padres fossem exterminados, excepto os de Pekim, por es- tarem tão bem apoiados, atingindo com estas palavras o pró- prio rei e os mandarins que os protegiam. O memorial estava bem redigido, e com palavras tão equívocos que, em qual- quer ocasião, se podia dar-lhes uma outra interpretação, no caso de ser preciso. Entregues estes dois memoriais, um do Xin e outro do presidente, em 15 de Agosto, juntou-se, depois, um terceiro, com tão grande segredo, que não foi possível obter-se dele conhecimento prévio. Publicaram-nos, conforme se usa na China, por meio de correios enviados por posta para todas as províncias do reino, aos 20 do mesmo mês, juntamente com ordens do presidente para que os padres fossem aprisiona- dos. O povo ficou aturdido ao ver três dos principais mandarins a conjurarem contra aqueles que todo o reino ti- nha admirado e quase por todos os letrados reverenciados, visitados e estimados, parecendo-lhe, no entanto, que as acu- sações eram calúnias e não provinham de estômago são. Aos 30, à meia-noite, com um correio enviado pelo Quoi de Pekim, chegou a Nankim, para os nossos, a notícia do que se passava na corte. Correram à igreja, oferecendo-se para se conservarem em casa de um cristão. Feito dia, o padre Nícolo Longobardo, superior da missão e Giúlio Aleni segui- ram para Pekim, para prestarem o auxílio que lhes fosse pos- sível. Ficaram, em Nankim, os padres Alfonso Vagnone e Álvaro Semedo, esperando a todo o momento os carrascos. 352
NA QUAL SE TRATA DA CRISTANDADE DA CHINA Não tardaram em lhes aparecer três mandarins da parte do Presidente do Conselho de Guerra para os avisar que este presidente e o Xin foram nomeados executores da sua expul- são do reino. Condoeram-se eles, porém, dos padres, por co- nhecerem muito bem a sua inocência e doutrina e, assim, aconselharem-nos a ceder, voluntariamente, perante a força, em vez de experimentarem a descortesia do Xin, dizendo, ainda, que o presidente tinha dado ordens para que não fos- sem molestados na viagem. Acrescentou, ainda, um deles, pelos três, que não tivessem pressa, que confiavam na sua inocência e no favor dos que estavam em Pekim, e que se aquietariam, em breve, aqueles turbilhões. Lá para a tarde apareceu uma turba de soldados envia- dos pelo Xin para cercarem a casa e foi, no dia 1 de Setembro, que compareceram três sargentos para prenderem os padres e revistarem todos os cantos da casa e, posto que tivessem ordens do Xin para maltratar os padres, portaram-se, absolu- tamente, com cortesia, insinuando ao padre Vagnone que fi- zesse uma exposição, por escrito, nos termos da cortesia chi- nesa. Puseram guardas nas portas e fizeram inventário de todas as coisas que encontraram. Entretanto, o padre Vagnone, sob o pretexto de fazer compras, enviou um cristão, chamado Donato, ao padre Longobardo, para lhe contar o acontecido e para que se pre- catasse, a fim de não se entregar nas unhas do adversário. Fez Donato o recado e voltou com a ceia na mão, preferindo, ge- nerosamente, a prisão à liberdade que poderia gozar, sendo motejado pelos soldados, por ter voltado, por sua livre vonta- de, à prisão. Ele, porém, que ao primeiro rumor da persegui- ção regressara, com admirável dedicação, para servir os nos- sos tinha resolvido, firmemente, ou viver ou morrer junto, em defesa da Fé, e, posto que de pouca idade, era zelosíssimo, tendo convertido muitos e, por efeito de Deus bendito, mereceu a mercê de sofrer muito, com prisões e pan- cadas, juntamente com os nossos. Feito o inventário, com muita compaixão dos sargentos pela nossa pobreza e selado tudo quanto se podia fechar, levaram o padre Vagnone numa cadeirinha, por eles trans- portada, para comparecer perante o Xin, .deixando o padre 353
PE. ÁLVARO SEMEDO Semedo doente, num compartimento, mas fechado. Ao sair o padre Vagnone, levantarem-se rumores e gritos confusos de mil impropérios da plebe ínfima que, por ser tão compacta, foi preciso bastonar com fúria, para se romper caminho. Por ordem do Xin, depois de uma milha de viagem, pararam di- ante da casa do tauli, parente do Xin, demorando-se uma hora para contarem tudo o que se passou, sendo nesse tempo o padre Vagnone apupado na praça pública, com todas as injúrias, vilanias e mofas de quem quisesse praticá-las ou dizê-las. Por fim, voltaram os sargentos e, tendo-se desculpa- do da demora junto do padre, conduziram-no à prisão, reco- mendando-o como homem inocente, ao carcereiro. Pouco depois, o chefe dos sargentos enviou-lhe da casa uma boa ceia e cama e, assim procederam os outros dois, alternadamente, cada um no seu dia. Fizeram companhia ao padre Vagnone, na prisão, dois homens da casa, condoídos, um dos quais se chamava Ciam Mateus, cristão muito serviçal, que, três anos antes, se acolhera à nossa casa, para servir mais livre- mente a Deus e aos nossos sem outro prémio que noutra vida e com muita edificação, o qual, quando apareceram os sargentos, foi o primeiro a dar o nome para acompanhar os padres, como com efeito fez, ganhando um boa coroa de merecimentos. Com a nova da captura do padre Vagnone, os cristãos acesos de fervor, acorreram à nossa casa, sendo repelidos pelos guardas para que nenhum entrasse. João Yao excedeu- se a todos no fervor, pois, colocara na testa uma das bandei- ras referidas e mostrava com a mão direita um papel que con- tinha a nossa Lei e a sua necessidade. Interrogaram-no os guardas sobre que desejava, tendo ele respondido que morrer como cristão péla Fé de Cristo com os padres. Pasmados com tal resposta, os soldados levaram-no, metendo-lhe um baraço no pescoço e conduziram-no à presença dos mandarins. Per- guntado quem era respondeu, intrepidamente e em voz alta, que era cristão e vinha prestar explicações sobre a Lei de Cristo, se o quisessem ouvir. Tiraram-lhe o baraço e ordena- ram-no que repousasse, ficando muito espantados com tal constância jamais vista na China. Entretanto, sabendo Xin que os sargentos tinham deixa- do um padre em casa, bem tratado por outros, gritou-lhes e 354
NA QUAL SE TRATA DA CRISTANDADE DA CHINA ordenou-lhes que, na manhã seguinte, fossem ao nosso jar- dim fora da cidade, que tínhamos para recreio, que ali en- contrariam armas e que no regresso prendessem o outro padre. Não encontraram no jardim nada do que imaginavam. Levaram da casa, preso, o padre Semedo com quatro homens de serviço, quatro outros cristãos que tinham vindo à casa, o irmão Sebasti- ão Fernandes,1 e um outro escolar, nativo de Macau. Escreveram os cristãos de Nankim ao padre Longo- bardo, que partira para Pekim, acerca de tudo quanto tinha acontecido, tendo ele recebido esta notícia em Cauxeu, aon- de fora consultar o doutor Leão/ então, governador dos dois territórios. Foi resolvido que o padre fosse só a Pekim e dei- xasse ali o companheiro, para ser mais fácil a viagem. Deu- lhe o doutor Leão cem escudos para as despesas, necessárias para a defesa e escreveu a vários mandarins de Nankim e ao próprio vice-rei. Redigiu também muitas cartas para os ami- gos da corte, pedindo-lhes protecção para os prisioneiros e consolou-os com cartas e esmolas de dinheiro e fatos, para o inverno que recrudescia. Não foi desigual à caridade, a sua fortaleza de ânimo com a qual resistiu aos parentes e amigos que o combatiam com bom peso para que abandonasse aque- la defesa e retirasse uma protecção tão aberta aos nossos, e tão prejudicial e perigosa para si. Respondeu a tudo com bons motivos para os emudecer, e ele e todos os da sua casa prosseguiram na obra encetada. Nem menos fervoroso se mostrou o doutor Miguel, inteira- do do acontecido pela carta enviada pelos cristãos de Nankim para os de Nanham, pois que aconselhou ao padre que se en- contrava em Hamkeu (o outro estava de visita aos cristãos das circunvizinhanças) para que se retirasse para uma sua casa, o que efectivamente se fez, com muitas lágrimas dos cristãos e fervor dos catecúmenos, que o acompanharam até ao barco, como fez o próprio Miguel com dois dos seus filhos, um seu irmão pagão e mais três letrados, caminhando, por bom espaço de tempo, a pé, em pleno inverno. Deu ainda cem escudos ao ' Midi -Tchông Meng Iân {Chung Meng Jen). 2 Lei Tchi T'chou (Li Chih Tsao). 355
PE. Alvaro semedo nosso irmão, que o padre enviou para Cauxeu ao padre Longobardo, para ajuda das despesas , o qual, pelo mesmo ir- mão, os remeteu para Nankim, para ajuda dos prisioneiros. Chegado a Pekim, Longobardo encontrou os padres Giacomo Pantoja e Sabatino d'Orsi, que negociavam, segundo os conselhos do doutor Paulo. Não se pode imaginar, quanto este se esforçou com escritos e apologias doutíssimas e com to- das as diligências imagináveis, tanto a ocultas como a descober- to, em defesa da Fé Cristã as quais coisas omiti, porque delas tratarei, quando me referir à sua vida. Não foi, porém, possível fazer passar nenhum memorial para as mãos do rei, tendo o Xin fechado as entradas com toda a sagacidade. Seja como for, aquelas apologias foram espalhadas pelo reino, revelando a malvadez dos adversários e a injustiça da perseguição. Enquanto os cristãos procuravam, unidamente, patente- ar a nossa inocência e defendê-la com todo o esforço, o Xin procedia com mais crueldade para connosco, e, em especial, para com os míseros prisioneiros. Não os deixou estar juntos mais que cinco dias e deu ordens para que fossem separados em cinco cárceres. Proibiu, rigorosamente, qualquer conver- sa e visita e reforçou os guardas, dizendo que aqueles ho- mens espiavam, à vontade, com os olhos. Ele, porém, ralara- se, imensamente, por ver que não podia apresentar o caso de forma a não parecer injusto e motivado por simples raiva, bem como por os nossos serem acolhidos com benevolência por muitos mandarins. Afligia-o, sobretudo, a muita alegria, com a qual todos aqueles prisioneiros gozavam, por amor de Cristo, os padecimentos, sem nunca darem sinal algum de aflição em todas as suas misérias. Demonstrou Xin que, ao menos, podia aterrar a idade pueril, ordenando que cinco rapazes deixados em nossa casa, por serem de idade imatura, fossem presos pelos esbirros e conduzidos à prisão, acto considerado bárbaro por todos. Pri- vou do grau de bacharel a Filipe Sin, mestre dos padres da língua chinesa, que sentiu bem o golpe, estando recolhido em casa, mas somente até ao tempo de ser declarado o moti- vo da sua degradação, isto é, por ter ensinado os padres, e, então, saiu glorioso ao público, estimando alcançar o grau mais nobre de padecer por motivo da Fé. 356
NA QUAL SE TRATA DA CRISTANDADE DA CHINA Esforçou-se, o Xin, depois, com extraordinária diligên- cia, por encontrar alguma carta dos doutores Leão, Paulo e dos padres, para caluniar o seu talento, mas afadigou-se de- balde. Entregou-se, então, à fraude, escrevendo ao doutor Leão, em nome do padre Vagnone, para obter uma resposta, a fim de anotá-la e censurá-la, o que na China não é coisa difí- cil de conseguir, pelo abuso de se escreverem e firmarem car- tas com o punho e sigilo doutrem, mas, nem mesmo assim resultou, porque Leão, pelo estilo e modo de escrever, dera pelo logro e não se deixou burlar. Aconteceu, entretanto, que o nosso irmão enviado a Nankim, pelo padre Longobardo, para ajudar os prisioneiros e os cristãos, tivesse encontrado ali Ignácio Hya, homem le- trado, óptimo cristão e parente de Leão, que para ali fora en- viado de Cauxeu, para fazer imprimir uma apologia em favor dos nossos e espalhá-la naquela corte. Tomou aquele nosso irmão o encargo daquela impressão. Escolheu, assim, seis cristãos dessa arte e, no retirado horto de um deles, prosse- guiram com o trabalho. O tio de um cristão, em cujo horto se fazia a impressão, depois de o ter em vão advertido para de- sistir, pelo perigo em que se metia, denunciou-o ao Xin, rece- bendo uma boa recompensa. Enviados os esbirros, durante a noite, foram todos presos e apresentados ao Xin, que ficou muito satisfeito, por ter aquele motivo para atacar os padres. Lançados esses cristãos impressores na prisão, foram, de- pois, levados à presença do tauli, parente do Xin, o qual, ten- do lido a apologia e inteirado do motivo e não encontrando coisa que pudesse atacar, para se despachar, enviou-os para um outro tauli. Este, imitando o primo, mandou-os para um outro mandarim superior, o qual conhecendo a motivo, disse que não eram culpados de coisa alguma, mas para liquidar o assunto, passou sentença por escrito de que aqueles homens deviam, por justiça, ser postos em liberdade, mas que, po- rém, se tiverem de ser castigados, bastava que os seus princi- pais levassem 15 golpes e, quanto ao seu parecer, achava que deviam ser postos em liberdade sem terem de ser enviados para outro tribunal. Remeteram-nos, porém, ao Xin, pela im- portância do seu cargo, seguros de que, imediatamente, os poriam em liberdade. 357
PE. ÁLVARO SEMEDO Ouvida a sentença, Xin rebentou de cólera, mas não po- dendo fazer outra coisa, por então, remeteu-os para a prisão com o padre Vagnone e mandou dar a este bom irmão os quinze golpes, tão cruelmente, que o puseram em muito mal estado. Não me demorarei em contar as vilanias e os ultrajes por que tiverem de passar, sendo enviados de um tribunal para outro, e a tempestade de punhadas, pontapés, empur- rões, bofetadas, lama que lhe atiravam à cara, escarros, pu- xões da barba e cabelo e outras insolências que se costumam fazer aos pobres réus, quando não corre largamente o dinhei- ro pelos esbirros, como aconteceu com estes pobres cristãos, deixando todas as coisas à pia consideração do leitor. Foram depois enviados, do Xin para os mandarins do seu tribunal, para sem inquiridos. Durou o interrogatório seis horas, sobre os seguintes artigos: Que lei é a vossa? Como entraram na China? Como vivem os vossos? Como se sustentam? Que governo têm? Que comércio com Macau e com os padres desse lugar? O interrogatório terminou, porém, sem tormentos, por obra dum mandarim, conterrâneo dos doutores Paulo e João de quem ti- nha recebido cartas, recomendando-lhes os nossos. Encoleri- zou-se com isso o Xin, que recriminou, asperamente, o mandarim e, tirando o caso daquele tribunal, remeteu-o para um mais importante, com pedido para o seu tauli usar de rigor neste assunto. Este inquiriu-os, brevemente, e apesar de terem sido perdoados por outros, ordenou que fossem dados vinte gol- pes a Paulo, o dono do horto, e outros vinte ao nosso irmão, cujas chagas dos quinze golpes anteriores se não encontravam ainda bem saradas, e remeteu-os, assim, ao Xin, que não conten- te com esses tormentos os enviou, novamente, para os mandarins do seu tribunal, onde foi renovado o interrogatório para satisfazer o Xin, sendo atormentados com o suplício da compressão, de que falarei em devido lugar, para confessarem aquilo que não sabiam. Muito maltratados com tais tormentos, os valorosos cristãos, não tendo culpas para confessar, foram acusados de terem convidado mulheres para se fazerem cristãs, ajudando, assim, o padre Vagnone, e, por motivo da nova sen- tença, foram todos bastonados, pela forma acima mencionada, com a excepção de um muito velho e dois impressores gentios. Vendo, porém, que o nosso irmão e Vu Paulo se encontravam 358
NA QUAL SE TRATA DA CRISTANDADE DA CHINA completamente lacerados dos golpes vibrados, sustaram e reenviaram-nos para a prisão. Curados aqui e restabelecidos pelo padre Vagnone, como melhor podia naquela miséria e pobreza, depois de quinze dias, foram de novo levados à presença do Xin, que interrogando-os, subtilmente, disse ao nosso irmão: "Que es- pécie de Lei é esta vossa que prega, como sendo Deus, um homem justiçado por malfeitor?" Donde o irmão aproveitou a ocasião para lhe explicar, com grande espírito, o mistério da Encarnação. Não suportava o tirano a liberdade da palavra do nosso irmão, motivo por que, para acabar com aquela vivaci- dade, ordenou que lhe dessem outros vinte golpes, sofrendo, assim, o irmão dores maiores, por se reabrirem as feridas doutras que ainda não estavam bem saradas. Foram-lhe da- dos, vigorosamente, de forma que o sangue saltou para as costas do Xin, que ficou mais furioso contra um jovem, que julgavam ter trazido de Pekim a apologia do doutor Paulo, o que era falso, mas este, para não descobrir o verdadeiro por- tador, levou sete bastonadas, por amor de Cristo e da Santa Fé. Foram depois conduzidos, através da cidade, à prisão, distante três milhas, para a qual, porém, o nosso irmão teve de ser transportado, numa tábua, por não se poder mover. Poderiam muito bem os sofrimentos debilitar os corpos daqueles confessores mas o ardor e o desejo de padecer au- mentavam ainda mais. Recrudesciam, principalmente, na- queles que com o seu sangue não tinham juntos corrido o risco da morte. E, assim, no medicar-se as feridas, já congela- das pelo frio, sujeitavam-se a novos sofrimentos infligidos por aqueles imperitíssimos cirurgiões das prisões, gozando com os novos tormentos que se lhes davam, por razões tão gloriosas. Todas as queixas recaiam sobre o Xin, o qual, sem- pre mais sedento do sangue cristão, remeteu o caso desses prisioneiros ao juiz criminal. Mas aconteceu o contrário do que esperava, porque este, consultando Xon xu, o presidente do seu tribunal, pronunciou que os réus estavam inocentes e que devia esperar-se pela resposta do rei. Entretanto, com boas palavras, enviou-os para a prisão, mas permitiu que cin- co deles voltassem, livremente, para as suas casas, a título de se tratarem. 359
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CAPÍTULO IX Progressos da perseguição e expulsão dos nossos da China Conhecida a sentença do criminalista, Xin maquinou, outra vez, novos planos, para não parecer que tivesse perse- guido pessoas inocentes. Em primeiro lugar, escreveu e espa- lhou, por todo o império, famosos libelos contra aqueles cris- tãos que, para servirem os padres traidores e perturbadores do reino, imprimiram uma apologia contra tão graves mandarins. Depois sublevou os censores do povo, que recor- reram a ele como superior, por compreenderem o modo de bem viver, aos quais respondeu que se guardassem do padre Vagnone e dos seus companheiros sedutores do povo e perturbadores da paz pública, por ensinarem uma lei contra a fidelidade ao príncipe, a reverência aos antepassados, o culto dos deuses e o exercício doutras virtudes antiquíssimas na China e, por fim, deplorava a miséria de um tal tempo, em que havia pessoas que se deixavam seduzir por aqueles enganos. Levou um mandarim do seu tribunal e mais outros dois doutores meio-falidos e de pouca estima a escreverem estas coisas contra os nossos, dizendo, especialmente, um deles, que esteve nas Filipinas, que os cristãos adoravam um ho- mem crucificado, se persignavam com a cruz na fronte e a punham em casa e nos campanários, e a traziam pendurada 361
PE. ÁLVARO SEMEDO no pescoço como jóia, que pregando a sua Lei se apoderaram das Filipinas, de Malaca e da índia, que nos anos passados mataram muitos chineses sem razão alguma, que os seus reli- giosos cometiam grandes sacrilégios com mulheres que fre- quentavam as igrejas, arrancando delas todos os segredos sob o pretexto de piedade, que outra coisa não pretendiam na China senão a conquista do reino por via de logros e que, por isso, deviam ser indubitavelmente expulsos como peste pú- blica. Além desses escritos publicados pelo Xin e enviados para a corte de Pekim, exerceu o mesmo tanta pressão sobre os tribunais de Pekim, que os incitou a redigir um memorial ao rei contra os nossos e a Lei divina, o que fizeram e firma- ram com o selo do eunuco, que é como vice-rei. O memorial foi apresentado, no derradeiro de setembro. Entregaram, no dia seguinte, um outro, suplicando ao rei que dignasse despachar o memorial já entregue. Em oito de Outu- bro, enviou Xin um terceiro. Em 13, um quarto, pela mão dum tauli, e depois um quinto, por meio dum certo colau de Nankim, um dos conselheiros do rei. Como quer que fosse, a resposta do rei não aparecia. Entretanto, o doutor Paulo escrevia a sua segunda apologia contra todas as calúnias, a qual, junta com a primeira e com aquela que fez o doutor Miguel e com outros memoriais e tratados formavam um volume bem grosso, glória, na verda- de, daquela primeira igreja, que com sangue e com a pena defendeu a honra da Santa Fé, intrepidamente. Correspondia à defesa dos doutores a paciência dos prisioneiros pela Fé. Suportavam, alegremente, todos os mal tratos que lhes havi- am sido feitos, parte para satisfazer Xin parte, por ausência de gorjetas, não permitindo o tirano que da nossa casa se pu- desse tirar nem sequer uma palha. Estiveram os prisioneiros três meses, com algemas nos pulsos, lançados, no pior lugar da prisão. A sua comida era um pouco de arroz mal cozido e alguma hortaliça sem condimento e tudo isto frio, cozendo- se para três ou quatro dias de cada vez. Se lhes traziam qual- quer esmola dos cristãos, ou toda ou parte era roubada pelos prisioneiros e guardas que como vespas sempre se juntavam em volta. 362
NA QUAL SE TRATA DA CRISTANDADE DA CHINA O padre Semedo com o irmão Sebastião Fernandes fica- ram sós numa prisão e, como mimo, tinham, em vez de hortaliça, ovos passados de pato, secos e salgados, sendo o preço desses ovos, dois, por menos dum ceitil, mas, mesmo assim, dividia-se um para dois homens. Esteve aqui doente, ao princípio, o padre Semedo, durante nove meses, com as como- didades de tão bela enfermaria e caridade de enfermeiros que, por duas vezes, esteve vizinho da morte, e, uma vez, foi por o terem bastonado, não obstante encontrarem-no tão fraco. Adoeceram, igualmente, os outros cristãos, entre tantos sofrimentos, motivo por que enviaram, várias vezes, memoriais ao Xin, para lhes conceder licença, para se cura- rem nas suas casas, segundo o seu costume, prestando fian- ça, porém, com a excepção de dois, ou três para quatro dias, nada puderam alcançar, donde, devido apenas a sofrimentos, encontraram dois, felizmente, a morte. Um chamava-se Pedro Hya, de Nankim, de idade de 22 anos. Foi cinco anos cristão muito exemplar, tendo procurado conservar os votos de perpétua castidade com frequentes penitências, com a de- fesa de sentimentos sem atender nem sequer aos parentes mais chegados e com orações frequentíssimas, dia e noite, a ponto de contrair calos nos joelhos. Ia à missa se bem que ficava distante quatro milhas. Era sagacíssimo no falar, sinceríssimo de consciência, procurando evitar a mínima culpa e qualquer imperfeição, por mais pequena que seja. Ganhava a vida com a arte mecânica que exercia e comparti- lhava o que auferia com os seus progenitores e os cristãos pobres. Era pacientíssimo com as injúrias, dizendo que se devia ser cordeiro para imitar Cristo e mais se evidenciou, neste ponto, na última enfermidade, porque, não devendo, segundo as leis do reino, deixar que os prisioneiros morres- sem no cárcere, o Xin mandou dizer ao pai do Pedro que o levasse até que ficasse curado. Mas o pai, por ódio ao filho, por ser este cristão, não quis. Mandou-o, então, Xin, pelos esbirros, à madrinha que, por ser idólatra, o tratou pessima- mente, sem que Pedro manifestasse sinal de ressentimento algum, antes modéstia e paciência admiráveis. Finalmente, vizinho da morte, levaram-no, novamente, à prisão, onde acabou por voar para a eterna liberdade. E.este foi o primeiro 363
PE. ÁLVARO SEMEDO secular que morreu pela fé na prisão, cujo cadáver foi permi- tido ao pai sepultar mas sem cerimónia alguma. O segundo que morreu na prisão chamava-se Jerónimo Vem, preso na nossa casa, tendo ali acorrido para ajudar. Morreu, também, de simples sofrimentos. Enviou a mulher muitos memoriais aos mandarins, para o poder curar em casa, mas foi tudo debalde. Recorreu ao Xin, que inteirado de que era cristão, lhe disse: "Que bens tirou da Lei deles?" e com esta pergunta a deixou desconsolada, morrendo, assim, o marido, em breve, com sorte tanto mais gloriosa quanto menos teve de auxílio humano, na enfermidade, igualmente suportada, pela Santa Fé. Atearam essas mortes nos cristãos prisioneiros uma san- ta inveja e um novo fervor de padecer por Cristo, e os que estavam de fora não deixavam, também, de se mostrarem verdadeiros sequazes da Lei perseguida. Repartiram os cárce- res entre eles e, assim, todos os dias, os cristãos prisioneiros eram visitados e socorridos com quanto podiam e informa- dos dos andamentos do Xin e doutros mandarins. Não con- tentes com isso, socorriam, ainda, as mulheres e os filhos dos prisioneiros, empenhando a mobília da casa, para não faltar às necessidades. Foram notáveis, nesta obra de caridade, o capitão Ignácio Cin, se bem que novo na Fé, com perigo de ser infamado; Lúcio Ciam, capitão de armas; André Hiam, ferrei- ro, e Francisco, brunidor. Não posso deixar de admirar a grande caridade do dito André, que, possuindo alguns escu- dos do padre Vagnone para socorrer os prisioneiros, não os tocou para qualquer coisa, e, com a sua fadiga quotidiana e do seu filho, provia, diariamente, dois cárceres, restituindo ao padre o dinheiro que este tinha deixado em seu poder. Houve também algumas piedosas mulheres cristãs, que constituíram um fundo com o que ganhavam com o seu tra- balho para o empregarem nos cárceres, segundo as necessi- dades. Não faltou quem feito prisioneiro, do dinheiro que lhe davam todos os dias para o seu sustento, poupasse alguma coisa, como se tivesse recebido alguma quantia, para repartir pelos outros pobres prisioneiros com liberalidade tanto mai- or quanto era mais subtil a indústria da caridade. 364
NA QUAL SE TRATA DA CRISTANDADE DA CHINA Ao princípio, quando foram presos os nossos, não falta- ram malvados que percorriam as casas, inquietando os cris- tãos, ameaçando de os acusar ao Xin, quando encontravam imagens e revistando todos os cantos da casa. Durou isso até que um mandarim, tendo notícia dessas maldades, prendeu muitos e os frustrou muito bem. Um desses tinha a fama de ter denunciado um cristão ao tauli. Foram, todavia, alguns acusados ao Xin só pelo nome de serem cristãos. Aceitou ele as acusações, remetendo-as para o foro criminal, para onde só vão as gravíssimas. Foram esses cristãos rigorosamente interrogados e sentenciados de inocentes, com grande mácu- la de injusto e ignorante para o Xin. Nem foi menor a humilhação que sofreu com as pala- vras de dois importantíssimos mandarins. Um chamado Ho, numa grande reunião de letrados, perguntou-lhe, por que motivo aprisionara os padres. Respondeu-lhe porque prega- vam uma lei contrária a deles. Acrescentou: "Porque não aprisonava tantos outros que seguiam leis muito mais contrá- rias que a dos padres". Respondeu o Xin que não havia acu- sadores. "E esses padres, — prosseguiu Ho, — de que os acu- sa V.S.?" Não soube que responder, ficando confuso, e para que não surgisse qualquer rixa, retirou-se da assembleia. Outro, presidente do Tribunal de Guerra, arguiu-o de ter mal- tratado sem razão, os padres sem que estes tivessem cometi- do qualquer falta ou praticado qualquer ofensa e, procurando Xin justificar-se, o presidente comunicou-lhe, que o tinha acusado ao rei como perturbador do reino e com efeito expe- diu um correio para Pekim com um fortíssimo memorial, que depois retirou, devido à intervenção de muitos mandarins, mas não quis mais amizade com pessoa tão injusta. Foi admirável nessa mesma ocasião a caridade dum ba- charel, cristão novo de Pekim, que informado da prisão dos nossos, correu a Nankim e, se bem que nunca o tivessem vis- to, visitou-os e providenciou-os. Convidou e levou, várias vezes os seus amigos, estendendo, também, a caridade aos outros prisioneiros cristãos. Para este efeito demorou-se mui- tos meses. Acompanhava os cristãos aos tribunais, medicava as suas feridas, consolava todos. Para este fim gozava da qua- lidade de ser personagem grave e douta. Andou depois a in- 365
PE. ÁLVARO SEMEDO sistir com o mandarim que, na graça do Xin tinha feito um escrito contra os padres e falou-lhe tão eficazmente que o dis- suadiu e o induziu a favor dos nossos, louvando-os à boca cheia. Ficou nesse tempo, admiravelmente consolada, uma se- nhora cristã, mulher dum prisioneiro cristão que fora com o nosso irmão flagelado. Contou seu sogro, bom cristão, que a exortava a manter-se firme na Fé, o que lhe ocorreu uma noi- te. Pareceu-lhe ver Cristo Senhor Nosso que lhe perguntava onde se encontravam as imagens. Ela respondeu: "Uma leva- ram-ma os esbirros juntamente com o meu marido; a outra ocultei-a, no fundo da casa, para que não venha a sofrer qual- quer ultraje dos infiéis." "Sendo assim — acrescentou Cristo — reponha, então, a imagem no seu primitivo lugar e não tenha receio, pois que o seu marido foi feito prisioneiro por amor meu e eu farei a si e a ele venturosos." Contava tudo isso e andava, assim, não somente consolada e intrépida com a dita narração mas, com bons exemplos, confortava os ou- tros cHstãos. Vendo, entretanto, o adversário que a resposta do rei não aparecia, envidou um último esforço junto do colau não adverso a nós, incitando-o a entregar um memorial ao rei, pela mão de um eunuco já predisposto a isso, com uma gran- de peita, para que procurasse o beneplácito régio. Os eunucos circularam entre eles esse memorial tão secretamente que, novamente, sem o mostrarem ao rei, refe- riram-no, em seu nome, ao colau, para este firmar a ordem da expulsão, o qual despachou do seguinte modo: Por quanto estamos informados pelo Lipu colateral do terceiro tribunal de Pekim, demoram-se, nesta nossa corte, certos estrangeiros que esperam de nós despacho e têm-se fei- to súplicas, para que ordenemos às províncias que reenviem para os seus países Afonso Vagnone e Giacomo Pantoja com os seus companheiros, por pregarem uma certa Lei que per- turba o povo e por que tratam ainda, secretamente, da suble- vação no reino. Portanto, ordenamos que se dê aviso ao Lipu de Nankim para que ordene aos mandarins das províncias, onde se encontre algum desses homens, que os enviem acom- 366
NA QUAL SE TRATA DA CRISTANDADE DA CHINA panhados, com guarda de soldados, à província e cidade de Cantão, para que daqui se retirem para os seus países, dei- xando em paz e quietação a China. E, por que o ano passado, com muitos outros, se entendeu que Giacomo Pantoja e os seus companheiros, que entraram neste reino para gozar as nossas delícias, sabiam corrigir o nosso calendário, motivo por que foram agregados aos mandarins, agora, não obstante tal agregação, os licenciamos para as suas terras. Seja dada esta nossa sentença ao Lipu e ao Ciayan, no dia 28 da 12° Lua. Feita esta minuta sobre o memorial, enviou-o o colau ao palácio, para ser firmado pelo rei, segundo o costume. Logo os eunucos, subornados pelo Xin, fizeram com que fosse fraudulentamente escrito por baixo ou, segundo dizem al- guns, meteram-no debaixo de uma grande caixa de memoriais para que, sem notar, fosse firmado pelo rei, ou, segundo outros, fizeram-no subscrever pela rainha a quem o rei frequentemente remetia os memoriais para serem firma- dos. É certo não ser verosímil que o rei, que se mostrara surdo a tantos memoriais, tomasse tal resolução, pois era mais con- soante ao seu costume enviá-los antes para qualquer provín- cia mais para o interior do que reenviá-los às suas terras, tão cheios de informações das coisas da China. Seja como for, a sentença foi publicada, em 14 de Fevereiro, princípio soleníssimo do seu ano novo. Voou a nova, num instante, por todo o reino. Os mandarins de Nanchium da província de Cantão, onde se encontrava o padre Gaspar Ferreira, intimaram-lhe a ordem, afavelmente, dando-lhe a faculdade de esperar pelos compa- nheiros. Retirou-se, porém, o padre e vendidas as casas, foi chamado pelo padre Longobardo para outras missões. Em Hamleu, onde se encontravam dois padres, por obra do dou- tor Miguel, nada lhes foi intimado, respeitando os mandarins um tal protector. Escreveram eles ao padre superior, para lhes enviar dois outros, como se fez, com muito bom resulta- do; o padre João Rocha e outros dois de Nanchiam, onde dei- xaram o irmão Pasqual Mendes, para consolação daqueles cristãos, foram para Chien chiam, na província de Chiamsi, 367
PE. ÁLVARO SEMEDO demorando-se, com cautela, nas casas dos cristãos, até tem- pos melhores. Em Pekim, escusou-se o colau com os nossos, ao mandá- los avisar acerca da ordem do rei, com prometer-lhes ainda auxílio para conseguir a sua permanência, tendo enviado, para este fim, um memorial ao rei. Mas os passos encontra- vam-se tão cerrados que não mais foi possível apresentá-lo, motivo por que foi necessário ceder ao tempo e, assim, ani- mados desta forma, os cristãos, depois da distribuição dos ramos abençoados, no mesmo domingo, se partiram os pa- dres para Cantão, proibindo os mandarins ao povo de lhes fazer qualquer ultraje. Deixaram os padres a casa concedida pelo rei em poder dum bom cristão com permissão do mesmo mandarim. A maior balbúrdia foi em Nankim, onde chegado o cor- reio, quis ele mesmo dar a notícia aos expulsados padres, considerando suma graça o não terem sido condenados a se- rem cortados em pedaços, motivo por que os mandarins os visitaram com grandíssimas honras e congratulações. Aos seis de Março foram os padres conduzidos, primeiramente, para um tribunal de seis mandarins, a fim de serem interro- gados, depois de terem sido denunciados pelo Xin, com canga ao colo, sendo o padre Semedo conduzido numa tá- bua, por não poder estar de pé, devido ao seu estado de fra- queza. Após um outro interrogatório sentenciaram que, se bem que merecessem a morte por pregarem na China uma lei nova, davam-lhes, porém, a vida, por clemência do rei, sen- do, porém, cada um bastonado com dez golpes e, assim, fos- sem enviados para os seus países. Não puderam aplicar as bastonadas ao padre Semedo, por este se encontrar em muito mal estado, mas ao padre Vagnone foram dados, terrivelmen- te, de forma a ficar mal, durante um mês, sem que as chagas pudessem fechar. Finalmente, confiscados a casa e o recheio e espalhados muitos livros contra os padres, dizendo serem eles indignos do nome de letrados, meteram-nos em jaulas de madeira muito apertadas tal como se costuma proceder com os réus de morte, quando são enviados de um sítio para ou- tro, e com cadeias ao pescoço e algemas nas mãos, cabelos compridos e togas muito mal compostas, sinal de gente bár- 368
NA QUAL SE TRATA DA CRISTANDADE DA CHINA bara e estrangeira, conduziram-nos, em 30 de Abril, dos cár- ceres para um tribunal, onde foram encerrados e selados com o selo real, tendo sido dadas ordens aos mandarins da guarda para que os trouxessem para fora, para almoçarem, cearem e dormirem. Assim, foram os padres levados com o indizível barulho que faziam os esbirros com o manejo dos ferros e das cadeias. Precediam três tábuas, escritas com grandes letras, anunciando a sentença do rei e proibindo toda a comunica- ção com os presos. Saídos, assim, de Nankim, viajaram, transportados em jaulas, trinta dias, até que chegaram à primeira cidade da província de Cantão, onde foram apresentados ao tutão, que, tendo-lhes repreendido, asperamente, por terem pregado uma nova Lei na China, os entregou aos mandarins, sendo por essa forma, levados a todos os tribunais com acompanha- mento de todo o povo. Foram, finalmente, retirados das jau- las, e alguns dias depois, enviados para Macau, com os pa- dres de Pekim que se lhes juntaram. Os cristãos que ficaram nas prisões, depois de muitos padecimentos, foram finalmente, condenados, por obra e di- ligência do adversário Xin, a 70 bastonadas. Os seus irmãos, por serem chineses, depois de várias bastonadas e ultrajes, foram condenados uns a servirem nas muralhas dos tártaros e outros a puxarem as barcas régias como fazem com os búfa- los. Todos os cristãos foram, porém, de grandíssima constân- cia e alegria em padecer por Cristo, manifestando, exterior- mente, o seu júbilo, com admiração dos pagãos. Houve uma mulher que, tendo ouvido falar da forma como o nosso irmão Sebastião Fernandes tinha padecido, durante um interroga- tório, a tortura da compressão das mãos pediu graças ao Se- nhor para poder, também, ser experimentada, não deixando de ser, em parte, atendida, pois que, quando se encontrava em oração, lhe pareceu que o Xin, em tribunal lhe ordenava a renegar a fé de Cristo e, como ela não tivesse assentido nisso, lhe fez aplicar a tortura. Passada a visão, viu sinais da tortura nas mãos, que se conservaram durante algum tempo, com o que ficou muito consolada e satisfeita. 369
CAPÍTULO X Como se restabeleceram as coisas depois da perseguição e se fizeram muitas residências Todas as outras perseguições acontecidas antes desta de Nankim foram particulares e, geralmente, o fogo não propa- gava, porque sendo esses casos da competência dos magistra- dos da Província, terminavam com as suas sentenças sem alastrarem para as residências mais remotas doutras provín- cias. Mas esta última, como o tirano considerava pouco o descarregar a sua raiva sobre os cristãos de Nankim e porque queria estendê-la às cristandades de todo o reino, para des- truir tudo de uma vez, levou o caso ao rei, a fim de que a sentença abrangesse todos, com maior rigor e autoridade. Entretanto, terminada aquela tragédia, expulsos os padres das suas residências, as casas ou confiscadas ou vendidas ao desbarato, ficaram as igrejas em má situação e a de Nankim, em consequência da fúria do Xin, foi apeada com perda do recheio, acabando os padres de Nankim por terem de sair dessa corte com tanto barulho e tumulto que parecia o Dia do Juízo. Não se podem calcular o dano que se seguiu, os bens que foram embargados e como todas as coisas mudaram, an- dando os padres escondidos, os cristãos amedrontados, os gentios ousados, o tirano vitorioso e os seus sequazes tão li- vres e insolentes, que todos porfiavam em molestar os cris- tãos e acusá-los, particularmente, na cidade de Nankim. 371
PE. Alvaro semedo Como quer que seja, porque o Senhor judicavit melius de malis bene facere, quam mala nulla esse permittere, con- forme a sua divina disposição, desses males resultaram mui- tos bens, pois que, se bem que, por enquanto, tivessem ficado impedidas a liberdade e a facilidade de se fazerem novos cristãos, manifestaram-se, todavia, a constância e o valor dos que já eram, demonstrando todos quanto estimavam ser se- quazes da Lei Divina e quanto desejavam que os padres per- manecessem no reino, para serem sempre instruídos na boa doutrina já recebida e, assim muitos que viviam noutras ci- dades, ou mandavam buscar ou levavam, pessoalmente, os padres para as suas casas, o que foi motivo, com a excepção de nas duas cortes, de estes terem encontrado bom amparo, correspondendo aos bons desejos e consolando-se os cris- tãos, com o que não se perderam as igrejas (não falo das mate- riais), se bem que não se fizeram outras novas, como direi adiante. Na corte de Pekim ficaram dois irmãos, no local da se- pultura concedida pelo rei, pois que, sendo chineses, não es- tavam abrangidos pela sentença da expulsão e, assim, sob o pretexto de piedade, que os chineses têm em tão grande con- sideração, deixaram-se ali estar, para tratarem da sua conser- vação, se bem que com muitas dificuldades e obstáculos le- vantados pelos eunucos. Estes, assim que viram os padres fora da corte, julgaram que a casa ficaria sem cabeça e que os irmãos sozinhos não teriam tanta força para resistirem aos seus ataques. Não se pode pois acreditar quanto fizeram, em tudo, para conseguirem o seu desígnio e quantas vezes leva- ram os irmãos para os tribunais, acusando-os e molestando- os, mas sempre sem resultado, porque o Senhor, que conce- dera aquele lugar aos padres, para que fossem ali sepultados quando morressem, o queria conservar, para eles poderem esconder-se naquela estreiteza ou serem sepultados vivos, estando, entretanto, os mesmos convencidos de que o doutor Paulo, que nesse tempo residia na corte, seria capaz de desfa- zer toda a trama, com a sua autoridade. Houve, no entanto, uma vez, em que os eunucos dispu- seram as coisas de tal forma que parecia impossível não con- seguirem o seu intento, em parte, por terem, como se disse, 372
NA QUAL SE TRATA DA CRISTANDADE DA CHINA corrompido alguns magistrados com subornos e, em parte, o que era mais importante, por terem por si o chifu, que é o governador da cidade, com quem tinham falado, eficazmen- te, sobre o assunto e lhes tinha prometido a sua ajuda. O pior foi o citarem tão tardiamente os nossos irmãos para compare- cerem em juízo que eles mal tiveram tempo de avisar o dou- tor Paulo e este de escrever uma carta ao governador da cida- de, dando ordem ao portador para lhe entregar, onde quer que o encontrasse, mesmo que fosse no meio da rua. Este assim o fez, encontrando-o, quando aquele ía a entrar no tri- bunal (pois, em Pekim, os magistrados ficam fora das casas onde residem), aonde tinha acorrido grande número de eunucos, certos de bom êxito, em consequência das diligên- cias que foram feitas. Começou o governador o julgamento, lendo a carta e os eunucos, com grande barulho, se não de razões pelo menos de palavras, prosseguiram. O nosso irmão, interrogado, não fez outra coisa senão mostrar o privilégio, que continha a mercê, feita pelas autoridades e governadores passados, por ordem do rei, daquela da casa e do jardim ane- xo para sepultura do padre Matteo Ricci e seus companhei- ros. Tomou-o o governador, leu-o e, contra o que esperavam os eunucos, acrescentou um novo sinete, pondo o do seu car- go, dizendo a estes: O que se encontra uma vez bem feito não fica bem desfazê-lo. Donde se concluiu ter despachado em favor dos padres não somente para esta como para outras ve- zes, porque, enquanto vivessem os parentes mais chegados do eunuco prisioneiro, não deixariam eles nunca de instar o contrário, ganhando eles, pelo menos, qualquer coisa que lhes davam para se evitarem as questões. Nessa ocasião, os irmãos que residiam naquelas casas, ora um ora outro, andaram visitando os cristãos daquela ci- dade. Quando abrandou a perseguição, cessando aquele pri- meiro ímpeto da tempestade, para lá passou um padre, que se encontrava escondido, para ajudar os cristãos e, à sombra dos velhos, se foram fazendo outros novos. Em Cantão, província mais meridional, desfez-se, total- mente, a casa que lá tínhamos, porquanto se bem que, ao princípio, se tivesse tomado uma outra pequena, para nela residir algum nosso irmão, a fim de dar agasalho aos padres 373
PE. Alvaro semedo que por ela passassem, vindos da cidade de Nanhium, onde se encontravam, pareceu, porém, mais seguro, removê-la, in- teiramente, por ser lugar sujeito a tempestades e turbulênci- as. O padre, que ali residia como se disse, transferiu-se mais para diante, como também o fizeram, depois, os irmãos, com a promessa e o encargo de visitar, todos os anos, os cristãos dessa região. O padre Rocha e outros dois padres saídos, como disse- mos, de Nankiam, cidade da província de Kiamsi, foram visi- tados, na cidade de Kiencham da mesma província, por um cristão, chamado Estevão, filho dum mandarim, de família nobre e principal daquele sítio, que conservava ainda a fé. Chegados os padres foram recebidos com toda a caridade cristã e carinho, e instalados numa casa, à qual chamavam de gabinete, próxima da muralha da cidade, com quatro divi- sões, oficinas e lugar para igreja. Ao princípio vinham apenas os da casa do hospedeiro, todos cristãos, depois, os parentes pagãos e os vizinhos mais íntimos e, com a ocasião de tais visitas, sempre se ganhava algum para a Fé. Estes atraíram, depois, os outros. E, a pouco e pouco, se foi desenvolvendo essa cristandade, de forma que, quando lá fui, dois anos de- pois, já se dizia missa, nos dias de festa, com instrumentos musicais e concurso de cristãos, em boa quantidade. Os que tocavam eram filhos de cristãos e desses, os letrados e os mais importantes serviam a missa com os seus sobrepelizes, quatro juntos, como os vi. Actualmente tem uma boa resi- dência com uma cristandade muito copiosa e bem instruída, a qual tem anexa a si duas igrejas na província de Chincheo, que fica vizinha, as quais são visitadas, todos os anos, pelo padre dessa casa. A residência de Hamcheu, sob a sombra do doutor Miguel, passou melhor, pois que os padres saíram, publica- mente, ao meio do dia, acompanhados pelo referido doutor e pelos cristãos mais importantes, para que vissem que cum- priam a expulsão régia. Entretanto, o doutor Miguel tinha re- servado, nos seus palácios, uns aposentos bastante amplos com quartos, oficinas, igreja e sala e fez-se ali, ainda, de novo, uma fileira de quartos, para haver lugar para todos, em caso de necessidade, sendo todas as coisas acomodadas à 374
NA QUAL SE TRATA DA CRISTANDADE DA CHINA nossa maneira. Concluídos os arranjos, chamou, imediata- mente, os padres que vieram, secretamente. Antes de três anos, disse ao Xin, que já estava em sua casa, que era natural dessa cidade, que tinha os padres em casa e convencia-o a visitá-lo e a tratar com ele, pois haveria de encontrar coisa diferente da que pensava. Essa casa foi, nesses tempos dificultosos, o refúgio mais seguro, cómodo e fácil que os padres tiveram. Ali estava o superior que atendia a todos os assuntos bem como a maioria dos padres, chegando, algumas vezes, a ser em número con- siderável e, usando de cautela para que não entrassem ali gentios, a não ser os muito conhecidos, diziam-se missas em todas as festas e pregava-se, com o concurso comum de cris- tãos, que não eram poucos, tendo também sido feitas algu- mas conversões. A maior tempestade ocorreu na igreja de Nankim, onde os padres estiveram muito tempo prisioneiros e, depois de sentenciados, conduzidos em jaulas, através de toda a cida- de, com balbúrdia dos guardas e concurso infinito de gente, sendo este o caso mais notório e ignominioso. Os gentios afastaram-se ainda mais dos cristãos, acusando-os a qualquer momento, assim, nos anos seguintes, houve, quase todos os anos, alguma particular vexação, sendo alguns cristãos leva- dos para os tribunais, molestados e, algumas vezes, bastonados, o que sofriam com grande constância e alegria, gaudentes a conspectu Concilii, quoniam digni habiti sunt pro nomine Jesu contumeliam pati. Não se pode duvidar que o Senhor, assim como sujeitou a particulares tribulações esta igreja de Nankim assim a dotou de virtudes particulares, como se viu sempre em todas as ocasiões. Com todos esses perigos essa igreja não deixou, todavia, nunca de ser visitada por alguns padres com grande solicitu- de e diligência e sempre com grandíssimo fruto e frequência de confissões e comunhões e ainda de baptismos de cristãos novos. Tinham os cristãos dividido a cidade como que em paróquias ou oratórios, tanto para que as reuniões fossem menos notadas como para sua maior comodidade. Congrega- vam-se nelas, em dias de festa (quando o padre não estava presente), e, depois de terem recitado as suas devoções, fazi- 375
PE. ÁLVARO SEMEDO am conferências e afervoravam-se na virtude. Encontravam- se ali, ainda, representados todos cristãos de mais crédito e virtude, os quais curavam, particularmente, de visitar os ou- tros, nas suas casas, principalmente, os enfermos, e de se exercitar noutras obras de caridade e piedade. Deste modo se ultimaram as casas antigas e se iam con- servando os cristãos que a elas pertenciam, dividindo-se em grupos, fazendo as suas confrarias, os mais velhos e virtuosos ajudando e visitando os outros, os padres vindo, a seu tempo, para os confessar e dar-lhes comunhão e aí se demorando quanto podiam, mas como não podiam permanecer muito tempo, o que era necessário, pelo menos, em alguns lugares, porquanto tinham de estar, a mais das vezes noutras locali- dades, fundaram-se, então, novas residências, que foram me- lhorando com o tempo, tornando-se em casas e igrejas bem ordenadas como são até ao presente. A primeira residência, principiada no tempo da expul- são e das tribulações, foi criada, na província de Kiamsi, na cidade de Kiencham, a qual me referi atrás. A segunda foi, na província de Nankim, na cidade de Kiatim. Residia nela o doutor Ignácio, cristão de autoridade e de grande categoria, que veio depois a ser vice-rei da provín- cia de Xantum. Este ao ter conhecimento da sentença contra os padres, enviou, prestamente, um mensageiro seu, ao pa- dre Lazzaro Cataneo, que residia em Hamcheu, com uma car- ta, na qual, depois dos cumprimentos habituais, lhe dizia apenas estas palavras: Tenho assunto importante que me ins- ta a tratar com Vossa Reverência. Desejo muito que venha à minha casa, antes de sair deste reino. Quando chegou essa carta, já os padres tinham disposto tudo em ordem para sairem dessa cidade, como veio a acontecer, com a intenção de irem a Xanhai, terra do doutor Paulo, mas recebido este pedido, para satisfazerem ambas as partes, dividiram-se os padres, indo o padre Francesco Sambiasi para a cidade de Kiatim, para a casa do doutor Ignácio, que, quando o padre chegou, tinha já em ordem os aposentos vizinhos à sua casa, dentro do próprio recinto que lhe servia de gabinete de traba- lho, muito cómodos para quanto se desejasse, com quartos e capela para dizer missa e com todas as coisas bem providas. 376
NA QUAL SE TRATA DA CRISTANDADE DA CHINA E, se bem que aquela capela fosse suficiente para se reunirem os cristãos da casa, construiu, depois, o doutor Ignácio, nesse mesmo lugar, uma boa igreja, posto que não muito grande mas decerto muito bem feita. A pouco e pouco foi vindo gen- te, atraída pelas práticas e sermões dos padres, com admirá- vel fruto, a ponto de, quando lá fui, dali a quatro anos, se encontrar constituída uma cristandade muito fervorosa e di- ligente em ouvir missa e prédicas e em confessar-se, tanto de homens como de mulheres e ainda de crianças, com uma afeição ao Santo Sacramento do Altar, que pareciam cristãos levados da Europa. Deixo os exemplos de muita edificação, remetendo o leitor para as Cartas Anuais. Servia ainda esta casa de academia para os nossos que, entravam, pela primeira vez, na China, porque sendo a cida- de retirada e de pouco tráfico e as casas amplas e cómodas se juntavam nelas todos aqueles que deviam estudar a língua e a escrita chinesas, a ponto de o número dos padres e estudan- tes (os quais são chineses de Macau que educamos e instruí- mos na virtude e letras chinesas para ajudarem depois na cristandade) chegar a onze ou doze, o que para o tempo era elevado. O padre Cataneo seguiu para Xanhai, onde se trabalha- va da mesma forma, cultivando os cristãos velhos e acrescen- tando-se alguns novos. Entretanto, o doutor Paulo regressou da corte para a sua casa e, com a sua presença, deu maior liberdade com menor perigo para pregar e reconduzir gente, a ponto de os baptismos terem chegado a tal marca que o padre se viu obrigado a consentir associados e a chamar um companheiro, sendo, às vezes, três, vendo-se o doutor Paulo na necessidade de aumentar aquela igreja, que exigia tama- nho maior, como de facto se ampliou, refazendo-a quase de novo e, assim, se manteve sempre, até hoje, com uma cristan- dade muito dilatada. Nesse mesmo tempo se principiou a residência de Xamsi, que hoje floresce com uma cristandade a mais nume- rosa que se encontra na China. Teve seu princípio com a oca- sião de, indo um cristão, chamado Pedro, para ser mandarim naquela província, levar consigo o padre Giúlio Alessi, para ficar seguro sob a sua protecção e, ao mesmo tempo, para ver 3 77
PE. ÁLVARO SEMEDO a disposição daquela gente pela pregação evangélica, pois que, não tinham ainda ali aparecido os nossos e, posto que, por então, não fosse possível aperfeiçoar a casa, ficaram, po- rém, as coisas dispostas de forma a virem a ser depois melho- radas com maior facilidade, como direi. Em Macau foi particular o sentimento do sucesso das perseguições e tribulações, tendo chegado quatro padres, que foram presos nas duas cortes, para os colégios dessa cidade, mas o sentimento dos sofrimentos acendeu neles ainda mais o desejo de entrarem, outra vez, no país, para ajudarem os seus irmãos, que ficaram no interior, expostos aos padeci- mentos e fadigas, na pregação da Fé e, assim, não obstante todo aquele rigor, não cessaram de tentar, por uma via ou outra, de entrarem, novamente. A única dificuldade era o facto de os quatro expulsos, nomeadamente exilados, serem bem conhecidos. Foi, portanto, necessário que adiassem a entrada por mais algum tempo. Entretanto, o Senhor chamou a si os padres de Pekim, o padre Giacomo Pantoja e o padre Sebastiano de Ursis que, por serem mais antigos nas tribula- ções, foram assim, antecipadamente, premiados. Aos dois de Nankim era mais perigosa a entrada, por o seu bando ter sido mais público e por o mesmo ter corrido por vários tribunais e províncias, nessa perseguição. Todavia, o padre Álvaro Semedo, como estivesse menos tempo e fosse menos conhe- cido, três anos depois, mudou o nome e o cognome (que adoptamos à chinesa), regressou ao interior e, dois anos de- pois, fez o mesmo, o padre Vagnone, que vive hoje na corte de Xansi, já bem velho, trabalhando, porém, como um jovem. Desta forma caminhavam as coisas dessa cristandade, procedendo-se com cautela, e trabalhando-se juntos em to- dos os lugares, parte sob a sombra dos cristãos importantes, parte sob a protecção dos gentios amigos e, assim, se iam fo- mentando as igrejas antigas e aumentando as novas, quando se levantou, em Nankim, a segunda tempestade que, posto que não fosse tão grande como a primeira, para que não che- gasse aos ouvidos do rei, foi, no entanto, mais dificultosa e deu muito que pensar. 378
CAPÍTULO XI Da segunda perseguição de Nankim e do martírio de um cristão chamado André Parecia já que as coisas da cristandade se iam abonançando e procedia-se quase com liberdade e muito fru- to. Somente, na cidade de Nankim, por ter ficado insatisfeita com a passada perseguição, havia sempre, mais ou menos, alguma dificuldade, segundo as circunstâncias, porém, não muitas, quando, no ano de 1622, na província de Xantum, se amotinou uma certa gente de uma seita, que se chama Pa Lien Kiao,1 da qual falarei, no devido lugar. Assaltaram e capturaram os barcos de víveres que seguiam para Pekim e que passavam por aquela província como depois, também, alguns lugares e, por fim, uma cidade com morte de muita gente. Isto deu que pensar às províncias vizinhas e, em particular, à corte e, assim, os mandarins enviaram, imediatamente, ordens para todo o rei- no, para que se fizessem todas as diligências para prender, e castigar a gente dessa seita. Nas províncias mais remotas não se fez muito caso, mas na de Nankim, confinante com Xantum, puseram grandes prémios para quem revelasse algum da seita. Aconteceu, nesse tempo, que certos esbirros molesta- vam um vizinho dum cristão que querendo ajudar este, por 1 SI!# Pák Lin Káu. 379
PE. Alvaro semedo não haver razão no agravo, atraiu atrás de si aquela canalha que, seguiu-o, com furor e raiva, até à casa, e, tendo eles en- contrado nela uma cruz e a imagem do Salvador, levaram- -nas consigo para as mostrar ao mandarim, acusando esse cristão de sequaz da Lei do Senhor do Céu, que diziam ser a mesma que a Pa Lien Kiao. O mandarim mandou prender o cristão, submeteu-o a tormentos e perguntou-lhe acerca dos seus companheiros. O cristão nomeou, somente, o pintor que tinha feito a imagem, que era também cristão. Este, tendo sido preso e atormentado da mesma forma, ou fosse por igno- rância ou por lhe parecer que dava autoridade à lei que se- guia, declarou os nomes de muitos cristãos, nomeando uns quarenta e, entre eles, aqueles que eram chefes dos outros e que, na ausência dos padres, os reuniam nos oratórios e os incitavam à virtude. Com esta tão simples confissão, motivada por uma mali- ciosa acusação, mandou, prestamente, o mandarim prender os nomeados, parecendo que, nesse dia, andavam soltas, em Nankim, as fúrias do Inferno. O tumulto enchia as ruas de gritos,' do barulho das correntes e de perguntas: onde está a casa? onde se encontram? crescendo o furor, porque os mandarins os queriam de qualquer forma, e fazendo seme- lhantes alaridos. Em descobrindo algum, entravam-lhe em casa, apoderando-se dos rosários, cruzes, imagens e livros de doutrina, que todos costumam ter; maltratavam os presos, arrastando-os pela cabeça com cadeias ao pescoço e algemas nos braços, e os sinais da Fé de que se tinham apossado, levan- do-os pelas ruas com grande algazarra e gritos de pertencerem à seita de Pa Lien Kiao. Chegaram os presos ao número de 34, além dos dois primeiros, sendo todos imediatamente submeti- dos aos tormentos da compressão das mãos e dos pés, a fim de revelarem os seus companheiros. Mas estes, por terem sido avi- sados da ignorância dos dois primeiros, só disseram que eram cristãos eles, as suas mulheres e os filhos, e que seguiam a Lei do verdadeiro Deus, o único que podia dar prémio e castigo nesta e noutra vida, não pertencendo à lei de Pa Lien Kiao, com a qual não tinha qualquer semelhança, e mais não disseram. Entre os presos estava um cristão chamado João Yao, que fora encarcerado, como dissemos atrás, com os padres, 380
NA QUAL SE TRATA DA CRISTANDADE DA CHINA na outra perseguição de Xin, e, às vezes bastonado nos tribu- nais, acabando por ser condenado escravo do rei durante al- guns anos (o que é como estar nas galés). Tendo já regressado daquela servidão, procedia com exemplos de santa vida, que sempre os deu naquela cidade. Sabendo ele que estavam pre- sos alguns cristãos e que o procuravam, não esperou que o buscassem. Apresentou-se ele mesmo ao mandarim e, pon- do-se de joelhos, à vista dos atormentados cristãos, declarou- lhe que era cristão e que a Lei de Cristo era a verdadeira e outras coisas semelhantes que o Senhor lhe ditava. Ouviu-o o mandarim e disse-lhe, não se sabe com que intenção: "Não vejo em si nem modos nem aparência de pregador da Lei. Vá- -se embora e não apareça mais diante de mim". João levan- tou-se e saiu, deixando um insigne testemunho da Lei Divi- na, ficando os chineses espantados com tão grande coragem. Fez o mandarim uma outra coisa .semelhante, sem se saberem o fim e o motivo que o levaram. Dos 36 presos e atormentados, escolheram-se 24, que mandou embora, e aos restantes, que reuniam os cristãos e lhes pregavam, mandou que se apresentassem a seis tribunais superiores, onde foram todos bastonados, uns nuns e outros noutros, sendo o pior tribunal o de um eunuco que, por ser extremamente cruel, sem se importar com o facto de eles já terem sido atormenta- dos e bastonados por outros mandarins, ordenou que descar- regassem, sobre cada um, vinte golpes, com os quais os bons cristãos ficaram em tal estado, que foi necessário conduzi-los à prisão, transportados em tábuas. Não procedeu, assim, o Quecum (este é como um duque), ao qual foram apresentados, pois que, vendo-os tão maltratados, quer devido aos tormentos quer às bastonadas, não somente os não flagelou como, condoendo-se, disse, publicamente, que es- tava bem informado da lei que seguiam, a qual era boa e verda- deira e, assim, com boas palavras, os despediu, dando àqueles gentios um claro testemunho da nossa Santa Fé, que aqueles cristãos demonstraram com o seu próprio sangue. Enquanto efectuavam estas acções, o mandarim princi- pal dos seis, ao qual foram apresentados os prisioneiros, pas- sou sentença contra ele que, fielmente traduzida do chinês, diz o seguinte: 381
PE. ÁLVARO SEMEDO A Lei do Senhor do Céu é falsa, obscurece os homens e obri- ga a efectuarem-se reuniões conjuntas. Já no ano passado foi sub- metido contra ela um memorial ao rei que, severamente, a proi- biu. Acontece, agora, que aqueles que a seguem não obedecem tal provisão, motivo por que, segundo as leis do reino, convém levantar-lhes devassa e castigá-los gravemente. Porém, conside- rando que são homens de pouco saber, condeno os forasteiros de outras terras, que sejam conduzidos com guardas para elas e a todos se há-de dar do tesouro real o necessário para a viagem, e os naturais desta corte, que tragam, durante um mês, a tábua ao pescoço (espécie de castigo já referido atrás) findo o que se lhes advertirá para observarem as ordens do rei e a não seguirem mais essa Lei. Os livros dos cristãos, as imagens e coisas semelhantes serão arrecadados no tesouro real. Até aqui a sentença. Os padres de nada sabiam desta sentença de Nankim. Um cristão, enviado por posta, para isso, quando chegou a Hamcheu, que dista seis jornadas por terra dessa corte, deu aviso do estado de perigo em que se encontrava aquela cris- tandade. Encontrava-se então, em Hamcheu, o padre Rocha, superior da missão, que tratou, imediatamente, do remédio, falando com o doutor Miguel e escrevendo para o doutor Paulo, a fim de, com cartas suas, levarem os mandarins de Nankim a protegerem os cristãos. Fizeram isso, calorosamen- te, e, em particular, o doutor Paulo, citando nas suas cartas catorze coisas principais da nossa Santa Lei que diferem da seita de Pa Lie Kiao. Não tiveram as cartas o efeito que se esperava, pois, alguns mandarins eram absolutamente adver- sos, por obra de Xin, que, por ser nessa ocasião colau, procu- ravam todos agradar-lhe, para o tornarem benévolo para com eles. Isto se viu pelas respostas, que não costumam ser assim, provindo de mandarins tão sérios como eram aqueles cris- tãos. Dizia a resposta ao doutor Paulo que a Lei que este afir- mava ser diferente da de Pa Lien Kiao, não o era, sendo antes a mesma, pois ambas professam não obedecer o rei nem os seus ministros, como se via, claramente, porquanto os pa- dres, tendo sido postos fora do reino, por ordem do rei, conti- nuavam a permanecer nele e outras coisas nesse tom, que demonstravam, claramente, terem sido outras as pessoas que fizeram a resposta e o motivo por que a fizeram. 382
NA QUAL SE TRATA DA CRISTANDADE DA CHINA A esta resposta de fraco gosto acrescentou-se outra coisa de maior perigo (pois que na China, mesmo em tempo de bonança é sempre necessário proceder com muita reserva). Foi um aviso para o doutor Paulo de que, na mesma cidade de Nankim, não muitos dias antes, dois mandarins submete- ram um memorial ao rei contra a Lei de Cristo, os chineses que a seguiam e os padres que a pregavam, mencionando o facto de o doutor Miguel ser cristão e ter padres em sua casa, acusando ainda outros que os tinham, mas sem os nomear, se bem que se percebia que se referiam ao doutor Paulo. Esta notícia era de muita importância, pois, por o assun- to ser presente ao rei, é sempre perigoso; ou esfola ou depena. O doutor Paulo escreveu, imediatamente, aos padres, para que, onde quer que estivessem se tratassem de se retirar e cessassem, totalmente, qualquer trato com quem quer que fosse, mesmo que parecesse de confiança, e dessem lugar ao tempo, como então convinha. O doutor Miguel era de parecer contrário, pelo menos não quis que os da sua casa se escon- dessem. O filho do doutor Ignácio era ainda de parecer que os padres da cidade de Kiatim se deixassem escondidos da for- ma como se encontravam, para que, no caso de suceder qual- quer coisa adversa, não ficarem em tal aperto que não pudes- sem refugiar-se, tendo, particularmente, por amigos, os mandarins da cidade. Era este jovem de pouca idade e o seu pai que estava, então, na corte, apreciou muito esta sua opinião. Julgou-se, porém, mais conveniente que os padres deviam partir, para que não parecesse, depois, que aqueles que não pudessem esconder-se, andavam fugindo da justiça. A dificuldade, po- rém, foi de encontrar sítio secreto, além daqueles onde se encontravam e que pertenciam todos a pessoas de confiança, pois, em lugares povoados, era impossível conservar-se es- condidos, sendo necessário procurar os desertos, que são ra- ros na China, por ser muito populosa, não sendo, por isso, fácil. Seja como for, decidida a coisa, saímos todos do sítio, onde residíamos, dirigindo-se uns para umas propriedades desses cristãos e outros para os locais de sepulturas doutros, com aviso de que, vindo provisão real pouco favorável, pro- curassem barco para andarem pelos rios, o que, se bem que 383
PE. ÁLVARO SEMEDO não podiam ficar em lugar fixo, sempre era mais seguro, até que Deus Nosso Senhor os encaminhasse por melhor via. Nesse tempo, o doutor Paulo tinha, propositadamente, um homem, na cidade de Sucheu, onde residia o vice-rei da província de Nankim, não podendo habitar na própria cida- de, por ser corte como a de Pekim, para que, em chegando a provisão do rei, desse imediatamente aviso, o que, segundo o costume do país, podia tardar muitos dias. Esperaram, entretanto, durante dois meses e meio, com muito incómodo para os padres, porquanto as coisas feitas nas vilas e cidade e que poderiam obter com facilidade, pas- saram a ficar-lhes distanciadas, por terem de andar escondi- dos. Não obtiveram, igualmente, resposta alguma, o que os levou a várias conjecturas, parecendo ser a melhor a possibi- lidade de os memoriais contra a Santa Fé terem sido envia- dos com ordens para serem primeiramente registados por Xin, por motivo de quem se faziam, tendo este, entretanto, sido demitido. Quando chegaram os memoriais, como este não podia agir, foram postergados, sem merecer resposta, porque se houvesse, despachando o rei ou não, de qualquer forma haveriam de ter conhecimento. Terminou, assim, a borrasca que, na verdade, ameaçara grandes perigos, voltan- do-se o efeito dela (se bem que por outros motivos) sobre Xin, sendo certíssimo que, na ocasião em que andava a acusar a Lei de Cristo, e seguia da corte do sul para a do norte, lhe tirou o rei o cargo de colau, por, há mais de seis meses, terem os mandarins de Pekim feito memoriais contra ele, sem que jamais pudesse livrar-se. Parecia, assim, que o Senhor tinha causado a queda desse tirano, numa ocasião, em que ele po- dia fazer maior mal, querendo com isso mostrar quando deví- amos confiar nele em acontecimentos semelhantes. Achando, então, os nossos doutores que, uma vez que os memoriais não foram entregues, já não viriam a ser nunca mais, regressaram todos os padres às suas antigas residênci- as, se bem que com mais recato e cautela e com menos reuni- ões, tanto mais, porque não tinham ainda recebido boas no- vas dos que se encontravam em Nankim, antes pelo contrá- rio, foram publicados, novamente, éditos contra a Lei Cristã, notícia esta que, se causou grande desgosto aos padres, tive- 384
NA QUAL SE TRATA DA CRISTANDADE DA CHINA ram eles, no entanto, grande satisfação com a relação do mar- tírio dum cristão chamado André, cuja vida e obras se pode- ria dizer muita coisa, em particular, da coragem e constância com que suportou todos os tormentos que lhe infligiram, sen- do isso muito de admirar que viesse a acontecer com um chi- nês, pois são os naturais da China de natureza muito tímidos e cobardes. Verificou-se, por experiência, que, até então, os cristãos chineses, em todas as ocasiões das perseguições e tribulações se mantiveram sempre firmes na Fé, e que, por graça do Senhor, não têm eles faltado ao martírio mas o mar- tírio lhes tem faltado, como se viu nos de Nankim e se provou neste bom cristão. Era André natural da província de Kiamsi, donde, de- pois de ter vivido muitos anos nela, se passou para a de Nankim. Tendo tido notícia da nossa Santa Lei, procurou os padres e, fazendo bom conceito da nossa Fé, pediu o sacro baptismo, chamando-se André. Poucos dias depois, igual- mente, o recebeu toda a sua família pela mão do padre Rocha que era, então, ali superior. Depois do baptismo, André foi exemplo para os restantes fiéis, esforçando-se por transmitir o bem que tinha recebido a outrem, não perdendo ocasião de se oferecer para ensinar e atrair outras pessoas, o que conse- guiu com muito fruto, baptizando-se muitas a seu conselho. Era muito devoto da Santíssima Virgem, mostrando-se o mais fervoroso de uma confraria que era dedicada à Nossa Senhora, na nossa igreja, antes da perseguição de Nankim e, depois que os padres foram dispersos, fez um oratório na sua casa para honrar a Santíssima Mãe, onde congregava os cris- tãos e os exortava à devoção e observância da nossa Santa Lei. Na ocasião em que os padres estiveram encarcerados e os outros cristãos divididos por cinco cárceres, ele, sem se im- portar com o perigo a que se expunha, tomou o encargo de os servir, visitar e consolar, ajudando-os com as suas esmolas e, muito em particular, aos padres. Não contentando-se com fazer, ele sozinho, estes ofícios de caridade, empregou nos mesmos um pequeno filho, para que os padres pudessem ser servidos com mais precisão nas suas coisas. Procedeu, assim, ainda depois do nosso regresso, dando a sua casa para habita- ção dos nossos, quando andávamos a visitar aquela cristan- 385
PE. ÁLVARO SEMEDO dade e para enfermaria dos doentes, servindo a todos com grande caridade. Por estas e outras boas obras quis o Senhor recompensá-lo, fazendo-o morrer, por seu amor, na segunda perseguição. Padeceu o bom velho todos os tormentos e bastonadas já referidos atrás e como as últimas, além de te- rem sido muito cruéis, foram dadas sobre as outras recebidas em vários tribunais, se bem que os cristãos mais idosos não sofreram grande dano, ele que era velho, posto que no ânimo fosse fortíssimo, mas, no corpo, muito débil, em breve, mor- reu, porém, deixando aquela cristandade muito edificada com os seus bons exemplos e muito aflita com a sua perda, porque o tinham todos, em lugar do padre, e, na ausência dos nossos, em lugar de mestre. Foi sepulto, decentemente, em túmulo particular, para a seu tempo se fazerem as devidas diligências e honras. 386
CAPÍTULO XII Abonançaram-se as coisas e os padres são chamados para regressarem à corte por ordem dos mandarins Chegaram, entretanto, de Nankim, melhores novas e, assim, os padres enviaram um homem com cartas suas e dos nossos doutores para consolar os cristãos naqueles tra- balhos, se bem que, tendo-os Nosso Senhor conservado tão contentes e animados, os nosso estavam seguros de não ser necessário tal obséquio para com eles. Regressou o mensa- geiro, confirmando as novas que já corriam e afirmando que tudo estava sossegado. O mesmo escreviam os cristãos, pois que os mandarins, vendo que a trama não resultava, que os memoriais não foram apresentados em De Pekim, e que Xin tinha sido demitido do seu cargo, mudaram, subi- tamente, de atitude, pondo em liberdade os cristãos e mo- derando, ainda, as penas que lhes foram impostas. Fica- ram, somente, encarcerados três de Chincheo, que, de dia a dia, esperavam ser enviados para a sua província, que foi o que se fez. De Pekim escrevia, igualmente, o padre ali es- condido, que tudo quanto pertencia a Nankim já estava res- taurado naquela corte, tendo as coisas ficado tão mudadas com a partida de Xin, que os amigos o aconselhavam a tra- tar com os mandarins cristãos e os amigos gentios, para buscar maneira de poder sair em público e de ser nova- mente, introduzido. 387
PE. Alvaro semedo Enfim, tinha, nesse tempo, transcorrido seis ou sete anos, desde a primeira perseguição de Nankim. Não era, ago- ra, pequena aquela que os chineses estavam padecendo, por parte dos tártaros, com grandes derrotas e perdas não só de gente mas de vários lugares da província de Leaotum, e às quais mal podiam remediar. Os padres procuravam, entre- tanto, alguma forma de poderem aparecer e introduzir-se, descobertamente, no reino, como haviam escrito em Pekim. Mas, como a proibição fora dada por sentença do rei, era as- sunto muito difícil. Resolveram, porém, os nossos cristãos e os doutores amigos redigir um memorial, aproveitando-se da ocasião da guerra com os tártaros e da penúria em que viviam os chineses, para o apresentar ao rei, exagerando, em primei- ro lugar, os infortúnios da guerra, a mortalidade e os danos causados, a perda de terras e cidades, sem que, durante tanto tempo, tivesse sido encontrado qualquer remédio, depois de tantas despesas excessivas e tão grande perda de gente. Em segundo lugar, exageraram o erro cometido de expulsar os padres europeus, porque, além de serem homens virtuosos, letrados de grandes recursos, eram, sobretudo, grandes mate- máticos, não sendo possível que não conhecessem qualquer invento que pudesse auxiliar em tal aperto da guerra e que, se estivessem na corte como dantes, talvez as coisas correri- am doutra forma, existindo talvez a possibilidade de que nem todos tivessem ainda partido, por não ser coisa fácil que tantos pudessem, por vias tão estreitas, encaminhar-se para fora de todo o reino; que sua majestade devia ordenar que se fizessem, no reino, todas as diligências para ver se poderia encontrar algum deles e enviá-lo à corte, para servir nas pre- sentes necessidades da guerra. Os padres opuseram-se, entretanto, muito a que se ser- vissem de um tal pretexto para os reintegrar, pois nada sabi- am de guerra, nem de armas, nem de semelhantes profissões, não lhes parecendo conveniente que fossem propostos sob tal título. A isso respondeu como entendeu o doutor Leão, que foi um dos principais personagens desta tragédia: "Pa- dres, não vos amofineis com isso, porque esse título de armas não servirá mais que a agulha ao alfaiate. Depois de este ter introduzido a linha para cozer, e de o fato ter ficado pronto, a 388
NA QUAL SE TRATA DA CRISTANDADE DA CHINA agulha é posta de parte. Entraram Vossas Reverências, uma vez, por ordem do rei. Que as armas para combater se trans- formem, somente, em penas para escrever". Finalmente, ela- borou-se muito bem o memorial, sabendo eles fazê-lo, exce- lentemente, a seu modo. Entregaram-no, na chancelaria dos memoriais, trabalhando os amigos, de maneira que o fizeram transitar e chegar às mãos do rei, com tão bom êxito, que este, logo o despachou, favoravelmente, remetendo-o para o Con- selho de Guerra. Este não só se pronunciou a favor do desíg- nio como acrescentou que lhe parecia que os padres, por via de matemática, tinham encantado os tártaros de forma a não poderem manejar as armas para causar danos. Deram então, imediatamente ordens, para que os padres fossem procura- dos com toda a diligência, não havendo, porém, muita neces- sidade de tal, para os encontrar, porque aqueles que os bus- cavam sabiam muito bem, onde é que eles estavam. Foi logo avisado desta provisão régia o padre Rocha, su- perior, então residente nas partes do sul e em como convi- nha enviar dois padres para essa corte. Não se pode calcular quanta festa se fez por tal aviso, tanto os padres como os cris- tãos, vendo ser este o caminho mais certo para os padres re- gressarem, publicamente, ao reino, para pregarem a nossa Santa Lei, com a liberdade que gozavam anteriormente. Foram nomeados para a empresa os padres Nícolo Longobardo e Manuel Dias que, tendo posto em ordem as suas coisas, partiram para Pekim, onde entraram publica- mente. Como muitos anos se passaram sem se verem naquela cidade barbas europeias, era infinita a gente que acorria para os ver sem poder passar. Apresentaram-se ao Tribunal de Guerra, tendo os mandarins deste tribunal o cuidado de os procurar. Foram recebidos com toda a espécie de afagos e amabilidades e ofereceram-lhes casas e todo o necessário. Os padres não quiseram aceitar, desculpando-se não terem ain- da merecido nada para receber tais ofertas, mas renderam rasgados agradecimentos, e disseram que as aceitariam em devido tempo, sendo motivo da sua recusa, em parte, para não constituírem encargo e, em parte, para estarem livres e com menos insistências para serem empregados nas coisas da guerra, sob cujo título foram chamados. Quanto às casas, 389
PE. Alvaro semedo pareceu bem aos cristãos que voltassem para as antigas, onde, anteriormente, residiram, durante tantos anos, sendo ainda conhecidos e amados pelos vizinhos, além de que dari- am assim a entender, mais claramente, a pouca razão, pela qual tinham sido expulsos e se adquiria a igreja que estava ali, que fora, propositadamente, comprada por um cristão. Havia, somente, necessidade de muitas reparações, porque sendo na China as construções feitas principalmente de ma- deira não são tão fortes e tão duráveis como as nossas, sofren- do facilmente danos. Chamou a si as despesas da restauração o doutor Ignácio que, então vivia na corte, o qual acomodou excelente e particularmente a igreja e, dispostas todas as coi- sas em ordem, passaram os nossos a habitar onde hoje ainda residem, sem que mais lhes falassem em guerra, tártaros ou armas. Ajustadas as coisas da corte e vivendo os padres às cla- ras nas suas antigas casas, começaram a caminhar os exercí- cios como anteriormente. Cultivavam-se os cristãos, prega- vam-se aos gentios, acorriam os hospedeiros e os magistra- dos, e os amigos apareciam com familiaridade, tudo sem di- ferença dos tempos passados, com a excepção da ordinária precaução, sempre necessária nesse reino. Ora, existindo tal segurança e liberdade na corte, com aprovação pública tra- tou-se, imediatamente, de comunicar a outras casas, onde residiam os restantes padres. Assim, pouco a pouco, foram aumentando as práticas e as pregações, admitindo-se mais gente e, sem se dar por isso, nos encontramos todos, nos anos 1628 e 29, onde estávamos, com as portas abertas, tratando das conversões como anteriormente sem que pessoa alguma se opusesse, se bem que houvesse necessidade de ter como amigos algumas autoridades do próprio local. Com os passos com que ia aumentando esta liberdade, foi-se dilatando, igualmente, a Santa Fé por várias partes, instituindo-se novas residências com casa, igreja e padres que ali residiam. Fizeram-se duas, na província de Fukien, tanto uma como a outra muito numerosas de cristãos, além de muitos oratórios que havia nessa mesma província. Na de Xangai, fez-se uma e na de Xansi, outra, como ainda uma outra na de Honan, que hoje floresce com copiosa cristanda- 390
NA QUAL SE TRATA DA CRISTANDADE DA CHINA de. À minha partida principiava-se uma outra* que hoje se encontra já feita, com igreja e cristãos, e tratava-se de mandar padres para lá residir. Como se tratará mais adiante de todas em particular, não falarei mais disso, agora. Regressaram os padres às antigas casas, que antes da perseguição eram cinco, restauraram-nas e melhoraram-nas. A de Pekim, com acomodamento de casa e igreja, como já disse, tinha três padres e um irmão, com aumento de cristan- dade. A de Hamcheu tinha casa e igreja novas e mais desafo- gos que anteriormente, sendo isso muito necessário, devido ao grande número de cristãos velhos e de novos que se iam fazendo. A de Kiamsi tem, igualmente, igreja e casa novas, na rua e bairro mais públicos da cidade. A de Cantão foi abando- nada, não somente porque não podia continuar como as ou- tras mas por parecer melhor deixar este posto tão tempestuo- so e escolher, em seu lugar, um outro mais seguro e de maior proveito, sendo, porém, essa cristandade visitada, todos os anos, com diligência. Na casa de Nankim, eis o que se passou. Os cristãos des- sa igreja não podiam suportar que, tendo sido eles os primei- ros nas tribulações e os que mais sofreram com elas, fossem os últimos nos favores, mas não somente últimos, porquanto, estando as outras casas já bem providas de padres, só falta- vam nas suas. Os padres também desejavam o mesmo e, por isso, os visitavam com mais frequência. Fazer, porém, casa pública e exposta era coisa difícil porque suceder-se-iam as perseguições. Seja como for superaram-se todas as dificulda- des e fez-se a residência, se bem que mais tarde, devendo-se ao doutor Paulo que, para fazer sempre bem, fê-la depois da morte, da seguinte forma: Os padres não tinham outra esperança neste assunto, senão a oportunidade de vir governar a cidade um mandarim cristão e amigo, sob cuja protecção pudessem ir introduzin- do-se com maior facilidade e segurança. Aconteceu, nessa ocasião, ser Presidente do Conselho de Guerra um discípulo do doutor Paulo que, por andar vigilante neste assunto, aju- dou, imediatamente, os padres, visto ser esta uma boa opor- tunidade para aquilo que desejavam, tanto mais que era aquele mandarim de grande autoridade e, por ter sido seu 391
PE. ÁLVARO SEMEDO discípulo, haveria de satisfazer o que se lhe pedisse. Agradou aos padres a proposta e como desejavam enviar uma pessoa prática, por ser uma praça tão importante e perigosa, demora- ram alguns dias na execução, sendo necessário levar o padre para qualquer outro lugar que restasse desocupado. Entre- tanto, adoeceu o doutor Paulo, que exercia, o cargo de colau na corte e, não obstante estar muito doente, escreveu e en- viou cartas ao mandarim. Tendo-se-lhe agravado a enfermi- dade, quando a carta chegou a Nankim, o bom Paulo já tinha partido para melhor vida. O mandarim recebeu, porém, a car- ta que o padre lhe entregara com certa dúvida, não como dum amigo já morto mas como do mestre ainda vivo. Rece- beu, igualmente, o padre com todas as demonstrações de be- nevolência e cortesia. Com os seus favores e ordens, toma- ram-se as casas e os outros mandarins, ao verem como ele tratava o padre, para lhe serem agradável (que todos se esfor- çam para comprazer os grandes), favoreceram, também, o pa- dre, não somente com a sua autoridade e frequentes visitas mas ainda com dinheiro, para auxiliar a compra de casas. Desta ma- neira ficou aquela igreja muito bem provida, os cristãos conso- lados e, hoje, vai aumentando com grande progresso. Já nesse tempo, que era cerca do ano 1632, caminhavam as coisas da cristandade com sucessos muito diferentes dos tempos atrás, parecendo que a borrasca passada nada fez se- não arrebatar a pequena barca daquela igreja a maior altura não somente no número dos baptizados, o qual sem compa- ração alguma aumentava muito, todos os anos, como ainda na paz, sossego e liberdade com que se pregava, encontran- do-se espalhada por todo o reino a notícia universal da nossa Santa Fé, a ponto de parecer não existir nele lugar, aonde, ou pelos livros compostos sobre tal assunto ou pelo conheci- mento dos cristãos ou pelas informações dos próprios genti- os, lá não tivesse chegado, mas não somente ao interior do reino, onde de ordinário se aplicam os padres, mas até às par- tes mais remotas dele. Aduzirei alguns exemplos que de- monstram isso, claramente. Vinham, às vezes, para a cidade de Macau, habitada pe- los portugueses, dos confins da China, mandarins cristãos, para tratarem de assuntos públicos, onde se davam a conhe- 392
NA QUAL SE TRATA DA CRISTANDADE DA CHINA cer, publicamente, que eram não somente cristãos mas como até muito bem instruídos, portando-se com tanta edificação e bondade de vida, nos exercícios e na virtude cristã, que edificaram todo aquele povo e poderiam servir de exemplo a cristãos muito antigos. No ano de 1631, indo os navios dos portugueses de Ma- cau para Japão, como costumam todos os anos, na altura da província de Fukien, na China, voltou-se um barco e, tendo- se afogado muita gente, somente doze pessoas se salvaram, milagrosamente, num batel, por o acontecimento ter ocorri- do em noite obscuríssima, sendo bravíssima a fúria do mar e do vento. Procurando terra, depois de muitos sofrimentos e sem agulha de marear e cartas de navegação, tocaram em ter- ra, na referida província. Apareceu, imediatamente, gente aos pobres náufragos, que necessitavam mais de socorros e fatos do que de serem examinados, mas, como era costume, naquele tempo, não socorrer, nesta costa, os holandeses, de quem os chineses formavam péssimo conceito, puseram-nos na prisão, onde, tanto por serem estrangeiros como por serem julgados inimigos, sofreram extraordinárias privações. Mui- ta gente ía vê-los, somente, por serem estrangeiros, pois como estes não são admitidos no país, era coisa rara entre eles. Encontravam-se ali também cristãos (e é isto que desejo salientar) que, com a igual curiosidade dos outros, foram vê- los e, notando que traziam rosários com cruzes e os recita- vam, verificaram, que eram da mesma religião. Fizeram, en- tão, diligências, e, uma vez, que se certificaram serem eles cristãos, não obstante existir a proibição de os tratar amiga- velmente, a caridade, que é engenhosa, forneceu-lhes meios de os poder ajudar e prover com tudo que podiam. Para os socorrer com fatos, usaram deste estratagema: entrava um no cárcere (como já dissemos, quem visita os prisioneiros pode lá entrar) com um fato vestido sobre o outro. Uma vez entra- do desta forma e com esta habilidade, deixava o que trazia vestido por baixo para o dar, e saía somente com o seu, sem sinal do que fizera. Com muita caridade socorreram eles aquela pobre gente. Estando eu, na província de Kiamsi, em Nancham, sua metrópole, onde tínhamos casa e igreja, chegou ali um cris- 393
PE. Alvaro semedo tão duma outra cidade. Tratou das coisas divinas e respeitantes à sua consciência e, como raras vezes podia fa- zer isso, pois, habitava muito longe, se deteve ali, proposita- damente. Feita, pois, a confissão geral e completamente sa- tisfeito, dispôs-se a regressar. Disse-lhe, então, que fizesse diligências, na sua cidade, junto dos parentes, amigos, vizi- nhos e outras pessoas, respeitantes às coisas da nossa Santa Fé e que se encontrasse neles alguma disposição que me avi- sasse. Assim fez ele e, um mês depois, avisou-me para que eu fosse, por ser ocasião de lançar a rede. Lá fui e não existindo ali casa capaz de receber hóspedes e conversar com eles como convinha, acomodei-me em certa construção, que os chineses chamam zutham,' sendo de famílias, onde, algumas vezes ao ano, se reúnem para tratarem das suas coisas e do modo de viver de alguns pais e ali os repreendem, castigam, dão ordens, etc.. Tais pavilhões estão geralmente desocupa- dos; só lá estavam algumas pessoas que não tinham cuida- dos. Morava na vizinhança um mandarim que, sabendo da minha chegada e que eu era estrangeiro, tratou, creio que por curiosidade, de vir visitar-me imediatamente. Mas como em tais visitas não perdemos ocasião de falar na Santa Fé, entrei em tal matéria, mas ele saiu-se com perguntas extravagantes. Como as respostas lhe não agradaram muito, despediu-se, cortesmente, e foi acusar-me ao segundo governador da cida- de, dizendo-lhe, que ali se encontrava um forasteiro e que os tempos eram perigosos tanto mais que ensinava uma nova Lei contrária à deles e prejudicial ao reino; que, portanto, devia Sua Senhoria fazer diligência e procurar remédio. Me- nos do que isso bastava para me prenderem se o mandarim não tivesse procedido com cautela. Mandou, porém, gente. Entraram no pavilhão, onde me encontrava com 30 ou 40 homens, alguns enviados, outros que lá foram para me ver, juntamente com o tifam da rua, que é obrigado a dar conta do que se passa nela, com ordens para eu comparecer diante do governador. Nessa conjuntura apareceu o cristão que me ti- nha convidado, homem letrado e de grande estima na cidade 1 tch'i-t'óng (tchi'i-t'óng, templo ancestral.) 394
NA QUAL SE TRATA DA CRISTANDADE DA CHINA e, levando-me pela mão, ele mesmo deu conta ao governador, encontrando-se, também, ali, o mandarim que me tinha acu- sado. Disse o cristão ao mandarim que eu residia na metrópo- le e tinha amizade com o vice-rei da província e com outros mandarins importantes (o que era bem verdade) e que aquilo que ensinava em todos os lugares, mesmo na corte, onde também tinha companheiros, o fazia, claramente, como todo o mundo sabia, bem como os mandarins da metrópole. O governador, ouvindo esta fala de um mandarim tão categorizado, não quis causar embaraços com quaisquer per- guntas, remetendo o caso para o primeiro governador que encontrámos no tribunal. Adiantou-se o tifam para dar conta do caso. Como o governador nada soubesse do sucedido, não percebia bem. Entrou, então, o cristão e contou como o caso se passou, na presença de infinita gente que se encontrava no tribunal. Um jovem que estava próximo, ouvindo falar da Lei de Deus entre os dois, adiantou-se e persignou-se, muito bem, em chinês. Perguntaram ao jovem se era cristão: "Não — respondeu — mas tenho um amigo cristão que já me ensi- nou o sinal da Cruz e outras orações". O governador, assim que ouviu falar em Thien Chu Kiaox, isto é, a Lei do Senhor do Céu, disse: "Há muitas pessoas na minha terra que seguem esta lei e ela é muito boa. Ora, que quer o padre?" Respondeu o cristão: "Senhor, nada mais que dar as suas razões contra as que imputou Hioquen (era este o nome do mandarim que me acusou), vizinho do lugar onde habita". Respondeu, então, o governador: "Diga ao padre que não tem bom vizinho e que busque outro". Acrescentou o cristão: "Já que Vossa Senhoria ordena que ele mude de pousada, mande, também, que lhe seja dada casa, onde possa morar durante os dias da sua per- manência nesta terra". Agradou-lhe o conselho e deu logo ordens para que me fossem dado quartos num palácio e neles residi, durante todo o tempo que lá passei. Assim, querendo aquele expulsar-me do alojamento, deu motivo para que me fosse dado um melhor. 1 T'in-Tchú Kau (Tien-Tchu Tchau). 395
PE. ÁLVARO SEMEDO Da cidade de Macau navegava um patacho de portugue- ses para Manila1 que, infelizmente, deu em seco em Pulosisi e, tendo adornado, se salvaram apenas 40 pessoas num batel. Dirigiram-se para a terra mais vizinha e, dias depois, aportaram à ilha de Hainan, distante da terra firme da China, na província de Cantão, da parte do poente, pouco, e de Ma- cau, dois dias de bom vento. Assim que puseram pés em terra foram presos, segundo o costume daquela ilha, com algazarra pouco a propósito para aqueles infelizes náufragos. Encon- travam-se naquela ilha cristãos, que deram a sua ajuda, entre outros, um mandarim, chamado Ignácio, que, desde há mui- to tempo, era cristão com toda a sua casa, sendo muito bom e devoto, como eu o conheci em Nankim. Quis Deus que, para remédio daqueles pobres portugueses, governasse ele, então, aquela ilha. Inteirado do que se passava acerca daqueles pri- sioneiros, com receio do que pôderia acontecer, chamou o caso para o seu tribunal. Vieram, então, os presos à sua pre- sença e, por saber que eram cristãos, não somente se compa- deceu deles como ordenou, imediatamente, que os pusessem em liberdade e os fez ficar no seu palácio. Não se pode rela- tar, facilmente, a caridade e a benevolência com que os tra- tou até se restabelecerem dos trabalhos por que passaram, conversando com eles com tanta familiaridade e tão cordial- mente e dando-lhes tal exemplo de virtude cristã com a sua pessoa que, depois, aqueles portugueses, em Macau e em muitas outras terras, tiveram muito que contar das suas vir- tudes e do seu modo de proceder, admirando ainda, da sua casa, sobretudo a diligência com a qual avisavam acerca dos dias, que eram de Junho, e dos de festa para que os observas- sem. E enquanto ali se demoraram servia-lhes ainda de paro- quiano. No dia de St.a Inês, que era aquele em que fora baptiza- da a sua mulher, que se chamava por este mesmo nome, fez assinaladas festas, primeiramente, a espiritual, na sua cape- la, onde todos recitaram as suas devoções e se recomendaram ao Senhor e, depois a corporal, dando um esplêndido e lauto 1 Rodrigo Ferreira. 396
NA QUAL SE TRATA DA CRISTANDADE DA CHINA banquete. Tendo-os demorado tanto tempo para que pudes- sem refazer-se dos trabalhos passados, deu-lhes, depois, bar- co e gente para regressarem a Macau. Poderia aduzir outros exemplos, que deixo por brevida- de. Bastam estes para provar o que disse atrás de que a nossa Santa Fé, ou por uma via ou por outra, se encontrava já espa- lhada por todo o reino da China. 397
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CAPÍTULO XIII Vida e morte do doutor Leão. Última conclusão • Tão obrigada está a cristandade chinesa à muita piedade e ajuda que o doutor Leão lhe deu sempre em todas as ocor- rências, que não posso acabar esta Relação, sem apresentar uma amostra da sua vida e morte, o qual servirá ainda de testemunho da muita religiosidade desses cristãos novos, deixando muitos outros acontecimentos e de santidade e ain- da de graças concedidas pelo Senhor, para as Cartas Anuais, às quais pertencem semelhantes coisas. Nasceu o doutor Leão, na cidade de Hamcheu, na pro- víncia de Chekiam e, terminados, com felicidade, os estudos, se transferiu para a corte de Pekim, onde conseguiu o grau de doutor desempenhando, primeiramente, o cargo que depois lhe fora cometido por aquele grau. Conheceu ali e tratou com o padre Matteo Ricci, como costumava também fazer a maior parte dos letrados e autoridades superiores, levados pela cu- riosidade de verem os homens da Europa. Era Leão de vivaz talento e avisadíssimo saber, o que o levou a internar-se mais na amizade e conversação do padre, atraído pela firmeza e novidade das nossas ciências e, em particular, de alguns ma- pas e coisas curiosas, a ponto de não poder apartar-se do seu lado. Conversando, ouvia, com as ciências humanas, a outra sapiência da Lei Divina e nela se encontrava tão prático que ajudava, ainda, o padre a emendar ou a compor, novamente, 399
PE. Alvaro semedo o catecismo, já feito alguns anos antes e que nesse tempo foi reimpresso. Descobria nisso muita conveniência e grande conformidade com a razão e concórdia das coisas entre elas mesmas e se bem que não lhes dava todo crédito, gostava, porém, muito, por ver as coisas bem ajustadas e ordenadas, costumando dizer bem frequentemente, que, na verdade, gostou de as ter reencontrado mais concordantes com a ra- zão. Continuou a ter esta afeição pelo padre, durante alguns anos, nos quais ajudou muito, com conselhos e autoridade, a fundação daquela casa e, na realidade, foi o primeiro que ani- mou o padre nessa empresa e o ajudou com dinheiro para comprar o terreno e construir a igreja. Foi, assim, procedendo com essas boas obras e ainda outras de jejum e penitência que fazem os gentios, dispondo- se de forma que o Senhor Deus lhe comunicou, finalmente, a luz divina, que lhe faltava. Conheceu com isso a verdade da nossa Santa Fé e pediu o sacro baptismo, que o padre Matteo não lhe quis conceder, por certo impedimento que havia en- tão, senão que, estando doente, em perigo de vida, foi obriga- do a baptizá-lo. Foi liberto da morte, que a todo o momento o ameaçava, por virtude do Sacramento da Extrema-Unção, como ele mesmo confessara, durante toda a sua vida ficando agradecido a Deus Bendito. Regressou depois a casa, onde, estando uma noite ocu- pado a destruir e queimar quantos ídolos lá se encontravam, entrou, para o visitar, o doutor Miguel, seu velho amigo, que era ainda pagão, muito devoto dos ídolos e observante das suas superstições e culto. Ficou atónito com o que via e não pôde deixar de reprovar aquele acto, mas da resposta ficou com vivo desejo de ouvir e compreender melhor a Lei de Cristo, que recebeu depois, assistindo-o como padrinho, no baptismo do próprio doutor Leão. Como nesse tempo apare- ciam em casa de Leão os padres Lazzaro Cataneo e Nicolo Trigault, que discutiam com o doutor Miguel, este levou-os para uma sua propriedade, onde ia estar, frequentemente, para conversar sobre a Lei de Deus e, fazendo isso muitas vezes e de propósito, acabou, finalmente, por se converter e baptizar, no que o doutor Leão teve grandíssimo mérito, fa- zendo, em parte, para essa igreja, um benefício muito rele- 400
NA QUAL SE TRATA DA CRISTANDADE DA CHINA vante com a conversão de um tal personagem que, durante tan- tos anos, nos acoitou, ajudou e favoreceu extraordinariamente. Desde esse dia ficaram os dois doutores Miguel e Leão como chefes e reparos da nossa Santa Fé nesse reino e dos seus pregadores, porque, na maior fúria da perseguição em que foram banidos do reino, se refugiaram nessa cidade oito a dez padres, mantendo não somente o que já se encontrava feito como aumentando ainda mais, de forma que, não exis- tindo, oito a dez anos antes, mais que três igrejas na China, temos já, actualmente, em oito províncias, muitas, com doze casas, e aumento do número de fiéis em todas. Foi sempre progredindo na religião cristã o doutor Leão e mostrando nas ocasiões aquilo que guardava no ânimo. Indo tomar posse do primeiro ofício que lhe foi dado, já de- pois de ser cristão, advertiram-no os ministros e autoridade que era costume fazer adoração e uma espécie de juramento diante dos ídolos que se encontravam reunidos, em bom nú- mero, numa sala do palácio, onde deveria alojar-se. Para lá foi o doutor e, chegado ao sítio onde estava os ídolos, a cerimónia que fez foi deitá-los ao chão e fazê-los em pedaços, o que levou os esbirros, obrigados a executar aquela ordem, a considerar uma grande impiedade, dizendo entre si: "Parece que este novo Senhor está mal". Tão grande era o aborreci- mento e o ódio que mostrava contra o demónio, que, em toda a sua vida foi terribilíssimo neste particular, não gostando dos homens que disso se enganavam e que consideravam deuses os ídolos. Àqueles que, tendo ocasião de ouvir a Lei de Deus ou de ler livros que tratavam disso e não a tinham por verdadeira, considerava-os falhos de miolos e privados de entendimento. Persuadira-se de que era impossível que todos aqueles que soubessem ler e gostqvam de se entregar à leitura de livros, se não apaixonassem pela erudição e ciênci- as europeias e por meio delas não chegassem ao conhecimen- to do verdadeiro Deus e recebessem a sua Santa Lei. Por isso, a sua maior preocupação foi sempre a de persuadir os padres a ocuparem-se em traduzir livros da Europa, ajudando-os nisso com o que podia e que não era pouco. Disso resultou que, depois que conhecera os padres, durante o espaço de 30 anos, /a sempre neste
PE. ÁLVARO SEMEDO exercício, o que fazia com tanta diligência e aplicação que, nem mesmo nas aldeias, diversões, visitas e banquetes ordi- nários, deixava de levar algum livro na manga e, no próprio palanquim em que era transportado às costas dos homens, quando se encontrava só, lia e escrevia, não obstante tal ocu- pação ser-lhe de maior incómodo que qualquer outra de me- nor engenho e habilidade, por lhe faltar a vista a um olho, que quase estava perdido e pela fraqueza do outro que lhe restava, motivo, por que, para ler ou escrever lhe era necessá- rio tocar quase no papel e nas letras. Avançou, na verdade, tanto nas nossas ciências que bem podia falar de qualquer assunto, mais que muitos que se julgam letrados na Europa. Sabia, perfeitamente, os seis primeiros livros de Euclides que já estavam traduzidos em chinês. Aprendeu quase todas as espécies da nossa Aritmética, com muitas minúcias e particularidades que nela se ensinam, tendo so- bre essa matéria composto seis tomos. Percebia muito bem o que diz respeito à esfera e outras coisas semelhantes, mas aquilo que compreendia muitíssimo bem e ajudou a traduzir foram os livros celestes de Aristóteles com todas as perguntas que sobre eles trata o Corso Conimbricense, penetrando per- feitamente tais matérias e, finalmente, aprendeu grande par- te da Lógica, da qual deixou vinte tomos em chinês para se- rem impressos. Falava, pois, de tudo isso e doutras matérias com tanto aprazimento e facilidade que não era coisa fácil, para aqueles que estavam bem práticos nelas, segui-lo. Não fazia caso nenhum das coisas curiosas que vinham da Euro- pa e que eram tão apreciadas por outros. Todo o seu prazer e alegria estava em se lhe mostrar algum livro novo e curioso vindo da Europa. Então, ouviam-se os seus suspiros, por ver- se velho e não encontrar em outros cristãos o zelo que ele tinha de coisas tão importantes para a conservação do reino como era a de auxiliar nas traduções. Com os padres não fala- va doutra coisa senão de Deus e das ciências. Era já coisa conhecida entre os nossos que, ao vê-los, o que fazia, muitas vezes, durante a semana, a primeira coisa que perguntava era que livro estavam traduzindo, se já conheciam a matéria, e quanto estava já traduzido até aquele dia. Foi tanto o que fez neste domínio, que, de cinquenta obras que os padres já ti- 402
NA QUAL SE TRATA DA CRISTANDADE DA CHINA nham traduzido para chinês, quer sobre a Lei Divina, quer sobre ciências, entre as quais figuravam alguns de muitos tomos, era rara aquela que não tivesse passado pelas suas mãos ou fazen- do-a ele mesmo e ajudando a emendá-la, ou recompondo-a, para ajustá-la e imprimi-la, ou tomando-a mais autorizada com os seus prólogos e composições, trabalho este que lhe dava indi- zível prazer e nem se podia fazer-lhe melhor presente do que enviar-lhe um livro novamente saído à luz na China. Disso nasceu nele um grande e infatigável desejo, no qual parecia que se esforçava, de ver na China muitos padres, sendo tal que, muitas vezes, o fazia prorromper em queixas contra os Superiores, dizendo que não percebia porque não viam eles com olhos a importância deste assunto, e, não acor- riam, por isso, às necessidades como era necessário. Um dia, tendo-se excitado muito por causa disso, respondeu-lhe o padre, com quem falava, com muita afabilidade: "Senhor Doutor, nós agradecemos-lhe o zelo e reconhecemos a mercê que nos faz em lamentar-se desta maneira; mas os Superiores têm de atender a muitas partes e não lhes é possível proceder de forma a satisfazer todos". Respondeu, então, a isso, com graça e eficácia: "Vossa Reverência me repreende agora e me admoesta de eu me atrever a murmurar contra os nossos pa- dres e Superiores? Não é assim, mas digo que gostaria muito poder falar com o nosso reverendo Padre Geral (com estes precisos termos falava em chinês e, referindo-se aos Superio- res da Companhia, sempre lhes chamava os nossos padres e Superiores), pois, desejaria muito pedir-lhe, instantemente, que socorresse, muito de propósito, com muitos padres a nossa China, por ser a língua e as letras tão difíceis de apren- der e Vossas Reverências, que aqui vivem, já se estão fazendo tão velhos e cansados, que não poderão ensinar aqueles que vierem de novo." Assim falava e assim sentia. E bom teste- munho disso poderá ser uma carta que ele escreveu em res- posta duma que o padre Nuno Mascarenhas, assistente de Portugal, lhe escrevera, oferecendo-se-lhe para qualquer coi- sa do seu gosto, que desejasse da Europa. Respondendo-lhe a isso, disse, que nada queria nem pedia, se não que o padre fizesse força junto do Padre Geral, para enviar muitos mem- bros da Companhia para a China. 403
PE. Alvaro semedo À medida do desejo dos nossos, aumentavam ainda o seu zelo e cuidado pelos nossos estudos e saúde; que estivés- semos bem em casa e usássemos dos devidos termos para com os de fora, ensinando-nos com grande afecto e aconse- lhando-nos com grande confiança, quando lhe parecia neces- sário em qualquer coisa, por não conhecermos os costumes do país. Chegava a tal ponto que, muitas vezes, com as pró- prias mãos abria as nossas vestes, no peito, para ver se está- vamos suficientemente providos de fato, para nos defender- mos do frio. Mandava cozer e preparar em sua casa medica- mentos, quando alguns dos nossos se encontrava enfermo, dizendo que os nossos criados, ou por ignorância ou pela pouca paciência, tinham só força mas não sabiam servir com proveito os enfermos. A primeira vista e após umas poucas palavras se apercebia muitíssimo bem do talento de cada um e o captava. Era grande a estima e a benevolência para com todos em geral mas muito mais para com os que vinham de novo e não sabiam ainda falar, para os quais desejava que houvesse muito cuidado, compadecendo dos seus grandes trabalhos no estudo da língua e letras e fazendo, para os ani- mar, grande festa, por qualquer palavra que lhes ouvia profe- rir, quando principiavam a falar. Ensinava-lhes, muito em particular, a forma como deviam estudar, indicava-lhes os livros aos quais deviam aplicar-se e, às vezes, marcava, com a sua própria mão, os pontos e as vírgulas, que, na China, cons- titui uma ciência especial. Era de inacreditável consolação e causava, certamente, admiração, ouvi-lo juntamente com os dois doutores Leão e Miguel, quando vinham com eles à nos- sa casa, coisa que acontecia frequentemente, porque quase que não falavam doutra coisa senão da maneira de dilatar a Santa Fé, de recuperar, defender e engrandecer os pregadores dela em todo o reino, consultando entre eles sobre quais os amigos a quem poderiam recomendar; que livros nos deviam aconselhar para fazermos; qual a província que deveria ser atendida em primeiro lugar; e qual padre se deveria pedir aos Superiores para tal parte. Finalmente, terminavam sempre essas consultas com suspiros, dizendo: "Somos velhos, amanhã morreremos; quem deixaremos, em nosso lugar, para promover aquilo que vemos encaminhado nos nossos 404
NA QUAL SE TRATA DA CRISTANDADE DA CHINA dias?" Às vezes, levado pelo entusiasmo, imaginava-se já na corte, a aconselhar o próprio rei com seus memoriais sobre a santidade e pureza da nossa Fé, tendo já alcançado dele a licença e a autoridade para edificar igrejas públicas, estando já escolhidos os sítios e projectando edifícios. Imaginava ain- da ser acusado, por este motivo, feito prisioneiro e degolado, com tanto ânimo e alegria, como aqueles que sabiam quanta graça alcançariam se chegassem a merecê-la. Não ficavam, porém, as coisas apenas em discussões e desejos, pois que, posso bem afirmar que, de quantas casas e igrejas da Companhia que hoje existem na China, nenhuma há que não tivesse ajudado, tanto para erigi-las como para conservá-las, tendo o doutor Leão contribuído com muito di- nheiro para algumas, apesar de não ser rico. Porém, este zelante amor de Leão assinalou-se por oca- sião do regresso dos nossos à cidade e corte de Pekim, onde já estivemos anteriormente. Buscou para esse efeito todos os meios possíveis e serviu-se de todas as oportunidades e, por a China se encontrar ainda infestada de tártaros e a corte de Pekim em perigo, aproveitou-se da ocasião para propor, efi- cazmente, homens que, além do saber, tivessem sobretudo, grande autoridade junto dos moradores de Macau, de quem facilmente poderiam obter socorro de gente e armas para aju- dar o reino. E para convencer o rei e os seus conselheiros, empregou tanta retórica e aduziu tantos e tão adequados exemplos dos seus livros e das suas crónicas antigas, em que era sumamente erudito, que não farei senão com muito pra- zer reproduzir, para o leitor conhecer, um bocadinho desse memorial, que, por brevidade, traduzi da Relação. Em suma, disse e fez tanto quanto tinha na intenção, pelo que ficou tão satisfeito quanto nós por tal obra lhe ficámos obrigados. Per- deu, depois, por este motivo, o cargo que desempenhava, não faltando quem o acusasse ao rei, citando como faltas a sua íntima amizade com o padre Matteo Ricci, um estrangeiro, e o afecto com que acreditava e seguia uma lei que ensinava o padre, sendo ela diferente da do reino. Porém, o Senhor Deus, por que, então ele não somente arriscou mas perdeu de facto, remunerou-o, largamente, fa- zendo-o com que, quatro ou cinco anos dépois, voltasse a 405
PE. ÁLVARO SEMEDO ocupar o mesmo cargo, com muitas e grande honras e fama em todo o reino, por meio do doutor Paulo, que sendo tam- bém cristão e de tanto valor e espírito, para poder ajudar e favorecer as nossas coisas, lhe quis fazer tal graça, pela oca- sião da reforma do calendário. Aceitou ele o cargo, para po- der juntamente com Paulo promover mais extraordinaria- mente as coisas da Santa Fé e, assim, pôs-se a caminho da corte, durante o qual, além da muita enfermidade que pade- cia, lhe surgiram tempos ásperos e frios excessivos, viagem esta que demorou muito tempo e o consumiu tanto, a ponto de poucos meses depois da chegada, ficar reduzido ao extre- mo da vida, no dia de Todos os Santos, que foi exactamente aquele no qual, quatro anos antes, se disse a primeira missa, na casa que de propósito edificou para dar à Companhia, onde hoje está uma das duas residências que existem na ci- dade de Hamcheu. Não quero demorar-me em recontar a piedade e o senti- mento com que se confessou, muitas vezes, a consolação com que ouvia a missa e recebia os santíssimos sacramentos da Comunhão e a Extrema Unção, e a devoção com que ouvia o que nessa hora lhe diziam três padres que se encontravam presentes na sua morte (paga de Deus pelo amor com que sempre ajudou e favoreceu). Deixo estas coisas que todos podem imaginar num homem tão douto e perfeito cristão. Só notareis, brevemente, o que, então se passou entre ele e o doutor Paulo. Tendo este pegado nas suas mãos, quan- do estava a expirar, depois de lhe ter rendido graças devidas pelos seus favores e recebidas em muitas ocorrências e parti- cularmente nesta, disse-lhe entre lágrimas: Morro muito con- solado, senhor, por ver com os meus olhos quão bem restabe- lecidos ficaram os nossos padres com o vosso zelo. Eu não vo- -los recomendo, porque sei o lugar que eles têm no vosso cora- ção. Pelos meus pecados não mereci ter parte nessa obra, para a qual me fizeste a mercê de me chamar para compa- nheiro. Mas se depois de concluir este assunto vos for servido acrescentar alguma coisa ao meu nome que resulte em glória de Deus e promulgação da sua Santíssima Lei, far-me-íeis grande favor. Sobre os vossos ombros deixo a cristandade chi- nesa. Assim disse o doutor Leão, mostrando muito bem em 406
NA QUAL SE TRATA DA CRISTANDADE DA CHINA que estima tinha a divina Lei e os seus pregadores e, assim, terminou, santamente, a vida, da qual boa parte despendera em ajudar essa nova igreja. Ocorreu a sua morte em primeiro de Novembro de 1630. Se bem que a sua memória viverá sempre nos peitos dos operários da nossa Companhia, espe- ramos que o seu exemplo se conservará nos outros ânimos generosos dessa nobreza. A este estado chegou a igreja do reino chinês, depois de cinquenta anos de contínuos trabalhos dos nossos padres. E certo que mais se não podia esperar de princípios tão difíceis, sendo tão árduos tais resultados mas tão felizes. Porém, bem podemos distinguir no contexto desta narração as fadigas, os sofrimentos, as cautelas, paciência e a tolerância que acom- panharam sempre a principiada empresa e mantidas ainda nas extremas turbulências. O zelo e o fervor das pessoas que desejam, logo de uma vez, converter o mundo são muito de louvar e a todos apreciamos e reverenciamos. Contudo, nas missões novas, particularmente nas que não dão lugar a que esse fogo se acenda, assim, tão subitamente, por exigir dispo- sições de mais longo tempo, procuremos contê-los — os nos- sos da Companhia — dentro dos limites mais seguros da pro- víncia e de paciência mais proveitosa para aquilo que se pre- tende, quando lhes surgem fervores demasiado acesos, e, se isso não bastar, enviemo-los para os púlpitos e auditórios portugueses, onde aquele fogo pode bem resplandecer sem perigo de queimar. E que isto se observe com respeito aos gentios. Quanto aos cristãos novos não duvidamos ser coisa muito conveniente e santa, acomodarem-se, imediatamente ao modo comum da igreja universal, às suas leis, decretos, estatutos, etc.. Porém, é necessário ver .até que ponto isto é possível, e, sendo possível, se é conveniente, e se, em plantas tão frescas, será para edificação ou para destruição. Cristo Senhor Nosso e os Apóstolos deixaram nisso doutrina tão clara que parece não poder haver lugar para erros. St.° Ambrósio disse ser coisa de apóstolos falsos pretender ensinar todas as coisas para quem quer que seja sem diferen- ça de pessoas, o que observou sempre o Nosso Salvador, na sua divina doutrina: Aliter enim Populis, aliter loquebatur 407
PE. ÁLVARO SEMEDO Discipulis. São Paulo, pregador de gentios e mestre de prega- dores, escreveu aos coríntios: Lac vobis potam dedi. Bem se vê, dizia S. Gregório, que os criava e ensinava como a crian- ças. Eram produzidos de fresco para o Santo Evangelho, dizia St.° Ambrósio. Ideo Apostolus vir divinus, &• medicus spiritualis, uni cuique secunduum vires illius doctrinam tradebat. Et alli Galati dice; Scitis quia per infirmatatem carnis evangelizavi vobis. Donde, acomodando-se à fraqueza da carne, não pregou a aqueles, o Apóstolo (dizia S. Jerónimo), coisas maiores, ut infirmos Gaiatas lucrifaceret. Assim, também o disse o Abulense, como se pode ver no tomo sobre São Mateus, cap. 7 quaet. 9. O mesmo São Paulo, querendo dar princípio à cristan- dade de Atenas, começou pelo título Ignoto Deo, ou como queria São Jerónimo Diis Asiae, Europae, Libyae, Diis ignotes &peregrinis, e sem retomar essas palavras ou reprovar aquele modo, que era, pois, bastante mau, julgando assim mais con- vir, foi aquele princípio preso das mesmas trevas para comu- nicar a luz. Os santos apóstolos, no primeiro Concílio, trata- ram somente de facilitar a conservação Visum est Spiritui Sancto & nobis nihil ultra imponere vobis oneris, quam haec necessária; ut abstineatis vos ab Immolatis sumulacrorum suffocato, &■ sanguine. De forma que nestas três coisas estão encerradas todas as obrigações do Jus positivo às quais se obrigam e o que é mais eram todas três cerimónias judaicas, que se fossem hoje observadas causariam escândalo, porém, para facilitar a conversão e não escandalizar os judeus, fo- ram então julgadas necessárias. O mesmo aconteceu com res- peito à circuncisão, que São Paulo não somente permitiu mas também praticou no seu discípulo Timóteo, condescenden- do com a fraqueza e ignorância desses princípios. Nessa doutrina se baseou o Panormitano, cap. licet Graecos, de Baptismo & ejus effert. Diz ele: Potest & debet venientes noviter ad fidem tolerare moribus & ritibus eororum antiquis. Porque doutra forma, como disse Cusano, não farei edificar mas perturbar. Oporte infirmitati hominum plerumque condescendere, nisi vergat contra aeternam salutem. O que é claríssimo, devendo meter-se sempre a sal- 408
NA QUAL SE TRATA DA CRISTANDADE DA CHINA vo ne cum aliis praedicaverim, ipse reprobus efficiat; nam exactam quarere conformitatem in omnibus, est potius pacem turbare. Favorece este pensamento a explicação in capit Reus qui, de paenitentia & remissione, donde diz que pela novidade dos fiéis novos detrahendum est Juri. Assim procedeu a Igreja em muitos casos com grande conveniência. E admirável quanto Eugénio IV dissimulou, no Concílio Florentino com os gregos, porque não querendo não encon- trou ninguém para tratar com os gregos coisa alguma do ma- trimónio e tendo já determinado o Pontífice isto que se devia observar, Synodice, Armeniis in decreto suo credendum, tradens mirum dictu, Graecos ob communem concordiem recentenitam, fortius stabiliendam, non explicite ad hoc credendum obstrínxit, imo pertinaciam eorum in reliquis violata pace, ne resilirent, videns non vidit, vel ut in actis Concilii patet, non condemnavit. Isto se fez com gente de aquela autoridade , antiguidade e qualidade. Que diremos dos novos neófitos se não o que disse São Gregório? Duris mentibus simula omnia abscindere impossibile esse, non dubium est quia is, qui locum summum ascendem, nititur gradibus, vel passibus, nos saltibus elevatur?, pois que, na conversão dos gentios, conforme São Gregório, Suaviter & prudenter subinsinuare, non violenter abrumpem, Apostolici muneris est. São Pedro, para conservar as plantas novamente plantadas, inter Gentiles gentiliter, inter Judaeos, ut Judaeos lucrifacemt, & iis qui sub lege erant, quasi sub lege esset, ut eos qui sub lege erant lucrifacemt: idque prudenter ad bonum animarum, declarou Baronio no ano 51. Isto é o que os Apóstolos, os Santos, os concílios e os padres têm ensinado com palavras e exemplos. Porém, ó como é difícil tomar o caminho do meio, aco- modar-se aos lugares e tempos, às pessoas, e vários prosse- guimentos de coisas de quantos bens se perdem para não di- zer quanto mal se faz (e também os males que hoje em dia vemos e choramos), por querer cada um seguir a sua manei- ra, o seu modo de proceder e o próprio capricho que sabe Deus qual seja, deixando o mais seguro e saudável, que foi usado pelos Santos. Termino e concluo com um parágrafo de uma carta que o senhor Patriarca da Etiópia, Afonso Mendes, escreveu de 409
PE. ÁLVARO SEMEDO Goa aos eminentíssimos cardeais da Sagrada Congregação da Propaganda Fide, que pelas suas letras, autoridade e virtu- des e, sobretudo, pela experiência das Missões nas quais tra- balhou e padeceu, muito merece todo o crédito. Assim, pois, dizia ele: Porém, no fim desta carta, julgo não ser coisa difícil su- gerir às W. Eminências que estão salvos esses preceitos com os quais Deus ordenava que a vinha não deveria ser semeada com diversas sementes, nem dever vestir trajes de tecidos de lã e linho, isto é, aquela variedade com a qual se vestia a Rainha já esposa; e os diversos modos de viver das ordens religiosas não deverem ser introduzidos nas igrejas tenras que ainda se amamentam mas somente nas crescidas e fortalecidas com a duração de muitos anos, porque aumen- tando, a mais das vezes, entre eles a emulação e faltando em alguns a prudência, noutros transbordando o zelo indiscreto, obram muitas coisas que servem para a ruína mas não para a construção, &. Conserve o Senhor são e salvos a Vossas Eminências. De Goa 11 de Novembro de 1638. FIM 410