![]() |
|
|
|
A água e a música ou da música aquática
José Luís da Maia*
I will play the swan
and die in music
W. Shakespeare, Othello
O elemento aquático penetrou de tal forma em toda a história da Música, que dir-se-ia fonte inesgotável de inspiração para os criadores musicais de todos os tempos e lugares.
De facto, o caudal, ora calmo, ora tempestuoso das mil formas de H2O que nos rodeia fazem até mesmo do Território do Santo Nome de Deus uma espécie de L' Isle joyeuse do grande mergulhador da música comtemporânea que foi Debussy, apesar de Virgem de seu signo. Macau, aliás, está localizado precisamente On the waterfront, nome menos conhecido de uma suite do autor de West Side Story e dos concertos para jovens, esse mesmo L.Bernstein.
Ao folhear qualquer obra de referência sobre História ou Estética musicais, deparamos constantemente com o elemento líquido, e o levantamento desta torrente será capaz de nos afogar na cascata interminável de sons disponíveis e na impossibilidade de enumerar a vaga alterosa de obras a ele consagradas.
A começar por uma forma típica de literatura pianística do século XIX que dá pelo nome de "Barcarola", derivada das canções dos gandoleiros venezianos, também chamados barcaruoli, e cujo expoente máximo é certamente Chopin, embora muitos autores do período romântico lhe tenham dedicado longo tempo e transpiração (água que brota de dentro para fora do compositor), não esquecendo o nosso lusitaníssimo Vianna da Motta.
Como elemento fluido e num estado de perpétuo "werden" (passe o germanismo) ou devir, vem à tona nas formas mais diversas e classificáveis, por questões de facilidade metodológica, em manifestações tais como:
·o deslumbramento do abstracto mar em todas as suas formas e movimentos, incluindo a sua enorme força durante trovoadas, tempestades e outras manifestações violentas da natureza;
· o rio e todas as formas de água corrente;
· o lago como objecto de comtemplação de uma beleza estática;
· a viagem sobre as águas;
· as fontes de onde brota o elemento vital;
· as gotas de chuva como forma mais informe;
· os animais que povoam essas águas, sobretudo à superfície (v. o cisne);
· todos os tipos de embarcações;
as sereias como elemento mítico exclusivo da água;
Longe de ser exaustiva a listagem supra ilustra a atracção que este elemento exerceu sobre os músicos ao longo dos tempos.
Foi propositadamente para confundir o leitor que se sublinhou no título deste texto a designação de uma das suites orquestrais mais conhecidas de Haendel. Simplesmente porque não cabe em nenhuma das alíneas acima mencionadas: trata-se de uma obra de circunstância, escrita para as ocasiões em que o monarca de Inglaterra fazia longos passeios de barco pelo Tamisa, e consequentemente é música de puro entretenimento sem relação intrínseca ou sequer alusão extramusical ao fluir do rio.
O mar, pela sua grandiosidade, beleza e carácter por vezes aterrorizador, foi na realidade a grande "fonte" de fascínio, e figura como título em centenas ou mesmo milhares de obras, entre as quais valerá sublinhar as mais relevantes em termos estéticos: começando por La Mer do citado Debussy, passando por The Sea Pictures de Elgar, Poéme de L'amour et de la Mer de Chausson, The Oceanides de Sibelius, Sea Pieces with Birds, de V. Thomson, Four Sea Interludes de B. Britten, A Sea Symphony de Vaughan Williams, Sea Pieces de MacDowell, a cantata Le Soleil des Eaux de Boulez, duas peças homónimas sob o título Sea Drift de J. Carpenter e F. Delius, entre outras.
Quanto às explosões naturais dos céus sobre os oceanos, o carácter "plástico" e aterrador da situação do marinheiro "que anda lutando no mar, com talento" repete-se do barroco Vivaldi em La Tempesta di Mare até ao Storm de Lizt, passando pela fantasia sinfónica The Tempest de Tchaikovsky e demarcando um terreno destacado na obra do tempestuoso Beethoven, nomeadamente na Sonata op.31 nº 2 e no célebre 4º andamento da Sinfonia nº 6, mais conhecida por "Pastoral".
O rio, porém, pela sua majestade ou leito sinuoso e colorido, ou pelos caminhos aonde conduz às grandes viagens, ou pela inviabilidade heraclitiana do banhar duas vezes no mesmo fluido, ou ainda mais simbolicamente pela representação da fugacidade ou precaridade da vida terrena, tem sido outra das atracções para inúmeros compositores: bastará dançar a famosa valsa Danúbio Azul do vienense J. Strauss, mas igualmente ascender à transcendência de Dieu Moldau de Smetana, de Summer Night On The River de Delius, e dois clássicos comtemporâneos V. Thompson e Grofé, respectivamente como autores de The River e Mississipi Suite.
O lago, por sua vez, simboliza o carácter tão caro aos músicos e outros artistas românticos (plásticos, poetas) e impressionistas ou simbolistas (também como preferirmos), pela quietude, paz e contemplação que proporciona. Excita a imaginação num sentido muito interiorizado, mais dionisíaco que apolíneo. La Donna del Lago de Rossini constitui um paradigma desta faceta (sobre a qual o nosso Domingos Bomtempo escreveu notáveis variações), mas é inevitável recordar The Enchanted Lake do russo Lyadov, Au Lac de Wallenstad e Les Jeux d ´eau à la Villa d'Este, ambas de Lizt, Reflets dans l'eau de Debussy, Jeux d'eau de Ravel e demais sinestesias criativas no domínio musical.
Prosseguindo numa linha de inventário sonoro, o percurso conduz-nos através do imaginário das águas paradas (que como sabemos não movem moinhos) e das correntes fluviais ao grande tema da viagem, da navegação. Esta pode assumir duas formas bem diferenciadas: a já mencionada canção embarcada e nostálgica assumida como "boat Song", patente desde Mendelssohn em várias "Venetian Boat Songs" que povoam e nadam entre as suas Songs without Words para piano, ao En Bateau de Debussy e finalmente à grande travessia marítima (que felizmente não trágico-) de Mendelssohn em Meeresstille und glückliche Fahrt, traduzível por Mar Calmo e Viagem Feliz.
As fontes a que nos referíamos de início reflectem, por sua vez, não só o brotar da água purificada pela natureza, mas sobretudo a origem da vida, o fascínio pelo fenómeno das condições de sobrevivência do homem sobre a terra. Regressamos ao Lizt de Au bord d'une source, passamos por The Fountain of Arethusa do polaco Szymanowski, e terminamos na belíssima suite Fontane di Roma de Respighi, para não constipar qualquer leitor mais descuidado e desatento da sua diária e efervescente dose de vitamina C.
Ai a chuva, a chuva que nos enfrenesia os dias e noites de insónia, mas cujo som constante e informe, cadente mais "forte" ou mais "piano", se adapta tão completamente aos vários teclados e cordas (dedilhadas, friccionadas ou beliscadas) de tantos instrumentos! Do piano do Prelúdio nº 15 Raindrop de Chopin aos Jardins sous la pluie de Debussy, ao violino da Regen-sonata op.78 de Brahms, existe todo um mundo pluvioso na produção musical do último século e meio, de fazer chover as pedras.
A bicheza sobre-aquática constitui outro elo de ligação entre o homem, o restante mundo animal e a superfície líquida do planeta que habitamos. Além de algumas aves que sobrevoam as águas em busca de alimento (e logo numa função prática alheia, desprezível e portanto distante do pensamento dos filósofos pós-Kantianos, e porque não dos músicos), o trono deste reino tem sido ocupado pelo cisne, pela harmonia e delicadeza dos seus vagares deslizantes próprios de águas lacustres, de preferência bem espelhados. Desta base de inspiração cite-se, como exemplos mais conhecidos e ilustrativos, o célebre bailado Swan Lake de Tchaikovsky, a peça orquestral The Swan of Tuonela de Sibelius, o apontamento "A Morte do Cisne" de O Carnaval dos Animais de Saint-Saens, deixando de lado, para evitar heresias analógicas, a caminhada lisztiana de St.François de Paul marchant sur les flots.
Com nem todos os mortais poderão gabar-se de ter a capacidade de andar sobre as águas, é natural que a embarcação surja como o veículo mais apropriado na aproximação e contacto directo entre os homens e os diversos elementos aquáticos. Desde as já citadas barcarolas ao "I saw three ships sailing by" de Quilter e à viagem de Mendelssohn já igualmente mencionada, muitas obras musicais do repertório clássico, romântico e comtemporâneo utilizam o navio como pano de fundo e instrumento de viagem, sobretudo em música de cena, incluindo os corsários de Berlioz, os navegadores como Vasco da Gama na ópera L'Africaine de Meyerbeer, o condenado e exilado holandês no Navio Fantasma, para mencionar apenas três exemplos.
Finalmente, as sereias e outros seres marinhos de carácter mitológico têm inspirado alguns compositores na velha tradição homérica. Valem pelas suas características românticas ou poéticas, se preferirmos uma das duas designações, valem pelo fascínio irrecusável e irresístivel exercido sobre os homens (aqui refere-se tradicionalmente apenas o sexo maculino), valem ainda por sonoridades canoras atribuídas desde sempre a estes seres de eleição. Da literatura recente refira-se O Canto da Sereia do espanhol Gonzalo Ballester, da música as Sirènes dos Nocturnos (mais uma vez Debussy, hélas!) e a sèrie de valsas Sirenenzauber (A Magia das Sereias) de Waldteufel.
*Licenciado em Filologia Germânica e Ciências Musicais. Director do Conservatório de Macau.