Expo'98



O impacto ambiental da Expo'98 em Lisboa

Rui Godinho*

  A preparação da EXPO'98 constitui uma realização tanto ou mais marcante para a Cidade de Lisboa e para a Área Metropolitana de Lisboa (AML) do que a própria Exposição Mundial em si.
  Com efeito sendo esta última um acontecimento limitado no tempo, vai sem dúvida marcar a nível mundial -- para melhor, cremos -- a imagem internacional de Lisboa e de Portugal.
  E vai ser no turismo, nos próximos anos, que os benefícios destas visitas nestes seis meses que dura a exposição, se vão fazer sentir. A transmissão da imagem dos que nos visitarem a outros, e a sua própria vontade em voltar, vão constituir um impulso para novas visitas futuras. Mas é no efeito estruturante para a cidade e para a AML que se situa o maior impacto urbano e ambiental da EXPO'98.
  

A nível urbano


  
  . renovação / recuperação urbana duma área industrial desqualificada numa nova zona de equipamentos lúdicos e culturais de espaços de exposição, de que Lisboa tanto carecia (Oceanário, Pavilhão Utopia, Pavilhão Multiusos, a nova FIL-Feira Internacional de Lisboa);
  . a criação duma nova urbanização na zona Oriental da cidade -- pese embora à margem de qualquer licenciamento e fiscalização por parte da Câmara Municipal de Lisboa (CML) -- não deixa de ser uma das áreas paisagisticamente mais beneficiadas da cidade, e que tardava em ser trazida ao tecido urbano;
  . a sua articulação urbana com as áreas vizinhas dos Olivais, Moscavide, Sacavém e Poço do Bispo, todas elas bem distintas, quer em geração, quer em ocupação funcional e sócio-demográfica;
  . a recuperação do núcleo dos Olivais Velho;
  . requalificação duma frente ribeirinha há muito requerida e com memórias ainda recentes - a Doca dos Olivais;
  . na renovação e modernização de infra-estruturas, equipamentos e transportes:
  . circulação viária - os novos eixos - donde a variante marginal à EN 10 - que não só traz um grande descongestionamento ao tráfego como também representa um assinalável ganho paisagístico, dada a sua localização marginal ao Tejo;
  . a central rodoviária - uma racionalização na articulação intermodal de transportes públicos, mas também uma diminuição de tráfego na cidade e da consequente diminuição da poluição sonora e atmosférica;
  . o metro - uma nova linha a "abrir" a urbanização da zona Oriental e a ligeiros aumentos na linhas centrais da cidade;
  . a Gare do Oriente - a nova estação ferroviária - uma economia de tempo e mobilidade para as populações que todos os dias entram e saem de Lisboa para trabalharem, correspondendo com o metro mas também com a linha de cintura, essa "Circular Rodoviária Interior de Lisboa ferroviária" de transporte urbano ainda mal aproveitado.
  

A nível ambiental


  
  . a retirada do interior da cidade das indústrias e da velha refinaria, fortemente poluentes;
  . a descontaminação dos solos poluídos pelas petrolíferas, decerto uma inovação em Portugal neste tocante;
  . o encerramento da estação de tratamento de resíduos sólidos urbanos de Beirolas, em articulação com o novo tratamento de resíduos previsto para a incineradora em construção;
  . a transformação em espaços verdes do aterro e da área da ex-estação de tratamento de resíduos de Beirolas (parque urbano de 64 ha - Parque Tejo);
  . a construção dos interceptores e das estações de tratamento de Chelas e Beirolas e o tratamento das águas residuais desta área oriental por estas ETAR, com novas tecnologias de ponta, por forma a garantir efluentes de alta qualidade, os quais serão utilizados na rega de jardins e espaços verdes e na lavagem de ruas;
  . a despoluição do Rio Trancão, embora não concluída a tempo para a EXPO'98, mas já em fase de recuperação, um dos rios mais poluídos do país e um dos focos de maior poluição do Estuário do Tejo;
  . a primeira zona servida por condutas de transporte de Resíduos Sólidos Urbanos (RSU) por sucção, uma inovação técnica que à semelhança das redes de esgotos no passado, poderá vir a revolucionar a recolha e transporte de RSU;
  . conservação de energia por técnicas de construção e orientação dos edifícios relativamente ao sol e vento;
  . a possível poluição sonora e atmosférica ocasionada pela circulação na nova ponte e nos respectivos acessos;
  . sistemas inteligentes de economia de energia, pelo fornecimento centralizado de água quente e fria através de circuitos fechados.
  A EXPO'98 constitui-se, assim, para a Cidade e a Área Metropolitana de Lisboa, como uma grande oportunidade de requalificar urbanística, social e ambientalmente uma vasta área da Zona oriental de Lisboa, permitindo dar passos no processo de "reequilíbrio da Cidade".
  Ao mesmo tempo, ao assegurar-se, através das Nações Unidas, a comemoração em 1998 do Ano Internacional dos Oceanos - tema central da EXPO'98 - possibilitou-se que Portugal se assumisse de novo como grande centro dinamizador das reflexões e decisões sobre o futuro dos oceanos, dos mares e dos estuários, elementos indispensáveis para garantir a vida e os equilíbrios ecológicos globais, continentais, regionais, locais.
  Lisboa, através da equipa que governa a Cidade, tem procurado estar na primeira linha desta problemática, tanto directamente, como através do ACOPS - Advisory Committee on Protection of the Sea - organização de âmbito mundial, de que sou um dos Vice-Presidentes.
  Assim, os impactos ambientais da EXPO'98 não se verificam só no terreno, mas também ao nível das resoluções e regulamentações de âmbito local, nacional e internacional.
  
  * Engenheiro Químico - Sanitarista. Vereador do Ambiente e Espaços Verdes da Câmara Municipal de Lisboa. Vice-Presidente do ACOPS.